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F o rma ç ã o : h is tó ria s

XPERIENCIA
BRASILEIRA
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Os 500 Anos de Brasil são os inspirado


res de Viag em inc om pleta. A experiên
cia brasileira (1500-2000), coletânea

de ensaios
nossa produzidosque,
historiografia por iluminando
mestres da
mo me ntos do passado, lançam luz sobre
o presente. Seu coordenador, o histo ria
dor Carlos Guilherme Mota, autor de
impo rtantes trabalhos individua is, foi o
responsável por duas marcantes obras
coletivas, Brasil em perspectiva (1968) e
1822: dimensões (1972). Neste primei
ro volume, V i age m i nco mpl eta. Forma 
ção: histórias, ao qual se seguirá Via
g em i ncompl e ta. A grande t r a n s a ç ã o , os
temas tratados vão da pré-história da
América tro pical à passagem da m onar
quia para a república. A Editora SENAC
São Paulo e o SESC São Paulo, ao apre
sentar estas reflexões, estão certos de
contribuir para os debates sobre os fun
damentos de nossa cidadania e identi
dade cultural.
ISBN 85-7359-110-2

Co-edição:

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V I A G E M
INCOMPLETA Carlos Guilherme Mota

F o r m a ç ã o : htetórias

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Viagem incompleta. A experiência brasileira (1500-2000).

A EXPERIÊNCIA
Formação: histórias / Carlos Guilherme Mota (organi
zador). - São Paulo : Editora SENAC São Paulo, 2000.

Vários autores.
Bibliografia.
"«^JSBN 85-7359-110-2

1. Brasil - Civilização 2. Brasil - H istória - 1500-2000


3. Cultura - B rasil 4. Raças - B rasil I. Mota, Carlos Gui
lherme, 1941.

99-5473
índices para catálogo sistemático:
CDD-981 BRASILEIRA
1. Brasil : Civilização 981 Go-edição:
2. Brasil : Cultura : Civilização : História 981 senac
Brasil: Formação histórica 981
3.
4. Brasil : História: 1500-2000 981 DD
SÃO PAULO
S Ã O P A U L O

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A D M I N I S T R A Ç Ã O R E G I O N A L D O SENAC N O E S T A D O D E S Ã O P A U L O
Presidente do Conselho Regional: Abram Szajman Sumário
Diretor do Departamento Regional: Luiz Francisco de Assis Salgado
Superintendente de Operações: Darcio Sayad Maia

EDITORA SE NA C SÃO PAULO


Conselho Editorial: Luiz Francisco de Assis Salgado Nota do Editor, i
Clairton Martins
Décio Zanirato Júnior Nota do Co-Editor, 9
Darcio Sayad Maia
A. P. Quartim de Moraes
Introdução
Editor: A. P. Quartim de Moraes ( quartim@sp.senac.br)  Carlos Guilherme Mota, 11
Coordenação de Prospecção Editorial: Isabel M. M. Alexandre (ialexand@sp.senac.br) 
Coordenação de Produção Editorial: Antônio Rob erto Bertelli (abertell@sp.senac.br)  Incursões à pré-história da América tropical
Az i zNac i bAb ' S aber, 29
Preparação de Texto: Luiza Elena Luchini
Luiz Carlos Cardoso A gênese do Brasil
Revisão de Texto: Ivone P. B. Groenitz
Izilda de O. Pereira Jorge Couto, 45
J. Monteiro

Márcio Delia
Maristela S. daRosa
Nóbrega Uma Nova Lusitânia
Evaldo Cabral de Mello, 71
Pesquisa Iconográfico: Emporium Brasilis Memória e Produção Cultural
Edição de Imagens e Legendas: Carlos Guilherme Mota e Vladimir Sacchetta
Reproduções Fotográficas e Laboratório: Rangel Estúdio "Ge nte da terra brazil iense da nasçã o". Pensando o B r asi l : a construção de um povo
Capa: João Baptista da Costa Aguiar Stuart B. Schwartz, 103
Editoração Eletrônica: Antônio Carlos De Ângelo
Impressão e Acabamento: Hamburg Donnelley Gráfica Editora Peças de um m osaico (ou apontamentos para o e studo da emergência da identidade
Gerência Comercial: Marcus Vinicius B. Alves (vinicius@sp.senac.br)  nacional brasileira)
Vendas: José Carlos de Souza Jr. (jjr@sp.senac.br)  István Jancsó e João Paulo G. Pimenta, 127
Administração: Márcio Tibiriçá (marcio.tibirica@sp.senac.br ) 
Por que o Brasil oi d iferente? 0 contexto da independência
Kenneth Maxwe ll, 177

Idéias de B r asi l : formação e problemas (1817-1850)


Carlos Guilherme Mota, 197
Todos os direitos desta edição reservados à
Editora SENAC São Paulo "Nos acha mos e m cam po a tratar da liberdade" : a resistência negra no Brasil oitocentista
Rua Teixeira da Silva, 531 - CE P 04002-032 João José Reis, 241
Caixa Postal 3595 - CEP 01060-970 - São Paulo - SP
Tels. (11) 884-8122 / 884-6575 / 889-9294 Olhares e strangeiros sobre o Brasil do século XIX
Fax(11)887-2136
E-mail:  eds@sp.senac.br  Karen Macknow Lisboa, 265
Home page:  http://www.sp.senac.br 

© Carlos Guilherme Mota, 1999

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I
O Brasil no espelho do Paragua i
Francisco Alambert, 301 Nota do Editor
U m B r a s i l m e s t iç o : r aç a e c u l tu r a n a p a s s a g e m d a m o n a r q u i a ò r e p ú b l i c a
I Roberto Ventura, 329
\ J r a n d e  virtude dos aniversários "redondos" de eventos históricos é
Sobre os autores, 3 6 i que eles convidam à reflexão sobre o período entre os dois pontos-limite. É
como se um olhar abrangente partisse de u m a posição privilegiada, n u m úni
co lance distinguindo melhor alguns aspectos sem deixar de abarcar com
segurança o conjunto.
Estes 5 00 A nos de B rasil são inspiradores também porque encontram
a inteligência do país em plenas condições para um balanço da trajetória.
Por acreditar nisso, a Editora SEN AC São P aulo já lançou três livros sobre
o tema e prepara-se para outros mais, como este que se apresenta em dois
volume s. A biografia d a heroína brasileira Anita Garibaldi, escrita p o r Paulo
M arkun, foi o primeiro deles, seguida por Outros 500, uma análise da "alma
brasileira" pelo psicanalista Roberto G ambini em d iálogo com a jornalista
Lucy Dias, e por Introdução ao Brasil - um banquete no trópico, coletâ
ne a de resenhas de livros fundamentais do país, organizada por Lourenço
Dantas Mota.
Este Viagem incompleta. Formação: histórias, a que se seguirá Via
gem incompleta. A grande transação, vale também como Introdução ao
Brasil conduzida com competência por mestres d a historiografia brasileira,
aqui coordenados pelo saber de Carlos Guilherme Mota, em um trabalho
que é prova da maturidade alcançada pelos estudos históricos em nosso
país.
A viagem é incompleta pelos motivos que o organizador d o livro expõe
adiante. M as tem a admirável completude de uma série de estudos que hon
ram seu grande tema: o B rasil.

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Nota do Co-Editor

x V reflexão sobre nossa formação histórica, mais que uma tarefa, é


uma condição permanente de todos aqueles que, para qualificar sua ação
cotidiana, necessitam entender as raízes de nossas mazelas e virtudes. Os
500 anos de Brasil e, mais precisamente, os 180 anos desde a fundação de
um Estado B rasileiro, na verdade, construíram a organização social, política
e cultural com que lidamos a toda hora.
A compreensão das condições atuais de nossa existência como sistema
social será sempre um processo inacabado, já que não se trata de um olhar
objetivo sobre um passado encerrado, mas o recurso a modelo s de interpre
tação que nascem das necessidades e formulações do presente. Assim, o
olhar histórico é, antes de tudo, um olhar para o presente e para a necessi
dade de se buscarem explicações para os fatos que conduzem ou condicionam
nossas ações.
O SE SC - Serviço Social do Comércio, cuja missão é oferecer opor
tunidades de desenvolvimento pessoal e comunitário por meio do lazer
sociocultural a seu público específico e à população em geral, cumpre dois
objetivos ao assumir a co-edição desta publicação. Em primeiro lugar, pro
põe-se contribuir para o debate das grandes questões que estão na origem
da formação da nacionalidade brasileira, cuja reflexão s e constitui em funda
mento para a cidadania. Em segundo lugar, propõe-se contribuir para o aper
feiçoamen to do s modelo s institucionais de ação cultural, na busca de uma
pedagogia que estabeleça parâmetros para uma educação social e perma
nente, num
portanto, processo
com contínuo dedeencontro
a sua capacidade da sociedade
criação, seus costumesconsigo
sociais, mesma e,
po líticos
e eco nôm icos, suas crenças e sua inserção no contexto internacional globa
lizado.
Este primeiro volume apresenta uma visão renovada da história, novas
idéias de Brasil, segundo o organizador Carlos Guilherme M ota, num enfoque
interdisciplinar, que serão de grande valia para a reflexão sobre a constitui
ção de uma cidadania e identidade cultural, relacionadas com nossa própria
formação social.
Danilo S antos de Miranda
Diretor Regional do SESC em São Paulo
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Introdução
nt k-
Carlos Guilherme Mota

0 d e s p o t i s m o d e c e r t o p a í s q u e c o n h e ç o é a ç u c a r a d o e m o l e ; m a s p o r isso
m e s m o p e r i g o s o , po r t i r a r t o d o n e r v o a o s e s p í r i t o s , e a b a s t a r d a r os c o r a 
ções.

José Bonifácio

OI RIPTI*

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I
-Ldéias de Brasil, eis a temática geral da obra que o leitor tem sob seus
olhos.
Trata-se, aqui, de indagar, ao longo dos estudos e ensaios elaborados
por especialistas convidados, dos sentidos da história do processo civilizador
no B rasil. Procurando escapar dos mod ismos da pós-modernidade periféri
ca e do con vencionalismo, perquirem-se nestas páginas alguns significados
de nossa formação e existência enquanto povo. D e nossos modos de pensar
e fazer história, enfim. Daí, o tom do minante dos escritos, em que os autores,
de orientações intelectuais distintas, reconstroem processos e aspectos m e
nos óbvios do passado, ao mesmo tempo que discutem com as historiografias
clássica e contemporânea, exercitando a indagação interdisciplinar. Idéias d e
"Brasil", vasto campo interdisciplinar, com o "C hina", "Espanha", "Amazo
nas". Ou - quão dessemelhante - com o a triste "Bahia".
A obra, planejada em dois volu mes, abarca cinco séculos daquilo que
se poderia denominar "experiência brasileira". Um longo processo, inacabado
como tudo em história, porém particularmente incom pleto, se constatarmos
que
Terramuito - quase
brasilis, tudo, conforme
sobretudo no que se arefere
perspectiva - ainda
aos direitos resta por
e deveres da fazer na
cidada
nia. Terra sobre a qual, num distante ano de 1986, um de seus poetas-canto-
res, A ntônio Carlos Jobim, ao comentar o encerramento de um longo cic lo
histórico-cultural iniciado co m a Semana de 22 , concluiu: "No Brasil, o futu
ro já era".
Os dois volum es, independentes, obedecem a um plano geral.
O primeiro volu me, sob o título geral de "Formação: histórias", trata da
gênese e consolidação de idéias de Brasil, desde os pródromos, primeiras
viagens e projetos de um a "N ova Lusitânia" nos trópicos, até a articulação

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14
Carlos Guilherme Mota
Introdução 15

de uma ordem colonial escravista, alcançando, já no século X IX , o período


da descolonização e a formação de um "Brasil mestiço". Longo processo Como nos inserimos, quase sempre sem sucesso, no mundo contemporâ
pontilhado por insurreições, independência política e conflitos agu dos, du neo? Na entrada de um novo século (e de um novo milênio, fato não
rante o qual se consolidou, na segunda metade do século, nos quadros do despiciendo para historiadores), qual o m otivo d essa sensação de estranha
neocolonialismo, uma sociedade por assim dizer nacional. Uma sociedade inatualidade cultural e política que atravessa nossa cultura? Sobre quais ba
em que se misturavam valores da velha ordem estamental-escravista co m os ses materiais e éticas construímos nossas auto-imagens coletivas e nossas
novos valores da sociedade de classes em ergente, que as obras emblemáticas utopias? Em suma, de que história/histórias/estórias está-se falando?
de G ilberto Freire e C aio Prado Júnior traduziriam exemplarmente. Numa visão atualizada, retoma-se aqui a experiência de Brasil em pers
Os estudos e ensaios aqui incluídos procuram desvendar essas idéias pectiva, obra coletiva de 1968, que, hoje, com mais de vinte reedições,
de Brasil, orientadas no sentido da busca de um novo padrão social, de marcou várias gerações de historiadores, jornalistas, diplomatas, pesquisa
urbanização e de inserção na ordem internacional, bem como de uma mo dores, estudantes e leitores em geral, por oferecer abordagens inovadoras
derna organização institucional, po lítica e cultural. da história do Brasil.
O segundo volume é dedicado praticamente ao "longo" século XX, Ag ora, o ob jetivo se amplia. Até porque a historiografia brasileira se
sob o título geral "A grande transação". Ne le, sã o tratadas as experiências atualizou bastante, com obras tão estimulantes como as de José Murilo de
de implantação de idéias republicanas e de conceitos contemporâneos de Carvalho, Evaldo C abral de M ello, João José Reis, Fernando A. N ovais e
cultura e de E stado, com ênfase nas novas interpretações históricas, socio ló tantos outros. Nos anos 70, a reedição ampliada de Os donos do poder, do
gicas, literárias sobre "nossas identidades". Desde o "Brasil mestiço" dos jurista e historiador Raym undo Faoro, a continuação e aprofundamento crí
intelectuais da Primeira República até os impasses da esquerda nas últimas ticoconsagrados
já das obras deque
Florestan
veriamFernandes e de Anintelectuais
suas biografias tônio C ândido - três autores
intensificadas e
quatro décadas, passando pelos projetos da ditadura civil-militar que nos
avassalou no período de 1964 a 1984, deixando seqüelas estruturais e imensa politizadas no último quartel do século X X - , entre muitos outros, sugerem
dívida social, o leitor encontra nestas páginas elementos para uma visão re uma revitalização e ampliação notável dos estudos históricos entre nós, em
novada da história - ou melhor, histórias - dos embates, das produções busca da especificidade de nossa formação.
intelectuais, imp asses e resultados do que se poderia denominar pensamento Com efeito, a pesquisa histórica adquiriu novos conteúdos, incorpo
brasileiro, na teoria e na prática. rando as experiências e descobertas de historiadores mais maduros, como
M anuel Correia de Andrade, Francisco I glésias, Luís H enrique Dias Tavares,
Ernani Silva B runo, Maria Yedda Linhares, José Honório R odrigues.
II Demais, a partir dos anos 50, tornaram-se fundamentais em nossa
historiografia as produções de Stanley e Bárbara Stein, Charles R. Boxer,
"Onde o Brasil?", perguntava num verso conhecido o poeta Carlos
Drummond de Andrade. Richard M
Thomas orse, Warren
Skidmore, LeslieDean, Joseph
Bethell, L ove, Mauro,
Frédéric R ichardJoaquim
Graham,Barradas
John Wirth,
de
O s estudos aqui reunidos foram elaborados no apagar de luzes do sé Carvalho, para mencionarmos alguns intelectuais e pesquisadores de expre s
culo XX. Século de descobertas e inovações, mas também de retrocessos e s ã o . Impo ssível deixar de registrar o papel crítico e solidário que desem pe
desencontros culturais, políticos, religiosos e econômicos, que se encerra nharam na resistência à última ditadura.
numa profunda crise mundial de valores. E stes textos carregam o m al-estar
de nosso tempo, o travo de nossa mal-ajambrada e improvável civilização
que, à falta de melhor qualificação, se imagina "tropical". E pensando nas MI
tarefas que nos aguardam na elaboração de nossa cidadania nacional e inter
nacional no século XXI, trazem eles indagações agônicas, dúvidas antigas. N esta via gem transecular, procurou-se evitar persistente visã o linear e
supostamente evolutiv a da chamada história do Brasil. N ão se retrocederá

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16 Carlos Guilherme M o f a Introduçõo „ 17

aqui, portanto, à discussão de " u m " Descobrimento, apenas. A história do c i o " , de "fim d a história",\"fim d a s ideologias". Com efeito, a queda d o Muro
Brasil propriamente, n a perspectiva d o organizador, somente s e afirmaria no de Berlim , as novas experiências d a China, a desagregação da União Sovié
período d a independência, quando se esboça u m a historiografia "brasileira", tica, a unificação européia, as novas tecnologias revolucionando as comuni
delineando-se então, com maior nitidez, os embates em busca de u m projeto cações e o renascimento de religiões fundamentalistas abalaram os alicerces
para a futura nação. N o período em que se processou a colonização portu das interpretações históricas que definiam e aprisionavam os sentidos mais
guesa, estudos.
destes diversas Midéias detrabalhamos,
as não B rasil são procuradas
vale grifar,oucom
revisitadas pelos autores
a equivocada "Histó
radicais da vida social, política, econ ômica e cultural contemporânea, obri
gando os pesquisadores a dar maior atenção aos estudos de história para
ria do Brasil Colonial", que aliás não existe. formular um conceito m ais eficiente e efetivo de democracia. Ne sse quadro,
N essa perspectiva, o B rasil passaria a existir somente após 1817-1831, a hegem onia norte-americana e a globalização obrigam-nos a outra conside
mais ou m enos, numa conflituosa, lenta, complicada estruturação política, ração histórico-historiográfica, inclusive para se "re-situar" a trajetória do
social, ideológica, econômica que ainda está por se esclarecer. Indicativa Brasil nessa nova er a histórica, em q u e se revisita a própria idéia de América
dessa situação é a coexistência d e costumes, valores, economias, instituições Latina. Hipóteses de criação de centros de estudos avançados e de pesqui
e normas que se referem, na atualidade, a "dois Brasis", ou muitos mais, sas históricas voltam a preocupar governantes responsáveis e lideranças uni
sugerindo as dificuldades de c onvivência ainda hoje - com o percebeu Marx versitárias, a exem plo do que ocorreu em outros países em conjunturas de
para outra época e contexto - de "estamentos pretéritos com classes futu crise.
r a s " nessa região de pesada herança colonial. No caso de nosso país, de A segunda ordem de acontecime ntos se refere à produção intelectual
remanescentes oligarquias imperiais e d a Primeira República, relacionando-
se com novas frações de classe já orientadas no sentido da construção de em (e frentes
novas sobre) nosso país. Com que,
historiográficas efeito, é surpreendente
desde o florescimento
a última ditadura, de
vêm revelando
uma moderna sociedade capitalista, de contrato (ou, em menor escala, de inquietude discreta porém m alcontida em páginas e páginas de teses, estu
uma ordem socialista e m esmo anarcossindicalista). Os desencontros de for d o s , ensaios, documentários, C D-RO M s e artigos. Portanto, no mesmo passo
maçõ es de temporalidades tão distintas tornaram-se dramáticos, provocan em que a globalização impõe novos hábitos, atitudes e paradigmas para se
do a sensação de desmobilização, de derrapagem permanente, de eterno pensar o presente co mo história e aprofundar-se a crítica d a cultura, agudiza-
recome ço. De inatualidade. se a consciência d a necessidade de reconstrução histórico-cultural de nossas
N uma região do planeta em que vários passados irresolvidos ainda se experiências coletivas e identidades. De nossos modos de viver e fazer a
fazem presentes, a atuação d e filhos d e remanescências coloniais, inquisitoriais, história.
filipinas, joanina s, imperiais, patriarcais e outras sugere o quanto resta ainda E i s , portanto, nestes dois volumes, a resposta ao desafio que nos foi
a se percorrer nesta Viagem incompleta. Em verdade, neste "longo ama proposto pelos editores. A o incorporarmos muitas das novas contribuições
nhecer" - a expressão é de Celso Furtado - da democracia contemporânea, dessa historiografia que se consolida co m todas as inquietações e impasses
muitas veze s o historiador vê-se obrigado a se transmudar em arqueólogo de nosso presente nesta obra, que enfeixa e me scla interpretações clássicas
cultural, tantas são as cam adas histórico-culturais socavadas nesse b loco, e inéditas sobre as ambíguas identidades do Brasil após 500 anos de história
opaco e compacto, a que chamamos, para simplificar, de "sociedade brasi luso-brasileira e 180 anos de busca de vida independente, pensamos ter
leira". construído mais um a ponte para o futuro.
O mom ento atual, de crise internacional e nacional, torna-se particular O Brasil - ou o conjunto de experiências coletivas a que generosa e
mente propício para tais reflexões. C rise que se esclarece n a confluência de espaçosamente denominamos "Brasil" - chega ao século XXI ostentando
duas ordens de acontecimentos, obviamente não dissociada s. A primeira, a uma série de indicadores sociais, econômicos e sobretudo culturais - in
dos acontecimentos que sinalizariam o colapso de uma série de mecan ismos cluam-se aqui a saúde, a educação e a habitação - q u e n ã o permitem entendê-
explicativos da História Contemporânea, dando a sensação de "fim de ci- lo com o país moderno. N ão se trata apenas de lugar-comum dizer-se, com o

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18 Carlos Guilherme Mota Introdução * ,«

nos anos 40-60, que o peso do passado colonial ainda está presente nos Abre o volum e estudo inquietante do professor Aziz Ab'S aber. Procu
impedimen tos e resistências aos esforços para se constituir a nova socieda ra ele estimular a reflexão do leitor sobre movimentos ancestrais de gentes no
de civil democrática. N esta terra, as estruturas político-administrativas, o s espaço no qual viria a se formar o conjunto a que hoje denomina-se "socie
quadros mentais e culturais aprimorados nos períod os imperial e republicano dade brasileira". Ou seja, tenta-se por meio do referido estudo rastrear as
parecem reforçar o peso conservador e e specífico dessa história, mais que vicissitudes de grupos que, ao longo de milênios, se deslocaram para este
oferecer elemno
que, de fato, entos paraestamos
Brasil, o arranque em direção
em dívida com àa contemporaneidade. P or
História C ontemporânea, subcontinente,
aqui, dando
futuro espaço origem ao chamado
"brasileiro", gentio, isto é,pelos
foram "descobertos" aos europeus
habitantese que,
logo
como nos dizem reiteradamente os vigilantes professores Eric Hobsbawm, expostos à pedagogia da sujeição.
A lain Touraine, Ignacy S achs, Stanley S tein, entre outros. Enfrentando a complexidade do tema, relativizam-se aqui, radicalmen
Tentar desvendar e traduzir em linguagem renovada os m ecanismos que te , as questões de espaço/tempo e de formação étnica das sociedades plu
geram as múltiplas ambigüidades que confundem e m nosso país os espa ços rais dessas partes do planeta, sugerindo-se a abertura de uma abordagem
público e privado, medir a assustadora distância entre o atraso e a m odernidade propriamente geo-histórica e civilizacional, em busca de insuspeitada e polê
(em várias dimensões, desde o s direitos mínimos de cidadania até educação mica história, numa três longue durée. Até porque a geografia humana é,
superior, acesso às novas tecno logias, formas de participação social em em certamente, a mais ancestral das disciplinas históricas.
presas urbanas e rurais, em sindicatos, na justiça do trabalho, etc ), não pode
N estes estud os, entretanto, não nos detivemos no tema das "origens".
prescindir da discussão renovada sobre nosso passado coletivo. Sem tais
Preferiu-se adotar a noção de "gênese", na senda dos historiadores Jorge
discussõe s e análises torna-se ínvia a construção do futuro.
Dilacerados entre formas agudas de provincianismo retrógrado e de Cseouto, István Jancsó
aos autores e de outros.
acompanharem Comlogo
desde o ponto de partida
idéias, comum
hipóteses , sugeriu-
e projetos de
cosmopolitismo elitista acendrado, nossa "vocação" latino-americanista, tam
Brasil, termo a um só tempo vago e concreto, qual "novo objeto" para a
bém não por acaso, demora a se afirmar. Sair desse impasse, nutrido por um
déficit histórico estrutural, e procurar responder às demandas de nosso tem velha História das Men talidades e das representações mentais...
p o , eis a tarefa a que se propõem os pesquisadores, professores, diploma "Brasil", palavra com dim ensão geográfica, histórica, social, pinturesca
t as, juristas e historiadores que comparecem nesta publicação. e mitológica, tornou-se com efeito tema d e representações mentais fortíssimas,
Tais estudiosos, esc olhidos dentre gerações, teorias e instituições dis incorporando sons, core s e valores a um só tem po carregados e animadores
tintas, possuem experiência reconhecida, o que permite esperar-se de seus de um imaginário específico, relacionado a modos de ser, pensar, agir. Espe
trabalhos algum efeito duradouro nos estudos históricos entre nós. A já lon cífico e, por assim dizer, fabricado, adensado e razoavelmente auto-referido
gínqua experiência do Brasil e m perspectiva, livro coletiv o da "génération a partir do primeiro quartel do século XIX . N os quadros do neocolonialism o
qui monte" - com o Frédéric Mauro registrou na revista Annales, de Braudel - onde se torna impossíve l distinguir "causas" de "efeitos", visto que o
colonialismo é um sistema - delinearam-se formas próprias de pensamen
-João
publicado em 1968
Cruz Costa, por Paul
permite suporMonteil
não sere impossível
prefaciadoalcançarmos
pelo saudosooprofessor
objetivo to , que, com flutuações de época, polarizam e incandescem de tempos em
nesta nova e desafiadora empreitada. Qual seja a de auxiliar na renovação tempos a sensibilidade de intérpretes, ideólogos, "explicadores do Brasil"
dos estudos históricos e na compreensão de nosso complexo país. em busca de "nossas" raízes, de "nosso caráter", e assim por diante.
C omo se constata, a história estava no lugar, embora muitos persona
gens teimassem em viver fora d e foco, temerosos do haitianismo que poderia
IV incendiar a lavoura e as almas c om as fagulhas da revolução de T oussaint-
N o primeiro volume, Formação: histórias, examinam-se algumas idéias Louverture. V elha história, essa. Numa visão que a licença poética permite, o
mais remotas de B rasil até a consolidação de uma sociedade por assim dizer Haiti poderia ter sido aqui, região colonial e neocolonial em que a grande
nacional, "mestiça", já na passagem da monarquia à república. lavoura e suas elites continuavam a requerer braços de escravos ne gros, não

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20 C a r lo s G u i lh e r m e M o t o Introdução 21

sem resistência e levantes. Tema que hoje persiste, nessas ambigüidades e outra das intenções destes cap ítulos. Em 1970, preocupado com a "situação
tensões mal-resolvidas ("brancos quase negros, mulatos quase brancos"), colonial" de no ssos p ovos, advertia ele: "nesse emaranhado de raízes está o
nas questões da propriedade, das relações de trabalho e da utópica socieda  cerne das resistências que hoje [portugueses e brasileiros] temos de vencer
de capitalista, de "contrato" (entre aspas), frouxamente equacionadas. se não queremos apenas sobreviver como museus de resolutas eras mas sim
"Brasil", representação mental que, e m contrapartida, atiçaria a vigilân afirmarmo-nos pela capacidade de construir um mundo em perpétua mu
cia e animaria a mordacidade dos cr íticos da cultura contemporânea e das dança...".
ideologias nacionais, desde Lima Barreto a Dante Moreira Leite, autor do No arco do tempo, percorre-se neste primeiro volume desde as pri
provocativo Caráter nacional brasileiro. História de uma ideologia. meiras experiências da Nova Lusitânia, revisitada superiormente por Evaldo
"Onde o Brasil?". Idéias de "Brasil" deitam suas raízes no universo Cabral de Me llo, até a constituição, já no fim do sécu lo XI X , de um "Brasil
medieval anglo-saxôn ico, ganhando diminuto espaço em T ordesilhas, tam mestiço", so b a lente da crítica de Roberto Ventura. No percurso de quatro
bém no M onte Brasil dos A çores, adquirindo então concretude no "fino brasil" séculos, examinam-se os diversos conceitos de "povo", de colonização e
de Duarte Pacheco Pereira, autor do Esmeraldo de Situ Orbis, persona descolonização, resistência negra, de identidade, na interpretação dos escri
gem renascentista e provável achador (se é que houve um) das terras da tos críticos de Stuart B. Schwartz, István Jancsó e João Paulo Pimenta, de
Am érica do Sul em 149 8. Companheiro de viagem de Cabral em 1500, sua Kenneth M axwell, C arlos Guilherme Mota, João José Reis, Karen M. L is
biografia ganhou nova dimensão e sentido com a tese do professor Joaquim boa, Francisco Alambert.
Barradas de Carvalho, que viveu exilado entre nós nos anos 60. Tese publicada C omo se sabe, idéias de Brasil afirmam-se já no século X VQ , no período
em 1983 Braudel,
Fernand pela Fundação Calouste
da École Gulbenkian
des Hautes Études,eme livro apresentado
prefaciado por
por Pierre em que asegme
quando colônia
ntosportuguesa
das elites esteve sob o domínio
que habitavam estas habsburgo (1580-1640),
partes passam a refletir
Chaunu, da Sorbonne, sob o título À Ia recherche de Ia specificité de Ia sobre os significados de suas próprias experiências e modos de povoar o
renaissance portugaise, merece ser revisitada no dealbar deste novo séc ulo. continente. Dir-se-ia que o Brasil começa a se descobrir Brasil. A corte
Interessa notar, ainda, que a inserção do N ovo M undo na geopolítica e portuguesa, ocupada com os problemas de sua sobrevivência na Europa,
economia da Modernidade provocaria elaborações notáveis, como teste descurou de sua ação co lonial durante a União I bérica, permitindo a emer
munham as obras de religiosos e colonizadores da Nova Lusitânia. Visões gência de outros interesses e visões no N ovo M undo. Note-se que a idéia de
do Paraíso foram alimentadas a cada passo, num intenso processo de m oti Brasil do governante holandês, o príncipe Maurício de Nassau, ampliava
vaçõe s que S érgio Buarque de Holanda inventariou em obra clássica. Fran surpreendentemente a discussão sobre o que seria o Brasil, inaugurando
ceses, como o protestante calvinista Jean de Léry, e holandeses, dentre os possibilidades outras para a definição de uma sociedade nova no mundo
quais incluem-se o príncipe de Nassau e o pintor Frans Post, também ajuda tropical.

riam a delinear
natureza e outroso perfil do novo mundo, ao lado de modernos cientistas da
observadores. escritoNaquele século,
do padre mais
Antônio notáveis
V ieira, que entretanto seriame sentido
dariam projeção a ação ao
e oBtrabalho
rasil nos
Essa idéia de B rasil, mais elaborada e localizada no e spaço, atormenta quadros da Modernidade. Difíc il imaginar a produção, posteriormente, de
ria no século X VI I o poeta Gregório de M atos Guerra na Bahia, quando uma obra como a do jesuíta toscano A ntonil, autor de Cultura e opulência
lançou o ver so contundente: "Que me quer o Brasil que me persegue?". do Brasil por suas drogas e minas (1711), em que descreve com rigor a
N este verso-pergunta que ainda ressoa no ar talvez resida o fulcro de estrutura e funcionamento da açucarocracia, indicando sua natureza, signifi
nosso projeto coletivo, e a razão que move os autores destes estudos e cado e dime nsão internacional. Esse s homens pensadores e de ação, ao lado
ensaios. E studar a história mas também procurar entender as "maneiras pe do professor Luís dos Santos Vilhena, autor de Recopilação de notícias
las quais os homens percepcionavam a história vivida", como propôs Vitorino soteropolitanas e brasãicas, escrita no fim do século XVIII em Salvador,
M agalhães G odinho, o principal estudioso da expansão portuguesa, constitui homem ilustrado para quem não era "das menores desgraças o viver em

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22 C a rlo s G u ilh e rm e M o ta
Introdução
23

colônias", desenharam uma idéia geral de Brasil mais nítida e, ao mesmo de pensamento que definiriam a s pautas pelas quais se regeriam a vida polí
tempo, intensamente problemática. tica, econômico-administrativa e a organização da sociedade pós-colonial.
A pós diversos conflitos, inconfidências e conspiraçõe s que marcaram Idéias de Brasil adquiriram nova dimensão histórica, cultural, geográfica, so
o sécu lo X VI II, além do impacto da ação antijesuítica severa do marquês de cial e política com o santista José Bonifácio, estadista da independência,
Pombal n a colônia, alcança-se o século X IX com um a idéia mais abrangente homem da Ilustração e fundador d a política externa brasileira. Com ele, mas
e universal do que pudesse vir a s er essa entidade abstrata denominada "Bra também com oponentes a seu projeto de nação, como Cipriano Barata e o
sil". N as linhas d a Ilustração européia, dos planos reacionários da Restaura padre Di ogo A ntônio Feijó (ex-deputados às cortes de Lisboa ), ou o jorna
ção ou dos projetos dos liberais anglo-saxônicos, o Brasil - e a "South lista Evaristo da Veiga, um dos líderes do 7 de abril de 1831, "nossa identi
Am erica"- passa a t er seu lugar histórico bem localizado no sistema mundial dade" coletiva se delineava. Identidade a s e r alcançada, imaginava Bonifácio,
de dependências. D e fato, a grande insurreição nordestina de 1817 - a cha por meio de uma ação po lítica mais abrangente e cosmo polita:
mada "Re volução Pernambucana" de 6 de março - daria o toque de desper
ta r para um a série de movimentos sociais de porte que sinalizaram o processo Como o Brasil começava a civilizar-se no século XIX, deve chamar e acolher todos os
de descolonização a que se assistiu na primeira metade do século XIX, cul estrangeiros que lhe podem servir de mestres no ramo da instrução, e economia
minando com a Re volução Praieira (1848), ponto de inflexão no século X IX pública: deve nã o querer ser original, ma s imitador por ora, apropriando-se das outras
brasileiro. nações o que convém melhor à sua situação política, e física.1
As lutas pela independência, a despeito do caráter regional ou mesm o
O leitor notará q u e , nessa riquíssima viagem histórica, cultural, política
local da maior
cionárias parte delas,
internacionais, inscreveram-se
todas em significado
possuindo forte m ovimen tos e vagas
social, revolu
econô mico e social a que por vezes denominamos "nossa formação", processo mais
e político, expresso na defesa da liberdade de comércio, na limitação do marcado p o r continuidades, do que po r rupturas significativas, processo dra
poder absoluto dos reis, na abertura de frentes e formas inovadoras de infor maticamente inacabado, privilegiaram-se certos momentos, contextos e situ
mação e instrução, e a ssim por diante. ações. Até porque a tal idéia deformação repontou em diferentes períodos
A identidade nacional passaria, desde então, a ser tema constante nas e fases do longo processo de ocupação e usos sociais do espaço que se foi
pautas revolucionárias, aqui como alhures. A "formação das almas", para definindo, tanto d o ponto d e vista geopolítico como lingüístico-cultural, como
utilizarmos a expressão do historiador José Murilo de C arvalho, requereu a "Brasil". Tal foi o caso do Primeiro Reinado (1822-1831), do Período
costura m etódica d o conceito de nacionalidade, num figurino que pressupu Regencial (183 1-1840) ou da República No va (1930-1937). C onhecem-se
nha a sucessão de e lites educadas que dele se alimentavam, ao mesm o tem melhor, hoje em di a, as múltiplas características, os variados modos de pen
p o q u e o reproduziriam indefinidamente. N uma história estrutural prefigurada, sar e as contraditórias diretivas histórico-culturais desses diferentes "Brasis"
com pequenos ajustes às novas necessidades, contextos e modas, dele se que se foram tornando "Brasil". Sinalizações e diretivas por vezes até anta
utilizaram às vezes como utopia, embora mais freqüentemente como ideo logia. gônicas que, em casos raros, transformaram-se em teorias do Brasil, ali
mentando as linhas de força de um ("para dizer assim", na expressão
andradina) pensamento brasileiro. Pensamento, ou formas de pensam ento
v específicas que um analista agudo como M ichel Debrun - autor de Concili
N essa história ocorreram entretanto algumas pou cas rupturas. A prin ação e outras estratégias - chegaria até a sistematizar em "arquétipos".
cipal delas foi a d a Independência, não por acaso denominada "Revolução" Todavia, o conjunto dessas teorias, articuladas numa possível história, pres-
pelo historiador C aio Prado Júnior.
A o longo do processo de descolonização, desde a insurreição de 1817
José Bonifácio de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, organização de Míriam Dolhnikoff
até a proclamação da república em 1889, plasmaram-se algumas matrizes (São Paulo: Companhia das Letras, 1998), p. 173.

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24 Carlos Guilherme Mota


Introdução 25

supõe um rastreamento rigoroso, o mapeamento das escolas, tendências, metade do século XX, provocando até mesmo a crítica de Gilberto Freire e
individualidades, que ainda está po r fazer, cobrindo desde o campo político - José Honório Rodrigues.
econômico ao educacional e filosófico. Uma História do Pensamento Brasi Tal conjunto de intelectuais, de quadrantes diversos,  fixaria  em definiti
leiro, portanto, seria o convite a uma outra viagem, me nos incompleta. vo a idéia de Brasil contemporâneo. Nesse contexto, afirmou-se a noção de
Ao longo do percurso, alguns temas e problemas repontam e persis "Cultura Brasileira", ou seja, de uma ide ologia qu e , com o passar do tempo,
tem. Quem era "povo" nessas partes do Novo Mundo, "a gente da terra se consolidaria
longa duração. com o a viga mestra de todo um sistema político-cultural de
braziliense da nasção"? Com o se forma a nação, encaixada no aparelho de
Estado complexo e pesado, transplantado e remodelado durante o período Neste mesmo passo, recorde-se que, ainda nos anos 50 uma "terceira
colonial? Qual o significado da descolonização a que se assiste na passagem via" já era procurada. Com a aceleração do processo histórico mundial - da
do século XVIII ao XIX? Como se construiu esse "Brasil mestiço", com qual o Congresso de B andung em 1955 foi apenas um sinal -, idéias e pro
suas ideologias culturais e realidades étnicas? Co mo se cristalizaram as de jetos inovadores de Brasil se desenvolveram e expandiram. Em busca de
cantadas "heranças coloniais", que seriam objeto d e críticas, histórias e atua uma política externa independente de W ashington, setores da intelligentsia
lizações por parte dos "redescobridores" do Brasil dos anos 30 (Freire, brasileira começariam a se descobrir terceiro-mundistas.
Buarque, C aio, Bonfim, M ário, Milliet, R ubens Borba, Câmara Cascudo) e A essa altura, uma curiosa mitologia dos "dois Brasis", a de Jacques
dos econom istas, cientistas políticos, sociólo gos e historiadores dos anos 50 Lam bert, também se difundiria no s meios acadêmicos e políticos, inauguran
(Furtado, Cândido, Faoro, Sodré, José Honório, Florestan, Bastide)? O do a visão dualista na História do Brasil, empobrecendo a interpretação
euclidiana: o país "atrasado", pensavam Lambert e os dualistas, retardava a
quadro se torna
sempenhado pe lomais rico e Superior
Instituto comple xodequando
Estudosnos lembramos
B rasileiros do papel
(Iseb) e por de
re "integração" do Brasil "moderno" na contemporaneidade. Sem maiores con
vistas como Anhembi (de Paulo Duarte) e Revista Brasiliense (de Caio siderações de ordem histórica ou civilizacional, capitalistas e neocapitalistas
Prado Júnior) e, depois, pela Revista Civilização Brasileira (de Ênio Silveira coordenaram então esforços para romper com o atraso a partir de um espe
e Moacir Félix) e Tempo Brasileiro (de Eduardo Portela). rado take offáo capitalismo no B rasil: para isso, o economista norte-ameri
cano Walt Whitman Rostow circulava em vô os rasantes pela América Latina
É de notar, entretanto, que, no século X X , os educadores-fundadores
ensinando as fórmulas da redenção a empresários e militares bisonhos. Ne s
da Escola N ova centralizariam no s anos 30 uma notável rede de intérpretes
se contexto, a CEPAL e as idéias de Raul Prebisch eram sinônimos de
do Brasil, com figuras estelares como A nísio Teixeira, o sociólo go Fernando
modernidade.
de Azevedo (um dos criadores da Universidade de São Paulo), o geógrafo
Delgad o de C arvalho (cujos atlas e mapas desenhariam em no sso imaginário Transitava-se então, na expressão do professor Antônio Cândido, da
o lugar do "espaço brasileiro" no mundo), o sociólogo Gilberto Freire (que consciên cia am ena de atraso para a consciência de "país subdesenvolvido".
inventaria um povo mestiço para a nova nação), o compositor e musicólogo A os se gmento s radicalizados das elites urbanas progressistas apresentava-
Heitor Villa-L obos (que uniria a dimensão erudita à produção popular, dis se então a alternativa clássica que a História costuma apresentar aos p ovos:
seminando um a certa visão de Brasil po r meio d os corais e cantos orfeônicos), reforma ou revolução. A o lado das Ligas C amponesas, das lutas da pequena
o urbanista Lúcio C osta, responsável por um novo c onceito de cidade, além burguesia urbana por reformas de base, de um a educação democrática e da
de Rodrigo M elo Franco de Andrade, na definição de um conceito nacional implantação da cultura do subdesenvolvim ento, encontrou-se uma fórmula
de patrimônio histórico. Nesse grupo, ao qual se associava Mário de Andrade, curiosa, quase uma contrapartida do realismo mágic o da literatura latino-
inscreve-se a figura ímpar de Carlos Drummond de  Andrr.de, homem de americana daquela época. Com efeito, os ideólogos do reformismo desen-
ação e poesia. Fora dessa constelação, na esquerda, muitos intelectuais se volvimentista, somando seus esforços às lideranças intelectuais de esquerda,
afirmariam, como Astrojildo Pereira, Otávio Brandão e Mário Pedrosa. Na preocupadas com a "superação do subd esenvolvimento" a qualquer preço,
direita, as idéias fortes de O liveira Viana marcariam o debate na primeira fabricaram nos anos 60 as discutidas, e em geral bem aceitas, teorias da

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26 Carlos Guilherme Mota
Introdução 27

dependência. Um a outra idéia de Brasil despontava, assim, nos horizontes Finalmente, cinco séculos de História podem representar muito, consi
da esquerda, nos "quadros do capitalismo associado e dependente". O pro derada a História das civilizaçõe s am ericanas, sobretudo no que diz respeito
blema, entretanto, como escreveria Florestan Fernandes em 1981 é que "não à exper iência particular afro-luso-brasileira. E xperiência de uma cultura já
enfrentamos com o e enquanto tal a questão da descolonização"... miscigenad a na P enínsula Ibérica, que viria a predominar nessas partes do
Se algumas dessas visõ es de B rasil desapareceram, outras porém pros globo , gerando interpretações inéditas, muito difundidas e discutív eis sobre a
peraram, transformando-se em projetos e políticas públicas, fundamentando "adaptabilidade" dos portugueses nos trópicos, e que marcariam fundamen
três possibilidades históricas então esboça das. A primeira, a de implantação te o pensamento no Brasil no século XX .
de uma ordem republicana reformista-desenvolvimentista e "modernizadora" Cinco séculos que permitem, na longue durée, indagar do sentido ou
(no sentido dos anos 50- 60), integrada ao novo capitalismo ocidental; a se sentidos das Histórias plurais de nossas formações histórico-ideológicas, apon
gunda, de uma república socialista-sindicalista mobilizadora, condutora de tando para uma revisão profunda de nossa historiografia. S eja na vertente
um projeto amplo de reformas de base, com destacada participação do país dos encontros e desencontros de civiliz açõe s autóctones e forâneas, seja na
no plano internacional por meio de uma política externa independente; e, reafirmação de uma história "dos de baixo", um outro horizonte se apresen
finalmente, a terceira, uma hipotética república socialista de base popular ta. Pois, na feitura dessa outra História, em contraposição à história dos
operário-camponesa, com adesão e apoio de setores da pequena burguesia brancos de frei Vicente do Salvador até Varnhagen e Pedro Calmon, come
progressista radicalizada. çam a surgir as sagas anônimas dos "índios", dos escravos negros e dos
O golpe civil-militar de 1964, com as teorias da contra-revolução pre negros livres, dos pés descalços, das mulheres, dos idosos, das crianças,
ventiva, viria realinhar o Brasil no s quadros da Guerra Fria, revelando a na dos excluídos em geral. E, para além de todos, essa categoria imensa e silen
tureza e o sentido profundos desta história, condicionada por um modelo ciosa, nada obstante muito real: a dos sem-história.
Para terminar, quero me referir à atualidade de incontáveis formulações
histórico-social de cunho fortemente autoritário, com implicaçõe s político-
culturais de longa duração. Explicitava-se, de ssa forma, o modelo autocrá- que indicam a existência de consciências críticas e muito agudas ao longo de
tico-burguês, principal personagem de no ssa história, desvendado nos anos toda nossa História. Ainda reboam no ar palavras como as de frei Joaquim
do Am or Divino, o Caneca, publicadas no Tiphys Pernambucano a 15 de
70 pelo professor Florestan Fernandes em sua obra clássica A revolução
janeiro de 1 824, poucos m eses antes de sua prisão e fuzilamento:
burguesa no Brasil, de inquietante atualidade.
E quando teremos constituição feita pela Nação? Nunca, nunca, nunca. E que Império
então vem a ser o Brasil? Império projetado, e não Império constituído, e por isso
vi nunca império. E um império tal em que ordem deve ser colocado entre as potências?
Será uma potência de primeira ordem? Será de segunda? Nem de uma, nem de outra
ordem. Será potência nullius diocoeseos, porque até hoje é incógnita a ordem das
Para concluir, convém evitar o tom finalista, pois, a despeito de certas
determinações dos processos de articulação dos sistemas coloniais da His potências projetadas.
tória M oderna, as possibilidades históricas de cada época se inscreviam e se
inscrevem inescapavelmente nas estruturas de amplos conjuntos de variáveis
e sistemas de valores. De civilizações enfim, para utilizarmos o velho c oncei
to , cujos códi gos m ais profundos cumpre aos historiadores ir desvendando.
Grande desafio, este, a que m uitos leitores e estudiosos, amantes da pesqui
sa inspirados pelo velho Lucien Febvre, por Johan Huizinga e outros mestres
ainda se obstinam em cultivar, sob o rótulo generoso, amarelecido pelo tem 
po, de História das Mentalidades.

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Incursões à pré-h istó ria


- • >
da Am érica tropical

Aziz Nacib Ab'Sáber

**

il
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**»*.

