Você está na página 1de 10

ISSN IMPRESSO 2316-333X

E-ISSN 2316-3828
DOI-10.17564/2316-3828.2017v5n3p87-96

A METODOLOGIA CIENTÍFICA EM PESQUISAS EDUCACIONAIS: PENSAR E FAZER CIÊNCIA


THE SCIENTIFIC METHODOLOGY IN EDUCATIONAL RESEARCH: THINKING AND DOING SCIENCE
LA METODOLOGÍA CIENTÍFICA EN LA INVESTIGACIÓN EDUCATIVA: PENSAR Y DE HACER CIENCIA

Priscilla Bibiano de Oliveira Mendonça1

RESUMO
Este artigo visa promover reflexão acerca das pesquisas Ciência trata dos pressupostos, métodos e técnicas de
em educação como processos de produção de conhe- pesquisa, mostrando suas diferentes classificações
cimento, trazendo pontos acerca do pensar e do fazer quanto à natureza, objetivos, abordagens e procedi-
Ciência. Para alcançar o objetivo foi realizada revisão mentos – bem como apontando algumas técnicas de
bibliográfica sobre o assunto. Traz o equívoco atual coleta de dados utilizadas em pesquisas educacionais.
quanto ao desenvolvimento de pesquisas, tidas errone-
amente como investigação e coleta de dados e eviden-
cia abordagens relacionadas à pesquisa em educação.
Palavras-chave
No que tange ao pensar a Ciência fala da necessida-
Conhecimento científico. Metodologia da Pesquisa.
de da curiosidade epistemológica, do conhecimento e
Instrumentos de Pesquisa.
seus tipos e as finalidades da pesquisa; sobre o fazer

Interfaces Científicas - Educação • Aracaju • V.5 • N.3 • p.87 - 96 • Jun. 2017


• 88 •

ABSTRACT
This article aims to promote reflection on research science about assumptions, methods and research
in how processes of knowledge production, bring- techniques, showing their different conditions as to
ing points on thinking and doing Science. For the nature, objectives, approaches and procedures - as
purpose of bibliographical review on the contract. It well as pointing out some techniques of data col-
brings the current misconception about the devel- lection used in educational research.
opment of research, erroneously taken as research
and data collection and evidence approaches re-
lated to research in education. In what concerns
Keywords
to think the Science of the necessity of the epis-
Scientific knowledge. Research methodology. Re-
temological curiosity, of the knowledge and its
search Tools.
types and like aims of the research; About making

RESUMEN
Este artículo tiene como objetivo promover la refle- ción; Acerca de hacer ciencia, debaten los supuestos,
xión acerca de la investigación en educación como métodos y técnicas de investigación, mostrando sus
proceso de producción de conocimiento, discutiendo diferentes condiciones de la naturaleza, objetivos, en-
el pensar y hacer ciencia. Para alcanzar objetivo, se foques y procedimientos -, así como señalar algunas
realizó revisión de literatura acerca del tema. Abarca técnicas de recolección de datos utilizados en la in-
el error actual sobre el desarrollo de la investigación, vestigación educativa.
erróneamente considerado como enfoques de inves-
tigación y recopilación de datos y resalta los plantea-
mientos relacionadas con la investigación en la edu-
Palabras clave
cación. Cuando se trata de la necesidad de pensar en Conocimiento científico. Metodología de la investiga-
la ciencia, se trata de la curiosidad epistemológica, ción. Instrumentos de investigación.
del conocimiento y sus tipos y los fines de investiga-

