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SUPORTE BÁSICO DE VIDA

UNIDADE 3

Ritmos cardíacos de parada cardiorrespiratória e desfibrilador externo automático

Isabel Karolyne F. Costa José Eugênio Lopes Leite

Manuela Pinto Tibúrcio

e desfibrilador externo automático Isabel Karolyne F. Costa José Eugênio Lopes Leite Manuela Pinto Tibúrcio

OBJETIVOS

- Identificar os principais ritmos de PCR. - Distinguir os ritmos chocáveis dos ritmos não chocáveis. - Definir o que é um DEA.

- Descrever os cuidados no uso do DEA. - Executar corretamente o passo a passo no uso do DEA. - Operar o DEA em situações especiais. - Coordenar ações entre RCP e DEA.

RITMOS CARDIÁCOS DE PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA E DESFIBRILADOR EXTERNO AUTOMÁTICO

O intervalo entre o colapso e a desfibrilação é um dos determinantes mais importantes da sobrevivência à morte súbita com Fibrilação Ventri- cular (FV) ou Taquicardia Ventricular Sem Pulso (TVSP). Nesta Unidade, você vai entender um pouco mais sobre os ritmos de PCR e lhe daremos subsídios para que você desenvolva habilidades no uso do DEA.

AULA 1 - RITMOS CARDÍACOS DE PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA

Como foi mencionado na unidade anterior, existem apenas quatro rit- mos de PCR, e eles podem ser classificados em dois grupos: os ritmos chocáveis, fibrilação ventricular (FV), taquicardia ventricular sem pulso (TVSP) e o grupo dos ritmos não chocáveis, a atividade elétrica sem pulso (AESP) e assistolia. Iremos ver agora que o tratamento elétrico, ou seja a indicação de desfibrilação (choque) irá variar a depender do ritmo.

Para entendermos melhor o porquê dessa variação, precisamos conhe- cer a função do choque. Você já se perguntou para que serve o choque no coração?

No próximo tópico, esclareceremos um pouco mais sobre isso.

RITMOS CHOCÁVEIS

Fibrilação ventricular

A

principal causa de PCR, no adulto, é a fibrilação ventricular (FV). Esse é

o

distúrbio do ritmo cardíaco mais comum nos primeiros dois minutos

de PCR. A FV é um ritmo que evolui, rapidamente, para assistolia, caso não sejam estabelecidas medidas de SBV.

A FV é um ritmo cardíaco caótico que se inicia nos ventrículos. Nesse

ritmo, não ocorre a despolarização organizada dos ventrículos fazendo com que estes tremulem ao invés de se contraírem de forma efetiva. Essa atividade caótica resulta na ineficiência total do coração em manter um rendimento de volume sanguíneo adequado. No eletrocardiograma (ECG), ocorre a ausência de complexos ventriculares individualizados

que são substituídos por ondas irregulares em zigue-zague, com ampli- tude e duração variáveis.

Figura 1 - Fibrilação ventricular, traçado no ECG e efeitos no miocárdio Figura 2 -

Figura 1 - Fibrilação ventricular, traçado no ECG e efeitos no miocárdio

ventricular, traçado no ECG e efeitos no miocárdio Figura 2 - Fibrilação ventricular. Traçado evidenciando

Figura 2 - Fibrilação ventricular. Traçado evidenciando ondas irregulares em ziguezague, com amplitude e duração variáveis

Dessa forma, o único tratamento disponível para o controle da FV é a desfibrilação precoce. A principal causa de FV, em nosso meio, é o infarto agudo do miocárdio (IAM). Nesse caso, além do IAM, devem ser lembra- das as miocardiopatias, como a chagásica.

Taquicardia ventricular sem pulso

Agora, vamos entender um pouco sobre o outro ritmo “chocável”. No que se refere à taquicardia ventricular sem pulso (TVSP), esta pode ser definida como sendo a sucessão rápida de batimentos ectópicos ventriculares, que podem levar à deterioração hemodinâmica, chegando

à ausência de pulso arterial palpável. Dessa forma, ela deve ser tratada com o mesmo rigor da FV, ou seja, com desfibrilação precoce.