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No decorrer do século, que corresponde ao fim do milênio, algumas


reflexões sobre atributos essenciais do homem despertaram grande interesse
cultural entre jove ns pesquisadores v oltados para as ciências humanas. Franz
Boa s, na década de 2 0, alertava para a letalidade dos contatos étnicos entre
grupos de culturas primárias, diante de representantes agressivos de socie
dades mais com plexas. U m fato, certamente fundamental, para o entendi
mento de acontecimentos tristes e dramáticos da história do N ovo M undo.
A Fernand Braudel ficamos deven do o postulado de que "a história é a his
tória de todas as histórias". Uma propositura que ampliou e desdobrou as
possibilidades temáticas da pesquisa historiográfica no Brasil.
Mas uma terceira meditação e reconhecimento ficamos devendo a Roger
Bastide - em um de seus mom entos de grande clarividência intelectual -
quando teceu considerações comparativas entre os atributos das sociedades
animais e as sociedades humanas. Tendo como ponto de partida o inigualável
texto de M areei M auss, referente à "Sociologie des Animaux", Bastide che
gou à conclusão d e que "o homem é o único ser vivo da face da Terra que é
capaz de retraçar a trajetória da espécie, envolvendo todos os tempos e
todos os espaços". Para tanto, alguns homens privilegiados contaram com a
sucessão das escritas; e, por fim, com a invenção do alfabeto: documentos
básicos que forjaram a historiografia. Mas a história da humanidade e da
cultura nasceu há dezenas ou centenas de milhares de anos antes da história
formal. Vale dizer, muito antes que as relações de trocas de excedentes e
antes mesmo do advento do mundo urbano das cidades-estados e vastos
impérios.
Essas meditações nos obrigam a ampliar os procedimentos necessários
para retraçar a história do ser humano, nos mais diferentes espaços ecológ i- J
cos e conjunturas temporais. Razão pela qual a riqueza dos informes frag
mentários — derivados dos estudos pré-históricos somados aos conhecimentos
conseguidos na proto-história e nos esforços das etnociências - deve mere-

XüÉ .
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32 AzJzNadbAb'Sáber I nc ursões ò pré-história da A méric a tropic al 33

cer um lugar especial na reconstrução dos even tos e conquistas culturais do pólos e altas montanhas ampliavam-se no espaço, cobrindo setores de ma
homem. Não tem sido fácil divulgar para todos os homens a crônica e as res subpolares; descendo de cordilheiras superglaciadas e estreitando espa
etapas dos conhecimentos acumulados sobre su a própria espécie. Aprimorar ços intermontanos. A região de B eringhe tornou-se uma larga e m aciça ponte
e persistir - na tarefa de socializar informes esse nciais - é a grande tarefa do de gelo (glacial landbridge) que escondia os estreitos e mares adjacentes.
processo educacional. E a pré-história humana não pode ser excluída d essa A s adaptações obrigatórias, sofridas por grupos de caçadores coleto
recuperação de trajetórias, em qualquer tentativa intelectual responsável. res pré-históricos da Ásia d o Le ste, somente pode m ser interpretadas como
Pablo Martinez Del Rio, nos anos 40, sentenciou que os homens que parte de uma arcaica história de longuíssima duração. Uma e spécie de pré-
povoaram as Américas eram alóctones, mas que as culturas por eles elabo história longa (parafraseando Braudel) intercalada por rupturas radicais. Lentos
radas foram absolutamente autóctones. Quando se fixou, ao longo do sécu deslocamentos e longas vivências em latitudes diferentes, fugindo sempre
lo , a idéia não superada de que a humanidade se dividia em três estoques das encostas e cimeiras de cordilheiras, sujeitas a glaciações rigorosas nos
raciais básicos - o caucásico, o negróide e o mongolóide -, não mais pôde períodos muito frios do pleistoceno. Uma preferência marcante por uma
haver dúvida sobre a procedência asiática dos mais rem otos grupos huma vivência em terras baixas e corredores de fauna.
no s q ue chegaram à Am érica. O s paleoíndios mais arcaicos eram mongolóides Tanto na Europa quanto na Ásia alguns grupos humanos ficaram encur
do Leste A siático. M uito mais tarde os caucásicos, colonizadores, vieram da ralados entre altas montanhas glaciadas e planuras nórdicas, recobertas por
Finisterra portuguesa da Europa, enquanto pobres grupos negróides escra glaciações ditas continentais. Utilizando os interespaços existentes entre
vizados - sujeitos a uma tenebrosa migração forçada e desumana - vieram glaciários provenientes das montanhas e aqueles oriundos da expansão dos
de além-Atlântico (África). De tal forma que, na história populacional do mantos de g elo das regiões polares, muitos grupos migraram para áreas mais
Brasil, participaram todos o s estoques raciais do m undo. N isso tudo, porém, quentes. M as é quase certo que pequenos agrupamentos de homens perma
o mais longo período de tempo e a mais com plexa trajetória de homens fica neceram nos espaços colinosos, acantonaram-se em raras grutas e lapas,
para os grupos ameríndios, de raízes mongolóid es. Um a história que possui aprendendo intuitivamente a se defender do frio, através do uso de couros e
maior profundidade de tem po quando estendida para a época ou época s da peles de animais. Aliás e sses estavam tão desorientados quanto os humanos,
passagem dos asiáticos para as Américas. no entremeio dos espaços glaciados em expansão. E foi assim, através de
Para entender as possíve is rotas e tempos da passagem - caminhadas adaptações sofridas, que alguns pequenos grupos acabaram passando da
dos primeiros humanos para o Novo Mundo -, os pré-historiadores foram Ásia para as terras hoje correspondentes ao Ala sca e ao Canadá, sem saber
obrigados a alternar fatos e hipóteses, fiscalizados por uma imaginação ló gi que estavam transpondo continentes. N a cultura primária e intuitiva do homo
c a . Esse é o caso da vigorosa pressuposição da região de Beringhe, como sapiens, a única lógica geográfica comanditária e orientadora residia nas
possível área de aces so dos caçadores da Eurásia e do Leste E uropeu para disponibilidades de recursos naturais, suficientes para a sua alimentação.
o continente americano. Nas regiões mais gélidas desaparecia a possibilidade de se realizarem
Os grupos humanos coletores-caçadores nômades e seminômades que coletas da biodiversidade vegetal. Mas, em compensação, cresciam até ao
perambularam por diferentes espaços ec ológi cos da Ásia dependiam quase exagero as possibilidades de se desenvolverem atividades de caçadores. Isso
exclusiva mente dos atributos da biota regional ou sub-regiona l. Da territoria não implica dizer que na transposição do paleoespaço de Beringhe todos os
lidade oeste-leste da Eurásia e da Ásia Oriental - para o norte e para o sul -, homens seguiram sempre atrás da caça para leste. É possível que manadas
os grupos humanos dependentes da fauna, da flora e dos rios e riozinhos outras, provenientes do L este da Eurásia, seguiam para Oeste, inconscientes
foram obrigados a se adaptar gradualmente a diversos sistemas ecológ icos, de seu destino. M as que, em alguns mom entos críticos da história climática J
de modo quase passivo e muito sofrido. quaternária do planeta, pequenos grupos de homen s - exímio s caçadores,
Durante os períodos glaciais do pleistoceno o nível do mar recuava ao desenvolve r suas rústicas e rotineiras atividades de sobr eviv ênc ia- atra
dezenas e dezenas de metros, enquanto as massas de gelo estocadas nos vessaram os largos espaços congelados ou em processo de congelamento

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A z iz N odb A b'Sóber I n c u rs õ e s ò p r é - h i s tó r i a d o A m é r i c o t r o p i c a l 35
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(Beringhe). M as é possível que tenha havido condições para migrações oes- inventado ou recriado a importante arte de fazer fogo. Ou desde quando
te-leste, de faunas e de homens, nessas duas ou mais épocas de paleoe spaços adquiriram o hábito cultural do sepultamento. Entretanto, muito cedo desco
glaciados. Componentes da fauna pleistocênica da Eurásia não teriam pas briram o valor d as cavernas como lugar de moradia. A noite, instintivamente,
sado para o continente americano se não existissem essas presumidas pon os am edrontava. G rutas e lapas atenuavam periculosidades, numa proteção
tes de gelo. E, não fosse m as manadas faunísticas em m igração pelas terras relativa, durante as horas de sono. Fato particularmente verdadeiro em rela
çã o aos homens que se acantonaram nas raras e disputadas cavernas de
baixas
uma fonte da Eurásia,
tão rica os caçadores
para adaptadosA aos
sua alimentação. lém climas
do quegaélidos jamaisdoteriam
existência frio e distritos cársticos brasileiros (São Raimundo Nonato, arredores de Lagoa
do gelo ofertava um excelen te ambiente de conservação das carnes obtidas Santa, sudoeste de Goiás).
nas caçadas mais rendosas. Nesse sentido, pode-se pensar até mais longe, Ao atingir o sudoeste dos Estados Unidos e o México - tomados ape
ou seja, que animais mortos pela fadiga, ou pelo atropelo, ou por outros nas como referência - encontraram "ilhas" de umidade no entremeio de ter
animais, eram ofertas naturais complementares para os silentes habitantes ras ressequidas, porém sucessivamente mais cálidas, na direção do Sul. E
das terras do frio. Embar cações, nem falar, porque inexistiambiotas vegetais somente a partir do M éxic o tiveram a oportunidade de encontrar e se apro
veitar dos recursos naturais biodiversos, de sucessivos redutos florestais, até
regionais próximas para qualquer fornecimento de madeiras.
chegar ao território atual da C olômbia e Venezuela; e, mais tarde, por vários
A trajetória dos hom ens pré-históricos, após a transposição do espa ço
flancos, atingir espaços intertropicais das terras brasileiras. Cumpre notar,
Beringhe - perambulando pelas diferentes regiões do oeste americano -,
porém, que na época dessa miúda e extensa trajetória, as florestas estavam
deve ter sido muito com plexa, através de montanhas e depressões intermon-
em recuo e climas mais se cos tendiam a penetrar por imensas e alongadas
tanas de três alinhamentos cordilheiranos; forte glaciação de altitude; limita
çã o de espaços costeiros; nível do mar mais baixo, dominado por águas depressões interplanálticas do grande planalto brasileiro. E, também, nas
margens de uma Am azônia contraída e biogeograficamente fragmentada.
frias. Tudo complicando as projeções dos homens para o Sul, em busca de
outros recursos naturais, por meio de impensadas descobertas. A diferenciação de línguas e culturas - derivadas de condicionantes
Há que considerar ainda q u e , além das montanhas ocidentais da Am é ecológicas regionais - parece ter se iniciado, ou amadurecido, durante as
rica do Norte, na faixa atual de fronteiras do Canadá e Estados Unidos, fases de sedentarização relativa de alguns grupos, dotados de uma certa
fixidez locacion al, em esca la sub-regional. Fato que provavelmente aconte
ocorriam fortes atividades de pulsação das línguas das geleiras norte-orien-
ce u ao sabor dos processos de (re)tropicalização do e spaço total, os quais
tais. Aquelas mesmas que, ao fim do último período glacial, haveriam de
alcançaram o seu máximo por ocasião do atimum climático, entre 6.000 e
construir os cen ários dos grandes lagos regiona is. Trajetórias entrelaçadas.
5.500 anos A.P.* Um momento em que o nível do mar que tinha estado a
Conflitos intertribais arcaicos. Lutas pela conquista de espaços ecológicos
-100 metros, no pleistoceno terminal, elevou-se até 3 metros acima de seu
mais favoráv eis. Parece ter acontecido de tudo um po uco na trajetória que nível de hoje.
conduziu os grupos pré-históricos para o sudoeste dos Estados Unidos, e
depois ao M éxico, à A mérica Central, e, finalmente, à Colômbia e ao vasto N o que
de cotejo comdiz
os respeito
à idade das glac iações quaternárias, para e feitos
sítios pré-históricos de datações obtidas pela técnica C14,
continente tropical sul-americano, climaticamente desarranjado pelas impli
existem apenas duas a três correlações possíveis. Nos últimos anos, o pe 
caçõe s das glaciaçõ es quaternárias. ríodo glacial do pleistoceno superior - conhecido genericamente por Würm-
Descendo por entre montanhas geladas e altiplanos ressequidos, os Wisconsin sofreu um detalhamento maior que conduziu os especialistas a
primeiros homens que saíram da s regiões glaciadas do noroeste americano - subdividirem o aludido período em quatro estádios: Würm IV (de 22.000 a
através de adaptações sucessiva s - atingiram a Am érica Central, em um ou 13.000 anos A .P.), Würm III (de 40.000 a 26.000 A .P.), Würm II (de 62.000
mais tempos. Eram pequenos grupos de caçadores-coletores, predominan
temente nômades e muito belicosos, eventualmente sedentarizáveis em gru
* Antes do presente.
t as, lapas ou beira de pequenos lagos. Não se sabe nada de quando teriam

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AazNadbAb'Sáber I nc ursões o pré-história do A m éric o tropic al 37
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a 46.000 A.P.), Würm I (85.000 a 70.000 A.P.) - em termos médios e mais difíceis, grupos humanos de caçadores atingiram o extremo nordeste da
aproximados, segundo diversos autores. Todos os subperíodos de Würm Ásia, cruzando uma larga e maciça ponte de gelo, que ali existiu durante
sendo separados por interestádios cálidos - em geral de ma is curta duração milhares de anos (Würm IV ). M uito antes, grupos humanos arcaicos já havi
do que os tempos glaciados - designados respectivamente por Pardorf, am estado na Austrália, ali chegando pela eventual coalescênc ia dos "arcos
Gottweig e Brorup Amersfort. D e 2.200.000 até 120.000 A.P. - abaixo insulares" regionais, no mom ento em que o nível dos mares desceu a pouco
mais de uma centena de metros. No nordeste da Ásia, onde caçadores não
do interglaciário
Mendel, Bibed. - ocorreram quatro macroperíodos glaciais: Riss,
Gunz e Eemein teriam chanc e de navegar de um continente para outro, o rebaixamento do
Nesse conjunto todo de interestádios ou intergracionários, o homo nível do mar - em Würm IV - possibilitou outro quadro de trânsito pré-
sapiens moderno passou a existir desde Eemein, ou seja, no máximo desde histórico, porém, no caso, com a gradual formação de uma gigantesca ponte
100.000 a 80.000 anos A.P. Ninguém sabe ao certo em que estádio ou de gelo (glacial landbridgé).
interestádio os primeiros grupos de homo sapiens passaram do nordeste E m busca d e u m a precisão relativa para se atingir um a idéia mais lógica
eurasiático para as Américas. No entanto, conhecendo-se os intervalos de sobre o tempo principal - ou os possív eis tempos - das migrações humanas
tempo do período glaciário de Würm-Wisconsin superior, assim como a oeste-leste, da Eurásia Oriental para a América do Norte, existe a necessi
idade relativa máxim a de homo sapiens e sua possível diferenciação na ca dade de conhecer melhor os quatro estádios glaciais do período Würm-
tegoria macroestoque racial, pode-se chegar à conclusão de que o período Wisconsin superior. O homo sapiens, que existe no mínimo há 80.000 anos
principal das transposições foi Würm TV (de 22.000 a 13.000 anos A.P.). antes do presente, teria passado para o A lasca apenas em Würm IV, ou em
Teria sido assim no paleoespaço de Beringhe, co mo também na extremidade outros subperíodos "würmianos". Há q ue considerar sempre que "pontes de
sul, para a passagem A ustrália e N ova Z elândia, através de arcos insulares gelo" na região de Beringhe existiram em outros estádios de Würm - e,
provavelmente, em Riss. Nosso problema, porém, fica restrito ao tempo
exondados.
pré-histórico do homo sapiens, que abrange sobretudo Würm IV , Würm III
Estavam n esse pé as tendências para a aceitação científica da época de
e Würm II .
passagem e chegada de grupos mongolóides para a América do Norte e o
continente australiano, quando surgiu um informe complicador, relacionado A té hoje, porém, a tendência entre diversos cientistas reside em co nsi
derar a "passagem" ou a "chegada" do homem pré-histórico nas A méricas
às datações de alguns componentes do jazigo pré-histórico de São Raimundo
como sendo, grosso modo, em Würm IV. Ou seja, de 22.000 até 13.000
Nonato (Piauí), por Niede Guidon e sua equipe.
A.P.
O conhecim ento sobre as profundidades de tempo do período quater
Um importante fato complicador, que pode introduzir modificações ra
nário - época essenc ial para a história evolutiva da espécie humana - é im
dicais nesse raciocínio, está ligado às datações e pesquisas de Niede Guidon,
prescindível para qualquer discussão séria sobre a chegada do homo sapiens
no sul do Piauí. Inesperadamente, surgiram datações sobre a presença de
das Américas. É certo que, no momento em que se processaram grandes
migrações de pequenos grupos humanos ao longo da fachada pacífica da homens pré-históricos n a região de São R aimundo Nonato, que fazem recuar
bastante a época das primeiras migrações de grupos humanos para as Am é
Ásia e Oc eania, já se haviam diferenciado os três macroestoques raciais da
ricas. Por meio de pesquisas arqueológicas pré-históricas - muito bem
face da Terra: negróides da África; caucasóides da Europa; e os m ongolóides
conduzidas pelo grupo de Niede e sua equipe, composta de brasileiros e
da Ásia, durante e entre os estádios glaciares do pleistoceno superior ( Würm-
franceses -, descobriram-se alguns sinais da presença humana mais antiga na
Wisconsin). N a realidade grupos humanos mongo lóides caminharam para o
região, que remontariam a 43.0 00 anos A.P. Trata-se de um espaço de tem
sul-sudeste e para o norte-nordeste, a partir de uma indefinida área de difu
po duas veze s maior, ou pouco m ais, do que as datações feitas em jazigos da
são migratória. O homo sapiens atingiu a A ustrália e a N ova Zelândia atra América do Norte e porção ocidental da América do Sul. Fato que não
vés de espaços emersos criados pela emendação das ilhas dos chamados autoriza ninguém a pensar em nenhuma autoctonia, pois os mongolóides com
arcos insulares regionais. Doutra banda, por caminhos e ambientes muito

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certeza vieram d a Ásia. Já ficou explicado que passando por flutuantes m an mentos d a presença ameríndia n o litoral brasileiro, mais antiga d o que a épo
tos de gelo , na condição de caçadores nô mades, não teria sido fácil deixar ca dos sambaquis?". Um questionamento que às vezes se desdobra em sutis
afirmações: "não existem registros concretos da presença de homens pré-
sinais marcantes de sua arcaica diáspora.
históricos na região costeira porque os únicos registros arqueológicos de
Em São Raimundo Nonato foram detectados registros concretos da
vem estar abaixo das atuais águas costeiras!". Uma afirmação que tem apenas
presença humana através de ossadas de aproximadamente 1 0.000 anos A .P.
o valor de um lembrete, mas que n a realidade revela um certo conformism o
Entretanto, abaixoque
blocos de pedras dos fizeram
achados remontar
mais diretos, foramdos
a idade detectados "cinzeiros"
sítios habitados pore com as questões enigmáticas.
humanos para 43.0 00 anos A .P. Ou, com maior grau de certeza, para 25.00 0 Em termos de interdisciplinaridade tem grande importância para a pré-
história brasileira saber q u e , entre 23.000 e 13.000 anos A. P, o nível do mar
anos A.P. recuou pela plataforma continental adentro, até menos de 100 ou 110 metros,
Para quem não saiba, "cinzeiros" na linguagem dos arqueólogos são
em relação ao nível de hoje. Tudo indica que o recuo foi lento a princípio e
cinzas de ancestrais fogueiras, para arcaicos churrasqueamentos de produ
bastante rápido - g eologicamente falando - entre 15.000 e 12.000 anos A .P
tos da caça, em grupos de caçadores-coletores. De forma que, descenden A o ensejo dessa tão importante regressão - de tipo glácio-eustático -, as
tes de remotos caçadores, os pequenos grupos humanos chegados à América praias preexistentes recuaram por dezenas de quilômetros, ou mais, ao longo
Tropical passaram a exercer atividades híbridas de coletores, caçadores e da rampa exondada da plataforma continental. O mar desceu e as correntes
eventualmente pescadores. No estado atual da s pesquisas, os diversos achados marítimas frias subiram até níveis de latitude mais baixos. Nesse contexto a
de S ão R aimundo Nonato representam o encontro de sítios de sedentarização, secura d a faixa costeira tornou-se marcante devido à atomização d a umidade
por vagas e em
dia natural vagas de peque
cavernas nosentorno.
e seu grupos humanos
Os sinais que encontraram
de fogueiras, sua mora
representadas forçada pela presença de uma vigorosa corrente das águas frias (páleo-
Malvinas/Falkland). Além da semi-aridez da retroterra, as massas de areias
pelos "cinzeiros" basais, existentes no chão das lapas de São Raimundo, dispostas em largas rampas pela regressão marinha em processo criavam um
constituem evidências concretas de que os seus habitantes mais antigos já ambiente hostil e temporariamente n ã o ecumênico, d o q u e resultava u m a gran
sabiam fazer e manejar o fogo. Se os blocos de pedras, encontrados nas de impossibilidade de ocupação por parte de grupos humanos, tradicional e
proximidades dos "cinzeiros", forem alóctones em relação às paredes, tetos ancestralmente vinculados à caça e à coleta. Um fato paradoxal, já que os
e emboques das lapas, seria mais verossímil no cenário dos velhos abrigos mares em recuo, sob o impacto da corrente fria em avanço sul-norte, aumen
naturais dos mais antigos povoadores da região. As datações podem oca tavam substancialmente a  riqueza e a diversidade da biota aquática salobra.
sionar controvérsias mas o significado ar queológico permanece com muita Entretanto, atomizava a umidade provinda d o Atlântico, determinando semi-
lógica. aridez costeira e faixas semi-áridas em com partimentos de relevo interiores.
Um a das questões em aberto da pré-história dos grupos humanos mais
Tudo, ou quase tudo, aconteceu, ao inverso, quando o mar tornou a
antigos aqui chegados reside na inexistência de registros de uma ancestral
caminhada pela faixa costeira do Brasil atlântico. As datações mais antigas subir no holoc eno, até chegar ao nível aproximadamente de 3 metros acima
de seu nível atual. A transgressão responsável por tais processos dependeu
têm sido encontradas em sítios de notável continentalidade, com pletamente da liberação de águas que estavam retidas nas geleiras dos pólos e altas
à margem dos litorais. Somente entre 6.000 e 3.000 anos A.P. existe garan montanhas. Existem razões para se pensar que o processo transgressivo ini
tia total que alguns grupos ocuparam preferencialmente setores d a costa em cial foi relativamente lento, atingindo o s eu máximo de altura durante o otimum
áreas dotadas de lagunas, restingas, estuários ou lagamares, ou e m m argens climático, quando a retomada da tropicalidade foi mais radical. A maior
de baías oriundas de ingressões marinhas, relacionadas com o otimum cli parte das restingas e lagun as d a costa brasileira teve s u a origem ou definição,
mático (de 6.500 a 5.500 anos A.P). dependentes de pequenos recuos e avanços dos mares tropicais, em uma
De sses fatos decorreram algumas indagações que, em sua maioria, fi fase flutuante posterior ao máx imo alcançado n o aludido otimum.
caram sem respostas. Freqüentemente se pergunta "por que inexistem docu-

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40 AzJzNadbAb'Sáber
I nc ursões ò pré-história d a A méric a tropic al 41

O litoral sul de S ão Paulo, designado corretamente de região lagunar- Os "corredores" de terras baixas (lowlands), sujeitos à ampliação da
estuarina de C ananéia-Iguape, é o setor da costa brasileira que melhor do semi-aridez, correspondiam ao e ixo maior das depressões interplanálticas
cumenta o feixe alternado de restingas elaborado ao sabor dos pequenos existentes entre chapadas descontínuas, ou entre serranias e chapadões inte
avanços e recuos do nível geral terminal dos ocean os. A massa fantástica de riores. Em muitas áreas, tal como hoje no Nordeste S eco, ocorriam tratos de
areias geradas durante a regressão pré-flandiana (ou, entre nós, pré- chão pedregosos e lajedos rasos, dispostos em mosaico, no domínio ampliado
cananeense)
os sucessivosfoi o capital
terraços de básico de sedimentos
construção marinha, (re)aproveitados
encarceradores depara gerar
lagunas das caatingas. Tem-se a impressão de que os pequenos grupos de caçado
res-coletores preferiam obrigatoriamente os corredores de formações aber
piscosas. Foi nesse momento, e em tais circunstâncias fisiográficas e ecológi tas, mas vasculhavam com freqüência os rebordos úmidos de chapadas e
c a s , que antigos grupos de caçadores-coletores encontraram condições para serras, e grotas  florestadas d e m ananciais, para complementação de alimen
viver mais próxim os do mar, transformando-se e m pescadores-caçadores e t o s . N o conjunto dessas tarefas para busca de sítios ecológ icos - para so
criando uma nov a cultura d e marcante vinculação ecológic a. brevivência -, acabaram por descobrir e utilizar subáreas espaçadas de
Vale dizer que assim se constituiu o grupo humano responsável pela cavernas, grutas e lapas. A crescidos de abrigos em lajedos, onde ocorriam
construção dos sambaquis: os chamados "homens dos sambaquis". Sobre desvãos de blocos rochosos residuais superpostos. O fato de muitas lapas e
eles ex istem numerosas informações em nossa rica bibliografia pré-histórica. cavernas estarem localizadas nos sopés de chapadas de calcários e arenitos
N o que tange aos vastíssimos esp aços da hinterlândia brasileira, os tornava possível o encontro de dois ou três ecossistemas dotados de recur
arqueó logos e pré-historiadores - através de duras pesqui sas de campo - sos naturais diferentes: caatingas e agrestes, cerrados e eventuais redutos
conseguiram recuperar parte dos segredos d e jazigo s fragmentários. E, as florestais. Um fato que significava um a diversificação d e ofertas da natureza
s i m , desvendar complexos de culturas regionais dos ameríndios que se fixa rústica, a pa r com o importante acontecimento relacionado com a presença
ra m em div ersos sítio s e áreas de influência pretéritas. Na verdade, o retorno de moradias naturais, propiciadoras de sedentarização.
da tropicalidade após 12.000 anos A.P. ocasionou mudanças ecológicas É importante assinalar que (à exceção d o caso anôm alo e controverso
marcantes, traduzidas pela coalescência dos redutos florestais. A o que se de São R aimundo Nonato) a ocupação das escassas cavernas processou-se
somaram o aumento progressivo e irregular do nível do mar; a decomposi entre 20.000 e 9.000 anos A.P. A s pesquisas arqueológicas na pilha de se
ção de rochas e argilização; a formação de solos aluviais argilosos em sedi dimentos antropogênicos do chão das lapas e cavernas revelam diferentes
mentos transportados po r rios triturados po r massas de argilas em suspensão. vagas de ocupação que se estenderam por milhares de anos a partir das
Durante a máxima acentuação da semi-aridez na América Tropical - descobertas iniciais.
acontecida entre 15.000 e 12.700 anos A.P. -, os grupos humanos mongo- Tudo induz à crença de que grupos humanos de culturas pré-históricas
lóides da Ásia até a América do Norte e Central entraram pelo território diferentes - b em caracterizadas pelos arqu eólogos brasileiros - utilizaram la 
brasileiro adentro utilizando o s am plos corredores e depressões colino sas, pas e cavernas até aproximadamente a grande diáspora dos povos de língu as
então existentes. Era uma escolha preferencial, relacionada com a presença guaranis ou até as mudanças climáticas e ec ológic as processadas no território
de formações abertas em compartimento de relevo extremamente favoráveis pela (re)tropicalização plena, que fez emendar florestas  na fachada atlântica e
a deslocamentos extensivos e progressivos. Era uma época em que os pe na Amazônia; reduzir cerrados a os chapadões e altiplanos d o Brasil C entral; e
quenos grupos humanos dependiam da caça nas caatingas arbóreas e tre retrair caatingas para o contex to do atual Nordeste S eco. O aparecimento de
chos de cerrados existentes nos rebordos de chapadas e chapadões. Ou, sedimentos aluviais argilosos nas planícies de inundação, assim como a
ainda, de atividades de c oleta e caça nas florestas biodiversas dos redutos perenização da drenagem, durante os últimos milênios do holoceno, favoreceu
de flora eventualmente ocorrentes. Não ex istiam aproximações freqüentes uma preferência por sítios beiradeiros, descoberta da cerâmica, e um impor
em relação à beira-rio, porque a maior parte da drenagem era ainda intermi tante acréscimo de ofertas da natureza pela piscosidade dos rios que ficaram
tente sazonária, por im enso s tratos do território. em franca e extensiva perenização, ressalvado o caso do N ordeste Seco.

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42 Aziz Nadb Ab'Sáber Incursões à pré-história da Am érica tro pica l 43

O s povo s de língua tupi-guarani que vasculharam e fizeram migrações Bibliografia selecionada


sucessiva s e progressivas por m ilhões de qu ilômetros quadrados do territó A B ' SABER, Aziz Nacib. "Espaços ocupados pela expansão dos climas secos na América do Sul
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[Nos trabalhos de G . Martin, B . Meggers, A . Prous, P . I . Schmitz, F. Salzano, A. Roosevelt,
M . Alvim e M . C . da Cunha, existem excelentes bibliografias sobre a arqueologia e a pr é -
história do Brasü. Idem n a série de  revistas d a SA B, M useu Goeldi, UFPE, M useu Nacio
n a l , IPH - Instituto de Pré-História - U S P , Universidade Sinos.]

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U A gênese d o Brasil
-
Jorge Couto

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A, longo de milênios, os ameríndios, primitivos habitantes do terri


tório que, posteriormente, viria a ser designado por Brasil, ocuparam pro
gressivamente o vasto espaço sul-americano, desenvolveram um mod elo de
aproveitamento do ecossistema, construíram uma civilização original e com
bateram ferozmente pela conquista dos nichos ecológicos mais favoráveis.
A partir dos contatos estabelecidos pelos homens da esquadra de Cabral
com a terra e a gente brasílicas, em abril de 1500, divulgaram-se em Portu
gal e, subseqüentemente, em outros Estados europeus, notícias sobre o
"adiamento", na região ocidental do Atlântico Sul, de uma terra firme habita
da por gentes desconh ecidas, daí resultando, na feliz expressão do historia
dor Capistrano de Abreu, o "descobrimento soc iológico do Brasil".
O surto de expansão quatrocentista e quinhentista lusitano contribuiu
decisivamente para o estabelecimento de ligações marítimas e comerciais
entre todos os continentes, bem com o para o surgimento de profundas muta
ções de natureza cultural, designadamente nos campos da geografia, botâni
ca e zoologia, avultando, entre os mais relevantes, a modificação da concepção
européia do mundo. A arribada dos portugueses provocou, assim, aos mais
diversos níveis, profundas repercussões na Am érica do Sul.
Ilha ou terra firme? Eis a primeira interrogação que o "adiamento"
colocou aos homens da esquadra de Cabral, seguindo-se, de imediato, as
questões suscitadas pelo encontro de gentes tão diferentes das então conhe
cidas.
A forma de integrar a possessão sul-americana no con texto do Império
Português levou à adoção dos sistemas de arrendamento e, posteriormente,
de "capitanias de mar e terra", inserindo-se no contexto das opções estraté
gicas globais definidas pela corte de Lisboa nas três primeiras décadas de
Quinhentos.
A s significativas alterações geopolíticas e econôm icas, ocorridas entre
1529 e 1548, induziram o governo d e d. João III a desencadear o processo

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48 Jorge Couto A g ê n e s e do Brasil 49

de colonização do Brasil, tendo, ao longo desse período, experimentado A 14 desse mês, a armada passou ao largo do arquipélago das Canárias
sucessivamente três mo delos institucionais distintos que levaram à elevação e a 22 alcançou as ilhas de Cabo Verde, tendo o capitão-mor optado por
da Terra do Brasil à dignidade de Província de Santa Cruz. não se deter nessas ilhas para efetuar a aguada prevista nas instruções.
A tenaz luta travada pelos portugueses para garantir a soberania sobre Entre os dias 29 e 30, a esquadra encontrar-se-ia a 5 o N, iniciando a
a fachada leste do continente sul-americano influenciou a formulação do pro penetração na zona das calmarias equatoriais - que levou dez dias a trans
jeto - consubstanciado na fórmula de Ilha Brasil - de construir uma Am éri por -, tendo a corrente oequatorial sul afastado a sua rota cerca de noventa
ca Portuguesa do Amazonas ao Prata. milhas para oeste. A I 1/4 a norte do equador, a frota encontrou vento
Os visíveis progressos alcançados em finais de Quinhentos nos domí escasso, iniciando, então, de acordo com as recomendações de Vasco da
nios do controle do litoral, do aumento demográfico, do crescimento dos Gama, a volta pelo largo em busca do alísio de sudeste, rumando muito
espaços urbanos, da ampliação da área cultivada, do incremento das ativi provavelmente para sudoeste, devido ao regime de ventos que ocorre na
dades econômicas e da expansão do catolicismo levaram muitos a conside região. Ultrapassada a linha equinocial, por volta de 10 de abril, a rota terá
rar a promissora província sul-americana um a Nova Lusitânia ou um Outro sido corrigida para sul-sudoeste, passando a frota a cerca de 210 milhas a
Portugal. ocidente do arquipélago de Fernando de Noronha.
Tendo o Brasil resultado de um processo de construção empreendido Por volta do dia 18, a armada encontrar-se-ia na altura da baía de
pelos portugueses em cooperação ou conflito com outros grupos étnicos, ou Tod os os S antos (13° S ), área em que o vento se aproxima bastante de leste,
seja, ameríndios e africanos, destacam-se os aspectos relacionados com os favorecendo a busca de terra, pelo que a esquadra terá passado a navegar a

eintercâmbios civilizacionais euro-afro-americanos — da lingüística à zoologia


da gastronomia às epidemias - que deram origem a u m a criação profunda
um rumo próximo do
Na terça-feira, 2 1,sudoeste,
segundofechando sempre
o testemunho sobre aescrivão
d o célebre costa. cabralino,
mente original e distinta de cada uma das suas comp onentes. os m embros da tripulação encontraram alguns sina is de terra: "muita quanti
dade d'ervas compridas a q u e os marcantes chamam botelho e a ssim outras,
a que também chamam rabo d'asno". Apesar de, nessa latitude (cerca de
17° S), dispor de vento favorável - que sopra francamente de leste - para
1. Ilha ou terra firm e? atingir mais rapidamente o seu objetivo prioritário que era o de alcançar a
monçã o do Índ ico, o capitão-mor alterou deliberadamente o rumo para oes
te em b usca de terra.
A 9 de março de 1500 zarpou de Lisboa a segunda armada da índia,
A 22 de abril toparam, pela manhã, "com aves, a que chamam fura-
constituída por 13 velas (n ove naus, três caravelas e uma naveta de m anti-
buchos [... ] e, a horas de véspera [entre as 15 horas e o sol-posto]" tiveram
mentos) capitaneadas por Pedro Álvares Cabral, Sancho de Tovar (que co "vista de terra, isto é, primeiramente d'um grande monte, mui alto e redondo ,
mandava a na u El-Rei, estando investido no cargo de sota-capitão, ou seja, e d'outras serras mais baixa s a sul dele e de terra chã com grandes arvore
lugar-tenente, tendo por missão substituir o capitão-mor em caso de impedi d o s , ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a
mento deste), Simão d e Miranda de Azevedo, Aires Gom es da Silva, Nicolau Terra de Vera Cruz".
Coelho, N uno Leitão da Cunha, Vasco de Ataíde, Bartolomeu Dias, D iogo Após esse adiamento, a armada fundeou a cerca de 6 léguas (19 mi
Dias, G aspar de Lemos, Luís Pires, Simão de Pina e Pero de A taíde. lhas) da costa. No dia imediato (quinta-feira, 23 de abril), os navios mais
A esquadra transportava entre 1.200 e 1.500 homens, incluindo a tripu ligeiros (caravelas), seguidos pelos de maior tonelagem (naus), procedendo J
lação, a gente de guerra, o feitor, os agentes comerciais e escrivães, o cautelosamente a operações de sondagem, ancoraram a cerca de meia légua
cosmógrafo mestre João, um vigário e oito sacerdotes seculares, oito reli (milha e m eia) da foz d o posteriormente denom inado rio do Frade. Foi, en
giosos franciscanos, os intérpretes, os indianos que tinham sido levados para t ão, decidido enviar um batei a terra, comandado por N icolau C oelho, para
Lisboa por Vasco da Gama e alguns degredados. entabular relações com os indígenas que se encontravam na praia.

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50 Jo rge C o u to
A gêne s e do B ra s il 51

O s primeiros contatos entre os tripulantes da pequena embarcação e o O s ameríndios não permitiram que o degredado ficasse entre eles, com-
grupo de 18 a 20 ameríndios foram d ificultados pelo barulho ensurdecedor pelindo-o a regressar à armada. Na tarde do mesmo dia, uma parte da tripu
provocado pela rebentação que impediu tentativas mais prolongadas de en lação foi folgar e pescar no ilhéu, distante da praia, onde os nativos só tinham
tendimento. Contudo, ainda houve oportunidade para trocar um barrete ver possibilidades de chegar a nado ou em canoa. Essa decisão foi tomada por
melho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto por "um sombreiro de Cabral como medida d e segurança para evitar quaisquer hipóteses de ata
penas d'aves,
e pardas, comocom
depridas, com[...]
papagaio umae copazinha
um ramal pequena de penas
[colar] grande de vermelhas
continhas ques de surpresa de que, por exemplo, os tripulantes das expedições de
Dias e G ama tinham sido alvo na costa africana.
brancas, miúdas [...]". N o dom ingo, dia de P ascoela, o capitão-mor mandou armar, no ilhéu
Na noite de quinta para sexta-feira, uma forte ventania de "sudeste, da Coroa V ermelha, um altar destinado à celebração da missa. A primeira
com ch uvaceiros, que fez caçar [afastar do local onde estavam fundeadas] cerimônia cristã no B rasil, à qual assistiram a tripulação e cerca de duzentos
as naus, especialmente a capitania", levou a que os capitães e os pilotos tupiniquins que se encontravam na praia fronteiriça, foi presidida por frei
decidissem aproar a norte, ao amanhecer, em busca de um ancoradouro Henrique de Coimbra, guardião dos franciscanos, que, num improvisado
abrigado, onde p udessem verificar o estado de abastecimento da frota em púlpito, também se encarregou da pregação, dissertando sobre o significado
água e lenha, com o objetivo de dispensar a aguada na costa da África. da quadra pascal e do descobrimento daquela terra.
Dep ois de percorrerem cerca de 10 léguas (quase 32 m ilhas), os pilo No mesmo dia, o comandante reuniu em conselho na nau-capitânia
tos ultrapassaram a barra do Buranhém, encontraram "um arrecife [a Coroa todos os capitães da esquadra que concordaram com a sua proposta no
Vermelha] com um porto dentro, muito bom e mu ito seguro [a baía Cabrália], sentido de mandar ao rei o navio auxiliar com a "nova do achamento" da
com uma mui larga entrada", onde lançaram as âncoras, tendo as naus fun Terra de V era Cruz e, também, com a missão de a explorar mais detalha
deado a cerca de uma légua do recife, por terem atingido o local pouco antes damente na viagem de regresso. Foi ainda deliberado que se não tomasse
do pôr-do-sol. Afonso Lopes, piloto do capitão-mor, sondou o porto, ten nenhum indígena para o enviar ao reino, optando-se apenas por deixar dois
do , no decurso dessa operação, capturado dois mancebos índios que se degredados com a missão de aprender a língua e recolher informações. T er
encontravam num a almadia, conduzindo-os à nau-capitânia com o objetivo minada a reunião, o capitão-mor foi efetuar um reconhecimento das margens
de os interrogar. do rio Mutari, autorizando a tripulação a folgar, circunstância que foi apro
N o sábado, 25 de abril, as embarcações de maior tonelagem penetra veitada por Diogo Dias para organizar um baile, ao som de gaita, no qual
ram na baía, aí fundeando. Concluídas as tarefas de marinharia, reuniram-se participaram portugueses e ameríndios.
todos os comandantes na nau de Cabral, sendo N icolau Coelho e Bartolomeu N os dias imediatos procedeu-se à transferência da carga da naveta de
Dias incum bidos pelo capitão-mor de devolver à liberdade, com presentes, mantimentos para as outras 11 embarcações, à conclusão do aprovisiona-
os dois n ativos aprisionados na véspera e de desembarcar o degredado Afonso mento de água e lenha, à construção de um a grande cruz, à prossecução das
Ribeiro, que tinha por missão obter informações m ais detalhadas sobre os tentativas para obter mais informações sobre os habitantes da terra e à cria
autóctones. ção de um clima de cordialidade com os tupiniquins, alguns dos quais foram
N a praia encontravam-se perto de duzentos homens armados com ar convidados a tomar refeições e a pernoitar nas naus.
cos e flechas, tendo-os deposto a pedido dos seus companheiros que se O cosmógrafo, bem como os pilotos das naus do capitão-mor e do
encontravam nos batéis. A partir de então começaram progressivamente a sota-capitão, respectivamente, A fonso Lopes e Pero Escobar, aproveitaram
estabelecer-se relações cordiais entre os marinheiros lusos e os tupiniquins a perman ência em terra para armar na praia o grande astrolábio de pau -
traduzidas em trocas de objetos (carapuças, manilhas e guizos por arcos, mais confiável do que os pequ enos astrolábios de latão utilizados a bordo -
flechas e adornos de penas) e na colaboração prestada pelos indígenas nas com o objetivo d e tomar a altura do sol ao meio-dia, comparar os cá lculos
operações de abastecimento de água e lenha. das léguas percorridas e estimar a distância a que se encontravam do cabo

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52 Jorge Couto A g ê n e s e d o B r a s il 53

da Boa Esperança. A medição da latitude da baía Cabrália (que está atual foz do  rio M
  utari, que não é visível do mar, onde a implantaram, seguindo-se
mente fixada em 1 6 ° 2 1 ' S), efetuada a 27 de abril por aqueles três técnicos, a celebração da segunda missa na Terra de Vera Cruz. C oncluídas as ceri
deu o resultado de 17° S, tendo, por conseguinte, um a margem de erro infe mônias litúrgicas, o comandante da ex pedição ordenou a partida para Lis
rior a 40' por excesso. boa da naveta de mantimentos, comandada por Gaspar de Lem os, enviando
Na carta que enviou a d. Manuel I, mestre João Faras, além de reco ao rei papagaios, arcos, flechas e outros objetos fornecidos pelos tupiniquins,

mendações de natureza náutica, procede à primeira descrição e a um esboço bem


sobrecom o as missivas
o "achamento da dos
terracapitães,
nova". do feitor, do cosmógrafo e do escrivão
de representação da Cruz, ou seja, da constelação austral. O cosm ógrafo e
físico régio acrescenta, ainda, uma passagem em que informa o monarca dé No sábado, 2 de maio, a esquadra cabralina zarpou do ancoradouro
que, para conhecer a localização da nova terra, bastaria consultar o mapa- brasílico, deixando, todavia, em terra, dois grumetes que tinham desertado
múndi que se encontrava em Lisboa, na posse de Pero Vaz da Cunha, o nas vésperas da partida e igual núm ero de degredados, "os quais começa
Bisagudo, onde a mesma estava desenhada. No entanto, ressalva que se ram a chorar, e foram animados pelos naturais do país que mostravam ter
tratava de uma carta antiga, não indicando se a terra era ou não habitada. piedade deles".
Essa referência a uma hipotética representação cartográfica da Terra do Brasil, A naveta de mantimentos, comandada por Gaspar de Lemos, efetuou,
anterior a abril de 1500, tem suscitado acesa polêmica devido às implica na viagem de retorno a Lisboa, um reconhecimento d o litoral brasílico com
ções decorrentes da sua interpretação apontarem ou não para a existência preendido entre Porto Seguro e o cabo de S ão Jorge - identificado com o
de precursores de Cabral naquela região brasílica. atual cabo de Santo A gostinho - numa extensão superior a 150 léguas, o que
N ão são concordantes as opiniões dos autores dos três relatos sobre o permitiu obter a confirmação de que se tratava de um continente. O traçado
descobrimento d o B rasil relativamente à natureza da terra achada. Pero V az geral da faixa costeira explorada, uma legenda alusiva ao descobrimento, os
de C aminha considera-a uma ilha, uma vez que no encerramento da Carta a topônimos correspondentes às estremas atingidas, sendo que a do norte se
d. M anuel data-a de "Porto Seguro, da vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta- encontra assinalada com uma bandeira das Quinas, foram, na seqüên cia da
feira, primeiro dia de maio de 1500". O bacharel mestre João, por seu turno, expedição cabralina, inseridos no padrão cartográfico real.
refere que "[...] quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram
quatro, e que de outra ilha vêm aqui almadias [...]", endereçando a sua missiva
de "Vera Cruz no primeiro de maio de 500" .
2. Terra de Santa Cruz, Terra dos Papagaios e Novo Mundo
O autor da vulgarmente designada Relação do piloto anônimo aborda
a questão de forma mais dubitativa, indicando que a terra era "grande, po
rém não pudemos saber se era ilha ou terra firme", adiantando, contudo, que D. Manuel I recebeu, provavelmente no decorrer de julho de 1500,
se inclinava para a "última opinião p elo seu tamanho". Esta última testemu Gaspar d e Le mos, tomando conhecimento d os sucessos protagonizados pela
nha não ficou, todavia, circunscrita ao litoral reconhecido até à baía Cabrália, segunda armada da índia até 1Q de maio inclusive, bem como da existência
tendo tido oportunidade, no prosseguimento da derrota rumo ao cabo da no poente de uma grandiosa terra firme a ustral que o monarca denominou de
Boa Esperança, de avistar mais uma parcela da orla marítima, o que lhe Terra de Santa Cruz. N a previsão de que a nova descoberta pudesse susci
permitiu adquirir um a visão m ais próxima da realidade. ta r a eclosão de d isputas com C astela acerca da esfera de influência em que
A 1Q de maio, sexta-feira, o capitão-mor procedeu à escolha do sítio o n ovo do mínio se situava, o rei decidiu manter segredo sobre o assunto até
onde deveria ser erguida a grande cruz construída em madeira da terra, de obter informações sobre os respectivos limites.
forma a, de acordo com o escrivão cabralino, "melhor ser vista". Foi então N o início de 1501, ultrapassados diversos constrangimentos políticos
organizada um a procissão que transportou a cruz, em que foram pregadas as e d iplomáticos, o rei de P ortugal tomou decisões conducentes a integrar fun
armas e a divisa reais, até ao local selecionado, situado nas proximidades da cionalmente os domínios do N ovo M undo no contexto do Império.