Interfaces Científicas - Educação • Aracaju • V.5 • N.3 • p.87 - 96 • Jun. 2017


• 89 •

1 INTRODUÇÃO vezes isso acontece por desconhecimento dos


educadores quanto a conceitos e metodologias de
O ser humano é, por constituição, curioso; ou pesquisa.
seja, ele quer conhecer o mundo que o cerca e se Nesse sentido, esse artigo propõe retomar con-
apropriar dele. Esse se debruçar sobre o mundo é ceitos de pesquisa e metodologia científica, sen-
aprimorado frente ao que chamamos de curiosida- do relevante refletir sobre o pensar a Ciência e o
de epistemológica, uma curiosidade que ousa ir fazer Ciência. Para alcançar o objetivo realizou-se
além do senso comum, buscando se apropriar do revisão bibliográfica sobre o assunto, buscando
que desafia e instiga em determinadas situações, articular as ideias de diversos autores que tratam
baseada em conhecimentos científicos. da temática, como Bernadete Gatti, Heraldo Vian-
Os conhecimentos científicos são inseridos na na, Marli André, entre outros. No que tange ao
vida humana desde muito cedo quando a criança pensar a Ciência se fala da necessidade da curio-
ingressa na escola e vai realizando processos de sidade epistemológica, do conhecimento e seus
experimentação mediante os desafios que lhe são tipos e as finalidades da pesquisa; sobre o fazer
apresentados. Essa é uma época em que a capa- Ciência trata dos pressupostos, métodos e técni-
cidade de perguntar, de questionar o mundo está cas de pesquisa, apontando suas diferentes classi-
em evidência. Com o passar dos anos, a criança ficações quanto à natureza, objetivos, abordagens
é apresentada ao mundo da pesquisa, espera-se e procedimentos – bem como apontando algumas
que ela consiga por si só, construir suas impres- técnicas de coleta de dados utilizadas em pesqui-
sões acerca da realidade; e também gerar novos sas educacionais.
conhecimentos.
Aí começa um grande desafio para a educação
em todos os níveis, deixar que o estudante refaça
2 PENSAR A CIÊNCIA
caminhos já percorridos por outros, mas, ao mesmo Para pensar a Ciência é inevitável que tratemos
tempo, ter autonomia de pensamento e construção de conhecimento e das finalidades da pesquisa,
de novas ideias. Esse processo é permeado de en- aqui entendida como processo de construção da Ci-
canto e de fragilidades. Ao mesmo tempo em que ência. A área da filosofia que investiga a natureza
os professores introduzem os estudantes no mun- do conhecimento é a epistemologia. Para Chizzotti
do da busca eles podem criar o embotamento da (2003), citado por Martins (2014), essa ciência traz
inteligência. Isso porque, infelizmente, a pesquisa como questão central o que é conhecer, quais fun-
tem sido encarada como coleta de informações; a damentos garantem realmente que aquilo que se
pesquisa deixa de ter seu caráter de desconstruir pensa ser é realmente conhecimento. Nesse senti-
para reconstruir com significado (desconstruir no do, é importante considerar que, se a curiosidade
sentido de esmiuçar o objeto a ser pesquisado). Os gera a busca, a curiosidade quando se torna episte-
estudantes copiam dados em diferentes contex- mológica gera conhecimento.
tos, porém não refletem, não constroem algo novo Existem diferentes tipos de conhecimento e to-
acerca do que foi investigado. dos eles buscam explicar a realidade, cada um à sua
Esse processo acaba sendo de inteligência às maneira. Traz-se as ideias de Trujillo, que é citado
avessas, visto gerar indivíduos que não pensam por Marconi e Lakatos (2003, p. 77) que sistemati-
sozinhos, tornam-se incapazes de desconfiar da- za o conhecimento em quatro tipos e descreve suas
quilo que veem, e perdem a beleza da dúvida, que características:
possibilita a busca e gera aprendizagem. Muitas

Interfaces Científicas - Educação • Aracaju • V.5 • N.3 • p.87 - 96 • Jun. 2017


• 90 •

de verificação direta e experimental. Nas pesquisas


em ciências humanas, mais especificamente em edu-
cação, a abordagem mais utilizada é a qualitativa; que
pretende interpretar em vez de mensurar, pensa mais
em termos de compreensão da realidade e dos sujei-
tos. Essas especificidades traduzem formas diferen-
tes de conceber e de produzir conhecimentos.
Ao longo dos anos aconteceram mudanças no cená-
Quadro 1 - Tipos e características do conhecimento rio da pesquisa educacional, como a ampliação e diver-

