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CATEGORIAS

Título original:
Katêgoriai
Autor:
Aristóteles
Colecção:
Pensamento e Filosofia
Direcção de António Oliveira Cruz
Tradução:
Maria José Figueiredo
Capa:
Dorindo Carvalho
© Instituto Piaget, 2000
Direitos reservados para a língua portuguesa:
INSTITUTO PIAGET
Av. João Paulo II, lote 544, 2.° - 1900-726 Lisboa
Telef. 21 831 65 00
E-mail: piaget.editora@mail.telepac.pt
Paginação:
Jacinto Macau
Montagem, impressão e acabamento:
Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda.
Depósito legal n.° 157 770/2000
ISBN - 972-771-326-2

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CATEGORIAS

A R IS T Ó T E L E S
Introdução, tradução, notas e apêndices de
M ariaJ osé Figueiredo

INSTITUTO
PIAGET
INTRODUÇÃO

I. Uma das primeiras e maiores dificuldades com


que depara um leitor das Categorias é a de saber em
que ocorrências está Aristóteles a falar de palavras e
em que ocorrências está a falar de coisas. Há muito
que o problema da distinção entre palavras e coisas
num texto escrito deixou de se pôr. De facto, se lermos
estas duas frases:
1) Portugal é um país de analfabetos
e
2) «Portugal» é um trissílabo,
percebemos imediatamente que em 1) o autor das frases
se refere a algo existente fora da linguagem - o país que
Portugal é - e em 2) à palavra Portugal. E percebemo-lo
porque em 2) é utilizada uma dada notação gráfica, as
aspas, que significam, para os estudiosos e utilizadores
da linguagem, a referência a palavras.
Ora, no grego que Aristóteles escreveu, não exis­
tiam aspas; nem, já agora, acentos, pontos, vírgulas,

9
pontos e vírgula, pontos de interrogação, de excla­
mação, letras maiúsculas e minúsculas, etc. Pior
ainda, as palavras não estavam separadas umas das
outras, o que tornava a escrita um pouco difícil de
decifrar1. Seria pois inteiramente desadequado exigir
que o Estagirita tivesse assinalado graficamente
quando se estava a referir a palavras ou a coisas.
Esta dificuldade é ainda potenciada pelo facto de
o texto das Categorias ser um dos primeiros textos
onde se faz sentir a necessidade filosófica de levar a
cabo tal distinção. Esta necessidade resulta de se
querer determinar, com a maior exactidão possível,
que coisas se considera que existem fora da lin­
guagem e que outras se considera que apenas são
palavras - que podem estar mais ou menos próximas
das coisas que existem.
Claro que esta discussão não é pacífica. Não
podemos dizer com a segurança de sermos aceites
por toda a gente que, enquanto
Portugal
é um país, isto é, uma coisa que existe,
«Portugal»
é apenas uma palavra. Não só porque é possível dizer
que as palavras fazem também parte das coisas que
existem, mas porque há palavras que põem proble­
mas mais complicados do que «Portugal».

1 Era como se estes períodos tivessem a seguinte forma: oranogrego


queAristotelesescreveunaoexistiamaspasnemjaagoraacentospontos
virgulaspontosevirgulapontosdeinterrogacaodeexclamacaoletras
maiusculaseminusculasetcpioraindaaspalavrasnaoestavamseparada
sumasdasoutrasoquetornavaaescritaumpoucodificildedecifrar.

II)
Pensemos, por exemplo, em «homem». Também
podemos encontrá-la em duas frases do tipo das ante­
riores:
3) O homem é um animal racional
e
4) «Homem» é fácil de escrever.
Mas, se no caso de 1) sabíamos perfeitamente que
estávamos a referir-nos a algo existente, a um país
com determinadas dimensões, com uma determinada
população, um solo e um clima com determinadas
características, etc., já em 3) é difícil determinar se
estamos a referir-nos a algo existente ou a uma
abstracção. O que é o homem? Sabemos o que são
homens, conhecemos vários, todos com característi­
cas diferentes, mas saberemos dizer o que é o homem?
Entramos aqui num novo domínio, o dos con­
ceitos, que temos de juntar ao das palavras e ao das
coisas. Os conceitos podem ser referidos por palavras,
por nomes singulares - «homem», «animal», «bran­
co», «justiça» - , mas não são apenas palavras; porém,
também não são coisas, como o são Portugal ou esta
cadeira. Os conceitos têm uma realidade mental, são
o modo como os homens, os seres pensantes, organi­
zam mentalmente todas as coisas existentes em tipos
de coisas. Deste modo, os homens são capazes de
pensar um número infinito de coisas - todas as estre­
las que houve, há e haverá, por exemplo - , sem terem
de pensar em cada uma delas individualmente: pen-
sam-nas todas agrupando-as sob um único conceito e
nomeando-as com uma só palavra.
Assim, voltando às frases enunciadas, temos de:
em 1) estamos a falar de coisas; em 2) e em 4) estamos
a falar de palavras; e em 3) estamos a falar de conceitos.

11
Ora, retomando a frase com que iniciámos este
trabalho, uma das primeiras e maiores dificuldades
com que depara um leitor das Categorias é a de saber
em que ocorrências está Aristóteles a falar de palavras
e em que ocorrências está a falar de coisas - ou ainda
de conceitos, podemos acrescentar agora. A resolução
desta questão é tanto mais importante quanto por ela
passa a nossa possibilidade de dizermos que coisas
considera Aristóteles que existem fora da mente e da
linguagem e que outras coisas considera ele que ape­
nas existem na mente de quem as pensa, sendo que
umas e outras podem ser nomeadas por palavras.
Mas as palavras nada dizem acerca do que se
passa na realidade, a não ser que estejam ligadas
umas às outras. Assim, se dissermos «João», não esta­
mos a descrever coisa alguma; e, nesse caso, o que
dizemos não pode ser classificado como verdadeiro
ou falso. Mas, se dissermos
5) O João é gordo
ou
6) A baleia é um peixe,
estamos a estabelecer relações entre palavras. Ou
seja, estamos a estabelecer uma relação entre «João» e
«ser gordo» e entre «baleia» e «ser peixe». A esta
relação entre palavras, estabelecida através de um
verbo, chamamos uma relação de predicação. Assim,
em 5) estamos a predicar a gordura do João e em 6)
o ser peixe da baleia. «Ser gordo» é portanto um pre­
dicado de «João» e «ser peixe» um predicado de
«a baleia». A estas relações entre palavras, dispostas
de determinada maneira - sujeito-verbo-predicado - ,
chamamos uma proposição.

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Mas só depois de estabelecermos relações entre
palavras é que podemos decidir se as proposições
resultantes descrevem, ou não, adequadamente a
realidade. Se a descreverem, serão proposições ver­
dadeiras; se a não descreverem, serão proposições
falsas. Para decidirmos se uma proposição é ver­
dadeira ou falsa, podemos recorrer a dois tipos de
processos: a verificação empírica e a análise de con­
ceitos. Através do primeiro, que se aplica no caso da
proposição 5), verificamos se o João a que a frase se
refere é, ou não, gordo; se for, a proposição é ver­
dadeira, se não for, é falsa. Através do segundo, que se
aplica no caso da proposição 6), analisamos o conceito
de baleia para vermos se é compatível com o conceito
de peixe; se for, a proposição é verdadeira, se não for,
é falsa. A diferença entre os dois processos é óbvia: a
verificação empírica depende do sujeito concreto ao
qual se aplica o predicado da proposição e portanto
não podemos garantir a verdade ou falsidade desta
senão depois dessa verificação. Já a análise de con­
ceitos é um processo que nos permite declarar se uma
proposição é verdadeira ou falsa, independente­
mente dos sujeitos individuais a que se aplica o seu
predicado.
Mas duas proposições podem ser verdadeiras por
razões diferentes. Se dissermos
7) O Pedro é homem
e
8) O Pedro é aluno do 1 2 ° ano,
parece evidente que a proposição 7) será sempre ver­
dadeira (enquanto o Pedro existir), mas que a propo­
sição 8) só é verdadeira durante algum tempo da

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existência do Pedro (desejavelmente, um ano lectivo).
O que distingue, então, estas duas proposições? O facto
de a primeira descrever uma relação essencial, isto é,
uma relação que não pode deixar de ocorrer (enquanto
existir, o Pedro não deixará de ser homem), enquanto a
segunda descreve uma relação acidental, isto é, uma
relação que pode ocorrer, ou não, que pode ocorrer num
dado momento, para depois deixar de ocorrer, sem que
isso altere a essência de Pedro, isto é, sem que Pedro
deixe de ser o homem que é.
Palavras, coisas, conceitos, predicação e verdade,
essência e acidentes, são tudo questões discutidas nas
Categorias. Este é, como vemos, um texto sobre as
coisas que há, as que podem conceber-se e o modo
como podemos falar delas. E, que saibamos, o
primeiro texto da tradição filosófica ocidental que dis­
cute, sistemática e organizadamente, todas estas
temáticas. Elas encontram-se no cerne das questões
debatidas ainda hoje em disciplinas filosóficas como a
ontologia, a metafísica e a filosofia da linguagem.

II. O texto inicia-se com uma distinção entre três


classes de palavras, distinção essa que só virá a ser uti­
lizada uns capítulos mais adiante; são elas as palavras
homónimas, sinónimas e parónimas. As mais problemá­
ticas são as primeiras, e é por elas que começaremos.
Diz-nos Aristóteles que palavras2 homónimas são
aquelas que têm a mesma forma, mas designam

2 Aristóteles não fala de palavras homónimas; ele apenas utiliza um


neutro - que é um terceiro género, para além do feminino e do mas­
culino, existente em grego - plural, sem sujeito, que poderia ser cor­
rectamente traduzido por «homónimos», se a forma do português

14
coisas com essências diferentes (la l-2 ). Podemos
encontrar, em português, exemplos disto mesmo:
«canto» tanto pode significar «sítio esconso» como
«acção de cantar»; a palavra utilizada é exactamente a
mesma, mas os dois significados dessa palavra são
diferentes. Porém, o exemplo que Aristóteles dá para
ilustrar a sua definição parece introduzir nela uma
precisão; diz ele que «animal» é predicado homoni-
mamente de um homem real e de um homem pin­
tado; ou seja, que quando dizemos, apontando para o
João e apontando para uma fotografia do João: «ele é
um homem», estamos a dizer duas coisas diferentes,
porque a essência da fotografia não é a mesma que
a essência do João (ou, para sermos mais precisos, a
essência do João em fotografia não é a mesma que
a essência do João em carne e osso).
Ora, «canto» e «homem», sendo palavras que per­
tencem a uma mesma classe, pelo facto de poderem
ser ambas predicadas homonimamente, distinguem-
-se uma da outra nas suas aplicações homónimas.
De facto, no primeiro caso, a palavra - «canto» - é a
mesma para coisas que, não tendo a mesma essência,
também nada têm a ver uma com a outra; já no
segundo caso a situação é diferente, uma vez que
apenas podemos dizer da fotografia de um homem
que é um homem porque ela representa um homem, o
que significa que as duas utilizações da palavra têm

não estivesse tão claramente conotada com o masculino; mas, como


na nossa língua não há neutro, e o masculino é a forma da generali­
zação, essa é a tradução habitualmente utilizada.
De qualquer maneira, Aristóteles só pode estar a falar de palavras e
não de coisas, por razões que se tornarão claras já adiante.

15
alguma relação entre si. Assim, se a definição de
homonímia contemplava uma grande amplitude de
casos - todos aqueles em que os significados das
palavras homónimas não são os mesmos - , o exemplo
que ilustra essa definição leva-nos a limitar os casos
que podemos considerar homónimos àqueles em que
os significados das palavras estejam, de alguma
forma, relacionados. Uma maneira de resolvermos
esta dificuldade é considerar a segunda situação
como um caso particular da primeira, e concluir que,
sempre que a mesma palavra estiver a ser predicada
homonimamente de duas coisas, as essências dessas
duas coisas têm de ser diferentes e podem ter, mas não
têm de ter, alguma coisa a ver uma com a outra.
Toda esta discussão sobre palavras levanta, porém,
um problema: se as palavras designam as coisas, e se
um sítio esconso nada tem a ver com a acção de can­
tar, por que razão dispomos, em Português, de uma
única palavra para designar as duas coisas?
Podemos dar a esta pergunta uma resposta resul­
tante da análise linguística, baseada na etimologia das
palavras, que não nos interessa aqui; ou podemos
dar-lhe uma resposta filosófica, que consiste em dizer
que isso acontece porque as palavras não têm um sen­
tido fixado por natureza, mas arbitrariamente e por
convenção3. Ou seja, não há nenhuma relação natural
- e portanto fixa, permanente, inalterável - entre os
sons ou as letras da palavra «canto» e qualquer dos
significados que lhe estão adscritos: «sítio esconso» e

3 É isto mesmo que Aristóteles defende no seu tratado Da Interpretação


(ver especialmente os capítulos 1 e 2).

16
«acção de cantar»; de facto, o mesmo significado
podia ser transmitido por qualquer outra palavra e a
palavra «canto» poderia, por sua vez, transmitir um
significado completamente diferente daqueles dois
que lhe reconhecemos. E esta arbitrariedade de
atribuição de sentidos - que depois é limitada pela
convenção, pelo acordo implícito entre os utilizadores
de uma língua, que fixam os significados de uso das
palavras, senão não se entenderiam uns com os outros
- que justifica que a mesma palavra tenha sentidos
completamente diferentes, que podem, mas não têm
de estar relacionados entre si. A homonímia é, pois,
um problema de palavras, resultante do processo de
instituição da linguagem. Isto significa que não está
na natureza das coisas poderem ser nomeadas, indi­
ferentemente, por esta ou aquela palavra, mas na
natureza da linguagem, já que os utilizadores de cada
língua organizam arbitrariamente o número de sons
de que dispõem para nomearem as coisas de que
querem falar.
Já as palavras sinónimas e parónimas não parece
levantarem grandes dificuldades. São palavras sinó­
nimas aquelas que são aplicadas a coisas diferentes,
mas significando a mesma coisa nas duas aplicações
(la6-7); assim, se dissermos (e é este o exemplo do
texto) que o homem é um animal e que o boi é um
animal, não temos de atribuir, nos dois casos, sentidos
diferentes a «animal», porque o homem e o boi
comungam essencialm ente da animalidade, são
ambos, por essência, animais. A paronímia consiste
na derivação de palavras a partir de uma primeira
enunciação (lal2-13).

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Nestes dois casos, a multiplicidade de atribuições
resulta, já não directamente da convencionalidade,
mas da estrutura da linguagem. Assim, «corajoso» está
linguisticamente próximo de «coragem» (la l5 ) porque
a nossa linguagem se estrutura de tal maneira, que nos
permite constituir, conceptualmente, agrupamentos
de coisas. Por outro lado, chamamos animal ao homem
e ao burro porque a estrutura da nossa linguagem nos
permite ir agrupando os conceitos em conjuntos de
cada vez maior amplitude e abrangência, conforme
vamos detectando as propriedades significadas por
esses conceitos que as coisas têm em comum. A depen­
dência da estrutura da nossa linguagem relativamente
à estrutura da realidade parece ser, aqui, mais óbvia.
No entanto, enquanto tais, a sinonímia e a paronímia
resultam, não da essência que as coisas têm em
comum, mas do facto de as nomearmos. São, portanto,
as palavras, e não as coisas, que são homónimas, sinó­
nimas e parónimas.

III. Antes de entrarmos no tema fundamental das


Categorias, precisamos ainda de referir mais algumas
noções. Diz-nos Aristóteles que «de entre as coisas
que se dizem, umas dizem-se com ligação, outras sem
ligação» (la6-17); e explica-nos que se dizem sem liga­
ção as coisas que se dizem isoladamente, as palavras
que não estão ligadas a outras, como «homem»,
«corre» (la l9 ). E que se dizem com ligação as palavras
que estão ligadas umas às outras, formando
proposições, como «o homem corre» (la l8 ).
Já atrás abordámos esta problemática, e vimos
também que a importância desta distinção resultava

18
do facto de apenas das proposições se poder dizer
que são verdadeiras ou falsas. É isto mesmo que
Aristóteles diz no capítulo seguinte (2a4-10). Mas
poderá qualquer tipo de ligação entre palavras ser
considerada uma proposição, e ser verdadeira ou
falsa? Por exemplo, será
9) Este grande boi e pesado
uma proposição? Poderemos dizer acerca dela que é
verdadeira ou falsa? E evidente que não, e é igual­
mente evidente que isso não resulta apenas da orde­
nação das palavras4, mas sim da ausência de um certo
tipo de palavras. Quais são elas? E uma vez mais no
tratado Da Interpretação que podemos encontrar
resposta para estas questões.
Nessa obra, diz-nos Aristóteles que «é necessário
que todas as proposições contenham um verbo»5
(17al0-ll). Percebemos, então, que o que falta a 9) é um
verbo. E qual é a sua função? Responde Aristóteles:
«Uma proposição simples é um som significativo
acerca da pertença ou não pertença de algo a algo»
(17a23-24). O que significa que uma proposição
exprime, através do seu verbo, que algo - um determi­
nado atributo - pertence ou não pertence (no primeiro

4 Embora esse factor seja, em português, significativo, de tal maneira


que «o boi come o rapaz» e «o rapaz come o boi» são proposições que
têm significados diferentes, apenas por terem uma diferente orde­
nação de palavras. Por outro lado, se dissermos «o bife é grande»,
compreendemos perfeitamente o que isso significa, enquanto temos
mais dificuldade em compreender o significado de «o grande é bife».
Em grego, porém, a ordenação das palavras é completamente arbi­
trária, já que a sua função na frase é determinada pela sua forma e
não pela posição relativa que ocupam.
5 Para a definição de «verbo», ver o capítulo 3 do Da Interpretação.
caso, a proposição é afirmativa, no segundo é negativa)
a algo - a um determinado sujeito. Assim, se lhe acres­
centarmos um verbo (e ordenarmos os seus elemen­
tos), 9) pode ser transformada numa proposição6:
10) Este boi é grande e pesado.
A forma verbal «é» permite, então, estabelecer que
os atributos «grande» e «pesado» pertencem ao
sujeito «este boi».
Uma vez alcançada a proposição, estamos em
condições de decidir se ela é verdadeira ou falsa. Ora,
«a verdade consiste em pensar que está separado o
que está separado e que está junto o que está junto»
(M etafísica, 1051b3-4); neste caso, 10) será uma
proposição verdadeira se os atributos «grande» e
«pesado», que a proposição afirma estarem juntos ao
sujeito «este boi», estiverem de facto juntos a esse
sujeito. Esta parece ser uma maneira muito compli­
cada de dizer outra coisa mais simples: que a verdade
consiste em dizer que as coisas são como na realidade
elas são. A complicação na formulação tem, no en­
tanto, uma vantagem: permitir-nos articular todo o
nosso raciocínio em função das temáticas que a seguir
dicutiremos. Porque o que de facto nos interessa é
saber o que são esses atributos, esses predicados, que
tipos de predicação podemos efectuar com eles, o que
é o sujeito, e que proposições são aceites como válidas
com base na noção de predicação estabelecida. E isto
que veremos em seguida.

6 Neste caso, uma proposição afirmativa. A correspondente proposi­


ção negativa, que nos diria que os atributos não pertencem ao
sujeito seria naturalmente «este boi não é grande e pesado».

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IV. Os raciocínios que fizemos acerca das
proposições e da sua verdade ou falsidade não nos
impedem, no entanto, de considerar que, antes de se
ligarem umas às outras, as palavras têm já um signifi­
cado. O que Aristóteles avança no capítulo 4 é que,
para além do seu significado próprio, as palavras
podem ser agrupadas, conforme o tipo de coisa que
cada uma delas significa. Assim, a. «amanhã», b. «no
ano em que eu nasci»7, c. «na Lua», d. «em minha
casa», e. «o pai do Miguel», f. «a sogra da Raquel», etc.,
são palavras que, significando coisas diferentes,
podem ser agrupadas pelo facto de o que significam
expressar o tempo (a. e b.), o lugar (c. e d.) ou a
relação (e. e f.).
Ora, Aristóteles faz uma súmula dos diferentes
tipos de coisas que as palavras exprimem; são elas: a
quantidade, a qualidade, a relação, o lugar, o tempo, a
posição, a posse, a acção e a paixão8 (lb26-27) - deixá­
mos de lado, para já, a substância, que iremos abordar
separadamente, mais à frente. Assim, quando eu digo
11) O Sr. Godinho é o pai do Miguel,
estou a dizer que o sujeito «o Sr. Godinho» acolhe o
atributo, ou predicado, «ser pai do Miguel», predica­
do esse que exprime a relação. E o mesmo se aplica a
cada um dos outros atributos deste género, de que
Aristóteles dá exemplos bastante elucidativos.

7 Não sendo, em sentido estrito, uma palavra isolada, a expressão «no


ano em que eu nasci» também não pode, pelos critérios anterior­
mente apresentados, ser considerada uma proposição. As expressões
deste género ficarão, pois, para os efeitos que aqui nos interessam,
colocadas no grupo das palavras isoladas.
8 Ou, para sermos mais precisos, a passividade.

