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Cidades e

Patrimônios Culturais
Investigações para a
iniciação à pesquisa
Rogerio Proença Leite
Eder Claudio Malta Souza
Organizadores

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

REITOR
Angelo Roberto Antoniolli

VICE-REITOR
André Maurício Conceição de Souza

EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

COORDENADOR DO PROGRAMA EDITORIAL


Péricles Morais de Andrade Júnior

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Revisão Técnica
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CAPA E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA


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Cidades e
Patrimônios Culturais
Investigações para a
iniciação à pesquisa
Rogerio Proença Leite
Eder Claudio Malta Souza
Organizadores

São Cristóvão/SE
2013

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FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

Cidades e patrimônios culturais : investigações para a iniciação à


C568c pesquisa / Rogerio Proença Leite, Eder Claudio Malta Souza,
Organizadores. - São Cristóvão : Editora da UFS, 2013.
384 p.

ISBN: 978-85-7822-342-7
1. Sociologia urbana. 2. Antropologia urbana. 3. Patrimônio
cultural. I. Leite, Rogerio Proença. II. Souza, Eder Claudio Malta.
CDU 316.334.56

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Sumário
7 Prefácio
Carlos Fortuna

11 Apresentação,
Rogerio Proença Leite e Eder Claudio Malta Souza

Parte 1 – Cidades e Patrimônios em Sergipe


21 Enobrecimento Urbano e Centralidade: o processo
de “revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
Elaine Ferreira Lima

45 De volta aos Centros: as políticas de “revitalização”


do Patrimônio Histórico e a Intervenção no Mercado
Central de Aracaju
Sidney Matos de Lima

71 Rua da Cultura: arte, “drama” e contestação.


Tales da Costa Lima Nunes

87 A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra


portuguesa como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro

109 A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas


e ritualísticas no centro histórico da cidade de São
Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza

131 Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Performance


na festa do Lambe-sujo de Laranjeiras/SE.
Mesalas Ferreira Santos

153 Revisitando Memórias e(m) Ruínas da Histórica


Laranjeiras/SE
Allan Rafael Veiga

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Parte 2 – Novas centralidades, espaços de
vigilância e imagens urbanas
185 Enobrecimento Urbano no Bairro Treze de Julho em
Aracaju-SE
Josevânia Nunes Rabelo

211 Intervenções Urbanas e Espaços de Vigilância: O


caso do Bairro Jardins
Alysson Cristian Rocha Souza

231 Urbanização Litorânea: O espaço “Orla de Atalaia”


Simone de Araujo Pereira

255 Cidades em Imagens: A (re) invenção do bairro


“Santa Maria” em Aracaju
Ewerthon Clauber de Jesus Vieira

Parte 3 – Outras cidades, outros patrimônios


281 A Revitalização da Lapa: Cultura e Patrimônio na
Construção do Espaço Público no Rio de Janeiro
Joseane Paiva Macedo Brandão

305 Políticas de Gentrification e o processo de


Permeabilidade socioespacial no Pelourinho.
Fábio José Reis de Araujo

329 “Revitalização” da Praça XV: Contradições das


Políticas de Gentrificação no Centro da Cidade do
Rio de Janeiro
Marina Cavalcante Vieira

353 Cidade Monumento, Cidade Universitária: Usos do


Patrimônio Histórico e Sociabilidade Juvenil em
Ouro Preto/MG
Eder Claudio Malta Souza

380 Sobre os Autores

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7

Prefácio

Registe-se esse momento singular. Estamos prestes a adentrar a


primeira obra colectiva produzida pelo Laboratório de Estudos Urba-
nos e Culturais – LABEURC – do Departamento de Ciências Sociais e do
Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do
Sergipe. Recomenda-se algum recato e concentração. Trata-se de de-
dicar aqui a nossa melhor atenção. É afinal a obra-prima de um jovem
grupo, constituído, ele também, por jovens investigadores que – adian-
to-me um pouco – revelam grande maturidade no tratamento científico
dos seus objetos de estudo. As escolhas que fazem são também fruto
de amadurecida reflexão. Dedicam-se às cidades, às suas culturas e aos
seus patrimónios. Não é uma escolha fácil porque, como certifica David
Harvey, as cidades constituem um dos objetos mais complexos da nossa
atividade de investigação.
A este livro, o jovem grupo de investigadores do LABEURC chamou
de Cidades e Patrimónios Culturais. Entende-se, portanto, a intenção de
se colocar no plano da grandeza das coisas grandes e das abordagens
inovadoras. Fazem-no a partir de um universo geocultural em que pon-
tuam cidades de pequeno e médio porte. Não é paradoxo. É antes a pri-
meira grande virtude deste trabalho.
Desde finais do século dezanove que a sociologia urbana fala a
linguagem dos grandes aglomerados. O seu universo referencial são
as grandes cidades e metrópoles nascidas da industrialização europeia
e norte-americana. Que poderão Aracaju, São Cristóvão ou Laranjeiras
trazer de novo que possa aperfeiçoar o nosso conhecimento de Berlim,
Londres, Manchester ou Paris? A pergunta é epistemologicamente arro-
gante porque fundada nos princípios filosóficos do cânone urbano que
sempre privilegiou as cidades grandes e não foi nunca capaz de nomear
as outras cidades. Além do mais, a pergunta é distorcida. Estas cidades
do Sul global pouco têm a dizer àquelas cidades do Norte. Quando reve-
ladas, como agora, mesmo que de modo fragmentário, elas apenas têm

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8 Investigações para a iniciação à pesquisa

muito a acrescentar, isso sim, ao edifício do saber urbano para que este
livro tanto contribui ao dar-lhes visibilidade. Nas cidades com menos de
750 mil habitantes vive hoje 60% da população mundial, sendo uma lar-
ga maioria residentes de aglomerados menores de 100 mil. Para a teoria
urbana hegemónica e consagrada norte-ocidental, esta realidade urba-
na vive na margem insignificante de um mundo de poderosas megaci-
dades. O que esse estatuto subalterno de cidades situadas ao lado tem
de pior é que, além de político, ele é também epistémico. São cidades
destinadas a viver sem teoria explicativa. Destinadas a sobreviver sem
serem compreendidas, quiçá, sem reflexão sobre si próprias e o mundo
urbano que as envolve, destinadas que pareciam a permanecer na som-
bra do entendimento.
O locus da enunciação deste Cidade e Patrimónios Culturais é po-
tencialmente gerador de uma renovação nos modos de analisar as cida-
des contemporâneas. Vem juntar a sua narrativa às vozes que reclamam
um lugar epistémico para as outras cidades. Cidades pequenas. Cidades
do Sul global. Vivem os seus dramas, as suas capacidades, os seus patri-
mónios de modo diferente. Têm um sentido de lugar que outras não têm
e que começa a fazer sentido por todo o mundo académico de hoje. Têm
uma história vivida de proximidades e memórias intensas. Nada disso
pode ser visto como trajeto negativo, fracassado ou impotente do que
seria o seu expectável destino de cidades a crescer em conformidade
com o modelo canónico de cidade do Norte global. As outras cidades
não são cidades do avesso, o retrato em negativo das hegemónicas ci-
dades globais.
É de estórias destas outras cidades que fala o livro do LABEURC. De-
tém-se com propriedade, por exemplo, sobre os patrimónios e as políti-
cas de revitalização urbana. As abordagens, sendo diversas, são também
instigantes. Colocam a tónica na rua e nas sociabilidades, nos centros
históricos, nos mercados, nas ruínas e nas calçadas que pisamos. Todos
ingredientes que fazem as cidades de hoje, grandes e pequenas. São, ao
mesmo tempo, arte e memória, tecendo uma porosidade por onde uma
se combina com a outra e, no final, tornam presentes as coisas do seu
passado urbano.
Os patrimónios urbanos têm de ser analisados sem qualquer ce-
dência à preocupação com a noção de autenticidade e de sua irrestrita
conservação. Este é um conceito demasiado vago, como Françoise Cho-

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Prefácio 9

ay mostrou de forma tão eloquente. Por poder albergar as mais díspares


noções de conservação, a autenticidade remete, salvo para os especia-
listas, a um entendimento abstrato da originalidade do património e
conduz, não raro, a debates estéreis sobre a cópia e o original. Assim
sucede muito em particular no caso da busca da originalidade da marca
histórica e arquitetónica das cidades. A ficção encontra aqui campo fértil
ao seu exercício e não será exagero admitir que, no limite, talvez só a
literatura se encontre em condições de oferecer a reconstrução mais fiel
e mais autêntica das cidades e seus lugares.
E, porém, também se modernizam e procuram competir estas ou-
tras cidades. E reagem assim à guerra que as atravessa entre interesses
do capital e interesses dos cidadãos. Criam, à sua maneira, espaços hete-
rotópicos em que se sobrepõem sentidos e significados múltiplos. For-
jam novas centralidades e técnicas de enobrecimento, criam territórios
de lazer e criam novas imagens identitárias. A ameaça de descarateriza-
ção é tremenda mas o que mais sobressai das políticas de modernização
das cidades de pequeno e médio porte, incluindo as que esta obra-pri-
ma analisa, é que são igualmente potentes as forças que não autorizam
que as cidades percam a sua alma e soçobrem perante as investidas da
uniformização planetária.
Fecha este Cidades e Patrimónios Culturais com um conjunto de
análises detalhadas de processos socioculturais. Depois do nordeste ur-
bano sergipano, somos convidados a viajar desde a carioca Lapa até ao
Pelourinho da Baía e, passando pela aguerrida sociabilidade (ou boémia)
de Ouro Preto, regressamos de novo ao Rio e à Praça XV. O LABEURC
não tem horizontes limitados nem são provincianas as suas perspetivas.
Projeta as suas análises sobre outras cidades em outros territórios, com
a mesma perspicácia e argúcia de quem fala da sua casa. A casa da so-
ciologia urbana não tem paredes. É isso que faz desta disciplina, uma
disciplina global. Longe vão os tempos em que Simmel falava de Berlim
e só Berlim. Ou que Wirth, falando de Chicago e só Chicago, se atrevia a
enunciar ser esse o trajeto futuro de qualquer cidade com futuro.
É o futuro que nos importa, realmente. Um futuro urbano de pa-
trimónios diversos e de cidades plurais. Grandes e pequenas. Umas do
Norte, outras do Sul global. Saibamos identificar os patrimónios e as
culturas que importa preservar e defender para um melhor futuro ur-
bano coletivo. Esta é a mensagem que se recolhe desta obra-prima do

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10 Investigações para a iniciação à pesquisa

LABEURC, da qual saímos com o mesmo recato com que entrámos. Mas
mais reconfortados por sabermos que, afinal, a obra-prima, qualquer
que ela seja, é tão só a obra primeira e que, portanto, outras se seguirão.

Carlos Fortuna
Faculdade de Economia
Centro de Estudos Sociais
Universidade de Coimbra

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Apresentação

Criado em 2001 como grupo de pesquisa do Departamento de Ci-


ências Sociais e do Programa de Pós-graduação em Sociologia da UFS,
e vinculado ao CNPq, o Laboratório de Estudos Urbanos e Culturais, LA-
BEURC, desde então se dedica a pesquisas acadêmicas sobre cidades,
patrimônios culturais e culturas urbanas.
São treze anos de investigações ininterruptas na área da Sociologia
e da Antropologia urbanas, contribuindo para a formação de profissio-
nais e para a produção de conhecimento sobre as distintas realidades
urbanas no Brasil.
Este livro é uma síntese dos principais trabalhos desenvolvidos ao
longo dessa década, e que representam o esforço de um grupo em não
apenas pensar a realidade urbana de Sergipe, como também de esten-
der seu olhar para fora da nossa realidade mais próxima. O LABEURC,
inserido em contextos mais amplos de pesquisa, também estudou ci-
dades de outras regiões do Brasil, a exemplo do Rio de Janeiro, Salvador,
Recife e Ouro Preto.
Durante sua breve trajetória, o LABEURC se consolidou como grupo
de pesquisa interdisciplinar, estando à frente de um convênio interna-
cional com a Universidade de Coimbra, a Rede Brasil-Portugal de Estu-
dos Urbanos. Esta Rede, formado em 2006, reúne até pesquisadores de
diversas instituições e países, como a USP, UNICAMP, UFC, UFAM, PUC-SP,
Universidade do Porto, Universidade Autônoma Metropolitana do Méxi-
co. Como integrante dessa Rede, o grupo participou de 5 (cinco) edições
do Seminário Internacional de estudos Urbanos, que aconteceram no
Brasil e em Coimbra. Localmente, o LABEURC, tem promovido diversos
eventos, tais como as Sextas Urbanas e Ciclo de Conferências, colaboran-
do para o debate no interior da própria UFS.
Durante esse período, foram concluídas, no âmbito do LABEURC,
cerca de 15 monografias de conclusões de curso (TCC), 18 trabalhos

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12 Investigações para a iniciação à pesquisa

de Iniciação Cientifica, 2 monografias de pós-graduação lato sensu e


14 dissertações de mestrado. Estão em andamento mais 2 disserta-
ções de mestrado e 6 teses de doutorado, todas na área dos estudos
urbanos e patrimoniais.
A principal contribuição destas pesquisas reside nos novos termos
analíticos sobre as políticas de intervenção urbana e patrimonialização
no Estado de Sergipe, sobretudo em Aracaju, São Cristóvão e Laranjei-
ras. A despeito da inovação temática, os artigos aqui publicados esfor-
çam-se, sem que encerrem, em examinar as inferências das relações de
poder na formação do espaço público, a seletividade no tratamento do
patrimônio histórico-cultural, a dimensão mercadológica e os conflitos
socioespaciais que se inscrevem no âmbito desta prática.
O livro divide-se em três partes, assim intituladas: I. Cidades e Patri-
mônios em Sergipe; II. Novas centralidades, espaços de vigilância e ima-
gens urbanas; III. Outras cidades, outros patrimônios. Os artigos foram
incluídos nas seções conforme a transversalidade entre as discussões e
o recorte empírico que, apesar de abarcar diversas cidades ou espaços,
dialogam naturalmente entre si.
A primeira parte, “Cidades e Patrimônios em Sergipe”, apresenta
pesquisas que enfocam, de modo geral, problemáticas acerca das inter-
venções urbanas que consistiram em políticas de revitalização do pa-
trimônio histórico-cultural do Estado e das áreas centrais. Os espaços
acionados pelos autores – Centro Histórico e Mercado de Aracaju, Sítio
histórico de Laranjeiras e de São Cristóvão – são representativos na ten-
tativa de construção de uma “identidade sergipana”, do ideário urbanísti-
co e da qualificação política, histórica e mercadológica que revestiram o
passado e a memória local como fontes destinadas ao consumo cultural,
ao turismo, entretenimento e lazer.
Os trabalhos de Elaine F. Lima, “Enobrecimento Urbano e Centra-
lidade: o processo de “revitalização” do Centro Histórico de Aracaju”, e
de Sidney M Lima, “De volta aos Centros: as políticas de “revitalização”
do Patrimônio Histórico e a Intervenção no Mercado Central de Aracaju”,
trazem importantes reflexões sobre as primeiras políticas de revitaliza-
ção na capital. A partir desses recortes empíricos, o argumento central
destes autores elucida que a partir dos anos 90, a cidade de Aracaju não
foi exceção às intervenções políticas de revitalização urbana, bem como
sua centralidade, pois continuou a ser lugar constituído de sociabilida-

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Apresentação 13

des “marginais” ao passo que continuou a ser área de serviços e comércio


da cidade “embora não atenda, como no passado, camadas com maior
poder aquisitivo”.
Ainda sobre a área central de Aracaju dois outros artigos vislum-
bram suas perspectivas e conflitos decorrentes das transformações e
usos dos espaços urbanos. O artigo de Tales Nunes, “Rua da Cultura: arte,
“drama” e contestação”, traz-nos uma breve ideia de como surgiu um dos
espaços de consumo cultural do Mercado Central de Aracaju, a chamada
Rua da Cultura que atualmente está em sua terceira configuração como
um espaço cultural em local próprio, chamado de “Casa Rua da Cultura”.
Tales apresenta-nos um ensaio sobre a formação deste movimento, que
tem início no ano 2002 na Rua Vila Cristina, no nobre Bairro São José,
área central de Aracaju. O movimento transformou a rua, um espaço de
passagem durante o dia e ermo à noite, em um “palco” aberto de mani-
festações artistas e interações sociais diversas.
Por sua vez, o trabalho de Sarah Ribeiro, “A modernidade e a Rua:
a calçada-mosaico em pedra portuguesa como passeio público e espa-
ço artístico”, trata sobre a modernização e tentativa de construção da
identidade da cidade de Aracaju. Para a autora é relevante observar que
a modernização de Aracaju a partir do século XX nasce sem plano urba-
nístico, sem tombamento, e com necessidade de se diferenciar da antiga
capital do Estado, a barroca São Cristóvão, restando-lhe se firmar como
uma cidade. Essas reflexões aportam o livro em duas perspectivas que
se complementam: por um lado há uma cidade que se pretende moder-
na, ao mesmo tempo que retoma espaços tradicionais através dos pro-
cessos de intervenção urbanística orientadas por práticas que tendem a
fragmentar os espaços turísticos, de consumo e dos lugares cotidianos.
Por outro, uma cidade que busca diferenciar-se do passado colonial de
Sergipe, renegando a arquitetura barroca e as tradições referenciadas
naquelas cidades.
Em contraponto a Aracaju que se pretendia moderna, persiste a
histórica cidade de São Cristóvão, estudado por Fábio S. Souza em “A
cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas no cen-
tro histórico da cidade de São Cristóvão/SE”. O autor se refere ao uso dos
espaços públicos em tempos distintos realizado no centro histórico da
cidade de São Cristóvão, a exemplo das procissões, de lazer e dos even-
tos públicos. A também histórica Laranjeiras é estudada por Mesalas

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Cidades e Patrimônios Culturais
14 Investigações para a iniciação à pesquisa

Santos em “Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Performance na festa


do Lambe-sujo de Laranjeiras/SE”, a partir de pesquisa empírica sobre a
performance de um ritual tradicional e popular que se manifesta a mais
de 100 anos, conhecida por Lambe-Sujo. A despeito das narrativas acer-
ca de Laranjeiras, esta forma de expressão se inscreve através das narrati-
vas dos que a produzem, em busca a rememorar o passado escravocrata
do Brasil colônia em que encena o conflito entre os caboclos e os negros
fugidos para os quilombos. Ainda sobre Laranjeiras, Allan Veiga analisa
o sentido das ruínas do sítio histórico daquela cidade, no texto “Revisi-
tando Memórias e(m) Ruínas da Histórica Laranjeiras/SE”. O autor reflete
sobre os significados da ruínas para a cidade, em meio aos processos
de restauração do patrimônio especialmente a partir de 2004, quando
a prefeitura assinou convênio em parceria com o Governo Federal, Esta-
dual e a Universidade Federal de Sergipe, afirmando que em conjunto
gerenciariam o “Programa Monumenta” em Laranjeiras.
A segunda parte do livro, “Novas centralidades, vigilância e imagens
urbanas”, discute a criação de espaços centrais para a constituição de
uma imagem de cidade situada na lógica do enobrecimento urbano
que, no caso de Aracaju, recai ao ideário da cidade “qualidade de vida”,
termo bastante utilizado pelos atores políticos e e agentes do mercado
imobiliário local.
O artigo de Josevânia Nunes Rabelo, “Enobrecimento Urbano no
Bairro Treze de Julho em Aracaju/SE”, analisa o enobrecimento urbano
de uma das áreas mais caras e elitizadas de Aracaju, discutindo como se
processou uma intervenção urbana voltada para a criação de um cená-
rio para o consumo seletivo de seus residentes. Na mesma direção segue
a pesquisa Alysson Cristian R. Souza, “Intervenções Urbanas e Espaços de
Vigilância: O caso do Bairro Jardins”, através do qual observa a “extensão”
– por assim dizer – do bairro Treze de Julho em um espaço construído
para atender aos novos projetos imobiliários da cidade. O Bairro Jardins
foi construído na região sul de Aracaju em uma área constituída por sí-
tios, minas de sal e manguezal. Nele surgiu um dos maiores empreendi-
mentos imobiliários ressentes de Aracaju, o Shopping Center Jardins, em
cujo entorno floresceu não apenas um novo bairro, mas todo um estilo
de vida marcado pelo consumo e lazer.
Não muito diferente transcorreram as políticas de revitalização da
Orla de Atalaia, que ao longo de mais de uma década experimentou uma

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Apresentação 15

forte transformação em sua paisagem, assim como uma diversificação


dos usos e acesso às áreas praianas. É o que analisa Simone Pereira, em
seu artigo “Urbanização Litorânea: O espaço ‘Orla de Atalaia”. Objetivan-
do compreender os usos e lugares neste espaço turístico, a autora ana-
lisa a construção de uma nova imagem da cidade, mediante Uma Orla
que se inscreve simbolicamente em uma Aracaju “moderna”, ao tempo
em que reforça a centralidade de décadas passadas de praia, mas não
com as mesmas práticas e usos. Como síntese deste processo, as práticas
urbanas estão entre o mar e a cidade, representam um espaço híbrido,
pois é tanto natural quanto urbano.
Por fim, o artigo que fecha esta seção, “Cidades em Imagens: A (re) in-
venção do bairro ‘Santa Maria’ em Aracaju”, de Ewerthon Clauber J. Vieira,
demonstra o aspecto mais crítico nesta feitura imagética da cidade. “Cida-
des em imagens” menos diz respeito ao conceito de autonomia e classifi-
cação das cidades e mais se refere aos processos sociais de sua atribuição
de sentido. O recorte empírico, entretanto, não perpassa os bairros ou es-
paços revitalizados e enobrecidos da cidade, mas um bairro habitado por
um dos segmentos sociais mais pobres de Aracaju, o Bairro Santa Maria,
cujo nome anterior, Terra Dura, remetia a uma área onde localiza o lixão
da cidade. Este bairro foi considerado o “modelo” de renovação urbana
desenvolvida pela Prefeitura Municipal de Aracaju e tornou-se o image
making da noção de “qualidade de vida” associada a Aracaju e assentada
sob valores de “cidadania”, “democracia” e “preservação ambiental”.
A despeito de toda a propaganda alçada pelos atores políticos e
empresariais, a “cidade em imagens” não é compreendida reflexivamente
através de suas imagens em si, mas a partir de cidades que não formam
suas próprias imagens, diz o autor. Neste caso à cidade de todos, sem
que “todos” estejam inscritos nestas imagens. Isto é, todo o projeto tem
antes o objetivo de “higienizar” o bairro de seus inconvenientes socio-
ambientais, desvinculando a imagem da localidade do estigma constru-
ído com a chegada do Lixão e com a conseqüente migração de centenas
de famílias que passaram a viver em condições insalubres naquela área.
O autor analisa, assim, as contradições não apenas no discurso, quanto
nas ações do planejamento urbano em um marketing político.
A terceira e ultima parte do livro, “Outras cidades, outros patrimô-
nios”, discorre sobre outros os processos que são altamente represen-
tativos no contexto brasileiro e que se constituem referências para as

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Cidades e Patrimônios Culturais
16 Investigações para a iniciação à pesquisa

os estudos sobre as intervenções urbanas nas cidades: Rio de Janeiro,


Salvador, Ouro Preto.
No trabalho de Joseane Paiva M. Brandão, “A Revitalização da Lapa:
Cultura e Patrimônio na Construção do Espaço Público no Rio de Janei-
ro”, demonstra-se que a estruturação e representação da cultura e vida
urbana pública tem sido um recurso de identificação e distinção das
cidades. Mormente a classificação adotada por instituições nacionais e
internacionais através das parcerias público-privadas, tem-se difundido
amplamente os programas técnicos ora chamados revitalização, requa-
lificação ou reabilitação das zonas marginalizadas pelo processo de ur-
banização. No entanto tencionam-se novos usos, como ocorreu na Lapa,
área central do Rio de Janeiro que se desenvolveu desde o século XVI até
o XIX e se renovou ao longo do século XX. A partir dessa concepção, a
autora pretende mostrar como os projetos urbanos oficiais e o trabalho
de seleção e organização de produções culturais para consumo na Lapa
contribuem para a produção de imagens e narrativas sobre a cidade do
Rio de Janeiro e de que forma elas implicam a transformação dos senti-
dos de lugar da área.
De modo crítico a esses projetos de parcerias público-privadas, e
para além da inserção de produtores culturais, o artigo de Fábio José R.
Araujo, “Políticas de Gentrification e o processo de permeabilidade socio-
espacial no Pelourinho”, provoca-nos a pensar o modo como a mobiliza-
ção da cultura tem tornado as cidades “iscas” para o capital. Para o autor,
à medida que os investimentos são geridos sob a ótica restritamente
mercadológica, inicia-se um processo de reificação do patrimônio his-
tórico e fetichização da cultura. O programa de revitalização implantado
no Pelourinho pelo Governo Estadual da Bahia no início da década de
90 é visto como um dos mais expressivos e contraditórios processos de
intervenção que contribuiu para os modelos de gentrification no Brasil.
O autor analisa, assim, a existência de dois Pelôs: um Pelô turístico de
fachadas coloridas que proporciona maior acesso aos equipamentos pú-
blicos, outro, não revitalizado que subverte os usos esperados para os
espaços enobrecidos.
No artigo de Marina Cavalcante Vieira, “Revitalização da Praça XV:
Contradições das Políticas de Gentrificação no Centro da Cidade do Rio
de Janeiro”, processo semelhante é observado ao que ocorreu em Sal-
vador. Através da análise de casos de enobrecimento dessas cidades

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Apresentação 17

pôde-se observar um processo de alteração de usos do espaço público


renovado que apresentou como característica central a exclusão socio-
espacial de determinados segmentos da sociedade. É à luz da compre-
ensão desse fenômeno que a autora analisa o caso da Praça XV e as suas
possíveis similitudes e sua relação com as políticas de patrimônio im-
plantadas através do projeto Corredor Cultural.
Por fim, o artigo de Eder C. Malta Souza, “Cidade Monumento, Ci-
dade Universitária: Usos do Patrimônio Histórico e Sociabilidade Juvenil
em Ouro Preto/MG” fecha esta terceira parte da coletânea. Não menos
importante para os estudos urbanos, a cidade de Ouro Preto foi a pri-
meira experiência de patrimonialização brasileira. Tombada desde 1933
e considerada Monumento Nacional em 1938 devido à excepcionalida-
de de seu patrimônio e das ações de preservação dos bens históricos, a
imagem de Ouro Preto é comumente designada por “Cidade Colonial”,
“Cidade Histórica” ou “Cidade Monumento”. Além disso, foi a primeira ci-
dade brasileira a receber o título de Patrimônio Cultural da Humanidade
pela UNESCO, em 1980. Estas características parecem encerrar as desig-
nações da cidade barroca, mas ao se observar a vida cotidiana, compre-
ende-se que a identidade cultural ouro-pretana não se resume a esses
elementos que a qualificam através da preservação da arquitetura e da
discursividade dos contextos históricos, políticos e estéticos tradicionais.
Uma outra cultura urbana moderna e sua imagem de “Cidade Universi-
tária” pesam e contribuem para a formação de outras identidades, for-
madas por um público jovem estudantil, através do qual o cotidiano da
cidade é revestido por práticas dinâmicas de usos dos espaços que se
conflitam com as normas e práticas preservacionistas.
Todas essas pesquisas, enfim, destacam um rico aspecto conver-
gente nos estudos urbanos contemporâneos: as intervenções urbanas,
sobretudos aquelas que transformam sítios históricos em mercadorias,
têm contribuído para criar espaços com forte inflexão desigual, marcada
por inescapáveis contra-usos. A vida na cidade está entressachada por
esses aspectos confltivos, por deliberadas abstenções sociais de conví-
vio com o estranho. De modo arrogante, muitos desses projetos plei-
teiam “devolver” ao centro sua natureza pública (através de processos
enobrecidos para as classes medias e altas), ao tempo em que não per-
cebem que a natureza pública dos espaços urbanos mudou, e são hoje
marcados por fortes dissensos e disputas: pelos usos e lugares.

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Cidades e Patrimônios Culturais
18 Investigações para a iniciação à pesquisa

Este pequeno livro pretende, assim, contribuir para este amplo e


difícil debate sobre o patrimônio cultural, a cultura urbana e a vida pú-
blica das cidades, em um momento em que se avolumam as densidades
urbanas e os problemas de uma vida na cidade em todo o mundo. De
modo modesto, deixamos aqui nossa experiência reflexiva, através das
pesquisas de diversos profissionais que fazem o Laboratório de Estu-
dos Urbanos e Culturais da UFS, com a esperança que ela abrande as
sombras ilusórias que nos impedem de ver a realidade por atrás das
fachadas das cidades.
Rogerio Proença Leite
Eder C. Malta Souza

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Parte 1
Cidades e Patrimônios
em Sergipe

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21

Enobrecimento Urbano e Centralidade:

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


o processo de “revitalização” do Centro
Histórico de Aracaju1
Elaine Ferreira Lima

Marcadas pela intensificação do processo de urbanização nas mais


diferentes partes do mundo, as últimas décadas do século XX assistiram
ao surgimento de uma série de políticas públicas voltadas justamen-
te ao gerenciamento do espaço urbano, o qual, desde então, tem se
mostrado ainda mais permeado por diferentes conflitos sociais e po-
líticos. Neste sentido, um tipo bem específico de intervenção urbana
despontou como uma das principais estratégias do poder público na
tentativa de alavancar investimentos da iniciativa privada, bem como
incrementar o potencial turístico das cidades. No contexto do pensa-
mento urbanístico crítico, estes processos de intervenção passaram a
ser denominados de gentrification.
Traduzido para o português na forma de Enobrecimento Urbano,
o neologismo gentrification foi utilizado pela primeira vez na década de
1960 por Rute Glass, a fim de designar o processo de ocupação de bair-
ros degradados de Londres por novos segmentos da população. Desde
então este fenômeno tem se estendido para além das fronteiras inglesas,
passando a compor de maneira dominante o campo de ação do plane-
jamento urbano estratégico e, por conseguinte, constituindo-se na linha
mestra do urbanismo contemporâneo. Segundo Neil Smith (2006, p. 73),
os processos de gentrification, tidos por Rute Glass como uma anomalia
do mercado imobiliário de Londres, transformaram-se rapidamente em
uma “estratégia urbana articulada”, tendo sido apropriado principalmen-
te por administrações municipais no intuito de reabilitar antigos centros,
tornando as cidades mais atrativas e mais competitivas.
Assim, mecanismo empreendedor que elege paisagens marginais
do espaço urbano a fim de reabilitá-las econômica e socialmente, gentri-
fication será aqui trabalhada como uma categoria de análise que designa

1 Esse texto é parte da dissertação de Mestrado defendida no PPGS/UFS, sob a orienta-


ção do Prof. Dr. Rogerio Proença Leite.

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Cidades e Patrimônios Culturais
22 Investigações para a iniciação à pesquisa

“a transformação de uma localidade histórica em um segmento do mer-


cado, considerando a apropriação cultural do espaço a partir do fluxo de
capitais” (Leite, 2004, p. 20). Tendo em vista que nas últimas décadas as
antigas áreas centrais passaram por intensos processos de degradação
e pauperização, estas políticas de enobrecimento urbano, que no Brasil
são comumente denominadas de “revitalização”, têm despontado como
importantes elementos de requalificação de centros históricos e de (re)
invenção do patrimônio cultural, a fim de torná-los mais favoráveis à
apropriação de partes da população e do capital.
A transformação desses centros históricos outrora “marginais”
em novos cartões postais costuma apresentar consequências muito ca-
ras aos grupos sociais que frequentavam aquela localidade, tendo em
vista que um traço comum às políticas de enobrecimento é a substitui-
ção de antigos atores sociais por novos usuários, os quais marcadamente
estão inseridos numa camada social mais elevada. Por fim, estes espaços
acabam ganhando contornos de um mercado voltado para o suprimen-
to das necessidades da elite e atraem para si uma série de serviços e
aparatos de entretenimento que são apropriados de tal forma por seu
público consumidor que tem, muitas vezes, resultado numa apropriação
quase privada do espaço público (Leite, 2004) e numa expulsão dos an-
tigos usuários, os quais não dispõem dos meios financeiros necessários
para a permanência no local. A expulsão de antigos usuários fez Zukin
(2000a) pensar no que vai chamar de “higienização social”, cuja retirada
de antigos usuários e das práticas a eles relacionadas, resulta, segundo
a autora, numa substituição de ambientes “vernaculares” por “paisagens
de poder”, constituindo, assim, novas centralidades em espaços degra-
dados e pauperizados.
Nos últimos anos da década de 1990 e início dos anos 2000 indí-
cios deste fenômeno urbano puderam ser notados na capital sergipana
e esta pesquisa objetiva analisar, tendo como recorte empírico o “Proje-
to de Revitalização do Centro Histórico de Aracaju”, até que ponto este
projeto, bem como sua efetivação, assemelharam-se às atuais políticas
de Enobrecimento Urbano. Nossa empreitada volta-se para a compreen-
são dos processos de enobrecimento que estão a se desenvolver fora do
contexto histórico e espacial que lhe deu origem. Destacamos, para tan-
to, seus aspectos variantes, suas similitudes e os tipos de recomposição
urbana que tendem a acompanhá-los, mais amiúde no caso brasileiro.

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Enobrecimento Urbano e Centralidade: o processo de
“revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
Elaine Ferreira Lima 23

Interrogamos até onde se conseguiu transmutar os usos e sociabili-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


dades públicas do Centro Histórico de Aracaju e impor a transformação
de um espaço outrora marginal na paisagem urbana num novo “cartão
postal”, numa nova centralidade e, mais ainda, em que termos seria vá-
lido afirmar o caráter marginal desta localidade, uma vez que o espaço,
a despeito da saída das classes mais elitizadas, continuava socialmente
praticado e “oxigenado” economicamente, ainda que em boa parte pelo
comércio popular. Por fim, procuramos levantar indícios de como pode-
res públicos estão acordando velhos e novos espaços urbanos em locali-
dades onde os efeitos derivados da metropolização ainda se apresentam
de maneira pouco completa e contundente.

O declínio de uma centralidade


Embora seja uma cidade ainda muito jovem, que em 2011 com-
pletou 156 anos, Aracaju e seu desenvolvimento urbano são temas
amplamente abordados por geógrafos, economistas, historiadores,
cronistas e memorialistas. Entre os estudos de caráter mais acadêmico,
principalmente a partir da abordagem de Kátia Loureiro (1983), costu-
mou-se dividir o processo de desenvolvimento urbano desta cidade
em quatro fases distintas.
A primeira delas vai de 1855 a 1900, período marcadamente ca-
racterizado pela formação e afirmação da cidade enquanto capital de
Sergipe. A segunda fase do processo de desenvolvimento das feições ur-
banas de Aracaju situa-se no período entre 1900 e 1930 e se caracteriza
pelas ações de confirmação da nova capital sergipana enquanto sede do
poder administrativo, político e econômico do Estado. O período cha-
mado de “crescimento espontâneo da cidade” (Loureiro, 1983, p. 59) se
processa entre os anos de 1930 e 1964, sendo este balizado pela neces-
sidade de redefinição das funções econômicas da cidade, haja vista que
as atividades ligadas ao porto entraram em profunda decadência. Por
fim, identificam-se os anos pós-1964 como um período assinalado pelo
acelerado crescimento de suas características urbanas.
Projetada pelo engenheiro Sebastião Basílio Pirro, Aracaju já nas-
ce para ocupar o papel de capital da província, até então pertencente
à cidade de São Cristóvão. Foi em 1855 que o Governador Inácio Bar-
bosa decretou a mudança da capital sergipana para as terras do inós-

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Cidades e Patrimônios Culturais
24 Investigações para a iniciação à pesquisa

pito povoado Santo Antônio do Aracaju. Sem a menor infraestrutura


e ocupado por um número irrisório de pescadores, o povoado não
possuía aparentemente nada que justificasse sua elevação à categoria
de cidade, muito menos de capital. Diferente da maioria das cidades,
Aracaju não nasce do crescimento de um povoado, mas de um ato
político e administrativo que, embora parecesse impensado, corres-
pondia às necessidades do contexto histórico pelo qual passava o país
(Nunes, 2005).
Para o antigo povoado, até então formado por um pequeno aglo-
merado de casas de palha dispostas em condições precárias, faziam-se
urgentes ações que lhes dotassem de uma aparência urbana. Foi neste
sentido que Inácio Barbosa encomendou ao engenheiro Basílio Pirro a
elaboração de um traçado urbano para a cidade. Deste traçado, que fi-
cou conhecido como “Quadrado de Pirro”, resultou um simplório plano
de quadrículas, formado por 32 quadras, todas elas medindo cerca de
110m2, cortadas por uma malha viária ortogonal. Este traçado urbano,
uma espécie de tabuleiro de xadrez aclamado como extremamente van-
guardista e progressista, apresentava-se como uma reação exagerada ao
aspecto anárquico da maioria das cidades coloniais brasileiras.
A começar pelo seu traçado inicial, as intervenções que se seguiram
para dotar a nova capital de feições urbanas adquiriram, no decorrer das
três primeiras fases de seu desenvolvimento, conotações progressistas e
civilizadoras, ainda que, na maioria das vezes, a realidade oferecesse um
quadro de ampla contradição. Neste contexto, o Estado assumiu o pa-
pel de maior agente de seu desenvolvimento. Suas ações, durante lon-
go tempo restritas ao núcleo original da cidade, fizeram do espaço um
lugar de prestígio. A área do “Quadrado de Pirro”, que hoje corresponde
ao chamado Centro Histórico de Aracaju, figurou durante muito tempo
como a única centralidade existente na capital. Reunindo as principais
atividades administrativas, econômicas e sociais da cidade, este espaço
foi palco preponderante das principais sociabilidades públicas da cida-
de, tornando-se ponto chave do seu cenário urbano.
No que se refere à quarta fase de seu desenvolvimento urbano, po-
de-se dizer que Aracaju adentra a década de 1970 como uma cidade mo-
nocêntrica, como uma área central em crescente evolução e permeada
por uma série de lugares que denotavam uma dualidade socioespacial
bastante significativa: ao sul, a Rua João Pessoa e seu entorno concen-

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Enobrecimento Urbano e Centralidade: o processo de
“revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
Elaine Ferreira Lima 25

trando o comércio de luxo e as práticas de lazer ligadas às chamadas

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


“famílias aracajuanas” e, ao norte, os Mercados Antônio Franco (1926)
e Thales Ferraz (1949), com a venda de produtos populares e gêneros
alimentícios, bem como concentração das casas de “diversão”, boemia e
meretrício mais elegantes da capital.
É justamente a partir deste momento que o centro começa a dar si-
nais de cansaço para, logo em seguida, sofrer suas transformações mais
radicais. Na região dos mercados, desenvolve-se um cenário degradado,
que ganha as páginas dos jornais locais da cidade e passa a incomodar
vendedores, clientes e lojistas da circunvizinhança. Entretanto, ainda
que a parte norte do centro da cidade se apresentasse como sua faceta
mais reveladora, o processo de degradação da área central aracajuana
não estava aí circunscrito. A barreira física representada pelas Praças
Fausto Cardoso, Almirante Barroso e Olímpio Campos, que separava a
zona comercial da zona residencial do centro, parece se desfazer. Com
o desenvolvimento da cidade e o surgimento de novas áreas para o co-
mércio, a Rua João Pessoa deixa gradativamente de ser o espaço de co-
mércio de luxo mais importante da cidade. Ao mesmo tempo, verifica-se
seu declínio como espaço de sociabilidades da elite. A maioria dos bares,
cafés e cinemas ali localizados entraram em decadência, dando lugar a
novas lojas e salas comerciais ou tendo seus usos subvertidos.
A fim de amenizar os efeitos do processo de fuga da elite para no-
vos espaços na zona sul da cidade, foi elaborado, em 1977, o primeiro
“Programa de Revitalização da Área Central de Aracaju”, que viabilizou
importantes mudanças na paisagem do centro. Permeado de certo pio-
neirismo, esse programa de “revitalização” teve como principal foco a
transformação das Ruas João Pessoa e Laranjeiras em calçadões, o que
conferiu nova “paisagem” ao centro da cidade. Para Vilar (2002), ainda
que não tenha revertido por completo a saída das lojas de luxo para o
setor mais ao sul do centro, isto manteve aquelas cujo público estava
numa posição mais intermediária. A ação também não conseguiu po-
tencializar como pretendia os usos noturnos destas ruas.
Já na década de 1980, período que segundo (1999) marca o início
do desenvolvimento das feições metropolitanas da cidade, verifica-se
um aumento considerável do empobrecimento do centro de Aracaju. Os
mercados continuaram a atrair barracas e lojas populares e o comércio
informal ali instalado tomou proporções gigantescas, estendendo-se da

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Cidades e Patrimônios Culturais
26 Investigações para a iniciação à pesquisa

Av. Ivo do Prado até a Praça João XXIII (sentido leste/oeste) e da Praça
General Valadão até a Av. Coelho e Campos (sentido sul/norte).
Quanto a parte mais ao sul do centro, que na década anterior já ha-
via perdido substancial número de moradores em virtude do crescimen-
to e alargamento da zona comercial, nos anos 1980 começa também
a presenciar a fuga gradativa de lojas e boutiques para bairros de elite
que se desenvolvem no eixo sul da cidade. Bairros como Salgado Filho
e Grageru começam a revestir-se de características de nova centralida-
de, atraindo importantes empreendimentos imobiliários e passa a servir
uma gama de novos serviços e comércio. Nesta década temos também a
instalação do Shopping Riomar. Localizado na zona sul, o primeiro sho-
pping da cidade ajudou a reforçar o processo de fuga das classes média
e alta da área central.
Ao analisar os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Es-
tatística) de 1980 a 1991, França (1999) demonstra que o número de pes-
soas que deixaram o centro e os bairros centrais como local de moradia
representou uma redução de cerca de 20% de sua população. A situação
só não se mostrou pior por conta da saída de moradores já na década an-
terior. Nos anos 1990 o recuo no montante de habitantes da área central
não cessa ainda que desacelere, uma vez que o número de moradores já
não era tão grande assim. De acordo com Vilar (2002), se em 1991 o cen-
tro possuía um contingente demográfico de 10.076 pessoas, em 1996
ele não passava de 9.255.
Em contrapartida, bairros como 13 de Julho, Grageru e Coroa do
Meio apresentaram acréscimos populacionais consideráveis, influen-
ciados principalmente pelo crescente fenômeno da verticalização. A
verticalização passou a predominar também na ocupação de novas
áreas, como foi o caso da formação do Jardins, bairro de classe média
que, junto com o shopping center de mesmo nome, passou a represen-
tar, no final deste período, uma das mais importantes centralidades da
capital sergipana.
Ainda que as perdas populacionais, a saída maciça das classes abas-
tadas e a migração do comércio de luxo tenham se mostrado uma re-
alidade bastante evidente nas últimas três décadas do século XX, isto
não representou uma diminuição da atividade comercial no centro da
capital. Ao contrário, verifica-se que a expansão do comércio e a perda
de características residenciais foram processos inter-relacionados. O que

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Enobrecimento Urbano e Centralidade: o processo de
“revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
Elaine Ferreira Lima 27

aconteceu de fato foi o assentamento de um comércio voltado para ca-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


madas de extratos de renda inferior àquelas que dominavam o cenário
em épocas anteriores. O comércio informal se intensifica na região norte
do centro e sua parte sul passa a demandar um comércio cada vez mais
intenso e popular.
Outra migração, menos expressiva que a anterior, mas que se tor-
na bastante representativa, diz respeito a importantes órgãos da admi-
nistração pública, a exemplo da transferência da sede do governo e de
fóruns e tribunais do poder judiciário, elementos estes que possuíam
grande força de atração de fluxos para o centro e contribuíam para sua
condição de core político, administrativo e cultural de todo o estado.
As mudanças na configuração social e econômica do centro de Ara-
caju vêm também acompanhadas por uma crescente diminuição dos
investimentos públicos e privados, em sua maioria redirecionados para
áreas que se mostraram mais promissoras ao desenvolvimento da cida-
de. A falta de ações do poder público transpareceu na degradação física
de ruas, praças e terminais de transporte coletivo, influenciando direta-
mente a deterioração de sua paisagem urbana e a descaracterização de
conjuntos arquitetônicos relevantes à história da cidade.
Este e outros fatores foram, então, responsáveis diretos para a con-
solidação de dois cenários distintos: durante o dia, em virtude do co-
mércio em plena atividade, um vai e vem efervescente de pessoas fez
daquele um espaço amplamente praticado, ainda que por atores sociais
distintos dos que marcaram épocas passadas; já à noite, o fluxo de pes-
soas diminui e as atividades econômicas e de serviço dão passagem
para outras sociabilidades. Com o esvaziamento populacional e a saída
de equipamentos estratégicos na promoção do lazer e do ócio, um novo
público passou a dominar a cena noturna do centro. As práticas de pros-
tituição, antes restritas às imediações do mercado, expandem-se para
vários locais da região. Esta situação influenciou fortemente a constru-
ção de uma imagem negativa para o centro, visto a partir de então como
lócus principal de práticas subversivas e marginais.
Esta localidade passou então a configurar um espaço praticado,
em sua maioria, por atores sociais desprovidos de poder, que reunidos
teciam naquele espaço uma complexa teia de práticas interativas. Ain-
da que a realidade aracajuana no final do século XX tenha caminhado

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Cidades e Patrimônios Culturais
28 Investigações para a iniciação à pesquisa

para um contexto “policentrista” (Frúgoli Jr., 2000), com o surgimento de


novas centralidades, o centro continuou a possibilitar a construção co-
tidiana de importantes sociabilidades e não perdeu por completo suas
feições de principal espaço comercial e administrativo da cidade.

Fragmentos de “retradicionalização” no Centro Histórico


de Aracaju: o Mercado Central
Tendo em vista o cenário descrito anteriormente, na década de
1990 dois projetos voltados para o centro começaram a ser pensados
nas esferas municipal e estadual. O primeiro, que ficaria a cargo do Go-
verno do Estado, visava a transformação completa dos antigos merca-
dos. No segundo, o foco era a região do famoso “Quadrado de Pirro”. Este
ficaria sob a responsabilidade da Prefeitura Municipal.
O “Projeto de Restauração do Mercado Municipal de Aracaju” (1995)
foi executado pela Companhia de Habitação e Obras Públicas do Estado
(Cehop), com obras orçadas em R$ 4,5 milhões, teve o apoio do Prode-
tur/NE – Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste, que
financiou o montante de R$ 3.948.628,00 milhões, ficando o restante a
cargo do governo do Estado.
O referido projeto partia de dois pressupostos básicos: a qualida-
de arquitetônica das edificações e a importância socioeconômica dos
mercados para a cidade. Segundo o texto do projeto, era preciso uma
intervenção que fosse capaz de acabar com o “quadro calamitoso” des-
ses espaços e gerar, como consequência, “a revitalização de seu enorme
potencial turístico” (Cehop, 1995, p. 5).
Entretanto, colocar Aracaju na rota do turismo, deveria, a princípio,
vencer uma questão interna bastante impertinente: o que fazer com o
contingente de “ambulantes” e “barraqueiros” que ocupavam caotica-
mente não só os espaços dos mercados como também o seu entorno?
Como transformar esta região num espaço de consumo cultural sem per-
passar “a presença de seus legítimos ocupantes, isto é, uma gama de mais
de 2.979 comerciantes, acrescidos por vários outros grupos de baixa ren-
da, que já se constituíam partes integrantes daquela complexa configu-
ração espacial”? (Lima, 2004, p. 76). Nos moldes de Zukin (2000b), como
transformar antigos mercados, amplamente marcados por características
vernaculares, em uma paisagem de poder, em uma nova centralidade

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Enobrecimento Urbano e Centralidade: o processo de
“revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
Elaine Ferreira Lima 29

simbólica? Começa-se a desenhar um dos problemas mais incômodos do

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


processo de “revitalização” do Centro Histórico de Aracaju.
A opção encontrada pelo Governo do Estado para solucionar o
problema dos até então legítimos praticantes daquele espaço público
foi a construção de um novo mercado em uma área vizinha aos ou-
tros. A proposta era que o novo mercado, denominado Albano Franco,
a partir de uma ação de “transferência urbana”, pudesse abrigar todo
o comércio hortifrutigranjeiro e de confecções, desafogando as estru-
turas superlotadas dos Mercados Antônio Franco e Thales Ferraz. Esta
ação visou também acabar com o comércio de rua realizado na região
circunvizinha aos mercados.
Ainda que a expressão “transferência urbana”, utilizada no projeto,
pareça denotar uma ação harmoniosa, uma espécie de “higienização so-
cial” (Zukin, 2000a) realizada nos antigos mercados e áreas circunvizinhas
ganhou contornos turbulentos, sendo que em muitos momentos o pro-
cesso desencadeou cenas de violência e revolta social (Lima, 2008). Assim,
quando o projeto fala sobre uma ação de “transferência urbana”, fala-se,
de maneira amena, em varrer para debaixo do “tapete” urbano quaisquer
atores e atividades sociais dissonantes dos ideais de sofisticação e consu-
mo cultural que se queria imprimir ao novo espaço dos mercados. Embora
não se possa saber o número exato de feirantes excluídos no processo de
“revitalização”, uma estimativa nos apresenta números significativos: em
levantamento cadastral realizado em 1997, registrou-se a existência de
2.979 comerciantes ocupando os mercados Antônio Franco, Thales Ferraz
e entorno. Comparando esse número com a capacidade de lotação desses
mercados mais o Albano Franco, que no total chega a 2.522 pontos de
comércio, chega-se a uma diferença de 457 comerciantes. Sabe-se, porém,
que o número de trabalhadores excluídos foi muito maior, já que nem to-
dos os feirantes foram devidamente cadastrados (Lima, 2004).
Assim, a partir da ação de “transferência urbana” e da contundente
reforma infraestrutural, tentaram impor a construção de novas sociabi-
lidades nos espaços públicos dos antigos mercados, tornando-os aptos
para o consumo e práticas de turismo e lazer ligados às elites, assim
como foi em seu tempo de “auge”. Restaurados, os antigos passaram a
abrigar somente o comércio de artesanato, comidas e produtos tipica-
mente nordestinos, assim como bares e restaurantes requintados, numa
clara alusão ao público que a partir de então deveria ocupá-los.

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Cidades e Patrimônios Culturais
30 Investigações para a iniciação à pesquisa

A partir de sua “revitalização”, o Mercado Central de Aracaju foi in-


serido na lista dos atrativos turísticos e culturais do Estado, tornando-o
o mais novo cartão postal da cidade e palco das grandes festividades
da capital. Assim, a ideia de transformar um patrimônio de reconheci-
do valor histórico em um bem de consumo cultural voltado ao deguste
turístico é apresentada sem maiores embargos e o caráter mercadoló-
gico da obra se apresenta de maneira direta tanto no projeto quanto
em sua execução.
Com aquelas informações em vista e alerta para o fato de a região
dos mercados ter sofrido as ações mais contundentes do processo de
“revitalização” da área central de Aracaju, importou-nos saber até que
ponto a inserção de eventos ligados à cultura popular na região dos mer-
cados (a exemplo do Forró-Caju, do Pré-Caju e da Rua da Cultura) foi
uma tentativa de “retradicionalizar” (Leite, 2005) o espaço público.
Segundo Leite os processos de gentrification apresentam um desa-
fio que reside em um duplo movimento: conciliar a inserção dos espaços
enobrecidos no fluxo mundial de consumo simbólico, através da flexibi-
lização dos conteúdos culturais e, em paralelo, atuar no sentido de uma
“retradicionalização”, como forma de legitimar cultural e politicamente
o Enobrecimento Urbano. Neste sentido, os processos de gentrification
alienam o patrimônio na medida em que retira dele as práticas sociais
e os costumes locais construídos cotidianamente, ao passo que o fenô-
meno da “retradicionalização” ocorre predominantemente quando o
passado é transmutado para uma função de relíquia, o que sugere o do-
mínio de aspectos culturais artificiais e “inventados”. É neste sentido que
eventos ligados à cultura popular local são inseridos nos novos nichos
urbanos de consumo e criam certa legitimidade para as intervenções
urbanas. Esta legitimidade, por sua vez, baseia-se majoritariamente na
concepção de uma suposta cultura comum (Leite, 2005).
Pudemos perceber que no caso aracajuano a “retradicionalização”
teve seu foco tanto na inserção de novos eventos culturais e festivos quan-
to na transferência de eventos já existentes para a área dos mercados. Di-
ferente do que aconteceu com o restante do Centro Histórico, para este
espaço tentaram criar uma agenda cultural e festiva capaz de conferir legi-
timidade local e atratividade turística. Concluídas as ações de intervenção
e após a divulgação de amplas campanhas publicitárias que apresentaram
os mercados “revitalizados” à população sergipana, o complexo do Merca-

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Enobrecimento Urbano e Centralidade: o processo de
“revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
Elaine Ferreira Lima 31

do Central de Aracaju, por iniciativa do poder público municipal, passou a

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


abrigar uma das maiores festas juninas do país, o “Forró Caju”.
Este evento, realizado desde 1987 no espaço da Praça Fausto Car-
doso, era frequentado por grupos sociais de baixa renda e ocupava
pouco espaço na agenda festiva da cidade. Com sua transferência para
a região dos mercados, no ano de 2001, uma nova gama de artistas
passou a se apresentar e um novo público, agora ligado às mais dife-
rentes camadas da população, inclusive àquelas vinculadas às classes
médias, passou a frequentá-lo. Com apresentações de grupos folclóri-
cos, quadrilhas juninas e variados cantores, o Forró Caju tornou-se, as-
sim, um dos principais atrativos turísticos do Estado. Nas palavras dos
organizadores deste evento anual,

Junho é o mês da maior festa popular sergipana: o São


João. Em Aracaju, o São João significa Forró Caju. Por sua
qualidade, e pelo cuidado que a Prefeitura Municipal tem
tido na realização e promoção da festa, o Forró Caju ul-
trapassou os limites do Estado e colocou Aracaju no ro-
teiro das grandes festas juninas do Nordeste, rivalizando
com Campina Grande e Caruaru. Para o povo de Aracaju,
o Forró Caju não é apenas uma festa. É um momento de
celebração da identidade sergipana e de resgate cultu-
ral de suas raízes (Campanha Publicitária do Forró Caju,
2007, grifo nosso)

Também sobre outros eventos que passaram a ser realizados nes-


ta localidade podemos considerar, no ano de 2003, a transferência de
um importante encontro cultural para áreas limítrofes do Mercado
Central. Denominado Rua da Cultura, este evento, de caráter multifa-
cetado, reúne todas as segundas-feiras à noite uma diferenciada gama
de manifestações culturais e artísticas, com a apresentação de bandas
alternativas de variados estilos musicais, de grupos de dança, exposi-
ções, rodas de capoeira etc.
Este evento cultural, antes realizado em uma rua do Bairro São Jose,
foi transferido para o entorno dos Mercados Centrais por conta dos in-
cômodos que causava aos moradores da antiga localidade. Alvo de di-
versas ações judiciais, a Rua da Cultura encontrou na região “revitalizada”
dos antigos mercados o lócus perfeito para suas práticas e festividades:

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32 Investigações para a iniciação à pesquisa

ali, questões como poluição sonora e o tráfego intenso de pessoas não


se apresentava mais como problema (Nunes, 2004).
Sem sua origem vinculada a nenhuma esfera do poder público, a Rua
da Cultura, após sua transferência para a região dos mercados, passou a
despertar interesse do poder público municipal e perdeu a disposição de
rua que possuía anteriormente, com artesãos e artistas expondo e expon-
do-se nas calçadas e a rua como meio de circulação. Além de sua dispo-
sição espacial, modificou-se também sua configuração social. Muitos dos
seus antigos frequentadores não migraram junto com o movimento, ao
passo que novos atores sociais foram acrescidos à sua configuração, a sa-
ber: antigos usuários do centro, pedintes, bêbados, flanelinhas etc. O pú-
blico, antes formado majoritariamente por universitários e artistas, agora
está envolto num ecletismo social bastante significativo, sendo que mui-
tos dos seus atuais frequentadores não conhecem os objetivos da Rua da
Cultura e a frequentam apenas como mais um espaço de diversão.
Deste modo, a Rua da Cultura parece ter caminhado num sentido
inverso ao percorrido pelo Forró Caju. Enquanto um teve seu público
popularizado, o outro conseguiu atrair, ao menos em suas primeiras ver-
sões, um público mais seleto. Ainda que consiga reunir semanalmente
vários frequentadores, a Rua da Cultura não nos parece ter consolidado
uma movimentação noturna condizente com os ideais da “revitalização”.
Há de se destacar também que este evento, diferente do Forró Caju, não
foi ressignificado com o intuito de promover a imagem do Mercado “revi-
talizado”, apenas se utilizou de suas estruturas para continuar existindo.
Entretanto, ainda que siga caminhos diferenciados, pode-se dizer que o
Forró-Caju e a Rua da Cultura se consolidaram no imaginário aracajuano
como eventos vinculados aos mercados, ao passo que outras tentativas
se mostraram frustradas, a exemplo do Pré-Caju.
Realizado desde a década de 1990 em uma avenida da Praia Treze
de Julho, bairro nobre da cidade, no ano de 2004 os organizadores des-
ta prévia carnavalesca (Pré-Caju) decidem transferi-la para a região dos
mercados, o qual, passados alguns anos de sua “revitalização”, parecia
ainda não ter firmado Aracaju na rota turística do nordeste. De acordo
com o então prefeito da cidade, era preciso coragem para consolidar
aquele espaço como ponto de visitação turística e a transferência de
eventos para esta região corroborava tal necessidade (Agência Aracaju
de Notícias, 2003).

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Enobrecimento Urbano e Centralidade: o processo de
“revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
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Amplamente divulgada através do slogan “Essa festa vai fazer his-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


tória”, numa clara alusão ao espaço do “Centro Histórico” e na tentativa
de despertar sentimentos de pertença na população, essa edição do Pré-
Caju foi bastante criticada justamente pelo seu novo local de realização.
As reclamações foram tamanhas, inclusive por parte dos artistas, que já
no ano de 2006 o evento retornou para seu o antigo local de realização.
Não obstante cada evento ter seguido caminhos diferentes de su-
cesso, ao analisarmos as estratégias de agenciamento dos antigos mer-
cados como lócus de grandes festividades, três elementos se apresentam
preponderantes e imbricados: os fatores história, identidade e tradição.
Tendo isto em vista, pode-se dizer que a promoção das referidas festivi-
dades, divulgadas sob a égide deste trio de elementos, representou uma
tentativa de “retradicionalizar” o espaço dos antigos mercados, tornando
-o elemento de destaque na imagem simbólica de Aracaju.
Conclui-se, assim, que a partir de sua estrutura “revitalizada”, tenta-
ram criar no Mercado Central de Aracaju um ponto de “retradicionaliza-
ção” do Centro Histórico. Contudo, somente fragmentos de “retradicio-
nalização” puderam ser identificados e restringem-se principalmente à
ressignificação do Forró Caju e a ideia deste evento como uma celebra-
ção da identidade sergipana. Diferente do que ocorreu com o Pré-Caju
este evento conseguiu melhor trabalhar com elementos, inventados ou
não, de uma tradição local.

“Revitalização” do Centro Histórico de Aracaju:


o “Quadrado de Pirro”
Neste mesmo período, agora sob a tutela do município, outro pro-
jeto de “revitalização” foi lançado e tinha por finalidade transformar a
paisagem urbana do antigo “Quadrado de Pirro”, transformando-a ofi-
cialmente em lugar histórico. Em conjunto com a região “revitalizada”
dos mercados, buscava-se, naquele momento, a (re)invenção do Centro
Histórico de Aracaju.
A preocupação com esta localidade foi um dos pontos de desta-
que do “Planejamento Estratégico da Gestão de João Augusto Gama”,
empresário que chegou à prefeitura com o intuito de preparar “Aracaju
para o Século XXI”. A ideia primordial de sua administração perpassava
a concepção de que o futuro da cidade exigia o resgate de sua história.