sificação dos temas, enfoques e, consequentemente, as
Importa-nos neste trabalho, o conhecimento cien- abordagens metodológicas. Nesse contexto de mudança,
tífico e o modo como ele é operacionalizado, ou seja, Marli André (2007) afirma que ganham forças os estudos
sua metodologia. Minayo (2003), citada por Martins qualitativos que englobam um grupo heterogêneo de mé-
(2014), afirma que a metodologia inclui um método, todos, técnicas e análises. Os contextos de produção tam-
as técnicas e a criatividade do pesquisador. Martins bém se alteraram, sendo o cotidiano da escola e da sala
alerta-nos também que todo esse processo é perme- de aula as principais preocupações dos pesquisadores.
ado de crenças, leituras de mundo sobre a realidade, Quanto às finalidades da pesquisa a autora apon-
concepções teóricas, ou seja, de paradigmas; e mais, ta que urge repensar sobre o caráter pragmático que
que esses paradigmas guiarão o método de pesquisa a envolve, que gera inclusive uma supervalorização da
a ser adotado daí a importância da conscientização prática em detrimento da teoria. Sobre isso afirma que
quanto a eles. Para essa autora,
[...] difícil é conciliar os papéis de ator e de pesquisa-
As pesquisas na área de educação não fogem a essa dor, buscando o equilíbrio entre a ação e a investiga-
premissa e não podemos ignorar as referências para- ção, pois o risco é sempre muito grande de sucumbir
digmáticas que as orientam. [...] Vários autores e estu- ao fascínio da ação, deixando para segundo plano a
diosos da epistemologia na área das ciências humanas busca do rigor que qualquer tipo de pesquisa requer.
aglutinam os paradigmas em dois grupos de aborda- (ANDRÉ, 2007, p. 124).
gem: quantitativo e qualitativo. (MARTINS, 2010, p. 9).

Não podemos também desconsiderar que, embo-


É importante tratar da diferenciação entre essas ra a pesquisa não possa estar a serviço de solucionar
duas modalidades de ciência tendo em vista que, me- os pequenos impasses do dia a dia, é importante sua
diante seus objetivos, mudam-se também as metodo- aplicabilidade e impacto social.
logias de pesquisa. Martins (2014) traz que as ciên-
cias naturais, dizem respeito aos acontecimentos da
realidade natural, de existência concreta, com objetos 3 FAZER CIÊNCIA
físicos – tem por objeto de pesquisa as coisas; já as
ciências da ação humana, envolvem o humano em seu Após pensar acerca da curiosidade, do conheci-
sentido mais complexo, percebendo sua constante mento e da finalidade de se pesquisar é imprescindí-
mutação e interação – tendo por objeto as ideias. vel falarmos do fazer ciência – um processo permeado
Ainda para esse autor, os focos diferenciados de por pressupostos, métodos e técnicas. Os pressupos-
investigação geram metodologias e abordagens dife- tos teóricos determinarão os métodos e as técnicas de
renciadas. No caso das ciências naturais, a aborda- pesquisa, coerentes com suas crenças os pesquisado-
gem mais comum é a quantitativa, trabalhando com res farão opções metodológicas que respondam aos
variáveis e medidas, ambas controláveis ou passíveis seus questionamentos e objetivos de pesquisa. Esses

Interfaces Científicas - Educação • Aracaju • V.5 • N.3 • p.87 - 96 • Jun. 2017


• 91 •

pressupostos dizem respeito aos paradigmas adota- degradadas da vida urbana na sociedade americana
dos segundo as visões de mundo de cada pesquisador. – a expressão investigação qualitativa veio a ser uti-
As pesquisas podem ser classificadas de diversos lizada com essa terminologia somente nos anos 602.
modos, Vianna (2013) sintetiza essa classificação, Segundo Bodgan e Biklen (1994, p. 23), “os levanta-
apontando quatro tipos: mentos sociais têm uma importância particular para
a compreensão histórica acerca da investigação qua-
1. Quanto à natureza: define se a pesquisa será litativa, devido a sua relação imediata com os proble-
sem (básica1) ou com aplicação imediata (apli- mas sociais – situando-se entre a narrativa e o estudo
cada); científico”. Esse contexto histórico é importante pois
lança as bases de um tempo em que as pesquisas vi-
2. Quanto aos objetivos: a pesquisa pode ser explo- savam explicar a vida em seu sentido mais humano e
ratória (obter mais informações sobre o assunto entendiam que os números (utilizados em pesquisas
investigado), descritiva (registra e descreve os qualitativas) não davam conta da amplitude e profun-
fatos observados sem interferir neles) ou expli- didade dos acontecimentos. Martins (2014) faz refe-
cativa (explica as causas, valendo-se do regis- rência a Minard (2010) para quem as pesquisas quali-
tro, da análise, da classificação e interpretação tativas preocupam-se com um nível da realidade que
dos fenômenos observados); não pode ser mensurado e quantificado.
Os autores Bodgan e Biklen (1994, p. 47), pensan-
3. Quanto à abordagem: será tratada de modo do em termos das características desse tipo de inves-
qualitativo ou quantitativo; tigação apontam que:

