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Colegiado da Luz Hermética

Fundado a Serviço da A∴A∴

CORRENTE93
Vol. I No. 04
An V2, in 0° , in 29° 
An. CXII da Era Thelêmica
________________________________________________________________________________________________________
R$5,00
Conteúdo

Editorial 3
Liber CL: De Lege Libellum 9
Saudação ao Sol entrando no Signo de Virgem 21
O Rito do Eremita de Yod 22
O Adepto Menor & a Invocação do Daemone 24
O Sagrado Anjo Guardião é um Indivíduo Objetivo 32
LVX et NOX 35
Fontes Bibliográficas 46
Notícias da Linha de Frente 48
Colegiado da Luz Hermética 49

Corrente 93, Vol. I, No. 4.


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elevação da consciência por meio da realização de – (http://oto.org/).
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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Editorial

Care Frateres et Sorores,

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

B em vindo a edição No. 4 do Jornal Corrente 93. Esse é um projeto do Outer College
Brasil, linha da A∴A∴ transmitida por Frater ON120 e Colegiado da Luz Hermética
através da SETh, órgão oficial de divulgação dos trabalhos desses dois Colegiados
Thelêmicos. Esse jornal cumpre a finalidade de divulgar os trabalhos, projetos e
publicações da A∴A∴ e C.L.H. Enquanto o livro Os Rituais do Tarot ainda está em construção,
os Probacionistas do C.L.H. estão seguindo as instruções publicadas no Jornal. Esse livro
trata-se de um curso de um ano que orienta uma prática pessoal diária, executada de forma
sistemática através do processo ritualístico da Teurgia, envolvendo o Tarot e a ascensão nos
Caminhos da Árvore da Vida. Como Probacionista do C.L.H., o Candidato é requerido seguir
três Votos Sagrados:

1. Obediência: Significa aceitar ser dirigido no trabalho da Ordem. Sem a aceitação e o


cumprimento deste voto é impossível haver qualquer tipo de relação entre a Ordem
e o Candidato. De fato, até que a obediência seja praticada e compreendida, não
existe aspiração real, apenas esperança vaga ou coisa pior.
2. Simplicidade: Significa descartar aquilo que não é necessário, que não é essencial, a
fim de estar receptivo a Corrente 93. Isso implica uma liberação dos condicionamen-
tos pré-concebidos em relação à realização da Grande Obra.
3. Castidade: Significa aceitar ser dirigido em um método particular seguindo uma dis-
ciplina determinada com fidelidade e continuidade de propósito.

No caminho para conseguir realizar essa tarefa dos três Votos Sagrados, o Candidato deve
ter:

 Capacidade de trabalhar sozinho e em silêncio.


 Determinação obstinada.
 Economia de meios, quer dizer, a capacidade de dirigir as energias para Grande
Obra, deixando de perdê-la nas trivialidades do dia-a-dia.

Eu gostaria de aproveitar a oportunidade deste editorial para sempre fazer algumas consi-
derações filosóficas e práticas. A intenção é abrir um diálogo com o leitor. Esteja à vontade
para continuar enviando suas perguntas e sugestões. Esse será um espaço para responde-
las da melhor maneira possível.
Nesta edição do Corrente 93, vou começar assim: não existe maior ilusão na escalada
do Monte Abiegnus do que aquela falácia do tornar-se um deus. Me parece que isso tem
demolido muitos castelos de areia e rasgado muitas coroas de papel. A pergunta que per-
manece é: você, Candidato, está preparado para assumir o prístino brilho de sua Estrela e
tomar seu lugar entre os deuses ou cairá no sopé da montanha, o Castelo da Perdição, para
ser controlado como um escravo, seja por deuses, demônios ou de si mesmo?

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Seja como for, ao longo de vinte anos como ācāryā da A∴A∴ eu tenho observado a
ascensão e queda de Probacionistas, Neófitos, Zelators, Práticos, Filósofos e Adeptos. Por-
que isso ocorre com muitos Candidatos a Obra? As respostas podem ser muitas, pois a ruina
de cada um depende de muitos fatores. No entanto, é sadio olhar para os métodos da A∴A∴
tentando buscar por lacunas, pontas soltas que podem, ao olhar desapercebido, levar Can-
didatos ao solo e por mais que suportemos as quedas que todos nós experimentamos ao
longo da jornada, é saudável parar e olhar atentamente o sistema de frente, adaptando cada
ponto as suas necessidades e natureza interior. Esse é um dos nuances que envolve a relação
professor-aluno na A∴A∴: o Superior deve ser capaz de avaliar o Candidato e lhe auxiliar a
adaptar da melhor maneira possível. Uma tradição somente perdura no tempo quando man-
tém suas bases intactas, mas isso é impossível de ser feito sem uma aplicação adequada dos
métodos de transmissão da tradição. Esses, por outro lado, devem refletir o momento, as
demandas e expectativas de uma época. Sem essa adaptação, qualquer tradição está fadada
ao fracasso.
Eu citei acima que uma das qualidades essenciais ao Candidato é obediência. Infeliz-
mente, isso tem sido muito mal compreendido pelos Irmãos da A∴A∴. A falta de conheci-
mento espiritual, a ignorância acerca da relação professor-aluno na Santa Ordem tem levado
muitos Candidatos a queda. Em certo ponto do caminho, o Candidato não pode se dar ao
luxo de desprezar ou ignorar os apontamentos secretos de seu Superior na Ordem. E até
mesmo os Adeptos do Grau de Amante ainda mantêm laços de obediência e reverência para
com seus Superiores e nisso reside um mistério profundo pouco difundido entre os Irmãos
da Ordem. Crowley adverte que após a assinatura do Juramento de Filósofo o Candidato
deve evitar deixar a Ordem. Isso é um aviso sério ao olhar mais atento. O Grau de Filósofo é
um dos mais preocupantes porque é nessa etapa que Vontade e desejo são ajustados em seus
respectivos lugares. A maioria dos Candidatos falha mais na esfera de Netzach-Vênus do que
em qualquer outro Grau. Isso ocorre porque os homens não conseguem compreender e
abraçar completamente a fórmula feminina do Amor internamente. Ao invés disso, eles pro-
jetam seu anima, aliado ao fato de que algumas mulheres também têm feito isso nessa es-
fera. Embora muito pouco seja dito, o trabalho na esfera de Netzach prepara o Ego como um
Cálice apropriado para receber as instruções superiores da LVX oculta do Sagrado Anjo
Guardião. No entanto, há um mistério nesse processo e é preciso olhar para ele de forma
lúcida: em Tiphereth, a zona de poder do trabalho mágico do Adepto, é apenas o começo da
relação com o Anjo. Muitos se enganam que essa relação seja estabelecida efetivamente no
trabalho do Adepto Interno. Mas não é assim. A verdade é que o Anjo não se manifesta em sua
completude abaixo do Abismo. As conexões estabelecidas aqui capacitam o Adepto a receber
lampejos de seu Anjo estando ele em Malkuth, mas para que isso aconteça, o Prático deve
devotar-se completamente aos ritos de adoração – bhakti-yoga – para que os canais de per-
cepção sejam limpos e as conexões estabelecidas. No Colégio Externo da A∴A∴ o Candidato
deve forcar-se no trabalho das esferas de Hod, Netzach e Tiphereth inúmeras vezes na in-
tenção de equilibrar sua consciência para então tornar-se o Cálice para o Amado. Isso signi-
fica que não se trata de assumir um Grau e ir adiante. A A∴A∴ não é uma Ordem ou Frater-
nidade horizontal no qual a autoridade de um Grau é automaticamente conquistada ao as-
sumi-lo. Nessas condições o trabalho do Grau trata-se de uma escolha pessoal. Mas na A∴A∴
não é assim! Nós somos uma organização científica e nosso propósito é único: conheça-te a
ti mesmo.
Por volta de 2003 enviei uma carta a Kenneth Grant (1924-2011) perguntando quais
foram os motivos que o levaram a fazer uma adaptação no sistema de Crowley, que ele vis-
lumbrou como a união entre a estrutura da A∴A∴ e os Graus da O.T.O. Embora ele confesse
que tenha falhado nisso – motivo pelo qual a sua Ordem Tifoniana hoje passa por uma re-
formulação no seu sistema – me deu insights valiosos acerca do papel da mulher tanto na
O.T.O. quanto na A∴A∴. Inspirado por Grant, Euclydes Lacerda (1936-2010) já havia nos

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
passado essa reflexão, quando começamos a trabalhar sobre os rituais de iniciação da O.T.O.
deixados por Crowley já em 1999.

Eu pensava na época (e ainda penso hoje) que Crowley comprometeu muito do trabalho
da O.T.O. e da A∴A∴ não observando o papel da mulher no sistema. Em Netzach, por
exemplo, se constrói um trampolim, através do Pilar da Mão Direita, para o coração de
Tiphereth usando a fórmula de BABALON. Crowley se esforçou em explicar o aspecto
masculino desse processo, a fórmula ABRAHADABRA, mas até o momento ninguém foi
capaz de vislumbrar a necessidade em ensinar a contraparte feminina. [...] Embora
meus esforços em unir os sistemas da A∴A∴ e da O.T.O. tenham se tornado infrutíferos,
é preciso consertar essa falha de Crowley em ambos os sistemas.1

Desde então eu venho me debruçando sobre essa lacuna e penso ter encontrado algumas
alternativas, tanto nos rituais de iniciação da O.T.O. quanto no curso dos Graus da A∴A∴.
Alguns, é claro, se levantarão contra a hipótese de Crowley ter cometido algum tipo de erro
ou completo descaso com o papel da mulher na iniciação. Ponderemos todos nós nesse mo-
mento, acerca dessa ideia: Aleister Crowley, o homem, magista, avātar etc., não é o sistema.
Ele foi a voz, o promulgador, o zelador e permanece o primeiro professor. No entanto,
Thelema sustenta a si mesma! Não se trata, dessa maneira, em um culto centrado na imagem
e personalidade de Aleister Crowley, caso contrário estaríamos todos praticando certo tipo
de crowleyanismo, o que temos a certeza absoluta que Crowley nunca desejou que se tor-
nasse a Filosofia de Thelema, não depois de tantos esforços.
Sobre esse tema em relação aos rituais da O.T.O. eu tenho feito algumas observações
nas Crônicas da O.T.O. Em relação ao curso dos Graus na A∴A∴ eu ainda não escrevi muito.
Como postulei diversas vezes acerca dos rituais da O.T.O., é necessário fazer uma revisão na
aplicação deles sobre a psicologia e fisiologia feminina. Da mesma maneira, é imperativo na
A∴A∴ que as mulheres sigam o mesmo curso de iniciação que os homens? A luz da razão
não, pois as fórmulas mágicas aplicadas ao homem e a mulher são distintas. Vamos usar o
Corrente 93 para desenvolver essa ideia.
Nota importante: Eu recebi alguns e-mails e avisos de que eu deveria parar de falar
acerca do sistema de iniciação da O.T.O. Aproveito essa oportunidade para esclarecer alguns
pontos:

1. Não existe lei além de Faz o que tu queres. Dessa maneira, se eu falo acerca do sis-
tema de iniciação da O.T.O. é por este motivo que segue:
2. Sou um iniciado da O.T.O. desde 2000 e embora eu esteja afastado da Ordem, tenho
quase vinte anos de experiência no trabalho dos Graus, seus rituais de iniciação e
fórmulas mágicas, principalmente em meu trabalho com a Tradição Brasileira da
O.T.O. (via Euclydes Lacerda) e outras potências espúrias como Fundação O.T.O.,
O.T.O. Tifoniana e Ritos Unidos O.T.O.
3. Eu não tenho direito algum para falar em nome da O.T.O., mas como membro, tenho
o direito de falar sobre ela e uma vez que eu não infrinja sua constituição, não há
nada de errado em esclarecer pontos obscuros do sistema da Ordem ou mesmo cri-
ticá-la quando a sabedoria vê que certos caminhos levam a becos sem saída.
4. Na A∴A∴, quando alguém atingia o Grau de Adepto Maior 6°=5⌷, Crowley insistia que
os métodos da O.T.O. deveriam ser utilizados para adestrar, aumentar e controlar a
força mágica. Por que então eu não iria falar do Arcano da O.T.O. sendo ele tão válido
aos ordálios e tarefas que seguem este e o Grau subsequente? Sou da seguinte opi-
nião: ao atingir o 6°=5⌷ A∴A∴, o Adepto deve consistentemente trabalhar com as

1 Kenneth Grant em carta privada a Fernando Liguori, datada de três de agosto de 2003 e.v.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
fórmulas mágicas ensinadas pela O.T.O., o que inclui a realização semanal da Missa
Gnóstica, seja no seu original ou adaptada para duas pessoas.2
5. Finalmente, um thelemita pode ser muito bem definido pela palavra independente.
Alguém independente é aquela pessoa que age por si mesma, sem se preocupar com
os julgamentos, apontamentos ou opiniões alheias. É libertando a mente de influên-
cias externas, quer acidentais, quer emotivas, que a tornamos capaz de discernir algo
da verdade das coisas. [...] Talvez a primeira percepção será a de que todas as influên-
cias externas serão, em sua esmagadora maioria, desfavoráveis ao processo de con-
quista mental.3

Eu escrevi dois artigos4 faz pouco tempo que tratam de um assunto especial: existe uma
maneira correta de se interpretar Thelema? Existe um manual de conduta universal para o
thelemita? Existe thelemita ideal? Uma vez que não há lei além de Faz o que tu queres,5 não!
Cada thelemita deve escolher para si um conjunto de regras pelas quais deseja viver,
alinhado a execução de sua Verdadeira Vontade. Dessa maneira, não existe um suposto the-
lemita ideal pois, uma vez que cada um possui sua própria Verdadeira Vontade, as Leis que
regem seu universo podem ser distintas das Leis que regem outro universo. Dessa maneira,
Thelema se trata de uma Filosofia Universalista, pois ela abraça uma certa diversidade, dei-
xando a cargo de cada um salientar em sua vida aqueles aspectos de Thelema que mais lhe
são convenientes. Isso, por sua vez, produz pontos de vista distintos e às vezes bem contrá-
rios e sob a estrita ótica de Thelema, não existe possibilidade real de dizer se fulano ou bel-
trano está ou não agindo segundo os princípios essenciais de Thelema. Para agir segundo
os princípios essenciais de Thelema, o que é preciso é executar a Verdadeira Vontade. Sob
certo ponto de vista, todos nós estamos, a nossa própria maneira, executando a Verdadeira
Vontade.6 Por conta disso, é impossível mensurar a jornada do outro nesses termos.
Durante muitos anos, nós, Superiores da A∴A∴, notamos entre os estudantes mais no-
vos grande rebeldia, violência contra autoridade de qualquer tipo, principalmente conec-
tada a religião cristã. Mas é preciso observar que Thelema não se opõe a nada. Não se trata
de uma doutrina anti-cristã ou até mesmo anti-satanista. Seria até controverso, uma vez que
a própria O.T.O. preserva os mistérios do cristianismo primitivo. Essa rebeldia, portanto, é
alimentada por certa ignorância acerca dos arcanos que envolvem Thelema. O que Thelema
irá criticar no cristianismo e em outras religiões organizadas é a fórmula mágica pela qual
elas transmitem a iniciação. Tendo O Livro da Lei trazido uma nova aurora na interpretação
dessas fórmulas, claro está o fato de que Thelema irá, por sua vez, reivindicar uma nova
maneira de ver a natureza, o mundo e a iniciação. Nesse caminho, Thelema irá desafiar pon-
tos de vista estabelecidos, paradigmas religiosos conservadores. Isso, certamente, é um
atrativo para muitos rebeldes, antiautoritários, desprivilegiados, alienados, desorientados
e infelizes com o status quo. Pessoas que estão bem estabelecidas no status quo não precisam
de uma nova visão de mundo. Por outro lado, certa insatisfação é louvável para colocar al-
gumas forças em movimento. No entanto, a rebeldia no caminho espiritual pode ser uma
faca de dois gumes. Uma pessoa independente é, de certa maneira, um revolucionário. Re-
volucionários lutam pela causa da Liberdade. Rebeldes, por outro lado, costumam lutar pela
causa da rebeldia. São coisas completamente diferentes.
Os interessados em Thelema ancoram perspectivas distintas em sua busca:

2 Veja meu artigo Uma Loja da O.T.O. m sua Casa no Corrente 93 Vol. I, No. 3.
3 Aleister Crowley, Livro Quatro (Parte I).
4 Thelemita Ideal?, publicado em O Olho de Hoor: Zero e Repensando Yama & Niyama, publicado em Yoga para

Magistas: Ensaios Místicos. Estes artigos estão disponíveis na internet.


5 Liber AL, III:60.
6 Para uma discussão longa acerca da Verdadeira Vontade, veja O Olho de Hoor: Zero.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
 Alguns veem Thelema como uma poderosa força revolucionária na cultura, política
e até nas artes. Seus interesses podem ser em qualquer área onde pessoas estão
mais abertas a descontruírem antigas ideias na intensão de estabelecerem um Novo
Aeon.
 Muitos se interessam por Thelema em virtude de sua visão positiva do sexo e da
sexualidade, que afrouxa os jugos que a religião organizada estabelece.
 Outros projetam em Thelema uma doutrina antigovernista e anárquica. Outros
ainda enxergam em Thelema a solução para uma sociedade renovada.
 Existem àqueles que praticam Thelema com um ardoroso espírito religioso. Mas
também existem àqueles que veem Thelema como uma doutrina antirreligiosa.
 Uns buscam em Thelema por uma associação perfeita entre a prática da magia e a
busca pelo ideal místico da iluminação.
 Muitos buscam Thelema na oportunidade de praticarem uma filosofia de vida que
lhes permita serem eles mesmos, completos e entusiasmados, seja através do es-
forço, talento ou mérito.
 Alguns chegam até Thelema através das ideias disseminadas por Raul Seixas e Paulo
Coelho, pensando eles se tratar de um culto mágico misterioso que licencia o uso
deliberado de drogas e orgias sexuais.
 Poucos buscam em Thelema o ideal da Grande Obra.

Por mais de vinte anos, tenho praticado Thelema como filosofia de vida e mecanismo de
autoconhecimento. Sua prática tem me dado a oportunidade de enxergar com clareza as
forças ocultas que arrastam e escravizam minha consciência e a possibilidade de libertar-
me desses grilhões ocultos ancorado na LVX do Daemone. Por mais de vinte anos eu tenho
praticado Thelema me baseando nas Leis fundamentais e princípios que ela promulga e que
me causam uma sensação genuína de conforto espiritual. Thelema me oferece um caminho
de karma-yoga seguro pelo qual é possível realizar a Grande Obra através do empodera-
mento de mim mesmo. Acima de tudo, pratico Thelema porque no presente ela representa
a atual configuração espiritual assumida pela humanidade. Thelema provê, no meu enten-
dimento, os mecanismos mais efetivos pelos quais o despertar espiritual pode ser cultivado
por homens e mulheres de toda parte nos dias de hoje.
Logo acima, eu falei que Thelema sustenta a si mesmo. Portanto, não importa a natu-
reza da busca de cada um, pois Thelema pode ser isso tudo descrito acima e muito mais,
uma vez que não existe lei além de Faz o que tu queres, todos são livres para interpretar e
praticar Thelema segundo seu nível de entendimento, compreensão e iniciação. Através das
edições mensais do Jornal Corrente 93 e das revistas anuais O Olho de Hoor, a Sociedade de
Estudos Thelêmicos tem a oportunidade de difundir a Lei de Thelema. Nesse processo, nós
entendemos que toda tradição precisa, a sua melhor maneira, adaptar a transmissão de sua
doutrina e códices de modo mais adequado ao tempo de quem recebe a mensagem.
Muitas descobertas foram feitas desde a passagem de Crowley, que não teve acesso a
toda tecnologia e fontes que temos disponíveis hoje. Nossa função, portanto, é trazer The-
lema e a prática do Iluminismo Científico para os dias atuais.