A TVSP ocorre principalmente em indivíduos com doença arterial coro-

nariana, como isquemia miocárdica, apresentando-se com frequência maior que 100 bpm e não superior a 220 bpm com complexos QRS maiores

que 0,12 segundos ou mais bizarro e serrilhado. Normalmente, a pessoa apresenta como sinais e sintomas iniciais tontura, palidez, sudorese fria

e o clássico sinal do coração parecendo uma “batedeira” ou “britadeira”,

batendo muito acelerado, até que culmina com a inconsciência e ausência de pulso central. Essas alterações eletrocardiográficas estão associadas

à ausência de pulso palpável, pois o tempo de enchimento das câmaras do coração é muito pequeno.

de enchimento das câmaras do coração é muito pequeno. Figura 3 - Taquicardia ventricular. Apresentam-se com

Figura 3 - Taquicardia ventricular. Apresentam-se com frequência maior que 100 bpm, não superior a 220 bpm e com complexo QRS maior que 0,12 segundos

A TVSP deve ser tratada igual à FV, ou seja, com desfibrilação! “Choque”! Para isso, você deve instalar o DEA assim que pron- tamente disponível, mas não se preocupe em diagnosticar, deixe esse papel para o DEA, você apenas precisará obedecer aos seus comandos e apertar o botão de choque quando solicitado! Não esqueça que imediatamente após o choque deverá sempre realizar compressões torácicas!

Não existe base científica que comprove a eficácia de qualquer medicação antiarrítmica em reverter a

Não existe base científica que comprove a eficácia de qualquer medicação antiarrítmica em reverter a FV/TVSP. As medicações (vide curso de suporte avançado de vida) podem ser utilizadas como auxiliares, facilitadoras para que o estímulo elétrico possa reverter o ritmo para sinusal. Equivale a dizer que não se deve retardar a aplicação de choque para a infusão de medicação. A FV/TVSP são modalidades de PCR de melhor prognóstico e, em princípio, os esforços de ressuscitação devem continuar até que o ritmo deixe de ser FV/TVSP (ou porque reverteu para sinusal, ou porque evoluiu para um ritmo terminal) (AHA, 2015; PAIZIN FILHO et al., 2015).

RITMOS NÃO CHOCÁVEIS

Atividade elétrica sem pulso

Agora vamos conversar um pouco sobre um dos ritmos não chocáveis. Neste tópico, iremos abordar a Atividade Elétrica Sem Pulso (AESP).

Sobre o termo AESP, foram agrupados todos os outros possíveis ritmos car- díacos que podem ser identificados numa PCR, excluídos apenas FV/TVSP e a assistolia. Pode compreender ritmos bradicárdicos ou taquicárdicos, com complexo QRS estreito ou alargado, sinusal, supraventricular ou ventricular.

ou alargado, sinusal, supraventricular ou ventricular. Figura 4 - AESP no traçado do ECG O importante

Figura 4 - AESP no traçado do ECG

O importante é identificar que, apesar de existir um ritmo organizado no monitor, não existe acoplamento do ritmo com pulsação efetiva (com débito cardíaco). Assim, é preciso que você garanta o SBV, com ênfase em compressões torácicas de alta qualidade e ventilações de resgate, enquanto aguarda a equipe de suporte avançado chegar.

