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G. Reale - D.

Antiseri

HISTÓRIA
DA FILOSOFIA
De Spinoza
4 a Kant
D a do s Inte rn a cio n a is d e C a talo g açã o na P ub lica çã o (CIP)
(C âm ara B rasileira d o Livro, SP, Brasil)

Reale, G iovanni
H istó ria d a filo so fia : d e S pino za a K ant, v. 4 / G iovanni Reale, Dario A ntise ri. — São Paulo:
P aulus, 2005.

B iblio gra fia .


ISBN 8 5-34 9-22 5 5-1

1. F ilosofia - H istó ria I. Título. II. Título: De S pino za a Kant.

0 4-5031 C D D -1 09

ín d ice s para c a tá lo g o siste m á tico:


1. Filosofia: H istó ria 109

Título original
S toría d e lia filo s o fia - V olum e II: D a lIV m a n e s im o a K a n t
© Editrice LA SCUOLA, Brescia, Itália, 1997
ISBN 88-350-9271-X

Tradução
Ivo S to rn io lo

Revisão
Z o lfe rín o Tonon

Impressão e acabam ento


PAULUS

© PAULUS - 2005
Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 São Paulo (Brasil)
Fax (11) 5579-3627 • Tel. (11) 5084-3066
w w w .paulus.com .br • editorial@ paulus.com.br

ISBN 85-349-2255-1
y\ p r e s e n fação

Existem teorias, argumentações e dis­ ★★★


putas filosóficas pelo fato de existirem pro­
A história da filosofia é a história dos
blemas filosóficos. Assim como na pesquisa
problemas filosóficos, das teorias filosó­
científica idéias e teorias científicas são
ficas e das argumentações filosóficas. É
respostas a problemas científicos, da mes­
a história das disputas entre filósofos e
ma forma, analogicamente, na pesquisa
dos erros dos filósofos. É sempre a his­
filosófica as teorias filosóficas são tentativas
tória de novas tentativas de versar sobre
de solução dos problemas filosóficos.
questões inevitáveis, na esperança de
Os problem as filosóficos, portanto,
conhecer sempre m elhor a nós mesmos e
existem, são inevitáveis e irreprim íveis;
de encontrar orientações para nossa vida
envolvem cada h om em p a rtic u la r que
e motivações menos frágeis para nossas
não renuncie a pensar. A maioria desses
escolhas.
problemas não deixa em paz: Deus existe,
A história da filo so fia o cid e n ta l é
ou existiríamos apenas nós, perdidos neste
a h istó ria das idéias que in form a ram ,
imenso universo? O m undo é um cosmo ou
ou seja, que deram form a à história do
um caos? A história humana tem sentido?
Ocidente. É um patrim ônio para não ser
E se tem, qual é? Ou, então, tudo - a g ló ­
dissipado, uma riqueza que não se deve
ria e a miséria, as grandes conquistas e os
perder. E exatamente para tal fim os p ro ­
sofrim entos inocentes, vítimas e carnífices
blemas, as teorias, as argum entações e
- tudo acabará no absurdo, desprovido
as disputas filosóficas são analiticamente
de qualquer sentido? E o hom em : é livre
explicados, expostos com a maior clareza
e responsável ou é um simples fragm ento
possível.
insignificante do universo, determ inado ★★★
em suas ações p o r rígidas leis naturais? A
ciência pode nos dar certezas? 0 que é a Uma explicação que pretenda ser clara
verdade? Quais são as relações entre razão e detalhada, a mais compreensível na m e­
científica e fé religiosa? Quando podemos dida do possível, e que ao mesmo tempo
dizer que um Estado é dem ocrático? E ofereça explicações exaustivas comporta,
quais são os fundam entos da democracia? todavia, um "efeito perverso", pelo fato
E possível o bter uma justificação racional de que pode não raramente constituir um
dos valores mais elevados? E quando é que obstáculo à "m em orização" do complexo
somos racionais? pensamento dos filósofos.
Eis, portanto, alguns dos problemas Esta é a razão pela qual os autores
filosóficos de fundo, que dizem respeito pensaram, seguindo o paradigm a clás­
às escolhas e ao destino de todo homem, sico do Üeberweg, antepor ã exposição
e com os quais se aventuraram as mentes analítica dos problemas e das idéias dos
mais elevadas da humanidade, deixando- diferentes filósofos uma síntese de tais
nos como herança um verdadeiro patrim ô­ p ro b le m a s e idéias, co nce b id a com o
nio de idéias, que constitui a identidade e instrum ento didático e auxiliar para a me­
a grande riqueza do Ocidente. morização.
y\pKesen+ação

* * * •k ★ ★
A firm o u -s e com ju s te z a que, em A o executar este complexo traçado,
linha geral, um grande filósofo é o gênio os autores se inspiraram em cânones psico
de uma grande idéia: Platão e o m undo pedagógicos precisos, a fim de agilizar a
das idéias, Aristóteles e o conceito de Ser, memorização das idéias filosóficas, que
Plotino e a concepção do Uno, Agostinho são as mais difíceis de assimilar: seguiram o
e a "terceira navegação" sobre o lenho da m étodo da repetição de alguns conceitos-
cruz, Descartes e o "cogito", Leibniz e as chave, assim como em círculos cada vez
"mônadas", Kant e o transcendental, Hegel mais amplos, que vão justamente da síntese
e a dialética, M arx e a alienação do traba­ ã análise e aos textos. Tais repetições, re­
lho, Kierkegaard e o "singular", Bergson e petidas e amplificadas de m odo oportuno,
a "duração", W ittgenstein e os "jogos de ajudam, de m odo extremamente eficaz, a
linguagem ", P o p p e re a “falsificabilidade" fixar na atenção e na memória os nexos
das teorias científicas, e assim p o r diante. fundantes e as estruturas que sustentam
Pois bem, os dois autores desta obra o pensamento ocidental.
propõem um léxico filosófico, um dicioná­ * * *
rio dos conceitos fundamentais dos diversos Buscou-se também oferecerão jovem,
filósofos, apresentados de m aneira didá­ atualm ente educado para o pensamento
tica totalm ente nova. Se as sínteses iniciais visual, tabelas que representam sinotica-
são o instrumento didático da m em oriza­ m ente mapas conceituais.
ção, o léxico fo i idealizado e construído Além disso, julgou-se oportuno enri­
como instrum ento da conceitualização; e, quecer o texto com vasta e seleta série de
juntos, uma espécie de chave que perm ita imagens, que apresentam, além do rosto
entrar nos escritos dos filósofos e deles dos filósofos, textos e momentos típicos da
apresentar interpretações que encontrem discussão filosófica.
pontos de apoio mais sólidos nos próprios
* * *
textos.
* * * Apresentamos, portanto, um texto cien­
tífica e didaticamente construído, com a
Sínteses, análises, léxico ligam-se,
intenção de oferecer instrumentos adequa­
portanto, à ampla e meditada escolha dos
dos para introduzir nossos jovens a olhar
textos, pois os dois autores da presente
para a história dos problemas e das idéias
obra estão profu n da m e n te convencidos
filosóficas como para a história grande,
do fato de que a compreensão de um fi­
fascinante e difícil dos esforços intelectuais
lósofo se alcança de m odo adequado não
que os mais elevados intelectos do Ociden­
só recebendo aquilo que o a uto r diz, mas
te nos deixaram como dom, mas também
lançando sondas intelectuais também nos
como empenho.
modos e nos jargões específicos dos textos
filosóficos. G iovanni Reale - Dario A ntiseri
üná i c e gem i

índice de nomes, XVII I. Spinoza: a vida, os escritos e as


índice de conceitos fundamentais, X X I finalidades da filosofia ______ 11
I . As etapas fundamentais da vida, 11; 2. O
sentido da filosofia spinoziana em suas obras
Primeira parte maiores, 13
O OCASIONALISMO, II. A concepção de Deus
SPINOZA E LEIBNIZ como eixo fundamental
do pensamento spinoziano 14
1. A ordem geométrica, 15; 2. A “substân­
Capítulo primeiro cia” ou o Deus spinoziano, 16; 2.1. A cen-
A metafísica do Ocasionalismo tralidade do problema da substância, 16;
e M alebranche_________________ 3 2.2. As ambigüidades do conceito cartesiano
de substância, 16; 2.3. Unicidade da subs­
I. Os primeiros Ocasionalistas__ 3 tância compreendida como “causa sui”, 17;
I . O problema cartesiano não resolvido 2.4. O Deus spinoziano e a “necessidade”,
do qual nasceu o Ocasionalismo, 3; 2. Au­ 17; 3. Os “atributos”, 18; 4. Os “modos”,
tores que prepararam o Ocasionalism o, 4; 18; 5. Deus e mundo, ou “natura naturans”
3. Arnold Geulincx, 4; 3.1. Formulação e “natura naturata”, 19.
sistemática do Ocasionalism o, 4; 3.2. An­
III. A doutrina spinoziana
tecipações significativas de Spinoza e de
Leibniz, 4. do paralelismo entre
“ordo idearum”
II.M alebranche e “ordo rerum” ____________ 21
e os desenvolvimentos 1. A relação entre mente e corpo é um pa­
do O casionalism o___________ 5 ralelismo perfeito, 21.
1. Vida e obras de M alebranche, 5; 2. A
contraposição entre “res cogitans”e “rex IV. O conhecim ento___________ 22
extensa”, 6; 3. O conhecimento da verdade, 1. As várias formas de conhecimento, 23;
7; 4. A visão das coisas em Deus, 7; 5. As re­ 1.1. Os três gêneros de conhecimento, 23;
lações entre alma e corpo e o conhecimento 1.2. Conhecimento empírico, 23; 1.3. Co­
que a alma tem de si mesma, 8; 6. Tudo está nhecimento racional, 2 3 ; 1.4. C onheci­
em Deus, 8; 7. Importância do pensamento mento intuitivo, 2 3 ; 1.5. A relação entre
de Malebranche, 9. os três gêneros de conhecimento, 24 ; 2. O
conhecimento adequado de toda realidade
T extos - N. Malebranche: 1. Deus estabe­
implica o conhecimento de Deus, 24; 3. No
leceu as leis que regulam as relações entre
conhecim ento adequado não há contin­
alma e corpo, 10.
gência e tudo se mostra necessário, 24 ;
4. Conseqüências morais do conhecimento
adequado, 25.
Capítulo segundo
Spinoza: a metafísica do monismo V. O ideal ético de Spinoza
e do imanentismo panteísta____ 11 e o “amor Dei intellectualis” ___ 26
ice ge»*aI

1. A análise geométrica das paixões, 26; 2. A 1. A natureza da mônada como “força repre­
tentativa de pôr-se “além do bem e do m al”, sentativa”, 45; 2. Cada mônada representa
2 7 ; 3. O conhecer com o libertação das o universo e é com o um microcosmo, 46;
paixões e fundamento das virtudes, 27; 4. A 3. O princípio da identidade dos indiscerní-
visão das coisas “sub specie aeternitatis” e veis, 47; 4. Individualidade e infinita varie­
o “amor Dei intellectualis”, 28. dade das mônadas, 47; 5. A hierarquia das
mônadas, 48 ; 6. A criação das mônadas e
VI. Religião e Estado sua indestrutibilidade, 48.
em Spinoza__________________ 28
V. As mônadas
1. Avaliação da religião, 2 8 ; 2. Os pon­
tos doutrinais fundam entais da Bíblia, e a constituição do universo__ 49
segundo Spinoza, 29; 3. A religião não tem 1. Os problemas ligados à concepção das
“dogmas verdadeiros”, mas “dogmas pios”, mônadas como elemento, 49; 2. Explica­
29; 4. Juízos de Spinoza sobre Cristo, 30; ção da materialidade e corporeidade das
5. O conceito spinoziano do Estado como mônadas, 49 ; 3. Explicação da constituição
garantia de liberdade, 30. dos órgãos animais, 50; 4. A diferença das
A derivação necessária
M apa C o n c e it u a i, -
mônadas espirituais em relação às outras
do todo a partir da substância divina, 31. mônadas, 50.

Textos - B. Spinoza: A Ethica ordine geo- VI. A harmonia preestabelecida__ 51


metrico demonstrata, 32.
1. A tese leibniziana segundo a qual as mô­
nadas “não têm janelas” e os dois problemas
que daí derivam, 51; 2. As possíveis soluções
Capítulo terceiro dos dois problemas e a posição assumida por
Leibniz e a metafísica Leibniz com a “harmonia preestabelecida”,
do pluralismo monadológico 52; 3. A objeção de Bayle e a resposta de
e da harmonia preestabelecida__ 37 Leibniz, 53; 4. Deus como fundamento da
harmonia preestabelecida, 53.
I. A vida e as obras de L eib n iz_ 37
I . Aspiração à criação de uma ciência uni­
VII. Deus, o melhor
versal que compreendesse em si várias dis­ dos mundos possíveis
ciplinas, 37. o otimismo leibniziano____ 54

II. A mediação 1. Os dois grandes problemas metafísicos:


por que há o ser e por que existe assim e não
entre “philosophia perennis” de outra forma, 54; 2. A solução de Leibniz
e “philosophi novi” dos dois problemas metafísicos, 55; 3. As
e a recuperação do finalismo dificuldades levantadas por estas soluções
das “formas substanciais”___ 40 e as respostas de Leibniz, 55.
1. A tentativa de mediação e de síntese entre VIII. O ser necessário,
antigo e novo, 40; 2. O novo significado
do finalismo, 4 1 ; 3. O novo significado das
os possíveis e as verdades
formas substanciais, 41. de razão e de fa to _________ 56
1. Deus como ser necessário, 56; 2. As es­
III. A refutação do mecanicismo sências e os possíveis, 56; 3. As verdades de
e a gênese do conceito razão e as verdades de fato, 57; 4. O prin­
de m ô n ad a_________________ 42 cípio de razão suficiente como fundamento
das verdades de fato, 57.
1 .0 “erro memorável” de Descartes, 42; 2. As
conseqüências da descoberta leibniziana, 43;
IX . A doutrina do conhecimento:
2.1. A concepção leibniziana do espaço, 43;
2.2. A concepção leibniziana do tempo, 44; o inatismo virtual__________ 58
2.3. As leis físicas como “leis da conveniên­ 1. “Não há nada no intelecto que antes
cia”, 44; 2.4. Do mecanicismo ao finalismo, 44 não tenha estado nos sentidos, exceto o
próprio intelecto”, 58; 2. O novo conceito
IV. Os pontos fundamentais de “inatismo” e a nova forma de “reminis-
da metafísica monadológica __ 45 cência”, 59.
ZJndice 0e.k*aI

X . O homem e seu destino_____ 59 1. “Egoísmo” e “convencionalismo”, 81;


2. A política não tem um fundamento “na­
1. A liberdade com o espontaneidade da
tural”, 82; 3. O nascimento do Estado, 82;
mônada, 59; 2. A liberdade e a previsão de
4. As “leis de natureza”, 83; 5. O “pacto
Deus, 60; 3. O conjunto dos espíritos e a
social” e a teorização do absolutismo, 84;
Cidade de Deus, 60
6. O “Leviatã”, 84.
M apa C o n c e it u a l - A doutrina da mônada, M apa C o n c e it u a l - O corporeísmo meca­
61.
nicista, 85.
T extos - G. W. Leibniz: A Monadologia,
Textos - T. Hobbes: 1. O “raciocinar” é
62.
“calcular”, 86; 2. As primeiras três leis
de natureza, 87; 3. Origem e definição do
Estado, 88.
Segunda parte
HOBBES, LOCKE, Capítulo quinto
BERKELEY E HUME John Locke
e a fundação
do empirismo crítico___________ 91
C ap ítu lo q u arto
Thom as Hobbes: I. A vida e as obras de Locke___ 91
o corporeísmo e a teoria I. Secretário de lorde Cooper, chanceler da
do absolutismo p o lítico ________ 73 Inglaterra, Locke se ocupou ativamente de
assuntos políticos, 91.
I. A vida e as o b ra s____________ 73
I . A predileção pelas línguas clássicas foi II. O programa
uma constante na vida de Hobbes, 73. do Ensaio sobre
o intelecto humano
II. A concepção hobbesiana e o empirismo lockiano 93
da filosofia e sua d iv isão____ 75 1. O objetivo da filosofia moderna é esta­
1. A nova imagem da filosofia, 75; 2. A tri- belecer a gênese, a natureza e o valor do
partição da filosofia, 76. conhecim ento humano, 9 3 ; 2. A “idéia”
como conteúdo do pensamento humano,
III. A “lógica” 9 4 ; 3. O intelecto hum ano não possui
e os pontos fundamentais idéias inatas, 95 ; 4. O intelecto humano
do pensamento de Hobbes _____ 77 não pode criar nem inventar idéias, 96;
1. Os “nomes”, sua gênese e seu significa­ 5. O intelecto humano é como uma “ta­
do, 77; 2. As definições, as proposições e bula rasa”, 96.
o “raciocinar” como “calcular”, 78; 3. O
empirismo hobbesiano, 78. III. A doutrina lockiana das idéias
e a interpretação
IV. Corporeísmo do conhecimento __________ 97
e m ecanicism o_____________ 79
1. As idéias de sensação e de reflexão, 98;
1. Os dois elementos que explicam toda a 2. As qualidades primárias e secundárias, 98;
realidade: “corpo” e “movimento”, 79; 2. As 3. As idéias complexas e o modo pelo qual
várias qualidades das coisas são movimentos se formam, 98; 4. Quadro sinótico geral dos
variados, 80; 3. Também os processos cog­ vários tipos de idéias, 99; 5. Crítica da idéia
nitivos e os sentimentos são “movimentos”, de substância, 100; 6. Crítica da idéia de
80; 4. No corporeísmo mecanicista hobbe­ essência, 100; 7. O nominalismo lockiano,
siano não há lugar para a liberdade e para 100; 8. O verdadeiro e o falso como acordo
os valores absolutos, 80. e desacordo das idéias, 101; 9. Intuição e
demonstração, 102; 10. O conhecimento de
V. A teorização nossa existência, 103; 1 1 . 0 conhecimento
do Estado absolutista. de Deus, 103; 12. O conhecimento dos ob­
O “Leviatã” _______________ 81 jetos externos, 103.
lUndice. gei^al

IV. A probabilidade, reza são as regras fixas com as quais Deus


a fé e a ra z ã o _______________ 105 produz em nós as idéias, 123; 4. A realidade
para Berkeley permanece como antes, mas
1. No acordo entre as idéias existem diversas diversamente interpretada, 123.
formas de probabilidade, 105; 2. A verdade
fundamental: para dizermo-nos cristãos é M ap a c o n c e itu a e - “Esse est percipi”, 125.
preciso crer que “Jesus é o M essias”, 106. G. Berkeley: 1 . Os princípios do
T extos -

V. As doutrinas morais conhecimento humano, 126.


e políticas __________________ 107
1. Fundamentos racionais da moralidade, Capítulo sétimo
107 ; 2. O constitucionalism o liberal de Davi Hume
Locke, 107.
e o epílogo irracionalista
M apa c o n c e it u a i - O empirismo crítico, do empirismo__________________ 131
109.
I. A vida e as obras de Hume__ 131
T extos - J. Loke: 1. A crítica do inatismo,
110; 2. A origem das idéias, 110; 3. As idéias I. O homem-filosófico deve ceder lugar ao
complexas, 113. homem-natureza, 131.

II. “O novo cenário


Capítulo sexto de pensamento” .
George Berkeley: As “impressões”, as “idéias”
o imaterialismo em função e suas ligações estruturais___ 133
de uma apologética renovada__ 115 1. Necessidade de fundam entar a ciência
do homem sobre bases experimentais, 134;
I. A vida e o significado da obra 2. A diferença entre as impressões e as idéias,
de Berkeley__________________ 115 135; 3. Idéias simples e idéias complexas,
I. O projeto para a fundação de um colégio 135; 4. O princípio da associação das idéias
universitário na América, 115. e o nominalismo humano, 136; 5. A negação
das idéias universais, 136; 6. “Relações entre
II. As idéias, idéias” e “dados de fato”, 137.
o conhecimento humano
III. A crítica das idéias
e o grande princípio:
de causa e efeito
“esse est percipi” ___________ 117
e das substâncias materiais
1. N osso conhecim ento é conhecim ento
e espirituais _______________ 138
de idéias e não de fatos, 117; 2. As idéias
derivam apenas das sensações, 118; 3. Por 1. A ligação de causa e efeito, 138; 2. “Há­
que não existem idéias a b stra ta s, 1 1 8 ; bito” e “crença” como fundamento das liga­
4. O nominalismo de Berkeley, 119; 5. Con­ ções de causas e efeitos, 139; 3. Os objetos
seqüências do nominalismo de Berkeley, corpóreos não são substâncias, mas feixes de
1 1 9 ; 6. É falsa a distinção entre qualida­ impressões e de idéias, 139; 4. Também os
des primárias e qualidades secundárias, sujeitos são feixes de impressões e de idéias,
1 1 9 ; 7. Crítica da idéia de “substância 139; 5. Os objetos e os sujeitos existem ape­
m aterial”, 120; 8. A existência das idéias, nas por nossa pura “crença”, 140.
1 2 0 ; 9. Análise semântica do termo “ser”
e redução deste ao “ser percebido”, 121; IV. O fundamento arracional
10. Toda coisa que existe, existe apenas em da moral e da religião______ 141
uma mente: sem ela não possui nenhuma 1. As paixões e a vontade, 141; 2. Negação
subsistência, 121. da liberdade e da razão prática, 142; 3. A
razão não fundamenta a moral, 142; 4. O
III. Deus
sentimento como verdadeiro fundamento da
e as “leis da natureza” _____ 122 moral, 142; 5. Importância do sentimento de
1. O intelecto humano como realidade es­ simpatia, 142; 6. O utilitarismo na moral,
piritual, 122; 2. Existência de Deus como 143; 7. A religião se fundamenta sobre um
criador das idéias, 122; 3. As leis da natu­ instinto, 143.
CJndice 0 e»*a1

V. Dissolução do empirismo 1. A genialidade precoce de Pascal, 169;


na “razão cética” 2. A “primeira” e a “segunda” conversão,
170; 3. Pascal em Port-Royal, 172.
e na crença arracio n al______ 145
1. O ceticismo moderado de Hume, 145; II. A demarcação entre
2. As paixões têm predomínio sobre a ra­ saber científico e fé religiosa__ 174
zão, 145.
1. As verdades eternas reveladas devem per­
- Fundamentos da “ciên­
M a p a c o n c f .i t u a l manecer intactas, as verdades humanas devem
cia do hom em ”, 147. progredir, 174; 2. O método ideal realiza a
“arte de persuadir”, 175; 3. O “esprit de
T extos - D. Hume: 1. A crítica à idéia de
finesse” permite captar a riqueza e a pro­
causa e efeito, 148. fundidade da vida, 177.

III. Grandeza e miséria


Terceira parte da condição humana_______ 179
PASCAL E VICO 1. O homem é o objeto sobre o qual a filo­
sofia deve refletir, 179; 2. O divertimento
é fuga diante da visão lúcida da miséria
humana, 180.
C ap ítu lo o itav o
O libertinismo e Gassendi. IV. A impotência da razão
O jansenismo e P o rt-R o y a l____ 155 para fundamentar os valores
e provar a existência
I. O libertinism o______________ 155
de Deus____________________ 182
I . A atitude e as idéias básicas dos libertinos,
155; 2. Expoentes do libertinismo, 156. 1. A fé não depende da razão porque é dom
de Deus, 182; 2. Deus existe ou então não
II. Pierre Gassendi: existe, 183.
um “empirista-cético” M apa c o n c e it u a i. - A dignidade do homem
em defesa da religião_______ 157 e o dom da fé, 185.
1. A polêmica contra a tradição aristotélico- Textos - B. Pascal: 1. O “Memorial”, 186;
escolástica, 157; 2. Por que não conhecemos 2. O “espírito geométrico” e o “espírito de
as essências; e por que a filosofia aristotélico- fineza”, 186; 3. O divertimento, 187; 4. A
escolástica é prejudicial à fé, 158; 3. Gassen­ “aposta” em Deus, 189.
di contra Descartes, 158; 4. O repensar de
Epicuro e as razões de repropô-lo, 159.
Capítulo décimo
III. O jansenismo e Port-Royal__ 161 Giambattista Vico e a fundação
1. Jansênio e o jansenismo, 161; 2. Discus­ do “mundo civil feito
sões, polêmicas e oposições suscitadas pelo pelos homens” _________________ 191
jansenismo, 163; 3. A lógica de Port-Royal,
163; 4. A lingüístisca de Port-Royal, 164. I. Vida e o b ra s________________ 191
T k x t o s - P. Gassendi: 1 . Objeções à Terceira I . A vida e as obras, 191.
Meditação de Descartes, 166
II. Os limites do saber
dos “modernos” ____________ 194
C ap ítu lo n o n o
1. Os limites do método cartesiano no âmbi­
Blaise pascal: to da pesquisa científica, 194; 2. Os limites
autonomia da razão, do método cartesiano no âmbito da ciência
miséria e grandeza do homem, filosófica, 195.
e razoabilidade do dom da f é __ 169
III. O “verum-factum”
I. A paixão pela ciência, e a união de “filologia”
as duas conversões, e “filosofia”
a experiência de Port-Royal__ 169 na ciência dah istó ria _______ 196
J7ndice gemI

1. O homem é o protagonista incontestado III. A “Razão iluminista”


do mundo da história, 197; 2. Por que a contra as “superstições”
filosofia tem necessidade da filologia, 197;
das religiões positivas______ 2 2 4
3. Por que a filologia, por sua vez, tem ne­
cessidade da filosofia, 198; 4. A mediação 1. O “deísmo” como chave do movimento
sintética entre verdade (filosofia) e certeza iluminista, 2 2 4 ; 2. As características do
(filologia), 198; 5. O homem é protagonista ateísmo iluminista, 225
da história, 199.
IV. A “R azão” iluminista
IV. As eras da história contra o
e a Providência divina______ 201 “direito sobrenatural” _____ 2 2 6
1. A p rim eira era da h istó ria ou era 1. A “Razão”e os princípios do direito na­
dos deuses, 2 0 2 ; 2 . A segunda era da tural, 2 26; A doutrina dos direitos naturais
história ou era dos heróis, 202; 3. A terceira do homem, 226.
era da história ou era dos homens, 203;
4. Gênese e significado da linguagem, 20 3 ; V. Como os iluministas
5. Linguagem gestual, hieroglífica e canta­ difundiram as “luzes” ______ 2 2 7
da, 2 04; 6. A poesia e seu valor, 2 0 4 ; 7. Os
1. A divulgação é importante para tornar
m itos e os universais fa n tá stico s, 2 0 5 ; eficazes as opiniões, 227; 2. O século XVIII:
8. A Providência é o veículo de comunicação um século anti-histórico, 229; 3. As teses dos
dos homens com Deus, 2 0 6 ; 9. A lei dos estudiosos modernos sobre a “anti-histori-
ciclos históricos é uma possibilidade ob­
cidade” dos iluministas, 229.
jetiva, 2 0 7 .
M a pa c o n c e it u a l - A fundação da ciência VI. Pierre Bayle
histórica, 209. e “a descoberta do erro”
T extos- G. Vico: Elementos, princípios e como tarefa do historiador__ 231
método da Ciência nova, 210. 1. Bayle é o fundador da acribia histórica,
231.
T exto s- I . Kant: 1 . 0 que é o Iluminismo, 233.
Q uarta parte
O ILUMINISMO C ap ítu lo décim o segundo
E SEU O Iluminismo na F r a n ç a ______ 2 3 7
DESENVOLVIMENTO I. A Enciclopédia______________ 2 3 7
I . Gênese da Enciclopédia, 237; 2. Colabo­
radores e estrutura da Enciclopédia, 238;
Capítulo décimo primeiro 3. Importância dada pela Enciclopédia às
A “Razão” profissões e às técnicas, 238; 4. Finalidade
na cultura iluminista___________ 2 1 9 da Enciclopédia, 23 9 ; 5. O princípio inspi­
rador da Enciclopédia: ater-se aos fatos, 239;
I. A “R azão” 6. A idéia geral de saber que está na base da
Enciclopédia, 240.
dos iluministas______________ 221
I. Na base do Iluminismo está o crédito na II. D ’Alembert
razão humana , 2 2 1 ; 2. A Razão dos ilumi­ e a filosofia como
nistas encontra seu paradigma em Locke e “ciência dos fatos” __________ 241
em Newton, 221.
1. Vida e obras, 241; 2. A filosofia como
II. A “Razão iluminista” ciência dos fatos, 242; 3. Deísmo e moral
natural, 242; 4. Os limites do conhecimento
contra os sistemas racional, 242.
metafísicos__________________ 222
1. “ R a zão ” limitada e controlada pela III. Denis Diderot:
experiência, 22 2 ; 2. “Razão” como “crivo do deísmo à “hipótese”
crítico”, 223. materialista________________ 244
CJrvdice ge^al

1. O mundo é m atéria em m ovim ento, I . Rousseau: uma figura complexa e con­


244. trovertida, 277.

IV. Condillac e a gnosiologia II. O homem


do Sensism o_______________ 2 4 6 no “estado de natureza” ____ 2 8 0
1. A vida e o sig n ifica d o da o b ra , 246; 1. O “estado de natureza” como hipótese
2. A sensação como fundamento do conhe­ de trabalho, 280; 2. O valor normativo do
cimento, 2 47; 3. “Uma estátua interiormen­ “estado de natureza”, 2 80; 3. O “estado de
te organizada como nós” e a construção natureza” como estímulo de mudança para
das funções humanas, 2 4 8 ; 4. A ciência o homem moderno, 281.
como língua bem feita, 249; 5. Tradição e
educação, 250. III. Rousseau contra
os enciclopedistas,
V. O materialismo iluminista: mas ilum inista_____________ 2 8 2
La M ettrie, Helvétius,
1. A cultura piorou o homem, 282; 2. O
d’H o lb a ch __________________ 251
que se chama “progresso” é um “regresso”,
1. O “homem-máquina”de La Mettrie, 251; 2 8 2 ; 3. Visão pessimista da história, 2 8 3 ;
2. Helvétius: a sensação como princípio da 4. É preciso melhorar a sociedade “rena-
inteligência, e o interesse como princípio da turalizando” o homem, 283; 5. Não basta
moral, 252; 3. D ’Holbach: “o homem é obra reformar as ciências e melhorar as técnicas,
da natureza”, 254. 28 3 ; 6. O novo modelo de razão que me­
lhora o homem, 284.
VI. Voltaire
e a grande batalha IV. O Contrato so cia l __________2 8 4
pela tolerância_____________ 255 1. O novo arranjo da vida social, 284; 2. A na­
1. A vida e a obra de Voltaire, 2 55; 2. Defesa tureza e o fundamento da “vontade geral”,
do deísmo contra o ateísmo e o teísmo, 257; 285; 3. Eliminação do privado e coletiviza-
3. A crítica ao otimismo dos filósofos, 258; ção global, 285.
4. Os fundamentos da tolerância, 260.
V. O Em ílio,
VII. Montesquieu: ou o itinerário
as condições da liberdade pedagógico ________________ 28 6
e o Estado de d ireito________261 1. A educação conforme a voz da razão,
1. A vida e o significado da obra, 262; 2. “O 2 8 7 ; 2. O grande princípio da liberdade
espírito das leis”, 2 6 2 ; 3. A divisão dos bem guiada, 287; 3. O primeiro estágio no
poderes, isto é, “o poder que detém o po­ desenvolvimento da educação, 2 8 7 ; 4. A
der”, 264. educação dos doze aos quinze anos, 288;
5. A educação dos quinze aos vinte e dois
T e x t o s - J. B. D ’Alembert: 1. A Enciclo­
anos, 288; 6. A educação como caminho
pédia: os escopos e a “genealogia” dos co­
para a sociedade renovada, 288.
nhecimentos, 2 6 5 ; E. Bonnot de Condillac:
2. As sensações são o fundamento de todos
VI. A naturalização
os conhecimentos, 269; Voltaire: 3. As úni­
cas duas provas da existência de Deus, 272; da religião _________________2 8 9
4. O que é a tolerância, 27 3 ; Montesquieu: 1. Religião do homem e religião do cida­
5. Os princípios éticos fundamentais dos dão, 289; 2. O cristianismo como religião
três tipos de governo, 275. que separa o homem do cidadão, 289; 3. A
“religião pública” do Estado, 290.

Capítulo décimo terceiro M a pa c o n c e it u a l - O caminho do retorno


Jean-Jacques Rousseau: à natureza, 291.
o iluminista “herético” _________2 7 7 Textos - J. J. Rousseau: 1. As ciências e as
artes nascem dos vícios dos homens, 29 2 ;
I. A vida 2. O pacto social, a vontade geral e a sobe­
e o significado da o b r a ______ 2 7 7 rania, 293; 3. O nascimento da propriedade
XIV ice qe^al

privada, 296; 4. Do Emílio: a profissão de III. A “enciclopédia do saber”


fé do vigário saboiano, 297. de Christian W olff
e suas influências
sobre a cultura filosófica____ 320
Capítulo décimo quarto
O Iluminismo na Inglaterra____ 301 1. Wolff elabora uma verdadeira enciclo­
pédia do saber, 321; 2. A ditadura cultural
I. A controvérsia sobre o deísmo de Wolff na Alemanha, 321; 3. Alexander
Baumgarten e “a fundação da estética sis­
e a religião revelada _________ 301
temática”, 323.
I . John Toland: o cristianismo sem misté­
rios, 3 02; 2. A prova da existência de um IV. O debate sobre a religião:
Ser necessário e independente em Samuel Reimarus
Clarke e em outros iluministas ingleses, e M endelssohn_____________ 3 2 4
3 0 3 ; 3. Anthony Collins e a defesa do “li-
vre-pensamento”, 303; 4. Matthew Tindal 1. O debate sobre a religião e seus repre­
e a redução da Revelação à religião natural, sentantes, 324.
3 04; 5. Joseph Butler: a religião natural é
fundamental, mas não é tudo, 304. V. Gotthold Ephraim Lessing
e “a paixão pela verdade” ___ 324
II. A reflexão sobre a moral
1. Lessing e a questão estética, 325; 2. Les­
no Iluminismo in g lês________ 3 0 6
sing e a questão religiosa, 326
1. Shaftesbury e a autonomia da moral,
3 06; 2. Francis Hutcheson: a melhor ação T extos - G. E. Lessing: 1. O anúncio do
propicia a maior felicidade ao maior número Evangelho eterno, 328.
de pessoas, 307.

III. Bernard de Mandeville C ap ítu lo décim o sexto


e A fábula das abelhas ______ 308 O Iluminismo na Itália_________ 331
1. Mandeville: um dos pensadores mais lidos I. O pré-Iluminismo ita lia n o __ 331
e discutidos do século, 308.
I . O anticurialismo de Pietro Giannone,
IV. A “Escola escocesa” 3 3 1 ; 2. Ludovico Antônio M uratori e a
defesa do “bom gosto”, isto é, do senso
do “senso comum” _________ 309
crítico, 332.
1. Thomas Reid, 310; Dugald Stewart e a
argumentação filosófica, 311. II. O Iluminismo lo m bard o____ 334
T k xto s- B . M an d ev ille: 1. Vícios privados, 1. A Sociedade dos Punhos e o periódico “II
públicos benefícios, 312. Caffè”, 334; 2. Pietro Verrí: “o bem nasce
do m al”, 335; 3. Alessandro Verri: a des­
confiança é “a grande parteira da verdade”,
Capítulo décimo quinto 33 6; 4. César Beccaria: contra a tortura e a
O Iluminismo na Alemanha ___ 3 1 7 pena de morte, 336; 5. A segunda geração-
dos iluministas lombardos, 338.
I. O pré-Iluminismo alemão____ 317
III. O Iluminismo
I . Precedentes, 3 1 7 ; 2. Tschirnhaus: a “ars
iveniendi” como confiança na razão, 317; n a p o lita n o _________________339
3. Samuel Pufendorf: o direito natural é 1. Antônio Genovesi: o primeiro profes­
questão de razão, 31 8 ; 4. Christian Tho- sor italiano de econom ia política, 3 3 9 ;
masius: a distinção entre direito e moral, 2. Ferdinando Galiani: o autor do tratado
318. Sobre a m oeda , 3 4 1 ; 3. Gaetano Filangie-
ri: as leis, racionais e universais, devem
II. O Pietismo e suas relações adaptar-se “ao estado da nação que as
com o Iluminismo __________ 319 recebe” , 341.
1. O primeiro Iluminismo e o Pietismo alia- Textos - C. Beccaria: 1. Contra a tortura,
dos contra a ortodoxia moderna, 319. 342.
CMdice 0e>*al

racional e as antinomias da razão, 37 1 ;


Q uinta parte 7.6. A Idéia de Deus, a teologia racional e
as provas tradicionais da existência de Deus,
IMMANUEL KANT 372; 7.7. O uso “regulativo” das Idéias da
razão, 373.

C apítulo décim o sétim o M apa c o n c e it u a i - A “Crítica da razão


pura”, 375.
Kant e a fundação
da filosofia transcendental_____ 3 4 7 III. A “Crítica da razão prática”
e a ética de K a n t ___________ 376
I. A vida, a obra 1. O conceito de “razão prática” e as fi­
e os desenvolvimentos nalidades da nova “crítica”, 3 7 8 ; 2. A lei
do pensamento de K a n t _____ 3 4 7 m oral com o “ im perativo c a te g ó ric o ” ,
3 7 9 ; 3. A essência do imperativo categó­
I . A vida, 3 47; 2. Os escritos de Kant, 350; rico, 3 8 1 ; 4. As fórmulas do imperativo
3. A “grande luz” de 1769 e a gênese do categórico, 3 8 1 ; 5. A liberdade com o con­
criticismo kantiano, 350. dição e fundamento da lei m oral, 3 8 2 ; 6.
O princípio da “autonomia m oral” e seu
II. A “Crítica da razão pura” __ 352 significado, 3 8 2 ; 7. O “bem m oral” e sua
dimensão universal, 384; 8. O “rigorismo”
1 .0 problema crítico, 355; 1.1. A síntese a priori e o hino kantiano ao “dever”, 3 8 5 ; 9. Os
e seu fundamento, 355; 1.2. Os juízos sobre postulados e o primado da razão prática,
os quais se funda o conhecimento humano, 3 8 6 ; 9 .1 . N atureza e significados dos
355; 1.3. O juízo analítico, 356; 1.4. O juízo postulados, 3 8 6 ; 9.2. A liberdade, 387;
sin tético a p osteriori, 3 5 6 ; 1.5. O juízo 9 .3 . A existência de Deus, 3 8 7 ; 9 .4 . A
sintético a priori, 356; 1.6. O fundamento imortalidade da alma, 387; 9.5. O primado
dos juízos analíticos e sintéticos a posteriori da razão prática, 388.
e o problema dos juízos sintéticos a priori,
3 57; 2. A “revolução copernicana” realiza­ M apa c o n c e it u a l - A “Crítica da razão
da por Kant, 3 5 7 ; 2.1. O tipo de revolução prática”, 389.
que permitiu o nascimento das ciências e
seu fundamento, 357; 2.2. O conceito kan­ IV. A “Crítica do juízo” _______ 390
tiano de “transcendentais” como modos
de conhecer a priori do sujeito, 359; 3. A 1. A posição da terceira “Crítica” em relação
estética transcendental e as formas a priori às duas precedentes, 391; 2. “Juízo determi­
da sensibilidade, 359; 3.1. O conhecimento nante” e “juízo reflexivo”, 391; 3. O juízo
sensível, 35 9 ; 3.2. Alguns esclarecimentos estético, 392; 4. A concepção do sublime,
terminológicos, 360; 3.3. O espaço e o tem­ 393; 5. O juízo teleológico e as conclusões
po como estruturas da sensibilidade, 360; da “Crítica do juízo”, 394.
3.4. Espaço e tempo em sentido kantiano M apa c o n c e it u a i, - A “Crítica do juízo”,
como fundamento da geometria e da mate­ 395.
mática, 361; 4. A analítica transcendental
e a doutrina do conhecimento intelectivo e V. Conclusões:
de suas formas a priori, 362; 4.1. A lógica e
as suas divisões segundo Kant, 362; 4.2. As
“O céu estrelado
categorias e sua dedução, 344; 4.3. O “eu acima de mim
penso” ou apercepção transcendental, 364; e a lei moral
5. O esquematismo transcendental, 365; 6. dentro de mim”,
A distinção entre fenômeno e númeno (a marca espiritual
“coisa em si” ), 3 66; 7. A dialética transcen­
de Kant como homem
dental, 3 68; 7.1. A concepção kantiana da
dialética, 3 68; 7.2. A faculdade da razão e e pensador__________________ 3 9 6
sua distinção do intelecto no sentido kan­ 1. A admiração de Kant pelo céu estrelado
tiano, 3 69; 7.3. A nova concepção kantiana e pela lei moral, 396.
das Idéias, 3 69; 7.4. A Idéia da alma, a psi­
cologia racional e os paralogismos da razão, T e x t o s - I. Kant: 1. O problema geral dos
370; 7.5. A Idéia do cosmo, a cosmologia juízos sintéticos a priori e do seu fundamen­
*Z7r\dice ge.t*c \I

to, 3 97; 2. A “revolução copernicana” de deve ser determinado por meio da lei, 419;
Kant, 4 0 1 ; 3. Estética transcendental, 408; 9. O respeito da lei moral e o supremo signi­
4. Analítica transcendental, 4 1 2 ; 5. A /<?/ ficado ético do dever, 420; 10. Os postulados
moral e sua natureza, 41 7 ; 6. A fórmula do da razão prática, 42 2 ; 11. O fundamento
imperativo categórico, 41 8 ; 7. A /ei moral do juízo estético, 42 4 ; 12. O sublime e seu
e a liberdade, 4 1 8 ; 8. O conceito de “bem ” fundamento, 424.
Z)n<Ái c e d e n om es*

B e c c a r ia C ., 228, 230, 257, 308, César Gaio Júlio, 210, 275


A 334, 335, 336-338, 342-344 Chambers E., 237
Bentham J., 308 Chardon Ch., 250
A d d is o n J., 335 Bentley R., 303, 304 C h o m s k y N., 165
A g o s t i n h o df. H ip o n a ,6, 7, 161, B e r g e r a c C y r a n o d e (Savinien de C í c e r o M. T ú l i o , 12
162, 192, 193, 348 Cyrano), 155, 156 C l a r k f . S., 43, 301, 303, 351
Aiguillon (duquesa de), 171 B e r k e l e y G., 5, 71, 115-125, 126­ C l a u b e r g J., 3, 4
A l e m b e r t , J. B. L e R o n d d ’ , 222, 130, 131, 134, 136, 137, 247, Clemente XI, 163
223, 225, 237, 238, 239, 240, 256, 3 0 9 ,3 1 0 C o l l i n s A., 2 2 4 ,3 0 1 ,3 0 3 -3 0 4 ,3 1 8
241-243, 244, 246, 265-268, B e r n o u i i .l i G., 256 C o n d i l l a c , E. B o n n o t d e , 244,
302, 308 B i f f i G. B ., 230 246-250,252,269-27Í, 28 8,33 8
Alexandre VII, 163 Boerhaave H.,251 C o n s t a n t B . , 341
A i . g a r o t t i F., 256 Boineburg (barão de), 38 C o p é r n i c o N. (Nillas Kopperni-
Alighieri D., 192 Bolingbroke (lorde), Henry St. John gk), 352, 358, 404, 405
A n axág o ras, 41 visconde de, 256 C o r d e m o y , G. d e , 3, 4
A n s e lm o d e A o s t a , 355, 372 B o s s u f .t J. B ., 232 C o r n é l i o T ., 331
A q u a d ie s F., 192 B o y l e R., 9 2 ,9 8 ,3 0 2 , 331 C o u s in V., 172
Argenson, marquês de, 295 Braunschweig-Luneburg, G. F. de, 38 C r o c e B . , 191
A r i s t ó t e l e s , 6, 14, 16, 4 1 , 4 3 , B r o w n T., 311 Cromwell O., 73, 84, 275
58, 75, 76, 77, 78, 94, 100, B r o w n e R, 303 C r u s iu s C . A., 321, 323, 383
158, 192, 213, 269, 270, 326, B r u n o G., 13, 43 C u d w o r t h R., 95
3 3 1 ,3 3 2 ,3 5 7 , 3 6 2 ,3 6 3 ,3 6 4 , B u d d f., 320
4 0 1 ,4 1 4 B u f f o n G. L. L., 247
A r n a u i.d A ., 6, 7, 37, 38, 50, 161, B u t l e r J ., 13 4 , 3 0 1 , 3 0 4 -3 0 5 ,
162,163, 164-165, 173 306, 307
V
Arnauld J. (Madre Angélica), 164,
173 D ’A n d r e a F., 331
A r q u im e d e s , 170 D e Sau ssu re F., 165
Ashe G., 116 C D f . m ó c r i t o , 98, 158
Augusto, 210 D e s c a r t e s R., 3, 5, 6, 7, 11, 13,
A v ic e b r o n , 1 3 Calas J., 257, 273 14, 15, 16, 17, 23, 40, 42, 43,
Calas M.-A., 273 51, 56, 59, 69, 75, 78, 84, 94,
C a l o g e r à A., 193 9 5 ,9 8 ,9 9 ,1 2 0 ,1 5 7 ,1 5 8 ,1 5 9 ,
C a lo p r e s f . G., 331 164, 166, 167, 168, 170, 191,
B Canaletto, Giovanni Antonio Ca­ 1 9 2 ,1 9 5 , 205, 222, 242, 247,
nal, chamado o, 305 249, 2 5 1 ,2 5 6 , 3 2 1 ,3 3 1 ,3 4 0 ,
Bacon F., 12, 40, 73, 75, 76, 91, C a r l i G. R., 334, 338 355, 372
93, 134, 205, 213, 240, 241, Carlos II, 73, 92 D e s r o c h e s , 156
242, 246, 256, 2 6 9 ,3 1 1 ,3 4 0 Carlos III, 341 Diaz F., 279
B aL Z O , A . DEL, 191 Casanova G., 228 D i d e r o t D . , 222, 225, 226, 228,
Baugh A. C., 133 C a s s ir e r E., 2 2 0 ,2 2 3 ,2 2 4 ,2 3 0 ,2 3 2 237, 238, 239, 241, 244-245,
B a u m g a r t f .n A., 321, 323, 409 Catarina II da Rússia, 244 246, 247, 254, 278, 279, 302,
B a y i.f, P., 51, 53, 67, 208, 231-232 Cavendish (conde), 73 341

* Neste índice:
-reportam -se em versalete os nomes dos filósofos e dos homens de cultura ligados ao desenvolvimento
do pensamento ocidental, para os quais indicam-se em negrito as páginas em que o autor é tratado de
acordo com o tema, e em itálico as páginas dos textos;
-reportam -se em itálico os nomes dos críticos;
-reportam -se em redondo todos os nomes não pertencentes aos agrupamentos precedentes.
XVIII ±
< Jy \ a ic e
,
d e n o m es

W., 2 2 1 ,2 2 9 , 230 L., 230


D ilth e y
Diodoro Sículo, 210
•H L a m b e rte n g h i
L a n c e lo t C., 161, 165
D o n a t o , 273 L a n g e , 320
Du P o n t d e N e m o u r s P .- S ., 227 Hamilton W., 208 La Tour, M. Q. de, 243, 279, 286
H e g e l F. W. F., 220, 229, 368 Le Breton, 237
Heine H . , 277, 279 L e ã o H e b r e u (Jehudah Abarba-
H e l v e t i u s C. A., 226, 237, 238, nel), 13
<£ 244, 251, 252-254 Lecouvreur A., 256
Henrique IV, 256 L e e u w e n h o e k , A. v a n , 38
H e r b e r t d e C h e r b u ry , 95, 158, 159 L e ib n iz G. W., 1, 4, 9, 37-61, 62­
Enden, F. v a n d e n , 11 H e r d e r J. G., 349
E p ic u ro , 157, 159, 160, 383 70, 170, 222, 242, 247, 249,
H o b b e s T., 12, 13, 15, 18, 30, 71, 258, 3 0 2 ,3 0 3 ,3 1 7 ,3 1 8 , 321,
Epinay, madame de, 279 73-85, 8 6 -9 0 ,9 1 ,9 2 ,1 0 1 ,1 0 7 ,
E p i c t e t o , 173
322, 323, 351, 355, 359, 372
1 0 8 ,1 3 1 ,1 4 3 ,3 0 6 , 308 Leopoldo I da Áustria, 38
E u c u d e s , 14, 15, 24, 75, 79, 103,
H o e e m a n n A. F., 321, 323 L e s s i n g G. E ., 2 2 2 , 3 2 4 -3 2 7 ,
170, 326 H o l b a c h , P. H . D. d e , 224, 237, 328-330
238, 244, 251, 254, 279 L i g n a c , abade de, 247
Homero, 73, 203, 204, 205, 212 L o c k e J., 1 1 ,7 1 ,9 1 -1 0 9 ,110-114,
Hondetot, madame de, 279
F Horácio Flaco, 215, 233
117, 118, 128, 129, 131, 134,
136, 219, 221, 222, 238, 240,
H u m e D., 5, 9, 71, 100, 131-147, 241, 242, 246, 247, 253, 256,
Fabris P., 208 148-152,277,279,309,310,400 260, 269, 270, 271, 301, 302,
Fernando de Bourbon, 247 H u t c h e s o n F., 13 4 , 3 0 6 , 3 0 7 ­ 303, 304, 306, 307, 318, 332,
F e r g u s o n A., 311 308, 383 338, 340
F e r m a t P., 170, 172 H u y g e n s C . , 11, 13, 37, 38, 318 L o n g o A., 230
F e u e rb a c h L ., 1
Luca, N. de, 341
F ic h te J., 347, 349, 366 Lucano, 406
G., 339, 341
F ila n g ie r i
Luís XV, 247
Firmian, K. J., von, 334
F l u d d R., 158
F o n te n e lle , B. L f. B o v i e r de,
246, 420
3, 4, 5
F o rg e , L . de L a ,
M
Fragonard H., 245
M a im ô n id e s M., 13
F r a n c k e A. H., 319, 320
M a le b r a n c h f, N., 1, 3, 5-9, 10,
Franklin B., 228, 341
Ja m e s R., 244 37, 38, 247, 249
Frederico Guilherme II, 349
Ja n s ê n io C. (Jansen), 161-163 M a n d e v i l l e , B. d e , 134, 308-309,
Frederico I da Prússia, 38
Jo a q u i m d e F i o r e , 329 312-316, 383
Frederico II da Prússia, 234, 241,
Jorge I, 38, 39 M a r c i á o , 273
252, 256, 349
José II da Áustria, 335 Maria Teresa da Áustria, 335
F r is i P., 334, 338
M a r i v a u x P. C., 246
M a r x K., 220, 277, 338
Masham F., 91, 92
K M a u p f .r tu is P. L., 246, 256
Mazarino G. cardeal, 156
M f .ie r G. F., 323
Kant J. J., 347
Galiani C., 341 M e i n e c k e F., 220, 230
K a n t I., 44 , 84, 137, 142, 145,
G a l i a n i F., 244, 254, 339, 341 M e n d e l s s o h n M . , 324
146, 217, 219, 221, 222, 277,
G a l i l e i G., 74, 75, 79, 98, 134, Meré (cavaleiro), 171
279, 287, 307, 323, 347-396,
157, 170, 191, 206, 232, 338, M e r s e n n e M . , 74, 166, 170
397-426
340, 401, 403 Meyer L., 35
K i e r k e g a a r d S., 328
G a s s e n d i P., 43, 156, 1 5 7 -1 6 0 , Mittner L., 319, 320, 326
Knox R . , 124
166-168, 191, 260, 331, 332 M i t t o n D . , 171
K n u t z e n M., 320, 323
G e n o v f s i A., 339-341 Molière J. B., 283
Kõnig E., 325
Geulincx A., 3, 4 M o l l e t abade, 238
Giannone P., 331-332 M o l y n e u x W., 270
Gibbon E., 232, 332 Mônica, 348
Gioia M., 334, 338 L M o n t a i g n f . , M . d e , 173, 179, 182,
Goethe W., 228, 319 267, 383
Goeze J. M., 327 254
L a C o n d a m in e , C . M . d e , M o n t e s q u i e u C. L., d e S e c o n d a t ,
Gorani G.,334, 338 388
L a C h a lo ta is , L .-R ., 222, 226, 232, 237, 238, 261­
Grimaldi C., 331 L a M f .t tr ie , J. O. d e , 236, 246, 264, 275-276, 332
Grimm F. M., 237, 238, 244, 254 251-252 M o r e H . , 95
G r o t i u s U. (Huig de Groot), 191, F., 155, 156
L a M o t h e i.e V a y e r M o r f . l l e t A., 238, 254
192, 307 L a P a ille u r ,170 Moultou P., 279
Guilherme de Orange, 91, 92 L a R o c h f . padre, 246 Mozart W. A., 228
Gundling, 320 L a m b e r t J.H., 244, 321, 323 M u r a t o r i L . A., 331, 332-333
Ctadice de nomes

N R T

Nanteuil R., 160 R a y n a l F. X , 244, 254 Tácito P. Cornélio, 192, 199, 210
N a u d f. G., 155, 156 R eid T., 3 0 9 ,3 1 0 ,3 1 1 T a l e s df. M i l e t o , 134, 358, 402
N k w t o n I., 37, 38, 43, 116, 117, R e im a r u s H. S., 324, 325, 326 T a m b u r in i P., 163
118, 120, 133, 134, 219, 221, Reuter R., 347, 348 Tencin, madame de, 246
222, 240, 241, 242, 246, 257, Ricci G., 192 T e r t u l i a n o , 80, 273
258, 302, 303, 310, 317, 318, Richelieu, A.-J. cardeal de, 171 T e t e n s J. N . , 321, 323
331, 338, 340 R i v i è r e , M. d e l a , 227 T h o m a s i u s C. (Thom as), 3 1 7 ,
N ic o i.f . P ., 161, 164 Roannez (duque de), 171 318-319, 320
Norris J., 303 R o b b io B., 334, 338 T i n d a l M . , 224, 3 0 1 ,3 0 4
N o v a c i a n o , 273 R o b e r t s o n W., 232 T o l a n d J., 2 2 4 , 30 1 , 30 2 -3 0 3 ,
N o v a t o , 273 Robespierre M., 277, 279 306
Rocca J., 192 T o r r i L., 334, 338
R o u s s f a u J.-J., 84, 131, 132, 237, T o r r i c e l l i E., 170, 403
238, 241, 244, 246, 254, 277­ T s c h i r n h a u s E. W., 317-318
O 291, 292-300, 338, 340 Tucídides de Atenas, 73
R u d i g e r , 320 T u r g o t A. R. J., 2 3 7 ,2 3 8
R u s s e l l B., 116, 124
O l d f ie l d A., 256
O r I g e n f .s , 273
O s w a i.d J., 311
O u v r è A., 252 s u

S a b flio , 273 U rban o VIII (Maffeo Barberini),


S a b lé , madame de, 171 163
P S a c i, L. d e , 164, 173
S a in t-C y r a n , abad e de (Jean du
Verger de la Houranne), 161,
P a lm ie ri V., 163 163, 164, 169, 172
P ascal B., 1 5 3 ,1 5 6 ,1 6 3 ,1 6 4 ,169­ V
S a i n t - L a m b e r t , J. F. d e , 244
1 8 5 ,186-190, 280, 305 S c ip io n e DF.’ Ricci, 163
Pascal E., 170 SCHLEIERMACHER F. D. E., 369
V a lle tta G., 331
P a u l o d e T a r s o , 274 Vanhomrigh E., 116
Schmidt C. F., 252
Pedro o Grande, 38 Schnorr von Karolsfeld H. V., 425 V f .n f .t o P., 191
P e i á g i o , 162 V e r r i A., 230, 334, 335, 336
S c h u l t z F. A., 320, 323, 348
P e l l i z z a r i T ., 334, 338 V e r r i P., 227, 230, 334, 335-336
S c h ü t z Ch. G., 402
Perego A., 230 S f .n e c a , 12
Vico G. B., 7 9 ,1 5 3 ,1 9 1 -2 0 9 ,2 1 0­
Périer G., 169, 170 S e r r a o A., 163
2 1 6 ,3 3 9
P e r r a u l t C., 232 VlSCONTI d e S a l i c f . t o G., 230
S h a f t e s b u r i , A. A. C., III c o n d e ,
P e t r a r c a F., 192 Visscher C. J., 101
134, 224, 244, 306-307, 308
P i t á g o r a s , 86, 329 Vitório Amedeo III de Sabóia, 338
S h a f t e s b u r y , A. A. C., I c o n d e ,
P l a t ã o , 21, 41, 59, 94, 192, 199, V o l t a i r e F. M. (Arouet F. M .),
91, 92
203, 205, 269, 274, 278, 369, S im io li G., 163
205, 220, 221, 222, 224, 225,
370 SlNGLIN A., 173
226, 228, 232, 237, 238, 246,
Plauto X Maccio, 82 S m it h A., 310
255-260, 272-274, 283, 332
P l o t i n o d e L i c ó p o i is, 6
S m ith J., 95
Vries, S . de, 13
Pompadour, 1. A. Poisson, madame S o a v e F., 334, 338
de, 256 S ó c r a t e s , 27, 28, 41, 134, 193
P o p e A., 256, 335
Sofia Carlota da Prússia, 302 w
Potocki J. (conde), 247 S o l a r i B., 163
P r a d f .s , abade de, 238
S p e n e r P. J., 319
P r a x é i a , 273 Warens, madame de, 277, 278
S p e r l e t t e , 320
Preti G., 162 S p in o z a B., 1, 4, 9, 11-31, 32-35, W i c h c o t e B., 95
P r o t á g o r a s , 80 W itt,J. de, 11, 13
38, 51, 59, 92, 222, 247, 249,
P u f e n d o r f S., 317, 318 W o i . f f C., 320-323, 383
303, 317, 318, 332
Spyck, van der, 11, 13 W o l l a s t o n W., 303

S t a n y a n X , 244
WryghtJ. M., 74
S t e e l e R., 335
Q S t e w a r t D., 309, 311
S t u a r t M., 92 z
Q u esn ay F., 227, 237, 238 Suyreaux Madalena, 164
Q u e s n e l P., 161, 163 Suyreaux Maria, 164
Q i j i n t i l i a n o , 192 S w i f t J., 115, 116, 256, 304, 335 Zedlitz von, 349
i c e d e cc m c e i+ o s
■fxmdamerv+a is

abstração, 102 idéia, 95, 370


atributo, 18 intuição pura, 360

belo, 392
lei moral (o dever), 379
liberdade, 384

categoria (conceito puro), 364


conhecimento humano, 118
contrato social, 2 86
modo, 19
corpo e movimento, 79
mônada, 43

‘divertissement”, 181
númeno (“coisa em si”), 368

“esprit de géométrie” e “esprit de finesse”,


177 percepção, 135
estado de natureza, 281 postulados da razão prática, 388
Estado, 83 princípio de razão suficiente, 57
Eu penso (apercepção transcendental), 365
experiência, 96

sublime, 393
fenômeno, 3 67 substância, 16
filosofia, 75
filosofia e filologia, 198
finalidade da natureza, 394

transcendental, 359

hábito, 137 V
harmonia preestabelecida, 52
história ideal eterna, 206 vontade geral, 285
DE SPINOZA
A KANT
O OCASIONALISMO,
SPINOZA E LEIBNIZ
■ As grandes construções metafísicas
do racionalismo

“Deus está no mundo apenas porque o mundo


está nele, pois Deus está apenas em si mesmo,
está somente em sua imensidade. ”
Nicolas de Malebranche

“Tudo aquilo que existe, existe em Deus, e nada


pode existir ou ser concebido sem Deus. ”
Baruch Spinoza

“Toda substância é como um mundo inteiro e como


que um espelho de Deus ou então de todo o uni­
verso, que ela expressa em seu modo particular.
(...) Desse modo, podemos dizer que o universo se
multiplica tantas vezes quantas são as substâncias,
e a glória de Deus se multiplica por igual, graças
a tantas representações diversas de sua obra.”
Gottfried Wilhelm Leibniz

“O mundo de Spinoza é uma transparência incolor


da divindade, ao passo que o mundo de Leibniz
é um cristal que reflete a luz dela em uma riqueza
de cores infinitas. ”
Ludwig Feuerbach
Capítulo primeiro

A m etafísica do O casionalism o e M a le b ra n ch e ____

Capítulo segundo

Spinoza: a m etafísica do m onism o


e do im anentism o p an teísta_________________________

Capítulo terceiro

Leibniz e a m etafísica do pluralism o m onadológico


e da harm onia p reestab elecid a _____________________
C a p í+ w lo p rim e iro

A m e ta fís ic a d o O c a s io n a lis m o
e y V l a Ie b r a r v c k e

I. O s pHmei^os
O c a sio rv alis + a s

• O cartesianismoteve sucesso notável sobretudo na Holanda e na França. Ex­


cetuando as reações e oposições, houve um grupo de pensadores que aprofundou
seus aspectos metafísicos e gnosiológicos, radicalizando em particular o dualismo
existente entre pensamento e extensão, e propondo o recurso a
Deus como única solução do problema da recíproca relação das os precursores
duas substâncias: a vontade e o pensamento humano não agem
diretam ente sobre os corpos, mas são ocasiões a fim de que Deus Ocasionalismo
intervenha para produzir as respectivas idéias. -* § 1-3
Essa teoria, denominada "Ocasionalismo", foi preparada
por L. de Ia Forge, G. de Cordemoy (ca*. 1620-1684), J. Clauberg
(1622-1665), mas foi formulada por A. Geulincx (1624-1669) e teve a mais acurada
elaboração sobretudo graças a Malebranche (1638-1715), que soube impô-la à
atenção de todos.

1 O p r o b \e m a c a r t e s i a n o do corpo. A pseudo-solução da “glândula


pineal”, na realidade, constituíra uma fla­
n ã o re so lv id o d o q u a l
grante “retirada” para um cômodo asylum
n a sc e u o O ca sio n a lism o ignorantiae (refúgio da ignorância).
Levando as premissas cartesianas a
suas extremas conseqüências, alguns pen­
O cartesianismo teve notável trajetó­ sadores radicalizaram o dualismo existente
ria sobretudo na Holanda, onde Descartes entre “pensamento” e “extensão”, negando
residiu algum tempo, e na França, onde a possibilidade de que o primeiro agisse
se tornou moda intelectual, provocando sobre a segunda e vice-versa, e propuseram
reações e oposições intensas. Sobre as opo­ o recurso a Deus como única solução para
sições, falaremos mais adiante. Trataremos o problema da relação recíproca entre as
aqui do desenvolvimento experimentado duas substâncias.
pelo cartesianismo por obra de um grupo A vontade e o pensamento humano
de pensadores que aprofundaram seus aspec­ não agem diretamente sobre os corpos, mas
tos metafísicos e gnosiológicos, chegando a constituem “ocasiões” para que Deus inter­
resultados totalmente imprevisíveis. venha na produção dos respectivos efeitos
Um dos maiores problemas deixados nos corpos, assim como os movimentos dos
sem solução por Descartes foi o da possi­ corpos são “causas ocasionais” para que
bilidade de explicar a ação recíproca da Deus intervenha na produção das respec­
res cogitans e da res extensa, da alma e tivas idéias.

* ca —lê -s e cerca ( “ a p r o x im a d a m e n t e ” , “ em to r n o d e ” )
Primeira pãrte - O Ocasionalismo/ .Spinoza e .Leibnie

Essa teoria, conseqüentem ente, foi A verdade primeira e fundamental


denominada “Ocasionalismo”. Preparada que se impõe, segundo Geulincx, é a da
por L. de la Forge, G. de Cordemoy e J. existência do sujeito pensante consciente.
Clauberg, ela foi formulada por A. Geulincx O ra, o sujeito tem plena consciência de
e teve a sua mais acurada elaboração sobre­ tudo aquilo que faz; ao contrário, se não
tudo graças à obra de N. de Malebranche, tem consciência de fazer certas ações, isso
que soube impô-la à atenção de todos. prova que ele efetivamente não as faz. Nós,
porém, não temos em absoluto consciência
de produzir efeitos sobre o corpo, pois igno­
2 ^Autoi^es que p^epam m m ramos completamente o m odo em que eles
se produzem; logo, isso significa que não
o Ocasionalismo somos nós que os produzimos.
Somos simples “expectadores” e não
“atores” de tudo aquilo que acontece em
O médico Louis de la Forge, em seu
paralelo na alma e no corpo.
Tratado sobre o espírito do homem, sobre Quando a alma tem determinadas p o ­
suas faculdades e funções, e sobre sua união sições, que são seguidas por determinados
com o corpo (escrito em torno de 1661 e movimentos do corpo, e, vice-versa, quando
publicado em 1666), destaca a problema- ocorrem movimentos corpóreos aos quais
ticidade das relações entre alma e corpo, se seguem percepções da alma, as volições e
ressaltando a distinção entre “causae prin- os movimentos não são “causas reais”, mas
cipales” e “causae occasionales”, e atribui funcionam como “causas ocasionais”, em
a Deus a verdadeira causa dos movimentos, concomitância com as quais Deus intervém.
bem como da união entre alma e corpo.
Géraud de Cordemoy (1620-1684), de
posições inicialmente cartesianas, aderiu a A n t e c i p a ç õ e s s ig n ific a tiv a s
seguir ao atomismo de Demócrito com a d e S p in o z a e d e L e ib n iz
obra Sobre a distinção entre alma e corpo
em vista de um esclarecimento da física A alma e o corpo são como dois re­
(publicada em 1666), na qual, entre outras lógios sincronizados, não por interação
coisas, sustenta a tese de que não apenas a recíproca, mas porque são continuamente
ação da alma sobre o corpo (e vice-versa), regulados por Deus. Entretanto, como al­
mas também qualquer forma de causalidade guns estudiosos notaram, em alguns textos
ativa é incompreensível sem a intervenção Geulincx não está distante da solução que
divina. Leibniz adotaria e tornaria célebre com sua
Johann Clauberg (1622-1665), em seu doutrina da “harmonia preestabelecida”, da
escrito Sobre a comunicação entre alma e qual falaremos amplamente mais adiante.
corpo, sustenta que tal comunicação não Geulincx não limita o seu Ocasionalis­
depende de sua natureza, mas “tão-somente mo à explicação das relações alma-corpo,
da liberdade de Deus”. mas o estende à explicação de todas as “apa­
rentes” interações das substâncias finitas.
Aliás, ele chega a antecipar até mesmo
3 ^A rn old (^Ãeulmcx Spinoza, formulando afirmações que, de
certa forma, levam a concluir que Deus pro­
duz todas as nossas idéias com sua mente, e
e h F o r m u la ç ã o s is te m á tic a isso faz com que sejamos modos da própria
d o O c a s io n a lis m o mente divina, assim como também produz
os corpos mediante a extensão, fazendo com
Arnold Geulincx (1624-1669), como que os corpos sejam modos da extensão.
já observamos, foi o primeiro a dar forma Embora de forma rapsódica, também
precisa ao Ocasionalismo. Inicialmente, en­ na ética Geulincx antecipa alguns pensamen­
sinou em Lovaina e, depois, em Leida, onde tos que Spinoza tornaria famosos, sobretudo
se converteu ao calvinismo. Somente uma reduzindo a virtude à razão e proclamando
parte de seus escritos foi publicada quando a aceitação serena da vontade de Deus e da
ainda em vida, ao passo que o restante de necessidade. O lema seguinte resume todo
sua produção só veio à luz depois de sua um programa: “ita est, ergo ita sit!” (assim
morte, por obra de seus alunos. é, portanto, assim seja).
Cdpltulo primeiro - jA metafísica do Ocasionalismo e ,/Vtal^-b^ancke

II. M alebrarvcke.
e os deservvolvimerv+os do O c a s i o n a l i s m o

• Tendo nascido em Paris em 1638, Nicolas Malebranche entrou em 1660


na Congregação dos Padres do Oratório, onde estudou sobretudo a Escritura e
o agostinismo, e em 1664 tornou-se sacerdote. No mesmo ano
iniciou a leitura sistemática de Descartes, que marcou de modo
A vida
decisivo seu pensamento e sua produção filosófica: A busca da e os textos
verdade (1674-1675), o Tratado da natureza e da graça (1680), o mais importantes
Tratado de moral (1684), As conversações sobre metafísica (1688). 1
Morreu em 1715.

• Segundo Malebranche, as funções da alma se reduzem ao pensar e ao querer,


e no corpo não há mais que extensão. Ora, os corpos não agem sobre as almas (e
vice-versa), assim como os corpos não interagem um sobre o outro, e isso acontece
porque a alma, separada de todas as outras coisas, tem uma união direta e imediata
com Deus e, portanto, conhece todas as coisas graças à visão de Deus, ao passo
que conhece a si própria mediante um sentimento interior. Estamos, portanto,
seguros da existência dos corpos pela "revelação" que deles temos por parte de
Deus: é o próprio Deus que produz na alma humana os diversos
sentimentos que a tocam por ocasião das mudanças corpóreas, e A visão
todas as atividades da alma que parecem causar efeitos sobre o das coisas
corpo na realidade são causas ocasionais, que agem unicamente em Deus
pela eficácia da vontade de Deus. e o princípio
Deus é conhecido p o r si mesmo: a proposição "existe um "tudo está
Deus" é tão certa quanto a proposição "penso, logo existo". em Deus"
Além disso, sendo infinito, Deus contém tudo em si, compreende -*§2-6
e transcende a própria obra. Justamente porque é tudo em sua
imensidão, ele pode ser tudo em tudo, no sentido de que cada coisa está presente
na imensidade divina. Deus é: sua extensão e duração estão inteiras em todos os
momentos que passam na eternidade dele.

• Malebranche operou um deslocamento de baricentro na especulação em


relação a Descartes: este orientava-se aos problemas do conhecimento e à meto­
dologia da ciência, enquanto Malebranche constrói um sistema
acentuadamente teocêntrico e sustentado por fortes motivações Construção
de caráter metafísico e religioso. Nessa construção ele antecipa de um sistema
em muitos casos algumas idéias que se encontrarão nas grandes teocêntrico
construções metafísicas de Spinoza e de Leibniz; mas apresenta §7
tam bém impressionantes analogias em relação ao empirismo de
Berkeley e ao de Hume (por exemplo, sobre a não experienciabilídade do princípio
de causa-efeito).

1 V id a e o b ^ a s Padres do Oratório, em 1660. Estudou a


Escritura e o agostinismo e, em 1664, or­
d e A A ale b rcm ck e.
denou-se sacerdote.
No mesmo ano de sua ordenação, leu o
N icolas de M alebranche nasceu em Tratado do homem, obra póstuma de Des­
Paris, em 1638, de família muito numerosa cartes (publicada por L. de la Forge), dela
(teve onze irmãos). Depois de ter estudado recebendo tal impacto que decidiu dedicar-se
no Collège de la Marche e na Sorbonne, durante alguns anos ao estudo sistemático
entrou para a congregação religiosa dos do cartesianismo.
Trimeira parte - O Ocasionalismo, Spi nozoi e Leibniz

No Tratado, Malebranche considerou 2 .7^ c o n t r a p o s i ç ã o


extremamente reveladora a clara distinção
en tre “res c o g ita n s ”
feita por Descartes entre alma e corpo: à
primeira eram atribuídos o intelecto puro e V e x e x t e n s c\"
e a vontade pura, ao passo que todas as
outras funções físicas e psicofísicas eram
atribuídas ao corpo e explicadas de forma Quando Malebranche leu o Tratado do
mecanicista. homem, de Descartes, suas convicções religio­
Em 1674/1675, Malebranche publicou sas já estavam consolidadas, bem como já
A busca da verdade, obra dedicada ao corre­ estavam plenamente arraigados em seu es­
to método de pesquisa. Em 1680, publicou o pírito o platonismo agostiniano e a doutrina
Tratado da natureza e da graça. E, em 1684, agostiniana da verdade. Sua aversão pelo
o Tratado de moral. Suas Conversações so­ aristotelismo e pela Escolástica aristotelizan-
bre a metafísica, de 1688, constituem a mais te já datavam do tempo de sua formação no
clara exposição resumida do pensamento colégio de La Marche e dos estudos teológi­
malebranchiano. cos que realizara na Sorbonne.
O filósofo morreu em 1715. Como sabemos, Plotino e Agostinho já
Os escritos de Malebranche suscitaram concebiam as relações entre alma e corpo de
muito interesse e também polêmicas vivazes. modo totalmente diferente de Aristóteles e
Um adversário particularm ente duro de da tradição nele inspirada, chegando a algu­
suas idéias foi sobretudo A. Arnauld, que mas conclusões de sabor dualista. Assim, era
denunciou sua doutrina sobre a graça como natural que o encontro com o espiritualismo
não estando em conformidade com os ensi­ cartesiano entusiasmasse tanto Malebranche.
namentos da Igreja, e conseguiu fazer com A doutrina aristotélica da alma como “for­
que o Tratado da natureza e da graça fosse m a” e “enteléquia” do corpo devia pare­
condenado oficialmente. cer-lhe como nada mais que um resíduo do

N ií i i L isM iile b i i i i i c h e { I (■> >\V- / 7 1 Í J


tCIlloll llllhl /líiiH)
e n tre iis tc m a t w a s c a rlc s id u d s
C O lico/l ldtollisitlo d^OSÍUUdUO,
t’ e x p r e s s o u m im d a s f o r u u iL iç o c s
IlhlIS I'(>inj>lcldí d o “ o c a sio ih llism o ".
/\ ilu stra ç ã o /o/ tiradd
d e u m a estam/ui d a éfio ca.
Capitulo primeiro - y\ metafísica do Ocasionalismo e A^alebrancke

paganismo, inoportunamente mantido pelos pois, com efeito, resistência, golpe, pressão
escolásticos. Já a contraposição dualista etc., nada mais são que “impressões” e
cartesiana entre res cogitans e res extensa “idéias”.
devia parecer-lhe muito oportuna e em Mas de onde derivam as idéias em nós?
perfeita concordância com o espiritualismo De que modo Malebranche chega à solução
cristão. Não existe uma alma “vegetativa”, extrema da visão das idéias em Deus?
assim como não existe uma alma “senso- Nosso filósofo procede por exclusão
rial”, porque as funções da alma se reduzem sistemática de todas as soluções que logica­
ao pensar e ao querer, não havendo mais mente são dadas como possíveis, de modo
nada no corpo além da extensão (com suas a deixar espaço unicamente para a sua. Em
determinações). Aliás, nesse ponto M ale­ particular, ele enfatiza o que segue.
branche vai até além de Descartes: ele não a) As idéias não podem derivar do
nega aos corpos somente as “qualidades modo como os peripatéticos e os escolásticos
ocultas” (que lhes haviam sido atribuídas entendiam, ou seja, através do complexo
no passado e que a nova ciência já excluíra jogo das “espécies impressas” e das “espé­
definitivamente), mas também lhes nega a cies expressas”, do “intelecto paciente” e do
ação mecânica do choque. “intelecto agente” (Malebranche se refere a
Os corpos não agem sobre as almas (ou uma interpretação já totalmente desgastada
vice-versa), da mesma forma não interagem dessas doutrinas, que se apresentavam qua­
uns sobre os outros. se totalmente desfiguradas em relação às
doutrinas originais, sendo-lhe assim muito
fácil excluí-las).
3 i O conhecimento da verdade b) As idéias não podem também deri­
var da potência da alma, porque, se a alma
possuísse tal poder, seria criadora de reali­
M as, então, como se explica o conheci­ dades espirituais (como são precisamente as
mento e como é possível alcançar a verdade? idéias), o que é inadmissível, porque é contra
Cada alma permanece isolada tanto a) das toda a evidência.
outras almas com o b) do mundo físico. c) Também a solução inatista deve ser
Como se pode sair desse isolamento, que rejeitada, porque faz da alma o receptáculo
parece verdadeiramente absoluto? de uma quantidade infinita de idéias, contra
A solução de Malebranche se inspira toda plausibilidade.
em Agostinho (que, por seu turno, se inspi­ d) Do mesmo modo, não se pode dizer
rava no neoplatonismo, embora com uma (com Arnauld) que a alma pode extrair as
série de mudanças e reformas): a alma, que idéias do mundo corpóreo, enquanto con­
está separada de todas as outras coisas, tém suas perfeições por excelência, porque
tem união direta e imediata com Deus e, nesse caso, por analogia, teríamos de defen­
portanto, conhece todas as coisas através der o mesmo para todo o resto, dado que a
da visão em Deus. alma pode conhecer todo o real; assim, por
De Descartes, M alebranche extrai a conseqüência, teríamos de concluir que a
convicção de que aquilo que nós conhe­ alma contém as perfeições de todo o real (o
cemos é só a “idéia” (conteúdo mental). que, obviamente, é insustentável).
M as, ao mesmo tempo, dá a tal idéia uma
densidade ontológica inteiramente ausente
em Descartes e que extrai precisamente do J L A visão das coisas em Deus
exemplarismo metafísico platônico-agosti-
niano.
Nós só conhecemos “idéias” porque só Só nos resta então concluir que nós
elas são visíveis à nossa mente em si mesmas, conhecemos todas as coisas em Deus. Todas
ao passo que os “objetos” que elas repre­ as idéias estão na mente de Deus (o mundo
sentam permanecem invisíveis ao espírito, das idéias) e nossas almas (que são espíritos)
“porque não podem agir sobre ele nem se estão unidas a Deus, que é como que “o
apresentar a ele”. Todas as coisas que vemos lugar dos espíritos” .
são idéias e apenas idéias. O que, bem entendido, não significa
Carece de validade a objeção de que que nós conheçamos a Deus em sua essência
nós sentimos os corpos resistirem, golpea­ absoluta, mas implica somente que aquilo
rem, fazerem pressão e coisas semelhantes, que nós conhecemos é em Deus que o co­
Primeira parte - CD Ocasionalismo, Spi noza e Leibmz

nhecemos, até sem conhecer a Deus em sua efeito, é em Deus que conhecemos as ver­
totalidade e perfeição. dades eternas e a extensão inteligível (que é
E a ciência? N ão estaria ela, desse o arquétipo do mundo físico) e, portanto,
modo, perdendo todo o seu fundamento estamos em condições de daí deduzir a priori
objetivo? uma série de conhecimentos físicos. Da alma,
Pelo contrário, responde Malebranche. ao contrário, não temos um conhecimento
Em última análise, a ciência é até benefi­ através de sua idéia em Deus, mas somente
ciada pela nova metafísica. Com efeito, ela através de um “sentimento interior”.
estuda as relações e os nexos matemáticos O ra, o sentimento interior nos diz:
que ligam os fenômenos. E tais nexos entre a) que existimos, b) que pensamos, c) que
os fenômenos são os nexos entre as idéias, queremos, d) que experimentamos uma
nada mais refletindo senão a regularidade série de sensações. Mas não nos revela a
perfeita com que as idéias se vinculam entre natureza metafísica de nosso espírito. Para
si. Assim, ao invés de captar nexos entre nos conhecermos em nossa essência, nós
impossíveis ações e interações existentes deveríamos ver o arquétipo do ser espiritual
entre as coisas, a ciência captará os nexos e descobrir todas as relações que dele deri­
entre as idéias na visão de Deus. vam, assim como conhecemos o arquétipo
da extensão inteligível, do qual deduzimos
todas as relações que dele derivam. Mas não
é assim que acontece.
5 ;As relações São claras as razões pelas quais M a­
enti^e alma e co^po lebranche assume essas posições. Se tivés­
semos a idéia ou o arquétipo da natureza
e o ccmKecimento dos seres espirituais, nós estaríamos em
que a alma tem de si mesma condições de deduzir todos os seus aconte­
cimentos e de construir uma espécie de geo­
metria espiritual capaz de nos fazer conhecer
Como já dissemos, Malebranche não tudo, inclusive o futuro e até a totalidade
apenas rejeita a concepção tradicional da alma das experiências psicológicas, a priori, em
como forma do corpo, mas leva o dualismo todos os sentidos.
cartesiano até as extremas conseqüências. Entretanto, a consciência que temos de
Não há união metafísica entre alma e corpo nós mesmos nos mostra somente uma parte
e, portanto, não há ação recíproca. A alma mínima do nosso ser. [T]
pensa seu corpo, mas está intimamente unida
a Deus. Todas as atividades da alma que nos
parecem causar efeitos sobre o corpo são, na
realidade, causas ocasionais, que agem tão- 6 ~Cudo es+á em Deus
somente pela eficácia da vontade de Deus.
E o mesmo pode-se dizer sobre as su­
postas “ações” do corpo sobre a alma. Nós conhecemos, portanto, os corpos
Malebranche escreve: “Não há nenhu­ através das idéias (em Deus) e as almas
ma relação entre um espírito e um corpo. E através do sentimento.
digo mais: não há nenhuma relação entre um E como conhecemos Deus?
corpo e outro corpo, nem entre um espírito e Nós conhecemos Deus por si mesmo.
outro espírito. Nenhuma criatura, portanto, A proposição “existe um Deus” é tão certa
pode agir sobre outra em virtude de uma quanto esta outra proposição: “penso, logo
eficácia que lhe seja própria [...]. Não me existo” . Malebranche retoma o argumento
pergunteis por que Deus quer unir espíritos ontológico, baseando-se particularmente no
a corpos. Este é um fato constante, mas as atributo da infinitude.
principais razões dele nunca foram até agora Mas não é o caso de insistir nesse pon­
conhecidas pela filosofia”. to, tratando-se de variações sobre temas que
Resta ainda a destacar um ponto muito já conhecemos bem. E assim que Malebran­
interessante. che resume o seu argumento: “Se pensamos
Segundo M alebranche, nós estamos Deus, então ele deve existir.”
de posse de um conhecimento dos corpos Entretanto, gostaríamos de recordar al­
que é mais perfeito do que o conhecimento guns pensamentos malebranchianos sobre a
que temos da natureza de nossa alma. Com relação entre Deus infinito e o mundo finito.
Capítulo primeiro - y\ metafísica do Ocasionalismo e yV\a1f brtuicke

Se Deus é infinito, Deus contém tudo em si. Nessa construção, em muitos casos,
Os neoplatônicos já diziam que não existe ele antecipa algumas idéias que, embora
alma no mundo, mas o mundo na alma; e, com base em pressupostos diferentes e com
por seu turno, a alma existe nas hipóstases finalidades diferentes, encontraremos nas
superiores, e tudo está em Deus. grandes construções metafísicas racionalis-
Malebranche repete algo de análogo, tas de Spinoza e Leibniz.
mas ampliando ainda o pensamento neopla- M as ele também apresenta algumas
tônico. A realidade de Deus não está apenas analogias importantes em relação ao em­
em todo o universo, mas também além dele, pirismo de Berkeley, embora em uma ótica
porque Deus não está abrangido na própria diversa e ao lado de grandes diferenças.
obra, e sim a abrange e a transcende. Exa­ Entretanto, certas analogias impensá­
tamente porque é tudo em sua imensidade, veis, que só recentemente a historiografia
ele pode ser tudo em tudo. E seu ser tudo filosófica percebeu, levam diretamente a
em tudo não significa mais que a presença Hume. Este destacou que M alebranche
de todas as coisas em sua imensidade. tem importância na história do pensamento
francês, mas não fora da França. Na reali­
dade, isso é uma espécie de desculpa não
7 Z Jy n p ov ia n cia d o p e n s a m e n t o pedida. Com efeito, certas análises sobre
d e J\Aa l e b m n c k e a não experimentabilidade do princípio de
causa-efeito e certos exemplos que ilustram
tal idéia retornam igualmente nas obras de
Os estudiosos destacaram bem o des­ Hume, repropostos com bases inteiramente
locamento do epicentro da especulação que diversas (ou seja, em bases empírico-ceti-
Malebranche realizou em relação a Descar­ cizantes). Mas nem por isso tais tangentes
tes: este se orientava na direção dos proble­ revelam-se menos significativas. Essas analo­
mas do conhecimento e da metodologia da gias só poderão ser compreendidas quando
ciência, ao passo que Malebranche constrói falarmos de Hume.
um sistema acentuadamente teocêntrico, Tudo isso basta para garantir a M a­
sustentado por fortes motivações de caráter lebranche um lugar bem determinado na
metafísico e religioso. história do pensamento ocidental.