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A primeira consistiu em da r instruções a João da N ova, capitão-mor da A o receber as notícias sobre a descoberta da grande terra  firme austral
terceira armada da índia, para tornar refresco na Terra de Santa Cruz. Com - cujas estremas setentrional e meridional eram desconhecidas -, d. M anuel
efeito, a  frota z arpou do T ejo n a primeira quinzena de março, iniciou a apro apercebeu-se qu e, para além de ter vencido os reis católicos na corrida pela
ximação ao litoral brasílico por alturas do cabo de Santo Agostinho e efe chegada ao Oriente (149 9), acabava de abrir uma nova frente de competi
tuou a aguada na costa pernambucana. ção com C astela, dessa vez no hemisfério ocidental.
A segunda
caravelas, - e mais confiou
cujo comando importante - foi a Coelho,
a Gonçalo de armar uma
com flotilhadededeter
a missão três Os m onarcas castelhanos - alertados pelos rumores que circulavam
sobre o achamento, por navios lusos, de terras no poente que poderiam
minar os limites da terra firme descoberta p or Cabral. É muito provável que estar situadas no seu hem isfério de influência - deram instruções ao seu re
entre os objetivos cometidos à expedição de 1501-1502 se encontrasse o presentante em Portugal para q u e insistisse junto do "d ileto filho"  n o sentido
de efetuar um levantamento das potencialidades econômicas da Terra de de lhes dar conta dos resultados obtidos pela segunda armada da índia. O
Santa Cruz, fato indiciado p ela participação de dois d estacados florentinos soberano lusitano, pressionado pelo embaixador d os sogros, enviou-lhes uma
que se encontravam intimamente associados a empreendimentos marítimos e missiva (28 de agosto de 1501), redigida em linguagem muito cautelosa e
comerciais nas "índias de C astela".
ambígua, em q u e atribui a descoberta feita p or Cabral a um "m ilagre divino",
Os navios de Gonçalo Coelho zarparam de Lisboa entre 10 e 14 de sublinhando que a mesma er a muito conveniente e necessária para a navega
maio de 15 01, dirigindo-se a Bezeguiche (Senegal) para tomar refresco. No
ção da índia. O mite, todavia, os dados sobre a posição geográfica da Terra
final do mês encontraram ancoradas nesse porto duas naus da armada de
de Vera Cruz, bem como os resultados das medições de latitude efetuadas
Cabral q u e regressavam da índia, tendo-se efetuado importantes conciliábulos
entre alguns membros de ambas as tripulações que permitiram a V espúcio em Porto Seguro, e não faz a mínima referência ao envio da expedição de
Co elho que havia partido de Lisboa em m aio.
chegar à conclusão de que a Terra de Santa C ruz pertencia ao mesm o con 
tinente que ele havia visitado no decurso da expedição de O jeda, situando- O selo de secretismo com que o Venturoso rodeou os resultados náu
s e , todavia, n a região meridional. ticos da expedição de C abral encontra-se bem patente numa missiva, datada
Apesar de todas essas movimentações, não transpiraram notícias so de 10 de agosto desse ano, em qu e Ângelo T revisano, secretário do embai
bre a descoberta efetuada pela esquadra de Cabral nas paragens ocidentais, xador veneziano Dom enico Pisani junto de Isabel e Fernando, informava o
o que revela a existência de um calendário político para a sua divulgação. O analista Malap iero que não tinha sido p ossíve l obter uma carta de marear da
argumento de que a inexistência d e informações sobre o assunto se deveria à referida viagem, "porque o rei impôs a pena de morte a quem a mandar para
pouca importância atribuída por d . M anuel I ao adiamento do Brasil é inva fora".
lidado pela tomada das d ecisões já referidas que apontam no sentido contrá No início de agosto de 1501, a flotilha comandada por Gonçalo Coe
rio ao dessa hipótese. lho atingiu a costa brasílica no Rio Grande do Norte, por volta dos 5 o S,
Na noite de 23 para 24 d e junho de 1501 chegou ao Tejo a nau Anun iniciando aí o reconh ecimento da orla marítima que se estendeu até ligeira
ciada, pertencente à sociedade constituída entre d. Álvaro de Bragança e mente ao sul de C ananéia (25° 0 3 ' S), numa extensão superior a 370 léguas.
mercadores italianos, comandada por Nuno L eitão da Cunha, primeira uni N o decurso da viagem foram descobertos e batizados importantes acidentes
dade da segunda armada da índia a regressar do Oriente. A partir de 26 geográficos, designadamente o cabo de São Roque (16 de agosto), o cabo
desse m ê s , a s missivas d e italianos residentes em Portugal e Castela (Affaitadi, de Santa Cruz (posteriormente designado de Santo A gostinho), o rio de São
Cretico, M archioni, Pisani e Trevisano) vão aludir constantemente ao d esco Francisco (4 de outubro), a baía de Todos os Santos (1 Q de novembro), a
brimento da Terra dos Papagaios - designação que lhe foi atribuída por serra de São Tom e (21 de dezembro), cabo Frio, a baía (Angra) dos Reis (6
esses diplomatas e mercadores -, pondo em relevo o encontro de uma terra de janeiro), o porto de São Vicente (22 de janeiro) e a Cananéia (29 de
desconhecida, a existência d e populaçõ es caracterizadas pela nudez e a abun fevereiro). No início de março de 1502, a flotilha afastou-se do litoral a
dância e variedade de papagaios. partir aproximadamente dos 26° S, seguiu o rumo sudeste e efetuou uma

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profunda incursão em águas austrais até cerca de 50°, enfrentando violentas dialeto geno vês: Terá de Gonsalvo Coigo vocatur Santa Croxe, ou seja,
Terra de G onçalo C oelho que se chamaSanta Cruz, designação atribuída ao
tempestades, frio intenso e ilhas de gelo. Regressou a Lisboa entre 22 de
Brasil pelo cartografo Vesconte de M aiollo em homenagem ao navegador
julho e 7 de setembro desse ano.
que comandara a expedição de reconhecimento de 1501-1502.
Uma das conseqüências da viagem de 1501-1502 consistiu em refor
çar a noção de continentalidade da terra firmeo  cidental que já ganhara con
sistência na corte manuelina no decurso de 1501, com o mostra o fato de, em 3. Terra do Brasil
18 de outubro desse ano, P edro Pasqualigo, embaixador de V eneza, atestar
que os homens da expedição de Gaspar Corte-Real, acabados de regressar
da Terra N ova (Canadá), acreditavam na continuidade da "quarta parte" do Em data anterior a 3 de outubro de 1502, d. M anuel I arrendou a Terra
mundo d esde a região glacial até a Terra dos P apagaios. de Santa Cruz a uma associação de mercadores. O contrato, de acordo com
O s resultados das explorações lusitanas nas paragens ocidentais - do as informações fornecidas por Pedro R ondine lli, tinha uma duração prevista
extremo setentrional (Terra Nova) à região austral (Cananéia) - foram incor de três anos. C oncedia o m onopólio da exploração do território à sociedade
porados, como acontecia com os territórios pertencentes ao Velho Mundo, encabeçada por Fernão de Loronha e vedava a importação do Oriente da
nas cartas padrão regias. Da valiosa p rodução cartográfica de 1502 somen variedade asiática do pau-brasil.
te se conserva o planisfério português anônimo, o famoso "Cantino". No Decorrido algum tempo sobre o arrendamento do Brasil, d. M anuel I
entanto, o traçado da costa brasílica desde Cananéia - local por onde pas procedeu à primeira doação efetuada pela monarquia portuguesa em territó
sava, ou
ente, ao seja,
sul, ofoimeridiano de de
falsificado T ordesilhas - encontra-se
modo a impedir deslocado
a revelação de que para ori
as terras rio americano.
da Ilha de São Com
João efeito,
(atualoFernando
rei concedeu , em janeiro
de Noronha) de 15 04,dea Loronha,
a Fernão capitania
situadas a partir daquele local pertenciam à coroa de C astela. Esse tipo de pelo prazo de duas vidas, c om a obrigação do beneficiário a povoar e apro
alteração intencional introduzida n as cartas-portulano por motivos políticos veitar econom icamente. A s contrapartidas consistiam n o pagamento anual
manteve-se até 1515-1516, época em que João Dias de Sólis, um piloto do quarto e do dízimo dos rendimentos obtidos, excetuando as matérias-
português a serviço de Fernando, o Católico, conduziu uma expedição primas tintureiras, drogas e especiarias, que  ficavam r eservadas para a coroa.
castelhana às terras austrais. A afirmação de que "é achada esta terra não navegada pelos navios de
Após o regresso a Lisboa, Américo Vespúcio redigiu uma relação su Vossa A lteza e, por vosso m andado e licença, os dos vosso s naturais" signi
mária da viagem de 1501-15 02 que enviou a Lourenço di Pierfrancesco de' fica que, à data da redação do Esmeraldo de Situ Orbis, da autoria de
M ediei. Este primeiro documento impresso sobre o Brasil foi publicado em Duarte Pacheco Pereira (1505), a exploração geográfica e comercial do
italiano na cidade de Paris, provavelmente em 1503, com numerosas altera Brasil estava confiada à sociedade d e mercadores chefiada por Fernão de
ções introduzidas sem o conhecim ento do autor, tendo, pouco d epois, saído
dos prelos a versão latina intitulada Mundus Novus (Veneza, 1504). A ex Loronha,
mas pelo pertencentes
s im pelas que a mesmaaosnãorespectivos
era freqüentada por embarcações regias,
arrendatários.
pressão divulgou -se rapidamente, passando a ser mu ito utilizada para no Em 1513, Jorge Lopes Bixorda - grande armador que em 1509 co
mear o continente austral recentemente descoberto pela armada de Cabral. mandara pessoalm ente uma nau de sua propriedade que partiu para a índia
Contud o, ela já era empregada nos círculos portugueses desde 1501, con integrada na armada do marechal d. Fernando C outinho - detinha o exclu si
forme comprova a seguinte passagem de uma carta remetida, em julho desse vo do com ércio da árvore tintureira po r prazo e em condições desconhecidos.
a n o , por Marchioni para Florença: "Este rei [d. Manuel] descobriu nesta
A experiência proporcionada pela realização da viagem de 1501-1502
[viagem de 1500] um novo mundo, mas é perigoso navegar no âmbito des revelou que o aprovisionamento de pau-brasil efetuado no decurso da per
ses mares".
manência d os navios nos ancoradouros tornava a operação muito demorada-
A carta-portulano de Fano, datada de 8 de junho de 1504, contém, na
e, por conseguinte, p ouco lucrativa. Daí que se tenha chegado à cono íuslb O^
representação cartográfica do N ovo M undo austral, a seguinte inscrição em J /F "A U>

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de que a solução m ais rentável consistiria em edificar uma feitoria, cuja guar- N o início da segunda década de Quinhentos, surgiu, pela primeira vez,
nição deveria obter a colaboração dos indígenas para o abate e preparação numa carta de Afonso de Albuquerque a d. Manuel I e no globo de Marini
das árvores no período em que se aguardava a chegada das naus, de modo (1512), o termo Brasil (tradução de ibirapitanga, ou seja, "árvore verme
que estas, logo que arribassem, pu dessem ser rapidamente carregadas. lha" ou "pau cor de brasa") para identificar a terra austral, designação que
A 10 de junho de 1503 zarpou de Lisboa a segunda armada de G onça- gradualmente suplantou a denominação oficial de Terra de Santa Cruz e a s
lo Coelho, constituída por seis navios, que tinha como um dos objetivos italianas de Terra dos Papagaios ou de Gonçalo Coelho. A substituição do
prioritários o de construir uma feitoria na terra do pau-brasil. Depois de re símbolo da paixão e redenção cristãs por um "pau que tinge panos" seria
frescar nas ilhas de C abo V erde, rumou, por razões náuticas, para sudeste, duramente criticada, na segunda metade do século X V I, por João de B arros
dirigindo-se, em seguida, para sul-sudoeste. A 10 de agosto a expedição e por Pero de Magalhães de Gândavo, atribuindo-a a obra do demônio.
encontrou a ilha de São João, que rebatizou de S ão Louren ço, tendo a nau- O s navegadores p ortugueses exploraram, até 1514, o trecho do litoral
capitânia naufragado, nesse mesmo dia, nos seus baixios. Devido a essa ocor compreendido entre Cananéia e o rio de Santa Maria (Prata). Aliás, o cabo
rência, a esquadra dispersou-se, daí resultando que uma das unidades de Santa Maria (Punta dei Este, Uruguai), situado na entrada do estuário
descobriu, em outubro, a ilha da Ascensão, posteriormente rebatizada de daquele rio (34° 59 ' S ), já aparece referenciado no Livro de marinharia, de
Trindade (20° 30' S). João de Lisboa, concluído por volta de 1514, que atribui àquele acidente
A pós terem aguardado inutilmente na baía de Todos os San tos - local geográfico a latitude de 35°. Esta obra inclui ainda a primeira menção conhe
de encontro fixado pelo regimento régio para o reagrupamento das armadas cida de Cruzeiro do Sul, bem como o respectivo regimento para a determi
- a chegada do capitão-mor, os navios de Vespúcio e de outro comandante nação de latitudes, provavelmente também da autoria daquele reputado piloto.
cuja identidade se descon hece rumaram para sul a fim de cumprir uma das Lisboa procedeu, na primeira vintena de Quinhentos, a medições de
cláusulas do contrato de arrendamento: fundar um estabelecimento lusitano latitude de norte a sul do litoral da Terra de Santa Cruz, conforme demons
no Novo Mundo. Durante cinco meses edificaram a feitoria-fortaleza numa tram, por um lado, a tábua incluída na sua obra que apresenta os primeiros
ilha nas imediações d o cabo Frio, deixando o feitor João de Braga com uma topônimos e "alturas da costa do Brasil" para a região costeira sul-americana
guarnição de 24 hom ens, 12 peças de artilharia, armas, mun ições e m anti- compreendida entre os 25 e 35° e, por outro, o fato de nas imediações da
mentos para seis me ses, tendo regressado a Portugal a 18 de junho de 1504. baía do Maranhão (2 o 1/3 S ) surgir cartografado no atlas H omem -Re inéis
A Lettera dirigida a Pedro Soderini, concluída em Lisboa a 4 de se um  rio  denominado "Joham de lixboa".
tembro de 1504, em que Américo Vespúcio descreve as viagens que efe Por volta de 1516, foram impressas, pela primeira vez, no Regimento
tuou, designadamente a de 1503-1504, foi, após ter sido modificada e da declinação do sol, tábuas de latitudes das regiões situadas ao sul do
ampliada por um compilador, impressa em Florença em 1505 ou 1506. O equador, abrangendo a "terra do Brasil, da banda do sul" a costa compreen
cosmógrafo alemão M artim W aldseemuller traduziu-a para o latim, sob o dida entre o "rio do arrecife" (2 o S) e o "cabo de Santa Maria" (35° S). A
título Quatuor Navigationes e publicou-a na sua Cosmographiae Intro
dução (Saint-Dié, L orena, 1507), onde apareceu pela primeira vez o neolo-
divulgação desses dados até então ciosamente conservados em sigilo - de
pois de os castelhanos terem chegado ao rio da Prata - revela uma mudança
gismo América, por ele criado. de estratégia da coroa portuguesa. Desvendado o segredo de que o reino
Foi a partir do ltinerarium Portugallensium (Milão, 1508) - versão vizinho tinha direito a uma parcela das terras austrais, d. M anuel apressou-se
latina da coletânea de relações de viagens portuguesas e castelhanas, organi a mandar publicá-los de forma a poder invocar, nas inevitáveis n egociações
zada por Fracanzano da Montalboddo, intitulada Paesi Novamente Retrovati que se seguiriam sobre a definição dos respectivos limites, os direitos de
(Vicenza, 1507), na qual figuravam os textos vespucianos - que Thomas Portugal aos territórios situados entre Cananéia e o rio da Prata, baseados
More tomou conhecimento do episódio referente à fundação da primeira na prioridade do descobrimento.
feitoria portuguesa no N ovo M undo, fato que integrou na trama da sua céle Os elementos fornecidos pelo Guia náutico de Évora foram incorpora
bre obra, Utopia (Louvain, 1516). dos na Suma de geographia (Sevilh a, 1519), da autoria de Martin Fernández

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de Enciso, que ao descrever o litoral brasílico situado entre o cabo de Santo mente concedidas. Adotou, po r conseguinte, um m odelo misto que m antinha
A gostinho e o cabo de Santa Maria fornece as latitudes corretas, mas ao tratar as capitanias-donatárias, embora reduzindo substancialmente as suas atri
da costa ao norte do primeiro topôn imo é "incrivelmente errôneo", arbitrando buições iniciais, articulava-as com o funcionamento de órgãos da administra
ao rio Maranon (Am azonas) a latitude de 7 o 30' S. ção regia estabelecidos na Província de Santa Cruz e, em vários domínios
Nu ma primeira fase (1500 -1530 ), o relacionamento entre portugueses (militar, judicial e fiscal), submetia-as à inspeção de representantes direta
e indígenas limitou-se à prática do escamb o, à criação de feitorias, à fixação mente n omeados pelo rei instalados no próprio território. Esta solução, que
de um es casso número de "lançados" no Brasil, e às pouc o frutuosas tenta conjugava recursos régios e particulares, consolidava a presença lusitana no
tivas de missionação empreendidas por franciscanos. Brasil, defendendo-a, simultaneamente, de ataques internos e externos tendo
permitido alcançar progressos significativos na ocupação da terra brasílica,
resistir vitoriosamente às investidas francesas, fomentar o crescimento eco
4. Província de Santa Cruz nômico e aperfeiçoar o funcionamento das instituições.
Os progressos verificados a partir da criação do governo geral foram
A partir de finais da década de 20 de Quinhentos, d. João III (1521- tão significativos que um dos donatários, o humanista João de B arros, escre
1557) decidiu iniciar a colonização do Brasil, tendo adotado, ao longo do v e u , em 1552, na Primeira década da Ásia: "E por honra de tão grande
período compreendido entre 153 0 e 1548, três modelos diferentes para ga terra chamemos-lhe Província".
rantir o sucesso da empresa, pretendendo responder à tenaz resistência oposta Uma das conseqüências do avanço do processo colonizador residiu,
por vários grupos tribais ameríndios à fixação de portugueses no seu territó contudo, na introdução de profundas m odificações no quadro das relações
rio e às alterações verificadas n as vertentes geop olítica e econôm ica mun entre tupis e portugueses, o qual garantira, até então, a manutenção da auto
diais. nomia dos grupos tribais. A paulatina fixação dos europeus, com caráter
Através do primeiro modelo - de exclusividade regia (1530-1533) -, permanente, em diversos pontos da costa brasílica pôs em causa o equilíbrio
a coroa procurou assegurar com os seus próprios recursos tão ambiciosa existente, provocando dois tipos de reações distintas por parte das comuni
tarefa. N o entanto, em p ouco tempo, concluiu que tal empresa exigia avulta- dades aborígines: aceitação pacífica ou resistência armada.
dos recursos financeiros e dem ográficos de que não dispunha, devido ao seu Pode-se afirmar que as características geográficas de várias regiões,
empenhamento em outras zonas geográficas do globo então consideradas com especial incidência no sudeste, dificultaram significativamente a penetra
prioritárias. ção portuguesa no sertão, condicionando a forma de ocupação do território
O governo régio optou, a partir de 1534, por recorrer a particulares brasílico nos séculos XV I e XV II.
para quem transferiu na quase totalidade a iniciativa da colonização. Este O isolamento do litoral, devido às dificuldades em transpor as barreiras
topográficas, constitui um importante elemento para a interpretação do pro
segundo insuficiente
contudo, modelo - depara
exclusividade (1534-1548)
particularpretendidos
atingir os objetivos - revelou-se,
devido à despro cess o quinhentista de colonização do B rasil. A estreita faixa costeira, sepa
porção existente entre as elevadas exigências materiais e humanas que a sua rada do planalto por linhas de escarpas abruptas com alturas superiores a
concretização implicava e as disponibilidades dos donatários (capitães-go- 800 metros, localizadas a curta distância das terras baixas, representou um
vernadores) e também aos abusos a que dava ocasião a total ausência de sério obstáculo para as ligações entre os sítios portuários da costa e os com-
fiscalização regia. partimentos do planalto de clima tropical de altitude. Essa situação era
N o fim de 1548, d. João III resolveu experimentar uma terceira solu agravada pela existência de um reduzido número de vales importantes entre
ção - o sistema misto - que articulava um forte empenhamento militar, eco os rios Doce (ao norte) e Jacuí (ao sul).
nômico e judicial da coroa com a manutenção das capitanias-donatárias, A lém d os condicionalismos de ordem geográfica, fatores de natureza
embora expropriando os seus titulares de mu itas das competências inicial- socioeconôm ica e geop olítica encontram-se na origem da "colonização pon-

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tual", ou seja, a ocupação apenas dos pontos estratégicos da orla costeira. artesãos). Apesar dessa configuração, a sociedade colonial possuía um apre
Dispondo Portugal de reduzidos recursos demográficos no século XVI, o ciável grau de mobilidade.
governo régio optou por concentrá-los na costa, já que, em primeiro lugar,
urgia enfrentar a ameaça francesa, ocu pando tod as as baías e embo caduras
de rios suscetíveis de permitir a ancoragem de navios gauleses e, em segu n 5. "Ilha Brasil"
do lugar, as condições ideais para a cultura da cana sacarina e o fabrico d e
açúcar - essen ciais para viabilizar a empresa colonizadora - se conjugarem A coroa de P ortugal nunca desistiu de ampliar os limites meridionais da
nas proximidades da faixa marítima. América portuguesa até, pelo menos, a margem norte do rio da Prata. D.
O "modelo insular" de fixação no território brasílico foi sagazmente João III incumbiu, em novembro-dezembro de 1553, o seu representante na
apreendido por frei Vicente do Salvador que escreveu, em 1625, contenta corte de Carlos V de efetuar diligências junto d o sobrinho e genro - o prín
rem-se os portugueses em arranhar a costa como os caranguejos, nela não cipe herdeiro de C astela (futuro Filipe II) - no sentido de impedir a saída de
penetrando d ecididamente com o o tinham feito os espanhóis. uma exp edição espanho la, que se aprestava para partir de Sevilha com des
A estratégia lusitana de consolidação e ampliação da América portu tino ao rio da Prata, uma vez que aquela região sul-americana "é da minha
guesa assentou, do ponto de v ista geopolítico, num tripé: na escolha da Bahia conquista e cai debaixo da minha demarcação".
- região central na época quinhentista - para sede do governo geral, funcio A recepção do mito ameríndio da "Ilha Brasil" - que encontra claro
nando, segundo as palavras de um franciscano seiscentista, como o "cora acolhimento na cartografia lusa a partir de meados de Q uinhentos - insere-se
ção no meio do corpo, donde todas se socorressem e fossem governadas";
na fundação de São Paulo, base estabelecida no planalto de Piratininga que na estratégia
Cruz portuguesa
seria uma de desenvo
ilha "rodeada lver a teoria
pelo oceano de que
e por dois a Província
grandes rios [o de S anta
A mazo
constituía uma cun ha para a penetração na região platina, e, finalmente, na nas e o Prata], unidos por um lago".
criação de São Sebastião do Janeiro, cidade que assegurava o domínio
Tratava-se de utilizar um argumento de natureza geográfica - u ma vez
efetivo da baía da Guanabara, essencial, por um lado, para manter a ligação
que o Brasil constituiria uma entidade territorial distinta, separada da Améri
entre as capitanias do Norte e do Sul e, por outro, através do sertão, com
ca Espan hola por "fronteiras n aturais", ou seja, pelas duas principais bacias
São Paulo, reforçando, desse modo, a segurança de ambas as povoações.
hidrográficas sul-americanas com unicantes através de um grande lago cen
Em meados de Quinhentos, a fase da economia de escambo foi supe tral, a "lagoa Eupan a", localizado no interior - que justificaria a inclusão de
rada, consolidando-se a economia de produção em que a cultura da cana e uma hipótese não prevista no articulado do Tratado de Tordesilhas. Essa
o fabrico do açúcar - complem entados por roças de mantimentos e criação solução surgia com o a única fórmula suscetível de conferir legitimidade às
de gado - assu miram um papel primord ial. A opçã o pela agricultura de ex ambições lusitanas de estender as fronteiras da A mérica portuguesa tão des-
portação, única que permitia integrar o Brasil na economia-m undo, originou
uma estrutura fundiária caracterizada pela grande propriedade e pelo recur mesuradam ente para oteve
Essa concepção sul da linha divisória.
importantes repercussões nas cartas-portulano,
so intensivo a mão-de-obra escrava, primeiramente formada por indígenas verificando-se q ue aquela visão fabulosa da geografia sul-americana se di
que foram sen do, a partir de meados do século XV I, gradualmente substituí fundiu lentamen te na Europa a partir de protótipos portugueses da segunda
dos por cativos africanos, daí resultando a criação de um eixo triangular: metade de Quinhen tos - em que o mapa de Bartolomeu Velho (1561) assu
Metrópole-Brasil-África. miu uma função paradigmática -, logrando alcançar grande aceitação nas
Esse tipo de estrutura econômica gerou uma formação social dominada escolas cartográficas flamengas, francesas e italianas, sobretudo no século
por um restrito número de membros (os senhores de engenho) em que a XVII.
massa da popu lação era constituída por escravos, verificando-se a existên As pretensões portuguesas de ampliar significativamente a extensão da
cia de um setor intermédio pouco numeroso (lavradores, mercadores e Província de Santa Cruz estão bem patentes, mesmo no período d a Monar-

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quia Dual (1580-1640), numa obra de cariz náutico da autoria de Luís no sustento do grupo tribal. Ela constituiu, através da gradual e crescente
Teixeira, elaborada por vo lta de 1586, que incluía a foz do rio da Prata n o ligação com o europeu , um instrumento para a desorganização social e con
hemisfério português, bem com o numa impo rtante descrição do Brasil que, seqüente transferência da propriedade dos meios de produção das socieda
em 1587, defendia que os limites da demarcação da coroa de Portugal na des nativas para a emergente sociedade colonial. Além desse aspecto
América do Sul se estendiam à ponta do Marco, bem ao sul do estuário fundamental, os laços matrimoniais entre portugueses e mulheres índias con
platino. tribuíram para que os primeiros adotassem muitos hábitos tupis (na alimenta
Simão de Vasconcelos, um jesuíta seiscentista português, sintetizou ç ã o , no mobiliário doméstico, nas formas de sociabilidade, etc) , provocando,
admiravelmente, no seguinte trecho, o projeto luso de construção de um assim, informalmente, a aculturação dos colonos.
grande Brasil: Os mestiços desempenharam um papel decisivo como agentes de
aculturação, sintetizando, num a primeira fase, os elementos das culturas eu
Estes dois rios, o das Amazonas e o da Prata, princípio e fim desta costa, são dois ropéia e ameríndia, transmitindo-os a grup os tribais que nunca tinham entrado
portentos da natureza... São como duas chaves de prata, ou de ouro, que fecham a em contato com os portugueses. A partir da segunda metade de Quinhentos,
terra do Brasil. Ou sã o como duas colunas de líquido cristal q u e a demarcam entre nós o processo d e aculturação foi enriquecido com o elemento africano, inician-
e C astela, não só por parte do marítimo, mas também do terreno. do-se, então, a gradual simbiose entre as componentes euro-afro-americana
que viria a moldar biológica e culturalmente a formação d a sociedade brasi
Ainda em finais do século XVDI afirmava Alexandre Rodrigues Ferreira, leira.
um incansável pesquisador da fauna e da flora amazôn icas, que "pelo Brasil A língua tupi constituiu um veículo privilegiado de contato entre euro
entendo aquela parte da América, compreendida entre os rios Amazonas e peus e indígenas, estendendo-se a áreas de outras formações lingüísticas
da Prata", o que revela as marcas indeléveis que este projeto plasmou no ameríndias. Funcionou, na prática, como uma verdadeira língua geral, de
imaginário luso-b rasileiro. signação que, contudo , somente começou a ser utilizada na segunda m etade
do século XVII. Até então era referida por "língua do Brasil", "língua da
terra" e, sobretudo, "língua brasílica".
6. Um outro Portugal?
Os primeiros jesuítas ded icaram particular atenção à língua tupi, estu-
dando-a e elaborando, ainda em Quinhentos, algumas obras sobre o tema.
No final de Quinhentos, o jesuíta Fernão Cardim, que viveu a maior O primeiro Vocabulário na língua brasílica foi composto pelo padre Leo
parte da sua vida no B rasil, afirmava, na obra Tratados da terra e gente do nardo do Vale (c. 1538-1591) que viveu quase 40 anos entre os índios da
Brasil (1585), que "este Brasil é já outro Portugal". No entanto, tratava-se Bahia, Porto Seguro e São Paulo, tendo sido, no início da década de 1570,
de uma componente do império português que possuía características bem nomeado lente de Língua Brasílica no Colégio da Bahia. Elaborou ainda uma
vincadas e que - apesar da prevalência, sobretudo nas áreas urbanas, de
elementos d a matriz cultural, lingüística e religiosa lusitana - não po deria, Doutrina geral na
para a educação língua dodosBrasil
e instrução índios(1574), bemdocomo
na Língua sermões e avisos
Brasil.
desde o início do processo de colonização, ser automaticamente associada O padre José de Anchieta redigiu a primeira Arte de grammatica da
ao padrão metropolitano. lingoa mais usada na costa do Brasil, que circulou manuscrita largo tem
Com efeito, a miscigenação, o escambo, a atividade missionária e o p o , tendo merecido honras de impressão em Coimbra, em 1595, na oficina
engenho d esempenharam , desde os primórdios da construção do Brasil, um de An tônio de Mariz. Esta obra, de cariz fortemente com paratista, designa
papel fundamental no processo de aculturação entre índios, portugueses e damente com o latim, "representa uma nova estratégia de abordagem da s
africanos. línguas exóticas que entram no colóquio universalizante do m undo descober
Um dos elementos fundamentais do contato interétnico foi a mulher t o " . Com pôs, ainda, um Dialogo da doctrina christãa, um Confessionário
indígena, representante das funções dom ésticas e principal força produtora brasílico, sermões, poe sias, cantigas e outras obras em língua tupi.

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Dos contatos luso-ameríndios resultaram, n omeadamente, contributos Vasco Fernandes Coutinho, por praticar o rito gentílico de "beber fumo"
lingüísticos que se traduziram pela incorporação na língua portuguesa de como os plebeus. No decênio de 1580, um jesuíta censurava grande parte
vocábulos de origem tupi-guarani, sobretudo ligados a espéc ies botânicas, dos portugueses que viviam n o Brasil por "beberem este fumo, e o têm por
como abacaxi, aipim, amendoim (da raiz tupi mindoim, menduí ou outras vício, ou por preguiça, e imitando os índios gastam nisso dias e noites".
variantes, influenciadas pelo vocábulo amêndoa), ananás (do guarani naná), O hábito de fumar terá sido introduzido em Portugal por Luís de Góis,
araçá, caju, capim , cipó, jenipapo, mandioca, mangaba, maracujá e piaçaba,
ou zoológicas, como arara, cutia, jararaca, jibóia, maracanã, paca, piranha, um dos ecompanheiros
Vicente de Martim Afonso
que v eio, posteriormente, de Sousa
a ingressar na fundação
na Companhia de SãoO
de Jesus.
sagüim, surucucu, tamanduá, tatu, toim, tucano e urubu, além de outros rela embaixador gaulês N icot conheceu o tabaco em P ortugal, remeteu amostras
cionados com a gastronomia, como beiju, carimã, mingau, pipoca ou tapioca. a Catarina de M édicis com recomendações sobre as suas virtualidades me
Verificou-se a rápida adoção pelos índ ios da tecnologia européia nos dicinais, tendo-se d ivulgado, inicialmente, na França com a designação de
mais variados domínios, da caça e pesca à construção de habitações e à "erva da rainha" e, depois, em homenagem àquele diplomata, passado a
guerra. Saliente-se que a introdução de utensílios metálicos aumentou o chamar-se "nicotina".
rendimento das atividades indígen as: na agricultura, através da utilização As mulheres portuguesas preparavam diversas especialidades culinári
de machados no abate de árvores, de enxadas no cultivo da terra e de as com base nos derivados da mandioca, como os beijus, bolos semelhantes
facas para cortar as ramas da mandioca; na pesca, m ediante o uso do anzol a filhos, feitos com farinha e condimentados com leite de coco, açúcar e
de metal - o pindaré ("anzol diferente") - e de pontas de ferro nos arpões; bordados de canela e, a partir da tapioca (fécu la alimen tícia da mandioca), a
e, ainda, na confecção de alimentos, pela introdução da chapa de ferro
perfurada no ralador, em substituição das pedras aguçadas, dentes ou es "tapioca-molhada" ou "tapioca-de-coco".
aquecida faziam "muito bom pão, e bolosCamassados
om a carimã (farinha
com leite e seca
gemafina)
de
pinhos. ovos" e outras "mil invenções" que eram sobremaneira apreciadas.
O con hecimento do cão - utilizado pelos índios para perseguir os ani Segund o Gabriel Soares de Sousa, um senhor de engenho do Recônca
mais e forçá-los a abandonar os esconderijos — associado ao uso de armas vo B aiano, que concluiu e m 1587 a redação da sua obra Notícia do Brasil,
de fogo facilitaram o esforço de caça. A utilização de armas européias, incluin as mulheres portuguesas confeccionavam com amendoim "todas as coisas
do as de fogo, aumentou a eficácia das expedições e alterou os padrões doces, que fazem das amêndoas, e cortados os fazem de açúcar de mistura
guerreiros, mas o incremento do clima de conflito provocou uma mudança como os confeitos. E também os curam em peças delgadas e compridas, de
nas estruturas dos assentamentos indígenas, generalizando-se a construção que fazem pinhoadas". Várias frutas, além de consumidas frescas, eram tam
de paliçadas. A lguns autores suspeitam que a utilização de barro nas cons bém utilizadas para fazer conservas (ananás) e marmeladas (ibá, camuci e
truções indígenas se deve também à influência lusitana. araçá) que, já em 1561, eram enviadas para Portugal para tratar os enfer
Tend o-se revestido o processo d e aculturação em terras brasílicas de
um caracter recíproco, também os p ortugueses assimilaram produtos, obje mos. O s cruzamentos étnicos de portugueses com ameríndias e negras, bem
tos, estilos de vida e, até, táticas guerreiras aborígines, como a das embos como entre as diversas variantes possíveis, contribuíram para criar uma so
cadas. ciedade fortemente miscigenada, do ponto de vista biológico, na qual os
Um dos hábitos ameríndios que mais arraigadamente se entranharam intercâmbios lingüísticos, religiosos, técnicos, botânicos e zo ológicos gera
nos costumes dos colonos foi o do consumo de tabaco, largamente utilizado ram uma cultura portadora de uma profunda originalidade.
nas sociedades indígenas com finalidades mágico-religiosas e m edicinais, mas
que era também fumado e mascado conforme o comprova a descoberta
arqueológica de cachimbos. E ssa prática divulgou-se de tal forma que o pri
meiro bispo do Brasil condenou publicamente o donatário do Espírito Santo,

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V-^u riosam ente, a mod alidade inicial que o sentimento nativista assu
me nas crônicas do primeiro século de colonização (1532-1630) não con
siste, como ocorrerá adiante, na afirmação da originalidade da nova terra,
mas ao contrário no orgulho pela lusitanidade que já caracterizaria a vida
cotidiana nos principais núcleos de povoamen to. Gândavo , por exemplo, já
descrevia o Brasil como um a "nova L usitânia"; o padre Cardim afiançava:
"Este Brasil é já outro P ortugal".
O fenômeno torna-se compreensível quando se tem em mente a pers
picaz observação de Stuart B . Schw artz segundo a qual, "em termos sociais
ou religiosos, o Brasil foi criado para reproduzir P ortugal, não para transformá-
lo ou transcendê-lo", asserção, aliás, igualmente v álida para os estabeleci
mentos criados no hemisfério pelas demais nações européias, com exceção
da No va Inglaterra, vale dizer, de Massachusetts, onde a rigorosa motivação
religiosa dos colonos insuflou o projeto de um a nova S ion, de uma sociedade
paralela destinada a realizar, desse lado do A tlântico, as aspirações religio
sas e políticas da Reforma, frustradas p elo anglicanismo, o que, nesse caso,
emprestava ao adjetivo o significado de uma ruptura, ausente das outras
designações. Dessa ambição de prolongar o Velho Mundo no Novo, a prá
tica de apor-se às áreas conquistadas os nomes das regiões ou dos países
donde eram originários os seus fundadores: Nova Espanha, Nova Galícia,
Nov a Granada, Nov a Extremadura, Nova França, Nova Holanda. A par de
manifestação afetiva, tais denominações exprim iam de forma abreviada u m
mesmo program a colonial.
A o designar de No va Lu sitânia a capitania que lhe doara d. João III, da
boca meridional do canal de Santa C ruz à foz do São Francisco, o donatário
Duarte Coelho não se apartou da praxe. O chamado foral que concedeu à
vila de Olinda e suas cartas a el-rei são invariavelmente datadas d' "esta
N ova Lusitânia", jamais de Pernambuco. C ontudo, Nova L usitânia tampouco
vingou. Ao menos desde os anos sessenta do século XVI, empregava-se o

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topônimo tupi, originalmente utilizado apenas para designar o ponto do lito a versão, que considerava ridícula, s egundo a qual ele teria nascido da excla
ral, na terra firme fronteira à ilha de Itamaracá, onde se situara a feitoria de mação de um criado de Duarte Coelho extasiado diante da beleza do sítio
Cristóvão Jaques, topônimo posteriormente adotado para o ancoradouro da em q u e se ergueria a vila, Varnhagen sugeriu que ele adviria d e "alguma casa,
foz do Capibaribe-Beberibe. Falecido o primeiro donatário, a correspon quinta ou burgo" cara a Duarte Coelho, ou de uma das personagens femini
dência oficial consagrou o costume, embora a viúva, d. Brites de Albuquerque, nas do Amadis de Gaula, novela de cavalaria então na moda. Em conse
qüência, o mesm o gosto literário que o levou a batizar su a capitania d e Nova
teimasse, provavelmente
à N ova L usitânia, porjáfidelidade
termo que à memória
na "Prosopopéia" do marido,
viria a adquiriremtravo
referir-se
literá Lusitânia pode tê-lo induzido a designar a urbe fundada no ângulo do mar e
rio e erudito. Procurou-se também conciliar as denominações em "P ernambuco do B eberibe com o nome de uma heroína de romance. Destarte, ficaria afas
da N ova L usitânia"; e o autor da relação do naufrágio alude mesm o à "capi tada a objeção levantada por Sérgio B uarque de Holanda, segundo a qual,
tania de P ernambuco, das partes do B rasil d a nova Lusitânia". Só excepcio caracterizando-se O linda no Amadis pela qualidade de "mesurada", isto é,
nalmente Nova Lusitânia foi empregado para designar toda a América de comedida, resultaria incompatível com as inclinações de povoadores rús
portuguesa, com o fez Brito Freire, no século subseqüente, na sua história da ticos. Que Duarte Coelho não o fora, já percebera havia muito o historiador
guerra holandesa. Na E uropa, adotou-se naturalmente o uso que se imp use- Pedro de A zeved o, que chamara a atenção para sua inclinação a empregar
ra na terra. A correspondência dos cônsules ven ezianos em L isboa mencio expressões latinas na correspondência com el-rei.
na a "terra di Pernambuci"; e o relato da expedição de James Lancaster fala A substituição de N ova Lu sitânia por Pernambuco simboliza no plano
sempre de "Fernambuck", e do pau-brasil, como de "pau de Pernambuco", da toponímia a mutação que viria a sofrer o programa colonial do primeiro
costume que seguirão os holandeses, que chamaram a madeira "Pernambuco donatário. Nas entrelinhas das suas cartas dá para perceber que sua resis
hout". A designação de pernambucanos para os moradores e os naturais da tência às pressões da coroa visando à busca de m etais preciosos e sua opo
capitania não se fez, portanto, esperar. Assim, já os denomina frei Vicente do sição ao corte de pau-brasil, atividades eminentemente d ispersivas do esforço
Salvador, o qual, contudo, ainda intitula seus conterrâneos os baianos de "os colonizador, por conseguinte, comprometedoras da estabilidade da capita
da Bahia". nia, resultavam d o seu projeto de criação de uma colônia baseada na produ
A preterição sofrida pelo nome de N ova L usitânia fora a mesma que já ção de açúcar por número reduzido de engen hos, que concentrariam a etapa
vitimara o de Santa C ruz, inicialmente conferido à América portuguesa, subs fabril e que moeriam a cana de uma classe média de agricultores, encarrega
tituição muito criticada então por João de Barros e por Pedro de Mariz. dos do cultivo d a cana. Tratar-se-ia, portanto, menos de uma Nova Lusitânia
Gândavo insistiu no emprego d a primitiva designação, pois a de Brasil fora do que de uma Nova Madeira. Nos anos imediatamente anteriores à sua
dada pelo "vulgo m al considerado", soando m ais agradavelmente a ou vidos chegada à terra, Duarte Coelho servira como capitão-mor de armadas no
cristãos o nome de um lenho em que se realizara o mistério da Redenção e Atlântico, ocasião em que terá podido conhecer o sistema agroindustrial da
M adeira, que foi verdadeiramente o mo delo da sua experiência brasileira,
não o dea mudança
contra uma madeira quedos
o autor servia apenasdas
Diálogos paragrandezas
tinturaria.doTambém protestou
Brasil, talvez por inclusive sob o aspecto de certa diversidade d a produção exportável, que ali
cautela de cristão-novo. O fato é que a escolha de Nova Lusitânia denota, foi o vinho e entre nós o algodão, de maneira a evitar as distorções da
no primeiro donatário, certo gosto das hum anidades, sabido que o emprego monocultura da cana, de cujos inconvenientes ele teve plena consciência,
de Lusitânia constituiu novidade dos fins do séc ulo X V trazida pelo renas como se vê d o seu elog io da lavoura de subsistência. Embora tenha solicita
cimento dos estud os clássicos, que haviam identificado o s portugueses aos do licença regia para importar escravos da Guiné, no seu espírito a Nova
lusitanos sublevados outrora contra a dominação romana. Quando se inicia Lusitânia deveria ser a chasse gardée não dos detentores do equipamento
va a colonização do Brasil, Lusitânia e lusitanijà eram vocábu los que cir fabril mas de um a classe de m édios e pequ enos produtores que se valendo
culavam nas obras de autores portugueses e estrangeiros, o que poderia subsidiariamente da mão-de-obra servil, com o ocorria na M adeira, repre
reforçar uma das explicações aventadas para o nome de O linda. Rejeitando sentaria a espinha dorsal d a colônia. Donde informar certa feita haver agido

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contra os "donos dos engenhos [que] queriam esfolar o povo", isto é, os proximidade da costa africana e ao papel desempenhado pela ilha no
lavradores que lhes forneciam a matéria-prima e os víveres.1 devassamento d essa região. Como acentuou Alberto Vieira, a M adeira não
Desde finais do século XV, vigia n a M adeira um sistema misto em que conheceu a simbiose entre o açúcar e o escravo que se verificou nas Canárias
o açúcar desempenhava o papel hegemônico, mas não exclusivo, graças à e sobretudo no Brasil e no C aribe. Certa tonalidade democrática manifesta-
presença d a vinha e da cultura tritícola, que haviam originalmente predomi se na presença de fidalgos, comerciantes, artesãos e funcionários da coroa
nado na ilha. Como assinalaram Virgínia Rau e Jorge Borges de Macedo, entre os lavradores de cana. A o passo que a etapa produtiva tinha assim um a
devido às condiçõe s eco lógicas e à disponibilidade limitada de terras ará- feição eminentemente lusitana, a comercialização achava-se sob o controle
veis, forjara-se ali uma paisagem agrária bem diversa da que o açúcar virá a de florentinos, genoveses e flamengos, os quais, porém, terminarão por
criar nos espaço s continentais do B rasil. A topografia acidentada d a Madei sedentarizar-se em proprietários de engenhos . A descrição feita por Duarte
ra favorecia a irrigação por meio das levadas, cuja técnica seus peritos trou Coelho da estrutura social da sua donatária poderia ter sido copiada da que
xeram inclusive para nós; ela também causou o parcelamento intenso dos existia na M adeira, mediante a simp les substituição da referência aos algo-
"poios", isto é, dos terrenos agricultados. Essas condições , com o também a doais pela alusão à vinha e ao trigo:
própria tradição da agroindústria açucareira do Mediterrâneo, induziram a
separação entre o cultivo da cana e o fabrico do açúcar, o engenho locali- Entre todos os moradores e povoadores, uns fazem engenhos de açúcar porque são
zando-se à distância da matéria-prima indispensável às suas moendas. poderosos para isso, outros canaviais, outros algodoais, outros, mantimentos, que é
Destarte, via d e regra os proprietários de fábricas não possuíam canaviais. a principal e mais necessária coisa para a terra, outros usam de pescar, que também é
muito necessário para a terra, outros usam de navios que andam buscando mantimen
O regime da terra caracterizou-se, portanto, pela m édia e p equena proprie
dade. A um número restrito de fábricas, correspondia um número amplo de tos e tratando outros
de engenhos, por terra conforme
mestres ao regimento
de açúcares, que tenho
carpinteiros, posto, oleiros
ferreiros, outros esão m estres
oficiais de
lavradores de cana, que não se podiam evidentemente dar ao luxo de recor formas e sinos para os açúcares e outros oficiais. 2

re r maciçamente ao trabalho escravo.


Embora os engenh os madeirenses o utilizassem subsidiariamente, es se Essa Nova Madeira do projeto donatarial não sobreviverá ao derra
tipo de mão-de-obra concentrava-se no me io urbano, indício de uma escra deiro quartel do século XVI, vale dizer, ao boom açucareiro iniciado nos
vatura de feitio m editerrâneo, doméstico e artesanal, desvinculada d o cam anos setenta mercê do avanço d a fronteira agrícola pela mata pernambucana.
po, a exemplo d o que acontecia n o Portugal metropolitano, onde os africanos Quando Duarte Coelho faleceu (16 54), sua capitania er a apenas a "ilha", no
adensavam-se tã o somente em I^isboa e cidades principais, exceção d a grande sentido freiriano da expressã o, compreendida entre Igaraçu ao norte, e vár
propriedade alentejana, sendo também empregados na exploração do sal. zea do Capibaribe ao sul; nela, situavam-se as cinco fábricas de açúcar exis
Na Madeira dos primeiros decênios do século XVI, apenas 16% dos pro tentes. A expansão territorial não foi obra do primeiro donatário, mas dos
dutores de açúcar são donos de escravos. A grande maioria deles (89%) seus filhos e do seu cunhado, Jerônimo de A lbuquerque, que a pretexto da
não possui mais de cinco e os que detêm maior número não dispõem de mais hostilidade do gentio encetaram, a partir dos anos sessenta, a conquista da
de 14. O valor da mão-de-obra limita-se a 5% do investimento açucareiro. área litorânea entre os m ontes G uararapes e a região de Porto C alvo. M ais
Se ao longo de Quinhentos, a presença africana aumentou, isto se deveu à tarde, ocupou-se a terra firme de Itamaracá, fronteira à ilha homônima, pe-
netrando-se pelos vales do Araripe, Itapirema e Catuama mas, sobretudo,
1 pela várzea do Goiana. Deu -se início à colonização da Paraíba, fundou-se a
Cartas d e Duarte Coelho a el-rei, ed. J. A. Gonsalves de Mello e Cleonir Xavier de Albuquerque
(Recife: 1967), pp. 46-7. A leitura paleográfica deste trecho acrescenta: "amtes vou comtra o vila de Natal (1 599) e avançou-se pela metade meridional de A lagoas. Abriu-
povo que com tra os donos dos enjenhos mas ha negra cobiça d o mundo he tanta que turba o juizo
aos homens para não comsederem no que é razão e justiça" (pp. 48-9). É evidente, porém, que,
à luz do sentido do período, o escriba donatarial escreveu por inadvertência "contra o povo " em Alberto Vieira, "Escravos com e sem açúcar na Madeira", em Atas do Seminário Internacional,
lugar de "com o povo". Funchal, 1996. pp. 93, 102.

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se assim à iniciativa dos colon os toda a franja marítima do Rio Grande do C omo pressentiu Gilberto Freire, a experiência barbadiana de meados de
Norte ao São Francisco. Ao constituir-se em Brasil holandês, essa região Seiscentos, que se situa n o extremo oposto d a madeirense, ajuda a compreen
era predominantemente latitudinal, de vez que no rumo oeste a ocupação der, graças a essa polarização, a mudança por que passou a Nova Lusitânia,
não ultrapassara os setenta quilômetros. N a  ribeira do Capibaribe, Mussurepe do falecimento de Duarte Coelho ao final de Quinhentos. O Pernambuco
era o extremo dos canaviais, embora a fronteira de roçados e de currais se pós-duartino foi em vários sentidos a prefiguração de B arbados; e se o d o
prolongasse até a altura de Lagoa do C arro ou Lim oeiro, onde a cartografia mínio da grande lavoura não atingiu entre nós o ponto a q u e chegou naquela
holandesa registrará os derradeiros topônimos. Fora sobretudo pela várzea ilha do Caribe, foi sobretudo graças ao contrapeso oferecido pela conti-
do C apibaribe que se adentrara essa modesta ocupação e onde se verificara nentalidade brasileira, isto é, pela oferta de terras, e pela presença de popu
maior proporcionalidade entre a área de produção açucareira e a de subsis lação nativa, condições ambas inexistentes e m Barbados. Aí, n os dois primeiros
tência. N a várzea do Pirapama, a penetração ainda não alcançara o ponto decênios, os colonos ingleses experimentaram sucessivamente, sob o regime
médio da bacia fluvial. Na d o Sirinhaém, os canaviais cessavam na confluên de engajamento (indentured service), com o fum o, o algodão e o anil, todos
cia com o C amaragibe, vale dizer, a cerca de 10 km da vila. No rio Formoso vitimados no curto prazo pela instabilidade do mercado internacional. Em
e em Una, a ocupação agarrava-se ainda mais ao litoral. meados do século XV II, com a insurreição pernambucana contra o domínio
O solo e a topografia do sul pernambucano prestavam-se à cultura holandês, o açúcar deu-lhe finalmente a oportunidade de que necessitava,
extensiva da cana bem melhor que os do núcleo histórico duartino. Os substituindo rapidamente o trabalho engajado pelo africano e prom ovendo
geógrafos costumam distinguir a mata norte e a m ata sul, separadas grosso uma concentração acelerada da propriedade da terra.
modo pelo paralelo do Recife. D o ponto de vista geológ ico, elas se diferen Entre n ó s , com o na M adeira, o engenho de açúcar constituiu inicialmente
ciam graças ao fato de que, enquanto a mata norte engloba, junto ao terraço a prolongação da loja, do comércio e da vida urbana. As primeiras fábricas
litorâneo, uma subzona d e tabuleiros sedimentares e, a poente, outra subzona foram edificadas nos arredores de Olinda, como o engenho do Salvador do
cristalina, esta última estrutura é a que domina na superfície da mata sul. Do M undo, levantado po r Duarte C oelho, e o de Nossa Senhora d a Ajuda, ergui
ponto de vista climático, embora ambas as zonas sofram a diminuição d os d o p o r seu cunhado. A quem inicialmente afoitou-se a construí-los a distância,
totais pluviométricos no sentido leste-oeste, ela se faz sentir mais fortemente podia ocorrer o que ocorreu a D iogo F ernandes, cujo engenho de Camaragibe
n a mata norte do qu e n a mata sul. Daí q u e a mata norte e a mata sul também foi destruído pela indiada hostil. P or outro lado, a Olinda ante bellum concen
sejam designadas como mata seca e mata úmida, embora a utilização simul trou as funções urbanas do comércio de importação e exportação e de sede
tânea d o critério estrutural introduza n a mata norte a distinção entre a subzona das autoridades civis e eclesiásticas, o que já não se verificará a partir do
sedimentar a leste, e a cristalina, a oeste. A cultura da cana teve de adaptar- domínio neerlandês. O engenho er a sobretudo a fábrica, isto é, o equipamento
se a estas con dições. Enquanto na mata norte os canaviais ficaram circuns manufatureiro, de ver que as atividades agrícolas estavam terceirizadas, pre
critos às várzeas quaternárias recortadas pelos tab uleiros, às várzeas f luviais valecendo um grau importante de integração d as etapas comercial e industrial,
e às en costas suaves, fugindo das chãs e dos tabuleiros interflúvios, n a mata o que eqüivale a dizer que a propriedade do engenho correspondia freqüen
sul eles podiam caminhar desimpedidamente pela superfície de "meias laran temente ao comerciante olind ense, características bem distintas d a s q u e domi
j a s " , poupando apenas, para fornecimento de lenha aos engenhos, os cimos narão no Pernambuco post bellum. A s casas-grandes que pintou Franz Post
das colinas, onde se refugiaram os restos da mata atlântica. eram, segundo Robert C. Smith, "uma transcrição quase literal do tipo mais
Se me detenho no caso pernambucano, não é apenas pór conhecê-lo comum das casas rurais da mãe-pátria", marcado "desde o Minho e Trás-os-
de perto, mas também porque ele permite observar, mais nitidamente do que M ontes e p or toda a Beira Alta e a Beira B aixa" pelas mesm as características:
na Bahia ou no Rio, a liquidação d o modelo m adeirense pela continentalização, "os mesmos esteios no andar térreo usado para depósito, as varandas abertas
que tornava disponíveis terras mais planturosas, viabilizando o recurso maci e as escadas externas, quer no centro quer num dos ângulos da fachada, e os
ço à mão-de-obra servil, indígena e africana, e encorajando a monocultura. mesmos telhados d e quatro águas e cumeeira d o Pernambuco d o século X V Q " .