4. Quanto aos procedimentos: documental, bi- 1. O ambiente natural é a fonte direta de dados e o ins-
trumento principal é o investigador;
bliográfica, experimental, levantamento (sur- 2. É descritiva;
vey), pesquisa de campo, etnografia, estudo 3. Interessa-se mais pelo processo que do simples-
de caso, pesquisa-ação, pesquisa participante, mente os produtos ou resultados;
pesquisa ex-post-facto. 4. Os dados tendem a ser analisados de forma indutiva;
5. O significado é de importância vital na abordagem
qualitativa.
Essa classificação auxilia o pesquisador a traçar
os rumos, a nortear a construção do conhecimento a Essas características se traduzem na preocupação
que se propôs debruçar. Aqui trataremos mais especi- do pesquisador quanto ao contexto em que se insere
ficamente de pesquisa em educação e da classifica- a pesquisa, em registrar os fatos tais como são, não
ção quanto à abordagem e quanto aos procedimentos. visar produtos e sim processos – por isso abordam o
mundo de forma minuciosa. Além disso, a análise dos
4 QUANTO À ABRODAGEM: dados é vista como um funil (BODGAN; BIKLEN, 1994,
p. 50), “as coisas estão mais abertas no topo e vão se
QUALITATIVA E QUANTITATIVA tornando mais fechadas e específicas no extremo”. As
abordagens qualitativas permitem explicar aconteci-
A tradição da investigação qualitativa em educa- mentos sociais e comportamento humano.
ção teve suas origens no século XIX, a partir da neces- Outra possibilidade de pesquisa em educação é a
sidade de investigação social acerca das condições abordagem quantitativa que, embora não seja a mais

1 Embora não tenha aplicação imediata, a pesquisa básica é primordial já que 2 É importante referenciar a Escola de Chicago, que nos anos 1920 e 1930 mui-
estabelece novos conhecimentos a serem utilizados em outras pesquisas. to contribuiu para o desenvolvimento da abordagem qualitativa de pesquisa.

Interfaces Científicas - Educação • Aracaju • V.5 • N.3 • p.87 - 96 • Jun. 2017


• 92 •

utilizada quando se trata das ciências sociais, é uma metodológicas cuidadosas, trazem subsídios concre-
tos para a compreensão de fenômenos educacionais
maneira de explorar determinada realidade ou fato;
indo além dos casuísmos e contribuindo para a produ-
poderíamos comparar o método com uma lupa em ção / enfrentamento de políticas educacionais, para
meio a uma massa de dados. Para Gatti (2004, p. 13), planejamento, administração / gestão da educação,
“é necessário pensar que os números, frequências, podendo ainda orientar ações pedagógicas de cunho
mais geral ou específico. (GATTI, 2004, p. 26).
medidas, têm algumas propriedades que delimitam as
operações que se podem fazer com eles; e que as boas
análises dependem de boas perguntas que o pesqui- O cunho filosófico, os paradigmas que fundamen-
sador venha a fazer”. tam as visões de mundo de cada pesquisador é que
Nesse sentido cabe refletirmos que o sucesso dos darão a significação às metodologias, sejam elas qua-
estudos quantitativos está na abordagem do pesqui- litativas ou quantitativas.
sador acerca do que se coletou, ou seja, a grande uti-
lidade dos métodos quantitativos está em analisá-los 5 QUANTO AOS PROCEDIMENTOS
para além dos dados, trazê-los como instrumento de
reflexão acerca de um determinado contexto. Após definida a abordagem da pesquisa, o pesqui-
O modo de obtenção de quantificações dependerá sador precisa se concentrar nos procedimentos técni-
da natureza do objeto, dos objetivos do investigador cos que utilizará. Esses procedimentos precisam estar
e do instrumento de coleta. Gatti (2004, p. 14) aponta em consonância com os objetivos da pesquisa, caso
três tipos de dados: categóricos, ordenados e métricos; contrário, o pesquisador não terá seus questionamen-
e afirma que para cada um deles há possibilidades de tos respondidos. Referente à classificação apontada
tratamentos específicos, como podemos ver a seguir: por Vianna (2013, p. 1), a pesquisa quanto aos proce-
dimentos pode ser:
• Categoriais – podemos colocar em classifica-
ções e verificar sua frequência nas classes; • Documental – baseia-se em materiais que não
receberam ainda um tratamento analítico;
• Ordenados – quando estão numa forma que
mostra sua posição relativa segundo alguma • Bibliográfica – coloca o pesquisador em contato
caraterística; mas que não há associação de um com as publicações existentes acerca de deter-
valor numérico para essa característica, nem minado assunto (livros, revistas, periódicos e
um intervalo regular entre uma posição e outra; artigos científicos, jornais, boletins, monogra-
fias, dissertações, teses, material cartográfico,
• Métricos – observações relativas a caracterís- internet) e deve dar destaque à veracidade das
ticas que podem ser mensuradas e expressas fontes e dados, observando possíveis incoerên-
numa escala numérica. cias;