D E

LA RECHERCHE
D E

LA V E R IT È ,
P a s N . M A L E B R A N C H E , P r ilr t

de 1 'Q r a i o i r t d e J e s u s .

TOME PREMIE ív.

S K XS. R
A PARIS,
Chez D u R * n d , rue du F o i n , la p r e m ie r e
p o r te cochere en e n tr a m p a r la n ic
S a in t Ja c q u rs, au G riffo n .

Frontispício d e um a ed içã o setecentista d a o b ra


A busca da verdade, d e N icolas M alebran che. M . D C C . L X I I .
Tal texto é d ed ica d o a o p ro b lem a
A vec J p p r o b a tio n £r P r íriU g e du Ros.
d e qu al seja o m é to d o correto d a pesqu isa,
ap to a perm itir a d esco b erta d a verdade.
Primeira pãrte - O Oeasicmalismo, Spinoza e -Leibmz

Isso porgue as criaturas estão imediatamente


unidas apenas a Deus, e dependem essencial
M alebranche e diretamente apenas dele; como todas elas
são igualmente impotentes, não dependem
de modo algum mutuamente umas das outras.
Pode-se dizer, sim, gue elas estão unidas entre

D Deus estabeleceu as leis si e gue dependem umas das outras; concordo,


mas com a condição de gue se entenda gue
que regulam as relações isso acontece apenas como consegüência
das vontades imutáveis e sempre eficazes do
entre alma e corpo criador, apenas como consegüência das leis
gerais gue Deus estabeleceu e pelas guais ele
fí mais clara exposição geral do pensa­ rege o curso ordinário de sua providência. Deus
mento de Nicolas Malebranche encontra-se guis gue meu braço se mova no instante gue
nas Conversações sobre o metafísico 0 sobre eu próprio guero. (Suponho as condições ne­
a religião (1688), obra em forma de diálogo cessárias). Sua vontade é eficaz e imutável; eis
Filosófico entre dois personagens: Teodoro, de onde me vem todo poder e toda faculdade.
que expõe as teses de Malebranche, e flris- Cie guis gue eu tivesse certas sensações, certas
to, que aos poucos formula as objeções. emoções guando em meu cérebro existissem
Na passagem a seguir Teodoro sustenta certas pegadas, certas sacudidelas. Cie guis,
a teoria das causas ocasionais, segundo a em uma palavra, e guer incessantemente, gue
qual todas as atividades da alma que pa­ as modalidades da alma e do corpo fossem
recem causar efeitos sobre o corpo e todas recíprocas: eis a união e a dependência natural
as "ações" do corpo sobre a alma sõo, na das duas partes das guais somos compostos:
realidade, causas ocasionais, agentes unica­ não é mais gue a mútua reciprocidade de nos­
mente pela eficácia da vontade de Deus. sas modalidades apoiada sobre o fundamento
Deus é, portanto, a única verdadeira cau­ inabalável dos decretos divinos; decretos gue,
sa eficiente do acordo entre os movimentos por sua eficácia, me comunicam o poder gue
do corpo e as idéias da alma. tenho sobre meu corpo e por ele sobre algum
outro; decretos gue por sua imutabilidade me
unem ao meu corpo e por meio dele a meus
TeoDORO - Portanto, flristo, não podeis amigos, a meus bens, a tudo aguilo gue me
por vós mesmo mover o braço, mudar de lugar, circunda. Deus interligou todas as suas obras,
de posição, de hábito, fazer aos homens bem não por ter produzido entidades de ligação;
ou mal, pôr no universo a menor mudança. ele as subordinou umas às outras sem revesti-
Cstais no mundo sem nenhum poder, imóvel las de gualidades eficazes. Vãs pretensões
como um rochedo, estúpido, por assim dizer, do orgulho humano, produções guiméricas da
como um pedaço de pau. Que vossa alma ignorância dos filósofos! Ocorre gue, atingidos
esteja unida a vosso corpo tão estreitamente sensivelmente pela presença dos corpos, to­
como vos agradar, gue para isso estejais em cados interiormente pelo sentimento de seus
contato com todos os gue vos circundam, gue próprios esforços, não reconheceram a ação
vantagem tirareis desta união imaginária? Como invisível do criador, a uniformidade de sua
fareis para mover ainda gue apenas a ponta conduta, a fecundidade de suas leis, a eficácia
do dedo ou para pronunciar um monossílabo? sempre atual de suas vontades, a sabedoria
Ri de mim, se Deus não vier em auxílio fareis infinita de sua providência ordinária. Portanto,
apenas esforços vãos, concebereis apenas de­ não continueis dizendo, meu caro flristo, eu
sejos impotentes: com efeito, refleti um pouco, vos peço, gue vossa alma está unida ao vosso
sabeis o gue é preciso fazer para pronunciar o corpo mais estreitamente do gue a gualguer
nome de vosso melhor amigo, para dobrar ou outra coisa; com efeito, ela está imediatamente
estender o dedo de gue mais fazeis uso? [...] unida apenas a Deus, pois os decretos divinos
Portanto, apesar da união da alma e do corpo, são os vínculos indissolúveis de todas as par­
como vos agradar imaginá-la, eis gue estais tes do universo e a conexão maravilhosa da
morto e sem movimento, se Deus não guiser subordinação de todas as causas.
pôr de acordo seu guerer com o vosso, seu
guerer sempre eficaz com o vosso sempre im­ N. Malebranche,
potente. Cis, caro flristo, o solução do mistério. Pensamentos metafísicos.
C a p ít u l o s e g u n d o

Sp inoza:
a m e t a f í s i c a d o morvismo
e d o im arven+ism o p a r v fe ís la

I. S p i n o z a : a v id a , os e s c r it o s
e a s fi n a l id a d e s d a filosofia

• Benedito Spinoza (Baruch d'Espinoza) nasceu em Amsterdam em 1632, de


uma fam ília de hebreus espanhóis que se refugiaram na Holanda para escapar
das perseguições da Inquisição. Aprendeu o hebraico, leu a fundo a Bíblia e o
Talmude, estudou latim e ciências, e em 1656 tornou evidente
a inconciliabilidade de seu pensamento com o credo da religião vjd escritos
hebraica: Spinoza foi excomungado e expulso da Sinagoga, e foi c7
abandonado por amigos hebreus e parentes. Transferiu-se para
diversas aldeias, onde compôs suas obras mais importantes: O
tratado sobre a emenda do intelecto (1661, deixado incompleto), a Ética (a obra
de toda a sua vida, publicada postumamente em 1677), Os princípios da filosofia
de R. Descartes (publicados em 1663 com um apêndice de Pensamentos m etafí­
sicos), o Tratado teológico-poiítico (publicado anonimamente em 1670). A partir
de 1670 estabeleceu-se em Haia, onde entrou em relação com o pintor van der
Spyck, com o matemático Huygens e com o político Jan de W itt. Em 1673 recusou
uma cátedra universitária em Heidelberg, que lhe fora oferecida pelo Eleitor do
Palatinado. Morreu de tuberculose em 1677.

• Como meta suprema do itinerário filosófico, Spinoza pre­


gou a visão das coisas sub specie aeternitatis, que é uma visão A finalidade
capaz de libertar das paixões e de dar um estado superior de paz da filosofia
e de tranqüilidade. Eis por que o interesse de Spinoza é sobretu­ spinoziana
do de caráter ético, enquanto o de Descartes era essencialmente - * § 2
gnosiológico.

jA s e t a p a s fu n d a m e n ta is (Recordemos que os judeus e os mouros


obrigados a se converter, na Espanha, eram
d a v id a
cham ados com o termo depreciativo de
“m arranos”.). Na escola da comunidade
judaica de Amsterdam, Spinoza aprendeu
Benedito Spinoza (Baruch d’Espinoza) o hebraico e estudou a fundo a Bíblia e o
nasceu em Amsterdam no ano de 1632 (o Talmude.
mesmo ano em que nasceu Locke), de famí­ Entre 1652 e 1656, freqüentou a es­
lia abastada de judeus espanhóis (forçados a cola de Francisco van den Enden (que era
se converter, mas que secretamente se man­ um douto de formação católica, mas que se
tiveram fiéis à sua antiga religião), que se havia tornado livre-pensador), onde estudou
haviam refugiado na Holanda para escapar latim e ciências. O conhecimento do latim
às perseguições da Inquisição em Portugal. abriu para Spinoza o mundo dos clássicos
Primeira parte - O Ocasionalismo, Spi nozcy e Leibnis

(entre os quais Cícero e Sêneca) e deu-lhe agilidade (mas guardou, como lembrança,
acesso aos autores renascentistas e aos filó­ o manto cortado pela punhalada).
sofos modernos, especialmente Descartes, O ano de 1656 assinalou dramática
Bacon e Hobbes. e decisiva reviravolta: Spinoza foi exco­
À medida que o pensamento de Spi- mungado e banido da Sinagoga. Os amigos
noza ia se delineando, revelava-se sempre judeus e os parentes o abandonaram. A irmã
mais clara a sua irreconciliabilidade com o contestou-lhe até mesmo o direito à herança
credo da religião judaica. Conseqüentemen­ paterna. (Ele entrou com um processo para
te, começaram também os confrontos com resolver a questão e venceu; depois, porém,
os teólogos e os doutores da Sinagoga. Os recusou tudo, porque pretendera lutar só
atritos tornaram-se bastante fortes, porque pela defesa de um direito enquanto tal e não
Spinoza logo havia atraído a atenção sobre pelos benefícios que dele derivariam.)
si em virtude de seus destacados dotes in­ Depois da excomunhão, Spinoza refu­
telectuais, e os dirigentes da comunidade giou-se em uma aldeia nas proximidades de
judaica teriam desejado que ele se tornasse Amsterdam, onde escreveu uma Apologia,
rabino. Mas Spinoza mostrou-se irremovível ou seja, uma defesa de suas posições, escrito
em suas posições, sobretudo depois da morte que não chegou até nós. Em seguida, foi para
do pai (ocorrida em 1654), tanto que um Rijnsburg (nas proximidades de Leiden) e
fanático tentou até matá-lo. Spinoza salvou- daí para Voorburg (perto de Haia), sempre
se apenas por sua presteza de reflexos e sua em quartos de aluguel. Em 1670, em Haia,
Capítulo segundo - Spi noza: a me+afísica do monismo e do imanenfismo pan+eís+a

o pintor Van der Spyck hospedou-o em sua Tratado sobre a emenda do intelecto é de
casa. 1661. Sua obra-prima é a Ethica, iniciada
Com o e de que vivia Spinoza? Ele em torno de 1661 (que constituiu o traba­
aprendera a cortar vidros óticos. E os pro­ lho de toda a vida do filósofo) e publicada
ventos que ganhava com esse trabalho co­ postumamente em 1677, juntamente com
briam grande parte de suas necessidades. o Tratado sobre a emenda do intelecto , um
Devido ao nível de vida modesto que manti­ Tratado político e as Cartas.
nha (os únicos luxos que se concedia eram os A única obra publicada com o próprio
livros), tinha necessidade de pouco. Amigos nome por Spinoza foi uma exposição em
e admiradores ricos e poderosos chegaram forma geométrica dos Princípios de filosofia
a oferecer-lhe grandes doações, mas ele as de Descartes, à qual foram agregados Pen­
recusou ou então, como no caso de uma samentos metafísicos.
renda que lhe foi oferecida por S. de Vries, Já o Tratado teológico-político, que
aceitou-a, mas reduziu drasticamente seu suscitou grande celeuma e acesas polêmicas,
valor, com base no pouco de que necessitava foi publicado anonimamente (em 1670) e
para sua vida frugal. com falsa indicação do local de impressão.
A excomunhão da Sinagoga, que com­ A cultura de Spinoza era notável e as
portava conseqüências sociais e jurídicas fontes de sua inspiração muito variadas: a
notáveis, isolou-o totalmente dos judeus, filosofia tardio-antiga, a Escolástica (espe­
mas não o isolou dos cristãos (à cuja fé, no cialmente a judaica medieval de Maimônides
entanto, ele não aderiu). Com efeito, foi e de Avicebron, (a Escolástica dos séculos
acolhido em círculos de cristãos abertos e X V I-X V II, o pensam ento renascentista
favoráveis à tolerância religiosa. Conheceu (Giordano Bruno e Leão Hebreu) e, entre os
homens poderosos, como os irmãos de Witt modernos, sobretudo Descartes e Hobbes.
(que lideravam o partido democrático), de Mas essas fontes foram fundidas em uma
cuja proteção desfrutou, e cientistas como poderosa e nova síntese, que assinala uma
Huygens, além de manter correspondência das etapas mais significativas do pensamento
com homens doutos e renomados. ocidental moderno.
Em 1673, o Eleitor do Palatinado ofe­ Os antigos gregos consideravam a
receu-lhe uma cátedra universitária em Hei- coerência entre a doutrina e a vida de um
delberg, mas ele recusou, cortês mas fir­ filósofo como a mais significativa prova
memente, temendo que a aceitação de uma de credibilidade de uma mensagem espiri­
posição oficial como a de professor univer­ tual. E os filósofos gregos deram os mais
sitário pudesse lim itar sua liberdade de admiráveis exemplos dessa coerência. Ora,
pensamento. Spinoza alcançou plenamente o paradigma
Contudo, se não chegou a ensinar ofi­ dos antigos: sua metafísica está em perfeita
cialmente de uma cátedra, mantinha, porém, consonância com sua vida (em muitos as­
amigos e admiradores com os quais podia pectos, como teremos oportunidade de ver
falar de filosofia e discutir seus escritos. mais adiante, ele pode ser considerado como
Morreu em 1677, de tuberculose, com estóico moderno).
apenas 44 anos. Como veremos, ele pregou como meta
suprema do itinerário filosófico a visão das
coisas sub specie aeternitatis, que é uma
visão capaz de libertar o homem das pai­
2 O se n tid o xões e dar-lhe um estado superior de paz
d a filo so fia s p i n o z i a n a e tranqüilidade. E, como nos dizem unani­
memente os contemporâneos de Spinoza, a
em s u a s o b r a s m a io re s paz, a tranqüilidade e a serenidade foram a
marca de toda a sua existência.
O próprio selo que escolheu para lacrar
O primeiro trabalho escrito por Spi­
os papéis de sua correspondência é significa­
noza foi o Breve tratado sobre Deus, sobre tivo: uma rosa, tendo acima a palavra caute,
o homem e sua felicidade, elaborado talvez da mesma forma como o sentido de sua filo­
em torno de 1 6 6 0 . Esse escrito, porém, sofia, como veremos, está na compreensão
permaneceu inédito, sendo descoberto e pura e distanciada do entender, despojado
publicado somente no século passado. O de toda perturbação e de toda paixão.
Primeira parte - O Ocas ionalismo, Spinoza e .Leibniz:

II. y\ c o n c e p ç ã o d e D e u s
c o m o eixo fu n d a m e n tal
d o p e n s a m e n t o sp in o zJa n o

• A obra-prima de Spinoza, a Ethica ordine ge


a ordem monstrata, tem um andamento expositivo decalcado sobre o dos
geom étrica Elementos de Euclides, escandido segundo definições, axiomas,
na exposição proposições, demonstrações, escólios (ou elucidações). As relações
da "Ética" que explicam a realidade, com efeito, são a expressão de uma
spinoziana necessidade racional absoluta: posto Deus (ou a substância), tudo
$1 "procede" e só pode proceder rigorosamente como em geometria.

• O fundam ento de todo o sistema spinoziano é constituído pela nova con­


cepção da "substância". Tudo aquilo que é, dizia Aristóteles, ou é substância ou
é afecção da substância; e Spinoza repete o mesmo quando diz: "Na natureza
nada se dá além da substância e de suas afecções". Todavia, en-
A "substância", quanto para a metafísica antiga as substâncias são múltiplas e
ou seja, hierarquicamente ordenadas, e para o próprio Descartes existe
Deus, está uma multiplicidade de substâncias, Spinoza prossegue sobre esta
no fundam ento linha, dela tirando conseqüências extremas: existe uma só subs-
do sistema tância, originária e autofundada, causa de si mesma (causa sui),
spinoziano que é justamente Deus. As substâncias derivadas de Descartes, a
§2 res cogitans e a res extensa em geral, em Spinoza tornam-se dois
dos atributos infinitos da substância, enquanto os pensamentos
singulares e as coisas singulares extensas e todas as manifestações empíricas tor­
nam-se afecções da substância, tornam-se modos.
Deus é, portanto, um ser absolutamente infinito, uma substância constituída
por uma infinidade de atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna
e infinita. Essa substância-Deus é livre unicamente no sentido de que existe e age
p or necessidade de sua natureza, e é eterna, porque sua essência implica necessa­
riamente sua existência. Deus é justamente a única substância existente, é causa
imanente e, portanto, é inseparável das coisas que dele procedem, é a necessidade
absoluta de ser, totalm ente impessoal.

• A substância (Deus) manifesta a própria essência em infinitas formas: os


atributos, que, eternos e imutáveis e de igual dignidade, exprimem cada um a
infinitude da substância divina, e devem ser concebidos "por si",
. mas não como entidades separadas. Os modos são, ao contrário.
Os atributos as afecções da substância, estão na substância e apenas median-
t>°s ^ te a substância podem ser concebidos; os modos seguem-se aos
' atributos, são suas determinações, e entre os atributos (por sua
natureza infinitos) e os modos finitos existem os modos infinitos
(por exemplo, o intelecto infinito e a vontade infinita são modos infinitos do atri­
buto do pensamento). Ora, o infinito gera apenas o infinito, enquanto o finito,
por sua vez, pode ser determinado unicamente por um atributo "afecto" por uma
modificação finita e tem uma existência determinada; mas Spinoza deixa inexpli-
cado como no âmbito da substância divina infinita tenha nascido algo finito, e
esta é a aporia máxima do sistema spinoziano.

• Deus é, portanto, a substância com seus (infinitos) atributos. O mundo, ao


contrário, é dado por todos os modos, infinitos e finitos. E uma vez que os modos
não existem sem os atributos, então tudo é necessariamente determinado pela
Cãpltulo Segundo - Spinoza: a metafísica do monismo e do imarventismo pantersta

natureza de Deus, e não existe nada de contingente: o mundo


é a "conseqüência" necessária de Deus. Deus enquanto causa Deus é natura
livre é para Spinoza natura naturans, ao passo que o mundo naturans;
o mundo
é natura naturata, é o efeito daquela causa e é tal de modo a
é natura
m anter dentro de si a causa. Disso provém o "panteísmo" de naturata
Spinoza, para o qual tudo é Deus, isto é, manifestação necessária -* § 5
de Deus.

1 ord em geo m étrica Por que nosso filósofo escolheu esse mé­
todo, precisamente ao tratar da realidade su­
prema de Deus e do homem, que são objetos
A obra-prim a spinoziana, a Ethica, para os quais os procedimentos matemati-
como diz o próprio subtítulo “ ordine geo- zantes pareceriam demasiadamente restritos
metrico dem onstrata”, tem um esquema e inadequados? E a pergunta que se colocam
de exposição calcado no dos Elementos de todos os intérpretes, dado que esse método,
Euclides, ou seja, segue um procedimento em sua translúcida clareza formal, muitas
que se desenvolve segundo definições, axio­ vezes não revela, mas até oculta as motiva­
mas, proposições, demonstrações e escólios ções do pensamento spinoziano, a ponto de
(ou explicações). Trata-se do método indu- alguns terem acreditado resolver o problema
tivo-geométrico, em parte já utilizado por pela raiz, tentando dissolver a ordem geo­
Descartes e bastante apreciado por Hobbes, métrica de sua rigidez formal e estendê-la
com o veremos, mas que Spinoza leva às em um discurso continuado. Uma solução
últimas conseqüências. absurda, porque a escolha de Spinoza não
teve uma motivação única, mas razões múl­
tiplas. Procuremos identificar as principais.
rf.x j t : nrs c art/ x Está claro, entretanto, contra o que Spi­
noza pretendeu reagir ao adotar o método
P R I N C I F I O R U M geométrico. Ele queria rejeitar:
i! II I I, O S O P II I iE a) o procedimento silogístico abstrato e
extenuante, próprio de muitos escolásticos;
l '.! U J, & II, b) os procedimentos inspirados nas re­
Alorc Ccmictrkv tUnwnjhvtt.c gras retóricas próprias do Renascimento;
c) o método rabínico da exposição ex­
p F. R
cessivamente prolixa.
B H N I- D [ C l U M dc S P I N O Z A
O estilo de Descartes e, em geral, o
kS Í ( c tffe r t t H t h j a f i U m
gosto pelo procedimento científico próprio
COGITATA METAPIIYSICA, do século 17 influenciaram grandemente
I n q t / iífu t d i f f i a h e r n , e ju .H a m m p . n t e ( J l l c u p l n f i c t i g e u r r á t i , q u h m Spinoza em sentido positivo.
t u i t r i u n t , y u .t jh c n t i l / r c r t h r < < fiu a n t u r . Todavia, o método e o procedimento
adotados por Spinoza na Ethica não cons­
tituem um simples revestimento extrínseco
(ou seja, formal), como pareceu a alguns,
não sendo também explicáveis como simples
concessão a um modismo intelectual. Com
efeito, os nexos que explicam a realidade,
como a entende Spinoza (como logo vere­
mos), são expressão de uma necessidade
AMt i r r n o AMi ,
' J O IliN H F .H R i r w i , R T 5 , t» v i c e ‘V«Ajtí À i i l o , d c D i f k
racional absoluta. Posto Deus (ou a Subs­
vun A flc n flc c g , (ní, ji^ w <JMsrtjrolo$u. tância), tudo daí “procede” com o mesmo
rigor com que, posta a natureza do triângulo
b r o n t i s f i í a o d o s P r in c ífiio s d a fd osof/a tal como se expressa em sua definição, todos
d c R. D e sca rte s. os teoremas relativos ao triângulo daí “pro­
A o h r a c c o n s t it u íd a f)or u m a e x p o s i ç ã o cedem” rigorosamente, não podendo deixar
em f o r m a g e o m é t r i c a d a filo s o fia carte sia na, de proceder. Assim, se, suposto Deus, tudo é
s e g u id a p e l o s P e n s a m e n t o s m e t a físic o s . “dedutível” com esse mesmo rigor absoluto,
Primeira pãrte - O Ocasionalismo, .Spinoza e .Leibniz

então, segundo Spinoza, o método euclidia­


no mostra-se o mais adequado.
Além disso, esse m étodo oferece a
vantagem de possibilitar o distanciamento í ■ Substância. A concepção spino-
i ziana da substância é a mais radical que
emocional do objeto tratado e, portanto,
| já se propôs em campo filosófico,
uma objetividade desapaixonada, isenta de í Aristóteles dizia: "A substância é
perturbações alógicas e arracionais. E isso í aquilo que não existe em outro e não
favorecia grandemente a realização daquele 1 se predica de outro". Para a metafísica
ideal que nosso filósofo se propusera: ver e antiga, além disso, as substâncias eram
fazer ver todas as coisas acima do riso, do múltiplas e hierarquicamente orde­
pranto e das paixões, à luz do puro intelecto. nadas, e o próprio Descartes havia-se
Um ideal que se encontra perfeitamente con­ ; pronunciado a favor da existência de
densado na seguinte máxima: “nec ridere, ‘ uma multiplicidade de substâncias,
f Spinoza prossegue nessa linha, mas
nec lugere, neque detestari, sed intelligere”. I7 dela tira as conseqüências extremas.
i A substância é "aquilo que existe em
r si e existe concebido por si mesmo"
2 A 77s u b s t â n c i a 77 i e, uma vez que "todas as coisas ou
ou o D e u s sp in o z ia n o ; existem em si ou existem em outro",
então além de Deus não pode haver
i nem se conceber nenhuma substância.
, Tudo aquilo que existe, com efeito,
y\ c e n tr a l id a d e d o p ro b le m a i existe em Deus, e nada pode existir
d a s u b s tâ n c ia nem ser concebido sem Deus.

As definições com as quais a Ethica


inicia, ocupando no todo cerca de uma página,
contêm quase que inteiramente os funda­ tensa como substâncias (e, portanto, tanto
mentos do spinozismo, centrados na nova as almas como os corpos), mas a definição
concepção da “substância”, que determina geral de substância por ele apresentada não
o sentido de todo o sistema. podia concordar com essa admissão. Com
A questão relacionada com a substân­ efeito, nos Princípios de filosofia, havia defi­
cia é, fundam entalm ente, uma questão nido a substância como res quae ita existit ut
relacionada com o ser (que é a questão me­ nulla alia re indigeat ad existendum, ou seja,
tafísica por excelência). como aquilo que, para existir, não necessita
Aristóteles já escrevia que a eterna per­ de mais nada senão de si mesma. Entretanto,
gunta “o que é o ser?” eqüivale à questão assim entendida, só a realidade suprema
“o que é a substância?”, e que, portanto, a pode ser substância, ou seja, Deus, porque,
resposta para a questão da substância é a res­ como diz o próprio Descartes, todas as coi­
posta ao máximo dos problemas metafísicos. sas criadas só podem existir à medida que
Com efeito, dizia Aristóteles, tudo aquilo que são sustentadas pela potência de Deus.
existe é substância ou afecção da substância. Descartes, porém, procurou sair dessa
Também Spinoza repete: “Nada é dado aporia, introduzindo um segundo conceito
na natureza além da substância e de suas de substância (e, portanto, defendendo uma
afecções”. Todavia, para a metafísica antiga, concepção polívoca e analógica de substân­
as substâncias eram múltiplas e hierarquica­ cia), segundo a qual também as realidades
mente ordenadas. Mesmo apresentando teo­ criadas (tanto as pensantes como as corpó-
rias sobre a substância completamente dife­ reas) podem ser consideradas substâncias
rentes das clássicas e escolásticas, o próprio “enquanto são realidades que, para existir,
Descartes pronunciou-se a favor da existên­ necessitam somente do concurso de Deus ”.
cia de uma multiplicidade de substâncias. E evidente a ambigüidade da solução
cartesiana, porque não se pode dizer coeren­
E U A s a m b ig ü id a d e s d o c o n c e ito
temente a) que substância é aquilo que, para
c a r te s ia n o d e s u b s tâ n c ia
existir, não necessita de mais nada a não ser
de si mesmo e b) que também são substân­
Descartes entrara flagrantemente em cias as criaturas que, para existir, necessitam
contradição. Com efeito, de um lado, insis­ apenas do concurso de Deus. Com efeito,
tiu em considerar a res cogitans e a res ex- as duas definições formalmente se chocam.
Capítulo segundo - Spi noza: a metafísica do monismo e do imahentismo pan+eís+a

L A n ic id a d e d a s u b s t a n c i a podem ser outra coisa senão variações da


c o m p r e e n d i d a c o m o “c a u s a s u i ” prova ontológica. Com efeito, não é possível
pensar Deus (ou a substância) como causa
Portanto, retomando essa linha, Spi­ sui, sem pensá-lo como necessariamente
noza extrai as conseqüências extremas: só existente. Aliás, nessa perspectiva, Deus
existe uma única substância, que é precisa­ é aquilo de cuja existência estamos mais
mente Deus. certos do que da existência de qualquer
É evidente que o originário (o absoluto, outra coisa.
como diriam os românticos), o fundamento
primeiro e supremo, precisamente por ser W fllB O D e w s s p in o z ia n o
tal, é aquilo que não remete a nada mais e a “n e c e s s i d a d e ”
além de si, sendo portanto autofundamento,
causa de si, “causa sui”. E tal realidade não O Deus de que fala Spinoza é o Deus
pode ser concebida senão como necessaria­ bíblico sobre o qual ele havia concentrado
mente existente. seu interesse desde a juventude, mas pro­
E se a substância é “aquilo que é em si fundamente contraído nos esquemas da
e é concebida por si mesma”, ou seja, aquilo metafísica racionalista e de certas perspec­
que não necessita de nada mais além de si tivas cartesianas. Não é um Deus dotado de
mesma para existir e ser concebida, então “personalidade”, ou seja, de vontade e de
a substância coincide com a causa sui (a intelecto. Conceber Deus como pessoa, diz
substância é aquilo que não necessita de Spinoza, significaria reduzi-lo a esquemas
nada mais além de si mesma, precisamente antropomórficos.
porque é causa ou razão de si mesma). Analogamente, o Deus spinoziano não
Aquilo que para Descartes eram subs­ “cria” por livre escolha algo que é diferente
tâncias em sentido secundário e derivado, ou de si e que, precisamente como tal, poderia
seja, res cogitans e res extensa em geral, tor­ também não criar. Não é “causa transitiva”,
nam-se para Spinoza dois dos infinitos “atri­ mas sim “causa imanente”, sendo portanto
butos” da substância, ao passo que os sim­ inseparável das coisas que dele procedem.
ples pensamentos, as simples coisas extensas Deus não somente não é Providência, no
e todas as manifestações empíricas tornam-se sentido tradicional, mas é a necessidade
afecções da substância, “modos”, ou seja, absoluta , totalmente impessoal.
coisas que estão na substância e que só p o ­ Dada a sua natureza (que coincide
dem ser concebidas por meio da substância. com a liberdade no sentido spinoziano
M ais adiante falaremos disso. Aqui, que explicamos, ou seja, no sentido de que
continuando o discurso sobre a substância, só é dependente de si mesmo), Deus é ne­
devemos destacar ainda em que sentido ela cessidade absoluta de ser. E é necessidade
coincide com Deus: “Entendo por Deus absoluta no sentido de que, colocando-se
um ser absolutamente infinito, isto é, uma esse Deus-substância como causa sui, dele
substância constituída de uma infinidade de procedem necessária e intemporalmente,
atributos, cada qual deles expressando uma ou seja, eternamente (analogam ente ao
essência eterna e infinita”. que acontece na processão neoplatônica),
Essa substância-Deus é livre, no sentido os infinitos atributos e os infinitos modos
de que existe e age por necessidade de sua que constituem o mundo. As coisas deri­
natureza; e é eterna, porque sua essência vam necessariamente da essência de Deus
envolve necessariamente sua existência. (como já dissemos), assim como os teoremas
Tudo isso está contido nas oito defini­ procedem necessariamente da essência das
ções supremas da Ethica de Spinoza (a que figuras geométricas. A diferença entre Deus
acenamos antes). E a visão da realidade em e as figuras geométricas está no fato de que
que se baseia é a de que Deus é precisamente estas últimas não são causa sui e, portanto,
a única substância existente, e de que “tudo a derivação geométrico-matemática perma­
o que existe, existe em Deus, pois sem Deus nece uma “analogia” que ilustra algo que,
nada pode existir nem ser concebido” e de que em si mesmo, é mais complexo.
“tudo aquilo que acontece, acontece unica­ Foi nessa necessidade de Deus que
mente pelas leis da natureza infinita de Deus Spinoza encontrou aquilo que procurava:
e decorre da necessidade de sua essência”. a raiz de toda certeza, a razão de tudo, a
E evidente que, com essa impostação, fonte de uma tranqüilidade suprema e de
as demonstrações da existência de Deus não uma paz total.
PritneiYã parte - O O casionalism o, S p in o za e Leibniz

Naturalmente, tratar-se-ia de ver se o


Deus que lhe deu verdadeiramente aquela
imensa paz é precisamente aquele que se ex­ ■ Atributo. O atributo é "aquilo que
pressa nos esquemas geométricos da Ethica, o intelecto percebe na substância
ou então se é um Deus que os esquemas como constitutivo de sua essência" e
geométricos — como observam certos in­ que deve ser concebido por si. A subs­
tância divina tem infinitos atributos, e
térpretes — , mais do que revelar, ocultam, todo atributo é por si infinito, mas a
ou seja, exatamente aquele Deus bíblico mente humana conhece apenas dois:
que tinha nele profundas raízes ancestrais. o pensamento e a extensão.
Mas isso nos levaria a um terreno de pura
investigação teorética.
Contudo, esse é um ponto fundamental
a considerar para se compreender Spinoza: a
“necessidade” é apresentada como a solução Além disso, Spinoza proclamou teo­
de todos os problemas. ricamente a igual dignidade dos atributos.
Efetivamente, depois dos estóicos, Spi­ M as, enquanto capaz de pensar a si mesmo
noza foi o pensador que mais acentuadamen- e o diferente de si, o atributo “pensamen­
te apontou a compreensão da necessidade to ” deveria ser distinto de todos os outros
como o segredo que dá sentido à vida. atributos, precisamente pelo fato de que tal
E Nietzsche, com sua doutrina do amor caráter constitui privilégio. Mas ele não se
fati, levará esse pensamento às extremas propôs esse problema, que teria levantado
conseqüências. numerosas dificuldades internas e o teria
obrigado a introduzir uma hierarquia e,
portanto, uma ordem vertical, ao passo que
3 G s "a t r i b u t o s ” ele visava a uma ordem horizontal, ou seja,
total igualdade dos atributos, pelo motivo
que logo veremos.
Já acenamos acima para os “atributos” Ao invés de privilegiar o pensamento,
e os “modos” da substância. Agora, deve­ Spinoza estava preocupado em elevar a
mos explicar do que se trata. extensão e “divinizá-la” . Com efeito, se
A substância (Deus), que é infinita, ma­ a extensão é atributo de Deus e expressa
nifesta e exprime sua própria essência em (como cada um dos outros atributos) a
infinitas formas e maneiras, que constituem natureza divina, Deus é e pode ser conside­
os “atributos”. rado uma realidade extensa: dizer “extensio
À medida que, todos e cada um, ex­ attributum Dei est” eqüivale a dizer “Deus
pressam a infinitude da substância divina, est res extensa”.
os “atributos” devem ser concebidos “em si O que não significa em absoluto que
mesmos”, ou seja, cada um separadamente, Deus seja “corp o” (como dizia Hobbes,
sem a ajuda do outro, mas não como enti­ por exemplo), mas apenas que é “espacia-
dades estanques (são diferentes, mas não lidade”: com efeito, o corpo não é um atri­
separados), pois só a substância é entidade buto, mas um modo finito do atributo da
em si e para si. espacialidade.
Portanto, é evidente que todos e cada Isso implica a elevação do mundo e sua
um desses atributos são eternos e imutáveis, colocação em posição teórica nova, pois,
tanto em sua essência como em sua existên­ longe de ser algo contraposto a Deus, é algo
cia, enquanto expressões da realidade eterna que se prende (como veremos melhor mais
da substância. adiante) de modo estrutural a um atributo
Nós, homens, conhecemos apenas dois divino.
desses atributos infinitos: o “pensamento”
e a “extensão”.
Spinoza não apresentou uma explica­ 4 O s “m o d o s ”
ção adequada dessa limitação. Mas a razão
é evidente, e é de caráter histórico-cultural:
são essas as duas substâncias criadas (res Além da substância e dos atributos,
cogitans e res extensa) reconhecidas por há também os “modos”, como já assina­
Descartes e que, pelas razões que explica­ lamos. Deles Spinoza apresenta a seguinte
mos, Spinoza reduz a atributos. definição: “Entendo por modo impressões
BIBLIO TECA SÂO G A BR IEL
Capítulo segundo - Sp \v\o2-cx\ a m e t a f í s i c a d o m o n is m o e d o im a n e n t is m o p a n t e í s t a

da substância, ou seja, aquilo que existe só pode ser determinado por “um atributo,
em outra coisa, por meio da qual também enquanto é modificado por uma modificação
é concebido” . Sem a substância e seus atri­ que é finita e tem existência determinada”. O
butos, o “modo” não existiria e nós não infinito só gera o infinito e o finito é gerado
poderíamos concebê-lo: com efeito, ele só pelo finito.
existe e só é conhecido em função daquilo M as uma coisa fica inexplicada: o modo
de que é modo. como nasceu um finito, no âmbito da infi-
Mais propriamente, dever-se-ia dizer nitude da substância divina, que se explicita
que os “modos” procedem dos “atributos”, em atributos infinitos, modificados por mo­
e que são determinações dos atributos. dificações infinitas.
Mas Spinoza não passa imediatamente Com efeito, para Spinoza, omnis deter-
dos “atributos” infinitos aos “modos” fini­ minatio est negatio, e a substância absoluta,
tos, mas admite “modos" também infinitos, que é ser absoluto, ou seja, o absolutamente
que estão entre os atributos (por sua natu­ positivo e afirmativo, é tal que não se deixa
reza infinitos) e os modos finitos. “determinar”, ou seja, “negar”, de modo
O “intelecto infinito” e a “vontade nenhum.
infinita”, por exemplo, são “modos infini­ Essa é a máxima aporia do sistema
to s” do atributo infinito do pensamento, ao spinoziano, da qual deriva toda uma série de
passo que o “movimento” e a “quietude” dificuldades, como os intérpretes destacaram
são “modos infinitos” do atributo infinito várias vezes, mas que é necessário enfocar
da extensão. Outro modo infinito é também bem, precisamente para compreender de
o mundo com o totalidade ou, com o diz maneira adequada o resto do sistema.
Spinoza, “a face de todo o universo, que
permanece sempre a mesma, apesar de variar
em infinitos modos” .
D e u s e m uiado,
Chegando a esse ponto, poderíamos
esperar de Spinoza uma explicação sobre o u " n a t u r a i i a t u m n s 11
a origem dos “modos finitos”, ou seja, a e "i'l a t u m n a t u r a ia "
explicação de como ocorre a passagem do
infinito ao finito.
Isso, porém, não ocorre; Spinoza in­ Com base no que explicamos, o que
troduz de repente a série dos finitos, dos Spinoza entende por Deus é a “substância”
modos e das m odificações particulares, com seus atributos (infinitos); já o mundo é
dizendo simplesmente que eles derivam uns dado pelos “modos”, por todos os modos,
dos outros. infinitos e finitos. Mas estes não existem sem
Spinoza sustenta que aquilo que segue aqueles; portanto, tudo é necessariamente
à natureza de um atributo de Deus, que determinado pela natureza de Deus e não
é infinito, só pode ser um modo também existe nada contingente (como já vimos).
infinito e que, portanto, aquilo que é finito O mundo é a “conseqüência” necessária
de Deus.
Spinoza também chama Deus de natu-
ra naturans, o mundo de natura naturata.
■ O modo é "aquilo que existe Natura naturans é a causa, ao passo que
em outro e que apenas mediante natura naturata é o efeito daquela causa,
este outro é concebido". Os modos que, porém, não está fora da causa, mas é
são as especificações particulares tal que mantém a causa dentro de si. Pode-
dos atributos da substância divina, e se dizer que a causa é imanente ao objeto e
podem ser: também, vice-versa, que o objeto é imanente
- infinitos (como, por exemplo, o à sua causa, com base no princípio de que
movimento, que é modificação do
“tudo está em Deus”.
atrib u to divino "extensão", ou o
intelecto divino, que é modificação Agora, estamos em condições de en­
do atributo divino "pensamento"); tender por que Spinoza não atribui a Deus
- ou finitos (por exemplo, os mo­ o intelecto, a vontade e o amor. Com efeito,
vimentos singulares e os pensamentos Deus é a substância, ao passo que intelecto,
singulares). vontade e am or são “modos ” do pensamen­
to absoluto (que é um “atributo” ). Tanto
entendidos como “modos infinitos” quanto
Primeira parte - O O casionalism o, S p in o za e L-eibni

com o “modos finitos” , eles pertencem à Quando se diz que Spinoza fala de Deus
natura naturata, isto é, ao mundo. sive natura deve-se indubitavelmente enten­
Portanto, não se pode dizer que Deus der que ele pensa nesta equação: Deus sive
projete o mundo com o intelecto, que o Natura naturans. Entretanto, como Deus
queira com um ato de livre escolha ou que (e, portanto, a Natura naturans) é causa
o crie por amor, porque essas coisas são imanente e não transcendente, e como nada
“posteriores” a Deus, dele procedendo: mais existe além de Deus, pois tudo está nele,
não são o originário, mas o conseqüente. então está fora de dúvida que a concepção
Atribuir essas coisas a Deus significa trocar spinoziana pode ser chamada “panteísta”
o plano da natureza naturante pelo da na­ (= tudo é Deus ou manifestação necessária
tureza naturada. de Deus nos modos explicados). |T]

T r a c t a t u s
E T H I C E S
T á r s 7 *r im a » THEOLOGICO
D E D E O. 1> O L 1 T I C U S
D H I HI T IO N! S
1. fui tntiHigo t d , curu< clU n iu
Contincns
r f i ( d A i in v o lv t ri^ ilic n n a m .fiu id ,cuhi*nanir.i
«MQ p R f f g non p o filt OHKip», n ificxilicm .
Diflcrtationcs aliquot,
/E j B f l g j I I . f a r o d i r i n i r m fu o p rtK jv finita,
Qutbui oOcrtJmu L<Wrut<rm Phtlofophaiuii nonramum
• M W I <]uar aJw < ru n trx ttrm inan po*
laU j Pi<rtatc, S< R< í |hiWu * Pa» epóflcn *v«.d' •
td V h . i ; f curpu* dirm tr fir w u m , qma almd lim pcr
candctniiifi cum Pare H cipuhlicz, tptaquc
nuiu.» or* tpitmiv Su «f*yiTjfio j l u í rcnnitu-
Pietaic tolli nonpofle.
fuc. A t «or^>u> oontiT irnru n trcogK atiO K , n a c o g ir a -
fm . orporc ►j.,:1 ! C»p IV roí XUI
III l’ir fttHnnriam inrrD igo k J , qu od m í c e f t , ic r. ' ?*(_*»{> rmul >« D** •iWBMí . ( f O t »» tm jTf
per k- tn rw tp im r: hr»c cft id , n i|w c í# *xi» ftw noniinJ»- /■ qu*á it 5/*»•« /M dtJtl * 4 *
»»i r cm vt pm ah criii' m .a q u o form an tk b r a f.
I\ f‘ti jrtiiU i(u m in tclhpo u l , qttod u tftllr â m vk
íitl*;! inru jx h «pit , ranqiiam t w lJ c m t-flcntwun coníti-
tlnii.
V P a m c n lu m u m Ilyo fu l^ U n n arafle ü io o c*. fiv ctd ,
>114 I.0 1.11, prt qii<*l<tUíDCOOCipirur.
V I Ptf iX u jn in t d fy jo ifw jh fo lu tc m fim cum , I »
*1’ !nrum conJiin»cm inhniniaftíitw it>, quorum
"'n » i. jUüd*jiK: x u t r u m , èt in tim tvn cflcm u m n p r» -
H* M•t I CI.
nnr ÀpO«i Clí lí <1**

Página d e um a ed ição Fron tispício d e um a ed içã o antiga


d a É tica d e Spinoza, d o Tratado teológico-político,
p u b licad a em 1677. p u b lica d o an on im am en te em 1670.
S pin oza utiliza o m éto d o d ed u tiv o-g eom étrico, A obra , na qu a l se sustenta
c o m p o sto p o r defin ições, ax iom as, p ro p o siçõ es, o prin cípio d a laicid ad e d o E stado,
p ara tratar a realid ad e su prem a d e Deus. suscitou fo rtes polêm icas.
Capítulo segundo - S p i n o z c x : a metafísica do monismo e do imanen+ismo pan+eís+a

_ III. y\ douMna. spirvoziarva


d o p a ra le lis m o
e n l r e “o r d o i d e a m m ^ e. ^ o rd o

• Dos infinitos atributos de Deus nós conhecemos apenas dois: a extensão e o


pensamento, e por isso nosso mundo é constituído pelos "modos" destes dois atribu­
tos: os corpos e os pensamentos singulares. Ora, uma vez que cada atributo exprime
a essência divina de igual maneira, então a série dos modos de
cada atributo deverá necessária e perfeitam ente corresponder à Correspondência
série dos modos de cada outro atributo. E assim a ordem e a série entre "ordo
das idéias deverá corresponder necessária e perfeitam ente à or- idearum "
dem dos modos e das coisas corpóreas: ordo e t connexio idearum e "°rf ° rerum "
idem est ac ordo e t connexio rerum. Nesta perspectiva, o homem *
é constituído por certas modificações dos atributos de Deus, isto é,
por modos do pensar (com a proeminência do modo que é a idéia) e por modos da
extensão (isto é, pelo corpo). A alma ou mente humana é a idéia ou conhecimento
do corpo, e a relação entre mente e corpo é um paralelismo perfeito.

1 ;A relação que condiciona os outros “modos” de pen­


sar. Assim, também a idéia (que, para Spi­
e n tre m en te e c o ^ p o
noza, é conceito ou atividade da mente) tem
é wm p a r a l e l i s m o p e r fe it o lugar privilegiado no contexto da atividade
geral do pensamento.
Mas, devido à estrutura da ontologia
Como vimos, nós conhecemos apenas spinoziana, longe de ser uma prerrogativa
dois dos atributos infinitos de Deus: a) a apenas de mente humana, a idéia tem (como
extensão; b) o pensamento. o “atributo” de que é “modo”) as raízes na
Assim, nosso mundo é um mundo cons­ essência de Deus, que, aliás, deve ter não só a
tituído pelos “modos” desses dois atributos: idéia de si mesmo mas também a idéia de todas
a) pela série dos “modos” relativos à exten­ as coisas que dele procedem necessariamente:
são; b) pela série dos “modos” relativos ao “Em Deus, dá-se necessariamente a idéia tanto
pensamento. de sua essência quanto de todas as coisas que
a) Os corpos são “modos” determi­ procedem necessariamente de sua essência. ”
nados do “atributo” divino da extensão (e, A antiga concepção do “mundo das
portanto, expressão determinada da essência idéias” (que, criada por Platão, foi retomada
de Deus como realidade extensa). e reapresentada de vários modos na Antigui­
b) Os pensam entos singulares, por dade, na Idade Média e no Renascimento)
seu turno, são “modos” determinados do adquire aqui significado inteiramente novo e
“atributo” do pensamento divino (expres­ insólito, destinado a permanecer único. Com
são determinada da essência de Deus como efeito, as “idéias” e os “ideados”, ou seja, as
realidade pensante). “idéias” e as “coisas correspondentes”, não
Recordemos que, para Spinoza, “pen­ têm entre si relações de paradigma-cópia
sar” e “pensamento” têm significado muito ou de causa-efeito. Deus não cria as coisas
amplo, não indicam uma simples atividade segundo o paradigma de suas próprias idéias,
intelectual, e incluem o desejar e o amar, porque não cria de modo algum o mundo
bem como todos os vários movimentos da no significado tradicional, dado que este
alma e do espírito. “procede” necessariamente dele. Por outro
O intelecto e a mente constituem o lado, nossas idéias não são produzidas em
“modo” mais importante, ou seja, o “m odo” nós pelos corpos.
Primeira pãrtc - O O casionalism o, S p in o za e .Leibniz

A ordem das idéias corre paralela à or­ à ordem dos modos e das coisas corpóreas,
dem dos corpos: todas as idéias derivam de porque tanto em um como em outro caso
Deus, enquanto Deus é realidade pensante; se expressa inteiramente a essência de Deus
analogamente, os corpos derivam de Deus, vista sob diversos aspectos.
enquanto Deus é realidade extensa. O que Existe, portanto, perfeito paralelismo,
significa que Deus gera os pensamentos só que consiste em perfeita coincidência, en­
como pensamento e gera os modos relativos quanto trata da mesma realidade vista sob
à extensão só como realidade extensa. Em dois diferentes aspectos: "ordo et conne-
suma, um atributo de Deus (e tudo aquilo xio idearum idem est ac ordo et connexio
que se encontra na dimensão desse atributo) rerum" (“ordem e conexão das idéias é o
não atua sobre outro atributo de Deus (sobre mesmo que ordem e conexão das coisas” ).
aquilo que se encontra na dimensão deste Em função desse paralelismo, Spinoza
outro atributo). interpreta o homem como união de alma e
Spinoza tem agora a possibilidade de corpo. O homem não é uma substância e
resolver o grande problema do dualismo muito menos um atributo, mas é constituí­
cartesiano de modo brilhantíssimo. Visto do “por certas modificações dos atributos
que cada atributo, como sabemos, expressa de Deus”, ou seja, “por modos do pensar”,
a essência divina de igual modo, então a série com a proeminência do modo que é a idéia, e
dos modos de cada atributo deverá necessá­ “por modos da extensão”, ou seja, pelo cor­
ria e perfeitamente corresponder à série dos po, que constitui o objeto da mente. A alma
modos de cada um dos outros atributos. Em ou mente humana é a idéia ou conhecimento
particular, a ordem e a série das idéias deve­ do corpo. A relação entre mente e corpo é
rão corresponder necessária e perfeitamente constituída por um paralelismo perfeito.

IV. O conkecimeKvto

• Toda idéia é objetiva no sentido de que tem uma correspondência na ordem


das coisas (dos corpos). Não existem, portanto, idéias falsas e idéias verdadeiras em
absoluto, mas apenas idéias e conhecimentos mais ou menos ade-
Os três qêneros quados. Ora, Spinoza individua três graus de conhecimento:
de 1) a opinião e a imaginação, ligadas às percepções sensoriais
conhecimento e às imagens, sempre confusas e vagas, mas utilíssimas no plano
§1 prático;
2) o conhecimento racional, próprio da ciência, que encontra
sua expressão típica na matemática, na geometria e na física;
3) o conhecimento intuitivo, que consiste na visão das coisas em seu proceder
de Deus e, mais exatamente, procede da idéia adequada dos atributos de Deus
para a idéia adequada da essência das coisas.
Os três gêneros de conhecimento são conhecimentos das mesmas coisas, e
o que os diferencia é apenas o nível de clareza e distinção (mínimo no primeiro
grau, notável no segundo, máximo no terceiro).

• A consideração das coisas como "contingentes" é uma espécie de ilusão da


imaginação, enquanto é próprio da razão considerar as coisas como "necessárias"
sob certa espécie de eternidade; o terceiro grau de conhecimento, por fim, capta
a necessidade das coisas em Deus sob a mais perfeita espécie de
Tudo existe eternidade. Nesse contexto, não há lugar para uma vontade livre:
necessariamente a mente não é causa livre das próprias ações, mas é determinada
->§2-4 a querer isto ou aquilo por uma causa que por sua vez é determ i­
nada por outra, e assim ao infinito. Experiência e razão mostram
que os homens crêem que são livres apenas porque são conscientes das próprias
ações, e ignaros das causas pelas quais são determinadas.
Cãpítulo Segundo - -Spinoza: cx me+afísica do monismo e do imanen+ismo pan+eís+a

1 A s v á r ia s fo rm a s Essa forma de conhecimento, teori­


camente inadequada em relação às formas
d e co rvk ecim en fo
sucessivas, é, no entanto, praticamente in­
substituível em virtude de sua utilidade. Sua
“falsidade” consiste em sua falta de clareza,
K1W Os fk*ês gêneros ou seja, no fato de que as idéias desse gênero
de. c o n h e c im e n t o de conhecimento são inúteis. Com efeito,
elas se revelam restritas a acontecimentos
A doutrina do paralelismo elimina pela particulares, não mostrando os nexos e
base todas as dificuldades que Descartes ha­ concatenações das causas, ou seja, a ordem
via levantado. Na verdade enquanto existe universal da natureza.
e no modo pelo qual existe, toda idéia (e
por “idéia” se entende todo conteúdo men­
tal e toda forma de representação, simples
E H C o n K e c im e n to r a c io n a l
ou complexa) é objetiva, ou seja, tem uma
correspondência na ordem das coisas (dos
corpos), precisamente porque ordo et con­ O conhecim ento do segundo gêne­
nexio idearum idem est ac ordo et connexio ro, que Spinoza chama de ratio, ou seja,
rerum. Idéias e coisas nada mais são do que razão, é o conhecim ento que encontra
duas faces diversas de um mesmo aconteci­ sua expressão típica na m atem ática, na
mento. Qualquer idéia tem necessariamente geometria e na física (a física do tempo de
uma correspondência corpórea, assim como Spinoza).
qualquer acontecim ento tem necessaria­ Isso não significa que a ratio seja so­
mente uma idéia correspondente. Qualquer mente o conhecimento próprio da matemá­
modificação corpórea tem uma consciência tica e da física. Em geral, ela é a forma
correspondente e vice-versa. de conhecimento que se baseia em idéias
Spinoza, portanto, não distingue idéias adequadas, que são comuns a todos os ho­
falsas e idéias verdadeiras em sentido abso­ mens (ou que todos os homens podem ter)
luto, mas somente idéias e conhecimentos e que representam as características gerais
mais ou menos adequados. E, quando fa­ das coisas: “Há algumas idéias ou noções
la de idéias falsas e verdadeiras, entende comuns a todos os homens, já que todos os
idéias menos ou mais adequadas. É nesse corpos convergem em algumas coisas que
sentido que deve ser entendida a célebre devem ser percebidas adequadamente, isto
doutrina spinoziana dos três “gêneros de é, clara e distintamente, por todos” . Basta
conhecimento”, que são três “graus de co­ pensar, por exemplo, nas idéias de quanti­
nhecimento” : dade, forma, movimento e similares.
1) a opinião e a imaginação, ou seja o Contudo, diferentemente do primeiro
conhecimento empírico ; gênero de conhecimento, o conhecimento
2) o conhecimento racional; racional capta clara e distintamente não só
3) o conhecimento intuitivo. as idéias, mas também seus nexos necessá­
rios (aliás, pode-se dizer que só se têm idéias
claras quando se captam os nexos que ligam
KO (Conhecimento e~w\p\y*'\c-o as idéias entre si). O conhecimento racional,
portanto, capta as causas das coisas e o
encadeamento das causas, compreendendo
A primeira forma de conhecimento é a
sua necessidade. Trata-se, portanto, de uma
forma empírica, ligada às percepções senso-
forma de conhecimento adequado, ainda
riais e às imagens, que, segundo Spinoza, são
que não seja em absoluto a forma mais
sempre “confusas e vagas”. Curiosamente,
adequada.
Spinoza relaciona com esta primeira forma
de conhecimento também as idéias univer­
sais (árvore, homem, animal) e até as noções
como ens, res, aliquid. Evidentemente, a ■El C o n k ^ c i m e n t o in t u it iv o

seu modo, ele compartilha a interpretação


nominalista dos universais, reduzindo-os O terceiro gênero de conhecimento é o
precisamente a uma espécie de imagem des­ que nosso filósofo chama de ciência intuiti­
botada, ou seja, a representações vagas e va, que consiste na visão das coisas em seu
imprecisas. proceder de Deus.
Primeira puttc - O O casionalism o, S p in o za e Leibniz

Mais exatamente, já que (como vimos) 2 O c o n k e c i m e n t o a d e ^ c ju a c lo


a essência de Deus pode ser conhecida
d e to d a re a lid a d e
através dos atributos que a constituem, o
conhecim ento intuitivo procede da idéia im p lic a o c o n k e c im e n to
adequada dos atributos de Deus para a idéia de D eus
adequada da essência das coisas. Em suma,
trata-se de uma visão de todas as coisas na
visão própria de Deus.
Tudo o que já dissemos ficará claro em
todo o seu alcance se levarmos em conta que
I B ;A r e l a ç ã o e n t r e o s t r e s g ê n e r o s
o “racionalismo” spinoziano, na realidade,
d e c o n h e c im en to é um racionalismo formal, que expressa (e,
em grande parte, aprisiona) uma visão al­
cançada no nível da intuição, com elementos
Nesta passagem Spinoza esclarece essa
quase místicos.
tríplice distinção dos gêneros de conheci­
O coração do spinozismo é constituído
mento: “Explicarei tudo isso mediante o
realmente pelo sentir-se em Deus e pelo ver
exemplo de uma só coisa. São dados, por
as coisas em Deus. Eis um texto exemplar:
exemplo, três números. E se quer obter um
“A mente humana é uma parte do intelecto
quarto número, que esteja para o terceiro
infinito de Deus. Portanto, quando dizemos
como o segundo está para o primeiro. Os
que a mente humana percebe esta ou aquela
mercadores não hesitam em multiplicar o
coisa, outra coisa não estamos dizendo se­
segundo pelo terceiro e dividir o produto
não que Deus, não mais enquanto infinito,
pelo primeiro, porque ainda não deixaram
mas enquanto manifestado através da na­
cair no esquecimento aquilo que, sem qual­
tureza da mente humana, isto é, enquanto
quer demonstração, ouviram do professor,
constitui a essência da mente humana, tem
porque experim entaram freqüentemente
esta ou aquela idéia.”
esse procedim ento com números muito
E evidente que, se o conhecimento de
simples ou por força da demonstração da
Deus é pressuposto indispensável para o
Proposição 19 do livro VII de Euclides,
conhecimento de todas as coisas, Spinoza
isto é, da propriedade comum dos núme­
deve admitir que o homem conhece Deus
ros proporcionais. M as, para os números
de modo preciso. E, com efeito, ele afirma
mais simples, não é necessário nenhum
categoricamente: “A mente humana tem
desses meios. Dados os números 1, 2 e 3,
conhecimento adequado da essência eterna e
por exemplo, não há quem não veja que o
infinita de Deus. ” Só duvidam de Deus aque­
quarto número proporcional é 6 [isto é: 1
les que entendem por Deus coisas que não
está para 2 como 3 está para 6] e isto muito
são Deus, ou seja, aqueles que dão o nome
mais claramente porque a partir da própria
de Deus a falsas representações de Deus. Se,
relação do primeiro para o segundo, que
ao contrário, se entendesse por Deus o que
vemos com um rápido olhar, concluímos o
Spinoza explicou, toda dificuldade, em sua
quarto número.”
opinião, desapareceria.
O exemplo do mercador é exemplo do
primeiro gênero de conhecimento; o baseado
nos Elementos de Euclides é exemplo do
segundo gênero e o ilustrado por último é 3 N o co n k ecim en to a d e q u a d o
do terceiro gênero. n ão k á co n tin g ê n cia
Essa passagem é preciosa não apenas
pela clareza dos exemplos que apresenta, e tu do s e m o s tr a n e c e s s á r io
mas também porque mostra perfeitamente
que os três gêneros de conhecimento são co­
nhecimentos das mesmas coisas e que aquilo A distinção entre o verdadeiro e o falso
que os diferencia é apenas o nível de clareza não se dá no primeiro gênero de conheci­
e distinção, que é mínimo no conhecimento mento, que é o da imaginação e da opinião,
do mercante, é notável naquele que se baseia mas no segundo gênero de conhecimento e,
na demonstração euclidiana, e é máximo na de modo perfeito, no terceiro.
visão e captação intuitiva, que é um “ver” As coisas, portanto, não são como no-
tão luminoso que não tem mais necessidade las apresenta a imaginação , mas como as
de qualquer mediação. representam a razão e o intelecto.
'
Capítulo segundo - S p ino2a: a me+afísica do monismo e do imahentismo pcmfeísfa 25

Em particular, a consideração das coi­ doutrina é útil para a vida, o que veremos
sas como “contingentes” (ou seja, como facilmente com o que segue.
coisas que podem tanto ser com o não ser) é Com efeito, esta doutrina é útil:
uma espécie de “ilusão da imaginação” ou, 1) Enquanto ensina que nós agimos uni­
se assim se preferir, uma espécie de concep­ camente pelo querer de Deus e somos partí­
ção inadequada da realidade, limitada ao cipes da natureza divina, tanto mais quanto
primeiro nível. mais perfeitas são as ações que realizamos
Ao contrário, é próprio da razão consi­ e quanto sempre mais conhecemos a Deus.
derar as coisas não como contingentes, mas Assim, além de tornar o espírito tranqüilo,
como “necessárias”. E considerar as coisas essa doutrina tem também a vantagem de
com o necessárias significa considerá-las nos ensinar em que consiste nossa suprema
“sob certa espécie de eternidade”. felicidade ou nossa bem-aventurança, isto é,
O terceiro gênero de conhecimento unicamente no conhecimento de Deus, pelo
capta a necessidade das coisas em Deus de qual somos induzidos a realizar somente as
modo ainda mais perfeito, ou seja, sob a ações que nos são aconselhadas pelo amor
mais perfeita espécie de eternidade. e pela piedade. A partir daí, podemos com­
Compreendemos então que não existe preender claramente quanto se afastam da
nesse contexto lugar para uma vontade verdadeira estima da virtude aqueles que,
livre: “Não há na mente nenhuma vontade em troca da mais dura servidão, esperam ser
absoluta ou livre; a mente é determinada agraciados por Deus com os prêmios mais
para querer isto ou aquilo por uma causa altos, em recompensa por sua virtude e por
que também é determinada por outra, esta suas boas ações, como se a virtude e o ser­
a seu turno por outra e assim por diante, viço a Deus não fossem a própria felicidade
ao infinito. ” Isso significa que a mente não e a suprema liberdade.
é causa livre de suas próprias ações. A voli- 2) Ela é útil enquanto nos ensina de que
ção mais não é que a afirmação ou negação modo devemos nos comportar em relação
que acompanha as idéias, e “a vontade e o às coisas do destino ou que não estão em
intelecto são uma única e mesma coisa”. nosso poder, ou seja, em relação às coi­
Desse modo, em outro plano e com sas que não procedem de nossa natureza:
valências diversas, Spinoza retoma a posição esperando, isto é, suportando com ânimo
do intelectualismo que, de Sócrates em dian­ igual cada reviravolta da sorte, já que tudo
te, havia caracterizado todo o pensamento procede do eterno decreto de Deus com a
grego, mas que, depois do cristianismo (que mesma necessidade com a qual, da essência
fundamentou toda a sua ética precisamente do triângulo, deriva que seus três ângulos
na vontade), assumiu novo sentido, de cujo são iguais a dois ângulos retos.
alcance falaremos adiante. 3) Essa doutrina facilita a vida social
enquanto ensina a não irritar-se contra
ninguém, a não desprezar, a não ironizar,
a não conflitar e a não invejar ninguém.
4 C o n s e q u e n c ia s m o ra is
Além disso, também enquanto ensina que
d o co n k ecim en +o a d e q u a d o cada qual deve se contentar com o que tem
e ajudar o próximo, não por piedade femi­
nina, por parcialidade ou por superstição,
As conseqüências dessas doutrinas me­ mas somente sob a guia da razão, isto é, se­
tafísicas e gnosiológicas revestem-se de no­ gundo aquilo que o tempo e a circunstância
tável relevância ética. E Spinoza as elaborou exigem [...].
justamente para poder resolver o problema 4) Por fim, essa doutrina também faci­
da vida. lita bastante a sociedade comum, porquanto
Eis como o nosso filósofo resume as ensina de que modo os cidadãos devem ser
conseqüências morais de sua teoria, no fim governados e dirigidos, isto é, não para que
da segunda parte da Ethica: “Finalmente, sirvam como escravos, mas sim para que
falta apontar como o conhecimento desta realizem livremente aquilo que é melhor.”
Primeira parte - O O cas icmalismo, S Pin o z c x e .Leilmiz

V . (D ideal e+ico d e S p i n o z a
e o ; a m o r D e i in+ellec+ualis”

• Dado que tudo acontece sob o signo da necessidade mais rigorosa, não
existem na natureza "bem" e "mal", assim como não existem fins: o que se pode
corretamente chamar de bem é apenas o útil, e mal é seu con-
o ideal ético trário. Por conseguinte, agir absolutamente por virtude significa
de Spinoza: para nós agir, viver, conservar nosso ser sob a guia da razão, e isso
ag ir sob a guia sobre o fundamento da busca do que nos é útil. E o primeiro e
daí af ã° único fundam ento da virtude é o conhecimento adequado, em
* 3 que reside a verdadeira salvação do homem.

• A intuição intelectiva, que é um saber as coisas em Deus e, portanto, um


saber a si mesmos em Deus, propicia, além disso, o amor intelectual a Deus, porque
está acompanhado da idéia de Deus como causa. O amor intelectual da mente para
com Deus é o próprio amor de Deus, com o qual Deus ama a si mesmo enquanto
pode ser explicado mediante a essência da mente humana, consi-
o am o r derada sob a espécie da eternidade. O amor intelectual de Deus é
intelectual a visão de todas as coisas sob o signo da necessidade (divina) e a
a Deus aceitação alegre de tudo aquilo que acontece, justamente porque
“*■5 4 tudo aquilo que acontece depende da necessidade divina.

fllil ^ ^ l i s e g e o m étrica dência que é acompanhada pela consciência,


ou seja, pela respectiva idéia. Quando a
d a s p a ix õ e s
tendência refere-se apenas à mente, chama-
se vontade; quando se refere também ao cor­
po, chama-se apetite. Aquilo que favorece
As paixões, os vícios e as loucuras hu­ positivamente a tendência a perseverar no
manas são interpretadas por Spinoza segun­ próprio ser e a incrementa chama-se alegria;
do um procedimento geométrico, ou seja, o contrário chama-se dor. E dessas duas pai­
do mesmo modo pelo qual dos pontos, das xões basilares brotam todas as outras. Em
linhas e dos planos se formam os sólidos, e particular, chamamos de “amor” a sensação
destes derivam necessariamente os teoremas de alegria acompanhada da idéia de uma
relativos. No seu modo de viver, o homem causa externa suposta como razão para essa
não é uma exceção na ordem da natureza, alegria, e chamamos de “ódio” a sensação
mas apenas a confirma. As paixões não se de dor acompanhada da idéia de uma causa
devem a “fraquezas” e “fragilidades” do externa considerada como causa dela.
homem, a “inconstância” ou “impotência” E de modo análogo que Spinoza deduz
de seu espírito. Ao contrário, devem-se à todas as paixões do espírito humano.
potência da natureza e, como tais, não de­ Todavia, nosso filósofo também fala
vem ser detestadas e censuradas, mas sim de “paixão” como de uma idéia confusa e
explicadas e compreendidas, como todas as inadequada. A passividade da mente deve-
outras realidades da natureza. Com efeito, se precisamente à inadequação da idéia. E,
por toda parte a natureza é una e idêntica considerando-se o fato de que, para Spino­
em sua ação e, portanto, também único deve za, mente e corpo são a mesma coisa vista
ser o modo de estudá-la em todas as suas sob duas faces diversas, as duas definições
manifestações. de paixão acima examinadas concordam
Spinoza entende as paixões como resul­ entre si. Por isso, é explicável a definição
tantes da tendência (conatus) a perseverar conclusiva: “ [...] o afeto, chamado aflição
no próprio ser por duração indefinida, ten­ do espírito, é uma idéia confusa através da
Capítulo segundo - S p i no2 a; a m etafísica do monismo e do imanentismo pan+eís+a

qual a mente afirma uma força de existir aquilo que deve ser, segundo a série de cau­
do seu corpo, ou de parte dele, maior ou sas necessárias.
menor do que aquela que afirmava antes e, O “bem” e o “mal” também não indi­
dada a qual, a própria mente é determinada cam nada que existe ontologicamente nas
a pensar mais isto do que aquilo” . Como coisas consideradas em si, objetivamente,
força da natureza (se permanecermos em mas também são “modos de pensar” e no­
seu plano), as paixões são irrefreáveis e uma ções que o homem forma, comparando as
gera a outra com lógica matemática. coisas entre si e referindo-as a ele mesmo.
Dessa análise, que poderia parecer Em suma: toda consideração de caráter fi-
impiedosa, Spinoza extrai uma conclusão nalístico e axiológico é banida da ontologia
eticamente positiva. Se imaginarmos que de Spinoza, que, aliás, considera que alcança
são livres as ações dos outros homens que a “libertação” e a consecução do objetivo a
consideramos nocivas, então somos levados que se propunha precisamente por meio de
a odiá-los; mas, se sabemos que elas não são tal eliminação.
livres, então não os odiaremos ou os odiare­ Com base na concepção das “paixões”
mos muito menos (pois consideraremos as acima expostas e na visão do homem es­
ações deles no mesmo nível da pedra que cai sencialmente radicada na conservação e
ou de qualquer outro acontecimento natural no incremento do seu próprio ser, só resta
necessário). a Spinoza concluir que aquilo que se pode
Além disso, Spinoza chega inclusive a chamar corretamente de bem é somente o
ponto de dizer que “o ódio se acresce pelo útil, e mal é o seu contrário: “Entendo por
ódio recíproco”, mas, ao contrário, pode bom aquilo que sabemos com certeza que
“ser destruído pelo am or” . É perfeitamente é útil para nós. Já por mau entendemos
compreensível que o ódio gere o ódio e o aquilo que sabemos com certeza que nos
amor o extinga. M as, se é verdadeira a ine­ impede de possuir o bem (ou seja, o útil)” .
xorável concatenação das causas, de que fala Conseqüentemente, a “virtude” torna-se
Spinoza, como pode um homem responder tão-somente a consecução do útil, e “vício”
ao ódio com o amor? Ele só poderia admiti- é o contrário.
lo (e isso foi bem destacado pelos estudiosos) Portanto, quando os homens seguem
se admitisse um componente de liberdade a razão, não só alcançam seu próprio útil,
que, embora seja firmemente negado, na mas também o útil de todos: o homem que
verdade, contra as intenções do autor, está se comporta segundo a razão é o que há
presente em várias partes da Ethica. de mais útil para os outros homens. Spi­
noza chega até a dizer que o homem que
vive segundo a razão “é um Deus para o
homem”.
2 7 ^ te n ta tiv a d e p ô r - s e
" a l é m d o b e m e d o m a \"
3 C) conkecer
co m o lib erta çã o d a s p a ix õ e s
O jogo das paixões e dos comporta­
mentos humanos aparece sob luz totalmente e f u n c la m e - n t o d a s v i r t u d e s
diversa, segundo Spinoza, se percebermos
que não existem na natureza “perfeição” e
“imperfeição”, “bem” ou “m al” (ou seja, Sócrates já havia dito que vício é igno­
valor e desvalor), assim como não existem rância e virtude é conhecim ento. Essa
fins, dado que tudo acontece sob o signo tese, nos modos mais variados, havia sido
da necessidade mais rigorosa. “Perfeito” reafirmada ao longo de toda a filosofia
e “imperfeito” são visões, ou seja, modos greco-pagã. Spinoza a repropõe em termos
(finitos) do pensamento humano que nascem racionalistas. Eis um dos textos mais elo­
da comparação que o homem institui entre qüentes dentre os muitos que podemos ler na
os objetos que ele produz e as realidades Ethica, no qual revelam-se particularmente
que são próprias da natureza. Com efeito, evidentes os ecos socráticos e estóicos: “Não
“perfeição” e “realidade” são a mesma coi­ sabemos com certeza que alguma coisa é
sa. Assim, não devemos dizer de nenhuma boa ou má senão enquanto leva realmente
realidade natural que ela seja “imperfeita”. ao conhecimento ou pode impedir o nosso
Nada daquilo que existe carece de algo: é conhecimento. ”
PtifflCÍTU pCITtC - O Ocasionalismo/ s Pinoza e .Leitmiz

M as a retomada dessas antigas teses E quando nós compreendemos que


clássicas assume novo sentido no contexto Deus é causa de tudo, tudo nos dá alegria e
spinoziano. Com efeito, para nosso filósofo tudo produz amor a Deus.
a paixão é uma idéia confusa. Portanto, a Eis a célebre proposição em que Spino­
paixão deixa de ser paixão “tão logo forme­ za define o amor Dei intellectualis: “O amor
mos dela uma idéia clara e distinta”. intelectual da mente por Deus é o próprio
Diz Spinoza: clarifica tuas idéias e amor de Deus, com o qual Deus ama a si
deixarás de ser escravo das paixões. O ver­ mesmo, não enquanto infinito, mas enquan­
dadeiro poder que liberta e eleva o homem to pode ser explicado mediante a essência
é a mente, e portanto o conhecimento. Esta da mente humana, considerada sob a espécie
é a verdadeira salvação. da eternidade. Ou seja, o amor intelectual
da mente por Deus é uma parte do amor
infinito com o qual Deus ama a si mesmo. ”
Mais uma vez, encontramos Sócrates e
■âsi A * v i s a o d a s c o i s a s a Estoá no pensamento de Spinoza, quando
swb s p e c i e a e t e m ita tis ele nos diz que a bem-aventurança que ex­
e o “a m o i * D e i i n t e l l e c t u a l i s ” perimentamos nesse supremo conhecimento
intelectivo é não só a virtude, mas também
é o único e supremo prêmio da virtude. Em
A terceira form a de conhecim ento, outros termos: para Spinoza, a virtude tem
a da intuição intelectiva, que consiste em seu prêmio em si mesma.
entender todas as coisas como procedentes O amor intelectual por Deus é a visão
de Deus (ou seja, como modos de seus atri­ de todas as coisas sob o signo da necessidade
butos). Essa forma de conhecimento é saber (divina) e a aceitação alegre de tudo aquilo
as coisas em Deus e, portanto, um saber a que acontece, precisamente porque tudo o
si mesmo em Deus. que acontece depende da necessidade divina.

V I . R e l igião e E s t a d o
e.m S p inoza

• A religião permanece no nível do primeiro gênero de conhecimento, no qual


predomina a imaginação. A religião, além disso, visa a obter a obediência, enquanto
a filosofia (e apenas ela) visa à verdade. A fé não requer "dogmas verdadeiros",
mas "dogmas pios", capazes de induzir à obediência; portanto,
A idéia cada um deve ser deixado inteiramente livre nesse âmbito.
de religião Quanto à esfera política, Spinoza fala de "direito" e de
e de Estado "leis" naturais no sentido de que todo indivíduo é por nature­
em Spinoza za determinado a existir e a operar de certo modo, e que esse
-*■ § 1-5 comportamento é necessário. Os homens, que são "inimigos por
natureza", pelo desejo de sobreviver estipulam o pacto social
sobre bases utilitaristas. Todavia, uma vez que alguns direitos do homem são
inalienáveis - enquanto, renunciando a eles, o homem renuncia a ser homem - , o
fim do Estado não é a tirania, e sim a liberdade.

7 ^ v a li a ç ã o d a r e l i g i ã o da filosofia (ou seja, da verdade), que se des­


dobra exclusivamente aos níveis do segundo
e do terceiro gêneros de conhecimento (ou
As idéias filosóficas de Spinoza eram seja, ao nível de razão e de intelecto).
tais que não deixavam espaço para a religião Ao contrário, segundo Spinoza, a re­
a não ser em plano claramente diferente do ligião permanece no nível do primeiro gê­
Capítulo segundo - S p i noza: a metafísica do monismo e do imanentismo panteísfa

nero de conhecimento, em que predomina 4) Deus detém o direito e o domínio


a imaginação. Os profetas, autores dos tex­ supremo sobre tudo e não faz nada por
tos bíblicos, não se destacam pelo vigor do obrigação de uma lei, mas segundo seu ab­
intelecto, mas pelo poder da fantasia e da soluto beneplácito e por efeito de sua graça
imaginação, ao passo que o conteúdo de seus singular. Com efeito, todos são obrigados
escritos não é feito de conceitos racionais, a obedecer-lhe em termos absolutos, ao
mas de imagens vividas. passo que ele não é obrigado a obedecer a
Além disso, a religião visa a obter a ninguém.
obediência, ao passo que a filosofia (e so­ 5) O culto a Deus e a obediência a ele
m ente ela) visa à verdade. Tanto isso é consistem apenas na justiça e na caridade,
verdade que os regimes tirânicos valem-se isto é, no amor ao próximo.
abundantemente da religião para atingir 6) Todos aqueles que obedecem a Deus,
seus objetivos. seguindo essa norma de vida, são salvos
Do modo como é professada na maio­ (mas apenas eles), ao passo que todos os ou­
ria dos casos, a religião é alimentada pelo tros, que vivem ao sabor dos prazeres, estão
temor e pela superstição. E a maioria dos perdidos. Na falta dessa firme convicção,
homens resumem seu credo religioso nas os homens não veriam por que deveriam
práticas de culto, tanto é verdade que, se preferir obedecer a Deus ao invés de seguir
formos atentar para a vida que a maioria seus prazeres.
leva, não saberemos identificar de que credo 7) Deus perdoa os pecados de quem
religioso são seguidores. se arrepende. Com efeito, todos os homens
Na realidade, diz Spinoza, os seguido­ caem no pecado. E, se não houvesse a certeza
res das várias religiões vivem aproximada­ do perdão, todos perderiam a esperança da
mente do mesmo modo. salvação, nem haveria motivo nenhum para
O objetivo da religião, portanto, é o de considerar Deus como misericordioso. Já
levar o povo a obedecer a Deus, honrá-lo e quem está profundamente convencido de
servi-lo. que, em virtude de sua misericórdia e de sua
graça, segundo as quais governa tudo, Deus
pode perdoar os pecados dos homens e, por
causa dessa crença, se inflama sempre mais
2 O s p o n to s d o u t r in a is
de amor por Deus, este verdadeiramente
f u n d a m e n t a is d a B í b l i a , conhece Cristo segundo o Espírito e Cristo
seg u n d o S p in o z a está nele.”
Ora, observa Spinoza, não se pode dei­
xar de cumprir nenhum desses pontos sem
O conteúdo da fé (tanto do Antigo estar deixando de cumprir os fins próprios
com o do Novo Testam ento) se reduz a da religião. M as nenhum desses pontos
poucos pontos fundamentais, que Spinoza vincula a “dogmas” de seita nem a verdades
sintetiza nos sete seguintes: teóricas bem precisas.
“ 1) Existe Deus, isto é, o ente supremo,
sumamente justo e misericordioso, modelo
de vida autêntica. Quem o ignora ou não
crê em sua existência não pode obedecer-lhe
nem reconhecê-lo como juiz. " d o g m a s v e r d a d e i r o s ”,
2) Deus é único. Ninguém pode duvi­ m a s " d o g m a s p io s ”
dar que a admissão deste dogma seja abso­
lutamente necessária em função da suprema
devoção, admiração e amor por Deus, posto Isso significa que a fé não requer
que devoção, admiração e amor nascem ex­ “ dogmas verdadeiros” , e sim “dogmas
clusivamente da excelência de um só sobre piedosos”, capazes de induzir à obediên­
todos os outros. cia, e, p ortan to, significa que há lugar
3) Deus é onipresente, ou seja, tudo para diferentes “seitas” religiosas. Assim,
lhe é conhecido. Considerar que as coisas cada qual deve ser deixado inteiramente
lhe estejam ocultas ou ignorar que ele vê livre nesse campo: “A Escritura não exige
tudo significaria duvidar da eqüidade de expressamente dogmas verdadeiros, mas
sua justiça, segundo a qual ele tudo rege, dogmas tais que sejam necessários à prática
ou até ignorá-la. da obediência, capazes de confirmar nos
Primeira parte - O Ocasiohalismoy S p in o z a e L-eibniz

corações o amor ao próximo [...]. O credo co n ce ito s p


iiÉí O |i n o z i a n o
de cada um só deve ser considerado santo
do C sta d o
ou ímpio em virtude da obediência ou da
conflitividade e não em razão da verdade co m o g a r a n t ia d e lib e rd a d e
ou da falsidade.”
No entanto, devemos notar que, sob
aparente liberalidade, oculta-se a atitude Spinoza foi um incansável defensor do
oposta. O “verdadeiro” e o “falso” não Estado de direito.
são da competência da religião, e sim da O Estado de direito que Spinoza recons­
filosofia. truiu teoricamente parte de pressupostos
Nesse caso, então, à medida que se muito próximos aos de Hobbes. Com efeito,
coloca como visão absoluta do verdadeiro ele fala de “direito” e de “leis” naturais,
absoluto, a filosofia de Spinoza não se torna no sentido de que, por sua natureza, todo
depositária de uma verdade indiscutível? Só indivíduo é determinado a existir e operar
na Ethica poderemos ler as verdades teóricas de certo modo, e que esse comportamento
que a Bíblia não contém? é necessário.
Essa é a conclusão inevitável. Analogamente, devido à sua constitui­
ção, os homens, sujeitos a paixões e iras, são
“inimigos por natureza”.
M as, em virtude do seu desejo de viver
j u í z o s d e S p in o za e de ficar o mais possível ao abrigo de con­
tínuos conflitos, os homens estipulam um
so b re C risto
pacto social. Ainda mais que, sem a ajuda
mútua, eles não poderiam viver confortavel­
mente nem cultivar seu espírito.
Entretanto, devemos destacar também O pacto social, portanto, origina-se
que, em relação a Cristo, Spinoza assume da utilidade que dele deriva, e nela se fun­
uma atitude inteiramente peculiar. damenta.
Ele não põe Cristo no mesmo plano Entretanto, o Estado para o qual são
dos profetas que ditaram leis em nome de transferidos os direitos na constituição do
Deus para obter a obediência. Com efeito, pacto social não pode ser o Estado absolu-
diz Spinoza, “devemos [..-.] pensar que Cris­ tista de que fala Hobbes. Alguns direitos do
to entendeu as coisas de m odo verdadeiro e homem são inalienáveis, porque, renuncian­
adequado, porque Cristo não fo i tanto um do a eles, o homem renuncia a ser homem.
profeta, mas muito mais a própria boca de O fim do Estado não é a tirania, e sim
Deus”. “E certamente - acrescenta nosso a liberdade.
filósofo, a partir do fato de que Deus se O fato de o filósofo da “absoluta neces­
revelou diretamente a Cristo e à sua men­ sidade” metafísica se apresentar como o teó­
te e não, como aos profetas, através de rico da liberdade política e religiosa constitui
palavras ou imagens, nada mais devemos uma aporia que muitos já observaram.
entender senão que Cristo entendeu a re­ M as a defesa da liberdade religiosa
velação segundo a verdade, ou seja, teve e do Estado liberal tem raízes existenciais
entendimento dela”. Trata-se de afirmações em Spinoza: banido da comunidade dos
verdadeiramente surpreendentes na boca do judeus e privado de vínculos de todo tipo,
autor da Ethica. nada mais restava a Spinoza senão o Estado
De resto, em uma de suas cartas, Spi­ que lhe deixou a liberdade de viver e de
noza admite que Deus poderia imprimir pensar.
em alguns “uma idéia tão clara de si” “a E foi precisamente tal Estado que ele
ponto de fazer esquecer o mundo pelo seu quis teorizar.
am or” e de fazer amar os outros como a si Pode-se dizer até que, paradoxalmen­
mesmos. Mas também essa admissão não te, só mesmo naquele Estado que garantia
é menos surpreendente no contexto de seu plena liberdade ele pôde pensar o sistema
sistema. da absoluta necessidade.
Capítulo segundo - S p i v \o 2.Ck\ a me+afísica do monismo e do imanentismo panteís+a

SPINOZA
A DERIVAÇÃO NECESSÁRIA DO TODO
A PARTIR DA SUBSTÂNCIA DIVINA

Deus
SUBSTANCIA: é a única substância, eterna e infinita,
aquilo Causa sui e Natura naturans:
que existe em si
e é concebido necessidade absoluta de ser
por si e causa imanente da qual tudo (atributos, modos, coisas)
procede necessariamente
e intemporalmente

ATRIBUTO: D os infinitos atributos de Deus,


aquilo que existe (dos quais o homem conhece
na substância apenas o pensamento e a extensão)
e é concebido deriva
por si

pensamento extensão
{res cogitans) (res extensa)

M ODO: A Natura naturata,


aquilo que existe isto é, o universo que é o conjunto
na substância dos m odos infinitos
e é concebido
para a substância

intelecto infinito, movimento,


vontade infinita mundo como totalidade
etc. etc.

e dos m odos finitos

as idéias ^ corpos
(ordo et connexio idênticas aos (ordo et connexio
idearum) rerum)

C o n h e c im e n t o h u m a n o

1. em pírico (sensação e imaginação): idéias confusas e vagas


2. racional (razão): idéias adequadas comuns a todos os homens
3. intuitivo (intelecto = vontade): idéias adequadas das coisas em seu
proceder de Deus do qual deriva o am or Dei intellectualis
32
___ . . parte - O O casionalism o, S p in o za e L.eibr
Primeira .

