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ELABORADO POR:

ADEP – ASSOCIAÇÃO DE DIVULGADORES DE ESPIRITISMO DE


PORTUGAL
Apartado 244
2500 – 911 CALDAS DA RAINHA
PORTUGAL
E-mail : adep@adeportugal.org
http://www.adeportugal.org

2004
omente o Espiritismo, bem entendido e bem
compreendido, pode remediar esse estado de coisas e
tornar-se, conforme disseram os Espíritos, a grande alavanca da
transformação da Humanidade.”
(Allan Kardec, Obras Póstumas, Projecto 1868)

poiada tão só nas leis da Natureza, não pode variar mais do


que estas leis; mas, se uma nova lei for descoberta, tem ela
que se pôr de acordo com essa lei. Não lhe cabe fechar a porta a
nenhum progresso, sob pena de se suicidar.”
(Allan Kardec, Obras Póstumas, Constituição do Espiritismo)

crescentemos que a tolerância, fruto da caridade, que


constitui a base da Doutrina Espírita, lhe impõe como um
dever respeitar todas as crenças.”
(Allan Kardec, Obras Póstumas, Constituição do Espiritismo)
ÍNDICE
Página

INTRODUÇÃO .................................................................................................. 11

TEMAS DO CURSO .......................................................................................... 13

1 O QUE É O ESPIRITISMO ............................................................................... 15

1.1 PRECURSORES DO ESPIRITISMO ................................................................. 17


1.1.1 Emanuel Swedenborg ............................................................................. 17
1.1.2 Andrew Jackson Davis ............................................................................. 18
1.1.3 Hydesville – As irmãs Fox (o ano de 1848) .............................................. 19
1.1.4 As mesas girantes .................................................................................... 20

1.2 ALLAN KARDEC .......................................................................................... 22


1.2.1 Um homem destinado a uma missão ....................................................... 22
1.2.2 Consolador .............................................................................................. 25
1.2.3 O que é o Espiritismo .............................................................................. 26

RESUMO .......................................................................................................... 27

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 30

2 DOUTRINA ESPÍRITA ..................................................................................... 31

2.1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 33


2.1.1 Empirismo, Dogmatismo, Cepticismo e Agnosticismo .............................. 33

2.2 FILOSOFIA COM BASES CIENTÍFICAS E CONSEQUÊNCIAS MORAIS ............ 34


2.2.1 Ciência – Método científico ..................................................................... 34
2.2.2 Filosofia – Novos campos para o conhecimento ...................................... 35
2.2.3 Moral – Aperfeiçoamento moral .............................................................. 37

RESUMO .......................................................................................................... 39

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 40

3 O ESPIRITISMO E OUTRAS DOUTRINAS ESPIRIRUALISTAS ............................ 43

3.1 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA DOUTRINA ESPIRÍRITA ............................. 43


3.2 O CARÁCTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA ..................................................... 48
3.3 O ESPIRITISMO E OUTRAS DOUTRINAS ESPIRITUALISTAS .......................... 49
3.3.1 Rosacruz .................................................................................................. 50
3.3.2 Teosofia .................................................................................................. 50
3.3.3 Cabala ..................................................................................................... 51
3.3.4 Umbanda ................................................................................................ 52

3.4 O ESPIRITISMO E AS RELIGIÕES .................................................................. 52


3.4.1 Fase da magia ......................................................................................... 52
3.4.2 Fase religiosa ........................................................................................... 53
3.4.3 Espiritismo ............................................................................................... 53

3.5 O ESPIRITISMO É UMA RELIGIÃO? ............................................................. 53

RESUMO .......................................................................................................... 55

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 58

4 DEUS, ESPÍRITO E MATÉRIA .......................................................................... 59

4.1 DEUS .......................................................................................................... 61


4.1.1 Provas da sua existência .......................................................................... 61
4.1.2 Atributos da Divindade ............................................................................ 66

4.2 ESPÍRITO E MATÉRIA .................................................................................. 69


4.2.1 Princípio das coisas .................................................................................. 71
4.2.2 Formação dos seres vivos ........................................................................ 72
4.2.2.1 Princípio vital ........................................................................................ 73

RESUMO .......................................................................................................... 74

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 78

5 O MUNDO DOS ESPÍRITOS ..........................................................................


.......................................................................... 79

5.1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 81

5.2 ORIGEM E NATUREZA DOS ESPÍRITOS ........................................................ 81

5.3 PERISPÍRITO ................................................................................................ 83


5.3.1 Histórico .................................................................................................. 83
5.3.2 Natureza e propriedades ......................................................................... 84

5.4 DIFERENTES ORDENS DE ESPÍRITOS ............................................................ 86


5.4.1 Introdução ............................................................................................... 86
5.4.2 Terceira ordem – Espíritos imperfeitos ..................................................... 86
5.4.3 Segunda ordem – Bons espíritos ............................................................. 88
5.4.4 Primeira ordem – Espíritos puros ............................................................. 89

5.5 PERCEPÇÕES, SENSAÇÕES E SOFRIMENTOS DOS ESPÍRITOS ...................... 90

RESUMO .......................................................................................................... 92

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 93

6 PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS .................................................................


................................................................. 95
6.1 INTRODUÇÃO – Revisão histórica ............................................................... 97
6.1.1 Reencarnação e metempsicose ................................................................ 98
6.1.2 Reencarnação e ressurreição ................................................................... 99
6.1.3 Reencarnação na Bíblia e nos Evangelhos ................................................ 100
6.1.4 Reencarnação e evolução anímica ........................................................... 102
6.1.5 Reencarnação e a evolução do homem ................................................... 103
6.1.6 Evidências da reencarnação ..................................................................... 104

6.2 OBJECTIVO DA ENCARNAÇÃO ................................................................... 106


6.2.1 Justiça da Reencarnação .......................................................................... 109

6.3 DA VOLTA DO ESPÍRITO, EXTINTA A VIDA CORPORAL, À VIDA MATERIAL 110

RESUMO .......................................................................................................... 113

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 118

7 PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS ................................................... 119

7.1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 121


7.1.2 Estudo histórico ....................................................................................... 122

7.2 PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA À DOUTRINA DOS MUNDOS HABITADOS ......... 125


7.2.1 Encarnação de Deus sobre a Terra ........................................................... 125
7.2.2 A criação dos astros na génese bíblica ..................................................... 126
7.2.3 A descendência adâmica ......................................................................... 127
7.2.4 A parada do Sol e da Lua ........................................................................ 127
7.2.5 Salvação da Humanidade pelo sangue de Jesus ....................................... 128

7.3 HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DO MEU PAI .......................................... 128

7.4 TRANSMIGRAÇÕES PROGRESSIVAS ........................................................... 129

7.5 UNIVERSO INFINITO – Prova racional da existência de outros mundos


habitados ......................................................................................................... 131

RESUMO .......................................................................................................... 133

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 137

8 AS LEIS MORAIS (I) ....................................................................................... 139

8.1 DA LEI DIVINA OU NATURAL ..................................................................... 141

8.2 DA LEI DE ADORAÇÃO ............................................................................... 143


8.2.1 Politeísmo ................................................................................................ 145
8.2.2 Sacrifícios ................................................................................................ 145

8.3 DA LEI DO TRABALHO ................................................................................ 146


8.3.1 Limite do trabalho – Repouso .................................................................. 146

8.4 DA LEI DE REPRODUÇÃO ........................................................................... 147


8.4.1 Obstáculos à reprodução ......................................................................... 148
8.4.2 Casamento e celibato .............................................................................. 148
8.4.3 Poligamia ................................................................................................ 149

8.5 DA LEI DE CONSERVAÇÃO ........................................................................ 149


8.5.1 Gozo dos bens terrenos .......................................................................... 149
8.5.2 Necessário e supérfluo ............................................................................ 150
8.5.3 Privações voluntárias – Mortificações ...................................................... 150

8.6 DA LEI DE DESTRUIÇÃO ............................................................................. 151


8.6.1 Destruição necessária e destruição abusiva .............................................. 151
8.6.1.1 Flagelos destruidores ............................................................................ 152
8.6.1.2 Guerras ................................................................................................ 153
8.6.1.3 Assassínio ............................................................................................. 153
8.6.1.4 Crueldade ............................................................................................. 153
8.6.1.5 Pena de morte ...................................................................................... 154

RESUMO .......................................................................................................... 155

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 158

...................................................................................... 159
9 AS LEIS MORAIS (II) ......................................................................................

9.1 DA LEI DE SOCIEDADE ............................................................................... 161


9.1.1 Necessidade da vida social ....................................................................... 161
9.1.2 Vida de isolamento: voto de silêncio ........................................................ 162
9.1.3 Laços de família ....................................................................................... 162

9.2 DA LEI DE PROGRESSO ............................................................................... 163


9.2.1 Estado de natureza .................................................................................. 163
9.2.2 Povos degenerados ................................................................................. 163
9.2.3 Marcha do progresso .............................................................................. 164
9.2.4 Progresso da legislação humana .............................................................. 165
9.2.5 Civilização ................................................................................................ 165
9.2.6 Influência do Espiritismo no progresso ..................................................... 166

9.3 DA LEI DE IGUALDADE ............................................................................... 167


9.3.1 Igualdade natural .................................................................................... 167
9.3.2 Igualdade de direitos do homem e da mulher ......................................... 167
9.3.3 Igualdade perante o túmulo .................................................................... 167
9.3.4 Desigualdade das aptidões ...................................................................... 168
9.3.5 Desigualdades sociais .............................................................................. 168
9.3.6 Desigualdade das riquezas ....................................................................... 168
9.3.6.1 As provas da riqueza e da miséria ....................................................... 169
9.4 DA LEI DE LIBERDADE ................................................................................ 169
9.4.1 Liberdade natural .................................................................................... 169
9.4.1.1 Escravidão ............................................................................................ 170
9.4.2 Liberdade de pensar ................................................................................ 170
9.4.3 Liberdade de consciência ......................................................................... 170
9.4.3.1 Livre-arbítrio ......................................................................................... 171
9.4.3.2 Fatalidade ............................................................................................. 171
9.4.3.3 Conhecimento do futuro ...................................................................... 173
9.4.3.4 Resumo teórico do móbil das acções humanas ..................................... 173

9.5 DA LEI DE JUSTIÇA DE AMOR E DE CARIDADE ........................................... 174


9.5.1 Justiça e direitos naturais ......................................................................... 174
9.5.1.1 Direito de propriedade – Roubo ........................................................... 174
9.5.2 Caridade – Amor ao próximo .................................................................. 175

9.6 DA PERFEIÇÃO MORAL – As virtudes e os vícios ......................................... 176


9.6.1 Virtudes ................................................................................................... 177
9.6.1.1 Caracteres do homem de bem ............................................................. 177
9.6.1.2 Autoconhecimento ............................................................................... 177
9.6.2 Vícios ....................................................................................................... 178
9.6.2.1 Paixões ................................................................................................. 178
9.6.2.2 Egoísmo ............................................................................................... 178

RESUMO .......................................................................................................... 179

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 183

10 ESPERANÇAS E CONSOLAÇÕES .................................................................. 185

10.1 PENAS E GOZOS TERRENOS ..................................................................... 187


10.1.1 Felicidade e infelicidade relativas ........................................................... 187
10.1.2 Perdas de entes queridos ....................................................................... 189
10.1.3 Decepções, ingratidão, afeições destruídas ............................................ 190
10.1.4 Uniões antipáticas ................................................................................. 190
10.1.5 Temor da morte .................................................................................... 191
10.1.6 Desgosto da vida – Suicídio ................................................................... 191

10.2 PENAS E GOZOS FUTUROS ....................................................................... 194


10.2.1 O nada – A vida futura .......................................................................... 194
10.2.2 Intuição das penas e gozos futuros ....................................................... 194
10.2.3 Intervenção de Deus nas penas e recompensas ..................................... 195
10.2.4 Natureza das penas e gozos futuros ...................................................... 196
10.2.5 Penas temporárias ................................................................................. 197
10.2.6 Expiação e arrependimento ................................................................... 198
10.2.7 Duração das penas futuras ................................................................... 199
10.2.8 Paraíso, inferno e purgatório ................................................................. 200

RESUMO .......................................................................................................... 202

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 208

BIBLIOGRAFIA GERAL ...................................................................................... 209

GLOSSÁRIO ..................................................................................................... 211


Curso Básico de Espiritismo Introdução

INTRODUÇÃO
m Obras Póstumas – Projecto 1868, editado em 1890, por Leymarie, seu
biógrafo, Allan Kardec, o codificador preconiza “um curso regular de
Espiritismo com o fim de desenvolver os princípios da Ciência e difundir o
gosto pelos estudos sérios. Esse curso teria a vantagem de fundar a unidade
de princípios, de fazer adeptos esclarecidos, capazes de espalhar as ideias
espíritas...”

Hoje, mais do que nunca, em que as pessoas buscam avidamente a compreensão


dos princípios espirituais, para que lhes dêem a sustentação interior que concepções
filosóficas e religiosas tradicionais não oferecem, torna-se necessário que o
conhecimento do Espiritismo seja o mais consentâneo possível com a sua realidade e
não deformado por interpretações particulares.

Face a essas orientações, a ADEP – Associação de Divulgadores de Espiritismo de


Portugal – visa oferecer com este Curso Básico de Espiritismo, aos interessados por
esta doutrina, um conhecimento fundamental dos seus princípios e uma visão global
dos conteúdos que nele são tratados.

Em resumo, este Curso Básico de Espiritismo constitui-se num pré-requisito aos


interessados em adentrar fases mais avançadas do conhecimento espírita e tratar os
seus diferentes aspectos mais especificamente, como é, por exemplo, o caso da
mediunidade através do Curso de Estudo e Educação da Mediunidade (CEEM). (*)

(*) O Curso de Estudo e Educação da Mediunidade (CEEM) é um programa de estudo e orientação


sobre a mediunidade.

11
Curso Básico de Espiritismo Temas do Curso

Temas do Curso

01 – O que é o Espiritismo?

02 – Doutrina Espírita.

03 – O Espiritismo e outras doutrinas


espiritualistas.

04 – Deus, espírito e matéria.

05 – O mundo dos espíritos.

06 – Pluralidade das existências.

07 – Pluralidade dos mundos habitados.

08 – As leis morais ( I ).

09 – As leis morais ( II ).

10 – Esperanças e consolações.

13
CAPÍTULO 1

SUMÁRIO

1 O QUE É O ESPIRITISMO

1.1 PRECURSORES DO ESPIRITISMO


1.1.1 Emanuel Swedenborg
1.1.2 Andrew Jackson Davis
1.1.3 Hydesville – As irmãs Fox (o ano de 1848)
1.1.4 As mesas girantes

1.2 ALLAN KARDEC


1.2.1 Um homem destinado a uma missão
1.2.2 Consolador
1.2.3 O que é o Espiritismo

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Curso Básico de Espiritismo O que é o Espiritismo

1. O QUE É O ESPIRITIS
ESPIRITISMO
1.1. PRECURSORES DO ESPI
ESPIRITISMO

1.1.1. EMANUEL SWEDENBORG


Muito culto, este grande vidente
sueco era engenheiro de minas, uma
autoridade em metalurgia, zoólogo, ana-
tomista e uma grande autoridade em
física e astronomia. Grande precursor do
Espiritismo. Viveu em Londres. Em 1787
manifesta-se médium.
O caso de Gothenburg é famoso,
onde o vidente observou e descreveu um
incêndio em Estocolmo, a 300 milhas de
distância, com perfeita exactidão, estan-
do ele num jantar com 16 convidados,
que serviram de testemunhas. Este caso
foi investigado, inclusive, pelo filósofo
Kant, que era seu contemporâneo.
Ele verificou, através da vidência,
que o mundo espiritual, para onde va-
mos após a morte, se compõe de várias
esferas, representando graus de lumino-
sidade e felicidade. Cada um de nós irá
para aquela que se adapte à nossa condição espiritual. Somos julgados, automatica-
mente, por uma lei espiritual de similitudes. O resultado é determinado pelo resulta-
do global da nossa vida, de modo que a absolvição ou o arrependimento no leito da
morte têm pouco proveito. Verificou, nessas esferas espirituais, que o cenário e as
condições deste mundo eram reproduzidos fielmente, do mesmo modo que a estru-
tura da sociedade.
Viu casas onde viviam famílias, templos onde praticavam o culto, auditórios
onde se reuniam para fins sociais, palácios onde deviam morar os chefes.
A morte era suave, dada a presença de seres celestiais, que ajudavam os re-
cém-chegados na sua nova existência.
Eles passavam, imediatamente, por um período de absoluto repouso. Recon-
quistavam a consciência em poucos dias. Havia anjos e demónios, mas eram seres
humanos que tinham vivido na Terra e que, ou eram almas retardatárias (demónios),
ou altamente desenvolvidas (anjos). Levam consigo os seus hábitos mentais adquiri-
dos, as suas preocupações, os seus preconceitos. Todas as crianças eram recebidas
igualmente, fossem ou não baptizadas. Cresciam no outro mundo. Jovens serviam-
lhes de mães até que chegassem as mães verdadeiras. Não havia penas eternas. Os
que se achavam nos infernos podiam trabalhar para sair de lá, desde que quisessem.
Os que se achavam no céu não tinham lugar permanente: trabalhavam por uma po-
sição mais elevada. Havia o casamento, sob a forma de união espiritual. Ele fala da
arquitectura, do artesanato, das flores, dos frutos, dos bordados, da arte, da música,
da literatura, da ciência, das escolas, dos museus, das academias, das bibliotecas e

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O que é o Espiritismo Curso Básico de Espiritismo

dos desportos. Os que saíam deste mundo velhos e decrépitos, doentes ou deforma-
dos, recuperavam a mocidade e, gradativamente, o completo vigor. Os casais conti-
nuavam juntos, se os seus sentimentos recíprocos os atraíam. Caso contrário, era
desfeita a união.
Isto por volta de 1790, quase 100 anos antes de aparecer o Espiritismo, com Allan
Kardec.

1.1.2. ANDREW JACKSON DAVIS


Filho de pais humildes, nasceu nos
EUA, em 1826, num distrito rural do esta-
do de Nova Iorque. Era falto de actividade
intelectual, corpo mirrado, sem nenhum
traço que denunciasse a sua excepcional
mediunidade futura. Nos últimos anos da
infância desabrochavam os seus poderes
psíquicos. Ouvia vozes no campo. Vozes
gentis, que lhe davam bons conselhos e
conforto. Tornou-se vidente. Fazia dia-
gnósticos médicos com a sua vidência.
Olhando o corpo humano, era como se ele
se tornasse transparente. Cada órgão apa-
recia claramente e com uma radiação es-
pecial e peculiar, que se obscurecia em
caso de doença. Via os espíritos e falou
com Swedenborg, já desencarnado. Tinha
pouca cultura e 21 anos de idade. Em transe, proferia discursos sobre os mais varia-
dos temas, dos quais pouco ou nada sabia. Posteriormente, de nada se lembrava.
Escreve cerca de trinta livros, editados com o título de Filosofia Harmónica,
que lhe foram transmitidos por Swedenborg. Assiste ao desencarne de uma senhora,
onde descreve pormenorizadamente os processos da morte no plano espiritual.
Por altura de 1856, antes do seu aparecimento, profetizou detalhadamente o apare-
cimento do automóvel, dos veículos aéreos movidos por uma força motriz de nature-
za explosiva, da máquina de escrever e locomotivas, com motores de combustão
interna, com uma riqueza de detalhes impressionante.
Previu o aparecimento do Espiritismo, em Princípios da Natureza, publicado
em 1847.
Davis fez uma descrição pormenorizada do mundo espiritual, mais completa do que
a de Swedenborg.
Davis apresentou a reencarnação como não obrigatória para o progresso do
espírito (o espírito pode, e deve, progredir no espaço, sem necessidade de reencar-
nar). Com ele nasceu o primeiro liceu espiritual, por ele fundado em 25 de Janeiro de
1863, em Nova Iorque, copiado de um sistema de educação que teria presenciado
no plano espiritual, em desdobramento. O célebre vidente americano sofreu acusa-
ções caluniosas e críticas acervas. Homem superior, a tudo se sobrepunha, com tole-
rância evangélica e larga compreensão. Desencarnou em 1910, com 84 anos.

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Curso Básico de Espiritismo O que é o Espiritismo

1.1.3. HYDESVILLE — AS IRMÃS FOX (O ano de 1848)

Historicamente, o Espiritismo surgiu


motivado pelos fenómenos de movimenta-
ção de objectos, verificados em diferentes
países, na Europa, na América e noutras
partes do mundo.
O marco de tais acontecimentos,
todavia, foram as manifestações ocorridas
na aldeia de Hydesville, no condado de
Wayne, perto de Nova Iorque, nos Estados
Unidos da América. Ali morava o casal Fox,
com três filhas, duas das quais viviam com
os pais; os Fox estabeleceram-se na casa
desde 1847”. (5) (*)
Numa noite do ano de 1848, nas
paredes de madeira do barracão de John
Fox começaram a soar pancadas
incomodativas, perturbando o sono da
família, toda ela metodista. As meninas
Katherine (Katie ou Kate), de nove anos de
idade, e Margaret, de doze anos, correram
para o quarto dos pais, assustadas com os
golpes fortes no tecto e paredes do seu quarto. (3)
As pancadas, ou raps, começaram nessa noite; depois, ouvia-se o arrastar de
cadeiras e, com o tempo, os fenómenos tornaram-se mais complexos; tudo estreme-
cia, os objectos moviam-se, havia uma explosão de sons fortes. (5)
Três noites seguidas, até 31 de Março de 1848, os fenómenos repetiram-se
intensamente, impedindo que os Fox conciliassem o sono. O sr. Fox fez buscas com-
pletas pelo interior e exterior da casa, mas nada encontrou que explicasse as ocor-
rências.
A menina Kate, um dia, já habituada ao fenómeno, pôs-se a imitar as panca-
das, batendo com os dedos sobre um móvel, enquanto exclamava, em direcção ao
ponto onde os ruídos eram mais constantes: “Vamos, Old Splitfoot, faça o que eu
faço”. Prontamente as pancadas do desconhecido se fizeram ouvir, em igual número,
e paravam quando a menina também parava.
Margareth, a brincar, disse: “Agora, faça o mesmo que eu: conte um, dois, três, qua-
tro”, e ao mesmo tempo dava pancadas com os dedos. Foi-lhe plenamente satisfeito
esse pedido, deixando a todos estupefactos e medrosos”. (3)
As meninas Fox eram protestantes e supunham tratar-se do demónio. Cha-
mavam ao batedor sr. Splitfoot (sr. Pé Fendido), que corresponde a pé de bode.
A família Fox estava alarmada; acorreram vizinhos e curiosos. Toda a localida-
de comentava os acontecimentos. Mr. Duesler idealizou, então, o alfabeto, para
poderem traduzir as pancadas e compreenderem o que dizia o invisível.
O batedor invisível contou a sua história: chamava-se Charles B. Rosma; fora
um vendedor ambulante e, hospedado naquela casa pelo casal Bell, ali o assassina-
ram, para roubar-lhe a mercadoria e o dinheiro que trazia, e o seu corpo fora sepul-
tado na cave. (3) Fizeram uma busca no local indicado e aí encontraram tábuas, alca-
(*) Os algarismos colocados entre parênteses correspondem, na bibliografia,
bibliografia no final dos resumos de
cada capítulo, aos mesmos algarismos com que estão assinaladas as fontes que serviram de base ao
texto, ou extraídas as citações.

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O que é o Espiritismo Curso Básico de Espiritismo

trão, cal, cabelos, ossos, utensílios. Uma criada dos Bell, Lucretia Pulver, declara que
viu o vendedor e descreve-o; diz como ele chegara à casa e refere o seu misterioso
desaparecimento. Uma vez, descendo à adega, o seu pé enterrou-se num buraco, e
falando disto ao patrão, ele explicou que deviam ser ratos; e foi apressadamente
fazer os necessários reparos. Ela vira nas mãos dos patrões objectos da caixa do am-
bulante. (5)
Arthur Conan Doyle, no seu livro História do Espiritismo, relata que cinquenta
e seis anos depois foi descoberto que alguém fora enterrado na adega da casa dos
Fox. Ao ruir uma parede, crianças que por ali brincavam descobriram um esqueleto.
Os Bell, para maior segurança, haviam emparedado o corpo, na adega, onde inicial-
mente o haviam enterrado.
Em 23 de Novembro de 1904, o Boston Journal noticiava que o esqueleto do
homem que possivelmente produziu as batidas, ouvidas inicialmente pelas irmãs Fox,
em 1848, fora encontrado e as mesmas estavam, portanto, eximidas de qualquer
dúvida com respeito à sinceridade delas na descoberta da comunicação dos espíritos.
(7)
Diversas comissões se formaram na época dos acontecimentos, com a finalidade de
estudar os estranhos fenómenos e desmascarar a fraude atribuída às Fox. Verificou-
se que eles ocorriam na presença das meninas; atribui-se-lhes o poder da mediunida-
de. Nenhuma comissão, todavia, conseguiu demonstrar que se tratava de fraude. Os
factos eram absolutamente verídicos, embora tivessem submetido as meninas aos
mais rigorosos e severos exames, atingindo, às vezes, as raias da brutalidade.
As irmãs Fox foram, pressionadas. A Igreja excomungou-as, como pactuantes
com o demónio. Foram acusadas de embusteiras, e ameaçadas fisicamente muitas
vezes.
Em 1888, ao comemorar os 40 anos dos fenómenos de Hydesville, Margareth
Fox, iludida por promessas de favores pecuniários pelo cardeal Maning, fez publicar
uma reportagem no New York Herald em que afirmou que os fenómenos que reali-
zaram eram fraudulentos. Todavia, no ano seguinte, arrependida da sua falta de ho-
nestidade para com o Espiritismo, reuniu grande público no salão de música de Nova
Iorque e retracta-se das suas declarações anteriores, não só afirmando que os fenó-
menos de Hydesville eram reais, como provocando uma série de fenómenos de efei-
tos físicos no salão repleto.
A retractação foi publicada na época. Consta da Light e do jornal americano
New York Press, de 20 de Maio de 1889.
Como, porém, a lealdade e a sinceridade não são requisitos dos espíritos apaixona-
dos, ainda hoje, quando se quer denegrir a fonte do Espiritismo, vem à baila a con-
fissão das moças. Na retractação não se toca, ou quando se toca é para mostrar que
não há no que confiar. Os pormenores ficam de lado. (5)
Os fenómenos aqui narrados e as irmãs Fox, suas personagens principais, passaram para a
história do Espiritismo. No entanto, o Espiritismo não surge aqui, mas sim mais tarde, com a edição de
O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, em 18 de Abril de 1857.

1.1.4. AS MESAS GIRANTES

Uma série progressiva de fenómenos deram origem à Doutrina Espírita.


“O primeiro facto observado foi o da movimentação de objectos diversos. De-
signaram-no vulgarmente pelo nome de mesas girantes ou dança das mesas”. (8)
Tal fenómeno parece ter sido notado primeiramente na América do Norte de
forma intensa, e propagou-se pelos países da Europa, como a França, a Inglaterra, a

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Alemanha, a Holanda e até a Turquia, nos meados do século XIX, tendo como mar-
co, especialmente, o ano de 1848, com os fenómenos de Hydesville já estudados,
envolvendo a família Fox.
Todavia, a História regista que ele remonta à mais alta antiguidade, tendo-se
produzido de formas estranhas, como ruídos insólitos, pancadas sem nenhuma causa
ostensiva.
“A princípio quase só encontrou incrédulos, porém, ao cabo de pouco tempo, a mul-
tiplicidade de experiências não mais permitiu que pusessem em dúvida a realidade”.
(8)

O fenómeno das pancadas, ou batidas, foi chamado raps ou echoes; o das


mesas girantes, ou moventes, de table-moving, para os ingleses; table-volante ou
table-tournante, para os franceses. No início, nos Estados Unidos da América, os es-
píritos só se comunicavam pelo processo trabalhoso, e de grande morosidade, de
alguém dizer em voz alta o alfabeto e o espírito era convidado a indicar por raps ou
echoes, no momento em que fossem pronunciadas as letras que, reunidas, deviam
compor as palavras que queria dizer. Era a telegrafia espiritual. (9)
Os próprios espíritos indicaram, em fins de 1850, uma nova maneira de co-
municação: bastava, simplesmente, que se colocassem ao redor de uma mesa, em
cima da qual se poriam as mãos. Levantando um dos pés, a mesa daria (enquanto se
recitava o alfabeto) uma pancada toda a vez que fosse proferida a letra que servisse
ao espírito para formar as palavras. Esse processo, ainda que muito lento, produziu
resultados excelentes, e assim se chegou às mesas girantes e falantes.
Há que notar, que a mesa não se limitava a levantar-se sobre um pé para res-
ponder às perguntas que se faziam; movia-se em todos os sentidos, girava sob os
dedos dos experimentadores, às vezes elevava-se no ar, sem que se descobrissem as
forças que a tinham suspendidas. (9)
O fenómeno das mesas girantes propagou-se rapidamente e durante muito
tempo entreteve a curiosidade dos salões. Depois, aborreceram-se dele, pois a gente
frívola, que apenas imita a moda, o considerou como simples distracção.
As pessoas criteriosas e observadoras, todavia, abandonaram as mesas giran-
tes por terem visto nascer delas algo sério, destinado a prevalecer e passaram a ocu-
par-se com as consequências a que o fenómeno dava lugar, bem mais importantes

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O que é o Espiritismo Curso Básico de Espiritismo

nos seus resultados. Deixaram o alfabeto pela ciência, tal o segredo desse aparente
abandono (...)
As mesas girantes representarão sempre o ponto de partida da Doutrina Espí-
rita e merecem, por isso, alguma explicação, para que, conhecendo-se as causas,
facilitada será a chave para a decifração dos efeitos mais complexos. (10)
Para que o fenómeno se realize há necessidade da intervenção de uma ou
mais pessoas dotadas de especial aptidão, designadas pelo nome de médiuns.
Muitas vezes, um poderoso médium produzirá sozinho mais do que vinte ou-
tros juntos. Basta colocar as mãos na mesa para que, no mesmo instante, ela se
mova, erga , revire, dê saltos, ou gire com violência.
A princípio, supôs-se que os efeitos poderiam explicar-se pela acção de uma
corrente magnética, ou eléctrica, ou ainda pela de um fluído qualquer. Outros factos,
entretanto, demonstraram ser esta explicação insuficiente. Estes factos são as provas
de inteligência que eles deram. Ora, como todo o efeito inteligente há-de, por força,
derivar de uma causa inteligente, ficou evidenciado que, mesmo admitindo-se, em
tais casos, a intervenção da electricidade, ou de qualquer outro fluido, outra causa se
achava a essa associada. Qual era? Qual a inteligência? (10)
As observações e as pesquisas espíritas realizadas por Allan Kardec e outros
sábios, demonstraram que a causa inteligente era determinada pelos espíritos que
podiam agir sobre a matéria, utilizando o fluido fornecido pelos médiuns, isto é,
meios ou intermediários entre os espíritos e os homens, gerando, assim, as manifes-
tações físicas e as manifestações inteligentes.
Aperfeiçoaram-se os processos. As comunicações dos espíritos não se detive-
ram nas manifestações das mesas girantes. Evoluíram para as cestas e pranchetas,
nas quais se adaptava um lápis e as comunicações passaram a ser escritas – era a
psicografia indirecta. Posteriormente, eliminaram-se os instrumentos e apêndices; o
médium, tomando directamente o lápis, passou a escrever por um impulso involuntá-
rio e quase febril – era a psicografia directa.

1.2. ALLAN KARDEC

1.2.1. UM HOMEM DESTINADO


DESTINADO A UMA MISSÃO

O professor Hippolyte Léon Denizard Ri-


vail – Allan Kardec – interessou-se pelos fenó-
menos espíritas no ano de 1855, quando o sr.
Carlotti, seu amigo há 25 anos, lhe falou, pela
primeira vez, da intervenção dos espíritos e con-
seguiu aumentar as suas dúvidas sobre tais fe-
nómenos.
Inicialmente, o professor Rivail esteve a
ponto de abandonar as investigações, porquan-
to não era positivamente um entusiasta das ma-
nifestações espíritas. Quase deixou de frequen-
tar as sessões, não o fazendo em atenção aos
pedidos do sr. Carlotti, e de um grupo de inte-
lectuais que, confiando na sua inteligência,
competência e honestidade, lhe delegaram a

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Curso Básico de Espiritismo O que é o Espiritismo

ingente tarefa de compilar, separar, comparar, condensar e coordenar as comunica-


ções que os espíritos lhes ditaram. Assinala Kardec que foram as meninas Baudin
(Julie e Caroline – 14 e 16 anos de idade) as médiuns que mais concorreram para
esse trabalho, sendo quase todo o livro (refere-se ao Livro dos Espíritos) escrito por
intermédio delas e na presença de selecta e
numerosa assistência.
Foi, então, a casa da sonâmbula srª. Roger,
na companhia do sr. Fortier, seu hipnotizador, e ali
encontrou o sr. Pâtier e a srª. Plainemaison, que lhe
falaram dos mesmos fenómenos referidos por
Carlotti, mas em tom mais ponderado.
O sr. Pâtier, funcionário público, de meia-
idade, muito instruído, de carácter sério, frio e
calmo; de falar ajuizado, isento de qualquer arrou-
bo, causou-lhe excelente impressão e, quando o
convidou a assistir às experiências que se realizavam
em casa da srª. Plainemaison, na Rua Grange-
Batelière, n.º 18, em Paris, aceitou com sofregui-
dão. O encontro fora marcado para Terça-feira, 31
de Maio de 1855, às oito horas da noite. (2)
Já anteriormente, em 1854, o prof. Rivail
ouviu “falar, pela primeira vez, das mesas girantes,
pela boca do sr. Fortier, magnetizador, com o qual
entrara em relações para os seus estudos sobre magnetismo”. O sr. Fortier um dia
falou-lhe: “Eis uma coisa mais do que extraordinária: – não somente magnetizam
uma mesa, fazendo-a girar, mas também a fazem falar; perguntam coisas e a mesa
responde”. (2)
Allan Kardec replica: “Isto é outra questão: acreditarei quando puder ver com
os meus próprios olhos e quando me provarem que uma mesa tem um cérebro para
pensar, nervos para sentir e que pode tornar-se sonâmbula: por enquanto, seja-me
permitido dizer que tudo isso me parece um conto para fazer dormir em pé”. (2)
Em Obras Póstumas, Kardec comenta: “Era lógico este raciocínio: eu concebia
o movimento por efeito de uma força mecânica, mas ignorando a causa e a lei do
fenómeno, afigurava-se-me absurdo atribuir-se inteligência a uma coisa puramente
material. Achava-me na posição dos incrédulos actuais, que negam porque apenas
vêem um facto que não compreendem”. (1)
Foi na casa da sr.ª Plainemaison, naquela Terça-feira, 31 de Maio de 1855 já
citada, que Hippolyte Léon Denizard Rivail assistiu pela primeira vez os fenómeno das
mesas que “giravam, saltavam e corriam, em condições tais que não deixavam lugar
para qualquer dúvida. (...) Eu entrevia, naquelas aparentes futilidades, no passatem-
po que faziam daqueles fenómenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação
de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo (...) Os médiuns eram duas se-
nhoritas Baudin (Julie e Caroline). (...) Aí, tive o ensejo de ver comunicações contí-
nuas e respostas a perguntas formuladas, algumas vezes, até a perguntas mentais,
que acusavam, de modo evidente, a intervenção de uma inteligência estranha”. São
declarações do codificador. (3).
E continua ele, em Obras Póstumas: “Compreendi, antes de tudo, a gravidade
da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenómenos, a chave do proble-
ma, tão obscuro e controvertido, do passado e do futuro da Humanidade, a solução
que eu procurava em toda a minha vida. (...) fazia-se mister, portanto, andar com a
maior circunspecção e não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me
deixar iludir”. (4)

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O que é o Espiritismo Curso Básico de Espiritismo

Antes de dedicar-se ao estudo dos fenómenos espíritas, quem era Allan Kar-
dec?
Ele nasceu na cidade de Lyon, na França, a 3 de Outubro de 1804, recebendo
o nome de Hippolyte Léon Denizard Rivail.
Os estudos de Kardec foram iniciados em Lyon, tendo-os completado em
Yverdun, na Suíça, sob a direcção do célebre e inesquecível professor Pestalozzi. Teve
uma sólida instrução, servida por uma robusta inteligência. Ele conhecia alemão, in-
glês, italiano, espanhol, holandês, sem falar na língua materna, e tinha grande cultu-
ra científica. (5)
O seu trabalho pedagógico é rico e extenso.
Produziu, em França, quase uma dezena de obras sobre
educação, no período de 1828 a 1849. Os seus livros
foram adoptados pela Universidade de França. Traduzia
para a língua alemã, que conhecia profundamente,
diferentes obras de educação e moral, dentre elas,
Telémaco, de Fénelon.
Foi bacharel em Ciências e Letras. Membro de
sociedades sábias da França, entre outras, da Real
Academia de Ciências Naturais. Emérito educador, criou
em Paris o Instituto Técnico, estabelecimento de ensino
com base no método Pestalozzi; foi professor no Liceu
Polimático. Fundou, em sua casa, cursos gratuitos de
Química, Física, Anatomia Comparada, Astronomia, etc.
Criou um método original, por processos mnemónicos,
que levava o estudante a aprender e compreender as lições com facilidade e rapidez.
No ano de 1832 casou-se com Amélie Gabrielle Boudet, professora com di-
ploma de primeira classe. A sua doce Gabi, como ele carinhosamente a chamava,
ajudou-o intensamente, tanto nas suas actividades pedagógicas quanto no seu fe-
cundo labor pela causa espírita.
Como homem, foi um homem de bem; carácter adamantino. As qualidades
morais marcavam a sua personalidade; na vida, a coragem nunca lhe faltou; nunca
desanimava; a calma foi um destaque do seu carácter; de temperamento jovial; de
inteligência brilhante, marcada pela lógica e pelo bom senso; não fugia à discussão,
quando a finalidade era esclarecer os assuntos.
Allan Kardec foi o escolhido para tão elevada missão – a de Codificador, jus-
tamente pela nobreza dos seus sentimentos e pela elevação do seu carácter, tudo
aliado a uma sólida inteligência. (5)
“Ele sujeitava os seus sentimentos, os seus pensamentos à reflexão. Tudo era
submetido ao poder da lógica. (...) Nada passava sem o rigor do método, sem o crivo
do raciocínio. Filósofo, benfeitor, idealista, dado às ideias sociais, possuía, ainda, um
coração digno do seu carácter e do seu valor intelectual”. (5)
A partir do instante em que se dedicou ao estudo dos fenómenos da inter-
venção dos espíritos, no ano de 1855, na casa da srª. Plainemaison, até ao ano de
1869, quando desencarnou vitimado pelo rompimento de um aneurisma, no dia 31
de Março, trabalhou intensa e incansavelmente, tendo produzido o maior acervo da
Doutrina Espírita.
Do seu trabalho gigantesco, destacamos:
O Livro dos Espíritos (1857),
O Livro dos Médiuns (1861),
O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864),
O Céu e o Inferno, ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo (1865),
A Génese, os Milagres e as Predições (1868).

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Curso Básico de Espiritismo O que é o Espiritismo

Estes livros constituem a base do


Espiritismo ou Doutrina Espírita.
Kardec criou uma terminologia apropriada
aos novos conceitos da Doutrina Espírita. Entre
outros, os vocábulos espírita, espiritista e
espiritismo, que exprimiam, sem nenhum
equívoco, as ideias relativas aos espíritos na
orientação doutrinária espírita. Não confundir com
espiritual, espiritualista e espiritualismo.
Produziu obras subsidiárias e
complementares, de grande valor doutrinário,
como O que é o Espiritismo, Introdução ao Estudo
da Doutrina Espírita e Obras Póstumas. Criou a
Revista Espírita, jornal de estudos psicológicos,
periódico mensal que editou e preparou os
originais de Janeiro de 1858 a Junho de 1869, e
fundou, em Paris, a 1 de Abril de 1858, a primeira
associação espírita regularmente constituída, sob a denominação de Sociedade Pari-
siense de Estudos Espíritas.
Nestas rápidas anotações, não conseguimos dizer tudo a respeito do missio-
nário da Codificação Espírita. Registámos, apenas, aspectos gerais da sua magnífica
personalidade. Sugerimos, entretanto, que os interessados consultem a bibliografia
indicada, para melhor sentirem o valor extraordinário, a sua vida e a sua obra.

1.2.2. CONSOLADOR

As grandes verdades da Espiritualidade Superior, sempre que são reveladas a


uma certa população, sofrem de um efeito rotineiro: podemos chamar-lhe recuo evo-
lutivo.
Na verdade, segundo a lei do progresso, nenhuma conquista do espírito, uma
vez adquirida, se perde. Daí o itálico.
O recuo evolutivo deriva da média evolutiva de uma população determinada
que, quando as verdades reveladas estão mais um tanto adiante da sua mentalidade,
imiscui nessas ideias novas a sua ganga, as suas imperfeições, de tal forma que da
verdade original resulta uma meia verdade.
Aconteceu com o Cristianismo e provavelmente acontece já com o Espiritis-
mo, etc. Será talvez a única forma de essas populações se associarem à revelação
sem se perderem totalmente dela. Em termos numéricos é uma meia perda e não
uma perda inteira. Do mesmo modo não é uma conquista ou um passo adiante de
forma óptima, mas sim uma meia conquista ou um meio passo adiante.
Quando Jesus no Evangelho fala do Consolador ou Paracleto dominava já
muito melhor do que nós, hoje, esse fenómeno do recuo evolutivo. Por isso disse que
enviaria mais tarde o Consolador, que lembraria os ensinos dele e adiantaria mais
algumas ideias que na época seria inútil referir.
Surge o Espiritismo e, como Allan Kardec define, reúne as características do
tal Consolador. Até aqui tudo bem. O que é menos bom é os espíritas embandeira-
rem em arco e colocarem a etiqueta na testa dizendo que o espiritismo é o tal Con-
solador. A etiqueta, qualquer que seja, ainda traz um resíduo mágico, antiquíssimo. E
depois, de tanto se usar a etiqueta, perde-se o conteúdo.

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O que é o Espiritismo Curso Básico de Espiritismo

O Espiritismo será o Consolador desde que o movimento espírita não se dis-


tancie da Doutrina Espírita, tal como Kardec a codificou.
Será Consolador se dispensar o rótulo e se traduzir em actos e palavras do
quotidiano que façam jus a esse nome.

1.2.3. O QUE É O ESPIRITISMO?

Allan Kardec, em Obras Póstumas, explica que nos seus estudos de Espiritismo
aplicou à nova ciência o método experimental (indutivo) (*), bem como o método
dedutivo (**) e jamais elaborou teorias preconcebidas; observava cuidadosamente,
comparava, deduzia consequências; dos efeitos procurava remontar à causa, por
dedução e pelo encadeamento lógico dos factos, não admitindo por válida uma ex-
plicação senão quando resolvia todas as dificuldades da questão. (4)
Ele diz que um dos primeiros resultados que colheu das suas observações foi
que os espíritos, nada mais sendo que as almas dos homens, não possuíam a plena
sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao
grau de adiantamento que haviam alcançado. Que reconhecida desde o princípio,
esta verdade o preservou do grave escolho de crer na infalibilidade dos espíritos e o
impediu de formular teorias prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou
alguns deles. (4)
O simples facto da comunicação com os espíritos, dissessem eles o que dis-
sessem, provava a existência do mundo invisível ambiente. Já era um ponto essencial,
um imenso campo aberto às nossas explorações, a chave de inúmeros fenómenos
até aqui inexplicados. O segundo ponto, não menos importante, era que aquela co-
municação permitia que se conhecesse o estado desse mundo, seus costumes, etc.
Cada espírito, em virtude da sua posição pessoal e dos seus conhecimentos, desven-
davam-lhe uma face daquele mundo, do mesmo modo que se chega a conhecer o
estado de um país interrogando habitantes seus de todas as classes, não podendo
um só, individualmente, informar-nos de tudo. Compete ao observador formar o con-
junto, por meio dos documentos colhidos de diferentes lados, coleccionados, coor-
denados e comparados uns com os outros. Conduzi-se, pois, com os espíritos, como
houvera feito com os homens. Para ele, eles foram, do menor ao maior, meios de o
informar e não reveladores predestinados. (4)
Tais as disposições com que empreendeu os seus estudos, e nelas prosseguiu
sempre. Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente seguiu. (4)
E no seu livro O que é o Espiritismo o codificador explica, sumariamente:
“O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutri-
na filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre
nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que
dimanam dessas mesmas relações”.
Tem por divisa: “Fora da caridade não há salvação.”
O Espírito da Verdade adverte: “Espíritas, amai-vos, este o primeiro ensina-
mento; instruí-vos, eis o segundo.”
E conclui: “Podemos defini-
defini- lo as
as sim: o Espiritismo é uma ciência que trata da
natureza, origem e destino dos Espíri
Espíritos, bem como de suas relações com o mundo
corpo
corpo ral”.
ral” (6)
(*) Raciocínio que parte dos efeitos para as causas, dos factos para as leis gerais.
Forma de raciocínio em que procura, a partir da verificação de alguns casos particulares, formular uma
lei que explique todos os casos da mesma espécie.
(**) Raciocínio em que se parte da causa para o efeito, do princípio para as consequências, do geral para o
particular.
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RESUMO

HYDSVILLE
HYDSVILLE – As irmãs Fox – O ano de 1848

O marco histórico dos acontecimentos que motivaram o aparecimento do Es-


piritismo foi o episódio de Hydesville, aldeia do Condado de Wayne, no Estado de
Nova York, nos Estados Unidos da América do Norte, no ano de 1848. Ocorreram aí
manifestações estranhas de pancadas, ruídos, movimentos de objectos e utensílios,
sem causa visível, chamadas raps, na residência da família Fox. Essa família era for-
mada pelo pai, John Foz, mãe e três filhas, duas das quais moravam com o casal nes-
sa ocasião – Katherine (Katie ou Kate) de nove anos e Margareth de doze anos. Foi
idealizado um alfabeto de comunicação por pancadas e o estranho batedor contou a
sua história, informando que fora um vendedor ambulante de nome Charles B. Ros-
ma e que fora assassinado naquela casa pelo casal Bell, que o hospedara, para rou-
bar-lhe o dinheiro e a mercadoria; o seu corpo fora enterrado na adega. Era uma
prova da imortalidade e da comunicação dos espíritos. A família Fox era metodista e
supunham tratar-se do demónio (Mr. Splifoot – Sr. Pé de Bode). Formaram-se três
comissões sucessivas para estudar o caso, cada uma visando demonstrar o embuste
das meninas Fox, consideradas as responsáveis pelos fenómenos que ocorriam em
presença delas, mas, ao contrário, todas concluíram que o fenómeno era verídico.
Lucrétia Pulver, uma criada dos Bells, declarou ter visto o mascate e descreve-
o; disse que certa vez descendo à adega, o seu pé se enterrou num buraco e falou
disso ao seu patrão. O Sr. Bell disse que deviam ser ratos e apressadamente foi fazer
os reparos. Ela vira na mão dos patrões objectos da caixa do ambulante.
Cinquenta e seis anos mais tarde ruiu uma parede da casa e foi encontrado
um esqueleto, possivelmente do homem que produziu as batidas ouvidas pelas irmãs
Fox em 1848 e as mesmas estavam, portanto, eximidas de qualquer dúvida com res-
peito à sinceridade delas na descoberta da comunicação dos espíritos. O episódio de
Hydesville e as irmãs Fox passaram para o histórico do Espiritismo.

AS MESAS GIRANTES

Uma série progressiva de fenómenos deram origem à Doutrina Espírita. O


primeiro foi o do movimento de objectos diversos, conhecido vulgarmente pelo
nome de mesas girantes ou dança das mesas. Foi notado primeiramente na América
do Norte e propagou-se rapidamente por países da Europa, até à Turquia e outras
partes do mundo. Todavia, a História regista tais fenómenos em todas as épocas. A
princípio só encontrou incrédulos, mas múltiplas experiências provaram a sua reali-
dade. Passaram, então, a ser uma distracção dos salões; chamaram a atenção de
estudiosos e foram, por fim, pesquisados por sábios e cientistas.
O fenómeno das batidas ou pancadas, foi chamado raps ou echoes; o das
mesas girantes ou moventes, de table-moving pelos ingleses e de table-volante ou
table-tournante pelos franceses.
Em finais de 1850, os espíritos indicaram uma nova maneira de comunicação,
em que as pessoas se colocavam ao redor de uma mesa, com as mãos sobre ela;
levantando um dos pés, a mesa dava uma pancada toda a vez que, na recitação do

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O que é o Espiritismo Curso Básico de Espiritismo

alfabeto, fosse proferida a letra que servia para o espírito formar palavras. Além dis-
so, a mesa movia-se em todos os sentidos, girava sob os dedos dos experimentado-
res, elevava-se no ar e, às vezes, respondia até a perguntas feitas mentalmente.
Supôs-se, em princípio, que esses efeitos fossem explicados pela acção magnética, ou
eléctrica, ou ainda pela de um fluido qualquer. Todavia, esta explicação tornou-se
insuficiente, quando os factos demonstraram inteligência. E, para um efeito inteli-
gente, faz-se necessário uma causa inteligente. Foram as pesquisas e estudos feitos
por Allan Kardec e outros sábios que demonstraram ser a causa inteligente determi-
nada pelos espíritos, os quais podiam agir sobre a matéria, utilizando-se de um fluido
fornecido por pessoas dotadas de uma aptidão especial, chamadas médiuns – meios
ou intermediários entre os espíritos e os homens, gerando, assim, as manifestações
inteligentes.
Na evolução do processo, passou-
passou- se das mesas girantes para as cestas e
pranchetas, nas quais se se adaptava um lápis e os espíritos escreviam – psicografia
indirecta, até à psicografia directa, quando os médiuns passaram a segurar directa-
directa-
mente o lápis e a escrever por um impulso involuntário e quase febril.

ALLAN KARDEC – UM HOMEM DESTINADO A UMA MISSÃO


MISSÃO

Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em Lyon, na França, a 3 de Outubro de


1804. Fez os seus estudos iniciais nessa cidade e completou-os em Yverdun, na Suí-
ça, com o célebre educador Jean Henri Pestalozzi. Bacharelou-se em Ciências e Le-
tras. De volta a Paris, dedicou-se à educação, divulgando o método de Pestalozzi na
França. Produziu quase uma dezena de obras, que foram adoptadas pela Universida-
de de França. Fundou o Instituto Técnico; leccionou no Liceu Polimático e dava aulas
gratuitas de diversas ciências aos jovens, na sua residência. Tinha grande cultura e
robusta inteligência. Conhecia o alemão, o inglês, o italiano, o espanhol, o holandês,
além da língua materna. Foi membro de sociedades sábias da França, entre outras,
da Real Academia de Ciências Naturais. Casou-se em 1832 com Amélie Gabrièle
Boudet. Homem de bem, inteligência brilhante, nobre de sentimentos, elevação de
carácter, submetia os seus sentimentos à reflexão e ao poder da lógica e ao rigor do
método, do raciocínio e do bom senso. Filósofo, idealista, benfeitor. Dedicou-se ao
estudo dos fenómenos espíritas de 1855 até 1869, quando desencarnou a 31 de
Março pelo rompimento de um aneurisma. Produziu o maior acervo da Doutrina Es-
pírita, com o pseudónimo de Allan Kardec – nome que teve numa encarnação entre
os sacerdotes Druidas das Gálias, no tempo de Júlio César, segundo revelação dos
espíritos. Das suas obras espíritas fundamentais destacam-se: O Livro dos Espíritos
(1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O
Céu e o Inferno (1865), A Génese (1868). Escreveu outras obras subsidiárias e com-
plementares do Espiritismo; fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
(1858); criou e editou a Revista Espírita (1858).
No seu livro O que é o Espiritismo, Allan Kardec explica sumariamente: “O Es-
piritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica.
Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os
espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam
dessas mesmas relações”. E concluiu: “Podemos defini-lo assim: O Espiritismo é uma
ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como das suas
relações com o mundo corporal”.

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Curso Básico de Espiritismo O que é o Espiritismo

CONSOLADOR

As grandes verdades da Espiritualidade Superior, sempre que são reveladas a


uma certa população, sofrem de um efeito rotineiro: podemos chamar-lhe recuo evo-
lutivo.
Na verdade, segundo a lei do progresso, nenhuma conquista do espírito, uma
vez adquirida, se perde. Daí o itálico.
Quando Jesus no Evangelho fala do Consolador ou Paracleto dominava já muito me-
lhor do que nós, hoje, esse fenómeno do recuo evolutivo. Por isso disse que enviaria
mais tarde o Consolador, que lembraria os ensinos dele e adiantaria mais algumas
ideias que na época seria inútil referir.
O Espiritismo será o Consolador desde que o movimento espírita não se dis-
tancie da Doutrina Espírita, tal como Kardec a codificou.
Será Consolador se dispensar o rótulo e se traduzir em actos e palavras do quotidia-
no que façam jus a esse nome

O QUE É O ESPIRITISMO?

“O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutri-


na filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre
nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que
dimanam dessas mesmas relações”.
E conclui: “Podemos defini-
defini- lo assim: o Espiritismo é uma ciência que trata da
nature
nature za, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo
corpo
corpo ral”.
ral”

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O que é o Espiritismo Curso Básico de Espiritismo

BIBLIOGRAFIA

(1) Allan Kardec, Obras Póstumas, 2.ª Parte, Projecto 1868, 13.ª Edição, 1973, Federa-
ção Espírita Brasileira.
(2) André Moreil, Vida e Obra de Allan Kardec, 1.ª Parte, A Vida Espírita de Allan
Kardec, Cap. III, 1.ª Edição, tradução de Miguel Maillet, Edicel – S.P.
(3) Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, Allan Kardec (Pesquisa Bibliográfica e Ensaios de
Interpretação), VOL. II, Cap. I, 1980, Federação Espírita Brasileira.
(4) Allan Kardec, Obras Póstumas, 2.ª Parte, Previsões, A minha primeira iniciação ao
Espiritismo, 13.ª Edição, 1973, Federação Espírita Brasileira.
(5) Carlos Imbassahy, A Missão de Allan Kardec, 1.ª Parte, Edição da Federação Espírita
do Paraná, 1957.
(6) Allan Kardec, O Que É o Espiritismo, Introdução, 14.ª Edição, Federação Espírita
Brasileira.
(7) Arthur Conan Doyle, História do Espiritismo, Cap. IV, O Episódio de Hydesville,
Editora Pensamento, São Paulo, tradução de Júlio Abreu Filho, 1978.
(8) Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Introdução, Item III, 33.ª Edição, Federação
Espírita Brasileira.
(9) Zêus Wantuil, As Mesas Girantes e o Espiritismo, Caps. 1 e 2, 1.ª Edição, Federação
Espírita Brasileira.
(10) Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. II, 30.ª Edição, 1972, Federação
Espírita Brasileira.
(11) Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Caps. I e VI, 51.ª Edição, Federa-
ção Espírita Brasileira.

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CAPÍTULO 2

SUMÁRIO

2 DOUTRINA ESPÍRITA

2.1 INTRODUÇÃO
2.1.1 Empirismo, Dogmatismo, Cepticismo e
Agnosticismo

2.2 FILOSOFIA COM BASES CIENTÍFICAS E


CONSEQUÊNCIAS MORAIS
2.2.1 Ciência – Método científico
2.2.2 Filosofia – Novos campos para o
conhecimento
2.2.3 Moral – Aperfeiçoamento moral

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Curso Básico de Espiritismo Doutrina Espírita

2. DOUTRINA ESPÍRITA
2.1. INTRODUÇÃO

2.1.1. EMPIRISMO, DOGMATISMO, CEPTICISMO E


AGNOSTICISMO

Há vários conceitos que im-


porta aclarar, a fim de que a prática
espírita não se transtorne com eles e,
diante da dificuldade de estudar
mais profundamente estes fenóme-
nos, não possam tornar-se compa-
nhias indesejáveis, susceptíveis de
subverter, das maneiras mais confu-
sas, os objectivos de serviço e frater-
nidade à luz do Espiritismo.
Comecemos pelo empirismo.
empirismo
Segundo o dicionário, conjunto de
conhecimentos colhidos apenas na
prática e doutrina filosófica segundo
a qual todo o conhecimento huma-huma-
no deriva, directa ou indirectamente,
da experiência. Vejamos um exemplo
comum de uma constatação empíri-
ca: Enquanto escrevo olho pela jane-
la. Vejo o céu azul e o Sol. Ainda há
pouco ele estava mais alto. Porém, agora, passadas umas duas horas, ele está mais bai-
xo. A leitura empírica deste fenómeno aparente de deslocação do Sol é esta: O Sol
move-se no céu, e os meus olhos bem viram isso. A leitura científica deste mesmo fe-
nómeno seria feita mais ou menos assim: Porque a Terra rola no espaço e eu me encon-
tro, à vista desarmada, sem referencial fixo para determinar o movimento da Terra em
relação ao Sol, os meus sentidos enganam-me e fazem-me pensar erradamente que é o
Sol que se move, embora seja de facto a rotação da Terra que me causa esse lapso.
Exemplos de empirismo, e mais grave do que isso, na prática espírita: Não cruze
as pernas numa reunião espiritual, porque isso basta para quebrar a corrente fluídica; se
eu não for ao passe magnético não me sinto bem, etc.
Dogmatismo:
Dogmatismo Atitude de quem afirma com intransigência, de quem afirma sem
prova, nem crítica prévia;
prévia admite a possibilidade do conhecimento absoluto. É próprio
das religiões e é a moldura perfeita para qualquer exercício de fé cega. Responsável por
graves crimes contra a humanidade, por exemplo a Inquisição.
Quanto ao cepticismo,
cepticismo o dicionário define-o assim: Doutrina filosófica que defen-
defen-
de que o homem não é capaz de alcançaralcançar a certeza e descrença.
descrença
O agnosticismo é um sistema filosófico segundo o qual o espírito humano ainda
se encontra impossibilitado de alcançar, sobre certos fenómenos, um conhecimento
absoluto.
absoluto O agnóstico, sem provas, não acredita nem descrê - aguarda pela oportunida-
de de recolher dados que lhe permitam retirar conclusões racionais.

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Doutrina Espírita Curso Básico de Espiritismo

2.2. FILOSOFIA COM BASES CIENTÍFICAS E


CONSEQUÊNCIAS MORAIS.

Tendo aparecido numa época de emancipação e madureza intelectual, em que o


homem queria saber o porquê e o como de cada coisa, o Espiritismo surgiu, não somen-
te como as revelações anteriores, através de um ensino directo, mas também como fru-
to do trabalho da pesquisa e do livre exame, deixando ao homem o direito de submeter
tudo ao cadinho da razão. (1) (*)
Pelo método aplicado na observação dos factos, pelas respostas que oferece às
profundas indagações do espírito humano, com reflexos inevitáveis no modo de
proceder das criaturas, salienta-se que o Espiritismo é uma doutrina de tríplice aspecto:
científico, filosófico e moral.
No livro O que é o Espiritismo, Allan Kardec diz-nos que “o Espiritismo é, ao
mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prá-
tica, ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filoso-
fia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas rela-
ções.”(2)

2.2.1. CIÊNCIA – MÉTODO CIENTÍFICO

Os fenómenos mediúnicos, tão antigos


quanto o ser humano na face da Terra, sempre
chamaram a atenção para a realidade da vida
espiritual. Todavia, foram sempre revestidos pelo
carácter do maravilhoso e do sobrenatural, tão
ao gosto das religiões primitivas e das
tradicionais. De outras vezes, as manifestações
dos espíritos eram explicadas como obra
demoníaca, por princípios religiosos que
persistem até hoje, desencorajando, e mesmo
proibindo, através do poder religioso constituído,
toda a pesquisa ou estudo que visasse esclarecer
a causa dos referidos fenómenos. Foi necessário
que o tempo passasse, que o homem
amadurecesse e, como consequência, houvesse a
libertação do conhecimento, para que a explicação racional desses factos pudesse ser
encontrada.
No estudo dos fenómenos que concorreram para a elaboração do Espiritismo,
Allan Kardec, da mesma forma que nas ciências positivas, aplicou o método experimen-
tal (indutivo). Não criou nenhuma teoria preconcebida e nem apresentou a priori como
hipótese a existência e a intervenção dos espíritos, concluindo pela existência destes,
quando ela foi evidenciada pela observação dos factos. “Não foram os factos que vie-
ram a posteriori confirmar a teoria; a teoria é que veio subsequentemente explicar e
reunir os factos.” (1)
Como vimos na sessão anterior, foi a partir dos fenómenos das mesas girantes
que Allan Kardec iniciou a sua pesquisa, em busca da explicação para esse facto tão
singular e de tantos outros compreendidos na fenomenologia mediúnica.
(*) Os algarismos colocados entre parênteses correspondem, na bibliografia,
bibliografia no final dos resumos de cada
capítulo, aos mesmos algarismos com que estão assinaladas as fontes que serviram de base ao texto, ou
extraídas as citações.
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Curso Básico de Espiritismo Doutrina Espírita

Nascia, assim, uma nova ciência que viria romper os vínculos de quaisquer resí-
duos mágicos e superstição, demonstrando a existência do princípio espiritual, as pro-
priedades dos fluidos espirituais e a acção deles sobre a matéria. Demonstrou a existên-
cia do perispírito - ou corpo espiritual - assinalado por diversos pensadores em várias
épocas, reconhecendo nele o corpo fluídico da alma, mesmo depois da destruição do
corpo físico.
Esse invólucro é inseparável da alma, um dos elementos constitutivos do ser hu-
mano e o veículo de transmissão do pensamento. Serve de laço entre o espírito e a ma-
téria. (1)
A parte experimental do Espiritismo está contida em O Livro dos Médiuns, edita-
do em 1861, que, segundo Allan Kardec na apresentação da referida obra, “contém o
ensino especial dos espíritos sobre a teoria de todos os géneros de manifestações, os
meios de comunicação com o mundo invisível, o desenvolvimento da mediunidade, as
dificuldades e os escolhos que se podem encontrar na prática do Espiritismo”. (3)
Nessa obra, Kardec dá ênfase ao perispírito, elemento indispensável para a expli-
cação da mediunidade e faz, também, um relato da evolução dos processos de comuni-
cação com os espíritos, desde as mesas girantes até à psicografia, ou seja, a escrita atra-
vés da mão do médium.
O Espiritismo, enquanto ciência, tem o seu objecto e o seu método.
método
O seu objecto centra-se nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos.
É uma ciência de observação.
O método científico, como é ensinado nas escolas, decompõe-se em várias fases:
1. Observação;
2. Formulação de hipóteses explicativas do fenómeno;
3. Segue-se a fase em que se testa experimentalmente a hipótese tida como revela-
dora do mecanismo do fenómeno;
4. Enunciação da lei.
Quem estuda a história da codificação do Espiritismo, vai encontrar este percurso
a ser percorrido por Kardec. Evidentemente que este tipo de fenómenos não é tão sim-
ples de pesquisar como uma experiência química processada em laboratório. Há que
fazer adaptações. Os espíritos são pessoas sem corpo físico que têm a sua vontade pró-
pria (podem não estar dispostos a tentar as experiências que os experimentadores pre-
tendem fazer. A isto acresce a necessidade de se verificar todo um conjunto complexo
de circunstâncias físicas, psicológicas e outras, para que o fenómeno possa ocorrer.

2.2.2. FILOSOFIA – NOVOS CAMPOS PARA O CONHECIMENTO


CONHECIMENTO

A partir do século VI a.C., surgia na Grécia uma nova maneira de propor e solu-
cionar problemas, com a libertação das formas tradicionais de explicação da realidade,
baseadas em crenças religiosas e apresentadas através de mitos. Essa nova maneira con-
sistia no uso da razão para se descobrir a causa dos fenómenos.
Começavam a surgir teorias que davam origem a todos os tipos de indagações,
desde a origem do Universo, à natureza do homem, até às mais diversas actividades
humanas, conduta moral, etc.
Essa forma de pensar foi chamada de filosofia, que significa amor à sabedoria.
(4)
Dentre os vários filósofos gregos, destacam-se as figuras de Sócrates e do seu
discípulo Platão, considerados por Allan Kardec precursores da ideia cristã e do Espiri-
tismo.

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Na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ele faz um resumo da


doutrina desses filósofos, que admitiam a existência e a imortalidade do espírito, a reen-
carnação, a necessidade da prática do bem, etc. (5)
Não obstante o grande avanço da filosofia grega e das lições imorredouras do
próprio Cristo, as grandes questões da alma permaneceram por muito tempo encober-
tas pelo véu do mistério e do dogma. Na Idade Média, quando a religião predominava,
os valores da fé prevaleciam sobre a razão. Não que a humanidade deixasse de receber
a contribuição de pensadores lúcidos. Mas, quando não eram envolvidos pela sociedade
vigente, estes, muitas vezes, eram obrigados a silenciar. Alguns foram sacrificados em
holocausto à verdade, seja no campo da religião, da filosofia ou até da ciência.
Como consequência da libertação do pensamento nos tempos modernos, o ho-
mem passou a questionar os princípios filosóficos impostos de forma dogmática, consi-
derados incontestáveis e indiscutíveis. De um lado, o ateísmo científico; de outro, a ilu-
são religiosa. O avanço alcançado pelas ciências, especialmente a Química, a Física e a
Astronomia, o surgimento dos grandes pensadores nos séculos XVIII e XIX, concorreram
para mostrar a fragilidade dos princípios defendidos pela Teologia. Da crença cega salta-
va-se para a negação absoluta.
No campo materialista merece destaque o Positivismo, criado por Augusto
Compte, que chegou ao exagero de afirmar que a ciência aposentara o Pai da Natureza
e acabava de “reconduzir Deus às suas fronteiras, agradecendo os seus serviços provisó-
rios”. (6)
Foi nesse clima
que surgiu a Doutrina
Espírita, trazendo ao
mundo a explicação
lógica para os grandes
enigmas da vida, da
morte, da sobrevivência,
da dor, etc.
As bases da
Doutrina Espírita foram
estabelecidas por Allan
Kardec através da
análise e selecção das
comunicações dos
espíritos, usando os
critérios da universalidade e concordância do ensino dos espíritos, à luz da razão.
Como não poderia deixar de ser, o Espiritismo é uma doutrina de livre exame,
propugnando pela fé raciocinada. No capítulo XIX de O Evangelho Segundo o Espiritis-
mo, Kardec diz-nos que “Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em
todas as épocas da humanidade”. Nascia uma nova filosofia, estribada na ciência, cujas
consequências morais, do mais alto alcance, preparam a humanidade para uma nova
era, em que os valores espirituais preponderarão sobre os valores materiais.
A filosofia espírita está consubstanciada em O Livro dos Espíritos, obra apresen-
tada por Allan Kardec como filosofia espiritualista.
Este livro divide-se em quatro partes:
1. Das causas primárias;
2. Do mundo espírita ou mundo dos espíritos;
3. Das leis morais;
4. Das esperanças e das consolações.

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Essa obra enquadra-se numa das formas mais livres da tradição filosófica: o diá-
logo. Por conseguinte, todo o ensinamento é apresentado através de perguntas e res-
postas, seguindo-se, às vezes, alguns comentários do codificador (Allan Kardec).
Como todas as partes do livro serão estudadas em outras aulas deste curso bási-
co, deter-nos-emos aqui apenas a ressaltar alguns pontos da filosofia espírita, para dar-
mos dela uma visão de conjunto.
O Espiritismo mostra Deus, não pela imagem antropomórfica - feita à imagem e
semelhança do homem - que faziam dele as religiões. “Deus é a inteligência suprema,
causa primária de todas as coisas”. (8)
O Universo define-se pela tríade Deus, espírito e matéria. A matéria, porém, não
é somente o elemento palpável, havendo o fluido universal, intermediário entre o plano
espiritual e o plano material.
“Tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até ao arcanjo, que
também começou por ser átomo”, como vemos na resposta à questão n.º 540. Para
chegar à perfeição, terá que passar pelas provas da existência material, através do me-
canismo das reencarnações, ao qual se associa a lei de causa e efeito, que permite ao
espírito compensar a sua própria consciência dos erros passados, à medida que o seu
progresso lhe permite estabelecer a diferenciação entre o bem e o mal.
As condições de vida após a morte do corpo físico são estudadas com detalhes,
ressaltando desse estudo o processo natural de aprendizado do espírito, através da ex-
periência. A morte, simplesmente, não o liberta das paixões, dos vícios, da ignorância,
como também não define o seu futuro, como ensinava até então a Teologia. Cai por
terra a falsa concepção de inferno, céu e purgatório.
Podemos dizer que a Doutrina Espírita se resume nos seguintes princípios funda-
mentais:
1. Deus;
2. Espírito e a sua imortalidade;
3. Comunicabilidade dos espíritos;
4. Reencarnação;
5. Pluralidade dos mundos habitados;
6. Leis morais.

2.2.3. MORAL – APERFEIÇOAMENTO INTERIOR

O homem primitivo, não conseguindo a explicação


para os vários fenómenos naturais, entre os quais a chuva, o
relâmpago, o trovão, a germinação da semente, o nasci-
mento e a morte, atribuía-os a uma potência superior. Além
disso, os fenómenos mediúnicos, caracterizados pelas co-
municações de espíritos entre os povos primitivos, concorre-
ram para que essa potência ou essas potências superiores
fossem de alguma forma reverenciadas, quer pelo temor
que inspiravam, quer pelo carácter maravilhoso ou sobrena-
tural de que eram revestidos pelas concepções daquelas
mentes primitivas. Nasciam, assim, as primeiras formas de
adoração através dos mais diferentes cultos, que deram
origem a muitas religiões do passado. Nesses cultos, sobres-
saíam determinados indivíduos, alguns, quem sabe, porta-
dores de certas faculdades medianímicas, e que ganhavam
notoriedade. Eram os sacerdotes, que recebiam os mais

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Doutrina Espírita Curso Básico de Espiritismo

variados nomes nos diferentes povos em que se enquadravam.