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Tipo de habitação que persistiu já entrado o século X IX , embora passasse a Essa nomenclatura tornou-se insuficiente ao se acelerarem a tendência ao
ser construído co m material nobre e se tornasse m elhor acomodado às exi arrendamento e a transmissão por venda ou herança da propriedade
gências de conforto de um grupo social que entrementes abandonara a vida açucareira; e, sobretudo, durante o período holandês, d evido à renovação
urbana pela rural. E ste primitivismo ante bellum tinha sua razão de ser inclusi substancial dos quadros açucarocráticos. (Daí te r sido as autoridades batavas
ve no fato de que a existência cotidiana do grande proprietário rural ainda a adotar a prática, em seu s relatórios, de designar os engenho s segund o o s
encontrava-se
lecia antes da copresa à vila, pois mercê
ntinentalização, da mod éstia
ela transcorria distâncias
entred aas d upla que preva
residência d a vila oragos
da não ou o topônimo
se havia indígena.)
generalizado paraComo n a M adeira, o termo "engenho" ain
o conjunto da unidade produtiva, mas
e do campo. aludia apenas às instalações fabris, que só muito posteriormente serão
N os paisagistas n assoviano s, já se pode visualizar o decantado "triân distinguidas pela denominação de moita. Em lugar da expressão "engenho",
gulo rural", isto é, o m odelo de organização espacial do engenho de açúcar usava-se a voz "terras" ("terras de Pero Dias da Fonseca") ou "fazenda"
(casa-grande, fábrica e capela), transportado, armas e bagagen s, da M adei ("fazenda d e Vicente Correia"). Enquanto a primeira parece indicar a propri
ra para o B rasil, sem criação nossa, no m áximo adaptações às circunstâncias edade fundiária que extrapola a utilização açucareira, servindo à criação de
mais anchas da ecologia da mata. Embora esses edifícios desconhecessem gado o u ao cultivo d e subsistência, "fazenda" referia-se à parte agrícola do
originalmente uma disposição rígida entre si, a iconografia holan desa já indi conjunto açucareiro, como ainda ocorrerá no século XLX .
ca as linhas de força do seu assentamento em termos da ocupação dos n íveis Som ente a partir de finais de Quinhentos, insinuam-se o s dois outros
do terreno: a instalação da fábrica na proximidade do curso d'água de que critérios que substituirão vinte, trinta anos depois, o costume de usar o nome
depende
de para
na parte a força
mais motriz
elevada do eterreno,
para outros
via deusos ; a construção
regra, da casa-gran
na meia encosta, em d e do proprietário.
prática de s e dotarOdeprimeiro
capela o éengenho
o nome de
doaçúcar,
orago, prática
cujo êxito dependia
que então da
distava
corrência da necessidade prática de controle das atividades e d o imperativo de ser geral: "engenho d e São Brás". O segundo critério é o topônimo indígena:
simbólico de expressão de dom ínio; e a ereção da capela ao mesm o nível da Araripe, do nome do rio em cuja margem a fábrica se ergueu. Escusado
casa-grande ou mais acima, conotando a predominância do Sagrado. Só assinalar que am bos critérios podiam ser usados para a mesma propriedade:
muito depois, esse ordenamento assumiu moldes mais estáveis sob a forma A gostinho de Holanda preferia designar seu engenho por Santo Ago stinho,
de um pátio retangular, disposição que Geraldo Gomes, único estudioso a ao passo que seu feitor já o invoca p elo topônimo indígena, Subipema. M as
ocupar-se competentemente do assunto, sugeriu que pode ter resultado do nos documentos oficiais, a designação segundo o nome do proprietário re
exem plo das co lônias açucareiras do C aribe, divulgado entre nós por publi sistiu por mais tempo, m esmo se na vida real ela e ra progressivamente aban
cações como O fazendeiro do Brasil e do Manu al do agricultor brasilei donada. Quando Diogo de Campos Moreno redigiu a primeira versão do
ro , editados em fins de S etecentos e em m eados da centúria seguinte. "Livro que dá razão do Estado do Brasil", os engenhos da Paraíba,

N a os
cedidas, esteira da continentalização,
partidos de cana se fundamaspelas
sesmarias sãoasgenerosamente
várzeas, co n
fábricas de açúcar Pernambuco
n o s , critério etambém
Bahia foram sistematicamente
adotado por José Israellistados pelos
da Costa nomes
na sua dos do
relação de
se levantam à beira dos cursos d'água, as casas-grandes n a eminência próxi 1 6 2 3 . Recurso com preensível em v ista de que essas listas foram elaboradas
ma, m as a toponímia d os engen hos resiste a aderir aos nom es da terra. Em com base em documentos de natureza fiscal, em que o relevante era o nom e
Pernambuco ou na Bahia, seguiu-se ao longo de Quinhentos o costume do contribuinte. O m esmo pode ser dito acerca do "livro das urcas", docu
madeirense de designar o engenho pelo nom e do seu proprietário: "engenho mento alfandegário. Num texto oficial de meados de S eiscentos, já expulsos
de Pero Cardigo". Quando se possui mais de um engenho, a distinção é os holandeses, os engenhos ainda eram majoritariamente relacionados se
cronológica: "engenho v elho de Fernão Soares", "engenho novo de Fernão gundo os proprietários.
Soares". Quando, no passar do tempo, o nome do dono for abandonado, a A ambição de fundar uma Nova Lusitânia, mesmo quando esta desig
propriedade passará a chamar-se apenas d e engenho Velho o u engenho Novo . nação já fora descartada, resistiu quanto pôde, e muitas veze s sutilmente,

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Um a No v a Lu s itâ nia
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aos efeitos d a continentalização. N o começo do século XV II, o companhei das para o seu deslocamento, que se fazia naqueles andores de pau-de-
ro de La Ravardière, preso com ele em Olinda após a liquidação da presen jangada a que se referiu Brandônio, e, sobretudo, em redes. O autor dos
ça francesa no Maranhão, observava que "os descendentes dos primeiros Diálogos faz, aliás, o elogio da rede como m eio de transporte sobre a cadei-
conquistadores não diferem em nada, em costum es e hábitos, dos de Portu rinha, com o em P ortugal, e sobre o palanquim, como na índia.
gal". Bast a percorrer as páginas da visitação inquisitorial, vinte e tantos anos Veja-se também o caso dos artesãos. Sua quase totalidade compunha-
antes, se de reinóis, indivíduos de origem rural, rebentos de lavradores pobres ou
para topar
no colonial, cominclusive,
devido, o teor eminentemente
à segregaçãoreinol que aindaafricana
d a escravatura tinha o cotidia
nos en remediados para quem a atividade mesteiral representava u m a promoção so
genhos, uma das razões da sua presença rala, quase imperceptível, na cial. Fenômeno específico da nova terra? Nada d isso, pois a instabilidade e a
documentação do S anto Ofício. A vila pertence aos reinóis e a seus descen  improvisação tam bém caracterizavam os quadros corporativos no reino. Por
dentes, cujo serviço doméstico está freqüentemente a cargo de índias e tugal desconheceu uma tradição gremial sólida e suas corporações de ofício
mamelucas, sem falar em que certas atividades subalternas eram monopoli datavam apenas de um século, su a regulamentação só se processando ao lon
zadas po r imigrantes portugueses do sexo mascu lino antes de serem relegadas go de Quinhentos e de Seiscentos. A organização dos mesteres resumia-se à
no século XV II aos escravos ou à população mestiça mais livre de ambos os concentração urbana segundo as principais especialidades e à incorporação
sexos. Então, O linda ainda nã o possuía mercado de africanos, os quais eram de confrarias religiosas que funcionavam como entidades de benemerência,
vendidos no porto do Rec ife. O preto que se atrevesse a aparecer n a vila por estas últimas transplantadas para o Brasil. Não prevaleceu assim a rigidez
iniciativa própria corria o risco de ser delatado e recambiado para o meio institucional d e outros países da Europa, inclusive no tocante ao grau de treina
rural. O autor dos Diálogos das grandezas simplesmente ignorou a existên mento e de conhecimento da arte que se exigia do oficial que a praticava,
cia de escravidão ao descrever a estrutura social da capitania, praticamente campeando a tolerância n a aplicação das regras. É no cotidiano mesteiral que
nos mesmos termos em que o fizera Duarte Coelho setenta anos antes. E, se pode melhor entrever a vigência do modelo de relações cidade-campo
contudo, na altura em que ele escrevia completava-se, como demonstrou importado do reino, que resistirá inutilmente à continentalização. Os artesãos
Stuart Schwartz, o p rocesso de adoção do trabalho africano nos engenh os, residem em Olinda, atendendo indiferentemente a clientela urbana e a rural,
incentivado pelo avanço da fronteira agrícola e p elos preços do açúcar. como se vê no caso do pedreiro Pero da Silva, cujas andanças em período
O Brasil estava deixando de ser a Nova Lusitânia para transformar-se relativamente breve podem ser reconstituídas. Além d as obras feitas no telha
na Nova Guiné, de que falava Brandônio, preocupação que ele partilhava, do olindense de João Nu nes, ei-lo trabalhando em P aratibe, no Cabo e em
entre muitos, com o próprio governador-geral d. Diogo de Meneses. Este Jaboatão. Outros artífices independentes e nomádicos, m oradores na vila, sur
opinava que o gentio da terra devia proporcionar a principal mão-de-obra, gem de empreitada pelos engenhos, gozando, relativamente à grande proprie
de modo a evitar "tanto negro de Guiné", causa do endividamento crescente dade, de uma independência maior do que virá a ocorrer, embora já se façam
dos colonos. Mas se a longo prazo a ocupação de novos espaços condenara notar os primeiros efeitos da expansão territorial n a tensão entre a liberdade da
o projeto duartino, o crescimento da  riqueza c olonial dela decorrente permi empreitada e a absorção da mão-de-obra mesteiral pelo engenho sob a forma
tiu que, no curto, a colônia pudesse entreter a ficção de ser o prolongamento de salário. Ademais dos artesãos que se assoldadam por empreitada ou por
americano de Portugal. Um ex emplo, entre muitos, da persistência dos mo  curtos períodos, já são freqüentes os que se estabelecem mais duradoura
delos de vida urbana dizia respeito à con dição feminina. Já Gilberto Freire mente, sobretudo carpinteiros, dos quais se necessitava de inverno a verão,
havia percebido que "nos primeiros tempos de colonização [...] a mulher inclusive na entressafra, quando se efetuava o "apontamento", isto é, a manu
gozou de uma liberdade maior de ação". E, com efeito, a leitura da docu tenção do equ ipamento fabril.
mentação inquisitorial passa a impressão de certa autonomia feminina, que Esses carpinas são particularmente numerosos na população mesteiral
virá a ser reprimida pela ruralização da vida colonial e pela conseqüente de Pernambuco de finais de Quinhentos, que vive uma fase de acentuado
reclusão das mulheres dos grupos privilegiados, inclusive as restrições cria- crescimento econômico. Deles necessitavam os engenhos para levantar a

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casa-grande e o s dem ais edifícios; para a feitura das moendas, dos carros de Caberia ainda deter-se em outros aspectos do feitio lusitano da exis
boi e das embarcações; para a confecção das caixas de açúcar; e enfim para tência, a que se referiam com indisfarçada satisfação os cronistas do século
a renovação e reparação periódica de todo esse equipamento. Um século XVI. Pode-se, inclusive, reconstituir o projeto colonial da Nova Lusitânia
depois, eles ou já estarão substituídos pela mão-de-obra servil ou então através da paisagem que os colonos procuraram implantar entre nós median
definitivamente integrados ao salariado dos engenho s. N o Pernambuco de te a aclimatação de espécies vegetais do reino. De Pernambuco, o já men
su a
finais de Quinhentos,
composta o ofício
de "carpinteiros de possui
engenho", hierarquia especializada.
também chamados "mestres de era
A nata fa cionado companheiro
agradáveis é que agora de La Ravardière
se encontra dirá:n "o
comumente queo faz
o país que as
lhecoisas mais
era exótico
zer engenho", que num caso excepcionalmente bem-sucedido, ascendeu à no passado. Pois que a curiosidade dos portugueses, querendo todas as
condição de senhor; no outro extremo, a de "carpinteiro de carro", muito coisas na medida do seu gosto [... ] levou-os a transferir para ali muitas plan
demandado num sistema de produção em que o transporte d a matéria-prima tas estrangeiras, tanto da Europa quanto da África". Fundamental foi a este
no interior do engenho e do açúcar encaixado para os trapiches estava a respeito o papel dos jesuítas. As casas da Companhia de Jesus possuíam
cargo dos carros de boi. O oleiro é outro ofício muito procurado no meio invariavelmente suas "cercas", isto é, pomares e h ortas, aonde era um prazer
rural, embora não requeresse a assiduidade do carpina, tanto assim que no merendar ao ar livre como n o colégio de O linda, "o melhor e o mais alegre
tempo de A ntonil ainda se debatia a necessidade da sua presença contínua que vi no Brasil", segundo o padre Cardim, nada ficando a dever aos de
no engenho. Portugal, com su a horta "muito grande, e dentro nela um jardim fechado com
Mesmo quando não assalariava o artesão, o senhor de engenho de muitas ervas cheirosas e duas ruas de pilares de tijolo com parreiras e uma
fruta que chamam maracujá",
Quinhentos tinha todo interesse em tê-lo à m ã o e em evitar os inconvenientes
da concorrência, para o que já se lhe começava a conferir o status de mora
dor, com a possibilidade de trabalhar para terceiros quando não fosse ne um grande romeiral de que colhem carros de romãs, figueiras de Portugal e outras
frutas da terra. E tantos melões que não há [como] esgotá-los, com muitos pepinos e
cessário. É assim q u e a documentação inquisitorial identifica com o moradores outras boas comodidades. Também tem um poço, fonte e tanque, ainda que não é
de engenho até mesmo um imaginário, um marceneiro, um sapateiro, um necessário para as laranjeiras, porque o céu as rega.3
ferreiro e um seleiro, este últim o antepassado distante do mestre José Am aro,
do Fogo morto, de José Lins do R ego. M as não havia que se fiar nesses Olinda, como Salvador ou o Rio, estava cingida por um cinturão de
artistas de beira de estrada, que se tornavam muitas vezes tão impontuais e hortas em que se cultivava toda sorte de vegetais da metrópole, inclusive
inconfiáveis quanto os da vila. Que o dissesse o senhor do engenho do M eio, diversas variedades de frutas de espinho. Ao invadir a capitania, os holande
homem arreliado de seu, o qual tendo entregue a um deles o conserto de uma ses encontrarão "em todos os lugares [...] grandes e belos pomares e hortas,
caldeira, só conseguiu tê-la de volta após invectivá-lo com expre ssões des nos quais há de tudo", o que na pena de uma batavo não é pequeno e logio.
respeitosas a Deus e à Virgem Maria, que lhe custariam um processo pelo Até m esmo os moradores de Natal, "pobremente acomodados nas vivendas
Santo O fício. Para as demais tarefas, a demanda do engenho era esporádi das casas", eram abastados de legu mes de Portugal. Já houve, aliás, quem
c a; e de tais artesãos, os engenhos da várzea do Capibaribe ou de Igaraçu observasse a semelhança entre o horto do colégio de Olinda e a cerca ideal
dispunham n a vila. A coisa só m udava de figura n as fábricas sitas em fregue imaginada pelo autor dos Diálogos, o qual, leitor dos c lássicos, lembrava-se
sias apartadas, que ainda não avizinhavam povoaçõe s su ficientemente im decerto do velho tópico do jardim de delícias, herdeiro do locus amenus.
portantes para atraí-los. Ne ssa dificuldade bem com o na do pagamento de Esse devaneio estético-utilitário será realizado anos depois pelo conde de
salário estarão a longo prazo os incentivos ao treinamento de escravos. Este, Nassau no seu palácio de Friburgo.
por enquanto, ainda não se pratica, pois os mesteres são monopolizados
pelos filhos do reino e pelos naturais da terra. 3
Fernão Cardim, Tratados d a terra e gente d o Brasil (3 . ed. São P aulo: Nacional, 1978), p . 197.

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Já se insinuavam, p orém, aqui e ali, as diferenças. E nquanto, no jardim transplantes. Quando Nassau ajardinou seu palácio de Friburgo, mandou
dos jesuítas, só se admitira o maracujá, no de Brandôn io já existiam a goia- trazer em carros de boi, d e três ou quatro milhas de distância, setecentos
beira, o tamarineiro e o ananás, vegeta is nativos particularmente estimad os p é s , muitos do s quais septuagenários ou octogenários, o que significa q u e as
pelo sabor. E também se haviam adaptado vegetais africanos e asiáticos, árvores datavam das décadas de 1560 e 1570. Àquela altura, Gândavo
graças a os jesuítas que transplantaram inc lusive o coqueiro, o qual inicial ainda não menciona o coqueiro m as nos anos oitenta ele surge nos pomares
mente s ó existia nas hortas e quintais, donde se disseminou p ela franja cos
teira, cujos terraços marítimos haviam sido o hábitat do cajueiro. Dev ido à dos
mas colégios da Olinda.
não no de Companhia
Poucode depois,
Jesus em Salvador,
Gabriel Ilhéus,
Soares Porto Seguro,
pretenderia que o
escassez de documen tação, mal se vislumbra a verdadeira mutação da pai coqueiro se adaptara tão facilmente que, entre nós, produzia ao cabo de
sagem ao impor-se o coqueiro do O riente ao cajueiro nativo, tão vinculado à cinco ou seis anos, ao passo que na índia seria necessário esperar vinte.
alimentação e à cultura indígenas. Há muito os cajueirais fazem figura de Con tudo, tanto ele quanto Am brósio Fernandes Brandão e frei Vicente ma
parente pobre, tendo-se resignado a ceder a linha de frente aos cenográficos nifestaram a queixa de que os colono s do Brasil não sabiam aproveitá-lo.
coqueirais, que se tornaram um símbolo local, o biombo que oferecia ao
O autor dos Diálogos das grandezas é, aliás, mais explícito, lamentan
viajante que vinha por mar a primeira visão da terra. Os naveg antes do pri do que não se fizesse o vinho de coco, nem se lhe utilizasse o azeite e nem
meiro século, como Pero Lopes de Sousa, enxergavam apenas uma terra sequer a palha. O coqueiro tinha de enfrentar os hábitos da terra, que privi
nonotonamente baixa, bem arborizada de bosques de cajueiros e dos
legiavam seus próprios vegetais, e só poderia triunfar depois de provar suas
manguezais d a foz dos rios, e cortada, num ou noutro ponto, pela retaguarda
vantagens, um p rocesso lento que im plicava vencer as inércias do cotidiano
das falésias que rematavam os tabuleiros. No litoral da índia, o coqu eiro era
a base imemorial de um com plexo econôm ico e ecológico, sendo utilizado material. P orornamental.
meramente isso, a primeira
Com função
esse fim,doBrandônio
coqueiro ndispunha-se
a Am érica portuguesa foi
a plantá-lo no
como material de construção civil e até de construção naval, como nas
seu jardim ideal, aconselha ndo liricamente ao interlocutor:
M aldivas. Da casca, a população fazia cuias de beber; na alimentação, con-
sumiam-se-lhe a água e o miolo e fabricava-se o "copra", o azeite para os
porque não suceda invejardes os alamos e choupos de nosso Portugal, com que se
alimentos e para a iluminação. Dele também se tiravam aguardente, vinagre e ornam grandemente semelhantes pomares e jardins, vos quero dar em seu lugar cres
açúcar. Por fim, o ó leo tinha valor medicinal com o laxativo e no comba te ao cidos e alevantados coqueiros, que não menos zunido fazem com suas folhas açoita
reumatismo. das do vento. 4
No período ante bellum, quase todos esses usos, que não provoca
riam surpresa no futuro brasileiro, pareciam insólitos às primeiras gerações M as foi N assau quem tirou todo o partido decorativo da árvore. Sendo
de colono s portugueses, tanto assim q u e só m uito tempo decorrido da aclima a ilha de Antônio Vaz , na descrição de Barléus, uma "planície safara, despida
tação do coqueiro começaram a contemplá-lo com olhos utilitários. Ainda de arvoredos e arbustos que, por estar desaproveitada, cobria-se de mato",
ao tempo de frei Vicente do Salvador, a única utilização do coco consistia o conde resolveu sombrear seu palácio com avenidas de coqueiros, ofere
em co mer sua polpa e beber sua água, u so, na realidade, essencial, em áreas cendo um espaço de lazer aos habitantes. Essas alamedas, que frei Calado
praieiras afastadas de água potável, a não ser a da chuva. Markgraf, ao comparou às famosas de Aranjuez, tinham o papel de delimitar o espaço
referir às vantagens que se tiravam do co co na Am érica hispânica e nas Fili externo e interno, circunscrevendo, de um lado, a área onde se ergueu o
pinas, praticamente o s me smo s que G arcia da Orta descrevera para a índia, edifício e o próprio jardim, e, de outro, as áreas internas em que este último
menciona quanto ao B rasil apenas a água, "doce, fria e clara", seu leite, "com se repartia: a área de recreação, a de serviço, os pomares, a de criação de
o qual se cozinha arroz para iguaria", e as cuias feitas d a casca. Esses primei animais domésticos e o s grandes viveiros.
ros coqueirais vieram, com o tantas outras espécies vegetais e animais, atra
vés de Cabo Verde. N o caso de P ernambuco, é até possível datar os primeiros Ambrósio Fernandes Brandão, Diálogos das grandezas do Brasil, ed. por J. A. Gonsalves de
Mello (2. ed. Recife: Imprensa Universitária, 1966), p. 146.

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No fim da vida, Nassau recordava suas experiências de jardinagem, nas elevações mas não nas terras baixas de um e outro lado do canal de
gabando-se de haver plantado, no decurso de sua vida no Brasil, na Alem a Santa Cruz. N a Paraíba, existia um pequen o coqueiral ao lado do forte da
nha e nos Países B aixos, "m ais de 40.000 árvores de toda espécie, sem falar margem norte do rio. Em 1630, quando da invasão holandesa, os famosos
numa quantidade inumerável das mais comuns". Entre nós, plantara coqueirais das praias olindenses ainda não existiam. M archando pela praia
de Pau A marelo, Richshoffer divisava a vila sobre as colinas , o que não seria
principalmente coqueiros, d e 6 0 e 7 0 p é s d e altura e da espessura d e u m tonei, com as possível caso eles já aí estivessem. Só n o burgo ele e a soldadesca puderam
folhas e os frutos, cerca de 2.000 ao todo, sem que um só tenha morrido, para ser providos de co cos. Por outro lado, quando das marchas pelo interior, os
admiração de todo o mundo e de todos os habitantes, que não haviam jamais visto soldados se dessedentavam com laranjas, limões e roletes de cana. O bos
replantar uma árvore, principalmente desta espécie e tamanho. 5 que, referido por Baers, situado ao norte de O linda, era provavelmente uma
mata d e cajueiros, pois sendo "denso e intrincado" não poderia corresponder
Barléus falou de setecentos coqu eiros nas aléias de Friburgo, mas frei a um coqueiral. A substituição maciça do cajueiro pelo coqueiro ao longo do
Calado, que passeou por elas, mencionou nada menos de dois mil, cifra nosso litoral, que comportou um a verdadeira revolução ecológica, foi, por
idêntica à d e Nassau, de qu em provavelmente a ouviu. O provável é que esta conseguinte, fenômen o de longo prazo, posterior ao período holandês.
última correspondesse ao total de coqueiros plantados pelo conde em todo N esse s núcleos urbanos de Quinhentos, o estilo da existência material
o R ecife e não apenas em Friburgo. Nassau aboletara-se inicialmente numa vigente no reino resiste tã o brava quanto inutilmente ao impacto da continen-
enorme casa de construção portuguesa, existente na atual praça Dezess ete. talização e da ruralização. A começar pelos hábitos alimentares. O s grupos
A í, antes, portanto, da conclusão de Friburgo, ele criara um horto, o en tão privilegiados mantêm-se fiéis à tríade can ônica d o trigo, do vinho e d o azeite.
chamado "terreiro dos coqu eiros", atual praça da Independência, no espaço N os anos sessenta, ainda com anterioridade ao boom açucareiro, P ernambuco
entre sua residência e o Forte Ernesto (C onvento de S anto An tônio). Planta já e ra bem abastecido dos gêneros do reino. E em começos do século X VII ,
do o horto, Nassau abandonara a casa, vindo habitar nele. Esse primeiro Pyrard de Lavai observou que o Brasil importava toda espécie de víveres
jardim nassoviano situava-se, po r conseguinte, no interior do chamado groot não só de Portugal com o das ilhas, o que atribuía à produção insuficiente da
kwartier, que excluía a área ao norte do Forte Ernesto, onde veio a ser colônia, sem levar em conta a inércia dos hábitos alimentares dos habitantes.
construído Friburgo. Uma gravura de Mauriciópolis permite distinguir esses Frei Vicente verá "as casas dos ricos (ainda que seja à custa alheia, pois
coqueiros, mais altos e densos, espiando de trás d as edificações que margeiam muitos devem quanto têm) providas de todo o necessário", inclusive da fari
o rio, dos coq ueiros do jardim do palácio. O utra gravura, esta da B oa V ista, nha de trigo trazida de Portugal ou de São Paulo. Ao tempo da invasão
mostra claramente os dois hortos: o coqueiral mais denso sob a legenda holandesa, a situação não m udara, com o se conclui da carga das embarca
"Mauritiopolis" e o coqueiral menor de Friburgo. ções portuguesas apresadas pelos inim igos, rotineiramente carregadas da
N os primeiros decênios de sua aclimatação em Pernambuco, o coquei queles artigos. O provável é que a aceitação dos produtos alternativos da
ro ainda er a be m raro, limitando-se aos núcleos de população e servindo de terra pela gente de prol só se tenha generalizado a partir da guerra ho lande
decoração a uma que outra casa-grande de engenho. Uma gravura anterior sa , que afetou o suprimento de gêneros reinóis e reduziu o nível de renda da
ao incêndio de Olinda registra os coqueiros d o horto dos jesuítas, ao passo açucarocracia, e da ruralização dos modos de vida, que o conflito previsivel-
que a fachada marítima carece deles, vendo-se apenas terras baixas, areiais, mente apressou.
vegetação rasteira e cajueiros, como ao tempo de Pero Lopes de Sousa. Destarte, nesse primeiro sécu lo, o uso da farinha de mandioca não foi
Uma gravura d a vila da C onceição (ilha de Itamaracá) representa coqueiros tão universal quanto se pretendeu. Informa An chieta que o pão de trigo era
consum ido sobretudo em P ernambuco e na Bahia. Trinta anos depois, refe
5
rem os Diálogos das grandezas que "alguns e não poucos usam também de
"Mémoire", transcrito por J. A. Gonsalves de M ello, de Tempo d o s lamengos Rio de Janeiro: p ã o , que mandam amassar e cozer em suas casas, feito de farinha que com -
José Olympio, 1947), pp. 313-6.

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pram do R eino ou mandam buscar às casas das padeiras, porque há muitas foi pregar na matriz de Olinda, os mordomos da confraria do Santíssimo
que vivem desse ofício", c omo se verificava no reino, onde a profissão era Sacramento, "todos vestidos de veludo e damasco de várias cores, me acom
especialidade feminina. Só quando as estreitezas da guerra complicaram o panharam até o púlpito, e n ão é m uito achar-se esta polícia em Pernambuco,
abastecimento, os luso-brasileiros transformaram o pão de trigo numa igua pois é Olinda d a N ova Lusitânia". O fenômeno evidentemente é a conhecida
ria refinada, fazendo dele "tanta questão que o cobrem de açúcar", segundo manifestação de novo-riquismo. As exceções eram o Rio de Janeiro e São
M oreau. Pela gente de prol, a mandioca e ra preferencialmente ingerida sob a Vicente, devido à falta d e navios. Daí q u e os habitantes de P iratininga trajas
forma de beijus, estimados por mais saborosos e de digestão mais fácil. O sem arcaicamente "de burel e pelotos pardos e azuis, de pertinas compridas"
beiju, aliás, já é invenção da arte culinária d as colonas, utilizando a matéria- e freqüentassem a missa dom inical em "roupões ou bernéus de cacheira sem
prima d a terra à maneira de com o se fazia em Portugal com a farinha d e trigo capa", segundo Anch ieta. A diferença em relação ao reino consistia em que,
n a confecção de filhos mouriscas. M esmo quem , como era o caso dos jesuí devido à temperança do clima, a roupa de verão servia para o inverno, sem
tas, havia adotado a farinha de mandioca, não dispensava os outros gêneros necessidade de ser guardada. Quanto aos religiosos, estavam adstritos obv i
da metrópole, como o vinh o e o azeite, além do vinagre, das azeitonas, dos amente à obrigação de se vestirem com o em Portugal. No interior das resi
queijos e de outras coisas de comer. O vinho, sobretudo da Madeira e das dências, o consumo conspícuo tomava a forma de serviços de prata e de
Canárias, mais resistentes ao transporte e ao calor, fazia parte do passado camas ornadas de damasco, com franjas de ouro e colchas da índia.
mesm o dos reinóis modestos. A despeito d a quantidade de vinhas cultivadas Quanto às práticas médicas, o s colon os ainda davam preferência, no
na terra ("nunca vi em Portugal tantas uvas juntas, com o vi nestas vinhas", começo do século XVII, aos purgativos importados do reino e a médicos,
confessava Cardim) e de em São Paulo fabricarem a bebida, o Brasil era barbeiros e cirurgiões. Brandônio criticava, aliás, os povoadores por não
sempre abastecido pelo produto do reino. Do A lgarve, chegavam, adem ais haverem ainda se aproveitado das raízes e ervas da terra, "havendo por
do vinho de A lvor, passas e figos. Importava-se até mesm o queijo de ovelha, melhores as que vêm de Portugal já corruptas, porque custam dinheiro".
embora no Rio G rande do Norte se fizessem queijos e requeijões à maneira Co mo ali, as parturientes guardavam-se do ar , embora não guardassem tan
de Lisboa. Do ponto de vista da adaptação alimentar, é provável que a A m é  to tempo o leito. Contudo, já se recorria a "diferentes estilos" de tratamento
rica espanhola se tenha antecipado à portuguesa. Naquela, co mo observou das enfermidades e já avançava a assimilação de vegetais nativos, como a
Braudel, devido à crise de meados do século X V I, os "criollos" convertiam- batata e os pinh ões m uito utilizados nas purgas. Adem ais, generalizava-se a
se progressivamente ao milho, à mandioca e a outros alimentos indígenas, aplicação nas feridas do azeite da copaúba, de quem os cronistas diziam
enquanto os m azombos brasileiros, graças à prosperidade açucareira, conti maravilhas. Já se havia também descoberto as virtudes da água da Paraíba
nuariam ainda dependentes do aprovisionamento de víveres metropolitanos. no tratamento das eólicas e da dor de pedra, razão pela qual a gente
A despeito do clima, a grande maioria dos colonos apegava-se às mo acaudalada de Pernambuco m andava buscá-la, só querendo servir-se dela.
das do reino. Anchieta notou que os colon os vestiam-se "de todas as sedas, Os primeiros cronistas já se gabavam, aliás, de que o Brasil já convertia
veludos, damascos, rases e mais panos finos como em Portugal, e nisto se Portugal a vários dos seus costu mes, co mo o bálsamo da cabriúva, e a bata
tratam com fausto, máxim e as mulheres, que vestem muitas sedas e jóias e ta e os pinhõe s com o purgativo, o ananás em conserva, mu ito apropriado à
creio que levam nisto vantagem, por não serem tão nobres, às de Portugal", dor de pedra, embora não fizesse tanto efeito quanto o ananás verde, a mar
isso evidentemente nos domingos e dias de festa, pois no reino como no melada de ibás, camueis e araçás, excelentes contra as câimbras. Mas não
Brasil o vestuário dos dias de semana é chão. Devido ao clima, a seda era o eram apenas as ervas e frutas brasileiras que começavam a ser utilizadas na
tecido mais bu scado, inclusive por gente modesta. Brandônio assegurava ter metrópole. O jacarandá já estava sendo empregado na fabricação de leitos e
ouvido "a homens mui experimentados na corte de M adri, que se não traja em outros fins. E havia grande estima pelos sagüins, bugios e papagaios,
melhor nela do que se trajam no B rasil os senhores de engenho, suas mulhe embora fossem poucos entre os primeiros os que sobreviviam à mudança de
res e filhas, e outros homen s afazendados e mercadores". Quando C ardim clima.

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Somente em finais de Quinhentos e começos de Seiscentos é que co vezes da galinha n a alimentação dos enfermos n o reino, podendo se r ingerida
meçaram a se afirmar as modalidades do sentimento local que já não se ao longo do ano, embora o toucinho não fosse tão gordo, exceto em São
contentavam em frisar o casticismo da Am érica portuguesa. A ssim, o tema, a V icente e no R io de Janeiro. A s galinhas baianas "eram maiores e mais gor
que se tornará crescentemente sensível a colônia, d a fundação de "um gran d a s " que as portuguesas. A lavoura d e mantimentos, tão  rica e variada quan
de império" no B rasil, o qual, previa Gabriel Soares, "se fará tão soberano to a da Espanha, entend a-se, da península ibérica, tinha ademais sobre esta
que seja um dos Estados do mundo". Do Pará a São Vicente, exultava a vantagem de custar menos trabalho. A farinha de mandioca só perdia em
Brandônio, são "quase setecentas léguas: terra bastantíssima para se poder qualidade e sabor para o trigo de boa esp écie, d e vez que o "trigo do mar",
situar nela grandes reinos e impérios". A arquicitada lamentação de frei V icente o milho, o centeio e a cevada eram inferiores à mandioca. Mesm o admitindo
do Salvador sobre a tendência dos colonos a comportarem-se com o caran a superioridade d o bom trigo, Gabriel Soares ressalvava que a farinha de
guejos não tem outra inspiração. Em termos da dicotomia freiriana, ela já é mandioca era "mais sadia e proveitosa [...] por ser de melhor digestão",
uma clara opção p elo continente contra a ilha, sobretudo porque o continen como haviam podido constatar os primeiros governadores-gerais, que "não
te é a promessa de minas, e a ilha, o trabalho rotineiro da lavoura. O tem a do comiam no B rasil pão de trigo, por se não acharem bem com e le, e assim o
"grande reino" surge inclusive em autores do reino, como Luís Mendes de fazem outras muitas pessoas".
Vasconcelos, em conexão com o argumento do apoio mútuo que, em caso Ao contrário da Madeira ou do Velho Mundo, a cana-de-açúcar não
de necessidade, devem prestar-se metrópole e colônia. Nesse sentido, nos exigia irrigação ou estéreo, plantando-se até mesmo n os altos. Sendo ainda
sos primeiros cronistas foram também nosso s primeiros ufanistas. Esse so de seis m eses, acamavam, crescendo "tão compridas como lanças". O viço
nhado grande impér io já n ã o é mais apenas o prolongamento ultramarino do dos canaviais das várzeas era tal que o sumo das suas canas só coalhava
reino, mas já conta com evidentes superioridades sobre a metrópole, ao quando misturado ao de canas velhas. Enquanto na Madeira a planta só
menos desde a crônica de Gabriel Soares. É certo que Gândavo já escreve dava duas safras, havia canaviais na B ahia que davam h avia trinta anos, as
ra que os bolo s de aipim excediam no sabor ao pão do reino e que o ananás terras baixas não cansando jamais e as altas produzindo quatro, cinco vezes
era tão delicioso que não conh ecia em Portugal fruta que lhe fizesse vanta e até mais. A s figueiras não criavam bicho com o em P ortugal nem as ataca
gem; e que o s peixes, embora cá e lá fossem da mesma casta, tinham muito vam as formigas. A água de laranjeira tinha "mais suave cheiro que a de
melhor sabor. A exceção era o peixe-boi, que, tendo o mesmo gosto da Portugal". A s limas e as cidreiras eram maiores e mais saborosas que as do
carne de vaca (ou, segundo G ândavo, de lombo de porco ou veado), provo reino. Os pepinos se davam melhor do que em Lisboa, sem necessidade de
caria a calorosa querela teológica a que se referiu o autor dos Diálogos das rega nem de estéreo, e as abóboras e as couves, do que em Alvalade. As
grandezas, a qual concluiu tratar-se verdadeiramente de um pescad o, tendo favas podiam ultrapassar as de Évora em tamanho; e certo gênero delas
em vista que seu hábitat eram as águas, não saindo a pastar fora delas, o "tem melhor sabor que as de Portugal". Até mesmo os nabos e rábanos,
oposto da capivara, que, vivendo nos rios, pastava na terra, sendo con side quintessência dos legum es metropolitanos, "davam-se melhor n o Brasil que
rada, portanto, carne e não peixe. no Minho", para não mencionar o manjericão, "mais alto e forte que em
M as é Gabriel Soares, radicado na terra, que a compara e a seus pro Portugal". A beleza, o sabor e o cheiro do ananás levavam de ven cida todas
dutos de maneira sistematicamente favorável. A ssim, certo rio da Bahia era as outras frutas da Espanha.
"tão formoso com o o do G uadiana, mas tem muito mais fundo". Os b ovinos É sabido que os Diálogos das grandezas foram construídos com base
são muito mais fecundos, pois as novilhas já recebem o touro, ao cabo do na oposição entre os interlocutores, Alviano e Brandônio, que exprimem
primeiro a n o , e já parem n o segundo. O s eqüinos m ultiplicam-se vertiginosa duas atitudes distintas. Na realidade, por trás dela, surge a dicotomia da
mente, a ponto de seus preços haverem caído seis v ezes em relação ao que terra e do homem, que exprime o antagonismo do reinol recém-chegado e
custavam no começo. As éguas baianas eram "tão formosas [...] como as do colono estabelecido na terra; ao passo que Alviano atribui à natureza
melhores de Espanha". A carne de porco era tão sadia que fazia na terra as brasileira os males da colonização, Brandônio os imputa aos povoadores.

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Na sua condição de cristão-novo, Ambrósio Fernandes Brandão podia to otimista, julgando q u e semelhante falta de iniciativa seria remediada pe lo cres
mar u m a distância crítica vis-à-vis d os demais reinóis. Tendo afirmado A lviano cimento demográfico, de vez que "os que ficarem sem ocupação, de força
ter o Brasil na conta da terra "mais ruim do mundo", pois se os colon os se hão de buscar alguma de novo de que lancem m ã o " , com o que já não have
empregam no cu ltivo da cana e no fabrico do açúcar, isto se deve a que não ria "necessidade de c oisa nenhuma das que trazem de P ortugal, e quando a
a acham "capaz de mais benefício", replica-lhe Brandônio tratar-se de "erro houvesse, fora de poucas".
crasso", de vez que, ao contrário, "a terra é disposta para se haver de fazer Do ideal, apenas insinuado, de autarquia colonial, frei Vicente do Sal
nela todas as agriculturas do mundo", sendo fértil de tudo, não vendo "ne vador fará todo um programa nativista. A o passo que G abriel Soares, por
nhuma província ou reino dos que h á n a Europa, Ásia ou África que seja tão exem plo, assinalara a superioridade do produto reinol cultivado no Brasil
abundante". O defeito não é da terra mas da "culpa, negligência e pouca sobre seu similar metropolitano, o autor da História do Brasil vai além,
indústria de seus moradores", da "pouca curiosidade e menos indústria dos afirmando a superioridade do produto nativo sobre o português, como na
que a habitam". Ele mesmo, Brandônio, plantara e colhera trigo, constatando descrição das madeiras utilíssimas desconh ecidas do outro lado do A tlânti
que ele se dava muito bem nas campinas mas não nas várzeas. Nã o experi c o . Para o nosso franciscano, o B rasil tinha o melhor dos dois m undos, pois
mentara nem centeio nem cevada m a s o milho europeu não somente possuía uma flora mais rica como também assimilava a alheia
em c ondições mais vantajosas que as do próprio lugar de origem, embora,
se dá melhor e em mais quantidade do que se dá em P ortugal; mas não se usa dele, ao contrário de B randônio, que propusera o plano de cultivar no B rasil as
porque a gente da terra se contenta somente com aquilo q u e o s passados deixaram em drogas da índia para destruir o comércio holandês das especiarias, a exem
us o, s e m quererem anadir outras novidades de novo, ainda qu e entendam claramente plo do que fizera d. M anuel com os venezianos, o cronista franciscano prefe
que se lhes
mostrar háserem
nisto de conseguir do uso delas
todos padrastos muitaco mutilidade,
d o Brasil, lhes ser de
ele maneira que se
madre assaz vêm a 6
benigna. rirá a solução q ue, tirando partido da brevidade e segurança da navegação
com o reino, fizesse do Brasil o entreposto desses produtos. À maneira dos
antecessores, frei V icente não se priva das comparações, e até aduz vanta
Bran dônio inventaria, aliás, as potencialidades inexploradas da terra, a gens, como as das favas e feijões, que não criavam bicho nem tinham a casca
começar pelo "m uito algodão que aqui se colhe" e de que se poderia fazer tão dura como no reino; as da mandioca e do aipim, que, ao contrário do
toda sorte de tecidos, seguindo o exem plo da índia. Em vez de se aproveita trigo, não consumiam as sementes na planta nem se recolhiam em celeiros,
rem da lã das ovelhas, mesmo que fosse apenas para "enchimento de col onde eram vítimas do gorgulho. O s camarões, não os h avia apenas no mar,
chões", os colon os preferem comprar a que vem do reino muito cara, o que com o em Portugal, mas também nos rios. Destarte, "é o Brasil mais abasta
também pode ser afirmado a respeito do queijo feito do leite do mesmo do de m antimentos que quantas terras há no mundo, porque nele se dão o s
animal. Em lugar d e se cultivar hortaliças, importam-se de Portugal. Alviano mantimentos de todas as outras", ademais dos próprios. Como seus
mesmo admitira q u e , "com tantas sortes de vinhos [indígenas], bem se pude antecessores, o cronista acentua não existirem no B rasil piolhos e perceve-
ram escusar
aventara os que se trazem
a conveniênc ia de se das Canárias
escusar e ilhaazeite
o próprio da M adeira";
do reino,e ademais
Brandônio
de comonão
jos,
elesendo as pulgas
ousasse negar atantas, embora
nocividade e onem mesmo do
incômodo umbicho-de-pé.
nativista enragé
Frei
"outras muitas coisas". Os muares criavam-se facilmente no Brasil, tanto as V icente incorre mesm o em grave ofensa às suscetibilidades reinóis quando
sim que "de alguns asnos cavalares que se mandaram vir do R eino se produ assinala ser a língua geral mais rica de vocábu los que a língua portuguesa,
ziram maravilhosos machos e mulas", mas sua utilização deixou de ser citando o exemplo do vocabulário do parentesco, que, sabemos, graças à
praticada por pura inércia. A longo prazo, porém, Brandônio mostrara-se antropolog ia, ser geralmente mais discriminador nas socieda des primitivas j
do que nas históricas. Uma réplica, talvez, ao argumento muito usado de que
o tupi descon hecia o F, o L e o R, carência fonética interpretada no sentido
6
Ambrósio Fernandes B randão, op. cit., p p . 142 e ss. de que os indígenas eram destituídos de Fé, de Lei e de Rei.

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Escusa do assinalar que a conotação autárquica desses tópicos acarre João III, único a sabê-la verdadeiramente estimar. Os serviços prestados no
tava potencialmente a contestação do monopólio colonial. Foi frei Vicente Brasil não eram recompensados, p ois "raramente se pagam", com o indicava
que concluiu a redação da sua história sob o impacto da ocup ação holand e o com portamento da coroa para com o primeiro donatário de Pernambuco,
sa de Salvador (162 4-16 25) , quem formulou o primeiro programa nativista para com Pero Coelho de Sousa e para com certo pró-homem baiano, que
para o Brasil. Preso à sua cultura eclesiástica, ele coloca em termos das hospedara e banqueteara o almirante Diogo Valdez e seu séquito durante
Escrituras a questão de se é preferível a autarcia ou seu contrário. Ora, elas oito mes es, sem que se lhe fizesse qualquer mercê. O s comerciantes reinóis
fornecem uma resposta equívoca, pois se o salmista louva Sião por ter suas eram acusados de só virem "a destruir a terra, levando dela em três ou qua
portas abertas a todos, louva também Jerusalém por ter tudo dentro de si. O tro anos que cá estavam quanto podiam", ao passo que "os moradores eram
Brasil gozava de ambas vantagens, mas não há dúvida para que lado se os que a conservavam e acrescentavam com seu trabalho e haviam conq uis
inclina a argumentação do frade: tado à custa do seu sangue". Daí que frei V icente reserve avaramente seus
elogios aos governadores-gerais que protegiam os colonos da usura mer
pois primeiramente pode sustentar-se com seus portos fechados sem socorro de cantil, ou quem, co mo d. Francisco de Sousa, tornara-se querido e respeita
outras terras. Senão pergunto eu : de Portugal vem farinha d e trigo? a da terra basta. d o , "porque, tratando os mais [governadores] do que hão-de levar e guardar,
Vinho? de açúcar se faz mui suave e, para quem o quer ijo, com o deixar ferver dois ele só tratava do que havia de dar e gastar". Nem mesmo os povoadores
dias embebeda como de uvas. Azeite? faz-se de cocos de palmeiras. Pano? faz-se de escapam à crítica: "por mais arraigados que na terra estejam e mais ricos que
algodão com menos trabalho do que lá se faz o de linho e de lã, porque debaixo do sejam, tudo pretendem levar a Portugal [...] e isto não têm só os que de lá
algodoeiro o pode a fiandeira estar colhendo e iando, nem faltam tintas com que se
tinja. Sal? cá se faz artificial e natural, como agora dissemos. Ferro? muitas minas há vieram mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra não
dele, e em S ã o Vicente está um engenho onde se lavra finíssimo. Especiaria? há muitas como senhores
espécies de pimenta e gengibre. Amêndoas? também se escusam com a castanha de Brandônio. (Estemas como usufrutuários",
já lamentara, aliás, que os argumento já esgrimido
lucros do Brasil por
fossem todos
caju, et si c d e ceterís. Se me disserem que não pode sustentar-se a terra q ue não tem para os reinóis, que m onopolizavam o com ércio, "porque os naturais da ter
pão de trigo e vinho de uvas para as missas, concedo, pois este divino sacramento é ra se ocupam no granjeamento dos seus engenhos e no benefício de suas
nosso verdadeiro sustento; mas para isto basta o que se dá no mesmo Brasil em São lavouras, sem quererem tratar de mercancias, posto que alguns o fazem".
Vicente e campo de São P aulo. E com isto está que tem os portos abertos e grandes
barras e baías, por onde cada dia lh e entram navios carregados d e trigo, vinho e outras N este século d e Quinhentos, já vigia também entre os colon os a crença
ricas mercadorias, que deixam a troco d as da terra.7 no papel messiân ico a ser desempenhad o pelo B rasil nos destinos de Portu
gal. B randônio refere haver previsto um astrólogo d a corte de d. Manuel que
Destarte, a história d e frei Vicente já fere algumas teclas nativistas, uma a terra que vinha recém-descoberta por Cabral haveria de tornar-se "uma
delas o tratamento dispensado no reino à colônia. Após constatar que "com opulenta província, refugio e abrigo da gente portuguesa". Frei Vicente pre
não haver hoje cem a nos [...] que se com eçou a povoar, já se hão despovoa tenderá q u e , já ao tempo da fundação de Salvador e ao long o do reinado de
do alguns lugares e, sendo a terra tão grande e fértil [...] nem por isso vai em d.
daJoão
III, cogitou -se, para a eventualidade de invasão estrangeira d o reino,
aumento, antes em diminuição", ele acusa os monarcas portugueses de faze possibilidade de passarem-se el-rei e seus vassalos à América, que pro
rem pouco ca so do B rasil, a ponto de não lhe usarem o nom e, preferindo se porcionaria a base ideal para a reconquista da mãe-pátria, d evido à sua po
intitularem reis da Guiné " p o r u m a caravelinha q u e l á vai e v e m " . A condena sição estratégica, superior à dos Açores, demasiado próximos, e da índia,
ção abrange indiferentemente os A vis lusitanos e os Habsburgo castelhanos, demasiado distante. Devido a seu reduzido território, as ilhas podiam ser
que só cuidam da América para receber seus rendimentos, exceção de d. facilmente conquistadas, como se vira durante a tentativa independentista do
prior do C rato, que, a despeito do apoio naval francês e inglês, n ão pudera
resistir às armas de Filipe II. Quanto à índia, embora contando com uma
7
Frei Vicente do Salvador, História d o Brasil (4 . ed. São Paulo: M elhoramentos, 1954), p . 71 . extensão continental, tinha o ônus da navegação demorada e perigosa. O

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Brasil é que possuía todos os requisitos. Sua navegação era fácil, segura e fartura ela era especialmente acolhedora. Tanto assim que os colonos se
rápida, de modo que "com muita facilidade podem [os portugueses] cá vir e mostravam m ais largos que os hab itantes do reino no comer e no vestir, além
tornar quando quiserem ou ficar-se de morada". Suas dimensões permitiriam de mais generosos nas doações pias. De Pernambuco, frisava Gabriel Soa
abrigar toda a população do reino, com o que o tema do Brasil refúgio res de Sousa, haviam voltado ricos a Portugal muitos qu e ali haviam aportado
entroncava-se com o da construção do "grande império". O que frei Vicente sem eira nem beira nem ramo de figueira. É conhecida a estória narrada por
não podia prever é que, decorrido pou co mais de um d ecênio da redação da frei Vicente a respeito de certo homem de Leiria, punido pelo seu bispo com
sua obra, a na
recolocaria restauração
ordem do portuguesa,
dia a velha isolando internacionalmente
idéia do reinado Portugal,
de d. João III. P ois a a sentença irônica de que "vá degredado por três anos para o Brasil, donde
tornará rico e honrado". O indivíduo em questão fora mandado para o R io
verdade é que o projeto de transmigração d a família real para o B rasil, final Grande do Norte, onde, a despeito de ser "a pior [terra] do Brasil", granjeou
mente realizado no século X IX , teve sua pré-história no reinado de d. João co m a mulher dois mil ou três mil cruzados, tornando-se compadres do capi-
IV e depois na regência da sua viúva, d. Luísa de Gusmão. tão-mor, em cuja companhia retornaram ao reino, e, signo da promoção
Quando da sua segunda missão a Paris (1646-1649 ), o marquês de Niza social do casal, "comendo todos a uma mesa, passeando ele ombro com
foi instruído a negociar o casamento d o herdeiro d o trono, o príncipe d. Teodósio, ombro com o capitão, assentando-se a mulher no mesmo estrado que a
co m a prima de Luís XIV, a Grande M ademoiselle. M as a reação francesa foi fidalga, como eu as vi em Pernambuco, onde foram tomar navio para se
negativa, mesmo quando d. João IV propôs abdicar em favor d o filho, em cuja embarcarem". O "brasileiro" das novelas de C amilo Castelo B ranco é a der
menoridade a regência seria exercida pelo almejado sogro, o duque d e Orléans, radeira encarnação do mito da terra da árvore das patacas.
ao passo que o monarca ficaria com o domínio dos Açores e do estado do N inguém mais autorizado para formular o tópico do que G aspar Dias
Maranhão e Grão-Pará,
projeto de retirada da fama ília
ser real
constituídos em reino
para o B rasil autônomo.
no decurso Do segundo
da guerra da res Ferreira, lisboeta que chegara pobre a Pernambuco e aí se tornara homem
rico e honrado, senhor de dois engenhos, conselheiro do conde de Nassau e
tauração, sabe-se por uma carta do padre A ntônio Vieira que a nomeaç ão de j protegido do vice-rei da Bahia, conde d e M ontalvão. No seu parecer sobre
Francisco de Brito Freire para o governo de P ernambuco (1661-1663 ) resul a compra do Nordeste aos holandeses, Gaspar escrevia:
tará da preocupação d a rainha regente de "prevenir a seus filhos [inclusive d.
Afonso X I , n a menoridade] uma retirada segura, no ca so em q ue algum suces Eu o [Brasil] chamo o jardim do Reino e a albergaria dos seus súditos. Outrora
so adverso [isto é, a reconquista de Portugal pela Espanha], que então muito deliberou-se em P ortugal, como consta de sua história, elevar o Brasil a Reino, indo
se temia, necessitasse deste último remédio". Vieira, que então se encontrava para lá o R ei, tão grande é a capacidade daquele país. Portugal não tem outra região
missionando no Maranhão, recebeu a ordem de seguir para Pernambuco, o mais fértil, mais próxima nem m ais freqüentada, nem também o s seus vassalos melhor
que só não fez devido à revolta dos colonos paraenses, que o retiveram em e mais seguro refúgio do que o B rasil. O português a quem acontece decair de fortuna,
é para lá que se dirige. 8
Belém . A inda segundo o jesuíta, d. João IV recomendara o projeto n um papel
encontrado
mão com trêsapós seu falecimento
cruzes". A idéia só "em su a gaveta secreta,
foi definitivamente rubricado
descartada de su àa assi
graças
real A inda outro tema já presente nes ses p rimeiros textos da história bra
natura do tratado de aliança luso-britânico de 1661, pelo qual Carlos II pro sileira é o da superioridade da ação do E stado sobre a atividade privada.
meteu apoiar militarmente Portugal. Para Diogo de C ampos M oreno, "tudo o que neste Estado [do Brasil] não
for de Sua Majestade crescerá devagar e durará muito pouco", contras
Esse papel messiânico do Brasil er a visto igualmente em termos de pro tando o florescimento das capitanias que "o braço real tomou mais à sua
moção econômica e social da população do reino. O tópico já se encontra conta" com o atraso a que estariam relegadas as terras donatariais. O cro-
em Gândavo, cujo tratado destinava-se a propagandear "a fertilidade e abun
dância" d a nova terra junto às "muitas pessoas que nestes R einos vivem com 8
pobreza e não duvidem escolhê-la para seu remédio", pois graças a sua "Papéis concernentes a Gaspar Dias Ferreira", em Revista do Instituto Histórico, Arqueológico
e Geográphico da Paraíba, vol. 32, p. 78, 1887.