É válido considerar que o procedimento quanti- • Experimental – estabelece um objeto de estudo


tativo3 insere grau de validade racional no confronto e observa as variáveis que influem nos fenôme-
com os fenômenos observados: nos, tem como objetivo demonstrar como e por
que determinado fato é produzido;
Estas análises, a partir de dados quantificados, con-
textualizadas por perspectivas teóricas, com escolhas
• Levantamento (survey) – envolve a interrogação
3 Requer o uso de recursos e técnicas de estatística, procurando traduzir direta a um grupo de pessoas cujo comporta-
em números os conhecimentos gerados pelo pesquisador (VIANNA, 2013).

Interfaces Científicas - Educação • Aracaju • V.5 • N.3 • p.87 - 96 • Jun. 2017


• 93 •

mento está sendo pesquisado; constitui uma investigação de uma unidade específi-
• Pesquisa de campo – é a observação de fatos e ca, situada em seu contexto, selecionada segundo cri-
fenômenos espontâneos, geralmente in loco; térios predeterminados e, utilizando múltiplas fontes
de dados, que se propõe a oferecer uma visão holística
• Etnografia – visa realizar a descrição dos signifi- do fenômeno estudado. E é por conta dessa perspecti-
cados pertencente a um determinado grupo ou va holística que estudos de caso são tão utilizados em
fenômeno social particular; pesquisas educacionais.
A mesma autora (2006, p. 639) aponta os usos e
• Estudo de caso – consiste em coletar e analisar abusos desse procedimento, afirmando que o maior
informações sobre determinado indivíduo, um problema de grande parte dos trabalhos apresentados
grupo ou comunidade, a fim de estudar aspec- como estudos de caso é que eles não se caracterizam
tos variados que sejam objeto da pesquisa; como tal. Talvez o maior desses equívocos resida na
afirmação de que os estudos de caso são um tipo de
• Pesquisa-ação – concebida e realizada para a pesquisa mais fácil, pelo fato de lidar com uma ou
resolução de um problema coletivo, os pesqui- poucas unidades. Para Alves-Mazzotti (2006, p. 648),
sadores e os participantes representativos da
situação ou do problema estão envolvidos de Nem todo estudo de uma única unidade pode ser con-
siderado um estudo de caso, e estudos de caso não são
modo cooperativo ou participativo; fáceis de serem realizados, ao contrário, eles se reves-
tem de grande complexidade, o que exige o recurso a
• Pesquisa participante – desenvolvida com a par- técnicas variadas de coleta de dados.
ticipação de grupos de pesquisa e/ou pesqui-
sadores individuais em situações investigadas Como exemplo de procedimento quantitativo, traze-
similares, caracteriza-se pela interação entre mos o survey, que é definido segundo Silva (1997), men-
os membros; cionado por Vasconcelos e Guedes (2014), como coleta
sistemática de informações a partir dos respondentes
• Ex-post-facto – “uma investigação sistemática com o propósito de compreender e/ou prever alguns
e empírica na qual o pesquisador não tem con- aspectos do comportamento da população em estudo.
trole direto sobre as variáveis independentes, Esse procedimento é operacionalizado via questionário
porque já ocorreram suas manifestações ou autopreenchido, entrevista pessoal ou entrevista por
porque são intrinsecamente não manipuláveis” telefone. Mattar (1999), referenciado em Vasconcelos
(Gil, 2008), busca-se saber quais os possíveis e Guedes (2014), salienta que os critérios para decidir
relacionamentos entre as variáveis. a forma de utilizar o instrumento são muitos, como por
exemplo: o tipo de pesquisa, o tipo de respondente (ní-
Cada um desses procedimentos é capaz de res- vel educacional e social), o assunto, a disponibilidade de
ponder a objetivos específicos em pesquisas. Os pro- meios para administrar a pesquisa (incluindo a qualida-
cedimentos podem ter características qualitativas ou de do funcionamento e o acesso ao público pesquisado)
quantitativas. O estudo de caso é um procedimento e o tipo de análise e interpretação pretendidas.
que pode ser visto como qualitativo. Os procedimentos de pesquisa, por sua vez, são
Alves-Mazzotti (2006) cita como estudiosos dessa operacionalizados por meio das técnicas de coleta de
área Robert Stake, posicionando-o como mais afina- dados, efetivadas por meio de instrumentos que tra-
do com o construcionismo social, e Robert Yin, com o rão os dados a serem analisados pelo pesquisador. Po-
pós-positivismo. Embora divergentes em vários pon- demos citar como técnicas de coleta de dados o ques-
tos, ambos afirmam que o estudo de caso qualitativo tionário, a entrevista, a observação, o grupo focal.