3. Por substância entendo aguilo gue


existe em si, e é concebido por si: ou seja,
S p in o z a aguilo cujo conceito não tem necessidade
do conceito de outra coisa, da gual deva ser
formado.
4. Por atributo entendo aguilo gue o inte­

^1 fí€thica ordine lecto percebe da substância, como constituindo


sua essência.
geometrico demonstrcitci 5. Por modo entendo as afecções da
substância, ou seja, aguilo gue está em outro,
motivo pelo gual também é concebido.
fí Cthica de Spinoza é uma obra único 6. Por Deus entendo o ente absolutamente
em seu gênero que, reportando-se ao infinito, isto é, a substância gue consta de atri­
procedim ento expositivo-dem onstrativo butos infinitos, da gual cada um exprime eterna
dos Clementos de Çudides, leva o método e infinita essência.
dedutivo-geométrico às conseqüências extre­ Explicação. Digo absolutamente infinito, e
mas. fí obra se divide, com efeito, segundo não em seu gênero; podemos com efeito negar
definições, axiomas, lemas, postulados, atributos infinitos a tudo aguilo, gue apenas em
proposições, demonstrações, corolários, seu gênero é infinito; pertence, ao contrário, à
escólios (ou elucidações), e divide-se em essência daguilo gue é absolutamente infinito,
cinco partes: 1. Deus; II. Natureza e origem tudo aguilo gue exprime essência e não implica
da mente; III. Origem e natureza dos afetos; nenhuma negação.
IV. fl escravidão humana, ou seja, as forças 7. Diz-se livre a coisa gue existe pela
dos afetos; V. O poder do intelecto, ou seja, única necessidade de sua natureza, e se de­
a liberdade humana. termina a agir por si só: enguanto necessária
fíqui apresentamos as definições e os ou, ainda, coagida, a gue é determinada por
axiomas da parte I, mais algumas propo­ outro a existir e operar segundo certa e deter­
sições acompanhadas por demonstração: minada razão.
além disso, para dar uma idéia do entre­ 8. Por eternidade entendo a própria existên­
laçamento e da rigorosa concatenaçõo da cia, enguanto concebida como derivada neces­
exposição de Spinoza, propomos todas as sariamente apenas da definição da coisa eterna.
outras proposições de relação da supra­ Explicação. Com efeito, tal existência é
citada parte, limitando-nos porém à suo concebida, enguanto verdade eterna, como
enunciaçõo. essência da coisa, e por isso não se pode ex­
Dos freqüentíssimas remitências internos plicar com a duração ou com o tempo, mesmo
da obra deriva a necessidade de manter a gue a duração seja concebida como carente de
originária numeração spinoziano de defini­ princípio e de fim.
ções, axiomas e proposições.

Axiomas
1. Todas as coisas gue existem, existem
ou em si mesmas ou em outro.
Parte I. Deus 2. Aguilo gue não se pode conceber por
outro, deve conceber-se por si mesmo.
3. De uma causa determinada segue-se
Definições necessariamente um efeito, e, ao contrário,
1. se não se dá nenhuma causa determinada, é
Por causa de si entendo aguilo cuja
essência implica a existência; ou seja, aguilo impossível gue derive um efeito.
cujo natureza não se pode conceber a não ser 4. O conhecimento do efeito depende do
como existente. conhecimento da causa, e a implica.
O. Diz-se em seu gênero fnita a coisa 5. Coisas gue não têm nada em comum
gue pode ser delimitada por outra da mesma entre si, não podem seguer entender-se uma
natureza. Por exemplo, um corpo se diz finito, por meio da outra, ou seja, o conceito de uma
porgue dele concebemos outro sempre maior. não implica o conceito da outra.
Da mesma forma, um pensamento é delimitado 6. fl idéia verdadeira deve convir com
por outro pensamento. Mas um corpo não é seu ideado.
delimitado por um pensamento, nem um pen­ 7. fl essência de tudoagui Io gue se pode con­
samento por um corpo. ceber como não existente, não implica a existência.
,
Cdpítulo Segundo - S p in o za; a
. .
metafísica do monismo e do imanentismo panteísta
. 33
___

a. A substância em geral existem, não segue de sua natureza, mas da


ordem da natureza corpóreo universal; com efei­
Proposições to, desta deve seguir ou que necessariamente
1. R substância precede por natureza suas o triângulo já existe, ou que é impossível que o
afecções. triângulo já exista. Mas isso é manifesto por si
2. Duas substâncias que têm atributos mesmo. Daí deriva que existe, necessariamente,
diversos não têm nada em comum entre si. aquilo de que não se dá nenhuma razão nem
3. De duas coisas que não têm nada em causa, que lhe impeçam existir. Se, portanto,
comum entre si, uma não pode ser causa da nenhuma razão nem causa se possa dar que
outra. impeça que Deus exista, isto é, que lhe tolha a
4. Duas ou mais coisas distintas se distin­ existência, é preciso então concluir em cheio que
guem entre si ou pela diversidade dos atributos necessariamente existe. Mas se houvesse tal
das substâncias, ou pela diversidade de suas razão ou causa, ela deveria se dar ou na própria
afecções. natureza de Deus, ou fora dela, isto é, em outra
5. Na natureza das coisas não se podem substância de outra natureza. Porque se fosse
dar duas ou mais substâncias da mesma natu­ da mesma natureza, por isso mesmo se conce­
reza ou atributo. deria que Deus existe. Mas a substância que
ó. Uma substância não pode ser produzida fosse de natureza diversa não teria nada em
por outra substância. comum com Deus (pelo proposição 2), e por isso
7. A natureza da substância pertence não poderia nem pôr nem tolher sua existência.
existir. Visto então que a razão ou causa, que tolha a
8. Toda substância é necessariamente existência de Deus, não se pode dar fora da
infinita. natureza divina, deverá necessariamente se dar,
9. Quanto mais realidade ou ser uma coisa no caso de que não exista, em sua própria na­
tem, tanto mais atributos lhe competem. tureza, o que porém implicaria contradição. Mas
10. Todo atributo de uma mesma substân­ é absurdo afirmar isso do ente absolutamente
cia deve ser concebido por si mesmo. infinito e sumamente perfeito; portanto, não se
dá, nem em Deus nem fora de Deus, alguma
b. Deus existe necessariamente causa ou razão que tolha sua existência, e por
e é a única substância isso Deus existe necessariamente. C.d.d.
De outro modo: Poder não existir é im­
11. Deus, ou seja, a substância que consta potência, e vice-versa poder existir é potência
de atributos infinitos, do qual cada um exprime (como é evidente por si mesmo). Portanto, se
essência eterna e infinita, necessariamente aquilo que já por necessidade existe, consiste
existe. apenas de entes definidos, os entes finitos são
Demonstração. Se o negas, concebes, ainda mais potentes do que o ente absoluta­
pode-se deduzir que Deus não exista. €ntão mente infinito: mas isso (como é claro por si
(pelo axioma 7) sua essência não implica a mesmo) é absurdo. Portanto, ou nada existe, ou
existência. Mas isso, (pela proposição 7) é necessariamente existe também o ente absolu­
absurdo. Portanto, Deus existe necessaria­ tamente infinito. Mas nós existimos, ou em nós
mente. C. d. d. ou em outro que necessariamente existe (ver
De outro modo: De qualquer coisa deve­ o axioma 1 e a proposição 7). Portanto, o ente
mos estabelecer a causa, ou razão, tanto do absolutamente infinito, ou seja (para a definição
por que existe, como do por que não existe. 6), Deus, existe necessariamente. C.d.d.
Por exemplo, se o triângulo existe, devemos €scólio. Nesta último demonstração eu quis
dar a razão ou causa do por que existe; se, demonstrar a existência de Deus a posteriori, a
ao contrário, não existe, devemos ainda dar fim de que mais facilmente se compreendesse
a razão ou causa que impede que exista, ou o demonstração; não certamente pelo fato de
seja, que tolhe sua existência. £ esta razão ou que a este mesmo fundamento não siga a priori
causa, ou deve estar contida na natureza da a existência de Deus. Com efeito, dado que
coisa, ou deve estar fora dela. Por exemplo, o poder existir é potência, segue-se que quanto
razão por que não existe um círculo quadrado é mais realidade tiver a natureza de uma coisa,
indicada pela sua própria natureza; sem dúvida tanto mais forças ela tem por si mesma para
porque implica contradição. Porque, vice-versa, existir; e, por isso, o ente absolutamente infinito,
a substância exista, segue ainda de sua natu­ ou seja, Deus, tem por si mesmo uma potência
reza unicamente, isto é, uma vez que implica a de existir absolutamente infinita, e por isso
existência (veja a proposição 7). Mas a razão absolutamente existe. Todavia, talvez muitos
porque o círculo ou o triângulo existem, ou não não poderão constatar facilmente a evidência
Primeira purte - O Ocasionalismo,, S pm oza e Leibniz

desta demonstração, por estarem acostumados mesmo atributo, o que (pela proposição 5) é
a contemplar apenas as coisas que procedem absurdo; e por isso nenhuma substância além
de causas externas; e das coisas que são de Deus pode existir e, por conseguinte, nem
produzidas rapidamente, isto é, que facilmente ser concebido. Se, com efeito, se pudesse con­
existem, vêem também que rapidamente pe­ ceber, deveria necessariamente ser concebida
recem, e julgam ao contrário como coisas mais como existente; mas isso (pela primeira parte
difíceis de serem feitas, isto é, não tão fáceis desto demonstração) é absurdo. Rlém de Deus,
de existir, aquelas às quais concebem pertencer portanto, não pode haver nem ser concebida
mais coisas. Todavia, pora que se libertem des­ nenhuma substância. C.d.d.
tes preconceitos, não tenho necessidade aqui Corolário 1. Daí deriva clarissimamente,
de demonstrar por qual razão este enunciado, em primeiro lugar, que Deus é único, isto é
segundo o qual isso que rapidamente é pro­ (pela definição 6), que na natureza das coisas
duzido rapidamente perece, seja verdadeiro, e não há apenas uma só substância, e que ela
nem mesmo se, considerando todas as formas é absolutamente infinita, como já acenamos no
de natureza, todas as coisas sejam igualmente escólio à proposição 10.
fáceis ou não. Mas bosta apenas notar isto, Corolário 2. Segue-se, em segundo lugar,
que eu aqui não falo das coisas que são pro­ que a coisa extensa e a coisa pensante, ou são
duzidas a partir de causas externas, e sim das atributos de Deus, ou então (pelo axioma 1)
substâncias apenas que (pela proposição 6) afecções de atributos de Deus.
não podem ser produzidas por nenhuma causa 15. Tudo aquilo que existe, existe em
externo. Com efeito, as coisas que são produzi­ Deus, e nada pode existir nem ser concebido
dos por causas externas, seja que constem de sem Deus.
muitas, seja de poucas partes, seja qual for a Demonstração. Rlém de Deus, não pode
perfeição ou realidade que tenham, tudo isso haver nem se pode conceber alguma substância
deve-se à virtude da causa externa, e portanto (pela proposição 14), isto é (pela definição
sua existência surge da única perfeição da 3), alguma coisa que exista em si e que por si
causa externo e não de sua própria. Qualquer mesma seja concebida. Na verdade, os modos
perfeição, ao contrário, tenha a substância, ela (pelo definição 5) não podem existir nem ser
não é devida a nenhuma causa externa; por concebidos sem o substância; por esta razão,
isso, tombém sua existência deve seguir de podem existir apenas na natureza divina, e
sua natureza única, que portanto não é mais somente mediante ela ser concebidos. Mas,
que sua essência. Portanto, a perfeição de uma além dos substâncias e dos modos, nada é
coisa não tolhe a existência, mas, ao contrário, dado (pelo axioma 1). Portanto, nada sem Deus
a põe; é a imperfeição que vice-versa o tolhe. pode existir nem ser concebido. C.d.d.
Por isso, de nenhuma coisa podemos estar mais
certos do que da existência do ente absoluta­ c. Deus é causa imanente e é eterno
mente infinito, ou seja, perfeito, vale dizer. Deus.
Com efeito, dado que sua essência exclui toda 16. Da necessidade da natureza divino
imperfeição, e implica absoluta perfeição, por devem seguir-se infinitas coisas em infinitos
isso mesmo tolhe toda causa de duvidar de sua modos (isto é, todas as coisas que podem cair
existência, e dá suma certeza dela, o que, creio, sob um intelecto infinito).
tornar-se-á claro tombém para quem prestou 17. Deus age unicamente pelas leis de sua
apenas um pouco de atenção. natureza, e nõo obrigado por alguém.
12. Nõo se pode conceber segundo a 18. Deus é causa imanente e não transitiva
verdode nenhum atributo do substância, do qual de todas as coisas.
resulte que a substância possa ser dividida. 19. Deus é eterno, ou seja, todos os atri­
13. fí substância absolutamente infinita butos de Deus são eternos.
é indivisível. 20. R existência de Deus e sua essêncio
14. Rlém de Deus não pode haver nem se são uma única e mesma coisa.
conceber nenhuma substância. Demonstração. Deus (pela proposição
Demonstração. Dado que Deus é o ente precedente) e todos os seus atributos são
absolutamente infinito, do qual nenhum atri­ eternos, isto é (pela definição 8), cada um de
buto, que exprime a essência da substância, seus atributos exprime a existência. Portanto,
se pode negar (pela definição ó), e que ele os mesmos atributos de Deus, que (pela de­
necessariamente existe (pela proposição 11), finição 4) manifestam a eterna existência de
se houvesse alguma substância além de Deus, Deus, manifestam juntos também sua existência
ela dever-se-ia explicar mediante algum atributo eterna, isto é, a mesma coisa que constitui a
de Deus, e assim existiriam duas substâncias do essência de Deus constiui ao mesmo tempo a
Capitulo SCgundo - Spi hoza: a m etafísica do monismo e do imcmetrHsmo panteísta

suo existência, 0 por isso ©sta 0 su a essên cia Demonstração, C 0vidente pela definição
sõ o uma única 0 m0sma coisa. C.d.d. 1. Apenas aguilo cuja natureza (em si conside­
Corolário 1. Disso decorre, em primeiro rada) implica a existência é causa de si, 0 existe
lugar, gue a ©xistência de Deus, assim como pela única necessidade de sua natureza.
sua ©ssência, 0 verdade eterna. Corolário. Daí provém gue não apenas
Corolário 2 . S e g u e -s ® , em S0gundo lu­ Deus é causa de gue as coisas comecem a
gar, gu© D0US, ou seja , todos o s atributos d e ©xistir, mas também gue perseverem no existir,
D0US, s ã o imutáveis. Se, com efeito, sofressem ou seja (para usar um termo escolástico), gu0
mudança por razão d e existência, deveriam D0 US é a causa essendi das coisas. Com efeito,
também (pela proposição precedente) mudar- tanto se as coisas existem como se não existem,
s e por razão d e essência, isto é (segundo já todas as vezes gue consideramos sua essência,
notam os), d e verdadeiros se tornariam falsos, vemos qu© esta não implica nem a existência
o g u e é absurdo. nem a duração; por isso, sua essência não
21. Todas as coisas gue d 0 correm da ab­ pode ser causa nem de sua existência nem de
soluta natureza de gualguer atributo de Deus, sua duração; mas causa é apenas Deus, a cuja
tiveram de existir sempre e como infinitas, isto única natureza pertence existir (pelo corolário
é, são eternas 0 infinitas mediante o próprio 1 da proposição 14).
atributo. 25. Deus é não apenas causa eficiente
22 . Q u algu er coisa g u e resulte d e um da existência das coisas, mas também de sua
atributo d0 D0US, enguanto é modificado por essência.
uma modificação, gu e existe mediante o mesmo 26. Uma coisa, gue foi determinada para
infinita e necessariam ente, d e v e também ela realizar algo, foi assim determinada necessaria­
existir infinita e necessariam ente. mente por Deus; e a gue não foi determinada
23. Todo modo gue existe infinito e por por Deus, não pode determinar a si própria
necessidade, d 0V0 por necessidade decorrer para realizar.
ou da absoluta natureza de algum atributo de 27. Uma coisa, gue por Deus foi deter­
Deus, ou de gualguer atributo modificado por minada a realizar algo, não pode tornar a si
uma modificação gue existe infinita e necessa­ própria indeterminada.
riamente. 28. Tudo aguilo gue é singular, ou seja,
24. fl essência das coisas produzidas por gualguer coisa gue é finita e tem uma existência
Deus não implica a existência. determinada, não pode existir nem ser determi-

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Carta d e Spinoza a I.udw ig M eyer Fi'- ■
so b r e o e s b o ç o d e um p refá cio deste 41 -*■ " « V a A jj .
à o b ra Principia philosophiae cartesianae
d e Spinoza.
Paris, B ib lioth èq u e Unwersitaire.
Primeira parte - O O casionalism o, S p in o z a e Leibniz

nada a operar, a não ser que seja determinada amor etc., devem se referir ã natureza naturada
a existir e a operar por outra causa, que é tam­ e não à naturante.
bém finita e tem uma existência determinada: 32. fi vontade não pode dizer-se causa
por sua vez, esta causa não pode existir nem ser livre, mas apenas necessária.
determinada para operar, se não for determina­ 33. Rs coisas não puderam ser produ­
da a existir e a operar por outra, que também zidas por Deus de nenhuma outra maneira,
é finita e tem uma existência determinada, e nem em uma ordem diversa de como foram
assim ao infinito. produzidas.
29. Na natureza das coisas não há nada 34. O poder de Deus é sua própria es­
de contingente; mas todas as coisas são deter­ sência.
minadas pela necessidade da natureza divina 35. Tudo aquilo que concebemos existir em
a existir e a operar de algum modo. poder de Deus, necessariamente existe.
3 0 .0 intelecto, finito em ato ou infinito em 36. Não existe nada de cuja natureza não
ato, deve compreender os atributos de Deus e resulte algum efeito.
as afecções de Deus, e nada mais. ^ 13. Spinoza,
3 1 . 0 intelecto em ato, seja ele finito ou ética demonstrado
infinito, como também a vontade, a cupidez, o segundo o ordem geométrica.
(S a p ítu lo t e r c e ir o

l _ e i b n\z e a m e ta fís ic a
d o p lu r a lis m o m o r v a d o ló g ic o
e d a k a r m o ia ia p r e e s t a b e l e c i d a

= 1= I. y \ v i d a n z^z
e a s o b ra s d e Leibniz

• Gottfried W ilhelm Leibniz nasceu em Leipzig em 1646, de uma família de


ascendência eslava. Depois dos cursos de filosofia em Leipzig e de matemática em
Jena, em 1666 laureou-se em jurisprudência em Altdorf, perto de Nuremberg. A
partir de 1668 foi introduzido à corte do Eleitor de Mogúncia, e de
1672 a 1676 morou em Paris, onde conheceu os filósofos Arnauld Leibniz:
e Malebranche e o matemático Huygens, e aprendeu perfeita- a vida
mente a língua francesa, que adotou em seus escritos. A partir e os escritos
de 1676 entrou para o serviço da corte do duque de Hannover, mais importantes
a quem permaneceu ligado até a morte, tomando-se também 51
historiógrafo oficial da dinastia. Freqüentemente em viagem,
hospedou-se nas mais prestigiosas cortes européias e foi grande animador cultural
(promovendo tam bém a fundação da Academia das Ciências de Berlim), mas os
últimos anos de sua vida foram amargados pela polêmica suscitada em 1713 pela
Royal Society de Londres sobre a prioridade da descoberta do cálculo infinitesimal
(em que havia intensamente trabalhado), atribuída a Newton. Morreu em 1716.
Suas obras mais importantes, escritas em latim ou francês, são: Discurso de
metafísica (1686), Novo sistema da natureza (1695), Novos ensaios sobre o intelecto
humano (1703), Ensaios de teodicéia (1710), Princípios racionais da natureza e da
graça (1714), M onadologia (composta em 1714).

1 ;A s p ir a ç ã o à c r ia ç ã o rica e bem sortida: Leibniz aprendeu muita


coisa como autodidata.
d e u m a c i ê n c i a u n iv e r s a l Cursou filosofia em Leipzig, m ate­
q u e co m p re e n d esse mática e álgebra em Jena e (em 1666) lau­
e m si v á r i a s d is c ip lin a s reou-se em jurisprudência em Altdorf (nas
proximidades de Nuremberg), onde também
conseguiu seu doutorado. Mas o ambiente
acadêmico era muito estreito para satisfazer
Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em as exigências de Leibniz, que sonhava com
1646, em Leipzig, de família de antigo tron­ papel cultural em nível europeu, chegando a
co eslavo (o nome originário era Lubenicz). aspirar pela criação de uma ciência universal
Dotado de gênio extraordinário e de notável que abarcasse em si as várias disciplinas e,
capacidade de aprendizagem e assimilação, inclusive, visava a uma organização cultural
soube logo desenvolver uma cultura bas­ e política universal. E nessa ótica que se
tante acima dos níveis das escolas que ia deve ver a irrequieta vida do filósofo, que o
freqüentando. A biblioteca da família (o avô levou de uma corte a outra e de uma capital
e o pai eram professores universitários) era a outra, impelindo-o a criar associações de
Primeira parte - CD O casionalism o, 5 pinoza e L-eibniz

doutos e academias, e a formular projetos Entre 1 6 8 7 e 16 9 0 , realizou muitas


culturais e políticos de vários gêneros, em viagens ligadas à sua atividade de historia­
grande parte utópicos. dor da corte (a fim de conseguir documen­
Tendo ingressado na associação de tação sobre a genealogia exata da Casa de
Rosa-cruz (uma espécie de sociedade secreta Braunschweig): além de na Alemanha, esteve
com doutrinas de fundo misticizante, filan­ na Áustria (onde recusou um cargo de his­
trópico e utópico, do tipo do que viria depois toriador que lhe foi proposto por Leopoldo
a ser a M açonaria), conseguiu (através do I) e na Itália (Rom a, Nápoles, Florença,
barão Boineburg) ser introduzido na corte Módena e Veneza).
do Eleitor de Mogúncia, a partir de 1668. A partir de 1689, suas relações com os
De 1672 a 1676, Leibniz viveu em Paris, Hannover começaram a se deteriorar. Jorge
onde chegou para participar de uma missão Ludovico, que depois se tornaria Jorge I da
diplomática, na comitiva de Boineburg (que Inglaterra, não se mostrou disposto a tolerar
apresentaria ao rei da França um projeto facilmente as contínuas ausências de Leibniz
de expedição ao Egito, com o objetivo de e suas nem sempre autorizadas iniciativas
evitar a guerra da França contra a Holanda). culturais e políticas de vários tipos, que o
A missão diplomática não se concretizou, afastavam de suas funções de historiador.
o barão Boineburg morreu em 1672, mas Mas nem por isso a atividade política e as
Leibniz obteve permissão para permanecer iniciativas do filósofo se reduziram. Tentou
em Paris, com grande benefício para seus promover a união das Igrejas, prosseguindo
estudos. Conheceu os filósofos Arnauld e M a­ numa linha traçada muitos anos antes. Tor­
lebranche, bem como o matemático Huy- nou-se sócio da Academia das Ciências de
gens, que exerceu notáveis influências sobre Paris. Promoveu a fundação da Academia
ele. (Nesse meio tempo, embora residindo de Ciências de Berlim, da qual se tornou
em Paris, teve oportunidade de ir também a presidente. Tornou-se também conselheiro
Londres, onde se tornou membro da presti­ secreto de Frederico I da Prússia. Mais tarde,
giosa Royal Society.) Esse longo período que em 1712, foi nomeado conselheiro secreto
passou em Paris foi fundamental em todos de Pedro, o Grande, da Rússia, que preten­
os aspectos, até porque permitiu a Leibniz dia elevar o seu país aos níveis europeus.
o perfeito aprendizado da língua francesa, Em 1713, foi nomeado conselheiro da corte
que adotou em seus escritos, com grande em Viena.
vantagem para sua difusão. Lembremo-nos Em 1714, Jorge de Hannover tornou-se
de que, naquela época, o alemão ainda não Jorge I da Inglaterra. As regalias de Leibniz
era “língua douta”. acabaram. O novo rei não o quis mais em
Não tendo conseguido obter um cargo Londres e os vários poderosos que Leibniz
estável em Paris, Leibniz, em 1676, aceitou havia servido e aconselhado de diversos
pôr-se a serviço de João Frederico de Brauns- modos, bem como as academias que havia
chweig-Luneburg, duque de Hannover, na fundado, e das quais era sócio, acabaram
qualidade de bibliotecário da corte. por esquecê-lo.
Na viagem de retorno à sua pátria, teve Leibniz morreu em 1716, aos setenta
oportunidade de passar novamente por Lon­ anos, na solidão. Seu funeral foi acompa­
dres (onde conheceu Newton) e depois fazer nhado somente por seu secretário. Entre as
uma etapa em Amsterdam (onde conheceu academias, somente a da França recordou
Leeuwenhoeck, famoso por suas pesquisas seus méritos.
em microbiologia, que muito interessavam Os últimos anos da vida de Leibniz
a Leibniz), e, por fim, em Haia, onde pôde foram amargos: além da tensão que se cria­
conhecer Spinoza (que, ao que consta, leu ra nas relações com os Hannover, teve de
para ele algumas páginas dos manuscritos enfrentar também a polêmica suscitada em
de sua Ethica). 1713 pela Royal Society de Londres sobre a
Em fins de 1676, Leibniz assumiu suas prioridade da descoberta do cálculo infinite-
funções na corte de Hannover, à qual, mes­ simal feita por Newton ou por ele. Leibniz
mo com algum sofrimento, permaneceria fizera sua descoberta em 1675/1676 (e a tor­
ligado até sua morte, tornando-se também nara pública em 1684), independentemente
conselheiro da corte inicialmente e, depois, de Newton, que fizera a descoberta antes,
historiógrafo oficial da dinastia, bem como mas com procedimento diferente. Portanto,
elaborador vivaz e ativo da política hanno- tratava-se de descobertas autônomas, mas a
veriana. posição não imparcial da Royal Society e o
Capítulo terceiro - Leibniz e a metafísica do pluralismo monacloIógico

desejo de Jorge I de não fomentar polêmi­ O perfil de conjunto do pensamento de


cas fizeram com que os efetivos méritos de Leibniz emerge sobretudo dos seguintes es­
Leibniz não fossem reconhecidos. critos: Discurso de metafísica (1686), Novo
Em meio a tantos encargos, distribuí­ sistema da natureza (1695), Princípios racio­
dos entre cortes, academias, círculos cultu­ nais da natureza e da graça e Monadologia
rais e viagens, surge espontaneamente a (1714). Mais volumosos são os Ensaios de
pergunta: quando é que Leibniz estudava, teodicéia (1710) e os Novos ensaios sobre o
pensava e escrevia? Ele amava sobretudo a intelecto humano, de publicação póstuma.
meditação noturna. Mas os pensamentos Por fim, são muito importantes as numero­
dele são testemunhas de seus interesses vi­ sas Epístolas (na época, a epístola era um
tais e existenciais: pode-se dizer que Leibniz verdadeiro gênero literário).
pensava precisamente vivendo o tipo de vida Devemos recordar que, em geral, Leib­
que vivia. Quase todos os seus escritos são niz escreveu em latim (que era a língua ofi­
de caráter ocasional e bastante breves, não cial por excelência dos doutos) e em francês,
exigindo particular empenho. pelas razões acima explicadas.

W ilhelm L eibn iz (1 6 )6 -1 7 1 6 )
fo i cientista, lóg ico e filo s o fo
de gran de valors
teorizou com lucidez
a diferen ça estrutural
entre a p esqu isa científica
e a filosófico-m etafisica.
/4 im agem qu e reprodu zim os
é tirada d e um a gravura da ép oca.
Primeira parte - O O casionalism o, S p in o z a e J_eibniz:

1 — II. y\ m e d ia ç ã o ... —
e n tre ^pkilosopkia p e r e n n is ;/ e ^pkilosopki novi/;
e a r e c u p e r a ç ã o d o finalismo
e d a s f o r m a s s u b s + a n c ia is /;

• A revolução científica, Bacon e, sobretudo. Descartes, haviam produzido no


iamento ocidental uma reviravolta radical: extensão e movimento eram dora­
vante considerados causas suficientes para a explicação adequada
A mediação das coisas, e por isso os métodos das ciências matemáticas e físicas
entre antigo pareciam doravante ser os únicos possíveis também em âmbito
e novo filosófico, Em particular, pareciam irremediavelmente compro­
-§ 7 metidos o conceito de fim (ou de "causa final") e o conceito de
substância, entendido no sentido de "forma substancial".

• Leibniz retoma justamente estes dois conceitos, reivindicando sua perenidade


e mostrando a possibilidade de conciliação com as mais significativas descobertas
dos filósofos e cientistas "modernos"; a chave desta conciliação
A recuperação consiste precisamente na rigorosa distinção entre:
do finalismo a) âmbito propriamente filosófico, em que se indaga sobre
e das princípios mais universais por meio das formas substanciais e em
"formas perspectiva finalista global, sem porém oferecer nenhum conhe­
substanciais" cimento específico de fenômenos naturais;
§ 2-3 b) âmbito propriamente científico, em que se capta a na­
tureza em seu aspecto matematizável e se consegue fornecer
conhecimentos fenomênicos específicos, mas renunciando a determinar os prin­
cípios últimos.

iAll ^ ^eK'^a ^'vcl m£dia ç ã o a) o de “fim” ou de “causa final”, jun­


tamente com a visão teleológica geral (fina-
e d e sín tese
lística) da realidade sobre ele fundada;
e n tre a n tig o e novo b) o conceito de “substância”, entendi­
da no sentido de “forma substancial”, jun­
tamente com a respectiva visão ontológica
A revolução científica, Bacon e, so­ da realidade.
bretudo, Descartes, haviam produzido na Pois bem, foram precisamente esses os
h istória do pensam ento ocidental uma conceitos que Leibniz retomou, reivindican­
reviravolta radical e decisiva, como já vi­ do não apenas sua validade, mas também,
mos amplamente. Parecia até que não só as em certo sentido, a “perenidade” (na sua
soluções, mas também as problemáticas expressão philosophia perennis, para indi­
da filosofia escolástica e da filosofia antiga car as aquisições fundamentais da filosofia
tivessem se tornado obsoletas, a ponto veteromedieval). E, além disso, mostrou a
de não poderem mais ser repropostas. Os possibilidade de sua conciliação com as mais
parâmetros, os módulos e os métodos das significativas descobertas dos philosophi
ciências m atem áticas e físicas pareciam novi, ou seja, dos “modernos” filósofos e
doravante os únicos possíveis, também no cientistas.
âmbito da filosofia. Leibniz descobriu que, na realidade,
D e form a especial, dois conceitos trata-se de perspectivas que se colocam em
pareciam irremediavelmente com prom e­ planos diferentes, que em si mesmas não
tidos: apenas não se embatem, quando são enten­
Capítulo terceiro - Lei bmiz e o m etafísica do pluralismo monadolÓ0Íco

didas em seu significado apropriado, mas somente do ponto de vista do movimento


também podem ser oportunamente integra­ mecânico. A verdadeira causa (a suprema e
das entre si com grande vantagem. última) é de tipo bem diferente: é a escolha
Toda a filosofia de Leibniz brota dessa moral do bem e do melhor (Sócrates julgou
grandiosa tentativa de “mediação” e “sín­ bom obedecer às leis e melhor sofrer a con­
tese” entre antigo e novo, tornada particu­ denação e, conseqüentemente, utilizou as
larmente eficaz pelo duplo conhecimento causas “mecânicas” de suas pernas, seus
que ele possuía: de um lado, os filósofos músculos e seus tendões).
veteromedievais (Leibniz estudou não ape­ No Discurso de metafísica, Leibniz
nas os escolásticos, mas também Aristóteles deixou no manuscrito um espaço, com a
e Platão); do outro, o cartesianismo e os evidente intenção de traduzir e repor em
métodos da nova ciência (também ele era circulação essas páginas de Platão, tendo-o
cientista de grande valor). feito efetivamente em outro lugar. E por
Nessa tentativa de reconsiderar os an­ várias vezes chamou a atenção sobre elas,
tigos à luz dos modernos e fundir suas dife­ tanto lhe eram prementes.
rentes instâncias reside a grandeza histórica Todas as coisas se explicam não em
e teórica de Leibniz. função de suas componentes materiais, e
Examinemos mais minuciosamente a sim em função da inteligência soberana or-
problemática do “finalismo” e a da “substân­ denadora segundo um fim preciso.
cia”, que o nosso filósofo pretende repropor Tudo o que já dissemos é suficiente
e que, como veremos, constituem o eixo para mostrar que, obviamente, não se trata
central de todo o seu pensamento. de um simples “retorno” a Platão, mas de
avanço ainda maior.
A explicação mecanicista dos fenôme­
nos em Platão é de fato rejeitada, enquanto
2 O n o v o s i g n if ic a d o em Leibniz é amplamente valorizada, en­
d o fin a lis m o quanto resulta coincidir com o ponto de
vista da ciência.
M as ele, ao mesmo tempo, faz ver
A explicação dos fenômenos que a como apenas a consideração finalista esteja
nova ciência e o cartesianismo propunham em grau de dar uma visão global das coisas
era de caráter “mecanicista”, como vimos. (e, portanto, verdadeiramente filosófica) e
Extensão e movimento eram considerados como a conciliação dos dois métodos é de
causas suficientes para fornecer explicação grande vantagem para o próprio conheci­
adequada das coisas. A essa posição, que mento científico e particular das coisas.
exclui claramente a consideração do fim,
Leibniz opõe nada menos que a concepção
que Platão expõe no Fédon, precisamente
nas célebres páginas em que ele relata sua
“segunda navegação”, ou seja, sua desco­
3 O n o v o s ig n if ic a d o
berta metafísica fundamental. d a s fo r m a s s u b s ta n c ia is
Leibniz considera que essas páginas
platônicas se adaptam admiravelmente a seu
propósito, parecendo terem sido formuladas Análogo é o raciocínio que Leibniz faz
propositalmente “contra nossos filósofos, a propósito da questão das “formas subs­
muito materialistas”. tanciais” e das “substâncias”.
Nestas páginas, por boca de Sócrates, Erram os filósofos modernos ao lan­
Platão critica Anaxágoras por ter prome­ çarem descrédito sobre elas, porque elas
tido explicar todas as coisas em função da são capazes de fornecer uma explicação
inteligência e da causa final, que é a causa geral (filosófica) da realidade, que as causas
do bem; todavia, depois critica o fato de ele mecânicas não fornecem. Por outro lado,
ter faltado à sua promessa, recorrendo às os filósofos antigos, particularm ente os
habituais causas físicas, mecânicas e mate­ escolásticos e certos aristotélicos, também
riais. O fato, por exemplo, de Sócrates ter erraram, como continuam errando aqueles
as pernas feitas de ossos, músculos, tendões que neles se inspiram, ao pretender explicar
etc., explica ter ido ele para a prisão e lá com essas formas substanciais os fenômenos
ter permanecido sem fugir, mas o explica particulares da física.
Primeira parte - O O casionalism o, S p i noza e Leibniz

A distinção entre 1) o plano da expli­ A chave para conciliar a philosophia


cação filosófica geral e 2) o plano da expli­ perennis com os philosophi novi consiste na
cação científica particular permite a Leibniz rigorosa distinção entre o âmbito propria­
a mediação entre o ponto de vista antigo e mente filosófico e o âmbito propriamente
o moderno. científico.
Portanto, enquanto as causas mecâni­ Portanto, obstinando-se em basear-se
cas explicam os fenômenos particulares, as nas “formas substanciais” ao explicar os
formas substanciais fornecem uma expli­ fenômenos científicos, os aristotélicos e os es­
cação global segundo uma ótica diferente. colásticos caem em evidentes absurdos, mas,
E cada uma destas explicações tem em seu ao mesmo tempo, os novos filósofos caem
âmbito uma validade precisa. em excessos de tipo oposto ao negarem in
Resumindo o que foi dito até aqui, toto as formas substanciais, que continuam
podemos concluir dessa forma: válidas em outros âmbitos de explicação.

III. y\ r e fu t a ç ã o d o m e ca n ic ism o
e a g ê n e s e d o co n c e ito d e m ô n a d a

• Segundo Leibniz, portanto, para além da extensão e do movimento, e


como seu fundam ento, há algo que é de natureza não física, mas metafísica: é a
substância, entendida como força originária, indicada por Leibniz com o termo
enteléquia e, sobretudo, com o de mônada. Destas premissas
emergem importantes conseqüências:
A substância
entendida 1 )o "espaço" e o "tem po" são apenas fenômenos, modos
como força com os quais a realidade aparece a nós, e não duas entidades ou
originária duas propriedades ontológicas das coisas;
é de natureza 2) o mundo em seu conjunto é uma "grande máquina" que,
metafísica mediante "leis convenientes", atua uma "finalidade" querida por
-* § 1-2 Deus com a "escolha do melhor", razão pela qual o mecanicismo é
simplesmente o modo pelo qual se realiza o "finalismo" superior.

as propriedades corpóreas. Por exemplo, diz


Leibniz, ela não explica a inércia, ou seja,
de Descactes a relativa resistência que o corpo opõe ao
movimento, a ponto de ser necessária uma
“força” para desencadear tal movimento. O
Do que foi dito até agora, torna-se que significa que existe algo que está além
claro que a complexa operação de “media­ da extensão e do movimento, que não é de
ção ” de Leibniz não se limita a distinguir o natureza puramente geométrico-mecânica
plano do mecanicismo científico do plano do e, portanto, física, e que, portanto, é de
finalismo filosófico e a sobrepor este àquele, natureza metafísica , que é precisamente a
mas vai bem mais além, tocando na própria “força” . É dessa força que derivam tanto o
base em que se fundamentava o mecanicis­ movimento como a extensão.
mo. Com efeito, segundo Leibniz, extensão A propósito disso, Leibniz acredita
e movimento, figura e número são apenas ter vencido Descartes pela descoberta de
determinações extrínsecas da realidade, que um “erro memorável” cometido por este
não vão além do plano da aparência, ou seja, em termos de física. Com efeito, Descar­
do fenômeno. tes sustentava que aquilo que permanece
A extensão (a res extensa cartesiana) constante nos fenômenos mecânicos é a
não pode ser a essência dos corpos, porque quantidade de movimento (mv = massa x
por si mesma não basta para explicar todas velocidade). Leibniz, ao contrário, demons­
Capítulo terceiro - Lei bnÍ2 e a metafísica do pluralismo monadológico

tra que isso é cientificamente insustentável, sobre Descartes, que, em um primeiro mo­
pois o que permanece constante é a energia mento, levou-o a abandonar Aristóteles,
cinética, isto é, a “força viva”, como ele a depois a uma fugaz superação de Descartes
cham a, expressa pelo produto da massa pela aceitação do atomismo relançado por
pela aceleração (mv2 = massa x velocidade Gassendi e, por fim, a uma recuperação do
ao quadrado). conceito aristotélico de substância, oportu­
A correção de um erro de física de namente repensado e redimensionado.
Descartes, portanto, leva Leibniz a uma Sucessivamente, Leibniz também adota
conclusão filosófica muito importante, ou novamente ele próprio o nome de “entelé­
seja, a de que os elementos constitutivos da quia”, que indica a substância enquanto
realidade (os fundamentos dela) são algo tem em si mesma sua própria determinação
que está acima do espaço, do tempo e do e perfeição essencial, ou seja, sua própria
movimento, e que portanto se coloca no finalidade interior. Mas o termo mais típico
âmbito daquelas substâncias tão depreciadas para indicar as substâncias-forças primi-
pelos “modernos” . Desse modo, Leibniz gênias seria o de “m ônadas” (do grego
reintroduz as substâncias entendidas como monás , que significa “unidade” ), de gênese
princípios de força, como uma espécie de neoplatônica (e que Giordano Bruno havia
pontos metafísicos, forças originárias. recolocado em circulação, embora com
Leibniz não chegou a essa solução de acepção diferente).
repente, mas através de intensa meditação

A s c o n s e q ü ê n c ia s
d a d e s c o b e r t a le ib n iz ia n a
■ Mônada. "Mônada" é a expressão
com que Leibniz traduz o termo gre­
go monás, que significa "a unidade" Antes, porém, de tratar da doutrina das
ou "aquilo que é uno"; a palavra, de “mônadas”, devemos destacar algumas con­
origem pitagórica, fora retomada seqüências muito importantes que derivam
pelos neoplatônicos e depois por de tudo o que Leibniz estabeleceu.
Giordano Bruno.
A mônada é propriamente uma subs­
tância simples, isto é, uma entidade
indivídua capaz de ação, e os princí­ B I co n cep ção leib n izia n a

pios de suas ações são as percepções do esp aço


(representações) e as apetições (von­
tade). O “espaço” não pode coincidir com a
Por via de sua unidade e simplicidade, natureza dos corpos, como queria Descartes,
diz Leibniz, as mônadas são repre- e menos ainda pode ser sensorium Dei, como
sentáveis como os átomos de Demó- pretendia Newton, ou até propriedade abso­
crito, porém com a diferença de que luta de Deus, como advogava o newtoniano
não se trata de átomos materiais ou
físicos, e sim de átomos formais, não Clarke. Para Leibniz, o “espaço” torna-se
extensos. um fenômeno, ou seja, um m odo em que a
Leibniz designa a mônada também realidade aparece para nós, embora não se
com o termo aristotélico enteléquia, trate de mera ilusão, e sim de pbaenomenon
que indica a substância simples en­ bene fundatum.
quanto tem em si a própria determi­ O espaço é simplesmente a ordem das
nação e perfeição essencial, ou seja, coisas que coexistem ao mesmo tempo, ou
a própria autonomia e finalidade seja, algo que nasce da relação das coisas
interior.
entre si. Portanto, não é uma entidade ou
Deus é a mônada originária e supre­
ma, da qual todas as outras são criadas propriedade ontológica das coisas, mas re­
segundo uma hierarquia que, espe­ sultado da relação que nós captamos entre
lhando o grau de clareza e distinção as coisas.
das representações, vai das mônadas Assim, é fenômeno bene fundatum,
espirituais às simples mônadas-almas, porque se baseia em efetivas relações das
até as mônadas "nuas" ou inferiores. coisas entre si, mas não é um fenômeno
porque em si mesmo não é ente real. Po­
lemizando com Newton e Clarke, Leibniz
Primeira parte - O Ocasionalismo,; S p in o z a e -Leibniz

diz até que, entendido como o entendiam “revolução” posterior que Kant realizará a
“certos ingleses modernos”, o espaço é um esse respeito.
“ídolo” no sentido baconiano e, portanto,
como tal, deve ser eliminado. Em conclusão,
o espaço é um modo de aparecer subjetivo E l y \ s le is f í s i c a s

das coisas, embora com fundamento obje­ c o m o ^ le is <da c o n v e n i ê n c i a ”

tivo (as relações entre as coisas).


Se assim for, as leis elaboradas pela
mecânica perdem seu caráter de verdades
El A c o n c e p ç ã o le ib n iz ian a matemáticas, ou seja, dotadas de veracidade
d o tem p o lógica incontestável, para assumir o caráter
de “leis da conveniência”, leis fundadas na
Leibniz chega a conclusões análogas regra da escolha do melhor, segundo a qual
também sobre o “tempo”, que se torna uma (como veremos mais adiante) Deus criou
espécie de ens rationis, exatamente como o o mundo e as coisas do mundo.
espaço. O tempo não é realidade existente,
quase um como que transcorrer ontológico,
um fluir real, regular e homogêneo, mas sim
Kl ~ D o m e c a n i c i s m o a o fin a lis m o

um fenômeno, também este bene fundatum.


Como o espaço é uma resultante fenomê- Cai por terra a visão cartesiana do
nica que brota da relação da coexistência mundo e dos corpos vivos como “máqui­
das coisas, da mesma forma o “tempo” é nas” entendidas mecanicisticamente.
a resultante fenomênica que deriva da su­ O m undo é, sim , uma com o que
cessão das coisas. O fundamento objetivo “grande máquina” em seu conjunto, como
do tempo está no fato de que as coisas pre- também são máquinas todos os organismos
existem, coexistem e pós-existem, ou seja, em particular, desde suas partes menores.
se sucedem. E daí nós extraímos a idéia de Mas a máquina do universo, assim como as
tempo. Também a consideração do tempo máquinas-partes, são a realização do querer
como entidade absoluta é um “ídolo” em divino, a concretização de uma “finalidade”
sentido baconiano que, como tal, deve ser desejada por Deus com a “escolha do me­
descartado. lhor” (de que falaremos adiante).
Em suma, espaço e tempo não são rea­ O mecanicismo é apenas o modo po
lidades em si mesmas, mas fenômenos con­ meio do qual se realiza o “finalismo” su­
seqüentes à existência de outras realidades. perior.
Eis a definição mais concisa que Leibniz E assim, mais uma vez, o mecanicismo
deles nos deixou: “O espaço é a ordem que se esfacela para dar lugar a um finalismo su­
torna os corpos situáveis e mediante a qual, perior, como diz Leibniz nesta passagem: “E
existindo juntos, eles têm um posição rela­ surpreendente que a única consideração das
tiva entre si, do mesmo modo que o tempo causas eficientes não esteja em grau de dar
é uma ordem análoga em relação à sua po­ razão das leis do movimento. Com efeito, é
sição sucessiva. Todavia, se não existissem necessário recorrer também às causas finais,
criaturas, o espaço e o tempo só existiriam e as leis do movimento dependem não do
nas idéias de Deus.” princípio de necessidade, mas do princípio
Essa é uma etapa muito importante na de conveniência, isto é, da escolha operada
discussão sobre a natureza fenomênica do pela Sabedoria divina. E esta é uma das
espaço e do tempo. Aliás, é inclusive uma provas mais eficazes e tangíveis da existência
etapa indispensável para compreender a de Deus” .
Capítulo terceiro - .Leibniz e a metafísica do pluralismo monadológico

IV. O s pontos fu n d a m e n ta is
d a m e ta físic a monc\<do\ócj\(2a.

• Tudo o que existe ou é uma simples mônada, ou é um complexo de mônadas.


As atividades fundamentais de toda mônada são duas: a percepção ou represen­
tação, e a apetição ou tendência para percepções sucessivas.
Leibniz distingue além disso entre a simples percepção e a A realidade
apercepção, que é percepção acompanhada por consciência e é é constituída
própria apenas de certas mônadas particulares, isto é, dos espíritos Por substâncias
ou inteligências. simples:
Cada mônada representa todas as outras, ou seja, o universo “ mônadas
inteiro, e é de fato um microcosmo; a conexão total do universo, 5 '
porém, é representada em cada mônada apenas indistintamente.
É este o significado da fórmula leibniziana segundo a qual o presente está
grávido do futuro: em cada instante está presente a totalidade do tem po e dos
eventos temporais.

• Cada mônada representa todo o universo com diferente (maior ou menor)


distinção das percepções e sob perspectiva diferente, e é justamente tal perspectiva
que torna cada mônada diversa de todas as outras. Disso Leibniz tira seu princípio
de identidade dos indiscerníveis, segundo o qual não existem duas
substâncias indiscerníveis (absolutamente indiferenciadas), porque Identidade
de outro modo elas seriam uma única e idêntica substância. dos
A diferente angulação segundo a qual as mônadas repre­ indiscerníveis:
sentam o universo, e o diferente nível de consciência de suas não existem
representações, delineiam uma hierarquia das mônadas, que duas
das mônadas sem percepção chega até a mônada das mônadas,
substâncias
indiferenciadas.
a Deus, em que todas as representações têm o nível de clareza e Criação
consciência absolutas. e hierarquia
Deus é, portanto, a mônada primitiva, a substância originária das mônadas
e simples, enquanto todas as outras mônadas são produzidas ou -» § 3-6
"criadas" por Deus mediante fulgurações; uma vez criadas, depois
as mônadas não podem perecer a não ser por aniquilação por parte do próprio
Deus que as criou.

Como já dissemos, segundo Leibniz, a Mas eis os novos problemas que daí
realidade constitui-se de “centros de força”, nascem e como Leibniz os resolve.
ou seja, de centros de atividade, pontos ou
átomos físicos e imateriais. Esses centros de
força são “substâncias simples”, que Leibniz 1 n a tu re z a d a m ô n a d a
chamou de “mônadas”, exatamente para co m o " fo r ç a r e p r e s e n ta tiv a "
indicar sua simplicidade e unidade, e tam­
bém chamou de “enteléquias” para indicar
a perfeição intrínseca que possuem. Qual é a natureza da mônada? Ou melhor,
Tudo o que existe é uma simples môna­ do momento que já se estabeleceu que ela
da ou é um conjunto de mônadas. Em suma, não é matéria, mas “força”, de que natureza
as mônadas são os “elementos de todas é essa força?
as coisas”, de modo que, se conseguirmos Em geral, a mônada deve ser concebida
conhecer a natureza da mônada, consegui­ analogamente à nossa atividade psíquica. Isso
remos também conhecer a natureza de toda permite ao nosso filósofo, ao mesmo tempo,
a realidade existente. afirmar a absoluta unidade da mônada e,
Primeira parte - O O cas ionalismo, S p in o za e Leibniz

juntamente, garantir-lhe um conteúdo rico e eficácia maior do que se costuma pensar. São
múltiplo. Com efeito, também nossa mente é elas que formam aquele não-sei-quê, aque­
una e, ao mesmo tempo, seu conteúdo é rico les gostos, aquelas imagens das qualidades
e múltiplo, sendo constituído pelas várias dos sentidos, claras em seu conjunto, mas
“representações”. Além disso, nossa mente confusas em suas partes, aquelas impressões
passa de uma representação para outra e de que os corpos externos provocam em nós e
uma volição para outra, “apetecendo” (ou que encerram o infinito, aquelas ligações que
seja, tendendo a) conteúdos sempre novos. cada ser tem com todo o resto do universo”.
Pois bem, são exatamente estas as duas Portanto, voltando ao problema do
atividades fundamentais de toda mônada: significado da afirmação leibniziana de que
a) a da percepção ou representação; toda mônada tem como atividade essencial
b) a da apetição, ou seja, a tendência a a percepção, poderíamos dizer que ela,
sucessivas percepções. como nosso filósofo diz expressamente,
São exatamente essas atividades que significa tão somente que toda mônada é
identificam e distinguem as várias mônadas expressio multorum in uno, expressão de
entre si. uma multiplicidade na unidade, razão pela
Este é um dos pontos mais delicados qual essa expressio tem diferentes níveis, só
da monadologia, que deve ser muito bem alcançando o nível do conhecimento no grau
compreendido, caso contrário toda a cons­ das mônadas mais elevadas.
trução leibniziana corre o risco de cair no
non sense ou no jogo do paradoxo intelec­
tual gratuito. 2 (S a d a m ô n ad a rep resen ta
Quando Leibniz diz que a natureza da o u n iverso
atividade de todas as mônadas está em
e é c o m o um m ic r o c o s m o
perceber (ou em representar), não pretende
falar de percepção (ou representação) acom­
panhada de consciência ou entendimento.
Existe grande diferença entre a) o sim­ A solução dada a esse primeiro e funda­
ples perceber eb ) o perceber consciente, que mental problema relativo à natureza da môna­
Leibniz destaca também do ponto de vista da propõe imediatamente um segundo proble­
lexical, chamando este último com o termo ma, também importante: o que cada mônada
“apercepção”. percebe e representa? A resposta de Leibniz
Ora, a “apercepção” é própria somente é muito clara e extremamente reveladora.
de certas mônadas particulares, ou seja, dos Cada mônada representa todas as
espíritos ou inteligências, de modo que se outras, ou seja, o universo inteiro: “cada
pode dizer que todas as mônadas percebem, substância expressa exatamente todas as
mas somente algumas (além de perceberem) outras, por efeito das relações que tem com
também apercebem. Todavia, até nas môna­ elas”, “cada mônada representa todo o
das que têm apercepções o número de percep­ universo”, ou seja, a totalidade.
ções inconscientes continua infinitamente su­ Portanto, em cada mônada há uma
perior ao número das percepções conscientes. “conspiração de todas as coisas”. Em suma,
Além disso, Leibniz mostra oportuna­ realiza-se aquilo que os gregos chamavam de
mente que nós mesmos — que, como entes “cooperação de todas as coisas entre si” e
inteligentes, também temos apercepções — , que os pensadores renascentistas chamavam
em muitos casos percebemos sem aperceber, omnia ubique, ou seja, uma presença e uma
ou seja, sem termos consciência daquilo que ressonância de todas as coisas em tudo.
está nos acontecendo. Podemos, portanto, dizer que a doutri­
Ainda mais refinadas são as observações na leibniziana segundo a qual cada mônada
que ele, faz, sobretudo nos Novos ensaios representa todas as outras nada mais é do que
sobre o intelecto humano, onde fala de pe­ a variante moderna (isto é, expressa em ter­
quenas percepções (petites perceptions), que mos de “representação”) da clássica doutrina
são “percepções insensíveis”, ou seja, per­ do tudo-em-tudo, enunciada primeiramente
cepções das quais não temos consciência, das pelos naturalistas e médicos gregos e levada
quais é tecida nossa vida cotidiana e das quais às suas extremas conseqüências metafísicas
podemos apresentar inumeráveis exemplos. pelos neoplatônicos antigos e renascentistas.
“Essas pequenas percepções - escreve Além disso, devemos destacar que a an­
Leibniz - por suas conseqüências são de tiga doutrina do homem como microcosmo
Capitulo terceiro - .Leibniz e a m etafísica do plufalismo monadológico

estende-se agora a íoíizs as substâncias: cada grávido do futuro”, o que significa que, em
mônada é um microcosmo. cada instante, está presente a totalidade do
Leibniz chega até a dizer que, do mo­ tempo e dos acontecimentos temporais. E
mento que cada mônada é “espelho vivo esse também é um modo de expressar em
perpétuo do universo”, de todos os eventos dimensão cronológica o grande princípio
do universo, se tivéssemos mente suficiente­ segundo o qual “tudo está em tudo.”
mente penetrante poderíamos perceber na
menor mônada tudo aquilo que aconteceu,
tudo aquilo que acontece e tudo aquilo que 3 O p rin cíp io d a id e n tid a d e
acontecerá, tudo aquilo que está distante no
d o s in d isc e rn ív e is
tempo e no espaço, toda a história do univer­
so. Na alma de cada um de nós (assim como
em cada mônada), está representada toda a
De tudo o que foi dito brota ainda
“conexão do universo”, mas não de forma
um terceiro problema: se todas as mônadas
distinta: só em um tempo infinito poder-se-ia
representam todo o universo, como podem
explicitar tudo aquilo que nela está implícito.
elas se diferenciar entre si?
Leibniz também expressa esse conceito
Cada mônada representa todo o uni­
com a belíssima fórmula “o presente está
verso, mas com diferente (maior ou menor)
distinção das percepções e sob diversos ân­
gulos. Cada mônada representa o mundo em
perspectiva diferente, e é precisamente essa
GOTHOFREDI GUILLELMI perspectiva que faz com que cada mônada
seja diversa de todas as outras.
L E I B N I T I I , Aliás, segundo Leibniz, é tal a varieda­
S. Gtfitr» M ajcftaús Conjiharn, a r 5 . J?<g. MajcJ},
de de perspectivas nas representações, que
Bntatmitirum a Confihn Jufttnjt inttmis» nec non
a fc rib c n Jj Htflonà , não apenas diferem as coisas diversas entre
si por espécie, mas também até no âmbito de
OPERA OMNIA, uma mesma espécie não existem duas coisas
N unc primum co llt-éla, in ClaíTcs diílributa, pncfktio- absolutamente iguais entre si. Não existem
nibus & indicjbus exorn ata. ftudio em todo o universo duas folhas, dois ovos
L U D O V I C I DUTENS. ou dois corpos da mesma espécie totalmente
iguais entre si. Aliás, não existem sequer duas
TOMUS PRIMUS,
gotas de água iguais.
QUO T H E O L 0 G 1 C A C O N T I N E N T U R . E aquilo que é dito nesses exemplos
referidos a folhas, ovos, corpos, gotas
d’água, que são conjuntos de mônadas,
vale integralmente para cada mônada em
particular.
E daí que Leibniz extrai seu princípio
da “identidade dos indiscerníveis”, segun­
G E N E V JE , do o qual, exatamente, não existem duas
Apud F R A T R E S D E T O U R N E S . substâncias indiscerníveis (ou seja, absoluta­
mente indiferenciadas e, portanto, idênticas)
m d c c l x v i i i ou, para falar em outros termos, dado que
houvesse duas substâncias indiscerníveis,
elas coincidiriam, sendo assim uma única e
idêntica substância.
Lrontispício da Opera ornnia d e Leibniz.
Im portan te na doutrina leibniziana
é o eo n eeito de m ô n a d a , 4 C J n d i v i d M a l i d a d e e in fin ita
co n tid o em sua ob ra m ais fa m o s a ,
Monadologia, d e 1714.
va rie d a d e d a s m ô n a c la s
Segundo L eibn iz, ci realid ad e é constituída
/>or "centros d e força" ;
estes centros d e fo rça são “substâncias sim ples", O princípio da identidade dos indiscer­
qu e o filó s o fo cham ou d e “m ô n a d a s " ex atam en te níveis é, segundo Leibniz, importantíssimo,
para indicar sua sim plicidade e unidade. a ponto de mudar (juntamente com o prin­
Primeira parte - O Ocasionalismo/ S p in o za e, Leibniz

cípio da razão suficiente, de que falaremos elas têm, permitem a Leibniz estabelecer
adiante) “o estado da m etafísica” . Com uma hierarquia das mônadas.
efeito, ele fundamenta duas doutrinas es­ No grau mais baixo, encontram-se as
senciais do sistema leibniziano: mônadas nas quais nenhuma percepção al­
a) fornece um novo modo de explicar cança o nível de apercepção; pouco a pouco
a individualidade de cada substância; seguem-se as mônadas nas quais, progressi­
b) explica a variedade infinita das subs­ vamente, os níveis de percepção tornam-se
tâncias e da harmonia do universo. mais claros, a ponto de alcançar a memória
No que se refere ao primeiro ponto, e, mais acima, até a razão. Em Deus, todas as
Leibniz diz textualmente: “Nos indivíduos, representações têm o nível da mais absoluta
o princípio de individuação se reduz ao prin­ clareza e consciência. Portanto, Deus vê de
cípio de distinção (...). Se dois indivíduos modo perfeito tudo em tudo.
fossem inteiramente semelhantes e iguais,
em suma, indistinguíveis por si mesmos, não
teríamos o princípio de individuação e, ouso
até dizer, dada tal condição, não haveria 6i„, ;A criação das mônadas
nenhuma distinção individual e diferenças e sua indes+ru+ibilidade
entre indivíduos.”
No que se refere ao segundo ponto,
Somente Deus é a unidade ou m ô­
com base no princípio em questão, Leibniz
nada primitiva, a substância originária e
pode pensar em riqueza extraordinária da
simples.
realidade. Se nem mesmo duas mônadas, Todas as outras mônadas são produzi­
por mais pequenas e modestas que sejam,
das ou “criadas” por Deus: “por assim dizer,
podem ser idênticas, então o universo, não
elas nascem de fulgurações contínuas da
apenas em seus com postos, mas também
divindade”. Nesse caso, “fulguração” é um
em seus elem entos simples e m ínim os,
termo neoplatônico aqui usado por Leibniz
representa uma d iferen ciação in fin ita,
para expressar a criação a partir do nada.
o que significa uma variedade infinita e
Além disso, uma vez criadas, as mô­
uma riqueza infinita, a maior das riquezas
nadas não podem perecer: elas só poderiam
possíveis.
perecer por meio de uma aniquilação por
parte do próprio Deus que as criou.
Leibniz, portanto, tira as seguintes
5 A kierarcjuia das mônadas conclusões: “ (...) que uma substância só
pode começar por criação e só pode perecer
por aniquilação; que não se pode dividir
Por fim, devemos destacar que os dife­ uma substância em duas e que de duas não
rentes ângulos segundo os quais as mônadas se pode fazer uma, de modo que o número
representam o universo, e os diferentes ní­ das substâncias não aumenta nem diminui
veis de consciência das representações que por via natural
Cãpítulo terceiro - Leibniz e a metafísica do pluralismo monadológico

------- V ./ V s m ônadas
e a co n stitu ição d o universo

A mônada é o princípio de força e de atividade, mas é atividade pura apenas


em Deus. Em todas as outras mônadas a atividade é imperfeita, e isso constitui
justamente sua "m aterialidade". A "matéria-prima" da mônada consiste nas per­
cepções confusas que tem, e este é o aspecto passivo próprio da
mônada. A corporeidade e a extensão são a "matéria segunda", Matéria-prima
e aquilo que chamamos "corpos" são "agregações de mônadas". e matéria
Toda substância corpórea é em geral um agregado unificado segunda
por uma mônada superior, que constitui a enteléquia dominan­ na mônada.
te; nos animais, esta enteléquia dominante é a alma, entendida Conceito
de enteléquia
como princípio de vida; no homem a mônada dominante é a alma
dominante
entendida como espírito. -» § 2-4
As mônadas inferiores representam mais o mundo do que
Deus, enquanto as substâncias pensantes representam mais Deus
do que o mundo e são destinadas a constituir a república geral dos espíritos sob
o supremo Monarca, que é justamente Deus.

1 Os p r o b le m a s li g a d o s 3) considerando o princípio da con­


tinuidade (a lei segundo a qual a natureza
ã co n cep çã o d as m ônadas
não dá saltos), como e por que subsiste clara
c o m o e le m e n t o distinção entre os espíritos (os seres dotados
de inteligência) e todas as outras coisas.
Vejamos como Leibniz procura resol­
Dissemos que as mônadas são “os ele­ ver cada um desses problemas, dos quais
mentos de todas as coisas” . Como deve depende a inteligibilidade de todo o seu
ser entendida essa afirmação no contexto sistema.
leibniziano?
Não haveria nada mais errado que ima­
ginar as mônadas colocadas em um espaço
(como, por exemplo, os átomos de Demócri-
2 ( E x p l i c a ç ã o d a m a te r ia lid a d e
to), agregando-se mecanicamente ou fisica­ e c o r p o r e id a d e d a s m ô n a d a s
mente (ou seja, espacialmente) entre si. Com
efeito, elas são pontos não-físicos, ou seja,
centros metafísicos, e o espaço é fenômeno a) Como vimos, a mônada é princípio
(como vimos) derivado das mônadas, não de força e de atividade. Mas essa atividade
tendo portanto nada de originário, e sim de só é atividade pura e absoluta em Deus. Em
derivado das próprias mônadas. todas as outras mônadas, portanto, a ativi­
Leibniz, portanto, deduz todo o uni­ dade é limitada, ou seja, imperfeita. E nisso,
verso das substâncias metafísicas tais como precisamente, reside sua “materialidade”.
ele as caracterizou. Assim, a “matéria primeira” das mônadas
Em particular, precisou esclarecer os é tão-somente o halo de “potencialidade”
seguintes pontos de máxima importância: que lhes impede de ser ato puro.
1) como nasce d) a matéria da mônada, Até em sua potência absoluta, o pró­
que, em si mesma, é imaterial, e b) a cor­ prio Deus não poderia retirar da mônada
poreidade da mônada, que, em si mesma, a “matéria primeira” entendida no sentido
não é corpo; explicado, porque, nesse caso, “faria dela
2) como é que, em sua complexidade ato puro como somente ele é” . Pode-se dizer
orgânica, os animais se formam da mônada, também que a “matéria primeira” da mô­
que é simples; nada consiste nas percepções confusas que
Primeira pãrte - O Ocasionalismo, 5pinoza e Leibniz

ela tem e que esse, precisamente, é o aspecto Aquilo que chamamos de “gerações” são
passivo próprio da mônada. acréscimos e desenvolvimentos, ao passo
E evidente que, entendida nesse novo que aquilo que chamamos de “mortes” são
sentido, ou seja, como o fundo obscuro de diminuições e involuções.
cada mônada, com o limite da atividade Trata-se de uma idéia, já levantada
perceptiva, a matéria primeira torna-se algo pelos antigos pensadores gregos, que Leibniz
completamente novo: a grandeza, a impe- não deixa de recordar.
netrabilidade e a extensão, que antes eram b) Em segundo lugar, não se deve falar
consideradas características que a definiam, de epigênese, ou seja, de geração do animal,
tornam-se agora um “efeito”, uma “mani­ mas sim de pré-formação. No sêmen animal
festação” . A obscuridade das percepções já existe, pré-formado, em pequena escala,
da mônada se manifesta como grandeza, o futuro animal, que se desenvolverá preci­
impenetrabilidade e extensão. samente com o crescimento.
b) A corporeidade e extensão (que Leib­ c) Em terceiro lugar, deve-se falar de
niz chama também de “matéria segunda”) e, certa indestrutibilidade do animal (que é
em geral, aquilo que chamamos “corpos” são diversa da imortalidade pessoal, própria do
“agregações de mônadas”. Mas deve-se notar homem, da qual falaremos adiante).
bem que a corporeidade não tem uma consis­
tência ontológica, uma realidade em si: ela é
fenômeno que tem seu fundamento nas mô­
I A d ife r e n ç a
nadas que entram em relação entre si, é “fenô­
meno bem fundado”, como vimos serem “fe­ das mônadas espirituais
nômenos bem fundados” o tempo e o espaço. em relação às outras m ônadas

lílj! (Explicação £ja constituição Assim, chegamos ao último dos pro­


blemas suscitados: como é que os espíritos
dos órgãos animais ou substâncias pensantes se diferenciam de
todas as outras mônadas?
Na ilustração geral dos pontos princi­
Para Leibniz, em geral, toda substância pais da metafísica monadológica, já vimos
corpórea não é um agregado puro e simples uma primeira diferença: as mônadas inferio­
de mônadas, mas sim um agregado unificado res só percebem, ao passo que as superiores,
por uma mônada superior, que constitui além de perceber, também apercebem.
com o que a enteléquia dominante. Nos Mas a apercepção é própria tanto dos
animais essa enteléquia dominante é a alma , animais inferiores como dos inteligentes;
entendida no sentido clássico de princípio os primeiros sentem, os segundos pensam e
de vida, ao passo que no homem, como conhecem as causas.
veremos, a mônada dominante é a alma Leibniz, porém, não se contenta com
entendida como espírito. essa diferença, apresentando ainda outra,
Mas o que caracteriza a visão de cor­ muito importante: as mônadas inferiores
poreidade própria de Leibniz é a sua forte representam mais o mundo do que Deus, ao
coloração vitalista e organicista. Para ele, passo que as substâncias pensantes represen­
tudo é vivo, porque cada mônada é viva. tam mais a Deus do que o mundo.
Ademais, como as mônadas que constituem Em uma carta a Arnauld, Leibniz escre­
cada agregado são inumeráveis (elas são ve: “Com efeito, se todas as formas das subs­
superiores a qualquer número que possa­ tâncias expressam todo o universo, pode-se
mos imaginar), em cada agregado é possível dizer que as substâncias brutas expressam
imaginar uma série de agregados sempre mais o mundo do que a Deus, ao passo que
menores, que reproduzem as mesmas carac­ os espíritos expressam mais a Deus do que
terísticas em grau menor, como uma espécie o mundo. Por isso, Deus governa as subs­
de fuga ao infinito, que apequena cada vez tâncias brutas segundo as leis materiais da
mais a mesma perspectiva. força ou da transmissão do movimento e go­
Essa concepção leibniziana implica três verna os espíritos segundo as leis espirituais
conseqüências. da justiça, de que as outras substâncias são
a) incapazes. E por isso as substâncias brutas
Em primeiro lugar, não se pode falar
de geração absoluta nem de morte absoluta. podem ser chamadas materiais, porque a
Capítulo terceiro - Lei bniz e a metafísica do pluralismo monadológico

economia seguida por Deus em relação a e de qualidades morais, sendo ele próprio
elas é a de operário ou maquinista, ao passo espírito e como que um entre nós, a ponto
que em relação aos espíritos Deus cumpre de entrar em uma ligação de sociedade co­
as funções de príncipe e legislador, que é nosco, da qual é o chefe. Essa sociedade
infinitamente mais elevada. E enquanto, em ou república geral dos espíritos, sob aquele
relação a tais substâncias materiais, Deus supremo M onarca, é a parte mais nobre do
não representa nada mais do que aquilo universo, composta de muitos pequenos
que representa em relação a tudo, isto é, a deuses, sob a direção daquele grande Deus.
função de autor geral das coisas, já em re­ Com efeito, pode-se dizer que os espíritos
lação aos espíritos ele assume outro papel, criados diferem de Deus somente como o
pelo qual o concebemos dotado de vontade menos do mais, como o finito do infinito”.

V I . ; A k a rm o n ia p r e e s t a b e le c i d a

• As mônadas não têm janelas por meio das quais algo possa entrar ou sair, ou
seja, nenhuma mônada age sobre outra ou sofre a ação de outra. As várias mônadas
são, com efeito, estruturadas em geral de modo a extrair tudo
de seu interior, razão pela qual aquilo que cada uma extrai do Correspondência
próprio interior coincide com aquilo que outra extrai do próprio entre as
interior, com uma correspondência e harmonia perfeitas, queridas representações
por seu criador. O sistema da harmonia preestabelecida garante, das mônadas
portanto, a perfeita correspondência entre as representações das e a realidade
várias mônadas e a realidade externa: Deus é a verdadeira ligação externa.
Leibniz responde
de comunicação entre as substâncias, e é em virtude dele que os
a Bayle
fenômenos de uma mônada concordam com os da outra e que -*§ 1-4
nossas percepções são objetivas e verdadeiras.

1 ;A t e s e le i b n i z ia n a que os intérpretes não deixaram de apontar


como paradoxal e como fonte de toda uma
s e .g u n c lo a q u a l a s m ô n a d a s
// ~ ^ • I // série de aporias. Entretanto, deve-se notar
nexo Te m j a n e l a s que a teoria do isolamento das substâncias,
e o s d o is p r o b le m a s a partir de Descartes, se tornara muito
difundida, fortemente reforçada pelos oca-
q u e d a í d e r iv a m
sionalistas e, em última análise, pelo próprio
Spinoza, como já vimos.
Em Leibniz, a questão assume o má­
Uma característica fundamental das ximo de complexidade, por motivo muito
mônadas (e somente sob sua luz todo o simples. Eliminado o dualismo entre res
sistema leibniziano se torna compreensível) cogitans e res extensa, Leibniz, ao invés de
se expressa na seguinte proposição da Mo- eliminar o problema da influência de uma
nadologia: “As mônadas não têm janelas substância sobre outra, defronta-se com esse
através das quais algo possa entrar ou sair.” problema multiplicado à segunda potência.
Isso significa que cada mônada é como a) Com efeito, tendo, por um lado,
um mundo fechado em si m esm o, não introduzido um número infinito de mônadas
sendo suscetível a qualquer solicitação ou como centros autônomos de forças (infinitos
influência que derive do exterior. Em outros centros isolados), ele devia explicar, consi­
termos: nenhuma mônada age sobre outra e derando tal isolamento, como se poderiam
nenhuma mônada sofre a ação de outra. pensar as relações entre as mônadas.
Sem dúvida, esse é o ponto mais de­ b) Por outro lado, tendo concebido
licado de toda a metafísica monadológica, os corpos como agregados de mônadas re­
Primeira parte - CDO casionalism o, S p in o za e Leibniz

gidos por uma mônada hegemônica, que coberta recente). Dados dois relógios de
é alma nos animais (como vimos), devia, pêndulo, sua perfeita sincronia poderia se
para começar, dar conta das relações entre dar de três modos:
alma e corpo e, além disso, de modo enor­ 1) construindo-os de modo que um
memente ampliado (dado que a questão influa sobre o outro;
não diz respeito somente ao homem, mas 2) encarregando o relojoeiro de sincro­
a todos os corpos, já que, para Leibniz, em nizá-los a todo momento;
última análise, todos os corpos são vivos e, 3) pré-construindo-os de modo tão
portanto, animados). perfeito que possam , autonom am ente,
marcar sempre o mesmo tempo, em perfeita
concordância.
Para Leibniz, a primeira solução é
2 jA s p o ssív e is so lu çõ e s banal e vulgar. E, como tal, ele a rejeita (as­
d o s d o is p ro b le m a s sim como a rejeitava a filosofia racionalista
e a p o siçã o a ssu m id a moderna). A segunda é a solução ocasiona-
lista, que pressupõe um milagre contínuo
p o r L e ib n iz co m a
e, em última análise, revela-se contrária à
" k a r m o n i a p r e e s + a b e l e c i d a // sabedoria divina e à ordem das coisas. E o
terceiro caminho é o da “harmonia prees­
tabelecida” .
A solução dos dois problemas (embora Sintetizando sua solução e generalizan­
alcançada por Leibniz com muito esforço do-a de modo quase axiomático, Leibniz
e em momentos sucessivos) é a mesma e é escreve em uma Epístola: “Não creio que
muito engenhosa. seja possível um sistema em que as mônadas
Ela foi denominada pelo próprio autor atuem uma sobre a outra, porque não há um
(a partir de 1696) com a expressão “sistema modo de explicação possível, e acrescento
da harmonia preestabelecida”, tornando-se que a influência é supérflua: com efeito, por
a marca peculiar e como que o símbolo de que uma mônada deveria dar à outra aquilo
todo o sistema de Leibniz. que ela já tem? Exatamente essa é a própria
O que é essa “harmonia preestabele­ natureza da substância: estar o presente
cida” ? grávido do futuro, e de um elemento poder
Para explicar a relação e o acordo entre se entender o todo
duas mônadas em geral (entre as represen­ A presença do “tudo em tudo”, que já
tações de duas mônadas), particularmente apontamos como um dos pontos básicos da
entre a mônada-alma e as mônadas-corpo
(as representações e acontecimentos da pri­
meira e os acontecimentos da segunda), há
três hipóteses possíveis:
1) a de supor uma ação recíproca,
I ■ Harmonia preestabelecida. É a
| hipótese metafísica com a qual Leib-
biunívoca; | niz coroa seu sistema especulativo.
2) a de postular uma intervenção de I Em geral, o princípio da harmonia
Deus em todas as ocasiões, como artífice preestabelecida se refere à conexão
do acordo: : ou harmonia universal entre todas as
3) a de conceber as substâncias (as ; mônadas, as quais, por força de sua
várias mônadas em geral, assim como as : simplicidade e impenetrabilidade,
| não agem fisicamente uma sobre a
mônadas-alma e as que constituem o corpo)
p outra; portanto, "a influência entre
estruturadas de tal modo que elas extraiam I as mônadas é apenas ideal", e "pode
tudo do seu interior, e de tal modo que aquilo | ter sua eficácia apenas mediante a
que cada uma extrai do seu interior coincida f intervenção de Deus",
com aquilo que todas as outras extraem do f Para explicar em particular o acordo
seu próprio interior com correspondência e : da alma com o corpo, Leibniz ser­
harmonia perfeitas, considerando que isso * ve-se do exemplo de dois relógios
faz parte de sua própria natureza, desejada I de pêndulo, cuja perfeita sincronia
r ocorre porque suas estruturas foram
por seu Criador. í construídas desde o princípio com
Leibniz valeu-se do exemplo eficaz f perfeita correspondência.
de dois relógios de pêndulo, que fez muito
efeito (recordemos que o pêndulo era des­
Capítulo terceiro - Leifc>n \ z e a metafísica do pluralismo monadológico

metafísica monadológica, revela-se, mais uma percepções se tornem distintas e claramente


vez, uma chave decisiva para desvelar o sen­ percebidas. Ao momento de a percepção
tido oculto sob o aparente paradoxo do pen­ da bastonada e da respectiva dor do cão se
samento leibniziano, como veremos agora. tornarem distintos, corresponde exatamente
a ação do homem que lhe dá a bastonada.
Por isso, o homem que dá a bastonada no
3 A o b je çã o d e B a y le cão existe verdadeiramente, mas o homem
e seu bastão não influem do exterior sobre a
e a r e s p o s ta d e L e ib n iz
alma do cão, da mesma forma que, no caso
dos relógios sincronizados, um não influi
Perplexo com essa tese paradoxal, sobre o outro.
Pierre Bayle, em seu célebre Dicionário,
apresentou um exemplo, intencionalmente
provocador, para refutar o “sistema da 4 D e u s c o m o fu n d a m e n to
harmonia preestabelecida” . Suponhamos d a k a rm o n ia p r e e s ta b e le c id a
que um cão esteja comendo e, ao saborear
a comida, experimente uma sensação de
prazer; e suponham os que, de repente, A harmonia preestabelecida, portanto,
alguém lhe dá uma bastonada, de modo garante a perfeita correspondência entre
que do sentimento de prazer o cão passa as representações das várias mônadas e a
para uma sensação de dor. Como explicar realidade externa, ou seja, a veracidade e a
isso sem supor a influência causai direta da realidade daquelas representações.
bastonada, ou então sem recorrer ao sistema O mundo representativo das mônadas
das “causas ocasionais” ? não é um mundo de sonhos privado, e sim
Leibniz responde do seguinte modo: um mundo objetivo.
a concatenação dos acontecim entos em As mônadas, portanto, “não têm por­
questão se explica pressupondo uma con­ tas nem janelas”, mas têm representações
cordância harmonicamente preestabelecida exatamente correspondentes àquilo que está
por natureza. Se cada mônada representa o fora de sua porta e de sua janela, porque, ao
universo do seu próprio ponto de vista, e se criá-las, Deus harmonizou-as intrinsecamen-
cada alma o representa especialmente em te de uma vez por todas, fundamentando a
relação ao próprio corpo, não há nenhuma concordância de cada uma com todas em
dificuldade em supor que a alma do cão re­ sua própria natureza.
presente, desde o início e de modo veraz, to­ Deus é o verdadeiro laço de comuni­
dos os acontecimentos que constituirão sua cação entre as substâncias, e é por ele que
vida, inclusive a bastonada (e a conseqüente os fenômenos de uma mônada concordam
dor, que receberá em dado momento), sob a com os das outras e que nossas percepções
forma de “pequenas percepções”, ou seja, de são objetivas. Cada alma constitui todo o
percepções indistintas, e que, em dado mo­ seu mundo próprio “e, com Deus, basta-se
mento, por desenvolvimento interno, essas a si mesma” .
Primeira parte - O O casionalism o, S > p \n o 2 .c \ e Leibniz

---- V IL D eus, ----


o m elkor d o s m undos p o ssív e is
e o o+imismo leibniziano

• A mais conhecida prova leibniziana da existência de Deus está ligada com


o princípio de razão suficiente, segundo o qual nada existe ou acontece sem que
haja uma razão suficiente para determinar que a coisa aconteça e que aconteça
assim e não de outro modo. Com efeito, a razão suficiente última
A demonstração deve encontrar-se fora da série das coisas contingentes, em uma
da existência substância que seja sua causa, isto é, em um ser necessário que
de Deus leva consigo a razão de sua existência: e esta razão última das
como Ser coisas é justamente Deus. Deus é, portanto, o único Ser necessário
necessário que existe, o único Ser em que essência e existência coincidem, e
->§ 1-2
é fonte tanto das essências como das existências.