Nesta edição do Corrente 93 nós temos alguns temas enriquecedores. Aleister Crowley abre
esse número com Liber CL: De Lege Libellum. Trata-se de uma explanação acerca de O Livro
da Lei e os privilégios daquele que aceita a Lei de Thelema como filosofia prática de vida.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
O Adepto Menor & a Invocação do Daemone é uma epístola escrita por Frater ON120
acerca do trabalho realizado pelos Adeptos Externo e Interno na A∴A∴ e a invocação do
Sagrado Anjo Guardião.
O Sagrado Anjo Guardião é um Indivíduo Objetivo é um texto de Aleister Crowley pu-
blicado em Magick Whithout Tears e trata da natureza do Anjo.
LVX et NOX é uma epístola sobre o Ritual Safira Estrela. Muito pouco conhecido, este
ritual encerra um mistério profundo que forja uma conexão entre os Mundos de Atziluth e
Briah através de uma fórmula mágica conhecida como ARARITA. Nos termos práticos, pela
dança de êxtase ofidiano produzida por uma série de casamentos místicos nos quadrantes
do espaço constrói-se um hexagrama poderoso que é capaz de aniquilar completamente a
dualidade do Adepto.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Frater ON120 6°=5⌷ A∴A∴


Imperator

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
LIBER CL VEL l c g
DE LEGE LIBELLVM
L–L–L–L–L

A∴A∴
PUBLICAÇÃO EM CLASSE E
IMPRIMATUR
N. Fra. A∴A∴

A LEI

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

E m retidão de coração vinde até aqui, e ouvi-me; pois sou eu, ,
quem deu esta Lei a todo aquele que se considera a si mesmo santo. Sou eu, não
outro, que quer vossa completa Liberdade, e ascensão em vós de total Conheci-
mento e Poder.
Vede! o Reino de Deus está dentro de vós, assim como o Sol mantém-se
eterno nos céus, igualmente à meia-noite e ao meio-dia. Ele não se levanta; ele não se põe; é
apenas a sombra da terra que o esconde, ou as nuvens sobre sua face.
Deixai-me, então, declarar-vos este Mistério da Lei, como me foi dado conhecer em
diversos lugares, sobre as montanhas e em desertos, mas também em grandes cidades; o
que eu digo para vosso conforto e boa coragem. E assim seja para todos vós!
Sabei, primeiro, que da Lei brotam quatro Raios ou emanações; de modo que se a Lei
for o centro de vosso próprio ser, eles necessariamente deverão vos preencher com seus
secretos benefícios. E estes quatro são: Luz, Vida, Amor e Liberdade.
Pela Luz olhareis sobre vós mesmos e vereis Todas as Coisas, que, em verdade são
apenas Uma só Coisa, que tem sido chamada pelo nome Nada, por uma causa que mais tarde
vos será declarada. Mas a substância da Luz é Vida, posto que, sem Existência e Energia, ela
seria nula. Pela Vida, portanto, vós sois feitos vós mesmos, eternos e incorruptíveis, flame-
jantes como sóis, auto-criados e auto-suportados; cada um o centro único do Universo.
Agora, como pela luz vós vistes, pelo amor vós sentis. Há um êxtase de puro Conheci-
mento e outro de puro Amor. E este Amor é a força que une coisas diversas, para a contem-
plação, na Luz, da Unidade delas. Sabei que o Universo não está em descanso, mas num ex-
tremo movimento cuja soma é Descanso. E este entendimento, de que estabilidade é Mu-
dança, e Mudança é Estabilidade; que Ser é Tornar-se, e Tornar-se é Ser; é a Chave do Palácio
Dourado desta Lei.
Finalmente, pela Liberdade, há o poder de dirigir vosso curso de acordo com vossa
Vontade. Pois a extensão do Universo é sem limites, e vós sois livres para fazer vosso prazer
como quiserdes, vendo que a diversidade do ser é também infinita. Pois também isto é a

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Alegria da Lei: que não há duas estrelas semelhantes, e vós deveis entender também que
esta multiplicidade é, ela mesma, Unidade, e sem ela a Unidade não poderia existir. E isto é
um duro discurso contra a Razão; vós compreendereis quando, subindo acima da Razão, que
é apenas manipulação da mente, chegardes ao Conhecimento puro através da percepção
direta da Verdade.
Sabei, também, que estas quatro Emanações da Lei flamejam sobre todos os cami-
nhos; vós as usareis não apenas nestas Rodovias do Universo, das quais eu escrevi, mas em
todo Atalho de vossas vidas diárias.

Amor é a lei, amor sob vontade.

-I-
DE LIBERDADE

Da Liberdade que eu primeiro quereria vos falar, pois, exceto que sejais livres para agir, vós
não podeis agir. Porém, todas as quatros dádivas da Lei devem ser, em algum grau, exerci-
das, visto que estas quatro são uma. Entretanto, para o Aspirante que vem ao Mestre, a pri-
meira necessidade é Liberdade.
O maior dentre todos os grilhões é a ignorância. Como um homem será livre para agir,
se ele não conhece seu próprio propósito? Vós deveis, portanto, antes de mais nada, desco-
brir que estrela, de todas as estrelas, vós sois; vossa relação com as outras estrelas ao vosso
redor; e vossa relação e identidade com o Todo.
Em nossos Livros Sagrados são descritos diversos métodos de fazermos esta desco-
berta; e cada um deve realizá-la por si mesmo, alcançando absoluta convicção pela experi-
ência direta; não apenas raciocinando e calculando o que é provável. E a cada um virá o
conhecimento de sua vontade finita, através da qual um é poeta, outro profeta; um trabalha
com aço, outro com jade. Mas também para cada um virá o conhecimento de sua Vontade
infinita, seu destino para realizar a Grande Obra, a realização de seu Verdadeiro Ser. Desta
Vontade, deixai-me, pois, falar claramente a todos, já que ela pertence a todos.
Entendei, agora, que em vós mesmos há um certo descontentamento. Analisai bem
sua natureza: no final, há, em todo caso, uma conclusão. O mal brota da crença em duas
coisas: o Ser e o Não-Ser, e do conflito entre eles. Isto também é uma restrição da Vontade.
Aquele que está doente está em conflito com o seu próprio corpo; aquele que é pobre está
em disparidade com a sociedade; e assim por diante. Finalmente, portanto, o problema está
em como destruir esta percepção de dualidade, em atingir a apreensão da unidade.
Agora, então, suponhamos que vós viestes ao Mestre, e que Ele vos declarou o Cami-
nho desta consecução. Que vos impede? Ai! Existe ainda muita Liberdade ao longe. Entendei
isto claramente: que se estais certos de vossa Vontade e certos de vossos meios, então quais-
quer pensamentos ou atos que são contrários a esses meios são contrários, também, àquela
Vontade.
Se, portanto, o Mestre impusesse a vós um Voto de Santa Obediência, a concordância
não seria uma entrega da Vontade, mas um cumprimento desta.
Pois vede, o que vos impede? Ou vem de fora, ou vem de dentro, ou ambos. Pode ser
fácil, para o buscador de mente forte, pisar sobre a opinião pública, ou arrancar de seu co-
ração os objetos que ele ama, em um sentido; mas permanecerão, nele mesmo, muitas afei-
ções discordantes, como também o laço do hábito; e também estes ele deve conquistar.
Em nosso mais Sagrado Livro está escrito: «tu não tens direito senão fazer tua von-
tade. Faz isso, e nenhum outro dirá não». Escrevei isso também em vosso coração e em vosso
cérebro: pois esta é a chave de toda questão.
Aqui a Natureza mesma é vosso orientador; pois em cada fenômeno de força e movi-
mento ela proclama alto esta verdade. Mesmo numa questão tão pequena como enfiar um

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prego numa tábua, ouvi este mesmo sermão. Vosso prego deve ser duro, liso, de ponta fina,
ou não se moverá rapidamente na direção desejada. Imaginai então um prego de madeira
podre, com vinte pontas: em verdade, isso não é mais um prego. Porém quase toda a huma-
nidade se parece com isto. Eles desejam uma dúzia de carreiras diferentes; e a força que
poderia ter sido suficiente para atingir eminência em uma é desperdiçada nas outras, elas
são anuladas.
Aqui, então, deixai-me fazer uma confissão aberta, e assim dizer: apesar de eu ter me
prometido, quase na infância, à Grande Obra; embora em minha ajuda tenham vindo as mais
possantes forças em todo o Universo, para me segurar à promessa; apesar de agora o pró-
prio hábito me constranger na direção correta; no entanto, eu não preenchi minha Vontade:
eu me desvio diariamente da tarefa escolhida. Eu oscilo. Eu hesito. Eu me arrasto.
Que seja isto, então, de grande conforto para vós todos: que se eu sou tão imperfeito
- e por verdadeira vergonha eu não enfatizei essa imperfeição - se eu, o Escolhido, ainda
falho, quão fácil será, para vós mesmos, ultrapassar-me! Ou se apenas me igualásseis, então
quão grande consecução seria a vossa!
Animai-vos, portanto, já que tanto o meu fracasso quanto o meu sucesso são argu-
mentos encorajadores para vós mesmos.
Buscai-vos a vós mesmos astutamente, eu vos rogo, analisando vossos pensamentos
mais íntimos. E primeiro vós descartareis todos esses grosseiros e óbvios obstáculos a vossa
Vontade: ociosidade, amizades tolas, dedicações e diversões supérfluas; eu não enumerarei
os conspiradores contra o bem estar de vosso Estado.
Após, encontrai o mínimo de tempo diário que é verdadeiramente necessário a vossa
vida natural. O resto vós devotareis aos Verdadeiros Meios da vossa Consecução. E mesmo
aquelas horas necessárias vós consagrareis à Grande Obra, dizendo conscientemente, sem-
pre, enquanto ocupado com essas tarefas, que vós as executais apenas para preservar vosso
corpo e mente saudáveis para a justa aplicação àquele sublime e singular Objeto.
Não demorará muito antes que comeceis a entender que uma tal vida é a verdadeira
Liberdade. Vós sentireis distrações de vossa Vontade como sendo o que elas são. Elas não
mais aparecerão como agradáveis e atrativas, mas como grilhões, como vergonhas. E
quando tiverdes atingido este ponto, sabereis que vós passastes o Portal do Meio do cami-
nho. Vós tereis unificado vossa Vontade.
Mesmo assim, se um homem estivesse sentado dentro de um teatro onde a peça o
cansasse, ele daria boas vindas a toda distração e se divertiria com qualquer acidente; mas
se ele estivesse interessado na peça, qualquer incidente o aborreceria. Sua atitude para com
estes seria, então, uma indicação de sua atitude com relação à própria peça.
De início, o hábito da atenção é difícil ser adquirido. Perseverai, e vós tereis espasmos
periódicos de revulsão. A própria Razão vos atacará, dizendo: «como pode um laço tão aper-
tado ser o Caminho da Liberdade?»
Perseverai. Vós jamais conhecestes a Liberdade. Quando as tentações forem vencidas,
quando a voz da Razão for silenciada, então vossa alma saltará adiante, desembaraçada, so-
bre seu curso escolhido; e, pela primeira vez, vós experimentareis o extremo deleite de ser-
des Mestres de Vós Mesmos e, portanto, do Universo.
Quando isto tiver sido plenamente atingido, quando estiverdes sentados seguramente
sobre o selim, então podereis desfrutar também de todas aquelas distrações que primeira-
mente vos agradaram e depois vos enfureceram. Agora elas nada mais farão pois são seus
escravos e brinquedos.
Até que tenhais atingido este ponto, vós não sereis completamente livres. Vós deveis
matar o desejo, e matar o medo. O fim de tudo é o poder de viver de acordo com vossa pró-
pria natureza, sem perigo de que uma parte possa se desenvolver em detrimento do todo,
ou a preocupação de que tal perigo não se erga.

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O tonto bebe e se embebeda; o covarde não bebe, e treme; o homem sábio, bravo e
livre, bebe e dá glórias ao Mais Alto Deus.
Esta, então, é a Lei de Liberdade: vós possuis toda Liberdade em seu próprio direito,
mas deveis suportar o Direito com Poder: vós deveis ganhar a Liberdade para vós mesmos
em muitas guerras. Ai das crianças que dormem na Liberdade que seus pais conquistaram
para elas!
«Não existe lei além de Faz o que tu queres»: mas são apenas os maiores da raça que
têm a força e a coragem necessárias para obedecer a isto.
Ó homem! observa-te a ti mesmo! Com que aflição tu foste feito! Quantas idades se
foram até a tua formação! A história do planeta está narrada na própria substância do teu
cérebro! Foi tudo isso em vão? Não há propósito em ti? Foste tu feito assim para comer,
procriar e morrer? Não penses assim! Tu incorporas tantos elementos, tu és o fruto de tan-
tos Æons de labor, tu és feito tal qual és, e não de outro modo, para algum Fim colossal.
Anima-te, pois, para buscá-lo e fazê-lo. Nada pode te satisfazer senão o preenchimento
de tua Vontade transcendente, que está escondida dentro de ti. Para isto, então, levanta-te;
às armas! Conquista tua Liberdade para ti mesmo! Golpeia duro!

- II -
DO AMOR

Está escrito que «amor é a lei, amor sob vontade». Aqui há um Arcano Oculto, pois no idioma
grego , Amor, tem o mesmo valor numérico que , Vontade. Por isto nós
entendemos que a Vontade Universal é da natureza do Amor.
Ora, Amor é o incêndio em êxtase de Dois que querem se tornar Um. É, pois, uma fór-
mula Universal de Alta Magia. Pois vede agora como todas as coisas, estando em sofrimento
causado pela divisibilidade, devem por necessidade, querer a Unidade como seu remédio.
Aqui também é a Natureza guia daqueles que procuram Sabedoria no seu seio: pois,
na união de elementos de polaridade oposta, há uma glória de calor, de luz e de eletricidade.
Assim, também na humanidade, nós vemos o fruto espiritual da poesia e de todos os gênios
nascendo da semente daquilo que é apenas um gesto animalesco, na estimativa daqueles
versados em Filosofia. E deve ser fortemente notado que as mais violentas e divinas paixões
são aquelas entre pessoas de naturezas extremamente desarmônicas.
Mas agora eu deveria fazê-los saber que na mente não há tais limitações, a respeito de
gêneros, que previnam o homem de se apaixonar por um objeto inanimado, ou por uma
ideia. Pois, para aquele que esteja algo adiantado no Caminho da Meditação, parece que to-
dos os objetos, salvo o Objeto Único, são desagradáveis, tal como lhe pareceu antes, a res-
peito dos seus desejos ocasionais, em relação à Vontade. Assim, portanto, todos os objetos
devem ser agarrados pela mente e aquecidos no sétuplo forno do Amor, até que, numa ex-
plosão de êxtase eles se unam e desapareçam; pois sendo eles imperfeitos, são destruídos
por completo na criação da Perfeição de União, tal como as pessoas do Amante e do Amado
se fundem no ouro espiritual do Amor, que não conhece pessoas, mas compreende tudo.
Já que cada estrela é apenas uma estrela, e a união de quaisquer duas é apenas um
êxtase parcial, deve o aspirante à nossa santa Ciência e Arte aumentar-se constantemente
através deste método de assimilação de ideias; e, no final, tornando-se capaz de apreender
o Universo em um pensamento, possa ele se lançar sobre aquilo com toda força de seu Ser
e, destruindo a ambos, tornar-se aquela Unidade cujo nome é Nada. Buscai todos vós, por-
tanto, constantemente vos unir em êxtase com cada e toda coisa que existe, e isto pela má-
xima paixão e sede de União. Para este fim, tomai, principalmente, todas as coisas que sejam
naturalmente repulsivas, pois aquilo que é agradável é assimilado facilmente e sem êxtase:
é na transfiguração do que é indesejado e nojento No Amado, que o Ser é sacudido nas raízes
do Amor.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Assim, no amor humano também vemos que homens medíocres desposam mulheres
inúteis; mas a História nos ensina que os supremos Mestres do mundo buscam sempre as
mais vis e mais horríveis criaturas para suas concubinas, ultrapassando até as leis limitado-
ras do sexo ou dos gêneros em sua necessidade de transcender a normalidade. Não basta a
tais naturezas excitar ardor ou paixão: a imaginação mesma deve ser inflamada por todos
os meios.
Nós, então, emancipados de toda lei básica, que faremos para satisfazer nossa Von-
tade de União? Nada menos que o Universo para nossa amante; nenhum bordel mais cir-
cunscrito que o Espaço Infinito pode ser o nosso âmbito; nenhuma noite de arrebatamento
que não seja coeva com a Eternidade!
Considerai que, tal como o Amor é poderoso para trazer todo Êxtase, assim a ausência
de amor é o maior dos suplícios. Aquele que é frustrado no Amor sofre de fato, mas aquele
que não tem ativamente em seu coração esta paixão por algum objeto é enfraquecido pela
dor do suplício. E este estado é misticamente chamado de «secura». Para isto, creio eu, não
existe cura senão a paciente persistência em uma Regra de Vida.
Mas esta secura tem sua virtude, pois através dela a Alma é purgada das coisas que
impedem a Vontade; pois quando a secura é também perfeita, então é certo que de modo
algum poderá a Alma ser satisfeita, senão pela Consecução da Grande Obra. E isto, em almas
fortes, é um estímulo para a Vontade. É o Forno da Sede que queima toda escória dentro de
nós.
Mas, para cada ato de Vontade, há uma Secura particular correspondente; e na medida
em que o Amor cresce dentro de vós, assim crescerá o tormento de Sua ausência. Seja tam-
bém isto, para vós, como um consolo no ordálio! Além do mais, quanto mais intensa é a
praga da impotência, mais rápida e repentina ela tende a ser abatida.
Eis aqui o método de Amor em Meditação: que o Aspirante primeiro pratique e depois
se discipline na Arte de fixar a atenção sobre qualquer coisa à vontade, sem permitir a mí-
nima distração imaginável.
Também, que ele pratique a arte da Análise de Ideias, e a de recusar permitir à mente
sua reação natural a elas, agradáveis ou desagradáveis; fixando-se assim a si mesmo, em
Simplicidade e Indiferença. Sendo estas coisas alcançadas em sua devida estação, sabei que
todas as ideias terão se tornado iguais em vossa apreensão, já que cada uma é simples, e
cada uma é indiferente: qualquer uma delas permanecerá na mente à Vontade, sem se in-
quietar ou lutar, nem tendendo a passar qualquer outra. Mas cada ideia possuirá uma espe-
cial qualidade comum a todas: nenhuma delas é O Ser; já que é percebida pelo Ser como Algo
Oposto.
Quando isto for perfeito e profundo no impacto de sua realização, então é o momento
do aspirante dirigir sua Vontade de Amor sobre ela, de forma que a inteira consciência en-
contre o foco sobre esta Ideia Única. E, a princípio, ela poderá ser fixada e morta, ou leve-
mente mantida. Poderá, então, passar à secura, ou a repulsão. Mas, por fim, pela pura per-
sistência nesse Ato de Vontade de Amar, o próprio Amor se erguerá, como um pássaro, como
uma flama, como uma canção, e a Alma inteira voará numa trajetória flamejante de música,
até o Derradeiro Céu de Possessão.
Agora, neste método há muitas estradas e caminhos, alguns simples e diretos, alguns
escondidos e misteriosos mesmo como ocorre com amor humano, no qual nenhum homem
foi feito do mesmo modo que os primeiros rabiscos de um Mapa; pois o Amor é infinito em
diversidade, assim como são as Estrelas. Por este motivo, eu deixo que o Amor, por si pró-
prio, domine no coração de cada um de vós: pois ele vos ensinará corretamente, se vós ape-
nas o servíreis com diligência e devoção, mesmo ao abandono.
Vós não devereis vos recear ou surpreender com as estranhas peças que ele pregará:
pois ele é um garoto travesso e atrevido, sábio nos Artifícios de Afrodite, Nossa Senhora, sua

