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Revista

de Medicina e Saúde de Brasília ARTIGO DE REVISÃO


Delirium e delírio: Opostos que se atraem

Delirium and Delusion: Opposites attract

Daniele Oliveira Ferreira Silva 1, Lara Vieira da Silva Meira 2, Mariana Freitas Sandoval 2,
Carolina Silva Queiroz 2, George Alencastro Landim 2, Cássio Cibreiros Silva 2

Resumo
Apesar da aparente semelhança, delirium e delírio guardam pouca relação entre si, e conhecer esta
distinção é fundamental para que sejam evitados equívocos no meio médico. Delirium é uma
síndrome orgânica que decorre de condições clínicas comuns, como o pós-cirúrgico, podendo
acometer em até cerca de 80% dos pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva em uso de
ventilação mecânica. O delírio se trata de um sintoma decorrente de patologias psiquiátricas, como
a esquizofrenia, em que ocorre alteração do juízo de realidade em decorrência de pensamento
patológico. É, portanto, fundamental que o clínico esteja bem informado sobre o tema, sendo capaz
de realizar o diagnóstico precoce e de melhor orientar a conduta.

Palavras chave: delirium, delírio, síndrome cerebral orgânica, esquizofrenia

Abstract
Although they look similar, delirium and delusion have few things in common, and knowing this
difference is extremely important to avoid mistakes in medicine. Delirium is an organic brain
syndrome, which results from ordinary clinical conditions, like post surgery, that can be found in
about 80% of Intensive Care Unit patients under mechanical ventilation. Delusion means a
symptom of a psychiatric disorder, like schizophrenia, when appearance-reality distinction changes
because of pathological thoughts. Therefore it's important for a doctor to be well informed about it
so that he can be capable of given an early diagnose and guiding patients properly.

Key words: delirium, delusion, organic brain syndrome, schizophrenia

Introdução
Apesar da aparente semelhança, médico pois é notório que em ambientes
delirium e delírio guardam pouca relação acadêmicos e hospitalares há confusão dos
entre si. Conhecer esta distinção é de extrema dois termos até os dias de hoje. Tal revisão
importância para evitar equívocos no meio tem como objetivo esclarecer a distinção entre

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1. Médica psiquiatra, mestre, docente do Curso de Medicina da Universidade Católica de
Brasília
2. Acadêmicos do Curso de Medicina da Universidade Católica de Brasília
E‐mail do primeiro autor: daniofs@gmail.com
Recebido em 29/11/2012 Aceito, após revisão, em 12/03/2013

Silva DOF, Meira LVS, Sandoval MF, Queiroz CS, Landim GA, Silva CC
Delirium e delírio: Opostos que se atraem