21
Como já vimos no ponto I desta introdução, há
dois tipos de atribuições, as essenciais e as acidentais.
O que temos agora são todos os tipos de atribuições
acidentais que podemos fazer. Ou seja, sempre que
exprimirmos com as nossas atribuições a quantidade,
a qualidade, a relação, etc., sabemos que a atribuição
que estamos a fazer é uma atribuição acidental, isto é,
que não exprime o carácter próprio do sujeito desta
atribuição, mas apenas uma coisa que lhe acontece9, e
que pode deixar de acontecer-lhe, sem que por isso
ele deixe de ser o sujeito que é. Ou talvez o raciocínio
deva ser feito ao contrário: sempre que fizermos uma
atribuição que não exprima o carácter próprio do seu
sujeito, ela poderá ser reduzida a um dos nove tipos
de predicação acidental.
Assim sendo, o valor de verdade de uma proposição
cujo predicado exprima um acidente não é perma­
nente, já que, mantendo-se o sujeito, os seus acidentes
podem mudar constantemente. Esta é outra das carac­
terísticas da predicação acidental: poder ser alternada­
mente verdadeira ou falsa, ainda que o sujeito perma­
neça o mesmo. E por isso que, como atrás dissemos, a

9 «Acidente» traduz o termo latino accidens, que deriva do verbo acci-


do, que significa, entre outras coisas, «acontecer». Um acidente é,
portanto, uma coisa que acontece.
Embora tenham a sua origem na língua grega, muitos termos filosó­
ficos que usamos em português chegaram-nos por via do latim, que
primeiro traduziu os textos gregos. Convém recordar que, como
todas as outras, também as traduções latinas são suportadas por
interpretações, e que a nossa utilização de determinados termos não
tem de comprometer-nos com as interpretações dos autores latinos
que os cunharam. Usamo-los porque se tornaram termos consagra­
dos na linguagem técnica da filosofia.

22
atribuição de verdade ou falsidade às proposições que
exibem este género de relação depende da verificação
empírica; porque o mesmo sujeito pode deixar de ter o
atributo referido pela proposição.
A ideia de dividir as predicações em acidentais e
essenciais, que nos parece tão evidente, é uma ideia de
Aristóteles. É ele o primeiro a descobrir que as coisas
que podem dizer-se de um sujeito não estão todas ao
mesmo nível, e a estabelecer uma tipologia do acidente.
Esta distinção virá a revelar-se de capital importância
para a compreensão do problema do movimento, da
mudança, como adiante perceberemos.

V Passemos então ao problema da substância.


Encontramos nas Categorias três maneiras de conceber
a substância. Duas delas estão explicitamente tratadas;
a terceira, não estando explicitada, é fundamental para
a compreensão do que se está a discutir. São elas a
substância primeira, a substância segunda e a essência.
As substâncias primeiras são os indivíduos: «um
certo homem, um certo cavalo» (2al3-14). São os indi­
víduos concretos, determinados, realm ente exis­
tentes, com a série de características que pertence a
cada um deles.
As substâncias segundas são os géneros e as espé­
cies nos quais estes indivíduos podem incluir-se. Os
géneros e as espécies são conceitos, que exprimem
características essenciais dos indivíduos. Não existem
fora da mente, sendo antes o modo humano de pen­
sar unificadamente, por classes, todas as coisas que
há, e simultaneamente de distinguir umas das outras
as classes de coisas que há.

23
Assim, o género em que podem incluir-se os
homens é o género animal e a espécie em que podem
incluir-se é a espécie homem. Ora, dentro do género
animal, podemos encontrar uma imensa diversidade
de espécies. Mas, se todos os animais partilham de
modo essencial a mesma característica da animali­
dade, como distingui-los? Naturalmente, através de
outra característica essencial que apenas os da mesma
espécie têm em comum, a diferença específica; no
caso do homem, essa característica é a racionalidade.
Assim, temos que «animal» se predica essencialmente
de todos os animais, permitindo distingui-los de tudo
o que não é animal; e «racional» se predica essencial­
mente de todos os homens, permitindo distingui-los
de todos os animais que não são racionais. Quando
nos referimos à espécie - «homem», por exemplo - ,
estamos pois a referir-nos, sim ultaneam ente, ao
género e à diferença específica.
O que faz a diferença específica é, para falarmos
de modo gráfico, introduzir um dado recorte no pano
de fundo que é o género, separando a parte do
género que lhe interessa. De facto, se um cão e um
homem são ambos animais, eles são animais de
maneira distinta; ora, essa distinção na assunção do
carácter essencial que é o género é promovida pela
diferença específica. Deste modo, torna-se evidente
que as diferenças específicas que recortam o fundo
que é cada género são apenas as que esse género per­
mite, as que estão nele implicitamente10 contidas, e

10 Ou, em linguagem aristotélica, potencialmente. Para uma discussão


da teoria da potência e do acto, ver o livro IX da Metafísica.

24
que vão ser explicitadas na espécie11. De facto,
«pedestre» ou «alado» são diferenças específicas de
«animal», mas não de «ciência» (cf. lbl8-20), pois não
encontramos implícitas na noção de ciência as carac­
terísticas «ter pés» e «ter asas», que encontramos na
noção de «animal», e que poderão depois ser explici­
tadas nas várias espécies de animais pedestres e ani­
mais alados12.

11 Este mesmo raciocínio aplica-se à relação entre géneros, espécies e


acidentes; cada indivíduo só pode ter os acidentes que a sua essên­
cia - expressa pela pertença a um género e a uma espécie - lhe per­
mite ter; é por isso que, se «um certo homem é gramático, desse
modo, tanto o homem como o animal são gramáticos» (3a4-5), ou
seja, se um certo homem pode aprender gramática, é porque a posse
desse acidente está potencialmente contida na espécie a que ele per­
tence - e será depois actualizada por ele - , e se está contida na espé­
cie também está contida no género.
12 A classificação em géneros e espécies pode ter várias ramificações,
até se chegar à ínfima espécie, que é aquela que se divide, imedia­
tamente, em indivíduos. O esquema genérico é o seguinte:
género -

df® esp® 1 dif® esp® 2 - dif® esp® n


1 I I
espécie 1 •espécie 2 - espécie n
I
dif® esp® 2.1 dif® esp® 2.2 dif® esp® 2.n
I I
subespécie 2.1 subespécie 2.2 subespécie 2.n
(...)
ínfima espécie
indivíduos
Naturalmente que a espécie 2, sendo, por sua vez, dividida em
novas espécies, funciona, relativamente às subespécies 2.1, 2.2 e 2.n,
como um género, subordinado ao primeiro; ou seja, a classificação
entre géneros e espécies é relativa: cada género é género em relação
às espécies que lhe estão subordinadas e espécie em relação ao
género subordinante.

25
Mas nada disto se passa senão a nível conceptual,
de classificação. Na realidade, nada há que seja, sub­
sistente e autonomamente, o género animal ou a
diferença específica racional ou a espécie homem;
tudo isto são características que encontramos nos
indivíduos e que nos permitem considerar que, por
exemplo, um cão tem, essencialm ente, mais em
comum com um homem do que com uma macieira.
Ora, recordando o que atrás estabelecemos (em II),
podemos agora dizer que o mesmo predicado é atri­
buído sinonimamente a dois sujeitos quando esses
sujeitos partilham o mesmo género ou a mesma dife­
rença específica (que o mesmo é dizer que partilham
a mesma espécie). Sempre que não estivermos a falar
de um predicado que seja definitório dos sujeitos de
que se predica, não podemos dizer que a predicação
seja sinónima. Assim, se eu disser
12) O meu irmão é inteligente
e
13) O meu cão é inteligente,
estou a predicar «inteligente» homonimamente de
ambos os sujeitos, porque em 12) o predicado expri­
me a posse de uma característica que é definitória do
sujeito, a racionalidade, e em 13) não13.
Mas, se as substâncias segundas, os géneros e as
espécies, são conceitos, que tipo de realidade espelham
eles? O que eles espelham são naturalmente as carac­
terísticas essenciais das coisas. Essas características, que
podem ser universalizadas14 e vistas enquanto comuns

13 Isto supondo, naturalmente, como Aristóteles considerava, que a


racionalidade não é partilhada por nenhuma outra espécie animal.
14 Através da indução, processo descrito por Aristóteles em Analíticos
Posteriores, 97b8ss. e 100a3ss.

26
a todos os indivíduos da mesma espécie ou do mesmo
género, pertencem, no entanto, a cada um individual­
mente, e são, em cada substância primeira, aquilo que
nunca pode ser alterado (excepto com a morte ou a
destruição). Encontramo-nos perante uma daquelas
situações em que temos de distinguir o que existe na
realidade daquilo que apenas é pensado (e dito); exis­
tem na realidade as substâncias primeiras e são reais as
suas essências; são apenas pensadas (e ditas) as subs­
tâncias segundas que, no entanto, reflectem as essên­
cias reais dos indivíduos.
Mas, quando dizemos que as essências das coisas
são reais, não queremos com isso dizer que a essência
de cada coisa existe, por si só. Para melhor entender­
mos o que isto significa, convém que comecemos por
estabelecer o que significa «existir». Esta não é uma
dificuldade para que Aristóteles nos possa dar uma
grande ajuda, porque apenas dispõe de um verbo
- einai - para exprimir três coisas diferentes:

a) A identidade: «A é A» («a Filipa é a Filipa»);


b) A predicação: «A é x» («a Filipa é bonita»);
c) A existência: «A existe» («a Filipa existe»).

Têm de ser os tradutores a decidir quando vão


usar, em português (ou em qualquer outra língua),
«é» ou «existe». Para isso, precisam de apresentar um
critério que valide as diferentes traduções da mesma
palavra.
Um critério possível - e o aqui utilizado - para se
determinar quando se está a falar de existência é
dizer-se que esta significa a subsistência autónoma,

27
independente, separada de qualquer outra entidade,
de uma dada coisa. Ora, se aceitarmos esta estipu­
lação, compreendemos que as únicas substâncias de
que podemos dizer que existem são as substâncias
primeiras, os indivíduos, pois apenas esses subsistem
independentemente uns dos outros. Já as essências
desses indivíduos, sendo embora reais - são algumas
das características que constituem as substâncias
primeiras - , não subsistem independentemente das
outras características - as acidentais - que lhes estão
associadas. Quanto às substâncias segundas, sendo
conceitos, é natural que não possam subsistir inde­
pendentemente da mente que os considera.
Em todo este quadro, há apenas um pequeno pro­
blema que temos que resolver: é que em lado ne­
nhum das Categorias diz Aristóteles que a essência é
um terceiro sentido em que a noção de substância
deve ser considerada. Mais ainda, é sempre o mesmo
termo - ousia - que traduzimos, ora por substância
(primeira ou segunda, conforme as especificações do
próprio texto15), ora por essência16. Não havendo
qualquer indicação textual nesse sentido, só a nossa

15 Prôtôs ousia e deutera ousia, «substância dita de modo primeiro» e


«substância segunda».
16 Tanto «substância» como «essência» nos chegaram por via latina.
«Substância» traduz substantia, que deriva do verbo substo, que signi­
fica «estar sob», e que traduz literalmente, não ousia, mas
hupokeimenon, que é, como veremos, um modo de tomar a substân­
cia, como substracto. «Essência» traduz essentia, que deriva do verbo
esse, «ser», e é o termo que está etimologicamente mais próximo de
ousia, pela proximidade deste substantivo grego relativamente ao
verbo einai (ver atrás, nota 9).

28
interpretação nos permite esta ousadia. Vejamos
então por quê.
Comecemos por recorrer às estipulações que
Aristóteles faz no capítulo 2 (la20ss.), resumidas no
seguinte quadro (a que podemos chamar o quadro
geral da predicação e da inerência):

Diz-se do sujeito Não se diz do sujeito

Está no sujeito Acidentes universais Acidentes particulares


(Ex: ciência) (Ex: esta ciência)

Não está no sujeito Universais Particulares


(Ex: homem) (Ex: este homem)

Para lermos o quadro, comecemos por ler as suas


coordenadas. Já sabemos que «diz-se do sujeito» é
uma expressão que refere a relação de predicação.
Mas o que significa «está no sujeito»? É Aristóteles
quem nos responde: «quando digo que algo está num
sujeito, refiro-me àquilo que está em algum sujeito
não estando nele como parte, e ao qual é impossível
existir separadamente do sujeito no qual se encon­
tra.» (la24-25) Ou seja, estão num sujeito aquele tipo
de entidades17 que não podem subsistir por si mes­
mas, mas apenas no sujeito no qual inerem (ou no
qual estão). Estas entidades são os acidentes, aquelas
características que um sujeito pode ter ou deixar de

17 Ou modos de ser. Uma vez que, como Aristóteles diz na Metafísica


(1003a33), «o ser se diz de muitas maneiras», o ser como substância
e o ser como acidente, o ser como universal e o ser como particular,
etc., são modos de ser. Isso mesmo é confirmado pela forma como o
Estagirita introduz, nas Categorias, os elementos que formam este
quadro: «De entre as coisas que são...» (Ia20).

29
ter sem deixar de ser aquilo que é18. Já sabíamos que
as características de um dado ser se podiam dividir
em essenciais e acidentais, o que não sabíamos era
que os acidentes tinham uma relação de inerência
com os seus sujeitos.
Esta relação de inerência, que é uma relação ôn-
tica, e não apenas linguística, é outra maneira de dis­
tinguir as características constantes das características
passageiras das coisas. E é também uma maneira de
mostrar que a mudança das características passa­
geiras não altera essencialmente as coisas, porque há
um fundo, um substracto permanente que suporta
toda a mudança, todas as alterações. Ora, é a esse
substracto permanente em que inerem os acidentes,
que não é, nem as substâncias primeiras nem as subs­
tâncias segundas, que chamamos essência. E dizemos
que se trata de um terceiro sentido de substância,
implícito, mas não discutido, nas Categorias, porque
Aristóteles também afirma que a ousia é o sujeito da
inerência (2b5). Ora, sendo a inerência uma relação
real, não podem ser as substâncias segundas, que são
conceitos, os sujeitos referidos. Mas também não
podem sê-lo as substâncias primeiras, porque essas,

18 E por esta razão, por não descreverem a essência daquilo em que


inerem, que, como atrás vimos, os acidentes não são predicados
sinonimamente dos seus sujeitos. Aristóteles diz mesmo que «de
entre as coisas que estão num sujeito, a maioria das vezes, nem o
nome nem a definição são predicados do sujeito; quanto a alguns,
porém, nada proíbe que o nome seja, por vezes, predicado, mas é
impossível que a definição o seja» (2a27-31). De facto, não dizemos
«Esta folha de papel é brancura» (que é o nome próprio do acidente
que há nela, o branco), e muito menos predicamos a definição de
brancura, que é uma dada cor, da folha de papel.

30
os indivíduos, já são compostos de características
essenciais e acidentais. Portanto, aquilo que é no indi­
víduo o substracto dos acidentes é a essência.
Assim sendo, temos que as substâncias primeiras
são compostos de essência e de acidentes; por abs­
tracção das suas características essenciais, é possível
agrupá-las em géneros e espécies, que são as substân­
cias segundas. Os acidentes têm com a essência uma
relação de inerência; as substâncias segundas têm
com as substâncias primeiras uma relação de predi­
cação. Mas, se a essência é o sujeito de inerência dos
acidentes, é a substância primeira como um todo que
é sujeito de predicação. Deste modo, se eu disser:
14) O Vasco é alto
e
15) O Vasco é homem,
o sujeito de 14), que exprime uma relação de inerên­
cia, é a essência do Vasco e o sujeito de 15), que
exprime uma relação de predicação, é todo o indiví­
duo, embora a proposição só refira algumas das suas
características (a animalidade e a racionalidade, ou
seja, a humanidade, como atrás vimos).
Mas a relação de inerência permite-nos também
estabelecer uma hierarquia entre as diversas carac­
terísticas, já que essa relação exprime uma dependên­
cia; de facto, são os acidentes que inerem no sujeito
(na substância, enquanto sujeito), e não é este que
inere nos acidentes. Ou seja, na ordem do ser, a subs­
tância é prioritária, relativamente ao acidente, porque
na concepção do acidente entra a necessidade de
inerir numa substância e na concepção da substância
não entra a necessidade de inerir em coisa alguma.
Significa isto que existem substâncias sem acidentes?
Como já dissemos, no mundo em que nos movemos,
que é um mundo de substâncias compostas, não exis­
tem substâncias sem acidentes. Mas podem existir. De
facto, Deus, a ser uma substância19, será uma substân­
cia sem acidentes. O que não existe, nem pode existir,
são acidentes que não estejam em nenhuma substân­
cia. E por isto que a substância é onticamente priori­
tária, em relação aos acidentes. Mas é também pelo
facto de neste mundo se não encontrarem essências
sem acidentes que reservamos para os indivíduos,
para as substâncias primeiras, a noção de existência,
que significa, como atrás estabelecemos, a subsistên­
cia autónoma, independente, separada de qualquer
outra entidade, de uma dada coisa.
Depois deste excurso, regressemos então à leitura
do quadro geral da predicação e da inerência.
Percebemos desde logo que o que se diz de um sujeito
é o que é universal, sendo particular o que não pode
dizer-se de outra coisa20. Esta é uma característica da

19 Questão difícil de decidir; mas ver Metafísica, XII.


20 O particular não se pode dizer de outra coisa, seja substância ou aci­
dente. De facto, quando dizemos «A minha camisa é azul», a palavra
azul que ocorre nesta proposição exprime um universal. E um pouco
difícil, por falta de meios linguísticos adequados, perceber, no caso
dos acidentes, a diferença entre um universal e um particular; mas
podemos dizer que o particular seria, neste caso, o azul que há na
minha camisa, este azul concreto («um certo conhecimento gramati­
cal», «um certo branco», diz o texto: la25-27); não o tom de azul, ou
a sua intensidade, mas o acidente real que pertence à minha camisa
e a nenhuma outra e a faz existir neste momento como camisa azul.
É por abstracção dos azuis existentes em todas as coisas azuis que
podemos chegar ao conceito universal e abstracto de azul.

32
relação de predicação: o predicado tem de ser sempre
um conceito21. Ora, um conceito é uma característica
tomada como universal; é «o homem», se for uma car­
acterística essencial; é «o branco», se for uma carac­
terística acidental; mas nunca pode ser um particular.
Já o sujeito da predicação pode ser um particular
(«esta folha de papel é branca») ou um universal («o
homem é inteligente»).
Percebemos também que está num sujeito o que é
acidental, e que o que é substancial não pode estar em
nenhum sujeito. Já sabemos porquê: porque a relação
de inerência é a relação que se estabelece entre um
acidente e uma substância. Mas também é verdade
que aquilo que é universal não pode estar num
sujeito, porque a relação de inerência é uma relação
real e o que é universal tem uma realidade concep­
tual, não podendo portanto inerir em coisa alguma.
No conjunto destes quatro modos de ser, há um
que parece uma contradição nos termos; referimo-
-nos aos acidentes universais, que estão num sujeito e
se dizem de um sujeito; é que, se estão num sujeito,
são particulares e não podem dizer-se de um sujeito;
mas, se se dizem de um sujeito, são conceitos, e não
podem inerir em nenhum sujeito. A resposta que des­
faz esta contradição consiste em dizer que, ao con-

21 É importante não esquecer a distinção entre predicação e identi­


dade. Dizer «O António é este homem» não é predicar «este
homem» de «o António» - pois «este homem», sendo um particular,
não pode ser predicado (3a36-37) - , mas identificar «o António»
como sendo «este homem». Quanto aos acidentes, naturalmente
não dizemos «Esta mesa é este castanho» nem «Esta mesa é o cas­
tanho que há nela», mas «Esta mesa é castanha».

33
trário do que acontece com os restantes modos de ser,
os acidentes universais se dizem de um sujeito e estão
noutro sujeito; isto é, enquanto acidentes, estão num
sujeito (a ciência está num homem, ou seja, um homem
tem ciência), mas enquanto universais dizem-se de
outro sujeito (a ciência diz-se da gramática, ou seja, a
gramática é uma ciência).
Estabelecida assim a distinção entre substâncias
primeiras, substâncias segundas, essência e acidentes,
podemos agora voltar-nos para a análise que Aristó­
teles faz das substâncias segundas. Diz o filósofo que
«a espécie é mais substância do que o género» (2b7-8).
E justifica a sua afirmação introduzindo dois critérios
de substancialidade, que devem ser discutidos a par
de um terceiro. São eles:

i) A capacidade definitória, isto é, a capacidade de


descrever, o mais adequada e proximamente
possível, o que é a substância (2b7ss.);
ii) O carácter de sujeito de predicação (2bl5ss.);
iii) A capacidade de subsistência separada (já ante­
riormente estabelecida).

