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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

CENTRO DE ESTUDOS GERAIS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM
SOCIOLOGIA E DIREITO

ANA KARINE PESSOA CAVALCANTE MIRANDA

MEDIAÇÃO POLICIAL E GESTÃO DE


CONFLITOS SOCIAIS: NOVAS
ORIENTAÇÕES PARA A ATUAÇÃO DE
UMA POLÍCIA CIDADÃ?

NITERÓI
2017
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
CENTRO DE ESTUDOS GERAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA E DIREITO

ANA KARINE PESSOA CAVALCANTE MIRANDA

MEDIAÇÃO POLICIAL E GESTÃO DE CONFLITOS SOCIAIS:


NOVAS ORIENTAÇÕES PARA A ATUAÇÃO DE UMA POLÍCIA
CIDADÃ?

NITERÓI
2017

2
ANA KARINE PESSOA CAVALCANTE MIRANDA

MEDIAÇÃO POLICIAL E GESTÃO DE CONFLITOS SOCIAIS:


NOVAS ORIENTAÇÕES PARA A ATUAÇÃO DE UMA POLÍCIA
CIDADÃ?

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em


Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense,
como requisito parcial para a obtenção do título de doutora
em Ciências Jurídicas e Sociais.

Área de concentração: Direito e Sociologia.

Orientador: Prof. Dr. Gilvan Luiz Hansen

NITERÓI
2017

3
Universidade Federal Fluminense
Superintendência de Documentação
Biblioteca da Faculdade de Direito

Mxxxs Miranda, Ana Karine Pessoa Cavalcante.

Mediação Policial e Gestão de Conflitos Sociais: novas orientações


para a atuação de uma polícia cidadã?/Ana Karine Pessoa
Cavalcante Miranda. — Niterói, 2017.
xxxxp.

Tese (Doutorado em Ciências Jurídicas e Sociais –


Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito) –
Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais.
1. Conflitos sociais. 2. Segurança pública. 3. Atividade
policial. 4. Mediação policial. I. Universidade Federal
Fluminense, Centro de Estudos Gerais.
CDD: xxx.xxxxx

4
ANA KARINE PESSOA CAVALCANTE MIRANDA

MEDIAÇÃO POLICIAL E GESTÃO DE CONFLITOS SOCIAIS:


NOVAS ORIENTAÇÕES PARA A ATUAÇÃO DE UMA POLÍCIA
CIDADÃ?

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em


Sociologia e Direito da Universidade Federal
Fluminense, como requisito parcial para a obtenção do
título de doutora em Ciências Jurídicas e Sociais.

Área de concentração: Direito e Sociologia.

Orientador: Prof. Dr. Gilvan Luiz Hansen

Defesa em: 21/12/2017.

BANCA EXAMINADORA

________________________________________________
Prof. Dr. Gilvan Luiz Hansen (Orientador)
Universidade Federal Fluminense – UFF

________________________________________________
Profa. Dra. Maria del Carmen Lázaro Guillamón
Universidad Jaume I – UJI (Coorientadora)

_______________________________________________
Prof. Dr. Delton Ricardo Soares Meirelles
Universidade Federal Fluminense - UFF

________________________________________________
Prof. Dr. Eder Fernandes Monica
Universidade Federal Fluminense - UFF

________________________________________________
Prof. Dr. Kléver Paulo Leal Filpo
Universidade Católica de Petrópolis – UCP
________________________________________________
Prof. Dr. Thiago Rodrigues Pereira
Universidade Católica de Petrópolis – UCP

5
A Deus, que é tudo em toda parte.
E aos meus pais.

6
AGRADECIMENTOS

Ao meu Deus-Pai, presente em tudo na minha vida.

À minha Mãe Santíssima por me acolher e interceder junto a seu filho Jesus, nos momentos mais
difíceis.
Aos meus pais, que, com carinho e paciência, ensinaram-me a arte do amor incondicional.
A todos os meus amigos-anjos, que sempre estiveram dispostos a me ajudar nos momentos mais
difíceis da minha vida.
Um agradecimento especial ao meu estimado orientador, professor Gilvan Luiz Hansen, que tem
acompanhado o meu percurso acadêmico desde o momento da entrevista de seleção para
programa de doutorado e a quem devo a oportunidade de iniciar e o estímulo para prosseguir,
pois a sua dedicação à academia, à docência e aos alunos é um grande exemplo para mim. Minha
eterna gratidão!
À minha querida co-directora de tesis, professora Carmén Lázaro Guillamón, pela competência,
sabedoria, dedicação, amorosidade e incentivo durante todo o percurso de orientação no Programa
de Doctorado en Derecho na Universitat Jaume I. Milliones de gracias a ti!

À Professora Maria Glaucíria Mota Brasil, que estimulou o meu ingresso no doutorado, além de
dividir comigo sua dedicação aos estudos sobre segurança pública.
A Emanoel José de Carvalho, pelas palavras, paciência, generosidade e incentivo durante essa
história acadêmica. Muito obrigada! Emanoel, Deus conosco!
Aos meus amigos e amigas de Vila-real (Espanha), pelo acolhimento carinhoso e momentos de
aprendizado sobre a mediação policial: Rosa Ana Gallardo y Reys, Carmen Lázaro, Helena Pérez,
José Ramón Nieto Rueda, Ramón Martínez, Adrián Hierro, Salvador Robles, Manuel Carretero,
Pascual Benet, Mar Valero e Miguel Ángel. Foi uma experiência que me fez voltar diferente, que
ampliou perspectivas e mudou a forma de olhar para o tema e para a vida.
Aos amigos e a todos os policiais que tornaram possíveis as pesquisas na Polícia Militar do Estado
do Ceará, na Policía Local da cidade de Vila-real e na Policía Nacional da Colômbia.

Aos policiais militares e civis, Ferreira, Waleska, Félix, P. Silva, Cleilson, Bel. Tiburtino, pelas
conversas e contribuições.
Aos meus amigos do LABVIDA e CONVIO da Universidade Estadual do Ceará (UECE), profa.
Glaucíria Mota, prof. Geovani Jacó, profa. Rosemary Almeida, profa. Paula Brandão, Érica
Santiago, Rebeca Rangel, Bruno Lopes, por todos os momentos de aprendizado e companheirismo.

Aos amigos e pesquisadores do Observatório Mediação Brasil e do Instituto JUSDialogus, pelos


momentos de partilha e despertar para o universo acadêmico e profissional no âmbito da mediação
e das práticas restaurativas.

A todos mediadores comunitários, em especial para os do Núcleo de Mediação Comunitária da


Parangaba e Pirambu, que têm contribuído na efetivação da cultura de paz.
À Família Menfis, pela amizade sincera e acolhida em tantos momentos da minha caminhada por
Vila-real. Miguel e Isabel, dedico este trabalho também a vocês.

7
Às amigas, Dra. Rejane Vieira, Silvana, Dra. Gisele, Dra. Elaine, Flávia, Dona Pedrina, Nicoly,
Anne Marie, Vivian Dan, Giselle Picorelli, Juliana Torres, Rafaela Selem, Marina Simón, Cristina
e Gleiciane que dividiram comigo as angústias em momentos distintos dessa caminhada.
E ao queridíssimo amigo André Rossi (próximo Doutor), por tantas partilhas e acolhidas, o meu
muito obrigada!

Aos médicos, amigos e companheiros de lutas do Instituto do Câncer do Ceará (ICC), minhas
orações e eterna admiração. À Camilinha, Eduardo, Francisco Paulino (In memoriam).
Aos professores Eder Fernandes Monica, Delton Ricardo Soares Meirelles, Thiago Rodrigues
Pereira, Kléver Paulo Leal Filpo pelos valorosos conhecimentos produzidos na área do Direito e
em âmbito Interdisciplinar, pela chance do aprendizado com cada um e por se disponibilizarem a
participar da banca.
Aos professores, Delton Meirelles e Eder Monica, pelas valorosas contribuições realizadas
durante a qualificação.

À minha turma do doutorado (2013), pelas horas de partilha solidária e convivência.


Aos professores e aos amigos-funcionários do Programa de Pós-graduação em Sociologia e
Direito (PPGSD/UFF), pelas contribuições diretas e indiretas neste trabalho.

À Universidade Federal Fluminense (UFF), à Universitat Jaume I (UJI) e à Universidade Estadual


do Ceará (UECE), por serem ambientes de excelência em formação profissional e humana e, que
foram muito relevantes em minha vida acadêmica, onde ingressei e sempre me defrontei com
incentivos e oportunidades de pesquisa e docência.

À CAPES, pelo suporte financeiro que possibilitou dedicação na realização do presente trabalho.

Minha gratidão!

8
Em teu treinamento, não sejas apressado,
pois são necessários no mínimo dez anos
para dominares o que é básico e avançares
para o primeiro degrau. Nunca penses que és
perfeito como mestre e que a tudo conheces;
tens que continuar treinando diariamente com
teus amigos e discípulos para progredirem
juntos na Arte da Paz.
MoriheiUeshiba

9
Miranda, Ana Karine Pessoa Cavalcante. “Mediação policial e gestão de conflitos sociais: novas
orientações para a atuação de uma polícia cidadã?”. Tese de Doutorado. Orientador Professor
Doutor Gilvan Luiz Hansen. Coorientadora Professora Doutora Carmén Lázaro Guillamón.
Niterói: Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, 2017.

RESUMO

As demandas policiais para a administração de conflitos sociais chegam, em muitos locais no


Brasil e na Espanha, a índices superiores a 60% das ocorrências. Nesse cenário, a emergência de
novas possibilidades de compreensão e tratamento dos conflitos sociais para além do método penal
estabelece os alicerces para a constituição de um novo modelo de segurança pública, mais centrado
na prevenção do que na repressão, portanto, na construção de alternativas democráticas e
dialógicas para a gestão dos conflitos e das violências nos espaços da cidade. Constata-se que a
polícia como instrumento de prevenção das violências do cotidiano está infrautilizada e, nesse
contexto, a mediação apresentar-se como uma ferramenta poderosa que pode contribuir para este
fim. Assim, o presente estudo tem como cerne principal analisar e provocar reflexões sobre os
limites e as possibilidades do lugar da mediação de conflitos na atividade policial a partir da
percepção da comunidade e de policiais que integram o efetivo das cidades de Fortaleza – Ceará –
Brasil e de Vila-real – Castellón de la Plana – Espanha, considerando, para tanto, a análise do
processo de construção discursiva entre os atores sociais envolvidos. Para subsidiar este trabalho,
foi realizado levantamento bibliográfico, aplicação de questionários e análise de depoimentos e
narrativas dos sujeitos interlocutores da pesquisa. O estudo revelou como inovadora a inserção da
mediação de conflitos nas práticas policiais por apresentar-se como experiência ousada, pois teve
pretensões de mudar o pensar e o fazer policial na política de segurança pública local. Diante disso,
concluiu ser necessário pensar a intencionalidade das atividades formativas, pois o perfil do novo
policial há que ser balizado na promoção e defesa dos direitos humanos, incluindo nesse viés uma
aproximação com a comunidade através de um bom relacionamento interpessoal e na capacidade
de mediar conflitos sociais.

Palavras-chave: Conflitos sociais. Segurança Pública. Mediação Policial. Comunidade. Brasil-


Espanha.

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Miranda, Ana Karine Pessoa Cavalcante. “Mediação policial e gestão de conflitos sociais:
novas orientações para a atuação de uma polícia cidadã?”. Tese de Doutorado. Orientador
Professor Doutor Gilvan Luiz Hansen. Coorientadora Professora Doutora Carmén Lázaro
Guillamón. Niterói: Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, 2017.

RESUMEN

Las solicitudes a la Policía para la gestión y transformación de los conflictos sociales alcanzan,
en muchas ciudades de Brasil y España, tasas de más del 60% de los casos. En este escenario,
la entrada de nuevas posibilidades para la comprensión y el tratamiento de los conflictos
sociales más allá del método estrictamente judicial y heterocompositivo establece las bases
para el establecimiento de un nuevo modelo de seguridad pública, más centrado en la
prevención antes que la represión y, por lo tanto, en la construcción de alternativas
democráticas y de diálogo para la gestión de conflictos y de las violencias en los espacios de
la ciudad. Se constata que la Policía como un instrumento para la prevención de la violencia
cotidiana está infrautilizada y, en este contexto, la Mediación Policial formal se presenta como
una herramienta poderosa que puede contribuir a este fin. Por lo tanto, el presente estudio
comparativo tiene como objetivo principal analizar y comprender cual es el lugar de la
mediación de conflictos en la actividad de la Policía desde de la percepción de los policías que
integran el efectivo de las ciudades de Fortaleza - Ceará - Brasil y los que integran la Policía
Local de Vila real - Castellón de la Plana - España. Para apoyar este trabajo realizamos un largo
estudio bibliográfico y aplicación de cuestionarios y análisis de los testimonios y relatos de los
sujetos interlocutores de la investigación. El estudio reveló como innovadora la inserción de la
mediación de conflictos en las prácticas policiales por presentarse como una experiencia audaz,
pues tuvo pretensiones de cambiar el pensamiento y el hacer policía en la política de seguridad
pública local. En este sentido, concluyó que era necesario pensar la intencionalidad de las
actividades formativas, pues el perfil del nuevo policía ha de ser balizado en la promoción y
defensa de los derechos humanos, incluyendo en ese sesgo una aproximación con la comunidad
a través de una buena relación interpersonal y en la capacidad de mediar conflictos sociales.

Palabras-clave: Conflictos sociales. Seguridad Pública. Mediación policial. Comunidad. Vila-


real. Fortaleza.

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Evolução do Índice e do Ranking de Paz Global do Brasil e Espanha, período de


2008 a 2017.

Tabela 2 – Cursos oferecidos segundo o ano de ingresso nas instituições.

Tabela 3 – Infracciones penales – Vila-Real, 2015-2016. Hechos conocidos. Capitales de


provincia y municipios mayores de 50.000 habitantes.

Tabela 4 – Victimizaciones por hechos de violência em el Ámbito Familiar, España. Por


comunidades autónomas y provincias, 2012-2016. Total nacional.

Tabela 5 – Comparativo de ocorrências de CVLI, lesão corporal dolosa, ameaça, calúnia,


difamação e injúria na cidade de Fortaleza, de jan/2009 a nov/2017, conforme registros do
SIP/AAESC/SSPDS.

Tabela 6 – Ocorrências de Briga de Família em Fortaleza, período jan/2015–set/2017.

Tabela 7 – Ocorrências de Perturbação do sossego alheio em Fortaleza, período jan/2016–


set/2017.

Tabela 8 – Ocorrências de Embriaguez e Desordem em Fortaleza, período jan/2015–set/2017.

Tabela 9 – Ocorrências de Constrangimento ilegal em Fortaleza, período jan/2015–set/2017.

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LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - Evolução dos homicídios intencionais no Brasil e Espanha, período de 2007 a 2015.

Gráfico 2 - Âmbitos de intervenção da Unidad de Mediación Policial, Ano 2016

Gráfico 3 - Âmbito Judicial – Tipo de intervenção de acordo com a matéria, Ano 2016.

Gráfico 4 - Âmbito Rural – Tipo de intervenção de acordo com a matéria, Ano 2016.

Gráfico 5 - Âmbito Comunitário – Tipo de intervenção de acordo com a matéria, Ano 2016.

Gráfico 6 - Âmbitos de intervenção da Unidad de Mediación Policial, Ano 2016.

Gráfico 7 - Tipo de Intervenção da Unidad de Mediación Policial no período de 2012 a 2016.

Gráfico 8 - Comparativo anual da carga-horária de formação dos policiais da UMEPOL, período 2012
– 2016.

Gráfico 9 - Se você tivesse um conflito com o seu vizinho, você solicitaria que a polícia realizasse a
mediação do seu conflito?

Gráfico 10 - Acredita que para as pessoas de sua cidade, a polícia os transmite confiança?

Gráfico 11 - Você conhece algum serviço de Mediação Policial?

Gráfico 12 - Quando surge um conflito em seu bairro, você.

Gráfico 13 - Para as pessoas de seu bairro, a polícia é.

Gráfico 14 - Em sua opinião, quais são as características de um bom policial?

Gráfico D1: Você conduz/já conduziu um processo de mediação de conflitos?

Gráfico D2: O seu curso de formação apresentou a disciplina de mediação de conflitos?

Gráfico D3: A disciplina mediação de conflitos foi relevante para a sua formação e atuação como
policial?

Gráfico D4 – Percepção dos policiais e membros de associação de bairro sobre os conflitos mais comuns
no seu dia a dia.

Gráfico D5 - Se você tivesse um conflito com o seu vizinho, você solicitaria que a polícia realizasse a
mediação do seu conflito?

Gráfico D6 - Acredita que para as pessoas de sua cidade, a polícia os transmite confiança?

Gráfico D7 - Você conhece algum serviço de Mediação Policial?

Gráfico D8 - Quando surge um conflito em seu bairro, você:


Gráfico D9 - Para as pessoas de seu bairro, a polícia é:

Gráfico D10 - Em sua opinião, quais são as características de um bom policial?

13
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Localização geográfica da Cidade de Vila-real.

Figura 2 – Mapa das áreas da Cidade de Vila-real.

Figura 3 – Folder da Carta de Serviços da Unidade de Mediação Policial de Vila-real.

Figura 4 – Localização geográfica e imagens da cidade de Fortaleza-Ceará-Brasil.

Figura 5 – Mapa das Áreas Integradas de Segurança da cidade de Fortaleza, 2017.

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LISTA DE APÊNDICES

Apêndice A - Questionário aplicado aos Policiais (versão em português)

Apêndice A - Questionário aplicado aos Policiais (versão em espanhol)

Apêndice B - Questionário aplicado aos Membros de Associações de Bairro (versão em


português)

Apêndice B - Questionário aplicado aos Membros de Associações de Bairro (versão em


espanhol)

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LISTA DE ANEXOS

Anexo A - Núcleo de soluções consensuais (NUSCON) da Controlador-Geral de Disciplina


(CGD).

Anexo B – Levantamento de dados estatísticos junto a Sistema Estatístico de Criminalidade.

Anexo C – Levantamento de dados na Assessoria de Estatística da Secretaria de Segurança


Pública.

Anexo D - Protocolo operativo do agente

Anexo E - Protocolo operativo do grupo de mediação

Anexo F - Instrumental de procedimentos da UMEPOL

Anexo G – Resposta dos policiais ao questionário aplicado nas cidades de Vila-real (Espanha)
e Fortaleza (Brasil), Período 2016 – 2017.

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LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

ADR ─ Alternative Dispute Resolution


BO ─ Boletim de Ocorrência
CIOPS ─ Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança
CMC ─ Casa de Mediação Comunitária
CNPq ─ Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
COVIO ─ Laboratório de Estudos da Conflitualidade e Violência
CPC ─ Código de Processo Civil
DP ─ Distrito Policial
EFOPOL ─ Escuela de Formación de la Polícia Local de Vila-real
FEQ ─ Fundação Edson Queiroz
FINEP ─ Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência e Tecnologia
FUNCAP ─ Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico
GMF ─ Guarda Municipal e Defesa Civil de Fortaleza
IBPS ─ Instituto Brasileiro de Pesquisa Social
IPEA ─ Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
IVASPE ─ Instituto Valenciano de Seguridad Pública y Emergencias
LABVIDA Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética
LEV ─ Laboratório de Estudos da Violência
MERCOSUL─ Mercado Comum do Sul
MJ ─ Ministério da Justiça
MP ─ Ministério Público
NEV ─ Núcleo de Estudos da Violência
NMC ─ Núcleo de Mediação Comunitária
PM ─ Policial Militar
PMCE ─ Polícia Militar do Ceará
PMF ─ Prefeitura Municipal de Fortaleza
PNDH ─ Programa Nacional de Direitos Humanos
PROBIC ─ Programa de Bolsas de Iniciação Científica
PRONASCI ─ Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania
SBPC ─ Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
SEC ─ Sistema Estadístico de Criminalidad
SENASP ─ Secretaria Nacional de Segurança Pública
SSPDC ─ Secretaria de Segurança Pública e Defesa da Cidadania
SSPDS ─ Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social
SUSP ─ Sistema Único de Segurança Pública
TCO ─ Termos Circunstanciados de Ocorrência
TRT─ Tribunais Regionais do Trabalho
UECE ─ Universidade Estadual do Ceará
UFF ─Universidade Federal Fluminense
UJI ─ Universitat Jaume I
UMEPOL ─ Unidad de Mediación Policial
UNB ─ Universidade de Brasília
UNIFOR ─ Universidade de Fortaleza
Unisegs ─Unidades Integradas de Segurança
USP ─ Universidade de São Paulo

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
1.1 Aproximações iniciais
1.2 Sujeitos em movimento: a construção de uma estratégia metodológica

2. O CONFLITO — ¡VAYA MARRÓN!


2.1 Conflito e reação
2.2 Abordagem dos conflitos

3. SEGURANÇA PÚBLICA— ¿QUÉ PASA?


3.1 Práticas de criminalidade
3.1.1 Políticas de prevenção à má administração dos conflitos sociais
3.2 Políticas de segurança pública e formação policial: desafios e estratégias de prevenção e
controle da criminalidade
3.3 Diretrizes da Segurança Cidadã

4. MEDIAÇÃO—¡YA, NO PASA NADA!


4.1 Fatores que motivaram a aplicação da mediação na Espanha e no Brasil
4.2 Mediação em Espanha
4.2.1 Do Procedimento de Mediação na Espanha
4.3 Mediação no Brasil
4.3.1 Do Procedimento de Mediação no Brasil
4.3.2 Da Mediação Extrajudicial
4.3.3 Do Procedimento de Mediação Judicial
4.4 Princípios basilares da medição: análise da legislação espanhola
4.5 Os princípios da mediação no Brasil pela lei n° 13.140/2015
4.6 Do Mediador no Direito Comparado
4.7 Rumos da medição de conflitos

5. MEDIAÇÃO POLICIAL —¿(A)DÓNDE VAMOS?


5.1 Polícia e comunidade
5.2 O Policial-Mediador
5.2.1 Agente de autoridade e mediação: uma mudança de papel, cultura e paradigma?

6. TRASPASSANDO FRONTEIRAS RUMO À MEDIAÇÃO POLICIAL? ANÁLISE


EMPÍRICA VILA-REAL (ESPANHA) e FORTALEZA (BRASIL)
6.1 Vila-real – Castellón de la Plana - Espanha
6.1.1 Contexto Jurídico
6.1.2 Contexto Sociológico
6.1.2.1 Algumas Percepções – Vila-real
6.2 Fortaleza – Ceará - Brasil
6.2.1 Contexto Jurídico
6.2.2 Contexto Sociológico
6.2.2.1 Algumas Percepções - Fortaleza
6.3 (Des)encontros?

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS
APÊNDICES
ANEXOS

18
1. INTRODUÇÃO

1.1 Aproximações iniciais

O presente estudo comparado tem como cerne principal analisar como a “política de
mediação”1foi pensada e está sendo executada na política de segurança pública e, dentro desse
prisma, provocar reflexões sobre os limites e as possibilidades do lugar da mediação de conflitos
na atividade policial a partir da percepção da comunidade e de policiais que integram o efetivo das
cidades de Vila-real – Castellón de la Plana – Espanha e de Fortaleza – Ceará – Brasil,
considerando, para tanto, a análise do processo de construção discursiva entre os atores sociais
envolvidos e sua associação com esse “novo” modelo de gestão da conflitualidade social
contemporânea.

Nessa perspectiva, cumpre observar que grande parte dos conflitos do dia a dia não
constitui fato típico criminal, como se pode verificar nos registros dos boletins de ocorrências das
delegacias, nos registros dos atendimentos da Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança
(CIOPS)2 e no Sistema Estadístico de Criminalidad (SEC)3 ─ são conflitos interpessoais e acabam
generalizadamente como questão de polícia. As demandas policiais para a administração de
conflitos sociais chegam, em muitos locais no Brasil e na Espanha, a índices superiores a 60%4, o
que distancia os trabalhos de segurança pública de situações mais prementes. E, o mais grave: os
profissionais da área de segurança pública não estão suficientemente "capacitados" a trabalharem
nesses contextos, o que leva muitas vezes à sensação de impunidade e a reincidência, o que amplia
o sentimento da população de ineficácia e de infinitude dos serviços públicos, além de insatisfação
por seus prestadores.

Os instrumentos tradicionais5 de administração de conflitos sociais não têm demonstrado


eficácia para gerar transformação do padrão relacional a ponto de evitar a reincidência e o
crescimento da violência, muitas vezes impondo o uso do poder e da força, num itinerário de

1
Para maior aprofundamento, ver Beleza (2009, p. 66-71); Brasil (2008B) e Sales (2004, 2007).
2
A Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (CIOPS) está vinculada à Secretaria da Segurança Pública e
Defesa Social (SSPDS) do Estado do Ceará, setor que recebe as ligações da população por meio do número de
emergência 190 e compila as ocorrências que ingressam nos distritos policiais.
3
Este sistema veio substituir o Programa Estadístico de Seguridad (PES), efetivo até dezembro do ano de 2007. Os
dados coletados no SEC são relativos às ações policiais a partir das quais a instrução de atestados é realizada. O
processo de coleta de dados é realizado por meio de dois arquivos de computador padronizados (ações policiais e
responsáveis). Essas informações são recolhidas com o propósito fundamental de obter uma compreensão da realidade
criminal do país espanhol.
4
Dados de natureza informativa, colhidos em todo o Brasil junto aos policiais e guardas que participaram das 11
edições do Curso Nacional de Multiplicadores de Polícia Comunitária, em 2006. (BRASIL, 2007c, p. 338). Na
Espanha, essa taxa se confirma nas estatísticas e nos registros da Unidad de Mediación Policial de Vila-real.
5
Os instrumentos tradicionais aqui referidos são: o Poder Judiciário, os dispositivos policiais, o uso da violência ou da
força.

19
retroalimentação, que fomenta ainda mais esse ciclo vicioso. Isso quando não há o recorrente e
indevido envolvimento do agente policial, que acaba enredado pelo contexto de conflito e de
violência, passando a dele fazer parte.

Nesse ínterim, com vistas a um controle social democrático, a política de mediação de


conflitos inscreve, no plano da Segurança Pública, a cidadania ativa para a transformação e a
administração dos conflitos sociais em seu nascedouro (a comunidade), evitando a eclosão de
episódios de violência e de crime. De um lado, como um instrumental de auxílio na intervenção
dos profissionais da área de segurança pública, nos momentos em que o confronto não se faça
necessário e, de outro, como meio à sua integração junto às ações comunitárias, dos gestores
públicos e operadores do direito.

Tem-se como horizonte o alargamento conceitual da questão da segurança pública por


meio do qual se deslocou o enfoque do controle repressivo-penal do crime para uma concepção
preventiva da violência e da criminalidade, assente no desenvolvimento de políticas integrais e
protetivas de direitos, privilegiando o caráter interdisciplinar, pluriagencial e comunitário6. De
acordo com Zacchi (2002, p. 43) há o possível surgimento de um novo paradigma no
enfrentamento da violência e criminalidade e “neste, o foco recai sobre os esforços de elaboração
de modelos mais abrangentes e potencialmente eficazes de prevenção da violência”,
principalmente por esforço s de setores da sociedade civil e Universidades dedicadas “ao estudo
da criminalidade e/ou ao desenvolvimento de estratégias para o seu enfrentamento”.

Trata-se, pois, de revisitar não só os conceitos, mas o exercício de cidadania associado à


educação em direitos humanos, na definição das políticas públicas em vista da formação dos
profissionais da área de segurança pública.

Nesse contexto de discussão, o que nos interessa é compreender como a proposta da


política de mediação de conflitos foi introduzida na atividade policial daqueles que integram o
efetivo das policiais nas cidades de Vila-real (Espanha) e Fortaleza (Brasil), bem como, revelar as
percepções dos sujeitos participantes da pesquisa — polícia e comunidade —. Nesse cenário, não

6
Ver BARATTA, Alessandro. La politica criminal y el Derecho Penal de la Constitución: nuevas reflexiones sobre el
modelo integrado de las Ciencias Penales. In: Revista de La Facultad de Derecho de La Universidad de Granada,
nº 2, 1999, p. 89-114; BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: introdução à
Sociologia do Direito Penal. Editora Revan: Rio de Janeiro, 2002; GARLAND, David. La Cultura del Control:
crimen y orden social en la sociedad contemporánea. Barcelona: Editorial Gedisa, 2005; DIAS NETO, Theodomiro.
Segurança Urbana: o modelo da nova prevenção. São Paulo: RT, 2005.

20
se pode deixar de considerar a parceria realizada entre os núcleos de formação de polícia e a
Universidade.

A seguir, apresentaremos a construção da trajetória metodológica utilizada para a


consecução deste objetivo.

1.2 Sujeitos em movimento: a construção de uma estratégia metodológica

Minha aproximação com as temáticas da pesquisa, mediação de conflitos, segurança


pública e atividade policial se deu, respectivamente, em dois momentos distintos da minha vida
acadêmica. No ano de 2003, cursando a graduação em Direito, iniciei minhas primeiras atividades
de pesquisa, quando bolsista do Programa de Bolsas de Iniciação Científica da Fundação Edson
Queiroz (PROBIC/FEQ/UNIFOR), no projeto de pesquisa “A mediação comunitária como
instrumento de inclusão social: a experiência das Casas de Mediação no Estado do Ceará”, sob
orientação da professora Dra. Lília Maia de Morais Sales. À época, enfrentei o desafio de explorar
esse tema (mediação de conflitos) ainda pouco estudado, realizando uma pesquisa de campo junto
às Casas de Mediação Comunitária do Estado do Ceará, mais especificamente nas Casas
localizadas nos bairros Pirambu e Parangaba, na cidade de Fortaleza. No ano seguinte, fui
convidada por minha orientadora a assumir, como voluntária, a coordenação da Casa de Mediação
Comunitária (CMC) de Parangaba.

A partir dessas oportunidades, paralelamente, fui vivenciando dois mundos distintos


(acadêmico e profissional) que se entrelaçavam e se encontravam em minhas leituras e práticas
cotidianas. Meu entusiasmo pela pesquisa foi se confirmando, pois durante essa trajetória pude
desenvolver o interesse pelo estudo teórico, alinhado aos fenômenos sociais observados no
“universo da mediação”.

O dia a dia na Casa de Mediação me revelava mundos particulares tomados por


sociabilidades complexas. Esses mundos eram explorados pela escuta sutil e singular dos
mediadores comunitários que davam prova da capacidade humana de atuar e operar em favor do
bem comum. O mediador atua no sentido de favorecer o encontro dos mundos conflitantes,
oferecendo chances ao diálogo, até que consigam, por si mesmos, estabelecer possibilidades de
convivência. A disposição de mudar e de procurar ressignificar os focos determinantes do conflito
passa a ser de cada indivíduo.

Na função de coordenadora/mediadora na Casa de Mediação de Parangaba, passei a


observar que, diariamente, pessoas eram encaminhadas à CMC munidas de boletins de ocorrências

21
(BO) registrados nos distritos policiais. A maioria das pessoas apresentava dois ou três registros
de ocorrências relacionados aos conflitos que estavam vivenciando: “Uma querela de vizinhos?
Uma cena doméstica um pouco violenta? Uma mãe que faz escândalo para ver a filha da qual não
tem mais a guarda?” (SIX, 2001, p. 186).

Comecei a questionar qual seria o motivo de essas demandas não alcançarem desfecho
satisfatório para as partes no aspecto da resolução do conflito. Em muitos relatos, percebi que os
conflitos não eram bem administrados nem pelas pessoas envolvidas nem pelos profissionais
responsáveis pela “manutenção da lei e da ordem”. E as consequências disso logo podiam ser
observadas: os conflitos se potencializavam no dia adia até adquirir proporções de grave violência,
de crime. Mais um dado que entraria nas estatísticas da criminalidade, mais uma notícia de jornal
sobre a violência no Estado do Ceará.

Nesse contexto, quais são as contendas das políticas da segurança pública e da formação
policial? Quais os desafios e estratégias de prevenção e controle da criminalidade? Como as
polícias (militar e civil) estão diante do grande número de conflitos sociais que aumentam
diariamente? Esses policiais estão capacitados para atuar diante da dinâmica e complexa
conflitualidade social? O “sistema de educação policial” está sendo pensado e implementado nos
“moldes da sociedade brasileira contemporânea e segundo os valores do estado democrático de
direito”? (TAVARES-DOS-SANTOS, 2009, p. 114). Esses foram alguns dos questionamentos
iniciais que despertaram meu interesse em estudar a formação dos profissionais da área de
segurança pública.

Posteriormente, sob orientação da professora Lília Sales, participei como pesquisadora


dos projetos de pesquisa de extensão tecnológica “Centro de direitos e cidadania: espaço de acesso
à justiça, pacificação e inclusão social” (2007), “Mediação de conflitos e segurança pública: uma
proposta de justiça restaurativa7” (2008-2009) e “A mediação de conflitos como instrumento de
inclusão e pacificação social: a proposta de implementação da mediação na Secretaria de
Segurança Pública do Estado do Ceará8” (2008), tendo como instituição financiadora a Fundação

7
Este projeto foi contemplado com o Edital 05/2008 de Segurança Pública da Fundação Cearense de Apoio ao
Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FUNCAP, cujo objetivo foi apresentar um estudo da prevenção terciária
por meio da análise de práticas e políticas legais que promovam a reinserção social e a redução de reincidências
criminais, utilizando-se o instituto da justiça restaurativa, isto é, da mediação de conflitos penais como instrumento
democrático de resolução de conflitos e inclusão social.
8
Esse projeto foi contemplado com o Edital Universal do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e tem por objetivo
desenvolver uma tecnologia social que bem administre os conflitos sociais em Fortaleza, com a participação direta da
população e de policiais civis e militares, contribuindo para a diminuição da violência urbana e para o fortalecimento
dos vínculos de confiança entre os atores envolvidos. Sobre a pesquisa, ver NUNES, Andrine Oliveira. Segurança
pública e mediação de conflitos: a possibilidade de implementação de núcleos de mediação na Secretaria de Segurança

22
Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP). Considero a minha
participação nos projetos da FUNCAP como um marco divisório para a minha inserção no mundo
da pesquisa social, isto porque foi por meio deles que pude aprofundar, especificamente, as
temáticas mediação de conflitos e segurança pública e, a partir de então, direcionar as minhas
indagações e hipóteses sobre a formação policial realizada no Brasil e no Estado do Ceará.

O objeto, aqui delineado, emergiu do conjunto de observações acumuladas na função


de coordenadora/mediadora junto à Casa de Mediação Comunitária de Parangaba (2004-2008),
de experiências com grupos de estudos9 no desenvolvimento de pesquisas sobre políticas de
segurança, formação policial, direitos humanos, mediação de conflitos e acesso à justiça e da
vivência como docente da disciplina “Mediação de Conflitos”, em cursos de capacitação 10 para
equipes multidisciplinares e mediadores comunitários e em cursos de formação11 e
aperfeiçoamento12 de profissionais das áreas da segurança pública e judiciária do Estado do
Ceará.

Inserida no Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (LABVIDA/UECE),


ainda pude me apropriar dos resultados de outras pesquisas que foram ou estavam sendo realizadas
pelo Laboratório, como as pesquisas “Os impactos da nova formação policial no programa ‘Ronda
do Quarteirão’: uma experiência inovadora de policiamento comunitário?” (2008-2010), com
financiamento da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(FUNCAP) e “Cartografia da Criminalidade e da Violência na cidade de Fortaleza” (2009-2010),
com financiamento do Ministério da Justiça (MJ), da Secretaria Nacional de Segurança Pública
(SENASP) e da Prefeitura Municipal de Fortaleza (PMF).

Pública e Defesa Social do Estado do Ceará. Dissertação – Mestrado em Direito Constitucional, Universidade de
Fortaleza, Fortaleza, 2010.
9
Grupo de estudo Direitos Humanos e Políticas de Segurança Pública do Laboratório de Direitos Humanos,
Cidadania e Ética (LABVIDA/UECE) e Grupo de Estudos Interinstitucionais em Análise e Psicologia Jurídica (G-
TEIAPSI) da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC).
10
“Curso de Capacitação em Mediação de Conflitos e Direitos Humanos” para novos mediadores comunitários,
promovido pelo Ministério Público do Estado do Ceará (2008-2009); “Curso de Capacitação em Mediação de
Conflitos” para agentes comunitários de direito do Projeto Advocacia Popular, promovido pela Cáritas Brasileira
Regional Piauí (2008).
11
“Curso de Formação para Agentes Penitenciários” (2007); “Curso de Formação e Treinamento Profissional de
Escrivão de Polícia Civil de 1ª Classe” (2008); “Curso de Formação da Guarda Municipal e Defesa Civil de
Fortaleza” (2008); “Curso de Formação Profissional para Delegados de Polícia Civil de 1ª Classe” (2009); “Curso de
Capacitação em Técnicas de Conciliação e Mediação de Conflitos” (2008); “III Curso de Formação Inicial de Juízes
Substitutos” (2009).
12
“Curso de Aperfeiçoamento em Mediação de Conflitos” (2009), realizado na Universidade de Fortaleza, para
formação de agentes da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará. A disciplina “Mediação
de Conflitos na Prática” contou com a carga horária de 30 horas/aula e teve como corpo discente 54 (cinquenta e
quatro) profissionais da área da segurança pública, sendo 26 (vinte e seis) policiais militares; 19 (dezenove) policiais
civis; 7 (sete) peritos forenses e 2 (dois) guardas municipais.

23
Posteriormente, com minha participação como bolsista de mestrado13 do CNPq, no
projeto de pesquisa “Os limites e potencialidades da nova formação policial nas parcerias das
Academias de Polícia com a Universidade no Ceará”, financiada pelo Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (2008-2011), sob a coordenação e orientação
da professora Maria Glaucíria Mota Brasil. Nessa oportunidade, interessou-me compreender como
a proposta da política de mediação de conflitos foi introduzida no curso de formação da primeira
turma de policiais militares que integraram o Programa Ronda do Quarteirão no ano de 2007,
tendo em vista que o objetivo era comparar o material utilizado para a formação na disciplina de
mediação de conflitos no referido curso (ementa, apostila e proposta do curso) e os referenciais
que orientam a formação dos agentes de segurança, ou seja, a Matriz Curricular Nacional. O estudo
revelou conteúdos e textos sem embasamento teórico-científico para a finalidade proposta pela
disciplina, que, à época, mostrou-se ousada, apresentando-se como um ensaio inicial para os
cursos de formação que estariam por vir, pois havia pretensões de mudar o pensar e o fazer policial
na política de segurança pública estadual. Concluindo-se ser necessário pensar a intencionalidade
das atividades formativas, pois o investimento no capital humano e a valorização profissional
tornam-se imprescindíveis para atender as demandas que estão colocadas pela sociedade para as
políticas de segurança pública e os desafios que estão postos às organizações policiais.

Consciente que discutir as instituições policiais requer verdadeiramente a construção de


um saber interdisciplinar, dediquei-me a buscar o ingresso no curso de doutorado do Programa de
Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense (PPGSD/UFF). E
no ano de 2013, já como aluna14 do PPGSD, sob orientação do professor Gilvan Luiz Hansen,
continuei a me aprofundar no universo das palavras escritas, de textos, de artigos e de livros sobre
a temática chave deste trabalho – atividade policial e mediação de conflitos – por acreditar que se
deve conhecer muito bem aqueles a quem vamos pesquisar e as diferentes realidades que os
envolvem, não apenas no recorte de nossa pesquisa, mas também em um contexto nacional e
internacional, por isso passei a também visitar experiências e pesquisar resultados de estudos sobre
a mesma temática em outros estados (Minas Gerais e Rio de Janeiro) e países (Espanha e
Colômbia) para, assim, confrontar tais realidades e verificar quais semelhanças, diferenciais e
limites são impostos à prática de mediação policial no Brasil.

13
Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade da Universidade Estadual do Ceará (MAPPS/UECE)
realizado no período de 2009 a 2011.
14
Momento que tive a oportunidade de participar do Grupo de Pesquisa Democracia, Cidadania e Estado de Direito -
UFF/CNPq, sob coordenação e orientação do professor Dr. Gilvan Luiz Hansen, que despertou meu interesse por
Jürgen Habermas e sua Teoria da Ação Comunicativa.

24
Cabe comentar que, nos primeiros dias do ano de 2014, tomei conhecimento do I
Congreso Iberamericano de Mediación Policial15que ocorreria na cidade de Vila-real, Espanha.
Por ser a temática de interesse de estudo de minha tese de doutorado, vislumbrei a participação
nesse evento como uma oportunidade de conhecer e interagir com outros estudiosos e polícias de
vários países que estariam presentes partilhando suas experiências na área.

Ao participar do Congresso, estabeleci meu primeiro contato com a Polícia Local da


cidade de Vila-real que revelou — “otra forma de HACER POLICÍA”16 —, diferente do modelo
tradicional de atuação ao qual estava acostumada no Brasil.

Meses após o referido Congresso, recebi o convite para integrar o primeiro grupo de
participantes externos no I Curso de Especialista en Mediación Policial17promovido pela Policía
de Vila-real (Espanha). No Curso, realizado de 07 de julho a 08 de agosto do ano de 2014 18, nas
dependências da Jefatura da Polícia Local e que contou com uma carga-horária de 110 horas-aula,
foi oferecido um espaço de debate e análise multidisciplinar teórica e prática sobre mediação
policial como um novo paradigma para a gestão de conflitos sociais.

Somando-se às reflexões que vinham sendo realizadas ao longo de minha trajetória como
pesquisadora, o conhecimento adquirido durante o Curso aguçou em mim um novo olhar para o
agente policial e sua atividade, direcionando-me a realizar o presente estudo empírico — Vila-real
(Espanha) e Fortaleza (Brasil)19.

Ao definir a política de mediação e sua interface com os limites e as possibilidades da


atividade policial como foco de minhas análises, não tive pretensão de fazer um acúmulo de
informações que levasse a um “atalho maravilhoso” (Malinowski, 1976 apud Lopes Sousa, 2008),
mas de responder algumas indagações que nortearam o presente trabalho: A atividade policial tem

15
O I Congresso Iberoamericano de Mediação Policial, que ocorreu de 29 a 31 de janeiro de 2014, nasceu da
experiência anterior de dois congressos nacionais realizados em 2010 e 2012 e do trabalho realizado pela Unidade de
Mediação Policial desde a sua criação em 2004, em Vila-real. Dez anos depois, a experiência da unidade local abre a
esfera iberoamericana neste primeiro congresso internacional sobre mediação policial.
16
Slogan adotado pela Polícia Local de Vila-real.
17
O Curso foi realizado de 07 de julho a 08 de agosto do ano de 2014, nas dependências da Jefatura da Polícia Local
e contou com uma carga-horária de 110 horas-aula.
18
Dois anos depois, tive a oportunidade de receber da profa. Carmen Lázaro, ditectora da Cátedra de Mediación
Policial e docente da Universitat Jaume I, o convite para participar da seleção do doutorado da referida universidade.
No final do ano de 2016, ingressei no do Programa de Doctorado en Derecho sob orientação da profa. Carmen Lázaro.
19
Diversos fatos densamente entrelaçados (Geertz, 1989) possibilitaram dar continuidade aos estudos e pesquisas sem
deslocar o foco das lentes de uma temática mais ampla: as políticas de segurança pública e sua contribuição na
construção e fortalecimento democrático no Brasil.

25
acompanhado as “novas” atribuições dos profissionais da área de segurança pública que são
determinadas pela dinâmica dos fenômenos sociais? Existe relação entre segurança pública,
atuação policial e mediação de conflitos? Qual é o lugar da mediação de conflitos na atividade
policial? A cultura policial está madura para resolver conflitos a partir do uso do poder mínimo?
Pode um policial realizar mediação em quais situações? Quais situações o policial observa no atual
cenário da mediação policial? Qual o marco legal da mediação policial? Como se dá a relação
entre polícia e comunidade? A mediação de conflitos é reconhecida pela comunidade como uma
prática policial e classificada como um mecanismo de promoção da cultura de paz? A mediação
policial é a mediação “padrão”20 praticada pela polícia?

Trabalhei com a hipótese de que a gestão de conflitos sociais possui uma complexidade
própria e se uma instituição própria do Estado, a polícia, seria capaz de atuar como mediadora
destes conflitos, assim, a questão principal é: a mediação policial pode ser considerada um novo
modelo de gestão da conflitualidade social contemporânea? Ou seja, tendo em vista tal
complexidade, é possível que se insira a mediação policial como uma nova orientação para a
atuação de uma polícia cidadã na administração dos conflitos sociais?

Pensar em mudanças nas estratégias de policiamento é reconhecer que algo não está
funcionado bem e necessita ser reformulado. Estas mudanças ganham destaque no cenário
contemporâneo e são reveladoras de fragilidades e deficiências de um modelo ultrapassado de
pensar e fazer segurança pública, caracterizado pela falta de sistematicidade, contínuas crises,
ações gerenciadas de modo imediato e isoladas. Há que se considerar, neste contexto, uma
necessidade de ampliar as discussões por meio de estudos e pesquisas em torno de questões
diversas e adversas que possibilitem uma articulação entre políticas de segurança, inovações no
policiamento e processos participativos. Por quê? Pela importância que a temática da reforma nas
instituições policiais assumiu na ordem do dia, como demanda urgente, prioritária e inadiável,
considerando as condições que podem possibilitar aberturas à participação e organização
comunitária nas decisões e nos rumos das políticas de segurança pública.

20
Na compreensão dos policiais, a prática da mediação “padrão” está diretamente associada à realização de uma
simples conversa em que “um bom conselho ou sugestão” orientaria para uma mudança de atitude das partes
conflitantes. Six (2001, p. 262) indica que “são muitos os sinais que mostram, no lugar de uma verdadeira formação,
múltiplas deformações à mediação”. Considera-se como mediação “padrão”, àquela que é conduzida de forma
intuitiva, fruto da ausência de uma formação policial direcionada e adequada à gestão dos conflitos; não há uma
compreensão sistemática e metodológica da prática.

26
O presente estudo ousa trazer contribuições não baseadas em ingenuidades e certezas,
mas que, a partir de aproximações sucessivas com a realidade empírica, poderá (re)formular
análises, lançar reflexões, questionamentos e, com novas interpretações, colaborar para a produção
de um conhecimento específico, bem como contribuir para as discussões em torno das políticas
de segurança pública, a partir de uma realidade local e datada, com suas especificidades e
complexidades.

O percurso metodológico utilizado faz uso de técnicas predominantemente de natureza


qualitativa, por permitir ao pesquisador “compreender os indivíduos em seus próprios termos”
(GOLDENBERG, 2003, p. 53), fornecendo-lhe uma melhor análise das perspectivas dos
participantes, seus pontos de vista e suas inter-relações com o fenômeno analisado.

Para tanto, a pesquisa, que subsidia o presente trabalho, foi realizada em cinco momentos
específicos. O primeiro momento é voltado à revisão de literatura no âmbito da sociologia do
conflito, da polícia, das políticas de segurança, da formação policial e mediação de conflitos.

O segundo momento foi destinado à observação direta21, por meio de pesquisa de campo e
visitas às associações de bairros e às sedes de Companhias da Polícia Militar, circunscritas dentro
das10 (dez) Áreas Integradas de Segurança (AIS) que está dividida a cidade de Fortaleza – CE, além
de desenvolver iguais percursos durante estadias na cidade de Vila-real entre os anos de 2014-2016.
Inicia-se um compartilhar consciente e sistemático, conforme as circunstâncias me permitiam, nas
atividades diárias e, eventualmente, nos interesses e afetos daquele grupo de pessoas. A partir da
aproximação com a realidade empírica, uma relação foi estabelecida entre observador e observados,
alterando a rotina procedimental do ambiente organizacional.

No terceiro momento, a pesquisa fez uso da coleta de dados primários, que teve como
instrumental o questionário22(Apêndice A e B) que foi aplicado a partir da abordagem de 154
pessoas de ambos os sexos; sendo um total de 120 policiais (60 em cada país) e 34 membros de
associações comunitárias das cidades de Vila-real-Castellón de la Plana-Espanha e Fortaleza-
Ceará-Brasil. A aplicação dos questionários foi realizada em diferentes horários e dias da semana,
em vários pontos de cada cidade.

Destaca-se que, o trabalho de campo nos permite aproximações singulares, do


pesquisador com uma dada realidade sobre a qual formula hipóteses, mas também estabelece

21
Esse momento de observação foi auxiliado pelo uso do diário de campo com a finalidade de suplementar com mais
riqueza de detalhes os relatos e as dinâmicas do trabalho policial.
22
Os questionários abordaram as temáticas: o ingresso à instituição, a mediação de conflitos no âmbito da segurança
pública e a formação policial.

27
interações com os sujeitos que compõem aquela realidade e, assim, tece as indagações e a rede de
conhecimentos empíricos relevantes nesse processo de dissertação do conhecimento.

Além disso, o presente trabalho faz uso de dados secundários referentes ao número de
ocorrências classificadas na pesquisa “Cartografia da Criminalidade e da Violência na Cidade de
Fortaleza” (2009-2010) como relações conflituosas23. A categoria “relações conflituosas” foi
escolhida por manter ligação e melhor se adequar à aplicação do procedimento da mediação de
conflitos24. O trabalho, também, fez uso dos dados coletados durante a pesquisa “Mediação de
conflitos e segurança pública: uma proposta de justiça restaurativa?”, que foram fornecidos pela
Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (CIOPS) da Secretaria de Segurança Pública
e Defesa Social (SSPDS/CE), referente aos registros das ocorrências policiais (roubo a pessoa,
desordem, briga de família, briga de gangues, embriaguez e desordem) na Grande Fortaleza, no
período de 2000 a 2008, de acordo com os bairros de maior incidência. Além de dados de
estatísticas criminais da cidade de Fortaleza, relativo ao período de 2009 a setembro de 2017,
fornecidos pela Assessoria de Análise Estatística e Criminal (AAESC/SSPDS) e da cidade de Vila-
real, levantados junto à Unidad de Mediación Policial (UMEPOL) e ao Sistema Estadístico de
Criminalidad (SEC) do Ministério do Interior da Espanha.

Dessa forma, são utilizadas técnicas compatíveis com a natureza da pesquisa, que se
apresenta quanti-qualitativa, por entender que o objeto de estudo está imbricado em relações
sociais subjetivas e por compreender que os indicadores numéricos possibilitam consistência na
observação dos fenômenos. No entanto, ressaltamos que prevalece a natureza qualitativa da
pesquisa.

No quarto momento foi possível realizar uma análise e estudo comparado entre o que está
presente no contexto sociológico e jurídico da mediação policial, a partir do estudo de documentos
oficiais e legais de cada ordenamento jurídico, além da legislação pertinente às Forças de
Segurança Pública de cada país. Assim, como também, faz-se uso das observações realizadas e
dos dados coletados ao longo da pesquisa por meio dos questionários.

23
A categoria relação conflituosa compreende os seguintes delitos penais: calúnia, difamação, injúria, ameaça,
preconceito de raça ou cor, rixa, etc.
24
Faz-se uso, ao longo desta pesquisa, da categoria “mediação de conflitos” para diferenciar este procedimento de
todos os outros sentidos com que a palavra mediação é usada e abusada. O conceito que será utilizado para caracterizar
a mediação e/ou mediação de conflitos é apresentado por Vezzulla (2004, p. 64) como “o procedimento privado e
voluntário coordenado por um terceiro capacitado, que orienta seu trabalho para que se estabeleça uma comunicação
cooperativa e respeitosa entre os participantes, com o objetivo de aprofundar na análise e compreensão do
relacionamento, das identidades, necessidades, motivações e emoções dos participantes, para que possam alcançar
uma administração satisfatória dos problemas em que estão envolvidos.”.

28
Ao longo deste estudo, serão apresentadas percepções e depoimentos concedidos por
policiais integrantes do efetivo da polícia e por membros de associações de bairro das cidades de
Vila-real e Fortaleza, que participaram da pesquisa como interlocutores, optando-se pela não
definição de uma dada área e consequente preservação da identidade dos policiais, evitando-se
possíveis exposições.

O quinto e último momento foi destinado à discussão e análise empírico-comparativa,


tendo como cerne principal analisar e provocar reflexões sobre os limites e as possibilidades do
lugar da mediação de conflitos na atividade policial a partir da percepção da comunidade e de
policiais, considerando, para tanto, aos depoimentos e falas de pessoas com diferentes visões e
compreensões sobre o exercício das atividades de mediação no âmbito da segurança pública em
Vira-real e Fortaleza.

Podemos afirmar, em vista disso, que este estudo constitui-se em um exercício de


bricolage25 intelectual por meio do qual se pretende articular elementos de diversos campos do
conhecimento (conflitos sociais, mediação de conflitos, segurança pública, atividade policial),
presentes ao longo de minha formação acadêmica (em Ciências Jurídicas e Ciências Sociais
Aplicadas), com uma postura de análise comparada da política de mediação na política de
segurança pública espanhola e brasileira.

O presente trabalho desenvolve-se em sete capítulos. O capítulo primeiro servirá para


tratar das questões metodológicas e esclarecer os motivos e implicações da escolha pela pesquisa
empírica e do próprio campo estudado. Assim, os itens do capítulo buscam apresentrar as
aproximações iniciais, justificativas e as opções metodológicas da pesquisa.

O segundo faz uma discussão aborda a sociologia do conflito, fazendo uma reflexão sobre
os conflitos (reação e abordagem) e as relações sociais.

25
O termo é utilizado por Lévi-Strauss para desmistificar a concepção etnocêntrica e evolucionista que tratava as
sociedades “primitivas” segundo a ausência de um princípio ordenador na base do pensamento mágico e das práticas
rituais. “Aliás, subsiste entre nós uma forma de atividade que, no plano técnico, permite muito bem conceber o que,
no plano da especulação, pôde ter sido uma ciência, que preferimos chamar “primeira” ao invés de primitiva; é
comumente designada pelo termo bricolage”. O ofício do bricoleur, encontrado na França contemporaneamente,
consiste na execução de um trabalho usando meios e expedientes que denunciam a ausência de um plano
preconcebido e se afastam dos processos e normas adotados pelas técnicas. Caracteriza-se especialmente pelo fato
de operar com materiais fragmentados, já elaborados, “seu universo instrumental é fechado e a regra de seu jogo é a
de arranjar-se sempre com os meios-limites, isto é, um conjunto, continuamente restrito, de utensílios e de materiais,
heteróclitos, além do mais, porque a composição do conjunto não está em relação com o projeto do momento, nem,
aliás, com qualquer projeto particular, mas é o resultado contingente de todas as ocasiões que se a presentaram para
renovar e enriquecer o estoque, ou para conservá-lo, com resíduos de construções e de destruições anteriores.”
(LÉVI-STRAUSS, Claude. A Ciência do Concreto. In: O Pensamento Selvagem. Campinas, Papirus, 1997, p. 37-
8).

29
O terceiro capítulo faz uma reflexão sobre a segurança pública e sua relação com as
práticas de criminalidade, formação policial, tendo em vista que o profissional da segurança
pública está inserido dentro de uma dinâmica de conflitualidades que é o seu campo de atuação
diária.

No capítulo quatro analisamos a mediação como método de gestão dos conflitos sociais,
por não envolver a atividade do Estado impositor de uma solução, tal qual ocorre perante os
julgamentos do Poder Judiciário. Vimos que Brasil e Espanha já adotam a postura de
incentivadores da cultura mediatória, possuindo ambas as nações leis próprias para regular a
matéria em sua atividade. A principiologia da mediação, ainda que implícita nas leis nacionais, é
muito próxima e se pauta, entre outros, pela observância à voluntariedade e autonomia das partes.

No quinto capítulo alcançamos o momento da mediação policial, procedimento este que


deve ter como escopo a atuação de uma polícia cidadã, garantidora de direitos fundamentais e total
respeito à dignidade da pessoa humana. Representando um significativo avanço em direção a uma
polícia comunitária ante uma polícia unicamente repressora de ilícitos penais ou garantidora da
“lei e da ordem pública”.

O capítulo sexto se destina à apresentação dos resultados da análise empírica com


membros de associações de bairros e agentes policiais nas cidades de Vila-real (Espanha) e
Fortaleza (Brasil), vários foram as percepções e os desafios constatados para a consecução de
uma cultura de paz pela mediação em ambos os cenários. Notamos que o sucesso em implementar
essa cultura mediatória em ambos os contextos depende de vários fatores, externos e internos,
porém, nuclearmente, à percepção da comunidade para com a atividade da polícia, qual seria de
fato sua função e da polícia para com a sociedade, qual seu papel, como agente do Estado, a
garantir o bem-estar geral.

As considerações finais apontam como inovadora a inserção da mediação de conflitos


nas práticas policiais por apresentar-se como experiência ousada, pois teve pretensões de mudar
o pensar e o fazer policial na política de segurança pública local. Enfatizamos ser necessário pensar
a intencionalidade das atividades formativas, pois o perfil do novo policial há que ser balizado na
promoção e defesa dos direitos humanos, incluindo nesse viés uma aproximação com a
comunidade através de um bom relacionamento interpessoal e na capacidade de mediar conflitos
sociais.

30
2. O CONFLITO — ¡VAYA MARRÓN!26

En el presente caso dos familias que viven en el mismo bloque de viviendas tienen
problemas de convivencia. Se trata, por tanto, de un conflicto comunitario, pero
agravado por prejuicios xenófobos, al ser las familias implicadas de distintas culturas de
origen.

La familia Nur reside en el piso tercero, desde el 2011. Son inmigrantes de origen
magrebí, con permiso de residencia. Está compuesta por un matrimonio, ambos de unos
30 años y dos hijos, un niño de 8 años y una niña de 2.

La familia López vive en el piso inmediatamente superior al de la familia Nur. Son de


nacionalidad española, naturales de Málaga pero residentes en el municipio desde hace
treinta y tres años. Está formada por un matrimonio de unos 55 años y una hija de 30
años que convive con ellos.

Los problemas de convivencia empezaron poco tiempo después de que la familia Nur se
trasladara al edificio en el que residen actualmente. (GALLARDO CAMPOS; PÉREZ I
MONTIEL; PÉREZ BELTRÁN, 2013, p. 63).

A situação relatada acima nos mostra que estabelecer um consenso sobre a definição de
conflito não é fácil, há tantas definições como enfoques, posturas, ideologias e intencionalidades.
Todavia, há elementos comuns que podem ser observados e identificados. Nesse sentido,
compreender o conflito, a partir de alguns prismas e definições nos permitirá vislumbrar as
complexidades envolvidas.

Todos os organismos vivos buscam o que se denomina homeostase dinâmica27: uma


tendência a manter seu estado e, simultaneamente, cumprir um ciclo vital. Existe, portanto, um
conflito inerente à vida, presente nos organismos, por meio do qual a evolução se processa. Falar
de conflito é falar de vida e relações humanas. Weber (2009) compreende o conflito como inerente
ao mundo social: perde o seu caráter “patológico” e transforma-se num conceito analítico aplicável
a toda a sociedade e não concebe que algum dia possa vir a acabar.

Simmel entende o conflito como um novo prisma para a análise das relações sociais,
considerando-o uma forma de interação e, por isso, de caráter sociologicamente positivo e presente
em qualquer cenário social. Em sua perspectiva, a vida em sociedade envolve, aprioristicamente,
a presença do conflito, uma vez que “ao viver em sociedade o conflito é inerente às múltiplas

26
Expressão característica do dialeto policial espanhol."¡Vaya marrón!" es una exclamación que se usa en España
para indicar la existencia de un problema que repercute en alguna persona. Un "marrón" es un "problema", un
"problemón", un gran problema, una faena, o que te metan en un compromiso complicado, una putada. Disponível
em: <https://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20090713221423AAq2Wto>. Acesso em: 01 out. 2017.
27
Homeostase (autorregulação) é a propriedade de um sistema aberto, ser vivo especialmente, de regular o seu
ambiente interno para manter uma condição estável, mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico controlados
por mecanismos de regulação interrelacionados. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Homeostase. Acesso em
08 jan. 2017.

31
interações de uns-com-os-outros, contra-os-outros e pelos-outros” que constituem esse viver
(1983, p. 125). Define ainda conflito como uma sociação, visto que corresponde à interação entre
dois ou mais indivíduos, destinada a resolver as causas da dissociação que distanciam esses
indivíduos, em busca da reestruturação da unidade ameaçada pelos interesses contrapostos. Ou
seja, o conflito corresponde à resolução da divergência, seja pela desistência ou pela aniquilação
das partes, fazendo-se presente nas relações cotidianas, de modo a promover mudanças sociais,
com a quebra da “harmonização exaustiva” da realidade pela contradição entre divergentes.

Na opinião de Samayoa y Guzman (1996), entende-se por conflito toda contradição,


discrepância, oposição de interesses divergentes, metas apostas e valores antagônicos. O
acontecimento que o origina, que o faz crescer é importante, por que assinala o desenvolvimento
da relação social e o ponto em que aumentaram as tensões. Porém, o conflito em si mesmo não é
bom nem mal, o que faz que se converta uma força negativa ou positiva é a maneira de enfrentá-
lo. A maneira em que manejamos e enfrentamos os conflitos faz com que sirvam para fortalecer
processos construtivos ou para potencializar os aspectos negativos de nossa vida.

O conflito, segundo Kenneth Boulding (1978), é uma forma de conduta competitiva entre
pessoas ou grupos. Ocorre quando duas ou mais pessoas competem sobre objetivos ou recursos
limitados, percebidos como incompatíveis ou realmente incompatíveis.

Nesse sentido, o conflito origina-se da contraposição de interesses, de animosidades


recíprocas ou de outras causas dissociativas, que geram certa tensão entre os indivíduos e os dispõe
como antípodas no espaço social. Se suas causas afastam as partes – sentimentos de ódio, dor ou
vingança, por exemplo – o conflito, em si, aproxima, pois traz algum tipo de interação entre as
partes na busca da síntese dos interesses divergentes. Dessa forma, com a disputa, finda-se a
indisposição ou indiferença social e se administra os dualismos conflitantes.

Nesses termos, conflito e desacordo são partes integrantes das relações sociais e não
necessariamente sinais de instabilidade e rompimento. Invariavelmente, o conflito traz mudanças,
estimulando inovações. Coser (1970) aponta o conflito como um dos meios de manutenção da
coesão do grupo no qual ele explode. As situações conflituosas demonstram, desse modo, uma
forma de interação intensa, unindo os integrantes do grupo com mais frequência que a ordem social
normal, sem traços de conflitualidade.

É importante elucidarmos que o fato de o conflito ser importante e salutar para a sociedade
não significa dizer que não é necessário tratá-lo. Quando o conflito ultrapassa os limites da

32
sociabilidade, ou seja, assume uma postura vingativa ou de prejuízo ao oponente ou até mesmo de
violência física, então se faz necessário pôr em prática mecanismos hábeis para tratá-lo. De forma
exemplificativa, Morton Deutsch (2003, p. 29) traz o seguinte:

Algum tempo atrás, no jardim da casa de um amigo, meu filho de cinco anos e seu colega
disputavam a posse de uma mangueira. Um queria usá-la antes do outro para aguar as
flores. Cada um tentava arrancá-la do outro para si e ambos estavam chorando. Os dois
estavam muito frustrados e nem um nem outro era capaz de usar a mangueira para regar
as flores como desejavam. Depois de chegarem a um impasse nesse cabo-de-guerra, eles
começaram a socar e a xingar um ao outro. A evolução do conflito para a violência física
provocou a intervenção de uma poderosa terceira parte (um adulto), que propôs um jogo
para determinar quem iria usar a mangueira antes do outro. Os meninos, um tanto quanto
assustados pela violência da disputa, ficaram aliviados em concordar com a sugestão. Eles
rapidamente ficaram envolvidos em tentar achar um pequeno objeto que eu tinha
escondido e obedientemente seguiram a regra de que o vencedor seria o primeiro a usar a
mangueira por dois minutos. Logo eles se desinteressaram pela mangueira d'água e
começaram a colher amoras silvestres, as quais atiravam provocativamente em um
menino de dez anos de idade que respondia aos inúteis ataques com uma tolerância
impressionante.

Mas será que um conflito sempre é algo positivo? Na verdade, o conflito não é, em si,
algo positivo ou negativo, mas possui naturalmente um potencial de transformação e aprendizado.
No entanto, tudo depende da forma como é administrado. Em outras palavras, o conflito pode ser
um mecanismo de troca de opiniões e de aprendizado, mas pode também levar à violência.

A violência pode ser uma das respostas perante o fracasso do diálogo ou a impossibilidade
dos envolvidos de chegar a uma convivência equânime e justa (ELIAS, 1993). Em outras palavras,
essa pode ser uma das respostas possíveis perante uma situação de conflito.

Nessa perspectiva, é fácil constatar por uma simples varredura dos meios de comunicação
ou uma investigação do meio sobre as concepções de paz da população com a qual vivemos —
como o conceito de paz dominante é o tradicional, herdado do conceito de pax romana: aquele que
a identifica como simples ausência de conflitos bélicos, e, em nossos dias, como ausência em geral
de todo tipo de conflitos. Porém, vale ressaltar que desde o surgimento de estudos para a paz que
o conceito de paz adquire um novo significado, ao ser associada não como antíteses da guerra
senão da violência.

Tanto no plano escolar como na vida social, o conflito tem, como o conceito de paz, uma
leitura negativa dominante, como algo não desejável, patológico ou aberrante. Desde opções
ideológico-científicas tecnocrático-positivistas, o conflito se apresenta como disfunção ou
patologia e, em consequência, como uma situação em que é necessário corrigir e, sobretudo, evitar.
"O conflito e a dissensão interna de uma sociedade são considerados inerentemente antitéticos ao
bom funcionamento de uma ordem social." (APPLE, 1986, p. 125).

33
Nesse sentido, percebe-se que se faz necessário diferenciar agressão e qualquer
comportamento violento (resposta negativa a um conflito) e o próprio conflito. “A confusão se
deve a que se assimila violência a conflito”. Quando a violência não é mais que um dos meios para
resolver o conflito, destruindo o outro. A violência tende a suprimir o conflito apontando para a
eliminação do adversário. A violência é um meio, o conflito é um estado de fato. (SÉMELIN,
1983, p. 44).

O conflito é antes de tudo uma forma de relação. Quando se aborda o conflito interpessoal
podemos entendê-lo como um estado ao que antecede um indivíduo quando está motivado para
dar lugar a duas ou mais respostas mutuamente incompatíveis. O conflito surge cada vez que nos
vemos obrigados a tomar decisões.

De igual maneira, o conflito é visto como um comportamento cultural; as formas de


interação, o entorno no qual evolui uma sociedade, a história prévia, as interpretações atribuídas a
essa história, criam e delimitam um território de concepção de tratamento para as disputas e
controvérsias. Para Ross (1993, p. 93), "la cultura que una sociedad tiene del conflicto define lo
que la gente valora, las formas adecuadas de conseguirlo, las posturas ante los otros que busquen
lo mismo y las instituciones y prácticas que ayuden a determinar el curso de las disputas sobre
cuestiones de valor."