Assistolia

Então, caro aluno, chegamos ao ritmo de pior prognóstico numa PCR: a assistolia. Para entendermos melhor sobre ele, vamos à origem de seu

termo, lá na antiga Grécia: “asistole” (a: não; sístole: contração) significa

a total ausência de atividade ventricular contrátil associada à inativida- de elétrica cardíaca. Ou seja, nessa modalidade, o coração encontra-se mesmo parado, sem ritmo algum. Então, é caracterizada ao eletrocar- diograma por uma linha reta (Figura 5). Casos raros de deflexões agonais podem também ser visualizadas (Figura 6).

agonais podem também ser visualizadas (Figura 6). Figura 5 - Assistolia caracterizada por um traçado

Figura 5 - Assistolia caracterizada por um traçado isoelétrico no ECG

Assistolia caracterizada por um traçado isoelétrico no ECG Figura 6 - Assistolia com deflexões agonais no

Figura 6 - Assistolia com deflexões agonais no traçado do ECG

A assistolia corresponde à ausência total de qualquer ritmo cardíaco. É a

situação terminal. Evidências cada vez mais contundentes apontam que

a identificação de assistolia deva corresponder ao término dos esforços, mas não deve ser considerada isoladamente, outros parâmetros médicos devem estar associados na tomada da decisão de encerramento da RCP.

São ritmos em que a desfibrilação não está indicada. Deve-se, então, pro- mover RCP de boa qualidade, aplicar as drogas indicadas e procurar iden- tificar e tratar as causas reversíveis. Um maior aprofundamento sobre esse ritmo e seu tratamento veremos no curso de suporte avançado.

O tratamento para ASSISTOLIA no SBV será sempre COMPRESSÕES CARDÍACAS. Estando o paciente monitorizado com o DEA, quando analisado pelo aparelho, este, avisará por estímulos sonoros que você deverá continuar com as compressões cardíacas de alta qualidade, na sequência de 30 compressões e duas ventilações.

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AULA 2 – DESFIBRILADOR EXTERNO AUTOMÁTICO

Na aula anterior, vimos que o tratamento para os ritmos ditos chocáveis

é a desfibrilação. Sabemos também que a chegada de um meio de socor-

ro

ao local, ainda que muito rápida, pode demorar mais de cinco minutos

e,

em muitas cidades brasileiras onde o SAMU ou os bombeiros não exis-

tam, esse socorro pode demorar ainda mais para chegar! Assim, as chan- ces de sobrevivência da vítima terão caído de 98% (PCR presenciada) para até 0% a 2% se as pessoas que presenciaram a situação não souberem atuar em conformidade com as diretrizes aceitas internacionalmente.

Quadro 1 – Relação da taxa de sobrevivência e o tempo para início da RCP
Quadro 1 – Relação da taxa de sobrevivência e o tempo
para início da RCP e desfibrilação
Tempo
Taxa de sobrevida
RCP precoce e desfibrilação < 4 min.
30%
RCP e desfibrilação precoce < ou igual a 7 min.
20%
RCP precoce e desfibrilação demorada > 10 min.
2 a 8%
RCP retardada > 10min
0 a 2%
> 10 min. 2 a 8% RCP retardada > 10min 0 a 2% Sendo assim, você

Sendo assim, você precisa ficar bem atento a essa aula para aprender

que RCP e desfibrilação precoce são a chave para fortalecer e melhorar

a corrente da sobrevivência da PCR pré-hospitalar, reduzindo o intervalo de tempo entre o colapso e a desfibrilação.

Então, o que é mesmo um DEA?

O desfibrilador externo automático (DEA) é um aparelho que veio para aju-

dar a salvar vidas! Ele foi desenvolvido para que qualquer pessoa, mesmo não sendo profissional de saúde, pudesse utilizá-lo para administrar uma desfibrilação em um paciente vítima de PCR sempre que houver indicação.

O DEA é de simples utilização e foi programado para analisar o ritmo

cardíaco do paciente e reconhecer um ritmo chocável (FV/TVSP), indican- do o choque sempre que necessário. O que temos de mais fantástico no DEA é que ele se comunica, por voz e por sinais luminosos no seu painel, com o socorrista, orientando-o durante toda a RCP.

Para você conhecer melhor o funcionamento do DEA, é preciso entender que ele se baseia na aplicação de um pulso de corrente de grande ampli- tude no coração para restituir o ritmo normal dos batimentos cardíacos em pacientes que apresentam FV/TVSP.

