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Alimento e Emoção

artigo
Arthur Kaufman - Professor Doutor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

O Alimento primeira conexão de prazer do bebê tritiva; ela pode, por exemplo, re-

O
modo de comer é uma com o mundo. Para muitas pesso- presentar um “prazer imediato” e,
escolha, que costuma ser as, o simples fato de pensar em um portanto, servir para aliviar e com-
baseada em um estilo de prato favorito evoca associações que pensar sentimentos tidos por nega-
vida. Além de essencial à manu- combinam imagens, emoções, senti- tivos, como tristeza, angústia, an-
tenção da vida, a escolha tem a ver dos e memória numa mistura onde siedade e medo. É frequente per-
com variedade e sabores, mas tam- é quase impossível separar os dife- cebermos o uso de determinados
bém com credos religiosos, ideolo- rentes componentes. Muitas pessoas alimentos (sobretudo doces) com a
gias, status social, e ainda com ansie- que tentam mudar seus hábitos ali- finalidade de mitigar conflitos exis-
dade, angústia, insatisfações etc. O mentares, mas pensando apenas na tenciais que a pessoa considera in-
estilo de vida não apenas comanda mudança em bases racionais, caem solúveis. Desta forma, o alimento
a alimentação, mas determina até o numa armadilha, pois a alimenta- pode ser um condutor de afeto, mas
tipo de talheres a serem usados (ou ção tem significa- torna-se problema quando está subs-
não) numa refeição. dos que vão bem tituindo confrontos, rejeições etc.
O alimento está poderosamente além da mera Somos habituados a pensar em co-
conectado com as emoções. A pes- função nu- mida durante quase todas as horas,
soa come o que gosta, o que sua todos os dias. Nos fins de semana,
cultura prescreve, mas também almoçar ou jantar fora é programa
existe marcante influência das familiar quase obrigatório para as fa-
emoções. O contato bu- mílias de todas as classes sociais. Co-
cal com o seio é a mer não é somente uma questão de
subsistência, é um programa social,
que revela costumes, posição sócio-
-econômica, psicologia, educação.
Desta forma, aquilo que se come e
bebe é tão importante quanto certos

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detalhes tais como: quando e onde car forte e saudável; ordem de comando para agir. Mais
se come, como se come e com quem • As refeições são associadas a alguns momentos, têm início movi-
se come, além das emoções e senti- união, cuidado e carinho; mentos espasmódicos, bocejos, do-
mentos evocados em qualquer tipo • A alimentação tem significados res no estômago, e se terá fome”.
de refeição. que vão além da função nutri-
“A necessidade, a curiosidade e a tiva; Por que se Engorda?
tradição cultural ditam o que co- • A alimentação é o “prazer ime- Brillat-Savarin (1995) dizia que a pri-
memos mais do que o faz o instin- diato”; meira causa é a disposição natural do
to, e nossos padrões de alimenta- • Serve para aliviar e compensar indivíduo: “De cada cem obesos, no-
ção nos conectam com o ambien- sentimentos como tristeza, an- venta têm o rosto curto, os olhos e
te, tanto como sociedades quanto gústia, ansiedade e medo. o nariz arredondados”. A segunda e
como indivíduos, de maneira par- principal causa residiria nas farinhas
ticular” (Jackson, 1999). O vocábulo “refeição” deriva do e féculas que o homem transformou
latim refectio,-onis - refeição, restau- em base da sua alimentação diária. Da
As mulheres, muito ou pouco ro, reparo, recuperação -, por sua vez mesma forma, “as iguarias açucaradas
restritivas do ponto de vista alimen- formado a partir do verbo reficio, geralmente se comem quando o ape-
tar, têm preocupações gerais com re- -feci, -fectum - refazer, restaurar, re- tite natural já está satisfeito, restando
lação aos seus corpos e aos tipos de novar, reconstruir, reparar. Uma refei- apenas aquele outro apetite de luxo
alimentos que consomem. Gattellari ção é, então, uma re-feitura, e realizá- provocado por tudo o que a arte culi-