Porém, é importante ter em conta que o manejo do conflito como litígio no qual se busca
unicamente obter os próprios fins, com frequência contém tendências tanto legais como ilegais.
As primeiras têm como cenário a instância judicial ante a qual se buscam soluções de "suma
cero"28. As segundas envolvem diretamente ações criminais ou de exercício da justiça pelas
próprias mãos.

Para Ross (1993), os elementos estruturais e psicoculturais são os padrões que orientam
no escalonamento, redefinição e busca de conclusão de uma situação de conflito e divergência. A
permanência de uma tendência litigiosa para a administração dos conflitos induz com frequência
respostas dirigidas para a ameaça a que, por sua vez, conduza a uma contra ameaça, a qual escala
um desacordo e leva ao plano de dirimir quem é mais forte; o conflito ganha em intensidade e
amplia seu campo de ação e, ainda que se alcance uma solução, os sentimentos negativos entre as
pessoas tendem a permanecer.

28
Na Teoria dos jogos não cooperativos, um jogo de soma zero descreve uma situação em que eu ganho ou a perda
de um participante é equilibrada com as perdas ou ganhos dos outros participantes. Disponível em: <
http://www.naozero.com.br/naozero>. Acesso em: 2 out. 2017.

34
O conflito como menciona Fisas (2002), é um elemento necessário de construção e
reconstrução transformativa humana da organização e das realidades sociais. O conflito pode ter
padrões destrutivos que podem ser canalizados para uma expressão construtiva. Assume-se a
transformação do sistema e da estrutura. A transformação é um conceito descritivo da dinâmica
do conflito, enquanto é prescritiva para todos os propósitos que persegue para a construção da paz,
tanto em relação a mudar padrões de relações destrutivas, como de buscar uma mudança no
sistema. A transformação sugere uma compreensão dinâmica do conflito, no sentido que pode
mover-se em direções construtivas ou destrutivas.

2.1 Conflito e reação

Ante o conflito, seja qual for sua natureza, existe, na opinião de Fisas (2002), uma
multiplicidade de possibilidades de reação, tanto a nível individual como coletivo, dando-se como
possíveis as seguintes atitudes, segundo se aceite, evite ou negue o conflito:

1. Superação: se reconhece a existência e há vontade de superá-lo;


2. Vantagem: se reconhece a existência e se busca tirar proveito do mesmo;
3. Negação: se evita reconhecer sua existência;
4. Evasão: se reconhece a existência, mas não há desejos de enfrentá-lo;
5. Acomodação: se reconhece a existência, mas se opta por não dar nenhuma resposta;
6. Arrogância: reconhece sua existência, mas não se dá resposta adequada;
7. Agressividade: se combate com uma resposta hostil e/ou violenta.

A eleição de uma ou outra modalidade no início do conflito e as mudanças de posição ou


atitude posterior determinam o processo do conflito e suas possibilidades de gestão ou
transformação. Quando existe o reconhecimento do mesmo pelas pessoas implicadas, será mais
fácil entrar em uma via negociadora, enquanto que a atitude evasiva na origem produza um
agravamento das tensões latentes e, com isso, uma escalada do conflito. A acomodação pode
significar um adiamento das hostilidades, mas não uma solução para as mesmas. A arrogância e a
atitude belicista depreciam qualquer possibilidade inicial de chegar a um diálogo que conduza a
cessação das hostilidades (FISAS, 2002).

2.2 Abordagem dos conflitos

A abordagem do conflito implica considerar uma diversidade de fatores a analisar como:


mudança de atitudes, contextos, poderes, formas de comunicar, modelos culturais, estruturas de
domínio, etc., sssim como também, considerar que as respostas possíveis aos problemas são
sempre múltiplas e vão desde a negociação com o adversário até a pretensão de sua destruição.

35
Contudo, há uma clara distinção entre a forma de abordar os conflitos pessoais e os
conflitos entre as sociedades e estados. Hoje em dia existem técnicas de mediação altamente
elaboradas e contrastadas para ajudar as pessoas em conflito a superar diferenças quanto a
problemas domésticos, laborais, empresariais e de diversos tipos.

Se o conflito é assumido como um processo interativo, uma construção social e uma


criação humana que pode ser modelada e superada e, que, portanto não trilha caminhos ou
comportamentos fechados em que a fatalidade é inevitável, a de se concordar que as situações
conflitivas são também depositárias de oportunidades e, logicamente, de oportunidades positivas,
na medida que a situação do conflito seja o desencadeador de processos de consciência,
participação e implicação que transformam a situação inicial negativa em outra com maior carga
positiva. De forma crescente, o empenho em estudar, compreender e intervir nos conflitos se está
convertendo um desafio para transformá-los em oportunidades positivas, indo além da sua
adequada gestão.

Desde a perspectiva de Robayo (1999), o conflito faz parte constante da interação


humana. Através da história se reconhece o fluxo contínuo de acontecimentos conflitivos a níveis
e intensidades diferentes. Todos os seres humanos em vida estão envolvidos sempre em algum tipo
de conflito e o concebem quase que exclusivamente como algo negativo, como fenômeno
desagradável e intrinsecamente mau ou nefasto. Esta percepção do conflito conduz a lesões
mútuas. A sensação de ver-se exposto a riscos constantes gera reações de reticência e atitudes
vingativas acerca do conflito, e faz, portanto, que seja assumido em termos competitivos, em que
a avaliação pessoal desenvolve um agudo sentido que impulsiona a ganhar ante qualquer
antagonista que se oponha. Para muitos, o conflito supõe uma situação exclusivamente dicotômica;
ou seja, uma luta, um combate cujo desenlace será ganhar ou perder.

Para Uprimny (1993), existem duas grandes tendências sobre como se pode ver o conflito,
por um lado estão as visões positivas do conflito, emolduradas dentro de disputas sociais,
dinamizando as sociedades para otimizar as suas estruturas. E por outro, as visões negativas, que
mostram a parte mal da situação, enfatizando o conflito como um aspecto perturbador da vida
social, desde aí, o conflito deve ser controlado e eliminado de imediato.

Nesse sentido, há múltiplas definições e concepções sobre o conflito. Porém, há uma


coincidência na maioria deles e que o conflito é intrínseco ao homem, está sempre presente e não
necessariamente é negativo ainda que o momento de sua apresentação represente para os

36
envolvidos um obstáculo insuperável. Também se pode afirmar que o conflito requer um adequado
tratamento para que se transforme e possa gerar no futuro uma aprendizagem, um conhecimento e
uma lição aprendida. Por este motivo, a abordagem do conflito, a seleção dos mecanismos de
enfrentamento, devem ser adequados e correspondentes com o desafio que o conflito nos
apresenta.

Sob esse prisma, passamos a indagar quais limites e potencialidades se apresentam no


caminho da implementação de uma política de segurança pública voltada para a prevenção da má
administração dos conflitos?

37
3. SEGURANÇA PÚBLICA — ¿QUÉ PASA?

En diversas ocasiones fue requerida, por una u otra familia, la intervención de las
patrullas del 092, constatando siempre que la convivencia estaba muy deteriorada: se
habían denunciado recíprocamente, zarandeado e insultado, y hasta presentado
denuncias cruzadas que fueron archivadas por el Juez, con el único mandato para las
partes de implicarse en buscar soluciones a sus desavenencias. A pesar del mandato
judicial, los enfrentamientos se habían visto incrementados en frecuencia y variedad.
(GALLARDO CAMPOS; PÉREZ I MONTIEL; PÉREZ BELTRÁN, 2013, p. 63).

A sociedade, em seu processo civilizatório, compreende mudanças e transformações


tecnológicas, culturais, econômicas, sociais, entre outras. Em decorrência dessas transformações,
a cada dia têm surgido novas situações, diferentes conflitos e questionamentos a respeito das
políticas públicas de segurança.

[...] cada vez mais a sociedade brasileira tem compreendido que segurança pública não
corresponde a um problema necessariamente de polícia, mas a um dever do Estado e uma
responsabilidade coletiva. As medidas nessa área demandam ações complexas e
articuladas entre instituições, sociedade e distintas esferas do poder público. (TEIXEIRA,
2005, p. 5).

O conceito tradicional de segurança pública restringe-se à ação policial ostensiva e


repressiva contra o crime. Contrapondo-se a essa abordagem tradicional e pouco eficaz no Brasil
e em outros países, tem-se buscado – como objetivo específico ou transversalmente às outras áreas
de trabalho – instigar a participação da sociedade nas políticas públicas de segurança centradas
mais nas ações de prevenção e redução da violência, para a modernização e democratização do
circuito criminal brasileiro, compreendendo, mais especificamente, os dispositivos policiais e de
justiça29. Dessa maneira, se objetiva essencialmente estimular a atuação efetiva da sociedade civil
por meio de instrumentos que possam apoiar sua participação, quer na formulação e
implementação, quer no acompanhamento e na avaliação das políticas públicas de segurança.

Destarte, a segurança pública30 pode ser entendida como um conjunto de atividades


desenvolvidas pelo Estado, cujo objetivo é planejar e executar ações e oferecer estímulos positivos
para que os cidadãos possam administrar os seus conflitos.

29 Segundo Mello; Meirelles e Gomes (2009, p. 8-9), “[e]ssa mesma tensão de propósitos entre ampliar o acesso à justiça
por intermédio de expedientes e procedimentos alternativos a justiça estatal, ou simplesmente descongestionar a
justiça comum estatal operando um sistema de filtragem das ações abrigadas pelo judiciário não é exclusiva do Brasil.
Ela está presente, por exemplo, nas discussões que acompanharam a criação das Small Claim Courts norte-americanas,
e sua ênfase na conciliação e mitigação dos conflitos sem a necessidade de um juiz, e que inspiraram a criação dos
Juizados Especiais brasileiros. Em ambas as experiências, a conciliação oferecia às partes maiores oportunidades de
se expressar sem a participação necessária de advogados e a possibilidade de encontrarem uma resolução amigável
para a disputa através de um acordo.”
30
Para maior aprofundamento sobre a temática, verificar: Constituição da República Federativa do Brasil de 1988,
art. 114. LEAL, César Barros; PIEDADE JÚNIOR, Heitor. (organizadores). A violência multifacetada: estudos sobre
a violência e a segurança pública. Belo Horizonte: Del Rey, 2003. LIMA, Renato Sérgio de; PAULA, Liana de.
(organizadores). Segurança pública e violência: o Estado está cumprindo seu papel? 1 ed. 1 reimpressão. São Paulo:
Contexto, 2008. BARREIRA, César (Org). Questão de Segurança: políticas governamentais e práticas políticas.
Coleção Antropologia da Política. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.

38
Esse conceito pode ter compreensões variadas de acordo com a região, política, cultura,
observando-se também o ordenamento próprio de cada nação. A Constituição Espanhola, por
exemplo, como reação ao centralismo franquista e por demanda das nacionalidades históricas
(como o País Basco, a Catalunha ou a Galícia), com base nas exigências por descentralização de
tempos anteriores, estabelece um modelo político e administrativo em três níveis: o Estado, as
nacionalidades e as comunidades autônomas e os municípios (nível local). Este novo quadro
político é a origem da divisão de competências em matéria de prevenção e segurança entre os três
níveis administrativos. No entanto, a quantidade e intensidade das competências distribuídas e
assumidas durante a década não foram as mesmas na área de proteção social (bastante
descentralizada) e de segurança (muito pouco descentralizada).

A Constituição de 1978 anunciou uma mudança transcendental no modelo policial. A


partir deste momento, a manutenção da segurança pública passou a ser uma competência que, se
bem se atribui em princípio exclusiva ao Estado, será exercida pelas distintas Administrações
Públicas. Nesse aspecto, a década dos anos 80 consagrou assim uma diferença muito mais evidente
do que na década anterior entre as políticas sociais e as da segurança. Além disso, as políticas de
segurança são cada vez mais identificadas com a evolução do modelo policial, também dividido
em três níveis de administração (RECASENS I BRUNET, 1996): Fuerzas y Cuerpos de Seguridad
del Estado (Cuerpo Nacional de Policía y Guarda Civil), com dependência do Governo da Nação;
Cuerpos de Policía Autonómicas, com dependência dos órgãos de governo das Comunidades
Autônomas; e Cuerpos de Policía Local, dependentes das Corporações Locais.

Nesse contexto, o design das políticas de segurança31 exigia ir mais além da simples
definição do modelo da polícia. A identificação das necessidades e demandas dos cidadãos tornou-
se um elemento fundamental para a articulação das políticas de segurança. E isso ocorreu porque
os poderes públicos precisavam adaptar essas políticas ao discurso do Estado social.

Em outro tempo a relação dos conceitos “polícia” e “democracia”, significaria termos


contraditórios, já que a “democracia” foi contrária a “polícia”, que evocava ordem, autoridade,
quando não imposição e autoritarismo. Ante a essa tendência em Espanha, a sociedade democrática
necessitava de uma polícia que acordasse com os valores que permeassem a democracia. A eficácia

31
A descentralização autonômica e municipal das instituições responsáveis pelas políticas sociais, bem como a
fragmentação destes em vários departamentos ou órgãos de cada administração, tornará praticamente impossível
estabelecer políticas comuns. O benefício é a proximidade com os cidadãos, mas a adaptabilidade das políticas de
segurança causam problemas quando se trata de encontrar linhas ou diretrizes comuns, o que faz com que esta pesquisa
seja necessariamente local.

39
do labor policial só poderia ser concretizada em um sistema baseado no princípio da igualdade
perante a lei. Entendia-se que os princípios inspiradores da ação da polícia em uma sociedade
democrática deveriam ser exatamente os mesmos que regem o projeto e os valores da sociedade,
onde os fins devem ser a proteção dos direitos e liberdades de todos os cidadãos e a defesa do
Estado de Direito (deve estar a serviço da sociedade como um todo e não a um setor dessa
sociedade). E quanto a sua organização, a polícia deve ter caráter civil32, diferenciada nitidamente
das Forças Armadas. A segurança pública é entendida como um conceito amplo que engloba a
segurança cidadã e a ordem pública.

A política de segurança da Espanha passou a ser guiada pela defesa dos valores e dos
interesses vitais e estratégicos. Entendendo-se como interesses vitais, os relativos aos direitos
fundamentais: a vida, a liberdade, a democracia, o bem-estar e o desenvolvimento dos espanhóis,
assim como os relativos aos elementos constitutivos do Estado, como a soberania, a independência
e integridade territorial, o ordenamento constitucional e a segurança econômica. Nesse sentido, a
Constituição Espanhola estabelece a nova ordem de convivência para todos os espanhóis, adotando
a Teoria do interesse mútuo33. Que os poderes públicos34 persigam um clima seguro para
desenvolver a liberdade é o objetivo a alcançar, sendo a segurança um meio para isso.

O artigo 104 da Constituição Espanhola atribuí às Fuerzas y Cuerpos de Seguridad del


Estado a missão de “proteger el libre ejercicio de los derechos y libertades y garantizar la seguridad
ciudadana”, missão que desempenharão segundo o previsto no artículo 11.1 da Ley Orgánica de
Fuerzas y Cuerpos de Seguridad.35

O desequilíbrio entre as políticas de segurança e as políticas de prevenção torna as


primeiras mais desenvolvidas do que as segundas. A preeminência da segurança dá-lhe uma
supremacia orçamentária e política que a permite marcar todas as políticas e até assumir uma parte

32
A posição das Forças e Corpos de Segurança na Constituição de 1978 é clara e rompe no sentido de desmilitarizar
os Cuerpos y Fuerzas policiales.
33
Segundo a Teoria do interesse mútuo, todos os integrantes da sociedade se beneficiam da ordem social, ao obter
segurança, e é por isso que, para o benefício de todos, é necessário alcançar um mínimo de acordo entre os atores
sociais para conciliar os interesses individuais e coletivos.
34
Devido à estrutura do Estado constitucional espanhol, para uma melhor análise cronológica, podemos estabelecer
três estágios principais: o estágio socialista de 1990 a 1994, o estágio socialista de 1994 a 1996 e o estágio do Partido
Popular (abril de 1996 a abril de 2000).
35
Segundo os dois e principais planos no âmbito da segurança: Plano de Liberdade e Segurança Cidadã (1994, governo
socialista) e o Plano de Polícia 2000 (2000, governo do Partido Popular), as políticas de segurança passam a ser
desenvolvidas de acordo com dois subsistemas diferentes, o penal e o assistencial, que são complexos tanto em termos
de espaços e estratégias. Em geral, pôde-se constatar isso, enquanto o alcance das políticas sociais parece cada vez
mais desmembrado e os atores das políticas policiais estão realizando um amplo processo de reorganização.
Possivelmente, este processo lhes permitiu uma compreensão mais rápida e abrangente das necessidades de controle
produzidas pelo espaço sociopolítico europeu. Podemos constatar que as práticas da polícia buscam apresentar um
maior grau de adaptação ao meio. Nesse sentido, a reorganização também pode ser verificada em pequena escala em
planos de policiamento de proximidade em toda a Espanha.

40
dos papéis da prevenção (por exemplo, no campo da mediação). A prevenção, mais atomizada e
dependente das políticas de segurança, é efetiva no campo "micropolítico", mas não dispõe da
força "macropolítica" para poder impor seu ponto de vista e suas ações no setor repressivo.

No Brasil36, a ação direta na área da segurança pública e no combate à criminalidade tem


sido preponderantemente de responsabilidade das instituições de segurança pública (Polícia
Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militar37 e as Guardas Municipais).
Diretamente, não há dúvidas de que os agentes da segurança pública e defesa civil 38 são
fundamentais para a realização dessa ação profissional. A sociedade e o Estado entregam a esse
servidor público as atividades de garantia da segurança de todos. Haja vista as responsabilidades
atribuídas aos profissionais da área da segurança pública, seja ele de qualquer instituição de
segurança, é necessário que sejam acompanhadas de condições reais para a realização desse mister.

Em nosso país tem-se pecado no que diz respeito à valorização desses profissionais,
muitas vezes violando os direitos humanos destes agentes. É necessário que tenhamos
uma política de segurança pública em que se inclua como condição sine qua non o
oferecimento de condições de trabalho para o servidor público desta área. Inclui-se aí,
salários dignos, assistência social as suas famílias, seguro de vida permanente, formação
profissional completa e de qualidade, políticas de assistência social especifica, entre
outras. É necessário, também, que estes servidores tenham seus direitos humanos
respeitados, como forma do Estado cobrar dos mesmos que respeitem os direitos humanos
da população indiferentemente de classe social, cor, religião, orientação sexual, atividade
profissional, etc. Neste sentido, em especial os regimentos internos e estatutos
disciplinares dos órgãos de segurança pública em nosso país precisam ser revistos,
adequando-os aos novos preceitos constitucionais advindos com a Constituição Federal
de 1988, democratizando de direito e de fato estas instituições. (ROCHA, 2005, p. 9).

Mudanças na segurança pública envolvem reformas na polícia e estas passam


necessariamente pela formação de um novo profissional para a gestão pública de segurança.

36
Considerando no Brasil a existência de variadas classificações tipológicas que categorizam a instituição polícia em
espécies distintas, neste estudo optou-se por destacar primordialmente uma tipologia, qual seja a que se classifica
como “polícia administrativa” sendo sua função precípua a prevenção de atos infracionais (dos ilícitos penais) esta se
classifica enquanto polícia administrativa ou, como alguns autores utilizam: “polícia de pré-fato” ou “preventiva”.
Todavia, cumpre salientar a existência de outra tipologia que possui como função precípua a repressão aos atos
infracionais esta se classificaria enquanto polícia judiciária, “polícia de pós-fato” ou “repressiva”. De acordo com
Corrêa (2017, p. 38), “na Europa, nos Estados Unidos e na grande maioria dos países ocidentais as instituições policiais
exercem as duas funções dentro de uma mesma organização o que possibilita o surgimento de uma identidade cultural
e profissional no indivíduo que compõe tal instituição. No caso do Brasil, tal dicotomia pode ser facilmente
exemplificada quando analisamos a estruturação e distribuição de atribuições que a Constituição da República de 1988
confere aos órgãos policiais em seu artigo 144”.
37
Cabe ressaltar que em alguns estados do Brasil, a exemplo do Piauí, o Corpo de Bombeiros Militar foi incorporado
à Secretaria Estadual de Defesa Civil, tendo em vista, serem compreendidos como organizações que desempenham
atribuições análogas. Disponível em: <http://www.defesacivil.gov.br/sindec/estados/estado.asp?estado=pi>. Acesso
em 11 jan. 2016.
38
A Defesa Civil está associada ao conjunto de ações preventivas, de socorro, assistenciais, reabilitadoras e
reconstrutivas, destinadas a evitar ou minimizar desastres, preservar o moral da população e restabelecer a normalidade
social. A finalidade da Defesa Civil é promover a segurança global da população, em circunstâncias de desastres
naturais, antropogênicos e mistos. Disponível em: http://www.defesacivil.mg.gov.br/. Acesso em 11 jan. 2016.

41
A literatura brasileira (SOARES, 2006a; RIFIOTS, 1999) sobre essa temática vem
demonstrando que o resultado do trabalho policial ainda se encontra muito aquém do esperado
pela sociedade. A imprensa veicula continuamente notícias sobre o avanço da criminalidade e da
violência urbana, além da multiplicação dos problemas que envolvem as instituições policiais.
Com frequência, vê-se o envolvimento de policiais em denúncias de violência, abuso de
autoridade, tortura, corrupção, dentre outras. Esses acontecimentos acabam por revelar a
fragilidade dos atuais modelos policiais frente às exigências do Estado democrático de direito para
garantir a ordem pública e os direitos humanos na sociedade.

As ações do Estado e a própria postura de parte dos gestores do sistema de segurança


pública em entender a prática dos direitos humanos como fundamental para a construção de uma
sociedade democrática traduz-se na “tensão entre um passado perverso, que não foi ainda rejeitado,
e um a possibilidade mais generosa de futuro sobre a qual não se pode ter qualquer certeza.”
(ROLIM, 2009, p. 40). Tabus estes que se transformam em resistências a mudanças significativas
para a segurança pública e que se traduzem no adiamento de um processo legítimo de
transformações democráticas. (BARREIRA e MOTA BRASIL, 2002).

Diante desta realidade, estudiosos, pesquisadores e gestores da área de segurança pública


reconhecem a necessidade de operar mudanças no setor, na estrutura de funcionamento das
organizações policiais. A preocupação de criar um modelo de polícia fundado nos princípios dos
direitos humanos e de prevenção à criminalidade é algo recente nos governos democráticos, muitas
vezes por exigências da sociedade civil organizada, ou por situações de crises nas instituições
policiais, que acabam exigindo modificações nas suas estruturas. Nesse cenário, merecem destaque
os aspectos relacionados à formação policial, sobretudo no que diz respeito aos conteúdos
curriculares e mais especificamente sobre as parcerias estabelecidas das Academias de Polícia com
as Universidades para formação dos agentes de segurança pública.

3.1 Práticas de criminalidade

As inúmeras práticas de criminalidade e o sentimento de insegurança na sociedade


apontam para a necessidade de constantes pesquisas e discussões tanto no campo da segurança
pública quanto dos valores sociais. Dada a complexidade do fenômeno da violência e da
criminalidade, tais investigações devem ser objeto de diálogos e estudos em profundidade. Nesse
contexto, na posição de observadora dos cenários das cidades de Vila-real (Espanha) e Fortaleza
(Brasil), propõe-se realizar o papel de agente investigativo e, ao mesmo tempo, reconhecer que tal
empreendimento demanda uma abordagem multidisciplinar e que requer uma compreensão

42
também do contexto social da segurança pública dos Sistemas de Justiça, da criminalidade e dos
valores sociais.

A violência e a criminalidade não podem ser compreendidas por si só, para compreendê-
las precisa-se entender a formação política, social e econômica em que se inserem, da mesma
forma que não se pode pensar as práticas de segurança pública sem pensar em uma política plural
que atenda as distintas demandas dos vários segmentos sociais. Assim, por meio de estudos e
pesquisas, se faz necessário colocar-se como um agente comprometido em estudar e compreender
as necessidades sociais, em questionar o papel da segurança pública e em refletir as práticas de
violência e criminalidade, sempre em busca de conhecimentos que contribuam para a construção
de práticas mais democráticas e que fortaleçam o bem-estar social.

O crime é inerente à convivência social, é elemento constitutivo do seu funcionamento.


A criminalidade e a violência são vistas como fenômenos sócio-político-histórico-culturais, e não
como patologias. A sensação de insegurança pode ser reduzida, porém, jamais totalmente
eliminada do meio social já que a criminalidade é um fenômeno social.

No Brasil, a concepção dominante esboçada nos últimos anos de 2016 e 2017 é que a
segurança pública apresenta-se como exclusiva responsabilidade do Estado. De acordo com Da
Silva (2003), o Governo Federal deve elaborar a política nacional de segurança, especificamente
na efetivação da cooperação entre os Estados e também impondo exigências na qualidade, assim
como na qualificação dos serviços de segurança pública, o que engloba a eficiência e o respeito às
leis e aos direitos humanos.

Além disso, o professor Da Silva (2003) salienta que a repressão contida na lei penal é
insuficiente para combater o crime, a questão se maximiza ao se cogitar que somente a polícia,
somente o Estado ou somente a lei são responsáveis pela contenção da criminalidade. Estes
mecanismos de forma isolada não são capazes de conter as infrações penais, os aspectos políticos
e socioculturais que nutrem o crime.

As elites do poder continuam hesitando em romper de vez com essa lógica, confinada na
reiteração enfadonha de que a solução para a violência e o crime é construir mais prisões,
multiplicar os efetivos policiais, aparelhar a polícia e endurecer as penas. (DA SILVA,
2003, p. 149).

Nesse contexto, é notório como as estruturas jurídico-políticas foram sempre muito


atentas aos remédios (portanto, reformas constantes das normas), quase nunca às causas, deixando
de lado análises atentas sobre a litigiosidade que cresce, constantemente traduzida na linguagem
jurídica, e que se dirige à jurisdição sob a forma irrefreável de procedimentos judiciários (PINHO;

43
PAUMGARTTEN, 2015) e que por vezes vão expor as consequências de conflitos que irão
degringolar em crimes de elevada potencialidade ofensiva (homicídio, lesão corporal, etc.). Um
conflito possui um escopo muito mais amplo (lide sociológica) do que simplesmente as questões
juridicamente tuteladas (lide processual) sobre as quais as pessoas estão discutindo em juízo.

3.1.1 Políticas de Prevenção à má administração dos conflitos sociais

Com frequência, e ainda contando com boas e abundantes informações, as políticas de


prevenção de conflitos não tem sido nada eficientes, por terem ficado estas informações em mãos
de analistas que estão prisioneiros de ideias pré-concebidas e de gestores irresponsáveis que não
tem capacidade para entender o significado das informações, perdendo-se toda oportunidade de
atuar sobre uma situação conflituosa.

Outras vezes não é a incapacidade analítica, senão a mesma imoralidade, perversão ou


cumplicidade política que para qualquer tipo de iniciativa tendente a evitar uma escalada de
conflitos, já que é para defender os próprios interesses ou dos atores em conflito considerados
aliados.

Existe, apesar desta manipulação, o impulso transformado implícito no conceito de


prevenção que poderia conduzi-lo a intervir inevitavelmente sobre as raízes dos conflitos e não só
em suas manifestações este é, sem dúvida alguma, o fator de grandeza e de polêmica da prevenção,
pois quando conduzida com coerência e até suas últimas consequências se converte em um
instrumento que incide diretamente nas estruturas e nas pautas de violência. Uma autêntica
política de prevenção não tem porque ser sinônimo de estabilidade ou manutenção do status quo.
Contudo, quando se aplica a situações de injustiça e de desigualdade, a prevenção há de ser, pelo
contrário, um instrumento que facilite mudanças e transformações, aspecto este pouco ou nada
compartilhado com aqueles gestores que utilizam o discurso de prevenção39 para deixar que as
coisas sigam como estão (mais do mesmo).

Muitos conflitos, também, tem raízes muito profundas, ancoradas em feridas históricas
não resolvidas, em velhos estereótipos, desprezos ou ódios que podem explodir 20 ou 30 anos
depois de terem se formado e, ao esbarrar com novos fatores que o impulsionam a sair para a luz,
podem desencadear novas expressões de violência. Essas raízes, muitas delas, emocionais e
subjetivas, são muito difíceis de prevenir e de manejar a nível teórico.

39
Deveriam servir para as necessidades das populações e não para estabilizar regimes políticos ou formas de governo.

44
Apesar das dificuldades, fica claro que para encarar e resolver conflitos é necessária uma
nova mentalidade40, disposta em primeiro lugar a não negar a existência dos conflitos para adentrar
em suas causas e adotar as medidas e criar os mecanismos, compromissos e cumplicidades que
permitam transformar essas situações.

O reconhecimento da diversidade conflitiva do mundo é fundamental para uma boa


política preventiva e para reorientar as políticas de segurança que tradicionalmente se tem centrado
na análise de ameaças à manutenção do poder do Estado41, sejam estas reais ou imaginárias
(qualquer um pode ser um inimigo em potencial).

Nesse sentido, o propósito fundamental da prevenção de conflitos consiste em atuar


satisfatoriamente ante os primeiros sintomas de um conflito com o objetivo de conseguir que este
não trapaça um determinado nível de violência a partir do qual conflito resulte de difícil controle.
Se o conflito é tratado em seus primeiros estágios, ou seja, nas suas primeiras manifestações, existe
a possibilidade de que possa regular-se a situação de forma positiva. A prevenção consiste,
portanto, em detectar a tempo o conflito para tratá-lo convenientemente. Dado que é difícil parar
um conflito uma vez que foi iniciado, o que resulta verdadeiramente interessante é conseguir que
não se instala de forma cruel ou que não chegue a níveis de descontrole.

A prevenção de conflitos pode definir-se também como aquele conjunto de medidas que
contribuem para a prevenção de comportamentos conflitivos indesejáveis quando aparece uma
situação que implica uma incompatibilidade de objetivos. Estas medidas em definitivo podem ter
três tipos de propósitos, de acordo com Reyntjes e Pauwels (1997, p. 69): “prevenir um
comportamento ou uma ação considerada indesejável inadequada, prevenir os processos de
escalada em uma situação conflitiva e limitar seus efeitos em um nível tolerável.”.

40
Relevante se faz mencionar que, no ano de 2009, no Brasil, foi criado o Índice de Confiança na Justiça (ICJBrasil)
sob a coordenação de Luciana Gross Cunha. Referido índice tem como objetivo apurar de forma sistematizada o nível
de confiança da população no Poder Judiciário, utilizando-se dos subíndices de percepção (medida a opinião da
população sobre a Justiça e a forma como ela presta o serviço público) e de comportamento (se busca identificar a
atitude da população, se ela recorre ao Judiciário para solucionar determinados conflitos ou não). Nesse sentido,
trimestralmente uma pesquisa é realizada em sete metrópoles brasileiras. Os dados do relatório do terceiro trimestre
do ano de 2010 persistiram em revelar a tendência identificada nos trimestres anteriores: a recorrente má avaliação do
Poder Judiciário como prestador de serviços públicos. Contudo, foi perguntado aos entrevistados se caso enfrentassem
algum tipo de conflito que necessitasse de resolução pelo Judiciário, se eles aceitariam tentar um acordo reconhecido
pelo Judiciário, por meio de outra pessoa que não o juiz. Conforme o gráfico X, em média, 38% dos pesquisados
responderam que sim, que aceitariam utilizar meios de resolução de conflitos alternativos ao Judiciário, mas a maioria
contestou negativamente, indicando que ainda preferem recorrer ao Judiciário apesar da pouca confiança, se
comparada a soluções alternativas (mediação, conciliação).
41
Cumpre observar que a ‘militarização da segurança’ tem impedido de atender os conflitos de grande potencial de
letalidade, como os conflitos sociais do cotidiano, pois, à primeira vista, estão invisibilizados e não ganham espaço
nas manchetes dos jornais, pois encontram seu nascedouro nas dificuldades de convivência do dia a dia.

45
Para se efetivar uma política preventiva, de princípio, nos falta a capacidade para prever
os acontecimentos. Neste aspecto, a prevenção é um conceito teórico relacionado com a
previsibilidade (predictability). Isso implica dispor de boa informação, o que, por sua vez,
permitiria realizar análises corretas para avisar quando um conflito começa a situar-se em níveis
perigosos e a partir daí a atuar de maneira mais rápida e eficiente. A prevenção é, assim, a primeira
fase de um processo que há de conduzir-se para a intervenção adequada sobre o conflito a fim de
tratá-lo e transformá-lo positivamente.

Quando a informação sobre o conflito tem sido suficiente e a análise dessa informação é
acertada, chega o momento de intervir sobre o conflito de forma antecipada. Desgraçadamente,
isso não ocorre sempre, seja pela não intervenção ou por fazê-la de forma incorreta, limitada ou
tardia.

O grande limite que apresenta a prevenção de conflitos nos últimos anos é que a
informação preventiva disponível não se traduz automaticamente na adoção de medidas
preventivas e, quando o mecanismo de prevenção não é precedido de uma ação imediata se produz
uma justa frustração e um grande desengano entre as populações que poderiam estar se
beneficiando deste dispositivo.
Um "Estudo Global sobre Homicídio" elaborado a partir do Banco de dados de estatísticas
internacionais sobre homicídios intencionais do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e
Crime (UNODC) reúne dados oficiais de diversos países do mundo. No gráfico abaixo foi
estabelecido um comparativo da evolução dos índices de homicídios intencionais por cada 100.000
habitantes cometidos na Espanha e no Brasil, entre os anos de 2007 a 2015.

Gráfico 1 – Evolução dos homicídios intencionais no Brasil e Espanha, período de 2007 a 2015.42
Homicídios intencionais (por cada 100.000 habitantes)
30
(por cada 100.000 habitantes)
Homicídios intencionais

25
20
15
10
5
0
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
BRASIL .. 23,1 23,6 22,6 21,8 24 26,2 26,5 27,7 26,7
ESPANHA .. 1,1 0,9 0,9 0,9 0,8 0,8 0,7 0,7 0,7

42
Fonte: Banco de dados de estatísticas internacionais sobre homicídios intencionais 42 do Escritório das Nações
Unidas sobre Drogas e Crime / UNODC42 (2017).

46
Quando se fala em segurança pública na Espanha, as cifras nos mostram que os gastos
têm seguido uma certa tendência à diminuição nos últimos anos, assim como podemos verificar
nas taxas de homicídios. No ano de 2005 foram registrados 518 homicídios na Espanha,
alcançando uma taxa de 1,2, ao passo que após uma década, no ano de 2015, a taxa de homicídios
caiu para 0,7, representando os 303 casos do ano. Segundo o Informe Anual de La Seguridad em
España, do ano de 2015, o gasto com Seguridad Ciudadana e Instituciones Penitenciarias foi de
7.843.129 milhões de euros, verificada uma redução de 0,48% em relação ao valor gasto no ano
de 2014.

A situação do Brasil nos salta aos olhos tanto por causa das altas taxas de homicídios
quanto pela deficiência em atuar decididamente com efetividade. Levantamento realizado pelo
Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) revela que os municípios, estados e União
gastaram R$ 76,2 bilhões no ano de 2015 com segurança, valor 11,6% superior ao ano de 2014,
quando os gastos somaram R$ 68,2 bilhões; só com policiamento nas ruas, foram R$ 23,9 bilhões
em 2015 (16,9% a mais do que em 2014).No ano de 2016, foram gastos mais de 81 bilhões de
reais43, em políticas públicas de segurança, para não dizer, “operações militares”, que findaram
por não alterar as dinâmicas de enfrentamento e, que no ano de 2017, tem cobrado, mais uma vez,
dezenas de milhares de vítimas.

No Brasil, o uso da arma de fogo44 como instrumento para perpetrar homicídios atingiu
uma dimensão apenas observada em poucos países da América Latina. Somenteem 2015,41.817
pessoas sofreram homicídio em decorrência do uso das armas de fogo, o que correspondeu a 71,9%
do total de casos. Na Europa, por exemplo, esse índice ébastante discrepante e encontra-se na
ordem de 21%. (CERQUEIRA et al., 2017).

43
Essas são cifras suficientes para amenizar outras problemáticas em setores igualmente estratégicos, tais como saúde,
habitação e educação.
44
Os relatórios esquematizados sobre a violência necessitam explorar em mais detalhes a mudança do padrão de
homicídios no mundo nos últimos anos. De acordo com o Atlas da Violência 2017: “Há uma larga literatura
internacionalque mostra que aproliferação da arma de fogo, além de representar um fator de risco para as famílias
— porque faz aumentar o risco de suicídios, acidentes fatais envolvendo crianças, feminicídios e homicídios —
,acarreta um aumentona taxa de homicídios na sociedade.Cerqueira et al. (2014) mostrou evidências de que a cada
1% no aumento da proliferação de armas de fogo faz com que a taxa de homicídio aumente em torno de 2% nas
cidades.Isso acontece por três canais. Em primeiro lugar, a maior disponibilidade de armas faz diminuir o seu preço
no mercado ilegal, permitindo o acesso da mesma ao criminoso desorganizado (muitasvezes aquele criminoso que ao
praticar um roubo termina cometendo latrocínio). Em segundo lugar, as chances de um indivíduo armado sofrer
homicídio, ao ser abordado por criminosos, aumenta. Por último, muitos crimes letais (seja feminicídios, brigas de
bar, de trânsito, conflito entre vizinhos, etc.)
bar, de trânsito, conflito entre vizinhos, etc.) acontecem num ambiente de conflito, em que o contendor com a arma
de fogo na mão termina perdendo a cabeça e matando o oponente.” (CERQUEIRA et al., 2017, p. 43).

47
Nesses cenários, a atuação preventiva, portanto, não só permite salvar vidas humanas ou
melhorar a existência e o futuro das sociedades afetadas pelas conflitualidades sociais do dia a dia,
senão que é muito mais prática e econômica financeiramente que uma posterior intervenção do
tipo repressiva.

A intervenção na fase de "pré-crise" é mais eficientee econômica que a resposta reativa.


A intervenção do conflito social, ainda no seu nascedouro, por meio de ações mediadoras apresenta
também mais possibilidades de resolubilidade e êxito, pois os temas não são tão complexos, há um
menor número de vítimas, existe menor polarização entre os atores e a comunicação não está
obstruída. As intervenções que atuam antes de que a violência ou a repressão caiam no espiral de
vitimização e vingança tem mais possibilidade de obter resultados satisfatórios para os envolvidos
direta e indiretamente no conflito.

A repressão reativa tem se limitado a tomar medidas depois da explosão do conflito para
reduzir e limitar sua intensidade, duração e expansão. Pelo contrário, uma "prevenção proativa" se
refere a medidas tomadas para evitar o surto de conflitos.

Os "expertos", com atitudes prescritivas, creem em conhecer as necessidades das partes


em conflito e como satisfazê-las. Contudo, muitas vezes ignoram completamente a realidade. Uma
prevenção eficaz requer esforços a curto, médio e longo prazo.

Nesse contexto, verifica-se o Global Peace Index (Índice de Paz Global)45 que é um
indicador que mede o nível de paz e a ausência de violência em um país ou região. Elaborado e
publicado desde o ano de 2007 pelo Institute for Economicsand Peace (Instituto de Economia e
Paz), juntamente com vários especialistas de institutos para a paz e think tanks e do Centre for
Peace and Conflict Studies (Centro de Estudos de Paz e Conflitos) da Universidade de Sydney -
Austrália, com dados processados pela Unidade de Inteligência do semanário britânico The
Economist. O referido índice inclui variáveis internas, como violência e criminalidade e externas,
como gastos militares e guerras em que o país participa. Os indicadores46 da paz interna
representam 60% do valor do Índice de Paz Global e os da paz externa 40%.

45
Para aprofundar ver Ranking anual entre países do Índice de Paz Global. Disponível em:
<https://www.datosmacro.com/demografia/indice-paz-global>. Acesso em 13 jan. 2017.
46
Indicadores: Número de guerras (internas e externas) travadas; Morto em guerras externas estimadas; Morto em
guerras internas estimadas; Nível de conflitos internos; Relações com estados limítrofes; Nível de crime percebido na
sociedade Número de pessoas deslocadas por unidade de população; Instabilidade política; Nível de respeito pelos
direitos humanos (escala do terror político); Possibilidade de atos terroristas; Número de homicídios; Nível de crime
violento; Probabilidade de manifestações violentas; Número de pessoas presas; Número de policiais e órgãos de
segurança; Despesas militares em relação ao PIB; Número de militares; Importações das principais armas
convencionais; Exportações das principais armas convencionais; Financiamento das missões da paz das Nações

48
Dos resultados do Índice de Paz Global se pode concluir: a paz de uma região tem uma
correlação com o nível de renda, educação e integração regional; os países da paz têm altos níveis
de transparência e baixos níveis de corrupção; pequenos países democráticos estáveis e membros
de blocos regionais tendem a ter uma boa pontuação neste índice. Todavia, este índice sofre de
alguns problemas, como o fato de não incluir indicadores sobre a violência contra mulheres e
crianças e que valoriza positivamente os países que gozam de paz porque outros (os Estados
Unidos normalmente) se ocupam de sua defesa. Este índice é útil principalmente para analisar a
evolução do nível de paz em um país ao longo do tempo.

O Brasil não está em boa posição no ranking da paz global, classificado em 108º lugar,
pode ser considerado como um país perigoso. Piorou sua posição, já que em 2016 ocupava a 105ª
posição. Obteve 2,199 pontos no Global Peace Index, o que torna sua pontuação pior do que o
relatório de 2016, no qual obteve 2,176 pontos.

A Espanha está em uma posição que permite que ele seja considerado um país seguro de
acordo com o ranking de paz global, já que ocupa a posição 23 dos 163 que analisa esse indicador.
Melhorou sua situação em relação ao ano anterior, já que em 2016 estava no posto 25. Obteve
1.568 pontos no Índice Global de Paz, o que melhora sua pontuação com respeito ao relatório do
ano anterior, no qual obteve 1.604 pontos.

Este indicador mede o nível de paz e a ausência de violência em um país. Além da


evolução do escore, é essencial a evolução do país no ranking que o compara com outros países.
A tabela a seguir, mostra a evolução da posição do Brasil e da Espanha no Índice de Paz Global.

Tabela 1 – Evolução do Índice e do Ranking de Paz Global do Brasil e Espanha, período de 2008 a
2017.
BRASIL ESPANHA
Índice de Ranking Paz Índice de Ranking Paz
Ano Ano
Paz Global Global Paz Global Global
2017 2,199 108º 2017 1,568 23º
2016 2,176 105º 2016 1,604 25º
2015 2,122 103º 2015 1,451 21º
2014 2,073 91º 2014 1,548 26º
2013 2,051 81º 2013 1,563 27º

Unidas; Número de armas pesadas; Disponibilidade de armas leves; Capacidade militar ou sofisticação. Disponível
em: <https://www.datosmacro.com/demografia/indice-paz-global>. Acesso em 01 nov. 2017.

49
BRASIL ESPANHA
Índice de Ranking Paz Índice de Ranking Paz
Ano Ano
Paz Global Global Paz Global Global
2012 2,046 82º 2012 1,522 21º
2011 2,028 77º 2011 1,601 29º
2010 2,055 84º 2010 1,640 33º
2009 2,058 87º 2009 1,640 32º
2008 2,100 93º 2008 1,550 27º
Fonte: Brasil - Índice de Paz Global. Fonte: Espanha - Índice de Paz Global.

Inquestionável é que a violência resulta de múltiplos fatores e que a presença de índices


internacionais de violência similares pode levar à conclusão de que alguns países apresentem
contextos socioeconômicos, políticos e culturais parecidos ou próximos. Ou pode revelar que a
situação de violência mostra que os cenários culturais não são próximos, mas que seu controle pelo
Estado não surte efeito, levando à aproximação de índices entre países tão distintos, como é o que
se observa nos países imediatamente vizinhos ao Brasil na classificação do Global Peace Index —
Yibuti uma posição acima (107° colocado) e Argélia, uma posição abaixo (109° colocada) do
Brasil. Já a Espanha tem à sua frente, Maurício (22° colocado) e abaixo, em posição no referido
Índice, o Chile (24° colocado).

Situado no leste da África, Yibuti possui o 173° Produto Interno Bruto (PIB) do mundo.
Com uma área de pouco mais de vinte e três mil quilômetros quadrados e uma população de menos
de um milhão de habitantes, apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) revelador
de um país em pobreza que está entre os piores de qualidade de vida no mundo. A proximidade de
Yibuti com regiões conflitantes da África e do Oriente Médio faz com que acolha bases militares
dos Estados Unidos, França, Japão, Itália e China, além de contingentes militares da Espanha para
o combate aos extremistas e jihadistas na África. É um modelo de estabilidade em uma região
volátil para a pirataria e o terrorismo, que representam uma séria ameaça para a região.

Também situada na África, a Argélia é um país com o 55° PIB mundial, 83° em IDH
com uma população de mais de quarenta milhões de pessoas, além de uma posição geográfica
próxima ao continente europeu, com o qual possui estreita relação, tendo sido colônia francesa até
o século XX. Há de se destacar que, nos anos noventa, a Argélia vivenciou um período de guerra
civil e, que ainda sofre com o terrorismo e a presença do radicalismo islâmico.

Já Maurício está para a Espanha o que Yibuti está para o Brasil, uma posição a frente,
dada por um país africano, de baixa população, território e economia. Entretanto, o IDH de

50
Maurício ocupa a 64º posição, revelando maior qualidade de vida, assim como um PIB per capita
próximo ao brasileiro, porém bem maior que o de Yibuti.

Atrás da Espanha se encontra o Chile, país latino americano, com população próxima à
da Argélia, porém de IDH e economia bem superiores. Vale ressaltar que o Chile viveu, a partir
da década de 1970, uma das ditaduras latinas que mais abusou da violência em desrespeito aos
direito humanos.

O que se observa nessa análise, ainda que superficial, é que o Brasil, uma das dez
economias mais importantes do mundo por volume de PIB, deveria se situar no Índice Global de
Paz próximo ao Chile (Espanha e Maurício), seja por conta da proximidade geográfica, histórica
ou cultural e não a países com posições no quadro de Paz Global muito distantes, como Yibuti e
Argélia que estão afastados geográfica e culturalmente do Brasil. Além disso, os dois países
africanos contam com o extremismo religioso e, no caso da Argélia, um passado de guerra civil,
com todo um reflexo de ressentimentos que se pode herdar em uma sociedade. Situações que o
Brasil não enfrenta. Isso revela muito mais que o Brasil tem adotado um quadro de tolerância para
com a violência que o iguala, fazendo constatar que há Yibutis e Argelias difusas no cotidiano
conflitivo das comunidades brasileiras.

Por outro lado, cabe observar que a distribuição dos diferentes tipos de violência e crime
não é homogênea entre os países, nem dentro dos países de igual região. Tampouco evoluem da
mesma maneira. Na verdade, nos últimos anos em alguns países houve reduções significativas nos
níveis de homicídios (Chile), enquanto outros aumentaram (Brasil) (ROZAS; LODOLA; FLOM,
2014). Essas diferenças nos níveis de violência e delinquência ("segurança objetiva"), nem sempre
se refletem nas percepções, demandas e reações sociais em relação à delinquência, isto é, a
chamada "segurança subjetiva"(KESSLER, 2008; 2011).

Embora a relevância do estudo da "segurança objetiva" seja óbvia, os acadêmicos e os


governos perceberam, a partir de entrevistas sobre vitimização, que o estudo das reações sociais
com relação à insegurança também era importante, justamente porque não refletia necessariamente
os níveis objetivos de segurança, mas que tinha efeitos concretos a nível econômico, social e
político. De fato, seguindo o Teorema de Thomas47: "se os sujeitos definirem situações como reais,
estas serão reais em suas consequências." (ELBERT, 2004, p.194).

47
O Teorema de Thomas é uma teoria de sociologia formulada em 1928 por W. I. Thomas e D. S. Thomas (1863-
1947): "Se as pessoas definem certas situações como reais, elas são reais em suas consequências.", ou seja, ações são
afetadas por percepções subjetivas de situações.Em 1923, Thomas definiu, com mais precisão, que qualquer definição
de uma situação influencia o presente. Não só isso, mas — após uma série de definições nas quais um indivíduo está

51
Contudo, cumpre observar que os níveis de segurança "objetiva" diferem entre os países
da Europa e da América Latina, o mesmo acontece com a segurança "subjetiva" entendida a partir
da psicologia social como reações sociais à insegurança. Incluem as emoções e suas representações
e os comportamentos do público ante a insegurança.

Segundo Miranda (2008), a cultura brasileira é marcada por uma ideia negativa dos
conflitos, que são vistos como eventos que desarrumam a ordem social. Esta representação não
possibilita a percepçãodos conflitos como situações pelas quais as diferenças podem ser
negociadas. Por trás dessa representação, está uma ideia da harmonia como um instrumento
coercitivo para silenciar e pacificar grupos sociais que historicamente se opuseram ao status quo.
Tal estratégia foi utilizada em diferentes nações durante os processos coloniais. Associa-se a ideia
de harmonia à resignação e não à metáfora musical de consonância de sons.

A antropóloga Laura Nader (1994) analisou a ideologia da harmonia nos Estados Unidos
a partir da década de 1960 até 1990 e concluiu que o país em trinta anos passou da preocupação
com a justiça para a preocupação com a harmonia e a eficiência. Abandonou-se a busca por direitos
e optou-se pela ausência de disputas, que foi associada com a paz. Transformaram a possibilidade
do acordo “consensual” em uma estratégia obrigatória e consequentemente reduziram as
liberdades de escolha de procedimentos, sem reconhecer que há situações em que as leis podem
ser injustas e que é preciso que haja regulamentação e controle. A busca por justiça não é possível
sem que haja a explicitação dos conflitos.

3.2 Políticas de segurança pública e formação policial: desafios ante a prevenção e o controle
da criminalidade

Diante da escalada da violência e da criminalidade que envolve diferentes estratos da


sociedade brasileira, pode ficar sem resposta a seguinte pergunta: quais potencialidades e limites
se apresentam no caminho da implementação de uma política de segurança pública voltada para a
prevenção dos crimes? Segundo a pesquisa48 “O que pensam os profissionais da segurança pública

envolvido - esta definição "gradualmente influencia a personalidade do indivíduo". Exemplo clássico aconteceu
durante a crise do petróleo de 1973 que resultou no chamado "pânico do papel higiênico". O boato de uma súbita
escassez de papel higiênico — resultante de uma queda na importação de petróleo — levou as pessoas a estocarem
papel higiênico, o que causou uma escassez, que parecia validar o boato. (ELBERT, 2004).
48
A Consulta Nacional aos Profissionais de Segurança Pública foi uma pesquisa realizada por meio do Ministério da
Justiça/SENASP, com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), respondida nos
meses de abril e maio de 2009 por 64.130 profissionais que atuam no campo da segurança pública em todo o país, por
meio de questionários virtuais. Os profissionais entrevistados são policiais civis (4. 720), militares (40.502), federais
(215) e rodoviários federais (333), peritos não ligados à policia civil (360) bombeiros militares (5.957), agentes
penitenciários (4.312) e guardas civis municipais (7.731).

52
no Brasil” realizada pelo Ministério da Justiça (MJ) em 2009, com cerca de 10% dos profissionais
da área da segurança pública do Brasil, constatou-se que a formação policial é completamente
deformada e que 95% dos casos que precisam da PM (Polícia Militar) não são de confrontos.
Contudo a polícia continua a se reproduzir como se fosse um mini exército. Não por acaso,
continua como reserva49 do Exército Brasileiro.

A preocupação de criar um modelo de polícia fundado nos princípios dos direitos


humanos e de prevenção à criminalidade é algo recente nos governos democráticos, muitas vezes
por exigências da sociedade civil organizada, ou por situações de crises nas instituições policiais
que acabam exigindo modificações nas suas estruturas, ou ainda como uma temática que ocupa
posição privilegiada na política de alguns governantes. Nesse cenário merecem destaque os
aspectos relacionados à formação policial, sobretudo no que diz respeito aos conteúdos
curriculares, e mais especificamente, sobre as parcerias estabelecidas das academias de polícia
com as universidades para formação dos agentes de segurança pública, assumem papel de
destaque, não somente como campo da produção do saber, mas pelas condições de “construção de
uma cultura de paz e defesa dos direitos humanos”(Programa Nacional de Educação em Direitos
Humanos, 2004, p.36).

Sabemos que para alguns estudiosos não é somente a mudança na formação


policial com acréscimo de disciplinas voltadas aos direitos humanos. Existe uma série de questões
complexas na dinâmica do universo da polícia e da sociedade que não podem ser ignorados. Isso
não significa dizer que a temática seja tratada de modo irrelevante nos espaços públicos e plurais.
Acredita-se que é por meio de uma qualificação dos profissionais de segurança pública que as
instituições polícias e suas práticas possam ser alteradas, com capacidade de atuar com mais
profissionalização e eficiência para enfrentar as demandas cotidianas que chegam aos serviços
policiais, sem deixar de priorizar o respeito, a proteção e a garantia dos direitos humanos. É
exatamente essa centralidade dada à educação que a Matriz Curricular Nacional para a Formação
em Segurança Pública (2003, p. 5) evidencia:

A formação dos profissionais da Segurança Pública é fundamental para a qualificação das


polícias brasileiras, conforme definido nas diretrizes estabelecidas pelo Plano Nacional
de Segurança Pública. A Coordenação de ensino da SENASP propõe um conjunto de
orientações para o desenvolvimento de ações formativas visando situar as atividades
educativas no contexto profissional e social em razão cada vez mais exigente demanda de
conhecimento, saberes e habilidades que exige continuamente novas aprendizagens e que
requer uma integração de conhecimentos que vai além do desenvolvimento de currículos

49
Constituição Federal de 1988. Art. 144, § 6º - As polícias militares e corpos de bombeiros militares, forças auxiliares
e reserva do Exército, subordinam-se, juntamente com as polícias civis, aos Governadores dos Estados, do Distrito
Federal e dos Territórios. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao.htm>.
Acesso em: 10 jan. 2016.

53
de forma fragmentada. Estas ações serão operacionalizadas por meio das Instituições de
Ensino de Segurança Pública das Unidades Federativas.

Desse modo, a formação policial pautada na educação em direitos humanos passa a ser um
mecanismo fundamental para a modificação das polícias, capaz de alterar mudanças e
comportamentos que respondam as necessidades das sociedades democráticas, com uma atuação
caracterizada por aquilo que Toquecville (2004) denominou como “interesse bem compreendido”
entre as instituições públicas e a população americana, ao discorrer sobre os sentimentos e opiniões
de igualdade e liberdade.

De acordo com a consulta nacional realizada por Soares, Rolim e Ramos (2009) aos
profissionais de segurança pública do País, constatou-se que 97,1% dos mais de 64 mil
profissionais consultados consideram a formação e o treinamento em suas áreas como itens “muito
importantes” ou “importantes” para o desempenho das forças de segurança.

Além disso, os autores constataram que disciplinas como Direitos Humanos,


Gerenciamento de Crises, Policiamento Comunitário, Mediação de Conflitos e Informática, nos
últimos vinte anos, ganharam destaque nos cursos de formação, como demonstra o quadro
seguinte:

Tabela 2 - Cursos oferecidos segundo o ano de ingresso nas instituições.

Fonte: MJ/SENASP/PNUD apud Brasil (2009b).

Contudo, policiais militares, tanto praças quanto oficiais, ainda preferem aprofundar seus
conhecimentos no campo do Direito/Criminologia, como já demonstraram os trabalhos realizados
por Kant de Lima (1995, 1997)50 ao constatar que mais de 85% dos praças e 88% dos oficiais
escolheram o Direito/Criminologia para aprofundar seus conhecimentos. Em contrapartida, as

50
Para aprofundar, ver KANT DE LIMA, Roberto. A polícia da cidade do Rio de Janeiro: seus dilemas e paradoxos.
Rio de Janeiro: Editora Forense, 1995. KANT DE LIMA, Roberto. Polícia e exclusão na cultura judiciária. Tempo
Social: Revista de Sociologia da USP, vol. 9, n. 1, 1997.

54
disciplinas de Ciências Sociais (Antropologia, Sociologia, Ciência Política, etc.) apareceram como
abaixo das preferências: apenas 34,7% dos praças e 54,4% dos oficiais se interessam em
aprofundar seus conhecimentos nessas áreas, na contramão da proposta da SENASP em modificar
o modelo tradicional de ensino das polícias militares, mais identificados com disciplinas de teores
técnico-operacionais e legais do que sociais.

O exame da formação profissional nas academias de polícia mostra que os cursos


realizados vêm sendo basicamente repetidos, com poucas mudanças no eixo da formação
profissional, sem que sejam examinados e avaliados quanto aos seus acertos, falhas e impactos no
exercício cotidiano do trabalho policial, tendo em vista mudanças e soluções dos problemas
vivenciados nesse contexto.

Nesse sentido, ressalta-se que, usualmente, a ocorrência de mudanças está


predominantemente sujeita à necessidade de se dar respostas imediatas às demandas por mais
segurança, da opinião pública e dos políticos no poder, diante de episódios de violência e de crimes
com significativa repercussão ocorridos na sociedade.

Nunes (2010) aponta para a necessidade de mudanças no perfil da formação do policial


de maneira a educar para socializar a polícia com a comunidade e educar para a prática do respeito
ao próximo e educar para construir uma nova perspectiva de “combate”. Não o combate armado
direto de outrora, mas o combate à raiz da criminalidade, à fonte da discórdia, ao início do
problema, por vezes oriundo de conflitos de família ou de vizinhança, enfim, que acabam por
desencadear um conjunto de ações que descambam para o ilícito.

No momento em que começa a existir essa transformação política e social, a compreensão


da sociedade como um ambiente conflitivo, no qual os problemas da violência e da
criminalidade são complexos, a polícia passa a ser demandada para garantir não mais uma
ordem pública determinada, mas sim os direitos, como está colocado na constituição de
88. Nesse novo contexto, a ordem pública passa a ser definida também no cotidiano,
exigindo uma atuação estatal mediadora dos conflitos e interesses difusos e, muitas vezes,
confusos. Por isso, a democracia exige justamente uma função policial protetora de
direitos dos cidadãos em um ambiente conflitivo. A ação da polícia ocorre em um
ambiente de incertezas, ou seja, o policial, quando sai para a rua, não sabe o que vai
encontrar diretamente; ele tem uma ação determinada a fazer e entra num campo de
conflitividade social. Isso exige não uma garantia da ordem pública, como na polícia
tradicional, sustentada somente nas ações repressivas, pelas quais o ato consiste em
reprimir para resolver o problema. O campo de garantia de direitos exige uma ação mais
preventiva, porque não tem um ponto determinado e certo para resolver. (BENGOCHEA;
et al., 2004, p. 120).

Frente a essas reflexões, Almeida (2010, p. 362-8) nos questiona “qual arelação dessa
trama complexa e incerta das instituições e de seus indivíduos, dispostos nos espaços sociais
diferenciados pelos sistemas de classificação, com o desafio das reformas nas polícias?” E indaga

55
sobre o desafio da relação polícia e comunidade, já que ambos são partícipes e responsáveis pela
segurança pública.

Lidar com a ambiguidade em que os policiais se encontram – a polícia cidadã e a polícia


de antigamente; superar as práticas de improvisação51, em busca de uma polícia proativa e
preventiva; sobrepujar a cultura autoritária (polícia/sociedade) para alçar práticas democrática s e
preparar o policial para lidar com os conflitos sociais do cotidiano que podem evoluir para graves
delitos são alguns de muitos desafios, conforme apresenta Almeida (2010), já incorporados
historicamente no imaginário e na cultura sob fortes tensões e incertezas que contribuíram para a
noção de “polícia cidadã”.

3.3 Diretrizes da Segurança Cidadã

Ao longo de mais de cem anos de vida republicana, a violência em suas múltiplas formas
de manifestação permaneceu enraizada como modo costumeiro, institucionalizado e
positivamente valorizado – isto é, moralmente imperativo -, de solução de conflitos
decorrentes das diferenças étnicas, de gênero, de classe, de propriedade e de riqueza, de
poder, de privilégio, de prestígio. Permaneceu atravessando todo o tecido social,
penetrando em seus espaços mais recônditos e se instalando resolutamente nas
instituições sociais e políticas em princípio destinadas a ofertar segurança e proteção aos
cidadãos (ADORNO, 1995, p. 301).

Nas últimas décadas do século XX, houve uma renovação das teorias que defendem uma
nova forma de tratar a questão da violência. Dentro desse contexto destaca-se o conceito de
segurança cidadã, que tem como foco prioritário o respeito vida e à dignidade do cidadão. Aliada
a essa nova visão, as políticas de prevenção à criminalidade passam também a exigir novas ações
na condução da ordem e segurança públicas.

A Constituição Espanhola de 1978 consagra o modelo de Segurança Cidadã frente ao de


Ordem Pública. A ordem de valores se inverte e a polícia já não terá como missão a manutenção a
todo custo da ordem social vigente, pelo contrário, será a proteção do livre exercício dos direitos
e liberdades o principal conteúdo da segurança cidadã defendida pelas Fuerzas y Cuerpos de
Seguridad. No Preâmbulo da Ley Orgánica 2/1986 se destaca sobre qualquer outra finalidade a
consideração da polícia como serviço público dirigido à proteção da comunidade, mediante a
defesa do ordenamento democrático. Dessa forma, o artigo 11 da Ley 2/1986 ao dispor sobre as

51
Almeida e Mota Brasil (2004, p. 173-74) expõem exemplos de práticas de improvisação que ocorrem na polícia
civil (CE): “Há dois problemas que envolvem os atendimentos realizados por delegados e inspetores. O primeiro diz
respeito à seleção dos casos que realmente são atendidos e que merecem atenção das “autoridades”, pois ocorrem,
muitas vezes, em função do conhecimento que o queixoso ou queixosa tem com o delegado ou com algum policial,
como se o trabalho de polícia fosse uma troca de favores. Outro problema está relacionado à falta de preparo da polícia
para lidar com problemas emocionais e psicológicos. Algumas vezes, os policiais são muito ríspidos e agressivos e,
outras vezes, brandos demais. A busca da solução justa dos casos fica prejudicada pelo rigoroso cumprimento da lei,
nos casos que interessa. Noutros, a lei é desprezada na tentativa de conciliação para evitar a realização de inquérito ou
amenizar a situação de um conhecido ou alguém acompanhado de advogado que negocia a conciliação.”

56
funções da polícia repete o texto do artigo 104 da Constituição: “las Fuerzas y Cuerpos de
Seguridad del Estado tienen como misión el libre ejercicio de los derechos y libertades y garantir
la seguridad ciudadana”. A segurança pública é compreendida como um conceito amplo que
integra a segurança cidadã e a ordem pública.

Nos anos 90, chega à América Latina o conceito de Política de Segurança a partir do
fomento de políticas integradas e setoriais, é a Segurança Cidadã. De acordo com Freire (2009),
o conceito de Segurança Cidadã parte da natureza sistêmica da violência e, nesse sentido, defende
a atuação tanto no espectro do controle como na esfera da prevenção, por meio de políticas públicas
integradas em âmbito local. Dessa forma, uma política pública de Segurança Cidadã envolve várias
dimensões, reconhecendo a multicausalidade da violência e a heterogeneidade de suas
manifestações.

Nesse sentido, se faz necessário uma política de segurança que congregue esforços
intersetoriais de controle, trabalhados pelas instituições policiais, mas também ações de prevenção
que perpassem as ações do governo na esfera federal, buscando a participação dos Estados,
municípios e sociedade.

Sob uma ótica mais recente de análise, no Brasil, a principal resposta do Governo
Federal52 ao problema da segurança pública foi a criação do Programa Nacional de Segurança
Pública com Cidadania (PRONASCI), que foi instituído pela Lei 11.530, de 24 de outubro de
2007, e que começou a ser implementado em 2008. Seu objetivo foi articular ações de segurança
pública para a prevenção, controle e repressão da criminalidade, estabelecendo políticas sociais e
ações de proteção às vítimas.

Em contrapartida, o Brasil esteve como um dos protagonistas na construção de uma


agenda comum no âmbito do Grupo de Trabalho Especializado (GTE)53em Segurança Cidadã do
Mercosul e Estados associados, estabelecendo critérios para a definição de boas práticas e servindo
de exemplo aos outros membros do grupo no que diz respeito às políticas desenvolvidas na área
de segurança com cidadania.

Em 2009, por meio da Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), o Brasil


apresentou, no âmbito do MERCOSUL (Mercado Comum do Sul), uma sugestão de conceito

52
Chefe do Poder Executivo no Brasil: Luiz Inácio Lula da Silva (2003 – 2006) e (2007 – 2011).
53
Criado em 2004, o GTE tem viabilizado a troca de experiências e conhecimento entre Brasil, Argentina, Paraguai,
Uruguai, Colômbia, Venezuela, Peru, Equador, Bolívia e Chile.

57
unificado de Segurança Cidadã, que proporcionasse potencialidades comuns e maior cooperação
no enfrentamento da violência nos países da América Latina. Referido conceito foi submetido e
aprovado pelo GTE, na véspera do 2º Seminário Internacional de Boas Práticas em Segurança
Cidadã, que aconteceu em Salvador/BA.

Na segunda edição do seminário, foram apresentados dezesseis (16) projetos criativos e


promissores de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Uruguai, desenvolvidos por gestores
públicos, em parceria com as instituições de segurança pública de seus respectivos países. Entre
as experiências54 do Brasil apresentadas, teve destaque o Projeto “Mediar”, da Polícia Civil do
Estado de Minas Gerais.

Ressaltamos que, na primeira edição do evento, que aconteceu em 2008, em Santiago, no


Chile, com a elaboração do Plano Bianual do MERCOSUL, verificou-se que seria necessário o
estabelecimento de diretrizes comuns para o conceito de Segurança Cidadã, de forma que não
resultasse em sobreposição à soberania de cada um dos países, livres e responsáveis pela definição
e implementação de suas políticas públicas no âmbito da segurança. Assim, o conceito foi o
resultado da combinação de informações fornecidas pelo Brasil e pelos demais países. A partir de
então, o país signatário, antes de certificar projetos de prevenção à violência, deve observar se
seguem os parâmetros da Segurança Cidadã, que, em consenso, ficou definida como

[...] política de segurança pública, calcada nos princípios de respeito e promoção dos
direitos fundamentais, que visa possibilitar o exercício da cidadania, da participação e da
convivência entre todos os cidadãos, independente de classe social, gênero, orientação
sexual, raça e etnia, idade e religião, em seu território, protegendo a vida, a integridade
física e o patrimônio destes cidadãos, por meio de seus órgãos de segurança pública e em
articulação com outras áreas de conhecimento, combatendo a impunidade, prevenindo e
controlando os perigos e riscos que possam lesionar estes direitos. (BRASIL, 2009).

No contexto dessas reformas por que passa o Estado contemporâneo brasileiro, este novo
paradigma de segurança pública resulta na possibilidade de associação conceitual entre este
instituto e a mediação de conflitos, pois, se o foco é a cidadania, o cidadão, o indivíduo detentor
de direitos e obrigações, responsável por suas ações, a mediação é um mecanismo que se adéqua
a essa filosofia, por ressignificar o conflito e as partes por meio do diálogo e da cooperação,
prevenindo a má-administração de conflitos sociais.