Os DEA diferem dos desfibriladores convencionais porque podem ana- lisar o ritmo cardíaco e determinar se a desfibrilação será necessária. Veja que isso elimina a necessidade de o operador interpretar o sinal de ECG antes da desfibrilação. Assim, o DEA foi concebido para ser utilizado principalmente em situações de emergência em que os operadores não são treinados no suporte avançado de vida (SAV), tais como bombeiros, condutores, agentes policiais, estudantes. O DEA também pode ser uti- lizado em Unidades de Pronto Atendimento (UPA), Unidades Básicas de Saúde (UBS) e áreas do hospital onde não existem pessoas treinadas para ministrar um suporte de vida avançado.

O DEA é um equipamento bifásico, isto é, assim como todos os desfibrila-

dores bifásicos (automáticos, semiautomáticos ou manuais), administra uma menor quantidade de choque (120J a 200J) em relação aos desfibri- ladores monofásicos (360J) para o fazer o mesmo efeito desfibrilatório sobre as células do miocárdio.

No Brasil, antes da disponibilidade dos DEA, para fazer o diagnóstico do rit- mo de PCR e definir a necessidade de desfibrilação e a quantidade de ener-

gia (joules) a ser deflagrada, era indispensável a presença do médico, por ser

o único profissional com habilitação para diagnosticar o ritmo de PCR.

Nesse contexto, podemos inferir que o DEA, desde sua criação, substi- tuiu o papel do médico na cena inicial de uma PCR, quando este não está presente, analisando o ritmo cardíaco, realizando o diagnóstico e pres- crevendo o tratamento da PCR. Assim, ele orienta o socorrista durante todo o suporte básico de vida.

Alguns dados: Por se tratar de um problema de saúde pública importante, uma das propostas

Alguns dados:

Por se tratar de um problema de saúde pública importante,

uma das propostas da AHA, já desenvolvida em outros países é

o treinamento em massa da população para o uso do DEA. Em

países desenvolvidos, a presença do DEA em locais de grande fluxo de pessoas, como shoppings, aeroportos e estádios de futebol, está se tornando uma realidade cada vez mais presente. Sabe-se ainda que, nas comunidades americanas, o uso do DEA por socorristas leigos proporcionou taxas de sobrevivência extraordinárias, de até 49% (COSTA; MIYADAHIRA, 2008).

No Brasil, várias cidades e estados brasileiros já possuem legis- lação referente à obrigatoriedade da existência de DEA em locais públicos e/ou eventos de grande circulação de pessoas, como os estados do Rio Grande do Sul (Lei nº 13.109/08), Paraná (Lei nº 14.649/05), São Paulo (Lei nº 12.736/07), Maranhão (Lei nº 8.283/05), Santa Catarina (Lei Estadual nº 97/2009) e o Distrito Federal (Lei nº 3.585/05), bem como os municípios de São Paulo (Leis nº 13.945/05 e nº 14.621/07 e Decreto 46.914/06)

e Vitória/ES (Lei nº 6605/06).

Dessa forma, cerca de 100 mil brasileiros poderiam ser salvos por ano caso um DEA estivesse disponível em todos os locais que essas leis determinam (COSTA; MIYADAHIRA, 2008). No entanto, apesar de essas leis serem uma realidade em algumas cidades do Brasil, não existe uma fiscalização efetiva.

Mas não desanime, um primeiro passo já foi feito, e você está aqui conos- co para diminuir a lacuna do aprendizado e se tornar apto a operar um DEA caso esse esteja disponível em seu local de trabalho ou em qualquer outro local que você esteja.

Princípios de operação de um DEA

Os DEA podem ser classificados em automáticos ou semiautomáticos. Os modelos automáticos exigem apenas que o operador posicione os eletrodos de desfibrilação e ative a unidade que vai analisar o ECG do paciente e determinar a necessidade de aplicação do pulso elétrico; caso necessário, o equipamento automaticamente efetua a descarga.

No entanto, para maior segurança dos operadores, a maioria dos DEA são semiautomáticos. Esses equipamentos analisam o ECG do paciente

e notificam o operador se a desfibrilação é indicada. Dessa forma, o ope- rador pode apertar o botão indicado e efetuar a descarga ou “choque”.