O estudo de algumas religiões faz-nos concluir que muitas delas são instituições
bem caracterizadas pelo culto exterior, onde preponderam os sacerdotes como executo-
res desse culto e, entre eles, uma estrutura hierárquica. É uma característica remanes-
cente das religiões primitivas, que atingiu o próprio Cristianismo, desfigurando-o do seu
aspecto simples e informal, pela intromissão do politeísmo romano e de outras influên-
cias dos povos que constituíam o Império Romano.
O Espiritismo, não tendo formas exteriores de adoração, nem sacerdotes, nem
liturgia, não é entendido como religião, mas sim, de acordo com Kardec, como moral ou
ética (ciência do bem). Trata-se de uma opção pela clareza de linguagem, fundamental
para que não se criem confusões, que seriam lamentáveis e poderiam comprometer o
futuro.
Todavia, anote-se que há também quem pense que, tendo como exemplo o Cris-
tianismo no seu nascedouro, para uma doutrina ter carácter religioso não é necessária
nenhuma estrutura complicada, senão um conjunto de princípios capazes de transfor-
mar o homem para melhor. Exactamente como Allan Kardec defende em O Evangelho
Segundo o Espiritismo, como veremos daqui a pouco.
A Doutrina Espírita, como ciência e como filosofia, esclarece os grandes enigmas
da vida, dentro de princípios lógicos. Através dela ficamos a saber o que somos, de onde
viemos, que fazemos aqui, para onde iremos após a morte do corpo físico e como res-
pondemos pelo comportamento mau ou bom que aqui tivermos, desde já ou no futuro.
Por reconhecer essa gama de consequências morais que afectariam, por certo, os
seguidores do Espiritismo, e por inspiração de entidades superiores, Allan Kardec publi-
cou, em 1864, O Evangelho Segundo o Espiritismo, admitindo que a moral espírita é a
moral do evangelho, entendido este no seu sentido lógico e não desfigurado, quer pela
letra quer pelo dogma, aceitando-o nos pontos não controversos e que pudessem aten-
der à melhoria do comportamento humano.
Todas as religiões têm por base a existência de Deus e por fim o futuro do ho-
mem depois da morte. Esse futuro, que é de capital interesse para a criatura, acha-se
necessariamente ligado à existência do mundo invisível, pelo que o conhecimento desse
mundo constituiu, desde todos os tempos, objecto das suas pesquisas e preocupações.
A atenção do homem foi naturalmente atraída pelos fenómenos que tendem a provar a
existência daquele mundo e nenhum houve jamais tão concludente como o das mani-
festações dos espíritos por meio das quais os próprios habitantes de tal mundo revela-
ram as suas existências. Foi por isso que esses fenómenos se tornaram básicos para a
maior parte dos dogmas de todas as religiões. (7)

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RESUMO

CIÊNCIA – MÉTODO CIENTÍFICO

Os fenómenos mediúnicos, tão antigos quanto o homem na face da Terra, sem-


pre chamaram a atenção para a realidade da vida espiritual.
O Espiritismo, surgindo numa época de emancipação e madureza intelectual,
procedeu, na sua elaboração, da mesma forma que as ciências positivas, aplicando os
métodos experimental (que inclui o indutivo) e o dedutivo.
O Espiritismo experimental estuda as propriedades dos fluidos espirituais e de-
monstrou a existência do perispírito.
A parte experimental do Espiritismo está contida em O Livro dos Médiuns, edita-
do em Paris, França, em 1861.

FILOSOFIA – NOVOS CAMPOS PARA O CONHECIMENTO

As grandes questões da alma permaneceram por muito tempo encobertas pelo


véu do mistério e do dogma.
A libertação do conhecimento nos tempos modernos permitiu ao homem questi-
onar os princípios filosóficos dogmáticos, incapazes de resistirem ao mínimo critério de
lógica.
A filosofia espírita está consubstanciada em O Livro dos Espíritos, editado em
1857.
As bases da Doutrina Espírita foram estabelecidas por Allan Kardec através da
análise e selecção das comunicações dos espíritos, usando o critério da universalidade e
concordância do ensino dos espíritos à luz da razão.
O Espiritismo propugna pela fé raciocinada.
Os pontos fundamentais do Espiritismo são: Deus; o espírito e a sua imortalidade;
comunicabilidade dos espíritos; a reencarnação; pluralidade dos mundos habitados; leis
morais.

MORAL – APERFEIÇOAMENTO INTERIOR

O homem primitivo, não podendo explicar os fenómenos naturais, atribuía-os a


uma potência superior, que ele passou a reverenciar, surgindo as formas primitivas de
culto.
O Espiritismo não tem formas exteriores de adoração, nem sacerdotes, nem litur-
gia.
A parte moral do Espiritismo está contida em O Evangelho Segundo o Espiritis-
mo, editado em 1864.

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Doutrina Espírita Curso Básico de Espiritismo

BIBLIOGRAFIA

1. Allan Kardec, A Génese, Cap. I, n.º 12 a 14 e 39, 13.ª Edição, Federação Espírita Bra-
sileira
2. Allan Kardec, O que é o Espiritismo, Preâmbulo, 11.ª Edição, 1955, Federação Espírita
Brasileira
3. Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, Frontispício, 30.ª Edição, Federação Espírita Brasi-
leira
4. Enciclopédia do Estudante, Volume 2, Editora Abril Cultural
5. Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução, 5.ª Edição, Federação
Espírita Brasileira
6. Camille Flammarion, Deus e a Natureza, Introdução, Federação Espírita Brasileira
7. Allan Kardec, Obras Póstumas, 1.ª Parte, Manifestação dos Espíritos, 11.ª Edição, Fe-
deração Espírita Brasileira
8. Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Parte Primeira, Cap. I, 33.ª Edição, Federação
Espírita Brasileira

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CAPÍTULO 3

SUMÁRIO

3 O ESPIRITISMO E OUTRAS DOUTRINAS


ESPIRIRUALISTAS

3.1 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA


DOUTRINA ESPIRÍRITA
3.2 O CARÁCTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA
3.3 O ESPIRITISMO E OUTRAS DOUTRINAS
ESPIRITUALISTAS
3.3.1 Rosacruz
3.3.2 Teosofia
3.3.3 Cabala
3.3.4 Umbanda

3.4 O ESPIRITISMO E AS RELIGIÕES


3.4.1 Fase da magia
3.4.2 Fase religiosa
3.4.3 Espiritismo

3.5 O ESPIRITISMO É UMA RELIGIÃO?

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Curso Básico de Espiritismo O Espiritismo e outras doutrinas espiritualistas

3. O ESPIRITISMO E OUTRAS
DOUTRINAS ESPIRITUALIS
ESPIRITUALISTAS
3.1. PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA DOUTRINA
ESPÍRITA
Para que possa ser feita
uma comparação entre a Dou-
trina Espírita e as demais dou-
trinas espiritualistas, primeiro, é
necessário o perfeito conheci-
mento dos princípios básicos
que a caracterizam.
Já foram abordados, nos
primeiro e segundo cadernos,
diversos aspectos da Doutrina
Espírita. Agora, iremos relem-
brar alguns desses aspectos e
acrescentar outros directamente
relacionados com o assunto que
estamos a tratar.
O conhecimento do Espiritismo começa com um passeio ao longo da história
da humanidade e, nomeadamente, através dos seus precursores. Ao chegarmos a
Allan Kardec – o notável codificador da Doutrina Espírita, é imprescindível conhecer-
mos com alguma profundidade a sua vida, pois a sua personalidade reflecte-se e
identifica-se com a verdadeira e única essência do Espiritismo. As obras fundamentais
e que se podem considerar de leitura obrigatória para o espírita, já foram referencia-
das no primeiro caderno. A seguir, apenas as listamos:
O Livro dos Espíritos - 1857;
O Livro dos Médiuns - 1861;
O Evangelho Segundo o Espiritismo - 1864;
O Céu e o Inferno - 1865;
A Génese - 1868;
O Que é o Espiritismo - 1868;
Obras Póstumas - 1890 - Leymarie, biógrafo de Allan Kardec;
Revue Spirite (revista mensal) - Janeiro 1858 a Junho 1869.
O Espiritismo é uma filosofia com bases científicas (método experimental –
indutivo e dedutivo) e consequências ético-
ético- morais tem um objectivo bem definido –
estudar a natureza,
natureza, ori
origem e destino dos espíritos, bem como as suas relações com
o mundo cor cor póreo.
póreo
A vertente filosófica está particularmente expressa no Livro dos Espíritos, a c i-
entífica em O Livro dos Médiuns e a moral em O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Estas três vertentes, fundamentais e indissociáveis, são imprescindíveis para a abor-
dagem ou análise completa de qualquer assunto, à luz da Doutrina Espírita.
O desconhecimento e a ausência de estudo da Doutrina Espírita e dos seus
princípios básicos tem levado a que estes sejam assimilados empiricamente e pratica-

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O Espiritismo e outras doutrinas espiritualistas Curso Básico de Espiritismo

dos de improviso, criando sistemas próprios que cada vez mais se distanciam da sua
fonte original. Os verdadeiros inimigos da Doutrina Espírita, não são os seus críticos,
pois, por vezes, a publicidade negativa é a melhor. Aqueles que mais a prejudicam
são os que se identificam como espíritas ou como pertencentes a grupos ou associa-
ções espíritas, que de espiritismo têm muito pouco.
Esta falta de estudo e
conhecimento leva a confu-
sões mais frequentes do que
seria de desejar. São-no, por
exemplo: confundir espiritis-
mo com mediunismo; com
mediunidade; com religião;
com movimentos espíritas;
associar ao Espiritismo, como
suas, todas as práticas das
associações.
A verdadeira e única
Doutrina Espírita está na Co-
dificação Espírita. Os conhe-
cimentos que comporta são por demais profundos e extensos para serem adquiridos
de qualquer modo ou da noite para o dia, a não ser por um estudo perseverante, fei-
to no silêncio e no recolhimento.(2) (*)
Muito poderia ser dito sobre os princípios fundamentais da Doutrina Espírita, no
entanto poderão ser resumidos como se segue, tendo como base a Introdução (que
é por si só, um tratado de filosofia) de O Livro dos Espíritos, devendo, no entanto, o
espírita aprofundar cada conceito para melhor entendimento:
Deus é eterno, imutável, imaterial, único, omnipotente, soberanamente justo e
bom.
Criou o Universo que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e
imateriais.
Os seres materiais constituem o mundo invisível ou espiritual, isto é dos espíritos.
O mundo espiritual é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevi-
vente a tudo.
O mundo corporal é secundário; poderia deixar de existir, ou jamais ter existido,
sem que por isso se alterasse a essência do mundo espiritual.
Os espíritos revestem temporariamente um invólucro material perecível, cuja des-
truição pela morte lhes restitui a liberdade. Entre as diferentes espécies de seres cor-
póreos, Deus escolheu a espécie humana para a encarnação dos espíritos que chega-
ram a certo grau de desenvolvimento, dando-lhe superioridade moral e intelectual
sobre as outras.
A alma é um espírito encarnado, sendo o corpo apenas o seu envoltório.
Há no homem três coisas:
1.º O corpo ou ser material análogo aos animais e animado pelo mesmo prin-
cípio vital;
2.º A alma ou ser imaterial, espírito encarnado no corpo;
3.º O laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a maté-
ria e o espírito. Tem, assim, o homem duas naturezas;
1.º Pelo corpo, participa da natureza dos animais, cujos instintos lhe são co-
muns;

(*) Os algarismos colocados entre parênteses correspondem, na bibliografia,


bibliografia no final dos resumos de
cada capítulo, aos mesmos algarismos com que estão assinaladas as fontes que serviram de base ao
texto, ou extraídas as citações.

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2.º Pela alma, participa da natureza dos espíritos.


O laço ou perispírito, que prende ao corpo o espírito, é uma espécie de envol-
tório semimaterial.
A morte é a destruição do invólucro mais grosseiro. O espírito conserva o se-
gundo, que lhe constitui um corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, po-
rém que pode tornar-se acidentalmente visível e mesmo tangível, como sucede no
fenómeno das aparições.
O espírito não é, pois, um ser abstracto, indefinido, só possível de conceber-se
pelo pensamento. É um ser real, circunscrito, que, em certos casos, se torna apreciá-
vel pela vista, pelo ouvido e pelo tacto.
Os espíritos pertencem a
diferentes classes e não são iguais
nem em poder, nem em inteligência,
nem em saber, nem em moralidade.
Os da primeira ordem são os espíritos
superiores, que se distingem dos
outros pela sua perfeição, seus conhe-
cimentos, sua proximidade de Deus,
pela pureza dos seus sentimentos e
pelo seu amor ao bem: são os
espíritos puros. Os das outras classes
acham-se cada vez mais distanciados
dessa perfeição, mostrando-se, os das
categorias inferiores, na sua maioria,
eivados das nossas paixões: o ódio, a
inveja, o ciúme, o orgulho, etc..
Comprazem-se no mal. Há também,
entre os inferiores, os que não são
nem muito bons nem muito maus,
antes perturbadores e enredadores,
do que perversos. A malícia e as in-
consequências parecem ser o que
neles predomina. São os espíritos
estúrdios ou levianos.
Os espíritos não ocupam perpetuamente a mesma categoria. Todos se melho-
ram passando pelos diferentes graus da hierarquia espírita. Esta melhoria efectua-se
por meio da encarnação, que para uns é prova e/ou expiação, para outros missão. A
vida material é uma prova que lhes cumpre sofrer repetidamente, até que hajam
atingido a absoluta perfeição intelectual e moral.
Deixando o corpo, a alma volta ao mundo dos espíritos, donde saíra, para
passar por nova existência material, após um período de tempo mais ou menos lon-
go, durante o qual permanece em estado de espírito errante. Tendo o espírito que
passar por muitas encarnações, segue-se que todos nós já tivemos muitas existências
e que teremos ainda outras, mais ou menos aperfeiçoadas, quer na Terra, quer em
outros mundos.
A encarnação dos espíritos dá-se sempre na espécie humana; seria erro acre-
ditar-se que a alma ou espírito possa encarnar no corpo de um animal.
As diferentes existências corpóreas do espírito são sempre progressivas e
nunca regressivas; mas, a rapidez do seu progresso depende dos esforços que faça
para chegar à perfeição.

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As qualidades da alma são as do espírito que está encarnado em nós; assim o


homem de bem é a encarnação de um bom espírito, o homem perverso a de um es-
pírito impuro.
A alma possuía a sua individualidade antes de encarnar; conserva-a depois de
se separar do corpo.
Na sua volta ao mundo dos
espíritos, ela encontra todos
aqueles que conhecera na Terra, e
todas as suas existências anteriores
se lhe desenham na memória, com
a lembrança de todo o bem e de
todo o mal que fez.
O espírito encarnado acha-
se sob a influência da matéria; o
homem que vence esta influência,
pela elevação e depuração de sua
alma, aproxima-se dos bons es-
píritos, em cuja companhia um dia
estará. Aquele que se deixa
dominar pelas más paixões, e põe
todas as suas alegrias na satisfação
dos apetites grosseiros, aproxima-
se dos espíritos impuros, dando
preponderância à sua natureza
animal.
Os espíritos encarnados
habitam os diferentes globos do
Universo. Os não encarnados, ou
errantes, não ocupam uma região
determinada e circunscrita; estão por toda a parte, no espaço e ao nosso lado, ven-
do-nos e acotovelando-nos de contínuo. É toda uma população invisível, a mover-se
em torno de nós.
Os espíritos exercem incessante acção sobre o mundo moral e mesmo sobre o
mundo físico. Actuam sobre a matéria e sobre o pensamento. Constituem uma das
potências da Natureza, causa eficiente de uma multidão de fenómenos até então
inexplicados, ou mal explicados, que não encontram explicação racional senão no Es-
piritismo.
As relações dos espíritos com os homens são constantes. Os bons espíritos
atraem-nos para o bem, sustentam-nos nas provas da vida e ajudam-nos a suportá-las
com coragem e resignação. Os maus impelem-nos para o mal: para eles é um gozo
ver-nos sucumbir e assemelharmo-nos a eles.
As comunicações dos espíritos com os homens são ocultas ou ostensivas. As
ocultas verificam-se pela influência boa ou má que exercem sobre nós, à nossa reve-
lia. Cabe ao nosso juízo discernir as boas das más inspirações. As comunicações os-
tensivas dão-se por meio da escrita, da palavra ou de outras manifestações materiais,
quase sempre pelos médiuns que lhes servem de instrumentos.
Os espíritos manifestam-se espontaneamente, ou mediante evocação. Podem
evocar-se todos os espíritos: os que animaram homens obscuros, como os das perso-
nagens mais ilustres, seja qual for a época em que tenham vivido; os dos nossos pa-
rentes, amigos, ou inimigos, e obter-se deles, por comunicações escritas ou verbais,
conselhos, informações sobre a situação em que se encontram no além, sobre o que

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pensam a nosso respeito, assim como as revelações que lhes seja permitido fazer-
nos.
Os espíritos são atraídos na razão da simpatia que lhes inspire a natureza mo-
ral do meio que os evoca. Os espíritos superiores comprazem-se nas reuniões sérias,
onde predomina o amor ao bem e o desejo sincero, por parte dos que as compõem,
de se instruírem e melhorarem. A presença deles afasta os espíritos inferiores que,
inversamente, encontram livre acesso e podem obrar com toda a liberdade entre
pessoas frívolas ou impelidas, unicamente, pela curiosidade e onde quer que existam
maus instintos. Longe de se obterem bons conselhos, ou informações úteis, deles só
se devem esperar futilidades, mentiras, gracejos de mau gosto, ou mistificações, pois
muitas vezes tomam nomes venerados, a fim de melhor induzirem ao erro.
Distinguir os bons dos maus espíritos é extremamente fácil. Os espíritos supe-
riores usam constantemente linguagem digna, nobre, repassada da mais alta morali-
dade, isenta de qualquer paixão inferior; a mais pura sabedoria transparece-lhes dos
conselhos, que objectivam sempre o nosso melhoramento e o bem da humanidade.
A dos espíritos inferiores, ao contrário, é inconsequente, amiúde trivial e até grossei-
ra. Se, por vezes, dizem alguma coisa boa e verdadeira, muito mais vezes dizem fal-
sidades e absurdos, por malícia ou ignorância. Gozam da credulidade dos homens e
divertem-se à custa dos que os interrogam, lisonjeando-lhes a vaidade, alimentando-
lhes os desejos com falazes esperanças.
Em resumo, as comunicações sérias, na mais ampla acepção do termo, só são
dadas nos centros sérios, onde reine a íntima comunhão de pensamentos, tendo em
vista o bem.
A moral dos espíritos superiores resume-se, como a do Cristo, nesta máxima
evangélica: Fazer aos outros o que quereríamos que os outros nos fizessem, isto é,
fazer o bem e não o mal. Neste princípio, o homem encontra uma regra universal de
proceder, mesmo para as suas menores acções.
Ensinam-nos que o
egoísmo, o orgulho, a sensualidade
são paixões que nos aproximam da
natureza animal, prendendo-nos à
matéria; que o homem que, já nes-
te mundo, se desliga da matéria,
desprezando as futilidades mun-
danas e amando o próximo, se
avizinha da natureza espiritual; que
cada um deve tornar-se útil, de
acordo com as faculdades e os
meios que Deus lhe pôs nas mãos
para experimentá-lo; que o forte e
o poderoso devem amparo e
protecção ao fraco, porque
transgride a lei de Deus aquele que
abusa da força e do poder para
oprimir o seu semelhante.
Ensinam, finalmente, que,
no mundo dos espíritos, nada
podendo estar oculto, o hipócrita
será desmascarado e patenteadas
todas as suas torpezas; que a pre-
sença inevitável, e de todos os
instantes, daqueles para com quem

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procedemos mal, constitui um dos castigos que nos estão reservados; que ao estado
de inferioridade e superioridade dos espíritos correspondem penas e gozos desco-
nhecidos na Terra.
Mas ensinam, também, não haver faltas irremissíveis que a expiação não pos-
sa apagar. O homem encontra meios de consegui-lo nas diferentes existências que
lhe permitem avançar, conforme os seus desejos e esforços, na senda do progresso,
para a perfeição, que é o seu destino final. (2)

3.2. O CARÁRACTER DA REVELAÇÃO ESPÍ


ESPÍRITA
Revelar, do latim revelare, cuja raiz, velum, véu, significa literalmente sair de
sob o véu e, figuradamente, descobrir, dar a conhecer um coisa secreta, ou desco-
nhecida. Ser verdadeira é uma característica essencial.
No sentido especial da fé religiosa, a revelação refere-se mais particularmente
aos assuntos de ordem espiritual que o homem, no momento, não descobriu por
meio da inteligência, nem com o auxílio dos sentidos e cujo conhecimento lhe vem
de Deus, ou dos seus mensageiros, quer por meio da palavra directa, quer pela
inspiração.
Pelo grande impacto que provocaram, e pelo empurrão que deram na evolu-
ção da humanidade, assistimos, até aos nossos dias, a três grandes revelações: (3)

1.ª Revelação – MOISÉS

Profeta.
1. Revelou aos homens a existência
de um Deus único, soberano e ori-
entador de todas as coisas;
2. Promulgou a Lei do Sinai;
3. Lançou as bases da verdadeira fé;
imposição ao povo pela força (olho
por olho, dente por dente).
Ocorreu dezoito séculos antes de Cris-
to. (3)

2.ª Revelação – JESUS

Tomou da antiga lei (Sinai) o que é


eterno e divino e, rejeitando o que era transi-
tório e puramente disciplinar e de concepção
humana, acrescentou a revelação da vida futu-
ra, de que Moisés não falara.
Falou nas penas e recompensas que
aguardam o homem, depois da morte.
A sua doutrina funda-se no carácter
que ele atribui à Divindade. Revela um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e
misericordioso.
Fez do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição indecliná-
vel da salvação.
É uma doutrina essencialmente conselheira e aceite livremente. (3)

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3.ª Revelação – O ESPIRITIS


ESPIRITIS MO

Assenta nas palavras de Jesus.


Revela o mundo espiritual e suas relações com o mundo corpóreo.
Levanta o véu dos mistérios do nascimento e da morte; o espírita sabe donde
vem, porque está na Terra, porque sofre, para onde vai.
Vê por toda a parte a justiça de Deus; sabe que a alma progride incessante-
mente pela pluralidade das existências, até atingir o grau de perfeição que o aproxi-
ma de Deus.
O espírita toma conhecimento da pluralidade dos mundos habitados.
Descobre o livre arbítrio.
É demonstrada a existência do perispírito, bem como do princípio vital. São
estudadas as propriedades de vários outros fluidos.
Longe de negar ou destruir o Evangelho, vem, ao contrário, confirmar, expli-
car e desenvolver, pelas novas leis da Natureza, tudo quanto o Cristo disse e fez.
A revelação espírita tem duplo carácter: Divino e científico.

Divino

O seu aparecimento não resultou da iniciativa do homem, mas de cálculos Di-


vinos. A primeira revelação teve a sua personificação em Moisés; a segunda no Cris-
to; a terceira não a tem em indivíduo algum. As duas primeiras foram individuais; a
terceira colectiva.

Científico

Os seus ensinos não são privilégio de ninguém; são fruto do trabalho da


observação e da pesquisa. Têem por base o raciocínio, o exame e o livre arbítrio. Não
foram ditados completos, nem impostos à crença cega.

3.3. O ESPIRITISMO E OUTRAS DOUTRINAS


ESPIRITUALISTAS

Depois de termos efectuado um estudo sintético dos princípios básicos da


Doutrina Espírita e do carácter da Terceira Revelação, pode fazer-se uma compara-
ção com outras doutrinas espiritualistas e proceder à respectiva distinção.
Um dos aspectos que caracterizam bem a doutrina codificada por Allan Kar-
dec, precisamente porque estabelece a diferença entre o Espiritismo e as outras dou-
trinas espiritualistas, é a sua organização, a sua contextura de princípios. Sem se des-
viar, jamais, da sua invariável posição de respeito e tolerância em relação a todos os
cultos religiosos, o Espiritismo é, no entanto, um corpo de doutrina que não se aco-
moda ao sincretismo religioso, tenha este a forma que tiver, nem se despersonaliza
pela diluição de sua unidade doutrinária.
Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é es-
piritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos espíritos, ou nas su-
as comunicações com o mundo visível.
As doutrinas espiritualistas (teses opostas ao materialismo) têm dois pontos
chave em comum: a existência de Deus e a imortalidade da alma. A partir daí, sur-

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gem concepções e conceitos divergentes, consoante as suas interpretações, investi-


gações ou, simplesmente, os seus dogmas.
Assim, a título de curiosidade, já que o assunto é demasiado extenso para
que possa ser apresentado com minúcia num trabalho deste género, a seguir, pas-
samos a apresentar alguns pontos defendidos, ou utilizados, por algumas correntes
espiritualistas.

3.3.1. ROSACRUZ

É, ainda hoje, uma das mais antigas correntes orienta-


listas. São reencarnacionistas.
Entretanto, a Doutrina Rosacruz, que é uma doutrina
secreta e das mais recuadas na história do Espiritualismo, tem
os seus símbolos, as suas cerimónias, os seus conceitos, a sua
maneira, enfim, de explicar o infinito imanifesto, os sete pla-
nos da consciência, a alma do mundo, e assim por diante. Os
rosacrucianos têm uma série de aforismos pelos quais a sua
doutrina chega aos estudiosos sob forma subtil e velada.
Embora as ideias reencarnacionistas da Rosacruz con-
cordem com a interpretação espírita, o seu método é diferen-
te. A doutrina dos rosacruzes utiliza o simbolismo para expli-
car os problemas que dizem respeito à alma e à reencarna-
ção, enquanto o Espiritismo, aproximando-se mais da mentalidade ocidental, procura
sempre desvendar os mistérios no espírito humano. Os seus ensinos, por isso mesmo,
não têm simbolismo. Sem ideias preconcebidas, sem o bafejo de nenhuma ordem ou
fraternidade secreta, nem de nenhuma fé, o Espiritismo partiu da observação dos
factos. O método que mais se enquadraria às solicitações do raciocínio teria de ser,
forçosamente, o método indutivo, apropriado às exigências experimentais. (1)

3.3.2. TEOSOFIA

A Teosofia, que também é uma doutrina espiritua-


lista, tem pontos que se relacionam com os princípios da
Doutrina Espírita:
1. Deus;
2. Sobrevivência da alma depois da morte do
corpo físico;
3. Reencarnação;
4. Existência do corpo espiritual.
Para o perispírito, por exemplo, que é um elemen-
to já demonstrado objectivamente pela Doutrina Espírita,
a Teosofia tem uma classificação complexa, com divisões
entre corpo astral, corpo mental e corpo causal, em vir-
tude das quais a definição do corpo fluídico, ou corpo in-
termediário, toma feição muito diferente da que é apresentada no Espiritismo.
A explicação teosófica está muito bem fundamentada nas bases da sua dou-
trina, mas não se entrosa com a classificação espírita. O princípio é o mesmo tanto

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para o Espiritismo, como para a Teosofia e outras escolas: a existência de um corpo


que se interpõe entre o espírito e a matéria.
Naturalmente, a divisão do corpo fluídico em três partes - astral, mental e
causal - ou em corpo superior e corpo inferior tem valor na classificação teosófica,
mas não se enquadra no contexto espirita.
Segundo a concepção teosófica o homem tem seis corpos: físico, etérico, as-
tral, mental, causal e búdico. (1)
A Teosofia diverge fundamentalmente do Espiritismo também no que toca à
reencarnação.
O pensamento teosófico afirma: Existem diversos tipos de almas, cujas reen-
carnações obedecem à seguinte escala:
Os adeptos, que já não reencarnam mais;
As almas do caminho, aquelas que reencarnam imediatamente, sob a direc-
ção do seu mestre e renunciam ao seu período de vida no mundo celeste;
As almas cultivadas, precisamente as que reencarnam DUAS VEZES em cada
sub-raça e passam, em média, 700 anos no mundo celeste;
As almas simples, finalmente, aquelas que, não estando desenvolvidas, pas-
sam por diversas reencarnações em cada sub-raça, antes de passar à segunda. (1)

3.3.3. CABALA

A palavra cabala (kabala) significa simplesmente


doutrina recebida. Mais tarde, porém, dizem os enten-
didos, passou a significar a tradição oculta dos hebreus.
Segundo indicações ocultistas, Cabala é o con-
junto dos ensinos secretos que Enock transmitiu ao pa-
triarca Abraão. É o resumo das interpretações secretas
dos judeus.
Para os egípcios, no entanto, a Cabala seria da
autoria de Hermes Trimegisto, enquanto que para os
gregos o seu autor seria Cadmo.
A linguagem da Cabala, que é outra fonte das
doutrinas secretas, também não coincide com os ter-
mos espíritas. A concepção cabalística, em consonância
com o pensamento de outras escolas ocultistas, admite
a existência de espíritos elementais, isto é, uma catego-
ria diferente, porque é formada de espíritos que habitam os quatro elementos: fogo,
ar, terra e água. Os espíritos que habitam o fogo chamam-se salamandras; os que vi-
vem no ar, na água e na terra são designados respectivamente pelos nomes de silfos,
ninfas, gnomos ou pigmeus. Segundo a Cabala. “ainda depois da morte, o corpo,
como a forma mais material, fica no mundo Apiah, no túmulo, com o espírito dos
ossos, que constitui o corpo da ressurreição.” (1)
O espírito dos ossos, pode ser perturbado pela aproximação de outro morto,
que lhe é antipático, ou pela evocação necromática; por isso, Moisés proíbe a evoca-
ção dos mortos.
Concepção trinária da Cabala:
Nephesh (corpo);
Ruach (alma);
Neshamah (espirito, centelha divina).

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O corpo, pela explicação cabalística, compreende também o corpo fluídico, ou


perispírito, enquanto a alma e o espírito são elementos distintos. O Espiritismo simpli-
fica o problema, racionalmente, uma vez que o homem é um conjunto de corpo, pe-
rispírito e alma.
A Cabala diz: “cada mundo tem o seu Gan Eden (paraíso), seu Nahar Dinus
(rio de fogo para a purificação da alma) e seu Gei Hinam (geena, lugar de castigo in-
fernal).” (1)
A Cabala crê na reencarnação, mas admite uma teoria segundo a qual Deus
pode unir duas almas no mesmo corpo, para que as tarefas se completem, como no
caso das compensações entre um coxo e um cego.

3.3.4. UMBAN
UMBAN DA

Doutrina com culto material e rituais.


Tem pais de terreiro com vestimenta e prerro-
gativas equivalentes ao exercício de funções
sacerdotais. Tem imagens e altares, usando,
ainda, o sacrifício de animais, nos casos em
que as suas crenças permitem tal prática. Utili-
za sinais - pontos riscados. Tem uma nomen-
clatura muito diferente, ex.: chama cavalos aos
médiuns; emprega termos de várias procedên-
cias como, mironga, marafo, ogun, etc. (4 e 5)

3.4. O ESPIRITISMO E AS RELIGI


RELIGIÕES

A Antropologia concluiu, há muito, que a humanidade evoluiu da magia para


a religião. A espiritualização, segundo diversos autores que defendem este parecer,
obedece a três grandes fases: Magia, Religião e Espiritismo.

TEMPO
àààààààààààààààà
MAGIA...RELIGIÃO...ESPIRITISMO

3.4.1. FASE DA MAGIA

Religiões animais ou primitivas. Surgem nas relações tribais. O homem tem a


intuição do mundo espiritual; o sobrenatural atemoriza-o. As práticas religiosas têm
um forte carácter exterior. Sacrifícios violentos; apego aos objectos materiais e aos
objectos de culto. Teme-se mais a Deus do que propriamente se lhe nutre respeito.
Não compreendem a vida futura; vida essencialmente material.

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3.4.2. FASE RE
RELIGIOSA

O homem tem consciência da Divindade. Caminha-se do politeísmo, para o


monoteísmo; personaliza Deus – Antropomorfismo. Acredita em seres privilegiados.
Dá explicações dogmáticas para os mistérios. Forte presença de superstição. Predo-
minância das práticas exteriores. O misticismo esconde a espiritualidade. Impera a
ideia do bem.

3.4.3. ESPIRI
ESPIRI TISMO

A fase antropomórfica acabou. Substituem-se os dogmas pela experimentação. Morre o so-


brenatural. Práticas iminentemente interiores; não põe a espiritualidade ao seu serviço, mas abraçaa e
faz dela sua companheira de viagem.

3.5. ESPIRITISMO É UMA RELIGI


RELIGIÃO?

Religião é o culto
prestado às divindades e os
deveres dos crentes para com
elas. A ela estão associados
elementos essenciais, que não
fazem parte da Doutrina
Espírita, como os exemplos
abaixo indicados: o Espiritismo
não tem estrutura hierárquica,
nem clerical; não tem
sacerdotes, nem chefes
religiosos; não tem templos
sumptuosos; não adopta
cerimónias de espécie alguma;
não tem rituais; não usa vestes
especiais; não tem qualquer
simbologia; não utiliza orna-
mentações associadas a práticas
exteriores; não tem gestos de
reverência, sinais cabalísticos,
benzimentos; não tem talismãs,
defumadouros; não usa cânticos
nem danças cerimoniosas; não
utiliza bebidas, oferendas; não tem dogmas; não fazem parte do seu vocabulário as
palavras: misticismo, sobrenatural, milagre, entre outras.
Algumas razões pelas quais o Espiritismo vem sendo confundido como mais
uma religião: ignorância nesta matéria; desconhecimento doutrinário; hábitos pretéri-
tos, enraizados no ser; movimentos espíritas internacionais e locais, que adoptaram o
termo religião e que, por desconhecimento, são tidos como exemplo/modelo; a fon-
te moral sendo Jesus, é indevidamente associada às religiões.

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O Espiritismo não diz que fora dele não encontramos a salvação. Afirma, sim,
e faz dessa máxima sua divisa: FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO. Portanto,
não se encontra na Doutrina Espírita o proselitismo das religiões, a ânsia na obtenção
de adeptos. O respeito para com todas as práticas religiosas é uma característica do
espírita.
O Espírito da Verdade avança com outra máxima: ESPíRITAS AMAI-VOS; ESPí-
RITAS INSTRUÍ-VOS, sublinhando, desta forma, e mais uma vez, as fortes vertentes
morais e culturais da Doutrina Espírita.
Depois deste breve estudo, a Doutrina Espírita pode ser apreendida, na sua
verdadeira essência, como uma doutrina de aperfeiçoamento moral, ético - ciência
do bem, do comportamento e do procedimento, decorrente, ou consequência, da
sua filosofia de vida, solidamente apoiada na sua base científica.
Allan Kardec, o codificador, prevendo os rumos para que o Espiritismo tende-
ria no futuro, profere um discurso, um belo texto, na abertura da Sessão Anual Co-
memorativa dos Mortos, da Sociedade de Paris no dia 1 de Novembro de 1868. A
seguir e em jeito de conclusão desta matéria, transcrevemos partes desse elucidativo
e eloquente discurso:
“Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fun-
dadas na comunhão de pensamentos; é aí, com efeito, que esta deve exercer toda a
sua força, porque o objectivo deve ser o desprendimento do pensamento das garras
da matéria. Infelizmente, na sua maioria, afastam-na desse principio, à medida que
faziam da religião uma questão de forma.”

(...)

“O isolamento religioso, como o isolamento social, conduz o homem ao egoísmo.”

(...)

“Religião, é um laço que religa os homens numa comunidade de sentimentos, de


princípios e de crenças.” (...) “O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o
seu objectivo, é, pois, um laço essencialmente moral, que liga os corações, que iden-
tifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o facto de compromissos mate-
riais, que se rompem, à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos
olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer, entre os que
ele une, como consequência da comunidade de vistas e de sentimentos, a fraterni-
dade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. Se assim é, pergunta-
rão: o Espiritismo é uma religião?”

(...)

“Ora sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e
nos glorificamos por isso, porque é a doutrina que funda os elos da fraternidade e da
comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases
mais sólidas: as mesmas leis da natureza.”

(...)

“Porque, então, declaramos que o Espiritismo não é uma religião?”

(...)

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“Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e que, na
opinião geral, a palavra religião é inseparável de culto; desperta exclusivamente uma
ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião,
o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se quiser, dos princípios
absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de
cerimónias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos
contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública.”

(...)

“Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual
do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevita-
velmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: Doutrina filosófica e
moral...” (7)

Kardec, no livro O que é o Espiritismo define o Espiritismo assim: “O Espiritis-


mo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como
ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os espíritos;
como filosofia, ele compreende todas as consequências morais que decorrem dessas
relações.”
É evidente que o significado do vocábulo religião, na sua origem, serviria para
codificar a nossa ideia (mental) do Espiritismo. Mas, a linguagem constitui um movi-
mento vivo, que ao longo da história e dos tempos os diversos vocábulos vão adqui-
rindo uma carga, que lhe vão modificando o seu significado original. Assim, às religi-
ões, como atrás foi apresentado, estão agora, associadas variadas práticas e elemen-
tos essenciais, que não se encontram no Espiritismo, pelo que afasta qualquer hipó-
tese de o catalogarmos como mais uma religião.
O assunto tratado deverá servir, não para desunir os espíritas em discussões
inúteis ou debates injustificáveis, mas para situar o Espiritismo no contexto universal
das ideologias que vão interpretando a vida. (6)

RESUMO

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA DOUTRINA ESPÍRITA

O desconhecimento dos princípios doutrinários levam a distorções da prática


espírita, mesclando-a com condicionamentos e exterioridades.
A sua organização, a sua contextura de princípios, diferencia o Espiri-
tismo das demais doutrinas espiritualistas.
O Espiritismo é um corpo de doutrina que não se acomoda ao sincretismo re-
ligioso.
A verdadeira Doutrina Espírita está no ensino que os espíritos deram, que
deve ser alvo de estudos sérios, perseverantes, feitos no silêncio e no recolhimento.
Resumo dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita: Deus; criação do Universo
e dos seres; seres materiais do mundo corpóreo e seres imateriais do mundo espiri-
tual; o mundo

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normal primitivo é o mundo espiritual; os espíritos revestem-se temporariamente de


matéria; o homem possui: o corpo físico, a alma e o perispírito; os espíritos perten-
cem a diferentes classes, embora tenham sido criados simples e ignorantes; os espíri-
tos evoluem, não ocupam perpetuamente a mesma categoria; deixando o corpo, a
alma volta ao mundo dos espíritos, para passar, depois, por nova existência material,
após um lapso variável de tempo; os espíritos não reencarnam em corpos de animais,
não retrogradam; as diferentes existências corpóreas do espírito são sempre progres-
sivas; os espíritos encarnados habitam os diferentes globos do Universo; os espíritos
exercem, incessantemente, acção sobre o mundo moral e, mesmo, o mundo físico.

O CARÁCTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA

Revelação - do latim revelare, tirar de sob o véu, isto é, dar a conhecer.


A característica essencial da revelação é ser verdadeira.
Do ponto de vista religioso, é a revelação de coisas que o homem não pode
atingir pela inteligência, nem com o auxílio dos sentidos. A importante revelação da
época actual é a comunicação com os seres do mundo espiritual. O Espiritismo deu-
nos a conhecer o mundo invisível que nos cerca e o qual nem suspeitávamos. A reve-
lação espirita tem duplo carácter: é divina e é cientifica. É divina, porque é da iniciati-
va dos espíritos; é cientifica, pois a sua elaboração é fruto do trabalho do homem. O
objecto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. Todo
um mundo novo se revela, por ter o Espiritismo demonstrado a comunicação com os
seres do mundo espiritual, pois profunda modificação nos costumes, carácter, hábi-
tos, assim como na crença, se estabelecerá. O Espiritismo é considerado a terceira
das grandes revelações. A primeira foi Moisés, com o Deus único. A segunda foi o
Cristo, com a lei
do amor, a revelação da vida futura e das penas e recompensas que aguardam o
homem depois da morte. O Espiritismo, partindo das outras duas, revela a existência
do mundo espiritual; define os laços que unem a alma ao corpo; levanta, aos ho-
mens, o véu que ocultava os mistérios do nascimento e da morte; apresenta a justiça
de Deus, presidindo a todos os acontecimentos do mundo; estabelece a pluralidade
das existências; difunde o conhecimento dos fluidos espirituais e sua acção sobre a
matéria; demonstra a existência do perispírito; realiza todas as promessas do Cristo
com respeito ao Consolador anunciado.
O Espiritismo, apoiando-se nos factos, é essencialmente progressivo, como
todas as ciências de observação.

O ESPIRITISMO E AS OUTRAS DOUTRINAS ESPIRITUALIS


ESPIRITUALIS TAS

Há três pontos em que o Espiritismo e as doutrinas espiritualistas se encon-


tram: a imortalidade do espírito, a reencarnação, e a existência de Deus.
Os rosacrucianos são reencarnacionistas, porém, têm seus símbolos, cerimó-
nias, conceitos próprios, maneiras particulares de explicação dos pontos da sua dou-
trina, é uma doutrina hermética, secreta.
A Teosofia fala do corpo espiritual e define o homem com seis corpos. Divide
o corpo espiritual em três corpos diferentes. E, conforme o tipo de alma , variará o
tipo e o prazo para as reencarnações.

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A Cabala (doutrina recebida) teria provindo das orientações secretas que


Enock transmitiu a Abraão. Para outros seria originária de Hermes Trimegisto ou de
Cadmo.
A Cabala crê nos espíritos elementais e na ressurreição, quando o espírito dos
ossos, parte mais grosseira, aviventaria novamente o corpo.
A Cabala apresenta o homem trino na sua origem, com corpo, alma e espíri-
to.
Para a Cabala, existiriam em cada mundo: paraíso, rio de fogo, para a purifi-
cação das almas e geena, lugar de castigos infernais.
A Cabala admite a reencarnação, mas Deus teria condições de reencarnar du-
as almas num só corpo, para haver
uma complementação dos defeitos de uma com a outra.
Não existe baixo nem alto espiritismo; existe somente Espiritismo, doutrina
codificada por Allan Kardec.
Rituais, incensos, imagens e outros objectos materiais a título de crença, na
Doutrina Espírita correm, por conta da ignorância de quem as pratica, pois a doutrina
não acomoda tais práticas.
Geralmente, pessoas advindas de outras religiões, e que ainda continuem
presas a certas atracções do culto antigo, preferem usar defumadouros, velas, charu-
tos, bebidas, nas experiências mediúnicas. Todavia, isso fica por conta da responsabi-
lidade de quem assim procede, não sendo lícito introduzir tais objectos e práticas nas
sociedades espíritas.

ESPIRITISMO E UMBANDA

O Espiritismo tem alguns pontos de contacto com a Umbanda como, tem


com todas as doutrinas espiritualistas, mas os pontos de divergência demonstram,
claramente, tratarem-se de duas doutrinas completamente independentes. Somente
a ignorância, ou a má fé, poderão confundir uma com a outra.

O ESPIRITISMO É UMA RELIGI


RELIGI ÃO?

Religião é o culto prestado às divindades. A elas estão associados elementos


que não fazem parte do Espiritismo.
O Espiritismo não tem estrutura hierarquica, sacerdotes, cerimónias, ritu-
ais, vestes especiais, simbologia, ornamentações, práticas exteriores, gestos de
reverência, benzimentos, talismãs, defumadouros, dogmas. Não utiliza bebidas, nem
fazem parte do seu vocabulário palavras como misticismo, sobrenatural ou milagre.
Assim, o Espiritismo não pode ser confundido com religião porque, neste
momento, essa palavra é inseparável de toda a estrutura atrás referida. Ela desperta,
exclusivamente, uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem.

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BIBLIOGRAFIA

(1) Deolindo Amorim, O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas, Caps. I e III, 3.ª Edi-
ção, Livraria Ghignone Editora
(2) Allan Kardec, O Livros dos Espíritos, Introdução, 42.ª Edição (Popular), Federação
Espírita Brasileira
(3) Allan Kardec, A Génese, Cap. I, 19.ª Edição, Federação Espírita Brasileira
(4) Deolindo Amorim, Africanismo e Espiritismo, 1.ª Edição, 1947, Gráfica Mundo Espí-
rita
(5) Allan Kardec, Obras Póstumas, “Manifestação dos Espíritos” - VII - 16ª. Edição (Po-
pular) - Federação Espírita Brasileira
(6) Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, Allan Kardec
(7) Allan Kardec, Révue Spirite, Discurso de Abertura da Sessão Anual Comemorativa
dos Mortos, da Sociedade de Paris no dia 1 de Novembro de 1868

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CAPÍTULO 4

SUMÁRIO
4 DEUS, ESPÍRITO E MATÉRIA

4.1 DEUS
4.1.1 Provas da sua existência
4.1.2 Atributos da Divindade

4.2 ESPÍRITO E MATÉRIA


4.2.1 Princípio das coisas
4.2.2 Formação dos seres vivos
4.2.2.1 Princípio vital

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4. DEUS, ESPÍRITO E MATÉRIA


4.1. DEUS

4.1.1. PROVAS DA SUA EXISTÊNCIA

Sendo Deus a
prova primária de
todas as coisas, a
origem de tudo o que
existe, a base em que
repousa o edifício da
criação, é também o
ponto que importa
considerarmos antes
de tudo. (1) (*)
A prova da
existência de Deus
temo-la neste axioma:
Não há efeito sem
causa. Vemos
constantemente uma
imensidade de efeitos,
cuja causa não está
na humanidade, pois a humanidade é impotente para produzi-los, ou, mesmo, para
explicá-los. A causa está acima da humanidade. É a essa causa que se chama Deus,
Jeová, Alá, Fo-Hi, Grande Espírito, etc. (2)
Outro princípio igualmente elementar e que, de tão verdadeiro, passou a axi-
oma é o de que todo o efeito inteligente tem de decorrer de uma causa inteligente.
(1)
Os efeitos acima referidos, não se produzem ao acaso, fortuitamente e em
desordem. Desde a organização do mais pequenino insecto e da mais insignificante
semente, até à lei que rege os mundos que circulam no Espaço, tudo atesta uma
ideia directora, uma combinação, uma providência, uma solicitude que ultrapassam
todas as combinações humanas. A causa é, pois, soberanamente inteligente. (2)
A um pobre beduíno, ignorante, que orava muito a Deus, alguém perguntou
como poderia acreditar nele.
- Pelas suas obras, disse. E explicou:
- Não conhece a origem de uma jóia pelo sinete do joalheiro? Não sabe de quem é
uma carta, pela letra do envelope? Não afirma que um camelo e não um cão
passou pela estrada, olhando simplesmente o rastro deixado pelo animal? Assim,
também, eu sei que Deus existe pelas suas obras.
- Como. Explique melhor.
- É muito fácil. As estrelas do céu, não são obra dos homens, que não poderiam tê-
las colocado lá. Logo, só podem ser obra de Deus e, portanto, Ele existe. (3)
(*) Os algarismos colocados entre parênteses correspondem, na bibliografia,
bibliografia no final dos resumos de
cada capítulo, aos mesmos algarismos com que estão assinaladas as fontes que serviram de base ao
texto, ou extraídas as citações.

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Com respeito ao conceito de Deus segundo o Espiritismo, sabendo-se que limitar


Deus a uma definição é impossível, a Doutrina Espírita procura partir de dados
racionais, para não cair no terreno das ideias imaginárias e místicas, que tornam
ininteligíveis os princípios e as causas. Daí, a importância de estudarmos os atri-
butos da Divindade, como adiante veremos, a fim de compreendermos racional-
mente o assunto.
Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, na primeira pergunta, propõe uma ques-
tão aos espíritos sobre Deus, de uma forma lógica; não usa a forma QUEM É DEUS?
que daria um sentido de personificação, uma ideia antropomórfica. Mas, ele busca a
natureza íntima, a essência das coisas, formulando a proposição desta forma – “QUE
É DEUS?”. Ao que os espíritos sabiamente respondem:
“DEUS É A INTELIGÊNCIA SUPREMA, CAUSA PRIMÁRIA DE TODAS AS COISAS”.
Achando-nos numa região habitada exclusivamente por selvagens, se desco-
brirmos uma estátua digna de Fídias, não hesitaremos em dizer que, sendo incapa-
zes de tê-la feito os selvagens, ela é obra de uma inteligência superior à destes.
Pois bem, lançando o olhar em torno de si, sobre as obras da Natureza, reconhece o
observador não haver nenhuma que não ultrapasse os limites da mais portentosa
inteligência humana. Ora, se o homem não as pode produzir, elas são produto de
uma inteligência superior à humanidade, a menos que se sustente que há efeitos
sem causa.
A isto opõem alguns o
seguinte raciocínio: as obras
ditas da Natureza são
produzidas por forças materiais
que actuam mecanicamente,
em virtude das leis de atracção
e repulsão; as moléculas dos
corpos inertes agregam-se e
desagregam-se sob o império
dessas leis. As plantas nascem,
brotam, crescem e multiplicam-
se sempre da mesma maneira,
cada uma na sua espécie, por
efeito daquelas mesmas leis;
cada indivíduo assemelha-se ao
que lhe deu origem; o
crescimento, a floração, a fru-
tificação, a coloração acham-se
subordinados a causas
materiais, tais como a electri-
cidade, o calor, a luz, a
humidade, etc. O mesmo se
dá com os animais. Os astros
formam-se pela atracção
molecular e movem-se
perpetuamente nas suas órbi-
tas, por efeito da gravitação.
Essa regularidade mecânica
no emprego das forças naturais
não acusa a acção de qualquer
inteligência livre. O homem
movimenta o braço quando

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quer e como quer; aquele, porém, que o movimentasse no mesmo sentido, desde o
nascimento até à morte, seria um autómato. Ora, as forças orgânicas da Natureza
são puramente automáticas.
Tudo isso é verdade; mas, essas forças são efeitos que hão-de ter uma causa
e ninguém pretende que elas constituam a Divindade. Elas são materiais e mecâni-
cas; não são, em si mesmas, inteligentes, também isso é verdade; mas, são postas
em acção, distribuídas,
apropriadas às
necessidades de cada
coisa por uma inteligência
que não é a dos homens.
A aplicação útil dessas
forças é um efeito inteli-
gente, que denota uma
causa inteligente.
A existência do
relógio atesta a existência
do relojoeiro; a
engenhosidade do
mecanismo atesta-lhe a
inteligência e o saber.
Quando um relógio nos
dá o momento preciso, a
indicação de que
necessitamos, já nos
ocorreu dizer: aí está um
relógio bem inteligente?
Outro tanto ocorre
com o mecanismo do
Universo. Deus não se mostra, mas revela-se pela suas obras.
A existência de Deus é, pois, uma realidade comprovada, não só pela revela-
ção, como também pela evidência dos factos. Os povos selvagens nenhuma revela-
ção tiveram; entretanto, crêem instintivamente na existência de um poder sobrehu-
mano. (1)
O sentimento instintivo que todos os homens têm da existência de Deus é,
também, uma prova de que Ele existe e uma consequência do princípio: não há efei-
to sem causa. Esse sentimento não é fruto de uma educação, resultado de ideias
adquiridas, pois ele é universal; encontra-se mesmo entre os selvagens, a quem ne-
nhum ensino foi ministrado a esse respeito.
Questionam alguns se a causa primária da formação das coisas não estaria
nas propriedades íntimas da matéria. Porém, é sempre indispensável uma causa pri-
mária. Atribuí-la a essas propriedades, seria tomar o efeito pela causa, já que tais
propriedades são também um efeito.
Alguns atribuem a formação primária a uma combinação fortuita da matéria,
isto é, ao acaso. Isto constitui um absurdo, uma insensatez, pois o acaso é cego e
não pode produzir os efeitos que a inteligência produz. Um acaso inteligente já não
seria um acaso. E, demais, o que é o acaso? Nada. O nada não existe.
Há um provérbio que diz: pela obra se conhece o autor! Vede a obra e procu-
rai o autor. O homem orgulhoso nada admite acima de si. Procurando a obra primá-
ria do Universo, reconhece-se no seu autor uma inteligência suprema, uma inteligên-
cia superior à humanidade. Seja qual for o nome que lhe dêem, essa inteligência su-
perior é a causa primária de todas as coisas. Para crer –se em Deus, basta lançar o

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olhar para as obras da Criação. O Universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da
existência de Deus é negar que todo o efeito tem uma causa e adiantar que o nada
pode fazer alguma coisa. (4)
Se Deus está em toda a parte, porque não o vemos? Vê-lo-emos quando dei-
xarmos a Terra? Tais as perguntas que se formulam todos os dias.
A primeira é fácil responder. Por serem limitadas as percepções dos nossos
órgãos visuais, que os tornam inaptos à visão de certas coisas, mesmo materiais.
Os nossos órgãos materiais não podem perceber as coisas de essência espiri-
tual. Unicamente com a visão espiritual é que podemos ver os espíritos e as coisas do
mundo imaterial. Somente a nossa alma, portanto, pode ter a percepção de Deus.
Dar-se-á que ela o veja logo após a morte?
As comunicações com os espíritos dizem-nos que a visão de Deus constitui
privilégio das mais purificadas almas e que bem poucas, ao deixarem o envoltório
terrestre, se encontram no grau de desmaterialização necessária a tal efeito.
Uma pessoa que se ache no fundo de um vale, envolvida por densa bruma,
não vê o Sol. Entretanto, pela luz difusa, percebe que está sol. Se começa a subir a
montanha, à medida que for ascendendo, o nevoeiro irá tornar-se mais claro, a luz
cada vez mais viva. Contudo, ainda não verá o Sol. Só depois de se achar elevada
acima da camada brumosa, e chegado a um ponto onde o ar esteja perfeitamente
límpido, ela contempla-o em todo o seu esplendor.
O mesmo se dá com a alma. O envoltório perispirítico, embora nos seja, em
condições normais, invisível e impalpável é, em relação a ela, verdadeira matéria,
ainda demasiado grosseira para certas percepções. Ele, porém, espiritualiza-se, à me-
dida que a alma se eleva em
moralidade. As imperfeições da
alma são como camadas
nevoentas que lhe obscurecem
a visão.
Nenhum homem, por
conseguinte, pode ver Deus
com os olhos da carne. Se essa
graça fosse concedida a alguns,
só seria no estado de êxtase.
Tal privilégio, aliás, pertenceria
exclusivamente a almas de
eleição, encarnadas em missão,
e não em expiação. Mas, como
os espíritos da mais elevada
categoria têm brilho ofuscante,
pode acontecer que espíritos
menos elevados, encarnados ou
desencarnados, maravilhados
com o esplendor que os cerca,
suponham estar a ver o próprio
Deus. (1)
Do livro ONDE ESTÁ
DEUS?, do poeta espírita José
Soares Cardoso, extraímos o
seguinte poema, que reflecte a
percepção do poeta no sentir a
Divindade.

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ONDE ESTÁ DEUS?

- Onde está Deus? Pergunta o cientista,


Ninguém O viu jamais. Quem Ele é?
Responde às pressas, o materialista:
- Deus é somente uma invenção da fé!

O pensador dirá, sensatamente:


- Não vejo Deus, mas sinto que Ele existe!
A natureza mostra claramente
Em que o poder do Criador consiste.

Mas o poeta dirá, com segurança


De quem afirma porque tem certeza:
- Eu vejo Deus no riso da criança,
No céu, no mar, na luz da natureza!

Contemplo Deus brilhando nas estrelas


No olhar das mães fitando os filhos seus,
Nas noites de luar claras e belas,
Que em tudo pulsa o coração de Deus!

Eu vejo Deus nas flores e nos prados,


Nos astros a rolar pelo Infinito,
Escuto Deus na voz dos namorados,
E sinto Deus na lágrima do aflito!

Percebo Deus na frase que perdoa,


Contemplo Deus na mão que acaricia
Escuto Deus na criatura boa
E sinto Deus na paz e na alegria!

Eu vejo Deus no médico salvando,


Pressinto Deus na dor que nos irmana.
Descubro Deus no sábio procurando
Compreender a natureza humana!

Eu vejo Deus no gesto da bondade,


Escuto Deus nos cânticos do crente.
Percebo Deus no sol, na liberdade
E vejo Deus na planta e na semente!

Eu vejo Deus, enfim, por toda parte.


Que tudo fala dos poderes seus,
Descubro Deus nas expressões da Arte,
No amor dos homens também sinto Deus!

Mas onde eu sinto Deus com mais beleza,


Na sua mais sublime vibração,
Não é no coração da natureza,
É dentro do meu próprio coração. (5)

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4.1.2. ATRIBUTOS DA DIVINDADE

Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Para compreendê-


Lo, ainda nos falta o sentido próprio, que só se adquire por meio da completa
depuração do espírito.
Mas, se não pode penetrar na essência de Deus, o homem, desde que aceite
como premissa a sua existência, pode, pelo raciocínio, chegar a conhecer-Lhe os atri-
butos necessários, porque, vendo o que Ele não pode ser, sem deixar de ser Deus,
deduz, daí, o que deve ser.
Sem o
conhecimento dos
atributos de Deus,
seria impossível
compreender-se a
obra da criação. É
esse o ponto de
partida de todas as
crenças religiosas e
é por não se terem
reportado a isso,
como o farol capaz
de as orientar, que
a maioria das
religiões errou nos
seus dogmas. As
que não Lhe
atribuíram
omnipotência,
imaginaram muitos
deuses; as que não Lhe atribuíram soberana bondade, fizeram dele um deus cioso,
colérico, parcial e vingativo. (1)
A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender a na-
tureza íntima de Deus. Na infância da humanidade, o homem confunde-O, muitas
vezes com a criatura, cujas imperfeições Lhe atribui; mas, à medida que se desenvol-
ve nele o senso moral, o seu pensamento penetra melhor no âmago das coisas; en-
tão, faz ideia mais justa da Divindade e, ainda que sempre incompleta, mais confor-
me à sã razão.
Se não pode compreender a natureza íntima de Deus, o homem pode formar
ideia de algumas das suas perfeições e compreendê-las melhor à proporção que se
eleva acima da matéria, entrevendo-as pelo pensamento.
Podemos, assim, dizer que Deus é a suprema e soberana inteligência, imutá-
vel, imaterial, único, omnipotente, soberanamente justo e bom. Tudo isto, por certo,
não expressa exactamente todas as capacidades da Divindade, pois há coisas acima
do homem mais inteligente, as quais a linguagem humana, restrita às ideias e sensa-
ções, não tem meios de exprimir. Todavia, a razão diz que Deus deve possuir em
grau supremo essas perfeições, porquanto, se uma lhe faltasse, ou não fosse infinita,
já Ele não seria superior a tudo; não seria, por conseguinte, Deus. Para estar acima
de todas as coisas, Deus tem que se achar isento de qualquer vicissitude e de qual-
quer das imperfeições que a imaginação possa conceber. (4)
Vejamos agora cada um desses atributos de Deus, conforme o conceito espíri-
ta.

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Deus é a suprema e soberana inteli


inteli gência

A inteligência do homem é limitada, pois não pode fazer, nem compreender


tudo o que existe. A de Deus, abrangendo o infinito, tem que ser infinita. Se a supu-
séssemos limitada num ponto qualquer, poderíamos conceber outro ser mais inteli-
gente, capaz de compreender e fazer o que o primeiro não faria, e assim por diante,
até ao infinito.

Deus é eterno

Isto é, não teve começo e não terá fim. Se tivesse tido princípio, teria saído do
nada. Ora, sendo o nada nenhuma coisa, coisa nenhuma pode produzir. Ou, então,
teria sido criado por outro ser anterior e, nesse caso, este ser é que seria Deus. Se lhe
supuséssemos um começo ou fim, poderíamos conceber uma entidade existente an-
tes dele e capaz de lhe sobreviver, e assim por diante, ao infinito.

Deus é infinitamente
perfeito

É impossível
conceber Deus sem o
infinito das perfeições, sem
o qual não seria Deus, pois
sempre se poderia con-
ceber um ser que possuisse
o que lhe faltasse. Para que
nenhum ser possa
ultrapassá-lo, faz-se mister
que ele seja infinito em
tudo.

Deus é imutável

Se estivesse sujeito
a mudanças, nenhuma
estabilidade teriam as leis
que regem o Universo.

Deus é imaterial

Isto é, a Sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria. De outro


modo, não seria imutável, pois estaria sujeito às transformações da matéria. Deus
carece de forma apreciável pelos nossos sentidos, sem a qual seria matéria.

Deus é único

A unicidade de Deus é consequência do facto de serem infinitas as suas per-


feições. Não poderia existir outro Deus, salvo sob a condição de ser igualmente infi-
nito em todas as coisas, visto que, se houvesse entre eles a mais ligeira diferença, um
seria inferior ao outro, subordinado ao poder desse outro e, então, não seria Deus.
(1)

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Deus é omnipotente

É omnipotente porque é único. Se não dispusesse do soberano poder, algo


haveria mais poderoso ou tão poderoso como ele, que então não teria feito todas as
coisas. As que não tivesse feito, seriam obras de outro deus. (4)

Deus é soberanamente justo e bom

A providencial sabedoria das leis divinas revela-se nas mais pequeninas coisas,
como nas maiores, não permitindo essa sabedoria que se duvide da sua justiça, nem
da sua bondade.
O facto de uma qualidade ser infinita , exclui a possibilidade de uma qualida-
de contrária, porque esta a apoucaria ou anularia. Um ser infinitamente bom não
poderia conter a mais insignificante parcela de malignidade, nem o ser infinitamente
mau conter a mais insignificante parcela de bondade, do mesmo modo que um ob-
jecto não pode ser um negro absoluto, com a mais ligeira nuança de branco, nem de
um branco absoluto com a mais pequena mancha preta.
Deus, pois, não poderia ser
simultaneamente mau e bom,
porque, então, não possuindo
qualquer dessas duas qualida-
des no grau supremo, não seria
Deus. Ele não poderia, por
conseguinte, deixar de ser
infinitamente bom ou
infinitamente mau. Ora, como
as Suas obras dão testemunho
da Sua sabedoria, da Sua bon-
dade e da Sua solicitude,
concluir-se-á que, não podendo
ser ao mesmo tempo bom e
mau sem deixar de ser Deus,
tem de ser necessariamente
infinitamente bom.
A soberana bondade
implica a soberana justiça,
porque se Ele procedesse in-
justamente ou com parcialidade
numa só circunstância que fosse, ou em relação a uma só das Suas criaturas, já não
seria soberanamente justo e, em consequência, já não seria soberanamente bom.
Deus é, pois, a inteligência suprema e soberana, é único, eterno, imutável,
imaterial, omnipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições,
e não pode ser diverso disso.
Tal o eixo sobre o qual repousa o edifício universal. É esse o farol cujos raios
se estendem sobre o Universo inteiro, única luz capaz de guiar o homem na pesquisa
da verdade.
Tal, também, o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas e religiosas.
Para apreciá-las, o homem dispõe da medida rigorosamente exacta nos atributos de
Deus e pode afirmar a si mesmo que toda a teoria, todo o princípio, todo o dogma,
toda a crença, toda a prática que estiver em contradição com um só que seja desses
atributos, que tenda, não só a anulá-lo, mas simplesmente a diminuí-lo, não pode
estar com a verdade.

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Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, só é de verdadeiro o que


não se afaste, nem um til, das qualidades essenciais da Divindade. A religião perfeita
será aquela cujos artigos de fé nenhum esteja em oposição àquelas qualidades; aque-
las cujos dogmas suportem todos a prova dessa verificação sem nada sofrerem. (1)

4.2. ESPÍRITO E MATÉRIA

No desdobramento da questão n.º


22 de O Livro dos Espíritos, a definição de
matéria está exposta assim:
“A matéria é o laço que prende o
espírito; é o instrumento de que este se
serve e sobre o qual, ao mesmo tempo,
exerce sua acção.”
A esta definição Allan Kardec faz o
seguinte comentário:
“Deste ponto de vista, pode dizer-
se que a matéria é o agente, o intermediá-
rio com o auxílio do qual e sobre o qual
atua o espírito.”
À pergunta: “QueQue é o Espírito?”
Espírito?
Allan Kardec obteve dos espíritos a
seguinte resposta: “OO princípio inteli
inteligente
do Universo.”
Universo
E, quanto à natureza íntima do
espírito, esclareceram: “Não é fácil analisar
o espírito com a vossa linguagem. Para vós
ele nada é, por não ser palpável. Para nós,
entretanto, é alguma coisa.”
A inteligência é um atributo
essencial do espírito e uma e outro confun-
dem-se num princípio comum, de tal sorte
que podem ser considerados pelos
encarnados a mesma coisa. (4)
O espírito independe da matéria e são distintos um do outro, mas, a união do
espírito e da matéria é necessária para intelectualizar a matéria.
O homem não possui uma organização apta a perceber o espírito sem a ma-
téria, porque os seus sentidos não são apropriados para isto. Daí, para ele a união do
espírito e da matéria ser igualmente necessária para a manifestação do espírito. En-
tende-se aqui por espírito o princípio da inteligência, abstracção feita das individuali-
dades que por esse nome se designam.
Todavia, pode conceber-se o espírito sem a matéria e a matéria sem o espíri-
to, pelo pensamento.
Há, pois, dois elementos gerais do Universo: a matéria e o espírito, e acima de
tudo Deus, o Criador, o Pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o
princípio de tudo o que existe, a trindade universal.
Mas, ao elemento material, tem que se juntar o fluido universal,
universal que desem-
penha o papel de intermediário entre o espírito e a matéria propriamente dita, por
demais grosseira para que o espírito possa exercer a sua acção sobre ela. Embora, de
certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo como o elemento material, ele distingue-

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se deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente maté-


ria, não haveria razão para que o espírito não o fosse. Está colocado entre o espírito
e a matéria; é fluído, como a matéria é matéria, e susceptível, pelas suas inúmeras
combinações com esta e, sob a acção do espírito, de produzir a infinita variedade das
coisas que apenas conhecemos uma parte mínima. Esse fluído universal, ou primitivo,
ou elementar, sendo o agente que o espírito utiliza, é o princípio sem o qual a ma-
téria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a
gravidade lhe dá. (4)
A matéria, como a entendemos, é ponderável, porém, considerada como flui-
do universal é tão etérea e subtil que é imponderável, apesar de ser o princípio da
matéria pesada. Segue-se, daí, que a gravidade é uma propriedade relativa. Fora das
esferas de atracção dos mundos, não há peso, do mesmo modo que não há alto
nem baixo.
Todos os corpos são formados de um só elemento primitivo, que se modifica
para dar origem aos corpos chamados simples. (6)
É este elemento primitivo que determina as diversas propriedades que a ma-
téria apresenta, devido às modificações que as suas moléculas elementares sofrem,
por efeito da sua união, em certas circunstâncias. Esta matéria elementar é susceptí-
vel de experimentar todas as modificações e adquirir todas as propriedades, daí po-
der dizer-se que tudo está em tudo. Dessa forma, o oxigénio, o hidrogénio, o azoto,
o carbono e todos os corpos que consideramos simples são meras modificações de
uma substância primitiva. Na impossibilidade que ainda nos encontramos de remon-
tar, a não ser pelo pensamento, a esta matéria primária, esses corpos são para nós
verdadeiros elementos e podemos, sem maiores consequências, tê-los como tais, até
nova ordem.
O Espaço Universal é ilimitado e infinito. Todavia, o homem não poderá com-
preendê-lo nesta pequenina esfera terrena. Por mais distante que a imaginação colo-
que o limite do Espaço, a razão diz que além deste limite há alguma coisa e, assim,
gradativamente até ao infinito, porque, embora essa alguma coisa fosse o vazio
absoluto, ainda seria espaço. E os espíritos afirmam que no Universo não há o vácuo
absoluto; o que nos parece vazio está ocupado por matéria que escapa aos sentidos
e aos instrumentos humanos. (4)
“Quer a matéria exista desde toda a eternidade, como Deus, quer tenha sido
criada numa época qualquer, é evidente, segundo o que se passa quotidianamente
às nossas vistas, que são temporárias as transformações da matéria e que dessas
transformações resultam diferentes corpos, que incessantemente nascem e se des-
troem.” (2)
Como produto que são da aglomeração e da transformação da matéria, os
diversos mundos hão-de ter tido, como todos os corpos materiais, começo e terão
fim, de acordo com leis que desconhecemos. A Ciência pode, até certo ponto, for-
mular as leis que lhes presidiram à formação e remontar ao estado primitivo deles.
Toda a teoria filosófica em contradição com os factos que a Ciência comprova é ne-
cessariamente falsa, a menos que prove estar errada a Ciência. (2)
O Universo abrange a infinidade dos mundos que vemos e que não vemos,
todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço,
assim como os fluídos que o enchem. (4)
A razão leva-nos a concluir que o Universo não pode ter-se formado por si
mesmo nem por obra do acaso, mas que há-de ser obra de Deus. Deus criou o Uni-
verso pela sua vontade omnipotente, caracterizada nas belas palavras da Génese
bíblica – “Deus disse: Faça-se a luz e a luz foi feita.” (4)
Quanto ao modo de formação dos mundos, o que poderemos compreender é
que eles se formam pela condensação da matéria disseminada no Espaço. Deus re-

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nova os mundos, como renova os seres vivos; assim, um mundo completamente


formado, poderá desaparecer e a matéria que o compõe disseminar-se de novo no
Espaço. (4)

4.2.1. O PRINCÍPIO DAS COISAS

Segundo nos informam os


espíritos na codificação, Deus não
permite que seja tudo revelado ao
homem neste mundo. Assim, não lhe
é dado conhecer o princípio das coisas.
Somente à medida que ele se depura é
que o véu das coisas ocultas se levanta
a seus olhos; mas, para compreender
certas coisas, são-lhe necessárias facul-
dades que ainda não possui.
Pela Ciência, que lhe foi dada
para seu adiantamento em todas as
coisas, o homem pode, usando a
investigação, penetrar nalguns
segredos da Natureza. Porém, não
pode ultrapassar os limites que Deus
estabeleceu.
Segundo Allan Kardec, quanto
mais consegue o homem penetrar
nesses mistérios, quanto maior
admiração lhe devem causar o poder e
sabedoria do Criador. Entretanto, seja
por orgulho, seja por fraqueza, a sua
própria inteligência fá-lo joguete da
ilusão. Ele amontoa sistemas sobre
sistemas e cada dia que passa mostra-
lhe quantos erros tomou por verdades
e quantas verdades rejeitou como
erros. São outras tantas decepções
para o seu orgulho.
Do mesmo modo, se julgar conveniente, Deus pode revelar ao homem o que
à Ciência não é dado apreender. Desse modo, o homem pode receber comunicações
de ordem mais elevada acerca do que lhe escapa ao testemunho dos sentidos. É por
essas comunicações que o homem adquire, dentro de certos limites, o conhecimento
do seu passado e do seu futuro. (4)
Em Obras Póstumas, de Allan Kardec, 1ª parte, § 3º, encontramos:
“O princípio das coisas reside nos arcanos de Deus.”
Tudo diz que Deus é o autor de todas as coisas, mas como e quando as cri-
ou? A matéria existe, como Ele, de toda a eternidade? Ignoramo-lo. Acerca de tudo
que Ele não julgou conveniente revelar-nos, apenas podem erguer-se sistemas mais
ou menos prováveis. Dos efeitos que observamos, podemos remontar a algumas
causas. Há, porém, um limite que nos é impossível transpor. Querer ir além é, simul-
taneamente, perder tempo e cair em erro.