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doce Mãe, e todos os seus gracejos e crueldades são temperos de um astucioso confeito ao
qual nenhuma arte pode se igualar.
Regozijai-vos, portanto, em seu jogo, não diminuindo, de modo algum, vosso próprio
ardor, mas brilhando com o tormento de seus açoites e fazendo do próprio Riso um sacra-
mento coadjuvante do Amor, assim como no Vinho de Rheims há fagulhas e trapaças tal
como se fossem ministros do Alto Sacerdote de sua Intoxicação.
Também é justo que eu vos escreva da importância da Pureza no Amor. Agora, esta
matéria não diz respeito ao objeto ou método da prática: o essencial é que nenhum elemento
alienígena se intrometa. E é da mais particular pertinência ao aspirante nesse primário e
mundano aspecto de seu trabalho, no qual ele se estabelece a si mesmo no método, através
de suas afeições naturais.
Sabei, pois, que todas as coisas são máscaras ou símbolos da Verdade Única, e a natu-
reza serve sempre para apontar a mais alta perfeição sob o véu da mais baixa perfeição.
Portanto, então, toda arte e ofício do amor humano vos servirá como um hieróglifo, pois está
escrito que Aquilo que está acima é como o que está embaixo, e que Aquilo que está embaixo
é como o que está em cima.
Portanto, quanto a isto, também vos convém tomar bastante cuidado, para que de ne-
nhum modo falheis neste assunto de Pureza. Pois, apesar de cada ato dever ser completo
em seu próprio plano, e nenhuma influência de qualquer outro plano dever ser trazida a sua
interferência ou confusão - pois tudo isso é impureza - ainda assim cada ato deve ser, em si
mesmo, tão completo e perfeito que seja um espelho da perfeição de todo outro plano e,
portanto, vir a partilhar da pura Luz do altíssimo. Também, posto que todas as ações devem
ser atos de Vontade em Liberdade em todo os planos, todos estes são, na realidade, apenas
um; e assim a mais baixa expressão de qualquer função dessa Vontade deve ser, ao mesmo
tempo, uma expressão da mais alta Vontade, ou somente Verdadeira Vontade, o que já está
implícito na aceitação da Lei.
Que seja também entendido por vós que não é necessário ou certo suprimir a ativi-
dade natural de qualquer tipo, tal como certas pessoas falsas, eunucos do espírito; o mais
corrompido ensinamento para a destruição de muitos. Pois em qualquer coisa habita sua
própria perfeição, e neglicenciar a total operação em função de qualquer parte traz a distor-
ção e a degeneração do todo. Agi, portanto, de todas as maneiras, mas transformando o
efeito de todas essas maneiras no Único Caminho da Vontade. E isto é possível, porque todos
os caminhos são, em Verdade, Um Caminho; o Universo mesmo sendo Um e Um Só, e sua
aparência como multiplicidade, como a ilusão cardinal de que o verdadeiro objeto do amor
é dissipar.
Na aquisição do Amor, há dois princípios: o da maestria e o da concessão. Mas a natu-
reza destas é difícil de explicar, pois são sutis, e mais bem ensinadas pelo Próprio Amor no
curso das Operações. Mas deve ser dito geralmente que a escolha de uma fórmula ou de
outra é automática, sendo trabalho dessa mais íntima Vontade o que está vivo dentro de vós.
Não busqueis, então, determinar conscientemente esta decisão, pois aqui o verdadeiro ins-
tinto não é passível de erro.
Mas agora eu termino sem mais delongas: pois em nossos Livros Sagrados estão es-
critos muitos detalhes da verdadeiras práticas de Amor. E aqueles são os melhores e mais
verdadeiros, os quais são sutilmente escritos em símbolo e imagem, especialmente em Tra-
gédia e Comédia, pois a natureza inteira destas coisas é deste tipo, a própria Vida sendo o
fruto da flor do Amor.
É, pois, da vida que eu devo agora escrever a vós, visto que por todo ato de Vontade
no Amor, vós estais a criando, uma quinta essência mais misteriosa e regozijante do que
julgais, pois isto que os homens chamam de vida é apenas uma sombra daquela verdadeira
Vida, seu direito de nascença e a dádiva da Lei de Thelema.

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- III -
DA VIDA

Sístole e diástole: estas são as fases de todas as coisas componentes. De tais, é também a
vida do homem. Sua curva se ergue da latência do óvulo fertilizado, dizeis, a um zênite do
qual declina até a nulidade da morte? Bem considerado, isto não é totalmente verdadeiro. A
vida do homem é apenas um segmento de uma curva serpentina que alcança a infinidade, e
seus zeros apenas marcam as mudanças de + para - e de - para + nos coeficientes de sua
equação. É por este motivo, entre muitos outros, que homens sábios na antigüidade esco-
lheram a Serpente como o hieróglifo da Vida.
Vida é, pois, indestrutível, como tudo mais. Toda destruição e construção é mudança
da natureza do Amor, como eu vos descrevi no capítulo prévio. No entanto, como o sangue
em um pulsar não é o mesmo sangue do próximo, assim a individualidade é, em parte, des-
truída a cada vida que passa; não, mesmo a cada pensamento.
O que então faz o homem, se ele morre e renasce; uma mudança em cada alento? Isto:
a consciência de continuidade dada pela memória; a concepção de seu Ser como algo, cuja
existência, longe de estar ameaçada por estas mudanças, é na verdade assegurada por elas.
Então, que o aspirante à Sabedoria sagrada considere seu Ser não mais como um segmento
da Serpente, mas como o todo. Que ele estenda sua consciência para encarar nascimento e
morte apenas como incidentes triviais, como a sístole e a diástole do próprio coração; e ne-
cessários como estas para sua função.
Para fixar a mente nesta apreensão da Vida, dois modos são preferíveis como prelimi-
nares das maiores realizações que serão discutidas em sua própria ordem, experiências que
transcendem mesmo aquelas consecução de Liberdade e Amor, das quais eu até aqui es-
crevi, e esta de Vida que eu agora registro neste meu pequeno livro que estou compondo
para vós, de modo que possais chegar ao Grande Preenchimento.
O primeiro modo é a aquisição da assim chamada memória mágicka, e a maneira está
descrita, acurada e claramente em certos de nossos Sagrados Livros. Mas, para quase todos
os homens isso é uma prática de excedente dificuldade. Que o aspirante, então, siga o im-
pulso de sua própria Vontade, na decisão de escolher isto ou não.
O segundo modo é fácil, agradável, não tedioso e, no final, tão certeiro quanto o outro.
Mas, assim como o erro no primeiro reside no Desencorajamento, neste deveis vos precaver
de Falsos Caminhos. Em verdade, posso dizer, geralmente, de todas as Obras, que há dois
perigos: o obstáculo do Fracasso, e a armadilha do Sucesso.
Agora, este segundo modo é a dissociação das entidades que fazem vossa vida. Pri-
meiro - porque é mais fácil - vós deveríeis segregar aquela Forma que é chamada de Corpo
de Luz (e também por muitos outros nomes), e lançar-vos a viajar nesta Forma, fazendo a
exploração sistemática desses mundos, que estão para outras coisas materiais assim como
o vosso Corpo de Luz está para a vossa própria forma material.
Agora, vos ocorrerá nestas viagens que atingireis muitos portais através dos quais
não estareis aptos a passar. Isto é porque vosso Corpo de Luz ainda não é suficientemente
forte, ou suficientemente sutil, ou suficientemente puro; e vós devereis, então, aprender a
dissociar os elementos daquele Corpo, por um processo similar ao primeiro; vossa consci-
ência permanecendo no mais elevado, e deixando o mais baixo. Nesta prática vós continua-
reis, flexionando vossa Vontade como um grande Arco, para enviar a flecha de vossa cons-
ciência através de céus sempre mais altos e mais santos. Mas a continuidade neste Caminho
é, por si mesma, de vital importância: pois acontecerá que o próprio hábito vos persuadirá
de que o corpo que nasce e morre, dentro de um espaço tão pequeno quanto um ciclo de
Netuno no Zodíaco, não é essencial ao vosso Ser; que a Vida de que vos tornaste um comun-
gante - enquanto que ela mesma sujeita à Lei de ação e reação, de vazante e enchente, sístole

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e diástole - está, no entanto, insensível às aflições daquela vida que vós anteriormente assu-
mistes ser vosso único laço com a Existência.
E aqui deveis resolver que vosso Ser faça o maior dos esforços; pois tão floridos são
os prados deste Éden, e tão doces os frutos de seus pomares, que vós amareis demorar-vos
neles, e deleitar-vos em ociosidade e brincadeiras ali. Portanto eu vos escrevo com energia
que não deveis fazer assim, para obstáculo de vosso verdadeiro progresso; pois todas essas
alegrias são dependentes da dualidade, de forma que o verdadeiro nome delas é Dor de Ilu-
são, como a vida normal do homem, que resolvestes transcender.
Seja de acordo com vossa Vontade; mas aprendei isto, que (como está escrito) só são
felizes aqueles que desejaram o inalcançável. Será então melhor, no final, se for vossa Von-
tade encontrar sempre seu principal prazer no Amor, isto é, na Conquista e na Morte; isto é,
em Render-se, como eu já vos escrevi. Assim, então, vos deleitareis nesses prazeres já des-
critos, mas apenas como brinquedos, mantendo vossa hombridade firme e intensa para pe-
netrar em êxtases mais profundos e santos, sem a prisão de vossa Vontade.
Além do mais, eu queria que soubésseis que, nesta prática, se perseguida com ardor
inesgotável, há esta especial graça: vós chegareis, como que por acaso, a estados que trans-
cendem a prática mesma, sendo da natureza dessas Obras de Pura Luz que eu quero vos
escrever no capítulo que segue a este. Pois há certos Portais que nenhum ser que ainda es-
teja cônscio de dividualidade, isto é, de Ser e não-Ser como opostos, pode atravessar; e no
ataque contra esses Portais, em fogoso assalto de ardor celestial, vossa flama queimará ve-
ementemente contra vosso Ser grosseiro, apesar de ele já ser divino além da sua imaginação
presente, e o devorará numa morte mística; de forma, então, que na Passagem do Portal
tudo é dissolvido em amorfa Luz de Unidade.
Agora, pois, retornando desses estados de ser - e no regresso também há um Mistério
de Alegria - vós sereis privados do Leite de Escuridão da Lua, e sereis feitos comungantes
do Sacramento de Vinho que é o sangue do Sol. No entanto, no início pode haver choque e
conflito, pois o velho pensamento persiste pela força de seu hábito: é deixado para vós a
criação, por repetido ato, do verdadeiro hábito correto desta consciência da Vida que habita
Luz. E isto é fácil, se vossa vontade for forte; pois a verdadeira vida é tão mais vívida e quin-
tessencial que a falsa, que (como eu rudemente estimo) uma hora da primeira faz uma im-
pressão sobre a memória, igual a um ano da última. Uma única experiência, que em duração
pode ser apenas uns poucos segundos de tempo terrestre, é suficiente para destruir a crença
na realidade de nossa vã vida sobre a terra: mas isto se dissipa gradualmente se a consciên-
cia, através de choque ou medo, não adere a ela, e a Vontade não combate continuamente
pela repetição daquela felicidade - mais linda e terrível que a morte - que foi vencida pela
por virtude de Amor.
Há, além disso, muitos outros modos de atingir apreensão da verdadeira Vida, e os
dois que seguem são de muito valor para quebrar o gelo de vosso erro mortal na visão de
vosso Ser. E destes o primeiro é a constante contemplação da identidade do Amor e Morte,
e compreensão da dissolução do corpo como um ato de Amor executado sobre o corpo do
Universo, como também está extensamente escrito em nossos Sagrados Livros. E, com este,
vai, como se fosse irmã com seu irmão gêmeo, a prática do amor mortal, como um sacra-
mento simbólico daquela grande Morte; tal com está escrito: «Mata-te a ti mesmo», e ainda:
«Morre diariamente».
E o segundo destes modos menores é a prática da apreensão e análise mental das
ideias, principalmente como eu já vos ensinei; mas com especial ênfase em coisas natural-
mente repulsivas, em particular a própria morte, e seus fenômenos subordinados. Assim, o
Buda recomendava a seus discípulos que meditassem sobre Dez Impurezas, isto é, sobre dez
casos de morte por decomposição; de forma que o Aspirante, identificando-se com seu pró-
prio cadáver em todas estas formas imaginadas, pudesse perder o natural horror, repug-
nância, medo ou desgosto que ele pudesse ter tido por elas. Aprendei isto: toda ideia, de

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qualquer tipo, se torna irreal, fantástica, e a mais manifesta ilusão, se sujeita à investigação
persistente, com concentração. E isto é particularmente fácil de conseguirmos no caso de
todas as impressões corpóreas; porque todas as coisas materiais, e especialmente essas de
que nos tornamos primeiramente cônscios - a saber, nossos próprios corpos - são as mais
grosseiras e as mais desnaturais de todas as falsidades. Pois existe em todos nós, latente,
aquela Luz onde nenhum erro pode perdurar, e Ela já ensina ao nosso instinto a rejeitar,
antes de mais nada, esses véus que mais estreitamente a envolvem. Assim, em meditação, é
(para muitos homens) mais proveitoso concentrar a Vontade de Amar sobre os sagrados
centros de força nervosa; pois estes, como todas as coisas, são aptas imagens ou verdadeiros
reflexos de seus semelhantes em esferas mais finas; de forma que, suas naturezas grosseiras
sendo dissipadas pelo ácido dissolvedor da Meditação, suas almas mais finas aparecem (por
assim dizer) nuas, e exibem sua força e glória na consciência do aspirante.
Sim, deixai, verdadeiramente, que vossa Vontade de Amar queime impacientemente
em direção a esta criação, em vós mesmos, da verdadeira Vida, que rola suas ondas através
do mar sem praia do Tempo! Não vivais vossas desprezíveis vidas no temor das horas! A
Lua, e o Sol, e as Estrelas, pelos quais medis o Tempo, são eles mesmos apenas servos da-
quela Vida que pulsa em vós, alegre rufar de tambores enquanto marchais triunfantes pela
Avenida das Idades. Então, quando cada nascimento e morte vossos forem reconhecidos
nesta percepção como meros marcos sobre vossa Estrada sempre viva, o que será dos tolos
incidentes de vossas desprezíveis vidas? Não são eles apenas grãos de areia soprados pelo
vento do deserto, ou pedras que vós chutais com vossos pés alados, ou clareiras verdejantes
onde comprimis o musgo e a relva elástica em vossa dança lírica? Para aquele que vive na
Vida, nada importa: seu é o eterno movimento, energia, deleite de Mudança infalível. Incan-
sáveis, vós passeais de Æon a Æon, de estrela a estrela; o Universo, vosso campo de recreio,
com sua infinita variedade de diversão, sempre velho e sempre novo. Todas essas ideias que
engendram dor e medo são conhecidas em sua verdade, e assim se tornam a semente de
alegria: pois vós estais certos, além de toda prova, que jamais podeis morrer; que, apesar de
mudares, mudança é parte de vossa própria natureza. O Grande Inimigo se tornou o Grande
Aliado.
Enraizados nesta perfeição, vosso Ser tendo se tornado a verdadeira Árvore da Vida,
vós tendes um fulcro para vossa alavanca: agora estais prontos para compreender que este
pulso de Unidade é, ele mesmo, Dualidade; e, portanto, no mais elevado e mais sagrado
senso, ainda Dor e Ilusão, os quais, tendo isto compreendido, aspirai ainda uma vez, mesmo
à Quarta das Dádivas da Lei, ao Fim do Caminho, mesmo à Luz.

- IV -
A LUZ

Eu vos rogo, sede paciente comigo naquilo que eu escreverei quanto à Luz; pois aqui há uma
dificuldade, sempre crescente, no uso de palavras. Ainda mais, eu mesmo sou constante-
mente arrebatado e subjugado pela sublimidade deste assunto, de forma que um linguajar
simples pode se transformar em lirismo quando eu quereria marchar em paz com expres-
sões didáticas. Minha melhor esperança é que vós possais compreender por virtude da sim-
patia de vossa intuição; tal como dois amantes podem conversar em linguagem tão ininteli-
gível a outros, que parece tola, indecente e tediosa; ou como naquela outra intoxicação, dada
pelo Éter, os participantes comungam entre si com infinita imaginação, ou sabedoria, con-
forme o temperamento ditar, por meio de uma palavra ou gesto, sendo iniciados à apreen-
são pela sutileza da droga. Assim possa eu, que estou inflamado com o amor dessa Luz e
embriagado com o vinho etéreo desta Luz, comunicar-me não tanto com vossa razão e inte-
ligência, mas com aquele princípio oculto em vós mesmos que está pronto para comungar
comigo. Assim mesmo podem um homem e uma mulher enlouquecer de amor um pelo outro

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- sem que qualquer palavra seja dita entre eles - por causa da indução (por assim dizer) de
suas almas. E vosso entendimento dependerá de vossa maturidade para a percepção de mi-
nha Verdade. Ainda mais, se ocorrer da Luz em vós estar pronta para explodir, então a Luz
interpretará para vós estas minhas escuras palavras na linguagem da Luz, mesmo como uma
corda musical inanimada, estando devidamente afinada, ressoará em seu tom peculiar, se
este for emitido por outra corda. Lede, portanto, não apenas com vosso olho e cérebro, mas
com o ritmo daquela Vida a qual vós alcançastes pela vossa Vontade de Amar, despertada a
passos de dança por estas palavras, que são os movimentos do bastão da minha Vontade de
vos Amar e, assim, inflamar vossa Vida em Luz.
(Neste ânimo, me interrompi na escritura deste meu pequeno livro e, por dois dias e
duas noites sem dormir, eu fiz considerações, lutando veementemente com meu espírito,
para que não vos falhe, por pressa ou por descuido.)
No exercício de Vontade e Amor estão implicados movimento e mudança; mas em
Vida é ganhada uma Unidade que se move e muda apenas em pulso ou fase, mesmo como a
música. Ainda na consecução desta Vida vós já tereis tido a experiência de que aquela
Quinta-essência é pura Luz, um êxtase amorfo e sem marco ou limite. Nesta Luz nada existe,
pois Ela é homogênea; e, portanto, os homens a têm chamado de Silêncio, e Escuridão, e
Nada. Mas neste, como em qualquer outro esforço por nomeá-la, está a raiz de toda falsidade
e apreensão errônea, já que todas as palavras implicam alguma dualidade. Portanto, apesar
de eu chamá-la Luz, ela não é Luz, nem ausência de Luz. Muitos também têm tentado des-
crevê-la por contradição, já que, através da transcendente negação de toda fala, ela pode ser
alcançada por certas naturezas. Também através de imagens e símbolos têm os homens se
esforçado por expressá-la; mas sempre em vão. No entanto, esses que estavam prontos para
perceber a natureza desta Luz têm compreendido por simpatia; e assim será com vós que
leis este pequeno livro, amando-o. Entretanto, seja sabido por vós que a melhor de todas as
instruções sobre esta questão, e a Palavra mais adequada ao Æon de Hórus, está escrita no
Livro da Lei. No entanto, também o Liber Ararita é corretamente digno na Obra da Luz; tal
como Trigrammaton na da Vontade; Cordis Cincti Serpente, no Caminho do Amor; e Liberi,
naquele da Vida. Todos esses Livros, também tratam de todas estas Quatro Graças; pois, ao
fim, vós vereis que toda e cada uma delas é inseparável de todas as outras.
Eu desejo vos escrever a respeito do número 93, o número de . Pois não
apenas é o numero de sua interpretação , mas também o de uma palavra que vos
será desconhecida a não ser que sejais Neófitos de nossa Santa Ordem da A∴A∴, palavra esta
que representa em si mesma a ascensão da Voz que parte do Silêncio, e o retorno dela para
lá, no Fim. Agora, este número 93 é três vezes 31, que é em hebraico LA, isto quer dizer NÃO,
e assim nega extensão nas três dimensões do espaço. Também, eu quereria que meditásseis
mui estritamente sobre o nome NU, que é 56, o qual é dito que dividamos, adicionemos,
multipliquemos e entendamos. Por divisão surge o 0,12; como se estivesse escrito Nuit! Ha-
dit! Ra-Hoor-Khuit! antes da Díada. Por adição ergue-se 11, o número da Verdadeira Magia;
e por multiplicação temos Trezentos, o Número do Espírito Santo ou Fogo, a letra Shin [s],
onde todas as coisas são consumidas totalmente. Com estas considerações, e um total en-
tendimento dos mistérios dos Números 666 e 418, estareis poderosamente armados neste
Caminhos de vôo distante. Mas vós deveríeis, também, considerar todos os números em
suas escalas. Pois não há meio de resolução melhor que este da matemática pura, já que aí
mesmo ideias grosseiras são refinadas, e tudo é arranjado e aprontado para a Alquimia da
Grande Obra.
Eu já vos escrevi de como, na Vontade de Amar, a Luz se ergue como a parte secreta
da Vida. E nos primeiros, nos pequenos Amores, a Vida alcançada é ainda pessoal; mais
tarde, ela se torna impessoal e universal. Então, chega a Vontade, posso dizer, ao seu polo
magnético, de onde as linhas de força apontam da mesma maneira para todos os caminhos
e para caminho nenhum; e o Amor, também, é não mais um trabalho, mas um estado. Estas