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Cidades e Patrimônios Culturais
34 Investigações para a iniciação à pesquisa

Era como se Aracaju só pudesse avançar rumo ao futuro se estivesse


em dia com o seu passado.
Isto parece corroborar as proposições de Peixoto (2003), segundo o
qual a consciência patrimonial, base teórica dos processos de “revitaliza-
ção”, corresponde muito mais às necessidades da sociedade futura que um
reconhecimento do passado. Mais que uma questão de formação de iden-
tidade, a criação de uma consciência patrimonial ajuda no processo de assi-
milação coletiva da mudança que, no caso de Aracaju, estava bem posta na
ideia de prepará-la para o século XXI. Para o autor, no contexto atual, onde
mutações brutais no espaço urbano são visualizadas diariamente,

só um rito colectivo de passagem, que inclua o luto e a


magnificação do defunto, permite aos indivíduos supor-
tar ou admitir a mudança, dando início à regeneração. Daí
o exacerbamento discursivo sobre o estado de defunto
em que os “centros históricos” se encontram (Peixoto,
2003, p. 216)

De autoria de Kátia Loureiro, integrante da Trama Arquitetura e


Urbanismo, o “Projeto de Revitalização do Centro Histórico de Aracaju”,
orçado em R$ 4.024.907,55, integrou a segunda etapa do PRODETUR-
NE e foi desenvolvido com apoio financeiro do Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID), do Banco do Nordeste (BNB) e do Banco Na-
cional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Esta arquiteta,
ao declarar o foco principal do projeto, atentava para o que segundo ela
seria uma necessária mudança de foco na promoção turística de Sergipe.
O Estado, anteriormente centrado na divulgação de belezas naturais, de-
veria agora voltar-se para a divulgação de sua cultura. O potencial turís-
tico inerente às áreas históricas “revitalizadas” seria um importante pro-
motor de impactos positivos na dinamização das funções econômicas e
sociais de grandes áreas degradadas e é assim que o centro de Aracaju
é tomado: como uma área degradada que revitalizada transformar-se-ia
num pólo de atração turística capaz de inserir a cidade de Aracaju na
nacional “concorrência intercidades”.
Como pressuposto conceitual, o projeto apresentava a ideia de re-
criar nos espaços do Centro Histórico referências à dinâmica do passado
e transformar seus acontecimentos mais marcantes em atração turística.
Mas seria necessário recompor a dinâmica de apropriação que outrora

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“revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
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se fazia de seus espaços e lugares. Por outro lado, as seguintes ações

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


foram planejadas: proteção do conjunto urbano histórico; revalorização
imobiliária do centro para fins de uso residencial vertical; animação turís-
tica; e fortalecimento das atividades econômicas tradicionais.
O processo de “revitalização” foi dividido em duas etapas: na primei-
ra, o foco estava no perímetro urbano definido pelo projeto como “hi-
per-centro comercial”, correspondendo mais precisamente à região dos
calçadões; já na segunda etapa, as ações focaram toda a região restante
do Centro Histórico.
No “hiper-centro comercial” a ideia principal era transformá-lo
numa espécie de shopping a céu aberto. Para isso, os já existentes cal-
çadões da João Pessoa e Laranjeiras deveriam passar por mudanças
significativas, como a troca de seu mobiliário urbano por outros, elabo-
rados numa espécie de releitura dos que antigamente ocupavam a área
central, substituição das antigas pedras portuguesas por um novo piso,
implantação de placas de sinalização e de projeto luminotécnico deco-
rativo, a fim de tornar aquele espaço mais atrativo no período noturno;
havia ainda a necessidade de transformação da Rua São Cristóvão tam-
bém em calçadão. Além disso, previa-se a desobstrução e pintura das
fachadas de edifícios e casas comerciais. A ideia era, portanto, recuperar
a visibilidade de modelos arquitetônicos de épocas passadas e criar um
conjunto histórico harmonioso.
Todas as ações perpassavam, portanto, o objetivo de transformar
os antigos calçadões em espaços de consumo simbólico e de lazer. Isto,
porém, passou por alguns complicadores. Algumas das ações propostas
não saíram do papel e outras foram vistas com maus olhos por comer-
ciantes e usuários. As fachadas das lojas continuaram encobertas por
letreiros e placas e a transformação da Rua São Cristóvão em calçadão
causou preocupação em grande parte dos lojistas e indignação de taxis-
tas que tiveram seus pontos deslocados para áreas distantes do intenso
fluxo de pedestres.
Por sua vez, a segunda etapa do processo de “revitalização” foca-
va outras regiões do Centro Histórico. Admitindo a inevitável perda de
importância comercial e de prestação de serviços do centro da cidade
para novas centralidades, mas ressaltando ser este um lugar de cidada-
nia e de grande apelo identitário, o projeto defendia que nenhum outro
espaço aracajuano poderia apresentar melhores referências culturais e

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Cidades e Patrimônios Culturais
36 Investigações para a iniciação à pesquisa

históricas de seu povo. Sendo assim, seu potencial turístico era indiscu-
tível. Partindo deste pressuposto, três Setores Especiais de Turismo (SET)
foram identificados, sendo que em cada um deles a estratégia de inter-
venção deveria seguir critérios específicos.
No primeiro SET, conhecido como “Rua da Frente”, a ideia era resgatar
a relação de animação do Centro Histórico com o Rio Sergipe. Para isto,
as principais ações foram o alargamento da calçada ribeirinha, criando
um passeio que se projeta sobre o rio, a reforma da iluminação pública,
criando um eixo de luz que, nas expectativas do projeto, atrairia passeios
noturnos, e a desobstrução visual do rio. Na região do porto, foram reti-
rados bares e construções que vedavam a paisagem do rio e, segundo
o projeto, depreciava seu potencial turístico. Além destas ações, outras
foram projetadas mas não saíram do papel, a exemplo da proposta de
criação de um museu interativo do folclore e comidas típicas.
No segundo SET, definido como “o coração do Centro Histórico”, o
foco eram as Praças Fausto Cardoso, Almirante Barroso e Olímpio Cam-
pos, as quais deveriam funcionar como “a sala de entrada e ponto princi-
pal de recepção turística de Aracaju” (TRAMA, 1997, p. 19). As ações pla-
nejadas para esta região tinham intenção a intervenção e a valorização
das edificações do entorno; a “revitalização” da ponte do imperador com
retorno de sua função primitiva, ou seja, recepcionar embarcações que,
no caso atual, seriam catamarãs que operam cruzeiros turísticos no Rio
Sergipe; iluminação diferenciada das edificações de destaque; e incenti-
vo à implantação e/ou transferência de agências operadoras de turismo
para esta região. Há de se destacar, no entanto, que as intervenções deste
perímetro ficaram restritas à pintura das fachadas dos edifícios históricos,
aos serviços de paisagismo e à reforma do calçamento e de seu mobiliá-
rio urbano. A Ponte do Imperador também passou por reforma significa-
tiva, mas não conseguiu ser ponto de recepção de embarcações.
Para o SET de número três, composto pela Praça General Valadão,
a expectativa era transformá-lo em um ponto de irradiação do processo
de recuperação e animação da imagem urbana em direção ao mercado
municipal, atribuindo-lhe a função de praça de happy hour. Pretendia-se
inclusive a criação de espaços para pequenos shows musicais e apresen-
tações folclóricas, com mesas ao ar livre.
O projeto fazia ainda outra ressalva bastante interessante: embora
a perda de grande parte de seu mercado consumidor em favor de no-

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“revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
Elaine Ferreira Lima 37

vas estruturas comerciais elitizadas fosse inegavelmente fator decisivo

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


no processo de degradação e de perda de centralidade do centro araca-
juano, seu esforço não estava na reversão deste quadro. O surgimento
de novas centralidades, segundo se defendia, era ponto chave para o
desenvolvimento urbano da cidade. Assim, não se pretendia um retorno
das elites ao centro por conta de seu comércio. Acreditava-se, porém,
que com seu acervo patrimonial o Centro Histórico já resguardasse em si
potencial cultural e turístico capaz de atrair novo público consumidor e
sustentabilidade econômica à “revitalização”.
Contudo, o patrimônio histórico ali existente não recebeu a aten-
ção necessária ou não possuía elementos suficientes para concorrer tu-
risticamente com o patrimônio de cidades bem próximas, a exemplo de
Salvador, Recife e Olinda. Com uma história urbana bastante recente, a
cidade de Aracaju não possui nenhum bem patrimonial em estilo co-
lonial ou barroco, justamente aquele que mais figura como patrimônio
arquitetônico nacional. Por ser uma cidade construída para ser moder-
na, Aracaju deveria afastar-se de quaisquer elementos que remetessem
a um passado colonial, de modo que seu patrimônio histórico é formado
majoritariamente por edificações em estilo neoclássico e eclético. Além
disso, apesar de seu considerável acervo, preservado através de leis mu-
nicipais e estaduais, a capital sergipana não possuía nenhum bem tom-
bado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, diferen-
te de grande parte das cidades com as quais pretendia concorrer.
Constata-se ainda que embora a importância de (re)valorização do
patrimônio seja uma prerrogativa constante, a não ser pelas ações de
pintura das fachadas e de iluminação, nenhuma mudança significativa
se processou. Parte do acervo continuou servindo para os mesmos usos
de períodos anteriores, abrigando, por exemplo, repartições púbicas. Já
outra parte continuou fechada e sem nenhuma utilidade mais efetiva,
a não ser a visual. Isto, aliado à falta de crédito quanto à capacidade do
Centro Histórico de Aracaju de atrair uma prática turística regular, pare-
ceu afastar a iniciativa privada do processo de “revitalização”.
Constata-se também que, diferente do que ocorreu na região dos
mercados, as intervenções realizadas no restante do Centro Histórico
não significaram a exclusão de atores sociais marginalizados. Inclusive,
muitos destes atores, os quais antes ocupavam quase que majoritaria-
mente os Mercados e seu entorno, após sua “revitalização”, migraram

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Cidades e Patrimônios Culturais
38 Investigações para a iniciação à pesquisa

para outras localidades da área central, formando, por exemplo, feiras


noturnas improvisadas.
Parte do comércio informal expulsa dos Mercados, através de novas
“táticas” (Certeau, 1994), passou a adensar espaços do centro que eram
tidos como potencialmente privilegiados para o consumo turístico. Du-
rante o dia, melhorias como controle do tráfego e das áreas de estaciona-
mentos, bem como a reforma de praças e calçadões, não representaram
o retorno das práticas de lazer que no passado animavam tais lugares.

Centralidade vernacular e sociabilidades públicas:


notas conclusivas
Como vimos, os dois projetos de “revitalização” destinados à área
central de Aracaju, gestados a partir de perspectivas nitidamente eno-
brecedoras, no sentido de tornar este espaço – altamente adensado, de-
gradado e pauperizado – em apto para o deguste turístico e consumo
cultural, careceram de uma maior efetividade.
Com uma exceção temporária da região dos mercados, as “estraté-
gias” derivadas do poder público não conseguiram expulsar as “táticas” e
os “modos de fazer” (Certeau, 1994) derivados de uma importante gama
de atores sociais marginalizados. No caso da “revitalização” do “Quadra-
do de Pirro”, não podemos falar, por exemplo, em “higienização social”
(Zukin, 2000a) e em substituição de antigos usuários por consumidores
ligados às camadas mais abastadas da população. Isto é, não houve um
retorno maciço das práticas de lazer e consumo que no passado fizeram
daquele um espaço de prestígio. No entanto, deve-se atentar que “mui-
tas vezes, a não concretização de um determinado projeto – avaliado,
pelo crivo de certos urbanistas, como um ‘fracasso’ – pode ser revela-
dora, em si mesma, de um processo rico de conflitos e concepções, em
decorrência da trama de representações, ações e embates que mobiliza”
(Frúgoli; Andrade; Peixoto, 2006, p. 221).
Ainda que não tenha conseguido atrair para seu espaço novos usu-
ários e novas práticas, a “revitalização” proporcionou o surgimento de
novas configurações, a exemplo da formação de feiras noturnas no pe-
rímetro do Terminal Metropolitano Luiz Garcia e nos Calçadões da João
Pessoa e Laranjeiras (Lima, 2008). Essas feiras passaram a existir através
das “táticas” (Certeau, 2004) de sobrevivência de atores sociais expulsos

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“revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
Elaine Ferreira Lima 39

da região dos mercados e que buscaram em outros espaços e horários

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


uma oportunidade de comércio.
Passada quase uma década da realização das intervenções urbanas
que estamos a tratar aqui, não é incomum que políticos, a mídia e até
mesmo lojistas do centro de Aracaju produzam e reproduzam a ideia de
que o centro da cidade, degradado, necessita de novos mecanismos para
“revitalizá-lo”. Apesar deste discurso, que apresenta um centro degrada-
do e esvaziado, durante minhas incursões etnográficas (Lima, 2008) o
que percebi foi um bairro vivo, permeado de múltiplas sociabilidades e
que em nada lembra um local decadente, apenas diferente daquilo que
representou no passado. No centro de Aracaju foi possível notarmos a
convivência de diferentes grupos de atores sociais que cotidianamente
(re)inventam as maneiras de ocupar os espaços e ali permanecem, mes-
mo quando indesejados pelos gestores da cidade.
Nesta ambiência urbana cenas e mais cenas são compostas e de-
compostas diariamente, muitas vezes uma em oposição à outra. Simul-
tâneo ao caminhar apressado do senhor de paletó que busca um dos
órgãos públicos ali existentes, visualizamos o andar desajeitado e meio
sem destino do morador de rua. Do mesmo modo, enquanto uns fazem
das vias públicas apenas um lugar de passagem, outros (re)inventam
ruas transformando-as em lugar de moradia, de comércio, de bate-pa-
po, de prostituição. Para alguns grupos o centro é lugar de anonimato,
para outros é lugar de sobrevivência, de construção de identidades e de
memórias particulares e coletivas.
Foi apreendido que, embora não fosse objetivo de seus executo-
res, o processo de popularização da área central de Aracaju continuou
progredindo. Se ao menos no Mercado Central novas práticas e usos
surgiram a partir da intervenção urbana, em outros lugares, como no
caso dos calçadões, a popularização conheceu seus melhores momen-
tos, inclusive com a inserção dos tradicionais camelôs e ambulantes
que antes ocupavam majoritariamente a parte norte do centro. Assim
sendo, este espaço tem a cada dia ganhado a fisionomia de um lugar
popular e cada vez mais conflituoso e dinâmico. Segundo Certeau
(1994), o popular, na pessoa do homem ordinário, realiza constante-
mente operações disjuntivas e “táticas” que golpeiam planos espaciais
e de linguagem, apresentando artes de fazer que se mostram resisten-
tes ao sistema imposto.

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Cidades e Patrimônios Culturais
40 Investigações para a iniciação à pesquisa

No entanto, no caso da “revitalização” do Centro Histórico de Araca-


ju isto não representa a existência daquilo que Leite (2004) denominou
“contra-usos”. Constatamos que as dinâmicas dos usos nos sugerem uma
variante deste conceito, já que a ocupação “vernacular” não se deu, e
nem se dá, por oposição aos usos esperados de uma “paisagem de po-
der” (Zukin, 2000a), mas pelo declínio desta paisagem e das práticas so-
ciais que antes lhes davam sustentação.
Esta localidade, de maneira progressiva, passou a configurar como
um espaço praticado por atores sociais desprovidos de poder, mas que
reunidos tecem uma complexa teia de práticas interativas. Justamente
por conta disto não acreditamos que este espaço tenha deixado de figu-
rar como centralidade, uma vez que continuou possibilitando a constru-
ção cotidiana de importantes sociabilidades e não perdeu por completo
suas feições de principal espaço comercial e de prestação de serviços
da cidade, embora não atenda, como no passado, camadas com maior
poder aquisitivo.
Entretanto, faz-se necessário ressaltar que se estivermos pensando
na ideia de centralidade postulada por Zukin (2000a), nossa afirmação se
apresenta como um contrassenso, já que a autora faz uma ligação direta
entre centralidade e “paisagem de poder”. Entendidas como a parte mais
glamorosa da cidade, as paisagens de poder se mostram capazes de
atrair novos empreendimentos e instituições, tornando-se ponto chave
no discurso de uma cidade moderna e capaz de ser inserida na rota do
deguste turístico e cultural. Obviamente não são estas as características
que fazem do centro de Aracaju uma centralidade.
Para o nosso caso, as definições de Frúgoli Jr., que entende centrali-
dade como um espaço dotado de destacável capacidade de concentrar
diversos grupos sociais e de convergir uma gama de serviços, negócios
e lojas, mostram-se mais adequadas. Desta maneira, e se quisermos re-
alizar uma mediação entre as proposições de Zukin (2000a) e Frúgoli
(2000), podemos falar na existência de uma centralidade vernacular.
Por fim, podemos dizer que as constantes transformações proces-
sadas no chamado Centro Histórico de Aracaju têm muito mais a ver
com as práticas cotidianas ali desenvolvidas do que com a vontade de
planejadores e gerentes urbanos. Por conseguinte, o processo de “revi-
talização” buscou (re)inventar um lugar histórico cujo dia a dia já é inven-
tado e reinventado pelos seus principais atores sociais, ou seja, camelôs,

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“revitalização” do Centro Histórico de Aracaju
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moradores de rua, fiscais da prefeitura, prostitutas, lojistas, compradores

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


e demais usuários que diariamente desenvolvem ali sua vida pública co-
tidiana e que, ademais, há muito já se apresentam como parte constitu-
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Prefeitura Municipal de Aracaju. Campanha Publicitária do Pré-caju 2007. Dispo-


nível em <http://www.aracaju.se.gov.br/agencia/arquivos/ForroCaju_Brie-
fing.pdf>. Acesso em maio de 2007.

TRAMA Arquitetura e Urbanismo. 1997. Projeto de Revitalização do Centro Históri-


co de Aracaju, Aracaju.

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De volta aos Centros: as políticas

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


de “revitalização” do Patrimônio
Histórico e a Intervenção no
Mercado Central de Aracaju
Sidney Matos de Lima

A intensificação dos processos de urbanização, no decorrer do sécu-


lo XX, desencadeou uma série de políticas públicas voltadas justamen-
te ao gerenciamento das cidades, numa tentativa de ordenar o espaço
urbano. Neste sentido, uma questão com que quase todas cidades de
médio e grande porte se depararam foi o processo de degradação de
seus espaços públicos, praças e centros históricos, o que fez com que
outras áreas urbanas se mostrassem mais promissoras na atração de in-
vestimentos e mais adequadas ao consumo de camadas mais abastadas
da sociedade. O “declínio” das áreas centrais das cidades é assim deno-
minado devido à migração das elites dominantes e à concomitante ocu-
pação desses espaços por segmentos sociais de baixa renda. Como con-
sequência do processo ocorre uma diminuição tanto dos investimentos
privados quanto dos recursos públicos nesses espaços.
O declínio dos espaços públicos centrais das cidades não se cons-
titui uma especificidade brasileira, de modo que, desde a década de 70,
urbanistas e arquitetos de vários países buscam alternativas para rever-
ter esta situação. No contexto das estratégias de desenvolvimento das
áreas centrais, um tipo de intervenção urbana tem se proliferado em vá-
rias cidades do mundo – a exemplo de Baltimore e Nova York (EUA), Bar-
celona (Espanha), Paris (França), Évora (Portugal) –, como principal meio
de alavancar investimentos da iniciativa privada, bem como incrementar
o potencial turístico das cidades. Chamadas de gentrification, essas inter-
venções públicas relacionam políticas de Preservação de Bens Históricos
com melhoramentos na infraestrutura do espaço urbano, transforman-
do espaços antes considerados apenas “marginais” em “centralidades”
(Zukin, 2000a), atraindo em torno de si galerias de arte, centros de lazer
e moda, bares e restaurantes requintados.
Assim, contrapondo o processo de degradação, verifica-se atual-
mente uma forte tendência de retorno ao centro, por intermédio destes

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46 Investigações para a iniciação à pesquisa

famosos projetos de “revitalização”1, como preferem denominar seus


promotores. Tais intervenções urbanas possuem íntima relação com as
políticas de restauração do Patrimônio Cultural. Discorreremos neste tex-
to acerca da vinculação entre a tendência atual de políticas urbanísticas
de revalorização de espaços público degradados com as práticas de Pre-
servação do Patrimônio e sobre a maneira como tais obras influenciam
na reconfiguração da sociabilidade pública e usos do espaço urbano.
Para tanto, inicialmente faz-se necessário traçarmos uma breve
discussão acerca do conceito de patrimônio histórico, de modo que
trabalharemos mais especificamente o tratamento deferido pelas polí-
ticas urbanas contemporâneas ao Patrimônio Cultural, ocasião em que
aprofundamos a discussão sobre as práticas de gentrification. Nosso
referente empírico para o processo de “Revitalização” é o Mercado Cen-
tral de Aracaju.

1 – Patrimônio Histórico: um olhar conceitual


Na Antiguidade Clássica, os romanos consideravam o patrimônio
como um direito de herança relacionado apenas à esfera privada. So-
mente a partir do Renascimento, e de uma forma mais acentuada no
século XVIII, o patrimônio passou a ser considerado uma herança pública
(Rodrigues, 2000), o que consequentemente gerou uma série de políti-
cas voltadas para sua proteção.
Todavia, Riegl aponta que, mesmo nas épocas mais remotas da His-
tória, o homem já criava edificações “com o objetivo preciso de conser-
var sempre presente e vivo na consciência de gerações futuras a lem-
brança de uma ação ou de um destino” (Riegl apud Fonseca, 1997, p.
50). Assim, estas construções, chamadas de monumentos “intencionais”,
já nasciam em virtude de sua representatividade histórica para as gera-
ções futuras. Com o Renascimento, o homem deixa essa concepção de
construir visando uma notoriedade posterior e passa para uma fase em
que não se concebe mais um monumento como histórico na ocasião do
seu “nascimento”, mas sim apenas quando constatado seu valor cultu-
ral e seu poder simbólico para o conjunto de indivíduos que com ele se
identifica. Dessa forma, o homem renascentista já demonstra a noção
moderna de patrimônio histórico, sendo já perceptível em seu tempo a
ideia de estudar e preservar determinado bem pelo fato de ele ser um

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Sidney Matos de Lima 47

testemunho da história e por trazer consigo uma série de significados,

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


inclusive o de identidade cultural.
Contudo, a contribuição mais importante na sistematização de
ações públicas no tocante à questão da preservação do patrimônio foi
dada no século XVIII, devido à necessidade de os Estados Nacionais re-
cém formados legitimarem seu poder e cristalizarem a ideia de unidade
nacional (Gonçalves, 1996). Dentro desse projeto, a concepção de iden-
tidade cultural desempenhava papel de suma importância.
Ao analisar a identificação de um povo com um determinado mo-
numento, Gonçalves (1996) salienta a importância da noção de “apro-
priação” nos discursos do Patrimônio Cultural:

Apropriarmo-nos de alguma coisa implica uma atitude


de poder, de controle sobre aquilo que é objeto dessa
apropriação, implicando também um processo de iden-
tificação por meio do qual um conjunto de diferenças é
transformado em identidade (...). Apropriar-se é sinônimo
de preservação e definição de uma identidade, o que sig-
nifica dizer, no plano das narrativas nacionais, que uma
nação torna-se o que é na medida em que se apropria do
seu Patrimônio (Gonçalves, 1996, p. 24).

A França foi o grande berço onde se desenvolveu a noção de pre-


servação do Patrimônio Histórico e Artístico. Todavia, segundo Fonseca
(1997), seu modelo de atuação visava sobretudo o atendimento de inte-
resses políticos do Estado. Desse modo, a capacidade do patrimônio cul-
tural de evocar a ideia de identidade cultural passou a ser utilizada como
elemento de construção da unidade nacional dentro do contexto da con-
solidação dos Estados-Modernos. Neste sentido, Fonseca (1997) elenca
quatro grandes funções simbólicas cumpridas pelo Patrimônio Cultural:
1- Representar a nação, tornando visível e real sua identidade;
2- Legitimar o poder atual, na medida em que funciona como
documento para a construção da história da origem da nação e de
seus heróis;
3- Reforçar a noção de cidadania, visto que os bens, a partir do
momento em que são tombados, tornam-se propriedade de todos
e são utilizados em nome do interesse público;

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4- Instruir os cidadãos (devido ao seu potencial pedagógico).


Como vimos, a gestação das primeiras políticas públicas de preser-
vação já estão relacionadas não só ao interesse cultural, mas também a
uma motivação política e uma justificativa ideológica, algo que a partir
de então seria recorrente na história das políticas de Patrimônio. Para
tanto, o Estado passou a gerenciar os processos de constituição e de pro-
teção do Patrimônio em nome da sociedade. Dessa forma, fez-se neces-
sária a criação de um estatuto jurídico próprio que estabelecesse direitos
e deveres da sociedade em relação aos bens que seriam selecionados
para transmitir e preservar simbolicamente seus valores.
Com o passar do tempo, verificou-se um alargamento da noção do
patrimônio e uma maior diversidade dos bens considerados com valor
histórico e artístico. Passou-se gradativamente de uma fase em que se
consideravam apenas as grandes edificações como passíveis da atribui-
ção de valor histórico para uma outra, que julgamos mais plausível, na
qual é possível encontrar uma gama heterogênea de bens, incluindo
desde as grandes construções monumentais até

Obras de arte de notável valor estético ou particular-


mente representativas de determinada época ou estilo,
documentos e objetos intimamente vinculados a fatos
memoráveis ou a pessoas de excepcional notoriedade,
bibliotecas e arquivos de acentuado valor cultural, sítios
arqueológicos (Lei Estadual nº 2069/76) 2

Outra importante contribuição para o alargamento conceitual do


que poderia receber o status de histórico e/ou artístico foi dada pela
UNESCO, quando passou a considerar como patrimônio cultural costu-
mes, lendas, cantos, festejos populares, como danças folclóricas e recei-
tas culinárias (Fonseca, 1997).
A noção francesa de patrimônio que predominaria entre os de-
mais países europeus seria posteriormente exportada para os países
da América Latina, chegando ao Brasil na primeira metade do século
XX (Rodrigues, 2000).
A primeira Constituição Brasileira a atribuir ao poder público a obri-
gação de preservar o patrimônio cultural é a Constituição de 1934 (Fon-
seca, 1997). Mas é apenas em 1937, logo após a instauração do Estado

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Sidney Matos de Lima 49

Novo, ou seja, num contexto conturbado de lutas e de evocação aos va-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


lores nacionalistas, que a afirmação de uma identidade cultural brasileira
era uma necessidade e logo são definidos os valores que justificariam as
políticas de preservação do patrimônio.
O valor de um determinado bem é qualificado enquanto cultural
“quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer
por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou
artístico” (Decreto Lei nº 25, de 30 de nov. de 1937 apud Fonseca, 1997,
p. 34). O mesmo decreto ainda determina a criação de um órgão federal
responsável pela execução das políticas de preservação (o SPHAN - Ser-
viço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que no futuro seria o
IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

2 - Políticas de “Revitalização” do Patrimônio Histórico


na Experiência Urbana Contemporânea
No Brasil as práticas de “renovação” do espaço urbano em áreas
consideradas “históricas” surgem a partir da década de 80. Esta reali-
dade foi observada, por exemplo, na Restauração do Pelourinho em
Salvador, no Antigo Bairro do Recife e no Centro Histórico de São Luís.
Através destas intervenções, espaços públicos considerados decaden-
tes, pelo fato de estarem apropriados por atores sociais marginaliza-
dos, transformaram-se em importantes centros para práticas de consu-
mo cultural (Featherstone, 1995).
Justamente para apreender as consequências e implicações sociais,
políticas e econômicas do processo de “Revitalização” do espaço urbano,
faz-se necessário tecer alguns comentários sobre categorias analíticas
caras ao tema (como sociabilidade pública e usos do espaço), tendo em
vista que tais elementos costumam ser contundentemente transmuta-
dos quando os projetos de “enobrecimento” são desencadeados. A res-
peito destas temáticas, os autores que nos forneceram os subsídios con-
ceituais que fundamentam essa breve reflexão foram A. Arantes (2000),
Da Matta (1997), Habermas (1984), Leite (2001), Martins (2000), Sennett
(1998) e Zukin (2000a, 2000b).
Segundo Leite (2001) o conceito de sociabilidade pode ser enten-
dido como o conjunto de práticas interativas, conflitivas ou não, que se
estruturam no curso da vida cotidiana. Neste sentido, grosso modo, ha-

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veria dois campos diferentes das sociabilidades: aquelas que se passam


no âmbito público e aquelas que se processam no domínio do privado.
Sennett (1998) inicia seu estudo dessas duas esferas tendo como pon-
to de partida a análise das sociedades da Antiguidade Clássica. Assim,
ao comparar a esfera pública contemporânea à vida pública romana, o
autor postula que ambas, a despeito de suas especificidades históricas,
fundamentavam-se em última análise numa encenação obrigatória. Este
autor irá mostrar a busca pelo isolamento e pela intimidade do domínio
privado na contemporaneidade como forma de refúgio das pessoas em
relação à cidade, encarada nesta análise como um local perigoso, por ser
composta por estranhos. É neste sentido que Sennett afirma que para os
modernos “estar só ou entre os seus é um fim em si mesmo”, evidencian-
do o que este autor denominou de tirania da intimidade.
Nesta mesma perspectiva, Roberto Da Matta (1997) inicia sua análi-
se sobre a sociedade brasileira, diferenciando os códigos de conduta de
acordo com o espaço que os indivíduos ocupam, estejam em Casa ou na
Rua. Este autor analisa como cada um desses espaços se constituem, na
verdade, em esferas de significação social que, além de diferenciar contex-
tos e atitudes, possuem visões de mundo e éticas particulares:

Se a “Casa” distingue esse espaço de calma, repouso, re-


cuperação e hospitalidade, enfim, de tudo aquilo que
define a nossa ideia de ‘amor’, ‘carinho’ e ‘calor humano’, a
rua é um espaço definido precisamente ao inverso. Terra
que pertence ao ‘governo’ ou ao ‘povo’ e que está sempre
repleta de fluidez e movimento. A rua é um local perigoso
(Da Matta, 1997, p. 57).

Tendo por base esta análise de Da Matta (1997), a qual postula ser
a Casa e não a Rua a fiel representação do âmbito da realização pesso-
al, R. P. Leite aponta que, no caso do Brasil, “esse excesso de familismo
poderia ser compreendido em decorrência da inexistência histórica
de uma cultura política que dissociasse as esferas pública e privada”
(Leite, 2001, p. 142). Este autor atribui esta particularidade brasileira
à singular trajetória das relações entre o Estado e a Sociedade Civil,
que muitas vezes não respeitou os limites entre as esferas pública e
privada, fazendo com que esta frequentemente adentrasse e mesmo
se fundisse ao domínio da coisa pública. Assim, a falta de uma cultu-

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ra pública ofuscaria uma demarcação mais precisa entre as fronteiras

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dessas duas esferas.
Nesta mesma perspectiva, J. S. Martins, ainda focando a questão da
problemática diferenciação entre o público e o privado, contrapõe a rea-
lidade brasileira ao caso inglês:

Lembro que na Inglaterra, país por excelência da vida pri-


vada, não é raro encontrar em espaços públicos peque-
nas placas que indicam a cada momento o que é espaço
público e espaço privado. Avisos do homem privado ao
homem cotidiano informando que ao passante cotidia-
no é vedado o território do privado. (...) A distinção entre
público e privado está na memória de cada cidadão. Não
temos nada disso em nossa sociedade. Aqui, o cidadão é
uma ficção do Estado. Nem mesmo é um ficção do polí-
tico um cliente de seu populismo e de seu clientelismo,
construindo um território que é o território em que não
se distinguem o público e o privado (Martins, 2000, p. 106).

Também trabalhando com a temática da formação e da atual confi-


guração da esfera pública, Habermas (1984), em sua Mudança Estrutural
da Esfera Pública, expõe que esta esfera pertence ao âmbito da comu-
nicação e da interação social baseada na conversação. Neste sentido, o
advento da impressa como veículo informativo ao público em geral se
constituiria como elemento central da esfera pública contemporânea.
Comparando a noção de esfera pública habermasiana com a con-
cepção de domínio público de Sennett, Leite (2001) mostra (apesar de
estes autores chegarem a conclusões muito próximas no que concerne
às transformações recentes processadas no âmbito público) diferenças
significativas na análise de ambos, principalmente na atenta observação
da ausência, na análise de Habermas, da categoria espaço, ao contrário
do que ocorre com o pensamento de Sennett.
Ao estudar as influências do comportamento intimista e de busca
pelo isolamento, Sennett (1998) chega mesmo a preconizar um discutí-
vel diagnóstico de Morte do Espaço Público. Sobre isso, o autor se detém
longamente e analisa o conceito de Espaço Público Morto, o qual seria
justamente a existência de um espaço desprovido de interações sociais
características da vida pública:

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A visão intimista é impulsionada na proporção em que


o domínio público é abandonado, por estar esvaziado.
No mais físico dos níveis, o ambiente incita a pensar no
domínio público como desprovido de sentido. É o que
acontece com a organização do espaço urbano (Sennett,
1998, p. 26).

Neste ponto, Sennett começa a citar uma série de exemplos de pro-


jetos arquitetônicos que não possibilitam a interação de indivíduos, como,
por exemplo, o modelo internacional com que estão sendo construídos os
Arranha-Céus ou ainda praças públicas que, sem bancos, não se configu-
ram enquanto espaço de permanência, mas apenas de passagem. Todas
estas características estariam destruindo a natureza pública de um deter-
minado espaço, que é a de mesclar pessoas e diversificar atividades.
Todavia, com base no pensamento de Leite (2001), seria importan-
te indagarmos alguns pontos que problematizam esta noção de espaço
público morto. Questionamos se seria conceitualmente sustentável a
noção de morte de um espaço público. Tendo em vista que, sociologi-
camente, o que define o caráter público de um espaço é justamente o
fato de o mesmo se constituir como lócus e suporte material de relações
de interação entre os indivíduos, seria então pertinente denominar de
espaço público morto um determinado espaço que se encontra despro-
vido de sociabilidades públicas, sendo que este sequer se enquadra no
entendimento de público da sociologia? Nesta perspectiva, não existiria
um espaço público morto, visto que sendo morto, o espaço não é públi-
co, mas apenas espaço (urbano ou rural).
Outro fator problemático da noção de espaço público morto resi-
de na capacidade de os atores sociais subverterem os usos projetados
para um determinado espaço como, por exemplo, permanecer em lo-
cais que originariamente foram arquitetados como espaço de passa-
gem já no intuito de evitar as interações sociais públicas. Neste ponto,
chegamos à noção de contra-uso do espaço, aqui entendido como “sig-
nificações ou contra-sentidos que diferem daqueles esperados pelas
políticas urbanas” (Leite, 2001).
Michel de Certeau (1994) analisa a forma como a vida cotidiana é
construída (inventada) mediante o complexo jogo que relaciona as es-
tratégias daqueles que detém o espaço e o poder com as táticas dos ato-
res sociais menos favorecidos:

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Chamo de estratégia o cálculo (ou a manipulação) das re-

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lações de força que se torna possível a partir do momen-
to em que um sujeito de querer e poder (uma empresa,
um exército, uma instituição científica) pode ser isolado.
(...) Chamo de “tática” a ação calculada que é determinada
pela ausência de um próprio. A tática não tem por lugar
senão o do outro. A tática é determinada pela ausência
do poder assim como a estratégia é organizada pelo pos-
tulado de um poder (Certeau, 1994, p. 98-100).

Tendo em vista a reflexão de Certeau, podemos identificar que os


chamados contra-usos do espaço se circunscrevem na categoria de tá-
tica (por serem capazes de subverter os usos projetados de um espaço
estrategicamente regulado). Em consonância com a análise de Certeau
(1994), Antônio Arantes (2000) postula que os habitantes das cidades
constroem socialmente o espaço urbano, mediante usos diferenciados e
práticas sociais ali desenvolvidas:

A experiência urbana contemporânea propicia a forma-


ção de uma complexa arquitetura de territórios, lugares,
e não-lugares, que resulta na formação das configurações
espaço-temporais mais efêmeras e híbridas do que os ter-
ritórios sociais de identidades tematizados pela Antropo-
logia Clássica (Arantes, A., 2000, p. 106).

Os referidos territórios seriam engendrados coletivamente e po-


dem ser entendidos como expressão de identidade dos grupos sociais
conflitantes e antagônicos em determinados lugares do tecido urbano.
Assim, verdadeiras fronteiras seriam erguidas no espaço público e, em-
bora as mesmas sejam simbólicas, não deixam de definir a existência de
lugares como marcos de pertencimento.
Desta forma, as fronteiras simbólicas de A. Arantes (2000) seriam ca-
pazes de demarcar sociabilidades distintas, segmentar usos e ressignifi-
car o espaço público, que agora passaria a ter caracteres de semi-privado,
como a denominou Marques & Ferreira (2000) nos casos em que uma
camada social “apropria-se” de um determinado espaço. Neste sentido,
Zukin (2000a) mostra como os processos de segregação socioespacial
desencadeados por algumas intervenções urbanas, como nas práticas

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de gentrification por exemplo, podem transmutar a significação de espa-


ços marginalizados em centralidade.
Podemos, portanto, aproximar o referido conceito de fronteira
simbólica de A. Arantes (2000) e a noção de espacialidade conflitiva de
Zukin (2000a), categoria que segundo a autora possui a capacidade de
dar certo ordenamento às relações e práticas sociais desenvolvidas em
determinados espaços públicos. Todavia, as referidas fronteiras simbóli-
cas não agem como delimitações socioespaciais arquetípicas, uma vez
que espacialidades distintas, apesar de conflitivas, podem se intercruzar,
justapor-se, dialogar e por vezes se configuram como zonas de transição
entre os usos e os contra-usos do espaço público urbano.
Após estes apontamentos e detendo-nos mais especificamente à
questão das práticas de gentrification, estas, para maioria de seus estu-
diosos, tiveram como primeiros indícios a reforma urbanística empreen-
dida pelo Barão Haussmann no século XIX, em Paris, quando esta cida-
de despontou como o grande referencial de modelo urbano mundial.
A reforma de Haussmann consistiu no alargamento das estreitas ruas
parisienses em amplas artérias viárias: as avenidas, com o objetivo de
conter os movimentos sociais e suas barricadas. Todavia, a profunda in-
tervenção na estrutura urbana implicou transformação dos modos de
vida urbano, com influências marcantes nas sociabilidades públicas da
população parisiense. Neste sentido, Benjamim (1997) analisa aquela so-
ciedade mostrando o surgimento das galerias, das lojas elegantes, das
inovações arquitetônicas, das ideias de luxo e moda, dos elegantes cafés
parisienses, dentre outros elementos que serviram de base para que este
autor pudesse reconhecer Paris como a “Capital do Século XIX”. Tratando
especificamente das concepções urbanísticas que nortearam toda inter-
venção urbana promovida por Haussmann, o autor afirma:

O ideal urbano de Haussmann consistia no traçado de


longas e alinhadas fileiras de ruas. Esse ideal corresponde
à tendência, constantemente visível ao longo do século
XIX, para enobrecer as necessidades técnica com pseu-
do-finalidades artísticas. Os templos do poder espiritual e
temporal da burguesia haveriam de alcançar a apoteose
enquadrados por fileiras de ruas que, tal como os monu-
mentos, eram tampadas com uma tela e descerradas no
dia da inauguração (Benjamim, 1997, p. 75).

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Assim, Benjamim explica como os quartiers de Paris perderam sua

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


fisionomia própria, “transformando os parisienses em estranhos na sua
própria cidade” (op. cit., p. 76). Todavia, é importante considerar que esta
pretendida “modernidade”, que inclusive se constituiu como ideal ur-
banístico adotado por tantas outras cidades, expressava-se muito mais
como concepção, ideal de modo de vida, do que propriamente como
construção de uma sociedade igualitariamente beneficiada com o de-
senvolvimento advindo, sendo portanto perceptível o problema da de-
mocratização dos benefícios urbanísticos adquiridos.
Em sua face contemporânea, pudemos verificar que uma das ca-
racterísticas mais marcantes das políticas urbanas na chamada pós-mo-
dernidade, apontada por seus teóricos, é que esse período histórico está
profundamente orientado pelos imperativos do mercado. O. Arantes
(2000), ao analisar este fenômeno, afirma haver uma verdadeira compul-
são pelos negócios, “não havendo texto pós-moderno em que não se
estivesse ‘negociando’ alguma coisa, de imagens a outros itens menos
simbólicos” (Arantes, O., 2000, p. 14).
Neste sentido, D. Harvey aponta que também a arquitetura, os pro-
jetos urbanos e até mesmo as políticas de Patrimônio contemporâneas
tendem a se guiar demasiadamente pelo mercado, “por ser esta a lingua-
gem primária de comunicação da nossa sociedade” (Harvey, 1992, p. 78),
e que esta integração generalizada ao mercado acaba por beneficiar o
consumidor rico e privado em detrimento das necessidades do consu-
midor pobre e público.
No contexto dessa mercadorização generalizada, a nova geração ur-
banística3, preocupada com o processo de degradação das áreas centrais
das cidades, toma as práticas de gentrification como uma das principais
estratégias para alavancar investimentos da iniciativa privada nestes es-
paços e para incrementar o potencial turístico das cidades.
Outro fator importante na apreensão do gentrification é que se trata
de um fenômeno cuja teoria ainda está se desenvolvendo. A não conso-
lidação conceitual também é decorrente do caráter multifacetado que
o fenômeno se processa em cada cidade. Segundo Bataller (2000) esta
modalidade de intervenção urbana tende a se nortear por singularida-
des locais, o que faz com que as práticas de gentrification se manifestem
de diversas formas, podendo haver variações significativas nos proces-

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56 Investigações para a iniciação à pesquisa

sos de implantação e nos resultados obtidos em cada configuração es-


pacial urbana.
Tal modalidade de intervenção urbana tem se proliferado como
forma de as metrópoles se adequarem às normas do mercado cada vez
mais competitivo, em relação às disputas intercidades, por uma maior
visibilidade internacional e para se constituir como foco central dos de-
bates da sociologia urbana contemporânea. Autores vários têm se de-
bruçado sobre o tema, que é assim definido:

El fenómeno fundamentalmente urbano conocido como


gentrificación consiste en una serie de mejoras físicas o
materiales y cambios inmateriales - económicos, sociales
y culturales- que tienen lugar en algunos centros urbanos
viejos, los cuales experimentan una apreciable elevación
de su estatus (Bataller, 2000).

Estes processos de “revitalização urbana” se dão sob a confluên-


cia de obras de melhoramentos da infraestrutura urbana e Políticas de
Preservação do Patrimônio Cultural, visando reestruturar determinados
espaços do tecido urbano, e, mediante políticas de image-making, criar
uma nova identidade para a cidade, a fim de que ela possa ser vista como
moderna, limpa, organizada, isto é, potencialmente preparada para ser
inserida no fluxo internacional de pessoas, signos e capital. Desta forma,
“as práticas de gentrification são fruto do reencontro glamoroso entre a
Cultura (urbana ou não) e o Capital” (Arantes O., 2000, p. 15). Contudo, o
elemento cultural aqui acaba servido apenas de isca, na medida em que
governantes e investidores passam a visar o potencial mercadológico
do Patrimônio Cultural, o que foi chamado de “culturalismo de mercado”
(Arantes O., 2000, p. 16).
Como vimos, é a busca por melhores posições no cenário turístico
internacional que força que sejam construídas nas cidades novas “rotas
de desfrute” para atender o deguste turístico. A necessidade de adequa-
ção das cidades força um processo de repensar e redefinir o espaço ur-
bano no intuito de imbuí-lo de elementos atrativos.
No contexto da globalização, o espaço tem a cada dia importância
elevada na expansão do processo capitalista. Por isso, o espaço é cada
vez mais visto como mercadoria, tendo somado ao seu valor histórico e/

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ou de uso, para seus habitantes locais, o valor de troca. Enquanto mer-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


cadoria, o espaço tem de ser produzido, ocupado e ordenado. A respei-
to da organização do espaço urbano, ao visar sua adequação para as
práticas turísticas,

A ordenação urbana compreende a organização dos


elementos que compõem o espaço urbano de acordo
com o estabelecimento de relações de ordem, com
base na construção de uma hierarquia de valores, no
caso, com o objetivo de facilitar o desenvolvimento
das atividades turísticas. A ordenação turística é a bus-
ca conveniente dos meios existentes no espaço para o
sucesso das propostas relativas às atividades turísticas
(Castrogiovanni, 2000, p. 23).

Este complexo fenômeno urbano não tem suas implicações restri-


tas ao campo das políticas de Patrimônio ou à esfera econômica. Os cus-
tos sociais dos processos de gentrification aparecem para a maioria dos
seus teóricos como uma de suas características mais marcantes, uma vez
que resultam expulsão dos antigos usuários dos seus sítios originais e
reapropriação desses espaços por um novo público, numa espécie de
“curetagem social” (Certeau, 1994). Neste sentido, S. Zukin denomina o
resultado dessas intervenções urbanas como formação de “paisagens de
poder”, visto que elas se tornam capazes “de impor uma concepção es-
tética associada às ideologias de modernização, ao controle da terra e à
remoção do vernacular” (Zukin, 2000b, p.107)4. A remoção pode se dar
tanto de forma violenta (como no caso da Times Square em Nova Iorque,
onde foi usada a força policial) ou de forma induzida (através da pressão
dos novos custos, sobretudo taxas e impostos, que um espaço de valor
imobiliário elevado impõe). Segundo O. Arantes (2000) esta contradição,
dos novos e antigos usuários, é “recorrente entre o valor de uso que o
lugar se representa para seus habitantes e o valor de troca com que se
apresenta para aqueles que interessados em extrair dele um benefício
econômico qualquer” (Arantes, O., 2000, p. 26).
Zukin (2000a) ainda mostra como efeito do processo de gentrifica-
tion a transmutação do espaço, outrora marginalizado em centralidade.
A autora descreve como a classe média ao se apropriar de determinados
lugares da cidade, acaba formando um mercado para o suprimento de

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Cidades e Patrimônios Culturais
58 Investigações para a iniciação à pesquisa

suas necessidades, atraindo ao seu redor restaurantes, bares e aparta-


mentos mais caros, novos serviços, bem como um mercado de produ-
tos simbólicos ligados à moda, às artes e ao entretenimento para seu
próprio consumo, numa apropriação quase privada do espaço público,
como denominou Leite (2001).
Nesta perspectiva, as práticas de gentrification possuem também
uma dimensão simbólica e ideológica. Este autor analisa como essas in-
tervenções urbanas tornam os espaços “revitalizados” locais de disputa
por uma maior visibilidade entre os grupos sociais. A busca pela afirma-
ção de suas práticas socioespaciais se dá mediante a identificação entre
os padrões arquitetônicos e urbanísticos e os valores e visões do mundo
da classe social que se apropria do espaço. Neste ponto, Leite (2001), ao
analisar o valor simbólico do consumo cultural, mostra como os modos
de vestir-se e percorrer certos itinerários urbanos, ocupando espaços e
transformando-os, representam formas simbólicas de consumir e de-
marcar formas específicas de pertencimento.
Assim, o consumo cultural de certos símbolos de status e determina-
das práticas socioespaciais são formas de comunicar distinções sociais,
o que por certo evidencia as diferenças e até mesmo as disputas sociais
envolvidas nos usos dos espaços urbanos enquanto espaços públicos.
Desta forma, depreendemos que os projetos de “Revitalização” urba-
na que atualmente se alastram em várias cidades, principalmente sob o
pretexto de “revalorização” de seus Centros Históricos, acabam por vezes
potencializando apenas o Patrimônio para fins de consumo, principal-
mente através de atividades culturais e práticas de lazer e turismo, sem
que haja uma devida atenção aos seus usuários, indivíduos que nutriam
sentimento de pertença e identidade cultural com os bens “enobrecidos”.

3 – O processo de Gentrification em Aracaju: o caso do


Mercado Central
A cidade de Aracaju não foi exceção a essa tendência geral, de modo
que, no decorrer das décadas de 80 e 90, a cidade assiste não só à am-
pliação de sua área, como também ao empobrecimento do seu centro:

A dificuldade de estacionamento, a insegurança e o


burburinho do centro têm retirado as classes mais abas-

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tadas, que hoje dispõem de outros locais mais confor-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


táveis e menos congestionados, próximos as suas áreas
residenciais. Como as demais grandes e médias cidades
brasileiras, Aracaju se moderniza implantando galerias,
shoppings e, sobretudo, especializando suas funções
(França, 2000, p. 121).

O Mercado Central de Aracaju nos anos 90 simbolizava de forma


mais expressiva o processo de degradação do espaço urbano de todo
o centro da cidade. A estrutura dos prédios apresentavam uma série de
problemas, como a superlotação dos espaços, precariedade no forne-
cimento de água, rede de energia e esgotos. Somados a estas caracte-
rísticas, tínhamos um crescimento desordenado do comércio informal
com centenas de barracas sem qualquer infraestrutura, sobrepostas
num espaço extremamente exíguo e sem qualquer setorização da feira
pelas atividades comerciais. O número elevado de vendedores ambu-
lantes circulando em corredores extremamente estreitos e labirínticos
contribuía ainda mais para configurar a aglomeração desordenada da
localidade. Assim, o Mercado Central de Aracaju tornava-se espaço para
o desenvolvimento de uma “subcidadania” evidenciada pelo grande nú-
mero de pedintes, sem tetos e prostitutas, que ali, junto aos feirantes,
compradores e transeuntes, formavam um complexo mosaico de intera-
ções sociais (Controle de Concreto e Tecnologia Ltda., 1997).
No final da década de 90, Aracaju assiste o processo de “Revitali-
zação” de seu Mercado Central, no qual tem-se não só a reforma dos
Mercados Antônio Franco e Thales Ferraz, como também a construção
de um novo mercado o “Albano Franco”. De acordo com o projeto de
Revitalização, de autoria da arquiteta Ana Luiza Libório, a restauração e
a reurbanização seria capaz de acabar com o “quadro calamitoso”, pois
trataria de “centralizar a comercialização de produtos regionais, artesa-
nato local, culinária regional, lojas de couro, cordel, shows folclóricos,
gerando como conseqüência a revitalização do enorme potencial tu-
rístico” (CEHOP, 1998).
A transformação do Mercado Central de Aracaju num espaço de
consumo cultural deveria antes solucionar um grande problema: a pre-
sença dos seus legítimos ocupantes, isto é, uma gama de mais de 2.979
comerciantes (Engenharia de Projetos e Obras Ltda., 1998, p. 9), acresci-
dos por vários outros grupos de baixa renda, que já se constituíam par-

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Cidades e Patrimônios Culturais
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tes integrantes daquela complexa configuração espacial. Para tanto foi


processada a transferência urbana para a área do “Mercado Novo”, para
onde a feira e a venda de produtos considerados incompatíveis com os
novos usos pretendidos para aquele espaço se deslocou (CEHOP, 1998,
p. 6). Assim, ao ser restaurado, o Mercado Antônio Franco e o Thales Fer-
raz continuaram comercializando (mesmo que de uma forma diferente
e principalmente para um novo público) seus produtos de artesanato,
comidas típicas, mercearias com produtos nordestinos, frios e vinhos,
confecções, laticínios e receberia bares, barbearias, restaurantes mais
elegantes, no intuito de atender os gostos (considerados requintados)
do novo segmento social, que agora passaria a frequentá-lo, enquanto
os produtos de primeira necessidade foram “transferidos”.
O Mercado Albano Franco, também conhecido como “Mercado
Novo”, recebeu então 2.242 feirantes, cujas principais atividades são:
hortifrutigranjeiros, cereais, peixes e mariscos, carnes, venda de animais
e aves, confecções, importados do Paraguai, etc. Dentro deste mercado,
o ambiente inicial sugere uma feira bem organizada, contudo, observan-
do melhor o recinto e, principalmente, subindo até o pavimento supe-
rior verifica-se uma série de distorções e problemas, o que gera um clima
de descontentamento e reclamações tão constantes e incisivas por parte
dos feirantes que já perpassam inclusive o poder judiciário. A despeito
das reclamações específicas em cada mercado, existem reclamações ge-
rais, comuns aos três mercados:
1 – Nem todos os comerciantes cadastrados pela Emsurb foram
contemplados. Há centenas que foram literalmente expulsos de seus
pontos de comercialização5;
2 – Em contrapartida, pessoas que não eram cadastradas como
feirantes pela Emsurb e que nem sequer comercializavam nos merca-
do foram contemplados. Por exemplo, 30 dos 114 pontos comerciais
existentes no mercado Thales Ferraz e 39 dos 167 do Antônio Franco
estão sendo ocupados por novos permissionários que não tinham
seu nome cadastrado;
3- Falta de clareza no processo de distribuição dos pontos comer-
ciais por parte da comissão para gerenciar o assunto. A distribuição se
deu por meio de sorteio, porém os critérios para a realização do mesmo
não foi transparente6;

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Histórico e a Intervenção no Mercado Central de Aracaju
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Quanto à apreensão dos usos no espaço “revitalizado”, o primeiro

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


procedimento necessário é analisar o Mercado Central (não como um
todo) e delimitar uma divisão entre duas realidades ali configuradas.
Constata-se que diante da similaridade de usos entre os Mercados Antô-
nio Franco e Thales Ferraz é pertinente aglutiná-los e tratá-los separada-
mente do Albano Franco, devido às suas singularidades frente aos outros.
A “revitalização” previa para os mercados Antônio Franco e Thales
Ferraz7 a criação de um espaço voltado para a venda de produtos regio-
nais e atendimento ao turismo, mas durante o dia seu movimento é mar-
cado pela monotonia. A sensação de nada acontecer é impressionante,
de modo que dentro desses mercados observamos várias vezes durante
o dia que o ambiente parece inalterado por longas horas. O elo de liga-
ção entre eles se dá pela “passarela das flores”.
Apenas nos finais de semana e com o pôr-do-sol verifica-se um au-
mento do número de pessoas que vêm aos bares, o que caracteriza o
local como o point onde se realiza o happy hour ao final do expediente
de trabalho. Ao entardecer uma musicalidade diferente invade as mesas
do largo Manuel Mendonça, agora lotadas. Passando por entre as mesas
sempre estão os persistentes engraxates, junto a estes se agregam toda
uma sorte de vendedores informais que buscam, mesmo sob o olhar in-
satisfeito dos donos dos bares, vender seus produtos e serviços: queijo
na brasa, amendoim, óculos esporte, etc. Pode-se perceber aqui a ação
de catadores de lata e mendicantes que, driblando a marcação dos do-
nos de bares, abordam as pessoas das mesas em busca de alimento ou
de um trocado. Quanto ao público dessas mesas, ele é composto por
elementos da classe média e média baixa da sociedade: casais, homens
bem vestidos (aparentemente tratando de negócios com suas maletas
e calculadoras em mãos), grupos de trabalhadores do centro comercial,
etc. É importante ressaltar que nem todos os grupos sociais citados fre-
quentavam o mercado antes da reforma, ao passo que outros grupos
de renda mais baixa foram deslocados deste espaço para os bares mais
populares, ao lado do “Albano Franco”, o que caracteriza um processo de
reordenação do espaço e sugere uma segregação socioespacial.
Todavia, há dois espaços (territórios?) no Mercado que denotam
homogeneidade de classe social. Primeiramente, temos a cena mais
caracteristicamente “enobrecida” dos restaurantes da parte superior do

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62 Investigações para a iniciação à pesquisa

“Antônio Franco” e seus consumidores de alta renda. Neste espaço até


a musicalidade é diferente daquela proveniente dos bares do pavimen-
to inferior e, neste caso, a inferioridade física, espacial, também parece
revelar aspectos sociais. Desta perspectiva as escadas que conduzem
ao pavimento superior do mercado Antônio Franco se configurariam
uma fronteira simbólica (Arantes, 2000), demarcando sociabilidades
distintas, segmentando usos e ressignificando o espaço público, que
agora passa a ter caracteres de semi-privado – caso em que uma ca-
mada social “apropria-se” de um determinado espaço (Marques; Fer-
reira, 2000). Talvez seja este o espaço em todo o Mercado Municipal
que mais se aproxime da efetivação de uma prática de gentrification,
de modo que, se é possível falar em políticas de “enobrecimento” em
Aracaju, possivelmente estes restaurantes representam seu símbolo
maior. É interessante que todo o pavimento superior, incluindo os tor-
reões8, parecem funcionar exclusivamente para os quatro restaurantes,
uma vez que praticamente ninguém sobe até lá sem que não seja para
consumir nestes estabelecimentos, primeiro porque o acesso ao pavi-
mento superior se dá necessariamente por dentro de um dos restau-
rantes e, sobretudo, pelo maior preço e requinte do local, que acaba
segmentando seus frequentadores.
O segundo espaço a denotar homogeneidade são os bares localiza-
dos no mercado Albano Franco. Os bares internos ficam entre as escadas
que conduzem ao pavimento superior. Local pouco iluminado, venden-
do comida barata, com mesas mal distribuídas9 num espaço diminuto,
formando um estreito corredor, onde se concentra um público de baixa
renda, o que nos reporta às condições do Mercado Central antes da “re-
vitalização”. Os bares externos do lado esquerdo são recintos que têm
as características acima citadas ainda mais evidentes. As musicalidades
aqui ainda são mais “populares” e as pessoas “estranhas” àquela realidade
que por ali ousam passar são inquiridas pelo olhar dos seus frequenta-
dores. Quando chega a noite, já por volta das 20 h, é possível ver grupos
de sem tetos dormindo sob a cobertura do Mercado, bem ao lado desses
bares, que agora se transfiguram em área de prostituição. Neste horário,
a diferença entre as sociabilidades aqui praticadas com aquelas dos ou-
tros dois mercados fica bastante evidente.
A ligação entre as duas realidades se dá por uma ampla área aber-
ta e pouco arborizada, conhecida como “Praça da Feira”. Cruzando este

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espaço, tem-se primeiramente a impressão de uma ruptura, uma des-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


continuidade que é completamente inexistente entre o Thales Ferraz e o
Antônio Franco. Este é um ponto central em nosso estudo, perceber que,
enquanto Passarela das Flores, localizada entre estes últimos, há ligação
entre seus espaços e confere uma noção de continuidade. A “Praça da
Feira” trata de separar microcosmos antagônicos e espacialidades con-
flitivas (Zukin, 2000b), configurando assim o surgimento de mais uma
fronteira simbólica, que acaba por ordenar as relações e práticas sociais
ali desenvolvidas.
Contudo, é importante relativizar esse conceito de fronteira para
não enveredarmos por uma perspectiva demasiadamente radical, a
qual certamente ofuscaria uma análise mais acurada do objeto. Assim,
preferimos nos reportar à noção de artes de fazer proposta por Michel
De Certeau (1994). Segundo este autor, não é preciso a segmentação
do espaço para que se desenvolvam sociabilidades distintas. As práti-
cas sociais dos povos desprovidos de poder, por exemplo, pode se dar
dentro do raio de ação da ordem dominante, tendo em vista que, como
já foi dito, espacialidades distintas, apesar de conflitivas, podem se in-
tercruzar e, inclusive, formar zonas de transição. Neste sentido, Certeau
flexibiliza as demarcações socioespaciais, mostrando que a uma deter-
minada ordem imposta

[...] corresponde uma outra produção, qualificada de


“consumo”. Esta é astuciosa, é dispersa, mas ao mesmo
tempo ela se insinua ubiquamente, silenciosa e quase
invisível, pois não se faz notar com produtos próprios
mas nas maneiras de empregar os produtos impostos por
uma ordem econômica dominante (Certeau, 1994, p. 39).

No caso do Mercado Central de Aracaju, pode-se verificar uma série


de contra-usos do espaço, como, por exemplo, a prostituição nos
bares externos do Albano Franco, os já citados pedintes e os cata-
dores de lata nos bares do Largo Misael Mendança em dias de festas,
etc. A sensação de descontinuidade entre o Albano Franco e o Thales
Ferraz é nutrida basicamente por quatro aspectos: 1- padrão arquite-
tônico mais “moderno”, destoando do padrão estético mais nostálgico
dos outros dois mercados; 2- Presença de carregadores em suas portas,
pedintes e desocupados ao seu redor, etc., que embora ainda possam

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Cidades e Patrimônios Culturais
64 Investigações para a iniciação à pesquisa

eventualmente resistir, buscando espaço nos outros mercados, tem seu


local mais característico nas proximidades do Albano Franco; 3- Usos do
espaço. Neste espaço tem-se uma feira, com um relativo um movimento,
pessoas comprando, pesquisando melhores preços, etc.; 4 - musicalida-
des e odores totalmente distintos dos dois outros mercados. No Albano
Franco temos durante quase todo o dia o som alto de músicas mais
“populares” e um amálgama oscilante de odores, predominando aquele
característico das mercadorias vendidas em cada seção.
É no interior deste mercado que se encontram os traços característi-
cos do Mercado Central de Aracaju antes da ”revitalização”. O maior deles
é o seu público consumidor, predominantemente de baixa renda, como
também sua capacidade de atrair outros atores sociais, como prostitu-
tas, cheira-colas, pedintes, desocupados, etc., empurrados de seu sítio
original para o Mercado Novo. Verifica-se também a existência de vários
boxes abandonados e uma tendência à desorganização setorial da feira,
visto que muitos feirantes insatisfeitos com os pontos migram para ou-
tros setores do Mercado10.
O Mercado Municipal de Aracaju, assim como previa seu projeto
de “revitalização”, caracteriza-se cada vez mais como um grande (se não
o maior) espaço de eventos da cidade. Sobretudo no Antônio Franco e
no Thales Ferraz são realizadas várias atividades culturais, como shows,
espetáculos folclóricos e religiosos, além de feiras culturais. Porém o
evento mais importante que ocorre no Mercado é o Forró Caju11. Nas
suas quase três semanas de duração é grande o fluxo e a concentração
de carros nas ruas e avenidas que margeiam a área da festa. Percebe-se
que a prefeitura busca de todas as formas divulgar o Forró Caju como
a grande festa Junina do Nordeste e o Mercado Central como o ponto
turístico do Estado.
O Mercado também foi palco de outra grande festa aracajuana: o
Pré-caju, que até então era realizado nas ruas da Praia Treze de Julho.
Confirmando sua nova função para a cidade, o Mercado Municipal re-
cebe uma grande estrutura para dar suporte à realização desta grande
prévia carnavalesca. Tendo como tema “Pré-caju 2004: Essa Festa Vai Fazer
História”, numa clara alusão ao valor cultural e à capacidade do Mercado
Municipal de suscitar sentimentos de pertença por parte dos aracaju-
anos, a festa transcorreu durante quatro dias, atraindo grande público.
Tal fato apenas endossa nossa hipótese de ressignificação do Mercado

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Central após o processo de “revitalização”, reafirmando a proposta de

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


transformá-lo numa centralidade e numa peça importante para a ima-
gem simbólica de Aracaju.
A inserção dos mercados na imagem turística de Sergipe seria um
argumento identificador das relações da “revitalização” realizada em Ara-
caju com as práticas de gentrification ocorridas em tantas outras partes
do mundo, uma vez que uma das características mais marcantes das es-
tratégias de gentrification seria a capacidade de as áreas que sofreram
este tipo de intervenção urbana se tornarem produtos para o consumo
cultural. Contudo, é pertinente salientar que a introdução do Mercado
na imagem turística de Aracaju ainda não está consolidada, sendo per-
ceptível muito mais esforço por parte dos governantes do que propria-
mente sua efetivação. Percebe-se ainda que na propaganda turística de
Sergipe seu litoral ainda aparece com papel de maior destaque.
De qualquer forma, fica patente que há uma tentativa de relacio-
nar a imagem espetacularizada (Leite, 2001) das fachadas dos mercados
com a imagem de uma cidade mais moderna, elegante e em consonân-
cia com as novas exigências do mercado turístico internacional, o que
assinala políticas de image-making em Aracaju, característica presente
nas práticas de gentrification, apontada por Otília Arantes (2000).
Outro ponto de contato com o gentrification seria a similaridade no
tratamento dos ocupantes originais do espaço “revitalizado”. Embora o
projeto de intervenção apontasse que a obra deveria seguir o “princípio
da manutenção das funções do mercado, o que passa pelo estudo da
questão do comércio informal [...], considerando-se a ocupação que foi
se estendendo durante anos” (CEHOP, 1998, p. 3-4), o que aconteceu nos
Mercados Thales Ferraz e Antônio Franco parece contradizer estas afir-
mativas. Primeiramente é importante levar em consideração o elevado
número de comerciantes que, ao não serem contemplados com pontos
de venda nos mercados, foram excluídos no processo de “revitalização”,
sem deixar de lado a migração forçada de várias atividades e produtos
para o atendimento das classes de baixa renda para o Mercado Novo,
que, progressivamente, torna-se um espaço de ação das camadas sociais
menos privilegiadas.
Outro aspecto que merece ser ressaltado na análise da “revitaliza-
ção” do Mercado Central é que a obra se dá sob a tutela estatal, fato que

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Cidades e Patrimônios Culturais
66 Investigações para a iniciação à pesquisa

parece ser estranho à caracterização de Zukin (2000a) das práticas de


gentrification. Esta autora faz parte do grupo de teóricos que apontam
que as práticas de gentrification geralmente são frutos de investimen-
tos privados e não do gerenciamento direto do Estado, apesar de ha-
ver autores que preferem falar de uma parceria dos recursos públicos
e privados na execução das obras, como O. Arantes (2000) e Marques e
Ferreira (2000). Contudo, seria importante observar que toda a história
das políticas urbanas em Aracaju se dá com a forte presença do Estado,
de modo que podemos considerar a dominação do poder estatal na “re-
vitalização” como uma singularidade local (França, 1999).
Não obstante a intervenção urbana no Mercado Central de Aracaju
pareça atender apenas parcialmente às características das práticas de
gentrification e haja singularidades no processo, de acordo com aspec-
tos apresentados em outras partes do mundo, não se pode negar seus
efeitos na reordenação do espaço no centro aracajuano. Reorganização
através da qual os novos usuários ainda se afirmam enquanto “consumi-
dores” daquele espaço, disputando-o com seus antigos usuários, cujas
práticas sociais já se faziam presentes naquela localidade por mais de
meio século.

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CONTROLE DE CONCRETO E TECNOLOGIA LTDA. 1997. Relatório Técnico do Estado


das Estruturas de Concreto do Mercado Municipal Antes da Reforma, Aracaju.

DIÁRIO OFICIAL DO MUNICÍPIO DE ARACAJU. 1999. Decreto Municipal Nº 61/99,


Aracaju. [Data de publicação: 04/05/1999]

DIÁRIO OFICIAL DO MUNICÍPIO DE ARACAJU. 2000. Lei Complementar Nº


042/2000. Aracaju. [Data de publicação: 04/10/2000]

EMSURB. 2001. Relatório da atual situação dos Mercados Albano Franco, Antônio
Franco e Thales Ferraz, Aracaju.

ENGENHARIA DE PROJETOS E OBRAS LTDA. 1998. Levantamento Cadastral de Fei-


rantes e Ambulantes dos Mercados Antônio Franco e Thales Ferraz, Aracaju.

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De volta aos Centros: as políticas de “revitalização” do Patrimônio
Histórico e a Intervenção no Mercado Central de Aracaju
Sidney Matos de Lima 69

Notas

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


1 No contexto das políticas urbanas contemporâneas de revalorização dos espaços
públicos centrais das cidades, acreditamos não ser pertinente o termo “revitalização”. Por
razões claras, apenas se revitaliza algo que é destituído de vida. Neste sentido, o termo
“revitalização”, ao considerar o espaço onde irá ocorrer a intervenção urbana como “sem
vida”, acaba desprezando uma série de usuários que, muito embora, na maioria das vezes,
sejam atores sociais mais pobres e consequentemente marginalizados, são praticantes co-
tidianos daquele espaço, oxigenando-o. Por este motivo, neste texto todas as vezes que
nos referirmos a “Revitalização”, este termo virá devidamente entre aspas.

2 Esta descrição da tipologia de bens passíveis de serem tombados foi retirada da Lei
Estadual Nº 2.069 de 28 de Dezembro de 1976, que apesar de ser relativamente antiga já
demonstra uma concepção mais abrangente e heterogênea do que poderia vir a ser o
Patrimônio Histórico e Artístico, mesmo que na prática esta multiplicidade de bens não
seja contemplada, conforme se pode verificar na Relação de Bens Tombados pelo Estado
de Sergipe.

3 Essa geração, chamada de New Urbanism, surge na década de 60, e é composta por
basicamente arquitetos e projetistas urbanos americanos e europeus.
4 Zukin denomina vernacular as paisagens construídas pelos desprovidos de poder e
afirma que elas sempre estão em conflito com a paisagem imposta pelas camadas mais
privilegiadas da sociedade.

