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O USO DE BFTS ACIONANDO GERADORES DE

INDUÇÃO COMO SOLUÇÃO DE BAIXO CUSTO E


EFICIÊNCIA NO QUE SE REFERE A MICRO E MINE
CENTRAIS HIDRELÉTRICAS
Grupo: (Sistemas de
Energia)

Rafael Emilio Lopes1, Flavia Morato Duarte2, Robinson Percy Holder2, Selenio Rocha Silva2 e Carlos Barreira
Martinez2

Universidade de Itaúna – Rodovia M.G. UFMG / CPH – Universidade Federal de Minas Gerais/Centro de
431, Km 45 Caixa Postal 99.100 - CEP Pesquisas Hidráulicas e Recursos Hídricos
35.680.000 Itaúna, M.G. Av. Antônio Carlos 6227, CEP 31 270-901 Belo Horizonte-M.G.-Brasil
rafaelel@uit.br martinez@cce.ufmg.br

Resumo. Este trabalho apresenta um estudo sobre BFT´s acionando geradores de induçâo como uma solução que
preencha a necessidade de baixo custo e eficiência no que se refere a micro e mine centrais hidrelétricas. A partir do
estudo de BFT’s, se obteve um equacionamento que permite definir a rotação, altura de queda e vazão para que uma
bomba possa operar como turbina e juntamente com o Gerador de Indução as BFT´s oferecem uma solução para
aproveitamento de pequenos potenciais residuais e assim ser colocada em paralelo com o sistema elétrico local, ou
então para que opere isoladamente. O equipamento pode operar em uma gama de pontos de operação, como turbina,
o que se obtém com o equacionamento são as condições na qual o seu desempenho apresentará maior rendimento. Este
trabalho apresenta uma proposta de construção de uma micro_central Hidrelétrica composta de uma BFT e Gerador
de indução ambos selecionados à partir das características do aproveitamento.

Palavras-chave: BFT, potenciais residuais, microgeração, vazão ecológica

1. INTRODUÇÃO rotação, altura de queda e vazão para que uma bomba


possa operar como turbina e juntamente com o
Atualmente o aproveitamento dos potenciais Gerador de Indução as BFT´s oferecem uma solução
hidráulicos residuais no Brasil, através da implantação para aproveitamento de pequenos potenciais residuais e
de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), se constitui assim ser colocada em paralelo com o sistema elétrico
em uma importante oportunidade de expansão da base local, ou então para que opere isoladamente. O
de geração alternativa. Sabe-se que as PCHs possuem equipamento pode operar em uma gama de pontos de
características singulares que as distinguem das usinas operação, como turbina, o que se obtém com o
hidrelétricas de médio e grande portes. Face ao equacionamento são as condições na qual o seu
montante envolvido em sua construção, as PCHs são desempenho apresentará maior rendimento.
alternativas tangíveis à autogeração e à produção .
independente por parte dos grupos empresariais de 2. DESENVOLVIMENTO
porte médio.
A partir do lançamento do PROINFA, Este trabalho apresenta uma proposta de
programa da ELETROBRAS destinado ao incentivo construção de uma micro_central Hidrelétrica
de geração de fontes alternativas, vislumbra-se um composta de uma BFT/Gerador de indução ambos
nicho de mercado que pode ser ocupado, em parte por selecionados à partir das características do
micro e mini centrais hidrelétricas. aproveitamento.
Entretanto, apesar deste esforço, o efeito de Considera-se que as Bombas funcionando
escala penaliza pesadamente este tipo de como turbina podem ser utilizadas para arranjos
empreendimento. Desta forma, iniciou-se um estudo individuais com potências entre 1 kVA à 150 kVA.
visando a redução do investimento inicial na Desta forma as instalações utilizando este equipamento
implantação das micro e mini usinas. A alternativa serão classificadas como micro e mini centrais
contemplada privilegia a utilização de equipamentos hidrelétricas. Assim faz-se, a seguir, uma série de
de série, que possuem um baixo custo e que podem ser comentários sobre procedimentos para a instalação
adquiridos no mercado nacional. deste tipo de central.
Assim baseado na literatura nacional e
internacional (Viana (1987), Willians (1994)), se 2.1. Tomada D’água
buscou uma solução que preencha esta necessidade de
baixo custo e eficiência. A partir do estudo de BFT’s, A estrutura da barragem e tomada d’água pode
se obteve um equacionamento que permite definir a ser dividida em quatro partes:
• Tomada d’água; A tela ou grade de contenção é a responsável
• Desarenadores; por impedir a entrada de partículas flutuantes na BFT.
• Grades; A tubulação de adução deve ficar, neste caso,
• Pequeno vertedouro para escoar o excesso de água a montante do desarenador (ver figura 4.01) e como
em caso de cheia ou outra razão qualquer. critério, deve-se adotar uma submergência mínima
igual a 1,0 m, em relação ao NA mínimo operativo,
Um esquema deste tipo de arranjo é mostrado na fig 1 para evitar a formação de vórtices.
, onde pode-se observar as diferentes partes da Neste caso a tubulação é quase sempre a parte
barragem e tomada d’água. do sistema de adução cujo custo envolvido é o maior.
A escolha da tubulação deve levar em conta o local de
instalação, a pressão envolvida no projeto, as
dificuldades de transporte e as dificuldades de
instalação da tubulação. Outro ponto a ser observado é
o número de emendas a ser utilizado. A durabilidade
também é outro ponto. Os tubos de aço são de
durabilidade e resistência maior que os de PVC, porém
necessitam de transporte mais pesado. O mangote
1 - Muro de concreto para conter o fluxo d’água. flexível tem instalação mais fácil, porém possui uma
dificuldade maior em fazer emendas e conexões.
2 - Tubulação de drenagem (desarenador) da Depois da escolha do tipo de tubulação, é
barragem para retirada de areia e pedras. necessário ainda o cálculo da perda de carga da
instalação. Além do mais, os diâmetros dos flanges de
3 e 4 - Base de concreto, para evitar erosão da pressão e sucção da BFT são de tamanho reduzido, se
barragem. comparados com os seus respectivos pares que compõe
turbinas, isso deve ser levado em consideração pois
5 – Tela de contenção de partículas flutuantes. quase sempre é necessário a instalação de reduções
6 – Tubulação de adução . antes de válvulas, ver fig 2.