Interfaces Científicas - Educação • Aracaju • V.5 • N.3 • p.87 - 96 • Jun. 2017


• 94 •

Na visão de Vianna (2003), as técnicas de obser- • Saber retirar-se do campo de observação;


vação em pesquisa são, praticamente, as únicas abor- • Analisar os dados;
dagens disponíveis para o estudo de comportamentos • Elaborar um relatório sobre os elementos obtidos.
complexos; acreditando que os fenômenos educacio- A análise dos dados e a elaboração dos relatórios
nais são, em sua maioria, complexos, a observação é, são fases importantes do processo de observação.
então, um procedimento eficaz para estudá-los. Para Para que os dados levantados sejam mais convincen-
Selltiz e outros autores (1967), citados por Vianna tes, é recomendável que o observador faça uma trian-
(2003, p. 20), a observação deve levar em conside- gulação da observação. A triangulação consiste em
ração o que deve efetivamente ser observado, como trazer outras fontes e dados coletados (até mesmo por
proceder para efetuar o registro dessas observações, outros pesquisadores), o que dará maior consistência
quais os procedimentos a utilizar para garantir a vali- à pesquisa. Outro ponto importante da observação é
dade das observações e que tipo de relação estabele- a redução de dados, já que é impossível observar a
cer entre o observador e o observado, qual a sua natu- tudo. A análise categorial dos dados é uma possibili-
reza e como implementar essa relação. dade de classificação por posicionamentos, tempo de
ocorrência ou frequência dos eventos. É necessário
A observação, como técnica científica, pressupõe a decidir o que vai ser quantificado.
realização de uma pesquisa com objetivos criteriosa-
mente formulados, planejamento adequado, registro
Salienta-se a necessidade de fundamentos teó-
sistemático de dados, verificação de validade de todo ricos consistentes relacionados à natureza dos fatos
o desenrolar do seu processo e confiabilidade dos re- observados, além da apuração do olhar do observador
sultados. (VIANNA, 2003, p. 14). a fim de identificar e descrever coerentemente os di-
versos tipos de interação e processos humanos. Além
Embora a observação seja imprescindível para se disso, deve-se dar atenção ao não-verbal, aquilo que
conhecer fatos / fenômenos, é importante atentar fica nas entrelinhas da observação.
para alguns problemas decorrentes desse procedi-
mento, tais como, influência da presença do obser- Cabe ressaltar que o observador não se deve con-
vador e alto investimento de tempo, de permanência. centrar apenas naquilo que lhe convém para justi-
ficar suas formulações e hipóteses teóricas, mas
Além do que, em se tratando de observação, nem sem- registrar também outros pontos que podem, inclusi-
pre se encontra pessoas dispostas a serem sujeitos de ve, contradizer o arcabouço teórico que o construiu.
um estudo observacional, nesse sentido, o poder de (VIANNA, 2003, p. 89).
persuasão do observador deve ser grande. Devido ao
tempo da observação, pode ocorrer relacionamento Esse autor, trazendo a observação para o contexto
emocional com o observado, o que pode facilitar ao da escola, apresenta alguns elementos importantes
dificultar a observação. a serem considerados pelo pesquisador: traços pes-
Bailey (1994) tem seus argumentos sobre as fases soais nas relações, interação verbal, elementos não-
da observação apresentados no livro de Vianna (2003, -verbais, atividades, gerenciamento, habilidades pro-
p. 30), sendo elas: fissionais, auxílios ao ensino, características afetivas,
• Definir os objetivos do estudo; aspectos cognitivos, traços sociológicos. Por aí perce-
• Decidir sobre o grupo de sujeitos a observar; bemos que as abordagens quantitativas procuram ir
• Legitimar sua presença junto ao grupo a observar; além da superfície dos eventos, buscam determinar
• Obter confiança dos sujeitos a observar; significados, muitas vezes ocultos, interpretá-los, ex-
• Observar e registrar notas de campo durante semanas; plicá-los e analisar o impacto na vida em sala de aula.
• Gerenciar possíveis crises que possam ocorrer en- Outro ponto que acreditamos ser essencial abordar
tre os sujeitos e o observador; quanto aos procedimentos da pesquisa é a entrevista, uma