54
As outras experiências do Brasil apresentadas foram: o Grupo de Teatro “Pelotão 193”, do Corpo de Bombeiros
Militar de Minas Gerais; o Projeto “Picasso Não Pichava”, da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal e o
Festival Estudantil Temático “Teatro para o Trânsito” (FETRAN), da Polícia Rodoviária Federal, Superintendência
do Mato Grosso.

58
Nessa perspectiva, em 2009, o Projeto Mediar foi escolhido como uma das experiências
de boa prática para representar o Brasil, junto aos países do MERCOSUL, no âmbito da segurança
cidadã. Tendo como ponto de partida desenvolver ações focadas para prevenção social da violência
e da criminalidade, o Projeto Mediar tornou-se referência na implementação da mediação de
conflitos no âmbito das delegacias de polícia civil do Estado de Minas Gerais. No referido Projeto,
policiais capacitados utilizam técnicas da mediação como instrumento deprevenção, manejo e
resolução de conflitos na busca de suscitar mudanças nas relações interpessoais, por meio de um
processo dialógico, participativo e pedagógico.

A mediação de conflitos como “nova” orientação/estratégia de atuação policial, baseada


na Segurança Cidadã, apresenta um caráter preferencialmente preventivo. Além disso, a mediação
visa não apenas reduzir o número de crimes, mas também reduzir o dano das partes e da
comunidade e modificar os fatores ambientais e comportamentais, pois a sua metodologia implica
numa “nova mentalidade” no modo de ser e estar a serviço da comunidade e, consequentemente,
numa mudança de postura profissional do agente de segurança pública perante o cidadão.
4. MEDIAÇÃO— ¡YA, NO PASA NADA!55

Acreditamos que a mediação é, em primeiro plano, vontade: uma vontade de abrir


caminhos, de construir pontes, de estabelecer ligações onde elas não existem, permitindo
que pessoas ou grupos se unam, permitindo também, que um ser encontre o caminho de
si próprio. A mediação apela à inventividade e à criação. (SIX, 2001, p. 45).

Impossível é de se afirmar quando surgiu o conflito na natureza. Na escala de seres vivos


não há conflito quando um ser ataca outro em busca de alimento ou território, há instinto.
Evolutivamente apenas os seres mais complexos adquiriram o hábito de lutar entre si, dentro da
mesma espécie. E no topo desta linha evolutiva está o ser humano, o único que os conflitos se
fizeram tão presentes no seu modo de ser que este desenvolveu métodos/estratégias de fazer impor
sua vontade ou de conciliar interesses como nenhuma outra espécie, sendo capaz de desenvolver
meios de eliminar seus oponentes ou de fazer acordos, como guerra, autotutela ou contrato,
fazendo o mais fraco ser subjugado ao mais forte ou que fortes e fracos se unam. Conclui-se que
o ser humano em conflito com outro nem sempre resultará em luta, mas também em acordo,
conforme a necessidade.

O que o humano primitivo observou, entretanto, foi que transformar qualquer divergência
de interesse numa luta, ou no dizer de Thomas Hobbes, na “guerra de todos contra todos”, levaria

55
Na Espanha se usa "¡Ya, no pasa nada!" para dizer “tranquilo!”; “não há problema!”; interpretando determinada
situação com naturalidade. Nesse sentido, a mediação se propõe visualizar uma situação de conflito como algo natural
e que está intrínseca as relações sociais.

59
mais tempo ou menos tempo à aniquilação completa. Era necessário a criação de um ente maior,
de um controle social, que imporia a paz dentro da comunidade e teria o monopólio do uso da
força. Surgiria uma ficção, o monstro do Leviatã (HOBBES, 2003) — o Estado, por um contrato
social em que as pessoas cederiam um pouco de sua liberdade em troca de segurança.

Uma das facetas deste Estado monopolizador do uso da força é a de que interesses
colidentes na sua sociedade civil que não se tivesse por parte de um dos conflitantes o
reconhecimento do pedido do outro conflitante ou a transação com concessões mútuas, de modo
que cada conflitante mantivesse firme suas pretensões, deveria ser submetido ao Estado-Juiz
(GRINOVER, 2012) para que este a solucionasse. Era o surgimento de uma das funções do Estado,
a jurisdição.

O exercício jurisdicional variava de sociedade para sociedade, com atributo em comum de


ser uma função exercida, predominantemente, por membros da classe dominante social, seja de
sacerdotes da antiguidade, seja de reis na Idade Média. Na Idade Moderna e com os conceitos do
Iluminismo a função jurisdicional foi atribuída ao Poder Judiciário como função típica
(NOVELINO, 2015, p. 742).

Como características da jurisdição temos a substitutividade, de modo que um terceiro não


escolhido pelas partes e representando o Estado-Juiz indica como o direito seria aplicado ao caso
concreto solucionando a lida apresentada (MEDINA, 2017). Outra característica é a da
imperatividade, com a decisão do Estado-Juiz se impondo à vontade das partes, com definitividade
(DIDIER JR., 2015).

Vê-se que, aplicando a jurisdição, o conflito pode ser impostamente resolvido, porém é
difícil imaginar que houve satisfatividade, entendida esta como o reconhecimento/aceitação
completa por uma ou ambas as partes do resultado fixado. A insatisfação contida pode até mesmo
ser causa de um novo conflito, alimentado pelo ressentimento do sucumbente.

Essa problemática relativa à incapacidade de a jurisdição criar concordância é mais


acentuada em países autoritários ou de histórico patrimonialista, como os de origem ou
colonização ibérica, a exemplo da Espanha e do Brasil, os quais, a seguir, passaremos a estudar
sob o prisma histórico-legal e principiológico da mediação de conflitos e do mediador.

4.1 Fatores que motivaram a aplicação da mediação na Espanha e no Brasil

60
O termo mediação provém do latim mediare, que significa mediar, dividir ao meio,
colocar-se ao meio ou intervir. Estas expressões indicam o significado original da palavra
mediação que, ao longo do tempo, passou a ser conhecida como um procedimento pacífico de
gerenciamento de conflitos, no qual uma terceira pessoa imparcial e qualificada — escolhida ou
aceita pelas partes realiza atos para fomentar e facilitar a resolução de uma controvérsia sem
determinar a solução final. Através de um processo dialógico e cooperativo, a mediação possibilita
identificar os interesses e necessidades que se encontram sob posições opostas, e permite preservar
a relação entre as pessoas envolvidas, pois na mediação não surgira um ganhador e um perdedor,
se não um conjunto de ganhadores com suas necessidades e interesses satisfeitos.

O desenvolvimento da instituição de mediação ocorreu de forma diversa em cada país.


No que diz respeito à Espanha, vários fatores a levaram a incorporar uma lei de mediação em seu
sistema legal. Destacam-se: primeiro, a influência externa de outros países em que já estava
consolidada; em segundo lugar, a promoção e o impulso da União Europeia (UE) para harmonizar
os sistemas judiciais dos Estados-Membros e integrar procedimentos extrajurisdicionais,
destacando-se no âmbito da mediação a Directiva 2008/52/CE56, que instou os Estados-Membros
que a incorporaram em suas respectivas legislações nacionais e, em terceiro lugar, o interesse
político pela mediação que levou a aprovação de normas autonómicas e a regulação pelo Conselho
Geral do Poder Judicial de projetos-piloto sobre a matéria (BARONA VILAR, 2013).

Na América Latina, a mediação foi inicialmente estabelecida na Argentina em 1993.


Institucionalizou-se de maneira obrigatória em todos os procedimentos judiciais como método
alternativo de resolução de conflitos em vários âmbitos (SALES, 2004). Finalmente, a mediação
também aterrissou em solo brasileiro.

A experiência de mediação no Brasil começou nos estados das regiões Sul e Sudeste do
país e foram as instituições do setor privado que o colocaram em prática para ajudar a resolver
conflitos em áreas civis e comerciais.

Durante os primeiros anos da década de 2000, a mediação destacou-se em contextos com


altos níveis de violência, tornando-se tão importante que o Ministério da Justiça assinou um acordo
com a ONG Viva Rio para a criação de "Balcões de Direitos" para o propósito para fornecer, entre
outros, assessoria jurídica gratuita e serviços de mediação de conflitos a pessoas pertencentes a
comunidades vulneráveis.

56
Na presente Directiva, o termo «Estado-Membro» designa qualquer Estado-Membro, com exceção da Dinamarca.

61
Em 2005, a Secretaria da Secretaria de Reforma do Judiciário (SRJ), em cooperação com
o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), realizou o relatório “Acesso à
Justiça por Sistemas Alternativos de Administração de Conflitos”, que reúne sessenta e sete (67)
programas sem fins lucrativos em funcionamento em todo o país. O relatório de pesquisa também
identificou que trinta e uma das experiências relacionadas à prática de mediação estavam
concentradas em grandes cidades, especialmente no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Salvador
e Fortaleza. Apesar do crescente investimento feito pelas agências governamentais nessas
experiências, o trabalho mostrou que a injeção de recursos financeiros e humanos nesses
programas permaneceu precária (BRASIL, 2005).

Nos anos seguintes, a questão da mediação no Brasil ocupou um lugar proeminente na


agenda jurídica nacional. Posteriormente à Resolução nº 125/201057 do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ), o Código de Processo Civil (CPC) foi promulgado em 16 de março de 2015 e,
finalmente, a Lei 13.140/2015 (Lei de Mediação), promulgada em 26 de junho de 2015. Todas
estas disposições significaram o impulso e o estabelecimento de princípios e normas sobre
mediação e a defesa da cultura do diálogo e a cooperação entre os indivíduos.

A progressiva importância que estas matérias foram adquirindo é, muitas vezes,


justificada pela denominada “crise da justiça”, resultante dos problemas de eficiência e celeridade
que os Tribunais apresentam hodiernamente. Dados estatísticos revelam que depois do ano de
1989, a litigiosidade civil em Espanha cresceu quatro vezes e não baixou dos 500.000 processos
(em média), enquanto que no Brasil a realidade superou os 100 milhões de processos em
tramitação. Este aumento exponencial dos processos que dão entrada nos Tribunais Judiciais, não
acompanhada de uma resposta equivalente em termos de aumento de juízes e Tribunais,
desembocou num crescimento de processos pendentes com os inerentes atrasos na obtenção de
uma sentença definitiva e, em consequência, numa taxa de morosidade judicial elevada. Se a
rapidez processual não deverá constituir um objetivo absoluto e único, prevalecente sobre a
garantia de realização da justiça do caso concreto, sempre será desejável que os processos sejam
decididos num prazo razoável que garanta a eficácia da decisão.

57
Diante do novo paradigma vivenciado pelo Poder Judiciário brasileiro – a “cultura da sentença” começa a sair de
cena para dar lugar à “cultura da pacificação social”. De acordo com a Resolução de n° 125, de 29 de novembro de
2010, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que dispõe sobre a Política Judiciária Nacional de tratamento adequado
dos conflitos de interesses no âmbito do Poder Judiciário, foram instituídos os Núcleos Permanentes de Métodos
Consensuais de Solução de Conflitos e Cidadania (NUPEMEC), bem como os Centros Judiciários de Solução de
Conflitos e Cidadania (CEJUSC) em todas as capitais do país. Com a Resolução referenciada, o CNJ tenciona
desencadear um processo de consolidação de uma política pública permanente, marcada pelo incentivo,
aperfeiçoamento da prática judicial e extrajudicial de mecanismos consensuais informais de solução de conflitos.
(SANTOS, 2012, p.199).

62
Igualmente complexa, e por vezes confusa, é a legislação processual que, respondendo ao
impulso de encontrar remédios rápidos para os problemas colocados ao legislador, é confeccionada
à margem de todo o desenho orgânico e sistemático do próprio processo, perdendo, por isso,
coerência normativa. (MARQUES, 2013).

Neste sentido, as reformas do Processo Civil levadas a cabo pelo legislador espanhol em
2000 e, no ano de 2015 pelo brasileiro, as quais eliminaram a multiplicidade de procedimentos
declarativos existentes, reduzindo-os apenas a dois (um ordinário e outro verbal), aos quais
acrescem alguns procedimentos especiais em questões muito concretas. Desta forma procedeu-se
à simplificação necessária à efetividade processual.

Os problemas que a Justiça enfrenta têm, contudo, origens muito diversas, não se reduzindo
unicamente a questões de efetividade e morosidade, como comprova o “Livro Branco da Justiça”
elaborado pelo Consejo General del Poder Judicial em Espanha e, o Relatório Anual “Justiça em
Números” do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no Brasil, os quais sistematizam os crônicos
problemas de organização e de funcionamento da administração judiciária espanhola e brasileira.

Aberta a porta dos meios extrajudiciais de administração de conflitos, focamos as nossas


atenções na mediação, uma vez que esta constitui um meio de crescente importância no atual
panorama europeu e latino-americano, como demonstra a publicação, pela União Europeia (UE),
da Directiva 2008/52/CE, de 21 de Maio de 2008, do Parlamento Europeu e do Conselho, relativa
a certos aspectos da mediação em matéria civil e comercial; e da Carta das Nações Unidas58, que
orienta os Estados-membros a resolver seus conflitos internacionais por meios pacíficos e a
cooperar no âmbito regional para desenvolverem ações e conhecimentos que ajudem na
manutenção da paz.

4.2 Mediação em Espanha

A Espanha se depara com conflitos entre grupos e regiões, tribos e civilizações, anteriores
mesmo à Era Cristã, sob o domínio do Império Romano ou sob a ocupação Moura na Idade Média.
Mesmo após a chamada “Reconquista” e a formação do Estado-Nacional, sob Aragão e Castela,
os conflitos eram resolvidos pela imposição de vontade do mais forte, fosse um nobre contra um
camponês, fosse por um terceiro ao conflito, o Rei-Juiz. (ESLAVA GALÁN, 2016).

58
A Carta das Nações Unidas, aprovada em 1945 e ratificada pelo Brasil, dispõe em seu artigo 1º que “[o]s propósitos
das Nações Unidas são: 1. Manter a paz e a segurança internacionais e, para esse fim: tomar, coletivamente, medidas
efetivas para evitar ameaças à paz e reprimir os atos de agressão ou outra qualquer ruptura da paz e chegar, por meios
pacíficos e de conformidade com os princípios da justiça e do direito internacional, a um ajuste ou solução das
controvérsias ou situações que possam levar a uma perturbação da paz”.

63
No século XX, após a Guerra Civil dos anos de 1930, seguiu-se a Ditadura de Francisco
Franco. Como era de se esperar de uma ditadura, houve violação dos direitos humanos e violação
a direitos fundamentais, com redução da autonomia da vontade, mantendo uma série de conflitos
individuais e sociais contidos, pelo temor que seu extravasar resultasse em uma reprimenda maior
do Estado-opressor que a insatisfação em manter contida.

Após a queda da Ditadura Franquista e o restabelecimento de liberdades individuais, o foco


da ciência jurídica espanhola recebeu um incremento de humanismo que já tomava conta da
Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com o pós-positivismo.

O Estado não precisava ser o único a solucionar os conflitos dos seus cidadãos. Estes
poderiam, se bem auxiliados, autocompor seus problemas colidentes. A necessidade de se entregar
às próprias partes em conflito a oportunidade de resolvê-lo se intensificou com a entrada da
Espanha na União Europeia, o incremento da atividade comercial e migratória com a inexistência
de um Estado supranacional soberano que exercesse jurisdição absoluta sobre os cidadãos de várias
nacionalidades. Estes teriam maior chance de criar acordos e adaptar suas culturas com a liberdade
de definir o meio de desproblematizar as circunstâncias.

Então, em 2008 o Parlamento e Conselho da União Europeia editou a Directiva


2008/52/CE que dispôs sobre mediação em assuntos civis e mercantis. O objetivo era disciplinar
e estimular a mediação para os litígios transfronteiriços em matéria civil e comercial (Artículo 1°),
em que cada parte esteja domiciliada em Estado-Membro diverso da outra.

Tal Diretiva deixou a cargo dos membros europeus estabelecer limites ao procedimento de
sessão, assim como disciplinar mais apuradamente a forma como ocorreria a mediação. O
Parlamento Europeu sugere, na Consideração n.° 25 da Directiva, que os governos encorajem seus
cidadãos a contatar mediadores e que estes informem aos seus clientes as possibilidades que
obteriam com a mediação. O intuito: promover os direitos fundamentais no âmbito europeu,
prestigiando a ideia, cada vez mais difundida, que os melhores juízes para o conflito são as próprias
partes.

Foi nesse clima que foi editada o Real Decreto Ley 5/2012 de 6 de julio, de mediaciónen
assuntos civiles y mercantiles59, denominada de Ley de mediación em asuntos civiles e mercantilis,
marco legal definidor da atuação do mediador e da sessão de mediação na Espanha. Esta também

59
Publicada em BOE núm. 162, de 7 de julio de 2012, páginas 49224 a 49242, em Agencia Estatal Boletín Oficial del
Estado. Disponível em <http://www.boe.es/diario_boe/txt.php?id=BOE-A-2012-9112>. Acesso em 21 jul. 2014.

64
incorporou ao ordenamento jurídico interno espanhol a Directiva 2008/52/CE. Esta lei estabelece
um enquadramento mínimo para a prática da mediação, sem afetar as disposições adotadas pelas
Comunidades Autônomas.

O seu preâmbulo é rico em detalhes da gênese da lei, do interesse em criá-la, e da


constatação, pelo legislador espanhol, da importância de criação de métodos alternativos60 de
solução de conflitos e de como estes podem agir ao lado da tutela jurisdicional. Conforme se vê
na primeira parte preambular:

Entre las ventajas de la mediación es de destacar su capacidad para dar soluciones


prácticas, efectivas y rentables a determinados conflictos entre partes y ello la configura
como una alternativa al proceso judicial o a la vía arbitral, de los que se ha de deslindar
con claridad. La mediación está construida en torno a la intervención de un profesional
neutral que facilita la resolución del conflicto por las propias partes, de una forma
equitativa, permitiendo el mantenimiento de las relaciones subyacentes y conservando el
control sobre el final del conflicto.

O artículo 1 do Real Decreto Ley define mediação, numa formulação bem ampla, como
“(…) aquel medio de solución de controversias, cualquiera que sea su denominación, en que dos
o más partes intentan voluntariamente alcanzar por sí mismas un acuerdo con la intervención de
un mediador.”.

No artículo 2, n.º 2, são enunciadas as exclusões sendo que, para além dos litígios objeto
de mediação penal, laboral e relativa à administração pública, também consigna expressamente a
exclusão da mediação em matéria de consumo.

O objeto é assumido na seguinte formulação, aliás coincidente com a da Directiva


referida: “Esta Ley es de aplicación a las mediaciones en asuntos civiles o mercantiles, incluidos
los conflictos transfronterizos, siempre que no afecten a derechos y obligaciones que no estén a
disposición de las partes en virtud de la legislación aplicable.” (artículo 2 nº 1).

Quanto à força executiva dos acordos resultantes da mediação, a lei espanhola contempla
duas vias: se a mediação é extrajudicial, as partes podem certificar o acordo mediante escritura
pública, perante um notário, o qual fará o controle dos requisitos legais (artículo 25 nº 1 e 2). Por

60
O uso destes processos tornou-se cada vez mais difundida que a palavra "alternativa" é cada vez mais abandonada
em favor de termos como "complementar", "adicional", "adequado", ou simplesmente "resolução de conflitos". No
original: “The use of these processes has become so increasingly pervasive that the ‘alternative’ of ADR is increasingly
being dropped in favor of such terms as ‘complementary’, ‘additional’, ‘appropriate’, or simply ‘dispute resolution’.
In addition, points out that “Interestingly, some of mediator’s greatest supporters are not in favor of dropping the
‘alternative’ from the description of ADR because they fear that by doing so, the process will become just like more
traditional methods of dispute resolution – expensive, time-consuming, and not necessarily just.” (PRESS, 1997, p.
903).

65
outro lado, “Cuando el acuerdo se hubiere alcanzado en una mediación desarrollada después de
iniciar un proceso judicial, las partes podrán solicitar del tribunal su homologación de acuerdo
con lo dispuesto en la Ley de Enjuiciamiento Civil” (artículo 25 nº 4).

Submete expressamente a mediação aos princípios da voluntariedade e livre disposição,


igualdade de oportunidades, imparcialidade e confidencialidade (artículos 6, 7, 8 e 9), para além
da expressa sujeição das partes à lealdade, boa-fé e ao respeito mútuo e ainda ao dever de
colaboração e apoio ao mediador (artículo 10).

O estatuto do mediador é regulado em pormenor (artículos 11 a 15), devendo ter formação


superior e ainda formação específica acreditada em mediação, e inclusive deverá atuar a coberto
de seguro de responsabilidade civil profissional.

Do artículo 16 ao 24 regula a lei a tramitação do procedimento de mediação, sendo que é


admitida como possível a realização de atos de mediação por via de meios eletrônicos de
comunicação ou videoconferência.

De um modo geral, ressalvadas as notas acima, a estrutura da lei é bem divergente à lei
brasileira sobre mediação em matéria civil e comercial.

Afirmar que com a mediação as soluções conseguidas podem ser “prácticas, efectivas y
rentables” significa afirmar, por parte do legislador, que o Estado espanhol reconhece que
determinados conflitos são melhor resolvidos e aceitos sem uso do Estado substituidor da vontade
individual. Isso se faz presente quando o direito “afecta a derechos subjetivos de carácter
disponible” (Preámbulo, Ley 5/2012). A preocupação com os custos, sempre elevados, de uma
demanda judicial, não passaram desapercebidos. Vale lembrar que tais custos acabam sendo, em
maior ou menor grau, arcados pela sociedade, que é responsável por manter o orçamento do Poder
Judiciário.

O modelo espanhol rende deferência à figura do mediador, afirmando sua importância


central, exigindo-se, para tanto, qualificação própria. É uma forma de o Estado reconhecer que a
mediação é importante, mas não pode ser qualquer sessão que use este nome a ter a deferência
necessária, excluindo aventureiros que se aproveitem do crescimento da função de mediador, sem
qualificação, para agir como se assim o fossem, levando a mediação ao descrédito.

66
É inevitável o avanço para o direito espanhol e a segurança jurídica a positivação do
regramento da mediação, ainda mais pela dinâmica de um país inserido numa comunidade de
nações, com idiomas e culturas diferenciados. A legislação brasileira deveria ter acompanhado a
espanhola desde logo, sobretudo quanto ao aspecto pormenorizado e detalhista.

4.2.1 Do Procedimento de Mediação na Espanha

O procedimento de mediação na legislação espanhola pode ocorrer antes ou durante o curso


de um processe judicial. Neste último caso, as partes podem solicitar que o processo seja suspenso,
e desde que o desejo pela sessão de mediação seja voluntário, conforme visualizem que o
prosseguimento da lide no judiciário, em que há uma espécie de “luta” por uma decisão favorável
unilateral, pode comprometer os ânimos daqueles dispostos a se autocompor. É o caso de uma das
partes apresentar uma prova robusta e desconhecida da outra parte, algo legítimo, porém que pode
ser vista como uma estratégia de suplantar o adversário, alterando o equilíbrio. Nesses casos, se
aconselha a suspensão do processo, assim como nos casos em que o processo esteja em vias de ser
decidido por sentença antes do prazo razoável que as partes acreditam que possam chegar a um
acordo com a mediação.

A sessão de mediação será um acontecimento formal, em que atos das partes, ainda que
não expressos, podem trazer consequências, como o não comparecimento de uma delas far-se-á
presumir que esta desistiu de tentar mediar. O mediador (ou mediadores em causas em que mais
de um atuar) também terá a obrigação de informar às partes qualquer ato que possa romper sua
imparcialidade bem como o modo como o procedimento se desenrolará. Se as partes
desconhecerem alguma dessas causas ou o modo procedimental se deve entender que o ato está
maculado de vício insanável, pois o dever de informação foi rompido, portanto tais atos são
necessários para se estabelecer o aspecto formal inicial da audiência.

Outro ato formal, capaz de tornar a mediação sem efeito por previsão legal (artículo 19,
Ley 5/2012) é que o procedimento deve se iniciar por uma sessão constitutiva em que se
identificam, entre outros assuntos, partes, mediador, objeto do conflito e voluntariedade na
participação da mediação. Até este momento a figura do mediador apenas cumprirá mandamentos
legais, não usando de técnica alguma para estabelecer a ponte de diálogo entre as partes, mas
seguindo este rito dará validade aos atos próprios de mediação.

4.3 Mediação no Brasil

67
Nos últimos anos do século XV, enquanto a Espanha já era um Estado-Nacional
monárquico consolidado, o Brasil era “descoberto”. O próprio termo “descoberta” já é polêmico,
pois não leva em conta os povos que já aqui habitavam, que possuíam sua cultura, hierarquia e
conflitos próprios, sobretudo intertribais. O correto do termo “descobrimento” é de se levar em
conta o início da historiografia oficial e da magnitude dos conflitos de todas as ordens que se
estabeleceriam dali por diante, a começar pelo choque entre a civilização mais tecnologicamente
primitiva dos índios com o rival europeu já no século XVI até os conflitos por incivilidades
cotidianas e as lutas entre facções criminosas e entre estas e a polícia no século XXI.

O homem branco europeu acostumado a fazer valer sua vontade pelo uso da força de suas
armas, ainda mais quando estava longe dos centros monárquicos e religiosos da Europa, encontrou
ambiente fértil para isso no Brasil — colônia portuguesa. De início, suas interações com os índios
foram amistosas, situação que mudou tão logo os habitantes originários da colônia se aperceberam
que aquele povo distante, vestido, estava ali para exercer domínio e exploração.

No conflito entre brancos e índios estes sofreram ainda com a arma ideológica do europeu,
a ideia da fé cristã e de sua inferioridade como ser nativo. Ao expor sua ideologia, o colonizador
a impunha e não havia espaço para os debates, mas o sincretismo de culturas ocorria a contragosto.
A visão do colonizador, bem como suas regras, prevaleciam. O conflito era manifestado na força
bruta e na força ideológica, unilateralmente. Levar as partes ao debate, à busca da solução pacífica
dos conflitos pelos próprios envolvidos, uma “mediação interpovos”, era algo impensável e até
absurdo para o contexto de dominação da época.

Com a questão indígena restrita a pequenos bolsões de resistência, os conflitos mais fortes
foram entre o senhor de engenho e o negro escravo. Era a luta entre a “casa grande e a senzala” no
dizer de Gilberto Freyre (2005). Os negros escravos se insurgiram muito mais com sua condição
que os indígenas, transformando o dia a dia em um conflito sem fim, em momentos latentes e em
outros em franco extravasar. As causas eram várias: não submissão ideológica, manutenção de
ritos culturais próprios; sensação de não pertencimento; convivência constante entre os
personagens do conflito na exploração econômica. (MARQUESE; SALLES, 2016).

Não que houvesse apenas esse tipo de diferença de interesses. Movimentos contra a figura
do Estado, como a Inconfidência Mineira ou a Cabanagem e, até mesmo, guerras entre países que
surgiram das ex-colônias espanhola e portuguesa, como a Guerra do Paraguai, marcaram a história
brasileira em conflitos (FAUSTO, 1995).

68
Sem nenhuma mudança do que acontecera com os índios e negros, em fins do século XIX
e início do século XX a autotutela ainda era a forma predominante de controle social e de conflitos
na colônia e, porque não dizer, também na América espanhola. Os regramentos normativos são
instituídos desde a Constituição de 1824, autoritária e outorgada por Dom Pedro I, entretanto esse
mesmo direito era a fonte da desigualdade e opressão, com índios não sendo cidadãos, escravos
como objetos e mulheres como submissas. Só um pequeno grupo gozava de garantias legais e
mesmo quando divergiam entre si, concordavam amplamente, e pouco havia o que mediar. Michel
Foucault aponta para uma substituição das formas de punir os corpos à medida que se instauravam
novos regimes políticos que sucederam as monarquias absolutistas (FOUCAULT, 1986). No caso
do Brasil, não ocorreu uma substituição e sim uma acumulação do poder punitivo.

No século XX, a jovem República foi pródiga em lutas de classes. Movimentos separatistas
e rebeliões derrubaram a República Velha com a subida de Getúlio Vargas ao poder. Após a queda
de Vargas como ditador em 1945 e, por 19 anos, até 1964, o país viveu uma conturbada
democracia. Os “donos do poder”, no dizer de Raymundo Faoro (2001), não estavam dispostos a
aceitar qualquer vontade popular na Presidência, que culminaria no Golpe de 1964, seguindo-se
uma brutal ditadura militar.

Nos anos de 1980, com a queda da Ditadura (1964 - 1985), a República Federativa do
Brasil apresentou um terreno fértil para a consolidação do Estado Democrático de Direito, ou seja,
o povo governaria e a ele pertenceria o poder, além do que todos, sobretudo o Estado, deveriam se
pautar no respeito às leis.

O ápice desse momento foi a promulgação da Constituição Federal de 1988 (CF/88). O


texto magno mais garantista da história albergou direitos fundamentais61 e garantias individuais e
coletivas, protegendo o cidadão do arbítrio do Estado, ao mesmo tempo que dá a este, o Estado, a
incumbência de proteger o indivíduo, sua dignidade humana e sua existência em sociedade.

Com referidos direitos, a Constituição de 1988 visou criar uma sociedade fraterna e
pacífica, isso, obviamente, foi um contraponto à repressão do regime militar. Em prol da paz social,
a Constituição criou vários instrumentos, um expresso em seu Artigo 5°, em que lei alguma pode
afastar da apreciação do Poder Judiciário, lesões ou ameaças a direito, tendo um capítulo próprio
do seu texto para organizar tal princípio.

61
A Constituição brasileira de 1988 positivou direitos fundamentais de primeira dimensão, como direitos civis e
políticos que exigem do Estado uma abstenção; direitos de segunda dimensão, que são sociais e exigem um agir do
Estado; e direitos de terceira dimensão, ligados, entre outros, ao meio ambiente e à autodeterminação dos povos.

69
Outro instrumento, muito mais uma diretriz programática, é a de que os conflitos podem e
devem ser resolvidos pacificamente. Conforme escrito no Preâmbulo Constitucional: “(...) uma
sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na
ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias (...)” (grifo nosso). Isso
é uma autorização indireta a que as pessoas se autocomponham; ainda mais pela topologia em que
esta diretriz foi expressa, no preâmbulo, local de vetor axiológico, indicando o subjetivismo do
constituinte e, porque não dizer, seu reconhecimento em mea culpa que o Estado não pode estar
presente e que a verdadeira paz social só se alcança quando os indivíduos conflitantes tem interesse
na pacificação do conflito e que a melhor forma de obtê-la não é impondo, mas fazendo com que
as partes a construam, para que se chegue a uma sociedade livre, justa e solidária.

A Constituição de 198862 não criou uma nova sociedade, mas foi direcionando mudanças,
sobretudo no direito posto. Baseado nos valores constitucionais, o novo Código de Processo Civil,
Lei n° 13.105, de 16 de março de 2015, em suas normas fundamentais diz que o Estado promoverá
a solução consensual de conflitos em seu artigo 3°, e ainda que a mediação e outras formas
consensuais serão estimuladas pelos integrantes das funções essenciais à justiça:

§ 3o A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos


deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do
Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial.

Ressalte-se que as normas fundamentais previstas devem ser aplicadas a todos os


processos de cunho cível, como o trabalhista e o consumeirista, pois se trata de fonte primária e
subsidiária aos processos não criminais e de aplicação em todas as fases do processo, sempre que
com este for compatível. A mediação e a conciliação receberam a incumbência de tentar solucionar
o que o judiciário não vinha conseguindo: harmonizar relações sociais63.

62
Faz-se necessário registrar, ainda, que no ano de 2004, com a Emenda Constitucional n.º 45, uma nova era foi
inaugurada e as incompatibilidades entre o Código de Processo Civil e o novo sistema implantado começaram a ficar
evidentes. A emenda constitucional em questão refere-se à tão esperada reforma do Poder Judiciário e provocou
profundas alterações no Texto Constitucional. Foram várias as inovações trazidas a lume pela emenda à Constituição
Federal, podendo-se citar a título de exemplo, as seguintes: (art. 5°, LXXVIII) adoção expressa do princípio da
celeridade processual; (art. 5º, § 3º) hierarquia constitucional das normas de tratados internacionais de direitos
humanos; (art. 5º, § 4º) submissão à jurisdição do Tribunal Penal Internacional; (art. 102, § 2º) atribuição do efeito
vinculante às ações diretas de inconstitucionalidade; (art. 103-A) instituição da súmula vinculante; (art. 103-B) criação
do Conselho Nacional de Justiça; (art. 109, § 5°) federalização dos crimes contra os direitos humanos; (art. 114)
alteração da competência da Justiça do Trabalho; (art. 4º, da EC n° 45/2004) extinção dos Tribunais de Alçada; dentre
outras inovações.
63
Azevedo (2013, p. 99) faz uma separação do que vem a ser lide processual e lide sociológica. Para o autor, a “lide
processual é a descrição do conflito segundo os informes da petição inicial e da contestação”, que delimitam o campo
de atuação do julgador e que muitas vezes não permitem a satisfação dos verdadeiros interesses do jurisdicionado. A
lide sociológica está relacionada ao real interesse das partes, o que muitas vezes não corresponde às questões
processualmente tuteladas, diferenciando-se daquilo que é levado a juízo sob a forma de uma demanda. Para Azevedo,
somente a resolução integral da lide sociológica, com a composição dos verdadeiros interesses das partes, conduz à
pacificação das relações sociais.

70
A grande novidade do novo código de processo foi a previsão de uma audiência de
mediação ou conciliação a priori obrigatória, pois basta que o autor ou o réu mostrem interesse
nela para que ocorra e que o direito admita autocomposição. Apesar da intenção de estimular a
solução pelas partes ser louvável, o Código despertou pontos de discórdia ao obrigar uma das
partes a comparecer, ainda que não queira a audiência, sob pena de multa por ato atentatório à
dignidade da justiça. Ora, um dos princípios da mediação é o da voluntariedade, em que as partes
devem estar abertas à busca do acordo. É o que parte da doutrina processualista brasileira tem
sustentado. Para Freitas Câmara (2015, p.199):

Apesar do emprego, no texto legal, do vocábulo “ambas”, deve-se interpretar a lei


no sentido que a sessão de mediação ou de conciliação não se realizará se qualquer
das partes manifestar, expressamente, desinteresse na composição consensual.
(grifo no original)

Ao tornarem-se cada vez mais imperativas as urgências, no mesmo ano em que foi editado
o novo Código de Processo Civil, foi instituída a Lei n.º 13.140, de 26 de junho de 2015, sinal da
confiança do legislador na mediação como método de solução de conflitos.

O fato de o instituto da mediação não possuir regulamento próprio não foi empecilho para
que, antes da edição da lei, o instituto estivesse sendo praticado e cada vez mais aceito no Brasil.
O que levou a edição de lei específica foi a força atribuída pelo neoprocessualismo64 às soluções
oriundas de métodos autocompositivos de gestão de conflitos, amplamente assegurados no Novo
Código de Processo Civil editado no mesmo ano. A necessidade de dar transparência a um
procedimento que poderia auxiliar nos processos judiciais favoreceu a publicação, quase que
simultânea, do novo Código e da lei específica.

Deve-se atentar, entretanto, que a Lei n.º 13.140/2015 não foi inovadora nem desceu até as
minúcias sobre a ocorrência e a prática da mediação. É uma lei de conteúdo amplo, geral. Isso não
deve ser visto com demérito, pois a reunião de mediação é um acontecimento que, ao contrário
dos ritos processuais judiciais, não pode estar atrelado a uma ordem preestabelecida de atos, sendo
necessário que as partes envolvidas e o mediador possuam flexibilidade de atuação durante o
processo da mediação.

4.3.1 Do Procedimento de mediação no Brasil

64
Para aprofundamento ver: OST, François. O tempo do Direito. Tradução de Maria Fernanda Oliveira. Lisboa:
Instituto Piaget, 1999. CAMBI, Eduardo. Neoconstitucionalismo e neoprocessualismo In: DIDIER JR., Fredie
(org). Leituras complementares de processo civil. 8. ed. Salvador: JusPODIUM, 2010. p. 233-265.

71
O procedimento de mediação é o momento do ápice em que o mediador, utilizando-se de
técnicas, buscará o acordo. É um acontecimento pouco solene, no sentido de não necessariamente
imbuído de excessiva formalidade, ainda que haja o cumprimento de requisitos mínimos, até para
validar o acontecimento como ato válido, a exemplo do alerta, feito pelo mediador às partes, sobre
a confidencialidade do que estará por ocorrer.

O legislador brasileiro optou por dividir a normatividade do procedimento mediatório entre


judicial, com a instauração de uma lide perante o Poder Judiciário, e um procedimento
extrajudicial, de caráter mais amplo, privado, a ocorrer de acordo com critérios de conveniência,
oportunidade e escolha das partes interessadas. Há disposições legais mínimas a unir ambos os
procedimentos, não dispensando o conhecimento de formação do estudo da mediação por parte do
mediador.

A opção por um mediador não impede a participação de um maior número de profissionais


dessa categoria (artigo 15, Lei 13.140/2015), de acordo com a necessidade da causa. Isso é
necessário se levarmos em conta a complexidade envolvida. Um mediador a atuar em uma causa
familiar ou de segurança pública pode ter conhecimentos gerais de técnicas de mediação, mas não
conhecimentos específicos para lidar com aquela situação, sendo necessário o auxilio de um
mediador com formação anterior em psicologia ou sociologia, respectivamente.

É provável que, ao menos nos primeiros anos da lei do ano de 2015, a presença de mais um
mediador seja mais comum no âmbito da mediação extrajudicial, já que com as limitações
orçamentárias e de pessoal no Poder Judiciário não há estrutura para que um grande número de
profissionais seja deslocado para uma única causa. O avançar de resultados e prestígio da mediação
mudará essa realidade.

Sabendo ser a autocomposição a forma de pacificação social mais efetiva, se permite que
ocorra a qualquer momento, ainda que com processo judicial em curso, este será paralisado, com
suspensão do prazo prescricional, a pedido das partes. A suspensão da prescrição deve ser
estendida às tentativas que ocorram fora do judiciário, pois uma das partes, de má-fé, poderia
alegar ter interesse na autocomposição do conflito e tentar prolongar as tentativas de acordo até
que se consumasse a prescrição, causando sensação de injustiça, o oposto do que se busca.

Até o início do século XXI, a sessão de mediação se desenvolvia basicamente com as partes
de frente uma para outra, presentes pessoalmente à sessão. Cada parte podia observar a outra de
pouca distância, observar suas reações à exposição dos assuntos tratados e a isso reagir. Porém,

72
com o advento da internet e a possibilidade de sessões por videoconferência a presença física passa
a ser mitigada. Isso não deve ser uma barreira para que audiências ocorram com as partes não
presentes no mesmo local, muito pelo contrario, deve ser visto como um facilitador na busca pela
paz entre os distantes.

Cumpre, entretanto, fazer uma ressalva que para o bom acontecimento da sessão
autocompositiva a distância física não seja um agravador na busca do melhor acordo no interesse
das partes. Isso pode ser conseguido com o aparelhamento tecnológico correto, em que a filmagem
e transmissão das sessões sejam simultâneas, a partir de sistemas de internet com banda larga de
transmissão de dados e câmeras para filmagem e envio de dados, algo já conseguido na atualidade
até mesmo por aparelhos celulares modernos. É provável que essa forma de sessão, em um futuro
não distante, seja responsável pela ampla maioria das sessões que envolvam litígios de pequeno
porte, principalmente por conta da facilidade e economicidade a ela relacionados.

4.3.2 Da Mediação Extrajudicial

Havendo consenso de que o conflito pode ser resolvido amigavelmente, mesmo que ainda
não haja balizamento sobre um acordo, as pessoas podem optar por realizar a mediação
extrajudicialmente.

Após o consenso sobre a necessidade de autocomposição, deve acordar-se sobre aspectos


relativos à sessão de mediação, quando, onde e quem a realizará. Por ser uma decisão privada
deve-se admitir que os participantes possam alterar aspectos gerais do procedimento, como número
máximo de sessões que estariam dispostos a participar na busca do acordo, desde que não alterem
o núcleo mínimo de um procedimento mediatório que podem esperar do profissional que o
realizará.

Caso não se tenha previsão contratual completa sobre quem funcionará como mediador da
causa, cinco nomes de mediadores capacitados serão entregues à parte convidada, a que não foi
autora do convite para resolver o conflito por mediação, para que escolha um dos nomes. Se a
convidada não se manifestar expressamente se considerará escolhido o primeiro nome da lista. A
opção pela escolha por parte da convidada lhe dará tranquilidade para que a parte autora do convite
não direcione a escolha do mediador a seu arbítrio. Obviamente, quanto mais completo for o
instrumento de acordo sobre a existência da mediação menos problemática será a divergência sobre
quem a realizará.

73
É possível que câmaras privadas de mediação se instalem, com fins de prestar esse serviço.
As partes que buscam a mediação poderiam, assim, escolher por uma dessas câmaras, autênticas
“empresas” especializadas nesse serviço e com quadro próprio de mediadores. O profissional que
conduzirá a sessão pode ser indicado pela câmara, dentro de sua equipe de pessoal. Vale frisar que
ainda que as pessoas a conciliar estejam de acordo quanto à escolha da “empresa” de mediação
poderão opor exceções pessoais ao mediador indicado, pois não pode se submeter à sessão cuja
lisura ou transparência não esteja de acordo.

Como possui natureza jurídica de negócio jurídico, o acordo extrajudicial celebrado após
a sessão de mediação pode ser analisado pelos três planos aos quais estão submetidos os negócios
jurídicos em geral: os planos da existência, da validade e da eficácia. Essa análise permitirá avaliar
se o acordo assinado preencheu todos os requisitos necessários e se pode ser executado como título
jurídico extrajudicial, característica que a lei lhe assegura. Primeiramente, avalia-se o plano de
existência. Para que um negócio exista “é necessário que se tenham pessoas que o entabulem.”
(ASSIS NETO; JESUS; MELO, 2013, p. 301). Após essa análise se verifica o plano da validade,
com sua conformidade com o direito, que nesse caso pode ser tanto o aspecto relativo ao direito
sobre o acordo de mediação como quanto ao relativo ao direito material em controvérsia. Por
último se perquire o aspecto da eficácia, como aptidão para que o acordo produza efeitos jurídicos.

4.3.3 Do Procedimento de Mediação Judicial

Um ponto diferenciador, não menos importante, entre a medição extrajudicial para a


mediação judicial está na escolha do profissional que conduzirá a sessão. Desde que o mediador
não esteja impedido ou suspeito ele atuará na causa, ainda que sem a concordância das partes, pois
estes “não estarão sujeitos à prévia aceitação das partes” (art. 25 da Lei nº 13.140/2015). Isso não
deve causar espanto, pois a mediação nesta modalidade ocorre com um processo judicial em curso,
onde os envolvidos já mostraram anteriormente que aceitaram a imposição de uma resposta ao
problema suscitado por um terceiro, o Estado-Juiz.

Os mediadores judiciais designados para atuar no litígio pertencerão a Centros Judiciários


de Solução Consensual de Conflitos (CEJUSC), organizados pelo Tribunal respectivo a ele
vinculado, sob orientação normativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Mesmo que o procedimento previsto deva ocorrer dentro de um Centro ligado ao Judiciário,
nada veda que as partes cheguem a um acordo para levar o conflito a uma instituição de mediação
privada de sua confiança, desde que informem seu desejo ao juiz da causa e antes de ocorrer a
audiência. Nesse ponto, o artigo 25 da referida Lei não seria aplicado, com as partes escolhendo o

74
mediador. Assim, a impossibilidade de escolha recairia apenas na aceitação de que as sessões se
realizassem ante a escolha do juiz, sem escolha supletiva dos envolvidos. Afinal, se as partes
podem optar por algo maior (a não ocorrência da reunião de mediação) também poderiam optar
por algo menor (a escolha de quem mediará) desde que de comum acordo.

Portanto, a impossibilidade de escolha seria residual, aplicável apenas caso não houvesse
convenção prévia nesse sentido. Cabe observar se, caso escolhido o mediador para a causa em
procedimento judicial se a este se aplicariam as exigências legais em caso de escolha pelo Estado-
Juiz, como, por exemplo, que o procedimento deva estar concluído em até sessenta dias, contados
da primeira sessão de mediação. A resposta deve ser negativa, pois no novo modelo processual
brasileiro as partes possuem ampla margem para construir a decisão judicial, a exemplo da
realização de negócios processuais (artigo 190, CPC/2015), em que podem até mesmo estipular
um calendário próprio para os atos relativos ao processo.

Se houver acordo as partes, pode-se requerer ao juiz que o homologue, não cabendo a este
verificar os termos em que se deu tal composição, não podendo rejeitar a homologação, salvo se
constatar a ocorrência de fraude, coação ou outro vício.

4.4 Princípios basilares da medição: análise da legislação espanhola

A finalidade desse momento é identificar os fatores que levaram ambos os países a regular
a mediação e analisar como cada legislação aplica os princípios orientadores desse instituto, tendo
em conta os cenários e a cultura particular de cada ordenamento jurídico. Trata-se de questão de
suma importância, pois, por um lado, só o estudo destes princípios vetores permitirá conhecer
realmente a base e a essência do sistema de mediação e de sua prática e, por outro lado, o estudo
da legislação de outros países nos possibilitará compreender melhor o nosso próprio sistema,
estabelecendo reflexões, comparações e a busca de soluções para as controvérsias regulatórias.

Os princípios orientadores da mediação são os pilares essenciais desta instituição,


portanto, sua análise ocupa uma posição especial e relevante. Estudá-los nos permitirá conhecer a
base do sistema de mediação e sua prática em cada país.

A Lei Espanhola 5/2012, de 6 de julho, enumera e regula os quatro princípios que serão
analisados a seguir: voluntariedade, confidencialidade, imparcialidade e neutralidade. Eles
também são axiomas da mediação e, portanto, nos ajudam a contextualizar os princípios básicos
listados: o respeito à vontade das partes tanto na aceitação do processo quanto na continuidade do
mesmo; o reconhecimento mútuo das partes e a legitimidade de todos os interesses; a

75
horizontalidade, a simetria no processo e a abordagem para o futuro; a flexibilidade do processo à
medida que se adapta às necessidades particulares de cada caso; boa fé e respeito pelo marco legal,
uma vez que a lei exclui expressamente a mediação penal, a mediação com as Administrações
Públicas, a mediação laboral e a mediação em matéria de consumo (artículo 2.2 da Ley 5/2012).

O principio da voluntariedade

Na Espanha, a mediação é voluntária (artículo 6.1 da Ley 5/2012). A voluntariedade é o


primeiro dos princípios a que o legislador espanhol se refere e, embora saibamos que existem
diferentes maneiras de se recorrera mediação, a voluntariedade é respeitada independentemente do
impulso que leva a iniciar a mediação, conforme refletido no artículo 6.2 da Ley 5/2012:

Cuando exista un pacto por escrito que exprese el compromiso de someter a mediación
las controversias surgidas o que puedan surgir, se deberá intentar el procedimiento
pactado de buena fe, antes de acudir a la jurisdicción o a otra solución extrajudicial. Dicha
cláusula surtirá estos efectos incluso cuando la controversia verse sobre la validez o
existencia del contrato en el que conste.

Portanto, a voluntariedade existe tanto quando se busque a mediação de comum acordo


entre as partes quando surge uma controvérsia, como se inicia em virtude do cumprimento de um
pacto prévio de submissão à mediação em que as partes, ante qualquer conflito que possa surgir,
comprometem-se por escrito a tentar, em primeiro lugar, o procedimento de mediação. A esses
dois casos, um terceiro é adicionado: a mediação por meio de uma pendência judicial. Há
voluntariedade também neste último, uma vez que as partes decidem autonomamente se devem ou
não informar-se sobre a mediação e seus efeitos e, em seguida, decidem se irão ou não continuar
com o procedimento de mediação.

Questão distinta é que, independentemente da forma como o procedimento é iniciado, as


partes ou uma delas pode deixar a mediação quase imediatamente após o início do procedimento.
Isto é feito nos termos do artículo 6.3 da Ley 5/2012, que estabelece que ninguém está obrigado a
permanecer no procedimento de mediação nem a celebrar um acordo. Desta maneira, se configura
a autonomia da vontade das partes como eixo essencial da mediação.

Deve acrescentar-se que a voluntariedade também é direcionada ao mediador, de maneira


que este possa encerrar a mediação se considerar que as circunstâncias concretas do caso sejam
aconselháveis.

Muito se tem debatido na Espanha sobre o caráter voluntário da mediação sob o amparo
da Directiva 2008/52/CE que, no seu artigo 5.2, permite as legislações nacionais estipularem se a
mediação é obrigatória ou estará sujeita a incentivos ou sanções, e se antes ou depois do início do

76
processo judicial, desde que não impeça as partes de exercer seu direito de acesso ao sistema
judicial. O debate na Espanha só chegou a analisar se seria conveniente impor o início da mediação
como requisito de procedibilidade sem que, em nenhum caso, se obrigará as partes a manterem-se
como partícipes do processo mediatório. Entre os argumentos que apoiaram a proposta de impor
esse início, destacou-se aquele que defendia a necessidade de divulgar a mediação, de gerar hábitos
de mediação em um país em que tem demonstrado uma forte cultura processual e litigante. No
entanto, pode-se argumentar que, para gerar hábitos de mediação, é necessário começar por formar
e educar os mais jovens na cultura do diálogo como uma via para administrar conflitos
interpessoais. Trata-se de um caminho mais lento, entretanto, por certo, mais eficaz, que, por sua
vez, respeita a liberdade dos cidadãos de eleger o método de acesso à justiça que considerem mais
apropriado para resolver seus conflitos.

O princípio da igualdade das partes e a imparcialidade do mediador

O princípio seguinte a ser analisado brevemente é o da igualdade de partes e a


imparcialidade dos mediadores incluído no artículo 7 da Ley 5/2012. Esta disposição prevê que:

En el procedimiento de mediación se garantizará que las partes intervengan con plena


igualdad de oportunidades, manteniendo el equilibrio entre sus posiciones y el respeto
hacia los puntos de vista por ellas expresados, sin que el mediador pueda actuar en
perjuicio o interés de cualquiera de ellas.

É uma realidade que, entre as partes, haverá desigualdades pessoais e que estas irão aflorar
e afetar o desenvolvimento da mediação. Por esta razão, o legislador com este artigo não pretende
igualar as desigualdades senão que o mediador garanta que todos os sujeitos que venham a intervir
tenham os mesmos direitos, possibilidades e encargos, de modo que "los fines de la mediación no
queden frustrados por una desigualdad de posiciones, de participación, de decisión de alguna de
las partes por elejer cicio opresivo de la otra sobre ella" (BARONA VILAR, 2013, p. 182).

Garantir esta igualdade das partes significa que o mediador deve atuar com
imparcialidade. Essa imparcialidade se reflete na última frase do preceito citado: "sin que el
mediador pueda actuar en perjuicio o interés de cualquiera de ellas". Também é reforçada em
outros artigos da Ley de Mediación, concretamente e de maneira específica nos artículos 13 e 17.
O primeiro regula o dever do mediador de não iniciar ou abandonar a mediação quando ocorra
alguma circunstância que possa afetar sua imparcialidade ou gerar um conflito de interesses. Entre
essas circunstâncias, a lei sempre inclui o seguinte:

[…] todo tipo de relación personal, contractual o empresarial con una de las partes;
cualquier interés directo o indirecto en el resultado de la mediación y, por último, que el
mediador, o un miembro de su empresa u organización, hayan actuado anteriormente a
favor de una o varias de las partes en cualquier circunstancia, con excepción de la
mediación. Si concurre alguna de estas circunstancias, el mediador sólo podrá aceptar o

77
continuar la mediación cuando asegure poder mediar con total imparcialidad y siempre
que las partes lo consientan y lo hagan constar expresamente.

O dever de divulgar esta informação se mantém durante todo o procedimento e, em


particular, na sessão informativa (artículo 17 da Ley 5/2012).

O princípio da neutralidade do mediador

Junto com a imparcialidade, a neutralidade é o outro princípio em que se baseia a


atividade do mediador. A neutralidade pressupõe, de acordo com o artigo 8 da Ley de Mediación,
a não ingerência do mediador, de forma que se permita as partes alcançar por si mesmas um acordo
na mediação. Esta é a maneira de que o resultado da mediação seja fruto do trabalho e da
colaboração dos mediados, e com ela, a colaboração, que eles a sintam como sua, além de que se
tenha neste acordo maior possibilidade de perdurar no tempo.

O ponto que permite diferenciar a imparcialidade da neutralidade é que, enquanto o


mediador parcial não pode tornar-se imparcial já que depende de outras circunstâncias, a
neutralidade é uma técnica que deve aprender-se já que não se nasce neutro, e sim que se faz
(BARONA VILAR, 2013).

O princípio da confidencialidade da mediação

Finalmente, analisamos o quarto princípio orientador da mediação, a confidencialidade.


Este, juntamente com os princípios da voluntariedade e da igualdade das partes, afeta o
procedimento. A confidencialidade está intrinsecamente ligada à natureza privada da resolução
extrajudicial de litígios e, portanto, os textos europeus consideram que é um elemento essencial
para o bom funcionamento da mediação.

A confidencialidade é proclamada no artigo 9 da Ley 5/2012 nos seguintes termos:

1. El procedimiento de mediación y la documentación utilizada en el mismo es


confidencial. La obligación de confidencialidad se extiende al mediador, que quedará
protegido por el secreto profesional, a las instituciones de mediación y a las partes
intervinientes de modo que no podrán revelar la información que hubieran podido obtener
derivada del procedimiento.
2. La confidencialidad de la mediación y de su contenido impide que los mediadores o las
personas que participen en el procedimiento de mediación estén obligados a declarar o
aportar documentación en un procedimiento judicial o en un arbitraje sobre la información
y documentación derivada de un procedimiento de mediación o relacionada con el mismo,
excepto:
a) Cuando las partes de manera expresa y por escrito les dispensen del deber de
confidencialidad.
b) Cuando, mediante resolución judicial motivada, sea solicitada por los jueces del orden
jurisdiccional penal.
3. La infracción del deber de confidencialidad generará responsabilidad en los términos
previstos en el ordenamiento jurídico.

78
Da redação deste artigo extraímos os seguintes elementos:

Em primeiro lugar, no que diz respeito à confidencialidade do ponto de vista subjetivo,


este afeta o mediador — protegido pelo segredo profissional — as instituições de mediação e as
partes intervenientes, entendendo que entre estas últimas se inclui "a las personas que participan
em la administración del procedimiento de mediación (así se deriva del artículo 7 de la Directiva)
y, en general, cualquier sujeto que haya participado em la mediación asesorando a las partes o
asistiendo al mediador" (CORDÓN MORENO y SÁNCHEZ POS, 2012, p. 117).

Este dever de confidencialidade afeta a essência da mediação, pois, sem a certeza de que
tudo aquilo que reportem não pode ser usado pela outra parte em outras sedes de tutela, as partes
não encontrariam suficiente confiança para compartilhar com liberdade a dita informação e,
portanto, dificilmente poderiam chegar a um entendimento mútuo. Isso se vincula com o artigo
10.2 da Ley de Mediación, que exige que as partes sujeitas mediação atuem entre si, de acordo
com os princípios de lealdade, boa fé e respeito mútuo.

Em segundo lugar, no que diz respeito ao âmbito objetivo da confidencialidade, o


legislador cobre tudo aquilo que se tenha conhecido, tanto por escrito como por via oral, em sessões
de mediação individual ou conjunta. "Y no existe limitación temporal o plazo de mantenimiento
de la obligación de confidencialidad. " (BARONA VILAR, 2013, p. 198).

No entanto, como foi visto na Lei de Mediação Espanhola (artículo 9.2), existem dois
casos em que não é possível exigir confidencialidade. Ambos referem-se claramente

al principio de autonomía de la voluntad y de libertad de las partes, que pueden liberar de


la exigencia debida de confidencialidad, y por otro lado, como consecuencia de las
exigencias o preferencias, si cabe, del interés público que se persigue en un proceso penal
y que supera, por fundamento político y jurídico la confidencialidad respecto de cuanto
queda protegido en el marco de la mediación. (BARONA VILAR, 2013, p. 201-
202).

Estas exceções à legislação espanhola diferem das exceções à confidencialidade


reconhecidas pela Directiva 2008/52/CE no artigo 7º:

a) cuando sea necesario por razones imperiosas de orden público en el Estado, en


particular cuando así lo requiera la protección del interés superior del menor o la
prevención de daños a la integridad física o psicológica de una persona, o
b) cuando el conocimiento del contenido del acuerdo resultante de mediación sea
necesario para aplicar o ejecutar dicho acuerdo.

4.5 Os princípios da mediação no Brasil pela Lei n° 13.140/2015

79
É importante notar que o Código de Processo Civil, no artigo 166, regula conjuntamente
os princípios de conciliação e mediação. Por esse motivo, escolhemos estudar e analisar os
princípios que regem a mediação no Artigo 2° da Lei 13.140/2015, conhecida como Lei de
Mediação no Brasil.

Ao contrário do que ocorre com os procedimentos judiciais, o procedimento de mediação


não tem forma predeterminada. Nesse sentido, a mediação pode estar sujeita a mudanças
dependendo de onde acontece. No entanto, é possível apontar alguns princípios de mediação que
devem estar presentes independentemente do local ou âmbito em que ela ocorrerá.

A Lei 13.140/2015 dispõe no seu Artigo 1°, parágrafo único, que "Considera-se mediação
a atividade técnica exercida por terceiro imparcial sem poder decisório, que, escolhido ou aceito
pelas partes, as auxilia e estimula a identificar ou desenvolver soluções consensuais para a
controvérsia", e o artigo 2° afirma que a mediação será guiada pelos oito princípios discutidos
abaixo.

Tal é a importância desses princípios para a compreensão da instituição da mediação que


podemos afirmar que, de fato, são elementos intrínsecos de seu conceito e interpretação
teleológica. Portanto, qualquer disposição legal destinada a regular a mediação em seus vários
aspectos não pode deixar de contemplá-los sob pena de distorcer este mecanismo complementar
para resolução de conflitos.

A imparcialidade do mediador

Segundo Tavares (2002, p. 68), a imparcialidade é

[...] a ausência de favoritismo ou preconceito com relação a palavras, ações ou aparência,


significando, por parte do mediador, um compromisso de ajuda a todas as partes e na
manutenção desta imparcialidade no levantamento de questões, ao considerar temas como
realidade, justiça, equidade e viabilidade de opções propostas para acordo.

Ao iniciar uma sessão de mediação, o mediador deve estar ciente de que ele não sabe o
que é melhor para o outro, não pode interferir no histórico pessoal do mediado. Desta forma, evita-
se desvios ou imposição de valores. Isso é fundamental, uma vez que os únicos que têm poder de
decisão sobre o conflito são as próprias partes.

Para que a mediação seja bem-sucedida, é essencial que o mediador seja imparcial e não
interfira nas decisões das partes favorecendo um contra o outro.

80
É importante mencionar que o mediador pode agir sob as mesmas hipóteses de
impedimento legal e a suspeição do juiz, e não pode atuar como outros profissionais, como
advogado, consultor, psicoterapeuta, assistente social ou outro, de acordo com os artigos 5° e 6°
da lei de mediação.

A igualdade das partes

Os mediados devem receber o mesmo tratamento em todas as etapas da mediação. O fato


de o mediador não ter poder de tomar decisões atrai muitas pessoas que consideram fundamental
que ninguém interfira em seus conflitos, impondo-lhes uma solução. Isso obriga as partes a
entender e colaborar na busca de soluções.

Além desse poder de decisão das partes, o princípio da equidade busca garantir condições
equitativas e tratamento ao longo do procedimento. Muskat (2003, p. 35) ressalta que "a
consciência do si e do outro é condição fundamental para superar os preconceitos e a discriminação
gerados pela diversidade e, portanto, a condição básica para garantir, dentro das diferenças, a
princípio da equidade".

Portanto, ao iniciar uma mediação, o mediador deve se sentir capaz de respeitar essa
igualdade e equidade, a fim de garantir a qualidade tanto do procedimento como de seu papel como
facilitador da comunicação.

A oralidade

O procedimento de mediação traz em sua essência as sutilezas de uma boa comunicação


entre os envolvidos no conflito. Nesse sentido, as técnicas utilizadas pelo mediador durante todo
o procedimento visam encorajar os participantes a praticar a oralidade, a fim de esclarecer as reais
necessidades/interesses e identificar soluções mutuamente benéficas.

Cabe destacar que a mediação não dá prioridade aos documentos escritos ou provas, pois
se baseia na simplicidade da oralidade; no entanto, isso não é óbice a que o acordo final seja escrito
e assinado pelos participantes.

No cenário de um mundo globalizado e sem fronteiras, o legislador queria inovar


permitindo a realização da mediação através da Internet ou outros meios de comunicação que
permitam a transação à distância, desde que as partes concordem (artigo 46 da Lei 13.140/2015).

A informalidade

81
A mediação é um procedimento informal e flexível, já que não se limita à aplicação de
normas gerais e pré-estabelecidas, e sua estrutura depende basicamente da escolha das partes e do
mediador.

Sales (2004, p.51), destaca que “a informalidade favorece, portanto, a comunicação entre
as partes e entre estas e o mediador, permitindo maior descontração e tranquilidade durante a
mediação, possibilitando o encontro de uma solução favorável para ambas as partes em conflito”.

O caráter informal do processo de mediação favorece a proximidade entre os mediados,


cumprindo assim um dos objetivos perseguidos pela mediação: combinar a espontaneidade, a
liberdade e a criatividade dos participantes para construir soluções viáveis para as controvérsias
que se apresentam.

A autonomia de vontade das partes

Com este princípio o legislador enfatiza que os participantes da mediação devem ser
respeitados nas suas sugestões sobre a dinâmica do procedimento, em questões como, entre outros:
a necessidade de mais tempo para a tomada de decisões; o aumento do número de sessões e
reuniões individuais; a busca de diretrizes técnicas de profissionais externos. A mediação busca
respeitar a realidade e as necessidades das pessoas envolvidas na disputa.

As partes também têm, como já afirmado acima, o poder de decisão sobre as questões que
são objeto de sua controvérsia, uma vez que são as responsáveis finais pelo seu próprio progresso
e pelos resultados da mediação.

A busca do consenso

O caminho para a construção do consenso deve ser fomentado pelo mediador durante o
curso da mediação. Nesse sentido, o mediador fará uso técnicas que enfatizam o diálogo
cooperativo, a criatividade, a empatia e a busca de benefícios mútuos. Por seu turno, as partes em
mediação devem reconhecer sua realidade e ajustar suas propostas para a realidade de ambos, de
modo que o acordo final tenha maior possibilidade de ser respeitado.

A confidencialidade

A confidencialidade é um dos princípios orientadores do procedimento de mediação e


alcança tanto as partes como o mediador. Com este pacto de confidencialidade se estabelece a
confiança e o respeito suficiente para permitir um diálogo franco e sincero.

82
O legislador dá especial e destacada atenção a este princípio de confidencialidade. Assim,
além de inseri-lo na lista do mencionado artigo 2º, VII, da Lei de Mediação, dedica-lhe uma seção
inteira: Seção IV, Confidencialidade e suas exceções (artigos 30 a 32 da Lei 13.140/2015).

As exceções à confidencialidade em relação a terceiros são previstas nos seguintes casos


(artigo 30 da Lei 13.140/2015): a) quando há vontade conjunta das partes de que não haja segredo;
b) para cumprir o acordo alcançado pela mediação e c) quando a divulgação for exigida por lei,
com relação à possível cometimento de um delito ou no caso de ser necessário fornecer
informações à administração tributária.

Vale ressaltar que a violação do dever de confidencialidade é um ato criminoso. Se for


praticado por um mediador privado, será um crime nos termos do artigo 154 do Código Penal, mas
se for cometido por um mediador judicial, será um crime contra a Administração Pública nos
termos do artigo 325 do Código Penal.

A boa fé

O princípio da boa fé é vital e essencial para a realização da mediação. Os envolvidos


devem ser imbuídos com o mais alto grau de honestidade, prudência e justiça.

A boa fé prevista na legislação pátria é a boa fé objetiva, caracterizada por condutas


adequadas ao que se espera de cada parte atuante em mediação. A partir dela se extrai a ideia do
que cada um deve esperar do outro, incluindo a postura do mediador, que também está obrigado a
atuar objetivamente com boa fé.

O procedimento mediatório rechaça dissimulações e fraudes, postura claramente


atentatória à boa fé esperada. Atentar contra a boa fé pode causar invalidade do negocio jurídico
(acordo celebrado), desde que se revista de dolo, coação ou outro defeito previsto no art. 138 e ss.
do Código Civil brasileiro.

O legislador queria especificar que a mediação é um procedimento que não inclui


artifícios, enganos ou fraude, o que reflete a necessidade de manter um comportamento respeitoso
entre os participantes.

De acordo com o contexto apresentado, verifica-se que a mediação é uma instituição em


expansão que, pouco a pouco, está sendo aplicada em mais países e se estende a vários campos de
ação. É no momento inicial de sua regulação e implementação quando se deve prestar mais atenção

83
aos elementos básicos da mediação, fundamentalmente aos princípios orientadores da mediação,
pois são os pilares que o sustentam e aqueles que determinarão sua essência. Depois de identificar
os fatores ou motivos que levaram à recente regulamentação da mediação em Espanha e no Brasil,
apenas analisando os mencionados princípios basilares e comparando sua regulação com outras
legislações se terá capacidade suficiente para entender a essência da mediaçãono sistema no qual
está incorporada.

Dada a multiplicidade de situações decorrentes da repercussão prática desses princípios


na legislação espanhola e brasileira, revela-se a importância que possuem para uma compreensão
adequada da instituição da mediação, bem como para a avaliação e conhecimento crítico do próprio
sistema legal.

Portanto, a compreensão e a análise adequadas desses princípios e suas derivações


práticas corretas contribuem para que este novo mecanismo de solução de controvérsias seja mais
solicitado pelos cidadãos. Só então se poderá ter uma ideia de como o êxito e a credibilidade da
mediação estão diretamente vinculados à incorporação desses princípios.

4.6 Do Mediador no Direito Comparado

O mediador é um dos personagens da mediação, que atuando como maestro a rege.


Ainda que o importante da tentativa de autocomposição seja a matéria debatida e o conflito que
possa ser solucionado há de se destacar que o modo como o mediador vier a atuar será decisivo,
pois aproximando e unindo as partes com técnicas próprias pode obter o acordo ou prolongar mais
ainda a lide, tornando-a um processo judicial mais moroso e custoso.

O mediador é terceiro, pois não faz parte da disputa que se apresenta, atuando com
imparcialidade e equidistância dos envolvidos. Cabe a ele dirigir a sessão de mediação, desde sua
abertura até a conclusão do acordo, caso este tenha sido conseguido. (BRASIL, 2015).