Os DEA semiautomáticos são divididos em três categorias: equipamentos que podem mostrar a curva de ECG, equipamentos que não mostram a curva de ECG e os desfibriladores convencionais (conhecidos como des- fibriladores de consulta). Esses equipamentos podem utilizar mensagem visual, sons e/ou instruções de voz sintetizada para notificar o operador de uma ação.

Os DEA também podem incluir um dispositivo de documentação tal como um cartão de memória. Cabos reutilizáveis fazem a conexão dos eletrodos adesivos de desfibrilação com o equipamento.

Esses eletrodos são utilizados para a monitoração do ritmo cardíaco e a entrega da energia de desfibrilação. Para visualização das informações da situação ao operador (paciente e/ou desfibrilador) e para mostrar a onda de ECG ou informar sobre o início da desfibrilação, o equipamento conta com um display LCD ou outro tipo de display .

O EQUIPAMENTO

Conhecendo e operando um DEA

Vamos relembrar o nosso vídeo da situação problema apresentado no início deste módulo. No caso vivenciado por Sr. Ernani, a equipe do SAMU, ao chegar, assumiu o atendimento e prontamente instalou o DEA. No entanto, imagine que você está num aeroporto e, ao esperar o chamado do seu voo, se depara com uma pessoa que acaba de desmaiar. Ao ava- liá-la, você identifica a PCR, pede ajuda, alguém lhe informa que no lugar existe um DEA, e agora? Você saberia dizer como utilizá-lo?

Primeiramente, existem muitos modelos de DEA no mercado e diferentes marcas. No entanto, todos eles possuem um funcionamento muito similar. Vamos conhecer o equipamento e seus acessórios. Agora, assista ao Vídeo 12 no AVASUS e aprenda o passo a passo para o manuseio de um DEA.

Vídeo 12
Vídeo 12

Vídeo 12

Mesmo se a vítima retomar a consciência, o aparelho não deve ser desligado e as

Mesmo se a vítima retomar a consciência, o aparelho não deve ser desligado e as pás não devem ser removidas ou desconec- tadas até que a equipe de emergência assuma o caso.

Posicionamento das pás

Como vimos, o DEA é autoexplicativo e possui em suas pás o desenho da posição de como elas devem ser instaladas no corpo desnudo do pacien- te. Mas você pode se questionar: “E se, no momento da PCR, eu estiver tão nervoso e trocar a posição das pás? Isso vai diminuir a efetividade do DEA? Eu estou fazendo errado? O paciente perdeu todas as chances de retornar por minha culpa?” Para nossa alegria, todas as respostas ao seu questionamento são NÃO!

Sobre essas dúvidas, muitos estudiosos fizeram experiências com todas as posições possíveis. Grandes estudos do tipo ensaios clínicos rando- mizados foram testados, e eles chegaram à conclusão que, quanto ao posicionamento das pás do DEA, quatro posições são possíveis, sendo que todas elas têm a mesma eficácia no tratamento de arritmias atriais e ventriculares. São elas: anterolateral, anteroposterior, anterior-esquerdo infraescapular, anterior-direita infraescapular. No entanto, para facilitar a memorização e educação, foi considerada a posição das pás antero- lateral um padrão aceitável e colocada como figura nas pás de todos os modelos de DEA fabricado.

Observe as figuras a seguir para compreender melhor cada posição:

Figura 7 - Posição anterolateral (convencional) Figura 8 - Posição anteroposterior 14

Figura 7 - Posição anterolateral (convencional)

Figura 7 - Posição anterolateral (convencional) Figura 8 - Posição anteroposterior 14

Figura 8 - Posição anteroposterior

Figura 9 - Posição anterior-esquerda infraescapular Figura 10 - Posição anterior-direita infraescapular 15

Figura 9 - Posição anterior-esquerda infraescapular

Figura 9 - Posição anterior-esquerda infraescapular Figura 10 - Posição anterior-direita infraescapular 15

Figura 10 - Posição anterior-direita infraescapular

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DEA EM SITUAÇÕES ESPECIAIS

Você sabia que existem algumas situações especiais para a utilização do DEA? Segundo a I Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia, confirmada nas atualizações da AHA 2015, devemos ter uma atenção especial nas seguintes situações.