Interfaces Científicas - Educação • Aracaju • V.5 • N.3 • p.87 - 96 • Jun. 2017


• 95 •

técnica de coleta de dados utilizada na captação de dados Vimos que a pesquisa em educação tem por objeti-
subjetivos – pode ser estruturada, semiestruturada, aberta, vo o estudo investigativo dos fenômenos educacionais
com grupos focais, história de vida e projetiva. Boni e Qua- e que, na maioria das vezes, a abordagem qualitati-
resma (2005) apontam que as entrevistas aberta e semies- va é a que melhor corresponde ao que se espera – já
truturada têm como vantagem a flexibilidade de duração, que possibilita um olhar holístico e aprofundado ante
permitindo cobertura mais profunda e respostas mais es- ao comportamento humano. Isso não significa que a
pontâneas. Por meio da entrevista é possível investigar as- abordagem quantitativa não deva ser adotada, ambas
pectos valorativos e afetivos que determinam significados podem ser utilizadas concomitantemente e de modo
pessoais das atitudes e comportamentos humanos. complementar.
Essas mesmas autoras citam Bordieu (1999, p. O pensar e fazer Ciência caminham juntos, en-
76), para quem o pesquisador deve fazer de tudo para quanto um lança as bases e a necessidade de novos
diminuir a violência simbólica que é exercida por ele. conhecimentos e suas finalidades, o outro se apre-
Sugerem que durante a entrevista o pesquisador envie senta como método de efetivação desse desejo de
sinais de entendimento e estímulo ao entrevistado, inovação frente aos desafios da modernidade. Esse
levando em conta que estará convivendo com senti- processo de pensar e fazer Ciência, aqui denominado
mentos, afetos pessoais, fragilidades. Atitudes como pesquisa científica, necessita de registro sistematiza-
essa demonstram respeito pela pessoa pesquisada, do e deve ser comunicado para cumprir sua função so-
criando uma atmosfera amistosa e de confiança. cial na construção de novos conhecimentos, ou seja,
É válido ressaltar que é preciso que o pesquisador além de pensar e fazer Ciência cabe também escrever
tenha domínio sobre as questões que serão tratadas Ciência, tópico a se abordar em outro trabalho.
na entrevista, bem como consiga transcrever adequa-
damente o que o entrevistado falou e sentiu. É neces-
sário ter cuidado também com a coerência entre as REFERÊNCIAS
perguntas a serem feitas e os objetivos da pesquisa.
ALVES-MAZZOTTI, A.J. Usos e abusos do estudo de caso.
Cadernos de Pesquisa, v.36, n.129, p.637-651, set-dez.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cp/
v36n129/a0736129.pdf>. Acesso em: 9 nov. 2014.
Como pudemos ver ao longo do texto, a pesquisa
necessita de rigor e organização se pretende sair do ANDRÉ, M. Questões sobre os fins e sobre os
senso comum, da simples captação de informações, métodos de pesquisa em Educação. Revista
e se tornar conhecimento científico. O pesquisador Eletrônica de Educação, São Carlos, SP: UFSCar, v.1,
precisa delinear sua pesquisa para alcançar o que n.1, p.119-131, set. 2007. Disponível em: <http://
deseja, esse delineamento tem a ver com suas pers- www.reveduc.ufscar.br/index.php/reveduc/article/
pectivas de mundo, de sociedade, de construção de viewFile/6/6>. Acesso em: 9 nov. 2014.
conhecimento; capacidade intelectual e criatividade
são importantes nesse processo de traçar rotas. Esse BOGDAN, R.C.; BIKLEN, S.K. Investigação
desenho metodológico deve estar alinhado à natureza qualitativa em educação. Trad. Maria João Alvarez.
e aos objetivos específicos da pesquisa. A partir daí o Portugal: Porto, 1994. p.15 a 51.
pesquisador deve optar pelas abordagens e procedi-
mentos que melhor responderão o que se pretende, BONI, V.; QUARESMA, S.J. Aprendendo a entrevistar,
precisa também escolher as técnicas e instrumentos como fazer entrevistas em Ciências Sociais. Revista
de coleta de dados que utilizará. Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia