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4.2.2. FORMAÇÃO DOS SERES VIVOS

Houve tempo em que não existiam seres vivos na Terra; logo eles tiveram co-
meço. Cada espécie foi aparecendo à medida que o globo adquiria as condições ne-
cessárias à existência delas. (1)
A Terra continha os germes dos seres vivos, que aguardavam o momento fa-
vorável para se desenvolverem. Os princípios orgânicos congregaram-se, desde que
cessou a actuação da força que os mantinha afastados, e formaram os germes de
todos os seres vivos. Estes germes permaneceram em estado latente de inércia,
como a crisálida e as sementes das plantas até ao momento propício ao surto de
cada espécie. Os seres de cada uma destas espécies reuniram-se, então, e multiplica-
ram-se. (1)
Os elementos orgânicos, antes da formação da Terra, achavam-se em estado
de fluído no Espaço, no meio dos espíritos, ou noutros planetas, à espera da criação
da Terra para começarem nova existência num novo globo.
A espécie humana encontrava-se entre os elementos orgânicos contidos no
globo terrestre e veio a seu tempo. Foi o que deu lugar a que se dissesse que o ho-
mem se formou do limo da terra.
Quanto à época do aparecimento do homem e dos seres vivos na Terra, to-
dos os cálculos humanos são quiméricos.
“O princípio das coisas está nos segredos de Deus. Entretanto, pode dizer-se
que os homens, uma vez espalhados na Terra, absorveram em si mesmos os elemen-
tos necessários à sua própria formação, para os transmitir segundo as leis da repro-
dução. O mesmo se deu com as diferentes espécies de seres vivos.” (4)

O homem surgiu em muitos pontos do globo e em várias épocas, o que tam-


bém constitui uma das causas da diversidade das raças, além dos factores do clima,
da vida e dos costumes. Mais tarde os homens, dispersando-se os homens por cli-
mas diferentes e aliando-se os de umas aos de outras raças, novos tipos se forma-
ram. (4)
Emmanuel, no seu livro A Caminho da Luz, revela que as formas de todos os
reinos da natureza terrestre foram estudadas e previstas sob a orientação sábia do
Cristo, que coordenava o trabalho de numerosas assembleias de operários espirituais.
Ele diz que os fluídos da vida foram manipulados de modo a adaptarem-se às condi-
ções físicas do planeta, encenando-se as construções celulares segundo as possibili-
dades do ambiente terrestre, tudo obedecendo a um plano preestabelecido. Uma
camada de matéria gelatinosa envolvera o orbe terreno nos seus mais íntimos con-
tornos. Essa matéria, amorfa e viscosa, era o celeiro sagrado das sementes da vida. O
protoplasma foi o embrião de todas as organizações do globo terrestre, e, se essa
matéria, sem forma definida, cobria a crosta solidificada do planeta, em breve a con-
densação da massa dava origem ao surgimento do núcleo, iniciando-se as primeiras

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manifestações dos seres vivos. Os primeiros habitantes da Terra, no plano material,


são as células albuminóides, as amebas e todas as organizações unicelulares, isoladas
e livres, que se multiplicam prodigiosamente na temperatura tépida dos oceanos. (7)

4.2.2.1. PRINCÍPIO VITAL

Os seres orgânicos são os que têm em si uma fonte de actividade íntima que
lhes dá a vida. Nessa classe estão os homens, os animais e as plantas.
Seres inorgânicos são todos os que carecem de vitalidade, de movimentos
próprios e que se formam apenas pela agregação da matéria. Tais são os minerais, a
água, o ar, etc.
A força que une os elementos da matéria nos corpos orgânicos e inorgânicos
é a mesma. A matéria que compõe esses corpos também é a mesma, porém, nos
corpos orgânicos está animalizada pela sua união com o princípio vital.
A vida é um efeito devido à acção de um agente sobre a matéria que é o
princípio vital. Esse agente, sem a matéria não é a vida, do mesmo modo que a ma-
téria não pode viver sem esse agente. Ele dá a vida a todos os seres que o absorvem
e assimilam. (4)
“Combinando-se sem o princípio vital,
o oxigénio, o hidrogénio, o azoto e o carbo-
no unicamente teriam formado um mineral
ou corpo inorgânico; o princípio vital, modi-
ficando a constituição molecular desse cor-
po, dá-lhe propriedades especiais. Em lugar
de uma molécula mineral, tem-se uma molé-
cula de matéria orgânica.” (1)
O princípio vital tem por fonte o fluí-
do universal. É o que chamamos de fluído
magnético, ou fluído eléctrico animalizado. É
o intermediário, o elo existente entre o espí-
rito e a matéria. Ele é um só para todos os
seres vivos, mas modificado segundo as es-
pécies. É ele que lhes dá movimento e activi-
dade e os distingue da matéria inerte, por-
que o movimento da matéria não é vida.
Esse movimento ela recebe-o, não o dá. (4)
A actividade do princípio vital é ali-
mentada durante a vida pela acção do fun-
cionamento dos órgãos, do mesmo modo
que o calor, pelo movimento de rotação de
uma roda. Cessada aquela acção, pela mor-
te, o princípio vital extingue-se, como o ca-
lor, quando a roda deixa de girar. Mas, o
efeito produzido por esse princípio sobre o
estado molecular do corpo subsiste, mesmo
depois dele extinto, como a carbonização da matéria subsiste à extinção do calor.
(1)
A causa da morte dos seres orgânicos é o esgotamento dos órgãos. Morto o
ser orgânico, os elementos que o compõem sofrem novas combinações, de que re-
sultam novos seres, os quais aurem na fonte universal o princípio da vida e da activi-

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dade; absorvem-no e assimilam-no, para, novamente, o restituírem a essa fonte,


quando deixarem de existir.
Os órgãos impregnam-se, por assim dizer, desse fluido vital e esse fluido dá a
todas as partes do organismo uma actividade que os põe em comunicação entre si,
nos casos de certas lesões, e normaliza as funções momentaneamente perturbadas.
Mas, quando os elementos essenciais ao funcionamento dos órgãos estão destruí-
dos, ou muito profundamente alterados, o fluido vital torna-se impotente para lhes
transmitir o movimento da vida, e o ser morre.
A quantidade de fluido vital não é igual em todos os seres orgânicos. Varia
segundo as espécies e não é constante, quer em cada indivíduo, quer nos indivíduos
de uma espécie. Alguns acham-se, por assim dizer, saturados desse fluido, enquanto
outros o possuem em quantidade apenas suficiente. Daí, para alguns, vida mais acti-
va, mais tenaz e, de certa forma, superabundante.
A quantidade de fluido vital esgota-se. Pode tornar-se insuficiente para a con-
servação da vida, se não for renovada pela absorção e assimilação das substâncias
que o contêm.
O fluido vital transmite-se de um indivíduo para outro. Aquele que o tiver em
maior porção pode dá-lo a um que o tenha de menos e, em certos casos, prolongar
a vida prestes a extinguir-se. (4)

RESUMO

DEUS

PROVAS DA SUA EXISTÊNCIA

Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

A prova da existência de Deus encontra-se nesta máxima: Não há efeito sem


causa. Há uma imensidade de efeitos, cuja causa está acima da humanidade. Esses
efeitos não se produzem ao acaso, pois do mais pequenino insecto ou semente, até
à lei que rege os mundos que circulam no Espaço, tudo atesta uma causa soberana-
mente inteligente.
Partindo-se do princípio de que todo o efeito inteligente há-de decorrer de
uma causa inteligente e não encontrando essa causa na humanidade ela deve decor-
rer de uma inteligência superior, chamando-a pelos nomes de Deus, Jeová, Alá, etc.
Há um provérbio que diz: Pela obra se reconhece o autor! Deus não se mos-
tra, mas revela-se pelas suas obras.
O Universo não pode ter como causa primária o acaso nem as propriedades
íntimas da matéria, que também tiveram uma causa. O acaso é cego e não pode
produzir efeitos inteligentes. Um acaso inteligente já não seria acaso. Duvidar da
existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e aceitar que o nada
pode fazer alguma coisa.
O homem não poderá perceber Deus com os órgãos materiais, que não são
próprios para perceber a essência das coisas. Somente pela alma poderá ter a per-

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cepção de Deus. Porém, os espíritos esclarecem que a visão de Deus é um privilégio


das almas purificadas e que bem poucas pessoas, ao deixarem o envoltório terrestre
pela morte, se encontram no grau de desmaterialização necessária a tal efeito.

ATRIBUTOS DA DIVINDADE

O homem não pode perceber a natureza íntima de Deus porque lhe falta o
sentido próprio, que se adquire pela completa depuração do espírito.
Todavia, se não pode penetrar na essência de Deus, desde que aceite a sua
existência, o homem pode, pelo raciocínio, chegar a conhecer-Lhe os atributos neces-
sários, porque, vendo o que Ele não pode ser, sem deixar de ser Deus, deduz-se daí o
que deve ser.
Sem compreender os atributos de Deus, seria impossível compreender a obra
da criação. É por não se terem baseado nisso que a maioria das religiões errou nos
seus dogmas. As que não Lhe atribuíram a omnipotência, imaginaram muitos deu-
ses; as que não lhe atribuíram a soberana bondade, fizeram-no um deus cioso, colé-
rico, parcial e vingativo.
Na infância da humanidade, o homem confunde-O com a criatura, cujas im-
perfeições Lhe atribui; à medida que se desenvolve nele o senso moral, penetra me-
lhor a essência das coisas e faz ideia mais justa da Divindade, ainda que incompleta,
porém mais conforme à sã razão.
Conforme a Doutrina Espírita, os atributos de Deus são os seguintes:
Deus é a suprema e soberana inteligência; é eterno; infinitamente per
perfeito; é
imutável; é imaterial. Deus é único, omnipotente, soberanamente justo e bom.
Toda a crença, teoria, princípio ou dogma que estiver em contradição com
um só desses atributos, que tenda, não tanto a anulá-lo, mas simplesmente a dimi-
nuí-lo, não pode estar com a verdade.
Em filosofia, em moral, em religião, só é verdadeiro o que não se afaste, nem
um til, das qualidades essenciais da Divindade.

ESPÍRITO E MATÉRIA

A matéria é o laço que prende o espírito; é o instrumento de que este se ser-


ve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce a sua função.
O espírito é o princípio inteligente do Universo. A natureza íntima do espírito,
porém, não é fácil de ser analisada com a nossa linguagem, por não podermos apre-
ciá-la com os nossos sentidos.
O espírito e a matéria são elementos distintos, mas a sua união é necessária
para intelectualizar a matéria. O homem não possui uma organização apta a perce-
ber o espírito sem a matéria. Entende-se aqui por espírito o princípio da inteligência,
abstracção feita das individualidades que por esse nome se designam. Pode conce-
ber-se o espírito sem a matéria, e esta sem o espírito, pelo pensamento.
Há dois elementos gerais do Universo: a matéria e o espírito e acima de tudo
Deus, o Criador, Pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princí-
pio de tudo o que existe, a trindade universal.
Ao elemento material, todavia, tem que se juntar o fluido universal, que de-
sempenha o papel de intermediário entre o espírito e a matéria propriamente dita,
por demais grosseira para que o espírito possa actuar sobre ela.

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O fluido universal distingue-se da matéria por propriedades especiais; é o flui-


do susceptível, pelas suas inúmeras combinações com a matéria e sob a acção do
espírito, de produzir a infinita variedade das coisas que apenas conhecemos uma
parte mínima. Sem esse elemento primitivo ou universal, a matéria estaria em perpé-
tuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá.
A matéria, como a entendemos, é ponderável, mas considerada como fluido
do Universo é etérea, subtil e imponderável. Daí a gravidade ser uma propriedade
relativa. Fora das esferas de atracção dos mundos, não há peso, como não há alto
nem baixo.
O Espaço Universal é ilimitado. Abrange a infinidade dos mundos que vemos
e que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se mo-
vem no espaço, assim como os fluidos que o enchem. A razão leva-nos a concluir
que o Universo não pode ter-se formado por si mesmo nem por obra do acaso, mas
que há-de ser obra de Deus.

O PRINCÍPIO DAS COISAS

Deus não permite que neste mundo tudo seja revelado ao homem. Assim,
não lhe é dado conhecer o princípio das coisas. À medida que se depura é que o véu
das coisas ocultas se levanta a seus olhos, pois para compreendê-las são necessárias
faculdades que ainda não possui.
Pela Ciência o homem pode penetrar nalguns segredos da Natureza; porém,
não pode ultrapassar os limites que Deus estabeleceu.
Se julgar conveniente, Deus pode revelar ao homem o que à Ciência não é
dado compreender. Assim, recebe comunicações de ordem mais elevada acerca do
que lhe escapa ao testemunho dos sentidos e por meio dos quais adquire, dentro de
certos limites, o conhecimento do seu passado e do seu futuro.
O princípio das coisas, todavia, reside nos segredos de Deus. Com respeito a
tudo que Ele não julgou conveniente revelar-nos, apenas se podem erguer sistemas
mais ou menos prováveis.

FORMAÇÃO DOS SERES VIVOS

Houve tempo em que não existiam seres vivos na Terra; logo, eles tiveram
começo. Cada espécie foi aparecendo à medida que o globo adquiria as condições
necessárias à existência delas.
A Terra continha os germes dos seres vivos, que aguardavam momento favo-
rável para se desenvolverem. Os princípios orgânicos congregaram-se, desde que
cessou a actuação da força que os mantinha afastados e formaram os germes de
todos os seres vivos, que permaneceram em estado latente de inércia, como a crisá-
lida e as sementes das plantas, até ao momento próprio ao surto de cada espécie.
Os seres de cada uma destas espécies reuniram-se, então, e multiplicaram-se.
Os elementos orgânicos, antes da formação da Terra, achavam-se em estado
de fluido no Espaço, no meio dos espíritos, ou noutros planetas, à espera da criação
da Terra para começarem a existência num novo globo.
A espécie humana encontrava-se entre os elementos orgânicos contidos no
globo terrestre e veio a seu tempo. Quanto à época do aparecimento do homem e
dos outros seres vivos na Terra, todos os cálculos humanos são quiméricos.

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O homem surgiu em muitos pontos do globo e em várias épocas, o que tam-


bém constitui uma das causas da diversidade das raças, além dos factores do clima,
da vida e dos costumes.

O PRINCÍPIO VITAL

Os seres orgânicos são os que tem em si uma fonte de actividade íntima que
lhes dá a vida. Nesta classe estão os homens, os animais e as plantas.
Seres inorgânicos são todos os que carecem de vitalidade, de movimentos
próprios e que se formam apenas pela agregação da matéria, como os minerais, a
água, o ar, etc.
A força que une os elementos da matéria nos corpos orgânicos e inorgânicos
é a mesma. A matéria que os compõe também é a mesma, porém, nos corpos orgâ-
nicos está animalizada pela sua união com o princípio vital.
A vida é um efeito devido à acção de um agente sobre a matéria que é o
princípio vital. Esse agente, sem a matéria não é a vida, do mesmo modo que a ma-
téria não pode viver sem esse agente. Ele dá a vida a todos os seres que o absorvem
e assimilam.
O princípio vital tem por fonte o fluido universal. É o que chamamos de fluido
magnético, ou fluido eléctrico animalizado. É o intermediário existente entre o espíri-
to e a matéria. Ele é um só para todos os seres vivos, modificado segundo as espéci-
es.
A actividade do princípio vital é alimentada durante a vida pela acção e funci-
onamento dos órgãos. A causa da morte dos seres orgânicos é o esgotamento dos
órgãos. A morte cessa aquela acção e o princípio vital extingue-se, mas o seu efeito
sob o estado molecular do corpo subsiste mesmo depois dele extinto, como uma
carbonização da madeira subsiste à extinção do calor.
Morto o ser orgânico, os elementos que o compõem sofrem novas combina-
ções, de que resultam novos seres, os quais haurem na fonte universal o princípio da
vida e da actividade; absorvem-no e assimilam-no, para, novamente, o restituírem a
essa fonte, quando deixarem de existir.
A quantidade de fluido vital não é igual em todos os seres orgânicos. Varia
segundo as espécies e não é constante, quer em cada indivíduo, quer nos indivíduos
de uma espécie. Alguns acham-se saturados dele, enquanto outros o possuem em
quantidade apenas suficiente.
A quantidade de fluido vital esgota-se. Se não for renovada pela absorção e
assimilação das substâncias que o contêm pode tornar-se insuficiente para a conser-
vação da vida.
O fluido vital pode ser transmitido de um indivíduo que o tiver em maior por-
ção a outro que o tenha de menos e, em certos casos, prolongar a vida prestes a
extinguir-se.

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BIBLIOGRAFIA

(1) Allan Kardec, A Génese, Caps. II e X, 18.ª Edição (Popular), 1976, Federação Espí-
rita Brasileira
(2) Allan Kardec, Obras Póstumas, 1.ª Parte, §1º, §3º, 13.ª Edição, Federação Espírita
Brasileira
(3) Pedro Franco Barbosa, Espiritismo Básico, 2.ª Parte, 1.ª Edição, 1976, Editado
pelo Centro Brasileiro de Homeopatia, Espiritismo e Obras Sociais – CBHEOS
(4) Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Primeira Parte, Caps. I, II, III e IV, 33.ª Edição,
1974, Federação Espírita Brasileira
(5) José Soares Cardozo, Onde Está Deus?, 1976, São Paulo, Editora Tempos Novos
Ltda.
(6) Mínimus, Noções de Filosofia Espírita, 2.ª Edição, Federação Espírita Brasileira
(7) Emmanuel, A Caminho da Luz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, Cap. II,
5.ª Edição, Federação Espírita Brasileira

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CAPÍTULO 5

SUMÁRIO
5 O MUNDO DOS ESPÍRITOS

5.1 INTRODUÇÃO

5.2 ORIGEM E NATUREZA DOS ESPÍRITOS

5.3 PERISPÍRITO
5.3.1 Histórico
5.3.2 Natureza e propriedades

5.4 DIFERENTES ORDENS DE ESPÍRITOS


5.4.1 Introdução
5.4.2 Terceira ordem – Espíritos imperfeitos
5.4.3 Segunda ordem – Bons espíritos
5.4.4 Primeira ordem – Espíritos puros

5.5 PERCEPÇÕES, SENSAÇÕES E SOFRIMENTOS


DOS ESPÍRITOS

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Curso Básico de Espiritismo O mundo dos espíritos

5. O MUNDO DOS ESPÍRITOS


5.1. INTRODUÇÃO
A Segunda Parte de O Livro dos Espíritos trata do chamado mundo espírita,
ou dos espíritos. Nela, o Codificador - Allan Kardec - procurou situar todos os assun-
tos que dizem respeito aos seres que habitam esse fascinante mundo, ou seja, os
espíritos.
A contribuição desse estudo é de vital importância para a elucidação de inú-
meras questões atinentes ao modo de vida que levaremos após deixarmos o corpo
físico, as relações dos espíritos entre si e com os encarnados, a reencarnação, as
ocupações dos espíritos, a hierarquia existente entre eles, etc. Nesta aula deter-nos-
emos a examinar os seguintes itens: origem e natureza dos espíritos, perispírito, dife-
rentes ordens de espíritos, percepções, sensações e sofrimentos dos espíritos.

5.2. ORIGEM E NATUREZA DOS ESPÍRITOS

“Podemos dizer que os


espíritos são os seres
inteligentes da criação. Eles
povoam o Universo, fora do
mundo material”. Esta é a
definição dada pelos espíritos
em resposta à questão n.º 76
de O Livro dos Espíritos,
seguindo-se breve comentário
de Allan Kardec: “A palavra
espírito é aqui empregada
para designar os seres extra-
corpóreos e não mais o
elemento inteligente univer-
sal”.
“Os espíritos são indivi-
dualizações do princípio inteligente, como os corpos são individualizações do princí-
pio material; a época e a maneira dessa formação é que desconhecemos”. (1) (*)
Podemos deduzir dos ensinamentos acima que a natureza do espírito não é a
mesma da matéria. A posição da Doutrina Espírita é bem definida quanto à origem
do espírito e da matéria. No Capítulo XI, n.º 6, de A Génese, Allan Kardec desenvolve
o seguinte raciocínio:
“O princípio espiritual teria a sua fonte no elemento cósmico universal? Não
seria apenas uma transformação, um modo de existência deste elemento, como a
luz, a electricidade, o calor, etc.?” (2)
Se assim fosse, o princípio espiritual passaria pelas vicissitudes da matéria; ex-
tinguir-se-ia pela desagregação como o princípio vital; o ser inteligente só teria uma

(*) Os algarismos colocados entre parênteses correspondem, na bibliografia,


bibliografia no final dos resumos de
cada capítulo, aos mesmos algarismos com que estão assinaladas as fontes que serviram de base ao
texto, ou extraídas as citações.
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existência momentânea, como o corpo, e com a morte voltaria ao nada, ou - o que


viria a dar no mesmo - ao Todo Universal. Seria, numa palavra, a sanção das doutri-
nas materialistas. (2)
Sobre o que não paira a menor dúvida é acerca da união do princípio espiri-
tual à matéria, e, em estágios mais avançados, já o espírito individualizado, que se
serve da matéria como elemento indispensável ao seu progresso. “É assim que tudo
serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até ao arcanjo, pois
mesmo este último começou pelo átomo. Admirável lei de harmonia, de que o vosso
espírito limitado ainda não pode abarcar o conjunto”. (2)
Nem todos os espíritos tiveram o seu início aqui na Terra. Todavia, o nosso
planeta começou a oferecer a
possibilidade de surgimento da vida
quando as grandes convulsões
telúricas se atenuaram, dando
condições para que o princípio espiri-
tual, em obediência aos ditames divi-
nos, desse origem ao surgimento das
formas mais rudimentares de vida. Daí
para a frente, ao longo dos milénios,
a imensa cadeia de seres que existem,
ou que existiram, estabeleceu-se,
servindo, cada espécie, de filtro de
transformismo para o espírito, na sua
marcha ascensional no rumo da per-
feição. (1)
Pode parecer contraditório
que, estudando o mundo dos
espíritos, entremos em considerações
sobre a vida na Terra. Todavia, ao
tratarmos da origem e natureza dos
espíritos, não poderíamos fazê-lo de
outro modo, já que, tanto nas obras básicas, como noutras de autores encarnados e
desencarnados de reconhecido valor e que demonstram profundo respeito pela Dou-
trina, é enfatizada a marcha do espírito pelos escalões inferiores da natureza. Trans-
crevemos as questões n.º 607 e 607-a, de O Livro dos Espíritos, para darmos uma
ideia dessa posição:
“Ficou dito que a alma do homem, na sua origem, se assemelha ao estado de
infância da vida corpórea, que a sua inteligência apenas desponta, e que ela ensaia
para a vida. Onde cumpre o espírito essa primeira fase?
– Numa série de existências que precederam o período a que chamais de
humanidade.
Parece, assim, que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferiores
da criação?
– Não dissemos que tudo se encadeia na natureza, e tende à unidade? É nes-
ses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se
elabora, se individualiza pouco a pouco, e ensaia para a vida, como dissemos. É, de
certa maneira, um trabalho preparatório, como o da germinação, a seguir ao qual o
princípio inteligente sofre uma transformação, e se torna espírito. É então que come-
ça para ele o período de humanidade, e com este a consciência do seu futuro, a dis-
tinção do bem e do mal e a responsabilidade dos seus actos. Como depois do perío-
do da infância vem o da adolescência, depois a juventude, e por fim a idade madura.
Nada há, de resto, nessa origem, que deva humilhar o homem. Os grandes génios

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sentem-se humilhados por terem sido fetos informes no ventre materno? Se alguma
coisa deve humilhá-los, é a sua inferioridade perante Deus, e a sua impotência para
sondar a profundidade dos seus desígnios e a sabedoria das leis que regulam a har-
monia do Universo. Reconhecei a grandiosidade de Deus nessa admirável harmonia
que faz a solidariedade de todas as coisas da Natureza. Crer que Deus pudesse ter
feito qualquer coisa sem objectivo, e criar seres inteligentes sem futuro, seria blasfe-
mar contra a sua bondade, que se estende sobre todas as criaturas.” (1)

5.3. PERISPÍRITO

“Como a semente de um fruto é envolvi-


da pelo perisperma, o espírito, propriamente
dito, é revestido de um envoltório que, por
comparação, se pode chamar perispírito”. (1)
“O perispírito, ou corpo fluídico dos espí-
ritos, é um dos produtos mais importantes do
fluido cósmico. É uma condensação deste fluido
em torno de um foco inteligente, ou alma”. (2)
Vimos que o corpo carnal tem igualmen-
te a sua origem nesse mesmo fluido, transfor-
mado e condensado em matéria tangível. No
perispírito, a transformação molecular opera-se
de modo diferente, pois o fluido conserva a sua
imponderabilidade e as suas qualidades etéreas.
O corpo perispiritual e o corpo carnal têm, pois,
a sua origem no mesmo elemento primitivo.
Ambos são matéria, ainda que em dois estados
diferentes. (2)

5.3.1. HISTÓRICO

A existência de um elemento intermediá-


rio entre o espírito e o corpo físico é admitida
desde a mais remota antiguidade. No Egipto
(5000 anos a. C.), já se acreditava na existência
de um corpo para o espírito, denominado kha.
Na Índia, no Rig-Veda, livro sagrado dos vedas,
encontramos referências ao perispírito, com o nome de linga-sharira. Para Confúcio
era o corpo aeriforme. Na Grécia, os filósofos adoptavam uma variada nomenclatura
para defini-lo: veículo leve, corpo luminoso, carro subtil da alma. Paracelso chamou-
lhe corpo astral, ou evestrum. Leibnitz denominava-o de corpo fluídico. Paulo de Tar-
so refere-se ao perispírito nas suas epístolas, chamando-lhe corpo espiritual, ou corpo
incorruptível. Modernamente, como consequência de algumas deduções evidentes a
favor da sua existência por parte de alguns cientistas, o perispírito é chamado mode-
lo organizador biológico (MOB), corpo bioplasmático, etc.

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5.3.2. NATUREZA E PROPRIEDADES

A natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adi-


antamento moral do espírito. Há alguns , portanto, cujo envoltório fluídico, se bem
que etéreo e imponderável em relação à matéria tangível, ainda é por demais pesa-
do, se assim nos podemos exprimir, em relação ao mundo espiritual, para não permi-
tir que eles saiam do meio que lhes é próprio. Nessa categoria devem ser incluídos
aqueles cujo perispírito é tão grosseiro que o confundem com o corpo carnal, razão
porque continuam a crer-se vivos. Esses espíritos, cujo número é avultado, permane-
cem na superfície da Terra, como os encarnados, julgando-se entregues às suas ocu-
pações terrenas. Outros, um pouco mais
desmaterializados, não o são, contudo,
suficientemente, para se elevarem acima
das regiões terrestres. (2)
O envoltório perispirítico de um es-
pírito modifica-se com o progresso moral
que este realiza em cada encarnação,
embora encarne no mesmo meio. Os
espíritos superiores, encarnando,
excepcionalmente, em missão, num
mundo inferior, têm o perispírito menos
grosseiro do que o dos indígenas desse
mundo. (2)
Sabemos que a união do espírito (espírito
mais perispírito) ao corpo físico tem início
no momento da concepção. Essa ligação
permite que o perispírito se constitua
numa verdadeira matriz espiritual,
orientando o desenvolvimento do futuro
ser. Segundo o espírito Emmanuel
espanta ao embriologista a lei orga-
nogenética que estabelece a ideia
directora do desenvolvimento fetal, desde
a união do espermatozóide ao óvulo,
especificando os elementos amorfos do protoplasma. Nos domínios da vida, essa
ideia directriz conserva-se inacessível até hoje aos nossos processos de indagação e
análise, porquanto esse desenho invisível não está subordinado a nenhuma determi-
nação físico-química, porém, unicamente ao corpo espiritual preexistente, em cujo
molde se realizam todas as acções plásticas da organização, e sob cuja influência se
efectuam todos os fenómenos endosmóticos. (4)
Um estudo profundo do perispírito, seguindo-se ao trabalho magistral da co-
dificação kardequiana, é desenvolvido por Gabriel Delanne no seu livro A Evolução
Anímica, publicado em 1885. Apesar do avanço dos conhecimentos científicos, po-
demos observar que as modernas pesquisas nada mais têm feito do que comprovar
o valor da referida obra em relação a tão palpitante tema. É nesse livro que encon-
tramos referência às dúvidas e argumentos do notável fisiologista francês Claude
Bernard, ao examinar o desenvolvimento celular, o embrião e o ser já formado. “O
que diz essencialmente com o domínio da vida, e não pertence à química, nem à
física, nem ao que mais possamos imaginar, é a ideia directriz dessa actuação vital.
Em todo o gérmen vivo há uma ideia dirigente, a manifestar-se e a desenvolver-se na
sua organização. Depois, no curso de toda a sua vida, o ser permanece sob a influ-

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ência dessa força criadora, até que morre, quando ela não mais se pode efectivar. É
sempre o mesmo princípio de conservação do ser que lhe reconstitui as partes vivas,
desorganizadas pelo exercício, por acidentes ou enfermidades”. (5)
O ilustre fisiologista, contemporâneo de Kardec, não fala em perispírito, mas
imagina a sua existência, quando fala de uma ideia directriz e desenho ideal de um
organismo ainda invisível.
No estudo da referida obra de Gabriel Delanne fica evidenciado que o perispí-
rito é uma aquisição do espírito na sua longa marcha pelos caminhos desta evolução
biológica. Essa evolução está claramente definida no Capítulo XI da Segunda Parte
de O Livro dos Espíritos e vem completar-se com o trabalho dos grandes naturalistas
do século XIX, de entre os quais se destaca a figura de Charles Darwin, cujo trabalho
principal, A Origem das Espécies, foi publicado em 1859, dois anos após a publicação
de O Livro dos Espíritos. O conhecimento do perispírito faz luz sobre vários pontos
obscuros da referida obra, que, apesar de notável, analisa a evolução do ponto de
vista simplesmente material, deixando de lado o elemento mais importante no me-
canismo da vida, ou seja, o espírito, para o qual as formas vivas são apenas filtros de
transformismo, tendo em vista a sua superior finalidade.
Para finalizar, citamos algumas propriedades do perispírito, entre tantas, por
certo, que não podemos ainda compreender.

Matriz espiritual do corpo físico

Pelo ensino dos espíritos ficamos a saber que a união do espírito ao corpo se
opera no momento da concepção, quando se forma a célula ovo. Pelo raciocínio so-
mos levados a concluir que apenas os elementos constitutivos dos cromossomas, ou
seja, o ácido desoxirribonucleico (ADN), o ácido ribonucleico (ARN) e proteínas seri-
am insuficientes para desencadearem o maravilhoso fenómeno da vida. É necessária
a presença da ideia directriz de Claude Bernard, para nós o perispírito, orientando e
disciplinando o desenvolvimento celular.

Sustentador das formas físicas dos seres vivos

Sabemos que a renovação celular é uma constante em todos os seres vivos.


No caso da espécie humana, ao cabo de mais ou menos sete anos, há uma renova-
ção total das células, exceptuando as células nervosas ou neurónios. Como entender-
se que persista a fixidez da espécie, a memória e os demais actos necessários à acti-
vidade vital, diante de tão surpreendente renovação? Graças, claro, à acção directiva
do perispírito, que não só orienta a formação do ser como sustenta a sua forma, até
que ocorra a desencarnação.

Retracta o nosso estado mental

Por ser um organismo estruturado num outro espaço, sofre, decisivamente, a


acção da nossa mente, definindo a nossa posição no concerto evolutivo. Após a mor-
te do corpo físico, de acordo com o seu peso específico, gravitaremos até às regiões
afins com o nosso modo de ser. (3)

Papel na mediunidade

No mecanismo da mediunidade é fundamental a acção do perispírito, seja


pela capacidade de exteriorização que os médiuns possuem, seja pela combinação
do fluido perispiritual do médium com o fluido perispiritual dos espíritos.

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5.4. DIFERENTES ORDENS DE ESPÍRITOS

5.4.1. INTRODUÇÃO

A classificação dos espíritos baseia-se no seu grau de adiantamento, nas qua-


lidades que já adquiriram e nas imperfeições de que ainda terão de despojar-se. Esta
classificação, aliás, nada tem de absoluta. Apenas no seu conjunto cada categoria
apresenta carácter definido. De um grau a outro a transição é insensível e, nos limi-
tes extremos, os matizes apagam-se, como nos reinos da natureza, como nas cores
do arco-íris, ou, também, como nos diferentes períodos da vida do homem.
“Os espíritos, em geral, admitem três categorias principais, ou três grandes
divisões. Na última, a que fica na parte inferior da escala, estão os espíritos imperfei-
tos, caracterizados pela predominância da matéria sobre o espírito e pela propensão
para o mal. Os da segunda caracterizam-se pela predominância do espírito sobre a
matéria e pelo desejo do bem: são os bons espíritos. A primeira, finalmente, com-
preende os espíritos puros, os que atingiram o grau supremo da perfeição.” (1)
Com o auxílio de um quadro, será fácil determinar a ordem, assim como o
grau de superioridade ou de inferioridade dos que possam entrar em relações con-
nosco e, por conseguinte, o grau de confiança ou de estima que mereçam. É, de
certo modo, a chave da Ciência Espírita, porque só ela pode explicar as anomalias
que as comunicações apresentam, esclarecendo-nos acerca das desigualdades inte-
lectuais e morais dos espíritos. (1)

5.4.2. TERCEIRA ORDEM – ESPÍRITOS IMPERFEITOS

Características gerais:
Predominância da matéria so-
bre o espírito. Propensão para o
mal. Ignorância, orgulho, egoís-
mo e todas as paixões que lhes
são consequentes.
Têm a intuição de Deus, mas
não O compreendem.
Nem todos são essencialmen-
te maus. Em alguns há mais levi-
andade, irreflexão e malícia do
que verdadeira maldade. Alguns
não fazem o bem nem o mal;
mas, pelo simples facto de não
fazerem o bem, já denotam a sua inferioridade. Outros, ao contrário, comprazem-se
no mal, e rejubilam quando se lhes depara uma ocasião de praticá-lo.
Seja, porém, qual for o grau desenvolvimento intelectual que tenham alcançado,
as suas ideias são pouco elevadas e os seus sentimentos mais ou menos abjectos.
Todo o espírito que, nas suas comunicações, trai um mau pensamento pode ser clas-
sificado na terceira ordem.
Podem compor cinco classes principais:

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Décima classe – espíritos


espíritos impuros

São inclinados ao mal, de que fazem o objecto das suas preocupações. Como es-
píritos, dão conselhos pérfidos, sopram a discórdia e a desconfiança e mascaram-se
de todas as maneiras para melhor enganar. Ligam-se aos homens de carácter bastan-
te fraco para cederem às suas sugestões, a fim de induzi-los à perdição, satisfeitos
por conseguirem retardar-lhes o adiantamento, fazendo-os sucumbir nas provas por
que passam.
Nas manifestações dão-se a conhecer pela linguagem. A trivialidade e a grosseria
das expressões, nos espíritos como nos homens, é sempre indício de inferioridade
moral, senão também intelectual. As suas comunicações exprimem a baixeza dos
seus pendores e, se tentam iludir, falando com sensatez, não conseguem sustentar
por muito tempo esse papel, e acabam sempre por se traírem.
Quando encarnados, mostram-se propensos a todos os vícios geradores das pai-
xões vis e degradantes: a sensualidade, a crueldade, a felonia, a hipocrisia, a cupidez,
a avareza sórdida. Fazem o mal por prazer, as mais das vezes sem motivo.

Nona classe – espíritos levianos

São ignorantes, maliciosos, irreflectidos e zombeteiros. Metem-se em tudo; a


tudo respondem, sem se incomodarem com a verdade. Gostam de causar pequenos
desgostos e ligeiras alegrias, de intrigar, de induzir maldosamente em erro, por meio
de mistificações e de espertezas. A esta classe pertencem os espíritos vulgarmente
tratados por duendes, trasgos, gnomos, diabretes. Acham-se sob a dependência dos
espíritos superiores, que muitas vezes os empregam, como fazemos com os nossos
servidores.
Nas suas comunicações com os homens, a linguagem de que se servem é, amiú-
de, espirituosa, mas quase sempre sem profundeza de ideias. Aproveitam-se das es-
quisitices e dos ridículos humanos e apreciam-nos, mordazes e satíricos. Se tomam
nomes falsos, é mais por malícia do que por maldade.

Oitava classe – espíritos pseudo-


pseudo- sábios

Dispõem de conhecimentos bastante amplos, porém, crêem saber mais do que


realmente sabem. Tendo realizado alguns progressos, sob diversos pontos de vista, a
linguagem deles aparenta um cunho de seriedade, de natureza a iludir, no que diz
respeito às suas capacidades e luzes. Mas, em geral, isso não passa do reflexo dos
preconceitos e ideias sistemáticas que nutriam na vida terrena. É uma mistura de
algumas verdades com os erros mais profundos, através dos quais realçam a presun-
ção, o orgulho, o ciúme e a obstinação, de que ainda não puderam despir-se.

Sétima classe – espíritos neutros

Nem bastante bons para fazerem o bem, nem bastante maus para fazerem o
mal. Pendem tanto para um como para o outro e não ultrapassam a condição co-
mum da humanidade, quer no que concerne à moral, quer no que toca à inteligên-
cia. Apegam-se às coisas deste mundo, de cujas grosseiras alegrias sentem saudades.

Sexta classe – espíritos batedores e per


per turbadores

Estes espíritos, propriamente falando, não formam uma classe distinta pelas suas
qualidades pessoais. Podem caber em todas as classes da terceira ordem. Manifes-

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tam geralmente a sua presença por efeitos sensíveis e físicos, como pancadas, movi-
mento e deslocamento anormal de corpos sólidos, agitação do ar, etc. Parecem ser
os agentes principais das vicissitudes dos elementos do globo, quer actuem sobre o
ar, a água, o fogo, os corpos duros, quer nas entranhas da terra. Reconhece-se que
esses fenómenos não derivam de uma causa fortuita, ou física, quando denotam
carácter intencional e inteligente. Todos os espíritos podem produzir tais fenómenos,
mas os de ordem elevada deixam-nos, de ordinário, como atribuições dos subalter-
nos, mais aptos para as coisas materiais do que para as da inteligência; quando jul-
gam úteis as manifestações desse género, lançam mão destes últimos como seus
auxiliares.

5.4.3. SEGUNDA ORDEM – BONS ESPÍRITOS

Características gerais:
Predominância do espírito sobre a matéria; desejo do bem. As suas qualidades e
poderes para o bem estão em relação com o grau de adiantamento que hajam al-
cançado; uns têm a ciência, outros a sabedoria e a bondade. Os mais adiantados
reúnem o saber às qualidades morais. Não estando ainda completamente desmateri-
alizados, conservam, mais ou menos, conforme a categoria que ocupem, os traços
da existência corporal, na forma da linguagem, como nos hábitos, entre os quais se
descobrem, mesmo, algumas das suas manias. De outro modo, seriam espíritos
perfeitos.
Compreendem
Deus e o infinito, e já
gozam da felicidade
dos bons. São felizes
pelo bem que fazem
e pelo mal que impe-
dem que se faça.
Como espíritos,
suscitam bons pen-
samentos, desviam os
homens da senda do
mal, protegem na vida os que se lhes mostram dignos de protecção e neutralizam a
influência dos espíritos imperfeitos sobre aqueles a quem não é grato sofrê-la.
Quando encarnados, são bondosos e benevolentes com os seus semelhantes.
Não os move o orgulho, nem o egoísmo ou a ambição. Não experimentam ódio,
rancor, inveja ou ciúme, e fazem o bem pelo bem.
Podem ser divididos em quatro grupos principais:

Quinta classe – espíritos benévolos

A bondade é neles a qualidade dominante. Apraz-lhes prestar serviço aos homens


e protegê-los. Limitados, porém, são os seus conhecimentos.

Quarta classe – espíritos sábios

Distinguem-se pela amplitude dos seus conhecimentos. Preocupam-se menos com


as questões morais do que com as de natureza científica, para as quais têm maior

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aptidão. Entretanto, só encaram a ciência do ponto de vista da sua utilidade, e ja-


mais dominados por quaisquer paixões próprias dos espíritos imperfeitos.

Terceira classe – espíritos de sabedoria

As qualidades morais de ordem mais elevada são o que os caracteriza. Sem


possuírem conhecimentos ilimitados, são dotados de uma capacidade intelectual que
lhes faculta juízo recto sobre os homens e as coisas.

Segunda classe – espíritos superiores

Esses reúnem em si a ciência, a sabedoria e a bondade. A linguagem que empre-


gam exala sempre benevolência; é uma linguagem invariavelmente digna, elevada e,
muitas vezes, sublime. A sua superioridade torna-os mais aptos do que os outros a
darem-nos noções exactas sobre as coisas do mundo incorpóreo, dentro dos limites
do que é permitido ao homem saber. Comunicam-se, complacentemente, com os
que procuram de boa-fé a verdade e cuja alma já está bastante desprendida das liga-
ções terrenas para compreendê-la. Afastam-se, porém, daqueles a quem só a curiosi-
dade impele, ou que, por influência da matéria, fogem à prática do bem.
Quando, por excepção, encarnam na Terra, é para cumprir missão de progresso,
e então oferecem-nos o tipo de perfeição a que a humanidade pode aspirar neste
mundo.

5.4.4. PRIMEIRA ORDEM – ESPÍRITOS


ESPÍRITOS PUROS

Características gerais:
Nenhuma influência da
matéria. Superioridade
intelectual e moral absolutas,
em relação aos espíritos de
outras ordens.

Primeira classe

Os espíritos que a compõem


percorreram todos os graus da
escala e despojaram-se de
todas as impurezas da matéria.
Tendo alcançado a soma de
perfeição de que é susceptível a
criatura, não têm mais que sofrer provas, nem expiações. Não estando mais sujeitos
à reencarnação em corpos perecíveis, realizam a vida eterna no seio de Deus.
Gozam de inalterável felicidade, porque não se acham submetidos às necessida-
des, nem às vicissitudes da vida material. Essa felicidade, porém, não é a da ociosi-
dade monótona, a transcorrer em perpétua contemplação. Eles são os mensageiros e
os ministros de Deus, cujas ordens executam para a manutenção da harmonia uni-
versal. Assistir os homens nas suas aflições, concitá-los ao bem ou à expiação das
faltas, que os conservam distanciados da suprema felicidade, constitui para eles ocu-
pação gratíssima. São designados, às vezes, pelo nome de anjos, arcanjos ou sera-
fins.

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RESUMO DA ESCALA ESPÍRITA

Ordem Características gerais Classe Denominação Características particulares


10.ª Impuros Inclinados ao mal.
9.ª Levianos Ignorantes, maliciosos, irreflectidos,
Terceira Predominância da zombeteiros.
matéria sobre 8.ª Pseudo-sábios Conhecimentos amplos. Não sa-
Espíritos o espírito bem o que julgam.
imperfeitos 7.ª Neutros Inércia: não fazem bem nem mal.
6.ª Batedores / perturbado- Manifestam-se pela mediunidade
res de efeitos físicos.

5.ª Benévolos A bondade é qualidade dominante.


Segunda Predominância do
espírito sobre 4.ª Sábios Conhecimentos muito amplos e
Bons a matéria esclarecidos.
espíritos 3.ª De sabedoria Qualidades morais elevadas.
2.ª Superiores Sabedoria, ciência e bondade.

Primeira Nenhuma 1.ª Espíritos puros Superioridade intelectual e moral


Espíritos influência absoluta.
puros da matéria

5.5. PERCEPÇÕES, SENSAÇÕES E SOFRIMENTOS


DOS ESPÍRITOS

No mundo espiritual o espírito age com maior liberdade, conservando as percep-


ções que tinha quando encarnado e tendo outras que o corpo físico não lhe permite.
Não queremos dizer com isso que o espírito, pelo simples facto de passar para o
mundo espiritual, sofra profundas transformações no seu modo de ser e de agir, mas
apenas que o corpo físico actua como um véu e limita as suas possibilidades.
Em relação ao conhecimento, é proporcional ao nível de evolução de cada um.
Os espíritos inferiores não sabem mais do que os homens. A ideia que fazem do
princípio das coisas, do passado e do futuro, varia de acordo com o grau de elevação
de cada espírito. O mesmo ocorre em relação à compreensão de Deus: Os espíritos
superiores vêem-no e compreendem-no; os espíritos inferiores sentem-no e adivi-
nham-no. (1)
A vista dos espíritos não é circunscrita como nos seres corpóreos, constituin-
do-se numa faculdade geral. Aqueles que, todavia, ainda se encontram presos men-

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talmente aos quadros da vida material,


continuarão a ter as suas percepções visu-
ais limitadas, como se ainda estivessem
no plano físico.
Todas as percepções são atributos do
espírito, e fazem parte do seu ser.
Quando ele se reveste de um corpo
material, elas manifestam-se pelos meios
orgânicos; mas no estado de liberdade já
não estão localizadas. (1)
Em relação à música e às belezas
naturais, prevalece ainda a posição evolu-
tiva do espírito na apreciação das
mesmas. Esclarecem-nos os espíritos que
a música celeste não pode ser comparada
à nossa.
Comunicando-se connosco, alguns es-
píritos dizem sentir fadiga, necessidade
de repouso, frio ou calor.
Nas questões n.º 254 e 255 de O Li-
vro dos Espíritos encontramos a explica-
ção, dizendo que não podem sentir fa-
diga como a entendemos, e portanto não
necessitam do repouso corporal, pois não
possuem órgãos em que as forças
tenham de ser restauradas. Mas o
espírito repousa, no sentido de não
permanecer numa actividade constante.
Ele não age de maneira material, porque
a sua acção é toda intelectual e o seu
repouso é todo moral. Há momentos em
que o seu pensamento diminui de actividade e não se dirige a um objecto determi-
nado; este é um verdadeiro repouso, mas não se pode compará-lo ao do corpo. A
espécie de fadiga que os espíritos podem provar está na razão da sua inferioridade,
pois quanto mais se elevam, de menos repouso necessitam.
Em relação às sensações de frio ou calor, o que existe é a lembrança do que so-
freram durante a vida, e algumas vezes tão penosa como a própria realidade. Fre-
quentemente, é uma comparação que fazem, para exprimirem a sua situação.
Quando se lembram do corpo experimentam uma espécie de impressão, como
quando se tira uma capa e algum tempo depois ainda se pensa estar com ela.
Na questão n.º 257 de O Livro dos Espíritos Allan Kardec apresenta um “ensaio
teórico sobre a sensação nos espíritos”. Recomendando a consulta do livro aludido,
servirnos-emos dele, para resumir o que atrás já foi dito:
Durante a vida, o corpo recebe as impressões exteriores e transmite-as ao espíri-
to, por intermédio do perispírito, que constitui, provavelmente, o que se costuma
chamar fluido nervoso. O corpo, estando morto, não sente mais nada, porque não
possui espírito nem perispírito. O espírito, desligado do corpo, experimenta a sensa-
ção, mas como esta não lhe chega por um canal limitado torna-se geral. Como o
perispírito é apenas um agente de transmissão, pois é o espírito que possui a consci-
ência, deduz-se que se pudesse existir perispírito sem espírito, ele não sentiria mais
do que um corpo morto. Da mesma maneira, se um espírito não tivesse perispírito,
seria inacessível a todas as sensações penosas: é o que acontece com os espíritos

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completamente purificados. Sabemos que quanto mais o espírito se purifica, mais


eterizada se torna a essência do perispírito, de maneira que a influência material di-
minui à medida que o espírito progride, ou seja, à medida que o perispírito se torna
menos grosseiro.

RESUMO

ORIGEM E NATUREZA DOS ESPÍRITOS

Os espíritos são os seres inteligentes da criação. Eles povoam o Universo, fora


do mundo material.
Os espíritos são individualizações do princípio inteligente, como os corpos são
individualizações do princípio material.
O nosso planeta começou a oferecer possibilidade de surgimento da vida
quando as grandes convulsões telúricas se atenuaram.
É nos seres inferiores que o princípio espiritual se elabora, se individualiza,
pouco a pouco, e ensaia para a vida.

PERISPÍRITO

A existência de um elemento intermediário entre o espírito e o corpo físico é


admitida desde a mais remota antiguidade.
A união do espírito ao corpo físico dá-se no momento da concepção.
O perispírito é uma aquisição do espírito, na sua longa marcha pelos cami-
nhos da evolução biológica.
O perispírito é a matriz espiritual do corpo físico.
O perispírito é o sustentador das formas físicas dos seres vivos.
O perispírito retracta o nosso estado mental.

DIFERENTES ORDENS DE ESPÍRITOS


As características gerais dos espíritos das três ordens são as seguintes:
Nos imperfeitos - predominância da matéria sobre o espírito; nos bons - pre-
dominância do espírito sobre a matéria; nos espíritos puros - nenhuma influência da
matéria.

PERCEPÇÕES, SENSAÇÕES E SOFRIMENTOS DOS ESPÍRITOS

No mundo espiritual, o espírito age com maior liberdade, tendo as percepções


que tinha quando encarnado e outras que o corpo físico não permite.
As sensações de frio ou calor que alguns espíritos dizem sentir é a lembrança
do que sofreram durante a vida.

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Curso Básico de Espiritismo O mundo dos espíritos

BIBLIOGRAFIA

(1) Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Questões: 43-44-45-79-93-100 a 113-244-


249-540 - 1.ª Edição - Edicel-Editora Cultural Espírita, Lda.
(2) Allan Kardec, A Génese, Cap. XIV, n.º 7, 9 e 10. 18.ª Edição (Popular), Federa-
ção Espírita Brasileira
(3) André Luiz, Evolução em Dois Mundos, psicografia de Francisco Cândido Xavi-
er, 1.ª Parte, Cap. II - 3.ª Edição - Federação Espírita Brasileira
(4) Emmanuel, Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, Pág. 127 - 7.ª
Edição - Federação Espírita Brasileira
(5) Gabriel Dellane, A Evolução Anímica, Cap. I, Ideia directriz, 4.ª Edição, Federa-
ção Espírita Brasileira

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CAPÍTULO 6

SUMÁRIO
6 PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS

6.1 INTRODUÇÃO – Revisão histórica


6.1.1 Reencarnação e metempsicose
6.1.2 Reencarnação e ressurreição
6.1.3 Reencarnação na Bíblia e nos Evangelhos
6.1.4 Reencarnação e evolução anímica
6.1.5 Reencarnação e a evolução do homem
6.1.6 Evidências da reencarnação

6.2 OBJECTIVO DA ENCARNAÇÃO

6.3 DA VOLTA DO ESPÍRITO, EXTINTA A VIDA


CORPORAL, À VIDA MATERIAL

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Curso Básico de Espiritismo Pluralidade das existências

6. PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS


6.1. INTRODUÇÃO – REVISÃO HISTÓRICA
“A doutrina das vidas sucessivas, ou reencarnação, é também chamada palingene-
sia, de duas palavras gregas -
palin, de novo, genesis, nasci-
mento. O que há de mais notá-
vel é que, desde os albores da
Civilização, ela foi formulada, na
Índia, com uma precisão que o
estado intelectual dessa época
longínqua não fazia pressagiar.”
(2) (*)
Com efeito, desde a mais
alta antiguidade, os povos da
Ásia e da Grécia acreditaram na
imortalidade da alma, e mais
ainda, muitos procuravam saber
se essa alma fora criada no momento do nascimento ou se existia antes. (2)
A Índia é, muito provavelmente, o berço intelectual da humanidade, e é
interessante que se encontrem nos vedas, no Bhagavad Gita passagens como as que
se seguem:
“Assim como se deixam as vestes gastas para usar vestes novas, também a
alma deixa o corpo usado para revestir novos corpos” e “Os mundos voltarão a Bra-
ma, ó Arjuna, mas aquele que me atingiu não deve mais renascer.” (2)
Encontra-se no Mazdeísmo, religião da Pérsia, uma concepção muito elevada,
a da redenção final concedida a todas as criaturas, depois de haverem, entretanto,
experimentado as provas expiatórias que devem conduzir a alma humana à sua feli-
cidade final. (2)
Na Grécia vai encontrar-se a doutrina das vidas sucessivas nos poemas órficos;
era a crença de Pitágoras, de Sócrates, de Platão, de Apolónio e de Empédocles.
Com o nome de metempsicose, falam dela muitas vezes nas suas obras em termos
velados, porque, em grande parte, estavam ligados pelo juramento iniciático; contu-
do, ela é afirmada com clareza no último livro da República, em Fedra, em Timeu e
em Fedon. (5)
Platão adopta a ideia pitagórica da palingenesia. Ele fundou-a em duas razões
principais, expostas no Fedon. A primeira é que, na Natureza, a morte sucede à vida,
e, sendo assim, é lógico admitir que a vida sucede à morte, porque nada pode nascer
do nada, e se os seres que vemos morrer não devessem voltar mais à Terra tudo
acabaria por se absorver na morte. Em segundo lugar, o grande filósofo baseia-se na
reminiscência, porque, segundo ele, aprender é recordar. (2)
A escola neoplatónica de Alexandria ensina a reencarnação, precisando, ain-
da, as condições, para a alma, dessa evolução progressiva. (2)
Para Plotino, a alma comete faltas, é condenada a expiá-las, recebendo puni-
ções em infernos tenebrosos; depois, é obrigada a passar a outro corpo, para reco-
meçar as suas provas. (2)
(*) Os algarismos colocados entre parênteses correspondem, na bibliografia,
bibliografia no final dos resumos de
cada capítulo, aos mesmos algarismos com que estão assinaladas as fontes que serviram de base ao
texto, ou extraídas as citações.
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Porfírio não crê na metempsicose, ainda mesmo como punição das almas per-
versas e, segundo ele, a reencarnação só se opera no género humano. (2)
Segundo Jâmblico, a justiça de Deus não é a justiça dos homens. O homem
define a justiça sob o ponto de vista da sua vida actual e do seu estado presente.
Deus define-a relativamente às nossas existências sucessivas e à universalidade das
nossas vidas. (2)
Entre os romanos, que receberam a maior parte dos seus conhecimentos da
Grécia, Virgílio exprime claramente a ideia da palingenesia. Diz também Ovídio que a
sua alma, quando for pura, irá habitar os astros que povoam o firmamento, o que
estende a palingenesia até aos outros mundos semeados no espaço. (2)
Os gauleses praticavam a religião dos druidas, acreditavam na unidade de
Deus e nas vidas sucessivas. (2)
Durante todo o período da Idade Média, a doutrina palingenésica ficou vela-
da, porque era severamente proscrita pela Igreja, então toda-poderosa. Foi preciso
chegar aos tempos modernos, e à liberdade de pensar e discutir publicamente, para
que a verdade das vidas sucessivas pudesse renascer à grande luz da publicidade. (2)
Descartes, Leibnitz e Kant tiveram uma certa intuição destes factos (caracte-
res dissemelhantes dos gémeos e terem os meninos-prodígio talentos que os pais
não possuíam); Descartes, sobretudo, na sua teoria das ideias inatas refere-se a ela.
(6)
Todas estas religiões se basearam na crença nas vidas sucessivas: o Brama-
nismo, o Budismo, o Druidismo, o Islamismo. O Cristianismo não abriu excepção à
regra. Traços desta doutrina se nos deparam no Evangelho. Os padres gregos Oríge-
nes, Clemente de Alexandria e a maior parte dos cristãos dos primeiros séculos admi-
tiam-na. (6)
Ainda que em tempos remotos grandes pensadores cristãos tenham aceite a
doutrina das vidas sucessivas, como Orígenes, Agostinho, Francisco de Assis, Jeróni-
mo, entre inúmeros outros pensadores religiosos e leigos, antigos e modernos, mui-
tos mantêm-se na obstinada negativa de quem concluiu sem estudar, como o que
não viu e não gostou.
Segundo Leslie D. Weatherhead, da Igreja Anglicana de Londres (The Case for
Reencarnation, de Leslie D. Weatherhead, Londres, 1958), o conceito das vidas su-
cessivas foi rejeitado pela Igreja Católica no Concílio de Constantinopla, em 553, por
votação, na qual a reencarnação perdeu por 3 a 2. O que realmente aconteceu foi
que um sínodo local condenou os ensinamentos de Orígenes acerca da preexistência
da alma, em 553, na cidade de Constantinopla, crê-se que até por imposição política
do imperador Justiniano, a cuja esposa desagradava a ideia de poder reencarnar
como escrava, se maltratasse os escravos, como então se ensinava. (14)

6.1.1. REENCARNAÇÃO E METEMPSICOSE

"Poderia encarnar num animal o espírito que animou o corpo de um ho-


mem?". Allan Kardec submete aos espíritos a questão, inscrevendo-a sob o n.º 612
em O Livro dos Espíritos, para averiguar a veracidade ou não de certas afirmações
populares que informavam poderem as almas retornar à Terra num corpo de animal
para pagamento de infracções cometidas contra a Lei.
Esclarecem os espíritos:
"Isso seria retrogradar e o espírito não retrograda. O rio não remonta à sua
nascente".
E o Codificador comenta:

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"Seria verdadeira a
metempsicose, se indicasse
a progressão da alma,
passando de um estado
inferior a outro superior,
onde adquirisse
desenvolvimentos que lhe
transformassem a natureza.
É, porém, falsa no sentido
de transmigração directa da
alma do animal para o
homem e reciprocamente,
o que implicaria a ideia de
um retrocesso." (9)
A reencarnação,
como os espíritos a
ensinam, funda-se, ao contrário, na marcha ascendente da Natureza e na progressão
do homem, dentro da sua própria espécie, o que em nada lhe diminui a dignidade. O
que o rebaixa é o mau uso que faz das faculdades que Deus lhe outorgou para que
progrida. (9)
Emmanuel explica como nasceu entre os egípcios a doutrina da metempsico-
se:
O grande povo dos faraós guardava a reminiscência do seu doloroso degredo
na face obscura do mundo terreno. E tanto lhe doía semelhante humilhação que, na
lembrança do pretérito, criou a teoria da metempsicose, acreditando que a alma de
um homem podia regressar ao corpo de um irracional, por determinação punitiva
dos deuses. A metempsicose era o fruto da sua amarga impressão, a respeito do
exílio penoso que lhe fora infligido no ambiente terrestre. (7)
Pitágoras foi o primeiro que introduziu na Grécia a doutrina dos renascimen-
tos da alma, doutrina que havia conhecido nas suas viagens ao Egipto e à Pérsia. Ele
tinha duas doutrinas, uma reservada aos iniciados, que frequentavam os mistérios, e
outra destinada ao povo; esta última deu nascimento ao erro da metempsicose. Para
os iniciados, a ascensão era gradual e progressiva, sem regressão às formas inferio-
res, enquanto ao povo, pouco evoluído, se ensinava que as almas ruins deviam re-
nascer em corpos de animais. (2)
O vulgo não quer ver hoje na metempsicose mais do que a passagem da alma
humana para o corpo de seres inferiores. Na Índia, no Egipto e na Grécia ela era
considerada, de um modo mais geral, como transmigração das almas para outros
corpos humanos. Tendemos a crer que a descida da alma à animalidade num corpo
inferior não era, como a ideia do inferno, no Catolicismo, mais do que um espanta-
lho, destinado, no pensamento dos antigos, a apavorar os maus. Qualquer retroces-
so desta espécie seria contrário à justiça, à verdade; além de que o desenvolvimento
do organismo, ou perispírito, vedando ao ser humano a possibilidade de continuar a
adaptar-se às condições da vida animal, torná-la-ia, aliás, impossível. (5)

6.1.2. REENCARNAÇÃO E RESSURREIÇÃO

A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de ressurrei-
ção. Só os saduceus, cuja crença era a de que tudo acaba com a morte, não acredi-
tavam nisso. As ideias dos judeus sobre esse ponto, como sobre muitos outros, não

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eram claramente definidas,


porque tinham apenas vagas e
incompletas noções acerca da
alma e da sua ligação com o
corpo. Eles acreditavam que um
homem que vivera poderia revi-
ver, sem saberem exactamente
de que maneira o facto poderia
dar-se. Designavam pelo termo
ressurreição o que o Espiritismo,
mais judiciosamente, chama
reencarnação. Com efeito, a
ressurreição dá ideia de voltar à
vida o corpo que já está morto, o
que a Ciência demonstra ser
materialmente impossível,
sobretudo quando os elementos
desse corpo já se acham desde há muito tempo dispersos e absorvidos. A reencarna-
ção é a volta da alma, ou espírito, à vida corpórea, mas em outro corpo especialmen-
te formado para ele e que nada tem de comum com o antigo. A palavra ressurreição
podia, assim, aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. Se, por-
tanto, segundo a crença deles, João Baptista era Elias, o corpo de João não podia ser
o de Elias, pois João fora visto criança e seus pais eram conhecidos. João, pois, podia
ser Elias reencarnado, porém, não ressuscitado. (10)

6.1.3. A REENCARNAÇÃO NA BÍBLIA E NOS EVANGELHOS

Entre os hebreus, a ideia das vidas anteriores era geralmente admitida. A


crença nos renascimentos da alma encontra-se indicada em inúmeras passagens da
Bíblia, de forma mais ou menos velada, porém, claramente nos evangelhos.
Em Isaías, Cap. XXVI, v. 19, encontramos:
“Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo; aqueles que
estavam mortos em meio a mim ressuscitarão. Despertai do vosso sono e entoai lou-
vores a Deus, vós que habitais o pó.”
É também muito explícita esta passagem de Isaías:
“Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo”.
Se o profeta houvera querido falar da vida espiritual, se houvera pretendido dizer
que aqueles que tinham sido executados não estavam mortos em espírito, teria dito
“ainda vivem”, e não “viverão de novo”. No sentido espiritual, seria um contra-senso,
pois implicaria uma interrupção na vida da alma. No sentido da regeneração moral,
seria a negação das penas eternas, pois estabelece, em princípio, que todos os que
estão mortos viverão. (10)
E Job, no Cap. XIV, v. 10 a 14, na versão da Igreja Grega, assim escreve:
“Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha exis-
tência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo.”
A versão da Igreja Grega é mais explícita, se é que isso é possível. Acabando
os dias da minha existência terrena, esperarei, porquanto a ela voltarei, ou voltarei à
existência terrestre. Isto é tão claro como se alguém dissesse: “Saio de minha casa,
mas a ela tornarei.” (10)

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Em várias passagens dos evangelhos aparece claramente a ideia da reencar-


nação, sendo referida pelos evangelistas, demonstrando que era ponto de uma das
crenças fundamentais dos judeus.

1. "Jesus, tendo vindo às cercanias de Cesareia de Filipe, interrogou assim


seus discípulos: – Que dizem os homens em relação ao Filho do Homem? Quem di-
zem que eu sou?. Eles lhe respondem: – Dizem uns que és João Baptista; outros, que
Elias; outros, que Jeremias, ou algum dos profetas. Perguntou-lhes Jesus: – E vós,
quem dizeis que eu sou?. Simão Pedro, tomando a palavra, respondeu: – Tu és o
Cristo, o Filho do Deus vivo.” (S. Mateus, Cap. XVI, vv. 13 a 17; S. Marcos, Cap. VIII,
vv. 27 a 30).
2. “Nesse interim, Herodes, o Tetrarca, ouvira falar de tudo o que fazia Jesus,
e seu espírito se achava em suspenso - porque uns diziam que João Baptista ressusci-
tara dentre os mortos; outros que aparecera Elias; e outros que um dos antigos pro-
fetas ressuscitara. Disse então Herodes: – Mandei cortar a cabeça a João Baptista;
quem é então esse de quem ouço dizer tão grandes coisas? E ardia por vê-lo.” (S.
Marcos, Cap. VI, vv. 14 a 16; S. Lucas, Cap. IX, vv. 7 a 9).
3. “Após a transfiguração, os seus discípulos então o interrogaram desta for-
ma:
– Porque dizem os escribas ser preciso
que antes volte Elias? Jesus lhes respondeu: – É
verdade que Elias há-de vir e restabelecer todas
as coisas, mas eu vos declaro que Elias já veio e
eles não o conheceram e o trataram como lhes
aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do
Homem. Então seus discípulos compreenderam
que fora de João Baptista que ele falara”. (S.
Mateus, Cap. XVII, vv. 10 a 13; S. Marcos, Cap.
IX, vv. 11 a 13).
A ideia de que João Baptista era Elias e
de que os profetas podiam reviver na Terra está
em muitas passagens dos evangelhos,
notadamente nas acima reproduzidas (n.º 1, 2 e
3). Se fosse errónea essa crença, Jesus não
houvera deixado de a combater, como
combateu tantas outras. (10)
O Evangelho de S. João apresenta
afirmação ainda mais categórica do Cristo com
referência à doutrina das vidas sucessivas:
“Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodemos, senador dos
judeus, que veio à noite ter com Jesus e lhe disse:
– Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir como um
doutor, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes se Deus não estives-
se com ele. Jesus lhe respondeu: – Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode
ver o reino de Deus se não nascer de novo. Disse-lhe Nicodemos: – Como pode nas-
cer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer
segunda vez? Retorquiu-lhe Jesus: – Em verdade, em verdade, digo-te: Se um ho-
mem não renasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é
nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te admires de
que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. Respondeu-lhe Nicodemos: –
Como pode isso fazer-se? - Jesus lhe observou: – Pois quê! És mestre em Israel e ig-
noras estas coisas?". (S. João, Cap. III, vv. 1 a 12).

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Esta última observação do Cristo mostra bem que ele se surpreendeu não co-
nhecesse um mestre em Israel a reencarnação, porque ela era ensinada como dou-
trina secreta aos intelectuais da época.
Uma das provas que se pode apresentar é a de que existiam ensinos ocultos ao co-
mum dos homens, e que foram compilados nas diferentes obras que constituem a
Cabala. (2)
No ensino secreto, reservado aos iniciados, proclamava-se a imortalidade da
alma, as vidas sucessivas e a pluralidade dos mundos habitados. (2)
Não há dúvida de que, sob o nome de ressurreição, o princípio da reencarna-
ção era ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus, ponto que Jesus e os
profetas confirmaram de modo formal; donde se segue que negar a reencarnação é
negar as palavras do Cristo. Um dia, porém, as suas palavras, quando forem medita-
das sem ideias preconcebidas, reconhecer-se-ão autorizadas quanto a esse ponto,
bem como em relação a muitos outros. (10)
A essa autoridade, do ponto de vista religioso, se adita, do ponto de vista filo-
sófico, a das provas que resultam da observação dos factos. Quando se trata de re-
montar dos efeitos às causas, a reencarnação surge como necessidade absoluta,
como condição inerente à humanidade; numa palavra: como lei da natureza. (10)
Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências são
ininteligíveis, na sua maioria, as máximas do Evangelho, razão por que têm dado
lugar a tão contraditórias interpretações. Somente esse princípio lhes restituirá o sen-
tido verdadeiro. (10)

6.1.4. REENCARNAÇÃO E A EVOLUÇÃO ANÍMICA

Tomando-se a humanidade no grau mais ínfimo


da escala espiritual, perguntar-se-á se é aí o ponto
inicial da alma humana.
Na opinião de alguns filósofos espiritualistas,
o princípio inteligente, distinto do princípio
material, individualiza-se e elabora-se, passando
pelos diversos graus da animalidade. É aí que a
alma se ensaia para a vida e desenvolve, pelo
exercício, as suas primeiras faculdades. Esse seria
para ela, por assim dizer, o período de incubação.
Chegada ao grau de desenvolvimento que esse
estado comporta, ela recebe as faculdades
especiais que constituem a alma humana. Haveria
assim filiação espiritual do animal para o homem,
como há filiação corporal. (12)
Este sistema, fundado na grande lei de
unidade que preside à criação, corresponde,
forçoso é convir, à justiça e à bondade do Criador;
dá uma saída, uma finalidade, um destino aos animais, que deixam então de formar
uma categoria de seres deserdados, para terem, no futuro que lhes está reservado,
uma compensação para os seus sofrimentos. O que constitui o homem espiritual não
é a sua origem; são os atributos especiais com que ele se apresenta dotado ao entrar
na humanidade, atributos que o transformam, tornando-o um ser distinto, como o
fruto saboroso é distinto da raiz amarga que lhe deu origem. Por haver passado pela
fieira da animalidade, o homem não deixaria de ser homem; já não seria animal,

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como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe que o pôs no mundo.
(12)
O sentimento da justiça absoluta diz-nos também que o animal, tanto quanto
o homem, não deve viver e sofrer para o nada. Uma cadeia ascendente e contínua
liga todas as criações; o mineral ao vegetal, o vegetal ao animal, e este ao ente hu-
mano. (4)
A alma elabora-se no seio dos organismos rudimentares. No animal está ape-
nas em estado embrionário; no homem adquire o conhecimento, e não pode retro-
gradar mais. Porém, em todos os graus ela prepara e dá forma ao seu invólucro. As
formas sucessivas que reveste são a expressão do seu valor próprio. A situação que
ocupa na escala dos seres está em relação directa com o seu estado de adiantamen-
to. (4)
A finalidade da alma é o desenvolvimento de todas as faculdades a ela ine-
rentes. Para consegui-lo, é obrigada a encarnar grande número de vezes na Terra, a
fim de cimentar as suas faculdades morais e intelectuais, enquanto aprende a senho-
rear e governar a matéria. É mediante uma evolução ininterrupta, a partir das formas
de vida mais rudimentares, até à condição humana, que o princípio pensante con-
quista, lentamente, a sua individualidade. Chegado a esse estágio, cumpre-lhe fazer
eclodir a sua espiritualidade, dominando os instintos remanescentes da sua passa-
gem pelas formas inferiores, a fim de elevar-se, na série das transformações, para
destinos sempre mais altos. (3)
No dia em que a alma, libertando-se das formas animais chegar ao estado
humano, conquistar a sua autonomia, a sua responsabilidade moral, e compreender
o dever, nem por isso atingirá o seu fim ou terminará a sua evolução. Longe de aca-
bar, começará a sua obra real; novas tarefas a chamarão. As lutas do passado nada
são ao lado das que o futuro lhe reserva. Os seus renascimentos em corpos carnais
se sucederão. (4)

6.1.5. REENCARNAÇÃO E A EVOLUÇÃO DO HOMEM

Quando o espírito tem de encarnar


num corpo humano em vias de formação, um
laço fluídico, que não é mais não do que uma
expansão do seu perispírito, liga-o ao germe
que o atrai com uma força irresistível, desde o
momento da concepção. À medida que o
germe se desenvolve, o laço encurta-se. Sob a
influência do princípio vito-material do germe,
o perispírito, que possui certas propriedades
da matéria, une-se, molécula a molécula, ao
corpo em formação, daí poder dizer-se que o
espírito, por intermédio do seu perispírito, se
enraíza, de certa maneira, nesse germe, como
uma planta na terra. Quando o germe chega
ao seu pleno desenvolvimento, é a união
completa; nasce, então, o ser para a vida
exterior. (12)
À medida que o espírito se purifica, o
corpo que o reveste aproxima-se igualmente
da natureza espiritual. Torna-se-lhe menos

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densa a matéria, deixa de rastejar penosamente pela superfície do solo, menos gros-
seiras lhe são as necessidades físicas, não sendo mais preciso que os seres vivos se
destruam mutuamente para se nutrirem. O espírito acha-se mais livre e tem, das coi-
sas longínquas, percepções que desconhecemos. Vê com os olhos do corpo o que só
pelo pensamento entrevemos. (9)
Da purificação do espírito decorre o aperfeiçoamento moral dos seres encar-
nados. As paixões animais enfraquecem-se e o egoísmo cede lugar ao sentimento de
fraternidade. Assim, nos mundos superiores ao nosso, desconhecem-se as guerras,
carecendo de objecto os ódios e as discórdias, porque ninguém pensa em causar
dano ao seu semelhante. A intuição que os seus habitantes têm do futuro, a segu-
rança que uma consciência isenta de remorsos lhes dá, fazem com que a morte ne-
nhuma apreensão lhes cause. Encaram-na de frente, sem temor, como simples trans-
formação. (9)
A duração da vida, nos diferentes mundos, parece guardar proporção com o
grau de superioridade física e moral de cada um, o que é perfeitamente racional.
Quanto menos material o corpo, menos sujeito às vicissitudes que o desorganizam.
Quanto mais puro o espírito, menos paixões a miná-lo. É essa, ainda, uma graça da
Providência, que desse modo abrevia os sofrimentos. (9)

6.1.6. EVIDÊNCIAS DA REENCARNAÇÃO

Podemos enumerar quatro tipos de evidências da reencarnação:


1. Os meninos-prodígio;
2. As crianças que se lembram de vidas anteriores;
3. As comunicações mediúnicas;
4. As terapias médicas e psicológicas que usam regressão de memória.
Destas quatro evidências, as últimas três são evidências científicas.
Quanto aos
meninos-prodígio,
poderemos interrogar-
nos: – De onde vêm tan-
tos conhecimentos?
Como compreender, por
exemplo, que uma cri-
ança de sete anos de
idade esteja licenciada
em física, uma outra de
onze anos licenciada em
matemática, outras de
dois ou três anos de
idade que falem seis línguas diferentes, sem nunca terem aprendido? Não havendo
explicação nesta existência física, de duas uma: ou Deus privilegia uns seres em de-
trimento de outros, ou então, todos tiveram as mesmas oportunidades, começando
simples e ignorantes, e foram palmilhando o seu roteiro evolutivo, uns esforçando-se
mais que outros, e daí a dissemelhança evolutiva presente no nosso planeta. Assim
sendo, os meninos-prodígio seriam pessoas com grande cabedal de conhecimentos
trazido de vidas anteriores e que nesta existência carnal têm a capacidade de ter
acesso a essa informação que trazem do passado.
As crianças que se lembram de vidas anteriores têm proporcionado investiga-
ções espantosas aos cientistas de todo o mundo. Refira-se, por exemplo, os estudos

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rigorosamente científicos levados a cabo


pelo Prof. Dr. Ian Stevenson, nos EUA, que
estudou mais de dois mil casos de crianças
que se lembravam de vidas anteriores
usados no seu livro Vinte Casos Sugestivos
de Reencarnação. O Dr. Hemendras Nath
Banerjee, na Índia, durante vinte e cinco
anos compilou mais de mil e cem casos em
todo o mundo no seu livro Vida Pretérita e
Futura (Edições Nórdica, Rio de Janeiro,
Brasil, 2.ª Edição, 1987). O Eng.º Hernâni
Guimarães Andrade, no Brasil, compilou
vários casos de reencarnação no seu livro
Reencarnação no Brasil, (Edições O Clarim,
Brasil, 1986). De realçar que a grande
maioria destes investigadores não é
espírita. Investigaram casos onde a
hipótese da reencarnação de pessoas
recentemente falecidas é a única hipótese
plausível e com base científica, de entre as
restantes hipóteses de explicação.
Através das comunicações
mediúnicas, houve espíritos que
informaram que iriam reencarnar num
determinado local, numa determinada família e, às vezes, dando sinais ou caracterís-
ticas que a posteriori eram reconhecidos. Houve casos desses catalogados aquando
das experiências de Allan Kardec (ver colecção da Revista Espírita, de Allan Kardec) e
com o médium Francisco Cândido Xavier, em que pelo menos um dos casos está
estudado pelo Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas, do Brasil, pelo Eng.º
Hernâni Guimarães Andrade e sua equipa.
As terapias médicas que usam regressão de memória, com fins terapêuticos,
têm sido a mais recente evidência científica da reencarnação. Veja-se as pesquisas da
Dr.ª Edith Fiore, nos EUA no seu livro Já Vivemos Antes, (Edições Europa-América,
Portugal, 1978), do Dr. Brian Weiss, nos EUA no seu livro Muitas Vidas, Muitos Mes-
tres, da Dr.ª Maria Júlia Prieto Peres, psiquiatra, no Brasil, do Dr. Morris Netherton,
nos EUA, da Dr.ª Helen Wambach no seu livro Recordando Vidas Passadas, (Edições
Pensamento, São Paulo, Brasil, 1995), onde pessoas em estado de hipnose profunda,
ou então em estados alterados de consciência, regridem a situações, a espaços tem-
porais que identificam como sendo de outras existências carnais, bem como nos pla-
nos entre vidas (no mundo espiritual), dando muitas vezes pormenores exactos, que
depois de pesquisados são confirmados pelos cientistas, como, por exemplo, locais,
nomes, datas, entre outros, tudo isto relativamente a épocas muito remotas (veja-se
as experiências da Dr.ª Edith Fiore no seu livro acima referido).
Quando a reencarnação (que é defendida por cerca de 2/3 da população
mundial, de acordo com estatísticas) for bem assimilada, a xenofobia deixará de exis-
tir, já que saberemos que poderemos reencarnar naquele país ou povo que agora
rejeitamos ou odiamos. O racismo deixará de ter suporte, pois entenderemos que os
espíritos não têm cor e que poderemos reencarnar na raça que agora repudiamos. A
superioridade sexual deixará de existir, pois saberemos que tanto poderemos reen-
carnar como homem ou mulher, de acordo com as nossas necessidades evolutivas. A
própria ecologia será privilegiada, pois o homem sabe que amanhã, quando voltar a

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este planeta, encontrá-lo-á como o deixou, recebendo, assim, o fruto dos desmandos
de agora ou, então, da sua preservação.
A compreensão da reencarnação será a pedra-de-toque para que a sociedade
se torne mais justa, mais fraterna e mais feliz.