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
qualidades se tornam parte da Vida Universal, que surge infinitamente com a injunção da
Vontade e do Amor como inerentes àquela. Estas coisas, portanto, em sua perfeição perde-
ram seus nomes e suas naturezas. No entanto, elas foram a Substância da Vida, seu Pai e a
Mãe; e sem sua operação e impacto, a própria Vida gradualmente cessaria suas pulsações.
Mas desde que a infinita energia do Universo inteiro está ali, o que então é possível, senão
que ela retorne à sua própria Intenção Primeira, dissolvendo-se pouco a pouco, naquela Luz,
que é a mais secreta e mais sutil Natureza?
Pois este Universo é em Verdade Zero, sendo uma equação da qual Zero é a soma.
Donde isto é a prova: que se não fosse assim, o Universo estaria em desequilíbrio, e algo
viria do Nada, o que é absurdo. Esta Luz ou Nada é, então, a Resultante, ou Totalidade, Uni-
versal em Perfeição; e todos os outros estados, positivos ou negativos, são imperfeitos, já
que omitem os seus opostos.
Porém, eu quereria que considerásseis que esta igualdade, ou identidade de equação,
entre todas as coisas e Nenhuma, é muito absoluta; de maneira que vós não permanecereis
mais em uma do que na outra. E vós compreendereis este Mistério maior muito facilmente,
à luz dessas outras experiências que tereis tido, nas quais movimento e descanso, mudança
e estabilidade, e muitos outros opostos sutis, foram redimidos à identidade pela força de
vossa santa meditação.
A maior dádiva da Lei, então, decorre da mais perfeita prática das Três Graças Meno-
res. E deveis trabalhar nesta Obra tão por completo que vos tornareis capazes de passar de
um lado da equação ao outro à Vontade; não, de compreender o todo de uma só vez e para
sempre. Assim, portanto, vossa alma atada ao espaço-tempo viajará de acordo com sua na-
tureza em sua órbita, revelando a Lei àqueles que caminham acorrentados; pois que esta é
a vossa função particular.
Agora, eis o Mistério da Origem do Mal. Primeiramente, nós chamamos por Mal aquilo
que está em oposição a nossa própria vontade; é, portanto, um termo relativo, e não abso-
luto. Pois toda coisa que é o maior dos males de alguém, é o maior dos bens de outrem; tal
como a dureza da madeira, que cansa o lenhador, é a segurança daquele que se aventura
sobre o mar num barco construído daquela madeira. E esta é uma verdade fácil de assimi-
larmos, sendo superficial e inteligível para os de mente comum.
Todo mal é, pois, relativo, ou aparente, ou ilusório; mas, voltando à filosofia, eu repe-
tirei que sua raiz está sempre em dualidade. Portanto, o escape deste mal aparente é a busca
da Unidade, o que vós fareis assim como eu já vos mostrei. Mas agora eu farei menção da-
quilo que está escrito quanto a isto no Livro da Lei.
O primeiro passo sendo a Vontade, o Mal aparece como nesta definição; «tudo aquilo
que impede a execução da Vontade». Portanto está escrito: «A palavra de Pecado é Restri-
ção». Deve também ser notado que no Livro dos Trinta Æthyrs o Mal aparece como Choron-
zon, cujo número é 333, que em Grego significa Impotência e Ociosidade; e a natureza de
Choronzon é Dispersão e Incoerência.
Então, no Caminho do Amor, o Mal aparece como «tudo que tende a impedir a União
de quaisquer duas coisas». Assim diz O Livro da Lei, sob a imagem da Voz de Nuit: «tomai
vossa fartura e vontade de amor como vós quiserdes, quando, onde e com quem vós quiser-
des! Mas sempre para mim». Pois todo ato de Amor deve ser «sob Vontade», isto é, de acordo
com a Verdadeira Vontade, a qual não é permanecer contente com coisas parciais e transi-
tórias, mas prosseguir firmemente até o fim. Assim também no Livro dos Trinta Æthyrs, os
Irmãos Negros são aqueles que se fecham por completo, não querendo destruir a si mesmos
pelo Amor.
Em terceiro lugar, no Caminho da Vida, o Mal aparece sob uma forma mais sutil, como
«tudo aquilo que não é impessoal e universal». Aqui O Livro da Lei, pela Voz de Hadit, nos
informa: «Na esfera Eu sou em toda a parte o centro». Novamente: «Eu sou Vida e o doador
de Vida... 'vinde a mim' é uma expressão tola; pois sou Eu que vou.» «Pois Eu sou perfeito,

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Não sendo». Pois esta Vida está em todo lugar e tempo de modo simultâneo; de forma que,
Nela, estas limitações não existem mais. E vós tereis visto isto por vós mesmos: que em todo
ato de Amor o tempo e o espaço desaparecem com a criação da Vida por sua virtude, assim
como o faz a própria personalidade. Pela terceira vez, então, num senso ainda mais sutil, «A
palavra de Pecado é Restrição.»
Finalmente, no Caminho da Luz, este mesmo versículo é a chave da concepção do Mal.
Pois aqui Restrição consiste no fracasso em solucionar a Grande Equação e, depois, em pre-
ferir uma expressão ou fase do Universo a qualquer outra. Contra isto nós somos prevenidos
no Livro da Lei pela Palavra de Nuit, dizendo: «nenhuma... e dois. Pois Eu estou dividida pela
graça do amor, pela chance de união», e portanto, «Se isto não for correto, se confundirdes
as marcas do espaço, dizendo: Elas são uma, ou dizendo; Elas são muitas... então esperai os
terríveis julgamentos...»
Agora, portanto, pelo favor de Thoth, eu cheguei ao fim deste meu livro: e armai-vos
portanto com as Quatro Armas: a Baqueta para a Liberdade, a Taça para Amor, a Espada
para Vida, o Disco para Luz: e com estas executai toda maravilha pela Arte de Alta Magia,
sob Lei do Novo Æon, cuja Palavra é .

Tradução: Frater ON120.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Saudações ao Sol entrando em Leão
A Filha da Espada Flamejante

Frater ON120
Fernando Liguori

Care Frateres et Sorores,

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

S audações ao Sol entrando em Virgem, O Profeta do Eterno: O Mago da Voz do Poder.


O vigésimo Caminho é a Inteligência da Vontade, assim chamado porque constitui
os meios de preparação de todas as coisas criadas, sendo por meio dessa inteligên-
cia que a Sabedoria Primordial se torna conhecida. O Caminho de Yod liga Tiphereth
a Chesed (o Arquiteto da Manifestação). Em suma, ele representa o começo independente
da manifestação. Ele é o próprio ponto de origem de nosso Universo manifesto, em contato
direto com a Fonte Divina de Todas as Coisas. É o Caminho através do qual o Demiurgo es-
capa da escuridão. É a chegada da Luz da manifestação através do Microprosopus.
Como o signo de Virgem é atribuído ao vigésimo Caminho, entendemos que o Eremita
é eternamente casto, puro e totalmente inocente. E como ele representa uma passagem para
a ponte entre Macroprosopus e Microprosopus, também envolve determinadas qualidades
de Daath.
Essas qualidades de Daath são representadas pelo próprio isolamento da figura:
existe algo naturalmente misterioso e insti-
gante a respeito dessa figura de pé na escuri-
dão segurando sua própria fonte de Luz.
Pensa-se imediatamente em Diógenes de Co-
rinto à procura de um homem honesto, ou em
Moisés (cuja cabeça supostamente emanava
raios de luz) ou em Cristo, como a Luz do
Mundo. Pode-se também considerar, ao se es-
tudar esta figura solitária, que o monasticismo
surgiu no deserto do Egito, no terceiro e
quarto séculos depois da morte de Cristo. O ex-
tremo asceticismo e o afastamento da socie-
dade eram considerados meios de se alcançar
a perfeição. De fato, a própria palavra eremita
deriva de uma palavra grega que significa
ermo, deserto, o lugar onde alguns dos primei-
ros monges viveram em quartos de uma só ja-
nela.
O Eremita é uma expressão da mesma
energia d’O Louco. Ele é ao mesmo tempo, a sá-
bia velhice da Criança (da carta O Louco da Au-
rora Dourada) e o imaculado início de uma

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
nova sequencia. É a pureza e inocência d’O Louco transformada na projeção de Microproso-
pus através de Binah. A ideia de que O Louco (criança) é ao mesmo tempo O Eremita (ho-
mem idoso) talvez possa ser melhor compreendida meditando-se sobre a serpente que se-
gura a própria causa com a boca, o símbolo tradicional da sabedoria (Ouroboros).
O mais importante é que O Eremita representa a comunicação entre o Sagrado Anjo
Guardião de Tiphereth (o Ruach) e o Eu Espiritual de Kether (o Yechidah). Por esta razão os
textos da Aurora Dourada consideram o Eremita a primeira das três grandes cartas iniciató-
rias, sendo as outras duas A Luxúria e O Carro. Com relação a isto, devemos observar que as
experiências de todos esses Caminhos podem ser obtidas no Caminho d’A Alta Sacerdotisa.
Este Caminho não apenas contém todos os Caminhos acima de Tiphereth como também ul-
trapassa o Abismo com sua devastadora experiência da reconciliação divina através do iso-
lamento.
Como quer que O Eremita possa ser descrito, trata-se fundamentalmente de uma carta
de união. Ela representa o primeiro ponto de consciência, por parte do Sagrado Anjo Guar-
dião, a respeito do Supremo Eu Espiritual, explicável apenas através da mais erótica das
imagens. Esta ideia é apoiada pelo Sepher Yetzirah, o qual atribui o amor sexual à letra sim-
ples Yod. Todavia, esta não é a sexualidade da cópula, pois a carta é a essência do isolamento
e da singularidade. A sexualidade é auto-suficiente e independente, uma qualidade descrita
crípticamente nos documentos da Aurora Dourada como prudência.
Yod está relacionado com Kether, não apenas por ser isolado e auto-suficiente, mas
também por formar a raiz gráfica de todas as outras letras do alfabeto hebraico Além do
mais, o Yod é fálico. Ele é o Fogo-Masculino que se precipita em direção á Água-Feminina. Na
versão da Aurora Dourada, isso é simbolizado pelo sinal na frente do capuz do Eremita. O
Yod dentro de um triângulo de Fogo significa que essa letra é a própria essência do fogo
espiritual dentro do Microprosopus. Ele é, portanto, um aspecto da força de Chokmah. Ele é
o pai de toda manifestação, abaixo do Abismo, o qual está relacionado ao Logos.

O Rito do Eremita de Yod


Estágio 1: Preparação
Prepare sua câmara ritualística.
Tire o Atu IX, O Eremita, do maço de cartas e coloque-o de pé no altar.
Estágio 2: Abertura da Kiblah
De pé, frente ao Norte, assuma a forma divina de Hoor-paar-Kraat e execute o Sinal do
Silêncio.
Execute o Sinal de Puella e diga: menina, o dragão.
Execute o Sinal de Puer e diga: menino, o leão.
Execute o Sinal de Vir e diga: homem, o boi.
Execute o Sinal de Mulier e diga: a mulher satisfeita.
Execute o Sinal de Mater Triunphans e diga: a mãe triunfante.
Execute o Sinal de Tifon e diga: Hórus salta três vezes armado do útero de sua mãe. Har-
pócrates, seu gêmeo está oculto dentro dele. Seth é a sua santa aliança, que ele revelará no
grande dia de Maat.
Execute o Sinal da Caveira de Ossos Cruzados e diga: Que os Mestres da Sagrada Egrégora
de Thelema e da Grande Fraternidade Universal possam me assistir neste momento, me
inspirar com sua sabedoria e me proteger com seu amor, para que com eles eu possa me
harmonizar e receber orientações através de minha intuição.
Execute o Sinal de Ísis a Mãe das Estrelas e diga: Ó, Grande Nuit! Senhora das Estrelas e
do Espaço Infinito. Caminho eternamente sob e em teu corpo na travessia de meu deserto e
no descanso de minha Alma. Neste momento, olho em tua direção e invoco Tua presença.
AUMGN.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Execute o Sinal da Torre de Seth e diga: Ó, Grande Hadit! Tu que és o Centro e o Coração
do Sol. Tu que és todo o movimento, ardor e vida em meu corpo, pois tu és o adorador da
mais alta Beleza da existência. Neste momento, olho em tua direção e invoco Tua presença.
AUMGN.
Execute o Sinal do Hórus Vingador e diga: Oh, Grande Hórus, místico Senhor da Cabeça de
Falcão, do Silêncio e da Força, cuja nêmes cobre o céu azul noturno. Neste momento, olho
em Tua direção e invoco Tua presença AUMGN.
Bata no sino: 3-5-3 e proclame: Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei. Amor é a lei,
amor sob vontade. A Palavra é Thelema.
Estágio 3: Ritual do Pentagrama
De frente ao Norte, realize o Ritual do Pentagrama (invocando).
Estágio 4: Invocação
Com a Baqueta ou dedo polegar da mão direita (em figa), trace um círculo com diâmetro
de seu braço, bem grande. No centro do círculo, trace o pentagrama de invocação do es-
pírito e invoque: Yod! Vav! Daleth! O Profeta do Eterno, o Mago da Voz do Poder: Que tua
sabedoria não se transforme em piada pois tua Lâmpada está oculta sob teu manto.
Estágio 5: Jornada astral
Sente-se em seu āsana, execute o Ritual do Yoga Tântrico Hermético e inicie prāṇāyāma
(Pausa).
Na tela negra na frente de seus olhos fechados, ainda executando prāṇāyāma, visualize a
letra Yod em flama e brilho, crescendo a cada espiração (pausa).
Inicie a jornada astral:
Visualize o Templo de Mistérios em Malkuth.
No Norte desse Templo, duas colunas se erguem: na base da coluna direita veja o símbolo
; na base da coluna esquerda veja o símbolo  (pausa).
Entre essas duas colunas, visualize o Atu IX, O Eremita, como um portal (pausa).
Na inspiração, eleve-se no corpo de luz através do Pilar do Meio. Na medida em que passa
através da esfera de Levanah em Yesod e Shemesh em Tiphereth, vá adiante até atraves-
sar o limiar prateado de Daath, parando entre Chokmah e Binah. Essa é a dimensão do
ājñā-cakra (pausa).
Execute o Sinal de Hórus (entrante) astralmente, projetando-se através do ājñā-cakra
(pausa).
Tendo atravessado esse limiar, você projetou-se para fora de sua estrutura física, para
dentro do plano astral, Yetzirah, o macrocosmo. Esse é o momento para iniciar sua jor-
nada com o corpo de luz.
Projete-se para dentro do Portal do Eremita de Yod. Abra os olhos e os ouvidos de seu
corpo astral para que posas ver e escutar (pausa).
Estágio 6: Encerramento
Retraia a consciência no ājñā-cakra novamente, retornando através de Daath, Tiphereth
e Yesod a Malkuth (pausa).
Quando sentir seu corpo na esfera da sensação, abra os olhos, levante-se e execute o Ri-
tual do Pentagrama (banindo).
Anote tudo em seu diário mágico.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
O Adepto Menor & a Invocação do Daemone

Frater ON120
Fernando Liguori

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

É impossível estabelecer regras precisas pelas quais um homem possa alcançar o Co-
nhecimento e Conversação de seu Sagrado Anjo Guardião; este é o segredo particular
de cada um de nós, um segredo que não é para ser dito, ou mesmo adivinhado por qual-
quer outro, qualquer que seja seu Grau. Isto é o Santo dos Santos, em que cada homem
é seu próprio Alto Sacerdote; e nenhum conhece o Nome do Deus de seu irmão, ou o
Rito pelo qual Ele é invocado.7

E mbalado pela construção das lições do curso Misticismo Thelêmico: Meditação em


Teoria & Prática, segue algumas considerações acerca dos papeis do Adepto Menor
Interno e Externo na A∴A∴ e a Invocação do Daemone ou Sagrado Anjo Guardião.
Mas quem é ou quem pode assumir este Grau na Santa Ordem? O Adepto Menor é
todo Neófito que, construindo e harmonizando sua Árvore da Vida, alcançou a esfera de Ti-
phereth. Este é um Grau de difícil compreensão devido à natureza do trabalho mágico e or-
dálio que ele exige. Poeticamente, podemos dizer que parte dos raios do Sol iluminam a
Eternidade do Espaço Infinito e a outra parte brilha sobre a Terra. Os raios que se perdem
na Infinidade do Espaço ou Nuit relacionam-se ao papel do Adepto Menor Interno. Os raios
que cintilam sobre a Terra ou Hadit relacionam-se ao papel do Adepto Menor Externo.
É somente no Grau de Adepto Menor que a injunção do AL (I:3) – Cada homem e cada
mulher é uma estrela – começa a fazer sentido e deixa de ser uma metáfora. Ela torna-se a
Realidade do Adepto. No entanto, a Luz da estrela nem sempre brilha sem entraves e assim
como a Luz do Sol nos céus ocasionalmente é bloqueada por nuvens, da mesma maneira a
Luz interna pode ser bloqueada pelos impulsos desordenados do desejo. Essas nuvens, se-
jam elas negras, cinzas ou brancas, diariamente ofuscam o Brilho da Luz Interior. A primeira
tarefa do Adepto Externo é, portanto, resolver esse dilema, se esforçando para identificar
cada restrição na medida em que elas aparecem. Nessa identificação, imediatamente ele
deve trabalhar para transmutar ou sublimar essas sombras ou miasmas fantasmagóricos
criados por ele mesmo e que controlam sua personalidade ou Ego, no que se refere àquelas
esferas abaixo de Tiphereth. Embora estejamos falando nesse momento do Adepto Externo,
este é um ordálio que não termina.
O trabalho do Adepto Externo relaciona-se ao Ruach inferior na Árvore da Vida, que
envolve as esferas de Hod-Mercúrio, Netzach-Vênus e Tiphereth-Sol. Trata-se de três esfe-
ras distintas que, sobre um olhar mais profundo, são uma só. Dessa maneira, elas devem ser
trabalhadas em conjunto. Nessa tarefa, o Adepto Externo pode se ver oscilante entre essas
esferas, indo de uma a outra de forma inconsistente até que todos os aspectos imperfeitos
do Ego, àqueles que desejam mais a matéria do que o infinito e além, sejam completamente
colocados sob controle. Em outras palavras, uma vez que tenha alcançado Tiphereth, o

7 Aleister Crowley, Uma Estrela à Vista.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Adepto Externo pode perceber que deixou para trás questões fundamentais e que neste mo-
mento precisam ser resolvidas. Ele decide, dessa maneira, dar um passo ou dois atrás para
revisar o trabalho de Graus anteriores. É impossível realizar 100% todos os Graus. A cada
instante de nossas vidas a Luz de nossa Estrela é obscurecida por nuvens sombrias. Espera-
se que a purificação, foco e continuidade de propósito adquiridas no trabalho do Homem da
Terra tenham preparado o Adepto Externo para estar constantemente em estado de vigília,
de prontidão para não ceder as volições e impulsos do desejo. Ele deve estar preparado para
trabalhar várias esferas da Árvore da Vida inúmeras vezes durante sua carreira iniciática e
isso lhe dá a aptidão necessária para se mover livremente através dos galhos da Árvore na
intenção de terminar tarefas que por ventura ficaram incompletas.
O Ego, assim como Tiphereth, é metade conhecido, metade ocultado. Seu principal tra-
balho é enganar o Adepto, fazendo-o abraçar o sentido de egoidade que lhe provê uma série
de máscaras para que ele possa se apresentar ao mundo. Por outro lado, se o Ego for deixado
a sua própria revelia, ele impelirá o Adepto a escolher pelos caminhos do desejo ao invés
dos caminhos da Vontade. Isso fará dele um escravo de seus desejos, as nuvens que enco-
brem a Luz da Verdadeira Vontade. É muito comum ver Adeptos Externos ainda envoltos
com as dificuldades de um Neófito. Por exemplo, a busca por paixões e relações amorosas
no mundo ao invés de se devotarem ao Amor Universal da Deusa. É a Noite Escura da Alma
que muitas vezes os liberta desse ordálio.
A Noite Escura da Alma é uma crise espiritual. Todo místico que busca a experiência
com o divino passa por esse processo inúmeras vezes no curso de sua jornada. É o que mui-
tos têm chamado de a morte do ego, um grito de desespero profundo da alma, um terremoto
que faz tremer as fundações da Árvore da Vida. Este termo, a Noite Escura da Alma, apareceu
na obra de São João da Cruz (1542-1591) e relaciona-se as dificuldades que todo místico
tem de enfrentar no seu caminho de desapego das coisas do mundo. Em seu livro, São João
da Cruz descreve a experiência: As almas entram na Noite Escura quando Deus as tira da
condição de iniciantes8 e as eleva ao estágio de proficientes,9 para que após essa provação
possam alcançar a perfeição, que é a divina união da alma com Deus.10
Essa crise espiritual é experimentada, de certa maneira, todos os dias. Mas ela se torna
mais intensa na medida em que construímos a Árvore da Vida. É no Caminho do Atu XV, O
Diabo, que a Noite Escura da Alma começa mesmo, pois ele é o criador de todos os fantasmas
e ilusões de Malkuth. É neste Caminho que todos nós nos conectamos a busca incessante
pela satisfação dos desejos. No entanto, da mesma maneira que o Diabo oferece a corrente
da escravidão que nos leva a ruína, ele também oferece o Caminho de Liberdade Universal
que nos capacita a descobrir e por em prática a Verdadeira Vontade. Aqueles que são inca-
pazes de olhar para suas próprias decepções e trapaças internas com maturidade, cedo ou
tarde correrão de volta para mundos mais inferiores onde a consciência tomará para si uma
falsa sensação de segurança. É neste ponto, portanto, que todo cuidado deve ser tomado,
pois as trivialidades da vida podem tomar mais tempo e importância do que realmente está
logo à frente no caminho. Como diz Dion Fortune (1890-1946), condenados a vagar pelos
reinos da ilusão.11
No editorial dessa edição do Jornal Corrente 93, logo acima, eu disse: não existe maior
ilusão na escalada do Monte Abiegnus do que aquela falácia do tornar-se um deus. Me pa-
rece que isso tem demolido muitos castelos de areia e rasgado muitas coroas de papel. A
pergunta que permanece é: você, Candidato, está preparado para assumir o prístino brilho
de sua Estrela e tomar seu lugar entre os deuses ou cairá no sopé da montanha, o Castelo da