1) Paciente que faz uso de marca-passo (MP) ou cardioversor-desfibrilador implantável: se o MP estiver na região onde é indicado o local para aplicação das pás, afaste-as, pelo menos, 8 cm ou opte por outro posicionamento das pás (anteroposterior, por exemplo), pois, estando muito próximas, pode prejudicar a análise do ritmo pelo DEA.

próximas, pode prejudicar a análise do ritmo pelo DEA. Figura 11 - Colocação das pás do

Figura 11 - Colocação das pás do DEA em paciente que faz uso de marca-passo

2) Excesso de pelos no tórax: você precisa retirar o excesso de pelos apenas da região onde serão posicionadas as pás, com uma lâmina que geralmente está no kit DEA; outra alternativa é depilar a região com as primeiras pás e, depois, aplicar um segundo jogo de pás. No entanto, se você não tiver mais de uma pá disponí- vel, use um pedaço de esparadrapo, coloque no peito e puxe rapidamente, como se tivesse fazendo uma depilação. Parece espantoso, mas essa é uma recomenda- ção da Sociedade Brasileira de Cardiologia e, na prática, dá supercerto!

Figura 12 - Excesso de pelos no tórax. Retirada com lâmina de barbear Figura 13

Figura 12 - Excesso de pelos no tórax. Retirada com lâmina de barbear

Excesso de pelos no tórax. Retirada com lâmina de barbear Figura 13 - Excesso de pelos

Figura 13 - Excesso de pelos no tórax. Retirada com esparadrapo

Para compreender melhor sobre esse assunto, vá até a biblioteca do AVASUS e consulte o arquivo da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

3) Tórax molhado: enxugue rapidamente o tórax antes de aplicar as pás. Se a vítima estiver sobre uma poça d’água, não há problema. Porém, se esta poça d’água tam- bém envolver o socorrista, remova a vítima para outro local o mais rápido possível.

Figura 14 - Tórax molhado 4)  Adesivos de medicamentos/hormonais : você precisa remover o adesivo

Figura 14 - Tórax molhado

4) Adesivos de medicamentos/hormonais: você precisa remover o adesivo e o exces- so de medicamento se ele estiver no local em que serão aplicadas as pás do DEA.

se ele estiver no local em que serão aplicadas as pás do DEA. Figura 15 -

Figura 15 - Adesivos de medicamentos/hormonais

5) Crianças de 1 a 8 anos: utilize o DEA com pás pediátricas e/ou atenuador de carga. Se o kit DEA possuir somente pás de adulto, está autorizada a utilização delas, porém, se o tórax for estreito, pode ser necessária a aplicação de uma pá anteriormente (sobre o esterno) e outra posteriormente (entre as escápulas), na mesma altura, para que as pás não se sobreponham.

na mesma altura, para que as pás não se sobreponham. Figura 16 - Colocação das pás

Figura 16 - Colocação das pás em crianças de 1 a 8 anos

As pás infantis não devem ser utilizadas em adultos, pois o choque aplicado será insuficiente!!!!

As pás infantis não devem ser utilizadas em adultos, pois o choque aplicado será insuficiente!!!!

6) Lactentes (0 a 1 ano): um desfibrilador manual é preferível, porém, se não estiver disponível, utilize o DEA com pás pediátricas e/ou o atenuador de carga. Se este também não estiver disponível, utilize as pás de adulto, uma posicionada anterior- mente (sobre o esterno) e a outra posteriormente (entre as escápulas), na mesma altura; o prejuízo para o miocárdio é mínimo e há bons benefícios neurológicos.