6.2. OBJECTIVO DA ENCARNAÇÃO

Deus impõe aos espíritos a encarnação com o objectivo de fazê-los chegar à


perfeição, passando pelas vicissitudes da existência corporal.
Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o espírito em condições de su-
portar a parte que lhe toca na obra da criação. Para executá-la é que, em cada mun-
do, toma o espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse
mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que,
concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta. (9)
Todos são criados simples e ignorantes e instruem-se nas lutas e tribulações
da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer alguns felizes, sem fadigas e
trabalhos, por conseguinte, sem mérito. (9)
Daí concluir-se que os
seres considerados eleitos -
anjos, arcanjos, querubins e
serafins - são a representação
das almas que já atingiram,
pelo seu esforço, graus de
elevação espiritual, passando,
como não poderia deixar de
ser, pelos mesmos estágios
inferiores da escala evolutiva.
O atrasado possui
inclinação para o mal,
inteligência limitada; regozija-
se com a violência, compraz-
se na vida viciosa. Quando
deixa o corpo, os sentimentos
acompanham-no. Com a
evolução, ele vai-se modifican-
do. As lutas do mundo, os sofrimentos, através das vidas, é que lhe vão aprimorando
a alma. (13)
A Terra é como uma escola e um hospital. Vê-se o aluno ir progredindo à me-
dida que muda de classe; a sua cultura é em função do tempo e do estudo; quando
o corpo se debilita vai a um centro de saúde, onde o médico lhe retempera e restitui
as forças. (13)
Assim é a Terra para o incipiente. Ele aporta aqui como selvagem ou bárbaro.
E continua a sua peregrinação, curando-se no hospital planetário, com a terapêutica
do sofrimento, ilustrando-se com as lições que recebe de vida em vida, até que,
inteiramente puro, fica livre das vidas materiais e entra para o nirvana dos budistas
ou para as regiões de paz; a felicidade consiste nessa tranquilidade dos justos; não a
podemos perceber nem vislumbrar, porque nunca a possuímos, envoltos nos turbi-
lhões, na azáfama, no nevoeiro, nas paixões violentas desse mundículo onde nos
encontramos atolados. (13)

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Os espíritos que seguem o caminho do bem chegam mais depressa aos níveis
mais elevados de aperfeiçoamento intelectual e moral; sendo as aflições da vida fruto
da imperfeição do espírito, quanto menos imperfeições menos tormentos. Aquele
que não for invejoso, nem ciumento, nem avarento, nem ambicioso, não sofrerá as
torturas que se originam dessas imperfeições.
Os espíritos que desde o princípio seguem o caminho do bem nem por isso
são espíritos perfeitos. Não têm, é certo, maus pendores, mas precisam adquirir a
experiência e os conhecimentos indispensáveis para alcançar a perfeição. Podemos
compará-los a crianças que, seja qual for a bondade dos seus instintos naturais, ne-
cessitam desenvolver-se, e esclarecer-se e não passam, sem transição, da infância à
madureza. (9)
Depende dos
espíritos progredirem
mais ou menos
rapidamente em busca
da perfeição,
conforme o desejo que
têm de alcançá-la e a
submissão que
testemunham à
vontade de Deus. Os
espíritos não podem
conservar-se
eternamente nas
ordens inferiores;
mudam de ordem
mais rápida ou demo-
radamente, porém não podem degenerar. À medida que avançam, compreendem o
que os distancia da perfeição. O espírito, ao concluir uma prova, fica com a ciência
que daí lhe veio, e não a esquece. Pode permanecer estacionário durante algum
tempo, porém não retrograda.
A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do espírito:
ao progresso intelectual pela actividade obrigatória do trabalho; ao progresso moral
pela necessidade recíproca dos homens entre si. A vida social é a pedra de toque das
boas ou más qualidades. (11)
A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o
egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade,
a má-fé, a hipocrisia, numa palavra, tudo o que constitui o homem de bem, ou
perverso, tem por móvel, por alvo e por estímulo as relações do homem com os seus
semelhantes. (11)
Uma só existência corporal é manifestamente insuficiente para o espírito ad-
quirir todo o bem que lhe falta e eliminar o mal que lhe sobra. (11)
Deus, que é soberanamente justo e bom, concede ao espírito tantas encarna-
ções quantas as necessárias para atingir o seu objectivo: a perfeição. (11)
Para cada nova existência junto à permeio à matéria, o espírito entra com o
cabedal adquirido nas anteriores, em aptidões, conhecimentos intuitivos, inteligência
e moralidade. Cada existência é, assim, um passo avante no caminho do progresso.
(11)
A encarnação é inerente à inferioridade dos espíritos, deixando de ser neces-
sária desde que estes, transpondo-lhe os limites, ficam aptos para progredir no esta-
do espiritual, ou nas existências corporais de mundos superiores, que nada têm da
materialidade terrestre. Da parte destes a encarnação é voluntária, tendo por fim

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exercer sobre os encarnados uma acção mais directa e tendente ao cumprimento da


missão que lhes compete junto dos mesmos. Desse modo, aceitam abnegadamente
as vicissitudes e sofrimentos da encarnação.
(11)
A pluralidade das existências, cujo
princípio Jesus estabeleceu no Evangelho,
sem, todavia, definir, como a muitos outros, é
uma das mais importantes leis reveladas pelo
Espiritismo, pois demonstra-lhe a realidade e a
necessidade do progresso. Com esta lei, o
homem explica todas as aparentes anomalias
da vida humana; as diferenças de posição
social; as mortes prematuras que, sem a
reencarnação, tornariam inúteis à alma as
existências breves; a desigualdade de aptidões
intelectuais e morais, pela ancianidade do
espírito que mais ou menos aprendeu e
progrediu, e traz, nascendo, o que adquiriu
nas suas existências anteriores. (12)
Com a reencarnação desaparecem os
preconceitos de raça e de casta, pois o
mesmo espírito pode tornar a nascer rico ou
pobre, capitalista ou proletário, chefe ou
subordinado, livre ou escravo, homem ou
mulher. De todos os argumentos invocados
contra a injustiça da servidão e da escravidão, contra a sujeição da mulher à lei do
mais forte, nenhum há que prime, em lógica, ao facto material da reencarnação. Se,
pois, a reencarnação funde numa lei da Natureza o princípio da fraternidade univer-
sal, também funde na mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguin-
te, o da liberdade. (12)
Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não seria somente
irreconciliável com a justiça de Deus, que tornaria todos os homens responsáveis pela
falta de um só; seria também um contra-senso, e tanto menos justificável quanto,
segundo essa doutrina, a alma não existia na época a que se pretende fazer que a
sua responsabilidade remonte. Com a preexistência, o homem traz, ao renascer, o
germe das suas imperfeições, dos defeitos que não corrigiu, e que se traduzem pelos
instintos naturais e pelos pendores para tal ou tal vício. É esse o seu verdadeiro pe-
cado original, cujas consequências naturalmente sofre, mas com a diferença capital
de que sofre a pena das suas próprias faltas, e não das de outrem; e com outra dife-
rença, ao mesmo tempo consoladora, animadora e soberanamente equitativa, de
que cada existência lhe oferece os meios de se redimir pela reparação e de progredir,
quer despojando-se de alguma imperfeição, quer adquirindo novos conhecimentos e,
assim, até que, suficientemente purificado, não necessite mais da vida corporal e
possa viver exclusivamente a vida espiritual, eterna e bem-aventurada. (12)
A reencarnação é um processo de aperfeiçoamento espiritual. A volta do espí-
rito à vida corporal tem um objectivo; não é acção do acaso, nem capricho dos céus.
Não há experiência reencarnatória sem motivo, ensina o Espiritismo. (1)
O aspecto moral da reencarnação deve merecer sempre uma consideração
muita lúcida, justamente porque esse aspecto se reflecte na vida familiar, nas rela-
ções profissionais, enfim, na vida social. A noção de uma única existência não nos
daria uma visão real de justiça no tempo e no espaço. A reencarnação não é, portan-
to, simples questão de crença, mas um princípio lógico, assim o entendemos, pois

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abre à inteligência inquiridora uma perspectiva de justiça muito mais ampla, através
de existências diversas. (1)
Em relação ao Espiritismo, o pensamento reencarnacionista está expresso em:
Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sempre, tal é a lei. (9)
Allan Kardec formulou aos espíritos a questão n.º 196 inscrita em O Livro dos
Espíritos, cuja resposta apresenta a súmula dos objectivos da encarnação:
“Não podendo os espíritos aperfeiçoar-se, a não ser por meio das tribulações
da existência corpórea, segue-se que a vida material seja uma espécie de crisol ou de
depurador, por onde têm que passar todos os seres do mundo espiritual para alcan-
çarem a perfeição?
– Sim, é exactamente isso. Eles melhoram-se nessas provas, evitando o mal e
praticando o bem; porém, somente ao cabo de mais ou menos longo tempo, con-
forme os esforços que empreguem; somente após muitas encarnações sucessivas, ou
depurações, atingem a finalidade para que tendem.” (9)
A obrigação que o espírito encarnado tem de prover ao alimento do corpo, à
sua segurança, ao seu bem-estar, força-o a empregar as suas faculdades em investi-
gações, a exercitá-las e desenvolvê-las. Útil, portanto, ao seu adiantamento é a sua
união com a matéria. (12)
Daí, constituir a encarnação uma necessidade. Além disso, pelo trabalho inte-
ligente que ele executa em seu proveito, sobre a matéria, auxilia a transformação e o
progresso material do globo que lhe serve de habitação. (12)

6.2.1. JUSTIÇA DA REENCARNAÇÃO

A
reencarnação,
afirmada pelas
vozes de além-
túmulo, é a única
forma racional
que pode admitir
a reparação das
faltas cometidas e
a evolução
gradual dos seres.
Sem ela, não se vê
sanção moral
satisfatória e
completa; não há
possibilidade de
conceber a existência de um ser que governe o universo com justiça. (5)
Se admitirmos que o homem vive actualmente pela primeira vez neste mun-
do, que uma única existência terrestre é o quinhão de cada um de nós, a incoerência
e a parcialidade, forçoso seria reconhecê-lo, presidem à repartição dos bens e dos
males, das aptidões e das faculdades, das qualidades nativas e dos vícios originais.
(5)
Todos os espíritos tendem para a perfeição e Deus lhes faculta os meios de
alcançá-la, proporcionando-lhes as provações da vida corporal. A Sua justiça, porém,
concede-lhes realizar, em novas existências, o que não puderam fazer, ou concluir,
numa primeira prova. (9)

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Deus não obraria com equidade, nem de acordo com a sua bondade, se con-
denasse para sempre os que talvez hajam encontrado, oriundos do próprio meio em
que foram colocados e alheios à vontade que os animava, obstáculos ao seu melho-
ramento. Se a sorte do homem se fixasse irrevogavelmente depois da morte, não
seria uma única a balança em que Deus pesa as acções de todas as criaturas e não
haveria imparcialidade no tratamento que a todas dispensa. (9)
A doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o mesmo
espírito muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à ideia que forma-
mos da justiça de Deus para com os homens que se acham em condição moral infe-
rior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois oferece
os meios de resgatarmos os nossos erros, em novas provações. A razão no-la indica e
os espíritos a ensinam. (9)
O homem, que tem consciência da sua inferioridade, haure consoladora espe-
rança na doutrina da reencarnação. Se crê na justiça de Deus, não pode contar que
venha a achar-se, para sempre, em pé de igualdade com os que mais fizeram do que
ele. Sustém-no, porém, e reanima-lhe a coragem a ideia de que aquela inferioridade
não o deserda eternamente do supremo bem e que, mediante novos esforços, dado
lhe será conquistá-lo. Quem é que, ao cabo da sua carreira, não deplora haver tão
tarde ganho uma experiência de que já não mais pode tirar proveito? Entretanto,
essa experiência tardia não fica perdida; o espírito a utilizará em nova existência. (9)

6.3. DA VOLTA DO ESPÍRITO, EXTINTA A VIDA CORPORAL, À


VIDA ESPIRITUAL

No intervalo das existências corporais, o espírito torna a entrar no mundo espi-


ritual, onde é feliz ou desgraçado segundo o bem ou o mal que fez. (11)
Uma vez que o estado espiritual é o estado definitivo do espírito e o corpo es-
piritual não morre, deve ser esse também o seu estado normal. O estado corporal é
transitório e passageiro. É no estado espiritual, sobretudo, que o espírito colhe os
frutos do progresso realizado pelo trabalho da encarnação; é também nesse estado
que se prepara para novas lutas e toma as resoluções que há-de pôr em prática na
sua volta à humanidade. (11)
O estudo das comunicações espirituais provou-nos, de maneira irrefutável, que
a situação da alma, depois da morte, é regida por uma lei de justiça infalível, segun-
do a qual o ser se encontra em condições de existência que são rigorosamente de-
terminadas pelo seu grau evolutivo e pelos esforços que faz para se melhorar. (2)
As nossas relações com o Além ensinaram-nos, ainda, que não existe inferno,
nem paraíso, mas que a lei moral impõe sanções inelutáveis àqueles que a violaram,
enquanto reserva a felicidade aos que se esforçaram por praticar o bem sob todas as
formas. (2)
Por um efeito contrário, a união do perispírito e da matéria carnal, que se efec-
tuara sob a influência do princípio vital do germe, cessa desde que esse princípio
deixa de actuar, em consequência da desorganização do corpo. Como era mantida
por uma força actuante, tal união desfaz-se logo que essa força deixa de actuar. En-
tão, o perispírito desprende-se, molécula a molécula, conforme se unira, e ao espírito
é restituída a liberdade. Assim, não é a partida do espíri
espíri to que causa a morte do
corpo; esta é que determina
determina a partida do espí
espí rito. (12)
O Espiritismo, através da observação dos factos, dá a conhecer os fenómenos
que acompanham essa separação, que, às vezes, é rápida, fácil, suave e insensível,

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ao passo que doutras é lenta, laboriosa, horrivelmente penosa, conforme o estado


moral do espírito, e pode durar meses inteiros. (12)
A alma desprende-se gradualmente, não se escapa como um pássaro cativo a
quem se restitua subitamente a liberdade. Aqueles dois estados tocam-se e confun-
dem-se, de sorte que o espírito se solta pouco a pouco dos laços que o prendiam.
Estes laços desatam-se, não se quebram. (9)
Durante a vida, o espírito acha-se preso ao corpo pelo seu envoltório semimate-
rial, ou perispírito. A morte é somente destruição do corpo; não a desse outro invó-
lucro, que do corpo se separa quando cessa neste a vida orgânica. A observação
demonstra que, no instante da morte, o desprendimento do perispírito não se com-
pleta subitamente; que, ao contrário, se opera gradualmente e com uma lentidão
muito variável conforme os indivíduos. Em alguns é bastante rápida, podendo dizer-
se que o momento da morte é mais ou menos o da libertação. Noutros, naqueles,
sobretudo, cuja vida foi toda material e sensual, o desprendimento é muito menos
rápido, durando, algumas vezes, dias, semanas e até meses, o que não implica exis-
tir, no corpo, a menor vitalidade, nem a possibilidade de volver à vida, mas uma sim-
ples afinidade com o espírito, afinidade que guarda sempre proporção com a pre-
ponderância que, durante a vida, o espírito deu à matéria. É, com efeito, racional
conceber-se que quanto mais o espírito se tenha identificado com a matéria, mais
penoso lhe seja separar-se dela; ao passo que a actividade intelectual e moral, a ele-
vação dos pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a
vida do corpo, de modo que, chegando a morte, é quase instantâneo. Tal o resulta-
do dos estudos feitos em todos os indivíduos que se têm podido observar por ocasi-
ão da morte. Essas observações provam, ainda, que a afinidade persistente entre a
alma e o corpo, em certos indivíduos, é às vezes muito penosa, porquanto o espírito
pode experimentar o horror da decomposição. Este caso, porém, é excepcional e
peculiar a certos géneros de
vida e a certos géneros de
morte. Verifica-se com alguns
suicidas. (9)
Na agonia, a alma, algu-
mas vezes, já tem deixado o
corpo; nada mais há que a vida
orgânica. O homem já não tem
consciência de si próprio;
entretanto, ainda lhe resta um
sopro de vida orgânica. O
corpo é a máquina que o
coração põe em movimento.
Existe enquanto faz circular
nas veias o sangue, para o
qual não necessita da alma. (9)
Por ocasião da morte,
tudo, a princípio, é confuso. A
alma precisa de algum tempo
para entrar no conhecimento
de si própria. Ela acha-se como
que aturdida, no estado de
uma pessoa que despertou de
profundo sono e procura ori-
entar-se sobre a sua situação.
A lucidez das ideias e a

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memória do passado voltam-lhe à medida que se apaga a influência da matéria que


ela acaba de abandonar, e à medida que se dissipa a espécie de névoa que lhe obs-
curece os pensamentos. (9)
É muito variável o tempo que dura a perturbação que se segue à morte. Pode
ser de algumas horas, como também de muitos meses e até de muitos anos. Naque-
les que, desde quando ainda viviam na Terra, se identificavam com o estado futuro
que os aguardava, é menos longa, porque esses compreendem imediatamente a
posição em que se encontram. (9)
Aquela perturbação apresenta circunstâncias especiais, de acordo com os ca-
racteres dos indivíduos e, principalmente, com o género de morte. Nos casos de
morte violenta, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia, ferimentos, etc., o espírito
fica surpreendido, espantado e não acredita estar morto. Obstinadamente, sustenta
que não o está. No entanto, vê o seu próprio corpo, reconhece que esse corpo é seu,
mas não compreende que se ache separado dele. Acerca-se das pessoas a quem es-
tima, fala-lhes e não percebe porque não o ouvem. Semelhante ilusão prolonga-se
até ao completo desprendimento do perispírito. Só então o espírito se reconhece
como tal e compreende que não pertence mais ao número dos vivos. Este fenómeno
explica-se facilmente. Surpreendido de improviso pela morte, o espírito fica atordoa-
do com a brusca mudança que nele se operou; considera ainda a morte como sinó-
nimo de destruição, de aniquilamento. Ora, porque pensa, vê, ouve, tem a sensação
de não estar morto. Mais lhe aumenta a ilusão o facto de se ver com um corpo se-
melhante, na forma, ao precedente, mas cuja natureza etérea ainda não teve tempo
de estudar. Julga-o sólido e igual ao primeiro e, quando se lhe chama a atenção para
esse ponto, admira-se de não poder palpá-lo. Certos espíritos revelam essa particula-

ridade, se bem que a morte não lhes tenha sobrevindo inopinadamente. Todavia,
apresenta-se sempre mais generalizada entre os que, embora doentes, não pensa-
vam morrer. Observa-se, então, o singular espectáculo de um espírito assistir ao seu
próprio enterro como se fora o de um estranho, falando desse acto como de coisa
que lhe não diz respeito, até ao momento em que compreende a verdade. (9)

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A perturbação que se segue à morte nada tem de penosa para o homem de


bem, que se conserva calmo, semelhante, em tudo, a quem acompanha as fases de
um tranquilo despertar. Para aquele cuja consciência ainda não está pura, a pertur-
bação é cheia de ansiedade e de angústias, que aumentam à medida que se compe-
netra da situação. (9)
Nos casos de morte colectiva tem sido observado que todos os que perecem ao
mesmo tempo nem sempre tornam a ver-se logo. Presas da perturbação que se se-
gue à morte, cada um vai para seu lado, ou só se preocupa com os que lhe interes-
sam. (9)
A alma desencarnada procura, naturalmente, as actividades que lhe eram predi-
lectas nos círculos da vida material, obedecendo aos laços afins, tal qual se verifica
nas sociedades da Terra. (8)
“As vossas cidades não se encontram repletas de associações, "de grémios", de
classes inteiras que se reúnem e se sindicalizam para determinados fins, conjugando
idênticos interesses de vários indivíduos? Aí não se abraçam os agiotas, os políticos,
os comerciantes, os sacerdotes, objectivando cada grupo a defesa dos seus interes-
ses próprios?” (8)
O homem desencarnado procura ansiosamente, no espaço, as aglomerações
afins com o seu pensamento, de modo a continuar o mesmo género de vida aban-
donado na Terra, mas, tratando-se de criaturas apaixonadas e viciosas, a sua mente
reencontrará as obsessões da materialidade, como as do dinheiro, álcool, etc., obses-
sões que se tornam o seu martírio moral a cada hora, nas esferas mais próximas da
Terra. (8)
“Daí a necessidade de encararmos todas as nossas actividades no mundo como
tarefa de preparação para a vida espiritual, sendo indispensável à nossa felicidade,
além do sepulcro, que tenhamos um coração sempre puro”. (8)
Na questão 165 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec faz a seguinte indaga-
ção: “O conhecimento do Espiritismo exerce alguma influência sobre a duração, mais
ou menos longa, da perturbação?” Os espíritos responderam, taxativamente: “Influ-
ência muito grande, pois o espírito já antecipadamente compreendia a sua situação.
Mas, a prática do bem e a consciência pura são o que maior influência exercem”. (9)

RESUMO
INTRODUÇÃO – REVISÃO HISTÓRICA

A doutrina das vidas sucessivas, ou reencarnação, é também chamada palin-


genesia, de duas palavras gregas - palin, de novo, e genesis, nascimento.
Foi formulada nos albores da Civilização, na Índia. Os povos da Ásia e da Gré-
cia acreditavam na imortalidade da alma e procuravam saber se fora criada no mo-
mento do nascimento ou se existia antes.
Nos vedas, no Bhagavad Gita, encontram-se citações sobre a pluralidade das
vidas. A religião da Pérsia, o Mazdeísmo, apresentava uma concepção muito elevada,
a da redenção final, após várias provas expiatórias.
Platão apresenta, no Fedon, a teoria das vidas sucessivas, na afirmação
“aprender é recordar.”
A escola neo-platónica de Alexandria, com Plotino, Porfírio e Jâmblico, ensina-
va a reencarnação.
Os romanos, através de Virgílio e Ovídio, falam das vidas sucessivas.

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Os gauleses praticavam a religião dos druidas e acreditavam na unidade de


Deus e nas vidas sucessivas.
Descartes, Leibnitz e Kant tiveram certa intuição dessa doutrina.
O Bramanismo, o Budismo, o Druidismo, o Islamismo baseiam-se na crença
das vidas sucessivas.
O Cristianismo não abriu excepção à regra. Orígenes, Clemente de Alexandria
e a maior parte dos cristãos dos primeiros séculos admitiam a doutrina da palingene-
sia.

REENCARNAÇÃO E METEMPSICOSE

O espírito não pode encarnar no corpo de um animal, como entende a dou-


trina da metempsicose, pois isso seria retrogradar e o espírito não retrograda. É falsa
a ideia da metempsicose, no sentido da transmigração directa da alma do animal
para o homem e reciprocamente, o que implicaria a ideia de uma retrogradação.
A reencarnação funda-se na marcha ascendente da Natureza e na progressão
do homem, dentro da sua própria espécie, o que em nada lhe diminui a dignidade.
Emmanuel explica que a doutrina da metempsicose surgiu com os egípcios,
como reminiscência do seu doloroso degredo na face obscura do mundo terreno.
Pitágoras foi o primeiro personagem que introduziu na Grécia a doutrina dos
renascimentos da alma. Ele tinha duas doutrinas: a reservada aos iniciados, que fre-
quentavam os mistérios, e outra destinada ao povo, que deu nascimento ao erro da
metempsicose.

REENCARNAÇÃO E RESSURREIÇÃO

A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de ressurrei-
ção. Eles acreditavam que um homem que vivera podia reviver, sem saberem exac-
tamente de que maneira o facto poderia dar-se.
A ressurreição dá a ideia de voltar à vida o corpo que já está morto, o que a
Ciência demonstra ser materialmente impossível. A reencarnação é a volta da alma,
ou espírito, à vida corpórea, mas noutro corpo, especialmente formado para ele e
que nada tem de comum com o antigo. A ressurreição podia ser aplicada a Lázaro,
mas não a Elias, nem aos outros profetas.

A REENCARNAÇÃO NA BÍBLIA E NOS EVANGELHOS

A ideia das vidas anteriores era geralmente admitida entre os hebreus.


A Bíblia e os evangelhos apresentam inúmeras citações que indicam a doutri-
na das vidas sucessivas.
Isaías, Cap. XXVI, v.19: “Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada vi-
verão de novo; aqueles que estavam mortos em meio a mim ressuscitarão”.
Job, Cap. XIV, v.10 a 14: “Quando o homem está morto, vive sempre; aca-
bando os dias da minha existência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de
novo.”

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S. Mateus, Cap. XVI, v.13 a 17 - S. Marcos, Cap. VIII, v. 27 a 30: “... porque
uns diziam que João Baptista ressuscitara dentre os mortos; outros que aparecera
Elias; e outros que um dos antigos profetas ressuscitara...”.
S. Mateus, Cap. XVII, v.10 a 13; S. Marcos, cap. IX, v.11 a 13: “... É verdade
que Elias há-de vir e restabelecer todas as coisas, mas eu vos declaro que Elias já veio
e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve... Então seus discípulos
compreenderam que fora de João Baptista que ele falara.”
S. João, Cap. III, v.1 a 12: “... Jesus lhe respondeu: – Em verdade, em verda-
de, digo-te explica: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. Disse-
lhe Nicodemos: – Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no
ventre de sua mãe, para nascer segunda vez? Retorquiu-lhe Jesus: – Não te admires
de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. Respondeu-lhe Nicodemos: –
Como pode isso fazer-se? Jesus lhe observou: – Pois quê! És mestre em Israel e igno-
ras estas coisas?”
Esta última observação de Jesus demonstra que a reencarnação era ensinada
aos intelectuais da época.
Existiam ensinos secretos, reservados aos iniciados, que foram compilados nas
diferentes obras dos hebreus e que constituem a Cabala.
Sob o nome de ressurreição, a reencarnação era o ponto de uma das crenças
fundamentais dos judeus.
Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências são
ininteligíveis, na sua maioria, as máximas do Evangelho. Somente o princípio da re-
encarnação dará a essas máximas o sentido verdadeiro.

REENCARNAÇÃO E A EVOLUÇÃO ANÍMICA

O princípio inteligente, distinto do princípio material, individualiza-se e elabo-


ra-se, passando pelos diversos graus da animalidade. É aí que a alma se ensaia para a
vida e desenvolve, pelo exercício, as suas primeiras faculdades. Chegada ao grau de
desenvolvimento que esse estado comporta, ela recebe as faculdades especiais que
constituem a alma humana.
O que constitui o homem espiritual não é a sua origem; são os atributos es-
peciais com que se apresenta dotado ao entrar na humanidade. Por haver passado
pela fieira da animalidade, o homem não deixaria de ser homem; já não seria animal,
como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe que o pôs no mundo.
Uma cadeia ascendente e contínua liga todas as criações; o mineral ao vege-
tal, o vegetal ao animal, e este ao ente humano.
A alma elabora-se no seio dos organismos rudimentares. No animal está ape-
nas em estado embrionário; no homem adquire conhecimento e não mais pode re-
trogradar.
A finalidade da alma é o desenvolvimento de todas as faculdades a ela ine-
rentes.
Para consegui-lo, é obrigada a encarnar grande número de vezes na Terra, a
fim de cimentar as suas faculdades morais e intelectuais. É mediante uma evolução
ininterrupta, a partir das formas de vida mais rudimentares, até à condição humana,
que o princípio pensante conquista, lentamente, a sua individualidade. Chegado a
esse estágio, cumpre-lhe fazer eclodir a sua espiritualidade, dominando os instintos
remanescentes da sua passagem pelas formas inferiores, a fim de elevar-se, na série
das transformações, para destinos sempre mais altos.

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REENCARNAÇÃO E A EVOLUÇÃO DO HOMEM

À medida que o espírito se purifica, o corpo que o reveste aproxima-se igual-


mente da natureza espiritual. Torna-se-lhe menos densa a matéria, menos grosseiras
as necessidades físicas.
Da purificação do espírito decorre o aperfeiçoamento moral dos seres encar-
nados.
Quanto menos material o corpo, menos sujeito às vicissitudes que o desorga-
nizam.
Quanto mais puro o espírito, menos paixões a miná-lo.

OBJECTIVO DA ENCARNAÇÃO

Deus impõe aos espíritos a encarnação, com o objectivo de os fazer chegar à


perfeição e colaborar, na parte que lhes toca, na obra da criação. Todos os espíritos
são criados simples e ignorantes e instruem-se nas lutas e tribulações da vida corpo-
ral.
Os anjos, arcanjos, querubins, serafins são a representação, para os homens,
daquelas almas que, pelo seu esforço, já atingiram a elevação espiritual. Os espíritos
que seguem o caminho do bem nem por isso são espíritos perfeitos; precisam adqui-
rir a experiência e os conhecimentos indispensáveis para alcançar a perfeição.
Os espíritos não podem conservar-se eternamente nas ordens inferiores, em-
bora dependa deles o progredirem mais ou menos rapidamente em busca da perfei-
ção. Podem permanecer estacionários durante algum tempo, porém não retrogra-
dam.
A encarnação é necessária para o duplo progresso - moral e intelectual - do
espírito.
Uma só existência corporal é insuficiente para o espírito adquirir todo o bem
que lhe falta e eliminar o mal que lhe sobra. Deus concede ao espírito tantas encar-
nações quantas as necessárias para atingir a perfeição.
Com a pluralidade das existências, o homem explica todas as aparentes ano-
malias da vida humana: as diferenças sociais; as mortes permaturas; a desigualdade
de aptidões intelectuais e morais. Desaparecem os preconceitos de raça e de casta,
pois o mesmo espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário,
chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher.
A reencarnação é um processo de aperfeiçoamento espiritual. Não há experi-
ência reencarnatória sem motivo.
O pensamento reencarnacionista está inscrito na frase: Nascer, morrer, renascer
ainda, progredir sempre, tal é a lei.
Os espíritos melhoram-se evitando o mal e praticando o bem.

JUSTIÇA DA REENCARNAÇÃO

A reencarnação é a única forma racional que admite a reparação das faltas


cometidas e a evolução gradual dos seres.

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Todos os espíritos tendem para a perfeição e Deus lhes faculta os meios de


alcançá-la, proporcionando-lhes as provações da vida corporal.
Se a sorte do homem se fixasse irrevogavelmente depois da morte, não seria
uma única a balança em que Deus pesa as acções de todas as criaturas e não haveria
imparcialidade no tratamento que a todas dispensa.
A doutrina da reencarnação é a única que corresponde à ideia que formamos
da justiça de Deus para com os homens que se acham em condição moral inferior; a
única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois oferece-nos os
meios de resgatarmos os nossos erros, por novas provações. A razão no-la indica e
os espíritos a ensinam.

DA VOLTA DO ESPÍRITO, EXTINTA A VIDA CORPORAL, À VIDA


ESPIRITUAL

No intervalo das existências corporais o espírito torna a entrar no mundo espi-


ritual. Aí é feliz ou desgraçado, conforme o bem ou o mal que fez.
O estado corporal é transitório e passageiro. O estado espiritual é o estado
definitivo do espírito. É neste estado, sobretudo, que o espírito colhe os frutos do
progresso realizado pelo trabalho da encarnação.
A situação da alma, depois da morte, é regida por uma lei de justiça infalível,
segundo a qual o ser se encontram em condições de existência que são rigorosa-
mente determinadas pelo seu grau evolutivo e pelos esforços que faz para se melho-
rar.
A morte do corpo físico é que determina a partida do espírito, não é a partida
do espírito que causa a morte do corpo.
Essa separação pode ser rápida, fácil, suave e insensível ou poderá ser lenta,
laboriosa, horrivelmente penosa, conforme o estado moral do espírito.
Durante a vida, o espírito está preso ao corpo pelo seu perispírito. A morte é
somente a destruição do corpo; não a desse outro invólucro, que do corpo se separa
quando cessa neste a vida orgânica.
A actividade intelectual e moral, a elevação dos pensamentos operam um
começo de desprendimento, mesmo durante a vida do corpo.
Na agonia, a alma, algumas vezes, já tem deixado o corpo; nada mais há que
a vida orgânica.
Por ocasião da morte, tudo, a princípio, é confuso. A alma precisa de algum
tempo para entrar no conhecimento de si mesma. A lucidez das ideias e a memória
do passado voltam-lhe à medida que se apaga a influência da matéria que ela acaba
de abandonar.
É muito variável o tempo que dura a perturbação que se segue à morte.
A perturbação que se segue à morte nada tem de penosa para o homem de
bem; para aquele cuja consciência ainda não está pura, a perturbação é cheia de
ansiedade e de angústias, que aumentam à medida que se compenetra da situação.
A alma desencarnada procura, naturalmente, as actividades que lhe eram
predilectas nos círculos da vida material.
O homem desencarnado procura, ansiosamente, no espaço, as aglomerações
afins com o seu pensamento, de modo a continuar o mesmo género de vida aban-
donado na Terra. Daí a necessidade de encararmos todas as nossas actividades no
mundo como tarefa de preparação para a vida espiritual, sendo indispensável à nos-
sa felicidade além do sepulcro que tenhamos um coração sempre puro.

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O conhecimento do Espiritismo tem grande influência na duração mais ou


menos longa da perturbação espiritual após a morte, pois o espírito já antecipada-
mente compreendia a sua situação. Mas a prática do bem e a consciência pura são o
que maior influência exercem.

BIBLIOGRAFIA

(1) Deolindo Amorim, O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas, Cap. VI, 3.ª Edi-
ção, Livraria Ghignone Editora
(2) Gabriel Delanne, A Reencarnação, Cap. I e XIV, Edição da Federação Espírita Bra-
sileira
(3) Gabriel Delanne, A Evolução Anímica, Introdução, 4.ª Edição da Federação Espíri-
ta Brasileira
(4) Léon Denis, Depois da Morte, Parte Segunda, XI - 8.ª Edição da Federação Espírita
Brasileira
(5) Léon Denis, O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Segunda Parte, Cap. XIII e
XVII, 11.ª Edição da Federação Espírita Brasileira
(6) Léon Denis, O Além e a Sobrevivência do Ser, Estudos sobre a reencarnação ou
as vidas sucessivas, 3.ª Edição da Federação Espírita Brasileira
(7) Emmanuel, A Caminho da Luz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, Cap. III,
4.ª Edição da Federação Espírita Brasileira
(8) Emmanuel, O Consolador, psicografia de Francisco Cândido Xavier, Questão n.º
148, 4.ª Edição da Federação Espírita Brasileira
(9) Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Parte Segunda, Cap. II e Cap. XI, 44.ª Edição
da Federação Espírita Brasileira
(10) Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. IV, 77.ª Edição da Fede-
ração Espírita Brasileira
(11) Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1.ª Parte, Cap. III, 23.ª Edição (Popular) da Fe-
deração Espírita Brasileira
(12) Allan Kardec, A Génese, Cap. I e XI, 19.ª Edição (Popular) da Federação Espírita
Brasileira
(13) Mário Cavalcanti Melo e Carlos Imbassahy, Reencarnação e suas Provas, Primeira
Parte, Pág. 34 da 1.ª Edição da Livraria da Federação Espírita do Paraná
(14) Leslie D. Weatherhead, The Case For Reencarnation, Londres, 1958

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CAPÍTULO 7

SUMÁRIO
7 PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS
7.1 INTRODUÇÃO
7.1.2 Estudo histórico

7.2 PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA À DOUTRINA DOS


MUNDOS HABITADOS
7.2.1 Encarnação de Deus sobre a Terra
7.2.2 A criação dos astros na génese bíblica
7.2.3 A descendência adâmica
7.2.4 A parada do Sol e da Lua
7.2.5 Salvação da Humanidade pelo sangue de
Jesus

7.3 HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DO MEU PAI

7.4 TRANSMIGRAÇÕES PROGRESSIVAS

7.5 UNIVERSO INFINITO – Prova racional da


existência de outros mundos habitados

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Curso Básico de Espiritismo Pluralidade dos mundos habitados

7. PLURALIDADE DOS MUNDOS


HABITADOS
7.1. INTRODUÇÃO
Allan Kardec pergunta aos espíritos se os globos que se movem no espaço
são habitados, ao que eles respondem que sim, que o homem terreno está longe de
ser, como supõe, o primeiro em inteligência, em bondade e em perfeição. Entretan-
to, há homens que se têm por espíritos muito fortes e que imaginam pertencer só a
este pequenino globo o privilégio de conter seres racionais. Orgulho e vaidade! Jul-
gam que Deus só criou para eles o universo.
Deus povoou de seres vivos os mundos, concorrendo todos esses seres para o
objectivo final da Providência. Acreditar que só os haja no planeta que habitamos
seria duvidar da sabedoria de Deus, que não faz coisa alguma inútil. Certo, a esses
mundos há-de ter dado um destino mais sério do que o de nos recrearem a vista.

Aliás, nada há, nem na posição, nem no volume, nem na constituição física da Terra,
que possa induzir à suposição de que ela goze, o privilégio exclusivo de ser habitada,
com exclusão de tantos milhares de milhões de mundos semelhantes. (5) (*)
As condições de existência dos seres que habitam os diferentes mundos hão-
de ser adequadas ao meio em que lhes cumpre viver. Se jamais tivéssemos visto pei-
xes, não compreenderíamos que pudesse haver seres que vivessem dentro da água.
Assim acontece em relação aos outros mundos que, sem dúvida, contêm elementos
que desconhecemos. Não vemos na Terra as longas noites polares iluminadas pela
electricidade das auroras boreais? Que há de impossível em ser a electricidade, nal-
guns mundos, mais abundante do que na Terra e desempenhar neles uma função de
ordem geral, cujos efeitos não podemos compreender? Bem pode suceder, portanto,
que esses mundos tragam em si mesmos as fontes de calor e luz necessárias aos
seus habitantes. (5)
(*) Os algarismos colocados entre parênteses correspondem, na bibliografia,
bibliografia no final dos resumos
de cada capítulo, aos mesmos algarismos com que estão assinaladas as fontes que serviram de base
ao texto, ou extraídas as citações.
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7.1.1. ESTUDO HISTÓRICO

Esta crença íntima que nos mostra o Universo como um vasto império em que
a vida se desenvolve sob as formas mais variadas, em que milhares de nações vivem
simultaneamente na extensão dos céus, parece contemporânea do estabelecimento
da inteligência humana sobre a Terra. Todos os povos, e principalmente os hindus,
chineses e árabes, conservaram até aos nossos dias tradições teogónicas, em que se
reconhece, entre os dogmas antigos, o da pluralidade das habitações humanas nos
mundos que brilham por cima da nossa cabeça; e, remontando às primeiras páginas
dos anais históricos da humanidade, encontra-se esta mesma ideia: ou religiosa, pela
transmigração das almas e seu estado futuro; ou astronómica, simplesmente pela
habitabilidade dos astros. (3)
Os livros mais antigos que possuímos, dos
vedas, génese antiga dos hindus, professam a
doutrina da pluralidade das habitações da alma
humana nos astros. Para nos atermos à doutrina
da pluralidade dos mundos, e à antiguidade
histórica e clássica, que é a única que podemos
estudar com algum fundamento de certeza,
notaremos, primeiramente, que o Egipto, berço da
filosofia asiática, tinha ensinado aos seus sábios
esta antiga doutrina. Talvez os egípcios não a
estendessem, então, senão aos sete planetas prin-
cipais e à Lua, que chamavam de terra etérea; seja
como for, é notório que professavam altamente
esta crença. (3) **
A maior parte das seitas gregas ensinaram-
na; ou abertamente, a todos os discípulos sem
distinção; ou em segredo, aos iniciados da filo-
sofia. (3)
Os filósofos da mais antiga seita grega, a seita jónica, cujo instituidor, Thales,
acreditava que as estrelas eram formadas da mesma substância que a Terra, perpe-
tuaram no seu seio as ideias da tradição egípcia, implantadas na Grécia. Anaximan-
dro e Anaximenes, sucessores imediatos do chefe da escola, ensinaram a pluralidade
dos mundos, doutrina que foi mais tarde espalhada por Empédocles, Aristarco, Leu-
cipo e outros. Anaxágoras ensinou a habitabilidade como artigo de crença filosófica.
Partidário famoso do movimento da Terra, é notável que a sua opinião suscitasse em
redor dele invejosos e fanáticos e que, por haver dito que o Sol era maior que o Pe-
loponeso, fosse perseguido e quase assassinado. (3)
O primeiro dos gregos que teve nome de filósofo, Pitágoras, ensinava ao pú-
blico a imobilidade da Terra e o movimento dos astros em redor dela, e aos seus
adeptos privilegiados declarava a sua crença no movimento da Terra como planeta e
na pluralidade dos mundos. (3)
A escola de Epicuro ensinou a pluralidade dos mundos; e a maior parte dos
seus adeptos não só compreendiam os corpos planetários debaixo do título de mun-
dos habitáveis, como acreditavam ainda na habitabilidade de uma multidão de cor-
pos celestes disseminados no espaço. Metródoro de Lampsaque, entre outros, acha-
va que seria tão absurdo reconhecer um só mundo habitado no espaço infinito como
dizer que não poderia crescer mais do que uma espiga de milho num campo vasto.
Anaxarque dizia a mesma coisa a Alexandre, o Grande, admirando-se, quando havia
** Os antigos conheciam apenas sete planetas, pois Neptuno foi descoberto no dia 23 de Setembro
de 1846, por Johann Gottfried Galle e Plutão, em Março de 1930, por C. Tombaugh, do observatório
Lowell, em Flagstaff, Arizona.
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Pluralidade dos mundos habitados Curso Básico de Espiritismo

tantos mundos habitados, de ter ocupado, com a sua glória, somente um. (3)
Um grande número de sectários da escola epicurista, entre os quais citaremos
Lucrécio, acreditou não só na pluralidade como, ainda mais, na infinidade dos mun-
dos. Afirmava ele: “Todo este universo visível não é único na natureza, e devemos
crer que há, em outras regiões do espaço, outras terras, outros seres e outros ho-
mens”. E acrescentava: “Se as inúmeras ondas criadoras se agitam e nadam sob mil
formas variadas e através do oceano do espaço infinito, não teriam produzido, na
sua luta fecunda, só o orbe Terra e a sua abóbada celeste. É crível que além deste
mundo uma vasta aglomeração de elementos se condene a um ocioso repouso?
Não, não; se os princípios geradores deram nascimento às massas donde saíram o
céu, as ondas, a Terra e seus habitantes, devemos convir que, no resto do vácuo, os
elementos da matéria engendraram um sem-número de seres animados, de mares,
de céus e terras, e semearam o espaço de mundos semelhantes àquele que se balan-
ça, debaixo dos nossos passos, nas ondas aéreas.” (3)
Em seguida, e isto durou um
milénio e meio, a Religião Católica,
vitoriosa, deveria estabelecer a Terra,
conforme os ensinamentos de Ptolomeu,
como centro do Universo, cerceando o
aprofundamento das teorias da
multiplicidade dos mundos habitados. Foi
o grande astrónomo polaco Copérnico
quem, depois de haver derrubado o
sistema de Ptolomeu, pela primeira vez
demonstrou à humanidade o verdadeiro
lugar que lhe competia. Estando a Terra
colocada no seu devido lugar, a possi-
bilidade de vida noutros planetas passava
a ter um fundamento científico. As primei-
ras observações feitas com o auxílio do
telescópio, com as quais inaugurava
Galileu uma nova era para a Astronomia,
inflamaram a imaginação dos
contemporâneos. Tornou-se claro que os
planetas eram corpos celestes bastante
parecidos com a Terra. E isto levava naturalmente à formulação da pergunta: Porque
haveria o nosso Sol ser o único astro acompanhado de um séquito de planetas? O
grande pensador Giordano Bruno exprimiu essas audaciosas ideias revestindo-as de
uma forma clara e inequívoca: “Existe uma infinidade de sóis e terras girando em
torno de seus sóis, tal como os nossos sete planetas giram em torno do nosso Sol...
seres vivos habitam esses mundos.” Foram cruéis as represálias da Igreja Católica:
declarado herege pelo Santo Ofício, Bruno morreu queimado, em Roma, no Campo
dei Fiori, no dia 17 de Fevereiro de 1600. (8)
Na segunda metade do século XVI, e durante o século XVII, sábios, filósofos e
escritores consagraram um bom número de livros a esse problema do universo.
Enumeremos Cyrano de Bergerac, Fontenelle, Huygens e Voltaire, entre outros. (8)
Vejamos o sábio russo Lomonossov, Kant, Laplace, Herschel, e haveremos de
observar que a ideia da pluralidade dos mundos habitados se difundiu absolutamen-
te por toda a parte, sem que ninguém, ou quase ninguém, nos meios científicos e
filosóficos, se atrevesse a levantar a voz contra ela. (8)
Na segunda metade do século XIX, o livro de Flamarion La Pluralité des Mon-
des Habités conheceu enorme popularidade: somente na França, foi trinta vezes
reeditado em vinte anos, tendo sido traduzido para vários idiomas. Partindo de

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Curso Básico de Espiritismo Pluralidade dos mundos habitados

ditado em vinte anos, tendo sido traduzido para vários idiomas. Partindo de posições
idealistas, Flamarion admitia ser a vida o objectivo final da formação dos planetas.
Revelando um apurado senso de humor e redigidos em estilo muito vivo, embora
algo rebuscado, os seus livros causaram excelente impressão sobre os seus conterrâ-
neos. O leitor actual impressiona-se, sobretudo, pela desproporção existente entre a
quantidade insignificante de conhecimentos exactos sobre a natureza dos corpos
celestes (a Astrofísica mal acabara de nascer) e o tom incisivo adoptado pelo autor
para afirmar a pluralidade dos mundos habitados. Flamarion dirigia-se mais à sensibi-
lidade do que ao raciocínio. (8)
O russo Constantin Tsiolkovski, pai da Astronáutica, foi um ardoroso defensor
dos mundos habitados. Reproduziremos apenas algumas das suas frases: “Será lícito
imaginar uma Europa povoada e as outras partes do mundo não?”. E de seguida:
“Os diversos planetas apresentam as diversas fases da evolução dos seres vivos. O
que foi a humanidade há alguns milhares de anos, o que virá a ser dentro de alguns
milhões de anos, tudo isto poderemos aprender interrogando os planetas”. (8)
A história da pluralidade dos mundos habitados está intimamente ligada à das
concepções cosmogónicas. Assim, durante a primeira terça parte do século XX,
quando tinha livre curso a hipótese cosmogónica de Jeans, segundo a qual o Sol de-
via o seu cortejo de planetas a uma catástrofe cósmica extremamente rara (o semi-
choque de duas estrelas), a maioria dos sábios considerava a vida como um fenóme-
no excepcional no Universo. (8)
A nossa galáxia conta mais de cem biliões de estrelas: parecia bastante im-
provável, portanto, que nela não se encontrasse pelo menos uma - sem falar no Sol -
que não contasse com um sistema planetário. A derrocada da teoria de Jeans, depois
de 1930, e a ascensão da Astrofísica, têm grandes probabilidades de nos levar à con-
clusão de que existem na nossa galáxia sistemas planetários em grande quantidade,
constituindo o sistema solar mais uma regra do que uma excepção no mundo dos
astros. Contudo, ainda não está suficientemente demonstrada esta tão provável su-
posição. (8)
“A União Soviética, ao colocar em órbita, no dia 4 de Outubro de 1957, o
primeiro satélite artificial da Terra, inaugurou uma etapa inteiramente nova na histó-
ria da ideia da pluralidade dos mundos habitados. A partir de então foram rápidos os
progressos obtidos no estudo e na conquista do espaço circum-terrestre, coroado
pelos voos dos cosmonautas soviéticos e, posteriormente, pelos americanos. Os ho-
mens tomaram subitamente consciência do facto de habitarem um minúsculo plane-
ta solto na imensidão do espaço cósmico. Todos, é claro, tinham aprendido um pou-
quinho de astronomia na escola e, teoricamente, ninguém ignorava a situação da
Terra no Cosmos; a actividade prática, no entanto, continuava dirigida por um geo-
centrismo espontâneo. Por este motivo, nunca será demasiado insistir em recordar a
revolução esperada na consciência dos homens nesta fase inicial de uma nova era da
história humana, era do estudo directo e, algum dia, da conquista do Cosmos. (8)
Assim, o problema da existência de vida em outros mundos saiu do campo da
abstracção, para adquirir uma significação concreta. Estará resolvido experimental-
mente, dentro de alguns anos, na parte referente aos planetas do sistema solar.”
(Introdução do trabalho de Slklovski, director do Instituto de Astronomia da Universi-
dade de Moscovo, citado por Pauwels e Bergier). (8)
A partir de Copérnico e Galileu, as velhas cosmogonias deixaram para sempre
de subsistir. A Astronomia só podia avançar, não recuar. A história diz das lutas que
esses homens de génio tiveram de sustentar contra os preconceitos e, sobretudo,
contra o espírito de seita, interessado em manter erros sobre os quais se tinham fun-
dado crenças supostamente firmadas em bases inabaláveis. Bastou a invenção de um
instrumento de óptica para derrocar uma construção de muitos milhares de anos. (7)

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7.2. PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA À DOUTRINA DOS


MUNDOS HABITADOS

Para tolher o progresso da Ciência, coibir a liberdade de pensamento e com-


bater a doutrina da pluralidade dos mundos habitados, que vinha colocar em descré-
dito a interpretação literal dos livros sagrados, a Religião tomou como estandarte as
palavras de Tertuliano: “Não temos necessidade de nenhuma ciência depois do Cris-
to, nem de nenhuma prova depois do Evangelho; quem crê nada mais deseja; a ig-
norância é boa, em geral, para que não se chegue a conhecer o que é inconvenien-
te.”

A interpretação errónea dos livros sagrados sobre a imobilidade da Terra co-


bria, já com um véu espesso os olhos dos homens desejosos de conhecer, e a aceita-
ção tácita do pensamento de Tertuliano, reverenciado por muitos como sentença,
encobriu a doutrina da pluralidade dos mundos habitados durante séculos e séculos.
Da parte da Religião havia necessidade de um ferrenho combate a essa dou-
trina, porque contrariava os seus dogmas.
Analisemos esses dogmas.

7.2.1. A ENCARNAÇÃO DE DEUS SOBRE A TERRA

Essa doutrina traria aos teólogos enorme dificuldade para responder à ques-
tão: “A Terra que habitamos, não sendo mais do que um átomo insignificante na
universalidade dos mundos, sobre que fundaria o privilégio com que a gratificaram
de ter sido o objecto especial da complacência divina, de haver recebido na sua habi-
tação o próprio Eterno, que não desdenhara descer a encarnar-se num pouco de
poeira terrestre?”
O homem, criatura que Deus fez à sua imagem, peca e cai logo no primeiro
dia da sua existência; Deus, cheio de uma bondade compassiva, desce, Ele próprio,
para levantá-lo. Eis aí uma crença muito doce e consoladora para o homem, que
pode apresentar, sem demasiados mistérios, o que os espíritos mais simples podem
aceitar e compreender. Porém, já não é assim desde que a revelação astronómica faz
perder à Terra e ao homem todo o seu prestígio, ao mesmo tempo que eleva Deus a
uma altura inacessível. Esta Terra privilegiada, que digo eu, esta Terra única, estava

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outrora envolvida numa auréola resplandecente; porém, um belo dia os nossos olhos
abriram-se, olhámo-la na face, esta Terra cercada de glória, e repentinamente a sua
auréola brilhante dissipa-se. O palácio dos homens perdeu a sua riqueza aparente,
afundou-se na obscuridade, e logo uma multidão de outras terras apareceram atrás
dele, enchendo espaços sem fim. Desde então o aspecto do mundo modificou-se e
com ele crenças que até então pareciam estar solidamente fundadas. (3)
Desde a época de Copérnico e Galileu sentira-se, em toda a sua profundidade,
as dificuldades que o novo sistema do mundo ia suscitar contra o dogma do Verbo
encarnado. Não se deve ver somente um negócio de ciúme ou de jesuitismo no me-
morável processo de Galileu. Não é a pessoa do ilustre toscano que tiveram em vista,
porém os princípios que ele defendia. O movimento da Terra uma vez demonstrado,
a Igreja deveria desde então interpretar num sentido figurado as passagens das Escri-
turas que lhe são contrárias.(3)

7.2.2. A CRIAÇÃO
CRIAÇÃO DOS ASTROS NA GÉNESE BÍBLICA

A doutrina da pluralidade dos mundos habitados viria trazer inúmeros pro-


blemas para a interpretação do Génesis de Moisés, que afirma terem sido os astros
criados somente no quarto dia da criação, para iluminar a Terra e marcar-lhe o tem-
po e as estações do ano.
“E disse Deus: Haja
luminares na expansão dos céus,
para haver separação entre o dia
e a noite; e sejam eles para sinais
e para tempos determinados e
para dias e para anos.
E sejam para luminares na
expansão dos céus, para alumiar
a Terra. E assim foi.
E fez Deus os dois grandes
luminares; o luminar maior para
governar o dia, e o luminar
menor para governar a noite; e
fez as estrelas.
E Deus os pôs na
expansão dos céus para alumiar a
Terra.
E para governar o dia e a
noite, e para fazer separação
entre a luz e as trevas. E viu Deus
que era bom.
E foi a tarde e a manhã do dia quarto.” (Génesis, Moisés, cap. I, v. 14 a 19)
(1)
A Terra, não sendo mais privilegiada de entre as demais obras da criação uni-
versal, colocaria em posição difícil aqueles que ainda lutavam para que os livros sa-
grados fossem interpretados segundo a letra, e não conforme o espírito, que vivifica.
A Astronomia demonstrando que os mundos se sucedem ao infinito e que a Terra
gravita em torno do Sol, como conciliar a ideia de que só depois de formar este pla-
neta, no quarto dia, teria o Criador criado o Sol e a Lua? Surgiu, então, a necessida-
de do combate sem tréguas da religião dogmática à doutrina dos mundos habitados.

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7.2.3. A DESCENDÊNCIA ADÂMICA


ADÂMICA

Com a pluralidade dos


mundos habitados cairia por
terra a doutrina de um único
casal, criado à imagem e seme-
lhança de Deus, para povoar
toda a Terra e únicas criaturas
do Universo. Também a doutri-
na do pecado original estaria
invalidada.
Havendo outros mundos
e outros habitantes longe da
Terra, por certo não descende-
riam de Adão e como tal Deus
houvera criado, noutros lugares
e noutro tempo, as suas criatu-
ras que também deveriam lutar,
sofrer, aprender, progredir na
grande marcha evolutiva, que se
constitui lei do Universo. E essas
criaturas nenhuma ligação teri-
am com o pecado original do
casal primitivo, que afirmam ser
herança inesgotável dos viven-
tes da Terra.

7.2.4. A PARADA DO SOL E DA LUA

“Então Josué falou ao Senhor no dia em que o Senhor deu os amorreus na


mão dos filhos de Israel, e disse aos olhos dos israelitas: Sol, detém-te em Gibeão, e
tu, Lua, no vale da Aijalom.
E o Sol se deteve, e a Lua parou, até que o povo se vingou dos seus inimigos.
Isto não está escrito no livro de Reto? O Sol, pois, deteve-se no meio do céu, e não
se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro.” (Josué, cap. 10, v. 12 e 13) (1)
As observações da Astronomia contrariam a passagem acima, comprovando
que a Terra é que se move ao redor do Sol, só poderiam gerar revoltas e persegui-
ções, como as sofridas por Giordano Bruno e Galileu Galilei.
Desaparecendo o suposto privilégio da Terra, por ser igual a milhões e mi-
lhões de mundos, também desapareceria a ideia de um povo eleito, em detrimento
de outros, e mesmo girando a Terra em redor do Sol não poderia o Senhor parar
este, para que o dia se prolongasse até que a batalha fosse vencida.
Tais argumentos colocariam em risco a credibilidade das Escrituras Sagradas.
Daí as perseguições às teorias heliocêntrica e da pluralidade dos mundos habitados.

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7.2.5. A SALVAÇÃO DA HUMANIDADE PELO SANGUE DE


JESUS

Diz o dogma que o Cristo deu a sua vida em holocausto para que o seu san-
gue lavasse a alma do homem, manchada pelo pecado original.
Com a doutrina da pluralidade dos mundos habitados, existindo, então, hu-
manidades que não estariam vinculadas ao pecado original cometido pelo primeiro
casal da Terra, já não haveria lógica na salvação pelo sangue derramado do Cordeiro
Divino.
Para que esse dogma continuasse a vigorar entre os crentes, não poderia ha-
ver outro mundo habitado além da Terra e toda a humanidade deveria descender do
casal inicial e trazer consigo a mácula da desobediência perpetrada por eles à ordem
do Senhor e necessitar do sangue de Jesus para redimi-los.

7.3. HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DO MEU


PAI

“Não se turbe o vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. Há


muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse já vo-lo teria dito, pois me
vou para vos preparar o lugar.” (S. João, cap. XIV, v. 1) (1)
A casa do Pai é o Universo. As dife-
rentes moradas são os mundos que circu-
lam no espaço infinito e oferecem, aos es-
píritos que neles encarnam, moradas cor-
respondentes ao seu adiantamento. (6)
Do ensino dado pelos espíritos, re-
sulta que são muito diferentes umas das
outras as condições dos mundos, quanto
ao grau de adiantamento ou de inferiori-
dade dos seus habitantes. Há entre eles, os
que são inferiores à Terra, física e moral-
mente; outros, da mesma categoria que o
nosso; e outros que lhe são mais ou menos
superiores em todos os aspectos. Nos
mundos inferiores, a existência é toda ma-
terial, reinam soberanas as paixões, sendo
quase nula a vida moral. À medida que
esta se desenvolve, diminui a influência da
matéria, de tal maneira que, nos mundos
mais adiantados, a vida é, por assim dizer,
toda espiritual. (6)
Nos mundos intermediários mistu-
ram-se o bem e o mal, predominando um
ou outro, segundo o grau de adiantamento da maioria de quem os habita. Embora
se não possa fazer, dos diversos mundos, uma classificação absoluta, pode-se, con-
tudo, em virtude do estado em que se acham e da destinação que trazem, tomando
por base os matizes mais adiantados, dividi-los, de modo geral, como segue:

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1. Mundos primitivos, destinados às primeiras encarnações da alma humana;
2. Mundos de expiação e provas, onde domina o mal;
3. Mundos de regeneração, nos quais as almas que ainda têm que expiar
haurem novas forças, repousando das fadigas das lutas;
4. Mundos ditosos, onde o bem sobrepuja o mal;
5. Mundos celestes ou divinos, habitações de espíritos depurados, onde exclu-
sivamente reina o bem.
A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas, razão porque
aí vive o homem a braços com tantas misérias. (6)

7.4. TRANSMIGRAÇÕES PROGRESSIVAS

A vida do espírito, no seu


conjunto, apresenta as mesmas
fases que observamos na vida
corporal. Ele passa, gradualmente,
do estado de embrião ao de infân-
cia, para chegar, percorrendo
sucessivos períodos, ao de adulto,
que é o da perfeição, com a
diferença de que para o espírito
não há declínio, nem decrepitude,
como na vida corporal; que a sua
vida, que teve começo, não terá
fim; que imenso tempo lhe é
necessário, para passar da infância
espiritual ao completo
desenvolvimento; e que o seu pro-
cesso se realiza não num único
mundo, mas vivendo em mundos
diversos. A vida do espírito, pois,
compõe-se de uma série de
existências corpóreas, cada uma
das quais representa para ele uma
ocasião de progredir, do mesmo
modo que cada existência corporal se compõe de uma série de dias, em cada um dos
quais o homem obtém um acréscimo de experiência e instrução. Mas, assim como na
vida do homem há dias que nenhum fruto produzem, na do espírito há existências
corporais que nenhum resultado colhe, porque não as soube aproveitar. (5)
Ninguém, por um proceder impecável na vida actual, poderá transpor todos
os graus da escala do aperfeiçoamento e tornar-se espírito puro, sem passar por
graus intermediários.
O que o homem julga perfeito está longe da perfeição. Há qualidades que lhe
são desconhecidas e incompreensíveis. Poderá ser tão perfeito quanto o comporte a
sua natureza terrena, mas isso não é a perfeição absoluta. Dá-se com o espírito o
que se verifica com a criança que, por mais precoce que seja, tem de passar pela
juventude, antes de chegar à idade da madureza; e também com o enfermo que,
para recobrar a saúde, tem que passar pela convalescença. Além disso, cumpre ao
espírito progredir em ciência e moral. Se somente se adiantou num sentido importa
que se adiante no outro, para atingir o extremo superior da escala. Contudo, quanto

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mais o homem se adiantar na sua vida actual, tanto menos longas e penosas lhe se-
rão as provas que se seguirem. (5)
Nas suas novas existências, um homem poderá descer mais baixo do que este-
ja na actual, somente do ponto de vista social, mas não como espírito.
A marcha dos espíritos é progressiva, jamais retrograda. Elevam-se gradual-
mente na hierarquia e não descem da categoria a que ascenderam. Nas suas diferen-
tes existências corporais podem descer como homens, não como espíritos. Assim, a
alma de um potentado da Terra pode mais tarde animar o mais humilde obreiro e
vice-versa; é por isso que, entre os homens, as categorias estão, frequentemente, na
razão inversa da elevação das qualidades morais. Herodes era rei e Jesus carpinteiro.
(5)
Aquele que pensa em
perseverar no mau caminho, baseado
na possibilidade de melhorar-se noutra
existência, que poderá corrigir-se mais
tarde, está equivocado; em nada
acredita e a ideia de um castigo eterno
não o refrearia mais do que qualquer
outra, porque a sua razão a repele, e
semelhante ideia induz à incredulida-
de, a despeito de tudo. Na Terra, os
homens são desigualmente
adiantados. Uns já dispõem de
experiências que a outros faltam, mas
que adquirirão pouco a pouco. De-
pende deles acelerar o progresso ou
retardá-lo indefinidamente.
O homem que ocupa uma
posição má deseja trocá-la o mais
depressa possível. Aquele que se acha
persuadido de que as tribulações da
vida terrena são consequência das
suas imperfeições, procurará garantir
para si uma nova existência menos
penosa e esta ideia o desviará mais
depressa da senda do mal do que a do
fogo eterno, em que não acredita.
Se o homem tivesse uma única
existência e se, extinguindo-se-lhe, a
sua sorte ficasse decidida para a
eternidade, qual seria o mérito de
metade do género humano, que morre na infância, para gozar, sem esforços, da
felicidade eterna e com que direito se acharia isenta das condições, às vezes tão du-
ras, a que se vê submetida a outra metade? Semelhante ordem de coisas não cor-
responderia à justiça de Deus. Com a reencarnação, a igualdade é real para todos. O
futuro toca a todos, sem excepções e sem favor para quem quer que seja. Os retar-
datários só de si mesmos se podem queixar. É forçoso que o homem tenha o mere-
cimento dos seus actos, como deles tem a responsabilidade. (5)
Chegado ao termo que a Providência lhe assinou à vida na erraticidade, o
próprio espírito escolhe as provas a que deseja submeter-se para apressar o seu adi-
antamento, isto é, escolhe meios para adiantar-se e tais provas estão sempre em

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relação com as faltas que lhe cumpre expiar. Se delas triunfa, eleva-se; se sucumbe,
tem que recomeçar. (5)
O espírito goza sempre do livre-arbítrio. Em virtude dessa liberdade é que es-
colhe, quando desencarnado, as provas da vida corporal e que, quando encarnado,
decide fazer, ou não, uma coisa e procede à escolha entre o bem e o mal. Negar ao
homem o livre-arbítrio seria reduzi-lo à condição de máquina. (5)
Mergulhado na vida corpórea, o espírito perde, momentaneamente, a lem-
brança de suas vidas anteriores, como se um véu as cobrisse. Todavia, conserva al-
gumas vezes vaga consciência dessas vidas, que, mesmo em certas circunstâncias,
lhe podem ser reveladas. Esta revelação,porém, só os espíritos superiores lha fazem,
espontaneamente, com um fim útil, nunca para satisfazer a vã curiosidade. (5)
As existências futuras, essas em nenhum caso podem ser reveladas, pois de-
pendem do modo como o espírito se sair na existência actual e da escolha que ulte-
riormente faça. (5)
O esquecimento das faltas praticadas não constitui obstáculo à melhoria do
espírito, pois se é certo que este não se lembra delas com precisão, não é menos
certo que a circunstância de as ter conhecido na erraticidade e de haver desejado
repará-las o guia, por intuição, e lhe dá a ideia de resistir ao mal, ideia que é a voz da
consciência, tendo a secundá-la os espíritos superiores que o assistem, se atende às
boas inspirações que lhe dão. (5)
O homem não conhece os actos que praticou nas suas existências pretéritas,
mas pode sempre saber qual o género de faltas de que se tornou culpado e qual o
cunho predominante do seu carácter. Bastará, então, julgar o que foi, não pelo que
é, mas pelas suas tendências. (5)
As vicissitudes da vida corpórea constituem expiação das faltas do passado e,
simultaneamente, provas em relação ao futuro. Depuram-nos e elevam-nos, se as
suportamos resignados e sem murmurar. (5)
A natureza dessas vicissitudes e das provas que sofremos também nos podem
esclarecer acerca do que fomos e do que fizemos, do mesmo modo que neste mun-
do julgamos os actos de um culpado pelo castigo que a lei lhe infringe. Assim, o or-
gulhoso será castigado no seu orgulho, mediante a humilhação de uma existência
subalterna; o mau rico, o avarento, pela miséria; o que foi cruel para os outros, pelas
crueldades que sofrerá; o tirano, pela escravidão; o mau filho, pela ingratidão de
seus filhos; o preguiçoso, por um trabalho forçado, etc. (5)

7.5. UNIVERSO INFINITO – EVIDÊNCIA RACIONAL


DA EXISTÊNCIA DE OUTROS MUNDOS
HABITADOS

Buscando argumentos racionais que justifiquem a doutrina da pluralidade dos


mundos habitados não se pode olvidar a vastidão do Universo, com os seus incontá-
veis planetas, sistemas solares, galáxias, etc.
Com o avanço da Astronomia e da Astrofísica evidencia-se um Universo infini-
to, e afirmar que só a Terra teria o privilégio
de possuir uma humanidade seria condenar essa humanidade a ser excepção dentro
das Leis Naturais ou Divinas.
A ideia de o Universo ser infinito surgiu com Filipo Giordano Bruno, um ex-
monge dominicano, que foi queimado publicamente, depois de passar sete anos no

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cárcere por causa das suas ideias heréticas e por se recusar a abjurar as suas crenças
diante da Inquisição romana.
Ao contrário de Galileu Galilei, que, alquebrado, alguns anos mais tarde abju-
rou a teoria de Copérnico (continuando, porém, a desenvolver com os seus discípulos
uma moderna Cosmologia, no seu exílio em Arcetri, perto de Florença), Giordano
Bruno não pôde ser convencido pela Inquisição a abjurar as suas teorias. Estas não se
resumiam apenas na defesa do sistema de Copérnico, que irritava a Igreja, mas inclu-
íam também a sua opinião de que o Universo não era limitado por um invólucro, mas
sim formado por uma quantidade infinita de estrelas, sendo incomensuravelmente
grande. (4)
No Cap. VI de A Génese, de Allan Kardec, temos um trecho da comunicação
de Galileu a Camille Flamarion.
Nele encontra-se o seguinte: “...Com efeito, a Via Láctea é uma campina ma-
tizada de flores solares e planetárias, que brilham em toda a sua extensão. O nosso
Sol e todos os corpos que o acompanham fazem parte desse conjunto de globos
radiosos que formam a Via Láctea. Mau
grado, as suas proporções gigantescas,
relativamente à Terra, e à grandeza do seu
império, ele, o Sol, ocupa inapreciável
lugar em tão vasta criação. Podem contar-
se por uma trintena de milhões os sóis
que, à sua semelhança, gravitam nessa
imensa região, afastados uns dos outros
mais de cem mil vezes o raio da órbita
terrestre. (7) **
Por esse cálculo aproximativo se
pode julgar da extensão de tal região
sideral e da relação que existe entre o
nosso sistema planetário e a
universalidade dos sistemas que ela
contém. Pode-se igualmente julgar da
exiguidade do domínio solar e, concluir do
nada que é a nossa pequenina Terra. (7)
Assim, fica-se a conhecer a posição
que o nosso Sol ou a Terra ocupam no
mundo das estrelas. Ainda maior peso
ganharão estas considerações se
reflectirmos sobre a própria Via Láctea
que, na imensidade das criações siderais,
não representa mais do que um ponto insensível e inapreciável, vista de longe, por-
quanto ela não é mais do que uma nebulosa estelar, entre os milhões das que exis-
tem no espaço. Se ela nos parece mais vasta e mais rica do que as outras é pela úni-
ca razão de que nos cerca e se desenvolve em toda a sua extensão sob os nossos
olhares, ao passo que as outras, sumidas nas profundezas insondáveis, mal se dei-
xam entrever. (7)
Ora, sabendo-se que a Terra nada é, ou quase nada, no sistema solar; que
este nada é, ou quase nada, na Via Láctea; esta, por sua vez, nada, ou quase nada,
na universalidade das nebulosas, e essa própria universalidade bem pouca coisa
dentro do incomensurável infinito, começa-se a compreender o que é o Globo Ter-
restre. (7)
** Hoje sabe-se que há centenas de biliões de sóis na Via Láctea (“Universo – A Grande Enciclopédia
para todos” – Editora Delta – Editora Três – Edição 1973).