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100 Evaldo Cabral de Mello Um a Nova Lusitânia 101
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nista invocava o exemplo da Bahia, do Rio de Janeiro, da Paraíba e do Rio B i b li o g r a f i a s e le c i o n a d a


Grande do Norte, "todas hoje de Sua Majestade, nas quais porque o são
FREIRE, Gilberto. Nordeste. Aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do
aumentam-se cada dia as povoações e crescem as fazendas". Mesmo a Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.
exceção conspícua que era a prosperidade de Pernambuco, ele a explica GALLOWAY, J. H. The Sugar Cane Industry. An Historical Geographyfrom its Origin to 1914.
va pelo au xílio que lhe dispensara a coroa sob a forma de "capitais, presí Nova York: CambridgeUniversity Press, 1989.
dios e fortificações". A falta de ação donatarial estaria ligada à incapacidade GOMES, Geraldo. Engenho & arquitetura. Recife: Fun dação Gilberto Freire, 1997.

dos seus agentes,


respeitável de vez que
no governo", nestasque,
ao passo capitanias "nunca regias,
nas capitanias se encontra pessoa )
as autorida
GUERRA, Ruy. Engenho e tecnologia. São P aulo: Livraria Duas Cidades, 1983.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso. 2. ed. Sã o Paulo: Nacional, 1969.
des tinham todo interesse em promover o crescimento local, na expectativa QUIRINO, Tarcizio do R ego. Os habitantes do Brasil no fim do século XVI. Recife: Im prensa
Universitária, 19 66.
de promoção no serviço público. Daí que Campos Moreno advogasse a
RAU, Virgínia & MACEDO, Jorge Borges de. O açúcar da Madeira nos ins  d o século XV. Lisboa:
estatização das capitanias donatariais. Na realidade, ele silencia ou não Funchal, 1962.
percebe algo essencial, ou seja, que o superávit obtido no rendimento dos SCHWARTZ, StuartB. Sugar Plantations in the Formation ofBrazilian Society: Bahia 1550-1835.
dízimos do açúcar, que constituíam a fonte de recursos com que a coroa Nova York: Cambridge University Press, 1985.
financiava suas despesas de gestão e defesa da América portuguesa, era SMTTH, RobertC. Igrejas, casas e móveis. Recife: Univ. Fed. de Pernambuco/IPHAN, 1979.
exclusivamente gerado pela capitania donatarial de P ernambuco, pois, de s VIEIRA, Alberto. "Escravos com e sem açúcar na Madeira". Atas do Seminário Internacional,
contada essa contribuição, as contas do Estado do Brasil apenas se equili Funchal, 1996.
brariam. M algrado a  riqueza da principal capitania regia, a Bahia, a receita
dos seus dízimos
burocrático que o era insuficiente
governo central para cobrir as despesas com o aparato
aí instalara.

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"Gente d a terra braziliense da


nasção". Pensando o Brasil:
a construção de um povo
OI Stuart B. Schwartz

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-L /e s d e os primórdios de sua existência, o Brasil tem sido tanto uma I


idéia quanto um lugar. Significou coisas diferentes para pessoas diferentes e l
o próprio termo tem sido redefinido e reinterpretado para refletir as diferen
ças e discrepâncias entre pessoas de variadas extrações e posições sociais.
O B rasil, enquanto idéia, foi freqüentemente mais um projeto do que uma |
realidade, às vezes geográfica, às vezes nacional ou até social. A definição |
do "verdadeiro Brasil", em oposição ao Brasil do momento, se tornou um
método de estratégia argumentativa e discursiva, assim com o uma projeção
para o futuro. Essa d efinição dependia, em alguma medida, de quem eram os
"verdadeiros" brasileiros. De alguma forma, sempre houve uma variedade
de B rasis que se disputavam, projetos diferentes para o que o B rasil deveria
ser ou representar. Essas concepções diferentes dependiam, em especial,
das divisões sociais, das identidades e das expectativas da população colo 
nial. An tes que pudessem existir os brasileiros, um povo que se via enquanto ]
comunidade política, essas diferentes concepçõe s de Brasil tiveram de ser I
reconciliadas de alguma forma, embora a realização desse objetivo numa I
sociedade multirracial e escravista tenha sido um processo extremamente I
complexo. Neste breve estudo examinarei as dificuldades de se criar um
conceito de povo dentro das malhas de uma sociedade escravista, e tentarei
sugerir que o próprio conce ito de p ovo passou por diversas transformações
históricas n o início da história moderna do Brasil.
Para os historiadores, a habilidade em recapturar os co nceitos varian
tes de Brasil sempre tem sido limitada pelo fato de que aquilo que conh ece
mo s a respeito da mentalidade dos habitantes do Brasil colonial freqüentemente
tem sido extraído dos escritos de um pequeno contingente da elite alfabetiza
da, quase sempre homens, a grande maioria deles educados em Portugal,
onde, inclusive, publicam seus trabalhos, quando não o fazem em outros
* Tradução de Adriana Lopez.

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106 Stuait B. Sc hw artz " Gente do terra braz iliense da nasç ã o" . Pensando o Brasil: a c onstruç ã o de um pov o 107
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países da Europa. Devido à ausência de uma universidade ou mesmo da aplicado, mas as referências ao status econômico e jurídico desses eram
imprensa na colônia, esses autores publicavam seus trabalhos na metrópole e muito m ais populares. A ssim, os termos "negro da terra" e "índios" eram
para um púb lico metropolitano, sob o olhar vigilante da Igreja e do E stado. utilizados com mais freqüência do que qualquer outro para designar os indí
Assim, seus escritos não podem ser considerados como representativos do genas enquanto verdadeiros habitantes da terra.
desenvolvimento de uma consciência d e s u a própria classe e muito menos da Uma v ez que o nom e da terra se consolidou devido ao uso contínuo, a
massa dos habitantes iletrados da colônia, especialmente aqueles de origem questão que surgia, aqui como no caso de outras novas "descobertas", não
africana, indígena ou mestiça. Essas pe ssoas eram menos apegadas a Portu era como a terra e seus habitantes nativos deveriam ser chamados, m as o
gal do que os letrados e os clérigos, quase que exclusivamente brancos da que deveria significar o u representar. No caso do Brasil, o significado foi, em
classe superior, mas a reevocação de suas idéias apresenta dificuldades, já grande m edida, prático e raramente ed ênico. 3 A s expectativas de encontrar
que eles encontraram poucos m eios para expressá-las, especialmente n o que riquezas em forma d e metais preciosos, manifestadas nas primeiras crônicas,
diz respeito a formas que possam s er recapturadas pelos historiadores, a não como nos Diálogos das grandezas do Brasil (1618), e da possível vinculação
ser, é claro, no caso de estudarmos suas açõe s, e não suas palavras.1 Se as do estabelecimento do governo geral na colônia em 1549 com a descoberta
diferenciações entre a elite e o "povo" são tratadas enquanto pertencentes à das minas de Potosí pelos espanhóis (1545), logo foram ultrapassadas por
classe ou à cultura, elas não obstante enriquecem e com plicam a questão do outras realidades econ ômicas. Tome de S ousa, o primeiro governador-geral
que o Brasil significava para seus habitantes, na medida em que procuravam do B rasil, havia manifestado expectativas de que o B rasil pudesse tornar-se
definir tanto o território como a própria relação que mantinham com este. " um outro Peru". De fato, no início do século X VI I, realizou-se uma tentativa
A questão da definição do território e de seus habitantes surgiu durante para alcançar esse objetivo. Em 1608, p or insistência d o ex-governador Fran
o século XVI, ao adotar-se o nome de Brasil para a nova conquista. A cisco de Sousa, as capitanias do Sul foram desmembradas visando a forma
designação original, e pia, com a qual Cabral batizara o n ovo litoral, Terra de ção de uma colônia distinta. Francisco de Sousa havia de fato tentado
Santa Cruz, disputou a primazia durante um breve período com o termo convencer a coroa de que minas semelhantes às peruanas poderiam ser
descritivo de "terra dos papagaios" e com a designação dada pelos mari estabelecidas n o B rasil, utilizando, inclusive, "carneiros de carga" (llamas)
nheiros, a "terra dos lençóis", em reconhecimento aos longos trechos de para transportar a prata extraída. M as a sua visã o do B rasil enquanto u m
praias de areia que, do convés dos nav ios, pareciam a distância como len Peru não era compartilhada por todos. O governador-geral na B ahia, Dio go
çóis. A etimologia do termo Brasil também pode ser questionada, dado o de M eneses , contrariado pela diminuição de autoridade que o desmem 
precedente medieval da mitológica ilha Brasyl e da associação do nome à
bramento do Sul representava, escreveu à coroa: "crea-me V. M g. que as
brasa e, portanto, sua relação com a madeira tintorial vermelha (pau-brasil).
verdadeiras minas do Brasil são açúcar e pau-brasil de que V . M g. tem tanto
Tamp ouco podem os afirmar se a madeira recebeu o nome devido à terra ou
se a terra adotou o nome da madeira. 2 proveito sem lhe custar de sua fazenda um só vintém".4
As declarações de Meneses colocam em relevo uma realidade. Apesar
pel naConsiderações
designação dosdehabitantes
ordem econômica tambémentos
da terra. Docum desempenharam
do sé culo X Vum pa
I algu de comentários ocasionais que davam a entender que a proximidade entre o
mas vez es se referem aos habitantes indígenas com o "os brasis", ou "gente Brasil e o Peru prometia acesso à  riqueza dos metais e apesar dos recorren
brasília" e, ocasionalmente n o século X VI I, o termo "brasileiro" era a eles tes rumores e expectativas, no final do século X V I, o açúcar dava à colônia

1
Já discuti esse problema em detalhe em Stuart B. Schwartz, "The Formation of a Colonial 3
Identity in Brazil", em N. Canny & A. Pagden (orgs.), Colonial ldentity in the Atlantic World, Sérgio Buarque de Holanda, Visão do paraíso (Rio de Janeiro: José Olympio, 1959), deixa claro
1500-1800 (Princeton: Princeton University Press, 1989), pp. 15-50. que ao contrário do Peru, que gerou fantasias utópicas de riqueza, as primeiras avaliações a
2
A questão da adoção do nome B rasil e sua preferência sobre o de Terra de Santa Cruz é discutida respeito do B rasil estavam relativamente livres dessas definições.
4
por Pero de Magalhães Gândavo, História da província Santa Cruz a que vulgarmente chama Francisco Adolfo de Varnhagen, História geral do Brasil (São Paulo: Melhoramentos, 1952),
mos Brasil (Lisboa: Biblioteca Nacional, 1576). v o l . II, p. 146.

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108 StuartB.Sdiwartz " G e n te da te rra bra zilie ns e da na s çõ o " . Pe ns a ndo o B ra s il: a co ns tru ção d e u m po v o 109
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um traço característico, e as exigências desse cultivo haviam estabelecido mais precisam ente, que queriam interferir n a aquisição do Império português
u m a base econô mica e social diferente para a colônia. A importação de afri pretendida po r Filipe II - também consideravam o Brasil com o u m a presa de
canos em massa, do s quais a produção de açúcar dependia, eventualmente valor. A po ssibilidade am bicionada pela França de ter uma base no Brasil
moldou a composição e a estrutura da sociedade, e o volume do comércio quase certamente motivou o au xílio concedido por Catarina de Médicis a
de açúcar deu ao Brasil a sua raison d'être. O açúcar também transformou d. Antônio na década de 1580. Em Madri, rumores de que os holandeses
o Brasil n a principal fonte de riqueza do Im pério português. Em 1624, quan
do a notícia da conquista de Salvador pelos holandeses chegou a Lisboa, o estabeleceriam um descendente
Pernambuco persistiram de d.de
até a década 1620. Apara
Antônio justificar
sugestão de sea transferir
invasão dea
governador de Portugal, o conde de Basto, escreveu ao rei em Madri a corte de L isboa para o B rasil, surgida durante o século X VI II, era reiterada
respeito da s implicações calamitosas q u e adviriam da poss ível perda d o Brasil: ocasionalmente por membros da corte e conselheiros políticos. A chegada
da corte em 1 808 foi, portanto, não apenas u m expediente imediatista, m as a
[...] porque o Brazil leva todo este reino trás de si, as rendas reais, porque sem Brazil, realização de um projeto acalentado desde longa data e uma atitude que
não há Angola, nem cabo Verde, nem o pau que dali se traz, nem alfândegas, nem reconhecia o que o Brasil havia pa ssado a significar para a corte portugue
consulado, nem portos secos, nem situação em que se paguem os tribunais, e minis sa . 7 M esm o em m eio a tais considerações po líticas, a questão do caráter
tros e seus salários, nem meio de que possam viver, e dar vida a outros, a nobreza, as
religiões, misericórdias e hospitais, qu e tinham nas alfândegas situados os seus juros dos habitantes do Brasil começa a emergir. Não bastava ser o soberano de
e suas tenças. E assim foi este golpe o mais universal que podia padecer o rei, o u m a terra opulenta, a verdadeira grandeza exigia igualmente u m grande povo,
público e os particulares [...]5 e nesse aspecto o Brasil era considerado deficiente. No início do século
XVIII, d. Luís da Cunha, conselheiro de d. João V , tentou superar o precon
Esse reconhecimento do Brasil enquanto base econômica do sistema ceito contra os habitantes da colônia, mas até a sua defesa revelava o des
imperial português e seu caráter essencial, enquanto fonte de riqueza, data peito com que eram tratados os nativos do B rasil:
do início do século XVII e persiste até o final daquele século, quando o
comércio de açúcar se torna menos lucrativo. Foi, é claro, uma visão que [...] pois nã o sabe como possa vir à cabeça de hum homem, qu e conserva toda a sua
ressuscitou quando da descoberta do ouro. Ao chegarmos ao século XVIII, razão, propor que hum Rey de Portugal trocasse a sua residência da Europa pela
quando a  riquezad  a colônia brasileira havia se tornado a pedra-de-toque do América, cujos povos, sem falar da diferença do s climas, apenas tem os sentimentos
de homens; ao qu e respondo, que as cidades do Brasil não são povoadas desta mizeravel
império português, frei A ntônio do Rosário escreveu que o B rasil se tornara gente, mas de muitos e bons portugueses qu e delia se servem, como em Lisboa nos
a "verdadeira índia e M ina de P ortugal", porque a "índia já não he índia". 6 servimos de negros [...]8
Na Europa de então, uma vez que o Brasil havia adquirido seu status
enquanto lugar de riqueza, real ou potencial, também com eçou a servir de Ess e problema, o da terra sem um pov o digno de sua riqueza, prevale
lugar de fuga ou sede alternativa de império para os monarcas europeus de
grandes amb ições ou esperanças limitadas. Parece nítido que durante a luta e u , durante
cdaqueles que ogovernavam
século XVIII, na concepção de Brasil que povoava a mente
a colônia.
pela sucessão ao trono de Portugal, que se seguiu à morte de d. Sebastião, Apesar do reconhecimento do potencial econômico do Brasil, este era
em 1578, d. Antônio, o Prior do Crato, chega a considerar a idéia de se visto pela maioria dos portugueses como um lugar de exílio e perigo; um
estabelecer como rei no Brasil e esperava utilizar a colônia como base de lugar para enriquecer o u progredir n a carreira, mas um lugar a ser evitado a
suas futuras pretensões. A s cortes d a Europa que lhe ofereceram ajuda - o u, qualquer custo. O irmão jesuíta Inácio B randão escreveu para seus irmãos
5
ACA, cx. 117, ff. 293-293v. 7
As sugestões feitas por d. Luís da Cunha no sentido de se transferir a corte de Portugal para o
6
Frei Antônio do Rosário, Frutas do Brasil numa nova e ascética monarquia consagrada à Brasil estão em Visconde de Carnaxide, D. João V e o Brasil (Lisboa: Serviços Culturais da
Santíssima Senhora do Rosário (Lisboa: Oficina de A ntônio Pedrozo Garlam, 1702), citado em Câmara Municipal, 1952), pp. 53-5.
Sérgio Buarque de Holanda, Visão do paraíso, cit., p. 79. 8
"Instruções inéditas" de d. Luís da Cunha a Marco Antônio de Azevedo (Lisboa, 1929), p. 217.

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110 StuaitB.Sdiwortz " G e n t e da te rra bro zilie ns e d a n a s ç ã o " . Pe ns a ndo o Brasil: a co ns tru ção de u m po v o 111
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de ordem em P ortugal, "he certo que quem conhece Portugal e esperementa funcionou muito bem nem chegou a durar muito tempo. R epresentantes do
o B rasil com fundamentos pode dizer que deceu do ceu ao inferno e se Deu s povo foram proibidos de presenciar algumas discussões dos vereadores e
destas terras o levar a com tas, me parece será inferno perpetuo [...]".' Fun foram por eles acusados de provocar a agitação popular durante os protes
cionários régios ficavam frustrados e exasperados pela a usência de respeito tos da "Maneta", em 17 11. Em 1713, a posição d e juiz do pov o foi extinta e
às leis por parte de seus habitantes. Dom ingos Álvares T eles Brandão escre "ficava a Cidade Capital d o Estado d o Brasil igual amais humilde villa delle".12
veu de M inas Gerais, em 1736, que: O conceito de "povo" enqu anto terceiro estado na sociedade de ordens e na
base de toda sociedade não chegou a se estabelecer na colônia. As referên
[...] se possível for pondo em cada pau huma forca e em cada légua hum ministro cias mais antigas falam de "pessoas de menor condição", "moradores" e
porque so assim se sugeitarão de todo e se não obedientes porque de outra forma não "povoadores", mas a idéia de um "povo", orgânica e constitucionalmente
he possível porque canalha semelhante não ha no mundo tod o, sendo a maior galhar vinculado ao corpo da política e ao rei estava, em larga medida, ausente. 13
dia dos donos das fazendas proteger ladrões e matadores de que utilizão em seu
serviço, quizas porque elles forão e são da mesm a molde [...]10
Esse era o problema central; as pessoas que poderiam ser chamadas de
população indígena o u nativa d a colônia, aqu ele que poderia se r chamado de
o povo brasileiro er a formado, essencialmente, pelas pessoas de origem m is
O marquês de Lavradio notou que os ministros reais vinham ao B rasil
ta , e não se confiava muito nelas nem na sua capacidade. Em 1602, quando
com a única esperança de concluir o m andato para retornar e "gozar o d es
membros da Ordem de São Bento propuseram admitir nov iços pertencentes à
canso de suas pátrias". Lavradio é, talvez, um caso que merece destaque.
"gente da terra braziliense d e nasção", a iniciativa foi sumariamente rejeitada.14
Nenhu m outro funcionário da coroa na colônia foi mais eficaz e men os apai
O que interessa neste episódio é, em primeiro lugar, a desconfiança dos
xonado do que ele.
por um excesso L avradio
de negros. Numachava a colônia
a carta quente,
ao conde suja,escrita
de Prado, rude eem
povoada
1 768, beneditinos nas habilidades dessa "gente", mas também o fato de que essas
pessoas de origem m ista eram definidas pelo lugar e m q u e haviam nascido, no
comentava: "Este país o achei com pouco m ais adiantamento que aquele que caso, o Brasil, e que esse lugar estava sendo utilizado como critério para defi
lhe estabeleceu Pedro Álvares Cabral quando fez a descoberta desta con nir sua etnicidade.15 Este é o primeiro momento, tanto quanto me é dado a
quista". entender, em que se considera o fato de se te r nascido no Brasil como elem en
Os habitantes da colônia e o meio físico desafiavam as concepções to que define a identidade e como elemento precursor d a nacionalidade.
européias. Que tipo de comun idade podia existir onde tantos de seus habi No próprio Brasil, desenvolveram-se percepções alternadas. O surgi
tantes eram culturalmente diferentes, pagãos e escravos? N os cá lculos colo  mento d o nativismo na colônia tem sido detectado por vários autores.16 O s
niais, e para os funcionários coloniais, o Brasil tinha u m a população mas não membros pertencentes à nobreza da terra se consideravam leais vassalos e
tinha um "povo". Inicialmente, nenhuma instituição representativa ou corte
era permitida n a colônia, e o B rasil, por sua vez, não env iava representantes 12
11 Toda a questão da representação dos artesãos no Brasil ainda merece investigação. Ver Maria
às cortes
mo quetradições
tivos, as eram convocadas
medieva isem Portugal. deDevido
portuguesas a uma variedade
representação de
dos artesãos Helena Flexor,
Bernstein, Oficiais
The Lord Mayormecânicos
ofLisbon.naT he cidade
Portuguese Tribune(Salvador:
do Salvador PMS,and1974);
ofthe People his 24Harry
Guilds
no governo m unicipal (o juiz do povo e a casa d e 24) nunca foram plenamen (Nova York: University Press of America, 1989).
13
Ver a discussão em Evaldo Cabral de Mello, Rubro veio. O imaginário da Restauração
te instituídas na colônia. Mes mo dep ois da Restauração, em 1640, quando pernambucana (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986), pp. 158-9; Stuart B. Schwartz, Segredos
d. João IV autorizou a representação popular na Câmara da Ba hia, esta não 14
internos (São Paulo: Companhia das Letras, 1988), pp. 209-23.
"Leis acresentadas da Junta do Pombeiro" (20 agosto 1603), MSSB, pasta 28.
15
Aqui, falo em etnicidade em vez de nacionalidade, porque no século XVII, o termo "nação" ainda
9 era utilizado enquanto denominador de um certo grupo, tal como a "nação cristão no vo" ou "de
ANTT, Cartório dos Jesuítas, maço 70, n. 119. nação Angola".
10
ANTT, Manuscritos do Brasil, 10, f. 12 lv. 16
Evaldo Cabral de Mello, Rubro veio. O imaginário da Restauração pernambucana, cit.; Stuart
1
' Para um excelente estudo recente, ver Pedro Cardim, Cortes e cultura política no Portugal do B. Schwartz, "The Formation of a Colonial Identity in Brazil", em N. Canny & A. Padgen
antigo regime (Lisboa, 1998). (orgs.), Colonial Identity in the Atlantic World, 1500-1800, cit., pp. 15-50.

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112 Stuarf B. Sc hw ortz " Gente da terra braz iliense da nasç ã o" . Pensando o Brasil: a c onstruç ã o de um pov o 113
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também pensavam constituir a verdadeira população. M as o Brasil sempre te , uma colônia independente (162 1-17 77) com seu governador e seu bispo
teve significados diferentes em momentos diferentes para pessoas diferentes. reportando diretamente a Lisboa, em vez de Salvador. Em meados do sécu
Isto é um a maneira de dizer q u e as divisões sociais e culturais que caracteri lo XVIII, sob Francisco Xavier Mendonça Furtado, o meio-irmão do mar
zaram a sociedade brasileira tinham influência profunda em co mo o s brasilei quês de Pom bal, se tornou um vice-reinado virtualmente separado; isolado,
ros se percebiam e como eles começaram a pensar a respeito de seu país distante do resto do Brasil e mais próximo de Lisboa d e navio do que do Rio
dentroque
com do ocontexto
métodocolonial. E ssadedivisão
tradicional social das
abordagem formas
desse de percepção
tópico, o exame dosfaz de Janeiro. Ali, a população era rarefeita, o número de europeus fora de
Belém ou São Luís muito pequeno, e a maioria de seus habitantes era de
escritos de um grupo limitado de intelectuais, seja um processo falho. L iga pessoas indígenas ou cabo clas, de origem mista.
dos às elites colon iais brancas e vinculados po r laços fam iliares e de interesse As capitanias do Sul também haviam sido tratadas como uma região
a Portugal, esses intelectuais eram os menos aptos a desenvolver uma noção separada e, embora as tentativas formais de se criar um governo à parte, do
da diferença. E sses sentimentos provavelmente se alastraram m ais rapida Rio de Janeiro para o sul, tivessem fracassado (1573-1578,1608-1612), os
mente entre os mestiços, os mamelucos e os pardos, que se sentiam pouco governadores residentes na Bahia tinham pouco controle sobre o Sul. São
ligados a Portugal e os quais, no final do período colonial, constituíam cerca Paulo permaneceu uma área rústica até bem avançado o século X VI II. A té
de 4 0 % da população da colônia. Infelizmente, dado que esse segmento da essa época, tal como o estado do Maranhão, a população de origem euro
popula ção era, em grande parte, analfabeto, é difícil recapturar a percepção péia era pequena, havia pou cos escravos africanos, grande quantidade de
que tinham de si mesm os e do B rasil que viviam. índios e uma grande proporção de pessoas de origem mista, mamelucos e
É preciso
O Brasil considerar,
não era, também,
em realidade, a dimensão
apenas um, masgeográfica desse ppor
era constituído rocesso.
uma mestiços. Embora
índios fosse comum, nasa duas regiõesdestes
exploração a adoção da cultura
enquanto e damão-de-obra
fonte de língua dos
série de colônias. Os ingleses tinham razão quando falavam, nos séculos XV II era intensa, apesar do fato de que nessas fronteiras a presença de missioná
e XVIII, dos "Brasis", pois havia de fato mais de uma colônia. Na costa rios se dava numa escala que já havia desaparecido nas zonas de exportação.
entre Pernambuco e Rio de Janeiro, onde haviam sido criadas colônias de Essa s periferias desenvolveram uma reputação de obstinada independência
exportação, o estabelecimento de colono s europeus era intenso, as institui e eram chamadas, às vezes, de as "L a Rochelle" do Brasil.
ções reais e o governo local estavam presentes, e uma imensa massa de A organização social variava, então, conforme a época e o lugar, assim
população servil importada constituía a principal força de trabalho. Nessas com o variava o núm ero relativo de europeus, africanos e pessoa s indígenas
áreas, os m odelos culturais e os estilos europeus predominavam. Em m ea de origens diversas. Isso tinha um efeito particular na posição social das
dos do século XVII, essas áreas pretendiam ser uma réplica da Europa. pessoas de origem m ista. A mudança n o status do s mestiços e dos mam elucos
Co nventos se estabeleceram, corpos de administradores, eclesiásticos e ju  ocorreu devido à mudança n o relacionamento entre portugueses e índios, e
diciais, operavam regularmente, e uma grande porcentagem das elites locais
ainda er a nascida na Europa o u estava estreitamente vinculada, po r interesse devido
Na às transformações
medida em que a ameaçaocorridas dentro
dos índios da própria
diminuiu, sociedade do
a importância colonial.
papel
e experiência, a Portugal. A promoção desses vínculos fazia parte da política desempenhado pelos m estiços, enquanto mediadores e tradutores, também
colonial portuguesa, que visava limitar o poder do governador-geral e dos diminuiu nas áreas mais povoa das das capitanias do litoral. N estas, o status
vice-reis, incentivava a correspondência entre cada capitania e a metrópole, dos mestiços declinou. Nos lugares onde uma economia vibrante, baseada
proibia o estabelecimento de um a universidade na colônia e geralmente agia no açúcar, na mineração e no cultivo do algodão se desenvolveu, e onde o
para coibir o desenvolvimento da unidade colonial. fluxo constante de imigrantes europeus, a grande corrente de imigrantes for
N o interior e nas periferias da colônia, a com posição da sociedade e a çados africanos, e o eventual desenvolvimento de instituições européias civis
estrutura de governo eram diferentes, ou, pelo menos, a cronologia separava e religiosas, assim com o a reprodução de hierarquias sociais baseadas em
essas regiões do resto do Brasil. O estado do M aranhão era, essencialmen- padrões europeus se consolidou, o papel desempenhado pelos mes tiços tendia

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114 StuortB. Sc hw artz " Gente da terra braz í liense da nasç ã o" . Pensando o Brasil: a c onstruç ã o de um pov o 115
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a permanecer cada vez m ais reduzido. Na medida em que continuavam a ser Em M inas G erais, Pernambuco e outras partes do Brasil, as pessoas de
reconhecidos co mo diferentes dos escravos africanos ou dos negros, havia, origem m ista, e até as pessoas brancas casadas com elas, eram excluídas do
não obstante, uma tendência a outorgar um status comum a todas as pesso governo m unicipal, das irmandades leigas, do clero, de certos comércios e
as de origem mista. Além disso, os m estiços passaram a ser, cada vez mais, profissões. A leve suspeita de antecedentes dessa natureza era suficiente
separados e diferenciados da sociedade branca. Essa mudança constituiu para garantir a desqualificação. A eleição de um certo homem para a Câma
ra de Cachoeira, na Bahia, foi contestada em 1748 porque "ele era um ho
um segundo estágio no processo de integração dos mestiços à sociedade
colonial. mem cuja qualidade de sangue ainda er a desconhecida", e isso a despeito do
O p rocesso de mudança torna-se evidente a partir das avaliações feitas fato de que tinha diploma universitário.20 Freqüentemente, a força primária
sobre o caráter destes. E mbora seja fácil detectar comentários negativos a por trás dessas medidas era dirigida contra os m ulatos, mais do que contra
respeito dos índios durante o século XVI, esse tipo de atitude não era co os mestiços, mas ao entrar o século XVIII, todas as pessoas de cor eram
mum quando se tratava dos mest iços. Essa situação começou a mudar. Nas cada vez mais identificadas com o iguais, em termos de suas características
regulamentações emitidas pelo Mosteiro de São Bento na Bahia, a Ordem negativas. O conde de Sabugosa, governador de Minas Gerais, reclamava,
decidiu "que não se tome e recebão para Religiosos pessoa que tenha raça em 1720, dos crimes cometidos constantemente pelos "bastardos (mesti
de mestiço nem outros que não forem de gente nobre ou de que se espera ç o s ) , carijós (índios), m ulatos e negros", dessa forma transformando todas
poder resultar sua entrada em proveito". 17 No século XVIII, esse tipo de essas categorias em p essoas igualmente repreensíveis.21
avaliação negativa se tornou comum. Um funcionário colonial escreveu no No início do século XVIII, o caráter da população brasileira havia se
tornado nítido. U m terço da população era formado por escravos, a m aior
Ceará,
Brasil".em 1724, que
O processo de "os mamelucos
transição são a pior
na avaliação castamais
se tornou de gente
nítidodegraças
todo às
o parte dos qu ais haviam nascido na África. E stes não eram considerados en
ações do Senado da Câmara de Natal, no Rio Grande do Norte, em 1723. quanto parte da república, de qualquer maneira, mas eram vistos co mo uma
A câmara tentou proibir os m estiços de ocuparem o cargo de vereador, tal força de trabalho necessária, inimigos internos e uma am eaça em p otencial.
como haviam feito no passado, porque "o número de brancos aumentou, Talvez 40% da população, as pessoas comuns, fosse formada por pessoas
tornando esse serviço, da parte de gente pouco confiável, desnecessário, de origem mista, a quem se depreciava e das quais se desconfiava, e até por
posto que a experiência tem mostrado que eles são menos capazes d evido à aqueles brancos que não tinham acesso ao status de elite e caíam na catego
inferioridade de suas pessoas e a sua natural inclinação à perturbação e su- ria dos mecânicos. Estes últimos eram considerados brancos apenas por
blevação da república".18 O precon ceito contra as pessoas de origem mista padrões ditos brasileiros. Lavradio escreveu em 1768, "foi-me grandíssimo
se tornou cada vez mais agudo durante o século X VI II. Quando se sugeriu à trabalho o descobrir algum branco, isto é, que verdadeiramente o fosse, por
Câmara de Salvador que se formassem com panhias de índios, cabras e ne que os [que] lá chamam branco, passam entre nós com muito favor por
mulatos". 22 Embora já por essa época tivessem começado a emergir um
gros no sertão,
deu que pessoascom
dessea finalidade de coibir oocontrabando,
tipo "abandonariam a câmara
com boio em troca de umrespon
barril discurso e um sentimento nativista entre as elites coloniais, a nobreza da
de aguardente". Quem quer que tenha sugerido uma idéia desse tipo "no
conhece a calidade d essa gente em quem por natureza se unio a inconstância
20
e o interesse".19 A C C , 1-1-36, ff. 82-3 ("Licenciado Antônio Pereira Porto por ser indigno de semelhante
emprego porque [...] he um homem cuya qualidade de sangre ainda se não sabia por não haver
conhecimento delle, e alem desto he de exercício mecânico porque vive de curar feridas").
21
APB, Ordens regias 27, n. 27 (24 fev. 1730).
22
Marquês de Lavradio, Cartas da Bahia, 1768-1769 (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1972), p.
17
Mosteiro de São Bento (Salvador), "Leis acresentadas da Junta do Pombeiro" (1602), pasta 28. 34 , citado em Maria Beatriz Nizza da Silva (org.), O Império luso-brasileiro, 1750-1822 (Lis
18
AHU, Rio Grande do Norte, papel avulso, caixa 3 (24 março 1724). boa: Estamp a, 1986), p. 224; J. Serrão e A . H. Oliveira Marques (orgs.) v. viii, Nova história da
19
ACMS, Correspondência, 124.7, f. 90v. expansão portuguesa (Lisboa: Estampa, 1986), 3 volumes publicados até a presente data.

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116 S tu a rt B. S ch wa rtz
" G e n t e d a t e r r a b r a z i l ie n s e d a n a s ç ã o " . P e n s a n d o o B r a s i l : a c o n s t ru ç ã o d e u m p o v o 117
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terra, a vasta maioria da população era considerada por essa elite e pelo Havia já notícia de que esse "Príncipe do Brasil" criara distúrbios simi
regime colonial como desmerecedora de seu status enquanto povo da colô lares na Paraíba, e o governo estava ficando p reocupado com iss o:
nia.
No início do século XVIII, o Brasil havia-se tomado a jóia d a coroa do com tais quimeras e demonstrações que consiguio da barbaridade e cegueira de muytos
império português, fato reconhecido pela criação do título de "Príncipe do moradores delia ser reconhecido e servido, e tratado com tal grande discomodo de
Brasil" dado ao herdeiro do trono. Havia motivos de sobra que obrigavam a suas pessoas e prejuizo da sua fazenda ambisiosos das honras e mercês com que lhes
coroa a se preocupar com sua colônia. Sua riqueza, a distância "d a cabeça e prometia Remunerar aquelle obséquio a seu tempo [...]26
do coração da monarquia", e a "pouca sujeição e obediência" de seus habi
tantes eram todos motivos de preocupação, mas além disso havia uma pro Inicialmente, o governo se sentiu mais chocado do que ameaçado pelo
funda desconfiança para com a maioria d a população. 23 incidente. Mas, quando se tornou aparente que um número significativo de
J á e r a suficientemente ruim q u e um grande contingente de escravos mi pessoas poderosas e bem relacionadas o haviam apoiado, uma preocupação
nasse a estabilidade da colônia, m as o número crescente de pesso as de an política com eçou a se delinear. A coroa desejava descobrir se o jovem aven
tecedentes mistos também ocupava a atenção dos administradores coloniais. tureiro e ra português, de onde ele era, se havia estado em algum "reino estran
M enciono aqui apenas um único incidente, que merece mais atenção do que geiro", e quem o havia convencido a ir para o B rasil. E m outubro de 1733, a
aqui lhe podemo s dedicar, mas representativo da reação nervosa do gover preocupação com o incidente era tamanha que o conde de Sabugosa havia
no colonial face à instabilidade potencial d a população brasileira. escrito para os governadores do Rio de Janeiro, São P aulo e M inas Gerais,
Em 1733, o conde de S abugosa, governador da Bahia, relatou à coroa alertando-os da possível chegada desse príncipe, e que o governador de
que, em Alagoas, u m estranho jovem que se autodenominava "o Sereníssimo Pernambuco havia tomado providências para prendê-lo.
Príncipe do B rasil", havia causado tumulto no interior. M uitas pessoas ha A partir desse ponto, o "Príncipe do Brasil" passou para a história, mas
viam aderido à sua causa: o que ele representou para aqueles que o seguiram e que alternativa para o
Brasil ele projetava eram motivo de preocupação para as autoridades da
[...] que muitos o Reconhecião e veneravão pelo império e soberania com que se época e provocam nosso interesse no presente. Quando ele passou pela
tratava passando a sua barbaridade e locura ao excesso de fazerem com elle grossas região de Garanhuns, no sul de Pernambuco, ampliou seu elenco de seguido
despezas, não só por aquella rezão, senão também pelas mercês qu e fez a muitos o r e s , entre os quais havia "muitos negros, mulatos, mamalucos, e outros vadi-
titulo de Condes e M arquezes [...]24 os criminozos e os índios das Aldeaas do Palmar". Era este um movimento
no sertão do sul de P ernambuco que havia unido os ricos e poderosos, cria
Po r trás desse jovem aventureiro havia um padre de intenções duvido do conde s e m arqueses, assim com o a "plebe", em clara oposição à sobera
s a s , um certo Eusébio Dias Lassos, conhecido como o homem que havia nia do rei de Portugal. Conhecemos pouco a respeito do programa, mas a
reduzido os índios orizes à autoridade colonial, mas que também ganhara criação de alternativas políticas e sociais, especialmente do tipo que poderi
fama indisputável de arruaceiro.25 am unir classes nitidamente op ostas, era considerada um perigo verdadeiro.
O conde d e Sab ugosa havia ordenado: "o siga ate com effeito o prender em
outra qualquer parte porque convém m uito ao sossego deste estado que seja
23
Consulta de Conselho Ultramarino (1716 ), citado em José Antônio Gonsalves de Mello, "Nob res
e mascates na Câmara do Recife, 1713-1738", em Revista do Instituto Arqueológico, Histórico
e Geográfico Pernambucano, Recife, n. 53, p. 141.
24 26
Conde de Sabugosa ao rei (Bahia, 5 d e julho de 1733), APB, ordens regias 29,141. Conde de Sabugosa ao ouvidor de Alagoas, João Gomes Ayala (Bahia, 10 de agosto de 1734),
25
[José Freire de Montarroio Mascarenhas], Os Orizes conquistados ou noticia da conversam do s A P B , Ordens regias 153, ff. 11-2. O governador de Pernambuco, Duarte S odré Pereira, emitiu a
indomnitos Orizes Procazes (Lisboa, 1716). Diziam que Dias L assos havia outorgado uma falsa ordem de prisão em A lagoas de "um peralvilho que dava a entender ser príncipe"; AUC , coleção
patente de coronel da Capitania de Sergipe a seu tio Manuel Curvelho. Conde de Arcos, códice 3 2, ff. 47 8v-479. Agradeço a Evaldo C abral de Mello por esta referência.

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118 S tu a rtB . S ch wo rtz " G e n t e da te rra bra zilie ns e da na s ção " . Pe ns a ndo o Brasil: a construção d e u m po v o 119
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rigorosamente castigado o atrevimento deste aventureiro e de todos os que se forem contrárias à sua opinião - o qu e é bem aceito pelo senhor, que freqüentemente
barbara e imprudentemente o seguem [,..]". 27 consente. O sistema não fica nisso; mas essa atitude se estende aos m ulatos e até aos
negros [...]32
O caso do "Príncipe do Brasil" revela uma crescente desconfiança a
respeito da gente comum na cabeça dos administradores coloniais. Vemos
com o negros, mulatos, mamelucos e vadios haviam se tornado termos equi Pou co se esperava dessa popu lação tão insubordinada, e essa descon 
fiança se refletia na transformação do terceiro estado, que de "povo" passa a
valentes para falara dereputação
haviam adquirido uma população problemática.
de viverem O s habitantes
sob liberdade do Brasil
descontrolada, com ser "plebe" no discurso da época. Se durante o século X VI , a representação
do "povo" era freqüentemente positiva e a posição política do terceiro esta
excessiva mobilidade, qualidades potenciais para causar problemas, além de
do era codificada por m eio de sua participação nas cortes e reconhecida em
demonstrarem relutância no serviço ao rei.28 Tentativas para controlar essa
expressões tais como a "câmara e povo", no século XVIII o termo "plebe"
população tiveram escasso sucesso. Por exemplo, nas décadas de 1750 e come çou a aparecer cada vez mais enquanto d escrição pejorativa da popu
1760 o esforço dos governos para obrigar os ciganos, vadios e outros ele lação brasileira. Em bora o termo "plebeu" tivesse raízes clás sicas, raramente
mentos instáveis das populações do sertão a fixar residência não obteve o havia sido utilizado no século X V I. A utores como Fernão Lopes preferiam
resultado esperado.29 O s administradores coloniais tampouco podiam c on falar do "comum povo livre e não sujeito" ou, quando se tratava dos m ais
ta r co m a população para prestar o serviço militar voluntariamente. O rei se miseráveis, da "arraia-miúda". No século XVIII, entretanto, o termo "plebe"
queixava, em 1726: "é incrível a repugnância que tem o s filhos d o Brasil a começou a ser utilizado com mais freqüência, geralmente de forma pejorati
ocupação e exercício de soldados, sem nenhua outra cousa mais q ue adeverem va.33
30

quartada a grande
foram feitas liberdade
durante com que
todo o século pelosvivem" . Reclamações
governadores, que viamsemelhantes
os habitan O conceito de "plebe", com as conotações negativas que tinha para os
tes do Brasil como crianças desobedientes e irresponsáveis. 31 portugueses e brasileiros das classes superiores, foi exacerbado no contexto
O que talvez causasse mais irritação às autoridades metropolitanas era colonial, on de a m aioria da população era não apenas pobre, mas formada
a insubordinação das pessoas de con dição mais baixa. Vários observadores por negros, mulatos e mes tiços. Es ses eram, precisamente, os termos utiliza
notaram essa atitude, mas a visão mais enfática a esse respeito talvez tenha dos pelo governador da Bahia para descrever as cond ições que ele tentava
sido a do inglês Thomas Lindely, conforme atestou em 1805: controlar em 1765, ao limitar os festejos de rua da Irmandade do Espírito
Santo. Durante os preparativos para a festa do Espírito Santo, os membros
É chocante ver quãopoucasubordinação à hierarquia é conhecida neste país: a França, da irmandade costumavam sair às ruas fantasiados, cantando e pedindo d i
no auge de sua revolução e estado de cidadania jamais chegou a esse ponto, nesse nheiro sob a direção de um "imperador".34 O governador tentou limitar as
aspecto. Aqui pode-se ver o criado branco conversando com seu senhor de igual para atividades da irmandade aos dom ingos e dias santos "por não andarem tanta
igual e, de forma amigável, discutir suas ordens, e tergiversar no cumprimento delas,

32
27 Thomas Lindley, Narrative of a Voyage to Brazil (Lisboa: J. Johnson, 1805), pp. 68-69. O
Conde de S abugosa ao rei (Bahia, 2 de outubro de 1733), A P B , ordens regias 29 , n. 148 .0 jovem viajante francês Froger fez uma observação semelhante em 1698, quando afirmou que "a gente
foi preso e enviado a Portugal. O padre Dias Lassos escapou. comum é insolente ao extremo"; cf. A Relation ofa Voyage Made in the Years 1 6 9 5 , 1696,1697
28
Sobre a questão de se considerar a vadiagem equivalente aos mulatos e outras pessoas de cor em on the coasts of África (Londres: M. Gillyflower, 1698). Comparem-se esses comentários com
Minas Gerais, ver Laura de Mello e Souza, O s desclassificados do ouro, cit. aqueles de 1798, citados por Affonso Ruy: "As filhas do país têm um timbre tal que a filha do
29
Sobre "sítios volantes", ver o rei ao conde de Azambuja (junho de 1766), BNRJ, 33,25,32. Sobre homem mais pobre, do mais abjecto, a mais desamparada mulatinha forra, com mais facilidade
os ciganos, ver APB , Ordens regias 59, ff. 122-123; Cartas do S enado 132 (5 de julho de 1755). irão para o patíbulo de que servir ainda um a Duquesa, se na terra houvesse". Ver Affonso R uy, A
30
O rei a Vasco Fernandes César de Meneses (18 de março de 1726), A P B , Ordens regias 30, n. 37. primeira revolução social brasileira, 1798 (Salvador, 1951), p. 43.
3
' Governador da Bahia Manuel da Cunha Meneses a Martinho de Melo e Castro (16 de outubro de 33
O autor deseja agradecer à m edievalista Rita Gomes pelas suas sugestões a este respeito.
1775) em ABNRJ, 32 (1910), 319. Cf. governador da Bahia ao Conselho Ultramarino (25 de 34
Officio do governo interino para o conde de Oeiras (1765), AB NR J, 32 (1910), 97. Isto também
setembro de 1761), IHGB, Arquivo 1.1.19. pode ser visto em IHGB, Arquivo 1.1.19, ff. 169v-174.

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120 " G e n t e da te rra bra zilie ns e d a n a s ç ã o " . Pe ns a ndo o Brasil: a co ns tru ção d e u m po v o
StuartB.Schworb 121
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gente com o vadia a semana inteira". Mas o governo estava mais preocupado diferenças. O da cor preta tanto que se vê com a liberdade, cuida que nada mais lhe
falta para ser como os b rancos.36
com o fato de que apenas um quarto da população da cidade era branca, e
que a "mais baixa plebe da Bahia é composta por mulatos insolentes e ne
gros brutos" que, sob os efeitos do vinho e sob a direção de seu "Impera Embora Loreto Couto reconheça que os pardos e os pretos poderiam
dor", causavam desordens contínuas. E le lembrou ao ministro colonial em realizar contribuições positivas ao corpo social da colônia, sua visão da gen
Lisboa que "a plebe é formada pelos hom ens brancos criados no temor e no te comum é uma daquelas em que as divisões de raça e, por implicação, de
respeito às leis e à cristandade", mas na Bahia esse não era o caso. Aqui escravidão comp licam a definição do que constituiria o vulgo ou a plebe.
vemos claramente a maneira com o a raça havia exacerbado as d istinções de E sse tipo de percepção encontra expressão em termos muito mais ne
classe. gativos no final do século, conforme atestam as afirmações de Luís dos S an
Essa interseção entre raça e posição social pode ser vista com mais tos Vilhena em suas Notícias soteropolitanas (1798).37 Português de
nitidez ainda nos trabalhos de um dos autores mais curiosos do século X VI II. nascimento, m as vivendo há muito na colônia, sua visão de Brasil combina
O frade carmelita Domingos de Loreto Couto enviou, em 1757, ao então um certo orgulho e expectativa de grandeza, levando em consideração o
conde de O eiras (posteriormente marquês de Pom bal), o manuscrito de um potencial geográfico do país, e de desespero e frustração com sua situação
trabalho extraordinário chamado Desagrados do Brasil e glórias de social. Apesar da infertilidade de boa parte dos solos, o potencial para se
Pernambuco?5 Esse trabalho de "nacionalismo crioulo" é essen cialmente sustentar uma grande população era imenso. Santos argumenta:
uma defesa do caráter, das virtudes e contribuições dos pernambucanos,
se Portugal com a falta de população que todos lhe conhecem, inclui em si três
enquanto súditos leais da coroa. Embora o autor compartilhasse dos pre
conceitos e das pressuposições raciais de sua classe, o que chama a atenção lmilhões, setecentos
o s , olhando mil e tantos habitantes;
propo rcionalmente, ficaria como Bquarenta
rasil descoberto
milhões sem aqueles obstácu
de habitantes tão po
é o fato de que Loreto Couto elogia não apenas os membros da elite colonial voado como Portugal se acha com os que de presente tem. 38
mas também índios, negros, pardos e até mulheres.
Na discussão a respeito da "plebe", vemos como as concepções clás Aqu i estava um país de terras extensas, rios grandiosos, "imensas ma
sicas sobre a gente comu m são alteradas devido à situação colonial. Toman tas" e riquezas m inerais, o potencial para estabelecer "um poderoso e rico
do com o referência Platão, Cipião e Catão, Loreto Couto percebe as pessoas império" e, segundo S antos Vilhena, "uma colônia que possa competir com
comuns como o "corpo" da república, enquanto a nobreza é sua alma, e as melhores que se conheçam em qualquer parte do mundo". Como era,
adverte que a plebe era, por natureza, imóvel, m as capaz de ser mobilizada então, se perguntava Santos Vilhena, que "um país extensíssimo, fecundo
pelos ventos, assim com o num rebanho de ovelhas, na carneirada, o animal por natureza, e riquíssimo, é habitado por colonos, poucos em número, a
sozinho não obedece a nenhuma delas, mas juntas, seguem o pastor. Depois, maior parte pobres, e muitos deles famintos?". Faltava ao Brasil um "povo",
ele se debruça sobre o problema colon ial: e a explicação para esse estado de coisas era a escravidão e seus efeitos.
Excetuando os senhores de engenh o, alguns poucos comerciantes e lavrado
Não é fácil determinar nestas Províncias quaes sejão os homens da P lebe; porque todo res, o resto da população era "ignorante e semibárbara". Era "uma congre-
aquelle que he branco na cor, entende estar fora da esfera vulgar. Na sua opinião o
mesmo he ser alvo, que ser nobre, nem porque exercitam officios mecânicos perdem
esta presumpção [...] O vulgo da cor parda, com o immoderado desejo das honras de
36
que o priva não tanto o accidente, como a substancia, mal se accomoda com as Loreto Couto, Desagravos..., cit., pp. 226-227.
37
Utilizei a edição de Braz do Amaral, A Bahia no século XVIII, 3 vols. (Salvador: Itapuã, 1969).
35
Domingos Loreto Couto, Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco, José Antônio Gonsalves Sobre Santos Vilhena ver, também, Leopoldo Jobim, Ideologia e colonialismo (Rio de Janeiro:
de Mello, ed. (Recife: Fundação de Cultura Cidade do R ecife, 1981). Ver também José A ntônio Forense Universitária, 1985); Carlos Guilherme Mota, Atitudes de inovação no Brasil, 1789-
Gonsalves de Mello, Estudos pernambucanos: crítica e problemas de algumas ontes da história 1801 (Lisboa: Livros Horizonte, 1967). /^\~ &Q^
38
de Pernambuco (Recife: Fundarpe, Diretoria de Assuntos Culturais, 1986), pp. 195-224. Santos Vilhena, "Carta 24", em A Bahia..., cit., p. 910. /^ ** £

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122 S tu a rtB . S ch wa rtz " G e nte da te rra bra zilie ns e da na s ção " . Pe ns a ndo o Brasil: a co ns tru ção de u m po v o 123

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gação de pobres", que havia se convencido de que a agricultura era "traba da Revolução Francesa não desapareceram entre alguns setores da popula
lho de negr os" e que se negava a cultivar a terra ou praticar outros ofícios. ção colonial. Vários membr os da sociedade colonial começaram a reivindi
Na formulação clássica, Santos Vilhena acreditava que a solução para o car o lugar de "filhos da terra" e a constituir o "povo " do Brasil, mas agora
problema estava na terra. "Quem gera o cidadão é a propriedade." Muito sob a influência da Revolução Francesa, com u m novo significado inclus ive
antes do que Marx, ele escreveu: Nesse aspecto, os autos da devassa do fracassado movimento de 1794 no
Rio de Janeiro são instrutivos. Tomemos por exemplo o depoimento do j o 
A sociedade política compõem -se de proprietários, e dos que não o são; aqueles são vem carioca Mariano José P ereira, um bacharel de Coim bra que alegava ter
infinitamente m enos em núm ero, do que estes; o que é sabido. Pretende o proprietário sido preso exclusivamente devido à animosidade de um certo frei R aimundo
comprar pelo menor preço possível, o único do não proprietário, ou jornaleiro, como "porquan to este era inimigo dos brasileiros; de sorte que constava haver dito
é seu trabalho; êle porém se esforça pelo vender pelo mais que pode, e neste litígio
sucumbe de ordinário o contendor mais débil, apesar de maior em núm ero.39
ao atual vice-rei deste estado que se não receasse dos franceses, mais sim
dos filhos do Brasil [...]". 4! Os jovens que participaram desse movimento
N o Brasil, as grandes extensões de terra subutilizadas, os morgados, e começav am a se considerar brasileiros e a conceber um Brasil de outro tipo.
A s discussões de Silva Alvareng a e outros ampliaram o foco das atenções a
arranjos similares haviam criado uma população sem terra e coibiam o
respeito da forma repub licana de governo e a rejeição dos ditames da Igreja
surgimento de famílias co m base econôm ica sólida, o que inibia o crescimen
e do Estado, para o bem do povo. O artesão Inácio do Amaral havia dito:
to da população. "É axioma inegável, que sem homens não há sociedade, e
"que matar aos reis não era pecado, pois que eles recebiam o poder dos
sem meios de subsistência não pode haver homens [...]" Mas, enquanto na
povos e que o rei que era tirano devia padecer na forca assim como outro
Europa o trabalhador se dispunha a trabalhar em troca de seu sustento, em
"as nossas colônias do Brasil", isso não acontecia, e até a distribuição de qualquer na
carapuas malfeitor,
cabeça e ,porque
depoisenquanto príncipes,e oatropelavam
de reis, flagelavam que desejavam era[...]".
o povo pôr as 42
terras não resolveria o problema en quanto existisse a escravidão. Só a elimi
Essas idéias produziram um esquema utópico que, no ano de 2440, resulta
nação, de uma vez por todas, dos escravos da população convenceria a
ria na formação de duas grandes repúblicas americanas, uma no Norte e
gente comum do erro de acreditarem que "cavar e lavar é só da repartição
outra no S ul, nas quais os direitos dos homens seriam respeitados. Isso eram
daqueles miseráveis [escravos]". Santos Vilhena se opunha à escravidão não
sonhos, diziam os procuradores reais, que se baseavam na "quimérica igual
pelo que tinha feito com os escravos, mas por causa do que havia feito com dade dos homens", e representavam "o ódio da nobreza do estado mona-
o "povo", e ele expressava pouca simpatia por aqueles descendentes de cal".43 Alguns dos envolvidos também foram capazes de pensar um Brasil
escravos que hav iam se juntad o às fileiras da população livre. Co mo o utros sem escravos. Manuel José Novais de Almeida havia escrito pedindo que
de sua classe, ele detestava os mulatos e crioulos qu e se recusavam a respei libertassem seus escravos n o Brasil, "e servi-vos com gente forra e livre, terei
tar o s brancos, e os mu latos ricos que desejavam ser fidalgos.40 Santos Vilhena, menos inimigos; porque entre cristãos, não parece bem aos olhos da boa
no seu papel de brilhante colonialista, imaginava um Brasil de grandes
potencialidades, ao qual o legado da escravidão havia privado de um po vo e filosofia, que haja cristãos cativos".
M a s , enquanto os conspiradores do Rio de Janeiro pertenciam, na sua
lhe legara uma plebe.
Como então o Brasil finalmente chegou a ter um "povo"? A pergunta maioria, às elites coloniais, quatro anos depois, na Bahia, uma conspiração
ainda merece ser estudada, mas parece ter sido uma questão de autocriação
41
e autodefinição, em grande m edida. As lições e o vocabulário da Ilustração e Autos da devassa -prisão dos letrados do Rio de Janeiro, 1794 (Niterói: Arquivo Público do
Estado do Rio de Janeiro, 1994), p . 1 5 7 . Outros depoimentos revelaram que a animosidade de frei
Raimundo se baseava em sua crença de que os brasileiros eram ultramontanos e apoiavam a
autoridade do Papa sobre a da coroa; ibid., pp. 160-1.
39 42
Santos Vilhena, A Bahia, cit., p. 919. Ver também Carlos Guilherme Mota, op. cit. Ibid., p. 53.
40 43
Santos Vilhena, A Bahia, cit., vol. 1, pp. 46, 53. Ibid, pp. 117-9, 183. Auto de perguntas feitas ao preso Jacinto José da Silva.