Figura 17 - Colocação das pás do DEA em bebês 7)  Gestantes : não existem

Figura 17 - Colocação das pás do DEA em bebês

7) Gestantes: não existem estudos que comprovem complicações maternas ou fetais com o uso do desfibrilador, aventando-se pequeno risco de arritmia fetal. Mesmo assim, indica-se seu uso em qualquer estágio da gestação como método seguro, considerando ainda como barreira e proteção fetal o líquido amniótico.

como barreira e proteção fetal o líquido amniótico. Figura 18 - Uso do DEA em gestante

Figura 18 - Uso do DEA em gestante

E AGORA? CHOQUE PRIMEIRO OU RCP PRIMEIRO?

Vamos refletir juntos no seguinte cenário:

Você está em sua Unidade de Saúde, um senhor de 45 anos chega refe- rindo dor no peito, tontura e falta de ar; você o acolhe e acomoda na sala de emergência que tem na bancada ao lado um DEA. O paciente está conversando com você e de repente apresenta um colapso súbito! E agora? Você instala logo o DEA ou inicia a RCP?

Vou lhe ajudar a sair dessa encruzilhada. Para resolver essa situação problema, as atualizações da AHA de 2015 enfatizam que, nas PCR de adultos presenciadas, quando há um DEA disponível imediatamente, deve-se usar o desfibrilador o mais rapidamente possível. Em adultos com PCR sem monitoramento ou quando não houver um DEA pronta- mente disponível, deve-se iniciar a RCP enquanto o desfibrilador é obtido e aplicado e tentar a desfibrilação, se indicada, assim que o dispositivo estiver pronto para uso.

Embora inúmeros estudos tenham se dedicado a saber se há algum bene- fício obtido com a aplicação de compressões torácicas por um determi- nado período (normalmente, 1,5 a 3 minutos) antes da administração do choque, não foi observada nenhuma diferença no desfecho quando com- parado com a administração do choque tão logo o DEA estivesse pronto.

A RCP deve ser administrada enquanto as pás do DEA são aplicadas e até que o DEA esteja pronto para analisar o ritmo.

Imediatamente após o choque deve-se iniciar as compressões torácicas, obedecendo a sequência de 30 compressões para cada duas ventilações (em adultos, ou crianças e bebês com apenas um profissional. Se for crian- ça ou bebê e o atendimento estiver sendo realizado por dois profissionais de saúde, essa relação deve ser de 15 compressões para duas ventilações) durante cinco ciclos ou dois minutos, ou até que o DEA solicite nova análi- se do ritmo, o paciente se mova ou a equipe de suporte avançado chegue.

o paciente se mova ou a equipe de suporte avançado chegue. Então, por que devemos mesmo

Então, por que devemos mesmo aplicar compressões cardíacas imediatamente após o choque? Vamos entender a importância da sequência desfibrilação e compressões torácicas. Para isso, é preciso compreender o mecanismo fisiológico das contrações cardíacas e da própria FV/TVSP. É o que você verá no Vídeo 13, que está nesta Unidade, no AVASUS.

cardíacas e da própria FV/TVSP. É o que você verá no Vídeo 13, que está nesta
Vídeo 13

Vídeo 13

Sequência de SBV com dois socorristas e DEA

Agora você está apto a realizar a sequência completa de SBV para dois pro- fissionais com um DEA, inclusive a ajudar o SAMU com o Sr. Ernani, seguindo as novas diretrizes da AHA (2015). Para fixar melhor, assista agora ao Vídeo 14, que tem a conclusão da situação problema do início do módulo.

Vídeo 14
Vídeo 14

Vídeo 14

Resumindo

Respondendo ao questionamento do início dessa unidade, a função da desfibrilação ou choque é de PARAR o CORAÇÃO, ou seja, ZERAR a ativi- dade elétrica anteriormente DESORGANIZADA para que o marca-passo natural do nosso coração (NO SINOATRIAL) possa comandar novamente as fibras cardíacas e reassumir um ritmo eficaz que gere pulso central. Como na AESP não há desorganização de ritmo e na assistolia não há ritmo, consequentemente, NÃO EXISTE INDICAÇÃO de DESFIBRILAÇÃO, cuja função é de “PARAR COM UM RITMO DESORGANIZADO”.