& Huon (1997) estudaram o hábi- -la é se refazer, se restaurar. “Restau- nária tem de mais refinado e tenta-
to alimentar de 41 mulheres jovens rante” deriva do francês restaurant, dor”. Uma dupla causa de obesidade
que costumavam fazer dieta, tendo termo surgido no século XVI, signifi- resultaria do prolongamento do sono
observado que: 1) as comidas tidas cando “comida restauradora”. O uso e da falta de exercício. E uma última
como “proibidas” foram associadas moderno da palavra data de 1765, causa, para ele, consistiria no excesso
com maior prazer, sociabilidade e re- quando um parisiense chamado Bou- do comer e do beber: “Já disseram que
laxamento do que as comidas “per- langer abriu seu estabelecimento. um dos privilégios da espécie humana
mitidas”, mas também se mostra- é comer sem ter fome e beber sem ter
ram mais carregadas de culpa e an- O Apetite sede; de fato, os animais não podem
siedade. As comidas “proibidas” fo- Segundo Brillat-Savarin (1755- ter esse privilégio, que nasce da refle-
ram consideradas menos saudáveis, 1826), em seu “A Fisiologia do Gos- xão sobre o prazer da mesa e do desejo
mais promotoras de doenças e asso- to” (1995), entende-se por essa pala- de prolongar sua duração”.
ciadas com sofrimento maior do que vra a primeira indicação da necessi-
as comidas “permitidas”. Isto pode- dade de comer. “O apetite se anun- Hábitos e Zona de Conforto
ria, segundo as autoras, refletir o fato cia por um certo langor no estômago Ao procurar evitar situações incômo-
de que comidas “proibidas” (e fre- e uma leve sensação de fadiga”. das, existe uma tendência da pessoa
quentemente mais calóricas) tendem “Ao mesmo tempo, a alma se de procurar um lugar seguro e fami-
a produzir desconforto físico, espe- ocupa de objetos análogos às suas liar, onde sinta menos dor, medo, in-
cialmente se consumidas em grandes necessidades; a memória convoca as segurança e tédio. Às vezes não basta
quantidades, ou o fato de que comer coisas que agradaram o gosto; a ima- apenas escapar da dor, existe ainda a
alimentos “proibidos” causa angústia ginação julga vê-las; existe nisso algo procura pelo prazer. E a procura che-
em mulheres que sentem que neces- semelhante ao sonho... O aparelho ga a um lugar, que é a “zona de con-
sitam “comer lightly”. nutritivo põe-se todo em movimen- forto”, composto por costumes habi-
to; o estômago se torna sensível, os tuais e conhecidos, mas que amiúde
O significado da alimentação: sucos gástricos se exaltam, os gases podem causar dependências e outros
• Contato bucal com o seio: 1ª co- interiores se deslocam com ruído; a problemas psicológicos. Fazem parte
nexão de prazer do bebê com o boca se enche de saliva e todas as for- da zona de conforto: comidas doces,
mundo; ças digestivas estão em armas, como cigarros, álcool, drogas, compras ex-
• Comer é sinônimo de crescer, fi- soldados que apenas aguardam uma cessivas, dormir demais, uso excessi-

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vo de celular, de computador (jogar nível durante o ano todo e o espa- idade média de 22 anos e IMC médio
paciência), televisão (ficar zapeando ço entre as refeições tem diminuído de 24.7, Stroebele & Castro (2004)
sem objetivo, sem assistir nada, sem sensivelmente. A alimentação atual mostraram que assistir televisão es-
prestar atenção, só para descarregar é muito rica em gorduras. Conso- tava associado com aumento da fre-
ansiedade). Para manter a zona de me-se muito mais a chamada “fast quência alimentar e, como resulta-
conforto às vezes aparece mais um food” e, pior ainda, a “junk food”. do, com aumento da ingestão diária
comportamento complicador: a ne- Além disso, nota-se a diminuição de energia. Os participantes comiam
cessidade de agradar, de atender as progressiva da atividade física coti- mais frequentemente nos dias em que
expectativas dos outros. Por exem- diana, à custa de televisão, videoga- a TV ficava ligada, quase uma refeição
plo, beber para agradar, comer para me, elevador, carro, computador, o adicional (3.53 versus 2.76 refeições).