5 O número exato de comerciantes excluídos no processo de “revitalização” pode ser es-


timado da seguinte forma: o levantamento cadastral de 1997 aponta a existência de 2979
comerciantes naquela área. Subtraindo este número pela capacidade de lotação dos três
mercados, que é precisamente de 2.522, encontramos 457, contudo o número de exclu-
ídos é bem maior, se levarmos em consideração que muitos dos espaços nos mercados
foram ocupados por pessoas que não eram cadastradas.

6 A falta de clareza desses critérios abre precedentes a uma série de desconfianças


quanto a possibilidade do “apadrinhamento” na distribuição dos boxes para os feiran-
tes. Apesar de não haver confirmação dessa impressão, há fatos que contribuem para
alimentá-la. Como, por exemplo, nenhum dos quatro permissionários dos restaurantes
localizados no pavilhão superior do Antônio Franco, pontos que, possivelmente, seriam
os mais privilegiados em todo o mercado devido ao público mais elitizado que ali costu-
mam frequentar, não terem seus nomes cadastrados pela Emsurb, conforme a relação de
permissionários desse mesmo órgão. Outro caso, e este mais marcadamente irregular, é o
da denúncia de cartelização dos espaços pela família da Srª Maria José Peixoto dos Santos,
que tinha em seu poder, em fevereiro de 2001, dez pontos comerciais no Mercado Albano
Franco, de acordo com o memorando nº 006/2001 da fiscalização da Emsurb para Diretoria
de Abastecimento.

7 É interessante notar que com a revitalização acontece algo curioso quanto aos usos
do Thales Ferraz: nele as pessoas muito mais passam do que ficam, isto é, pode-se observar
que este mercado se configura mais como um espaço de passagem do que de permanên-
cia, mesmo com a presença de lanchonetes e bares. Talvez isso possa ser atribuído ao fato
de este mercado se localizar entre o “Antônio Franco”, onde se concentra todo o artesanato
e os restaurantes mais elitizados e o Albano Franco, complexo de abastecimento de produ-
tos hortifrutigranjeiros. Nesta perspectiva, o Thales Ferraz acabaria servindo como ponto
intermediário de acesso aos serviços dos mercados vizinhos.

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Cidades e Patrimônios Culturais
70 Investigações para a iniciação à pesquisa

8 O projeto de revitalização previa a implantação de galerias de arte nos torreões, con-


tudo, hoje, estes espaços se encontram completamente desativados, isto é, sem qualquer
tipo de uso.

9 Algumas mesas localizam-se imediatamente abaixo das escadas, o que certamente


pode causar acidentes.

10 Ferindo a legislação em vigor para a administração do mercado Albano Franco, con-


forme DECRETO MUNICIPAL Nº 61, de 04 de Maio de 1999, artigo 7, inciso IV.

11 A primeira versão do Forró Caju se deu ano de 1987 quando a festa ainda era na praça
Fausto Cardoso, então conhecida como “Praça do povo”. Um ponto digno de nota é que
naquele tempo o público era basicamente dos grupos sociais de menor renda. Com a mu-
dança da festa para o Mercado Central, percebe-se que o evento passou a atrair camadas
sociais diversas, inclusive a classe média, o que sugere a aproximação dessas classes eliti-
zadas no Mercado, espaço que antes da “revitalização” lhes era estranho.

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71

Rua da Cultura:

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


arte, “drama” e contestação1
Tales da Costa Lima Nunes

1. Introdução
Recorrendo à teoria de Victor Turner de drama social proponho ana-
lisar neste artigo o surgimento, na cidade de Aracaju, de um movimento
intitulado Rua da Cultura. Dividirei o evento nas suas quatro fases, farei
uma breve interpretação e explicitarei características intrínsecas à socie-
dade. Tudo isto através do Drama Social.
O movimento Rua da Cultura teve iniciou em 2002, circunscrito à
Rua Vila Cristina, em frente ao Teatro Atheneu, tradicional casa de es-
petáculos de Aracaju2. A rua Vila Cristina está localizada no bairro São
José zona residencial habitada pela classe média alta da cidade e nesta
mesma rua está a associação Atlética de Sergipe. O movimento foi uma
iniciativa encabeçada por Lindemberg Monteiro, diretor teatral e funda-
dor da companhia de teatro Stultifera Navis. Esta companhia de teatro
surgiu no Rio de Janeiro há doze anos e, com a vinda de um de seus
fundadores para Sergipe – Lindemberg –, foi formado há quatro anos o
núcleo teatral em Aracaju.
O movimento, todas as segundas-feiras à noite, transformava a rua
Vila Cristina – um espaço prioritariamente de passagem durante o dia e
ermo à noite – em um palco de artistas e de múltiplas interações sociais,
possibilitando o encontro entre artistas e público, entre grupos sociais
distintos. Posteriormente, devido ao conflito irrompido pelo Drama So-
cial, a Rua da Cultura teve que escolher um novo local de realização e
este novo espaço foi a rua Santa Rosa, localizada no centro histórico de
Aracaju. Neste novo espaço o movimento ressignificou ações e criou la-
ços que permanecem até o momento atual. Este artigo, no entanto, será
referente ao que classifico como primeiro momento da Rua da Cultura, o
período do Drama Social.

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Cidades e Patrimônios Culturais
72 Investigações para a iniciação à pesquisa

2. Victor Turner e o Conceito de Drama Social


Victor Turner (1920-1983) foi, inicialmente, influenciado pelo estru-
tural-funcionalismo da antropologia social britânica de Radcliffe-Brown.
Posteriormente, porém, dando continuidade às idéias de Max Gluckman
de processos sociais, rompeu com a abordagem estrutural-funcionalista
e aproximou-se da ideia de sistemas em transformação:

Voltei, depois de fazer pesquisa de campo, a insistir na


qualidade dinâmica das relações sociais e a observar a
distinção de Comte entre “estática social” e “dinâmica
social” – posteriormente elaborado por Radclife Brown e
outros positivistas – como essencialmente equivocado.
O mundo social é o mundo do porvir, não o mundo que
é [...] e por esta razão os estudos de estrutura social são
irrelevantes. Eles são equivocados em sua premissa bási-
ca porque não existe algo como “ação estática”3 (Turner,
1974, p.24).

A partir deste rompimento, num estudo sobre os Ndembu na África,


Turner desenvolveu o conceito de drama social. Os dramas sociais exis-
tem, segundo ele, como resultado de conflitos que são inerentes a qual-
quer sociedade. Eles são agentes transformadores nos processos sociais,
são “Partes de um processo harmônico ou desarmônico, decorrentes de
situações de conflito”4 (Turner, 1974, p. 37).
Os conflitos têm, de acordo com o pensamento do autor citado,
“quatro fases essenciais de ação pública acessível a exame”5 (Turner,
1974, p. 38). O conflito social pôde ser dividido temporalmente de acor-
do com as quatro fases descritas por Turner, sendo, desta maneira, clas-
sificado como um drama social.
O início da Rua da cultura, desde o seu nascimento na Rua Santa
Rosa, o período em que lá ficou e o motivo pelo qual ela teve que sair,
torna possível, da mesma maneira que fez Arantes (2000) em seu estudo
em São Paulo, dividir o processo aqui estudado nas quatro fases des-
critas por Turner, e, consequentemente, caracterizá-lo como um drama
social. As características específicas apresentadas por Victor Turner a res-
peito de cada fase e como a Rua da Cultura se enquadra em cada uma
delas serão apresentadas a seguir.

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Rua da Cultura: arte, “drama” e contestação
Tales da Costa Lima Nunes 73

3. As Fases do Drama

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


3.1. O Rompimento
Esta é a fase na qual, segundo Turner, o drama tem início. O con-
flito começa a partir de um rompimento com a estrutura normativa da
sociedade, seja ela político-partidária, comunitária, religiosa ou até mes-
mo acadêmica. Este rompimento pode ser representado pela quebra
de uma conduta ética, de um costume, ou pelo descumprimento da lei.
Vale ressaltar que esta quebra pode ser realizada por um indivíduo, mas
ele se vê como representante de um grupo, saiba ele ou não “um rompi-
mento dramático pode ser realizado por um indivíduo, certamente, mas
ele sempre age, ou acredita agir, em benefício de outras partes, estando
elas ciente disso ou não6 (Turner, 1974, p. 38).
A Rua da Cultura, era evidente, rompia a rotina da rua Vila Cristina,
transformava um espaço prioritariamente de passagem num espaço de
múltiplas sociabilidades. O movimento trazia a dissonância através das
caixas de som, ao ir de encontro a uma lei municipal7 que limita a emis-
são de ruídos a 50 dBA no período entre as 18 e as 7h e causava disso-
nância ao atrair, para um bairro de classe média da cidade, pessoas de
classes, bairros e tribos urbanas distintas, algumas delas com aparência e
atitudes passíveis de causar estranhamento. Eram rappers, rastafáris, hi-
ppies, cordelistas, poetas, artesãos. Desta maneira, pode-se afirmar que
a Rua da Cultura rompia com a Estrutura do local, com o seu status quo.

Figura 01

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Cidades e Patrimônios Culturais
74 Investigações para a iniciação à pesquisa

Figura 02

Figura 03

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Rua da Cultura: arte, “drama” e contestação
Tales da Costa Lima Nunes 75

Faz-se necessário explicar os conceitos de Estrutura e seu oposto,

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Communitas, pois o drama inicia a partir da contraposição entre ambos.
Para melhor compreender tais conceitos, valer-me-ei aqui do seu uso
feito por Renato Ortiz (1980) para analisar o Carnaval em Salvador.
Renato Ortiz irá mostrar que dentro do período de communitas, o
qual se classifica a festa na Bahia, há a presença de mecanismos repa-
radores que representam a estrutura. Estes mecanismos, os quais ele
denomina como “rituais de exorcismo da folia carnavalesca”, estão ca-
racterizados pela ação policial e pela assistência de saúde dada pelas
ambulâncias. Em sua análise, Ortiz cita Victor Turner:

Turner, estudando os ritos liminares, mostra como as ma-


nifestações de “communitas” aparecem como portadoras
de um caráter anárquico, explosivo, enfim, perigoso, que
poderia a longo prazo ameaçar a existência e continui-
dade da própria estrutura social. Por isso elas devem ser
controladas de fora, isto é, submetidas à correção daque-
les que representam justamente o pólo oposto, o da es-
trutura (Ortiz, 1980, p. 25)

Visto isto, pode-se afirmar que a Rua da Cultura representaria um


momento de Communitas, enquanto os meios jurídicos que se contra-
puseram a ela fariam parte da Estrutura. Sobre o binômio estrutura e
anti-estrutura, ou communitas, Turner afirma: “Eu associo communitas a
espontaneidade e liberdade, e estrutura a obrigação, lei, coação”8 (Tur-
ner, 1974, p. 49)
A Rua da Cultura representava a espontaneidade, um movimento
de rua encabeçado por um agitador cultural, acompanhado por artistas
e simpatizantes. Um espaço aberto de interação, diversão e expressão da
diferença, que viria a romper com a estrutura a partir do descumprimen-
to de uma lei e da quebra da rotina do local.

3.2. A Crise
Após o rompimento com a estrutura, dada na primeira fase, segue-
se a crise. Esta é, de acordo com Turner, uma fase liminar, uma vez que se
encontra entre duas fases razoavelmente estáveis do processo. Aqui as
máscaras caem e a situação se mostra insustentável, não há como adiá-la

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Cidades e Patrimônios Culturais
76 Investigações para a iniciação à pesquisa

ou ignorá-la. É o período no qual o movimento cresce e ganha visibilida-


de, tendo sua influência expandida a outros campos.
Em meados de fevereiro de 2003 surgia o empecilho à continuação
do evento aqui analisado: foi iniciada uma ação jurídica no Ministério Pú-
blico Estadual, através da promotoria de meio ambiente, para a retirada
da Rua da Cultura daquele local. A instauração do Procedimento Prepa-
ratório de Inquérito Civil Público data do dia 07 de fevereiro de 2003. O
inquérito foi movido por José Carlos Oliveira Filho (advogado e funcio-
nário do Ministério Público) e Ana Paula Machado Costa (Promotora de
Meio Ambiente do Ministério Público) moradores, respectivamente, da
rua Vila Cristina e Praça Graccho Cardoso. No dia 07 houve a primeira
audiência pública, a qual foi adiada para o dia 24 de fevereiro de 2003.
Segundo termo de audiência pública do dia 24 de fevereiro, ficou
ajustado:

que no prazo de até 15 dias será informado o novo lo-


cal onde a citada atividade cultural será desenvolvida,
devendo ser observada a legislação municipal, no que
respeita a utilização do aparelhos sonoros. Quanto a no-
vos eventos, durante esse período, a prática da poluição
sonora poderá ensejar a deflagração de ação penal con-
tra o responsável (Termo de Audiência Pública, de 24 de
fevereiro de 2003).

Dia 26 de fevereiro foram feitos dois abaixo-assinados por parte dos


moradores. Um endereçado à Funcaju, outro ao Exmo Sr. Promotor da
Curadoria de Direitos do Cidadão. O primeiro assinado por 17 moradores
do Condomínio Edifício Barão de Mauá. O segundo por 18 moradores do
Condomínio Le Corbusier, localizado a alguns metros do local de realiza-
ção do evento, na rua Riachuelo:

Vimos solicitar a V.S providências no sentido de coibir os


abusos que estamos sendo vítimas, decorrente do baru-
lho, e porque não dizer da bagunça provocada pela cha-
mada “Rua da Cultura (grifo dos autores) 9

Vimos solicitar de Vossa Excelência providências no senti-


do de pôr fim aos abusos que estamos sendo vítimas, em

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Rua da Cultura: arte, “drama” e contestação
Tales da Costa Lima Nunes 77

decorrência do intenso barulho e da bagunça generaliza-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


da provocada pelo que se intitulou chamar de “RUA DA
CULTURA” (grifo dos autores) 10

O jornal Cinform, edição 1038 do dia 03 de março a 09 de março


de 2003, trouxe, no caderno “Cultura e Variedades”, uma página inteira
onde constava a manchete: “A Rua da Cultura pode estar com os dias
contados: “MP dá prazo de 12 dias para que organizadores encontrem ou-
tro lugar para reunir artistas e comunidade alternativa”. Esta matéria é re-
presentativa sobre o aumento de visibilidade da Rua da Cultura durante
este período de crise. Notícias sobre a “Rua” que antes tinham pequenos
espaços de nota agora ganham página inteira.
Posteriormente, mais uma vez, a “Rua” ganharia página inteira de
jornal. Vale ressaltar que Turner analisa os dramas sociais a partir de uma
terminologia teatral, pois estas situações de tensão e conflito, para ele,
são performáticas, visto que seus participantes não somente realizam
ações, como também tentam, de alguma maneira, mostrar aos outros o
que estão fazendo.
Então, na segunda-feira, dia 10 de março, em resposta à atitude do
Ministério Público, houve uma manifestação pública – de caráter visu-
almente performático – por parte de artistas e frequentadores da “rua
da cultura”. O grupo, cerca de 300 pessoas, parou em frente ao edifício
onde residem os reclamantes e, num ato de ironia, aplaudiram a atitude
tomada por parte dos moradores contra a Rua da Cultura. Depois deram
a volta no quarteirão com as mãos tapando a boca, simbolizando o veto
à livre expressão. A imprensa esteve presente. No dia seguinte a notícia
era vinculada em rádio, televisão e jornais impressos.

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Cidades e Patrimônios Culturais
78 Investigações para a iniciação à pesquisa

Figura 04 - Manifestação pública, de 10 de março de 2003. Foto retirada do jornal “A


Semana”, de 16 a 26 de março de 2003.

Este foi um período turbulento, de manifestações e articulações, da


parte reclamante para que, através de meios coercitivos, o movimento
tivesse um fim; e do lado oposto, para que o evento permanecesse no
mesmo local. Lindemberg, na Rua da Cultura, frequentemente usava o
microfone e, entre as atrações que se apresentavam, deixava seu pro-
testo direcionado aos reclamantes, como se eles pudessem escutá-lo de
suas casas. Eram frases semelhantes às cedidas em entrevista ao autor:

A sociedade em geral acompanha o movimento de mu-


dança e outras não. E outras por uma falta de capacidade
de acompanhar o sentido de mudança da sociedade, elas
tentam interromper o máximo essa mudança, e esse in-
terromper vem através de preconceitos, vem através de
criar impossibilidade11.

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Rua da Cultura: arte, “drama” e contestação
Tales da Costa Lima Nunes 79

Esta foi a fase de maior visibilidade do evento até então. No dia

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


da manifestação, durante a realização dos shows, por volta das 20h, a
polícia tentou intervir interrompendo o evento, porém, naquele dia em
especial, ele estava legalmente caracterizado como ato público, tendo,
desta maneira, o direito de permanecer no local até às 22h.

3.3 A Reparação
Na terceira fase, Turner afirma que uma vez a crise instalada, para
conter a sua influência e restabelecer o status quo anterior do grupo
em questão, mecanismos de contenção são acionados. Estes meca-
nismos podem variar desde ações embasadas na estrutura jurídica da
sociedade até conselhos pessoais ou mediações informais. É a fase na
qual tanto as ações pragmáticas quanto as simbólicas alcançam seus
níveis mais expressivos.
Se por acaso os mecanismos de contenção falharem, retorna-se à
fase de crise, podendo haver repressão, explosão de violência, revolta ou
conflito armado. No caso aqui analisado não houve conflito físico direto,
pois o embate deu-se, basicamente, no âmbito jurídico.
No dia 14 de março de 2003 foi uma enviada “notitia criminis”, atra-
vés do Promotor de Meio Ambiente José Rony Silva Almeida, ao Juizado
Especial Cível e Criminal da Comarca de Aracaju, informando sobre o
acertado na audiência do dia 24 de fevereiro e o descumprimento da lei
pelo Projeto Rua da Cultura que insistia em permanecer no local:

De lá para cá [do dia 24 fevereiro, referindo-se ao dia da


audiência], não apenas deixaram de informar o novo lo-
cal para a realização do evento, como continuaram a sua
realização na Rua Vila Cristina[...]. Não bastasse a afron-
ta ao direito dos moradores onde se realiza o evento, o
senhor Lindemberg Monteiro da Silva, de forma, no mí-
nimo irresponsável, assacou contra a honorabilidade do
Ministério Público e alguns dos seus membros, através da
divulgação na imprensa, de que a insatisfação contra o
“seu evento” partia de “pessoas que estão dentro do
Ministério Público” (jornal anexo), dizendo ainda em
programas de televisão, a exemplo do que fez no “BATA-
LHA NA TV” “que era uma ação umbilical”, tudo no afã

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Cidades e Patrimônios Culturais
80 Investigações para a iniciação à pesquisa

de desqualificar as reclamações formuladas por 35 (TRIN-


TA E CINCO) moradores da localidade, por se encontrar
dentre estes, dois respeitados membros do Ministério
Público de Sergipe e que antes de serem servidores pú-
blicos são cidadãos protegidos pela Constituição Federal
e pelas Lei do País, que lhes assegura o direito de petição
(art.5, inciso XXXIV, “a” da CF) e de inviolabilidade da in-
timidade, da vida privada, da honra e da imagem (art. 5,
inciso X da CF)12.

Em entrevista cedida no dia 23 de junho de 2003, Lindemberg dei-


xou claro seu descontentamento com a decisão do Ministério Público:

[...] em relação ao Ministério Público, acabou acontecen-


do o que pra gente foi uma ação de corporativismo, uma
ação onde a promotora legislou em causa própria né?
Porque a partir do momento que não fica provado que
a coletividade, ou seja, várias pessoas, querem a saída da
Rua da Cultura, muito pelo contrário, que é um incômodo
dela, onde a audiência no Ministério Público, é bom bo-
tar isso. Que a audiência do Ministério Público foi insólita,
que ela chegou no meio da audiência, e saiu e o outro
advogado passou o tempo todo falando no celular13.

Por duas semanas, ainda como forma de protesto, o movimento


aconteceu no mesmo local. Na segunda-feira, dia 17 de março, feriado
de aniversário da capital; e na semana seguinte, na despedida da Rua da
Cultura da Rua Vila Cristina.
Então, no dia 21 de março de 2003, foram enviados três ofícios no-
ticiando a “notitia criminis”, endereçados à Superintendente da Secreta-
ria Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT), a Diretora-presidente da
Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju), órgão ligado a Prefeitura
Municipal de Aracaju, e ao jornalista Carlos Batalha14.

3.4 A Resolução
Esta fase, a última delas, consiste na resolução do conflito, ou, acre-
dita Turner, no reconhecimento social e na legitimação de uma cisão ir-
reparável entre as partes em confronto. Ao fim desta fase encerra-se o

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Rua da Cultura: arte, “drama” e contestação
Tales da Costa Lima Nunes 81

drama e torna-se possível ao pesquisador analisar o processo como um

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


todo “Pode-se agora analisar a duração sincrônica, assim falando, a partir
deste ponto, tendo levado em conta e representado pelas ideias apro-
priadas o caráter temporal do drama”15 (Turner, 1974, p. 41).
Além dos protestos e da insistência em permanecer no local, foi
feito, segundo Lindemberg, um abaixo assinado com mais de 300 assi-
naturas em prol da permanência da Rua da Cultura na Vila Cristina. No
entanto, o embate pareceu separar definitivamente os grupos que se
opunham. Para que houvesse a resolução do conflito a Rua da Cultura
teria que acabar ou mudar de local, pois ali aquelas pessoas incomoda-
vam a intimidade do bairro.
Os organizadores, em entrevista ao Jornal Cinform, edição 1038 de
03 a 09 de março, já iniciada a crise, afirmaram que a Rua da Cultura não
iria parar. Não seria de estranhar tal decisão, visto a visibilidade públi-
ca que alcançou o evento. A Rua teria, porém, que escolher outro local,
onde não houvesse empecilhos legais à sua realização e que, de prefe-
rência, possuísse importante carga simbólica a ser explorada, como o
Centro Histórico da cidade. Puseram-se logo, os organizadores, a esco-
lher um novo espaço que se adequasse à prática – onde não ameaçasse
a intimidade e a individualidade alheia – e simbolicamente à proposta
da Rua da Cultura.

4. Considerações Finais
Turner afirmou: “É no drama social que começa a reflexividade. Se o
drama social regularmente implica conflito de princípios, normas, pessoas,
ele igualmente implica o crescimento da reflexividade”16 (Turner, 1974, p.
103). Analisando o conflito da Rua da Cultura, podemos afirmar que nele
há algo de significativo a ser explicitado sobre a sociedade em questão.
Alguma característica intrínseca a esta sociedade, através deste conflito,
veio à tona, tanto aos olhos do cientista social que a analisa, quanto, mes-
mo que parcialmente, aos próprios atores sociais que estão envolvidos na
trama. O conflito explicitou a intolerância e a distância social entre grupos
que habitam a mesma cidade, uma cidade territorializada, portanto.
A cidade, a diversidade de grupos sociais que abriga, tem, como
afirmou Arantes (2000), seu espaço territorializado. A partir daí surgem
as zonas de pertencimento e a ideia de pessoas fora do lugar. Surgem

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Cidades e Patrimônios Culturais
82 Investigações para a iniciação à pesquisa

os bairros nobres, com seus condomínios fechados, praticamente iso-


lados da rua, tendo suas sociabilidades salvaguardadas por um forte
aparato de segurança. E, ao mesmo tempo, nas ruas, calçadas viram lei-
tos e viadutos viram lar para os que não têm outra opção. Estes exem-
plos são pólos extremos de modos de vida que se veem isolados por
barreiras físicas e simbólicas, mas que convivem juntos num mesmo
espaço, o espaço da cidade.
Entre os opostos contrastantes, inexoravelmente separados por di-
ferenças econômicas, existem fronteiras mais tênues no que diz respeito
aos grupos que habitam as cidades. São pessoas que para compensar o
isolamento proporcionado pela vida urbana se unem por interesses e
hábitos em comum. São indivíduos que mantêm entre si laços de fideli-
dade e reciprocidade e formam o que, em analogia a grupos “selvagens”,
mantém costumes passíveis de estranhamento ao olhar inicial e é deno-
minado de “tribos urbanas”17.
O estranhamento é causado por alguns grupos, muitas vezes como
meio de adquirir visibilidade, ao quebrar regras sociais estabelecidas,
rompendo com o que é definido socialmente como “normal”. São os
rappers, com suas letras de músicas a contestar o “sistema”; “regueiros”,
expondo seus cabelos “rastafáris”, idolatrando Bob Marley, fumando seus
cigarros ilícitos e defendendo o seu uso legal; homossexuais, lutando
contra o preconceito, reivindicando espaços e direitos iguais.
Tais grupos, para existir, necessitam de um correspondente espa-
cial físico. Apesar de hoje existirem os espaços virtuais onde as pessoas
podem se encontrar, trocar ideias e reivindicar direitos, permanece a
necessidade do contato físico para o suprimento das carências pessoais.
Estes grupos, como qualquer outro grupo urbano, portanto, possui os
seus espaços próprios, com os quais guarda relação de reconhecimento
e pertencimento.
Os usuários podem guardar, em sua relação com os espaços, senti-
mento de identidade mais fortemente arraigado, como guardamos com
o local onde moramos ou o local onde vivemos durante a infância e que
ainda permanece na nossa memória. Mas a relação entre usuários e es-
paço pode ser vista, também, de maneira mais efêmera e mutável. Falo
das sociabilidades que ocorrem num certo espaço apenas numa deter-
minada hora do dia ou por uma ocasião especial, como ocorrem com
contestações políticas, procissões, festas:

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Rua da Cultura: arte, “drama” e contestação
Tales da Costa Lima Nunes 83

Os habitantes da cidade deslocam-se e situam-se no

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


espaço urbano. Nesse espaço comum, que é cotidiana-
mente trilhado, vão sendo construídas coletivamente as
fronteiras simbólicas que separam, aproximam, nivelam,
hierarquizam, ou numa palavra, ordenam as categorias e
os grupos sociais em suas mútuas relações. Por esse pro-
cesso, ruas, praças e monumentos transformam-se em
suportes físicos de significações e lembranças compar-
tilhadas, que passam a fazer parte da experiência ao se
transformarem em balizas reconhecidas de identidades,
fronteiras de diferença cultural e marcos de “pertenci-
mento” (Arantes, 2000, p. 106)

A Rua da Cultura era o grito de tribos urbanas que reivindicavam


um local onde se encontrassem para expressar suas diferenças e suas
semelhanças, um local de visibilidade. No entanto o movimento esco-
lheu um espaço “inadequado” para tal propósito, pois os moradores dali,
uma classe média tradicional da cidade, amparada pela lei do silêncio,
reivindicaram talvez menos o silêncio do que a defesa de seu território
frente à diferença.
O estranhamento e a intolerância se tornam claramente explíci-
tos na afirmação divulgada no jornal “A Semana”, de 16 a 22 de março.
Segundo este semanário, em notícia divulgada por Kelly Nogueira, um
advogado envolvido no processo de retirada da “Rua da Cultura” have-
ria dito num programa de rádio: “a Rua não é da cultura porque só toca
banda de rock”. Pode-se deduzir através desta afirmação que o “tipo de
som” que tocava na Rua da Cultura incomodava mais do que a sua inten-
sidade sonora. Devemos levar em consideração que não era apenas o
som, mesmo que por quatro ou cinco horas por semana, que invadia os
apartamentos dos reclamantes, eram também pessoas “estranhas” que
invadiam a sua rua e transgrediam o seu uso habitual, quebrando a pa-
cata rotina noturna do bairro.

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Cidades e Patrimônios Culturais
84 Investigações para a iniciação à pesquisa

Referências bibliográficas
ARANTES, Antônio. 2000. A. Paisagens Paulistanas: transformações do espaço
público, Campinas, Unicamp.

ORTIZ, Renato. 1980. A Consciência fragmentada, Rio de Janeiro, Paz e Terra.

TURNER, Victor. 1974. Dramas, Fields and Metaphors: Simbolic Action in Human
Society, Ithaca & Londres, Cornell University Press.

TURNER, Victor. 1982. From Ritual to Theater, New York, Performing Arts Journal
Publications.

Jornais
NOGUEIRA, Kelly. Lugar de Cultura é na Rua, in Jornal A Semana, 16 a 22 de mar-
ço de 2003.

CINFORM. Rua da Cultura Pode estar com os dias Contados, 03 a 09 de março


de 2002.

Documentos
ABAIXO-ASSINADO. Encaminhado à Curadoria de Direitos do Cidadão, pelos
condôminos do Edifício Le Corbusier. Ministério Público do Estado de
Sergipe.

ABAIXO-ASSINADO. 2003. Encaminhado à Funcaju pelos condôminos do Edifício


Barão de Mauá. Ministério Público do Estado de Sergipe.

NOTITIA CRIMINIS. Encaminhada ao 1ª Juizado Especial Cível e Criminal da Co-


marca de Aracaju, por conduto de seu representante legal do Ministério Pú-
blico do Estado de Sergipe. Fonte: Ministério Público do Estado de Sergipe.

Internet
MAGNANI, José Cantor 1992. Tribos Urbanas, metáfora ou categoria?, Dispo-
nível em <www.aguaforte.com/antropologia/indice.htm>, Acesso em 16
nov. 2003.

Cidades e Patrimônios Culturais.indd 84 05/07/2013 16:01:58


Rua da Cultura: arte, “drama” e contestação
Tales da Costa Lima Nunes 85

Notas

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


1 Este artigo é baseado no capitulo 02 da monografia que leva o título de “Arte política:
A Rua da Cultura em Aracaju” (2003), realizada no âmbito do Labeurc – Laboratório de
Estudos Urbanos e Culturais, ligado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFS,
realizado sob a orientação de Rogerio Proença Leite.

2 No dia 28 de março de 1954 o governador Arnaldo Rollemberg Garcez inaugurou o au-


ditório do Colégio Estadual Atheneu Sergipense, apresentando o Corpo de Ballet do Teatro
Municipal do Rio de Janeiro, com o espetáculo “Ballet Society”. Este mesmo espaço foi palco
de peças teatrais como: “O Avarento” de Moliére, da por Procópio Ferreira e “Piaf”, com Bibi
Ferreira. A construção do Atheneu influenciou a criação de novos grupos teatrais no Estado,
como Amadores de Sergipe, Estudantes de Sergipe e Sociedade de Cultura Artística, entre
outros. Destacando-se como centro mais importante da intelectualidade e da cultura sergi-
pana, reunindo o que existia de mais expressivo na vida cultural. Na década de 80 o teatro
Atheneu enfrentou dificuldades e fechou suas portas, foi reinaugurado em 1984, com o
espetáculo “o Beijo no Asfalto”. Outros espetáculos importantes que lá aconteceram foram:
“O Coral da Áustria”, “Orquestra Petrobras Pró-Música”, “Luiz Melodia”, “João Bosco”.

3 Tradução livre de: “I had already come, before doing field work, to insist on the dynamic
quality of social relations and to regard Comte´s distinction between “social statics” and “social
dynamics” – later to be elaborated by A.R. Radclife Brown and other positivists – as essentially
misleading. The social world is a world in becoming, not a world in being (…) and for this rea-
son studies of social structure as such are irrelevant. They are erroneous in basic premise becau-
se there is no such thing as “static action”.

4 Tradução livre de: “units of aharmonic or disharmonic process, arising in conflict situations”.

5 Tradução livre de: “four main phases of public action, accessible to observation”

6 Tradução livre de: “A dramatic breach may be made by an individual, certainly, but he
always acts, or believes he acts, on behalf of other parties, whether they are aware of it or not.
He sees himself as a representative, not as a lone hand”.

7 Segundo Lei Municipal, Art. 2 – O nível máximo de som/ruído permitido à máquinas,


motores, compressores e geradores estacionários é de cinqüenta e cinco decibéis medidos
na escala de compensação A (55 dBA) no período diurno das 07 às 18h (sete às dezoito
horas) é de cinqüenta decibéis (50 dBA) no período noturno das 18 às 7h (dezoito às sete
horas) do dia seguinte, em quaisquer pontos a partir dos limites do imóvel onde se encon-
tre a fonte emissora ou no ponto de maior nível de intensidade no recinto receptor.
8 Tradução livre de: “I link communitas with spontaneity and freedom, and structure with
obligation, jurality, law, constraint, and so on”.

9 Trecho retirado de abaixo-assinado, encaminhada a Funcaju pelos condôminos do


Edifício Barão de Mauá datado do dia 26 de fevereiro de 2003.

10 Trecho retirado de abaixo-assinado, encaminhada a Curadoria de Direitos do Cidadão,


pelos condôminos do Edifício Le Corbusier.

11 Trecho de entrevista de Lindemberg Monteiro da Silva cedida ao autor no dia 16 de


junho de 2003.

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Cidades e Patrimônios Culturais
86 Investigações para a iniciação à pesquisa

12 Notitia Criminis encaminhada ao 1ª Juizado Especial Cível e Criminal da Comarca de


Aracaju, por conduto de seu representante legal do Ministério Público do Estado de Sergi-
pe (grifo nosso).

13 Entrevista de Lindemberg Monteiro da Silva cedida ao autor no dia 23 de junho de 2003.

14 Jornalista e radialista. Apresenta o programa diário Batalha na TV, na TV Cidade, um


canal fechado de televisão da cidade de Aracaju.

15 Tradução livre de: “He can now analyze the continuum synchronically, so to speak, at this
point of arrest, having already fully taken into account and represented by appropriate cons-
tructs the temporal character of the drama”.

16 Tradução livre de: “Its in social dramas that plural reflexivity begins. If social drama regu-
larly implies conflict of principles, norms, persons, it equally implies the growth of reflexivity”.

17 Tribo urbana enquanto metáfora e não categoria. Usada aqui em um dos sentidos
descritos por Magnani: “para designar uma tendência oposta ao gigantismo das institui-
ções e do Estado nas sociedades modernas: diante da impessoalidade e anonimato destas
últimas, tribo permitiria agrupar iguais, possibilitando-lhes intensas vivências comuns, o
estabelecimento de laços pessoais e lealdade, a criação de códigos de comunicação e com-
portamento particulares” (Magnani,1992, não paginado)

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A modernidade e a Rua:

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico1
Sarah Karenine Paes Ribeiro

As mais antigas calçadas portuguesas são vestígios de calçadas ro-


manas, formadas por imensos blocos de pedra assentados um ao lado
do outro. No entanto, apesar da impactante força e grandiosidade das
calçadas, o mosaico romano é o que mais se destaca. Este tipo de arte,
extremamente tradicional e decorativa, com motivos rigorosamente tra-
balhados e de estrutura mais delicada, dominava o interior das habita-
ções e tornava ainda mais bela a arquitetura:

São mosaicos elaborados com pequenas tesselas2, geral-


mente de origem calcária, mas podendo integrar outros
materiais (mármore, vidro e terracota). A complexidade
dos desenhos exigia um grande apuramento técnico, fa-
lando-se mesmo da existência de oficinas de mosaicistas,
altamente especializadas, elaborado em diversas regiões
da península (Cabrera; Nunes, 1998, p. XXVII).

Esses mosaicos romanos, extremamente elaborados e feitos por


especialistas, tinham temas muito diversos, que iam desde atividades
socioeconômicas, culturais e religiosas até padrões geométricos, que se
articulava a elementos vegetais (como flores e ramos).
Até o século II d. c., os mosaicos eram predominantemente bicolo-
res e usavam apenas pedras pretas e brancas vindas da tradição itálica.
Porém, a partir do século III os romanos dão ao mosaico uma riqueza
“policromática, traduzindo influências da Gália, Hispânia e norte africa-
nas” (Cabrera; Nunes, 1998, p. XXVII).
Posteriormente os árabes residentes em Portugal aproveitaram as
estruturas romanas pré-existentes e introduziram grandes intervenções
nos mosaicos, com a utilização de novos materiais e temas, refletindo a
riqueza estética e visual da cultura mulçumana. Voltados para o comér-
cio e uma vida urbana, os árabes estendem a utilização dos mosaicos
para fora das casas, ao cobrir pátios ou fachadas e revestir algumas obras

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Cidades e Patrimônios Culturais
88 Investigações para a iniciação à pesquisa

públicas de temas religiosos. Os árabes levam às ruas de Portugal algo


belo e que antes era digno apenas da decoração dos interiores das gran-
des casas e palácios.
Com o passar do tempo a pedra que ficou conhecida mundialmente
como pedra portuguesa, formada por pequenos cubos de pedra calcita3,
que é a pedra na cor branca e o basalto4, na cor preta, foi utilizada para
o calçamento de vias públicas e ganhou as ruas com desenho simples
e intenção prioritária de pavimentar e dar aos locais ares de higiene e
modernização. Diferente do mosaico decorativo romano e árabe, o mo-
saico em pedra portuguesa tinha um caráter utilitário até então nunca
utilizado em Portugal, pois não se concebia “perder tempo” para realizar
desenhos “simplesmente” para a pavimentação das ruas ou calçadas:

[...] há referências de que a primeira calçada de mosaico


português, com desenhos em zig-zag, foi mandada fazer
pelo Tenente-General Eusébio Cândido Cordeiro Pinheiro
Furtado, Governador de Armas do Castelo de São Jorge
na Parada do Batalhão de Caçadores 5, em 1842. É pos-
sível, pois, que esse militar tenha se inspirado nos vestí-
gios arqueológicos encontrados em Portugal para levar a
cabo o seu projeto, realizado por carcerários então deno-
minados Guilhetas (França apud Yázigi, 2000, p. 134)

Logo diversas ruas e praças começam a receber tal calçamento,


marcando assim o início de sua disseminação. Na maioria das vezes a
pavimentação das ruas de uma cidade se dá devido ao aumento no flu-
xo urbano e em Portugal isto não foi diferente, pois o crescimento e as
novas demandas da cidade impõem um ritmo acelerado de desenvolvi-
mento. Na segunda metade do século XIX Portugal aumenta e diversifi-
ca sua produção industrial, faz investimentos pesados em infraestrutura
(tentando alinhar-se à tecnologia de outros países europeus) e efetua
mudanças radicais. que a colocariam em pé de igualdade comercial, via-
bilizando assim a circulação de bens e de pessoas.
Todas estas formas marcam a busca de Portugal por uma iden-
tidade moderna. Estas mudanças são percebidas mais claramente em
Lisboa, que liberal e de grande efervescência urbana, acomodava todo
tipo de novidade, onde a calçada-mosaico foi bem aceita e rapidamente
incorporada à nova estética da cidade.

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A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro 89

No final do século XVIII, descobre-se Pompeia (Itália) e no início do

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


século XIX, Conímbriga (a Coimbra romana, Portugal). Essas descobertas
repercutem no século XIX de forma bastante específica, unindo a histó-
ria da cultura clássica greco-romana com a modernidade europeia. Todo
aquele passado clássico surge num período em que Portugal, como ou-
tros países da Europa, busca a sua inserção no mundo moderno.
A calçada-mosaico em pedra portuguesa parece uma união perfei-
ta daquele encontro. Técnica clássica de influência greco-romana, apli-
cada nas calçadas largas da cidade moderna de influência haussmannia-
na. Esta calçada, que se estabelece como novo espaço de circulação e
consumo, ganha agora desenhos extremamente elaborados e variados,
embelezam e trazem sofisticação para os passeios públicos das grandes
metrópoles, disseminando-se pelo mundo como referencial artístico e
estético da cidade moderna.
O século XIX é marcado pela efervescência de novidades, quando
ocorrem profundas e significativas mudanças em todos os níveis da ex-
periência social. A Revolução Industrial, as grandes descobertas cientí-
ficas e tecnológicas, artísticas e culturais, a noção de tempo e espaço,
todos esses acontecimentos modificaram os modos das pessoas de per-
ceberem o mundo a sua volta. As mudanças ocorridas no século XIX (e
continuaram no século XX) foram tão significativas para a humanidade
que ainda hoje ressoam fortemente:

De fato, nunca em nenhum período anterior, tantas pes-


soas foram envolvidas de modo tão completo e tão rápido
num processo dramático de transformação de seus hábi-
tos cotidianos, suas convicções, seus modos de percepção
e até seus reflexos instintivos (Sevcenko, 1998, p. 07).

Neste período grandes mudanças conceituais ocorriam também


dentro das academias, movimentando as mais diversas áreas do conheci-
mento, sendo que uma das mudanças que aqui nos interessa é a ocorrida
no campo da Sociologia Urbana (ou ainda estudos das cidades). No sécu-
lo XX, a Sociologia Urbana, formada por uma visão sistemática, extrema-
mente técnica, quantitativa, demográfica e econômica, que compunha
uma análise científica no sentido “tradicional” e que até então estava soli-
tária em suas análises, dá espaço a uma nova vertente, onde a arte, a cul-
tura e os modos de vida das grandes cidades se mostram e se manifestam

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Cidades e Patrimônios Culturais
90 Investigações para a iniciação à pesquisa

como importantes, passando então a configurar um novo estudo, carac-


terístico da vida na metrópole. Fatos que até então não eram notados ou
até mesmo eram subjugados pelas pesquisas “tradicionais” ganham força
na análise da cidade moderna, habitada por pessoas que passam a ser
notadas como agentes construtores na sua formação. Essa ainda recente
sociologia esmera-se para perceber a complexidade da vida urbana em
sua totalidade e une a análise conceitual-teórica a uma pesquisa empí-
rica, a fim de perceber as sutilezas presentes na cidade e que até então
estavam ausentes nos estudos e planejamentos das mesmas.
Personagens bastante comentados pelos sociólogos e antropólo-
gos, como o “Flâneur” de Charles Baudelaire, apresentado sob a visão de
Walter Benjamin e o “Blasé” de George Simmel, simbolizam essa nova
visão da cidade e atuam como um marco no estudo dos modos de vida.
O sociólogo Carlos Fortuna, um dos propositores da terminologia
“Sociologia das Cidades” (Fortuna, 1997) e organizador conceitual das
teorias que demarcam esses estudos, comenta as mudanças ocorridas
no campo da sociologia, mostrando o porquê das atenções acadêmicas
terem se voltado para essa nova perspectiva das cidades:

Como campo teórico, centrado em redor de um conjunto


específico de práticas sociais, mentalidades e modos de
vida, que se forjam, comunicam e se reproduzem na ci-
dade, a cultura urbana tem uma história própria, iniciada
em meados do século XIX, sob o pano de fundo da indus-
trialização européia.

A cidade moderna, em especial a grande metrópole, ber-


ço de novos grupos e figurações sociais, novas formas de
organização e de conflito, com as suas homogeneizantes
e simultaneamente segregadoras ideologias e práticas
de consumo e, enfim, com as suas novas topografias, tor-
nou-se, por tudo isso objeto da curiosidade e da reflexão
acadêmicas (Fortuna, 1997, p.03).

Este novo campo de estudo voltado às diferenças, abre espaço para


uma ação conjunta com outras áreas, sejam elas teóricas ou práticas, em
busca de um alargamento que possibilite analisar a complexidade que
transformou a vida urbana. É dentro desta atual configuração, represen-

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A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro 91

tada por um caráter multidisciplinar, heterogêneo e capaz de agregar

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


por diversas vertentes, elementos constitutivos da nova sociedade cita-
dina, que encontramos hoje a chamada Arte Urbana. Uma arte realizada
dentro da “nova” cidade e pela “nova” sociedade. Uma arte que reflete
os anseios e a visão de si das próprias cidades. Uma arte que ganha as
ruas e as utiliza como grandes galerias que acabam exercendo um papel
humanizador junto à rigidez das metrópoles. Tratamos da arte que que-
bra fronteiras entre os espaços públicos e privados. Arte que se expressa
formal ou informalmente e que é parte constitutiva da vida urbana:

Hoje não podemos mais conceber a distinção entre um


espaço interno e um espaço externo, entre um espaço
apenas meu e um espaço de todos. Hoje, é componente
do espaço urbanístico qualquer coisa que, na contínua
mutação da realidade ambiental, retém por um instante
nossa atenção, obriga-nos a reconhecer-nos (ainda que
para tomar consciência de nossa nulidade) em um ob-
jeto ou em algo, que não sendo objeto no sentido tra-
dicional do termo, ainda é algo que não conhecemos e
cuja chave, cujo código de interpretação devemos en-
contrar (Argan, 1998, p. 224).

A cidade está repleta das mais variadas representações e é capaz


de manter tão escondida e ao mesmo tempo tão visível grandes obras
artísticas. “Cidade obra de arte”, formada por elementos que se misturam
ao cotidiano e quase nos faz ignorar sua presença, quando “[...] a cidade
não é um invólucro ou uma concentração de produtos artísticos, mas um
produto artístico ela mesma” (Argan, 1998, p.73). Talvez por ser ela pró-
pria um produto artístico e por estarmos imersos em sua rotina é que
muitas vezes não percebemos que a produzimos.
É nesta cidade moderna que encontramos “a calçada-mosaico” em
pedra portuguesa, elemento foco desta pesquisa. Presente no projeto
urbanístico moderno de diversas cidades do mundo, assentada inicial-
mente em calçadas e posteriormente em praças e outros espaços pú-
blicos, esse elemento de caráter utilitário, mas também humanizador,
foi empregado da forma como é conhecida nos dias de hoje, visando
diminuir a poeira e dar um ar mais higiênico “na Parada do Batalhão de
Caçadores 5, em Lisboa, Portugal”( Cabreira; Nunes, 1998, p. 15)5.

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Cidades e Patrimônios Culturais
92 Investigações para a iniciação à pesquisa

Com o passar do tempo, a calçada portuguesa (empregada inicial-


mente com o intuito de deixar o local em que foi assentada, simples-
mente mais limpo) adquire um caráter de embelezamento da cidade.
Tal fato ocorreu porque Portugal, como outras cidades do mundo, volta-
se ao espaço público com um novo olhar. A importância parece advir
da influência do projeto urbanístico desenvolvido por Haussmann em
1850, que, dentre outras ações, estabelece o alargamento das ruas e das
calçadas em Paris e implica uma nova configuração do espaço público
moderno, que e é exportado para o mundo:

Equipada e pensada nos mínimos detalhes, fundamenta-


da em ideais de regulação que condicionam tanto seus
grandes traçados quanto suas áreas de lazer, a Paris que
sai das mãos de Haussmann e de seus engenheiros, pare-
ce uma vasta máquina [...] (Picon, 2001, p. 88).

Sabe-se que a Paris de Haussmann não foi construída pensando


apenas em embelezar e tornar a cidade mais moderna, mas teve princi-
palmente um caráter bélico e protecionista:

A reforma de Haussmann, apesar da intenção moderni-


zadora, foi antes uma reforma conservadora. Inserida no
contexto autoritário francês pós 1848, a reforma signifi-
cou uma intervenção política no traçado urbano de Paris,
como meio de evitar as reincidências nos levantes e bar-
ricadas que caracterizavam os movimentos socialistas e
revoltas operárias da época. (Leite, 2004, p. 110).

No entanto, mesmo com características defensivas, sabemos que


uma de suas qualidades essenciais é “[...] sua capacidade de transformar-
se em modelo, isto é, de prestar-se às transposições e leituras mais diver-
sas” (Picon, 2001, p. 89).
É por esses e outros motivos que ao desenvolver uma pesquisa a
respeito da cidade e sua modernidade não se pode esquecer Paris como
marco da influência moderna. Pois não somente a arquitetura, a enge-
nharia e o urbanismo são marcantes nesta cidade, como também as ar-
tes, a moda, a culinária e diversos elementos sociais e estruturais inova-
dores estão presentes nela e atuam como referência. Talvez quase todas
as cidades do mundo quisessem ter um pouco do seu “brilho e glamour”.

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A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro 93

O sociólogo Walter Benjamin, inspirado em Baudelaire e na “sua”

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Paris, já modificada por Haussmann, passeia por esta cidade como nin-
guém e ao falar do “flâneur”6 instiga nossa imaginação acerca desta
transbordante metrópole e seus passeios. Segundo Benjamin, “Antes de
Haussmann, eram raras as calçadas largas; as estreitas ofereciam pouca
proteção contra os veículos. Sem as passagens, dificilmente a flânerie po-
deria ter alcançado a sua relevância” (Benjamin, 1991, p. 66).
Talvez a segurança por conta do aumento no fluxo dos veículos
tenha sido o fator primordial no alargamento das calçadas, porém acre-
dita-se que outros fatores influenciaram sua disseminação pelo mundo.
Percebe-se que pela primeira vez a passagem ocupa um lugar privilegia-
do entre a rua e as residências:

As passagens, uma nova invenção do luxo industrial, diz


em 1852 um guia ilustrado de Paris, são vias cobertas de
vidro e revestidas de mármore por dentro de todo um
conglomerado de casas, cujos proprietários se uniram
para tais especulações. Dos dois lados dessa via, que rece-
bem a sua luz do alto, se sucedem as mais elegantes lojas
comerciais, de tal modo que uma dessas passagens é uma
cidade, um mundo em miniatura (Benjamin, 1991, p. 66).

Este trecho de citação marca o que podemos chamar de valorização


do espaço público, mais precisamente a valorização da calçada como es-
paço de circulação, espaço de encontros, passadas rápidas e de conversas
longas, espaço para ver e ser visto. Não só as calçadas, mas todo o centro
urbano abre espaço para manifestações características da vida moderna,
dando início a um emaranhado conjunto de práticas sociais e modos de
vida que se estabelecem como próprios de uma “cultura urbana”.
Essa complexa modernidade, criadora de tantas novidades e possi-
bilidades, proporciona ao sujeito da metrópole um andar “flanêur”, um
apreciar e deixar-se envolver num mundo que só a grande cidade pode
proporcionar. Por outro lado, pode transformar seus cidadãos em pesso-
as frias, insensíveis e que parecem viver em submundos impenetráveis.
Para Simmel as pessoas da metrópole vivem na verdade em microu-
niversos, desenvolvendo uma nova forma de sociabilidade, apontada
como “[...] sociabilidade metropolitana (individualismo, atitude blasé, re-
lação de estranhamento)” (Fortuna, 1997, p 09). A composição criada por
Simmel e apontada aqui por Fortuna compõe uma forma interessante
de perceber o indivíduo e sua relação com a cidade:

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Cidades e Patrimônios Culturais
94 Investigações para a iniciação à pesquisa

A metrópole, ao constituir-se num quadro novo da vida


social, impõe aos sujeitos a necessidade de se relaciona-
rem entre si e com o mundo exterior através de um ex-
tremo objetivismo. No extremo e denso espaço urbano
que é a metrópole, a “preponderância do espírito objeti-
vo sobre o espírito subjetivo” é o resultado direto da mo-
netarização da economia e, esclarece Simmel, “na justa
medida em que o dinheiro [...] sujeita todas as diferenças
qualitativas ao critério do “quanto custa”, são os próprios
sujeitos que, na metrópole, se vêm convertidos em obje-
tos. (Fortuna, 1997, p. 10).

Nesta relação de objetividade do homem com o mundo exterior,


apontada por Fortuna e Simmel, o dinheiro dita as regras e torna o ho-
mem extremamente “ausente” de problemas locais ou globais, na medi-
da em que estão anônimos nos seus espaços individualizados:

[...] o homem metropolitano, de que existem inúmeros


gêneros individuais, desenvolve uma capacidade prote-
tora contra a profunda perturbação com que o ameaçam
as flutuações e descontinuidades do ambiente externo.
Em vez de reagir emocionalmente, o sujeito metropolita-
no reage principalmente de modo racional, pelo aprofun-
damento da sua consciência e a criação de uma reserva
mental que é, por sua vez, resultado da primeira (SIMMEL,
1997, p 32).

Então, percebe-se que para Simmel, ao viver na metrópole, o ho-


mem desenvolve muitas vezes mecanismos de autodefesa, que o pos-
sibilitam uma parcial ou total omissão frente à imensa quantidade de
eventos e situações que demandem sua atenção.
A partir do exposto, é interessante pensar como as Artes, que são
produzidas para fazer pensar, parar, olhar ou sentir, desafia cotidiana-
mente o sujeito simmeliano, a perceber a sua existência dentro deste
espaço conturbado. A arte urbana precisa ser vista e sentida como arte e
não apenas como um enfeite decorativo da cidade, podendo ser remo-
vida ou modificada a cada gestão política. Para Simmel o indivíduo blasé
representa uma grande maioria habitante das grandes metrópoles, pes-
soas objetivas e insensíveis, incapazes de observar o outro e o mundo ao
seu redor. O sujeito das grandes cidades:

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A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro 95

A essência da atitude blasé encontra-se na indiferença

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


perante a distinção entre as coisas. Não no sentido de que
as coisas não são percebidas, como no caso do débil men-
tal, mas antes no sentido de que não são percepcionadas
como significantes. Elas surgem à pessoa blasé num colo-
rido homogêneo, monótono e cinzento, sem que alguma
delas possa ser preferida à outra (Simmel, 1997, p.35).

Como pode o sujeito blasé descrito por Simmel perceber a arte


presente na cidade se ao menos percebe a cidade e si próprio como
agente contínuo na formação da mesma? Ao compreender a moderni-
dade enquanto elemento contraditório, novo e multifacetado, perce-
beremos a calçada-mosaico em pedra portuguesa como um elemento
artístico, fruto de um período conturbado e exuberante, habitado por
homens dos mais variados perfis.

A calçada portuguesa no Brasil


Na segunda metade do século XIX e início do século XX, a influên-
cia do calçamento português chega a diversos países, inclusive ao Bra-
sil. Inicialmente na cidade de Manaus no ano de 1905, foi assentada em
torno do Teatro Amazonas no período em que a cidade vivia o apogeu
da extração da borracha e no ano seguinte no Rio de Janeiro e em São
Paulo, proliferando-se assim por todo o país. Na cidade do Rio de Janeiro
a calçada portuguesa chega de forma bastante ostensiva.
Nesse período a capital do Brasil passava por uma reforma urbana
promovida pelo prefeito da época, Francisco Pereira Passos, que junta-
mente com o sanitarista Oswaldo Cruz, propôs alterações radicais de ca-
ráter higienista e urbano com inspiração na reforma do Barão de Haus-
smann em Paris. A calçada-mosaico era um novo elemento urbanístico
que vinha da Europa e que estava fazendo o maior sucesso em Paris,
devendo então estar presente também na moderna capital do Brasil. Re-
produzindo o “mar largo”, o prefeito Francisco Pereira Passos não mediu
esforços para a realização da obra que foi concluída em 1908 e tinha 4,2
km de pedras assentadas:

[Pereira Passos] importou 32 mestres calceteiros de


Lisboa e, segundo o relatório da comissão construto-

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Cidades e Patrimônios Culturais
96 Investigações para a iniciação à pesquisa

ra, foram empregadas 3.280 toneladas de pedras por-


tuguesas trazida d’além mar, como lastro de navio, na
pavimentação de 23,031 metros quadrados de calçadas
(Teixeira; Veiga, 2007)7.

Com as sobras das pedras do calçadão da praia de Copacabana,


construiu-se o calçamento da Praça de Mauá e da Cinelândia. O calça-
dão de Copacabana passou por diversas reformas, a mais famosa delas
em 1969, realizada pelo paisagista, artista plástico e mosaicista Roberto
Burle Marx. Este paisagista foi chamado a intervir nas curvas das pedras
de Copacabana, que, com o aumento da faixa de areia e o alargamento
das pistas da orla, teve que refazer o calçamento em toda a extensão
da avenida. Burle Marx realizou contornos mais delineados e manteve o
desenho original, apenas acentuando as curvas de forma extremamente
sensual, que até hoje é um dos cartões postais do Rio de Janeiro.
Outros artistas se utilizam da estética elegante e das várias possibi-
lidades do mosaico em pedra portuguesa para realizar obras de arte que
“brincam” com o caráter utilitário do calçamento, sofisticando e fortale-
cendo seu lado artístico. Isto contribui de forma marcante para a identifi-
cação da calçada-mosaico como arte urbana, produzida não como mais
um componente urbanístico para o embelezamento da cidade, mas
como um recurso que possibilita a realização de uma criação artística.

Av. Atlântica. Rio de Janeiro, 1921. Foto Augusto Malta. Acervo de Arquivo Geral da
Cidade do Rio de Janeiro. Calçada da praia de Copa Cabana com as atuais curvas
sinuosas realizadas por Burle Marx. Foto: TEIXEIRA; VEIGA, 2007.

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A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro 97

Aracaju e a influência moderna

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


A cidade de Aracaju foi escolhida como referente empírico deste
trabalho por conter a presença dos mosaicos em pedra portuguesa, en-
contrados no calçamento de algumas de suas praças e nos calçadões do
centro histórico e ainda por simbolizar a influência moderna exercida
pelas reformas na cidade do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Estas ci-
dades passaram por grandes transformações no período de moderniza-
ção urbanística do país, seguindo padrões de uma modernidade euro-
péia que repercutia no Brasil:

No Brasil, o eco das reformas urbanas européias chega


com o advento da República e atinge as principais cidades
brasileiras no panorama político e econômico do final do
século XIX e início do século XX, difundindo o ideário de
cidade ampla, saneada e moderna. (Leite, 2004, p. 112).

Então, nascida em meio aos ideários modernistas presentes no Bra-


sil é que a pequena e jovem Aracaju, hoje com pouco mais de 150 anos,
dá início, no século XX, à sua formação como cidade moderna.
O marco real do processo de urbanização é a mudança da capital
que antes se encontrava na antiga cidade de São Cristóvão, em 1855. Ci-
dade de terras pantanosas e encharcadas e com imensas dunas de areia
branca, Aracaju tornava-se uma das primeiras cidades projetadas do Bra-
sil. Projeto encomendado pelo presidente da província, Ignácio Joaquim
Barbosa, ao engenheiro Sebastião Pirro.
A intenção de transformar Aracaju em uma cidade moderna a qual-
quer custo era deliberada. Ignácio Barbosa, juntamente com os políticos
e comerciantes da época, não mediu esforços para transformar em reali-
dade o que parecia à primeira vista uma utopia:

Aracaju nasce no século XIX, sob a égide da noção do


moderno; sem plano urbanístico, sem tombamento, é o
resultado da capacidade de engenharia em drenar pân-
tanos e charcos resultando daí um desenho urbano com
malha em xadrez, elaborado pela comissão de engenhei-
ros cujo responsável era Sebastião José Basílio Pirro, que

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Cidades e Patrimônios Culturais
98 Investigações para a iniciação à pesquisa

projetou uma cidade artificial com um traçado moderno


(Nunes, 2003, p. 47).

A necessidade de se diferenciar da antiga capital barroca (São Cris-


tóvão) e de marcar Aracaju como uma cidade moderna, a exemplo do
Rio de Janeiro, norteou fortemente as ideias de Ignácio Barbosa e do
engenheiro Sebastião Pirro, que foi convidado para elaborar o projeto
urbanístico da nova capital.

[...] ao nascer da cidade, surgia também à intenção de se


construir uma capital moderna, digna do iminente desen-
volvimento que se espera da província. Seu espelho não
poderia ser as construções barrocas da primeira capital,
São Cristóvão, mas o Rio de Janeiro, capital do país e sím-
bolo de uma cidade moderna (pelo menos no referencial
estético) (Santos apud Nunes, 2003, p. 47).

Ações inspiradas na então capital do país norteiam o processo de


desenvolvimento urbano. O saneamento, calçamento, a construção de
prédios públicos e privados, o sistema de transporte, o aumento do co-
mércio com o crescimento da demanda e da oferta, a variedade de pro-
dutos e serviços, caracterizam também o surgimento da cidade moder-
na, consolidando sua urbanização. Segundo a pesquisadora Ilma Fontes,
em 1911 e 1920, Aracaju já se impõe como maior centro urbano do Es-
tado e é a cidade mais industrializada de Sergipe, confirmando a visão
político-administrativa de Ignácio Barbosa (Fontes, 2008).
Já nas décadas de 20 e 30 surge no Brasil um pensamento preser-
vacionista, influenciado pelo modernismo e encabeçado por Mário de
Andrade, visando uma verdadeira identidade nacional. Este movimento
recai fortemente sobre a cidade de Aracaju e sua recente arquitetura. O
surgimento do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacio-
nal), em 1937, dá início ao processo de reconhecimento público do que
se aponta como importante para a preservação de uma identidade bra-
sileira: “De início a discussão girava em torno de algo que representasse
uma espécie de brasilidade, isto é, a tradição nacional que representasse
a cultura brasileira.” (Nogueira, 2006, p. 100). E este processo elege o es-
tilo Barroco como um dos símbolos da identidade brasileira. Em Sergipe

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A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro 99

há um impacto muito grande, pois aponta mais uma vez a cidade de São

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Cristóvão como ponto forte da identidade sergipana, assim como outras
cidades históricas, como Laranjeiras e Tomar do Geru. O fato foi relevan-
te na busca por uma identidade nacionalmente reconhecida da cidade
de Aracaju, que por não ter característica histórico-colonial, modelou e
se remodela até os dias e hoje em busca do reconhecimento como uma
cidade moderna.
Vivendo em busca de um ícone que possa simbolizá-la e através do
qual seja reconhecida, Aracaju destrói e reconstrói incessantemente seu
passado no complexo processo de construção de uma imagem singular
de cidade. A pretensão de ser um diferencial no Estado de Sergipe se tor-
na constante e provoca uma busca contínua por símbolos que possam
classificá-la como moderna. É neste contexto, em busca do novo, que
Aracaju traz a pedra portuguesa para compor a atmosfera de desenvol-
vimento e inovação da cidade.

A Rua João Pessoa em Aracaju


O surgimento do uso da calçada portuguesa em Aracaju se deu na
década de 40, em duas importantes praças do centro da cidade (a Fausto
Cardoso e a General Oliveira Valadão). Posteriormente, já na década de
70 e 80, a pedra portuguesa é instalada no calçadão da Orla da Praia de
Atalaia, no calçadão da Rua João Pessoa e novamente na Praça Fausto
Cardoso. Todos esses locais passam por diversas alterações ao longo do
tempo e são testemunhas históricas da presença da pedra portuguesa
como elemento característico da modernização do espaço público, no
entanto, é na Rua João pessoa que este calçamento adquire sua maior
representatividade.
Guardadas as devidas proporções, a Rua João Pessoa pode ser con-
siderada, para os sergipanos, o que os boulevards em Paris são para os
franceses. O caminhar pelas calçadas, os cafés e sorveterias, as lojas com
tecido francês e relógio suíço, as iluminadas vitrines, tudo faz desta rua
um lugar especial da cidade, lugar marcado na memória dos saudosistas
e de muitos sergipanos, como os escritores Murilo Melins e José Silvério
Leite Fontes, dentre outros.
Nas fotos abaixo podemos ver três décadas da rua. A década de 40,
ainda com os trilhos dos bondes;a década de 60, com a rua recentemen-

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Cidades e Patrimônios Culturais
100 Investigações para a iniciação à pesquisa

te asfaltada e a década de 70. É interessante perceber nessa sequência


de fotos como as pessoas caminhavam livremente pela rua. De uma loja
a outra, elas andam em zig-zag pelos trilhos ou mesmo entre os carros.

Rua João Pessoa na década de 40. Pessoas caminhando por entre os trilhos. Fonte:
MELINS, Murilo. 2007, p. 29.Rua João Pessoa na década de 60. Intenso movimento de
carros e pessoas. Fonte: MELINS, Murilo. 2007, p. 35.Rua João Pessoa na década de 70.
Aparentemente mais tranqüila, porém com movimento de pessoas sempre intenso.
Fonte: Arquivo Público da Cidade de Aracaju. Foto de autoria desconhecida.

As imagens resumem o que sempre foi a Rua João Pessoa. Na ver-


dade ela sempre foi um grande calçadão, mas faltava o poder público
percebê-la e torná-la exclusiva para pedestres. Foi o que aconteceu.
A construção do calçadão da Rua João Pessoa teve início no dia
15 de Maio de 1978. O caráter moderno e inovador da obra no estado
de Sergipe causaram um frenesi na cidade, na qual as pessoas aguar-
davam com ansiedade o desenrolar dos acontecimentos. Dividida por
trechos, a obra vai pouco a pouco se consolidando. Em uma primeira e
grande etapa, foram realizadas obras estruturais, de drenagem, esgoto
e pavimentação, e posteriormente a parte de calçamento, mobiliário
urbano e paisagismo.
Em matéria divulgada no Jornal de Sergipe, o então secretário de
obras, José Carlos Machado, divulga o projeto de criação e embeleza-
mento da rua:

Este piso será construído com as pedras portuguesas, nas


cores preto e branco, formando desenhos com temas re-
gionais. Os temas estão sendo estudados, mas o que tudo
indica serão desenhos representando papagaios e cajus,
estilizados (Jornal de Sergipe, ano IV, nº 752).

