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Dirigentes da Bancoop

podem ser punidos por não


entregar prédios, diz STJ
Cooperativa já foi presidida por Vaccari e construiu tríplex
que levou Lula à prisão

POR CLEIDE CARVALHO E DIMITRIUS DANTAS


16/07/2018 10:26 / ATUALIZADO 16/07/2018 10:38

Esqueleto de uma das torres de condomínio residencial lançado pela


Bancoop na Mooca, Zona Leste de São Paulo, em 2010 –
Michel Filho / Agência O Globo (12/03/2010)
SÃO PAULO - O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que dirigentes
da Bancoop, cooperativa dos Bancários, podem ser punidos judicialmente caso
apartamentos da entidade ainda em construção não sejam entregues, como prevê
acordo firmado em 2007.

A cooperativa se tornou insolvente e acumula um passivo de R$ 60 milhões. A


Bancoop foi a responsável pelo lançamento do edifício Solaris, no Guarujá, onde
fica o tríplex que, de acordo com a Justiça, pertenceu ao ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. Com a condenação de Lula a 12 anos e um mês de prisão, o tríplex
foi leiloado.
A briga entre cooperados e Bancoop se arrasta nos tribunas desde 2005, quando o
Ministério Público (MP) de São Paulo propôs uma ação civil pública que resultou
no acordo. Durante a negociação do trato houve uma divergência entre a
cooperativa e os promotores: a Bancoop não queria punição aos seus dirigentes em
caso de descumprimento do acordo.

Já o MP argumentou que, ao construir prédios, a Bancoop funcionou, na prática,


como uma incorporadora imobiliária.

Na ação, a Promotoria de Justiça do Consumidor havia argumentado que a


Bancoop não funcionava como cooperativa, pois suas assembleias não eram
representativas e as decisões eram tomadas pelos dirigentes.

Disse ainda que os cooperados não podiam confiar nos administradores, porque
eles geriam a cooperativa, abriram empresas de construção para tocar as obras e
eram também os fiscalizadores.

Argumentou também que os cooperados foram, de fato, consumidores que


adquiram imóveis.

Na época, não havia entendimento consolidado sobre a aplicação do Código de


Defesa do Consumidor a cooperativas habitacionais. Mas isso mudou em fevereiro
deste ano, quando o STJ publicou uma súmula em que equipara este tipo de
entidade a uma incorporadora.

Na decisão de 26 de junho, os ministros do STJ concordaram que os dirigentes da


Bancoop podem ser punidos e justificaram seu voto citando o artigo 28 do Código
de Defesa do Consumidor. Este dispositivo prevê que a responsabilidade de uma
pessoa jurídica pode ser desconsiderada em um processo quando impedir a
reparação dos danos. Isso acontece, por exemplo, quando a empresa ou
cooperativa não tem liquidez.

Para o advogado da Bancoop, Pedro Dallari, a decisão ainda pode ser


revertida pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Ele destacou que até o momento os promotores não protocolaram qualquer


reclamação por eventuais infrações ao acordo. — O MP nunca mais, nessa ação
civil pública, fez qualquer cobrança. Não houve qualquer questionamento nesses
onze anos. No ponto de vista concreto, o MP não questiona o cumprimento do
acordo — diz Dallari.

A Bancoop anunciou na semana passada intenção de se dissolver e informou que,


se houver passivo, ele deve ser rateado entre os cooperados, como prevê a lei das
cooperativas. Com quatro empreendimentos inacabados, a Bancoop marcou
assembleia para 31 de julho.

A intenção é que os cooperados votem pela dissolução. No caso de imóveis não


construídos, os terrenos devem ser vendidos para ajudar a cooperativa a fazer
caixa para cobrir o passivo acumulado.
Dallari lembra que a dissolução já estava prevista no acordo de 2007 e não
significa que a Bancoop vai abandonar as responsabilidades assumidas.

— Sobram algumas pendências, a cooperativa, desde 1996, entregou 5698 imóveis


e há 197 casos não resolvidos. A Bancoop deixa de ter atividade operacional, não
pode mais construir. Mas continua funcionando até que todos os casos sejam
resolvidos — afirmou.

A decisão do STJ foi dada numa ação que envolve um dos empreendimentos
inacabados da Bancoop, o Torres da Mooca, um prédio com 84 unidades que não
foi construído.

No documento onde fez um balanço de suas atividades até dezembro de 2017, a


cooperativa informou que havia um acordo em andamento para que seja escolhida
uma construtora para fazer a obra, com negociação direta com os cooperados.

A Bancoop teve como um de seus presidentes João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do


PT condenado na Lava-Jato.

Em seu auge, a cooperativa chegou a ter 14 mil cooperados, inclusive não


bancários.

Cerca de 3 mil não receberam os imóveis e parte dos prédios foi repassado a
construtoras para que pudessem ser erguidos, mas os cooperados tiveram de pagar
mais do que o planejado.

https://oglobo.globo.com/brasil/dirigentes-da-bancoop-podem-ser-punidos-por-nao-entregar-predios-
diz-stj-22890718