• Todos os mundos possíveis urgem em direção à existência, mas apenas a es­


colha de Deus, que é perfeito, decide qual deva ser promovido de fato à existência,
e ele escolheu necessariamente nosso mundo porque é o mais perfeito.
A necessidade com a qual Deus criou o melhor dos mundos possíveis não é
uma necessidade metafísica, e sim moral, enquanto voltada a realizar o maior bem
e a máxima perfeição possível; e, uma vez que o nosso é o melhor dos mundos
possíveis, também o mal, que para Leibniz pode ser de três tipos
o otimismo (metafísico, moral, físico), entra na economia geral da criação e
leibniziano da escolha do melhor.
-^ § 3 Esta concepção grandiosa constitui o "otimismo leibni­
ziano".

1 O s d o is g m n d e s depois que a metafísica assumiu o criacio-


nismo bíblico, a questão se radicalizou,
p r o b le m a s m e ta físico s:
transformando-se precisamente nesta outra:
p o r cjue k á o s e r “Por que existe o ser?”
e p o r q u e e x iste a ssim Em Leibniz, essa questão assume for­
mulação particularmente cortante, até devi­
e n ão d e ou tra fo rm a
do à vinculação que ele faz com o “princípio
da razão suficiente”, por ele tematizado pela
Como conseqüência de tudo o que se primeira vez de modo completo e perfeito.
disse até aqui, Deus tem um papel abso­ O princípio (ao qual voltaremos adiante)
lutamente central no sistema leibniziano. estabelece que nada existe ou acontece sem
E compreensível, portanto, que ele tenha que exista (e que, portanto, se possa estabe­
tentado fornecer diversas provas de sua lecer) uma razão suficiente para determinar
existência. o fato de que uma coisa ocorra, acontecendo
A mais conhecida é a que se lê no es­ assim e não de outra forma.
crito Princípios racionais da natureza e da Assim, é evidente que, à luz desse
graça, ao qual nos referiremos. princípio, a pergunta sobre o ser só pode se
“Por que existe algo ao invés do nada?” tornar a mais clara:
Essa é a pergunta metafísica mais radi­ a) “ P or que ex iste algo e não o
cal que o Ocidente já se pôs. Para os antigos, nada?”.
era suficiente propor a questão de modo b) “Por que aquilo que existe é assim
mais atenuado: “O que é o ser?” . Contudo, e não de outra forma?” .
Capitulo terceiro - Leibniz e a metafísica do pluralismo monadológico

y \ s o l u ç ã o d e L_eil> n i z Deus. As coisas são como são e não são de


outra forma porque seu modo de ser é o me­
d o s d o is p ro b le m a s
lhor modo possível de ser. Muitos mundos
m e ta físico s (muitos modos de ser) seriam em si mesmos
possíveis (ou seja, não contraditórios);
mas somente um, este nosso, foi criado. E,
a) A resposta de Leibniz ao primeiro entre os muitos mundos possíveis, a razão
quesito é que a razão que explica o ser não suficiente que induziu Deus a escolher este
pode ser encontrada na série das coisas con­ é que ele, perfeito, escolheu, entre todos os
tingentes, porque, por definição, toda coisa possíveis, o mundo mais perfeito.
contingente sempre tem necessidade de uma
razão ulterior, por mais que se vá adiante na
série das causas: “É necessário, portanto,
que a razão suficiente, que não necessita de 3 ;A s d ificu ld a d e s le v a n ta d a s
nenhuma outra razão, esteja fora da série p o r e s ta s so lu çõ e s
das coisas contingentes e se encontre em e a s r e s p o s ta s d e L e ib n iz
uma substância que lhes seja causa, ou então
que seja um ser necessário, portando em si a
razão de sua existência; caso contrário, não Muito se discutiu sobre esse ponto do
teríamos ainda uma razão suficiente na qual sistema leibniziano.
nos determos. Esta última razão das coisas Em primeiro lugar, perguntou-se, Deus
denomina-se Deus.” é livre para escolher este mundo ou, ao
b) A resposta ao segundo quesito é contrário, é premido por necessidade, não
formulada por Leibniz como a perfeição de podendo senão escolher o melhor?
A resposta de Leibniz é que não se
trata de necessidade metafísica, segundo
a qual seria impensável qualquer outra es­
E S S A I S colha, porque contraditória e, portanto,
Dt impossível. Trata-se, porém, de necessidade
moral, voltada para realizar o maior bem
T H E O D IC E E e a máxima perfeição possível, ainda que
sendo pensáveis e, portanto, possíveis (ou
SUR L A seja, logicamente não-contraditórias) outras
alternativas (descartadas apenas por serem
BONTÉ de DIEU, inferiores).
L A Em segundo lugar, se este é o melhor
dos mundos possíveis, de onde derivam os
L IB E R T E deL/HOM M E
males?
ET N os Ensaios de Teodicéia, Leibniz
L’0 R I G i N E P U M AL.
distingue (e são evidentes as influências
agostinianas nessa distinção) três tipos de
mal: 1) o mal metafísico; 2) o mal moral;
é c f 3) o mal físico.
1) O mal metafísico coincide com a
finitude e, portanto, com a imperfeição
ligada à finitude. Essa, porém, é a condição
da existência de qualquer outra coisa que
não seja o próprio Deus.
2) O mal m oral é o pecado que o
A AMS T E RDAM, homem comete, deixando de lado os fins
Chci I s a a c T i o h l , jUbrairc. aos quais está destinado. Portanto, a causa
MDCt X,
deste mal é o homem e não Deus. Todavia,
Frontispício dos Ensaios de Teodicéia d e 1710,
na economia geral da criação, a escolha de
o b ra d e gran de p orte qu e co n tém , um mundo em que está previsto um Adão
entre ou tras coisas, a distin ção leibniziana e, conseqüentemente, o homem em geral,
entre os três tipos de m al: que peque, deve ser considerada a melhor
o metafísico, o moral, o físico. escolha aquela que comporta a maior po-
Primeira parte - CDOcasionalismo/ S p in o za e Leibniz

sitividade, em comparação com as outras perfeição daquele que o sofre, como o grão
possíveis. que é semeado se sujeita a uma espécie de
3) No que se refere ao mal físico, escre­
decomposição para germinar: esta é uma
ve Leibniz: “Pode-se dizer que Deus muitas bela comparação, da qual o próprio Jesus
vezes o quer como pena devida à culpa e Cristo se serviu.”
outras vezes como meio adequado a um fim, Essa grandiosa concepção, que vê rea­
isto é, para impedir males maiores ou para lizado nos seres (em cada um e em todos) o
alcançar maiores bens. A pena serve para melhor daquilo que era possível, constitui
a correção e o exemplo. Freqüentemente, o “otimismo leibniziano”, que foi objeto de
o mal serve para se apreciar melhor o bem vivas discussões e polêmicas durante todo
e, algumas vezes, contribui para m aior o século 18.

V I I I . O s e r n e c e s s á r io .
o s p o s sív e is e a s v e r d a d e s d e r a z ã o e d e fa lo

• As "essências" são todas as coisas pensáveis sem contradição, ou seja, todos


os "possíveis", que são infinitos mas nem todos compossíveis, no sentido de que
a realização de um implica também a não realização de outro. Ora, o complexo
das verdades que estão na mente de Deus é constituído pelas
A essência verdades de razão (verdades matemáticas e regras da bondade
e a existência. e da justiça), isto é, da verdade cujo oposto é justamente impos­
As verdades sível, e são baseadas sobretudo sobre princípios de identidade,
de razão de não-contradição e do terceiro excluído.
e as verdades A "existência", por sua vez, é a realização e a atuação das
de fato
essências, isto é, dos possíveis. Às existências e aos acontecimentos
-* § 1-4
contingentes são relativas as verdades de fato, cujo oposto não
é impossível; as verdades de fato poderiam também não existir;
todavia, a partir do momento que existem, têm uma sua precisa razão de ser,
ligada ao livre decreto divino: estas verdades estão, portanto, baseadas sobre o
princípio de razão suficiente.

1 D e u s com o s e r n e ce ssá rio não poder não existir, desde que seja possí­
vel. E, como nada pode impedir a possibili­
dade daquilo que não implica nenhum limi­
Deus é o ser necessário, como já vimos. te, nenhuma negação e, portanto, nenhuma
Aliás, para prová-lo, Leibniz, entre outras contradição, só isso já basta para conhecer
coisas, adota o argumento ontológico, já a priori a existência de Deus”.
retomado modernamente por Descartes, se­ Deus, portanto, é o único ser necessá­
gundo o qual o perfeito deve necessariamen­ rio que existe, ou seja, o único ser em que
te existir, caso contrário não seria perfeito. essência e existência coincidem.
Além disso, Deus é necessário porque, nele,
essência e existência coincidem.
Diz Leibniz que só Deus possui essa
2 jA s e s s ê n c ia s e o s p o ssíve is
prerrogativa, isto é, que só de Deus se pode
dizer que lhe basta ser possível para que Entretanto, Deus é fonte tanto das
tam bém exista atualm ente (enquanto é essências como das existências. A essência
perfeição ilimitada). expressa “aquilo que” uma coisa é (o que
Escreve Leibniz: “Assim, somente Deus é), ao passo que a existência expressa a
(ou o Ser necessário) tem esse privilégio de subsistência real, o existir de fato.
Capítulo terceiro - Lei {?v\\2 e a metafísica do pluralismo monadológico

São “essências” todas as coisas que são As “verdades de fato” se referem, ao


pensáveis sem contradição, ou seja, todos invés, aos acontecimentos contingentes, e
os “possíveis” (possível, precisamente, é são tais que seu oposto não é impossível.
aquilo que não envolve contradição). E o Por exemplo, o dado de eu estar senta­
intelecto divino é concebido por Leibniz do é uma verdade de fato, mas ela não é uma
como “a sede das verdades eternas e das verdade necessária, porque o contraditório
idéias das quais tais verdades dependem”. não é impossível (não é uma coisa impossível
Portanto, é o intelecto divino que torna que eu não esteja sentado).
possíveis tais possíveis, precisamente ao Portanto, as verdades de fato também
pensá-los, dando-lhes o que há de real na poderiam não existir; entretanto, a partir
“possibilidade”. do momento que existem, têm sua precisa
Os possíveis são infinitos. Eles são or- razão de ser.
ganizáveis em sistemas e mundos diversos
e inumeráveis que, no entanto, se tomados
singularmente, são justamente possíveis,
mas que não são co-possíveis junto a outros,
4 O p r in c íp io d e r a z ã o
no sentido de que a realização de um impli­ s u f i c ie n t e c o m o ^uncic\n\e.n^o
ca a não-realização do outro (enquanto se d a s v e r d a d e s d e fa to
excluem um ao outro).
A existência é a realização e a concre­
tização das essências, ou seja, dos possíveis. Essas verdades, portanto, não se ba­
Assim, se Deus pensa infinitos mundos seiam no princípio da não-contradição (por­
possíveis, só pode, porém, levar à existência que seu oposto é possível), e sim no princípio
apenas um deles. Todos os mundos possíves de “razão suficiente”, segundo o qual toda
tendem à existência, mas somente a escolha coisa que acontece de fato tem uma razão
de Deus decide qual deles deve de fato ser que é suficiente para determinar por que
promovido à existência. aconteceu, e por que aconteceu assim e não
de outra forma.
Muitas vezes, porém, é impossível ao
homem encontrar a razão suficiente de cada
3 ;A s v e r d a d e s d e r a z ã o
e a s v e r d a d e s d e fa to

Nessa visão geral, podemos compreen­ ■ Princípio de razão suficiente. 0


der adequadamente a distinção feita por princípio de razão suficiente é o prin­
Leibniz entre “verdade de razão” e “verdade cípio especulativo por excelência do
de fato”, bem como a diferente natureza dos sistema leibniziano: ele tem valência
lógica e metafísica, porque "em vir­
princípios que estão na base dos dois tipos
tude dele consideramos que qualquer
de verdade. fato não poderia ser verdadeiro ou
As “verdades de razão” são aquelas existente, e qualquer enunciado não
cujo oposto é impossível. Elas expressam o poderia ser verídico, caso não existisse
conjunto das verdades que estão na mente uma razão suficiente do por quê a
de Deus, as quais se baseiam sobretudo nos coisa é assim e não de outro modo".
princípios de identidade, de não-contradi- A formulação leibniziana do princí­
ção e do terceiro excluído. São verdades de pio é exatamente a seguinte: "Nada
razão todas as verdades da matemática e
acontece sem razão suficiente (nihil
estsine ratione), isto é, nada aconte­
da geometria e, segundo Leibniz, também ce sem que seja possível, para quem
as regras da bondade e da justiça (porque conhece suficientemente as coisas,
não dependem da simples vontade divina, dar uma razão suficiente para expli­
sendo também elas verdades cujo contrário car por que a coisa é assim e não de
é contraditório, como as verdades mate­ outro modo".
máticas). A razão suficiente última do universo
Também o homem, quando conhece é o próprio Deus.
esses tipos de verdades necessárias, baseia-se
nos princípios apontados acima.
Primeira parte - CDOcasionalismo/ S p in o za e Leibniz

fato particular, porque teria de reconstruir e definitiva, malgrado certas oscilações


toda a série infinita de particulares que que podem ser encontradas em Leibniz e,
concorreram para determinar aquele acon­ sobretudo, malgrado as muitas críticas dos
tecimento singular. intérpretes.
Como vimos, para criar o mundo, Deus A própria presciência e o próprio co­
se baseou no princípio de razão suficiente nhecimento perfeito que Deus tem das ver­
e não no princípio da não-contradição, dades contingentes não mudam a natureza
pois, em Deus, a razão suficiente coincide contingente delas e não as transformam em
com a escolha do melhor, com a obrigação verdades de razão. As verdades de razão
moral. Portanto, como muitos estudiosos baseiam-se na necessidade lógico-metafí-
reconheceram, a distinção entre verdades sica, ao passo que as verdades de fato, em
de razão e verdades de fato tem bases me­ todos os casos, permanecem ligadas ao livre
tafísicas precisas, e é, portanto, estrutural decreto divino.

I X . y \ c\ouirinc\ do conke.cime.Kvto:
o ina+ismo vir+ual

• O antigo adágio escolástico derivado de Aristóteles, e


O intelecto
e sua atividade bastante caro aos empiristas, dizia: "não há nada no intelecto
precedem que não tenha derivado dos sentidos". Leibniz propõe o seguinte
a experiência; acréscimo: "exceto o próprio intelecto". Isso significa que a alma
a alma conhece é "inata em si mesma", que o intelecto e sua atividade existem
virtualmente apríôri, precedem a experiência: e a alma conhece virtualmente
tudo tudo, não apenas o passado e o presente, mas também todos os
-§ 7 -2 pensamentos futuros, e pensa já confusamente tudo aquilo que
jamais pensará de modo distinto.
Este é o novo sentido em que, segundo Leibniz, deve ser retomada a antiga
doutrina platônica da reminiscência.

1 " A l ã o k á n a d a n o in te le cto Disso decorre uma solução muito original


(embora não delineada sistematicamente),
q u e a n tes n ão ten k a
coerente com as premissas da metafísica
e s t a d o n o s se n tid o s, monadológica.
e x c e t o o p ró p rio in te lecto ” O antigo axioma escolástico, derivado
de Aristóteles e muito caro aos empiristas,
dizia: nihil est in intellectu quod non fuerit in
Juntamente com os Ensaios de Teo­ sensu, ou seja, não há nada no intelcto ou na
dicéia, a obra mais vasta de Leibniz é cons­ alma que não tenha derivado dos sentidos.
tituída pelos Novos ensaios sobre o intelecto Leibniz propõe a seguinte correção: nihil est
humano , em que o nosso filósofo critica mi­ in intellectu quod non fuerit in sensu, excipe:
nuciosamente o Ensaio de Locke, que havia nisi ipse intellectus, ou seja, não há nada
negado toda forma de inatismo, reduzindo no intelecto que não tenha derivado dos
a alma a tabula rasa (a uma espécie de folha sentidos, com exceção do próprio intelecto.
em branco sobre a qual só a experiência O que significa que a alma é “inata a si mes­
escreve os vários conteúdos). Entretanto, ma”, que o intelecto e sua atividade existem
Leibniz não se alinha simplesmente ao a priori, precedendo a experiência. Trata-se
lado dos inatistas, com o os cartesianos, de uma antecipação daquilo que viria a ser
por exemplo, mas tenta seguir um caminho a concepção kantiana do transcendental,
interm ediário e realizar uma m ediação. embora colocada sobre novas bases.
Cdpítulo terceiro - -Leibniz e a m etafísica do pluralismo m o n a c l o ló g lc o

O novo co n ce ito em nós como inclinações e disposições, pre­


cisamente como virtualidades naturais.
d e "in atism o "
Além disso, Leibniz reconhece como
e a n o va fo rm a originário (inato) o princípio de identidade (e
d e V em in iscên cia " os princípios lógicos fundamentais a ele liga­
dos) que está na base de todas as verdades de
razão: “Se quisermos raciocinar, não pode­
M as a essa admissão (já, em si mes­ remos deixar de supor esse princípio. Todas
ma, capaz de redimensionar o empirismo as outras verdades são demonstráveis
lockiano) seguem-se outras, ainda mais Depois, porém, com base em sua con­
importantes. Diz Leibniz que a alma con­ cepção da mônada como representação da
tém “o ser, o uno, o idêntico, a causa, a totalidade das coisas, é obrigado a admitir
percepção, o raciocínio e uma quantidade também um inatismo para as verdades de
de outras noções que os sentidos não podem fato e, em geral, para todas as idéias. Ele
fornecer”. reconhece expressamente que existe algum
Então Descartes teria razão? Leibniz, fundamento na “reminiscência” platônica,
em sua tentativa de m ediação entre as e até que é preciso admitir bem mais do que
instâncias opostas, pensa que se trate não Platão admitiu. A alma conhece virtual­
de inatismo concreto, mas muito mais de mente tudo: este é o novo sentido da antiga
inatismo virtual: as idéias estão presentes doutrina de Platão.

X . O kom em e s e u des+ino

• Em relação à questão sobre a liberdade do homem, Leibniz procura assumir


uma via média entre Spinoza, defensor da necessidade, e a concepção clássica do
livre-arbítrio. A liberdade da alma, cujas condições são a inteli­
gência, a espontaneidade e a contingência, consiste em depender a liberdade
apenas de si mesma e não de outro; mas os atos humanos, além de humana
serem predicados incluídos necessariamente no sujeito, são con- e a previsão
cebidos por Leibniz também como eventos previstos è prefixados de Deus
por Deus ab aeterno, e ao homem não lhe é dado compreendê-los -* 5 1-2
em sua razão última.

• Ao espírito do homem é reconhecido por Leibniz o máximo valor: o espírito


vale todo o mundo, porque o conhece de modo consciente e indaga suas causas, e
é além disso imortal, no sentido de que mantém sempre a própria personalidade.
O conjunto dos espíritos constitui depois a Cidade de Deus, a par­
te mais nobre do universo, em que Deus, enquanto "monarca", Ao espírito
concede aos espíritos a máxima felicidade possível. O destino do homem
escatológico do homem deverá, portanto, consistir em uma felici­ reconhece-se
dade que é "um progresso contínuo para novos prazères e novas o máximo valor
perfeições", ou seja, um conhecer Deus e um fruir Dèus em grau ^ § 3
sempre maior, ao infinito.

1 A lib ^ d a d e Leibniz procura adotar um caminho


intermediário entre a posição de Spinoza,
c o m o esp cm + a rv e id a d e
defensor da necessidade, e a concepção
d a m ônada clássica do livre-arbítrio como faculdade de
escolha. Suas conclusões, porém, revelam-
se bastante ambíguas e a mediação não se
Já vimos qual é o estatuto privilegiado reveste de êxito.
do homem enquanto espírito. Vejamos então Nos Ensaios de Teodicéia ele afirma
a questão da liberdade. que as condições da liberdade são três: a) a
l*YÍtneÍYã pUYtC - O O casionalism o, S p in o za e Leibniz

inteligência; b) a espontaneidade; c) a con­ fato de que este homem cometerá certamen­


tingência. A primeira condição é óbvia, dado te aquele pecado? A resposta é fácil: caso
que um ato que não seja inteligente está, contrário, não seria aquele homem. Desde
por definição, fora da esfera da liberdade. o princípio dos tempos, Deus vê que haverá
A segunda condição implica a exclusão de certo Judas, cuja noção ou idéia, que Deus
qualquer coação ou constrição exterior ao possui, contém aquela ação livre futura. Res­
agente (e que, portanto, o ato dependa das ta, portanto, esta única questão: por que tal
motivações interiores do agente ). A terceira Judas, traidor, que na idéia divina é apenas
condição implica a exclusão da necessidade possível, existe concretamente? A essa per­
metafísica, ou seja, a exclusão de que seja gunta não é possível dar uma resposta aqui
contraditório o oposto da ação que se realiza na terra, senão dizendo genericamente que,
(ou seja, implica a possibilidade de realiza­ como Deus achou bom que ele existisse ape­
ção da ação oposta). sar do pecado por ele previsto, é necessário
A liberdade que Leibniz concede à que esse mal seja compensado com juros no
alma é a de depender só de si mesma e não universo: Deus extrairá dele um bem maior
de outro, o que é bem diferente do poder de e, no fim das contas, ver-se-á que essa série
escolher. A liberdade leibniziana, portanto, de coisas, na qual está abarcada a existência
simplesmente coincide com a espontaneida­ daquele pecador, é a mais perfeita entre todos
de da mônada. os outros modos possíveis de existir. Mas
Na verdade, Leibniz tem acenos suges­ como nem sempre é possível explicar a ad­
tivos, como quando diz que os motivos que mirável economia daquela escolha, enquanto
nos impelem à ação não são como pesos formos peregrinos nesta terra, basta-nos
sobre a balança, no sentido de que é muito sabê-lo sem compreendê-lo.”
mais o espírito que determina os motivos (dá
peso aos motivos). Mas esses pensamentos,
inseridos na ótica da concepção da mônada 3 O ccm jw n to d o s e s p íri+ o s
como desenvolvimento rigorosamente con- e a (S id a d e d e D e u s
catenado de todos os seus acontecimentos,
em grande parte acabam por se esvaziar.
Leibniz reconhece o valor máximo do
espírito do homem: o espírito vale todo o
Jg ii lib e r d a d e mundo, porque não apenas expressa (como
as outras mônadas) todo o mundo, mas tam­
e a p r e v is ã o d e D e u s
bém o conhece de modo consciente e indaga
suas causas. Além disso, o espírito humano
A questão se torna ainda mais comple­ é imortal, no sentido de que não só perma­
xa pelo fato de que a monadologia impõe nece no ser, como as outras mônadas, mas
que se concebam os atos humanos, além também mantém sua própria personalidade.
de predicados incluídos necessariamente O conjunto dos espíritos constitui a
no sujeito, também como acontecimentos Cidade de Deus, a parte mais nobre do
previstos e prefixados por Deus ab aeterno. universo. ,
Desse modo, portanto, a liberdade pareceria Como “criador” de todas as*mônadas,
inteiramente ilusória. Deus dá aos seres a máxima perfeição pos­
Se desde a eternidade está previsto que sível. E, como “monarca” de sua cidade, dá
eu pecarei, que sentido tem então minha ação aos espíritos a máxima felicidade possível.
moral? Leibniz não conseguiu responder Segundo Leibniz, o paraíso, que é a
metafisicamente ao problema, limitando-se suprema felicidade, não deve ser concebido
a dar uma resposta que, ao invés de solução como estado de quietude, porque a visão
teórica para o problema, contém uma regra beatífica e a fruição de Deus nunca podem
prática, plena de sabedoria, mas doutrinaria- ser plena e perfeitamente concretizadas,
mente evasiva: “Mas será que é certo desde visto que Deus é infinito. Portanto, o destino
a eternidade que eu pecarei? Podeis vos dar escatológico do homem deve consistir em
por vós só uma resposta: talvez não. E, sem uma felicidade que é “progresso contínuo
pensar naquilo que não podeis conhecer e em direção a novos prazeres e novas perfei-
que não pode vos dar qualquer luz, deveis ções”, ou seja, um conhecimento de Deus e
então agir segundo vosso dever, que conhe- uma fruição de Deus em grau sempre maior,
ceis. M as, dirá algum outro, a que se deve o até o infinito. DO
Capítulo terceiro - Leifc>n'}2 e cx metafísica do pluralismo monadológico

LEIBNIZ
A DOUTRINA DA MÔNADA

R a z ã o s u fic ie n te :
M ônada:
o fundamento
substância simples,
que determina M ônada originária, Substância suprema, ativa e imaterial
aquilo que acontece
Deus
é o único Ser necessário e perfeito, E s s ê n c ia
V e rd a d e s r a c io n a is :
no qual essência e existência coincidem: (ou P o s s í v e l ) :
aquelas cujo oposto
R azão suficiente última do universo c aquilo que não
é impossível
e região das verdades racionais eternas é contraditório
(baseadas
sobre os princípios
de identidade,
E x is t ê n c ia :
não-contradição,
atuação
terceiro excluído) j da essência

V e r d a d e s fa c tu a is :
Segundo o princípio da conveniência
aquelas cujo oposto (“escolha do melhor entre os possíveis” ),
é possível
D e u s c r i a m e d ia n te f u lg u r a ç õ e s
(baseadas
O SISTEM A DA H ARM ONIA PREESTABELECIDA,
sobre o princípio
de conveniência) isto é, as regiões das verdades factuais

O UNIVERSO METAFÍSICO (M O R A L ): O UNIVERSO FÍSICO (N ATURAL):


Reino da graça, Reino da natureza,
governado com as leis das causas finais governado com as leis das causas eficientes
por Deus como monarca por Deus como arquiteto

H a r m o n ia

Existências monádicas (incorpóreas), Existências mecânicas (corpóreas),


dotadas de percepção (representação) espelhos do universo natural
e apetição (vontade)
■J
//!

1. M ô n a d a s “n u as” (p ercep ção e ap etição ) + co rp o = viventes simples

2 . A lm as (p ercep ção + m em ória e ap etição ) + co rp o = animais,


espelhos vivos do u niverso das criatu ras

3. Espíritos (percepção + razão e apetição) + corpo = homens,


espelhos vivos do próprio Deus. O conjunto dos espíritos constitui a

Cidade de Deus,
o Estado mais perfeito dirigido pelo monarca mais perfeito,
universo moral no universo natural
Primeirã parte - O O casionalism o, S p in o za e Leibniz

Rquilo que é composto, ao contrário, ini­


cia-se e termina por [composição e dissolução
L e ib n iz dos] partes.
7. Rlém disso, não há modo de explicar
como a mônada possa ser alterada ou mudada
em seu interior por obra de alguma outra cria­

D A Monadologia tura. Na mônada, com efeito, não se poderia


transpor nada, nem é pensável nela algum
movimento interno que seja impresso, dirigido,
fí Monadologia, a obra de Leibniz indu­ acrescido ou diminuído; isso é, ao contrário,
bitavelmente mais famosa, foi composta em possível nos compostos, onde ocorrem mudan­
1714, mas só foi publicada depois da morte ças entre as partes.
Rs mônadas não têm janelas, mediante as
do filósofo.
Com os Princípios racionais da natureza quais alguma coisa possa entrar ou sair. Os aci­
0 da graça, escritos no mesmo ano, a M o­ dentes não podem destacar-se das substâncias
nadologia constitui o vértice especulativo e passear fora delas como faziam uma vez as
da filosofia de Leibniz: as duas obras são "espécies sensíveis" dos (Escolásticos.1
decisivos porque fornecem o versão completa Portanto, nem substância nem acidente
do sistema leibniziano no época de sua plena podem entrar de fora em uma mônada.
maturidade e constituem o coroação do ponto
de vista de seu conteúdo, enquanto a maior 2. O princípio de identidade dos indiscerníveis
parte dos outros escritos dão visões parciais
8. Por outro lado, é necessário que as
de campos disciplinares específicos. mônadas tenham qualidades, de outra forma
fíqui apresentamos a Monadologia em
não seriam sequer seres.
vestes quose integrais, de modo a oferecer
Com efeito, se as substâncias simples não
o quadro completo de todas as doutrinas
diferissem por suas qualidades, não se poderia
leibnizianas mais importantes, do pluralismo
distinguir nenhuma mudança nas coisas, porque
monadológico até o sistema da harmonia
aquilo que está no composto pode derivar ape­
preestabelecida e ao admirável afresco do
nas de seus componentes simples. Portanto, se
Cidade de Deus. as mônadas fossem privadas de qualidades,
seriam indistinguíveis uma da outra, dado que
elas não diferem de modo nenhum entre si pela
1. Rs substâncias simples ou mônadas quantidade; por conseguinte, admitida a hipóte­
se do pleno, todo lugar receberia no movimento
1. R mônada em questão aqui é uma sempre e apenas o equivalente daquilo que
substância simples que entra nos compostos; aí havia anteriormente, e um estado de coisas
"simples", isto é, sem partes. seria indiscernível em relação a outro.
2. C é necessário que existam substâncias 9. Rlém disso, é necessário que cada
simples, pois existem substâncias compostas: mônada seja diferente de toda outra.
o composto, com efeito, é um amontoado ou Na natureza, com efeito, não existem dois
aggregatum de simples. seres que sejam perfeitamente iguais, e nos
3. Ora, onde não há partes, não é possível quais não seja possível encontrar uma diferença
nem extensão nem figura nem divisibilidade.
Rs mônadas são, portanto, os verdadeiros
átomos da natureza: em poucas palavras, são
'N o doutrino escolástico-tom ista to d o a to d e conhe­
os elementos das coisas. cimento, ton to sensível como inteligível, pressupõe que o
4. Por isso não é preciso temer que uma sujeito cognoscente posso proceder openos o partir dos
substância simples se dissolva, e é totalmente determ inações que recebe d o ob je to . Tais determ inações
impensável que possa perecer por via natural. denom inam -se "espécies impressas": s p e c ie s é a imagem
d a coisa - neste sen tido é dita tam bém "espécie vicória”
5. Pela mesma razão é também impensá­ porque foz as vezes d o o b je to - d a qual a m ente se serve
vel que uma substância simples tenha um início poro representar a si mesma o próprio coiso, e é intencional,
por via naturol: ela, com efeito, não poderia ou seja, d e ordem ideal e não física. Rlguns êscolásticos
formar-se mediante composição. sucessores re p re se n ta ra m as "e sp é cie s sensíveis" em
termos físicos, como eflúvios dos corpos que, à maneira
6. Podemos, portanto, dizer que as môna­
dos e íd o ia d e Demócrito, se destacariam do substância
das podem iniciar e terminar unicamente de for­ dos corpos e atingiriam assim o sujeito cognoscente: daqui
ma repentina, ou seja: podem iniciar apenas por o alusõo irônica d e Leibniz, que não se refere à doutrina
criação e terminar openas por aniquilação. tomisto, mas à sua degeneraçõo.
, . . ,. . , . 63
Capitulo terceiro - l_eibr\iz e a metafísica do pluralismo monadológico ----

interno, isto é, uma diferença fundada sobre constatamos que até mesmo o menor pensa­
uma denominação intrínseca. mento de que temos consciência implica uma
variedade em seu objeto.
3. Os princípios internos da mônada: Rssim, todos aqueles que admitem que a
percepção e apercepção alma é uma substância simples devem reconhe­
cer esta multiplicidade na mônada [...].
10. Considero também como comprovado
que cada ser criado está sujeito a mudança - e 4. Ruto-suficiência
portanto o mesmo se dá com a mônada cria­ e finalismo das mônadas ou enteléquias
da e que esta mudança é contínua em cada
uma dos mônadas. 17. Por outro lado, deve-se reconhecer
11. Do que dissemos até aqui resulta que que a percepção, e aquilo que dela depende,
os mudanças naturais das mônadas dependem é inexplicável mediante razões mecânicas, isto
de um princípio interno, dado que nenhuma é, mediante as figuras e os movimentos.
causa externa poderia influenciar sobre seu Imaginemos uma máquina estruturada de
interior. modo tal que seja capaz de pensar, de sentir
12. Todavia, além do princípio da mudan­ e de ter percepções; suponhamo-la agora au­
ça, deve também haver um detalhe daquilo que mentada, com as mesmas proporções, de modo
muda, um aspecto particular que determine por que nelo se possa entrar como em um moinho.
assim dizer a especificação e a variedade das Feito isso, visitando a máquina em seu interior,
substâncias simples. encontraremos sempre e apenas peças que se
13. Este detalhe deve implicar uma multi­ impulsionam mutuamente, mas nada que esteja
plicidade na unidade, isto é, no simples. em grau de explicar uma percepção.
Com efeito, uma vez que cada mudança Portanto, a [razão da] percepção deve
natural ocorre por graus, algo muda e algo ser procurada na substância simples, e não no
permanece; por conseguinte, é necessário que composto ou na máquina.
na substância simples, embora desprovida de Rssim, é unicamente na substância simples
partes, haja uma pluralidade de afecções e de que se podem encontrar as percepções e suas mu­
relações. danças; apenas nisso, portanto, podem consistir
14. O estado transitório que implica e todas as ações internas das substâncias simples.
representa uma multiplicidade na unidade, isto 18. R todas as substâncias simples (as mô­
é, na substância simples, é propriamente aquilo nadas) criadas, poder-se-ia dar o nome de ente­
que se chama percepção, o qual, como veremos léquias: elas com efeito têm em si determinada
a seguir, deve ser distinguida da apercepção perfeição (échousi to entelés), gozam de auto-su­
ou consciência. ficiência (autárcheia) graças à qual constituem as
Sobre este ponto os cartesianos come­ fontes de suas ações internas e se apresentam,
teram um grave erro, pois transcuraram com­ por assim dizer, como autômatos incorpóreos.
pletamente as percepções de que não se tem
consciência. € é justamente este o motivo que os 5. R hierarquia das mônadas
levou a crer que apenas os espíritos fossem mô­
nadas, e que não existiriam almas de animais 19. Se quisermos designar com o nome
nem outras enteléquias. Rssim, eles confundi­ de alma tudo aquilo que tem percepções e
ram, como o vulgo, um longo aturdimento com apetições no significado geral que acabamos
a morte propriamente dita, o que os fez cair no de explicar, então todas as substâncias simples
preconceito escolástico das almas inteiramente (as mônadas) criadas poderiam ser chamadas
separadas [dos corpos], e até consolidaram nas de almas. Todavia, como o sentimento é algo
mentes maldispostas a opinião da mortalidade mais que uma simples percepção, penso que o
das almas. nome geral de mônadas e de enteléquias seja
15. R ação do princípio interno que de­ suficiente para as substâncias simples que têm
termina a mudança, ou seja, a passagem de apenas a percepção.
uma percepção para outra, pode ser chamada Portanto, penso que se devam chamar al­
apetição. mas somente as mônadas em que a percepção
O "apetite", é verdade, nem sempre con­ é mais distinta e acompanhada pela memória.
segue alcançar a plena percepção à qual tende; 20. Nós, com efeito, experimentamos em
todavia, dela obtém sempre alguma coisa e nós mesmos certo estado no qual não recordamos
chega assim a novas percepções. nada e não temos nenhuma percepção distinta;
ló . Nós mesmos experimentamos uma assim acontece quando desmaiamos ou quando
multiplicidade na substância simples, quando estamos imersos em sono profundo sem sonhos.
Primeira puvte - O Ocastcmalismo, S p m o sa t' .Leibrviz

Cm tal estado a alma não difere sensivel­ Com efeito, guando os animais perce­
mente de uma simples mônada; como se trata, bem algo gue os atinge e de gue tiveram
porém, de um estado de modo nenhum dura­ anteriormente uma percepção análoga, en­
douro, do qual a alma se livra [bem depressa], tão eles, por força da representação de sua
esta é algo mais que uma simples mônada. memória, esperam também a g u ilo gue a
21. fllém disso, não se deve crer que em ela estava unido na percepção precedente,
tal estado a substância simples esteja totalmen­ e são induzidos o sentimentos análogos aos
te privada de percepções. gue haviam então sido provados. Por exemplo,
Isso é impossível já apenas pelas razões se mostramos o bastão oos cães, estes se
aduzidas, pois sem afecções - e isso significa lembram da dor gue ele lhes causou, põem-se
propriamente: sem suas percepções - o subs­ a latir e fogem.
tância simples não poderia perecer; ou melhor, 27. C a forte imaginação gue atinge e
não poderia sequer subsistir. comove os animais deriva ou da intensidade
[Cm segundo lugar,] também quando nos ou do número das percepções anteriores: fre-
encontramos em um estado de aturdimento güentemente, com efeito, uma forte impressão
temos na realidade muitas peguenas percep­ provoca em uma só vez o mesmo efeito de um
ções, nos guais porém não há nada distinto; longo hábito, ou de muitas percepções repeti­
assim como ocorre guando se gira sem parar das mas de intensidade mediana.
sempre no mesmo sentido e se está preso em 28. O comportamento dos homens, à
uma vertigem tal gue pode fazer-nos desmaiar medida gue a concatenação de suas percep­
e não nos permite distinguir nada. fl próprio ções se produz apenas em base ao princípio
morte pode temporariamente determinar nos da memória, é análogo ao dos animais. Nisto
animais um estado semelhante a este. se assemelham aos médicos empíricos, gue
22. Ora, cada estado presente de uma têm certa prática não acompanhada porém de
substância simples é uma conseqüência natural conhecimentos teóricos; e somos efetivamente
de seu estado precedente, motivo pelo gual empíricos nos três guartos de nossas ações.
nela o presente está grávido do futuro. Comportamo-nos de modo empírico, por
23. Portanto, dado gue ao colocarmo-nos exemplo, guando esperamos gue amanhã será
de pé de um aturdimento nos apercebemos dos dia pelo fato de gue até hoje sempre foi assim.
próprias percepções, é igualmente necessário Apenas o astrônomo, ao contrário, julga a este
gue as tenhamos tido imediatamente antes, respeito de modo racional.
embora não as tenhamos advertido: com efeito, 29. Mas é o conhecimento das verdades
uma percepção pode ser unicamente a deriva­ necessárias e eternos gue nos diferencia dos
ção natural de outra percepção, assim como um outros animais, e gue nos propicia a razão e as
movimento pode derivar naturalmente apenas ciências, pois nos eleva ao conhecimento de nós
de outro movimento. mesmos e de Deus.
24. C, portanto, evidente gue, se em Nisto consiste aguilo gue em nós se chama
nossas percepções não tivéssemos nada de de alma racional ou espírito.
distinto - e, por assim dizer, nada de aguçado 30. C, portanto, mediante o conhecimento
e de tom mais elevado -, nós nos encontra­ das verdades necessárias e mediante suas
ríamos sempre em um estado de aturdimento. abstrações gue somos elevados aos atos
C este é justamente o estado das mônadas reflexivos, os guais nos permitem justamente
inferiores. pensar aquilo gue se chama 6u, e de conside­
25. Por outro lado, a natureza deu percep­ rar tudo aguilo gue existe em nós. C é assim
ções aguçadas também aos animais, e isso é gue, pensando a si mesmos, se pensa o ser, a
evidente pelo cuidado gue ela teve em fornecer- substância, o simples e o composto, o imaterial
lhes órgãos gue recolhem diversos raios de luz e o próprio Deus: e isso gue em nós é limitado
ou diversas vibrações do ar, aumentando sua concebe-se como ilimitado em Deus.
eficácia com a união. Tais atos reflexivos fornecem os objetos
Algo de semelhante está presente no principais de nossos raciocínios.
odor, no gosto, no tato e em guem sabe guan-
tos outros sentidos a nós desconhecidos. C em
6. Os princípios do conhecimento
breve explicarei de gue modo isso gue acontece e os tipos de verdode
na alma representa aquilo que se produz nos
órgãos [de sentido], 31. Nossos raciocínios se fundam sobre
26. fl memória faz com gue em cada olmo dois grandes princípios-,
haja uma espécie de concotenaçõo gue imita a a) O princípio de contradição, em virtude
razão, mas da gual deve ser bem distinta. do gual julgamos folso aguilo gue implico con­
Capítulo terceiro - Leib e a m etafísica do pluralismo monadológico

tradição, e verdadeiro aquilo que é oposto ou 7. Deus e as provas de sua existência


contraditório ao falso.
32. b) O princípio de rozõo suficiente, em 38. € assim a razão última das coisas
virtude do qual consideramos que qualquer deve estar em uma Substância necessária, na
fato não poderia ser verdadeiro ou existente, qual o detalhe das mudanças se encontre de
e qualquer enunciado nõo poderio ser verídico, modo eminente, como na própria fonte: e é esta
se não houvesse uma razão suficiente do por Substância aquilo que chamamos Deus.
quê a coisa é assim e não de outra forma - por 39. 6 como tal Substância é razão suficien­
mais que as razões suficientes sejam para nós te de todos os detalhes - os quais, portanto,
no mais das vezes ignoradas. estão ligados entre si de modo universal -,
33. Há também duas espécies de verda­ deve-se dizer necessariamente: existe um só
de: as racionais e as factuais: Deus e este Deus 0 suficiente.
a) as verdades racionais são necessários, 40. Csta Substância suprema é conseqüên­
e seu oposto é impossível; cia simples do Ser possível, e é única, universal
b) as verdades factuais são contingentes, e necessária; além disso, fora dela não há
e seu oposto é possível. nenhuma realidade independente.
Quando uma verdade é necessária pode­ Pode-se, portanto, depreender que tal
mos encontrar suo razão [suficiente] mediante Substância seja também necessariamente não
a análise, resolvendo-a em idéias e verdades suscetível de limitações, e que deva conter
mais simples até chegar às verdades originárias. totalmente a realidade possível.
34. € é justamente mediante a análise 41. Disso segue-se que Deus é absoluta­
que os matemáticos reduzem os teoremas es­ mente perfeito.
peculativos e os cânones práticos a definições, A perfeição, com efeito, é a grandeza exa­
axiomas e postulados. ta da realidade positiva, captada prescindindo
35. Há por fim idéias simples das quais dos limites ou confins das coisas finitas.
não se pode dar nenhuma definição. Há tam­ Ora, onde não há limites, isto é, em Deus,
bém axiomas e postulados - ou, em poucas a perfeição é justamente absolutamente infinita.
palavras, princípios originários-que não podem 42. Rlém disso, segue-se que as criaturas
ser demonstrados, e que por outro lado não têm suas perfeições graças ao influxo de Deus,
têm necessidade de demonstração: trata-se enquanto suas imperfeições derivam de sua
dos enunciados idênticos, cujo oposto contém própria natureza, incapaz de ser sem limites.
uma contradição evidente. Justamente por esta incapacidade as criaturas
36. Mas a razão suficiente deve ser en­ se distinguem de Deus.
contrada também nas verdades contingentes ou 43. C verdadeiro também que Deus é a
factuais, ou seja, na série das coisas esparsas fonte não só das existências, mas também das
pelo universo das criaturas. essências enquanto reais, ou seja: é tombém a
Rqui a decomposição em razões parti­ fonte do real que está contido no possível.
culares poderia prosseguir indefinidamente O intelecto de Deus é, com efeito, a região
de detalhe em detalhe, por via do imensa das verdades eternas, ou seja, das idéias das
variedade das coisas naturais e da divisão quais tais verdades dependem. Sem o intelecto
dos corpos ao infinito. Há, com efeito, uma infi­ divino, portanto, nenhum real estaria contido
nidade de figuras e de movimentos presentes no possível, e não só nada existiria, mas nada
e passados que confluem na causa eficiente poderia jamais existir.
de meu escrever atual, 0 há uma infinidade de 44. Com efeito, se existe realidade nas
pequenas inclinações e disposições de minha essências - isto é, nos possíveis, ou ainda,
alma, presentes e passadas, que confluem na nas verdades eternos -, é igualmente neces­
causa final deste ato. sário que esta realidade se funda sobre algo
37. Ora, uma vez que todos estes deta­ existente e atual e, portanto, sobre a existência
lhes implicam unicamente outras contingências do Ser necessário, no qual a essência implica
anteriores ou entõo mais detalhadas - cada a existência.
uma das quais tem por sua vez necessidade Em outras palavras, ao Ser necessário é
de ser analisada para que delas se possa dar suficiente ser possível para existir em ato.
razão - , por esta via não se obtém de foto um 45. Rssim, apenas Deus, ou seja, o Ser
verdadeiro progresso. necessário, tem este privilégio: posto que seu
C necessário, portanto, que a razão sufi­ Ser seja possível, Cie não pode não existir.
ciente ou última esteja fora da concatenação Ora, isto já é suficiente para conhecer a
ou série de tais detalhes das contingências, por priori a existência de Deus; nada pode com
mais infinita que possa ser tal série. efeito impedir a possibilidade daquilo que não
Primeira parte - O O c a s io n a lis m o , S p in o za e Leibniz

comporta nenhuma limitação, nenhuma negação na criatura mais perfeita encontra-se a razão
e, por conseguinte, nenhuma contradição. suficiente, o fundamento a priori daquilo que
Demonstramos, portanto, o priori a exis­ acontece na mais imperfeita. € é este o sentido
tência de Deus mediante a realidade das ver­ em que se diz que uma age sobre a outra.
dades eternas. 51. Mas entre as substâncias simples a
Mas a demonstramos também a posteriori influência de uma mônada sobre outra é ape­
partindo da existência dos seres contingentes, nas ideal.
os quais podem com efeito ter sua razão último Csta influencia pode, com efeito, ter sua
ou suficiente apenas no Ser necessário, isto é, eficácia apenas mediante a intervenção de
no Ser que tem em si próprio a razão de suo Deus, enquanto nas idéias divinas cada mô-
existência. nada exige justamente que Deus, ao regular
46. Cmbora as verdades eternas depen­ as outras desde o início das coisas, a leve em
dam de Deus, não é preciso, todavia, crer que consideração.
elas sejam arbitrárias e que dependam de sua Com efeito, dado que uma mônada criada
Vontade [...]. não está em grau de influir fisicamente sobre o
Isso vale apenas para as verdades contin­ interior de outra, é apenas por esta via divina
gentes, cujo princípio é a conveniência, ou seja, que pode verificar-se a dependência de uma
a escolha do melhor. Não vale, ao contrário, em relação à outra.
para as verdades necessárias, que dependem 52. Por este motivo, portanto, as ações
unicamente do intelecto de Deus e constituem e as paixões entre as criaturas são recíprocas.
seu objeto interno. Deus, com efeito, pondo em confronto duas
47. Somente Deus, portanto, é a Uni­ substâncias simples, encontra em cada uma
dade primitiva, ou seja, a Substância simples motivos que o obrigam a adequá-la à outra.
originário. C, por conseguinte, aquilo que é ativo sob
Todas as mônadas criadas ou derivados certos aspectos, é passivo de outro ponto de vista:
são produções de tal Substância, e nascem, por o) é ativo à medida que aquilo que nele
assim dizer, em virtude de fulgurações instan­ se conhece distintamente serve para dar razão
tâneas e contínuas da Divindade - fulgurações daquilo que acontece em outro;
que encontram um limite na receptividade da b) é passivo à medida que a razão daqui Io
criatura, à qual é essencial o fato de ser limitada. que nele acontece se encontra naquilo que se
48. Cm Deus existe: conhece distintamente em outro.
a) a Potência, que é a fonte de tudo;
b) o Conhecimento, que contém as idéias
9. fl escolha divina
cada uma com seu detalhe;
do melhor dos mundos possíveis
c) a Vontade, que determina as mudanças,
ou produções, segundo o princípio do melhor. 53. Ora, uma vez que nas idéias de Deus
Isso corresponde àquilo que nas mônadas há uma infinidade de universos possíveis, e to­
criadas constitui, respectivamente, a) o sujeito davia um só deles pode existir, deve haver uma
ou base, b) a faculdade perceptiva e c) a fa­ razão suficiente que determine Deus a escolher
culdade apetitiva. um de preferência a outro.
Todavia, em Deus estes atributos são 54. € esta razão se pode encontrar apenas
absolutamente infinitos, isto é, perfeitos; ao na conveniência, isto é, no grau de perfeição im­
invés, nas mônadas criadas ou enteléquias [...] plicado por cada um destes mundos possíveis.
encontrom-se unicamente imitações [de tais atri­ Cada possível, com efeito, tem direito de
butos], em proporção ao grau de sua perfeição. pretender a existência em proporção à perfeição
que contém.
55. € esta é justamente a causa da exis­
8. Ação e paixão:
tência do melhor [dos mundos possíveis], que
as relações entre as mônadas
a Sabedoria de Deus lhe faz conhecer, sua
49. Dizemos justamente que a criatura Bondade lhe faz escolher e sua Potência lhe
age em seu exterior à medida que é perfeita, faz produzir.
e que sofre por parte de outra, à medida que
é imperfeita.
10. fl harmonia universal
Por isso, à mônada deve-se atribuir a
e a mônada como microcosmo
ação, enquanto tem percepções distintas, e a
paixão, enquanto tem percepções confusas. 56. Ora, esta ligação, esta adaptação de
50. C o maior grau de perfeição de uma todas as coisas criadas a cada uma e de cada
criatura em relação a uma outra consiste nisto: uma com todas, faz com que toda substância
Capítulo terceiro - Leitmiz & a me+afísica do pluralismo monadológico

simples tenho relações que exprimem todas os 11. fl organicidade dos viventes
outras e seja conseqüentemente um espelho e a relação entre alma e corpo
vivo perpétuo do universo.
57. C assim como uma mesma cidade, 61. € nisto os compostos se assemelham
se olhada de pontos de vista diferentes, apa­ aos simples.
rece sempre diversa e como que multiplicada Com efeito, uma vez gue tudo está pleno
prospectivamente, do mesmo modo, por via - o gue torna concatenada toda a matéria -, e
da multidão infinita das substâncias simples, uma vez que no pleno todo movimento produz
há como que outros universos diferentes, os um efeito sobre corpos distantes na proporção
quais todavia são apenas as perspectivas de de sua distância - motivo pelo qual todo corpo
um único universo segundo o diferente ponto não apenas sofre a ação dos corpos que o
de vista de cada mônada. tocam, ressentindo-se de algum modo de tudo
58. € desse modo que se obtém a máxima aquilo que o eles acontece, mas com isso res­
variedade possível com a suprema ordem pos­ sente-se também da ação dos outros corpos
sível: em outras palavras, este é o modo para que tocam os primeiros com os quais ele está
obter a máxima perfeição possível. em contato imediato - , daí resulta gue tal co­
59. Apenas esta hipótese (gue ouso dizer nexão das coisas está em grau de estender-se
já demonstrada) exprime, portanto, odeguada- a gualguer distância.
mente a grandeza de Deus. Todo corpo, portanto, ressente-se de tudo
6 é justamente isto gue Bayle2 reconheceu aguilo gue ocorre no universo, tanto gue Aguele
guando, em seu Dicionário, no verbete "Rora- que tudo vê pode ler em cada um deles aquilo
rius", levantou algumas objeções a tal hipótese, gue acontece em todo lugar, e também aguilo
e tendeu a crer gue eu concedesse demasiado a gue já aconteceu ou gue acontecerá, perscru-
Deus, mais do gue aguilo gue seja possível con­ tando no presente aguilo gue está distante,
ceder-lhe. Mas ele não pôde aduzir nenhuma tanto no tempo como no espaço [...].
razão para demonstrara impossibilidade desta Mas uma alma pode ler em si mesma
Harmonia universal, em virtude da gual toda apenas aguilo gue nela está representado
substância exprime exatamente todas as outros distintamente: a alma, com efeito, não poderia
mediante as relações gue tem com elas. desdobrar em apenas um momento todas as
60. No gue eu disse estão de resto evi­ suas dobras, porgue elas vão ao infinito.
dentes as razões a priori pelas guais as coisas 62. Assim, embora cada mônada criada
não poderiom caminhar diversamente [de como represente todo o universo, ela representa mais
os acabamos de descrever]. distintamente o corpo gue lhe é particularmente
Dissemos, com efeito, gue Deus, ao regu­ atribuído e do gual constitui a enteléguía; e
lamentar o todo, levou em consideração cada como este corpo exprime todo o universo em
parte singular e especialmente cada mônada: virtude da conexão de toda a matéria no Pleno,
gue a natureza desta última é representativa. também a alma, enguanto representa este seu
Por conseguinte, a mônada não poderio de corpo gue lhe pertence de modo particular,
modo nenhum ser circunscrita a representar representa todo o universo.
apenas uma parte das coisas. 63. O corpo gue pertence a uma mônada,
Todavia, esta representa ção é sem a gual é sua enteléguia ou alma, forma com
dúvida confusa em relação ao conjunto dos a enteléguia oguilo gue se pode chamar um
detalhes do universo, e pode distinguir apenas vivente, e com a alma aguilo gue chamamos
peguena parte das coisas, isto é, das coisas um onimol.
gue são ou mais vizinhas ou maiores em re­ Ora, tanto o corpo de um vivente quanto
lação a cada mônada: se houvesse apenas o de um animal é sempre orgânico: com efeito,
representações distintas, cada mônada seria uma vez que cada mônada é a seu modo um
uma Divindade. espelho do universo, e uma vez que o universo
As mônadas são, portanto, limitadas não regula-se segundo uma ordem perfeita, é ne­
no objeto, mas no modo de conhecer o objeto: cessário gue haja uma ordem também naguilo
elas tendem sim ao infinito, ao todo, mas con­ gue o representa, ou seja, nas percepções da
fusamente, exatamente porgue são limitadas alma e, por conseguinte, no corpo: é, com efei­
e diferenciadas conforme o grau de distinção to, em conformidade com seu corpo peculiar gue
das percepções. a alma representa o universo para si mesma.
64. Portanto, o corpo orgânico de todo
ser vivo é uma espécie de máguina divina, ou
2P ie rre B a y le ( 1 6 4 7 - 1 7 0 6 ) , c a lv in is ta , fo i o u to r d o de autômato natural, gue supera grandemente
c é le b re D ictionnoire historique e t critique. gualguer autômato artificial.
Primeira parte - O O casionalism o, S p in o za e Leibniz

Com efeito, uma máquina construída pela atribuída para sempre, e que, por conseguinte,
arte do homem não é máquina em cada uma possua outros seres vivos inferiores destinados
de suas partes: por exemplo, o dente de uma para sempre a seu serviço.
roda de latão apresenta partes ou fragmentos Mais que isso, todos os corpos estão em
que para nós não são mais algo de artificial e perpétuo fluxo, como rios, e continuamente
que, em relação ao uso a que a roda estava neles entram e saem partes.
destinada, não conservam mais nenhum traço 72. Portanto, a alma muda corpo apenas
mecânico. um pouco por vez e por graus, motivo pelo qual
R máquina da natureza, ao contrário, isto jamais se encontra repentinamente despida de
é, os corpos viventes, são sempre máquinas até todos os seus órgãos: nos animais há freqüen­
em suas partes mais diminutas, ao infinito. temente metamorfoses, mas não há jamais
€is, portanto, a diferença entre a natureza metempsicose ou transmigração de almas.
e a arte, ou seja, entre a arte divina e a arte Também não existem almas totalmente
humana. separadas, nem gênios sem corpo.
65. C o autor da natureza pôde pôr em Apenas Deus é absolutamente sem corpo.
prática tal artifício divino e infinitamente mara­ 73. Isto faz com que jamais haja geração
vilhoso, porque qualquer porção da matéria não absoluta, nem morte perfeita no sentido rigoro­
só é divisível ao infinito, como reconheceram os so do termo, isto é, entendida como separação
antigos, mas também é subdividida atualmente da alma em relação ao corpo.
ao infinito - cada parte sua em outros partes, O que chamamos de geração é desen­
cada uma das quais tem algum movimento volvimento e aumento, enquanto aquilo que
próprio - : de outro modo seria impossível chamamos de morte é involução e diminuição.
para cada porção da matéria exprimir todo o 74. Os filósofos sempre encontraram gra­
universo. ves dificuldades para explicar a origem das
66. Disso vemos que existe um mundo formas, enteléquias ou almas.
de criaturas - de seres vivos e de animais, de Hoje, porém, mediante pesquisas exatas
enteléquias e de almas - também na menor realizadas com plantas, insetos e animais, viu-se
porção da matéria. que os corpos orgânicos da natureza jamais se
67. Toda porção de matéria pode ser originam de um caos ou de uma putrefação, mas
concebida como um jardim cheio de plantas, sempre de germes nos quais jó havia certamen­
ou como um lago cheio de peixes. Mas cada te alguma pré-formação. Chegou-se, assim, à
ramo das plantas, cada membro do animal, conclusão de que já antes da concepção existia
cada gota de seus humores, é por sua vez tal não só o corpo orgânico, mas também uma alma
jardim ou tol lago. nesse corpo: em poucas palavras, existia já o
68. C embora a terra e o ar interpostos próprio animal. Rlém disso, concluiu-se que, em
entre as plantas do jardim, ou a água interposta virtude da concepção, esse animal foi apenas
entre os peixes do lago, não sejam nem plantas predisposto a uma grande transformação para
nem peixes, eles todavia contêm ainda outras se tornor um animal de espécie diversa.
plantas e outros peixes, mas na maioria das Rlgo de semelhante se pode observar
vezes de uma forma tão sutil que foge à nossa também fora da geração, por exemplo, quan­
percepção. do os vermes se transformam em moscas e as
69. De modo que não há nada de não crisálidas em borboletas.
cultivado, de estéril, de morto no universo. 75. Rlguns animais, mediante a concep­
C há caos e confusão apenas em aparên­ ção, são elevados ao grau dos animais maiores,
cia; quase como se, olhando de certa distância e podemos chamá-los de espermáticos.
em um lago, aí percebamos um movimento con­ Rqueles que, ao contrário, permanecem
fuso e, por assim dizer, um fervilhar de peixes, em sua espécie - e são a maior parte - nas­
sem que distingamos os próprios peixes. cem, se multiplicam e são destruídos do mesmo
70. Disso vemos que todo corpo vivente modo que os grandes animais, e apenas um
tem uma enteléquia dominante, que no animal pequeno número de eleitos passa para um
é a alma. Mas os membros deste corpo vivente teatro mais vasto.
estão cheios de outros seres vivos, plantas, 76. Todavia, esta era apenas a metade
animais, cada um dos quais tem por sua vez sua da verdade.
enteléquia, ou suo alma dominante. Pensei que se o animal jamais tem um
71. Todavia, não devemos, por isso, crer início natural, não pode haver sequer um fim
- como o fizeram olguns, mal-entendendo meu natural; e que não só jamais haverá geração,
pensamento - que toda alma tenha uma mas­ mas sequer destruição absoluta, nem morte
sa ou porção de matéria que lhe é própria ou entendida no sentido rigoroso do termo.
.
Cdpítulo .
te Y C e irO - Leibniz e a m etafísica do pluralismo
, .
m o n a d o fó g tc o
69
—...

Cstes raciocínios, feitos a posteriori 0 por fundo ao mesmo princípio segundo o qual
via 0 xp 0 rim0 ntal, concordam perfeitamente o início do animal e da alma coincide com o
com m©us princípios d 0 duzidos a priori 0 acima início do mundo, e seu fim coincide com o fim
expostos. do mundo.
77. Podomos, portanto, afirmar qu© não Nos animais racionais, todavia, há oste
som 0 nt 0 a alma ( 0 sp 0 lho de um universo particular: seus poquenos animais espermáti-
Índ0 strutív0 l) 0 ind 0 strutív0 l, mas também o cos, enquanto permanecem nesse estado, têm
próprio animal o 0 , embora sua máquina fre­ apenas almas comuns ou sensitivas, mas logo
qüentemente pereço em parto, 0 porca ou tome que os eleitos, por assim dizer, chegam à natu­
despojos orgânicos. reza humana mediante uma efetiva concepção,
suas almas sensitivas são elevadas ao grau da
razão e à prerrogativa dos espíritos.
12. f) harmonia preestabelecida
83. As diferenças já salientadas entre os
entre alma e corpo
animais comuns o os espíritos, acrescenta-se
78. Cstes princípios mo pormitiram explicar também esta:
naturalmente a união, ou melhor, o acordo da o) as almas em geral são espelhos viven­
alma 0 do corpo orgânico. tes ou imagens do universo das criaturas;
A alma 0 o corpo seguem com ©feito cada b) os espíritos, ao contrário, são também
um suas próprias lois, mas ambos concordam imagens viventes da própria Divindade, isto é,
om virtude da harmonia preestabelecida entre do autor da natureza: eles têm a capacidade
todas as substâncias, as quais na realidade de conhecer o sistema do universo e de imitar
são representações d 0 um único 0 mesmo algum aspecto dele com empresas arquitetô­
universo. nicas, uma vez que todo ospírito é como uma
79. As almas agem segundo as lois das pequena divindade em seu âmbito.
causas finais 0 mediante apetições, fins e 84. Justamente por isso os espíritos são
meios. Os corpos agem segundo as leis das capazes de entrar em uma espécie do socie-
causas oficiontes, isto é, dos movimontos. dado com Deus.
6 os dois reinos, o das causas oficiontes 0 Cm relação a eles, portanto, Deus age
o dos causas finais, estão om harmonia entr0 si. não simplesmonte como um inventor sobre sua
80. Descartes roconheceu que as almas máquina (e Dous opera assim sobre criaturas
não podem absolutamente imprimir força aos [não racionais]), mas também como um príncipe
corpos: na matéria, com efeito, a quantidade para com seus súditos e como um pai em relação
do força é sempre a mosma. a seus filhos.
Ge, porém, errou ao crer que a alma
estivesse em grau de mudar a direção dos
14. A Cidade de Deus
corpos.
Ora, esta sua convicção devia-se ao fato 85. Daqui, portanto, é fácil concluir quo o
de que em sou tempo não se conhecia om nada conjunto de todos os espíritos deve constituir
a lei natural: no matéria conservo-se também o a Cidade de Deus, isto é, o Cstado mais per­
mesma direção total. feito possível governado pelo monarca mais
Se Descartes tivesse conhecido tal lei, perfeito.
teria sem dúvida chegado ao meu sistema da 86. Csta Cidade de Deus, esta monarquia
harmonia proostobolecida. verdadeiramente universal, é um mundo moral
8 1 . 0 sistema da harmonia preestabele­ no mundo natural, e é a mais elevada 0 divino
cida faz com que: entre as obras do Deus.
a) os corpos ajam como se - por absurdo G neste mundo moral quo consiste verda­
- não existissem almas; deiramente a glória de Deus, a qual com efeito
b) as almas ajam como so não existissem não poderia existir se a grandeza e a bondade
corpos; divinas não fossem conhecidas e admiradas
c) a alma o o corpo ajam como se so pelos espíritos.
influenciassem mutuamente. Além disso, é om relação a esta cida­
de divina que Deus manifesta sua bondade,
enquanto suo sabedoria o sua potência se
13. Os espíritos ou almas racionais
mostram em todo lugar.
82. Passemos agora aos espíritos, ou 87. Ora, mais acima individuamos uma
almas racionais. perfeita harmonia entre os dois reinos do na­
Eu já disse que todos os soros viventes, tureza, um das causas eficientes e o outro das
compreendendo os animais, obedecem no causas finais.
Primeira parte - CD O casionalism o, S p in o za e L

Fl este ponto devemos pôr em relevo ain­ gue é impossível torná-la melhor do gue ela é.
da outra harmonia, a que existe entre o reino Ora, esta impossibilidade é tal não somente
físico da natureza e o reino moral da graça. Cm em relação ao todo em geral, mas também em
outros termos, se trata da harmonia entre Deus, relação o nós mesmos em particular.
considerado como arguiteto da máguina do Cstamos, com efeito, necessariamente
universo, e Deus, considerado como monarca ligados ao autor do todo não apenas como ao
da cidade divina dos espíritos. arguiteto e causa eficiente de nosso ser, mas
88. Cm virtude desta harmonia, aquilo que também como ao nosso senhor e causa final
leva à graça percorre os mesmos caminhos da gue deve constituir o escopo total de nossa
natureza. Por exemplo, este globo deverá ser vontade e do gual unicamente depende nossa
destruído e restaurado por vias naturais guando felicidade.
o exigir o governo dos espíritos, e isso acon­ G. LU. Leibniz, Monodologio.
tecerá para o castigo de uns e a recompensa
de outros.
89. Devemos, além disso, dizer gue Deus
como arguiteto agrada em tudo Deus como
legislador.
Portanto, os pecados, em base à ordem l') lw lAlojWfr ' e' ■
i K /t u jA jh iit f ' I fi* hry llfti' ^
natural e justamente em virtude da estrutura
ce|» * i‘« ./W
mecânica das coisas, devem acarretar consigo
filuí í£jr Ai’/it/
seu castigo; e, analogamente, as belas ações
atrairão suas recompensas por vias mecâni­ ■ Ti —[#
cas em relação aos corpos, embora isso não
possa nem devo acontecer sempre de modo Sm? v fr"*rSr«e*,uí/
■■•J- V 4. vfir'
imediato. ti. U » rfy * - -

90. Por fim, sob este governo perfeito


L
jamais haverá uma boa ação sem recompensa, ’ jU-lj w•'/ ffj
nem uma ação mó sem castigo. sy, tf** *•»(■*■*"•
; (4 * »V*
C tudo deve concluir no bem dos bons, l'
isto é, dagueles gue de modo nenhum estão
descontentes neste grande Cstado. Depois de
ter realizado o próprio dever, os bons se confiam
à Providência, e amam e imitam como convém
o autor de todo bem, comprazendo-se em con­
siderar as perfeições dele segundo a natureza
«. (.1* Y*«5,f“' V‘“"fi' '
do verdadeiro amor puro gue leva a alegrar-se
com a felicidade do amado. \7) i * r>J
C é justamente isso gue impele as pes­
soas sábias e virtuosas a prodigalizar-se em
direção daguilo gue se mostra conforme à
vontade divina presumível ou antecedente, in­
duzindo-as, todavia, a contentar-se com aguilo
gue Deus efetivamente faz acontecer com sua
vontade secreta, consegüente ou decisiva. Com
efeito, elas reconhecem gue, se pudéssemos
entender suficientemente a ordem do universo, Página au tog rafa d e L eibn iz so b re as “m ón adas
perceberíamos então gue tal ordem supera C onserva-se em H annover,
todos os desejos dos homens mais sábios e na N ied ersácbsiscbe L an d esb ib lio th ck.
HOBBES, LOCKE,
BERKELEY E HUME
■ Os desenvolvimentos
e os vértices do empirismo

“O fim da ciência é a potência (...). Toda especu­


lação, em suma, foi instituída por ação ou trabalho
concreto. ”
Thomas Hobbes

“A razão deve ser nosso juiz último


e nosso guia em cada coisa. ”
John Locke

“Sem o pensamento, o mundo é nec quid nec


quantum nec quale.”
George Berkeley

“A razão é — e deve ser — escrava das paixões,


e em nenhum caso pode reivindicar uma função
diferente da de servir e obedecer a elas. ”
David Hume
Capítulo quarto

T h o m as H obbes: o corporeísm o
e a teo ria do absolutism o político _______________________

Capítulo quinto

Jo h n L o ck e e a fund ação do em pirism o crítico __________

Capítulo sexto

G eorge Berkeley:
o im aterialism o em função de um a apologética renovada

Capítulo sétimo

David H um e e o epílogo irracion alista do em p irism o___


(Z -a p í tulo quarto

T k o m a s -H obbes:
o c o ^ p o ^ e í s m o e. a f e o n a
d o o b s o l u+ismo polí+ico

I. j A v id a e a s o b r a s

• Thomas Hobbes nasceu em Malmesbury, em 1588. Bem cedo aprendeu o


grego e o latim, e muitos de seus escritos (suas obras-primas) foram redigidos em
língua latina. Completando os estudos superiores em Oxford, a partir de 1608
torna-se preceptor entre os poderosos Cavendish, condes de De-
vonshire. Fez diversas viagens no continente (1610,1629 e 1634) os aspectos
e, de 1640 até 1651, durante a ditadura de Cromwell, viveu em mais importantes
exílio voluntário em Paris, onde, em 1646, foi até preceptor do da vida
futuro rei Carlos II. Morreu em 1679. de Hobbes
Entre suas obras são fundamentais: De eive (1642), De corpore -* § 1
(1655), De homine (1658), Leviatã (1651 em inglês, 1670 em latim).

1 A p re d ile ç ã o que publicou, com efeito, foi a tradução da


Guerra do Peloponeso, de Tucídides; uma
p e la s lín g u a s c l á s s i c a s
das últimas foi a tradução dos poemas de
foi u m a c o n s t a n t e Homero. Além disso, muitos de seus escri­
n a v i d a d e 'H o b b e s tos (suas obras-primas) foram redigidos em
latim, freqüentemente com estilo requinta­
do. O próprio Bacon, no fim de sua vida,
recorreu à ajuda de Hobbes para traduzir
Thomas Hobbes nasceu em Malmes­ algumas de suas obras para o latim.
bury, em 1588. A mãe deu-o à luz prematu­ Depois de ter concluído seus estudos
ramente, devido ao terror que lhe causou a superiores em O xford, a partir de 1608
notícia da chegada da “Invencível Armada”, to rn ou -se p receptor na poderosa casa
de modo que, em sua Autobiografia, brin­ dos Cavendish, condes de Devonshire, à
cando, ele afirma que sua mãe, junto com qual ficou longamente ligado. Também foi
ele, dera à luz como irmão gêmeo o medo. preceptor de Carlos Stuart (o futuro rei
Trata-se, porém, de uma observação que, Carlos II), em 1646, ou seja, no período
para além da brincadeira, constitui como em que a corte estava no exílio em Paris,
que um lampejo sobre a própria psique: pois Cromwell assumira poderes ditatoriais
sua teorização do absolutismo tem raízes em Londres.
sobretudo no terror pelas guerras que en­ Com a restauração dos Stuart, Hobbes
sangüentaram sua época. obteve uma pensão do rei Carlos II (de
Hobbes aprendeu muito cedo e bem o quem, como dissemos, fora preceptor), po­
grego e o latim, tanto que, ainda com quin­ dendo assim dedicar-se com tranqüilidade
ze anos incompletos, foi capaz de traduzir aos estudos. Os últimos anos de sua vida,
Medéia, de Eurípedes, do grego para o latim, porém, foram amargados pelas polêmicas
em versos. suscitadas por seu pensamento muito ousa­
Esse amor pelas línguas clássicas foi do e, sobretudo, pelas acusações de ateísmo
uma constante em Hobbes: a primeira obra e de heresia, das quais teve de se defender,
Segunda pavte - "Hobbes, L ock e, B e rk e le y e "Hume

enfrentando inclusive exigentes estudos Entre suas obras, as fundamentais são


sobre a jurisprudência inglesa relativa aos as Objectiones ad Cartesii meditationes
crimes de heresia. (1641), o De eive (1642), o De corpore
Morreu aos noventa e um anos, em (1655), o D ehom ine (1658), e, sobretudo, o
dezembro de 1679. Leviatã, publicado em 1651 em inglês e em
Hobbes transcorreu grande parte de 1670 em latim, em Amsterdam (foi sobre­
sua vida no continente europeu, especial­ tudo esta publicação latina que granjeou a
mente na França, que tanto amava. Fez sua Hobbes grande fama). Por fim, devemos re­
primeira viagem em 16 1 0 , à qual segui­ cordar as obras Sobre a liberdade e a neces­
ram-se outras duas, em 1629 e 1634. Esta sidade (1654), e Questões relativas à liber­
terceira viagem foi particularmente impor­ dade, à necessidade e ao movimento (1660).
tante, pois conheceu pessoalmente Galileu De suas últimas obras, devemos recordar
na Itália (embora já houvesse tido notícias uma história da Igreja em versos, intitulada
dele em sua primeira viagem) e Mersenne Historia ecclesiastica carmine elegiaco con-
na França, o qual o introduziu no círculo cinnata (publicada postumamente em 1688),
dos cartesianos. De 1640 a 1651 viveu em e uma autobiografia, Thomae Hobbesii vita
exílio voluntário em Paris. (publicada no mesmo ano de sua morte).

T h om as H o b b es I SSS-1671)!
p rocu rou aplicar
a ciência m oral c política
o>~ m éto d o s
íla geom etria euclidiana
e da ciência galileana.
R eprodu zim os aqu i
um qu ad ro d e /. M. Wright,
con serv ad o em Lon dres
na N ation al Portrait ( ,a lle n ’.
Capitulo quarto - TKomQS -Hobbes: o corporersmo e a teoria do absolu+ismo polí+ico

II. y \ c o n c e p ç ã o k o b b e s ia n a
d a filosofia e s u a d iv isã o

• Contrário a Aristóteles e à filosofia escolástica e, ao invés, aberto às in­


fluências do método euclidiano, do racionalismo cartesiano, do utilitarismo de
Bacon e sobretudo da física de Galileu, Thomas Hobbes mostrou a necessidade
de fundar uma nova ciência do Estado, filosofia civil, exatamente sobre o modelo
metodológico galileano, distinguindo claramente entre filosofia
e religião e Escrituras. A verdadeira
Conforme Hobbes, a verdadeira filosofia tem por objeto os filosofia
corpos, suas causas e suas propriedades, e tudo aquilo que não tem como
é corpóreo (Deus, a fé, a revelação, a história) é excluído da fi­ objeto os corpos,
losofia; e uma vez que existem três tipos de "corpos" - naturais suas causas
e suas
inanimados, naturais animados (como o homem), artificiais (como propriedades
o Estado) - , a filosofia deve tratar: a) do corpo em geral; b) do * § 1-2
homem; c) do cidadão.

1 n o v a i m a g e m d a filo so fia têmpera espiritual e (como já haviam feito


muitas páginas de Descartes e de Bacon)
sanciona o fim de uma época do filosofar e
Já nos referimos ao notável conhe­ o início de uma nova, que fecha as portas ao
cimento de línguas clássicas de Hobbes. pensamento antigo e medieval, sem possibi­
Entretanto, essas línguas serviram-lhe para lidades de apelo por muito tempo.
se aproximar de poetas e historiadores e não Em particular, Hobbes destaca o se­
para revisitar e meditar os filósofos antigos. guinte:
Tinha decidida aversão por Aristóteles e a) o grande mérito de Galileu;
mais ainda pela filosofia escolástica (que b) a necessidade de fundar uma nova
então era interpretada de modo inteiramente ciência do Estado com base no modelo
inadequado). galileano;
Entretanto, ficou entusiasmado pelos c ) a vacuidade e inconsistência da fi­
Elementos de Euclides, com sua rigorosíssi­ losofia grega;
ma construção dedutiva, que ele considerou d) a perniciosidade da mistura operada
modelo de método para o filosofar. pela filosofia veteromedieval cristã entre a
Também exerceram notável influência Bíblia e a filosofia platônica e especialmente
sobre Hobbes o racionalismo cartesiano, a aristotélica, que Hobbes considera uma
com suas instâncias derivadas da revolução traição da fé cristã;
científica, e Bacon, com sua concepção utili-
tarista do saber. Mas talvez a influência mais
poderosa tenha sido exercida por Galileu
com sua física, tanto que, em várias partes ■ Filosofia. É a ciência por exce­
da obra de Hobbes, fica evidente a intenção lência, entendida como ciência das
de ser o Galileu da filosofia, em especial o conseqüências, cujos objetos são os
Galileu da ciência política. Entendida como corpos, suas causas e suas proprieda­
des. A filosofia deve ser distinguida
estudo do movimento, a física não remon­
do conhecimento dos fatos e se divide
ta a antes de Galileu, diz expressamente em: filosofia natural, que considera
Hobbes, ao passo que a filosofia civil não as conseqüências dos acidentes dos
remonta a antes de sua própria obra De corpos naturais, e filosofia política,
eive (1642). que se òcupa das conseqüências dos
N a Carta dedicatória ao conde de acidentes dos corpos políticos.
Devonshire, que introduz o De corpore,
Hobbes expressa muito eficazmente a nova
Segunda pavte - "Hobbes, Lock e, S e rk e le y e -Hume

e) a necessidade de expulsar o monstro


metafísico (a “Empusa” metafísica, dizia ELEMENTORUM
Hobbes, recordando o antigo monstro que,
na entrada do inferno, assumia a cada vez PHII.OSOPHIiE
formas diferentes) e de distinguir a filosofia SHCTIO SECVNDA
da religião e das Escrituras.
Falávamos, acima, das influências de
Bacon. Com efeito, também Hobbes afirma HO M I N E.
que “o fim da ciência é a potência” . E preci­
sa que a filosofia é da máxima “utilidade”, A U T H O R E
uma vez que, aplicando as normas científicas THOMA HOBBES,
à moral e à política, ela poderá evitar as M a h i is b u n c iií i.

guerras civis e as calamidades e, portanto,


poderá garantir a paz. Trata-se, portanto, de
idéias que representam uma clara antítese
das que foram tornadas clássicas sobretudo
por Aristóteles, que, na Metafísica, escrevia
que a filosofia “não tende a realizar alguma
coisa”, e que nós não a procuramos “por
nenhuma vantagem que seja estranha a ela”, l.ONDINI,
T y p is T . C . fu m | > t i!> iis A a i t r . C r o n k s > & v a tn e u n i
mas por puro amor ao saber, isto é, por liib in fíg n i v ir id is D r ic o n is in O m e tin o
objetivos “contemplativos” . P a u lin o , i 6 <; 8 .
N...

2 :;; t r i p a H i ç a o d a | ilo S o | ia Frontispício da prim eira ed içã o d o De homine


(L on dres, 1658).

Com essas premissas, fica clara a nova


definição de filosofia: ela tem por objeto os
“corpos”, suas causas e suas propriedades. concebeu e elaborou sua célebre trilogia De
N ão se ocupa de Deus e da teologia, que corpore, De homine e De eive.
cabem à fé, nem daquilo que implica inspi­ A divisão da filosofia também pode se
ração ou revelação divina, nem se ocupa da articular do seguinte modo:
história, nem de tudo aquilo que não seja 1) ciência dos corpos naturais;
bem fundado ou conjectural. 2) ciência do corpo artificial, com o
Ora, como os corpos são a) naturais primeiro ramo subdividido como mostra o
inanimados, b) naturais animados (como esquema a seguir. Tudo aquilo que é essência
o homem) ou então c) artificiais (como o espiritual ou que não é corpóreo está excluí­
Estado), a filosofia, conseqüentemente, deve do da filosofia. Hobbes, inclusive, afirma
ser tripartida. drasticamente que aquele que deseja outra
Ela deve tratar: a) do corpo em geral, forma de filosofia que não esteja ligada à
b) do homem e c) do cidadão e do Estado. dimensão do corpóreo deverá procurá-la
Foi com base nessa tripartição que Hobbes em outros livros, não nos seus.
Cdpltulo q U Ü ftO - Tkom as ■Hobbes: o corpo reis mo e a teoria do absolutismo político

III. y \ ^lógica^
e o s pontos fu n d a m e n ta is
d o p e n s a m e n to d e "Hobbes

• Hobbes faz preceder a tratação dos corpos por uma "lógica" que retoma a
tradição do nominalismo da filosofia inglesa tardio-escolástica.
A lógica elabora as regras do correto modo de pensar, e os pensamentos são
fixados e suscitados por meio dos nomes, que são formados pelo arbítrio humano.
Uma vez que existem apenas indivíduos e conceitos de indivíduos,
os nomes comuns não indicam conceitos universais, mas são nomes A lógica elabora
de nomes que de fato não significam a natureza das coisas; por as regras do
isso tam bém a proposição, que é conexão de nomes, é fruto do pensamento
arbítrio daqueles que foram os primeiros a estabelecer os nomes, e ospensamentos
e a definição exprime não a "essência" da coisa (como queriam são 'ixados
Aristóteles e toda a lógica clássica e medieval), mas apenas o P°rmei°
"significado dos vocábulos". T
Raciocinar é, definitivamente, um reunir ou desunir nomes,
proposições e definições conforme as regras fixadas por conven­
ção: é um calcular, um computar, um somar e subtrair. Desse modo, o convencio­
nalismo hobbesiano torna vão o discurso sobre a objetividade, e todavia não se
funda sobre bases céticas, mas empíricas: todas as representações da mente humana
têm origem no sentido, e a causa do sentido é o corpo externo.