as duas entidades e fornecer elementos para um aumento nos índices de
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que a comunidade médica melhor defina e morbimortalidade. Assim, é fundamental que
diagnostique tais situações, melhorando os profissionais da área de saúde de um
consequentemente o atendimento da hospital clínico geral estejam preparados para
população acometida. investigar e identificar a presença de delirium
entre seus pacientes.4
Métodos O sinal clássico é o rebaixamento do
Foram realizadas pesquisas em livros nível de consciência que, geralmente é
de Psiquiatria, de acordo com os objetivos avaliado indiretamente por meio da avaliação
propostos e levantamento de dados no da atenção, pois pacientes com rebaixamento
PubMed, com busca de artigos em que foi do nível de consciência tem dificuldades para
considerado tema, ano e idioma de publicação manter e controlar o foco de atenção. Atenção
e incluíam-se os seguintes descritores: é a habilidade cognitiva que seleciona os
Delusion, Delirium. Foram contemplados estímulos que devem se tornar conscientes, é
artigos em português e inglês, publicados em a capacidade de direcionar, manter e
1991 até 2012. modificar o foco de consciência. Há varias
maneiras simples de investigar a presença de
Resultados déficits atencionais na pratica clínica:
Delirium é uma síndrome clínica contagem regressiva até 20; meses do ano de
caracterizada por um rebaixamento súbito no trás pra frente; soletrar uma palavra de trás
nível de consciência no qual a apresentação para a frente.1
clínica é bastante diversificada e o Os déficits de atenção que
diagnóstico nem sempre fácil. Geralmente, caracterizam o quadro de delirium facilitam o
decorre dos seguintes fatores: condição desenvolvimento de pertubações da
médica geral; intoxicação por substâncias; percepção. Instabilidade emocional,
abstinência por substâncias; uso de ansiedade, agitação, depressão ou
medicamentos; exposição à toxinas.1 irritabilidade também são frequentemente
Essa condição é uma complicação encontrados.1 Ás vezes, existem aspectos
freqüente de doenças físicas, afetando 10 a clínicos associados que podem incluir
45% dos pacientes internados com idade desorganização dos processos de
avançada, com doenças graves como câncer pensamentos, perturbações perceptivas, como
ou que são submetidos a procedimentos alucinações e ilusões, hiper ou hipoatividades
cirúrgicos. Possui alta incidência, com taxas psicomotoras, perturbações do ciclo de sono-
variando de 5 a 15% entre os idosos.1 vigília, alterações do humor e outras
Cerca de 10 a 30% dos pacientes manifestações de funcionamento neurológico
hospitalizados sofrem do transtorno, alterado.5
principalmente quando a causa é do sistema Do ponto de vista clássico, o delirium
nervoso central (como epilepsia), doenças tem início repentino, curso breve, oscilante e
sistêmicas (como insuficiência cardíaca) e melhora rápida quando é conhecida a causa
intoxicação ou abstinência de agentes inicial que o desencadeou. O conhecimento da
farmacológicos ou tóxicos.2 Apenas 30 a síndrome é de extrema importância e é dever
60% dos pacientes com delirium são do médico tratar o mais rápido possível o
corretamente identificados e essa taxa de indivíduo de modo a evitar maiores
detecção relativamente baixa está associada a
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comprometimentos clínicos e acidentes por Babinski e protração labial, alteração do
conta do distúrbio.6 nervo adutor causando olhar lateral fraco e
O diagnóstico é comumente fácil, força assimétrica dos membros.2
desde que haja suspeita inicial.7 Alteração Os critérios diagnósticos de delirium,
prévia da cognição, desnutrição, desidratação, de acordo com a CID-10, estão expressos na
idade avançada são fatores predisponentes tabela 1.
que podem desencadear o quadro de Após o diagnóstico de delirium, o
delirium.8 Realizar anamnese cuidadosa, principal objetivo é tratar a causa subjacente.2
exame do estado mental, sinais neurológicos e Outro aspecto importante é proporcionar
o exame físico revelam pistas para a causa do apoio físico, sensorial e ambiental.10 O apoio
delirium.9 O eletroencefalograma apresenta físico previne quedas e outras lesões em
atividade lentificada, o paciente pode estar virtude da agitação e/ou falta de atenção do
com taquicardia ou bradicardia, febre, paciente. Os pacientes não devem ser
hipotensão, hipertensão, taquipnéia, ruído ou privados de situações sensoriais ou ser
pulsos reduzidos de vasos ligados a carótidas, estimulados demais pelo ambiente.10 Quando
evidências de rigidez de nuca, papiledema, o paciente apresenta psicose e insônia neste
dilatação da pupila, lacerações na língua, caso há necessidade de entrar com uma
pode haver sinais de hipertiroidismo, terapia medicamentosa.2 O medicamento que
arritimias, cardiomegalia, congestão geralmente é usado é o Haloperidol, um
pulmonar. Reflexos alterados de extensão antipsicótico do grupo das butirofenonas.2
muscular dando assimetria com sinal de

Tabela 1: critérios diagnósticos para delirium 2

Diretrizes clínicas para o diagnóstico de delirium (Com base na CID-10)

 Comprometimento do nível de consciência (de distração a coma) e atenção (capacidade


reduzida para direcionar, focar manter e mudar o foco de atenção)
 Comprometimento generalizado do funcionamento cognitivo
- Perturbação da percepção, incluindo distorções, ilusões e alucinações
- Comprometimento da capacidade de abstração e compreensão
- Delírios pouco estruturados e fugazes
- Dificuldade para aprender informações novas e relativa preservação da memória
remota
- Desorientação quanto a tempo e, ocasionalmente, local e pessoa

 Comprometimento da atividade psicomotora (aumento ou redução com alterações


imprevisíveis)
 Comprometimento do ciclo sono-vigilia (insônia e reversão do ciclo)
 Transtornos emocionais (por exemplo, depressão, ansiedade, medo, irritabilidade,
euforia, apatia, perplexidade)
 Início abrupto dos sintomas
 Os sintomas flutuam em intensidade durante o dia e de um dia para o outro
 O quadro clínico tem duração limitada a até seis meses (em geral, dias ou semanas)