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124 S t u a r t B. S c h w a r t z " G e n t e d a t e r ra b r a z i l ie n s e d a n a s ç ã o " . P e n s a n d o o B r a s i l : a c o n s tr u ç ã o d e u m p o v o 125

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de artesãos e escravos, brancos, pardos e negros também formulou idéias Bibliogra fia selecion ada
semelhantes. Também eles podiam imaginar um Brasil diferente; um no qual a
AFFONSO, Ruy. A primeira revolução social brasileira, 1798. Salvador: editora, 1951 .
escravidão seria abolida, os portos abertos, as distinções de cor eliminadas, APEB. Autos da devassa da conspiração dos alfaiates, 2 vols. Salvador: Arquivo Público do
e a igualdade de hierarquia e de oportunidade estabelecida. C omo afirmava Estado da B ahia, 1969.
um de seus pasquins: "Animai-vos Povo bahinense que está para chegar o CARDIM, Pedro. Cortes e cultura política no Portugal do antigo regime. Lisboa, 1998.
tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos; o Couro, Dom ingos de Loreto. Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco. José Antônio
44
tempodoemPoque Gonsalves
Maria (ed.). Recife: Fundação de Cultura C idade do Recife,Salvador:
1981. PM S, 1974.
nome vo Btodos seremos
ahinense iguais". Para
Republicano. Essaseles,
declarações forambrasileiros
e para muitos feitas em FLEXOR, Helena. Oficiais mecânicos na cidade do Salvador.
GODINHO, Vitorino Magalhães. A estrutura na antiga sociedade portuguesa. Lisboa: A rcádia,
do início do século X IX , não havia dúvida de que o Brasil tinha um povo. O
1971.
papel que este desempenharia na formação da nova nação e co mo superaria Hnx , Cristopher. "Os pobres e o povo na Inglaterra do século XVI I", em KRANTZ, F. (Ed.).
o fardo da escravidão e das definições raciais são questões que ainda mere A outra história: ideologia e protesto popularnos séculosXVIIa XIX.Rio de Janeiro: Jorge
cem ser determinadas. Zahar,1990.
MELLO, Evaldo C abral de. Rubro veio. O imaginário da restauração pernambucana. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
MOTA, Carlos Guilherme. Atitudes de inovação no Brasil, 1789-1801. Lisboa: Livros Horizonte,
Abreviaturas
1967.
AC A - Arquivo da Casa de Alba (Madri) SCHWARTZ, Stuart B. "Th e Formation of a Colonial Identity in Brazil", em CANNY, Nicholas &
AC C - Arquivo da Câmara de Cachoeira (Bahia) PAGDEN, Anthony. Colonial Identity in the Atlantic World 1500-1800. Princeton: Princeton
AC MS - Arquivo da Câmara Municipal de Salvador University Press, 1987).
AH U - Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa) SOUZA, Laura de Mello e. Os desclassificados do ouro. Rio de Janeiro: Graal, 1982.
AN RJ - Arquivo Nacional (Rio de Janeiro) TAVARES, Luís Henrique Dias. História da sedição intentada na Bahia em 1798: a conspiração
AN TT - Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa) dos alfaiates. São Paulo: Pioneira, 1975.
AP B - A rquivo Público do Estado da Bahia VILHENA, Luís dos Santos. A Bahia no século XVIII, 3 vols. Braz do A maral (ed.). Salvador:
AU C - Arquivo da Universidade de Coimbra Itapuã, 1969.
BN RJ - Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
IHG B - In stituto Histórico e Geográfico B rasileiro
MS SB - Mosteiro de São Bento (Salvador)

44
Os relatos clássicos estão em Affonso Ruy, A primeira revolução social brasileira, 1798, cit.;
Katia M. de Queirós Mattoso, Presença francesa no movimento democrático baiano de 1798
(Salvador: Itapuã, 1969); Luís Henrique Dias Tavares, História da sedição intentada na Bahia
em 1798: a conspiração dos alfaiates (São Paulo: P ioneira, 1975); e, mais recentemente, István
Jancsó, Na Bahia, contra o império: história do ensaio de sedição de 1798 (São Paulo/Bahia:
Hucitec/EDUFBA, 1996).

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Peças d e u m mosaico
(o u apontamentos para o estudo
da em ergência da identidade
nacional brasileira)
István Jancsó
João Paulo G. Pimenta

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-E/m novembro de 1822, o Correio Braziliense publicou dois mani


festos de deputados de províncias brasileiras às Cortes Gerais Extraordiná
rias e Constituintes da N ação Portuguesa, tornando públicas as razões que
os levaram a abandonar L isboa de mo do irregular1 e buscar refugio na Ingla
terra. Am bos foram redigidos em Falmouth; um datado de 20 de outubro, o
outro de 22 do mesmo mês de 1822. O primeiro trazia as assinaturas de
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva e José Ricardo da
Costa Aguiar e Andrada, representantes da Província de São Paulo; o ou
tro, asLino
José de Cipriano
Coutinho,José Barata de
deputados pelaAlmeida,
Bahia, eFrancisco Agostinho
de Antônio Manuel Gomes
da Silvae
Bueno e Diogo Antônio Feijó, eleitos por São Paulo. Nos dois casos os
subscritores ofereciam ao público os motivos que os levaram a dar por en
cerrada sua participação na elaboração da Constituição que daria forma ao
novo pacto político destinado, na perspectiva original do vintismo, a reger os
destinos da nação portuguesa.2

1
Os sete embarcaram sem a devida autorização das cortes, e desprovidos dos necessários passapor
tes, o que não ocorreu sem bons m otivos. A 2 de outubro, Antônio C arlos solicitou autorização
para que lhe fosse permitido retirar-se de Portugal, mas não obteve resposta, assim como outros
já o haviam feito antes. Em 6 de outubro divulgava-se em Lisboa a fuga dos sete deputados para
Falmouth, utilizando-se de um barco inglês. No dia 12 do mesmo mês, a Intendência Geral de
Polícia informou que nenhum deles havia solicitado passaporte (cf. M árcia R. Berbel, A nação
como artefato: deputados do Brasil nas Cortes portuguesas, 1821-1822 (São Paulo: Hucitec/
Fapesp, 1999), p. 193.
2
Sobre o vintismo, ver Valentim Alexandre, Os sentidos do Império: questão nacional e questão
colonial na crise do Antigo Regime português (Porto: Afrontamento, 1993) e Fernando P.
Santos, Geografia e economia da Revolução de 1820 (Lisboa: Europa-América, 1980). Sobre a
participação dos deputados brasileiros, ver M árcia R. B erbel, op. cit.; F. Tomaz, "Brasileiros nas
Cortes Constituintes de 1821-1822", em Carlos G. Mota (org.), 1822: dimensões (São Paulo:
Perspectiva, 1972).

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130 Is tv ó n Ja ncs ó e Jo ão Pa u lo G . Pim e n ta Pe ça s de u m m o s a ico (o u a po nta m e nto s pa ra o e s tu do da e m e rgência da ide ntida de na do na l bra s ile ira ) 131
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Ainda q u e diferentes em extensão e detalhado de seu arrazoado, o teor termo pátria, servindo-se, quando se referem ao corpo político formado
das expos ições tem m uitos pontos em com um, dentre os quais o de atribuir por seus representados, como a sua Província, expressão ajustada ao novo
aos eleitos por Portugal a responsabilidade p elo rompimento da unidade da contexto vivido pelo império em fase acelerada de dissolução e, portanto,
nação portuguesa. Antônio C arlos e Costa A guiar são enfáticos quanto a ter dotada de m aior atualidade política.
se empenhado "quanto neles esteve por arredar a nação portuguesa" do É grande a tentação de atribuir a aparente dissonância dos conceitos -
rumo que lhes parecia ser da desonra, lamentando que, ao final e ao cabo, em esp ecial naqu ilo que toca à identificação da nação à qual se sentiam to
3
quisesse " o mau destino de Portugal que vencessem os facciosos", os mes
mos deputados portugueses que apontavam como os responsáveis pela de dos pertencentes
homens do cenáriocomo sendoamericano,
político
a portuguesa - à distância que separava esses
onde desde o começo de outubro
sunião. Cipriano Barata e seus companheiros das províncias da Bahia e de estavam em curso os preparativos para a coroação de d. Pedro como mo
São P aulo também cuidavam de esclarecer que "desde que tomaram assen narca do im pério brasileiro, dando forma ao rompimento p olítico com o rei
to no Con gresso de Portugal [fizeram-no para lutar] pelos interesses de sua no europeu.6 M as log o se percebe que se trata de algo mais entranhado, já
Pátria, do Brasil e d a Na ção em geral", mas como seus esforços malograram que no próprio epicentro americano da ruptura política a mesma dissonância
e chegaram a ser tomados por "atentados contra a mesma Nação", decidi perpassa as expressõe s de identidade política coletiva. O Revérbero Cons
ram, "para prevenir qualquer suspeita alheia de verdade que possa ocasionar titucional Fluminense publica, em seu número de 24 de setembro, uma
sua inesperada retirada de Lisboa", declarar "à Nação Portuguesa, e ao carta cujo autor vê na iniciativa d a convocação de uma C onstituinte no B rasil
mundo inteiro, os motivo s que os obrigaram a assim obrar".4 "o único modo de salvar a N ação de um e outro hemisfério", reconhecendo
Em meio à emocionada ex posição d o que era descrito como inevitável nesta iniciativa o "único modo de vincular a Nação em laços mais estáveis e
7
desastre político, os as
ganham relevância dois
detexto s contêm
pátria, país evárias
nação.idéias-chave, dentreassinada
Na "Declaração" as quais duradouros".
América aclamam A nação à qual ele
o imperador são se refere é a portuguesa,
"portugueses do Brasil", 8 emesmo
os queque
na
por Cipriano Barata, pátria é o lugar de origem, o da comunidade que os nem todos pensem da mesma forma. Os redatores do Revérbero anunciam
elegeu para representá-la nas cortes. É a ela que fariam, quando para aí que, dada a proclamação da independência, suspendiam a publicação do
regressassem, "expo sição circunstanciada [...] dos diferentes acontecimen periódico já que o país "é nação, e N ação livre",9 com o que têm por encer
tos [hav idos] durante o tempo de sua missão", e a ela caberia julgar o "me rada sua missão. A mesm a fórmula é usada pelo Correio Braziliense, para o
recimento de sua conduta".5 Para eles, pátria não se confunde com país. qual as cortes de Portugal estimularam os cidadãos do outro lado do Atlân
Este é inequivocam ente o B rasil ao qual os eleitos por Portugal querem im tico, "apesar dos desejos de união daqueles povo s, a declararem a sua total
por u m a "Constituição onde se encontram tantos artigos humilhantes e injurio- independência, e con stituírem-se em na ção separada de Portugal".10
s o s " . A nação, por seu turno, desloca -se para outra esfera, já que pátria e A análise atenta da documentação revela que a instauração do E stado
país não encontram equivalência na abrangência q u e lhe corresponda. B ahia brasileiro se d á em meio à coexistência, no interior d o que fora anteriormente
e São Pauloé asãoportuguesa.
pertencem suas pátrias,
Essao mesma
Brasil épercepção
o seu país, mas a nação
perpassa à qual
o documento
dos dois representantes de São Paulo, ainda que estes não recorram ao
6
Iara L. C. Souza, Pátria coroada: o Brasil como corpo político autônomo (São Paulo: Ed. da
Unesp, 1999), pp. 256 e ss.
7
"Carta d o desembargador Bernardo José d a Gama de 19 jun. 1822", em Revérbero Constitucional
3 Fluminense (RCF) n. 18, 24 set. 1822.
"Protesto dos deputados de São Paulo, abaixo assignados", em Correio Braziliense ou Armazém
8
Literário (CB), vol. XXIX, n. 174, nov. 1822. "Descrição dos festejos no R io de Janeiro por conta da aclamação de D . Pedro I", em Correio do
4 Rio de Janeiro (CRJ), n. 157, 19 out. 1822.
"Declaração de alguns deputados do Brasil, nas Cortes de Portugal, que de Lisboa se passaram à
9
Inglaterra", em Correio Braziliense, vol. XXIX, n. 174, nov. 1822. Correio do Rio de Janeiro, n. 153, 15 out. 1822.
5 10
lbid. Correio Braziliense, vol. XXIX, n. 175, dez. 1822.

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132 Is tv án Ja ncs ó e Jo ão Pa u lo G . P im e nto P e j a s d e u m m o s a i co ( o u a p o n t a m e n t o s p a r a o e s tu d o d a e m e r g ê n c i a d a i d e n t i d a d e n a d o n a l b r a s i le i r a ) 133
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a América portuguesa, de múltiplas identidades políticas, 11 cada qual ex vontade de emancipação política com o equivalente d a constituição d o Esta
pressando trajetórias coletiva s q ue, reconhecend o-se particulares, balizam do nacional brasileiro,14 assim como o é o reconhecimento de que o nexo
alternativas de seu futuro. Essas identidades políticas coletivas sintetizavam, entre a emergência desse Estado com a d a nação em cujo nom e ele foi insti
cada qual à sua maneira, o passado, o presente e o futuro das com unidades tuído é uma das q uestões m ais controversas da nossa historiografia.15
humanas em cujo interior eram engendradas, cujas organicidades expressa
vam e cu jos futuros projetavam. Ne sse sen tido, cada qual referia-se a algu
valiosos têm dado continuidade ao debate, já desdobrando questões postas, já buscando novos
ma realidade edos
a algum projeto de tipo nacional. sentimentos
Se atentarmos enfoques. Apenas para pontuar algumas de maior impacto, cabe lembrar as obras de limar
manifestações contemporâneos expressando de para as
perten- Rohloff de M attos, O tempo saquarema. A formação do Estado imperial (São Paulo: Hucitec,
cimento a uma nação, veremos que o resultado de uma hipotética consulta 1987); de José Murilo de Carvalho, A construção da ordem. A elite política imperial (Rio de
Janeiro/Brasília: Campus/Ed. da U n B , 1980) e Teatro d e sombras. A política imperial ( S ã o Paulo/
realizada dentro das fronteiras do nascente império brasileiro no s termos Rio de Janeiro: Vértice/Iuperj, 1988); de Roderick J. Barman, Brazil: The Forging ofa Nation
sugeridos por Renan - para quem a nação é um plebiscito diário 12 - leva (1798-1852) (Stanford: Stanford Univ. Press, 1988); de W ilma Peres Costa, "A economia
forçosamente à reabertura da discussão de q uestões de fundo no tocante à mercantil escravista nacional e o processo de construção do Estado do Brasil (1808-1850)", em
Tamás Szmrecsányi & José Roberto do Amaral Lapa (orgs.), História econômica da Indepen
formação d a nação brasileira. dência e do Império (São Paulo: Hucitec, 1996), pp. 147-59.
Afirmar que a formação d o Estado brasileiro foi um p rocesso de gran / u Nos anos que se seguiram à independência, e durante todo o século XIX, uma construção
historiográfica foi adquirindo consistência. Seu objetivo: conferir ao Estado imperial que se
de complexidade não apresenta nenhuma novidade, e a historiografia recen consolidava em meio a resistências um a base de sustentação no constituído de tradições e de um a
te tem revelado razoável consenso quanto a evitar o equívoco de reduzi-lo à visão organizada do que seria o seu passado. R esultou disso atribuir-se ao rompimento do Brasil
ruptura unilateral do pacto p olítico que integrava as partes da A mérica n o com Portugal um sentido de "fundação" tanto do Estado como também da nação brasileiros.
13 Nessa tarefa, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, criado em 1838, e, em seu rastro, a
império português. Hoje é assente que não se deve tomar a declaração da obra de Francisco Adolfo de Varnhagen, contribuíram de maneira decisiva para a longevidade
dessa visão de história. Sobre essas questões, ver Arno W ehling (coord.), Origens do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro: idéias filosóficas e sociais e estruturas d e poder n o Segundo
1
' Os conceitos aqui utilizados têm muito a ver com os utilizados por José Carlos C hiaramonte em Reinado (Rio de Janeiro: IHGB, 1989); e Lilia M . Schwarcz, O espetáculo das raças: cientistas,
"Formas de identidad política en ei Rio de Ia Plata luego de 1810", em Boletín dei Instituto de instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930 (São Paulo: Cia. das Letras, 1993).
Historia Argentina y Americana " D r . Emilio Ravignani", 3 a série, n. 1, Buenos Aires, 1989, e 5
> } Essa questão tem dois divisores de águas. O primeiro centra-se na idéia d e crise do Antigo Regime
retomados em outros de seus estudos referidos a seguir. e, em seu interior, do Antigo Sistema Colonial. O segundo organiza-se em torno do que se pode
12
Ernest Renan, iQué es una nación? (Madri: CEC, 1982), p. 38 (conferência pronunciada na chamar de arqueologia da nação. Relativamente à primeira questão, deve-se a Fernando A.
Sorbonne em 1882). Novais a percepção e a demonstração da importância interpretativa do conceito de crise, com
13
A ênfase na multiplicidade de possibilidades inscritas na transição da colônia para o império seu fundamental Portugal e Brasil n a crise do Antigo Sistema Colonial, 1777-1808 (São Paulo:
deve-se a C aio Prado Jr., para quem "o final da cena, ou antes, o primeiro grande acontecimento Hucitec, 1979), obra que permanece no centro do debate. Este tem como protagonistas histo
de conjunto que vamos presenciar será, não há dúvida, a independência política da colônia. Mas riadores do porte de Valentim Alexandre (cf. O s sentidos do Império: questão nacional e questão
este final não existe antes dela, nem está 'imanente' no passado; ele será apenas a resultante de colonial na crise do Antigo Regime português, cit.), que rejeita a análise de N ovais (e de toda a
um concurso ocasional de forças que estão longe, todas elas, de tenderem, cada qual só por si , para linhagem que remonta a Caio Prado Jr.) com base em ampla pesquisa documental, mas numa
aquele fim", {Formação do Brasil contemporâneo: colônia (São Paulo: Brasiliense, 1942). análise relativa à história então em curso na América tem pontos frágeis que desequilibram a
Posteriormente, Sérgio B uarque de Holanda, "A herança colonial - sua desagregação", em Histó arquitetura
XVIII, e dodaconceito
obra, caso
de particular
crise que doadota
capítulo
(cf. dedicado
I. Jancsó,às"O"I nconfidências" do final
fim do Império", do século
em Jornal
ria geral da civilização brasileira, tomo II, O Brasil monárquico (São Paulo: Difel, 1960), de
aboliu definitivamente a dicotomia "brasileiros" versus "portugueses" como fundamento do Resenhas, n. 12, 8 mar. 1996). No Brasil, João Luís Ribeiro Fragoso e Manolo Florentino têm-
processo de emancipação. Esboço tentativo de uma síntese dessas proposições está em Maria se destacado na crítica às propo sições de N ovais e, para além dele, da tradição historiográfica na
Odila da Silva Dias, "A interiorização da metrópole (1808-1853)", em Carlos G. Mota (org.), qual este se situa. Isso está nitidamente explicitado em Homens de grossa ventura: acumulação
1 8 2 2 : dimensões, cit., p p . 160-84. Ainda que numa perspectiva diferente, Raymundo Faoro, com e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro, 1790-1830 (Rio de Janeiro: Arquivo Na
seu Os donos d o poder: formação d o patronato político brasileiro (Porto A legre: G lobo, 1958), cional, 1992), de Fragoso, e perpassa menos enfaticamente O arcaísmo como projeto. Mercado
e Emília Viotti da Costa, com "Introdução ao estudo da emancipação política do Brasil", em atlântico, sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Diadorim,
Carlos G. Mota (org.), Brasil em perspectiva (São Paulo: Difel, 1968), p p . 64-125, enriqueceram 1993), dele em co-autoria com Florentino. Os estudos desses historiadores, enriquecidos com a
a percepção da complexidade do processo em pauta. O enquadramento macro-histórico da publicação de E m costas negras. U m a história do tráfico atlântico de escravos entre África e R i o
questão recebeu impulso renovado com Fernando A. Novais, "As dimensões da independência", de Janeiro, séculos XVIII e XIX (São Paulo: Cia. das Letras, 1997), de Florentino, representam
em Carlos Guilherme Mota (org.), 1 8 2 2 : dimensões, cit., pp. 15-26. Mais recentemente, estudos um avanço importante no conhecimento do período mas, paradoxalmente, a verticalização do

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134 Is tv ó n Ja ncs ó e Jo ão Po u lo G . Pim e nta Pe j a s de u m m o s a ico (o u a po nta m e nto s pa ra o e s tu do da e m e rgência do ide ntida de na do na l bra s ile iro ) 135
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São agudas as divergências de interpretação quanto à interface dessas geral por inferência), admitido com o nacional. C omo a inferência tem eficá
duas dimensõ es da realidade: Estado e nação. Os estudos têm privilegiado cia investigativa sabidamente reduzida, vale a pena dedicar mais atenção ao
a formação do Estado, 16 reconhecido como brasileiro e, a partir daí (em outro termo dessa equação - a nação - para, a partir daí, avançar no enten
dimento da complexa relação entre ambos. Mas convém, antes de fazê-lo,
conhecimento da complexidade da formação social e dos mecanismos econômicos que lhes apontar para duas preliminares.
correspondem acaba por corroborar as teses que são objeto de sua crítica. Quanto à arqueologia Em primeiro lugar, deve-se ter em mente que não é obra do acaso a
da nação, questão que ganha densidade no interior do debate historiográfico, desenha-se uma
tendência que visa a romper com a idéia de já ter existido, nos séculos que antecederam a tradicional preferência dos estudiosos pelo Estado e os fatos a ele imediata
emancipação política, uma identidade "brasileira" ou mesmo uma "consciência nacional" dos mente conexo s. S em dúvida parece mais fácil lidar com variáveis nitidamente
colonos. Profundamente enraizado tanto na memória coletiva quanto na historiografia que lhe
serve d e paradigma erudito, esse mito assume formas diversas. Uma de suas vertentes é aquela que
objetivadas (com o o são, por exemplo, as normas que configuram o E stado,
se serve da idéia de nativismo, de longa tradição e nenhuma precisão conceituai, conforme incluindo-se aí, em situações-limite, o s projetos de sua radical subversão),
revelado por estudos recentes como os de Rogério Forastieri da Silva, Colônia e nativismo: a do que fazê-lo com d imensões da realidade confinadas (desdenhosamente)
história como "biografia da nação" (São Paulo: Hucitec, 1997); de Demétrio Magnoli, O corpo
da pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil, 1808-1912 (São Paulo: Edunesp, ao universo da subjetividade, do sentimento e da emoção (em algum grau
1997); além de João Paulo G. Pimenta, Estado e nação na crise dos impérios ibéricos no Prata, partilhadas pelo próprio historiador), 17 casos da idéia de nação ou de identi
1808-1828 (São Pa ulo, USP, 1998), dissert. mestrado, que analisa a questão em comparação com
as historiografias argentina e uruguaia, onde merecem indiscutível destaque os estudos de José
dade nacional. E ludir essa questão, entretanto, não resolve o problema pos
Carlos Chiaramonte, "El mito d e los orígenes en Ia historiografia latinoamericana", em Cuadernos to pela evidente objetivação dessas expressões da subjetividade mediante
dei Instituto Ravignani, n. 2, Buenos Aires, s.d.; e de Carlos Real de Azúa, Los orígenes de Ia práticas políticas com poderosa interferência na definição dos ob jetivos que
nacionalidad uruguaya (Montevidéu: Arca, 1991). Mas é preciso lembrar que nativismo tem
quase tantos significados quantos são os historiadores que d ele lançam m ã o , pelo que não se deve os homens se propõem a alcançar, pelo que é preciso reconhecê-las como
confundir o uso que dele faz Evaldo C abral de Mello, autor que dele lança m ão como instrumento
de expressão de uma especificidade histórica pernambucana; cf. Olinda restaurada (Rio de variáveis importantes d a inteligibilidade dos fenôm enos d e ordem política.18
Em segundo lugar, deve-se ter clara consciência da extraordinária
Janeiro/São Paulo: Forense-Universitária/Edusp, 1975); Afronda dos mazombos. Nobres contra
mascates. Pernambuco 1666-1715 (São Paulo: C ia. das Letras, 1995), com o que dele faz, entre provisoriedade das formas e significados que caracterizam as situações de
outros, Francisco Iglésias, para quem o mesmo nativismo pernambucano seria um esboço de uma crise, pois é dessa ordem o período d a emergência dos novos Estados nacio
"consciência nacional brasileira", cf. Trajetória política do Brasil, 1500-1964 (São Paulo: Cia.
das Letras, 1993). A dificuldade em lidar com a intersecção de fenômenos com abrangências
nais latino-americanos, o que se estende tanto à noção de Estado quanto à
distintas (dentre os quais os de caráter nacional e regional numa perspectiva teleológica) perpas de nação.19 Para os homens que viveram a dissolução d o império português
sa obras de historiadores de inegável importância, caso de A. J. Russel-W ood, que, em texto
recente, vê, nos ajustes de relações entre centros e periferias ocorridas no século XVIII dentro do
império português, a formação de um "senso de brasilidade" que teria obrigado a metrópole a O avanço que já se faz notar nesse profícuo campo de estudos poderá contribuir para um
"considerar o Brasil sob uma perspectiva mais brasileira do que portuguesa"; cf "Centros e posicionamento cada vez mais correto dos interesses políticos, econômicos e sociais dos colonos
periferias no mundo luso-brasileiro, 1500-1808", em Revista Brasileira de História, vol. 18, n. dentro do conjunto do império.
36 , 1998, p p . 187-249. Numa outra vertente, estão estudos visando a desvendar as dimensões - 17
Para ilustrar o intrincado dessa questão, vale a pena recorrer à análise/testemunho de Lucien
e os limites - d e identidades políticas coletivas engendradas em condições coloniais, tais como o Febvre, no recém-editado Honra e pátria (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998).
de Carlos G. Mota, Atitudes de oinovação Brasil, s.d.); de 18 A esse respeito, ve r Pierre Vilar, "Reflexiones sobre lo s fundamentos de Ias estructuras nacionales",
István Jancsó, Na Bahia, contra Império:nohistória do1789-1801
ensaio de (Lisboa: Horizonte,
sedição de 1798 (São Paulo: em Hidalgos, amotinados y guerrilleros. Pueblo y poderes en Ia historia de Espaha (Barcelona:
Hucitec, 1996); ou de Luciano de A. Figueiredo, Revoltas, fiscalidade e identidade colonial na Crítica, 1982), pp. 279-306; José Ramón R ecalde, La construcción de Ia s naciones (Madri: Siglo
América portuguesa. Rio de Janeiro, Bahia e M inas Gerais, 1640-1761 (São Paulo: USP, 1996), XX I, 1982); Eraest Gellner, Nações e nacionalismo (Lisboa: Gradiva, 1983); Benedict Anderson,
tese de doutorado. Nação e consciência nacional (São Paulo: Ática, 1989); Eric J. Hobsbawm, Nações e naciona-
16
Estudos recentes sobre os mecanismos de funcionamento do aparato estatal imperial, em especial lismos desde 1780: programa, mito, realidade (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990); Anthony
na esfera americana, têm revelado dimensões até então pouco conhecidas: Graça S algado (coord.), Smith, Las teorias dei nacionalismo (Barcelona: Península, 1976).
Fiscais e meirinhos: a administração no Brasil colonial (Rio de Janeiro: N ova Fronteira, 1990); 19
Fernando A. Novais, "Condições da privacidade na colônia", e István Jancsó, "A sedução da
Maria Fernanda B. Bicalho, A cidade e o Império: o Rio de Janeiro na dinâmica colonial liberdade: cotidiano e contestação política no final do século XVII", ambos em História da vida
portuguesa. Séculos XVII e XVIII (São Paulo, FFLCH-USP, 1997), tese de doutorado; Maria de privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa (São Paulo: Cia. das Letras,
Fátima S. Gouvêa, "Redes de poder na América Portuguesa: o caso dos homens bons do Rio de 1997). Ver também uma abordagem da questão para as primeiras décadas do século XIX em
Janeiro, 1790-1822", em Revista Brasileira de História, vol. 18, n. 36, 1998, pp. 297-330. conjunto com a América espanhola, João Paulo G. Pimenta, Estado e nação na crise dos

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na 47910924
América, a percepção da crise não se deu de modo uniforme, comMOTA CarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
o que América (por exemplo, um baiense) de todos que não fossem portugueses
das diferentes percepções resultaram múltiplos projetos políticos, cada qual (holandeses, franceses, espanhóis). A segunda, simultânea com a anterior, é
expondo, com maior ou menor nitidez, o esboço da comunidade humana
a q u e lhe permitia distinguir-se, ao baiense, de outros portugueses (por exem
cujo futuro projetavam. Vem daí que aos projetos de futuro contrapostos
p l o , do reinol, d o paulista).20 Finalmente, uma terceira diferença é a que dis
corresponderam outras tantas definições de Estado, cidadania, condições
tingue, entre os portugueses, aqueles que são americanos dos que não
de inclusão e exclusão, padrões de lealdade e critérios de adesão, cada qual
partilham essa condição.
descrevendo elementos
comunidades em nação*do Dessa
pacto forma,
tido como adequado
nunca se devepara transformar
esquecer que a Essa con comitância de formas de expressar a diversidade er a perfeita
provisoriedade característica do período traduziu-se na coexistência não mente compatível com os padrões do Antigo R egime português, ainda que a
apenas de idéias relativas ao Estado, mas também à nação e às correspon organização política do absolutismo em colônia resultasse em práticas, es
dentes identidades políticas coletivas, eventualmente reveladoras de tendên truturas operacionais e tramitações que, com sua implementação, se distin-
cias à harmonização entre si ou , quando não, expressando irredutibilidades guiam dos modelos metropolitanos, tal qual o senhor de engenho de Antonil
portadoras de alto potencial de c onf lito ./ não se confundia com os fidalgos do reino. 21 Como a questão está agora
centrada na dimensão p olítica (uma dentre outras) desse processo de emer
A conquista e colonização da Am érica em cada um de seus quadrantes
gência de identidades coletivas, 22 convém verificar de que m aneira os pro
desdobrou-se, em algum momento, numa viragem: aquela mediante a qual o
blemas da vida vivida encontravam os meios de seu ordenamento e, a partir
conquistador/colonizador tornou-se colono. I sso se deu, no caso da A méri
daí, de sua representação.
ca portuguesa, quando este se percebe não somente c omo agente da expan
É evidente que todos os caminhos do universo colonial centravam-se
são dos domínios
também, do rei
e ao mesmo de Portugal
tempo, (e pordaesta
como agente via, da cristandade),
reiteração mas
ampliada de uma em L isboa, correndo em paralelo na conformidade d os trâmites do ordena
mento formal d o Estado. I sso era válido tanto para o todo do império luso
formação societária particular informadora dos objetivos de sua ação, já
quanto para cada uma das suas dependências americanas. Mas quanto a
agora desdobramento de uma trajetória coletiva instituidora de sua legitimi
estas, também há especificidades. N a Am érica portuguesa, à incorporação
dade e ancestralidade. Essa foi a matriz da s novas identidades coletivas emer
de no vos territórios ao controle efetivo da coroa (a jurisdição, com o regra
gentes no universo colonial, sempre conformadas pela confrontação d e cada
geral, preexistindo à ocupação efetiva), e ao conseqüente m anejo econôm i
qual com outras de similar conteúdo, já que não se deve esquecer que as
co e político destes, correspondia o fortalecimento de centros de conver
identidades coletivas são sempre reflexas.
gência com feição d e pólos articuladores d os múltiplos espaços sociais criados
A ssim é que os colon os de São P aulo reconheceram-se como paulistas, - sempre um a grande cidade, conform e o padrão estrutural proposto pory
m a s , por aqueles outros dos domínios do rei de Espanha com quem se de Braudel. 23 A leitura dos autores contemporâneos é altamente elucidativa a
frontavam, eram percebidos, antes de tudo, com o portugueses, e era assim esse respeito. No que se refere a Salvador, percebe-se desde os tempos de
quebaiense
ou se sabiam diante dos
significava serespanh óis. Portanto,
português, ainda quesersepaulista,
tratasse pernambucano
de uma forma
diferenciada d e sê-lo. O que interessa ressaltar, aqui, é a concomitante emer
gência d e três diferenças. A primeira é aquela q u e distinguia u m português da 20
A esse respeito, ver F. A. Novais, "Condições de privacidade na colônia", cit., pp. 23 e ss.
21
J. A. Andreoni (André João Antonil), Cultura e opulência do Brasil (São Paulo: Nacional,
1967).
22
A esse respeito, para o u niverso platino, com grande importância para as condições coloniais do
impérios ibéricos no Prata, 1808-1828, cit. A questão da provisoriedade com o característica das período, ver J. C. Chiaramonte, "Formas de identidad política en ei Rio de Ia Plata luego de
colonizações portuguesa e espanhola já tinha sido anteriormente destacada por S érgio Buarque de 1810", cit.
Holanda em seu clássico Raízes do Brasil (Rio de Janeiro: José Olympio, 1936). 23
Fernand Braudel, Civilização material, economia e capitalismo, séculos XV-XVII: o jogo das
trocas (São Paulo: Martins Fontes, 1995).

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Gregório de M atos24 e Antonil 25 , passando por Rocha Pita,26 por Caldas,27 tornada com o correr do tempo referência de uma ancestralidade contrapos
em parte po r José da Silva Lisboa 28 ou por Vilhena,29 que cada qual destaca ta à portuguesa e, no limite, negadora daquela. É esse o significado do sen
va a existência, convergindo para esta cidade, de rotas que integravam espa timento de familiares de Inácio da Silva A lvarenga, conspirador nas M inas
ços hierarquicamente ordenados (o Recôncavo e suas cidades, os diversos em 1789, ao proclamarem q ue sua família era, "por antigüidade do s paulistas",
sertões e suas vilas), distintos mas complementares, pontos nodais de uma das primeiras da terra, ao que corresponderiam vantagens quando "esse
trama que con figurava a Capitania d a Bahia, uma dentre outras com as quais continente viess e a ser governado por nacionais, sem sujeição à Europa".32
agia, mas com as quais não se confundia.
in Lendo atentamente os Autos da devassa da Inconfidência Mineira,
Essa construção de territórios (e da sua conseqüente representação), o que encontramos? O s envolvidos são "filhos de Minas", "naturais de M i
/ dotados de tessituras sociais próprias pressup ondo precisa territorialidade, n a s " . A terra era o "País de Minas", percebido com o "continente" ou com o
/ estabeleceu marcos das identidades coletivas no universo luso-americano, capitania. O s "filhos de M inas" viam-se, também, é preciso lembrar, como
\ tanto definindo (recorrendo à expressão de Anderson) as rotas de peregri- "filhos da América". Das cerca de 7 4 ocorrências da palavra "Am érica" n os
\ nação, quanto os confrontantes nos quais essas identidades se espelhavam. Autos, em pouco menos da metade dos casos esta designava o todo da
Essa trama, em permanente expansão, denota a complexidade crescente do Am érica portuguesa. Mas em outros momen tos, "América" referia-se à C a
sistema e do seu manejo político, o que se expressa em disputas entre gover pitania de M inas, sendo possível notar esse seu u so pelo contexto do discur
nadores, rotas de contrabando interno, prioridades contrastantes na aloca ção so em q u e a s frases estão inseridas.33 Eis as identidades políticas coletivas: a
de recursos escassos, seja de moeda para pagamentos devidos, de farinha mineira (expressão do específico regional),34 a americana (expressão da re
da qual endemicamente se carecia, ou de soldados para fazer face a proble lação de alteridade com os m etropolitanos, os europeus) e, evidentemente, a
30
mas que os requeriam, e muitas outras manifestações de estranhamento. E portuguesa.35
é d e notar que o suces so de cada situação particular (regional) dos q uais se
nutria o projeto colonizador luso em seu conjunto estabelecia, no tocante às
32
identidades coletivas tendencialmente politizadas, as condições para a emer Autos da devassa da Inconfidência Mineira (ADIM), vol. I, p. 124. Obviamente a expressão
"nacionais" designa, aí, apenas naturalidade. Para a importância dos cuidados no trato do voca
gência de sua múltipla negatividade. Pen se-se, por exemplo, na reação dos bulário político para evitarem-se anacronismos, ver, além de Chiaramonte, P ierre Vilar, Hidalgos,
paulistas despojados do que tinham por seu bom direito com o advento do amotinados y guerrilleros. Pueblo y poderes en Ia historia de Espana, cit., e Sylvianne Rémi-
controle político sobre a região das M inas Gerais com o conde de A ssumar,31 Giraud & Pierre Retat (dir.), Les mots de Ia nation (Lion: PUL, 1996). Para a inconfidência
mineira: Kenneth Maxwell, A devassa da devassa. A inconfidência mineira: Brasil e Portugal,
1750-1808 (2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978); Francisco C. Falcon, "O imaginário
republicano do século XVI II e Tiradentes", em Seminário Tiradentes Hoje: imaginário e política
24
Ver Alfredo Bosi, A dialética da colonização (São Paulo: Cia. das Letras, 1992). na república brasileira (Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1994), pp. 25-76, onde
23
J. A. Andreoni, op. cit. ademais encontra-se também Maria L úcia Montes, "1789: a idéia republicana e o imaginário das
26
Sebastião da Rocha Pita, História da América portuguesa (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/ Luzes", ibid., pp. 101-38.
33

27
Edusp, 1976). Os dados
Gerais noefinal
quantificações estão em
do Século XVIII, As identidades
de Roberta políticas
Giannubilo coletivas
Stumpf, inédito.na Capitania de Minas
J. A. Caldas, Notícia geral de toda esta Capitania da Bahia desde o seu descobrimento até o 34
presente ano de 1769 (Salvador: Tip. Beneditina, 1951), edição fac-similar. É conveniente lembrar que em documentação da época "mineiro" significa estritamente o
28
José da Silva Lisboa, "Carta a Domingos Vandelli (18 out. 1781)", em Anais da Biblioteca envolvido na atividade mineradora.
35
Nacional, vol. 42, Rio de Janeiro, 1958. As considerações têm-se centrado no colono, mas nunca se deve esquecer que este coexistia com
29
Luís dos S antos Vilhena, Notícias soteropolitanas e brasílicas, 2 vols. (Salvador: Imprensa O fici o colonizador. Em março de 1763, vereadores da Câmara de Vila Rica solicitaram ao trono que
al do Estado, 1922). "filhos de Po rtugal" (era o seu caso) tivessem preferência sobre os "naturais da terra" no acesso
30
Uma crítica às proposições de Anderson em relação à América está em J. C. Chiaramonte, "El aos cargos. A seu favor, traziam com o argumento serem eles e seus iguais os verdadeiros artífices
mito de los orígenes en Ia historiografia latinoamericana", em Cuadernos dei Instituto Ravignani, da grandeza e prosperidade dos domínios do monarca, aqueles que os têm povoado, e "comer
n. 2, Buenos Aires, UBA, s.d. ciado todas as fazendas do R io de Janeiro para as Minas, penetrando as entradas da terra para a
3
' Discurso histórico e político sobre a sublevação que nas Minas houve no ano de 1 7 2 0 , edição de extração do ouro para o Real Quinto e [o] bem comum, estabelecendo fazendas, ideando enge
Laura de Mello e Souza (Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1994). nhos de minerar, e ocupando imensas e copiosas fábricas na agricultura e lavoura do ouro. [São d e
Portugal], enfim, os arrematadores dos muitos contratos [...] nestas Minas, e não os naturais

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140
Is tv ó n Jo ncs ó e Jo ão Pa u lo 6 . Pim e nta
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Para designar o todo da A mérica portuguesa, o termo47910924 que se segue,MOTACarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
em que, para os colon os, o ordenamento estamental da sociedade erigia-se com o
número de ocorrências, é Brasil. Mas atenção: naturais da terra inquiridos, fundamento d a boa ordem baseada n a natural e necessária desigualdade en
excluíd os os que integravam o aparato administrativo metropolitano, não uti tre os hom ens. O corre, e isto é de absoluta relevância, que a generalização
lizam o vocábulo Brasil para designar a territorialidade subjacente à identida
do escravismo resultava na erosão do sistema estamental, posto que o
de política coletiva que querem designar. Nada de brasileiros? 6 nenhuma
escravismo inviabilizava a participação do portador desta condição n a com
identidade política coletiva ultrapassando o regional. Na verdade, isso não é
plexa tessitura de liberdades desiguais cuja trama tinha por pressuposto o
de surpreender.
velmente A forçae coesiva
a Metrópole, d o conjunto
o continente do Brasil luso-americano
representava, era paraindiscuti
os colo exercício de algum direito. A s sociedades escravistas coloniais repousavam ^
niais, pouco mais que uma abstração, enquanto para a M etrópole se tratava sobre a exclusão de um segmen to fundamental - os escravos - das relações
^ de algo muito concreto, a unidade cujo manejo impunha esta percepção. É 37 que em seu interior eram pactadas, e que definiam a sua feição. 39 Mas essas
por isso que é correto afirmar que a "apreensão de conjunto das partes a que relações pactadas se efetivavam na concomitante prática de outras relações
'genericamente' se chamou de Brasil" estava " no interior d a burocracia es ta muito concretas, já agora envolvend o a totalidade dos m embros dessas so 
ta l portuguesa". 38 ciedades - inclusive os escravos - e que eram vitais para a sua existência: as
relações de trabalho. Nã o é difícil perceber que os homens de então se viam
O reconhecimento da diversidade das identidades coletivas no univer diante de uma fratura entre a realidade objetiva da vida social e a sua repre
so colonial a partir do desdobramento d as trajetórias da s formações societárias sentação. Essa fratura de grande poder dissolvente do paradigma original
envolvidas somente pode ajudar na compreensão da politização dessas iden (peninsular) das sociabilidades é poderosamente ilustrada pela indignação
tidades se consideradas as características básicas dessas sociedades, e de de Vilhena diante do pouco apreço dos naturais da Bahia pelo respeito às
suas estratégias particulares de reiteração. E isso implica reconhecer no condiçõe s distintivas típicas da sociedade do A ntigo R egime, quer se trate
^scravismo uma das variáveis ordenadoras do sistema, tanto no que lhe é de escravos, 40 quer dos poderosos da terra,41 ainda que estes fossem extre
geral, quanto no respeitante a cada um de seus desdobramentos particulares. mamente z elosos na ostentação das exterioridades de sua condição, confor
Ainda que passando ao largo dos múltiplos problemas que merecem me o registro mordaz de Silva Lisboa. 42 E é evidente que tudo isso tem
atenção, mas para pontuar a importância do escravismo, deve-se lembrar poderoso impacto sobre a configuração das identidades coletivas e, mais
ainda, sobre suas con dições de politização n um contexto no qual a clivagem
dela". E não deixavam de lembrar que durante o tempo em que se "compôs a câmara de filhos de
racial como linha d e demarcação da s exterioridades que permitiam distinguir
Portugal, mineiros e sujeitos estabelecidos na terra" os interesses do real erário foram homens livres de escravos tendia à diluição. O caráter cumulativo do resulta
criteriosamente observados, o que deixou de ocorrer quando outros, escudados tão-somente "na do das mú ltiplas m odalidades de obtenção da alforria resultou no aumento
naturalidade da terra", passaram a empolgar as posições disputadas. Eis o colonizador, aquele que
"tem dilatado este Império de Vossa Magestade", confrontado com o colono que não apenas do número de hom ens livres com origem africana, fossem negros ou pardos,
disputava primazias com base em direitos advindos de uma ancestralidade específica con traposta
àdegenérica
Portugalportuguesa, mas quecomuns,
[como] homens atribuía acom
estaoutros
uma qualidade tal que lheAautorizava
mais opróbros". carta estáverno"aArquivo
todos os
39
Histórico Ultramarino (cx. 81, doe. 16) e foi localizada por Roberta G. Stumpf, a quem os O escravismo subvertia o modelo, no qual não cabia boa parcela dos homens livres que tinham
autores agradecem. É de notar, ainda, que essa coexistência de colono e colonizador enquanto nesta condição a origem de sua linhagem. Ver, para tanto, Florestan Fernandes, Circuito fecha
expressões de referências conflitantes, o mais freqüentemente é encontrá-la no m esmo persona do : quatro ensaios sobre o "poder institucional" (São Paulo: Hucitec, 1976). Quanto a essa
gem que oscila entre um e outro. questão, é de notar que os estudos de S tuart Schwartz e João José Reis sugerem a hipótese de que
36 as aspirações de padrão estamental (busca da diferenciação formal das condições individuais)
Ou de "brasilienses" ou "brasilianos" que poderiam eventualmente ser tomados por eq uivalentes. tinham largo curso entre a população escrava, configurando poderoso instrumento de acomoda
De resto Tomás Antônio Gonzaga é o único a utilizar a expressão "povos do Brasil", cf. R. G.
Stumpf, op. cit. ção de tensões; cf. J. J. Reis (org .), Escravidão e invenção da liberdade. Estudos sobre o negro
37 no Brasil (São Paulo: Brasiliense, 1988).
Ibid.
40
38 L. dos S. Vilhena, op. cit., vol. 1, p. 108.
Afonso M. dos Santos, No rascunho da nação: inconfidência no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: 41
Ibid., p. 136.
Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, 1992), p. 141. 42
J. da S. Lisboa, op . cit.