A figura do mediador é tão importante que tanto a lei brasileira quanto a espanhola
de mediação disciplinam expressamente vários pontos relativos a figura deste personagem, com a
lei espanhola se referindo ao “estatuto do mediador”, tendo a lei brasileira sido menos completa
na caracterização do mediador. Os critérios adotados pela legislação alienígena, entretanto são
amplos e não se vislumbraria caso em que não pudessem ser aplicados aos mediadores nacionais.

84
Pessoas naturais serão as condutoras da sessão autocompositiva (Artículo 11, Ley
5/2012), não se fazendo imaginar o caso de tal conduta ser realizada por pessoa jurídica. Nisso não
se confunde a situação de pessoas jurídicas, sejam sociedades, associações ou ainda empresários
individuais explorarem a atividade de mediação. O que temos aí seriam prestadoras de serviço no
qual a atividade de mediação aconteceria como objeto social de tais entes e não como a atividade
em si, pois esta exige profissional qualificado, ainda que contratado e remunerado pela pessoa
jurídica. Assim, se o profissional presta serviço diretamente a um tribunal, atua por conta própria
ou no quadro de empregados de uma empresa que presta serviço de mediação em nada altera a
necessidade de ser uma pessoa natural, física e especifica, com qualificação e habilitação próprias
para a prestação da atividade. Ou seja, as pessoas jurídicas “deberán designar para su ejercicio a
una persona natural que reúna los requisitos previstos en esta Ley” (artículo 11, Ley 5/2012).

Os requisitos previstos em lei para funcionar como mediador são variáveis


conforme a mediação brasileira seja extrajudicial ou judicial, com esta ultima exigindo um rigor
maior que a primeira, pois o mediador deverá estar graduado em curso de ensino superior há dois
anos e ainda ter sido capacitado em instituição própria reconhecida pela Escola Nacional de
Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (ENFAM) ou pelos tribunais e ainda os requisitos
mínimos estabelecidos pelo Conselho Nacional de Justiça junto com o Ministério da Justiça (MJ).
Por serem requisitos mínimos a serem estabelecidos nada impede que os cursos complementem a
capacitação com outros requisitos, enriquecendo a formação. Tamanho cuidado em formação do
mediador judicial deve-se ao fato de que pode acontecer de a parte não poder/querer escolher quem
será o mediador a funcionar no seu processo e também por estar esse profissional atuando junto
ao Estado, se estendo a ele o conceito de agente público.

Para atuar extrajudicialmente no Brasil o critério é mais frouxo, exigindo três


requisitos: capacidade, confiança das partes e qualificação para realizar a mediação. O primeiro
requisito é redundante, pois capacidade é requisito fundamental a qualquer mediador junto a
prestação por pessoa física. O segundo e mais importante diz respeito à confiança que as partes
depositaram nesse personagem, entregando-lhe detalhes do problema em comum, informando-lhe
muitas vezes segredos que deverão ser albergados pela cláusula de confidencialidade e acreditando
também possuir essa pessoa habilidade singular para lhes levar ao acordo. Há de se deixar claro
que a escolha deve ser conjunta, não podendo ser imposta por uma das partes, já que isso macularia
a ideia objetiva de imparcialidade, neutralidade e distância. Por último, o requisito da qualificação
é necessário para que as partes estejam amparadas pelo mínimo de conhecimento técnico. Não se
exige para exercer a mediação extrajudicial o escolhido esteja inscrito em conselho ou entidade de
classe profissional, como limitador de sua atuação.

85
Já a lei espanhola faz um meio termo entre as qualificações exigidas no Brasil para
os profissionais que atuarão judicial ou extrajudicialmente. Deve ter título oficial universitário ou
de formação superior, ao qual se somará uma formação especifica em mediação em cursos
próprios, com formação contínua e adequada (Artículo 12, Ley 5/2012), não exigindo prazo
mínimo após a conclusão do curso superior ou confiança das partes para atuar. Talvez por não lhe
ser exigido especificamente a confiança das partes no seu emprego é que o mediador espanhol
deve ter um seguro para cobrir indenizações civis advindas de sua atuação profissional, a qual se
faz, por exemplo, em caso de conluio do mediador com uma parte ou atuação doloso e indutora a
erro para com as partes, com a responsabilidade podendo se estender à instituição de mediação
que o designou. (Artículo 14, Ley 5/2012).

A Lei 13.140/2015 não trata da responsabilização do mediador de maneira tão


garantista quanto a Ley 5/2012, mas isso não seria necessário, pois o ordenamento jurídico
brasileiro já informa que todo aquele que causar dano, ainda que moral, comete ato ilícito sujeito
a reparação (artigo 186, Código Civil), norma que pode ser aplicada às autocomposições
extrajudiciais, devendo demonstrar culpa do mediador. Se este for agente público atuando nessa
qualidade e sua atuação gerar dano a ação judicial será dirigida à pessoa jurídica pública ao qual
ele está vinculado e prescinde da prova de culpa, sendo a responsabilidade objetiva, cabendo
direito de regresso do Estado em face do agente, se provado que este agiu dolosa ou culposamente
(artigo 37, § 6°, Constituição Federal de 1988).

Tais normas de responsabilização devem ser vistas de maneira restritiva em sua


interpretação, sob um critério sistemático, deve ser aplicado ao mediador o mesmo sistema de
responsabilização que o Código de Processo Civil confere à figura do magistrado, que só será
obrigado civilmente à reparação se agir, na qualidade de magistrado, causando dano com dolo ou
fraude, não se inserindo nisso a culpa em sentido estrito, como negligência, imprudência ou
imperícia. A extensão da prerrogativa conferida ao magistrado para com o mediador não seria
descabida, principalmente se lembrarmos de que ao mediador se aplicam as mesmas hipóteses
legais de suspeição e impedimento dos juízes. E que o mediador é também um terceiro para com
a lide levada pelas partes (artigo 5°, Lei 13.140/2015).

Em ambos os ordenamentos, o mediador tem o dever de informar qualquer fato ou


circunstância que atinja sua imparcialidade e neutralidade. Esse dever de transparência é tão
necessário que a autocomposição que não o tenha observado está viciada e deve ser invalidada,
devendo o mesmo acontecer com o acordo por ela obtido.

86
Não se exige que o mediador atue exclusivamente nesta função, podendo o mesmo
ter outra profissão, como professor ou advogado. O que se busca impedir é que o profissional de
mediação se utilize da posição junto ao conhecimento da disputa para se beneficiar ou beneficiar
alguma das partes. Para coibir possíveis práticas abusivas a Lei 13.140/2015 de patrocinar,
assessorar ou representar qualquer das partes por um ano após o término da última audiência que
atuou. Vê-se que o impedimento é temporário, fazendo melhor a lei por disciplinar que este prazo
seria para atuar em qualquer causa outra que não a que funcionou como mediador e que quanto a
questão em que exerceu o papel de mediador não poderia atuar mesmo após um ano, caso ela tenha
sido judicializada se a mediação era extrajudicial ou continuada caso já fosse oriunda de lide
ajuizada.

Ao oferecer um trabalho técnico, o profissional da mediação será remunerado de


maneira justa, com o pagamento sendo custeado pelas partes. Contudo, o negócio jurídico
celebrado pelas partes pode alterar os ônus financeiros a serem suportados, de modo que uma das
partes arque sozinha com os pagamentos ou se distribua de forma não equânime seu custo. O que
não se permite, é que o mediador não seja remunerado por seu serviço ou que seja obrigado a
cobrar de um terceiro estranho indicado pelas partes. Nesse ponto, o legislador espanhol foi mais
justo com o profissional que o legislador brasileiro, como se observa do artículo 15, da Ley 5/2012:

Si las partes o alguna de ellas no realizaran en plazo la provisión de fondos solicitada, el


mediador o la institución, podrán dar por concluida la mediación. No obstante, si alguna
de las partes no hubiere realizado su provisión, el mediador o la institución, antes de
acordar la conclusión, lo comunicará a las demás partes, por si tuvieren interés en suplirla
dentro del plazo que hubiera sido fijado.

Em essência, as diferenças nos textos normativos não resultam de profissionais com


atuação diferenciada, pelo contrário, o oficio do mediador espanhol e suas técnicas são próximas,
com respeito ao treinamento e qualificação, atenção aos princípios da carreira, à ética própria e às
técnicas desenvolvidas e compartilhadas em muitas outras nações e tão bem aproveitadas por
espanhóis e brasileiros.

4.7 Rumos da medição de conflitos

As nações democráticas contemporâneas, tanto em seus textos constitucionais quanto em


suas políticas públicas, contemplam o compromisso e o direito inalienável de todos os seres
humanos de viver em condições que os permitam alcançar o pleno desenvolvimento humano.

No entanto, cumpre observar que, até o momento, não foi possível gerar uma sinergia
Estado-Sociedade que produza condições objetivas para que a segurança humana e, especialmente,

87
a segurança cidadã garantam o trânsito de cada pessoa, com pleno gozo de seus direitos
fundamentais.

Neste contexto, os sistemas de justiça do dia a dia melhoram sua imparcialidade em


benefício dos indivíduos, aproximando o seu dever da realidade, especialmente implementando-o
em termos estabelecidos pelas leis e dando força total à obrigação de que as resoluções sejam
atendidas prontamente, minuciosamente e de forma imparcial.

A complexidade e multiplicação de conflitos em todas as áreas da vida gregária têm


saturado a capacidade de conferir uma justiça adversária, com estrita observância das normas
legais, que, desde a segunda metade do século passado, expandiram os serviços de sistemas de
justiça e resolução colaborativa de conflitos, em particular a mediação que vem conquistando cada
vez mais força e legitimidade.

Nesse sentido, a aplicação do processo mediatório avança com passos firmes em todos os
espaços em que surgem conflitos: na família, escola, comunidades, em organizações sociais
públicas e privadas, e em especial, na atividade do profissional de segurança pública65, a qual abre
um horizonte para a mediação policial, a qual será abordada adiante.

65
Algumas experiências mostram que a mediação, em particular, como modelo transformador e associativo, é uma
maneira efetiva de passar de uma cultura de violência a uma cultura de paz, pois valoriza o conflito como uma
oportunidade de crescimento e transformação moral e, o que possibilita a sinergia dos poderes e o fortalecimento dos
relacionamentos, apresentando-se como uma metodologia que possui potencial para administrar as complexas
conflitualidades intrínsecas à harmonia social.

88
5. MEDIAÇÃO POLICIAL — ¿(A)DÓNDE VAMOS?

El caso llegó a la Unidad de Mediación por derivación del policía que atendió el último
altercado entre las familias. Este, previamente, se preocupó de recoger toda la
información posible del caso y elaboró un informe en el que se apreciaba que difícilmente
con la sola intervención de las patrullas de contención se podría llegar a solucionar el
conflicto; es más, añadía que se hubiera optado por denunciar a alguno de los implicados
en base a la Ordenanza de Convivencia Ciudadana (ambas familias tenían motivos para
ello), los miembros de la otra familia lo habrían considerado como una victoria mientras
que los denunciados podrían sentirse con el orgullo herido, y ello seguramente podría
provocar la escalada del conflicto.
El Servicio de Mediación Policial ofrecía, pues, la mejor vía para intervenir en la gestión
de este conflicto comunitario. (GALLARDO CAMPOS; PÉREZ I MONTIEL; PÉREZ
BELTRÁN, 2013, p. 63-4).

A mediação se pratica em muitos e variados setores, e é aceita como meio que permite
uma colaboração direta com outros canais heterocompositivos, entre eles, evidentemente, o
processo judicial. De fato, os regulamentos das instituições podem perfeitamente acolher em seu
procedimento a possibilidade da mediação como passo prévio ou intermediário do jus postulandi,
e assim se faz em muitos casos. Isso é inquestionável. No entanto, especialmente notável, tem sido
o papel que a mediação vem adquirindo nos últimos tempos, como mecanismo autônomo ou
vinculado a outras vias de tutela e, além disso, os campos nos quais a mediação tem se projetado
vêm aumentando66 cada vez mais, de modo que nasceu com uma vocação de intervenção nas
disputas de caráter puramente privado — entendendo neste sentido quando se trata de interesses
meramente particulares e de disponibilidade para àqueles que se fazem implicados no mesmo —,
dá passagem à mediação em muitos e diversos setores, que vão desde as relações laborais, a
familiar, empresarial, escolar, universitário, comunitário, em relações com a administração em
geral, em particular no âmbito penitenciário, penal, etc, e, portanto, a possibilidade de falar da
mediação no âmbito policial.

La Mediación Policial, en cierta manera, está de moda; pero lo cierto es que nos vemos
en la necesidad de inventarla cada día. (IBIDEM, p. 23). (grifo nosso). Não há dúvida que nos
momentos atuais, em pleno início do século XXI, há uma evidente e manifesta crise nos sistemas
de aplicação de justiça imperantes sobre todo o mundo ocidental. Aparentemente se faz necessário
empreender mudanças drásticas criativas e imaginárias como bem assinala Jean Paul Lederach
(2005), em sua última obra La imaginación moral, com o propósito de poder responder ao desafio
de procurar uma justiça rápida e eficaz, em que os diretamente envolvidos participem de maneira
ativa e comprometida na tomada de decisões para a solução dos conflitos que se apresentam.

66
Six (2001, p. 12) manifesta que “[a] mediação apareceu como a descoberta de uma erva milagrosa, que seria
panacéia universal, e desde logo, como um produto de futuro. Precipitou-se sobre ela, cada um querendo dela apoderar-
se e cultivá-la à sua maneira. Essa proliferação, por meio dos seus próprios erros e excessos, é um sinal”.

89
A forma como as sociedades têm gerido os conflitos levou ao desaparecimento de
sistemas tradicionais nos quais as próprias partes implicadas assumem papel de maior destaque e
protagonismo, tais como “los Homes Bons, los Tribunales de Arbitraje Laborales y de Consumo,
los patriarcas gitanos, el Defensor del Pueblo o el Síndic de Greuges”. (COBLER MARTINEZ;
GALLARDO CAMPOS; LÁZARO GUILLAMÓN; PEREZ I MONTIEL, 2014, p. 12). Os
tribunais consuetudinários e tradicionais são reconhecidos na Constituição Espanhola de 1978, que
no seu artigo 125 introduz a possibilidade de que os cidadãos possam exercer ações populares e
participar da Administração da Justiça perante estes Tribunais.

Como consequência dessa contenção da capacidade de lidar com conflitos, se faz


necessária uma mudança cultural por parte da sociedade em relação ao conceito que se têm do
modo de como resolver as controvérsias cotidianas. Como se pode observar, vivemos em uma
sociedade mais permissiva que anos atrás, em que as medidas repressivas foram substituídas por
outras baseadas na convivência. Esta evolução vem afetando a forma de trabalhar das polícias,
modernizando seus protocolos e substituindo medidas punitivas, que, em longo prazo, não
resolveram os conflitos, por medidas conciliadoras que buscam um resultado que persiste ao longo
do tempo.

O modelo tradicional da polícia como ente de controle e repressão vem sendo questionado
devido aos pobres resultados obtidos na luta contra a insegurança do cidadão. Assim, os modelos
de polícia comunitária iniciado nos Estados Unidos vêm sendo implementados na Europa e
América Latina, tentando dessa maneira dar uma resposta eficaz aos problemas de insegurança.

A mediação policial67 como ferramenta encaminhada para auxiliar no gerenciamento de


conflitos e na harmonização das relações sociais em uma determinada comunidade vem sendo
implementada de maneira constante nos vários continentes (América do Norte, Europa, Ásia,
América Latina), durante os últimos anos. O fracasso dos meios institucionais de controle do

67
Em estreita sintonia com a Agenda de Desenvolvimento Pós-2015, a mediação policial apresenta-se como uma das
ferramentas eficazes para concretizar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de número 16, oriundo da
Agenda 2030, que estabelece a promoção de sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável,
além de proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos
os níveis. Referido objetivo, no número 16.6, prevê o desenvolvimento de instituições eficazes, responsáveis e
transparentes em todos os níveis, como, por exemplo, as relacionadas à resolução de conflitos. Nessa linha, os Estados
devem estar em constante aprimoramento acerca dos meios de resolução de conflitos que permitam a implementação
de uma cultura voltada à pacificação social. Sugere-se que nessa ação o Brasil possa se fortalecer, na América Latina,
por meio da cooperação entre os países, em consonância do que estabelece o objetivo de nº 16.8 dos ODS, tendo em
vista que o desenvolvimento sustentável não pode ser levado a cabo sem paz e segurança. Assim, a nova Agenda
reconhece a necessidade de se construir sociedades pacíficas, justas e inclusivas que ofereçam igualdade de acesso à
justiça e que tenham como fundamento o respeito aos direitos humanos (incluindo o direito ao desenvolvimento), o
efetivo Estado de Direito e a boa governança em todos os níveis e em instituições transparentes, eficazes e
responsáveis. (PNUD, 2015, p.9).

90
Estado gerou a necessidade de introduzir mecanismos alternativos de gestão de conflitos que
respondam as urgentes necessidades de obter uma célere e efetiva justiça.

E a polícia fica aonde nesse controle?

Existem controles formais e informais, sendo a polícia capaz de realizar estes dois tipos
de controle, uma vez que é responsável pelo cumprimento da lei e exerce ao mesmo tempo uma
função social. O controle formal é constituído pelas normatizações, regras, leis, códigos,
padronizações que são impostas ao cidadão. O controle informal é exercido de forma proporcional
ao vínculo vigente entre o sujeito e a sociedade, sendo este fortalecido por uma coesão social
constituída.

Os mecanismos de controles formais se utilizam de agentes fiscalizadores, de meios legais


e judiciais para agirem. O controle formal é fundamentado, teórico, igualitário e impessoal. O
controle informal é fundador, dinâmico, moral e reflexivo, ele é o poder que o meio, as relações
familiares e sociais possuem para controlar as atitudes e comportamentos das pessoas. A polícia
tem função institucional de fazer controle formal, entretanto deve dimensionar o alcance social
que atinge, para cumprir sua função informal e pedagógica.

A polícia cidadã é aquela capaz de desconstruir uma triste história de autoritarismo e


violência e construir de forma perseverante uma instituição capaz de promover a justiça e a paz
social. Para que isso ocorra se fazem necessários mecanismos de controles sociais adequados para
a preservação da dignidade humana, manutenção de direitos sociais, civis e políticos. O cidadão
precisa ter a presença do Estado nas garantias sociais e civis, para que não seja excluído de direitos
e participações sociais e incluído apenas no momento de ser penalizado.

5.1 Polícia e comunidade

[...] "Integrar a polícia na comunidade supõe que o trabalho policial seja cada vez mais
voltado para a prevenção dos conflitos, e que os policiais desempenhem um papel ativo
como mediadores, enquanto a dinâmica desses conflitos está em seus inícios e as pessoas
ainda estão dispostas a se engajar em negociações [...]. A integração efetiva do serviço de
polícia na sociedade é a condição necessária para que o trabalho policial seja realizado de
maneira judiciosa e socialmente equitativa. Isso passa, em nossa opinião, pelo
estabelecimento de pequenas unidades descentralizadas, estreitamente articuladas com as
associações de cidadãos da cidade ou da região, e que dispunham de uma ampla
responsabilidade autônoma para proporcionar aos cidadãos uma gama extensa e variada
de serviços".68(MONET, 2006, p. 309).

68
É na Holanda que os esforços mais vigorosos foram realizados para definir o que deveria, em nível ideal, ser a nova
polícia, dar-lhe efetivamente corpo e readquirir a confiança e a estima dos cidadãos. Em 1975, uma comissão de estudo
organizada pelo Ministério do Interior declara as atribuições dessa nova polícia. (MONET, 2006, p. 309).

91
Inicialmente é importante assinalar que a polícia, segundo a definição da Carta Européia
de Polícia (1992), constitui um serviço público da comunidade sendo sua razão de ser a de garantir,
a todos os cidadãos, o livre e pacífico exercício dos direitos e liberdades que a lei reconhece.

Sem dúvidas esta definição faz uma ênfase especial na dimensão de serviço para a
comunidade; mas, o que entendemos por comunidade? É necessário especificar que a categoria
social de comunidade tem diferentes e variadas acepções; contudo, considero que uma das
definições que alcança uma compreensão desde a dimensão relacional e Comunitária aporta
Amitai Etzioni (2001, p. 23), que assinala:

Las comunidades son los principales entes sociales que alimentan las relaciones basadas
en fines (yo-tu), mientras el mercado es el reino de las relaciones basada en medios (yo-
cosas). Las comunidades constituyen uno de los componentes principales de la buena
sociedad. La comunidad se basa en dos fundamentos, reforzadores de las relaciones yo-
tu. En primer lugar las comunidades proporcionan lazos de afectos que transforman
grupos de gente en entidades sociales semejantes a familias amplias. En segundo lugar,
las comunidades transmiten una cultura moral compartida: conjunto de valores, y
significados sociales compartidos que caracterizan lo que la comunidad considera
virtuoso frente a lo que considera comportamientos inaceptables y que se transmiten de
generación en generación, al tiempo que reformulan su propio marco referencial moral
día a día. Estos rasgos distinguen a las comunidades de otros grupos sociales.

Entendida desta maneira a comunidade, é claro que, a partir daí, espera-se que a polícia
comunitária possa compartilhar e participar de maneira decisiva e comprometida na construção da
comunidade mediante sua participação ativa na formação de uma cultura moral e virtuosa. Neste
sentido, a mediação policial é uma forma de participar nesta construção.

A instituição de programas de policiamento comunitário constitui um acontecimento cada


vez mais frequente na América Latina que responde a diversos fatores. Na opinião de Frühling, H.
(2003, p. 35), isto se deve:

[...] en primer lugar, a la falta de confianza pública predominante en muchos países


respecto de la policía. En segundo lugar, a la necesidad de modificar estrategias para
enfrentar un masivo incremento de la violencia delictual presente incluso en los países
considerados más seguros. Finalmente, a la necesidad de poner a la policía en sintonía
con procesos de descentralización y modernización administrativos que ya tenían lugar
en otros sectores del Estado.

Contudo, para Frühling (2003, p.173) resulta não tão otimista o fato de que estes
programas tragam consigo e, por si só, uma diminuição do abuso policial, por exemplo, ainda que
pareça notório que significa um passo adiante no caminho correto que deve ser complementado
com outros tipos de medidas complementares como treinamento de policiais que apresentam
tendências ao abuso e o estabelecimento de um sistema de aviso prévio frente as continuas
infrações protagonizadas por policiais. Para este investigador chileno, os programas de polícia
comunitária na América Latina “constituyen una forma de acercamiento a la comunidad cuyos

92
beneficios parecen ser evidentes, pero que todavía no señalan un camino claro de transformación
institucional de la subcultura interna, e incluso de las estrategias de accionar preventivo que
utiliza la policía".

Por outro lado, a criminologia argumenta que existem poderosas forças nas comunidades
locais que podem promover e inibir o delito. Portanto um exercício importante de trabalho
preventivo consiste em realizar esforços direcionados a reforçar a viabilidade econômica e a
coesão social das comunidades locais, a oferecer mais serviços e ações locais para o fomento da
comunidade para fortalecer os vínculos dos moradores e para estimular/desenvolver relações
adequadas entre a comunidade e a polícia. A marcada rotatividade comunitária é uma das
tendências mais características da criminalidade moderna, já que o crime se definir como um
problema comunitário, a prevenção do delito como prevenção comunitária e a intervenção como
intervenção comunitária. O conceito de comunidade converteu-se em recurso simbólico para o
controle social contemporâneo, do qual surge a denominada polícia comunitária.

Neste sentido, assistimos, diz García-Pablos (2006), há uma transformação do modelo


policial clássico para um modelo policial de integração social e comunitária. Já não se pode
compreender a prevenção do crime em um sentido policial, nem mesmo situacional, desligado da
comunidade que reclama uma mobilização de todas de todas as forças vivas, uma dinamização
social e uma atuação ou compromisso de todas elas no âmbito local. Porém, a noção de prevenção
comunitária não é muito precisa, em um sentido amplo de discussão sobre prevenção baseada na
comunidade, incluem-se na mesma três submodelos: prevenção sobre os ambientes de risco ou
áreas criminógenas; prevenção situacional e prevenção comunitária em sentido estrito. Em sua
acepção mais precisa, a prevenção comunitária, se opõe justamente a prevenção situacional.

Prevenção comunitária, quer dizer, prevenção integradora, prevenção inclusiva, que


rejeita o castigo e propõe alternativas reconciliadoras e de reforma social, conceito um tanto difuso
que se conecta com o de solidariedade e controle coletivo. Para outros, no entanto, prevenção
comunitária é sinônimo de segurança da comunidade, conceito que evoca o problema das relações
entre o poder estatal e a sociedade civil e a colaboração do público e do privado, o central e o local.
Até mesmo a discussão abarca se o conceito de comunidade deve ser entendido como meio ou
como fim e se equivale a altruísmo organizado ou a convivência local.

Matews (1994) ressalta a necessidade de desenvolver novas formas de polícia,


controladas democraticamente, substituindo a polícia tradicional de estilo militar por uma polícia
de base comunitária. A postura comunitarista levanta a necessidade de apelar para a prevenção do
crime por meio da construção da consciência dos cidadãos, dos movimentos sociais e

93
comunitários; ou seja, a um controle social dialógico e participativo dentro de uma comunidade
dotada de sentido.

Dentro desta perspectiva criminológica é importante precisar que os programas de


prevenção da criminalidade orientados a reflexão axiológica, revisão de atitudes, valores e pautas
sociais de comportamento formam o núcleo central da proposta. Partindo do conceito estrito de
prevenção, quer dizer intervenção eficaz nas causas e raízes últimas de um problema, parece
inquestionável que os melhores resultados no controle da criminalidade não se obtém aumentando
o rigor punitivo da resposta ao delito, nem melhorando o rendimento e efetividade do sistema
legal, senão por meio de uma ação positiva na ordem social.

Por isso, que uma política criminal enquadrada na concepção de prevenção comunitária
deve contemplar na opinião de García-Pablos (2006), quatro estratégias:

1. Reflexão axiológica; que parte da consideração de que o crime se aprende e, portanto,


deve-se olhar para a sociedade dos adultos com modelos e padrões de comportamento.
2. Mensagens antipedagógicas; as mensagens ambíguas e imprecisas como o êxito, o
triunfo econômico, o valor, o risco, etc., não devidamente enfatizadas podem receber uma leitura
simplória e tendenciosa por parte dos jovens, ainda que esta não seja a finalidade desejada da
mensagem.
3. Criminalidade subcultural; já que muitas das condutas irregulares dos infratores são
condutas simbólicas que significam ou querem significar a fuga, a evasão ativa de uma sociedade
cuja ordem de valores não é compartilhada, sendo uma amostra de uma aberta rejeição e rebeldia.
4. Uma nova cultura servida por ambiciosas políticas sociais; a atual cultura consumista
cria artificialmente necessidades, não sabe de limites nem restrições e prega o hedonismo
insaciável incapaz de postergar a satisfação do prazer ou planejar com sensatez o futuro a médio e
longo prazo.

Uma sociedade que entroniza o êxito como valor supremo e bane do olhar qualquer
suspeita de limitação, sofrimento, fracasso, não pode gerar indivíduos capazes de assumir como
inerentes ao ser humano estas limitações.

Sem dúvida, a violência e a insegurança em geral têm suas raízes permeadas pela
multicausalidade. Por essa razão, não é óbvio ressaltar que o problema da criminalidade é
enquadrado na perspectiva da necessidade de obter segurança para o desenvolvimento humano.

94
Desta dimensão, a atividade policial adquire uma totalidade muito distinta a que até agora
se tem vivenciado, já que sua participação na comunidade deve estar dirigida não somente a um
papel estritamente controlador e sancionatório, senão a uma participação verdadeiramente
mediadora nos processos comunitários destinados a obter segurança humana, antes que uma
segurança estritamente retributiva.

A segurança, vista desde uma perspectiva humana, não é somente um assunto de ordem
pública, de segurança nacional ou de diferentes formas de controle social, tem uma conotação
individual e coletiva. A segurança na sociedade atual inclui diversos aspectos como a segurança
ambiental, alimentícia, industrial, etc. A segurança humana diz respeito à proteção e salvaguarda
do direito à vida, à integridade pessoal, mediante a integração de valores e direitos que permeiam
uma existência digna. A dimensão ampla da segurança humana pode ser observada na definição
dada pela ONU (1994, p. 28), para esta organização a segurança humana:

[...] no puede ser definida sólo como la ausencia de conflicto armado (...) los abusos de
derechos humanos, los desplazamientos de la población civil, el terrorismo internacional,
la pandemia del SIDA, el tráfico de armas, de drogas y personas, los desastres
ambientales, presentan una amenaza directa la seguridad humana, forzándonos a adoptar
una estrategia coordinada.

Para a maioria das pessoas os sentimentos de insegurança se devem mais as preocupações


da vida cotidiana que ao temor de um cataclismo no mundo. A segurança no emprego, a segurança
financeira, a segurança na saúde, a segurança no meio ambiente, a segurança em relação ao crime:
são estas as preocupações que estão surgindo no mundo acerca da segurança humana, nos disse o
informe do PNUD (1994).

O objetivo da política mundial deve ser o de maximizar a segurança humana assegurando


que cada pessoa tenha um razoável e justo acesso aos bens que são essenciais para a existência
saudável e digna de todos os seres humanos. A vida humana, nos diz Dussel (2001), não é
meramente sobrevivência física, corporal, como momento vegetativo-animal. A vida humana é
sempre inevitavelmente vida cultural, histórica, religiosa e, inclusive, mística. Mas a vida humana
não se esgota em uma cultura, pelo contrário é a fonte criadora de toda cultura. Por isso, nenhuma
norma, nenhum ato, institucional ou organizacional de qualquer tipo, pode deixar de ter como
conteúdo a própria vida humana. A atuação policial deve, portanto, corresponder com a defesa do
viver comunitário, ou seja, deve ser um componente ativo e defensor da existência com dignidade
dos membros de uma comunidade. Neste sentido, as instituições adquirem legitimidade, critério
de verdade e eticidade.

95
Para Dussel (2001), o que atua eticamente, deve como obrigação produzir, reproduzir e
desenvolver auto-responsavelmente a vida concreta de cada ser humano, contando com enunciados
normativos com pretensão de verdade prática, em uma comunidade de vida. A vida humana é, em
última instância, o critério de verdade, a não possibilidade de que os excluídos vivam, é o critério
ético por excelência. A instituição policial deve, portanto, tender em todas e em cada uma de suas
atuações pela defesa real e concreta da vida daqueles que têm direito a viver, pois uma sociedade
que vitimiza não pode ser verdadeira. A brutalidade policial é um exemplo claro disso, mas sua
perversão não está no fato em si, senão na afetação grave ao princípio ético de viver com dignidade
que possuem todos os seres humanos.

As construções culturais são, por excelência, a essência de toda a comunidade. Para


Geertz (1973), a cultura pode ser entendida como o conjunto de símbolos, signos, significados,
mitos, crenças, ritos e artefatos, papéis, instituições e valores que a gente cria e recria durante os
processos de interação social com pretensão de manter a vida humana. Tudo aquilo que o homem
faz em comunidade pode ser entendido também como capital social, que é, em última análise, o
que enriquece ou empobrece a bondade de toda pretensão comunitária. O respeito e a dignidade
das autoridades não se opõem a uma comunidade, pelo contrário, emergem da constante e
permanente interação com as pessoas, ou seja, se convertem em fortaleza ou debilidade do capital
humano de toda a sociedade.

Desta maneira, a segurança humana enfatiza o capital social, que nada mais é que o fundo
integralizado de confiança social e associatividade gerado nas relações do dia a dia na
cotidianidade das pessoas em uma determinada comunidade.

Para Putnam (2003), o capital social pode ser compreendido dentro de cinco âmbitos:
vida social comunitária, participação em assuntos políticos, voluntariado na comunidade,
sociabilidade informal e confiança social.

Segundo o relatório da Comissão sobre Prevenção ao Crime e Justiça Penal69 (ONU,


2003, p. 10), a segurança humana consiste:

En proteger la esencia vital de todas las vidas humanas de una forma que realce las
libertades humanas y la realización del ser humano. Significa proteger las libertades
fundamentales que constituyen la esencia de la vida. Significa proteger al ser humano

69
A Comissão sobre Prevenção ao Crime e Justiça Penal é o principal órgão do sistema das Nações Unidas para a
formulação de políticas e recomendações internacionais sobre questões de justiça criminal, incluindo o tráfico de
pessoas, crimes transnacionais e os aspectos de prevenção do terrorismo. Ela monitora o uso e a aplicação das normas
das Nações Unidas referentes a esses temas e orienta a elaboração de políticas para responder a novas questões.

96
contra las situaciones y las amenazas críticas. Significa utilizar procesos que se
fundamenten en las fortalezas y las aspiraciones del ser humano. Significa la creación de
sistemas políticos, sociales, medioambientales, económicos, militares y culturales que en
su conjunto brinden al ser humano las piedras angulares de la supervivencia, los medios
de vida y la dignidad.

A segurança humana complementa a segurança do Estado tendo em conta que se preocupa


com a pessoa e a comunidade, em vez do Estado. As ameaças para as pessoas se localizam em um
lugar diferente e não correspondem aos considerados ameaçados pela segurança do Estado. A
categoria de agentes não está limitada apenas ao Estado. A segurança não inclui somente a proteção
da pessoa, mas também lhe oferece os meios para valer-se por si mesma.

Para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), no relatório


apresentado em 1994, se especifica que uma das principais características da segurança humana é
precisamente que está centrada no ser humano, destaca que as pessoas devem estar em condições
de cuidar-se por si mesmas.

La mayoría de la población deriva seguridad de su participación en un grupo, una familia,


una comunidad, una organización, un grupo racial o étnico que pueda brindar una
identidad cultural y un conjunto de valores que le den seguridad a la persona. (PNUD,
1994, p. 42).

Isto, sem dúvida, permite apontar que a segurança humana, como sugere Etzioni (2001),
implica em revitalizar a comunidade mediante o emprego de meios não necessariamente
coercitivos, senão normativos que se desenrolam através da voz moral da comunidade, que os
indivíduos interiorizam mediante seus vínculos afetivos, e dos denominados diálogos morais, que
permitem aprofundar o conteúdo desses valores compartilhados e adaptar os processos públicos
que deles derivam.

Segundo Etzioni (2001), as políticas que pretendem renovar ou apoiar as comunidades


devem ter muito claro que estas se formam e se fortalecem, sobretudo, nos espaços públicos e não
na intimidade da própria casa.

La seguridad pública y el bienestar comunitarios se benefician de la incorporación de


medidas “tupidas” de vigilancia policial en la comunidad que implican mucho más que
tener a la policía de ronda por el vecindario. Ello supone implicar a la comunidad en
establecimiento de prioridades para las actuaciones policiales. Y requiere implicar a la
policía en la solución de los conflictos y en la protección de todo lo que denominamos
calidad de vida.

Para Manuel Martin (2001, p. 27)

La filosofía inherente a la policía comunitária, es que la policía por sí sola no puede


solucionar ninguno de los grandes problemas sociales en los que interviene: drogas,
violencia, delitos económicos; la actuación policial solo es una parte de la solución y no
siempre la más decisiva.

97
Não se pode esquecer, nos diz Martin (2001), que o modelo comunitário aplicado
estritamente pode contribuir para gerar atitudes xenófobas, racistas ou claramente fascistas, já que
os interesses particulares que se dão em uma comunidade não necessariamente coincide com os
interesses gerais da comunidade global. A definição dos problemas cuja solução contribui para a
polícia deve emergir da comunidade, mas também da lei e dos interesses gerais do Estado, dos
políticos e grupos sociais representativos, dos diferentes interesses legítimos e dos próprios
profissionais da polícia.

Para Martin (2001), toda estrutura policial deve orbitar ao redor de dois eixos básicos: as
necessidades particulares das associações de bairro e das polícias do Estado ou do interesse geral.
Os primeiros respondem ao modelo comunitário, cujo objetivo fundamental é a detecção de
problemas da comunidade e a mobilização de recursos para sua solução. A polícia deve combinar
a defesa da coesão social e a qualidade de vida na comunidade em que presta seu serviço com os
interesses gerais do Estado. A eficácia da polícia em modelos comunitários se mede não pelo
número de detidos ou delinquentes capturados, senão pelo número de problemas detectados na
comunidade e solucionados por ela ou por outros meios com a participação da comunidade.

O conceito de polícia comunitária implica necessariamente mudanças drásticas na


concepção no papel da polícia em nossa sociedade. Isto indica que a comunidade se rege pelo
princípio democrático de Stennig (1984, p. 87), que expõe: “que cualquiera que ejerce su
autoridade a favor de la comunidad, responde a la comunidade por el ejercicio de esa
autoridade”. Esta concepção implica que a polícia deve compartilhar responsabilidades com a
comunidade e, para compartilhar o poder, fato este que não é aceito de maneira aberta por parte da
instituição policial em geral.

De acordo com Bayley (1984), um modelo de polícia comunitária assume que:


1. Os bairros ou pequenas comunidades servem como local da organização e operação
policial.
2. O trabalho da polícia urbana é organizado e conduzido no nível da vizinhança ou da
comunidade.
3. Cada comunidade enfrenta problemas de ordem única e distinta daqueles que um modelo
policial tradicional não responde.
4. O consenso alcançado na comunidade deve orientar dá resposta da polícia aos problemas
comunitários de ordem pública.

98
A participação comunitária exige da comunidade o alto grau de coesão e instituições
altamente organizadas e representativas, de tal maneira que a aplicação de mecanismos como a
mediação, a conciliação para dar solução aos conflitos que se acontecem na comunidade, seja
efetiva. Contudo, é importante ressaltar que na América Latina, a desconfiança comunitária da
polícia é muito alta e, em alguns casos, a distância entre autoridades policiais e comunidade é um
abismo, sobretudo em setores altamente marginalizados e abandonados pelo Estado e que se pode
observar, por exemplo, em denominadas "favelas" no Brasil ou nas "comunas" na Colômbia. Isto
dificulta em grande medida a polícia comunitária nestes setores populacionais excluídos e podendo
converter-se em um instrumento de controle das elites dominantes.

Pois, a efetividade dos programas de prevenção ao crime dependerá de um compromisso


solidário da comunidade e da polícia, que mobilize todos os seus recursos para abordar e solucionar
os conflitos comunitários. Isso implica contribuições e sócios solidários que neutralizem situações
de deficiência, conflitos, desequilíbrios, necessidades básicas. Somente reestruturando a
convivência, redefinindo positivamente a relação entre os membros da comunidade e destes com
a mesma, cabe esperar resultados satisfatórios. Uma prevenção puramente negativa, quase
policial, sobre bases dissuasivas carece de operatividade.

Uma polícia comunitária deve apresentar características claramente definidas para que
alcance os fins que pretende. Porém, a polícia comunitária não servirá a uma comunidade em
particular, se ela carece por completo de condição de existência dignas dentro da perspectiva da
segurança humana. A polícia comunitária, desde esta perspectiva, não fornece segurança, reprime
o crime e põe a ordem. Em vez disso, a comunidade se vê apoiada pela polícia na organização,
solidariedade e compromisso com os projetos e programas comunitários, em busca de satisfazer
as necessidades de segurança humana, mediante um aporte comprometido na criação de capital
social comunitário. Desta maneira, a polícia desenvolve um compromisso com a população na
solução dos problemas da comunidade em geral.

Nesse sentido, a noção de uma polícia mediadora ostenta diversos significados, e se refere
a teorias e processos plurais. Não obstante, a mediação policial se apresenta como um novo modelo
de enfrentamento ao delito que em lugar de fundar-se na ideia tradicional de reprimir a todo custo,
parte da importância que tem para a sociedade o diálogo, a solidariedade, o associativismo
comunitário. O que surge neste novo paradigma é uma perspectiva diferente, que deixe de lado a
tradicional concepção de justiça fundamentada na opressão, na dor, como exercício de uma
violência legitimada pelo Estado.

99
A preocupação pela implantação de programas de mediação policial pelo mundo tem tido
grande impulso (desde a década dos anos de 1970) em países da América do Norte, sobretudo na
Europa e, mais recentemente, na América Latina.

A mediação policial não somente buscar envolver todas as partes do conflito, senão que
também pretende a restauração dos valores morais, da dignidade das pessoas e da equidade social,
é um processo que deve ser visto como emergente dentro do contexto das diferentes leis de justiça.
É, também, uma forma de pensar acerca da complexidade dos conflitos sociais contemporâneos.
Seu desafio consiste em que todos revisem minuciosamente, qual é a forma em que se dá uma
resposta à violência intersubjetiva e como se resolvem os conflitos em uma sociedade de
pluralidades.

O processo mediatório parte do binômio necessidades-consequências humanas dos


conflitos, dos delitos e das ofensas morais, enquanto que o sistema legal tradicional se baseia
unicamente nas consequências legais (regras e castigos). A mediação policial objetiva ressignificar
a comunicação violenta como resultado de um conflito ou de qualquer ofensa, a partir da validação
da história da pessoa ou pessoas envolvidas em um conflito interpessoal.

A mediação policial apresenta-se como um novo movimento no campo da segurança


pública e da criminologia, que tem como essência a adequada administração dos conflitos de
maneira participativa. A mediação policial dá oportunidades para aquelas pessoas que foram
afetadas por um choque de interesses se reúnam para compartilhar seus sentimentos, descrever
como se veem afetadas e desenvolver caminhos para administrar o conflito ou evitar que ocorra
novamente.

A partir desse enfoque, a mediação policial pode ser vista como um processo construtivo
e preventivo em que se obtém um compromisso muito mais autêntico para discutir e alcançar as
reais necessidades e, assim, para impedir que se produza outro conflito desse tipo no futuro graças
ao grau de intimidade na conversa que reúne os afetados por um conflito em uma comunidade.

Com auxílio do policial mediador, as pessoas se empoderam porque se sentem escutadas


ativamente, o que transforma o ciclo do medo em uma oportunidade para a esperança. De igual
forma, a comunidade também se empodera já que deixa de estar isolada e alienada. Igualmente, o
policial-mediador também é empoderado ao deixar de ser tratado como uma persona non grata na
mesma comunidade.

100
5.2 O Policial-Mediador

A prática de mediação policial está fundada nos princípios do policial sujeito, reflexivo,
que sabe ser cidadão, e respeita a pessoa humana. Também é capaz de fazer uma leitura da
abordagem sociológica do crime, uma vez que observa o contexto que envolve o fenômeno
criminal, a forma sistêmica e histórica que se desencadeia os conflitos sociais. Ele é agente de uma
prática preventiva, que possibilita o estreitamento das forças policiais e a comunidade.

Espera-se de um policial mediador saber agir de forma a atender bem a demanda trazida
pelo público que o procura, ou realizar encaminhamentos adequados para outras instâncias
governamentais, saber trabalhar em rede, desenvolver estratégias de ação social, mobilizar a
comunidade em que está inserido para uma maior autonomia e auto-gestão de seus conflitos e
carências. Deve ser capaz também de desenvolver projetos que visem a melhoria na qualidade de
vida e bem-estar da comunidade a qual pertence, favorecendo um controle social, formal e ao
mesmo tempo informal, por estabelecer vínculo e pertencimento a sociedade civil a qual serve.

A primeira mediação a fazer é a de devolver confiança às cidades e as comunidades,


estudando-as em sua realidade e potencialidades, e não as reduzir a bairros — ou a famílias —
“problemáticos”, mas criar uma democracia urbana, pesquisar novas maneiras de os cidadãos
tornarem-se cidadãos de fato, de responsabilizarem-se por sua cidade, por sua comunidade, de
criarem novos projetos para si.

Em sua obra A Dinâmica da Mediação, SIX (2001) descreve uma experiência da polícia
francesa com a prática da mediação, estes policiais-mediadores são chamados de “guardiões da
Paz”. O autor relata que estes agentes da segurança praticam a mediação na vida, na rua cotidiana,
em numerosos lugares, onde não há praticamente serviços públicos, atuam, então, em um “deserto
social onde tentam ser a lei e também intermediários entre os sem-lei e a lei”. O autor transcreve
um depoimento de Raymond Depardon sobre estes guardiões:

Estes policiais obscuros, que acreditávamos reis do abuso e da grosseria, reaparecem


como babás de quarteirão. Uma querela de vizinhos? Uma cena doméstica um pouco
violenta? Uma mãe que faz escândalo para ver a filha da qual não tem mais a guarda?
Uma avozinha amnésica que não sabe mais onde mora? É a polícia de socorro que
intervém. Na delegacia, são chamados de Auxiliares de Polícia. E bravos pais de família,
pouco preparados para atuar como bombeiros de almas, encontram-se consolando uma
avó, recolhendo um drogado em abstinência, conduzindo ao hospital a jovem menina que
acaba de ter o nariz quebrado em plena rua por um pequeno paquerador irascível. Estes
caras não são nem Navarro, nem Colombo. Eles têm o quepe sujo de graxa. As mãos
mergulhadas, dia e noite, no Pátio dos Milagres de nossa solidão e de nossos medos (...).
Eles parecem freqüentemente tão frágeis, tão perdidos diante do desespero que se
encontram. Eles convivem com todas as dores (DEPARDON apud SIX, 2001, p. 186-
187).

101
A polícia tem muitos desafios para se adaptar às mudanças sociais que estão ocorrendo
em sua forma de se ver, pensar e atuar. É necessário tornar acessível aos cidadãos que o agente-
mediador é o policial que está sempre na rua, ao qual podem recorrer quando tiverem um problema
para que este os ajude a administrá-lo. Somente com essa mensagem chegando, os vizinhos estarão
mais calmos e a polícia terá mais facilidade para realizar seu trabalho ao se encontrar com os
vizinhos que nele confiam e não se limitam a exigir a presença deste quando o problema tiver
chegado a uma escalada de difícil solução.

Almeja-se vislumbrar um futuro no qual a figura do mediador-policial seja vista como


um arauto da “aquietação”, onde o procedimento mediatório será um dos fatores que fortalecem a
tessitura social70 e a ordem pública e, este fim será melhor alcançado com a manifestação do
diálogo em detrimento das violências, física ou moral. Fruto da não violência autoritária ou da
prepotência. O caminho mais seguro e curto para “otra forma de hacer policía” está, também, na
urbanidade do agir.

5.2.1 Agente de autoridade e mediação: uma mudança de papel, cultura e paradigma?

“Para o Estado é mais fácil punir que prevenir. Cria Pit Bull71para morder o povo.”
(grifo nosso). A afirmação compreende o trecho do depoimento concedido pelo Policial 1 (POG,
24 anos de profissão, Fortaleza/CE), que desperta a reflexão de várias questões (explícitas e
implícitas) presentes no ser e deve-ser do habitus24da formação dos profissionais de segurança
pública do cidadão. O habitus compreende a capacidade de uma determinada estrutura social ser
incorporada pelos agentes por meio de disposições para sentir, pensar e agir (BOURDIEU, 2003;
BARREIRA et al., 2006).

Kant de Lima informa que a atividade policial brasileira é influenciada negativamente


pela cultura jurídica, que tem como finalidade a punição máxima dos transgressores, bem como
pelo “ethos” militar que foca o extermínio do inimigo. (2002, p. 210).

70
A professora Margarida Lacombe (UFRJ) explica que o termo tessitura social é muito utilizado na Ciência Política
e na Sociologia. “É o tecido social misturado com o contexto e a complexidade. É uma linguagem erudita para traduzir
uma complexidade social.” Disponível em: <http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2012/08/professora-explica-
termos-juridicos-chamam-atencao-no-julgamento-do-mensalao.html>.
Acesso em: 01 ago. 2017.
71
O Pit Bull tinha uma reputação de cão leal e confiável durante as primeiras décadas do século passado. Nos últimos
anos, contudo, esta imagem mudou. Seus membros têm sido considerados como extremamente violentos e
'merecedores' de banimento em alguns países. Para piorar as coisas, os maus criadores muitas vezes deixam de treinar
seus cães para não agredirem humanos. Pelo contrário, treinam os cães para serem os mais violentos possíveis.
Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Pit_bull. Acesso em: 25 set. 2017.

102
Quanto ao ethos militar, influencia negativamente a polícia em pelo menos dois aspectos.
Primeiro, quanto a sua organização interna e quanto a suas relações externas com outras
instituições da sociedade: sendo a Polícia Militar uma organização subordinada, seus
oficiais são subalternos aos oficiais das Forças Armadas. Embora use denominações
semelhantes às da carreira do Exército, a carreira dos oficiais das Polícias Militares vai
até o posto de Coronel, nunca ao de General. Em segundo lugar, mantém da hierarquia
militar a estrita obediência e a negação da autonomia, que, se pode ser indispensável às
funções a serem executadas no cenário da guerra, revelam-se obstáculos importantes na
atuação policial, tanto no que diz respeito a sua necessária autonomia de decisão na
prática das funções profissionais, quanto no modelo pelo qual se deve fazer a avaliação
de sua conduta na eficácia obtida na mediação dos conflitos, medida não pelo grau de
obediência a ordens superiores, mas pela sua criatividade na condução de negociações
bem sucedidas. (IBIDEM).

O autor ressalta que a tarefa policial deveria se ater à “interminável e inevitável tarefa de
administração dos conflitos, sem emitir juízos de valor, a não ser aqueles necessários para ensejar
a aplicação das regras em vigor.” (KANT DE LIMA, 2002, p. 211).

Para Habermas (2012, p. 50),

[a] validade social de normas do direito é determinada pelo grau em que consegue se
impor, ou seja, pela sua possível aceitação fática no círculo dos membros do direito. Ao
contrário da validade convencional dos usos e costumes, o direito normatizado não se
apoia sobre a facticidade de formas de vida consuetudinárias e tradicionais, e sim sobre a
facticidade artificial da ameaça de sanções definidas conforme o direito e que podem ser
impostas pelo tribunal. Ao passo que a legitimidade de regras se mede pela
resgatabilidade discursiva de sua pretensão de validade normativa; e o que conta, em
última instância, é o fato de elas terem surgido num processo legislativo racional — ou o
fato de que elas poderiam ter sido justificadas sob pontos de vista pragmáticos, éticos e
morais. (HABERMAS, 2012, p. 50).

Nesse sentido, a figura do policial representa uma “ameaça de sanção” por se enquadrar
como um braço sancionador do Estado, junto à sanção imposta pelo Tribunal e, tendo em vista que
a polícia representa, também, a efetivação dessa sanção pelo Sistema de Justiça Criminal. É nesse
cenário que o agente policial pode inserir pontes dialógicas, mantendo a sanção como ameaça
distante e deixando ao alvedrio dos indivíduos a administração do seu conflito. O diálogo inserido
conduz a garantia de maior legitimidade do que o controle advindo de uma imposição externa.

Hansen (2011, p. 115), nos diz que

[o] grande desafio é resgatar, perante a sociedade, a autocompreensão dos cidadãos acerca
da possibilidade que estes trazem em si de resolver seus próprios conflitos, sem necessitar
de alguém que, de forma coercitiva e ostensiva, diga a eles o que é o direito, o que é o
justo, o que é que eles devem crer ou esperar, o que eles querem para si próprios.

Para Almeida (2007), a polícia deve ser proativa, não se restringindo à reação após o
cometimento do delito. Polícia reativa é um modelo tradicional com forte centralização
burocrática, com atividades reativas técnicas, limitadas e direcionadas para a resolução de

103
conflitos, não coadunando com a ideia de integração entre polícia e comunidade que tem por
objetivo a efetiva participação da população nos assuntos de segurança.72

Nesse sentido, a primeira reflexão é que a função policial deixa de ser o “braço forte” do
Estado, que está assentado na “segurança nacional” (paradigma vigente durante a ditadura militar),
e passa a ser o “braço forte no Estado Democrático de Direito”, entretanto essa mudança vem
carregada de fatores controversos. Segunda, o policial muitas vezes, ao fazer cumprir a lei,
continua sendo violento, já que determinadas leis são uma violência contra a sociedade. Terceira,
a prática dos agentes responsáveis pela Segurança Cidadã para um efetivo trabalho de caráter
preventivo, democrático e dinâmico deve ser realizada por um sujeito social, que por si mesmo já
implica em ética e reflexão de seus atos. Quarta, esse sujeito policial deve refletir sobre a cultura
e os valores introjetados em sua instituição e fundar novos princípios necessários para o
fortalecimento da ética dentro das instituições policiais, criando, desse modo, maior vínculo e
identificação com a sociedade que serve. (CARVALHO, 2007).

Essa perspectiva remete à “constituição da organização policial como formadora de um


ofício específico, marcado pela duplicidade: agente do exercício do monopólio da violência física
legítima e, simultaneamente, agente de produção do consenso73.” (TAVARES-DOS-SANTOS,
2009, p. 71).

A preocupação de criar um modelo de polícia fundado nos princípios dos direitos humanos
e de prevenção à criminalidade é algo recente nos governos democráticos, muitas vezes por
exigências da sociedade civil organizada, ou por situações de crises nas instituições policiais que
acabam exigindo modificações nas suas estruturas, ou ainda como uma temática que ocupa posição
privilegiada na política de alguns governantes. Nesse cenário merecem destaque os aspectos
relacionados à formação policial, sobretudo no que diz respeito aos conteúdos curriculares, e mais
especificamente, sobre as parcerias estabelecidas das academias de polícia com as universidades
para formação dos agentes de segurança pública, assumem papel de destaque, não somente como
campo da produção do saber, mas pelas condições de “construção de uma cultura de paz e defesa
dos direitos humanos” (Programa Nacional de Educação em Direitos Humanos, 2004, p. 36).

Sabemos que para alguns estudiosos não é somente a mudança na formação policial
com acréscimo de disciplinas voltadas aos direitos humanos. Existe uma série de questões

72
ALMEIDA, Rosemary. Cidadania e policiamento comunitário. Curso Segurança, violência e direito. Disponível
em: <http://www.dailymotion.com/video/x3f17x_seguranca-violencia-e-direito-09>. Acesso em 22 ago. 2016.
73
Mota Brasil (2008) expõe que a função de mediar conflitos é inerente às atividades da polícia, uma vez que essa se
insere na fronteira dos conflitos.

104
complexas na dinâmica do universo da polícia e da sociedade que não podem ser ignorados. Isso
não significa dizer que a temática seja tratada de modo irrelevante nos espaços públicos e plurais.
Acredita-se que é por meio de uma qualificação dos profissionais de segurança pública que as
instituições polícias e suas práticas possam ser alteradas, com capacidade de atuar com mais
profissionalização e eficiência para enfrentar as demandas cotidianas que chegam aos serviços
policiais, sem deixar de priorizar o respeito, a proteção e a garantia dos direitos humanos.

Diante do arbítrio que tem caracterizado historicamente o modelo tradicional de


policiamento, atualmente são muitos os esforços realizados na área da formação policial na
perspectiva da valorização de uma cultura de direitos humanos, ante o modo característico da
forma tradicional de policiamento.

Destaque ainda, das parcerias e aproximações realizadas entre os núcleos de formação de


polícia e universidades. Passa então, a ser fundamental entender como os cursos e atividades
desenvolvidos pelas universidades junto às forças policiais estão mudando ou podem mudar os
velhos paradigmas que norteiam a formação policial e, consequentemente, a atuação dos policiais
ao se basearem em novas orientações e conteúdos formativos.

Não podemos ignorar que a formação policial numa perspectiva de interlocução com os
direitos humanos e o exercício da cidadania é fundamental para qualificação das práticas policiais
na sociedade democrática e, de modo evidente, o não-reconhecimento dos direitos humanos por
parte das instituições que compõem o Estado democrático de Direito torna inviável a mediação
dos conflitos e manutenção da ordem social.

Na atuação do policial, de acordo com Gallardo e Batalla (2016, p. 143), a mediação


aplica-se à segurança pública como técnica para melhor ajustar a convivência, apoiando-se em
dois eixos:

a) En una utilización distinta de poder. Se fundamenta en la capacidad de las partes


para transaccionar sobre derechos, bienes e intereses disponibles para ellos y su capacidad
para fijar el acuerdo de manera autocompositiva (empoderamiento), donde el mediador
debe mentenerse neutral e imparcial. Esto hace que se piense que, mientras los implicados
en un conflicto son “propietarios” del mismo, el mediador lo es del proceso de resolución
del acuerdo con esas mismas partes.
b) En la creación de confianza entre los interesados. Se construye desde las
expectativas puestas en la labor del mediador, en atención a su conocimiento sobre el
conflicto y por las diversas formas que tienen de encararlo, la voluntariedad con la que
las partes entran en el procedimiento de gestión del conflicto, la confidencialidad que
debe regir sobre los aspectos expuestos durante la mediación e, finalmente, la
proactividad que debe guiar una práctica que tiene por objeto superar la adversidad que
supone el conflicto y construir un nuevo escenario, compartido y beneficioso, para los
afectados. (grifos nossos).

105
A utilização distinta do poder por parte do agente policial mediador contrasta com a forma
clássica, esperada de um membro da polícia, com um novo papel, apto a buscar a prevenção da
ruptura social, evitando sua atuação unicamente no aspecto conflitivo posterior. Deve-se entender,
entretanto, que tal atuação não é de fácil obtenção, ainda mais se observarmos os paradigmas
empregados historicamente: poder para se ter ordem pública e continuar a manter o poder em si
mesmo. O novo paradigma informa que o poder da polícia deve ser utilizado em prol das
necessidades dos membros da comunidade, criando empatia entre eles e não receio de sofrerem
com a aplicação de sanção.

O outro aspecto a ser citado diz respeito a se criar confiança nos interessados. Isso nada
mais é que o resultado a ser obtido com a mudança no paradigma cultural da expectativa cidadão-
polícia, em que o cidadão observa a polícia por um olhar de confiança na instituição, assim como
na expectativa polícia-cidadão, em que o policial enxerga no membro da comunidade não alguém
apto a receber uma pena ou reprimenda, mas sim como alguém com quem pode cooperar,
proativamente, até mesmo para “superar la adversidad que supone el conflicto y construir un
nuevo escenario”.

A mediação de conflitos na formação e nas práticas policiais

Miranda (2008, p. 76) observa que “o ensino policial necessita decidir o que se quer
formar: um policial preparado unicamente para o confronto?, um policial voltado a preservar a
segurança apenas do Estado?, ou um policial voltado à defesa do cidadão, que saiba usar a força
nos limites legais e utilize a mediação de conflitos para tratar do cotidiano?”

Nesse sentido, julgamos necessário salientar a importância da mediação de conflitos para


a construção de um modelo de ação que assegure o respeito às diferenças, base para a efetividade
de propostas políticas democráticas. Reconhecendo que uma política pública não é resultado
apenas de uma ação racional e estratégica, sendo também passível de diferentes interpretações por
aqueles que a elaboram, pelos que a executam e que dela se beneficiam.

O processo mediatório é usualmente compreendido como uma situação em que há


interesses contrários e uma terceira pessoa, que atua como intermediário. De acordo com
MIRANDA (2008, p.74):

É sabido que em situações deste tipo é comum a reinterpretação dos significados, não
havendo, portanto, neutralidade alguma nesta ação. A adoção de estratégias de mediação
pode ser um instrumento útil na medida em que as partes estejam em patamar de
equilíbrio. Porém, quando se trata de um conflito no qual uma das partes está numa
posição claramente inferior, como ocorre nas interações entre polícia e cidadão, é

106
necessário adotar estratégias que possam assegurar o equilíbrio entre as partes, a fim de
se assegurar o primado da justiça. Quando o desequilíbrio é incontrolável, é preciso que
se assegure a arbitragem, para dirimir questões e decidir sobre os fatos.

Tal abordagem é urgente na medida em que se sabe como o tema da segurança tem sido
tratado no Brasil, ou seja, quase exclusivamente pelas óticas jurídicas e militares (KANT DE
LIMA; MISSE; MIRANDA, 2000), e que o tema é formalmente um monopólio do Estado, que
não se realiza plenamente sem a participação dos indivíduos. O problema é que os indivíduos não
participarão se não houver uma relação de confiança entre a polícia e a sociedade, na qual a
primeira desempenhe o papel de mediadora de conflitos.

Porém, para que a polícia possa realizar este papel74, é preciso se definir claramente em
que situações o trabalho de mediação pode ser aplicado e reconhecer que não é possível implantar
este modelo se os policiais não tiverem efetivamente aderido à proposta. Para tanto, é preciso
compreender que prevenção não é o oposto de repressão, pois ambas são ações complementares,
e que as polícias e a sociedade têm de partilhar suas responsabilidades.

As ações do governo, em especial aquelas identificadas com uma nova formação para os
agentes de segurança, demonstram a preocupação do Estado em implantar mudanças, não apenas
na estrutura dos órgãos de segurança pública, mas também na mentalidade dos seus agentes, ponto
nevrálgico, considerando o fato de essa mesma mentalidade mostrar-se avessa aos pressupostos
democráticos e de legalidade, manifestando-se em ações de violência e excessos de poder contra
os direitos do cidadão comum.

74
É necessário que o policial se posicione como mediador e não como parte do conflito, o que pressupõe o
reconhecimento do princípio da autoridade como um recurso essencial para o trabalho de mediação.

107
6. TRASPASSANDO FRONTEIRAS RUMO À MEDIAÇÃO POLICIAL: ANÁLISE
EMPÍRICA VILA-REAL (ESPANHA) e FORTALEZA (BRASIL)75

Neste capítulo são apresentadas e analisadas as medidas implementadas em favor da


mediação policial em três diferentes esferas: (a) no contexto normativo, quer por meio da análise
constitucional, de legislação estrito sensu infraconstitucional, quer através de diretrizes e normas
emanadas do executivo; (b) no âmbito da atuação, práticas e formação policiais e (c) no âmbito
das percepções coletivas polícia-sociedade civil sobre mediação no âmbito da segurança pública,
com especial enfoque nas cidades de Vila-real (Castellón de la Plana – Espanha) e Fortaleza (Ceará
– Brasil). Também são apresentados os dados da pesquisa empírica das duas experiências de
mediação na polícia, organizados em gráficos comparativos.

Diante desses dois cenários, durante a realização deste estudo, visitas in loco foram
realizadas em cada cidade, em busca de estabelecer um contato com o efetivo de policiais (Policía
Local e Polícia Militar) e com os membros de diferentes associações de bairros de cada localidade.
Nessas ocasiões nos foram revelados muito mais que percepções de uma dada realidade, o não dito
e o vivenciado tiraram o véu dos discursos costumeiramente institucionalizados para trazer à tona
os limites, os desafios e as possibilidades das práticas mediatórias na atividade policial, que
passaremos a tratar a seguir.

6.1 VILA-REAL – CASTELLÓN DE LA PLANA - ESPANHA76

75
Para realizar o estudo foram abordadas 154 pessoas de ambos os sexos, sendo um total de 120 policiais (60 em cada
país) e 34 membros de associações comunitárias das cidades de Fortaleza-Ceará-Brasil e Vila-real-Castellón de la
Plana-Espanha. A aplicação dos questionários foi realizada em diferentes horários e dias da semana, em vários pontos
de cada cidade. O desenho amostral corresponde a uma amostra probabilística, estratificada geograficamente, dentro
de cada bloco selecionado.
76
A Espanha é o país europeu, que contabiliza 46.528.966 habitantes e uma extensão territorial de 505.940 km²,
localizado na Península Ibérica, banhado pelo Oceano Atlântico e pelo Mar Mediterrâneo. A cidade de Madrid é a
capital do país. Localizado no Sul da Europa, faz fronteira ao norte com a França e Andorra, ao sul com o território
britânico de Gibraltar e a oeste com Portugal. Além da porção ibérica, também é território espanhol as ilhas Baleares,
no Mediterrâneo e as Canárias no Atlântico; também faz parte da Espanha os enclaves de Ceuta e Melilla, no
continente africano, além de várias ilhotas e rochedos junto à costa d'África, e também o enclave de Llívia, na França.
A Espanha foi unificada pelos reis católicos: Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão. Sob seu reinado, os mouros
foram expulsos da Península Ibérica. Os mouros e judeus foram obrigados ao batismo ou ao exílio, caso recusassem
eram mortos. Ainda no período dos reis católicos, foi empreendida uma política de financiamento de explorações
marítimas, rivalizando poder com Portugal. Entre elas, a viagem de Cristóvão Colombo tornou a América conhecida
à Europa. Com a colonização das Américas, diversos povos indígenas foram reprimidos, como as grandes e poderosas
civilizações: Inca, Asteca e Maia. A Espanha trouxe do continente americano enormes quantidades de metais
preciosos. Entretanto, analistas acreditam que esse modo de exploração foi prejudicial ao país. Enquanto a economia
era dependente das colônias na América, outras atividades, como o comércio, não foram desenvolvidas como em
outros países como, por exemplo, a Inglaterra. Isso provocou a desvalorização da moeda espanhola e sucessivas crises
econômicas. As colônias espanholas nas Américas passaram a alcançar suas respectivas independências após a invasão
de Napoleão Bonaparte, que retirou Carlos IV do trono e entregou o poder espanhol a José Bonaparte. Conflitos entre
as forças esquerdistas (que governaram de 1931 a 1933) e de centro-direita (1933 a 1935) culminaram na Guerra Civil
Espanhola, cujos horrores são apontados como o prenúncio do que seria a futura Segunda Guerra Mundial. Francisco
Franco se tornou ditador no início da guerra civil e dela saiu vencedor. Seu governo foi de caráter essencialmente
autoritário e, como é comum nesse tipo de regime, partido único. Apesar das semelhanças com a ideologia fascista, a
Espanha permaneceu neutra durante a Segunda Guerra Mundial. No pós-guerra, no período da Guerra Fria, o país se

108
Vila-real é uma das cidades espanholas que compõem a Comunidade Autônoma
Valenciana, está situada na ao sul da província de la Plana, a 7 quilômetros de Castellón e a menos
de 60 quilômetros de Valência. Possui uma população que superou os 52 mil habitantes. Há mais
de uma década, a cidade acolhe uma importante população de imigrantes, que representa cerca de
14% da população total, provenientes de mais de 80 países diferentes, mas principalmente da
Europa Oriental (da Romênia, essencialmente, é metade da sua população estrangeira), do
Magreb77 e, em menor medida, da América do Sul.

Figura 1 – Localização geográfica da Cidade de Vila-real.

Fonte: Ayuntamieto de Vila-real (2016).