agradar. Isto fica particularmente sedentarismo em geral. Este efeito ocorreu independente-
complicado quando se faz parte de A parte psicológica dos food cra- mente do dia da semana e da hora do
uma família “engordativa”, dada a vings (fissuras alimentares) origina- dia. Além disso, a quantidade de co-
festas frequentes e com mesa farta. -se, com frequência, de: mida ingerida estava relacionada com
• Estresse, tensão, ansiedade, o tempo gasto vendo TV. Os resul-
A Obesidade medo, impaciência; tados indicaram que assistir televisão
Do ponto de vista psicológico, a • Depressão ou melancolia; está associado com aumento de frequ-
obesidade é uma forma inadequada • Cansaço e falta de energia; ência das refeições e, como resultado,
de usar a função alimentar, na tenta- • Necessidades não satisfeitas de aumento da ingestão diária total.
tiva de camuflar problemas que vão alegria, jogo, excitação, ou recre-
se tornando tão insolúveis, a ponto ação; trabalho excessivo e pouco Ambiente Obesogênico
de gradativamente reduzirem-se as divertimento; É o ambiente promotor de obesida-
opções de vida. A pessoa obesa quer • Desejo por amor, afeto, roman- de. Ele promove o acesso amplo e
ser confortada, encorajada, compre- ce, ou satisfação sexual; facilitado a alimentos de alta densi-
endida em sua vontade de comer • Raiva, ressentimento, amargura, dade energética, repletos de carboi-
sem limites, em seu desejo de alcan- ou frustração; dratos e gorduras e pobres em mi-
çar o prazer sem amargar o despra- • Sensação de vazio, insegurança, cronutrientes.
zer (Liberman, 1994). Ela utiliza a ou um desejo de conforto. Algumas famílias são obesogêni-
comida também para uma troca de cas, na medida em que desconhecem
mensagens com o ambiente: come Obesidade e Televisão ou desprezam regras de alimentação
para mostrar, provar, evitar, contro- Assistir televisão é a terceira ativi- saudável e de prática de atividades fí-
lar, reprimir alguma coisa. Além dis- dade mais consumidora de tempo sicas.
so, não consegue manter o sentido nos Estados Unidos, após trabalhar O ambiente obesogênico pode,
de responsabilidade a respeito de seu e dormir (Dietz, 1990). O tempo inclusive, estar relacionado às even-
próprio corpo, daí a recorrência do passado assistindo televisão foi po- tuais companhias: a presença de ou-
ciclo engorda/emagrece. sitivamente associado com risco de tras pessoas pode proporcionar au-
As pessoas obesas têm compor- obesidade e diabetes em mulheres mento da quantidade de alimento
tamentos comuns: comem escondi- (Hu, Li et all, 2003). Além disso, o consumida e do teor calórico total
do, minimizam as calorias e jamais tempo usado para ver televisão está da refeição.
admitem a própria gula; passam da significantemente correlacionado “Facilitação social”: em grupo,
abstinência absoluta para a voracida- com o conteúdo gorduroso do corpo pode ocorrer maior desinibição da
de com grande rapidez. Estão sem- (body fat content) (Jeffrey & Fren- pessoa, acrescida de maior dura-
pre “em dieta” ou pretendem come- ch, 1998). Observou-se ainda que o ção das refeições (com consequente
çá-la na “próxima segunda-feira”. snacking entre refeições aumenta en- maior exposição aos alimentos caló-
As facilidades da vida moderna quanto se assiste televisão (Del Toro ricos, comuns, por exemplo, em ba-
aumentam o número de obesos, pois & Greenberg, 1989). res). E quanto maior o número de
as pessoas comem na hora em que Em uma amostra de 78 estudan- pessoas presentes, maior a quantida-
têm vontade: a comida está dispo- tes (64 mulheres e 14 homens), com de de comida e bebida consumidas.