1 CDs “n o m e s ” Eis as afirmações significativas do nos­


so filósofo: “O nome é um som humano
sua gên ese
usado por arbítrio do homem para ser sinal
e s e u s\gr\\f\catdo com o qual se possa suscitar na mente um
pensamento semelhante a um pensamento
passado e que, disposto no discurso e pro­
Hobbes precede a abordagem dos cor­ ferido a outros, seja para eles sinal daquele
pos de uma “lógica” (em surpreendente pensamento que tenha ou não ocorrido
analogia com o esquema das filosofias hele- antes na própria pessoa que fala.” O fato
nísticas, que faziam a lógica preceder a física de que os nomes nasçam do arbítrio está
e a ética, com o, por exemplo, a filosofia provado pelo contínuo surgimento de novas
epicurista). Essa lógica retoma a tradição palavras e pela abolição das velhas.
nominalista da filosofia inglesa tardio-esco- H obbes fala de nomes “positivos”,
lástica, assumindo, porém, também alguns como, por exemplo, “homem” e “planta”, e
elementos de origem cartesiana. de nomes “negativos”, como, por exemplo,
A lógica elabora as regras do modo “não-homem” e “não-planta”. Os nomes
correto de pensar. M as, em um contexto positivos e os correspondentes negativos
nominalista como o de Hobbes, o interesse não podem ser atribuídos à mesma coisa
volta-se mais para o “nome” do que para o pensada em um mesmo tempo e a propósito
pensamento como tal. do mesmo dado. Essa é uma transformação
Com efeito, Hobbes diz que os pensa­ significativa do princípio da não-contradi-
mentos são fluidos e, sendo assim, devem ser ção em termos nominalistas.
fixados com “sinais” sensíveis, capazes de Os nomes comuns não indicam concei­
reconduzir à mente pensamentos passados, tos universais, porque só existem indivíduos
bem como “registrá-los” e “sistematizá-los” e conceitos (que, para Hobbes, nada mais
e, posteriormente, transmiti-los aos outros. são que imagens) de indivíduos, mas trata-
Foi assim que nasceram os “nomes”, que se apenas de nomes de nomes, não tendo
foram forjados pelo arbítrio humano. portanto referência à realidade e não signi­
Segunda parte - -Hobbes, L ock e, B e rk e le y e Hume

ficando a natureza das coisas, mas somente Essa concepção do raciocínio, entendi­
aquilo que nós pensamos dela. do como “compor”, “decompor” e “recom­
por” e baseado em semantemas ou sinais
lingüísticos, bem como o respectivo pano de
fundo convencionalístico, surpreendem pela
modernidade e pela ousadia extraordinária,
a s p ro p o siçõ e s já que contêm pressentimentos da cibernéti­
e o V a c io c in a r” ca contemporânea (pressentimentos, note-se
bem, mais do que antecipações).
c o m o «c all c ui l a" r
Essa concepção do raciocinar como
calcular, como decompor e recompor, ins­
pira-se além do mais também em Descartes,
A definição não expressa (como que­ mas com notáveis diferenças. Com efeito,
riam Aristóteles e toda a lógica clássica e Descartes partia de verdades primeiras,
medieval) a “essência” da coisa, mas sim­ que, em virtude de sua evidência intuitiva,
plesmente “o significado dos vocábulos” . tinham precisa garantia de objetividade, ao
D ar uma definição nada mais é do que passo que Hobbes se desloca para o plano do
“fornecer o significado do termo usado”. convencionalismo, esvaziando dessa forma
Portanto, as definições são arbitrárias, assim o discurso sobre a objetividade.
como o são os vocábulos.
Da conexão de nomes nasce a proposi­
ção, normalmente constituída por um nome
concreto que tem função de sujeito e por um
3 o e m p ir is m o k o b b e sia ia o
nome abstrato que tem função de predicado,
ambos ligados pela copulativa. Entretanto, para concluir este tema,
Assim como os nomes, também as pro­ devemos destacar que o nominalismo de
posições primeiras e os axiomas (que são Hobbes não se funda em bases céticas, mas
as proposições fundamentais) são fruto do muito mais empíricas, sensistas e fenomê-
arbítrio daqueles que foram os primeiros a nicas.
estabelecer os nomes ou a acolhê-los: “[...] Com efeito, por um lado, ele admite
por exemplo, é verdade que o hom em é que os nossos pensamentos (que são desig­
animal, já que se decidiu impor esses dois nados e expressos por nomes) são “repre­
nomes à mesma coisa”; as proposições pri­ sentações ou aparências” dos objetos que
meiras [...] nada mais são que definições, estão fora de nós, sendo em nós produzidos
ou partes de definição e somente elas são através da experiência dos sentidos. Hobbes
princípios de demonstração, isto é, verda­ diz textualmente: “A origem de todos [os
des estabelecidas pelo arbítrio daqueles que pensamentos] é aquilo que nós chamamos
falam e daqueles que escutam [ ...].” sentido (pois não há nenhuma concepção
Raciocinar é conectar (ou desconectar) da m ente hum ana que não tenha sido
nomes, definições e proposições em confor­ inicialmente, no todo ou em parte, gerada
midade com as regras, fixadas por conven­ pelos órgãos do sentido). O resto é derivado
ção. Diz Hobbes que raciocinar é “calcular” daquela origem” .
e “computar”, aliás, mais propriamente, é Ele chega a dizer que a causa do sentido
um somar e subtrair. “Por raciocínio enten­ é “o corpo externo ou objeto”.
do o cálculo. Calcular é colher a soma de Além disso, quando Hobbes diz que a
mais coisas, uma ligada à outra, ou conhecer definição não expressa a essência da coisa,
o restante, subtraída uma coisa à outra”. mas “aquilo que nós concebemos da essên­
Por exemplo: cia da coisa”, não enuncia uma negação
homem = animal + racional cética, e sim opera uma redução fenomênica
(só conhecemos da essência aquilo que dela
animal = homem - racional
nos aparece).
Hobbes não exclui que o raciocinar seja Em suma, ele caminha sobre uma linha
também um multiplicar e dividir; entretanto, que é típica do pensamento inglês e que se
a multiplicação é redutível à soma, ao passo imporia de modo sempre mais acentuado.
que a divisão é redutível à subtração.
Capítulo quarto - Tkom as ■Hobbes: o co^po^eísmo e a teoHa do absolw+ismo polí+ico

IV . (S o rp o re ísm o e m e ca n ic ism o

• A filosofia para Hobbes é, portanto, ciência dos "corpos" e de suas causas, e


em particular a posição hobbesiana é um corporeísmo mecanicista, porque tenta
explicar toda a realidade sobre a base de apenas dois elementos:
1) o corpo, entendido como aquilo que não depende de nosso pensamento;
2) o movimento local (matematicamente medido), que é a causa principal da
qual nascem todas as coisas naturais.
As qualidades das coisas são "fantasmas do senciente", A realidade
isto é, efeitos dos corpos e do movimento, elas próprias são mo­
explicada
sobre a base
vimentos; por conseguinte, tam bém os processos cognoscitivos e de dois
os sentimentos de prazer e de dor são movimentos e, definitiva­ elementos:
mente, nega-se a liberdade, porque os movimentos e os nexos o corpo
mecânicos que deles resultam são rigorosamente necessários. e o movimento
Nesse horizonte não há espaço para os valores morais: segundo local
Hobbes, com efeito, bens e males são relativos. -+§ 1-4

1 O s d o i s e le m e n t o s lo, podemos demonstrar que suas causas


podem ter sido estas ou aquelas.” E, como
q u e e x p lica m as coisas naturais nascem do movimento,
to d a a re a lid a d e : fica assim identificada a sua causa principal.
u n u ■ , n Naturalmente, não se trata do movi­
corpo e m o v im e n to
mento concebido aristotelicam ente, mas
sim do movimento quantitativamente de­
terminado, ou seja, medido matemática e
Dissemos que, para Hobbes, a filosofia geometricamente (o movimento galileano).
é ciência dos “corpos” e, podemos acrescen­ Assim, Hobbes tenta explicar toda
tar, mais precisamente, ciência das causas a realidade com base em apenas dois ele­
dos corpos. mentos:
Os modelos dessa ciência (como tam­
bém já vimos) são a geometria de Euclides
e a física de Galileu. Mas a diferença entre
geometria e física é notável.
As premissas da geometria são postu­
lados fixados por nós (postulados que nós ■ Corpo e movimento. São para
estabelecemos) e a “geração” das figuras é Hobbes os dois elementos fundamen­
produzida por nós mediante as linhas que tais de toda a realidade.
"Corpo" é tudo aquilo que não de­
traçamos, de modo que elas “dependem do pende do pensamento humano e que
nosso arbítrio”. Hobbes precisa: “Exata­ é causa das sensações, de que deriva
mente pelo fato de que somos nós mesmos enfim todo o conhecimento humano.
a criar as figuras é que há uma geometria e Há três tipos de "corpos":
que ela é demonstrável” . a) naturais inanimados;
Conhecemos perfeitamente aquilo que b) naturais animados (como o homem);
nós mesmos estabelecemos, fazemos e cons­ c) artificiais (como o Estado).
truímos (trata-se, aqui, de princípio que teria O "movimento" é a causa principal da
qual nascem necessariamente todos
ampla repercussão e que Vico imporia de os corpos naturais (neste caso ele é
modo sistemático). Mas já não podemos com movimento local, matematicamente
tanta certeza conhecer as coisas naturais, mensurável) e todos os processos
porque não somos nós que as construímos. cognitivos da mente humana.
E conclui Hobbes: “Entretanto, a partir das
próprias propriedades que vemos, deduzindo
as conseqüências até onde nos é dado fazê-
Scgundíl parte - -Hobbes,, Locke, B e rk e le y e Hlume

1) do corpo entendido como aquilo que gerado pelo sujeito sensível que, por seu tur­
não depende de nosso pensamento e que no, reage com outro movimento, do qual, pre­
“coincide e se co-estende com uma parte cisamente, surge a imagem ou representação.
do espaço” ; Também são “movimentos” os senti­
2) do movimento entendido do modo mentos de prazer e de dor, o apetite e o de­
que indicamos. sejo, o amor e o ódio, e até o próprio querer.
É esse o seu materialismo, ou melhor, Conseqüentem ente, Hobbes nega a
seu corporeísm o mecanicista, que tantas liberdade, pois os movimentos e os nexos
polêmicas suscitou em sua época. mecânicos que derivam são rigorosamente
necessários. Escreve ele no De corpore: “A
liberdade de querer ou não querer não é maior
y \s v á r ia s q u a lid a d e s
no homem do que nos outros seres animados.
Com efeito, o desejo foi precedido pela cau­
d a s co isa s sa própria do desejo e, por isso, o próprio
s ã o m o vim e n to s v a r i a d o s ato do desejo [...] não podia deixar de se­
guir-se, ou seja, segue-se necessariamente”.

Aliás, é verdade que, por vezes, Hobbes


parece apresentar seu “corporeísmo” quase 4 M o co rp o re ísm o
que como uma “hipótese” e não como um m e ca n icista k o b b e sian o
dogma. M as também é verdade que, na
maior parte dos seus textos, ele desenvolve n ã o k á IlAgat^ p a r a a l i b e r d a d e
essa sua concepção como tese sem reservas, e p a r a o s v a lo r e s a b so lu to s
tanto que tende a entender até Deus em ter­
mos corporeístas. O que não deixou de sus­
citar fortes objeções e acusações, das quais E evidente que, estabelecendo-se dado
se defendeu, entre outras coisas, chamando movimento como causa “antecedente”, daí
em causa o ilustre precedente de um Padre deve necessariamente brotar um movimento
da Igreja, ou seja, Tertuliano. “conseqüente”. A liberdade romperia esse
Assim, corpo e movimento local expli­ nexo e, por conseguinte, infringiria a lógica
cam todas as coisas. do corporeísm o e do mecanicismo. Nos
As qualidades são “fantasmas do sen­ horizontes do materialismo, não há espaço
sível”, ou seja, efeitos dos corpos e do para a liberdade.
movimento. Todas as chamadas qualidades Nesse horizonte, porém, não pode
sensíveis nada mais são que movimentos haver também espaço para o “bem” (e o
variados. E as alterações qualitativas e os “mal”) objetivo e, portanto, para os “valores
próprio processos de geração e corrupção morais”. Com efeito, para Hobbes, “bem” é
são reduzidos a movimento (local). aquilo a que tendemos e “mal” aquilo de que
fugimos. Mas, como alguns homens desejam
algumas coisas e outros não e como alguns
A li T am b ém fogem de algumas coisas e outros não, daí
o s p r o c e s s o s co g n itivo s
decorre que bens e males são relativos.
Não se pode dizer sequer de Deus que
e o s sen tim e n to s seja o bem em absoluto, porque “Deus é bom
~ H . , //
sexo m o vim e n to s para todos aqueles que invocam seu nome, mas
não para aqueles que blasfemam seu nome” .
Portanto, o bem é relativo à pessoa, ao
Conseqüentemente, também os proces­ local, ao tempo e às circunstâncias, como
sos cognoscitivos não podem ter outro tipo o sofista Protágoras já havia sustentado na
de explicação senão o mecanicista. Na ver­ antiguidade.
dade, em certos momentos, Hobbes parece M as, se o bem é relativo, não havendo
reconhecer aos fenômenos do conhecimento portanto valores absolutos, como é possível
certo estatuto privilegiado. construir uma moral e uma vida social?
Depois, contudo, ele deixa de lado essa Como é possível a convivência dos homens
ordem de considerações e passa a explicar a em uma sociedade? As duas obras-primas de
própria sensação com base no movimento, Hobbes, o De eive e o Leviatã, são dedicadas
mais precisamente com base no movimento precisamente à resposta a esses problemas.
Cãpltulo q U U rtO - TKom as ■Hobbes: o cof*poi*eísmo e a teoria do absolu+ismo político

---- V . y \ t e o ^ iz a ç ã o d o (E s ta d o absolu+is+a.
O ^ .L e v ia + ã ”

• Para Hobbes, na base da sociedade e do Estado há dois pressupostos:


1) o bem relativo originário, isto é, a vida e a sua conservação ("egoísmo");
2) a justiça, que é uma convenção estabelecida pelos homens e cognoscível
de modo perfeito e a priori ("convencionalismo").
Nesse sentido, a concepção política de Hobbes constitui "Egoísmo" e
a inversão mais radical da clássica posição aristotélica, segundo "convenciona­
lismo"
a qual o homem é um "animal político"; Hobbes considera ao
como base
contrário o homem como um átomo de egoísmo, razão pela qual do Estado
nenhum homem está ligado aos outros homens por consenso - § 7 - 2
espontâneo.

• A condição em que todos os homens naturalm ente se encontram é para


Hobbes a da guerra de todos contra todos (homo homini lupus); o homem arrisca-
se, deste modo, a perder o bem primário, que é a vida, e pode sair desta situação
fazendo apelo a dois elementos fundamentais:
a) o instinto de evitar a guerra contínua e de providenciar O nascimento
aquilo que é necessário para a subsistência; do Estado
b) a razão, no sentido do instrumento apto a satisfazer os e as "leis
instintos de fundo. de natureza"
Nascem assim as leis de natureza, que constituem na re­ — § 3-4
alidade a racionalização do egoísmo, as normas que permitem
realizar de modo racional o instinto da autoconservação. No Leviatã Hobbes elenca
19 leis naturais, das quais as mais importantes são as três primeiras:
1) procurar a paz e alcançá-la, defendendo-se com todos os meios possíveis;
2) renunciar ao direito sobre tudo, quando também os outros renunciam;
3) respeitar os pactos estipulados, isto é, ser justos.

• Para constituir a sociedade, todavia, além dessas leis, é preciso também um


poder que obrigue a respeitá-las: é preciso, portanto, que todos os homens depu­
tem um único homem (ou uma assembléia) a representá-los. Nasce assim o pacto
social, que é feito pelos súditos entre si, enquanto o soberano permanece fora do
pacto e é o único depositário dos direitos dos súditos. O poder do soberano (ou
da assembléia) é indiviso e absoluto: ele está acima da justiça,
pode intervir em matéria de opinião e de religião, concentra em O conceito
si todos os poderes. Trata-se da mais radical teorização do Estado de pacto social.
absolutista e, para designá-lo, Hobbes retoma a imagem do Le­ O Leviatã,
viatã, um monstro da Bíblia, mas emprega também a expressão isto é,
"deus m ortal", ao qual devemos a paz e a defesa de nossa vida: o Estado
o Estado absolutista é, portanto, metade monstro e metade deus absolutista
mortal. -§5-6

//
I
....
it *
o g o ism o 1) Em primeiro lugar, nosso filósofo
admite que, embora todos os bens sejam
e ^ c c m v e n c ic m a lisvno"
relativos, há, porém, entre eles um bem
primeiro e originário, que é a vida e sua
conservação (e, portanto, um mal primeiro,
Os pressupostos que constituem a base que é a morte).
da construção da sociedade e do Estado de 2) Em segundo lugar, ele nega que
Hobbes são fundamentalmente dois. existam uma justiça e uma injustiça na­
Segunda parte - flobb es; L-ock^y 3 erke.!ey e ■Hume

turais, já que, como vimos, não existem novidades, que constituem causas de discór­
“valores” absolutos. Hobbes sustenta que dias e guerras;
justiça e injustiça são fruto de “convenções” d) os animais não têm a palavra, que
estabelecidas por nós mesmos e que, por­ nos homens é freqüentemente uma “trom-
tanto, são cognoscíveis de modo perfeito e beta de guerra e de sedição”;
a priori, juntamente com tudo aquilo que e) os animais não se censuram uns aos
delas deriva. outros, ao passo que os homens sim;
1) “Egoísmo” e 2) “convencionalismo” f) nos animais o consenso é natural,
são os pontos cardeais da nova ciência políti­ enquanto nos homens não o é.
ca, que, segundo Hobbes, pode se desdobrar O Estado, portanto, não é natural, e
como sistema dedutivo perfeito, assim como sim artificial.
o da geometria euclidiana.

3 CD n a s c i m e n t o d o G -s t a d o
2 A p o lítica
n ã o tem um fu n d a m e n to
Por que e como nasce o Estado?
^ n a tu r a \" A condição em que os homens se en­
contram naturalmente é uma condição de
guerra de todos contra todos. Cada qual
Para compreender adequadamente a no­ tende a se apropriar de tudo aquilo de que
va concepção política de Hobbes é oportuno necessita para a sua própria sobrevivência e
recordar que ela constitui a mais radical sub­ conservação. E como cada qual tem direito
versão da clássica posição aristotélica. Com sobre tudo, não havendo limite imposto
efeito, o Estagirita sustentava que o homem pela natureza, nasce então a inevitável
é “animal político”, ou seja, é constituído predominância de uns sobre os outros. (E
de tal modo que, por sua própria natureza, nesse contexto que Hobbes usa a frase de
é feito para viver com os outros em socie­ Plauto hom o homini lupus, “o homem é
dade politicamente estruturada. Ademais, um lobo para o homem”, que, no entanto,
ele identificava essa condição de “animal não tem o significado de sinistro e radical
político” do homem com o estado próprio pessimismo moral que muitos nela viram,
também de outros animais, como as abelhas porque pretende ser pura constatação es­
e as formigas, que desejando e evitando as trutural, indicando uma situação à qual se
mesmas coisas e voltando suas ações para deve dar remédio).
fins comuns, se agregam espontaneamente. Nessa situação, o homem está arris­
Hobbes contesta vivamente a proposição cado a perder o bem primário, que é a vida,
aristotélica e a comparação. Para ele, cada ficando a cada instante exposto ao perigo de
homem é profundamente diferente dos ou­ morte violenta. Ademais, também não pode
tros homens e, portanto, deles separado (é dedicar-se a alguma atividade industrial ou
um átomo de egoísmo). com ercial, cu jos fru tos perm aneceriam
Portanto, cada homem não é de modo sempre incertos, nem pode cultivar as artes
nenhum ligado aos outros homens por um e tudo aquilo que é agradável — em suma,
consenso espontâneo como o dos animais, cada homem permanece só, com o terror de
que se baseia em um “apetite natural”, pelas perder a vida de modo violento.
seguintes razões: Mas o homem escapa dessa situação
a) em primeiro lugar, existem entre recorrendo a dois elementos básicos: a) a
os homens motivos de contendas que não alguns instintos; b) à razão.
existem entre os animais; a) Os instintos são o desejo de evitar
b) o bem de cada animal que vive em a guerra contínua, para salvar a vida, e a
sociedade não difere do bem comum, ao necessidade de conseguir aquilo que é ne­
passo que no homem o bem privado difere cessário para a sobrevivência.
do bem público; b) A razão, aqui, é entendida não tanto
c) os animais não percebem defeitos como valor em si, mas muito mais como
em sua sociedade, ao passo que o homem instrumento capaz de realizar aqueles de­
os percebe, querendo introduzir contínuas sejos de fundo.
Cãpítiilo quarto - TTkomas -Hobbes: o co^po^eísmo e a +eona do absolu+ismo polí+ico

4 ; A s "leis d e n a t w ^ e z a ” a abdicar desse direito a todas as coisas, e


que se contente em ter tanta liberdade contra
os outros homens quanta ele concederia aos
Desse modo, nascem as “leis de nature­ outros homens contra si”. Essa, comenta o
za”, que nada mais são do que a racionali­ nosso filósofo, “é a lei do Evangelho: tudo
zação do egoísmo, as normas que permitem aquilo que exiges que os outros te façam,
concretizar o instinto de autoconservação. faze-o a eles. Essa é a lei de todos os homens:
Escreve Hobbes: “Uma lei de natureza (lex quod tibi fieri non vis, alteri ne feceris”.
naturalis) é um preceito ou regra geral, 3) A terceira lei impõe, uma vez que se
descoberta pela razão, que veta ao homem tenha renunciado ao direito a tudo, “que se
fazer aquilo que é lesivo à sua vida ou que
cumpram os acordos feitos ”. E daí nascem
lhe tolhe os meios para preservá-la, e omitir a justiça e a injustiça (justiça é manter os
aquilo com que ele pensa que sua vida possa acordos feitos, injustiça é transgredi-los).
ser mais bem preservada” . A essas três leis básicas seguem-se ou­
Habitualmente, recordam-se as primei­ tras dezesseis, que resumimos brevemente
ras três, que são as principais. M as, no Le­ a seguir:
viatã, Hobbes relaciona dezenove. O modo 4) A quarta lei prescreve que se resti-
como ele as propõe e deduz dá idéia perfeita tuam os benefícios recebidos, de modo que
de como se serviu do método geométrico os outros não se arrependam de tê-los feito.
aplicado à ética e de como pretendia, sob Daí nascem a gratidão e a ingratidão.
5) A quinta prescreve que cada homem
essa nova roupagem, reintroduzir os valores
morais que havia excluído, sem os quais não deve tender a se adaptar aos outros. Daí
se pode construir nenhuma sociedade. nascem a sociabilidade e seu contrário.
1) A regra primeira e fundamental orde­ 6) A sexta lei prescreve que, quando se
na que o homem se esforce por buscar a paz. tiver as devidas garantias, deve-se perdoar
2) A segunda regra impõe que se re­ aqueles que, arrependendo-se, o desejem.
nuncie ao direito sobre tudo, ou seja, àquele 7) A sétima prescreve que, nas vingan­
direito que se tem no estado natural, que é ças (ou punições), não se deve olhar para o
precisamente o direito que desencadeia todas
mal passado recebido, mas sim para o bem
as contendas. A regra, portanto, prescreve futuro. A não-observância desta lei dá lugar
“que um homem, quando os outros tam­ à crueldade.
bém estiverem, esteja disposto, se o julgar 8) A oitava lei prescreve que não se
necessário para a sua própria paz e defesa, deve declarar ódio ou desprezo pelos outros
com palavras, gestos ou atos. A infração a
essa lei chama-se “injúria”.
9) A nona lei prescreve que cada ho­
mem deve reconhecer o outro com o igual
a si por natureza. A infração a essa lei é o
orgulho.
■ Estado. Além de todo poder co­ 10) A décima lei prescreve que ninguém
mum que os mantenha em sujeição, deve pretender que seja reservado para si
os homens se encontram na condição qualquer direito que não lhe agradaria que
da guerra de todos contra todos.
Para Hobbes, o único caminho para
fosse reservado a outro homem. Daí nascem
erigir um poder comum é aquele por a modéstia e a arrogância.
meio do qual os homens conferem 11) A décima primeira lei prescreve a
todos os seus poderes e toda a sua quem é confiada a função de julgar entre um
força a um homem ou a uma assem­ homem e outro que se comporte com eqüi­
bléia de homens, em grau de reduzir dade entre os dois. Daí nascem a eqüidade
todas as vontades deles a uma só e a parcialidade.
vontade. As oito leis restantes prescrevem o uso
Se uma multidão de homens se une
comum das coisas indivisíveis, a regra de
deste modo, nasce o Estado, "o gran­
de Leviatã, ou deus mortal, ao qual confiar à sorte (natural ou estabelecida por
devemos, sob o Deus imortal, nossa convenção) a fruição dos bens indivisíveis,
paz e nossa defesa". o salvo-conduto para os mediadores da paz,
a arbitragem, as condições de idoneidade
para julgar com eqüidade e a validade dos
testemunhos. [2 ]
Segunda pãfte - -Hobbes,, .Locke,, 3 erke!ey e H ume

5 CD “ p a c t o s o c i a l '” 6 CD “. L e v i a t ã ”
e a teo riz a çã o
d o a b s o lu + is m o Na Bíblia, o livro de Jó (caps. 40-41)
descreve o “Leviatã” (que, literalmente,
significa “crocodilo” ) como monstro in­
Entretanto, em si mesmas, essas leis vencível. Hobbes adota o nome “Leviatã”
não bastam para constituir a sociedade, já para designar o Estado e também como
que também é preciso um poder que obrigue título simbólico da obra que sintetiza todo
os homens a respeitá-las: “ sem a espada o seu pensamento. M as, ao mesmo tempo,
que lhes imponha o respeito”, os acordos ele também o designa como “deus m ortal”,
não servem para atingir o objetivo a que se porque a ele (abaixo do Deus imortal) deve­
propõem. Por conseguinte, segundo Hobbes, mos a paz e a defesa de nossa vida.
é preciso que todos os homens deleguem a Mas a dupla denominação é extrema­
um único homem (ou a uma assembléia) o mente significativa: o Estado absolutista por
poder de representá-los. ele concebido é verdadeiramente metade
Mas note-se bem um pormenor: esse monstro e metade deus mortal.
“pacto social” não é firmado pelos súditos Hobbes foi acusado de ter escrito o
com o soberano, mas sim pelos súditos entre L eviatã para granjear as sim patias de
si. (Totalmente diferente seria o pacto social Cromwell, legitimando teoricamente sua
de que falará Rousseau). O soberano perma­ ditadura, para poder assim voltar a sua
nece fora do pacto , restando como o único pátria. M as essa acusação é largamente
depositário das renúncias dos direitos dos infundada, porque as raízes da construção
súditos e, portanto, único a manter todos os política do nosso filósofo estão nas mesmas
direitos originários. Se também o soberano premissas do corporeísmo ontológico, que
entrasse no acordo, não se eliminariam as nega a dimensão espiritual e, portanto, a
guerras civis, porque nasceriam contrastes liberdade e os valores morais objetivos e
diversos na gestão do poder. O poder do absolutos, bem como no seu “convencio­
soberano (ou da assembléia) é indivisível e nalismo” lógico.
absoluto. Essa é a mais radical teorização do Hobbes também foi acusado de ateís­
Estado absolutista, deduzida não do “direito mo. Mas certamente não era ateu. Metade
divino” (como ocorrera no passado), e sim do seu Leviatã se ocupa de temas nos quais
do “pacto social” que descrevemos. a religião e o cristianismo estão em primei­
Como o soberano não participa do ro plano. No entanto, é verdade que sua
pacto, uma vez recebidos em suas mãos posição corporeísta, contra suas próprias
todos os direitos dos cidadãos, ele os de­ intenções e afirmações, se levada às extremas
tém irrevogavelmente. Ele está acima da conseqüências, acabava por levar à negação
justiça (porque a terceira regra, como as de Deus ou, pelo menos, tornar sua existên­
outras, vale para os cidadãos, mas não para cia problemática.
o soberano). Ele também pode interferir O ponto culminante das várias dificul­
em matéria de opiniões, julgar, aprovar ou dades do pensamento de Hobbes consiste
proibir determinadas idéias. Todos os po­ em ter tomado a ciência (geometria e física)
deres devem se concentrar em suas mãos. como modelo a ser imitado em filosofia.
A própria Igreja deve-se sujeitar a ele. O Acontece que os métodos das ciências ma­
Estado, portanto, também pode interferir temáticas e naturais não podem ser transfe­
em matéria de religião. E, como Hobbes crê ridos para a filosofia sem provocar drásticas
na revelação divina e, portanto, na Bíblia, reduções, que geram uma série de aporias
o Estado que ele concebe, em sua opinião, indesejáveis, como, em parte, já havia ocor­
também deverá ser árbitro em matéria de rido com Descartes, e como acontecerá com
interpretação das Escrituras e de dogmática Kant de modo paradigmático.
religiosa, impedindo dessa forma todo mo­ Contudo, é precisamente essa a marca
tivo de discórdia. que caracteriza grande parte da filosofia
O absolutismo desse Estado é verda­ moderna, por influência da revolução cien­
deiramente total. tífica galileana. [3]
Cãpítlilo GfUãTtO - Tkom as -Hobbes: o corpoi^eísmo e a teoria do absolu+ismo polí+ico
85

HOBBES
O CORPOREÍSMO MECANICISTA

[ OS FU N D A M EN TO S DF. TODA A REA LIDA D E SÂO j

X M ovimento : C orporeidade:
a causa da qual nascem / tudo aquilo que não depende
necessariamente \ / do pensamento humano
todos os corpos naturais / / e que é causa das sensações,
e todos os processos cognitivos i de que deriva enfim todo conhecimento humano.
. da mente humana \ Há três tipos de corpo:
\ 1. corpo natural inanimado
: 2. corpo natural anim ado
3. corpo artificial

O SISTEMA DA CIÊNCIA E A CIÊNCIA DO ESTADO

o corpo
Filosofia natural, em geral
C iên cia : que tem como objetos
conhecimento
de conseqüências * o homem

F ilo so fia ,
como conhecimento o corpo artificial:
dos corpos, Filosofia política, —► o Estado,
de suas causas que tem como objeto que tem dois pressupostos
e de suas propriedades; ■ \
serve-se da

a vida a justiça,
e sua conservação, convenção humana:
instinto de evitar leis naturais que permitem
a guerra contra todos realizar racionalmente
(“Egoísmo” ) o instinto de autoconservação/
Convencionalismo ”
L ó g ic a :
ciência do correto
raciocinar,
que consiste
Pacto social, com o qual todos os homens deputam
em calcular
um único homem ou uma assembléia para representá-
(somar e subtrair)
los com poder indiviso e absoluto (“Absolutismo” )
nomes, proposições e definições
segundo as regras
________________ ;______
convencionais
‘Nominalismo ' L e v ia t ã ,

deus m ortal ao qual os homens


devem sua paz e sua defesa
S e g U T ld c i p ã V t e - ■Hobbes/ .Locke,, S e rk e le y e ■Hume

De que modo, depois, nós, com a mente,


sem palavras, com tácita reflexão raciocinando,
H obbes estamos acostumados a adicionar e subtrair,
devemos mostrar com um ou dois exemplos.
Se alguém, portanto, de longe, vê algo obscu­
ramente, mesmo que não tenha sido imposto
D O "raciocinor" é "calcular" nenhum vocábulo, tem todavia daquela coisa a
mesma idéia pela qual, impondo agora nomes,
diz que tal coisa é um corpo. Quando a coisa
Nesta passagem, tirado do De corpore está próxima e ele de certo modo a vê ora em
(1655), Hobbes expõe a famosa identifica­ um lugar ora em outro, terá dela uma idéia
ção do raciocínio com o cálculo, isto é, com nova, pela qual agora chama esta coisa de
somar e subtrair. animada. Por último, quando, encontrando-se na
Cm outra ocasião Hobbes rejeitou que proximidade da coisa, vê sua figura, ouve sua
"em qualquer matéria em que há lugar para voz e capta as outras coisas que são os sinais
a adição 0 a subtração, aí há também lugar de uma mente racional, forma-se uma terceira
para a razão; 0 onde estas não encontram idéia, mesmo que até então não tenha havido
lugar, aí a razão não tem nada a fazer. [...] um nome dela, a mesma, isto é, pela qual dize­
Com efeito, a razão, neste sentido, 0 tão mos que algo é racional. Finalmente, quando,
somente o cálculo (isto é, a adição e a sub­ vendo a coisa completamente e distintamente, a
tração) das conseqüências dos nomes gerais concebe em sua totalidade como una, sua idéia
sobre os quais há acordo paro determinar 0 é composta das precedentes, e a mente compõe
significar nossos pensamentos". as idéias anteriormente ditas na mesma ordem
em que no discurso estes nomes singulares
— corpo, animal, racional — são compostos
em um único nome: corpo animado racional ou
Filosofia é o conhecimento adquirido homem. Da mesma formo, a partir dos conceitos
através do reto raciocínio dos efeitos ou fe ­ de quadrilátero, eqüilátero, retângulo compõe-
nômenos sobre a base da concepção de suas se o conceito de quadrado. Com efeito, a mente
causas ou gerações, e ainda das gerações que pode conceber o quadrilátero sem o conceito
podem existir, sobre a base do conhecimento de eqüilátero e o eqüilátero sem o conceito de
dos efeitos. retângulo, e pode reunir estes conceitos singu­
Para compreender esta definição, é pre­ lares em um único conceito, ou em uma única
ciso considerar em primeiro lugar que não são idéia, a do quadrado. C claro, portanto, de que
filosofia nem a sensação nem a memória das modo a mente compõe os conceitos, flinda:
coisas, que são comuns ao homem e aos ani­ se alguém vê um homem que está perto, dele
mais: são conhecimento, sim, mas não filosofia, concebe uma idéia total; se, ao contrário, o se­
porque são dadas imediatamente pela nature­ gue apenas com os olhos, enquanto se afasta,
za, e não adquiridas com o raciocínio. perderá a idéia daqueles traços característicos
Cm segundo lugar, não sendo a experiên­ que eram os sinais da razão, enquanto a idéia
cia mais que memória e não sendo a prudência de animado permanecerá ainda diante de seus
ou prospectiva para o futuro mais que uma olhos, de modo que da idéia total de homem,
expectativa de coisas semelhantes às que já isto é, de corpo animado racional, é subtraída a
experimentamos, nem mesmo a prudência deve idéia racional e permanece a de corpo animado;
ser considerada como filosofia. a seguir, pouco depois, pela maior distância,
Por raciocínio entendo, depois, o cálculo. perder-se-á a idéia de animado, permanecerá
Calcular é captar a soma de mais coisas uma apenas a idéia de corpo e, por fim, pela distân­
acrescentada à outra, ou conhecer o resto, cia, não pode mais ser visto e a idéia em sua
subtraindo uma coisa de outra. Raciocinar, totalidade se desvanecerá dos olhos.
portanto, é a mesma coisa que adicionar e Não se deve, portanto, pensar que o
subtrair; e, se alguém quisesse acrescentar a cálculo, istoé, o raciocínio, tenha lugar apenas
isso o multiplicar e o dividir, eu não teria nada com os números, como se o homem se distin-
em contrário, pois a multiplicação não é mais guisse dos outros animais (o que contam que
que a adição de termos iguais e a divisão a Pitágoras pensava) unicamente pela faculdade
subtração de termos iguais tantas vezes quanto de numerar. Com efeito, podemos acrescentar e
é possível. Todo raciocínio se resolve, portanto, subtrair também uma grandeza a uma grande­
nestas duas operações da mente: a adição e za, um corpo a um corpo, um movimento a um
a subtração. movimento, um tempo a um tempo, um grau de
. 87
Cdpítulo quarto X K o m a s - H o b b e s : o c o e p o f e í s m o e a t e o r i a d o a b s o l u t is m o p o lít ic o ------

q u alid ad e a um grau d ® qualidade, uma açã o lex, direito e lei, e ste s devem ser distintos: uma
a uma ação, um conceito a um conceito, uma vez gu e o direito consiste na liberdade d e fazer
proporção a uma proporção, um discurso o um ou d e obster-se, enguanto a lei determina e
discurso, um nome a um nome: e nisso consiste impõe uma d e s s a s coisas, d e modo gu e a lei e
todo tipo d e filosofia. o direito diferem tanto guanto a obrigação e a
T. Hobbes, liberdade gue, em uma e mesma matéria, são
O corpo, em Elementi di Filosofia. inconsistentes.
II corpo. Luomo.
2. fl primeira lei de natureza ordena
"procurar a paz"
£ uma vez gu e a condição do homem [...]
2 fls primeiros é uma condição d e guerra d e cada um contra o
outro, e n este caso cada um é governado pela
três leis de natureza própria razão, e não há nada, gu e e le possa
usar, gu e não lhe se ja d e auxílio, no preservar
sua vida contra o s inimigos, daí se g u e -se gue,
fís dezenove "leis de natureza" de que em tal condição, cada homem tem direito sobre
Fola Hobbes nos caps. 14-15 do Leviatã s ã o cada coisa, também sobre o corpo um do outro.
normas racionais gerais que se reFerem to­ Por isso, a té guando dura e ste direito d e na­
dos ò autoconservação do homem, isto é, o tureza d e cada homem sobre todas a s coisas,
"egoísmo", que é um dos dois pressupostos não p o d e haver segurança para ninguém - por
hobbesianos da Formação do sociedade e do mais forte e sáb io gu e e le s e ja - d e viver por
Estado. Em tais leis se concretiza, portanto, o todo o tempo gu e a natureza ordinariamente
outro pressuposto da vida política do homem, atribui à vida. E, por conseguinte, é um preceito
ou seja, o "convencionalismo". ou regra geral d a razão gu e cada homem d eve
fí passagem que apresentamos reFere-
se às primeiras três "leis naturais", que são
também as mais importantes.
T H O M i h o b b e s

Malmesburicnfis
1. fl lei de natureza
é um "preceito ou uma regra geral O P E R A
extraída da razão”
O direito d e natureza, que os escritores
p h i l o s o p h i c a ,
comumente chamam d e jus naturale, é a liber­ Q ux Latinl: fcripfit,
d ad e, que cada homem tem, d e usar seu poder,
como e le quiser, para preservar sua natureza,
isto é, sua vida, e d ® fazer por isso qualquer
o M N i a.
coisa, conforme seu juízo e sua razão, crendo A n t e q u i d c m p e r p a r t e s , n u n c a u t e m , p o f t c o g m u i o m iu m n

q u e se ja o meio mais a d eq u a d o a tal escopo. O b jc c Jio n c s , c o n ju n ílim òc a c c u r a t iu s E d i t a .

Por lib erd ad e entendem os, seg u n d o o


mais próprio significado d a palavra, a falta d e
impedimentos externos; tais impedimentos p o ­
dem tolher uma parte do poder d e um homem
d e fazer aguilo g u e e le d e seja ria , m as não
podem impedi-lo d e usor o poder, gu e lhe é
deixad o, conforme seu juízo e suo razão lhe
ditarem.
Uma lei d e natureza - lex naturalis - é
um preceito ou uma regra geral, extraída da
A M S T 1 O D A M I ,
razão, motivo pelo gual a um homem im pede-se L

Apud I O A N N E M B L A E V ,
fozer aguilo gu e destruiria sua vida ou tolher os
modos para preservá-la, e d e omitir aguilo com M D C L X V I I I.

gu e e le p e n sa gu e estaria melhor conservada.


Cmbora com efeito a g u e le s, os gu a is falam 9 ron tispício da Opera omnia d e T bom as H obbes,
sobre e ste assunto, costumem confundir jus e p u b licad a em A m sterdam em 1688.
Segunda patte - Hobbes, Locke, BeW<eley e -Nume

procurar a paz o tanto quanto ele tem esperança homens a todos os coisas, estaríamos ainda no
de obtê-la e, quando não pode obtê-la, deve estado de guerra. Nesta lei de natureza está a
procurar e usar todos os meios e vantagens da primeira fonte da justiça. Com efeito, onde não
guerra. R primeira parte desta regra contém a há um pacto precedente, não há nenhum direito
primeira 0 fundarrontal loi de natureza, que é: a ser transferido, e cada um tem direito sobre
procurar a paz 0 alcançá-la; a sagunda parta toda coisa, e por conseguinte nenhuma ação
contém o sumo dos direitos de natureza, que podo ser injusta. Mas, quando se concluiu um
é: defender-s© com todos os meios possíveis. pacto o injusto está em rompê-lo, e a definição
de injustiça nõo é mais que o não cumprir um
pacto. C aquilo, que não é injusto, é justo.
3. A segunda lei de natureza impõe renunciar
"ao direito sobre todas as coisas" T. Hobbes, Leviatã.

Da I0 Í fundamantal de natureza, com a


qual ordena-se aos homens procurar a paz,
deriva esto segunda lei, que um homem vo­
luntariamente, quando outros o fazem, e por
quanto crer necessário para a paz e para sua Origem
defesa, renuncie ao seu direito sobre todas as
coisas, e esteja satisfeito de ter tanta liberdade
e definição do €stado
contra os outros homens, quanto é concedida
a outros homens contra ele; pois até quando Uma vez que, segundo Hobbes, o estado
todo homem conserva este direito, de fazer de natureza é a condição na qual todos es­
aquilo que lhe parece, todos os homens perma­ tão em guerra contra todos, o homem pode
necem em estado de guerra. Mas se os outros garantir-se uma eficaz 0 estável defesa da
homens não deixarem seu direito, como ele, própria vida apenas passando ao Estado
então não há razão para que somente ele civil, dentro do qual d 0ve alienar nos mãos
se despoje desse direito; pois seria expor-se de uma autoridade (um sob 0rano ou uma
como p r e s a - ao que ninguém está obriga­ assembléia) em primeiro lugar o próprio
do -, mais do que um dispor-se à paz. E esta direito sobre todas as coisas.
é a lei do Cvangelho: fazei aos outros aquilo Nasce assim o "poeto social" sobre o
que gostaríeis que os outros fizessem a vós, e qual se constrói o Estado, "o grande Le­
a lei para todos os homens: quod tibi fieri non viatã, ou deus mortal", ao qual os homens
vis, a/teri ne feceris. devem, abaixo do Deus imortal, sua paz e
Deixar o direito sobre alguma coisa signi­ sua d 0F0sa.
fica, para um homem, desvestir-se da liberdade
de tirar de outro o benefício de seu direito sobre
a mesma coisa. Com efeito, aquele que renuncia
1. O escopo dos homens
ou abandona seu direito, não cede a outro um
é a defesa de sua vida
direito que ele antes não tinha, pois não há
nada a que todo homem não tenha direito por R causa final, o fim ou escopo dos homens
natureza; mas apenas se obstina na opinião - os quais por sua natureza amam a liberdade
que possa fruir de seu direito original, sem obs­ e o domínio sobre os outros -, ao estabelecer
táculo de sua porte nem da parte de outros. De uma sujeição sobre eles - como os vemos viver
modo que o efeito, que redunda a um homem no Gstado -, é a previsão da própria conser­
do abandono de um direito em outro, não é que vação e de uma vida mais satisfeita, isto é, o
uma grande diminuição de impedimentos paro desejo de sair da miserável condição de guerra,
usar o próprio direito original. que é a conseqüência necessária - conforme
mostramos - das paixões naturais dos homens,
quando não há um poder visível, para colocar-
4. A terceira lei de natureza prescreve
lhes um freio, 0 para obrigá-los, com o temor
"manter os pactos"
da punição, a manter seus pactos e observar as
Da lei de natureza, pela qual somos obri­ leis de natureza, das quais tratamos no décimo
gados a transferir em outro os direitos que, quarto e no décimo quinto capítulos.
mantidos, impediriam a paz do gênero humano, Uma vez que as leis de natureza - como a
deriva uma terceira lei: que os homens devem justiça, a eqüidade, a modéstia, a piedade, e
manter os pactos que fizeram, de outro forma finalmente o fazer aos outros aquilo que dese­
os pactos seriam vãos 0 não mais que palavras jaríamos que fosse feito a nós - em si mesmas,
vazias 0 , p 0 rman0 cendo o direito de todos os sem o terror de um poder qualquer que as faça
, 89
Capítulo quarto - TK o r n a s " H o b b e s : o c o r p o r e í s m o e a t e o r i a d o a b s o l u t is m o p o lít ic o

alargam os próprios domínios para a própria

A segurança, sob todos os pretextos de dano,


de temor de invasão, de auxílio aprestado a
invasores; e tentam, o quanto podem, subjugar
e enfraquecer seus vizinhos com a força aberta
M i n u t e o r íirs l D ra u g Jit e com as artes secretas, e justamente, pois
o f th e carecem de outras garantias; e são lembrados
com honras nas eras seguintes por tais empre­
endimentos.
O P T IQ L lE S Nem a aliança de um pequeno número
de homens dá a eles esta segurança, pois em
In twoparfs pequeno número pequenos aumentos de um
lado ou de outro fazem a vantagem da força
tão grande, que é suficiente para conseguir
/- tt íiire t i r f H lu m in a lio ii vitória, e por isso dá encorajamento à invasão.
^ U c c o n c l M V V t f .o n R quantidade de homens suficiente para confiar
na própria segurança não é determinada por
certo número, mas pelo confronto com o inimigo,
ky que tememos, e então é suficiente quando a
disparidade com o inimigo não é tão visível e
grande que torne evidente o sucesso da guerra,
de modo que ele se mova a tentá-lo.
m a ju io t C também se, porventura, o número
at das pessoas é grande, mas suas ações são
dirigidas segundo suas opiniões e paixões
PARIS 1646 particulares, eles não podem esperar para si
nenhuma defesa ou proteção, nem contra um
inimigo comum e sequer contra as injúrias recí­
procas, pois, sendo desviados do pensamento
F ron tispício d o m anu scrito d a o b ra h o b b esia n a do melhor uso e da melhor aplicação de suas
A Minute or First Draught of the Optiques, forças, eles não se ajudam mas se matam
con serv ad o n o British M useum (Londres).
mutuamente e, pela mútua oposição, reduzem
sua força a nada; e portanto não só eles são
facilmente subjugados por pouquíssimos liga­
observar, são contrárias às nossas paixões dos em acordo, mas também quando não hó
naturais, que nos arrastam à parcialidade, ao um inimigo comum, se fazem guerra entre si,
orgulho, à vingança 0 semelhantes; 0 os pactos, por seus interesses particulares. Com efeito, se
sem a espada, não são mais que palavras, sem pudéssemos supor que uma grande multidão de
nenhuma força para tornar seguro um homem. homens concordasse em observar a justiça e as
Por isso, malgrado as leis de natureza - que outros leis de natureza, sem um poder comum,
cada um observa quando tem desejo de ob­ que os mantivesse todos em freio, poderíamos
servá-las e o pode fazer com segurança -, se igualmente supor que todo o gênero humano
não for estabelecido um poder, ou se ele não é fizesse o mesmo; e então não existiria nem seria
suficientemente forte para assegurar-nos, todo necessário que existisse um governo civil ou
homem prefere, e pode lealmente confiar-se à Cstado, pois haveria paz sem sujeição.
própria força e à própria arte para defender-se Também não é suficiente para a seguran­
contra todos os outros homens. C em todos os ça, que os homens desejam por todo o tempo
lugares, onde os homens viveram em pequenas de sua vido, que eles sejam governados e
famílias, roubar e despojar outros foi uma indús­ dirigidos pela vontade de um só por um tempo
tria, tão longe de ser considerada contrário à limitado, como em uma batalha ou em uma
lei de natureza, que quanto maior era a rapina, guerra; pois, embora obtenham uma vitória por
tanto maior era a honra para quem a fazia, e os seu esforço unânime contra um inimigo externo,
homens não observavam outras leis, a não ser todavia, quando não tiverem mais nenhum inimi­
as da honra, isto é, de abster-se da crueldade, go comum, ou quondo aquele, que considerado
deixando aos homens a vida e os instrumentos por um lado como inimigo, é considerado por
da agricultura. € como as pequenas famílias fa­ outro como amigo, eles devem necessariamen­
ziam, assim fazem agora as cidades e os reinos, te, por causa da diferença de seus interesses,
que não são mais que famílias maiores, que dissolver-se e cair em guerra recíproca.
Segunda parte - -Hobbes, L-ocUe, S e^ k eley e H ume

2. O €stado, ou seja, o "Leviatã” verno, podendo destruí-los, caso se recusem,


ou como quando em uma guerra se submete o
O único modo para estabelecer um poder
inimigo ò própria vontade, dando-lhe a vida sob
comum, que seja opto o defender os homens
tal condição; ou então o outro modo é quando
de invasões dos estrangeiros e das ofensas
os homens concordam entre si, para submeter-
mútuas, e por isso poro assegurá-los de tol
se a algum homem ou a alguma assembléia de
modo que, com a própria indústria e com os
homens voluntariamente, na confiança de que
frutos das próprias terras, possam alimentar-se
sejam protegidos contra todos os outros. Cste
e viver em paz, é o de conferir todo o próprio
último pode ser dito um Gstado político ou um
poder e a própria forço a um homem ou a uma
€stado por instituição, e o primeiro um €stado
assembléia de homens, que possam reduzir
por autoridade alcançada.
todas as suas vontades, com a pluralidade de
votos, a uma vontade única; que é o mesmo T. Hobbes, Leviotõ.
que dizer quanto a deputar um homem ou umo
assembléia de homens para representar sua
pessoa, e a reconhecer-se, cada um por sua
parte, autor de qualquer coisa que aquele, que
assim os representa, possa fazer ou produzir
naquelas coisas que se referem à paz e à
salvação comum, e nisto submeter as próprias
vontades cada um à vontade dele, e os próprios
juízos cada um ao juízo dele. Isto é mais que
consenso ou acordo: é uma unificação reol de
todos eles em uma só e mesma pessoa, feita
por meio de um pacto de todo homem com todo
homem, de tal modo, como se cada um dissesse
ao outro: eu o autorizo e cedo meu direito de
governar a mim mesmo a este homem ou a esta
assembléia de homens, com a condição de que
também tu ofereças teu direito a ele, e autorizes
todas os ações dele do mesmo modo. Feito
isso, o multidão assim unida em umo pessoa
denomina-se um €stado, em lotim civitas. Gsta
é a origem do grande Leviatã, ou melhor - para
falar com mais reverência - do deus mortal ao
qual devemos, abaixo do Deus imortal, nossa
paz e nossa defeso, pois, por causa dessa
autoridade que lhe foi dada por todo homem
singular no Cstado, ele usa tanto poder e tanta
força, a ele conferida, que com o terror é capaz
de disciplinar a vontade de todos para a paz
interno e para o mútuo auxílio contra os inimigos
externos. € nisso reside a essência do Cstado,
que - para defini-lo - é uma pessoa, de cujos
atos cada indivíduo de uma grande multidão,
com pactos mútuos, se tornou autor, a fim de
que possa usar a força e os meios de todos
eles, conforme creio oportuno, por sua paz e
para a defesa comum.
Aquele que representa essa pessoa cha­
F ron tispício d o Leviatã,
ma-se soberano, e se diz que tem o poder so­ p u b lica d o em L on d res em 1651.
berano; qualquer outro fora dele é um súdito. N essa o b ra estão presen tes o con ceito
Pode-se alcançar este poder soberano de d e “p a c to s o c ia l” feito p elos súditos entre si
dois modos: ou com a força natural, como quan­ para deputar um único hom em para representá-los,
do um homem impõe o seus filhos a submissão, e a teo riz a çã o d o E stad o absolu tista
de si mesmo e dos próprios filhos, ao seu go­ co m o o ú nico capaz d e fazer respeitar as leis.
{Sapí+ulo quinto

3 o k ^ L o c k e

e a f u n d a ç ã o d o em p irism o crític o

....... I. ; A v id a
e a s obras d e L o c k e

• John Locke nasceu em W rington, nas proximidades de Bristol, em 1632. Es­


tudou na Universidade de Oxford, onde sucessivamente ensinou grego e retórica.
Em 1668 foi nomeado membro da Royal Society de Londres; em
1672 tornou-se secretário de Lord Ashley Cooper, chanceler da Traços
Inglaterra, e ocupou-se ativamente de assuntos políticos. De 1683 biográficos
a 1689 foi obrigado a refugiar-se na Holanda, contribuindo para $1
os preparativos da expedição de Guilherme de Orange. Tendo
voltado para Londres, pôae receber os merecidos sucessos e concentrar-se na
atividade literária; em 1691 transferiu-se para o castelo de Oates, no Essex, como
hóspede de Sir Francis Masham, onde morreu em 1704.
Suas obras mais importantes são: Epístola sobre a tolerância (1689), Ensaio
sobre o intelecto humano (1690, sua obra-prima), Dois tratados sobre o governo
(1690), A racionabilidade do cristianismo (1695).

1 S e c r e t á r i o d e lo rd e C o o p e r ,
ck a n ce le r d a In g la te rr a ,
J_o ck e s e o cu p o u a tiva m en fe
d e a s s u n t o s p o lítico s

O empirismo, que em Bacon e em Hob­


bes constitui um componente essencial, mas
entrelaçado com outros componentes e por
eles delimitado (em Bacon está circunscrito
predominantemente à temática do experi­
mento científico, ao passo que em Hobbes
é fortemente condicionado pela teoria ma-
terialista-corporeísta), assume sua primeira

l o h n l . o c k c ( I (i 1 2 - 1 7 0 4 )
/d i o f u n d a d o r d o e m p i r i s m o critica
c 11 prim eiro que fo r m u lo u de m o d o m eló d ico
o p r o h l e m a " c r í t i c o " d o c o n h e c im e n t o .
,\ i m a g e m e tira da d e u m a g r a v u r a
cm cohrc da época.
Segunda pavte - -Hobbes, Locke, S e rk e le y e +"1ume

formulação paradigmática, metodológica e Em 1689, Guilherme de Orange e sua


criticamente consciente em Locke. mulher Maria Stuart foram chamados ao
John Locke nasceu em Wrington (nas trono pelo Parlamento. Assim coroava-se
proximidades de Bristol) em 1632 (no mes­ a vitória plena dos fautores do regime de
mo ano em que também nasceu Spinoza). monarquia parlamentar, pela qual Locke
Estudou na Universidade de Oxford, onde sempre se havia batido. Desse modo, vol­
conseguiu o título de Master o f Arts em tando a Londres, ele pôde colher os louros
1658 e onde ensinou (na qualidade de tu­ merecidos do sucesso. Foram-lhe oferecidos
tor) grego e retórica, e se tornou censor de cargos e honrarias. Sua fama espalhou-se
filosofia moral. por toda a Europa. Entretanto, recusou as
Ficou muito descontente com o ensino ofertas que mais exigiam dele, a fim de poder
de filosofia que recebeu em Oxford, que se concentrar predominantemente em sua
ele julgou “um peripatetismo recheado de atividade literária.
palavras obscuras e de pesquisas inúteis” . Em 1691, transferiu-se para o castelo
Esse peripatetismo escolástico nada mais de Oates (em Essex), como hóspede de sir
fazia além de se divertir com sutis distin­ Francis Masham e de sua mulher Damaris
ções, multiplicando-as ao inverossímil. Por Cudworth (filha do filósofo Ralph, de que
isso, é perfeitamente compreensível que ele falaremos adiante), onde morreu em 1704.
tenha procurado satisfazer as exigências A obra-prima de Locke é constituída
concretas de seu espírito em outros campos, pelo imponente Ensaio sobre o intelecto
estudando medicina, anatomia, fisiologia e humano, publicado em 1690, depois de uma
física (sofreu notáveis influências do físico gestação que durou cerca de vinte anos. A
R. Boyle), além de teologia. Não conseguiu obra teve sucesso enorme, e em 1700, con-
nenhum título acadêm ico em medicina, comitantemente com a 4 a edição, aparece
mas passou a ser chamado de “doutor Lo­ a tradução francesa controlada pelo pró­
cke”, pela competência que adquiriu nessa prio Locke. Em 1689, ele havia publicado
matéria. a Epístola sobre a tolerância. No mesmo
Em 1668, foi nomeado membro da pres­ ano do Ensaio, foram publicados também
tigiosa Royal Society de Londres, na qual os Dois tratados sobre o governo. Em 1693,
Hobbes não fora admitido por causa das saíram os Pensamentos sobre a educação, e,
polêmicas e das fortes divisões suscitadas em 1695, A racionalidade do cristianismo.
por suas teses de fundo. Alguns de seus escritos foram publicados
O ano de 1672 marca reviravolta muito postumamente, entre os quais revestem-se
importante na vida de Locke. Com efeito, de particular importância as Paráfrases e
nesse ano ele se tornou secretário do lorde notas das epístolas de são Paulo aos Gálatas,
Ashley Cooper, chanceler da Inglaterra e aos Coríntios, aos Romanos e aos Efésios e
conde de Shaftesbury, passando a se ocupar o Ensaio para a compreensão das epístolas
ativamente dos negócios políticos. de são Paulo.
Entre 1674 e 1689, em conseqüência Foram três os interesses principais de
de suas opções políticas, a vida de Locke foi Locke:
arrastada por uma série vertiginosa de acon­ a) o gnosiológico, do qual brotou o
tecimentos, destinados a deixar marcas inde­ Ensaio-,
léveis em seu espírito. Em 1675, logo depois b) o ético-p o lítico , que encontrou
da queda de lorde Shaftesbury, Locke viajou expressão (além de sua própria militância
para a França, onde travou conhecimento política prática) nos escritos dedicados a
com o cartesianismo. De 1679 a 1682, esteve esse tema;
novamente ao lado de lorde Shaftesbury, que c) o religioso, campo no qual a atenção
havia conseguido reconquistar as posições do nosso filósofo se concentrou sobretudo
políticas perdidas. M as, em 168 2 , lorde nos últimos anos de sua vida (a esses pode­
Shaftesbury foi envolvido na conjura do mos acrescentar, mas numa dimensão menor,
duque de Monmouth contra Carlos II e teve um quarto interesse, de caráter pedagógico,
de se refugiar na Holanda, onde morreu. No que encontrou expressão nos Pensamentos
ano seguinte, Locke também teve de deixar a sobre a educação).
Inglaterra para refugiar-se na Holanda, onde São esses os pontos que examinaremos
trabalhou ativamente nos preparativos para agora, começando pelo primeiro, que é de
a expedição de Guilherme de Orange. longe o mais importante.
Capitulo q u ifltO - L o cke e a fundação do empirismo crítico

II. o p y -o g ^ cw n a .

d o ( S n s a io s o b r e , o in ie.le.izio h u m a n o
e o em pirism o lockiano

• Locke torna próprio o programa de Bacon, dirigido a introduzir um uso


melhor do intelecto em âmbito científico, e o aperfeiçoa, concentrando-se sobre
o próprio intelecto, sobre suas capacidades, suas funções e seus
limites. O objetivo:
O objetivo lockiano é o de estabelecer a gênese, a natureza "introduzir
um uso mais
e o valor do conhecimento humano, e em particular o de definir perfeito
os limites dentro dos quais o intelecto humano pode e deve mo­ do intelecto"
ver-se, e quais são, ao contrário, os âmbitos que lhe permanecem - § J
estruturalmente fechados.

• O novo empirismo lockiano, cuja tese mais vistosa é que todas as idéias
derivam sempre e apenas da experiência, tem como pressupostos a tradição em-
pirista inglesa, segundo a qual a experiência é o limite intransponível de todo
conhecimento possível, e a idéia em sentido cartesiano, isto é,
entendida como conteúdo (imagem ou noção) da mente humana O empirismo
e como único objeto do pensamento humano. Locke nega porém lockiano:
toda forma de inatismo, aduzindo sobretudo o fato de que nem todas as idéias
todos os homens são conscientes do princípio de identidade e derivam
de não-contradição, dos princípios éticos fundamentais e da da experiência
própria idéia de Deus; e, na mente humana, a consciência de um - § 2 - 5
conteúdo coincide com a própria presença do conteúdo. Além
disso, o intelecto humano não pode de modo algum dar-se a si mesmo as idéias
simples, nem pode, uma vez que tenham ocorrido, destruí-las ou aniquilá-las. Em
definitivo, portanto, o intelecto recebe o material do conhecimento unicamente
da experiência: a mente pensa apenas depois de ter recebido tais materiais; ela é
como uma tabula rasa na qual apenas a experiência inscreve os conteúdos.

1 O o b jetivo âmbitos do conhecimento, e sim o próprio


intelecto, suas capacidades, suas funções
d a f i l o s o f i a m o c le .y 'n a
e seus limites. Não se trata, portanto, de
é e s ta b e le c e r a g e n e se, examinar os objetos, mas sim de examinar
a n a tu re z a e o va lo r o próprio sujeito.
Desse m odo, o centro do interesse
d o c o n k e c i m e n t o \\u n \a n o
da filosofia moderna vai-se especificando
sempre melhor, ao mesmo tempo em que
vai se delineando cada vez mais claramente
Bacon escrevera que “introduzir um o caminho que levará, como meta final,
uso melhor e mais perfeito do intelecto” ao criticism o kantiano: o objetivo é o de
constitui uma necessidade imprescindível, conseguir estabelecer a gênese, a natureza
e procurara satisfazer parcialmente essa e o valor do conhecimento humano, par­
necessidade do modo como já vimos. ticularmente o de definir os limites dentro
Locke assume esse programa, desen­ dos quais o intelecto humano p ode e deve
volvendo-o e levando-o à sua perfeita ma­ se mover e quais são as fronteiras que ele
turação. Para nosso filósofo, porém, não se não deve ultrapassar, ou seja, quais são
trata de examinar o emprego do intelecto os âmbitos que lhe estão estruturalmente
humano relativamente a alguns setores ou fechados.
Segunda parte - Hobbes, L o c \<e./ Be^keley e Hume

E eis como, com plena consciência crí­ rem a uma clara solução, servem somente
tica, a intenção geral do Ensaio e da nova para conservar e aumentar suas dúvidas,
filosofia lockiana se expressa na Introdução, confirmando neles um perfeito ceticismo.
que é peça chave de toda a obra: “Conhe­ Uma vez bem considerada a capacidade
cendo a nossa força, saberemos melhor o de nosso intelecto, descoberta a extensão
que empreender com alguma esperança de de nosso conhecimento e identificado o
sucesso. E quando houvermos bem exami­ horizonte que estabelece o limite entre as
nado os poderes do nosso espírito e feito partes iluminadas e as partes escuras das
uma avaliação do que podemos esperar dele, coisas, entre aquilo que é e aquilo que
não seremos mais propensos a ficar quie­ não é compreensível para nós, talvez os
tos, sem lançar nosso pensamento à obra, homens aceitem com menores escrúpulos
perdendo a esperança de conhecer alguma a ignorância declarada de um, e utilizem
coisa, nem, por outro lado, a pôr tudo em seus pensamentos e discursos com maior
dúvida e ignorar todo conhecimento porque benefício e satisfação no outro”.
algumas coisas não podem ser compreendi­ Vejamos, portanto, como Locke realiza
das. E de suma utilidade para o marinheiro esse seu programa exigente.
conhecer o comprimento de suas cordas,
ainda que com elas não possa sondar todas
as profundidades do oceano. Mas é bom que 2 A "id é ia "
ele saiba que elas são bastante longas para
co m o co n teú d o
alcançar o fundo naqueles lugares que são
necessários para sua viagem e para avisá-lo do p en sam en to kwm ano
dos escolhos que poderiam arruinar a nave.
Nossa função aqui não é a de conhecer
todas as coisas, mas somente aquelas que Tradição empirista inglesa e “idéia”
dizem respeito à nossa conduta. Se puder­ cartesiana são os componentes de cuja sín­
mos descobrir aquelas medidas através das tese nasce o novo empirismo lockiano.
quais uma criatura racional, colocada no M as, antes de penetrar no âmago do
estado em que o homem se encontra neste problema, é oportuno fazer algumas obser­
mundo, pode e deve governar suas opiniões vações sobre esse termo, que tem história
e as ações que delas dependem, não devemos gloriosa.
nos perturbar se outras coisas escapam a Nós hoje usamos comumente o termo
nosso conhecimento. Foi isto que, desde “idéia” na acepção que Descartes e Locke
o início, deu lugar a este Ensaio sobre o consagraram, caindo facilmente no erro de
intelecto. Com efeito, eu pensava que o crer que essa seja a única e óbvia acepção
primeiro passo para satisfazer várias inves­ desse termo. Entretanto, ela constitui o
tigações que o espírito do homem costuma ponto de chegada de um debate metafísico
empreender era o de fazer uma inspeção e gnosiológico iniciado por Platão (e, em
do nosso intelecto, examinar nossos p o ­ certos aspectos, ainda antes), continuado por
deres e ver para que coisas eles são aptos. Aristóteles e, depois, pelos médio-platônicos,
Enquanto não houvéssemos feito isso, eu os neoplatônicos, os Padres da Igreja, os es­
suspeitava que estávamos começando pelo colásticos e alguns pensadores renascentistas.
lado errado e que procurávamos em vão a O termo “idéia” é a transliteração de
satisfação de uma tranqüila e segura posse um termo grego que significa “forma” (sinô­
das verdades que eram mais caras a nosso nimo de eidos), particularmente (de Platão
coração, enquanto deixávamos nossos pen­ em diante) forma ontológica, significando
samentos em liberdade no vasto oceano do portanto uma “essência substancial” e um
Ser, como se toda aquela extensão ilimitada “ser”, e não um “pensamento”. Na fase final
fosse uma posse natural e indubitável de do platonismo antigo, as idéias tornam-se
nosso intelecto, onde nada escapasse a suas “pensamentos do Intelecto supremo” e,
decisões e a sua compreensão. Assim, não é portanto, paradigmas supremos, nos quais
de surpreender que os homens, estendendo coincidem ser e pensamento, ou seja, pa­
as suas investigações para além de suas radigmas metafísicos. Os debates sobre o
capacidades e deixando seus pensamentos problema dos universais e as diversas solu­
vagarem naquelas profundidades em que ções propostas abalaram fortemente a antiga
não têm mais pé, levantem questões e mul­ concepção platônica, abrindo caminho para
tipliquem disputas que, visto nunca chega­ proposições radicalmente novas.
Capítulo quinto - JJoK n L o ck e e a f-Vmdação do empirismo crítico

A escolha cartesiana do termo “idéia”


para indicar um simples conteúdo da mente
e do pensamento humano marca o total es­ ■ Idéia. Reportando-se a Descartes,
quecimento da antiga problemática metafísi­ Locke emprega o termo "idéia" para
ca da idéia e o advento de uma mentalidade designar tudo aquilo que é objeto do
intelecto quando um homem pensa,
completamente nova, que Locke contribui portanto "tudo aquilo que pode
para impor definitivamente. ser entendido por imagem, noção,
Todavia, a concordância com Descar­ espécie ou tudo aquilo em torno do
tes se rompe no momento em que se trata qual o espírito pode ser empregado
de estabelecer “de que modo essas idéias no pensar".
vêm ao espírito”. Descartes alinhara-se em O fundamento do empirismo lockia­
favor das idéias inatas. Locke, ao contrário, no é que todas as idéias derivam da
nega qualquer forma de inatismo e procura experiência. Locke contribui assim
para impor definitivamente este sig­
demonstrar, de modo sistemático e com por­
nificado de "idéia", que marca o total
menorizada riqueza analítica, que as idéias esquecimento da antiga problemática
derivam sempre e somente da experiência. metafísica da idéia lançada por Platão
Por conseguinte, é a seguinte a tese de e que, por meio dos médio-platônicos,
Locke: neopiatônicos, Padres da Igreja e es-
1) não existem idéias nem princípios colásticos, chegou até a Renascença.
inatos;
2) nenhum intelecto hum ano, por
mais forte e vigoroso que seja, é capaz de
forjar ou inventar (ou seja, criar) idéias,
bem como não é capaz de destruir aquelas Os argumentos de fundo em que Lo­
que existem; cke se apóia para refutar essa prova são os
3) conseqüentemente, a experiência seguintes:
constitui a fonte e, ao mesmo tempo, o limi­ a) O “consenso universal” dos homens
te, ou seja, o horizonte, ao qual o intelecto sobre certas idéias e certos princípios (con­
permanece vinculado. siderado, mas não concedido que exista)
poder-se-ia explicar também sem a hipótese
do inatismo, simplesmente mostrando que
existe outro modo de chegar a ele.
3; i i n t e l e c t o l\u m < m o
b ) M as, na realidade, o pretenso con­
n ã o p o ssu i id é ia s in atas senso universal não existe, como fica eviden­
te no fato de que as crianças e os deficientes
não têm de modo nenhum consciência do
A crítica do “inatismo”, portanto, é princípio de identidade e de não-contradição,
considerada por Locke como ponto funda­ nem dos princípios éticos fundamentais.
mental. Por isso, dedica-lhe todo o primeiro c) Para escapar a essa objeção seria
livro do Ensaio. absurdo sustentar que as crianças e os defi­
A posição dos inatistas que Locke cri­ cientes têm esses princípios de forma inata,
tica não é somente a dos cartesianos, mas mas não são conscientes disso. Com efeito,
também as posições de Herbert de Cherbury é absurdo dizer que há verdades impressas
(1 5 8 3 -1 6 4 8 ), dos platônicos ingleses da na alma, mas que elas não são percebidas,
escola de Cambridge (Benjamin Wichcote, posto que sempre coincidem a presença de
16 0 9 -1 6 8 3 ; John Smith, 1616-1652; Henry um conteúdo na alma e a consciência dessa
More, 16 1 4 -1 6 8 7 ; Ralph Cudworth, 1617­ presença.
1688) e, em geral, de todos aqueles que, d) A afirmação de que existem princí­
sob alguma forma, sustentam a presença na pios morais inatos é desmentida pelo fato de
mente de conteúdos anteriores à experiência, que alguns povos se comportam exatamente
nela impressos desde o primeiro momento ao contrário daquilo que tais princípios
de sua existência. postulariam, ou seja, praticando ações que
Locke recorda que o ponto básico ao para nós são celeradas sem experimentar
qual se referem os defensores do inatismo remorso algum, o que significa que eles
das idéias e dos princípios (teóricos ou práti­ consideram seu comportamento como não
cos) é o “consenso universal” de que ambos sendo de modo nenhum celerado e sim como
desfrutam junto a todos os homens. perfeitamente lícito.
Segunda p ã T t e - -Hobbes, Locke, B eek eley e Hume

e) Nem da própria idéia de Deus pode-5 O intelecto l\twmmo


se dizer que todos a possuem, porque há
povos que “não têm sequer um nome para
é como uma "tabula rasa"
designar Deus, não possuindo religião nem
culto” . [T| O intelecto, portanto, recebe o material
do conhecimento unicamente da experiência.
A alma só pensa depois de ter recebido esse
4 O intelecto l\i\mano material. Diz Locke: “Não vejo portanto
não pode criar nenhuma razão para crer que a alma pense
antes que os sentidos lhe tenham fornecido
nem inventar idéias idéias nas quais pensar. E, à medida que as
idéias aumentam de número e são retidas
no espírito, a alma, com o exercício, me­
Poder-se-ia levantar a hipótese de que, lhora sua faculdade de pensar em todas as
mesmo não as contendo em forma inata, suas várias partes. Em seguida, compondo
o intelecto poderia “criar” as idéias ou, se essas idéias e refletindo sobre suas próprias
assim se preferir, poderia “inventá-las”. Mas operações, aumenta seu patrimônio, bem
a hipótese é categoricamente excluída por como sua facilidade de recordar, raciocinar
Locke. Nosso intelecto pode combinar de e utilizar outros modos de pensar”.
vários modos as idéias que recebe, mas não Eis outro texto que se tornou muito
pode de m odo nenhum dar-se a si próprio famoso, no qual Locke retoma a antiga
as idéias simples, como também não pode, tese da alma como tabula rasa, na qual só
desde que as tenha, destruí-las, aniquilá- a experiência inscreve os conteúdos: “Su­
las ou apagá-las, como já foi dito. Escreve ponhamos portanto que o espírito seja, por
Locke: “ [...] nem mesmo o gênio mais assim dizer, uma folha em branco, privada
elevado ou o intelecto mais vasto, por mais de qualquer escrita e sem nenhuma idéia.
vivo e variado que seja o seu pensamento, De que modo virá a ser preenchida? De
tem o poder de inventar ou forjar uma só onde provém aquele vasto depósito que a
idéia simples nova no espírito, que não seja industriosa e ilimitada fantasia do homem
apreendida dos modos já m encionados, traçou-lhe com variedade quase infinita?
como também não pode a força do intelecto De onde procede todo o material da razão
destruir as idéias que já existem. O domínio e do conhecimento? Respondo com uma só
do homem sobre esse pequeno mundo de seu palavra: da e x p e r i ê n c i a . É nela que nosso
intelecto é mais ou menos o mesmo que ele conhecimento se baseia e é dela que, em
tem sobre o grande mundo das coisas visí­ última análise, deriva.”
veis, onde seu poder, mesmo exercido com
arte e habilidade, nada mais consegue além
de compor e dividir os materiais que estão à
disposição, mas nada pode fazer para fabri­
car a mínima partícula de matéria nova ou ■ Experiência. Indica propriamente
para destruir um átomo sequer daquela que a observação "tanto dos objetos ex­
já existe. Quem quer que tente forjar em seu ternos sensíveis, como das operações
internas de nosso espírito que perce­
intelecto uma idéia simples não recebida de
bemos e sobre as quais refletimos".
objetos externos através dos sentidos ou da A experiência "é tudo aquilo que
reflexão sobre as operações do seu espírito, fornece a nosso intelecto todos os
encontrará em si essa mesma incapacidade. materiais do pensar".
Gostaria que alguém tentasse imaginar um A experiência externa e a interna são
gosto que nunca tenha afetado seu paladar, para Locke as duas únicas fontes do
ou fazer uma idéia de algum perfume cujo conhecimento, das quais "emergem
odor nunca tenha sentido; quando puder todas as idéias que temos ou pode­
mos ter".
fazê-lo, eu estarei pronto a concluir que um
cego pode ter idéias das cores e um surdo
noções distintas dos sons”.
(2ãpltlilo quinto - 3 ° ^ L o ck e e a fundação do empirismo crí+ico

iii. A c lo u ir in a lo ck ia n a d a s ideias
e a i n t e r p r e t a ç ã o d o conKecimento

• A experiência é de dois tipos:


1) externa, da qual derivam as idéias simples de sensação Idéias
(extensão, figura, movimento etc.); de sensação
2) interna, da qual derivam as idéias simples de reflexão e idéias
(prazer, dor etc.). de reflexão.
Ora, Locke chama de qualidade o poder que as coisas pos­ Qualidades
primárias
suem de produzir as idéias em nós, e opera a distinção entre:
e secundárias
а) qualidades primárias e reais dos corpos (extensão, núme­ -*§1-2
ro, movimento etc.), das quais as idéias correspondentes que se
produzem em nós são cópias exatas;
б) qualidades secundárias, que constituem os poderes de combinação das
primárias (cores, sabores etc.) e são em parte subjetivas, isto é, não se assemelham
exatamente às qualidades primárias dos corpos.

• A mente tem o poder de operar tanto combinando as idéias entre si e for­


mando assim idéias complexas, como separando algumas idéias de outras para
form ar idéias gerais. As idéias complexas são de três tipos:
a) idéias de modos, que são afecções das substâncias; As idéias
b) idéias de substâncias, que nascem do hábito de supor um complexas,
substrato em que subsistem algumas idéias simples que caminham as idéias gerais
sempre juntas; -* § 3-4
c) idéias de relações, que nascem do confronto que o intelecto
institui entre idéias.

• Locke admite também uma idéia geral de substância, obtida por abstração,
e não nega a existência de substâncias, mas a capacidade da mente humana de
ter idéias claras e distintas.
Ligado ao problema da substância está a seguir o da essência: ju ízo de Locke
para Locke a essência real seria a própria estrutura das coisas, sobre a idéia
mas nós conhecemos apenas a essência nominal, que consiste no de substância
conjunto de qualidades que uma coisa deve ter para ser chamada e de essência.
com determinado nome. 0 nominalismo
Em tal sentido a abstração, que para as metafísicas clássicas $ 5-7
era o processo fundam ental para captar a essência, em Locke
torna-se uma parcialização de outras idéias mais complexas: o geral e o universal
não pertencem à existência real das coisas, mas são invenções do intelecto e se
referem apenas aos sinais, sejam eles palavras ou idéias.