Estes critérios de substancialidade deveriam servir-


-nos, por um lado, para distinguir substâncias de não
substâncias e, por outro, para hierarquizar as substân­
cias (a saber, as substâncias primeiras, os géneros e as
espécies), de acordo com a sua maior ou menor con­
formidade com os mesmos critérios. Mas não é bem
isso que se passa. De facto, se as substâncias primeiras
se adequam aos critérios ii) e iii), já não preenchem o
critério i), uma vez que, sendo indivíduos, não podem

34
definir o que quer que seja22. Por outro lado, as espé­
cies adequam-se aos critérios i) e ii) (adequando-se,
até, mais ao critério i) do que o género, já que a espé­
cie descreve directamente o indivíduo que se quer
definir, enquanto o género inclui uma série de outras
espécies), mas não ao iii), uma vez que são conceitos,
e portanto não existem fora da mente que os pensa.
Finalmente, o género apenas se adequa (e menos do
que a espécie, como ficou dito) ao critério i), já que se,
como atrás vimos, os universais podem ser sujeitos de
predicação, eles só podem sê-lo se forem menos
gerais, menos abrangentes, que os predicados, e
nunca se forem mais abrangentes do que estes, como
é o caso do género em relação à espécie. Mas o género
também não se adequa ao critério iii) pelas mesmas
razões pelas quais não se lhe adequa a espécie.
Convém notar ainda que os critérios i) e iii) são
incompatíveis entre si: ou se é substância segunda e
se preenche o critério i), ou se é substância primeira e
se preenche o critério iii)23. A necessidade de manter

22 Definir significa, justamente, descrever a essência de uma coisa, o


que implica incluí-la num género e distingui-la das outras coisas
pertencentes ao mesmo género através da diferença específica.
Deste modo, o indivíduo não serve para definir coisa alguma,
sendo, pelo contrário, ele o definido.
23 Esta incompatibilidade entre os dois critérios poderá resultar da
influência de Platão, que o Estagirita simultaneamente acolhe e recusa.
De facto, Aristóteles considerava que as Formas platónicas eram
impossíveis de conceber, porque eram ao mesmo tempo substâncias
primeiras e substâncias segundas, indivíduos e universais. Ora, ao
manter estes dois critérios, Aristóteles está a ser réu do mesmo tipo de
vício de raciocínio, de que apenas se liberta por considerar que um
deles se aplica às substâncias segundas e o outro às primeiras.

35
os três critérios, e de chamar substâncias - mas segun­
das - aos géneros e às espécies, quando toda a ten­
dência do texto é para considerar os critérios ii) e iii)
os mais adequados e determinantes da substanciali-
dade, poderá resultar de uma certa indecisão por
parte do próprio Aristóteles entre conferir substan-
cialidade, em sentido primeiro, ao indivíduo ou à sua
essência. De facto, a definição de substância primeira
(«a que nem se diz de algum sujeito nem está em
algum sujeito», 2al2-13) não aponta necessariamente
para o indivíduo, sendo esse esclarecimento feito
pelos exemplos («um certo homem ou um certo cava­
lo», 2al3-14). Pelo que o Estagirita poderá ter em
mente, nos raciocínios que faz sobre as substâncias
primeiras, simultânea ou alternadamente, o indiví­
duo concreto e a sua essência.
Ora, a essência é como que a ponte entre a subs­
tância primeira - se tomada como o indivíduo - e as
substâncias segundas, que descrevem essa mesma
essência. E é através das substâncias segundas que
podemos ter uma visão delimitada, organizada,
racional do universo24. E através das substâncias
segundas que pode constituir-se o conhecimento,
distinguindo-se em cada coisa aquilo que pode ser

24 Esta necessidade de conceber o universo de forma delimitada e organi­


zada é vital em todo o pensamento grego. O infinito e o ilimitado é o
que está próximo do caótico. Assim, da mesma maneira que a natureza
busca a ordem - é a ordem - , também os homens, que a Natureza dotou
de racionalidade, procuram descobrir essa ordem intrínseca na
Natureza, que visa um determinado fim, o bem. O pensamento organi­
zado (por exemplo, em classes, detectando características comuns,
procurando a unidade na multiplicidade) é portanto uma expressão da
organização da natureza, uma imposição de ordem ao caos.

3(5
conhecido daquilo que apenas pode ser sensoriado25.
Daí que, interessado em acentuar a importância dos
indivíduos realm ente existentes, mas decidido a
prover o conhecimento humano de meios adequados
de classificação desses indivíduos, Aristóteles tenha
mantido os três critérios de substancialidade acima
apontados, com a intenção de conferir substanciali­
dade, tanto aos indivíduos, como aos universais.
De qualquer maneira, para acentuar ainda mais a
diferença entre substâncias e acidentes, Aristóteles
salienta que só os géneros e as espécies podem ser
considerados substâncias (segundas) - isto é, que os
acidentes não são uma espécie de substâncias (ter­
ceiras), porque a sua natureza é essencialmente dife­
rente da das substâncias, já que não descrevem o que
as coisas são (2b34-37). Além disto, introduz, como já
referimos, uma hierarquia entre as substâncias segun­
das, de acordo com a sua maior ou menor proximi­
dade em relação às substâncias primeiras26, segundo
a qual a substancialidade varia na razão inversa da
generalidade; isto é, quanto mais genérico é um con-

25 Sobre a utilização deste termo, ver nota 51 à tradução.


Para Aristóteles, a única coisa que pode ser objecto de conhecimento
é o que permanece, o que não muda, o que é comum e pode univer-
salizar-se, e isto é a essência dos indivíduos. O que é próprio de cada
um, o que varia e se altera ao longo do tempo, não pode ser senão
sensoriado (ver Analíticos Posteriores, I, 31). Assim, o conhecimento
dos indivíduos, enquanto indivíduos, é impossível. Esta tensão entre
o que é onticamente ou gnoseologicamente prioritário, presente em
toda a filosofia aristotélica, foi já detectada por muitos comentadores.
26 Para o estabelecimento desta hierarquia, toma-se como critério de
substancialidade, naturalmente, a substância primeira, ou seja, fun­
damentalmente o critério iii (ver 2bl5-17).

37
ceito, menos substância é. Assim, as espécies são mais
substância que os géneros, por estes abrangerem um
maior número de indivíduos, e uma menor determi­
nação do que aquelas.

VI. Discutida a problemática da substância, passe­


mos agora à discussão das características da substância,
algumas das quais são já nossas conhecidas. São elas:

i) As substâncias não estão num sujeito (3a7-8) -


característica comum às diferenças específicas (3a21-
-22). Esta é, como vimos, uma característica pela qual
as substâncias se distinguem dos acidentes: enquanto
substâncias primeiras, elas são, ou os indivíduos, ou o
sujeito de inerência dos acidentes, pelo que não inerem
em coisa alguma; enquanto substâncias segundas,
sendo conceitos, também não podem inerir no que
quer que seja;
ii) As substâncias, bem como as diferenças especí­
ficas, são predicadas sinonimamente (3a33-34). Tam­
bém já estamos familiarizados com esta característica,
uma vez que determinámos já que as predicações
essenciais eram sempre sinónimas. Esta característica
é, naturalmente, exclusiva das substâncias segundas,
já que as primeiras nunca servem de predicados;
iii) Toda a substância significa uma certa coisa
(3bl0). Esta característica é dificilmente compreensí­
vel. De facto, a substância primeira, se tomada como
indivíduo, não significa uma certa coisa, mas é uma
certa coisa; se tomada como essência, nem significa
nem é uma certa coisa, mas é parte de uma certa coisa.
Quanto às substâncias segundas, elas significam igual-

38
mente uma parte, e não o todo, das substâncias
primeiras. Resta-nos a possibilidade de atribuir a tode
ti, «uma certa coisa», o sentido forte que às vezes se lhe
atribui no vocabulário aristotélico: o sentido de «algo
determinado», isto é, de essência ou quididade27 (to ti
esti, Metafísica, 1028all-1228); mas, neste caso, somente
a substância segunda a significa, pelo que o problema
fica apenas parcialmente resolvido.
No entanto, apesar da fragilidade de expressão, é
possível compreender o que quererá Aristóteles dizer
com esta característica; o filósofo pretenderá certa­
mente repisar o que tem vindo a ser dito no texto:
que, sendo o que existe, ou o que é definível, ou o que
define, a substância é, na ordem do ser, o que tem
prioridade;
iv) As substâncias não têm contrários (3b24-25).
Diz Aristóteles, que nunca chega, nos capítulos dedi­
cados a esta problemática (10 e 11, v. abaixo), a definir
o que são os contrários, que eles são «evidentes por
indução» (13b36-37). E realm ente pergunta o
Estagirita, qual poderia ser o contrário do homem, ou
de um certo homem, ou da animalidade (3b26)?
v) A substância não admite o mais e o menos
(3b33-34). Efectivamente, embora tenhamos visto que

27 Nova herança latina, de quidditas, substantivação de quid, neutro do


pronome interrogativo quis, que significa «o que» e que traduz lite­
ralmente to ti.
28 É assim que traduz Valentin Garcia Yebra, Metafísica de Aristóteles,
Madrid, Gredos, 19822, ad loc.. Nem todos os tradutores da Metafísica
assinariam esta tradução (ver, como alternativa, por exemplo, J. Tricot,
La Métaphysique, tomo i, Paris, Vrin, 1981, ad loc.), mas não nos parece
útil enveredar aqui por uma discussão das diferentes opções.

39
as substâncias primeiras são mais substância que as
substâncias segundas e, dentro destas, que a espécie é
mais substância que o género, a verdade é que, em
cada nível substancial, uma substância não é mais
substância do que outra. Ou seja, um cão não é mais
substância que uma macieira, a espécie cão não é mais
substância que a espécie macieira, e o género animal
não é mais substância que o género vegetal;
vi) Esta é a característica mais própria da substância,
e também já estamos familiarizados com ela: a de, per­
manecendo a mesma, estar disposta a receber os con­
trários (4al0-ll). Esta característica aplica-se, natural­
mente, apenas à substância como essência e, se reflecte
a distinção entre ela e os acidentes - os contrários - , per­
mite também tornar compreensível o movimento, a
mudança, um problema com que a tradição grega se
vinha debatendo há muito. O problema consiste em
saber como pode identificar-se um determinado ente
que sofreu uma qualquer alteração (seja ela a mínima
alteração resultante da passagem do tempo) como
sendo o mesmo ente que era antes de sofrer essa alte­
ração; pois se ele se alterou, não é o mesmo!

Aristóteles explica-nos que a mudança é com­


preensível porque ocorre num substracto que per­
manece, e que permite identificar o ente onde ocorre
essa mudança. Ou seja, se uma gata estiver deitada a
dormir e se levantar para ir comer, não deixa de ser,
quando está a comer, a mesma gata que era quando
estava a dormir. Aquilo que muda nela são os aci­
dentes - digamos, os acidentes lugar, tempo, acção - ,
mas não a essência que os suporta. O que significa

40
que podemos continuar a predicar dela as mesmas
características essenciais, mas também que podemos
predicar do mesmo sujeito diferentes características
acidentais. Esta mudança nos acidentes faz com que a
substância primeira mude, se torne outra, mas não
produz nela uma mudança capaz de anular aquilo
que a substância primeira é essencialmente.
Asim, o filósofo distingue dois tipos de mudança:
a mudança essencial - a morte ou o nascimento - e a
mudança acidental. Nesta última, o substracto da
inerência não se altera, pelo que o sujeito permanece
essencialmente o mesmo. Esta solução só foi possível
depois de se ter distinguido substância de acidente.
E por isto mesmo que o texto nos diz que «a cor que,
sendo una e a mesma numericamente, não pode ser
branca e preta» (4al4-15), uma vez que a cor é um aci­
dente (uma qualidade), pelo que não é um substracto
que acolha os contrários, mas inere noutro substracto;
isto significa que a cor branca é essencialmente dife­
rente da cor preta, mas uma gata branca não é essen­
cialmente diferente de uma gata preta.

VII. Passemos agora à discussão dos acidentes.


1. Quantidade. São as seguintes as espécies de
quantidade: número, discurso, linha, superfície (ou
plano), sólido, tempo, lugar29.

29 De notar que o tempo e o lugar, pertencendo embora à categoria da


quantidade, são também, eles mesmos, duas categorias distintas
(2al-2). O mesmo acontece com outros acidentes, que pertencem a
mais do que uma categoria (ver, nomeadamente, a discussão da
posse, capítulo 15), facto que Aristóteles considera não ser de todo
absurdo (lla37-38).

41
Estas espécies de qualidade podem ser classifi­
cadas da seguinte maneira:

1.1. a) Discreta, isto é, sem limite comum das


partes: número, discurso (4b22-23);
1.1.b) Contínua, isto é, com limite comum das
partes: linha, superfície, sólido, tempo, lugar (4b23-25);
1.2.a) Com partes reciprocamente dispostas (no
espaço): linha, superfície, sólido, lugar (5al5-23);
1.2.b) Sem partes reciprocamente dispostas (no
espaço): número, tempo, discurso (5a23-36).

São características da quantidade:

i) Não ter contrários (5 b ll), característica comum


às quantidades definidas (pois qual será o contrário
do cinco?) e às indefinidas (de outra maneira, seriam
relativos).
ii) Não acolher o mais e o menos (6al9-20); as
quantidades determinadas, por razões óbvias (cinco é
cinco, não pode ser mais ou menos cinco). Quanto às
quantidades indeterminadas (como o grande e o
pequeno), quando sujeitas a mais e menos, deixam de
ser quantidades e passam a ser relativos (maior ou
menor, por exemplo).
iii) Poder ser igual ou desigual (6a26-27), carac­
terística própria da quantidade.

2. Relação. São relativas, não só aquelas coisas que


se dizem de outro, mas sobretudo aquelas cujo ser
depende do ser de outro (8a31-32), que, por sua vez,
depende igualmente do ser do primeiro. Esta última
precisão é necessária, para se distinguirem os rela-
tivos dos acidentes em geral; de facto, o ser dos
acidentes depende do ser da substância, não depen­
dendo o ser da substância do dos acidentes. É na
dependência mútua que consiste a relação.
São características dos relativos:

i) Terem contrários (pelo menos alguns deles) (6bl5).


ii) Acolherem o mais e o menos (pelo menos
alguns deles) (6b20-21).
iii) Terem correlativos (6b28), característica própria
deste acidente, que permite determinar o que são pares
de relativos, distinguindo-os, nomeadamente, das
quantidades indeterminadas (v. nota 37 da tradução).
iv) Serem simultâneos (7bl5), comum a todos os
relativos; efectivamente, embora a discussão acerca
do conhecimento e da sensação (7b22ss.) pareça
introduzir a anterioridade de um relativo (o conhe­
cido e o sensoriado) sobre outro (o conhecimento e a
sensação), a verdade é que isso não acontece, pois se
o objecto de conhecimento e o objecto da sensação
são anteriores ao conhecimento e à sensação, não o
são enquanto conhecidos e sensoriados, mas apenas
enquanto coisas, independentes do conhecimento e
da sensação; eles geram-se, enquanto conhecidos e
sensoriados, ao mesmo tempo que se gera o conheci­
mento e a sensação. Por isso, esta característica é
comum a todos os relativos.

3. Qualidade. São as seguintes as espécies de quali­


dade:

3.1.a) Hábitos: difíceis de modificar;


3.1.b) Disposições: fáceis de modificar;

43

k _________________ _____ ______________________________


3.2.a) Qualidades passivas: mais duradouras;
3.2.b) Afecções: menos duradouras;
3.3. Figura exterior e forma.

São características da qualidade:

i) Ter contrários (10bl2).


ii) Acolher o mais e o menos (10b26) - pelo menos
algumas delas (nomeadamente o terceiro tipo de
qualidade não pode acolher esta característica: um
triângulo não é mais nem menos triângulo que outro
triângulo).
iii) Poder ser semelhante ou dissemelhante (lla l5 -
-16), característica própria da qualidade, pois é pelas
qualidades que têm que as coisas se assemelham ou
desassemelham.

4. Acção e Paixão.
São características da acção e da paixão:
i. Terem contrários (llb l).
ii. Acolherem o mais e o menos (llb 2 ).

5. Posse. São as seguintes as maneiras de dizer a


posse:

5.1. Como hábito e disposição, isto é, como quali­


dade (15bl7-19);
5.2. Como tamanho, isto é, como quantidade
(15M9-20);
5.3. Como posse de objectos (15b21-23; 26-27);
5.4. Como posse de partes, isto é, da substância
(15b23);
5.5. Como lugar (15b23-26).

44
VIII. Passemos agora à discussão da oposição, den­
tro da qual é possível estabelecer quatro divisões: as
coisas podem opor-se

1. Como relativos;
2. Como contrários;
3. Como privação e posse;
4. Como afirmação e negação.

Sendo os contrários os que levantam mais proble­


mas, passaremos em seguida à discussão dessa
divisão dos opostos. Diz Aristóteles que podemos
encontrar três tipos de contrários:

i) Aqueles que ocorrem naturalmente num sujeito,


não havendo entre eles qualquer termo intermédio;
neste caso, é necessário que um deles esteja presente
no mesmo sujeito (Ilb38-12b2); um exemplo deste
género de contrários é a saúde e a doença (um animal
tem que estar saudável ou doente, não podendo
haver nada de intermédio entre estes dois contrários).
ii) Aqueles que ocorrem naturalmente num sujeito,
havendo entre eles um termo intermédio; neste caso,
não é necessário que um deles esteja presente no
mesmo sujeito (12a9-ll); exemplo destes contrários é o
preto e o branco, nenhum dos quais tem que estar
necessariamente presente nos corpos, já que estes
podem ser, por exemplo, cinzentos, que é um termo
intermédio entre branco e preto; o facto de haver ter­
mos intermédios entre estes contrários resulta, pois,
do facto de não ser necessário que um deles esteja pre­
sente nos sujeitos em que ocorrem (12b34-35).

45
iii) Aqueles que têm um termo intermédio sendo,
no entanto, necessário que um deles esteja presente,
de modo determinado, no sujeito que é capaz de os
receber, não podendo estar um deles, ao acaso
(12b37ss.). Este terceiro caso é uma espécie de caso
híbrido, já que os contrários têm termos intermédios,
como em ii), mas um deles tem que estar presente no
sujeito, como em i), embora esta presença seja
necessária, e não possa ser alterada30; um exemplo
típico deste caso é a brancura da neve.

Ora, nenhum destes tipos de contrários se aplica a


nenhuma das outras divisões da oposição. Não se
aplica à primeira divisão, à relação, porque os contrá­
rios não são nem se dizem uns em relação aos outros
(llb33ss.) e também não existem simultaneamente
(14a6-14, e nota a essa passagem).
Por outro lado, também não se aplica à terceira
divisão da oposição, como posse e privação. De facto,
i) não se aplica à privação e à posse, pois não é neces­
sário que uma delas (a privação ou a posse) esteja
necessariamente presente no sujeito capaz de ter uma

30 Como acontece com outros contrários, que se sucedem no mesmo


sujeito, permanecendo este idêntico (ver atrás, toda a discussão acerca
da vi) característica da substância). O facto de a presença de um con­
trário no mesmo sujeito ser necessária e não poder ser alterada faz que
o exemplo do par e do ímpar, relativamente ao número, seja um exem­
plo pouco típico, já que, para se alterar o contrário, o sujeito em que este
inere deve alterar-se igualmente (o dois não recebe o ímpar, como o
três não recebe o par); a não ser que estejamos a falar do género
número, e não das espécies de números. Seja como for, esta é mais uma
das razões que permitem distinguir os contrários (ou alguns deles) da
privação e da posse (ver 13al7ss. e nota 104 à tradução).

46
ou outra (13a4-7); por exemplo, os recém-nascidos,
nem têm vista, porque ainda não vêem, nem estão
privados dela, porque ainda não deviam tê-la (como
um adulto cego) - e, no entanto, não estão, relativa­
mente à posse da vista, na mesma condição em que
está uma planta, porque, sendo animais, virão a tê-la,
enquanto a planta nunca a terá.
Também ii) se não aplica à privação e à posse, pois,
excluindo os recém-nascidos, é necessário que os
sujeitos que podem ter alguma coisa (por exemplo, a
vista), a tenham ou estejam privados dela (13a8-9)31.
Quanto a iii), está igualmente fora de questão, pois
não é necessário que quem pode ter vista a tenha,
nem é necessário que esteja privado dela, mas pode
encontrar-se, ao acaso, em qualquer uma destas situ­
ações (13a9-13).
Finalmente, também não se aplicam à quarta
divisão da oposição, o verdadeiro e falso, porque não
são proposições, e só destas se pode dizer que são
verdadeiras ou falsas (13b2-3).
Quanto à anterioridade, à simultaneidade e à
mudança (capítulos 12, 13 e 14), o texto é suficiente­
mente explícito.

31 Este género de vício - considerar num exemplo todos os casos e no


exemplo seguinte da mesma discussão apenas alguns (aqui, todos
os animais, incluindo os recém-nascidos, no primeiro caso, e apenas
alguns, com exclusão dos recém-nascidos, no segundo caso) - é típi­
co de Aristóteles.