Isso implica uma diversidade étnica, cultural, linguística, religiosa e social rica, mas
complexa, que vem complementando uma estrutura populacional já heterogênea que se formou a

aliou ao bloco capitalista. Durante a década de 1960, a Espanha passou por uma fase de expressivo crescimento
econômico. Contudo, apesar do êxito econômico, cresceram as ondas separatistas que deram origem aos grupos
terroristas: ETA e FRAP. Em 1969 Juan Carlos I de Bourbon foi nomeado rei. Ainda com a monarquia estabelecida,
Franco continuou como chefe de governo até 1975, ano da sua morte. O rei Juan Carlos teve importante participação
na transição democrática espanhola. Na primeira eleição democrática pós-Franco, o partido de direita UCD atingiu a
maioria dos votos. Contudo esse partido não tinha unidade. Suárez foi substituído por Calvo Sotelo, que dissolveu o
parlamento e marcou novas eleições para 1982. O resultado das eleições foi uma grave derrota do UCD e a vitória do
PSOE, um partido de centro-esquerda. O atual chefe de Estado espanhol é o Rei Felipe VI, que tem como presidente
do governo o socialista Mariano Rajoy Brey. Disponível em:
<https://paises.ibge.gov.br/#/pt/pais/espanha/info/sintese>. Acesso em: 02 out. 2017.
77
O Magrebe ou Magreb é a região noroeste da África, também conhecida como a parte ocidental do mundo árabe.
Em sentido estrito, inclui Marrocos, Saara Ocidental, Argélia e Tunísia. O Grande Magrebe inclui também a
Mauritânia e a Líbia. Na época do Império Romano, era conhecido como África menor. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Magrebe>. Acesso em: 01 out. 2017.

109
partir dos anos 50, quando a cidade conheceu seu primeiro impulso industrial e com ele
experimentou a primeira chegada significativa de imigrantes provenientes principalmente do sul
da Espanha. Na década dos anos 60 do século XX, sem descuidar da atividade de agroindústria
cítrica, tornou-se apta para a indústria de cerâmica, o que provocou importantes transformações
socioeconômicas.

Figura 2 – Mapa das áreas da Cidade de Vila-real.

Fonte: Ayuntamiento de Vila-real (2017).

Vila-real é uma cidade que vive da indústria e serviços, em que predomina, portanto, uma
cultura urbana e as relações humanas mais dinâmicas. A crise econômica que começou no ano de
2008, por outro lado, veio adicionar fatores de conflito, devido ao aumento do desemprego e aos
problemas sociais que o acompanham.

Devido à sua dimensão, estrutura urbana, social, laboral e cultural, Vila-real é uma cidade
que apresenta características e demandas sociais favoráveis para desenvolver a prática da
mediação. Nessa perspectiva, nos foi estingado a conhecer melhor os agentes responsáveis pela
garantia da lei e da ordem ante as estatísticas do Sistema Estadístico de Criminalidad (SEC)78 que
serão apresentadas mais adiante.

78
Ver também Anexo B.

110
5.1.1 A Polícia Local em Vila-real

Criada em 12 de janeiro de 1853, sob o nome de guardas municipais de Vila-real,


provavelmente, é uma das mais antigas da Comunidade Valenciana.

Até o final do século XIX, a organização e as competências da polícia urbana, rural e de


segurança foram reguladas de acordo com a Ordem Real de 8 de novembro de 1849, cabendo aos
Ayuntamietos os deveres que lhe são confiados e ao prefeito a nomeação de seus membros.

As ordenanças municipais da polícia urbana e rural de 1896, em vigor, com pequenas


variações ao longo de sua história, permitem conhecer detalhadamente seu campo de atuação: da
atenção das vias públicas e tráfego, ao controle da vida do cidadão e da segurança em âmbito
municipal.

Ao mesmo tempo, essas ordenanças recordam e fazem um breve resumo do papel decisivo
do município valenciano e da segurança no campo da polícia urbana pelo menos desde o século
XIV.

O controle, a repressão e a punição do crime dependiam em grande parte da corporação,


por meio da justiça criminal. Diante desse contexto, no ano de 1424 aparece a denominação de
"Guardians de la dita Vila e terme de aquella"(Guardiões da cidade) e os primeiros capítulos
através dos quais se organizam e atribuem funções. Nesse ínterim, a vigilância dos desempregados
era assegurada pelos afermamossos79 e, com isso, no ano de 1439, um posto municipal é criado
com a tarefa de encontrar trabalho para os desempregados e de proteger os direitos daqueles contra
possíveis abusos.

No ano de 1853, a Guardia Municipal assumiu as funções que o Mustassaf80 vinha


exercitando desde o século 13. Este cargo recebeu uma ampla gama de competências. Foi confiada

79
Una figura que, dicen, es genuina de Valencia, el afermamossos, un oficial del Consell que se dedicaba a recoger a
jóvenes de las calles para evitar que delinquieran o mendigaran, y les buscaban trabajos de aprendiz de artesanos
en los que durante cinco años aprendían el oficio ejerciéndolo a cambio de manutención y ropa. Disponível em: <
http://viajeaitaca.net/juan-francisco-ferrandiz/>. Acesso em: 13 fev. 2017.
80
El Mustassaf o Majordom era el funcionario -de precedentes musulmanes como su nombre indica-, encargado de las
pesas y medidas; y todo lo relacionado con la actividad comercial y productiva en el municipio, en previsión de fraudes
y engaños, y en defensa del consumidor. Como jefe de la policía urbana, de él dependían el mantenimiento de la
salubridad pública, incluyendo la limpieza de calles, el control de abrevaderos, acequias, estercoleros, aguas
residuales, etc.; el urbanismo y la edificación de viviendas, con las normas sobre alineación de vías públicas, cuidado
de caminos, paredes, altura de las casas, ventanas, etc. Igualmente controlada las boticas, etc. Para hacer cumplir estos
cometidos podía imponer multas, que de no ser pagadas, debían de satisfacerse con días de cárcel a razón de un día
por cada sou. Igualmente podía confiscar las mercancías o castigar corporalmente. Por todo ello, este cargo no debía
de gozar de muchas simpatías, razón que explicaría la siguiente poesía a él destinada, que recoge J. Villalonga:

111
à vigilância do mercado, controle de preços e vigilância do consumidor. Todo o processo de
produção de artesanato estava sob seu controle e não era apenas responsável pela higiene pública,
mas também pela proteção do cidadão e pelas condições de habitação da cidade: viabilidade e
transitabilidade das calçadas, regulação do trânsito e segurança rodoviária, controle de atividades
insalubres e perigosas.

Em uma sociedade que vivia de e para a terra, a custódia do termo é uma preocupação
constante ao longo de sua história. Nas Ordinacions i Estatuts (compilação feita no ano de 1711
de toda a legislação de Vila-real desde 1326), os capítulos dedicados ao campo são amplos e
abrangem qualquer tipo de incidência. Nos anos de 1387, 1410, 1513 ou 1864, essa preocupação
explica a organização dos Guardias de Campo e suas funções: conservação e manutenção de
estradas, vigilância de campos e cultivos.

O primeiro chefe da "Guardia Urbana y Rural" foi Joaquín Cantavella, que no ano de
1853 fez a fusão de dois diferentes cuerpos de seguridad com que contava a cidade de Vila-real:
alcaldes de barrio (criado no século XVIII com funções muito semelhantes à atual Policía de
Barrio), guardiãs municipales, serenos y guardiãs rurales em um único corpo dependente do
ayuntamiento e organizados para o que seria o embrião da atual Policía Local.

Cumpre observar que ao longo da história da Policía Local de Vila-real, personagens


como “el Afermamossos” e “El Mustassaf” ocuparam um lugar de destaque assumindo múltiplos
papéis junto aos cuerpos de seguridad. A polícia ocupava-se com os problemas da comunidade e
muitos deles não possuíam natureza estritamente delitiva, a maioria das demandas e das atividades
não tinham relação com a legislação penal. Desde longas datas, as prisões e as funções tradicionais
do sistema de justiça criminal já demostravam não serem autossuficientes para resolver os conflitos
sociais de forma eficaz.

A Polícia Local81, como garantidora da ordem pública e da segurança do cidadão, avançou


na direção de práticas e abordagens preventivas e dialógicas, principalmente com a criação de
grupos de policías de barrio. Esses agentes estão em uma posição mais próxima dos cidadãos,

Tanquen portes i finestres/i se'npugen al terrat,/i escomencen a pedrades/amb lo senyor Mustassaf. Para aprofundar
ver: VILLALONGA, J. A. El libro del Mustassaf de Lucena.
81
A atuação da Policía Local deve estar sempre regida por um comportamento ético e responsável diante da sociedade.
De acordo com a Ley de FCSE, a atuação profissional deve ajustar-se ao ordenamento jurídico, manter uma correta
relação com a comunidade, desenvolver um correto tratamento aos detidos, manter o segredo e exercer com dedicação
e de maneira responsável sua profissão. A exemplaridade na conduta se desenvolve em uma estrutura orgânica, que
se alicerça sobre os princípios de hierarquia, lealdade mútua e subordinação; referida estrutura favorece um exercício
responsável de acordo com as tarefas atribuídas a cada trabalho e destino.

112
sendo mais fácil para esses expressar e buscar encaminhamentos resolutivos àssuas controvérsias
cotidianas.

Nesse sentido, corroborando com a evolução desse cenário, o artigo 53.1 da seção I da
Ley 2/86 de Fuerzas y Cuerpos de Seguridad estabelece que "la Policía deberá cooperar en la
resolución de conflictos de carácter privado, cuando sea requerida para tal actuación". Em resposta
à competênciaoutorgada pela referida Lei, os agentes estão perfeitamente facultados a atuar como
mediadores em disputas privadas entre indivíduos quando são requeridos a fazê-lo.

Apesar da grande frequência dos conflitos intersubjetivos — de caráter privado — nas


relações cotidianas, apenas alguns são tipificados como crimes e considerados legítimos de serem
contemplados juridicamente com esforços do Estado para sua resolução – o que não se traduz
necessariamente no devido reconhecimento jurídico. Nesse sentido, a invisibilização dos conflitos
interpessoais surgidos em contextos microssociais, tais como família, vizinhança e trabalho, pode
ser interpretada como um fator de adensamento das violências82 nesses ambientes.

Pode ser observado nas estatísticas da Tabela 3, referente às infrações penais registradas
e originarias da cidade de Vila-Real, no período de 2015 a 2016, que 73,21% dos casos que
geraram demandas para a polícia se distinguem por serem conflitos sociais (delitos y faltas,
daños)83 que ocorrem entre indivíduos que possuem algum tipo de proximidade ou vínculo de
caráter contínuo.

82
Na atualidade, as referências genéricas estão expressas nas mais diversas formas de violência; o entendimento sobre
os conflitos sociais vem assumindo uma importância relevante para a compreensão da realidade social moderna, na
medida em que a violência estaria ocupando papel significativo e interferindo na própria rotina social. O conflito é
um elemento dos mais corriqueiros e intensos nas diversas sociedades e, ao mesmo tempo, um componente
relativamente pouco estudado em consonância à sua relevância (ALCÂNTARA JUNIOR, 2005, p. 9).
83
La Disposición derogatoria única de la L.O. 1/2015 que modifica el Código Penal ha entrado en vigor el 1
de julio de 201 -Disposición Final Octava- y suprime las faltas, históricamente reguladas en el Libro III del
Código Penal “Faltas y sus Penas”. Con fundamento en el principio de intervención mínima y por razones de
política criminal (despenalización de determinados comportamientos, racionalización del uso del servicio
público de la Administración de Justicia, reducción de litigiosidad en la jurisdicción penal, etc.) la reforma del
Código Penal suprime definitivamente el catálogo de faltas que tradicionalmente regulaba el Código Penal en
nuestro Derecho. El nuevo Código Penal, aparece para aquellas conductas que se consideren merecedoras de sanción,
la nueva categoría de los delitos leves, que subsumen en muchos casos conductas constitutivas de falta que se
entienden han de sancionarse penalmente. El Delito Leve será aquél que tiene atribuido una pena leve (artículo 13.3:
“Son delitos leves las infracciones que la ley castiga con pena leve”), que en general consistirá en pena de multa de
hasta tres meses. Nos vamos a referir aquí fundamentalmente a los nuevos delitos leves que vienen a conservar la
configuración típica de las faltas ahora derogadas y que hasta la fecha constituían un catálogo cerrado de
comportamientos, regulado en el Libro III del Código Penal. Frente a dicha regulación, ahora los delitos leves aparecen
de manera dispersa a lo largo del Libro II de dicho Código. Disponível em: <
http://www.abogadoscarranza.com/content/las-faltas-y-los-delitos-leves-en-el-c%C3%B3digo-penal-0>. Acesso em:
23 nov. 2017.

113
Tabela 3 - Infracciones penales – Vila-Real, 2015-2016. Hechos conocidos. Capitales de
provincia y municipios mayores de 50.000 habitantes.
COMUNITAT VALENCIANA
Municipio de Vila-real
Provincia de Castellón/Castelló

Tipología penal 2015 2016 Total Abs. %


1. Delitos y faltas 1.539 1.283 2.822 64,2
73,21%
2. Daños 237 159 396 9,01
3. Homicidios dolosos o asesinatos
consumados 0 0 0 0
4. Robos con violencia o intimidación 22 31 53 1,2
5. Robos con fuerza en domicilios 141 113 254 5,77 26,79%
6. Sustracción de vehículos a motor 35 23 58 1,31
7. Tráfico de drogas 1 2 3 0,07
8. Hurtos 437 372 809 18,4
TOTAL 2.412 1.983 4.395 100 100%
Fonte: SEC (2017).

A Tabela 4 apresenta que, acontecimentos conflituosos no âmbito familiar não são


exclusividade de uma determinada localidade ou região, eles estão presentes e tem suas feições
marcadas, muitas vezes, por desfechos violentos (agressões morais, lesão corporal e homicídio).

Tabela 4 - Victimizaciones por hechos de violência em el Ámbito Familiar, España.


Por comunidades autónomas y provincias, 2012-2016. Total nacional.
ESPAÑA
VICTIMIZACIONES POR HECHOS DE VIOLENCIA EN EL ÁMBITO FAMILIAR
TOTAL
Acumulado
2012 2013 2014 2015 2016
Enero-Diciembre
C.A. ANDALUCÍA 19.490 19.440 19.988 21.130 20.233
Almería 2.153 1.938 1.890 1.989 1.899
Cádiz 3.050 2.944 2.983 3.194 3.256
Córdoba 1.392 1.529 1.626 1.671 1.488
Granada 1.943 1.903 2.037 2.123 1.976
Huelva 1.275 1.319 1.213 1.289 1.196
Jaén 1.175 1.101 1.157 1.083 1.113
Málaga 4.540 4.553 4.792 4.915 4.775
Sevilla 3.962 4.153 4.290 4.866 4.530
C.A. ARAGÓN 2.377 2.451 2.507 2.409 2.596
Huesca 288 294 253 261 262
Teruel 163 151 148 131 157
Zaragoza 1.926 2.006 2.106 2.017 2.177
C.A. ASTURIAS, PRINCIPADO
DE
1.703 1.705 1.802 1.880 1.869

114
C.A. BALEARS, ILLES 3.090 3.248 3.326 3.505 3.962
C.A. CANARIAS 5.675 5.685 5.548 6.324 6.380
Palmas, Las 3.125 3.136 3.073 3.544 3.535
Santa Cruz de Tenerife 2.550 2.549 2.475 2.780 2.845
C.A. CANTABRIA 809 845 870 901 875
C.A. CASTILLA Y LEÓN 3.378 3.312 3.485 3.625 3.615
Ávila 299 245 264 244 262
Burgos 567 522 569 603 644
León 641 686 743 757 669
Palencia 168 185 190 214 270
Salamanca 380 379 398 397 387
Segovia 218 219 209 245 249
Soria 138 142 143 148 137
Valladolid 735 727 734 794 782
Zamora 232 207 235 223 215
C.A. CASTILLA-LA
3.563 3.553 3.637 3.774 3.453
MANCHA
Albacete 705 722 786 832 713
Ciudad Real 913 883 914 951 889
Cuenca 281 288 273 343 312
Guadalajara 421 472 468 441 405
Toledo 1.243 1.188 1.196 1.207 1.134
C.A. CATALUÑA 65 57 88 89 98
Barcelona 44 46 55 51 62
Girona 7 3 15 13 14
Lleida 9 3 6 8 7
Tarragona 5 5 12 17 15
C.A. COMUNITAT
11.436 11.482 12.010 12.677 12.915
VALENCIANA
Alicante/Alacant 4.615 4.568 4.840 5.031 4.977
Castellón/Castelló 1.038 1.033 1.003 1.124 1.036
Valencia/València 5.783 5.881 6.167 6.522 6.902
C.A. EXTREMADURA 1.482 1.635 1.629 1.658 1.672
Badajoz 1.031 1.153 1.107 1.133 1.057
Cáceres 451 482 522 525 615
C.A. GALICIA 4.252 4.391 4.313 4.593 4.470
Coruña, A 1.636 1.649 1.677 1.722 1.749
Lugo 511 559 545 587 569
Ourense 401 447 450 472 483
Pontevedra 1.704 1.736 1.641 1.812 1.669
C.A. MADRID, COMUNIDAD
12.850 12.442 13.137 13.663 14.180
DE
C.A. MURCIA, REGIÓN DE 3.514 3.359 3.430 3.628 3.523
C.A. NAVARRA,
604 832 1.036 984 1.001
COMUNIDAD FORAL DE
C.A. PAÍS VASCO 21 17 31 20 27

115
Araba/Álava 2 4 7 5 5
Bizkaia 14 7 16 9 8
Gipuzkoa 5 6 8 6 14
C.A. RIOJA, LA 603 527 583 592 545
C.A. CEUTA (Ciudad
241 211 230 249 319
autónoma)
C.A. MELILLA (Ciudad
298 283 383 418 342
autónoma)
Extranjera 100 90 127 169 171
Desconocida 0 0 0 0 0
Total 75.551 75.565 78.160 82.288 82.246
Fonte: SEC (2017).

Ante esse cenário, a parceria entre a Policía Local e o Ayuntamiento84 de Vila-real


estabeleceu os primeiros alicerces para a constituição e instalação da primeira Unidade de
Mediação Policial no ano de 2004. Nessa unidade, a mediação de conflitos pode ser acionada (ver
Figura 3) para auxiliar as pessoas na administração de situações conflituosas que podem se
estabelecer a partir da coexistência diária, com o intuito de evitar que tais controvérsias terminem
em longos e dolorosos processos criminais ou administrativos e acabem por romper
relacionamentos.

Figura 3 – Folder da Carta de Serviços da Unidad de Mediación Policial de Vila-real.

Fonte: UMEPOL (2016).

84
Ayuntamiento, por vezes chamado de corporación municipal ou municipalidad, é o órgão executivo de um município
em muitos países de língua espanhola, de certa forma equivalente à câmara municipal em Portugal e à prefeitura no
Brasil.

116
Fonte: UMEPOL (2016).

6.1.1 Contexto Jurídico

A Espanha é um estado que segue o modelo de Civil Law, com atenção preponderante ao
direito positivado. Portanto há uma forte influência de leis escritas para regulação de seu sistema
jurídico. Isso não a tornou imune ao avanço do pós-positivismo decorrente do final da Segunda
Guerra Mundial, em 1945. Tal corrente prega a atenção não apenas ao direito posto como um todo,
mas atenção aos princípios como normas jurídicas e a força da Constituição com norma
estruturante do sistema. Com a queda do regime franquista, o direito espanhol evoluiu muito com
a retomada da democracia e a volta da estrita legalidade.

Nesse contexto se enquadraram as novas orientações para as polícias locais em atenção


ao aspecto de cidadania e respeito aos direitos humanos. A repressão à ilícitos também deu origem
à prevenção da violência e de que se administrasse o conflito entre particulares, ainda mais num
momento em que acontecia transição política e social, como a ocorrida nos anos de 1970.

A partir desse novo pensar social e político que as forças policias espanholas se
reestruturaram para atender a novas demandas. Em atenção a isso se inseriu a possibilidade de
realização de mediação, como forma autocompositiva de conflitos, por parte das policias locais
espanholas.

A atividade policial se adentra nas funções do Estado de Direito, pautado por atenção à
legalidade e dentro de ações em acordo com o direito, de modo que o poder estatal encontre limites,
restrições e seja concretizado em obediência aos ditames legais, ainda mais se pensarmos em leis

117
legitimamente promulgadas. A isso temos a evolução do Estado de Direito para o chamado Estado
Democrático de Direito, com o poder advindo do povo e para o povo, e não do governante ou
soberano para este mesmo. Assim, se o Estado de Direito é democrático o bem-estar das pessoas
é seu precípuo, numa visão de finalidade kantiana, devendo o direito às pessoas servir e não o
inverso. É nesse modelo de Estado Democrático que se encontra a Espanha e o direito espanhol.

Com base nisso observamos a necessidade de normas para gerir a conduta dos agentes
estatais. Muito se pode confundir entre norma posta, expressa e a falta de norma. Guillamón (2014,
p. 153) usa a expressa “alegalidad” para se referir à falta de norma expressa em um ordenamento
jurídico. Por alegalidade devemos entender a lacuna, a não existência de norma para definir um
assunto. Está no meio caminho entre a “legalidade”, onde há norma expressa regulamentadora de
situação fática e a “ilegalidade” que é a contrariedade à norma, ao direito, com resultado fático
indesejado pela norma. A alegalidade pode ter como efeito permissão, pois não há proibição, ou
vedação, caso o resultado só possa ocorrer se previsto expressamente. Em geral a vedação é o que
se espera dos agentes públicos, impedidos de atuar sem a presença da lei ou norma autorizativa.

Neste contexto de alegalidade aparente que a mediação policial espanhola se fez inserir. E
a correta análise é que esta alegalidade seja tida apenas por aparente, pois a falta de norma expressa
não quer dizer ausência de norma implícita e decorrente para que tenhamos um marco jurídico que
garanta a atividade de polícia mediadora. Conforme nos diz Guillamón (2014, p. 153):

Por tanto, aunque no se halle norma expresa que atribuya a la policía de forma directa e
incontestable la función de mediación, ésta es perfectamente posible e incluso, conforme
y adecuada a la función policial, de forma que lãs razones y los motivos para negar la
eventual actividad del policía como mediador no tienen fundamento jurídico em sentido
estricto y responden, más bien, a cuestiones de naturaleza política y de uma diferente
concepción de la Policía y sus funciones.

Portanto, a atividade do policial espanhol como mediador pode ser extraída de normas não
expressas, mas autorizativas. De fato, não há uma norma direta, especifica e objetiva a regular a
atividade de mediação pelas policias locais de toda a Espanha. Há, entretanto, normas amplas que
regulam atividades típicas de mediador para outras esferas, como a privada, assim como normas
gerais que permitem a atividade do policial em mediações de conflitos.

Como primeira norma jurídica, é necessário mencionar a Constituição Espanhola de 1978


que determina em seu artículo 149.1.29ª que “[l]as Fuerzas y Cuerpos de Seguridad tendrán como
misión proteger el libre ejercicio de los derechos y libertades y garantizar la seguridad
ciudadana”. Além disso, e com referência constitucional específica à Polícia Local, o artículo
148.1.22ª, concede às Comunidades Autônomas a competênciana “coordinación y demás

118
facultades en relación con las policías locales en los términos que establezca un Ley Orgánica”.
A partir deste texto, podemos extrair que a função genérica de todas as Forças e Corpos de
Segurança é “[p]roteger el libre ejercicio de los derechos y libertades y garantizar la seguridad
Ciudadana” (artículo 30.1).

A Constituição Espanhola garante proteção expressa à dignidade da pessoa e os direitos


invioláveis que lhe são inerentes (artículo 10.1, Constitución Española). Esse mandamento
protetivo diz que os poderes públicos devem conservar os direitos próprios à existência digna das
pessoas, de forma a que, se a polícia local pode prevenir a irrupção de um conflito que desgaste a
convivência dos habitantes de uma localidade, diminuindo sua digna convivência ela deve
prevenir, mediar, devendo manter a igualdade de tratamento perante os espanhóis envolvidos no
conflito, não tomando parte, não só por se levar em conta princípios próprios da mediação, mas
também por ser o mandamento da igualdade de ordem constitucional (artículo 14, Constitución
Española). Portanto, a dignidade humana e a igualdade entre espanhóis obriga a Policía Local,
como faceta do Poder Público, a garantir ao máxima a ordem publica.

Embora a Constituição Espanhola afirme a igualdade entre espanhóis, devemos entender


que na mediação, ainda que policial, todos devem ser tratados com igualdade, ainda que uma ou
ambas as partes sejam imigrantes estrangeiros. Isso em decorrência de principio próprio da
atividade do mediador e em decorrência do sistema de direitos humanos ao qual o Estado Espanhol
faz parte.

Respondendo ao mandato constitucional, foi instituida a Ley Orgánica 2/1986, de 13 de


março, das Fuerzas y Cuerpos de Seguridad que desenvolve o regime legal de todos os membros
das Forças e Órgãos de Segurança, além de estabelecer uma relação formal e distinção entre as
competências exclusivas e concorrentes, atribuindo à Polícia Local as funções naturais e
constitutivas de toda a Polícia e cobrando como específicas às relacionadas no Título V do artículo
53: “I) “Cooperar em la resolución de los conflictos privados cuando sean requeridos para ello”.
Essa cooperação para resolver conflitos privados a que alude o artigo tem acontecido, quase
sempre, pelas policias locais (GUILLAMÓN, 2014, p.156).

A Ley Orgánica 2/1986 possui, em seu artículo 38.3.a, uma norma expressa e de grande
abrangência que, albergando uma série de atividades possíveis para a atividade policial, também
garante ao policial local a possibilidade de realizar mediações, com fito de buscar resolução
amistosa de conflitos privados. Essa norma nos diz que haverá das Fuerzas y Cuerpos de Seguridad

119
“cooperación a la resolución amistosa de los conflictos privados cuando sean requeridos para
ello”.

Por resolução amistosa de conflitos privados temos uma autorização ampla para que a
polícia local possa definir métodos que considere viáveis para dirimir esses conflitos. Uma dessas
formas seria a mediação. Observe-se que a atividade policial típica na Espanha não necessita
apenas ser de policiamento ostensivo ou de policia judiciária, apurando infrações penais
cometidas, mas sobretudo de polícia cidadã, pronta a auxiliar o particular e, dessa forma, respeitar
sua dignidade humana.

Outro ponto que merece ser observa é a escolha do termo “cooperar” pela legislação
espanhola. Isso significa que não cabe a polícia impor uma solução, definir qual das partes está
com a razão, inserir qualquer julgamento de valor ou mesmo não ajudar. O conflito privado não
levado à cooperação policial deve ser administrado, deve o profissional de polícia buscar com que
as partes se prontifiquem a solucioná-lo, devendo o policial ajudar, colaborar, não quebrando a
imparcialidade ou mesmo a igualdade entre pessoas constitucionalmente assegura.

A Ley 7/1985, de 02 de abril, que regula as Bases do Regime Local, estabelece em seu
artículo 25.1 que o município pode promover atividades e prestar serviços para atender às
necessidades da comunidade de bairro. Dessa forma pode o município usar de sua competência
para colaborar com os particulares na solução amistosa de seus conflitos.

A Ley 6/1999, de 19 de abril, da Generalitat Valenciana, de Policías Locales y de


Coordinación de las Policías Locales de la Comunidad Valenciana, em seu artículo 6, aborda que
a Coordinación vem ratificar as funções que possuem os Órgãos da Polícia Local na Comunidade
Valenciana, que são complementares do artigo genérico do artículo 104 da Constituição, os
enumerados no artículo53 da Ley Orgánica de Fuerzas y Cuerpos de Seguridad e os previstos no
artículo 25 da Ley de Bases de Régimen Local.

Em outra ordem das coisas, a Federación Española de Municipios y Provincias considera


que as polícias locais têm se dedicado principalmente aos problemas de convivência, incorporando
uma especial sensibilidade para combater as atitudes anticívicas e antissociais; auxiliando na
prevenção da má administração de conflitos sociais e, em particular, nas problemáticas
relacionadas aos conflitos urbanos que, devido à sua proximidade com o ambiente familiar, escolar
e de convivência, geram alarde social e demandam uma resposta integral que também requer a
atuação policial e nos conflitos cuja gênese e desenvolvimento são estabelecidos, de forma

120
dinâmica e contínua, no âmbito das cidades, despertam a sensibilidade social e implicam na
alteração da convivência.

No ano de 2012 tivemos a edição da Ley 5/2012, de 6 de julio, de mediación en asuntos


civiles y mercantiles, responsável por regulamentar a mediação expressamente no direito espanhol.
Tal lei pode ser aplicada às sessões de mediação conduzidas por um policial, pois além de a mesma
fazer apenas referência genérica a quem seria a figura do mediador, não veda que seja conduzida
um policial. Pelo contrário, o mediador seria alguém que cooperaria para a busca do acordo, algo
que se coaduna à competência dada às policias locais, para cooperar na solução de conflitos
privados.

Entre os quatro assuntos que a Ley 5/2012 exclui do âmbito de possibilidade para
mediações estão a mediação penal, com a Administração Pública, trabalhista e em relação à
questões de consumo (artículo 2°). Entendemos que, nesses casos, está o policial mediador
proibido de atuar, por expressa vedação legal, já que sua atuação será nos moldes de um mediador
extrajudicial.

O primeiro caso, da exclusão da mediação penal, parece ser o mais evidente que o policial
poderia atuar a primeira vista, porém deve ser o que mais a mediação feita por este ator público
deve ser evitado. Isto em razão de em caso de cometimento de infração penal deve o parquet
competente tomar as devidas medidas para a responsabilização dos acusados. Caberia à policia a
atividade de evitar o delito ou apurá-lo, além de tomar medidas coativas de execução, como prisão.
Assim, não seria viável a hipótese de o policial se tornar um terceiro imparcial a isso, podendo
facilmente sair do contexto da mediação e agir como membro do estado ou forçar acordo por parte
de uma das partes.

O outro caso, da mediação com a Administração Pública, não pode ser inserido na
autorização para que as polícias cooperem na solução de assuntos particulares, pois a
Administração representa interesse público e o policial mediador poderia vislumbrar que seu
interesse pessoal, como membro dessa Administração, poderia ser lesado a depender do acordo.
Os outros dois casos, embora tratem de mediação de interesse privado foram considerados pelo
legislador espanhol como não passiveis de incidência da Ley 5/2012 por representarem relevante
interesse social, com alguns pontos indisponíveis pelas partes.

121
Quanto aos princípios da mediação podemos dizer que se aplicam diretamente à mediação
policial, por se tratar de uma forma de mediação extrajudicial, porém com algumas adaptações e
mantendo sua função orientadora, normativa e interpretativa.

. O acordo de mediação firmado possui autonomia própria e constitui título executivo,


passível de iniciar uma execução judicial de suas cláusulas. A Ley 5/2012 afirma que as partes
podem levar ao notário para que firme escritura pública do acordo de mediação, com o notário
podendo fazer o controle da legalidade do ato – verificará se o direito objeto do acordo é
disponível, que o objeto não esteja legalmente excluído pela lei e que tenha seguido os princípios
da mediação – este último ponto nos diz sobre a necessidade de o mediador informar as partes
sobre sua liberdade e que não haja nenhum vicio da vontade a macular o acordo como negocio
jurídico.

Para que seja dada força executiva a lei espanhola prevê, como requisito de validade, que
o notário o firme em escritura pública. O fato de a mediação ter ocorrido em face de um policial
não altera a necessidade de que a escritura pública seja firmada, ainda que se pense tratar-se de um
agente do Estado que tenha conduzido a sessão de mediação.

Em face do mandamento constitucional que prevê liberdade para as Comunidades


Autônomas para coordenação da atuação de suas polícias locais foi editada a Ley de Coordinación
de Policías Locales de la Comunitat Valenciana, que aborda expressamente a autorização de que
a policia local faça mediações em seu território e tomando por base as normas não expressas, mas
validantes, acima expostas, sobre a possibilidade de ocorrência da mediação policial na Espanha.

Na exposição de motivos a Ley de Coordinación nos diz que se “ha avanzado notablemente
en el establecimiento de mecanismos de cooperación y coordinación” e mostra o empenho dado
pelo legislador em que se obtenha forma pacificas e autocompositivas de que se resolvam conflitos
privados. Há de se destacar a palavra “cooperación”, já usada Ley Orgánica 2/1986 e que
representa orientação a todas as policias da Espanha para seguirem as formas colaborativas de
gerenciamento de conflitos, forma essa adotada pela Comunidade Valenciana.

O artículo 10 da Ley de Coordinación nos diz:

Artículo 10. Funciones.


Son funciones de la Comisión de Coordinación de las Policías Locales de la Comunitat
Valenciana:
(...)

122
5. Ejercer las funciones de mediación y arbitraje en los conflictos colectivos de carácter
profesional de los cuerpos de policía local cuando lo soliciten de común acuerdo el
ayuntamiento afectado y quien legalmente ostente la representación sindical del personal
funcionario en el mismo.

Observamos, assim, que é função típica da polícia local a função de mediador de conflitos
coletivos caso seja solicitada por comum acordo entre as partes. Ainda que se fale em conflitos
coletivos devemos ter em mente a necessidade que sejam disputas de caráter privado e não
excluídas da possibilidade de mediação pela Ley 5/2012. Essa função caberá a um órgão específico,
a Comisión de Coordinación de las Policías Locales de la Comunitat Valenciana, que deverá
definir, por exemplo, os policias mediadores que conduzirão a sessão.

Já o artículo 33.1.i, inserido dentro do Título III, dos Cuerpos de Policía Local, afirma que
são funções daqueles que integrarem os corpos de policia local e com base na Ley Orgánica
2/1986, que seus integrantes possam “cooperar en la resolución de los conflictos privados cuando
se les requiera para ello”. Novamente a palavra “cooperação” aparece na legislação espanhola
como forma de prever atos comissivos por parte da polícia com vistas a que se resolva o conflito
privado, na terminologia legalmente adotada.

Embora não use expressamente o termo “mediação” o artigo a ela se refere, ou, pelo menos,
a ela e alguma outra forma autocompositiva que corresponda aos ensejos almejados. Interessante
observar essa lacuna de nomenclatura. Ainda que a lei aborde a expressão “mediação” ao tratar de
formas de trabalho com conflitos coletivos (artículo 10) é silente quando se trata de formas
“resolución de los conflictos privados”. Tal omissão deve ser visualizada apenas como uma
referência ao modo que o Direito Espanhol usa em sua normatização da atividade policial,
conforme já exposto, adotando expressões amplas e abrangentes, com o uso da expressão
“cooperação”, optando por deixar a cargo de cada polícia local sua forma de melhor cooperar para
a resolução do conflito privado. Em suma, a falta da expressão “mediação” quando se refere aos
conflitos privados não proíbe, pois é sim uma lacuna colmatada pela expressão “cooperar”.

Tanto é assim que no sítio eletrônico de Vila-real85 é possível obter informações sobre
sessões de mediação feitas por policial e ainda são respondidas possíveis dúvidas que a população
local possa ter com relação ao procedimento, a exemplo, de qual seu objetivo (fundamentalmente
tiene un carácter preventivo), seu custo (servicio prestado es totalmente gratuito) ou como se pode
solicitar o serviço (Mediante Instancia General presentada en el Registro del Ayuntamiento de

85
Disponível em:
<http://www.vilareal.es/portal/p_85_contenedor5.jsp?seccion=s_fdes_d4_v2.jsp&codbusqueda=609&codMenu=30
&layout=p_85_contenedor5.jsp&language=es&codResi=1>. Acesso em 09 de dez. 2017.

123
Vila-real). Há também número de telefone para contato como forma de obter maiores informações.
Dessa forma, dada a ampla difusão do acesso à rede mundial de computadores, vemos o interesse
da Polícia Local em estabelecer bases de boa cidadania e difundir a mediação como alternativa à
métodos tradicionais de resolução de conflitos.

6.1.2 Contexto Sociológico

Nesta seção será abordado o cenário da mediação policial no município de Vila-real.


Nesse sentido, em busca de conhecer e compreender a atuação dos policiais e a percepção das
pessoas sobre a polícia e o serviço de mediação policial, foram aplicados questionários com
agentes da Policía Local e com pessoas de sete associações de bairro localizadas em pontos
distintos da cidade. Além disso, serão apresentados dados fornecidos pelo Ayuntamiento,
especificamente, as estatísticas referentes aos atendimentos da Unidadde Mediación Policial
(UMEPOL) relativas ao período dos anos de 2012 a 2016.

O cerne da mediação policial é trabalhar com casos, onde os envolvidos são pessoas que
possuem algum tipo de relação, onde o conflito é recorrente, e que não vislumbram em meios
judiciais a fórmula para a solução de seus problemas do cotidiano. É no interior das instalações da
Jefatura da Policía Local de Vila-real, que funciona a Unidad de Mediación Policial,
oficialmente, em atividade desde o ano de 2012. Através deste trabalho, houve um direcionamento
considerável do número de autuações lavradas pelos policiais, desde a implantação da unidade. A
mediação policial tem o foco nas pessoas envolvidas no conflito, e não no problema que o gerou.

A Unidad de Mediación Policial efetivou uma estratégia de integração entre as Polícias


Locais e a Polícia Nacional, uma vez que articulou a participação de policiais de forma integrada
nos cursos de mediação policial promovidos pela Escuela de Formación de la Polícia Local de
Vila-real (EFOPOL) juntamente com a Cátedra de Mediación Policial/UJI e o IVASPE86 (Instituto
Valenciano de Seguridad Pública y Emergencias) a fim de garantir uma maior sensibilização e
prática de mediação de conflitos.

Possibilitar um espaço dentro das Comisarías e Jefaturas de Policia, onde o indivíduo


possa ser efetivamente atendido, por meio de um setor de Polícia Comunitária, onde este tenha a
oportunidade de falar sobre sua situação conflituoasa, e após triagem técnica, havendo demanda
para mediação, esta seja efetivamente realizada, é oportunizar algo melhor do que o Direito Penal
pode oferecer a pessoa como via de solução à controvérsia.

86
O Instituto Valenciano de Segurança Pública nasceu em 1991 com o objetivo de proporcionar treinamento de
qualidade a toda a Polícia Local da Comunidade Valenciana.

124
O serviço87 é gratuito e pode ser requerido por qualquer cidadão através de uma instância geral,
que será apresentada no registro geral do município de Vila-Real. O documento conterá um relato conciso
do conflito a tratar, a filiação da parte requerente, um número de telefone de contato e a expressão de
vontade de participar de um processo de mediação policial.

Uma vez que o pedido foi recebido e após um estudo prévio do problema, se procederá o
encaminhamento do caso a um agente mediador, pessoa que iniciará os contatos com as pessoas envolvidas
para gerenciar o processo de resolução da situação.

O compromisso adquirido pela Unidade, de acordo com sua Carta de Serviços, é gerir o conflito
junto com as partes dentro de um prazo não superior a 60 dias a partir do dia do registro do pedido nas
dependências municipais.

Nesse sentido, foi observado que o desenvolvimento das práticas realizadas pela UMEPOL, ao
longo da sua implementação, confirma que se trata da consolidação de uma nova prática policial que se
configura, tendo em vista a evolução a um novo modelo policial vinculado diretamente à perspectiva de
uma mudança no paradigma do policial e do cidadão.

Isso nos leva a percerber que o projeto está em revisão permanente, adaptando sua atividade ao
conjunto de demandas que são recebidas dos cidadãos, ou seja, é um projeto vivo em constante
transformação e progressão de acordo com as demandas abordadas, questões que podem ser classificadas
de acordo com os seguintes critérios:

- Mediação da policial comunitária e rural: entendida como aquelas realizadas no âmbito rural,
comunitário e / ou familiar que requerem em um processo a realização de entrevistas com os envolvidos e
que ao final, após o procedimento de mediação policial, possa se alcançar e registrar à aceitação e
construção formal de um acordo por meio da redação de um documento.

- Mediação policial de menores: como um processo cooperativo de resolução de conflitos em que


os membros da UMEPOL, com o objetivo de melhorar a coexistência de menores de idade, ampliam suas
atividades tanto para a comunidade como para o ambiente escolar, promovendo o diálogo com o
envolvimento de crianças e adolecentes (alunos), de pais ou responsáveis e a equipe escolar e que, se
necessário, pode levar à aceitação e construção formal de um acordo através do registro em um documento.

- Mediação policial judicial: são aquelas mediações derivadas da Administração da Justiça


(Juzgados) que exigem a participação e colaboração da UMEPOL, com o objetivo de gerenciar
pacificamente conflitos que tenham uma complicada solução judicial e que, após seu processamento,

87
Para maiores detalhes ver Anexos de D a F.

125
terminem com o encaminhamento aos Juzgados por mieo de um ofício de comunicação informando como
o processo foi concluído. Vale ressaltar que vem aumentando a cada ano a colaboração que
UMEPOL dá a Administração da Justiça, a pedido dos Juzgados para auxiliar na condução de
conflitos por meio da mediação.

- Mediação policial informal: esses processos de resolução de conflitos através dos quais o agente
mediador mantém várias entrevistas com as partes envolvidas, após o que as partes afetadas alcançam um
acordo informal, consensual e vinculativo que não é expresso em um documento público. Dentro deste
grupo de ações, é estabelecido um procedimento pelo qual as demandas dos cidadãos são resolvidas que
alteram ligeiramente a coexistência normal do bairro, que exigem atenção contínua para a resolução e que
tornam necessário realizar um acompanhamento minucioso.

Finalmente, cada um dos processos termina com o acompanhamento do cumprimento do que foi
acordado, a fim de determinar o grau de conformidade.

Quanto à intervenção desde uma perspectiva formal, a repartição e estatística do número de


procedimentos levados à medição policial pode ser apresentada em percentuasis referente ao ano de 2016
nos gráficos a seguir:

Gráfico 2 - Âmbitos de intervenção da Unidad de Mediación Policial, Ano 2016.


59%
60%
27%
40%
13%
20%
1%

0%

Judicial Menores Rural Comunutário

Fonte: UMEPOL (2016).

Conforme apresentado no gráfico, os serviços comunitários são os mais solicitados pelos


cidadãos, divididos em reivindicações de vizinhança e reivindicações de convivência. O gráfico a
seguir mostra os diferentes tipos de intervenções e como foram distribuídas.

126
Gráfico 3 - Âmbito Judicial – Tipo de intervenção de acordo com a matéria, Ano 2016.
Daños
5%
7% 10% Ámbito Familiar
8%
35% Contra Propriedad
8%
Lesiones
27%
Apropriación
indebida/ocupación
Insultos/Ameaças/Coações

Fonte: UMEPOL (2016).

Gráfico 4 - Âmbito Rural – Tipo de intervenção de acordo com a matéria, Ano 2016.
Otros Animales Aguas
Daños
5% 1% 5% Lindes
9% 8%
Vertidos
Vegetación
1%
6%

Limpeza Fincas
65%

Fonte: UMEPOL (2016).

Gráfico 5 - Âmbito Comunitário – Tipo de intervenção de acordo com a matéria, Ano 2016.

Insalubridad
31% Filtraciones Agua
47%
Ruidos
Absentismo

11% Animales
5% Peñas
4% Convivencia
1%
1%

Fonte: UMEPOL (2016).

127
Gráfico 6 - Âmbitos de intervenção da Unidad de Mediación Policial, Ano 2016.

Fonte: UMEPOL (2016).

Gráfico 7 - Tipo de Intervenção da Unidad de Mediación Policial no período de 2012 a 2016.

Fonte: UMEPOL (2016).

128
Deve-se notar que o grau de resolução das demandas conflituosas permanece em
percentuais semelhantes aos do ano anterior (2015), de modo que, durante 2016, dos 322 casos
processados pela Unidade de Mediação, 92% foi concluído com o acordo entre as partes.

Neste ponto, deve-se mencionar a área judicial, observando que 43 casos foram
encaminhados do órgão judicial para a Unidade de Mediação Policial, dos quais em 22 casos, as
partes concordaram em participar, todos concluídos com um acordo satisfatório para os
participantes.

De acordo com o relato da juíza de direito Amparo Salom, após a parceria firmada com a
Unidade de Mediação Policial de Vila-real, muitas lides tiveram a oportunidade de receber um
tratamento adequado com o auxílio da mediação conduzida pelos agentes mediadores. A exemplo
disso, ela conta a situação de uma ação de inventário que desaguou em seu Juzgado ─ o de cujus
foi um cantor muito famoso na Espanha e que, em vida, teria contraído dívidas com um amigo e
como garantia repassou valiosas obras de arte. Os herdeiros desejavam a “reintegração” das peças
de artes e o solidário amigo do falecido queria ter de volta as voluptuosas quantias em euro
emprestadas. As ameaças e os insultos morais já haviam se tornado uma constante entre os
envolvidos. Essa situação somente pôde alcançar um desfecho satisfatório para todos com o auxílio
da mediação policial.

O cidadão é acolhido na Unidade Policial de forma digna, exercitando o poder de decidir


pelo modo com que seus conflitos podem ser resolvidos. São atendidos por policiais capacitados
e treinados para o exercício da promoção e respeito aos direitos humanos, que lhe auxiliam durante
todo o processo mediatório no estímulo da reflexão e dadministração colaborativa de seus
conflitos.

Os benefícios que a mediação policial pode vir a apresentar são múltiplos, começando
com a natureza preventiva, antecipando a escalada do conflito e não esperando que ele apareça
para começar a atuar.

Para o cidadão é uma economia de tempo e dinheiro, sem ter que passar pelo longo e
oneroso processo da via judicial, o qual também favorece um clima de competição entre os
envolvidos que favorece o surgimento de novas disputas no futuro.

129
Na mediação não há vencedor e perdedor e a solução adotada dura com o tempo. A
relação entre os envolvidos melhora após a mediação, alcançando o sentimento de cooperação e
respeito mútuo.

Com a mediação, evita-se retornar a situações anteriores que no passado supuseram danos
aos envolvidos. Sendo uma solução aceita pelas duas partes no conflito, as relações que foram
solicitadas são recuperadas.

As habilidades sociais perdidas são adquiridas ou restauradas. Como eles têm o apoio da
polícia, eles se sentem fortes para começar esse diálogo reconciliatório. Nesse prisma, a aplicação
de técnicas de mediação pela polícia permitirá a construção e o reconhecimento de um novo
profissional que passa a auxiliar na regulação da dinâmica social, o que leva a uma melhora na
atenção ao público.

Cumpre observar que a nível pessoal e na equipe de policiais da UMEPOL, há uma


relação melhor entre os pares, incentivando a participação em tarefas comuns que resultam em
uma melhoria face à imagem pública. Agregado a isso, a gestão dos conflitos sociais apresenta-se
mais eficaz, porque se os conflitos não tivessem sido detectados cedo, teriam resultado em algum
ato criminoso. Nesse sentido, a busca de vias alternativas para a melhor condução dos conflitos
que, sem ter um caráter ilegal, desestabilizam a população, evitam, em primeiro lugar, que o
mesmo evento seja repetido e, em segundo lugar, que não seja necessário alocar várias
patrulhas/efetivo em diferentes períodos de tempo para resolver o mesmo fato repetidas vezes.
Diante desse cenário, cabe ressaltar a importância da parceria com a Universitat Jaume I, a qual
será apresentada mais adiante.

A Universidade e a parceira com a Polícia Local de Vila-real

Apesar de uma longa história, em certo sentido se trata de uma novidade. Apenas em
períodos mais recentes, o conhecimento e a prática de metodologias de administração não-violenta
de conflitos no âmbito da polícia começou a ser catalogada, sistematizada e estudada
cientificamente sob o nome de mediação policial com a criação da Cátedra de Mediación Policial
«Ciutat de Vila-real».

130
A Cátedra88, criadapor meio de um convênio entre o Ayuntamiento de Vila-real e a
Universitat Jaume I em oito de abril do ano de 2015, tem como objetivos gerais apromoção do
ensino, pesquisa, difusão de conhecimento e inovação no campo de mediação policial e resolução
pacífica de conflitos através das forças policiais.

A Cátedra de Mediação Policial "Ciudad de Vila-real"89 visa ampliar o conhecimento


em suas áreas de influência por meio de atividades de pesquisa, formação e promoção, visando
melhorar a coexistência entre os cidadãos por meio da pesquisa de soluções pacíficas e a gestão
de conflitos mediante os serviços públicos de polícia.

Desta forma, a Cátedra propõe estudar a mediação policial, o seu contexto jurídico e o
seu impacto socioeconômico, implementar e potencializar o modelo de mediação de conflitos
realizado por policiais, ser um centro de formação e investigação sobre mediação policial e
promover as áreas de formação e Integração dos jovens e seu entorno na cultura da paz.

Para cumprir esses objetivos, a Cátedra de Mediação Policial propõe ações de


treinamento, como a realização de um curso de verão, mesas redondas, bem como outras jornadas
focadas na mediação policial, a elaboração de atividades divulgativas e informativas dirigidas aos
centros educacionais de Vila-real, além de pesquisa científica e disseminação. A organização de
cursos de especialização em pós-graduação que podem levar à implementação de um mestrado na
Universitat Jaume I de natureza internacional também está prevista em longo prazo.

Gráfico 8 - Comparativo anual da carga-horária de formação dos policiais da UMEPOL,


período 2012 – 2016.

600
400
200
0
ANO 2012 ANO 2013 ANO 2014 ANO 2015 ANO 2016
FORMAÇÃO 170 128 390 450 400

Fonte: UMEPOL (2016).

88
O acordo foi subscrito na Universitat Jaume I pelo prefeito, José Benlloch, e pelo reitor, Vicent Climent. O ato
também contou com a presença do Vice-reitor de Economia e PAS, Miguel Ángel Moliner; a diretora da nova Cátedra,
Cármen Lázaro, e o intendente geral encarregado da Policía Local de Vila-real, José Ramón Nieto.
89
A gestão da Cátedra coaduna representantes tanto do campo acadêmico quanto da instituição policial, tendo como
diretora, Cármen Lázaro, doutora em Direito e professora do Departamento de Direito Público da Universitat Jaume
I, e como diretora adjunta, Rosa Ana Gallardo, inspetora da Policía Local de Vila-real.

131
Em um processo dinâmico e contínuo de mudanças e aperfeiçoamento, é necessário
adequar a formação dos agentes participantes do grupo de mediadores à realidade social, com o
objetivo de alcançar melhores resultados em suas atividades mediadoras cotiadianas.

Nesse sentido, destacou-se o esforço por capacitação continuada feito pela Administração
Local, observando que os membros da Unidade de Mediação continuaram a receber diversas ações
formativas anuais, iniciando com 128 horas de treinamento em 2013, 390 horas em 201490, 450
horas em 2015 e 400 horas no ano de 2016, de maneira que o projeto está constantemente sendo
revisado e transformado.

O agente de polícia, qualquer que seja seu nível de ingresso na profissão, deve ser
capacitado sobre a base de suas competências e experiências pessoais, que o permita adaptar-se
aos objetivos da atividade policial. Corroborando nesse aspecto, deve se ter em vista que a
formação geral inicial do agente policial deve ser seguida, preferencialmente, de períodos
regulares de formação contínua e de formação especializada, e se necessário, de formação para as
atribuições de comando e de gestão.

6.1.2.1 Algumas Percepções – Vila-real

Essa análise baseia-se em percepções obtidas com o estudo das respostas dadas pelos
policiais aos itens dos questionários aplicados e de percepções de convivência e observação, até
por se basear em espaço amostral reduzido e subjetivismo próprio do presente estudo, natural ao
pesquisador das ciências sociais.

QUESITO 3: Na sua opinião, qual é o perfil para ser um policial-mediador?

Ao responder esta questão a maioria dos policias questionados tomou um de duas posições:
a que se refere como perfil do mediador algo relacionado ao perfil individual do agente
(habilidades sociales y comunicación) ou aqueles que afirmaram que o perfil para ser um bom
policial mediador passaria por treinamento (formación continua). Vejamos alguns exemplos
seguidos de nossa avaliação:

POLICIAL 5: Un polícia con unas habilidades sociales y comunicación, capaz de


transmitir seguridad y entendimiento en el proceso de mediación.

90
Destaca-se que durante o exercício do ano de 2014, ocorreu a participação dos membros da UMEPOL no primeiro
curso de Especialização em matéria de Mediação Policial organizado pela Federação Valenciana de Municípios e
Províncias e homologado pelo Instituto Valenciano de Segurança Pública e Emergências (IVASPE).

132
POLICIAL 6: Ante todo ser persona con unos valores adecuados ser asertivo, tener
capacidad de empatia así, como tolerancia y paciencia, saber escuchar y a su ver saber
transmitir, comunicar.

POLICIAL 12: Empatía.

POLICIAL 23: Aquel que mantenga un papel entre las partes en conflictos de forma
imparcial, escuchando y aconsejando a los afectados, con la finalidad de solucionar al
problema en cuestión.

POLICIAL 37: Perfil observador, que sepa detectar el punto del conflicto y con carácter
afable y cercano.

POLICIAL 44: Imparcial, sereno.

Não se pode deixar de concordar com o conceito de que um profissional com vocação
conseguiria cumprir melhor seu trabalho que outro sem vocação. Entretanto, não se pode depositar
toda confiança apenas nessa qualidade. Nisso também o é para o caso de um policial a realizar
atividade como mediador.

Características como “habilidades sociales y comunicación”, “empatía” ou ser


“imparcial, sereno” são necessárias para uma efetiva composição de conflitos, junto à boa vontade
de quem as realiza. O que se deve é não confundir boa vontade, apenas, como única característica
para que se tenha um policial mediador. Explico: estas características são úteis, desejáveis e
louváveis, porém o procedimento de mediação deve ser pautado por critérios instrumentais mais
bem aplicados por quem esteja capacitado, com um profissional não totalmente capacitado
podendo obter acordos em menor número, sem a efetividade esperada ou mesmo sem atender ao
interesse das partes em conflito. Para isso basta que deixe de usar uma técnica.

Com isso não se afirma que o policial não tenha perfil para realizar mediações. Apenas
se reforça que quanto mais treinado melhor, ainda mais se possui apelo social, bom trânsito perante
a comunidade e está disposto a ajudar e servir, agindo como membro de um corpo policial cidadão.
É isso que a policia de Vila-real tem buscado tornar-se, sendo até facilitado pelo tamanho de sua
população e o modo bem visto de agir de sua policia.

POLICIAL 5: Un polícia con gran vocación en su trabajo y formación continua.

POLICIAL 6: Capacidad para transmitir, dirigir en el diálogo entre las partes.

POLICIAL 16: Un policía más psicológico y social que piensa en la prevención.

POLICIAL 30: Persona formada, com criterios y aptitudes para resolver.

POLICIAL 48: Agente formado y con dedicación cuanto mas exclusiva mejor.

133
O primeiro policial de Vila-real citado possui o que pode ser considerado o mais adequado
a se esperar de um policial mediador, que possua “gran vocación en su trabajo y formación
continua”. Sem dúvida a soma de vocação com formação continuada trarão o melhor resultado a
todos os habitantes locais que passarem por mediações por ele conduzidas.

Para obter um profissional com treinamento adequado é necessário que uma série de
instrumentos seja concretizada: investimento público, tanto em capacitação quanto em
aparelhamento; interesse dos agentes; apoio da comunidade; etc.

O treinamento deve ser adequado, direcionado, até para que se obtenha um profissional
“más psicológico y social” é necessário que haja, em sua formação, não apenas apego à critérios
de combate à violência, mas também de entendimento da personalidade das pessoas, psicologia
individual e social.

Técnicas de mediação podem fazer com que o agente policial possa “dirigir en el diálogo
entre las partes” sem, com isso, buscar impor ou mesmo sugerir soluções. É importante que o
policial use dessas técnicas para que as partes cheguem a solução por elas desejada e capaz de
compor o conflito.

QUESITO 12: A disciplina mediação de conflitos foi relevante para a sua formação e atuação
como policial? Por quê?

Com base na necessidade de formação adequada para que se obtenha um bom profissional
de mediação o questionamento acima foi feito e, novamente, as respostas foram em dois sentidos
diametralmente opostos, cujas análises esboçamos a seguir:

POLICIAL 3: No.

POLICIAL 8: No. Aprendi en la calle.

POLICIAL 20: No. Porque en el año de mi ingreso, no existia tal disciplina.

POLICIAL 46: No. En ese momiento no se considerada como una formación relevante.

Entre os que se mostraram céticos com a possibilidade de a mediação policial ser


relevante para a boa atuação policial nos parece que estão policiais com perfil mais relacionado ao
modelo tradicional de polícia voltada à questões puramente penais. A polícia seria um braço do
Estado no combate aquilo definido pelo legislador como infração penal e não como um

134
instrumento amplo de cidadania. É o que pode ser chamado de visão tradicional da atividade que
se espera de um policial.

A importância da atividade prática, a ser realizada no cotidiano, com experiência colhida


em campo, é importante, mas não única, assim como o trabalho de um policial, no século XXI,
não deve se restringir apenas a repressão ou policiamento ostensivo.

Quando um policial acredita que o aprendido “en la calle” é suficiente, a instituição


policial deve evitar de indicá-lo como responsável a conduzir uma sessão formal de mediação, se
puder indicar outro agente.

POLICIAL 2: Si. Porque es necesita en nuestro trabajo y cada vez más implantada en
más organizaciones policiales.

POLICIAL 4: Si. Toda actuación policial que pueda tratarse de forma pacifica,
solucionarla mediante el diálogo sin necesidad del uso de la fuerza legal es el servicio
policial, bajo mi punto de vista, más efectivo que hay y para ello el campo de la mediación
es una herramienta básica.

POLICIAL 8: Si. Pienso que si, ya que tenemos que aprender otra forma nueva de ser y
de ver a la policía.

POLICIAL 33: Si. Aprendí a otras técnicas para desarollar mi profisión.

Observamos que policiais treinados na disciplina de mediação possuem maior


sensibilidade a importância de seu conhecimento no trabalho feito na comunidade. É um avanço
do pensamento tradicional, relacionado unicamente ao combate de infrações penais, com uma
mentalidade mais aberta, chegando até mesmo a se acreditar que toda “actuación policial que
pueda tratarse de forma pacifica” pode ser feita com diálogo, sem uso direto da força ou alguma
ameaça por parte do representante do Estado. É a “otra forma nueva de ser y de ver a la policía”!

O policial formado com a disciplina de mediação está mais apto a enfrentar a maior gama
de situações que o mundo moderno, tecnológico e dinâmico impõe. Atuação prática como
mediador o torna, nas palavras de Guillamón (2014, p. 156):

Sin duda, los agentes de Policía Local se mueven en el marco del entorno social más
próximo, y casi de forma auto-didacta (aunque no debiera ser así) se convierten en
expertos sobre demografia, culturas, costumbres... de forma que simplesmente teniendo
em cuenta uma visión de política de opotunidad e eficácia, quizá los agentes de Polícia
Local com formación em estos âmbitos son los que optimizan esa respuesta ajustada a lãs
necesidades sociales y personales reales de la ciudadanía, es más, la evolución de lãs
funciones preventivas y proactivas quizá há sido mucho más notable em los Cuerpos de
Policía Local..

135
Nisso devemos separar dois grupos de policias: os aptos a conduzir sessões formais de
mediação extrajudicial de conflitos privados e os que devem conduzir mediações. O primeiro
grupo pode ser formado por aqueles que tenham anteriormente sido qualificados para tanto, pois
estes parecem conhecer mais a necessidade da formação teórica para o bom funcionamento de uma
sessão. Já o segundo grupo seria aquele em vias de ser treinado para tanto e que pudesse conhecer
as técnicas de aplicação autocompositiva.

6.2 FORTALEZA – CEARÁ - BRASIL91

No censo de 2010 do Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), Fortaleza era composta


por 2.591.188 habitantes, fazendo do município o mais populoso do estado do Ceará e o segundo
entre as regiões Norte e Nordeste do Brasil. De acordo com levantamento realizado no ano de
2011, pardos e brancos de Fortaleza, que constituem a maior parte da população, apresentaram
ancestralidade predominante europeia (maior que 70%) e menor contribuição africana e indígena.
Motivados pelo turismo de lazer, grupos de portugueses, italianos, espanhóis e de vários outros

91
O Brasil apresenta uma população de 206.101.000 habitantes, sendo o maior país da América do Sul, possui
8.515.770 km² de extensão territorial, com vasta área litorânea banhada pelo Oceano Atlântico. A cidade de Brasília
é a capital do país. Apresenta fronteiras com Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Colômbia, Peru, Bolívia,
Paraguai, Argentina e Uruguai. O topônimo Brasil tem sua origem muito discutida, embora boa parte das explicações
se refiram ao pau-brasil extraído. Para alguns filólogos, vem do tupi ibira-ciri, "pau eriçado". Os europeus, ao ouvirem
este nome dado pelos indígenas à madeira de coloração avermelhada, chamaram-na de "Brasil". As extensas porções
de terras, que hoje constituem o país, foram habitadas por tribos que pertenciam ao tronco tupi-guarani, caribe e
arawak. Para todos os efeitos, a frota chefiada pelo fidalgo português Pedro Álvares de Gouveia foi oficialmente a
primeira a chegar às terras que hoje fazem parte do Brasil. Sabe-se, no entanto, que outros europeus aqui aportaram
antes de Pedro Álvares, mas não puderam tomar posse, nem sequer anunciar a descoberta por conta do Tratado de
Tordesilhas. Ao longo dos Séculos XVII e XVIII, expedições chamadas Entradas e Bandeiras vão expandindo para
oeste as terras da Colônia, conquistando espaços que estavam na parte espanhola do Tratado de Tordesilhas. No Século
XVIII, já havia um razoável núcleo urbano em várias regiões do Brasil, a ponto de fazer germinar ideias separatistas,
como ocorreu em Vila Rica, com a Conjuração Mineira, prontamente rechaçada pelo governo português. No início do
Século XIX, um fato seria determinante para o futuro da colônia. Napoleão invade Portugal, no seu esforço de
estrangular comercialmente a Inglaterra e isso acarreta na fuga da Família Real portuguesa para o Brasil. D. João é
aclamado como novo rei de Portugal e Brasil, embora tendo que retornar à Lisboa em 1821. As cortes portuguesas
querem fazer o Brasil voltar à condição de colônia, com monopólio comercial, o que não interessava mais aos
brasileiros. Em 1822, Portugal pressiona o príncipe regente D. Pedro e ele, insuflado por José Bonifácio, pela princesa
Leopoldina e por outras pessoas de influência na Corte, resolve declarar o Brasil independente de Portugal (1822). O
Brasil independente se transforma em um império, com D. Pedro I assumindo a chefia do governo. A primeira
constituição foi outorgada em 1824, e a fase do Primeiro Reinado transcorre em meio a muitas crises políticas. Por
quase 50 anos, o imperador Pedro II governaria o país, consolidaria a unidade nacional brasileira - um grande feito,
por sinal - e, mesmo enfrentando crises políticas e revoltas civis nas províncias, manteria o país coeso e com um
produto agrícola de forte penetração internacional: o café (sustentação econômica ao país). A monarquia chegava ao
fim, com o golpe militar que proclamou a República. Começou o ciclo de presidentes, a partir do proclamador Deodoro
da Fonseca. Esse período, que passaria à História como a Velha República, se caracterizou por várias crises políticas.
Somente um presidente, Campos Sales, não decretou estado de sítio em seu governo. Em 1930, uma revolta chefiada
por Getúlio Vargas toma o poder e mantém o seu líder por 15 anos na chefia do governo. Após a II Guerra, ventos
liberalizantes chegam ao Brasil e destituem Vargas. Dutra é eleito, mas Getúlio retorna pelas urnas à presidência e de
lá só sai morto, após suicidar-se em meio a uma grave crise política, em agosto de 1954. Dez anos depois, ocorre uma
nova crise, culminando com o golpe militar em 1º de abril de 1964, que mergulhou o Brasil em um período de ditadura
até 1985. Com a redemocratização, uma nova Constituição foi votada pelo Congresso em 1988. No ano de 2016,
escândalos de corrupção no âmbito político e econômico eclodem no país e a primeira presidente do Brasil, Dilma
Vana Rousseff é condenada em um processo de impeachment, e o país passa a ser governado pelo vice-presidente,
Michel Temer. Disponível em: <https://paises.ibge.gov.br/#/pt/pais/brasil/info/sintese>. Acesso em: 02 out. 2017.

136
países da Europa têm migrado para Fortaleza. A principal fonte econômica do município está
centrada no setor terciário, com seus diversificados segmentos de comércio e prestação de serviços.
Além desses, destaca-se o setor secundário, com os complexos industriais.

Figura 4 – Localização geográfica e imagens da cidade de Fortaleza-Ceará-Brasil.

Fonte: Google imagens (2017).

A cidade de Fortaleza, por tradição, destaca-se nacional e internacionalmente por seu


clima e cidadãos acolhedores, mas outro fator tem chamado atenção, conforme aponta o Mapa da
Violência92 elaborado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos — a criminalidade,
aferida por meio do número de homicídios, tem crescido vertiginosamente.

No comparativo entre 2002 e 2012, a violência cresceu 141,1% em Fortaleza, colocando


a capital cearense na quarta posição entre as capitais brasileiras com maior ascensão de homicídios
nesse período. No ano de 2016, os registros estatísticos revelam que foram cometidos 1.007
homicídios na cidade, com uma taxa de 38,6 homicídios por 100 mil habitantes e uma redução de
39,4% em relação ao ano anterior.

Diante desse cenário, durante a realização deste estudo, visitas in loco foram realizadas
em cada área, em busca de estabelecer um contato com o efetivo de PMs (policiais militares) e
com os membros de associações de bairros de cada Área Integrada de Segurança. Ao longo desse

92
O Mapa da Violência é uma série de estudos publicados desde 1998, inicialmente com apoio da Organização das
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), do Instituto Ayrton Senna e da Faculdade Latino-
Americana de Ciências Sociais (FLACSO), entre outras entidades, e, mais recentemente, publicados pelo governo
brasileiro. O sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz é o responsável pela pesquisa.O levantamento mais recente
corresponde ao ano de 2014.Contém a evolução das taxas de mortalidade nos estados e municípios brasileiros com
mais de 10.000 habitantes e as mortes causadas por homicídio na população total e na população jovem (de 15 a 24
anos); mortes causadas por acidentes de transporte e suicídios.

137
trabalho, relatos e percepçãoes desse percurso serão apresentados, contudo, interessante também
se faz conhecer melhor o percurso histórico daqueles sobre quem iremos tratar – a Polícia Militar.

A Polícia Militar93 em Fortaleza - Ceará

Não há uma história “natural” da polícia. Seu nascimento não é proveniente de uma ordem
lógica, mas como diria Monet (2006, p. 31) é “produto de uma sucessão de rupturas do que a
consequência de um desenvolvimento que teria existido em germe desde as origens”.

Isso significa, nas palavras de Costa (2004), que desde os primeiros embriões de polícia
existentes nas cidades-estados gregas até o estabelecimento das polícias modernas, a forma e o
sentido pelo qual as polícias vão realizando suas atividades são produtos de fatores estruturais e
organizacionais do seu processo de formação. Uma formação que está devidamente atrelada à
própria constituição do espaço social, no qual ela está inserida, afinal, a polícia não existe
abstratamente, dissociada do modo como os homens organizam suas vidas em sociedade, pois,
como diria Da Matta (1997, p. 36), “cada sociedade tem uma gramática de espaços e
temporalidades para poder existir como um todo articulado”.