• O conhecimento consiste na percepção da conexão e do acordo, ou do de­


sacordo e do contraste, entre nossas idéias. Esse tipo de acordo ou de desacordo
pode ser percebido em três modos diferentes, correspondentes a três diversos
graus de certeza:
1) por intuição, isto é, por evidência imediata, e este modo os três modos
de conhecimento é o mais claro e certo: com ele captamos nossa pelos quais
existência; se atua o
2) por demonstração, isto é, por meio da intervenção de conhecimento
outras idéias concatenadas logicamente (por meio do raciocinar: § 8~12
com ele captamos Deus);
3) por sensação, e este tipo de conhecer, o menos claro e o menos certo, é o
que se refere à existência das coisas externas.
Segunda pavte - 'Hobbes, .Locke, S e rk e le y e flwme

1 y \ s id é ia s d e s e n s a ç ã o as secundárias, “nada mais são do que os


poderes de várias combinações das quali­
e d e reflexão
dades primárias”, como, por exemplo, cor,
sabor, odor etc.
As qualidades primárias são objetivas,
A experiência de que se falou até aqui é
no sentido de que as idéias correspondentes
de dois tipos: nós a) experimentamos objetos que se produzem em nós são cópias exatas
sensíveis externos, ou então b) experimenta­ delas. Já as qualidades secundárias são sub­
mos as operações internas do nosso espírito jetivas (pelo menos em parte), no sentido
e os movimentos de nosso ânimo. Dessa
de que não se assemelham exatamente às
dupla fonte da experiência derivam dois
qualidades que estão nos corpos, embora
tipos diferentes de idéias simples. sejam por elas produzidas: “ [...] na verdade,
a) Da primeira, derivam as idéias de há qualidades que, nos objetos, são apenas
sensação, sejam elas dadas por um único o poder de produzir em nós sensações varia­
sentido (como as idéias de cor, som e sabor), das, por meio de suas qualidades primárias,
sejam elas dadas por vários sentidos (como isto é, o volume, a figura e a consistência,
as idéias de extensão, figura, movimento e
juntamente com o movimento de suas partes
imobilidade).
imperceptíveis, como cores, sons, gostos
b ) Da segunda, derivam idéias simples etc.” (As qualidades primárias são quali­
de reflexão (como as idéias de percepção e dades dos próprios corpos, ao passo que
de volição, ou idéias simples que brotam
as secundárias derivam do encontro dos ob­
da reflexão em conjunto com a percepção,
jetos com o sujeito, mas tendo sempre suas
como a idéia de prazer, dor, força etc.). raízes no objeto).
As idéias estão na mente do homem, Trata-se de uma doutrina de origem
mas fora há alguma coisa que tem o poder
muito antiga. Demócrito já a havia antecipa­
de produzi-las na mente. Locke denomina
do em sua célebre sentença: “ Opinião a dor,
esse poder que as coisas têm de produzir
opinião o amargo, opinião o quente, opinião
idéias em nós com o termo pouco feliz de
o frio, opinião a cor; verdade os átomos
“qualidade” (que foi buscar sobretudo na e o vácuo.” Galileu e Descartes a haviam
física da época): “ Chamo de idéia tudo
reproposto sobre novas bases. E Locke a
aquilo que o espírito percebe em si mesmo
retomou, provavelmente, de Boyle.
ou que é objeto imediato da percepção, do
pensamento ou do intelecto; já o poder de
produzir uma idéia em nosso espírito eu
chamo de qualidade do sujeito em que reside
tal poder. Assim, por exemplo, uma bola de 3 A s id é ia s c o m p le x a s
neve; tem o poder de produzir em nós as e o m o d o p e lo q u a l s e j-o^mam
idéias de branco, frio e redondo. E chamo
de qualidade os poderes de produzir essas
idéias em nós, assim como estão na bola de Nosso espírito é passivo ao receber
neve; ao passo que, enquanto sensações ou as idéias simples. M as, uma vez recebidas
percepções do nosso intelecto, chamo de tais idéias, tem o poder de operar de vá­
idéias”. [ 2] rios modos sobre elas, particularmente de
combiná-las entre si, formando assim idéias
complexas, bem como o poder de separar
2 ;A s q u a lid a d e s p rim á ria s algumas idéias de outras a que estão ligadas
(e, portanto, de abstrair), formando assim
e se cu n d á ria s idéias gerais.
Ocupem o-nos primeiro das “idéias
complexas”, que Locke distingue em três
Locke introduz tal distinção para poder grandes grupos: a) idéias de modos; b ) idéias
acolher a doutrina já comum das qualidades de substâncias; c) idéias de relações.
primárias e das secundárias. As primeiras a) As idéias de modos são as idéias
são “as qualidades primárias e reais dos complexas que, de qualquer modo que sejam
corpos, que sempre se encontram neles (isto compostas, “não contêm a suposição de
é, a solidez, a extensão, a figura, o número, existirem por si mesmas, mas são conside­
o movimento ou o repouso...)”. As outras, radas como dependências ou sensações das
Capitulo quitltO - Lock e e a fundação do empirismo cntico
99

substâncias” (por exemplo, a gratidão, o 4 Q u a d r o sinó+ico g e r a l


homicídio etc.).
d o s v á r i o s tip o s
b ) A idéia de substância nasce do fato
de que nós constatamos que algumas idéias d e id é ias
simples estão sempre juntas e, conseqüente­
mente, nos habituamos a supor que exista um Acenamos acima também às idéias
“substrato” no qual elas existem e do qual gerais que se originam da faculdade que
brotam, embora não saibamos do que se trate. tem o intelecto de abstrair. Destas devemos
c) As idéias de relações nascem do con­ agora falar, em relação a alguns problemas
fronto das idéias entre si e da comparação estreitamente ligados a elas.
que o intelecto institui entre elas. Cada idéia Com as distinções entre as idéias de
pode ser posta em relação com outras coisas sensação e as idéias de reflexão, entre as
de infinitos modos (um homem em relação a qualidades primárias e as qualidades secun­
outros homens, por exemplo, pode ser pai, dárias, e, por fim, entre idéias de modos,
irmão, filho, avô, neto, sogro etc.). de substâncias e de relações, delineamos
E considerações análogas podem ser o quadro geral da doutrina lockiana das
repetidas para todas as idéias. Mas há idéias idéias. E, tendo presente o quanto se disse
de relações que se revestem de particular mais acima a respeito da acepção peculiar
importância, como, por exemplo, a idéia do termo “idéia” consagrada por Locke (nas
de causa e efeito, a idéia de identidade ou pegadas de Descartes), podemos agora re­
as idéias de relações morais, que servem de assumir e completar as coisas até aqui ditas
alicerce para a ética. í com o esquema seguinte: ▼

a) de um só sentido (cores, sons,


odores, sabores, etc.)
1. de sensação b) de diversos sentidos (espaço, figura,
repouso, movimento) (qualidades
primárias)
simples

(idéias de percepção, vontade, das


2. de reflexão diversas faculdades de distinguir,
comparar, compor)

3. de sensação (idéias de potência, existência)


e de reflexão juntas
As idéias
podem
ser
a) dos objetos de sensação
(espaço, duração, número)
1. simples
1. modos
b) dos objetos de reflexão
(raciocinar, julgar etc.)

complexas 2. mistos (ações morais)

a) corporeas
2. substâncias b) espirituais
c) Deus

3. relações (causalidade, identidade, idéias morais)


Segunda pavte - 'Hobbes, Locke, Sei^keley e Hume

5 {Srítica d a id éia tenha implicado em notáveis oscilações em


sua doutrina. (Recordemos que Locke reser­
d e su b stâ n c ia
va o mesmo privilégio também ao princípio
de causalidade, tanto é verdade que se serve
dele para demonstrar a existência de Deus.)
Já fizemos referência à concepção loc- A posição dos empiristas ingleses posterio­
kiana da substância e à crítica que ele faz res, particularmente a de Hume, será bem
a esse respeito. Convém retom ar agora mais radical.
essa questão, porque ela é essencial para
a história do empirismo posterior, além de
sê-lo também para a compreensão correta
de nosso filósofo. 6 íS n t ic a d a id éia
Note-se que Locke não nega a exis­ d e e ssê n c ia
tência de substâncias, mas nega apenas
que nós tenhamos idéias claras e distintas
delas, considerando que o seu conhecimen­ Uma questão estreitamente ligada ao
to preciso está fora da compreensão de um problema da substância é a da essência.
intelecto finito. Para a filosofia antiga, ela coincidia
Entretanto, Locke revela-se muito osci­ com a substância. E, com efeito, Locke
lante sobre esse ponto. A polêmica que tra­ também escreve que a “essência real” seria
vou com o bispo Stillingfleet mostrou que, o próprio ser de uma coisa, ou seja, “aquilo
além de “idéias complexas” de substâncias, pelo qual ela é o que é”, isto é, a estrutura
ele também falou expressamente de uma ou constituição das coisas, de que depen­
idéia geral de substância, que obteríamos dem as suas qualidades sensíveis. Mas tal
por abstração. M as o conceito de abstra­ “essência real”, segundo Locke, permanece
ção professado por Locke, como alguns desconhecida para nós.
estudiosos destacaram, não permitiria de Aquilo que conhecemos, ao contrário,
modo algum chegar a tal idéia, ainda que é a “essência nominal”, que consiste naquele
de forma obscura. conjunto de qualidades que nós estabelece­
Na realidade, o conceito de substância mos que uma coisa deve ter para ser chamada
que Locke discute nada mais é do que um com determinado nome: por exemplo, ter
resíduo da pior escolástica, enfraquecido e certa cor, certo peso, certa fusibilidade etc.,
privado de sua original e autêntica estatura dá a certo metal o direito de ser chamado
ontológica. Muito diferente era a concep­ ouro; portanto, a essência nominal do ouro é
ção tomista da substância e bem diferente o conjunto das qualidades exigidas para que
ainda a concepção de Aristóteles. De modo demos o nome de ouro a certa coisa. Mas nós
que aquilo contra o qual Locke combate é não sabemos qual é a “essência real” do ouro.
quase que uma paródia das autênticas dou­ Há certos casos em que a essência real
trinas substancialistas da metafísica clássica. e a essência nominal coincidem, como, por
Também a variação cartesiana da doutrina exemplo, nas figuras da geometria. Tais
da substância (res cogitans e res extensa) é figuras, porém, são construções nossas e é
posta em crise por Locke, enquanto, a seu precisamente por esse motivo que a essência
ver, nós não sabemos em que consiste a nominal coincide com a essência real. Mas,
matéria e o pensamento. nas demais coisas, a divisão permanece clara.
Entretanto, deve-se destacar como fun­ Daí deriva forte dose de nominalismo
damental o fato de que, apesar da afirmação para a concepção lockiana de ciência, particu­
de que as idéias complexas são construções larmente importante no que se refere à física.
de nosso intelecto , nascidas da combinação
de idéias simples (e que, portanto, só repre­
sentam a si mesmas, no sentido de que são 7 O n o m in a lis m o lo c k ia n o
paradigmas de si mesmas, não tendo objetos
correspondentes fora de si), Locke escreve
expressamente que isso vale para todas as Em conseqüência disso tudo, é claro
idéias, “ exceto as das substâncias”. que Locke encontra dificuldade para expli­
Em suma, apesar de suas críticas, Locke car a abstração.
não chegou a ponto de negar a existência No contexto das metafísicas clássicas,
extramental das substâncias, embora isso a abstração consiste naquele processo pelo
- 101
Capitulo quintO - L o c k e e a f u n d a ç ã o d o e m p i r i s m o c r í+ ie o

qual se consegue captar a essência, extrain­ si mesmas, elas estão aquém do verdadeiro
do-a através de progressiva desmaterializa- e do falso.
ção mental do objeto. M as, dado que nega Não há conhecimento sem a percepção
a essência real, ou melhor, a sua cognosci- de uma concordância (ou então de uma dis­
bilidade, Locke não tem outra saída senão a cordância) entre idéias ou grupos de idéias,
de considerar a abstração como eliminação pois só então temos o verdadeiro e o falso.
de algumas partes de idéias complexas de Escreve Locke: “Parece-me então que o
outras partes. Por exemplo: tenho a idéia de conhecimento nada mais seja do que a per­
Pedro e de João; elimino desse complexo de cepção da conexão e da concordância, ou
idéias aquelas que não são comuns a esses da discordância e do contraste entre nossas
dois indivíduos (gordo, louro, alto, velho idéias. Ele consiste apenas nisso”.
etc.); e mantenho aquele conjunto de idéias Esse tipo de concordância ou discor­
comuns aos dois indivíduos, indicando-o dância é de quatro espécies:
com o nome homem; passo então a usá-lo
para me representar também outros homens.
Portanto, para Locke, a abstração é uma par-
cialização de outras idéias mais complexas.
Com isso, Locke retoma e revigora o
nominalismo da tradição inglesa, do qual
Hobbes fornecera o mais recente exemplo.
Assim, pode-se compreender muito bem as
conclusões que nosso filósofo extrai no En­
saio: “ [...] está claro que o geral e o universal
não pertencem à existência real das coisas,
mas são invenções e criaturas do intelecto,
feitas por ele para seu uso e correspondendo
somente aos sinais, sejam palavras, sejam
idéias”. E as palavras são “gerais quando
utilizadas como sinais de idéias gerais, po­
dendo assim ser aplicadas indiferentemente
a muitas coisas particulares; já as idéias são
gerais quando usadas para representar muitas
coisas particulares. Mas a universalidade não
pertence às próprias coisas, que são todas
particulares em sua existência, incluindo
as palavras e idéias que são gerais em seu
significado. Por isso, quando nos afastamos
dos particulares, aquilo que resta de geral é
somente uma criatura de nossa fabricação;
com efeito, sua natureza geral nada mais é
que a capacidade conferida pelo intelecto de
significar ou representar muitos particulares.
O significado que tem é apenas uma relação
que o espírito do homem acrescenta a esses
particulares” .

8 O v e r d a d e i r o e o j-al s o
com o a co rd o
e d e s a c o r d o d a s id é i a s

Em todas as variedades que descre­


vemos, as idéias são o material do conhe­
Particular d e um g ran de m ap a de L on d res,
cimento, mas não ainda o conhecimento g ra v ad o em 1616 p o r /. Visscher.
propriamente dito, no sentido de que, em
Segunda pavte - "Hobbes, Locke, 3e**keley e ‘H ume

rie de “passagens”, cada qual imediatamente


evidente. Assim, a demonstração procede
■ Abstração. A abstração, que para e se desdobra em uma série de intuições
as metafísicas clássicas era o processo adequadamente concatenadas.
fundamental para captar a essência Tudo isso não propõe maiores pro­
das coisas, para Locke é, ao contrário, blemas quando se trata dos primeiros três
a operação da mente por meio da tipos de concordância ou discordância entre
qual "as idéias depreendidas de seres as idéias, de que falamos inicialmente — a)
particulares tornam-se representa­ identidade-diversidade; b) relação; c) coe­
ções gerais de todas as da mesma xistência e conexão necessária — , dado que,
espécie, e seus nomes tornam-se
nesses casos, não se está saindo do círculo
nomes gerais, aplicáveis a todos os
objetos existentes que podem se das idéias puras. Os problemas, porém, sur­
conformar a tais idéias abstratas"; gem no caso d) da existência real, no qual
daqui derivam os universais, como não está em questão a simples concordância
as "essências" que, portanto, não entre as idéias, mas a concordância entre as
pertencem à existência real das coi­ idéias e a realidade externa.
sas, mas são invenções do intelecto
e se referem apenas aos sinais, sejam
eles palavras ou idéias.

S O M E

a) identidade e diversidade;
b) relação; THOUGHTS
c) coexistência e conexão necessária;
d) existência real. C O N C E R N IN G
Ora, em geral, a concordância entre
as idéias pode ser percebida de dois modos
diferentes: 1) por intuição; 2) por demons­
tração, e disso falaremos agora. Education.
9 Z )\rd iA .\çã o e d e m o n s t r a ç ã o

O acordo entre as idéias que percebe­


mos por intuição é aquilo que temos pela
evidência imediata.
Temos a demonstração quando o espíri­
to percebe a concordância ou a discordância
entre as idéias, mas não imediatamente. A
demonstração procede mediante passagens
intermediárias, ou seja, através da interven­
ção de outras idéias (uma ou mais, segundo
o caso), sendo precisamente a esse “proce­
dim ento” ou “proceder” que chamamos L O N D ON,
de razão e de raciocinar. O procedimento
demonstrativo nada mais faz que introduzir Printed for A. and J . ChurchiU,
uma série de nexos evidentes em si mesmos,
isto é, intuitivos, para demonstrar nexos
at the Blac\ Swan in Fater-
entre idéias não-intuitivos em si mesmos. nojlerrow, 16 9 3 .
Portanto, em última análise, a validade da
demonstração fundamenta-se na validade
da intuição. Basta, por exemplo, pensar na
demonstração dos teoremas geométricos,
que conectam algumas idéias cujo nexo não !< ■ J<'< IV»i v i m m i i s obr e .1 rvl 1 k\u. » <h
é imediatamente evidente, através de uma sé­ l'>hn I i * I , W n !n x , 1).
Capítulo quinto - 3 oh n LocUe e a fxmda<pcío do empirismo cn+ico

E aqui volta a emergir o velho conceito certeza que há algo que existe realmente.
de verdade como adaequatio intellectus ad Além disso, “por certeza intuitiva, o homem
rem, como concordância entre as idéias e sabe que o puro nada não produz um ser
as coisas, acima da simples concordância real mais do que não possa ser igual a dois
entre as idéias. Locke procura resolver ângulos retos. Se um homem não sabe que o
essa dificuldade admitindo que nós temos não-ente ou a ausência de todo ser não pode
conhecimento: ser igual a dois ângulos retos, é impossível
1) de nossa existência através da “in­ que conheça uma demonstração qualquer
tuição”; de Euclides. Por issso, se nós sabemos que
2) da existência de Deus mediante há algum ser real e que o não-ente não pode
“demonstração”; produzir um ser real, essa é a demonstração
3) da existência das outras coisas por evidente de que algo existe desde a eterni­
meio de “sensação”. dade, porque aquilo que não existe desde
a eternidade teve início, e aquilo que teve
início deve ter sido produzido por alguma
10 O co n h e cim e n to outra coisa” .
d e n o ss a ex istê n cia Locke demonstra então que essa outra
coisa de que deriva nosso ser deve ser oni­
potente, onisciente e eterna.
Para justificar a afirmação de que nós E digno de nota o fato de que o “em-
temos consciência de nossa existência por pirista” Locke considere que a existência de
“intuição”, Locke se refere a modelos tipi­ Deus é inclusive mais certa do que aquilo
camente cartesianos, embora de modo mais que os sentidos nos manifestam!
destemperado. Com efeito, também para ele Eis suas palavras: “De tudo o que foi
nada pode ser mais evidente para nós do que dito, está claro para mim que temos um
nossa própria existência. conhecimento da existência de Deus mais
Eis suas próprias palavras: “Eu penso, certo do que qualquer outra coisa que os
eu raciocino, eu sinto prazer e dor: alguma nossos sentidos nos tenham imediatamente
dessas coisas pode ser para mim mais evi­ manifestado. Ouso dizer, inclusive, que co­
dente do que a minha própria existência? Se nhecemos que há um Deus com mais certeza
duvido de todas as outras coisas, essa mesma do que conhecem os que existe qualquer
dúvida me faz perceber minha própria exis­ outra coisa fora de nós. E quando digo que
tência e não me permite duvidar dela. Pois, ‘conhecemos’, entendo que há em nós, ao
se eu sei que sinto dor, é evidente que tenho nosso alcance, um conhecimento que não
uma percepção certa de minha própria exis­ podemos deixar de ter, se a ele aplicarmos o
tência, como da existência da dor que sinto. nosso espírito como fazemos a muitas outras
Ou, se sei que duvido, tenho a percepção investigações” .
certa da existência da coisa de que duvido,
assim como do pensamento que eu chamo
de ‘dúvida’. A experiência nos convence 12 O co n k e cim en to
de que temos conhecimento intuitivo de
d o s o b jeto s e x te r n o s
nossa própria existência e uma percepção
interior infalível de que nós existimos. Em
todo outro ato de sensação, raciocínio ou
pensamento, nós estamos conscientes, diante Segundo Locke, no que se refere à exis­
de nós mesmos, do nosso próprio ser. E, a tência das coisas externas, estamos menos
respeito disso, não nos falta o mais alto grau certos do que em relação à nossa existência
de certeza”. ou à existência de Deus. Locke afirma que
“ter a idéia de algo em nosso espírito não
prova a existência dessa coisa mais do que o
11 O co n k ecim en to d e D e u s retrato de um homem possa tornar evidente
a sua existência no mundo, ou que as visões
de um sonho constituam como tais uma
Locke demonstra a existência de Deus história verdadeira” .
recorrendo ao antigo princípio metafísico ex Entretanto, está claro que, como não
nihilo nihil e ao princípio da causalidade, do somos nós que produzimos nossas idéias,
seguinte modo. Nós sabemos com absoluta elas devem ser produzidas por objetos exter­
Segunda parte - Hobbes, Locke, Be^keley e Hume

nos. Mas podemos estar certos da existência certeza da existência das coisas fora de nós
de um objeto que produz a idéia em nós só é suficiente para os objetivos de nossa vida.
até que a sensação é atual. Nós estamos Por fim, no que se refere, à confor­
certos do objeto que vemos (este pedaço de midade das idéias às coisas (se e até que
papel, por exemplo) enquanto o vemos e até ponto as idéias reproduzem exatamente os
que o vemos; mas, quando ele é subtraído arquétipos das coisas), remetemos o leitor
à nossa atual sensação, já não podemos ter a tudo o que dissemos sobre o problema
certeza de sua existência (poderia ter sido da natureza, da essência, das qualidades
rasgado ou destruído). Todavia, esse tipo de primárias e secundárias.

A N

E S S A Y
CONC.ERNING

l)umanc (Hnbcrttanínnsi.
Ia Four B O O K S .

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.jir.un tfl.t e jfu ú m t e m n au fcare, ntcjuc ipfftm f b i
dijplu trc ! Cic. dc Nutur. Deor. /. i.

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h rn iilisp n in d o hns.iio solm. n m u k x i o luiin.ino.
Priured by Eh~. /M , %f)0Jims Baflêt, at thc
fo r W .s.si; o b r a i m p o r i d u t c

Hr.-íftrívt, ncar 'St. Dunjl.ms est a jtic fc n lc o o b je tiv o lo e k td u o


' C h u rc h . MDCXC. dc e s t d h e l e e e r .? g e n e s c . d n d t i i r e : d
e (i f d lo r d o e e uih ccinie uto h u m d n n ,
e d c d c tim r i >< hinilc-,
d c u lm iln f diuiit: ■• iu lc le it i > h un id iH >
Capítulo quinto - 3 okn L o ck e e a fi/mdaçào do empirismo crí+ico

IV . A p r o b a b ilid a d e ,
a [ é e a m zão

• Abaixo dos três graus de certeza existe o juízo de proba- o juízo


bilidade, em que o acordo entre as idéias não é percebido, mas de
apenas suposto. Ha diversas formas de probabilidade fundadas: probabilidade
a) sobre a conformidade de algo com nossas experiências -»§ 1
passadas;
b) sobre o testemunho dos outros homens;
c) sobre a analogia',
d) sobre o testemunho do próprio Deus, isto é, sobre a revelação, e nosso
assentimento a ela é a fé, que é assim um princípio seguro de assentimento que
não dá lugar a dúvidas.

• O interesse religioso de Locke consiste em compreender a revelação e em


estabelecer seu traço essencial, que ele individua na fé em Jesus Messias: este é o
mínimo núcleo veritativo necessário e suficiente para denominar-
se cristãos; as outras verdades se acrescentam a esta ou são suas 0 núc/eo
conseqüências. veritativo
Tudo isso, além do fato de que Locke em nada negou no cristão
cristianismo nem o componente sobrenatural nem o mistério, faz está na fé
dele um filósofo substancialmente estranho ao deísmo, ao qual em Jesus
igualmente foi por vezes aproximado. -*§2

1 A ) o a c o r d o ervtre a s i d é i a s tinuem a acontecer do mesmo modo ou de


modo semelhante).
exis+ e m d i v e r s a s
2) A segunda baseia-se no testemunho
fo rm a s d e p ro b a b ilid a d e dos outros homens; neste caso, temos a
maior probabilidade quando há concordân­
cia entre todas as testemunhas.
Logo abaixo dos três graus de certeza Há ainda uma forma de probabilidade
que descrevemos encontra-se o juízo de pro­ que não diz respeito a dados de fato susce­
babilidade, onde o acordo entre as idéias não tíveis de observação, como aqueles de que
é percebido (imediata ou mediatamente), já falamos, mas a outra espécie de coisas,
mas somente “suposto” . como, por exemplo, a existência de outras
Portanto, a probabilidade é só a apa­ inteligências diferentes das nossas (anjos)
rência do acordo ou desacordo, através da ou o modo profundo de operar da natureza
intervenção de provas em que a conexão (as explicações de certos fenômenos físicos).
das idéias não é constante nem imutável ou, Nesses casos, a regra da probabilidade ba­
pelo menos, não é percebida como tal, “mas seia-se na analogia.
é ou aparece tal no mais das vezes, sendo Por fim, há a fé, à qual Locke garan­
suficiente para induzir o espírito a julgar a te o máximo de dignidade. Eis seu texto
proposição verdadeira ou falsa, ao invés do principal sobre o assunto: “Além das que
contrário” . mencionamos até agora, há outra espécie de
Naturalmente, há diversas formas de proposições que exige o mais alto grau de
probabilidade. nosso assentimento com base em simples tes­
1) temunho, concorde ou não concorde a coisa
A primeira baseia-se na conformida­
de de algo com nossas experiências passadas proposta com a experiência comum e com
(se houvermos experienciado que certas o curso ordinário das coisas. A razão disso
coisas sempre aconteceram de certo modo, é que tal testemunho é o de Um que não
podemos considerar provável que elas con­ pode enganar nem ser enganado, isto é, do
Segunda pavte - "Hobbes, .Locke/ 3 e rk e le y e -Hume

próprio Deus. Inclui uma garantia que está essencial, ou seja, individuar quais sejam as
além da dúvida, uma prova sem exceções. verdades em que precisamos crer para ser
Com um nome peculiar chama-se revelação, cristãos. Nosso filósofo chega à conclusão
ao passo que o nosso assentimento a ele que tais verdades se reduzem a uma funda­
chama-se fé, determinando absolutamente mental: em crer que “Jesus é o Messias”, o
nossos espíritos e excluindo perfeitamente que eqüivale a dizer que “Jesus é filho de
toda hesitação, como faz o conhecimento. Deus” . Não é que, para Locke, todas as
E como não podemos duvidar de nosso ser, verdades do cristianismo se reduzam apenas
também não podemos duvidar que seja ver­ a esta; esta, porém, constitui o mínimo nú­
dadeira a revelação que nos vem de Deus. De cleo veritativo que é necessário e suficiente
modo que a fé é um princípio estabelecido e crer para dizermo-nos cristãos. As outras
seguro de assentimento e segurança, que não verdades se acrescentam a esta ou a ela se
deixa lugar a dúvidas e hesitações. Devemos seguem.
apenas estar seguros de que se trata de uma Além disso, Locke de fato não negou
revelação divina e que nós a compreendemos no cristianismo nem a componente sobre­
exatamente [...]”. natural, nem o mistério, e por isso o radi­
Locke está convencido de que, em calismo deístico resulta substancialmente
última análise, a fé nada mais é que “um estranho a nosso filósofo. A Razoabilidade
assentimento fundamentado na mais elevada do cristianismo, assim como o Ensaio sobre
razão”. as epístolas de são Paulo, são, na realidade,
obras de exegese religiosa, com que Locke
conclui seu itinerário espiritual.
O Pós-escrito à Carta a Edward Stillin­
2 A v e r d a d e fu n d a m e n ta l: gfleet, redigido por Locke no castelo de
p a r a d ize rm o -n o s cristão s Oates em janeiro de 1697, assim conclui:
“A Sagrada Escritura é, e será sempre, a
é p reciso c r e r q u e
guia constante de meu consentimento; e eu
“j j e s u s é o A ^ c s s i a s ” sempre lhe prestarei ouvidos, porque ela
contém a verdade infalível em relação a
coisas da máxima importância. Gostaria que
Freqüentemente se fez de Locke um se pudesse dizer que nela não há mistérios;
“deísta” ou um “pré-deísta”. Locke, po­ mas devo reconhecer que para mim existem,
rém, na Carta ao Reverendíssimo Edward e temo que sempre existirão. Onde porém
Stillingfleet, de 1697, rejeita com firmeza ser me falta a evidência das coisas, encontrarei
colocado ao lado dos deístas. fundamento suficiente para que eu possa
Na R azoabilid ad e do cristianism o crer: Deus disse isso. Condenarei, portanto,
(obra tão freqüentemente mal-entendida, e imediatamente e rejeitarei toda minha dou­
que deu origem a uma série de polêmicas), trina, logo que me seja mostrado que ela é
Locke não pretendeu transformar o discurso contrária a qualquer doutrina revelada na
do cristianismo em um discurso racional: Escritura”.
fé e razão, para ele, permanecem âmbitos Esta era uma tomada de posição per­
distintos. feitamente em harmonia com as premissas
O gnosiológicas do Ensaio sobre o intelecto
que é premente para Locke é en­
tender a revelação e estabelecer seu núcleo humano.
Cãpítlilo (J u in tO - .Locke e cx fuKidaçâo do empirismo crítico

V . A s doutrirvas m o rais
e po líti c a s

•N a base das concepções morais e políticas de Locke existe o princípio segundo


o qual aquilo que impele o homem a agir é em geral o mal-estar de seu espírito
por causa da necessidade de um bem ausente: quando e se tal bem é alcançado,
o mal-estar se transforma então em alívio.
A liberdade está portanto não no "querer", e sim no poder A ética
de agir e de abster-se da ação. A ética lockiana se configura como lockiana
utilitarista e eudemonista - o bem e o mal morais não são mais é utilitarista
que prazer ou dor, ou aquilo que propicia a nós prazer ou dor -, e eudemonista.
e todavia em sua base existe a lei divina revelada, que a própria O constitucio­
razão humana pode descobrir. nalismo
No plano político, Locke teorizou o constitucionalismo liberal. liberal
- 5 7-2
A sociedade e o Estado nascem do direito natural, que é racional, e
o governo tem , sim, o poder legislativo e executivo, mas continua
sempre sujeito ao juízo do povo. Por fim, em contraste com Hobbes, para Locke o
Estado não deve intervir nas questões de religião: a fé não pode ser imposta, e é
preciso portanto ter tolerância para com as diversas fés religiosas.

1 tA n d a m e n io s r a c i o n a i s As leis às quais os homens comu-


mente referem suas ações são de três tipos
d a m o ra lid a d e.
diversos:
1) as divinas;
2) as civis;
Muito menos rigorosas, embora inte­ 3) as da opinião pública ou reputação.
ressantes, são as idéias morais e políticas de 1) Julgadas com base no parâmetro do
Locke, nas quais os estudiosos destacaram a primeiro tipo de leis, as ações humanas são
presença de não poucas oscilações. “pecados” ou “deveres”;
As concepções de base são as seguintes. 2) julgadas com base no parâmetro do
Como já vimos amplamente, os homens segundo tipo de leis, as ações humanas são
não têm leis e princípios práticos inatos. “delituosas” ou “inocentes”;
O que leva o homem a agir e deter­ 3) julgadas com base no parâmetro do
mina sua vontade e suas ações é a busca terceiro tipo de leis, as ações humanas são
do bem-estar e da felicidade e, como diz
“virtudes” ou “vícios” .
Locke em uma passagem sugestiva, a sen­ Na base da moralidade, portanto, está
sação de embaraço em que freqüentemente a lei revelada, que, aliás, Locke parece fazer
se encontra. coincidir com a lei “promulgada através das
Locke não considera mais a liberdade luzes da natureza”, ou seja, com a lei que a
no sentido de “livre-arbítrio”, o que teria própria razão humana pode descobrir.
im plicado em considerações m etafísicas
estranhas ao seu empirismo. Por conse­
guinte, para Locke, a liberdade não está
no “querer”, e sim “no poder de agir ou 2 O co n stitu cio n a lism o
abster-se da ação” . Além disso, o homem lib era l d e L o c k e
tem o poder de “manter suspensa” a exe­
cução de seus desejos, a fim de examiná-los
atentamente e ponderá-los, fortalecendo Em seus escritos políticos, Locke teo­
assim aquele poder concreto. rizou aquela forma de constitucionalismo
Como toda ética de fundo empirista, liberal pela qual se havia batido, e que se
a ética lockiana só pode ser utilitarista e concretizou na Inglaterra com a Revolução
eudemonista. de 1688.
Segunda parte - -Hobbes, .Locke./ B e rk e le y e Hume

A monarquia não se fundamenta no O Estado tem o poder de fazer as leis


direito divino. Diz Locke que, embora em (poder legislativo) e de impô-las, e fazer com
voga nos tempos modernos, essa tese não que sejam cumpridas (poder executivo). Os
pode ser encontrada nas Escrituras nem nos limites do poder do Estado são estabelecidos
antigos Padres. por aqueles mesmos direitos dos cidadãos
A sociedade e o Estado nascem do di­ para cuja defesa nasceu. Portanto, os ci­
reito natural, que coincide com a razão, a dadãos mantêm o direito de se rebelarem
qual diz que, sendo todos os homens iguais contra o poder estatal, quando este atua
e independentes, “ninguém deve prejudicar contrariamente às finalidades para as quais
os outros na vida, na saúde, na liberdade e nasceu. E os governantes estão sempre su­
nas posses” . São portanto “direitos natu­ jeitos ao julgamento do povo.
rais” o direito à vida, o direito à liberdade, Ao contrário do que sustentava Hobbes,
o direito à propriedade e o direito à defesa para Locke o Estado não deve ter ingerência
desses direitos. nas questões religiosas. E, visto que a fé
O fundamento da gênese do Estado, não é uma coisa que possa ser imposta, é
portanto, é a razão e não, como em Hobbes, preciso ter respeito e tolerância para com
o instinto selvagem. as várias fés religiosas: “A tolerância para
Reunindo-se em uma sociedade, os ci­ com aqueles que discordam dos outros
dadãos renunciam unicamente ao direito de em matéria de religião é algo de tal forma
se defenderem cada qual por conta própria, consoante com o Evangelho e com a razão,
com o que não enfraquecem, e sim fortale­ que é monstruoso existirem homens cegos
cem os outros direitos. a tanta luz”

E T I ST 0 L A
dc

rOLERANTIA
ad

ClariíTifnumViram
T. Á. % 7>. T .O .L .J.
Scripta à

<P. J . 9.0.1.L .J.

E rontispício da p rim eira ed içã o latina


G O U D JE,
da Epístola sobre a tolerância, d e 168 C>.
Para L o c k e o E stad o n ão d eve ingerir-se Apud.] U S T U M AB H O E V E .
nas q u estões d e religião e,
d a d o qu e a fé n ão p o d e ser im posta, c l^ J s c L x x z iü ,
é necessário ter respeito e tolerân cia
p ara com as diversas religiões.
Cdpítulo quinto - 3oh^ -Locke e cx fwndaçào do empirismo crítico

LOCKE
O EMPIRISMO CRÍTICO

O programa do empirismo lockiano é:


EX A M IN A R AS CA PA CIDA DES, AS FU N ÇÕ ES E OS L IM ITE S D O IN T E L E C T O HU M ANO,
A FIM D E ESTA BE LE C ER A G Ê N E SE , A NATU REZA E O VALOR D O C O N H E C IM E N T O HUMANO

A fonte de todo o nosso


O objeto do intelecto conhecimento é
humano quando pensa é
a experiência:
a idéia:
a observação tanto dos objetos externos
a consciência a respeito de uma idéia sensíveis, como das operações
coincide com a própria presença internas do espírito /
da idéia na mente ^

Todas as idéias derivam da experiência:


a mente é uma tabula rasa sobre a qual apenas a experiência escreve os conteúdos

Experiência externa: Experiência interna:


ID É IA S SIM PLES D E SENSAÇÃO ID FJA S SIM PLES DE R E F L E X Ã O
(produzidas em nós pelas qualidades dos objetos externos) (operações do espírito)

Qualidades primárias Q ualidades secundárias


e reais dos corpos (cores, sabores etc.),
(extensão, movimento etc. em parte subjetivas, Volição ! Percepção
das quais as idéias porque não se assemelham (vontade) (intelecto)
correspondentes perfeitamente
são cópias exatas às qualidades primárias

1. Retenção
/ InÉIA S co m plex a s: \
1. Modos: idéias de afecções das substâncias (espaço, duração, ações morais)-^— 2. Distinção
2. Substâncias: idéias de um substrato comum a idéias relacionadas (corpóreas, 3. Confronto
espirituais)
3. Relações: idéias de relações (causalidade, identidade, idéias morais) -4 4. Composição
A total idéia com plexa de uma coisa, designada pelo nom e desta última,
é a “essência” da própria coisa

I d é ia s c u r a is : •*........ .............. 5. Abstração


não pertencem às coisas, mas são invenções do intelecto
e se referem apenas aos sinais lingüísticos

G r a u s d l p e r c e p ç ã o f. d e c e r t e z a :
O co n h ec im en to
1. Intuição, evidência imediata (conhecimento da própria existên­
cia): modo mais claro e mais certo de conhecimento é a percepção da ligação
2. D em onstração, por meio do raciocinar (conhecimento de Deus) e do acordo,
3. Sensação (conhecimento das coisas externas) ou do desacordo
e do contraste,
A aparência do acordo ou do desacordo entre as idéias
entre as idéias
é a probabilidade (cuja forma mais elevada é a fé)
110
_ Segunda parte - -Hobbes,, Locke, B e rk e le y e

2. O argumento do consenso universal


e sua insuficiência
L ocke
Não há opinião mais comumente aceita do
que aquela segundo a qual há certos princípios,
tanto especulativos como práticos (já que nos
referimos a ambos), sobre os quais a humani­
^ 1 A crítica do inatismo dade está universalmente de acordo; estes prin­
cípios, dizem, devem portanto necessariamente
ser as impressões constantes que a alma dos
fí primeiro conseqüência do princípio homens recebe com a própria existência e traz
lockiano fundamental, segundo o qual todas consigo no mundo com equivalente necessidade
as idéias derivam sempre 0 apenas da expe­ e realidade de suas faculdades inerentes.
riência, 0 que não existem idéias inatas. Cste argumento, tirado do consenso uni­
€sta importante argumentação, que pole­ versal, apresenta o inconveniente que, se fosse
miza sobretudo contra o apelo dos inatistas verdadeiro em linha de fato de que existam
ao "consenso universal", é desenvolvida por verdades sobre as quais toda a humanidade
Locke no primeiro livro do Cnsaio sobre o está de acordo, isso não provaria que são ina­
intelecto humano (1Ó90). tas, se há outra maneiro qualquer pora indicar
como os homens chegam ao acordo universal
nas coisas sobre as quais concordam; o que
1. n opinião errônea de que subsistam
presumo que se possa fazer.
princípios inatos no espírito Portonto, aquele que falo de noções inatas
€ opinião difundida qu 0 haja no intelecto no intelecto não pode (se com isso entende uma
certos princípios inatos, algumas noções primá­ verdade distinta qualquer) querer dizer que tais
rias, características, por assim dizer, impressas verdades se encontrem no intelecto de modo
no espírito do homem, que a alma recebe que este não as tenha percebido e que delas
desde o primeiro momento de sua existência e seja totalmente ignorante. Posto que se as pa­
leva consigo no mundo. Seria suficiente, para lavras “estar no intelecto" têm uma propriedade
convencer os leitores privados de preconceitos qualquer, significam "ser entendidas’'. Portonto,
sobre a falsidade desta suposição, mostrar estar no intelecto 0 nõo ser entendido, estar
(como espero fazer nas partes seguintes des­ no espírito e não ser percebido, é o mesmo
te discurso) como os homens, apenas com que dizer que qualquer coisa está e não está
o simples uso de suas faculdades naturais, no espírito ou no intelecto. Se, portanto, estos
podem adquirir todo o conhecimento que têm duas proposições: "Tudo aquilo que é, é" e "C
sem o socorro de alguma impressão inata e impossível que a mesma coisa seja e não seja"
olcançar a certeza, sem tais noções originárias fossem impressas pelo natureza, as crianças
ou princípios. Com efeito, ser-me-á concedido não poderiam ignorá-las; as crianças em fraldas
facilmente, creio, que seria incongruência supor e todos aqueles que têm uma alma deveriam
que as idéias das cores sejom inatos em uma necessariamente tê-las em seu intelecto, conhe­
criatura à qual Deus deu a visão e o poder de cer sua verdode e concordar com ela.
recebê-las com os olhos a partir dos objetos J. Locke,
externos; e não seria menos irrazoável atribuir €nsaio sobre o intelecto humono.
muitas verdades às impressões da natureza ou
às características inatas, quando podemos ob­
servar em nós mesmos faculdades adequadas
para adquirir um conhecimento delos igualmente
fácil e certo como se tivessem sido originaria- 2 n origem das idéias
mente impressas em nosso espírito.
Todavia, uma vez que o um homem não
é permitido sem censura seguir os próprios No segundo livro do Cnsaio sobre o inte­
pensamentos no busca do verdade, quando lecto humano, Locke se ocupa diretamente da
estes o conduzem ainda que um pouco pora origem das idéias simples, que constituem os
fora da estrada comum, exporei os motivos que elementos primeiros do pensamento.
me fizeram duvidar da verdade de tal opinião, fís idéias derivam exclusivamente do
como desculpa para meu erro, caso tenho feito experiência, e precisamente da experiên­
algum; deixo isso ao julgamento daqueles que, cia tanto externa (sensaçãoj) como interna
como eu, estão dispostos a abraçar o verdode (reflexão,).
em qualquer lugar que a encontrarem.
111
Capítulo quinto - .Locke. e a fu n d a ç ã o do empirismo crí+ico

1. fl idéia é o objeto do pensamento aguilo gue é, ê" e "C impossível gue a mesma
coisa seja e não seja"; os guais, entre todos os
Uma vez qu® todo homem está consciente
outros, creio gue tenham o título mais reconhe­
de pensar, e uma vez que isso a que o seu es­
cido para o inatismo. Cstes têm uma reputação
pírito se aplica enquanto pensa são as idéias
tão sólida de máximas universalmente aceitas,
que aí se encontram, está fora de dúvida que
gue sem dúvida se achará estranho gue alguém
os homens têm em seu espírito muitas idéias;
pareça colocá-las em dúvida. Permito-me, po­
como, por exemplo, as expressas pelas pala­
rém, dizer gue essas proposições estão muito
vras brancura, dureza, doçura, pensar, movi­
longe de receber um assentimento universal,
mento, homem, elefante, exército, embriagueze
pois grande parte da humanidade nem seguer
assim por diante, fl primeira pergunta a ser feita
as conhece.
é, portanto: como lhe ocorrem tais idéias?
Sei gue é doutrina comumente admitida
gue os homens tenham idéias e características 4. As crianças e os idiotas
originárias estampadas em seu espírito desde ignoram os princípios especulativos que,
o primeiro momento de sua existência. Já exa­ portanto, não são inatos
minei difusamente esta opinião, e creio gue
aquilo que eu disse no Livro precedente será Com efeito, em primeiro lugar é evidente
mais facilmente aceito quando tiver mostrado gue as crianças e os deficientes não têm a
de onde o intelecto pode buscar todas as idéias mínima percepção ou pensamento o respeito
que tem e de que maneiras e graus elas podem destas proposições. C esta carência basta paro
chegar ao espírito: para isso apelarei ã obser­ destruir o assentimento universal gue deve
vação e à experiência de cada um. forçosamente ser a concomitante necessária
de todos as verdades inatas; parece-me guase
uma contradição dizer gue existam verdades
2. fls duas fontes
do conhecimento humano impressas na alma que elo não percebe ou
compreende: pois a impressão, caso signifique
Suponhamos pois gue o espírito seja por alguma coisa, não pode ser mais gue fazer com
assim dizer uma folha branca, sem gualguer gue certas verdades sejam percebidas. Imprimir
sinal, sem gualguer idéia. De gue modo chegará algo no espírito sem gue o espírito o perceba
a ser provido delas? De onde provém o vasto parece-me com efeito algo dificilmente inteligí­
depósito gue a fantasia índustríosa e ilimitada vel. Se, portanto, as crianças e os deficientes
do homem traçou com uma variedade guase têm uma alma ou um espírito no gual existem
infinita? De onde se consegue todo o material estas impressões, eles devem inevitavelmente
da razão e do conhecimento? Respondo com percebê-las e necessariamente conhecer tais
uma só palavra: da experiência. Sobre ela verdades e dar-lhes seu assentimento; como
todo o nosso conhecimento se funda e dela por não o fazem, é evidente gue não existem tais
último deriva. Nossa observação, empregada impressões. Com efeito, se não são noções
tanto paro os objetos externos sensíveis, como naturalmente impressas, como podem ser ina­
para as operações internas de nosso espírito tas? C se são noções impressas, como podem
gue percebemos e sobre as guais refletimos, ser desconhecidas? Dizer gue uma noção é
é aguilo gue fornece ao nosso intelecto todos impressa no espírito, e ao mesmo tempo dizer
os materiais do pensar. Cstas são as duas gue o espírito é ignorante dela e gue até o
fontes do conhecimento, das quais brotam momento jamais a percebeu, significa tornar
todas as idéias gue temos ou possamos ter esta impressão um nada. De nenhuma propo­
naturalmente. sição se pode dizer gue ela esteja no espírito
enguanto o espírito jamais a tenha conhecido
ou jamais foi consciente dela. Caso se pudesse,
3. Os assim chamados princípios especulativos
do mesmo modo se poderia dizer gue todas as
não são objeto de consenso universal proposições gue são verdadeiras e às guais
Todavia, e isso é pior, este argumento do o espírito poderá dar seu assentimento estão
consenso universal, do gual nos servimos para já impressas no espírito; com efeito, coso se
provar os princípios inatos, a mim parece uma possa dizer de alguma proposição gue esteja
demonstração de gue não existem, posto que no espírito sem gue este a tenha jamais co­
não há nenhum ao qual toda a humanidade dê nhecido, será apenas porgue ele é capaz de
um assentimento universal. Começarei pelos conhecê-la; e igualmente se pode dizer para
princípios especulativos e, na espécie, com os todas as verdades gue jamais conheceu nem
célebres princípios de demonstração. "Tudo jornais conhecerá, uma vez gue um homem
Segunda parte - -Hobbes, Locke, S e rk e le y e Hume

pode viver muito tempo 0 , por fim, morrer, ig­ provêm dos corpos que agem sobre nossos
norando muitas verdades que seu espírito era sentidos. Todo homem tem em si esta fonte de
capaz de conhecer, e com certeza. Por isso, se idéias; e embora não se trate de um sentido,
o capacidade de conhecer fosse a impressão pois nado tem a ver com os objetos externos,
natural de que se fala, todas as verdades que todavia é muito semelhante a ele e poderia
um homem viria a conhecer seriam inatas. O propriamente ser chamada de se n so interno.
que não é mais que um modo impróprio de se Mas assim como chamo o outra de sensação,
exprimir, o qual, enquanto pretende afirmar o chamo esta do reFiexão, pois os idéias que
contrário, nada diz de diverso dos que negam ela nos dá são apenas as obtidas pelo espí­
os princípios inatos. Com efeito, não creio que rito quando reflete em si mesmo sobre suas
alguém tenha negado que o espírito seja capaz próprios operaçõos. Com reflexão entendo,
de conhecer muitas verdades, fl capacidade, portanto, na continuação deste discurso, a
dizem eles, é inata; o conhecimento é adquirido. informação que o espírito tem de suas próprias
Mas, então, que escopo tem a polêmica sobre operações e da maneira com que estas se
as máximas inatas? Se as verdades podem ser desenvolvem, motivo pelo qual vêm o estar no
impressas no intelecto sem ser percebidas, não intelecto as idéias destas operações. Digo que
vejo qual diferença possa haver, em relação à estos duas coisas, isto é, as coisas externas
sua orignem, entre toda verdade que o espírito materiais como objetos da sensação, 0 as ope­
é capaz de conhecer: devem ser todas inatas rações de nosso espírito dentro de nós como
ou todas adventícias, e em vão se procurará objetos da reFiexão, são as únicas origens
distingui-las. das quais todas as nossos idéias têm início.
Cmprego o termo o p e ra çõ e s em sentido lato,
como compreendendo não só ações do espírito
a. fl sensação em torno das próprios idéias, mas também de
alguma espécie de paixão que por vezes delas
Cm primeiro lugar, quando nossos senti­
nasce, como a satisfação ou a inquietude às
dos entram em relação com objetos sensíveis
quais um pensamento dá lugar.
particulares, transmitem ao espírito muitas per­
cepções distintas das coisas, segundo os vários
modos em que tais objetos agem sobre nossos 5. Não há outra fonte de conhecimento
sentidos. C assim chegamos o ter as id é ia s do
am arelo, do branco, do quente, do Frio, do m a ­ Não me parece que o intelecto tenha o
cio, do duro, do am argo, do doce e de todas mínimo indício d e uma idéia quo não lhe pro­
as que chamamos de qualidades sensíveis. C venha de uma ou de outra destas duas fontes.
quando digo que os sentidos os transmitem ao Os o b je to s externos fornecem ao espírito os
espírito entendo que dos objetos externos eles idéias das qualidades sensíveis, que soo todas
transmitem ao espírito aquilo que nele produz as diversos percepções que eles produzem em
estas percepções. Chamo sensação esta grande nós; e o espírito fornece ao intelecto as idéias
fonte da maior parte das idéias que temos, que das próprios operações.
dependem inteiramente de nossos sentidos dos Quando tivermos examinado bem estas
quais o intelecto as deriva. idéias e seus vários modos [combinações e
relações], veremos que toda a nossa provisão
de idéias se reduz a elas e que não temos nada
b. fl reflexão em nosso espírito que nõo provenha o nós por
meio de um ou outro destes caminhos. Cxamine
Cm segundo lugar, a outra fonte da qual
cada um seus próprios pensamentos e indague
a experiência extrai as idéias que fornece ao
a fundo sobre seu próprio intelecto, e diga-me
intelecto é a percepção das operações de
depois se todas as idéias originárias que aí se
nosso espírito em nós mesmos, assim como é
encontram provêm de uma fonte diversa dos
aplicado às idéias que tem; operações que,
objetos de seus sentidos ou das operações
quando a alma reflete 0 as considera, forne­
de seu espírito, considerados como objetos de
cem ao intelecto outro conjunto de idéias que
sua reflexão. Gpor maior qu© seja o massa dos
não poderiam ser obtidas das coisas externas.
conhecimentos que crê ter, ele verá, depois de
Tais são o perceber, o pensar, o duvidar, o
um rigoroso exome, que não há nenhuma idéia
crer, o raciocinar, o conhecer, o q u e re r e todas
em seu espírito que não tenha sido impressa
as diversas ações de nosso espírito; e como
por uma destas duas fontes.
nós mesmos somos conscientes delas 0 as
observamos, delas recebemos em nosso inte­ J. Locke,
lecto idéias igualmente distintas como as que d n s a io s o b r e o in te le c t o h u m a n o .
, .
Capitulo quinto - 3olv> L o ck e e a fundação do empirismo crítico
11 3
....

quase infinita, e assim pode formar à vontade


3 As idéias complexas novas idéias complexas. Todavia, nem mesmo
o engenho mais exaltado ou o intelecto mais
vasto têm o poder, por mois vivaz e diversifica­
O espírito, q ue é p a s s iv o a o re ce b e r as do que seja seu pensamento, de inventar ou
id é ia s sim ples, lo g o q u e as recebeu está em m o ld a r uma só idéia simples nova no espírito,
g rau d e operar ativamente sobre elas de que não tenho sido apreendida nos modos já
diversos modos, 0 so b re tu d o tem o p o d e r d e mencionados; e nem mesmo a força do inte­
com binar os id é ia s entre si, form ando assim lecto pode d e s tru irá s que existem. O domínio
as idéias complexas. do homem sobre este pequeno mundo de seu
intelecto é quase o mesmo que aquele que tem
no grande mundo das coisas visíveis, onde seu
poder, mesmo que exercitado com arte e habili­
fls idéias simples
dade, não consegue fazer mais do que compor
e dividir os materiais que estão à disposição,
a. €lementaridade das idéias simples mas noda pode fazer para fabricar a mínimo
partícula de matério nova ou para destruir um
Poro melhor entender o natureza, o modo
átomo daquela que já existe. Qualquer um que
0 o extensão de nosso conhecimento, uma coisa
tente moldarem seu intelecto uma idéia simples
deve ser atentamente observada a respeito dos
não recebida medionte os sentidos a partir de
idéias que temos: algumas delas são simples,
objetos externos ou a partir da reflexão sobre
outros complexos.
as operações de seu espírito, encontrará em si
Cmbora os qualidades que agem sobre
a mesma incapacidade. Gostaria que alguém
nossos sentidos estão, nos próprias coisas,
tentasse imaginar um gosto que jamais tenha
tão unidas e misturadas que não há separação
chegado a seu paladar, ou fazer-se uma idéia
nem distância entre elas, é em todo coso claro
de um perfume que jamais tenha aspirado;
que as idéias produzidos por elas no espírito
quando ele o puder fazer, estarei pronto para
nele entram, mediante os sentidos, simples e
concluir que um cego pode ter idéias dos cores
não misturadas. Com efeito, mesmo a vista e o
tato recebem freqüentemente oo mesmo tempo
diversos idéias do mesmo objeto, como por
exemplo quando se vêem ao mesmo tempo Rs idéias complexas
o movimento e a cor, ou quando a mão sento
a suavidade e o calor no mesmo pedaço de a. O espírito forma as idéias complexas
cera, as idéias simples, todavia, unidas assim com as simples
no mesmo sujeito, são tão claramente distintas
como os que chegom por sentidos diversos, fl Até agora examinamos as idéias que o
frieza e a durezo que são sentidas em um pe­ espírito recebe passivamente, e que são as sim­
daço de gelo são idéias igualmente distintas no ples, recebidos pela sensação e pela reflexão
espírito como o odor e a brancura de um lírio das quais acobamos de falar; o espírito não
ou o sabor do oçúcar e o odor de umo rosa. pode formar-se por si, nem ter alguma idéia que
Não há nada mois evidente para um homem não consista inteiramente daquelas. Todavia, en­
do que a percepção clara e distinta que tem quanto o espírito está inteiramente passivo oo
daquelas idéias simples; cada uma delas, não receber todas as suas idéias simples, ele exercita
sendo composto em si mesmo, contém em si por sua vontade numerosos atos mediante os
noda mais que uma só aparência uniform e ou quais outras idéias são moldadas com as idéias
concepção no espírito, e não pode ser distinta simples, como materiais e fundamentos delas. Os
em idéias diversas. atos com que o espírito exercita seu poder sobre
as idéias simples são principalmente estes três: 1)
Combinar várias idéias simples paro delas formar
b. O espírito não pode criar
uma complexa; desse modo são formadas todas
nem destruir as idéias simples
as idéias complexos. 2) Pôr junto duas idéias,
fls idéias simples, que são os materiais simples ou complexas, e justapô-los de modo o
de todo o nosso conhecimento, são sugeridas vê-las juntas sem uni-las; assim o espírito obtém
e fornecidas ao espírito apenas pelos dois ca­ todas as suas idéios d e relações. 3) Separar as
minhos acima mencionados, isto é, a sensação idéias de todas as outras que as acompanham
e a reflexão. Umo V0 Z que o intelecto imaginou em sua existência real, e isto se chama abstração:
as idéias simples, ele tem o poder de repeti-las, desse modo são formadas todas as idéias gerais.
confrontá-las e uni-las junto, em uma variedade Isso mostra que o poder do homem e os modos
114
........ Segunda patte - Hobbes, Locke, B erk ele y e -Hume

de seu operar são muito semelhantes no mundo Cm primeiro lugar, chamo de modos as
material e no intelectual. Com efeito, em ambos idéios complexas gue, embora compostas, não
os mundos os materiais são tais que ele não tem contêm em si o suposição de subsistir por si,
nenhum poder sobre eles nem paro fazê-los nem mos sõo considerados como dependências ou
para destruí-los e, portanto, tudo aquilo que pode afecções das substâncias: tais são as idéias
fazeré uni-los juntos ou justapô-los ou separá-los designadas pelas palavras triângulo, gratidão,
do todo. Começarei pelo primeiro destes atos ao homicídio etc. C peço desculpo se nisso uso a
considerar as idéias complexas, e tratarei os outros palavra “modo" em um sentido um tanto diver­
dois no devido lugar. Uma vez que se observa so de seu significado ordinário; é, com efeito,
que as idéias simples existem unidas juntas em inevitável nos discursos gue diferem das noções
várias combinações, o espírito tem o poder de comumente recebidas ou cunhar novas po lavras
considerar diversas delas unidas juntas como ou fazer uso das palavras velhas em sentido
uma única idéia; e isso acontece não só enguanto novo. No coso presente, este último caso é
estão unidas nos objetos externos, mas tombém talvez o mais aceitável dos dois.
enquanto o próprio espírito as uniu. As idéias as- De modos, há duas espécies gue merecem
-sim compostas de várias idéias simples colocadas uma consideração à parte.
juntas, eu os chamo de complexos: tais são a bele­ Primeiro, alguns são simples variações ou
za, a gratidão, um homem, um exército, o universo; combinações diversas da mesma idéia simples,
as guais, embora sejam compostas de várias idéias sem a mistura de outros idéios: como uma dúzia
simples ou de idéias complexas por sua vez forma­ ou uma vintena, os guois não são mais gue os
dos por idéias simples, são todavia consideradas, idéias de outras unidades distintas adicionadas, e
guando o espírito o guiser, cada uma por si, como estas eu chamo de modos simples, enguanto es­
uma coisa inteira e designada com um só nome. tão contidos nos limites de umo só idéia simples.
Nesta faculdade de repetir e conjugar as Segundo, há outros compostos de idéias
próprios idéias entre si, o espírito tem grande simples de várias espécies, colocadas juntas
poder de variar e multiplicar os objetos de seus para formar uma idéia complexa: por exemplo,
pensamentos, muito além daguilo gue lhe foi a beleza, gue consiste de certa composição de
fornecido pela sensação ou pelo reflexão; mas cor e de figuro gue causa prazer a guem o olho;
tudo se limita, porém, às idéias simples gue o furto, gue é a mutação clandestina na posse
ele recebeu daguelas duas fontes, gue são os de uma coisa gualguer, sem o consentimento
materiais últimos de cada composição suo. As do proprietário, e contém, como é evidente,
idéias simples provêm, com efeito, todas dos uma combinação de várias idéias de espécies
próprias coisas, e destas o espírito não pode diversos. Chamo a estes de modos mistos.
ter mais ou diferentes do gue as gue lhe foram Cm segundo lugar, as idéios de substâncias
sugeridas. Não pode hover outras idéias das são combinações de idéias simples das guais
gualidades sensíveis, exceto aguelas gue lhe se assume gue representem coisas particulares
vêm do exterior mediante os sentidos, nem distintas gue subsistem por si, e das guais a
guaisguer idéias de outra espécie de operações idéia presumida ou confusa de substância, seja
de umo substância pensante, exceto aguelas gual for, é sempre a primeira e o mais importan­
gue encontro em si próprio. Mas, uma vez obti­ te. Assim [...] o combinação dos idéias de certa
dos as idéias simples, ele não está reduzido à espécie de figuro com os poderes do movimento,
simples observação e àguilo gue lhe é oferecido do pensamento e do raciocinar, unidas à subs­
a partir do exterior; pode, com seu próprio poder, tância, forma o idéia comum do homem. Ora,
colocar juntas os idéias gue tem e assim formar há duas espécies de idéias também dos subs­
novas idéias complexas, gue jamais hovio rece­ tâncias; uma, de substâncias singulares como
bido ossim unidas. existem separadamente, como de um homem
ou de uma ovelha; a outra de diversas destas
postos junto, como um exército de homens ou
b. Modos, substâncias, relações
um rebanho de ovelhas. C estas idéias coletivas
De gualguer modo gue sejam compostos de diversos substâncias colocadas juntos sõo,
ou decompostas, por mais infinito gue seja seu cada umo por si, idéias singulares como os de
número e sem limites sua variedade, gue ocupo um homem ou de umo unidade.
e empenho os pensamentos dos homens, creio Cm terceiro lugar, a última espécie de
gue as idéios complexos possam, todavia, ser idéias complexas é a gue chamamos de relação,
agrupadas nestes três setores; que consiste em considerar e confrontar uma
1. modos; idéia com outra.
2. substâncias; J. loche,
3. relações. Ç n s o io s o b r e o in te le c t o h u m o n o .
(Sapítulo sexto

C\eorge B e r k e le y :
o im aferialism o em fu n ç ã o
0
d e um a a p o lo e tica ren o v ad a

I. y \ v i d a e o s ig n ific a d o
d a obra de S e r k e le y

• George Berkeley nasceu em Kilkenny, na Irlanda, em 1685. Estudou mate­


mática, filosofia, lógica e os clássicos no Trinity College de Dublin, onde se tornou
doutor em 1707. Em Dublin publicou, em 1709, o Ensaio para uma nova teoria da
visão, e em 1710o Tratado sobre os princípios do conhecimento
humano', no mesmo ano tornou-se padre anglicano e professor Traços
adjunto de grego no Trinity College. biográficos
Em 1713 foi para Londres, onde publicou os Três diálogos
entre Hylas e Philonous e conheceu Swift. Entre 1714e 1720 viajou
pela Europa. Voltando a Londres, em 1721 doutorou-se em teologia e foi nomeado
decano da catedral de Derry. Convencido de que a Europa já estava condenada a
uma inevitável decadência moral, apresentou no parlamento um projeto para a
fundação de um colégio universitário na América para educar os jovens indígenas
americanos; zarpou em 1728 para a América, com a certeza de ter persuadido a
todos da bondade de seu projeto, e passou três anos no Rhode Island, onde com­
pôs o Alcifrão (publicado depois em Londres em 1732); mas em 1731, vendo que
os subsídios do governo não chegavam, voltou para a Inglaterra.
Em 1734 foi nomeado bispo da pequena diocese de Cloyne, na Irlanda, onde
permaneceu até poucos meses antes da morte, ocorrida em 1753.

1 O p ro jeto p a r a a f u n d a ç ã o de seis filhos. Educado em Dysert Castle, nas


proximidades de Thomastown, aos onze anos
d e um c o lé g io u n iv e rsitá rio
de idade ingressou no colégio de Kilkenny e
n a ^ A m é ric a aos quinze já era aluno do Trinity College de
Dublin, onde estudou matemática, filosofia,
lógica e os clássicos. Tornando-se fellow, ou
George Berkeley é um pensador de gran­ seja, doutor, no College em 1707, nesse ano
de destaque na primeira metade do Setecen- e no seguinte escreveu uma série de anota­
tos. Empenhado em um projeto apologético ções (os Comentários filosóficos) que, como
contra o materialismo, o ateísmo e os livres- veremos, contêm os traços fundamentais do
pensadores, Berkeley desenvolve uma teoria seu projeto filosófico. Em 1709, publicou
do conhecimento nominalista e fenomenista, em Dublin o Ensaio por uma nova teoria da
rica em engenhosas argumentações e em in- visão-, no ano seguinte, quando tinha apenas
tuições que, depois dele, iriam continuar preo­ vinte e cinco anos, publicou o Tratado sobre
cupando ou, de qualquer modo, interessan­ os princípios do conhecimento humano.
do a muitos filósofos durante longo tempo. Em 1710 tornou-se pastor anglicano e
George Berkeley, irlandês, nasceu em professor adjunto de grego no Trinity Col­
Kilkenny em março de 1685, primogênito lege de Dublin. Em 1713, mudou-se para
Segunda pãTte - -Hobbes, l_ocke, 13erkt-lfy e -Hume

Londres, onde publicou os Três diálogos glaterra. Como recorda Bertrand Russell, é
entre Hylas e Pbilonous. Nesse trabalho, ele o autor do conhecido verso: “O caminho
verdadeira obra-prima da literatura em lín­ do Império começa do Ocidente” . Foi por
gua inglesa, retornam as teses do Tratado. causa desse verso que a cidade de Berkeley,
E Philonous, o imaterialista, defende pre­ na Califórnia, tomou o seu nome. Nos três
cisamente a teoria do imaterialismo contra anos que transcorreu em Rhode Island, onde
Hylas, defensor da realidade da matéria: comprou uma fazenda e construiu uma casa,
“Eu - diz Philonous - não sou da opinião de Berkeley escreveu o Alcifrone, publicado em
transformar as coisas em idéias, mas muito Londres em 1732.
mais as idéias em coisas, enquanto tomo Em 1734, Berkeley foi nomeado bispo
pelas próprias coisas reais aqueles objetos da pequena diocese de Cloyne, na Irlanda.
imediatos de percepção que, segundo vós, Dedicado à realização de obras filantrópicas
são apenas aparências das coisas”. e morais, permaneceu em Cloyne até poucos
Em Londres, Berkeley conheceu J. meses antes de sua morte, ocorrida em 1753.
Swift, também irlandês, que o apresentou à Uma epidemia que grassou entre 1739 e
corte e o fez conhecer o conde de Peterbo- 1740 constituiu a oportunidade para que o
rough. Na qualidade de capelão, Berkeley bispo Berkeley escrevesse e publicasse, em
acompanhou o conde em uma viagem que, 1744, a Siris, série de reflexões e pesquisas
em 1714, o levou a Paris, Lião e depois à filosóficas sobre as virtudes da água de al­
Itália, até Livorno. Em 1716, Berkeley em­ catrão, e diversos outros assuntos ligados
preendeu uma segunda e longa viagem, que entre si e surgidos uns dos outros.
se encerrou em 1720. Nessa viagem, em que Durante o verão de 1752, Berkeley trans­
acompanhava George Ashe, filho deficiente feriu-se para Oxford, onde morreu poucos
do bispo de Clogher, visitou novamente Pa­ meses depois, em 14 de janeiro de 1753.
ris, esteve em Turim, deteve-se em Nápoles Em 1871, foi publicado, póstumo, o relato
e depois realizou uma excursão pela Púglia; de sua viagem à Itália, intitulado Diário na
ficou em Ischia por quatro meses, passou Itália.
um inverno inteiro na Sicília e, em 1718,
foi para Roma.
Nesse período, escreve em latim o De
motu, contra a interpretação substancialista
da teoria de Newton. E a ocasião para a
elaboração dessa obra foi a participação
em um concurso promovido pela Academia
da França.
No outono de 1720 retornou a Lon­
dres. Doutorou-se em teologia em 1721
e, depois de ter ensinado teologia, grego e
hebraico no Trinity College de Dublin, foi
nomeado decano da catedral de Derry.
Nesse período, ele concebeu o projeto
de fundar um colégio nas ilhas Bermudas,
com o objetivo de evangelizar os “selva­
gens” da América. Sua idéia era a de que a
Europa já estava condenada a uma inevitável
decadência moral. Assim, a civilização e a
religião só iriam sobreviver se as pessoas es­
tivessem em condições de levá-las aos povos
jovens. Como Esther Vanhomrigh (chamada
“Vanessa”, mulher amada por Swift) lhe
deixasse metade de seus bens, Berkeley, per­
suadido de que havia convencido a todos da
Cieorge B erkeley ( 16S5-1 75 ■>) é, a o m esm o tem po,
validade do seu projeto, partiu da Inglaterra o mais p a ra d o x a l e o m ais p rofu n d o
para a América em 1728. Ficou três anos em d os em piristas ingleses.
Rhode Island, à espera dos subsídios que Sua m áxim a “esse est percipi"
lhe haviam sido prometidos. Mas estes não m arcou um a etap a fun dam en tal
chegaram, e assim em 1731 ele voltou à In­ na história da g n osiolog ia con tem p orân ea.
C d p t t u lo S e x to - ÚÀeorge S e rk e le y : o ima+erialismo em fu n ç ã o apologéfica

ii. y \ s ideias, o conkecimeKito humano


e o g r a n d e princípio: ^ e ss e e s t p e rc ip i/;

• No Tratado sobre os princípios do conhecimento humano, Berkeley quer


extirpar o erro da imagem substancial-materialista do universo, tornada quase
inatacável pela ciência moderna e sobretudo pela de Newton. Em
sua opinião, as causas desse erro são as duas crenças no valor das Todas as idéias
idéias abstratas e na existência das qualidades primárias. são sensações
Ora, como Locke, tam bém Berkeley sustenta que o conheci- u1,ares
mento humano é conhecimento de idéias, e não de fatos; segundo ^ ^ “
Berkeley, porém, todas as idéias são nada mais que sensações, e
toda idéia é apenas uma sensação singular, as que chamamos "coisas" emergem
da combinação constante ou da coexistência habitual de algumas dessas idéias.

• Por conseguinte, não existem idéias abstratas; não existe, por exemplo, a
idéia de "homem": o "homem" é apenas uma palavra, enquanto nossas sensações
- nossas idéias - se referem sempre e apenas a um homem particular.
Existem certamente idéias gerais, as quais são porém idéias
particulares usadas para representar outras idéias afins a elas; as O nominalismo
idéias abstratas são portanto ilusões perigosas, porque induzem de Berkeley
a criar substâncias independentes de nossas sensações. § 3~5
Nisso consiste o nominalismo de Berkeley, para o qual existe
apenas aquilo que e enquanto é percebido; e, uma vez que per­
cebemos apenas nossas idéias ou sensações, é inútil falar de coisas que estariam
além de nossas percepções.

• Igualmente errônea e perigosa é a distinção entre qualidades primárias e


qualidades secundárias, porque a ela está ligada a idéia de uma matéria distinta
e existente independentemente do espírito que a percebe. Esta
idéia deve ser combatida também porque está na base do mate- A crítica
rialismo e do ateísmo, dado que, uma vez admitida a existência domateríalismo
da matéria, a conseqüência é reconhecê-la como infinita, imutável - » § 6-7
e eterna. Assim desmorona e se revela inteiramente privada de
sentido tam bém a idéia de substância material, isto é, a idéia da matéria como
substratum, que sustentaria seu "acidente" da extensão.

• Além da infinita variedade de idéias, ou de objetos do co­


nhecimento, há o percipiente: a "m ente", a "alma", o "eu", que A existência
de uma "coisa'
é algo de inteiramente diverso de todas as idéias e no qual elas
consiste
existem, isto é, são percebidas. E uma vez que a combinação das em seu ser
idéias dá lugar àquilo que chamamos "coisas", Berkeley enuncia percebida
o princípio fundamental de seu filosofar: esse est percipi: o ser 8-10
das coisas é ser percebidas, a existência de uma coisa consiste
exclusivamente em seu ser percebida pelo sujeito.

1 A) osso cohKecimento conhecida de Berkeley, cuja primeira parte


— no fim das contas, a única a ser publicada
é conkecimen+o de idéias — traz o seguinte título: “Primeira parte,
e não de fatos na qual indaga-se das causas principais de
erro e dificuldade nas ciências e também as
Em 1710 sai o Tratado sobre os princí­ bases do ceticismo, do ateísmo e da irreli-
pios do conhecimento humano, a obra mais giosidade”.
S e g u n d a p a rte - -Hobbes, Locke, B erk ele y e Hume

Pois bem, o erro fundam ental que


Berkeley pretende erradicar dos fundamen­
tos é precisamente aquela imagem substan-
■ Conhecimento humano. O co­
cialista-m aterialista do universo tornada
nhecimento humano para Berkeley
quase inatacável pela ciência m oderna, resulta de duas "coisas" totalmente
sobretudo pela ciência newtoniana. distintas e heterogêneas: os espíritos,
Na opinião de Berkeley, as causas pri­ que são substâncias ativas, indivisí­
meiras desse erro estão: veis, incorruptíveis, e as idéias, que
a) na crença no valor das idéias abs­ são paixões inertes, transitórias, pere­
tratas; cíveis, isto é, entidades dependentes
b) na crença — ligada à primeira — de das substâncias espirituais. O espírito
é propriamente o sujeito que percebe
que, como contrapartida às qualidades se­
as idéias, as quais "não podem existir
cundárias, existem qualidades primárias. a não ser em uma mente que as per­
Para simplificar, podemos dizer que os cebe"; ora, para Berkeley todas as
alvos visados por Berkeley em seu Tratado idéias nada mais são que sensações, e
sobre os princípios do conhecimento huma­ nossos sentidos nos informam apenas
no são Newton e Locke, isto é, o universo das sensações, mas de modo nenhum
newtoniano, feito de substância material da existência de coisas fora da mente:
independente da mente, e a psicologia lo- portanto, não existe nada fora da­
ckiana, que, por exemplo, admite que boa quilo que é percebido pelo espírito,
e o esse ("ser") do que chamamos
parte de nosso conhecimento é constituída "coisas" é simplesmente um percipi
de idéias abstratas. ("ser percebidas").
Todavia, para compreender bem estas
duas complexas questões, devemos entender
qual é a origem e o objeto de nosso conhe­
cimento.
Juntamente com Locke, Berkeley sus­
tenta que nosso conhecimento é conheci­ que certa cor se faz acompanhar por certo
mento de idéias e não de fatos. Portanto, os sabor, certo odor, certa forma e certa con­
objetos de nosso conhecimento são idéias. sistência, todas essas sensações são consi­
deradas como uma coisa só e distinta das
outras, indicada com o nome de ‘maçã’; ao
2 ;As idéias derivam passo que outras coleções de idéias cons­
tituem uma pedra, uma árvore, um livro
apenas das sensações e semelhantes coisas sensíveis, que, sendo
agradáveis ou desagradáveis, excitam em
nós os sentimentos de amor, de ódio, de
M as de onde provêm essas idéias? Res­ alegria, de ira etc.”
ponde Berkeley: “Da vista obtenho as idéias Todas as idéias, portanto, derivam das
da luz e das cores, com seus vários graus e sensações, e os “objetos” ou “coisas” são
suas diferenças. Com o tato percebo o duro apenas coleções ou combinações formadas
e o macio, o quente e o frio, o movimento e por sensações.
a resistência etc., tudo isso em quantidade e
grau maior ou menor. O olfato me fornece
os odores; o gosto me dá os sabores; o ou­ 3 P or que não exis+em
vido transmite à mente os sons, em toda sua idéias abs+ra+as
variedade de tons e combinações”.
As idéias, portanto, são sensações. Elas
provêm dos sentidos. Na opinião de Berkeley, não existem
E é por causa da combinação constan­ idéias abstratas , como, por exemplo, a idéia
te ou da habitual coexistência dessas idéias abstrata de homem, de extensão, de cor
que emerge aquilo que nós chamamos de etc. Em suma, Berkeley contesta a teoria
coisas ou objetos: “Como se vê que algu­ segundo a qual a mente humana teria a
mas dessas sensações se apresentam juntas, capacidade de abstração e nega o valor das
elas são apontadas com um só nome e, idéias abstratas.
por conseguinte, consideradas como uma Toda idéia, com efeito, é apenas uma
coisa só. Assim, por exemplo, observando sensação singular. Nós não percebemos o
C ã p í t u l o S eX tO - 6íeo^ge 3 e rk e le y : o ima+enalismo em [unção apologé+ica
119

“homem”, mas este homem; nós não temos sentando-se constantemente juntas, fazem
a sensação da “co r”, mas desta cor, que tem emergir a idéia de casa, de homem, de rio
esta tonalidade; e, da mesma forma, nós não ou de extensão.
ouvimos o som, mas este som.
E toda sensação, precisamente, é singu­
lar e não abstrata. Eu não posso ter a idéia 5 (So n se q ü e n e ia s
de triângulo se não penso simultaneamente
em um triângulo escaleno, em um triângulo d o n o m in alism o d e B e r k e l e y
isóscele ou em um triângulo eqüilátero. E o
“homem” é apenas uma palavra: nossas sen­
sações, imaginações ou recordações — isto As idéias abstratas, portanto, devem
é, nossas idéias — dizem respeito sempre a ser rejeitadas porque alimentam a crença em
um homem particular. substâncias existentes independentemente de
Concluindo, as idéias abstratas são nossas sensações e que constituiriam suas
ilusões. E ilusões perigosas, já que induzem causas. Aí está a razão daquela “estranha­
a ontologizar, ou seja, a “criar” substâncias mente difundida opinião” de que “as casas,
ou substratos para além de nossas sensações. as montanhas, os rios, em suma, todos os
Impelem-nos a conceber mundos fantásti­ objetos sensíveis têm uma existência, real ou
cos de essências (“o homem”, “a co r”, “os natural, distinta do fato de serem percebidos
corpos m ateriais” etc.), que presumimos pelo intelecto”, enquanto, na realidade, cada
serem reais. uma destas coisas existe apenas enquanto é
percebida.
Admitindo que todo o nosso conhe­
4 O n o m in a lism o d e B e r k e l e y cimento consiste de sensações, torna-se
evidente que o critério para dizer se uma
coisa existe é que ela seja percebida. Não há
Esta é, portanto, uma forma de nomi­ percepção a partir do nada. Nós só perce­
nalismo bastante acentuada. bemos nossas idéias ou sensações. Portanto,
Em suma: nós conhecemos somente é vão falar de cópias materiais que estão
idéias; estas coincidem com as impressões além de nossas percepções. Como também
dos sentidos; as impressões dos sentidos é vão falar de substâncias não perceptíveis
são sempre singulares, ou seja, concretas expressas por idéias abstratas, substâncias
e individuais; conseqüentemente, a teoria que constituiriam o substratum das nossas
lockiana da abstração está equivocada; e sensações. Nosso conhecimento é feito de
trata-se de um erro grave, pois gera a ilusão sensações; a mente percebe sensações e as
de que existem substâncias, essências ou, combina.
de todo modo, coisas para além das nossas Não vai além delas, nem pode ir.
percepções, como substratos delas.
Na realidade, as idéias abstratas são
ilusões; toda idéia é particular.
E só quando tomamos uma idéia par­
6 f a l s a a dis+in ção
ticular e a usamos para representar todas en+re q u a lid a d e s p r im á ria s
aquelas idéias que a ela se assemelham é e q u a l i d a d e s s & c iA n d á n a s
que, então, chamamos tal idéia particular
de geral. M as uma idéia geral não é de
modo algum uma idéia abstrata, isto é, uma Se as idéias abstratas são errôneas e pe­
idéia que deveria prescindir de cada uma e rigosas, não menos errônea e perigosa é a
de todas as características perceptíveis por distinção entre qualidades primárias e qua­
nossos sentidos. lidades secundárias. Diz Berkeley: “Com as
N ós não conhecem os o “hom em ” , primeiras, (alguns) indicam a extensão, a
mas apenas este ou aquele homem; não forma, o movimento, a quietude, a solidez
conhecemos a “extensão”, mas sempre esta ou impenetrabilidade e o número; com as
ou aquela coisa extensa; não conhecemos segundas, denotam todas as outras quali­
a “casa”, mas sempre esta ou aquela casa dades sensíveis, como as cores, os sons, os
e assim por diante. A realidade é que, de sabores etc.”
quando em vez, nós temos sensações dis­ Pois bem, aqueles que afirmam tal
tintas, concretas e individuais, que, apre­ distinção a entendem no sentido de que as
Segunda parte - -Hobbes, Locke/ Se^ k eley e 'Hume

idéias que temos das qualidades secundárias rial’, veremos que eles reconhecem que não
(cores, sabores, sons etc.) não são idéias de podem vincular a esses sons nenhum outro
coisas externas à nossa mente, enquanto significado senão o da idéia de ser em geral,
dizem que “as nossas idéias das qualida­ juntamente com a noção relativa de que esse
des primárias são exemplares ou modelos ser sustenta acidentes”.
de coisas que existem fora da mente, em Entretanto, contra-ataca Berkeley, “a
uma substância privada de pensamento idéia geral de ser parece-me mais abstrata
que se chama ‘matéria’ ”. Por conseguinte, e incompreensível do que qualquer outra.
comenta Berkeley, “por ‘matéria’ devemos Quanto ao fato de ele sustentar acidentes,
entender uma substância inerte e privada de como acabamos de observar, não se pode en­
sentido, na qual subsistiram atualmente a tender isso no sentido comumente atribuído
extensão, a forma, o movimento etc.”. a essa palavra; deve-se portanto entendê-lo
Com o se vê, portanto, à distinção em algum outro sentido, que eles não expli­
entre qualidades secundárias e primárias cam qual seja. Desse modo, examinando as
está ligada a idéia de matéria distinta e duas partes ou ramos que constituem o sig­
existente independentemente do espírito nificado das palavras ‘substância material’,
que a percebe. estou convencido de que não há nenhum
Todavia, na opinião de Berkeley, a significado distinto relacionado com elas”.
existência de matéria independente da mente E mais: “Por que devemos nos preo­
constitui a base do materialismo e do ateís­ cupar ainda em discutir esse substratum ou
mo, já que, admitida a existência da matéria, sustentáculo material da forma, do movi­
não é nada difícil reconhecê-la — contraria­ mento etc.? Será que isso não implica que
mente ao que pensavam Descartes, Newton forma e movimento teriam uma existência
e aqueles que neles se baseavam — como fora da mente? E não será essa uma contra­
infinita, imutável e eterna. De modo que dição imediata totalmente inconcebível?”
é exatamente na negação da existência da Não há, portanto, distinção entre qua­
matéria independente do espírito que deve lidades secundárias e primárias. Tanto umas
insistir uma apologética nova, combativa e como outras estão na mente. E a expressão
adequada aos novos tempos. E é precisa­ “substância material” é simplesmente pri­
mente isso que faz Berkeley. vada de sentido.

7 C-ríii c a d a id é ia 8 y\ e x i s t ê n c i a d a s id é i a s
d e “s u b s t â n c i a m a t e r i a l ”

Portanto: os objetos de nosso conhe­


Caindo a distinção entre qualidades cimento são as idéias; estas se reduzem a
primárias e secundárias, também cai por sensações; as combinações constantes de
terra a idéia de substância material. idéias são as coisas. Mas as idéias e suas
Como observa Berkeley, dizem que a combinações constantes estão apenas na
extensão é um modo ou um acidente da mente; as sensações são sempre concretas e
matéria, e que a matéria é o substratum que individuais, e por isso as idéias abstratas são
o sustenta. somente ilusão. A distinção entre qualidades
Mas o que significará dizer que a ma­ primárias e secundárias é apenas erro peri­
téria “sustenta” seus “acidentes” ? goso; e a expressão “substância material” é
Responde Berkeley: “E evidente que, contraditória ou não significa absolutamente
nesse caso, a palavra ‘sustentar’ não pode nada. São esses os resultados a que Berkeley
ser entendida em seu sentido usual ou lite­ nos conduziu até agora.
ral, como quando dizemos que as colunas Mas ele não pára nisso. Com efeito,
sustentam um prédio. M as, então, em que “além dessa variedade infinita de idéias
sentido devemos entendê-la? No que me diz ou de objetos do conhecimento, há ainda
respeito, não consigo encontrar um signifi­ algo que conhece ou percebe essas idéias,
cado que lhe possa ser aplicado”. exercendo sobre elas diversos atos, como
Com efeito, “se examinarmos aquilo o querer, o imaginar, o recordar etc. Esse
que os filósofos mais escrupulosos declaram ser que percebe e age é aquilo a que chamo
eles próprios entender por ‘substância mate­ ‘mente’, ‘espírito’, ‘alma’, ‘eu’. Com essas
C d p t t u l o S ex tO - Í^Ãeorge S e rk e le y : o imciteria!fsmo em função apologé+ica

palavras, eu não estou indicando nenhuma pressões desse gênero. Porque, para mim, é
idéia minha, mas uma coisa diferente de to­ inteiramente incompreensível aquilo que se
das as minhas idéias e na qual elas existem, diz da existência absoluta de coisas que não
ou seja, pela qual elas são percebidas, o que pensam, sem qualquer referência ao fato de
significa a mesma coisa, pois a existência de que são percebidas. O esse das coisas é um
uma idéia consiste em ser percebida”. percipi. E não é possível que elas possam ter
uma existência qualquer fora das mentes ou
das coisas pensantes que as percebem”.
9 A n á lis e sem â n tica
d o t e r m o "sey-"
e red u ção d este IO,# T o d a c o i s a q u e e x i s t e ,

a o "s e i* p e r c e b i d o " e x i s t e a p e n a s e m u m a m e n te :
sem e la n ão possui
nenkw m a su b sistê n cia
E assim chegamos ao grande princí­
pio, segundo o qual o esse das coisas é um
percipi. Nós só podemos dizer que uma coisa
A prova que ele apresenta para uma tese existe porque a percebemos: sua existência
de tão grande peso consiste em outra análise consiste e se reduz ao seu ser percebida.
semântica, em torno da palavra “existir”, Esta, sentencia Berkeley, é uma ver­
quando aplicada a objetos sensíveis. dade imediata e óbvia: “ [...] toda a ordem
Eis as precisas palavras de Berkeley: dos céus e todas as coisas que enchem a
“Digo que a mesa sobre a qual escrevo terra, em suma, todos aqueles corpos que
existe, isto é, que a vejo e a toco. E se ela formam a enorme base do universo não têm
estivesse fora de meu escritório, diria que nenhuma existência sem uma mente, pois
existe, entendendo dizer que poderia per­ o seu esse consiste em serem percebidos
cebê-la se estivesse no meu escritório ou ou conhecidos. Por conseguinte, enquanto
então que há algum outro espírito que a não são percebidos atualmente por mim,
percebe atualmente. Havia um odor, isto ou seja, enquanto não existem na minha
é, era sentido; havia um som, isto é, era mente nem na de qualquer outro espírito
ouvido; havia uma cor ou uma forma, isto criado, eles de fato não existem, ou, caso
é, era percebida com a vista ou com o tato contrário, existem na mente de algum Es­
— eis tudo o que posso entender com ex­ pírito Eterno” . [T]
Segunda pãTte - -Hobbes/ .Locke, B erk ele y e H ume

— III. D e u s =
e a s ^leis d a natui^eza^

O espírito • Aquilo que não pode ser representado por nenhuma idéia
humano é o espírito humano, o qual, enquanto percebe idéias, é intelecto,
é intelecto ao passo que, enquanto produz idéias, é vontade. Ora, as idéias
e vontade percebidas atualm ente, que são particularmente fortes, vivazes,
-§7-2 ordenadas e coerentes, não são criações da vontade humana: elas
são produzidas por outra vontade, isto é, por outro espírito, e
precisamente por um Autor sapiente e benévolo.
"leis Em última análise, portanto, é Deus a razão que explica
de natureza" a estabilidade, a ordem e a coerência das idéias, é Deus quem
- 5 3 suscita em nós as idéias segundo regras fixas que são chamadas
leis de natureza. O funcionamento coerente e uniforme de nos­
sas idéias, dirigido à conservação de nossa vida, revela a bondade e a sabedoria
de Deus.

A negação * O mundo de Berkeley quer ser o mundo de sempre, o


da matéria mundo que experimentamos e no qual nos toca viver todos os
->§4 dias. O que ele nega é unicamente o que os filósofos chamam
de "m atéria" ou "substância corpórea". Mas, deixando de lado
a matéria, a humanidade não sofre nenhum dano, e os homens não perceberão
de fato aquilo que é negado. A negação da matéria é necessária a fim de que o
ateu não possa mais justificar e sustentar sua posição.