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A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro 101

Continuando a matéria, o jornal explicita ainda detalhes específicos

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


do que seria colocado no calçadão:

No centro do “calçadão” serão implantados os chamados


mobiliários, constituídos de floreira, bancas de revistas,
cabines telefônicas, etc. Ao todo serão implantados: três
bancas de revistas, 52 bancos, 5 cabines telefônicas, 91
floreiras e 10 coletores de lixo. Quanto à iluminação, a rua
para pedestres receberá 100 postes, especialmente dese-
nhados com lâmpadas a mercúrio de 200 watts (Jornal de
Sergipe, ano IV, nº 752)

Croqui do calçadão da Rua João Pessoa. Desenho divulgado em matéria jornalística.


Fonte: Jornal de Sergipe, não IV nº. 752. Arquivo Público da Cidade de Aracaju.

O jornal, além de confirmar a presença da pedra portuguesa, ainda


anuncia em primeira mão o desenho do futuro calçadão. O desenho mos-
tra detalhes que nunca foram implantados, a exemplo das marquises que
fazem uma espécie de sombra para alguns cafés ou bares, que também
nunca se estabeleceram na rua. Poucas são as lanchonetes que disputam
este lugar, pois ele é formado por uma sequência de lojas que historica-
mente habitam a rua e que só deram espaço a novas e grandes lojas.

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Cidades e Patrimônios Culturais
102 Investigações para a iniciação à pesquisa

Outro fato é que mesmo bastante iluminada, a vida da Rua João


Pessoa sempre esteve voltada para o comércio diurno e isto também foi
algo que saiu diferente do que se planejava para ela. Em projetos futuros
veremos ainda a retomada dessa ideia de prolongar a permanência das
pessoas nesse espaço, a exemplo da transformação de parte do prédio
da antiga Escola Normal, próximo à Rua João Pessoa, em “Rua 24 horas”.
Na década de 80, a “Rua 24 horas” chegou a levar muita gente para
o centro da cidade durante a noite, porém decaiu, devido a uma série
de fatores, tais como a presença de pessoas indesejadas da sociedade
(prostitutas, mendigos, bêbados, travestis). Em seu ápice, chegou a ter
cinema, lojas de grife, lojas de artesanato, muitos bares e lanchonetes,
que sobreviveram alguns poucos anos, sendo hoje local de substantiva
visitação turística.
A Rua João Pessoa enfim recebeu o calçamento em pedra portu-
guesa que, trecho por trecho, foi aplicado no novo calçadão. As pedras
seguiam os motivos que foram anteriormente anunciados, papagaios e
cajus estilizados. O processo de pavimentação se deu até o trecho da
rua que passa em frente à Praça Fausto Cardoso, seguindo nela também
toda a parte paisagística das floreiras e bancos.
É a primeira vez na cidade que se faz um calçamento tão elabo-
rado. Os papagaios e cajus se repetiam por todo o calçadão, formando
um imenso e belo tapete por onde passavam as pessoas na primeira rua
exclusiva para pedestres de Sergipe.
O calçadão foi entregue com bancos de madeira, floreiras, ilumina-
ção e piso em pedra portuguesa, tornando-se uma das maiores atrações
da cidade. Sua inauguração provocou um grande aumento no fatura-
mento das lojas e deu continuidade à história de local de compras e inte-
rações sociais que a rua sempre teve. Seu caráter popular é cada vez mais
acentuado e as lojas “finas” e de “grifes” que antes habitavam a rua dispu-
tam a preferência com as lojas populares de grande porte e variedade.

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A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro 103

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Pedra portuguesa sendo assentada no calçadão da Rua João Pessoa em 1978. Papa-
gaios e cajus estilizados são os motivos escolhidos. Fonte: Arquivo Público da Cidade
e Aracaju. Foto de autoria desconhecida.Vista do alto do calçadão da João Pessoa em
1981. Fonte Jornal de Sergipe. Arquivo Público da Cidade de Aracaju.

Consolidada e agora mais bela, a Rua João Pessoa passa posterior-


mente por algumas reformas. Uma delas foi a realizada pelo prefeito Ja-
ckson Barreto, em seu mandato entre 1986 e 1988, no qual retirou as ca-
bines telefônicas, pintou as floreiras e bancos e recuperou a iluminação.
Pode-se dizer que as alterações realizadas por Jackson Barreto foram
sutis e bem feitas, quando comparadas ao que virá acontecer.
Como parte de mais um novo projeto visando tornar a cidade mo-
derna, importam ideias de outros locais e as aplicam em Aracaju, des-
considerando muitas vezes as peculiaridades da cidade e da região. As
obras pareciam chegar sempre de cima para baixo, o que tornava o re-
sultado final uma verdadeira “roleta russa” (e no caso da reforma feita por
João Augusto Gama, o resultado foi desastroso).
Como parte de um grande projeto de revitalização do centro histó-
rico da cidade, onde se pretendia dar ao centro ares de Shopping Center a
céu aberto, promovem alterações substanciais no calçadão. O calçadão é
completamente modificado, como se passasse por um processo de gen-
trification, isto é,estava a

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Cidades e Patrimônios Culturais
104 Investigações para a iniciação à pesquisa

[...] designar a transformação dos significados de uma lo-


calidade histórica em um segmento do mercado, consi-
derando a apropriação cultural do espaço a partir do flu-
xo de capitais. [...] cujo resultado mais visível é a alteração
da paisagem urbana, com a transformação de degrada-
dos sítios históricos em área de entretenimento urbano e
consumo cultural (Leite, 2004, p. 19) .

Aparentemente, pretendendo-se um enobrecimento do local, é


na gestão de Augusto Gama que este processo parece mais contun-
dente. No início da construção do calçadão, as pessoas ansiavam por
mudanças, sendo a pavimentação e embelezamento reconhecidos
como uma necessidade.
O projeto de revitalização do centro incluiu alterações em grande
escala no Mercado Central e em escala bem menor na Rua João Pessoa.
Porém, mesmo em escala menor, a intervenção foi desastrosa e irrepará-
vel. Todo o calçamento em pedra portuguesa foi removido para a colo-
cação de um piso mais “moderno”.
Com a remoção do piso, dos bancos, das floreiras e de tudo mais,
o calçadão é completamente reconfigurado, recebendo um novo piso
de cerâmica em uma cor clara, marquises, bancos desconfortáveis e
todo um mobiliário urbano capaz de criar a mesma fria sensação de
um Shopping Center.

Calçadão da Rua João Pessoa na década de 90. Sem a pedra portuguesa, o calçadão
recebe um piso “moderno”. Fonte: Imagem divulgada no site da Empresa Municipal
de Obras e Urbanização (EMURB). www.aracaju.se.gov.br/emurb. Acesso em outu-
bro de 2007.

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A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro 105

O descontentamento da população com a reforma do calçadão foi

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


intenso. Os lojistas também reclamavam quanto ao piso, pois nunca se
conseguia manter limpo (nos dia de chuva a situação piorava e a inse-
gurança dos pedestres aumentava). Mesmo nos dias de sol a reclamação
continuava, sobretudo em relação à luz que refletia no chão e ofuscava
as pessoas que, atordoadas, procuravam caminhar pelos poucos espa-
ços de sombra. A gestão do prefeito João Augusto Gama ficou fortemen-
te marcada por esta intervenção.
Com a pressão popular, em 2000, a nova gestão do prefeito Mar-
celo Déda decide recolocar a pedra portuguesa, passando o calçadão
novamente por uma reforma. A nova pedra em nada se aproxima dos
antigos desenhos de papagaios e cajus estilizados que antes embeleza-
vam a rua. No entanto parece ter sido a melhor opção a ser tomada pelo
então prefeito.
Atualmente o calçadão encontra-se completamente revestido pela
pedra portuguesa, que novamente traz um ar nobre e uma sensação de
continuidade. Apesar de seus motivos geométricos com a sobreposição
e repetição de círculos, a Rua João Pessoa e os Calçadões do centro pare-
cem estar em um momento de trégua e descanso.

Rua João Pessoas em 2007. Foto do autor.

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Cidades e Patrimônios Culturais
106 Investigações para a iniciação à pesquisa

Poucos são os locais que hoje ainda permanecem com o calçamen-


to original. A maioria foi retirada para a colocação de outros pisos ou tem
um assentamento mais recente, da própria pedra portuguesa, a exem-
plo dos próprios calçadões, dos canteiros da Avenida Ivo do Prado e da
Orla da praia de Atalaia.
A presença da pedra portuguesa na cidade de Aracaju é uma reali-
dade antiga e constante. Antes colocada como símbolo de modernidade,
talvez hoje não possua mais o estereótipo. No entanto, sua capacidade em
deixar a cidade mais bela é inegável e o Calçadão da Rua João Pessoa, que
já é considerado historicamente de grande importância para a sociedade
aracajuana, pode aqui ser considerado também um símbolo quanto à uti-
lização do calçamento em pedra portuguesa na cidade de Aracaju.
A calçada portuguesa se mostra como um artefato de grande re-
levância utilizado para compor visualmente a ideia de modernidade.
Outro fato que é importante sublinhar é a dualidade que este tipo de
calçamento provoca nos dias de hoje. Marco de uma modernidade que
outrora se fazia presente em diversos projetos urbanísticos e que tinha
como função embelezar, enobrecer e modernizar a cidade, o calçamen-
to em mosaico é nos dias atuais uma referência a um passado que não
se quer perder, que insiste em retornar, e que em meio a questões que
dizem respeito à manutenção e à onerosa mão de obra.
Ao caminhar pela cidade, podemos perceber claramente que a pe-
dra portuguesa ainda é bastante utilizada nos calçamentos públicos. O
pesar é que muitas vezes motivos belos e bem elaborados que existiam
no local são substituídos por motivos de simples complexidade, a exem-
plo de faixas retas que apenas alternam entre as cores preto e branco
e que hoje estão espalhadas pelas ruas. No entanto, da mesma forma
como as mudanças ocorridas na arquitetura e nas artes sofrem severas
críticas, talvez a calçada-mosaico em pedra portuguesa não tenha perdi-
do sua complexidade, mas esteja passando por readaptações e reconfi-
gurações próprias dos ciclos de criação.

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A modernidade e a Rua: a calçada-mosaico em pedra portuguesa
como passeio público e espaço artístico
Sarah Karenine Paes Ribeiro 107

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Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


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Notas
1 O trabalho apresentado é parte constituinte da monografia produzida no curso Lato
Sensu em Artes Visuais da Universidade Federal de Sergipe, sob orientação do Prof. Dr. Ulis-
ses Neves Rafael.

2 Pequenas pedras quadrangulares com aproximadamente 2 x 2 cm, usadas nos mosai-


cos romanos.

3 Calcita: De calc(i) + -ita. Mineral trigonal, carbonato de cálcio; espato-de-islândia (Fer-


reira, 2000, p. 552).

4 Basalto: [Do lat. basalte.] Rocha vulcânica, em geral porfírica ou vítrea, constituída es-
sencialmente de plagioclásio básico e augita com ou sem olivina (FERREIRA, 2000, p.453).

5 A partir de uma iniciativa do poder público, a primeira calçada em pedra portuguesa


foi construída em 1842 na Parada do Batalhão de Caçadores 5, em Lisboa.

6 O termo “Flâneur” foi criado por Charles Baudelaire e utilizado por Walter Benjamin
em “Paris, capital do século XIX”. O termo designa (dentre outros significados) “[...] a per-
sonalidade descomprometida e, em simultâneo, o intérprete perspicaz da modernidade,
é a personificação da ambigüidade típica da cidade moderna. Produto híbrido resultado
do cruzamento das modernas multidões urbanas com a lógica do consumo de massa [...]”.
“Da sua anônima e diletante versatilidade, o flâneur retira uma capacidade muito particular
para “ver” a modernidade e devolver, dela e das suas múltiplas representações e redes de
significação, uma imagem fiel, porque paradoxalmente, translúcida, e consistente, porque
volátil e transitória” (FORTUNA, 1997, p.14).

7 A obra O Rio que eu Piso (TEIXEIRA; VEIGA, 2007) não contém número de página.

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109

A cidade em Dois Tempos:

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Sociabilidades Cotidianas e Ritualísticas
no centro histórico da cidade
de São Cristóvão-SE1
Fábio Silva Souza

1. Introdução
Distante 25 km do litoral sergipano está a quarta cidade mais an-
tiga do Brasil: São Cristóvão, a primeira capital de Sergipe. O sítio da
cidade, propriamente dito, encontra-se situado no vale do Vasabarris.
Assentado sobre uma colina, denominada conforme os moradores lo-
cais de ‘cidade alta’, em uma zona fisiográfica do litoral sergipano, entre
os rios Poxim Assum, ao norte e Vasabarris ao sul e sudoeste, tendo na
margem esquerda o rio Paramopama, mais precisamente nas seguin-
tes coordenadas: 11º 00’ 59” de latitude Sul e 37º 12’ 09” de longitude
W. Gr. (Santos; Andrade, 1992).
Nesta acrópole são encontrados os monumentos históricos mais sig-
nificativos, de reconhecido valor desde 1938, quando foi elevada à cate-
goria de cidade-monumento do Estado de Sergipe. Isento dos processos
de revitalização, que permearam outros centros históricos, São Cristóvão
conserva em sua paisagem elementos que caracterizaram o cotidiano
de seus habitantes citadinos, a partir de disputas práticas e simbólicas,
desenvolvidas ao longo de sua história. Tomando como referência os mo-
mentos cotidiano e ritualístico, o segundo entendido enquanto sagrado,
cívico e festivo, procuramos demonstrar a multiplicidade dos usos de es-
paços edificados ao longo de séculos, bem como os sentidos atribuídos
pelos seus atores sociais, o que perpassa, evidentemente, a possibilidade
de criação de delimitações territoriais na paisagem urbana.
Para a realização deste trabalho foi desenvolvido um incurso etno-
gráfico sobre as ruas do centro histórico de São Cristóvão. Este procedi-
mento possibilitou não apenas a obtenção de informações adquiridas por
meio da oralidade, como também de fotos gentilmente cedidas pelos mo-
radores locais. Associadas a estas imagens foram trabalhadas outras, obti-
das através da Secretaria Municipal de Obras, Urbanismo e Meio Ambiente

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Cidades e Patrimônios Culturais
110 Investigações para a iniciação à pesquisa

do Município de São Cristóvão, junto ao acervo fotográfico do Centro de


Cultura e Arte da Universidade Federal de Sergipe (CULTART/UFS), além
de imagens produzidas recentemente, entre outubro de 2002 e abril de
2004. A partir de então foi possível consolidar um banco iconográfico das
representações públicas nos espaços edificados em São Cristóvão.

2. Um passeio e suas narrativas


As obras que compõem a paisagem estudada partilham uma série
de características representativas de um tempo específico e, mesmo que
algumas delas encontrem-se hoje em ruínas2, o seu apelo é dirigido à
consciência histórica e para a memorialização do passado (Rojek apud
Fortuna, 1997).
Essa consciência histórica e esse apelo à memorialização do pas-
sado encontrado nas narrativas de Walter Benjamin acerca da “Infância
berlinense” serviram de inspiração para que Bolle (1984) sugerisse três
tipos fundamentais de memórias que irão atuar junto à cultura, ao patri-
mônio e à preservação.
A memória voluntária, típica de uma era dominada pela redutibi-
lidade técnica. Ela se encontra muito mais apoiada no uso das diversas
fontes tecnológicas, a exemplo do computador, do gravador, da fotogra-
fia etc., sendo muito poderosa devido à sua precisão. O segundo modelo
é a memória involuntária, muito mais centrada na experiência, de pouco
valem os recursos tecnológicos, pois a ênfase maior é dada à emoção em
detrimento dos recursos meramente tecnológicos. Por fim, a memória
afetiva. Este modelo encontra-se mais voltado para a memória involun-
tária, mas não se restringe a ela, portanto, embora recorra à emoção, na
memória afetiva também são utilizados elementos tecnológicos.
A memória, portanto, é anterior à preservação. Ela está ligada a uma
determinada percepção espacial, ao tempo e à distribuição dos objetos
e/ou das obras arquitetônicas. Nela encontra-se o lugar de histórias coti-
dianas, da sensibilidade e da formação das emoções.
Inspirado no flâneur, conceito elaborado por Walter Benjamin
(1997), foi então desenvolvido um “incurso etnográfico”3 despreocupa-
do com o trajeto específico ou com o tempo gasto para percorrê-lo. Stu-
art Hall (2003) identifica o flâneur como “o vagabundo”, aquele sujeito

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A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas
no centro histórico da cidade de São Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza 111

que transita despreocupado com o tempo, em busca de contatos com

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


diferentes pessoas em suas narrativas. “O flâneur, portanto, não é apenas
aquele que perambula pela cidade, algo a ser estudado. A flânerie é um
método de leitura de textos para ler os sinais e pistas da cidade” (Fea-
therstone, 2000, p. 188).
Durante o incurso etnográfico pelas ruas do centro histórico da ci-
dade de São Cristóvão foram desenvolvidos trabalhos que remontam à
memória voluntária, por meio de gravações de entrevista e relatos de
seus moradores. Buscou-se, ainda, utilizar a memória involuntária por
meio de relatos e histórias vivenciadas em outros tempos e contadas por
alguns de seus moradores.

3. São Cristóvão em dois Tempos: cotidiano e ritual


Para que fosse realizada a incursão etnográfica pensou-se em com-
parar os diferentes usos dos espaços públicos. As referências são os se-
guintes tempos, inter-relacionados entre si:
• Comum x Festivo
• Ordinário x Extraordinário
• Cotidiano x Ritualístico
O primeiro compreende o cotidiano de seus moradores e a relação
destes com os espaços: nele está a monotonia do trabalho (Eliade, 2001).
No tempo ritual ou o “tempo festivo”, compreendendo o tempo das pro-
cissões, de lazer e dos espetáculos, seguindo uma orientação fornecida
por autores como DaMatta (2001) e Rocha, (2003) procurou-se eviden-
ciar as festas englobando os seguintes critérios:
• Tempo festivo, extraordinário ou ritualístico:
SAGRADOS – PROFANOS – CÍVICOS
Vale ressaltar quais os eventos que compreendem cada um desses tempos:

a) Sagrados – Celebrações religiosas. Exemplo: a festa de Senhor


dos Passos;
b) Profanos – Carnaval, Festival de Artes de São Cristóvão e Seresta
de São Cristóvão;
c) Cívicos – Desfiles escolares do Sete de Setembro.

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Cidades e Patrimônios Culturais
112 Investigações para a iniciação à pesquisa

Para a realização do incurso etnográfico foi preciso “ter um lugar


de onde partir, para começar a ler o contexto” (Soja, 1993, p. 269). Foi
então escolhida a Igreja Nossa Senhora Vitória, ou como é conhecida, a
Igreja Matriz, por representar o marco zero da cidade de São Cristóvão.
Ela corresponde também ao “centro simbólico”, que por sua vez equivale
“ao lugar ou aos lugares que condensam de uma maneira intensa uma
carga valorizante, em função da qual se organiza de forma significativa o
espaço urbano” (Castells, 1983, p. 318).
As construções do século XVII, como a Igreja de Nossa Senhora
da Vitória ou Igreja Matriz, a Santa Casa de Misericórdia e o Convento
Franciscano, geralmente podem ser entendidas a partir de um duplo as-
pecto. Por um lado, as construções religiosas marcadas pelas normas do
conceptismo, do cultismo e do preciosismo, características do barroco,
onde estão presentes o gosto pela retórica pomposa e rebuscada, en-
contrada nas artes plásticas, com temas tipicamente religiosos (Lopez,
1994). Por outro, as casas e habitações particulares (que parecem não ter
resistido ao tempo, em São Cristóvão) ficaram marcadas pela simplici-
dade rústica e pela pobreza dos interiores, são construções geralmente
térreas e com móveis simples e escassos (Azevedo, F. 1996).
A Igreja Matriz foi edificada por ordem de Felipe da Espanha,
para ser Sede Episcopal, em período marcado pela União Ibérica
(1580 a 1640). Para tal, foram colocadas armas na portada do tem-
plo, na qual permaneceram até o século XIX, próximo à Independên-
cia do Brasil (Vilela; Silva, 1989). A sua construção efetivamente só vai
ocorrer entre os anos de 1608 a 1616, por ordem do Bispo da Bahia, D.
Constantino Barradas.
A Igreja de Nossa Senhora da Vitória traz algumas características es-
senciais e que merecem destaque. Além de ser a mais antiga construção,
encontra-se no ponto mais alto da cidade de São Cristóvão e tem ao fun-
do o rio Paramopama. Esta descrição parece ser interessante e passível
de conjecturas em vários aspectos. Primeiramente ela mostra a preocu-
pação com a segurança, motivo principal para duas mudanças de sítio
até ser consolidada no local atual. O local escolhido permite uma fácil
visualização no caso de chegada de inimigos; sugerimos ainda que ao
situar a Igreja de Nossa Senhora da Vitória no ponto mais alto da cidade,
estabelece-se uma pretensa relação hierárquica, que caracterizou várias
cidades coloniais.

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A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas
no centro histórico da cidade de São Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza 113

A última imagem evidencia o posicionamento estratégico da Igreja

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Matriz. O centro histórico colonial vai ser estruturado de frente para sua
fachada. Em suas costas, a preocupação primordial estava centrada na
vigilância do rio Paramopama. À sua frente encontra-se a praça Getúlio
Vargas, também conhecida como praça da Matriz.
Segundo Prado Junior (morador do local, artista e pesquisador da
história de S. Cristóvão), durante o carnaval, uma festa tradicionalmente
profana, ocorriam os desfiles de fantasias, fobicas, concursos de bicicle-
tas e o baile da cidade na própria praça da Matriz. Havia o coreto de ma-
deira montado há mais ou menos meio metro de altura, onde a “socialite
brincava e dançava, animada por uma charanga4 formada por amigos
e amantes da música” (Prado Júnior, 2004), que animava as pessoas ao
som de antigas marchinhas de carnaval. Aqueles menos favorecidos
socialmente dançavam e pulavam circundando o coreto. Havia ainda o
carnaval privado.
As pessoas mais ilustres da sociedade faziam também seus bailes
de máscaras nos solares dos próprios “sobradinhos”. As festas particula-
res, também conhecidas como saraus, eram realizadas não só no carna-
val, como também no período junino e nas celebrações de aniversários.
Como era costumed as “sinhazinhas, senhoritas e damas da sociedade,
a exemplo da mãe de Vera Prado, minha prima, durante essas ocasiões
costumavam tocar piano na parte superior dos sobrados” (Prado Junior,
2004). Hoje, durante o carnaval na cidade de São Cristóvão, algumas
poucas pessoas saem acompanhando uma bandinha com instrumen-
tos de percussão e de sopro, percorrendo as ruas da cidade, jogando pó
branco entre eles e nas pessoas que encontram pelo caminho. Os foliões
guiam uma carroça, contendo aguardente de cana por eles distribuída e
consumida. Depois de percorrerem as ruas da cidade, os foliões continu-
am sua farra na praça São Francisco.
A praça da Matriz é o espaço, por excelência, onde são desenvolvi-
das sociabilidades. Nela ocorria a anual festa carnavalesca e ainda hoje
acontecem a procissão de Senhor dos Passos e os desfiles de Sete de Se-
tembro, reunindo assim elementos profanos, religiosos e cívicos que se
alternam, constituindo o ciclo de rituais públicos no entorno da praça da
Matriz. No “tempo cotidiano” as pessoas costumam se reunir em frente
à Igreja da Matriz para as tradicionais brincadeiras de crianças, os flertes
de jovens, que por ali passeavam.

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Cidades e Patrimônios Culturais
114 Investigações para a iniciação à pesquisa

A imagem seguinte retrata um momento festivo cívico na cidade


de São Cristóvão. Para aquele que observa da praça, portanto, em posi-
ção e sentido muito próximo das imagens a seguir, é possível observar,
da esquerda para a direita, um fragmento da torre da Matriz, ao lado, a
casa paroquial e, seguindo em um plano que não aparece nas imagens,
o prédio da Prefeitura Municipal.
Na imagem a seguir é possível perceber um desfile cívico de sete de
setembro, passando em frente à igreja da Matriz, pela casa paroquial e
seguindo rumo à sede da Prefeitura Municipal.
Logo à frente da igreja Matriz encontrava-se uma antiga residên-
cia. Atualmente, neste mesmo espaço, funciona a Superintendência
Municipal de Trânsito e Transporte de São Cristóvão. A atual configu-
ração do prédio demonstra traços de outro período histórico, indo de
encontro às descrições características das casas do período colonial.
Na imagem número quatro é possível perceber a ausência de jardins,
sua fachada, rente à rua, quase não deixava espaço para os passeios
nas calçadas. Esta atitude, com sentido e consciência, demonstra o ní-
tido interesse predominante à época, de evidenciar a perspectiva de
uma realidade urbana, moderna. Caracterizada pela presença de casas
muito próximas umas das outras, assinalada pela ausência do verde
(com pouca ou nenhuma árvore), esta era uma tendência que pairava
nas mentes citadinas muito mais do que ela realmente poderia ser na
realidade materializada (Reis Filho, 1978).

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A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas
no centro histórico da cidade de São Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza 115

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Tempo Comum / Ordinário
Foto 01. – Antiga casa localizada em frente a Matriz. Fonte: Secretaria Municipal de
Obras, Urbanismo e Meio Ambiente do Município de São Cristóvão.
Autor e data desconhecidos.

Tempo Comum / Ordinário


Foto 02. – Atual Superintendência Municipal de Trânsito e Transporte de São Cristóvão.
Foto: Fábio Souza, Fevereiro de 2004.
(SOUZA, 2004, p. 106).

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Cidades e Patrimônios Culturais
116 Investigações para a iniciação à pesquisa

Na atual Praça Senhor dos Passos encontra-se o Conjunto do Carmo.


O início de sua construção data do ano de 1618, com a chegada do grupo
de religiosos conhecidos como Carmelitas Calçados. Neste período ini-
cia-se a construção da Capela do Convento do Carmo, no ano de 1639. O
Conjunto engloba a antiga Igreja Conventual de Nossa Senhora do Car-
mo, conhecida como Carmo Grande, onde hoje se encontram localizados
o atual mosteiro de São Bento e a antiga Capela da Ordem III do Carmo. O
Carmo Pequeno corresponde à atual Igreja de Senhor dos Passos.

Tempo Comum / Ordinário


Foto 03. – Conjunto do Carmo.
Fonte: SILVA, Clodomir, 1920, p. 280.
Autor e data desconhecidos.

A Igreja Conventual, atual Mosteiro de São Bento, foi edificada no


século XVIII pelo Frei Antônio de Santa Eufrásia Barbosa. Trata-se de uma
edificação ao estilo barroco. O frontão, rico em decoração, conta com
pináculos nas extremidades e ostenta um escudo da Ordem Carmelita. A
galilé recebeu grades de proteção em ferro, no ano de 1986. O convento
“já existia nos fins do século XVII. Foi reedificado entre 1755 e 1763 por
Frei José Ângelo Teixeira, inspirado no modelo franciscano” (Carvalho,
1989, p. 24). Em 1847 o prédio da Igreja Conventual veio abrigar, em uma
de suas salas, o Liceu de São Cristóvão. Em 1922, século XX, o Convento
passou por reformas proporcionadas pelas irmãs Clarissas Concepcionis-
tas, vindo a funcionar o Colégio Imaculada Conceição. Dois anos após,
em 1924, foi fundado o Noviciado. E, finalmente, em 1983 a Igreja Con-
ventual veio a servir ao Mosteiro das Irmãs Beneditinas.

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A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas
no centro histórico da cidade de São Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza 117

Encontra-se hospedada no interior de suas instalações a imagem de

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Senhor dos Passos, achada por pescadores no rio Paramopama, no ano de
1855. Dona Jaci, 88 anos, moradora da cidade, relata a seguinte história:

Quando eu era menina, eu tinha uma tia muito antiga,


que assistiu à mudança da capital. Ela dizia que o Senhor
dos Passos os pescadores encontraram aí no mar [rio Pa-
ramopama]. Os pescadores vieram acompanhando aquele
caixão enorme. As pessoas então se perguntavam, o que
será, para onde vai? Quando chegou aqui pertinho, do Car-
mo Grande, lá na maré, o caixão parou. Quando parou, os
pescadores colocaram em terra, abriram e era a imagem
de Senhor dos Passos. Então, levaram para aquela igreja
[entenda-se a Igreja do Carmo] que era a mais próxima e
ficou lá até hoje. O povo antigo conta isso (Dantas, J. 2004).

Originalmente, havia apenas a cabeça de Senhor dos Passos. Logo


após foi feita uma armação em madeira e uma imagem coberta com
uma roupa, dando a impressão de haver corpo, quando de fato não há.
Ela apresenta, portanto, uma armação em madeira, coberta pela roupa,
caracterizando aquilo comumente denominado de “imagem de roca”.
No interior da Igreja do Carmo, mais precisamente em seu teto, são
encontradas várias pinturas. Elas são dedicadas à Santa Tereza D’Ávila e
cada um dos painéis representa um sonho da Santa. Em outro ambien-
te, ainda no Carmo, encontra-se o museu dos ex-votos5, dedicado ao
Senhor dos Passos. A título de curiosidade, segundo Kleber Luiz de Al-
meida (guia turístico)6, irmã Dulce teria começado sua jornada naquele
convento, por volta de 1933.
Uma festa muito tradicional da cidade é a procissão de Senhor dos
Passos. Ela ocorre quinze dias após a sexta-feira que antecede ao carna-
val e atrai dezenas de caravanas com peregrinos do Estado de Sergipe
e de outros Estados: “A festa de Senhor dos Passos ocorre anualmente
dentro do período da Quaresma, que por sua natureza já é um período
de penitência” (Prado Junior, 2004). Embora todas as igrejas tenham suas
penitências, a concentração maior está na igreja que dá nome à festa,
Igreja do Senhor dos Passos, anexo ao conjunto do Carmo.
Situada na antiga rua das Flores, ou na rua do Amparo, como tam-
bém é conhecida, encontra-se a Igreja Nossa Senhora do Amparo. Sua

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Cidades e Patrimônios Culturais
118 Investigações para a iniciação à pesquisa

construção data do final do século XVII, e é creditada à Irmandade do


Amparo dos Homens Pardos, instituída em 1690 e composta exclusi-
vamente por homens. Esta Irmandade foi extinta em 1902 e em 1907
a Igreja passou à administração do vigário da Cidade de São Cristóvão
(Azevedo, P., 1980; Vilela, Silva, 1989; Nunes, 2000).
Na Igreja de Nossa Senhora do Amparo é possível observar pedras
salientes em sua lateral esquerda. Muitas histórias surgiram entre os po-
pulares para justificar aquelas pedras, algumas inclusive muito curiosas
ou no mínimo exóticas. Um primeiro relato, contado pelo guia turístico
Kleber Luiz de Almeida, que parece contraditório, e segundo o próprio,
sem muita credibilidade, relata que os escravos escalavam aquelas pe-
dras nos dias de missa para tocar os sinos. A contradição está justamente
no fato de as saliências estarem localizadas no outro extremo da torre.
A segunda explicação, a que parece mais lógica, relata que as torres,
devido às dificuldades para sua construção, demoravam muito tempo
para serem erguidas e, neste caso, a mudança da capital teria provocado
um abandono, sobretudo dos poderes públicos, deixando em evidência
aquilo que provavelmente viria a se tornar uma outra torre. Curiosamen-
te estas saliências aparecem também no Palácio Provincial e possuem a
mesma justificativa. Há, no entanto, uma terceira explicação narrada por
Erundino Prado Junior: estaríamos a tratar de um prolongamento arqui-
tetônico, no qual ia ser construída a residência da irmandade de Nossa
Senhora dos Homens Pardos. Este relato também é curioso e intrigante,
pois as residências paroquiais, a exemplo da Igreja da Matriz, em São
Cristóvão e tantas outras, parecem respeitar um certo distanciamento
físico, espacial, em relação à igreja à qual ela está ligada. Se de fato esta
possibilidade fosse aceita não haveria o distanciamento entre igreja e
residência paroquial.
Prado Júnior conta que “depois do carnaval, já na quarta-feira de
cinzas, toda a sociedade se trancava em suas casas. As imagens sacras da
cidade eram todas cobertas com tecido roxo, indicando sinal de penitên-
cia”. Este gesto simbólico equivale a afirmar que a cidade está morta para
o mundo durante os quarenta dias da quaresma, período que se estende
da quarta-feira de cinzas até a sexta-feira da paixão, quando é celebrada
a morte de Jesus Cristo.
No sábado da Procissão do Encontro, durante o dia, conforme os
depoimentos dos carmelitas locais, extraindo-se os preparativos, tais

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A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas
no centro histórico da cidade de São Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza 119

como instalação do som, palanque etc., parece ser um dia normal, co-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


mum, como qualquer outro. Durante o final da tarde pode-se perceber a
gradativa chegada de peregrinos, em caravanas, nos ônibus que fazem
o percurso a São Cristóvão e em outros fretados, assim como nos carros
particulares. Às dezenove horas, com as pessoas devidamente concen-
tradas na praça do Carmo, dá-se início à celebração da missa. Uma ce-
lebração com músicas de refrões repetitivos que são tradicionalmente
cantadas no catolicismo.
Por volta das vinte horas e trinta e cinco minutos inicia-se um pe-
queno espetáculo pirotécnico, anunciando o fim da celebração eucarís-
tica e a passagem ao próximo momento – ato –, a procissão luminosa, a
Procissão das Velas. Neste momento “as pessoas saem com as velas ace-
sas acompanhando o Senhor dos Passos, até a matriz, em uma procissão
de penitência muito bonita” (Dantas, C. 2004).
No sábado à noite ocorre a tradicional Procissão das Luzes. Ela sai
do largo do Carmo, onde se encontra localizado o Conjunto do Carmo,
segue pela rua Pereira Lobo, até o cruzamento entre a antiga cadeia e o
sobrado de balcão corrido, situado na rua Ivo do Prado, daí ela segue até
a Igreja Matriz. O trajeto é percorrido com muita emoção e sentimento
no semblante dos fiéis e, apesar de relativamente pequeno, com aproxi-
madamente quinhentos metros, este espaço é percorrido por uma mul-
tidão de pessoas que gasta algo em torno de uma hora para colocar a
imagem em seu destino.
O tempo comum, na cidade de São Cristóvão, é marcado predo-
minantemente pelo vazio dos espaços públicos e, consequentemente,
pelo predomínio de poucas sociabilidades públicas, em virtude do bai-
xo número de pessoas nos espaços (neste período, ruas, praças e mu-
seus, tanto de Artes Sacras como o Museu Histórico, ficam praticamente
abandonados). Contudo, se realizássemos uma segunda imagem, nestes
mesmos espaços, em um dia de celebração religiosa, a exemplo da festa
de Senhor dos Passos, seria possível perceber uma realidade bastante di-
ferente, com ruas lotadas e pessoas entusiasmadas com a sua cidade. No
tempo festivo religioso, de acordo com o trabalho etnográfico, foi pos-
sível perceber que o ufanismo é bastante nítido e que aquele discurso
da “cidade velha” é substituído pelo discurso da “cidade mais bonita do
Brasil”, o que demonstra a apropriação destes espaços pela população.

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Cidades e Patrimônios Culturais
120 Investigações para a iniciação à pesquisa

Tempo Festivo Sagrado


Foto 04. – Festa de Senhor dos Passos
Imagem realizada durante a Procissão do Encontro.
Fonte: Secretaria Municipal de Obras, Urbanismo e Meio Ambiente do Município de
São Cristóvão.
Autor e data desconhecidos.

As construções que marcaram a primeira metade do século XIX pos-


suem predominante um caráter laico. Este traço sugere novos tempos
na sociedade brasileira, marcado pelo rompimento entre Estado e Igreja,
efetivamente consolidado com a Proclamação da República, no final do
século. Multiplicam-se as construções privadas localizadas entre os limi-
tes da Igreja Matriz, o conjunto do Carmo, o conjunto Franciscano e a
Igreja do Rosário. Os espaços das edificações são visivelmente reduzidos,
margeando as calçadas, com a predominante ausência de árvores, talvez
por conta da nova mentalidade urbana, que começava atuar com maior
intensidade na sociedade ocidental capitalista e que pretendia romper
com o passado rural.
Uma importante obra, não religiosa, ainda hoje conservada, que data
do século XVIII, é o sobrado de balcão corrido, guarnecido por madeira
esculpida com decoração em volutas, sendo uma antiga residência cons-

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A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas
no centro histórico da cidade de São Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza 121

truída com forte influência moura, localizada na praça Getúlio Vargas, nú-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


mero 40. Trata-se de um espaço ímpar, pois por ali passavam quase todas
as manifestações religiosas e na sociedade em que o Estado encontra-se
aliado à Igreja este parece ser um espaço privilegiado para poucos.
As construções deste período ficaram marcadas pelas profundas
mudanças que ocorreram nos cenários nacional e local. Em 08 de julho
de 1820 Sergipe livrou-se da submissão baiana através do decreto de D.
João VI, o qual dizia assim:

Convindo muito ao bom regime deste Reino do Brasil e


à prosperidade a que me proponho elevá-lo, que a Ca-
pitania de Sergipe d’EI-Rei tenha um govêrno indepen-
dente do da Capitania da Bahia: hei por bem isentá-la ab­
solutamente da sujeição em que até agora tem estado do
govêrno da Bahia, declarando-a independente totalmen-
te para que os governadores dela a governem na forma
pra­ticada nas demais capitanias independentes (Governo
do Estado de Sergipe, 1969, [s.p.])

O período ficou marcado não só pela Independência de Sergipe,


como também pelas gradativas alterações dos traços que caracteriza-
ram suas edificações, principalmente pelo caráter laico. A paisagem são-
cristovense, por sua vez, passou a ser constituída por edifícios menores
que os dos séculos anteriores, representando talvez as primeiras tentati-
vas voltadas para a modernidade, com características mais urbanas em
detrimento do estilo agrário, feudal e, acima de tudo, religioso, que pre-
dominou nos séculos XVII e XVIII.
As edificações do começo do século XIX avançavam sobre os limites
laterais e sobre o alinhamento das ruas. Elas se assemelhavam “pela sim-
plicidade dos esquemas, com suas paredes grossas, suas alcovas e corre-
dores, telhados elementares e balcões de ferro batido” (Reis Filho, 1978,
p. 34). Durante este século a arquitetura brasileira assistiu à gradativa
substituição do Barroco, que predominou durante quase todo o período
colonial, cedendo espaço para o Neoclassicismo, sobretudo a partir da
vinda da Missão Francesa ao Brasil, vindo a se tornar a arquitetura oficial
durante o primeiro e segundo Império (Reis Filho, 1978).
A praça São Francisco reúne em um mesmo espaço estilos arqui-
tetônicos distintos. Eles se estendem desde aqueles que caracterizam

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Cidades e Patrimônios Culturais
122 Investigações para a iniciação à pesquisa

o período colonial, a exemplo do Convento Franciscano e a antiga San-


ta Casa de Misericórdia, com predominância de traços religiosos, até
aqueles de caráter político, como o antigo Palácio Provincial. Este é um
espaço de sociabilidades por excelência. Nesta praça é possível perce-
ber celebrações festivas sagradas, profanas etc. A sequência mostra três
eventos que ocorrem regularmente na praça São Francisco: A celebração
da Procissão do Encontro, o Festival de Arte de São Cristóvão (FASC) e a
Seresta da Cidade de São Cristóvão.
Durante a Procissão do Encontro, encontra-se montado um palan-
que entre os prédios do Museu Histórico de Sergipe e do orfanato (an-
tiga Santa Casa de Misericórdia). Neste momento o Senhor dos Passos
encontra-se com sua mãe, Nossa Senhora. O ato ficou então conhecido
como Procissão do Encontro que, segundo relatos, trata-se de

(...) uma procissão muito bonita, com as ruas cheias de


gente, vindo inclusive pessoas da cidade do Rio de Janei-
ro para essa festa. (...). Eu tenho uma tia que assistiu à mu-
dança da capital. Ela contava que teve um ano que o vigá-
rio não quis fazer a procissão, o sino tocou, e as portas da
igreja se abriram todas sem ninguém dentro. Aí fizeram e
nunca mais deixaram de fazer. (Dantas, J. 2004)

A imagem a seguir foi realizada entre os cruzamentos onde estão


localizados o Museu Histórico de Sergipe, a antiga Assembleia e o orfa-
nato. Nela é possível perceber uma multidão reunida para a celebração
do encontro. Até 2004, pelo menos, havia um número expressivo de fiéis
que se deslocavam de vários municípios e até de outros Estados para
acompanhar a festa de Senhor dos Passos. Nesta procissão Jesus e Maria
percorrem caminhos diferentes e as ruas da cidade ficam estreitas para a
multidão que está a acompanhar.
Apesar dos caminhos que as sociedades parecem trilhar, rumo a
uma crescente secularização, parece ser nos rituais sagrados que é pos-
sível perceber a força simbólica de um bem apropriado pela comunida-
de. Isto só parece acontecer porque, antes de tudo, há uma identificação
entre o bem e os atores sociais, que de fato praticam a ação, bastante
nítida nos sentimentos e emoções daquelas pessoas.
A Santa Casa de Misericórdia representa um marco de todo e qual-
quer pólo de colonização lusa (Boxer apud Silva Filho, 2000). Em Sergi-

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A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas
no centro histórico da cidade de São Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza 123

pe Del Rei, a iniciativa partiu de autoridades administrativas e colonos,

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


aglomerando homens, como Belchior Dias Moreyra (Freire, 1977), que
haviam combatido na expedição de Cristóvão de Barros (Silva Filho,
2000). Ela data do período entre 1607 e 1622 (Almeida apud Silva Filho,
2000, n.p.), não se sabe ao certo se a decisão emanou do governo da
Bahia, contudo, é sabido que as doações de terra para sua construção
partiram de oficiais e moradores da nova capitania. Dentre os benfeito-
res da instituição, figura Belchior Dias Moreyra e seu filho, Rubélio Dias
Moreyra, além do capitão-mor Antônio Pinheiro de Carvalho e o prove-
dor Cosme Barbosa e Balthazar Barbunda (Nunes,1996).
Ela funcionava não só como capela, mas também como hospital
de caridade. A Capela, datada da primeira metade do século XVII, foi
construída no estilo Barroco. Sua torre sineira liga-se à ala do antigo
hospital com grande equilíbrio e riqueza de estilo. A instituição chegou
a desempenhar outras funções ao longo dos séculos, inclusive econô-
micas, promovendo o desenvolvimento social na cidade, emprestando
dinheiro ou materiais para a construção e/ou reforma de casas e esta-
belecimentos comerciais. Ao longo do século, a Santa Casa de São Cris-
tóvão é identificada com o Hospital São Mateus. Atualmente a Santa
Casa abriga o Lar Imaculada Conceição (Orfanato feminino que acolhe
cerca de 100 crianças).
O período compreendido entre 1637 a 1645 ficou marcado por in-
tensas lutas. Logo a economia da capitania esteve emperrada e gerava
prejuízo à lavoura e ao rebanho. São Cristóvão transformou-se em palco
de intensas batalhas entre portugueses e flamengos e o hospital de ca-
ridade participou ativamente, servindo às duas partes inimigas, socor-
rendo os feridos. Em 1645, após a expulsão dos holandeses do território
sergipano, buscou-se a retomada do desenvolvimento urbano e econô-
mico. Na capitania de Sergipe Del Rei reinava o desgoverno e a miséria
da população, em uma sociedade marcada pela degeneração dos costu-
mes (Mott, 1986, p. 22-23).
A praça São Francisco além de concentrar um número expressivo
de monumentos edificados ao longo de séculos é um locus onde são de-
senvolvidas atividades sociais ao longo do ano. A exemplo da Procissão
do Encontro, ocorre ainda, semanalmente, toda sexta-feira, uma seresta
durante a noite, e anualmente o Festival de Arte de São Cristóvão (FASC),
realizado durante o mês de dezembro.

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Cidades e Patrimônios Culturais
124 Investigações para a iniciação à pesquisa

O FASC foi realizado pela primeira vez em 1972 sob patrocínio da


UFS, FUNART, Governo do Estado de Sergipe e da Prefeitura Municipal
de São Cristóvão. Tradicionalmente, o festival realizado anualmente
ocorria no mês de setembro. Aos poucos ele começa a perder força e
passa por um período instável, vindo a ocorrer nos meses de outubro,
novembro e até mesmo em dezembro. A programação do evento consta
de diversas áreas culturais e artísticas com apresentações de espetácu-
los, exposições, manifestações folclóricas, cursos e seminários de folclo-
re, música, teatro, artesanato e literatura. Pelo palco do FASC já passaram
desde artistas locais até aqueles de nome e projeção nacional, a exem-
plo de Pepeu Gomes, Sivuca, Gilberto Gil, Guilherme Arantes etc.
Ainda na praça São Francisco vêm sendo realizados, aproximada-
mente desde o início de 2003, todas as sextas-feiras, espetáculos artís-
ticos musicais. A seresta da cidade de São Cristóvão a cada quinze dias
traz para o público uma atração nacional. Antes do show, na praça São
Francisco, as pessoas percorrem a cidade ao som de músicas executadas
de modo acústico, as pessoas saem da igreja matriz e, percorrendo as
ruas do centro histórico, vão em direção ao palco do evento, localizado
na praça São Francisco.
No sobrado ao lado do Museu Histórico de Sergipe, localizado na
rua Erundino Prado, número 50, já funcionou a antiga Assembleia de São
Cristóvão. No seu interior uma realidade totalmente diferente da sua fa-
chada, pois há descuido, com o piso em madeira tomado pelo cupim.
Na praça São Francisco encontra-se “o Palácio [...] dos Presidentes de
Província de São Cristóvão, o qual foi edificado em data desconhecida,
[com] vinte e dois metros de frente e igual metragem ao fundo” (Vilela;
Silva, 1989, p. 42). Originalmente, pertencia ao Tenente Domingos Rodri-
gues Vieira de Melo, tendo sido comprado pelo valor de 4.358.323 mil
réis, no ano de 1823, durante o governo do Brigadeiro Carlos César Burla-
marque, que havia sido nomeado o primeiro governador da Capitania de
Sergipe d’EI-Rei em 1820 e somente veio a tomar posse no ano seguinte.
A partir de então, São Cristóvão, a vila mais importante de Sergipe, ficou
sendo a capital, contudo, só seria elevada à categoria de cidade através
da carta de lei de 08 de abril de 1823, assinada por D. João VI. O sobrado
tornou-se, então, a residência dos Presidentes de Província e nos anos de
1825 e 1826, na gestão do Presidente Manuel Clementino Cavalcante de
Albuquerque, “foram introduzidos elementos de decoração neoclássica,

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A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas
no centro histórico da cidade de São Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza 125

estilo já consagrado no Brasil desde a vinda da Missão Francesa em 1816”

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


(Nascimento, 1991, p. 84). Mesmo sendo considerado “um dos melhores
palácios presidenciais do País” (Nascimento, 1991, p. 84), não resistiu ao
duro golpe a que assistiu, a transferência da Capital e, a 14 de janeiro de
1865, uma década após este histórico evento, o Palácio foi levado à arre-
matação, não havendo, no entanto, nenhuma oferta. No dia 17 de março
de 1855 foi assinada a Resolução nº 413, transferindo a Capital da cidade
de São Cristóvão para Aracaju. O antigo Palácio Imperial abriga hoje o
Museu Histórico de Sergipe.
Tanto Erundino Prado Junior (2004) como o guia turístico Kleber Al-
meida afirmaram que o Palácio Provincial é uma obra inacabada. Prado
inclusive vai mais longe e afirma que o projeto para o prédio seria o de
ocupar todo o quarteirão. A evidência encontra-se na lateral do prédio,
tal como na Igreja do Amparo, que também apresenta algumas saliên-
cias em superfície.
O Conjunto Franciscano teve sua construção decidida em 1657,
época da chegada dos Franciscanos em São Cristóvão. O superior da Or-
dem era o Frei Luiz do Rosário, frade franciscano português.O conjunto
só foi concluído na segunda metade do século XVIII, devido à pobreza
da Ordem Franciscana e da sociedade da época. São do século XVIII o
frontão, a sacristia, o claustro e os retábulos.
A Igreja da Irmandade dos Pretos ou, como é mais conhecida a
Igreja do Rosário, encontra-se localizada na antiga rua do Rosário, hoje
rua Erundino Prado. Edificada pelos membros da Irmandade do Rosá-
rio dos Homens Pretos, no século XVIII, teve o início de sua construção
cravado no lavabo em cantaria datada do ano de 1743. Trata-se de um
prédio com predominância de linhas retas e com frontão triangular.
Esta igreja representava o centro dos “festejos de tradição africana,
como a Taieira e a Chegança. Atualmente ainda se realiza a Procissão
dos Fogaréus e a Chegança, com participação exclusivamente mascu-
lina” (Carvalho, 1989, p. 19).

4 – Breves considerações
Já há algum tempo Sergipe sugere oferecer nítidos sinais de inte-
resse de sua inserção nas agendas turísticas do Nordeste, por meio de
eventos públicos, ritualísticos, ecológicos etc. É perceptível a preocupa-

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Cidades e Patrimônios Culturais
126 Investigações para a iniciação à pesquisa

ção das autoridades públicas em relação ao turismo. Contudo exigem


as políticas um alto custo, principalmente simbólico, afetivo. Elas devem
ser apropriadas, antes de tudo, pela comunidade local. E isto só parece
ser possível através da apropriação de seus atores sociais com aquilo que
eles se reconhecem e se identificam.
São Cristóvão, enquanto cidade colonial, tem relevância histórica
reconhecida desde 1938, quando foi classificada como cidade-monu-
mento do Estado de Sergipe. Ela conserva ainda hoje em sua paisagem
elementos edificados ao longo de séculos, que permaneceram pratica-
mente inalterados pelos processos urbanos de revitalização, amplamen-
te estudados por Leite (2001) e Zukin (2000). Contudo, apesar de todos
esses aspectos positivos, São Cristóvão, em seu tempo comum, cotidia-
no, ordinário parece de fato esquecida no tempo, desabitada, desértica,
só vindo de fato a ocupar suas ruas, de modo expressivo, nos momen-
tos ritualísticos. É aí que a cidade de São Cristóvão parece mostrar sua
força, em especial, na festa de Senhor dos Passos e no Festival de Arte
de São Cristóvão (FASC). Estes rituais presenciam um nítido entusiasmo
dos moradores da cidade. Enfim, são manifestações que só funcionam
“dentro de confinamentos culturais precisos [...] culturas históricas espe-
cíficas que possuem conotações emocionais fortes para aqueles que as
compartilham” (Smith, 1999, p. 190-1). Em especial a festa de Senhor dos
Passos – diferente do FASC, pensado e “imposto” à comunidade pelos
agentes culturais, sobretudo aqueles vinculados à UFS – mostra sua for-
ça, pois ela não apenas sobrevive, mas ganha força e vitalidade a cada
ano. Isto parece se dever essencialmente pelo motivo de trabalhar com
motivos locais, que despertam o interesse dos atores sociais, que res-
pondem positivamente se apropriando da festa.
A festa de Senhor dos Passos, na cidade de São Cristóvão, constitui
um exemplo significativo para ser seguido pelos agentes culturais pa-
trimoniais. Nela, é possível perceber a união de uma “atividade racional
visando um fim prático e uma atividade comunicacional, mediada por
símbolos” (Santos, 2002, p. 315). Essa fórmula estabelece uma condição
necessária para a ação perpassa a adoção de estilos “vernaculares”, nos
quais os indivíduos possam se reconhecer (Smith, 1999).

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A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas
no centro histórico da cidade de São Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza 127

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A cidade em dois tempos: Sociabilidades cotidianas e ritualísticas
no centro histórico da cidade de São Cristóvão – SE
Fábio Silva Souza 129

Entrevistas

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


ALMEIDA, Kleber Luiz de. Entrevista concedida a Fábio Silva Souza, 06 de fevereiro
de 2004. [Guia turístico mirim].

DANTAS, Celuta Fenandes., Entrevista concedida a Fábio Silva Souza, 14 de feve-


reiro de 2004. [Moradora da cidade de São Cristóvão].

DANTAS, Jaci Fenandes. Entrevista concedida a Fábio Silva Souza, 14 de fevereiro


de 2004. [Moradora da cidade de São Cristóvão].

PRADO JUNIOR, Erundino.Entrevista concedida a Fábio Silva Souza, 22 de feve-


reiro de 2004. [Morador, artista e pesquisador da história de São Cristóvão].

Notas
1 O presente trabalho compreende parte da dissertação intitulada “Arqueologia
do cotidiano: um flâneur em São Cristóvão-Sergipe”, rientada pelo Prof. Dr. Rogério
Proença Leite e apresentado ao Núcleo de Pós-Graduação em Geografia (NPGEO/
UFS), na Área de Concentração “Formas e Processos Tradicionais de Ocupação Territo-
rial”: Estudos Arqueológicos.

2 A exemplo das ruínas gregas, visitadas anualmente por milhões de turistas.

3 A expressão “passeio casual” estaria mais próxima de algo poético, algo que de fato
venha a designar o “espírito” do trabalho de campo. Na realidade, foram necessárias várias
incursões e diversas conversas com moradores, guias turísticos, arquitetos etc.

4 Termo comumente empregado para as “bandinhas musicais”. Formadas essencial-


mente por instrumentos de sopro e de percussão elas saíam pelas ruas a tocar as marchi-
nhas populares.

5 No museu dos ex-votos encontram-se fragmentos de pernas, braços, mãos etc, geral-
mente em madeira, deixado por pessoas que fizeram algum tipo de promessa ao Senhor
dos Passos e acreditam ter alcançado a cura para aquele determinado problema.

6 Kleber Luiz de Almeida é “guia mirim” vinculado ao programa de guias turísticos do


Banco do Nordeste.

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131

Cultura Popular, Patrimônio Imaterial

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


e Performance na festa do Lambe-Sujo
de Laranjeiras/SE1
Mesalas Ferreira Santos

Falar sobre cultura é estabelecer um longo diálogo com os múlti-


plos escritos acerca desta palavra. A partir do século XIII vários autores
se debruçaram sobre tal temática, estabelecendo pareceres diversos,
na procura infindável por algo que pudesse dar conta da unidade da
humanidade na diversidade. Antes mesmo de surgir a necessidade de
examinar esta diversidade de forma científica, a palavra “cultura” figurava
séculos atrás com outra conotação da conhecida atualmente.
Na França do século XIII a palavra “cultura”, originada do latim, sig-
nificava o “cuidado dispensado ao campo ou ao gado”, servindo para
ilustrar uma parcela de terra cultivada (Elias, 1990, p. 23) No século XVI
ela se desvencilha de um caráter de estado e recebe um complemen-
to, designando “cultura das artes”, “cultura das letras”, “cultura das ideias”.
Gradualmente, a palavra vai modificando seu sentido até ser emprega-
da para designar a formação e o desenvolvimento intelectual através da
educação plena do espírito. É neste sentido que logo ela se associará às
concepções do Iluminismo – ideal de progresso, evolução e razão. Neste
sentido, ao conceber a cultura como civilization, em que os códigos de
etiqueta prevaleciam sobre atitudes racionais em detrimento de com-
portamentos considerados como inadequados da cultura popular, os
franceses enfatizaram o processo ideológico que supostamente arran-
caria a humanidade da ignorância e irracionalidade (Cuché, 2002, p. 22).
Esta concepção universal da ideia de cultura logo é propagada para
os demais países da Europa, onde os sofisticados padrões de comporta-
mento francês ganham adeptos. Na Alemanha do século XVIII e XIX a sua
aristocracia cada vez mais assimilava para si estes padrões, distanciando-
se das demais camadas sociais. Este afastamento afetou a relação entre
aristocracia e burguesia alemãs e com apoio popular iniciou, através da
intelligentsia, uma série de repúdios à incorporação dos valores estran-
geiros à cultura germânica. A crítica destinada aos que governavam os
diferentes Estados alemães pautava-se no argumento de que era neces-

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Cidades e Patrimônios Culturais
132 Investigações para a iniciação à pesquisa

sário deixar os valores franceses de lado e enaltecer a própria cultura. A


palavra kultur serviu, assim, como a tomada de consciência alemã rumo
a contrapor-se ao que era considerado somente aparência, refinamento
superficial, oriundos da concepção de civilização francesa. Para a intelli-
gentsia alemã era imperativo o enaltecimento da sua kultur em resposta
aos padrões totalizantes franceses.
Esta discussão acerca da gênese social da palavra cultura, a partir da
antítese Civilization e Kultur, serviu amplamente para trazer à baila o con-
ceito de cultura nas ciências sociais. Em especial, a antropologia focou
particularmente a necessidade de entender a diversidade de modos de
comportamento espalhados pelo mundo. Nesta busca, várias foram as
contribuições para o entendimento de fenômeno tão burilado em todo
estudo antropológico.
A primeira definição etnológica de cultura é devida a Edward Tylor
(1871), que a conceitua como um conjunto complexo que inclui o conhe-
cimento, as crenças, a arte, a moral, os costumes e outras capacidades ad-
quiridas pelo homem (Tylor, 1871, p.1). Desde seu surgimento no cenário
etnológico, com Tylor, o conceito de cultura ocupou boa parte do tempo
de vários autores de grosso calibre – Boas, Malinowski, Ruth Benedict,
Margaret Mead, Lévi Strauss e Clifford Geertz etc. –, que se debruçaram
sobre o tema na intenção de entendê-lo em suas mais diversas formas.
A cultura como um meio de relação entre o homem e a socieda-
de em interação nos permite pensar a diversidade não como produto
do acaso, oriunda de uma possível imobilidade cultural ou por conta de
uma suposta fixidez das formas culturais, mas entendê-la como um cam-
po de disputas onde os indivíduos se inserem através de uma lingua-
gem performática, transmitida e codificada pelos seus, via marcadores
simbólicos, em que signos são acionados numa determinada situação
e estabelece, assim, a diferença. Nascida nas relações sociais, a cultura
é produzida neste contato entre os grupos, que de forma desigual de-
semboca numa hierarquia. Portanto, apreender este contato em que os
indivíduos acionam sua identidade cultural via marcadores simbólicos, a
fim de estabelecer uma forma de identificação entre os seus e estipular a
diferença para os outros é preponderante para buscarmos um entendi-
mento acerca da relação entre cultura, patrimônio e performance.

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Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Performance na festa do
Lambe-sujo de Laranjeiras/SE.
Mesalas Ferreira Santos 133

O popular imaterial

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


As análises sobre a cultura popular estão recheadas de interpreta-
ções variadas: há quem associe esta a uma possível falta de saber das
classes populares; atribuem o papel de resistência contra a dominação de
classe (a tese minimalista diz que a cultura popular é vista como marginal
e a maximalista pretende ver a cultura popular como autônoma, autên-
tica e sem nenhuma relação com uma cultura dominante). Na verdade,
estas análises pecam ao tentar interpretar a cultura popular sob formas
fixas, estanques, presas a concepções rígidas de forma e conteúdo.
A visão romantizada do “popular” – associada às questões de tra-
dição, de classe, como um estrato “autêntico” e “autônomo” –, tão difun-
dida pelos defensores da particularidade cultural, merece uma com-
preensão detalhada. Pelo fato de a natureza não ser estática, o que se
espera ao longo do tempo é a destruição de estilos específicos de vida
e a sua transformação em algo novo. Em se tratando de cultura popular,
as transformações representam o centro de estudo e transformações da
cultura, corroborando com a visão de que não existe uma cultura popu-
lar íntegra, situada fora do campo de força das relações de poder e de
dominações culturais:

O significado de um símbolo cultural é atribuído em


parte pelo campo social ao qual está incorporado, pelas
práticas às quais se articula e é chamado a ressoar. O que
importa não são os objetos culturais intrínseca ou histo-
ricamente determinados, mas o estado do jogo das rela-
ções culturais (Hall, 2003, p. 258)

Na definição do que seria o popular na cultura, Stuart Hall elucida


algumas formas: algo é tido como popular porque as massas escutam,
compram, leem, consomem, apreciando-o imensamente. Apesar de esta
concepção não ser a defendida pelo autor, ele tem restrições a dispensá
-la completamente, pois o século XX é o século do consumo e influencia-
do pela indústria cultural. Desta forma, é de se deduzir que um número
substancial de pessoas estejam inclusas entre as receptoras de produtos.
Os indivíduos, por conviverem em sociedade, direta ou indiretamente
são influenciados pela força e poder da indústria de massa, a qual mode-
la e reforça constantemente aquilo que representa.

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Cidades e Patrimônios Culturais
134 Investigações para a iniciação à pesquisa

Outra acepção de popular seria todas essas coisas que o povo faz ou
fez, o que aproxima de uma definição antropológica do termo: a cultura,
os valores, os costumes e mentalidades do povo. Esta definição também
causa estranheza, pois define o conceito de popular através de um inven-
tário descritivo. Não se pode simplesmente categorizar as coisas que o
povo faz e as que não faz, pois, como dito anteriormente, nada é estático
ou limitado a classes ou categorias e de tempos em tempos os conteúdos
dessas categorias mudam, são diluídos, pois são as instituições e os repre-
sentantes do poder que sustentam e reafirmam estas mudanças2.
Por fim, o autor optou por uma última definição para o termo po-
pular, a qual considera as formas e atividades cujas raízes se situam nas
condições sociais e materiais de classes específicas, não sendo necessa-
riamente incorporada às tradições e práticas populares. Considera, neste
sentido, como as relações de domínio e subordinação são articuladas,
sobretudo a influência das formas e atividades culturais como um cam-
po sempre variável. Em seu centro estão as relações de forças mutáveis e
irregulares, que define o campo da cultura transformada.
Neste jogo de disputas entre as forças em concorrência, algumas
formas culturais deixam de existir, dando lugar a expressões que po-
dem permanecer com resquícios de uma forma anterior como podem
também não deixar nenhum espólio. Procurando frear o ritmo de desa-
parecimento das formas culturais e, consequentemente, preservar uma
possível identidade nacional, surge a concepção de patrimônio cultural.
No Brasil, através do SPHAN, havia a preocupação com o chamado
patrimônio de pedra e cal, que são os museus, casarões, sobrados, igrejas
etc. Esta preocupação decorreu das profundas transformações ocorridas
a partir da metade do século XX, que revelou a destruição e descaracte-
rização sistemática da paisagem urbana e da arquitetura (Laraia, 2004).
Vendo esta relativa perda, os intelectuais do ISEB e CPC tinham a preocu-
pação de formular uma ideologia do desenvolvimento a partir de uma
tomada de consciência da dependência dos países subdesenvolvidos
com relação aos centros de decisão econômicos e culturais, tendo a cul-
tura popular como fio condutor desta ideologia. Para o CPC a cultura po-
pular não é uma concepção de mundo das classes subalternas, como o
é para Gramsci (1989), mas um projeto político que utilizou a cultura como
elemento de sua realização, levando cultura às massas, dentro de uma pers-
pectiva de exterioridade (Ortiz, 1994, p.72):

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Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Performance na festa do
Lambe-sujo de Laranjeiras/SE.
Mesalas Ferreira Santos 135

É sobre um universo de bens que vão incidir as ações de

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


documentação, proteção e promoção que conferem a
esses bens, aos olhos da sociedade, um valor específico,
enquanto materiais de memória e enquanto “referências
culturais” (Londres, 2004, p.07).