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RESUMO

INTRODUÇÃO

Deus povoou de seres vivos os mundos, concorrendo todos esses seres para o
objectivo final da Providência. Acreditar que só os haja no planeta que habitamos
seria duvidar da sabedoria de Deus, que não faz coisa alguma inútil.
As condições de existência dos seres que habitam os diferentes mundos hão-
de ser adequadas ao meio em que lhes cumpre viver.

ESTUDO HISTÓRICO

Remontando às primeiras páginas dos anais históricos da humanidade, encon-


tra-se a ideia da pluralidade dos mundos habitados; ou religiosa, pela transmigração
das almas e seu estado futuro; ou astronómica, simplesmente pela habitabilidade dos
astros. Todos os povos, e principalmente os hindús, chineses e árabes conservaram
até aos nossos dias tradições teogónicas em que se reconhece a pluralidade das ha-
bitações humanas nos mundos que brilham por cima da nossa cabeça.
Os livros dos vedas, génese antiga dos hindus, professam a doutrina da plura-
lidade das habitações da alma humana nos astros.
O Egipto, berço da filosofia asiática, tinha ensinado aos seus sábios esta anti-
ga doutrina.
A maior parte das seitas gregas ensinaram-na; ou abertamente, a todos os
discípulos sem distinção; ou em segredo, aos iniciados da filosofia. Thales, Anaxi-
mandro, Anaximene, Empédocles, Aristarco, Leucipo, e outros, ensinaram a plurali-
dade dos mundos habitados. Anaxágoras ensinou a habitabilidade como artigo de
crença filosófica; partidário do movimento da Terra, suscitou invejosos e fanáticos,
que o perseguiram, e quase o assassinaram, por afirmar que o Sol era maior que o
Peloponeso. Pitágoras, Epicuro e a sua escola, Metródoro de Lampsaque, Anaxarque
e Lucrécio também contribuíram com as suas afirmações favoráveis à pluralidade dos
mundos habitados.
Com o astrónomo polaco Copérnico, que derrubou a teoria da Terra como
centro do Universo, abriram-se novos campos ao pensamento. Com a Terra colocada
no seu devido lugar, a possibilidade de vida noutros planetas passava a ter um fun-
damento científico.
Com o auxílio do telescópio, tornou-se claro que os planetas eram corpos ce-
lestes bastante parecidos com a Terra e Giordano Bruno afirmou que seres vivos ha-
bitam esses mundos.
Nos séculos XVI e XVII sábios, filósofos e escritores consagraram bom número
de livros ao problema da vida no Universo.
Na segunda metade do século XIX, Camille Flamarion lança o livro A Plurali-
dade dos Mundos Habitados, que ganha enorme popularidade.
O russo Constantin Tsiolkovski, pai da astronáutica, foi um ardoroso defensor
da pluralidade dos mundos habitados.
O homem, ao colocar em órbita, em 1957, o primeiro satélite artificial, inau-
gurou uma etapa inteiramente nova na história da ideia da pluralidade dos mundos
habitados, operando uma revolução na consciência de todos nesta fase inicial de

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uma nova era da história humana, era do estudo directo e, algum dia, da conquista
do Cosmos.

PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA À DOUTRINA DOS MUNDOS


HABITADOS

A interpretação errónea dos livros sagrados sobre a imobilidade da Terra e a


aceitação dogmática do pensamento de Tertuliano, segundo o qual “não temos ne-
cessidade de nenhuma ciência depois do Cristo, e de nenhuma prova depois do
Evangelho”, encobriram durante muitos séculos a doutrina da pluralidade dos mun-
dos habitados.
Havia necessidade da religião oficial combater essa doutrina, porque vinha
contrariar os seguintes dogmas:

A ENCARNAÇÃO DE DEUS SOBRE A TERRA

Não sendo a Terra mais do que um átomo insignificante no conjunto do Uni-


verso, sobre que fundaria o privilégio de haver recebido na sua habitação o próprio
Eterno, que não desdenhara descer a encarnar-se num pouco de poeira terrestre?

A CRIAÇÃO DOS ASTROS NA GÉNESE BÍBLICA

A doutrina da pluralidade dos mundos habitados viria trazer problemas inú-


meros para a interpretação do livro de Moisés, que afirma terem sido os astros cria-
dos somente no quarto dia da criação, para iluminar a Terra e marcar-lhe o tempo e
as estações do ano.
Não sendo mais a Terra o privilegiado centro do Universo, como conciliar a
ideia que só depois de formar o planeta é que, no quarto dia, teria o Criador forma-
do o Sol e a Lua? Daí o combate renhido da religião dogmática à doutrina dos mui-
tos mundos habitados.

DESCENDÊNCIA ADÂMICA

Com a doutrina da vida em planetas incontáveis cairia por terra a doutrina de


um único casal, únicas criaturas do Universo, criado à imagem e semelhança de Deus
para povoar a Terra.
Havendo outros mundos e outros habitantes longe da Terra, por certo não
descenderiam de Adão, e como tal Deus houvera criado, noutros lugares e noutro
tempo, as suas criaturas, que deveriam lutar, sofrer, aprender, progredir na grande
marcha evolutiva, que se constitui lei do Universo, sem ligação alguma com o pecado
original do casal primitivo.

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A PARADA DO SOL E DA LUA

Desaparecendo o suposto privilégio da Terra, por ser igual a milhões e mi-


lhões de outros mundos, também desapareceria o interesse do Senhor em aquinhoar
um povo em detrimento de outros, e girando a Terra em torno do Sol, como poderia
o Senhor parar este, para que o dia se prolongasse? Tais argumentos colocavam em
risco a credibilidade das Escrituras Sagradas, se interpretadas segundo o texto, mere-
cendo então perseguição sistemática as doutrinas heliocêntrica da pluralidade dos
mundos habitados.

A SALVAÇÃO DA HUMANIDADE PELO SANGUE DE JESUS

O dogma afirma que o Cristo deu a sua vida em holocausto para que o seu
sangue lavasse a alma do homem, manchada pelo pecado original.
Com a doutrina da pluralidade dos mundos habitados, existindo, então, hu-
manidades que não estariam vinculadas ao primeiro casal da Terra, já não haveria
lógica na salvação pelo sangue derramado do Cordeiro Divino. Para que esse dogma
continuasse a vigorar entre os crentes, não poderia haver outro mundo habitado
além da Terra.

HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DE MEU PAI

A casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circu-


lam no espaço infinito e oferecem, aos espíritos que neles encarnam, moradas cor-
respondentes ao seu adiantamento.
São muito diferentes umas das outras as condições dos mundos, quanto ao
grau de adiantamento ou de inferioridade dos seus habitantes.
Nos mundos inferiores, a existência é toda material, reinam as paixões, sendo
quase nula a vida moral.
À medida que a vida moral se desenvolve, diminui a influência da matéria, de
tal maneira que, nos mundos mais adiantados, a vida é, por assim dizer, toda espiri-
tual.
Nos mundos intermediários misturam-se o bem e o mal.
Sem fazer uma classificação absoluta, mas com base no estado em que se
acham e a destinação que trazem, os mundos podem ser: primitivos, destinados às
primeiras encarnações da alma humana; de expiação e provas, onde domina o mal;
de regeneração, nos quais as almas que ainda têm que expiar haurem novas forças;
ditosos, onde o bem sobrepuja o mal; celestes ou divinos, habitação dos espíritos
depurados, onde reina exclusivamente o bem.
A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas.

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TRANSMIGRAÇÕES PROGRESSIVAS

A vida do espírito compõe-se de uma série de existências corpóreas, cada uma


representando para ele oportunidade de progredir. Há, para o espírito, existências
corporais que nenhum resultado colhe, porque não as soube aproveitar, como exis-
tem aquelas que as aproveita bem, mas que nem por isso poderá passar da infância
espiritual ao completo desenvolvimento. É-lhe necessário realizar inúmeras encarna-
ções em mundos diversos.
Ninguém, por um proceder impecável na vida actual, poderá transpor todos
os graus da escala do aperfeiçoamento e tornar-se espírito puro, sem passar pelos
graus intermediários.
Ao espírito cumpre progredir em ciência e em moral.
A marcha dos espíritos é progressiva, jamais retrógrada. Elevam-se gradual-
mente na hierarquia e não descem da categoria a que ascenderam.
Chegado ao termo que a Providência lhe assinou à vida na erraticidade, o
próprio espírito escolhe as provas a que deseja submeter-se para apressar o seu adi-
antamento. Tais provas estão sempre em relação com as faltas que lhe cumpre expi-
ar. Se delas triunfa, eleva-se; se sucumbe, tem que recomeçar.
Mergulhado na vida corpórea, o espírito perde, momentaneamente, a lem-
brança das suas existências anteriores, como se um véu as cobrisse. Conserva algu-
mas vezes vaga consciência dessas vidas, que, mesmo em certas circunstâncias, lhe
podem ser reveladas; porém, só os espíritos superiores, fazem tais revelações, espon-
taneamente e sempre com um fim útil, nunca para satisfazer a vaidade, o orgulho ou
a vã curiosidade.
As existências futuras, essas, em nenhum caso podem ser reveladas, pois de-
pendem do modo como o espírito se sairá na existência actual e da escolha que ulte-
riormente faça.
O esquecimento das faltas praticadas não constitui obstáculo à melhoria do
espírito, pois, se é certo que este não se lembra delas com precisão, não é menos
certo que a circunstância de as ter conhecido na erraticidade e de haver desejado
repará-las o guia, por intuição, e lhe dá a ideia de resistir ao mal - é a voz da consci-
ência.
As vicissitudes da vida corpórea constituem expiações das faltas do passado e, simul-
taneamente, provas em relação ao futuro. Depuram-nos e elevam-nos, se as supor-
tarmos resignados e sem murmurar.

UNIVERSO INFINITO, PROVA RACIONAL DA EXISTÊNCIA DE


OUTROS MUNDOS HABITADOS

Não se pode olvidar, nos argumentos em estudo que falam da pluralidade dos
mundos habitados, a vastidão do Universo, que se torna cada vez mais ampla à me-
dida que o homem vai melhorando a técnica de explorá-la, descobrindo novos plane-
tas, sistemas solares, galáxias, etc.
Com o avanço da Astronomia e da Astrofísica evidencia-se um Universo infini-
to, e afirmar que só a Terra poderia ser habitada seria afirmar que a humanidade é
uma excepção dentro das Leis Naturais ou Divinas.

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Allan Kardec, em A Génese, tratando da Orografia Geral, mostra quão insigni-


ficante é o papel da Terra no Universo infinito, para ser o único planeta a servir de
encarnação às criaturas.
Sabendo-se que a Terra nada é, ou quase nada, no sistema solar; que este
nada é, ou quase nada, na Via Láctea; esta, por sua vez, nada, ou quase nada, na
universalidade das nebulosas, e essa própria universalidade bem pouca coisa é dentro
do incomensurável infinito, começa-se a compreender o que é o Globo Terrestre.

BIBLIOGRAFIA

(1) João Ferreira Almeida, A Bíblia Sagrada (tradução) Génesis de Moisés, Cap. 1, v.
14 a 19, Josué, Cap. X, v. 12 e 53, 31.ª Impressão, Imprensa Bíblica Brasileira
(1975)
(2) Isaac Asimov, O Universo, 3.ª edição, Edições Bloch
(3) Camille Flammarion, A Pluralidade dos Mundos Habitados, Livro 1, Cap. 1 e
Apêndice A, Edição B.L. Garnier (1878)
(4) Joachin Herman, Astronomia; O Universo é Limitado, pág. 278, 1.ª Edição, Edito-
ra Círculo do livro S/A
(5) Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Parte Segunda, Cap. V, Questão 191; Cap. VII,
Questão 399; Parte Primeira Cap. III, Questões 55 a 58; 44.ª Edição da Federa-
ção Espírita Brasileira
(6) Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. III, 77.ª Edição da Federa-
ção Espírita Brasileira
(7) Allan Kardec, A Génese, Cap. V, item 13 e Cap. VI, item 32 a 36, 19.ª Edição
(Popular) da Federação Espírita Brasileira
(8) Louis Pauwels e Jacques Bergier, O Homem Eterno, Terceira Parte, Cap. I, Edição
Difusão, Europeia do Livro, São Paulo

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CAPÍTULO 8

SUMÁRIO
8 AS LEIS MORAIS (I)
8.1 DA LEI DIVINA OU NATURAL – O bem e o mal

8.2 DA LEI DE ADORAÇÃO


8.2.1 Politeísmo
8.2.2 Sacrifícios

8.3 DA LEI DO TRABALHO


8.3.1 Limite do trabalho – Repouso

8.4 DA LEI DE REPRODUÇÃO


8.4.1 Obstáculos à reprodução
8.4.2 Casamento e celibato
8.4.3 Poligamia

8.5 DA LEI DE CONSERVAÇÃO


8.5.1 Gozo dos bens terrenos
8.5.2 Necessário e supérfluo
8.5.3 Privações voluntárias – Mortificações

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8.6 DA LEI DE DESTRUIÇÃO
8.6.1 Destruição necessária e destruição abusiva
8.6.1.1 Flagelos destruidores
8.6.1.2 Guerras
8.6.1.3 Assassínio
8.6.1.4 Crueldade
8.6.1.5 Pena de morte

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Curso Básico de Espiritismo As leis morais (I)

8. AS LEIS MORAIS (I) (*)


A terceira parte de O Livro dos Espí-
ritos trata das leis morais.
Antes de entrarmos no estudo
pormenorizado de cada uma, vejamos o
significado de lei e de moral.
Diz-se que lei é uma regra necessária
e obrigatória que preside à relação de dois
ou mais fenómenos, relação esta constante
e invariável; também se pode entender
como o conjunto de normas emanadas de
um poder maior e soberano, estabelecendo
uma obrigação que se impõe por si mesma.
Entende-se por moral tudo aquilo
que diz respeito ao procedimento, que per-
tence ao domínio do espírito, da
inteligência e dos bons costumes; diz-se que
a moral é a luz condutora da consciência,
formando um corpo de preceitos e regras,
para dirigir as acções dos homens segundo
a justiça para consigo próprio e para com os outros.
O enfoque espírita aceita estas colocações e desdobra-as, qualificando-as de
acordo com uma ordem de sequência que fecha exactamente o ciclo de uma espiral
evolutiva, começando pela Lei Divina ou Natural, terminando na perfeição moral,
passando pelas leis de adoração, do trabalho, da reprodução, da conservação, da
destruição, da sociedade, do progresso, de igualdade e de liberdade, de justiça, amor
e caridade.
Parece uma escada ascensional formada por degraus que começam num pon-
to ideal – o princípio – e fecham em circuito sobre si próprios finalizando, em projec-
ção, num ponto comum e igual, levando, porém, como carga, todo um processo de
evolução, de crescimento, de madureza, de individualização consciencial.

8.1. DA LEI DIVINA OU NATURAL

É a lei de Deus, tendo-O como princípio imanente e transcendente do Univer-


so, causa e meta, princípio e finalidade; é natural, porque Deus estando em tudo, e
tudo em Deus, a natureza está prenhe de Deus, que está presente na energia que se
transforma em matéria, tanto quanto no espírito que se transforma em consciência,
porque nada existe sem ser em Deus.
Por ser uma lei natural é infeliz o que dela se afasta, não por desconhecê-la,
mas por repudiá-la.
Sendo uma consequência da Sua presença, ela é eterna e imutável, quanto ao
tempo e espaço, mas percebida pelos homens na medida em que evoluem e dilatam
o seu universo consciencial.
Conforme seja considerada, a Lei Natural tanto rege fenómenos da matéria,
* Todo este caderno foi elaborado com base no Livro dos Espíritos, 3.ª Parte, Cap. 1 a 6.

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sendo estudada pelo homem ligado às ciências académicas, na Física, Química, Bio-
logia, Astronomia, etc., como fenómenos do espírito, relacionado com o seu criador -
Deus - ou com os seus semelhantes - outros homens e seres da natureza: animais,
vegetais, minerais - formando as leis morais.
A lei natural, ou divina, está apropriada para cada mundo na faixa da sua evo-
lução, embora seja a mesma sob o ponto de vista universal. Todos a compreenderão
um dia, embora muitos a conheçam e não a consigam respeitar, sofrendo as conse-
quências desse desrespeito.
Como está insculpida na
consciência da criatura, ela é
tanto mais compreendida
quanto mais aperfeiçoado
(evoluído) o ser, que devido
aos seus maus instintos a
esquece. Para tanto, a Bondade
Divina providencia, de tempos
a tempos, a vinda de espíritos
superiores, que a encarnam em
extensão e profundidade.
Vivendo-a exemplarmente,
servem como modelos
catalisadores da mudança de
costumes de uma população,
de uma sociedade, da
humanidade toda, dependendo
do raio de acção de tais
missionários.
Alguns falham, não
conseguindo dar bom termo às
suas tarefas e, entre os ensinamentos reais e verdadeiros, misturam os seus erros e
fantasias, obrigando, assim, os seus seguidores a exercitarem, permanentemente, a
análise e a crítica.
Na antiguidade eram conhecidos como profetas. Os verdadeiros eram os que
não sobressaíam apenas pelas palavras, mas os que testemunhavam pelo exemplo
vivo. Entre todos os que até hoje vieram ao encontro do homem o mais perfeito foi
Jesus, que conseguiu, na sua longa jornada evolutiva, incorporar de tal forma as leis
divinas que as vivia naturalmente, respirando-as através dos seus actos.
É o modelo mais perfeito que o homem tem. Hoje, os seus ensinamentos,
vertidos em forma simbólica ou através de histórias, têm, pelo Espiritismo, uma expli-
cação mais lógica e coerente com a época e os conhecimentos actuais, fugindo das
características da antiguidade, quando os princípios das leis divinas e naturais eram
tidos como mistérios, abertos apenas a alguns iniciados.
A Doutrina Espírita, com o seu corpo de ensinamentos, vem popularizar o co-
nhecimento antes fechado às grandes massas, que tinham de se contentar em seguir
de olhos vendados os seus pretensos mestres que, gozando da possibilidade do po-
der, abusavam da ignorância do povo, impingindo-lhe crendices e temores infunda-
dos, misturando conceitos de bem e de mal.
Para a Doutrina Espírita, a moral tem que ver com o procedimento, isto é, a
ideia transformada em acção e em maneira de ser, visando o bem comum.
O bem seria a aplicação, nos limites do conhecimento e da possibilidade, das
leis divinas, e o mal a ausência da aplicação destas leis ou, no caso contrário, a
agressão a estas mesmas leis. Por intuição, o homem sabe o que é a lei divina, bas-

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tando, para isso, não se deixar dominar pelos seus interesses egoístas e vaidosos. Na
máxima cristã de não fazer aos outros o que não quer que lhe façam, e mais, fazer
aos outros o que gostaria que lhe fizessem, está o resumo de tudo. O mal não é uma
criação activa de Deus. Apresenta-se no homem como parte da sua natureza; ele é a
negação do bem que cumpre ser desenvolvido pelo homem, é a resistência criada
pelo homem para a sua própria libertação e crescimento.
À medida em que o homem se desenvolve e sabe o bem que deve fazer, e se
omite, não se esforçando por concretizá-lo, mais responsável se torna perante as leis
divinas pelo mal que pratique. Este, tanto pode ser caracterizado pelas acções con-
trárias ao bem, quanto simplesmente pela ausência deste. Por isso, o nível de res-
ponsabilidade da consciência ignorante não é o mesmo que o do homem dito escla-
recido, pois, dependendo das circunstâncias, como da falta de ocasião de praticá-lo,
só o simples desejo de perpetrá-lo já dá ao homem um sentimento de responsabili-
dade pelas suas consequências.
Todos podemos praticar o bem, porque não consiste em o indivíduo conside-
rar-se grandioso nos actos de caridade, mas, simplesmente, em tornar-se útil no nível
evolutivo em que está.
Há mérito em se resistir ao mal que provém do meio em que se vive e, às ve-
zes, isso ocorre como uma provação das nossas forças, podendo também o mal
exercer um arrastamento forte sobre o carácter do indivíduo, mas nunca irresistível,
pois a vontade é soberana em quaisquer circunstâncias, não se podendo atribuir ao
meio a responsabilidade de actos que a consciência aprova ou não.
A lei natural, tratando-se do comportamento do homem em relação ao seu
semelhante, é a do amor ao próximo como a si mesmo.

8.2. DA LEI DE ADORAÇÃO

Todos compreendem, mesmo que inconscientemente, que acima de tudo


existe um princípio criador, um ente supremo, Deus, que rege o Universo e as suas
criaturas em todos os níveis de evolução.
O reconhecimento e a evolução do pensamento da criatura ao Criador carac-
teriza a adoração, que faz parte da lei natural, pois é um sentimento inato que se
manifesta de formas diferentes.
A adoração interior é a verdadeira, é a do coração, mas a exterior, como bom
exemplo, tem o seu valor relativo, desde que não seja uma acção falsa, nem tão-
pouco mistificatória.
A adoração a Deus faz-se através do amor dedicado ao semelhante, sem
afectação e publicidade, num processo de autopromoção provocada pelo orgulho e
pela vaidade. É hipócrita todo aquele que cifra a sua atitude em actos exteriores e
espalhafatosos, cuidando de manter uma imagem de pureza e superioridade. Ele
cria, fermentando em torno de si, grupos de admiradores fanáticos, mas, na intimi-
dade, demonstra os seus interesses rasteiros de aparecer como figura especial, em
função da caridade que imagina prodigalizar.
A adoração a Deus é singela, simples, silenciosa e espontânea. Não necessita
de arroubos nem de fanfarras que anunciem a intenção do fiel. A linguagem conhe-
cida por Deus é a do coração.
A vida contemplativa, inerte, apenas de reflexão, é um desperdício, pois o po-
tencial do homem deixa de ser usado em benefício do semelhante. A verdadeira
adoração é a que nasce da acção útil em favor do outro, desenvolvendo, assim, os
potenciais riquíssimos que a criatura humana possui e ainda não se deu conta.

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A prece não deve ser confundida com uma adoração contemplativa, pois no
acto de orar mobilizamos recursos de natureza interior que nos permitem enfrentar
dificuldades sem nos abatermos, tanto quanto encontramos inspiração para novos
cometimentos realizados a favor dos nossos semelhantes.
A prece feita com o coração e a alma torna o homem mais senhor de si, po-
dendo lutar contra os seus maus próprios instintos, que o levam a ligações pouco
felizes com entidades perturbadas e perturbadoras. A prece funciona como um es-
cudo de protecção contra a invasão do mal de fora, que sempre se fundamenta no
mal de dentro da criatura, que assim se vê presa de influências perniciosas e deletéri-
as.
A eficácia da prece, contudo, dá-se quando quem ora consegue sair da sua
concha de egoísmo e, descendo do seu pedestal de orgulho, passa a tratar o seu
semelhante com amor e carinho, através de acções benéficas. A prece, pois, é uma
forma do homem se carregar de energias e canalizá-las para o bem geral e, conse-
quentemente, para o seu próprio bem.
De nada adianta orar, seja louvando seja pedindo perdão das faltas, se o indi-
víduo não procede a nenhuma
mudança na sua maneira de ser,
nem tão-pouco adianta simular
uma atitude de adoração.
A Lei tem a finalidade de
diminuir as dores e provas que
cada um deve passar, em
função dos seus próprios
desacertos, e da necessidade de
ultrapassar barreiras próprias e
naturais do processo evolutivo
(de crescimento espiritual).
A prece serve como
elemento de motivação para
enfrentarmos com dignidade e
elevação as provas, mas nunca
as diminuindo ou afastando-as
do nosso caminho, pois o que
mesquinhamente achamos um
grande mal, dentro da nossa
visão efémera e limitada, na
origem geral das coisas, pode
ser um bem.
A prece não muda os
desígnios de Deus, mas dá-nos
uma visão mais clara de como
devemos agir, e, quando oramos por terceiros, não os eximimos dos seus sofrimen-
tos, porém transmitimos-lhes o nosso sentimento amoroso, alcançando-os onde este-
jam, servindo a nossa prece como um refrigério às suas almas, e, a algumas, como
um toque para a sua renovação interior, para abandonarem uma posição de inércia,
trocando-a pela acção a favor de outros sofredores maiores que elas próprias. Forma-
se, assim, uma sequência de relações simpáticas e de gratidão entre os espíritos, que
aos poucos despertarão para o sentimento de amor recíproco e alcançarão, dessa
forma, as recomendações do Cristo.

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8.2.1. POLITEÍSMO

Incapaz, por falta de desenvolvimento das suas ideias, o homem atribuía, a


princípio, tudo o que não conseguia explicar, à acção de deuses que se espalhavam
pela natureza, a fim de atender-lhe os pedidos ou vingar-se, se não fossem reveren-
ciados como desejavam. Para o homem primitivo, os deuses disputavam o poder en-
tre si e chegavam a guerrear para mostrarem as suas forças.
O termo deus, a princípio, não significava o Senhor da Natureza, mas todo o
ser existente fora das condições da humanidade. Confundiam-se os espíritos nas suas
várias escalas evolutivas e as suas relações com os deuses. Era apenas uma questão
de palavras, mas que, até hoje, através da devoção dos fiéis, se vê, amiúde, a prática
politeísta.
Com o Cristianismo houve uma orientação segura quanto à definição de Deus
como Pai amoroso e vigilante, sempre pronto para auxiliar seus filhos a redimirem-se,
deixando de lado a imagem grosseira de um deus vingativo e cruel, irado e sujeito a
alterações de humor, conforme o procedimento das criaturas humanas.
A doutrina de Moisés deu-
deu- nos como avanço cultural religioso a no
no ção do
Deus único, soberano
soberano e poderoso, exercendo tal poder sobre tudo e todos no Uni-Uni-
verso.

8.2.2. SACRIFÍCIOS

O facto de os homens primitivos ainda estarem mais influenciados pelos ins-


tintos, não tendo desenvolvido o senso moral, é que fez com que procurassem mos-
trar o seu respeito e devoção às divindades através de sacrifícios, principalmente de
criaturas humanas, que valiam mais do que um animal que, a princípio, era objecto
de escolha para tal. Como admitiam que o valor da crença era proporcional ao valor
do que era sacrificado, procuravam agradar a Deus através dos sacrifícios humanos.
Essa prática não era realizada propriamente por crueldade, mas originada por uma
ideia errónea de querer agradar ao Pai.
Sem dúvida que, com o correr do tempo, os abusos instalaram-se e inimigos
comuns e particulares passaram a ser executados com a desculpa de se estar fazen-
do uma obra piedosa e de adoração a Deus.
Uma época remanescente desta fase obscurantista foi a Idade Média, na qual
centenas de milhares de pessoas foram imoladas para terem as suas almas salvas,
desencadeando, através do mecanismo da lei de causa e efeito, acontecimentos que
até hoje ocorrem no mundo, até ao restabelecimento final da ordem e da justiça nas
consciências.
Deus julga os sacrifícios pela intenção e à medida que os homens evoluíram
deixaram tais práticas, mantendo-as, apenas, a nível simbólico.
O melhor sacrifício perante os olhos de Deus não é a Sua defesa, nem dos
Seus ensinamentos, através de lutas e guerras fratricidas, em que se pretende impor
aos outros uma doutrina, mas sim através de uma acção amorosa, compreensiva,
procurando ajudar o semelhante, seja de que forma for, minorando-lhe os sofrimen-
tos e auxiliando-o a sair da escuridão da ignorância.
A melhor forma de adorar a Deus é trabalhar a favor da melhoria individual e
do grupo em que se vive.

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8.3. DA LEI DO TRABALHO

A necessidade do trabalho é lei da Na-


tureza, isto é, é intrínseco no homem ter que
trabalhar, para desenvolver o seu potencial
intelectual e moral. Tanto é trabalho o do
corpo quanto o da inteligência e, como resul-
tado, temos uma aplicação moral desse traba-
lho, revertendo para o próprio indivíduo e
para aqueles que o cercam, aumentando o
seu património material e espiritual, do qual
deve usufruir para a sua felicidade.
Enquanto o trabalho animal é pura-
mente instintivo e condicionado, o do homem
é racional e criativo, permitindo-lhe desenvol-
ver os seus potenciais divinos, pois não visa,
apenas, a conservação do corpo e os bens
materiais. O homem evoluído faz do trabalho
um meio para atingir os seus fins espirituais
de socialização.
O trabalho existe em função das ne-
cessidades que, quanto menos materiais fo-
rem, mais inclinam o homem para um traba-
lho menos penoso sob o ponto de vista físico.
As necessidades materiais exigem um traba-
lho material, as espirituais um espiritual.
Quanto mais meios o homem possui para a sua manutenção e sustento, mais
obrigação moral tem de ser útil aos semelhantes, pois usar o que possui só para o
seu gozo, caracteriza-o como egoísta e involuído. A posse de bens que extrapolem as
suas necessidades obriga-o a ser útil aos semelhantes, sob pena de converter-se num
entrave para o progresso moral e social do meio e da sociedade em que vive, po-
dendo, de futuro, encontrar-se impossibilitado de desenvolver uma função voluntari-
amente desprezada, tendo que viver às expensas do trabalho alheio, sofrendo o peso
dos limites que ele mesmo procurou.
Na sociedade actual, o trabalho dos pais a favor dos filhos (de uma maneira
geral de uma geração anterior para uma sucessora) deve receber, reciprocamente,
uma acção de ajuda mútua, estabelecendo uma cadeia natural de trocas, que estabi-
lize a sociedade. O mais velho ajudando a criança a ser adulta; esta, alcançando a
maturidade e o seu mais alto potencial produtivo, deverá ajudar e amparar os que
por ela tanto fizeram e voltar-se, também, para as novas gerações, que precisam de
ajuda e exemplos, e assim sucessivamente.

8.3.1. LIMITE DO TRABALHO – REPOUSO

O repouso, além de ter um papel na reparação das energias físicas, também


serve como elemento importante na indução do espírito a procurar a liberdade da
inteligência, alcançando a vertente da criatividade, fugindo, assim, do estreito anel
das condições reflexas e limitantes de um trabalho rotineiro.

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O limite do trabalho é o das forças. Todo o abuso que se cometa será consi-
derado suicídio indirecto, se for autonomamente imposto pelo próprio interessado,
ou escravidão vil, se da responsabilidade de um terceiro. Tanto uma como a outra
atitude configuram uma transgressão da lei de Deus.
Num meio social que leve em conta a lei de produção e consumo, uma faixa
etária nova é responsável pelo trabalho que assegure o bem-estar dos mais velhos,
que já não podem produzir, mas que têm o direito de viver e gozar dignamente a
sua velhice, pois ajudaram na educação dos mais novos que se prepararam para con-
tribuir a favor da sociedade e do mundo.
É por isso que a lei de reprodução é importante na manutenção deste fluxo
interminável, do qual são geradas as sociedades e a própria humanidade.

8.4. DA LEI DE REPRODUÇÃO

Evidentemente, a lei
de reprodução é uma lei da
Natureza, que assim provê,
permanentemente, a
renovação do património
humano, não só de bens
materiais, mas culturais e
espirituais que, em
conjunto, formam a
humanidade.
Sempre crescendo
geometricamente, a
população do globo
terrestre ameaça chegar a
um nível em que as
condições da Terra não
permitirão a todos viver. O
fantasma da sobrepopulação e da saturação angustia o homem de hoje, que apenas
vê "um canto do quadro da natureza, não podendo julgar da harmonia do conjunto".
Há mecanismos naturais que impedirão a implosão da Terra por excesso de popula-
ção e escassez de meios e recursos de sobrevivência.
Velhas raças são apenas lembranças históricas que deram lugar a novas raças,
que envelhecerão e terão que ser substituídas. Uma visão limitada não permite que
entendamos com clareza os desígnios da Providência, que se fazem sem ou com o
nosso conhecimento, e sem ou com o nosso consentimento.
Embora as raças possam ser substituídas, os espíritos que as encarnam são os
mesmos seres em processo de evolução. Da força bruta dos nossos ancestrais primi-
tivos evoluiu a força da inteligência, que consegue sobrepor-se aos elementos natu-
rais, tirando-lhes, de maneira progressiva, a força, aplicando-a em benefício próprio e
colectivo, o que não conseguem os animais.
Deus manifesta-se no homem através da sua inteligência, que é colocada ao
serviço do aperfeiçoamento da própria natureza, dela extraindo forças capazes de o
ajudarem no seu bem-estar e a realizar o progresso, que se torna meritório de acor-
do com a intenção dada pelos seus construtores.

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8.4.1. OBSTÁCULOS À REPRODUÇÃO

A natureza é regulada por leis gerais, mas a acção inteligente do homem


pode alterá-las, desde que o faça de acordo com as suas necessidades e sem abuso.
Esta acção inteligente do homem é que o distingue dos animais, porque age
com conhecimento de causa, regulando os mecanismos da reprodução, conforme os
seus desejos e necessidades, provendo, com esta regulação, um bem-estar social,
económico e moral. Desde que o faça visando somente a sua sensualidade mostrará
quanto ainda é material, já que predominam os valores do corpo sobre os da alma.

8.4.2. CASAMENTO E CELIBATO

O
casamento é um
progresso na
marcha da
humanidade e a
sua abolição seria
uma regressão à
vida animal.
Através do
casamento os seres
estabelecem entre
si um vínculo de
solidariedade fra-
terna, aprendendo
a cooperar com o
seu semelhante,
abrindo mão de
interesses pessoais
e egoísticos.
A indissolubilidade do casamento é uma lei humana, que contraria a da natu-
reza, que pré-estabelece a união geral dos seres, sem a formação fechada, perma-
nente, de grupos que se enquistam e isolam dos demais. A estabilidade do casamen-
to é dada pela união dos interesses dos cônjuges e pela sintonia espiritual que deve
haver entre eles.
O celibato voluntário, procurado ou imposto a si mesmo como um estado
meritório e de perfeição espiritual, não passa de uma grande mentira egoísta, desa-
gradando às leis naturais e enganando o mundo, muitas vezes escondendo proble-
mas de desajustes pessoais de ordem moral e sexual. O celibato torna-se meritório
quando o seu móbil é o sacrifício pessoal, voltado para o bem da humanidade, mas
sem qualquer ideia egoísta de autopromoção. O celibato deve ser aceite quando é
espontâneo e não se reveste de qualquer tipo de compensação, elevando o homem
acima da sua condição material. Ele só é verdadeiro quando não pesa para quem o
vive e para quem não precisa de utilizar outros mecanismos de acção sexual para
justificá-lo.

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8.4.3. POLIGAMIA

A poligamia é uma lei humana, nascida muito mais da sensualidade do que


da afeição real, sendo a sua abolição um progresso.
Se fosse uma lei natural, deveria, com o tempo, ter-se universalizado, o que
não ocorreu, por diversas razões. Ainda é encontrada no nosso mundo como rema-
nescente de épocas passadas, estando sujeita a uma legislação especial, apropriada a
certos costumes tradicionais, que o aperfeiçoamento social irá, aos poucos, modifi-
cando.

8.5. DA LEI DE CONSERVAÇÃO

É uma lei da Natureza que todos os se-


res vivos possuem em diferentes graus, desde
o maquinal, instintivo, até ao nível raciocina-
do.
Porque os seres vivos têm necessidade
de viver para cumprimento dos desígnios da
Providência Divina, sentem instintivamente a
lei de conservação como parte natural da sua
constituição.
Os meios de conservação dados por
Deus ao homem nem sequer são entendidos,
principalmente os meios que a Terra lhe pro-
porciona, que devem ser utilizados na medida
do necessário, de forma sustentada, evitando
o supérfluo. Quando nem o necessário é al-
cançado pelo homem no trato da terra, isso
deve-se à imperícia do próprio homem, que
não respeita as leis naturais.
Os esbanjamentos dos recursos materi-
ais demonstram que o homem, no afã de
satisfazer as suas fantasias, se torna imprevidente no uso, caindo no abuso, tendo
que sofrer nos dias de penúria.
“A natureza não pode ser responsável pelos defeitos da organização social,
nem pelas consequências da ambição e do amor-próprio.”

8.5.1. GOZO DOS BENS TERRENOS

Os bens da Terra devem ser entendidos como tudo o que o homem pode go-
zar neste mundo e, quando o homem não alcança este gozo, não pode, nem deve
acusar a Natureza como imprevidente, mas reconhecer que é dele a responsabilidade
pelo seu sofrimento, por não saber regrar o seu viver.
Se uns têm tanto e outros têm pouco, ou nada, deve-se reconhecer, por um
lado, a existência do egoísmo que impede qualquer atitude altruísta e, por outro
lado, a indolência e a acomodação, pois quem realmente busca e se esforça, por

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pouco que tenha, sempre está


fadado a conseguir mais e melhor,
se não ficar apenas a reclamar sem
produzir. Os obstáculos e impedi-
mentos, a maioria das vezes, têm
apenas a finalidade de
experimentar a constância, a
paciência e a firmeza.
Se cada um aprender a
ocupar o seu lugar, não ocupando
o espaço do semelhante, a
organização social tende a
apresentar-se de forma equilibrada
e estável.
Os esforços dos vários povos
que se utilizam de técnicas científi-
cas para o aperfeiçoamento moral
provam que o homem, utilizando a inteligência, pode melhorar o seu padrão de vida,
desde que não caia em círculos egoístas e de opressão a terceiros. Estes, quando
existem, geram condições de sofrimento futuro, devido à infracção da lei.
A necessidade de subsistência gera no homem a exigência do trabalho, que
não deve ser escravo nem explorador. E qualquer tipo de malefício e crime que se
cometa contra o próximo sempre gerará uma falta do tipo lesa-natureza com as con-
sequências decorrentes. À medida que as sociedades e os mundos se diferenciam
evolutivamente, a alimentação está em relação directa com a sua natureza, havendo
ainda, nos mundos mais elevados, necessidade de alimentação, que não seria bas-
tante substanciosa para os nossos estômagos ainda grosseiros.
O gozo dos bens terrenos é um direito consequente à necessidade de viver e
serve para experimentar o homem, desenvolvendo-lhe a razão, preservando-o dos
excessos e abusos, educando-o desta forma. Todas as vezes que o homem ultrapassa
o limite do necessário cai no excesso, amargando o gosto da saciedade e perdendo o
estímulo do prazer, punindo-se, desta forma, automaticamente.

8.5.2. NECESSÁRIO E SUPÉRFLUO

O homem ponderado estabelece o limite do necessário pela intuição e pela


experiência, embora a própria natureza estabeleça a linha divisória do uso e do abu-
so, conhecendo-se este pelos resultados nefastos dele decorrentes.
Sem saúde e sem força, o homem não consegue desenvolver conveniente-
mente o seu trabalho, que tem como finalidade prover as necessidades do corpo,
sendo natural o seu desejo de bem-estar, desde que não conseguido à custa de ou-
trem.

8.5.3. PRIVAÇÕES VOLUNTÁRIAS – MORTIFICAÇÕES

Todo e qualquer esforço que se faça para a privação dos gozos inúteis des-
prende o homem das suas paixões materiais, elevando a sua alma, que se dignifica

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ainda mais quando o homem abdica dos seus prazeres para fazer a felicidade do
semelhante, através do auxílio fraternal.
A utilização de medidas simuladas, com a finalidade de apenas crescer peran-
te os olhos humanos, além de não trazer nenhum auxílio espiritual para o homem,
ainda o coloca como ser hipócrita que, com máscaras, procura impressionar o seu
semelhante.
A privação, por exemplo, de certos alimentos, é tomada como prova de supe-
rioridade, embora a constituição do homem exija, para a manutenção das suas for-
ças e da sua saúde, a ingestão de proteínas animais, sendo coerente esta privação
somente se for séria e útil, isto é, se não for apenas para sobressair, com o uso de
sentimentos de falsa superioridade.
Todo e qualquer sofrimento que não seja natural, portanto criado pelo pró-
prio homem com a finalidade de agradar a Deus, não leva a nada, porque, no fundo,
está apenas a atender ao seu egoísmo; mortifica-se inutilmente.
Melhor faria se usasse as suas energias para atender ao semelhante que sofre
dificuldades, exercitando o seu desprendimento em acções que resultassem em algo
útil para alguém e não apenas fustigando o seu corpo de maneira egoísta.

8.6. DA LEI DE DESTRUIÇÃO

8.6.1. DESTRUIÇÃO NECESSÁRIA E DESTRUIÇÃO ABUSIVA

Ao que chamamos
destruição nem sempre o é; não
passa de uma forma de rege-
neração, de transformação, pois
vivemos num Universo em que
“nada se cria, nada se perde,
tudo se transforma.”
Os seres vivos, para se
alimentarem, destroem-se
reciprocamente, seguindo esta
aparente destruição dois fins:
1. Manutenção do
equilíbrio na
reprodução, que poderia tornar-se excessiva, quebrando a dinâmica de
interdependência que existe entre os seres;
2. Utilização dos despojos do invólucro exterior que sofre a destruição.
Esse invólucro é simples acessório; a parte essencial do ser pensante é o
princípio inteligente, que não se destrói, mas se elabora nas metamorfo-
ses diversas por que passa.
Os meios de preservação de que a própria Natureza é dotada têm a finalidade
de evitar que a destruição se dê antes do tempo, o que inibiria o desenvolvimento do
princípio inteligente.
O medo inconsciente do homem pela morte é a manifestação do instinto de
conservação animal; é a manifestação inconsciente da necessidade que o seu espírito
tem de se desenvolver. Por isso, deve enfrentar as provações da vida sem apelar para

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a fuga das reclamações, das acusações indevidas, nem tão-pouco aspirar à morte
física como forma de resolver os problemas que o alcançam.
A necessidade de destruição, para estabelecer o equilíbrio ecológico e psico-
lógico, é proporcional à natureza dos mundos, cessando quando o físico e o moral se
acham mais depurados do que aqui na Terra; são características de mundos mais
adiantados que o nosso. Mesmo aqui na Terra, à medida que há uma maior depura-
ção, o sentimento de preservação sobrepuja o de destruição, dando ao homem me-
lhor posição no seu desenvolvimento intelectual e moral.
O direito de destruição sobre os animais, bem como sobre os vegetais, está
regulado pela sua necessidade, pagando o homem alto preço por qualquer abuso
que cometa, denotando apenas a predominância dos seus instintos bestiais destruti-
vos.
Quando a
destruição dos animais é
evitada, por excesso de
escrúpulo ou por
imposição religiosa, o
facto, louvável em si,
passa a ser, apenas,
manifestação supersticio-
sa, pois o homem excede-
se de outra maneira. Só é
válida quando aceite
interiormente, sem riscos
para o seu bem-estar ou
sobrevivência e sem
revolta.

8.6.1.1. Flagelos destruidores

Os flagelos destruidores são permitidos por Deus na medida em que os resul-


tados que deles advêm, e que nem sempre são vistos, admitidos e aceites pelo ho-
mem, os leva a uma regeneração moral, dando origem a uma melhor ordem, que se
realiza em poucos anos, em vez de alguns séculos.
São meios de aceleração do progresso da humanidade que, pelas dificulda-
des, se vê obrigada a mudar a maneira de agir. Tais meios, porém, são de excepção,
pois, regularmente, o homem tem, como meio de progredir, o conhecimento do
bem e do mal que, não sendo convenientemente usado, resulta em medidas de ex-
cepção, tomadas pela lei de equilíbrio que rege a vida das pessoas, dos grupos, das
sociedades, das nações e da humanidade.
Pelo facto dos espíritos preexistirem e sobreviverem a tudo, eles formam o
mundo real. Os seus corpos físicos e o meio físico no qual desenvolvem as suas po-
tencialidades espirituais são meros instrumentos de aperfeiçoamento do verdadeiro
eu espiritual. Portanto, quaisquer flagelos que nos atinjam, enquanto encarnados e
pelo tempo que for, nada mais serão que meios de educação para a eternidade.
Paciência, resignação, abnegação, desinteresse, amor ao próximo, são senti-
mentos que caracterizam o homem livre do egoísmo. A forma pela qual são conquis-
tados é secundária, tanto podendo ser pelo amor como pelo sofrimento, dependen-
do da nossa opção.

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Grande parte dos flagelos são resultantes da imprevidência e do abuso, como


se fossem um contragolpe às manifestações orgulhosas e cheias de vaidade do ho-
mem.

8.6.1.2. Guerras

As guerras, por exemplo,


são o resultado da predominância
da natureza animal sobre a
espiritual, pois nascem, e são
fomentadas pelos interesses
egoístas de grupos que lutam pelo
poder e escravizam e subjugam
para mantê-lo.
A guerra desaparecerá da
Terra quando os homens
compreenderem a justiça e
praticarem a lei de Deus – amar ao
próximo como a si mesmo e a Deus
acima de todas as coisas (Deus como símbolo da Harmonia e do Equilíbrio).
A guerra ainda existe na Terra como uma forma usada pelos segmentos da
sociedade discordantes e conflitantes entre si – mecanismo servo e senhor – para
haver uma libertação do que se encontra escravizado e explorado, dando-lhe possibi-
lidade de progresso e também manejo do mundo, colocando o que estava na posi-
ção de senhor como obrigado a sair da sua função de bem-estar para a de luta e
trabalho, que levarão todos ao progresso. A alternância destas duas posições –
mando e submissão – é que ensina o homem, na sua viagem pelas diversas encar-
nações, a desenvolver o equilíbrio e o amor ao semelhante.

8.6.1.3. Assassínio

No caso de assassínio, o mal está no facto de uma vida de expiação ou de


missão ter sido interrompida pela morte imposta, mas o grau de culpabilidade de
quem assim agiu está na intenção com que o cometeu; cada tipo tem a sua pena,
conforme a sua especificidade intencional. Nos casos de legítima defesa, só a neces-
sidade de assim agir, baseada na impossibilidade total de preservar a vida sem aten-
tar contra a vida do agressor, é que tem a escusa divina. Nas guerras, o homem não
é culpado quando constrangido à força, mas qualquer crueldade, como qualquer
gesto de bondade e humanidade, pesarão no seu julgamento.
O aborto, mesmo o protegido pela legislação humana, é considerado um cri-
me, variando a penalidade conforme a intenção que o motive.

8.6.1.4. Crueldade
A natureza ainda inferior do homem condu-lo à destruição e à crueldade, que
é a sua maneira de ser materialista, pois apenas experimenta as necessidades da vida
do corpo os que agem cruelmente, por não se darem conta da continuidade da vida

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em outros níveis. A crueldade deriva da falta de aplicação do senso moral que grada-
tivamente se desenvolve nos seres, cumprindo aos homens bons, já moralizados,
anularem pelas suas acções a influência dos maus e pelos seus exemplos auxiliarem a
transformação gradativa dessas criaturas.
O desenvolvimento moral enfraquece o domínio das faculdades puramente
animais que predominam nos homens inferiores. Assim se abafa e neutraliza a so-
breexcitação dos instintos materiais a favor do senso moral, ainda incipiente nos
pouco evoluídos. No meio dos bons, às vezes aparece uma ovelha desgarrada, que
nada mais é que um espírito inferior, disposto esperançosamente a melhorar, mas,
não tendo estrutura, deixa-se levar pela predominância da sua natureza primitiva.
Porém, com a sucessiva passagem em diversas experiências corporais, neste ou nou-
tros mundos, todos os espíritos estão fadados a desenvolver as suas potencialidades
divinas, que são atributos inalienáveis de todo o ser criado por Deus.

8.6.1.5. Pena de morte

Terá o homem o direito de tirar a vida de


outro homem, mesmo que este tenha tirado a
vida a alguém?
A pena de morte é contrária à lei de Deus,
e a sua manutenção é traço do atraso espiritual
dos povos que a mantêm e sustentam. Há outros
meios de evitar que um elemento perigoso ponha
em risco a vida de outras pessoas. De resto,
matando o seu corpo a sociedade não se está a
livrar da sua má influência, negativa e revoltada,
pois, como espírito, continuará associado ao
meio criminoso, inspirando criaturas frágeis, que
funcionam como instrumentos de acção em
busca de vingança e satisfação dos seus instintos
cruéis. Procurar, de todas as formas, regenerar o
criminoso, tentando reparar um mal que come-
çou a ser feito quando ele foi relegado ao
abandono e à marginalidade na infância, re-
conhecendo que a maior parte da criminalidade
surge por falta de educação e condições sociais
mínimas, em face do desequilíbrio existente na
má distribuição dos bens e da riqueza, que são
acumulados egoisticamente por pequenos
grupos, que passam a vida inteira preocupados
em fazê-los crescer e preservando-os como único
meio de satisfação e felicidade. A marginalidade é a cobrança social que a própria lei
de causa e efeito promove pela falta de investimento na educação e nas condições
básicas de sobrevivência.
Nota-se, igualmente, grande número de criminosos e assaltantes que agem
de maneira refinada e elegante, escapando quase sempre das malhas da lei humana,
mas que jamais poderão escapar das leis divinas, que estão presentes em todas as
situações de vida.
A pena de morte imposta a quem matou não encontra fundamento e justifi-
cação na lei divina, porque somente o Criador pode dispor da vida da criatura.

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Geralmente, quem foi causa de sofrimento para o seu semelhante virá a en-
frentar situações em que sofrerá o que tenha feito sofrer a outrem, pois as leis ma-
temáticas, inscritas nos mecanismos da consciência individual, ditam a essa mesma
consciência que qualquer equilíbrio rompido deve ser recomposto com o trabalho de
quem o desajustou. Quando a pena de morte é imposta em nome de Deus comete-
se um verdadeiro sacrilégio, pois, orgulhosamente, o homem autopromove-se a cria-
ção divina de distribuidor da justiça, colocando-se, assim, distante da compreensão
verdadeira de Deus. Vaidosamente, o homem coloca-se na condição de substituto de
Deus, sobrecarregando-se com todos os males que assim promover.

RESUMO

AS LEIS MORAIS

São regras constantes e invariáveis que emanam de Deus e que têm por finalida-
de auxiliar o desenvolvimento consciencial do espírito. O Espiritismo coloca-as numa
sequência crescente, tendo como início um ponto a partir do qual elas se desenvol-
vem em espiral (símbolo da evolução), fechando ciclos que as incluem, e a cada ciclo
o espírito as retoma num nível superior, desenvolvendo-as em si próprio, e assim su-
cessivamente, na direcção de um aperfeiçoamento infinito, que significa o alarga-
mento da consciência.

DA LEI DIVINA OU NATURAL

É o princípio imanente e transcendente do Universo – a presença de Deus na cri-


ação. Por ser eterna, é imutável e percebida pelas pessoas à medida que crescem
consciencialmente.
Ela está apropriada ao elemento que abrange – elemento material (leis físicas) e
elemento espiritual (leis morais) - e também ao nível de evolução do mundo em que
é aplicada. Para ajudar à sua dinamização nas consciências individuais, de tempos a
tempos, encarnam espíritos superiores no seio da humanidade, que a vivem de modo
integral, servindo de catalisadores para os homens que as mantêm ainda embrionári-
as. Tal fenómeno faz parte do mecanismo da lei de evolução.
Alguns, no entanto, não dão cumprimento integral à sua missão, misturando as
suas coisas pessoais com aspectos da lei maior, o que exige dos seus seguidores um
permanente estado de alerta e de análise crítica.
O modelo mais perfeito até hoje é Jesus - sublime catalisador da consciência hu-
mana.
O bem é a aplicação da lei divina na medida da consciência individual (de cada
um) e o mal é a sua ausência, após o seu conhecimento. Os níveis de responsabilida-
de moral decorrem do nível de consciência individual . O bem não se manifesta ape-
nas pelas acções grandiosas, mas pela singeleza de ser útil no momento adequado.
A vontade do homem, clareada pela sua consciência, é que o impele a buscar a
perfeição, através do amor a Deus (respeitando a lei natural) e ao semelhante, con-
cretizando o preceito: Faz aos outros o que gostarias que te fizessem.

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DA LEI DE ADORAÇÃO

Para o Espiritismo, a adoração a Deus significa acção constante no bem. Deixa,


assim, de ser atitude passiva, para tornar-se acção construtiva no caminho do próxi-
mo. Pode, no entanto, ser mistificada pela intenção vaidosa, mas o que assim a pra-
tica recebe de acordo com a lei de causa e efeito.
A linguagem da lei de adoração é a linguagem que sai do coração.
A oração é um acto dinâmico de sensibilização interior e de movimentação de
energias subtis, que tornam o homem mais senhor de si, vencendo os seus instintos
perturbadores, promovendo-se à condição de dínamo vivo de forças espirituais, que
fluem naturalmente dos seus actos.
A prece é um processo que a consciência humana usa para mergulhar nas fontes
inesgotáveis do Poder Maior, com vistas a desenvolver-se e equipar-se
convenientemente, a fim de resistir às influências negativas a que está sujeita pela
sua própria pequenez espiritual. Serve como estímulo para incentivar consciências a
deixarem as faixas inferiores do sofrimento, pois é veículo de transfusão energética à
distância.
A adoração a Deus é o acto da consciência transformado em acção útil a favor
do semelhante.

DA LEI DO TRABALHO

O trabalho é meio de desenvolvimento dos potenciais intelectual e moral do espí-


rito. Tem a finalidade de trazer o bem-estar e a felicidade à criatura humana.
Não deve ser encarado como um castigo, nem tão-pouco usado como meio de
exploração, mas deve ser, antes, meio de troca de benefícios recíprocos, auxiliando
ao entendimento e à fraternidade entre as sociedades, grupos e homens entre si. O
limite do trabalho está na aceitação do repouso como elemento de refazimento das
forças e no cuidado para não se cair no abuso, excedendo as próprias forças, que
será suicídio indirecto, quando auto-imposto, ou escravização ignóbil, quando aplica-
do por outrem.
Os mais velhos têm o direito de repouso no final da sua existência, pelo muito
que fizeram em prol das gerações novas, que devem aprender com eles e testemu-
nhar-lhes amor e reconhecimento, através dos cuidados que eles merecem.

DA LEI DE REPRODUÇÃO

É através dela que a humanidade se renova nos seus bens patrimoniais, sejam
materiais, culturais ou espirituais.
O crescimento geométrico da humanidade pode parecer uma ameaça ao cresci-
mento aritmético da produtividade e dos bens que o homem utiliza, mas a lei divina
provê o próprio homem de meios e recursos que, quando utilizados, instalarão na
Terra um novo modelo de relação entre os povos, baseado no respeito mútuo, na
fraternidade e no amor.
A lei de reprodução permite ao homem transmitir aos seus descendentes o seu
aprendizado, que ganhará novas dimensões a partir da contribuição criativa destes,

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os quais transmitirão os resultados das suas conquistas aos seus sucessores, e assim
sucessivamente, criando a história da humanidade.
Todo o embaraço à marcha da Natureza é contrário à lei geral. Todavia, a acção
inteligente do homem é um instrumento de que Deus dispõe para restabelecer o
equilíbrio, podendo regular a reprodução, quando necessário.
O casamento é veículo da reprodução ordenada e educativa, que tem por finali-
dade restabelecer as bases seguras de uma civilização activa e elevada, voltada para
os seus interesses espirituais de desenvolvimento moral.
O celibato, como medida defensiva da reprodução, é meio egoísta de vida e só é
louvável quando dele decorrem benefícios colectivos, quando é espontâneo, quando
não se reveste de qualquer tipo de fuga, sinais característicos de alma doente.

DA LEI DE CONSERVAÇÃO

Por terem que defender a sua vida material – instrumento de evolução do princí-
pio inteligente individualizado – os homens, seja instintiva seja racionalmente, desen-
volvem meios de conservação, caindo, no entanto, amiudadamente, em excessos.
A própria Terra oferece meios para a sua sobrevivência, desde que trabalhada
com respeito, medida e perícia.
Os defeitos da organização social e a ambição de grupos têm feito o homem to-
par com a infelicidade no trato das coisas da própria Terra. O uso abusivo de sub-
stâncias tóxicas, com vista a melhorar a qualidade e quantidade dos produtos da
Terra, tem trazido ao homem consequências nefastas no campo económico e da
saúde, fruto do egoísmo e da imprudência.
Os bens da Terra devem ser estendidos a todos os habitantes, e não a pequenas
minorias que se privilegiam graças à utilização de expedientes exploratórios, man-
tendo a grande massa em condições de subalternidade e sub-humanidade.
O egoísmo, por um lado, a indolência e a acomodação, por outro, formam triste
quadro de miséria e de fome em que a humanidade se submerge.
Tais obstáculos e impedimentos são meios de estimular os homens, primeiro para
o altruísmo e segundo para o trabalho e cooperação.
O trabalho deve ser visto e exercido como meio de desenvolvimento, e não como
instrumento de consumo. Trabalhando, o homem desenvolve o seu património inte-
lectual, moral e espiritual e deve produzir apenas o necessário para a sua subsistência
e conforto, não precisando de criar necessidades artificiais para consumir o que pro-
duziu, e que apenas dá lucro a uma pequena minoria de produtores gananciosos.
Toda as vezes que o homem ultrapassa o limite do necessário, ingressando no
campo do abuso e do excesso, desencadeia mecanismos dolorosos, que o conduzem
ao caminho do desequilíbrio.

DA LEI DE DESTRUIÇÃO

Toda e qualquer destruição é apenas aparente, pois no Universo tudo se


transforma.
Na vida animal e vegetal, a auto e a heterodestruição objectivam duas finali-
dades:
a) Manutenção do equilíbrio na reprodução;

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b) Possibilitar as diversas metamorfoses pelas quais todo o ser vivo deve


passar.
Na Natureza existem mecanismos reguladores que evitam os excessos que le-
variam à extinção.
A Natureza oferece meios de preservação e conservação aos seres vivos, a fim
de que a destruição não se dê antes do tempo, prejudicando, assim, o desenvolvi-
mento do princípio inteligente.
Paga alto preço aquele que se excede na destruição da vida, em qualquer ní-
vel de manifestação.
Os flagelos destruidores, que tanto afectam o homem, têm uma finalidade
que escapa à percepção do homem comum, que apenas enxerga em derredor; ge-
ralmente têm uma finalidade regeneradora moral colectiva, obrigando o homem a
realizar em poucos anos o que pela sua indolência habitual levaria séculos. É uma
forma de aceleração do progresso, na medida em que o homem abdica do seu livre-
arbítrio, buscando-o através do esforço, do trabalho e do bem ao semelhante. Os
flagelos são contragolpes que a própria natureza oferece ao homem que pauta as
suas atitudes pelo egoísmo e pela vaidade.
A guerra é um exemplo típico do mecanismo de crescimento pela dor; ela
deixará de existir quando os homens aprenderem a respeitar os direitos do seme-
lhante e quando as oligarquias escravagista cederem lugar a grupos dirigentes que
saibam usar a justiça social, utilizando o amor ao próximo. É pela guerra que a alter-
nância do poder se estabelece, dando hipótese a que o mecanismo servo-senhor se
inverta quantas vezes forem necessárias, até ao aprendizado completo da faculdade
de saber mandar e de saber obedecer.
Todo o assassínio é uma agressão à lei de conservação, mas as penas advin-
das são proporcionais ao móbil do acto e à sua intenção, cabendo às leis divinas a
avaliação definitiva. O aborto enquadra-se neste princípio.
A crueldade é um traço característico da inferioridade do espírito que a come-
te; identifica os espíritos ainda em estado embrionário, mas que um dia ainda assu-
mirão inteiramente o desenvolvimento das suas potencialidades divinas — património
comum a todas as criaturas.
A pena de morte é um resquício da mentalidade vingativa do homem, que
não se apercebeu ainda de que a marginalidade é fruto do seu descaso com o pró-
ximo. Não resolvendo as causas determinantes do mal – falta de educação, de saú-
de e de justiça social – sofre-lhes as consequências.
Como não se preocupa em atender convenientemente à criança (causa), tem
que tentar corrigir o adulto (efeito). Mas com a pena de morte essa correcção torna-
se impossível.
Somente a Deus cabe dispor da vida da criatura, não sendo correcto o ho-
mem matar o seu semelhante. A pena de morte torna-se hedionda quando o homem
a aplica em nome de Deus, intitulando-se seu representante; isso é uma forma mas-
carada de exteriorizar os seus instintos homicidas, escondendo-se sob a capa da reli-
gião.

BIBLIOGRAFIA
BIBLIOGRAFIA

Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Terceira Parte - Cap. 1 a 6 - 36.ª Edição (Popular)
da Federação Espírita Brasileira, traduzido do título original francês Le Livre des Es-
prits, editado em Paris em 18-4-1857

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CAPÍTULO 9

SUMÁRIO
9 AS LEIS MORAIS (II)
9.1 DA LEI DE SOCIEDADE
9.1.1 Necessidade da vida social
9.1.2 Vida de isolamento: voto de silêncio
9.1.3 Laços de família

9.2 DA LEI DE PROGRESSO


9.2.1 Estado de natureza
9.2.2 Povos degenerados
9.2.3 Marcha do progresso
9.2.4 Progresso da legislação humana
9.2.5 Civilização
9.2.6 Influência do Espiritismo no progresso

9.3 DA LEI DE IGUALDADE


9.3.1 Igualdade natural
9.3.2 Igualdade de direitos do homem e da
mulher
9.3.3 Igualdade perante o túmulo
9.3.4 Desigualdade das aptidões
9.3.5 Desigualdades sociais
9.3.6 Desigualdade das riquezas
9.3.6.1 As provas da riqueza e da miséria

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9.4 DA LEI DE LIBERDADE
9.4.1 Liberdade natural
9.4.1.1 Escravidão
9.4.2 Liberdade de pensar
9.4.3 Liberdade de consciência
9.4.3.1 Livre-arbítrio
9.4.3.2 Fatalidade
9.4.3.3 Conhecimento do futuro
9.4.3.4 Resumo teórico do móbil das acções
humanas

9.5 DA LEI DE JUSTIÇA DE AMOR E DE CARIDADE


9.5.1 Justiça e direitos naturais
9.5.1.1 Direito de propriedade – Roubo
9.5.2 Caridade – Amor ao próximo

9.6 DA PERFEIÇÃO MORAL – As virtudes e os vícios


9.6.1 Virtudes
9.6.1.1 Caracteres do homem de bem
9.6.1.2 Autoconhecimento
9.6.2 Vícios
9.6.2.1 Paixões
9.6.2.2 Egoísmo

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Curso Básico de Espiritismo As leis morais (II)

9. AS LEIS MORAIS (II) (*)


Continuando as nossas considerações sobre as leis morais, que cumpridas le-
vam o ser à perfeição moral, não percamos de vista o enfoque geral dado no módulo
anterior, de que as mesmas, como foram colocadas na obra O Livro dos Espíritos,
formam uma sequência de crescente importância, como se representassem uma es-
trutura organizacional que possibilita ao espírito crescer evolutivamente em torno da
linha do princípio e finalidade, passando por elas como por etapas subsequentes que
se entrosam dinamicamente, fazendo com que a consciência abranja, cada vez mais,
um raio maior, figurado na espiral.
A cada volta da espiral teríamos um ciclo completo. Só se seguiria novo ciclo
após o indivíduo ter percorrido todas as etapas que correspondem às diversas leis.
O espírito fica retido em cada ciclo até que possa ultrapassar evolutivamente
todas as etapas, retornando a essas leis em ciclo mais amplo, como necessidade de
aprendizado moral rumo à perfeição.
O equilíbrio entre as várias etapas, medido pela possibilidade de vivenciá-las
na sua plenitude espiritual, é que dá oportunidade ao ser de adicionar ao seu aper-
feiçoamento moral novos avanços, através de um novo ciclo em que os mesmos
princípios que fundamentam as chamadas leis morais deverão ser vivenciados, só que
em dimensão superior e ainda não vivida.

9.1. DA LEI DE SOCIEDADE

9.1.1. NECESSIDADE DA VIDA SOCIAL

A vida de
relação de qualquer
pessoa com o seu
semelhante é a base do
desenvolvimento do
psiquismo.
É na relação
com o outro que
desenvolvemos o nosso
eu e as nossas
potencialidades psí-
quicas. A vida social
está na natureza do
próprio homem, sendo
o isolamento não
apenas uma
manifestação do seu egoísmo tolo, mas uma impossibilidade de progresso, por falta
de ajuda mútua. Quem se isola candidata-se ao embrutecimento das suas faculdades
psíquicas, que acabam por estiolar-se.
O homem, não sendo possuidor de todas as faculdades completas, promove

* Todo este caderno foi elaborado com base no Livro dos Espíritos, 3.ª Parte, Cap. 7 a 12, correspon-
dendo as citações colocadas entre aspas ao texto da tradução da 36.ª edição da FEB.
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no convívio com os outros, em troca, o aperfeiçoamento delas, assegurando o seu


bem-estar e o seu progresso. No contacto com o seu semelhante educa-se e evolui; é
na relação com o outro que desenvolve o seu psiquismo.

9.1.2. VIDA DE ISOLAMENTO E VOTO DE SILÊNCIO

Só mesmo a manifestação egoísta ou manifestação de doença psíquica é que


explica, mas não justifica, o isolamento absoluto, visto que com isso não se é útil a
ninguém; nem mesmo com o argumento de que assim agem para não se contami-
narem com as coisas perniciosas do mundo. Até mesmo os que procuram desculpa
para o seu isolamento como forma de expiação, agem contrariamente à lei de amor
e caridade, sendo passíveis de condenação pelas leis sábias da vida, que conferem
retorno na medida em que se dá.
É altamente meritório, no entanto, o recolhimento e o silêncio que propiciam
reflexões superiores, pois colocam o homem em condições de trabalhar de maneira
efectiva pelo seu semelhante, melhorando-lhe o nível de vida e de entendimento. Tal
atitude é muito diferente do voto de silêncio, que é totalmente tido como sinal de
virtude, e do isolamento, que impedem o homem de fazer o bem, cumprindo a lei
do amor e do progresso.

9.1.3. LAÇOS DE FAMÍLIA

Os laços de família
existem como uma ca-
racterística humana da
criatura que a distingue dos
animais que exercem com as
suas crias somente o instinto
de protecção à sua espécie.
No homem, tal protec-
ção, levada ao extremo, é
responsável pela deformidade
do desenvolvimento
psicológico, criando
dependências que denotam a
falta de valores próprios, pois
ficam estancados pela acção coerciva da dita protecção.
No homem, havendo outras necessidades, como por exemplo o desenvolvimento
moral, além das puramente materiais, que exigem cuidados para a sobrevivência,
colocam-no em condição de exercer os laços de família consanguínea como um meio
de aprender a amar, na vida social, os semelhantes como irmãos.
O relaxamento dos laços de família é tão pernicioso quanto o egocentrismo, que
impede que se rompa o vínculo consanguíneo, como o de raça ou de casta, pois am-
bos levam ao egoísmo, uma das chagas da humanidade. Enquanto a supervaloriza-
ção da família consanguínea prende a criatura no circuito fechado dos interesses
mútuos, o relaxamento dos mesmos remete o indivíduo ao egoísmo pessoal e parti-
cular. No seio da família o homem aprende a amar o seu semelhante na sociedade.