47
CATEGORIAS DE ARISTÓTELES

1. Chama-se homónimo1 àquilo que apenas tem em ia


comum o nome, sendo diferente a definição da essên­
cia associada ao nome, como acontece com o animal,
que tanto é o homem como uma pintura. Pois se
alguém quiser dizer o que é para cada um deles ser ani­
mal, dará uma definição2 própria de cada um deles. 5
Chama-se sinónimo3 aquilo que tem em comum o
nome, sendo a mesma a definição da essência associada
ao nome, como acontece com o animal, que tanto
é o homem como o boi. De facto, cada um destes é
chamado pelo nome comum de animal e a definição da
essência é a mesma para os dois casos. Pois se alguém
quiser dar a definição de cada um deles, dizendo o que 10
é para cada um deles ser animal, dará a mesma

1 Ou equívoco.
2 Tomamos, aqui, como equivalentes fogos e logos tês ousias, que
traduzimos por «definição».
3 Ou unívoco.

49
definição. Chama-se parónimo aquilo que, diferindo de
algo pelo caso4, é denominado por associação com esse
nome, como o gramático5 difere de gramática, rece­
bendo dela o nome e o homem corajoso de coragem. 15

2. De entre as coisas que se dizem, umas dizem-se


com ligação, outras sem ligação. As que se dizem com
ligação são por exemplo homem corre, homem vence;
as que se dizem sem ligação são por exemplo homem,
boi, corre, vence.
De entre as coisas que são, umas dizem-se de um 20
sujeito, não estando em nenhum sujeito, como
homem, que é dito de um sujeito, a saber, de um certo
homem, mas não está em nenhum sujeito; outras
estão num sujeito mas não se dizem de nenhum
sujeito (quando digo que algo está num sujeito,
refiro-me àquilo que está em algum sujeito não
estando nele como parte, e ao qual é impossível exis- 25
tir separadamente do sujeito no qual está), como um
certo conhecimento gramatical que, estando num
sujeito, a saber, na alma, não se diz de nenhum
sujeito, e um certo branco, que, estando num sujeito,
a saber, no corpo - pois toda a cor está num corpo - ,
não se diz de nenhum sujeito; outras dizem-se de um
sujeito e estão num sujeito, como a ciência que, 1 b
estando num sujeito, a saber, na alma, se diz de um

4 Na sua acepção gramatical, o termo pode significar os casos de uma


declinação (flexão que os nomes têm em grego), os tempos ou os
modos de um verbo ou, como no caso vertente, palavras formadas
a partir de outras.
5 Isto é, o estudioso da gramática.

50
sujeito, a gramática; outras nem estão num sujeito
nem se dizem de um sujeito, como este homem e este
cavalo - pois nenhum destes está num sujeito nem se 5

diz de um sujeito - ; em suma, as coisas indivisíveis e


num ericam ente unas não são ditas de nenhum
sujeito, mas nada impede que algumas estejam num
sujeito; de facto, um certo conhecimento gramatical
faz parte daquelas coisas que estão num sujeito.

3. Quando algo é predicado de outra coisa como


de um sujeito, todas as coisas que são ditas do predi- 10
cado serão também ditas do sujeito; como acontece
quando homem é predicado de um certo homem, e o
animal do homem; então, o animal será predicado de
um certo homem; de facto, um certo homem é
homem e animal. 15

Sendo os géneros distintos e não subordinados


uns aos outros, as diferenças específicas serão especi­
ficamente distintas, como acontece com os géneros
animal e conhecimento; serão diferenças específicas
de animal o pedestre, o alado, o aquático e o bípede,
nenhuma das quais é diferença específica de conhe­
cimento; de facto, uma ciência não se distingue de
outra ciência por ser bípede. 20

Sendo os géneros subordinados uns aos outros,


nada impede que as diferenças específicas sejam as
mesmas; de facto, as diferenças específicas dos
géneros mais elevados são predicadas dos géneros
que lhes estão subordinados, e assim todas as dife­
renças especificas que são diferenças do predicado
serão também diferenças do sujeito.

51
4. De entre as coisas que se dizem sem qualquer 25
ligação6, cada uma delas significa substância ou quan­
tidade ou qualidade ou relação ou lugar ou tempo ou
posição ou posse ou acção ou paixão. É substância,
para dizer numa palavra, por exemplo homem, cava­
lo; quantidade, por exemplo dois côvados, três côva-
dos; qualidade, por exemplo branco, gramático;
relação, por exemplo dobro, metade, maior; lugar, por 2a
exemplo no Liceu, na Assembleia; tempo, por exem­
plo ontem, no ano passado; posição, por exemplo está
deitado, está sentado; posse, por exemplo, está cal­
çado, está armado; acção, por exemplo corta, queima;
paixão, por exemplo é cortado, é queimado.
Não dizemos que cada uma das coisas que men­
cionámos, em si mesma e por si mesma, seja uma afir- 5
mação, mas é através da sua combinação umas com as
outras que se gera a afirmação. Com efeito, ao que
parece7, toda a afirmação é verdadeira ou falsa mas,
de entre as coisas que se dizem sem qualquer ligação,
nenhuma é verdadeira nem falsa, como por exemplo 10

homem, branco, corre, vence.

5. A substância que é mais própria, a que se diz de


modo primeiro e que é mais substância, é a que nem
se diz de algum sujeito nem está em algum sujeito,
como um certo homem ou um certo cavalo. Diz-se
que são substâncias segundas aquelas às quais, como
espécies, pertencem as substâncias que se dizem de
modo primeiro, e também os géneros destas espécies; 15

6 V er atrás, l a l 6- 19.
7 Dokei é, em geral, mais um a expressão de realce do que de dúvida.

52
como por exemplo um certo homem pertence à espé­
cie homem, sendo o género desta espécie o animal;
estas substâncias, como por exemplo o homem e o
animal, são, pois, ditas segundas.
Pelo que dissemos, é evidente que, quanto às
coisas que são ditas do sujeito, é necessário que o 20
nome e a definição sejam predicados do sujeito; como
o homem, que é dito de um sujeito, a saber, de um
certo homem, sendo o nome predicado dele - de
facto, o homem será predicado de um certo homem;
e a definição do homem será também predicada de
um certo homem - pois um certo homem é homem e 25
animal. Deste modo, o nome e a definição serão pre­
dicados do sujeito.
De entre as coisas que estão num sujeito, a maio­
ria das vezes nem o nome nem a definição são predi­
cados do sujeito; quanto a alguns, porém, nada
proíbe que o nome seja por vezes predicado, mas é 30
impossível que a definição o seja; como por exemplo
o branco que está num sujeito, num corpo, é predi­
cado do sujeito - pois diz-se que um corpo é branco - ,
não sendo a definição de branco de modo nenhum
predicada de um corpo.
Todas as outras coisas ou são ditas das substâncias
primeiras como sujeitos ou estão nestes sujeitos. Isto é 35
evidente pelos exemplos particulares que se nos apre­
sentam; como o animal, que é predicado do homem,
sendo por isso também predicado de um certo homem
- e se não fosse predicado de nenhum homem, tam- 2b

bém não seria predicado do homem em geral - ; por


outro lado, a cor está no corpo; mas, se não estivesse
em nenhum corpo particular, não estaria no corpo em

53
geral. Assim, todas as outras coisas ou são ditas das
substâncias primeiras como sujeitos, ou estão nestes
sujeitos. Deste modo, se não existissem as substâncias
primeiras, era impossível haver qualquer outra coisa.
De facto, todas as outras coisas ou são ditas destas
como sujeitos ou estão nestes sujeitos; de maneira que, 5
se não existissem as substâncias primeiras, era impos­
sível haver qualquer outra coisa.
De entre as substâncias segundas, a espécie é mais
substância do que o género; isto porque se encontra
mais próxima da substância primeira. De facto, se
alguém quiser dizer o que é a substância primeira, di-
-lo-á mais clara e apropriadamente enunciando a
espécie do que enunciando o género; como por exem- 10
pio, querendo dizer o que é um certo homem, di-lo-á
mais claramente mencionando que é homem do que
mencionando que é animal - pois uma coisa, i. e., ser
homem, é mais própria de um certo homem e outra,
i. e., ser animal, mais comum8 - ; e também, querendo
dizer o que é uma árvore, di-lo-á mais claramente
enunciando que é árvore do que enunciando que é
planta.
E ainda dizemos que as substâncias primeiras, por 15
serem o sujeito para todas as outras coisas, e por todas
as outras coisas serem ditas delas ou estarem nelas,
são mais substâncias; e o que as substâncias primeiras
são relativamente a todas as outras coisas é o que a
espécie é relativamente ao género; pois a espécie é
sujeito para o género; de facto, o género é predicado 20
das espécies, mas as espécies não são, por sua vez,

8 Isto é, é comum a mais entidades, para além desse homem.

54
predicadas do género; e é também por estas razões
que a espécie é mais substância do que o género.
Mas, de entre as próprias espécies que não são
géneros, nenhuma é mais substância do que outra; de
facto, não dizemos mais propriamente o que é um
certo homem dizendo que é homem do que dizemos o 25
que é um cavalo dizendo que é cavalo. Da mesma
maneira, de entre as substâncias primeiras, nenhuma é
mais substância do que outra; de facto, um certo
homem não é mais substância do que um certo cavalo.
E portanto razoável que, de entre as outras coisas, 30
para além das substâncias primeiras, apenas as espécies
e os géneros sejam chamados substâncias segundas;
pois, de entre as coisas que se predicam, os géneros e as
espécies são os únicos a exibir a substância primeira; de
facto, se alguém quiser dizer o que é um certo homem,
di-lo-á mais propriamente enunciando a espécie ou/do
que o género, e produzirá um conhecimento ainda
mais claro enunciando que é um homem ou/do que9
enunciando que é um animal; qualquer outra coisa que
se dissesse seria uma explicação estranha, como por 35
exemplo se se dissesse que é branco, ou que corre, ou
qualquer outra coisa deste género; é portanto razoável
que, de todas as outras coisas, apenas destes, i. e., dos
géneros e das espécies, se diga que são substâncias.

9 H. P.- Cooke (Aristotle. The Categories. Cambridge, Mass., Harvard


University Press/London, William Heineman Ltd, 1983, ad loc.) e
J. Tricot (Aristote. Categories, Paris, Vrin, 1989, ad loc.) traduzem, no
primeiro caso (2b32), por «ou» e no segundo (2b34) por «do que»,
escolha que, podendo ser consentida pelo contexto, não resulta com
evidência da gramática. Preferimos, por isso, manter a dupla possi­
bilidade contida na partícula grega.

55
E ainda dizemos que as substâncias primeiras são 3a
as mais próprias pelo facto de serem sujeito de todas
as outras coisas; e as substâncias primeiras são, relati­
vamente a todas as outras coisas, o mesmo que as
espécies e os géneros das substâncias primeiras são
relativamente a tudo o resto; pois é destes que tudo o
resto é predicado; pode dizer-se que um certo homem
é gramático; desse modo, tanto o homem como o ani- 5
mal serão gramáticos. E da mesma maneira de todas
as outras coisas.
E comum a todas as substâncias o facto de não
estarem num sujeito10. Efectivamente, a substância
primeira nem é dita de um sujeito nem está num
sujeito. Quanto às substâncias segundas, é claro pelo
seguinte que não estão num sujeito; homem é dito 10
de um sujeito, a saber, de um certo homem, mas não
está num sujeito - pois homem não está num certo
homem - ; da mesma maneira, animal é dito de um
sujeito, a saber, de um certo homem, mas animal não
está num certo homem. E ainda, de entre as coisas
que estão num sujeito, nada impede que por vezes o 15
nome seja predicado do sujeito, mas é impossível que
a definição o seja; mas, quanto às substâncias segun­
das, são predicados do sujeito tanto a definição como
o nome, pois a definição de homem é predicada de
um certo homem e também o é a definição de animal.
Assim, a substância não pode ser uma das coisas que 20
estão num sujeito.

10 Primeira de um conjunto de seis características das substâncias,


exclusiva desta categoria.

56
Porém, isto não é próprio e exclusivo da substân­
cia, já que a diferença específica também faz parte das
coisas que não estão num sujeito; pois pedestre e
bípede são ditos de um sujeito, a saber, de homem,
mas não estão num sujeito; de facto, pedestre e
bípede não estão no homem. Por outro lado, a
definição da diferença específica é predicada daquilo 25
de que é predicada a diferença específica; como acon­
tece no caso de pedestre ser dito de homem, caso em
que a definição de pedestre será também predicada
de homem - pois o homem é pedestre.
Não nos deixemos perturbar pelo facto de as
partes das substâncias estarem no todo como num
sujeito, e de sermos forçados, por isso, a dizer que
estas partes não são substâncias11. De facto, não 30
somos forçados a tal coisa, pois ao dizermos que as
restantes coisas, isto é, os acidentes, estavam num
sujeito, não queríamos com isso dizer que estavam
nele como parte12.
Pertence às substâncias e também às diferenças
específicas serem sempre ditas sinonimamente13; de
facto, todas as predicações são predicadas dos indi- 35
visíveis14 ou das espécies. Da substância primeira não

11 Quando, de facto, o são; ver adiante, 8bl5-16.


12 Ver atrás, la24-25.
13 Ver atrás, lal-2. Segunda característica das substâncias, apenas
comum às diferenças específicas, como se diz no texto.
14 Aqui, equivalente a substâncias primeiras, estreitando o sentido de
5b6, que incluía substâncias primeiras e acidentes particulares; a razão
da inclusão de ambos os modos de ser na passagem anterior e da refe­
rência às substâncias primeiras nesta passagem é, no entanto, a
mesma: trata-se de tudo aquilo que não pode ser predicado de outro.

57
resulta nenhuma predicação15, pois ela não é predi­
cada de nenhum sujeito. De entre as substâncias
segundas, a espécie é predicada do indivisível, e o
género da espécie e do indivisível; da mesma
maneira, as diferenças específicas são predicadas das 3b
espécies e dos indivisíveis. E as substâncias primeiras
recebem a definição das espécies e dos géneros, e a
espécie recebe a definição do género16 - pois tudo
aquilo que é dito do predicado, será também dito do 5
sujeito - ; da mesma maneira, as espécies e os indi­
visíveis recebem a definição das diferenças específi­
cas; e sinónimo é aquilo que tem em comum o nome,
sendo a definição a mesma. Pelo que, sempre que a
predicação resulta das substâncias segundas ou das
diferenças específicas17, dizemos que se predica
sinonimamente.
Ao que parece, toda a substância significa uma 10
certa coisa18. Quanto às substâncias primeiras, é indu­
bitável e verdadeiro que significam uma certa coisa;
pois aquilo que exibem é indivisível e numericamente
uno. Quanto às substâncias segundas, pareceria tam­
bém, pela forma como são chamadas, que significa- 15
riam uma certa coisa, pois dizemos homem ou animal;
mas isto não é verdade, pois homem e animal signifi-

15 Isto é, a substância primeira não pode, nunca, ser tomada como


predicado.
16 Ver atrás, 3al0.
17 Isto é, sempre que os predicados são as substâncias (segundas) ou as
diferenças específicas.
18 Cooke, ad loc.: «Ali substance appears individual»; Tricot, ad loc
«Toute substance semble bien signifier un être déterminé». Terceira
característica das substâncias, exclusiva desta categoria.

58
cam antes uma certa qualidade - já que o sujeito não
é uno como é a substância primeira, uma vez que
homem e animal são ditos de muitos - ; a verdade,
porém, é que não significam simplesmente uma certa
qualidade, como o branco; de facto, o branco não
significa nada mais do que uma qualidade, enquanto 20
a espécie e o género determinam a qualidade relativa­
mente à substância, pois significam que qualidade tem
uma certa substância. A determinação é mais abar-
cante quando é feita pelo género do que quando é
feita pela espécie; de facto, dizemos que animal abar­
ca uma extensão mais ampla do que homem.
Pertence ainda às substâncias não terem qualquer 25
contrário19. Pois qual poderia ser o contrário da subs­
tância primeira? Por exemplo, não há nada que seja o
contrário de um certo homem ou que seja o contrário
de um certo animal. E isto não é próprio da substân­
cia, mas é comum a muitas outras categorias como por
exemplo à quantidade; com efeito, não há nada que
seja o contrário de dois côvados, nem do número dez, 30
nem de nenhuma coisa destas, a não ser que alguém
diga que o muito é o contrário do pouco ou o grande
do pequeno20. Mas, de entre as quantidades determi­
nadas, nada é o contrário de coisa alguma.
Ao que parece, a substância não admite o mais e o
menos21; não quero dizer que uma substância não

19 Quarta característica das substâncias, que é comum à quantidade -


e não «a muitas outras categorias» (ver adiante, 5 b ll).
20 Estando, então, a falar, de quantidades indeterminadas; ver adiante,
5bl5-16 e respectiva nota.
21 Quinta característica das substâncias, que é também comum à quan­
tidade (ver adiante, 6al9).

59
seja mais ou menos substância do que outra substân- 35
cia - pois já dissémos que assim é22 mas que dize­
mos que cada substância, sendo o que é, não é mais
nem menos substância que outra; como por exemplo,
se esta substância for homem, não será mais nem
menos homem, nem relativamente a si mesma nem
relativamente a outro homem. De facto, não dizemos
que um homem é mais homem que outro homem,
como dizemos que o branco é mais branco que outro 4a
branco ou o belo mais belo que outro belo. Dizemos
que uma certa coisa é mais ou menos relativamente a
si mesma23, como por exemplo dizemos que um corpo
branco é mais branco agora do que anteriormente ou
que um corpo quente é mais ou menos quente agora 5
do que anteriormente. Mas não dizemos que a subs­
tância é nenhuma destas coisas - nem dizemos que o
homem é mais homem agora do que anteriormente,
nem dizemos isto de nenhuma outra coisa que seja
substância - ; é assim que a substância não admite o
mais nem o menos.
Mas aquilo que é, ao que parece, mais próprio da 10
substância é o facto de, sendo a mesma e numerica­
mente una, estar disposta a receber os contrários24; de
tal maneira que, de entre as coisas que não são subs­
tância, não seria possível apresentar alguma que fosse
assim, isto é, que, sendo numericamente una, estivesse
disposta a receber os contrários; como por exemplo a

22 Ver atrás, 2 a ll, 2b6.


23 No que respeita à posse de determinadas qualidades, como se
percebe pelos exemplos, não na sua substância, como ficou dito
anteriormente.
24 Sexta característica das substâncias, exclusiva desta categoria.

60
cor que, sendo una e a mesma numericamente, não
pode ser branca e preta, ou uma certa acção que, 15
sendo numericamente una, não pode ser boa e má, e
da mesma maneira com todas as outras coisas que não
são substâncias. Mas a substância, sendo una e a
mesma numericamente, está disposta a receber os
contrários, como um certo homem que, sendo uno e o
mesmo, ora se torna branco ora escuro, ora quente ora 20
frio, ora bom ora mau. Nas outras coisas, nada aparece
deste modo, a não ser que alguém queira opor-se afir­
mando que o juízo e a opinião também são este
género de coisas25. De facto, parece que o mesmo juízo
pode ser verdadeiro e falso, como acontece se for ver­
dadeiro o juízo de que alguém está sentado, tornan- 25
do-se falso esse mesmo juízo quando essa pessoa se
levanta; e o mesmo acontece com a opinião; se alguém
opinasse com verdade que alguém está sentado,
opinaria falsamente quando essa pessoa se levantasse,
se mantivesse a mesma opinião sobre esse facto. Mes­
mo que alguém aceitasse esta objecção, haveria uma
diferença; pois, quanto às substâncias, é mudando26 30
elas próprias que estão dispostas a receber os con­
trários - pois o que, sendo frio, se tornou quente, ou o
que, sendo branco, se tornou escuro ou o que, sendo
mau, se tornou bom, mudou (na verdade, foi alte­
rado). E o mesmo acontece com todas as outras subs­
tâncias, que estão dispostas a receber os contrários,

25 Isto é, capazes de receber os contrários.


26 Metaballô e kineô são usados, indiferentemente, na passagem que se
segue (e também noutras, adiante, antes da especificação levada a
cabo no capítulo 14), com o mesmo sentido de kinêsin, em 15al3 (ver
nota a essa passagem).

61
sujeitando-se elas próprias à mudança; mas o juízo e a
opinião permanecem, em si mesmos, totalmente e de
todas as formas imutáveis, e é pelo facto de a coisa 35
mudar que o contrário se gera neles; de facto, o juízo
de que alguém está sentado permanece o mesmo e é
porque a coisa muda que ele se torna ora verdadeiro 4b
ora falso; e o mesmo acontece com a opinião. Assim,
será próprio da substância estar disposta a receber os
contrários pela mudança que nela ocorre.
E, se alguém aceitasse estas coisas, que a opinião e
o juízo estão dispostos a receber os contrários, isso 5
não seria verdade; pois não dizemos que o juízo e a
opinião estão dispostos a receber os contrários sujei-
tando-se à mudança, mas recebem os contrários pelo
facto de esta alteração ter ocorrido noutro; pois é pelo
facto de a coisa ser ou não ser que dizemos que o
juízo é verdadeiro ou falso, e não pelo facto de ele
estar disposto a receber os contrários; em suma, não 10
há nada de onde possa vir a mudança para o juízo ou
a opinião, e assim não podem receber os contrários,
pois em si mesmos não mudam; mas dizemos que a
substância, pelo facto de se sujeitar a mudar, rece­
bendo os contrários, está disposta a receber os contrá­
rios; pois ela sujeita-se à doença e à saúde e à bran- 15
cura e à negrura, e dizemos que cada uma destas27
está disposta a receber os contrários porque ela
própria se sujeita à mudança. E assim, será próprio da
substância o facto de, sendo a mesma e numerica­
mente una, estar disposta a receber os contrários.
E, acerca da substância, estas coisas são suficientes.