Na verdade, esses dispositivos nada mais eram do que uma reprodução do tipo de
proteção e manutenção da ordem utilizada em Portugal. Para Faoro (2001) tal fato deveu-se à
formação de uma sociedade civil no Brasil altamente dependente do Estado português, o que
contribuiu para o seu enfraquecimento, o não reconhecimento de uma identidade nacional e o
impedimento da formação de uma opinião pública94 capaz de exercer um verdadeiro controle sobre
as instituições do Estado.

Com isso, as instituições, sanções e penalidades a serem utilizadas no Brasil seriam as


mesmas utilizadas na metrópole portuguesa, que se reconhecia como dissera Camões, em Os
Lusíadas, “mais alta e clara que as outras em polícia e fortaleza95”.

93
A polícia militar brasileira foi criada no regime imperial, também denominada de “Força Policial”. “Um Decreto
de 13 de maio de 1809 criou a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia no Rio de Janeiro – RJ; este Decreto assinalou
o nascimento da Polícia Militar do Estado da Guanabara. Era o príncipe Regente reconhecendo a necessidade de uma
organização de caráter militar para o provimento da ‘segurança e traquilidade pública’ na cidade do Rio de Janeiro”.
Mais tarde se consolidaria como força vinculada ao Exército, assemelhando-se a esta organização, com as mesmas
denominações e hirarquias do Exército. Ver histórico da Polícia Militar no Brasil no site
http://www.pm.ms.gov.br/historico.htm. Acesso em: 13 de out. 2017.
94
Segundo Faoro (2001), a opinião pública é formada no interior da sociedade civil por organizações não pertencentes
ao poder público, como a imprensa e as associações de bairro.
95
Canto X, estrofe 92. Disponível em: <http://www.oslusiadas.com/content/view/27/50/>. Acesso em: 10 jun. 2016.

138
Enquanto colônia de Portugal, o Brasil não tinha condições de garantir o controle e a
defesa do território, determinando à força privada a garantia da homeostase do sistema, como assim
ocorrera por meio do Alvará das Armas, de 1569 e na composição de suas forças terrestres, como
as ordenanças (Puntoni, 2004).

Como podemos observar o desenvolvimento das forças policiais no Brasil não


acompanhou o mesmo processo de surgimento das modernas forças de polícia na Europa. Segundo
Rolim (2006, p. 25), o fator decisivo para o aparecimento das polícias na modernidade não foi uma
preocupação especial com o crime, nem tão pouco uma aspiração social, mas sim “a emergência
de um sem-números, de revoltas populares e desordens de rua na maior parte dos países europeus
e a incapacidade dos governos para continuarem lidando com elas através da convocação de tropas
do Exército”.

No Brasil, diferentemente do que ocorreu na Europa, as forças policiais surgem como


resposta às inquietações existentes dentro das linhas do Exército Brasileiro, que por demais
limitadas não chegavam a atender a todas as necessidades de policiamento das cidades, as
insurreições e os demais conflitos sociais.

Durante o período o qual Dom Pedro II governou o Brasil, mesmo separadas do Exército,
as polícias militares estavam cada vez mais afastadas de suas atividades civis de policiamento em
virtude da maior aproximação com o Exército Brasileiro. Desde o Segundo Império, segundo
Muniz (2001, p. 182),

[...] as PMs começaram a ser exaustivamente empregadas como força auxiliar do exército
regular tanto nos esforços de guerra (como no caso da Guerra do Paraguai), quanto nos
conflitos internos como as rebeliões, os motins, as revoltas populares, além,
evidentemente, das operações de grande porte relacionadas ao controle das fronteiras da
nação.

É exatamente isso que observamos na origem e no desenvolvimento da Polícia Militar no


Ceará: uma origem associada aos movimentos e acontecimentos históricos do Brasil Império e
uma história marcada pelas rupturas políticas da época, demonstrando, desde já, como a política
vem ao longo dos anos tentando influir decisivamente sobre a polícia, tanto na definição de seus
corpos e contingentes quanto em suas nomenclaturas.

No Ceará, a origem da Polícia Militar está relacionada à proclamação do Ato Adicional


de 12 de agosto de 1834, pelo então regente do Império Padre Diogo Antônio Feijó. Este Ato foi
a própria concretização de como o vazio do trono afetou profundamente as estruturas sociais do
país, isto porque tal Ato tratava-se de uma revisão da Magna Carta de 1824, na qual ao alterar seu

139
artigo 72, criando as Assembleias Legislativas, acabou por descentralizar o poder dos Conselhos
Gerais, órgãos que submetiam as Províncias às ordens do Imperador, deixando-as, agora, mais
autônomas para fortalecer os poderes regionais.

Com esse intuito, uma das medidas tomadas pelas Assembleias foi a de “fixar sob
informação do Presidente da Província à Força Policial respectiva” (art. 11, §2º do Ato Adicional
de 12 de agosto de 1834), o que permitiu a cada província do Brasil organizar para si uma força
policial.

Até a proclamação do Ato Adicional de 1834, segundo Mota Brasil (2000), não havia
no Brasil um órgão específico para realizar os serviços de polícia, como a guarda de cadeias, a
captura de foragidos, a escolta de condenados, era o Exército quem realizava tais atividades, por
meio das Ordenanças e Milícias96, dispositivos criados para garantir a defesa do território e os
interesses da Metrópole desde a época do Brasil Colonial.

Desse modo, um ano mais tarde, em 24 de maio de 1835, o Presidente da Província do


Ceará, José Martiniano de Alencar, cria uma Força Policial para a província através da Resolução
Provincial nº 13, na qual dizia:

José Martiniano d'Alencar, Presidente da Província do Ceará. Faço saber a todos os seus
habitantes, que a Assembleia Legislativa Provincial decretou e eu sancionei a Ley
seguinte.

Art.1º - A Força Policial, no futuro ano financeiro, constará de primeiro, segundo e


terceiro Comandantes; um Primeiro Sargento; dois Segundos; um Furriel, dez Cabos,
oitenta e um Guardas, e duas Cornetas, vencendo todas as Praças os soldos, que se acham
marcadas, e hora vencem.

Ainda no ano de 1935, foi direcionada a Polícia Militar do Ceará para a Província do
Grão-Pará com um efetivo de 48 praças sob o comando do Capitão Tomaz Lourenço da Silva para
a Vila de Turiassú. Nesse momento histórico a atividade policial nada mais era que um braço
acessório do Exército. Desde esse ponto até o presente momento, a militarização da polícia foi
algo que se manteve.

Já no século XXI, em 1921, por força da Lei n° 1.926 o então chamado Regimento Militar
do Estado passa a se chamar “Força Pública Militar do Ceará” e seu efetivo é dividido em dois

96
De acordo com Mota Brasil (2000, p. 34-36), as Ordenanças seriam “forças semirregulares, constituídas pelo
recrutamento obrigatório da população que era posta em arma sob o comando dos proprietários e senhores de terras e
escravos, com missão de combater o inimigo”. Já as Milícias se caracterizam por serem forças regulares e “dispositivos
inequívocos da repressão instalados pela Metrópole com função policial de fiscalizar e vigiar o povo, de reprimir as
sublevações e rebeliões, mantendo o povo submisso frente à nova ordem”.

140
grupos principais, os de Combate e o Auxiliar. Quatro anos depois, a própria denominação de
Regimento Militar do Estado passa a ser chamado de “Força Pública do Ceará”. A denominação
atual, Polícia Militar do Ceará (PMCE) só vem a se consolidar em definitivo no ano de 194797.

Após o final da ditadura militar no Brasil, nos anos de 1980, fez-se necessário a criação
de uma nova Constituição Federal, que previu como função da Polícia Militar a preservação da
ordem pública, ostensivamente, além de força auxiliar do exército (Art. 144, CF/88).

Por conta do poder constituinte decorrente, o Estado do Ceará editou sua Constituição em
1989. Nos artigos 187 e 188 a Constituição Cearense institucionaliza a Polícia Militar do Ceará.
In verbis:

Art. 187. A Polícia Militar do Ceará é instituição permanente, orientada com base nos
princípios da legalidade, da probidade administrativa, da hierarquia e da disciplina,
constituindo-se força auxiliar e reserva do Exército, subordinada ao Governador do
Estado, tendo por missão fundamental exercer a polícia ostensiva, preservar a ordem
pública e garantir os poderes constituídos no regular desempenho de suas competências,
cumprindo as requisições emanadas de qualquer destes.
§ 1º Os títulos, postos, graduações, uniformes, símbolos e distintivos são privativos dos
integrantes da corporação.
§ 2º O Comando da Polícia Militar é privativo de coronel da corporação, em serviço ativo,
observadas as condições indicadas em Lei, de livre escolha do Governador do Estado.
Art. 188. Incumbe à Polícia Militar a atividade da preservação da ordem pública em todas
as suas modalidades e proteção individual, com desempenhos ostensivos para inibir os
atos atentatórios a pessoas e bens.
Parágrafo único. A lei disciplinará o efetivo da Polícia Militar, dispondo sobre sua
organização, funcionamento e medidas aplicáveis, para garantir a sua eficiência
operacional, distribuindo as responsabilidades em consonância com os graus
hierárquicos.

Assim, após obedecer aos mandamentos constitucionais federal e estadual, a PMCE tem
seu estatuto regido pela Lei n° 13.729/2006, que regula sua situação, direitos, prerrogativas,
deveres e obrigações dos policias militares.

O mandamento legal não foi suficiente, entretanto, para garantir o total efetivo necessário
para atender as demandas da população cearense, em especial do município de Fortaleza, capital
do Estado, onde se situa a grande maioria de sua população.

O Estado do Ceará, no ano de 2014, contava com 16 mil policiais militares, mas precisaria
de 35 mil no efetivo. A constatação preocupante é da seccional da Ordem dos Advogados do Brasil
no Ceará (OAB-CE), que abriu um fórum98 de debates e propostas, diante da criminalidade que

97
À época, seu efetivo contava com 1658 homens.
98
O Fórum Permanente de Debates e Propostas contra a Violência resultou num documento que atesta ainda o déficit
de policiais civis (1.924), de defensores públicos (290), de promotores de justiça (144) e de juízes (106) no Ceará. As
discussões contaram com membros das associações de todas essas categorias.

141
assola o estado, sobretudo a capital de Fortaleza. Até o ano de 2017, o efetivo da PM-CE teve o
incremento de mais 2670 mil policiais, totalizando 1867099 mil agentes, sendo que 9720 mil100
desse contingente encontram-se distribuídos em Fortaleza. Contudo, segundo exigência da
Organização das Nações Unidas (ONU), é indicado haver um policial para cada 250 habitantes.
No Ceará, com 9 milhões de habitantes, a proporção é de um para cada grupo de 482 pessoas. Isso,
na visão do fórum, contribui para a insegurança.

Consciente de que os bons resultados somente surgirão com o engajamento dos poderes
constituídos e da sociedade, o Governo lançou em agosto de 2015, o Pacto Por Um Ceará
Pacífico101, conclamando a todos para se unirem pela implementação de uma cultura de paz em
todo o Estado. De acordo com Cruz (2010), esta orientação pode ser percebida no marketing das
eleições para os governos estaduais no Nordeste, uma vez que estão em grande parte voltados para
propostas de policiamento comunitário ou de reestruturação das polícias civis e militares.

No Ceará não foi diferente, na segurança pública, a principal ação que se encontra em
execução é a implantação das Unidades Integradas de Segurança (Unisegs), com o objetivo de
reestruturação do sistema de segurança pública, incluindo uma maior aproximação dos serviços
ofertados pela Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e Polícia Militar. Nas Unisegs, o policiamento
passa a atuar com um novo modelo de abordagem e uma maior aproximação com a população.
Atualmente, já foram implantadas três (04) Unisegs (1 – Vicente Pizon, Cais do Porto e Mucuripe;
2 –Aldeota, Varjota, Meireles e Praia de Iracema; 3 –Conjunto Ceará I e II, Genibaú e Granja
Portugal e 4 – Bom Jardim).

Contudo, a briga entre facções por territórios dos espaços urbanos da cidade de Fortaleza,
passa a orientar um novo rumo nas estratégias da política estadual de segurança pública,
focalizando-a em uma nova proposta de policiamento com feições ostensivo-repressivas. A
implantação de unidades do Batalhão de Ronda de Ações Intensivas e Ostensivas (BPRaio) 102 da
Polícia Militar no estado passa a fazer parte de um projeto para a ampliação e descentralização das
atividades especializadas da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) no Estado.

99
De acordo com o Sistema de Acompanhamento de Policiais Militares, neste número total de 18670 mil agentes
inclui os policiais que estão à disposição em órgãos públicos, os que estão de licença e os em atividade, verificando-
se que a demanda por profissionais é ainda maior do que a divulgada e discutida em grupos de debate.
100
De acordo com dados oficiais da Coordenadoria de Gestão de Pessoas da Polícia Militar do Ceará.
101
Ver Decreto Estadual n° 31.787, de 21 de setembro de 2015.
102
O “Raio” que já conta em Fortaleza com 508 profissionais, 435 motocicletas e seis viaturas, ao fim da implantação,
atuará em todas as cidades do Interior, com efetivo de mais 425 policiais, divididos em 60 equipes, com 240
motocicletas e 13 viaturas.

142
Interessante em todo este processo é que as propostas aqui e alhures passaram a fazer
parte do discurso oficial. O fato nos desafia compreendermos, também, neste contexto de propostas
de mudanças no campo da segurança pública, a função que se pode atribuir as Unisegs e ao BPRaio
em determinada circunstância e de modo não contingente, mas, sobretudo, em momentos
específicos, como nos momentos de crise na segurança pública, quando observamos a falta de
credibilidade da população nas polícias, cujas relações são relações marcadas por desconfianças
mútuas. (FREITAS, MELLO e ALMEIDA, 2009).

Diante desse contexto, vemos que a segurança pública tem sofrido modificações de
acordo com os governantes que se instalam no poder e, estas estão vinculadas às relações de poder
que se inscrevem nesse campo ou “as táticas de governo” das quais nos fala Foucault (1986, p.
292) num dado contexto de realidade, cujas formas de intervenção envolvem relações assimétricas
de poder, orientam posicionamentos e demarcam ações que definem um conjunto de condições de
existência de uma dada gestão ou governabilidade.

6.2.1 Contexto Jurídico

Analisar a possibilidade jurídica de o agente policial atuar como mediador de conflitos é


algo que, antes de tudo, deve ser levado em conta no âmbito constitucional e administrativo
brasileiro.

As pessoas físicas que prestem serviço ao Estado e às pessoas jurídicas da Administração


Indireta, ainda que em vínculo transitório e sem remuneração são considerados agentes públicos
(SCATOLINO; TRINDADE, 2016). O conceito de agente público passa a ser algo amplo,
inclusivo, de modo a representar todos aqueles que façam as vezes do Poder Público e atuem como
se fosse o próprio Estado e não a pessoa física atuante, de acordo com a denominada Teoria do
Órgão103.

Agente público, como conceito amplo, é gênero do qual demandam várias espécies. Di
Pietro (2012, p. 581-588) nos informa que há quatro categorias de agentes públicos:

103
A Teoria do Órgão, idealizado pelo alemão Otto Gierke (1841-1921), nos informa que as pessoas jurídicas
expressariam sua vontade por meio de seus órgãos, titularizados por seus agentes, de modo que o ato do agente seria
o ato do próprio órgão, imputável à Administração e não ao agente. A ação do agente não é dele e sim da pessoa
jurídica, com a vontade sendo imputada ao órgão.

143
(1) agentes políticos: aquele que se liga à noção de governo e de função política.
Tipicamente exercem mandato ou ocupam função de ordem constitucional de chefia de Poder ou
órgão independente, como juízes e promotores.
(2) servidores públicos: podem ser servidores estatutários, empregados públicos ou
servidores temporários. Os primeiros submetem-se ao regime estatutário alterável unilateralmente
pela Administração. Aqui encontramos, por exemplo, os membros das Polícias Civis dos estados.
Os segundos, empregados públicos, se submetem ao regime contratual da legislação trabalhista
ordinária; enquanto os terceiros, os servidores temporários, exercem função pública sem ocupar
cargo público, para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público.
(3) particulares em colaboração com o Poder Público: são pessoas que prestam serviço ao
Estado, sem vinculo, podendo ter ou não remuneração. Como exemplo temos os notários e jurados.
(4) militares: integram as Forças Armadas, as Policias Militares e Corpos de Bombeiros
dos estados. Anteriormente os militares eram chamados de “servidores militares” pelo texto
original da Constituição de 1988, sendo que a nomenclatura foi alterada pela Emenda
Constitucional n°18/98, passando a ser denominados simplesmente de “militares”. Di Pietro (2012,
p. 581) explica a pequena mudança no texto:

Cabe aqui fazer uma referência aos militares. Até a Emenda Constitucional n° 18/98, eles
eram tratados como “servidores militares”. A partir dessa Emenda, excluiu-se, em relação
a eles, a denominação de servidores, o que significa ter de incluir, na classificação
apresentada, mais uma categoria de agente público, a dos militares. Essa inclusão em nova
categoria é feita em atenção ao tratamento dispensado pela referida Emenda
Constitucional. Porém, conceitualmente, não há distinção entre servidores civis e
militares, a não ser pelo regime jurídico, parcialmente diverso. Uma e outra categoria
abrangem pessoas físicas vinculadas ao Estado por vínculo de natureza estatutária. (grifo
nosso)

Conforme observamos, as diferenças entre servidores civis e militares dizem respeito ao


regime jurídico, que não é de todo diverso. Isso nos mostra que em muitos pontos que a ação de
um servidor civil não precisa ser diversa da de um militar ao se deparar com o mesmo problema
prático, desde que inserido dentro da sua competência legal. Ressalte-se que isso faz com que o
militar esteja submetido a todo o regramento constitucional principiológico do servidor civil,
obedecendo o insculpido no artigo 37, caput, da Constituição Federal, como os princípios da
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

O agente de polícia militar, como qualquer outro agente público, deve observar seu dever
para com o Estado, a Constituição Federal e a sociedade, tendo especial atenção à dignidade da
pessoa humana (fundamento da República Federativa do Brasil, art. 1°, III, CF/88) e a promoção
do bem de todos (objetivo fundamental da República Federativa do Brasil, art. 3°, IV, CF/88). Esse
fundamento e objetivo constitucionais servem de vetor interpretativo e irradiante para a

144
concretização dos direitos e garantias fundamentais do cidadão (FERNANDES, 2017). Todo
agente público deve buscar o bem comum promovendo a dignidade da pessoa humana e uma forma
clara de realização desse desiderato é que o Estado, por meio de seus agentes, faça com que os
membros da sociedade possam conviver o mais harmoniosamente possível.

Conforme exposto, os militares possuem vinculação com a Administração Pública,


devendo obediência aos ditames desta. E isso significa que devem atuar em atenção ao principio
constitucional da legalidade. Este possui duas variantes, ambas constitucionais, a legalidade para
o particular e a legalidade para o Poder Público.

Para o particular, a legalidade é ampla, podendo, na esfera privada, fazer tudo que a lei não
proíba ou só ser obrigado a fazer o que a lei determinar (Art. 5°, II, CF/88). O particular, por
exemplo, não pode ser coagido a aceitar acordo no qual não tenha consentido validamente. Sua
liberdade de ação só pode ser restringida por força de lei ou ato normativo apto a impor obrigações
primárias, evitando-se assim atos infralegais, como portarias, aptas apenas a obedecer as
obrigações criadas por lei. (BANDEIRA DE MELLO, 2010).

Já o agente público obedece à chamada legalidade administrativa, que significa “que a


Administração nada pode fazer senão o que a lei determina” (BANDEIRA DE MELLO, 2010, p.
105). A legalidade administrativa determina que a lei tem que autorizar a ação do agente,
previamente, fazendo com que qualquer ato deste tenha obediência ao que a lei prescreve. O agente
público só pode fazer o que a lei diz que deve ser feito, restando ao agente obedecê-la. Se o agente
público possui o poder de agir isso significa que ele deve agir, ou seja, seu poder é um poder-
dever, cogente, obrigatório, dentro da legalidade estrita, além de ser irrenunciável (CARVALHO
FILHO, 2012).

A legalidade administrativa embora seja restritiva da atuação do agente público, que só


pode fazer o que está previsto normativamente, é mais ampla quanto às fontes dessa
normatividade. O agente deverá obediência, assim, ao ordenamento jurídico e não apenas às leis
formais. A legalidade passa a ser obediência não apenas as leis ordinárias, complementares,
delegadas ou medidas provisórias (Art. 59, CF/88), mas antes disso, deve começar pela atenção à
Constituição Federal, seguir pelas leis em sentido estrito e abranger até mesmo atos infralegais,
como portarias, resoluções, instruções, etc.

A atenção primeira do agente público à Constituição nada mais é que a observância ao


fundamento de validade de todas as normas do ordenamento jurídico. Isso faz com que qualquer

145
norma do ordenamento deve buscar sua validade na norma hierarquicamente superior, estando a
Constituição no topo desta pirâmide normativa104. Se a norma inferior for incompatível com a
superior não deve ser aplicada, por ser invalida, seja formal ou materialmente incompatível. A
exemplo, um agente público de Polícia não pode obedecer a uma norma que lhe imponha o dever
de torturar, por ser a tortura expressamente proibida no texto constitucional, superior a qualquer
lei. Outra lei inconstitucional seria a que previsse estaria impedido de exercer o controle da
violência de maneira preventiva, mediando conflitos, pois a Constituição prevê que as Policias
Militares devem cuidar da preservação da ordem pública (Art. 144, § 6°, CF/88).

Após analisarmos como funciona a vinculação do agente público, gênero no qual se insere
o agente de Polícia Militar, à legalidade e sua obediência a este princípio como fator estruturante
constitucional-administrativo brasileiro cabe perguntar se é possível a este agente policial realizar
mediações de conflitos caso não exista uma norma expressa, ainda que infralegal, autorizando a
Polícia, enquanto Administração Pública, para mediar conflitos particulares?

A resposta para esse questionamento é positiva, ou seja, sim, é possível que haja mediação
policial e seja realizada por agentes de polícia nesta qualidade ainda que não seja editada lei em
sentido estrito ou outra norma infralegal, pois o agente deve obediência ao mandamento
constitucional que possui força normativa e a possibilidade de mediar o conflito encontra respaldo
no texto constitucional, implicitamente, tanto em normas-regra, como a do Artigo 144, como em
normas princípio, como os Artigos 1°, 3°, 5°, 37 e toda a base axiológica deles decorrente.

Quando a Constituição atribui às Polícias a preservação da ordem pública o faz dando-lhe


instrumentos para isso, pois se entende que ao atribuir uma função a ser concretizada por um Poder
Público, a Constituição, ainda que implicitamente, atribui os meios e instrumentos necessários ao
agente para que a realize. É a chamada Teoria dos Poderes Implícitos, que afirma que, para exercer
a competência expressada na Constituição, o agente disporá de meios e recursos a ela inerentes105.
Dentro do poder expresso de “preservar a ordem pública” está o de tentar administrar o conflito
da melhor maneira possível, entre elas mediando as partes na busca de acordo.

104
Na verdade, na doutrina de Hans Kelsen, acima da Constituição ainda há uma norma superior, validante da própria
Constituição, denominada “norma fundamental hipotética”, cujo comando seria para que todos obedecessem à
Constituição positivada. Neste trabalho, entretanto, adotaremos o conceito de que a Constituição Federal será a norma
suprema do nosso ordenamento, como reconhece a doutrina e a jurisprudência, sobretudo em observância aos julgados
do Supremo Tribunal Federal, que tomam por base a Constituição positivada.
105
Para mais detalhes sobre a Teoria dos Poderes Implícitos ver o julgado do STF: RE 593727/MG, red. p/ o acórdão
Min. Gilmar Mendes, julgado em 14/5/2015.

146
Outra justificativa a autorizar a realização de mediações por membros da carreira policial
é a observância ao principio da proporcionalidade, que já foi reconhecido, tanto pela doutrina como
pela jurisprudência, como principio constitucional implícito e que deve ser observado em todas as
atuações do Poder Público (BARROS, 2000). Tal princípio estabelece a proibição de excessos, de
modo que a Administração Pública não “aja com excesso ou valendo-se de atos inúteis,
desvantajosos, desarrazoados e desproporcionais” (CUNHA JÚNIOR, 2009, p. 50).

A doutrina divide, para fins de utilização prática, a proporcionalidade em três subprincípios


a serem analisados em sequência: a) adequação: o ato deve ser apto a se conseguir o resultado
almejado; b) necessidade: o Poder Público deve adotar a medida menos gravosa possível para
tingir um objetivo; c) proporcionalidade em sentido estrito: após passar pelos dois outros
subprincípios deve verificar a proporcionalidade em sentido estrito, que fará o aplicador avaliar se
a restrição ao direito fundamental é aceitável ante à realização de outro direito fundamental com
ele colidente, a ponto de fundamentar a restrição (FERNANDES, 2017).

Ponderando a possibilidade de agentes policiais realizarem mediações e aplicando o


principio da proporcionalidade vemos que tal possibilidade é adequada, pois ela conduz ao fim de
que o conflito intersubjetivo esteja em controle ou, ao menos, não aflorado totalmente. Em seguida
observa-se que a medida de mediação é necessária, pois de todos os meios existentes é o que causa
menor sacrifício aos direitos individuais, pois basta se ter em consideração que um conflito não
mediado pode levar a que o Estado imponha sanções mais gravosas ao particular, desde sanções
administrativas até sanções penais, com perda da liberdade em caso de o conflito descambar em
infração criminal106. Por último, a proporcionalidade em sentido estrito é alcançada com a menor
restrição aos direitos fundamentais do indivíduo, pois este terá a opção entre participar ou não da
mediação, não recebendo nenhuma imposição ou sanção pela não participação.

Disso conclui-se outro ponto: qualquer lei ou ato infralegal que proíba a atividade do
policial como mediador será inconstitucional, por ferir, entre outros, a proporcionalidade na
atuação do agente policial, ante a evitar o uso da força e sanção e tentar obter o máximo de
autocomposição do conflito. Portanto, mesmo que o Estado possua o monopólio legitimo da força
e a possibilidade de impor uma decisão jurisdicional a uma lide, deve evitar chegar a esse ponto,
se possível, evitando o excesso com base na proporcionalidade de atuação.

106
Atos de lesão corporal, por exemplo, são comuns em conflitos de vizinhança não solucionados.

147
Com isso, observamos que o fundamento de validade normativo para atuação do policial
como mediador é a própria Constituição Federal de 1988, como norma suprema de todo o
ordenamento jurídico. Isso não proíbe, entretanto, que cada ente federado que disponha de força
policial possa criar lei própria ou outro ato normativo-administrativo para regular a mediação no
âmbito de sua esfera de competência. Pelo contrário, essas leis e atos devem ser até mesmo
estimulados, tendo em vista a possibilidade de garantir maior atenção a procedimento e regras
próprias nela contidas e que façam com que o mediador possa observá-las com maior segurança.
Tais normas seriam de estudo imprescindível na formação do policial mediador, já que a formação
deste profissional é de suma importância para a ocorrência de uma boa sessão de mediação
comunitária.

Há de se destacar, que caso não haja norma editada pelo ente federado, o policial pode se
valer da Lei de Mediação (Lei n° 13.140/2015) como norma a subsidiar sua atuação. Mesmo no
caso em que haja norma expressa regulando a mediação no âmbito policial de algum ente federado
ainda assim a Lei de Mediação pode ser aplicada, subsidiariamente ou mesmo como norma geral,
a depender do que estiver regulado na norma própria a ser expedida pelo ente federado. Será norma
geral se o ente regular apenas assuntos específicos da mediação a ser realizada, devendo a Lei de
Mediação regular os aspectos gerais, o que deve ser mais provável, tendo em vista a redação da
Lei n° 13.140/2015. Será, entretanto, a Lei de Mediação norma subsidiária no caso de a lei a ser
editada para a polícia ser detalhada, mas mesmo assim lhe faltar regular algum ponto carente de
regulação, tornado-a lacunosa. Neste caso, o disposto na Lei de Mediação não deve ser
incompatível com todo o resto tratado na norma específica.

Ao se utilizar da Lei de mediação, nos casos acima citados, o policial mediador deverá
observar a sessão relativa à mediação extrajudicial, cuja análise já foi feita neste trabalho.

No âmbito do Estado do Ceará, onde se insere o município de Fortaleza, o qual adota o


modelo constitucional de repartição de competências em que as polícias militares e civis são
organizadas pelo Estado como ente federado, foi editada a Lei n° 16.039, de 28 de junho de 2016,
que dispõe sobre a criação do núcleo de soluções consensuais no âmbito da Controladoria-Geral
de disciplina dos órgãos de segurança pública e sistema penitenciário. Essa lei estadual toma por
base o fundamento de validade da Constituição Federal a permitir que agentes públicos realizem
sessões de mediação dentro dos procedimentos disciplinares e à aplicação de sanções disciplinares
aos servidores integrantes do grupo de atividade de polícia judiciária, policiais militares,
bombeiros militares e agentes penitenciários (Art. 1°, Lei n° 16.039/2016).

148
Ainda que a Lei n° 16.039/2016 não tenha sido editada no sentido de regular a mediação
policial de conflitos no âmbito privado, ela trouxe o cerne da possibilidade de que a polícia da
capital cearense pudesse ter contato com o procedimento de mediação e seus resultados práticos.
Mesmo que em âmbito interno, disciplinador, nada impede que os participantes dessa mediação
usem a experiência de atuação para os casos que encontrem em seu cotidiano, até tendo em vista
que a referida lei, em seu artigo 8°, alude expressamente a que a Lei 13.140/2015 tenha aplicação
subsidiária, desde que compatível, com a lei de soluções consensuais no âmbito da Controladoria-
Geral de Disciplina (CGD). Para maiores informações e dados estatísticos dos procedimentos
realizados no ano de 2017, orientamos dirigir-se ao Anexo A.

6.2.2 Contexto Sociológico

A polícia mediadora é ainda muito incipiente na Polícia Militar da cidade de Fortaleza-


CE, entretanto vem ganhando corpo e espaço ao longo dos últimos 10 anos, quando foi implantada
a disciplina no Curso de Formação dos Soldados de Fileiras (CFSdF) no ano de 2007. Esta
formação foi idealizada para desenvolver estratégias de polícia comunitária e coordenar projetos,
tendo como diretrizes táticas de atuação, o Programa Ronda do Quarteirão107, implantado nas áreas
críticas da capital e região metropolitana.

Os policiais da PMCE sabiam que com a criação do Ronda do Quarteirão, seu trabalho
ainda seria aquele voltado para o enfrentamento da criminalidade, sendo que de maneira
completamente diferente daquele modo tradicional de pensar e fazer policiamento, “exige
conhecimento do policial e não depende somente dele”, como foi enfatizado na fala de um policial
(Policial 3, POG, 18 anos de profissão, Fortaleza). Exige ainda uma modificação em todo o
processo de atuação juntamente com os demais policiais da corporação e com a comunidade.

Salienta-se que a criação e implementação de uma proposta diferente do policiamento


tradicional, em diferentes locais e suas diversas denominações, precisa considerar as
especificidades de cada região. As modificações operadas com o Ronda do Quarteirão no sistema
de segurança pública do Ceará, ocorrem ao mesmo tempo em condições prosperas e adversas. Por
quê? As mudanças surgem com intenções de melhoria na área da segurança pública, no entanto,

(...) não oferece uma fórmula simples ou um mapa do caminho para se chegar lá; promete
reformar as agências policiais e melhorar o envolvimento da comunidade na segurança

107
O programa Ronda do Quarteirão, também chamado “a polícia da boa vizinhança”. Os policiais que compõem o
programa são orientados para agir principalmente nos crimes de menor potencial ofensivo e com base em estratégias
diferenciadas de prevenção a partir da filosofia de polícia comunitária, na qual os policiais moldam suas operações de
acordo com as necessidades específicas de cada comunidade.

149
pública, mas os policiais e os residentes da comunidade são freqüentemente convidados
a imaginar como isso poderá ocorrer (Rosenbaum, 2002, p. 27).

A polícia no Brasil é depositária da pouca confiança da sociedade, caracterizando uma


relação marcada pela distância, medo, desconfiança ou ineficiência do trabalho desenvolvido pelos
policiais. O depoimento abaixo a seguir é um exemplo dessa realidade que começa a passar por
modificações com a criação do Ronda do Quarteirão.

O que eu vejo agora com o Ronda do Quarteirão é a maneira de como as pessoas enxergam
o nosso trabalho, o modo de como eles nos recebem também. Agora a gente sente que a
população tem confiança na polícia, tanto que nos chamam para tudo, para qualquer
problema, alguns que nem precisa da nossa presença (...) e isso, poderia ser aproveitado
mais para ser desenvolvido um trabalho sério com a comunidade (Policial 3, POG, 7 anos
de profissão, Fortaleza).

Em todos os momentos, nos depoimentos dos policiais entrevistados, eles não descartam
a importância de um policiamento que interage com a comunidade em que são usadas estratégias
de “integração e parcerias com os moradores de uma área de diversas formas e ao longo do tempo
você passa a ser membro da área e é chamado pelo seu nome e não por um “PM” (Policial 6, POG,
5 anos de profissão, Fortaleza).

Contudo, após 8 anos da gestão Cid Gomes108, as questões relacionadas à segurança


pública são retomadas com mais ânimo e alarde na nova gestão, novos investimentos são
anunciados, trocam-se chefias, promessas de ordem e rigor são seladas na área da segurança
pública. O novo momento e principal programa do Governo do Estado para reduzir os índices de
criminalidade, o "Pacto por um Ceará Pacífico" foi lançado com 11 linhas de ações intersetoriais,
em áreas como Justiça, emprego e renda, saúde, entre outros.

Diante desse cenário, uma das novas estratégias adotadas pela Secretaria da Segurança
Pública e Defesa Social (SSPDS), com o intuito de aperfeiçoar o impacto da atuação integrada dos
agentes de segurança pública em território cearense, foi a delimitação do Estado em Áreas
Integradas de Segurança (AIS). A ideia, que entrou em vigor por meio da Portaria nº 090/2014-
GS, foi colocada em prática a partir do ano de 2014. Contudo, desde o mês de abril do ano de
2017,o território das AISs foi reduzido e o seu número foi ampliado 109,a partir das novas
demarcações. E como “tudo na vida, teve os seus prós e contras. Os prós dessa nova divisão das
AISs foi que tivemos a nossa área de atuação reduzida, assim o nosso contingente de homens

108
Governador no Estado do Ceará por dois mandatos, no período de 2007 a 2014.
109
Com o intuito de atender as atuais demandas da segurança pública (atuação de facções criminosas), o número de
Áreas Integradas de Segurança subiu de 18 para 22, com uma mudança inicial no território da cidade de Fortaleza.As
novas delimitações geográficas entraram em vigor por meio de Portaria Normativa (nº 436/2017-GS/SSPDS),
publicada no dia 17de abril no Diário Oficial do Estado (DOE).

150
aumentou. Porém, perdemos território. Hoje se briga por território. Perdemos uma base; ela foi
desativada”. (Policial 2, POG, 20 anos de profissão, Fortaleza/CE).

Como podemos observar no mapa abaixo, passaram a existir 10 (dez) AISs na capital
cearense – quatro a mais do que à época da implantação. As mudanças consideram a necessidade
de aperfeiçoar os trabalhos da segurança pública, por meio da integração das vinculadas da SSPDS:
Polícias Civil e Militar do Estado do Ceará (PCCE) e (PMCE), Corpo de Bombeiros Militar do
Estado do Ceará (CBMCE) e Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce); ponderando também a
importância da atualização da compatibilização e integração territorial das regiões, áreas e distritos
integrados de segurança pública, através das AISs.

A demarcação das AISs (ver Figura 5) busca otimizar os trabalhos policiais e em prol do
controle e combate mais direcionados dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), que
englobam homicídio doloso, latrocínio e lesão corporal seguida de morte; os casos de Crimes
Violentos Contra o Patrimônio (CVPs), que são os roubos; e os Furtos. Cada área possui uma sede
e comandantes da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros e um delegado responsável, além do
efetivo atuante em cada bairro, no caso da cidade de Fortaleza.

Pode-se visualizar no mapa abaixo (Figura 5) que os bairros de Fortaleza estão


subdivididos em 10 áreas integradas de segurança.

Figura 5 – Mapa das Áreas Integradas de Segurança da cidade de Fortaleza, 2017.

Fonte: SSPDS/CE (2017).

151
Diante desse contexto e a partir da análise das demandas policiais, foi verificado que o
maior número de ocorrências policiais registradas na Coordenadoria Integrada de Operações de
Segurança (CIOPS), no período de 2009 a 2017 (ver Tabela 5 e Gráfico 9), refere-se a conflitos
sociais. As estatísticas mostram que, em média, mais de 70% dos casos que geram as ocorrências
policiais se caracterizam por serem conflitos de natureza social (desordem, briga de família,
embriaguez e desordem), surgidos entre pessoas que possuem vínculos afetivos e relações
continuadas que, por não conseguirem dialogar para bem administrar as controvérsias vividas,
transformam discussões em agressões ou até em crimes de maior potencial ofensivo, como o
homicídio.

Tabela 5 – Comparativo de ocorrências de CVLI, lesão corporal dolosa, ameaça, calúnia,


difamação e injúria na cidade de Fortaleza, de jan/2009 a nov/2017, conforme registros do
CIOPS/SIP/AAESC/SSPDS.

Fonte: CIOPS/SIP/AAESC/SSPDS.

Gráfico 9 - Comparativo de ocorrências de CVLI, lesão corporal dolosa, ameaça, calúnia,


difamação e injúria na cidade de Fortaleza, de jan/2009 a nov/2017, conforme registros do
CIOPS/SIP/AAESC/SSPDS.

Fonte: CIOPS/SIP/AAESC/SSPDS.

152
O Gráfico 9 apresenta que, nos últimos dois anos (2016 e 2017), os índices de violência
resultantes de conflitos sociais110 ─ ameaça, lesão corporal dolosa e crimes violentos letais e
intencionais – ascenderam nas estatísticas em relação aos casos envolvendo crimes contra a honra,
análise a ser considerada no planejamento de ações de prevenção à criminalidade e violência.

Corroborando esta análise inicial, a pesquisa “Cartografia da Criminalidade e da


Violência na cidade de Fortaleza”111, realizada ano de 2010, teve como um de seus objetivos
principais, por meio da criação de um mapa cartográfico da criminalidade e da violência em
Fortaleza, subsidiar ações dos governos municipal, estadual e federal, bem como da sociedade
civil local, voltadas ao enfrentamento da violência e da criminalidade no município de Fortaleza.
A referida pesquisa selecionou, para aprofundamento da análise, cinco (5) ocorrências112
(relações conflituosas, roubo, furto, lesão corporal e mortes violentas, nestas, destacando os
homicídios) que se apresentaram mais recorrentes nas estatísticas do Sistema de Informações
Policiais da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE).

De acordo com os resultados da pesquisa, pode ser observado (ver Tabela 6) que os
conflitos passíveis de mediação ─ relações conflituosas ─ somaram 76.033 (setenta e seis mil e
trinta e três) ocorrências de 326.869 (trezentos e vinte e seis mil, oitocentos e sessenta e nove), no
período de janeiro de 2007 a 2009, representando 23% do total. Destaca-se que a “Regional 5” é a
que apresentou o maior número absoluto de casos (15.390) de relações conflituosas, dentre todas
as Regionais, como também possui o maior índice percentual relativo à Cidade neste tipo de
ocorrência. A área da “Regional 5” abrange a área do Grande Bom Jardim (bairros: Granja
Portugal, Granja Lisboa, Canindezinho, Bom Jardim e Siqueira), região estigmatizada pelos altos
índices de homicídios e violência, que, em 2009, foi oficializada pelo Programa Nacional de
Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI) como o 11º Território da Paz. Desde então são
enfatizadas ações preventivas contra a violência na referida Regional.

110
Ver também Anexo C.
111
Pesquisa Cartografia da Criminalidade e da Violên cia na Cidade de Fortaleza (Contrato de Serviço Nº 01/2009,
realizado entre a FUNECE - Fundação Uni versidade Estadual do Ceará - com interveniência do Instituto de Estudos,
Pesquisas e Projetos-IEPRO e a Guarda Municipal e Defesa Civil de Fortaleza – GMF, com recursos da Secretaria
Nacional de Segurança Pública - SENASP do Ministério da Justiça-MJ), realizada por pesquisadores do Laboratório
de Direitos Humanos, Cidadania e Ética-LABVIDA e Laboratório de Estudosda Conflitualidade e Violência-COVIO,
ambos da Universidade Estadual do Ceará, e do Laboratório de Estudos da Violência-LEV da Universidade Federal
do Ceará, com apoio da Guarda Municipal e D efesa Civil de Fortaleza - GMF, contando com recursos da Secretaria
Nacional de Segurança Pública-SENASP do Ministério da Justiça - MJ e da Prefeitura Municipal de Fortaleza-PMF.
112
De acordo com a referida pesquisa, as categorias foram agregadas, classificadas e conceituadas em: mortes
violentas (homicídios, lesão corporal seguida de morte, infan ticídio, aborto provocado e/ou induzido, suicídio,
induzimento ao suicídio, morte no trânsito, outras mortes acidentais e outros crimes contra a vida); lesão corporal
(ofensa à integridade corporal ou à saúde de outrem) ; roubos (subtração do bem segurado mediante grave ameaça ou
violência à pessoa); furtos (difere do roubo por ser praticado sem emprego de violência contra a pessoa ou grave
ameaça); relações conflituosas (calúnia, difamação, injúria, ameaça, preconceito d e raça ou cor, rixa, etc.).

153
Tabela 6 – Número de ocorrências por categoria, segundo as Regionais – Fortaleza (2007-2009).

Fonte: SIP/SSPDS-CE apud Fortaleza (2010).

Pode ser observado também (ver Tabela 6) que os índices de crimes contra o patrimônio
(roubo e furto) são bastante elevados dentre as cinco ocorrências. Porém, devemos observar o item
relações conflituosas113, cujos registros também são crescentes, demonstrando a existência de
conflitos sociais na Cidade motivados por divergências interpessoais, que necessitam, por parte do
poder público, de um olhar cauteloso, já que esse tipo de conflito pode evoluir para delitos de
maior gravidade, como lesão corporal e até mortes. Estas poderiam ser contornadas com medidas
de prevenção, como a mediação de conflitos. (FORTALEZA, 2010).

Neste cenário, um dado tem se tornado consistente a o longo do tempo nos relatórios de
pesquisas nacionais e internacionais de homicídios sobre a probabilidade muito pequena de alguém
ser morto por um desconhecido. No Brasil, dos 46 mil homicídios praticados em 2009, cerca de

113
Podemos dizer que, em geral, o que há de transversal nesses crimes é que, além de ocorrerem entre pessoas
próximas, são caracterizados por uma evidente ofensa moral. Nesse sentido, podemos afirmar que a natureza da
maioria desses delitos diz respeito às conflitualidades e violências interpessoais. Os referidos casos, na medida em
que o conflito foi colocado no plano do não dito, sua resolução deu-se por meio do uso da força física ou violência
moral. Vale enfatizar que esta violência moral também pode ser designada de violência simbólica, geralmente anterior
ao uso da violência física. A noção de conflito interpessoal e de insulto moral também é útil para abrigar a dimensão
associada aos sentimentos e emoções que remetem à condição identitária do indivíduo.

154
90% das vítimas mantinham algum tipo de relacionamento com o assassino (profissional, familiar,
de amizade, vizinhança ou amoroso). E, ainda, 90% dessas mortes são praticadas por assassinos
primários. A ONU tem classificado essa violência letal de interpessoal, resultante, portanto, de
conflitos interpessoais. (FORTALEZA, 2010, p. 25).

Seguindo a perspectiva de Luis Roberto Cardoso de Oliveira (2008), a categoria conflitos


interpessoais encontra forte correlação com o insulto moral, que é elemento fundamental da
violência interpessoal, visto que o componente moral das disputas, muitas vezes, corresponde à
percepção do insulto sentida pelo interlocutor. Tais categorias – conflitos interpessoais e insultos
morais – protagonizam a questão da afirmação de direitos e das demandas por reconhecimento no
cenário jurídico brasileiro. Remontam agressões a direitos que não podem ser adequadamente
traduzidos em evidências materiais e implicam uma desvalorização ou negação da identidade do
outro. Trata-se de conflitos de caráter habitual, desenvolvidos no cotidiano das sociabilidades e
provenientes de algum tipo de interação pretérita entre as partes. São, geralmente, discordâncias
que se delongam no tempo, gerando um histórico de adensamento da divergência. Compartilham
de modos de expressão variados na esfera pública e/ou íntima das partes, podendo atingir terceiros
não envolvidos na disputa. A notoriedade dessa categoria está ligada, fundamentalmente, a dois
aspectos: são conflitos recorrentemente carentes de reconhecimento (CARDOSO DE OLIVEIRA,
2002) na realidade jurídica114 e cultural do Brasil e, em contraste, têm desencadeado práticas
graves de violência, muitas vezes também invisibilizadas.

Diante desse cenário há que se pontuar o surgimento de novas práticas, configurando-se


nesta relação entre o instituído e o instituinte, o que significa situar a análise entre velhas e novas
práticas que imprime as formas de se fazer segurança na cidade de Fortaleza e os conflitos
imanentes que se instituem no campo tenso da segurança pública, evocando, desta forma, sua
trajetória de avanços e recuos, desafios e problemas.

O que parece novo no atual estágio das ações relativas à segurança pública local é a
coexistência de modelos e a inserção de uma concepção de polícia mais tolerante e próxima da
população115.

114
É interessante observarmos como a própria nomenclatura adotada no Brasil para tipificar penalmente desfechos
violentos de determinados conflitos interpessoais, chamando-os de crimes de menor potencial ofensivo, pressupõe
uma escala de hierarquia de gravidade das ofensas, em que as interpessoais são caracterizadas como menos danosas.
Em geral, os conflitos interpessoais tendem a ser minorizados e banalizados pelos profissionais da segurança pública,
tanto por seu componente de insulto moral, quanto por sua ocorrência rotineira. Espera-se que se resolvam com a
mesma espontaneidade com que surgiram.
115
Nesse sentido, ressaltam-se ações voltadas à formação policial para o efetivo que passou a compor as Unidades
Integradas de Segurança (Unisegs). O incremento na realização de cursos voltados para a capacitação em mediação
comunitária e justiça restaurativa para agentes da segurança pública aponta para um horizante de novas prátivas e

155
6.2.2.1 Algumas Percepções - Fortaleza116

Igual fizemos com relação às falas de policiais espanhóis, iremos tecer algumas
considerações sobre nossas percepções às falas de membros da Polícia Militar da cidade de
Fortaleza, a seguir:

QUESITO 1: Existe relação entre segurança pública e administração de conflitos? Por quê?

POLICIAL 02: Os conflitos quando não administrados da forma devida podem evoluir a
uma situação que afete diretamente na segurança pública podendo resultar em lesões
corporais e, até homicídios.

POLICIAL 07: Somos policiais comunitários e muitas vezes temos que intervir em certas
ocorrências para não prejudicar ambas as partes da ocorrência.

POLICIAL 10: Porque se um conflito se agrava a probabilidade de haver um crime é


grande, daí a relação entre segurança pública e conflitos sociais.

POLICIAL 20: O ato de fazer segurança pública é também administrar e mediar


conflitos.

POLICIAL 22: Porque os profissionais de segurança estão fortemente ligados ao


atendimento de conflitos sociais através das ocorrências policiais.

POLICIAL 31: Sim. Porque a PM trabalha em conjunto com a sociedade. É um ajudando


o outro no dia a dia da vida.

A administração de conflitos, para um participante da atividade policial, primariamente, é


evitar que o conflito, indeterminada sua origem, descambe para um crime, como “lesões corporais
e, até homicídios”. Assim, para os policias questionados, segurança pública e mediação de
conflitos estão interligados, com a atividade de mediação contida dentro do trabalho de segurança
pública.

Nesse diapasão, o policial se considera um importante ator social, instrumento capaz de


tentar evitar que um conflito se agrave. Mesmo considerando que a “PM trabalha em conjunto
com a sociedade”, ambas se ajudando, o policial também enxerga que, caso não atue, não se
chegaria a um consenso e isso poderia “prejudicar ambas as partes da ocorrência”

Essa lógica que liga a administração de conflitos e a tentativa de se evitar o cometimento


de um ilícito penal é apenas uma situação em que a polícia pode agir consensualizando a solução
de um litígio. Provavelmente os policias militares a vejam como primeira, tanto que foram

possibilidades na atuação policial. Foram realizados cursos nessas temáticas com uma carga-horária de 60 horas (40h
teoria e 20h estágio supervisionado).
116
Para ter acesso na íntegra a todas as respostas dos policiais militares abordados durante a pesquisa, dirija-se aos
anexos desse trabalho.

156
recorrentes em apontá-la na pesquisa, pelo fato de seu oficio e formação estarem ligados a isso,
que deve ser trabalhado em formação para uma atuação cidadã moderna, de atendimento a maior
gama de ocorrências solicitadas. É uma forma de a “PM trabalha[r] em conjunto com a
sociedade”, pois esta, na complexidade atual, necessita de atenção maior do Estado.

POLICIAL 23: O agente de segurança pública deve manter a ordem e visa o bem comum.

POLICIAL 26: Segurança Pública tem como função manter a ordem social; o conflito
social quebra essa ordem ou quebrará, caso saia do controle dos envolvidos.

POLICIAL 55: Sim. O poder público atua em consonância com a sociedade, quanto mais
o poder público se aproxima da comunidade mais integração.

Visualiza-se, a partir das respostas acima, a presença de um pensamento tradicional entre


algumas camadas de agente da polícia. Por tradicional tem-se aquele policial que considera a
relação unicamente entre segurança pública e ordem, que a função da segurança pública é “manter
a ordem social”, pois se esta não for mantida pode acontecer de que o conflito “saia do controle
dos envolvidos”. Este pensamento precisa ser atualizado em face às conquistas dos direitos
humanos e ao Estado atento à dignidade da pessoa humana como seu fundamento, insculpido na
Constituição Federal de 1988.

Esse modelo de visão policial em que sua atividade teria a função de garantir ordem social
lembra o modelo do chamado modelo “de lei e ordem”117e da “tolerância zero” aos crimes. Esse
modo de ver a atividade policial é um ranço de autoritarismo de décadas passadas e permanece até
hoje por influência de classes mais favorecidas da sociedade atribuírem a necessidade de segurança
à ação ampla do Estado por parte de seus órgãos policiais.

Uma forma de evolução deste pensamento para o modelo de policia cidadã é através de
uma maior abrangência da atividade policial para abarcar a mediação de conflitos privados, com
policiais mediadores treinados para tanto. Assim a ordem pública estaria em consonância com os
anseios das pessoas que fazem parte da comunidade e não do modo definido pelo Estado como de
seu interesse.

O agente, de cultura mais tradicional, que receberia essa “nova formação” ou “atualização”
poderia não fazê-la de bom grado, acreditando não ser função do policial armado mediar um
conflito privado, doméstico. A isso é necessário a construção de uma nova mentalidade aliada à
cultura policial, buscando, entre outras coisas, a troca de experiências e a publicação de resultados,

117
Para maiores detalhes sobre o movimento lei e ordem ver PENTEADO FILHO, Nestor Sampaio. Manual
Esquemático de Criminologia. São Paulo: Editora Saraiva, 2012.

157
mostrando possíveis correlações entre a composição da controvérsia privada e redução dos índices
de violência. A isso o agente policial moldado unicamente no combate ao ilícito penal não teria
como ser contrário, passando a aceitar a policia com função também mediadora.

QUESITO 4: É possível, na atuação policial, utilizar as técnicas da mediação de conflitos?


Por quê?

POLICIAL 03: Muitas ocorrências podem ser resolvidas com uma boa conversa.

POLICIAL 05: Muitas vezes podemos resolver a ocorrência no local.

POLICIAL 07: Somos todos mediadores. O primeiro a intervir na ocorrência é o policial.


Antes de ir para a delegacia. A parte mais importante é a nossa que chegamos primeiro.

POLICIAL 06: Porque muitas ocorrências são de pequeno potencial, onde se consegue
através do diálogo, a conciliação das partes envolvidas.

POLICIAL 21: Porque somos sociáveis, e temos condições de propormos soluções que
levam a paz social.

POLICIAL 26: Policiais já fazem mediação de conflitos desde o primeiro dia de trabalho.
Precisa-se de melhor formação, na verdade.

Ao se expressar da seguinte forma “somos todos mediadores” tem-se uma noção de como
este policial vê a sua atuação diária (e por quê não dizer da maioria?!). A atividade policial seria
realizar abordagens adequadas ante as conflitualidades sócias cotidianas.

Cabe aqui explicitar que há um erro, ou ao menos um equívoco, terminológico ao afirma


que todos os policiais seriam mediadores. Mediador, em sentido estrito, usaria técnicas próprias
para compor o conflito, capacitado para tanto (Lei 13.140/2015). A expressão “mediador” aplicada
nesse contexto é a daquele que tem interesse em solucionar o litígio, ainda que desconheça as
técnicas próprias ou tome atitudes mais próximas a de um conciliador (POLICIAL 21) ao propor
soluções.

Possivelmente por desconhecer técnicas próprias da mediação, os policiais questionados


retornem à expressões como “boa conversa”, “diálogo” ou “somos sociáveis”. A capacidade de
dialogar e gerar empatia são vitais para ganhar a confiança das partes em conflito, não se podendo
olvidar, todavia, que para atingir fins compositivos não se pode contar unicamente com a
capacidade de empatia de um agente do Estado. Este deve ter consciência que as partes podem dar
aparência de concordância sem estar satisfeitas com o “diálogo”. Por isso a necessidade de
formação e trocas de experiências entre os policiais.

158
O que ocorre é a necessidade de qualificação do agente mediador para realizar efetivamente
uma mediação, com conhecimento para isso. Aliar o interesse público a uma capacitação
continuada pode auxiliar na sensibilização e início da construção de uma nova mentalidade
coletiva. Nesse sentido, em médio prazo é provável que haja um decréscimo razoável no número
de situações de rua que entrariam para estatísticas de criminalidade, tendo em vista a abordagem
adequada do conflito ainda no seu nascedouro, evitando-se a sua escalada.

POLICIAL 43: Não. Falta educação e respeito das pessoas desde país com a figura do
policial militar pela inércia do Estado, pelo descaso do judiciário e corrupção do
legislativo.

Nessa fala, a única destoante e negativa contra a mediação a ser realizada por um policial
questionado, vê-se que a critica e pessimismo não é contra o instituto da mediação em si, mas
contra a possibilidade de esta vir a ser bem concretizada por um agente policial, não em face de
formação duvidosa ou incompleta, mas sim em razão de não sentir valorização por parte das
pessoas da comunidade por ele atendidas com relação à figura da polícia. Tanto que o mesmo
policial ao ser questionado sobre a relevância da disciplina de mediação sobre sua formação
mostrou-se favorável, afirmando que esta “mostrou o quanto é importante o diálogo”.

A sensação de descrédito muitas vezes é dupla: o policial não vê seu trabalho produzindo
resultado e a população não confia na polícia como instituição a lhe servir eficientemente.

No primeiro caso, o policial se enxerga na impotência ante limitações de ordem jurídica,


como que leis protetivas e garantísticas ao infrator e perseguidoras de qualquer desvio de conduta
funcional do agente público; limitações institucionais, com falta de recursos para boas atuações e
realização de trabalho produtivo; limitações sociais, com a policia não sendo bem vista por parcela
da população por ela assistida.

No segundo caso, de a população não confiar na polícia, tem-se a imagem de policia


repressora, braço armado do estado, o “pitbull pra morder o povo”.

Ambas as visões se baseiam em estereótipos, com maior ou menor grau de apelo real.
Entretanto, retroalimentam-se, pois o profissional de segurança que as possui não poderá, enquanto
conservar tal visão, ser eficiente no desempenho profissional e, as parcelas da população que a
possuem, não valorizam o trabalho realizado por esse profissional, ainda que prestado da maneira
mais técnica possível.

159
Conforme nos disse o entrevistado, o Estado seria inerte, no judiciário haveria descaso e,
no legislativo, corrupção. Assim, o Estado como um todo não seria apto ao gerenciamento do
conflito, pois até mesmo os poderes públicos não conseguem gerar confiança.

A solução, indiretamente dada pelo entrevistado, é a de maior respeito pela figura da polícia
militar, já que a falta de respeito é apontada como causa pela resposta em negativo. Isso se choca
com a idéia de que o Estado seria responsável pela ameaça de sanção para obtenção de acordo,
pois se não há respeito e até falta de educação em face de um poder não se pode cogitar de que
este poder seja capaz de efetivamente coagir alguém com fim de obter uma obrigação.

É salutar ressaltar que esse foi a única posição nesse sentido ante todos os entrevistados,
fazendo-nos acreditar que, de tão minoritária, não representa o modo de ver da maioria dos
membros das polícias, abertos a usar a mediação para compor conflitos privados no cotidiano
policial.

POLICIAL 35: Sim. Não apenas é possível, é extremamente necessário. Em ocorrências


mais corriqueiras como briga em família e em situações mais delicadas como
ocorrências com refém.

POLICIAL 59: Sim. Porque em muitas situações do dia a dia, os conflitos apresentados
não são necessariamente questões de criminalidade como, por exemplo, discussão entre
vizinhos onde o agente policial se faz presente apenas para apaziguar os ânimos.118

Nesse ponto, em que não há apenas combate à “criminalidade” a mediação pode ser
inserida. Inicialmente, a visão de função de policia está relacionada à repressão aos tipos penais
criados pelo Estado ou ostensivamente, para coibi-los. Há uma lacuna entre conflitos que podem
gerar repercussões penais e conflitos privados que geram animosidades, mas historicamente não
entram para estatísticas policiais. Essa lacuna, anteriormente não abrangida pela atividade policial
pode receber atenção por parte do setor de segurança estatal.

Quando o policial pretende entrar em uma corporação de policia sua visão do trabalho a
desempenhar costuma ser, salvo raras exceções, a de combater ilícitos. Ao sair para a jornada de
trabalho, verifica que ilícitos são apenas uma parcela dos casos para os quais a população pode vir
a buscar a sua ajuda profissional.

“Conflitos familiares, embriaguez e brigas entre desconhecidos” transgridem o


comportamento social desejado pelo Estado como instituição soberana sobre um povo. Nesses

118
O POLICIAL 59 quando indagado deu a seguinte resposta para o questionamento “que tipos de conflitos você
atende com maior frequência quando é acionado para as ocorrências policiais?”: “conflitos familiares, embriaguez e
brigas entre desconhecidos”.

160
casos, em tese, a polícia deveria atuar com fito de evitar o cometimento iminente do ilícito,
prevenindo-o, ou sancionando o ilícito já cometido. Acontece que o Estado não precisa esperar
que um conflito familiar se torne lesão corporal doméstica, passível de proteção pela Lei Maria da
Penha (Lei n° 11.340/2006) para poder agir, pois pode fazer-se presente no “apaziguar os ânimos”.
Muitas formas para se tentar isso são possíveis, entre elas a mediação feita por um policial
mediador.

6.3 (Des)encontros?

Nesta seção será apresentado um cenário comparado das cidades de Vila-real e Fortaleza,
que teve como cerne verificar os limites e as potencialidades dos (des)encontros, tensões e
parcerias entre polícia e comunidade e sua associação com esse “novo” modelo de gestão da
conflitualidade social contemporânea.

Nesse sentido, em busca de conhecer e compreender a percepção das pessoas sobre a


polícia e a mediação, foram aplicados questionários com agentes de polícia e com membros de
associações de bairro localizadas em pontos distintos de cada cidade. Além disso, serão
apresentados a análise de questionamentos objetivos direcionados aos sujeitos da pesquisa, levou-
nos a constatações que aqui trazemos. Muitas vezes a divergência percentual encontrada entre
Vila-real e Fortaleza foi marcante, levando a propor reflexões a tamanha divergência.
Apresentaremos alguns dados em gráficos seguidos dos nossos respectivos comentários.

Gráfico D1: Você conduz/já conduziu um processo de mediação de conflitos?


100
80 42,1
Porcentagem

60 84,7
SIM
40
57,9 NÃO
20
15,3
0
Fortaleza Cidade Vila-real
Fonte: Estatística questionários/Polícia Local (Vila-real) e Polícia Militar (Fortaleza).

Gráfico D2: O seu curso de formação apresentou a disciplina de mediação de conflitos?


100
80 26,7
Porcentagem

55,0
60
SIM
40 73,3
20 45,0 NÃO
0
Fortaleza Cidade Vila-real
Fonte: Estatística questionários/Polícia Local (Vila-real) e Polícia Militar (Fortaleza).

161
Se considerarmos todo o processo que foi desenvolvido pela Policía Local de Vila-real
junto à mediação policial, à primeira vista, ao observarmos os gráficos F1 e F2 podemos indagar
que o levantamento dos quantitativos das respostas dos policiais foram trocados, pois 57,9% dos
policiais locais de Vila-real responderam que não conduzem e nem conduziram uma mediação e
que 73,3% não tiveram a disciplina de mediação de conflitos no seu curso de formação; enquanto
que 55% policiais militares de Fortaleza responderam que tiveram na sua formação a disciplina de
mediação, contudo 84,7% informaram que já atuaram na condução de um processo de mediação.

Warat119 (2001, p. 41) questiona “como se forma um mediador?”120. Ensinar mediação


transcende reunir seus aportes teóricos e técnicos em um programa docente. A mediação é muito
mais do que um método de resolução de conflitos. Seu aprendizado implica mudanças
paradigmáticas que dizem respeito à convivência pautada na empatia como principio ético
fundamental. É um aprendizado para a vida, para o estar no mundo, não exclusivamente para
desempenhar uma função.

Ninguém é mediador apenas com teoria, e muito menos da noite para o dia, em salto,
como se bastasse uma decisão, um único ato ou um diploma. O mediador é percepção, é sensação,
fruto de um processo contínuo de aprimoramento, mas, principalmente, o mediador é resultado de
sua própria experiência humana. E mais, a capacitação daqueles que lidam com gestão de conflitos
não pode se ater, única e exclusivamente, à educação formal, mas deve ser complementada pela
prática, pela troca de experiências e relatos de casos, pela observação dos fenômenos sociais. Sales
(2004, p.89) salienta que "aqueles que querem ser mediadores não podem parar no tempo, com
certezas absolutas, com conhecimentos fechados."

De forma complementar, Six (2001) orienta que são necessários perceber três
componentes para a formação do mediador: a matéria-prima (homem), a teoria e a prática.
Nesse sentido, um dos policiais entrevistados comenta que “[os policiais] têm que saber
mediar um conflito, se tem dois caras brigando ali, aí tem que chegar e conversar primeiro, e não
chegar batendo.” (Policial Militar, 3 anos de profissão, Fortaleza). Na compreensão dos policiais

119
Luis Alberto Warat é um teórico do tema que chama a atenção para aspectos humanitários da mediação e da atuação
do mediador. Para aprofundar, ver Warat (2001).
120
“A formação de mediadores é um assunto bastante relevante – e, infelizmente, preocupante – na prática dessa
atividade no Brasil. Muitas pessoas a inda acham que sabem mediar, quando na realidade estão conciliando e
aconselhando; outras imaginam que fazendo um cursinho de final de semana ou de poucas horas poderão se tornar
mediado res, sendo que isto está longe da realidade. No dia 29 de junho de 2011 a problemática da formação dos
mediadores – e suas implicações na área profissional e pessoal – foi abordado no Grupo de Estudos sobre Mediação
do Instituto dos AdvogadosdoRioGrandedoSul(IARGS).”Disponível em:
<http://www.mediarconflitos.com/2011/07/capacitar-mediadores-formar-informar ou.html#more>. Acesso em 2 jul.
2017.

162
militares, a prática da mediação de conflitos está diretamente associada à realização de uma
simples conversa em que “um bom conselho ou sugestão” orientaria para uma mudança de atitude
das partes conflitantes. Six (2001, p. 262) indica que “são muitos os sinais que mostram, no lugar
de uma verdadeira formação, múltiplas deformações à mediação”121.

A distorção conceitual entre mediação e conciliação integra a listagem dos temores, uma
vez que já se evidencia a pouca, ou nenhuma, discriminação com o instituto da conciliação em
alguns cursos de formação para policiais militares de Fortaleza, que as tomam como sinônimos.
Tal confusão prejudica a oferta dos dois instrumentos em separado e, por consequência, os
benefícios da mediação. Na análise em questão não é o que observamos na atuação dos policiais
locais de Vila-real.

Poncioni (2007, p. 26) observa que, no Brasil, os cursos realizados nos núcleos de
formação de policiais (academias) vêm mantendo padrões, com poucas alterações, sem que sejam
feitas análises sobre os erros e os acertos. Às academias de polícia faltam ferramentas necessárias,
recursos humanos e materiais, “para um a reflexão mais aprofundada sobre a questão da formação
do policial, a fim de incrementar um padrão de excelência no exercício cotidiano do trabalho dos
membros desse grupo profissional específico.” (IBIDEM).

Soares (2006, p. 117) aduz que as instituições policiais deveriam aprender com seus erros
para poder realizar uma preparação adequada dos policiais. Para o autor, a formação policial ainda
está longe do ideal em razão da ausência de planejamento e de avaliação pelas instituições, que
não aprendem com os erros porque simplesmente não os identificam; ou não os reconhecem como
erros.

Embora sejam observadas diversas “mudanças teóricas na formação policial, para


Poncioni (2005, p. 19), velhas práticas continuam sendo mantidas e as formações são realizadas
na busca de dar respostas imediatas contra o crime, “baseadas em um determinado modelo
profissional de polícia que reforça a identidade policial com uma cultura de controle do crime
associada a convicções, valores e práticas que repousam no combate”. Os cursos de formação

têm renovado os “velhos” princípios básicos do “fazer” policial, em contraste a um novo


profissionalismo difundido em grande parte do mundo ocidental, em que o serviço

121
Os reflexos de uma formação policial superficial podem ser observados nas abordagens policiais cotidianas. A
exemplo disso foi me relatado durante uma conversa informal com um promotor de justiça (Ministério Público do
Ceará - MPCE) que, recentemente, ele teria participado de uma audiência em que as partes envolvidas eram dois
policiais militares e um cidadão que foi abordado mediante violência. Contudo, o que chamou mais a atenção foi o
fato de esse cidadão ter sido instrutor da disciplina “Relações Interpessoais”, na qual os policiais envolvidos
participaram como alunos no curso de formação de policiais.

163
público, o alto nível de educação policial e a busca de uma relação mais estreita entre a
polícia e a comunidade são dimensões consideradas fundamentais para a construção de
uma nova identidade profissional do policial afinada com as exigências do mundo
contemporâneo. (IBIDEM)

A proposta do novo pode resultar “no mais do mesmo”, do qual nos fala Rolim (2006). A
análise em tela traz à tona outras inquietações referentes ao planejamento, organização e avaliação
metodológica dos cursos de formação dos profissionais da área de segurança pública, tendo como
foco a garantia do aperfeiçoamento do processo ensino-aprendizagem, à contextualização e
aplicação situacional dos conteúdos apresentados. Contudo, fica evidente a fragilidade da parceria
estabelecida entre os núcleos de formação da Polícia Militar e a Universidade como pode ser
constatada em pesquisas122 anteriores que nos subsidiaram nas discussões e reflexões do presente
trabalho.