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9.2. DA LEI DE PROGRESSO

9.2.1. ESTADO DE NATUREZA

O estado de natureza é o estado


de simplicidade do espírito, é o seu pon-
to de partida, quer intelectual, quer
moral. É o início da sua caminhada
através da linha do princípio e da
finalidade que lhe cumpre percorrer,
accionado pelas diversas leis que se
conjugam entre si com vista a permitir-
lhe o desenvolvimento das
potencialidades divinas.
É lei natural que esta evolução se
dê, impedindo que o homem
permaneça indefinidamente no seu
estágio de infância espiritual, que de
nada lhe valeria se fosse perpetuado. A
permanência em tal estágio dar-lhe-ia
um estado aparente de felicidade, que é
a felicidade do bruto, como a do animal,
cujos instintos estão inteiramente satis-
feitos.
Havendo necessidade de evoluir -
sair do estado de natureza empurrado
pela lei natural - o homem cria uma série de atribulações próprias dos vários estágios
pelos quais deva passar. Não podendo retrogradar, mas apenas estacionar por tem-
po determinado, é, por isso, responsabilizado no curso geral da sua vida imortal, cri-
ando para si embaraços e dificuldades que só o tempo bem aproveitado poderá res-
gatar.

9.2.2. POVOS DEGENERADOS

À primeira vista, alguns povos, depois de abalos profundos, caem num pro-
cesso de degeneração, facto que aparentemente nega a lei do progresso. A explica-
ção que a Doutrina Espírita nos fornece é a de que não são os mesmos espíritos que
animam os descendentes de um povo que degenera; são espíritos menos evoluídos,
que reencarnam aproveitando o meio ambiente que lhes é favorável, mas que não
serão permanentemente atrasados, pois através dos tempos, das provações individu-
ais e colectivas ressarcirão o seu passado, reabilitando-se através de mudanças que
ocorrem na continuidade das suas múltiplas encarnações, pois todos os espíritos ca-
minham para a mesma finalidade, que é a perfeição moral, e a nenhum Deus de-
serda.
Tal como um indivíduo que passa pelas fases da infância, juventude, maturi-
dade e decrepitude, com os povos isso também ocorre. Aqueles, cujas leis se harmo-
nizam com as leis eternas do Criador, viverão e servirão de farol aos outros povos.

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É utópico pensar que no futuro todos os povos, mercê da evolução espiritual,


formarão apenas uma nação. A impossibilidade existe porque a diversidade de cos-
tumes, que geram necessidades próprias, manterão a individualidade das nações.
Mas o entendimento fraterno, executado através da lei de caridade, aproximará os
povos e as nações, que saberão conviver em plano de ajuda mútua e de paz, mesmo
que isso seja alcançado apenas num futuro distante.

9.2.3. MARCHA DO PROGRESSO

Está presente no
homem a força que o
destina para o grande
amanhã, mas cumpre
que pelo processo de
relação com os outros e
do aprendizado que
faça, desenvolva este
princípio. É da lei: aquele
que mais se desenvolva
ajude o menos desenvol-
vido, para não criar os
grandes desníveis que
acabam por gerar, na
ausência da lei do amor,
o mecanismo servo-senhor ou dominado-dominador.
O progresso moral, que é o grande objectivo do espírito, é uma conquista de-
corrente do progresso intelectual, porque, através deste último, a criatura humana
aprende a discriminar os valores, para poder escolher o que mais lhe convém, usando
a faculdade do livre-arbítrio.
A possibilidade de escolha, após o conhecimento discriminativo, é função da
inteligência, que assim cria a responsabilidade do acto. A acção automática, instintiva
ou imitativa, realizada sem a determinação da vontade é acto casual, mecânico ou
condicionado, que não tem valor moral e denota apenas um estado circunstancial do
espírito.
Só passo a passo os povos conseguem atingir o progresso. Por enquanto, o
homem tem usado o conhecimento para alimentar a sua inferioridade moral, geran-
do, como consequência, a necessidade do sofrimento, como instrumento da sua ele-
vação moral. Um dia o homem equilibrará as duas forças, a intelectualidade e a mo-
ralidade, atingindo a sabedoria.
O progresso é uma força viva da Natureza, não estando no homem o poder
de sustê-lo pelas leis oriundas do seu egoísmo e orgulho; quando muito, embaraça-o,
estando sempre a sofrer a sua acção construtiva. Os abalos físicos e morais que sofre
a humanidade de tempos a tempos são a mostra da sua presença transformadora.
As revoluções morais, como as revoluções sociais, infiltram-se nas ideias pou-
co a pouco; germinam durante séculos; depois, irrompem subitamente e produzem o
desmoronamento do carunchoso edifício do passado, que deixou de estar em har-
monia com as necessidades novas e com as novas aspirações.
Apesar do desenvolvimento material, ao observador desavisado parece que o
homem, em vez de avançar, recua moralmente; no entanto, uma visão de conjunto
mostra-nos que o homem do século XX é muito mais evoluído socialmente do que há

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séculos. É verdade que ainda estamos longe de equilibrar o progresso intelectual


com o moral, mas a finalidade do homem na Terra é justamente essa. Às vezes é
preciso "que o mal chegue ao excesso, para se tornar compreensível a necessidade
do bem e das reformas". O que ainda impede o homem de alcançar o seu destino é
o orgulho e o egoísmo.

9.2.4. PROGRESSO DA LEGISLAÇÃO HUMANA

A legislação humana é uma criação das exigências sociais pela não compreen-
são e devida aplicação das leis naturais que, por si só, bastariam para reger o com-
portamento do homem.
Elas vão-se depurando com o passar dos tempos, aperfeiçoando-se à medida
que os homens compreendem a justiça como meio de regular a relação humana, e
vão-se tornando mais estáveis à medida que se identificam com a lei natural.
O que se vê, contudo, é que, influenciado pelas paixões, o homem cria deve-
res e direitos imaginários, que acabam por servir aos interesses de grupos, em detri-
mento da maioria.
As leis severas e punitivas têm a finalidade de tentar reparar o erro cometido, embo-
ra “só a educação poderá reformar os homens, que, então, não precisarão mais de
leis tão rigorosas.”

9.2.5. CIVILIZAÇÃO

O conceito de civilização varia de


acordo com o ângulo básico que se lhe dê.
Se a entendermos como o conjunto de
procedimentos que levam o homem a ter
uma vida mais confortável, não se
preocupando com os meios usados para
atingir o conforto, teremos uma visão
pragmática e imediatista, porque não dizer,
materialista!
Mas, se considerarmos como
civilização um conjunto de valores
conquistados pelo esforço humano no cam-
po das ideias e dos ideais, concretizados no
respeito ao semelhante, na consecução de
leis justas que devolvem a paz de consciência
ao ser, mesmo que o conforto material não
seja atingido como meta principal, teremos
uma visão idealista e cultural da civilização,
porque não dizer espiritualista!
O homem inferior preocupa-se em
primeiro lugar, com o seu conforto material; o superior procura estar em paz com a
sua consciência, buscando sempre auxiliar o seu semelhante, mesmo que isso lhe
custe a renúncia a bens materiais.
Os indícios de uma civilização completa serão conhecidos pelo desenvolvimen-
to moral dos que a compõem, que se tratarão irmamente, banindo o egoísmo e o

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orgulho, dando lugar à caridade cristã no relacionamento individual e entre as na-


ções.
Também a civilização terrena passa por fases e períodos desde a infância até
à maturidade.
De duas nações que tenham chegado ao ápice da escala social, somente
pode considerar-se a mais civilizada, na legítima acepção do termo, aquela onde exis-
te menos egoísmo, menos cobiça e menos orgulho; onde os hábitos sejam mais inte-
lectuais e morais do que materiais, onde a inteligência se puder desenvolver com
maior liberdade; onde haja mais bondade, boa fé, benevolência e generosidade recí-
procas; onde menos enraizados se mostrem os preconceitos de casta e de nascimen-
to, pois tais preconceitos são incompatíveis com o verdadeiro amor ao próximo; onde
as leis nenhum privilégio consagrem e sejam as mesmas tanto para o último como
para o primeiro; onde com menos parcialidade se exerça a justiça; onde o fraco en-
contre sempre amparo contra o forte; onde a vida do homem, as suas crenças e opi-
niões sejam mais respeitadas; onde exista menor número de desgraçados; enfim,
onde todo o homem de boa vontade esteja certo de não lhe faltar o necessário.

9.2.6. INFLUÊNCIA DO ESPIRITISMO NO PROGRESSO

Os princípios doutrinários do Espiritismo, por estarem na Natureza, tornar-se-


ão crença geral e marcarão uma era nova na história da humanidade, ocupando lu-
gar entre os conhecimentos humanos.
A existência de um princípio criador e sustentador do Universo - Deus; a exis-
tência e imortalidade de um principio inteligente individualizado - o espírito; a conti-
nuidade permanente e eterna da existência deste princípio em outros níveis dimensi-
onais - a imortalidade do espírito; a possibilidade de sintonia entre os espíritos dos
vários níveis dimensionais, com a consequente troca de influências - a comunicabili-
dade dos espíritos; o retomar de tarefas não terminadas, o resgate de dívidas contra-
ídas e a necessidade de desenvolvimento constante, sob o ponto de vista espiritual -
a reencarnação; a possibilidade da evolução se fazer não apenas na Terra, mas atra-
vés dos biliões de planetas existentes no universo - a pluralidade dos mundos habita-
dos; provam os pontos cardeais do Espiritismo e estão na base de todas as discus-
sões actuais promovidas pela Ciência, que se arvora como representante do conhe-
cimento, e não sabemos se demorará apenas mais do que duas gerações para que
tais princípios fiquem devidamente aceites e comprovados.
Destruindo o Materialismo, que volta o homem para os interesses apenas
imediatos; libertando a sua mente para a adopção de princípios superiores; demos-
trando ao homem a continuidade da sua existência, passando por cima da morte
como por uma estação intermediária na sua grande viagem cósmica pelo Universo,
em busca da perfeição, então o homem perceberá que o seu presente é fruto do
passado e o futuro, fatalmente, será construído pelo seu presente, onde aplicará a
acção, não apenas buscando o seu conforto material e o seu bem-estar transitório,
mas adoptando leis morais que unirão os homens solidariamente como irmãos.
Tal influência no progresso da humanidade já se fez sentir, embora de manei-
ra ténue, mas firme e segura, e chegou à humanidade na época em que ela se apre-
sentava com necessidade de recebê-la para não se afundar no materialismo esterili-
zante. O progresso de tal influência dar-se-á não somente pela multiplicação das ma-
nifestações espirituais, mas, fundamentalmente, pelo amadurecimento dos conheci-
mentos já existentes e pelo reconhecimento da mudança que o Espiritismo opera na
conduta do homem para com o seu semelhante.

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9.3. DA LEI DE IGUALDADE

9.3.1. IGUALDADE NATURAL

Todos os homens são iguais perante Deus, que os criou simples e ignorantes,
e perante a lei natural, pois os direitos são para todos.
A desigualdade que vemos entre os homens é fruto da sua própria evolução e
esforço, baseada no facto de cada um ser herdeiro de si mesmo ao longo de sua
trajectória evolutiva, onde forja a sua superioridade espiritual.

9.3.2. IGUALDADE DE DIREITOS DO HOMEM E DA MULHER

Perante Deus e a lei natural o


homem e a mulher têm direitos
iguais, pois a ambos foi concedida a
inteligência e a consciência de esco-
lha do bem e do mal e também a
faculdade de progredir.
A inferioridade com que a
mulher é tratada provém de
preconceitos milenares de que o
homem, sendo fisicamente mais
forte, tem o direito de oprimir e
dominar a sua fragilidade. Deus,
porém, forneceu a força para
amparar e proteger e não para
escravizar e esmagar. O homem e a mulher, por terem funções específicas, só po-
dem suportar as provas e vencer juntos se ajudarem mutuamente.
Uma legislação, para ser perfeitamente justa, deve consagrar os direitos igua-
litários do homem e da mulher, respeitando a diversidade de funções, para evitar
uma confusão e sobreposição dos papéis que cabem a cada um e que geraria uma
situação competitiva.
Todo o privilégio concedido a um ou a outro é contrário à justiça. A emanci-
pação da mulher acompanha o progresso da civilização. A sua escravização marcha a
par da barbárie. Os sexos, além disso, só existem na organização física. Visto que os
espíritos podem encarnar num e noutro, sob esse aspecto nenhuma diferença há
entre eles. Devem, por conseguinte, gozar dos mesmos direitos.

9.3.3. IGUALDADE PERANTE O TÚMULO

O túmulo é o ponto de reunião de todos os homens. Aí terminam, ineluta-


velmente, todas as distinções humanas. Em vão o rico tenta perpetuar a sua memó-
ria, mandando erigir faustosos monumentos. O tempo os destruirá, como lhe con-

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sumirá o corpo. Assim o quer a Natureza. Menos perecível do que o seu túmulo será
a lembrança das suas boas e más acções. A pompa dos funerais não o limpará das
suas torpezas, nem o fará subir um degrau que seja na hierarquia espiritual.

9.3.4. DESIGUALDADE DAS APTIDÕES

O que à primeira vista pode parecer uma injustiça - a variedade e desigualda-


de de aptidões - é a maior prova da harmonia divina, expressa na lei de progresso,
que coloca espíritos de condições evolutivas diferentes uns ao lado dos outros, com a
finalidade de que o que estiver em situação pior encontre um modelo que lhe sirva
de meio e estímulo para a sua melhoria.
A diversidade de aptidões facilita o desenvolvimento da solidariedade entre
todos, pois aquilo que um não faz, faz o outro, e no final todos precisam uns dos
outros, entendendo-se que só na troca é que se desenvolve o amor fraterno e o res-
peito mútuo.
Espíritos de planos superiores têm como finalidade servir de auxiliares do pro-
gresso, quando encarnam em mundos e meios inferiores, dando, assim, testemunho
da sua compreensão e renúncia, desempenhando papel de real valor na ordem geral
evolutiva.

9.3.5. DESIGUALDADES SOCIAIS

As condições de desigualdade social são criadas pelo homem e não determi-


nadas por Deus. Nascem, geralmente, do abuso no campo do egoísmo e do orgulho,
que se atenuarão cada vez mais através do mecanismo reencarnatório que conduz
ao progresso em todos os níveis. A única desigualdade natural é a do merecimento e
dá origem a uma hierarquia moral natural ou cósmica.

9.3.6. DESIGUALDADE DAS RIQUEZAS

É utopia a igualdade
absoluta das riquezas, porque a
diversidade das faculdades e dos
caracteres logo a desfaria, pela
força dos acontecimentos. O
importante não é uma igualdade
absoluta, mas uma distribuição
equitativa, baseada na lei de
justiça, de amor e de caridade,
únicas capazes de anularem o
egoísmo e o orgulho.
Geralmente, os grandes
monopólios constroem-se à custa do trabalho diuturno e suarento de anónimos co-
laboradores que, por uma questão de justiça, devem receber pagamento pelos seus
esforços, o que na sociedade actual nem sempre acontece. A exploração do trabalho

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de muitos enseja o enriquecimento ilícito de poucos, que perante as leis maiores se


candidatam a múltiplas dificuldades espirituais posteriores.
A riqueza deve servir para reparar injustiças e ajudar a colectividade a crescer,
proporcionando-lhe o bem-estar, que “consiste em cada um empregar o seu tempo
como lhe apraz e não na execução de trabalhos pelos quais nenhum gosto sente. Em
tudo existe o equilíbrio; o homem é quem o perturba”. A miséria é fruto do egoísmo
e da imprevidência da sociedade, por um lado, e da preguiça e da acomodação, por
outro, e só a educação moral dos seus membros é que a eliminará definitivamente.

9.3.6.1. As provas da riqueza e da miséria

Tanto a prova da riqueza como a da miséria são concedidas por escolha do


próprio espírito que, frequentemente, sucumbe nelas.
Enquanto o pobre se perde em queixas, na revolta e até no crime, como ten-
tativa de reparar uma injustiça social, o rico não se compromete espiritualmente me-
nos quando, esquecendo que quanto mais poder exerce, maiores deveres e obriga-
ções tem para com os seus semelhantes e apenas cuida de aumentar o seu patrimó-
nio material, tornando-se egoísta, orgulhoso e insaciável. “Deus experimenta o pobre
pela resignação, e o rico pelo emprego que dá aos seus bens e ao seu poder.”

9.4. DA LEI DE LIBERDADE

9.4.1. LIBERDADE NATURAL

É da natureza do espírito a necessi-


dade de se libertar. Como a liberdade abso-
luta não existe, a criatura vive situações a
que deve obedecer.
Na raiz da obediência por imposição
residem as primeiras sementes da rebeldia.
Com a sua rebeldia o homem quebra a har-
monia entre a sua consciência e a criação.
Esta harmonia só será restabelecida pelo
conhecimento, compreensão e observância
da lei divina ou natural.
Por ter na sua intimidade (inconscien-
te) todos os germes das potencialidades di-
vinas de que é dotado, o espírito busca liber-
tar esse potencial, através da sua acção
permanente, e tenta vivenciá-lo no conscien-
te. Este é o caminho que o espírito realiza,
através da linha do princípio e finalidade.
Quanto mais livre do seu inconsciente mais
responsável se torna o indivíduo pelo que
faça; quanto mais sabe mais deve fazer.

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9.4.1.1. Escravidão

A escravidão de antigamente, reprovável em todos os sentidos, dá lugar à es-


cravização moderna do homem pelo homem, do homem pela máquina, do homem
pela economia, do homem pela política, etc.
Todo aquele que tira proveito do outro, usando-o egoisticamente para atingir
os seus próprios fins, transgride a lei de liberdade, incorrendo numa forma de escra-
vização.
A desigualdade natural das aptidões tem servido como desculpa para o domí-
nio dos fracos pelos fortes, quando cumpriria a estes fornecerem meios e recursos
para aqueles crescerem. Isso dá-se não apenas no palco individual, mas também no
empresarial, entre os povos e as nações. Cada ser, individual e colectivamente falan-
do, tem o direito de ser senhor de si próprio, sendo "contrária à lei de Deus toda a
sujeição absoluta de um homem a outro."

9.4.2. LIBERDADE DE PENSAR

A liberdade de pensamento é uma condição básica para o espírito se sentir li-


vre. A espontaneidade e a criatividade, que são factores espirituais, devem estar
sempre presentes no pensamento da criatura, evitando que ela se robotize, apenas
repetindo, em circuito fechado, o que lhe imprimem, através dos meios modernos de
massificação.
Perante a lei divina o homem é responsável pelo que pensa e pelo que faz do
seu pensamento.

9.4.3. LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA

Por ser a liberdade de consciência corolário


da liberdade de pensar, “é um dos caracteres da
verdadeira civilização e do progresso. Assim como
os homens, pelas suas leis, regulam as relações de
homem para homem, Deus, pelas leis da natureza,
regula as relações entre ele e o homem.”
Tem-se como certo que Deus se manifesta
no homem através da consciência; quanto mais
consciente é o homem, mais próximo está de Deus.
Por ser a crença manifestação do entendi-
mento íntimo do espírito, ela será sempre respeitá-
vel quando conduzir o homem à prática do bem, e
será reprovável qualquer atitude de repressão à
crença de quem quer que seja, a menos que esta
leve o indivíduo para a prática do mal. Neste caso,
em vez da repressão deve utilizar-se o esclarecimen-

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to e a educação. “Se alguma coisa se pode impor, é o bem e a fraternidade. Mas


não cremos que o melhor meio de fazê-los admitidos seja agir com violência. A con-
vicção não se impõe.”
Uma doutrina será reconhecida como boa e útil quando fizer homens de
bem, “visto que toda a doutrina que tiver por efeito semear a desunião e estabelecer
uma linha de separação entre os filhos de Deus não pode deixar de ser falsa e perni-
ciosa.”

9.4.3.1. Livre-
Livre- arbítrio

O livre-arbítrio é
uma função do pensa-
mento livre accionado
pela vontade. Pode ser
obstaculado, pelas
predisposições
instintivas, que são o
acervo que o espírito
traz de vidas anteriores.
Quanto mais
evoluído for o espírito,
mais facilmente mane-
jará o seu livre-arbítrio;
quanto mais livre para
agir, mais responsável pelas consequências dos seus actos.
Devemos, porém, lembrar a influência que exerce a matéria, representada
pelo corpo físico, sobre o espírito, embaraçando-lhe a manifestação, mas não lhe
determinando a acção, que é da responsabilidade exclusiva dele. É como se um raio
luminoso fosse opacificado pelo meio que atravessa. O contacto com a matéria é
causa de sofrimento para o espírito mais evoluído, que lhe impede a livre manifesta-
ção, servindo-lhe de limite à acção. O mau funcionamento dos órgãos do corpo físico
pode, assim, ser um meio de punição para o espírito, por abusos cometidos anteri-
ormente, que causam alterações perispirituais, correspondentes aos órgãos lesados.
“O espírito, porém, sofre por efeito desse constrangimento, de que tem perfeita
consciência. Está aí a acção da matéria.”
Porém, não exime de responsabilidade, nem serve de desculpa para os actos
reprováveis, a afirmação de que o indivíduo agiu de maneira equivocada, porque
estava sob a acção de qualquer tipo de tóxico (álcool, cocaína, drogas, enfim), pois
aí, em vez de uma, comete duas faltas: a de se envenenar voluntariamente e a de
agir incorrectamente.

9.4.3.2. Fatalidade

A fatalidade é a consequência natural da lei de causa e efeito, quando todos


os seus mecanismos amortecedores e compensadores não possam ser accionados,
ou já se tenham esgotado, ficando o indivíduo à mercê da resposta inevitável do que
tenha gerado.

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Também a fatalidade pode ser a expressão da escolha que o próprio espírito


faz ao encarnar, como prova física, ficando as chamadas provas morais na depen-
dência do seu livre-arbítrio, em ceder ou resistir, às eventuais pressões que receba. As
provas fatais, de uma forma geral, têm a finalidade de resgate para o espírito que se
encontra em débito com a lei maior.
"Fatal, no verdadeiro sentido da palavra, só o instante da morte o é. Chegado
esse momento, de uma forma ou doutra, a ele não podeis furtar-vos." Isto quer dizer
que todos os acontecimentos que o homem, para justificar os seus erros, rotula de
fatais, podem ser modificados com a acção do seu livre-arbítrio, desde que, com a
devida antecipação, raciocine e actue de modo a fugir daquilo que lhe pareça já sem
solução ou fatal.
A morte como extinção do fluido vital, que aviventa o corpo físico, libertando
o espírito para a sua vida
noutro plano, é fatal,
podendo, no entanto, o
seu momento ser
modificado, por
antecipação ou
adiamento, em que
múltiplas situações se
conjugam. Quando
todos estes mecanismos
convergem para
determinada hora, o
homem tem que se
render, depois de ter
utilizado todos os meios
para evitá-la, porque se trata de um fenómeno natural, de passagem de volta para o
seu mundo original - o mundo espiritual.
A fatalidade da morte é a manifestação da superioridade do mundo espiritual
sobre o material e não como muitos pensam, um desígnio preestabelecido de dia,
hora e local, como situação fixa, inamovível e inexorável.
O homem, por mais que faça, jamais conseguirá imortalizar a vida na matéria,
porque isso contrariaria a natureza da própria matéria, que é perecível, finita e se-
cundária ao espírito.
Com a capa da fatalidade muitos procuram esconder os seus próprios actos,
procurando eximir-se da responsabilidade, contudo “sempre confundis duas coisas
muito distintas: os sucessos materiais da vida e os actos da vida moral. A fatalidade,
que algumas vezes há, só existe em relação àqueles sucessos materiais cuja causa
reside fora de vós e que não dependem da vossa vontade (vide flagelos destruidores,
no 8.º caderno). Quanto aos vossos actos da vida moral, esses emanam sempre do
próprio homem que, por conseguinte, tem sempre a liberdade de escolher. No to-
cante, pois, a esses actos, nunca há fatalidade.”
Se a fatalidade fosse uma lei que se sobrepusesse à do livre-arbítrio, não have-
ria na acção do homem, nem mérito nem culpa, pois não haveria responsabilidade.
Diante da situação de dificuldade geral por que passa o mundo na actualida-
de, e lembrando que estamos numa época de fecho de ciclo evolutivo da humanida-
de, recordemos que nós mesmos escolhemos as nossas provas. “Quanto mais rude
ela for, e melhor a suportares, tanto mais te elevarás. Os que passam a vida na
abundância e na ventura humana são espíritos pusilânimes, que permanecem estaci-
onários. Assim, o número dos desafortunados é muito superior ao dos felizes deste
mundo.” Os espíritos, na sua maioria, procuram as pessoas que lhes sejam mais pro-

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veitosas. Eles vêem perfeitamente bem a futilidade das vossas grandezas e gozos.
Acresce que a mais ditosa existência é sempre agitada, sempre perturbada, quanto
mais não seja pela ausência da dor.
Os homens, através da sua imprevidência e da sua luxúria, criam a fatalidade
que a Deus utiliza para que eles resgatem as suas próprias dívidas.

9.4.3.3. Co
Conhecimento do futuro

O conhecimento do
futuro é vedado ao homem
para lhe permitir a continui-
dade no trabalho e na
esperança, desenvolvendo
assim os seus dotes
espirituais, porque se
conhecesse por
antecipação, o que viria a
acontecer, simplesmente se
acomodaria, já que tudo
estaria traçado e nada
poderia modificar.
Quando, porém, ele
precisa de executar uma tarefa especial, Deus poderá conceder-lhe esse conhecimen-
to, ou, então, revelar-lhe o futuro, como uma prova pela qual deve passar.
Se Deus sabe por antecipação que o homem sucumbirá, que falhará nesta ou
naquela situação de vida, porque permite tal prova? O facto é que o homem fabrica
o seu próprio futuro e tem necessidade de enfrentar a escolha entre o bem e o mal.
Em caso de quedas, estas servem para abater o seu orgulho e a sua vaidade, para
desenvolver-lhe a humildade, a força de vontade, a constância no trabalho e a sua
capacidade de recuperação.
Se conhecesse o futuro em minúcias nada faria para evitá-lo, porque tudo já
estaria escrito.
Sofrendo as consequências dos seus actos pela lei de causa e efeito, compre-
ende que o futuro será fruto das suas acções e procura então evitar o mal e fazer o
bem, que é o único caminho de crescimento espiritual.

9.4.3.4. Resumo teórico do móbil das acções humanas

O homem jamais é levado fatalmente à prática do mal. Ele, pelas circunstân-


cias da vida e do meio onde viva, pode encontrar maiores facilidades para a prática
do mal, mas, em última instância, sempre tem a liberdade de agir e o mal realizado
sempre estará em relação directa com o nível de consciência em que a acção for pra-
ticada.
O conhecimento e a prática das leis que regem o comportamento fazem com
que o homem progrida e que os outros, que estão ligados a si, também progridam,
pela influência benéfica que é capaz de transmitir.
A causa determinante dos nossos actos está no nosso livre-arbítrio, ou seja, na
vontade livre de escolha, podendo sofrer a influência de espíritos, mas sem haver um

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arrastamento irreversível; somente uma verdadeira associação de propósitos. Se sai


vencedor dessa luta, ele eleva-se; se fracassa, permanece o que era, nem pior, nem
melhor. Na razão da sua elevação, cresce-lhe a força moral, fazendo que se afastem
dele os maus espíritos.

9.5. DA LEI DE JUSTIÇA, DE AMOR E DE


CARIDADE

9.5.1. JUSTIÇA E DIREITOS NATURAIS

Faz parte da natureza in-


trínseca do espírito a noção e o
sentimento de justiça, que se
desenvolve à medida que o
progresso moral avança.
A lei de justiça
manifesta-se de maneira
diferente entre os homens, face à mistura das paixões e dos interesses pessoais e de
grupos que os caracteriza.
Basicamente, ela consiste em cada homem respeitar os direitos do outro, con-
forme o ensinamento cristão: Fazei aos outros o que quereríeis que vos fizessem.
Como o homem deve viver em sociedade, nascem-lhe obrigações de relacio-
namento, que prevêem o respeito aos direitos do próximo. Na falta deste respeito
surgem perturbações no meio social, que acabam por generalizar-se, dificultando até
o bom relacionamento entre os povos e as nações.
Conquanto, à primeira vista, a atribuição de direitos iguais, a si e aos seus
semelhantes, pudesse dar ideia de anarquia, tal facto não ocorreria, desde que aque-
le que tivesse valor fosse reconhecido pelo que não o tivesse. Estamos a falar de uma
hierarquia natural, que nasce do bom senso e da responsabilidade dos que se acham
num plano superior.
Bem diferente das hierarquias impostas e defendidas à custa da opressão e lu-
tas destruidoras, que apenas geram revolta e vingança.

9.5.1.1. Direito de propriedade – roubo

A propriedade mais primária que o indivíduo possui, como direito natural, é a


vida. Deve respeitá-la ao máximo, em si e no seu semelhante, e torna-se réu quando
atenta contra a sua ou a do seu próximo, comprometendo-lhe a existência corporal.
O direito sobre a propriedade material é-lhe atribuído temporariamente e
deve fazer uso dela a benefício de todos.
A verdadeira propriedade é aquela que foi adquirida sem o prejuízo de ou-
trem, devendo o homem contentar-se com o que possui e não deixar-se levar de ma-
neira desvairada, acumulando bens materiais, que, na maioria das vezes, servem para
estabelecer grandes lutas fratricidas entre os herdeiros.

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O roubo pode ser considerado como sendo todo o acto de apropriação indé-
bita, não apenas conseguida através da força e da violência, mas também da astúcia
enganadora em qualquer acção que prejudique alguém.
Fortunas conseguidas através deste procedimento, que são louvadas pelos
mesquinhos como obras de vivacidade e esperteza, quase sempre deixando atrás de
si marcas de lágrimas e dores dos espoliados, devem ser consideradas como erigidas
pelo roubo.

9.5.2. CARIDADE – O AMOR AO PRÓXIMO

Caridade é o amor em acção.


O verdadeiro sentido da caridade
está na “benevolência para com todos, in-
dulgência para com as imperfeições dos
outros e perdão das ofensas”; portanto,
não está apenas na ajuda material aos
desafortunados sociais.
Está também presente no amor aos
inimigos, que significa perdoar-lhes as
ofensas, quase sempre nascidas da
ignorância, do orgulho e da vaidade,
retribuindo-lhes o mal com o bem.
É um erro fazer da caridade um
sinónimo de esmola – consequência da
miséria, que é uma chaga social, pois “uma
sociedade que se baseie na lei de Deus e na
justiça deve prover à vida do fraco, sem que
haja para ele humilhação. Condenando-se a
pedir esmola, o homem degrada-se, física e
moralmente: embrutece.” Triste, ainda, a
sociedade que não fornece meios de
recuperação, pelo trabalho e pela educação, àqueles que são inclinados, por falta de
recursos, à marginalidade e ao crime.
Faz mais caridade quem gera emprego e trabalho do que quem distribui bens
de consumo. É mais caridoso dar ao homem meios para lutar pelo seu próprio pão
do que encher-lhe o estômago com a esmola que avilta, deseduca, torna dependente
e acomoda quem a recebe. “Quando quiseres dar alguma coisa a alguém, dá-lhe a
cana em vez do peixe.”
Neste caso podem estar presentes todos os sentimentos de que o homem é
capaz de sofrer a influência, pois, sendo ela primária, serve de inspiração ao que
cada um deve desenvolver no curso da sua existência infinita e imortal.
Para o filho, a mãe resume o veículo pelo qual aprende a conhecer e reconhe-
cer o universo que o cerca; para a mãe, o filho é o veículo pelo qual ela pode expres-
sar toda a gama de sentimentos resumidos no amor.
Cumpre aos pais darem aos filhos o melhor ensinamento da vida, através dos
seus exemplos, não esquecendo que, através da reencarnação, espíritos com dívidas
entre si, se reúnem na mesma família, para se ajustarem mutuamente, podendo daí
resultar atritos e incompreensões que só o amor, associado ao tempo, resolverá.
Também devemos recordar que muitos desvios dos filhos se devem à negligência,

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acomodação e falta de preparação dos pais, que não têm forças suficientes para lhes
modelar o carácter.
O amor materno e filial serve como protótipo das ligações afectivas que ocor-
rerão entre as criaturas na sociedade, durante a vida, permitindo-lhes vivenciar os
seus potenciais até ao infinito.

9.6. DA PERFEIÇÃO MORAL – AS VIRTUDES E OS


VÍCIOS

Para o homem comum, vir-


tude é toda a resistência voluntária
ao arrastamento dos maus pendo-
res. A sublimidade da virtude é o
sacrifício dos interesses pessoais a
favor do bem do próximo.
Só não têm que lutar aqueles
em quem o progresso já se realizou.
Esses lutaram outrora e triunfaram.
É por isso que os bons sentimentos
nenhum esforço lhes custam e as
suas acções parecem-lhes simplicís-
simas. O bem tornou-se-lhes um
hábito.
Vício vem a ser o arrastamento voluntário aos maus pendores, sem qualquer
tipo de resistência; é uma fraqueza a que se entrega o espírito com a finalidade de
satisfazer os seus interesses pessoais, sem preocupar-se com o prejuízo causado a
outrem.
Um traço característico da imperfeição é o interesse pessoal colocado acima
de qualquer outra coisa. O verdadeiro desinteresse é ainda coisa tão rara na Terra
que, quando se patenteia, todos o admiram, como se fosse um fenómeno.
O desinteresse é uma virtude, mas a prodigalidade irreflectida constitui sem-
pre, pelo menos, falta de juízo. A riqueza, assim como não é dada a uns para ser
aferrolhada num cofre-forte, também não o é a outros para ser dispersada ao vento.
Representa um depósito, do qual uns e outros terão de prestar contas, porque terão
de responder por todo o bem que poderiam ter feito e não fizeram, por todas as
lágrimas que poderiam ter estancado com o dinheiro que deram aos que dele não
precisavam.
Os que fazem o bem a pensar em recompensa ou reconhecimento, nesta ou
noutra vida, operam a serviço do orgulho e da vaidade, não merecendo, portanto, a
condição de homens de bem.
A riqueza é um veículo que o homem deve utilizar para a prática do bem co-
mum e geral e não apenas para usufruí-la pessoalmente, em detrimento dos demais.
O conhecimento é um tipo de riqueza como outro qualquer, do qual o ho-
mem terá de prestar contas pela sua aplicação. O conhecimento dos defeitos alheios
e a sua divulgação escandalosa é altamente censurável, devendo o que conhece os
erros dos seus semelhantes evitar cometê-los, agindo de maneira oposta, para não
incorrer nos mesmos. Quando a revelação de um mal não traga nenhum bem como
consequência, é altamente culposa; mas o esclarecimento que se faça sobre ele, com
vista a evitar-lhe a acção perniciosa, é um bem.

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9.6.1. VIRTUDES

9.6.1.1. Caracteres do homem de bem

O homem de bem reconhece-se pela sua


elevação espiritual, que é mostrada pela compreensão
da vida espiritual e pelas suas atitudes, evidenciadas na
prática da lei de Deus, ou seja, das leis morais.
O homem de bem procura ser justo, amoroso,
caritativo, fazendo aos outros o que gostaria que lhe
fizessem.
É humanitário, bondoso e benevolente. Se é rico
materialmente, encara a riqueza material como um
depósito que Deus colocou nas suas mãos para gerar
bem-estar ao maior número possível de pessoas, através
do trabalho engrandecedor.
É complacente com os que estão sob a sua
dependência, usando a sua autoridade para lhes
levantar o moral, nunca para esmagá-los. Não é egoísta
nem vingativo. É inteligente e respeitador em relação
aos erros e direitos dos seus semelhantes.

9.6.1.2. Autoconhecimento

O meio prático e eficaz que o homem tem de se melhorar nesta vida e resistir
à atracção do mal que reside nele próprio, é o de conhecer-se, de mergulhar nas pro-
fundezas da sua estrutura psicológica, mental e espiritual e encarar-se face a face,
corajosamente. Isto pode ser conseguido à medida que o homem interroga a própria
consciência, passando em revista os seus actos quotidianos; quando ele questiona se
fez todo o bem ao seu alcance, com as múltiplas oportunidades que a vida lhe con-
cedeu naquele dia e se pôde evitar os males que lhe acenaram.
Mas como pode o homem ser juiz de si próprio, quando procura sempre
amenizar as suas faltas e engrandecer as suas pequenas boas acções? O meio de
verificação infalível é questionar-se como veria tais atitudes praticadas pelo seu seme-
lhante, como o julgaria?
Outro meio de aferir quanto ao valor da nossa conduta está na medida e na
opinião que fazem de nós os nossos inimigos que, na maioria das vezes, exceptuan-
do os casos de inveja e antipatia gratuita, são instrumentos que Deus coloca no nos-
so caminho para advertência. Dizem com franqueza, e até com aspereza, o que o
nosso melhor amigo evitaria dizer-nos.
A reflexão sobre todos esses elementos leva-nos, fatalmente, ao autoconhe-
cimento. É por este tipo de conhecimento que iremos aumentar o raio de acção da
nossa consciência, agindo de maneira eficaz contra os males, fruto da nossa igno-
rância e da falta de prática das leis morais.
Conhecendo e praticando as leis morais, de maneira sistemática e ordenada,
acrescentamos em nós os valores eternos e permanentes da perfeição moral, que
nos levarão à pureza espiritual, para a qual fomos criados, fechando o ciclo de evolu-
ção.

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De Deus saímos simples e ignorantes (inconscientes), para Deus voltaremos


sábios e puros, porque perfeitamente conscientes.

9.6.2. VÍCIOS

9.6.2.1. Paixões

A paixão é a concentração de energia que proporciona um exagero de acção.


Ela faz parte da natureza humana e, quando é bem direccionada, pode levar o ho-
mem a grandes realizações, como o pode levar também a grandes derrocadas. O
segredo está em saber governá-la, para evitar qualquer prejuízo ao semelhante, o
que acabará por reverter contra o seu possuidor.
Enquanto o homem a dirige, pode ser a alavanca de grandes conquistas;
quando ela dirige o homem pode ser a escada de grandes abismos. O seu mal não
está no uso, mas sim no abuso.
Todas as paixões têm o seu princípio num sentimento, ou numa necessidade
natural. O princípio das paixões não é, assim, um mal, pois assenta numa das condi-
ções providenciais da nossa existência. Toda a paixão que aproxima o homem da
natureza animal afasta-o da natureza espiritual.
Todo o sentimento que eleva o homem acima da natureza animal denota
predominância do espírito sobre a matéria e aproxima-o da perfeição.
O homem vence as más inclinações pelo exercício da vontade e através dos
seus esforços, secundado pela ajuda eficaz da assistência espiritual que faça por me-
recer.

9.6.2.2. O egoísmo

É o pior de todos os vícios, de onde deriva todo o


mal; é a verdadeira chaga da sociedade, porque é a anu-
lação do amor ao semelhante. O egoísmo é o maior neu-
tralizador das demais qualidades do homem; é a hiper-
trofia do interesse pessoal.
Por ser inerente à espécie humana, é um obstácu-
lo ao reinado do bem na Terra, sendo característica da
inferioridade do espírito. Dele se despoja somente à me-
dida que se instrui acerca das coisas espirituais e, assim,
desprende-se do valor material que dá às coisas e às pes-
soas, e melhorando-se nas relações sociais com o seme-
lhante.
O endurecimento espiritual da humanidade é
grande, sendo preciso que o mal derivado do egoísmo
seja tão intenso que coloque a sobrevivência do homem
em risco, a fim de poder acordar para a realidade da
vida, para a solidariedade, que é fruto do respeito aos
direitos dos outros. Então, o forte será o amparo e não o
opressor do fraco e não serão mais vistos homens a
quem falta o indispensável, porque todos praticarão a lei

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de justiça. Esse é o reinado do bem, que os espíritos estão incumbidos de preparar.


Sendo a mais enraizada dentre todas as imperfeições humanas, por derivar da
influência da matéria sobre o espírito, o egoísmo oferece grande resistência à sua
destruição.
Pelo facto do homem estar muito próximo da sua origem, o egoísmo está
sempre presente nos seus actos e somente quando a vida moral predominar sobre a
material é que ele será vencido. O maior golpe que se pode dar ao egoísmo recai
sobre o seu filho directo o personalismo, que erige para o seu possuidor um pedestal
onde ele assenta.
O fortalecimento do egoísmo também se deve ao facto de o homem, ao ex-
perimentar o do seu semelhante, como defesa, desenvolve o seu; daí a importância
do exemplo, que gera modelos, não só na família, mas também na comunidade so-
cial. O homem deseja ser feliz, sendo natural o sentimento que dá origem a esse
desejo. Por isso, trabalha incessantemente para melhorar a sua posição na Terra e
pesquisa as causas dos seus males, para remediá-los. Quando compreender bem que
é no egoísmo que residem as causas que gera o orgulho, a ambição, a cupidez, a
inveja, o ódio, o ciúme, que a cada momento o magoam; que perturba todas as re-
lações sociais, provoca as dissensões e aniquila a confiança; que o obriga a manter-se
constantemente na defensiva contra o seu vizinho; enfim que dum amigo faz um
inimigo, ele compreenderá, também, que esse vício é incompatível com a sua felici-
dade e, podemos mesmo acrescentar, com a sua própria segurança. E quanto mais
haja sofrido por efeito desse vício, mais sentirá a necessidade de combatê-lo, como
se combate a peste, os animais nocivos e todos os outros flagelos. O seu próprio
interesse o induzirá a isso.
O egoísmo é a fonte de todos os vícios, como a caridade é a de todas as vir-
tudes. Destruir um e desenvolver a outra, tal deve ser o alvo de todos os esforços do
homem, se quiser assegurar a sua felicidade neste mundo, tanto quanto no futuro.

RESUMO

AS LEIS MORAIS (CONTINUAÇÃO)

Com fim didáctico, imaginemos o espírito a evoluir por ciclos (uma volta com-
pleta da espiral em torno do seu eixo - a linha do princípio e da finalidade), vencendo
etapas (as leis morais) que, vivenciadas em conjunto, expandirão a consciência, per-
mitindo-lhe um maior raio de acção, simbolizando a sua perfeição moral.

DA LEI DE SOCIEDADE

O ser humano desenvolve o seu psiquismo na relação com o outro. É na troca


com o seu semelhante que desenvolve e aperfeiçoa as suas faculdades.
O isolamento total, além de ser contrário à lei natural, é a manifestação do
mais puro egoísmo – o egocentrismo. O isolamento parcial, quando serve para refle-
xões e aperfeiçoamento das faculdades do espírito, depois mobilizadas a favor do
bem comum, é meritório.

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A família é um meio no qual o espírito aprende a utilizar as suas faculdades,


porque ela é uma micro-sociedade. No respeito aos familiares, o homem aprende a
respeitar os seus irmãos na sociedade.

DA LEI DE PROGRESSO

Do estado de simplicidade ao estado de pureza, o espírito evolui graças à lei


de progresso, que o impulsiona como uma força natural, fazendo-o enfrentar as
diversas atribulações.
O progresso moral torna-se o grande objectivo. É alcançado à medida que o
espírito aprende a discriminar os caminhos que deve conscientemente palmilhar,
usando, para tanto, a sua capacidade intelectual.
Só valem, como componentes da evolução espiritual, os actos gerados a nível
da consciência esclarecida, por ser a discriminação uma função da inteligência, o que
coloca o progresso intelectual como base do progresso moral.
Por enquanto, devido ao seu atraso espiritual, o homem tem feito do conhe-
cimento um veículo para a sua satisfação imediatista. Quando souber aplicá-lo com
sabedoria, terá encontrado o caminho da evolução moral. O orgulho e o egoísmo
têm sido, entre os homens, os maiores obstáculos à lei de progresso.
A existência de povos degenerados não contraria o progresso; apenas mostra
que a lei de causa e efeito se faz presente, devolvendo aos semeadores o fruto
amargo das suas semeaduras.
Pelas características próprias e pela influência dos costumes locais, a humani-
dade futura será sempre formada por nações diferentes, mas que se entenderão,
graças ao princípio da evolução e da caridade.
A civilização, na Terra, passa por estágios de crescimento e desenvolvimento
como o próprio homem. Quando ela atingir a maturidade, veremos as nações a res-
peitarem-se mutuamente, não pretendendo interferir uma na liberdade da outra,
ajudando-se fraternalmente, exercendo a justiça em toda a sua extensão.
A legislação humana procurará aproximar-se cada vez mais das leis naturais,
que não abonam os privilégios de castas, de dirigentes, nem de minorias, mas que se
estendem a todos, em igualdade de condições.
O Espiritismo tem grande influência na lei do progresso, pois é um instrumen-
to valioso para o homem entender a sua natureza, o seu lugar no Universo e o seu
papel na ordem geral das coisas. Libertando o homem das ideias materialistas, pro-
move-o a cidadão espiritual, colocando-o em condições de uma visão mais ampla
acerca do seu próprio futuro, instruindo-o sobre como deve fazer para atingir a sua
pureza espiritual.

DA LEI DE IGUALDADE

Perante Deus, todos os homens são iguais. Estão em posições evolutivas dife-
rentes, mercê do esforço de cada um e da época da sua criação.
A desigualdade de aptidões é fruto do desenvolvimento individual e o conví-
vio grupal de pessoas com aptidões diferentes é um incentivo à ajuda mútua.
As desigualdades sociais são fruto de abusos do homem e a desigualdade das
riquezas é uma prova que nem sempre é superada. Os ricos, em vez de utilizarem o
seu património gerando trabalho, dignificando o homem, fazem da sua exploração

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uma fonte de aumento da sua riqueza, envolvendo-se, cada vez mais, no egoísmo e
no orgulho destruidores. Os pobres, em vez de aproveitarem a oportunidade para o
desenvolvimento dos seus potenciais de trabalho construtivo e dos sentimentos sa-
dios, decorrentes do cumprimento dos seus deveres, perdem-se na revolta, na aco-
modação e na preguiça, acumulando, ainda mais, misérias e atrasos. É claro que en-
tre estes dois extremos existem posições diversas.
O homem e a mulher têm os mesmos direitos perante Deus; porém, os pre-
conceitos humanos colocam a mulher como oprimida e o homem como opressor.
Ambos têm funções específicas que só alcançam o seu mais alto nível de desenvol-
vimento quando eles se associam.
Apesar do fausto dos túmulos que pretende perpetuar a memória do morto,
perante a morte todos os homens são iguais, cada um levando para o mundo espiri-
tual a sua consciência, como resultado de todas as suas experiências.

DA LEI DE LIBERDADE

A liberdade é um impulso natural que provém do espírito que almeja sair de


onde está e ser o que ainda não é. Por ser criado e não se criar, sente-se escravo da
criação e luta sempre para ser livre.
Pelo facto de no estado de simplicidade ser inteiramente inconsciente, a sua
luta faz-se no sentido de consciencializar-se. Quanto mais consciente mais responsá-
vel.
A escravização de qualquer modalidade - do homem pelo homem, pela má-
quina, pela economia, pela política - contraria a lei de liberdade.
A liberdade de pensamento e de consciência é um direito inalienável do ho-
mem, servindo como aferidora do progresso e da civilização.
O livre-arbítrio é função do pensamento do espírito, podendo ser diferente-
mente enquadrado devido a influências passadas, acumuladas em processos de abu-
so. A responsabilidade do acto é consequência directa do livre-arbítrio e do estado de
consciência em que se encontre o espírito.
A fatalidade é decorrência natural da lei de causa e efeito e pode ser gerada
com grande antecipação ou nos momentos que antecedem o acto.
A morte, como extinção da vida física que depende do fluido vital, é fatal,
podendo, no entanto, o seu momento ser modificado por antecipação ou retarda-
mento, em que múltiplas situações se conjugam, principalmente de ordem espiritual.
O mundo espiritual precede o mundo material.
A matéria só existe em função da existência do espírito; ela não teria finalida-
de se não fosse para servir de suporte à evolução do espírito. A imortalidade é do
espírito e não da matéria que é perecível, finita e transformável.
A fatalidade não deve servir de capa encobridora das responsabilidades do
homem, que a usa para eximir-se da culpa.
O homem, sozinho ou em grupo, pode accionar mecanismos da lei de causa e
efeito, gerando a fatalidade. Quando esta se abate sobre uma colectividade é por-
que as responsabilidades são grupais, mas Deus tira dela sempre um resultado pro-
veitoso.
O homem, pelo seu presente, pode deduzir o seu futuro, desde que conheça
as leis que regem a evolução. Como sempre é vítima de si mesmo, recebendo in-
fluências do seu passado ou do seu presente. Cumpre-lhe, usando a sua inteligência,
fugir do mal e praticar o bem, tornando-se bom, único caminho de crescimento espi-
ritual.

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A fatalidade nunca leva o homem a praticar o mal, que sempre nasce do seu
desejo, seja por inferioridade, por vício ou por fraqueza.

DA LEI DE JUSTIÇA, AMOR E CARIDADE

A lei de justiça faz parte do ser humano. Basicamente, está no respeito aos di-
reitos do outro. É deformada pelo interesse pessoal, de grupos ou povos, servindo ao
egoísmo e ao orgulho.
Ela deve prevalecer para regular as acções entre os homens, baseada no res-
peito a uma hierarquia moral que, ainda, infelizmente, não vige na nossa sociedade.
O direito mais primário que o indivíduo detém é o da sua própria vida; daí, o
dever de preservá-la e a do próximo também.
A verdadeira propriedade é a que o indivíduo consegue pelo seu trabalho,
dedicação, sem prejuízo de outrem, devendo, sempre, contentar-se com o que pos-
sui, evitando desvairar-se à procura de acumular bens materiais.
Todo o acto de apropriação indébita com ou sem violência, mas sempre com
astúcia, é considerado roubo.
A caridade, sendo o amor em acção, deve ser sempre dinâmica e nunca pa-
ternalista. Não se pode confundir esmola com caridade. A caridade não é um acto, é
uma virtude, que deve estar presente em todos os actos do ser humano.
O amor materno-filial e filial-materno é um dos primeiros modelos do amor
entre os homens.
Serve como protótipo para o desenvolvimento do amor entre as pessoas, nou-
tros níveis de relacionamento. Quem não aprendeu a amar a sua mãe ou o seu filho,
não saberá amar o seu semelhante; e quem não sabe amar o seu semelhante não
pode afirmar que ama a Deus.

DA PERFEIÇÃO MORAL

A virtude é a força de resistência aos maus pendores; o vício é a aceitação e a


repetição de actos que caracterizam os maus pendores, fruto do atraso e da igno-
rância do espírito.
Os bens que o espírito detém devem ser aplicados sempre em benefício de
muitos, pois aquele que apenas usufrui para si das riquezas que possui denota o seu
grau de atraso e de egoísmo.
A moral sem exercício é como semente sem fruto.
As paixões são forças vivas do espírito, que as deve dominar, para aplicá-las
convenientemente a favor do seu progresso espiritual, porque quando é dominado
por elas, geralmente, candidata-se a grandes derrocadas morais.
O egoísmo é um vício do espírito. Dele derivam todos os males; é a negação
do amor ao próximo, único meio do indivíduo sair do seu ensimesmamento; é um
traço de inferioridade do espírito. O personalismo é o filho dilecto do egoísmo.
Como a caridade é a mãe de todas as virtudes, só ela poderá enfrentar o pai
de todos os vícios - o egoísmo.
Conhece-se o homem de bem pelos seus actos, tal como uma árvore pelos
seus frutos e não pelos títulos que se lhe pendurem nos galhos.
A maneira pela qual o homem se melhora e o espírito evolui é a do conheci-
mento de si mesmo.

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Conhecer-se a si próprio, ao meio que o rodeia, às leis que regulam o seu re-
lacionamento com este meio e com os seus semelhantes, aplicando o conhecimento
das leis morais em si mesmo, é o que leva o espírito à perfeição, tirando-o da incons-
ciência para a consciência plena.

BIBLIOGRAFIA

Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Terceira Parte – Cap. 7 a 12. – 36.ª Edição (Popu-
lar) da Federação Espírita Brasileira; traduzido do título original francês Le Livre des
Esprits, editado em Paris em 18-4-1857.

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CAPÍTULO 10

SUMÁRIO
10 ESPERANÇAS E CONSOLAÇÕES
10.1 PENAS E GOZOS TERRENOS
10.1.1 Felicidade e infelicidade relativas
10.1.2 Perdas de entes queridos
10.1.3 Decepções, ingratidão, afeições destruídas
10.1.4 Uniões antipáticas
10.1.5 Temor da morte
10.1.6 Desgosto da vida – Suicídio

10.2 PENAS E GOZOS FUTUROS


10.2.1 O nada – A vida futura
10.2.2 Intuição das penas e gozos futuros
10.2.3 Intervenção de Deus nas penas e
recompensas
10.2.4 Natureza das penas e gozos futuros
10.2.5 Penas temporárias
10.2.6 Expiação e arrependimento
10.2.7 Duração das penas futuras
10.2.8 Paraíso, inferno e purgatório

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Curso Básico de Espiritismo Esperanças e consolações

10. ESPERANÇAS E CONSOLAÇÕES


O homem terreno pode gozar apenas de uma felicidade incompleta, pois a
vida foi lhe concedida para realizar uma evolução intelecto-afectiva, que o faz passar
por provas ou expiações.
Contudo, depende dele abrandar os seus males e ser tão feliz quanto é possí-
vel na Terra.

10.1. PENAS E GOZOS TERRENOS

10.1.1. FELICIDADE E INFELICIDADE RELATIVAS

Na maioria das vezes o homem é


o artífice da sua própria infelicidade.
Se praticasse a lei de Deus, livrar-
se-ia de muitos males e gozaria da
felicidade possível à sua existência num
plano grosseiro.
O homem ciente do seu destino
futuro vê na existência corpórea apenas
uma rápida passagem; ele consola-se
facilmente depois de alguns
aborrecimentos passageiros.
Recebemos, nesta vida, os
efeitos das infracções que cometemos
às leis da existência corpórea, pelos
próprios males decorrentes dessas
infracções e pelos nossos próprios exces-
sos. Se remontarmos, pouco a pouco, à
origem do que chamamos infelicidade
terrena, veremos esta como
consequência de um primeiro desvio do
caminho certo. Em virtude desse desvio
inicial, entramos num mau caminho e,
de consequência em consequência,
caímos no infortúnio.
A felicidade terrena é relativa à posição de cada pessoa. Entretanto, podemos
dizer que há uma medida comum de felicidade para todos os homens, expressa da
seguinte forma: para a vida material, é a posse do necessário; para a vida moral, a
consciência pura e a fé no futuro.
Todavia, a medida do necessário e do supérfluo varia segundo as pessoas. Há
algumas que têm muito e acham que não têm aquilo de que necessitam, enquanto
outras se contentam com pouco. “O homem criterioso, a fim de ser feliz, olha sem-
pre para baixo e não para cima, a não ser para elevar sua alma ao infinito.” (*)
(*) Todo este caderno foi elaborado com base em O Livro dos Espíritos, Quarta Parte, Cap. I e II, cor-
respondendo as citações colocadas entre aspas ao texto da tradução da 33.ª edição da FEB.

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Esperanças e consolações Curso Básico de Espiritismo

Os males que dependem da maneira de agir, e que ferem o homem mais jus-
to, devem ser encarados com resignação e sem queixas para se poder progredir. O
homem tira sempre uma consolação da sua própria consciência, que lhe dá a espe-
rança de um futuro melhor.
Aos olhos de quem apenas vê o presente, certas pessoas parecem favorecidas
pela fortuna sem a merecerem. Porém, a fortuna é uma prova, geralmente mais pe-
rigosa do que a miséria.
De ordinário, os males da vida terrena estão relacionados directamente com
as necessidades artificiais que criamos. Aquele que soubesse restringir os seus dese-
jos e olhasse sem inveja os que estivessem acima dele, livrar-se-ia de muitos desen-
ganos nesta vida. O mais rico seria o que menos necessidades tivesse.
Deus permite que o mau prospere algumas vezes, mas a sua felicidade não é
de causar inveja porque a pagará com lágrimas amargas. “Quando um justo é infeliz,
isso representa uma prova que lhe será levada em conta, se a suportar com cora-
gem.”
O homem só é verdadeiramente infeliz quando sofre da falta do necessário à
vida e à saúde do corpo. Todavia, pode acontecer que essa privação seja de sua cul-
pa. Então, só tem que se queixar de si mesmo. Se for ocasionada por outrem, a res-
ponsabilidade recairá sobre aquele que a causou.
Muitos dos males originam-se de não seguirmos a vocação que determina as
nossas aptidões naturais. “Muitas vezes são os pais que, por orgulho ou avareza,
desviam seus filhos da senda que a natureza lhes traçou, comprometendo-lhes a feli-
cidade, por efeito desse
desvio. Responderão por
eles.”
Em afastarem-se
os homens da sua esfera
intelectual reside indubi-
tavelmente uma das mais
frequentes causas de
decepção. A inaptidão
para a carreira abraçada
constitui fonte
inesgotável de reveses.
Depois, o amor-próprio,
sobrevindo a tudo isso,
impede que o que
fracassou recorra a uma
profissão mais humilde.
Se uma educação moral
o houvesse colocado
acima dos tolos
preconceitos do orgulho,
jamais se teria deixado
apanhar desprevenido.
Há pessoas em cujo derredor reina a fartura e, apesar disso, encontram-se
baldas de todos os recursos e têm diante de si apenas a perspectiva da morte. Toda-
via, ninguém deve reter a ideia de se deixar morrer à fome. Achariam sempre meio
de se alimentar, se o orgulho não se colocasse entre a necessidade e o trabalho. Não
há ofício desprezível; não é o estado do homem que o desonra.
Com uma organização social criteriosa e previdente, só por culpa sua, pode
faltar ao homem o necessário. Porém, as suas próprias faltas são frequentemente re-
sultado do meio em que se acha colocado. Quando praticar a lei de Deus, terá uma

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ordem social fundada na justiça e na solidariedade e ele próprio também será me-
lhor.
Na sociedade, geralmente as classes sofredoras são mais numerosas que as
chamadas felizes. Mas, na verdade, nenhuma é perfeitamente feliz, pois, muitas ve-
zes, há ocultas pungentes aflições. As classes a que chamamos sofredoras são mais
numerosas por ser a Terra lugar de expiação. Quando o homem a transformar em
morada do bem e de espíritos bons, deixará de ser aí infeliz e será para ele o paraíso
terrestre.
Diz-se que no mundo, muito amiúde, a influência dos maus se sobrepõe à dos
bons. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são reservados. Quando estes o
quiserem, preponderarão.
Algumas vezes os sofrimentos materiais independem da vontade do homem,
que é o próprio causador deles. Porém, mais do que estes, os sofrimentos morais são
gerados pelo orgulho ferido, pela ambição frustrada, pela ansiedade da avareza, pela
inveja, pelo ciúme e todas as paixões que são torturas da alma.
Normalmente, o homem só é infeliz pela importância que liga às coisas deste
mundo. Se se colocar fora do círculo acanhado da vida material, se elevar os seus
pensamentos para o infinito, que é o seu destino, as vicissitudes da humanidade pa-
recer-lhe-ão mesquinhas e pueris, como o são as tristezas da criança que se aflige
pela perda de um brinquedo que resumia a sua felicidade suprema.
Como civilizado, o homem raciocina sobre a sua infelicidade e analisa-a. É por
isso que esta o fere. Mas, também, é-lhe facultado raciocinar sobre os meios de ob-
ter consolação e de os analisar. Essa consolação, encontra-a no sentimento cristão,
que lhe dá a esperança de melhor futuro – o Espiritismo dá-lhe a certeza desse futu-
ro.

10.1.2. PERDAS
PERDAS DE ENTES QUERIDOS

A perda dos entes que nos são caros constitui para nós uma legítima causa de
dor. Essa dor atinge o rico como o pobre e representa uma prova ou expiação.
Temos, porém, a consolação de nos comunicarmos com eles através dos mé-
diuns, enquanto não dispusermos de outros meios mais directos e mais acessíveis aos
nossos sentidos.
Os entes queridos, quando já se encontram em condições espirituais para
isso, colocam-se ao nosso lado e respondem-nos, através das leis naturais da comuni-
cação. Auxiliam-nos com os seus conselhos, testemunham-nos o afecto que nos
guardam e a alegria que experimentam por nos lembrarmos deles.
O espírito é sensível à lembrança e às saudades dos que lhe eram caros na
Terra. Porém, as dores inconsoláveis e desarrazoadas o tocam penosamente, pois
nessa dor excessiva vê falta de fé no futuro e de confiança em Deus e, por isso, um
obstáculo ao adiantamento dos que o choram e talvez à sua reunião com eles. O Es-
piritismo dá-nos suprema consolação ao explicar-nos o porquê da vida
Estando o espírito mais feliz no Espaço que na Terra, lamentar que ele tenha
deixado a vida corpórea, é deplorar que seja feliz.
Pelas provas patentes que ministra da vida futura, da presença em torno de
nós daqueles a quem amamos, da continuidade da afeição e da solicitude que nos
dispensavam; pelas relações que nos faculta manter com eles, a Doutrina Espírita ofe-
rece a suprema consolação por ocasião de uma das mais legítimas dores. Com o
Espiritismo, não há mais solidão, nem abandono: o homem, por muito isolado que
esteja, tem sempre perto de si amigos com quem pode comunicar-se.

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10.1.3. DECEPÇÕES, INGRATIDÃO, AFEIÇÕES DESTRUÍDAS

"Para o homem de coração, as decepções oriundas da ingratidão e da fragili-


dade dos laços da amizade são também uma fonte de amargura." Porém, devemos
lastimar os ingratos e os infiéis; serão muito mais infelizes. A ingratidão é filha do
egoísmo e o egoísta encontrará corações insensíveis como o seu.
O bem deve ser praticado sem exigências; a ingratidão é uma prova à nossa
perseverança no exercício do bem. Os ingratos serão punidos na proporção exacta
do seu egoísmo. Por isso, o homem não deve endurecer o seu coração e tornar-se in-
sensível perante a ingratidão. Ao contrário, deve sentir-se feliz pelo bem que faz.
É verdade que a ingratidão lhe ulcera o coração. Porém, não deve preferir a
felicidade do egoísta e tornar-se indiferente pela ingratidão que recebe. Deve saber
que os amigos ingratos não são dignos de sua amizade e que se enganou a respeito
deles. Assim sendo, não lamenta tê-los perdido. Mais tarde achará outros que sabe-
rão compreendê-los melhor. Os ingratos merecem ser lastimados, pois bem triste se
lhes apresentará o reverso da medalha.
A Natureza deu ao homem a necessidade de amar e de ser amado. Um dos
maiores gozos que lhe é concedido na Terra é o de encontrar corações que simpati-
zem com o seu. Dá-lhe, assim, as primícias da felicidade que o aguarda no mundo
dos espíritos perfeitos, onde tudo é amor e benignidade. Desse gozo está excluído o
egoísta.

10.1.4. UNIÕES ANTIPÁTICAS

Como podemos observar


acima, os espíritos simpáticos buscam-
se reciprocamente e procuram unir-se.
Todavia, é muito frequente que entre
os encarnados na Terra, a afeição
exista só de um lado e o mais sincero
amor se veja colhido com indiferença
e até com repulsão. E, além disso,
encontramos situações em que a mais
viva afeição de dois seres se
transforma em antipatia e mesmo em
ódio.
Estas ocorrências, sob o ponto
de vista da lei moral, constituem uma
punição passageira. Além disso,
“quantos não são os que acreditam
amar perdidamente porque apenas
julgam pelas aparências e que,
obrigados a viver com a pessoa
amada, não tardam a reconhecer que
só experimentaram um encantamento
material!”
Não basta uma pessoa estar
enamorada de outra que lhe agrada e em quem supõe belas qualidades. Vivendo re-
almente com ela é que poderá apreciá-la. Tanto assim que, muitas uniões, que a
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princípio parecem destinadas a nunca ser simpáticas, acabam por votar-se, recipro-
camente, duradouro e terno amor, assente no conhecimento recíproco e na estima!
Cumpre não esquecer que é o espírito quem ama e não o corpo, de sorte que, dissi-
pada a ilusão material, o espírito vê a realidade.
Há duas espécies de afeição: a do corpo e a da alma, acontecendo, com fre-
quência, tomar-se uma pela outra. Quando pura e simpática, a afeição da alma é du-
radoura; efémera a do corpo. Daí vem que muitas vezes, os que julgavam amar-se
com eterno amor passam a odiar-se, desde que a ilusão se desfaz.
A falta de simpatia entre seres destinados a viver juntos constitui igualmente
fonte de amargos dissabores que envenenam toda a existência. Todavia, essa é uma
das infelicidades de que os seres humanos, na maioria das vezes, são a causa princi-
pal. Primeiramente, pelo erro das leis. Deus não constrange ninguém a permanecer
junto dos que o desagradam. “Depois, nessas uniões, ordinariamente buscais a satis-
fação do orgulho e da ambição, mais do que a ventura de uma afeição mútua. So-
freis então as consequências dos vossos prejuízos.”
Nesse caso há quase sempre uma vítima inocente, que sofre uma dura expia-
ção. Mas, a responsabilidade da sua desgraça recairá sobre os que a tiverem causa-
do. Se a luz da verdade já lhe houver penetrado a alma, haurirá consolação na sua fé
no futuro. Todavia, à medida que os preconceitos se enfraquecerem, as causas des-
sas desgraças íntimas também desaparecerão.

10.1.5. TEMOR DA MORTE

“Para muitas pessoas, o temor da morte é uma causa de perplexidade." Po-


rém, falta-lhes fundamento para semelhante temor. Isto provém da infância, quando
procuram persuadi-las de que há um inferno e um paraíso e que mais certo é irem
para o inferno, visto que também lhes disseram que o que está na Natureza constitui
pecado mortal para a alma! Sucede então que, tornadas adultas, essas pessoas, se
algum juízo têm, não podem admitir tal coisa e se fazem ateias ou materialistas. São
assim levadas a crer que, além da vida presente, nada mais há.
Quem tem fé tem a certeza do futuro. Quem tem esperança conta com uma
vida melhor. Quem tem caridade sabe que não tem de temer o mundo para onde
vai.
O homem carnal, mais preso à vida corpórea do que à vida espiritual, tem na
Terra penas e gozos materiais. A sua alma, constantemente preocupada e angustia-
da pelas vicissitudes da vida, conserva-se numa ansiedade e numa tortura aparente-
mente perpétuas. A morte assusta-o, porque duvida do futuro e porque tem de dei-
xar no mundo todas as suas afeições e esperanças.
O homem moral, que se colocou acima das necessidades fictícias criadas pelas
paixões, experimenta já neste mundo gozos que o homem material desconhece. A
moderação dos seus desejos dá-lhe calma e serenidade. Ditoso pelo bem que faz,
não há para ele decepções; as contrariedades deslizam-lhe no íntimo, sem nenhuma
impressão dolorosa deixarem.

10.1.6. DESGOSTO DA VIDA – SUICÍDIO

O desgosto da vida que, sem motivos plausíveis, se apodera de certos indiví-


duos, nasce da ociosidade, da falta de fé e, também, da saciedade.
Para aquele que usa as suas faculdades com fim útil e de acordo com as suas
aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida escoa-se mais rapidamente.
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Ele suporta as vicissitudes com tanta mais paciência e resignação, quanto obra com o
fito da felicidade mais sólida e mais durável que o espera.
O homem não tem o direito de dispor da sua vida; só a Deus assiste esse di-
reito. O suicídio voluntário é uma transgressão à lei.
O suicídio nem sempre é voluntário. “O louco que se mata não sabe o que
faz.”
O suicídio que decorre do desgosto da vida é uma insensatez. O trabalho tor-
na a existência menos pesada.
Há quem se suicide para fugir às misérias e às decepções deste mundo. São
pobres espíritos que não têm a coragem de suportar as misérias da existência! Deus
ajuda os que sofrem. “As tribulações da vida são provas ou expiações. Felizes os que
as suportam sem se queixar, porque serão recompensados! Ai, porém, daqueles que
esperam a salvação do que, na sua impiedade, chamam acaso ou fortuna! O acaso
ou a fortuna, para me servir da linguagem deles, podem, com efeito, favorecê-los
por um momento, mas para lhes fazer sentir mais tarde, cruelmente, a vacuidade
dessas palavras.”
Os que conduziram
o infeliz do desesperado
até ao suicídio sofrerão as
consequências de tal
proceder. “Ai deles!
Responderão por um
assassínio.”
Pode ser
considerado suicida
aquele que, a braços com
a maior penúria, se deixa
morrer de fome. Mas, os
causadores, ou que teriam
podido impedi-lo, são mais
culpados do que ele, a
quem a indulgência
espera. Mas, se lhe
faltaram a firmeza e
perseverança e se não
usou de toda a sua inteli-
gência para sair do
atoleiro, ai dele,
sobretudo se o seu desespero nasce do orgulho. Há pessoas que preferem morrer de
fome a sacrificar o que chamam a sua posição social e se envergonhariam de dever a
existência ao trabalho das suas mãos. “Haverá mil vezes mais grandeza e dignidade
em lutar contra a adversidade, em afrontar a crítica de um mundo fútil e egoísta que
só tem boa vontade para com aqueles a quem nada falta.”
O suicida que procura escapar à vergonha de uma acção má é tão culpado
como aquele que tem por causa o desespero. Isto porque o suicídio não apaga a fal-
ta. Ao contrário, em vez de uma, haverá duas. Quando se teve a coragem de praticar
o mal, é preciso tê-la também para sofrer as consequências.
Comete outra loucura aquele que se mata, na esperança de chegar mais de-
pressa a uma vida melhor, pois, assim agindo, retarda a sua entrada num mundo me-
lhor e terá que pedir para voltar, para concluir a vida a que pôs termo sob o influxo
de uma ideia falsa. Uma falta, seja qual for, jamais abre a alguém o santuário dos
eleitos.