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142 Istvón Jancsó e João Paulo G. Pimenta P e ça s d e u m m o s a i c o ( o u a p o n t a m e n t o s p a r a o e s t u d o d a e m e r g ê n c i a d a i d e n t i d a d e n a c i o n a l b r a s i l e i r a ) 143
5/10/2018 47910924MOTACarlosGuilhermeOrgViagem
45 a-slidepdf.com
o que tendia a reforçar o apego da elite (ou dos aspirantes a pertencer a ela) americanos). E ao fazê-lo, não há como ignorar que esses m ercados atra
à identidade portuguesa, condição da necessária "pureza de sangue" para vessavam uma conjuntura de profundas transformações, m esmo porque, rio
quem almejasse galgar a escada social do Antigo Regime. 43 final do século XVIII, a desordem revolucionária penetrava em todos os
De resto, apolitização dessas identidades coletivas que então em ergem seus poros. E também não há como deixar de reconhecer que é dessas trans
e definem seus contornos se dá num contexto no qual a crescente complexi formações que a s negatividades inscritas nas identidades coletivas derivadas
dade d a vida econôm ica instaura novas abrangências que ex igem atenção. A do sucess o do empreendimento colonizador se alimentavam. Esse foi, e nem
primeira destas é a da Am érica portuguesa, vale dizer, deste continente do poderia deixar de ser dessa maneira, u m processo errático, inscrito nas men
Brasil como era chamado, esboçando novas conexões na esteira das rotas tes e nas práticas dos homens que em seu interior se defrontavam na busca
das mercadorias, das quais o fluxo conectava m ercados regionais crescen de alternativas para uma situação que não lh es parecia conveniente preservar
temente dinâmicos,44 a diversidade gerando a possibilidade de integração. A o u , então, que percebiam como ameaçada e forcejavam em manter. Esta
segunda abrangência a ser considerada é aquela d o locus de realização das afirmação, que beira a obviedade, remete a outra, já menos evidente: a crise
mercadorias coloniais: o mercado europeu ou, tornando o processo ainda não aparece à consciência dos hom ens como m odelo em via de esgotamen
mais com plexo, o mercado africano (tanto de escravos quanto de produtos t o , mas como percepção da perda de operacionalidade das formas consa
gradas de reiteração da vida social. Em outras palavras, é na generalização
d a busca d e alternativas que a crise se m anifesta. 46
N uma situação de crise, a urgência de sua superação desdobra-se no
43
Mas essa diluição da concomitância de predicado racial e estatuto jurídico de seu portador tinha reordenamento das referências, já que os homens buscam, para além da
como contrapartida
acabassem fazer com
por se amalgamar numque homens
conjunto q u e ,livres de baixa
nas grandes condição
cidades econômica partilhavam
principalmente, e escravos reiteração das condições sociais de existência, a instauração de formas pre
padrões de sociabilidade semelhantes, fossem esses de caráter religioso, econômico, de parentes visíveis de vida social. Todo projeto de mudança supõe, ao fim e ao cabo, a
c o , construindo redes de lealdade que poderiam transbordar para a esfera política. D. Fernando instauração da ordem no lugar do que é percebido como desordem. E todo
José de Portugal percebia o potencial explosivo desse fenômeno ao informar a corte de que
pouco havia a temer quanto às simpatias de membros d a elite baiana por idéias subversivas, já que projeto de uma nova ordem implica o esboço mais ou menos preciso da
a sua lealdade ao trono decorria, entre o utros fatores, do risco de uma insurreição de escravos que comunidade que partilhará, e de como deverá fazê-lo, a trajetória comu m
tinham por inimigos os seus senhores, dando forma ao temor de que, sob formas m utantes, seria que levará à nova, aquela "boa ordem que para este fim se tem pensado", 47
constitutivo d a s relações raciais, sociais e políticas do período subseqüente. A carta d e d . Fernando
está em Inácio Accioli de C. e Silva, Memórias históricas e políticas da Província da Bahia nos termos de um dos pasquins remanescentes dentre os afixados na Bahia
(Salvador: Imprensa Oficial do E stado, 1931), vol. III, p . 1 3 4 . Sobre essas relações horizontais na em 12 de agosto de 1798. Para os seus autores, o contorno da comunidade
esfera dos estratos inferiores das sociedades coloniais, ver, de Laura de Mello e S ouza, Desclas
sificados do ouro (Rio de Janeiro: Graal, 1982), e também Norma e conflito: aspectos d a história que partilhará dessa no va ordem é definido com clareza. Trata-se do "Povo
de Minas no século XVIII (Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1999), sobre coartação, especifica Baiense", 48 para o qual "está para chegar o tempo feliz da [...] Liberdade".49
mente, pp. 151-74; L eila Mezan Algranti, O feitor ausente. Estudo sobre a escravidão urbana Essa futura nova ordem, instauradora da "liberdade, igualdade e fraterni
no Rio de Janeiro (Petrópolis: Vozes, 1988); Mary C. Karasch, Slave Life in Rio de Janeiro,
1808-1850 (Princeton: Princeton Univ. Press, 1987); Maria Inês Cortes de Oliveira, O liberto: dade",50 impõe, n o presente, que se faça uma revolução "nesta cidade e seu
o seu mundo e os outros, 1790-1890 (Salvador/Brasília: Corrupio/CNPq, 1988); Kátia de Q.
Mattoso, Ser escravo no Brasil (São Paulo: Brasiliense, 1982). 45
44
Para o estudo desse fenômeno na área de influência do Rio de Janeiro, ver Alcir Lenharo, LuísF. de Alencastro,Lecommercedesvivants: traited'esclaveset "paxlusitana"dansVAtlantique
As tropas da moderação: o abastecimento da Corte na formação política do Brasil, 1808-1842 46
Sud, Paris, 1985, tese de doutorado.
(2 . ed. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1992); Cecília Helena de Salles Oliveira, 1 . Jancsó, Na Bahia contra o Império. História do ensaio de sedição de 1798 (São Paulo:
A astúcia liberal. Relações de mercado e projetos políticos no Rio de Janeiro, 1820-1824 Hucitec, 1996), p. 203.
47
(Bragança Paulista: Edusf/ícone, 1999); J. L. R. Fragoso, Homens de grossa aventura: acumu Cf. K. de Q. Mattoso, Presençafrancesa n o movimento democrático baiano de 1 7 9 8 (Salvador:
lação e hierarquia n a praça mercantil do Rio de Janeiro, 1790-1830 (Rio de Janeiro: Arquivo Itapuã, 1969), p. 152.
48
Nacional, 1992); e do mesmo autor e M. Florentino, O arcaísmo como projeto: m ercado Md., p. 150.
49
atlântico, sociedade agrária e elite mercantil n o R i o de Janeiro C.1790-C.1840 (Rio de Janeiro: Ibid., p. 148.
50
Diadorim, 1993). lbid., p. 157.

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144 Is tv án Jo ncs ó e J o ã o P a u l o G . P i m e n t a ' Pe ça s de u m m o s a ico (o u a po nta m e nto s pa ra o e s tu do da e m e rgênc ia da ide ntida de na cio na l bra s ile ira ) 145
5/10/2018 47910924MOTA52CarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
termo",51 para que finde "para sempre o pé ssimo jug o ruinável da Europa". ao cabo, das diversas identidades políticas coletivas, inclusive as de tipo
E tudo isso se fará para que "qualquer comissário, mercador, mascates, la nacional.
vradores de mandioca, fabricantes de açúcar, tabacos, hajam de ter o direito " N a Bahia do final do século XV III coexistiam diferentes projetos de
sobre as suas fazendas".53 futuro, assim como várias identidades políticas coletivas. Para d. Fernando
N os termos dos pasquins o povo é o baiense, pelo que é inútil procurar José de Portugal, governador d a capitania e integrante d a elite política refor
o brasileiro. Este é o povo que configura a comunidade imaginada, a nação mista cujo expoente maior era o conde de Linhares, a nação era una e
pensável, opondo-se ou aliando-se a outras nações de acordo com os seus indivisível[na^e^ttema diversidade de suas partes; a nação portuguesa. A ten
interesses. E ainda q u e os pasquins nã o mencionem expressamente a extinção dendo a solicitação da Secretaria de Estado (o ano é de 1798) para que
do exclu sivo colonial como objetivo central do "povo baiense republicano", opinasse sobre a conveniência d e se modificarem normas referentes ao trans
esse d eixar de fazê-lo vem de que era por demais evidente que a supressão porte de escravos, reconhecidamente exigindo reformas, d. Fernando é
dos víncu los coloniais, centro do projeto político da revolução mediante a taxativo quanto à conveniênc ia de alterá-las, mesm o porque, para além da
qual tornar-se-ia possível adotar "a total Liberdade Nacional", 54 dá cabal "Nação portuguesa que procurou remediar estes males, outras Nações como
conta da questão, bastando, portanto, esclarecer de público que "aqui virão a Grã-Bretanha têm também dado providência para [...] evitar" 56 a conde
55
todos os estrangeiros tendo porto aberto". Afinal, sendo o exclusivo meca nável e irracional desumanidade das condições deste transporte. A nação é a
nismo (um dentre outros) da dominação metropolitana, nos termos do A nti portuguesa, mas a referência é o E stado, conforme se pode ver pelo termo
go Regime e do sistema colonial, que em seu interior o capitalismo mercantil de comparação, ond e a G rã-Bretanha é tomada por nação. 51 Isso não deve
engendrou, suprimida a condição de sua vigência (a da dominação metropo surpreender, na medida em que essa concepção está em estrita conformida
litana), suprime-se ipsofacto seu instrumento (o exc lusivo). de com o que pensa, entre outros, o próprio d. Rodrigo de S ousa Coutinho,
Tu do isso o bviamente não é linear ou transparente, afinal a nova ordem para quem "o português nascido nas quatro partes do mundo" o é porque
desejada estava sendo esboçada com base em interesses individuais e cole participa de um Estado "cujo sacrossanto princípio da unidade [é] a Monar-\r
tivos muito reais, palpáveis e sobretudo díspares, além d e (retornando ao quia [...] a que tem a fortuna de pertencer". 58 Para esses hom ens a única >
terreno da obviedade), dada a natureza da crise, conflitantes entre si. A ur identidade nacional era aquela que remetia ao Estado e, por essa via, à mo
gência na instauração da ordem encerra grande potencial gerador de confli narquia, pelo que portugueses eram os fiéis vassalos dos Braganças. Não
tos, mas estes, ainda q u e envolvam indivíduos ou grupos sociais que tenham que passassem ao largo da diversidade, afinal viam com clareza a nação
por base os m esmos interesses objetivos, podem resultar em projetos referi
dos a temporalidades diversas, o que tem inegável importância operativa.
Indivíduos e grupos com os m esmos interesses objetivos podem ver na res
56
tauração da ordem perdida o u , pelo contrário, na destruição final das sobre- Arquivo Nacional-Fundo Marquês de Aguiar, of. n. 121, de 4 jul. 1800, no qual "responde-se
largamente a carta regia de 22 ago. 1799 que trata do regimento das Arquiações (de 1684) da
vivências daquela, o melhor caminho para a superação da desordem. O ra, a obrigação de tocarem as embarcações destinadas ao comércio da escravatura nas ilhas de São
temporalidade diversa a referir os projetos (passado ou futuro) não suprime Thomé e Príncipe, e sobre capelão", f. 2.
57
a contemporaneidade das práticas, dos interesses, dos conflitos e, ao fim e Compare-se esta idéia de nação com outra vigente no século anterior. Para frei Simão de
Vasconcelos, S J, "a nação portuguesa se tem diversa da castelhana, esta da biscainha, a biscainha
da francesa, da holandesa, etc . porque tem diversas línguas umas das outras; e tanto mais diversas
são as nações, quanto são mais diversas as línguas. Diversas regiões são as de Roma, e da S icília;
51
contudo porque os homens delas falam um a só língua, é uma só nação. Diverso príncipe é o dos
Ibid., p. 151. romanos, que é o Papa, e o dos sicilianos, que é o r e i de Espanha: contudo essa diversidade nã o faz
52
Ibid., p. 155. diversa a nação R omana, e S iciliana"; cf. fr. Simão de Vasconcelos, Crônica da Companhia de
53
Ibid., p. 152. Jesus (Petrópolis/Brasília: Vozes/INL, vol. 1, 1977), pp.110 e ss. (I a edição de 1663).
54
Ibid., p. 155. 58
"Memória sobre o melhoramento dos domínios da América", em M. C. de Mendonça, O intendente
55
lbidem. Câmara (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1933), p. 270.

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146 I stv ón Janc só e Joã o Paulo G . P i m e n t a P e ç a s d e u m m o s a i c o ( o u a p o n t a m e n t o s p a r a o e s t u d o d a e m e r g ê n c i a d a i d e n t id a d e n a d o n a l b r a s i l e ir a ) 147

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constituindo "um só todo com posto de partes tão diferentes".59 Apenas que um a nova ordem na qual os "homens pardos e pretos [...] todos serão iguais"64
a cultura política do absolutismo ilustrado recusava o reconhecimento da não politizou apenas a questão social mas também a questão racial, com o
politização dessa d iversidade, tida po r incompatível com o racional manejo que o discurso se radicalizou, apontando para uma contradição inerente à
político do império, cujas partes "jamais poderão ser [...] felizes" a não ser cultura política à qual se referia, e cuja base repousava sobre a igualdade
"na reunião de um só todo" 60 amalgamado p ela monarquia, mas à qual era jurídica dos cidadãos e no respeito integral ao direito de propriedade. Sendo

preciso reformar
poder, sempre p or exigência
atendendo da s da
à lógica Luzes. A assimilação
preservação do sistema na esferae do
dessasimperial de osoldagem
escrav o dos
propriedade,
interessesados
suadiversos
simp les estratos
existência criavaosum
contra impa sse
inimigos do para
povo.a
seus fundamentos so ciais e políticos, passa por desdobramentos que acele Este era o baiense, mas para que viesse a constituir-se em nação seria pre
ra m o rompimento dos limites definidos de antemão, o que, na prática, erode ciso q u e , mediante u m pacto político instituísse o Estado q u e lhe desse forma.
a legitimidade do poder absoluto do soberano,61 cuja cabeça rolou na Fran É por isso que a idéia de nação presente nos pasquins apenas aparentemente
ç a , e todos o sabiam. Dess e mod o, é no espaço da colônia, local da máxima segue o modelo ilustrado de d. Fernando (nação = Estado), afastando-se
opressão, que são criadas as condições para que sejam ultrapassados os deste radicalmente pois se fundamenta na vontade dos po vos e não n o papel
limites que para a metrópole eram su a própria salvaguarda: som ente n a colô coesivo do trono. O nacional dos autores dos panfletos sediciosos distin
n ia poder-se-ia vislumbrar a alternativa da ruptura política, 62 o que, de resto, gue-se daquele da ilustração quanto ao fundamento que lhe é subjacente, e o
não é uma particularidade do A ntigo R egime português.63 Convém lembrar caminho de sua instauração é a revolução, condição necessária do novo
que a maior radicalidade social da violência revolucionária francesa deu -se pacto político instituidor d o Estado e da nação. Vem daí q ue é inútil procurar
em S ão Dom ingos, situação colonial e periférica, do que os contemporâneos
bem sabiam e bem temiam. algumaq uideologia
ordem nacionalista
e propugnavam entre ossu asediciosos
nã o buscava baianos
legitimidade de 1798.
em direitos A nova
históricos
O que ocorreu na Bahia de 1 798, ao contrário das outras situações de ou em ancestral trajetória comum, típicos dos nacionalismos europeus emer
contestação política na América portuguesa, é que o projeto que lhe era gentes no século XV III. O confronto delineado em 1798 n a Bahia colocava
subjacente não tocou somente na condição (a dominação política), ou no frente a frente a m onarquia absoluta e uma comu nidade que afirmava ter
instrumento (o exclusivo ), da integração subordinada da s colônias no impé configuração específica; o povo baiense instituidor potencial de um novo
rio luso. Dessa feita, ao contrário do que se deu nas M inas Gerais (17 89), a Estado que viria a ser nacional mediante um pacto de cidadãos, aqueles
sedição avançou sobre a sua decorrência: o escravismo. Não porque sua "baianos [que quando] longe de si lançarem mil desp óticos tiranos, felizes e
abolição fizesse parte do projeto revolucionário explicitado no s pasquins, soberanos nas suas terras serão".65 O inimigo do povo não tinha uma confi
mas porque o ingresso na sociedade política de homens egressos dessa con  guração nacional, a opressão não era percebida como a de uma nação es
dição, fossem livres ou escravos, ultrapassou os limites do que poderia ser trangeira. Não era assim que a dominação era reconhecida, pois a privação
assimilado pelas classes dominantes no interior da s formações sociais resul da liberdade d o povo baiense não advinha da sujeição à nação portuguesa,-
tantes da colonização portuguesa na Am érica. A exigência programática de mas a o trono. Este era reconhecido com o o supressor da liberdade por via
do Estado que lhe servia de suporte e com o qual se identificava. Nunca
devemos esquecer que o universo mental dos que, na Bahia de então, pro
59
puseram o rompimento com o trono era o dos homens do século XVIII,
Ibidem.
60
Ibidem. fortemente marcado pela condição colonial. E no que diz respeito à questão
61
Débora Pupo, Cultura política e identidades coletivas na Bahia de 1798, São Paulo, 1998,
inédito.
62
F. A. Novais, Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial, cit., cap. 3. 64
K. de Q. Mattoso, op. cit., p. 157.
63
Essas manifestações de crise em áreas periféricas de E stados absolutistas do final do século XV III 65
Anais do Arquivo Público da Bahia (AAPB) (Salvador, Imprensa Oficial da Bahia, 1959), vol.
estão apontadas em I. Jancsó, Na Bahia contra o Império, cit., pp. 163 e ss. 3 5 , p. 223.

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148 Istvón J a n c s ó e J o ã o P a u l o G . P i m e n t a P e ç a s d e u m m o s a i c o ( o u a p o n t a m e n t o s p a r a o e s t u d o d a e m e r g ê n c i a d a i d e n t i d a d e n a c i o n a l b r a s i le i r a ) 149
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nacional, é bom lembrar que, mesmo no centro revolucionado do Antigo funda e cujos desdobramentos eram imprevisíveis. Que tudo isso se tenha
Reg ime europeu, o nacional mal começava a assumir nítido contorno políti dado mediante a combinação de elementos de permanência e mudança é
c o , e men os ainda traduzir-se em ideo logia política. E se L ucien Febvre tem quase redundante em se tratando de acontecimentos que não estavam inscri
razão ao afirmar que a nação é " u m a realidade psicológica profunda [...] que tos na ló gica da trajetória precedente do império,68 mas a os quais era impe
modela rigorosamente todos os indivíduos no interior do seu quadro [...], rativo, n a situação advinda, conferir u m a inteligibilidade q u e acomodasse não
detentora
bros", 66 de um patrimônio cultural do qual participam todos o s seus mem 
o que se percebe nessa B ahia de final do século não se aproxima da apenasque
futuro as experiências políticas já acumuladas, mas também o s projetos de
delas derivavam.
sua proposição. A q ue comunidade politicamente instituída os baianos ex N o plano da vida política convém , antes de tudo, chamar a atenção
pressavam seu pertencimento? Tem os aí pelo men os duas variantes, agora para a alteração na configuração da sociedade que a ela tinha acesso, pro
contrapostas. Por um lado, estão os qu e se têm por portugueses, no estrito cesso magnificado no Rio de Janeiro, mas com repercussões nos grandes
sentido de fiéis vassalos de sua majestade. Por outro, estão os que se têm centros de convergência dos dom ínios luso-americanos, aqueles que consti
p o r baienses, eventualmente republicanos, conforme já se viu. E m am bos os tuíam os po ntos nodais da estrutura imperial. A instalação do aparelho cen
casos se trata dos que têm por pátria a Bahia, uma pátria que ainda não tral de poder incrustou n a América u m a elite política cujos mem bros, em sua
engendrou u m patriotismo político a ela referido, e em cujo interior identida maioria, eram adventícios nesse quadrante e sentiam-se vivendo sob o signo
des políticas distintas coexistiam e se confrontavam n a gestação histórica de d a provisoriedade, constrangidos a isso por obra das circunstâncias d a gran
alternativas de futuro cujas formas apenas se esb oçavam . de política européia. Não eram colonizadores ou delegado s da coroa, eram
A instalação
impacto da corte bragantina
sobre a percepção no R da
que os homens io de Janeiro
época produziu
tinham enorm e
da adequação exilados
assegurarainda que emcontinuidade
a perfeita do mínios de das
seu ações
rei, cabendo-lhes, paradoxalmente,
de governo nas novas condi
do Estado português ao novo equilíbrio entre as suas diferentes partes. O ções. N ão é n ecessário insistir no fato de que a realidade prevaleceu sobre
Correio Braziliense, atento a essa situação, alertou para o problema ao as intenções, imprimindo-lhes sua marca, com o que a ilusão da perfeita
ponderar que continuidade traduziu-se numa série de acomodações cuja história é a da
crise do An tigo R egime português. O qu e é de destacar é que na nova situa
um M onarca, que possui tão extensos domínios, como é o Soberano de Portugal, não ção am pliou-se grandemente o número de personagens que formavam a so 
deve fazer distinção entre província, e província de seus Estados, resida a corte ond e
ciedade po lítica 69 n a Am érica portuguesa, se confrontado o quadro emergente
residir. A Beira, o Algarve, o Brasil, a índia devem todos ser considerados como
partes integrantes do Império, devem evitar-se as odiosas diferenças de nome, de do 1808 com aquele prevalecente anteriormente a essa data.
Capitanias e Províncias, e ainda mais se devem evitar as perniciosas conseqüências
que desses errados nomes se seguem. 67 68
O estudo de Maria de Lourdes Viana Lyra, A utopia do poderoso império. Portugal e Brasil:
bastidores d a política, 1798-1822, traça o nexo histórico da peculiar lógica da instalação da sede
N ão s e tratava, entretanto, e autor e leitores sabiam disso, de questões da monarquia no Brasil. Ainda q u e a arqueologia dessa alternativa afinal prevalecente seja suges
de forma ou precedência, por maior relevância que essas dimensões da vida tiva, não há como deixar de reconhecer que ela derivou da imposição de circunstâncias que
tornaram-na a única alternativa tida então por exeqüível para a sobrevivência da dinastia, o que
política assumissem na época. Tornou-se patente, insistindo em saber sabi eqüivalia dizer, da soberania do estado português. Para o simultâneo processo em curso na
d o , que as partes da América, liberadas dos constrangimentos d o exc lusivo Am érica espanhola, ver François-Xavier Guerra, "A nação na América espanhola: a questão das
colonial, viviam o encerramento de u m a modalidade multissecular d e depen origens", publicado originalmente em La Pensée Politique, n. 3, número temático "La Nation"
(Paris: Gallimard/Le Seuil, 1995), traduzido para o português pelo professor d r. Marco Morei.
dência, protagonistas de um a ruptura histórica que reconheciam com o pro- 69
O conceito de "sociedade política" aqui adotado remete a Antônio Gramsci, Maquiavel, a
política e o Estado moderno, com o que afastamo-nos da idéia de "elite política" tal qual
utilizada por J. M. de Carvalho, o p . cit., especialmente p p . 16,48, e por K . de Q . Mattoso, Bahia,
66
L. Febvre, op. cit., p. 230. século XIX. Uma Província no Império (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992), especialmente
67
Correio Braziliense, vol. IV, n. 23, abr. 1810; J. P. G. P imenta, op. cit., 2 a parte, cap. 2. o c a p . XVI.

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150 Is tv ó n Ja ncs ó e Jo ão Pa u lo G. P i m e n t a Pe ça s d e u m m o s a ico (o u a po nta m e nto s pa ra o e s tu do da e m e r g ê n c i a da ide ntida de na c io na l bra s ile ir a ) 151

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E m primeiro lugar, a sociedade política foi grandemente alargada com a com o instrumento de pressão política objetivando a revisão de medidas es
instalação d a corte e da nata da administração imperial (e sua clientela), pes pecíficas (no caso em pauta: o Tratado com a Inglaterra) ou, no limite, do
soas que desconheciam na maior parte os padrões de sociabilidade vigentes ordenamento político da sociedade, isto é, a tão temida revolução. T rata-se
na América, e viam no domínio dos  ritos p eninsulares (sociais, econômicos, de idéias constantes dos autos, e seu curso em meio a conversações contem
culturais ou políticos) instrumento de afirmação de sua diferenciação (quan plando assuntos de interesse dos en volvidos (para Veiga, privilégios relativa
da
do não
no R io ,de
deJaneiro
sua superioridade)
em m eio aosem relaçãopara
esforços aos dotar
da terra. A instalação
a cidade corte
das característi mente ao
cargos de mercado do s produtos
maior importância de sua manufatura;
na administração), para Torrezão,
é revelador acesso a
de uma variante
cas compatíveis com a sua nova condição, isto é, dar-lhe feição européia, de cultura política que se espraiava pela corte, corpo doutrinário informe e
dava suporte à ilusão dos reinóis de que os padrões de sociabilidade assimi tendente a fissuras e à diversificação, versão ampliada do q u e já estava em
lados em Portugal poderiam ter plena vigência n a s partes do B rasil. M as não curso durante o fim do período colonial. 71 Com tudo isso, essa Devassa de
eram somente as gentes da corte os novos atores políticos que buscavam 1810 expõe, sob a feição de uma aparente comédia de erros, os meandros
fazer valer seus interesses, conforme revela um a devassa que teve lugar em da relação entre cultura política e interes ses práticos no interior da sociedade
1810 no Rio de Janeiro.70 política na América. Percebe-se, poucos anos tendo se passado desde o
E ssa devassa é uma peça rara. As autoridades foram levadas a abri-la inquérito promovido pelo Senado da Câmara da cidade de Salvador por
por temor de preparação de um a ação subversiva, no limite revolucionária. solicitação do conde da Ponte, em 1807, quando um punhado de letrados
Detiveram como suspeitos a Francisco Xavier de Noronha T orrezão, oficial debruçou-se sobre o estado vigente e as perspectivas de futuro da economia
da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramari da Bahia,72 que os termos do debate se alteraram radicalmente no Brasil.
n o s , e Manuel Luís da Veiga, hom em de cabedias radicado em Pernambuco, Naquele quadrante, as normas do pacto colonial eram apontadas como o
ambos peninsulares, mantendo-os presos por algo como cinco meses. Com grande obstáculo para a expansão das atividades econômicas, com o que
o correr dos interrogatórios abandonou-se a busca de eventuais nexos da pleiteava-se a sua revisão, cond ição da liberação dos proprietários para fa
suposta trama subversiva, pois revelou-se impossível esclarecer a quem era zer o melhor uso de seus capitais. Com a supressão do exclusivo abriu-se
justo atribuir intenções de teor sedicioso, aquelas mesmas cuja notícia uma nova conjuntura impondo outros parâmetros para o debate político,
deflagrou o pro cesso. A o final, as autoridades acabaram por admitir a hipó que passou desde então a incorporar ingredientes que antes eram tipicamen
tese de que tudo não passava de condenáveis excessos verbais, o que, de te peninsulares.
resto, bastava para justificar tanto a sua ação quanto o constrangimento a o M anuel Luís da Veiga surge como um homem dos novos tempos - o
qual foram submetidos os en volvidos. empreendedor moderno - pondo em prática o que Rodrigues de Brito e
Ainda que o projeto subversivo seja por tudo inverossímil, a curiosa seus companh eiros na Bahia desejavam. E le propõe-se a implantar uma fá
concordância dos envolvidos quanto a ter sido proferidas expressões brica de cordas valendo-se de técnica desconhecida nos domínios lusos,
indicativas de desapreço ao poder acaba por revelar, se não a existência de ainda que já praticada na índia inglesa. Move-lhe, à parte o natural desejo de
alguma trama revolucionária em curso, o fato de que a eventualidade de lucro, o conhecim ento d os mercados, tanto daquele comprador (tem conta
desordens políticas envolvendo a plebe urbana era cogitada, avaliada e tida tos nas praças de Salvador, Ilhéus e R io de Janeiro, além da de Pernambuco,

70
Devassa de 1810 - A uto de perguntas feitas a Manuel Luís da Veiga e a Francisco Xavier de 7
Noronha Torrezão, oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultra ' Ver I. Jancsó, "A sedução da liberdade", cit.
72
marinos. Arquivo Nacional (AN), Coleção Devassas, caixa 2.754. Este documento foi analisado Os pareceres elaborados por João Rodrigues de Brito, Manuel Ferreira da Câmara, José Diogo
por Andréa Slemian, "Uma análise da sociabilidade política no Império português: uma Devassa Ferrão Castelo Branco e Joaquim Inácio de Cerqueira Bulcão foram editados por F. M. de G.
em 1810 no Rio de Janeiro", paper apresentado no XIV Encontro Regional de História - Sujeito Calmon, A economia brasileira no alvorecer do século XIX (Salvador: Progresso, 1923), 1*
na História: práticas e representações, São Paulo, PUC, 1998. edição publicada em Lisboa, 1821.

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Pe ça s de u m m o s a ico (o u a po nta m e nto s pa ra o e s tu do da e m e rgência da ide ntida de na cio na l bra s ile ira ) 153
152 Is tv ó n Ja ncs ó e Jo ão Pa u lo G . Pim e nta
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onde pretendia instalar a empresa), quanto do mercado fornecedor de maté mente, apontando para alguns dos impasses criados pela abertura dos por
ria-prima (a  fibra d e coc o), abundante no litoral. Tem con sciência d a impor tos e a concomitante supremacia inglesa.
tância do empreendimento, cuja escala não era irrelevante. A companhia à M as o episódio mostra também q u e esse E stado chamado a redefinir seu
cuja testa está (e que reúne sócios ingleses) dispunha de fundos da ordem de papel continua operando mediante o s ritos tradicionais do A ntigo Regim e, e é
120 contos de réis (o valor de um bom engenho de açúcar em operação conforme as prescrições deste que se organizam os contatos entre Veiga e
orçado, então, por volta de 80 contos de réis), 73 e Veiga estimava em 400 Torrezão - o empreendedor capitalista e o funcionário graduado, ambos bus
contos de réis o valor da matéria-prima a ser beneficiada. Dotado de m eios cando a satisfação de interesses particulares junto a ele. P ouco importa, de
materiais para o empreendimento, o qu e veio buscar no R io de Janeiro? A momento, lembrar que se trata, nos dois casos, de projetos radicados em
resposta é clara: obter privilégios extensivos ao império, 74 e não apenas à temporalidades distintas, com Torrezão enredado num diálogo do presente
Capitania de Pernambuco como lhe ha via sido concedido. Quem obstaculizava com o passado, e Veiga, num do presente com o futuro. O q u e é notável é que
suas pretensões? A Junta de Comércio. A quem supunha estar por trás de os do is projetos fundem-se em práticas de idêntica natureza quando adentram
suas dificuldades? José da Silva Lisboa 75 e, por esta via, o livre comércio a esfera do E stado e, diante d a recusa, expressam a insatisfação recorrendo a
que, n a forma com o estava regulamentado, transformava os produtos ingle expressões que remetem a u m a cultura p olítica q u e , no limite, é incompatível
ses em adversários formidáveis das manufaturas nacionais. com o s fundamentos e a natureza absolutistas desse m esmo E stado. Ao fim e
A devassa expõe, portanto, o deslocamento, comparativamente ao ao cabo, as desventuras de V eiga e T orrezão iluminam a própria crise do A n
período pré-joanino, de um dos eixos do debate político. Este não se pola tigo Regime português, crise já instaurada como a s u a natureza.
riza mais entre defensores do exclusivo e os do livre comércio, centrando- Sobre a s elites das partes americanas do imp ério, por seu turno, o im
s e , agora, no confronto entre partidários do livre comércio e os do pacto da instalação da corte na América foi tão profundo - se bem com o
protecionismo agora nos termos da nova ordem, 76 revelando a urgência na sinal invertido - quanto aquele que afetava os recém-chega dos. Diante do
redefinição do papel do E stado no tocante à vida econôm ica, ou mais clara- sentimento de perda dos peninsulares, a nova situação despertou grandes e
positivas ex pectativas entre as elites das diversas partes do Brasil, o que se
73
É este o valor estimado do engenho constante do inventário dos bens de João de Saldanha da traduziu, de imediato, na adesão dessas, em sua maioria, às iniciativas que
Gama Melo Torres Guedes de B rito, o conde da Ponte, riquíssimo senhor de escravos e de terras conferiam visibilidade à liquidação d a condição colonial. Para muito além da
falecido em maio de 1809 ("Cópia do inventário do conde da Ponte", em Anais do Arquivo da
Bahia (Salvador: Imprensa Oficial do Estado, 1945), p. 41-75. Já João José Reis estima valor
cessão de moradias e outras facilitações para a instalação dos recém-cheg a
semelhante para a média do total de riqueza de um senhor de engenho de S alvador entre 1800 e dos (fenômeno fundamentalmente centrado no Rio de Janeiro), a adesão
1 8 5 0 : 82 contos e 980 mil-réis (A morte é uma festa. Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil entusiasmada à nova ordem deu-se por toda parte, caso da Bahia onde a
do século XIX (São Paulo: Cia. das Letras, 1991), p. 38.
74
A esse respeito ver Nícia V . Luz, A luta pela industrialização no Brasil (2 . ed. São Paulo: Alfa- ação do conde dos Arcos valeu-se desse estado de ânimo, do que resultou
Omega, 1975), p. 21. ter recebido o apoio às suas iniciativas adm inistrativas de pessoas com larga
75
Sobre José (São
escravista da Silva
Paulo:Lisboa, ver Antônio /Hucitec,
Dep. História-USP Penalves 1996). A economia
Rocha,Quanto política
à polêmica entrenaVeiga
sociedade
e José tradição de crítica ao absolutismo luso. Havia a percepção, entre as elites
da Silva Lisboa, esta insere-se numa mais am pla q u e , então, envolvia figura do porte de Hipólito locais, de que na nov a situação am pliar-se-ia a sua participação na gestão da
José da Costa, e foi analisada por Slemian, op. cit.; J. P. G. Pimenta, "A prática da contestação coisa pública com a maior proximidade do centro do poder, o que, no p lano
no Correio Braziliense"', e I. Jancsó, "A percepção da mudança", todos papers apresentados no
XIV Encontro Regional de História - Sujeito na história: práticas e representações, São Paulo, das identidades coletivas, traduziu-se no reforço de sua adesão aportugue
P U C , 1998. s a, engendrando um surto daquilo que François-Xavier G uerra designa, ana
76
Partindo das análises de Antônio Penalves Rocha, A economia política na sociedade escravista, lisando o processo então em curso n a Am érica espanhola, com o patriotismo
cit, da historiografia contemplando o significado de José da Silva Lisboa, não é descabida a
hipótese de que a devassa e documentação conexa informam sobre um momento do confronto imperial. 77 Essas expectativas, entretanto, esbarraram na alteração substan-
entre os interesses d a grande lavoura e o s da emergente burguesia manufatureira na A mérica, com
o que estamos diante do confronto de um "industrialista" típico da época, caso de Veiga, colidin
do com José da Silva Lisboa, o defensor do livre comércio à outrance. F. X. Guerra, op . cit.

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Is tv án Ja ncs ó e Jo ão Pa u lo G . Pim e nta Pe ça s de um m o s a ico (o u a p o n t a m e n t o s p a r a o e s t u d o d a e m e r g ê n c i a do ide ntida de na c io na l bra s ile ir a ) 155
ciai
5/10/2018 do tradicional equilíbrio entre as partes do continente do47910924
Bra sil, fenôm
MOTA variantes
eCarlosGuilherme anteriormente
OrgViagem apontadas tenham se mantido, seus significados tor
a-slidepdf.com
no carregado de grande potencial de c onflito. naram-se passíveis de alteração substantiva. A partir de então a anterior
O tradicional equilíbrio político entre as capitanias o u , mais exatamen identidade   \uso-americana   poderia tornar-se brasileira e como tal se
te , entre os grandes centros de convergência do espaço luso-americano, 78 autonomizar, somando-se ao elenco de identidades políticas que já então
cada qual ligado a Lisboa, onde se realizava a unidade do todo por eles coex istiam - a portugue sa e as outras ancoradas em trajetórias instauradas
formado, foi bruscamente substituído por outro que instaurava uma hierar pela colonização, cada qual expressando uma possibilidade de projeto de
82
que
quia
alteração espaços
entre que, sociais
subordinando anteriormente relacionavam-se
as outras regiões horizontalmente,
ao R io de Janeiro, tinha ime nação incompatível,
partir daí, no limite,tornava-se
a nação brasileira com aquelas que asseoutras
pensável encerravam.
referida ao Estado —A o
diato sentido prático.79 Re ino do Brasil - que definia seus contornos como uma comunidade politi
Em meio a esse jogo de "perde e ganha" envo lvendo regiões e setores camente im aginável, retornando novamente ao s termos d e Benedict A nderson.
das elites, a elevação do Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Tudo is so, entretanto, não se deu de modo linear e uniforme. A altera
A lgarve, a que "o vulgo con siderou de insignificante formalidade"80 , como ção na direção das tradicionais rotas de peregrinação no interior do império
lembrou mais tarde Silvestre Pinheiro Ferreira, inovou na definição dos português se fez sentir d e modo d esigual n a vida dos homens que dele faziam
referenciais políticos. A condição americana, que n o período anterior ex parte. Desd e o s primórdios da colonização, as práticas administrativas, os
pressava apenas u m predicado genérico que distinguia portugueses da Bahia fluxos de comunicação, as referências de vassalagem que informavam as
ou de S ão Paulo dos d e Portugal, encontrou no recém-criado R eino do Bra relações entre colônias e metrópole tinham em Lisboa o ponto natural de sua
sil a referência palpável da sua politização. O nov o reino transformara, ainda convergência. A inda que isso se desse mediante a trama de outras "redes"
81 que interligavam as regiões colon iais entre si, er a esse o m ovimento predomi
que
pela apenas no plano
subordinação ao poder de um mumesmo
simbólico, conglomerado de capitanias
príncipe numa entidade p atadas
olítica nante que organizava o conjunto e lhe conferia inteligibilidade. E ra po r dirigi
dotada de precisa territorialidade e de um centro de gravidade que, além de rem-se para a mesma metrópole que as múltiplas administrações africanas,
sê-lo do n ovo reino, era-o também de todo o império. Portanto, mesm o que asiáticas e americanas identificavam-se como partes de um m esmo conjunto.
no tocante à trajetória das identidades políticas no universo americano as Da mesma forma, todos os súditos do monarca português, onde quer que
residissem, prestavam lealdade a u m mesmo monarca, o que identificava-os
com o portugueses, ou seja, integrantes de uma mesma nação, palavra car
78
Esses centros de convergência poderiam articular mais de um a capitania dado seu peso mercantil, regada de significados esp ecíficos, conforme já se viu, quando integrada no
cultural ou político. As capitanias de S ergipe e Paraíba, por exemplo, eram de tal forma ligadas vocabulário político do Antigo R egime. N a nova situação criada com a ins
às da Bahia e Pernam buco, respectivamente, que estas - em especial suas capitais - constituíam-
se em centros de convergência para aquelas... Uma tentativa de síntese panorâmica desses talação da corte no R io de Janeiro esse quadro foi radicalmente subvertido,
processos no interior do império português a partir de outros referenciais teóricos (a relação não som ente porque o centro do poder tenha-se transferido para a Am érica,
centro-periferia) foi recentemente empreendida por Russel-W ood, "Centros e periferias no
mundo luso-brasileiro, e1500-1808",
político-administrativa o processo cit.; ver também Paulo
de regionalização Pedro Perides,
do território colonial "A organização
brasileiro", em
Revista do Departamento de G eografia (São Paulo: FFLCH-USP, 1995), vol. 9, p.77-91.
79 82
A resistência de províncias que relutavam em enviar ao novo centro recursos financeiros, em Trata-se da variante brasileira do processo que para a região platina foi descrito com profundida
especial os provenientes de tarifas de exportação, é apontada por W ilma Peres Costa, op . cit., p. de por T. Halperin-Donghi, op . cit., e por J. C. Ch iaramonte, "Formas de identidad política en ei
156. Rio de ia Plata luego de 1810", cit., e J. P. G. Pimenta, Estado e nação na crise dos impérios
80
Silvestre Pinheiro Ferreira, "Memórias e cartas biográphicas, carta XXII", em Annaes da ibéricos no Prata, 1808-1828, cit., numa perspectiva envolvendo América hispânica e portu
Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro (ABN) , 1877-1878, vol. 3, p. 184. guesa (estes dois mais diretamente centrados na compreensão da conformação das identidades
8
' Em termos práticos as implicações da mudança foram irrelevantes, a ponto de Oliveira Lima não políticas coletivas). Todos eles revelam que os processos em curso têm pontos em comum já que
dedicar uma única linha a questões dessa ordem no capítulo de seu D . João VI no Brasil (3 . ed. Rio a crise geral que afetava o s impérios ibéricos tinha a mesma m atriz. Mas revelam também, cada
de Janeiro: Topbooks, 1996), circunscrevendo a importância da elevação do Brasil à condição de qual à sua maneira, que os processos têm marcada especificidade derivada d as condições particu
Reino Unido ao universo da alta diplomacia. lares que eram diferentes nos dois casos.

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15 6 I s tv ó n J a n c s ó e J o ã o P a u l o G . P i m e n t o Pe ça s de u m m o s a ico (o u a po nta m e nto s pa ra o e s tu do da e m e r g ê n c i a d a ide ntida de na do na l bra s ile ira ) 1 5 7 79/193
mas porque o próprio conceito de metrópole foi esvaziado de qualquer sen maquinações de a
alguns indivíduos",86 expondo, portanto, problemas que di
5/10/2018 47910924MOTACarlosGuilherme OrgViagem -slidepdf.com
tido com o colapso do antigo sistema colonial. Os reinais de antes (com ziam respeito à nação. Essa visão d os acontecimentos estava em flagrante
toda a conotação hierárquica envolvida neste recurso classificatório qu e sé oposição com a interpretação oficial veiculada pela Gazeta do Rio de Ja
sabia repousar sobre formas de subordinação muito precisas) não eram mais neiro, segundo a qual o movim ento em curso era pontual desvio de norma,
metropolitanos, eram desde então apenas europeus, com o qu e se suprimia
apenas uma "m ancha" nas "páginas da História Portuguesa, tão distinta pelos
o con teúdo hierarquizante da diferenciação entre portugueses de um ou de
outro lado do A tlântico.83 testemunhos de amor, e respeito, que os vas salos desta nação consagram ao

Foi nessa direção que a alteração do estatuto do Brasil, agora reino seu S oberano",
parte de um
a maioridade "desacato
de seu à lealdade
s habitantes".87 Portuguesa" no qual "não teve
equiparado ao de Portugal, veio da r forma a uma nova diferenciação interna Mas a nitidez na apreensão do significado dos eventos revelada por
à identidade portuguesa, reduzindo a eficácia da velha fórmula usada pelo Hipólito José da C osta, em L ondres, era mais difícil de ser alcançada pelos
governador Caetano P into de M iranda M ontenegro ao tentar apaziguar os envolv idos pe la vertigem revolucionária desatada n o Nordeste brasileiro. P ara
ânimos exaltados no Recife pré-revolucionário em 1817. Conclamando "os estes, a ancestral identidade p ortuguesa tendia a colidir com a pernambucana,
nascidos em Portugal" e "os nascidos no Brasil" à harmonia com o argumen revelando o crescente desconforto de uma concomitância de cuja vigência
to de serem, os da cidade, "todos portugueses, todos vassalos do mesmo
demonstravam enorme dificuldade em se desvencilhar, no que nada há de
soberano, todos concidadãos do mesmo reino unido",84 o governador mos
surpreendente.
trava, ainda que repudiando-a, a existência de uma n ova linha de corte (a
Senão, vejamos. Numa proclamação de apoio ao Governo Patriótico
palavra-chave n este caso é "concidadão") em torno do qual se organizava a
polarização d a política local. que se assenhoreou do poder no Recife, o bispado local definiu o perfil dos

O antigo nexo estava em acelerado processo de erosão, e o movimen que


seuspoderiam reivindicar
olhos , estes legitimamente
eram as "fiéis condição de pernambucanos.
ovelhas Paernambucanas A os
do Governo E spiri
to revolucionário de Pernambuco de 1817, que instaurou por breve tempo tual deste Bispado", pertencentes "à espécie branca [que] é toda européia,
um governo republicano no Nordeste do Brasil, conferiu inquestionável visi ou descendente dos europeus", destacando em especial serem estes últimos
bilidade à instabilidade dos novos tem pos. 85 Isso foi de pronto reconhecido "brasileiros [qu e] têm mu ito amor, aferro e respeito aos seu s progenitores".88
pela argúcia do Correio Brazüiense, que apontou para o fato de ser "a A ênfase na circunscrição da linhagem legitimadora dos agentes da ruptura
comoç ão no Brasil [...] motivada por um descontentamento geral, e não por política, ancorada numa linha de continuidade radicalmente excludente e m
termos raciais (o que eqüivalia a dizer sociais), mostra qual era o cerne da
dificuldade. Sem dizê-lo, os prelados revelavam ser inerente ao abrir m ã o da
83
Convém lembrar que o acesso a títulos, dignidades e honrarias tornou-se amplamente acessível identidade portuguesa o grave risco da indiferenciação da elite branca com
ao s portugueses d o Brasil. Armitage nos informa que "achando-se as finanças em estado de apuro, os h omens negros e pardos que compunham a maior parcela dos habitantes
recorreu [D. João] a uma profusa distribuição de títulos honoríficos" de modo que "durante o
período da sua administração concedeu maior número de insígnias, do que haviam conjuntamente
concedido todos os Monarcas da casa de Bragança seus predecessores". Conclui o cronista que
do país,comandam
"pretos o que traziabrancos,
em si a etemida
brancosperspectiva
pretos",89 de umaveio
o que situação
depoisnaa ocor-
qual
com isso, "não podia deixar de ser grande o entusiasmo suscitado por esta distribuição de honras,
entre um povo que ainda reverenciava as suas antigas instituições" (João Armitage, História do
Brasil (São Paulo: Martins, 1972), p. 9). Por outro lado, o recurso cada vez mais freqüente ao
conceito de império no vocabulário político dessa época revela a necessidade de uma fórmula que 86
Correio Brazüiense, vol. XIX, n. 1 1 0 , jul. 1817; J. P. G. Pimenta, op. cit., pp.152 e ss.
expressasse a nova configuração do E stado bragantino cuja sede do poder deixava d e ser equiva 87
Gazeta do Rio de Janeiro, n. 39, de 14 maio 1817; J. P. G. Pimenta, op. cit. j
lente à condição d e metrópole, subordinadora de um vasto leque de colônias díspares na Am érica. 88
Documentos históricos (DH), Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional/Divisão de Obras Raras e
84
Cf. Francisco M. Tavares, História da revolução de Pernambuco de 1817 (Recife: Governo do Publicações, vol. 101, p. 9.
Estado, 1969), pp. 112 e ss. (a I a edição é de 1840). 89
Apud C. G. Mota, Nordeste 1817: estruturas e argumentos, cit., p. 148. Sobre a questão do
85
Ver C. G. Mota, Nordeste 1817: estruturas e argumentos (São Paulo: Perspectiva, 1972). escravismo, pp. 142-62.

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a Pe ça s de u m m o s a ico (o u a po nta m e nto s pa ra o e s tu do d a e m e rgência d a ide ntida de na cio na l b ra s ile ira ) 159 80/193
Is tv ó n Ja ncs ó e Jo ão Pa u lo G . P i m e n t a
rer.
5/10/2018 Era este o alcance da questão subjacente aos cuidadosos termos
47910924 MOTAda
dades políticas coletivas de tipo nacional a elas referidas. Pelo fato de o
CarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
proclamação quando insistia na imperativa necessidade da união d os bran movimento de 1817 ter sido contido nos limites de uma ação de recorte
c o s , e na urgência da superação da "fatal indisposição entre europeus e bra partidário e, co mo tal, aberto à adesão de todos que aceitassem, individual
sileiros",90 expondo um dos limites que tolhiam a clara identificação dos ou coletivamente, seu programa, viesse de onde viesse (em termos espa
atributos que deveriam abrir as portas da inclusão de seu portador na "co ciais) essa adesão, 93 a revolução não chegou a liberar as forças que poderi
munidade política imaginada", na nação (ainda que virtual no caso do 1817 am transformar a tendência centrífuga latente nas diversas partes do sistema
imperial na Am érica (neste caso, em P ernambuco e sua área de influência)
pernambucano),
tuguês, mas nos de agora
outranã omatriz
mais cuja
pensada nosestá
origem termos do Antigoburguesa.
na revolução R egime por
Eé em alternativa política de tipo nacional, alternativa sempre referida a u m ter
bom lembrar que essa dificuldade não pode ser debitada à prudência de ritório (real ou virtual) e a um conjunto de norm as, valores, instituições e
prelados, já q u e o discurso d o próprio governo revolucionário vinha pautado símbolos (de vigência efetiva o u virtual) que lhe confeririam visibilidade.
pelo m esmo diapasão. Apelando aos "habitantes de Pernambuco", para que É preciso ter em mente que nas primeiras décadas do século XIX o
se unissem à causa da "Pátria [que é] nossa mãe comum", os homens do conceito de nação, ainda que carregado de enorme fluidez, espalhava-se
governo dirigiram-se a eles com o argumento de serem todos "seus filhos rapidamente pelo universo atlântico, deslocando-se para o centro dos ideários
[...] descendentes dos valorosos lusos, pois portugueses, sois americanos, políticos. 94 Ainda que comportando grandes variações de conteúdo, essa
91
sois brasileiros, sois pernambucanos". idéia sempre contemplava duas variáveis definidoras da comunidade cuja
O confronto dos dizeres da Gazeta do R io de Janeiro com os termos natureza pretendia expressar: uma herança (memória e história) e um territó
dos proclamas do bispado e do governo revolucionário revela uma clara rio, ambos comuns aos m embros da nação. N o discurso da R evolução de
1817 constata-se uma enorme ambigüidade quanto a esses pontos. Os re
concordância quanto à natureza da trajetória coletiva comum
assumiam como sua, independentemente do partido que tenham tomado que ambos volucionários n ão recorrem à valorização de um passado que lhes é es pecí
durante os conflitos. Nos dois casos os protagonistas dos eventos de 1817 fico (e como tal distintivo de outros) ao justificar suas ações, o que torna
reconheciam-se como galhos de um mesmo tronco, não se diferenciando perfeitamente com preensível a ausência quase absoluta do termo nação do
quanto a isso a não ser na medida em que um galho diferia de outro. A seu vocabulário político. O s rebeldes, com o já ocorrera em 1798 na Bahia,
distinção deslocou-se para outro patamar, aquele da natureza dos pactos falam cm povo (fonte e sustentáculo do poder nos termos da nova ordem),
social e político que fundamentavam a unidade da nação portuguesa reco em pátria (nos termos que já se viu ser os dos deputados que escreveram o s
nhecida com o comum a todos. Enquanto os revolucionários eram m ovidos manifestos de Falmouth), tudo isso fundindo-se em patriota, fórmula que
pela perspectiva de nova ordem social e política que emergiria (pela via da expressava a "perfeita igualdade de cada [um] a respeito dos outros", 95 e
revolução) da vontade popular, os defensores do status quo mobilizaram-se que acabou tornando-se, para o bem e para o mal, a marca distintiva de seu
em d efesa dos pactos que se m aterializavam na monarquia absoluta. discurso. Por outro lado, o recurso à idéia de nação reforça-se co mo parte

O s três
soberania pelomese s deemvida
P ovo, da ela
quem República Pernambucana
só reside"- 92 - "revestida
foram curtos para quedao
Estado emergente da revolução assumisse uma conformação estável e dota 93
Os revolucionários aceitavam a adesão tanto de indivíduos quanto de organizações coletivas
da do necessário conjunto de referências que pudessem autonomizar identi- (corporações militares, ordens religiosas, câmaras municipais), fossem da Capitania d e Pernambuco,
fossem de outras capitanias do Nordeste. Com isso, a abrangência espacial do movimento chegou
a atingir praticamente toda a região desde a Bahia até o Ceará. Cf. C. G. Mota, Nordeste 1817:
estruturas e argumentos, cit.
94
90
Documentos históricos, vol. Cl, p. 9. Jacques Godechot, La Grande Nation. Vexpansion révolutionnaire de Ia France dons le monde
9l
Ibid.,p. 15 de 1 7 8 9 a 1799 (2 . ed. Paris: A ubier, 1983); Pierre Vilar, op. cit.; e F. X. Guerra, Modernidade
92
"Decreto do Governo Provisório da República de Pernambuco regulamentando a Constituição", independências. Ensayos sobre Ias revoluciones hispânicas (México: FCE, 1993).
95
em Documentos históricos, vol. CIV, p. 16. Documenos históricos, vol. Cl, p. 34.