RITMOS CHOCÁVEIS

RITMOS CHOCÁVEIS FIBRILAÇÃO VENTRICULAR TAQUICARDIA VENTRICULAR SEM PULSO

FIBRILAÇÃO VENTRICULAR

RITMOS CHOCÁVEIS FIBRILAÇÃO VENTRICULAR TAQUICARDIA VENTRICULAR SEM PULSO

TAQUICARDIA VENTRICULAR SEM PULSO

RITMOS NÃO CHOCÁVEIS

ATIVIDADE ELÉTRICA SEM PULSO ASSISTOLIA

ATIVIDADE ELÉTRICA SEM PULSO

ATIVIDADE ELÉTRICA SEM PULSO ASSISTOLIA

ASSISTOLIA

Figura 19 - Resumo dos ritmos chocáveis e não chocáveis

A desfibrilação não faz voltar a função cardíaca. A desfibrilação choca o coração e suspende, por um breve período, toda atividade elétrica, inclu- sive a FV e a TVSP. Assim, se o coração ainda tiver energia e for viável, seu marca-passo natural poderá, por fim, reiniciar a atividade elétrica, o que resulta, finalmente, no retorno da circulação espontânea (RCE).

Assim, imediatamente após o choque deve-se realizar compressões torácicas e NUNCA checar pulso. Este só deve ser checado quando o paciente está monitorizado, com a presença da equipe de suporte avan- çado e somente quando se observa no monitor, um RITMO ORGANIZA- DO; nesse caso, sim, deve-se checar pulso!

O DEA chega

Sim, chocável Não, não chocável Aplique 1 choque. Reinicie a RCP imediatamente por cerca de
Sim, chocável
Não, não chocável
Aplique 1 choque. Reinicie a
RCP imediatamente por cerca
de 2 minutos (até avisado pelo
DEA para verificação do ritmo).
Continue até que o pessoal de
SAV assuma ou até que a vítima
comece a se MOVIMENTAR.
Reinicie a RCP imediatamente por
cerca de 2 minutos (até avisado
pelo DEA para a verificação do
ritmo). Continue até que o pessoal
de SAV assuma ou até que a vítima
comece a se MOVIMENTAR.

Figura 20 - Quando o DEA chega. Fluxograma de ações para quando o ritmo é chocável e não chocável

REFERÊNCIAS

ACOSTA, P. et al. Kouwenhoven, Jude and Knickerbocker: The Introdiction of defibrillation an dexternal chest compressions into modern resuscitation. Resuscitation, Ireland, v. 64, p. 139-143, 2005.

AMERICAN HEART ASSOCIATION – AHA. Destaques das diretrizes da American Heart Association 2015 para RCP e ACE. USA, 2015.

CAKULEV, et al. Cardioversion: past, present and future. Circulation, Dallas, v. 120, p. 1623–1632, oct. 2009.

CORRÊA, A. R. Incorporação do Desfibrilador Externo Automático no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência de Belo Horizonte, resultados preliminares. 2010. 71f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) – Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.

COSTA, M. P. F.; MIYADAHIRA, A. M. K. Desfibriladores externos automáticos (DEA) no atendimento pré-hospitalar e acesso público à desfibrilação: uma necessidade real. O Mundo da Saúde, v. 32, n. 1, p. 8-15, jan./mar. 2008.

FORNAZIER, C. et al. Abordagem de Vigilância Sanitária de Produtos para Saúde Comercializados no Brasil: Desfibrilador Externo. BIT – Boletim Informativo de Tecnovigilância, Brasília, n. 1, jan./mar. 2011 – ISSN 2178-440X.

PAZIN FILHO, A. et al. Parada cardiorrespiratória (PCR). Medicina, Ribeirão Preto, n. 36, p. 163-178, abr./dez. 2015.