27 Isto é, das substâncias.

62
6. Acerca da quantidade, uma é discreta e outra 20

contínua; e uma tem as suas partes dispostas umas


em relação às outras, outra não as tem28. São quanti­
dades discretas, por exemplo, o número e o discurso,
e quantidades contínuas a linha, a superfície, o sólido
e, além destas, o tempo e o lugar. Quanto às partes do 25
número, não há qualquer limite comum relativa­
mente ao qual estejam em contacto; como por exem­
plo, sendo o cinco uma parte do dez, não há qualquer
limite comum relativamente ao qual estejam em con­
tacto o cinco e o cinco, antes estão separados; e tam­
bém o três e o sete não estão em contacto relativa- 30
mente a nenhum limite comum; em suma, não é pos­
sível conceber no número qualquer limite comum às
suas partes, que estão sempre separadas; e assim, o
número pertence às quantidades discretas. E, da
mesma maneira, também o discurso pertence às
quantidades discretas (de facto, é evidente que o dis­
curso é uma quantidade; pois é medido em sílabas
longas e breves; estou aqui a falar do discurso que se 35
gera através da voz29); pois não há qualquer limite
comum relativamente ao qual as suas partes estejam
em contacto; com efeito, não há qualquer limite
comum relativamente ao qual as sílabas estejam em
contacto mas, em si mesma e por si mesma, cada uma 5a
delas é distinta das restantes.

28 Trata-se de duas divisões da quantidade: discreta e contínua; com


ou sem partes reciprocamente dispostas. Em ambas as divisões
podemos encontrar, ora o número e o discurso, ora a linha e a
superfície. A primeira divisão será discutida já a seguir.
29 Isto é, do discurso oral, o mesmo que é referido atrás, em 4b23.

63
Mas a linha é uma quantidade contínua; de facto, é
possível conceber um limite comum relativamente ao
qual as suas partes estão em contacto, limite esse que é
o ponto; e o limite da superfície é a linha - pois as partes
do plano30 estão em contacto relativamente a um certo
limite comum. Da mesma maneira, acerca do sólido, é 5
possível conceber um limite comum, que pode ser a
linha ou a superfície, relativamente ao qual as partes do
corpo estão em contacto. E o tempo e o lugar também
são quantidades contínuas; pois o tempo presente está
em contacto com o passado e o futuro. E, de novo, o
lugar é também uma das quantidades contínuas; pois 10
as partes do sólido ocupam um certo lugar e estão em
contacto relativamente a um certo limite comum; daí
que as partes do lugar, que são ocupadas por cada uma
das partes do corpo, estejam em contacto relativamente
ao mesmo limite relativamente ao qual estão em con­
tacto as partes do corpo; e assim o lugar será uma quan­
tidade contínua; pois as suas partes estão em contacto
relativamente a um limite comum.
E ainda31, umas quantidades têm as suas partes 15
dispostas umas em relação às outras, outras não as
têm; como as partes da linha, que estão dispostas
umas em relação às outras - de facto, cada uma delas
está situada em algum sítio e é possível distinguir e
estabelecer, no conjunto do plano, onde é que cada
uma delas está situada e em relação com que parte do
resto está em contacto; e, da mesma maneira, as 20

30 Ou superfície.
31 Início da discussão da segunda das divisões apontadas atrás, em 4b20-
-22: as quantidades que têm, ou não, partes reciprocamente dispostas.

(i4
partes do plano ocupam uma certa posição - pois é
igualmente possível dizer onde está situada cada uma
delas e com que outras partes está em contacto. E o
mesmo acontece com o sólido e com o lugar. Quanto
ao número, não é possível observar que as suas partes
ocupam uma certa posição32 umas em relação às 25
outras, ou que estão situadas em algum sítio, ou que
partes estão em contacto com outras. Nem é possível
fazê-lo em relação às partes do tempo, pois nenhuma
das partes do tempo permanece; ora, como poderá
ter alguma posição aquilo que não permanece? Mas
deve dizer-se antes que as partes do tempo têm uma
certa ordem, em virtude da qual uma é anterior e
outra posterior. E o mesmo em relação ao número 30
pois, em virtude dessa ordem, conta-se o um antes do
dois e o dois antes do três; e assim pode dizer-se que
o número tem uma certa ordem, mas não se pode
propriamente concebê-lo como tendo uma posição.
E da mesma maneira o discurso; pois nenhuma das
suas partes permanece mas, uma vez dita, já não é 35
possível apanhá-la, pelo que as suas partes não
podem ter posição, já que não permanecem. Assim,
de entre as quantidades, umas têm as suas partes
numa dada posição, outras não as têm.
De modo próprio, apenas podemos dizer que são
quantidades as que referimos; todas as outras coisas
são-no apenas por acidente; pois é contemplando estas 5b
quantidades que podemos dizer que as outras coisas

32 Entenda-se, aqui como nas referências seguintes à (ausência de)


posição do tempo e do discurso, posição no espaço.

65
são quantidades, como dizemos que o branco é
grande, pelo facto de a superfície branca ser grande, e
que a acção é longa pelo facto de o tempo em que
decorre a acção ser longo, e que o movimento é
duradouro pelo facto de ser duradouro o tempo em
que decorre o movimento; com efeito, não dizemos
que cada uma destas coisas33, em si mesmas, é uma
quantidade34; por exemplo, se alguém quiser dizer 5

qual a quantidade de uma acção, defini-la-á através do


tempo, dizendo que dura um ano, ou qualquer coisa
deste género; e, se alguém quiser dizer qual a quanti­
dade do branco, defini-la-á através da superfície, pois
diremos que a quantidade do branco será a quantidade
da superfície que é branca; assim, apenas podemos
dizer que são quantidades as que referimos, que o são
de modo próprio e em si mesmas, e, de entre as outras
coisas, nenhuma é quantidade em si mesma mas, se o 10

for, será quantidade por acidente.


E ainda, para a quantidade não há qualquer con­
trário35 (no que diz respeito às quantidades determi­
nadas36, é claro que não têm qualquer contrário, como
acontece com dois côvados ou com três côvados ou
com a superfície ou com qualquer coisa destas; de
facto, não há nada que seja o contrário delas), a não
ser que alguém dissesse que o muito é o contrário do
pouco, ou o grande o contrário do pequeno. Mas ne- 15

33 A saber, o branco, a acção e o movimento.


34 Mas apenas que tem uma certa quantidade, referindo-nos à super­
fície, para o branco, ou ao tempo da acção ou do movimento.
35 Primeira de um conjunto de três características da quantidade.
36 Ou definidas.
nhum destes é uma quantidade, antes são relativos37;
pois não dizemos que uma coisa é, em si e por si,
grande ou pequena, mas apenas quando essa coisa se
refere a outro, como dizemos por exemplo que uma
colina é pequena ou que um grão é grande, pelo facto 20
de ser maior do que outros grãos, isto é, outras coisas
do mesmo género que ele, ou menor do que outras
colinas, isto é, outras coisas do mesmo género que ela;
trata-se portanto de uma relação com outro, pois se se
falasse do pequeno ou do grande em si e por si, não
se diria que uma colina é pequena ou que um grão é
grande. E ainda, dizemos que há muitos homens
numa aldeia e que em Atenas há poucos homens,
sendo no entanto os de Atenas muito mais numerosos 25
que os da aldeia, e que numa casa há muitos homens
e no teatro poucos, havendo no entanto muitos mais
neste último do que na primeira. E ainda o dois côva-
dos e o três côvados, e cada um destes, significa uma
quantidade, mas o grande e o pequeno não signifi­
cam uma quantidade, mas antes uma relação; pois
é em relação a outro que se considera que o grande é

37 Ou, para sermos mais claros, são quantidades indeterminadas, que se


avaliam por relação com outras quantidades indeterminadas (o
grande por relação com o pequeno, o muito por relação com o
pouco), mas não propriamente relativos. O texto de Artistóteles nem
sempre é claro relativamente a esta distinção (diz-se adiante que «é
relativamente a alguma coisa que se diz que a colina é grande», 6b9),
mas podemos utilizar como base da discussão o cumprimento da
exigência a que têm que atender todos os relativos: terem correlativos
(ver adiante, 6b28); de facto, o grande não é grande do pequeno, ou
do que o pequeno, e vice-versa, mas antes o maior maior do que o
menor - sendo estes últimos os verdadeiros relativos. E por isso que
Aristóteles afirma adiante (6al0-ll) que o grande e o pequeno e o
mais e o menos, sendo relativos ou quantidades, não têm contrários.

67
grande e que o pequeno é pequeno; pelo que é evi­
dente que estes são relativos. 30
E ainda, quer se afirme que estas coisas são quanti­
dades, quer não se afirme que o são, não haverá coisa
alguma que seja o seu contrário; pois qual seria o con­
trário daquilo que não é concebido em si e por si, mas
se relaciona com outro? E ainda, se o grande e o
pequeno forem contrários, a mesma coisa acolherá
simultaneamente os contrários e as mesmas coisas 35
serão contrários de si mesmas. De facto, acontece por
vezes que a mesma coisa é grande e pequena simul­
taneamente - pois é pequena em relação a uma certa
coisa, sendo grande em relação a uma outra coisa,
enquanto permanece idêntica; assim, acontece que a
mesma coisa é grande e pequena ao mesmo tempo,
pelo que acolhe os contrários simultaneamente; mas,
ao que parece, nada pode acolher os contrários simul- 6a
taneamente; como vimos em relação à substância38,
pois parece que uma dada substância, estando embora
disposta a receber os contrários, não está simultanea­
mente doente e com saúde, nem é branca e preta ao
mesmo tempo e, de entre todas as outras coisas, não
há nenhuma que acolha os contrários simultanea- 5
mente. E, se assim for, acontecerá que as coisas serão o
contrário de si mesmas. Pois se o grande é o contrário
do pequeno, e se a mesma coisa é simultaneamente
grande e pequena, a mesma coisa será o contrário de
si mesma; mas é impossível que uma mesma coisa seja
o contrário de si mesma. Pelo que o grande não será
contrário do pequeno, nem o muito do pouco, e assim,

38 Ver atrás, 4al0ss.

68
se alguém disser que estas coisas não são relativas,
mas quantidades, mesmo assim não terão contrários. 10

Mas é sobretudo no que respeita ao lugar que a con­


trariedade parece pertencer à quantidade; de facto, afir-
ma-se que o alto é o contrário do baixo, dizendo que o
lugar baixo é o que se encontra no centro porque a dis­
tância máxima é a que vai do centro para as extremi­
dades do universo39. A definição dos outros contrários 15
parece ser retirada da destes; pois são definidos como
contrários os termos que, dentro do mesmo género, se
encontram mais distanciados uns dos outros.
A quantidade também não parece poder acolher o 20
mais e o menos40, como acontece com o dois côvados,
pois uma coisa que tem dois côvados de comprimento
não tem mais dois côvados do que outra que tenha dois
côvados de comprimento; e o mesmo acontece com o
número, como o três, que não dizemos que é mais três
do que o cinco é cinco, nem um três mais três do que
outro três; nem se diz que um período de tempo é mais
esse período de tempo do que outro período de tempo
igual; e o mesmo acontece com todas as quantidades de
que falámos, pois não se pode dizer que alguma delas
possa acolher o mais e o menos; e assim, a quantidade 25
não acolhe o mais e o menos.
Mas o que é mais próprio da quantidade é poder
dizer-se que é igual ou desigual41. De facto, pode
dizer-se que cada uma das quantidades de que falá-

39 Na realidade, porém, o alto e o baixo são quantidades indetermi­


nadas, às quais deve ser aplicado o mesmo raciocínio que se fez para
o grande e o pequeno.
40 Segunda característica da quantidade.
41 Terceira característica da quantidade, que é exclusiva desta categoria.

69
mos é igual ou desigual, como o sólido, que pode
dizer-se que é igual ou desigual, ou o número, que
pode dizer-se que é igual ou desigual, ou o tempo,
que é igual ou desigual; da mesma maneira, acerca de 30
todas as coisas de que falámos, cada uma das quais
pode dizer-se que é igual ou desigual. Quanto ao
resto, tudo o que não é quantidade não parece poder
dizer-se que é igual ou desigual, como a disposição,
que de modo nenhum pode dizer-se que é igual ou
desigual, mas antes semelhante ou dissemelhante, e o
branco, que de modo nenhum pode dizer-se que é
igual ou desigual, mas antes semelhante ou disseme­
lhante42. Assim, o que é mais próprio da quantidade é 35
poder dizer-se que é igual ou desigual.

7. Diz-se que são relativas todas aquelas coisas das


quais se diz que o seu ser é serem relativamente a
outro ou terem qualquer outra relação com outro;
como o maior, cujo ser é ser dito de outro - pois diz-
-se que o maior é maior do que algo - e o dobro, cujo
ser é ser dito de outro - pois diz-se que o dobro é o
dobro de algo; e, da mesma maneira, com todas as 6b
outras coisas deste género. De facto, estas coisas são
relativas, como o hábito43, a disposição, a sensação, o

42 «Dissemelhante» não se encontra no texto grego; introduzims o


termo, completando a alternativa, por simetria com o texto anterior.
Ver Cooke, ad loc., e Tricot, ad loc.. Estes acidentes são semelhantes ou
dissemelhantes porque são qualidades (ver abaixo, capítulo 8), sendo
a disposição também uma relação (ver já a seguir).
43 Neste capítulo, sobre a relação (6b2; 5), como no seguinte, sobre a
qualidade (8b27; 28; 29; 9a3; 4; 7; 8; 10; 11; 13; lla22), traduzimos
hêxis por «hábito». Noutras circunstâncias, como no capítulo 10,

70
conhecimento, a posição44; com efeito, de todas as
coisas que referimos se diz que o seu ser não é senão
serem relativamente a outro; pois diz-se que o hábito
é hábito de alguma coisa e que o conhecimento é 5

conhecimento de alguma coisa e que a posição é


posição de alguma coisa, e da mesma maneira das
outras coisas. Assim, são relativas todas aquelas
coisas das quais se diz que são relativamente a outro
ou que têm qualquer outra relação com outro; como
uma colina, que se diz que é grande relativamente a
outra coisa - pois é relativamente a alguma coisa que
se diz que a colina é grande45 - , e diz-se que o seme­
lhante é semelhante a alguma coisa, e todas as outras 10

coisas que são deste modo dizem-se relativamente a


alguma coisa. E o deitar, o levantar e o sentar são cer­
tas posições, e também a posição é um relativo; mas
estar deitado, estar levantado e estar sentado não são
posições, mas dizem-se estar deitado, estar levantado
e estar sentado paronimamente46, a partir das posi­
ções que referimos.

sobre os opostos (a partir de llb l8 ), traduzimos, em geral, o mesmo


termo por «posse», aproximando-o da categoria - echein, de onde
deriva echô - discutida em lb27 e 2a2. Os sentidos de «posse» dos
capítulos 1 e 10 poderão, no entanto, não ser exactamente os mes­
mos, pois no primeiro se dá como exemplo a posse de objectos
materiais (2a2), enquanto no segundo os exemplos são de capaci­
dades. Ver também, abaixo, capítulo 15, especialmente 15bl7-19.
44 Embora o substantivo utilizado em todo este capítulo, thêsis, tenha
origem no verbo tithêmi, diferentemente do que acontece em 2a2,
onde o verbo utilizado é o verbo keimai, o sentido técnico de posição
é o mesmo.
45 Ver atrás, nota 37.
46 Ver atrás, la l2 ss.

71
A contrariedade pertence aos relativos47, como por 15
exemplo a virtude é o contrário do vício, sendo cada
um deles relativo, e o conhecimento o contrário da
ignorância. Mas o contrário não pertence a todos os
relativos; com efeito, não há nenhum contrário do
dobro, nem do triplo, nem de nada deste género.
Parece que os relativos acolhem o mais e o 20
menos48; de facto, diz-se que o semelhante é mais ou
menos semelhante, e que o desigual é mais ou menos
desigual, sendo cada um deles relativo; de facto, diz-
se que o semelhante é semelhante a alguma coisa e
que o desigual é desigual de alguma coisa. Mas nem
todos os relativos acolhem o mais e o menos; pois não 25
se diz que o dobro é mais ou menos dobro, nem se diz
isso de nenhum termo deste género.
Diz-se que todos os relativos têm correlativos49,
como o escravo, que se diz que é escravo do seu 30
senhor, e o senhor, que é senhor do seu escravo, e o
dobro, que é dobro da sua metade, e a metade, que é
metade do seu dobro, e o maior, que é maior do que o

47 Primeira de um conjunto de quatro características da relação, tam­


bém comum ã qualidade (ver adiante, 10bl2), à acção e à paixão (ver
adiante, llb l-2 ). De acordo com a discussão da oposição (ver adi­
ante, capítulo 10), melhor seria dizer que os relativos se opõem, já
que a relação é uma das divisões da oposição; de qualquer maneira,
o respeito de Aristóteles por estas distinções terminológicas, quan­
do não está a discutir, directamente, as questões técnicas, é um
pouco vago - ver adiante, 15blss., e toda a discussão das relações
entre os diferentes tipos de mudança./
48 Segunda característica da relação, também comum à qualidade (ver
adiante, 10b26), à acção e à paixão (ver adiante, llb 2).
49 Terceira característica da relação, que é, com a quarta, exclusiva
desta categoria.

72
menor e o menor, que é menor do que o maior; e da
mesma maneira dos outros relativos; excepto que, por
vezes, a enunciação será feita num caso diferente50,
como dizemos que o conhecimento é conhecimento 35
do conhecido e que o conhecido é conhecido pelo
conhecimento, e que a sensação é sensação do senso-
riado51 e que o sensoriado é sensoriado pela sensação.
Mas, por vezes, parece não haver correlativo,
como acontece quando não se expõe adequadamente
aquilo em relação ao qual algo se diz relativo, mas
houve engano na exposição; como, por exemplo,
quando se expõe a asa como sendo relativa ao pás­
saro, não sendo o pássaro correlativo da asa; com
efeito, não foi adequadamente que se expôs, em
primeiro lugar, a asa como sendo relativa ao pássaro -
pois não se diz que a asa é relativa ao pássaro en- 7a
quanto pássaro, mas enquanto alado; pois há muitos
outros alados que não são pássaros - ; e assim, se se
expõe adequadamente a relação, haverá um correla­
tivo, como a asa, que é asa do alado, e o alado que é
alado pela posse da asa.
Por vezes, é também necessário criar um nome, 5
quando não está estabelecido nenhum nome que
exponha adequadamente a relação; por exemplo
quando se diz que o leme é sendo relativo ao navio,
não se expõe adequadamente a relação - na verdade,
não se diz que o leme é leme do navio enquanto navio; 10

50 Isto é, em nominativo e genitivo («conhecimento do conhecido») ou


em nominativo e dativo («conhecido pelo conhecimento»).
51 Ou sentido. Permitimo-nos, no entanto, a criação deste neologismo,
dada a proximidade de «sentido» com «sentimento», que não pode
ser confundido com «sensação».

73
pois há navios que não têm leme; e por isto não haverá
correlativo; de facto, não se diz que o navio é navio do
leme. Assim sendo, expor-se-ia mais adequadamente a
relação se se dissesse algo do género: o leme é leme do-
-que-tem-leme52, ou qualquer outra coisa assim, uma
vez que não está estabelecido nenhum nome; e então
haverá correlativo, se se expuser adequadamente a 15
relação; pois o-que-tem-leme tem leme pela posse do
leme. E da mesma maneira nos outros casos, como, por
exemplo, a cabeça, cuja relação será mais adequada­
mente exposta se o for com o-que-tem-cabeça, do que
expondo-se a sua relação com o animal; pois não é
enquanto animal que o animal tem cabeça; de facto, há
muitos animais que não têm cabeça. E assim, será mais
fácil alguém compreender qual é o relativo daquelas
coisas para as quais não está estabelecido nenhum 20

nome se se partir dos primeiros termos e se se derem


depois nomes àqueles relativamente aos quais os pri­
meiros são correlativos, como nos casos que referimos,
em que o alado é um nome dado a partir da asa, e
o-que-tem-leme a partir do leme.
Assim, se os seus relativos forem correctamente
expostos, todos os relativos se dizem em relação a um
correlativo; mas, se forem expostos ao acaso, e não
relativamente àquele do qual se dizem relativos, não 25
haverá correlativo. Quero dizer com isto que, se a
relação for exposta acidentalmente, e não relativa­
mente àquele do qual se dizem relativos, nem sequer

52 Nesta, como nas ocorrências seguintes, a utilização do hífen serve para


introduzir na expressão uma unidade artificial, que no grego se mani­
festa na utilização de uma única palavra, artificialmente derivada da
primeira (de acordo com o método adiante exposto: ver 7al8ss.).