Figura 1 - Barragem de concreto convencional e


tomada d’água. (ref.: Willians 1995)

Na fig 1 o muro de concreto terá as


características necessárias ao funcionamento de uma
barragem de concreto convencional em seção tipo
gravidade, que juntamente com base de concreto,
formam a estrutura fixa da barragem.
Da mesma forma que os demais
aproveitamentos hidráulicos deve-se uma atenção
especial à proteção do sistema de adução, já que areia e
pequenas pedras podem realmente danificar o
funcionamento da usina.
O sistema de drenagem (desarenador) da
barragem é constituído por uma câmara, posicionada a
jusante da estrutura da tomada d’água, destinada à
decantação da totalidade ou parte do material sólido
grosso, com granulometria compreendida entre 0,1 mm Figura 2 - Arranjo de tubulação para BFT. (ref.:
e 10 mm, transportado pelo escoamento. Para se obter
a melhor eficiência do desarenador, a velocidade do Willians 1995)
escoamento de aproximação à tomada d’água deve ser É necessário o uso de uma válvula no final da
inferior a 1,0 m/s. tubulação de adução e antes da BFT. Para o bom
Na região mais baixa do desarenador, a funcionamento da instalação é aconselhável o uso de
jusante da tomada d’água, normalmente, prevê-se um uma válvula que não interrompa o fluxo de água
orifício lateral, com uma comporta de fundo, com o rapidamente, por isso o modelo mais indicado é o de
objetivo de possibilitar a limpeza do material gaveta. Isso é necessário para evitar golpe de aríete na
sedimentado. tubulação de adução. O custo com a válvula pode ser
A prática tem demonstrado que a abertura reduzido se a mesma for instalada imediatamente antes
brusca dessa comporta possibilita o expurgo apenas do da BFT logo após a redução, pois para o diâmetro
material depositado, no desarenador, junto à comporta, menor, as válvulas são mais baratas, esta forma de
formando uma cunha com ângulo igual ao ângulo de instalação é mostrada na fig 2 .
repouso do material submerso. A limpeza total do Na saída da BFT é recomendada a utilização
desarenador deverá ser feita manualmente, durante o de um tubo de sucção de diâmetro maior para devolver
período de manutenção programada. o fluxo de água à pressão próxima da atmosfera. Isso
2
evita problemas como erosão do solo na restituição e H bep  N bft 
ainda a recuperação da energia residual na BFT, fig 2 . H bft = * 
1.2 
(ηmax )  N b  (3)
2.2. Seleção da BFT a partir das características
do aproveitamento hidráulico Qbep  N bft 
Qbft = *  
Para selecionar uma bomba para funcionar (ηmax ) 0.8
 Nb  (4)
como turbina a partir de um arranjo particular é
preciso obter a queda bruta “H”, a perda de carga “Hf” Se o ponto de operação do equipamento , em
e a vazão “Q”. termos de Hbft e Qbft estiver muito longe do seu ponto
A queda e vazão do local serão denominados como Hbft de rendimento máximo ou do ponto de máxima
e Qbft, queda e vazão da BFT, respectivamente. transformação de energia, então será necessário
Após a determinação da queda e vazão do local começa selecionar uma nova bomba.
o processo de determinação da bomba que irá Um fator importante para seleção do conjunto
funcionar como turbina. Para determinar a bomba que BFT/gerador é a velocidade de rotação; deve-se
irá trabalhar neste local utiliza-se as equações de selecionar equipamentos cujas velocidades de rotação
Sharma [1] : nominais sejam próximas, o que evitaria que os pontos
de operação de bomba e BFT fossem muito distantes,
H bep implicando em funcionamento de BFT em zonas de
H bft = baixo rendimento, ou seja o número de polos do
(ηmax )1.2 (1) gerador deve ser o correspondente à velocidade de
rotação da bomba como bomba.
Qbep
Qbft =
(ηmax )0.8 (2) 2.3. Seleção de gerador e forma de ligação