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O sacrifício da vida, quando aquele que o faz visa salvar a de outrem, ou ser
útil aos seus semelhantes, constitui uma atitude sublime, conforme a intenção, e, em
tal caso, o sacrifício da vida não constitui suicídio. Mas, Deus opõe-se a todo o sacri-
fício inútil e não o pode ver de bom grado se tem o orgulho a manchá-lo. Só o desin-
teresse torna meritório o sacrifício e, não raro, quem o faz guarda oculto um pensa-
mento que lhe diminui o valor aos olhos de Deus.
O homem que perece vítima de paixões que sabia que lhe apressariam o fim,
mas que já não podia resistir, por se terem tornado verdadeiras necessidades físicas,
comete um suicídio moral. Nesse caso é duplamente culpado. Há nele falta de cora-
gem e bestialidade, acrescidas do esquecimento de Deus.
É sempre culpado aquele que não aguarda o termo que Deus lhe atribuiu à
existência. É erro, portanto, alguém que vê diante de si um fim inevitável e horrível,
querer abreviar de alguns instantes os seus sofrimentos e apressar voluntariamente a
sua morte. E quem poderá estar certo de que, mau grado as aparências, esse termo
tenha chegado; de que um socorro inesperado não venha no último momento?
Mesmo no caso em que a morte é inevitável e em que a vida só é encurtada
alguns instantes, é sempre uma falta de resignação e de submissão à vontade do Cri-
ador. A consequência de tal acto será uma expiação proporcional, como sempre, à
gravidade da falta, de acordo com as circunstâncias.
Para aqueles que não podem conformar-se com a perda de pessoas que lhes
eram caras e se matam na esperança de juntar-se-lhes, será muito diferente o resul-
tado que colhem. Em vez de se reunirem ao que era objecto da sua afeição, afastam-
se dele por longo tempo, pois não é possível que Deus recompense um acto de co-
vardia e ainda o insulto que Lhe fazem por duvidarem da Sua providência. Sofrerão,
com isso, aflições maiores do que as que pensavam abreviar e não terão a satisfação
que esperavam.
Com relação ao estado do espírito, as consequências do suicídio são muito di-
versas. “Não há penas determinadas e, em todos os casos, correspondem sempre às
causas que o produziram. Há, porém, uma consequência a que o suicida não pode
escapar: é o desapontamento. Mas a sorte não é a mesma para todos; depende das
circunstâncias. Alguns expiam a falta imediatamente, outros em nova existência, que
será pior do que aquela cujo curso interromperam.”
A observação, realmente, mostra que os efeitos do suicídio não são idênticos.
Há alguns , porém, comuns a todos os casos de morte violenta e que são a conse-
quência da interrupção brusca da vida. Há, primeiro, a persistência mais prolongada
e tenaz do laço que une o espírito ao corpo, por este estar quase sempre na plenitu-
de da sua força no momento em que é partido, ao passo que, no caso de morte na-
tural, ele enfraquece-se gradualmente e muitas vezes desfaz-se antes que a vida se
extinga completamente. As consequências deste estado de coisas são o prolonga-
mento da perturbação espiritual, seguindo-se a ilusão que, durante mais ou menos
tempo, o espírito tem de, ainda, pertencer ao número dos vivos.
A afinidade que permanece entre o espírito e o corpo produz, nalguns suici-
das, uma espécie de repercussão do estado do corpo no espírito, que, assim, a seu
mau grado, sente os efeitos da decomposição, com uma sensação cheia de angústias
e de horror, estado esse que também pode durar pelo tempo que devia durar a vida
que sofre interrupção. Não é geral esse efeito; mas, em caso algum, o suicida fica
isento das consequências da sua falta de coragem e, cedo ou tarde, expia, de um
modo ou de outro, a culpa em que incorreu.
A Religião, a Moral, todas as filosofias condenam o suicídio como contrário às
leis da Natureza. Ao Espiritismo estava reservado demonstrar, pelos exemplos dos
que sucumbiam, que o suicídio não é uma falta, somente por constituir infracção a
uma lei moral, mas também um acto estúpido, pois nada ganha quem o pratica, pelo
contrário prejudica-se.

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10.2. PENAS E GOZOS FUTUROS

10.2.1. O NADA – A VIDA FUTURA

O
homem tem
instintivamente
horror ao
nada, porque
o nada não
existe.
O
homem possui
o sentimento
instintivo da
vida futura.
Antes de
encarnar, o espírito conhecia todas essas coisas e a alma conserva vaga lembrança
do que sabe e do que viu no estado espiritual.
Desde sempre o homem se preocupou com o seu futuro para lá do túmulo.
Qualquer que seja a importância que o ligue à vida presente, não pode furtar-se a
considerar quanto à sua fugacidade e precariedade. Que será dele após o instante
fatal? Questão grave esta, porque não se trata de alguns anos apenas, mas da eter-
nidade.
A ideia do nada tem qualquer coisa que repugna à razão. O homem, por mais
que seja despreocupado durante a vida, chegado o momento supremo pergunta a si
mesmo o que vai ser dele e, sem querer, guarda esperança.
Crer em Deus, sem admitir a vida futura, seria um contra-senso. O sentimento
de uma existência melhor reside no foro íntimo de todos os homens e não é possível
que Deus o tenha colocado aí em vão.
A vida futura implica a conservação da nossa individualidade, após a morte.
Com efeito, que nos importaria sobreviver ao corpo, se a nossa essência moral se
perdesse no oceano do infinito? As consequências, para nós, seriam as mesmas de
desaparecer no nada.

10.2.2. INTUIÇÃO DAS


DAS PENAS E GOZOS FUTUROS

A crença com que deparamos em todos os povos na existência de penas e re-


compensas, tem origem na sua realidade espiritual por ser um espírito reencarnado.
Os sentimentos que dominam os homens no momento da morte são: a dúvi-
da, nos cépticos empedernidos; o terror, nos culpados; a esperança, nos homens de
bem.
Uma vez que a alma encarnada tem a intuição da vida espiritual, os cépticos
são em número menor do que se julga. Muitos fazem-se espíritos fortes, durante a
vida, somente por orgulho. No momento da morte, porém, deixam de ser tão fanfar-
rões.
A responsabilidade dos nossos actos é a consequência da realidade da vida
futura. A razão e a justiça dizem-nos que, na partilha da felicidade a que todos aspi-

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ram, não podem estar confundidos os bons e os maus. Não é possível que Deus
queira que uns gozem, sem trabalho, de bens que outros só alcançam com esforço e
perseverança.
A ideia de que, mediante a sabedoria das Suas leis, Deus nos dá da sua justiça
e da sua bondade não nos permite acreditar que o justo e o mau sejam iguais a seus
olhos, nem duvidar de que recebam, algum dia, uma recompensa ou um castigo,
pelo bem ou pelo mal que tenham feito. Por isso é que o sentimento inato que te-
mos da justiça nos dá a intuição das penas e recompensas futuras.

10.2.3. INTERVENÇÃO DE DEUS NAS PENAS E RECOMPEN


RECOMPENSAS

Será que Deus se


ocupa pessoalmente com
cada homem? Não será
Ele muito grande e nós
muito pequeninos para
que cada indivíduo em
particular tenha, aos seus
olhos, alguma impor-
tância?
Sim, Deus ocupa-se
com todos os seres que
criou, por mais
pequeninos que sejam.
Para a sua bondade, nada
é destituído de valor.
Mas será
necessário que Deus
atente em cada um dos
nossos actos, para nos
recompensar ou punir?
Esses actos não serão, na
sua maioria, insignificantes
para ele?
Deus tem as suas
leis a regerem todas as nossas acções. Indubitavelmente, quando um homem
comete um excesso qualquer, Deus não profere contra ele um julgamento, dizendo-
lhe, por exemplo: Foste guloso, vou punir-te. Ele traçou um limite; as enfermidades e
muitas vezes a morte são a consequência dos excessos. Eis aí a punição; é o resulta-
do da infracção da lei. Assim em tudo.
Todas as nossas acções estão submetidas às leis de Deus. Nenhuma há, por
mais insignificante que nos pareça, que não possa ser uma violação daquelas leis. Se
sofremos as consequências dessa violação, só nos devemos queixar de nós mesmos,
que desse modo nos fazemos os causadores da nossa felicidade, ou da nossa infeli-
cidade futura.
Deus é previdente e adverte-nos, a cada instante, que estamos a fazer bem
ou mal. Envia-nos os espíritos para nos inspirarem, porém não os escutamos. E, além
disso, faculta sempre ao homem recursos para, concedendo-lhe novas existências,
reparar os seus erros passados.

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1 0.2.4. NATUREZA DAS PE


PENAS E GOZOS FUTUROS

As penas e gozos da alma após a morte não


podem ser materiais, pois a alma não é matéria.
Nada têm de carnal as penas e gozos; entretanto,
são mil vezes mais vivos do que os que
experimentamos na Terra, porque o espírito, uma
vez liberto, é mais impressionável, pois a matéria já
não lhe reduz as sensações.
O homem faz uma ideia grosseira e absurda
das penas e gozos da vida futura. Falta-lhe
suficiente desenvolvimento da inteligência. A
criança não compreende as coisas como o adulto.
Isso depende também do que se lhe ensinou e há
nisso necessidade de uma reforma.
A felicidade dos bons espíritos consiste em
conhecerem todas as coisas; em não sentirem ódio,
nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem
qualquer das paixões que ocasionam a desgraça
dos homens. O amor que os une é para eles fonte
de suprema felicidade. Não experimentam as
necessidades, nem os sofrimentos, nem as an-
gústias da vida material. São felizes pelo bem que
fazem. Contudo, a felicidade dos espíritos é
proporcional à elevação de cada um. Somente os
puros espíritos gozam, é certo, da felicidade
suprema, mas nem todos os outros são infelizes.
Entre os imperfeitos e os perfeitos há uma
infinidade de graus em que os gozos são relativos
ao estado moral.
Os sofrimentos dos espíritos inferiores são tão variados como as causas que
os determinam e proporcionais ao grau de inferioridade, como os gozos são ao de
superioridade. Podem resumir-se assim:
1. Invejarem o que lhes falta para serem felizes e não o obterem;
2. Verem a felicidade e não a poderem alcançar;
3. Pesar, ciúme, raiva, desespero, motivados pelo que os impede de serem ditosos;
4. Remorsos, ansiedade moral indefinível.
Desejam todos os gozos e não os podem satisfazer; eis o que os tortura.
A influência que os espíritos exercem uns sobre os outros depende das suas
qualidades. Os bons exercem-na boa; os imperfeitos procuram desviar da senda do
bem os que lhe são influenciáveis. Assim, a morte não nos livra da tentação.
As paixões não existem materialmente, mas existem no pensamento dos espí-
ritos atrasados. Os ignorantes dão pasto a esses pensamentos, conduzindo as suas
vítimas aos lugares onde se lhes ofereça o espectáculo daquelas paixões e de tudo o
que as possa excitar.
É nisso precisamente, que consiste o suplício, pois essas paixões já não têm
objecto real. Assim, “o avarento vê o ouro que lhe não é dado possuir; o devasso,
orgias em que não pode tomar parte; o orgulhoso, honras que lhe causam inveja e
de que não pode gozar.”
Quanto aos maiores sofrimentos a que os espíritos imperfeitos se vêem sujei-
tos, não há descrição possível da dor moral que constitui a punição de certos crimes.

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Mesmo o que a sofre tem dificuldade em dar dela uma ideia. Indubitavelmente, po-
rém, a mais horrível consiste em pensarem que estão condenados sem remissão.
Os espíritos inferiores compreendem a felicidade do justo, e isso é para eles
um suplício porque compreendem que estão privados dela por sua culpa. Daí resulta
que o espírito, liberto da matéria, aspira a nova vida corporal, pois cada existência, se
for bem empregada, abrevia um tanto a duração desse suplício. É então que procede
à recolha das provas por meio das quais possa expiar suas faltas. Porque o espírito
sofre por todo o mal que praticou, ou de que foi causa voluntária, por todo o bem
que tinha podido fazer e não fez e por todo o mal que decorra de não ter feito o
bem.
“Os espíritos entre os quais há recíproca simpatia para o bem encontram na
sua união um dos maiores gozos, uma fonte de felicidade, visto que não receiam vê-
la turvada pelo egoísmo. Formam, no mundo inteiramente espiritual, famílias pela
identidade de sentimentos. Na afeição pura e sincera a que se votam reciprocamen-
te, têm um manancial de felicidade, porquanto lá não há falsos amigos, nem hipócri-
tas.”
A crença no Espiritismo ajuda o homem a melhorar-se, firmando-lhe as ideias
sobre certos pontos do futuro. Apressa o adiantamento dos indivíduos e das massas,
porque faculta informação sobre o que seremos um dia. É um ponto de apoio, uma
luz que nos guia. O Espiritismo ensina o homem a suportar as provas com paciência
e resignação, afasta-o dos actos que possam retardar-lhe a felicidade, mas ninguém
diz que, sem ele, não possa ser conseguida.
Só o bem assegura a sorte futura. O bem é sempre o bem, qualquer que seja
o caminho que a ele conduza.

10.2.5. PENAS TEMPORAIS

“Não experimenta sofrimentos


materiais o espírito que expia as suas
faltas em nova existência? Será então
exacto dizer-se que, depois da morte,
só há para a alma sofrimentos morais?
– É bem verdade que quando a
alma está reencarnada, as tribulações
da vida são um sofrimento, mas só o
corpo sofre materialmente.”
Falando de alguém que
morreu, costumamos dizer que deixou
de sofrer. Nem sempre isto exprime a
realidade. Como espírito, está isento
de dores físicas; porém, dependendo
das faltas que tenha cometido, pode
estar sujeito a dores morais mais
agudas. O mau rico terá que pedir
esmola e ver-se-á a braços com todas
as privações oriundas da miséria; o
orgulhoso, com todas as humilhações;
o que abusa de sua autoridade e trata
com desprezo e dureza os seus subordinados ver-se-á forçado a obedecer a um supe-
rior mais ríspido do que ele foi. Todas as penas e tribulações da vida são expiação
das faltas de outra existência, quando não são a consequência das da vida actual.

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A reencarnação da alma num mundo menos grosseiro é a consequência da


sua depuração, porque, à medida que se vão depurando, os espíritos passam a en-
carnar em mundos cada vez mais perfeitos, até que se tenham despojado totalmente
da matéria e lavado de todas as impurezas.
Nos mundos onde a existência é menos material do que neste, as necessida-
des são menos grosseiras e menos agudos os sofrimentos físicos. Lá, os homens des-
conhecem as paixões más, que, nos mundos inferiores, os fazem inimigos uns dos
outros. Desconhecem os aborrecimentos que nascem da inveja, do orgulho e do ego-
ísmo, causas do tormento da nossa existência terrestre.

10.2.6. EXPIAÇÃO E ARREPENDIMENTO

O arrependimento dá-se no estado espiritual, mas também pode ocorrer no


estado corporal, quando a pessoa compreende bem a diferença entre o bem e o
mal.
Como consequência do arrependimento no estado espiritual, o arrependido
deseja uma nova encarnação para se purificar. O espírito compreende as imperfei-
ções que o privam de ser feliz e, por isso, aspira a uma nova existência em que possa
expiar as suas faltas.
O arrependimento no estado corporal faz com que, já na vida actual, o espíri-
to progrida, se reparar as suas faltas. Quando a consciência o exprobra e lhe mostra
uma imperfeição, o homem pode sempre melhorar-se.
Há homens que só têm o instinto do mal e são inacessíveis ao arrependimen-
to. Porém, todo o espírito tem que progredir incessantemente. Aquele que, nesta
vida, só tem o instinto do mal, terá noutra o do bem e é para isso que renasce mui-
tas vezes, pois é preciso que todos progridam e atinjam a meta. A diferença é que
uns gastam mais tempo do que outros, porque assim o querem. Aquele que só tem
o instinto do bem já se purificou, visto que talvez tenha tido o do mal em anterior
existência.
O homem perverso que não reconheceu as suas faltas durante a vida, reco-
nhece-as sempre depois da morte e, então, mais sofre, porque sente em si todo o
mal que praticou, ou de que foi voluntariamente a causa. Contudo, nem sempre o
arrependimento é imediato. Há espíritos que se obstinam em permanecer no mau
caminho, não obstante os sofrimentos por que passam. Porém, cedo ou tarde, reco-
nhecerão errada a senda que tomaram e o arrependimento virá. Os bons espíritos
trabalham para esclarecê-los. Também os encarnados poderão ajudá-los através dos
trabalhos de desobsessão, da prece e do esclarecimento espiritual.
Não se deve perder de vista que o espírito não se transforma subitamente,
após a morte do corpo. Se viveu vida condenável, é porque era imperfeito. Ora, a
morte não o torna imediatamente perfeito. Pode, pois, persistir com os seus erros,
nas suas falsas opiniões, nos seus preconceitos, até que se tenha esclarecido pelo es-
tudo, pela reflexão e pelo sofrimento.
A expiação cumpre-se durante a existência corporal, mediante as provas a que
o espírito se acha submetido e, na vida espiritual, pelos sofrimentos morais, inerentes
ao estado de inferioridade do espírito.
O arrependimento durante a vida concorre para a melhoria do espírito, mas
isto não é suficiente para anular as suas faltas; ele tem que expiar o seu passado.
Podemos já desde esta vida ir resgatando as nossas faltas, reparando-as. Po-
rém, não creiamos que bastam para isso algumas privações pueris ou a simples dis-
tribuição em esmolas do que possuímos, depois da morte, quando de nada mais pre-
cisaremos. “Deus não dá valor a um arrependimento estéril, sempre fácil e que ape-

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nas custa o esforço de bater o peito. A perda de um dedo mínimo, quando se esteja
prestando um serviço, apaga mais faltas do que o suplício da carne suportado duran-
te anos, com objectivo exclusivamente pessoal.”
Só por meio do bem se repara o mal e a reparação nenhum mérito apresenta,
se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais.
De que serve, para sua justificação, que restitua, depois de morrer, os bens
mal adquiridos, quando se lhe tornaram inúteis e deles tirou todo o proveito?
De que lhe serve privar-se de alguns gozos fúteis, de algumas coisas supér-
fluas, se permanece integral o dano que causou a outrém?
De que lhe serve, finalmente, humilhar-se diante de Deus, se, perante os ho-
mens, conserva o seu orgulho?

10.2.7. DURAÇÃO DAS PENAS FUTURAS

A duração dos sofrimentos


do culpado, na vida futura, não é
arbitrária, pois Deus nunca obra
caprichosamente e tudo, no
Universo, se rege por leis, em que a
Sua sabedoria e a Sua bondade se
revelam.
Assim, a duração dos
sofrimentos do culpado baseia-se no
tempo necessário para que se
melhore. Sendo o estado de
sofrimento ou de felicidade
proporcional ao grau de purificação
do espírito, a duração e a natureza
dos seus sofrimentos dependem do
tempo que ele gaste em melhorar-
se. À medida que progride e os
sentimentos se depuram, os seus
sofrimentos diminuem e mudam de
natureza.
Para o espírito sofredor, o
tempo afigura-se mais longo do que
quando estava encarnado. Só para
os espíritos que já chegaram a certo
grau de purificação, o tempo, por
assim dizer, se apaga diante do
infinito.
Os sofrimentos do espírito
não poderão ser eternos, pois ele
não poderá ser eternamente igno-
rante e jamais se arrepender. Deus
não criou seres tendo por destino
permanecerem votados perpetua-
mente ao mal. Apenas os criou a
todos simples e ignorantes, tendo
todos, no entanto, que progredir
em tempo mais ou menos longo,

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conforme decorrer da vontade de cada um.


Mais ou menos tardia pode ser a vontade, porém, cedo ou tarde, ela aparece,
por efeito da irresistível necessidade que o espírito sente de sair da inferioridade e de
se tornar feliz. Eminentemente sábia e magnânima é, pois, a lei que rege a duração
das penas, porquanto subordina essa duração aos esforços do espírito. Jamais o pri-
va do seu livre-arbítrio: se deste faz mau uso, sofre as consequências.
Desse modo, as penas jamais poderão ser eternas, coisa que o bom senso e a
razão repelem, pois uma condenação perpétua, motivada por alguns momentos de
erro, seria a negação da bondade de Deus.
Os antigos, na ignorância em que se achavam, consideravam o Senhor do
Universo um deus terrível, cioso e vingativo; atribuíam-lhe as paixões dos homens.
Todavia, esse não é o Deus dos cristãos que considera o amor, a caridade, a miseri-
córdia e o perdão, como virtudes principais. Poderia, pois, Deus carecer dessas quali-
dades, cuja posse prescreve, como dever, às suas criaturas? Não haverá contradição
em lhe atribuir a bondade infinita e a vingança também infinita? Dizemos que, acima
de tudo, Ele é justo e que o homem não Lhe compreende a justiça. Porém, a justiça
não exclui a bondade e Ele não seria bom se condenasse a eternas e horríveis penas
a maioria das suas criaturas. Aliás, em fazer com que a duração das penas dependa
dos esforços do culpado está toda a sublimidade da justiça unida à bondade. É aí
que se encontra a verdade desta sentença: A cada um segundo as suas obras.
A ideia da eternidade das penas deve, pois, ser combatida, por ser blasfémia
à justiça e à bondade de Deus, germe fecundo da incredulidade, do Materialismo e
da indiferença que invadiu as massas, desde que as inteligências começaram a des-
envolver-se.

10.2.8. PARAÍSO, INFERNO E PURGATÓRIO

As penas e gozos são inerentes ao grau de perfeição dos espíritos. Cada um


tira de si mesmo o princípio da sua felicidade ou da sua desgraça. E como eles estão
por toda a parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado existe especialmente desti-
nado a uma ou outra coisa. Quanto aos encarnados, esses são mais ou menos felizes
ou desgraçados conforme é mais ou menos adiantado o mundo onde habitam.
O inferno e o paraíso, assim, nada mais são do que simples alegorias. Por
toda a parte há espíritos ditosos e desditosos. Entretanto, os espíritos de uma mesma
ordem reúnem-se por simpatia; mas podem reunir-se onde queiram, quando são per-
feitos.
A localização absoluta das regiões das penas e das recompensas só existe na
imaginação do homem. Provém da sua tendência a materializar e circunscrever as
coisas, cuja essência infinita não lhe é possível compreender.
Por purgatório deve entender-se as dores físicas e morais: o tempo de expia-
ção. O que o homem chama purgatório é igualmente uma alegoria, devendo-se en-
tender como tal, não um lugar determinado, porém, o estado dos espíritos imperfei-
tos, que se acham em expiação até alcançarem a purificação completa, que os levará
à categoria dos espíritos bem-aventurados. Operando-se essa purificação por meio
das diversas encarnações, o purgatório consiste nas provas da vida corporal.
A palavra céu deve ser entendida no sentido de espaço universal; são os pla-
netas, as estrelas e todos os mundos superiores, onde os espíritos usam plenamente
as suas faculdades, sem as tribulações da vida material, nem as angústias peculiares
à inferioridade.
De acordo com a ideia restrita que se fazia outrora dos lugares das penas e
das recompensas e, sobretudo, de acordo com a opinião de que a Terra era o centro

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do Universo, de que o firmamento formava uma abóbada e que havia uma região
das estrelas, o céu era situado no alto e o inferno em baixo. Daí as expressões: subir
ao céu, estar no mais alto dos céus, ser precipitado no inferno. Hoje, que a Ciência
demonstrou ser a Terra apenas, entre tantos milhões de outros, um dos menores
mundos, sem importância especial; que provou ser infinito o espaço, não haver alto
nem baixo no Universo, teve que se renunciar a situar o céu acima das nuvens e o in-
ferno nos lugares inferiores. Quanto ao purgatório, nenhum lugar lhe fora designa-
do. Estava reservado ao Espiritismo dar de tudo isso a explicação mais racional, mais
grandiosa e, ao mesmo tempo, mais consoladora para a humanidade. Pode-se, as-
sim, dizer que trazemos em nós mesmos o nosso inferno e o nosso paraíso. O purga-
tório, achamo-lo na encarnação, nas vidas corporais ou físicas.
A última questão de O Livro dos Espíritos, de cuja resposta extraímos apenas
as partes que nos interessam de momento, é a seguinte: "Poderá, um dia, implantar-
se na Terra o reinado do bem?
O bem reinará na Terra quando, entre os espíritos que a vêm habitar, os bons
predominarem, porque, então, farão com que aí reinem o amor e a justiça, fonte do
bem e da felicidade. Por meio do progresso moral e praticando as leis de Deus é que
o homem atrairá para a Terra os bons espíritos e dela afastará os maus. Estes, po-
rém, não a deixarão, senão quando daí estejam banidos o orgulho e o egoísmo.

Foi predita a transformação da humanidade e está próximo o momento em


que se dará, momento cuja chegada apressa todos os homens que auxiliam o pro-
gresso. Essa transformação verificar-se-á por meio da encarnação de espíritos melho-
res que constituirão na Terra uma geração nova. Então, os espíritos inferiores, que a
morte vai ceifando dia a dia, e todos os que tentem deter a marcha das coisas serão
daí excluídos, pois estariam deslocados entre os homens de bem, cuja felicidade per-
turbariam. Irão para mundos novos, menos adiantados, desempenhar missões peno-
sas, trabalhando pelo seu próprio adiantamento, ajudando, ao mesmo tempo, os
seus irmãos ainda mais atrasados. Neste dado, poderemos perceber as alegorias do
paraíso perdido, quando o homem veio para a Terra em condições análogas, e do
pecado original, ao trazer em si o germe das suas paixões e os vestígios da sua infe-
rioridade. Essa figura do pecado original prende-se, assim, à natureza ainda imperfei-
ta do homem, que é responsável por si mesmo, pelas suas próprias faltas e não pelas
dos seus pais.

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RESUMO

PENAS E GOZOS TERRENOS

FELICIDADE E INFELICIDADE RELATIVAS

O homem terreno pode gozar apenas de uma felicidade incompleta, pois a


vida proporciona-lhe, sobretudo, provas ou expiações. Porém, depende dele abrandar
os seus males e ser tão feliz quanto é possível na Terra.
Na maioria das vezes o homem é o artífice da sua própria infelicidade, pois se
praticasse a lei de Deus livrar-se-ia de muitos males.
A felicidade terrena é relativa à posição de cada pessoa. Porém, podemos di-
zer que a medida comum da felicidade para os homens está na seguinte fórmula:
para a vida material é a posse do necessário; para a vida moral, a consciência pura e
a fé no futuro.
Os males que ferem o homem mais justo e que independem da sua maneira
de agir devem ser encarados com resignação, pois isso representa uma prova que lhe
será levada em conta, se a suportar com coragem e sem queixas.
Aos olhos dos que enxergam apenas o presente, certas pessoas parecem fa-
vorecidas pela fortuna sem a merecerem. Porém, a fortuna é uma prova mais perigo-
sa do que a miséria.
Quando falta ao homem o necessário à vida e à saúde do corpo, não por cul-
pa sua, mas ocasionada por outrem, a responsabilidade recairá sobre aquele que a
causou.
Em afastarem-se os homens da sua esfera intelectual e profissional propícia às
suas inclinações e aptidões reside a causa de muitas decepções e desajustamentos.
Depois, o amor-próprio impede, muitas vezes, que a pessoa recorra a uma profissão
mais modesta, porém, mais adequada à sua vocação.
Com uma organização social mais justa e previdente, só por culpa sua poderia
faltar ao homem o necessário. As suas faltas, todavia, são, frequentemente, resulta-
do do meio em que se acha colocado. As classes sofredoras são mais numerosas na
Terra por ser um planeta de expiação e provas. Porém, as classes chamadas felizes,
na verdade, trazem ocultas aflições, concluindo-se que nenhuma é verdadeiramente
feliz.
Diz-se que no mundo, muito amiúde, a influência dos maus sobrepõe a dos
bons. Os imperfeitos são intrigantes e audaciosos, os bons são reservados. Quando
estes o quiserem, preponderarão.

PERDA DOS ENTES QUERIDOS

A perda dos entes queridos constitui para o homem uma legítima causa de
dor, que atinge indistintamente ricos e pobres, e representa uma prova ou expiação.
Todavia, temos, por vezes, a consolação de podermos comunicar com eles através de
médiuns, enquanto não dispusermos de meios mais directos e acessíveis aos nossos
sentidos.

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Os espíritos são sensíveis à lembrança e à saudade dos que lhes foram caros
na Terra. As dores inconsoláveis e desarrazoadas atingem-nos penosamente, pois
denotam falta de fé no futuro e de confiança em Deus, porque é um obstáculo ao
adiantamento dos que os choram e também à sua reunião com eles. Normalmente,
o espírito é mais feliz no Espaço que na Terra e lamentar que ele tenha deixado a
vida corpórea é deplorar que seja feliz.

DECEPÇÕES, INGRATIDÃO, AFEIÇÕES DESTRUÍDAS

Para o homem de coração, as decepções originadas pela ingratidão e pela


fragilidade dos laços de amizade são também uma fonte de amargura. Devemos, po-
rém, lastimar os ingratos porque são infelizes. A ingratidão é filha do egoísmo e o
egoísta encontrará corações insensíveis como o seu.
O bem deve ser praticado sem exigências; a ingratidão é uma prova à nossa
perseverança no exercício do bem. O ingrato será punido na proporção exacta do
seu egoísmo.
A Natureza deu ao homem a necessidade de amar e ser amado. É um grande
gozo o homem encontrar na Terra corações afins. É a primícia da felicidade que o
aguarda no mundo dos espíritos perfeitos, onde tudo é o amor e benignidade. Desse
gozo está excluído o egoísta.

UNIÕES ANTIPÁTICAS

Os espíritos simpáticos buscam-se reciprocamente e procuram unir-se. Toda-


via, é muito frequente entre os encarnados na Terra existir a afeição só de um lado e
o amor sincero se veja colhido com indiferença e até com repulsão.
Estas ocorrências, à luz das leis morais, constituem uma punição passageira.
Além disso, muitos acreditam amar perdidamente porque julgavam pelas aparências
e quando obrigados a viver com as pessoas amadas, passam a reconhecer que expe-
rimentaram apenas um encantamento.
Há duas espécies de afeição: a do corpo e a da alma. Com frequência as pes-
soas enganam-se e tomam uma pela outra.
A afeição da alma, quando pura e sincera, é duradoura; a do corpo é eféme-
ra. Daí vem que, muitas vezes, os que julgam amar-se com eterno amor passem a
odiar-se, desde que a ilusão se desfaça.
A falta de simpatia entre seres destinados a viverem juntos constitui fonte de
amargos dissabores, que envenenam toda a existência. Essa é uma das infelicidades
de que os seres humanos, quase sempre, são a causa principal. Deus não constrange
ninguém a permanecer junto dos que o desagradam.

TEMOR DA MORTE

Para muitas pessoas, o temor da morte é uma causa de perplexidade. Porém,


falta-lhes fundamento para semelhante temor. Isto provém da sua infância, quando
procuraram persuadi-las de que há um inferno e um paraíso e que mais certo é irem
para o inferno, visto que também lhes disseram que o que existe na Natureza consti-

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Esperanças e consolações Curso Básico de Espiritismo

tui pecado mortal para a alma. Tornadas adultas, não podem admitir tal coisa e tor-
nam-se materialistas, levadas a crer que, além da vida presente, nada mais há.
Ao justo, nenhum temor inspira a morte, porque, com fé, ele tem a certeza
do futuro.
O homem carnal, preso à vida corpórea, centraliza a sua felicidade na satisfa-
ção fugaz de todos os seus desejos e, por isso, constantemente se angustia face às
vicissitudes da vida. A morte assusta-o; duvida do futuro porque tem de deixar no
mundo todas as suas afeições e esperanças.
O homem moral, coloca-se acima das necessidades artificiais criadas pelas pai-
xões e ,já neste mundo, experimenta gozos que o homem material desconhece. A
moderação dos desejos dá-lhe calma e serenidade; ditoso pelo bem que faz, as de-
cepções e contrariedades não deixam impressão dolorosa na sua alma.

DESGOSTO DA VIDA, SUICÍDIO

O desgosto da vida que, sem motivos plausíveis, se apodera de certos indiví-


duos, nasce da ociosidade, da falta de fé e, também, da saciedade.
Para aquele que usa as suas faculdades com um fim útil e de acordo com as
suas aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida escoa-se mais rapida-
mente.
O homem não tem o direito de dispor da sua vida; só a Deus assiste esse di-
reito. O suicídio voluntário constitui uma transgressão à lei. O suicídio nem sempre é
voluntário; o louco que se mata não sabe o que faz.
O suicídio decorrente do desgosto da vida é uma insensatez. O trabalho torna
a existência menos pesada.
Os que se suicidam para fugirem às decepções deste mundo são pobres espí-
ritos que não têm a coragem de suportar as vicissitudes da existência. Deus ajuda os
que sofrem.
Os que possam ter conduzido um infeliz ao desesperado acto do suicídio so-
frerão as consequências de tal proceder; responderão como por um assassínio.
É considerado suicida aquele que, a braços com a maior penúria, se deixa
morrer de fome. Porém, os causadores, ou que teriam podido impedi-lo, são mais
culpados do que ele, a quem a indulgência espera. Mas, se lhe faltaram a firmeza, a
perseverança e não usou toda a sua inteligência para sair do atoleiro, ai dele, sobre-
tudo, se o seu desespero nasce do orgulho.
O suicida que procura esse meio para escapar à vergonha de uma acção má é
tão culpado como aquele que tem por causa o desespero. Isto porque o suicídio não
apaga a falta; em vez de uma, haverá duas. Quando se teve a coragem de praticar o
mal, é preciso tê-la também para sofrer as consequências.
Comete outra loucura quem se mata para chegar mais depressa a uma vida
melhor, pois retarda essa chegada e terá que pedir para voltar, para concluir a vida a
que pôs termo sob domínio de uma ideia falsa.
O homem que perece vítima de paixões, consciente de que elas apressariam o
seu fim sem conseguir resistir-lhes, por tê-las tornado vício das necessidades físicas,
comete um suicídio moral. É duplamente culpado, pois há nele falta de coragem e
bestialidade, acrescidas do esquecimento de Deus.
É também culpado perante a lei divina aquele que não aguarda o termo que
Deus lhe marcou para a existência. Outrossim, mesmo no caso em que a morte é ine-
vitável e em que a vida só é encurtada por alguns instantes, é sempre uma falta de
resignação e de submissão à vontade do Criador, que a tudo confere um fim útil.

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Aqueles que não podem conformar-se com a perda de pessoas que lhes eram
caras e que se matam na esperança de juntar-se a elas, é muito diverso do que espe-
ram o resultado que colhem. Sofrerão aflições maiores do que as que pensaram
abreviar e não terão a satisfação que esperavam.
Quanto ao estado do espírito, as consequências do suicídio são muito diver-
sas. Não há penas determinadas e correspondem sempre às causas que o produzi-
ram. Uma consequência a que o suicida não pode escapar é ao desapontamento.
Conforme as circunstâncias, alguns suicidas expiam a falta imediatamente, outros em
nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam.
Os efeitos do suicídio não são idênticos. Há alguns, porém, que são comuns a
todos os casos de morte violenta, consequentes da interrupção brusca da vida. Há,
primeiro, a persistência prolongada e tenaz do laço que une o espírito ao corpo, por
este laço estar na plenitude da sua força no momento em que se tenta parti-lo.
Como decorrência desse brusco rompimento, advém o prolongamento da perturba-
ção espiritual, seguindo-se a ilusão que o espírito conserva, por mais ou menos tem-
po, de que ainda pertence ao número dos vivos.
A afinidade que permanece entre o espírito e o corpo produz, em alguns sui-
cidas, uma espécie de repercussão do estado do corpo no espírito, que, assim, a con-
tragosto, sente os efeitos da decomposição, com uma sensação cheia de angústia e
de horror, estado esse que pode durar pelo tempo que devia durar a vida que sofreu
interrupção.

PENAS E GOZOS FUTUROS

O NADA, A VIDA FUTURA

O homem tem instintivamente horror ao nada porque o nada não existe. O


homem possui, igualmente, o sentimento instintivo da vida futura, pois antes de en-
carnar o espírito conhecia todas essas coisas e a alma conserva vaga lembrança dis-
so.
A ideia do nada repugna à razão. O homem, por mais despreocupado que
seja durante a vida, chegado o momento supremo, pergunta a si mesmo o que vai
ser dele e, sem querer, guarda esperança.
Crer em Deus, sem admitir a vida futura, seria um contra-senso. A vida futura
implica a conservação da nossa individualidade, após a morte.

INTUIÇÃO DAS PENAS E GOZOS FUTUROS

A crença com que deparamos em todos os povos, na existência de penas e


nas suas recompensas, tem origem na realidade espiritual, como espírito imortal.
Os sentimentos que dominam os homens no momento da morte são: a dúvi-
da, nos cépticos e empedernidos; o temor, nos culpados; a esperança, nos homens
de bem.
A responsabilidade dos nossos actos é a consequência da realidade da vida
futura. A razão e a justiça dizem-nos que, na partilha da felicidade a que todos aspi-
ram, não podem estar confundidos os bons e os maus. Não é possível que Deus
queira que uns gozem, sem trabalho, de bens que outros só alcançam com esforço e

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perseverança. O sentimento inato que temos da justiça dá-nos a intuição das penas e
recompensas.

INTERVENÇÃO DE DEUS NAS PENAS E RECOMPENSAS

Deus ocupa-se, pessoalmente, com cada homem? Não é Ele muito grande e
nós muito pequeninos para que cada indivíduo em particular tenha, a seus olhos, al-
guma importância?
Deus ocupa-se com todos os seres que criou, por mais pequeninos que sejam.
Nada, para a sua bondade, é destituído de valor.
Deus tem as suas leis a regerem todas as nossas acções. Se as violamos, a
culpa é nossa. Quando um homem comete um excesso qualquer, Deus não profere
contra ele um julgamento. Ele traçou um limite; as enfermidades e, muitas vezes a
morte, são a consequência dos excessos. Eis aí a punição: é o resultado da infracção
da lei.
Deus ainda nos previne e nos adverte sempre, através da inspiração dos bons
espíritos, e ainda faculta ao homem recursos para reparar os seus erros concedendo-
lhe novas existências.

NATUREZA DAS PENAS E GOZOS FUTUROS

As penas e gozos da alma após a morte não são materiais, pois a alma não é
matéria. Nada têm de carnal; entretanto, são mil vezes mais vivos do que os que ex-
perimentamos na Terra. O espírito liberto tem percepções muito maiores, pois a ma-
téria já não lhe reduz as sensações.
A ideia grosseira e absurda que o homem faz das penas e gozos da vida futu-
ra provém da falta de suficiente desenvolvimento da inteligência. Depende também
do que lhe foi ensinado e há nisso necessidade de uma reforma.
A felicidade dos bons espíritos consiste em conhecerem todas as coisas; em
não sentirem ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões
que ocasionam a desgraça dos homens. O amor que os une é para eles fonte de su-
prema felicidade. Não experimentam as necessidades, nem os sofrimentos, nem as
angústias da vida material. São felizes pelo bem que fazem. Contudo, a felicidade
dos espíritos é proporcional à elevação de cada um. Entre os imperfeitos e os perfei-
tos há uma infinidade de graus em que os gozos são relativos ao estado moral.
Os sofrimentos dos espíritos inferiores são tão variados como as causas que
os determinaram e proporcionais ao grau de inferioridade, como os gozos o são ao
de superioridade. Podem resumir-se assim: invejarem o que lhes falta para serem feli-
zes e não o obterem; verem a felicidade e não a poderem alcançar; pesar, ciúme,
raiva, desespero, motivados pelo que os impede de ser ditosos; remorsos, ansiedade
moral indefinível. Desejam todos os gozos e não os podem satisfazer; eis o que os
tortura.

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PENAS TEMPORAIS

É verdade que à alma quando está reencarnada, as tribulações da vida fazem-


na sofrer; porém, só o corpo sofre materialmente.
Falando de alguém que morreu, costumamos dizer que deixou de sofrer. Nem
sempre isso exprime a realidade. Como espírito, está isento de dores físicas; mas de-
pendendo das faltas que tenha cometido, pode estar sujeito a dores morais mais
agudas. Todas as penas e tribulações da vida são expiação das faltas de outra exis-
tência, quando não a consequência das da vida actual.
À medida que se vão depurando, os espíritos passam a encarnar em mundos
cada vez mais perfeitos, até que se tenham despojado totalmente da matéria e lava-
do de todas as impurezas. Nos mundos onde a existência é menos material do que
neste, as necessidades são menos grosseiras e menos agudos os sofrimentos físicos.

EXPIAÇÃO E ARREPENDIMENTO

O arrependimento dá-se no estado espiritual, mas também pode ocorrer no


estado corporal, quando a pessoa compreende bem a diferença entre o bem e o
mal.
Como consequência do arrependimento no estado espiritual, o arrependido
deseja uma nova encarnação para se purificar. O espírito acaba por compreender as
imperfeições que o privam de ser feliz e, por isso, aspira a uma nova existência em
que possa expiar as suas faltas.
O arrependimento no estado corporal faz com que, já na vida actual, o espíri-
to progrida, se reparar as suas faltas.
Homens que só têm o instinto do mal e parecem inacessíveis ao
arrependimento, através das reencarnações, adquirirão o instinto do bem, pois é
preciso que todos progridam e atinjam a meta. Uns gastam mais tempo do que
outros, porque assim o querem.
O homem perverso, que não reconheceu as suas faltas durante a vida, reco-
nhece-as sempre depois da morte e, então, mais sofre, porque sente em si todo mal
que praticou. Nem sempre o arrependimento é imediato. Há espíritos obstinados no
mau caminho, mas cedo ou tarde ele virá. Deve-se entender que o espírito não se
transforma subitamente, após a morte do corpo e conforme o género de vida que
teve; poderá persistir nos seus erros, nas suas falsas opiniões, nos seus preconceitos,
até que se tenha esclarecido pelo estudo, pela reflexão e pelo sofrimento.
A expiação cumpre-se durante a existência corporal, mediante as provas a que
o espírito se acha submetido e, na vida espiritual, pelos sofrimentos morais, inerentes
ao estado de inferioridade do espírito.

DURAÇÃO DAS PENAS FUTURAS

A duração dos sofrimentos do culpado, na vida futura, não é arbitrária, pois


Deus nunca obra caprichosamente e tudo, no Universo, se rege por leis, em que a
Sua sabedoria e a Sua bondade se revelam.

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Esperanças e consolações Curso Básico de Espiritismo

Assim, a duração dos sofrimentos do culpado baseia-se no tempo necessário


para que melhore. À medida que progride e os sentimentos se depuram, os seus so-
frimentos diminuem e mudam de natureza.
Para o espírito sofredor, o tempo afigura-se mais longo do que quando estava
encarnado. Só para os espíritos que já chegaram a certo grau de purificação, o tem-
po, por assim dizer, se apaga diante do infinito.
Os sofrimentos do espírito não podem ser eternos, pois ele não poderá ser
eternamente ignorante e jamais se arrepender. Deus não criou seres tendo por des-
tino permanecerem perpetuamente votados ao mal; apenas os criou a todos simples
e ignorantes, tendo todos, no entanto, que progredir em tempo mais ou menos lon-
go, conforme a vontade de cada um.
A lei sábia e magnânima subordina a duração das penas aos esforços do espí-
rito. Jamais o priva do seu livre-arbítrio: se deste faz mau uso, sofre as consequênci-
as. Aí está toda a sublimidade da justiça unida à bondade, e aí também se encontra
a verdade desta sentença: A cada um segundo as suas obras.
A ideia da eternidade das penas é blasfémia à justiça à bondade da Deus, ger-
me fecundo da incredulidade, do Materialismo e da indiferença que invadiu as
criaturas humanas e, por isso, deve ser combatida.

PARAÍSO, INFERNO E PURGATÓRIO

As penas e gozos são inerentes ao grau de perfeição dos espíritos. Cada um


tira de si mesmo o princípio da sua felicidade ou da sua desgraça. E como eles estão
por toda a parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado existe especialmente desti-
nado a uma ou outra coisa.
O inferno e o paraíso nada mais são do que simples alegoria. Por toda a parte
há espíritos ditosos e inditosos. Os espíritos de uma mesma ordem podem reunir-se
por simpatia, mas podem fazê-lo onde queiram, quando são perfeitos. A localização
absoluta das regiões das penas e das recompensas só existe na imaginação do ho-
mem. Provém da sua tendência a materializar e circunscrever as coisas, cuja essência
infinita não compreende.
Entende-se por purgatório as dores físicas e morais; o tempo de expiação. É
também uma alegoria, não é um lugar determinado; significa o estado dos espíritos
imperfeitos que se acham em expiação até atingirem alguma purificação. Esta purifi-
cação, operando-se através das diversas reencarnações. O purgatório consistiria,
quando muito, nas provas da vida corporal.
A palavra céu tem o sentido de espaço universal; são os planetas, as estrelas e
todos os mundos superiores, onde os espíritos usam plenamente as suas faculdades,
sem as tribulações da vida material, nem as angústias próprias da inferioridade.

BIBLIOGRAFIA

(1) Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, 4ª. Parte. Caps. I e II ; 33.ª Edição, 1974, da
Federação Espírita Brasileira.
(2) Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª Parte, Caps. I e VII, 19.ª Edição, 1963, da
Federação Espírita Brasileira.

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Curso Básico de Espiritismo Bibliografia Geral

BIBLIOGRAFIA GERAL
Kardec O Livro dos Espíritos, 44.ª Edição da Federação Espírita Brasileira
Allan Kardec,
Kardec O Evangelho Segundo o Espiritismo, 77.ª Edição da Federação Espírita
Allan Kardec,
Brasileira
Kardec O Céu e o Inferno, 23.ª Edição (Popular) da Federação Espírita
Allan Kardec,
Brasileira
Kardec A Génese, 19.ª Edição (Popular) da Federação Espírita Brasileira
Allan Kardec,
Kardec O Livro dos Médiuns, 30.ª Edição, 1972, Federação Espírita Brasileira
Allan Kardec,
Kardec O Que é o Espiritismo, 14.ª Edição, Federação Espírita Brasileira
Allan Kardec,
Kardec Obras Póstumas, 13.ª Edição, 1973, Federação Espírita Brasileira
Allan Kardec,
Kardec Révue Spirite, 1868
Allan Kardec,
Luiz Evolução em Dois Mundos, psicografia de Francisco Cândido Xavier, 3.ª
André Luiz,
Edição – Federação Espírita Brasileira
André Moreil Vida e Obra de Allan Kardec, 1.ª Edição, tradução de Miguel Maillet,
André Moreil,
Edicel – S.P.
Arthur Conan Doyle, Doyle História do Espiritismo, Editora Pensamento, São Paulo,
tradução de Júlio Abreu Filho, 1978.
Flamarion Deus e a Natureza, Introdução, Federação Espírita Brasileira
Camille Flamarion,
Flammarion A Pluralidade dos Mundos Habitados, Edição B.L. Garnier (1878)
Camille Flammarion,
Imbassahy A Missão de Allan Kardec, Edição da Federação Espírita do Paraná,
Carlos Imbassahy,
1957.
Amorim O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas, 3.ª Edição, Livraria
Deolindo Amorim,
Ghignone Editora
Amorim Africanismo e Espiritismo, 1.ª Edição, 1947, Gráfica Mundo
Deolindo Amorim,
Espírita
Emmanuel A Caminho da Luz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, 4.ª Edição da
Emmanuel,
Federação Espírita Brasileira
Emmanuel Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, 7.ª Edição -
Emmanuel,
Federação Espírita Brasileira
Emmanuel O Consolador, psicografia de Francisco Cândido Xavier, 4.ª Edição da
Emmanuel,
Federação Espírita Brasileira
Enciclopédia do Estudante,
Estudante Volume 2, Editora Abril Cultural
Delanne A Reencarnação, Federação Espírita Brasileira
Gabriel Delanne,
Delanne A Evolução Anímica, 4.ª Edição da Federação Espírita Brasileira
Gabriel Delanne,
Asimov O Universo, 3.ª edição, Edições Bloch
Isaac Asimov,
Almeida A Bíblia Sagrada (tradução) Génesis de Moisés, 31.ª
João Ferreira Almeida,
Impressão, Imprensa Bíblica Brasileira (1975)
Herman Astronomia; O Universo é Limitado, Editora Círculo do livro S/A
Joachin Herman,
Cardozo Onde Está Deus?, 1976, São Paulo, Editora Tempos Novos
José Soares Cardozo,
Ltda.
Denis Depois da Morte, 8.ª Edição da Federação Espírita Brasileira
Léon Denis,
Denis O Problema do Ser, do Destino e da Dor, 11.ª Edição da Federação
Léon Denis,
Espírita Brasileira
Denis O Além e a Sobrevivência do Ser, 3.ª Edição da Federação Espírita
Léon Denis,
Brasileira
Weatherhead, The Case For Reencarnation, Londres, 1958
Leslie D. Weatherhead

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Bibliografia Geral Curso Básico de Espiritismo

Bergier O Homem Eterno, Edição Difusão, Europeia do


Louis Pauwels e Jacques Bergier,
Livro, São Paulo
Imbassahy Reencarnação e suas Provas, 1.ª Edição
Mário Cavalcanti Melo e Carlos Imbassahy,
da Federação Espírita do Paraná
ínimus Noções de Filosofia Espírita, 2.ª Edição, Federação Espírita Brasileira
M ínimus,
Barbosa Espiritismo Básico, 1.ª Edição, 1976, Editado pelo Centro
Pedro Franco Barbosa,
Brasileiro de Homeopatia, Espiritismo e Obras Sociais – CBHEOS
Thiesen Allan Kardec, VOL. II, 1980, Federação Espírita
Zêus Wantuil e Francisco Thiesen,
Brasileira.
Wantuil As Mesas Girantes e o Espiritismo, 1.ª Edição, Federação Espírita
Zêus Wantuil,
Brasileira.

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Curso Básico de Espiritismo Glossário

GLOSSÁRIO
Abnegar, (do latim abnegare). Renunciar aos próprios interesses. Abster-se, recusar,
sacrificar-se.
Abóboda Celeste, (do latim volvita).o céu, dada a forma com que se apresenta so-
bre as nossas cabeças.
Abstracção, (do latim abstractione).Espécie de operação mental em que o espírito
considera que por natureza são inseparáveis. Estado da pessoa que se encontra em
profunda meditação, alheamento.
Acaso, (do latim a casu). Caso fortuito. Imprevisível ou incerto. Casualidade. À sorte,
sem premeditação.
Accionado, (do latim actionare). Pôr em movimento, pôr em acção. Movimentar o
corpo.
Acendrar, (do latim cinerare). Purificar; acrisolar; apurar.
Acervo, (do latim acervu). Acumulação, pilha, conjunto. Dir. Conjunto dos bens que
constituem a massa hereditária.
Acompanhamento; cortejo; comitiva; procissão. Amizade, simpatia, popularidade.
Adâmico, (do latim adam, adão). Respeitante a Adão, próprio de Adão; primitivo.
Adepto, (do latim adeptus). Aquele que adere a uma seita, doutrina, opinião, movi-
mento, grupo, etc.; admirador.
Adoração, (do latim adoratione). Acto de adorar; culto a Deus; respeito; submissão.
Uma das dez leis morais.
Advertência, (de advertir). Aviso, conselho, reflexão, ponderação.
Advertir, (do latim advertere). Repreender levemente, fixar atenção, observar, repa-
rar, informar acerca de alguma coisa, aconselhar, prevenir.
Aferir, (do latim afferere, por afferre). Avaliar ou julgar comparando.
Aferrolhar, (de ferrolho). Encarcerar, acorrentar. Guardar ciosamente.
Aforismo, ( do grego aphorismós). Proposição que, de forma concisa, enuncia um
princípio ou regra prática de comportamento; máxima.
Agiota, (de ágio). Aquele que empresta dinheiro a juros excessivos.
Agnosticismo, (do grego a,+gnostikós, relativo ao conhecimento). Doutrina que de-
clara impossível, inacessível ao entendimento humano toda a noção de absoluto,
reduzindo a ciência ao conhecimento do fenomenal e relativo.
Albor, (do latim albore). Alvor. Início; começo.
Alegoria, (do grego allegoría). Figura de estilística, envolvendo uma comparação en-
tre objectos ou acções; metáfora; imagem; ficção de um objecto apresentado ao
espírito de maneira que dê a ideia de outro.
Além, (do latim vulg. Alid+ende, en<inde; ou do lat. Illinc, aí). Lugar distante; hori-
zonte; confins; o outro mundo.
Alma, (do latim anima). Parte espiritual do ser humano. Princípio da vida e do pen-
samento. O mesmo que espírito, mas na condição de encarnado.
Alquebrar, (do cast. Aliquebrar). Curvar pela espinha dorsal, por causas variadas
(cansaço, velhice, doença). Fazer perder o vigor; debilitar. Enfraquecer, abater; tor-
nar-se fraco (em sentido físico e moral).
Ambição, (do latim ambitione). Desejo de glória ou riqueza; ânsia; grande desejo;
cobiça; aspiração; desejo de poder; cupidez; apetite.
Amenizar, (de ameno). Tornar ameno, suave, aprazível. Abrandar, encantar.

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Glossário Curso Básico de Espiritismo

Amor, (do latim amore). Conjunto de fenómenos afectivos que nos impelem para o
alvo dos nossos desejos; sentimento que nos impele para o objecto dos nossos dese-
jos; paixão; afecto. Afeição; amizade. Caridade; benevolência.
Amorfo, (do grego ámorphos). Que não tem forma determinada.
Análogo, (do latim analogu). Que mostra semelhança entre coisas ou factos diferen-
tes.
Anarquia, (do grego na+arché). Falta de chefe ou governo. Desordem, caos resultan-
te dessa falta.
Ancianidade (de ancião). Antiguidade.
Ancianidade,
Anímico, (do latim anima). Que se refere à alma ou a ela pertence; psíquico; psicoló-
gico.
Anjo, (do latim angelu<grego ággelos). Criatura de natureza puramente espiritual
que se supõe habitar o céu e que tem funções de mensageiro entre Deus e o ho-
mem. ~ - da-
da- guarda, espírito protector encarregue de velar individualmente por cada
um dos encarnados.
Antigo Testamento, Livros sagrados anteriores a Cristo.
Antropologia, ( do grego ánthropos+lógos). Antrop. Estudo do homem considerado
zoologicamente, isto é, como animal. Filos. Tratado da economia moral do homem.
Antropomorfismo, (do grego ánthropos, homem+moryhé, forma). Doutrina que atri-
bui a Deus a forma humana. Modo de conceber a Divindade ou divindades como
homens, na acção, na forma e sentimentos, e somente com poderes superiores.
Tendência para considerar nas coisas da natureza qualidades humanas.
Anuir, (do latim annuere). Dar o consentimento a; aprovar; concordar.
Apoplexia (do grego apoplexía). Estado patológico tipificado pela perda inesperada
Apoplexia,
dos sentidos e do movimento.
Aportar (de porto). Chegar ao porto; tomar porto.
Aportar,
Apóstolo, (do grego apóstolos). Nome dado a cada um dos doze discípulos de Cris-
to.; propagador abnegado e convicto de uma ideia; missionário; evangelizador.
Aprazar, (de prazo). Marcar ou determinar prazo para se fazer alguma coisa. Con-
cordar, ajustar antes para se fazer depois. Combinar lugar como ponto de encontro.
Aprimorar, (de primor). Aperfeiçoar, embelezar; alindar; esforçar-se para atingir a
perfeição.
Aptidão, (do latim aptitudine). Habilidade, capacidade, disposição natural para algu-
ma coisa. Talento; vocação.
Arcanjo, (do latim archangelu). T e ol. Anjo de ordem superior.
Ardoroso, (de ardor). Cheio de ardor; entusiasta; fervoroso; fogoso.
Artífice, (do latim artifice). Aquele que exerce uma arte mecânica. Operário. Inventor;
criador. Especialista.
Arvorar, (do italiano arborare). Erguer; pôr ao alto. Elevar a um cargo. Içar. Levantar
a prumo.
Ascensão, (do latim ascencione). Subida; elevação; ascendimento..
Astrofísica, (de astro + física). A parte da Astronomia que estuda a constituição física
e química dos astros, baseando-se na técnica fotográfica, fotometria, espectroscopia,
electrónica, uso do telescópio, electrónico e, recentemente, utilizando a astronomia
dos foguetões e satélites artificiais.
Astronómico, (de astronomia). Relativo à Astronomia ou a ela pertencente. Diz-se
dos números ou quantidades muito grandes, representados por muitos algarismos.
Ateísmo, (do grego a, não+theós, deus). Doutrina dos que negam a existência de
Deus; descrença.
Atentar, (do latim attentare). Observar com atento. Reparar, dar fé, notar. Ponderar.
Cometer atentado.

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Ateu, (do grego átheos>do latim atheu ou atheo). Indivíduo que nega a existência de
Deus ou que não segue religião alguma.
Atolar, (do latim tullu). Afundar no lodo.
Atoleiro, (de atolar). Terreno lamacento, pântano, lamaçal. Situação crítica.
Atracção, (do latim attractione). Força solicitadora dos corpos uns para os outros.
Atraso, (de atrasar). Acto ou efeito de atrasar ou atrasar-se; Demora; falta de adian-
tamento; retardamento; decadência; falta de cultura; de civilização.
Atributo, (do latim attributu). O que é próprio ou particular a um ser. Qualidade.
Condição.
Audacioso, ( de audácia). Que tem audácia. Ousado; decidido; atrevido; insolente.
Audacioso,
Auréola, (do latim aureola). Círculo luminoso, geralmente dourado, que na iconogra-
fia cristã rodeia a cabeça dos santos; glória; prestígio.
Aurora boreal, (do latim aurora). Fenómeno luminoso, de luz mais clara que a do
maior luar, que frequentemente se produz nas regiões polares.
Avarento, (de avaro). Que ou aquele que tem avareza. Forreta; somítico; sovina; pão-
duro; mão-de-finado.
Avareza, (de avaro). Apego excessivo ao dinheiro, ás riquezas. Ambição ; avidez;
mesquinhez; sovinice.
Aviltar, (do latim vilitare, de vile). Tornar vil, abjecto desprezível. Desonrar, humilhar,
rebaixar.
Axioma,(do
Axioma, latim axioma). Premissa evidente por si mesma, que não necessita de
demonstração.
Azáfama, (do árabe Az-zahma). Pressa; balbúrdia.
Banir, (do latim bannire). Expulsar, excluir, afastar, abolir, degredar.
Barbaria, (de bárbaro). Falta de civilização; crueldade; selvajaria; vandalismo; grosse-
ria;
Barbárie, (do latim barbarie). Estado ou condição de bárbaro; crueldade; rusticidade;
selvajaria.
Bem, (do latim bene). De modo agradável e conveniente. Tudo o que se conforma
com as regras e princípios morais; o que é bom. ~aventurado, Feliz; ditoso.
Benevolência, (do latim benevolentia). Boa vontade para com alguém; estima e afec-
to.
Benevolência, (do latim benevolentia). Qualidade do que é benevolente. Boa vontade
para com alguém; estima e afecto.
Benignidade, (do latim benignitate), Pocedimento benévolo; clemência; bondade.
Bestial, (do latim bestiale). Próprio de besta; brutal; estúpido; grosseiro; repugnante.
Bestialidade, (de bestial). Qualidade do que é bestial.
Bíblia, (do latim biblia, do grego tà bibliá). Conjunto dos livros sagrados composto
pelo Antigo e Novo Testamento; Obra digna de respeito e adoração; O livro que
forma a base de uma religião ou teoria.
Blasfémia, (do latim blasphemia). Termo ou expressão ofensiva da divindade ou da
religião. Praga, dito insultuoso contra coisa ou pessoa respeitável.
Bom, (do latim bonu). Adequado à sua natureza ou função; de boa qualidade; bon-
doso; agradável; útil; perfeito; completo; sadio; nobre; próprio.
Bondade, (do latim bonitate). Qualidade do que ou de quem é bom; que tem boa
índole; brandura; benevolência.
Bramanismo, (do brâmane). Corrente filosófica que considera que o Universo tam-
bém obedece a uma lei moral, e defende a transmigração e o amor por tudo o que
vive.
Budismo, (de Buda). Doutrina filosófica e religiosa criada por Buda, que se baseia
fundamentalmente num esforço ingente para se subtrair (o crente) à vontade de

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viver, fonte de todos os males, e, consequentemente, escapar ao ciclo das mortes e


reencarnações sucessivas.
Budista, (de Buda). Que respeita ou pertencente ao budismo.
Cabedal, (do latim capitale). Caudal ou caudaloso. Fig. Recurso; riqueza. Coiro pró-
prio para manufacturar calçado, sola. Dinheiro. Capital.
Caducidade, (de caduco). Qualidade ou estado de caduco; velhice prematura; deca-
dência.
Caduco, (do latim caducu). Que cai ou que está prestes a cair de velho ou fraco; se-
nil.
Carácter, (do latim caracter). Psic. Aquilo que é próprio de cada indivíduo e o distin-
Carácter,
gue dos outros; génio; feitio; índole. P. Ext. Força de alma; firmeza moral; coerência.
Cárcere, (do latim carcere). Lugar reservado a prisão; cadeia.
Caridade, (do latim caritate). Uma das três virtudes teologais, que consiste em amar
a Deus por Si e ao próximo por amor de Deus. Acto de beneficência em que o ben-
feitor não tem qualquer retribuição e em que o beneficiário se encontra desprovido
de todo o direito; bondade.
Casta, (de casto). Grupo de indivíduos que, possuindo alguns caracteres comuns par-
Casta,
ticulares, por eles se distingue de outros da mesma espécie. Classe de cidadãos que
usufrui de privilégios especiais. Qualidade; natureza; género. Grupo social que, por
diferenças de riqueza, posição social, preconceitos religiosos, se separa distintamente
de outros.
Castigo, (de castigar). Acção ou efeito de castigar; sofrimento corporal ou espiritual
infligido a um culpado; pena; punição.
Categorias, (do latim categoria<grego kategoria). Classe; grupo; série; ordem. Posi-
ção social importante. Hierarquia. Filos. Cada uma das classes em que se dividem as
ideias ou termos.
Categórico, (do grego kategorikós> latim categoricu). Referente a categoria. Claro;
explícito; positivo; formal.
Causa, (do latim causa). Aquilo ou aquele que determina a existência de uma coisa,
um acontecimento. Motivo; razão. Origem.
Censurável, (de censurar). Repreensível; condenável.
Cepticismo, (de céptico). Doutrina que interdita (em grau diverso), a possibilidade de
o homem atingir a certeza e preconiza a suspensão do juízo, afirmativo ou negativo,
em todos ou em determinados domínios. Propensão à dúvida. Estado de quem duvi-
da de tudo. Descrença.
Cercania, (do cast. Cercania). Arredores; vizinhança; proximidade.
Cercear, (do latim circinare).Restringir; tornar menor; diminuir.
Céu, (do latim coelu). Lugar de morada de Deus e dos justos e bem-aventurados.
Paraíso.
Ciência, (do latim scientia). Conhecimento certo e racional sobre a natureza das coi-
sas ou sobre as suas condições de existência. Investigação metódica das leis dos fe-
nómenos.
Ciúme, (de cio). Inquietação mental causada por suspeita de rivalidade no amor ou
noutra aspiração; emulação; inveja.
Classe, (do latim classe). Ordem segundo a qual se dividem, distribuem ou arrumam
seres ou coisas. Conjunto de qualidades naturais que contribuem para o valor dos
resultados alcançados por alguém.
Classificação, (do francês classification). Acto, acção ou efeito de classificar, ou de
distribuir em classes
Clemência, (do latim clementia). Virtude que modera o rigor da justiça; bondade;
Clemência,
disposição para perdoar; compaixão; mesiricórdia.

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Cobiça, (do latim copiditia). Desejo veemente de conseguir alguma coisa. Ambição;
ganância; avidez; cupidez.
Codificação Espírita,
Espírita, Conjunto formado pelos cinco livros que formam a base da
Doutrina Espírita: O Livro dos Espíritos, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro
dos Médiuns, O Céu e o Inferno e A Génese.
Codificador, (de codificar). Aquele que codifica. Autor de um código.
Código, (do latim codex). Compilação de leis. Colecção ordenada de preceitos, nor-
mas, e regras sobre qualquer matéria.
Coercivo, (do latim coercere). Capaz de exercer coerção; que reprime; que impõe
pena.
Coibir, (do latim cohibere). Impedir a continuação de, fazer parar; reprimir; conter;
privar-se.
Complacência, (do latim complacentia). Benevolência; condescendência; benignida-
de.
Comprazer, (do latim complacere). Tornar-se agradável; fazer a vontade a; condes-
Comprazer,
cender; transigir; sentir prazer; deleitar-se; regozijar-se.
Compreender, (do latim comprehendere). Perceber; entender. Conhecer as intenções
de. Conter em si; abranger; incluir.
Comunicação, (do latim communicatione). Acção ou efeito de comunicar. Participa-
ção; aviso; informação. Convivência; trato.
Concepção, (do latim conceptione), Percepção; compreensão; conceito; faculdade de
entender.
Condenar, (do latim condemnare). Declarar culpado; castigar; rejeitar; censurar; for-
çar; obrigar; reprovar.
Condensar, (do latim condensare). Efeito de tornar mais denso, espesso ou grosseiro.
Condescendência, (de condescender). Acto de condescender; qualidade de quem é
condescendente; complacência; transigência.
Condescendente, (do latim condescendente). Que condescende ou transige.
Condescender, (do latim condescendere). Ceder espontaneamente; anuir ao desejo
ou pedido de alguém; transigir.
Conduta, (do latim conducta). Acto ou efeito de conduzir-se. Procedimento moral
(bom ou mau).
Conformidade, (do latim conformitate). Qualidade do que é conforme, ou de quem
se conforma.
Consequência, (do latim consequentia). O que é produzido por; o que é efeito de; o
que é sequência de.
Conservação, (do latim conservatione). Acção ou efeito de conservar, fazer durar.
Consolador, (do latim consolatore). Que, ou o que consola, alivia, suaviza.
Contemporâneo, (do latim contemporaneu). Que é da mesma época; que é d tempo
actual.
Contextura, (de contexto). Disposição das partes de um todo.
Convalescença, (do latim convalescentia). Retorno progressivo ao estado de saúde;
período de transição entre o estado de doença, que deixou de existir, e o regresso à
perfeita recuperação das forças e da saúde.
Coroar, (do( latim coronare). Elevar à dignidade real; premiar; recompensar, dando
coroa ou outro prémio.
Cósmico, (do grego kosmikós). Pertencente ou relativo ao Cosmo ou ao Universo.
Cosmogonia, (do grego kósmo+gonia). Teoria que visa explicar a formação do Uni-
verso.
Cosmogónico, (de cosmogonia). Relativo ou pertencente à cosmogonia.

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Cosmonáutica, (de cosmos+náutica). A ciência que estuda a navegação e exploração


do cosmo.
Cosmos, (do grego kósmos). O Universo.
Crença, (do latim medieval credentia). Acto ou efeito de crer.
Criação, (do latim criatione). Acto ou efeito de criar. Conjunto de seres criados. Ori-
gem.
Criatura, (do latim creatura). Todo o ser criado. Homem, por imposição de Deus.
Crisol, (do castelhano crisuelo). Aquilo que serve para por à prova os sentimentos de
alguém.
Cristianismo, (do latim christianismu). Corrente monoteísta que tem como princípio
Cristo.
Crueldade, (do latim crudelitate). Qualidade do que é cruel. Acto cruel. Barbaridade.
Desumanidade.
Culpado, (do latim culpatu). Que praticou a falta ou o crime; aquele que tem culpa;
delinquente; criminoso; responsável.
Culto, (do latim cultu). Homenagem prestada à divindade; liturgia.
Cunho, (do latim cuneu). Marca; impressão; característica.
Cupidez, (do latim cupidu). Cobiça; ambição; avidez.
de uma coisa ou acontecimento. Agente. Motivo, razão. Origem.
Debilitar, (do latim debilitare). Tornar fraco; tornar débil. Tirar as forças a. Abater.
Decomposição, (de decompor). Acção ou efeito de decompor; dissociação. Redução
a elementos simples. Análise. Modificação profunda; alteração. Putrefacção; corrup-
ção.
Decrepidez, (de decrépito). Estado de quem ou daquilo que é decrépito; caducidade;
decrepitude; decadência; velhice.
Decrépito, (do latim decrepitu).Muito velho; muito gasto; fraco; arruinado.
Decrepitude, (de decrépito). Decrepidez.
Dedução, (do latim deductione). Conclusão, ilação. Acção de deduzir. Consequência
lógica extraída de um princípio. Da causa chegar ao efeito.
Deformidade, (do latim deformitate). Configuração desagradável; irregularidade de
forma. Vício; depravação.
Degenerar, (do latim degenerare). Perder, em grau maior ou menor, as qualidades
originais (raças, indivíduos, plantas, etc.). Adulterar-se; depravar-se; corromper-se.
Degredo, (de degredar). Pena de exílio ou desterro imposta aos autores de certo tipo
de crimes. Local onde se cumpre essa pena. Desterro ; exílio; afastamento; banimen-
to.
Demónio, (do latim daemoniu < grego daimónion). Anjo caído em desgraça que pro-
cura perder a humanidade, na crença de certas religiões; Satanás; Diabo; Belzebu;
espírito maligno.
Deplorar, (do latim deplorare). Lamentar. Lastimar. Sentir pena de
Depuração, (de depurar). Acto ou efeito de depurar; limpeza; clarificação.
Derrocar, (de de + roca). Deitar a baixo; demolir; arrasar; Fig. Humilar; abater.
Desarrazoado, (de des + arrazoado). Que não tem razão ou fundamento. Despropo-
sitado. Descabido.
Desconformidade, (de des + conformidade) Falta de conformidade; discordância;
desarmonia; oposição; divergência; desproporção; desigualdade.
Descrédito, (de des + crédito). Perda de crédito; má fama; desonra; desautorização.
Desdenhar, (do latim disdignare). Mostar ou ter desdém por; não se dignar; descui-
dar; desprezar.
Desditoso, (de des+ditoso). Desventurado; que tem desdita; infeliz.
Desdobramento, (de desdobrar). Acto de desdobrar. Faculdade anímica que permite
a pessoa, estando o corpo físico num determinado local, deslocar-se ou ser levada a

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outro local, espiritualmente podendo ser ou não vista pelos encarnados presentes
nesse mesmo local.
Desencarnado, (de des + do latim incarnatu) Que desencarnou. Que deixou a carne.
Espírito sem corpo físico. Morrer.
Deserdar, (de des+herdar). Excluir da herança. Privar do direito à sucessão. Fig. Des-
favorecer; desamparar. Afastar; pôr ao largo.
Desígnio, (do latim designiu). Plano; projecto. Propósito; vontade. Destino.
Desmandar, (de des+mandar). Contra-ordenar. Tirar o mando ou autoridade a.
Desmaterializado, (de desmaterializar). Desprovido de forma material. Imaterial.
Desobediência, (de des+obediência).falta de obediência; infracção; transgressão.
Despojar- se, (do latim despoliare). Largar de si. Despir-se. Renunciar aos bens.
Despojar-
Desproporção, (de des+proporção). Falta de proporção; desconformidade; desigual-
Desproporção,
dade.
Destino, (de destinar). Fim para que tende uma acção ou um estado. Sorte. Futuro.
Fatalidade.
Destituir, (do latim destituere). Privar de emprego, autoridade ou dignidade. Demitir.
Depor.
Destruição, (do latim destructione). Acto ou efeito de destruir. Exterminação. Ruína.
Aniquilação.
Desvairado, (de desvairar). Que perdeu o juízo. Alucinado. Desnorteado.
Detrimento, (do latim detrimentu). Dano; prejuízo; quebra.
Deus, (do latim deus). Inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Divin-
dade.
Diabo, (do grego diábolos). Espírito ou génio do mal. Demónio. Satanás.
Diabrete, (de diabro, por diabo). Diabo pequeno.
Dignidade, (da latim dignitate). Qualidade moral que infunde respeito. Respeitabili-
dade. Elevação de sentimentos. Seriedade. Nobreza.
Dimensional, (do latim dimensione). Que pertence a uma dimensão ou medida.
Discípulo, (do latim discipulu). Aquele que recebe ensino de alguém; o que segue as
ideias ou doutrinas de outrem; apóstolo.
Disseminar, (do latim disseminare). Semear; espalhar; difundir; vulgarizar.
Dissipar, (do latim dissipare). Espalhar; dispersar; desvanecer; desfazer.
Distinto, (do latim distinctu). Que difere ou é diverso de algo ou de alguém; incon-
fundível. Perceptível. Notável. Que obteve distinção. Que é educado e de fino trato.
Ditoso, (doe dita). Que tem sorte; venturoso; fértil; próspero.
Diuturno, (do latim diuturnu). Que dura ou vive muito tempo. Vivaz. Que é de dura-
ção indefinida.
Divindade, (do latim divinatate). Qualidade do que é divino. Natureza divina. Deus ou
Divindade,
deusa.
Divino, (do latim divinu). Relativo a Deus, a uma divindade.
Divisa, (do latim divisa). Fronteira; limite; palavra ou frase que significa o lema de um
país partido, associação, etc. Pensamento ou sentença breve, expressa numa figura
simbólica que serve de distinto, se usa nos brasões, no traje, nas armas, nas bandei-
ras e individualiza a casa ou a família que o usa.
Dogma, (do latim dogma<do grego dógma). Princípio aceite como verdadeiro ou
justo sem discussão ou exame crítico. Proposição apresentada como incontestável ou
indiscutível, sem qualquer tipo de comprovação.
Dogmatismo, (do latim dogmatismu). Doutrina ou sistema dos que aceitam o dog-
ma. Atitude dos que apresentam as suas doutrinas como verdades insofismáveis.
Domesticar, (do latim domesticu). Tornar doméstico; dominar; amansar.
Doutrina, (do latim doctrina). Conjunto dos princípios ou dogmas em que assenta e
se articula um sistema religioso, político ou filosófico. Disciplina.