74
haverá correlativo daqueles termos em relação aos
quais se concorda que são correlativos, e cujos nomes
estão estabelecidos; como por exemplo, o escravo não
terá correlativo se a relação exposta não for com o
senhor, mas com o homem, ou com o bípede, ou al- 30
guma coisa deste género; pois a exposição da relação
não será adequada. E ainda, se se expuser adequada­
mente aquilo em relação ao qual algo se diz relativo,
retirando-se todas as outras coisas que são relativos
por acidente e deixando ficar apenas aquilo relativa­
mente ao qual a relação foi correctamente exposta, o
relativo será sempre dito em relação a esse; como por 35
exemplo, se o escravo se disser em relação ao senhor,
retirando-se todas as coisas que são acidentes para o
senhor, como ser bípede, ser capaz de receber o conhe­
cimento ou ser homem53, deixando ficar apenas o facto
de ser senhor, o escravo será sempre dito em relação a
esse; pois dizemos que o escravo é escravo do senhor. 7b
Mas, se não se expuser adequadamente aquilo em
relação ao qual algo se diz relativo, retirando-se as
restantes coisas e deixando ficar apenas aquilo relati­
vamente ao qual a relação foi correctamente exposta,
o relativo não será dito em relação a esse; exponha-se
o escravo como relativo do homem e o pássaro como
relativo do alado, e afaste-se do homem o facto de ele 5
ser senhor; nesse caso, o escravo não será dito em
relação ao homem54 - pois, não havendo senhor, não

53 Isto é, são acidentes relativamente à relação com o escravo; porque,


para um homem, ser senhor de outro homem é um acidente (como
é um acidente toda a relação).
54 Isto é, não será possível estabelecer um relativo do escravo, ou no
exemplo seguinte, da asa.

75
há escravo; e o mesmo acontece se se afasta do pás­
saro o facto de ele ser alado; a asa já não será um rela­
tivo; pois, não havendo um alado, não haverá uma
asa que seja asa de algo.
E assim, é necessário expor adequadamente aquilo 10
em relação ao qual algo se diz relativo; se houver um
nome estabelecido, a exposição tornar-se-á fácil, não
havendo, será necessário, naturalmente, criar um nome.
Deste modo, adequadamente exposto o relativo, é claro
que todos os relativos se dizem de um correlativo.
Parece que os relativos são simultâneos por 15
natureza55. E que isto é verdade na maioria dos casos;
de facto, o dobro é simultâneo da metade e, existindo a
metade, existe o dobro, e existindo o escravo, existe o
senhor; e da mesma maneira para todas as outras
coisas. E estes relativos anulam-se uns aos outros; pois, 20
não existindo o dobro, não há metade, e não existindo
a metade não há o dobro; e da mesma maneira quanto
a todas as outras coisas que assim existem. Mas não
parece ser verdade acerca de todos os relativos que
sejam simultâneos por natureza; pois o conhecido56
parece ser anterior ao conhecimento; de facto, a maior
parte das vezes, é de coisas anteriormente existentes 25
que adquirimos conhecimento; seria raro, ou mesmo
impossível, alguém descobrir um conhecimento que se
gerasse simultaneamente com o conhecido.
E ainda, anulado o conhecido, com ele se anula o
conhecimento, mas anulando-se o conhecimento,
não se anula com ele o conhecido; pois, não existindo

55 Quarta característica da relação.


56 Isto é, a coisa (que será objecto de conhecimento), anteriormente a
ser conhecida.

76
o conhecido, não há conhecimento - com efeito, seria
um conhecimento de coisa nenhuma - , mas, não 30
existindo o conhecimento, nada impede que haja o
conhecido; como por exemplo, a quadratura do cír­
culo, se é conhecida57, nem por isso há conhecimento
dela, sendo ela, ainda assim, conhecida. E ainda, anu­
lado o animal58, não há conhecimento, mas é possível
que haja muitos conhecidos.
E da mesma maneira para as coisas que se situam ao 35
nível da sensação; pois o sensoriado59 parece ser ante­
rior à sensação; com efeito, anulando-se o sensoriado,
anula-se com ele a sensação, mas anulando-se a sen­
sação, não se anula com ela o sensoriado. De facto, as
sensações são de um corpo e ocorrem num corpo,
e anulando-se o sensoriado, será também anulado
o corpo - pois o corpo é sensível - e, não existindo o 8a
corpo, será anulada a sensação, da mesma maneira que,
anulando-se o sensoriado, se anula a sensação. Mas,
anulando-se a sensação, não se anula o sensoriado; anu­
lando-se o animal, será anulada a sensação, mas perma­
necerá o sensoriado, como o corpo, o quente, o doce, o 5
amargo e todas as outras coisas que são sensoriadas.
E ainda, a sensação será gerada em simultâneo
com aquele que sensória - pois o animal gera-se em
simultâneo com a sensação - , mas o sensoriado existe
antes de existir sensação - com efeito, o fogo e a água
e este género de coisas, a partir das quais se constitui
o animal, existem antes de existirem, de todo, o ani- 10

57 Ou melhor, aqui como nas linhas seguintes, se pode ser conhecida,


se é um objecto de conhecimento.
58 Isto é, aquele que tem conhecimento.
59 Ver atrás, nota 56.

77
mal ou a sensação; e assim, parece que o sensoriado
existe antes da sensação60.
Existe uma dificuldade, que é a de saber se se pode
dizer que nenhuma substância faz parte dos relativos, 15

como parece acontecer, ou se isso é admissível para


algumas substâncias segundas. Para as substâncias
primeiras, é verdade que não fazem parte dos rela­
tivos; pois não se pode dizer que o todo ou as partes
sejam relativos; pois um certo homem não é homem
de alguma coisa nem um certo boi é boi de alguma
coisa; e o mesmo acontece relativamente às partes;
com efeito não se diz que uma certa mão é uma certa 20
mão de alguma coisa mas mão de alguma coisa, nem
se diz que uma certa cabeça é uma certa cabeça de
alguma coisa mas cabeça de alguma coisa61. E o mes­
mo acontece com as substâncias segundas, pelo menos
com a maioria; como por exemplo, não se diz que o
homem é homem de alguma coisa, nem que o boi é
boi de alguma coisa, nem que a madeira é madeira de
alguma coisa, mas diz-se apenas que é propriedade 25
de alguém. Então, relativamente a estes, é claro que a
substância não faz parte dos relativos, mas, acerca de
algumas substâncias segundas, há dúvidas; como
acontece quando se diz que a cabeça é cabeça de algu­
ma coisa e se diz que a mão é mão de alguma coisa e
cada uma das coisas deste género, que parecem ser
relativos. Portanto, se fosse suficiente a definição de

60 Na realidade, não é isso que se passa, pelo que os relativos são


simultâneos.
61 Isto é, são partes e não relativos.

78
relativos anteriormente exposta, seria difícil ou mes- 30
mo impossível explicar por que razão se diz que ne­
nhuma substância faz parte dos relativos; porém, se a
definição não é suficiente, mas são relativas aquelas
entidades cujo ser consiste em terem uma certa
relação com algo, pode dizer-se alguma coisa em
relação a esta dificuldade. Com efeito, a definição
anterior62 segue de perto todos os relativos mas, para 35
essas coisas, serem relativas não é apenas o facto de
serem ditas de outros63.
E, por isto, é claro que quando alguém conhece de
modo determinado um relativo, conhecerá também
de modo determinado aquele em relação ao qual o
primeiro se diz. E isto também é evidente em si mes­
mo; se alguém sabe que uma certa coisa é relativa, e
que o ser, para os relativos, consiste em terem uma 8b
certa relação com algo, saberá com que coisa tem
uma certa relação determinada entidade; mas, se de
modo nenhum sabe com que coisa tem uma certa
relação determinada entidade, também não saberá
que ela tem uma certa relação. Exemplos particulares
mostram isto mesmo; deste modo, se se souber de
modo determinado que algo é o dobro, saber-se-á 5
logo de modo determinado de que quantidade é o
dobro - pois se não houvesse nada de determinado

62 Isto é, não a que acabou de ser dada, mas a que foi utilizada na
primeira parte do capítulo (ver atrás, 6a36-37).
63 Mas também o facto de o seu ser estar dependente do ser do seu
relativo, como acontece com o dobro e não com a cabeça, de acordo
com os exemplos utilizados. Será a expressão desta dependência
que permitirá distinguir as duas definições, a de 8a31-32 e a de 6a36-
-37, referida na nota anterior.

79
acerca do qual se soubesse ser essa quantidade o
dobro, não se saberia, de todo, que há um dobro; e, da
mesma maneira, se se souber que uma certa coisa é
mais bela do que outra, por via disso, necessaria­
mente saber-se-á de maneira determinada de que
coisa a primeira é mais bela (não se saberá de modo 10
indeterminado que essa coisa é mais bela do que
outra coisa qualquer, que é menos bela; nesse caso,
será uma conjectura, e não conhecimento; de facto,
não se poderia saber com precisão que a primeira
coisa é mais bela do que uma que é menos bela; pois
poderia acontecer o seguinte, que nada fosse menos
belo que ela); e assim, é claro que é necessário que,
conhecendo alguém de modo determinado um rela- 15
tivo, conheça também de modo determinado aquilo
em relação ao qual se diz que é relativo.
No que diz respeito à cabeça e à mão, e a cada uma
destas coisas que são substâncias, é possível saber o
que cada uma delas é de modo determinado, mas não
é necessário que se saiba aquilo em relação ao qual se
diz que são relativos; pois não é possível saber de
modo determinado aquilo de que esta cabeça é cabeça 20
ou aquilo de que esta mão é mão; deste modo, estes
não são relativos; e, se não são relativos, pode-se dizer
com verdade nenhuma substância faz parte dos rela­
tivos. Naturalmente, nestas coisas, é difícil mostrar
algo rigorosamente, sem ter examinado muitas vezes
as questões, mas não é inútil examina cada uma delas.

8. Chamo qualidade àquilo em virtude do qual se 25


diz que as coisas são de certa maneira; a qualidade é
uma das coisas que se dizem de muitas maneiras.


Uma espécie de qualidade pode ser chamada hábito e
disposição. De facto, o hábito distingue-se da dis­
posição pelo facto de ser mais estável e duradouro; são
hábitos as ciências e as virtudes; com efeito, a ciência
parece ser constante e difícil de mover, mesmo que 30
não se tenha muita ciência, a não ser que se produza
uma grande mudança pela doença ou qualquer outra
coisa assim; e o mesmo acontece com a virtude; como
por exemplo a justiça e a prudência, e cada uma
destas, que não parecem ser fáceis de mover nem de 35
mudar. Chamam-se disposições, por sua vez, as quali­
dades que são fáceis de mover e mudam rapidamente,
como o calor e o frio e a doença e a saúde e todas as
coisas deste género; de facto, o homem encontra-se
numa certa disposição relativamente a elas, mas muda
rapidamente, passando de quente a frio e de saudável 9a
a doente; e da mesma maneira com as outras coisas, a
não ser que aconteça que algumas destas disposições
se torne, através de um longo período de tempo, natu­
ral e incurável e difícil de mover, de maneira que passe
a chamar-se hábito. E claro que temos tendência para
dizer que são hábitos estas disposições que são dura- 5
douras e muito difíceis de mover; pois não dizemos
que aqueles que não possuem completamente a ciên­
cia, mas a têm de modo a que ela seja fácil de mover
têm um hábito de ciência, ainda que se encontrem
numa certa disposição, pior ou melhor, relativamente
à ciência. E assim, o hábito difere da disposição pelo
facto de uma ser fácil de mover e outro duradouro e 10
difícil de mover. Os hábitos são também disposições,
mas as disposições não são necessariamente hábitos;
com efeito, ter hábitos é encontrar-se numa certa dis-

81
posição relativamente às coisas, mas os que se encon­
tram numa certa disposição nem sempre têm o hábito
correspondente.
Outro género de qualidades é aquele segundo o
qual falamos de um bom pugilista ou de um bom
corredor, ou de ser saudável ou doente, e simples- 15
mente de todas as coisas que são ditas segundo uma
potência ou uma impotência física. Pois não é por o
indivíduo se encontrar numa certa disposição que se
diz cada uma destas coisas, mas por ter uma potência
natural de fazer algo com facilidade, ou de não ser
afectado por algo; como, por exemplo, dizemos que
alguém é um bom lutador ou um bom corredor, não
por se encontrar numa certa disposição, mas por ter 20
uma certa potência natural de fazer algo com facili­
dade, e dizemos que alguém é saudável por ter uma
certa potência natural de não ser facilmente afectado
pelo que acontece e que é doente por ter uma certa
impotência natural de não ser afectado. E o mesmo
acontece com o duro e o mole; pois diz-se que algo é 25
duro por ter a potência de não ser facilmente dividido
e que algo é mole por ter a impotência disto mesmo.
Um terceiro género de qualidade são as quali­
dades passivas e as afecções64; estas são por exemplo
a doçura, a amargura, a acridez e todas as coisas que 30
com estas se geram, e ainda o calor e o frio e a bran-

64 Tricot, ad loc., traduz por «qualités affectives et (...) affections»,


tradução que mantém a proximidade entre pathêtika, poiotês e pathê.
No entanto, por «afectivo» ter adquirido, em português, uma cono­
tação diferente de «passivo» - ainda que «afecção» mantenha a
conotação original - , preferimos seguir o exemplo de Cooke, que
traduz por «passive qualifies and (...) affections» (ad loc.).

82
cura e a negrura. É claro que estas são qualidades;
pois diz-se que as entidades que as recebem são de
certa maneira por causa da presença delas; como por
exemplo, diz-se que o mel é doce pelo facto de rece­
ber a doçura, e que o corpo é branco pelo facto de
receber a brancura; e da mesma maneira com as 35
outras coisas.
Quando se fala das qualidades passivas não se diz
que o são pelo facto de as coisas que recebem essas 9b
qualidades terem sido, de algum modo, afectadas; pois
não é por ter sido afectado de alguma maneira que se
diz que o mel é doce, e o mesmo acontece com as ou­
tras coisas deste género; da mesma maneira, se se diz
que o calor e o frio são qualidades passivas não é pelo
facto de as coisas que as recebem terem sido, de algum 5
modo, afectadas, mas chamam-se qualidades passivas
pelo facto de cada uma das qualidades de que falámos
ser produtora de afecções nas sensações. Com efeito, a
doçura produz uma afecção no gosto e o calor no tacto,
e da mesma maneira as outras qualidades.
Mas não se diz que a brancura e a negrura e as 10
outras cores65 são qualidades passivas da mesma
maneira que as anteriores, mas são esse género de
qualidades pelo facto de elas mesmas se gerarem
através de uma afecção. De facto, é evidente que
muitas mudanças de cores ocorrem através de uma
afecção; pois quando uma pessoa se envergonha fica
corada, e quando tem medo torna-se pálida, e o
mesmo acontece com as restantes coisas; desta 15

65 Trata-se, aqui, da cor da pele, e portanto de cores dos seres animados,


resultantes de modificações nesses seres (ver Tricot, ibidem, p. 45, nota 2).

83
maneira, se alguém é afectado por natureza por algu­
mas destas afecções66, é provável que lhe sobrevenha
a mesma cor; de facto, a disposição que se produziu
num dado momento nos elementos corporais, por
exemplo no caso da vergonha, pode ser uma dis­
posição que se tenha gerado segundo uma consti­
tuição natural67, de maneira a ter-se produzido por
natureza a cor correspondente. Assim, todas as carac­
terísticas particulares deste género, que têm como 20
princípio afecções difíceis de mover e constantes68,
chamam-se qualidades passivas; e se a palidez e a
negrura se geram num a constituição natural,
chamam-se qualidades - pois diz-se que somos de
certa maneira por causa delas - , ou se a palidez e a
negrura aconteceram, respectivamente, por causa de 25
uma doença prolongada ou por causa de uma
queimadura solar, e não desaparecem facilmente ou
permanecem ao longo de toda a vida, chamam-se
qualidades - pois, do mesmo modo, diz-se que somos
de certa maneira por causa delas.
Todas aquelas características particulares que
provêm de causas que se dissolvem facilmente e
desaparecem rapidam ente cham am -se afecções; 30
pois não se diz que alguém é de certa maneira por
causa delas; de facto, não se diz do que corou por
se ter envergonhado que se tornou vermelho, nem
do que empalideceu por ter medo que se tornou

66 Isto é, se alguém tem propensão natural para a vergonha ou o medo.


67 Isto é, como resultado da referida propensão, por exemplo para a
vergonha.
68 Isto é, as referidas propensões naturais.

84
branco69, mas antes que foi afectado de alguma
maneira; assim, diz-se que se trata de afecções e não
de qualidades. E o mesmo acontece com as quali­
dades passivas e afecções da alma.
Todas as coisas que, no próprio momento do nasci­
mento, se geram por causa de certas afecções cha- 35
mam-se qualidades, como o êxtase de loucura, a
cólera e outras qualidades deste género; pois diz-se 10 a

que alguém é de certa maneira por causa delas, que é


colérico ou louco. E, da mesma maneira, todos os
êxtases que não são naturais, mas se geram de outras
características particulares70 e são difíceis de afastar 5
ou completamente imutáveis, são qualidades; pois
diz-se que alguém é de certa maneira por causa delas.
Todas aquelas características particulares que se
geram de causas que se suspendem rapidamente
chamam-se afecções, como se alguém, estando inqui­
eto, se encoleriza; pois não se chama colérico aquele
que, incomodado, se encoleriza, mas antes se diz que
foi afectado de alguma maneira; assim, estas carac- 10
terísticas chamam-se afecções, mas não qualidades.
Um quarto género de qualidades são a figura exte­
rior e a forma, que pertence a cada um dos seres, e
ainda, para além destas, a recta e a curva e outras
coisas semelhantes a estas; pois diz-se que alguma
coisa é de certa maneira segundo tem cada uma
destas qualidades; de facto, diz-se que algo é de certa
maneira pelo facto de ser triangular ou quadrangular, 15

69 Isto é, que se tornou vermelho ou branco prolongada ou definitiva­


mente, como acontece quando se trata de uma qualidade.
70 Como as referidas na nota 66.

85
ou pelo facto de ser recto ou curvo. E é pela sua forma
que se diz que cada coisa é de certa maneira. Também
o raro e o denso, o rugoso e o liso parecem significar
uma certa maneira de ser, e estes parecem ser estra­
nhos às divisões da qualidade71; pois cada um deles
parece sobretudo expor uma certa posição das partes; 20

com efeito, uma coisa é densa pelo facto de as suas


partes estarem muito próximas umas das outras e
rara por as suas partes estarem distantes umas das
outras; e é lisa pelo facto de as suas partes estarem
dispostas de modo regular, e rugosa pelo facto de
umas partes estarem em relevo e outras recuadas.
E da mesma maneira, poder-se-ia descobrir outros 25
modos de falar da qualidade, mas estes72 são talvez
aqueles de que mais frequentemente se fala.
As qualidades são, pois, as que referimos, e têm
certa qualidade as coisas que se dizem paronima-
mente a partir destas, ou que se dizem73 de alguma
outra maneira a partir delas. A maior parte das vezes, 30
e mesmo quase sempre, as coisas que têm qualidade

71 Nesta, como noutras circunstâncias, é muito difícil tornar o texto com­


preensível mantendo-nos fiéis ao critério de tradução que temos
vindo a seguir neste capítulo, e que consiste em traduzir poion por
«ser de certa maneira» e poiotês por «qualidade». A partir de 10bl2,
poion passa a ser usado com maior frequência que poiotês - acentuan­
do-se, portanto, o seu sentido técnico, que não estava tão claramente
presente em 8b25 - , sempre com o sentido de «qualidade».
72 Não os que se acabou de referir que, como se viu, não são quali­
dades, mas os referidos desde o início do capítulo.
73 Preferimos esta interpolação, por simetria com a linha anterior.
Cooke, ad loc., e Tricot, ad loc., traduzem, respectivamente, por
«depend in some other way on them» e «qui en dépendent de
quelque autre façon».

8(1
dizem-se paronimamente, como o branco se diz
paronimamente a partir da brancura e o gramático a
partir da gramática, e o justo a partir da justiça, e o
mesmo acontece com as restantes coisas.
Em alguns casos, porém, não se tendo estabelecido
um nome para as qualidades, não é possível chamar
paronimamente, a partir delas, as coisas que têm qua­
lidade; como o corredor e o lutador, que são assim 35
chamados segundo a capacidade natural que pos- 10 b
suem e não são chamados paronimamente a partir de
nenhuma qualidade; de facto, não estão estabelecidos
nomes para as capacidades, segundo os quais se diga
que estes são de certa maneira, como estão estabele­
cidos para as ciências, a partir das quais se chamam
pugilistas e ginastas os que se chamam a partir dessa
disposição - pois diz-se que o pugilismo é uma ciên­
cia, e também a ginástica, e diz-se que são de certa 5
maneira, que é dita paronimamente a partir do nome
da ciência respectiva, os que se encontram nessa dis­
posição. Por vezes, mesmo estando estabelecido o
nome da qualidade, não se diz paronimamente aquilo
que se diz que é de certa maneira, como o homem
honesto que é assim chamado a partir da virtude; pois
é por possuir a virtude que o homem honesto é assim
chamado, mas não o é paronimamente a partir da vir­
tude; mas isto não acontece em muitos casos. 10
Assim, diz-se que são de certa maneira as coisas
que são chamadas paronimamente a partir das quali­
dades referidas ou que, de alguma outra maneira, são
ditas74 a partir delas.