Outro ponto que observamos na fala de alguns policiais militares entrevistados foi quanto
à habilidade do docente no domínio do conteúdo da disciplina:

Acho que essa disciplina (“Mediação de conflitos”) estava conjugada com outra, não
lembro bem, mas existiu. Não foi algo aprofundado, teve no máximo vinte horas, a
apostila nem me lembro como era, até mesmo não dava tempo ler toda, não por ser grande,
mas devido o curso ter sido intenso. O professor também não tinha tanta habilidade com
a questão, não me lembro bem de detalhes. (grifo nosso) (Policial Militar, 3 anos de
profissão, Fortaleza).

O relato do policial acima se deu em razão do direcionamento dado à disciplina pelo


docente. Uma disciplina como a de “Mediação de conflitos” acabou sendo ministrada sem passar
a real importância para o exercício cotidiano da atividade policial, como se pode verificar no
seguinte depoimento: “Nunca imaginei que fosse uma das disciplinas que eu iria utilizar com tanta
frequência no dia a dia.” (Policial Militar, 3 anos de profissão, Fortaleza).

Corroborando nesse aspecto, podemos observar abaixo que o gráfico F3 revela que em
média 60% do total dos policiais participantes deste estudo percebem que a disciplina de mediação
de conflitos foi relevante para a sua formação e atuação como policial.

122
Pesquisa “Os limites e potencialidades da nova formação policial nas parcerias das Academias de Polícia com a
Universidade no Ceará”, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
(2008-2011) e pesquisa “Os impactos da nova formação policial no programa ‘Ronda do Quarteirão’: uma experiência
inovadora de policiamento comunitário?” (2008-2010), com financiamento da Fundação Cearense de Apoio ao
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP).

164
Gráfico D3: A disciplina mediação de conflitos foi relevante para a sua formação e atuação
como policial?
100

Porcentagem 80
62,7 60,0
60
SIM
40
NÃO
20 37,3 40,0
0
Fortaleza Cidade Vila-real
Fonte: Estatística questionários/Polícia Local (Vila-real) e Polícia Militar (Fortaleza).

Nessa perspectiva, diante da preocupação com uma formação policial alinhada com as
mudanças sociais, a proposta de inserir a temática da mediação de conflitos surge como uma
possibilidade para o policial trabalhar de forma mais efetiva em contextos de enfrentamento
cotidiano de sua atividade.

A proposta educativa para as ações formativas dos profissionais da área de segurança


pública exige um delineamento pedagógico diferenciado, apoiado nas interações enriquecedoras,
a partir da interdisciplinaridade123 e da transversalidade entre os diferentes componentes
curriculares. A consideração das relações existentes entre os diversos campos de conhecimento
contribuirá para uma visão mais ampla da realidade e para a busca de soluções significativas para
os problemas enfrentados no âmbito profissional.

As três experiências aqui abordadas (Vila-real e Fortaleza) remetem à proposta de um


novo modelo de fazer polícia, aliado a uma formação cidadã dos seus operadores, com vistas à
superação da tríade treinamento-adestramento-educação.

123
A interdisciplinaridade questiona a segmentação dos diferentes campos do conhecimento, possibilitando uma
relação epistemológica entre as disciplinas, ou seja, uma interrelação existente entre os diversos campos do
conhecimento frente ao mesmo objeto de estudo (...). Romper com a fragmentação do conhecimento não significa
excluir sua unidade (...), mas sim articulá-la de forma diferenciada, possibilitando que o diálogo entre os
conhecimentos possa favorecer a contextualização dos conteúdos frente às exigências de uma sociedade democrática,
levantando questões, abrindo pista, intervindo construtivamente na realidade, favorecendo o pensar antes, durante e
depois da ação e, consequentemente, na construção da autonomia intelectual. (CORDEIRO & SILVA, 2003, p. 18).

165
Gráfico D4 – Percepção dos policiais e membros de associação de bairro sobre os conflitos
mais comuns no seu dia a dia.

Fonte: Estatística questionários/Policias e membros de associações de bairro de Vila-real e Fortaleza.

Os agentes policiais das cidades de Vila-real e Fortaleza apresentam um olhar em comum


e sobressaltado para os conflitos que envolvem vizinhos e familiares – são o seu cotidiano. Em
contrapartida, os membros das associações de bairro apontam para alguns pontos que convergem
com os dos policias, muito embora o sentimento de insegurança revele uma cartografia marcada
pela criminalidade e violência.

Nessa perspectiva, podemos observar os espaços urbanos são o campo de (dis)sociação


entre os sujeitos – polícia e comunidade – que a partir de seu prisma percebem as conflitualidades
sociais de forma diversa a partir de suas vivências e sensibilidades, como podemos verificar nos
gráficos acima.

Gráfico D5 - Se você tivesse um conflito com o seu vizinho, você solicitaria que a polícia
realizasse a mediação do seu conflito?
100
21,1
80
Porcentagem

60
100,0 SIM
40 78,9
NÃO
20

0
Fortaleza Vila-real
Cidade

Fonte: Estatística questionários/Polícia Local (Vila-real) e Polícia Militar (Fortaleza).

166
Gráfico D6 - Acredita que para as pessoas de sua cidade, a polícia os transmite confiança?
100
26,3
80
Porcentagem
60 78,6
SIM
40
73,7 NÃO
20
21,4
0
Fortaleza Cidade Vila-real

Fonte: Estatística questionários/Polícia Local (Vila-real) e Polícia Militar (Fortaleza).

Podemos observar nos gráficos D1 e D2 que a população de Vila-real, em sua totalidade,


espera que a Polícia Local possa auxiliar na administração dos seus conflitos, mediando-os. Esse
número é significativo, 100% em uma pesquisa, não obtendo nenhuma resposta em contrário, pois
mostra o quão consolidado está, para a comunidade, a importância da mediação policial e,
possivelmente, que no ideário popular uma convivência mais justa e equilibrada possa ser
alcançada com a intervenção dessa forma de mediação.

Imbricado à percepção acima está o sentimento de que a Polícia transmite confiança, já


que em Vila-real aproximadamente 8 entre cada 10 habitantes acreditam que a Polícia Local
transmite confiança para as pessoas da cidade. Se a população vê a instituição policial com
confiança, a ela entrega seus problemas, entendendo ser o agente policial um aliado, alguém apto
a ajudá-lo como membro da comunidade. Afinal, não se entrega um problema a quem não se
confia, ainda mais se observarmos que a mediação para que ocorra necessita da aceitação dos
envolvidos e que tenha determinada figura a ocupar o posto de mediador, no caso o policial.

A presença da polícia na comunidade aliada a uma práxis baseada na segurança cidadão


podem auxiliar na construção de uma imagem de confiança, de que a atuação policial não é
marcada pela violência dos seus membros e sim pelo diálogo.

Já em Fortaleza, a esmagadora maioria dos membros da comunidade não solicitaria à


polícia a realização de uma mediação para compor seus conflitos privados. A isso devemos
observar, conjuntamente, que a maioria dos habitantes das comunidades de Fortaleza não confia
na polícia como instituição, refletindo isso na imagem que se tem dos policias, os responsáveis a
conduzir mediação. Se não há confiança naquele que seria o potencial mediador muito menos
haverá busca a que se tenha uma mediação por ele realizada. Já que ao confiar na polícia também
há maior chance de se aceitar as decisões por ela tomadas (TYLER; WAKSLAK, 2004, p. 258),

167
ainda que sejam decisões tomadas unicamente para ajudar as partes a que encontrem por si mesmas
seu acordo.

A falta de confiança da população em Fortaleza para com a polícia, refletindo-se na não


busca daquela por mediação feita por esta, deriva, também, da imagem historicamente criada e
constantemente difundida de que a polícia está ali presente na comunidade para evitar ou reprimir
delitos, sendo que tudo aquilo que se insere fora do âmbito penal não deve ser matéria ligada à
polícia e por considerar que a polícia nem sempre cumpre este papel, de atenção ao ilícito, com
eficiência, muito menos cumpriria de bom grado o trabalho de ajudar partes em conflito a buscar
sua solução.

Devemos lembrar que a desconfiança da população para com instituições ligadas ao Estado
aumentou nos últimos anos no Brasil, sendo a desconfiança para com a polícia uma das facetas
dessa percepção total. O que chama atenção é o percentual alto encontrado no presente estudo
(73,7% de não confiança), pois a polícia é uma das instituições estatais mais presente no cotidiano
das pessoas.

Gráfico D7 - Você conhece algum serviço de Mediação Policial?


100

80 31,6
Porcentagem

60 85,7
40 SIM
68,4
20 NÃO
14,3
0
Fortaleza Vila-real
Cidade

Fonte: Estatística questionários/Polícia Local (Vila-real) e Polícia Militar (Fortaleza).

Em consonância com a resposta dada ao questionamento se “você solicitaria que a polícia


realizasse a mediação do seu conflito” devemos pesquisar se a comunidade conhece algum serviço
de mediação policial. Novamente aqui encontramos disparidades numéricas entre Vila-real e
Fortaleza.

O modo de a população em Vila-real confiar na polícia deriva de uma atuação mais voltada
para o aspecto de cidadania e isto inclui a difusão de sua atividade como mediadora124.

124
Divulgação de mediação policial no sítio eletrônico da Polícia Local de Vila-real, prática já exposta neste
trabalho.

168
Não podemos deixar de olvidar que o tamanho das populações de Vila-real também
contribui para que qualquer medida seja mais rapidamente difundida e seus resultados sejam
aceitos mais homogeneamente que se comparado à Fortaleza, com população várias vezes maior,
mais desigual e mais sujeita à delitos de ordem diferente, como policias com formação diferente
para combate desses delitos ou para formação de polícia cidadã.

Já em Fortaleza a maioria das pessoas não conhece nenhum serviço de mediação policial.
Possivelmente isso pode ser a soma de, entre outros, dois fatores principais: o desconhecimento
pela maioria da população do que seria tecnicamente mediação e a imagem de que a polícia existe
para reprimir, não como instrumento de cidadania.

Já se tentou em outros momentos, em Fortaleza, criar um ideário de polícia cidadã, de


bairro, para atender as pessoas em suas necessidades. Exemplo disso foi o chamado programa
“Ronda do Quarteirão”, implementado em 2007 com o fito de tornar a polícia da capital cearense
mais próximas às necessidades dos habitantes do bairros, com policias destacados para atuar em
áreas determinadas e à população sendo dada número de telefone para ligar especificamente para
aquele que atuasse em sua área determinada125.

Novas propostas, como a polícia da “boa vizinhança” e a mediação de conflitos, surgem


em consonância com as necessidades da sociedade da época, mas encontram sujeitos com visões
ainda resistentes, em processo de mudança paradigmática126.

Além da formação, outros obstáculos impõem limites e resistências aos PMs para aderir à
proposta da mediação. A ideologia profissional da Polícia Militar, a relação superior/subordinado
e a cultura coorporativa do policial militar tem se revelado estagnadas no tempo, fechadas às
mudanças.

Para Soares (2007), novas políticas de segurança pública encontram dificuldades diante do
apego à tradição e dos estreitos espaços para a inovação. O autor informa que há, nessa área, uma
resistência incomum à inovação, que, por si, é parte do problema a ser enfrentado.

125
Para maiores informações acesse < https://pt.wikipedia.org/wiki/Ronda_do_Quarteir%C3%A3o >. Acesso em 11
de dezembro de 2017.
126
Ver MUNIZ, J. et al. Resistências e Dificuldades de um Programa de Policiamento Comunitário. In: Tempo Social,
Rev. Sociol. USP, vol. 9, n. 1, São Paulo, 1997, p. 197-213. e Lopes Sousa (2008).

169
Gráfico D8 - Quando surge um conflito em seu bairro, você:

Evita falar do assunto do conflito em 0,0


questão. 10,5

Tenta resolver o conflito por meio 50,0


do diálogo. 63,2 Vila-real
Fortaleza
50,0
Procura a polícia.
26,3

0 20 40 60 80 100
Porcentagem

Fonte: Estatística questionários/Polícia Local (Vila-real) e Polícia Militar (Fortaleza).

Em pesquisas empíricas, unanimidades sempre se destacam aos olhos e devem ser


analisadas na busca de suas causas tão consolidadas. E nesse gráfico vemos que 0% dos
entrevistados em Vila-real evita falar do assunto do conflito, ou seja, 100% das pessoas não guarda
para si e ainda fala do assunto. Em Fortaleza o número dos que evita falar do assunto do conflito
é baixo (10%), mas existe e também possui causas.

Evitar falar do assunto do conflito diz respeito à receio por parte de como tal conteúdo
possa ser interpretado ou mesmo que reações subjetivas possa causar. Em Vila-real o fato de as
pessoas, em sua totalidade, estarem dispostas a expor seu problema mostra que confiam em seus
direitos, não acreditando que sua liberdade individual possa ser comprometida ou mesmo mal vista
com a exposição aberta. Já em Fortaleza ainda há muita dúvida sobre quais os direitos realmente
podem ser exercidos e, até mesmo, quais direitos fundamentais de fato o individuo possui.

Com relação à tentativa de se resolver o conflito pelo diálogo os números são parecidos.
Devemos atribuir esses números a aspectos histórico-culturais e psicológicos (o ser humano não
costuma, em sua maioria, usar da força de imediato, pelo menos não se o interesse for pequeno ou
em um primeiro momento).

Já entre aqueles que procuram a policia quando surge um conflito em seu bairro, os
número mostram que em Vila-real praticamente o dobro de pessoas busca a polícia se comparado
com Fortaleza. Novamente, as causas principais que a isso podem ser atribuídas são a soma do
desconhecimento de que a polícia pode buscar realizar a composição desse conflito como a
desconfiança das pessoas em relação à instituição policia e à figura do policial, em contraste com
a expectativa dos habitantes de Vila-real.

170
Gráfico D9 - Para as pessoas de seu bairro, a polícia é:

Pacificadora 21,4
5,0

Próxima ao cidadão 50,0


5,0
Vila-real
Agressiva/ violenta 20,0
Fortaleza
Distante e indiferente 28,6
65,0
0 20 40 60 80 100
Porcentagem

Fonte: Estatística questionários/Polícia Local (Vila-real) e Polícia Militar (Fortaleza).

O uso insdiscriminado e irresponsável dos poderes delegados aos agentes de polícia


constituiem um dos principais fatores que levam a perda da confiança no Estado por parte do
cidadão.

A polícia deve estar organizada de maneira que promova boas relações com a população
e, se for necessário, uma efetiva cooperação com outros organismos, as comunidades locais,
organizações não-governamentais e outros representantes da população, incluídos grupos
minoritários étnicos.

Os serviços de polícia precisam estar dispostos a proporcionar aos cidadãos informações


objetivas sobre suas atividades, sem descuidar das informações confidenciais. Nesse sentido, na
Espanha, a polícia empreendeu uma série de campanhas para convencer os cidadãos de sua
disponibilidade. Uma circular de 1988 convidava os serviços de polícia a desenvolver uma
comunicação mais ativa com as associações urbanas, com o objetivo de dar aos responsáveis pela
polícia um conhecimento aprofundado dos problemas e das expectativas dos cidadãos. (MONET,
2006).

171
Gráfico D10 - Em sua opinião, quais são as características de um bom policial?

Estar sempre armado 10,0

Ser firme e autoritário 20,0

Saber realizar prisões 7,1


20,0

Sempre fazer uso de sua autoridade 25,0

Ter uma boa preparação física para… 7,1


30,0

Saber trabalhar em equipe 42,9


35,0 Vila-real
Ter boas relações interpessoais 21,4
40,0 Fortaleza
Liderança 21,4
40,0

Ter capacidade para a mediação de… 78,6


45,0

Ser ético 35,7


60,0

Saber dialogar (falar e escutar as… 75,0

0 20 40 60 80 100
Porcentagem

Fonte: Estatística questionários/Polícia Local (Vila-real) e Polícia Militar (Fortaleza).

As duas últimas informações também são melhor avaliadas conjuntamente, até para que
tenhamos um panorama mais correto para ambos os quesitos.

Inicialmente, observa-se que a população de Fortaleza considera a polícia de sua cidade


distante do cidadão, violenta e indiferente. Enquanto em Vila-real ninguém afirmou ser a Policía
Local violenta, para um quinto dos habitantes de Fortaleza sua polícia é violenta e muito pouco
pacificadora (5% dos entrevistados).

Porém, analisando as resposta ao outro gráfico, que questiona os membros da comunidade


sobre quais características consideram ser de um bom policial as respostas parecem não ser de
acordo com o primeiro, de modo que a população não aprova uma conseqüência de conduta de um
policial, a exemplo de ser violento, porém afirma que para ser um bom policial este deve andar
armado (10% para a cidade de Fortaleza, contra 0% para Vila-real) ou mesmo ser firme e
autoritário (impressionantes 20% em fortaleza e 0% em Vila-real).

Outro exemplo é que 30% dos entrevistados em Fortaleza afirmam que um bom policial
deve ter boa forma física, enquanto apenas 7,1 em Vila-real. Associar boa forma física à qualidade
e presteza na realização do trabalho profissional sugere a população desejando que o bom policial

172
seja aquele que “corre para pegar bandido” e não o policial com cultura comunitária, prestativo e
de viés cidadã.

Entendemos que a imagem também pode ser construída coletivamente, como imagem de
um grupo ou sociedade sobre uma instituição, enraizada por um modelo histórico-cultural. No
Brasil, a cultura do bom policial atrelada ao combate do crime, que usa e abusa do autoritarismo,
pode ser descrita até mesmo pela repetição cultural e exposição dos membros da sociedade a esse
modelo. A exemplo, vemos o sucesso de venda de bilheteria do filme Tropa de Elite 2: o Inimigo
agora É Outro127, em que o personagem principal é erigido, tanto no filme quanto no imaginário
popular como um herói por ser um policial devotado ao combate do crime (que não respeita leis,
direito humanos ou dignidade dos membros de comunidades carentes). É como se a população
prezasse por esse comportamento do policial quando a ação é retribuída ao “outro”, ao “vizinho”,
mas se ofendesse quando tal conduta a si é direcionada.

No modelo tradicional de polícia, a força (legítima?) tem sido quase o único instrumento
de intervenção, sendo usada frequentemente de forma não profissional e desqualificada, às vezes
até à margem da legalidade. Para se ter um novo modelo de polícia, faz-se necessário centrar sua
função na garantia e efetivação dos direitos fundamentais do cidadão e na interação com a
comunidade, estabelecendo o diálogo e a mediação como instrumentos principais.

Já na cidade de Vila-real, as pessoas percebem que a Polícia Local é pacificadora (21%) e


próxima ao cidadão (50%). Tais números foram conseguidos após um direcionamento de cultura
e doutrina policial voltada para “cidadanizar” o agente de polícia, com observância estrita aos
direitos humanos, sem tanto busca pelo uso da força como método de impor solução para conflitos.

Bengochea et al. (2004) questionam a possibilidade de uma polícia diferente em uma


sociedade democrática. Para os autores, a concretização dessa possibilidade passa por alguns
eixos: por mudanças nas políticas de qualificação profissional, por um programa de modernização
e por processos de mudanças estruturais e culturais que discutam questões centrais para as polícias,
como as relações com a comunidade, contemplando o espaço das cidades; a mediação de conflitos
do cotidiano como o principal papel de sua atuação.

127
Para maiores informações ver:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Tropa_de_Elite_2:_o_Inimigo_agora_%C3%89_Outro>. Acesso em 12 de dezembro
de 2017.

173
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por tudo o que foi exposto, a mediação é um instituto em expansão que, pouco a pouco,
está sendo aplicado em mais países e se estende a vários campos de ação. “A pesar de todo (de los
inconvenientes), existe La Mediación Policial” (REDORTA, 2004, p. 37) como estratégia
dialógica ante as dificuldades das relações comunitárias e interpessoais que se tem expandido
durante a última década como uma prática em busca de uma teoria.

O estudo revelou como inovadora a inserção da mediação de conflitos nas práticas


policiais por apresentar-se como experiência ousada, pois teve pretensões de mudar o pensar e o
fazer policial na política de segurança pública local. Enfatiza-se que é necessário pensar a
intencionalidade das atividades formativas, pois o perfil do novo policial há que ser balizado na
promoção e defesa dos direitos humanos, incluindo nesse viés uma aproximação com a
comunidade através de um bom relacionamento interpessoal e na capacidade de mediar conflitos
sociais.

Devemos considerar que, como método de intervenção, a mediação policial representa


uma prática que se amolda aos padrões democráticos, por conseguinte, medida preventiva de
criminalidade. Mais uma vez, concluímos que segurança pública não se faz apenas com a aplicação
da lei ao caso concreto. É tema complexo que possui caráter interdisciplinar, pluridimensional,
multicausal e multifatorial. Com efeito, faz-se necessário buscar novas possibilidades de respostas
à criminalidade, negando o tradicional modelo centrado basicamente no controle formal da
criminalidade difusa ou organizada.

Nesse contexto, o conhecimento dos conflitos sociais e sua discussão proporcionam


resultados positivos no processo de resolução pacífica destes. Diminuir a importância desses tipos
de conflitos, tratando-os de maneira inadequada, pode resultar em grandes equívocos como a
transformação de ocorrências policias de baixa complexidade em ocorrências de alta
complexidade. A mediação visa solucionar o conflito, e não apenas aquele que aparenta ser o
problema controvertido, e o faz por meio do diálogo e do consenso. Relatos de policiais afirmam
que simples discussões de família ou de vizinhos, casos de embriaguez e desordem, quando não
bem resolvidos podem resultar em delitos de natureza grave, como lesão corporal e homicídio.

No âmbito policial, a mediação de conflitos, além de contribuir para o controle da


criminalidade, resgata a relação entre o policial e o cidadão. O elo que se perdeu, marcantemente,
no período ditatorial. A mediação dará maior visibilidade democrática, transparência, inovando e

174
restaurando a ideia de polícia, nos marcos do Estado de Direito como instituição importante na
consolidação da democracia na sociedade.

Contudo, o modo como os dispositivos policiais compreendem tais mudanças e as


efetivam na prática é um fator que compromete a credibilidade das suas ações e acaba por
inviabilizar avanços na política de segurança pública, orientada para uma atuação de teor
humanístico, voltada para a promoção, defesa e garantia dos direitos humanos.

Notamos a persistência de valores e práticas tradicionais e de orientação militarista, assim


como as resistências das organizações policiais em aceitar mudanças, orientadas por um novo
paradigma que proporcione uma formação policial cidadã. Dessa maneira, as relações
interpessoais estabelecidas entre polícia e população continuam contaminadas pelas velhas e
tradicionais práticas dos aparelhos policiais, pouco ou nada se altera nesse contexto em Fortaleza.
Nesse sentido, as práticas ilegais da polícia ainda persistem mesmo após as mais variadas propostas
de mudanças formuladas por diretrizes, planos da Política Nacional de Segurança Pública. Há,
portanto, um descompasso entre marcos legais e práticas institucionais concretizadas no dia a dia
das atividades policiais de rua.

Desse modo, de acordo com Brasil (2004, p. 160),

“[...] as velhas práticas continuam garantidas no exercício das atividades policiais, se a


teoria na prática é outra. (...) a formação, (...) precisa ser pensada a partir de novos
paradigmas, mudar a formação significa também mudar a inteligência policial, seus
instrumentais e técnicas de deciframento da realidade investigada. Não existe inteligência
policial sem a formação continuada de policiais novos e já formados.”

Assim, fica difícil vislumbrar mudanças além das simples propostas de alterações na base
curricular da formação policial. Não se muda uma instituição como a polícia por aprovações de
decretos, planos e projetos de leis, pois as mudanças precisam ser feitas na estrutura interna dessas
organizações. Não será apenas a reforma da instituição policial a solução para todos os conflitos
vivenciados pela sociedade, mas esta contribuirá par a o fortalecimento do Estado Democrático de
Direito.

Dessa forma, para que mudanças sejam efetivadas, é necessário (re)pensar o fazer
policial, o sistema de ensino e formação desses mesmos policiais. Nesse aspecto, apresenta-se
relevante a parceria entre os núcleos de formação de polícia e a Universidade (como exemplo
temos, a parceria Policía Local de Vila-real, Ayuntamiento e Universitat Jaume I que se consagra
com a criação da Cátedra de Mediación Policial), considerando que esta tem um papel relevante
na formação humanística da sociedade e na produção do conhecimento, embora saibamos dos
limites desta parceria.

175
Algumas questões postas pelos policiais durante a realização da pesquisa que subsidiou
este trabalho são importantes para se avaliar e planejar algumas ações, como a realização da
capacitação continuada dos policiais em técnicas de mediação de conflitos frente à diversidade e
à complexidade dos fenômenos sociais contemporâneos que estão colocas para as organizações
policiais. Nesse aspecto, os programas de capacitação/formação devem atentar para as
peculiaridades regionais, bem como para a natureza do conflito ao qual se destina a intervenção,
sendo imperioso observar diferenças de gênero e etnia, levando em consideração as relações
sociais existentes em cada região/país. O estímulo ao engajamento das academias de polícia e
Universidades na formação de novos profissionais para atuar nos sistemas alternativos de
administração de conflitos, seja como atividades de extensão universitária, seja na oferta de
disciplinas teóricas, de disciplinas práticas, seja na organização de campos de estágio. E, além
disso, as ações voltadas à formação policial devem abranger a organização de manuais que
disseminem conhecimentos e que auxiliem na realização de intervisão128 e supervisão dos policiais
mediadores.

É necessário superar o problema não só no âmbito técnico-operativo (mais investimentos


na área de segurança pública, contratação de mais policiais, compra de novos veículos, mudança
da cor e modelo da farda), teórico-metodológico (capacitação das forças policiais, formação
humanística) ou na redução de problemas estruturais (desigualdades sociais, econômicas,
culturais), mas nas relações com os mais diferentes e diversos atores sociais. Portanto, no cenário
marcado pela atuação das polícias de Vila-real e Fortaleza, faz-se fundamental a participação
popular como estratégia indispensável para efetividade de qualquer política pública nessa área.

Como aponta Zaluar (2002), a participação é o “ponto nevrálgico” para continuar o


processo de democratização que se interrompeu por causa das indefinições e oscilações das
políticas públicas. Devemos considerar a importância da participação da população nas políticas
de segurança pública, em uma estratégia que não negue o conflito e, sim, o explicite para que
estratégias conjuntas sejam criadas. A cultura cívica e a confiança mútua aparecem como
condições básicas para novos arranjos e práticas sociais. É igualmente importante a cooperação
entre polícia e comunidade, assim como maior preparo e qualificação das ações policiais, tanto na
repressão quanto na prevenção.

128
A multiplicidade de perspectivas de entendimento e de ação contidas em qualquer tipo de interação, não deve ser
reduzida ou minimizada em prol d e uma única visão ou percepção de um fato. A possibilidade e a riqueza de trocas
de saberes/experiências, de busca de alternativas criativa s, considerando-se que os indivíduos fazem parte de um
sistema integrado onde a ação ou a “não-ação” de um repercute no todo, representa o significado da palavra intervisão.
A prática da intervisão busca construir um conhecimento que integre as vivências dos participantes, por meio de uma
formação/capacitação que agregue e respeite as várias visões de mundo.

176
Dessa maneira, torna-se imprescindível pensarmos a polícia como um instrumento
acessível a todos, e não somente como meio de controle social por parte do Estado, que tem
delegado às polícias a função de reprimir e controlar a violência, omitindo-se de elaborar políticas
públicas eficientes a fim de reduzir os focos de criminalidade e violência vivenciados
“democraticamente” pela população de modo geral.

As políticas públicas de segurança atentas a essas transformações sociais podem oferecer


aos policiais (novatos e veteranos) uma formação cidadã alinhada ao respeito irrestrito da pessoa
humana, assumindo a garantia de melhores condições de trabalho, incluindo uma política salarial
e capacitações técnicas e ético-políticas desses profissionais. É preciso estabelecer parcerias entre
polícia e sociedade civil na construção de propostas alternativas às velhas condutas que impregnam
as práticas policiais e transformam o novo “no mais do mesmo”.

Em contrapartida se espera do profissional da área da segurança pública uma ação voltada


para a proteção da sociedade, pois ele é antes de tudo um cidadão, e na cidadania deve fundamentar
sua razão de ser, sem dualidades ou antagonismos entre “sociedade civil” e “sociedade policial”.
O agente de segurança pública deve ser um “pedagogo da cidadania” e um “protagonista dos
direitos humanos” como profissional qualificado na prestação dos serviços de segurança pública à
população. Nessa perspectiva, é um pleno educador em permanente contato com a comunidade.
Essa atitude pedagógica, que deve norteá-lo, não lhe furta o direito ao exercício do uso da força
quando necessário. Devem as polícias, instituições enérgicas contra criminosos, forte nas suas
ações de combate à criminalidade na mesma intensidade que respeita os direitos fundamentais de
cada cidadão. Ao ter que usar da força para prevenir ou combater o crime, o agente de segurança
pública deve fazê-lo, é seu dever, mas sempre norteado pelo princípio de que o faz para proteger
a comunidade e não para se sobrepor a ela. Seu objetivo é proteger as pessoas. Qualquer atitude
ilegal ou que afronte os direitos fundamentais da pessoa humana, praticada por agentes de
segurança, deve ser coibida rigorosamente. (PAES DE CARVALHO e NUNES, 2009).

Nessa linha de uma ação contra o crime e respeitosa com a população, a atividade policial
e a defesa dos direitos humanos são ações aliadas, pois certamente o cidadão, tendo seus direitos
humanos fundamentais respeitados, entre eles, direito à saúde, educação, emprego, alimentação,
lazer; será mais fácil o exercício da atividade do agente de segurança pública, além de se
possibilitar a este exercer outras atividades junto à comunidade dentro de uma visão pedagógica e
solidária. A concretização dos direitos humanos se constitui em uma ação fundamental de
enfretamento da criminalidade e da violência, logo, deve caminhar lado a lado com as ações
voltadas para a efetivação da segurança pública.

177
Para isso é necessário o estímulo e a participação da sociedade civil, nas associações de
bairros, nos conselhos federais, estaduais e municipais de segurança, de ouvidorias, e reforçar o
papel das instituições responsáveis pela operacionalização e manutenção da segurança pública, o
compromisso de que seja efetivamente tomada como um direito inalienável do cidadão.

O perfil do bom policial está em desenvolver duas virtudes: “intelectualmente, ele tem de
compreender a natureza do sofrimento humano. Moralmente ele deve resolver a contradição de
obter fins justos por meios coercitivos” (MUIR, 1977 apud REINER, 2004, p. 154). Assim, o
policial é capaz de usar a violência onde for necessário, baseando-se e m princípios, mas é
verbalmente habilitado e tem outras habilidades que, todas as vezes que houver a oportunidade,
fornecem soluções sem o uso da força coerciva.

No caminho da nova formação, a utilização da coerção deve se restringir a momentos em


que for necessário e quando já estiverem esgotados todos os tipos de mediações e recursos. Seu
uso deve estar alinhado à lei e aos limites na Constituição como aparato democrático que, sem
abrir mão de seu papel repressivo de garantidor da ordem pública, constitua-se em um instrumento
de facilitação e garantia da cidadania nos seus aspectos sociais, civis e políticos.

As instituições de segurança pública responsáveis pelo planejamento, pela execução e


pela avaliação da formação na área da segurança pública deveriam compartilhar o momento de
(re)pensar os investimentos e o desenvolvimento das ações formativas necessários e fundamentais
para a qualificação e o aprimoramento dos resultados das instituições que compõem o sistema de
segurança pública frente aos desafios e às demandas da sociedade. Vivemos num contexto
socioeconômico e político demarcado por crises institucionais e sociais nos seus variados âmbitos.
Em decorrência disso, a responsabilização da ocorrência de inúmeros conflitos que se aglutinam é
direcionada especialmente para os poderes públicos de um modo geral. O tema da criminalidade
torna-se recorrente nos assuntos cotidianos em virtude dos crescentes índices de violência na
sociedade brasileira. Nesse cenário, impõe-se a efetiva implementação de formas de administração
pacífica de conflitos, em contraponto à tentativa, muitas vezes frustrada de resolução do Estado,
por meio de medidas repressivas e excludentes dos conflitos para conter a insegurança causada
pela violência. Ações muitas vezes equivocadas que estão exigindo mudanças nas práticas
tradicionais puramente reativas das polícias brasileiras.

É necessário (re)pensarmos a intencionalidade das atividades formativas, pois o


investimento no capital humano e a valorização profissional tornam-se imprescindíveis para
atender as demandas que estão colocadas para as polícias, superar os desafios para se inovar na

178
prática da justiça inclusiva frente à dinâmica social e, assim, contribuir para a efetividade das
organizações de segurança pública.

Para que possam existir êxitos na segurança pública, por meio da prestação de um melhor
atendimento à população com o menor custo material e humano, o investimento na formação
policial voltada a uma perspectiva mais humanitária, ética e social torna-se uma condição sine qua
non. O perfil do novo policial há que ser balizado na promoção e defesa dos direitos humanos,
incluindo nesse viés uma aproximação com a comunidade através de um bom relacionamento
interpessoal e na capacidade de mediar conflitos sociais.

Assim, na cidade de Fortaleza (e por quê não dizer no Brasil?!) se olharmos para o
passado, ante um modelo culturalmente estabelecido, não lograremos êxito ao tentar vislumbrar
a polícia fazendo mediações. Entretanto, olhando para o futuro, com maior efetivação de direitos
fundamentais para todos, em respeito ao mandamento constitucional, vemos que a única evolução
plausível para as polícias será adotar a postura de uma polícia cidadã, aliada à comunidade. O fato
de a cidade espanhola estar mais avançada que a brasileira deve servir de exemplo e estímulo para
as polícias brasileiras. Pois conforme nos diz Guillamón (2014, p. 160-161):
Desde esta reflexión, la Mediación Policial es un instrumento complementario muy
valioso para dotar de mayor fluidez y eficacia a la Administración de Justicia; es más,
desde un punto de vista exclusivamente subjetivo y dado que aparentemente la mediación
se configura como una institución “extraña” a nuestra historiografía jurídica al buscar de
forma subconsciente la figura de autoridad y potestad que proporciona indubitablemente
la solución al conflicto, los mediados, los particulares, quizá vean en la figura del policía
mediador al agente con suficiente autoridad y potestad que puede guiarles
convenientemente en la composición autónoma de la eventual solución a su conflicto; sin
duda, es esta una visión completamente diferente de la tradicional función represora y
coercitiva que, de forma tópica, se atribuye a la Policía aunque, sutilmente, se llegue a
aprovechar del mejor significado de los términos de autoridad y potestad, combinándolos
de forma paradigmática y extrayendo un sentido exclusivamente positivo y favorable.

La policía no está haciendo nada que no hiciera, el contenido – cooperar en la resolución


de los conflictos privados – venía siendo – y es – una constante que además encontraba –
y encuentra – una base legal indiscutible; en esta realidad, el continente, esto es, el proceso
de Mediación Policial en el mediador es un policía, significa completar e optimizar la
tarea de cooperación en la resolución de los conflictos privados – el contenido –. La
estructura jurídica trilateral básica de toda mediación − las partes en conflicto y el tercero
subordinado, esto es, el mediador – se dispone en el caso de la Mediación Policial vestida
con el uniforme perfecto que provoca en los mediados la evidencia de confianza, respeto,
autoridad moral, potestad legitimada y buen hacer del policía mediador que gestiona su
conflicto siguiendo un riguroso código ético profesional. (Grifos nossos).

Mediar conflitos é antes de tudo entendê-los. E, para tanto, as novas orientações para a
atuação de uma polícia cidadã devem pautar-se na busca de fomentar discussões que possam
facilitar a compreensão em profundidade das demandas e divergências que chegam para
atendimento, vislumbrando, assim, possibilidades de promover autonomia dos sujeitos envolvidos
e a paz social.

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189
APÊNDICES

190
Apêndice A (versão em português)

UNIVERSITAT JAUME I - UJI


UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF
Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais e Jurídicas - PPGSD
Doutorado em Sociologia e Direito

Objetivo da pesquisa: Identificar, analisar e descrever como a “política de mediação” foi pensada e está sendo
executada na política de segurança pública das cidades de Fortaleza – Ceará – Brasil e de Vila-real – Castellón
de la Plana – Espanha e, dentro desse prisma, verificar os limites e as potencialidades dos (des)encontros, tensões
e parcerias entre polícia e comunidade e sua associação com esse “novo” modelo de gestão da conflitualidade
social contemporânea.

QUESTIONÁRIO

- País de origem: ____________________________________Cidade: _____________________________


- Idade: _________________________
- Sexo: ( ) Feminino ( ) Masculino

- Escolaridade:
( ) nível fundamental
( ) nível médio ( ) nível superior completo ( ) pós-graduação completa
( ) nível superior incompleto ( ) pós-graduação incompleta

- A qual Polícia você pertence? _________________________________________________________________

- Você possui quantos anos de serviço prestados à Polícia?___________________________________________

- Você atua nopoliciamento:


( ) Policiamento Ostensivo Geral - POG ( ) Polícia Comunitária ( ) Outro:__________________________________

- Você trabalha:
( ) Externo (policiamento de rua) ( ) Interno (gestão ou administração)

- Qual foi o ano do seu Curso de Formação na polícia? _______________________________________________

- Você conduz/ já conduziu um processo de mediação de conflitos?


( ) Sim Não ( )

1. Existe relação entre Segurança Pública e administração de conflitos sociais?


( ) Sim ( ) Não . POR QUE?
_______________________________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________________________

2. Qual é o lugar da mediação de conflitos na atividade policial?


_______________________________________________________________________________________________
____________________________________________________________________________________________

3. Na sua opinião, qual é o perfil para ser um policial-mediador ?


_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________

4. É possível, na atuação policial, utilizar as técnicas da mediação de conflitos?


( ) Sim ( ) Não. POR QUE?
_______________________________________________________________________________________________
____________________________________________________________________________________________

5. A mediação de conflitos realizada por policiais contribui para a mudança da imagem que a população guarda
da polícia?
( ) Sim ( ) Não

191
6. A mediação de conflitos tem sido percebida, pelos policiais, como um caminho de mudanças no modus operandi
da polícia?
( ) Sim ( ) Não

7. A mediação policial tem como base as parcerias com as organizações comunitárias?


( ) Sim ( ) Não

8. A mediação de conflitos é reconhecida pela comunidade/conselhos comunitários como uma prática policial e
classificada como um mecanismo de pacificação social?
( ) Sim ( ) Não

9. Nível de satisfação dos comandos e dos colegas policiais quanto à prática da mediação de conflitos?
( ) Extremamente satisfeito
( ) Moderadamente satisfeito
( ) Um pouco satisfeito
( ) Nem satisfeito nem insatisfeito.
( ) Um pouco insatisfeito
( ) Moderadamente insatisfeito
( ) Extremamente insatisfeito

10. Quais situações você observa no cenário da mediação policial? Você pode marcar mais de uma opção.
( ) Resistência/Desconhecimento da população
( ) Resistência/Desconhecimento dos comandos de polícia
( ) Pouco investimento financeiro
( ) Rapidez e adequada administração de conflitos do cotidiano
( ) Prevenção da ocorrência de crimes graves (grande potencial ofensivo)
( ) Construção de uma política de segurança pública com feições participativas e cidadãs
( ) Outro: ______________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________

11. O seu Curso de Formação apresentou a disciplina Mediação de conflitos?


( ) Sim ( ) Não
Em caso positivo. Qual a sua avaliação sobre a disciplina Mediação de conflitos(professor, apostila, carga
horária)? Pode dar detalhes que acha interessante.
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________

12. A disciplina Mediação de conflitos foi relevante para a sua formação e atuaçãocomo policial?
( ) Sim ( ) Não. POR QUÊ?
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________

13. Que tipos de conflitos você atende com maior frequência quando é acionado para asocorrências policiais?
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________

14. Como prepararia o efetivo policial para que a técnica da mediação de conflitos possa ser utilizada como
ferramenta no cotidiano do policiamento comunitário?
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________

192
Apêndice A (versão em espanhol)

UNIVERSITAT JAUME I - UJI


UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF
Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais e Jurídicas - PPGSD
Doutorado em Sociologia e Direito

Objetivo de la investigación:Identificar, analizar y describir los límites y los potenciales de los encuentros y
desencuentros, las tensiones y las asociaciones entre la policía y la comunidad y su asociación con la mediación de
conflictos - "nuevo" modelo de gestión del conflicto social contemporáneo.

CUESTIONARIO

- País de origen: ____________________________________ Ciudad: ____________________________________


- Edad:________________________________________________
- Sexo: ( ) Femenino ( ) Masculino
- Educación:
( ) Bachiller ( ) nivel universitario completo ( ) pos-graduación completo
( ) nivel universitario incompleto ( ) pos-graduación incompleto

- ¿A qué cuerpo de Policía pertenece? ______________________________________________________________

- ¿Cuántos años ha prestado servicio en la Policía?____________________________________________________

- Usted trabaja en el departamento de Policía: ( ) Policía Tradicional ( ) Policía Comunitaria ( ) Otro:___________

- Usted trabaja:
( ) Externo (patrulla en la calle) ( ) Interno (gestión o administración)

-¿Cuál es el año de su Curso de Formación como Policía? ____________________________________________

- ¿Usted ha llevado/ ya llevo un proceso de mediación?


( ) Si ( ) No

1. ¿Existe relación entre Seguridad Pública y la administración de conflictos sociales?


( ) Si ( ) No. ¿POR QUÉ?
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________
2.¿Cuál es el lugar de la mediación de conflictos en la actividad policial?
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________
3. En su opinión, ¿cuál es el perfil para ser un policial-mediador?
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________
4. ¿Es posible, en la actuación policial, utilizar las técnicas da mediación de conflictos?
( ) Si ( ) No. ¿POR QUÊ?
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________

5. ¿La mediación de conflictos realizada por policías contribuye para el cambio de imagen que la población
guarda de la policía?
( ) Si ( ) No

193
6. ¿La mediación de conflictos ha sido percibida, por los policías, como un camino de cambios en el
modus operandi de la policía?
( ) Si ( ) No

7. ¿La mediación policial tiene como base asociarse con las organizaciones comunitarias?
( ) Si ( ) No

8. ¿La mediación de conflictos es reconocida por la comunidad/consejos comunitarios como una práctica
policial y clasificada como un mecanismo de pacificación social?
( ) Si ( ) No

9. Nivel de satisfacción de los mandos y de los colegas policías en cuanto a la práctica de la mediación de
conflictos:
( ) Extremamente satisfecho
( ) Moderadamente satisfecho
( ) Un poco satisfecho
( ) Ni satisfecho ni insatisfecho.
( ) Un poco insatisfecho
( ) Moderadamente insatisfecho
( ) Extremamente insatisfecho

10. ¿Qué situaciones observa usted en el escenario de la mediación policial?


( ) Resistencia/Desconocimiento por parte de la población
( ) Resistencia/Desconocimiento de los mandos de policía
( ) Poca inversión financiera
( ) Rapidez y adecuada administración de conflictos cotidianos
( ) Prevención de la ocurrencia de crímenes graves (un gran potencial ofensivo)
( ) Construcción de una política de seguridad pública con características participativas y ciudadanas
( ) Otro: __________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
11. ¿En su Curso de Formación como Policía se presento a la disciplina de Mediación de conflictos?
( ) Si ( ) No
En caso positivo. Cuál es su evaluación sobre la disciplina Mediación de conflictos(profesor, apostilla, tiempo
de duración) Puede dar detalles de lo que crea interesante.
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________

12 ¿La disciplina Mediación de conflictos es relevante para a su formación y actuacióncomo policía?


( ) Si ( ) No. ¿POR QUÉ?
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________________

13. ¿Que tipos de conflictos atiende usted con mayor frecuencia cuando es activado para lasSucesos
policiales?
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________

14. Como prepararía al grupo policial, en la labor como policía comunitario, para que la técnica
de la mediación de conflictos pueda ser utilizada como herramienta cotidiana.
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________

194
Apêndice B (versão em português)

UNIVERSITAT JAUME I - UJI


UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF
Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais e Jurídicas - PPGSD
Doutorado em Sociologia e Direito

Objetivo da pesquisa: Identificar, analisar e descrever como a “política de mediação” foi pensada e está
sendo executada na política de segurança pública das cidades de Fortaleza – Ceará – Brasil e de Vila-real
– Castellón de la Plana – Espanha e, dentro desse prisma, verificar os limites e as potencialidades dos
(des)encontros, tensões e parcerias entre polícia e comunidade e sua associação com esse “novo” modelo
de gestão da conflitualidade social contemporânea.

QUESTIONÁRIO

-País de origem: ______________________________________________________________


- Cidade que vive: ___________________ Bairro: __________________________________

- Idade:( ) 18- 28 ( ) 29-39 ( ) 40-50 ( ) 51-61 ( ) 62-72 ( ) 73-83


- Sexo: ( ) Feminino ( ) Masculino

-Escolaridade:
( ) nível fundamental ( ) nível superior completo
( ) nível médio ( ) pós-graduação incompleta
( ) nível superior incompleto ( ) pós-graduação completa

1. Se você tivesse um conflito com o seu vizinho, você solicitaria que a policia realizasse a
mediação do seu conflito?
( ) Sim ( ) Não

2. Você conhece algum serviço de Mediação Policial?


( ) Sim ( ) Não

3. Você conhece alguém que já solicitou o serviço de Mediação Policial?


( ) Sim ( ) Não

4. Quais os conflitos mais comuns em seu bairro (marque somente uma das opções):
( ) Conflitos entre vizinhos
( ) Conflitos familiares
( ) Conflitos com estabelecimentos públicos/ comerciais
( ) Roubo a pessoas
( ) Embriaguez e desordem
( ) Homicídio (morte violenta)
( ) Furtos
( ) Briga de gangues
( ) Lesão corporal
( ) Desordem
( ) Outros: …………………………………………………………………………

195
5. Se você está em um processo judicial, estaria disposto a realizar uma mediação como uma
forma de solucionar seu conflito?
( ) Sim ( ) Não

6. Acredita que para as pessoas de sua cidade, a polícia os transmite confiança?


( ) Sim ( ) Não

7. Para as pessoas de seu bairro, a polícia é (marque somente uma das opções):
( ) Próxima ao cidadão ( ) Distante e indiferente
( ) Agressiva/ violenta ( ) Pacificadora

8. Em sua opinião, quais são as características de um bom policial (pode selecionar mais de uma
opção):
( ) Saber dialogar (falar e escutar as pessoas)
( ) Ser ético
( ) Ter capacidade para a mediação de conflitos
( ) Liderança
( ) Estar sempre armado
( ) Saber trabalhar em equipe
( ) Ser firme e autoritário
( ) Saber realizar prisões
( ) Ter boas relações interpessoais
( ) Sempre fazer uso de sua autoridade
( ) Ter uma boa preparação física para o uso adequado da força

9. Você gostaria de participar de reuniões mensais/bimestrais na associação/conselho


comunitário com um representante da polícia para comentar determinados assuntos que
preocupam a sua comunidade:
( ) Sim ( ) Não

10. Estaria interessado em capacitar-se como mediador para poder mediar os conflitos que
podem surgir em seu bairro:
( ) Sim ( ) Não

11. Quando surge um conflito em seu bairro, você: (marque somente uma opção abaixo).
( ) Procura a polícia.
( ) Tenta resolver o conflito com o uso da força.
( ) Tenta resolver o conflito por meio do diálogo.
( ) Evita falar do assunto do conflito em questão.
( ) Busca iniciar um processo judicial.

12. Você entende o que consiste a Mediação de conflitos: (marque somente uma opção abaixo).
( ) É como as pessoas, com a ajuda de um facilitador de diálogo, se responsabilizam na construção
de soluções amigáveis para o seu problema.
( ) É uma decisão imposta às pessoas, por um terceiro, como solução do problema.
( ) É quando duas pessoas em conflito buscam a ajuda de um terceiro para que ele surgira a melhor
solução.
196
Apêndice B (versão em espanhol)

UNIVERSITAT JAUME I - UJI


UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF
Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais e Jurídicas - PPGSD
Doutorado em Sociologia e Direito

Objetivo de la investigación:Identificar, analizar y describir los límites y los potenciales de los encuentros
y desencuentros, las tensiones y las asociaciones entre la policía y la comunidad y su asociación con la
mediación de conflictos - "nuevo" modelo de gestión del conflicto social contemporáneo.

CUESTIONARIO

-País de origen: _______________________________________________________________

- Ciudad en la que vive: ___________________ Barrio: ______________________________

- Edad: ( ) 18- 28 ( ) 29-39 ( ) 40-50 ( ) 51-61 ( ) 62-72 ( ) 73-83

- Sexo: ( ) Femenino ( ) Masculino

-Educación:
( ) No tengo estudios ( ) Nivel universitario completo
( ) Enseñanza Secundaria Obligatoria (ESO) ( ) Pos-graduación incompleto
( ) Bachiller ( ) Pos-graduación completo
( ) Nivel universitario incompleto

1. Si usted tuviera un conflicto con su vecino, ¿solicitaría que la policía realizase una mediación
de su conflicto?
( ) Si ( ) No

2.¿Usted conoce el servicio de Mediación Policial?


( ) Si ( ) No

3. Usted conoce a alguien que haya solicitado el servicio de Mediación Policial.


( ) Si ( ) No

4. Cuáles son los conflictos más comunes en su barrio (marque solo una de las opciones):
( ) Conflictos entre vecinos
( ) Conflictos familiares
( ) Conflictos con establecimientos públicos/ comerciales
( ) Robo a personas
( ) Embriaguez y desorden
( ) Homicidio (muerte violenta)
( ) Hurtos
( ) Pelea de bandas
( ) Lesión corporal
( ) Desorden
( ) Otros: …………………………………………………………………………

197
5. Si usted está en un proceso judicial, ¿estaría dispuesto a realizar una mediación como una
forma de solucionar su conflicto?
( ) Si ( ) No

6. ¿Cree que a las personas de su ciudad, ¿la policía les inspira confianza?
( ) Si ( ) No

7. Para las personas de su barrio, la policía es (marque solo una de las opciones):

( ) Próxima al ciudadano
( ) Agresiva/ violenta
( ) Distante e indiferente
( ) Pacificadora

8. En su opinión cuales son las características de un buen policía (puede seleccionar más de una
opción):
( ) Saber dialogar (hablar y escuchar a las personas)
( ) Ser ético
( ) Tener capacidad para la mediación de conflictos
( ) Liderazgo
( ) Estar siempre armado
( ) Saber trabajar en equipo
( ) Ser firme y autoritario
( ) Saber realizar detenciones
( ) Tener buenas relaciones interpersonales
( ) Siempre hacer uso de su autoridad
( ) Tener una buena preparación física para el uso adecuado de la fuerza

9. Le gustaría tener reuniones mensual/ bimensual en la asociación con un representante de la


policía para comentar determinados temas que preocupen a su comunidad:
( ) Si ( ) No

10. Estaría interesado en formarse como mediador para poder mediar en los conflictos que
pudieran aparecer en su barrio:
( ) Si ( ) No

11. Cuando surge un conflicto en su barrio usted (marque solo una de las opciones):
( ) Busca a la policía
( ) Intenta resolverlo a través del uso de la fuerza
( ) Intenta resolverlo a través del dialogo
( ) Evita hablar del tema del conflicto en cuestión
( ) Busca el iniciar un proceso judicial

12. Usted conoce en qué consiste la Mediación de conflictos:


( ) Es como las personas con la ayuda de un facilitador del dialogo se responsabilizan de la construcción
de las soluciones a su problema.
( ) Es una solución impuesta a las personas por un tercero como solución al problema.

198
( ) Es cuando dos personas en conflicto buscan la ayuda de un tercero para que el sugiera la mejor
solución.

199
]

ANEXOS

200
Anexo A

NÚCLEO DE SOLUÇÕES CONSENSUAIS (NUSCON) da Controlador-Geral de


Disciplina (CGD).

O Núcleo de Soluções Consensuais (NUSCON), criado pela Lei nº16.039, de 28/06/2016,


regulamentado pela Instrução Normativa nº07/2016, de 23/08/2016, tem sua composição um
Delegado de Polícia Civil (coordenador e mediador presidente), uma inspetora de Polícia Civil
que atua como mediadora e assessora; e um assessor (delegado de Polícia Civil).

O Núcleo de Soluções Consensuais (NUSCON) realizou sua primeira mediação em


22/09/2017 e até o dia 01/11/2017 recebeu 51 (cinquenta e um) procedimentos disciplinares para
aplicação dos métodos de soluções consensuais, previstos no art.4º, I, da Instrução Normativa
nº07/2016. Neste período, foram realizadas 15 (quinze) sessões de mediação, referente a 11 (onze)
procedimentos disciplinares, todas com êxito, ou seja, a sessão de mediação foi realizada após a
aceitação expressa das partes, que em seguida entraram em acordo quanto aos pontos divergentes,
sendo tudo reduzido a termo, devidamente assinado pelos interessados e seguindo para
homologação, pelo Controlador-Geral de Disciplina (CGD).

No seu segundo mês, novembro de 2017, o Núcleo iniciou seus trabalhos com 41
(quarenta e um) procedimentos e realizou 16 (dezesseis) sessões de mediação, referente a 13 (treze)
procedimentos disciplinares. Destes, 09 (nove) foram mediados e 04 (quatro) não foram mediados,
sendo 01 (um) por ausência de ambas as partes, 02 (dois) por ausência dos denunciantes e apenas
01(um), em decorrência da não aceitação de uma das partes apesar de efetivamente realizada a
sessão de mediação.

Estes 20 (vinte) procedimentos disciplinares que alcançaram êxito através de medidas


alternativas de solução de conflitos, durante os meses de outubro e novembro de 2017,
encontravam-se na fase de investigação preliminar e o meio utilizado em todos foi a mediação,
prevista juntamente com o termo de ajustamento de conduta (TAC) e com a suspensão condicional
do processo, como instrumentos efetivos de soluções consensuais, nos termos do art.4, I, da
Instrução Normativa nº 07/2016 e da Lei nº 16.039/2016, a serem legalmente utilizados pelo
NUSCON/CGD.

201
No mês de dezembro de 2017, o NUSCON possui 13 (treze) procedimentos agendados
para conclusão dos trabalhos referente à aplicação dos métodos de solução consensual, sendo
11(onze) mediações e 02 (dois) termos de ajustamentos de condutas - TACs, até o dia 19/12/2017.

Vale ressaltar, que as situações disciplinares encaminhadas ao NUSCON atendem aos


requisitos previstos no artigo 3º, da lei nº 16.039/2016, as quais podemos verificar nos gráficos
abaixo.

Gráficos - Matéria dos procedimentos administrativos disciplinares/NUSCON.

OUTUBRO/2017 NOVEMBRO/2017

9%
27%

37% 31%
46%
27%

23%
Dívida
Ameaça
Crimes contra a honra (Difamação, Injúria, Calúnia) Dívida Ameaça Crimes contra a honra
(Difamação, Injúria, Calúnia)
Reparação de danos

Fonte: NUSCON (2017).

202
Anexo B – Levantamento de dados estatísticos junto a Sistema Estatístico de
Criminalidade.

Gráfico – Porcentagem das principais tipologias penais – Ano 2016, Espanha.

Tabela – Resumo das infrações penais e vitimização, período 2012 – 2016, Espanha.

203
Fonte: SEC (2016).

Gráfico – Tasa de Homicidiosen UE – Ano 2014*.

Tabela - INFRACCIONES PENALES, 2015-2016.


ESPAÑA
Detenciones e
Acumulado Hechos conocidos Hechos esclarecidos
investigados
Variac Variac Variac
ión % ión % ión %
Enero-Diciembre 2015 2016 2016- 2015 2016 2016- 2015 2016 2016-
2015 2015 2015

I. Contra las personas 223.893 166.431 -25,7 189.246 145.212 -23,3 86.933 81.360 -6,4
Infracciones

Homicidios
penales

1. 964 1.107 14,8 893 1.019 14,1 1.076 1.233 14,6


dolosos/asesinatos
Homicidios/asesin
302 294 -2,6 244 210 -13,9 351 327 -6,8
atos consumados
2. Lesiones 97.012 97.108 0,1 76.483 77.292 1,1 27.203 28.184 3,6

204
Malos tratos
3. 64.118 66.102 3,1 63.117 65.493 3,8 49.898 50.743 1,7
ámbito familiar
Otros contra las
4. 61.799 2.114 -96,6 48.753 1.408 -97,1 8.756 1.200 -86,3
personas
II. Contra la libertad 78.815 115.493 46,5 60.388 89.305 47,9 29.183 34.222 17,3
Malos tratos hab.
1. 15.676 14.554 -7,2 12.230 11.489 -6,1 9.804 9.083 -7,4
ámbito familiar
Otros contra la
2. 63.139 100.939 59,9 48.158 77.816 61,6 19.379 25.139 29,7
libertad
III. Contra la libertad
9.869 10.844 9,9 7.500 8.381 11,7 6.044 6.363 5,3
sexual
Agresión sexual
1. 1.229 1.249 1,6 1.007 1.031 2,4 856 888 3,7
com penetración
Corrupción de
2. menores o 432 368 -14,8 358 292 -18,4 294 248 -15,6
incapacitados
Pornografía de
3. 748 621 -17 540 477 -11,7 473 441 -6,8
menores
Otros contra la
4. libertad/indemnida 7.460 8.606 15,4 5.595 6.581 17,6 4.421 4.786 8,3
d sexual
IV. Relaciones
9.814 8.043 -18 8.794 7.465 -15,1 2.170 1.586 -26,9
familiares
V. Contra el
1.573.983 1.572.967 -0,1 273.069 273.027 0 145.876 139.669 -4,3
patrimonio
1. Hurtos 715.469 711.507 -0,6 111.625 109.627 -1,8 57.447 56.696 -1,3
Robos con fuerza
2. 322.705 318.164 -1,4 44.417 45.511 2,5 36.420 33.077 -9,2
en cosas
Envehículos 100.021 104.274 4,3 9.754 10.574 8,4 5.941 5.851 -1,5
Endomicilios 115.302 113.308 -1,7 12.995 13.715 5,5 10.764 10.259 -4,7
Enestablecimiento 35.959 37.619 4,6 7.448 7.900 6,1 7.002 6.702 -4,3
Robosviolencia o
3. 64.581 62.952 -2,5 16.028 16.355 2 15.444 15.417 -0,2
intimidación
Envía pública 28.949 28.900 -0,2 6.414 6.737 5 6.944 6.901 -0,6
Endomicilios 3.929 3.536 -10 1.195 1.169 -2,2 1.203 1.207 0,3
Enestablecimiento 5.168 5.174 0,1 2.500 2.625 5 2.522 2.619 3,8
Sustracción de
4. 43.170 43.335 0,4 11.660 11.878 1,9 4.920 4.825 -1,9
vehículos
5. Estafas 165.267 179.718 8,7 36.055 37.893 5,1 11.015 11.270 2,3
Estafas bancarias 32.837 35.824 9,1 3.083 3.664 18,8 844 1.018 20,6
6. Daños 215.519 214.709 -0,4 26.091 26.196 0,4 7.014 7.304 4,1
Contra la
propiedad
7. 2.047 1.889 -7,7 1.865 1.713 -8,2 1.710 1.700 -0,6
intelectual e
industrial
Blanqueo de
8. 290 262 -9,7 273 244 -10,6 636 531 -16,5
capitales
Otros contra
9. 44.935 40.431 -10 25.055 23.610 -5,8 11.270 8.849 -21,5
elpatrimonio

205
VI. Seguridad
60.090 58.350 -2,9 55.506 53.781 -3,1 55.254 52.687 -4,6
colectiva
1. Tráfico de drogas 12.069 12.448 3,1 11.390 11.700 2,7 18.240 18.564 1,8
Contra la
2. 45.991 43.913 -4,5 42.718 40.694 -4,7 35.354 32.419 -8,3
seguridadvial
Otros contra la
3. seguridad 2.030 1.989 -2 1.398 1.387 -0,8 1.660 1.704 2,7
colectiva
VII. Falsedades 19.224 19.958 3,8 11.438 12.378 8,2 11.469 10.241 -10,7
VIII. Administración
535 553 3,4 384 418 8,9 780 810 3,8
Pública
IX. Administración
27.538 27.647 0,4 25.917 26.178 1 19.186 18.387 -4,2
de Justicia
X. Orden público 23.160 18.867 -18,5 21.118 17.642 -16,5 18.628 17.358 -6,8
XI. Legislación
192 143 -25,5 180 131 -27,2 270 319 18,1
especial
XII. Otras
9.702 10.394 7,1 6.247 7.435 19 4.451 4.934 10,9
infracciones penales
Total 2.036.815 2.009.690 -1,3 659.787 641.353 -2,8 380.244 367.936 -3,2
Fonte: SEC (2017).

206
Anexo C – Levantamento de dados na Assessoria de Estatística da Secretaria de
Segurança Pública

Tabela A – Ocorrências de Briga de Família em Fortaleza, período jan/2015–set/2017.

Fonte: CIOPS/AAESC/SSPDS (2017).

Tabela B – Ocorrências de Perturbação do sossego alheio em Fortaleza, período jan/2016–


set/2017.

207
Fonte: CIOPS/AAESC/SSPDS (2017).
Tabela C – Ocorrências de Embriaguez e Desordem em Fortaleza, período jan/2015–
set/2017.

Fonte: CIOPS/AAESC/SSPDS (2017).

Tabela D – Ocorrências de Constrangimento ilegal em Fortaleza, período jan/2015–


set/2017.

208
Fonte: CIOPS/AAESC/SSPDS (2017).
Anexo D
PROTOCOLO OPERATIVO DO AGENTE

209
210
Anexo E
PROTOCOLO OPERATIVO DO GRUPO DE MEDIAÇÃO

211
Anexo F - Instrumental de procedimentos da UMEPOL

FORMULÁRIO DO POLICIAL DE SOLICITAÇÃO DE MEDIAÇÃO

212
FORMULÁRIO DO INTERESSADO PARA SOLICITAÇÃO DE MEDIAÇÃO POLICIAL
FRENTE

213
FORMULÁRIO DO INTERESSADO PARA SOLICITAÇÃO DE MEDIAÇÃO POLICIAL
VERSO

214
CONVITE PARA SESSÃO DEMEDIAÇÃO DERIVADA DO PODER JUDICIÁRIO

215
CONVITE PARA SESSÃO DEMEDIAÇÃO

216
CONVITE PARA SESSÃO DEMEDIAÇÃO

217
FORMULÁRIO PARA CONFECÇÃO DAS ESTATÍSTICASDA UMEPOL

218
TABELA – Resposta dos policiais ao questionário aplicado nas cidades de Vila-real (Espanha) e Fortaleza (Brasil), Período 2016 - 2017.