Progressivamente, alguns estudiosos e a pressão popular, através


de setores organizados da sociedade civil, amadureceram a ideia de tam-
bém incluir estas manifestações e expressões do dito saber popular junto
às políticas de salvaguarda do Estado. Assim, já intitulado IPHAN, somen-
te a partir do decreto lei 3.551 de 04 de agosto de 2000, institui-se o Re-
gistro de Bens Culturais de Natureza Imaterial. A partir de uma relação
dialógica entre poder público e comunidade, estabelece formas legais de
preservação de bens culturais e estipula a salvaguarda de bens imateriais.
Em 2007, no município sergipano de Laranjeiras, bastante conhe-
cido pelo seu rico folclore, ocorreram algumas ações do IPHAN, entre as
quais catalogar as manifestações populares a partir do INRC – Inventário
Nacional de Referências Culturais. O objetivo foi identificar, documentar
e registrar bens culturais a partir da noção de referência cultural, que
se relaciona com a configuração de uma “identidade” da região para
seus habitantes, que remete à paisagem, às edificações, aos objetos,
às crenças, aos hábitos. Além disso, o ato em apreender as referências
culturais pressupõe não apenas a captação de determinadas represen-
tações simbólicas, como também a elaboração de relações entre elas e
a construção de sistemas que divulguem aquele contexto cultural, no
sentido de representá-lo:

Referência é um termo que sugere remissão; ele designa


a realidade em relação à qual se identifica, baliza ou es-
clarece algo. No caso do processo cultural, referências são
as práticas e os objetos dos quais os grupos representam,
realimentam e modificam a sua identidade e localizam a
sua territorialidade. São referências os marcos e monu-
mentos edificados ou naturais, assim como as artes, os
ofícios, as festas, e os lugares a que a vida social atribui rei-
teradamente sentido diferenciado e especial: são aqueles
considerados os mais belos, os mais lembrados, os mais
queridos, os mais executados (Arantes, 2001, p.130)

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Cidades e Patrimônios Culturais
136 Investigações para a iniciação à pesquisa

A partir desta demarcação teórico-metodológica analisaremos um


objeto fenomenológico para ilustrar o entendimento acerca de tamanha
amplitude temática. No tocante a referências culturais, tomo para aná-
lise a festa do Lambe-Sujo – em cujo centro estão reunidos indivíduos
que representam os antigos escravos que recebem o nome da festa de
um lado, e, de outro, os chamados caboclinhos, representantes dos ín-
dios –, momento festivo que ocorre através de atos performáticos, isto é,
encenam a sua história, procuram dar sentido às suas ações e reforçam,
assim, seu caráter identitário.

Laranjeiras/SE: o contexto festivo


A cidade nasceu por volta de 1594 como povoação da vila Nossa
Senhora do Socorro, tendo sua colonização iniciada após a conquista
de Sergipe por Cristóvão de Barros. O núcleo que deu origem à atual
Laranjeiras surgiu, provavelmente de uma feira que funcionava nas pro-
ximidades do porto fluvial onde era embarcado o açúcar produzido na
região e de lá escoava para todos os engenhos do vale. Com o terreno
de massapé, propício para o cultivo da cana-de-açúcar, Laranjeiras vê
seu desenvolvimento econômico aflorar através dos vastos campos de
plantações às margens férteis do rio Cotinguiba, gerando um comércio
de onde advinham pessoas de várias localidades (Martucelli Neto, 1969).
A colonização do município de Laranjeiras seguiu os mesmos prin-
cípios de ocupação verificada no Brasil. O branco aventureiro português
e o negro extirpado do seu contexto social em detrimento da lógica es-
cravocrata se configuram nas etnias iniciais da cidade. Neste contato, por
demais cruel para os negros, a cidade de Laranjeiras foi adquirindo um
ethos que a colocava em posição de destaque em relação às outras cida-
des da Província de Sergipe.
Esta posição de destaque é percebida por meio do forte crescimen-
to econômico, que se dá através do cultivo da cana-de-açúcar, atraindo
não só comerciantes, mas também uma elite intelectual que faz com que
a cidade recebesse a alcunha de Atenas Sergipana. Através do processo
de formação podemos concluir que no final do século XIX Laranjeiras
foi reconhecida como uma cidade rica, culta e negra, adquirindo, assim,
uma posição privilegiada em relação às demais cidades. Neste processo
de formação a cidade recebe forte influência religiosa por parte dos je-

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Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Performance na festa do
Lambe-sujo de Laranjeiras/SE.
Mesalas Ferreira Santos 137

suítas e dos escravos africanos, no qual deram grande contribuição na

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


diversidade tanto cultural quanto religiosa da região.
Ao caminhar nas ruas, subitamente uma sensação nostálgica reve-
la-se na forma de incontáveis morros e colinas que se fazem presentes
em qualquer parte que se vá, dando a impressão de uma muralha de
proteção a quem a visita. No alto de alguns destes morros, na cidade e
nas suas proximidades, é comum ver igrejas católicas das quais as mais
antigas datam do século XVI. De certa forma, esta proteção ganha fôlego
nas explicações da população local em que é corrente o discurso de que
as igrejas protegem a cidade.
Aparentemente, o pesquisador desavisado pode achar que a re-
ligiosidade dos moradores laranjeirenses fica somente no campo do
catolicismo. Andando nas pequenas ruas é comum encontrar templos
protestantes de todos os tipos, mas em especial, os terreiros de Xangô
– sendo análogo ao Candomblé da Bahia –, que, no passado, sofreram
com as várias repressões policiais que tolhiam o culto aos orixás.
A proibição de funcionamento, em nome do combate ao curandei-
rismo e à feitiçaria, não atinge o terreiro de Santa Bárbara Virgem, que
ao reivindicar a pureza da tradição nagô nada sofria de embargos às suas
atividades religiosas. Beatriz Góis Dantas (1988) mostrou como através
desta reivindicação de singularidade africana difundida, sobretudo, pe-
los intelectuais da época, o terreiro nagô se diferenciava dos Torés –, que
eram considerados impuros –, como forma de sobrevivência em meio às
agruras impostas pelos policiais.
A diversidade religiosa da cidade de Laranjeiras, incrementada, so-
bretudo, pelos traços marcantes dos jesuítas e dos negros escravizados
e impulsionada através dos seus ritos e celebrações festivas. Em pleno
contato, catolicismo e as religiões africanas produziram em seus ritos
um enaltecimento da origem, a forma engessada de um padrão de com-
portamento, a busca de uma singularidade que a torne diferente. Estes
ritos se iniciaram particulares a cada religião, mas no processo de conta-
to entre as etnias, puseram-se justapostos e ao refazer o percurso pas-
sado-presente são representados, em Laranjeiras, pelas manifestações
artísticas culturais populares.
Inúmeros grupos folclóricos refazem este trajeto, de maneira a con-
tar suas histórias de maneira lúdica, causando, assim, uma atualização

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Cidades e Patrimônios Culturais
138 Investigações para a iniciação à pesquisa

das narrativas, tais como Cacumbi, Reisado, Chegança, Taieira, São Gon-
çalo, Samba de Coco, Samba de Pareia e muitos outros. Alguns deles se
apresentam diante dos altares das igrejas e prestam homenagens aos
santos de sua devoção, revelando, a priori, uma identidade ligada ao sa-
grado e ao festivus.
Nesta forma de representar uma singularidade, a festa do Lambe-
Sujo de Laranjeiras procura encenar o conflito entre os caboclos e os ne-
gros fugidos, que viam no quilombo a salvação para as agruras impostas
pelo sistema escravocrata. Em outros estados existem manifestações fol-
clóricas similares ao Lambe-Sujo, como é o caso da Bahia, onde o evento
é conhecido por Negro Fugido e em Alagoas por Quilombos.
Em todos estes lugares é comum relacionar a festa como uma re-
memoração de um passado escravocrata no qual o negro fugido é cap-
turado pelos índios a serviço do homem branco. De certa forma, este
discurso serve como cortina, deixando de revelar particularidades dos
processos que são constitutivos na construção da festa. Para tanto, faz-
se necessária, para um melhor entendimento, uma descrição minuciosa
dos fatos que montam o festejo, traçando o percurso desde a sua prepa-
ração até o evento em si, descrevendo com pormenores as particularida-
des, procurando apreender os mecanismos que em convergência fazem
a festa do Lambe-Sujo de Laranjeiras.

Sábado – dia anterior à festa


O galo anuncia o dia com o seu cacarejar. Os primeiros raios do sol
atravessam as espessas nuvens, trazendo consigo uma chuva fina que
caía na relva dos vários morros que circundam Laranjeiras. Por volta de
05 (cinco) horas da manhã, véspera da festa, as pessoas iniciam a cami-
nhada rotineira em direção à feira da cidade. O objetivo de ir tão cedo é
a disputa acirrada pelos melhores produtos que serão consumidos du-
rante a semana. A feira fica localizada entre o centro de exposição de
artesanato e o prédio onde será construído um campus da Universidade
Federal de Sergipe, um espaço amplo e de fácil acesso para todos os
moradores. As pessoas vão à feira para abastecer suas dispensas com
produtos supostamente mais frescos e com preços mais baixos, pois a
cidade não possui rede de supermercado, ficando a cargo da feira abas-
tecer o município. No ato da compra de seus produtos, os moradores

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Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Performance na festa do
Lambe-sujo de Laranjeiras/SE.
Mesalas Ferreira Santos 139

pechincham a fim de obter alguma vantagem na soma final e vão para

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


casa com os carrinhos e cestas com as compras da semana e voltam se-
manalmente para repetir o processo. Mas neste dia esta rotina será inter-
rompida por algo que chama a atenção de todos presentes.
No meio destas pessoas, em posição de destaque, surgem duas figu-
ras que destoam completamente das demais, ganhando a atenção de to-
dos por onde passam. Um negro retinto, de cor e brilho intenso, trajando
calça vermelha na altura dos joelhos e gorro da mesma cor sendo guiado
por um caboclo, ornamentado com um cocar de penas de pavão, bracele-
tes e tornozeleiras. Arco e flecha em uma mão e na outra uma corda que,
amarrada à cintura do negro, impossibilita a sua fuga. Ocorria, neste mo-
mento, na feira de Laranjeiras, o esmolado, fato que marca os preparativos
para a festa do Lambe-Sujo. Presente em algumas manifestações popula-
res, o esmolado arrecada, mediante doações, qualquer contribuição ofer-
tada. Em geral, os contributos coletados são comida e dinheiro, sendo o
primeiro dividido em forma de almoço, janta ou algo similar e o segundo
normalmente é repartido entre os que estão esmolando.
O esmolado consiste na ida de 01 (um) membro de cada grupo, lam-
be-sujos e caboclinhos, cuja tarefa é prover a alimentação dos grupos
no dia festivo. O negro acorrentado é subjugado pelo índio e compelido
a passar por todas as barracas dos feirantes arrecadando os alimentos
necessários para a feitura da feijoada, distribuída no domingo. Com um
cesto nas mãos e sendo tutorado pelo caboclo, o negro vai passando
barraca por barraca, interpelando as pessoas com frases como dadá iôiô?
E voismicê ajuda nêgo?
A fim de conseguir contribuições que possam servir para o preparo
os dois seguem à risca o percurso, não deixando nenhuma banca de fora
da possível contribuição. O percurso inicialmente é pelas bancas de fran-
go, carne bovina e sobretudo carne suína. Em seguida é a vez de arrecadar
o feijão, temperos, legumes, verduras. Nenhuma banca é poupada, tudo
é aproveitado entre os contributos, podendo facilmente ser encontrado
em meio ao cesto utilizado na arrecadação até mesmo bolo de tapioca.
Entre a maioria dos feirantes é comum a contribuição, pois en-
tendem que este ato estimula a continuidade do festejo e revela ser
este um meio propagador da cultura local. Mas nem todos pensam
desta maneira e alguns preferem não contribuir, alegando como
motivo principal a violência gerada através da festa. É interessan-

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Cidades e Patrimônios Culturais
140 Investigações para a iniciação à pesquisa

te destacar, desde o momento que antecede a festa até o seu fim


esta mistura de subjetividades, criando amálgamas de diferentes
elementos, formando, assim, um tecido vivo, montado através das
várias experiências em conjunto.
Depois de ter arrecadado todos os ingredientes que servirão para
o preparo da feijoada, por volta de nove horas da manhã estes serão
levados para a casa do mestre Zé Rolinha3, onde sua esposa dará inicio à
feitura do alimento do domingo. No trajeto para a casa do mestre é co-
mum ocorrer a subtração de alguns produtos. Desde os caracterizados
que selecionam os produtos de sua preferência até os vigias da comida
arrecadada na hora do esmolado pegam sua parte. Em seguida, os dois
integrantes saem às ruas interpelando as pessoas a contribuírem com
qualquer quantia, sob a ameaça de melá-los com mel de cabaú caso a
resposta seja negativa.
Passada a parte da manhã, por volta das 13 (treze) horas do mes-
mo dia, outros integrantes de ambos os grupos se reúnem à frente da
casa do mestre, com a tarefa de irem à mata, para retirar as taquaras que
servirão para a montagem das cabanas dos grupos. Foices, calças jeans
e botas são instrumentos indispensáveis nesta empreitada que requer
muita atenção ao adentrar no matagal, pois este revela muitas dificulda-
des no seu percurso.
Cerca de quinze pessoas vão à mata pegar as taquaras4 e, em con-
junto, colhem também as folhas da pindoba5, imprescindível na utiliza-
ção da amarração e adorno da cabana. Todos procuram pelas mais vis-
tosas, a fim de deixar a cabana o mais formosa possível, tornando, assim,
mais atraente para quem chega à cidade para conhecer o festejo. Ter-
minado o processo de colheita das taquaras e das pindobas, os grupos
se dispersam, cada qual para o seu local específico de construção das
cabanas não podendo ter proximidade uma com a outra.
Arrastando braçalmente por cerca de 02 km até um campo de vár-
zea, os integrantes do grupo do lambe-sujo trazem uma a uma cerca
de 40 taquaras e incontáveis pindobas. A barraca é construída em um
campo de futebol localizado entre o rio Cotinguiba6, uma praça onde
desenrola o combate e o terminal rodoviário, locais de fluxo de pessoas.
De antemão, algumas pessoas iniciam a construção cavando buracos no
campo para que nestes sejam colocadas as taquaras.

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Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Performance na festa do
Lambe-sujo de Laranjeiras/SE.
Mesalas Ferreira Santos 141

O local utilizado para a montagem da cabana dos caboclinhos é na

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


frente de uma escola de ensino maternal, distante cerca de 01 (um) km
em relação à cabana do grupo rival. Esta construção não obedece aos
mesmos critérios de zelo, como vimos na descrição acima, sendo dispen-
sada qualquer medida de cuidado ou algo similar, despertando, muitas
vezes, até má vontade daqueles designados para a montagem da estru-
tura. As taquaras são erguidas de qualquer maneira, a amarração feita
de maneira descuidada e nenhum adorno é colocado na sua estrutu-
ra, deixando, assim, a cabana dos caboclinhos com um aspecto tímido
frente à construção dos lambe sujos. Inclusive é comum bêbados caírem
por cima da cabana, desfazendo a estrutura de frágil amarração que por
muitas vezes não suporta os ventos, caindo sem que ninguém venha
levantá-las novamente.
No início da noite a cidade começa a ter seu ritmo alterado através
das montagens de barracas na praça, local onde ocorre o combate final.
Os bares, com as músicas de ritmo e letras insinuantes são os locais pre-
feridos das pessoas que aguardam a festa Um outro aspecto que muda a
característica da cidade são as várias motos que a todo instante desfilam
pelas pequenas ruas (com velocidades impressionantes e com barulhos
ensurdecedores provocados pelo escapamento alterado propositalmen-
te para o festejo). Há também aqueles que preferem ficar à frente das
suas casas, assando carne e bebendo cerveja junto à família, afirmando
apreciar o vai e vem de pessoas que chegam a Laranjeiras para conhecer
o festejo. E assim seguem noite adentro sem preocupação com o horário
de entrar em suas residências para dormir.

Domingo – o dia do combate


Cerca de 03 (três) horas da madrugada do domingo o sino da Igreja
do Senhor do Bonfim, construída no séc. XVIII, rompe com suas bada-
ladas o silêncio peculiar de uma cidade interiorana. Logo a calada da
noite dá lugar aos estrondos de carros e motos e das várias pessoas que
andam em uma só direção, cantando e gritando nas ruas. Uma casa ver-
de, localizada na esquina da rua, que atende também um comércio cujo
produto negociado é etílico, era o ponto de referência. À frente, uma
árvore abriga algumas pessoas do sereno que caía dos morros, tornando
a madrugada mais fria. Estas são integrantes do grupo Lambe-Sujo que,

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Cidades e Patrimônios Culturais
142 Investigações para a iniciação à pesquisa

ainda não caracterizados, iniciam tocando os instrumentos de percus-


são, recepcionando as pessoas com músicas do próprio grupo.
A sonoridade produzida na junção de instrumentos, como timbal,
cuíca, reco-reco, ganzá e o pandeiro, além de atrair mais pessoas para
o local, proporcionam um clima de euforia entre os presentes, revelan-
do situações nada convencionais. A rua, abarrotada de pessoas, é palco
onde as diferentes sensações são compartilhadas entre os indivíduos
que são subitamente tomados pela forte sonoridade dos instrumentos
e cânticos entoados com força e vibração pelos tocadores. Todos aguar-
dam a saída do mestre Zé Rolinha que lá dentro da sua residência faz as
últimas orações, rogando proteção a todos neste dia. Como que em um
ritmo sincronizado, os instrumentos silenciam subitamente e começa a
propagar um som de uma voz fraca e tímida e, em seguida, uma figura
esguia e magra sai à porta com um chapéu de palha entoando versos,
iniciando, assim, a alvorada festiva7:

Tava capinando, a princesa me chamô


Alevanta nêgo, cativeiro se acabou:
Samba nêgo, branco não vem cá,
Se vier, pau há de levar!

A cidade, ainda adormecida, vai aos poucos despertando através da


marcante sonoridade imposta pelas batidas firmes do tocador no instru-
mento percussivo. O impacto provocado pelas excitantes vibrações per-
cussivas serve como aviso, informando a todos que naquele dia a cidade
será tomada pelos negros. A interação produzida entre os participantes
revela um misto de escárnio e “manha” que perpassa todo o ambiente
por onde a turba passa (nas principais ruas da cidade) com cantorias e
batuques, atraindo mais pessoas ao cortejo. Por volta de 08 (oito) horas
da manhã os instrumentos param de soar, decretando o fim da alvora-
da. Nesta pausa alguns brincantes vão para suas residências descansar e
aproveitar melhor o dia, enquanto para outros a festa já começou.
Dissipado o cortejo, inicia-se a caracterização visual dos grupos,
que ocorre de maneira muito distinta. Revelando práticas e formas
percebidas como étnicas, a demarcação fronteiriça entre os grupos

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é demonstrada, inicialmente, através da pintura imposta nos corpos.

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Na caracterização dos lambe-sujos utiliza-se um balde cheio de água,
onde será acrescido e misturado um pó preto, conhecido como tinta
xadrez8. Ao adquirir a consistência desejada passam na pele a mistura
e logo figura um aspecto fosco na epiderme. Finalizado o processo, so-
ma-se ao corpo o mel de cabaú, designação popular do mel de tanque,
que juntamente com a tinta preta dá à pele a tonalidade de um preto
retinto. É comum entre os informantes a versão de que no passado este
mel era utilizado pelos escravos como forma de camuflagem em suas
fugas. A indumentária utilizada como traço de oposição e demarcação
identitária é um short vermelho, outros preferindo usar calças corta-
das à altura dos joelhos e na cabeça um gorro da mesma cor. Como
elemento de defesa, o lambe-sujo traz consigo uma foice de madeira,
brandida constantemente no ar. Outros acessórios como chupetas, ca-
chimbos, óculos escuros etc., são facilmente vistos, o que acrescenta
novos símbolos à festa.
Em um ponto mais adiante, processo análogo ocorre precisamen-
te dentro da cabana dos caboclinhos. O tom avermelhado conseguido
através da mistura de água, tinta xadrez vermelha e sabão demarcam
um sinal distintivo e um pertencimento étnico entre os indivíduos que
se identificam como caboclos. Eles trajam short encoberto por um saiote
que somado ao capacete, punhos e tornozeleiras são preenchidos de vá-
rias penas de aves da região, além de levarem consigo os elementos utili-
zados para a guerra, o arco e a flecha. Deste modo, o visual dos caboclos,
categoria social que emerge do encontro entre brancos e índios, põe em
realce o seu lado indígena e guerreiro. Dois pontos chamam a atenção
entre os caboclinhos, que estão em número reduzido de integrantes no
seu grupo, em comparação aos lambe-sujos; a composição do grupo,
em sua maioria, é feita por crianças.
Finalizado o processo de caracterização é chegado o momento no
qual cada grupo sairá de suas cabanas, liderados pelos seus príncipes9,
e percorrerão as ruas da cidade entoando canções próprias. Para o con-
texto festivo esta parte do evento representa a perseguição dos lambe-
sujos pelos caboclinhos, cada qual procurando, sobretudo, demonstrar e
reforçar as identidades em questão. Os caboclinhos, liderados pelo “Mu-
turixaba”, seguem as ruas da cidade na caça aos negros com o intuito
de aprisioná-los. Já os lambe-sujos, com a sonoridade imposta através

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Cidades e Patrimônios Culturais
144 Investigações para a iniciação à pesquisa

de instrumentos musicais como atabaques, tambores, cuíca, ganzá, em


conjunto com a malícia dos percussionistas, fazem as pessoas levitarem
num bailado de cores fortes. Conduzindo o préstito deste, vimos a figu-
ra do príncipe, assim chamado, tendo a tarefa de proteger o seu povo
de possíveis forças exógenas que ameaçam o quilombo. Seguindo do
meio para trás do cortejo quatro personagens, denominados “taqueiros”,
que representam os antigos capitães-do-mato, têm a função de “organi-
zar” o cortejo, infringindo dor com seu chicote, não deixando os negros
“saírem” e nem os brancos “entrarem” no espaço destinado à evolução
do cortejo. É interessante ressaltar que muitas pessoas no calor da folia
entram nestes “lugares proibidos” e desafiam o taqueiro que, sem comi-
seração, distribui várias chicotadas, não importando em qual parte do
corpo será desferido o golpe. Ao desafiar o taqueiro, “entrando” e “sain-
do” do espaço destinado somente aos lambe-sujos, é revelada, assim,
uma relação jocosa entre espectadores e brincantes.
Cada grupo tem seu comportamento apropriado e particular, dis-
tinto de maneira peculiar um do outro. Os caboclinhos marcham ao som
de um instrumento chamado caixa, dando a impressão de um discipli-
namento nas ações. Com o semblante sério, os caboclos procuram in-
timidar e entoam versos:“Preto correu, caboclo pegou” e “Rei dos Cabo-
clos, prender nêgo”. Seguem o cortejo, marcham em ritmo disciplinar nas
ações, lembram, por vezes, um soldado a se preparar para o combate.
Este ritmo metódico contrasta com a animação dos lambe-sujos que
cantam, dançam, “esmolam” e melam as pessoas com o mel de cabaú.
Este comportamento impertinente pode ser apreendido como mais um
elemento distintivo e opositivo entre os grupos, não deixando somente
a cargo da cor da pele. Os lambe-sujos veem na irreverência um caráter
identitário e, ao externar esta característica, práticas performáticas se in-
serem dando lugar a cenas, no mínimo, curiosas, o que provoca novas
inserções no contexto festivo.
Nas pequenas ruas da cidade as ações dos lambe-sujos entram em
contraste com os não caracterizados, ou seja, as pessoas que não estão
pintadas com a tinta preta e nem o mel de cabaú, quando são compe-
lidas, em sua maioria, a fornecer alguma contribuição. Os transeuntes,
desavisados, são abordados com a frase dadá ioiô?, sob pena de serem
melados caso a resposta seja negativa. Nesta ocasião, há efetivo caráter
performático desenrolado entre os membros envolvidos, cujo integran-

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te do lambe-sujo, com suas ações pautadas na representação de um

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


negro que necessita da contribuição para adquirir sua alforria, lança-se
corporalmente em gestos e atitudes próprios e procura, assim, intimidar
a vítima, que busca sair incólume da situação.
Na parte final da manhã a turba desloca-se para o terreiro nagô10,
bastante respeitado na localidade, pedir à yalorixá proteção aos negros
neste dia, cujo combate se aproxima. Depois de todas as bênçãos neces-
sárias, seguem em direção à Igreja Matriz Sagrado Coração de Jesus,11
situada na praça central, e, reunidos, tanto lambe-sujos quanto cabo-
clinhos, oram em conjunto e mais bênçãos são distribuídas, agora pelo
pároco, que ao finalizar a prece é melado com a tinta preta e o mel de
cabaú dos lambe-sujos. A forte diversidade religiosa somada aos atribu-
tos culturais existentes na cidade, trazido ao longo do tempo e re-signifi-
cados pelos agentes utilizadores desta cultura, proporcionam o diálogo
entre estas duas frentes religiosas.
Outro aspecto que está inserido no contexto festivo, que é mais
um traço de infiltração da cultura negra no “cadinho” cultural brasileiro
é a feijoada12. Não obstante à tradição do festejo, ao se aproximar do
meio-dia, tanto os caboclinhos quanto os lambe-sujos vão comer o pra-
to que nas manifestações passadas só aos negros era servida, feita pelos
próprios integrantes dos grupos através de doações dos feirantes reco-
lhidas na véspera da festa. Na cozinha, o preparo do prato é feito com
muita desenvoltura pelas mãos carnudas da cozinheira que, ao colocar
lenha no fogão, dá a fervura ideal para os vários panelões cheios de fei-
jão temperado e cozidos com carnes de porco, linguiça, paio, charque,
toucinho etc. e que, aqui no Nordeste, é acrescido de legumes. No mo-
mento em que é servido o almoço a algazarra é geral, cujos brincantes
se amontoam abanando os pratos, tentando chamar a atenção dos que
servem a comida. Ao vencer esta etapa, procuram uma sombra fresca
para descansar enquanto comem, mesmo sem talher, a feijoada que ser-
virá como revigorante para as atividades da parte da tarde.
Logo após o descanso do almoço, por volta das 14 (catorze) horas
há nova concentração, agora com maior número de pessoas, no caso
os visitantes que percorrem a cidade para participar da parte final do
festejo. Os súditos seduzidos pelos batuques são atraídos a formar uma
multidão, clamam com cânticos e aguardam ansiosos a saída do rei dos
lambe-sujos. Este se mostra ao desfilar entre os integrantes do grupo

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Cidades e Patrimônios Culturais
146 Investigações para a iniciação à pesquisa

com toda a pompa de uma grande realeza, revelada através de sua in-
dumentária dourada e sua espada prateada, posta-se à frente e conduz
o préstito. É quando tem início um novo cortejo, que segue em direção
mais uma vez ao terreiro nagô, para pegar o pai Joá que, para o contex-
to festivo, representa a figura do preto velho, juntando-se aos demais
membros no cortejo. Com cantorias e muita balbúrdia os lambe sujos
vão seguindo em direção à casa de outro personagem, a Mãe Suzana,
que através de cantorias sai às ruas com um cesto na cabeça cheio de
panelas e brinquedos. Dançam todos ao som dos atabaques, procuram
saudar este personagem que tem os atributos de curandeira e feiticeira,
segundo os próprios informantes:

Cadê mãe Suzana, ô Suzanê!


Mãe Suzana morreu, ô Suzanê!
Tá no oco do pau, ô Suzanê!
Tocando berimbau, ô Suzanê.

Seguindo de perto este alvoroço, os caboclinhos vão também con-


vocar os seus para a batalha que se avizinha. De forma rápida estes vão
à casa do cacique, o Morubixaba, convocá-lo para reforçar o grupo para
o combate. Com a indumentária adornada com penas de pavão, colares
e um cocar estonteante, este se arma com um arco e flecha e saem em
disparada à casa da sua princesa para somar-se ao grupo, voltando em
seguida, para a perseguição aos lambe-sujos.
Sabendo que os caboclos estão apertando o cerco, o rei dos negros
ordena que capturem a princesa dos caboclinhos e suas filhas, trazen-
do-as para dentro do “quilombo”, representado pela cabana. O rei dos
caboclos envia alguns porta-vozes e pede a soltura tanto de sua princesa
quanto dos seus descendentes e que, se for necessário, fará uso da vio-
lência para conseguir resgatar os seus parentes próximos. Na praça prin-
cipal a multidão abre uma grande roda e, atentos, ouvem a “negociação”
que se estende. Por fim, o rei dos negros afirma que se os índios aparece-
rem nas terras quilombolas haverá derramamento de sangue. Em segui-
da, um pequeno confronto desenrola-se no meio da praça, culminando
com a expulsão dos índios das terras dos lambe-sujos. Neste instante, há

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Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Performance na festa do
Lambe-sujo de Laranjeiras/SE.
Mesalas Ferreira Santos 147

intensa alegria misturada ao alvoroço demonstrado pelos negros (que

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


comemoram o aparente triunfo). Com a notícia de que seus mensageiros
haviam sucumbido ante a força dos negros, o cacique monta sua tropa
para o confronto final.
Do alto de um mastro utilizado como forca vemos um negro que
trai o grupo e informa os caboclos sobre o local onde a princesa e os seus
filhas estão aprisionados. Este seria enforcado, mas ao avistar a tropa dos
caboclos, que marcha para o combate, começa a gritar informando ao
rei que, com dó, suspende a punição e deixa-o no mastro, agora com a
tarefa de ser vigia do grupo. O combate que se realizará na praça central
da cidade coloca os dois reis de frente um para o outro e num bailado
simulam o confronto lutando com espadas, dando início a um conflito
generalizado que toma conta do espaço festivo, culminando com a der-
rota dos negros. O festejo atinge seu ponto final, quando, preso pelos ca-
boclinhos, os lambe-sujos percorrem as ruas da cidade, curvam-se diante
das pessoas amarrados a uma corda e pedem dinheiro para que lhes as-
segure a liberdade. As pessoas presentes no local que assistem este ato,
de certo modo, são estimuladas ao ver todo o alvoroço e subitamente
se veem no meio da encenação, a provocar com insulto verbal e muito
achincalhe. Em resposta, levam chicotadas dos taqueiros que não permi-
tem tal insulto ao adentrarem ao espaço onde se desenrola o combate.
Por fim, depois de terminado o festejo, é comum as pessoas continuarem
nas ruas, ouvindo músicas e regados a muitas bebidas dão continuidade
ao festejo, melando as pessoas com a tinta preta e muita brincadeira.

A performance no contexto festivo


As histórias retratadas por diversos intelectuais sobre o processo de
contato ocorrido em Laranjeiras entre as diferentes raças proporciona-
ram espargir ao vento narrativas que ganharam dimensão e culminaram
em um conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimen-
tos e costumes que foram apreendidos e aperfeiçoados pelos diversos
atores envolvidos nos diferentes campos de atuação ao longo da sua
história. História esta que pode ser conhecida através da versão popular
contada de maneira lúdica, através das variadas expressões artísticos
-populares encontradas na cidade. Dentro da gama de manifestações
culturais existentes no local, a festa do Lambe-Sujo se inscreve através

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Cidades e Patrimônios Culturais
148 Investigações para a iniciação à pesquisa

das narrativas dos que a produzem, em busca a rememorar o passado


escravocrata do Brasil colônia, tendo ocorrido em Laranjeiras o mesmo
infortúnio, no qual é retratado o conflito entre os negros e os caboclos.
Nesta perspectiva, a narrativa empregada pelos que produzem o festejo
é descrita sob o ponto de vista das histórias da colonização portuguesa,
do encontro com os povos indígenas e da população africana durante
a escravidão, onde são reiteradas como o tempo/lugar da formação do
Brasil mestiço (Marcon, 2005, p. 76).
A constante retórica da cidade como berço da cultura negra no esta-
do sergipano passa a servir de argumento principal ao ato de representar
a comunidade a partir de atavismos e não só afetou como afeta significa-
tivamente as narrativas sobre a localidade. Esta relação com um passado
imaginado serve como subterfúgio para explicações acerca do festejo,
que cria uma visão de pertencimento de um dado grupo a um territó-
rio comum, possuindo, assim, a mesma origem. Com base nos instintos,
lembranças e na memória dos mais antigos, o sujeito vê-se preso a uma
concepção estanque, rígida, o comportamento é padronizado a tal ponto
que é negado ao individuo o direito de optar, estando os padrões adqui-
ridos além de sua consciência. Esta qualidade torna-se uma propriedade
essencial transmitida no e pelo grupo independente da relação com ou-
tros grupos existentes arrabaldes a Laranjeiras (Poutignat, 1998).
Desconsiderando esta premissa, é imprescindível focalizar aqueles
momentos em que os atores estão em cena, trocando experiências neste
processo de interação, o qual fornece o terreno para elaboração de es-
tratégias de subjetivação que dão início a novos signos e postos inova-
dores de colaboração e contestação no ato de definir a própria socieda-
de. Neste momento os participantes imersos no festejo, de forma lúdica,
vão desenvolver um corpo de gestos e palavras percebidas como termos
de comunicação que qualificam, atribuem sentido, dão movimento e
servem como uma porta que se abre a fim de penetrarmos no âmago
festivo. Um espaço onde os indivíduos compartilham e (re)criam signos,
transportando, assim, “alguém para “além” de si para poder retornar com
um espírito de revisão e reconstrução às condições políticas do presente
(Bhabha, 2005, p.24).
Nesta análise do festejo pretendi enfocar a performance como de-
finidora das práticas estabelecidas no contexto festivo, a estruturar os
indivíduos que se inserem no jogo. O ser “performance” é um conceito

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Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Performance na festa do
Lambe-sujo de Laranjeiras/SE.
Mesalas Ferreira Santos 149

que se refere a eventos definidos e delimitados marcados por contexto,

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


convenção, uso e tradição. Tratar o objeto como performance significa
investigar o que esta coisa faz, como interage com outros objetos e seres
e como se relaciona com estes. Fazer performance é um ato que também
pode ser entendido em relação a fazer, ser, mostrar-se fazendo e explicar
ações demonstradas. Para tanto, no ato em que os indivíduos estão em
cena, no palco que é a rua, é necessário explicitar o sentido mais íntimo
da performance e recolher as funções e os esquemas de ação que ela é
capaz de executar no interior da festa.
A performance sugere três conotações acerca do seu entendimen-
to: a) movimento/deslocamento da consciência, em que se evidencia o
deslocamento da situação vivida no cotidiano para a observação reflexa,
para o momento de reflexividade, de modo a dar espaço à representação,
à imitação e também à transformação da realidade representada, dando
prova de saber escutar a si próprio; b) o segundo momento estreitamen-
te associado à realização da performance parece ser a intensidade dela
(fluxo) – concentração e presença. É uma imersão total num evento que
permite entender que a performance é um momento de concentração
de espaço, de tempo, de energias, de sons, de movimentos, possibili-
tando assim ver que se trata, em outras palavras, de uma mise-en-scène
total, que deveria levar ao efeito de um envolvimento também total; c)
e um terceiro e último elemento de destaque da performance é a inte-
ração entre performer e plateia. Pode-se começar com os gestos, com o
som, com a música, com a linguagem, com a expressão da face, sob qual-
quer outra forma ligada aos códigos linguísticos, mas é preciso um certo
contexto para que não haja um estranhamento entre performer e platéia.
Para que se possa falar de performance é necessário que uma ação
seja reconhecida como tal. Quando há alguém que nela dedica atenção
e, sobretudo, quando esta ação é comunicativa: expressa alguma coisa,
não importando se em nível instrumental, simbólico, teleológico ou ou-
tro. Então esta ação será também repetível e em nível intersubjetivo será
regulada por normas.
No surgimento de uma nova forma de classificação os atores sociais
trazem elementos figurativos e fazem alusão à experiência de estarem
às margens da sociedade. Criam ocasião para pessoas ou grupos repre-
sentarem, simbolicamente, papéis que correspondem a uma posição in-
vertida em relação ao status ou condição que ordinariamente possuem

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Cidades e Patrimônios Culturais
150 Investigações para a iniciação à pesquisa

no quadro hierárquico da estrutura social. Assim, a festa é marcada por


características que fogem às regras da vida séria, estruturando os indi-
víduos através de novas formas de comportamento, tais como o escár-
nio, a comicidade, o insulto verbal e o conflito que se configuram em
elementos imprescindíveis para o funcionamento de tal festa. São estes
elementos descritos como instrumentos incompatíveis à vida séria, de-
sagregadores e causadores de ruptura social, ao brotarem através da in-
teração dos participantes, que alteram a nossa visão de mundo e mexem
com nossos valores. Servem para analisar a vida ritual como um meca-
nismo privilegiado de sublimação de valores negativos e/ou reprimidos,
trazidos à tona por meio destes elementos que vistos em conjunto for-
mam um tecido móvel, vivo e dinâmico.

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Mesalas Ferreira Santos 151

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Notas
1 Esse texto é parte da dissertação de Mestrado defendida no PPGS/UFS, sob a orienta-
ção do Prof. Dr. Ulisses Neves Rafael.

2 Entender somente o popular sob a perspectiva de um inventário é insuficiente, pois


elimina a performance cultural

3 Rei dos Lambe-Sujos e mestre do festejo.

4 Também conhecido por bambu.

5 Também conhecida por palmeira.

6 No séc. XVIII servia como rota de chegada de escravos e escoamento de produtos da região.

7 A alvorada é uma festa particular dos Lambe-Sujos e representa para o contexto festi-
vo a libertação dos escravos pela princesa Isabel, filha do imperador Dom Pedro II, através
da Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, extinguindo a escravidão no Brasil.

8 Muito utilizada na pintura de residências.

9 Aparentemente protege a tribo, mas é também visto como mensageiro dos caboclos.

10 Cf. Dantas, 1988.

11 Construída na segunda metade do século XVIII.

12 Tida como o prato nacional por excelência, onde suas origens prestam-se às mais
especulativas interpretações, costuma-se apresentá-la como a expressão da fusão racial
brasileira, através de um processo harmônico de suas etnias (Freyre, 2005). Uma outra in-
terpretação, sem igual peso difundido, vê a conversão de símbolos étnicos em nacionais
obliterar uma situação de dominação racial, tornando mais difícil a tarefa de denunciá-la.
“Quando se convertem símbolos de‘fronteiras’ étnicas em símbolos que afirmam os limites
da nacionalidade, converte-se o que era originalmente perigoso em algo limpo, seguro e
domesticado” (Fry, 2001).

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Revisitando Memórias E(M) Ruínas

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


da Histórica Laranjeiras/SE1
Allan Veiga

Introdução
As cidades, nas últimas décadas do século XX, vêm sendo foco de
investimentos, com grande recorrência, de processos bastante impac-
tantes para a sociedade. Tais investimentos são decorrentes, principal-
mente, de uma forte tentativa de gerenciamento e de ordenamento de
espaços, que na maior parte dos casos visa aperfeiçoar um aproveita-
mento econômico, pautando-se, sobretudo, numa série de ações de
políticas patrimoniais que engendram novos usos em áreas até então
consideradas degradadas. Estes processos são conhecidos por gentrifi-
cation2, com franca inclinação para antigas edificações e em ruínas de
cidades consideradas históricas.
Tais políticas têm como sistemática a intenção de reconstruir usos
dos conteúdos e materiais de determinado passado, utilizando-se de
elementos físicos das cidades, (re)classificando os seus personagens e
lhes apresentando, por vezes, funções e ações sociais distintas das ori-
ginais, aplicando novos entendimentos às suas histórias, pelo viés de
um determinado aspecto. Em geral, isso atribui disposição ao turismo
e caráter de visitação.
No entanto, aquilo que em tese e a princípio se apresenta como
gerador de benefícios para o desenvolvimento econômico das cidades,
e que aparentemente protege e preserva suas edificações como patri-
mônio histórico e cultural, não reflete seus efeitos a estas duas esferas e
tampouco, somente de maneira positiva, como amplamente apontam
investigações realizadas na última década. Um dos aspectos que tan-
gem os efeitos desses processos, abordado pela sociologia, repousa so-
bre a “memória das cidades”.
Na sociologia, a inclinação para os desdobramentos que põem a
memória como conceituação teórica e categoria analítica são relativa-
mente novas. No entanto, já despontam como contributo à elucidação

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Cidades e Patrimônios Culturais
154 Investigações para a iniciação à pesquisa

de questões sobre o patrimônio histórico. Têm considerável repercussão,


no meio acadêmico, as concepções teóricas sobre memória, a partir de
Walter Benjamin (2000), que trata o passado como meio de criticar o pre-
sente, e a teoria de Maurice Halbwachs (2006), que concebe a memória
como elemento de fundamental importância à coesão social e de deter-
minação da memória individual.
Para a discussão proposta aqui encontramos maior relevância teó-
rica nos postulados estabelecidos por Halbwachs (2006), que, em linhas
gerais, traz na sua espinha dorsal o pensamento que relaciona direta-
mente os “meios sociais efervescentes” aos sistemas de classificações
sociais e mentais (Duvignaud, 2006, p. 08). Halbwachs admite que a di-
nâmica social interfere diretamente nestes sistemas e isso logo permitiu
apontar para a dimensão coletiva da memória, entendendo que aquilo
que usualmente atribuiríamos ao campo das construções individuais do
ser, como os sentimentos, ideias, reflexões e até as paixões, de algum
modo estão pautadas na relação com o grupo social ao qual pertence-
mos, permitindo que as relações sociais se estabeleçam e se mantenham
numa razoável ordem.
O conceito de “memória coletiva” proposto por Halbwachs (2006),
que afirma ser esta uma corrente de pensamento contínuo, que absorve
o passado vivenciado em seu meio, mantendo-o latente na consciên-
cia dos grupos, tem relação direta com a memória compartilhada em
cidades históricas por seu patrimônio, uma vez que, segundo o autor,
as formas materiais e os objetos inscritos na paisagem são parte do que
tal memória apreende. De tal modo, e em contribuição às investigações
propostas pela “sociologia das cidades3”, pensamos ser plausível a aná-
lise sociológica da relação do elemento arquitetônico de tais cidades,
com a memória ali partilhada, sobretudo àqueles em estado de ruína,
notando, ainda, o pensamento de Michel Foucault (1979), ao admitir que
os elementos físicos de uma sociedade causam interferência em suas
ações e classificações simbólicas, ou seja, a cultura material de um grupo
contém um valor simbólico que reflete suas relações.
Tal análise oferece maior relevância se pensarmos nas políticas que
põem as cidades numa lógica de “enobrecer” seus espaços para consu-
mo cultural por intervenções urbanas, na busca por torná-las economi-
camente viáveis, sobretudo aqueles com potencial turístico por seu pa-
trimônio, caso da histórica cidade de Laranjeiras, no Estado de Sergipe. É,

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Revisitando Memórias e(m) Ruínas da
Histórica Laranjeiras/SE.
Allan Rafael Veiga 155

portanto, neste sentido que se inclina a análise aqui proposta, tomando

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


como campo de pesquisa o Centro Histórico de Laranjeiras, por conter
considerável patrimônio arquitetônico em estado de ruína sem inter-
venções urbanas de gentrification e/ou de restauro. Porém, há notória
acentuação e celeridade de investidas destes processos, voltados, sobre-
tudo, para este tipo de estrutura, que com isso tende a ter o conteúdo de
seu passado solapado por interesses do consumismo urbano e turístico,
alterando suas características.
Assim, tomamos as ruínas constantes do perímetro do centro his-
tórico da cidade como nosso objeto, por serem tais edificações as que
compuseram a paisagem urbana embrionária da cidade e que ainda
constituem o núcleo urbano de Laranjeiras, uma vez que seu centro his-
tórico toma grande parte de seu centro urbano, além do fato constatado
de que neste espaço estão as ruínas que tiveram maior recorrência de
citações em narrativas orais de moradores ao se referirem ao passado
áureo da cidade como cenário de importantes acontecimentos e lem-
branças da antiga Laranjeiras. Assim, situamos a “ruína” como elemento
do patrimônio que tende a deter em si características singulares e pró-
prias do passado e que acabam por evocar, de algum modo, lembranças
pertinentes à manutenção da memória coletiva, que segundo Halbwa-
chs (2006), serve de instrumento de coesão social de um grupo.
Portanto, buscamos estreitar em um ponto específico a ampla dis-
cussão do patrimônio das cidades, quanto à relação que constituem
seus moradores com o patrimônio em ruína pelo viés da memória, pon-
do em análise como as ruínas, sem intervenções de restauro, do centro
histórico de Laranjeiras, relacionam-se com os lastros da memória com-
partilhada pelos habitantes daquele espaço, suscitando observações so-
bre as políticas patrimoniais de tal contexto.
Assim, a ruína é percebida pelas políticas patrimoniais. Percorre-
mos, brevemente, os caminhos que conduziram as propostas de suas
ações: quais de início intencionavam preservar edificações que de algum
modo marcaram a trajetória de uma sociedade ou que representassem
sua cultura, passando, posteriormente, a aceitar a exploração econômica
de seus supostos “valores culturais”.
Sobre o entendimento da ruína e para qual tipo incide nosso inte-
resse, trouxemos alguns conceitos e considerações que tratam do seu
valor como elemento de análise social, bem como uma concisa marcação

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Cidades e Patrimônios Culturais
156 Investigações para a iniciação à pesquisa

teórica das formulações conceituais sobre memória na teoria social. A res-


peito do campo da pesquisa, explicitamos uma breve contextualização
histórica, o que permitiu a Laranjeiras caracterizar-se como “cidade his-
tórica”. Evidenciamos, ainda, as interpelações das políticas patrimoniais e
apresentamos as ruínas que compõem seu patrimônio, buscando expor
o sentido que estas assumem na vida cotidiana de seus habitantes.

1. Patrimônio, ruína e memórias:


algumas considerações
De um modo geral a concepção de “patrimônio” no mundo vem
enfrentando diversos embates conceituais, os quais, invariavelmente,
desdobram-se em adequações e proposições para as políticas oficiais de
salvaguarda do patrimônio. No Brasil, tal cenário não é distinto: desde
a década de 1930 até hoje enunciamos alterações no modo oficial de
apreender o “patrimônio”.
No Brasil, segundo Antonio A. Arantes (1997), inicialmente, o pa-
trimônio e suas políticas de conservação estavam intimamente ligados
ao modo como o Estado o orientava, havia então o interesse de cons-
truir uma unidade de nação através de uma memória nacional. Assim,
em 1937 é criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(SPHAN), pelo então presidente Getúlio Vargas, órgão que teve forte
engajamento do movimento modernista de 1930, que tinha como pre-
missa valorizar o que era próprio do Brasil e modernizá-lo, constituindo
certa “brasilidade” integrada ao ideal nacionalista de Vargas. Assim, o
modelo de preservação do patrimônio do “legado modernista”, segun-
do Antonio A. Arantes (1997), pautou-se em valorizar o estilo barroco
colonial mineiro como sendo tipicamente brasileiro, considerando-o a
expressão da “herança cultural” do país, num reducionismo cultural que
afastou a casa do homem comum da concepção oficial de nação.
Ao adotar uma postura política para com a salvaguarda do “recém-
descoberto” patrimônio brasileiro, os modernistas preservacionistas
do Brasil “não foram diferentes da maioria das experiências de outros
países, estando relacionados à consolidação de uma imagem política e
cultural de nação, tendo o Estado como principal artífice” (Leite, 2007, p.
51) e “privilegiaram” como ícones do patrimônio bens que expressavam

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Revisitando Memórias e(m) Ruínas da
Histórica Laranjeiras/SE.
Allan Rafael Veiga 157

o poderio de uma camada dominante da sociedade, “a predominância

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


dos monumentos que reafirmam os poderes políticos, religiosos e mi-
litares [...] excluiria um conjunto diverso de minorias étnicas e culturais
que demandam formas peculiares de inserção e pertencimento à na-
ção” (id., ibid. p. 52).
Tal quadro altera-se somente a partir da década de 1970, quando o
Estado divide as competências da salvaguarda do patrimônio com ou-
tros entes da federação, “em decorrência principalmente da impossibili-
dade de o IPHAN4 manter, com recursos do governo federal, uma agenda
atualizada de conservação e manutenção do patrimônio” (id., ibid., p. 53).
Com isso, são criadas as instituições responsáveis pela preservação
do patrimônio em âmbito estadual. Resultou então o alargamento e a
flexibilização dos processos de tombamento, uma vez que aquilo que
se entendia como patrimônio cultural de um Estado ou município por
vezes não reunia os elementos necessários à concepção oficial de nação
que o Instituto Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desejava preservar
como memória nacional.
A redefinição de postura institucional para com as políticas patrimo-
niais permite que o país se insira nas recentes abordagens e discussões
sobre patrimônio. Pautaram-se, sobretudo, nas proposições das “cartas
patrimoniais”, resultantes de conferências mundiais sobre o tema, como
as da Carta de Veneza (1964), de não mais notar um bem patrimonial
como isolado, mas inseri-lo na dinâmica do contexto social e físico em
que se encontra, pois destacar o monumento isolando-o do seu entorno
representava um ato de mutilação à história.
A nova concepção de política patrimonial aumentou expressiva-
mente o número de edificações a serem tombadas, basicamente em
duas frentes: 1) pela necessidade de preservar o entorno de edificações
históricas e 2) a possibilidade de tombamento de simples estruturas. A
partir de então, as atenções estiveram voltadas aos conjuntos arquitetô-
nicos e urbanísticos de valor histórico, uma vez que as edificações que
se queria tombar estavam, geralmente, inseridas num contexto, não me-
nos histórico, de um centro urbano que podia ser denominado “Centro
Histórico”5, e em alguns casos “Cidade Histórica”.
As novas diretrizes adotadas pelas Políticas de Patrimônio no Brasil,
não por acaso, marcam também o início da abordagem turística do Patri-
mônio, conforme a Carta “Normas de Quito”, de 1967. O bem patrimonial

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Cidades e Patrimônios Culturais
158 Investigações para a iniciação à pesquisa

de um país poderia ser tratado como riqueza natural passível de explora-


ção econômica e tal “abertura” possibilitou que organizações financeiras
privadas pudessem explorar, para fins turísticos, o “novo negócio”.
Assim, há uma busca por tornar os “bens”, “acessíveis” à visitação,
através de reformas, restauro e “melhorias”, em processos inseridos no
bojo do gentrification. Sobre este quadro há entendimentos que apon-
tam para uma mudança que de certa forma foi benéfica, ao menos no
que tange à visão da política patrimonial no Brasil, pois passou-se a re-
lacionar de maneira menos nacionalista e mais recursiva o desenvolvi-
mento de cidades históricas.
Porém, a mudança de rumo de tais políticas logo se apresentou
potencialmente perigosa, uma vez que o gentrification tem como ca-
racterística principal a intenção de (re)construir usos dos conteúdos e
materiais de determinado passado, reclassificando os seus personagens
e apresentando, por vezes, funções e ações sociais diferentes das cons-
truídas socialmente, apoiadas num discurso de embelezamento estético
para valorização cultural.
Assim, tais processos tendem a desviar a lógica do patrimônio de
uma ideia de preservação cultural para a concepção oficial de nação,
agora orientada para fins econômicos. Leite (2007) afirma que “O proble-
ma dessa perspectiva não é a existência de uma dimensão econômica
da cultura, mas a redução do valor cultural ao econômico, que poderia
subsumir a natureza cultural do patrimônio, resultando numa espécie de
fetichização da cultura” (p. 65).
O processo em questão começa a ganhar rápida aceitação e apoio
dos governantes, e a noção de patrimônio passa a receber forte influ-
ência de fatores políticos, observando-se um efeito de comercialização
indiscriminada do patrimônio e da cultura, cada vez mais urgente nos
conjuntos considerados históricos, recaindo frequentemente sobre edi-
ficações em ruína.
De tal modo, ao pensar a significação que as ruínas de centros his-
tóricos podem conter na relação com o grupo no qual se inserem, ob-
serva-se que as políticas patrimoniais reservam-lhes ampla atenção de
intervenções de restauro. Torna-se, a partir de então, pertinente analisar
o efeito deste elemento arquitetônico na memória compartilhada de
cidades históricas (e mais especificamente de Laranjeiras, em Sergipe).

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1.1 A Ruína e seu “valor”

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Aquilo que convém observar em uma ruína não se trata do estado
físico em que se encontra, pois a função de abrigar uma residência ou
um comércio deu-se em outro momento; neste caso, o tempo é teste-
munha. A ruína alcançou tal situação por ter ligação direta com a ruptura
de um momento na continuidade de um grupo social. Assim, a impor-
tância da análise de tais estruturas para a sociologia está no passado que
carrega em si, na simbologia que retém e na relação que possa manter
com a memória de grupos sociais.
A tônica das discussões sobre a ruína na sociologia pauta-se em
observar sua relação com as cidades e seus habitantes. Tal associação a
põe, com frequência, nas discussões e análises da Sociologia e Antropo-
logia Urbana, contribuindo com os debates das políticas patrimoniais,
com entendimentos sobre seu valor sociocultural e com a relação destas
com a memória social do grupo ao qual se liga, especialmente nos sítios
urbanos históricos.
Tais abordagens são relativamente recentes na Sociologia Urbana,
porém, autores clássicos da Sociologia dedicaram-se a reflexões teóricas
e considerações sobre a ruína em conceituações que relacionam este
elemento à sociedade em ambiência urbana. A noção de ruína formula-
da por Benjamin (1989) decorre de um pensamento envolto em um teci-
do urbano: um elemento arquitetônico, permeado pelas características
subjetivas pertinentes à cidade percorre vários e inquietos quadros de
movimentação social, típicos das dinâmicas das cidades. Segundo Ben-
jamin (1989), a ruína surge num momento em que:

Algo deste tecido urbano está por desaparecer e [isso]


ilumina, com uma luz singular e poética, tudo aquilo que
o condenou, seu outro e seu contrário. [...] possibilitando
a fantasmagoria daquelas lembranças ou memórias que,
como lacunas da história, permanecem para assombrar o
presente e alertar sobre o futuro (p. 85).

As ruínas, assim consideradas, retêm em si uma condição de “fan-


tasma”, que provoca sentimentos de finitude, debilidade, declínio, que-
da, perda de um momento, e com isso propiciam uma metamorfose
temporal, dando oportunidade de quem as contempla passar de um

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Cidades e Patrimônios Culturais
160 Investigações para a iniciação à pesquisa

tempo para outro. Benjamin (1984) põe a ruína como símbolo do trágico,
de uma história que terminou em catástrofe, que lembra o declínio e a
decadência; a ruína acaba por representar o que de um momento confli-
tuoso restou, e daí retira sua força, pois desperta a memória, provocando
emoção, sensibilidade e traz lembranças deste período.
Segundo Cristina Meneguello (2000), as cidades podem constituir-
se por um discurso fundamentado numa história que ressalta e revela o
que se foi pelas estruturas físicas, em especial suas ruínas, e pelos costu-
mes de seus habitantes. Para a autora, a cidade inglesa de Manchester é
um exemplo, pois ofereceu entre o século XIX e XX, a partir de suas várias
histórias e ruínas, a imagem de uma antiga, rica e importante cidade da
Idade Média.
A autora aponta para uma noção de monumento, de “ressignifica-
ção, como cristalização de imagens do passado e como jogo de apro-
priação e perda [...] que surge, como um olhar para o passado, catalogan-
do, colecionando e preservando, as ruínas, marcas do passado nacional”
(Meneguello, 2000, p. 19). Segundo a autora, sociedades que valorizam o
patrimônio se sustentam com marcas do passado e por vezes os discur-
sos históricos utilizam-se de elementos que perduram no tempo; entre
tais, estão as ruínas.
Entendendo a “experiência do presente como uma contínua rede
de referências ao passado” (id., ibid. p.19), Meneguello (2000) ressalta
a problemática apresentada pelos historiadores positivistas acerca das
raízes de Manchester, pois há ausência de ruínas na cidade que com-
provassem a continuidade da sociedade romana, fazendo com que as
ruínas da região central de Deansgate, que a autora considera como “pí-
fias”, fossem evocadas como lembrança de tal passado. “Re-construídas”
de forma “quase bizarra”, tornaram-se ponto turístico.
A autora discute uma compreensão de ruína que lentamente se
altera diante da sociedade que a vivencia: “progressivamente as ruínas
perdem o caráter de aviso simbólico da finitude humana e da velocida-
de de suas realizações” (id., ibid., p. 88). No entanto, assegura-se que as
ruínas proporcionam um sentido de pertencimento, como documentos
que atestam as raízes de uma cidade. Entre as considerações que Mene-
guello (2000) tece voltadas à apreensão da “função” da ruína, uma, em
especial, dialoga proximamente com a percepção proposta neste artigo:

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Histórica Laranjeiras/SE.
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“ruína é em si um modo de reconhecer o passado”, afirmando que as “ruí-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


nas habitam simultaneamente dois tempos, o ocorrido e o presente” (id.,
ibid., p. 92). Assim, conclui que a “ruína tem sido o traço de arquitetura
com maior poder de evocação do passado na origem de sua apreciação
da transitoriedade dos poderes terrenos e das conquistas humanas” (id.,
ibid. p. 93).
Outro teórico que se debruça à compreensão da ruína é Georg Sim-
mel (1998), que se pôs a entendê-la como o momento de frouxidão na
tensão que há entre o passado e o presente, não sendo nem um, nem
outro, aguardando o seu futuro próximo, carregando consigo marcas do
passado. Para o autor, essa seria a única obra humana capaz de atender
o conflito; vontade humana versus necessidade da natureza, como entre
a vida e a morte.
Simmel (1998) assevera que há nas ruínas uma “sedução”, que se
encontra na “natureza” que nelas persiste; há nela uma simbologia da
ação destruidora da natureza sobre o poder de erguer o homem, conflito
manifestado desde sua construção até seu arruinamento:

A ruína da obra arquitetônica significa que naquelas par-


tes destruídas e desaparecidas da obra de arte há outras
forças e formas - aquelas da natureza - cresceram e consti-
tuíram uma nova totalidade, uma unidade característica,
a partir do que da arte ainda vive nela e do que de natu-
reza já vive nela (id., ibid., p.135-136).

Estas considerações e formulações teóricas balizam nosso entendi-


mento sobre as ruínas nas cidades históricas: contendo um caráter de
presenciar fisicamente dois momentos, passado e presente, retendo-os
em si e transmitindo-os por gerações, garantem que a história conta-
da institucionalmente não se afaste da apreensão da memória coletiva,
além de permitir aos que com elas se relacionam cotidianamente, reme-
morar traços da cidade que habitam, pelas lembranças evocadas de seus
escombros, retidas na memória compartilhada do grupo.
Portanto, a compreensão sistemática dessas estruturas, e dos laços
de memória com o grupo que as contem é de fundamental importância.
No contexto da memória, a sociologia tem a contribuir especialmente
com as formulações de Halbwachs (2006), por admitir que toda memória

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162 Investigações para a iniciação à pesquisa

tem origem social, numa construção psíquica que ocasiona, em última


instância, uma seleta representação do passado e que nunca é somente
individual, pois tem inserções de diversos contextos e até mesmo influ-
ência dos elementos físicos (Foucault, 1979).

1.2 Memória e Sociologia: conceitos e contextos


A memória como objeto de análise sociológica segue, basicamente,
duas tradições. De um lado, a escola frankfurtiana apresentou, por meio
de alguns de seus expoentes, como Walter Benjamin e Herbert Marcu-
se, a memória enquanto “sujeito do conhecimento”, ou seja, um meio
que possibilita reconhecer o mundo que o constitui. Por outro lado, a
tradição francesa teve em Maurice Halbwachs a concepção da memória
enquanto “objeto de estudo sistemático e comparativo de padrões de
comportamento” (Santos, 2003, p. 38).
As teorias de Marcuse e Benjamin pautam-se na tradição do pen-
samento social alemão e como marco dos debates sobre memória tem-
se a publicação da Dialética do Esclarecimento, o qual acena “à perda de
autonomia do indivíduo em sociedades de massa” (Santos, 2003, p. 97).
A obra utiliza-se da “teoria crítica”, caracterizada pela crítica à racionali-
dade iluminista, pela qual o indivíduo estaria subsumido a uma socie-
dade altamente “esclarecida”. Para os autores, a crescente uniformidade
da mentalidade racional apresenta-se como “repressão à subjetividade
em sociedades de massas” (id., ibid., p. 99). Assim, criticavam qualquer
possibilidade analítica que separasse teoria e práxis política.
A crítica dirigia-se claramente ao entendimento que lança o indi-
víduo como uma “personalidade total”, e rejeita também todas as com-
preensões da psicanálise que “enfatizam apenas em termos de impulsos
e instintos” (id., ibid., p. 100). Marcuse assinala na direção de um en-
tendimento sobre a irracionalidade da sociedade de massa e da razão
instrumental, e apresenta a memória como alternativa à cisão de uma
sociedade unidimensional, por uma prática política, o que, segundo ele,
ocasionaria algum tipo de ruptura nessa sociedade.
Para Marcuse (1981) teria a memória a capacidade de romper com
a alienação do homem moderno. O autor infere que a memória dá ao in-
divíduo a condição de descobrir e perceber sua natureza através da au-

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tointerpretação. Esta foi a “função” dada à memória por sua teoria, numa

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


espécie de libertação da alienação da razão instrumental, que serviria a
todos que estivessem numa condição de submissão.
De forma semelhante, porém com certas nuances ao que tentou
propor Marcuse, Benjamin seguiu com a intenção de que pela memória
poder-se-ia romper com algumas condições socialmente estabelecidas.
Suas formulações sobre memória estão entre as que mais são difundidas
atualmente no meio acadêmico. Variando dos demais frankfurtianos,
Benjamin (2000) percebe esta relação como um advento histórico, como
uma das possibilidades da vivência e da experiência no mundo, compre-
endida nas tensões e possíveis correlações através da história. A “alego-
ria” seria sua representação, sua condição histórica.
Preocupado com a perda de significado apresentada pelo mundo
das “alegorias”, o autor oferece, pela memória, uma alternativa, pressu-
pondo um papel de reconstrução ativa e revolucionária do mundo. Es-
taria na relação “passado-presente” o entendimento necessário às mu-
danças sociais. O passado, para ele, era “não como origem no sentido de
princípio ou início que antecede o presente e que com ele se articula, mas
como um fenômeno arcaico que pode ser encontrado no momento do
presente” (Santos, 2003, p. 131). Não há, então, entre o passado e o pre-
sente uma relação de antes e depois: a proposta é de um “passado” que
tenha ação prática no “presente”, assim “a memória, compreendida como
mônada rompe com o contínuo linear da tradição” (Santos, 2003, p. 132).
Tomado por estas reflexões e pensamentos, Benjamin conclui e, en-
tão, apresenta dois tipos distintos de memória, a memória voluntária e a
involuntária: a voluntária seria a lembrança espontânea, da qual se pode
dizer que as informações que nos proporciona sobre o passado não con-
servam nada dele. Esta memória estaria ligada à esfera da consciência
desperta, da qual dependeria a proteção contra os estímulos externos;
por outro lado, a involuntária “corresponde ao repertório íntimo da pes-
soa [...]. Onde há experiência, no sentido próprio do termo, certos con-
teúdos do passado individual entram em conjunção na memória com
elementos do passado coletivo” (Benjamin, 2000, p. 35).
Nestas concepções percebe-se certa subjetividade da memória,
com ênfase nos aspectos relacionados à “perda de elos comunitários e
de vínculos entre pessoas a partir de tradições estabelecidas” (Santos,

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Cidades e Patrimônios Culturais
164 Investigações para a iniciação à pesquisa

2003, p.145). Em tais análises isto ocorre pelo contexto das mudanças
geradas na sociedade moderna, “a partir do fim da tradição oral e do sur-
gimento da escrita, [já que] passamos a nos confrontar com a perda de
transmissão de conhecimento e valores entre gerações” (id., ibid., p.214),
especialmente a perda da memória transmitida oralmente.
De certo modo, o pensamento proposto pela Escola Francesa, que
tem como maior expoente Maurice Halbwachs, compartilha tais pressu-
postos. Porém, nesta tradição a discussão desloca a análise para o eixo
da coletividade e não mais a centra no indivíduo.
A reflexão de Halbwachs tem uma compreensão da sociedade a par-
tir da análise de sua memória compartilhada, vertendo sua preocupação
às representações coletivas das práticas sociais. Assim o autor atenta não
para as causas e consequências dos fenômenos sociais, mas, sim, para as
representações sociais que tiveram e verificam em seus “quadros sociais
de memória”. A importância de sua reflexão sobre memória repousa jus-
tamente no entendimento de que os indivíduos só se lembram de seu
passado sob o ponto de vista do pensamento coletivo, assim sendo, o
que lembramos é fruto das construções sociais estabelecidas pelo grupo
ao qual pertencemos.
Nesse processo de construção coletiva o autor argumenta ser
impossível separar o tempo e o espaço da memória, especialmente o
espaço, pois o “tempo” da memória é concretizado no espaço, ou seja,
quando há uma sustentação espacial, o “tempo” pode ser recordado. O
espaço é, em certo modo, entendido como dotado de capacidade para
evocar a memória do indivíduo, guardado na “Memória Coletiva”.
Halbwachs (2006) assegura que, ao percorrer bairros antigos de
uma cidade experimenta-se uma satisfação particular de se estar “ouvin-
do” e “vendo” novamente a sua “história”, e entende que tal cenário, por si
só, é capaz de evocar lembranças. Em tal abordagem, estas ocorrem, ple-
namente, quando há fixação no tempo por meio do espaço. Assim, um
grupo, constituído num bairro ou cidade, irá fruir as mesmas condições
em suas memórias coletivas, sendo possível pensar numa “memória das
cidades”, entendida aqui como a memória de um grupo de pessoas liga-
das entre si no espaço de uma cidade, e que ali experienciam suas vidas
cotidianamente, durante uma relativa e estável duração de tempo.