8 O Homem da Terra/Neófito que começa sua prática espiritual meditativa.


9 O Amante/Adepto que conquistou a meditação e alcançou elevado grau de contemplação.
10 O Eremita/Mestre que se dissolveu no Absoluto.
11 Dion Fortune, Cabala Mística.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Perdição, para ser controlado como um escravo, seja por deuses, demônios ou de si mesmo?
Dion Fortune coloca:

Deverá ele voltar ao plano da forma ou passará a Luz? A questão é: você acredita em
Deuses? Se a resposta for sim, ele irá vagar pelos reinos da ilusão, pois os deuses não
são pessoas reais como compreendemos a personalidade. Se a resposta for não, então
ele voltará ao portal, pois os deuses não são ilusão. Qual será a resposta? 12

Tudo abaixo do Abismo tem a característica peculiar da dualidade. Os deuses são criações
daqueles que foram criados e isso inclui a própria noção de Sagrado Anjo Guardião. Não
existem deuses, salvo àquelas forças poderosas que foram formadas por nossa própria ima-
ginação na intenção de suprirem nossas necessidades. Não existe nada além de nós mesmos.
Somos todos ao mesmo tempo muitos e um só. Nós somos tudo o que existe e ainda sim,
dirigimos nossa atenção ao reino da divindade, que é Não! Essa é uma percepção nítida do
Adepto Externo. Ele vive na realidade de que não existe deus senão o homem. Da perspec-
tiva de Malkuth, isso seria apenas mais uma ilusão.
O Adepto Externo trabalha sobre a compreensão de que Hod somente pode ser alcan-
çado se estiver ele em relação direta com Netzach e vice-versa, pois da mesma maneira que
o Filho precisa da Filha, a Filha também precisa do Filho. Na fórmula do Tetragrammaton,
ela é a Força (Fogo) e ele é a Forma (Água). Na medida em que Kether projeta-se para baixo
em direção a criação nós aprendemos que toda mente é uma mente-grupo em Netzach, mas
é em Hod que a mente humana tem seu início.13 Trata-se de uma informação importante ao
Adepto, pois em sua escalada na Montanha Sagrada esse conceito se inverte. O Adepto em
Hod, inebriado pela cognição mental e a importância do meu no Pilar descendente da Es-
querda em direção a Malkuth, inevitavelmente irá lutar contra a inércia para alcançar o es-
tágio onde ele abandona todos os esforços.14 Este estágio realiza-se em Netzach, através da
qual ele acendera no Pilar da Direita em direção a Consciência Universal. Segundo Crowley,
o Adepto tem apenas duas tarefas:

(1) Alcançar o 5°=6⌷ significa trazer a energia até o Cakra do Coração em Tiphereth
onde você se encontrará com o Sagrado Anjo Guardião 15 e em tão «sob a Sua divina
supervisão» a (2) ensaiar a aventura do Abismo.

Muitos Estudantes têm a noção equivocada de que o Sagrado Anjo Guardião seja uma enti-
dade ou uma criatura a ser contatada em algum ponto da jornada mística. Talvez esse tipo
de engano possa até mesmo ser inspirado nos próprios escritos de Crowley, que optou por
usar este termo em detrimento do abuso que ele via de termos como Eu Superior, Adonai,
Daimon, Augoeides etc. usado pela comunidade ocultista de seu tempo. A noção que Crowley
transmite nos seus primeiros escritos sobre o Sagrado Anjo Guardião tinha forte influência
do entendimento de McGregor Mathers (1854-1918). No entanto, o termo Sagrado Anjo
Guardião se trata de uma metáfora para uma parte de nossa psique, como o próprio Crowley
reconheceu no fim de sua vida. Aqui existem muitos pontos a serem discutidos: i. os Estu-
dantes, a maioria deles, querem tudo de mão beijada e são poucos àqueles que podemos
considerar sérios, empenhados em pesquisas e estudos profundos; ii. existem instrutores
apegados aos escritos de Crowley como se fossem tábuas de salvação, fazendo de Thelema
um culto degenerado comparado a qualquer doutrina religiosa para escravos e não Estrelas.
Seja como for, como todo buscador sincero, na medida em que sua compreensão aumentou,

12 Idem.
13 Idem.
14 Paul Foster Case, The True and Invisible Rosacrucian Order.
15 Para um curso completo de trabalho com os cakras e a kuṇḍalinī, veja meu livro Cakra Sādhanā: O Despertar

da Serpente de Fogo.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Crowley mudou de opinião acerca do Sagrado Anjo Guardião no curso de sua carreira. Du-
rante a maior parte de sua vida, ele acreditou que Aiwaz era seu Sagrado Anjo Guardião,
como uma parte distinta de si mesmo, sendo este a mesma Inteligência que ditou O Livro da
Lei. Ele escreveu em suas confissões: O Anjo, deixe-me enfatizar, não é uma mera abstração
de si mesmo; e é por isso que eu tenho insistido que o termo «Eu Superior» implica em uma
heresia execrável e uma ilusão perigosa. Embora tenha sido ele genial em muitas coisas, não
parece que tenha se preocupado em corrigir seus primeiros apontamentos acerca do Sa-
grado Anjo Guardião. É esperado que o Adepto, ao alcançar o nível de Tiphereth conquiste
a experiência do Conhecimento & a Conversação com o Sagrado Anjo Guardião. No entanto,
muito pouco é dito sobre esse tema e algumas perguntas fundamentais ainda não foram
respondidas.
Na verdade, nós não temos um Anjo pessoal objetivo abaixo do Abismo, a menos que
o criemos a imagem de nossos desejos. Qualquer crença contrária tem suas raízes no Velho
Aeon e está mais baseada nos nossos desejos de encontrar um Entre Superior a nós mesmos
para que nossas ações possam ser decisões tomadas por outra pessoa, de tipo Superior. É
seguro dizer que a religiosidade do Velho Aeon era baseada na Fala (Ra-Hoor-Khuit) e nesse
processo inúmeras religiões se basearam na autoridade do Macrocosmo para impor domí-
nio ou controle ao Microcosmo. A regra para isso é basear suas crenças na convicção de que
existe uma autoridade espiritual fora de nós mesmos. No entanto, o Novo Aeon baseia-se na
Fórmula Mágica do Silêncio (Hoor-paar-kraat). Para nos ajustarmos as energias do Novo
Aeon é preciso, nesse caminho, reorientar a busca extrovertida por uma autoridade macro-
cósmica, introvertendo a consciência na intensão de encontrar essa Autoridade Espiritual
dentro de nós mesmos. No Novo Aeon, nós somos os Deuses! Mas o que nós notamos, por
outro lado, é uma inversão desse processo. Os Candidatos têm projetado para fora sua cons-
tituição elemental na forma de um daimon, identificando-o como o Sagrado Anjo Guardião.
O que estes Candidatos têm experienciado é um impulso que fortifica a noção de dualidade.
Não se trata, realmente, do Sagrado Anjo Guardião,16 mas de um daimon. Se ele é uma Enti-
dade objetiva ou uma projeção do Candidato, realmente, não importa. Seja lá o que seja, seu
dever parece ser nos auxiliar nas conquistas de nossos desejos e na realização de todo po-
tencial de nossa Vontade finita e infinita. No caso de Crowley, seu daimon foi Aiwass, o men-
sageiro de Hoor-paar-kraat (Silêncio). Seu daimon lhe auxiliou a realizar sua Verdadeira
Vontade. Crowley viveu no alvorecer da psicologia moderna, onde as primeiras pesquisas
ainda estavam sendo realizadas. Hoje nós temos uma visão muito mais avançada e profunda
da psique humana em relação a Árvore da Vida, um conhecimento que Crowley não teve
acesso.
A dualidade, de certa maneira, ainda faz parte do processo espiritual de um Mestre do
Templo encarnado. Qualquer um que tenha atravessa do o Abismo, encarnado no Plano dos
Discos, ainda vive na dualidade. Estar abaixo do Abismo implica em dualidade, pois esta é a
experiência fundamental de Malkuth. No entanto, sua mente conquistou a não-dualidade
característica de um Eremita ou Mestre do Templo. Neste sentido, Crowley estava correto
em dizer que o Anjo se trata de uma Entidade objetiva no sentido estrito da palavra. Nossa
alma é apenas uma pequena fração de nosso espírito que anima o corpo físico para que pos-
samos experimentar a vida. No entanto, o preço que pagamos por isso é o esquecimento da
grande totalidade de nós mesmos. O espírito que permanece acima do Abismo é o verda-
deiro Sagrado Anjo Guardião do magista, que nas tradições orientais é chamado de ātma,
puruṣa, dṛṣṭi, Śiva, Ut etc. O espírito (Sagrado Anjo Guardião) não pode descer abaixo do
Abismo. É um despautério pensar o contrário, uma vez que o Anjo é Andrógeno (Eu Mesmo
Feito Perfeito). É por este motivo que um Mestre do Templo não pode residir em Binah na

16Veja por exemplo o caso mencionado no texto LVX et NOX sobre a mensagem do Sagrado Anjo Guardião de um
Irmão da O.T.O. (Brasil) nos mandou.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Cidade das Pirâmides. Como Crowley apontou, o Mestre do Templo cria conexões abaixo do
Abismo, ou seja, enquanto ele permanecer encarnado, será atormentado pelos flagelos da
dualidade (Eu Mesmo Imperfeito). Uma vez que a dualidade não existe Abaixo do Abismo, a
Liberação final «mahā-samādhi» somente ocorrerá quando ele se libertar também do corpo
físico. Dessa maneira, o Anjo permanece acima do Abismo para de verdade ser o Anjo, da
mesma maneira que o Mestre do Templo deve residir nas esferas abaixo do Abismo para
permanecer encarnado. Suas conexões lhe permitem participar de certa comunhão ou gnose
com o Anjo acima do Abismo.
Existem três tipos de conexões que o Adepto deve se preocupar em estabelecer na
intenção de acessar a gnose acima do Abismo. Todas as outras são extensões dessas três. A
primeira conexão permite ao Adepto experimentar em Malkuth certo nível de realização
espiritual que mais se parece com uma euforia consciente da Realidade por trás das aparên-
cias do que qualquer tipo de visão ou recepção de mensagens. Através dessa conexão o
Adepto irá experimentar aquilo que os gnósticos chamaram de pitis, uma certeza no Cami-
nho. Ele irá estar consciente de que existem seres no universo além da condição humana. É
quando os canais da percepção começam a se abrir. No Liber 777, essa experiência é conhe-
cida como A Visão do Sagrado Anjo Guardião. Um certo nível de consciência e lucidez começa
se formar, a partir do qual o Adepto começa a sedimentar seus códigos pessoais de crença e
ética. É somente acima do Abismo que o verdadeiro Conhecimento & Conversação real-
mente ocorrem. Identificando o Sagrado Anjo Guardião como a totalidade de tudo o que
somos, é possível inferir que estas conexões descrevem estágios de conquista espiritual que
nos permite subir e descer através da Árvore da Vida.
Nesse momento de nossa epístola estamos mais interessados no segundo tipo de co-
nexão que envolve o aspecto inferior do Ruach, as esferas de Hod, Netzach e Tipereth.
O Ruach em sua totalidade, que abrange cinco esferas de Chesed a Hod, compreen-
dendo a mente consciente e inconsciente, metade conhecido, metade ocultado. O Ser externo,
se assim podemos propor, o metade conhecido, atua nas esferas de Hod, Netzach e Tiphe-
reth. A Luz de nossa Estrela, aqui, manifesta-se mais como consciência pessoal, impulsos e
desejos (Hadit). O Ser interno ou o metade ocultado, opera nas esferas de Tiphereth, Gebu-
rah e Chesed. A Luz de nossa Estrela, aqui, é mais arquetípica, banhada pela Consciência
Universal e Verdadeira Vontade (Nuit).
A interação entre esses dois polos é metaforicamente conhecida como Ra-Hoor-Khuit.
O sucesso em estabelecer uma conexão com assas duas partes do Ruach, a inferior e a supe-
rior, permitirá ao Adepto receber o Conhecimento (gnose) da inteireza de seu Ser, o Anjo
acima do Abismo (Eu mesmo Feito Perfeito). Nessa conexão é estabelecido certo tipo de
comunicação onde é possível ao Adepto conhecer sua Verdadeira Vontade. No entanto, es-
tabelecer essas conexões e fazer bom uso delas são coisas bem distintas. Considere, por
exemplo, uma criança de frente a um rádio, completamente desconhecida de sua existência
ou incapaz de usá-lo. Um dia a criança aprende a ligar o rádio e a partir disso ela escuta
músicas maravilhosas saindo dele. A criança pensa que as vozes e as melodias nascem do
rádio e não que elas são transmitidas através dele. Esse discernimento virá quando ela cres-
cer a aprender a usar melhor o rádio. É similar o processo de estabelecimento dessas cone-
xões espirituais. Primeiro nos tornamos conscientes de que esquecemos nossa Verdadeira
Natureza. Uma vez conscientes dela, mas ainda sem percebê-la em sua inteireza, começa-
mos a jornada para ligar o rádio, quer dizer, começamos o caminho que irá nos levar a co-
nexão de Tiphereth entre as duas partes do Ruach. É em Tiphereth, portanto, que a segunda
conexão é estabelecida, quando começamos a aprender a sintonizar as faixas do rádio. Da
mesma maneira que a criança escuta as músicas no rádio e pensa que elas nascem dele,
podemos nós escutar o mundo espiritual e saber discernir entre a mensagem, o mensageiro
e o plano existencial relacionado ou simplesmente estamos nomeando todo o processo se-
gundo as nossas conveniências e predisposições? É aqui que reside o perigo! Na medida em

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
que os Candidatos nessa etapa continuam se identificando com as crenças religiosas apren-
didas em sua infância,17 será muito difícil discernir entre uma verdadeira conexão com os
planos acima do Abismo de onde vem o Conhecimento (gnose) e um Ego inflamado dirigido
por impulsos e desejos. Em Tiphereth não há espaço para fé cega, só certeza absoluta: Eu
dormi com a Fé e encontrei um cadáver em meus braços ao acordar; Eu bebi e dancei toda a
noite com a Dúvida e encontrei-a como uma virgem pela manhã.18 Nesta instrução, Crowley diz
que a atitude recomendada é o ceticismo, mas um ceticismo sob controle. A dúvida inibe a ação,
assim como a fé a cega. O que ele está no ajudando a inferir é sobre o aspecto negativo da fé,
que deixa o escravo sem opção. Mas o soberano afirma os fatos como eles são. O caminho re-
verso leva pessoas ao cárcere do Porque.
O Adepto Externo deverá decidir por si mesmo quais são as práticas e rituais que irá
utilizar para estabelecer essa segunda conexão espiritual entre o Ruach inferior e superior.
Para isso, ele deve se ancorar sobre um trabalho bem fundamento com o Ruach inferior. O
processo pelo qual essa conexão é estabelecida, da mesma maneira é metade conhecido, me-
tade ocultado. Rituais como Liber Samekh preenchem o requisito para a primeira metade da
equação, a metade conhecida. Trata-se de um processo estritamente devocional conhecido
como Intento Mágico. Na Fórmula Mágica, compreende o processo associado a Fala (Ra-
Hoor-Khuit). A segunda parte da equação, a metade ocultada, na Fórmula Mágica associa-se
ao Silêncio (Hoor-paar-kraat) e é conhecida como Conexão Mágica. Depois de conquistar
com proficiência a primeira parte dessa equação espiritual, nada irá acontecer por um
tempo, que pode demorar dias, meses ou até anos, dependendo da intenção mágica formu-
lada por trás da execução de seus rituais e práticas devocionais. Nessa etapa do processo
toda ideia de sucesso deve ser banida da mente, pois o desejo de resultado convocará demô-
nios que irão tenta-lo, alimentando nele fantasmas de grandeza fazendo-o acreditar que já
estabeleceu conexões reais com os planos acima do Abismo. Mas estes fantasmas são vozes
enraizadas somente nos desejos do Adepto. Ele deve, portanto, purificar-se disso!
É a tarefa do Adepto Externo iluminar a matéria pesada de Malkuth na intenção de
despertá-la. Mas ele deve estar alerta a maldição de seu Grau, que é dividir a natureza dos
deuses. Crowley salientou que quando falhamos em estabelecer Leis Universal por conta de
nossas questões pessoais, quando decidimos dar mais atenção aos desejos do Ego do que a
Vontade, estaremos construindo a ilusão da dualidade, que leva a excisão e destruição. E
mesmo que cada um de nós sejamos uma Estrela nos confins do espaço – Nuit, é através
dessas Leis que estamos conectados a outras Estrelas no corpo Nu da Deusa. Essa é uma
doutrina central em O Livro da Lei. Nós temos a liberdade de criar o que quer que desejar-
mos em Malkuth, no entanto, para tornar-se um Adepto Interno e abraçar a Liberdade Uni-
versal, é preciso compreender que o Eremita, como as Estrelas no Céu, é um solitário em
seus domínios. A única coisa que o Adepto Interno oferece é sua Luz (gnose), nada mais!
Que o Adepto Externo esteja prevenido. Como Cristo no deserto foi tentado por Satã, a po-
derosa Kundry19 tentará dissociar o Filho de seu Pai, fazendo-o negar a Luz do Espírito Uni-
versal. É comum ver naqueles que falham em Tiphereth a tendência maliciosa de maldizer
e degradar a autoridade sob a qual eles estavam trabalhando e a qual estavam aspirando.
Sem perceberem esse dilema, eles são arremessados ao flagelo do sofrimento por pensarem
saber mais que o Pai e nesse processo o Ego começa um trabalho de verborreia que projeta
por toda parte a aflição e o desespero que eles experimentam internamente. Nesse processo
o Ego tenta se tornar maior que os Deuses. Ele realmente se torna bem maior, mão ao ponto
de criar mais confusão, delírio e engendramento da dualidade. Então decidem redimir o

17 Para o entendimento do ordálio do Adepto Menor contra os Quatro Príncipes do Mundo veja meu artigo O
Inimigo do Adepto Menor (ainda não publicado).
18 Aleister Crowley, O Livro das Mentiras.
19 Para um relato sobre o papel da Kundry, veja Rituais, Documentos & a Magia Sexual da O.T.O.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
mundo a sua imagem, cultivando mais mentiras e falsidades em Malkuth. O Adepto em Ti-
phereth deve escolher um Caminho: o que lava para dentro ou o que leva para fora!