Interfaces Científicas - Educação • Aracaju • V.5 • N.3 • p.87 - 96 • Jun. 2017


• 96 •

Política da UFSC, v.2, n.1 (3), p.68-80, jan-jul. 2005. VASCONCELLOS, L.; GUEDES, L.F.A. E-Surveys:
Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index. vantagens e limitações dos questionários
php/emtese/article/viewFile/18027/16976>. Acesso eletrônicos via internet no contexto da pesquisa
em: 9 nov. 2014. científica. Disponível em: <http://www.ead.fea.
usp.br/Semead/10semead/sistema/resultado/
GATTI, B.A. Estudos quantitativos em educação. trabalhosPDF/420.pdf>. Acesso em: 9 nov. 2014.
Educação e Pesquisa, São Paulo, v.30, n.1, p.11-30,
jan-abr. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/ VIANNA, C.T. Classificação das pesquisas científicas
pdf/ep/v30n1/a02v30n1.pdf>. Acesso em: 9 nov. 2014. - Notas para os alunos. Florianópolis, 2013, 2p.
Disponível em:
MARCONI, M.A.; LAKATOS, E.M. Fundamentos de <http://pt.slideshare.net/cleversontabajara1/
metodologia científica. 5.ed. São Paulo: Atlas, 2003. p.77. metodologia-cientfica-tipos-de-pesquisa-ultimate>.
Acesso em: 29 set. 2014.
MARTINS, R.X.; RAMOS, R. Reflexões sobre a
produção do conhecimento e a pesquisa em VIANNA, H.M. Pesquisa em educação: a observação.
educação. Disponível em: <http://avancar.ufla.br/ Brasília: Plano, 2003. p.9-107.
ava/mod/resource/view.php?id=6898>. Acesso em: 1
set. 2014. 14p.

1 Pedagoga pelo Centro Universitário do Sul de Minas – UNIS/MG; Mes-


Recebido em: 24 de janeiro de 2017 tranda em Educação, Universidade Federal de Lavras – UFLA; Especialista
Avaliado em: 02 de março de 2017 em Design Instrucional para Ead Virtual pela Universidade Federal de Itaju-
Aceito em: 05 de maio de 2017 bá – UNIFEI/MG; MBA em Gestão Educacional pela Pontifícia Universidade
Católica – PUC/RS. Email: pbibiano@gmail.com

Interfaces Científicas - Educação • Aracaju • V.5 • N.3 • p.87 - 96 • Jun. 2017