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Existe também uma espécie de do termo, pois eles se conduzem e pensam em
delirium relacionado à abstinência alcoólica função de sua concepção delirante, em vez de
denominado delirium tremens. Este é obedecer à verdade e à realidade comuns.11
caracterizado por um quadro confusional A experiência clínica mostra que os
agudo, flutuante e autolimitado. Ocorre cerca delírios agudos tendem a se tornarem
de 72 horas após a última ingestão de álcool crônicos, pois os pacientes sistematizam as
com duração de 2 a 6 dias. Trata-se de uma falsas percepções e as incorporam em suas
condição de urgência médica na qual a vidas.12
sintomatologia habitual se dá por estado Porém os delírios crônicos, pelas
confusional delirante, desorientação em modalidades próprias de sua elaboração e
relação ao tempo e ao espaço, prejuízo da diversidade de seus temas não é sempre
memória de fixação (fatos recentes), semelhante em todos os casos. 12
desagregação do pensamento, alucinações e Assim, delírios crônicos são parte
delírios. O afeto é lábil, marcado por estado integrante da vida dos pacientes, constituindo
de ansiedade e temor, podendo haver uma parte de seus próprios pensamentos,
depressão, raiva, euforia ou apatia.1 valores, visão de mundo e objetivos. 11
Já o famoso delírio é Os conteúdos normalmente referem à
etimologicamente definido como “sair dos experiência e interação humana:
trilhos”. Essa condição consiste na alteração - erotomania: crença delirante, quase
do juízo de realidade proveniente de um que exclusivamente em mulheres, de que um
pensamento patológico, porém a lucidez da homem (comumente alguém muito famoso e
consciência, atenção e memória permanecem inacessível) está apaixonado por ela. 11
preservadas. Os delírios podem ocorrer em - delírio niilista: falso sentimento de
diferentes condições psiquiátricas, incluindo que a própria pessoa, os outros ou o mundo
esquizofrenia, transtornos de relacionamento, não existem ou estão se deteriorando.3
demências mas raramente em distúrbios de Quando se trata de formas bem
origem orgânica. Tais distúrbios delirantes sistematizadas (delírios passionais, delírios de
aparentam ser causados por uma combinação interpretação), o diagnóstico é relativamente
de fatores cognitivos, neurobiológicos e fácil, pois o clínico percebe com bastante
psicológicos. Delírios agudos são facilidade que o tema delirante é um sistema
acompanhados por caráter afetivo importante racionalizado de crenças e de convicções e
e vigilância exagerada, condição conhecida está distante da experiência sensível atual.11
como humor delirante. Desconfiança, medo e É este caráter de raciocínio e
vigilância excessiva levam o indivíduo a crer elaboração intelectual que permite que não se
em seus pensamentos e até mesmo ver confunda estes delírios com as experiências
eventos relacionados à sua crença.11 delirantes das psicoses agudas, que
Uma vez que estas ideias delirantes apresentam o caráter de um distúrbio mais
são concebidas, podem ser ligadas às emoções global e passivo da experiência perceptiva.11
e motivações do paciente, e possuírem um
significado construído de acordo com suas Conclusão
experiências pessoais até atingir um elevado Embora delirium e delírio sejam
grau de certeza subjetiva que os coloca além nomes muito semelhantes, delirium é uma
do alcance da razão. Estes doentes delirantes síndrome clínica associada ao rebaixamento
são de fato “alienados” no sentido completo do nível de consciência normalmente
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relacionada à patologia primária enquanto que Palmer RM, Pompei P. Does delirium
delírio é um sintoma associado ao contribute to poor hospital outcomes? J. Gen.
pensamento patológico, característico dos Intern. Med. 1998; 340(4):669-79.
quadros patológicos graves. Portanto, trata-se 5. Fleminger S. Remembering delirium. BR J
de dois termos de raízes semelhantes, porém Psychiatry. 2002; 180:4-5.
clinicamente distintos e que cursam com 6. Meagher DJ. Delirium: Optimising
quadros clínicos contrastante. management. BMJ. 2001; 322(7279):144-9.
É de fundamental importância a 7. Liptzin B, Levkoff SE, Cleary PD, Pilgrim
distinção entre estes dois termos. Só assim, DM, Reilly CH, Albert M, et al. An empirical
um maior número de pacientes com delirium study of diagnostic criteria for delirium. Am J
serão diagnosticados e tratados com Psychiatry. 1991; 148(4):454-7.
segurança. Desta forma, evitaremos que o 8. Inouye SK. Delirium in hospitalized older
sintoma delírio seja mal empregado em patients. Clinics in Geriatric Medicin. 1998;
relatos clínicos, minimizando os erros 14(4):745-64.
oriundos das falsas impressões causadas por 9. Inouye SK. The dilemma of delirium:
este erro. clinical and research controversies regarding
diagnosis and evaluation of delirium in
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Alegre: Grupo A Educação S/A, 2006. de Psiquiatria, 5ª ed. Rio de Janeiro: Ed.
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