Pois o que lucraria o homem ganhar todo o mundo e perder sua alma?20

Caso o Adepto Externo, na esfera de Tiphereth, crie projeções em Malkuth que não sejam
dirigidas somente a Nuit, fatalmente estará se imiscuindo de derramar seu sangue na Taça.
Assim, que ele se lembre:

Se isto não estiver correto; se vós confundirdes as marcas do espaço, dizendo: Elas são
uma; ou dizendo, Elas são muitas; se o ritual não for sempre para mim: então esperai os
terríveis julgamentos de Ra Hoor Khuit!21

Em Magia em Teoria & Prática, Cap. 1, Crowley tece palavras bem claras: Existe uma única
definição geral do propósito de qualquer Ritual Mágico: é a união do Microcosmo com o Ma-
crocosmo. O Supremo e Completo Ritual é, portanto, a Invocação do Sagrado Anjo Guardião;
ou na linguagem do misticismo, União com Deus. Nesse ponto de nossa epístola, precisamos
evocar a metáfora do Sagrado Anjo Guardião associada as três graduaçãos thelêmicas des-
critas em O Livro da Lei (I:40): Quem nos chama Thelemitas não errará, se ele olhar bem perto
na palavra. Pois ali há Três Graus, o Eremita, e o Amante, e o Homem da Terra. Faz o que tu
queres há de ser tudo da Lei.
No Grau de Homem da Terra, o Candidato busca a Visão do Sagrado Anjo Guardião,
que lhe proverá uma certeza inabalável na existência de seu Anjo e na jornada de sua alma.
No Grau de Amante, o Adepto busca a Orientação do Sagrado Anjo Guardião, o que lhe pro-
verá – através da união entre o Ruach inferior e superior – condições para se tornar consci-
ente das orientações que anteriormente eram lhe transmitidas de maneira inconsciente,
bem como enxergar mais claramente os objetivos por trás de sua própria encarnação. Esta
é a etapa do Conhecimento do Sagrado Anjo Guardião, quando o Adepto forja conexões além
Abismo para receber as orientações de seu Anjo. No Grau de Eremita, após a Travessia do
Abismo, o Mestre do Templo conquista a real Conversação com o Sagrado Anjo Guardião,
como apontado por Crowley em A Visão & a Voz.
Tem sido dito que o Adepto Menor precisa de pouca ou nenhuma ajuda em sua jor-
nada espiritual. Neste Grau o trabalho espiritual se torna mais intenso do que antes. As ano-
tações e entradas no diário mágico ficam mais precisas e claras. Já com experiência, o Adepto
não espera seu Superior pedir por suas anotações, ele as envia; sua conexão com o Superior
imediato se estreita e a relação entre eles torna-se um elo forte na Corrente 93. Nesta etapa
da jornada, o Adepto ainda se vê tendo de compreender a relação entre seu Eu Superior – o
Ruach em toda sua integridade – e o Sagrado Anjo Guardião. Para reforçar esse entendi-
mento e conexão, ele se debruça em teoria e prática sobre as seguintes orientações da A∴A∴:

1. O Ritual da Invocação do Augoeides em A Visão & a Voz, no oitavo aethyr: ZID, além
do Abismo. Este ritual é conhecido como Liber VIII.
2. O Ritual de Congresso com Daemone, conhecido como Liber Samekh. Crowley consi-
derou ser esse o seu melhor trabalho. Trata-se de uma cerimônia para invocar o Sa-
grado Anjo Guardião. Crowley restaurou esse ritual a partir a partir de fontes greco-
egípcias. Israel Regardie fez um extenso comentário sobre esse ritual em seu livro
Magia Cerimonial.
3. Liber LXV, que trata da relação entre o Candidato e seu Sagrado Anjo Guardião. Essa
instrução é dada ao Probacionista no ato da assinatura de seu Juramento como um

20 Mateus, 8:36.
21 Liber AL, I:52.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
símbolo de sua aspiração, o Conhecimento & a Conversação com o Sagrado Anjo
Guardião.
4. A Invocação do Anel da Ametista. Este é um poema encontrado em Konx Om Pax.
Crowley diz em suas confissões que a ametista deve ser, por assim dizer, a lente atra-
vés da qual o Sagrado Anjo Guardião se manifesta.
5. Liber XCV, uma alegoria poética das relações de uma alma com o Sagrado Anjo Guar-
dião.
6. O Sagrado Anjo Guardião é um Indivíduo Objetivo. Trata-se do Capítulo 43 de Magick
Without Tears.22
7. A Magia Sagrada de Abramelin, o Mago, tradução de S.L. McGregor Mathers.

Todas essas instruções acerca do Sagrado Anjo Guardião são dignas de estudo. No entanto,
o que já deve estar claro aqui no fim desta epístola é que em Tiphereth, o que o Adepto está
trabalhando é seu Eu Superior, o Ruach em toda sua inteireza, não o Sagrado Anjo Guardião.
O Adepto deve ser meticuloso nas suas anotações sobre estes estudos acima, nos re-
sultados de suas práticas e rituais para estabelecer a conexão com o Anjo. Na tradição the-
lêmica, até que o Anjo se revele ao Adepto, é comum chamá-lo de Adonai, que significa Se-
nhor em hebraico.
O papel do Adepto Interno é este: estabelecer conexões com seu Eu Superior na inten-
ção de receber orientações do Sagrado Anjo Guardião. Em Uma Estrela à Vista nós encon-
tramos a declaração: Os Mestres da A∴A∴ não tentaram, portanto, instituir qualquer ritual
para esta Tarefa central da Ordem. Isso significa que a Ordem não irá oferecer ao Adepto
nenhuma instrução oficial para que ele estabeleça essa conexão. É ele, por seus próprios
esforços, quem deve delinear os métodos para essa consecução. Sucesso é a tua prova! Em
uma entrada em seu diário do ano de 1908, Crowley tece uma consideração sobre o mo-
mento em que o Candidato alcança o Grau de Adepto Menor: Então segue um ritual real=
ritual R.C. Alguns pesquisadores modernos têm declarado que Crowley faz referência nessa
passagem ao Ritual do Não-Nascido. Mas não há como saber. O fato é que Crowley realizou
em 1908 uma operação chamada A Invocação de Adonai. Nos diários de Crowley e Charles
Stansfeld Jones (1886-1950), o João São João e o Mestre do Templo,23 muitas informações
relevantes podem ser colhidas para o sucesso da operação. Mas não são todos os Adeptos
Menores que anseiam por essa conexão. Estes permanecem como Adeptos Externos. Mas
caso seja a sua intenção realizar esta tarefa, estes trabalhos acima são altamente recomen-
dados. Medite em cada aspecto da operação e anote cada detalhe dessa busca em seus diá-
rios. Não é possível falar mais nada sobre esse trabalho espiritual. O próprio Crowley escre-
veu: Nenhum homem tem direito de fazer a mais singela sugestão a outra pessoa sobre quando
ela deveria ou não se submeter a essa operação crítica e central na Ordem. A interferência, de
qualquer forma, entre um homem e seu Sagrado Anjo Guardião é a mais intolerável das pre-
sunções.

Amor é a lei, amor sob vontade.

22 Veja tradução mais adiante nesta edição do Corrente 93.


23 The Equinos, Vol. I, No. 1 e Vol. III. No. 1.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
O sagrado anjo guardião é
um indivíduo objetivo

Mestre Therion
Aleister Crowley

Cara Soror,

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

N ão é muito educado, mas gostaria de chamar a atenção dos leitores para um deta-
lhe, logo de início. Note bem o título. O que se vê? Um artigo indefinido: Um. Um
como artigo, é indefinido, o que quer dizer que é usado para se fazer referência
ao sujeito da oração, é de uma forma, vaga, imprecisa, global.
Em trocados: qualquer Indivíduo Objetivo. Independentemente de sua real natureza,
ainda assim é um indivíduo qualquer.
Objetivo aqui não está enfocado com Objeto – aquilo que os sentidos normais facil-
mente observam, ele está focado no sentido de Subjetividade e Objetividade.
Atenção redobrada na leitura dessa relativamente extensa carta conduz o estudante
a uma planície fora de toda essa verborreia que se lê por aí.
No decorrer de muitas das recentes cartas eu vejo que você pergunta sobre William
Gillette e se os Anjos eram de fato «um vermelho – par quente – de pinos que você fura a
sibilar eu o soft de» mim. Você quis dizer para não só investigar a forma de ser a que per-
tencem os anjos, mas se eles são também passíveis de infortúnio, acidente e similares.
A resposta é que isto depende do Anjo – para os propósitos desta carta eu proponho
usar a palavra anjo para incluir toda a sorte de seres sem corpo, de demônios a deuses – em
todos os casos, eles são objetivos; um anjo subjetivo difere de um sonho somente na sua não-
essencialidade.
Agora, alguns anjos são realmente emanações dos elementos, planetas, ou signos aos
quais são atribuídos. Eles são seres parciais em muitos aspectos, da mesma forma que são
animais. Eles não são microcosmos como são os homens e as mulheres. Eles são quase in-
teiramente compostos do planeta (ou o que quer que seja) ao qual são atribuídos. Os outros
componentes de seu ser eu considero como sendo quase acidental. Por exemplo, o Arcanjo
Ratziel é senhor de uma empresa de anjos chamados Auphanim; e é preciso não se imaginar
que todos esses anjos são idênticos entre si, ou não parecer ter muito sentido nisso. Eles
têm algum tipo de composição, algum tipo de individualidade; e o caráter e a aparência do
Anjo podem ser determinados pelos seus nomes.
Eu não acho que eu tenha mencionado em qualquer lugar como isto é feito. Para dar
um exemplo, vamos ter Qedemel – as letras Hebraicas são Q.D.M.A.L., e a numeração é 175,
que é a soma dos primeiros 49 números, como é próprio de ♀.
Podemos então esperar que a cabeça ou toucado do espírito esteja de alguma forma
com a característica do signo de. A forma geral do corpo será indicado por ‫ד‬, a letra de ♀, e
a parte inferior (ou talvez a qualidade) será determinada pela aquosa Mem – a terminação
‫ אל‬é geralmente tomada para indicar símbolos apropriados. Por exemplo, o ‫ א‬pode mostrar
uma aura dourada e o ‫ ל‬uma balança.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Alguns detalhes podem ser indicados se tomarmos as letras ‫ ד‬e ‫ מ‬juntas, dam é a pala-
vra hebraica para sangue. De tais considerações pode-se construir uma representação pic-
tórica na mente que pode servir como um padrão para a qual qualquer aparência dele deva
mais ou menos se conformar. A questão então toma a forma de um inquérito sobre o quanto
tais seres são imortais ou eternos.
No caso acima, evidentemente, sua existência depende do planeta que ♀, e pode-se
supor que, se esse planeta fosse retirado do sistema solar, não haveria mais Qedemel. Mas
isto é muito para se julgar precipitadamente, pois ♀ por si só é uma emanação do número 7,
e, portanto, indestrutível.
É uma ideia como a acima, que é a parte de trás da ideia convencional de que elemen-
tais são imortais, que incorrem em mortalidade quando a sua ambição e devoção faz com
que eles encarnem como seres humanos.
Agora, pode um anjo desse tipo nunca ter errado, pelo o que quero dizer dele nunca
ter sido infiel a sua natureza? Eu não vejo como se pode imaginar que isso aconteça, porque
são criaturas tão completamente feita dos elementos de que são compostas que devem ser
consideradas como completamente desprovidas de vontade, em qualquer sentido da pala-
vra inteligível. Suas ações, na verdade são apenas reações.
Eles são, naturalmente, inteiramente desprovidos da Tríade Celestial. Assim, não há
nenhuma questão neles que persistiria através das mudanças.
Talvez fosse melhor dizer que mudança não irá realmente afetá-los. Outra maneira de
colocá-los seria que eles são adjetivos, não substantivos. Eles são apenas manifestações sen-
síveis dos elementos a que são atribuídos e às letras do seu nome.
Agora, por outro lado, há um tipo totalmente diferente de anjo, e aqui devemos ter um
cuidado especial para nos lembrarmos de que incluem deuses e demônios, pois existem tais
seres que não são de modo algum dependente de um elemento em particular para a sua
existência. Eles são microcosmos exatamente no mesmo sentido que os homens e as mulhe-
res são. Eles são indivíduos que tem pego os elementos de sua composição como dita a pos-
sibilidade e conveniência, exatamente como fazemos nós mesmos. Eu quero que você en-
tenda que uma deusa como Astarte, Astaroth, Cotytto, Afrodite, Hathor, Vênus, não são ape-
nas aspectos do planeta. Pois eles são indivíduos separados que foram identificados uns com
os outros, e atribuídos a ♀ simplesmente porque a característica saliente em seu caráter se
aproxima deste ideal.
Agora, então, é simples de responder à pergunta por você desenvolvida, seu envelhe-
cimento e morte; pois, sendo da mesma ordem de Natureza que nós mesmos somos, quase
tudo que é verdadeiro para nós também é verdadeiro para eles.
Eu tenho tentado bastante antes de elaborar este tema, devido à uma pergunta pes-
soalmente importante que surge em cartes mais recente, porque eu acredito que o Sagrado
Anjo Guardião é um ser dessa ordem. Ele é algo mais do que um homem, possivelmente um
ser que já passou pelo estágio de humanidade. E sua relação peculiarmente íntima com o
seu cliente é o da amizade, da comunidade. De fraternidade, ou paternidade. Ele não é, deixe-
me dizer com ênfase, uma mera abstração de si mesmo, e é por isso que tenho insistido antes
fortemente que o termo Eu Superior implica uma heresia condenável e uma ilusão perigosa.
E se assim não fosse, não haveria nenhum ponto em A Magia Sagrada de Abramelin, o
Mago. À parte de qualquer especulação teórica, meu sammasiti e trabalho analítico nunca
tem me levado a tanto como uma dica da existência do Anjo Guardião.
Ele não pode ser encontrado por toda a exploração de si mesmo. É verdade que o pro-
cesso de análise leva, finalmente, para a realização de si mesmo como nada mais que um
ponto de vista indistinguível em si mesmo de qualquer outro ponto de vista, mas o Sagrado
Anjo Guardião esta precisamente na mesma posição. No entanto pode ser a próxima identi-
dade em milhões de formas, sem identificação completa e sempre alcançável.

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Mas lembre-se disso, acima de tudo, eles são objetivos, não subjetivos, ou eu não de-
veria desperdiçar a boa Magia com eles.
Deixe-me falar em particular no que diz respeito aos Deuses, que o deus Júpiter a
quem você invoca não é necessariamente aquele mesmo a quem eu invoco. É claro, em qual-
quer caso que a revelação de si mesmo para você é modificado em muitos aspectos, por sua
própria sensibilidade particular; assim como na vida comum, a sua ideia de um amigo pode
ser muito diferente da minha própria concepção do mesmo indivíduo. Suponha, por exem-
plo, que ele resulta ser músico, haverá um lado inteiro do seu caráter ao qual sou pratica-
mente insensível. Você pode falar com ele durante horas, e eu entenderia pouco ou nada do
que foi dito. Da mesma forma, se ele fosse um alpinista, seria a sua vez de ser uma estranha
no ninho.
Você enviou uma chamada para os Aethyrs; Quem responde depende de vários fato-
res. No meu caso, cheguei a 666, o Mago do Aeon, possivelmente porque na minha adoles-
cência eu jurei a mim mesmo ajudar a humanidade. Não é apenas que Ele-Ela-Isto encontrou
dignidade em minha aspiração – é simplesmente que minha aspiração ressoou em Seu-Sua-
Esse como sendo seu próprio propósito.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Fraternalmente seu,
666.

Tradução: Frater ON120.

34
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LVX et NOX

Frater ON120
Fernando Liguori

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

M
ais curioso do que possa parecer, uma análise acurada do Ritual Safira Estrela
ou Liber XXXVI24 – publicado pela primeira vez em 1913 em O Livro das Mentiras,
também conhecido como Liber CCCXXXIII – ainda não foi produzida. Seu Arcano
continua oculto para muitos thelemitas. A publicação dessa instrução oficial da
A∴A∴ provocou uma reviravolta na jornada espiritual de Aleister Crowley: ele foi admitido
ao IX° Grau da Ordo Templi Orientis, O.T.O. Este evento iria definir seu caminho daquele mo-
mento em diante. Para um magista isso não se trata de mera coincidência. Crowley conside-
rava cada livro seu publicado um talismã mágico de poder e por conta disso ele levava em
consideração as melhores conjunções astrológicas para a publicação de seus livros. Nós po-
demos dizer com segurança que O Livro das Mentiras encantou Theodor Reuss. Eu discorri
bastante sobre esses eventos no primeiro volume das Crônicas da O.T.O. e ao leitor eu reco-
mendo estudo.
Por volta de 2001 a O.T.O. promoveu no Brasil o I° ENOTO, Encontro Nacional da Ordo
Templi Orientis na cidade de Parati, Rio de Janeiro. Na época eu usava o nome mágico de
Khaled Khan 777, como I° Grau da Ordem. Na véspera da viagem, eu me encontrava na sede
do Oásis Quetzalcoatl, hoje uma Loja estabelecida da Ordem, conversando com alguns ir-
mãos, todos sentados em cadeiras formando um círculo na frente do altar da Missa Gnóstica.
Nessa ocasião, uma irmã perguntou: O que o Crowley quis dizer com a frase «estando o adepto
armado com sua vara mágica e munido com sua rosa mística» no Liber XXXVI? Um irmão mais
antigo prontamente respondeu: Isso está além do seu grau! Me lembro que pensei na hora:
E do seu também.... Nós continuamos a conversa e eu comecei a discorrer sobre o simbolismo
sexual contido nesse ritual e o significado da fórmula mágica ARARITA. Este irmão mais
antigo se levantou, andou pela sala, subiu as escadas e quando voltou, cinco minutos depois,
ele disse: Meu anjo me disse que vocês não estão nem um pouco preparados para falar sobre
esse assunto. Bem, desde que a relação do Adepto com seu Anjo só diz respeito a ele mesmo,
depois do ocorrido passei a não levar em consideração as ponderações desse irmão.
Desde então eu venho praticando a fórmula mágica do Ritual Safira Estrela. Quem pri-
meiro me instruiu nesse ritual foi Frater S.S., na época um Zelator da A∴A∴ e meu Superior
na Ordem. Durante muitos anos este ritual foi peça chave no meu entendimento das fórmu-
las mágicas thelêmicas, principalmente o sistema de magia sexual proposto por Crowley. O
presente texto é, assim, a primeira crônica acerca de Liber XXXVI que nasce desse trabalho
de publicação do Rituais, Documentos & a Magia Sexual da O.T.O.
Quando procuramos compreender o simbolismo do Ritual Safira Estrela, talvez a per-
gunta mais óbvia que se levante é: por que safira? A safira é uma pedra preciosa que, como
seu irmão, o rubi, é uma espécie de coríndon. A safira é uma pedra consagrada a esfera de
Binah na Árvore da Vida, a Mãe Negra. Binah é identificada como um grande mar negro, um
menstruum ou fluído de possibilidades. A safira, dessa maneira, trata-se de uma pedra de

36 = 62 = a expressão perfeita do hexagrama. 6 = Tiphereth-Sol, assim, 6x6 significa o Sol multiplicado por si
24

mesmo. O simbolismo do número seis tem uma conexão poética com este ritual.