1 O in + e le c + o k u m a n o ser representado por nenhuma idéia, porque


c o m o r e a lid a d e e sp iritu a l
é um agente".
Existe, portanto, o espírito, isto é, a
mente. E os objetos do conhecimento, ou
Com a eliminação da matéria e a reafir­ seja, as idéias, estão na mente.
mação da existência do espírito ou alma do Chegando a esse ponto, Berkeley não
homem, a realização do projeto apologético podia evitar uma grande dificuldade: se to­
de Berkeley já se encontra encaminhada, mas das as idéias estão na mente e se o mundo
ainda não está concluída. externo à mente (mundo no qual se poderia
Ainda falta a presença de Deus no controlar a validade dessas idéias) é somente
mundo de Berkeley. uma ilusão, como será possível distinguir
E eis então como Berkeley completa o entre as idéias que dependem de nossa ima­
seu projeto. ginação e aquelas que, ao contrário, não
Existe o espírito humano e “um espírito podem ser suscitadas nem modificadas à
é um ser simples, indivisível e ativo: enquan­ vontade?
to ele percebe idéias, chama-se ‘intelecto’;
enquanto produz idéias ou opera de outro
modo sobre elas, chama-se ‘vontade’ ”. En­ 2 é^ x istê n cia d e D e u s
tretanto, observa Berkeley, “até onde posso c o m o c r i a d o r d a s id é ia s
ver, as palavras ‘vontade’, ‘intelecto’, ‘men­
te’, ‘alma’, ou ‘espírito’ não indicam idéias
diferentes, aliás, não indicam propriamente Pois bem, aqui Berkeley desencadeia
nenhuma idéia: ao contrário, indicam algo a sua engenhosidade, transformando uma
que é muito diferente das idéias e que não dificuldade do seu projeto em um ponto
pode ser semelhante a nenhuma idéia nem forte.
Capítulo sexto - G e o fg e B efkt'1 ey: o imafenalismo em função apologética

Na realidade, diz ele, “qualquer que condições de regular nossas ações segundo
seja o poder que tenho sobre meus pró­ as necessidades da vida. Sem essa capaci­
prios pensamentos, considero que as idéias dade, estaríamos continuamente à beira do
percebidas atualmente pelos sentidos não precipício: não poderíamos nunca saber
dependem no mesmo modo de minha von­ como usar alguma coisa de modo a nos
tade. Quando abro os olhos em plena luz dar ou retirar a mínima dor sensorial. Não
do dia, não posso escolher entre ver ou não poderíamos saber que o alimento nutre, que
ver, nem determinar que objetos devem se o sono restaura, que o fogo esquenta, que
apresentar precisamente à minha vista. E o semear no tempo da semeadura é o único
mesmo ocorre com a audição e os outros modo de colher o cereal no tempo da colhei­
sentidos: as idéias neles impressas não são ta ou, em geral, que estes ou aqueles meios
criações da minha vontade. Assim, há algu­ levam a obter estes ou aqueles resultados.
ma outra vontade, ou seja, outro espírito, Nós sabemos tudo isso não porque descobri­
que as produz ”. mos alguma relação necessária entre nossas
As idéias percebidas atualmente pelos idéias, mas somente porque observamos
meus sentidos não dependem de minha as leis estabelecidas pela natureza, sem as
vontade. Portanto, elas são produzidas por quais ficaríamos todos incertos e confusos,
outra vontade. e um adulto não saberia comportar-se na
Mas isso não basta. vida cotidiana melhor do que uma criança
Com efeito, “as idéias dos sentidos são recém-nascida”.
mais fortes, mais vivas e mais distintas do Nossas idéias, portanto, não estão ar­
que as idéias da imaginação; ademais, elas mazenadas em prateleiras em nossa mente.
têm estabilidade , ordem, coerência. Não Elas exibem “um funcionamento coerente e
são suscitadas por acaso, como ocorre fre­ uniforme”, orientado para a conservação da
qüentemente com as causadas pela vontade vida. Nosso conhecimento é instrumento de
humana, mas sim mediante processo regular, conservação da vida. E tal funcionamento
ou seja, em uma série ordenada” . coerente e uniforme das idéias, na opinião
Pois bem, de onde provêm essa esta­ de Berkeley, “mostra com toda a evidência
bilidade, essa ordem e essa coerência de a bondade e a sabedoria daquele Espírito
idéias não suscitadas por acaso? Qual é a regente, cuja vontade constitui as leis da
sua razão? natureza”. E nós, no entanto, ao invés de
nos orientarmos em sua direção, ficamos
vagueando em busca de causas segundas.
3 A s leis d a n a t u r e z a
s ã o a s r e g r a s fix a s
co m a s q u ais D e u s
4 A re a lid a d e p a r a B e r k e le y
p e .^ m a n e .c e . c o m o a n t e s ,
p ro d u z em nós a s id éias
m a s d iversam en te
in te rp re tad a
A essas interrogações, cruciais para seu
sistema filosófico, Berkeley responde que “a
admirável conexão dessa [série ordenada de Com tudo isso, Berkeley não pretende
idéias] demonstra por si só a sabedoria e a retirar nada da riqueza, da vivacidade e da
benevolência de seu Autor. E as regras fixas, realidade da natureza: “Tudo aquilo que
os métodos segundo os quais a Mente da vemos, que tocamos, que ouvimos ou que,
qual dependemos suscita em nós as idéias de algum modo, concebemos e entendemos,
dos sentidos, são chamadas ‘leis da nature­ continua firme como antes; existe uma re-
za’. E nós as captamos por meio da experiên­ rum natura e a distinção entre realidade e
cia, que nos ensina que estas ou aquelas quimeras conserva toda a sua força”.
idéias são acompanhadas por estas ou aque­ O mundo de Berkeley quer ser o mundo
las outras, no curso ordinário das coisas” . de sempre, o mundo que experimentamos e
Portanto, é Deus a razão que explica no qual nos cabe viver todos os dias.
a estabilidade, a ordem e a coerência das O que ele nega é unicamente aquilo
idéias; é Deus quem suscita em nós as idéias, que “os filósofos chamam de matéria ou
segundo regras fixas. E “isso nos dá certa substância corpórea” . M as, cortando-se a
capacidade de previsão, que nos coloca em matéria ou substância corpórea, a humani­
Segunda parte - t-lobbes, Locke, B erk ele y e Hume

dade não sofre danos nem seus sofrimentos chamamos objetos naturais teriam uma vida
aumentam. A negação da matéria não empo­ aos pedaços, “saltando” de repente para a
brece a vida, pois os homens nem ao menos existência quando nós os olhamos. E Russell
perceberão aquilo que é negado. O objetivo transcreve uma quadrinha com resposta, de
que se alcança ao negar a matéria é somente Ronald Knox, que expõe a teoria de Berke­
o de fazer com que o ateu não poderá mais ley sobre os objetos materiais, com refinado
justificar e sustentar “sua impiedade”. sabor irônico-maiêutico:
Claro, porém, que também para Berke­
ley existem as mesas, as casas, as praças, os Pasmava um dia um mocho:
jardins com as plantas, os rios e as mon­ “Certo Deus acha bem tolo
tanhas. O que, porém, não existe, em sua que aquele pinheiro ainda exista
opinião, é a substancialidade material deles. se não há ninguém à vista”.
Bertrand Russell observa que Berkeley
sustentava que os objetos materiais só exis­ RESPOSTA: “Muito tolo, meu senhor,
tem à medida que são percebidos. Pode-se é somente o teu estupor.
objetar contra essa idéia que, se isso fosse Pois nem pensaste que, se
verdadeiro, uma árvore deixaria de existir aquele pinheiro sempre existe,
quando ninguém a olhasse. M as Berkeley é porque o olho eu,
responde que Deus sempre vê tudo e que, se que te saúdo e sou
não houvesse nenhum Deus, aqueles que nós Deus.”

TREATISE
Concerning the

PRINCIPLES
or

Human JÇrunsdege.
P A R T i.

Whcrein the chief Caufes o f Error and Dtf-


ficulty in the Sciences, with the Grounds
of Scefticifm, Atheifm, and Irreligta*, are
inquird into.

By George Berkeley, M. A. Fdlow o f


Trinity-College, Dublin.
N o Tratado sobre os princípios
do conhecimento humano d e 1710,
sua o b ra m ais con h ecid a, D V B L I N:
B erkeley sustenta qu e o con h ecim en to
hu m an o é conhecimento de idcias Printcdby A a r o n R h a m e s , f o r j E r t E M v

e n ão d e fatos, Pi f y \ t , Bookícller í n Skinner-Row, 1710.


e qu e tod a idéia
é um a sensação singular.
C ã p í t u l o S e x tO - C À & o rg e . B erk ele y: o ima+erialismo em função apologética

BERKELEY
'ESSE EST PERCIPI'

Deus,
Espírito onipotente,
é a mente e a vontade
das quais dependem

/ \
* X as “leis da natureza”,
o espírito hum ano,
isto é, a estabilidade, a ordem
única substância ou suporte no
e a coerência das
qual possam existir entes que
não pensam, isto é, as idéias;
suas faculdades são

a vontade: o intelecto:
produção de percepção de

í 1. idéias impressas nos sentidos no momento atual

2. idéias de emoções e de atos da mente


1 * ________________________________________________________________ .................................. ...

i 3. idéias formadas com o auxílio da memória e da imaginação

Da combinação constante
ou da coexistência habitual de algumas idéias \
se produzem \
i
as “coisas” /
\ que consistem apenas em seu
ser-percebidas
i
A ________________ _
“ E s s e e s t p e r c ip i” :

EXISTE APENAS AQUILO QUE E ENQUANTO É PERCEBIDO

Conseqüências diretas:
1) não existem as idéias abstratas
2) não existem as qualidades primárias dos corpos
3) não existe a substância material, e é vão falar da existência de “coisas”
externas à mente
Segunda pavte - -Hobbes, .Locke, 13e^keley e -Hume

livro e semelhantes coisas sensíveis que, sendo


agradáveis ou desagradáveis, excitam em nós
B erkeley os sentimentos de amor, de ódio, de alegria,
de ira etc.

2. ”€sse est percipi"


H Os princípios 1. Mas além dessa infinita variedade
do conhecimento humano de idéias, ou de objetos do conhecimento,
há também algo que conhece ou percebe as
idéias, e exerce sobre elas diversos atos como
O Tratado sobre os princípios do conhe­ o querer, o imaginar, o recordar etc. Cste ser
cimento humano (1710), que é a obro mois que percebe e age é aquilo que chamo de
conhecido de Berkeley, constitui na realidade "mente", "espírito", "alma", "eu". Com estas
apenas a primeira de quatro partes projeta­ palavras não indico nenhuma idéia minha, mas
das,: com efeito, ele fornece como subtítulo: uma coisa inteiramente diversa de todas as
Parte I, na qual se indagam as principais minhas idéias e no qual elas existem, ou seja,
causas de erro e de dificuldades nas ciên­ pela qual elas são percebidas: o que significa
cias e também as bases do ceticismo, do o mesmo porque a existência de uma idéia
ateísmo e da irreligiosidade. Mas Berkeley consiste em ser percebida.
jamais publicou nem a segunda parte (cujo 2. Todos reconhecerão que nem os nos­
manuscrito se perdeu), nem as outras duas sos pensamentos nem os nossos sentimentos
previstos. nem as idéias formadas pela imaginação po­
€m todo caso, o Tratado contém a de­ dem existir sem a mente. Mas, para mim, não
monstração a priori da doutrina "imateriolista" é menos evidente que as várias sensações,
de Berkeley. ou seja, as idéias impressas nos sentidos,
por mais fundidas e combinadas junto (isto
é, sejam quais forem os objetos compostos
por elas), não podem existir a não ser em
1. fls idéias são os objetos
uma mente que as perceba. Creio que toda
de nosso conhecimento
pessoa pode perceber isso por via intuitiva, se
1. pensa naquilo que significa a palavra “existir"
é evidente para quem examinar os ob­
jetos do conhecimento humano, que estes são: quando é aplicada a objetos sensíveis. Digo
ou idéias impressas nos sentidos no momento que a mesa sobre a qual escrevo existe, isto
atual; ou idéias percebidas prestando atenção é, que a vejo e a toco; e se estivesse fora de
às emoções e aos atos da mente; ou, por fim, meu escritório eu diria que existe, querendo
idéias formadas com o auxílio da memória e dizer que poderia percebê-la se estivesse em
da imaginação, reunindo, dividindo ou ape­ meu escritório, ou então que há algum outro
nas representando as idéias originariamente espírito que atualmente a percebe. Havia um
recebidas nos [dois] modos precedentes. Da odor, isto é, era sentido; havia um som, isto é,
visão obtenho as idéias da luz e das cores, com era ouvido; havia uma cor ou uma forma, isto
seus vários graus e suas diferenças. Com o tato é, era percebida com a vista ou com o tato: eis
percebo o duro e o macio, o quente e o frio, o tudo o que posso entender com expressões
movimento e a resistência etc., e tudo isso em deste gênero. Porque para mim é totalmente
quantidade ou grau maior ou menor. O olfato me incompreensível aquilo que se diz da existên­
fornece os odores; o gosto me dá os sabores; cia absoluta de coisas que não pensam, e
a audição transmite à mente os sons em toda sem nenhuma referência ao fato de que são
sua variedade de tom e de combinações. C, uma percebidas. O esse das coisas é um percipi,
vez que se vê que algumas destas sensações e não é possível que elas possam ter uma
se apresentam juntas, são assinaladas com um existência qualquer fora das mentes ou das
só nome e, portanto, consideradas como uma coisas pensantes que as percebem.
só coisa. Assim, tendo observado, por exemplo, 3. C, com efeito, estranhamente difundi­
que se acompanha certa cor com certo sabor, da a opinião de que as casas, as montanhas,
certo odor, certa forma, certa consistência, todas os rios, em suma, todos os objetos sensíveis
estas sensações são consideradas como uma tenham uma existência real ou natural, distinta
coisa só e distinta das outras, indicada com o do fato de serem percebidos pelo intelecto.
nome de “maçã"; enquanto outras coleções de Todavia, por mais que seja grande a certeza e
idéias constituem uma pedra, uma árvore, um o consenso com os quais até agora se aceitou
, 127
Capítulo sexto - G eo i*0 e B erk eley: o imaterialismo em fu n ç ã o apologé+ica ____

este princípio, todavia, quem quiser pô-lo em nenhuma subsistência sem uma mente, e seu
dúvida se dará conta (se não me engano) que esse consiste em serem percebidos ou conhe­
ele implica uma contradição evidente. Com cidos. C, por conseguinte, enguanto não são
efeito, o que são, digam-me, os objetos acima percebidos atualmente por mim, ou seja, não
elencados senão coisas gue percebemos com existem em minha mente nem na de gualguer
o sentido? C o gue podemos perceber além de outro espírito criado, de fato não existem, ou
nossas próprias idéias ou sensações? € não é, então subsistem na mente de algum Cspírito
por outro lado, contraditório gue gualguer uma Cterno: pois seria absolutamente incompreen­
destas, ou qualquer combinação destas, possa sível, e levaria a todas as obsurdidodes do
existir sem ser percebida? abstração atribuir a gualguer parte do univer­
so uma existência independente de gualguer
espírito. Para dar a isso a evidencia luminosa
3. Rs idéias abstratas são ilusórias
de verdade axiomática, parece suficiente gue
1. Se examinarmos acuradamente este eu procure provocar a reflexão do leitor, a fim
principio, veremos talvez que ele depende no de gue ele considere desapaixonadamente o
fundo das idéias abstratas. Com efeito, pode significado [das palavras gue emprega] e dirija
existir um esforço de abstração mais elegan­ diretamente a este problema seu pensamento,
te do gue aguele gue consegue distinguir a livre e desembaraçado de todo estorvo de pa­
existência de objetos sensíveis do fato de gue lavras e de toda prevenção em favor de erros
eles sejam percebidos, de modo o pensar gue comumente aceitos.
eles não sejam percebidos? O gue são a luz 3. Disso gue foi dito aparece evidente
e as cores, o guente e o frio, a extensão e as gue não existe outra substância além do "es­
formas, em uma palavra, tudo aguilo gue vemos pírito", ou seja, daguilo gue percebe. Mas,
e tocamos, senão sensações, noções, idéias ou para melhor demonstrar isso, observemos que
impressões do sentido? € é possível separar, as qualidades sensíveis são a cor, a forma,
ainda gue mentalmente, gualguer uma delas o movimento, o odor, o sabor etc.; isto é, as
da percepção? Quanto a mim, acho muito difícil idéias percebidas com o sentido. Ora, é evi­
separar uma coisa de si própria. Com efeito, dente a contradição de uma idéia que exista
posso dividir em meus pensamentos, ou seja, em um ser gue não percebe, pois ter uma idéia
conceber separadas uma da outra, certas coi­ é o mesmo gue perceber; portanto, aguilo em
sas gue talvez jamais tenha percebido com o que existem cor, forma etc. ele deve perceber.
sentido divididas de tal modo. flssim, imagino C, portanto, evidente que não pode existir uma
o busto de um homem sem as pernas, assim substância que não pense, um substratum de
concebo o perfume de uma rosa sem pensar tais idéias.
na rosa. Não negarei gue seja possível abstrair 4. Contudo, direis, mesmo que as próprias
até este ponto: caso se possa corretamente idéias não existam fora da mente, pode todavia
chamar de "abstração" um ato gue se limita haver coisas semelhantes a elas gue existam
exclusivamente a conceber separadamente fora da mente em uma substância gue não
certos objetos gue podem realmente existir pensa e das guais as idéias seriam cópias ou
separados, ou então ser efetivamente perce­ semelhanças.
bidos separadamente. Todavia, meu poder de Respondo gue uma idéia não pode ser
concepção ou de imaginação não vai além da semelhante a outra coisa senão a uma idéia;
possibilidade real de existência ou de percep­ uma cor ou forma não pode ser semelhante
ção: portanto, uma vez gue me é impossível ver a outra coisa que a outra cor e a uma outra
ou tocar algo se não sinto atualmente a coisa, forma. Basta que olhemos um pouco dentro de
também me é impossível conceber em meus nosso pensamento para ver que nos é impos­
pensamentos uma coisa ou objeto sensível sível conceber uma semelhança que não seja
distinto da sensação ou percepção dele. Na semelhança entre nossas idéias. Novamente,
realidade, objeto e sensação dele são a mesma pergunto se tais supostos originais, ou seja, as
e idêntica coisa, e não podem, portanto, ser coisas externas, das guais nossas idéias seriam
abstraídos um do outro. retratos ou representações, sejam elas próprias
2. Certas verdades são tão imediatas perceptíveis ou não. Se forem perceptíveis, são
e óbvias para a mente gue basta abrir os idéias: e venci a causa. Se dizeis gue não são,
olhos para vê-las. Cntre estas creio gue esteja apelo ao primeiro gue chegar para gue diga se
também o verdade importante de gue toda a é bom senso afirmar gue uma cor é semelhan­
ordem dos céus e todas as coisas gue enchem te a algo invisível, gue o duro e o macio são
a terra, de gue enfim todos os corpos gue for­ semelhantes a algo gue não se pode tocar, e
mam a enorme construção do universo não têm assim por diante.
S c g U f td ú l p ã r t e - ■Hobbes/ Locke, B e rk e le y e H ume

4. fl crítico da distinção do pensamento, se pode conceber a extensão


entre qualidades primárias e o movimento de um corpo sem todas as
e qualidades secundárias outras qualidades sensíveis. Por minha conta,
parece-me evidente que não posso ter uma
1. Alguns' distinguem entre qualidades idéia de um corpo extenso e em movimento
“primárias" e qualidades "secundárias": com as sem atribuir-lhe também alguma cor ou outra
primeiras indicam a extensão, a forma, o movi­ qualidade sensível que se reconhece existir
mento, o repouso, a solidez ou impenetrabili- apenas na mente. Logo, a extensão, o forma e
dade, e o número; com as segundas denotam o movimento, abstraídos das outras qualidades
todas as outras qualidades sensíveis, como as sensíveis, são inconcebíveis. Onde estiverem,
cores, os sons, os sabores etc. Gles reconhecem portanto, as outras qualidades sensíveis aí
que as idéias que temos destas últimas não estarão também as qualidades primárias, ou
são semelhanças de coisas que existem fora da seja, também elas estarão na mente e não
mente, ou seja, não percebidas; mas sustentam em outro lugar.
que nossas idéias das qualidades primárias são
exemplares ou modelos de coisas que existem
5. Crítica da idéia de "substância material"
fora da mente, em uma substância carente de
pensamento que chamam de "matéria". Por 1. Todavia, examinemos um pouco a
"matéria’', portanto, deveríamos entender uma opinião comum. Diz-se que a extensão é um
substância inerte e carente de sentido, na qual modo ou um acidente da matéria, e que a
subsistiriam atualmente o extensão, a forma, o matéria é o substratum2 que o sustento. Ora,
movimento etc. Todavia, pelo que já demonstra­ gostaria que me explicósseis o que se entende
mos é evidente que a extensão, a forma e o mo­ dizendo que a matéria "sustenta" a extensão.
vimento são apenas idéias existentes na mente, Respondereis que não tendo idéia da matéria,
e que uma idéia não pode ser semelhante a não podeis explicá-lo. Respondo que, embora
outra coisa senão a uma idéia. Portanto, nem não tenhais uma idéia positiva da matéria, se
as idéias primárias nem seus arquétipos podem vossas palavras têm algum sentido, deveis
existir em uma substância que não percebe. ter ao menos uma idéia relativa dela; embora
Disso torna-se claro que a própria noção daquilo não saibais o que ela seja, todavia deve-se
que se denomina "matéria" ou "substância cor- supor que soibais que relação elo tenha com
pórea" acarreta uma contradição. Gpor isso não os acidentes e o que se entende dizendo que
consideraria necessário ocupar mais tempo para ela "os sustenta”, G evidente que a palavra
mostrar sua absurdidade: mas, uma vez que a "sustentação" não pode aqui ser entendida
afirmação da existência da matéria parece ter em seu sentido usual ou literal, como quondo
lançado tão firme raiz nas mentes dos filósofos e dizemos que as colunas sustentam um edifício.
acarreta tantas conseqüências más, prefiro que Gm que sentido, portanto, devemos entendê-
me julguem prolixo e tedioso em vez de omitir la? Quanto a mim, nõo consigo encontrar um
alguma coisa que possa ajudar a descobrir e significado que se lhe posso aplicar.
extirpar completamente este preconceito. 2. Se examinarmos aquilo que os filósofos
2. Os que afirmam que a forma, o movi­ mais escrupulosos declaram eles próprios en­
mento e todas as outras qualidades primárias tender por “substância material", veremos que
ou originais existem fora da mente em substân­ eles reconhecem não poder ligar a estes sons
cias que não pensam, reconhecem ao mesmo outro significado que a idéia de ser em geral,
tempo que não existem os cores, os sons, o junto com a noção relativa que ele sustenta os
quente, o frio etc.: estes, dizem, são sensações acidentes.3 fl idéia geral de ser parece-me mais
que existem apenas na mente, e que dependem abstrata e incompreensível do que qualquer
e são produzidas pelas variedades de dimen­ outra; e quanto ao fato de que ele sustente
são, de constituição, de movimento etc. das acidentes, isto, como agora justamente obser­
diminutas partículas de matéria. Gles crêem que vamos, não se pode entendê-lo no sentido co-
esta seja uma verdade indubitável, que podem mumente atribuído a estas palavras: devemos,
provar para além de qualquer dúvida. Mas se portanto, entendê-lo em qualquer outro sentido,
fosse certo que as qualidades primárias estão mas qual seja este, eles não o explicam. De
inseparavelmente unidas com todas os outras modo que, se eu examinar as duas partes ou
qualidades sensíveis e não podem ser sepa­
radas delas nem mesmo com o pensamento,
'f l referencio é a Locke.
daí seguiria evidentemente que elas existem
2Substratum: substrato, suporte.
apenas na mente. Ora, eu gostaria que cada 3Tese suste ntad a por Locke em seu célebre 6nsaío
um refletisse e provasse, com alguma abstração sobre o intelecto hum ano (livro II, cop. XXIII, § 2).
' 129
Capítulo SeXtO - (Sieo^ge Berkeley: o ima+erialismo em junção apologética ___

ramos que constituem o significado das palavras isso, por sua própria confissão, mais próximos
"substância material", estou convicto de que não de saber como sejam produzidas nossas idéias,
há nenhum significado distinto ligado a elas. pois também eles reconhecem ser incapazes de
Mas, por que deveríamos nos preocupar ainda compreender como o corpo age sobre o espírito,
em discutir este substratum ou sustentação ou seja, como ele possa imprimir na mente uma
material da forma e do movimento etc.? Isso idéia qualquer. Disso torna-se evidente que a
não implicaria talvez que formas e movimento produção de idéias ou sensações em nossas
tenham uma existência fora da mente? € não mentes não pode constituir uma boa razão
seria esta uma contradição imediata, inteira­ para supor que existam a matéria ou substân­
mente inconcebível? cias corpóreas, dado que se reconhece que tal
3. Mas também se fosse possível a produção permanece igualmente inexplicável
existência de substâncias sólidas, dotadas também aceitando essa hipótese. Portanto, se
de forma e de movimento, fora da mente, em também fosse possível que os corpos existissem
correspondência com as idéias que temos dos fora da mente, sustentá-lo seria ainda, forço­
corpos, como nos seria possível saber disso? samente, uma opinião muito incerta, pois ela
Deveríamos conhecê-lo por meio dos sentidos implica, sem nenhuma razão, que Deus tenha
ou então por meio da razão. Quanto a nossos criado inumeráveis seres que são totalmente
sentidos, por meio deles temos conhecimento supérfluos e não servem para nada.
apenas de nossas sensações, ou idéias, ou 5. Cm poucas palavras, também se exis­
coisas percebidas imediatamente pelo sentido, tissem corpos externos, jornais seria possível
como queiram chamar. Mas os sentidos não nos chegar a conhecê- los, e se não existissem tería­
informam sobre o existência de coisas fora da mos as mesmas e idênticas razões que temos
mente, ou seja, não percebidas, semelhantes agora para crer que existam. Suponhamos (e é
às que são percebidas. Também os materialistas uma suposição que ninguém negará que seja
reconhecem isso.4 plausível) uma inteligência privada do auxílio de
Se quisermos, portanto, admitir algum corpos externos, que seja afetada pela mesma
conhecimento de coisas externas, resta apenas sucessão de sensações ou idéias que tendes,
atribuí-lo à razão que inferiria a existência delas impressas na mesma ordem e com igual vivaci­
daquilo que é percebido imediatamente pelo dade em sua mente. Pergunto se para crer na
sentido. Mas não vejo qual razão posso induzir- existência de substâncias corpóreas, que são
nos a crer, com base naquilo que percebemos, representadas pelas suas idéias e suscitam
na existência de corpos fora da mente, pois os estas em sua mente, este intelecto não teria
próprios sustentadores da matéria5 não preten­ todas as razões que podeis ter para crer a mes­
dem que haja uma ligação necessária entre os ma coisa. Não pode haver dúvida sobre isto: e
corpos e nossas idéias. Digo que é reconhecido bastaria esto consideração para que em todo
por todos (e o prova para além de toda discus­ homem razoável surgisse uma suspeita sobre
são aquilo que acontece nos sonhos, na loucura o valor real de qualquer prova que ele creia ter
e semelhantes) que seria possível que rece­ do existência de corpos fora da mente.
bêssemos todas as idéias que agora temos,
mesmo que não houvessem corpos existentes 6. Deus e as "leis de natureza"
no exterior, que a elas se assemelhassem, é
evidente, portanto, que a hipótese de corpos 1. Penso poder suscitor à vontade idéias
externos não é necessária para a produção de em minha mente, variando e mudando a cena
nossas idéios, pois é reconhecido que algumo todas as vezes que creia oportuno. Basto que­
vez estas são produzidas (e seria possível que rer, e eis que imediatamente esta ou aquela
fossem sempre produzidas, na mesma ordem na idéia surge em minha fantasia; e pelo mesmo
qual as vemos presentemente) sem o concurso poder é cancelada e deixo lugar a outra. Cste
de corpos externos. fazer e desfazer idéias torna' apropriado qua­
4. Podemos, todavia, pensar que também lificar a mente como ativa. Tudo isto é certo e
se fosse possível ter todas as nossas sensações fundado sobre a experiência: ao passo que
sem eles, seria mais cômodo conceber e explicar quando falamos de agentes que não pensam
seu modo de produzir-se supondo corpos exter­ ou de idéias suscitadas independentemente
nos semelhantes o elas, e assim seria ao menos
provável que haveria entes como [seriam] os
corpos para suscitar os idéias deles em nossas ''Para Berkeley é "m a teria lista” quem crê que exista o
matéria. Com tol termo ho je em dia se indica quem crê que
mentes. Mas nem sequer isto se pode sustentar:
a p e n a s o m atéria exista.
porque mesmo que se concedam aos materia­ bfl referência é sem pre àquilo que locke sustenta no seu
listas seus corpos externos, eles não estão por Ensaio s o b r e o intelecto hum ano (livro II, cap. XXIII, § 16).
Segundã parte - -Hobbes, Locke/ B e rk e le y e -Hume

do vontade, nõo fazemos mais que brincar com 5. Todavia, este funcionamento coerente
as palavras. e uniforme que mostra com tanta evidência a
2. Mas seja qual for o poder que tenho bondade e a sabedoria daquele Cspírito que
sobre meus pensamentos, penso que as idéias rege, cuja vontade constitui as leis de natureza,
percebidas atualmente pelos sentidos nõo de­ ao invés de guiar para ele nosso pensamento,
pendem do mesmo modo de minha vontade. o faz vaguear em busca de causas segundas.
Quando abro os olhos à plena luz do dia, não Com efeito, quando percebemos que certas
posso escolher ver ou não ver, nem fixar quais idéias do sentido sõo seguidas constantemente
objetos devam precisamente se apresentar por outras idéias e sabemos que isso não se
à minha visão, e o mesmo acontece para a dá por obro nossa, atribuímos imediatamente
audição e para os outros sentidos: as idéias a força de agir às próprias idéias e supomos
impressas neles não são criações de minha que uma seja causa da outra, enquanto não
vontade. Há, portanto, alguma outra vontade, pode haver nada de mais absurdo e incom­
ou seja, outro espírito que os produz. preensível do que isso. Assim, por exemplo,
3. As idéias do sentido são mais fortes, tendo observado que quando percebemos
mais vivazes, mais distintas do que as da ima­ com a visõo certa figura luminoso e redonda,
ginação: além disso, elas têm estabilidade, or­ percebemos contemporaneamente com o tato
dem, coerência. Não são suscitadas por acaso, a idéia ou sensação chamada "calor", disso
como freqüentemente ocorre para as causadas concluímos que o sol é o causa do color. Do
por vontades humanas, mas com um processo mesmo modo, percebendo que o movimento e
regular, ou seja, em uma série ordenada. A o choque dos corpos é acompanhado por um
admirável ligação desta demonstra por si a som, somos inclinados a pensar que este seja
sabedoria e a benevolência de seu Autor. Ora, efeito daquele.
as regras fixas, os métodos segundo os quais 6. As idéias impressas nos sentidos pelo
a Mente da qual dependemos suscita em nós Autor da natureza sõo denominadas "coisas re­
as idéias do sentido, são chamadas "leis de ais", ao passo que as suscitadas na imaginação,
natureza"; e nós aprendemos estas por meio por ser menos regulares, menos vividas e menos
da experiência que nos ensina que estas ou constantes, sõo chamadas mais precisamente
aquelas idéias sõo acompanhadas por estas de "idéias", ou seja, "imagens de coisas" que
ou aquelas, no curso ordinário das coisas. elas copiam e representam. Mas de todo modo
4. Isto nos dá certa capacidade de previ­ nossas sensações, mesmo que não sejam tõo
são, que nos habilita a regular nossas ações vividas e distintas, são todavia “idéias", isto é,
segundo as necessidades da vida. Sem esta existem na mente ou são percebidas por ela
capacidade estoríamos continuamente em em­ tão realmente como as idéias devidas à própria
baraço: não poderíamos jamais saber como usar mente. Reconhecemos que as idéias do sentido
qualquer coisa de modo que nos desse ou nos têm em si maior realidade, isto é, são mais
tirasse a mínima dor sensorial. Que o alimento fortes, mais ordenadas, mais coerentes do que
nutre, que o sono restaura, que o fogo aquece, os criadas pela mente: mas isso nõo prova que
que semear no tempo da semeadura é o único elas existam sem a mente. Cias são tombém
modo para colher o grão no tempo do colheita; menos dependentes do espírito ou substân­
em geral, que estes ou aqueles meios levem cia pensante que as percebe, enquanto são
a obter estes ou aqueles resultados, tudo isto suscitadas pela vontade de outro espírito mais
nós o sabemos não porque descobrimos alguma poderoso: todavia, elas são sempre "idéias" e
relação necessária entre nossas idéios, mas certamente nenhuma "idéia", seja fraca ou forte,
apenas porque observamos as leis estabeleci­ pode existir em outro lugar a nõo ser em uma
das da natureza, sem as quais estoríamos todos mente que a percebe.
incertos e confusos, e um adulto não soberia se G. Berkeley,
comportar na vido quotidiana melhor que um Trotado sobre os princípios
bebê recém-nascido. do conhecimento humano.
( Z -a p í tulo sétimo

D a v i d *H u m e
e o e p ílo g o i^ a c io r v a lis fa d o em p iH sm o

------- I. y \ v i d a .—
e a s o b r a s d e "Hume

• David Hume nasceu em Edimburgo em 1711, e desde jovem se apaixonou


pelo estudo dos clássicos e da filosofia. Já em 1729 teve a poderosa intuição de
uma nova "ciência da natureza humana", da qual nasceu a idéia básica de sua
obra-prima, o Tratado sobre a natureza humana, em três volumes
publicados em Londres entre 1739 e 1740 (em 1748 foi publicado Hume:
um resumo com o título Ensaios sobre o intelecto humano, reba- nova
tizado por fim em 1758 com Pesquisas sobre o intelecto humano). ri/ ,cienc!a
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O sucesso literário veio porém com os Ensaios morais e políticos, Humana"
em 1741. Entre as obras sucessivas recordamos: Pesquisas sobre 7
os princípios da moral (1751), Discursos políticos (1752), Quatro
dissertações (1757) e a História da Inglaterra (1762, em oito vo­
lumes). De 1763 a 1766 foi secretário do embaixador inglês em Paris, e quando
voltou a Londres levou consigo Rousseau, com o qual porém as relações logo se
deterioraram. Nos últimos anos retirou-se em Edimburgo, onde se dedicou às novas
edições de suas obras e à revisão dos Diálogos sobre religião natural (redigidos em
1751 e publicados postumamente em 1779). Morreu em 1776.

1 O k o m e m -f-ilo só j-ic o e irresistível força da natureza. A natureza se


sobrepõe à razão, diz expressamente Hume.
d e v e c e d e r lu g a r
O homem-filósofo deve ceder ao homem-
a o U.on\&yy\-nc\fiA^e.zc\ natureza: “Seja filósofo, mas, para além da
filosofia, seja sempre homem.” Isso significa
que, levado às extremas conseqüências e
Com David Hume, o empirismo al­ radicalizado, o empirismo acaba por ser, em
cançou suas próprias colunas de Hércules, última analise, uma renúncia à filosofia.
ou seja, aqueles limites para além dos quais David Hume nasceu em Edimburgo,
é impossível avançar. Despojando-se dos em 1711, de uma família pertencente à pe­
pressupostos ontológico-corporeístas pre­ quena nobreza de proprietários de terras.
sentes em Hobbes, do componente racio- Desde jovem se apaixonou pelo estudo dos
nalista-cartesiano presente em Locke, dos clássicos e da filosofia, a ponto de se opor
interesses apologéticos e religiosos presentes firmemente ao desejo dos parentes, que o
em Berkeley e de quase todos os resíduos queriam advogado como o pai, e negar-se
de pensamento provenientes da tradição a qualquer outra atividade que não fossem
metafísica, o empirismo humiano acaba por seus estudos prediletos.
esvaziar a própria filosofia dos seus conteú­ Em 1729, aos dezoito anos, teve uma
dos específicos e admitir a vitória da razão forte intuição que, segundo ele, revelou-lhe
cética, da qual só pode se salvar a primigênia um “novo cenário de pensamento” (a new
Segunda parte - -Hobbes, Locke, B e rk e le y e. ■Klume

scene o f tbought), que lhe fez vir à mente


a nova “ciência da natureza hum ana” ,
ou seja, sua nova visão filosófica. E esse
“novo cenário de pensamento” teve efeitos
perturbadores sobre o jovem Hume, que se
entregou com excepcional intensidade aos
estudos; seu entusiasmo foi tal que ultrapas­
sou todas as medidas, a ponto de sua saúde
chegar ao limite de colapso. Caiu então em
crise de depressão tal, que só conseguiu ser
debelada depois de longo tratamento.
Com o “novo cenário de pensamento”
nasceu a idéia do Tratado sobre a natureza
humana, a obra-prima de Hume, na qual o
filósofo trabalhou na Inglaterra até 1734 e,
depois, entre 1734 e 1736, na França, em
La Flèche (que se tornará um renomado
centro de estudos cartesianos), onde se ha­
via instalado para ampliar seus horizontes
culturais.
Em 17 3 9 , foram finalmente publica­
dos em Londres os primeiros dois volumes
do Tratado sobre a natureza humana e,
em 1740, o terceiro volume, mas seus tra­
balhos não suscitaram nenhum interesse
particular.
Entretanto, Hume logo conheceria o
Com D avid H um e (1711-1776) o em pirism o
sucesso literário, com seus Ensaios políticos assum e traços ceticizantes e irracionalistas.
e morais e também com elementos do Trata­ Este seu d ito o defin e p erfeitam en te:
do, refeitos e apresentados sob nova forma, "Se d ev em os sem p re ser presa d e erros e ilusões,
além de sua monumental História da Ingla­ preferim os que sejam a o m enos naturais e agradáveis
terra, da qual falaremos adiante. Mas seus A ilustração fo i tirada d e um a gravura
pósteros viram justamente naquele Tratado, p o u c o p o sterio r a o autor.
não apreciado por seus contemporâneos, a
obra-prima do filósofo, ou seja, sua obra levou-o a acusar absurdamente Hume de
mais profunda e meditada. encabeçar um complô, que teria por obje­
Hume não conseguiu penetrar no am­ tivo arruiná-lo. Como foi um “caso” que
biente acadêmico, em virtude de suas idéias provocou muitos comentários, Hume foi
céticas e ateizantes. Em 1 7 4 4 -1 7 4 5 , não obrigado a tornar públicas as suas próprias
conseguiu obter uma cátedra na Universi­ razões. Recorde-se ainda que, em 1767,
dade de Edimburgo. E, em 1751, não teve Hume obteve o cargo de subsecretário de
sua candidatura acolhida à cátedra de lógica Estado para os assuntos do Norte. Pouco
da Universidade de Glasgow. depois, conseguindo considerável pensão,
Entretanto, Hume teve sucesso em dedicou-se quase exclusivamente a seus
outros ambientes. Em 1745, foi preceptor estudos prediletos, com serenidade. Morreu
do marquês de Annandale. Em 1746, tor­ em 1776.
nando-se secretário do general Saint Clair, Entre as obras que se seguiram ao Tra­
participou de uma expedição à França e, em tado, podemos recordar: os Ensaios sobre
1748, integrou uma missão diplomática em o intelecto humano, de 1748, que expõem
Viena e Turim. De 1763 a 1766, Hume foi de modo simplificado o primeiro livro do
secretário do embaixador inglês em Paris, Tratado (obra que, em 1758, foi rebatizada
estabelecendo amigáveis relações com os com o título Investigações sobre o intelecto
iluministas franceses. humano, que se tornaria o título definitivo);
Em 1766, Hume voltou à Inglaterra, as Investigações sobre os princípios da m o­
levando consigo Rousseau, a quem ofereceu ral, de 1751, que expõem de maneira nova
sua proteção. Mas a grave forma de mania o terceiro livro do Tratado e que o autor
de perseguição de que Rousseau sofria considerou sua melhor obra; os Discursos
C ã p í t u l o s é t if H O - D avid ‘Hume e o epílogo i^acionalis+n do empifismo

políticos, de 1752; as Quatro dissertações, no tratamento dos períodos posteriores. O


de 1757 (uma dessas dissertações é a célebre fim de seu trabalho — o desejo de Hume
História natural da religião); postumamente, de ilustrar os perigos das facções violentas
foram publicados os Diálogos sobre a reli­ para o Estado — podia ser significativo
gião natural (redigidos em 1751). para sua época, mas não tanto para os
Por fim, devemos recordar a História períodos posteriores. Mas a obra preen­
da Inglaterra, iniciada em 1752 e concluída chia uma grande lacuna e era legível. Sua
em 17 6 2 , que suscitou grandes polêmicas, fama perdurou por mais tempo do que a
mas também granjeou grande glória para dos rivais contemporâneos de Hume [...],
Hume. Começando com a invasão de Júlio e durante mais de um século ela foi a mais
César, a História termina com a revolução lida História da Inglaterra”. Um estadista
de 1688, sendo constituída por oito volu­ da estatura de Winston Churchill chegou a
mes. Um conhecido historiador da litera­ declarar que a História de Hume fora “o
tura inglesa (A. C. Baugh) julga a obra do manual de sua adolescência”.
seguinte modo: “Com ela, Hume realizou Apesar de seus contemporâneos terem
aquela que se revelou a primeira História praticamente ignorado o Tratado, como já
da Inglaterra verdadeiramente satisfató­ observamos, é exatamente ele que nos revela
ria. H oje, seus defeitos parecem óbvios: plenamente a “new scene o f thougbt”. Por
não se baseia em sólidos estudos e atentas isso, é a ele de preferência que nos referire­
pesquisas; a Idade Média é difamada por mos nesta exposição, embora sem deixar de
ignorância e certos preconceitos aparecem lado as Investigações.

II. “O hovo c e n á r i o d e p e n s a m e n f o /;.


~ //
s im pressões ,
a s ^ id eias” e s u a s l i g a ç õ e s e sfr u fu r a is

• No Tratado sobre a natureza humana, Hume pretende apli- A Cíência


car â natureza humana, ou seja, ao sujeito cognoscente, o método do homem
do raciocínio experimental, de inspiração baconiana, com o qual §1
Newton construiu uma sólida visão da natureza física. Trata-se de
fundar definitivam ente sobre bases experimentais a ciência do homem, que para
Hume é ainda mais im portante que a física e as outras ciências.

• Todos os conteúdos da mente humana são percepções, e . „


se dividem em duas grandes classes: As ‘T ^ ss^es
fl 3Ç tfjÕ f.T **
1) impressões (simples ou complexas), isto é, as percepções ^
originárias, que se apresentam com maior força e violência (sen­
sações, paixões e emoções): "ter impressões" significa sentir;
2) idéias (simples ou complexas), isto é, as imagens enfraquecidas que a me­
mória produz a partir das impressões: "ter idéias" significa pensar.
O primeiro princípio da ciência da natureza humana soa portanto: todas as
idéias simples provêm de suas impressões correspondentes, portanto não existem
idéias inatas.

• As idéias complexas podem ser cópias das impressões Q «DrjncÍDj0


complexas, ou fruto de combinações múltiplas que derivam da dg associação"
faculdade da imaginação, ou podem ser agregadas em base ao -*§4
im portante princípio da associação. As propriedades que dão
origem à associação das idéias são:
Segunda pavte - -Hobbes/ Locke/ B erk ele y e H ume

1) a semelhança-,
2) a contigüidade no tem po e no espaço;
3) causa e efeito.
Para provar a validade de cada idéia complexa da qual se discute, portanto,
é necessário acrescentar a relativa impressão.

• Hume aceita a tese de Berkeley segundo a qual todas as idéias gerais são
simplesmente idéias particulares conjugadas a certa palavra e representando
outras idéias individuais semelhantes: as idéias gerais se formam
O nominalismo por causa do hábito, o qual faz com que, ao ouvir determinado
humiano: nome, se desperte em nossa memória uma das idéias particulares
"relações designadas com aquele nome.
entre idéias" Os objetos presentes à mente humana pertencem a dois
e "dados gêneros:
de fato" 1) relações de idéias, isto é, todas as proposições que, base­
-* 5 5-6
adas sobre o princípio de não-contradição, limitam-se a operar
sobre conteúdos ideais;
2) dados de fato, isto é, todas as proposições que não implicam uma necessi­
dade lógica e parecem fundadas sobre a relação de causa e efeito.

X * M e ce ssid a d e do homem para um terreno novo”. Trata-


se, então, de percorrer profundamente esse
d e jxm d am eia+ ar
cam inho, para fundar definitivamente a
a ciê n cia do kom em ciência do homem em bases experimentais.
s o b re b a s e s ex p erim en ta is Em suma, Hume considera poder se tornar o
Galileu, ou melhor, o Newton da “natureza
humana”.
O título Tratado sobre a natureza hu­ Aliás, o nosso filósofo mostra-se até
mana e a especificação do subtítulo: “Uma convicto de que a “ciência da natureza hu­
tentativa de introduzir o método experimen­ mana” é ainda mais importante do que a
tal de raciocínio nos assuntos morais”, já física e as outras ciências, pelo fato de que
apresentam por si mesmos os traços gerais todas essas ciências “dependem de algum
do “novo cenário de pensamento”. modo da natureza do homem”. Com efeito,
Hume constata que, sobre a segura se pudéssemos explicar a fundo “o alcance
base da observação e do método do racio­ e a força do intelecto humano”, bem como
cínio experimental preconizado por Bacon, “a natureza das idéias de que nos servimos
Newton construiu uma sólida visão da natu­ e das operações que realizamos em nossos
reza física; o que é necessário fazer agora é raciocínios”, poderíamos efetuar progressos
precisamente aplicar aquele método também de incalculável alcance em todos os outros
à natureza humana, ou seja, também ao âmbitos do saber.
sujeito e não apenas ao objeto. É esse o ambicioso projeto. Mas o “novo
Tales fundou a “filosofia” da natureza cenário de pensamento”, como poderemos
e só depois Sócrates fundou a “filosofia” constatar, estava guardando um verdadeiro
do homem. Nos tempos modernos, como “golpe de cena”.
dissem os, B acon introduziu o m étodo A “natureza humana”, encerrada nos
experimental adequado para a fundação estreitos âmbitos do método experimental,
da “ciência” da natureza, ao passo que perde grande parte de sua especificidade
os “recentes filósofos ingleses”, ou seja, racional e espiritual em benefício do ins­
os moralistas — entre os quais, além de tinto, da emoção e do sentimento, a ponto
Locke, Hume cita Shaftesbury, Mandevil- de reduzir-se quase que apenas à “natureza
le, Hutcheson e Butler (do qual falaremos animal”, como já acenamos. E, desse modo,
adiante) — , em um espaço de tempo mais a “conquista da capital” (a conquista, isto
ou menos igual ao transcorrido entre Tales é, da “natureza humana”, como a entende
e Sócrates, começaram a “levar a ciência Hume), ao invés de levar a conquistas, levará
'
Cdpítulo "•
s é tifH O - T ^ a v id t""lwme e o e p í l o g o i r r a c i o n a l i s + a d o e m p i r i s m o
135

fatalmente a perdas, como podem demons­ que, formulado sinteticamente, assim se


trar os resultados cético-irracionalistas. expressa: “Todas as idéias simples provêm,
Mas vejamos como Hume, com o novo mediata ou imediatamente, de suas cor­
método experimental, procede à reconstru­ respondentes impressões.” Esse princípio,
ção da “natureza humana” . diz Hume, acaba com a questão das idéias
inatas, que tanto barulho havia ocasionado
anteriormente: nós só temos idéias depois
de ter impressões; estas últimas, ao invés, e
2| A d ife re n ça
somente estas, são originárias.
en tre a s im p re ssõ e s
e a s id é ia s
3 C ^ d é ias s im p le s
Todos os conteúdos da mente humana e id é ia s c o m p le x a s
outra coisa não são senão “percepções”,
dividindo-se em duas grandes classes, que
Hume chama de “impressões” e “idéias”. Mas há ainda uma importante distin­
Ele só coloca duas diferenças entre as pri­ ção a recordar: há impressões simples (por
meiras e as segundas: exemplo, vermelho, quente etc.) e impres­
a) a primeira classe diz respeito à força sões complexas (por exemplo, a impressão
ou vivacidade com que as percepções se de uma maçã).
apresentam à nossa mente; As impressões complexas nos são da­
b) a segunda diz respeito à ordem e à su­ das imediatamente como tais. Já as idéias
cessão temporal com que elas se apresentam. complexas podem ser cópias das impressões
a) No que se refere ao primeiro ponto, complexas, mas também podem ser fruto de
escreve Hume: “A diferença entre impres­ combinações múltiplas, que ocorrem de vá­
sões e idéias consiste no grau diverso de rios modos em nosso intelecto. Com efeito,
força e vivacidade com que as percepções além da faculdade da memória, que repro­
atingem nossa mente e penetram no pensa­ duz as idéias, nós também temos a faculdade
mento ou na consciência. As percepções que da imaginação, capaz de transpor e compor
se apresentam com maior força e violência
podem ser chamadas de impressões — e, sob
essa denominação, eu compreendo todas as
sensações, paixões e emoções, quando fazem ■ Percepção. Como para Berke­
a sua primeira aparição em nossa alma. Por ley, também para Hume a palavra
idéias, ao contrário, entendo as imagens "percepção" indica tudo aquilo que se
enlanguescidas das impressões”. apresenta à mente humana e constitui
Uma conseqüência dessa distinção é a seu conteúdo. Em particular, Hume
drástica contração da diferença entre sentir distingue as percepções em duas gran­
e pensar, que é reduzida simplesmente ao des classes:
grau de intensidade: sentir consiste em ter 1) impressões (simples ou complexas),
isto é, as percepções originárias, que se
percepções mais vivas (sensações), ao passo apresentam com maior força e violência
que pensar consiste em ter percepções mais (sensações, paixões e emoções quando
fracas (idéias). Toda percepção, portanto, é aparecem na mente pela primeira
dupla: é sentida (de modo vivo) como im­ vez): "ter impressões" significa sentir,
pressão e é pensada (de modo mais fraco) 2) idéias (simples ou complexas), isto
como idéia. é, as imagens enfraquecidas que a
b) No que se refere ao segundo ponto, memória produz a partir das impres­
Hume destaca que ele constitui uma questão sões: "ter idéias" significa pensar. As
impressões, por sua vez, se subdivi­
da máxima importância, porque está ligada
dem em duas espécies:
ao problema da “prioridade” de um dos 1) impressões de sensação, que nas­
dois tipos de percepção: a idéia depende da cem na alma originariamente, de cau­
impressão, ou vice-versa? sas desconhecidas;
A resposta de Hume é inequívoca: a im­ 2) impressões de reflexões, que deri­
pressão é originária, a idéia é dependente. vam em grande parte das idéias.
Daí, portanto, deriva o “primeiro prin­
cípio” da ciência da natureza “humana”,
Segunda parte - -Hobbes, .Locke, B erk ele y e Llume

as idéias entre si de vários modos. Esta, diz os exemplos); a idéia de causa me suscita a
Hume, “é uma conseqüência evidente de de efeito e vice-versa (como, por exemplo,
divisão das idéias em simples e complexas: quando penso no fogo, sou inevitavelmente
onde quer que a imaginação perceba uma levado a pensar no calor ou então na fumaça
diferença entre as idéias, pode realizar uma que dele se desprende, e vice-versa).
separação entre elas” , e depois operar uma Desse modo, Hume conclui: “Esses são,
série de outras combinações. portanto, os princípios de união ou coesão
M as as idéias simples tendem a se entre as nossas idéias simples, que, na imagi­
agregar entre si em nossa mente não so­ nação, ocupam o lugar da conexão indisso­
mente segundo o livre jogo da fantasia, mas lúvel, com a qual estão unidas na memória”.
também segundo um jogo bem mais com­ Por conseguinte, para provar a vali­
plexo, baseado em alguns princípios que se dade de cada idéia sobre a qual se discute é
mostram conformes em todos os tempos e necessário apresentar sua relativa impressão.
em todos os lugares. No caso das idéias simples isso não suscita
problemas, pois, como já vimos, não pode
estar presente em nós nenhuma idéia simples
4 O p rin cíp io sem que tenhamos experimentado sua im­
d a a s s o c i a ç ã o d a s id é ia s pressão correspondente. No caso das idéias
complexas, isso já constitui um problema,
devido à sua gênese múltipla e variada. E é
Existe entre as idéias uma “força” (que, exatamente sobre elas que se concentrará o
de certa forma, recorda a força de gravitação interesse de nosso filósofo.
newtoniana, que une entre si os corpos físi­ Hume torna sua a distinção lockiana
cos, ainda que de caráter diferente), expressa geral das idéias em idéias de substância, de
pelo princípio da associação, que Hume des­ modos e de relações, mas vai muito além de
creve na seguinte passagem, com toda razão Locke em sua análise crítica, como veremos
transformada em clássica: “Este princípio mais adiante.
de união entre as idéias não pode ser con­
siderado como uma conexão indissolúvel:
com efeito, esse tipo de ligação já excluímos ,5 7 “\ n e g a ç ã o
da imaginação. Mas também não devemos d a s id é ia s u n iv e rsa is
concluir que, sem esse princípio, a mente e o n o m i n a l i s m o W i\v n \a n o
não pode ligar duas idéias: com efeito, não
há nada de mais livre do que tal faculdade.
Assim, devemos considerá-lo simplesmente Para se compreender plenamente a po­
como uma doce força que habitualmente se sição de Hume, porém, devemos ainda re­
impõe, sendo, entre outras coisas, a causa cordar sua doutrina das idéias abstratas ou
de as línguas terem tanta correspondência universais. Ele aceita a tese de Berkeley (que
entre si: a natureza parece indicar para cada elogia como “grande filósofo”) segundo a
um as idéias simples mais adequadas a serem qual “todas as idéias gerais nada mais são
reunidas em idéias complexas. As proprie­ do que idéias particulares conjugadas a certa
dades que dão origem a essa associação e palavra, que lhes dá um significado mais
fazem com que a mente seja transportada de extenso e, ocorrendo, faz com que recordem
uma idéia para outra são três: semelhança, outras individuais semelhantes a elas”. Essa,
contigüidade no tempo e no espaço, causa destaca Hume, é “uma das maiores e mais im­
e efeito”. Nós passamos facilmente de uma portantes descobertas que foram feitas nestes
idéia a outra que se lhe assem elhe (por últimos anos na república das letras”. Entre
exemplo: uma fotografia me faz vir à men­ os vários argumentos que Hume apresenta
te a personagem que representa), ou então como apoio da tese de Berkeley, devemos
de uma idéia a outra que habitualmente se recordar dois particularmente significativos:
apresenta a nós como ligada à primeira no a) O intelecto humano, dizem os de­
espaço e no tempo (por exemplo, a idéia de fensores da existência de idéias universais,
sala de aula me recorda a das salas de aula é capaz de distinguir mentalmente também
vizinhas, ou então a do corredor adjacente aquilo que não está separado na realidade,
ou a do prédio em que se localiza; a idéia através de operações mentais autônomas.
de levantar âncora suscita a idéia da partida Hume o contesta vigorosamente: para ele,
do navio, e assim se poderiam multiplicar só é distinguível aquilo que é separável.
C ã p l t u l o s é t it H O - D avid "Hume e o epílogo irracionalista do empirismo

b) Além disso, como cada idéia é cópia


de uma impressão e a impressão só pode
ser particular e, portanto, só determinada, ■ Hábito. É aquilo "que procede de
seja qualitativa, seja quantitativam ente, uma repetição antecedente, sem ne­
também as idéias (que só podem ser cópias nhum novo raciocínio ou inferência,
das impressões) devem ser determinadas do e do qual emerge toda opinião ou
mesmo modo. crença humana".
O grande princípio humiano de que a O princípio do hábito é para Hume um
idéia só difere no grau de intensidade e vivaci­ dos fenômenos mais extraordinários
da mente humana, e ele o evoca efi­
dade da impressão comporta necessariamen­ cazmente sobretudo em sua famosa
te que cada idéia nada mais seja do que uma crítica à relação entre causa e efeito: o
“imagem” e, como tal, individuale particular. hábito é, com efeito, o princípio com
Como é possível, então, uma idéia base no qual, da simples constatação
“particular” ser usada como idéia “geral”, da contigüidade e sucessão entre
e como é que a simples conjunção com uma dois fenômenos, se infere também
“palavra” pode tornar isso possível? a necessidade da conexão entre os
A resposta de Hume é a seguinte: nós dois fenômenos, considerando-os um
notamos certa semelhança entre as idéias como "causa" e o outro como "efei­
to"; uma vez formado, o hábito gera
de coisas que nos aparecem pouco a pouco em nós uma crença, que justamente
(por exemplo, entre homens de várias ra­ nos dá a impressão de implicação
ças e de vários tipos), uma semelhança tal com a conexão necessária entre uma
que nos permite dar a elas o mesmo nome, "causa" e um "efeito".
prescindindo das diferenças de grau, de
qualidade e de quantidade que elas podem
apresentar. Desse modo, nós adquirimos um
“hábito” pelo qual, ao ouvir aquele nome
ou aquela palavra dada, desperta em nossa
memória uma daquelas idéias particulares gêneros, que o filósofo chama de a) “relações
que designamos com aquele nome ou com entre idéias” e b) “dados de fato” .
aquela palavra (por exemplo, ao ouvir a a) São simples relações de idéias todas
palavra “homem”, vem-me à mente a idéia aquelas proposições que se limitam a operar
de um homem determinado), mas, como a com base em conteúdos ideais, sem se referir
mesma palavra usa-se para designar idéias àquilo que existe ou pode existir. Trata-se
análogas (por exemplo, para designar os das proposições que, como veremos, Kant
muitos homens vistos por mim, diferentes chamará de juízos analíticos. A aritmética,
entre si por muitos aspectos particulares), a álgebra e a geometria são constituídas de
então acontece que “a palavra, não sendo meras “relações de idéias” . Estabelecidos
capaz de fazer reviver a idéia de todos esses os significados dos números, por exemplo,
indivíduos, limita-se a tocar a alma, se assim nós obtemos por mera análise racional (e,
posso me expressar, e faz reviver o hábito portanto, com base em meras relações de
que contraímos ao examiná-los idéias) que três vezes cinco é a metade de
O que há de novo nessa concepção trinta, e todas as outras proposições desse
nominalista do universal, em relação à visão gênero. Trata-se de uma proposição que
tradicional, particularmente em relação à vi­ conseguimos substancialmente baseando-
são de Berkeley? Como destacaram os estu­ nos sobre o princípio de não-contradição.
diosos, o que há é o recurso ao princípio do b) Os “dados de fato”, ao contrário,
hábito, já invocado por Hume a propósito não são obtidos desse modo, já que “é
do princípio de associação das idéias. sempre possível o contrário de um dado de
fato qualquer, já que ele não pode nunca
implicar uma contradição, sendo concebido
6 //" R e l a < p õ e s e n t r e i d é i a s ” pela mente com a mesma facilidade e a mes­
e ^ d a d o s d e fa io " ma distinção como se fosse extremamente
conforme à realidade”. O problema que sur­
ge, portanto, é o de procurar a natureza da
Outra doutrina essencial de Hume con­ evidência própria dos raciocínios relativos
siste na distinção dos objetos presentes na aos “dados de fato”, quando eles não es­
mente humana (impressões e idéias) em dois tão imediatamente presentes aos sentidos
Segunda parte - Hobbes, .Locke, B e rk e le y e Hume

(como, quando prevejo que o sol surgirá relação que podemos ultrapassar a evidên­
amanhã. A resposta de Hume é a seguinte: cia de nossa memória e dos sentidos.” O
“Todos os raciocínios que dizem respeito à exame crítico de Hume se concentra, por
realidade dos fatos parecem fundados na conseguinte, justamente sobre a relação
relação de causa e efeito. É só graças a essa entre causa e efeito.

~ III. y \ c n t i c a d a s id é ias ~
d e c a u s a e efeito
e d a s s u b s t a n c i a s ma+eHais e espirituais

• Causa e efeito são duas idéias bem distintas entre si e o fundamento de todas
as nossas conclusões referentes à causa e ao efeito é a experiência, que porém se
fundam enta por sua vez sobre o hábito de constatar entre dois
Relações entre fenômenos a regularidade de sua contigüidade e sucessão, mo-
causa e efeito tivo pelo qual se infere também a necessidade da conexão entre
-* 5 1-2 os dois fenômenos, considerando-os um como "causa" e o outro
como "efeito"; o costume gera depois em nós uma crença, que
nos dá justamente a impressão de estarmos diante de uma conexão necessária
entre uma "causa" e um "efeito".

• Hume submete a críticas análogas também os conceitos


A crítica de substância corpórea e de substância espiritual. Tanto as coisas
dos conceitos quanto o eu, com efeito, não são mais que coleções ou feixes de
de substância impressões e de idéias: apenas por via da constância com a qual
corpórea estes feixes se nos apresentam, imaginamos a existência de um
e de substância princípio que constitua o fundam ento da coesão entre as per­
espiritual
->5 3-5 cepções. Assim, tanto a existência das coisas fora de nós, quanto
a identidade do eu, não são objetos de conhecimento mas de
crença, que é fruto da memória e da imaginação.

1 A l i g a ç ã o d e c a u s a e e f e i+ o de modo nenhum saber a priori que ela, im­


pelida contra outra, produzirá como efeito
o movimento dessa outra.
Causa e efeito são duas idéias bem dis­ O mesmo deve-se dizer de todos os ou­
tintas entre si, no sentido de que nenhuma tros casos desse gênero. Hume exemplifica
análise da idéia de causa, por mais acurada dizendo que o próprio Adão, ao ver a água
que seja, pode nos fazer descobrir a priori pela primeira vez, não tinha condições de
o efeito que dela deriva. inferir a priori que ela tem o poder de afogar
Se atin jo uma bola de bilhar com por sufocamento.
outra bola, digo que a primeira causou o Sendo assim, então, deve-se dizer que
movimento da segunda; entretanto, o movi­ o fundamento de todas as nossas conclusões
mento da segunda bola de bilhar é um fato sobre a causa e o efeito é a experiência.
completamente diferente do movimento da Todavia, essa resposta propõe imediata­
primeira e não está incluído nela a priori. mente outra questão, bem mais difícil: qual
Suponhamos, com efeito, que tivéssemos é o fundamento das próprias conclusões que
vindo ao mundo de improviso: nesse caso, extraio da experiência? Experienciei, por
vendo uma bola de bilhar, não poderíamos exemplo, que o pão que comi sempre me ali­
C ã p ít u lo s é tim o - D avid -Hume e o epilo 0 o irracio^alis+a do empifismo

mentou; mas com base em que fundamento mamos “causa”, deve seguir-se aquilo que
eu extraio a conclusão de que ele deverá me nós chamamos “efeito” (e vice-versa).
nutrir também no futuro? Do fato que ex- Portanto, segundo Hume, a chave para
perienciei que certa coisa sempre se acompa­ a solução do problema está na “crença”, que
nhou de outra ao modo de “efeito”, eu posso é um sentimento. Assim, de ontológico-racio-
inferir que também outras coisas como aquela nal, o fundamento da causalidade torna-se
deverão se acompanhar de efeitos análogos. emotivo-arracional, ou seja, transfere-se da
Por que extraio essas conclusões e, esfera do objetivo para a esfera do subjetivo.
ainda mais, as considero necessárias? Com o verem os, é exatam ente esse
Para responder ã questão, vejamos me­ “instinto natural” que se revelará a última
lhor seus termos. Dois elementos essenciais trincheira do empirismo humiano.
estão presentes no nexo causa-efeito:
a) a contigüidade e a sucessão;
b) a conexão necessária.
a) A contigüidade e a sucessão são ex­3 O s o b je to s c o r p ó r e o s
perimentadas, n ão s ã o su b sta n c ia s,
ao passo que b) a conexão necessária
m a s fe ix e s
não é experimentada (no sentido de que não
é uma impressão), e sim inferida. Todavia, d e im p r e s s õ e s e d e id é ia s
como a inferimos? |T]

Hume submete a uma crítica análoga


2 //-H á t > it o " e "c Y e n ç a " o conceito clássico de substância:
1) tanto em referência aos objetos cor-
c o m o f i\n c ia M \e .y \to
póreos,
d a s lig a çõ e s 2) como no que se refere ao sujeito
d e c a u s a s e e fe ito s espiritual.
Segundo Hume, aquilo que nós capta­
mos, na realidade, não é mais que uma série
Nós a inferimos, diz Hume, pelo fato de feixes de impressões e idéias.
de term os experim entado uma conexão Em virtude da constância com que
constante e, por conseguinte, pelo fato de esses feixes de percepções se apresentam a
termos contraído um hábito ao constatar a nós, acabamos por imaginar a existência de
regularidade da contigüidade e da sucessão, um princípio que constitui o fundamento da
a ponto de tornar-se natural para nós, dada coesão entre aquelas percepções.
a “causa”, esperarmos o “efeito” . Todavia, consideramos tal feixe de
O princípio com base no qual, a par­ percepções que chamamos por exemplo de
tir da simples sucessão hoc post hoc, nós maçã como sustentado por um princípio
inferimos o nexo necessário hoc propter de coesão que garante que tais impressões
hoc é constituído, portanto, pelo costume permaneçam compactas e constantemente
ou hábito. juntas. Mas esse princípio não é uma im­
Em conclusão, diz Hume, é o costume pressão, e sim apenas um modo nosso de
que nos permite sair daquilo que está ime­ imaginar as coisas, que acreditamos existir
diatamente presente na experiência. Mas fora de nós. Com efeito, aquilo que não é
toda proposição nossa relativa ao futuro redutível a uma impressão, como sabemos,
não tem outro fundamento. é destituído de validade objetiva.
M as há ainda um ponto importantís­
simo que devemos entender. Embora seja
básico, o “costume” de que falamos, em si
4 "t a m b é m o s su jeito s
mesmo, não seria suficiente para explicar
inteiramente o fenômeno que estamos dis­ s ã o fe ix e s
cutindo. Uma vez formado, esse costume d e im p r e s s õ e s e d e id é ia s
gera em nós uma “crença” (belief). Ora,
é precisamente essa crença que nos dá a
impressão de que estamos diante de uma Hume também faz uma crítica análoga
“conexão necessária” e que nos infunde a à existência de uma substância espiritual,
convicção de que, dado aquilo que nós cha­ particularmente contra a existência do eu,
Segunda p ã T t e - ■Hobbes, i-ocke, 3 e rk e le y e -plwme

entendido como realidade dotada de exis­ teórica, como já vimos. Nossa “crença”
tência contínua e autoconsciente, idêntica a na existência independente e contínua dos
si mesma e simples. Com efeito, toda idéia objetos é fruto da “imaginação”.
só pode derivar de uma impressão corres­ Em especial, como se encontra certa
pondente; mas do eu não há nenhuma im­ uniformidade e coerência em nossas im­
pressão precisa: “por conseguinte, tal idéia pressões, a imaginação tende a considerar
não existe”. tal uniformidade e coerência como total e
As cruas conclusões de Hume, portan­ completa, supondo precisamente a existên­
to, são as mesmas a que ele chega no caso cia de corpos que seriam sua “causa” .
dos objetos. Como os objetos nada mais são Vejamos um exemplo: eu saio de mi­
que coleções de impressões, analogamente, nha sala e, desse modo, deixo de ter todas
nós não somos nada mais do que coleções as impressões que constituem esta minha
ou feixes de impressões e de idéias. Somos sala; depois de certo tempo, ao retornar,
uma espécie de teatro, onde passam e re­ tenho as mesmas impressões de antes ou, de
passam continuamente as impressões e as todo modo, tenho percepções parcialmente
idéias: mas, note-se bem, trata-se de teatro iguais às de antes e em parte diferentes, mas
que não deve ser concebido como um prédio coerentes com elas (por exemplo, encontro
estável, mas simplesmente como o passar e a luz reduzida porque já se fez tarde). Pois
o repassar das próprias impressões. bem, a imaginação preenche o vácuo de
O que devemos concluir então? Se o minha ausência, supondo que essas per­
objeto é um feixe de impressões, e se também cepções correspondentes e coerentes em
o eu é um feixe de impressões, como poderão relação às anteriores correspondam a uma
se distinguir entre si? Como se poderá falar existência efetiva e separada dos objetos que
de “objetos” e de “sujeitos” ? constituem minha sala. E mais: ao trabalho
realizado pela imaginação se acrescenta
ainda o da memória, que dá vivacidade às
impressões fragmentadas e intermitentes
O s o b je to s e o s su je ito s (por causa de minha saída e da posterior
e x iste m a p e n a s
volta à sala). Tal “vivacidade” gera a “cren­
ça ” na existência dos objetos externos cor­
p o r n o s s a p u r a “c r e n ç a * respondentes.
O que nos salva da dúvida cética é, por­
tanto, essa crença instintiva, que é de gênese
A tese de Hume é evidente: alógica e arracional, e quase biológica.
1) a existência das coisas fora de nós 2) Também o eu também é reconstruí­
não é o b jeto de conhecim ento, mas de do de modo análogo pela imaginação e pela
“crença”; memória em sua unidade e substancialidade.
e, assim, analogamente, 2) a identidade Por conseguinte, também a existência do eu,
do eu não é objeto de conhecimento, mas é, entendido como substância à qual são refe­
ela também, objeto de “crença” . ridas todas as percepções, é apenas objeto
1) A filosofia nos ensina que qualquer
de “crença” .
impressão é uma percepção e que, portanto, Todavia, devemos destacar que, para
é subjetiva. Com efeito, a partir da impressão Hume, o eu torna-se objeto de consciência
não se pode inferir a existência de um objeto imediata através das paixões e, portanto,
como causa da própria impressão, porque mais uma vez em âmbito ateórico e por via
o princípio de causa não tem uma validade arracional.
C ãpítulo sétiffiO - D avid "Hume e o epílogo irracior\alis+a do empirismo

IV. o ■pLmdame.rvfo arraciorval


d a moral e. d a religião

• As paixões são algo de originário e próprio da "natureza humana", indepen­


dentes da razão e por ela não domináveis: trata-se de "impressões" que derivam
de outras impressões.
A vontade, em particular, é entendida por Hume como a A íeor;a
impressão interna da qual alguém se torna consciente quando das paixões
se dá intencionalmente origem a um novo movimento de nosso e a negação
corpo ou a uma nova percepção de nossa mente. Ora, uma vez da liberdade
que ao realizar qualquer ato a vontade é determinada exclusi- — S 1-2
vãmente por motivos internos, a "liberdade" passa a significar a
simples "não coação externa", enquanto o "livre-arbítrio" constitui um verdadeiro
e próprio absurdo.
Ligada a esta concepção temos a tese humiana segundo a qual a razão não
pode jamais se contrapor à paixão na condução da vontade; e isto significa negar
que a razão possa guiar e determ inar a vontade.

• A moral, que suscita paixões e promove ou impede ações, não se funda por­
tanto sobre a razão, e sim sobre o sentimento, e precisamente sobre um particular
sentimento de prazer e de dor: o prazer moral é peculiar porque é desinteressado.
Em seu conjunto, a ética humiana é utilitarista, no sentido porém
que o que move nosso assentimento não é o nosso útil particular,
A moral
mas o útil público, que é o útil à felicidade de todos. e a religião
Também a religião, para Hume, não tem um fundam ento não têm
racional, e nem moral, mas um fundam ento instintivo, enquanto fundamento
a idéia do divino nasceu do terror da morte e da preocupação racional
com uma vida futura; Hume, todavia, sustenta que um povo in­ - § 3 - 7
teiram ente privado de religião difere bem pouco dos animais.

A s p a ix õ e s e a v o n ta d e importantes de seu discurso podem ser re­


sumidos assim: ele afirma que as paixões
dizem respeito ao eu, “ou seja, aquela
As paixões são algo original e próprio pessoa particular de cujas ações e senti­
da “natureza humana”, independentes da mentos cada um de nós está intimamente
razão e não domináveis por ela. Elas são c o n v e n c i d o e, falando sobre o orgulho,
“impressões” que derivam de outras per­ ele chega até a afirmar que “a natureza
cepções. ligou a essa emoção certa idéia, a do eu (!),
Hume distingue as paixões em: 1) di­ que nunca deixa de se produzir” . Como já
retas; 2) indiretas. observamos, é evidente que Hume recupera
1) As primeiras são as que dependem aqui a consciência e a idéia do eu sobre
imediatamente do prazer e da dor, como, bases emocionais.
por exemplo, o desejo, a aversão, a tristeza, Em última análise, a própria vontade
a alegria, a esperança, o medo, o desespero, pode ser redutível às paixões ou, de qualquer
a tranqüilidade. modo, constitui algo muito próximo a elas,
2) As segundas são, por exemplo, o dado que, segundo Hume, se reduz a uma
orgulho, a humildade, a ambição, o amor, impressão que deriva de prazer e de dor,
o ódio, a inveja, a piedade, a malignidade, a exatamente como as paixões. Mas nosso
generosidade e as outras que delas derivam. filósofo parece um tanto incerto sobre esse
Hume alonga-se muito ao escrever ponto, pois termina por admitir que a von­
sobre essas paixões. M as os elem entos tade é e não é uma paixão.
Segunda parte - 4-lobbes, .Locke/ Berkeley e flwme

2 N e g a ç ã o d a lib e r d a d e paz” . Quando muito, a razão pode dispor-se


a serviço das paixões e colaborar com elas,
e d a r a z ã o p r á tic a
despertando-as e orientando-as.

Tal ambigüidade e incerteza se reflete


imediatamente sobre a concepção da liber­ 4 O s e n t im e n to
dade, que Hume termina por negar.
c o m o v e r d a d e ir o fv\nclam&nio
Para ele, “livre-arbítrio” seria sinônimo
de não-necessidade, ou seja, de casualidade, d a m oral
constituindo assim um absurdo.
Segundo Hume, aquilo que habitual­
mente denomina-se de “liberdade” não A resposta humiana ao quesito acima
seria mais que a simples “espontaneidade”, exposto é óbvia: o fundamento da moral é
ou seja, a não-coação externa. Ao realizar o sentimento.
nossos atos, não somos determinados por Qual é, então, esse sentimento que ser­
motivos externos, e sim interiores; todavia, ve de fundamento para a moral?
de qualquer forma, sempre somos determi­ E um sentimento particular de prazer
nados. e dor.
Contudo, o ponto mais característico A virtude provoca um prazer de tipo
da filosofia moral de Hume é a tese segundo particular, assim como o vício provoca uma
a qual “a razão jamais pode se contrapor à dor de tipo particular, de modo que, se
paixão na condução da vontade”. conseguirmos explicar tal prazer e tal dor,
Isso significa proclamar a vitória do explicaremos também o vício e a virtude.
jogo das paixões e, assim, negar que a razão Já dissemos que o prazer (ou dor) mo­
possa ser prática, ou seja, que a razão possa ral é particular, isto é, especial. Com efeito,
guiar e determinar a vontade. ele deve ser acuradamente distinto de todos
Essa posição é exatamente contrária os outros tipos de prazer. De fato, por prazer
à que Kant defenderá na Crítica da razão entendemos sensações muito diferentes entre
prática. si: como exemplifica Hume, uma coisa é o
prazer que experimentamos ao beber uma
boa taça de vinho, um prazer que é de ca­
ráter puramente hedonístico; outra coisa é
3 ;A r a z ã o n ã o f u n d a m e n t a
o prazer que experimentamos ao ouvir uma
a ynoi^al boa composição musical, que é um prazer
estético. Nós captamos imediatamente a
diferença entre esses dois tipos de prazer, não
A moral foi o assunto que mais interes­ havendo nenhum perigo de que considere­
sou Hume desde o início de sua formação mos o vinho harmonioso ou a composição
espiritual, a ponto de alguns intérpretes musical saborosa. Analogamente, diante da
sustentarem que, se todo o sistema humiano virtude de uma pessoa, experimentamos um
não for visto à luz desse interesse fundamen­ prazer peculiar que nos impele a louvá-la
tal, ele não revela seu significado preciso. (assim como, diante do vício, experimenta­
Qual é o fundamento da moral? mos um desprazer que nos impele a censurá-
Como já vimos, Hume negava que a lo). Trata-se, segundo Hume, de um tipo de
razão como tal pudesse mover a vontade, prazer (ou dor) desinteressado.
ou seja, que a razão pudesse ser fundamento E essa é justamente a conotação espe­
da vida moral. cífica do sentimento moral: o estar “desin­
A moral, por conseguinte, deve derivar teressado”.
de algo diferente da razão. Com efeito, diz
Hume, a moral suscita paixões e promove
ou impede ações, coisas que, pelos motivos 5: din|.’ t)H u iii'ia
expostos, a razão não está em grau de fazer. d o s e n tim e n t o d e s im p a t ia
Portanto, conclui Hume, “é impossível
que a distinção entre bem e mal moral possa
ser estabelecida pela razão, posto que essa De notável relevância moral para Hume
distinção tem sobre nossas ações uma in­ é, além disso, o sentimento de simpatia.
fluência da qual a razão é inteiramente inca­ Valorizando esse sentimento, nosso filóso-
C ã p ít u lo s e tim o - D avid "Hume e o epílogo ir^acionalis+a do empirismo

fo coloca-se em clara antítese com a visão 6 CD u tilita r is m o n a m o r a l


pessimista de Hobbes.
Eis uma significativa afirm ação de
Hume: “N ão há qualidade da natureza Nas Investigações sobre os princípios
humana mais notável, seja em si e por si, da moral, finalmente, para explicar a ética
seja por suas conseqüências, do que nossa Hume recorreu também à dimensão utili-
propensão a experimentar simpatia pelos tarista. Com efeito, diz ele, o “útil” move
outros, e a receber por transmissão as incli­ nossa concordância.
nações e os sentimentos alheios, por mais Mas o “útil” de que se fala no campo
diferentes e até mesmo contrários sejam eles da ética não é “nosso útil particular”, e sim
em relação aos nossos”. o útil que, além de nós, estende-se “também
aos outros”, ou seja, o útil público, que é “o
útil à felicidade de todos”.
Assim, escreve Hume: “Desse modo,
se a utilidade é uma fonte do sentimento
moral e se não consideramos sempre essa
A utilidade em relação ao eu singular, segue-
se então que tudo o que contribui para a
felicidade da sociedade granjeia diretamente
T R E A T I S E nossa aprovação e nossa boa vontade. Eis
um princípio que, em boa medida, explica
O F
a origem da moralidade [ ...].”

Human Nature :
BE I N G
7 r e li g i ã o s e fu n d a m e n t a
s o b r e um in stin to
An A t t e m p t to introduce thc ex­
perimental Method of Reaíòning Hume não tinha interesse pessoal pela
I N T O religião. Ele se afastara desde jovem das
práticas religiosas, assumindo atitude de in­
diferença, com traços de verdadeira aversão.
MORAL SUBJECTS. M as, como fato da “natureza humana”, a
_________ j/n, . ..^ religião não podia deixar de constituir ob­
jeto de sua análise.
R a ra ttmptrum fe lic ita i, itbi fm tir t, p u t vtlit ; Wfuét Apesar de alguns pontos de contato
ftn tia s, d u trt lictt. T a c it.
com certas idéias deístas, a posição de Hume
não é deísta, chegando a ser, em alguns ca­
VOL. I. sos, claramente antideísta.
a) Em primeiro lugar, a religião não tem
O F TH E fundamento racional. Hume refuta e rejeita
U N D E R S T ANDING. as provas apresentadas pelos teólogos em
favor da existência de Deus. Segundo ele,
no máximo, pode-se pensar como plausível
L O N D O N : alguma analogia com a inteligência, no que
P/intcd for John Noon, at the f*T >itt-H art, ncar se refere à causa do universo. Mas dessa
A ftrctr*i- C h a ftl, in C btaffidt. analogia não se extrai nada de certo.
MUCC XXXIX. b) A religião também não possui funda­
mento moral. Segundo Hume, não há uma
verdadeira conexão entre religião e ética.
Com efeito, como já vimos, o fundamento
No Tratado sobre a natureza humana da ética é o sentimento, e não a religião.
há í i von tade de fu n dar definitivam ente
so b r e hascs experim entais a ciência d o h om em
c) A religião tem um fundamento ins­
que, ftara H um e, e ain da m ais im portan te tintivo. A idéia do divino nasceu do medo
qu e a física e as outras ciências. da morte, da preocupação com uma vida
Na ilustração o frontisf>ício da ed içã o original. futura.
Segunda patte - ■Hobbes, Locke, B erk ele y e H ume

Hume não é ateu por princípio e de inteligência e cultura. Não há preceitos tão
modo dogmático, mas é extremamente am­ rigorosos que não tenham sido aceitos por
bíguo. Avalia negativamente a religião, mas homens mais voltados para o prazer e para a
depois diz que um povo sem religião pouco preguiça. A ignorância é a mãe da devoção:
difere dos animais. A passagem seguinte esta é uma máxima proverbial, confirma­
mostra exemplarmente essa ambigüidade: da pela experiência de todos. Entretanto,
“Não há absurdos teológicos tão desco­ procurai um povo inteiramente privado
munais que, alguma vez, já não tenham de religião: se o encontrardes, podeis estar
sido sustentados por homens de grande certos de que ele pouco difere dos animais. ”

TREATISE
O F

H u m an N a tu r e .

B O O K II.
Of the P a s s i o n s .

P A R T i.
O f P rid e and Humility.
SECt. I.
Divifion o f tbe S uijefl.

[ S ali thc pcrceptions of the S t c t-


mind may be divided into I.
imprejjioni and ideas, fo the
imprcíTions admit of another
divifion into original and f i -
A prim eira página d o segu n do livro condary. This diviflon of thc imprefllons i«
d o Tratado sobre a naturc/a humana V o t. II. U thc
( 1 7 3 9 - 1740).
- , . . . . 145
Cãpítulo sétimo - D a v id H u m e e o e p ílo g o I r r a c i o n a li s t a d o e m p iris m o

V . D i s s o lu ç ã o d o empirismo
n a ^ m z ã o c é f i c a ;/ e na c r e n ç a a r r a c i o n a l

• Hume definiu a própria posição como ceticismo moderado, que consiste na


limitação das investigações humanas sobre os argumentos que melhor se adaptam
às capacidades limitadas do intelecto humano. Em última análise, porém, todo o
ceticismo humiano tem como fundam ento único a negação da
valência ontológica do princípio de causa e efeito. Hume
Quanto à atitude geral que caracteriza o pensamento de se define
Hume, ela consiste em contrapor à razão cética problemática o ins- com° cé^ico
tinto e o elemento alógico, passional e sentimental. A afirmação moderado
humiana pela qual a razão é e deve ser serva das paixões, atesta 5 '
como aqui o empirismo seja levado às extremas conseqüências:
será tarefa de Kant abrir novos caminhos em grau de evitar tanto esses extremismos
irracionalistas e céticos, como tam bém os extremismos em que haviam incorrido
os sistemas racionalistas.