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Druida, (do latim druida). Antigo sacerdote da Gália e da Bretanha. Sábio de modos
solenes.
Duende, (do castelhano duende). Entidade ou espírito sobrenatural que se imaginava
fazer travessuras, de noite, dentro das casas.
Eclodir, (do francês éclore). Gal. Aparecer; surgir; rebentar. Desabrochar; nascer;
emergir.
Efeito, (do latim effectu). Resultado de uma causa ou de um acto provocado por um
agente qualquer. Consequência. Realização. Aplicação. Dano; prejuízo.
Efémero, (do grego ephémeros). Que só dura um dia. De curta duração; passageiro;
transitório.
Egocentrismo, (do grego egó+kéntron). Estado de espírito do egocêntrico. Tendência
para referir tudo a si mesmo, fazendo do eu o centro do Universo.
Egoísmo, (do grego egó). Qualidade de egoísta. Sentimento ou maneira de ser das
pessoas que só se preocupam com o interesse próprio, com o que lhes diz respeito;
amor exclusivo a si próprio.
Eléctrico, (do grego élektron). Relativo à electricidade. Designativo dos fenómenos
em que intervêm as partículas elementares que compõem a matéria, em especial os
electrões.
Elemento, (do latim elementu). O que é simples. Cada objecto, cada coisa que con-
corre com outras para a formação de um todo. Matéria-prima. Princípios fundamen-
tais.
Elevação, (do latim elevatione). Acto ou efeito de elevar ou de levantar. Acção de
elevar-se ou erguer-se. Grandeza.
Emanar, (do latim emanare). Exalar dos corpos. Desagregar-se ou disseminar-se por
desagregação. Provir. Sair de. Brotar.
Emancipação, (do latim emancipatione). Acto ou efeito de se emancipar. Libertação
do espírito em relação ao corpo, quando ainda encarnado.
Embusteiro, (de embuste). Que usa de embuste. Que ou aquele que lisonjeia, que
adula para enganar. Intrujão, impostor.
Empedernir, (por empedernir, de pedra). Tornar ou ficar duro como pedra. Endure-
cer.
Empirismo, (do grego empeiria). Doutrina filosófica, segundo a qual todo o conheci-
mento humano deriva, directa ou indirectamente, da experiência.
Encarnação, (do latim incarnatione). Existência material do espírito. Espaço de tempo
que o espírito passa mergulhado num corpo material. Acto ou efeito de encarnar.
Fig. Manifestação exterior e visível.
Encarnado, (do latim encarnatu). Que encarnou. Espírito mergulhado na carne. Espí-
rito com corpo físico.
Endosmose, (do grego éndon + osmós). Fís. Corrente de difusão que se estabelece
de fora para dentro, entre dois líquidos ou gases de densidades diferentes, separa-
dos por uma membrana ou placa porosa.
Enfermidade, (do latim enfirmitate).doença; moléstia; vício; mania.
Enfermo, (do latim infirmu). Que ou aquele que está atacado de enfermidade; doen-
te; indisposto; débil.
Engendrar, (do latim ingenerare). Imaginar; planear; inventar; produzir.
Ensejo, (do latim exagium). Ocasião azada, oportuna. Lance.
Entrever, (de entre+ver). Ver indistintamente; ver mal; prever confusamente.
Entrever,
Entrosar, (de entrosa). Encadear; endentar. Fig. Ordenar; dispor bem coisas compli-
cadas.
Envoltório, (de envolto). O mesmo que invólucro. Capa; faixa; embrulho.
Equidade, (do latim aequitat > francês équité). Justiça natural. Rectidão; igualdade;
imparcialidade.

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Erigir, (do latim erigere). Erguer a prumo; alçar; levantar. Fig. Fundar; criar; instituir.
Erróneo, (do latim erroneu). Que contém erro. Errado; falso.
Escala, (do latim scala). Registo que indica a ordem de evolução para cada indivíduo.
Escravidão, (de escravo). Estado ou condição de escravo; servidão; cativeiro; Fig. Sa-
crifício da liberdade pessoal; sujeição.
Escravo, (do latim mediev. Sclavu). Que, ou o que está sob poder absoluto de um
senhor; que, ou o que está na total dependência de outro; servo; criado.
Espaço, (do latim spatiu). Extensão em que se move o Universo; extensão tridimensi-
onal ilimitada ou infinitamente grande, que contém todos os seres e coisas de todos
os eventos.
Espírita, (do francês spirite). Relativo ao Espiritismo. Pessoa que cultiva o Espiritismo.
Espiritismo, (do francês spiritisme ou inglês spiritism). Sistema doutrinal que pretende
pôr em comunicação os homens com os Espíritos do outro mundo. Ciência que estu-
de a origem, natureza e destino dos Espíritos, bem como das suas relações com o
mundo material. Doutrina fundada sobre a crença na existência dos Espíritos e das
suas manifestações.
Espiritista, O mesmo que Espírita. Não foi consagrada pelo uso. Prevaleceu a palavra
Espírita.
Espírito, (do latim spiritu). Princípio inteligente do Universo. Alma. Princípio do pen-
samento e da actividade reflectida do homem. Razão; juízo; inteligência.
Espiritual, (do latim spirituale). Relativo ao Espírito ou ao mundo espiritual.
Espiritualismo, Doutrina que defende a essência espiritual e a imortalidade da alma,
bem como a existência de Deus.
Espiritualista, (de espiritual). Referente ao espiritualismo. Pessoa que segue o espiri-
tualismo. Quem quer que creia não existir em nós apenas matéria é espiritualista, o
que absolutamente não implica a crença nas manifestações dos Espíritos. Todo o
espírita é necessariamente espiritualista, mas pode-se ser espiritualista sem se ser
espírita.
Espirituoso, (do latim spiritu). Que tem espírito.
Espoliar, (do spoliare). Tirar a alguém, por violência ou fraude, a propriedade de al-
guma coisa. Desapossar.
Estágio, (do latim mediev. Stagiu). Aprendizagem. Situação transitória, de prepara-
ção.
Estandarte, ( do proven. estendart). Divisa; norma; partido.
Estelar, (do latim stellare). Das estrelas ou a elas referente; conjunto de estrelas dis-
persas num volume enorme, e que fazem parte da Via Láctea.
Estéril, (do latim sterile). Que não produz. Infecundo. Improdutivo.
Esterilizar, (de estéril). Tornar estéril. Destruir os germes deletérios de. Castrar.
Estímulo, (do latim stimulu). Aquilo que estimula. Incentivo. Brio; dignidade.
Estiolamento, (de estiolar). Definhamento; enfraquecimento.
Estiolar, (do francês étioler). Produzir o estiolamento de. Fig. Atrofiar.
Estudo, (do latim studiu). Aplicação do espírito para aprender uma ciência, uma arte
para entrar na apreciação ou análise de uma matéria ou assunto especial.
Estúrdio, (etim. obscura). Estroina; leviano; estouvado.
Etéreo, (do latim aetheriu).. Fig. Puro; sublime; celeste; delicado; elevado.
Eterno,(do
Eterno, latim aeternu). Que não tem princípio nem fim, que dura sempre; Filoso-
fia e Teologia. Que se situa fora do tempo da alteração ou mudança.
Ética, (do latim ethica; grego ethiké). Filos.
Filos. Parte da Filosofia que estuda os valores
morais e os princípios que devem nortear o comportamento humano; ciência dos
princípios da moral; a moral.
Evangelho, (do latim evangeliu<grego euggélion). Doutrina de Jesus Cristo. Cada um
dos quatro primeiros livros que constituem o Novo Testamento. Trecho de um desses

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livros que se lê na missa. P.ext. Coisa digna de crédito ou que se tem por absoluta-
mente certa. Fig. Conjunto de regras por que se regula uma seita.
Evangélico, (do latim evangelicu). Respeitante ou pertencente ao Evangelho. Con-
forme os preceitos do Evangelho. Diz-se do culto da Igreja Protestante.
Evidenciar, (de evidência). Tornar evidente; demonstrar; comprovar.
Evocação, (do latim evocatione). Acção ou efeito de evocar; acção de fazer surgir os
demónios, espíritos, sombras, almas; esconjuro; exorcismo.
Evolução, (do latim evolutione > do francês évolution). Acção ou efeito de evoluir.
Série de modificações. Desenvolvimento gradual e progressivo. Biol. Teoria que de-
fende que, através de transformações lentas ou rápidas, as espécies se desenvolve-
ram a partir de um estádio rudimentar e adquiriram os caracteres que as distinguem.
Excomungar, (do latim excommunicare). Separar da comunhão; expulsar da Igreja
Católica. Anatematizar. Amaldiçoar. Condenar.
Exiguidade, (do latim exiguitate). Escassez; insignificância; mediocridade; pequenez.
Exílio, (do latim exiliu). Acção ou efeito de exilar. Expatriação; desterro; degredo. Fig.
Isolamento; retiro; solidão.
Eximir, (do latim eximere). Isentar; desobrigar; dispensar; livrar.
Existência, (do latim existentia). Estado do que existe. O facto de existir. Vida. Ser.
Expiação, (do latim expiatione). Acção ou efeito de expiar. Castigo ou sofrimento de
pena, imposto a alguém, como compensação para uma má acção praticada. Peni-
tência. Correcção.
Expiar, (do latim expiare). Remir (culpas, crimes ou faltas) mediante penitências ou
cumprindo pena; sofrer as consequências de; purificar (lugar santo, templo, etc.)
Exprobrar, (do latim exprobrare). Censurar; repreender. Lançar em rosto.
Êxtase, (do latim extasis). Estado de emancipação da alma, no qual esta se torna
quase independente da matéria.
Extinguir, (do latim exstinguere). Suprimir; abolir; fazer desaparecer; destruir; acabar;
desaparecer; morrer.
Extinto, (do latim exstinctu). Que está apagado. Acabado; abolido; exterminado; su-
primido. Morto; finado. Pessoa que morreu.
Facto, (do latim factu). Acção; coisa feita. Aquilo que é real; evidente.
Fanático, (do latim fanaticu). Que ou aquele que se julga inspirado por uma divinda-
de qualquer. Que ou aquele que está cegamente apaixonado por uma ideia, partido,
opinião, pessoa.
Fatal, (do latim fatale). Inevitável. Desastroso. Funesto; mortal; letal.
Fatalidade, (do latim fatalitate). Desgraça; sucesso desastroso. Acontecimento inevi-
tável, marcado pelo destino.
Fé, (do latim fide). Crença; convicção; crédito na existência de determinado facto.
Sentimento íntimo que leva o ser a crer. Confiança.
Felonia, (do francês félonie). Deslealdade; traição. Crueldade.
Fenómeno, (do latim phaenomenon). Tudo o que impressiona os nossos sentidos ou
consciência.
Ferrenho, (do castelhano ferreno<latim ferrignu). Fig. Inflexível; intransigente; cruel.
Filiação, (do latim filiatione). Acto ou efeito de filiar. Designação dos pais de alguém.
Descendência de pais para filhos. Admissão de novo membro em comunidade (reli-
giosa ou civil) ou em partido. Ascendência de superior para inferior. Origem; proce-
dência.
Filosofia, (do latim philo + sophia). Estudo geral e racional sobre a natureza de todas
as coisas interligadas entre si, e da inserção do homem no meio natural, tendo
como objectivo encontrar os princípios básicos da existência e da conduta e destino
do homem.. ~ positiva, Sistema em que se rejeitam as afirmações a priori e se acei-
tam, tão-somente,, os princípios constatados pela observação e pela experiência.

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Firmar, (do latim firmare). Tornar firme; fixar; estabilizar. Apoiar; fincar. Sancionar;
assinar; confirmar. Parar; assentar seguramente.
Fluido Cósmico Universal (ou primitivo ou elementar),
elementar), Elemento material. Princípio de
tudo o que é matéria. Intermediário entre Espírito e matéria.
Fluido, (do latim fluidu). Matéria num estado físico, em que são de baixa intensidade
as forças de ligação intermoleculares, o que lhe permite modificar a forma consoante
o contentor.
Força, (do latim fortia). Faculdade de operar. Energia. Poder. Toda a causa capaz de
produzir deformações ou de modificar o estado de repouso ou de movimento de um
corpo.
Fratricida, (do latim fratricida). Relativo a guerras civis. Quem assassina irmão ou
irmã.
Frívolo, (do latim frivolu). Sem importância, insignificante, fútil, leviano.
Fútil, (do latim futile). Que tem pouco ou nenhum valor; insignificante; frívolo; vão.
Gaulês, ( de francês gaulois<gaule, top.). Respeitante à Gália. Natural ou habitante
da Gália. Idioma dos antigos Gauleses.
Génese, (do grego génesis>latim genese). Geração; criação. Fig.
Geocentrismo, (de geo-+centrismo). Sistema geocêntrico, elaborado por Ptolomeu,
que apresentava a Terra como o centro do Universo e de todos os astros rodando
em torno dela.
Germe, (do latim germen). Estado primitivo e rudimentar de um novo ser; embrião.
Fig. Causa; origem; princípio.
Glória, (do latim gloria). Celebridade adquirida à custa de façanha heróica ou de
grande mérito em qualquer campo. Fama; reputação. Brilho; esplendor. Alegria; re-
gozijo. Bem-aventurança; o Céu.
Gnomo, (do grego gnómon). Espírito que segundo a crença dos cabalistas, preside à
Terra e a tudo o que ela contém.
Gozo, (do latim gaudiu). Acto de gozar. Satisfação. Prazer. Proveito. Utilidade.
Gravidade (Força da...), (do latim gravitate). Força atractiva que solicita para o centro
da Terra todos os corpos.
Gravitação, (do latim gravitatione). Acto de gravitar. Força atractiva que se exerce
sobre os astros.
Grémio, (do latim gremiu). Grupo de entidades patronais que exploram ramos de
comércio ou indústria mais ou menos afins. Corporação. Associação. Assembleia.
Grosseiro, (de grosso). Grosso. De má qualidade. Ordinário. Mal educado; incivil;
imoral.
Habitabilidade, (do francês habitabilité<latim habitabile). Qualidade do que é habitá-
vel, próprio para habitação.
Harmonia, (do latim harmonia<grego harmonía). Disposição regular, justa e equili-
brada entre as partes de um todo. Concordância de sentimentos entre as pessoas;
paz; amizade. Ordem; proporção; coerência; conformidade; simetria.
Haurir, (do latim haurire). Tirar para fora de lugar profundo. Esvaziar; esgotar. Aspi-
rar; sorver. Estancar.
Hebreus, (do latim hebroeu; grego hebraicos). Indivíduos de raça hebraica. Etnog.
Nome primitivo do povo judaico.
Heliocêntrico, (de hélio-+centro). Que tem o sol como centro (do sistema de coorde-
nadas dos planetas).
Herege, (do latim haereticu). Que ou pessoa que defende doutrina contrária à que
foi estabelecida como verdadeira pela Igreja; ateu; incrédulo.
Hierarquia, (do francês hiérarchie). Ordem e subordinação em qualquer corporação.
Hindu, (do persa hindu<sânsc.sindhu). Relativo à Índia; indiano. Referente ao induís-
mo.

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Hipertrofia, (do grego hypér+trophé). Desenvolvimento excessivo de um órgão ou


parte dele, devido ao aumento de volume de suas células.
Hipocrisia, (do grego hypokrisía). Fingimento de boas qualidades para ocultar os de-
feitos; falsidade; dissimulação.
Hipótese, ( do grego hypóthesis). Suposição de coisas ou factos, possíveis ou impos-
síveis, da qual se tira uma conclusão. Teoria não demonstrada, mas provável.
Holocausto, (do grego holókauston). Sacrifício entre os Judeus e outros povos, em
que as vítimas eram totalmente queimadas. Fig. Sacrifício; abstracção da vontade
própria, para satisfazer a de outrem.
Humanidade, (do latim humanitate). Sociol. A natureza humana. O conjunto de to-
dos os homens. Fig. sentimento de clemência, de benevolência.
Humilhação, (do latim humiliatione). Acto ou efeito de humilhar. Submissão; rebai-
xamento; vergonha; vexame; afronta.
Idealismo, (de ideal). Doutrina que reduz o ser ao pensamento, as coisas ao Espírito
(o mundo dito exterior a não tem outra realidade além das ideias ou representações
que dele formamos).
Identidade, (do latim identitate). Conjunto de elementos que permitem saber quem é
Identidade,
uma pessoa.
Ignorância, (do latim ignorantia). Estado de quem ignora. Falta de saber. Desconhe-
cimento.
Igualdade, (do latim aequalitate). Qualidade do que é igual. Completa semelhança.
Paridade.
Ilimitado, (do latim illimitatu). Que não tem limites. Indeterminado. Infinito. Imenso.
Imaterial, (do latim immateriale). Que não é material; incorpóreo; impalpável; espiri-
tual.
Imenso. Infinito.
Imensurável, (do latim immensurabile). Que se não pode medir.
Imobilidade, (do latim immobilitate). Qualidade ou estado do que é imóvel. Estabili-
dade. Impassibilidade.
Imparcial, (do latim in+partiale). Que não é parcial. Justo; recto. Equitativo; neutral.
Imperfeição, (do latim imperfectione). Qualidade do que é imperfeito. Falta de per-
feição. Pequeno defeito. Vício.
Imponderável, (do latim in + ponderabile). Que não se pode pesar. Que não tem
peso. Muito subtil. Circunstâncias materiais ou morais imprevisíveis. Fís. Fluidos cuja
materialidade não pode ser revelada pelos instrumentos conhecidos.
Imprevidência, (do latim in+praevidentia). Falta de previdência. Descuido; desleixo;
imprecaução.
Imutável, (do latim immutabile). Que não pode ser mudado, não muda, varia ou
transforma.
Incoerência, ( de in+coerência). Falta de coerência. Qualidade de incoerente. Discor-
dância; inconsequência.
Inconciliável, (de in+conciliável). Que não se pode conciliar. Incompatível; inconcor-
dável; inadaptável.
Incorpóreo, (do latim incorporeu). Desprovido de corpo; imaterial; impalpável.
Individualidade, (do francês indivicdualité). Conjunto de qualidades que definem um
indivíduo. Pessoa; indivíduo.
Individualizar, (de individual). Tornar individual. Considerar individualmente; particula-
rizar; especializar.
Indução, (do latim inductione). Acção de induzir. Dos efeitos remontar-se às causas.
Indução,
Indulgência, (do latim indulgentia). Clemência. Condescendência; tolerância.
Inerente, (do latim inhaerente). Ligado intimamente; inseparável.

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Inexorável, (do latim inexorabile). Que não cede. Implacável; inflexível. Austero; rigo-
roso.
Infalível, (do latim infallibile). Que não é falível. Que não pode falhar. Certo; exacto;
seguro; inevitável.
Inferior, (do latim inferiore). Que está abaixo de outro. Subalterno. Que vale menos.
Ordinário; baixo; reles. Indivíduo que está abaixo de outro em categoria ou dignida-
de.
Inferioridade, (de inferior). Estado ou qualidade de inferior.
Inferno, (do latim infernu). Tormento; martírio atroz. Segundo a religião católica,
estado ou lugar daqueles que , morrendo em pecado mortal, padecem penas eter-
nas.
Ínfimo, (do latim infimu). O mais baixo. Que se situa no último lugar. Inferior.
Infinito, (do latim infinitu). Que não tem fim ou limites. Sem fim; eterno. O espaço e
o tempo considerados de forma absoluta. O absoluto; o eterno; Deus.
Infortúnio, (do latim infortuniu). Infelicidade. Desgraça; calamidade. Desventura.
Infracção, (do latim infractione). Acção de infringir. Transgressão; quebra; violação
de uma lei ou ordem.
Ingratidão, (do latim ingratitudine). Qualidade de ingrato, de não agradecido. Falta
de gratidão.
Ininteligível, (de in+inteligível). Que não é inteligível; que não se consegue compre-
ender. Obscuro; misterioso.
Inquiridor, (de inquirir). Que ou aquele que inquire, indaga, pergunta, investiga, pes-
quisa.
Inquisição, (do latim inquisitione). Antigo tribunal eclesiástico, também denominado
Tribunal do Santo Ofício, que se destinava a averiguar e punir crimes contra a fé ca-
tólica. Cárcere destinado aos réus convictos de falta de fé.
Insensatez, (de in-+sensatez). Qualidade de insensato. Loucura; insânia.
Insensatez,
Insipiente, (do latim insipiente). Não sapiente. Ignorante. Insensato. Imprudente.
Insondável, (de in+sondável). Que não é sondável. Que se não pode sondar ou cujo
limite se não pode encontrar. Incompreensível; inexplicável.
Inspiração, (do latim inspiratione). Acto ou efeito de inspirar ou de ser inspirado.
Ideia repentina e espontânea. Sugestão.
Instinto, (do latim instinctu). Impulso inato, inconsciente, irracional, que leva um ente
vivo a proceder de tal ou tal forma. Intuição. Inspiração.
Integral, (do latim integru). Inteiro; completo; total. Que integra.
Intelectualizar, (de intelectual). Elevar à categoria de intelectual. Dar forma inteligen-
te.
Inteligência, (do latim intelligentia). Faculdade de entender, raciocinar, pensar e in-
terpretar. Entendimento. Conhecimento profundo. Intelecto. Juízo; raciocínio; abs-
tracção.
Inteligente, (do latim intelligente). Que tem a faculdade de compreender. Esperto;
hábil; sagaz.
Inútil, (do latim inutile). Que não tem utilidade. Frustrado; estéril. Desnecessário. Sem
préstimo.
Inveja, (do latim invidia). Desgosto, ódio ou pesar por prosperidade ou alegria de
outrem. Emulação. Cobiça.
Invólucro, (do latim involucru). Coisa que envolve, cobre ou reveste. Envoltório. Capa
ou cobertura. Revestimento.
Irreflexão, (de in + reflexão). Falta de reflexão. Imprudência. Inconsideração. Impulsi-
vidade. Precipitação.
Irrefutável, (do latim irrefutabile). Não refutável; que se não pode refutar. Irrecusável.
Incontestável. Evidente.

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Irremissível, (do latim irremissibile). Que não merece remissão ou não é perdoável;
imperdoável; indesculpável; infalível.
Irrevogável, (do latim irrevocabile). Não revogável. Que se não pode revogar ou anu-
lar. Que não pode voltar atrás. Definitivo.
Islamismo, (do árabe islam). A religião muçulmana; maometismo. Os muçulmanos.
Jónico, (do latim ionicu<grego ionikós). Relativo à antiga Jónia. Designativo da tercei-
ra das cinco ordens de arquitectura. Dialecto dos Jónios.
Judeu, (do latim judaeu). Relativo à Judeia, aos Judeus ou aos ritos judaicos. Hebreu;
hebraico; israelita; judaico. O natural da Judeia. O praticante do judaísmo.
Justiça, (do latim justitia). Jur. Conformidade com o Direito. Acto de dar ou conferir a
cada um o que por direito lhe é próprio. Direito; razão fundada nas leis. Alçada; ju-
risdição. A magistratura; o conjunto dos indivíduos a quem é confiado o poder judi-
cial.
Justo, (do latim justu). Que é conforme ao Direito, à moral e à razão. Imparcial; ínte-
gro; legítimo. Aquilo que está certo e adequado à justiça e à moral.
Legislação, (do latim legislatione). O conjunto ou corpo das leis de um país. Direito
de legislar. Estudo das leis.
Lei, (do latim lege). Preceito emanado de uma autoridade soberana. Proposição geral
que enuncia uma relação regular de fenómenos. Relação invariável entre variáveis.
Leigo, (do grego laikós). Que ou aquele que não tem ordens sacras. Laical. Secular.
Fig. Ignorante; desconhecedor.
Leviandade, (de leviano ou do castelhano liviand). Qualidade de leviano. Irreflexão.
Imprudência acto de leviano.
Leviano, (de leve). Que tem pouco juízo; que julga de leve; precipitado; irreflectido;
imprudente; inconstante.
Liberdade, (do latim libertate). Faculdade de uma pessoa poder dispor de si, fazendo
ou deixando de fazer por seu livre arbítrio qualquer coisa. Condição do homem livre.
Liturgia, (do grego leitourgía). Complexo das cerimónias eclesiásticas de um culto;
rito.
Livre- arbítrio, (do latim liberu+arbitriu). Filos. Faculdade do homem de determinar-se
Livre-
a si mesmo; poder de praticar ou não um certo acto, sem outra razão além do pró-
prio querer.
Lógica, (do grego logiké). Encadeamento regular ou coerente das ideias e das coisas.
Luminar, (do latim luminare). Que dá luz. Astro. Pessoa de grande ilustração.
Luxúria, (do latim luxuria). Sensualidade; lascívia. Libertinagem.
Mácula, (do latim macula). Mancha; nódoa. Fig. Desonra; infâmia.
Magia, (do latim magia). Ciência e arte que pretende actuar sobre a natureza, em-
pregando conscientemente poderes invisíveis, para obter resultados visíveis, contrá-
rios às suas leis.
Magnético, (do grego magnetikos).Física: relativo ao magnetismo. Propriedade que
alguns corpos apresentam de atrair e reter outros.
Mal, (do latim male). De modo mau, imperfeito, insuficiente. Com defeito. De forma
ofensiva, caluniosa. Contra o que deve ser; contra a moral; contra o direito e a justi-
ça. Cruelmente; violentamente. (do latim malu). Tudo o que fere, incomoda ou pre-
judica. Tudo o que é oposto ao bem. Tudo o que se desvia da honestidade e da mo-
ral. Calamidade; desgraça; infortúnio; prejuízo. Aflição; angústia; padecimento moral.
Maldade, (do latim malitate). Qualidade de mau. Acção má ou ruim. Iniquidade; per-
versidade; crueldade.
Malícia, (do latim malitia). Propensão para o mal. Dissimulação. Astúcia; manha; ro-
nha. Satírico.
Manancial, (de manante). Que mana ou corre sem cessar e com abundância. Nas-
cente de água. Fonte.

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Manifestação, (do latim manifestatione). Acto ou efeito de manifestar. Demonstra-


ção expressa, pública e colectivamente, de sentimentos, ideias, opiniões. Acto ou
efeito provocado pelos Espíritos.
Maravilhoso, (de maravilha). Fora do comum; prodígio; milagre; admirável; sobrena-
tural.
Matéria, Laço que prende o Espírito. Agente, intermediário com o auxílio do qual e
sobre o qual actua o Espírito.
Material, (do latim materiale). Respeitante ou pertencente à matéria. Constituído por
matéria. Que se opõem ao espiritual, que se refere apenas ao corpo. Pesado, maciço,
grosseiro.
Materialismo, (de material). Sistema filosófico que sustenta que a realidade é de ca-
rácter material ou corporal. Falta de elevação espiritual.
Matiz, (do castelhano matiz). Combinação de cores diversas. Gradação de cor. Fig.
Colorido no estilo. Cor política.
Matriz, (do latim matrice). Que dá origem. Molde.
Médium, (do latim – médium, meio, intermediário).Pessoa que pode servir de inter-
mediário entre os Espíritos e os homens ou entre a dimensão material e a espiritual.
Mediunidade, (de médium). Qualidade de médium, de estabelecer relações entre os
encarnados e os desencarnados; entre o mundo material e o mundo espiritual.
Mediunismo, (de médium). Uso indevido da mediunidade, fora das regras de segu-
rança aconselhadas pelo espiritismo.
Mérito, (do latim meritu). Merecimento. Valor moral ou intelectual. Aptidão; capaci-
dade; superioridade.
Metempsicose, (do latim metempsychose<grego metempsýcho-
sis<metá+empesychóo). Teoria da transmigração, da passagem da alma de um corpo
para o outro.
Metodista, (do inglês methodist). Membro de uma seita protestante, caracterizada
por grande austeridade.
Método experimental, Método pelo qual se experimenta algo, se põe à prova, atra-
vés da observação, repetição e comparação dos factos, chegando assim a conclu-
sões.
Método indutivo, Método segundo o qual se chega a um raciocínio que estabelece
leis gerais mediante a observação de casos particulares, procedendo por indução.
Método que pela observação dos efeitos se remonta às suas causas.
Método, (do latim methodu). Ordem. Processo racional. Sistema bem fundado e
educativo ou conjunto de processos didácticos. Procedimento apto a garantir no pla-
no teórico ou prático, o rendimento e constância do trabalho e do estudo. Estudo
metódico de tema científico.
Milagre, (do latim miraculu). Facto que não tem explicação à luz das leis da natureza
e que, portanto, deve ser atribuído a causas sobrenaturais. O que é sobrenatural.
Missão, (do latim missione). Acção de mandar, de enviar. Incumbência. Compromis-
so; obrigação; encargo.
Missionário, (do francês missionaire). Propagandista de uma ideia. Aquele que missi-
ona, que prega a fé, evangeliza.
Mistério, (do grego mystérion). Nas religiões cristãs, dogma, verdade de fé inacessí-
vel à razão. Tudo o que é incompreensível, inexplicável, um enigma. Segredo.
Mistério. Esconderijo. Lugar separado, numa prisão. Processo apenas conhecido de
um ou poucos indivíduos. Fig. O íntimo.
Mística, (de místico). Atitude colectiva assente numa fé irracional, numa doutrina,
num homem, etc.
Misticismo, (de mística). Filos. Via espiritual tendente à união com Deus através de
uma religiosidade profunda, com vista à libertação das coisas naturais até ao anula-

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mento da própria personalidade; crença religiosa ou filosófica que admite comunica-


ção oculta entre o homem e a divindade.
Místico, (do grego mystikós). Misterioso; alegórico.
Mistificação, (de mistificar). Acção ou efeito de mistificar. Coisa enganadora ou vã.
Logro; burla; engano.
Mitos, (do grego mythos). Narrativas fabulosas de origem popular. Utopia. Coisa
inacreditável.exposiçaõ simbólica de um facto natural, histórico ou filosófico.
Mnemónico, (do grego mnemonikós). Que se refere à mnemónica ou à memória.
Que ajuda a memória. Que facilmente se grava na memória.
Móbil, (do latim mobile). Caracterizado por extrema fluidez, como o mercúrio. Cau-
sa; razão; agente. O que conduz à acção por efeito de forças mais ou menos irracio-
nais, ou mesmo inconscientes.
Monoteísmo, (do grego mónos+theós). Sistema religioso que admite a existência de
um Deus único; adoração de um só Deus.
Moral, (do latim morale). Referente à moralidade, aos bons costumes. Ético. Conjun-
to de costumes e opiniões éticas de um indivíduo ou de um grupo social. Arte de
bem proceder.
Mordaz, (do latim mordace). Fig. Satírico; maledicente.
Morte, (do latim morte). Fim da existência; termo da vida.
Nada, (do latim nata). A não existência; o que não existe. Coisa nenhuma. O que se
opõe ao ser.
Nativo, (do latim nativu). Que nasce; que é natural. Próprio de lugar onde nasce.
Congénito. Peculiar. Nacional. Não afectado; simples. Diz-se da planta que vegeta
espontaneamente nos campos.
Natural, (do latim naturale). Que pertence ou se refere à natureza. Produzido pela
natureza, ou de acordo com as suas leis. Que segue a ordem regular das coisas. Não
provocado. Inato. Verdadeiro.
Natureza, (do latim natura). Conjunto das leis que presidem à existência das coisas e
à sucessão dos seres. Força activa que estabeleceu e conserva a ordem natural de
quanto existe. Essência; qualidade; espécie.
Negligência, (do latim negligentia). Incúria. Desleixo; falta de cuidado. Preguiça. De-
satenção; menosprezo.
Neoplatónico, (de neo-+platónico). Referente ao neoplatonismo. Filósofo pertencente
à escola neoplatónica.
Nirvana, (do sânsc. nirvana). Doutrina de Buda que defende a quietude e a absorção
da personalidade no seio da divindade; beatitude. Fig. Inércia; apatia.
Nomenclatura, (do latim nomenclatura). Conjunto de termos de uso consagrado
numa ciência ou arte; lista de nomes; catálogo.
Novo Testamento, Livros sagrados posteriores a Cristo.
Objecto, (do latim objectu). Assunto; matéria. Fim que se tem em vista.
Obreiro, (do latim operariu). Aquele que trabalha. Operário. Trabalhador. Cultivador.
Aquele que coopera no desenvolvimento de uma empresa ou de uma ideia.
Obscuridade, (do latim obscuritate). Estado de obscuro. Ausência, falta de luz, de
claridade; escuridão; trevas. Falta de clareza nas ideias, nas expressões, no estilo.
Condição ou origem humilde. Vida retirada. Falta de lucidez; enfraquecimento do
espírito.
Observância, (do latim observantia). Acção ou efeito de observar. Execução; observa-
ção; prática; uso. Cumprimento rigoroso da regra religiosa ou monástica.
Obstinação, (do latim obstinatione). Firmeza; pertinácia; tenacidade. Teimosia; reni-
tência.
Ociosidade, (do latim otiositate). Descanso. Mandriice; preguiça; indolência. Lazer;
ócio.

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Ocioso, (do latim otiosu). Que não tem que fazer; que não tem ocupação. Que não
trabalha; que não faz nada.
Ódio, (do latim odiu). Rancor profundo e duradouro que se sente por alguém. Aver-
são; raiva. Antipatia; horror.
Omnipotente, (do latim omnipotente). Que tudo pode. Detentor de poder absoluto.
Que encerra toda a potência.
Opressão, (do latim oppressione). Dificuldade de respirar. Estado de quem ou daquilo
que se acha oprimido.
Opressor, (do latim oppressore). Que oprime; opressivo. Tirano; déspota.
Oprimir, (do latim opprimere). Causar opressão. Carregar; sobrecarregar. Apertar.
Orbe, (do latim orbe). Esfera; globo. Redondeza. Mundo. Qualquer corpo celeste.
Ordem, (do latim ordine). Posição, classe, categoria a que pertencem as pessoas ou
as coisas num conjunto racionalmente organizado ou hierarquizado. Disposição regu-
lar e metódica.
Órfico, (do grego orphikós>latim orphicu). Feito em honra de Baco. Relativo a Orfeu.
Orgânica, (de orgânico). Disposição geral dos órgãos, e as leis que regem o seu fun-
cionamento. Lei; norma.
Orgânico, (do latim organicu). Relativo aos órgãos ou aos seres organizados.
Organogénese, (do grego órganon + génesis). Capítulo das ciências biológicas que
estuda a maneira como se formam e desenvolvem os órgãos, a partir do embrião.
Órgão, (do grego órganon). Parte de um corpo organizado com uma função particu-
lar. Meio. Agente. Cada uma das partes componentes de um aparelho que tem a seu
cargo a execução de um acto.
Orgia, (do grego órgia). Festim licencioso; bacanal. Fig. Desordem; anarquia.
Orgulho, (do castelhano orgull). Conceito exagerado que alguém faz de si próprio;
altivez. Presunção.
Origem, (do latim origine). Primeira causa determinante. Princípio; procedência; nas-
cença.
Origem; formação. Primeiro livro da Bíblia, onde se encontra descrita a origem do
Universo e do Homem.
Original, (do latim originale). Relativo a origem. Primitivo. Inato. Que tem carácter
próprio. Nativo. Que foi feito na origem. Singular. Excêntrico. Obra do próprio punho
do autor. Escrito primitivo do qual se tiram cópias. Modelo. Pessoa de que se faz o
retrato.
Ostensivo, (do latim ostensivu). Que se pode mostrar; evidente. Fig. Falso, fingido.
Outorgar, (do latim auctoricare). Dar; conceder; aprovar. Declarar em escritura públi-
ca. Anuir; concordar. Intervir como interessado em escritura pública.
Paixão, (do latim passione). Sentimento forte, exacerbado, como o amor, o ódio, etc.
, que pelo seu carácter dominante inibe o raciocínio claro, lógica imparcial e, mesmo,
a formulação de juízos de valor. Desejo intenso; atracção.
Palmilhar, (de palmilha). Percorrer a pé; calcar com os pés, andando; V.i. andar a pé.
Palpável, (de palpar). Que se pode apalpar. Evidente; notório; patente; que não des-
perta dúvida.
Paracleto, (do latim Paracletu < grego parákletos). Espírito Santo. Mentor, defensor,
intercessor. Aquele que indica ou sugere a outrem o que deve fazer.
Parcial, (do latim partiale). Favorável a uma das partes numa questão, litígio, acto ou
empreendimento; partidário; sectário. Algo que é partidário de alguma coisa ou al-
guém.
Parcialidade, (de parcial). Facção; partido. Fig. Amizade; afeição.
Partidário, (de partido). Respeitante a partido. Que segue algum partido ou facção;
adepto; fanático.

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Pecado, (do latim peccatu). Transgressão da lei divina. Culpa; falta; vício; defeito;
maldade. Transgressão de qualquer preceito ou regra.
Pecar, (do latim peccare). Cometer pecados; transgredir regra, lei ou preceito religio-
so.
Pedagogia, (do grego paidagogia). Arte, técnica ou ciência prática da educação.
Pena, (do latim poena). Castigo, punição, dor, padecimento, sofrimento, aflição,
desgosto, expiação, purgação.
Pendor, (de pender). Vertente; obliquidade; carga ; peso; Fig. Tendência; índole.
Penoso, (do latim poena). Que causa ou mete pena; que aflige. Que custa a fazer ou
a suportar; incómodo; árduo; fatigante.
Pensamento, (de pensar). Acto ou faculdade de pensar. Qualquer acto de espírito ou
operação da inteligência. Entendimento; razão; inteligência; espírito. Forma de co-
municação dos espíritos.
Pentateuco, (do grego pentáteukhos). Designação dada pelos gregos ao conjunto
dos cinco primeiros livros da Bíblia. Espiritismo: conjunto formado pelos cinco livros
que formam a Codificação Espírita.
Penúria, (do latim penuria). Privação ou falta do necessário; escassez. Miséria; pobre-
za; indigência.
Percepção, (do latim perceptione). Psicol. Acto, efeito ou faculdade de perceber.
Tomada de conhecimento sensorial de objectos ou de acontecimentos exteriores.
Acção de conhecer independentemente dos sentidos.
Perecer, (do latim perescere). Ter fim; deixar de ser ou de existir; acabar; Morrer
prematura ou violentamente; finar; ser abolido; ser destruído; ser assolado; ser de-
vastado.
Perecível, (de perecer). Sujeito a morrer; susceptível de perecer. Que se pode estra-
gar; frágil.
Peregrinação, (do latim peregrinatione). Acto de peregrinar; viagem em romaria a
lugares santos, por devoção ou promessa; viagem a lugares longínquos; romaria.
Perfeição, (do latim perfectione). Execução e acabamento completo e perfeito. Qua-
lidade daquilo que é perfeito. Bondade, beleza ou excelência no grau mais elevado.
Primor; mestria; requinte.
Perfeito, (do latim perfectu). Que só tem boas qualidades. Que não tem defeito físico
ou moral. Que tem tudo o que lhe pertence ter. Exemplar; modelo. Cabal; completo;
total.
Pérfido, (do latim perfidu). Que falta à sua fé ou à sua palavra. Traidor; desleal; infiel.
Perisperma, (do grego perí + spérma). Bot. Fina membrana envolvente produzida
pelo resto não absorvido da nucela (pequena noz), que fica em redor do embrião e
do endosperma de uma semente.
Perispírito, Corpo de origem material, constituinte do complexo humano, responsável
pelo intercâmbio entre o corpo físico e o espírito. Primeiro elemento a sair do Fluido
Cósmico Universal, o mais rarefeito que existe. Envoltório que reveste o espírito. É
nele que reside a identidade do espírito. Chave de todos os fenómenos mediúnicos.
Permeio, (do latim permediu). No meio; através; interpor-se; intervir.
Pernicioso, (do latim perniciosu). Que é prejudicial, danoso; perigoso.
Perpetrar, do latim perpetrare). Praticar qualquer acto condenável. Realizar. Perfazer.
Perpetuar, (do latim perpetuare). Tornar perpétuo; eternizar. Imortalizar. Propagar
por sucessão.
Perseverança, (do latim perseverantia). Constância; firmeza; pertinácia.
Perseverar, (do latim perseverare). Persistir no mesmo estado de espírito. Conservar-
se firme e constante num sentimento ou numa resolução. Continuar; teimar.
Persistência, (de persistente). Constância; firmeza; perseverança.

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Personalidade, (do latim personalitate). Qualidade, feição, modo de ser que caracte-
riza uma pessoa. Carácter. Aquilo que distingue uma pessoa de outra. Personagem.
Psicol. Individualidade consciente; consciência da unidade e da identidade do eu.
Personificar, (do latim persona+facere). Considerar como pessoa. Atribuir a uma coi-
sa inanimada, a uma abstracção, a imagem, os sentimentos ou a linguagem de uma
pessoa real. Realizar ou representar na figura de uma pessoa; exprimir por um tipo.
Persuadir, (do latim persuadere). Levar à persuasão ou à convicção de. Levar a crer;
induzir; aconselhar. Determinar a vontade de.
Perverso, (do latim perversu). Que tem má índole; corrupto; vicioso; malvado; traiço-
eiro; que apresenta um comportamento anti –social; irredutível desde a infância;
aquele que é perverso.
Planeta, (do grego planétes). Astro sem luz própria, que gravita em torno de uma
estrela (planeta primário) ou em volta de outro planeta (satélite ou secundário).
Planetário, (do latim planetariu). Relativo ou pertencente a planetas.
Plenitude, (do latim plenitudine). Estado ou qualidade de pleno, cheio, completo.
Totalidade. Abundância excessiva.
Pluralidade, (do latim pluralitate). Multidão; grande número; o geral; multiplicidade;
o maior número; qualidade atribuída a mais de uma pessoa ou coisa; caracter de um
termo que está no plural.
Polar, (do latim polare). Relativo aos pólos. Situado na vizinhança dos pólos terres-
tres.
Politeísmo, (do grego polytheos). Sistema religioso que admite a pluralidade dos
deuses.
Ponderabilidade, (de ponderável). Qualidade de ponderável.
Ponderável, (do latim ponderabile). Que se pode pesar.
Positivismo, (de positivo). Sistema criado por Augusto Comte, de carácter empirista e
antimetafísico, que recusa qualquer juízo de valor não consubstanciado numa certe-
za científica e idêntica essência e fenómeno.
Potentado, (do latim potentatu). Soberano de um estado poderoso. Indivíduo de
grande riqueza ou influência.
Povo, (do latim populu). Conjunto dos habitantes de um lugar, cidade, região ou
país. Aldeia; lugarejo; pequena vila. O público. A menor das classes sociais.
Povoar, (de povo). Formar povoação em; tornado habitado. Colonizar. Embelezar.
Fornecer.
Pragmática, (do latim pragmatica<grego pragmatiké). Conjunto de normas ou fórmu-
las que regulamentam as cerimónias oficiais ou religiosas. Etiqueta; protocolo.
Preconcebido, (de preconceber). Concebido antecipadamente. Planeado sem funda-
mento sério.
Preconceito, (do latim prae + conceptu). Conceito formado antecipadamente e sem
fundamento sério. Preocupação. Prejuízo. Crendice; superstição.
Predisposição, (do latim prae+dispositione). Tendência; vocação; aptidão.
Preexistência, (do latim praeexistentia). Qualidade do que é preexistente; existência
anterior; existência de Cristo no Céu; antes da encarnação; existência das almas an-
tes do nascimento.
Preponderância,(do
Preponderância, latim praeponderantia). Qualidade do que é preponderante; su-
premacia; predomínio; superioridade; hegemonia.
Presidir, (do latim praesidere). Dirigir como presidente; exercer as funções de presi-
dente; ocupar a presidência; superintender; dirigir.
Pressagiar, (do latim praesagiare). Anunciar por presságios; vaticinar; prever; agou-
rar; pressentir.
Presságio, (do latim praesagiu). Facto ou sinal por que se adivinha o futuro; previsão;
prognóstico; pressentimento; agouro; indício de um acontecimento futuro.

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Presunção, (do latim praesumptione). Acto ou efeito de presumir. Suposição; suspei-


ta; desconfiança. Vaidade; jactância.
Primícias, (do latim primitias). As primeiras produções, frutos, sentimentos ou gozos.
Os começos; os prelúdios.
Princípio espiritual, Princípio a partir do qual se dá a individualização do espírito. Um
dos elementos gerais do Universo em parceria com o Fluido Cósmico Universal.
Princípio Vital (ou fluido magnético, ou fluido eléctrico animaliza
animalizado). Agente que dá
actividade e movimento aos seres vivos e faz com que se distingam da matéria iner-
te. Intermediário entre Espírito e matéria.
Princípio, (do latim principiu). Momento em que uma coisa tem início, começo ou
origem. Causa primária; base; razão. Regra; lei; preceito moral. Teoria.
Privilegiado, (de privilegiar). Que tem ou goza de privilégio. Distinto; elevado; excep-
cional.
Proclamar, (do latim proclamare). Aclamar ou anunciar em público e com solenidade;
decretar pública e oficialmente; apregoar; publicar.
Prodigalidade, (do latim prodigalitate). Qualidade ou carácter de pessoa pródiga.
Esbanjamento; desperdício. Superabundância.
Professar, (do latim professare). Reconhecer ou confessar publicamente. Ensinar na
qualidade de professor. Ter a convicção de. Por em prática. Seguir, orientar-se nos
ditames de. Fazer profissão de; dedicar-se a uma arte. Abraçar (uma doutrina, uma
religião, etc.). proferir votos solenes; tomar o hábito de uma ordem religiosa. Ensinar.
Profeta, (do grego prophétes; latim propheta). Aquele que prediz por inspiração di-
vina; vidente; adivinho; título dado pelos Maometanos a Mafoma; aquele que faz
conjecturas sobre o futuro.
Progresso, (do latim progressu). Movimento para diante. Desenvolvimento gradual
de um ser ou de uma actividade. Adiantamento; melhoramento; aperfeiçoamento.
Proletário, (do latim proletariu). Membro de uma classe pobre que, na antiga Roma,
só era útil à República. Pessoa que vive no produto do seu trabalho mal remunerado.
Promulgar, (do latim promulgare). Publicar oficialmente; vulgarizar; decretar.
Propriedade, (do latim proprietate). Qualidade de próprio; qualidade inerente
Proscrito, (do latim proscriptu). Que sofreu proscrição; proibido; aquele que foi des-
terrado; exilado; degredado.
Proselitismo, (de prosélito). Actividade ou zelo em fazer prosélitos.
Prosélito, (do grego prosélytos). Aquele que abraça uma nova religião, seita, doutrina
ou partido. Partidário, adepto.
Protestantismo, (do francês protestantisme). Nome dado à doutrina religiosa que
pretende conservar a pureza do dogma e do culto dos primeiros tempos do cristia-
nismo, e que, nessa base, originou uma nova igreja cristã, em que há várias seitas.
Protoplasma, (do grego prôtos + plasma, atos). Biol. Substância viva das células cons-
tituída pela associação de citoplasma e cromatina, podendo estar contida no núcleo.
Prova, (do latim proba). Aquilo que serve para estabelecer uma verdade por verifica-
ção ou demonstração. Exame. Uma das formas do espírito experimentar-se.
Providência, (do latim providentia). Sabedoria suprema, com que Deus tudo dirige. O
próprio Deus.
Providencial, (de providência). Que vem da providência, de sabedoria suprema com
que Deus tudo dirige, de pessoa que guarda, ajuda ou protege.
Pseudo - , (do grego pseudés). Exprime a ideia de falso. ~ sábio, (do latim sapidu).
Diz-se do que julga ou diz saber mais do que aquilo que realmente sabe.
Psicografia directa, Escrita de um Espírito directamente pela mão de um médium.
Psicografia indirecta, (do grego psykhé + graphé). Escrita de um Espírito através de
um utensílio ou ferramenta que não directamente um órgão de um médium.

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Psíquico, (do grego psykhikós). Relativo à alma, ou às faculdades intelectuais e mo-


rais de um indivíduo.
Psiquismo, (do grego psykhé). Conjunto das características psicológicas de um indiví-
duo. Conjunto de fenómenos psíquicos que são objecto da psicologia.
Pueril, (do latim puerile). Que pertence às crianças; infantil.
Pungente, (do latim pungente). Agudo; picante. Doloroso; lancinante.
Purgatório, (do latim purgatoriu). Lugar onde, segundo a religião cristã, se purificam
as almas dos justos, antes de entrarem no céu. Tormento constante; expiação.
Puro, (do latim puru). Que não tem mistura. Que não sofreu alteração. Transparente;
límpido. Imaculado. Inocente. Virginal. Tranquilo; sereno. Verdadeiro. Natural. Incon-
testável.
Qualidade, (do latim qualitate). Característica de uma coisa. Maneira de ser, boa ou
má, de uma coisa. Carácter; índole; propriedade; excelência.
Que, (do latim quam). Qual coisa ou quais coisas?
Quem, (do latim quem). A pessoa ou as pessoas que. Que pessoa ou pessoas?
Querubim, (do hebreu Kerubim>latim cherubim). Anjo da primeira hierarquia; cabeça
de criança com asas, representando anjo; criança formosa.
Quinhão, (do latim quinione).Parte que cabe a cada um na divisão de um todo; Por-
ção que se adquire quando é distribuída ou repartida alguma coisa; quota-parte; par-
cela; partilha; herança; Fig. Destino; sorte.
Raciocínio, (do latim ratiociniu). Acto, faculdade ou maneira de raciocinar, de pensar.
Encadeamento de argumentos ou juízos para chegar a uma demonstração.
Racional, (do latim rationale). Que é dotado e faz uso da razão. Que raciocina. Con-
forme à razão.
Rancor, (do latim rancore). Ressentimento profundo decorrente de mágoa que se
sofreu sem protesto. Ódio oculto, não manifestado.
Razão, (do latim ratione). Faculdade com que o homem discorre, julga e se distingue
dos animais. Faculdade de conhecer, de compreender, de distinguir a relação das
coisas, o verdadeiro do falso, o bem do mal. Raciocínio.
re). Passar de um corpo para outro; mudar-se de um sítio para o outro.
Recíproca, (de recíproco). O inverso; reciprocidade; ideia oposta.
Recobrar, (do latim recuperare). Adquirir novamente. Recuperar o que se tinha per-
dido. Retomar; voltar à posse de.
Recrear, (do latim recreare). Proporcionar recreio a. Divertir; causar prazer a. Descan-
sar do trabalho.
Redenção (do latim redemptione). Acto ou efeito de redimir ou remir; resgate; O
Redenção,
resgate da humanidade, por Jesus Cristo; esmolas que se davam para remir os cati-
vos; remédio; salvação.
Redimir, (do latim redimere). O m. q. remir.
Reencarnação, (de re-+encarnação).Acto ou efeito de tornar a encarnar. Volta do
Espírito à vida corpórea, pluralidade das existências, palingenesia. Consiste em admi-
tir para o espírito várias existências corpóreas, na mesma espécie ou numa mais evo-
luida.
Regeneração,(do
Regeneração latim redimere). Adquirir de novo; tirar do poder ou domínio alheio;
redimir; resgatar; livrar; salvar; tornar esquecido; reabilitar-se; livrar-se de um encar-
go.
Reger, (do latim regere). Dirigir; governar; guiar; encaminhar; leccionar;
Regozijar, (do cast. Regocijar). Causar regozijo; alegrar; contentar muito; ~se, ~se v. r.
Alegrar-se; congratular-se.
Religião, (do latim religione). Culto prestado à divindade; conjunto de preceitos e
práticas pelas quais se comunica com um ser ou seres superiores; doutrina ou crença
religiosa. Laço essencialmente moral que religa os homens comunidade e comunhão

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de sentimentos, de princípios e de crenças. Culto prestado às divindades e os deveres


dos crentes para com eles. A elas estão associados hierarquias, cultos, rituais, dog-
mas, paramentos, etc.
Remanescer, (do latim remanescere). Sobrar; sobejar; restar.
Reminiscência, (do latim reminiscentia). Capacidade de fixação e reprodução pela
Reminiscência,
memória; aquilo que fica de memória; recordação vaga; lembrança apagada.
Remir, (do latim redimere). Adquirir de novo. Tirar do poder ou domínio alheio. Li-
vrar; salvar. Tornar esquecido. Indemnizar.
Remissão, (do latim remissione). Indulgência; misericórdia; perdão.
Remontar, (do fr, remonter). Fazer remonta; elevar muito; voltar muito atrás no pas-
sado; refugiar-se em locais muito elevados.
Remonte, (de remontar). Acto ou efeito de remontar; locar elevado ou remoto;
Render, (do latim rendere, por reddere). Obrigar a ceder ou capitular; sujeitar; sub-
meter; prestar. Atrair; comover.
Renúncia, (de renunciar). Resignação de lugar ou cargo. Desistência; sacrifício.
Repressão, (do latim repressione). Acção ou efeito de reprimir. Coibição; proibição.
Reprodução, (de re-+produção). Acção ou efeito de reproduzir. Imitação perfeita;
cópia. Multiplicação; propagação.
Repugnar, (do latim repugnare). Reagir contra; contrariar. Recusar; rejeitar; não acei-
tar.
Repulsão, (do latim repulsione). Força em virtude da qual alguns corpos se repelem
mutuamente. Acção ou efeito de repelir.
Resgatar,(do
Resgatar, latim recaptare). Obter o resgate de; livrar do cativeiro; remir; expiar;
executar.
Resgate, (de resgatar). Preço por que se resgata. Redenção. Libertação. Quitação.
Resignação, (de resignar). Acção ou efeito de resignar. Desistência ou cedência vo-
luntária de uma coisa ou de um cargo a favor de outrem. abdicação; renúncia. Con-
formidade. Coragem na adversidade.
Ressarcir, (do latim resarcire). Reparar o mal ou dano causado a outrem. Indemnizar;
compensar; dar uma satisfação a. refazer.
Ressurreição, (do latim ressurrectione). Acção de ressurgir ou aparecer vivo depois de
ter morrido; Fig. Revivescência; P. ext.
ext. Cura imprevista.
Retardatário, (de retardar).Que ou aquele que está atrasado.
Retrogradar, (do latim retrogradare). Andar para trás; recuar; retroceder; agir em
oposição ao progresso.
Retrogrado, (do latim retrogradu). Que retrograda; que é adverário do progresso;
indivíduo retrógrado.
Revelação, (do latim revellatione). Conjunto de verdades manifestadas por alguém
ou algo ao homem mediante inspiração ou pelo ensino oral, comunicação aos profe-
tas, apóstolos e demais homens.
Revelador, (do latim revellatore). Que ou aquele que revela, que denuncia, declara,
descobre, patenteia.
Revelar, (do latim revellar). Tirar o véu a. Declarar, denunciar, descobrir, patentear.
Fazer conhecer o que era secreto ou ignorado.
Revelia, (de revel). Rebeldia. Ao acaso.
Reverso, (do latim reversu). Que está situado na parte posterior ou oposta. Revirado.
Reverso,
Que voltou para o ponto de partida.
Reverter, (do latim revertere). Regressar; voltar ao ponto de partida. Retroceder. Vol-
tar para a posse de alguém.
Revés, (do latim reverse). Contrariedade; vicissitude. Infortúnio; fatalidade.
Ritual, (do latim rituale). Relativo a ritos. Regra e cerimónia praticada num culto ou
religião. Qualquer cerimonial; praxe. Livro de ritos de qualquer culto. Protocolo.

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Sabedoria, (de saber). Conhecimento extenso e profundo das coisas. Ciência. Quali-
dade de quem é sabedor, de quem tem muita instrução. Grande circunspecção e
prudência; juízo; bom senso; razão; rectidão. Teol. Conhecimento inspirado das coi-
sas divinas.
Sábio, (do latim sapidu). Diz-se do que sabe muito; erudito. Que tem a faculdade de
bem julgar. Prudente; avisado; perito. Indivíduo de muita sabedoria ou ciência.
Saciedade, (do latim satietate). Estado de quem está saciado. Repleção; satisfação
plena. Fartura. Fastio.
Saduceu, (do latim sadducaeu). Elemento de seita judaica, oposta ao farisaísmo, que
se caracteriza pelo seu espírito helenista, rejeitando as tradições antigas e a predesti-
nação e reconhecendo apenas como regra a lei escrita.
Sanção, (do latim sanctione) Acto pelo qual umas lei ou uma decisão se torna execu-
tória ou definitiva; consequências morais ou sociais dos actos; confirmação; aprova-
ção; assentimento.
Sátira, (do latim satira). Composição mordaz, que ridiculariza os vícios ou defeitos de
alguém, de forma irónica ou jocosa.
Segredo, (do latim secretu). Aquilo que se quer cuidadosamente ocultar ou se não
deve dizer. Aquilo que não está divulgado.
Seita, (do latim secta). Doutrina ou sistema que se afasta da crença geral. Facção.
Reunião de pessoas que professam uma religião diversa da geralmente seguida. Par-
tido. Bando.
Senda, (do latim semita). Atalho; caminho; vereda. Fig. Hábito; rotina.
Senil, (do latim senile). Relativo à velhice. Próprio de velho. Resultante da velhice.
Sensação, (do latim sensatione). Acção ou função sensorial. Tomada de consciência
da alteração interna ou externa de um ou vários sentidos em simultâneo, conduzida
pelos nervos ao cérebro. Sensibilidade. Comoção moral; emoção.
Sensualidade, (do latim sensualitate). Qualidade de sensual. Luxúria; volúpia.
Sensualismo, (de sensual). Filos. Doutrina que considera ser a satisfação carnal o pra-
zer último de homem.
Sentimento, (de sentir). Acto ou efeito de sentir. Conjunto de qualidades morais ou
de carácter que formam a mentalidade do indivíduo e lhe norteiam a conduta; atitu-
de moral; índole.
Séquito, (do latim sequitu). Conjunto de pessoas que acompanham ou seguem algo
ou alguém, por dever ou cortesia.
Ser, (do latim sedere). Aquele ou aquilo que existe. O que é sensorialmente cognos-
cível e se opõe ao nada. ~inorgânicos, que carecem de vida. Sem organização capaz
de nele viver alguma coisa. ~orgânicos, seres possuidores de mecanismos e corpo
organizados capazes de neles existir a faculdade de viver.
Serafim, (do latim seraphim ou seraphin). Anjo da primeira hierarquia, pertencente
ao primeiro dos nove coros celestiais. Figuração artística de um anjo.
Serenidade, (do latim serenitate). Estado ou qualidade de sereno. Prudência; refle-
xão. Tranquilidade de espírito; suavidade de ânimo. Calma; sangue frio. Paz; quietu-
de.
Sideral, (do latim siderale). Relativo aos astros, ao céu.
Sincretismo, (do grego synkretismós). Filos. Mistura mais ou menos confusa de dou-
trinas diferentes recebidas sem espírito crítico e, por conseguinte, que não constitui
um sistema coerente.
Sínodo, (do grego synodos). Assembleia de eclesiásticos convocados pelo seu prela-
do ou por outro superior; antigo nome dos concílios.
Sintético, (do grego synthetikós). Feito em síntese, resumido.
Sintonia, (do grego syntonia). Simultaneidade. Acordo mútuo (de sentimentos, idei-
as, etc.); reciprocidade; simpatia.

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Soberano, (do latim superanu). Que tem soberania; supremo; absoluto. Excelente. O
que exerce poder supremo. Potentado. Dominador.
Sobrenatural, (de sobre + natural). Superior às forças da natureza; fora das leis natu-
rais. Extraordinário; miraculoso.
Sobrepujar, (do latim superpodiare) . Exceder. Superar. Ultrapassar. Sobressair.
Sociedade, (do latim societate). Reunião de pessoas unidas pela origem e pelas
mesmas leis. Relação entre pessoas. Convivência.
Sofrimento, (de sofrer). Acto ou efeito de sofrer; padecimento. Fig. Desgraça;
amargura.
Solidariedade, (de solidário). Qualidade de solidário. Carácter do que, de facto ou de
direito, é solidário. Responsabilidade recíproca.
Sonambulismo,
Sonambulismo, Fenómeno anímico em que o Espírito encarnado utiliza, num estado
de torpeza, o seu próprio corpo para se comunicar. O espírito tem então percepções
de que não dispõe no sonho, que é um estado de sonambulismo imperfeito. O espí-
rito preocupado com alguma coisa aplica-se a uma acção qualquer, para cuja prática
necessita utilizar-se do seu próprio corpo. Serve-se então deste, como se serve de
uma mesa ou de qualquer outro objecto material.
Sorte, (do latim sorte). Destino; dita; ventura; acaso; risco; acontecimento fortuito,
bom ou mau; infelicidade constante; fadário;
Subalterno, (do latim subalternu). Subordinado; dependente de outrem; que é sujei-
to a outro; que está sob as ordens de outrem.
Sublime, (do latim sublime). Elevado; excelso; muito nobre; grandioso. Magnífico;
esplêndido. Elevado nas suas palavras ou nos seus actos. Poderoso; majestoso. O que
há de mais belo e elevado nos pensamentos e nas acções.
Sublimidade, (do latim sublimitate). Elevação; perfeição; excelência. Grandiosidade;
nobreza; poder; majestade; esplendor.
Sucessivo, (do latim sucessivu). Relativo a sucessão; que sucede sem interrupção;
contínuo; consecutivo; repetido; sequente; Ant. Hereditário.
Sucumbir, (do latim succumbere). Cair sob o peso de; cair debaixo; abater-se; vergar-
se. Ceder; deixar-se vencer ou abater; não aguentar mais.
Sujeição, (do latim subjectione). Estado do que está sujeito. Dependência; obediên-
cia; jugo; vassalagem.
Superioridade, (de superior). Qualidade do que é superior. Autoridade. Excelência.
Ascendente, no sentido de predomínio, influência.
Superstição, (do latim superstitione). Sentimento religioso excessivo ou erróneo, que
consiste em atribuir a certas práticas uma eficácia sem razão, arrastando as pessoas
à prática de actos indevidos e absurdos. Falsa ideia a respeito do sobrenatural; cren-
dice. Temor absurdo de coisas imaginárias; excessiva credulidade.
Suplício, (do latim suppliciu). Grave castigo corporal ordenado por sentença; tortura;
pena de morte; execução capital; pessoa ou coisa que aflige muito; sofrimento cruel;
grande tormento.
Supremo, (do latim supremu). Que está acima de tudo. O primeiro, o principal, o
mais alto, ou o mais elevado.
Tácito, (do latim tacitu). Calado; silencioso. Não expresso, mas que se subentende.
Tangível, (do latim tangibile). Que se pode tanger, tocar ou apalpar. Sensível; palpá-
vel.
Telegrafia, (do grego têle+graphé). Sistema que transmite sinais gráficos à distância.
Tenaz, (do latim tenace). Aferrado; pertinaz; teimoso; obstinado. Constante; firme;
perseverante; persistente.
Tenebroso, (do latim tenebrosu). Muito escuro; envolto em trevas; sombrio; malévo-
lo; infernal; misterioso; difícil de entender; pungente; aflito; magoado; dolorido.

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Teogonia, (do grego theogonía). Genealogia dos deuses pagãos. Sistema religioso no
paganismo.
Teologia, (do grego theós + lógos). Doutrina acerca do que é divino; tratado de
Deus. Curso de estudos teológicos.
Tetrarca, (do grego tetrárkhes). Antigo governador de uma tetrarquia.
Tetrarquia, (de tetrarca). Cada uma das quatro partes em que se dividiam alguns
estados, ao tempo do Império Romano.
Tirano, (do grego tyrannos >latim tyrannu). Opressor. Aquele que usurpa o poder de
um estado. Soberano injusto e cruel que governa sem limitação legal. Pessoa cruel,
desumana.
Torpeza, (de torpe). Procedimento ignóbil ou indigno. Desvergonha; desonestidade.
Trabalho, (do latim tripaliu). Acto ou efeito de trabalhar. Qualquer ocupação manual
ou intelectual. Serviço; lida.
Tradição, do latim traditione). Acto de transmitir ou integrar. Transmissão oral factos,
lendas, dogmas. Coisa transmitida. Uso; hábito.
Tradicional, do latim traditionale). Relativo à tradição. Conservado na tradição.
Transfiguração, (do latim transfiguratione). Acto ou efeito de transfigurar; mudança
de uma figura noutra; estado glorioso em que, segundo o Evangelho, Jesus Cristo
apareceu no monte Tabor.
Transgredir, (do latim transgredere). Ir ou passar além de. Infringir; quebrantar; vio-
lar.
Transigir, (do latim transigere). Chegar acordo. Ceder; condescender. Conciliar.
Transmigração, (do latim transmigratione). Acto ou efeito de transmigrar; metempsi-
cose (das almas).
Transmigrar, (do latim transmigra). Migrar de um astro para outro astro.
Transmigrar,
Trasgo, (etim. incerta). Aparição fantástica; duende. Fig. Pessoa muito travessa ou de
má índole.
Tribulação, ((do latim tribulatione). Acção ou efeito de tribular; aflição; adversidade;
amargura; infortúnio.
Tridimensional, (do latim tri-+dimensione). Que tem três dimensões (comprimento,
largura e altura).
Trindade universal, Princípio de tudo o que existe, constituído por Deus, Espírito e
Matéria. Nada para além disto existe no Universo.
Trivialidade, (de trivial). Qualidade do que é trivial; vulgaridade. Banalidade.
Turbilhão, (do fr. Tourbillon). Vento tempestuoso que sopra; redemoinhando; agita-
ção; Fig. Tudo o que impele o homem à prática do mal ouà satisfação das suas pai-
xões.
Ulcerar, (do latim ulcerare). Causar ulcera em. Fig. Corromper; magoar profunda-
mente, ganhar sofrimento moral, magoar-se.
Único, (do latim unicu). Que é um só. Não tem par na sua espécie ou género. Sem
igual; exclusivo. Que não tem competidor; o melhor.
Universalidade, (do latim universalitate). Qualidade de universal. Generalidade; tota-
lidade.
Universo, (do latim universu). Conjunto ilimitado de todo o espaço existente e o seu
conteúdo.
Utopia, (do grego ou+tópos). O que foi, é e será irrealizável. Fantasia, quimera.
Utópico, (de utopia). Relativo à utopia. Fantasioso; quimérico.
Vacuidade, (do latim vacuitate). Estado de vazio. Inanidade.
Vácuo, (do latim vacuu). Que não contém nada; vazio. Espaço onde não existem
moléculas nem átomos.
Ventura, (do latim ventura). Fortuna próspera. Boa sorte. Perigo; risco. Destino. Aca-
so.

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Via-
Via- láctea. Nebulosa que se apresenta à nossa vista como uma faixa esbranquiçada
no firmamento, a que pertence o Sol.
Vício, (do latim vitiu). Imperfeição grave pela qual uma pessoa ou uma coisa se afas-
ta do tipo normal. Hábito profundamente enraizado de acções gravemente imorais.
Desmoralização; libertinagem; defeito; mau hábito.
Vicissitude, (do latim vicissitudine). Alteração; instabilidade das coisas.
Vida, (do latim vita). O resultado da actividade comum às plantas e aos animais e
que concorrem para o seu desenvolvimento e conservação. Existência. Tempo que
decorre entre o nascimento e a morte. Conjunto de coisas necessárias à subsistência.
Actividade; movimento; calor; animação. Origem. Modo de viver.
Vidente, (do latim vidente).Pessoa dotada de mediunidade de vidência que, lhe per-
mite ver os espíritos e o mundo espiritual.
Vigorar, (do latim vigorare). Dar vigor a. Tornar mais energético; imprimir vigor ou
força a. Encorajar.
Vinculado, (de vincular). Ligado ou instituído por vínculo, ou da natureza deste.
Vislumbrar, (do cast. Vislumbrar). Entrever; lobrigar; enxergar; ver indistintamente;
alumiar frouxamente; conhecer imperfeitamente;;
Vital, (do latim vitale). Relativo à vida; que pertence à vida. Próprio para conservar a
vida. Que dá força; fortificante. Princípio ~ Realidade energética, que deriva do Fluido
Cósmico Universal, que é o responsável pelo fenómeno de vida nos seres orgânicos.
Vivificar, (do latim vivificare). Dar vida a. Animar; reanimar; dar vigor a.
Volver (do latim volvere). Acto ou efeito de voltar. Regressar.
Vontade, (do latim voluntate). Faculdade que o homem tem de, conscientemente,
determinar se pratica ou não um certo acto. Firmeza moral. Desejo; intenção; gosto;
empenho; interesse; necessiaede física ou moral; ; apetite; disposição favorável ou
não.
Vulgo, (do latim vulgu). O comum das gentes; o povo; a plebe; a classe popular.
Xenofobia, (do grego xénos+phóbos). Aversão a tudo o que é estrangeiro; naciona-
lismo extremado.
Zombeteiro, (de zombar). Que ou aquele que zombeteia, escarnece, graceja, goza.
Abalo, (de abalar). Acção ou efeito de abalar. Tremor de terra. Alvoroço, surpresa.

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“As descobertas da Ciência, longe de rebaixá-
lo, glorificam a Deus. Elas somente destroem o
que os homens construíram sobre as ideias falsas
que hão feito de Deus.
O Espiritismo, avançando com o progresso,
jamais será ultrapassado, porque, se novas
descobertas lhe demonstrarem que está em erro
acerca de um ponto, ele se modificará nesse
ponto; se uma verdade nova se revelar, ele a
aceitará.”
(Allan Kardec, A Gênese, capítulo 1 – Carácter da Revelação Espírita)

“O Espiritismo é uma questão de fundo;


prender-se à forma seria puerilidade indigna da
grandeza do assunto.”
(Allan Kardec, Obras Póstumas, Constituição do Espiritismo)

“Mas, fiel ao princípio de liberdade de


consciência, que a Doutrina proclama como
direito natural, ela respeitará todas as convicções
sinceras e não anatematizará os que sustentem
ideias diferentes das suas, nem deixará de
aproveitar as luzes que possam brilhar fora do
seu seio.”
(Allan Kardec, Obras Póstumas, Constituição do Espiritismo)

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