5. Em caso
positivo. Qual 8. Como
6. A
a sua avaliação 7. Que tipos de prepararia o
4. É possível, disciplina
1. Existe sobre a conflitos você efetivo policial, no
na atuação mediação de
relação entre 3. Na sua disciplina atende com policiamento
2. Qual é o lugar da policial, conflitos foi
segurança opinião, qual é mediação de maior comunitário, para
mediação de utilizar as relevante
País

Cidade

pública e o perfil para ser conflitos frequência que a técnica da


conflitos na técnicas da para a sua
administração um policial- (professor, quando é mediação de
atividade policial? mediação de formação e
de conflitos? mediador? apostila, carga acionado para conflitos possa ser
conflitos? atuação como
Por que? horária)? Pode as ocorrências utilizada como
Por que? policial?
dar detalhes policiais? ferramenta
Por que?
que acha cotidiana?
interessante.
En muchos
conflictos
sociales aparecen
Un lugar principal de Debe ser una
afectados
hecho en la mayoría de persona pausada, Porque en la
derechos de Cursos de psicología
actuaciones de la empática y con mayoría de Accidentes de
ESP alguna/todas las para entender a los
VILA- actividad policial. Existe altas habilidades actuaciones nos tráfico y
1 AN partes afectadas No. No. ciudadanos y técnicas
REAL un conflicto, ya sea sociales, capaz de encontramos con estacionamientos
HA en el conflicto. de expresión verbal y
entre particulares, entre hacer entender a algún tipo de incorrectos.
Otros derechos física.
particular y los demás su conflicto.
deben ser
administración. visión.
garantidos por la
Seguridad
Pública.
De la forma que lo
Sí. De hecho se Sí. Muy
esta realizando la
realizan muchas interesante e
Un policía con Jefatura de Policía
Si, porque Un pilar fundamental en veces en nuestros importante ya Sí. Porque es
unas habilidades Problemas Local de Vila-real,
solucionando los nuestro trabajo al servicios sin que se nos forma necesita en
sociales y vecinales por desde el inicio de
conflictos solucionar los conflictos tener que llegar e informa del nuestro trabajo
ESP comunicación, molestias de ruido formación de policía a
VILA- sociales se de una forma no al proceso de proceso de y cada vez más
2 AN capaz de transmitir u otras la continua formación
REAL produce en la represiva y satisfactoria mediación y en mediación implantada en
HA seguridad y relacionadas con la de nuestra carrera
ciudadanía una para ambas partes casos en los que policial como más
entendimiento en convivencia en profesional realizando
sensación de implicadas en el el conflicto es una forma de organizaciones
el proceso de comunidad. cursos de
seguridad. conflicto. temporal y no "hacer policía" policiales.
mediación. actualización de
prolongado en el más cercana al
conocimientos y
tiempo. ciudadano.
técnicas.
Discusiones
ESP En la calle cuando son vecinales (ruidos,
VILA- Tener empatía y NÃO Con bueno diálogo y
3 AN Sí. mediaciones "sencillas" Sí. No. ocupación de
REAL buen diálogo. RESPONDEU paciencia.
HA o "no complejas". zonas comunes,
sociedad…)
Sí. Toda
Con profesorado
actuación
formado en el campo
policial que
Considero que de la filosofía,
Son técnicas al pueda tratarse
una buena psicología, en el
alcance de de forma
gestión en la campo de la
Ante todo ser cualquier pacífica,
resolución en la comunicación,
persona con unos persona, con la solucionarla
búsqueda, puede comportamiento y
valores adecuados formación así mediante el
prevenir, evitar conducta sin
En Jefatura de Policía ser asertivo, tener como la buena diálogo sin Conflictos
conflictos No. La descuidar el plano de
ESP Local, salas adecuadas capacidad de voluntad necesidad del vecinales, ruidos,
VILA- sociales que asignatura no la ética policial. A si
4 AN para ello, ambiente empatía así, como podríamos evitar uso de la insalubridad,
REAL desemboquen en estaba creado, no ver seria también
HA tranquilo y preservando tolerancia y situaciones fuerza legal es malos hábitos en la
males mayores existía. interesante
la intimidad. paciencia, saber gravosas y el servicio convivencia.
afectando sin formación en cuanto
escuchar y a su ver reconducirlas policial, bajo
lugar a dudas el a las clases sociales y
saber transmitir, dándoles una mi punto de
bien estar social nacionalidades en
comunicar. solución o vista, más
y por lo tanto la cuanto a cultura y
alternativa, efectivo que
Seguridad costumbres,
mejoría pacífica. hay y para ello
Pública. tradiciones.
el campo de la
(MEDIACIÓN
mediación es
INTERCULTURAL)
una
herramienta
básica.
Sí. Supongo que
al administrar
Un policía con Porque se trata de
conflictos y
ESP Se mediá en vias gran vocación en técnicas que van Supongo que con
VILA- solucionando No tuve esa
5 AN públicas, entorno rural, su trabajo y a ayudar al No. Ninguno. cursos relacionados
REAL positivamente, formación.
HA etc… formación policía en su con psicología.
repercutirá en la
continua. labor.
seguridad, en la
paz social.
Toda la vida, el
policía ha sido Sí. La
mediador, pero A veces y mediación
ahora lo han Capacidad para depende del depende de la
ESP
VILA- protocolarizado, Uno más dentro de la transmitir, dirigir servicio, la voluntad de las No. Aprendí Discusiones
6 AN Diálogo y paciencia.
REAL siempre ha actividad policial. en el diálogo entre mediación no partes. Sobra en la calle. vecinales.
HA
estado (o las partes. debe suplir las mediación y
debería) para leyes. falta sentido
ayudar, auxiliar común.
al ciudadano.
ESP Conflictos
VILA- Ser empático y
7 AN No. Sala reflexión. No. No. No. privados y Realizando formación.
REAL responsable.
HA vecinales.
Realizando más
Sí. Porque somos
En todos los De todo tipo: cursos e ponencias
los primeros al
La mediación se puede conflictos tiene Sí. Pienso que conflictos por sobre la mediación,
llegamos al
hacer en dependencias El perfil debe de que hacer una sí, ya que problemas del para demostrar que
conflicto y
ESP policiales citando a las ser un policía mediación con el tenemos que tráfico, conflictos la misma es efectiva
VILA- tenemos que
8 AN partes implicadas, o se conciliador y que fin de solucionar No. aprender otra de pareja, caso de en la mayoría de los
REAL mediar en el
HA medía la mayoría de vele por la paz el mismo. Sin forma nueva violencia de casos. Tenemos que
mismo de forma
veces intro, en el… del social. mediación no hay de ser y de ver género, conflictos cambiar la
inmediata para
conflicto. solución del a la policía. familiares, mentalidad actual de
solucionar el
conflictos. vecinales, etc. la policía en cuanto a
problema.
nuestras actuaciones.
Policía con cierto
A mayor grado experiencia Sí. Porque ha Problemáticas de Formación continua
Porque dá una
de resolución profesional cuando dado pie a la convivencia de tanto en cursos básicos
ESP respuesta
VILA- conflictos, mayor a alto grado de implantación de vecinos, ámbito como posteriormente,
9 AN Jefatura. inmediata a la No.
REAL grado de empatía, a sí como mediación rural y cursos monográficos
HA problemática
seguridad continua policial en este problemáticas relacionados con
surgida.
pública. formación en este cuerpo policial. conyugales. técnicas psicológicas.
ámbito.
ESP
VILA- Conflictos
10 AN Sí. Prioritario. Empatía. Sí. No. No. Realizando formación.
REAL privados.
HA
Muchos
conflictos Policía abierto, Muchas veces se No. No existía Eres cuando al
En la mayoría de Conflictos
ESP sociales derivan comprensivo, hace para evitar por a quel Policía que la
VILA- conflictos existe un privados entre
11 AN en procesos observador, denuncias No. entonces. En mediación es una
REAL nivel de mediación, administradores y
HA judiciales disciplinado y judiciales o cursos herramienta de trabajo
aunque sea bajo. particulares.
(agresiones, sensato. administrativas. posteriores Sí. cotidiano.
insultos, etc.).
Sí. Se cambia la
Porque los
Porque la forma de actuar
Habilidades técnicas de
administración como policía.
sociales, gran mediación
tiene servicios Se abre las En estes
comunicador policial en la
ESP que sirven Ámbito comunitario, miras o los momentos
VILA- (verbal, no resolución de
12 AN activamente para ámbito rural, ámbito No. conflictos se ninguno. No Formación sin limites.
REAL verbal), escucha conflictos son
HA apoyar los penal, ámbito escolar. gestionan de formo parte de la
activa, motivado, aplicables a
servicios de otra forma y lo UMEPOL.
con ilusión, cualquier ámbito
mediación que es más
optimista. de la actuación
policial. importante, se
policial ordinaria.
solucionan.
En muchos
apartados del
Realización de cursos
ESP trabajo policial No. Estoy
VILA- NÃO Afinidad, NÃO de preparación, de
13 AN NÃO RESPONDEU el uso de estas No. inscrito en otras
REAL RESPONDEU conciliador. RESPONDEU mejoras en las
HA técnicas da unidades.
técnicas.
mejores
resultados.
La
administración
de conflictos Siempre que se
sociales de Experimentado en de el espacio y Formación en
ESP
VILA- forma adecuada Preferente como gestor labor policial, tiempo necesario Comunitários y psicología social y
14 AN No. Sí.
REAL repercute en la de paz social. empático y para ello, lo que vecinales. comunicación verbal y
HA
paz social y esta comprometido. requiere unidades no verbal.
directamente en especializadas.
la seguridad
pública.
Hay que hacer
Conocedor del En muchas
trabajo de convicción
entorno, empático ocasiones la
Quizá son dos Se media en y concienciación. Los
y con cierta "inmediates" a la De todos tipos,
premisas que en dependencias (deber ser No. En 1986 no agentes no están (en
experiencia. hora de atender sobre todo:
ESP muchos cosas adecuadas pero el existía la general)
VILA- Conocer la una reclamación NÃO vecinales, de
15 AN son una trabajo de "campo" mediación como concienciados de que
REAL idiosincrasia, es garantía de RESPONDEU convivencia,
HA causa/efecto de también es importante. la entendemos (tal y como pienso
costumbres y vivir poder resolver jovenes,
la otra o En ocasiones descobres ahora. yo) la mediación es el
en la ciudad donde una mediación familiares…etc.
viceversa. la raiz del problema. futuro de la
se trabaja para mi satisfactoriament
actuación policial
es fundamental. e.
cotidiana.
Porque la policía
tenemos la No. Se han de Centrando la
misión de repensar los formación en
garantizar la Porque tenemos estudios, la Sí. Por la habilidades y
Un policía más Todo tipo:
ESP percepción de la legitimidad de formación, que satisfacción de técnicas de
VILA- Unidades propias de psicológico y familiares,
16 AN seguridad y una la ciudadanía que reciben los sentirle útil y mediación:
REAL mediación policial. social que piensa vecinales,
HA buena manera es confía en su policías en las cerca de la comunicación
en la prevención. mercantiles…
la de colaborar policía. Academias. comunidad. efectiva, legislación,
en la gestión de (NUEVA justicia restaurativa
conflictos FORMACIÓN) y motivación.
sociales.
No. Siempre es En la mejora de la
No. Empatía,
bueno rebajar el empatía, en implicar a
Prácticamente implicación,
ESP Sala de Mediación en nivel de tensión De convivencia, los mediadores en
VILA- todo es mediable. neutralidad, NÃO
17 AN Jefatura de Policía para calmar los No. familiares y cada uno de los
REAL Se puede transmitir RESPONDEU
HA Local. ánimos. judiciales. conflictos de manera
resolver al asunto serenidad y
Posteriormente y que las personas
emocional. seguridad.
con más sientan cercanía e
tranquilidad se interés.
realizaria la
mediación.

Capacidad para
escuchar a las
partes
Porque hay un
interesadas,
porcentaje alto de Relacionados con
facilitar No. Porque en
Bastante importante, reclamaciones el tráfico,
ESP soluciones el año de mi
VILA- dado que se resuelve un entre ellas de seguridad
18 AN Sí. satisfactorias No. ingreso, no NÃO RESPONDEU
REAL porcentaje alto sin vecinos, en los ciudadana,
HA para los existía tal
delegar a sede judicial. que mediando se reclamaciones
solicitantes del disciplina.
resuelve el vecinos, etc.
servicio utilizar
problema.
un lenguaje fácil
de comprender
por todos.
ESP Problemas de
VILA- En cualquer lugar y Comprensión y
19 AN Sí. Sí. No. Sí. convivencia, NÃO RESPONDEU
REAL momiento. profesionalización.
HA Vecinal.
No van cogidas
de la mano la
seguridad pública
la entiendo como Sí. Porque Sí. Porque
ESP Conflictos de
VILA- orden pública y El 90% de la actividad Tener medio ayudan a la fueres parte de
20 AN No. convivencia en el A base de experiencia.
REAL administración policial. psicología. resolución del mi trabajo
HA ámbito rural.
de conflictos problema. cotidiano.
como resuelven
problemas de los
vecinos.
Aquel que
Por los agentes
mantenga un papel
de Policía, se
entre las partes en
trata de resolver
conflictos de
el conflicto
Tenemos de forma imparcial, No curse la Reclamaciones
ESP facilitando los
VILA- garantizar la Unidad de Mediación escuchando y disciplina de vecinales en Formando a los
21 AN cauces para ellos, No.
REAL percepción de Policial. aconsejando a los mediación de cualquiera de sus agentes.
HA evitando a ser
seguridad. afectados, con la conflictos. órdenes.
posible el
finalidad de
enfrentamiento
solucionar al
entre las partes
problema en
implicadas.
cuestión.
Cualquer
Si, porque es una actuación policial Sí. Porque es
de las funciones Cualquer lugar de la no deja de ser un una de las
ESP
VILA- de las policías población ya que se El de una persona conflicto en el funciones
22 AN No. Accidentes. Con formación.
REAL locales es la puede dar un conflicto empática y neutral. hay varias partes principales, la
HA
resolución de en cualquer lugar. que tienen que resolución de
conflictos. llegar a un conflictos.
acuerdo.
Sí. Pues es la
Con nueva formación
ESP policía que Persona Sí. Segue la No. En mis Relaciones entre
VILA- En dependencias y realizando practica
23 AN primero se entera equilibrada, actuación No. tiempos no vecinos: ruídos,
REAL policiales. con formación con
HA de los conflictos equitativa. policial. existía. denuncias.
experiencia.
sociales.
Si, que es Porque la
necesario para práctica nos dia Me aportó otra
ESP Muchas
VILA- poder resolver En la sede de la Policía que es un metodo forma de Conflictos
24 AN habilidades No. No lo sé.
REAL nuestros Local. muy apropiado resolver los privados vecinales.
HA sociales.
conflictos del dia para resolver los conflictos.
a dia. conflictos.
Sí. Nos ha
Una buena
Porque es permitido
resolución de
Un policía fundamental resolver Problemáticas de
ESP conflictos
VILA- dialogante y gran aplicar diversas satisfactoriame convivencia en
25 AN repercute Jefatura. No. NÃO RESPONDEU
REAL dosis de técnicas en las nte diversas comunidades de
HA directamente en
psicología. actuaciones casos de vecinos.
la Seguranza
policiales. conflictos
Pública.
comunitários.
Porque en
Sí. Los
Persona preparada muchas
ciudadanos Conflictos Con formación y
ESP para mediar y con intervenciones
VILA- acuden a la En la Jefatura de policía vecinales y a practicando con
26 AN critérios para policiales, No. No existia.
REAL policía cuando local. instancias de los compañeros que tegan
HA resolver mediamos para
tienen algún juzgados. experiencia.
problemas. resolver el
conflicto.
problema.
Sí. Uni
ESP La policía ha de En treinamiento,
VILA- intervención Con una buena
27 AN garantizar la Policía de barrio. El de proximidad. en actividades No. Rinãs, ruidos,
REAL con la formación
HA legalidad. policiales.
ciudadanía.
Sí. Aunque no
Sí. Lo veo
lo ha
relacionado
practicado, me
completamente Creo que ha de ser
ha servido para Conflictos entre
ya que forman un policía Sí. Porque creo Como prepáralos, con
ESP resolver de otra cidadanes de
VILA- parte un de otro. La jefatura de policía motivado y asi se resuelven formación y
28 AN Sí. manera los carácter
REAL Los conflictos local. preparado para mejor los protocolos
HA conflictos a los administractivo e
sociales surgen prestar servicio en conflictos. estandarizados.
que soy penal.
como servicio la mediación.
requerido y ha
para la seguridad
sido, sin duda,
pública.
satisfactorio.
Sí. Aprender
Sí. De todo tipo:
Sí. Por la habilidades Con una formación
ESP Entrenamiento vecinales, ruídos,
VILA- garantía de la Unidad de Mediación El del policía de sociales mejora la adecuada por
29 AN Sí. en habilidades molestias, quejas,
REAL percepción de Policial. proximidad. interrelación profesionales de la
HA sociales muy tráfico, seguridad
seguridad. policía - materia.
útil. ciudadana.
ciudadano.
Sí. En muchas
actuaciones Les cuerpos policiales
policiales deben formar a sus
Persona formada, tenemos que Discrepancias funcionarios en
ESP
VILA- En dependencias de com criterios y mediar y para NÃO entre vecinos y técnicas de mediación
30 AN Sí. No.
REAL policía local. aptitudes para hacerlo con RESPONDEU mediaciones en todos los aspectos
HA
resolver. criterio es mejor judiciales. en la que esta técnica
utilizar las pueda solucionar
técnicas de cualquier conflicto.
mediación.
Sí.
Generalmente,
Persona con Sí. En algunos
cuando existe
ESP criterios claros, casos cuando Com mucha formación
VILA- conflicto el En la Jefatura de policía NÃO Conflictos
31 AN comprensivo, con mediamos es No. y con prácticas en
REAL ciudadano acude, local. RESPONDEU vecinales.
HA empatia y capaz de porque hay conflictos.
en primera
"ser mediador". conflictos.
instancia, a la
policía.
ESP Persona
VILA- No. No existia Conflictos entre
32 AN Sí. En casa de barrio. cualificada con Sí. No. Con formación.
REAL cuando entre. vecinos.
HA mucha formación.
Sí. De hecho,
creo que es
Mostrando
Sí. Es una de los necesario para Sí. Por mi
resultados, objectivos
mayores labores prestar un experiencia que
Un policía con un los cuales generan
policiales, la servicio a la el nivel de Sí. Aprendí a
ESP nivel de empatía confianza. Explicaría
VILA- administración y En la Jefatura de Policía comunidad del resolución es otras técnicas Conflictos
33 AN social acorde a les el procedimiento y
REAL gestión Local. municipio donde elevado, em mi para desarrollar vecilanes.
HA problemas que cómo funciona para
/resolución de se desarrolla la caso de total de mi profesión.
vaya a gestionar. canalizarlo y actuar
conflictos labor policía. les conflictos que
de manera
sociales. Creo necesario traté.
igualitaria.
que se hacen
otras técnicas.
Sí. Mejora las
Sí. Porque la relaciones y la
ESP
VILA- policía tenemos comunicación en Malos tratos en el Formando a los
34 AN La jefatura de policia. El de proximidad. No. No.
REAL que dar servicio a el binomio ámbito doméstico. policias.
HA
la ciudadanía. policía-
ciudadano.
Sí. La seguridad Mediante cursos que
Sí. Es Conflictos por
pública tiene se combinan tanto la
importante para motivo de
como uno de sus Perfil observador, Sí. Se tratan de parte teórica
Muchos conflictos se poder adquirir infracción
objectivos que sepa detectar Sí. En la mayoría cursos de 40h de (adquisición de
ESP resuelven en la misma técnicas que relacionadas con la
VILA- resolver el punto del de casos es la duración, además conocimientos) como
35 AN calle, los más complejos ayuden a seguridad vial
REAL conflictos y más conflicto y con medida que se de seminarios la parte práctica
HA ya se tratan en sede resolver (accidentes,
la Policía Local carácter afable y debe adoptar. sobre temas (aplicación de los
policial. conflictos infracciones de
que se trata de un cercano. concretos. conocimientos y parte,
habituales de la tráfico,
cuerpo muy em mi opinión, muy
labor policial. alcoholemias...).
próximo a la importante).
ciudadanía.
Sí. Resulta
interesante
aprender
técnica de
Sí. Es una de las
Sí. Formadores mediación
funciones más
serios y policial para
importantes de la
profesionales, dar un servicio
Sí. Porque policía, com las
ESP tiempo adecuado más completo y
VILA- mejora la Ser próximo a los técnicas Conflictos Cursos de formación
36 AN Dependencias policiales. siendo necesario satisfactorio
REAL relación con la ciudadanos. adecuadas se vecinales. continuada.
HA formarse de para el
comunidad. logra un
forma constante ciudadano,
resultado más
para seguir consiguiendo
satisfactorio para
aprendiendo. ser una figura
todas las partes.
más próxima y
de confianza
para los
vecinos.
Sí. Todos los
Sí. En las
departamentos de
actuaciones
la admón pública
policiales que
ESP deben solucionar Empático, sociable Infracciones y
VILA- existe relación No. No curse Formación con
37 AN o estar dirigidos Un lugar primordial. y con don de No. accidentes de
REAL con los dicho curso. expertos en la materia.
HA a solucionar los gentes. tráfico.
interesados,
conflictos
caben técnicas de
existentes en la
mediación.
sociedad.
Sí. Es bueno Sí. Añadir
Sí. Aprendí las
relajar en un formación y
habilidades
momento de alta experiencia es Los policías deben
Sí. En cada necesarias para la Problemas de
emotividad. importante para creerse lo que hacen y
actuación debe mediación. convivencia,
Sala de mediaciones Enfriar la el crecimiento pensar que se la
ESP aparecer la cara Además de mi mediaciones
VILA- dentro de la Jefatura de Empatía, situación sin personal y mediación esta
38 AN del mediador y experiencia junto judiciales (daños,
REAL la policía local de Vila- neutralidad. restar profesional y resultando exitosa es
HA con ello tratar de a policías lesiones,
real. importancia y ello redunda en porque funciona y por
rebajar la mediadores con usurpación),
volver a retomar la ayuda que se ello estamos en el
tensión. los que había escolares.
el conflicto en ofrece a las buen camino.
trabado
otras condiciones personas que se
anteriormente.
emocionales. lo pasan mal.
Sí. Entendiendo
Seguridad
Pública como Creo que deben
Sí. Desde un
seguridad ser un policía que
punto de vista,
ciudadana, es Los lugares en que se mostré cercanía y Sí. Porque para
creo que algunas La mayoría de
decir, mantener puede llevar a cabo la proximidad al poder llevar a
de las técnicas de conflictos pueden
por parte de la mediación policial, ciudadano, para Sí. El tiempo del cabo nuestra
mediación de ser entre vecinos
Policía Local una puede ser tantos como que este sienta una curso impartido y labor policial
conflictos pueden por ruidos y Realizado cursos de
ESP tranquilidad y actuaciones policiales, buena atención por todo el contenido en muchísimas
VILA- ir implícitas en molestias, formación especifica
39 AN paz en la se lleva a cabo como por nuestra parte y fue muy ocasiones tiene
REAL ejercicio de las familiares entre en concordancia con la
HA convivencia ejemplo en domicilios sobre todo, un interesante para que mediar
funciones de un padres e hijos, vida actual.
ciudadana, ante particulares, en la vía policía poder llévalo a le entre las partes
policía local, problemas por
cualquier tipo de pública, en locales o comunicativo para práctica. para poder
como pueden ser absentismo escolar
conflicto social establecimientos que las partes resolver el
la comunicación, o entre escolares.
puede haber públicos, etc. entiendan el conflicto.
responsabilidad,
alguna parte que mensaje que se
empatía.
pueda romper trata transmitir.
dicha paz y
tranquilidad.
No. Porque en
Deben ser Sí. Porque en Jefatura mi No atiendo, puesto
ESP Reciclándose
VILA- Jefatura de Policía imparcial y gran medida se dedico a tareas que mis tareas son
40 AN Sí. No. continuamente con
REAL Local. escuchar a las evitan conflictos diferentes y de otro tipo
HA nuevos cursos.
partes en litigio. mayores. entonces no administrativo.
existía.
En la actualidad
Sí. Porque
Sí. Porque con dado que realizo
ESP Sereno, ayuda a poder Realizando cursos de
VILA- La Jefatura de Policía ello se puede tareas
41 AN Sí. pacificador, No. resolverlos sin formación y
REAL Local. evitar trámites administrativas no
HA coherente. que vaya a más perfeccionamiento.
judiciales. atiendo servicios
el conflicto.
de esa unidad.
Sí. Porque la
mayoría de
veces los
ESP No. No he
VILA- implicados no Peleas, Por medio de cursos y
42 AN Sí. Jefatura. Imparcial, sereno. No. realizado
REAL quieren tener desavenencias. práticas.
HA formación.
trámites
judiciales y se
prestan a dichas
técnicas.
Policía asertiva y Sí. Ayuda a
ESP Sí. Ambos están Curso de formación,
VILA- Jefatura de Policía con tolerancia así resolver con
43 AN directamente Sí. Sí. Positiva. De ámbito civil. psicología, técnicas de
REAL Local. como capacidad más eficacia los
HA relacionados. comunicación.
de empatía. conflictos.
Sí. Aunque no
Persona con más No. En ese
Sí. Menos resulta fácil por
de 15 años de momiento no
ESP conflictualidad las connotaciones Dotando al grupo de:
VILA- servicio en se considerada Comunitários y
44 AN social = mejor Primordial. de los propios No. Adecuada. formación, protocolos
REAL diferentes puestos como una sociales.
HA seguridad conflictos donde y medios adecuados.
de seguridad formación
pública. están presentes
pública. relevante.
las emociones.
Sí. Pensaba
que no era
ESP Es necesario para
VILA- SÍ. Creo que van Policía con necesaria. Hoy
45 AN Secundario. manejar la Sí. Buena. Pontuales. Formación.
REAL unidas. experiencia. es
HA situación.
imprescindible
.
Concientización y
Sí. Ha ayudado cursos de teoría y
En la actualidad la
Sí. A más trabajo Sereno y SÍ. Es necesario a cambiar el De todo tipo, práctica para
ESP mediación ha empezado
VILA- en resolución de capacidad para ya que facilita la enfoque y ha comunitarios y los intentar cambiar la
46 AN a despertar la percepción No.
REAL conflictos más escuchar y actuación con las mejorado la relacionados con el percepción actual
HA de los ciudadanos
seguridad. analizar. partes. relación con los ámbito rural. para lograr una
(positiva) ha aumentado.
ciudadanos. policía moderna y
dialogante.

Me dio otra Conflictos


ESP Sí. Porque se trata de Sí. Muy buena
VILA- visión del relacionados con Formación
47 AN Necesariamente Sala de mediación. El de proximidad. otra forma de (Modelo de Vila-
REAL modelo molestias permanente.
HA son inseparables. hacer policía. real).
policial. vecinales.

Sí. Porque a
Incidiria en técnicas y
través de las Agente formado y
ESP Siempre se han Conflictos de herramientas que
VILA- actuaciones se Cada vez corra más con dedicación No. Porque no
48 AN utilizado y No. convivencia dieran las habilidades
REAL detectan casos importancia. cuanto más la recibí.
HA funcionan. actualmente. necesarias para ana
que necesitan exclusiva mejor.
resolución efectiva.
relación.
Sí. Los Sí. Porque la
departamentos de policía actúa día
la administración a día con
pública deben conflictos
Un policía Todo tipo de
actuar para sociales y en Una formación
ESP empatico, social No. No he conflictos que
VILA- intentar Un lugar muy mayor o menor continuada con
49 AN que sepa escuchar, No. realizado el pueden tener lugar
REAL solucionar de una importante. medida se grandes expertos en la
HA paciente y curso. en el teritorio
manera eficiente interactúa con las materia.
resolutivo. municipal.
los problemas personas en
que puedan prácticamente la
surgir en la totalidad de sus
sociedad. servicios.
Sí. Muchos
Un sítio central, unas
conflictos se Persona que sepa
ESP dependencias No. No poseo Conflictos del
VILA- pueden escuchar, atento, Sí. La mayoría de
50 AN municipales, no No. formación de ciudadano con la No poseo formación.
REAL solucionar sin agradable y las veces ocurre.
HA necesariamente ese tipo. administración.
necesidad de sensato.
policiales.
acudir al policial.
Sí. La mediación
entre policía e la
sociedad se
Sí. Todos los
produce
departamentos de
intentando
ESP la administración No. No he Infracciones y Formación continuada
VILA- Sociable y solucionar los
51 AN pública deben Un lugar preferente. No. realizado el accidentes de con expertos en la
REAL empático. conflictos que se
HA solucionar y estar curso. tráfico. materia.
presentan siendo
al servicio de la
necesario para
sociedad.
ello utilizar todos
las técnicas
aprendidas.
Sí. La percepción
de seguridad
depende en gran
medida de la Debe ser un Sí. Es un Sí. Me parece un Sí. Modeló mi
ESP Integrando
VILA- construcción de funcionario/a con procedimiento paso más en la relacionamient
52 AN Preferente. Convivenciales. conocimientos de
REAL convivencia a habilidades sometida a profesionalizació o con los
HA diferentes disciplinas.
través de la sociales. aprendizaje. n de la policía. ciudadanos.
solución de
problemas
comunitarios.
ESP Es muy importante la Atención
VILA- Curso de formación
53 AN Sí. función del mediador en Empatico. Sí. No. Sí. telefonica
REAL especifico.
HA la policía. ciudadana.
Sí. Viene
regulado por ley La segunda Seguridad
ESP
VILA- 02/86, cooperar Es un servicio de la actividad por ser Ciudadana,
54 AN Sí. No. No. Formación especifica.
REAL en la resolución policía, entre otros. personas con molestias
HA
de conflictos experiencia. vecinales.
privados.
ESP
VILA- Empatico y Seguridad Cursos (formación
55 AN Sí. Basico e importante. Sí. No. No.
REAL sociable. Ciudadana, tráfico. específica).
HA
Sí. Un curso
basico de 20h,
Con personas capaces
Sí. En muchas donde pude
de gestionar un
Debe ser un actuaciones el aprender un
Los conflictos a proceso de conflicto
policía con gran policía debe poco, que la
los que me con un alto nivel de
Diariamente si están capacidad de saber mostrar mediación es el Sí. Me permite
ESP Sí. Son servicios enfrento comunicación y
VILA- llevando casos de escuchar, imparcialidad y medio para que entender a las
56 AN complementarios diariamente son empatía, así como una
REAL mediación policial en la empático, ayudar a las las partes en partes en
HA . derivados por buena capacidad de
jefatura de esta policía. imparcial y un partes para que conflicto conflicto.
accidentes de escucha y neutralidad
buen ellos puedan resuelvan el
circulación. facilitando el camino
comunicador. resolver su problema y
de resolución a las
conflicto. ayudarles en este
partes implicadas.
proceso de
gestión.
Sí. Es inevitable
la sociedad, la
existencia de
conflictos y por Conflictos de Con la formación
ESP Policía moderado Sí. Toda
VILA- lo tanto si existe Es un lugar importante tráfico, vecinales, adecuada y medios
57 AN con ánimo de Sí. No. formación es
REAL relación entre en la actividad policial. atención para poder realizar las
HA escuchar. relevante.
policía telefónica. tareas.
(seguridad
pública) y los
conflictos.

Debe ter un policía


Sí. Fue un Mucha formación y
ESP Sí. Es el Es la actividad principal con capacidades Sí. Problemas
VILA- cambio en el supervisión del
58 AN fundamento de la interacción con los humanas elevadas Absolutamente No. familiares y
REAL enfoque de mi procedimiento en la
HA labor policial. conflictos comunitarios. y con habilidades cierto. vecinales.
trabajo. práctica.
comunicativas.

Sí. Respuesta Sí. Motivación Sí. Supuso un Fundamentalmente


ESP Vecinales: ruidos,
VILA- institucional a la La unidad de mediación Policía de barrio y Sí. Mejora la añadida al cambio a mejor con un buen
59 AN suciedad, peleas,
REAL conflictualidad policial. lo proximidad. interrelación. trabajo con o como persona y entrenamiento y
HA molestias…
del dia a dia. servidor público. policía. formación.

Sí. Porque de
Sí. Porque se
este modo se
ESP Sí. Porque son Comedido, sereno evitarían Son otros los Realizando contínuos
VILA- La jefatura de Policía resuelven
60 AN parejos, lo uno y coherente ante la situaciones más No. compañeros que cursos de
REAL Local. conflictos de
HA acarrea lo otro. situación. gravosas para los los atienden. perfeccionamiento.
modo más
ciudadanos.
cívico.
Aulas Ajuda a estar
ministradas de preparado Preleções antes do
No cotidiano Constantemente acordo com as para enfrentar serviço, dando breves
policial é Primordial, Paciente, em ocorrências condições as situações Briga de família orientações de como
BRA FORTA
1 necessário o uso extremamente articulado e de briga de disponíveis, durante o e/ou vizinhos, confrontar e conduzir
SIL LEZA
da administração necessária. pacificador. família, por carga horária serviço na qual Maria da Penha. a ocorrência na qual
de conflitos. exemplo. suficiente para seja necessário seja necessária a
esclarecer sobre utilizar a mediação de conflitos.
o assunto. mesma.
Os conflitos
quando não
administrados
da forma devida Através da
Faz parte do cotidiano Em vários tipos
podem evoluir a capacitação,
policial militar, visto de ocorrência
uma situação Não, porque qualificação nas
que em muitas Saber escutar, ser como: briga de Discussão entre
BRA FORTA que afete Não teve a não houve no técnicas de mediação
2 ocorrência para o qual é paciente, trânsito, vizinhos e
SIL LEZA diretamente na disciplina. meu curso de e principalmente na
acionado o policial empático. discussão entre familiares.
segurança formação. conscientização da
encontra uma situação vizinhos,
pública podendo importância e
de conflito. familiares, etc.
resultar em eficácia da mediação.
lesões corporais
e, até
homicídios.
A PM (Polícia Militar)
Muitas não investe nesse
ocorrências assunto (mediação de
BRA FORTA Previne a podem ser Não teve a Não teve a conflitos). A polícia
3 Prevenção de crimes. Imparcial. Briga de vizinhos.
SIL LEZA violência. resolvidas com disciplina. disciplina. talvez prepare os
uma boa novos policiais, mas
conversa. não recicla os
antigos.
Se conseguirmos (Um policial-
Tem que estar na
intermediar mediador) que
primeira tentativa de Muitas vezes
conflitos, entenda seres Foi tratada de Dando treinamento
BRA FORTA resolver ocorrências podemos resolver (Conflitos)
4 evitaremos humanos como tal, Insatisfatória. forma específico com
SIL LEZA antes que seja usada o a ocorrência no familiares.
possíveis mesmo que esse superficial. pessoas capacitadas.
uso progressivo da local.
conflitos seja um
força.
maiores. delinquente.
A partir das TMC
(técnicas de
mediação de Sim. Para
conflitos), resolver as
Imparcial, ter um
Nós somos podemos Pouco satisfeito. ocorrências
No local onde ocorre a bom conhecimento Assalto, som alto, Com treinamento, com
BRA FORTA acionados desde solucionar o Deveria ter um com
5 ocorrência, geralmente dos direitos e briga de família, um efetivo
SIL LEZA o assalto a briga conflito no local melhor imparcialidade
na rua. deveres de um briga de vizinhos. especializado.
de vizinhos. ou encaminhar o treinamento. e resolver da
cidadão.
conflito para o melhor maneira
Órgão que possa para as partes.
fazer tal
mediação.
Porque muitas
Porque muitas Tem que ser uma
ocorrências são Sim. Precisa Aulas mais detalhadas
vezes podemos pessoa aberta ao
de pequeno haver um maior sobre o assunto, um
ajudar na diálogo e
Normalmente faço mais potencial, onde esclarecimento Utilizo bastante conteúdo de
resolução de compreensiva. Vizinhos,
BRA FORTA em residências, briga de se consegue do conteúdo para no dia a dia qualidade, aulas
6 problemas Para isso há que se comerciantes,
SIL LEZA vizinhos e até mesmo através do a corporação. como policial e práticas, vídeos e
simples para que haver um família.
entre familiares. diálogo, a Com mais aulas e cidadão. outros investimentos
esses não treinamento
conciliação das informação de que possam ser
cheguem a melhorado por
partes como proceder. utilizados.
Justiça Comum. parte do Estado.
envolvidas.
Somos todos
Primeiramente temos
Aquele policial mediadores. O Evidente o Violência
Ótima, porque que ter o apoio da
Somos policiais que prática a primeiro a policial, doméstica são as
somos todos sociedade, depois do
comunitários e cultura de paz. intervir na primeiramente, mais frequentes,
humanos, comando. Todo bairro
muitas vezes Onde ele busque ocorrência é o ele é um pois as famílias de
precisamos ter era para ter uma dupla
temos que uma sociedade policial. Antes de cidadão. Onde hoje tem mais
BRA FORTA Muitas vezes no local de contatos com o de polícia comunitária,
7 intervir em certas melhor para todos. ir para a ele se depara turbulência de
SIL LEZA ocorrência. cidadão, porém juntamente com o
ocorrências para Que seja não só delegacia. A com várias problemas
podemos nos líder comunitário do
não prejudicar policial, mas uma parte mais ocorrências. familiares. Tem
informar sobre o bairro. O líder
ambas as partes pessoa onde importante é a Nem sempre o que intervir de
que acontece na comunitário é uma
da ocorrência. busque paz em nossa que policial poderá forma segura e
comunidade. peça fundamental
ambas as partes. chegamos usar da força. preventiva.
dentro da comunidade.
primeiro.
Porque
Através de cursos para
resolvendo boa Às vezes uma
quando for necessário,
BRA FORTA parte dos Ser justo, boa boa conversa Não teve a NÃO Briga de casais,
8 Desconheço o policial esteja
SIL LEZA conflitos sociais, índole, ser integro. resolve muitos disciplina. RESPONDEU brigas em família.
preparado para mediar
diminuiria muito problemas.
o conflito.
a criminalidade.
Primeiramente, teria
que desmilitarizar a
PM, pois o militarismo
não condiz com a
democracia. Cada
Não.
Insuficiente, não órgão deveria
Insuficiente,
Não existe local considerava realmente assumir
Porque a maioria Ser calmo, não considerava
específico, todos os muitos pontos suas funções (coisa
das ocorrências imparcial, exige muitos pontos
locais em que hajam social e cultural. Brigas de vizinho, que não existe).
BRA FORTA envolve briga muito do social e
9 conflitos (brigas, Sempre se usa. Falta pesquisa Maria da Penha e Campanha para
SIL LEZA entre vizinhos, psicológico do cultural. Falta
distúrbios, confusão) sobre esses som alto. informar e
trânsito, conflitos profissional de pesquisa sobre
escolas, hospitais, casas, aspectos e conscientizar a
familiares. segurança. esses aspectos e
praças. estudos nas população de seus
estudos nas
comunidades. direitos e,
comunidades.
principalmente, de
seus deveres. Curso
preparatório
aprofundado para os
agentes da lei.
Orientaria os policiais;
A técnica de as funções dos
Porque se um mediação de profissionais que são
A
conflito se conflitos, ela responsáveis pelos
imparcialidade;
agrava a Ouvir as partes aparece como Porque foram diversos conflitos que
Um policial que não se envolver
probabilidade de envolvidas uma evitados muitos os policiais podem se
priorize sempre o na ocorrência;
BRA FORTA haver um crime é separadamente e as consequência da crimes e idas Briga entre deparar diante da
10 bom-senso, que manter-se neutro
SIL LEZA grande, daí a orientar na maneira da atuação policial. desnecessárias cônjuges. atuação policial.
ele seja imparcial diante de uma
relação entre lei, como proceder Quando se diz o à delegacia de Tendo em vista que a
e impessoal. crise. Resolver o
segurança diante do conflito. modo de se polícia. principal função do
problema no bom
pública e proceder diante policial é evitar um
senso.
conflitos sociais. de um problema crime e não avocar
entre as pessoas. para si trabalho de
outros profissionais.
Porque em
Uma nova
ocorrências de
disciplina que
Porque grande brigas de
Porque é preciso oferece ao Investiria em um curso
parte das Um policial família, em Conflitos que
BRA FORTA No local da própria saber conduzir as policial uma de mediação de
11 ocorrências estão paciente e que muitos casos, envolvem litígios
SIL LEZA ocorrência. partes e acalmar nova ferramenta conflitos para todos os
ligadas a saiba escutar. temos que familiares.
os ânimos, etc. para enfrentar policiais militares.
conflitos sociais. mediar o
certos tipos de
conflito no
ocorrências.
local mesmo.
SIM. É uma
Policial tem que disciplina boa
SIM. Maior O policial muitas
ser conhecedor da para o bom
BRA FORTA conhecimento vezes conta com a
12 SIM NÃO RESPONDEU disciplina de SIM convívio entre o Briga de vizinhos.
SIL LEZA entre policial e população de ser
mediação de policial e a
comunidade. educada.
conflitos. população. Carga
horária de 20h.
Com mais cursos de
Muitos Deve ter um perfil reciclagem e não
Razoável, Na minha
problemas de de imparcialidade, Muitas apenas uma única
podendo opinião, o
conflitos se não mostrar calma e ocorrências amostra no curso de
Variados são os lugares, melhorar com melhor
mediados tranquilidade podem ser Briga de vizinhos, formação. Palestras
BRA FORTA na rua, escolas, estádios relação as aprendizado
13 corretamente, ou durante a resolvidas apenas briga entre marido com profissionais da
SIL LEZA e na própria residência práticas mais ainda é a
por falta do mediação e, com uma boa e mulher. área. E dar o Estado
do solicitante. próximas do prática do dia-
mesmo, pode ser principalmente mediação, uma mais suporte e
cotidiano do a-dia, o serviço
transformar em mostrar soluções boa conversa. ferramentas ao PM
policial. na rua.
um crime. para o problema. para trabalhar melhor
nessas situações.
Quando somos Essa preparação teria
Sim, porque O policial tem que
solicitados para mediar que ser não só na
sempre nos ser sereno e não se Fazem parte do
BRA FORTA briga de casais, conflitos Não teve a NÃO teoria, mas na prática.
14 deparamos com envolver nosso serviço de Brigas de família.
SIL LEZA familiares (brigas) e a disciplina. RESPONDEU Vendo a ação e reação
os problemas da emocionalmente rua.
perturbação do sossego de cada policial no seu
sociedade. com a ocorrência.
alheio. cotidiano.
Faz-se necessário Através dos cursos,
Trata de nos dar
para resolver o antes do teórico,
norte para
BRA FORTA Somos problema no citando exemplos
15 Nas comunidades. Bem formado. Sim. situações antes Brigas familiares.
SIL LEZA mediadores. local e não práticos e aumentando
conduzidas à
conduzir à a excelência da
delegacia.
delegacia. matéria.
Creio ser global
Sim, pois a lide Tranquilo, calmo,
esse tipo de Carga horária Ajuda na Briga familiar,
BRA FORTA conflituosa é No decorrer dos proposto a Cursos com carga
16 ocorrência e insuficiente com comunicação brigas por
SIL LEZA rotineira à conflitos, ocorrências. solucionar horária condizente.
solucioná-la é a importância. com os sociais. território, drogas.
categoria. (proativo).
necessário.
É muito
Sempre somos importante. Foi um pouco
Faria um curso com
chamados para Muitas das limitada. Acho Em algumas
BRA FORTA Na rua. Principalmente Neutro, calmo e Briga entre marido uma carga horária
17 resolver alguns técnicas fazem que deveria ter ocasiões me
SIL LEZA na periferia. inteligente. e mulher (casal). maior e mais
conflitos em parte de uma sido mais ajuda bastante.
aprofundada.
família. excelente forma aproveitada.
de agir.
O
Pois a má gestão Bom ouvinte, Muitas Conteúdo conhecimento Com situações
desses conflitos paciente, conhecer ocorrências só básico, adquirido foi verídicas a serem
Brigas de família,
BRA FORTA gera uma maior Na rua, onde as de direitos e precisam desse professor muito básico acompanhadas durante
18 vizinhos, som alto,
SIL LEZA desestabilização ocorrências acontecem. deveres do tipo de técnica adequado e durante a a formação e um
assaltos.
da Segurança cidadão, para ser carga horária formação. O dia maior conhecimento
Pública. imparcialidade. resolvida. normal. a dia ensina do direito.
muito mais.
Temos
É da essência da
De pouca importância. disciplinas
compreensão da Bem treinado com
Somente acontece curriculares que Valoriza o atuar Desinteligência e
BRA FORTA atividade a conhecimento de Não teve a Cursos, estudos de
19 quando recebe estímulos absorvem a do agente de violência
SIL LEZA administração de ciências sociais e disciplina. casos. Treinamento.
ou profissionais são matéria: segurança. doméstica.
problemas e direito.
sensibilizados. gerenciamento de
conflitos sociais.
crise e mediação.
Esse tipo de
Muito usado
ocorrência ser
nas ocorrências
O ato de fazer O professor não primeiramente
diárias, mas
segurança Resolução de apresentou uma distribuída a um tipo
Ocorrências onde o Educado, bem precisei
BRA FORTA pública é problemas mediação de Briga de casal e ou específico de
20 sujeito não cria um dano formado e com aprimorar os
SIL LEZA também familiares, conflito e o vizinhos. policiamento
irreparável. cursos específicos. conhecimentos
administrar e vizinhos. material não foi especializado. As
em pesquisas e
mediar conflitos. aproveitado. patrulhas e ensino ser
práticas
amortizados em
pessoais.
relatórios desse tipo de
policiamento.
Na minha
formação não
Porque quando a
teve a
educação e a A mediação de conflitos Porque somos Com respeito aos
Ter qualificação disciplina,
saúde não ocorre em classes sociáveis, e direitos humanos dos
profissional e porém Conflitos
funcionam, sociais que não existem temos condições policiais, para que
BRA FORTA treinamento Não teve a operacionalmen familiares,
21 ocasionam políticas públicas que de propormos eles ferramentas
SIL LEZA especializado em disciplina. te a questão de consumo e venda
conflitos na alimentam a soluções que legais para realizar
leis, qualificar os mediação é de drogas.
sociedade e a criminalidade e o levam a paz policiamento
policiais. importante
polícia militar alimento de ocorrências. social. comunitário.
tanto para o
tem que intervir.
cidadão como
para a polícia.
Deveria ter mais Realmente deveria
Porque os Um policial que atenção à abrir cursos de
O lugar da
profissionais de tenha recebido o Sim, adequando- prática policial Porque obtive Ocorrências de aprimoramento e
imparcialidade na
segurança estão treinamento as da melhor no dia-a-dia, pois um pouco do desordens com reciclagem acerca do
medida do possível,
fortemente adequado para ser maneira para mesmo com todo conhecimento pessoas assunto "mediação de
ouvindo ambas as partes
BRA FORTA ligados ao mediador de resolução do o conhecimento necessário para embriagadas, conflitos" e das
22 envolvidas e mediando
SIL LEZA atendimento de conflitos e conflito sem necessário, o uso o entendimento usuários de drogas, técnicas referentes a
para que a situação seja
conflitos sociais psicologicamente prejudicar o bom de técnicas nem e a prática para violência contra a esse assuntos. E criar
contornada e não haja
através das preparado para o andamento da sempre se faz mediar mulher, lesão meios para que a
grande perda pelas
ocorrências trabalho de mediação. eficiente em uma conflitos. corporal grave. prática da mediação
partes.
policiais. mediação. situação prática seja melhor utilizada
de mediação. na rotina policial.
O agente de
segurança Carga horária
Gerenciar crises Paciente. Contribuiu Cursos frequentes de
BRA FORTA pública deve insuficiente.
23 objetivando o bem Conhecedor das Sim. para o "saber Briga de casais. aperfeiçoamento com
SIL LEZA manter a ordem e Professor pouco
comum. leis. ser polícia". teoria e prática.
visa o bem capacitado.
comum.
Porque os O perfil do policial Porque são A realidade A disciplina foi Apresentaria a teoria
conflitos sociais mediador é um muitas as apresenta em relevante, mas e tentaria aproximá-
Roubos, tráfico e
em seu primeiro Na atividade policial perfil de alguém ocorrências que sala de aula é não totalmente. la a prática com
BRA FORTA discussões
24 momento são procuramos priorizar a que tem se tornam eficaz. muito aquém da Grande parte do apresentação de
SIL LEZA (injúrias, calúnias
intermediados mediação. capacidade de O que favorece o realidade conhecimento casos reais e através
e difamações).
pelos policiais ouvir e analisar de amadurecimento vivenciada na foi adquirida no de simulações que
militares e civis, maneira justa cada das técnicas e as rua. As apostilas trabalho diário. demonstrassem a
pela aproximação caso. tornam eficaz. O apresentam realidade nas ruas.
que esses órgãos sistema de teorias e
possuem com a segurança e o pensamento
população, a Poder Judiciário complexos de
relação entre dependem muito mediação que em
segurança da mediação, nada ajudam na
pública e a pois o sistema prática, os
mediação se não tem professores
torna mais capacidade possuem uma
aproximada. técnica nem visão de
logística para vitimização
aplicar a lei como social, passando
é. ao policial
insegurança e
falta de amparo
legal, se caso for
necessário o uso
da força.
Estamos
constantemente Ter boa dialética, Constantemente Pois não tive
Com o
realizando estabilidade utilizamos as essa disciplina,
Lugar primordial, visto desenvolvimento de
mediação de emocional, técnicas de mas é Envolvendo
BRA FORTA que, estamos Não teve a políticas educacionais
25 conflitos sociais sensibilidade para apaziguamento, extremamente vizinhos,
SIL LEZA constantemente disciplina. voltadas para a
como: briga de entender as segurança no importante para familiares e outros.
realizando mediação. formação dos militares
família, violência problemáticas transmitir das o nosso
sobre a mediação.
contra a vida, o sociais. mensagens, etc. trabalho.
patrimônio, etc.
É preciso formação
O perfil de um
Segurança adequada, mas não
policial-mediador
Pública tem Policiais já temos profissionais
é o mesmo de
como função fazem mediação especialistas que
qualquer policial
manter a ordem Central, a mediação de de conflitos possam transmitir a
que tenha Briga de família,
BRA FORTA social; o conflito conflitos é uma desde o primeiro Não teve a Não tive a ideia de mediação
26 formação vizinhos e outros
SIL LEZA social quebra atividade cotidiana na dia de trabalho. disciplina. disciplina. com prática policial.
verdadeiramente semelhantes.
essa ordem ou atividade policial. Precisa-se de Eu buscaria
policial, ou seja, o
quebrará, caso melhor formação, profissionais policiais
problema está na
saia do controle na verdade. de outros países que
formação,
dos envolvidos. já tenham feito a
principalmente.
experiência.
Sim, pois às
Educado, ter Sim, pois às Tendo no curso de
vezes Briga de família e
BRA FORTA calma e vezes resolve Não teve a Não havia na formação uma
27 resolvemos mais Casa de mediação. briga de vizinho,
SIL LEZA principalmente ter mais que levar disciplina. minha época. disciplina só para
na conversa som alto.
grau de instrução. para a delegacia. mediação.
(mediação).
Mostrando para o
Sim. Porque no efetivo policial que
dia a dia, o Sim, porque antes de tentar mediar
Um conflito profissional de você necessita um conflito, ele tem
Um profissional
BRA FORTA social poderá segurança Sim, foi ao trabalhar na Conflito entre que se mostrar
28 Na rua. que tenha domínio
SIL LEZA desencadear um pública se interessante. rua, ser um familiares. tranquilo e passar
próprio.
ilícito penal. deparará com mediador de tranquilidade, bem
esse tipo de conflito. como confiança para
situação. os envolvidos no
conflito.
O policial tem que
Pois o serviço
ter um perfil de
policial é uma
tranquilidade, Preparando
mediação
Constantemente mesmo passando adequadamente os
BRA FORTA Na rua, no meu dia a constante. Pois Não teve a Não tive essa Conflitos entre
29 estamos no meio às vezes pelas policiais sobre a
SIL LEZA dia de trabalho. temos que ter disciplina. formação. família e vizinhos.
desses conflitos. mesmas situações importância da
solução para
de conflito que mediação.
tudo, pois aí tudo
tem que resolver
é a polícia.
para os outros.
Paciente,
A rua é o lugar mais conhecedor do Com certeza, as
Porque é o que se onde se "usa" a mínimo técnicas tornam
BRA FORTA vivência em mediação de conflitos, necessário, do qualquer Não teve a Não tive essa Com cursos sobre
30 Briga de vizinhos.
SIL LEZA grande parte das principalmente nas código penal e "serviço" mais disciplina. formação. mediação.
ocorrências. ocorrências envolvendo civil; conhecedor fácil; nos ajuda a
vizinhos. dos problemas do atingir o alvo.
cotidiano.
Sim. Porque até É fazer com que essa
Sim. Porque a nos dias de prática fique sempre
Sim. Porque
PM trabalha em Sim. Porque o hoje, eu presente em todo
Comunitário, poderá evitar um
conjunto com a aprendizado é executo esse recrutamento e em
BRA FORTA porque estar mal maior em
31 sociedade. É um NÃO RESPONDEU quase cem por modelo de Briga de família. toda atividade policial.
SIL LEZA sempre em diálogo qualquer situação
ajudando o outro cento e ajudará trabalho e me Cobrar e investir para
com a sociedade. através do
no dia a dia da no nosso futuro. ajudou muito que tudo dê certo e
diálogo.
vida. no meu dia a tenhamos sucesso na
dia. vida policial.
Sim. A polícia Fazendo capacitação
Sim. As Ser centrado, ter
trabalha em dessa técnica,
mudanças são bom senso, ter
mediação de Não. Seria de Sim. Porque acabando com o
lentas, mas creio liderança, ter
Acredito que tanto no conflitos, pois grande valia essa muitas slogan de polícia
BRA FORTA que essas novas empatia, não
32 meio externo como no muitas vezes as disciplina nos ocorrências são Trabalho interno. truculenta. Porém
SIL LEZA turmas estão transformar uma
interno. ocorrências são cursos de resolvidas muitas ocorrências a
tendo aulas de simples ocorrência
resolvidas com formação. passivamente. PM não pode ter o
mediação de em um grande
intermédio de diálogo, ele age em
conflitos. problema.
diálogo. defesa de si mesmo.
Sim. Ter
serenidade,
Sim. Diariamente
paciência e um Realizando cursos na
age em briga de
Reconhecer as pouco de área, como o de
família como
BRA FORTA Em toda área em que dificuldades conhecimento NÃO direitos humanos, de
33 também com Não. Briga de família.
SIL LEZA somos solicitados. sociais de cada das necessidades RESPONDEU mediação de conflitos.
problemas entre
envolvido. humanas sociais E reciclagem a cada
vizinhos,
para poder período médio.
parentes e outros.
mediar entre as
partes.
Desde 2007, nos
Sim.
Policial que escuta cursos de formação e
Sim. Satisfatória. Diariamente
Sim. Muitas e procura resolver, Sim. Em nos cursos de ascensão
Carga horária e nos deparamos Perturbação do
ocorrências são no local, atendimento de dentro da PM existe a
material rico para com sossego alheio,
BRA FORTA apenas conflitos No atendimento das ocorrências que ocorrências disciplina de Polícia
34 a aplicação da ocorrências que briga de família,
SIL LEZA que podem ser ocorrências. podem ser inícios utilizamos Comunitária e
mediação de podem ser briga de vizinhos e
resolvidos com de ocorrências diariamente esse Mediação de
conflitos no resolvidas com roubo.
um mediador. maiores quando tipo de ação. Conflitos, trabalhando
cotidiano. uma mediação
mal resolvidas. desde o início de sua
entre as partes.
formação várias opões
de resolução de
conflitos.

Sim. Há quase
Sim. Não apenas
nove anos,
Em campo no é possível, é
momento em que
Sim. A mediação atendimento de O policial extremamente
estava no curso
de conflitos ocorrências, assim como mediador deve necessário. Em
de formação, a
consiste em umas nas mais diversas ouvir ambas as ocorrências mais Sim. Porque a O acompanhamento de
polícia
BRA FORTA das principais situações, uma vez que o partes, ou seja, corriqueiras mediação é situações-problema
35 comunitária era Briga em família.
SIL LEZA funções do policial torna-se deve ser bom como briga em fundamental a durante o curso de
prioridade do
policial ao referência em qualquer ouvinte, além de família e em profissão. formação.
plano de governo
atender uma lugar que esteja, é ter um aguçado situações mais
e por isso foi
ocorrência. sempre requisitado em senso de justiça. delicadas como
muito enfatizada
situações conflituosas. ocorrências com
em minha
refém.
formação.
Sim. No
policiamento
comunitário, a
Sim. Foi bastante
Sim. Em algumas grande maioria; Maior
proveitosa, visto
Sim. O primeiro ocorrências, a as ocorrências aprofundamento de
BRA FORTA Maturidade e que a equipe de
36 a ser solicitado é Na rua. própria mediação são de uma Briga de casal. casos e maior
SIL LEZA discernimento. instrutores foi
a Polícia Militar. pode resolver a certa aprofundamento
altamente
situação. complexidade possível.
prestativa.
em relação à
"Maria da
Penha".
O nosso lugar de
BRA FORTA mediação é na rua NÃO NÃO Brigas de vizinhos,
37 Não. Não. Não. NÃO RESPONDEU
SIL LEZA mediando os conflitos RESPONDEU RESPONDEU casais, etc.
entre a sociedade.
Sim. Pois como Briga de marido e Deveria ser feito toda
Sim. Porque a
Paciência, foi observado, a mulher, vizinhos e uma reestruturação do
respectiva
equilíbrio e ser atividade conflitos aparato policial com
BRA FORTA atividade está Nas ruas ou nas próprias
38 bem instruído no policial está Não. Não. Não tive. proporcionados uma valorização
SIL LEZA intimamente delegacias de polícia.
aspecto humano e diretamente por bebidas profissional e medidas
relacionada com
sociológico. relacionada com alcoólicas ou menos paliativas e
o conflito.
o conflito. outras drogas. mais eficazes e
efetivas.

Sim. Ao meu ver


a segurança Desde a formação, o
O 1º LUGAR. Porque Preparo, Porque muitas
pública é Briga entre policial tem que ter
BRA FORTA a polícia é a linha de experiência e vezes é o que se NÃO
39 responsável Não. familiares e esse contato com esse
SIL LEZA frente desse tipo de controle pode e deve RESPONDEU
também pela vizinhos. modo de policiamento
conflito. emocional, etc. utilizar.
administração de moderno e atualizado.
conflitos sociais.
Sim. De forma
Sim. A polícia geral foi
Pode ser na própria Ouvir as "partes" vive situada em satisfatória, mas
Sim. Porque Disparo de arma
"rua" ou outro lugar em questão, conflitos que em não lembro de
BRA FORTA onde existe Sim. Nos ajuda de fogo, lei Maria Ministrando técnicas
40 designado esclarecendo certos casos dados como
SIL LEZA conflito, existirá no dia a dia. da Penha, roubo a sobre o assunto.
formalmente como o pontos que podem podem ser esses citados
mediação. residência.
próprio quartel. gerar mediação. resolvidos por (professor,
mediação. apostila, carga
horária).
Sim. Porque
quase todas as
Sim. Quase todos ocorrências
Briga de casal,
os conflitos Nos bairros, Sereno, educado e exigem do Um tempo maior de
BRA FORTA NÃO menores drogados
41 terminam com a principalmente os mais bom para escutar policial a Não. formação é o
SIL LEZA RESPONDEU ameaçando a
presença da humildes. os problemas. mediação, pois principal.
família.
polícia. nem sempre
quem solicita a
polícia é a vítima.
Sim. Pois a Sim. Muitas É necessário investir
polícia está vezes nos na mediação de
presente em Primeiro tem que deparamos com conflitos, para isso é
BRA FORTA Não. Não Conflitos
42 todos os lugares Em todos os lugares. ter paciência e muitos conflitos Não. preciso
SIL LEZA houve. familiares.
e é o primeiro saber ouvir. familiares e aperfeiçoamento e
Órgão a chegar outros e, nossa conhecimento.
na hora da primeira ação é Deveria haver um
necessidade. tentar resolver aperfeiçoamento da
através da tropa voltado para o
mediação. tema.

Não. Falta
educação e
Sim. Pelo fato de respeito das
diariamente pessoas desde Um curso mais
Sim. Muito
sermos chamados Conhecimento país com a figura Sim. Mostrou aprofundado, mais
importante, falta Brigas, contendas
BRA FORTA para atender jurídico, boa do policial militar o quanto é investimento público e
43 Nas ruas. educar as pessoas diversas por
SIL LEZA diversos conflitos dicção e pela inércia do importante o leis mais rígidas e
quanto ao direito familiares.
sociais, aos quais interpretação. Estado, pelo diálogo. maior participação
coletivo e alheio.
temos que descaso do popular.
administrá-los. judiciário e
corrupção do
legislativo.
Sim. Grande Sim. Seguindo
Necessário
parte das métodos Sim. Conteúdo
Geralmente dentro das controle
BRA FORTA ocorrências específicos é vago, matéria Usando modelos
44 residências dos emocional, Sim. Brigas de Família.
SIL LEZA acabam sendo mais simples repassada muito vividos por policiais.
envolvidos. paciência e
resolvidas com resolverem essas rápido.
postura.
uma conversa. ocorrências.
Em geral,
BRA FORTA NÃO Sim. Foi
45 Sim. principalmente em casos Sim. Sim. Briga familiar. NÃO RESPONDEU
SIL LEZA RESPONDEU gratificante.
familiares.
Sim. A polícia Sim. A Creio que tal A partir do momento
militar como ocorrência em si disciplina não em que a sociedade
representação do Voluntário, pois poderá passar pode ser passa a vê o policial
Estado tem toda A ação pode ser lidar com essa essa informação, desprezada, como um agente, no
BRA FORTA formação exercida em todo e questão exige pois em alguns pois somos a NÃO qual a confiança é
46 Não.
SIL LEZA necessária para qualquer lugar que o acima de tudo conflitos o linha frente e RESPONDEU. depositada acima de
desenvolver em policial desempenhar. interesse do diálogo é o nos deparamos tudo, então é possível
suas ações policial. caminho a com toda e vislumbrar com maior
mediação de solucionar qualquer efetividade a mediação
conflitos. alguma crise. ocorrência. de conflito.
Sim. Porque a
polícia está
Através de
Sim. A busca por Ter presente em
conhecimento
BRA FORTA uma solução sem conhecimento de todos os lugares e
47 Não sei informar. Não. Não. Não tive. Familiares. específico para uma
SIL LEZA o uso da policiamento participa
área de resolução de
violência. comunitário. ativamente de
conflitos.
todos os
conflitos.
No momento da
Sim. Porque
ocorrência, caso não
Sim. Foi bastante ensinou a Infelizmente fica
haja acordo entre as Ocorrências de
Aquele que seja Sim. Desde que breve o curso, resolver difícil usar qualquer
partes, orientamos Maria da Penha e
BRA FORTA treinado e que seja possível o mas proveitoso e ocorrências de técnica, porque muitos
48 Não. buscarem os meios de problemas
SIL LEZA tenha perfil para diálogo entre as útil para forma que dos conflitos são em
legais e quando há causados pelo uso
ser mediador. partes. atividade benéfico para áreas onde a educação
princípio de agressão, de entorpecentes.
policial. ambas as é bem baixa.
conduzimos a DP
partes.
(delegacia de polícia).

Para que esta


Uma pessoa que
Sim. Porque ferramenta desse
Não sei classificar o saiba interagir, Sim. Porque elas Não. Na minha
além de servir, certo a população
BRA FORTA lugar, mas claro que é tenha uma boa (as técnicas de época não Não. Não tinha Mais frequente é a
49 também teria que ser
SIL LEZA importante na comunicação, mediação) irão existia esta na época. familiar.
protegemos reeducada, aí sim, eu
atividade policial. bem como o lado salvar vidas. disciplina.
vidas. creio que a coisa
espiritual.
funcionaria.

Tem que ser um


Sim. Pois com Fica no começo de um Sim. Insatisfeito
policial que tenha Sim. Pois me Tirar da mente do
uma boa possível homicídio, com o material
mente que o fez ver que ser aluno que sempre foi
mediação de agressão e outras. Parte incompleto e
trabalho da Sim. policial não ensinado que a polícia
conflitos se pode que a polícia não usa o com a carga Briga e discussões
BRA FORTA polícia não é Principalmente se quer dizer ser é burra, estúpida com
50 evitar casos seu poder de polícia horária pouco e de família e
SIL LEZA reprimir e os conflitos estão opressor, mas um monte de
mais graves, o armada, mas sim o alguns marido e mulher.
oprimir, mas ser no início. um apoio social analfabeto que estão
que vejo nas poder de professores sem
uma parte de um principalmente para bater e não
ocorrências que conscientização das conhecimento de
Órgão que está o necessário. conversar, mediar.
já mediei. pessoas. causa.
para servir.
Sim. Porque A aproximação da
Sim. Porque a dificilmente polícia com a
rua é o nosso você vai eximir- sociedade é de
lugar de trabalho A rua, o contado com a se de ajudar a Não tive a grande valia, pois só
BRA FORTA e toda a sociedade e a prestação Ter caráter, ame a quem está oportunidade de Conflitos assim saberemos
51 Não.
SIL LEZA sociedade vive do serviço que nos profissão. precisando e, ter essa familiares. sentir as
em conflito seja desempenhamos. sempre somos disciplina. dificuldades, a falta
ele familiar, solicitados para de assistência por
social, etc. todo tipo de parte do poder
ocorrências. público.
Sim. Porque
Não é exatamente Sim. Porque é
embora ainda
realizada num local essencial para a
seja incipiente, Sim. O curso de Colocando um corpo
específico. Eu, por atividade Sim. Porque
temos o exemplo Ter habilidade formação da docente qualificado
exemplo, realizo na policial, facilita a Briga de família,
das Casas de para orientar, sem, faculdade que não distanciasse
rua, durante as contudo, é resolução dos violência
BRA FORTA Mediação contudo, interferir apresentou a a realidade da teoria.
52 ocorrências. necessário problemas no doméstica e outros
SIL LEZA Comunitária para na decisão das disciplina, a Apresentaria casos
Entretanto, quando capacitação por local com de desestrutura
onde são partes e saber polícia no curso de conflitos em que
não é possível, oriento um corpo muito mais familiar.
enviados os ouvir. de formação que houve sucesso na
as partes a se dirigirem docente tranquilidade.
casos de eu fiz, não! resolução.
ao Núcleo de Mediação comprometido e
convivência
Comunitária. qualificado.
continuada.
Deve ter equilíbrio
emocional, ter o
mínimo de noções
de direitos civis,
Sim. Porque Briga de família,
BRA FORTA pacificador e
53 Sim. Na rua com a sociedade. fomos instruídos Não. Não tive. desordem, som NÃO RESPONDEU
SIL LEZA preparado
para tal. alto.
adequadamente
com as técnicas
policiais recebidas
pelo Estado.
Tem que ser
BRA FORTA pacífico, NÃO
54 Sim. Na rua com a sociedade. Sim. Não. Não tive. NÃO RESPONDEU
SIL LEZA dinâmico, RESPONDEU.
objetivo, etc.
A atividade policial é
Sim. O poder bastante complexa, atua
Sim. Quando há
público atua em geralmente no
uma integração
consonância com policiamento ostensivo,
Formação, bom entre polícia A confiança entre as
a sociedade, atendendo ocorrências Briga de família,
BRA FORTA senso, comunitária e partes envolvidas é
55 quanto mais o de toda complexidade. Não. Sim. som alto e briga de
SIL LEZA treinamento, poder público é bastante relevante, ou
poder público se Seja na comunidade vizinhos.
capacidade. possível resolver seja, integração.
aproxima da local de trabalho e até
os problemas de
comunidade mais mesmo em delegacia
uma sociedade.
integração. quando as partes entram
em acordo.
Sim. A maior
parte do serviço
Sim. Porque às
da polícia é
vezes é preciso
BRA FORTA A maioria das vezes nas mediar conflitos Não. Não Briga de família Integrando o policial
56 negociar para Cabeça fria. Não.
SIL LEZA favelas. do contrário as houve. ou vizinhos. à comunidade.
evitar um mal
delegacias não
maior.
caberiam todos
os presos.
Sim. A Sim. Na técnica,
segurança a doutrina de
Sim. Vou estar Vários, de uma Com integração com
pública está Saber ouvir todos conflito é
BRA FORTA Sim. Muito preparado para simples briga de a comunidade dos
57 envolvida Na intermediação. os lados do ensinada ao
SIL LEZA positivo. utilizar quando vizinhos a casos policiamentos da
diretamente em conflito. mediador policial
for necessário. com reféns. área.
todos os conflitos treinado para
sociais. esses eventos.

Não. Na Acredito que a


formação do polícia comunitária é
Sim. A polícia Sim. O trabalho
Quase sempre como policial existe fundamental para
lida em quase Ter bom senso, policial na sua Perturbação do
árbitro, pois a disciplinas uma sociedade, pois a
BRA FORTA todas as saber ouvir e totalidade sossego alheio e
58 sociedade na sua voltadas para Sim. Seria sim. polícia não trabalha
SIL LEZA ocorrências na conhecer bem as trabalha brigas com vias
inércia quase não solucionar para prender só
mediação de leis. mediando de fato.
busca seus direitos. conflitos, mas bandido, mas para a
conflitos. conflitos.
não como a sociedade como um
mediação em Sí. todo.
Sim. Porque em
Sim. A
muitas situações
disciplina traz
do dia a dia, os
Sim. Porque em um melhor
conflitos
todas as aproveitamento As maiorias das
apresentados não
situações é do serviço situações referem-
são
necessário fazer policial, pois se à briga de
A mediação encontra-se necessariamente
as partes dessa forma vizinhos, por
presente em todas, senão Deve ser questões de Interação com a
chegarem a um permite uma questões de som
BRA FORTA em todas as situações, observador da criminalidade comunidade para
59 entendimento, maior Sim. alto e outras de
SIL LEZA afim de evitar maiores situação sem como por que se percebam suas
desde que não aproximação da menor
consequências negativas emitir sua opinião. exemplo reais necessidades.
seja caso comunidade, ofensividade que
por conta do litigo. discussão entre
criminal, o permitindo realmente
vizinhos onde o
motivo do perceber as precisem do uso
agente policial se
conflito entre as reais da força policial.
faz presente
partes. necessidades
apenas para
tanto criminais
apaziguar os
como sociais.
ânimos.

Com mais cursos


Tem que ser um
frequentes e passar
É importante saber policial que saiba Sim. Porque é Sim. No curso a Conflitos
também para a
como mediar os se expressar bem, um treinamento carga horária foi familiares,
BRA FORTA população o que é o
60 Não. diversos conflitos que que passe que se é ensinado satisfatória e com Não. embriaguez e
SIL LEZA trabalho policial,
aparecem diariamente segurança na hora no curso de excelentes bem brigas entre
porque também tudo
na rua. de tomar frente da formação. preparados. desconhecidos.
não depende só da
mediação.
polícia.