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Rotina Obesogênica ente e ao mesmo tempo serem inte- a uma dependência infantil em rela-
A rotina diária da mulher é (ou pode ligentes, hábeis, astutas; ser sexies e ção à comida, que passa a ser a única
ser) extremamente desgastante em passionais e ao mesmo tempo au- forma de satisfação corporal. Outras
dois tipos de situação. Uma delas diz tocontroladas; brindar uma ima- maneiras não saudáveis de descar-
respeito à dona de casa (que não tra- gem hedonista e ao mesmo tempo regar as frustrações são os atos de-
balha fora), e que tem uma rotina fre- de autodisciplina são, em síntese, linquenciais, o alcoolismo, o uso de
quentemente tediosa, pois suas fun- algumas das demandas contradi- drogas, a promiscuidade sexual etc.
ções não passam de realização das ta- tórias que são feitas à mulher mo- Várias mulheres, ao se tornarem
refas domésticas (lavar, passar, cozi- derna. Como aceder a estas ordens adultas, engordam com medo de se-
nhar) e cuidar das crianças; ninguém da cultura? rem transformadas em objetos sexu-
costuma valorizar seu esforço, e, além ais; algumas ficam obesas, como for-
disso, não tem nada para contar (ao A rotina do homem pode tam- ma de neutralizar sua identidade se-
marido, por exemplo) no final do dia, bém envolver trabalhos pouco apro- xual perante as outras pessoas; para
pois os eventos são normalmente re- priados à criatividade: burocratas em estas, o peso constitui-se uma pro-
petitivos e pouco ou nada emocio- geral, cujas funções são monótonas teção, por trás da qual se escondem
nantes. É uma das profissões mais e repetitivas, de modo que o horário (Kaufman, 1993).
“engordativas” que existem (Kauf- do lanche é o mais esperado do dia. Engordar após o casamento é
man, 1993): pouco valorizada, mal um fato bastante comum; é extre-
recompensada, às vezes desprezada, é Obesidade e Sexualidade mamente raro ver um casal que cai-
na cozinha que ela se refugia para ar- Dentre os vários problemas decor- ba nas roupas da lua-de-mel após al-
mar suas trincheiras contra o tédio, a rentes do fato de ser obeso(a), perce- guns anos das bodas. Sentindo-se
depressão e o amargo sentimento crô- bemos que são atingidas áreas sensí- mais segura por considerar-se “ga-
nico de inutilidade. Se o casamento veis, como infidelidade, insatisfação rantida”, a mulher abandona os sa-
não lhe fornece a sonhada gratifica- sexual, raiva, e, a coisa mais impor- crifícios do regime restritivo para
ção sexual e afetiva, recorre à comida tante e dolorosa, o medo de ser um “premiar-se” com as guloseimas que
no papel de substituto. fracasso como pessoa. aprecia, mas era obrigada a privar-se
O outro tipo de desgaste pela Algumas mulheres fazem uma li- anteriormente.
rotina tem a ver com a mulher gação inconsciente entre comer doce Além da parte sexual propria-
que trabalha fora de casa, uma e o prazer sexual. Elas falam, entre mente dita, as relações conjugais
executiva, por exemplo: ela tem que sérias e irônicas, em “orgasmo gas- frequentemente são insípidas, sem
fazer frente a uma série de grandes tronômico”, ao se referirem aos pra- sabor, ou tornam-se dramaticamen-
responsabilidades, praticamente zeres proporcionados por suas comi- te infernais. Insípidas, quando o re-
sem intervalos, sendo que às vezes das prediletas (Lowen, 1979). lacionamento é vivido no clima do
o próprio almoço é feito ao lado Ainda segundo Lowen (1979), faz-de-conta; infernais, quando os
do computador ou no restaurante, existe relação entre comer exagerada- parceiros colocam-se mutuamente
o tal “almoço de negócios”, que é mente e sentir frustração sexual. Nem exigências difíceis de serem atendi-
mais uma “zona de tensão”, e onde todas as pessoas sexualmente frustra- das (Perera, 1985).