74 Ver nota anterior (Cooke, ad loc.; Tricot, ad loc.).

87
A contrariedade pertence à qualidade75, como a
justiça, que é o contrário da injustiça e a brancura da
negrura, e as restantes do mesmo modo, e a partir 15
destas as coisas que se diz serem de certa maneira,
como o justo que é o contrário do injusto e o branco
que é o contrário do preto. Mas nem sempre é assim;
de facto, não há nenhum contrário do vermelho ou do
amarelo ou destas cores, ainda que sejam qualidades.
E ainda, se um dos contrários é uma qualidade, o
outro será também uma qualidade. Isto é claro
através do recurso às outras categorias, como por 20
exemplo se a justiça é o contrário da injustiça, e a
justiça é uma qualidade, a injustiça será também uma
qualidade; com efeito, nenhuma das outras categorias
se ajusta à injustiça, nem a quantidade, nem a relação,
nem o lugar, nem em geral nenhuma destas, senão a
qualidade; e da mesma maneira sobre os outros con­
trários que se estabelecem a partir da qualidade. 25
A qualidade também acolhe o mais e o menos76;
pois diz-se que um branco é mais ou menos branco
que outro, e que um justo é mais ou menos justo que
outro. A própria qualidade pode também aumentar -
pois é possível que o que é branco se torne mais
branco; porém, nem todas as qualidades têm esta
característica, mas apenas a maior parte; pois se 30
alguém disser que a justiça é mais justa que a justiça,
ficará embaraçado se quiser defender esse ponto de
vista, e o mesmo acontece com outras disposições.
Alguns estão de acordo com istp; pois dizem que de

75 Primeira de um conjunto de três características da qualidade.


76 Segunda característica da qualidade.

8K
modo nenhum se pode dizer que a justiça é mais ou
menos justa que a justiça, ou que a saúde é mais ou 35
menos saudável que a saúde, mas dizem que apenas
se pode dizer que alguém tem menos saúde que outra 11 a
pessoa ou que alguém tem menos justiça que outra
pessoa, e do mesmo modo com a gramática e com as
outras disposições. Mas é incontestável que as coisas
que se dizem segundo estas qualidades acolhem o
mais e o menos; pois diz-se que alguém é mais
gramático que outro e mais justo e mais saudável, e 5
do mesmo modo com as restantes qualidades.
Mas nem o triângulo nem o quadrado, nem ne­
nhuma das outras figuras, parecem acolher o mais e o
menos; pois as coisas que acolhem a definição de
triângulo e a de círculo são, todas elas, da mesma
maneira, triângulos e círculos, e das que não as aco­
lhem não se pode dizer que uma seja mais ou menos
triângulo ou círculo do que outra; pois o triângulo
não é mais círculo do que o rectângulo; na verdade, 10

nenhum destes acolhe a definição do círculo. Em


suma, se nenhum deles acolhe a definição apresen­
tada, não se pode dizer que um seja mais do que o
outro aquilo que a definição exprime. Daí que nem
todas as qualidades acolham o mais e o menos.
Das características que temos vindo a referir, ne- 15
nhuma é própria da qualidade, mas o semelhante e o
dissemelhante dizem-se apenas da qualidade77; pois
uma coisa não é semelhante a outra por outra razão
que não seja pela qualidade que tem. E assim, será

77 Terceira característica da qualidade, exclusiva desta categoria, como


também se diz no texto.

89
próprio da qualidade dizer-se dela que é semelhante
ou dissemelhante.
Não é preciso inquietarmo-nos se alguém nos dis- 20
ser que, tendo nós querido fazer uma exposição sobre
a qualidade, enumerámos muitos relativos; de facto,
os hábitos e as disposições são relativos. Em quase
todos os casos deste tipo, diz-se que os géneros são
relativos, não o sendo os particulares78; com efeito, a
ciência, sendo um género, é em si mesma algo que se
diz de outro - pois diz-se que uma ciência é ciência de
alguma coisa. Mas nenhuma das ciências particula- 25
res79 é em si mesma algo que se diz de outro, como a
gramática, que não se diz que é gramática de alguma
coisa, ou a música80, que não se diz que é música de
alguma coisa mas, se se diz que são relativos, é apenas
a partir do género; como a gramática, que se diz que é
ciência de alguma coisa, mas não gramática de alguma 30
coisa, e a música, que é ciência de alguma coisa, mas
não música de alguma coisa.
E assim, as ciências particulares não fazem parte
dos relativos. E diz-se que somos de certa maneira a
partir delas; pois possuimo-las - de facto, diz-se que
somos sabedores pelo facto de possuirmos uma certa
ciência de particulares81; e assim, estas ciências parti- 35
culares serão qualidades, a partir das quais se diz que

78 Cooke (ad loc.) traduz por «individuais»; Tricot (ad loc.), por «espèces
particulières».
79 Trata-se, como a tradução de Tricot deixava adivinhar, de sub-divi-
sões do género, ou seja, a rigor, de espécies, e não de indivíduos
(como seria «um certo conhecimento gramatical»: la25-26).
80 Ou instrução em geral, incluindo a poesia e a música. V. Bailly, ibidem.
81 Isto é, uma certa ciência particular.

90
somos de certa maneira; mas não são relativos. E ainda,
se acontecer que a mesma coisa seja uma qualidade e
uma relação, não há nada de absurdo no facto de essa
mesma coisa ser contada em ambos os géneros82.

9. A acção e a paixão acolhem a contrariedade, e nb


também o mais e o menos83; pois o aquecer é o con­
trário do arrefecer e o ser aquecido do ser arrefecido e
o alegrar-se do entristecer-se; e assim acolhem a con­
trariedade. E também o mais e o menos; pois o aque- 5
cer tem mais e menos, e o ser aquecido também tem
mais e menos, e o entristecer-se tem mais e menos;
pelo que a acção e a paixão acolhem o mais e o menos.
Sobre estas categorias, é isto que há a dizer. Já falá­
mos da posição no capítulo sobre a relação, dizendo 10
que se diz paronimamente a partir das posições84.
Sobre as restantes, o tempo e o lugar e a posse, uma
vez que são muito claras, nada será dito sobre elas, a
não ser aquilo que ficou dito ao princípio, que a
posse85 significa estar calçado, estar armado, e que o
lugar é, por exemplo, no Liceu, e tudo aquilo que
ficou dito sobre elas86.

10. Sobre os géneros87 expostos, é suficiente o que 15

foi dito. Há que falar agora dos opostos e de quantas


maneiras se costuma falar de oposição. Diz-se que uma

82 Isto é, categorias.
83 São as duas características da acção e da paixão.
84 Ver atrás, 6bll-14.
85 Mas ver adiante, 15.
86 Ver atrás, Ib25-2al0.
87 Ver nota 82.

91
coisa se opõe a outra de quatro maneiras, ou como se
opõem os relativos, ou como se opõem os contrários,
ou como se opõem a privação e a posse, ou como se
opõem a afirmação e a negação. Pode dizer-se, suma- 20
riamente, que cada um destes termos se opõe, por
exemplo, no caso dos relativos, como o dobro se opõe
à metade, por exemplo, no caso dos contrários, como o
mal se opõe ao bem, por exemplo, no caso da privação
e da posse, como a cegueira se opõe à visão, por exem­
plo, no caso da afirmação e da negação, como estar
sentado se opõe a não estar sentado.
Todas as coisas que se opõem como relativos88 são 25
aquelas que são por se dizerem dos seus opostos ou
por terem qualquer outra relação com eles, como o
dobro que é , em si mesmo, aquilo que se diz dobro da
metade; e o conhecimento, que se opõe, como rela­
tivo, ao conhecido, e é , em si mesmo, aquilo que se 30
diz do conhecido; e o conhecido é , em si mesmo,
aquilo que se diz opor-se ao conhecimento; pois diz-
-se que o conhecido é conhecido para alguma coisa, a
saber, para o conhecimento.
Assim, todas as coisas que se opõem como rela- 35
tivos são aquelas que são por se dizerem dos seus
opostos ou que se dizem, seja como for, umas em
relação às outras; as que se opõem como contrários89
são aquelas que de modo nenhum são por se dizerem
umas em relação às outras, mas que apenas se diz que
são contrárias umas às outras; de facto, não se diz que
o bem é bem do mal, mas seu contrário, nem que o

88 Primeira divisão da oposição. Ver atrás, capítulo 7.


89 Segunda divisão da oposição.

92
branco é branco do negro, mas seu contrário. E assim,
estas oposições90 diferem uma da outra. Todos aque­
les que são contrários são tais que, quando ocorrem 12a
naturalmente num sujeito, ou são predicados de um
sujeito, é necessário que um deles esteja presente, não
havendo termo intermédio entre eles91 (quanto àque­
les contrários dos quais não é necessário que um deles
esteja presente, entre estes haverá de todas as
maneiras um termo intermédio). Como a doença e a
saúde, que ocorrem naturalmente num corpo de um 5
animal, sendo necessário que um deles esteja pre­
sente no corpo do animal, ou a doença ou a saúde; e
o ímpar e o par, que são predicados do número, e é
necessário que um deles esteja presente no número,
ou o ímpar ou o par; e não há entre eles um termo
intermédio, nem entre a doença e a saúde, nem entre
o ímpar e o par. Quanto aos contrários relativamente 10
aos quais não é necessário que um deles esteja pre­
sente, entre estes haverá um termo intermédio92;
como o negro e o branco, que ocorrem naturalmente
num corpo, mas não é necessário que um deles esteja
presente num corpo - pois nem todos os corpos são
brancos ou negros; e vicioso e honesto são predicados
do homem e de muitos outros, mas não é necessário 15
que um deles esteja presente naqueles dos quais se
predica; pois nem todos são viciosos ou honestos.
E assim, entre estes há um termo intermédio, como

90 Isto é, a dos relativos e a dos contrários. Esta questão fica melhor


esclarecida adiante (ver 14a6-14, e respectiva nota).
91 Primeira subdivisão da contrariedade.
92 Segunda subdivisão da contrariedade.

93
entre o branco e o preto há o cinzento e o amarelado,
e todas as outras cores, e entre o vicioso e o honesto 20

há o que não é vicioso nem honesto. Para alguns, esta­


belecem-se nomes para esses termos intermédios,
como o cinzento e o amarelado, que são termos inter­
médios entre o branco e o negro; mas, para alguns
outros não é fácil dar um nome ao termo intermédio,
mas é pela negação de cada um dos termos extremos
que se define o intermédio, como o que não é bom
nem mau nem justo nem injusto. 25
A privação e a posse93 dizem-se acerca da mesma
coisa, como a visão e a cegueira, que se dizem da
vista; cada um dos opostos diz-se, em suma, acerca
daquele no qual ocorre naturalm ente a posse94.
Dizemos que está privado aquele que está disposto a
receber a posse, quando essa posse não ocorre de
modo nenhum, naquele em que devia ocorrer natu- 30
ralmente, e no momento em que devia ocorrer; de
facto, não chamamos desdentado ao que não tem
dentes, nem cego ao que não tem vista, mas ao que
não tem dentes e vista quando devia ter; com efeito,
alguns não têm, à nascença, nem vista nem dentes,
mas não são chamados desdentados nem cegos.
Estar privado e ter a posse não é o mesmo que a 35
privação ou a posse; com efeito, a posse é a vista e a
privação, a cegueira, mas ter a vista não é o mesmo
que a vista, nem ser cego é o mesmo que a cegueira;

93 Terceira divisão da oposição.


94 Isto é, e como se explica a seguir, privação^ posse são opostos quali­
ficados: não se diz que uma planta está privada de visão, porque a
posse da visão não ocorre(ria) naturalmente nela.

94
pois a cegueira é uma certa privação e ser cego é estar
privado, mas não é uma privação. E ainda, se a
cegueira fosse o mesmo que ser cego, ambos pode­
riam ser predicados do mesmo; mas se se diz que
o homem é cego, não se diz, de modo nenhum, que o 12b
homem é cegueira95.
Parece que estar privado e ter a posse se opõem
como a privação se opõe à posse; pois o modo da
oposição é o mesmo; de facto, da mesma maneira que
a cegueira se opõe à vista, assim também o ser cego se
opõe a ter vista. 5
Aquilo que é referido pela afirmação e pela negação
não é nem afirmação nem negação; pois a afirmação é
uma proposição afirmativa e a negação uma propo­
sição negativa, mas o que é referido na afirmação ou na
negação não é uma proposição96. Mas diz-se que as 10
coisas que são referidas pelas proposições se opõem
umas às outras como a afirmação à negação; e neste
caso também o modo da oposição é o mesmo; pois da
mesma maneira que a afirmação se opõe à negação,
como, por exemplo, ele está sentado se opõe a ele não
está sentado, assim também se opõem as coisas que são
referidas por cada uma destas proposições, estar senta- 15
do - não estar sentado.
Que a privação e a posse não se opõem como rela­
tivos97, é evidente; pois não se diz que o seu ser é
serem relativamente ao seu oposto; de facto, a visão

95 Ver atrás, 2b27-34.


96 Ver atrás, lal6-19.
97 Aristóteles continua a distinguir as diferentes divisões da oposição:
a privação e a posse (terceira divisão da oposição) distinguem-se dos
relativos (primeira divisão da oposição).

95
não é visão da cegueira, nem se diz que são relativas
em nenhum outro sentido; e, da mesma maneira, não
se diz que a cegueira é cegueira da visão, mas diz-se
que a cegueira é privação da visão, e não se diz que é 20
cegueira da visão. E ainda, todos os relativos se dizem
em relação a um correlativo, pelo que, se a cegueira
fosse um relativo, teria que ser correlativa daquilo
relativamente ao qual se dissesse; mas a verdade é
que não é correlativa; pois não se diz que a visão
é visão da cegueira. 25
E claro, pelo seguinte, que não é como os contrários
que se opõem as coisas que se dizem segundo a pri­
vação e a posse98. Com efeito, quanto aos contrários
entre os quais não existe qualquer termo intermédio, é
necessário que, naqueles sujeitos em que ocorrem
naturalmente ou dos quais são predicados, um destes
esteja sempre presente; pois não há qualquer termo 30
intermédio entre aqueles contrários, um dos quais está
necessariamente presente no sujeito que é capaz de os
receber, como a doença e a saúde e o ímpar e o par;
mas quanto àqueles contrários entre os quais existe um
termo intermédio não é de modo nenhum necessário
que um deles esteja presente em todos os sujeitos que
são capazes de os receber; com efeito, nem o branco
nem o preto, nem o quente nem o frio estão necessa­
riamente presentes em todos os sujeitos que são
capazes de os receber - pois nada impede que esteja
presente um intermédio entre estes contrários; e ainda, 35
como atrás dissemos99, haverá um termo intermédio

98 A privação e a posse (terceira divisão da oposição) distinguem-se


igualmente dos contrários (segunda divisão da oposição).
99 Ver atrás, 12a2-4.

96
entre aqueles contrários dos quais não é necessário que
um deles esteja presente no sujeito que é capaz de os
receber, a não ser que um deles esteja naturalmente
presente naqueles sujeitos que são capazes de os rece­
ber, como, para o fogo, o ser quente e, para a neve, o ser
branca; neste caso, é necessário que um destes contrá- 40
rios esteja presente, de modo determinado, no sujeito,
não podendo estar um deles, ao acaso100; pois não é
possível que o fogo seja frio ou que a neve seja preta;
e assim, um dos contrários não pertence necessaria- 13a
mente a todos os sujeitos que são capazes de os rece­
ber101, mas apenas pertence necessariamente àqueles
nos quais um deles está naturalmente presente, e nes­
tes está presente de modo determinado, não podendo
estar um deles, ao acaso.
No que diz respeito à privação e à posse, nada do
que acabámos de dizer é verdade; pois nenhum destes 5
opostos pertence necessariamente, sempre, ao sujeito
que é capaz de os receber - com efeito, não se diz que
o que ainda não tem, naturalmente, a vista102 é cego
ou possuidor de vista, e assim estes opostos não per­
tencem àqueles contrários que não têm, entre eles, um
termo intermédio; mas também não pertencem àqueles
contrários que têm um termo intermédio; pois é neces­
sário que um deles pertença ao sujeito que é capaz de 10
os receber; diz-se que, quando já se tem naturalmente a
vista, se é cego, ou se tem vista, mas não uma destas

100 Terceira subdivisão da contrariedade, não referida acima, aquando


da discussão desta segunda divisão da oposição.
101 Isto é, o negro não pertence necessariamente à neve, pois não pode,
nunca, ocorrer nela, nem o frio ao fogo.
102 Como os recém-nascidos, ver atrás, 12a33-34.

97
coisas de modo determinado, mas antes uma delas, ao
acaso - pois não é necessário que se seja cego ou se
tenha vista, mas que se tenha uma dessas coisas, ao
acaso; e ainda, quanto aos contrários que têm um termo
intermédio, não é, de modo nenhum, necessário que
um deles esteja presente em todos os sujeitos que são
capazes de os receber, mas apenas em alguns, e que um
deles esteja presente nestes de modo determinado. 15
Assim, é claro que as coisas que se opõem segundo a
privação e a posse não se opõem segundo nenhum dos
modos como se opõem os contrários.
E ainda, quanto aos contrários, é possível que, per­
manecendo o sujeito que é capaz de os receber, eles se 20
transformem uns nos outros, a não ser que um deles
pertença naturalmente a algum sujeito, como o fogo,
que é quente; com efeito, é possível que o saudável
adoeça e que o branco se torne negro, e o frio quente,
e é possível que, de honesto, o homem se torne
vicioso e, de vicioso, honesto; pois o homem vicioso,
orientando-se, ainda que pouco, para uma ocupação
e para um discurso melhores fará um progresso para 25
melhor; e mesmo que seja um progresso pequeno e
que ocorra uma só vez, é claro que poderá mudar
completamente ou fazer um considerável progresso;
pois passa a ter facilidade de mudar no sentido da vir­
tude, ainda que, a princípio, o progresso fosse
pequeno, e assim, é provável que haja um progresso
maior; e, continuando sempre a transformação, esta- 30
belecer-se-á o hábito103 contrário, a não ser que o

103 Retomamos aqui a tradução de hêxis por «hábito» (ver acima, nota 44)
por se tratar de um exemplo - o da virtude - referido, explicitamente,
em 8b27-29, contexto em que utilizámos esta mesma tradução.

<W
tempo o impeça; quanto à privação e à posse, é
impossível que ocorra, em todos os casos, uma
mudança de uma para a outra104; da posse para a pri­
vação, ocorre mudança, mas da privação para a posse
é impossível que ela ocorra; pois se alguém se tornou 35
cego, não voltará a ver, nem o calvo volta a ter cabelo,
nem o desdentado recupera os dentes.
Quanto a todas as coisas que se opõem como a afir­
mação e a negação105, é claro que não se opõem segun­
do nenhum dos modos de oposição de que falámos; 13b
pois é somente neste caso que é necessário que um
oposto seja verdadeiro e o outro falso. Com efeito,
nem quanto aos contrários, nem quanto aos relativos,
nem quanto à privação e à posse é necessário que um 5
dos opostos seja verdadeiro e o outro falso; como, por
exemplo, a saúde é o contrário da doença, e nenhuma
delas é verdadeira ou falsa; e, da mesma maneira, o
dobro e a metade opõem-se um ao outro como rela­
tivos, e nenhum deles é verdadeiro ou falso; nem são
verdadeiros ou falsos os opostos que se opõem segun­
do a privação e a posse, como, por exemplo, a vista e a
cegueira; em suma, aquilo que se diz sem qualquer 10
ligação não é verdadeiro nem falso106; e todos os opos­
tos de que falámos dizem-se sem qualquer ligação.

104 Além de não caber em nenhuma das três subdivisões da con­


trariedade, a privação e a posse (terceira divisão da oposição) tam­
bém se distinguem dos contrários (segunda divisão da oposição)
por não poderem suceder-se no mesmo sujeito como acontece com
estes (pelo menos alguns deles, os pertencentes à segunda subdi­
visão da contrariedade).
105 Quarta divisão da oposição.
106 Ver atrás, 2a4-10.