35
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
água preciosa.25 Essa é a primeira pista do ritual. Tanto o rubi quanto a safira têm um aste-
rismo em seu corpo que provoca no olho de quem vê um efeito que se parece com uma
estrela de seis raios. Por conta disso, existe nesses dois rituais thelêmicos, o Rubi Estrela e
Safira Estrela, o simbolismo do hexagrama. No Rubi Estrela, os pentagramas são invocados
para produzir no centro-coração o hexagrama. Mas no Safira Estrela é diferente. Nós vamos
chegar nesse ponto!
A segunda pergunta óbvia acerca desse ritual é: para que serve o Safira Estrela? Ele é
considerado um ritual do hexagrama. Genericamente, a informação que todos transmitem
é que Crowley o escreveu para suplantar o Ritual Menor do Hexagrama, da mesma maneira
que fez com o Rubi Estrela, formulado para suplantar o Ritual Menor do Pentagrama. Dessa
forma, considera-se que o Safira Estrela esteja para o Rubi Estrela como o Ritual Menor do
Hexagrama está para o Ritual Menor do Pentagrama. Mas diferente do pentagrama, que é
um símbolo utilizado para manipular, unir e encarnar as forças elementais, o hexagrama é
um símbolo que une o micro com o macrocosmo. Dessa maneira é seguro dizer que o ritual
do pentagrama atua no eixo horizontal da encruzilhada vibracional e o ritual do hexagrama
no eixo vertical: e na coluna flameja o esplendor de seis raios.26
No Ritual Safira Estrela, dessa maneira, é possível ver a ascensão do magista e a ma-
terialização do divino, encerrando o processo da dualidade, quando o Adepto encarna a luz
mais oculta. Isso pode ser inferido como o trabalho do Sagrado Anjo Guardião operando em
Tiphereth – e este é o simbolismo transmitido pelo hexagrama cujo número é seis – cami-
nhando em direção ao Macroprosopus nas Supernas, onde cessa toda dualidade produzindo
a singularidade, velada na fórmula ARARITA. Sobre o hexagrama, Crowley escreveu: mas o
Hexagrama é em sua maior parte um detalhe da Fórmula da Rosa e da Cruz.27
O Ritual Safira Estrela, em uma primeira análise, consiste do alinhamento entre o mi-
cro e o macro ou a reconciliação dos opostos que produz, através do casamento místico, algo
novo. Mas para entender a relevância desse processo, nós teremos de dissecar o Ritual Sa-
fira Estrela. Vamos começar, dessa maneira, compreendendo os papeis das fórmulas de LVX
e NOX neste ritual.

Na Tradição Esotérica Oriental existe um termo sânscrito chamado mudrā que significa
gesto, marca ou sinal. Existem mudrās de mãos, cabeça e corpo. As mais conhecidas entre os
ocultistas são as mudrās de mãos.28 Aqui, o termo se aplica a sinais ou gestos corporais que
devem ser assumidos durante a prática meditativa ou a execução dos rituais. Ao assumir
uma mudrā, o magista torna seu corpo um poderoso hieróglifo mágico. De certo ponto de
vista, um ritual pode ser descrito como uma escrita mágica onde o magista se torna a incor-
poração da Palavra ou Logos Criador. Por essa razão, um livro de magia contendo instruções
sobre a execução cerimonial de rituais é sempre chamado de grimório. Esotericamente, uma
mudrā não se trata apenas de um gesto corporal; antes disso, trata-se de um estado de cons-
ciência. O sinal mágico assumido pelo corpo deixa uma marca ou impressão na matéria astral
protoplasmática do aethyr. Quando o magista assume o sinal mágico seu corpo astral toma
àquela forma.
No contexto de um ritual, os sinais possuem qualidades dinâmicas colocadas em ação
no momento de sua execução, trazendo a consciência do magista propriedades dinâmicas
específicas que simbolicamente sustentam o significado dos sinais. Cada sinal faz referência
a alguma história ou descreve algum princípio, força ou manifestação. Dessa maneira, os
sinais de LVX e NOX executados no Ritual Safira Estrela são sigilos corporais e como tal,

25 Liber AL, III:66. Considere, nesse contexto, que 66 é um número associado ao reino das Qliphoth, associado ao
Abismo.
26 Veja Liber Reguli, Liber XXV e o Ritual Menor do Pentagrama.
27 Aleister Crowley, Liber Aleph, cap. 108.
28 Para um estudo sobre as mudrās veja Meditação em Teoria & Prática (Vol. I).

36
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
formam um código estenográfico de forças internas que são colocadas em movimento no
corpo do magista quando ele os assume. Isso é essencial para encarnação da força mágica
invocada pelo ritual.
No Ritual Menor do Hexagrama, os Sinais de LVX fazem referência a fórmula mágica
do Velho Aeon. A premissa básica dessa fórmula, consiste na transformação do magista atra-
vés de sua morte e ressurreição. Nesse processo a ressurreição do magista sempre vem
acompanhada do desenvolvimento de algum poder mágico ou qualidade psíquica mais refi-
nada, tal qual ocorre no cristianismo e xamanismo. Em muitos aspectos os Sinais de LVX
descrevem a dinâmica de outra fórmula mágica, IAO, além da relação estabelecida entre o
Adepto, sua Rosa e o Elixir obtido a partir dessa relação no clímax do ritual, quando se pro-
duz a Safira Estrela. O simbolismo e a relação entre «I» e «O» na Fórmula IAO foi extensa-
mente discutido por Crowley em Magia em Teoria & Prática e ao leitor é indicado o estudo.
Nesse momento, o que nos chama atenção é o simbolismo do pênis «phalus» e da vagina
«kteis» presente na explosão extasiante do rugido IO PÃ. No que concerne o Ritual Safira
Estrela, «I» e «O» representam homem e mulher, «A-Apófis» representa o elixir mágico pro-
duzido no casamento místico de «I» e «O».
Essa relação, no entanto, não faz referência apenas ao Ritual Safira Estrela. No mito
de Ísis e Osíris, «I» e «O», Ísis, a Deusa da Emissão Mágica, utiliza a sua boca para ressuscitar
seu marido, moribundo e impotente. Nós observamos esse simbolismo na Missa Gnóstica
da O.T.O., quando a Sacerdotisa faz os Sinais da Boca (peh) e da Mão (yod), através dos quais
o Sacerdote sepultado ressuscita.
Nos rituais Reguli e Rubi Estrela, os Sinais de NOX fazem referência aos quadrantes ou
direções no espaço. No entanto, o Ritual Safira Estrela apresenta uma ordem distinta para
os Sinais de NOX.

Rubi Estrela Safira Estrela


Leste Vir (Theriom) Puer (Filho)
Sul Puer (Hadit) Vir (Pai)
Oeste Mulier (Babalon) Puella (Filha)
Norte Puella (Nuit) Mulier (Mãe)

A ordem dos Sinais de NOX foi modificada para atender a mudança na atribuição dos qua-
drantes. Mas note que os mesmos sinais ainda continuam opostos: Vir e Puer, Puer e Puella,
mudando somente a direção no espaço. No Ritual Rubi Estrela, esses Sinais estão associados
as formas divinas thelêmicas. No Ritual Safira Estrela, eles estão associados ao Tetragram-
maton simbolicamente representado por Pai, Mãe, Filho e Filha. Essa fórmula mágica é a
estrutura do sistema de magia sexual formulado por Crowley para O.T.O.
Trabalhando dentro do simbolismo thelêmico, é seguro dizer que Therion e Babalon
assumem os papeis de Filho e Filha; Hadit e Nuit os papeis de Pai e Mãe. Mas isso não é
simples assim como poderíamos facilmente supor. No Ritual Rubi Estrela, o eixo Norte/Sul
e Leste/Oeste não forma um diagrama que representa a interação entre micro e macro-
cosmo. A mudança presente entre Therion e Babalon não é uma versão simplificada em me-
nor escala entre Had e Nu. No Ritual Safira Estrela são forças bem distintas e por conta disso
houve a necessidade de modificar sua atribuição nas direções do espaço.
Dessa maneira, o Ritual Safira Estrela apresenta uma versão diferente dos Sinais de
NOX, não apenas sua relação com as direções do espaço, mas também por força do próprio
ritual e seus nomes, identificados em outro arranjo familiar. As direções do espaço estão
relacionadas a passagem do Sol pelo zodíaco. Mas no Ritual Safira Estrela isso tem pouca
relevância. No entanto, as direções pelos quais o magista assume os sinais irá ajudá-lo a
definir a topografia de um espaço mais abstrato e conceitual. Dessa maneira, quando execu-
tados no contexto desse ritual, os Sinais de NOX ajudam o magista a estabilizar um ciclo, um

37
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
movimento de rotação e uma transmissão ad infinitum. Eles irão estabilizar o magista em
um ponto além das direções do espaço e as correntes telúricas do planeta.
Mas por que isso ocorre dessa maneira no Ritual Safira Estrela? Quando mencionados
por Crowley, os Sinais de NOX são tidos como poderosos e perigosos. O leitor é novamente
indicado o estudo de Magia em Teoria & Prática para um aprofundamento na relação entre
os Sinais de NOX e a Noite de Pã.
Embora a Fórmula IAO contida nos Sinais de LVX tenha mais relevância nas operações
que envolvem Tiphereth e o hexagrama, no Ritual Safira Estrela os Sinais de NOX têm pre-
ferência. Em A Visão & a Voz – Liber CDXVIII –, no 14° Aethyr, NOX é revelado como a terrível
palavra ou Chave que abre o Abismo. É esta mesma Chave que abre este ritual!
O ritual começa com a frase: estando o adepto armado com sua vara mágica e munido
com sua rosa mística. O termo que Crowley designou foi adepto, não um neófito, principiante,
candidato ou estudante. Isso faz toda diferença. No sistema da A∴A∴ o adeptado constitui
uma tríade de esferas na Árvore da Vida: Tiphereth, Geburah e Chesed. Ele termina, por-
tanto, no momento do Juramento do Abismo. Está explícita a indicação que esse ritual deve
ser executado somente por um Adepto que tenha conquistado o Conhecimento & a Conver-
sação com o Sagrado Anjo Guardião.
Através de uma análise do Ritual Menor do Hexagrama é possível notar certa seme-
lhança estrutural com o Ritual Safira Estrela. Seu propósito, no entanto, é preparar e alinhar
o magista com a esfera de Tiphereth, levando-o a encarnação de sua Verdadeira Vontade ou
realização de seu Sol interno, oculto. O processo do adeptado envolve um diálogo e identifi-
cação real com a Verdadeira Vontade, excluindo todas as outras coisas. Embora isso comece
em Tiphereth, é somente através do Ordálio do Abismo que a Vontade será encarnada como
Palavra.
No entanto, se alguém conquistou essa etapa da iniciação e está ativamente operando
como um Adepto da A∴A∴, é melhor que troque o Ritual Menor do Hexagrama pelo Ritual
Safira Estrela.
Ao centro, que ele faça os sinais de L.V.X., ou se
os conhecer, e quiser se atrever a fazê-los, e puder
manter silêncio sobre eles, os sinais de N.O.X. Nessa
etapa do ritual se estabelece uma conexão entre os
Sinais de NOX e o trabalho da Esfinge dos Adeptos:
saber os sinais, querer e ousar executá-los e manter
silêncio sobre eles. Saber, Querer, Ousar e Calar são
os Quatro Poderes da Esfinge e sua maestria leva o
Neófito ao Adepto e o Adepto ao Mestre. São qualida-
des ou níveis de mente que podem ser correlaciona-
dos a Árvore da Vida.

Atu VII: O Carro

Conectando as esferas de Binah e Geburah na Árvore


da Vida nós temos o Caminho d’O Carro, o herói sa-
grado do sangue transbordante do Graal de Babalon,
o batismo da Taça da Sabedoria. Como Crowley co-
loca, sua única função é carregar o Santo Graal29 e sua
relação com o elemento água, que é sangue, através
de Câncer e a Lua. Existem analogias entre essa carta
e aquela da Alta Sacerdotisa. Mas para os propósitos

29 Aleister Crowley, O Livro de Thoth.

38
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
de nosso estudo, vamos identificar essa carta com o Homem. Na Esfinge, o símbolo querú-
bico para o Homem representa o Saber, cuja conexão com o Atu II, a Alta Sacerdotisa, é evi-
dente, pois ela cruza o Abismo, Conhecimento. Dessa forma, o Homem e o Saber são repre-
sentados pela cabeça da Esfinge. A cabeça, no entanto, tem uma conexão simbólica com o
Graal, o mito templário da cabeça oracular de Baphomet e também a cabeça decapitada de
São João Batista, associado por sua vez a Câncer e os
mistérios do sangue transbordante da Taça da Prostitui-
ção. O batismo da Taça da Sabedoria «sophia» pode ser
associado a Baphomet, uma palavra que deriva do
termo mouro bufihimat, que significa Pai do Entendi-
mento, ou do termo sufi ras el-fahmat, que significa Ca-
beça do Conhecimento. A cabeça do conhecimento é as-
sim identificada com a cabeça decapitada de São João
Batista.
Puxando o Carro estão quatro esfinges, cada uma
formando diferentes permutações da Esfinge dos Adep-
tos. Isso fortifica as associações apresentadas acima, re-
fletindo a presença dos quatro princípios querúbicos da
Esfinge circundando o Hierofante.

Atu V: O Hierofante

Bem na frente d’O Carro, que traz a água (sangue) de Bi-


nah (Entendimento), nós encontramos o Alto Sacerdote,
o Hierofante, trazendo o fogo de Chokmah. Enquanto O Carro é descrito por sua aspiração
marcial ao Amor divino, o Hierofante em seu papel jupteriano se compromete em canalizar
a Vontade divina. O Hierofante é o mediador entre o profano e o divino e é identificado com
o Touro, o ícone da Vontade.30 O Touro é assim o Querer nos Quatro Poderes da Esfinge.

Atu XI: Luxúria

Conectando Chesed a Geburah nós temos a Luxúria. A


letra hebraica associada a esta carta é Teth, que signi-
fica Serpente. Originalmente, essa carta fora batizada
de Força e trazia a imagem de Sansão lutando com um
Leão, um símbolo que representa força e regeneração
sobre a natureza animal. Curiosamente, no antigo
Egito a Serpente Uraeus representava a soberania do
divino em relação a natureza animalesca. No arranjo
que Crowley fez dessa carta, ele trocou o Leão e a Ser-
pente, quer dizer, o Leão-Serpente, pela imagem da
Besta. Para nossos propósitos, reconhecemos o Leão
dentro da Besta, um símbolo que incorpora coragem e
bravura. O Leão é assim entendido como o Ousar nos
Quatro Poderes da Esfinge.
Todo o simbolismo que envolve o Atu XI, Luxú-
ria e o papel de Babalon encontram-se no cerne do Ri-
tual Safira Estrela e em todas as operações que envol-
vem o Abismo.

30 Aleister Crowley, Liber Aleph, Cap. 153.

39
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Atu III: A Imperatriz

Conectando Chokmah a Binah encontra-se o Caminho


de Daleth, a porta. Aqui A Imperatriz chega ao cume do
pináculo mais alto do golfo abissal. Destacando-se
acima do Abismo, eleva-se a Águia, glifo da Imperatriz,
que representa o Silêncio/Calar – da comunicação não-
dualista – do Amor.

O que essa águia significa e o que isso pressagia? Êx-


tase! Pois está escrito: A Águia é o Poder do Amor, o
qual é a Chave da Magia, elevando o corpo com todos
os seus privilégios sob as suas Asas.31

Existem dois aspectos chave n’A Imperatriz relevantes


nesse momento. Primeiro é sua conexão com o Lótus
Místico. Nós iremos tratar dessa conexão futuramente.
O segundo consiste na relação entre a Águia e a Esfinge.
No capítulo 157 de Liber Aleph Crowley discute o Dra-
gão e sua natureza trina, compreendendo a Águia, a Serpente e o Escorpião.32

A Natureza Trina do Dragão

Observando a imagem acima é possível notar que a Águia e a Serpente projetam-se nos seus
respectivos Caminhos e que Escorpião é alocado em Daath. Isso é dessa maneira porque
Escorpião está associado a morte, mas para Crowley este não se trata de um signo zodiacal

31 Frater Achad, O Cálice do Êxtase, publicado em Rituais, Documentos & a Magia Sexual da O.T.O. (Vol. I). O texto
continua assim: Esta Águia é conhecida pelos ocultistas como uma das Quatro Bestas Querubins e representa um
dos Quatro Poderes da Esfinge.
32 Observando o Atu XIII, Morte, é possível constatar a presença de quatro criaturas. Uma delas é o peixe, repre-

sentando a letra hebraica Nun. As outras três criaturas são a águia, o escorpião e a serpente. Em O Livro de Thoth
Crowley descreve a águia como a exaltação sobre a matéria sólida e a serpente como as ondulações rítmicas
daquelas fases gêmeas da vida que nós chamamos de vida e morte. Sobre isso, embora sejam interpretações acerca
da carta, podemos inferir que a putrefação compartilha relação com a aniquilação, ambas envolvendo a dissolu-
ção completa da identidade egóica.

40
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
que se associa apenas a morte e com o sexo, mas também com a consciência egóica. O Es-
corpião chora: Eu sou Eu. Este é o juramento dos Irmãos Negros, que coroam a cabeça do
Ego como Rei, excluindo todo o resto. O Escorpião é o amor introvertido do Ego. No entanto,
há uma implicação em que o escorpião tem de ser aniquilado:

Tripla é a Natureza do Amor: Águia, Serpente e Escorpião. E destes o Escorpião é aquele


que, não tendo nenhum Leão de Luz e Coragem dentro de si, parece a si mesmo cercado
por Fogo; e cravando seu Ferrão em si mesmo ele morre. Assim são os Irmãos Negros,
que gritam: Eu sou Eu; aqueles que negam o Amor, restringindo-o à sua própria Natu-
reza. Mas a Serpente é a Natureza Secreta do Homem, que é Vida e Morte, e trilha seu
Caminho através das Gerações em Silêncio. E a Águia é aquela Pujança do Amor que é a
Chave da Magia, levantando o Corpo e os Acessórios deste ao Alto Êxtase sobre suas
Asas. É por Virtude desta que a Esfinge contempla o Sol sem piscar, e confronta a Pirâ-
mide sem Vergonha. Nosso Dragão, portanto combinando as Naturezas da Águia e da
Serpente, é o nosso Amor, o Instrumento da nossa Vontade, por cuja Virtude nós execu-
tamos a Obra e Milagre da Substância Única, como diz teu Antepassado Hermes Trisme-
gistus em sua Tábua de Esmeralda. E este Dragão é chamado o teu Silêncio, porque na
Hora da Operação dele aquilo dentro de ti que diz «Eu» é abolido em sua Conjunção com
o Bem Amado. Por esta Causa também é sua Letra Nun, que em nossa Rota é o Trunfo
Morte; e Nun tem o Valor de Cinquenta, que é o Número dos Portais da Compreensão.33

A forma do dragão sendo uma serpente alada, une a Águia e a Serpente eu um único glifo.
Na Hora da Operação é o assunto que discutiremos em crônicas futuras. O Bem Amado pode
representar tanto Babalon como uma musa icônica quanto a sacerdotisa e sua rosa mística.
O Escorpião está intimamente associado a putrefação, o apodrecimento da proteína
animal e os processos alquímicos do negrume e fermentação. Mas isso também faz parte do
processo de amor. Em seu comentário do Aethyr chamado NIA, Crowley descreve escorpião
como Amor como instrumento de mudança através da putrefação.34 Na conclusão do 2°
Aethyr a letra n aparece, o que Crowley comenta ter vertido luz sobre o significado de NOX,
onde ele identifica n com Escorpião (Nun) descrevendo-o como a letra da imortalidade se-
xual, a fórmula da perfeição através da putrefa-
ção.35
Subindo a árvore através destes três íco-
nes animais, seguindo a luxúria da serpente e
a aniquilação abissal de escorpião ergue-se a
Águia, cujo silêncio é Amor. No espaço que se-
gue o balbuciar de escorpião surge Hoor-paar-
Kraat, o Bebê do Silêncio, envolto na flor de ló-
tus da Imperatriz ou o Ovo Negro «Bina» da
Águia erguendo-se como o «O» de NOX.
Dessa maneira, O Carro, O Hierofante, A
Imperatriz e a Luxúria, levados em considera-
ção como um conjunto, revelam uma imagem
melhor de toda essa estrutura simbólica. As as-
sociações de símbolos que envolvem a Esfinge
demonstram uma área de operação ou territó-
rio mágico e isso se confirma pela natureza dos

33 Aleister Crowley, Liber Aleph, Cap. 157.


34 Aleister Crowley, A Visão & a Voz.
35 Idem. Liber Aleph (Cap. 173) traz mais considerações sobre o assunto.

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Sinais de NOX e da Noite de Pã como pertencentes a região abissal (o que se opõe aos Sinais
de LVX, que se referem a fórmula de Tiphereth). Em Uma Estrela à Vista nós temos:

Seu Anjo o conduzirá logo ao pico da Ordem R.C., e o preparará para enfrentar o indes-
critível horror do Abismo que divide a Humanidade da Divindade; ensina-lo-á a Saber
aquela agonia, Ousar aquele destino, Querer aquela catástrofe, e Calar para sempre
quando efetua o ato de aniquilação.36

A Esfinge de NOX

Sobre a Esfinge, Éliphas Lévi certa vez escreveu: A Esfinge devora apenas àqueles que falham
em lhe compreender; mas ela obedecerá a qualquer um que decifrar o seu enigma.37 Em uma
discussão sobre o mito de Édipo, Immanuel Velikovsky diz que o monstro, a esfinge, se mata
quando o herói decifra seu enigma; o herói, um pobre aventureiro, mas um príncipe de berço,
entra na cidade e conquista a mão da rainha viúva.38
A Esfinge é tanto o Adepto quanto o imenso deserto a ser atravessado. O nome dado
a esse deserto ou secura interna é o Ordálio do Abismo que, sendo ele um enigma, demanda
uma lógica de tipo superior, capaz de resolver o paradoxo. Se nós somarmos as letras he-
braicas associadas a cada um dos Atus relacionados – daleth, vav, teth, cheth – obtemos o
número 27, ChDH, que significa parábola, mistério, enigma. Esse arranjo de Atus na Árvore
da Vida, portanto, cobre o território que podemos chamar de Enigma do Abismo.
É interessante notar que através dos rituais e ordálios na travessia do Abismo, o
Adepto (herói) é um príncipe de berço e ele deve se identificar com o arquétipo do Príncipe-
Sacerdote Ankh-af-na-Khonsu, o auto-imolado Senhor de Thebas, um Mestre do Templo,
aquele que chega à altura dos deuses e os encara nos olhos:

Eu sou o Senhor de Tebas, e eu


O inspirado orador-público de Mentu;
Para mim desvenda o velado céu,
O auto-imolado Ankh-af-na-khonsu
Cujas palavras são verdade. Eu invoco, eu saúdo
Tua presença, Ó Ra-Hoor-Khuit!