Se o gerador escolhido for de indução, não


O processo para determinar o ponto da necessitará de dispositivos de sincronismo e/ou
máxima eficiência da bomba é iterativo e necessita de controladores para funcionar em paralelo, já que a
um valor inicial para o rendimento da bomba própria rede irá suprir o reativo necessário ao
funcionando como bomba, ou seja , uma valor inicial funcionamento do motor de indução para funcionar
para ηmax. como gerador, assim como impor a rotação de trabalho.
Em resumo , uma bomba é selecionada em Porém se o mesmo for utilizado na configuração
função de sua altura manométrica Hbep e de sua vazão isolado deve-se determinar a forma com que o mesmo
Qbep. Inicialmente determina-se Hbep e Qbep utilizando irá alimentar a carga.
as equações de Sarma (1) e (2), arbitrando-se ηmax. Sugere-se que para a maioria dos casos que a
Após várias seleções, concluiu-se que 70% é um valor forma de conecção seja trifásica. Porem em pequenos
para o rendimento que atende a maioria das situações aproveitamentos onde a carga é essencialmente
pesquisadas. monofásica sugere-se que o fornecimento de potência
Em seguida pesquisa-se nos catálogos de seja na forma monofásica. Sugere-se ainda que por
fabricantes um equipamento que atenda a essa motivos de rendimento, custo e proteção que para
combinação de Qbep e Hbep. O rendimento da máquina , potências maiores que 15kVA o gerador trabalhe
lido no catálogo do fabricante, é utilizado nas equações fornecendo potência na forma trifásica.
de de Sharma (1) e (2), para se determinar novo Hbep e Para fornecer energia na configuração isolada,
Qbep. o gerador terá que possuir um sistema de excitação
O processo termina quando se encontrar a próprio que na maioria dos casos é um banco de
menor diferença entre os dois últimos Hbep e Qbep capacitores.
calculados. É importante priorizar máquinas de alto Para trabalhar na forma trifásica é necessário o
rendimento. cálculo da capacitância por fase.
Com a bomba e sua rotação selecionadas, o
próximo passo é identificar o gerador a ser utilizado.
Inicialmente se determina a potência e o número de
pares de pólos do gerador a partir da rotação da BFT.
Em seguida, é preciso verificar se a combinação da
bomba selecionada como BFT e do gerador formam
um conjunto adequado. A velocidade de rotação da
bomba é Nb ; porém funcionando como turbina será Figura 3, Capacitores de excitação em uma máquina
aquela necessária para funcionamento do gerador a ela trifásica (fonte: Niguel Smith, 2001).
acoplado, denominada Nbft.
O ponto de operação do equipamento Considere a figura 3, para esse tipo de acoplamento
funcionando com essa rotação é definido por Hbft e Qbft temos duas possibilidades, Estrela e delta.
calculado pelas equações de Willians (3) e (4).
monofásico não foi descartada. Para isso pode-se
C=1 , C ∆ = Cs
ωXc 3 utilizar um motor trifásico operando como gerador
(5) monofásico.
Onde o subscritos indicam: Para isso tem-se o sistema de conexão “ C – 2C” que
s , Estrela . consiste em:
∆ , Delta.
• Usar uma máquina trifásica ligada em delta.
Para dimensionar o banco de capacitores para • Calcular a capacitância por fase como se fosse um
o funcionamento da máquina de indução como gerador sistema trifásico operando em ligação delta.
auto excitado o ideal é conhecer a curva de • Conectar a capacitância em uma fase, deixar uma
magnetização do motor e então determinar a reatãncia fase sem capacitãncia e conectar o dobro da
capacitiva necessário à autoexcitação do gerador. capacitância na fase restante.
Isso pode ser fornecido pelo fabricante , ou
levantado em laboratório. Porém na falta da curva de A carga deve ser conectada na fase que contém uma
magnetização o banco de capacitores para o capacitância somente como mostrado no circuito
funcionamento do motor de indução como gerador abaixo, fig 4.
pode ser determinado pela potência aparente, sem
carga, da máquina funcionando como motor. O banco
calculado desta segunda maneira tem valor muito
próximo do calculado pela curva de magnetização e
viabiliza o uso de máquinas onde a curva de
magnetização não é conhecida.