99
Mas parece que isto devia ocorrer sobretudo nos
contrários, que se dizem segundo uma ligação - pois
Sócrates é saudável é o contrário de Sócrates está 15
doente -, mas nem sequer nestes casos é necessário
que um dos opostos seja verdadeiro e o outro falso; se
Sócrates existir, um deles será verdadeiro e o outro
falso, mas, se ele não existir, serão os dois falsos; pois,
se Sócrates não existir de todo não será verdadeiro
dizer dele que está doente, nem que está saudável107.
Quanto à privação e à posse, não existindo de todo 20
o sujeito que as recebe, nenhuma delas será verda­
deira, e, mesmo existindo, nem sempre uma delas será
verdadeira e a outra falsa; de facto, Sócrates que tem
vista opõe-se a Sócrates que é cego como privação e
posse, e, mesmo existindo Sócrates, não é necessário
que uma delas seja verdadeira e a outra falsa - pois se
ainda não tem vista naturalmente, ambas são falsas -, 25

e, não existindo Sócrates de todo, serão ambas falsas, a


saber, que ele tem vista e que é cego108.
Já quanto à afirmação e à negação, uma será sem­
pre verdadeira e a outra falsa, quer aquilo sobre que
são exista ou não exista; é claro que, se Sócrates exis­
tir, dizer que Sócrates está doente ou que Sócrates não
está doente, uma dessas proposições é verdadeira e a 30
outra falsa, e da mesma maneira se Sócrates não exis­
tir; pois, se não existir, dizer que ele está doente é falso
e dizer que não está doente é verdadeiro; de maneira

107 E assim, a afirmação e a negação, que são sempre verdadeiras ou


falsas, distinguem-se dos contrários (segunda divisão da oposição).
108 E assim, a afirmação e a negação, que são sempre verdadeiras ou
falsas, distinguem-se da privação e da posse (terceira divisão da
oposição).

100
que é próprio apenas das coisas que se opõem como
a afirmação e a negação que uma delas seria sempre 35
verdadeira e a outra falsa.

11 . O contrário do bem é necessariamente o mal;


isto é evidente por indução 109 a partir dos parti­
culares, como por exemplo o contrário da saúde é a
doença e o contrário da coragem é a cobardia, e da 14 a
mesma maneira os outros; mas o contrário do mal é ,
ora um bem, ora um mal; o contrário da falta, que é
um mal, é o excesso, que é também um mal; e, da
mesma maneira, também a medida é contrário de
cada um desses, sendo um bem; mas são poucas as 5
vezes em que se pode verificar isto, pois, na maior
parte das vezes, o mal é sempre contrário do bem.
E ainda, no que respeita aos contrários, não é
necessário que, se um existe, o outro exista também;
pois, se toda a gente for saudável, existirá a saúde,
mas não a doença; e, da mesma maneira, se todas as
coisas forem brancas, existirá a brancura, mas não a
negrura. E ainda, se Sócrates saudável é o contrário
de Sócrates doente, não é possível que, existindo um 10
dos contrários, o outro exista também, simultanea­
mente; pois, se existe Sócrates saudável, não existirá
Sócrates doente110.
É claro que os contrários ocorrem naturalmente 15
naquilo que é idêntico pela espécie ou pelo género;

109 Ver, e.g., A Po. 100al2ss.


110 Deste modo, os contrários distinguem-se dos relativos (que atrás
vimos serem uma das divisões da oposição, llb24ss.), pois estes
existem sempre aos pares (todos os relativos têm um correlativo,
6b28), sendo simultâneos por natureza (7bl5).

101
de facto, a saúde e a doença ocorrem naturalmente no
corpo do animal, a brancura e a negrura em qualquer
corpo, e a justiça e a injustiça na alma.
É necessário que todos os contrários111 pertençam ao 20
mesmo género, ou a géneros contrários, ou sejam, eles
mesmos, géneros; com efeito, o branco e o negro per­
tencem ao mesmo género - pois a cor é um género -, a
justiça e a injustiça, a géneros contrários - pois o género
de uma é a virtude e o de outra, o vício -, e o bem e o
mal não pertencem a nenhum género, mas acontece 25
que são, eles mesmos, géneros de certas coisas.

12 . Diz-se que uma coisa é anterior a outra de qua­


tro maneiras; em primeiro lugar, e mais propria­
mente, segundo o tempo112, de acordo com a qual se
diz que uma coisa é mais velha e mais antiga que
outra - pois é por ter mais tempo que se diz que uma
coisa é mais velha ou mais antiga.
Em segundo lugar, diz-se que é anterior o que não 30
tem recíproco segundo a sequência da existência113,
como o um é anterior ao dois; pois, se o dois existe,
segue-se imediatamente que o um exista, mas, exis­
tindo o um, não é necessário que o dois exista, e
assim, não se segue reciprocamente do um a existên­
cia dos restantes números, pelo que parece ser ante­
rior aquele de cuja existência não se segue reciproca- 35
mente a de outro.

111 Isto é, todos os pares de contrários; v. Copke, ad loc.: «two contrary


qualities»; Tricot, ad loc.: «les couples de contraires».
112 Primeiro sentido de anterioridade.
113 Segundo sentido de anterioridade.

102
Em terceiro lugar, o anterior diz-se segundo uma
certa ordem114, como acontece nas ciências e nos dis­
cursos; de facto, nas ciências demonstrativas, o ante­
rior e o posterior ocorrem segundo uma ordem - os
elementos são anteriores, segundo a ordem, aos dia- ub
gramas, e, no que diz respeito à gramática, as letras
são anteriores às sílabas -, e quanto aos discursos,
acontece o mesmo - o preâmbulo é anterior, segundo
a ordem, à exposição.
E ainda, para além do que fica dito, parece ser
anterior por natureza o melhor e o mais digno115; é
costume dizer que os homens mais considerados e 5
mais amados são anteriores para aqueles que os con­
sideram e amam; este é, sem dúvida, o mais estranho
dos modos de falar da anterioridade.
Os modos de falar do anterior são estes. Pode pare- 10
cer que, para além dos que referimos, há outro modo
de falar da anterioridade; pois, de entre as coisas que
têm recíproco segundo a sequência da existência, dir-
se-ia que a causa da existência parecer, de alguma
maneira, ser anterior, por natureza, à outra coisa116.
Que há coisas que são assim, é evidente; o homem
existente é recíproco segundo a sequência da existência 15
à proposição verdadeira acerca dele; de facto, se o
homem existe, é verdadeira a proposição pela qual
dizemos que o homem existe; e, reciprocamente, se é
verdadeira a proposição pela qual dizemos que o
homem existe, o homem existe; mas de modo nenhum

114 Terceiro sentido de anterioridade.


115 Quarto sentido de anterioridade.
116 Quinto sentido de anterioridade.

103
a proposição verdadeira é causa da existência da coisa,
mas é antes a coisa que parece ser, de certa maneira, 20
causa da existência da proposição verdadeira; pois é
pelo facto de a coisa existir que se diz que a proposição
é verdadeira ou falsa. E assim, é de cinco modos que se
diz que uma coisa é anterior a outra.

13 . Diz-se que são simultâneas, de modo mais sim- 25


pies e mais próprio, as coisas que se geram no mesmo
tem po117; de facto, nenhuma delas é anterior nem
posterior à outra; diz-se, pois, que estas são
simultâneas segundo o tempo. São simultâneas por
natureza as coisas que têm recíproco segundo a
sequência da existência, não sendo uma delas, de
modo nenhum, causa da outra118, como o dobro e a
metade; de facto, estes termos são recíprocos - pois, 30
existindo o dobro, existe a metade e, existindo a
metade, existe o dobro - , mas nenhum deles é causa
da existência do outro.
Diz-se também que são simultâneas por natureza
as espécies que, dentro do mesmo género, se dividem,
opondo-se umas às outras119. Diz-se que se dividem 35
opondo-se umas às outras as espécies que se opõem
segundo a mesma divisão, como o alado que é
simultâneo ao pedestre e ao aquático. Estas espécies120

117 Primeiro sentido da simultaneidade, que corresponde ao primeiro


sentido da anterioridade (ver atrás, 14a26-27).
118 Segundo sentido da simultaneidade, que corresponde ao segundo
e ao quinto sentidos da anterioridade (ver atrás, 14a29-30,14bll-13)
119 Terceiro sentido da simultaneidade, que corresponde ao terceiro
sentido da anterioridade (ver atrás, 14a35-36).
120 Que são geradas, no seio do género, pelas diferenças específicas
com o mesmo nome.

KM
dividem-se opondo-se umas às outras, pertencendo ao
mesmo género; pois o animal divide-se nestas espé­
cies, no alado, no pedestre e no aquático, e nenhuma
destas é anterior ou posterior, mas parecem ser
simultâneas por natureza (cada uma destas espécies, a 15a
saber, o alado, o pedestre e o aquático, é, por sua vez,
divisível em espécies). Serão, então, simultâneas por
natureza, todas as espécies que pertencem ao mesmo
género, segundo a mesma divisão; mas os géneros são 5
sempre anteriores às espécies; pois não têm recíproco
segundo a sequência da existência; como, por exemplo,
existindo o aquático, existe o animal, mas, existindo o
animal, não é necessário que exista o aquático.
São, então, simultâneas todas as coisas que têm
recíproco segundo a sequência da existência, não
sendo, de modo nenhum, uma delas causa da existên- 10
cia da outra, e as espécies que, dentro do mesmo
género, se dividem, opondo-se umas às outras; e são
simultâneas, de modo simples, as coisas que se geram
no mesmo tempo.

14 . Há seis espécies de mudança121: a génese, a cor­


rupção, o aumento, a diminuição, a alteração, o movi­
mento local.
As outras mudanças 122 são, evidentemente, dife- 15
rentes umas das outras. Pois a génese não é corrup-

121 É costume traduzir kinêsis por «movimento» (ver Cooke, nd loc.:


«motion» e Tricot, ad loc.: «mouvement»), dando-lhe, no entanto, o
sentido, mais amplo de «mudança»; preferimos, pois, este último
termo já que, em português, «movimento» nos parece estar mais
associado a «movimento local», pelo que reservamos essa tradução
para kata topon metabolê (15al4).
122 Isto é, que não são a alteração, como se percebe logo adiante.

105
ção, nem o aumento diminuição nem movimento
local, e da mesma maneira relativamente às restantes
espécies de mudança; mas, quanto à alteração, há
uma dificuldade, que é a de saber se não será neces­
sário que o que se altera se altere segundo alguma das 20
outras mudanças. Mas isto não é verdade; pois segun­
do todas ou quase todas as afecções ocorre em nós
uma alteração que nada tem em comum com as
outras mudanças; pois aquele que muda em resulta­
do de uma afecção não aumenta necessariamente,
nem diminui, e da mesma maneira para todas as
outras espécies de mudança, de modo que a alteração 25
seria diferente das outras mudanças; pois, se fosse
idêntica, o que se alterasse teria imediatamente que
aumentar ou diminuir, ou teria que seguir-se qual­
quer outra espécie de mudança; mas não é necessário
que assim seja. E do mesmo modo teria que ser alte­
rado aquilo que aumenta ou muda segundo qualquer
outra espécie de mudança; mas há coisas que crescem 30
sem serem alteradas; como o quadrado, quando se
lhe põe à volta um gnomon123: aumenta, mas não
sofre alteração; e o mesmo acontece com as outras
figuras deste género. E assim, as mudanças serão
diferentes umas das outras.

123 «Paralelograma complementar de outro paralelograma». Pode ilustrar-


-se da seguinte maneira o que Aristóteles pretende dizer quando refe­
re a relação entre o quadrado e o gnomon (ver Cooke, ibidem, p. 105).

\ g
n / °
° n
m ° 'v

106
Em suma, a mudança é o contrário do repouso; 15 b
mas, quanto às mudanças particulares, a corrupção é
o contrário da geração, a diminuição do aumento; o
repouso local parece opor-se sobretudo ao movimento
local, e, neste caso, o movimento para o local con- 5
trário, como o movimento para cima se opõe ao movi­
mento para baixo e o movimento para baixo se opõe
ao movimento para cima. Quanto àquele tipo de
mudança que resta124, para além das mudanças que
analisámos, não é fácil apresentar o que pode ser o seu
contrário, pois não parece haver nenhum contrário
dele, a não ser que alguém apresente aqui, como con­
trário da alteração, o repouso segundo a qualidade, ou
o movimento para a qualidade contrária, da mesma
maneira que o movimento local tem como contrários, 10
quer o repouso local, quer o movimento para o local
contrário - pois a alteração é um movimento segundo
a qualidade; e assim, à mudança segundo a qualidade
opõe-se, quer o repouso segundo a qualidade, quer o
movimento para a qualidade contrária, como por
exemplo tornar-se branco é o contrário de tornar-se 15
negro; uma coisa altera-se, pois, quando há movi­
mento para a qualidade contrária.

15 . A posse diz-se de muitas maneiras; ou como


hábito e disposição, ou qualquer outra qualidade -
pois dizemos que possuímos uma ciência ou uma vir- 20
tude; ou como quantidade, como o tamanho que
alguém por acaso tem - pois diz-se que se tem um
tamanho de três côvados ou de quatro côvados; ou

124 Isto é, a alteração.

107
como as coisas que estão à volta do corpo, como um
manto ou uma túnica; ou como as coisas que estão
numa parte do corpo, como o anel na mão; ou como 25
parte, como a mão ou o pé; ou como num vaso, como
o medímno e o trigo ou o jarro e o vinho - pois diz-se
que o jarro tem o vinho e que o medímno tem o trigo;
e assim, diz-se a posse deste modo, como num vaso;
ou como a propriedade125; pois dizemos que temos
uma casa ou um campo.
E dizemos que temos uma mulher e que a mulher
tem um homem; mas este que acabámos de referir 30
parece ser o modo mais estranho de dizer a posse;
pois, quando dizemos que temos uma mulher, nada
mais queremos significar do que que vivemos em
comum com ela.
E assim, seria possível referir outros modos de
falar da posse, mas já enumerámos quase todos os
que é costume referir.

125 Ver atrás, 8a24.

108
APÊNDICE

VIDA E OBRA DE ARISTÓTELES

Aristóteles nasceu em Estagira, na Macedónia, em


384 a. C.; era filho de Nicómaco, o médico do rei
Amintas, avô de Alexandre, o Grande. Descendente de
uma linhagem de médicos, essa circunstância poderá
explicar o interesse de toda a vida do Estagirita pela
biologia e a classificação dos animais.
Em 367, parte para Atenas, para ir estudar na
Academia de Platão, de quem será aluno durante
cerca de vinte anos. Ao longo deste tempo, além de
assistir a aulas, conferências e discussões, terá tam­
bém ministrado alguns cursos, e eventualmente
escrito alguns diálogos, estilo literário que terá apren­
dido com o seu mestre. Estes anos de trabalho na
Academia não o impedirão, no entanto, de exibir pos­
teriormente um razoável desinteresse, para não dizer
mesmo desprezo, e uma profunda incompreensão
pelas teses platónicas sobre o ser e o conhecimento.

109
Em 347, na sequência da morte de Platão,
Aristóteles parte para a Ásia Menor, estabelecendo-se
em Assos, cidade governada pelo tirano Hérmias, que
mantivera algum contacto com a Academia, e que
Aristóteles conhecera na adolescência. Esta primeira
saída de Atenas ter-se-á ficado a dever, não só ao facto
de a direcção da Academia ter sido entregue a
Espêusipo, sobrinho de Platão, cuja tendência para os
desenvolvimentos matemáticos da ontologia plató­
nica não interessava ao Estagirita, mas também ao
facto de este ser, em Atenas, um estrangeiro e, mais do
que isso, um macedónio; ora, o expansionismo de
Filipe, filho de Amintas, provocava em Atenas senti­
mentos antimacedónios, que tornariam pouco con­
fortável a vida de Aristóteles. Posteriormente, muda-
-se para a cidade de Mitilene, situada na ilha de Lesbos,
onde conhece Teofrasto, que haverá de tornar-se o
seu discípulo mais famoso.
Em 343, Filipe solicita a Aristóteles que se encar­
regue da educação do seu filho Alexandre, e o filósofo
parte para Pela, a cidade real da Macedónia. Em 340,
regressa a Estagira e casa-se com Pítia, sobrinha de
Hérmias. Cinco anos mais tarde, aos 49 anos, muda-
-se para Atenas, onde funda a sua própria escola, o
Liceu, patrocinado e subsidiado pelo seu antigo pu­
pilo, Alexandre, herdeiro desde o ano anterior, por
morte de Filipe, da chefia do exército e da gestão do
império macedónio.
Em 323, Alexandre morre e Aristóteles tem vima
vez mais de sair de Atenas, por não querer sujeitar-se
a sofrer represálias por causa da sua intimidade com o
conquistador. Parte então para Cálcis, na Eubeia, onde

110
possui diversas propriedades, herdadas de sua mãe, e
onde morre um ano depois. No seu testamento, dis­
tribui cuidadosamente os seus bens pelos seus filhos e
pela sua segunda mulher, tomando também provi­
dências quanto ao futuro desta e à libertação de alguns
escravos. A sua mais duradoura realização, o Liceu,
ficara entregue aos cuidados de Teofrasto, o amigo fiel
que o acompanhara desde Mitilene.

Não chegaram até nós todas as obras que Aristóteles


produziu ao longo dos seus sessenta e dois anos de
vida. Os catálogos incluídos nas narrativas antigas das
vidas de filósofos contêm mais de 150 títulos, entre
temas de ética, política, lógica, ontologia, física, biologia,
crítica filosófica, cartas e poemas. Ao longo do tempo,
porém, muitos destes textos foram-se perdendo.
A história da sua transmissão tem um fundo real e
uma aura lendária. Teofrasto terá tomado conta deste
espólio, legando-o ao seu sobrinho Neleu. Por morte
deste, a obra de Aristóteles terá ficado guardada
durante duzentos anos numa cave de uma cidade da
Ásia Menor, sujeita à corrosão do tempo e dos ver­
mes. Terá sido então descoberta e transferida para
Atenas, e depois para Roma, onde Andrónico, um
filósofo peripatético, preparou uma edição dos textos.
Avaliando este fantástico percurso, fácil é supor
que, quando chegaram às mãos do seu primeiro edi­
tor, estes se encontrariam desarticulados, incompletos
e pouco reconhecíveis. Por outro lado, muitos deles
seriam, não propriamente textos, mas notas, esboços
de preparação de aulas, versões de trabalho.
Andrónico seleccionou-os, arrumou-os, organizou-os

111
em livros e, provavelmente, completou-os em alguns
passos. A unidade interna dos tratados de que dispo­
mos, bem como as disparidades e repetições que neles
encontramos, deve-se pois, não tanto a Aristóteles -
que nem sequer terá pensado em publicar a maior
parte deles1 mas ao trabalho de Andrónico.
Em 1831, o estudioso alemão Immanuel Bekker
organizou e publicou a versão contemporânea das
obras de Aristóteles, aquela que se tornou desde
então a versão de referência para todos os estudiosos
da filosofia e cultura gregas e da história da filosofia.
E com base nesta edição, e nas abreviaturas das obras
acordadas entre os especialistas2, que se citam as
obras do Estagirita, o que permite uma universaliza­
ção das citações e um entendimento entre todos os
investigadores, independentemente da numeração
da tradução utilizada por cada um deles. Assim, Cat,
la5-8 corresponde, não às páginas desta edição por­
tuguesa, mas às linhas 5 a 8 [5-8] da coluna da
esquerda [fí] da primeira página [2] das Categorias
[Cat], na edição de Bekker.
O catálogo das obras de Aristóteles reunidas por
Bekker contém algumas obras que provavelmente
não foram escritas pelo próprio Aristóteles; por outro

1 E não convém esquecer que a noção de publicação, de edição pública


de livros, num número de exemplares suficientes para serem divul­
gados, apenas se torna comum, pelo menos no Ocidente, depois da
invenção da imprensa. A escrita para um público vasto e anónimo
não era vista na Antiguidade com os olhos e a naturalidade com que
nós agora a vemos.
2 E. g., as Categorias são abreviadas para Cat, o Da Interpretação para Int,
etc.

112
lado, textos de autores posteriores contêm citações de
obras perdidas do Estagirita - referidas nos catálogos
inicialm ente m encionados - , que o investigador
britânico Valentin Rose reuniu e publicou, em 1886,
sob a forma de uma compilação de fragmentos; por
fim, foi descoberto no final do século passado um
papiro egípcio com o texto da Constituição de Atenas
(que muitos estudiosos atribuem, não a Aristóteles,
mas à sua escola, e que faria parte de uma colecção de
158 constituições, mandadas recolher pelo filósofo,
possivelmente com vista a um estudo comparativo).
Seja como for, do catálogo de Bekker constam 46
títulos, entre autênticos e espúrios, o que constitui
uma evidente redução do catálogo inicial, de mais de
150 obras. O que perdemos de Aristóteles será, por­
tanto, muito mais do que aquilo que chegou até nós e,
mesmo assim, as mais de 2000 páginas de reflexão
sobre os mais diversos assuntos que temos à nossa
disposição não deixaram de ser, nomeadamente ao
longo dos últimos cem anos, mas seguindo uma
tradição de mais de vinte e quatro séculos, motivo de
horas e horas de profundo debate e objecto de milha­
res e milhares de páginas de controvérsia mais ou
menos acesa.

113

1
ÍNDICE

Introdução.............................................................................. 9

Categorias de Aristóteles....................................................... 49

APÊNDICE - Vida e obra de Aristóteles............................ 109


ISBN 978-972-771-326-4

1~ 1
9 789727 713264
1