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Histórica Laranjeiras/SE.
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2. Laranjeiras, de porto comercial a sítio histórico:

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


memórias da cidade e(m) ruínas
A cidade de Laranjeiras, localizada no Estado de Sergipe, na região
do Vale do Rio Cotinguiba, contou com condições geográficas privile-
giadas para seu desenvolvimento. O solo fértil favoreceu o cultivo de ca-
na-de-açúcar e sua situação hidrográfica diferenciada era adequada às
condições de navegação da época, pela profundidade do leito do trecho
do rio que o margeava, propiciando o atracamento de grandes embarca-
ções. No século XVII, “os primeiros habitantes da povoação construíram
um porto fluvial”, erguido próximo a um laranjal, “que tomou o nome de
Porto de Laranjeiras” (Ferreira, 1959, p. 349). Estes fatores foram funda-
mentais para destacá-la, mais tarde, como grande centro comercial.
A povoação de Laranjeiras, no século XVIII, já percebia um rápido
crescimento e um significativo aumento de sua população, alavancada
pelo porto fluvial e a fundação de novos engenhos de cana-de-açúcar.
O progresso de Laranjeiras era copioso e aos poucos ia se firmando “[...]
como o maior empório comercial de Sergipe [...]. Tal era sua importância
como porto que, em 1836, foi [ali instalada] a primeira Alfândega de Ser-
gipe” (id., ibid., p. 356).
A cidade, já no século XIX, alcançava seu período áureo, e não se
destacava apenas pelo caráter mercantil: além de maior centro econô-
mico da província e um dos maiores do país, tornou-se referência como
um dos principais núcleos políticos da região.
Sua excelente condição econômica despertava o interesse de imi-
grantes portugueses, que “ante a grande crise que Portugal vivia nos fins
do século XVIII, tangidos pelo anseio de enriquecer e ascender” (Nunes,
1996, p. 208), migraram para entrar na disputa do comércio local. Tal mi-
gração foi feita também pelos homens da elite, e das classes mais inte-
lectualizadas da Província de Sergipe, atraídos pela efervescência social
e sua centralidade; isso fomentou seu desenvolvimento cultural: Laran-
jeiras tornava-se um importante centro urbano e cultural, e já no século
XIX passou de um simples porto comercial à “cidade mais importante de
Sergipe”, ocasionando a modernização de sua malha urbana.
Tal posição naturalmente a obrigou a desenvolver melhores con-
dições de vida dentro de seu núcleo urbano, especialmente no período
compreendido entre o final do século XVIII e início do XIX, o qual Azevedo

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Cidades e Patrimônios Culturais
166 Investigações para a iniciação à pesquisa

(1975) nomeou de “século de ouro”. Neste período, Laranjeiras dedicou-se


a atender as necessidades de sua grande população, “em 1834, a popu-
lação era de 25.500 habitantes” (Azevedo, 1975, p. 06) e, para suprir tal
demanda, se dispôs à ampliação de seus equipamentos urbanos, e, em
meio ao século XIX, fundam-se teatros, liceus, clubes e cinemas. Neste
momento a sociedade laranjeirense viveu um grande florescimento cul-
tural e ficou conhecida como a “Atenas Sergipana” (Azevedo, 1975).
Com as edificações e equipamentos urbanos instalados, e dedican-
do-se a atender às necessidades da Província, podia-se dizer que Laran-
jeiras, do ponto de vista estrutural urbano, estava apta a ser a nova sede
de Sergipe Del Rey. Contudo, em 1855, o então Presidente da Província,
Inácio Joaquim Barbosa, “transfere a capital de São Cristóvão para o povoa-
do de Santo Antônio de Aracaju” (Porto, 1945, p. 18). Muitos são os autores
que indicam este como o momento crucial para a descontinuidade do
desenvolvimento de Laranjeiras.
A cidade, por todo o século XX, continuou a sofrer com o grande
êxodo populacional, acompanhado de um forte declínio de seu comér-
cio. Em meio a tal cenário, a cidade foi aos poucos se transformando e
moldando-se a uma nova realidade, passando de um privilegiado centro
urbano para lentamente assumir uma postura de centro histórico, trans-
mitindo por gerações a consagração cultural e econômica de outrora,
retidas na memória do grupo (Halbwachs, 2006), em suas tradições e no
seu conjunto urbanístico e arquitetônico, especialmente nas ruínas que
persistem e denunciam seu passado faustoso.

2.1 O Patrimônio e as intervenções


urbanas da “velha” Laranjeiras
Algumas peculiaridades estiveram presentes na trajetória de Laran-
jeiras: a prodigabilidade natural de seu espaço físico, favorecendo seu
desenvolvimento socioeconômico; a opulência da cidade e seu modo de
vida urbano, a partir do século XVIII e por fim, a admirabilidade de seu
conjunto arquitetônico. Tais atributos, de certo modo, fazem entender
sua posição de grande centro urbano, comercial e artístico-cultural da
região (em determinada época).
Com a quebra de sua economia, no século XIX, a cidade permane-
ceu estagnada. O Brasil vivia então um momento de “valorização nacio-

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Revisitando Memórias e(m) Ruínas da
Histórica Laranjeiras/SE.
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nal”, qual se valia, pelo SPHAN, da arquitetura colonial como tentativa de

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


definir uma suposta “identidade nacional brasileira”.
A cidade de Laranjeiras se enquadrava na proposta que o SPHAN in-
tencionava e já na década de 1940 iniciaram-se seus tombamentos indi-
viduais. Porém, estes, quase totalmente, localizavam-se fora de sua área
urbana. Logo, as edificações do núcleo urbano, datadas dos séculos XIX
e XX, continuaram sem reconhecimento de seu valor histórico; apenas
em 1971, num decreto do Governo de Sergipe, Laranjeiras foi elevada à
categoria de “Cidade Monumento” e em 1996 o Governo Federal reco-
nhece o valor histórico e artístico do conjunto urbano, atribuindo-lhe
caráter de Centro Histórico e definindo seu perímetro de tombamento.
Laranjeiras, ainda em 1996, foi incluída na lista de sítios históricos
urbanos nacionais, sendo denominada de “Cidade Histórica”. Vale ressal-
tar que todo o seu perímetro de tombamento (IPHAN) está inserido den-
tro da área urbana da cidade e mantém sua morfologia original. Apesar
de Laranjeiras ter todo seu núcleo urbano tombado pelos órgãos federal
e estadual, não há, dentro do perímetro, monumentos históricos indivi-
duais, exceto a Igreja Matriz. Porém, os arquitetos Eder Donizeti da Silva
e Adriana Dantas Nogueira (2007) afirmam ser possível inscrever como
patrimônio cultural outras edificações e para tanto avaliam que algumas
estruturas, mesmo em ruínas, remontam à identidade e à memória local.

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Cidades e Patrimônios Culturais
168 Investigações para a iniciação à pesquisa

De tal modo, Silva e Nogueira (2007) apontam alguns monumentos


arquitetônicos:

a) Religiosos – a Igreja de Nossa Senhora da Conceição


dos Pardos (1843/1860); a Igreja Presbiteriana de Sergipe
(1884); a igreja do Senhor do Bonfim (séc. XIX); a Capela
de Sant’Aninha (1860); a Igreja de São Benedito e Nossa
Senhora do Rosário (séc. XIX); a Igreja de Bom Jesus dos
Navegantes (1905);

b) Civis – Museu de Arte Sacra de Laranjeiras (séc. XX); Os


Trapiches (séc XIX); a Casa de Cultura João Ribeiro (1860);
a Escola Zizinha Guimarães (1904); Conjunto de Sobrados
da Rua Getúlio Vargas, antiga Rua Direita (séc. XIX); o Te-
atro Santo Antonio (séc. XIX); o Mercado Municipal (séc.
XIX); o Paço Municipal (séc. XIX); a Ponte Nova, também
conhecida como Ponte do Matadouro (1842); o Teatro São
Pedro (séc. XIX) e o Cine-teatro Íris (séc. XIX/XX) (p. 48).

A estas edificações poderiam ser acrescidas a Praça da Feira (1824),


hoje Praça Samuel Oliveira, e os prédios que abrigaram o hospital de
caridade São João de Deus (1866), também conhecido como Hospital
Velho, e sua enfermaria (1867), imediatamente ao seu lado. Há ainda o
prédio da delegacia/quartel, que data de 1903, totalizando, assim, 21
edificações de caráter relevante à memória e à identidade da cidade, no
sentido de Silva e Nogueira (2007).
Tais estruturas, em sua maioria, já não servem aos usos originais,
em virtude da falência econômica da cidade, que provocou profundas
transformações em seu modo de vida e reordenou a dinâmica social. As-
sim, alguns serviços tiveram menor procura e outros se encerraram; é
o caso dos trapiches, que serviam principalmente para armazenamento
das mercadorias que circulavam pelo rio Cotinguiba e que, com a que-
bra da indústria canavieira, foram esquecidas, acarretando suas ruínas;
ações semelhantes ocorreram em outras estruturas.
Em pesquisa exploratória em 2009, percorremos todo o sítio his-
tórico e, em meio a aproximadamente 500 edificações, catalogamos as
estruturas que se encontravam em estado de ruína. Para tanto, verifica-
mos se as mesmas apresentavam-se em decrepitude, caídas, com partes

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ao chão, ou mesmo apenas “vestígios” de fundações, de paredes ou de

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


quaisquer partes.

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Cidades e Patrimônios Culturais
170 Investigações para a iniciação à pesquisa

Observamos, como componente da paisagem urbana de Laranjei-


ras, 23 ruínas, com datações prováveis do início do século XIX a meados
do XX. Prospectamos, ainda, em depoimentos de populares, seus usos
originais e 16 estiveram associadas a residências e 7 a equipamentos de
cultura ou de serviço. Sobre os usos atuais ver tabela 1.

TABELA 1
Usos encontrados em ruínas do centro histórico (fev. a jul. de 2009)

Ruína do Ruína do Ruína de um Trapiche,


sobrado nº 25, sobrado nº Ruína do Teatro localizado na Avenida
calçadão G. 27, calçadão São Pedro Municipal (entrada do
Vargas. G. Vargas. Centro Histórico).

1º) abriga 1º) casas erguidas


Andar
brincadeiras de invadindo seu
Andar superior superior em
crianças (fig. espaço interno. 2º)
em ruína e ruína e térreo
04). 2º) serve uso das sombras
térreo usado usado como
como auxílio dos escombros para
como farmácia. academia de
a serviços de serviço de lavagem de
ginástica.
carpintaria. roupas (fig. 04).

Há um considerável número de ruínas no núcleo histórico urbano


da cidade com investidas das políticas patrimoniais (restauro), algumas
concluídas e outras em execução, até 2009. Os maiores investimentos no
patrimônio histórico de Laranjeiras, por tais políticas, foram conhecidos
no século XXI, especialmente a partir de 2004, quando a prefeitura assi-
nou convênio, em parceria com o Governo Federal, Estadual e a Univer-
sidade Federal de Sergipe, afirmando que em conjunto gerenciariam o
“Programa Monumenta6” em Laranjeiras.
De acordo com as premissas do Programa Monumenta, as inter-
venções urbanas realizadas não apreendem previamente a relação de
memória constituída pelos moradores da cidade com as arquiteturas
objeto de suas ações, nem avaliar os desejos e aspirações do grupo para
com tais edificações. Em Laranjeiras esse quadro não se distinguiu, e as
estruturas alvos de restauro não tiveram estudos que observassem suas
dinâmicas sociais. Cabe salientar que todas as edificações, objeto de in-
tervenção do Monumenta em Laranjeiras, até 2009, encontravam-se em
ruína ou em avançado estado de arruinamento.

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Histórica Laranjeiras/SE.
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O projeto, iniciado em 2005, dedicou-se à restauração total e/ou

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


parcial de 10 edificações no centro histórico, além da reforma do telha-
do e do forro da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus. As estru-
turas objetos das intervenções são as seguintes: o Casarão de Oitão da
Praça da República (antigo Teatro Santo Antônio), abriga a Biblioteca
da Universidade Federal de Sergipe/Laranjeiras; o Casarão dos Rollem-
berg; o sobrado ao lado e o Trapiche da Carpintaria da Prefeitura, estes
em processo (IPHAN, 2009). Além dessas, há o conjunto de edificações
contíguas, conhecido como “Quarteirão dos Trapiches”, composto pelo
Trapiche Santo Antônio; Sobrado e Casarão à Rua Samuel de Oliveira
e Ruína adjacente; Edifício da Exatoria; e Ruína em frente ao Mercado,
concluído em 2009.

Na equação tempo-espaço, o ser humano não resiste por longos


anos. Já as edificações tendem a permanecer por mais tempo, tendo,
além de sua utilidade tradicional, a de rememoração, e em Laranjeiras
algumas estruturas em ruínas são a prova de que, nesta equação, sua re-
sistência é longínqua, persistindo em nos permitir contemplar o passado
ante o presente.

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Cidades e Patrimônios Culturais
172 Investigações para a iniciação à pesquisa

2.2 Ruínas e Memórias: o passado-presente


em Laranjeiras
Para apreender o sentido que as ruínas têm no cotidiano dos laran-
jeirenses, andamos pela cidade misturando-nos; consumindo seus espa-
ços, observando e experienciando suas interações sociais, numa postura
típica do flâneur, como assinalam Eckert e Rocha (2003):

[...] a cidade do andarilho [Flâneur] tem uma história, [...]


que configuram referências práticas e simbólicas em que
se reconhece ou se constrange nas ruas que perambula,
lugares que conhece ou desconhece, espaços que gosta
ou desgosta, contextos que lhe atraem ou passam desa-
percebidos. [...] Espaços, cheiros, barulhos, pessoas, ob-
jetos e naturezas que o caminhante experiencia em sua
itinerância (p. 01).

Assim, deixamos que sua arquitetura, suas ruas, suas ruínas e seus
habitantes se expressassem, dando-nos a apreensão dos sentidos da ci-
dade na “vida cotidiana” (Pais, 2003) dos habitantes do centro histórico.
O cenário mescla traços coloniais a traços de modernidade, observados,
especialmente, pelo movimento dos automóveis nas ruas de pedra, en-
voltos à arquitetura colonial, que impõe sua força sobre a modernidade
que a espreita.
Por certo este é o maior dos sentidos que Laranjeiras atribui aos seus
habitantes: o de cidade com arquitetura colonial; sua paisagem parece
não ter avançado no tempo, o espaço urbano ainda retém práticas se-
melhantes às do século XIX. A cidade a todo instante parece insinuar um
retorno no tempo, contribuindo com a manutenção da memória coletiva.
Algumas edificações, como o “Paço Municipal” e a “Praça Samuel
Oliveira”, pouco se alteraram, mesmo sendo estruturas arquitetônicas do
século XIX, com destaque no cenário econômico e social da época. De
certo modo, mantiveram similaridade com usos originais, orientando as
“classificações simbólicas das ações sociais” (Foucault, 1975) dos mora-
dores, ou como diria Fortuna (1997), organizando os movimentos huma-
nos e contribuindo com a manutenção das relações sociais.
De outra forma, ruínas de sobrados que abrigam comércios estão
presentes na rotina cotidiana dos habitantes da cidade que frequentam

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o calçadão e em especial daqueles que desenvolvem nelas suas ativida-

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


des. Por todo o centro histórico encontramos, compondo o cenário da
cidade, edificações em ruínas. A rotina de Laranjeiras é bastante calma,
com pessoas transitando tranquilamente, valendo-se das sombras dos
prédios e também das ruínas. Outra composição, que facilmente é vista,
são senhoras sentadas em cadeiras nas calçadas, a conversar e observar
a movimentação, algumas dessas a proteger-se do sol, escorando-se em
sobrados em ruína, totalmente integradas e despreocupadas com o es-
tado das estruturas.
Do que vimos sobre as ruínas do centro histórico de Laranjeiras,
acreditamos que há um valor simbólico que, de certo modo, atua em fa-
vor das práticas sociais (Fortuna, 1995). Assim é possível mencionar que
o espaço citado e suas ruínas têm forte relação de direção na vida coti-
diana daquele grupo. Halbwachs (2006) afirma que a memória coletiva
só pode advir num contexto espacial relativamente durável e de relativo
sentido ao grupo. Logo entendemos que o grupo constituinte do centro
histórico da cidade retém uma memória compartilhada que se referen-
cia a tal espaço para evocar lembranças dos indivíduos.
Para a apreensão da medida em que as ruínas inscritas no sítio his-
tórico de Laranjeiras relacionam-se com a “memória coletiva” do grupo
social ali inscrito, valemo-nos de uma premissa do pensamento de Hal-
bwachs (2006), sobre “quadros sociais da memória”, em que o autor sus-
tenta que as memórias individuais são, em certa medida, construídas no
grupo ao qual o indivíduo está ligado, portanto, “cada memória individual
é um ponto de vista sobre a memória coletiva” (Halbwachs, 2006, p. 69). Ao
extrair a memória dos indivíduos extraem-se as lembranças da memória
coletiva, até porque, em última análise, “são os indivíduos que se lembram
enquanto integrantes do grupo e não o grupo em si” (id., ibid. p. 69).
Pudemos balizar o modo como o grupo compartilha, pela memória,
as ruínas inscritas naquele espaço. A tomada de narrativas de memória
de moradores idosos do centro de Laranjeiras gradualmente teceu o ar-
ranjo da memória coletiva.
A utilização da narrativa de memória oral, como método de apre-
ensão da memória partilhada entre os laranjeirenses, pautou-se no en-
tendimento de Benjamin (2000) e de Halbwachs (2006), os quais, com
pensamentos semelhantes, entendem que o narrador recorre ao acervo

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Cidades e Patrimônios Culturais
174 Investigações para a iniciação à pesquisa

de experiências de vida (tanto as suas como as experiências transmitidas


por outros). A opção pelas narrativas de idosos regulou-se por Ecléa Bosi
(1995), a qual assume que pessoas de mais idade servem à memória de
seus grupos e sua função social é lembrar; assim, suas lembranças aca-
bam por expressar, com maior eficácia, a memória de certa coletividade.
A conversa que tivemos com “Dona Graça”7 (70 anos) foi uma das
que mais contribuíram com narrativas de memórias, pois, na medida em
que se lembrava de um acontecimento ou de um aspecto da vida da
cidade, outra recordação logo surgia, ou até mesmo associada a elemen-
tos espaciais (como uma ruína).
“Dona Graça” fez considerações a respeito de algumas festas que
não mais acontecem na cidade, e teceu-lhes elogios, afirmando que
eram bonitas, alegres, sem violência e que vinham pessoas de todo o Es-
tado. As festas nas ruas de Laranjeiras, de certo modo, trouxeram à nar-
radora lembranças dos espaços do centro urbano, e então fez comentá-
rios a respeito de aspectos bem cotidianos da cidade à época, gerais e
culturais. Tudo isso apoiado em evocações de lembranças por ruas e por
elementos arquitetônicos da cidade:

(...) Laranjeiras sempre foi uma cidade de cultura, a gente


sempre escutou isso, escutava muito (...) Ali era um teatro
(apontando para frente de sua residência), dizem que foi
construída pro Rei, quando ele teve aqui. Você sabia que
ele teve aqui? É! ele teve aqui e ficou lá na Sant’aninha, lá
na frente na entrada da cidade, tem ainda umas pedra lá
do casarão que ele ficou, já viu? (...) Aqui tinha até cinema,
ali no calçadão, mas tudo foi se acabando, meu filho (...)
(D. Graça, 2010).

Nesse depoimento destacam-se dois importantes aspectos: Primei-


ro, ela refere-se ao Teatro São Pedro, que se encontra em estado de ruína,
localizado próximo à sua casa, e que de certo modo auxiliou na evoca-
ção de lembranças. Depois, num misto de dúvida e segurança, afirma
lembrar, auxiliada, em certo modo, pela ruína do Teatro São Pedro, que
o “Rei” esteve em Laranjeiras, referindo-se a uma suposta visita que o
Imperador D. Pedro II teria feito à cidade em 1860, porém nesta data a
narradora não era nascida.

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Histórica Laranjeiras/SE.
Allan Rafael Veiga 175

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


Este depoimento liga-se ao pensamento de Halbwachs (2006) pela
ideia de que as memórias individuais não são resultado apenas de ex-
periências próprias, mas construídas pela memória compartilhada do
grupo. A Sant’aninha, a que se refere, é uma fazenda (dentro do sítio
histórico), que abriga ruínas de um antigo casarão onde supostamente
teria se hospedado o Imperador D. Pedro II. O cinema a que se refere pos-
sivelmente é o Cine Teatro-Iris, também em ruínas, “construído no final
do século XIX” (Silva; Nogueira, 2007, p. 83).
Outras ruínas auxiliaram a evocação da memória de Dona Graça,
entre as quais destacamos a ruína do “Hospital Velho”, que se liga dire-
tamente a um importante acontecimento da cidade, no início do século
XX, o qual a narradora afirma que é de conhecimento geral, possivel-
mente por estar retido na memória da coletividade.

(...) eu ouvia dizer direto que Lampião foi operado lá (re-


ferindo-se às ruínas do Hospital), ele num tinha um olho
cego? Pois! Foi aí que ele operou daquele olho, aí mes-
mo no Hospital Velho com Dr. Bragança. (...) era o melhor

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Cidades e Patrimônios Culturais
176 Investigações para a iniciação à pesquisa

hospital da época por aqui, mas também né! todo mundo


queria morar em Laranjeiras (D. Graça, 2010).

As lembranças do “Sr. Paulo” (72 anos)8 confirmaram o que narrou


“Dona Graça”, em um similar depoimento sobre o evento que teria ocor-
rido no “Hospital Velho”:

(...) Já teve muita gente importante aqui, aquele... (O nar-


rador interrompe seu relato para tentar lembrar o nome
de D. Pedro II, sua neta o relembra) (...) já teve aí, veio
de barco, aí passava barco grande. (...). Era muito bonita
e rica [Laranjeiras], hoje tá acabada. (...) tem uma coisa
que aconteceu aqui, que todo mundo lembra. Lampião
aprontou aqui, ele foi se internar, lá no Dr. Bragança, lá! no
Hospital Velho. E diz minha mãe que ele (...) passou uma
semana na casa dele (...) só quando foi embora deixou na
parede com carvão dizendo que ele tinha operado Lam-
pião, (...) mas isso eu num vi, minha mãe que dizia. (...) (Sr.
Paulo, 2010).

No depoimento de “Dona Clara” (88 anos)9 ocorreram lembranças


de sua infância, evocadas por algumas ruínas. A narradora destacou a
Laranjeiras de outros tempos:

(...) quando era pequena, era atendida aí no Hospital


Velho (apontando para as ruínas). Mamãe me levava!
era um hospital bom, viu! (...) Nunca fui atendida por
Dr. Bragança, eu me lembro que ele foi médico de
mamãe [...] o que o povo fala de Lampião é verdade,
o povo na cidade contava e mamãe dizia também (...)
ele operou o olho aí, ele se machucou pras banda de
lá, e como sabia que Laranjeiras tinha médico bom
e o olho tava inchando, ele bateu aqui. E vou dizer
uma coisa, viu! Foi bem tratado, aquele hospital era o
melhor daqui de Sergipe (Dona Clara, 2010).

Percebe-se nas narrativas a presença de ruínas dispostas à evoca-


ção de lembranças que remontam o período faustoso de Laranjeiras.
Notam-se as ruínas do Teatro São Pedro e do Hospital São João de Deus

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Revisitando Memórias e(m) Ruínas da
Histórica Laranjeiras/SE.
Allan Rafael Veiga 177

(Hospital Velho), dando maior “força de atenção” à memória individual,

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


inclinando-se para o que diz Meneguello (2000), no que tange à força
que a ruína tem para lembrar o passado, a o pensamento de Halbwachs
(2006), que diz que o pensamento “[...] precisa se fixar, para que essa ou
aquela categoria de lembrança reapareça, [...] no espaço que ocupamos,
por onde passamos muitas vezes [...]” (p. 170).

Considerações Finais
A cidade de Laranjeiras, bastante consagrada no século XIX, dispu-
tada por políticos, intelectuais e homens de posse, especialmente por
ser o maior centro de Sergipe e contar com um modo de vida urbano
com vários equipamentos urbanos de serviços e de cultura, de certo
modo teve seu ingresso à categoria de cidade histórica promovida por
tais fatores, sobretudo pelo seu “Conjunto Arquitetônico e Urbanístico” –
representação “oficial” de uma época.
O desenvolvimento socioeconômico pelo qual passou Laranjeiras,
não a impediu de, no início do século XX, ter um forte e definitivo declí-
nio de sua economia. Aparentemente, isto poderia ter um impacto ne-
gativo na memória do grupo, porém, Jean Duvignaud (2006), apoiado
nos postulados de Halbwachs (2006), afirma que a quebra abrupta, no
ritmo cotidiano e na continuidade de um momento, acaba acarretando
sobre este uma maior atenção, o qual se propaga por gerações, através
da memória compartilhada no grupo.
De tal modo, o colapso vivido em Laranjeiras permitiu uma maior
“força de atenção”, ligando a memória do grupo àquele momento, so-
bretudo pelo patrimônio material. Seu Conjunto Arquitetônico e Ur-
banístico, de certo modo, resistiu incólume à decadência econômica e
social. Assim, suas edificações e ruínas oferecem um admirável suporte
aos moradores para compartilhar suas identidades e memórias, além da
reprodução dum período.
Halbwachs (2006) afirma que a capacidade de o indivíduo evocar
lembranças está estreitamente ligada ao contexto espacial do grupo ao
qual o indivíduo se liga: “Não é o indivíduo isolado, é o indivíduo en-
quanto membro do grupo, é o grupo em si que, dessa maneira, perma-
nece sujeito a influencia da natureza material [...]” (Halbwachs, 2006, p.

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Cidades e Patrimônios Culturais
178 Investigações para a iniciação à pesquisa

163). De tal modo, as ruínas imprimem um modo particular de relação


com o grupo a que se ligam, pois, segundo Meneguello (2000), são elas o
único elemento físico do patrimônio de uma cidade que habitam “simul-
taneamente dois tempos, o ocorrido e o presente.” Assim, “a ruína tem
sido o traço de arquitetura com maior poder de evocação do passado
[...]” (id., ibid., p. 93).
As observações realizadas permitiram-nos apreender que a arqui-
tetura de Laranjeiras, em estado de ruína, tem vultosa presença no co-
tidiano dos habitantes, atribuindo sentido às suas ações e servem, tal
como estão, como elemento de fixação de pensamentos à evocação de
lembranças do “quadro social de memória” (Halbwachs, 2006). Assim,
entendemos que as edificações em ruínas do Centro Histórico de Laran-
jeiras, que não sofreram qualquer intervenção, mantêm-se diretamente
associadas à cidade do século XIX na memória coletiva do grupo e retêm
parte do arranjo de identidade e da história imaginada sobre Laranjeiras.
A conclusão a que chegamos vai ao encontro de uma compreensão
que assevera que através das ruínas do centro histórico de Laranjeiras,
tal como são, os indivíduos que habitam e experienciam aquele espaço,
em menor ou maior grau, recebem os estímulos para apreensão do pas-
sado da cidade. Pois, entremeados à “memória coletiva” daquele grupo,
fixam seus pensamentos individuais com maior força nestes elementos
para lembrar-se da cidade áurea, ainda que não tenham vivido aquele
tempo. Portanto, a “memória coletiva” do grupo do centro histórico de
Laranjeiras frequentemente se utiliza das ruínas inscritas neste espaço a
fim de maior “força de atenção” ao seu compartilhamento.
Assim, como contribuição à discussão das políticas patrimoniais no
Brasil, especialmente as que empregam o restauro em centros históri-
cos, arrazoamos ser pertinente, apreender as possíveis relações que se
apresentem em edificações em ruínas para com o grupo social que as
circunscrevem, para só então revisitá-las, uma vez que frequentemente
são geradas distorções para dar sentido a uma história espetacularizada
sobre o bem restaurado.
Neste sentido sinalizamos, como proposta, uma observação analíti-
ca das ruínas pela memória coletiva do grupo que as circunscreve, pois
são elementos que se intercalam e estabelecem interseções em dado
momento e, como categorias de análise social da cidade podem auxi-

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Allan Rafael Veiga 179

liar-nos a compreender o imaginário construído (história imaginada) em

Parte 1 - Cidades e Patrimônios em Sergipe


torno de determinado espaço. Dito isto, parafraseamos Henri Lefebvre
(2002), com o seu “Direito à Cidade”, diremos então que a cidade e seus
habitantes têm “Direito à Ruína”.

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Notas
1 Este artigo é parte da pesquisa para o Mestrado em Sociologia da Universidade Federal
de Sergipe, concluída em março de 2011, intitulada: MEMÓRIAS DA CIDADE: As Ruínas da
Histórica Laranjeiras/SE, realizada sob a orientação de Rogerio Proença Leite.

2 Este artigo tem por preocupação as ações que recaem sobre ruínas de centros e ci-
dades históricas, por um tipo específico de gentrification, que Leite (2007) chama de city
marketing, “cujas práticas compreendem um conjunto de intervenções voltadas à trans-
formação de degradados sítios históricos em áreas de entretenimento urbano e consumo
cultural” (p. 79).

3 O termo “sociologia das cidades” e não “sociologia urbana” nos faz ingressar nas dis-
cussões à luz da análise das cidades pelo que “reclamou” Carlos Fortuna (2002) por um
ajuste de foco, de modo a ”[...] inverter os sentidos da leitura sociológica da cidade e passar
a lê-la também de “baixo para cima” e “das margens para o centro” (p. 129).

4 Em 1946, o SPHAN passa a denominar-se Departamento do Patrimônio Histórico e


Artístico Nacional (DPHAN), e em 1970, O DPHAN se transforma em IPHAN. (Sítio eletrônico
da Revista Museu, 2011).

5 O centro, definido como “coração da cidade”, foi tema do CIAM. Nesse encontro, o
centro urbano passou a ser abordado como o elemento caracterizador de uma comuni-
dade, voltado aos seus habitantes, o repositório da memória da coletividade e o local que
possibilitava entender o aspecto comunitário da vida humana (MENEGUELLO, 2005).

6 O Monumenta “é um programa de recuperação sustentável do patrimônio histórico


urbano brasileiro tombado pelo IPHAN e sob tutela federal” (MinC, 2006, p. 07).

7 Narrativa obtida em 17 de setembro de 2010.

8 Narrativa obtida em 28 de setembro de 2010.

9 Narrativa obtida em 30 de outubro de 2010.

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Parte 2
Novas centralidades,
espaços de vigilância
e imagens urbanas

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185

Enobrecimento Urbano no Bairro

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


Treze de Julho em Aracaju-SE*
Josevânia Nunes Rabelo

1. Introdução
Os espaços urbanos se adequaram a uma nova ordem mundial
de rendimento e desinvestimento do solo, que denominamos “rentgat”
(Smith, 1996). Agora, não se vende uma parcela de terreno, mas o seu
trajeto de lugar referencial para uma determinada época (Zukin, 2000). A
questão bifurcada do entendimento dos espaços como categoria de um
passado que se quer fazer presente e de uma conotação de consumo eli-
tista apresenta uma possibilidade para tentarmos compreender a forma-
tação de lugares na cidade pós-industrial. Os espaços significativos são
quase invisíveis, porém, nos permitem associar a vivência nos espaços
urbanos mediante uma elaboração referencial para determinadas ações:
“[...] lugar, [...] uma determinada demarcação física e/ou simbólica no
espaço, cujos usos o qualificam e lhe atribuem sentidos diferenciados,
orientando ações sociais e sendo por estas delimitado reflexivamente”
(Leite, 2007, p. 284).
Logo, lugares denotam significações para o indivíduo e, no caso das
políticas de gentrification, fazem parte de uma memória comum: “[...] um
lugar pode se definir como identitário, relacional e histórico [...]” (Augé,
1994, p. 73), ou seja, formatam espaços urbanos de visibilidade para os
trajetos ímpares de indivíduos, os quais incitam o surgimento não pro-
gramado de um mesmo lugar. Não temos a intenção de colorir a cidade
como espaço dos desiguais e afirmar as dinâmicas como sociabilidades
do prazer, pois isso também se torna uma ressalva para não adentramos
na perspectiva do Outro universal ou do Outro exótico (Bhabha, 2007).
Aqui, estabelecemos para as nossas “andanças” práticas e teóricas uma
possibilidade de enxergarmos itinerários híbridos, a fim de compreen-
der a cidade também em seus “espaços praticados” (Certeau, 1996). As-
sim, diríamos que alguns agentes do cotidiano urbano constroem aber-
turas, por dentro das rígidas limitações impostas em alguns lugares de

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Cidades e Patrimônios Culturais
186 Investigações para a iniciação à pesquisa

caráter amplamente elitista. Não estamos a afirmar que isto aconteceu


em todos os lugares que tiveram políticas enobrecedoras, mas, de al-
guns espaços urbanos caracterizados por uma vivência urbana marcada
por uma vontade de fazê-la apenas cenário para o consumo dos resi-
dentes seletivos. E, nesse caso, o Bairro Treze de Julho, em Aracaju-SE, é
ainda palco de um espaço identitário, não no sentido de uma marcação
única, mas processual (Hall, 1994), forjada nas tramas das ações inscritas
em borrados mecanismos de uma efêmera durabilidade, que é, contudo,
questionadora da legitimidade dos modelos dominantes.
Em termos regionais Aracaju foi palco de uma estratégia efetiva das
políticas de “revitalização urbana”, que alterou as paisagens das sociali-
dades do Bairro Treze de Julho. Assim, um lugar de moradores simples
passa a ser lugar da crescente classe média-alta de Aracaju. A transfor-
mação não se deu mediante uma valorização do seu solo, mas através
de uma releitura do seu passado e, principalmente, da construção do
Calçadão Viana de Assis, em 1988, e de sua posterior reforma, em 1998.
Estas operações conseguiram dinamizar a especulação imobiliária, a
qual fez do Calçadão um simulacro da antiga Praia Formosa – um lu-
gar de banhos e entretenimento até meados dos anos 80. São narrativas
que compõem o cenário de uma aura de dignidade, mesmo quando,
por detrás da figuração, temos um escoamento para a rede de esgotos
do próprio bairro. Por isso, mais do que real, as intervenções conseguem
manipular o nosso olhar para que o indesejável fique escondido. Entre as
tentativas de configuração de um espaço aparentemente clean e a sua
prática podem aparecer contradições mais resistentes à simples organi-
zação espetacularizada.

2. O Bairro 13 de Julho: trajetos com ramificações


duráveis e transitórias
As práticas singulares no espaço urbano indicam as escolhas de
trajetórias, quase imperceptíveis, dos “praticantes ordinários” (Certeau,
1996). E cabe ressaltar que todos os pontos possuem sua visibilidade a
partir dos usos ancorados pelas construções materiais. Assim, a rua, os
clubes, o calçadão, etc., tornam-se lugares para percebemos como eles
dão vida ao Bairro. A existência de um cruzamento entre o passado e o
presente se faz necessário porque a arquitetura deixa as memórias res-

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Enobrecimento Urbano no Bairro
Treze de Julho em Aracaju-SE.
Josevânia Nunes Rabelo 187

surgirem, mesmo que seja como interrogação para os que não acompa-

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


nharam a transformação dos usos: “Este é um traço incontestável do nos-
so presente e da nossa cidade. Nenhum deles admite qualquer princípio
orientador predeterminado por serem ambos constituídos por imagens
e estereótipos, tanto do passado como do futuro, tanto do local como
do global” (Fortuna, 1997, p. 129). Por isso, ao deambularmos pelas suas
ruas, não podíamos deixar de registrar os espaços físicos que representa-
ram uma época e fazem parte, hoje, das histórias do Bairro. Por exemplo,
o Bairro era um ponto de destaque nos carnavais de clube2. Ao seguir-
mos pela Av. Ivo do Prado em direção a Av. Beira Mar e adentrarmos a
Av. Augusto Maynard, temos na esquina da mesma o Clube Cotinguiba,
fundado em 1909. Até a década de 60 este clube era elitizado, mas com
a concorrência do Iate Clube foi se tornando um clube popular. Ali, foram
realizadas inúmeras festas populares, mas o carnaval foi o auge das suas
comemorações. Para as pessoas que tiveram a oportunidade de viven-
ciar os carnavais de clube, ficaram os comentários saudosistas das ines-
quecíveis histórias regadas com cerveja, suor e alegria. O Cotinguiba3 era
um clube de referência para os foliões:

Ah, os carnavais antigos, os carnavais do Cotinguiba eram


animados, era um clube de classe média, era um clube
muito animado e teve uma dissidência na diretoria da
Associação Atlética; e os sócios da Associação passaram
para o Cotinguiba, aí animou mais o clube, então passou
a fazer os melhores carnavais de Aracaju, animadíssimos;
um andar era o salão de festas que era de assoalho e em-
baixo era a garagem das regatas; e nos carnavais era tanta
gente, tanta animação que o assoalho balançava, então
eles colocavam escoras com medo do assoalho ceder.

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Cidades e Patrimônios Culturais
188 Investigações para a iniciação à pesquisa

Foto da autora (2009).

E, voltando às ruas, ao lado direito da praça – vindo do Centro – te-


mos o Iate Clube de Aracaju, fundado em 1953. Um projeto de arquite-
tura moderna, arrojado para a época, que talvez tenha significado uma
nova etapa para a cidade de Aracaju. Um ícone de modernidade para
a metade do século XX e quase 100 anos de Capital de Sergipe. Logo,
podemos considerar, sem equívoco, que o ICAJU foi a construção mais
importante para a primeira etapa de urbanização do Bairro. O Iate signi-
ficou uma transformação da Praia Formosa, pois estava edificando um
clube não para seus moradores, mas para iniciar um processo político
de segregação residencial, em Aracaju. Podemos afirmar que este clu-

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Enobrecimento Urbano no Bairro
Treze de Julho em Aracaju-SE.
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be foi construído com o intuito de viabilizar uma limpeza dos pobres à

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


beira-mar, principalmente se pensarmos o quão elevado foi o custo do
projeto para a época.
Como no Cotinguiba, o carnaval era motivo de orgulho para os seus
sócios. Conflito que tinha como ponto culminante as festas carnavales-
cas, pois como clubes quase vizinhos, eles se sentiam na obrigação de
concorrer na programação para os melhores bailes4. Interessante notar
que o Iate era conhecido como o clube da elite e o Contiguiba como o
clube popular. Ser sócio do Iate da década de 50 até meados de 90 era
um luxo para poucos e o Cotinguiba permitia associados de outras ca-
madas sociais.
Logo, seus carnavais eram frequentados pela alta sociedade ser-
gipana. Podemos até dizer que, no passado a elite ficava separada dos
pobres pelas paredes do Iate, hoje, se pensarmos no Pré-Caju – festa de
prévia carnavalesca aos moldes baianos – ficam separados por cordas
nos blocos de trio elétrico, apesar da diversidade, em relação à renda,
dos foliões em geral e da existência de blocos populares. Abrimos um
parêntese para afirmar que, no passado, era mais difícil um encontro
com o indesejável, mas não podemos esquecer também dos camaro-
tes Vips e das sacadas dos prédios, que se tornam, naquele momento,
também uma espécie de divisão social da festa. O clube, atualmen-
te, tenta retomar a vida social com festas que são frequentadas por
uma clientela específica e relembra os antigos bailes do Clube, com
Los Guaranis, Renato e seus Blue Caps5. Um dos pontos altos do Clube
aconteceu na festa de comemoração dos 55 anos, no dia 30 de agosto
de 20086, com a cobertura das colunas sociais de vários jornais, dando
ênfase aos ilustres presentes.
Vizinho ao Iate, entre as suas extremidades, há dois restaurantes, um
especializado em comida japonesa e o outro em massas, ambos frequen-
tados como pontos românticos, o que não quer dizer que não encontra-
remos reuniões de jovens para a paquera ou o simples bate-papo. Os dois
possuem espaços abertos para a rua, ou seja, se preferir o frequentador
pode observar o movimento da avenida, pois ambos possuem espaços
de ambientação externa, cercado apenas com um muro baixo. São es-
paços de consumo que dão versatilidade ao bairro, apesar de estarem
próximos da zona menos enobrecida. Por exemplo, ao irmos em direção
a treze, na Av. Beira Mar, logo após o Iate Clube temos uma quantidade

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Cidades e Patrimônios Culturais
190 Investigações para a iniciação à pesquisa

enorme de residências em péssimo estado de conservação, algumas, in-


clusive, com moradores antigos, reminiscentes da Praia Formosa.
Para melhor compreendermos estes espaços, circunscritos pelos
antigos moradores e os novos, será necessário visualizarmos um mapa
que destaca as três zonas do Bairro, recortadas mediante a apreensão
das sociabilidades diferenciadas. A primeira se define como uma zona
que possui os moradores antigos, os quais se sentem como estranhos
quando refletem sobre as mudanças do bairro. Ali, eles são considera-
dos como invasores ou, no mínimo, “incomodativos”. A própria dinâmica
do sentido de vizinhança tradicional dos antigos moradores foi rasura-
da pela ideia do Bairro, hoje com predominância da arquitetura vertical
(zona 2), a qual está nitidamente associada a uma conotação de vizinhos
formais, ou seja, sem contato mais estreito. Assim, temos duas zonas (1
e 2) bastante diferenciadas e o Calçadão (zona 3), que apesar de estar
embutido paralelamente na zona 2, torna-se um espaço das sociabili-
dades aracajuanas. Podemos também conceber o Calçadão como um
entrecruzamento permeável entre a zona 1 e 2.

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Treze de Julho em Aracaju-SE.
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Antes de seguirmos o percurso para a zona 2 ou 3, adentramos a

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


Rua Celso Oliva – perpendicular ao Iate (os dois clubes fazem parte da
zona 1) – para conversamos com o ex-prefeito de Aracaju Dr. Viana de
Assis, morador do Bairro e ex-comodoro do Iate. Além disso, responsável
pela primeira construção do Calçadão da Treze, em 1988, ou seja, pela
zona 3, como denominamos aqui. Logo perguntamos sobre o Calçadão
e ele afirmou que “a construção do Calçadão foi um desafio e também
a concretização de um sonho: dá um lugar de lazer aos moradores da
Treze de Julho. E tenho orgulho do muro de proteção, o qual impede
a invasão das águas7”. Independente das intenções, o Calçadão possi-
bilitou uma valorização imobiliária da Treze, dando uma configuração
paisagística para a área, a qual será amplamente vendida pelas constru-
toras. Notamos, por exemplo, que os prédios se concentraram depois da
Av. Anízio Azevedo, onde inicia o Calçadão, com dois quilômetros de ex-
tensão até a ponte da Coroa do Meio. E os dois prédios mais novos (o Fer-
nando Sampaio e o Alda Teixeira), que estão antes do Calçadão, tiveram
dificuldades de venda dos seus apartamentos, contudo, a construção de
outros prédios com o mesmo padrão tenderá para a valorização da área,
principalmente depois da afirmação de uma possível revitalização dos
prédios públicos concentrados na zona 28.
Passamos também pela Rua Vereador João Calazans, que nos leva ao
famoso bar do “Galego” (Jaílton Cardoso Veríssimo), que tradicionalmen-
te serve o guaiamu escolhido pelo freguês e outras comidas regionais. O
bar é uma espécie de referência para os moradores e para a cidade, pois
a história do bar se confunde com as transformações do Bairro, uma vez
que antes de partir para a função de bar, foi uma espécie de estabeleci-
mento comercial com o nome de “Armazém Praiano”. Assim, abasteciam
de pão e leite os moradores da Praia. Em relação à praia ele comentou: “era
uma praia linda, belíssima, mas os esgotos e o mangue acabaram. Era uma
praia bastante frequentada, nos dias de domingo era uma festa” 9.
Na mesma rua, temos o morador mais ilustre da região, no senti-
do de conhecimento das mudanças da Treze: José Ferreira Lima, com 91
anos e morador da Treze há 56 anos. Ele foi uma espécie de líder para
os primeiros moradores quando liderou a construção da primeira Igreja
do Bairro (São Paulo e São Pedro). E pelo trabalho realizado foi destaque
de uma reportagem10 exclusiva sobre a sua vida e a sua história de vida
no Bairro – aproveitamos a sua gentileza para confirmar algumas infor-

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Cidades e Patrimônios Culturais
192 Investigações para a iniciação à pesquisa

mações11, por exemplo, que o terreno de Edgar Silveira12era realmente


o único legalizado e abrangia a Rua Celso Oliva e a Rua Vereador João
Calazans (os outros eram provenientes de invasões). Também lembrou a
existência do sítio de Josué Cunha, que tinha uma salina e estava situado
depois da Av. Anízio Azevedo e logo depois foi vendida para uma imo-
biliária. Comentou que as casas, naquela época, eram de palha Afirmou
ainda que, infelizmente, a praia já está com 20 anos de poluição e com-
pleta com a seguinte constatação: “é muito difícil sanear a Praia, muito
trabalho para as autoridades”.
Na década de 90 era mais lucrativo pensar numa maquiagem para
o início de poluição da Praia do que num processo de saneamento da
área. Principalmente pensar sobre a revitalização da área em 1998,
pois já tínhamos a grande prévia carnavalesca no local e o “novíssimo”
Calçadão garantia a visibilidade do Bairro, possibilitando sedimentar o
enobrecimento na zona 2. O desaparecimento da Praia carrega a mar-
ca da falta de compromisso público do Estado, mas o impulso público
garantiu a renovação imobiliária, originando um rent gap (Smith, 1996)
para o local. A troca de moradores foi resultado da definição de um
Bairro para novos ricos à procura da comodidade de morar numa cen-
tralidade. Na zona 2, intensivamente enobrecida, temos uma procura
constante das imobiliárias aos resistentes: “Tanto que já foi gente lá
perguntar, lá em casa, na vizinha também, se queria vender pra cons-
truir prédio, só que o pessoal lá de casa gosta mais de casa, sabe? Mas
a tendência ali, acho que vai ser essa mesmo, nem a vizinha queria nem
a gente também; entendeu como é?13“.
É interessante percebermos nas andanças pelo Bairro as diferenças
de tonalidade entre um lugar formatado pelas lembranças antigas (zona
1) e outro a partir da consolidação do embelezamento (zona 2). E quem
vive do simulacro de uma praia ou um rio com vegetação são os morado-
res da zona 2, pois os antigos moradores da zona 1 já sabem que ela não
existe mais, pois paralelo ao Calçadão há apenas um escoamento sanitá-
rio. A prefeitura14 tem remediado a fedentina do Bairro com constantes
limpezas do Tramandaí, pois para um espaço urbano enobrecido a Treze
tem visíveis problemas, os quais, por enquanto, estão escondidos pelo
jardim do Calçadão. Ressaltamos, portanto, que para a área 1 a degra-
dação do ambiente é visível, apesar de estarem distante dos principais
focos de sujeira e para a área 2 parece que dos seus prédios a visão fica

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Treze de Julho em Aracaju-SE.
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obscurecida, não enxergando o lodo bem abaixo de suas sacadas. Dirí-

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


amos também que se tivessem preservado a Praia para banho, a Treze,
talvez, fosse muito mais privilegiada como ambiente de “qualidade de
vida” e por acréscimo seus apartamentos e residências não deixariam de
ser alvo de um processo de gentrification. Por isso, se passeamos no texto
do presente para o passado e do passado para o presente, é com o ob-
jetivo de demonstrar que a Praia Formosa não desapareceu da memória
de seus habitantes e tem sentidos diferentes para os moradores. Foi esta
sobrevida de residências com os primeiros moradores que nos incitaram
a entender o estranhamento deles para com o atual formato da Treze.
Para complementar a “paisagem vernacular” (Zukin, 2000) das resi-
dências da zona 1temos uma pequena galeria popular. Possui a função
de qualquer outro estabelecimento simples. A expressão “popular” está
se referindo à simplicidade do lugar e de seus frequentadores. Temos
uma farmácia, um bar e uma loja de pesca. O “Point da Pesca”, como
é denominado o estabelecimento comercial especializado em pesca-
ria, torna-se uma espécie de lembrança da antiga função da Praia para
quem está tentando compreender a configuração socioespacial da
Praia Treze de Julho em suas singularidades. -, Então, sentei por alguns
minutos numa espécie de banco improvisado e, sem ser incomodada
– diferente da zona 2, pois quase todas às vezes fui questionada sobre
o motivo de fotografar as galerias e as ruas, mesmo distante dos bens
privados –, fiquei observando o vai e vem das pessoas naquele espaço.
Notei que as pessoas faziam questão de falar umas com as outras e os
moradores próximos passavam por ali sem estar arrumados, ou seja, era
uma cena comum como em qualquer outro Bairro. Mas os moradores
dos dois novos prédios (Alda Teixeira e o Fernando Sampaio) saíam de
seus apartamentos com o automóvel. Se fossem para comprar alguma
coisa mais próxima, geralmente seus empregados faziam estes serviços.
Também sabemos que a maioria dos moradores de prédios prefere um
distanciamento do convívio público do entorno da moradia. Contudo,
no caso específico da Treze, temos o Calçadão, com usos diversificados
tanto por moradores antigos e novos. Logo, ele atrai a maioria dos mo-
radores dos prédios a vir para a rua, principalmente dos prédios posicio-
nados à sua frente.
Hoje, uma cena angustiante, da zona 1, para quem viveu os “bons
tempos” da Praia, é ver a tentativa de pesca naquele ambiente poluído.

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Cidades e Patrimônios Culturais
194 Investigações para a iniciação à pesquisa

Restos de mariscos e peixes sendo disputados por garças e pescadores.


Mesmo para quem passa com pressa é notável a fedentina daquele la-
maçal quando a maré está baixa. Mas o urbano-pescador parece não
considerar a incoerência de procurar alimentos num (quase) esgoto.
Quem vê se sente mais incomodado com o mau cheiro do que com a
visão de um “tropeiro” pescador.
Agora iremos percorrer as ruas da zona 2, após a Av. Anízio Aze-
vedo, a evidenciar “espaços estriados” (Deleuze e Guatarri, 1997) cons-
truídos mediante uma política de segregação inerente ao enobreci-
mento. Adentrando as ruas perpendiculares à Av. Beira Mar temos as
incontáveis galerias e alguns cafés, num estilo que tenta lembrar Paris,
ou seja, abertos para a rua, porém sem mesas ou cadeiras nas calçadas.
São frequentados pela elite aracajuana, que considera o local chique e
confortável para uma boa conversa. A partir das 17h as mesas começam
a ficar lotadas e inicia o burburinho de conversas alegres. Os cafés, em
Aracaju, são provenientes de uma noção de requinte. Não é algo comum
e encontrado em todos os bairros, ao contrário, eles se concentram na
Treze, os quais são acompanhados simbolicamente por todas as qualida-
des de estar num dos espaços mais valorizados da cidade. Interessante
enfatizar que apenas um possui posicionamento linear com a rua – o da
Galeria Previtalli –, os outros são separados por uma espécie de mureta.
Talvez para dar uma sensação de proteção como também deixar trans-
parente que os aracajuanos ilustres não estão totalmente em contato
com a rua, mas apenas dentro de um recinto privado ou ainda porque os
próprios donos dos estabelecimentos evitam incômodos para os clien-
tes (não ser importunado por possíveis pedintes). Logo, mesmo os cafés
são uma cópia imperfeita do modelo europeu, em contato direto com a
rua e exposto à visibilidade dos passantes, tão representativos na cultu-
ra parisiense. Contudo, não podemos deixar de ressaltar que não é um
espaço totalmente fechado. Neste sentido, temos um depoimento da
arquiteta e professora Ana Farias15:

Apesar do indivíduo está em um espaço selecionado, ele


tem contato com a rua, porque os cafés tem aquela área
lateral; quando estamos sentado na mesa nós vemos
quem está passando na rua; o movimento de carro; não
ficamos fora da movimentação e do que está acontecen-
do. Logo, você vê o espaço da rua... Não estou colocando

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Enobrecimento Urbano no Bairro
Treze de Julho em Aracaju-SE.
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isso como caso fechado, mas, pode ser uma hipótese de

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


discussão do retorno ao espaço da rua, a rua como espa-
ço do inusitado, como espaço de encontro.

Ter acesso a determinados símbolos de conforto significa possuir


um “valor de distinção, valor estatutário, valor de prestígio” (Baudrillard,
1972, p. 167). Por isso os lugares que passaram por um processo de gen-
trification se relacionam tão bem com a “sociedade do consumo”. A espa-
cialização das relações contemporâneas passa pelo crivo do mercado, o
ato de comprar absorve valores atrelados a outros esquemas de práticas
e nos sentimos inseridos se tivermos dinheiro para demonstrar igual pos-
sibilidade de adquirir bens com valores monetários equivalentes. Além
disso, “se é possível afirmar o funcionamento de uma ‘lógica do capital’
derivada da produção, talvez seja possível afirmar também uma ‘lógica
do consumo’, que aponta para os modos socialmente estruturados de
usar os bens para demarcar relações sociais” (Featherstone, 1995, p. 35).
Isto significa que as ruas com as galerias de luxo da Treze já indicam o
tipo de consumidor que podemos encontrar nelas; é necessário ressaltar
a existência de galerias menos sofisticadas, a procurar uma centralidade
para a cultura do consumo e apostar em consumidores de renda inferior.
Quando começamos a fazer as observações das galerias, enten-
demos a propaganda do primeiro número da revista Treze, em que se
destacavam as seguintes particularidades do Bairro: “Toda cidade tem
seu bairro onde o metro quadrado é medido pelo bom gosto e preen-
chido por lojinhas (ou lojonas) cheias de charme, restaurantes da moda,
espaços de culto a beleza.16” Na reportagem é destacado o “caos do cen-
tro da cidade” e também a falta de opções para os sergipanos que só
tinham os Shoppings Centers, na década de 90. Logo, a Treze seria aquele
lugar especial, intermediário entre o centro e o shopping, ou seja, lojas
acolhedoras e compradores selecionados. Evidencia, ainda, as lojas tipo
Maison e a sua aparência com a Oscar Freire, em São Paulo, apesar de
reconhecer a falta de grandes lojas de marcas nacionais e internacionais.
Evidencia, contudo, que as roupas dos estilistas do mundo fashion po-
dem ser encontradas também nestas galerias. A dissimulação do chique
tenta a qualquer custo parecer igual aos símbolos de poder das grandes
cidades: “Desta maneira, a comutação dos signos, a ordem dos simula-
cros, não é mais do que um último estágio no futuro das sociedades de-
mocráticas” (Lipovetsky, 2005, p. 91).

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Este deve ser o espaço urbano da moda para Aracaju, segundo a re-
vista. A quantidade de lojas refinadas definiria o gosto da elite sergipana.
Logo surge a ideia de bairro situado numa região privilegiada dos ícones
contemporâneos de prazer e conforto, simbolizados pelo consumo dos
melhores objetos, como espaço conectado com a moda, com uma espe-
cial ligação com a dinâmica da novidade, a disfarçar os círculos de vai e
vem descontínuo:

Claro que a moda inova, mas principalmente ela parodia


a mudança, faz uma caricatura da inovação programando
o ritmo das suas mudanças, acelerando a cadência dos
seus ciclos no futuro, identificando o novo com a pro-
moção de gadgets, simulando a cada estação a novidade
fundamental (Lipovetsky, 2005, p. 129).

Com a intenção de ser o local da moda, a revista segue dando trilhas


da imagem ímpar da Treze para a cidade de Aracaju. Cada lojinha é um
convite ao consumo que insere os sergipanos num estilo global de com-
prar. Afinal, a tentativa de imitação torna-se nítida nas comparações aci-
ma, sedimentando a ideia de uma “desterritorialização”, pois a tendência
adotada pelo Bairro pode estar em qualquer parte do mundo, dando va-
zão a uma uniformidade do bom gosto. Logo existe, nas ruas amontoa-
das de galerias, um desejo de ser global, tentando convencer os ricos de
Aracaju de que ali eles podem encontrar um serviço de alta qualidade.
Por exemplo, na linha delineada pela revista, a empresária Mara Peixoto
afirma que oferece, na sua loja, um trabalho “mais específico e diferen-
ciado” do que se estivesse em um shopping. A marca das ditas lojas finas
é possuir detalhes que façam o indivíduo sentir-se diferente dos outros.
A roupa impregna no agente a ideia de status, uma hierarquia advinda
do poder de consumir o melhor. Cabe também afirmar que o “melhor”,
na maioria das vezes, acompanha o esbanjamento, ultrapassando o li-
mite viável do preço, quando comparamos o tipo de produto comprado
e a ideia do produto elaborada pelo mercado (mas isso não tem o me-
nor interesse para os prováveis compradores). A revista também traz um
mapa e para este somente a zona que chamamos de 2 faz parte da Treze,
exceção para os prédios públicos.
A revista também descreve o Calçadão como um lugar de “convi-
vência da nossa comunidade”. Informa também que o convênio entre a

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Enobrecimento Urbano no Bairro
Treze de Julho em Aracaju-SE.
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prefeitura e PETROBRÁS, em outubro de 2003, quando a empresa com-

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


pletou 50 anos, é um exemplo do sucesso da parceria do poder público
com a iniciativa privada. E dá a ideia de que o setor empresarial poderia
seguir a mesma trilha. Talvez esta ideia esteja relacionada a uma provável
organização do espaço urbano circunscrito pelas galerias, as quais pode-
riam colaborar com a vigilância e a limpeza. Por exemplo, o G Barbosa17
fez uma parceria para a manutenção dos jardins da Av. Francisco Por-
to. Segundo o gerente, os moradores da Treze consideram a loja como
“uma extensão de suas despensas. É uma loja da comunidade”. Logo,
nada mais natural do que fazer uma contrapartida para a mesma. Mas
também sabemos que além de poder fazer a propaganda de sua loja nos
canteiros, eles sabem do retorno financeiro de uma empresa com “res-
ponsabilidade social18”. Como a empresa demonstrou estar preocupada
com a comunidade, perguntei se a mesma tinha uma coleta seletiva de
lixo no descarte de resíduos e a resposta rápida foi “não”.
As ruas delineadas no mapa da revista também têm seus momen-
tos de imagens comuns. E, geralmente, ao meio-dia inicia o descarre-
gamento de mercadorias para algumas lojas. Também há vendedores
com bicicletas oferecendo doces e salgados para porteiros, vigilantes,
vendedoras de lojas, etc. É visível o movimento dos funcionários dentro
dos cafés, pois a partir das 14h iniciam a limpeza dos vidros das portas,
varrem o chão, etc., expondo as fragilidades da “sociedade do consumo”.
Os serviços disponíveis possuem salários baixos, abrindo um hiato entre
os consumidores e os prestadores de serviços.
Depois deste itinerário por galerias, iremos ao Calçadão da 13 de
Julho para perceber como as espacializações são construídas. Segundo
a arquiteta Ana Farias “houve uma gentrificação do espaço à medida
que o calçadão da Treze, no passado, ele tinha as barraquinhas, ele tinha
uma frequência mais popular; e ele depois transforma19”. Evidenciamos
também que a construção do primeiro Calçadão já indicava uma trans-
formação da área, pois ele inicia o processo de especulação imobiliária,
configurando no Bairro uma zona de lazer que indicou de certa forma a
restrição para o banho, pois quase toda a extensão de areia foi tomada
pelas quadras de jogos. O Calçadão significava novos remanejamentos
para a área, conformando uma área para ser chamariz de investimentos
privados. Ele simbolizava uma limpeza contemporânea que daria um
contorno diferencial para as novas práticas de sociabilidades desde a

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Cidades e Patrimônios Culturais
198 Investigações para a iniciação à pesquisa

construção da Biblioteca Pública Epifhânio Dórea, o Ginásio de Esportes


Constâncio Vieira e o Estádio Estadual Lourival Baptista – intervenções
que destruíram a favela Japãozinho e como de costume expulsou os mo-
radores sem indenização, confirmando o tipo de modernização do Brasil.
Mas também afirmamos o “entre-lugar” (Bhabha, 2007) vivenciado
pelos aracajuanos quando passeiam pelo Calçadão. Ele foi central para a
estratégia de gentrification e proporcionou resultados imprevistos para
os agentes imobiliários. Uma vez que se tornou uma centralidade de va-
riados percursos, ou seja, vemos ali autoridades e pobres a transitar pelo
mesmo espaço em busca de lazer, esporte, passeio, etc. Diferente das
ruas internas do Bairro, o Calçadão não se predispõe ao consumo, mas
a afinidade de uma conversa ou de uma simples caminhada matinal, ao
fim da tarde ou noturna. Desta forma, poderíamos dizer que o Calçadão
é ícone de enobrecimento e centralidade, pois alia duas características:
1ª) há uma espécie de invólucro – neste caso, literalmente – da defor-
mação da paisagem natural pelo escoamento do lixo; 2ª) possibilita va-
riados itinerários, compondo um palimpsesto na arquitetura (que tenta
ser) linear. Ao observarmos os esgotos perpendiculares percebemos que
estamos dentro de um espaço sem mínima higienização, mas considera-
do um lugar saudável pelos frequentadores. Logo, o Calçadão possui as
incoerências comuns aos projetos urbanísticos de revitalização, os quais
deixam os problemas decorrentes de uma organização urbanística sem
compromisso público, escondidos por uma fachada de enobrecimento,
tal como a favela do Rato em Recife (Leite, 2007) e a favela do Pelourinho
em Salvador (Araújo, 2007). Estamos nos referindo a um lugar híbrido
mediante a composição de um espaço turístico amplamente absorvido
pela cidade como local de lazer de qualquer um. Assim, os conflitos ine-
rentes às políticas de gentrification se expõem naquele espaço, no qual o
morador pode entrecruzar-se com as deambulações indesejáveis.
O Calçadão abre-se para a cidade. Ali, podemos encontrar os indi-
víduos que gostam de andar, correr, observar, encontrar a turma, mar-
car um “pedaço” (Magnani, 2003). Ele conseguiu se inserir num jogo de
significações múltiplas para a cidade. Estar nele não é uma aderência
sem propósito, ao contrário, vamos andar por ele para nos sentirmos um
pouco da Treze ou marcar território, como um transeunte comentou: “o
Calçadão não é da Treze, mas de Aracaju”.

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Enobrecimento Urbano no Bairro
Treze de Julho em Aracaju-SE.
Josevânia Nunes Rabelo 199

3 Polissêmicas andanças ao lado

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


do mangue e do luxo
Os espaços urbanos enobrecidos possuem mecanismos para ade-
quar o ambiente a um determinado grupo. Esta característica é visível
no Bairro Treze de Julho, o qual o coloca como ponto de trajetos defini-
dos. Fazer da rua um espaço quase privado seria um dos objetivos das
políticas do enobrecimento. Ou seja, são espaços com arquitetura para
os potenciais compradores, que tentam fechar com muros simbólicos as
andanças dos desiguais, para não adentraram na civilidade do consumo,
porque a ideia perpassada, nestes espaços, está afinada com a possibi-
lidade de induzir os acontecimentos. As regras colocam a cidade como
um possível cenário da ordem dos que podem pagar pelo mesmo:

As principais ressonâncias da espetacularização da cultu-


ra nos processos de enobrecimento, sejam eles residen-
ciais ou não, permanecem numa forte demarcação so-
cioespacial da vida pública, uma vez que os usuários são
espacialmente orientados em suas interações cotidianas,
em função dos usos desejados/pretendidos para aqueles
espaços intervindos (Leite, 2010a, p. 79).