amiúde não é fácil lembrar-se de das comem exageradamente, mas o Às vezes, o peso da mulher é o
dieta, de contagem de pontos, de inverso é verdadeiro: as que comem principal assunto de sua vida con-
aspectos emocionais etc. A este de forma compulsiva não se sentem jugal. Pode até acontecer de ela não
respeito, a psicanalista argentina sexualmente gratificadas (com sen- emagrecer como forma de demons-
Liliana Saslavski (1996) comenta as sação de plenitude, calma e satisfa- trar resistência à vontade do mari-
demandas feitas à mulher moderna: ção). A pessoa sexualmente realizada do. É claro que seu corpo se trans-
• Ser eternamente adolescentes, mas tem um contato satisfatório com seu forma num campo de batalha, mas
ao mesmo tempo ser mães adultas; corpo, percebe as suas necessidades esta mulher parece estar querendo se
ser fisicamente jovens, mas com a e procura racionalmente atendê-las. convencer de que é melhor ser “gor-
experiência da maturidade; mos- A autonegação do prazer leva a da e independente” do que “magra
trar um corpo esbelto, bonito, atra- pessoa a rejeitar seu corpo e a reduz e submissa”.

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A insatisfação conjugal pode che- mente infelizes, onde a estabilidade • proteção contra ameaças sexuais;
gar a um ponto em que as carências da relação parece ser mais importan- • proteção contra o sexo extracon-
emocionais e sexuais são confundi- te do que o amor-próprio e do que jugal;
das com a fome física, e assim po- o próprio corpo. É principalmente • proteção contra o risco de fra-
dem ser atendidas concretamente, nestas mulheres - desassistidas afeti- cassar;
ainda com a vantagem de não de- va e sexualmente - que podemos ob- • sensação de vitória na luta con-
pender de ninguém (como o mari- servar como o lado feminino erótico tra o poder masculino.
do) para se satisfazer. “Um mau ca- e lúdico fica compactado dentro da
samento é tão engordativo como gordura e da excessiva massa corpo- Tratamento
um sundae com calda de chocolate” ral (Kaufman, 1993). Além dos fatores genéticos e meta-
(Stuart & Jacobson, 1990). Há mulheres que engordam mui- bólicos facilitadores do aparecimento
Muitas mulheres, de forma cons- to a partir da gravidez, não só pelas da obesidade, os “ingredientes” men-
ciente ou inconsciente, engordam questões hormonais envolvidas, mas cionados neste trabalho pretendem
como tentativa de inibir o desejo porque psicologicamente trocam o mostrar o grande número de ques-
sexual do marido e também o seu “papel de mulher” pelo “papel de tões – muitas delas difíceis de serem
próprio interesse sexual. Isto ocor- mãe”, isto é, a mãe deve permane- detectadas em uma consulta médica
re, sobretudo, em três tipos de si- cer “o mais virgem possível”, e en- e/ou em uma consulta nutricional –
tuações: quando o marido é muito gordar é uma forma de manter essa subjacentes aos atos, aparentemente
gordo e sua obesidade causa repug- “virgindade”. simples, de comer e beber. Talvez se
nância à mulher; quando a vida se- Grande parte dos homens tam- possa, até, falar em “obesidades” ao
xual do casal torna-se extremamen- bém engorda após o casamento, de- invés de “obesidade”.
te rotineira e monótona; e quando o vido a uma vida mais sedentária, re- Para uma doença tão multifatorial
marido é desinteressado sexualmen- laxamento de interesses e também é necessário, portanto, um longo
te. Engordar, para manter o marido por um padrão de sincronicidade tratamento interdisciplinar, que
à distância e evitar o sexo, curiosa- com a esposa. possa promover o emagrecimento
mente não acontece nos casamentos Resumindo, o excesso de peso e, sobretudo, a manutenção do peso
mais infelizes (nos quais é mais fácil pode oferecer estes “benefícios” à baixo, uma vez que a manutenção
dizer “não!”, além de que os maridos mulher obesa: é, amiúde, mais difícil de ser bem
também já não estão interessados em • uma maneira de exprimir (ou re- sucedida do que o próprio processo
sexo), mas nos casamentos mediana- primir) raiva; de emagrecimento. •

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