Logo:

∑S no −load = 3 *Vlinha * I linha


(6)
∑Q = ∑ S no −load
(7)
Q fase =Q
3 Figura 4, Capacitância de excitação no sistema “ C-
(8) 2C ” (fonte: Niguel Smith, 2001).
Vlinha
V fase = O arranjo desbalanceado dos capacitores irão
3
compensar o desbalanceamento da carga visto pelo
(9)
gerador, esse método é utilizado para compensar cargas
Q fase desbalanceadas em geradores.
I fase =
V fase Para esse tipo de conexão a direção de rotação
(10) influi brutalmente, e sempre deve ser respeitado o
sentido C, 2C e 0, isso porque a fase 2C tem que
V fase
Xc fase = = 1 produzir o pico de tensão logo após a fase C, para que
I fase 2πfC o desbalanceamento seja compensado, caso contrário a
(11) máquina apresentará mal funcionamento.
Para determinar a carga máxima para a
Assim o valor da capacitância por fase será de: operação nominal temos:

Pc arg a = ∑
Q
I fase 3
C= (13)
2πfV fase Onde:
Pcarga Potência dissipada na carga.
(12)
∑ Q Potência reativa total dos capacitores.
O motor de indução monofásico pode ser
usado como gerador, porém existem alguns problemas
que inviabilizam sua execução. Os motores
monofásicos existem em faixa de potência menor que o Ir = 3 * Ic
trifásico, são mais caros e possui uma dificuldade
(14)
maior em se dimensionar um sistema de excitação que
funcione com uma qualidade aceitável. Porém a
possibilidade de se gerar energia em um sistema
Para cargas acima e abaixo dessa condição a
máquina irá operar desbalanceada e por isso com mal
funcionamento. Porém dentro da faixa de potência
corrigida pelos capacitores a máquina terá um
rendimento de 80% do funcionamento como motor e
isso é geralmente suficiente para compensar o
desbalanceamento.
Se a carga for em sua maioria resistiva, a
possibilidade de trabalhar fora da faixa aumenta, isso
porque sobra mais potência reativa para compensar o
fator de potência baixo.

3. REFERÊNCIAS

[1] SHARMA, K. R, ‘Small hydroelectric projects –


Use of centrifugal pumps as turbines’, Kirloskar
Electric Co., Bangalore, India, 1985.

[2] WILLIAMS, A A, ‘Pumps as turbines: a user’s


guide’, IT Publications, London, ISBN 1-85339-285-5,
1995.

[3] WILLIAMS, A A, ‘The turbine performance of


centrifugal pumps: a comparison of prediction
methods’, Proc. ImechE, Vol. 208, Pt A, pp 59-66,
1994.

[4] WILLIAMS, A A, ‘The Selection and Application


of centrifugal pumps as water turbines’, 10th
Conference on fluid Machinery’ Hungarian Academy
of Sciences, Budapest, September, 1995.

[5] SMITH, NIGEL, Motors as Generator for Micro-


Hydro Power, LONDON UK, 2001.

[6] VIANA, AUGUSTO N. C. Comportamento de


Bombas Centrífugas Funcionando como Turbinas
Hidráulicas. Dissertação de Mestrado, Itajubá –
MG,1987.

[7] OLIVEIRA, DORIANA M.N; MARTINEZ, Carlos


B; SILVA, Selênio R; ALVIM FILHO, Aymoré de C.
Sistemas de fornecimento de energia elétrica híbrido
solar hidráulico. 3º Encontro de energia no meio rural -
2000, UNICAMP -Campinas – SP