36 Aleister Crowley, Uma Estrela à Vista.


37 Éliphas Lévi, The Magical Ritual of the Sanctum Regnum.
38 Immanuel Velikovsky, Mito & História. Fernando Zahar Editor.

42
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Unidade máxima manifestada!
Eu reverencio o poder do Teu alento,
Supremo e terrível Deus,
Que fazes os deuses e a morte
Tremer perante Ti: -
Eu, eu reverencio a ti!

Comparece no trono de Ra!


Abre os caminhos do Khu!
Aclare os caminhos do Ka!
Os caminhos do Khabs traspassam
Para agitar-me ou tranqüilizar-me!
Aum! deixe isto saciar-me!39

O Atu V, O Hierofante, é identificado com uma parte específica da fórmula mágica da Esfinge:
o Touro. Examinando a imagem da carta, é possível notar dois touros. O primeiro lembra o
Touro de Mitras, representando Vida e Vitalidade. Curiosamente, os ritos de Mitras envol-
vem uma cerimônia de batismo onde o candidato é banhado no sangue do touro sacrificado.
Através dessa consagração batismal, o Candidato procura absorver o poder, a força, a vita-
lidade e a vontade (Querer) do touro. Cruzando essa referência com o simbolismo contido
no Atu VII, O Carro, como àquele que ergue a Taça de Sangue, é possível inferior os mistérios
que envolvem a grande travessia do Abismo.
No Atu V o magista (como Hierofante), é circundado por quatro querubins que repre-
sentam a Esfinge dos Adeptos. Em um olhar sobre essa carta, o Hierofante ou Alto Sacerdote,
tendo viajado de Tiphereth (vav = 6 = Filho/Sol)40 através do Caminho da Alta Sacerdotisa,
se encontra agora em Daath, onde ocorre a Missa do Ritual Safira Estrela.

Atu II: A Alta Sacerdotisa

[...] e munido com sua Rosa mística.41

A partir desse ponto, entra em cena o primeiro Atu do


segundo arranjo de cartas do Tarot que envolvem a tra-
vessia do Abismo: a Alta Sacerdotisa. Ela encarna um pa-
pel ativo e dinâmico através do qual elementos essenci-
ais são trazidos a execução dessa travessia. Este é o ca-
minho que atravessa o Abismo indo em direção a Kether
nas Supernas e além no continuum macrocosmo desde
seu reflexo microcósmico em Tiphereth.

A concorrência é com a natureza abaixo do Abismo; A


Alta Sacerdotisa é a primeira carta que liga a Tríade Su-
perior com a Héxade, e seu caminho, como é mostrado
no diagrama, produz uma conexão direta entre o Pai
em seu aspecto mais elevado e o Filho em sua manifes-
tação mais perfeita.42

39 Liber AL, III:37.


40 Veja Uma Estrela à Vista. O Adepto, tendo conquistado o Conhecimento & a Conversação com o Sagrado Anjo
Guardião é identificado como Alto Sacerdote, de acordo com o canal ou conexão que ele estabeleceu com seu
deus através da palavra ou nome que lhe foi transmitido, o Santo dos Santos.
41 Aleister Crowley, Liber XXXVI: Safira Estrela.
42 Aleister Crowley, O Livro de Thoth.

43
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Além da óbvia comparação da Alta Sacerdotisa com a Rosa Mística, é possível contemplar
melhor a conexão entre Pai e Filho na fórmula do IHVH. Nesta fórmula e também nos meca-
nismos do Ritual Safira Estrela, o papel da Rosa Mística é estabelecer a conexão entre Pai
(pater) e Filho (filius) estimulando e transmitindo a corrente mágica através da Mãe (mater)
e Filha (filia). Isso ficará mais claro na próxima epístola sobre o Ritual Safira Estrela.43
Em Daath floresce a visão da Rosa de 49 Pétalas, no coração da área da Esfinge dos
Adeptos. Isso ficará mais claro nas próximas epístolas quando invocarmos o simbolismo do
Escorpião em conexão com a Águia. Em Daath, onde ocorre o simbolismo do Escorpião que
diz Eu sou Eu, como vimos anteriormente, tem uma ligação com a Alta Sacerdotisa, não ape-
nas porque ela é a Senhora da Iniciação – obcecada por sexo e morte –, mas por conta de sua
associação com Ísis. Ísis, a Deusa da Emissão Mágica, associa-se diretamente a Alta Sacer-
dotisa por conta de sua natureza oracular como a Boca dos Deuses.

Depois olhei, e eis que no firmamento, que estava por cima da cabeça dos querubins,
apareceu sobre eles uma como pedra de safira, semelhante a forma de um trono. 44

Na carta, a Alta Sacerdotisa está entronada, uma referência clara a deusa Ísis, da raiz istet
que significa trono, o fundamento ou fundação da Lei divina. Mas o Escorpião é um animal
sagrado no culto de Ísis e é dito que as palavras mágicas de Ísis têm o poder de transmutar
o veneno do Escorpião.
Ísis é uma rainha viúva. Este é um simbolismo extensivamente utilizado na maçonaria,
cujos adeptos são chamados de Filhos da Viúva.45 O Véu da Viúva carrega uma correlação
similar com o véu da Alta Sacerdotisa. Ísis é o ato da iniciação e da revelação. Ela revela
quando seu véu é levantado. Existe um ditado hermético que diz que quando o véu da viúva
é levantado ela profere encantamentos mortais e por conta disso, nenhum mortal foi capaz
de levantar seu véu. Esse ditado invoca o simbolismo da morte no cruzamento do Abismo.
Este caminho está em equilíbrio exato no Pilar do Meio.46 Palavras de Crowley ao des-
crever a Alta Sacerdotisa. Não apenas os dois pilares, negro e branco, estão em equilíbrio,
mas acima de tudo, podemos dizer que o Superior e o Inferior estão em perfeita harmonia
através da Alta Sacerdotisa.
Quais as implicações sexuais que existem aqui quando Crowley descreve a Alta Sacer-
dotisa como virgem eterna? O véu da virgem pode ser inferido como o hímen, o que é bem
congruente com o simbolismo da forma da vulva com a Rosa Mística. A virgindade sagrada,
enquanto conectada ao simbolismo do hímen e da pureza relaciona-se ao ícone da iniciação
nos mistérios e o acesso ao Santo dos Santos. Dessa maneira, a virgindade está conectada
ao signo de Virgem como donzela, não a Mãe. Na Missa Gnóstica, a Alta Sacerdotisa é virgo
intacta, o que lhe dá o direito de portar a Taça.
Todo esse simbolismo ocupou a mente de Crowley intensamente. Em seus diários ele
escreve: Será a Carta G a Mulher na Porta? Sacerdotisa ou Prostituta? Ela é. Ela é a compa-
nheira sibilina das brincadeiras do Louco?47 O G é uma referência a letra Gimel (Alta Sacer-
dotisa) e a Porta uma referência a letra Daleth (Imperatriz). Caminhos que se cruzam nas
Supernas.
Está claro que a Rosa Mística é deflorada no Ritual Safira Estrela. Mas é possível que
a Alta Sacerdotisa permaneça virgem após a cópula?

43 A virilidade do Touro, através do Falo, ativa a Alta Sacerdotisa.


44 Ezequiel, 10:1.
45 Veja o simbolismo dos Sinais de LVX e do Mater et Filius nas próximas epístolas.
46 Aleister Crowley, O Livro de Thoth.
47 Aleister Crowley, The Magical Record of the Beast 666.

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Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Pureza é viver somente para o Supremo; e o Supremo é Tudo; sê tu como Ártemis para
Pã. Lê no Livro da Lei, e atravessa o véu da Virgem.48

É curioso que o entendimento primordial do termo virgem estivesse associado a idade certa
para o casamento. A jovem era considerada virgem não por ainda não ter sido deflorada,
mas por ainda não ter filhos. Dessa maneira, a Alta Sacerdotisa não é a Mãe em um sentido
físico, como é a Imperatriz. Mas ao invés disso, ela é considerada a mãe mágica ou a boca
mágica em essência, mãe dos deuses. Seus filhos são seus iniciados que renasceram ou se
renovaram. Eles são, portanto, Bebês no Abismo ou Magister Templis.

Amor é a lei, amor sob vontade.

48 Aleister Crowley, O Livro de Thoth.

45
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
FONTES BIBLIOGRÁFICAS

O ADEPTO MENOR & A INVOCAÇÃO DO DAEMONE, Fernando Liguori

CROWLEY, Aleister. Book Four: Liber ABA. Weiser Books, 2008. Magick in Theory and Prac-
tice, Routlege & Kegan Paul, 1973. Liber ABA: Livro Quatro, tradução do site Hadnu.
____________. Magick Without Tears, New Falcon Publications, 1991.
____________. The Book of Thoth, Weiser Books, 2014.
____________. The Equinox, Vol. I, Nos. 1-10, Samuel Weiser, 1972. The Blue Equinox, Weiser
Books, 1997.
____________. 777 and Other Qabalistic Writings, Weiser Books, 1986.
GUNTHER, J. Daniel. The Inward Journey, Vols. I, II, III. Ibis, 2009 e 2014.
IAO131. Fresh Fever from the Skies. Edição particular do autor, 2014.
____________. Hriliu: Symbolic Explorations of the Gnostic Mass. Edição particular do autor,
2016.
REGARDIE, Israel. The Eye in the Triangle. New Falcon Publications, 2014.
SHOEMAKER, David. Living Thelema. Anima Solis Books, 2013.

LVX et NOX, Fernando Liguori

AGEIPPA, Cornélio. Três Livros de Filosofia Oculta. Madras, 2009.


CROWLEY, Aleister. Book Four: Liber ABA. Weiser Books, 2008. Magick in Theory and Prac-
tice, Routlege & Kegan Paul, 1973. Liber ABA: Livro Quatro, tradução do site Hadnu.
____________. Liber Aleph, Tradução de Marcelo Motta, Clube de Autores, 2013.
____________. Liber 418: A Visão & a Voz, Tradução de Keron-, Clube de Autores, 2013.
____________. The Book of Thoth, Weiser Books, 2014.
____________. The Equinox, Vol. I, Nos. 1-10, Samuel Weiser, 1972. The Blue Equinox, Weiser
Books, 1997.
____________. O Livro das Mentiras, Tradução particular de Fernando Liguori.
____________. 777 and Other Qabalistic Writings, Weiser Books, 1986.
GUNTHER, J. Daniel. The Inward Journey, Vols. I, II, III. Ibis, 2009 e 2014.
IAO131. Fresh Fever from the Skies. Edição particular do autor, 2014.
____________. Hriliu: Symbolic Explorations of the Gnostic Mass. Edição particular do autor,
2016.

JOHN, Oliver St. Hermetic Astrology. Ordo Astri, 2016.

MANNICHE, L. Sexual life in Ancient Egypt, KPI. 1987.

46
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
MATHERS, S L. M. The Kabbalah Unveiled. Routledge, 1975.

REGARDIE, Israel. A Garden of Pomegranates, Llwellyn, 1970. Aurora Dourada, Madras,


2008

SHAH, Iban. The Sufis. Octagon Press, 1982.

SECKLER, Phyllis. The Thoth Tarot, Astrology & Other Selected Writings, Teitan
Press/COTNC, 2010.

SYMONDS, John. King of the Shadow Realm. Duckworth, 1989.

47
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Notícias da Linha de Frente

Curso de Meditação

O curso de meditação da SETh ainda está com as inscrições


abertas. Sua participação no curso requer algumas condi-
ções:

1. Caso você seja aluno direto de Frater ON120 na


A∴A∴, sua participação no curso está liberada sem
ônus algum.
2. Caso você seja membro do Colegiado da Luz Hermé-
tica, sua participação no curso está liberada sem
ônus algum.
3. Caso você tenha adquirido as obras de Frater
ON120, sua participação no curso está liberada sem
ônus algum.
4. Caso você não se enquadre nas três condições
acima, será necessário pagar uma taxa de R$93 para
participar do curso.

Para fazer seu cadastro ou para se inscrever como ouvinte no curso, entre em contato com
o editor do Corrente 93.

Robes de qualidade

A Sociedade de Estudos Thelêmicos disponibiliza


robes de qualidade para os Irmãos da A∴A∴,
Ordo Templi Orientis e outras organizações the-
lêmicas.

 Robe do Probacionista R$280.


 Robe do Neófito: R$230.
 Robe do Zelator: R$230.

Robes com características distintas podem ser


encomendados. Entre em contato com o editor
do Corrente 93 e faça um orçamento sem com-
promisso.
Os robes são em alta qualidade, de brim e
bordados bem detalhados.

48
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Colegiado da Luz Hermética

O Colegiado da Luz Hermética é a Ordem Externa da SETh, Sociedade de Estudos Thelêmicos.


Representa o Seis primeiros Graus da Ordem. A SETh foi estabelecida a Serviço da A∴A∴,
constituindo um Colegiado Iniciático formulado para prover treinamento aos Candidatos
que aspiram Iniciação na A∴A∴. O trabalho é individual, mas é dada a opção de trabalho
coletivo e a formação de Grupos de Estudo, Santuários e Templos.

HOMEMDATERRA
Colegiado da Luz Hermética

Probacionista 0°=0⌷

O Probacionista é qualquer pessoa adulta, livre, acima


de 21 anos que tenha concordado em executar uma
prática espiritual diária e sistemática pelo período de
um ano, mantendo um diário mágico detalhado sobre a
prática. Os Sinais do Probacionista são os de Hórus e
Hoor-paar-Kraat. O Probacionista se encontra no Um-
bral da Ordem e após um ano de período probatório ele
pode requerer admissão ao Primeiro Grau de Neófito.
Sendo admitido, ele assina o Juramento.

Neófito 1°=10

O Neófito é um Iniciado do Primeiro Grau do Colegiado


da Luz Hermética. Este Grau representa Malkuth na Ár-
vore da Vida e o Elemento Terra. O Sinal de Neófito é o
Sinal da Besta ou Baphomet.

Currículo do Neófito:

1. Formulação, construção e consagração do Pantáculo da Terra.


2. Ritual Maior do Pentagrama da Terra.
3. Assunção de forma divina da deidade egípcia da Terra.
4. Ritual da Saída do Umbral.
5. Ascensão nos planos obtendo a visão do Espírito da Terra.
6. Pathworking: Caminho 32 (Tav).
7. Scrying no Aethyrs 30 (TEX).

Zelador 2°=9⌷

O Zelador é um Iniciado do Segundo Grau do Colegiado da Luz Hermética. Este Grau corres-
ponde a Yesod na Árvore da Vida e o Elemento Ar. O Sinal de Zelador é o Sinal de Lilith-
Astaroth.

49
Sociedade de Estudos Thelêmicos Corrente 93 No. 4
Currículo do Zelador:

1. Formulação, construção e consagração da Adaga do Ar.


2. Ritual Maior do Pentagrama do Ar.
3. Assunção de forma divina da deidade egípcia do Ar.
4. Ritual do Khu Perfeito.
5. Ascensão nos planos obtendo a visão do Espírito do Ar.
6. Pathworking: Caminho 31 (Shin) e 30 (Resh).
7. Scrying nos Aethyrs 29 (RII) e 28 (BAG).

Prático 3°=8⌷

O Prático é um Iniciado do Terceiro Grau do Colegiado da Luz Hermética. Este Grau corres-
ponde Hod na Árvore da Vida e o Elemento Água. O Sinal do Prático é o Sinal de Ísis a Mãe
das Estrelas.

Currículo do Prático:

1. Formulação, construção e consagração do Cálice da Água.


2. Ritual Maior do Pentagrama da Água.
3. Assunção de forma divina da deidade egípcia da Água.
4. Ascensão nos planos obtendo a visão do Espírito da Água.
5. Pathworking: Caminho 29 (Qoph), 28 (Tzaddi) e 27 (pé).
6. Scrying nos Aethyrs 27 (ZAA) e 26 (DES).

Filósofo 4°=7⌷

O Filósofo é um Iniciado do Quarto Grau do Colegiado da Luz Hermética. Este Grau equivale
Netzach na Árvore da Vida e o Elemento Fogo. O Sinal de Filósofo é o Sinal de Tifon.

Currículo do Filósofo:

1. Devoção a alguma deidade - iṣtā-devatā (bhakti-yoga).


2. Formulação, construção e consagração da Baqueta do Fogo.
3. Ritual Maior do Pentagrama do Fogo.
4. Assunção de forma divina da deidade egípcia do Fogo.
5. Ascensão nos planos obtendo a visão do Espírito do Fogo.
6. Scrying nos Aethyr 25 (UTI).

Dominus Liminis (Senhor do Umbral)

O Dominus Liminis é um Iniciado do Quinto Grau do Colegiado da Luz Hermética que está
no período probatório para entrar na Segunda Ordem R.R. et A.C. Este Grau corresponde ao
Caminho de Pé na Árvore da Vida, conhecido na Ordem como O Portal. O Sinal do Dominus
Liminis é o Sinal da Caveira de Ossos Cruzados.

Currículo do Dominus Liminis:

1. Formulação, construção e consagração de um talismã planetário.


2. Ritual Supremo de Invocação do Pentagrama.
3. Ascensão nos planos da Estrela que regula o Sol (signo ascendente).

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4. Ritual Enochiano do Elixir da Vida
5. Pathworking: Caminho 26 (Ayin), 25 (Samekh) e 24 (Nun).
6. Scrying no Aethyrs 24 (NIA).

Admissão ao Colegiado da Luz Hermética.

Caso tenha interesse em participar da Ordem, envie uma carta em PDF seguindo as instru-
ções:

1. Faça um breve relato sobre sua busca espiritual. Estudos, práticas e a relevância
desse processo na magia e no ocultismo.
2. Faça uma lista de vinte livros que já estudou na área da magia e ocultismo em geral;
cite os mais relevantes em sua iniciação e faça uma breve resenha do livro mais im-
portante para você.
3. Na carta, coloque todos os seus dados: endereço (físico e eletrônico), data de nasci-
mento, afiliação, profissão, telefone e anexe uma cópia de seu CPF, RG e compro-
vante de residência.

Toda a comunicação da Ordem se dá através de documentos em PDF via e-mail e por correio
convencional.

Após o envio de sua aplicação de afiliação, a Ordem irá notificá-lo em cinco ou dez dias, após
a avaliação de seu pedido. Se ele atender os nossos requisitos, você será admitido ao período
probatório, devendo manter uma prática espiritual sistemática por um período de um ano,
com entradas diárias no diário mágico.

Sua aplicação de afiliação pode ser enviada por e-mail, em PDF. Caso queira enviar carta via
correios, escreva para:

a Secretária,
Av. Barão do Rio Branco, 3652/14, Passos
Juiz de Fora – MG
36025 020
srikulacara@gmail.com

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