As práticas de gentrification têm nitidamente o caráter de cenário


para uma categoria específica de usuários, pois olhar para os espaços
urbanos que tiveram estas intervenções torna-se uma inquietação para
compreender as dinâmicas das sociabilidades urbanas quando se tor-
nam díspares dos usos pretendidos. Porém, como espaços de residên-
cias – caso consigam fazer das intervenções chamariz para uma rentabi-
lidade do solo urbano mediante a apropriação de uma imagem fictícia
de Praia Treze de Julho, como no Bairro da Treze – são quase lineares,
ou melhor, viver neles é para poucos. Isto significa a sedimentação da
ideia de uma narrativa que evoque uma memória, mesmo sendo desto-
ada da atual configuração urbana. E é este o ponto da possível inversão
das práticas de territorialidade centradas na hierarquia. Por exemplo, a
construção significativa do bairro de luxo foi o Calçadão da Treze, o qual
estava associado a uma Praia – existente até a década de 80.
Portanto, as incoerências demonstradas pelas andanças divergen-
tes daquelas pensadas pelos atores “legítimos” nos faz pensar a cidade

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Cidades e Patrimônios Culturais
200 Investigações para a iniciação à pesquisa

como categoria sociológica para a compreensão das atuais sociabilida-


des, entremeadas aqui pelo mangue e pelo luxo. Os espaços urbanos
significativos não deixaram, portanto, de ser considerados como um pal-
co de uma cidadania a ser conquistada desde o projeto moderno de de-
finição de um contínuo progresso ou mesmo através de diversas teorias
da antiguidade sobre a cidade, embora não possamos esquecer que “[...]
foi sempre bebendo nas fontes de um antirracionalismo que os particu-
larismos, os comunitarismos e a segregação foram defendidos” (Jullien,
2009, p. 51). Ora, temos a razão ocidental e princípios que operam em
formações contraditórias, e efetivas. Pensar as demarcações nos espaços
“micro” nos faz perceber que diante de uma forçada homogeneidade
dos espaços urbanos e de seus agentes temos práticas que possibilitam
outros cruzamentos interpretativos:

Não obstante a vigência de processos globais, atuando


como pano de fundo no âmbito dos registros sociológi-
cos da cidade torna-se importante retomar o contexto
das práticas cotidianas reveladoras de sentidos e proces-
sos citadinos. Trata-se de pensar as dinâmicas estruturais
mais abrangentes mediante o que poderia ser designado
de «sociologia dos bairros», entendendo que, a partir de
espaços microssociais, é possível examinar perspectivas
globais da cidade. O bairro, como lugar expressivo de prá-
ticas sociais, permite ultrapassar a lógica linear de certas
generalizações, atentando para situações mais densas e
contraditórias vivenciadas no cotidiano da cidade (Barrei-
ra, 2007, p. 165-166).

Foto da autora (2008). Sentado no banco temos um pedinte.

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Josevânia Nunes Rabelo 201

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


Foto: Jorge Henrique. Aracaju é a capital com a melhor qualidade de vida. Jornal da
Cidade. Caderno B/Cidades. Ano XXXVII, nº 10716, Aracaju, 06 e 07de abril de 2008

É apercepção do “outro” indesejável, ainda não invisível como um


humano que reconduz à apreciação da cidade como lugar de um possí-
vel compromisso de deslocamento para um adensamento crítico e práti-
co das atuais estratégias do marketing das cidades, as quais só associam
seus espaços mediante as sociabilidades pré-moldadas em ensaios con-
sumistas. Se a principal perspectiva era privatizar o espaço do mangue,
da Treze de Julho, para as caminhadas dos residentes, tiveram o impre-
visto da transformação, deste ícone, num lugar de qualquer um. Por isso
também enfatizamos a apreensão da cidade como contornos não calcu-
láveis, uma vez que os agentes podem se entrecruzar com as normas e
as absorverem com outro veniz: “são os agentes ‘ordinários’ que cortam o
jogo de poder concreto e simbólico dos planejadores urbanos” (Rabelo,
2010, p. 191-192). Claro que houve lucratividade e não poderíamos dei-
xar de associar as engrenagens do processo pelo qual a formatação da
rentabilidade torna-se viável:

As estratégias económicas das autoridades locais repre-


sentam a reafirmação da forte influência da vida econô-

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Cidades e Patrimônios Culturais
202 Investigações para a iniciação à pesquisa

mica mesmo na esfera da memória e do imaginário. De


facto, nas manifestações urbanas da cultura de consumo
podem ser identificadas a coincidência do impulso infalí-
vel da acusação do capital e muitos sonhos e aspirações
pessoais (Savage & Warde, 2002, p. 149).

Mas é também o simulacro da Praia mediante Calçadão e entorno


do mangue o que efetiva as “identidades residuais” da Treze. Sabemos
também das formas mercadológicas de uma urbanidade que catalisa os
anseios dos indivíduos. Estas especificações são cômodas para alguns
porque permite uma vivência produtora de espaços segregados, como
Harvey (2007) sublinha, “se uma imagem ou mapa vale mil palavras, o
poder nos reinos da representação pode terminar tendo tanta relevância
quanto o poder sobre a materialidade da própria organização espacial”
(Harvey, 2007, p. 213). Mas, ao falarmos de um possível lugar dentro dos
espaços de exclusão, somos instigados a perceber os incômodos tran-
seuntes que fincam seus itinerários por entre as bordas do espaço quase
cenográfico. Afinal, os ruídos tendem a provocar irritabilidade aos olhos
dos pares, pois “de fato, nada é mais intolerável que a aproximação físi-
ca (vivenciada como promiscuidade) de pessoas socialmente distantes”
(Bourdieu, 1999, p. 165).
Para as programadas instituições econômicas de delineamento dos
espaços urbanos temos a nítida apreensão dos mesmos para o aprofun-
damento das distinções: “O mercado reorganiza o mundo público como
palco do consumo e dramatização dos signos de status.” (Canclini, 2008,
p. 288). A vida nas cidades impõe rígidos controles sobre o espaço ur-
bano, a fazer dos mesmos modelos de bem-estar fragmentado por uma
individualidade fora dos antigos parâmetros discursivos de atenuação
das desigualdades materiais, a significar a naturalização do entendimen-
to dos espaços como categoria de controle extremamente privado das
conotações socioculturais aos quais estão embutidos:

En el despliegue histriónico del urbanismo escenográfico


prevalecen los valores estéticos (el derecho a la belleza
para una ciudadanía genérica, inespecífica) sobre los éti-
cos (asociados al derecho a la vivienda, salud, educación,
infraestructura de los diversos sectores de la sociedad
(Lacarrieu; Carman; Girola, 2006, p. 123)

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Andanças incoerentes e conflitantes, com a visibilidade do poder,

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


faz perceber a vitalidade de alguns espaços urbanos de sociabilidades
e possíveis “identidades residuais”: “Trata-se, neste aspecto, de dizer que
tudo o que é pessoal é político – e andar transporta – literal e alegorica-
mente – as dimensões pessoais e íntimas para a esfera pública” (Lopes,
2008, p. 135). São movimentos em “espaços estriados” que o tornam,
por efêmeros momentos, em “espaços lisos” (Deleuze & Guatarri, 1997).
Não estamos a sublinhar os ínfimos detalhes, mas a afirmar a polissêmi-
ca ação daqueles que só têm os pés para andar e ao vaguear incitam a
reflexividade (Giddens, 1995) dos espaços enobrecidos. Ainda sublinha-
mos que a cena urbana contemporânea “mais se assemelha ou ao bur-
burinho do teatro elisabetano (...) ou ao teatro experimental (...)” (Leite,
2010b, p. 255), onde até mesmo os bastidores de fundo podem vir a ser
confundidos com os rituais de frente.

Considerações Finais
A Treze de Julho indica, como espaço urbano enobrecido, que nem
todas as estratégias programadas dos gestores urbanos podem inibir os
itinerários distintos. Assim, quando observamos a formatação espacial
do enobrecimento, percebemos a tendência mundial de fazer dos es-
paços urbanos, apenas, uma maquiagem para as trocas culturais limpas
de outros discursos. E, as palavras da ordem como uma espacialização
do consumo que tinha como âncora de embelezamento um Calçadão,
também forjou mecanismos de visibilidade menos lineares. São marcas
de itinerários que rasuram e demonstram que a cidade, ainda, possui
uma qualidade humana, e não só uma espetacularização tendenciosa
para o apagamento das possíveis manchas, sem adequação aos rituais
de passeio da elite aracajuana.
O mapeamento das zonas nos possibilitou enxergar as práticas de
uma imagem incômoda, para alguns indivíduos: mendigos, meninos na/
da rua, etc. Claro, que a pequena quantidade não impede a propaganda
esclarecedora de um Bairro representativo da qualidade de vida araca-
juana, porém, sinaliza as incoerentes diagramações das desigualdades.
Além disso, até mesmo o mangue que serve de escoadouro dos resíduos
das luxuosas mansões verticais, indica a falta de mínimo planejamento
ambiental, para um local que se quer símbolo salutar das práticas es-

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204 Investigações para a iniciação à pesquisa

portivas. Simulacros que definem as trilhas das operações urbanas da


cidade pós-industrial, mesmo em uma cidade como Aracaju, ou seja, de
menor expressividade no contexto econômico global. Assim, a coloca-
mos como palco de um nítido processo de fazê-la rentável mediante
as práticas de gentrification, porém, não sucumbiu aos ditames de uma
espacialização homogênea. Os lugares formatados por uma polissemia
de itinerários possibilitam a interpretação acusativa de que os agentes,
ainda, costumam demarcar territórios, a expor uma fratura com as ten-
dências de uma via hierárquica apenas cenográfica. Portanto, estamos a
perceber marcos referenciais díspares para um mesmo lugar: consumo,
lazer, reivindicações, festas, etc.. E, todos ancorados por Calçadão feito
para a elite, mas não da elite.
Por isso, se torna urgente sublinhar que a rua não deixou de ser
enigmática, contudo, as noções de sociabilidades foram diluídas em
demonstrações de estilos de consumo e subjetividades, os quais con-
duzem a uma apreensão de somas de individualidades. E, nesse caso,
pensar a rua como trajetos de formação do coletivo, seria embotar as
regras instáveis das diversas manifestações, que encontram ancoragem
no significado das rápidas metamorfoses.
Dessa feita, afirmamos ser a cidade uma incógnita para previsibili-
dade simples de um fechamento para as trincheiras da cidadania. Espero
que os ruídos a façam sempre um quadro para não esquecermos a possi-
bilidade de um fio de luz no entremeado horizonte de uma distante, mas
não esquecida arena de expressão de inúmeros anseios do incorruptível
sentido da liberdade, como refúgio dos definhados valores de algo co-
mum: a cidade; e, como ressalta Hannah Arendt, “a presença de outros
que veem o que vemos e ouvem o que ouvimos garante-nos a realidade
do mundo e de nós mesmos” (Arendt, 1987, p. 60).

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Enobrecimento Urbano no Bairro
Treze de Julho em Aracaju-SE.
Josevânia Nunes Rabelo 205

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Aracaju.

ASSIS, Viana de. 16/12/2008. Entrevista concedida a Josevânia Nunes Rabelo,


Aracaju.

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Cidades e Patrimônios Culturais
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JESUS, Luzia Inês de. 19/08/2008.Entrevista concedida a Josevânia Nunes Rabelo,


Aracaju.

FARIAS, Ana. 15/08/2008.Entrevista concedida a Josevânia Nunes Rabelo, Aracaju.

Notas
*
Este texto é uma parte do terceiro capítulo da Dissertação de Mestrado, defendida no Nú-
cleo de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe
em 2010, sob orientação do Prof. Dr. Rogério Proença Leite. A pesquisa foi realizada no
âmbito do Laboratório de Estudos Urbanos e Culturais – LABEURC.

2 Não iremos comentar sobre a trajetória desportiva dos clubes, mas os mesmos tiveram
competições memoráveis (o Iate nos esportes aquáticos e o Cotinguiba no futebol).

3 Branco com alguns traços azuis e de arquitetura eclética, o clube foi reformado em
2009. Evaporou o carnaval de clube a partir do fenômeno do axé music, em Aracaju. Um
de seus foliões, Wellington Mangueira, comenta também com tristeza sobre a inexistência
dos carnavais de clube:“e aí acabaram e fizeram esse pré-caju(...); o tempo se encarregou
de liquidar o Cotinguiba, o Iate, a Atlética e o Vasco, todos que viviam em torno do carna-
val.” Entrevista concedida a autora. Aracaju, em 30 de julho de 2008.

4 Tínhamos também o Clube da Atlética do Sergipe, mas a rivalidade ficava concentrada


no Iate e no Contiguiba.

5 Informiate. Ano I, nº 3. Dezembro/Janeiro de 2007/2008.

6 Cf. jornais publicados recentemente e referenciados ao final deste artigo.

7 Depoimento do Sr. Viana de Assis. Em entrevista concedida a autora. Aracaju, 16 de


dezembro de 2008.

8 Depoimento do governador Marcelo Déda, “- O projeto envolve a requalificação de


todo o entorno do Batistão. Toda a quadraonde estão implantados aBibliotecaEpi-
fhânio Dórea, o Laboratório Central de Saúde Pública “Parreiras Horta” e o Parque Aquá-
tico,vai sofrer uma intervenção urbanística extraordinariamente elaborada. Essa es-
trutura envolve, além do esporte, cultura e turismo. O Projeto é transformar isso aqui
no Centro Cultural Esportivo Cidade de Aracaju”, relatou o governador. Grifo nosso.
Coluna Yara Belchior. Batistão. 14 de fevereiro de 2009.http://www.infonet.com.br/yara-
belchior/ler.asp?id=82710&titulo=Yara_Belchior. Acesso em 16 de fevereiro de 2009. Cabe
ressaltar que são áreas que tem um considerável número de mendigos e meninos de rua.
Às vezes eles fazem do entorno da Biblioteca local de residência.

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Enobrecimento Urbano no Bairro
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9 Depoimento do Sr. Jaílson Veríssimo. Em entrevista concedida a autora. Aracaju, 18 de

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


dezembro de 2008.

10 SANTOS, Osmário. José Ferreira: O Líder da Praia 13 de Julho. Jornal da Cidade. Araca-
ju, 28 de março de 1993. Caderno B.

11 Depoimento doSr. Ferreira de Lima. Em entrevista concedida a autora. Aracaju, 20 de


dezembro de 2008.

12 Dono do primeiro loteamento da Praia Treze de Julho. Isso é relevante, uma vez que
para a urbanização do Bairro tivemos inúmeras desapropriações, principalmente da favela
Japãozinho, entre o final da década de 60 e meados de 70, que ficava nas imediações da
atual Biblioteca Epifhânio Dórea..

13 Depoimento daSrª Luzia Inês de Jesus. Em entrevista concedida a autora. Aracaju, 19


de agosto de 2008.

14 Começa limpeza do Tramandaí. Jornal da Cidade. Cidades. 06 de junho de 2008. Dispo-


nível emhttp://2008.jornaldacidade.net/2008/noticia.php?id=5208&hoje=2008-07-22%20
22:57:35. Acesso em 10 de junho de 2008.

15 Depoimento da ProfºDrª Ana Farias/UFS. Em entrevista concedida à autora. Aracaju,


15 de agosto de 2008.

16 Treze um lugar completo. Treze Revista do Bairro. Verão 2005/2006. Ano 0, nº 1.

17 Informação obtida mediante conversa com o gerente da loja da Av. Francisco Porto.

18 Não iremos discorrer sobre o conceito. E, o uso que fizemos dele, no momento, foi
considerando apenas uma das inúmeras interpretações. E, sabemos também que a res-
ponsabilidade social de inúmeras empresas tem obtido resultados positivos.

19 Depoimento da Profª. Drª Ana Farias. idem.

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Intervenções Urbanas e Espaços de

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


Vigilância: O caso do Bairro Jardins*
Alysson Cristian Rocha Souza

Ao longo do século XX os Estados foram responsáveis pelo planeja-


mento urbano das cidades – o que contribuiu para a expansão da malha
urbana de diversas cidades no Brasil e ao seu aumento populacional.
O enfraquecimento dessas ações no âmbito das intervenções urbanas,
concomitante à ascensão da iniciativa privada na gestão de serviços an-
tes administrados pelo poder público, impactou nas formas de ocupa-
ção do solo urbano e na dinâmica dos espaços públicos2.
Serviços antes oferecidos pelo poder público passaram a ser admi-
nistrados pela iniciativa privada, como expõe Zukin: “as empresas pri-
vadas organizam muitos serviços básicos, de transporte a saneamento,
que eram anteriormente fornecidos pelo Estado” (2000, p. 105). A mo-
dificação na estrutura econômica influenciou diretamente no planeja-
mento das cidades e nos modos de vida. O discurso liberal tornou o solo
urbano como produto de consumo visual, cultural ou simbólico para
servir como parte compositora de roteiros turísticos, como é o caso das
intervenções em centros históricos ou em áreas residenciais.
Esse tipo de estratégia, segundo Certeau (1996), é aplicada por
aqueles que detém o poder sobre o espaço e por meio de interesses
diversos, sejam eles étnicos, políticos ou econômicos. Compõem, por-
tanto, paisagens onde a predominância de um mesmo grupo demar-
ca estilos e modos de vida. Nesse sentido, as moradias, o consumo e o
lazer expressam a predominância do poder estabelecido para o local.
D. Harvey (1992) analisou essa tendência de fragmentação nos Estados
Unidos, a partir da reestruturação capitalista dos anos sessenta com a
ascensão do liberalismo e do recuo no planejamento urbano estatal nas
cidades. O crescimento dos projetos pontuais de intervenções urbanas
reforçaram essa segmentação, o que gerou áreas de investimentos para
a iniciativa privada principalmente no campo do entretenimento e lazer
(Harvey, 1992; Zukin, 2000).

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Cidades e Patrimônios Culturais
212 Investigações para a iniciação à pesquisa

Conforme Zukin, a categoria paisagem pode ser entendida a par-


tir de uma relação assimétrica entre as paisagens de poder que “são um
texto visível das relações sociais, separando e estratificando atividades e
grupos sociais, incorporando e reforçando as diferenças” (2000, p. 106).
As paisagens de poder são construídas por agentes privados em parce-
ria com o poder público. O resultado desta política de “melhoramento
urbano” estabelece um contraponto com o que esta autora chama de
“paisagem vernacular”: “construção tanto dos edifícios quanto das re-
lações sociais feitas pelos desprovidos de poder em contraste – e fre-
quentemente em conflito – com a paisagem imposta pelos detentores
do poder” (Zukin, 2000, p. 106).
O espírito que constrói o alicerce das paisagens de poder é apon-
tada pela autora como a relação entre a paisagem e as relações sociais.
Essa combinação expressa fortes zonas de fronteira com o intuito de se-
parar os atores sociais e seus usos. A partir dessa delimitação territorial
e simbólica de proteção e evitação com a rua e a sua diversidade, essas
áreas concomitantemente são reforçadas com equipamentos de vigilân-
cia com o objetivo de estabelecer modos de vida, padrões de comporta-
mento, estilos de vida, formas de consumo e lazer.
Os planejamentos urbanos acontecem a partir da estratégia de
agentes sociais e detentores de poder, que elegem determinados espa-
ços urbanos aprazíveis para as camadas afluentes, transformando-os em
espaços de consumo cultural, entretenimento e moradia. A intenção de
desenvolver um espaço “higienizado” forma um ambiente privatizado
que garante a seus usuários morar ou frequentar um lugar próprio, no
qual irão encontrar indivíduos da mesma camada social, com hábitos
comuns, além de um lugar que lhes forneça tranquilidade e segurança.
Também é valorizado o espaço e sua imagem a partir da forte inserção
de novos moradores e usos em uma dada área ou bairro e, com isso,
outros serviços como bares, restaurantes, cafés e livrarias, bancos e hi-
permercados ou mesmo shopping centers.
Para analisar estas características utilizamos como objeto empírico
o Bairro Jardins, na cidade de Aracaju. Tomaremos as áreas residenciais
de condomínios fechados e casas, como também, o Shopping Jardins
para contribuir com a nossa investigação.

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Intervenções Urbanas e Espaços de
Vigilância: O caso do Bairro Jardins
Alysson Cristian Rocha Souza 213

Bairro Jardins: a formação de um espaço público

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


Construído numa região onde o solo urbano é mais valorizado, a
Zona Sul de Aracaju, o Bairro Jardins reúne as condições que a tornam
atrativa para as camadas sociais de média e alta renda são elas, a) ge-
ográficas (proximidade do rio, tranquilidade, amenidades) e, b) socio-
culturais, ou seja, a reunião de um mesmo grupo social em um mesmo
espaço compartilhando visões de mundo, estilos e modos de vida pró-
prios: “a noção de territorialidade abrange um amplo leque das neces-
sidades sociais e perpassa dimensões da vida social como identidade
social, status e prestígio” (Scocuglia, 2000, p. 116).
Esses fatores fortalecem o argumento de que a construção dos
sentidos durante a construção do bairro contribuiu para a formação da
imagem de área nobre. Esses elementos atraíram para essa região os
segmentos de média e alta renda. A força da publicidade e da paisagem
que anunciavam condomínios fechados em frente ao shopping e proxi-
midade do rio reforçavam também os modos de vida que fariam parte
daquele espaço.
Antes de tornar-se bairro de classe média, o Bairro Jardins tinha a
sua paisagem predominantemente constituída por sítios, minas de sal
e área de manguezal. Seguindo o desenvolvimento e valorização que
caracterizou o Bairro Grageru3, o Bairro Jardins foi construído em uma
área que possuía uma paisagem natural. Isto pode ser verificado no de-
poimento de José Carlos, morador do conjunto Leite Neto, que fica nas
proximidades do bairro:

A imensa área onde atualmente existe o nosso conjunto,


incluindo também o shopping, os condomínios ao nosso
redor e toda extensão de terra até a Avenida Tancredo
Neves, era ocupada por salinas, manguezais, viveiros de
peixes e sítios com grande variedade de frutas4.

Além da paisagem de manguezais, sítios e salinas, havia um riacho


que cortava o atual bairro e servia como fonte para extração de sal. Este
riacho foi substituído pelo canal que percorre a Avenida Geraldo Bar-
reto Sobral. O projeto habitacional desenvolvido pela construtora Nor-
con5 destruiu toda a antiga paisagem e promoveu a substituição das
atividades que antes eram desenvolvidas naquela área. Atualmente,

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Cidades e Patrimônios Culturais
214 Investigações para a iniciação à pesquisa

restou da paisagem anterior apenas a área de mangue preservada pelo


projeto Tramanday, localizada às margens da Avenida Pedro Valadares,
próximo à Avenida Francisco Porto. A outra área de concentração ecoló-
gica corresponde ao Parque Augusto Franco, também conhecido como
Parque da Sementeira, localizado na Avenida Silvio Teixeira, nos fundos
do Shopping Jardins.
Os terrenos foram adquiridos pela Norcon nos anos oitenta, que
comprou as terras dos ocupantes do local e a outra parcela da EMURB,
como afirma Pires, “a empresa Norcon (entre outras) compra dos ocu-
pantes e foreiros 83% e em seguida negocia com a EMURB, através do
domínio útil, a compra mais facilitada dos outros 17%, devido já possuir
escritura como ocupante” (2002, p. 85). Depois disso, a Norcon aguardou
a valorização dos terrenos e desenvolveu no começo dos anos noven-
ta um projeto, objetivando a construção de habitações voltadas para a
classe média e alta.
Este projeto foi desenvolvido em 1996 quando foram realizadas as
obras de aterro e terraplanagem para a abertura de vias para a constru-
ção do shopping e dos primeiros edifícios. Os terrenos foram se valoriza-
ram em conjunto com o desenvolvimento dos bairros vizinhos. A Norcon
se utilizou deste condicionante e “investiu na imagem de um lugar como
sendo o mais moderno da cidade, onde os sonhos de uma vida melhor
poderiam ser concretizados” (Silva, 2003, p. 62).
A construção do bairro foi concluída em meados dos anos noventa,
quando os investimentos imobiliários estavam em ascensão: “A partir de
1996, o setor imobiliário começa a reagir no âmbito nacional e inten-
sificam-se os lançamentos de prédios na cidade” (França, 1999, p. 190).
Aproveitando o crescimento do setor, os empresários imobiliários inves-
tem na construção de condomínios verticalizados em áreas onde o solo
urbano é valorizado:

A valorização do solo urbano está associada a uma di-


nâmica de urbanização, que toma toda a área da cidade
por atividades e serviços que estabelecem a condição de
urbano, essa concentração de serviços atribui valor ao
espaço em relação a sua condição natural. Combinados
com uma demanda de usuários que exigem requisitos
para a moradia, como segurança, amenidades climáticas,
localização do imóvel, entre outros (Souza, 2004, p. 39).

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Intervenções Urbanas e Espaços de
Vigilância: O caso do Bairro Jardins
Alysson Cristian Rocha Souza 215

No Bairro Jardins foi construída uma grande quantidade de edifícios

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


residenciais em um curto espaço de tempo. Desde o início da constru-
ção do bairro, em 1996, apresentou-se um rápido crescimento nas cons-
truções de edifícios nos anos subsequentes à sua inauguração. Entre os
anos 1996 e 1999, foram construídos 36 condomínios, com um total de
59 edifícios (Vilar, 2000, p. 507).
A revista Sergipe S/A de 2001, em matéria escrita por Ana Lúcia
Campos, trouxe dados sobre a verticalização das habitações como uma
tendência mundial. Nesta mesma matéria a jornalista afirmou que exis-
tiam “[...] em Aracaju cerca de 900 condomínios verticais, abrigando
aproximadamente 80 mil moradores” (Campos, 2001, p. 28). A tendência
é contínua no espaço urbano aracajuano, sendo a zona sul a principal
área de desenvolvimento deste fenômeno.

Bairro Jardins: outros modos de vida para a cidade


Segundo dados do IBGE, a população aracajuana, em sua grande
maioria, reside em casas, cerca de 392.809 dos 462.534 habitantes da
capital, sendo 62.489 em apartamento, 4.258 em cômodos, 966 improvi-
sados e 1.012 em domicílio coletivo. Tendo a seguinte distribuição entre
os bairros: o Grageru tem a maior concentração de apartamentos: 9.315
como domicílio; seguido do Luzia com 8.197; Farolândia, 8.059; Ponto
Novo, 6.736; Treze de Julho, 6.223; Suissa, 3.037; São José, 2.865; Coroa
do Meio, 2.563; Centro, 2.226; e Atalaia, 1.3416.
Apesar de a grande maioria da população aracajuana morar em ca-
sas, verifica-se uma quantidade crescente de apartamentos nas últimas
décadas. Isto vem ocorrendo desde os anos setenta, quando foi constru-
ído o primeiro edifício residencial de Aracaju, o edifício Atalaia, em 1972.
A construção deste edifício foi um marco nos tipos de moradia na capital
sergipana. Após sua construção, foram construídos outros nas décadas
seguintes. Este tipo de moradia é bastante procurado pelas camadas so-
ciais de média e alta renda – uma forma bem mais exclusiva, resultante
do processo de autossegregação promovido por esses grupos.

Morar em um condomínio é uma forma de marcar clara-


mente as distâncias espaciais, sociais e também simbólicas
em relação aos outros, ou seja, aos que estão do lado de
fora. No entanto, o mundo de iguais não é necessariamen-

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Cidades e Patrimônios Culturais
216 Investigações para a iniciação à pesquisa

te um mundo coeso e solidário, ou um mundo de fortes


laços de sociabilidade. A vida em condomínio é vista tam-
bém como a possibilidade de uma vida mais individuali-
zada e com maior privacidade até mesmo em relação ao
próprio grupo de moradores (Andrade, 2003, p. 188).

O tipo de moradia escolhido por essas camadas sociais está rela-


cionado a fatores que expressam a procura por áreas que lhes garantam
segurança, ambiente social compatível com o seu comportamento, con-
sumo, modo e estilo de vida. A fim de verificar esta preferência no Bairro
Jardins, apresentaremos uma tabela onde estão relacionados os onze
bairros da cidade que apresentam maior renda média salarial.

TABELA 1: RENDA SALARIAL MÉDIA


BAIRRO RENDA SALARIAL MÉDIA (R$)
Treze de Julho 3000
Grageru 7
2000
Salgado Filho 2000
São José 1808
Luzia 1200
Suissa 1200
Jabotiana 1000
Pereira Lobo 950
Centro 850
Atalaia 850
Inácio Barbosa 830
Fonte: Anuário Estatístico da Prefeitura Municipal de Aracaju (Secretaria Municipal de
planejamento), 2002.

Dos onze bairros com maior renda salarial média, nove estão lo-
calizados na zona sul e sudoeste da cidade. São eles: Treze de Julho,
Grageru, Salgado Filho, São José, Luzia, Suissa, Atalaia, Inácio Barbosa
e Jabotiana. Já os outros dois bairros se localizam respectivamente no
centro (bairro Centro) e na zona oeste (Pereira Lobo). Portanto, pode-
mos verificar que as populações das zonas sul e sudoeste possuem as
maiores rendas salariais entre os bairros da capital. Segundo Ribeiro “a

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Intervenções Urbanas e Espaços de
Vigilância: O caso do Bairro Jardins
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zona sul foi, dentro do aglomerado urbano, aquela que recebeu maior

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


número de investimentos através da instalação da infraestrutura e dos
equipamentos urbanos” (1989, p. 102).
O espaço urbano de Aracaju carrega consigo atualmente um ce-
nário socioespacial estratificado, onde é verificado o deslocamento das
camadas sociais de maior poder aquisitivo para as zonas sul e sudoeste,
enquanto as zonas norte e noroeste e algumas áreas pobres que vêm
surgindo nas margens do tecido urbano da cidade concentram as ca-
madas sociais de baixo poder aquisitivo, áreas com pouca ou nenhuma
infraestrutura e pouco valorizadas dentro do mercado imobiliário.

Os usuários e suas fronteiras


O crescimento dos condomínios residenciais, como moradia das ca-
madas de média e alta renda, está voltado para o autoisolamento, carac-
terizando formas de evitar a cidade. Refere Andrade que “o isolamento é
uma forma de distinguir-se dos demais colocando barreiras físicas e sim-
bólicas. Trata-se de uma estratégia utilizada por grupos que tem poder de
optar por uma vida entre iguais” (2002, p. 07). Com isso, podemos consi-
derar que estes grupos e este tipo de moradia tende a evitar os espaços
públicos compostos por uma heterogeneidade social e por isso busca
por espaços “homogêneos” em sua composição social e espacial. A pro-
cura por espaços urbanos “higienizados” está relacionada à procura por
lugares que possam transmitir segurança diante dos problemas de vio-
lência das cidades, maior privacidade e espaço de lazer para as famílias.
A segurança é uma das principais exigências dessas camadas so-
ciais (na escolha de suas residências). A composição espacial se torna,
portanto, um dos fatores determinantes na opção de moradia. Segun-
do Andrade “Os condomínios são uma das opções de morar colocada à
disposição dos estratos de maior poder aquisitivo e funcionam também
como uma forma de distinção interna ao grupo” (2002, p. 10).
Essa distinção definida por Andrade se constitui como opção de
moradia e desenvolvimento dos modos de vida esperados por essa
camada social. Nestes formatos de moradia os equipamentos de vigi-
lância fortalecem formas de se relacionar próprias a esse grupo. De
acordo com Caldeira,

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Cidades e Patrimônios Culturais
218 Investigações para a iniciação à pesquisa

[...] as transformações recentes estão gerando espaços


nos quais os diferentes grupos sociais estão muitas vezes
próximos, mas estão separados por muros e tecnologias
de segurança e tendem a não circular ou interagir em
áreas comuns. O principal instrumento desse novo pa-
drão de segregação espacial é o que chamo de “enclaves
fortificados”. Trata-se de espaços privatizados, fechados e
monitorados para residência, consumo, lazer e trabalho.
A sua principal justificação é o medo do crime violento.
Esses novos espaços atraem aqueles que estão abando-
nando a esfera pública tradicional das ruas para os po-
bres, os ‘marginalizados’ e os sem-teto (Caldeira, p. 211).

A definição do espaço privado como casa, como expressão das ne-


cessidades sociais, culturais e econômicas dos seus moradores, reme-
te-nos à identificação desta como célula que troca significados com a
cidade, transmitindo, através de seus comportamentos, modos e estilos
de vida, um sentido de pertencimento a uma localidade especifica da
cidade que garante ao indivíduo a sua representação social. Neste sen-
tido, o bairro define o pertencimento do indivíduo a um grupo. M. De
Certeau constata que “o bairro constitui o termo médio de uma dialética
existencial entre o dentro e o fora” (1996, p. 42). O autor trata a relação
entre o dentro e o fora como, respectivamente, a residência e o espaço
urbano. Através do bairro o indivíduo se localiza socioespacialmente e se
apresenta diante da cidade.

Cotidiano e interações sociais do Bairro Jardins


Nas primeiras horas da manhã pode-se verificar a movimentação
do bairro através dos carros que cortam as suas avenidas, assim como
adultos e idosos que caminham em direção às academias e ao parque da
Sementeira. Outros atores sociais chegam durante este turno e montam
seus estabelecimentos comerciais às margens da Avenida Geraldo Barre-
to Sobral, do lado oposto ao shopping. Um dos vendedores é um senhor
que comercializa coco e caldo de cana em uma carroça. Do mesmo lado
da avenida um automóvel estaciona, um homem desce e se dirige para
o fundo do carro, no qual há uma loja de fabricação e consertos de cha-
ves. Uma mulher monta uma barraca vendendo marmitas. Com exceção

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Intervenções Urbanas e Espaços de
Vigilância: O caso do Bairro Jardins
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dela, outros vendedores permanecem no local até o final da tarde e co-

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


meço da noite.
No turno vespertino, o fluxo de veículos aumenta assim como a
quantidade de pessoas que chegam ao bairro por vários meios, de carro,
táxi, ônibus coletivo, mototáxi e a pé. O aumento no fluxo de pessoas atrai
outros atores sociais que chegam ao bairro no final da tarde. Neste turno,
no estacionamento do shopping, há um aumento no número de carros.
A maioria das pessoas que chegam ao bairro de transporte co-
letivo no turno vespertino e início do noturno tem como destino o
shopping. No estacionamento do shopping ficam estrategicamente
posicionados seguranças, alguns próximos às portas de acesso, outros
espalhados pelo estacionamento, observando toda a movimentação
das pessoas que entram e saem. Os seguranças estabelecem critérios
para as pessoas que entram no shopping, o posicionamento deles está
orientado para impedir a entrada das crianças em “situação de rua” que
ficam nos arredores do shopping, as quais são acompanhadas a todo
momento pelo olhar vigilante dos seguranças e quando localizadas
dentro do shopping são retiradas.
Outro grupo que se desloca para o bairro são os “hippies” – como
são conhecidos os fabricantes de adornos artesanais (colares, pulseiras,
braceletes, brincos, anéis, entre outros) –, que se concentram em outros
turnos na praça da catedral, no centro da cidade, vendendo seus produ-
tos. Eles chegam ao final da tarde, montam seus expositores próximos a
um ponto de ônibus, junto a uma das portas de acesso ao shopping. Os
“hippies” não aparecem em grande quantidade. Geralmente aparecem
de um a três indivíduos e dividem o mesmo espaço. É importante res-
saltar que os “hippies” não aparecem todos os dias da semana; normal-
mente aos domingos eles não são vistos no bairro vendendo seus pro-
dutos. Outros atores que dividem o mesmo ponto são os mototaxistas
– motociclistas que fazem o transporte de pessoas –, que se posicionam
em frente a uma das portas de acesso do shopping. A relação entre os
“hippies” e os moto-taxistas é pacífica.
Os garotos em “situação de rua” não possuem um ponto fixo. Ficam
organizados em grupo e transitam em volta do shopping, tentando bur-
lar a atenção dos vigilantes. Quando um deles tentou entrar foi impedi-
do por um dos seguranças, que o conduziu para fora do estacionamen-
to. Em outro momento, encontramos esse mesmo garoto sentado num

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Cidades e Patrimônios Culturais
220 Investigações para a iniciação à pesquisa

canteiro em frente à porta do Habib’s. O garoto estava posicionado em


frente à porta de vidro sob o olhar vigilante de um dos funcionários, res-
ponsável por receber os clientes na porta do estabelecimento. O menino
pedia esmolas às pessoas que entravam pela porta e aos que utilizavam
os serviços do drive-thru. Depois de algum tempo, aproximadamente
meia hora, saiu daquela lanchonete e continuou transitando pelos arre-
dores do shopping.
Próximo às dez horas da noite as atividades no shopping e nas suas
proximidades são encerradas gradativamente, bem como o estacio-
namento do shopping. O fluxo de pessoas que utilizam os transportes
coletivos, táxis e mototáxis aumentam. Neste horário é maior o núme-
ro de pessoas que saem do shopping. As atividades que ocorriam nas
suas proximidades diminuem aos poucos. Às nove horas os “hippies”
desmontam seus expositores e as crianças em “situação de rua” não são
mais vistas nos arredores.
Em horários diferentes, geralmente durante o dia, observamos a
presença de “pedintes” nos sinais de trânsito. Em um destes, uma mu-
lher maltrapilha trazia consigo duas crianças pequenas e uma criança de
colo. A mulher ficava com uma das crianças embaixo da sombra de uma
árvore, enquanto as outras iam até os carros para pedir. No cruzamento
entre a Avenida Sílvio Teixeira e a Avenida Pedro Valadares observamos
algumas crianças em “situação de rua” pedindo esmolas no semáforo.
No mesmo cruzamento, no começo da noite, no semáforo próximo ao
Banese, um homem fazia jogos malabares, com bastões em chamas nas
pontas; o homem aguardava o sinal fechar para realizar a sua rápida
apresentação e pedir contribuições às pessoas dos carros.
As características apontadas acima atribuem aos espaços públicos
reestruturados uma dinâmica social que define territorialidades, onde
é permitida a ocupação dos visitantes indesejados, antigos usuários ou
não, e de novos usuários. Contudo, a convivência estabelece zonas de
conflito, construídas simbolicamente, as quais se apresentam por meio
de elementos peculiares que determinam o pertencimento a um deter-
minado grupo.
Com isso, podemos observar que nos espaços públicos que passa-
ram pelo processo de modificação de sua paisagem, também ressigni-
ficam seus usos e que promovem uma delimitação quanto à ocupação.
Existem espaços que reafirmam a posição de estrutura das camadas so-

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Intervenções Urbanas e Espaços de
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ciais para quem os usos foram destinados. O fato de estes usos estarem

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


claramente definidos representa a forma como os outros usuários do
bairro, provenientes de outras localidades, podem acessá-lo. O caráter
estratificado do Bairro Jardins, suas construções e o shopping, afirmam a
apropriação social e cultural da paisagem projetada.

Espaços vigiados
O Bairro Jardins foi construído semelhante ao formato dos subúrbios8
norte-americanos do pós-guerra, onde conjuntos residenciais foram cons-
truídos próximos a shopping centers. Este modelo foi reproduzido em ou-
tras cidades pelo mundo ao longo do século XX, o que representou a saída
das camadas de média renda dos centros históricos. Este tipo de projeto
urbanístico foi seguido pelos idealizadores do Bairro Jardins, com o predo-
mínio de habitações verticalizadas fechadas que cercam o grande centro
comercial do bairro, representado pelo shopping Jardins.
O projeto urbano do Jardins sugere espaços protegidos por equi-
pamentos e serviços de vigilância. Nos condomínios, esta característica
se expressa de forma mais evidente na construção de espaços de socia-
bilidades9: pracinhas, piscinas, salão de festas, para seus moradores. No
principal estabelecimento comercial do bairro, o shopping Jardins, refe-
rencial de consumo, lazer e entretenimento, estão situados espaços de
sociabilidades (cinema, praças de alimentação, bancos espalhados por
toda a extensão do shopping). Estes se caracterizam como a expressão
da homogeneização do bairro, acompanhados por câmeras espalhadas
por todo o prédio e seguranças dentro e nos estacionamentos.
Fora destes espaços, ao longo de algumas avenidas próximas ao
shopping, atores sociais provenientes de bairros mais pobres contrastam
com a paisagem estabelecida e com os seus ocupantes. Os atores sociais
distribuem-se nas avenidas Franklin de Campos Sobral e Geraldo Barreto
Sobral. São vendedores ambulantes, “hippies”, meninos em situação de
rua, pedintes e antigos moradores, caracterizando o contraste entre o
“vernacular” e a “paisagem de poder”.
Na Avenida Geraldo Barreto Sobral percebemos uma paisagem de
poucas habitações, contendo uma grande área ainda em estado natural.
Nesta avenida são encontrados alguns estabelecimentos comerciais, edi-
fícios e casas. Na outra margem, junto às áreas ainda não construídas, há

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Cidades e Patrimônios Culturais
222 Investigações para a iniciação à pesquisa

um prédio em construção, dando continuidade ao processo de enobreci-


mento. Próximo a este prédio, encontramos algumas casas aglomeradas,
que possuem como vizinhos um bar e um cemitério desativado (o cemi-
tério do “abc”). Próximo a eles encontramos a sede de uma imobiliária.
A caminhada por esta avenida apresenta-nos outros caminhos além
da previsível direção ao shopping. Ao lado da sede central de vendas
da Construtora Cunha encontramos um caminho que nos leva a uma
área destoante daquela de grandes e largas avenidas, localizada na área
central do bairro10. O acesso a esta região tem como vereda a Avenida
Franklin de Campos Sobral, que faz cruzamento com pequenas ruas an-
tes do encontro com a Avenida “C”, que por sua vez dá acesso a uma das
avenidas principais do bairro, a Avenida Sílvio Teixeira.
Durante o percurso pela Avenida Franklin de Campos Sobral verifi-
camos uma paisagem composta por casas em construção ou já constru-
ídas, em que algumas são grandes e com muros altos, cercas elétricas,
carros na garagem, cães de guarda e ocupam grandes espaços. Em con-
traposição, nas proximidades destas habitações menores, dispostas uma
ao lado da outra, ou cercadas por arame farpado, encontram-se resquí-
cios daquela que foi a antiga paisagem do bairro composta por sítios e
manguezais. A avenida ainda não teve todas as suas ruas pavimentadas e
nem a paisagem foi reestruturada (como se vê no restante do bairro). As
atividades e utilização deste lugar ainda são bem diversificadas, diferente
do restante do bairro, que manifesta uma característica homogênea em
sua ocupação. Nesta região o que se vê é a presença de uma paisagem
heterogênea, tanto nas ocupações como nas atividades. Em conversa in-
formal com um dos moradores da avenida “B”, onde estávamos, o mesmo
comentava sobre a antiga paisagem do bairro, composta por manguezais
e sítios, e a nova paisagem composta pelas casas dos recentes moradores.
Ele afirmava que “(...) antes ninguém queria morar aqui”11.
Ainda no percurso da Avenida Franklin de Campos Sobral presen-
ciamos crianças brincando tranquilamente na pista de terra batida – esta
é uma das atividades que a difere da área enobrecida, onde não presen-
ciamos crianças brincando nas ruas. Os espaços de lazer para as crianças
na área central do bairro estão centrados nos espaços fechados, sejam
no shopping ou nos condomínios.
Outra localidade onde presenciamos a busca pela segurança foi na
Avenida Jorge Amado e ruas adjacentes. Neste lugar há concentração

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de residências horizontais, diferente da área central, onde a predomi-

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


nância é de condomínios verticalizados. Já próximo ao shopping, ainda
nesta avenida, encontramos uma praça pública (Praça Luciano Barreto
Júnior). Apesar de haver residências horizontais, a insegurança é presen-
te nesta parte do bairro, verificada pela instalação de equipamentos de
segurança nas casas cercadas por muros altos e cercas elétricas, algumas
dispondo de interfone e câmeras de vídeo em suas entradas. Algumas
construções verticalizadas foram verificadas nas proximidades da Praça
Luciano Barreto Júnior, onde recentemente foram construídos três pré-
dios. Durante o dia e à noite, em diferentes dias, não foram verificadas
interações sociais entre os moradores nas ruas e avenidas; o contato com
pessoas fica restrito a transeuntes que tomam a avenida apenas como
passagem. O principal espaço de convergência de sociabilidades dos
habitantes daquela parte do bairro era a praça, onde crianças brincavam
no parque, mães conversavam sentadas nos bancos, grupos de jovens e
adultos utilizavam a quadra de esporte ou conversavam nas proximida-
des da banca de revistas.
Na área central, que corresponde à área próxima ao shopping e aos
condomínios localizados ao longo das avenidas Sílvio Teixeira, Geraldo
Barreto Sobral e Pedro Valadares, deparamo-nos com uma paisagem
constituída predominantemente por prédios distribuídos nas proximi-
dades do shopping. Os condomínios oferecem, em seus espaços priva-
dos, locais de interação social para os seus moradores, como piscina,
salão de festas, praças internas, quadra de esportes, entre outros. Nas
campanhas publicitárias dos novos condomínios fica clara a separação
entre os moradores dos condomínios e frequentadores do shopping e do
restante dos espaços públicos da cidade. Basta verificar na área central
do bairro a construção de poucas áreas de sociabilidades públicas, como
praças, parques, entre outros. As sociabilidades são voltadas para dentro
desses “fortes”. As avenidas principais apenas cumprem a função de “es-
paços de passagem” (Sennet, 1999). Apesar disso, os espaços nas proxi-
midades do shopping são utilizados por visitantes, desejados ou não, de
outras partes da cidade que se deslocam para o bairro, seja para usufruir
dos serviços do shopping Jardins ou de outros serviços oferecidos pelos
estabelecimentos comerciais do bairro. Segundo dados obtidos no site
do shopping Jardins cerca de 60 mil pessoas frequentam o shopping nos
finais de semana12.

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Cidades e Patrimônios Culturais
224 Investigações para a iniciação à pesquisa

Com o aumento do fluxo de pessoas começam a surgir outros ato-


res sociais nessa paisagem. Atraídos pelo shopping Jardins, as sociabili-
dades ganham outra dinâmica, principalmente à noite. As crianças inte-
ragem de maneira diferenciada com os ambulantes e com o shopping.
As interações entre informais e seguranças são de tensão e negociação,
uma vez que os informais possuem seu espaço devidamente definido,
para além da fronteira gradeada. O acesso de qualquer um dos informais
é livre, com ressalva para aqueles que tentam realizar algum negócio
ou transação comercial dentro do shopping. Os seguranças são claros
quando este tipo de ação, “se tentarem vender os produtos dentro do
shopping eles são presos”. Essa medida é tomada devido a sua natureza
condominial. Portanto, as regras que regem esse espaço consistem em
estratégias de afirmação dos usos econômicos e culturais.
Essas estratégias para a definição dos usos e sociabilidades ocorrem
sob forma de relações de tensão e de negociação. Os atores sociais que
estão do lado de fora das fronteiras do shopping, e aqueles de dentro,
usuários que possuem os códigos de acesso a esse espaço. As crianças e
informais, por exemplo, são atores que ocupam a parte externa, sendo o
seu acesso restrito as sociabilidades da rua.
A formação das sociabilidades e as ações de tensão e negocia-
ção que se desenvolvem ao longo das intermediações com o sho-
pping possuem dinâmica diferente em relação ao espaço interno. A
permanência das atividades e o acesso dos informais é mantida sob
a vigília dos seguranças que fiscalizam possíveis comercializações
dentro do shopping.
Mesmo aqueles usuários que possuem trânsito livre são constante-
mente monitorados pelos olhares dos vigilantes espalhados pelos cor-
redores, portas de acesso e estacionamento e pelas câmeras internas e
externas. Dois exemplos desse monitoramento pôde ser verificado no
extinto fumódromo localizado em uma das praças de alimentação pró-
ximo a C&A. Essa área foi criada pela ação dos usuários que se encon-
travam para conversar, consumir e fumar. Num espaço de aproximada-
mente 10 mesas enfileiradas a ações regular dos usuários transformaram
aquele espaço em fumódromo, mesmo com as campanhas difundidas
por meio de vinhetas difundidas pelo sistema de som e adesivos cola-
dos próximos as mesas. A direção do shopping em 2010 amparado pela
lei que proíbe fumar em espaços fechados retirou as mesas do local e

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substituiu por uma loja de roupas. Nesse sentido, pode-se verificar a afir-

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


mação dos usos definidos pelo shopping.
O segundo exemplo se trata da passarela e escada da saída de letra
C. A saída “C” corresponde a uma marquise com uma cobertura, com um
largo espaço para acesso via escada e passarelas para deficientes físi-
cos. As duas fazem o contato direto com o estacionamento, uma delas é
estreita e a outra larga, nas duas existem, em suas extremidades, grossos
e longos corrimões. Durante os finais de semana a passarela mais ampla
fica repleta de jovens conversando, namorando, bebendo, fumando e
cantando. Os corrimões logo se transformam em assento. Próximo às
escadarias os jovens sentam-se, mais especificamente, nas muretas que
fazem as extremidades da escada. (Souza, 2008)
Os grupos de jovens recebem outro tratamento quanto às situações
de conflito. Por serem identificados como “usuários legítimos” do espaço,
estes atores se organizam em pequenos grupos que perambulam pelos
corredores ou escolhem especificamente a saída “C” como seu ponto de
encontro. Nem todos os grupos de jovens que freqüentam o shopping
vão para lá, muitos preferem ficar pelos corredores. O que chama a aten-
ção entre esses grupos é a identificação com algum tipo de cultura jovem.
Esta característica se pulveriza, pois a identificação necessariamente não
está veiculada a fazer parte dos grupos de emos, metaleiros, pagodeiros,
reggaeiro e black, mas essas marcas se juntam a outros usos que, de
certa maneira, os identifica como participantes de uma classificação que
não é obstáculo para a sua entrada no grupo maior dos frequentadores
da saída “C”. Nesse sentido, verificou-se que o conjunto de relações entre
grupos que se auto-identificam e se reconhecem através da diferença e,
a partir dessa estabelecem aproximações ou repulsas. A fragmentação
das identidades é abordada por S. Hall (2003) como uma característica
do mundo globalizado, onde os atores sociais constroem os seus laços e
marcas de identificação através de matrizes simbólicas.
A cada final de semana, os seguranças se revezam no posto de fazer
a guarda da saída “C”, todos aqueles jovens ricos e moradores do Bairro
Jardins e de bairros da redondeza, fazem da saída “C” o seu momento
de liberdade: bebem, fumam e namoram. Segundo um dos seguranças,
muitos pais nem sabem o que o filho “apronta” no shopping, pensam
que estão em um lugar seguro e quando são chamados pela segurança
e encontram o filho detido, ficam surpresos.

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Cidades e Patrimônios Culturais
226 Investigações para a iniciação à pesquisa

Considerações Finais
As políticas urbanas baseadas nos projetos de intervenção pontu-
ais promovem a substituição social e a mudança no sentido e usos dos
espaços. Para a manutenção desses novos sentidos são desenvolvidos
equipamentos que julgo aqui de proteção divididas em duas verten-
tes. A primeira, contra a violência e o crime, e a segunda, para a conti-
nuidade e permanência de padrões de comportamento, sociabilidades
e modos de vida.
A segregação não está voltada apenas para a condição econômica
dos atores, mas também para o não compartilhamento dos comporta-
mentos, aspectos simbólicos e estilos de vida13. O conflito pode vir da
própria camada social, do encontro de suas formas de ver o mundo. No
caso das intervenções no espaço público, voltados para habitação, cria-
se um novo modo de vida, centrado no estilo de vida, caracterizado pe-
las habitações, pelo tipo de arquitetura, pelos serviços oferecidos.
A segregação socioespacial, representada pelo planejamento ur-
bano do Bairro Jardins, expressa a necessidade de um determinado
estrato social de estabelecer em um determinado espaço com todo o
seu aparato econômico, cultural e simbólico, portanto, o lazer, o con-
sumo e a moradia. Tais características são ressaltadas nas propagandas
pela associação do bem-estar à imagem do bairro, pela proximidade
de serviços e estabelecimentos comerciais, além das proximidades de
paisagens naturais transmitidas, principalmente tranquilidade; assim
sendo, desenvolve-se um sentido simbólico da casa e do bairro (Da-
Matta, 1991; Certeau, 1996).
Ao tomar as políticas de enobrecimento como segregativas no seu
planejamento, podemos considerar que a preocupação com a seguran-
ça é, também, uma forma de evitar a cidade e suas contradições. A pro-
cura por espaços homogêneos reforçam a construção de paisagens de
poder que abrigam comportamentos, códigos, modos e estilos de vida
específicos das camadas sociais de média e alta renda. A formação de
ilhas estreita ainda mais as diferenças entre os usuários da cidade, já que
a relação com os espaços públicos passam por uma carga dramática de
negociação e conflito.

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Intervenções Urbanas e Espaços de
Vigilância: O caso do Bairro Jardins
Alysson Cristian Rocha Souza 227

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Intervenções Urbanas e Espaços de
Vigilância: O caso do Bairro Jardins
Alysson Cristian Rocha Souza 229

Depoimento

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


FREIRE, José Carlos. Depoimento concedido a Alysson Cristian Rocha Souza, 23 de
novembro de 2003.

Notas
*
Esta pesquisa foi realizada no âmbito do Laboratório de Estudos Urbanos e Culturais (LA-
BEURC) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Artigo foi extraído da pesquisa de mestra-
do desenvolvida entre os anos de 2006 e 2008, sob a orientação de Rogerio Proença Leite.
2 Tomo aqui a definição de espaço público como “práticas que atribuem sentidos dife-
renciados e estruturam lugares, cujos usos das demarcações físicas e simbólicas no espaço
as qualificam e lhes atribuem sentidos de pertencimento, orientando ações sociais e sendo
por estas delimitadas reflexivamente.” (Leite, 2001, p. 07).
3 Região da qual o Jardins fazia parte antes de ser homologada a lei 2.666/98, que o
oficializa como bairro.
4 Depoimento de José Carlos Freire, morador do conjunto Leite Neto. Entrevista conce-
dida ao autor em 23 de novembro de 2003.
5 Sociedade Nordestina de Construções S/A, fundada em 1958, realizava construções
para obras públicas e industriais, redirecionando seu foco uma década depois para a cons-
trução de unidades residenciais voltadas para as classes média e alta. Disponível em (www.
norcon.com.br), acessado em 08 de março de 2004
6 Dados obtidos no anuário Estatístico da Prefeitura Municipal de Aracaju (Secretaria de
planejamento), 2002.
7 Antes do início do último censo demográfico, em 2000, e até o momento atual, a
Prefeitura Municipal não passou oficialmente as delimitações do bairro Jardins, que já es-
tava regulamentado enquanto bairro desde 1998. Com isso, o IBGE não incluiu os dados
referentes ao bairro. Estando, portanto, os dados do bairro Jardins inseridos nos dados do
bairro Grageru.
8 Os subúrbios norte-americanos são áreas ocupadas por camadas de média e alta ren-
da. Diferente do nosso sentido de subúrbio que está atrelado a moradias das camadas de
baixa renda.
9 Espaços públicos construídos para favorecerem as relações sociais.
10 Atribuiremos como área central do bairro as localidades próximas ao shopping, por
esta representar o marco inicial do bairro Jardins e por concentrar a maioria das atividades
comerciais, prédios residenciais e por ser um atrativo de relações sociais díspares à propos-
ta homogeneizante do bairro.
11 Conversa informal com um dos moradores da avenida “B”, concedida em 16 de março
de 2004.
12 Disponível em <www.shoppingjardins.com.br> acessado em 08 de março de 2004.
13 Cf. Andrade (2002; 2003).

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Urbanização Litorânea:

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


O Espaço “Orla de Atalaia”1
Simone de Araujo Pereira2

1. Introdução
Os processos de intervenções urbanas em áreas litorâneas têm se
intensificando nas últimas décadas. A praia de Atalaia, localizada na
cidade de Aracaju, capital de Sergipe, no nordeste brasileiro, tem sua
paisagem alterada a partir da década de 90. As obras que modificaram
sua paisagem possibilitaram o que se reconhece como “Orla de Atalaia”.
Estruturada em torno de um ideal turístico, que objetiva disputar, com
outras cidades brasileiras e estrangeiras, não apenas os turistas de “sol
e mar”, como também os que preferem experiências “naturais”, mas não
menos urbanas.
Sharon Zukin (2000), ao apresentar três temas principais que regem
a produção da paisagem, atenta que tais turistas influenciam na forma-
ção de paisagem mesmo que na perspectiva de uma “cultura da nature-
za”. A autora atenta que aqueles que desejam “ter uma experiência mais
espiritual, talvez selvagem – mas não desconfortavelmente selvagem [...]
pode ser encontrado pelas pessoas, por um lado, nas áreas urbanas his-
tóricas e, por outro lado, nas praias desertas” (Zukin, 2000, p. 110) acabam
por influenciar na estruturação dos espaço que são adequadamente mo-
dificados para recepcioná-los. Os agentes que modificam os espaços para
atender a este público “devoram a paisagem natural que se desenvolveu
ao longo do tempo, [...] e estabelecem uma nova inserção de lugares ‘na-
turais’ na economia mundial e na cultura de consumo” (id., ibid., p. 110).
Reforçando este entendimento, em suas devidas adequações, pois
não é esta uma praia deserta, mas que também aspira atingir uma expe-
riência natural, percebe-se a valorização midiática da Orla de Atalaia a
partir de elementos praianos ao tempo em que se desloca dos mesmos
na medida em que suas estruturas físicas são apresentadas no sentido
de expressar uma experiência praiana, mas não tão natural, com areia
e sol, mas no conforto das estruturas físicas erguidas. As intervenções,

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232 Investigações para a iniciação à pesquisa

como salienta Zukin, constroem novos lugares naturais; e no caso espe-


cífico da Orla de Atalaia, servem-nos como exemplos a “região dos lagos”
e o “bosque das nações”. Para além das estruturas naturais, a Orla faz-se
da construção de calçadas, pistas de skate e patinação, quadras, restau-
rantes, salão de festas, quiosques, estacionamentos e prédios públicos.
A estrutura física da Orla de Atalaia é genuinamente diversificada
e fluida em suas próprias estruturas, que são mudadas, ampliadas, des-
gastadas pelo tempo e pelo homem e, também, destruídas. Mas, mesmo
assim, já inicia um processo simbólico de imagem de uma Aracaju “mo-
derna” a partir de sua estrutura física. O simbolismo construído em torno
da Orla reforça a centralidade de décadas passadas de praia, mas não
com as mesmas práticas e usos. O aracajuano não vai mais somente ao
Barreto3, à praia de Atalaia, à Cinelândia4 ou simplesmente à praia, hoje
ele vai a “Orla de Atalaia”.
A Orla Marítima de Aracaju, portanto, circunscreve-se em torno de
si mesma e não diretamente ligada a algo natural, apenas utilizando e
afirmando, em seu marketing, que é praia. Inicia-se um processo de des-
locamento em suas práticas, diferenciam aqueles frequentadores que
apenas usam a praia, numa experiência mais natural, envolto de práticas
praianas, dos que usam a cidade, numa experiência mais citadina, envol-
tos de práticas urbanas.
O objetivo central da pesquisa que se desdobra na presente reflexão
foi compreender os usos estabelecidos numa zona litorânea enobrecida
e turística que contempla os desejos dos turistas e visitantes que vão
além de uma experiência natural ou uma vilegiatura. Refletimos sobre
pessoas que consomem o espaço enquanto colecionadores de lugares.
Parte dessa pesquisa é aqui apresentada, pensando a Orla de Atalaia no
que tange às peculiaridades arquitetônicas e organizacionais que confi-
guram um espaço singular.

2. “Porto” teórico: um espaço entre dois outros espaços


Embora as políticas de intervenção urbanística objetivem alte-
rar os usos desenvolvidos num determinado espaço, eliminando seus
antigos usuários e demarcando práticas possíveis, mesmo que se re-
apropriando de práticas do passado, R.P. Leite assegura a possibilida-
de de “repensar a construção desses lugares no contexto urbano con-

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O espaço “Orla de Atalaia”
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temporâneo a partir dos usos e contra-usos que se fazem dos espaços

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


enobrecidos” (2007, p. 213-214). Caracterizado pela sua polissemia
espacial, um determinado espaço é capaz de abarcar tantas quantas
forem as suas variações, mesmo que retenha para isso graus elevados
de “conflito” (Simmel, 1992), decorre também da própria projeção da
estrutura física, que retém certa rigidez no “estriar” (Deleuze; Guattari,
1997) de um espaço, como, por exemplo, a construção de espaços pri-
vados no conjunto de um espaço “público”.
Algo recorrente na análise da Orla de Atalaia é a expressão de um
uso que se apresenta diferente das práticas de outros espaços da cidade,
que são as práticas no espaço da praia, às vezes compreendidas como
uma “cultura praiana”. Embora entendido como espaço enobrecido ca-
pacitado a abarcar tais variações, que estão dispostas em sua própria
diversidade no espaço público em estudo, parece encaixar-se nos en-
tendimentos construídos acerca do “urbano”, compreendidos em seus
próprios termos.
Logo, a Orla apresenta-se como um “espaço” que se coloca em meio
a outros dois “espaços”, de duas práticas distintas: um espaço urbano e
um espaço praiano, que se forja a partir dessas mesmas práticas, com-
portando elementos de ambas e possibilitando suas próprias práticas.
Percebe-se, pelas observações, que é possível verificar usos que deri-
vam de uma prática urbana (um jantar com os requintes exigidos em
roupas finas); usos que derivam de uma prática praiana (as caminhadas
contemplativas em roupas de banho); e usos que derivam da superpo-
sição de variadas formas e, obviamente, comportadas pelas estruturas
físicas e simbólicas de uma Orla Marítima Enobrecida – entre tantos ou-
tros exemplos, a turista que segue ao almoço no restaurante de menu
italiano vestida em uma saída de praia, mesmo que não siga ao banho
de mar ou à areia da praia.
A noção de “espaço” comporta de forma abrangente a ideia de “lu-
gares” (Leite, 2007) e tenta, teoricamente, suprimir as lacunas necessárias
à compreensão do objeto: a não ida à praia, nem à cidade, mas a um
espaço que permite o sentido de “estar” na praia e na cidade: um espaço
litorâneo enobrecido. Apresenta-se em um mix que relaciona rotinas e
modos de vida que se diferenciam, em práticas, mas que se reproduzem
na subjetividade do ator social, revelam e permitem questionamentos
acerca do próprio sentido de estar na praia, que será abordado poste-

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Cidades e Patrimônios Culturais
234 Investigações para a iniciação à pesquisa

riormente. Por ora atenta-se para a exposição de elementos que configu-


ram tal espaço urbano a partir da configuração de sua arquitetura e de
seus usos. A arquitetura deste espaço “solapa” o tempo da praia enquan-
to espaço praticado, ao tempo que assegura simbolicamente o sentido
de estar na praia.
A Orla não é apenas mais um espaço da cidade. No entanto, é evi-
dente que analisamos um espaço que deriva da cidade. Esta superposi-
ção significa que a Orla não é centro de cidade, não é patrimônio histó-
rico. A Orla não é rua, praça ou bairro, retendo em si imageticamente o
elemento praia, levando também a não negar que ela também deriva
do ambiente natural da praia. A Orla Marítima é patrimônio ambiental,
e mesmo com toda a arquitetura que a envolve, ela ainda está nos li-
mites geográficos do litoral, com legislação específica, tal como um pa-
trimônio histórico, cujo conteúdo assegura elementos da natureza na
composição praia. Estamos longe de elementos legais fundamentados
na defesa de um espaço que comporta apenas as práticas típicas do
espaço praiano, mas, para além dele, percebemos práticas e modos de
vida propriamente urbanos. As reflexões desta pesquisa partem de uma
concepção urbana, patrimonial, do consumo cultural, turístico e de eno-
brecimento urbano.
Ao expor sobre espaços – Praia e Cidade –,pretende-se demonstrar
como são estabelecidos os usos no espaço da Orla de Atalaia. Enten-
de-se, portanto, que a Orla Enobrecida apresenta-se em suas próprias
práticas, mas que as mesmas desenvolvem-se a partir daqueles dois
outros espaços.

2.1 Práticas Urbanas:


o sentido público de estar na cidade
Distante de pensar em uma demarcação física do fenômeno “Cul-
tura Urbana”, pressupõe-se analisar o presente objeto a partir da no-
ção apresentada por Louis Wirth acerca do urbano: “[...] o urbanismo,
enquanto modo de vida, encontra-se caracteristicamente em lugares
que preenchem os requisitos que estimularemos para a definição da
cidade, mas, por outro lado, não se restringe a tais locais e manifesta-se,
em graus variáveis, onde quer que cheguem as influências da cidade”
(Wirth, 1997, p.49).