1 O ce ticism o m o d e m d o quantidade ou do número?’ Não. ‘Contém


raciocínios baseados na experiência e rela­
d e -H u m e tivos aos dados de fato ou à existência das
coisas?’ Não. Então, joguemo-lo às chamas,
já que não pode conter nada mais que tergi­
Hume considerava-se cético moderado. versação e engano” .
Com efeito, em sua opinião, o ceticismo mo­ Essas conclusões céticas podem ser
derado “pode beneficiar o gênero humano”, reduzidas a um fundamento único: a ne­
visto que consiste na “limitação de nossas gação da valência ontológica do princípio
investigações aos temas que melhor se adap­ de causa e efeito. Seria muito fácil mostrar
tam às limitadas capacidades do intelecto que, na realidade, no mesmo momento em
humano” . que o exclui, Hume o está reintroduzindo
Em última análise, no que se refere subrepticiamente, sem se dar conta disso,
às ciência abstratas, essas capacidades se para poder proceder ao seu discurso. As
restringem ao conhecimento das relações impressões são “causadas” pelos objetos,
entre idéias e, portanto, no caso das razões as idéias são “causadas” pelas impressões,
que examinamos, se restringem somente à a associação das idéias tem uma “causa”,
matemática. Todas as outras investigações o hábito é por sua vez “causado” e, assim,
se referem a dados de fato, suscetíveis de os exemplos, poderiam se multiplicar! Se
constatação, mas não de demonstração. Em tivéssemos verdadeiramente de eliminar o
suma, o que domina todos esses âmbitos é a princípio de causa, não só a metafísica rui-
experiência e não o raciocínio. Assim, as ciên­ ria por terra, mas também toda a filosofia
cias empíricas baseiam-se na experiência, a teórica e moral de Hume.
moral no sentimento, a estética no gosto e
a religião na fé e na revelação.
Sendo assim, nas Investigações sobre
o intelecto humano Hume tira sua célebre 2 ;A s p a i x õ e s tê m p r e d o m ín io
conclusão: “ Quando, persuadidos desses sobre a ra zã o
princípios, percorremos os livros de uma
biblioteca, do que devemos nos desfazer?
Se pegarmos algum volume, digamos de Mas não é para isso que queremos cha­
teologia ou de metafísica escolástica, por mar a atenção (já que isso nos levaria para
exemplo, devemos nos perguntar: ‘Será que o campo da crítica ao sistema humiano),
contém raciocínios abstratos em torno da mas muito mais para a postura geral que
Segunda pavte - •Hobbes, .Locke, B erk ele y e *Hume

caracteriza o pensamento do filósofo: à Como se vê, quando levado às conse­


razão cética problemática, Hume contrapõe qüências extremas, o empirismo choca-se
o instinto e o elemento alógico, passional contra limites agora intransponíveis (pelo
e sentimental, portador de uma segurança menos com sua lógica intrínseca). Caberá
incontida e, portanto, dogmática. A própria a Kant a grande empresa de abrir novos
razão filosófica, que é uma necessidade ori­ cam inhos, capazes de evitar tanto esses
ginária de indagar, aparece em Hume, em extremismos irracionalistas e céticos como
certos momentos, quase como uma espécie os extremismos de caráter oposto em que
de instinto, também ele incontido. haviam incorrido os sistemas racionalistas.
Em suma, para Hume, a última pala­ Todavia, antes de Kant, devemos tratar
vra parece ser deixada precisamente para o de dois pensadores que nadaram contra a
instinto, ou seja, para o arracional, quando corrente: saindo dos esquemas típicos da
não até para o irracional, como dizíamos época moderna e das linhas que levam a
no princípio. Kant, eles, abreviando os tempos, anunciam
As duas afirmações seguintes, verdadei­ mensagens que são ainda mais “modernas”
ramente emblemáticas, mostram claramente do que a “modernidade” de sua época. E de­
quanto o empirismo humiano afastou-se vemos também apresentar um quadro geral
do empirismo lockiano. Locke dizia: “A da cultura e do pensamento iluministas, dos
razão deve ser nosso último juiz e nosso quais os filósofos até agora tratados foram,
guia em toda coisa” . Hume, ao contrário, de certo modo, iniciadores ou até mesmo
afirma: “A razão é e só pode ser escrava expoentes de relevo, e dos quais o próprio
das paixões , não podendo reivindicar em pensamento de Kant, em ampla medida, é
caso nenhum uma função diversa da de a expressão.
elas obedecer” .

E S S A Y S,
M O R A L
AND

P O L Í T I C A L.

Tros Ruruluíve fu a t, rntlit diferimint habtbt.


V ..G ,

F rontlspicio da ab ra
I.nsaios morais e políticos, dc 1741.
F . T> 1 N S U R G H ,
() argum ento qu e m ais interessou H um e
desiie o inicio de sua fo r m a çã o espiritual Printed by R. F l e m i n g and A. Ai i son- ,
fo i a moral; for A. Ki s c a j d Kookfcüer, and Sold at
o fu n dam en to dela é o sentim ento his Shop above ilic Crof>. Mdccxli.
qu e é, a o m esm o tem po,
de prazer e de dor.
Cãpltulo sétimo - D avid Hume e o epílogo ifracionalista do empinsmo

HUME
FUNDAMENTOS DA "CIÊNCIA DO HOMEM"

/ Todos os conteúdos
da mente humana são
\ PERCEPÇÕES

__ A ______ ___
d eriv a d a s, j origin árias,
imagens produzidas pela memória presentes com maior força
a partir das impressões: (sensações, emoções):
ID É IA S IM P R E SSÕ E S
V y

_ .............. i _ ....... >


I idéias simples )■* impressões simples j

impressões com plexas, devidas a:


1. com binações
idéias com plexas )■* 2. associações
(semelhança; contigüidade; causalidade)
3. relações

dados de fa to : proposições que relações de idéias:


não implicam uma necessidade lógica, proposições baseadas
baseadas sobre o hábito sobre o princípio
e sobre a relativa crença de não-contradição

prazer e dor:
vontade e paixões

D isso d e r iv a a in c o n s is t ê n c ia o n t o l ó g i c a :

1) da relação de causalidade, que não é uma relação


necessária diretas indiretas
2) do conceito de substância corpórea e de substância (desejo, (orgulho,
espiritual: tanto as coisas “externas” quanto o “ eu” aversão, humildade,
são apenas feixes de impressões, objetos não de tristeza, amor, ódio
conhecim ento, mas de crença alegria etc.) etc.)
S e g U t ld ã p U T te - Hobbes, .Locke, S e rk e le y e Hume

em tempo diferente, no mesmo lugar, podem


ser numericamente diferentes; assim, uma vez
H ume que o poder de um objeto de produzir outro
nõo pode jamais ser descoberto simplesmente
pela sua idéia, é evidente que causa e efeito
são relações que chegamos a conhecer com

D A crítico o idéia a experiência, e nõo tanto com raciocínios ou


reflexões abstratas. Nõo há um só fenômeno,
de causa e efeito mesmo os mais simples, do qual se possa dar
razão com as qualidades com as quais os obje­
tos se apresentam a nós, ou que podemos pre­
fí mais famoso argumentação filosófica ver sem o auxílio da memória e da experiência.
de Hume é sem dúvida a da negaçõo da Destas sete relações filosóficas restam,
valência ontológica do princípio dc causalida­ portanto, apenas quatro que, dependendo
de, ou seja, do princípio de razão suficiente unicamente das idéias, podem ser objeto de
enunciado por Leibniz. conhecimento e de certeza: a semelhança, o
fís páginas que aqui apresentam os contrariedade, os graus de qualidade, a propor­
são tomados do Tratado sobre a natureza ção da quantidade ou do número. Três destas
humana (1739-1740), e contêm a mais viru- se captam num relance, e sõo mais objeto de
lenta crítica da necessidade da relação entre intuição do que de demonstração: a semelhança
cousa 0 efeito. Sua intenção explícita é a de de alguns objetos atinge logo os olhos, ou me­
demonstrar, como diz o próprio Hume: lhor, a mente, e raramente exige um segundo
"que a) um objeto, considerado em si exame; e o mesmo ocorre para a contrarieda­
mesmo, não contém nada que nos autorize a de e para os graus de uma qualidade. Como
dele tirar uma conclusão que vá além dele; duvidar que a existência e a não-existência
e que b) também depois de ter obser­ não se destroem uma a outra, e não sejam por
vado a freqüente ou constante conjunção isso inteiramente incompatíveis e contrárias? €
dos objetos, nós não temos nenhuma razão verdade que graus de uma qualidade, como a
de daí tirar uma inferência a respeito de cor, o sabor, o quente ou o frio, não se podem
um objeto que está além daqueles de que julgar com exatidão quando sua diferença for
tivemos experiência muito pequena; todavia, é fácil julgar que um é
superior ou inferior a outro quando a diferença
for considerável, e este juízo nós o formulamos
1. Rs primeiras quatro relações
sempre ò primeira vista, sem fazer pesquisas
que são fundamento da ciência:
ou raciocínios.
semelhança, contrariedade,
Também para as proporções de quantida­
gradualidade qualitativa,
de ou de número pode acontecer que consiga­
proporção quantitativa ou numérica
mos constatar com um relance a superioridade
Há sete espécies de relações filosóficas: ou inferioridade entre números e figuras, es­
semelhança, identidade, relações de tempo pecialmente onde a diferença é grande; mas a
e de lugar, proporção de quantidade e de igualdade, ou outra proporção exata, podemos,
número, graus de uma qualidade, contrarie­ com uma primeira observação, apenas conjec-
dade, causalidade. Gstas relações podem ser turá-la, exceto quando se trata de números
divididas em duas classes: as dependentes muito pequenos ou de porções muito limitadas
inteiramente das idéias postas em confronto, e de extensão que possam ser abraçados em um
as que podem mudar sem que mudem as idéias. instante, e nos dêem a segurança de não cair
Da idéia de um triângulo depende a relação em grave erro; e em todos os outros casos é
de igualdade dos três ângulos a dois retos, arriscado estabelecer as proporções com certa
e esta relação nõo varia até que nõo varie a liberdade, ou proceder de modo mais ou menos
idéia; ao contrário, a relação de contigüidade artificioso. [...]
e de distância entre dois objetos pode mudar
por uma simples alteração do lugar que estes
2. Rs três outras relações:
ocupam, sem nenhuma mudança dos objetos em identidade, situação espacial ou temporal,
si mesmos, ou seja, de suas idéias: e que eles
causalidade
ocupem aquele lugar, depende de mil acidentes
imprevisíveis. Gste é também o caso da identi­ Isto é tudo o que creio necessário observar
dade e da causalidade: dois objetos, ainda que em relação às quatro relações que sõo o fun­
sejam perfeitamente semelhantes e se mostrem, damento do ciência. Quanto às outras três: de
. ,. 149
Cãpítulo sétimo D a v i d -(-lu m e e o e p í l o 0 o i r r a c i o n a l i s + a d o e m p i r i s m o _____

identidade, de situação espacial ou temporal e curaremos, portanto, explicar esta relação de


de causalidade, que não dependem da idéia, forma exaustiva, antes de abandonar nosso
e podem estar ausentes ou presentes mesmo exame do intelecto.
se ela permanece sem variar, será bom falar
delas mais em particular. 3. Os elementos que estão na base
Os raciocínios não fazem mais que pôr em da idéia de causalidade:
confronto e descobrir as relações, constantes contigüidade, sucessão temporal,
ou inconstantes, que dois ou mais objetos têm conexão necessária
entre si. €ste confronto pode ser feito, tanto
se ambos os objetos estejam presentes aos Para começar com ordem, devemos consi­
sentidos, ou esteja presente um só, ou nenhum. derar a idéia de causalidade e ver qual é sua
Quando ambos estão presentes aos sentidos origem. Não se pode, com efeito, raciocinar
junto com a relação, chamamos esta uma per­ bem, se não se entende plenamente a idéia so­
cepção, não um raciocínio, pois neste caso não bre a qual se raciocina, e é impossível entender
há nenhuma atividade ou ação propriamente perfeitamente uma idéia se não rastrearmos sua
dita do pensamento, mas simplesmente uma origem, e não se examina a primeira impressão
aceitação passiva das impressões mediante a partir da qual ela nasce. O exame da impres­
os órgãos da sensação. Por conseguinte, não são dá clareza à idéia, e o exame da idéia dá
devemos considerar como raciocínios as obser­ igual clareza a todos os nossos raciocínios.
vações que alguém pode fazer em relação à Demos, portanto, uma olhada em dois
identidade e às relações de tempo e de lugar: dos objetos que chamamos causa e efeito, e
uma vez que em nenhuma destas ele pode reviremo-los de todos os lados, com o fim de
lançar-se, para descobrir a real existência ou a encontrar a impressão que produz uma idéia de
relação, para além dos objetos imediatamente importância tão prodigiosa. Vejo imediatamen­
presentes aos sentidos. R causalidade sozinha te que não devo procurá-la em nenhuma das
produz tal conexão que nos dá a certeza de que qualidades particulares dos objetos, uma vez
à existência ou à ação de um objeto seguiu-se que, seja qual for a que eu escolha, encontro
ou precedeu outra existência ou outra ação; e objetos que não a possuem, e todavia são
mesmo as outras duas relações não podem en­ chamados de causas ou efeitos. G, na verdade,
trar em um raciocínio a não ser enquanto entram não existe nada no objeto, nem externa nem
na de causalidade. Não há nada em um objeto internamente, que não se possa considerar
que nos possa persuadir que ele deve sempre ou como causa ou como efeito, embora seja
estar longe ou contíguo a outro, e quando com evidente que não há nenhuma qualidade que
a experiência e com a observação descobrimos pertença universalmente a todas as coisas e
que nisso a relação deles é invariável, concluí­ lhes dê direito a esta denominação.
mos sempre que há uma causa secreta que A idéia de causalidade, portanto, deve
assim os separa ou une. Diga-se o mesmo para derivar de alguma relação existente entre os
a identidade: supomos sem qualquer dúvida objetos, e devemos procurar descobrir essa
que um objeto continua a ser numericamente o relação. €m primeiro lugar, percebo que os
mesmo, embora mais vezes presente e ausente objetos considerados como causa e efeito
aos sentidos, e lhe atribuímos uma identidade são contíguos-, e que nada poderia agir sobre
apesar da interrupção das percepções, porque outro se entre eles existisse o mínimo intervalo
pensamos que, se tivéssemos tido o olho ou de tempo ou de espaço, êmbora, com efeito,
a mão constantemente sobre ele, ele teria objetos distantes possam por vezes parecer
produzido em nós uma percepção invariável produtivos um do outro, em geral, examinando
e ininterrupta. A esta conclusão, que vai além bem, vê-se que estão unidos por uma cadeia de
das impressões dos sentidos, podemos chegar causas contíguas tanto entre si como com os ob­
apenas porque nos fundamos sobre a conexão jetos distantes; e também quando não podemos
de causa e efeito: de outro modo não podería­ descobrir esta união, presumimos sempre que
mos ter a certeza de que o objeto é sempre exista. Devemos, portanto, considerara relação
o mesmo, e não um novo, por mais que este de coNTiGüiDmecomo essencial para a de causali­
possa assemelhar-se àquele que antes estava dade, ou, pelo menos, supor que seja tal, como
presente aos sentidos. [...] é também opinião geral, até que não tenhamos
Desse modo se vê que, das três relações ocasião mais propícia para esclarecer a ques­
que não dependem meramente das idéias, a tão, examinando quais objetos são e quais não
causalidade é a única que possa lançar-se para são capazes de justaposição e de conjunção.
além dos sentidos e informar-nos da existência A segunda relação que considero como
de objetos que não vemos nem sentimos. Pro­ essencial à de causalidade não é universalmen­
Segunda pavte - -Hobbes,. Locke/ B e rk e le y e "Hume

te reconhecido; oo contrário, é controvertida, e corpos externos; de forma gue a relação de cau­


consiste na prioridrd6 de tempo da causa sobre salidade é a mesma em um e outro caso.
o efeito. [...]
Contentar-nos-emos, então, com estas 4. Falta de fundamento racional da tese
duas relações de contigüidade e de sucessão, segundo a qual tudo aquilo que existe
como se nos dessem uma idéia completa da tem necessariamente uma causa
causalidade? De modo nenhum. Um objeto
pode ser contíguo e anterior a outro, e não ser Para começar pela primeira guestão,
considerado como sua causa. £ preciso levar em que se refere à necessidade de uma causa, é
consideração a relação de ligação necessário, máxima geral em filosofia gue tudo aquilo que
que tem importância bem maior do que as duas começa o existir deve ter uma causo de suo exis­
precedentes. tência. Admite-se isso em todos os raciocínios
Rgui, de novo, examino o o b jeto de sem dar nem pedir nenhuma prova. Supõe-se
todos os lados, para descobrir a natureza gue a verdade desta máxima seja intuitiva, e
desta ligação necessária e a impressão, ou gue seja uma das gue, mesmo gue negada com
as impressões, de gue posso ter derivado sua palavras, ninguém pode realmente duvidar dela
idéia. Das qualidades conhecidas dos objetos, em seu coração. Mas, se examinarmos esta
vê-se imediatamente, a relação de causa 0 de máxima à luz da idéia do conhecimento acima
efeito de modo nenhum depende. De suas re­ exposta, nela não veremos nenhum sinal de tal
lações não vejo outras gue as de contigüidade certeza intuitiva: ao contrário, veremos gue ela
e de sucessão; e já as declarei insatisfatórias. é de uma natureza totalmente estranha a este
Permitir-me-ei, por desespero, afirmar gue agui tipo de convicção.
estou em posse de uma idéia não precedida Toda certeza, com efeito, nasce do con­
por uma impressão semelhante? Seria uma fronto de idéias e da descoberta de relações
prova demasiado grande de leviandade 0 de inalteráveis até que as idéias continuem a ser as
inconstância: o princípio contrário, com efeito, mesmas. Tais relações são as de semelhança,
já foi solidamente estabelecido de modo a de proporção quantitativo ou numérica, de grau
não admitir mais dúvida: ao menos até gue de umo qualidade e de contrariedade: nenhuma
não tenhamos examinado de forma exaustiva delas está implícita na proposição: Tudo aquilo
a presente dificuldade. que tem um princípio tem tombém umo cousa de
Devemos, p o rta n to , proce de r como sua existência. Csta proposição não é, portanto,
agueles gue, estando à procura de uma coisa intuitivamente certa. Pelo menos, quem quisesse
escondida, e não a encontrando no lugar onde afirmar que ela tem uma certeza intuitiva deveria
esperavam, remexem em tudo ao redor sem negar gue aguelas sejam as únicas relações
meta precisa, na esperança de gue a sorte os infalíveis, e encontrar alguma outra do gênero
guie. C preciso abandonar o estudo direto da gue nela esteja implícita. C então seria sim o
natureza da ligoçõo necessária, gue faz parte caso de examinar a coisa.
de nossa idéia de causa e efeito, e procurar ou­ Ro contrário, eis um argumento gue prova
tro guestão, da gual o exame possa ajudar-nos sem dúvida não ser tal proposição nem intuiti­
a esclarecer a presente dificuldade. São duas vamente nem demonstrativamente certa. Com
as guestões gue me proponho examinar: efeito, não se pode afirmar a necessidade de
1) Por gual razão dizemos necessário que uma causa para todo nova existência, ou novo
tudo aguilo gue tem um início deva ter também modificação de existência, sem demonstrar
uma causo? ao mesmo tempo a impossibilidade gue uma
2) Por gue afirmamos gue certas causas coisa jamais comece a existir sem um princípio
particulares devem necessariamente ter certos produtor: no caso de a segunda proposição não
efeitos particulares? Qual é a natureza desta poder ser demonstrada, também não podere­
inferência, pela gual passamos de umas aos mos esperar jamais demonstrara primeira. Ora,
outros, e de nossa crença nela? gue a segunda proposição seja absolutamente
Flntes de seguir adiante, observo gue, incapaz de uma prova demonstrativa, isso nos
embora as idéias de causa e de efeito derivem é assegurado pela consideração de gue, assim
de impressões de reflexão, assim como das como as idéias distintas são separáveis, e as
de sensação, todavia, por brevidade, eu me idéias de causa e de efeito são evidentemente
referirei a estas últimas como origem de tais distintas, 0 fácil para nós conceber um objeto
idéias; mas desejo gue cada coisa gue eu digo não existente neste momento e existente no
destas seja estendida também às primeiras. momento seguinte sem a isso unir o idéia,
Rs paixões, com efeito, estão ligadas com os dele distinta, de uma causa ou de um princípio
objetos e entre si, de modo não diferente dos produtor. [...]
C ã p í t u l o S e t in t O - D avid Hume e o epílogo in acion alista do empirismo

Todavia, se nõo é p®lo conhecimento até que, com um óbvio regresso, chegamos
nem por um raciocínio científico que formamos àqueles que foram testemunhas oculares e
o opinião da necessidade de uma causa para expectadores do acontecimento. 6 claro que
toda nova produção, tal opinião só poderemos toda esta cadeia de argumentos ou conexões
tê-la pela observação e pela experiência. Ago­ de causas e efeitos depende daqueles caracte­
ra, portanto, se apresentaria naturalmente o res ou cartas vistos ou recordados, e que sem a
problema: como tal princípio pode vira nós pelo autoridade dos sentidos ou da memória todo o
experiência? Mas é melhor remeter a questão nosso raciocínio estaria acampado no ar: cada
para mais adiante, e por ora reduzi-lo a estes anel da cadeia estaria suspenso em outro, e
termos: Por que dizemos que certos causas nõo haveria nada de fixo a um ponto, capaz de
particulares devem ter necessariamente certos sustentar o todo; por conseguinte, não haveria
efeitos particulares, e por que fazemos esta nenhuma evidência ou crença. £ este é o caso
inferência delas para estes? Talvez acabemos de todos os argumentos hipotéticos, ou seja,
por encontrar uma mesma resposta às duas dos raciocínios fundados sobre uma suposição,
interrogações. onde não existe nem uma impressão atual nem
a crença de uma existência real. [...]
G verdade, portanto, que todos os racio­
5. Todos os nossos raciocínios
cínios que se referem às causas e aos efeitos
sobre as causas e os efeitos
partiram na origem de alguma impressão: do
são hipotéticos
mesmo modo que a certeza de uma demons­
Cmbora a mente em seus raciocínios sobre tração se funda sempre sobre um confronto de
as causas e os efeitos nos lance para além dos idéias; mesmo que este seja esquecido, nem
objetos que vê ou recorda, todavia ela jamais por isso desaparece a certeza.
os perde completamente de vista nem racio­
cina puramente sobre idéias, porque a estas
6. fl base do raciocínio de causalidade
não pode deixar de misturar impressões, ou
é a crença
pelo menos idéias de memória, equivalentes
às impressões. Quando inferimos efeitos de Nos raciocínios sobre causalidade se em­
certas causas, devemos também constatar a pregam, portanto, materiais de natureza mista
existência destas causas; e por isso não exis­ e heterogênea, os quais, embora ligados, são
tem mais que dois caminhos: ou a percepção todavia essencialmente diversos. Todas as
imediata daquilo que sentimos ou recordamos, argumentações referentes às causas e oos
ou entõo uma inferência de outras causas, das efeitos constam de uma impressão de memória
quais devemos, depois, do mesmo modo fazer ou de sentido, e, no mais, da idéia daquela
as contas ou com uma impressão presente, ou existência que produz o objeto da impressão
com umo inferência de outras causas, e assim ou é produzida por ele. Aqui, entõo, devemos
seguidamente, até que cheguemos a um objeto explicar três coisas: 1) a impressão originária;
presente ao sentido ou à memória. G impossí­ 2) a passagem à idéia, que a ela ligamos, de
vel lançar in infinitum nossas inferências, e o causa ou de efeito; 3) a natureza e as quali­
única coisa que as possa fazer parar é uma dades desta idéia.
impressão do memória ou dos sentidos, para Quanto às impressões provenientes dos
além da qual nõo há mais lugar para dúvidas sentidos, sua causa última é, em minha opinião,
ou investigações. absolutamente inexplicável pela razão humana,
Tomemos, por exemplo, um ponto da e será sempre impossível decidir com certeza se
história, e consideremos a razão pela qual provêm imediatamente do objeto ou são pro­
admitimos ou rejeitamos sua veracidade. Ad-, duzidas pelo poder criativo da mente, ou então
mitimos que César foi morto no senado nos as temos do autor de nosso ser. [...]
idos de março, e isso porque deste fato sõo Quando procuramos aquilo que distin­
unânimes os testemunhos dos historiadores, gue propriamente a memória da imaginação,
que atribuem ao acontecimento aquele lugar percebemos logo que a diferença não pode
e aquela data. Aqui, diante da memória ou consistir simplesmente nas idéias que temos
dos sentidos, não temos a não ser caracteres presentes com a memória: com efeito, estas
e cartas, que recordamos ter sido empregados duas faculdades extraem suas idéias simples
como sinais de certas idéias: estas idéias ou das impressões e jamais podem ultrapassara
estiveram na mente de quem se encontrou percepção originária. Também não basta dis­
presente no acontecimento e as recebeu ime­ tinguir a ordem diversa das idéias complexas;
diatamente da existência dele, ou derivaram pois é verdade que uma propriedade peculiar
do testemunho de outros, e este de outros, do memória é conservar a ordem primitiva e a
Segunda pavte - ■Hobbes, L ocke, B e rk e le y e ÍHume

posição das idéias, enquanto a imaginação as ta dos sentidos, ou a repetição desta impressão
transpõe e muda a seu bel-prazer; mas esta na memória. Rpenas a força e a vivacidade
diferença não é suficiente para distinguir suas da percepção é o que constitui o ato primitivo
operações e natureza, pois é impossível trazer do juízo e põe as bases do raciocínio, que daí
de novo à mente as impressões passadas para passa para a relação de causa e efeito.
confrontá-las com as idéias presentes e ver se
a ordem é exatamente a mesma. Se, portanto, 7. De que modo a idéia de causa e efeito
a memória não se nos mostra tal nem pela deriva da experiência
ordem de suas idéias complexos nem pela na­
tureza de suas idéias simples, disso segue-se Todavia, ao pôr esta relação, é fácil obser­
que a diferença entre ela e a imaginação está var que a inferência da causa para o efeito não
na superioridade de sua força e vivacidade. é tirada da observação dos objetos particulares,
Um homem pode entregar-se à sua fantasia e nem de uma penetração de sua essência que
fingir que lhe tenha acontecido uma série de possa descobrir-nos a dependência de um a
aventuras: ele não pode distinguir estas da partir do outro. Não há objeto que implique a
recordação de outras semelhantes, a não ser existência de outro, se considerarmos estes
porque as idéias destas, imaginárias, são mais objetos em si mesmos e não olharmos para
fracas e obscuras. [...] além das idéias que deles nos formamos.
Mais recente é a memória e mais clara é a Semelhante inferência deveria valer como um
idéia; e quando, depois de um longo intervalo, conhecimento e implicara absoluta contradição
voltamos à contemplação do objeto, encon­ e impossibilidade de conceber uma coisa de
tramos a idéia sempre mais lânguida, quando outra forma. Todavia, como todas as idéias
não totalmente desvanecida. Por este motivo, distintas são separáveis, é evidente que não
em relação às idéias da memória, estamos pode haver impossibilidade deste gênero.
freqüentemente em dúvida, quando se tornam Quando passamos de uma impressão presente
demasiado fracas e cansadas; e não conse­ à idéia de um objeto, é sempre possível termos
guimos determinar se uma imagem provém da separada a idéia da impressão, e em seu lugar
imaginação ou da memória, quando ela não se substituída outra idéia.
apresenta com as cores vivazes que distinguem Rpenas com a exPcmiNOfí, portanto, pode­
esta última faculdade. Parece-me recordar tal mos inferir a existência de um objeto em relação
acontecimento, diz alguém, mas não estou se­ à de outro. €sta experiência consiste nisto: nós
guro disso; o longo tempo o obscureceu de tal nos lembramos de ter tido freqüentes exemplos
forma em minha memória que estou incerto se da existência de uma espécie de objetos, e
não é um parto de minha fantasia. recordamos também que certos expoentes de
Ç. assim como uma idéia da memória, outra espécie de objetos sempre os acompa­
perdendo sua força e vivacidade, pode dege­ nharam com uma regularidade constante de
nerar a tal ponto que é tomada por uma idéia contigüidade e sucessão. Rssim, recordamos ter
da imaginação, também, por outro lado, uma visto aquela espécie de objeto que chamamos
idéia da imaginação pode adguirir tal força e de chamo, e de ter sentido aquela espécie de
vivacidade a ponto de passar por uma idéia da sensação que chamamos de color. Recordamos
memória, e imitar seus efeitos sobre a crença igualmente sua constante ligação em todos os
e sobre o juízo. Os mentirosos, como é sabido, casos passados. Sem tantas cerimônias cha­
com a repetição freqüente de suas mentiras, mamos a primeira de causa e o segundo de
acabam por crê-las e recordá-las como coisas efeito, e inferimos a existência deste a partir
verdadeiras: o costume e o hábito terão neste da existência daquela. Cm todos os casos par­
caso, como em muitos outros, a mesma influên­ ticulares desta conjunção, tanto a causa como
cia da natureza sobre a mente, e esculpirão a o efeito foram percebidos pelos sentidos e
idéia com igual força e vigor. juntos permaneceram presentes na memória.
Disso vemos como a crença ou o assenti­ Mas, quando nos pomos a raciocinar sobre
mento, que sempre acompanha o memória e os eles, percebemos ou recordamos apenas um
sentidos, não consiste em outra coisa que a vi­ dos termos, e suprimos o outro em conformidade
vacidade de suas percepções, as quais nisto se com a experiência passada.
distinguem apenas das idéias da imaginação. D. Hume,
Crer é, neste caso, sentir uma impressão imedia­ Trotado sobre o natureza humano.
PASCAL E VICO
■ Dois pensadores contracorrente
da era moderna

i
- “É uma doença natural do homem acreditar que
possui diretamente a verdade; daí resulta que está
| sempre disposto a negar tudo o que lhe é incom­
preensível”

Blaise Pascal

“Naquela densa noite de trevas que encobre a pri­


meira e de nós tão distante antiguidade, aparece
a luz eterna desta verdade, que nunca se apaga
e da qual de modo nenhum se pode duvidar: que
este mundo civil certamente foi feito pelos homens,
cujos princípios podem, porque devem, ser encon­
trados dentro das modificações de nossa própria
£— mente humana”
Giambattista Vico
Capítulo oitavo

O libertinism o e G assendi.
O jansenism o e P o r t-R o y a l_________________________________ _

Capítulo nono

Blaise Pascal: au ton om ia da razão ,


m iséria e grandeza do hom em , e razoabilidade do dom da fé

Capítulo décimo

G iam battista Vico


e a fu nd ação do “ m undo civil feito pelos hom ens” __________
(Sapítulo oitavo

O li b e r t i n i s m o e {^Ãassendi.
O jc m s e m s m o e P orf-T \ o y a I

I. O liberf-mismo

• No século XVII, na França, "libertino" significava "livre-pensador".


O libertinismo foi um fenôm eno quando muito clandestino, freqüentem ente
confiado a conversações e a discussões privadas, e elitista. Seus maiores expoen­
tes foram Savinien de Cyrano (Cyrano de Bergerac, 1619-1655),
François La M othe le Vayer (1588-1672) e Gabriel Naudé (1600­ No séc. XVII,
1653). na França,
Os livre-pensadores franceses, mergulhando na antiguidade "libertino"
clássica (epicurismo, ceticismo e naturalismo imanentista) e reto­ significava
"livre-pensador"
mando temáticas renascentistas, procuraram com isso contrastar
1
a moral e as crenças religiosas proclamadas e defendidas em seu
tempo.

• Alguns temas deles, como a ruptura com a tradição escolástica, a confian­


ça no valor da ciência, a defesa da autonomia da razão e de seu poder crítico
antecipam certas posições do Iluminismo. Traço quase constante nos escritos dos
libertinos é a crítica, histórica e teórica, da religião revelada, e do
cristianismo em particular, visto como um conjunto de supersti­ A antecipação
ções. Ao teísmo, isto é, à fé em um Deus pessoal e providente, os dos temas
libertinos-quando não foram ateus-substituíram o deísmo, isto iluministas
é, a doutrina racional que afirma a existência de um Ser supremo - S 1
e desinteressado das vicissitudes humanas.

1 yA a titu d e e a s i d é i a s b á s i c a s proclamadas e defendidas em sua época. É


assim, por exemplo, que se pode entender
d o s lib e rtin o s
o contínuo apelo dos livres-pensadores ao
epicurismo, ao ceticismo ou até ao natura­
Até hoje o termo “libertino” significa lismo imanentista dos antigos. Desse modo,
“incrédulo dissoluto”. E esse significado por seu afastamento da tradição escolástica,
deriva dos adversários do libertinismo, pa­ por sua confiança no valor da ciência, por
ra os quais a crítica cética e irreverente à sua defesa de autonomia da razão e do seu
religião levava necessariamente à dissolução poder crítico, os libertinos, por um lado, se
dos costumes morais. enquadram bem na época cartesiana e, por
Na verdade, no século X V II, “liberti­ outro lado, antecipam em diversos aspectos
no” significava “livre-pensador”. temas e atitudes do Iluminismo.
E os “livres-pensadores” franceses, Entretanto, em com paração com o
mergulhando na antiguidade clássica atra­ cartesianismo, o afastamento dos libertinos
vés da retomada de temáticas extraídas do em relação à tradição é muito amplo, já que
patrimônio renascentista, procuravam com se estende não apenas à tradição filosófica,
isso contrastar a moral e as crenças religiosas mas também e sobretudo à tradição moral,
Terceira parte - P a s c a l e Vico

às crenças religiosas e às instituições. Em 2 ér^cpoentes do libertinismo


comparação com os iluministas, uma das
diferenças está no fato de que a crítica
libertina foi uma crítica clandestina e não O maior pensador do libertinismo (se
pública, uma crítica que amiúde era con­ excluirmos Gassendi, que estava ligado aos
fiada apenas às conversações e discussões círculos libertinos, mas expressava interesses
privadas. Ademais, enquanto os iluministas, religiosos) foi sem dúvida Savinien de Cyra-
com franqueza e coragem, tentaram levar no, conhecido como Cyrano de Bergerac
suas idéias a amplas camadas de pessoas, o
(1619-1655).
libertinismo foi um fenômeno elitista, isto é, Outro pensador libertino de destaque
de poucos e substancialmente hipócrita. foi François La M othe le Vayer (1 5 8 8 ­
A crítica libertina à moral e à religião 1672).
restringia-se a uma estreita aristocracia Sólidos princípios de m etodologia
intelectual, que, no entanto, reconhece as histórica foram formulados com muita cla­
funções sociais daquelas “superstições” reza por outro libertino, isto é, por Gabriel
constituídas pelas crenças da religião po­ Naudé (1600-1653), que, médico em Paris e
sitiva, e que recomenda aos governantes Pádua, era homem de grande cultura. Colo­
servirem-se delas em função da “razão de cando-se a serviço de Mazarino, conseguiu
Estado” . construir-lhe uma biblioteca de cerca de
O libertinism o não produziu uma
quarenta mil volumes.
filosofia que, de alguma forma, possa ser
reconstruída em um sistema. Entretanto, um
traço quase constante que encontramos nos
escritos dos libertinos é a crítica histórica e
teórica da religião revelada. Para os livres-
pensadores, as crenças do cristianismo nada
mais são do que superstições. E, quando não
fazem profissão de ateísmo, os libertinos
substituem o teísmo, isto é, a fé em um Deus
pessoal e providente, pelo deísmo, isto é, a
doutrina racional que afirma a existência
de um Ser supremo e desinteressado pelas
vicissitudes humanas, mas que é alcançável
pela razão do homem, através de seus efeitos
naturais.
Como veremos, Pascal lançará seus
dardos polêmicos contra o deísmo, que não
considerava melhor que o ateísmo.

H ector-Savim en C yrano d e B ergerac (1619-1655),


o m aior p en sa d o r d o libertinism o,
em um a estam p a d e D esrocbes.
Cãpítulo oitãvo - O libe^+inlsmo e C \ c \ s s e n A \. <Djansenismo e P o rt-R o yal

II. P i e r r e ÍMasservdi:
um ^empi ris+a-ce+ico ;/ em d e f e s a d a religião

••Nas Exercitationes paradoxicae adversus Aristoteleos, A crítica


Pierre Gassendi (1592-1655) polemiza contra o aristotelismo es­ do aristotelismo
colástico que ainda dominava nas universidades. Fascinado, com escolástico
efeito, pela acatalepsia (suspensão do consentimento) de matriz e a incognosci-
pirroniana, e persuadido de que a forma de saber válido é a des­ bilidade
crição dos fenômenos factualm ente verificáveis, Gassendi ataca das "essências"
o método da filosofia aristotélico-escolástica, sobretudo por ser - § 7 - 2
baseado sobre definições a priori que presumem captar as "es­
sências" ou "causas metafísicas" dos fenômenos, ao passo que sem o testemunho
dos sentidos não é possível pronunciar nenhum juízo sobre nenhuma coisa. Os
aristotélico-escolásticos provocaram grande dano também para a religião e a fé,
pretendendo introduzir a filosofia em questões de fé que nos foram reveladas e
que ultrapassam a razão.

••Gassendi propõe uma "filosofia" clara, pública e controlá- Gassencn aíaca


vel, porque em referência com os aspectos empíricos da realidade. a metafísica
Em nome desse saber empírico, Gassendi investe também contra de Descartes
a metafísica de Descartes (o qual lhe aparece como o reconstrutor - § 3
da filosofia da substância e das essências) e contra o tipo de saber
cartesiano, apriorístico e dedutivo. Gassendi não nega a verdade _
da experiência do cogito, mas recusa que se possa passar dessa experiência à res
cogitans, e declara inaceitáveis também as "demonstrações" cartesianas da exis­
tência de Deus, denunciando o círculo vicioso entre evidência do cogito e Deus
como seu supremo garante.

«•Na última fase de seu pensamento, Gassendi se empenha


em uma reproposição da filosofia de Epicuro, libertando-a de A reproposição
da filosofia
tudo o que podia ser contrário à fé cristã. O sentido do filosofar de Epicuro
de Gassendi pode, portanto, ser indicado na retomada de uma conciliada
filosofia materialista (o atomismo epicurista) substancialmente de com o
acordo com os resultados das pesquisas científicas, e na elimina­ cristianismo
ção dela das partes contrárias à religião, porque as verdades de -§ 4
fé não contradizem de fato os mais válidos produtos científicos
e filosóficos da razão.

1 jA p o lê m ica anunciados sete livros dessas Exercitationes,


mas apenas o primeiro foi publicado (em
co n tra a tra d iç ã o Grenoble, em 1624), ao passo que o começo
a risto + é lico -e sco lá s+ ic a do segundo livro pode ser encontrado na
edição das obras completas (Lião, 1658).
As Exercitationes são uma obra polêmica,
Nascido em Champtercier, na Proven- cujo alvo é constituído pelo aristotelismo
ça, em 1592, e morto em Paris, em 1655, escolástico, que, com a força do apoio da
Pierre Gassendi foi cônego e depois pároco Igreja e dos teólogos, ainda dominava nas
em Dijon, bem como docente de filosofia escolas.
na Universidade de Aix, de 1616 a 1622. Interessado por astronomia e mecânica
O m ais im p o rtan te resu ltad o de seus (é autor de uma Institutio astronomica),
cursos universitários são as Exercitationes Gassendi realizou observações astronômicas
paradoxicae adversus Aristoteleos. Foram e, em defesa de Galileu, escreveu o De motu
Terceira parte - P a s c a l e Vico

impresso a m otore translato (1640-1643) que todo conhecimento que existe em nós é
e o De proportione qua gravia decidentia próprio dos sentidos ou deriva dos sentidos;
accelerantur (1642 e 1645). por conseguinte, parece igualmente certo
Fascinado pela acatalepsia (suspensão que não se pode pronunciar juízo nenhum
do assentimento) “recomendada pelos aca­ sobre qualquer coisa sem o testemunho dos
dêmicos e pelos pirronianos”, e persuadido sentidos” . E, por meio do testemunho dos
de que a forma válida de saber não é a busca sentidos, conhecemos tantas coisas, mas
das “essências” ou “causas m etafísicas”, este conhecimento não é conhecimento de
mas muito mais a descrição do acontecer essências.
fenomênico factualmente comprovável, Gas­ A tradição aristotélica, portanto, é a
sendi volta-se então contra aquela tradição tradição da pseudociência e da verbosidade.
que fez de Aristóteles “quase um deus caído Não existe saber sem que se perscrute a ex­
do céu” e que venera, comenta e transmite periência. Mas a base da tradição filosófica
precisamente as obras menos úteis de Aristó­ não é a experiência, e sim a autoridade de
teles, como a Física e a Metafísica , ao invés Aristóteles.
das obras relativas à história natural (isto Os filósofos das escolas confiam ce­
é, à ciência) e à política. Exclama Gassendi: gamente em Aristóteles e, entregando-se às
“Como seria útil conhecer a história das pe­ suas obras, não têm confiança em si mesmos,
dras, dos metais, das plantas, dos animais e deixando verdadeiramente de procurar a
de todas as outras coisas desse gênero, cuja verdade.
variedade é tão agradável de se conhecer!” A razão dos aristotélico-escolásticos é
Entretanto, os escolásticos objetam que uma razão preguiçosa, uma razão que não
tais conhecimentos são objeto dos talhado- tem confiança em si mesma, uma razão apri­
res de pedra, dos ourives, dos ervateiros e sionada. E tal razão impede o conhecimento
dos caçadores. Os escolásticos “não lhes da natureza e não gera ciência.
têm a mínima consideração, pois seriam Mas os danos dessa tradição filosófica
conhecimentos muito vulgares, ao passo não ficam nisso. Eles causaram grandes
que se vangloriam de escolher as coisas que danos também à religião e à fé, pretenden­
cabem propriamente à filosofia”. do introduzir a filosofia em questões de fé
E Gassendi replica a essa objeção: “Mas que foram reveladas e que ultrapassam a
então Aristóteles, Demócrito e outros gran­ razão.
des homens, cuja erudição é tão estimada, Sendo assim, fica claro que a filosofia
não estavam cultivando a filosofia quando aristotélica é prejudicial à ciência e funesta
orientavam suas pesquisas para tais coisas?” para a fé. E então, pergunta-se Gassendi,
Na opinião de Gassendi, a realidade é que a “quem poderá [...] se surpreender se nossa
filosofia aristotélico-escolástica pratica um atual filosofia nada mais tem de filosofia?”
método errôneo, afastando-se da natureza e
reduzindo-se à prática de uma verbosidade
estéril. 3 g a s s e n d i co n tra D e s c a r te s

2 ;, P o r qu e não co n k ecem o s O ataque de Gassendi contra a filosofia


aristotélico-escolástica estende-se também
a s e s s ê n c ia s ; às pretensões do saber mágico e cabalístico
e p o r q u e a filo s o fia de Robert Fludd (1574-1637), como teste­
a r is to té lic o -e s c o lá s tic a munha a sua Epistolica exercitatio in qua
praecipua principia philosophiae Roberti
é p r e ju d i c ia l ã f é Fluddi reteguntur (1630), assim como à con­
cepção platônico-escolástica de Herbert de
Cherbury (1583-1648), que Gassendi critica
Segundo Gassendi, o saber aristoté­ na obra Ad librum D. Edoardi Herberti de
lico baseia-se em definições a priori que, veritate epistula, de 1634.
presumidamente, captam as “essências” Nesse período, Gassendi já estava em
ou as “causas metafísicas” dos fenômenos. contato com os maiores cientistas de sua
E aqui está o pressuposto errado da tradi­ época, procurando resolver problemas de
ção filosófica, já que, como diz Gassendi, mecânica e de ótica, enquanto se dedicava
“antes de qualquer outra coisa, é evidente a observações astronômicas, como atestam
Capítulo oitavo - O libert-i nismo e C Ã a s s e .n c l\. CD jcrnsenismo e T-^ort-T^oyal

os seus Commentarii de rebus caelestibus. E da res cogitans. Tal passagem é totalmente


essa sua atividade científica levava-o sempre ilegítima, pelo fato de que o homem não
mais para longe de um tipo de saber como conhece, como já sabemos, nem essências,
o saber mágico e cabalístico, que, sendo ar­ nem substâncias. Na opinião de Gassendi,
bitrário, inverificável e de natureza privada a distinção cartesiana entre alma e corpo,
ao invés de pública, confunde o natural pressuposta e não demonstrada, constituiu
com o sobrenatural e fala de qualidades um dualismo que desemboca em dificulda­
ocultas não determinadas e menos ainda des insuperáveis.
determináveis. Também não são aceitáveis as “de­
A esse gênero de “saber” Gassendi monstrações” cartesianas da existência de
opõe uma pbilosophia aperta et sensibilis, Deus. Antes de mais nada, a idéia de ser per­
uma “filosofia” clara, pública e comprová- feitíssimo não é de modo algum inata, e sim
vel, porque relativa aos aspectos empíricos uma idéia que se constitui historicamente, de
da realidade. modo que a prova cartesiana que pressupõe
Sempre em nome dessa pbilosophia tal idéia como inata não é válida.
aperta et sensibilis, Gassendi ataca também M as também não se sustenta a prova
a metafísica de Herbert de Cherbury, meta­ que se alicerça na série de causas eficientes: e
física que é um saber de essências. A esse não se sustenta porque, com a série das cau­
respeito, Gassendi diz que nós não podemos sas, não é legítimo sair do âmbito físico.
conhecer as essências. E não podemos co­ Por fim, também não é aceitável se­
nhecê-las porque não conseguimos construí- quer o argumento ontológico, pelo fato
las ou reconstruí-las. Assim como o animal de que a existência não é de modo algum
não conhece o relógio porque não está em uma perfeição com o todas as outras: a
condições de construí-lo, da mesma forma o existência é muito mais aquele id sine quo
homem não conhece as essências das coisas non sunt perfectiones. Outra aguda censura
que só Deus conhece porque as criou. que Gassendi faz a Descartes é a de que, na
As razões de fundo do ataque de Gas­ fixação do critério da evidência, Descartes
sendi contra a filosofia aristotélico-esco- oscilaria em uma espécie de círculo vicioso
lástica, a tradição mágica e cabalística e a entre a consideração do cogito como base
metafísica de Herbert de Cherbury podem determinante da filosofia, e a consideração
ser encontradas na famosa crítica de Gas­ de Deus com o garantia não apenas das
sendi em relação a Descartes. As Objeções verdades matemáticas, mas também das do
às Meditações de Descartes são de 1641; próprio cogito. [T]
depois da réplica de Descartes, segue-se às
Objeções a famosa Disquisitio metaphysi-
ca, seu dubitationes et instantiae adversus 4 O r e p e n s a r d e & p ic .u r o
Cartesii metaphysicam. e a s r a z õ e s d e rep ro p ô -lo
Em nome de um saber empírico, é con­
tra a metafísica de Descartes que Gassendi
se lança. Descartes representa para Gassendi Enquanto desfecha seu ataque contra
o verdadeiro reconstrutor da filosofia da a tradição mágico-cabalística e a filosofia
substância e das essências. Ele não pretende cartesiana, Gassendi se empenha em uma
tanto negar alguns dos principais pontos do interessante reproposição da filosofia de
conteúdo do pensamento cartesiano, como Epicuro, libertando-a de tudo aquilo que
a existência de Deus ou a imortalidade da poderia ser contrário à fé cristã.
alma. O que Gassendi rejeita é muito mais Assim, enquanto para Epicuro os áto­
o tipo de saber cartesiano, que é um gênero mos são incriados e incorruptíveis, Gassendi
de saber apriorístico e dedutivo, privado de sustenta que eles foram criados por Deus e
um verdadeiro contato com a experiência. os considera aniquiláveis por Deus; Epicuro
Por tudo isso — e, nesse ponto, muitos in­ afirmava que o movimento é eterno, mas
térpretes negam perspicácia a Gassendi — , Gassendi assevera que a força que gera o
Descartes representa para Gassendi o herdei­ movimento deve-se a Deus; para Epicuro, a
ro da metafísica aristotélico-escolástica. ordem do mundo foi gerada por encontros
Gassendi não nega a veracidade da casuais dos átomos, ao passo que Gassen­
experiência do cogito. O que ele refuta di vê no universo uma ordem finalística e
é que, como sustenta Descartes, se possa uma realidade governada pela providência
passar da experiência do cogito à substância de Deus; para Epicuro, a alma era feita de
Terceira parte - Pascal e Vico

átomos e, portanto, mortal, mas Gassendi, existe a alma como entidade espiritual. E
além da alma corpórea vegetativa e sensível, também existe Deus; é a partir da ordem do
admite também uma alma intelectiva incor- universo que inferimos sua existência, já que
pórea e imortal. não há ordem sem ordenador.
Gassendi diz tudo isso no Syntagma Desse modo, despedaçam-se muitas das
pbilosophiae Epicuri, de 1649. Dois anos flechas céticas que havíamos encontrado nas
antes, em 1647, ele já havia dedicado a Epi­ Exercitationes e nas Objeções. Entretanto, é
curo outra obra: De vita et moribus Epicuri. exatamente nisso que reside grande parte do
Em 1658, postumamente, apareceu o valor histórico de Gassendi: uma tentativa
Syntagma philosophicum, que reconfirma significativa, embora problemática sob mui­
a colocação empirista geral, mas onde tam­ tos aspectos, de mediar e conciliar a nova
bém emerge que a experiência não consiste ciência com o epicurismo, o libertinismo e
em um caótico aparecer fenomênico e não o cristianismo.
é uma imediaticidade passiva de dados sen- Eis, portanto, como podemos resumir
soriais, mas sim uma construção da razão, o sentido da empresa de Gassendi:
que elabora os dados sensoriais. a) retomar uma filosofia materialista (o
Além disso, ainda no Syntagma pbi- atomismo de Epicuro) que fosse inatacável
losophicum, uma vez estabelecida a auto­ pelas críticas eficazes, ao contrário, contra
nomia da ciência experimentalis, Gassendi os aristotélicos e os cartesianos, e substan­
sustenta que é possível chegar a falar da cialmente de acordo com os resultados das
alma imaterial e da existência de Deus. E isso pesquisas científicas;
é possível quando sabemos ler os “sinais” b) eliminar dela as partes contrárias à
que a realidade põe diante de nós. religião, e mostrar assim que as verdades
O homem é caracterizado pela ativi­ de fé não se chocam de fato com os pro­
dade racional, mas essa atividade consiste dutos científicos e filosóficos mais válidos
em operações não corpóreas, de modo que da razão.

Pierre G assen di em um retrato


d e R oh ert N anleuil.
Capítulo oitavo - O liberti nismo e G assen d i. CDjansenismo e I-^orf-Royal

m. o ja n s e n is m o
e P >oH--T^oyal

• O jansenismo toma seu nome do teólogo flamengo Cornélio Jansênio (Cor-


nelis Jansen, 1583-1638), que por 22 anos trabalhou no seu Augustinus, obra em
três volumes publicada em 1640, em que pretendia expor a doutrina genuína de
Santo Agostinho. Interessantes são as teses sobre a relação razão-
fé, motivo pelo qual, em matéria de fé, a razão deve ser deixada As teses
de lado e é preciso recorrer à memória da tradição, em primeiro sobre a relação
lugar a Agostinho; quanto ao problema da graça, Jansênio afirma razão-fé
que, se a caridade celeste não interviesse para determinar infa­ e o problema
livelmente a vontade de fazer o bem, todas as ações humanas da graça
seriam pecaminosas. O Augustinus foi logo atacado pelos jesuítas, ->5 7-2
e em 1641 foi condenado pela Sagrada Congregação do índex
e da Inquisição. Em 1653 foram condenadas cinco de suas proposições; diversas
vezes Antoine Arnauld, Pasquier Quesnel e o ambiente de Port-Royal procuraram
demonstrar a estranheza do Augustinus ao aspecto herético dessas teses; mas em
1709 o rei ordenou a destruição do convento de Port-Royal, e em 1713 foi de fato
condenada toda a doutrina do jansenismo.

• Juntamente com doutrinas sobre a graça, a liberdade e a predestinação, o


jansenismo caracterizou-se pela importância dada à intimidade da fé e à rígida
disciplina moral e penitencial que se apoiava no cristianismo dos primeiros sécu­
los. O movimento jansenista teve sua difusão decisiva na França, por obra de Jean
du Verger de Ia Houranne, abade de Saint-Ciran (1581-1643),
amigo de Jansênio, e seu centro foi o antigo mosteiro feminino a lógica
cisterciense de Port-Royal, próximo de Versailles. e a lingüística
O mais notável contributo filosófico de Port-Royal deve ser de Port-Royal
visto em A lógica ou arte de pensar, tratado escrito por Antoine 5 3~4
Arnauld (1612-1694) e Pierre Nicole (1625-1695), e aparecido
anônimo em 1662. A lógica, entendida aqui em um espírito cartesiano e pasca-
liano, não é tanto ciência, e sim arte que ensina a pensar bem, e em tal sentido
deve tornar-se instrumento apto a servir as outras ciências; raciocinar bem não é
questão de corretismo, mas problema de verdade, motivo pelo qual a arte de ra­
ciocinar (isto é, de deduzir conseqüências a partir de premissas) deve ser precedida
pela arte de pensar (isto é, do estabelecimento de premissas válidas), de julgar
sadiamente. A segunda parte da obra tende a ressaltar em luz as formas lógicas
estruturais que determinam as mais variadas formas lingüísticas, com a intenção
de chegar às estruturas fundamentais com que a mente humana funciona, para
além das diferenças das línguas históricas (já em 1660 Arnauld, em colaboração
com Claude Lancelot, havia publicado uma obra intitulada justamente Gramática
geral e raciocinada).

1 3 Jc m s ê n io e o ja n s e n i s m o geralmente pelos jesuítas, embora não por


todos. M as o amigo de Jansênio, Jean du
Verger de la Houranne, abade de Saint-
“O jansenismo, que toma esse nome Cyran (1 5 8 1 -1 6 4 3 ), levou a luta contra
do célebre Cornélio Jansênio (1 583-1638), o jesuitismo para o campo da moral e da
bispo de Ypres, autor do Augustinus, havia experiência religiosa, reunindo em torno
começado como luta dogmática em sentido de si um grupo de religiosos, reforçado
agostiniano contra o molinismo, sustentado pelas monjas cistercienses do mosteiro de
Terceira parte - P a s c a l e Vico

Port-Royal, pretendendo uma reforma de filhos da Igreja. [...] Ele nunca objetivou
sentido rigorista dos costumes cristãos, nos tornar eruditos, mas apenas nos dar a
contra o laxismo dos jesuítas, postulando um simples cognição da verdade divina e certa,
enrijecimento do sacramento da penitência, cujas raízes, isto é, as razões, estão ocultas
reduzido pelos jesuítas a um ato quase que em um lugar mais profundo e inacessível à
formal, e reivindicando a restauração da agudeza de nossa investigação” .
dogmática dos Padres da Igreja, particu­ Portanto, em matéria de fé, a razão é
larmente de santo Agostinho, contra as rejeitada; é preciso referir-se à memória da
novidades ‘filosóficas’ dos teólogos da Com­ tradição. E, na tradição da Igreja, Agosti­
panhia de Jesus. Nesses conceitos é que se nho, “primeiro dentre todos os antigos Pa­
havia inspirado o livro Comunhão freqüente, dres, partindo dos princípios de são Paulo,
escrito por Antoine Arnauld (1612-1694), trouxe à luz com incrível profundidade e
doutor da Sorbonne, por sugestão de Saint- penetração todas as conclusões da graça,
Cyran” (G. Preti). que até agora permanecera como que oculta
Jansênio (Cornelis Jansen), teólogo na fé dos cristãos” .
flamengo que estudou em Utrecht e depois No que se refere mais especificamente
em Lovaina sob a égide dos jesuítas, traba­ à doutrina da graça, Jansênio, juntamente
lhou durante vinte e dois anos no seu Au- com Agostinho, afirma que o pecado ori­
gustinus, que teve sucesso verdadeiramente ginal corrompeu o homem, cuja vontade é
estrondoso ao ser publicado, em três tomos, dominada pela delectatio terrestris, de modo
em 1640. que, se a charitas ou delectatio caelestis não
Na obra, Jansênio pretende expor a
genuína doutrina de santo Agostinho, a dou­
trina que havia enformado a Igreja antiga e
fora um dos pilares do Concilio de Trento.
Com o verem os, o jansenism o será
acusado de heresia, mas, tanto no livro
como em seu testamento, anexo ao livro,
Jansênio diz com muita clareza que submete
as proposições do seu trabalho ao juízo da
Santa Sé.
Vejamos então brevemente o conteúdo
do Augustinus.
N o prim eiro tom o, constituído de
oito livros, Jansênio, por meio da doutrina
de santo Agostinho, demole a heresia de
Pelágio (que, no início do século V, em con­
traste com Agostinho, havia propugnado a
doutrina segundo a qual o pecado original
não teria enfraquecido a capacidade humana
de fazer o bem).
No segundo tomo, Jansênio fixa os
limites da razão e fala do status naturae
lapsae e do status naturae purae.
No terceiro tomo, ele expõe as dou­
trinas relativas à graça, à predestinação e
à liberdade. São interessantes as teses de
Jansênio sobre a relação razão-fé. Jansênio
é decididamente contrário ao uso da razão
nas questões de fé, já que a razão é “mãe de
todas as heresias”; rejeita o racionalismo da
escolástica e, no que se refere à fé, reporta-se
C orn élio Jan sên io (156. -16.6 )
à “memória” da tradição.
deu origem a um a corren te religiosa,
A razão é inútil ou prejudicial para con sid erad a p o r certos a sp ectos herética,
a fé, tanto que Cristo quis encerrar “nos que teve significativas influências tam bém na Itália.
porões de tal santa ignorância o excessivo O retrato fo i rep rod u zid o d e um a gravura
desejo de saber com que se perturbam os em c o b re p o u c o p o sterio r a o autor.
Capítulo oitavo - O liberti nismo e C À c\s s e .n d 'u O jcmsemsmo e ’PoW--"Royal

determinasse infalivelmente a vontade de — com seu presumido sentido herético — no


fazer o bem, todas as ações humanas seriam Augustinus.
pecaminosas. Assim, bispos e teólogos franceses vol­
taram à cena e, em 1654, declararam que
Jansênio havia verdadeiramente exposto,
2 V is c u s s õ e s , p o lê m ic a s defendido e ensinado as cinco proposições.
E o papa Alexandre VII, com a constitui­
e o p o siç õ e s s u sc ita d a s ção Ad sacram beati Petri sedem, de 16 de
p e lo ja n s e n is m o outubro de 1656, confirmou a condenação.
Mas as polêmicas não pararam. Em 1665,
o mesmo papa Alexandre VII, através da
O Augustinus de Jansênio foi im e­ constituição Regiminis apostolici (15 de
diatamente atacado pelos jesuítas. Em sua fevereiro de 1665), impôs aos jansenistas
maioria molinistas, eles acusaram Jansênio um formulário de submissão.
e seus seguidores de serem calvinistas, ou Todavia, nem mesmo esse formulário
seja, de serem, entre outras coisas, negadores de submissão conseguiu esclarecer a questão.
da liberdade humana. Publicado em 1640, E, depois de outros episódios e discussões, a
o Augustinus foi condenado pela Sagrada “paz de Clemente X I” conseguiu encerrar a
Congregação do Index e da Inquisição em primeira fase do jansenismo.
1641, ao passo que, em 1642, através da Tal paz, porém, não foi definitiva. As­
bula In eminenti, Urbano VIII vetou que se sumindo a herança espiritual de Arnauld,
escrevesse e discutisse sobre cinco proposi­ o padre oratoriano Pasquier Quesnel rea­
ções extraídas do Augustinus. cendeu a polêmica com seu livro O Novo
Essas cinco proposições, tão famosas e Testamento com reflexões morais (1668).
tão discutidas, são as seguintes: Em 1705, através da bula Vineam Domini
1) alguns preceitos de Deus são impos­ (15 de junho), Clemente X I condenava a
síveis para os justos, mesmo que os queiram “obsequioso silêncio” em relação às cinco
e se esforcem com todas as forças que têm na proposições; em 29 de outubro de 1709, o
presente natureza, porque lhes falta a graça rei ordenou a destruição do convento de
que os torna possíveis; Port-Royal, “ninho de jansenism o”; por
2) não se resiste nunca à graça interior, fim, em 8 de setembro de 1713, com a bula
no estado de natureza decaída; Unigenitus Dei Filius, é condenada de fato
3) para granjear mérito ou demérito, toda a doutrina do jansenismo.
não se requer a liberdade a partir da neces­ O jansenismo conheceu certa difusão
sidade interior, mas somente a liberdade a na Itália: em Pavia (com Pietro Tamburini),
partir da coação exterior; em Gênova (com Palmieri, Solari e outros) e
4) os semipelagianos admitiam para em Nápoles (com Serrao, Simioli e outros).
cada ato, mesmo no início da fé, a necessi­ M as foi sobretudo em Pistóia que o movi­
dade da graça preveniente e eram heréticos mento jansenista, com o bispo Scipione De’
ao concederem à vontade humana o poder Ricci, serviu de base para notáveis e variadas
de resistir ou obedecer à graça; reformas. A condenação do jansenismo de
5) é um erro semipelagiano afirmar que Pistóia ocorreu com a bula Auctorem fidei,
Cristo morreu por todos. de 28 de agosto de 1784.
Em 1650, os bispos franceses pediram
que a Santa Sé se pronunciasse de maneira
inequívoca sobre essas cinco proposições. O 3L y \ l ó g i c a d e " P o r t -I^ o y a l
papa Inocêncio X nomeou uma comissão,
diante da qual jansenistas e antijansenistas
puderam defender suas respectivas posições. Juntamente com a doutrina sobre a
E, por fim, com a bula de 31 de maio de graça, a liberdade e a predestinação, o jan­
1653, intitulada Cum occasione, chegou-se senismo se caracterizou pela importância
à condenação das cinco proposições. dada à intimidade da fé e à rígida disciplina
Apesar disso, Arnauld e seus amigos moral e penitencial, que era referida ao cris­
de P o rt-R o y al (o que verem os m elhor tianismo dos primeiros séculos.
quando tratarm os de Pascal) afirmaram Foi precisamente um padre basco, ami­
que as cinco proposições são heréticas, mas go e companheiro de estudo de Jansênio, ou
acrescentaram que elas não se encontravam seja, o abade de Saint-Cyran, quem se encar­
Terceira parte - P a s c a l e Vico

regou de difundir o jansenismo na França. O observam Arnauld e Nicole, “também não


centro do jansenismo foi o antigo mosteiro devemos crer que tal utilidade vá muito
feminino cisterciense de Port-Royal, nas longe, já que a maior parte dos erros dos
proximidades de Versailles, que no início homens não está em se deixar enganar por
do século havia sido reformado por uma más conseqüências, mas sim em se deixar
piedosa e enérgica abadessa, Jacqueline Ar­ encaminhar para falsos juízos, dos quais se
nauld (Madre Angélica). Nas adjacências do extraem más conseqüências” .
mosteiro, impelido pelo desejo de alcançar a Em suma, os homens geralmente racio­
perfeição cristã, um grupo de leigos retirou- cinam corretamente, isto é, não se enganam
se para viver tal idéia. ao extrair conseqüências de premissas; o que
A orientação espiritual desse grupo de acontece, no entanto, é que freqüentemente
leigos foi exercida inicialmente por Saint- julgam mal, isto é, não sabem estabelecer as
Cyran e, depois de sua morte, por Louis le premissas.
Maitre de Saci. Sintetizando, não é questão de correção,
Como já expusemos as linhas funda­ mas problema de verdade, razão pela qual a
mentais da doutrina jansenista e já tratamos arte de raciocinar (ou seja, de deduzir conse­
das controvérsias que ela suscitou e das qüências de premissas) deve ser precedida da
condenações que sofreu, é oportuno agora arte de pensar (isto é, de uma arte que ensine
registrar algumas das idéias que, de certa a estabelecer premissas válidas), de uma arte
forma, constituem a mais significativa con­ que ensine a julgar sadiamente.
tribuição filosófica de Port-Royal. As regras escolásticas não são refuta­
Trata-se da Lógica de Port-Royal ou das. Na realidade, elas são enquadradas em
arte de pensar, escrita por Antoine Arnauld um projeto de tipo diferente, com referência
(1 6 1 2-1694) e Pierre Nicole (1625-1695). constante às idéias claras e distintas, às luzes
Também viveram em Port-Royal duas naturais, ao “bom senso”, e mostram um
tias de Nicole: Madalena e M aria Suyre- espírito cartesiano.
aux. Por outro lado, Arnauld era irmão da A influência de Descartes sobre Ar­
Madre Angélica e do bispo de Angers. Foi nauld e Nicole conjuga-se com a exercida
precisamente da colaboração entre Arnauld também por Pascal; e tanto as regras de
e Nicole que nasceu aquele tratado, que apa­ Descartes como as de Pascal são regras de
receu anonimamente em 1662 sob o título método.
A lógica ou arte de pensar. Com efeito, enquanto as três primeiras
O partes da obra tratam respectivamente das
destino desse livro foi muito afortu­
nado. Durante dois séculos houve mais de idéias, dos juízos e dos raciocínios, a quarta
cinqüenta edições francesas, muitas tradu­ parte (“dentre as mais úteis e importantes” )
ções inglesas e muitas traduções latinas. é dedicada ao método. E a substância dessa
Como diz o título da obra, a lógica não parte da Lógica ou arte de pensar é extraída
seria tanto uma ciência, mas muito mais uma das Regulae, do Discurso sobre o método de
arte: não uma arte que ensine a combinar Descartes, e do fragmento Sobre o espírito
palavras e fórmulas, mas que ensine a pensar geométrico, de Pascal.
bem. Desse modo, a lógica deve tornar-se
um instrumento adequado “para servir às
outras ciências”.
Conseqüentemente, em primeiro lugar,
4 . A lin g ü ís+ isc a
é inútil ficar perdendo tempo, como se faz no d e P ort-T ^oyal
ensino da lógica escolástica, com silogismos
fabricados com base em exemplos totalmen­
te artificiosos. Se o ensino não pretende ser Enquanto o método é discutido na
apenas “divertido”, mas também objetiva quarta parte, a segunda parte é dedicada a
alcançar resultados válidos e úteis, deve se análises lingüísticas voltadas para evidenciar
basear em exemplificações de raciocínios as formas lógicas estruturais ou fundamen­
efetivamente usados nos vários âmbitos do tais que freqüentemente se ocultam sob as
saber, da literatura e da vida. mais variadas formas lingüísticas.
Em segundo lugar, a lógica escolástica Em suma, há o pensamento que toma
se propõe a nos dar as regras do raciocí­ forma de linguagem: mas a linguagem não
nio correto e, certamente, é nessas regras deve enjaular e distorcer o pensamento;
que consiste a sua utilidade. Entretanto, a form a lingüística não deve submeter e
C ã p ít u lo o it ã v o - O liber+inismo e C Ã a s s & n d i. ( D ja n s e - n is m o & P W t-R oyal

viciar as operações lógicas. E “a função da pendentemente das diferenças das línguas


lógica, arte de pensar, é precisamente a de históricas.
evidenciar o verdadeiro pensamento que Em outras palavras, Arnauld e Lancelot
está subjacente às roupagens da forma ver- procuram tornar lógico o fato histórico que
bal, ajudando-nos a remontar da forma ao é a linguagem. E tentaram demonstrar (em
significado, já que é o significado que deve certa medida reproduzindo elementos aris-
permitir a interpretação da forma, não a totélicos, devidamente repensados e corrigi-
forma que deve impor o significado”. dos) que o substantivo define a substância,
A idéia de um pensamento subjacente o adjetivo denota o acidente, o verbo afirma
às mais variadas formas lingüísticas levou os as coisas e as julga.
“solitários” de Port-Royal à concepção de Em suma, segundo Arnauld e Lancelot,
uma “gramática geral”. E, com efeito, dois a proposição gramatical e a proposição lógi-
anos antes da Lógica, foi publicada uma ca, a língua e a razão, deviam coincidir.
Gramática geral e argumentada, escrita por De Saussure afirmará que o programa
Arnauld e Lancelot. de Port-Royal é um programa estritamen-
A intenção precisa que transparece te sincrônico. E, em nossos dias, Noam
nessa Gramática geral é exatamente a de Chomsky afirma que sua gramática trans-
alcançar as estruturas fundamentais segundo form acional encontra um precedente na
as quais funciona a mente humana, inde- gramática de Port-Royal.

Este é o m osteiro d e P ort-R oy al-d es-C bam p s em um e s b o ç o d o séc. X V III,


ex ecu ta d o p o r M. d e B ou llon gu e e con serv ad o no m useu d e Versailles.
As m on jas cistercienses d o m osteiro d e P ort-R oyal,
refo rça n d o a iniciativa de um gru po d e religiosos,
p rom o v eram um a refo rm a d os costu m es cristãos em sen tido rig oroso,
qu e n o séc. X V II teve g ran de im portância.
Terceira parte - P a s c a l e Vico

até o momento não se tenha podido encontrar


uma regra mais segura de nossa certeza entre
G assendi a escuridão das coisas humanas, apesar de
tudo, vendo que tantos grandes engenhos,
que parece tenham devido conhecer com toda
clareza e distinção muitas coisas, acreditaram
que a verdade estivesse escondida no seio do
D Objeções à Terceira Meditação próprio Deus ou na profundidade dos abismos,
de Descartes não há lugar para suspeitar que esta regra
possa ser falsa? Por outro lado, depois daquilo
que dizem os céticos, dos quais não ignorais
6m 1641, o ano sucessivo à primeiro os argumentos, de qual verdade podemos nós
edição dos Meditações de Descartes, Pierre responder como coisa claramente conhecida,
Gassendi manifestou a Mersenne, o amigo senõo que é verdade que as coisas parecem
de Descartes, a intenção de lê-las e subme­ aquilo que aparecem a cada um? Por exemplo:
tê-las a exame. Nasceram assim as Objeções sinto claramente e distintamente que o sabor
de Gassendi, cujo redação terminou por volta do melão é bastante agradável a meu gosto,
de 15 de maio de 1641. e portanto é verdadeiro que o sabor do melão
Conduzidas sob o ponto de vista de um me aparece talfi mas que por isso seja verdade
ingênuo nominalismo, materialismo e sensis- que o sabor é tal no melão, como poderei crê-lo
mo, as Objeções de Gassendi produziram em eu, que na juventude e no estado de perfeita
Descartes uma impressão verdadeiramente saCde julguei de fato diversamente, porque
má. fíqui propomos algumas passagens das sentia então manifestamente outro sabor no
Objeções à Terceira Meditação, em que Gas­ melõo? [...] D quase o mesmo para as coisas
sendi reprova substancialmente a Descartes que se referem ao espírito. £u teria jurado outra
por trocar a idéia de Deus por umo idéia vez que era impossível chegar de uma pequena
inata, enquanto todas as idéias presentes quantidade a uma maior sem passar por uma
na mente humana só chegariam do exterior: igual [...]. €stas coisas me pareciam tão claras
a "demonstração” cartesiano da existência de e distintas, que eu as tinha como axiomas
Deus, portanto, seria destituída de qualquer veríssimos e certíssimosfi e a seguir apesar de
fundamento. tudo, houve razões que me convenceram do
fl esse respeito, Descartes replicou: contrário, por tê-lo concebido mais claramente
"Onde dizeis que 'nós nõo formamos a idéia e mais distintamentefi e ainda hoje, quondo
de Deus a nõo ser em base àquilo que sou­ penso na natureza das hipóteses matemáticas,
bemos e ouvimos de outros', atribuindo-lhe, meu espírito nõo está sem alguma dCvida e
a exemplo deles, as mesmas perfeições desconfiança de sua verdade. Rssim, concedo
que lhe vimos atribuídos por outros, gostaria que se possa dizer ser verdadeiro que eu co­
que tivesses também acrescentado de onde nheço certas proposições, conforme suponho ou
aqueles primeiros homens, dos quais soube­ concebo a natureza da quantidade, da linha, da
mos e ouvimos tais coisas, tiraram esta mes­ superfície etc.fi mas que por isso elas sejam em
mo idéia de Deus. Com efeito, se a tiveram si mesmas tais como as concebo, nõo se pode
por si próprios, por que não poderíamos nós asseri-lo com certeza. [...]
tê-la por nós próprios? Se Deus a revelou a
eles, conseqüentemente Deus existe".
2. Objeção às três espécies
de idéias individuadas por Descartes:
todas as idéias presentes
1. Objeção à regra cartesiano da evidencia: na mente humana são adventícias
jamais se pode asserir com certeza
Depois disso, vós distinguis “as idéias (que
que uma coisa seja por mim concebida
sustentais que sejam pensamentos, enquanto
em si mesma
elas são como imagens) em três espécies-,
6m primeiro lugar, a partir do fato de umas nasceram conosco, as outras vêm de
terdes reconhecido que o claro e distinto conhe­ fora e são estranhas, e as outras sõo feitas e
cimento da proposição “Eu sou uma coisa que inventadas por nós. No primeiro gênero, colo-
pensa" é a causa da certeza que tendes, inferis cais a inteligência que tendes de que coisa seja
de poder estabelecer como regra geral "que as aquilo que é chamado em geral uma coisa ou
coisas que concebemos com toda clareza e dis­ uma verdade ou um pensamento: no segundo,
tinção são todas verdadeiros". Todavia, embora colocais a idéia que tendes a respeito do rumor
, 167
Capítulo oitavo - O lifc-erti n is m o t■ g a s s e n d i . O j a n s e n i s m o e P o r t - T ^ o y a l ------
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que ouvis, do sol que vedes, do fogo gue sentis; podeis saber que ele nos é representado pela
no terceiro, colocais as sirenas, os hipogrifos sua idéia como um Ser eterno, infinito, onipoten­
e outras quimeras semelhantes, que fabricais te e criador de todas as coisas etc.? Csta idéia
e inventais por vós mesmos; e a seguir dizeis que dele formais não vem de preferência do
gue talvez pode ser gue todas as vossas idéias conhecimento que dele tivestes anteriormente,
são odventídos, ou todos nascidas convosco, enquanto ele vos foi mais vezes representado
ou todas feitas por vós, tanto mais gue ainda sob estes atributos? Pois, dizendo a verdade,
não conheceis com suficiente clareza e distinção vós o descreveríeis assim, caso não tivésseis ja ­
a origem". Cis por gue, para impedir o erro, mais nada ouvido dizer de semelhante? Vós me
gue poderia, todavia, insinuar-se até gue sua direis, talvez, gue isto é agora trazido apenas
origem vos seja inteiramente conhecida, guero como exemplo, sem gue definais ainda nada
agui fazer-vos notar que parece que todas os sobre ele. fldmito isso; mas cuidado para dele
idéias vêm de fora, e que procedem das coisas não fazer depois um pressuposto.
que existem fora do intelecto, e que caem sob Vós dizeis ”gue há mais realidade objetiva
algum de nossos sentidos. Uma vez gue, para na idéia de um Deus infinito do gue na idéia
dizer a verdade, o espírito não somente tem a de uma coisa finita". Contudo, em primeiro
faculdade (ou, mais ainda, é ele próprio uma fa­ lugar, o espírito humano, não sendo capaz
culdade) de conceber tais idéias estranhas, gue de conceber a infinidade, não pode seguer
emanam dos objetos exteriores, e gue passam ter, nem se figurar, uma idéia gue representa
até ele por meio dos sentidos; de concebê-las, uma coisa infinita. C, portando, aguele gue diz
digo, completamente nuas e distintas, e tais uma coisa infinita atribui a uma coisa gue não
guais ele as recebe em si; mas, por acréscimo, compreende um nome gue igualmente não en­
tem também a faculdade de uni-las e dividi-las tende, uma vez gue, como a coisa se estende
diversamente, de estendê-las e encolhê-las, para além de toda a sua compreensão, também
de compará-las e compô-las de muitos outros esta infinidade, ou esta negação de termos,
modos. 6 daí segue-se gue ao menos este ter­ gue é atribuída a esta extensão, não pode ser
ceiro gênero de idéias, gue vós estabeleceis, entendida pela sua inteligência, gue é sempre
não é diferente do segundo; pois, com efeito, restrita e fechada por limites. Rlém disso, todas
a idéia de uma guimera não é diferente da de as altas perfeições que costumamos atribuir a
uma cabeça de leão, do ventre de uma cabra Deus, parecem tiradas das coisas que admira­
e da cauda de uma serpente, da reunião das mos ordinariamente em nós, como a duração,
guais o espírito faz e compõe uma só idéia, a potência, a ciência, a bondade, a felicidade,
pois, tomadas separadamente, ou considera­ e assim por diante, às quais tendo dado toda
das cada uma em particular, são estranhas, e a extensão possível, nós dizemos que Deus é
vêm de fora. [...] eterno, onipotente, onisciente, soberanamente
bom, perfeitamente feliz, e assim por diante.
€ assim a idéia de Deus representa, sim,
3. Objeção à idéia de Deus
na verdade, todas estas coisas, mas ela não
enunciada por Descartes:
tem por isso mais realidade objetiva do que
qualquer idéia de Deus
têm as coisas finitas tomadas todas juntas, das
que o homem tenho em si,
idéias das guais foi composto esta idéia de
jamais tem realidade objetiva
Deus, e depois engrandecida no modo como
Depois disso, reconhecendo a desigual­ acabei de descrever. Uma vez gue nem aguele
dade e a diversidade gue se encontram entre que diz ''©temo" abraça com seu pensamento
as idéias, "é certo - dizeis - gue as gue me toda a extensão desta duração, gue nunca teve
representam substâncias são algo a mais, e início e jamais terá fim, nem aguele gue diz "oni­
contêm em si, por assim dizer, mais realidade potente" compreende toda a multidão dos efei­
objetiva do gue as gue me representam so­ tos possíveis; e assim também para os outros
mente modos ou acidentes; e, por fim, a idéia atributos. Por fim, de guem se pode dizer gue
pela gual concebo um Deus soberano, eterno, tenha uma idéia de Deus total e perfeita, isto é,
infinito, onipotente e criador universal de todas tal que o represente como ele é? [...] C também,
as coisas gue estão fora dele tem em si, sem eu vos pergunto, de gue modo podemos nós
dúvida, mais realidade objetiva do gue aquelas conhecer gue aguele pouco de perfeições gue
das quais as substâncias finitas me são repre­ encontramos em nós se encontra também em
sentadas". [...] Deus? € depois de tê-lo reconhecido, qual pode
Cm relação a isso que acrescentais "da ser a essência que podemos de lá imaginar
idéia de Deus", dizei-me, por favor, uma vez que dele? Certamente Deus é infinitamente elevado
não estais ainda certo de sua existência, como acima de toda compreensão; e guando nosso
Terceira parte - Pascal e Vico

espírito quer se aplicar à sua contemplação, não não sabe se há algo no mundo fora de si; eu
somente se reconhece demasiado débil para duvido até de ter orelhas com as quais tenha
compreendê-lo, mas ainda se torna cego e ele podido ouvir alguma coisa, e não conheço
próprio se confunde. Cis por que não é o caso homens com os quais tenha podido conversar.
de dizer que tenhamos uma idéia verdadeira de Podeis responder isto: mas o diríeis, caso não
Deus que o represente como ele é: basta que, tivésseis de fato orelhas para ouvir-nos e se não
com a relação das perfeições que estão em nós, existissem homens que vos tivessem ensinado
cheguemos a produzir e a formar alguma sobre a falar? Falemos seriamente e não mascaremos
ele, que, acomodando-se à nossa fraqueza, a verdade: as palavras que dizeis sobre Deus,
esteja também adaptada a nosso uso, que não não as aprendestes freqüentando os homens
esteja acima de nosso porte, e não contenha com os quais vivestes? 6 uma vez que a eles
alguma realidade que não tenhamos antes deveis as palavras, não deveis a eles também
reconhecido haver em outras coisas ou que por as noções designadas e entendidas com estas
meio delas não tenhamos percebido. mesmas palavras? C, portanto, embora estejais
de acordo que elas não possam vir de vós
apenas, nem por isso segue-se que devam vir
4. Objeção à dedução cartesiano
de Deus, mas apenas de alguma coisa fora de
da existência de Deus: vós. Cm seguida, o que há nestas idéias, que
os atributos que os homens
não pudestes formar e compor por vós mesmo,
conferem a Deus derivam da aprendizagem por ocasião das coisas por vós outrora vistas e
Vós concluís: "C, portanto, resta apenas apreendidas? Credes por isso conceber alguma
a única idéia de Deus, na qual se deva consi­ coisa que esteja acima da inteligência humana?
derar se aí haja alguma coisa que não tenha Certamente, se concebestes Deus tal qual ele
podido vir de mim mesmo. Com o nome de é, tivestes razão de crer ter sido instruído e se
Deus entendo uma substância infinita, eterna, tornado erudito pelo mesmo Deus; mas todos
imutável, independente, onisciente, onipotente, estes atributos que dais a Deus não são mais
e da qual eu próprio e todas as outras coisas que um amontoado de certas perfeições por
que existem (se é verdade que de fato existam) vós notadas em certos homens ou em outras
foram criadas e produzidas. Todas essas coisas criaturas, que o espírito humano é capaz de
são de fato tais que, quanto mais atentamente estender, de unir e de amplificar conforme lhe
as considero, tanto menos me persuado de agrada, como já foi mais vezes observado.
que a idéia que delas tenho possa extrair sua Dizeis "que, embora possais ter por vós
origem apenas de mim; e, por conseguinte, de mesmo a idéia da substância, uma vez que sois
tudo aquilo que foi dito aqui antes, é preciso uma substância, não podeis, apesar disso, ter
concluir necessariamente que Deus existe". Cis de vós mesmo a idéia da substância infinita,
que chegastes ao fim a que aspiráveis; quanto uma vez que sois infinito". Contudo, vos enga­
a mim, como abraço a conclusão que tirastes, nais grandemente, se credes ter a idéia da
também não vejo de onde pudestes deduzi-la. substância infinita, que não pode estarem vós a
Dizeis "que as coisas concebidas de Deus são não ser apenas de nome, e no modo em que os
tais que não puderam vir de vós mesmo", para homens podem compreender o infinito, e que,
daí inferir "que elas devem ter vindo de Deus". de fa