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Urbanização Litorânea:
O espaço “Orla de Atalaia”
Simone de Araujo Pereira 235

Obviamente que a cultura urbana desenvolve-se na cidade. Tal en-

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


tendimento ganha relevo no desenvolvimento do presente trabalho na
medida em que determinadas características pertinentes à cidade per-
mitem o reconhecimento do espaço outro, forjado sobre a areia e a praia
em suas próprias adversidades (ao urbano). Não que isso represente
uma delimitação rígida e impenetrável, mas, ao contrário, fluída e per-
meável, tomando pontualmente expressões capazes de compreender
teoricamente um fenômeno.
Antes de falar prática urbana, seguindo ao próximo item, acerca de
uma prática praiana, anteriormente será apresentada a noção de “prá-
tica”, que preenche ambas as análises a seguir. Neste item haverá ainda
uma breve apresentação da ideia de cidade, considerando que é na cida-
de que se configuram sentidos urbanos.
O entendimento de que o comportamento é uma ação simbólica,
que referenda os signos e os significados, permite certa flexibilidade no
entendimento das ações, que se desenvolvem neste trabalho, e ainda,
que serão identificados a partir da observação e interpretação dos es-
paços, entendendo o espaço como “um lugar praticado” (Certeau, 1994).
Atentamos que é nos passos dos que frequentam a Orla de Atalaia que
persiste esta análise.
A cidade revela uma cultura urbana, que pode ser entendida “como
um campo teórico, centrado em redor de um conjunto específico de
práticas sociais, mentalidades e estilos de vida que se forjam, comuni-
cam e reproduzem na cidade” (Fortuna, 1997, p. 04). A Orla retém tais ca-
racterísticas na medida em que as práticas nela desenvolvidas também
reproduzem um estilo de vida urbano, cujos sujeitos e identidades são
construídos “nas práticas discursivas e nos atos interativos” (Leite, 2007,
p. 189). Entre as possibilidades de compreensão dos estilos de vida, apre-
sentam-se “diferentes recursos visuais: roupas, tipos de cabelo, adereços
e inscrições corporais [...] a forma de se vestir sempre se constituiu um
importante fator de diferenciação social” (id., ibid., p. 190).
Os usos e a arquitetura que se apresentam na Orla Marítima são
fundamentais na compreensão das sociabilidades estabelecidas nesses
espaços. Os usos que ressoam lá, no urbano, são percebidos do lado de
cá, no praiano, em suas práticas cotidianas. As rotinas se inserem na no-
ção de cotidiano, enquanto processo mais amplo que engloba rotinas
distintas, a ideia de cotidiano perpassa uma compreensão fragmentada

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Cidades e Patrimônios Culturais
236 Investigações para a iniciação à pesquisa

e contingencial, permitindo uma compreensão não apenas do que é re-


corrente, mas também do que parece fragmentar a rotina.
Tais noções revelam o caráter particular da vida pública nas cida-
des, com quantos elementos sejam possíveis o vislumbrar de uma vida
pública no espaço urbano, revertido de um contato com o outro, de-
flagrado nas primeiras observações sobre a vida na cidade em virtude
de seu adensamento. Exemplo disso são as atitudes observadas como
singulares da vida urbana: enquanto Georg Simmel apresenta a ideia do
indivíduo “blasé”, Walter Benjamin sugere a figura do “flâneur”, para acen-
tuar atitudes do homem diante da cidade.
Simmel admite que “os problemas mais complexos da vida moder-
na decorrem da vontade do indivíduo de preservar a sua independência
e individualidade perante os poderes supremos da sociedade” (1997, p.
31). Isto porque “a base psicológica que sobre a qual se constrói a indivi-
dualidade metropolitana é a intensificação da vida emocional decorren-
te da mudança brusca e continuada dos estímulos internos e externos”
(id., ibid., p.31). O espaço urbano caracteriza-se pela densidade de estí-
mulos, principalmente os visuais, fazendo com que o indivíduo busque
uma reserva mental que inconscientemente traduz a sua individualida-
de. Os contextos urbanos, em Simmel, são perturbadores ao “espírito”,
isto porque a “metrópole promove estas condições psicológicas contras-
tantes – em cada atravessar de rua, no ritmo e na variedade da vida so-
cial, econômica e ocupacional” (id., ibid., p. 31).
O homem moderno de Simmel, em meio a uma cultura urbana,
constitui-se do que ele chama de “atitude blasé”, sendo esta “a incapaci-
dade de reagir a novos estímulos com a energia adequada” (id., ibid., p.
35). A reação do homem neste universo diversificado e perene configu-
ra-se como uma reação típica desse espaço:

Não existe provavelmente nenhum fenômeno psíquico


tão condicionalmente reservado à metrópole como a ati-
tude blasé. Ela é, em primeiro lugar, a consequência dos
estímulos nervosos que, em acelerada mudança, emer-
gem com todos os seus contrastes e dos quais a inten-
sificação da racionalidade metropolitana parece resultar
(Simmel, 1997, p. 35).

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Urbanização Litorânea:
O espaço “Orla de Atalaia”
Simone de Araujo Pereira 237

Walter Benjamin constrói uma análise correlacionando dois ele-

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


mentos que julga importantes, de um lado uma personalidade da
época, seja um estudioso, um poeta ou um inventor; do outro, arqui-
teturas que surgem com a cidade moderna, entre estas estão os pano-
ramas e as galerias.
Ao relacionar Baudelaire com as ruas de Paris, intitulado em tom
questionador: “Baudelaire ou as ruas de Paris“, busca no gênio de Baude-
laire o olhar do “flâneur”. O “génio” que se “alimenta da melancolia, é um
génio alegórico” (Benjamin, 1997, p. 74). Este olhar alegórico, segundo
Benjamin, faz Baudelaire mergulhar na cidade com olhos de um homem
alienado. Assim, consegue vislumbrar um olhar além dos traçados de
Paris, mas de qualquer cidade que se deparava com mudanças ocasio-
nadas pelos processos modernizadores.
Com o flâneur, Benjamin consegue descrever como o homem sen-
te-se diante de tantas diversidades e adversidades que a modernidade
proporcionava. Encontrava-se, pois, no “limiar; no limiar da cidade e da
classe burguesa. Nem numa nem noutra ele se sente à vontade” (Benja-
min, 1997, p. 74). É um homem que consegue se desvencilhar das amar-
ras impostas pelas sociedades modernas, as quais são percebidas por
Benjamin, e o homem transita sem pressupostos por todos os lugares.
Mike Featherstone contribui para a discussão ao assinalar que a
sociedade estrutura-se em princípios mercadológicos, definindo-se no
âmbito de uma “cultura de consumo”, o que envolve um foco duplo: “em
primeiro lugar na dimensão cultural da economia [...] os bens como co-
municadores e não apenas como utilidades; em segundo lugar na eco-
nomia dos bens culturais [...] que opera dentro da esfera dos estilos de
vida” (Featherstone, 1995, p. 122).
Torna-se o último autor um contributo à análise na medida em que
entende e apresenta que o consumo “não deve ser compreendido ape-
nas como consumo de valores de uso, de utilidades materiais, mas pri-
mordialmente como consumo de signos” (id., ibid., p. 122), entendendo
signos como “determinado arbitrariamente por sua posição num siste-
ma auto-referenciado de significantes” (id., ibid., p. 122). O autor ainda
afirma que a cultura de bens de consumo associa-se ao luxo e ao exotis-
mo, assim como à beleza e à fantasia, e lembra que, cada vez mais, o uso
original ou funcional é de difícil apreensão.

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Cidades e Patrimônios Culturais
238 Investigações para a iniciação à pesquisa

Estes são alguns aspectos que estimulam a cultura urbana centra-


da em determinados valores e ideias constituídas em torno da cidade.
Estamos muito além da areia da praia, e embora não os compreenda-
mos (valores e ideias) como determinantes, ou muito menos busque-
mos explorar tais elementos físicos como determinantes aos usos, ape-
nas evocam-se os significados desenvolvidos pelos indivíduos nestes
e para estes espaços, em teias com fios que se entrecruzam e revelam
muito além das estruturas físicas e naturais, mas que se expressam em
rotinas que referendam seus próprios signos. Assim, o urbano é sinte-
tizado como um “lugar”, em que, para os fins deste trabalho, o modo
de vida urbano apresenta-se para a Orla de Atalaia como um dos seus
lados, o do “lugar da cidade”, com um ritmo próprio, uma rotina própria
e indumentárias específicas.

2.2 Práticas Praianas: o sentido de estar na praia


Um espaço sem arquitetura não é urbano, pois para Louis Wirth
(1997) é o “complexo de traços que configuram a cidade”. Pensa-se a praia
sem estruturas urbanas, sem os traços da arquitetura. Questiona-se, entre
tantas reflexões: Por que atribuir à areia, à praia e ao mar, a categorização
de espaço urbano? Como pensar o espaço da praia no conjunto da cida-
de? Estaria a praia distanciando-se ou aproximando-se da cidade?
Dir-se-ia que entre ambos há uma relação mútua e flexível. A partir
da cidade, a praia se estabelece socialmente, ela passa a moldar-se a um
jeito urbano de estar na cidade, ao tempo em que a sua consolidação
revela um modo de vida específico. A discussão estende-se quando a
denominação “praia da cidade”, apresentada por Milena Lykouropoulos
(2006), surge no sentido de delimitar a praia que interessa. Quando a
autora utiliza a expressão, embora não a defina, está demarcando a praia
da qual se fala, sendo esta a praia que margeia a cidade. Surge então
o seguinte questionamento: em que medida a praia representa o/um
sentido público de estar na cidade? É possível pensar a praia enquanto
espaço que reproduz o sentido que envolve as práticas urbanas?
Obviamente não se pretende responder a tantas perguntas. En-
tende-se merecerem atenção especial, ao considerar que muitos traba-
lhos utilizam tais expressões sem as devidas análises. A teoria urbana
contemporânea ensaia os primeiros passos a consolidar a “beira-mar”

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Urbanização Litorânea:
O espaço “Orla de Atalaia”
Simone de Araujo Pereira 239

como objeto de estudo das Ciências Sociais, cabendo para este traba-

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


lho considerar a característica de ser a Praia de Atalaia uma praia que
se desenvolve a partir do urbano, o processo de povoação da região
dá-se posteriormente à consolidação do Centro da cidade de Aracaju.
Assim, a praia de Atalaia reproduz características do modo de vida ur-
bano da cidade de Aracaju em suas configurações socioespaciais e em
estilos de vida. Contudo a prática praiana resguarda-se de particulari-
dades que se diferenciam das práticas típicas do urbano, resguardando
características próprias, aceitas no espaço da praia e negadas em ou-
tros espaços da cidade.
Inicialmente buscou-se trabalhos que fizessem referência à praia
enquanto prática distinta, enquanto uma “cultura de praia”. Alguns ci-
tam uma “cultura da praia” como uma expressão que parece expor toda a
complexidade do espaço, sem uma definição acerca da prática específica.
Antes de adentrar nas discussões realizadas no Brasil, cujas parti-
cularidades dos usos revelam-se contundentes à análise, faz-se neces-
sário citar o historiador francês Alain Corbin (1989), cuja recorrência de
citações em trabalhos brasileiros revelam a tentativa de compreender o
arquétipo sentido ocidental de ir à praia, a partir do século XVIII. Além de
ressaltar as visões negativas atribuídas ao mar, o autor atenta às mudan-
ças de valores também atribuídas ao mar:

O banho de mar deve ser tomado durante o outono, um


pouco antes do pôr-do-sol e à sombra; nunca no cálido
e fétido Mediterrâneo, mas nas águas geladas do mar do
Norte e do canal da Mancha. O prazer nasce da água que
flagela e, mais sub-reptício, da contemplação proibida dos
cabelos soltos, pés nus e quadris marcados por calças jus-
tas das moças que se escondem em carruagens de banho.
Assim começa, no século XVIII, a história do desejo da bei-
ra-mar, dos prazeres da infinitude marinha e da invenção
do veraneio, com a organização da natureza litorânea em
balneários, marinas e belvederes (Corbin, 1989).

Além de Corbin, outro francês interessa-se pela temática, Jean-Di-


dier Urbain, que volta sua análise ao turismo, e não deixa de elencar a
praia como um espaço turístico. Em Sur la Plage: Mœurs et Coutumes Bal-
néaires (XIX-XX Siécles), o autor, segundo Claudino Ferreira, “interroga-se

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Cidades e Patrimônios Culturais
240 Investigações para a iniciação à pesquisa

sobre a condição paradoxal do veraneante, esse estranho personagem


moderno que se desloca anualmente do seu território para reencontrar,
numa atmosfera nova, um espaço de sedentarização temporária”(Fer-
reira, 2002, p. 94).
Joana Freitas (2007) constrói uma reflexão a partir de André Les-
pagnol para iniciar uma discussão sobre as relações construídas entre
o indivíduo e o litoral, adentrando as transformações provocadas ao
longo de anos:

a percepção que temos do litoral não é natural, imanente


ou intemporal. É uma construção social que se inscreve
num quadro geral de mentalidades e que se modifica
com a passagem do tempo, em função da complexa teia
de relações que se estabelecem entre aquele espaço e os
actores sociais” (Freitas, 2007, p. 106).

Assim, pensa-se duas proposituras sobre a praia: primeiro, a possibi-


lidade do desenvolvimento de teias de significados particularizados ao
seu ambiente; e segundo, embora uma construção social que se envolve
no urbano, o litoral resguarda características próprias, que se particulari-
zam ao longo do tempo, cuja dinâmica resguarda elementos que confi-
guram uma dinâmica própria.
Tais proposituras sustentam-se a partir do entendimento de que “o
olhar de um indivíduo ou de uma sociedade sobre a ‘paisagem litoral’
é sempre uma apropriação subjacente, conferindo-lhe um significado
simbólico que traduz uma perspectiva sobre o mundo envolvente” (Frei-
tas, 2007, p. 106). A autora segue a uma exposição de sentidos atribuídos
a este espaço:
território do vazio, último vestígio do divino bíblico, fron-
teiras entre o caos e a ordem, cais de embarque para o
novo mundo, porto de chegada de riqueza e produtos
maravilhosos, ermo povoado de dunas áridas, área para
estender redes e atracar os barcos da pesca, local de bus-
ca do “eu” para o espírito romântico, paisagem de pura
contemplação estética, estação balnear com fins terapêu-
ticos, lugar de fruição lúdica e veraneio – que reflectem
a variabilidade de práticas, comportamentos, sensibilida-
des, formas de sociabilidades, que se desenvolveram em

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Urbanização Litorânea:
O espaço “Orla de Atalaia”
Simone de Araujo Pereira 241

torno deste espaço, constituindo um verdadeiro código

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


de leitura e interpretação da apreciação e utilização eco-
nômica, política, científica, estética, terapêutica e/ou lúdi-
ca, que cada grupo humano faz dele (Freitas, 2007, p.106).

Entre tantos sentidos, alguns, além de ocuparem-se deste espaço,


delimitaram-no temporalmente. Interessa para esta pesquisa compre-
ender a praia como um espaço de sociabilidade pública, cujo entendi-
mento data tais investidas a partir de 1750, quando o banho de mar é
“descoberto”. Contrapondo-se ao ambiente poluído das cidades indus-
triais, o mar “torna-se o lugar da higiene, do limpo, da saúde, relações
que perduram em nexos, em práticas que se desenvolvem até a atuali-
dade” (Freitas, 2007, p. 106).
A invenção social da praia, tal qual como a temos hoje, sugere ser
o que antes foi o uso terapêutico do banho de mar. A elite passa a fre-
quentar o local, que não demora a ser considerado “civilizado”, já que
frequentar a praia passou a ser um referencial de distinção social: “[...]
o arranjo do espaço, as distrações, as obrigações e os prazeres criados
estavam sujeitos a códigos de conduta pré-estabelecidos e conhecidos
apenas por estes grupos restritos, condicionando fortemente as formas
de usufruto daquele território” (Freitas, 2007, p. 110).
Não demora muito para “a moda da praia” se difundir, “quer pelo
desejo de imitar a aristocracia, quer pelo desenvolvimento dos trans-
portes, a melhoria das condições de vida, instituição do dia de descanso
semanal e das férias pagas” (Freitas, 2007, p. 110). O jeito de ir à praia
vai mudando, dos banhos frios de mar, em vestimentas elegantes, des-
pindo-se poucos minutos para o choque térmico com a água do mar
como se proporcionasse saúde, passando pela apreciação distante da
praia, deixando-se de lado o uso da areia. O banho demorado, em águas
quentes, em meados do século XX, “com a edificação da praia lúdica é
que o ‘prazer do ar livre e do contato com os espaços naturais vai ser
canalizado para o espaço da praia em si mesma” (Freitas, 2007, p. 111). O
litoral passa a ser frequentado nas horas mais quentes, as pessoas demo-
ram mais à beira do mar, fazendo surgir outras atividades além do banho
(Freitas, 2007, p. 111).
Esta é uma possibilidade de compreensão do uso da praia, euro-
peia, e importante, ao considerar a possível influência europeia na for-

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Cidades e Patrimônios Culturais
242 Investigações para a iniciação à pesquisa

mação do modelo brasileiro de ir à praia. Necessitamos de maiores in-


vestigações, pois, no Brasil, a temática ainda está em franca expansão.
No Brasil, em 1933, Gilberto Freyre publica “Casa Grande & Senzala”,
uma obra que inova ao incorporar a vida cotidiana em uma análise (Cardo-
so, 2005), e em vários fragmentos revela um pouco da praia do Brasil Co-
lonial, da “sifilização”, a partir do contato de portugueses com índias nuas
na beira da praia, ao descarte de corpos e pedaços de corpos de homens
negros após a morte (Freyre, 2003). E, em “Sobrados e Mocambos”, assegu-
ra que tais restos mortais tinham seus destinos finais dados pelas marés
quando subia, e pelos urubus que vinham “pinicar os restos de comida e
de bicho morto e até os corpos dos negros que a Santa Casa não enterrava
direito, nem na praia nem nos cemitérios” (Freyre, 2005, p. 195). A praia
diferenciava-se das vilas e freguesias por ser este um lugar de dejetos, do
sujo. Na praia não se caminhava, não se contemplava o mar,

as praias, nas proximidades dos muros dos sobrados do


Rio de Janeiro, de Salvador, do Recife, até os primeiros
anos do século XIX eram lugares por onde não se podia
passear, muito menos tomar banho salgado. Lugares
onde se faziam dejetos; onde se descarregavam os gor-
dos barris transbordantes de excremento, o lixo e a porca-
ria das casas e das ruas [...] (Freyre, 2005, p. 195).

No Brasil, a passagem do entendimento da praia como lugar de lixo


a espaço terapêutico, embora não problematizado por Patrícia Farias
(2006), que objetiva entender a relação da praia com a cidade do Rio
de Janeiro, a partir dos sentidos atribuídos à “cor da pele”, configura-se
a partir de uma construção na praia do Caju, datada de 1817, instalada
para D. João VI tratar uma doença de pele.
A discussão sugere aprofundamento, devendo tornar-se temática re-
levante ao estudo das sociabilidades públicas na atualidade. Para este tra-
balho, tem-se o intuito de garantir uma noção de construção de um uso da
praia no sentido atribuído atualmente, a partir do que se tem elaborado,
embora pareça ser esta uma visão europeia e “branca”, pois como aponta o
próprio texto de Gilberto Freyre, a praia já era utilizada pelos índios.
Décadas mais tarde, surgem novos trabalhos sobre a praia no Bra-
sil. Por ser este um patrimônio ambiental, algumas pesquisas, principal-
mente de geógrafos, atentaram para o uso “desordenado” do solo (Ce-

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Urbanização Litorânea:
O espaço “Orla de Atalaia”
Simone de Araujo Pereira 243

lestino, Diniz, Nascimento, 2006); outro enfoque analisa a sobreposição

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


das culturas pesqueiras pelo turismo, que “empurram” as vilas com urba-
nizações que estruturam o turismo (Lykouropoulos, 2006), entre outros
trabalhos. Outra referência importante é Roberto DaMatta, em O que faz
o Brasil, Brasil?, em que desenvolve uma reflexão sobre o que é ser brasi-
leiro, recorrendo aos jeitos de ser do brasileiro para compreender o Bra-
sil. Entre tantos outros jeitos, está o de ir à praia, e afirma que é brasileiro
porque “vou à praia para ver e conversar com amigos, ver as mulheres e
tomar sol, jamais pra praticar esporte” (DaMatta, 1986, p. 11-12). A neces-
sidade de DaMatta enfatizar a não prática de esporte dá-se pelo fato de
ser esta uma prática recorrente nas areias da praia.
Por fim, a noção de estar à vontade geralmente contrapõe a noção
de estar na cidade, o que difere muitas vezes da casa e do trabalho.
Obviamente que é esta uma noção exposta de um ponto de vista, afi-
nal a praia também é lugar de trabalho e contém suas próprias regras.
O estar à vontade é seguir um determinado entendimento de estar na
praia que diferencia, muitas vezes, de um cotidiano urbano, mas, nem
por isso, menos complexo.
Nesta perspectiva, o lazer desenvolvido na praia comporta o banhis-
ta – que envolve o citadino, o turista e os esportistas – praticantes (ama-
dores ou profissionais) de vôlei de praia, surf, futebol, futevôlei, squash,
Windsurfe, entre outras. Esta breve reflexão nos permite pensar em um
uso específico da praia, e ainda mais, pensar em uma “prática praiana”
que se cerca da noção de uma teia de significados socialmente constru-
ída, traduzindo um espaço ambientalmente natural enquanto práticas
tecidas na noção de culto ao corpo – estética corporal e higiene mental.
Assim é possível sintetizar a complexidade desse espaço, como anterior-
mente feito com as práticas urbanas, enquanto um lugar, que comparti-
lha similaridades práticas e simbólicas, sendo este o “lugar da praia”.

2.3 O sentido de estar na Orla: entre a praia e a cidade


Pensar a expressão Orla em sua viabilidade prática, enquanto sín-
tese que possibilita uma comunicação, revela certas inconsistências.
Os trabalhos que se dedicaram ao estudo da praia às vezes toma a Orla
como praia e outras vezes como o calçadão que margeia a praia, e ainda
há os que consideram a própria estrutura urbana que segue o litoral.

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Cidades e Patrimônios Culturais
244 Investigações para a iniciação à pesquisa

O espaço Orla foi definido, quando da elaboração do Projeto Orla,


como “uma unidade geográfica da zona costeira que representa a estru-
tura entre a terra firme e do mar” (Projeto Orla, p.28), em uma espaciali-
dade que compreende de 10 a 50 metros em áreas urbanas e 200 metros
em áreas não urbanas, podendo ser ampliada. A definição de Orla Ma-
rítima representa uma “inovação na gestão da zona costeira, estimulada
pela crescente comercialização deste espaço, que muitas vezes acaba
por comprometer o ambiente natural” (id., ibid., p. 193).
Do ponto de vista geográfico, a Orla Marítima parece estar bem
delimitada. Contudo, do ponto de vista antropológico, a mesma com-
porta variadas reflexões. O espaço que a geografia traduz como orla,
para a antropologia, pode ser o próprio espaço da praia, pode ainda ser
o espaço onde está localizada uma comunidade de pescadores, pode
ser um calçadão que beira a praia, entre outras formas de apropriação
cultural deste espaço.
A Orla Marítima é compreendida como a área que comporta uma in-
tervenção urbanística, ou seja, o espaço estruturado arquitetonicamente,
cuja finalidade propõe-se ao lazer – bares, lanchonetes, quadras de es-
porte, bancos, calçadão, margeado pelo espaço da praia, em suas práticas
distintas, e pelo espaço urbano, por suas peculiares práticas. Portanto, é
este um espaço que não se sustenta sem as práticas que o circundam,
não se pode dizer ser a Orla outro tipo de espaço, que não um espaço que
medeia práticas (não se pode afirmar a existência de práticas específicas
de uma Orla, mas se pode afirmar ser este um espaço que se diferencia de
um espaço público urbano e de um espaço público praiano).
Com as devidas adequações ao entendimento apresentado por Lei-
te (2007), entende-se este como um “espaço público intersticial”. Con-
siderando que para Simmel a coexistência entre diferentes ocorre nos
“entrelugares”, Leite entende que os “entrelugares” qualificam os espaços
urbanos como espaços públicos intersticiais, sendo, estes, espaços de vi-
sibilidade e de disputas simbólicas, são “as zonas de deslocamento entre
as abstenções e os lugares identitários” (2010, p. 200). É, assim, a Orla, um
espaço que se mostra a partir da demarcação da diferença das práticas
do “lugar da cidade” e do “lugar da praia”. Portanto, a Orla compreende o
espaço litorâneo enobrecido, cujos usos refletem as práticas desenvolvi-
das nos espaços que a margeiam.

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O espaço “Orla de Atalaia”
Simone de Araujo Pereira 245

3. Considerações Finais: Movimentos na Orla de Atalaia

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


O mar, que comporta o movimento denominado onda, é compre-
endido por Gilles Deleuze e Félix Guattari como “um espaço liso por ex-
celência” (1997, p. 163), que é ocupado pelas “intensidades, os ventos
e ruídos, as forças e as qualidades táteis e sonoras” (id., ibid., p. 163). As
ondas, partindo dessas características, anulam-se invariavelmente em
sentidos opostos em determinados pontos em quantidades que não se
pode enumerar, alinhar, ou simplesmente identificar.
Segundo os autores, o espaço liso “dispõe sempre de uma potên-
cia de desterritorialização superior ao estriado” (id., ibid., p. 164), sendo
possível o desdobramento variável de usos e sentidos. Contudo, o mo-
vimento das “ondas” estabelece-se num espaço estriado, pois “fecha-se
uma superfície, a ser ‘repartida’ segundo intervalos determinados, con-
forme cortes assinalados” (id., ibid., p. 165), contrapondo-se ao espaço
liso, que “‘distribui-se’ num espaço aberto, conforme frequência e ao lon-
go dos percursos” (id., ibid., p. 165).
Partir desta reflexão apresentada por Deleuze e Guattari (1997),
permite ter um olhar mais flexível ao tempo em que se alinha às falas
que ecoam dos usos da Orla a uma dissociação linear. Percebê-la como
dissonante, fluida e até mesmo caótica, levaria a uma compreensão uni-
lateral que minoraria um espaço público ao reles sentido da diversidade.
Assim, compreende-se a Orla da Atalaia a partir dos seus usos como
um “espaço público intersticial” (Leite, 2009a). Por vezes torna-se possí-
vel compreender limites de usos similares ou de usos individuais, e que
em outros momentos não se torna possível tal compreensão, como uma
onda anulada impreterivelmente em um ponto qualquer. Quando Deleu-
ze e Guattari (1997) afirmaram a impossibilidade de atribuir a um espaço
as categorizações “liso” ou “estriado”, possibilitam o campo necessário de
compreensão de movimentos de uso, embora configurado em intervalos
determinados, ressoam as frequências de um espaço aberto.
Pretende-se por ora apresentar exemplos de usos estabelecidos no
que compreende para fins deste trabalho em cenários, em suas tempo-
ralidades, em espaços temporais configurados em lugares. Buscando a
“relação entre posições diferenciadas [...] ‘contratos’ pragmáticos sob a
forma de movimento” (Certeau, 1994, p. 177), as sociabilidades no sen-
tido simmeliano das relações espaciais, e posteriormente construir um

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Cidades e Patrimônios Culturais
246 Investigações para a iniciação à pesquisa

entendimento acerca de zonas litorâneas enobrecidas, que abarcam


toda a complexidade do sentido simbólico da praia e do sentido estru-
tural da cidade.
As tardes de sábado na Orla de Atalaia representam um dos perí-
odos do dia e da semana de maior aglomeração pública da cidade de
Aracaju. Neste horário de intenso fluxo as diversidades se entrecruzam,
para utilizar uma expressão de Antonio Arantes (1997). Sugere por ora
ser a temporalidade que agrega possibilidades de usos e de contra-usos
desse espaço e em nenhum outro momento há tantos usos quanto na
diversidade do sábado à tarde.
Neste período, os cenários são diluídos pelos passos dos cami-
nhantes que se entrecruzam, formando “lugares”, “usos” e “contra-usos”
(Leite, 2007). No início da tarde, poucos esportes são praticados e neste
momento é possível acompanhar os esportes de competição. É a hora
do treino de kart, de MotoCross e tênis, esses espaços estão lotados de
competidores que tentam superar seus limites físicos, a cada volta ou a
cada saque. Cabe aos visitantes apenas assistir, muitos ficam ao redor
observando o desempenho dos competidores. A tarde está começando
para uns e terminando para outros. O ponto de encontro é a Orla, ali se
agrupam e seguem ao mar, ou ao contrário, chegam do mar e agrupam-
se em um quiosque. A Orla poderia ser para estes apenas um “lugar de
passagem” (Arantes, 1997), afinal se interessam pelo mar, mas, ao con-
trário, os usos conseguem demarcar o espaço, atribuindo-lhe sentido e
tornando-o um “lugar” (Leite, 2007), cuja relação de pertença possibilita
práticas distintas de outros usos da Orla (este é o lugar “dos surfistas”).
Após chegar da praia os surfistas “tiram o sal” no chuveiro, e acomo-
dam-se às mesas, compram lanche e ficam conversando. O carro passa
a ser utilizado como “carro de som”, o reggae é o ritmo que não para
de tocar até que os policiais passem e mandem baixar o som e fechar o
fundo do carro.

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Urbanização Litorânea:
O espaço “Orla de Atalaia”
Simone de Araujo Pereira 247

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


Figura 01

Toda a liberdade praiana exigida pelos surfistas parece não ser de


todo contemplada, não demora muito para os policiais passarem e em
pouco tempo o espaço se “reorienta”. O som baixa, alguns seguem os
seus carros, outros pegam as pranchas espalhadas pela grama e calçadas,
outros suas bicicletas, e saem. A única ação direta do policial é a verifica-
ção dos documentos do dono do carro com som ligado e o pedido para
desligar. Com a saída dos policiais, o espaço volta a reorganizar os usos
estabelecidos pelos usuários, outros chegam da praia, tomam banho, be-
bem água de coco, lancham, e outros simplesmente saem da orla.
O espaço ocupado por eles não foi projetado para este uso, ao con-
trário, é um espaço que comporta um monumento recorrentemente uti-
lizado por turistas, há um restaurante de massas e as quadras esportivas,
mas os surfistas vão se estabelecendo taticamente e contrausando o
espaço, demarcando este como o lugar dos surfistas. Ainda mais quan-
do os olhares dos frequentadores do ambiente ao lado demonstram re-
provação ou às vezes desdém, ou ainda demonstram uma anulação do
ambiente ao lado.
O monumento “divide mundos” em um mesmo espaço, para utilizar
uma expressão de Antonio Arantes em seu estudo sobre a Praça da Sé.

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Cidades e Patrimônios Culturais
248 Investigações para a iniciação à pesquisa

A divisão da Orla em “cenários” poderia ter sido feita em “estúdios”, en-


quanto local propício para apreensão de imagens para um determinado
fim, já que a Orla é entendida, antes de qualquer uso, como um conjunto
de elementos que compõem o ambiente ideal para fotografias. E não
apenas para turistas, mas para compor o álbum de casamento, de forma-
tura ou para registrar uma relação de amizade. Contudo, o termo cená-
rio faz-se mais adequado por considerar os atores em suas ações (Leite,
2010), não apenas uma montagem estática de elementos que apenas
aguardam a fotografia.
O “seminu” surfista cruza-se com os alinhados casais que seguem
ao restaurante. Olhares discretos não permitem um caminhar livre, já
que o simples levantar de cabeça sugere uma negação. Mas cada um se-
gue aos seus lugares, a Orla os comporta em sua diversidade, até mesmo
preservando seus olhares em ambientes climatizados.

Figura 02

Poucos são os usuários do restaurante que caminham por outros


lugares da Orla. O estacionamento que serve aos surfistas serve ao res-
taurante. Uma linha imaginária guia os surfistas a estacionar na direção
do quiosque, enquanto os usuários dos restaurantes são guiados ao es-
tacionamento na direção do restaurante.

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Urbanização Litorânea:
O espaço “Orla de Atalaia”
Simone de Araujo Pereira 249

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


FIgura 03

Figura 04

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Cidades e Patrimônios Culturais
250 Investigações para a iniciação à pesquisa

Os espaços “intersticiais” (Leite, 2009a), que estão entre os lugares,


demonstram que a apaziguadora rotina da diversidade, dilui-se, olhares
de reprovação ou passos acelerados denunciam uma “guerra de lugares”
(Arantes, 1997). Do ponto de vista da arquitetura, o espaço da Orla pare-
ce possibilitar o uso de muitos usuários, mas, por outro lado, esses mui-
tos percebem temporariamente seu espaço e o distingue dos demais,
além de disputarem o uso de um mesmo espaço, como ocorre mais cla-
ramente na “Praça de Skate”, que é “invadida” pelos jovens que praticam
bicicross. Muitos estão na Orla, cada um buscando o seu lugar.
São esses exemplos dos passos pela Orla de Atalaia, pretendendo
muito mais que um espaço da praia, e muito mais do que uma extensão
da cidade, é dessa condição que se expõe a ideia de público, de um es-
paço entendido como “intersticial” (Leite, 2010).
A ideia de espaço intersticial resulta do entendimento que coloca a
Orla de Atalaia entre dois lugares, considerando as práticas dos espaços
e através da descrição empírica do espaço. Entre a reflexão e a descrição,
interpreta-se ser este um espaço que resulta o entrecruzamento de prá-
ticas, confluindo ao complexo espaço de disputas diárias pela referência
a um estilo de vida.
A praia está na Orla em seus usos típicos – caminhadas, contempla-
ção, por suas vestimentas, biquíni, saídas de praias, caracterizadas como
roupas leves, pelas comidas que têm como base os frutos do mar. Bem
como a cidade está na Orla, em seu ritmo próprio, acelerado, de restau-
rantes de menu internacional e o conforto de gramas e calçadas. Consi-
dera-se a Orla como um espaço de confluência de práticas, sendo a sua
existência dependente e relacional a ambas.

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Urbanização Litorânea:
O espaço “Orla de Atalaia”
Simone de Araujo Pereira 251

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O espaço “Orla de Atalaia”
Simone de Araujo Pereira 253

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NOTAS
1 Artigo extraído da dissertação de mestrado intitulada: Urbanização Litorânea: O sen-
tido público da Orla de Atalaia.

2 Mestra em Antropologia pelo Núcleo de Pós-Graduação e Pesquisa em Antropologia


e Doutoranda do Programa de Programa de Pós-Graduação em Sociologia.

3 Povoado que antecede o Bairro Atalaia.

4 Região da Atalaia que se constitui como ponto de encontro nos últimos anos E que
antecede a primeira intervenção da Orla de Atalaia.

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Cidades em imagens: a (re) invenção do

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


bairro “Santa Maria” em Aracaju1
Ewerthon Clauber de Jesus Vieira

I. CIDADES EM IMAGENS OU IMAGENS DAS CIDADES?


AUTONOMIZAÇÃO E CONSTRUÇÃO SOCIAL
A nossa concepção analítica sobre as “cidades em imagens” menos
diz respeito ao conceito de autonomia e classificação substancializa-
da da cidade e mais refere-se aos processos sociais de sua atribuição.
Isto quer dizer que, por um lado, não se trata de observar as cidades
como entidades autônomas ou sujeitos sociais, por outro, não a trata-
mos apenas como simples cenários físicos do desenrolar da vida social.
Com efeito, entende-se que a cidade é muito mais que o conjunto de
acontecimentos inscritos em um contexto espacial, ao mesmo tempo
em que sua multiplicidade não corresponde necessariamente à reunião
das diversas cidades existentes. Deste modo, a cidade concebida aqui é
“plural”, conforme a proposição tecida por Fortuna e Leite (2009):

Plural de cidade são as cidades que existem dentro da ci-


dade. Não é um conjunto diverso de cidades, nem uma
questão de geografia. Plural de cidade são os territórios
díspares que fazem a cidade, as políticas sócio-urbanas
e a sua ausência, o atropelo aos direitos e as paisagens
de privilégio, as formas de segregação e a ostentação,
a cultura, a saúde, o emprego, o dinheiro, o futuro e, ao
mesmo tempo, a falta de todos eles. Plural de cidade é a
conjugação destas cidades numa só. E em todas elas. Nas
ricas e nas pobres, nas do Norte e nas do Sul, nas que fa-
lam e se fazem escutar e nas outras, nas históricas e nas
criativas, nas de hoje e nas democráticas (Fortuna; Leite,
2009, p. 07)

Diante disto, as cidades em imagens só podem ser compreendidas


como o estudo das imagens das cidades na medida em que entendemos
que, em si, as cidades não formam suas próprias imagens. Mas é a partir de

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Cidades e Patrimônios Culturais
256 Investigações para a iniciação à pesquisa

processos de construção que estas são configuradas. Deste modo, as ima-


gens da cidade decorrem da implementação de determinadas políticas
urbanas que (re) organizam espaços urbanos e configuram espaços pú-
blicos, ao construir ao mesmo tempo usos e sentidos da e sobre a cidade.
Segundo Fortuna (1997), as imagens, tal como as cidades, se situam
em um processo contínuo de “recomposição”. Esta “imagem” possui uma
dimensão concreta, física e delimitada geograficamente, composta de
elementos materiais e abstratos, compreendendo elementos imateriais,
valores e certa representação compartilhada. Por esta concepção bidi-
mensional da imagem, é possível compreendermos que “[...] a cidade
não é, ou não é apenas, aquilo que faz ou produz, nem a sua identidade
depende da sua localização, para passar também a ser aquilo que parece,
representa e oferece aos nossos sentidos” (Fortuna, 1997, p. 233). Neste
sentido, para o autor, a implementação de políticas urbanas resultam

[...] uma imagem compósita em que aos critérios geográ-


ficos e de localização ou ao seu perfil produtivo e funcio-
nal se juntam agora qualidades e valores abstratos, apre-
ciações estéticas, recursos e capitais simbólicos, nem por
isso menos eficazes na definição da sua condição (Fortu-
na, 1997, p. 233)

As características do conceito de “imagem” analisado por Fortuna


encontram similitudes nas observações realizadas por Zukin (2000a;
2000b) a respeito da categoria de “paisagem”. Para a autora, a importân-
cia desta categoria se insere no exercício do seu mapeamento, compor-
tando em sua constituição um lado material e outro imaterial da ima-
gem: “[...] O mapeamento da paisagem é um processo estrutural que tem
ressonância tanto no ambiente construído como em sua representação
coletiva” (Zukin, 2000a, p. 83). Neste contexto, Zukin aponta o “Enobre-
cimento” e o “Disney World” como as formas resultantes e arquetípicas
das intervenções pós-modernas. As paisagens são, assim, tipos e meios
de “apropriação cultural”. É válido esclarecer que se entende por esta úl-
tima, de forma sintética, a maneira pelas quais a cultura, história, gostos,
bens e serviços são manuseados e tomados para si, por determinados
atores sociais (como construtores imobiliários, arquitetos, profissionais
de design, políticos), implicando, em seguida, novas reconfigurações de
identidade, lugar e práticas de consumo.

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Cidades em Imagens: A (re) invenção
do bairro “Santa Maria” em Aracaju
Ewerthon Clauber de Jesus Vieira 257

A relação entre estes dois matizes temáticos, “Políticas Urbanas”

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


e “Imagens da Cidade”, não é inédita. Inúmeros trabalhos já buscaram
compreender como um interfere no outro. De acordo com a perspectiva
aqui desenvolvida, todo tipo de intervenção no meio urbano, de ordem
pública ou de iniciativa privada, constitui uma política urbana. Conforme
Savage e Warde (2002), são consideradas políticas urbanas as interven-
ções capazes de modificações práticas e discursivas no espaço urbano,
tanto oriundas da esfera pública, quanto da esfera privada. Já a noção
de imagem trabalhada, é compreendida, baseada em Fortuna (1997) e
Zukin (2000a; 2000b), pelo conjunto de duas dimensões. Uma objetiva
e concreta (formadora do “espaço urbano”) e outra abstrata e simbólica,
constituída pela representação compartilhada.
Contudo, sob esta perspectiva relacional entre política urbana e
imagem da cidade, tem sido predominante as pesquisas que revelam
cidades em imagens turísticas. Para David Harvey (1992) a produção de
cidades em imagens turísticas é uma das facetas da arquitetura pós-
moderna. Através da expressão de uma ideia de referência ao passado,
na tentativa de recuperar uma “cultura”, uma “história”, uma “tradição”, é
empreendida uma verdadeira espetacularização de determinados espa-
ços e representações, selecionadas como oficiais da cidade: “A inclinação
pós-moderna de acumular toda espécie de referências a estilos passa-
dos é uma de suas características mais presentes” (Harvey, 1992, p. 85).
Assim, as intervenções pós-modernas tenderiam a construir gostos e re-
ferências ao passado fundamentadas em um “mascaramento”:

Dar determinada imagem à cidade através da organização


de espaços urbanos espetaculares se tornou um meio de
atrair capital e pessoas (do tipo certo) num período (que
começou em 1973) de competição interurbana e de em-
preendedorismo urbano intensificado (Harvey, 1992, p. 92)

Esta imagem funda-se numa compreensão urbanística distinta


do ideário modernista, em que as cidades seriam concebidas a partir
de projetos e planos urbanos de larga escala, com propósitos sociais e
generalistas. Nas intervenções pós-modernas, os espaços urbanos são
pensados como dimensões autônomas suscetíveis de serem configura-
das, sob a égide da mercantilização, como lugares em si (Harvey, 1992).
Para tanto, conforme indicou Harvey (1992), efetua-se a desarticulação

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Cidades e Patrimônios Culturais
258 Investigações para a iniciação à pesquisa

entre tempo e espaço, promovendo a produção em massa, mas flexível


às supostas variedades de estilos e gostos. Isto é, com esta nova forma
de arquitetura e olhar sobre as cidades, a produção de mercadorias tor-
na-se em massa e, ao mesmo tempo, personalizada. Trata-se, por fim, de
imagens ecléticas, fragmentadas e dissimuladamente específicas, em-
preendidas em cada cidade:

A projeção de uma imagem definida de lugar abençoada


por certas qualidades, a organização do espetáculo e a te-
atralidade foram conseguidas com uma mistura eclética
de estilos, com a citação histórica, com a ornamentação
e com a diversificação de superfícies (Harvey, 1992, p. 92)

Entretanto, de acordo com a tese do próprio Harvey, esta perspec-


tiva de intervenções urbanas e construção das imagens das cidades
não diz respeito universalmente a todas as cidades, mas especialmente
àquelas concebidas sob a “condição pós-moderna”, geralmente desen-
volvidas em áreas gentrificadas2. Para Zukin (2000a; 2000b), por mais
imponente que possa ser, a “apropriação cultural” estabelecida em áreas
enobrecidas tendem a reconfigurar imagens emergidas em contrastes
a partir do que a autora chamou de “paisagens de poder” versus “verna-
cular”. As primeiras estariam relacionadas aos usos e articulações práti-
cas dos poderosos, enquanto as outras seriam marcadas pela ausência
de poder no conjunto de suas práticas3. Segundo Zukin (2000a) ainda,
o “Enobrecimento” seria mais presente em cidades reconhecidamente
classificadas como “mais antigas”, enquanto o “Disney World” se aplicaria
de maior forma àquelas consideradas “mais novas”. De todo modo, para
a autora, ambas se tornam formas de consumos visuais que articulam na
constituição de sua paisagem três elementos: “Cenário”, “Fantasia” e “Es-
paço Liminar”. O “cenário” seria o próprio espaço suscetível a sua reinven-
ção arquitetônica e de sentidos. A “fantasia” refere-se a uma apropriação
individual e compartilhada, enquanto o “espaço liminar” diz respeito à
mediação entre aspectos contrastantes como “natureza” e “artifício”, “lu-
gar” e “mercado”, “novo” e “velho”.
Outra importante contribuição para a compreensão destes fenôme-
nos de construção das cidades em imagens turísticas tem sido dada por
Leite (2004; 2006). Segundo o autor, pode-se entender que ao lado das
políticas de enobrecimento, a imagem elaborada funda-se também pelo

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Cidades em Imagens: A (re) invenção
do bairro “Santa Maria” em Aracaju
Ewerthon Clauber de Jesus Vieira 259

ordenamento de determinados usos dos “espaços públicos”4. Se é certo

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


que as imagens produzidas pela gentrificação dos espaços públicos as-
sentam-se pela elitização dos usos, determinando quais os usuários de-
sejáveis e quais os excluídos, é também pertinente notar a possibilidade
de existir usos diferentes daqueles esperados. Ao analisar as políticas de
patrimônio no Centro Histórico do Recife-PE, o autor constatou que em
contrapartida ao projeto de enobrecimento urbano, havia constante-
mente usos subversivos àqueles ordenados pela lógica da higienização,
elitização e consequente consumo dos espaços públicos.
Para Paulo Peixoto (2004; 2008), os centros históricos têm sido espa-
ços privilegiados para as políticas de enobrecimento urbano. Neste sen-
tido, ele observa que tem há uma tendência crescente de personificar as
cidades a partir de determinados espaços espetacularizados. A ideia é
que, assim como os indivíduos, as cidades também têm sido concebidas,
pelos construtores de poder econômico, político e institucional, como
atores sociais. Nesta perspectiva, “tal como os indivíduos, também as ci-
dades se olham ao espelho para controlar sua aparência e a sua imagem”
(Peixoto, 2008, p. 73). Mais uma vez, a ordem de intervenção sobre as
cidades dá-se com vistas à forma como ela se expressa em imagens. E
estas, por sua vez, tendem a ser culturalmente atraentes pelo constante
exercício de seus empreendedores, que no intuito de produzi-la sob a
condição coisificada para o consumo, reparam, inventam e reinventam a
cidade conforme o “espelho” do mercado.
As justificativas geralmente utilizadas para a elegibilidade dos cen-
tros históricos como espaços privilegiados as referidas intervenções
fundam-se no suposto “esvaziamento” e consequente “degradação” dos
mesmos no período do Pós-Guerra (Peixoto, 2008). Com efeito, a solução
apresentada passa pelos projetos urbanos que anunciam transformar os
centros em símbolos revigorantes e culturais das cidades. Para tanto, o
forjamento de imagens apresenta-se como condição de viabilidade no
cumprimento do exagero e das metas prometidas nos projetos de re-
qualificação urbana:

Pretender intervir nos centros históricos querendo fazer


deles aquilo que eles nunca foram, numa lógica de sus-
tentação de comunidades imaginadas (Anderson, 1991)
e da criação de imagens forjadas que apelam aos bons
velhos tempos de um passado longínquo e harmonioso

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Cidades e Patrimônios Culturais
260 Investigações para a iniciação à pesquisa

(Lowenthal, 1989), redunda recorrentemente na consta-


tação ingrata de muitas intervenções em áreas urbanas
antigas que, movidas por imagens idealizadoras, se vêem
obrigadas a reconhecer que os centros históricos já não
são, afinal, aquilo que nunca foram (Peixoto, 2008, p. 78)

Com a degradação emerge, portanto, a recuperação como exemplo


da oposição construída entre “deterioração” versus “preservação”, confor-
me notou Barreira (2007) na análise do projeto de requalificação urbana
do bairro Praia de Iracema, na cidade de Fortaleza-CE. Para a autora, as
intervenções urbanas, bem como as “narrativas” articuladas a respeito de
um espaço, constituem partes do conjunto que constrói a imagem ofi-
cial da cidade. Sob esta perspectiva, as “narrativas” não são apenas alu-
sões imaginárias sobre a cidade, mas diz respeito, efetivamente, ao pro-
cesso de produção de imagens em ação. Deste modo, a identificação e,
por vezes, a construção do problema é funcional para a apresentação de
uma solução. “Deterioração” e “preservação” são assim binômios que se
retroalimentam e condicionam a existência do projeto de requalificação
urbana. Com efeito, tanto a narrativa articulada quanto a imagem oficial
construída a respeito do problema/solução torna-se aparentemente in-
falível, na medida em que oculta as outras imagens e narrativas acerca
do objeto “requalificado”:

A imagem homogênea que as narrativas do consumo


turístico pretendem evocar (o bairro típico) esconde os
usos ‘ilegítimos’ do espaço que precisam ser recupera-
dos pelo observador, pois fazem parte das disputas pela
classificação e reconhecimento de atores sociais (Barrei-
ra, 2007, p. 167)

Apesar da intensa recorrência, as cidades não estão restritamente


inscritas sob imagens turísticas. As pesquisas sobre as relações entre
políticas urbanas e imagens da cidade têm possibilitado compreender
que o fim da produção imagética serve a uma rede complexa de ato-
res para além da indústria do turismo. Isto quer dizer que outros ele-
mentos das cidades são cogitados como sustentação para os projetos
de requalificação urbana. Os privilégios dados geralmente às dimensões
culturais e artísticas, além do apelo à natureza e às facetas das paisagens
esteticamente vendáveis, são agora também destinados à sustentação e

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Cidades em Imagens: A (re) invenção
do bairro “Santa Maria” em Aracaju
Ewerthon Clauber de Jesus Vieira 261

edificação de valores democráticos de cidadania e inclusão social. É sob

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


esta ótica que as novas formas de gestão urbana tem se estruturado,
consolidando práticas de governança a partir da promoção de cidades
em imagens de uso político e imobiliário.
Segundo Bógus e Pessoa (2008) as novas estratégias de urbanismo
e planejamento urbano podem ser analisadas como respostas às mudan-
ças nas dinâmicas socioespaciais das cidades. Com efeito, o que se obser-
va é uma série de políticas urbanas integradas (Poder Público e iniciativa
privada) que objetivam implementar projetos de “remodelação urbana”.
Para as autoras, o que tem caracterizado estas políticas é que oficialmen-
te elas alegam tratar-se de ações integradas e convergentes à lógica de
desenvolvimento urbano, objetivando fundamentalmente a promoção
da qualidade de vida da população mediante a criação de novas centrali-
dades, mas, na prática, elas não cumprem os propósitos anunciados:

[...] Os projetos de renovação urbana estão, via de regra,


se voltando, cada vez mais, aos interesses privados do
mercado imobiliário, fundiário e financeiro, atuando, pri-
mordialmente, em benefício das elites dominantes e do
capital, levando à perda do valor de uso da terra, à expul-
são da população de baixa renda para a periferia e à con-
solidação de enclaves sociais (Pessoa; Bógus, 2008, p. 126)

As considerações das autoras partem da análise das operações ur-


banas consorciadas, especialmente as de “Faria Lima” e “Água Espraiada”,
na cidade de São Paulo, que fundamentaram-se como estratégias do po-
der público em obter financiamento do capital privado. No entanto, o
que é destacado pelas autoras é que, apesar de estas ações terem sido
legalmente aprovadas, o caráter de obra pública financiada por empre-
sas privadas exige melhor compreensão e avaliação no sentido de ga-
rantir os fins públicos aos quais elas inicialmente tinham se destinado.
Para tanto, o mapeamento dos agentes imobiliários é concebido como
condição imprescindível na análise dos usos do espaço urbano. Não se
trata, contudo, da simples minimização do poder público estatal frente
ao avanço dos setores privados, mas da articulação entre ambos na ge-
rência dos usos, direitos, serviços e sentidos.
Conforme a autora Fernanda Sánchez (2001), pode-se observar o
surgimento das chamadas “cidades-modelo” a partir da conjugação en-

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Cidades e Patrimônios Culturais
262 Investigações para a iniciação à pesquisa

tre governos locais com atores hegemônicos e agências multilaterais como


uma das facetas deste novo ordenamento das cidades. Por “agências
multilaterais”, entendem-se as organizações internacionais, como BID
(Banco Internacional do Desenvolvimento), BIRD (Banco Internacional
para Reconstrução e Desenvolvimento), Banco Mundial, ONU (Organi-
zação das Nações Unidas), financiadoras de diversos projetos e políticas
urbanas. Para Sánchez (2001), as “cidades-modelo” caracterizam-se pela
tendência de serem apresentadas dissimuladamente, de modo a se atri-
buir aos governos locais o suposto mérito de um resultado concebido
como exemplar. Em contrapartida, dissemina-se que os interesses dos
agentes externos na cidade (ou determinado aspecto dela) é derivado
unicamente das “boas práticas” locais:

[...] As imagens das “cidades-modelo” parecem para o sen-


so comum, apresentar dito estatuto de “modelos” como
resultado apenas do desempenho dos governos das ci-
dades que, através de “boas práticas”, conseguiram des-
tacar-se na ação urbanística, ambiental ou nas práticas de
gestão das cidades (Sánchez, 2001, p. 31)

Desta maneira, o que parece resultar de um processo de “dentro


para fora” é por vezes justamente promovido pela razão inversa. O finan-
ciamento externo das agências multilaterais é constituído por uma série
de exigências e orientações ideológicas sobre a produção do espaço ur-
bano, transformando-o, na maioria dos casos, em produtos mercadoló-
gicos (Sánchez, 2001).
No caso investigado, da cidade de Aracaju-SE, apesar de não termos
verificado o conjunto completo dos elementos que a definiriam como
uma “cidade-modelo”, a lógica do processo de construção de imagens
edificadas a partir da apreensão da eficácia do poder público local é per-
tinente. A marca da “cidade da qualidade de vida” foi então analisada
como uma derivação de um Plano Estratégico financiado pelo BID, além
de outras ações urbanas, fomentadas sobretudo pelo Governo Munici-
pal. Mas, o que se observou foi a realização de novos usos dos projetos
de requalificação e “remodelação” urbana. As cidades em imagens, des-
te modo, apresentavam-se como efetivos instrumentos de uso político,
convenientes a determinados interesses imobiliários.

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Cidades em Imagens: A (re) invenção
do bairro “Santa Maria” em Aracaju
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II. (RE) INVENÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DA IMAGEM DA

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


CIDADE: “SANTA MARIA” E A “CIDADE DA QUALIDADE
DE VIDA”
Em 1999, a partir da Emenda Constitucional Nº 16/99, publicada no
DOE Nº 23.321, o Povoado “Terra Dura” passou a fazer parte do territó-
rio da cidade de Aracaju. Até então, a localidade pertencia ao domínio
territorial do município de São Cristóvão, primeira capital do Estado, na
época ainda Província de Sergipe Del Rey. A alteração territorial se esta-
beleceu na seguinte redação legislativa:

Art. 37’ – Fica alterada a delimitação do município de Ara-


caju com o Município de São Cristóvão a partir do Pontal
N da Barra do Rio Vasa Barris, que a passa a ter a seguinte
descrição (...)

Art. 3º - Com a alteração estabelecida neste artigo


ficam situados no território do município de Araca-
ju as localidades denominadas Povoado Mosqueiro,
Povoado Areia Branca, Povoado São José, Povoado
Robalo e Povoado Terra Dura, neste compreenden-
do as localidades Lixeira da Terra Dura e núcleos
habitacionais Santa Maria, Maria do Carmo Alves e
Antônio Carlos Valadares

Com isto, tanto a “Terra Dura” quanto os Povoados “Mosqueiro”, “Ro-


balo” e “Areia Branca” passaram a fazer parte da cidade de Aracaju. Esta
mudança, permeada por conflitos entre os poderes públicos de São Cris-
tóvão e de Aracaju, de fato, não significou a primeira tensão envolvendo
estas cidades5. Em seguida, através da Lei Municipal de Aracaju nº 2.811
de 8 de Maio de 2000, o “Povoado Terra Dura” é transformado no “Bairro
Santa Maria”. Esta mudança, juntamente com uma série de outras polí-
ticas urbanas, imprimiu à cidade de Aracaju um novo ordenamento nas
práticas de gestão urbana, especialmente a partir de 2001, com a posse
do Governo Municipal da Coligação Política “Aracaju, cidade para todos”,
formada pelo PT/PCdoB/PCB/PSTU.
Esta Coligação assume o poder municipal sob a efervescência da
chegada de um processo de mudança, tendo em vista a identidade polí-
tica oposta entre a então Coligação, classificada como de “esquerda” e os

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Cidades e Patrimônios Culturais
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poderes anteriores, qualificados enquanto de “direita”, marcado por prá-


ticas conservadoras, personalistas e elitistas. Neste contexto, a mudança
de nome da localidade “Terra Dura” para o bairro “Santa Maria”, associado
a um conjunto de intervenções urbanas, anunciadas como exemplares,
implementadas na área na década de 2000, tornaram o bairro um espa-
ço privilegiado na demarcação política de um poder público suposta-
mente comprometido com todas as camadas sociais.
No entanto, esta é apenas uma das facetas do caráter emblemático
do então bairro “Santa Maria”. Até antes de 2000, a localidade era absolu-
tamente reconhecida pelo nome “Terra Dura”, o que, embora não tenha
sido verificado como razão explicativa à condição de vida dos seus mo-
radores, condiz com as problemáticas sociais enfrentadas pelos que lá
residem. Até o final do século XIX, a área da “Terra Dura”, praticamente,
não tinha acessibilidade, os moradores eram trabalhadores rurais e pes-
cadores. A comunicação com a cidade de Aracaju era feita apenas pelo
transporte hidroviário. Já no início do século XX, foi construído o Canal
de “Santa Maria”, facilitando a comunicação, através do Rio Sergipe com
o Rio Vasa Barris. No primeiro momento, foram os próprios trabalhadores
da construção do Canal que passaram a ocupar a localidade, e assim,
formado basicamente por sítios, surgia o “Povoado Terra Dura” (Seplan,
2004; Sebrae, 2007).
Durante esta primeira fase, a “Terra Dura” era classificada como
mais um Povoado de interior, apesar da sua proximidade com a ca-
pital do Estado. O poder público e as iniciativas privadas não cogita-
vam a localidade como alvo de qualquer ação, sua existência era nesta
época praticamente ignorada. As atenções voltavam-se para outras
perspectivas, especialmente para os esforços de tentar tornar a nova
capital, Aracaju, símbolo do progresso e da modernidade, como fora
anunciado no processo de mudança ocorrido em 1855. A narrativa da-
queles que eram a favor da mudança da capital é que, diferente de São
Cristóvão, em Aracaju seria possível fomentar de maneira mais eficaz a
economia, a partir da exportação de açúcar através do Porto, tendo em
vista ser ela uma região litorânea.
A partir de 1932 inicia-se a terceira fase de povoamento na “Terra
Dura”. Através da Retificação do Canal de “Santa Maria”, sob o intuito pri-
mordial de permitir o escoamento da produção de açúcar, coco-da-baía
e fabril advinda dos municípios de São Cristóvão, Estância e Itaporanga

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Cidades em Imagens: A (re) invenção
do bairro “Santa Maria” em Aracaju
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D’ajuda, a área passou a receber maior ocupação. Mas, é a partir da déca-

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


da de 80, diante da implantação de conjuntos habitacionais, através da
COHAB (Companhia de Habitação Estadual), que depois de extinta tor-
nou-se CEHOP (Companhia Estadual de Obras Públicas) que a habitação
se intensificou, atingindo a fase de apogeu do seu povoamento no sé-
culo XX. As décadas de 80 e 90 na cidade de Aracaju são marcadas pelo
surgimento de “habitações subnormais” e pelo desenvolvimento dos
conjuntos residenciais periféricos. O primeiro Conjunto da “Terra Dura”
foi construído em 1988 com o objetivo de abrigar famílias vindas das
invasões do “Apicum” (localizado no bairro “Coroa do Meio”) e de outras
localidades pobres da cidade. Entre 1992 e 1995 surgiram os conjuntos
“Padre Pedro” e as novas etapas do conjunto “Antônio Carlos Valadares”,
também chamado de “Maria do Carmo” por conta do empenho da Sena-
dora Maria do Carmo Alves.
O que fundamentalmente caracterizou a quarta fase do povoa-
mento da “Terra Dura” não foi apenas o desenvolvimento residencial a
partir da política habitacional do poder público, mas também a chega-
da do depósito de Lixo dos municípios de Nossa Senhora de Socorro,
São Cristóvão e Aracaju. O depósito antes localizado no bairro Soledade,
no município de Nossa Senhora de Socorro, foi transferido para a “Terra
Dura” em 1985 após várias mobilizações e denúncias da população local
contra a presença do depósito. Contudo, a saída apresentada pelas au-
toridades competentes não foi além da transferência do problema, pois
localizada na “Terra Dura” o depósito continuava sendo verdadeiramen-
te uma grande lixeira “a céu aberto”. Com efeito, a “Terra Dura” vai aos
poucos sendo caracterizada como “periferia”, não pelo critério geográfi-
co de estar longe do centro urbano, mas pela atribuição pejorativa que
se forma sobre aqueles que ali residem. As causas podem ser elencadas
a partir de dois grandes fatores: 1- A política habitacional, desenvolvida
no final dos anos oitenta e no decorrer da década de noventa, removeu
boa parte da população que vivia em áreas irregulares da cidade para
os conjuntos habitacionais construídos sem infraestrutura adequada na
“Terra Dura”, além de atrair outra significativa parcela de indivíduos do
interior e da própria capital que vivia em vilas ou em outras moradias
alugadas; 2- A transferência do depósito de lixo para a “Terra Dura” con-
tribuiu, embora de maneira perversa, com o aumento da acessibilidade
na área, mas ao mesmo tempo demarcou do ponto de vista representa-

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Cidades e Patrimônios Culturais
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cional e objetivo a marca de miséria e violência da localidade. O depósi-


to que foi denominado posteriormente de “Lixeira da Terra Dura” atraiu
centenas de catadores de lixo oriundos de diversas áreas da cidade, que
foram motivados tanto pelo sonho de obter uma casa própria quanto de
conseguir sobreviver dos resíduos jogados na Lixeira.
Diante desta formação histórica, a “Terra Dura” passou a ser compre-
endida na apreensão popular como “lugar de coisa ruim” (Moreira, 2007),
símbolo de miséria, violência e sujeira resultante da suposta ausência do
Estado. Até que a partir da década de 2000 a localidade deixa de ser, oficial-
mente, chamada de “Terra Dura” e passa a ser o bairro “Santa Maria”. A mu-
dança do nome e uma série de outras políticas urbanas, de origem pública
e de setores da iniciativa privada, são implementadas na área, anunciando
o advento de uma nova fase, concebida pela noção de uma positiva mu-
dança. Neste artigo serão demonstradas algumas destas políticas.
Enquanto política urbana, a alteração da nomenclatura da localida-
de é observada como uma das primeiras grandes intervenções que visa-
vam construir uma nova imagem do bairro. Deixar de ser “Terra Dura” e
passar a se chamar “Santa Maria” significava parte do complexo processo
de requalificação urbana pelo qual passou e tem passado o bairro:

(...) O bairro Santa Maria tinha a denominação de Terra


Dura. E Terra Dura, para a comunidade Sergipana, passou
a ser sinônimo de ‘coisa ruim’, ou seja, de crime, de desem-
prego, de local abandonado pelo pode público, de crian-
ças fora da escola e, principalmente, seus moradores pas-
saram a serem vistos como pessoas não confiáveis. Assim
tornou-se folclórico o fato de que as famílias sergipanas
não aceitavam mais, como empregadas domésticas, as
mulheres que indicassem o bairro Terra Dura como sendo
o local de seu domicílio. Por esta razão, tentou-se afastar
o estigma vinculado ao nome Terra Dura, com a mudança
de nome para Santa Maria (Moreira, 2007, p. 210)

Barreira (2007) afirma ser comum que nos projetos de requalifica-


ção urbana se estabeleça um campo simbólico de disputa onde con-
fronta-se de um lado a noção de “preservação” e do outro a noção de
“deterioração”. A oposição entre termos assentada na qualificação de um
“velho” como sinônimo de ruim e de um “novo” como referência de algo

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do bairro “Santa Maria” em Aracaju
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bom e desejável pauta a condição da mudança, tornando edificadas as

Parte 2 - Novas centralidades, espaços de vigilância e imagens urbanas


políticas urbanas implementadas.
Com a realização do Censo Educacional 20006, pesquisa que faz
parte do Programa de Atendimento Integral às Escolas (PAIE), criado
pelo Núcleo dos Direitos à Educação do Ministério Público do Estado
em 1998, iniciou-se o projeto da construção de uma escola modelo no
bairro “Santa Maria”, que se chamou Centro Educacional Vitória de Santa
Maria. O Centro composto pela Escola Municipal João Paulo II e a Es-
cola Estadual Vitória de Santa Maria foram inaugurados em 20