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 81/193
16 0 I s tv ó n J a n c só e J o ã o P a u l o 6 . P i m e n t a P e ç a s d e u m m o s a i co ( o u a p o n t a m e n t o s p a r a o e s t u d o d a e m e r g ê n d a d a i d e n t i d a d e n a d o n a l b r a s i l e ir a ) 161
5/10/2018orgânica da fala do poder, sempre carregada de referências ao passado,
47910924 meioOrg
MOTACarlosGuilherme ao torvelinho
Viagema- que este se deu conta de que a diversidade constitutiva do
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com seu uso revelando, entrementes, que este poder vacilava diante das império, e deste na A mérica, até então um dos fundamentos de seu poder,
imposições do novo tempo. tornara-se, com a vitória dos liberais no reino europeu, condição da sua
E sses com ponentes da cultura política que se adensava no continente impotência. D e fato, na nova situação advinda, as Cortes Constituintes em
americano -pátria (fosse ela Pernambuco, Paraíba ou qualquer outra), povo Lisboa assumiram o papel de centro de poder e de articulação política do
(como fonte e agente do pacto político) e, finalmente, nação (entendida como império, e foram assim reconhecidas.
depositária de umadiferentes
tando alternativas herança comum a ser preservada)
para o Antigo -, ainda na
R egime português queAmérica,
alimen O q ue ocorreu na Bah ia é exemplar quanto a esse ponto, não somente
porque, pouco antes (em 1817), esta província desempenhara importante
radicalmente contrapostas em 1817, nã o eram, entretanto, antagônicos nem papel estratégico n a liquidação do movimento revolucionário pernambucano,
excludentes, ainda que a sua síntese não se tivesse completado no 1817 mas porque, no seu caso, tratava-se, juntamente com o conjunto articulado
nordestino. Pelo contrário, esses conceitos já despontavam como portado em torno da corte (Rio de Janeiro, São Paulo e M inas G erais), da mais rica
res parciais, cada qual à sua maneira, dos elementos constitutivos de uma das partes do Reino do Brasil.
terceira alternativa para o enfrentamento de uma crise cuja superação cres Assim que chegou a notícia da nova ordem instaurada em Lisboa, a
cia em urgência. adesão da Bahia à revolução liberal foi, ainda que carregada de tensões,
É sabido que foi na porção européia do império que irromperam em quase imediata e, vista a distância, aparentemente consensual,97 o que resul
revolução as tensões geradas pelas contradições acumuladas em seu interior, tou em fundados temores dos ministros, vacilantes quanto aos rumos a seguir
desencadeando uma sucessão de eventos que destroçaram seu formato diante dos a contecimentos. Silvestre P inheiro Ferreira, que desde antes já
longamente maturado.
damente espalhada peloAimpério,
revolução
temliberal de 1820,
m erecido iniciada
renovado no P orto
interesse dos ehisto
rapi vira com grande preocupação o potencial disruptivo da diversidade englo
bada no novo Reino Unido, chegou a vaticinar que "decidiu-se a sorte do
riadore s; interesse traduzido em estudos pontuais contemplando a diversidade Brasil: quebrou-se o nexo que unia suas províncias ao centro comum: e com
de seus desdobramentos nos dois hemisférios e revelando o turbilhão de a dissolução do Brasil se consumou a dissolução d a M onarquia [...]. A B ahia
forças centrífugas que então foi ativado no espaço a mericano.96 acaba de desligar-se da obediência de Sua Magestade com o pretexto de
Os contemporâneos reconheceram imediatamente a intensidade das aderir ao sistema das Cortes de Lisboa", com o que, acrescentou o ministro
mudanças em curso e, quanto ao núcleo central do poder imperial, foi em de d. João VI, "provavelmente a esta hora tem feito outro tanto Pará,
M aranhão e Pernambuco", send o de esperar que "as outras províncias se-
gui-las-hão de perto".98
96
Para seu impacto na Província do Rio de Janeiro, Cecília Helena de S. Oliveira, op . cit., e Lúcia
Maria B. P ereira das N eves, Corcundas, constitucionais e pés de chumbo: a cultura política da
independência,
questão é trabalhada por Luís(São
1820-1822 Paulo:Dias
H enrique FFLCH-USP,
Tavares, A 1992), teses de doutorado.
independência d o Brasil n Para a Bahia,
a Bahia (2 . ed.a
97
A fragilidade desse consenso é expressa na R esolução do conselho militar de 10 fev. 1821: "os
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982), e por Thomas W isiak, Tendências políticas na comandantes e oficiais das tropas de linha da guarnição da cidade da Bahia em presença do
Bahia na crise do Império português (inédito); para o caso de Pernambuco, Marcus J. M. de governador e capitão-geral conde de Palma, quiseram de comum acordo impedir efusão de
Carvalho, "Cavalcantis e Cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817- sangue, que infelizmente podia resultar em motins, originados do receio do povo de que sejam
1824", em Revista Brasileira de História, vol. 18, n. 36, 1998, pp. 331-65, além dos trabalhos frustrados os desejos que tem manifestado de aderir aos votos de seus irmãos de Portugal, a quem
de Dênis de Antônio de Mendonça Bernardes, como por exemplo, "O processo de independên desejam estar perpetuamente unidos, e participar com eles dos benefícios da constituição liberal
cia, a formação do Estado nacional e a questão regional no Brasil - o caso do Nordeste (1808- que ora se faz em L isboa, resolveram o seguinte (...) Que o dia de hoje seja de reconciliação geral
1824), trabalho apresentado no VII Congresso da AHILA, Florença, 1985; para o Pará, Geraldo entre os habitantes desta província, que por qualquer diferença de opinião política estejam
Mártires Coelho, Anarquistas, demagogos e dissidentes. A imprensa liberal no Pará de 1822 discordes até agora" (apud Affonso Ruy, História política e administrativa da cidade do Salva
(Belém: Cejup, 1993); para São Paulo, Carlos H. Oberacker Jr., O m ovimento autonomista no do r (Salvador. Tip. Beneditina, 1949), p. 371).
98
Brasil. A província de São Paulo de 1819 a 1823 (Lisboa: Cosmos, 1977). Anais da Biblioteca Nacional (ABN), vol. 3, 1877-1878, carta IV, p. 260.

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162 Is tv án Ja ncs ó e Jo ão Pa u lo G. P i m e n t a Pe ça s de u m m o s a ico (o u a po nta m e nto s pa ra o e s tu do da e m e rgência da ide ntida de no do na l bra s ile ira ) 163
5/10/2018 Os fatos confirmaram esses temores. As diversas províncias
47910924 do MOTA
reinoCarlosGuilherme
ra m Org Viagem
as elites a-slidepdf.com
da Bahia para conformarem a nova ordem, disputando no plano
americano tornaram-se cenários de intensa atividade política abertamente mental a hegem onia com as outras que remontavam a diversa tradição: a do
contraposta às regras até então vigentes, com grupos, partidos, classes, or reformismo ilustrado.
dens, corporações e personalidades (com suas clientelas), antes contidos na N ão se pode perder de vista, sob risco de passar ao largo das propor
esfera d a política local, disputando pos ições que lhes permitissem influir no ções dessa dimensão da conflagração política em curso tendo por cenário
desenho da nova ordem que viria a emergir com a re-fundação, exaltada principal (mas não exc lusivo) o universo das classes dominantes, que essas
como regeneração, do Estado português 99com o qual se identificavam com elites baianas viam-se diante de uma situação totalmente nova, com o espaço
renovado entusiasmo na nova conjuntura. E sse processo, que vinha carre da coisa pública alargada em tal escala e profundidade, que o temor da
gado de a ntagonismos de vários tipos, traduziu-se em acentuada aceleração perda do controle do processo político e da conseqüente desordem social
dos ritmos da vida política, aceleração magnificada com a decretação da levou-as a lançar mão do s mecanism os políticos que lhes eram familiares, e
liberdade de imprensa pelas cortes. 100 Essa medida, pela acolhida que teve, em cuja eficácia confiavam . A constituição da primeira Junta de G overno,
pulverizou o contorno até então imposto à sociedade política, alargando-a formalizando a ad esão da Ba hia à nova ordem liberal, refletiu es se reflexo
tanto no tocante aos interesses objetivos que em seu interior se confronta conservador, com cada um do s grupos funcionais (cuja natureza era corpo
vam, quanto ao que se refere às culturas políticas e forma ções de tipo parti rativa) detentores de reconhecido p oder indicando seu representante.102 Essa
dário que os expressavam . opção por um critério arcaizante para a sua composição obstava que os
A complexidade do quadro político baiano emergente da adesão da recortes políticos de tipo partidário viessem a servir de base para a
província às Cortes Co nstituintes revela que um quarto de século de expe representatividade da Junta. E com essa opção uma longa tradição oposi
riência política acumulada n o enfrentamento d a crise do An tigo Regim e por cionista, de cujos portadores o traço comu m er a bem mais político-ideológi-
tuguês, até então represada, estava profundamente enraizada na m ente dos co do que sociológico (fato novo emergindo naqueles momentos de
homens qu e aí viviam. E ssa experiência, eventualmente de conteúdo revolu desmantelamento da velha ordem), viu-se afastada dos centros de decisão,
cionário,101 e que foi até então contida fora dos limites do espaço público o que prov ocou reações v iolentas. Passando ao largo de matizes importan
quando derivava de práticas contrapostas ao absolutismo, pa ssou a consti tes em se tratando de um quadro de extrema fluidez po lítica, e ignorando a
tuir-se, p or obra da revolução liberal, num d os instrumentais ao qual recorre- rapidez com q ue alianças eram feitas e desfeitas no acelerado aprendizado
do fazer política num contexto no qual as velhas normas haviam perdido
99
Caio Prado Jr. já notava que nas províncias do Nordeste a revolução teve um impacto diverso vigência e as novas ainda não haviam sido estabelecidas, pode-se apontar
com relação às do Centro-Sul, a começar devido às diferentes formas com que essas regiões para a emergência de três vertentes básicas quanto à futura forma de org ani
perceberam a presença da corte no Brasil desde 1808 ("O tamoio e a política dos Andradas na zação do Estado no âmbito da província.
independência do Brasil", em Evolução política do Brasil e outros estudos (10. ed. São Paulo:
Brasiliense, 1977), p. 180). Tratando-se do caso da Bahia, Luís H. D. Tavares lembrou das
cartas do então
referências governador
a grupos das armasindependentistas
constitucionais, coronel Luís Inácio Madeira de Melo,
e independentistas em que se fazem
republicanos dispu O procedimento para a constituição da Junta Provisional seguiu o modelo já antes adotado na
tando o controle da província ( o p . cit., p. 27). Outra testemunha da época, Francisco de S ierra América espanhola no período que se abriu em 1810, de aclamação por cabildo abierto.
y Mariscai, identificou três "partidos": "Europeu", "Democrata" e "Aristocrata", cada qual Proclamando lealdade ao soberano e dizendo agir em seu nome para evitar "o derramamento de
apontando para diferentes projetos de organização política q u e iam desde a subordinação incon sangue de seus fiéis vassalos", foram propostos, pelo clero, o deão José Fernandes da Silva
dicional ao governo português até a ruptura com plena autonomia provincial ("Idéias gerais Freire; pela milícia, os tenentes-coronéis Francisco de Paula O liveira e Francisco José Pereira;
sobre a revolução no Brasil", cmABN, vol. 43, 1920, parte 1, cap. 6). pelo comércio, Francisco A ntônio Filgueiras e José Antônio R odrigues Viana; pela agricultura,
100
Decreto de 4 jul. 1821. Para uma análise de seus desdobramentos em Portugal, ver José Paulo José de M elo de Azevedo e Brito; e pela cidade, o desembargador Luís Manuel de Moura
Tengarrínha, Da liberdade mitificada à liberdade subvertida. Uma exploração no interior da Cabral. Para secretários foram aclamados o desembargador José Caetano de Paiva e o bacharel
repressão à imprensa periódica de 1820 a 1828 (Lisboa: Colibri, 1993), pp. 40-52. José Lino dos Santos Coutinho, assim como o foi o tenente-coronel Manuel Pedro de Freitas
101
Ver I. Jancsó, Na Bahia, contra o império, cit., especialmente cap. V, "Teoria e prática da Guimarães para o Governo de Armas. Ata da Câmara Municipal de Salvador de 10 fev. 1821,
contestação na colônia". apud Inácio A. de C. e Silva, op. cit., p. 272.

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164 I stv ón Janc só e Joã o Paulo G. Pimenta P e ç a s d e u m m o s a i c o ( o u a p o n t a m e n t o s p a r a o estudo da emergê nc ia da identidade nac ional brasileira) 165
5/10/2018 A primeira delas, herdeira da tradição republicana q ue 47910924
emergiu em 1798
MOTA numOrg
CarlosGuilherme cenário formado
Viagem por efêmeros clubs, boticas, residências particulares,
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e permeou a solidariedade de baianos aos presos políticos que, após a der r lojas maçônicas, adros de igrejas, praças e ruas, onde se urdiam alianças
rota da revolução pernambucana, aí amargavam o cativeiro,103 orientava-se esboçando convergências de maior abrangência política tendo em vista as
pela ruptura total com Portugal, independentemente da ordem política ali eleições que vieram a polarizar o debate político e, a seguir, para fazer face à
prevalecente, se absolutista ou constitucional.104 A segunda vertente, desdo radicalização política em contexto de confrontação armada quando da guer
brada em variantes marcadas por referenciais ideológicos conflitantes, via na ra da independência na Bahia.

adesão ao sistema constitucional o caminho para a afirmação da autonom ia Esse quadro movediço gerou um vocabulário político com ingredientes
da província, corpo político dotado de feição própria a ser integrado no nov os, refletindo a terminologia em vog a entre os liberais europeus, para os
império português em igualdade de condições como todas as suas outras quais não havia contradição entre nação, povo e pátria. Para os vintistas
partes, fossem européias ou americanas.105 A terceira vertente, enfim, via na portugueses, a sua revolução , ao derrotar o despo tismo, abria as portas para
restauração d a combalida unidade do imp ério, agora pela via constitucional, o reencontro da nação consigo m esma, e o debate político na América fazia
o caminho para o enfrentamento das dificuldades geradas pela crescente eco às suas palavras. Mas neste hemisfério os significados eram nuança-
preponderância estrangeira, am eaçando tanto interesses mercantis ancora damente diferentes, assim como o era a natureza do reencontro de seus pre
dos na velha ordem, assim como fazê-lo quanto às condições de reiteração sumidos herdeiros com o passado.
ampliada da ordem social escravista que esta havia engendrado e dá qual se Com tudo isso, na Bahia a diversidade política, entretanto, subsistia,
alimentava. 106 Tudo isso, já se vê, vinha explodindo em iniciativas isoladas, alimentando o antagonismo entre trajetórias coletivas contrapostas - e das
identidades políticas coletivas que as sintetizavam - , cada qual encerrando

Sabe-se que esses presos receberam liberdade no dia da adesão da Bahia à revolução portuguesa projetos de na
perceptível Estado
a ção edos
de independentistas,
nação que se contrapunham umas alijou-os
cuja precipitação a outras. daIsso é
luta
e que entre eles encontrava-se o paulista Antônio Carlos de Andrada. Este recebia visitas e até política efetiva, m as o é também em m eio à adesão ao vintismo e à identida
mudas de roupa de João Ladislau de Figueiredo e Melo, um dos responsáveis pelo início do
levante baiano e colega de Cipriano Barata, que também prestava solidariedade aos presos e de nacional portuguesa que este representava, na fala dos que estavam em 
comandava reuniões que precederam o dia 10 de fevereiro de 1821 (Evaristo Ladislau e Silva, penhados em da r forma ao projeto constitucional.
Recordações biográficas do coronel João Ladislau de Figueiredo e Mello (Salvador: Tip.
Cam illo de Lellis Masson & C , 1866), especialmente p. 13 ; e Inácio A. de C. e Silva, op . cit., É isso que está presente nas manifestações dos deputados que a pro
p . 267). víncia elegeu para representá-la nas Cortes Constituintes de Lisboa. 107 A
Não são poucas as referências acerca das intenções do marechal Felisberto Gomes Caldeira bancada eleita contava com personalidades de considerável peso intelectual
Brant e seu subordinado major Hermógenes de A guilar Pantoja na resistência à adesão da Bahia
à revolução do Porto. Para Pereira Rebouças, testemunha do movimento, este último era e era portadora de múltiplas referências políticas. Dela faziam parte repre
"homem aferradamente inimigo de Portugal e de Portugueses" ("Recordações patrióticas. sentantes da melhor tradição agrária baiana com experiência nas coisas do
1821-22", em Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, n. 48, 1923, p. 456). Para Estado na esfera local, caso de Ferrão Castelo Branco e Pedro Rodrigues
o periódico baiano Idade d'Ouro do Brasil, o marechal Brant "deu repetidas mos tras de que não
queria comunicação com Portugal" (n. 17, 19 fev. 1821).
Expressavam essa tendência, entre outros, indivíduos também oriundos daquela tradição emer
gente em 1798, mas que naqueles anos de 1820 inclinavam-se a apoiar uma proposta monar-
quista constitucional. É o caso do s já referidos Cipriano Barata e João Ladislau e Melo, ambos Seguindo-se as instruções do decreto de 18 abr. 1 8 2 1 , as eleições provinciais no Brasil ocorre
afastados da organização do governo provisional. Dada a sua trajetória radical, Barata chegou a ram ao longo d o segundo semestre daquele a n o . Os deputados (na proporção de um para cada 30
ser identificado, ainda em 1 8 2 1 , como um sans-culotte por Francisco de Sierra y Mariscai (op. mil moradores) eram escolhidos por via indireta: compromissários escolhidos em suas fregue
cit.) e Ladislau, em carta de 17 jan. 1 82 2 , defendia-se d os rótulos de "francês" e "pedreiro livre" sias indicavam o s eleitores paroquiais que elegeriam os eleitores de ato, ou seja, aqueles a quem
que se lhe atribuíram nas cortes de Lisboa (João Ladislau de Figueiredo e Melo, Carta ao caberia a escolha dos deputados representantes da província. Mesmo assim, tratou-se de uma
ilustríssimo e excelentíssimo S r. Vicente Antônio da Silva Corrêa [assinada na Bahia, em 17 jan. experiência ímpar na América portuguesa, na medida em que foi o seu primeiro processo
1822] (Salvador: Tip. da Viúva Serva e Carvalho, 1822). eleitoral supra-municipal (Thomas W isiak, A nação partida ao meio: tendências políticas na
Condições tanto m ais ameaçadas na medida em que crescia a pressão inglesa contra a manuten Bahia na crise do Império português, inédito; Márcia R. Berbel, A nação como artefato:
ção do tráfico. L. F. de Alencastro, op. cit., cap. VIII. deputados do Brasil nas Cortes portuguesas, 1821-1822, cit.).

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166 Is tv ó n Ja ncs ó e Jo ão Po u lo 6 . Pim e n ta Pe ça s de u m m o s a ico (o u a po nta m e nto s pa ra o e s tu do da e m e rgência da ide ntida de na cio na l bra s ile ira ) 167
5/10/2018 Bandeira; liberais de feição cosmopolita com profundo conhecimento
47910924 MOTACarlos do [que]
Guilherme OrgsãoViagem
outros tantos reinos que não têm ligação uns c om o s outros, não
a-slidepdf.com
cenário político europeu, como Domingos Borges de Barros; depositários conhe cem n ecessidades gerais, cada uma [governando-se] por leis particu
da tradição revolucionária antiabsolutista que remonta a 1798 e reafirmada lares de m unicipalidade".112
em 1817, casos de Agostinho Gomes e Cipriano Barata. Ao lado destes Es ses deputados, e os mais que representavam províncias americanas,
estavam Luís Paulino de O liveira Pinto da França, militar devotad o à casa de eram em geral designados com o brasileiros em Lisboa, fosse pela imprensa
Bragança com destacado papel na vitória das forças legalistas sobre os re local ou por seus pares europeus nas cortes, e assim se reconheciam, mas
volucionários pernambucanos
membro proeminente de 1817,
do clero local, o padre
e José Lino CMarcos
outinho,Antônio de Sousa,
jovem político de essa identidade atribuída e assumida não os vinculava ao R eino do B rasil,
indicando tão-somente terem sido eleitos no além-mar. Mais do que tudo,
discurso radicalizante, cujo prestígio já se notou com sua indicação para eles sabiam-se representantes de suas províncias de origem, suas pátrias
secretário da Junta Provisional de G overno que deu uma primeira forma à conforme já se mostrou anteriormente. Mas sua percepção quanto a esse
nova ordem política em fevereiro de 1821.108 Tinham em comum sólida for ponto sofreu m utações com o correr do tempo. C onforme os trabalhos das
mação intelectual, o fato de serem naturais da província e de contarem com cortes confrontassem em termos práticos as especiflcidades americana e
a confiança de segm entos importantes do eleitorado. européia n a busca de claras definições constitucionais (com a evidente refe
Refletindo o sentimento dos que os elegeram, sabiam ter por tarefa rência aos concomitantes sucessos políticos no além-mar), o localismo de
"fazer uma Con stituição para a nação portuguesa, esta que se acha espalha origem cedia lugar à ampliação de horizontes, o que tendeu a conferir maior
d a mais que outra alguma em todo o universo",109 levando às cortes a vonta concreção à idéia de Brasil. Os deputados baianos (e não somente estes)
de dos po vos de um a das partes de um Brasil entendido, nos termos de Lu ís deram-se conta de que os ob jetivos que tinham por seus impunham o esta
110
Paulino, como "verdadeiramente uma continuação de Portugal". belecimen to de alianças com representantes de outras províncias am erica
M as o que era isso de Brasil para esses homens? A leitura de suas falas n a s , mais próximos de si que os europeus.
durante os trabalhos d a Con stituinte permite afirmar q u e viam no Brasil uma Isso se deu por etapas. Quando de sua chegada a Lisboa, os baianos
construção política recente, um a criação q u e , nas palavras de Lino Coutinho, anteviam na reorganização do Estado português um a oportunidade para a
"liberalmente foi concebido pelo imortal D. João VI",111 sem tradição parti liquidação da supremacia política do S udeste no espaço político americano,
cularmente valorizada a diferenciá-la n o interior do E stado português. T rata entendendo por isso "nivelar a antiga Corte do R io de Janeiro com todas as
va-se de uma entidade po lítica emergente que ainda não era depositária de mais províncias do Brasil",113 revelando o desconforto de uma elite ciosa de
adesão emocional, de algum tipo de patriotismo a ele referido. Na verdade, sua riqueza e poder diante de uma subordinação que jamais foi aceita de
o Brasil era tido por um conjunto disperso, um agregado de "Províncias bom grado desde a transferência da sede dos vice-reis em 1763. As cres
centes dificuldades na harmonização dos interesses representados pelas de
108
Para elementos biográficos dos representantes baianos, ver Thomas W isiak, op . cit.; I. Jancsó, legações européias e americanas, entretanto, tenderam a deslocar o eixo dos
Na Bahia, contra o Império, cit.; Caio Prado Jr., Evolução política do Brasil e outros estudos,
cit. Sobre Agostinho Gomes, ver Luís Henrique D. Tavares, História da sedição intentada na
posicionamentos da bancada, sem suprimir a s diferenças políticas entre seus
membros, d a perspec tiva provincial para outro patamar: o br asileiro.
Bahia em 1798 . A "conspiração dos alfaiates" (São Paulo: Pioneira, 1975); sobre Cipriano
Barata, Luís Henrique D . Tavares, Cipriano Barata de Almeida, em Revista do Instituto Históri Esse deslocamento acelerou-se com a chegada da bancada de São
co e Geográfico Brasileiro, vol. 347, Rio de Janeiro, 1985; e Marco Morei, Cipriano Barata. Paulo. O s paulistas vinham m unidos de uma proposta política cujos termos
O panfletário da independência (São Paulo: Brasiliense, 1986); sobre Luís Paulino da França,
ver Antônio d'01iveira P. da França, Cartas baianas, 1821-1824. Subsídios para o estudo dos
contemplavam o geral desejo de união d a nação portuguesa (sentimento par
problemas da opção na independência brasileira (São Paulo/Rio de Janeiro: Nacional/Ed.da tilhado por todos), subordinando entretanto essa união ao respeito à
Uerj, 1980).
109
Palavras de Domingos Borges de Barros na sessão de 25 jul. 1822; cf. T. W isiak, op. cit. 1, 2
1, 0
Em sessão de 1 « jul. 1822; cf. T. W isiak, op. cit. Palavras de Lino Coutinho na sessão de 6 mar. 1822, cf. Berbel, op. cit., p. 131.
113
1 u
Em sessão de 3 j u l . 1822. Palavras de Lino Coutinho na sessão de 29 dez. 1821.

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Peças d e u m mo s a ic o (o u a p o n ta me n to s p a ra o estudo d a em ergência da identidade nacional brasileira) 169 85/193
168 Is tván J a n c s ó e J o õo P a u lo G. P ime n ta
especificidade das condições reais de existência das elites americanas. O escravismo não chegou a tornar-se objeto de deliberação substanti
5/10/2018 47910924 MOTAACarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
leitura das "Lembranças e apontamentos do Governo Provisório para os va das cortes, mas o documento dos paulistas deslocou-o para a centro da
114
senhores deputados da Província de São Paulo" revela com perfeita niti proposta de organização do Estado português que traziam, já que funda
dez que seu s autores reconheciam no escravismo o núcleo forte das diferen mentava o p rincípio da diversidade que este Estado deveria abrigar. Não se
ças entre americanos e peninsulares, e tinham nesta a questão em relação à tratava, segun do os autores do d ocumento, de buscar a reorganização polí
tica de partes iguais (as várias províncias representadas), mas sim de buscar
qual não havia o que transigir em Lisboa. De fato, caberia aos deputados
paulistas 115
evitar que "a diversidade de costumes [...] e das circunstâncias es a unidade entre
estabeleciam duas formações
o poderoso nexo quesociais distintas
conferia na sua
unidade base, com
ao Reino o que
do Brasil,
tatísticas" fosse ignorada quando das definições constitucionais respeitantes
diferenciando-o nos seus fundamentos sociais se confrontado com o Reino
à igualdade dos direitos civis e políticos; eufemismo desfeito com meridiana
precisão com a afirmação d e que esta "diversidade de circunstâncias" advinha de P ortugal.
de ser "composta [a população] no Brasil de classes de diversas cores, e Não estava, entretanto, no simples trato do escravismo a inovação que
pessoas umas livres e outras escravas".116 Que essa circunstância colidisse veio de São P aulo. Também na Bahia, como de resto por toda a Am érica, o
debate político e ra inevitavelmente permeado p o r esta variável fundamental da
com os princípios em nome dos quais a regenedora revolução da nação
portuguesa se fazia, aflorou pela via da crítica retórica aos excessos das realidade, tanto n o q u e significava e m si mesma (relações escravistas), quanto
práticas escravistas, sem tornar-se impedimento para a reivindicação de pa no que remetia para a dela derivada diversidade racial da população. Antes
mesm o da adesão d a província à nova ordem, em fins de 1820 o comandante
ridade nos órgãos decisórios que regeriam os destinos da nação,117 em evi
d a guarnição d a capitania, marechal Felisberto C aldeira Brant Pontes, temen
dente contradição com o princípio de cidadania em nome do qual as cortes
da
agiam. O argumento esgrimido para sustentar a legitimidade da reivindicação do as indecisões
ativas corte do R mudanças
n o rumo de necessárias io de Janeiro,
poissugeriu que favor
"qualquer aí se tomassem
concedidoinici
antes
era familiar a todos: o risco da ruptura da ordem social. De fato, a Junta de da revolução será recebido com entusiasmo, e todos os bons se deitarão nos
São Paulo eliminava qualquer hipótese de alteração no status quo escravista braços de Sua M ajestade, mas depois d a revolução tudo parece necessidade,
ao localizar n a eventualidade de uma precipitada extensão de atributos civis e sabe Deus que caráter desenvolverá ela em um país de tantos negros e
aos "m iseráveis escravos" a perspectiva de virem estes a reclamar "direitos mulatos!". 119 Com o avançar dos acontecimentos, em março de 1821 a Junta
com tumultos e insurreições, que podem trazer cenas de sangue e de horro de Governo qualificou " a escravidão doméstica d o s naturais d a África" como
res".118 "cancro",120 e o Idade d'Ouro do Brasil sinalizava nela reconhecer previsível
fator de discórdia ou, no limite, de ameaça à boa ordem, argüindo professa
rem alguns n a província a idéia d e que "a raça africana torna perigosa a Cons
1 4 tituição", ainda que relativizando a importância política do problema ao
' V er Edgard de Cerqueira Falcão (org.), Obras científicas, políticas e sociais d e José Bonifácio de
Andrada e Silva (Santos, 1963), vol. II, pp. 93-102. remetê-lo à pauta d a s definições normativas, o que certamente se faria já que,
1. 5 Ibid., p. 96
1. 6
perguntou-se o articulista, "os Deputados das Cortes são porventura nécios
1. 7
Ibid., p. 98 para n ã o terem em vista providên cias que tal artigo exige?". 121
Estimativas demográficas para o ano de 1819 apontam que não obstante a população total do
Brasil (em torno de 3.596.132, excetuando-se índios) ser superior à de Portugal (em torno de
3.026.450 para o ano de 1 8 2 1 , excetuando-se as ilhas atlânticas), aquele possuía a alta porcen 1
" Carta de Felisberto Caldeira Brant ao conde de Palmela (2 1 dez. 1820), apud Hendrik Kraay, A
tagem de 3 0 % (ou seja, 1.107.389) de escravos. Os dados para o Brasil são fornecidos por Maria política rac ial nas forças armadas, 1823-1838, comunicação apresentada no IV Congresso de
Luiza Marcílio, "A população do Brasil colonial", em Leslie Bethell (org.), História d a Améri
ca Latina, "América Latina colonial" (São Paulo/Brasília: Edusp/Funag, 1999), vol. II, p. 338; 120
História da Bahia, Salvador, 27 set. a 1° out. 1999.
O termo encontra-se na "Reclamação da Junta da Bahia aos Habitantes da Província", em
os de Portugal por Rui Cascão, "Demografia e sociedade", em José Mattoso (dir.), História de
Portugal, "O liberalismo, 1807-1890", (Lisboa: Estampa, s.d.), vol. V, p. 425. 12
Inácio A . de C. e Silva, op. cit., pp. 284-5.
118 > Número 4 7 de 2 3 m a r . 1 8 2 1 . Para melhor visão dessa questão, v e r , d e João José Reis, "O jogo duro
Cf. Edgard de Cerqueira Falcão (org.), o p . cit., p. 98 A esse respeito é útil a leitura de Antônio do Dois de Julho: o 'Partido N egro' na independência da Bahia", em J. J. Reis e Eduardo Silva
P. Rocha, op. cit.

170
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Is tv ó n Jancs ó e Jo ão Pa u lo 6 . P im e nta Pe ça s de u m m o s a ico (o u a po nta m e n to s pa ra o e s tu do da e m e rgência da ide ntida de na do n a l bra s ile ira) 171 86/193
A novidade que veio n a bagagem da bancada paulista foi a clara expo 
5/10/2018 festoOrg neste Congresso, e vem a ser, que sempre tive horror à escravidão,
sição de que a forma de organização do Estado português47910924 MOTACarlosGuilherme
deveria subordi Viagem a-slidepdf.com
apesar de ser Brasileiro". 124
nar-se diretamente às condições de reiteração do sistema escravista na
América o u , mais claramente, que a forma d e organização d o Estado deveria Os b aianos tinham atada à sua imagem a condição escravocrata, e sa
refletir, na prática, as exigências dessa reiteração. A percepção dessa di biam perfeitamente disso. 12 5 Mas na construção de sua auto-imagem (de
mensão do problema alterou a prioridade que a bancada baiana atribuía às liberais) isso era subsumido como conseqü ência d e "circunstância" derivada
relações de sua província com o centro articulador do espaço p olítico brasi
leiro (o Rio de Janeiro), e cuja supremacia, quando de sua chegada a Lisboa, 124
Sessão de 17 abr. 1822.
desejara suprimir. Coube ao próprio Lino Coutinho, que em dezembro do 125
Sabiam-no perfeitamente porque assim eram vistos, como de resto todos os portugueses da
ano anterior forcejava pela supressão da função centralizadora da sede da América e, numa escala mais ampla, os portugueses em geral, por aqueles que, portadores de
corte, proclamar, sete meses mais tarde, que " o Brasil é um reino bem com o outra identidade de tipo nacional, construíam-na pelo reflexo diferenciado da que tinham por
sua naquela que atribuíam aos portugueses. A análise do periodismo da região da Banda Oriental
Portugal; ele é indivisível, e desgraçados daqueles que tentarem contra a sua do Uruguai, à época integrada como Província Cisplatina ao Reino do Brasil, é poderosamente
categoria e grandeza, desmembrando suas províncias para [aniquilá-lo]", 122 ilustrativa desse jogo de espelhos; cf. o Pacífico Oriental de Montevideo (POM), periódico de
revelando admitir que o reino am ericano era dotado de um centro de gravi Montevidéu que veio à luz em dezembro de 1821 com a tarefa principal de defender as vanta
gens proporcionadas pela proteção oferecida pelo império português (liberdade política e segu
dade próprio. É evidente que o correr dos acontecimentos políticos no além- rança na atividade com ercial que encontrava-se debilitada na região desde 1810: a desejada boa
mar, do que mantinham-se informados, 123 alimentava poderosamente a sua ordem) em nenhum momento equipara os "orientais" a "portugueses americanos" ou "brasilei
r o s " (estes sim, sinônimos), tampouco inclui-os na "pátria" ou "nação portuguesa", que são
crescente antagonização com os representantes do reino peninsular, levan sempre referidas a terceiros (os habitantes do B rasil, os habitantes de suas províncias). Assim,
do-os a reforçar alianças com todos que, independentemente de sua origem, é significativo que ao tratar da questão da escravidão africana, o Pacífico exponha esta diferen
viam na união da s províncias americanas a alternativa q ue se d everia priorizar. ciação adquirindo contornos de incompatibilidade e de ameaça ao sucesso da incorporação da
Cisplatina com o Brasil. Em um comentário sobre os inconvenientes "que nos resultam de
Vem daí que, com crescente intensidade, a paridade das representa perpetuar o vergonhoso tráfico de nossos irmãos os africanos", o editor lembra o exemplo
ções do Brasil e de Portugal nos organismos diretivos do Estado passou a "sangrento" de Santo Domingo (Haiti) como demonstração dos perigos de se adotar tal tipo de
subordinar todos os outros objetivos dos deputados da Bahia, malgrado a mão-de-obra, associada com governos "despóticos" e "arbitrários" contrários às idéias de
"liberdade" (traduzidos do POM, n. 16, 5 abr. 1822, e n. 25,7 j u n . 1822; esta análise encontra-
desproporção entre o núm ero de cidadãos do reino am ericano que nas C or se em João Paulo G. Pimenta, Estado e nação na crise dos impérios ibéricos no Prata, cit.). Os
tes C onstituintes se faziam representar, em  flagrante c ontradição com os prin receios do Pacífico tinham fundamento. Pesquisas recentes mostram que entre os anos 1810 e
cípios liberais que referiam a feitura da constituição. Ainda q ue isso não fosse 1 8 2 3 , a população de Montevidéu contou com um contingente de escravos africanos que
beirava a cifra de 30 % que, ainda que correspondesse à média do Brasil (cf. nota 117), é a mais
dito, os deputados baianos estavam enredados pelo caráter escravista da alta de toda a história da cidade (Ernesto M. Campagna Caballero, A população de Montevidéu,
elite que representavam, e sabiam que esta condição projetava sua sombra sua demografia histórica urbana, 1726-1852, São Paulo, Departamento de História/USP,
1 9 8 7 , tese de doutorado). As críticas orientais à escravidão africana no Brasil testemunham, "às
sobre a identidade da comunidade imaginada à qual pertenciam, fato gera avessas", esta situação, posto que colocavam sua extinção como garantia da ordem social. Por
dor de desconforto para alguns, dentre os quais Lino Coutinho, constrangido último, vale destacar que o representante escolhido pela Cisplatina para atuar junto às Cortes da
a proclamar, quando das sessões das cortes dedicadas ao debate da exten Nação Portuguesa foi Lucas José Obes, advogado que pouco tempo depois se encarregaria da
defesa de duas escravas responsáveis pela morte de sua proprietária, uma rica senhora
são dos direitos de cidadania aos libertos, ser "preciso que eu faça um mani- montevideana. N esta ocasião, Obes redigiu a defesa em forma de um verdadeiro manifesto pela
abolição do tráfico (o episódio foi trazido à tona por Anibal Bardos Pinto, "Historias privadas
de Ia esclavitud: un proceso criminal en tiempo de Ia Cisplatina", em José Pedro Barrán/Gerardo
Caetano/Teresa Porzecanski (orgs.), Historias de Ia vida privada en ei Uruguay. Entre Ia
(orgs.), Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista (São Paulo: Cia. das honra y ei desorden, 1780-1870 (Montevidéu: Taurus, 1996), pp. 172-95. Assim, os mesmos
Letras, 1989). setores da sociedade oriental que apoiavam a incorporação da região ao Brasil como "P rovíncia
122
Sessão de 3 j u l . 1822. A esse respeito, ver M. Berbel, op . cit., pp. 174 e ss. Cisplatina" estavam entre os mais ardorosos defensores do fim da escravidão africana no Prata,
123
É o que atestam as "Instruções" do governo baiano datadas de março de 1822 recebidas pelos colocada não apenas com o fator limitador da incorporação, mas principalmente como diferen
deputados, publicadas em L uís H . D. Tavares, A independência do Brasil na Bahia, cit., pp.74-5. cial a forjar identidades p olíticas distintas e incompatíveis entre si, dentro do império português
(João Paulo G. Pimenta, op. cit., pp. 245-6).

172
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Is tv én Jo ncs ó e Jo õ o Pa u lo G . Pim e nta Pe ça s de u m m o s a ico (o u a po nta m e nto s pa ra o e s tu do da e m e r g ê n c i a d a ide ntida de na do na l bra s ile ira ) 173 87/193
do que era aceito como inevitável ordem das coisas. Soam quase patéticas identidade política de seus autores e, por extensão, das audiências às quais
5/10/2018
as manifestações, porventura sinceras em 47910924de
alguns casos individuais, MOTA CarlosGuilherme
repú eramOrg Viagema
dirigidas, -slidepdf.com
documentam sentimentos de frustração e perda que, de res
dio às distinções raciais a qualificar homens livres. Cipriano Barata, tido por to , perpassam muitas das manifestações políticas da época. Da leitura de
radical sanscolote126 (sic), oferece o elenco da diversidade cromática da jornais, panfletos, proclamações oficiais ou cartas privadas desenha-se um
sociedade americana formada p or "mulatos [...], cabras, e crioulos; os índios, quadro de amarga perplexidade diante do fracasso das cortes na sua tarefa
mam elucos, e m estiços", afirmando reconhecer em tod os, indistintamente, de consolidar a união da nação portuguesa. N o extremo norte, O Paraense,
"gente todas nossas [que] são portugueses e cidadãos muito honrados e usando argumentos que já se viu serem os do Revérbero Constitucional
valorosos". Na su a opinião, caberia à Constituição reconhecê-los como iguais, Fluminense ou do Correio do Rio de Janeiro, proclamava, coincidente
fossem eles "filhos de portugueses, ou de brasileiros, ainda q u e ilegítimos, de mente no dia 7 de setembro de 1822, que "no meio me smo d o Labirinto de
qualquer cor ou qualidade, nascidos no reino do Brasil; e mesmo todos os opiniões de Províncias inteiras e Povos, ainda não apareceu uma que enca
crioulos e libertos". 127 E eis que do discurso libertário emerge, n o que tange minhasse a quebrar a indivisibilidade da união da M onarquia, entre os dois
às identidades políticas coletivas, a profundidade do enraizamento, na mente Reinos Irmãos",129 perseverando na defesa de uma possibilidade q ue já es
de Barata e malgrado sua intenção expressa, da diferença entre os originári tava perdida.
os da África e os que ele tem por brasileiros. Seu colega de bancada, Luís N ão era simples para as elites luso-americanas despirem-se de algo tão
Paulino Pinto da França, senhor d e engenho e de muitos escravos com quem, profundamente arraigado como a identidade portuguesa, expressão sintética
por motivo de áspera divergência e para escândalo e escárnio da assem de sua diferença e superioridade diante dos muitos para quem essa condição
bléia,12 8 Barata chegou a atracar-se fisicamente, também man ifestou-se na estava fora do alcance. Saberem-se portugueses constituía o cerne da me
ocasião. E le não estava "pelo que disse um ilustre Deputado, que n ão sabe mória que esclarecia a natureza das relações que mantinham com o restante
fazer distinção de cores; eu sei fazer essas d istinções; o que não se i fazer é do corpo social nas suas pátrias particulares, aquela massa de gente de
distinção do merecimento quando ele está no branco, no negro ou no par outras origens co m a qual, sobre a qual, ou contra a qual caberia organizar o
d o " . Poder-se-iam multiplicar os exemplos, e todos eles revelariam a novo corpo político. Com a independência do Brasil viam-se, de repente,
onipresença do escravism o com o variável a determinar o horizonte m ental diante de uma tarefa cuja complexidade foi enunciada com desalentada pre
desses h omens, igualando-os quanto a esse ponto, para além das diferenças cisão de metalurgista por José Bonifácio de Andrada e Silva:
de visão de futuro e da cultura política que professassem. Tod os, sem exce
ç ã o , eludiram esta questão, desqualificando o problema do escravismo com o É da maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade física e civil; cuidemos pois
variável política a ser contemplada pelas cortes, fazendo-o mediante o artifí desde já em combinar sabiamente tantos elementos discordes e contrários, e em
cio de tê-lo presente pelo seu contrário: a questão da cidadania. E com o amalgamar tantos metais diversos, para que saia um Todo homogêneo e compacto,
escravismo subsumido pelo seu inverso, pôde fluir com plena desenvoltura a que se não esfarele ao pequeno toque de qualquer nova convulsão política. 130
retórica liberal dos representantes das elites baianas e das de todas as outras
partes do Reino do Brasil.
Por fim, não se deve esquecer q u e os manifestos de Falmouth, além do
129
que revelam sobre o significado de pátria, país e nação na construção da O Paraense, n. 32, 7 set. 1822, publicado por Geraldo M ártires Coelho, Anarquistas, demago
gos e dissidentes. A imprensa liberal no Pará de 1822, cit, pp. 311-4.
130
"Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a
escravatura", em E. de Cerqueira Falcão (org.), Obras científicas, políticas e sociais de José j
126
Segundo Francisco de Sierra y Menescal, op . cit., p. 57. Bonifácio de Andrada e Silva, cit., vol. II, p. 126, onde, ademais, a escravidão é tratada
127
Sessão de 13 ago. 1822. novamente por "cancro" (grifos originais). Para uma abordagem atualizada do pensamento
128 político do A ndrada, ver o estudo introdutório em M iriam Dolhnikoff (org.), José Bonifácio de
Manuel Emílio Gomes de Carvalho, Os deputados brasileiros nas Cortes de Lisboa (Brasília:
Senado Federal, 1979), p. 181. Andrada e Silva. Projetos para o Brasil (São Paulo: Cia. das Letras, 1998).

174 1 7 5 88/193
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I s t vá n J a n c s ó e J o ã o P a u l o G . P i m e n t a P e ç a s d e u m m o s a i c o ( o u a p o n t a m e n t o s p a r a o e s t u d o d a e m e r g ê n c i a d a i d e n t id a d e n a c i o n a l b r a s i l e ir a )
O s termos enunciados pelo A ndrada revelam que este, e sua geração, Bibliografia selecionada
5/10/2018
debatiam-se 47910924MOTA
com o mesmo paradoxo que paralisara os revolucionários deCarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial, 1500-1800.4. ed. Rio de Janeiro: Briguiet,
1817, e antes disso já se anunciara no 1798 baiano: a impossível eq uivalên
1954.
cia entre corpo social e nação em contexto escravista. Acresce que, rompi
HOLANDA, Sérgio Buarque de. "A dissolução da herança colonial", em (org.). Histó
da a "indivisibilidade da união da Monarquia", alteraram-se os significados ria geral da civilização brasileira. S ão Paulo: Difel, 1985.
de pátria e país, conceitos distintos mas reciprocamente referidos. . Raízes do Brasil. 24. ed. Rio d e Janeiro: José Olympio, 1992.
Quanto a pátrias, o texto d'O Paraense é claro: estas são as provín LIMA, M. de Oliveira. D. João VI no Brasil. Rio de Janeiro: Toopbooks, 1996.
cias, locais de reiteração de trajetórias particulares engendradoras dos "Po MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro veio—o imaginário da restauração pernambucana. R io de
vos" e de suas identidades coletivas. O plural do periodista tanto remete a Janeiro: Toopbooks, 1997.
um linguajar ancien regime, quanto demarca a multiplicidade dos âm bitos MELLO E SOUZA, Laura de (org.). Cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo:
reais, concretos, da difícil "amalgamação" das diferenças, tanto aquelas às Cia. das Letras, 1997.
quais se referia José Bonifácio, quanto das que distinguiam o Pará de MOTA, Carlos Guilherme. Idéia de revolução no Brasil, 1789-1801.3. ed. São Paulo: Cortez,
Pernambuco ou Minas Gerais da Cisplatina, e fazia os maranhenses sabe- 1989.
rem-se diferentes dos baianos. O Brasil, por seu turno, é o país, enorme & NOVAE, Fernando. A independência política do Brasil. Sã o Paulo: Hucitec, 1998.
mosaico de diferenças, cujas peças mal se acomodavam no império emer NOVAIS, Fernando Antônio. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial, 1777-1808.
6. ed São Paulo: Hucitec, 1966.
gente do rompimento com Portugal, a partir de então "pátria mãe" e não PRADO JR., Ca io . Formação do Brasil contemporâneo. 5. ed. São Paulo: B rasiliense, 1957.
mais "reino irmão", mudança de significado que estabeleceu a precisa
alteridade na qual pôde se refletir a identidade nacional brasileira. E nesse
quadro de contradições, algumas diretamente derivadas da crise que tudo
penetrava, outras resultantes das respostas que os homens produziam para a
sua superação, não parece ser irrelevante destacar que a identidade nacional
brasileira em ergiu para expressar a adesão a uma nação que deliberadamente
rejeitava identificar-se com todo o corpo social do país, e dotou-se para
tanto de um E stado para manter sob controle o inimigo interno.131

131
Segundo Bonifácio, na mesma "Representação" (op. cit.,\ol. II, p. 156-7), "multiplicando cada
vez mais o número de nossos inimigos domésticos, desses vis escravos, que nada têm que perder, j
antes tudo que esperar de alguma revolução como a de S. Domingos". Sobre o antiescravismo do
Andrada, ver, de Antônio Penalves Rocha, "Idéias antiescravistas na sociedade escravista
brasileira dos princípios do século XIX", paper apresentado no X Congresso Internacional
sobre a Ilustração, Dublin, 1999.

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Por que o Brasil foi diferente?
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0 contexto da independência

Kenneth Maxwell

I
I
Li

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-L ^1 a última metade do século X X , publicaram-se, surpreendentemente,


poucos trabalhos acadêmicos a respeito da independência do B rasil. M enos
atenção ainda tem sido devotada ao estudo sobre o impacto que a desco
lonização do vasto império português na América do Sul teve sobre a pró
pria metrópole.
Historiadores portugueses ainda por vezes escrevem como se o B rasil
nunca tivesse sido uma colônia de Portugal, e historiadores brasileiros
freqüentemente ignoram a importante dimensão transatlântica dos conflitos
políticos internos e das limitações econômicas do B rasil. A história do perío
do que transcorre das Guerras Napo leônicas - quando, no fim de 1807, a
invasão de Portugal pelo general Junot obriga a corte portuguesa a buscar
refugio no B rasil - até 1825 , quando Portugal e as grandes potências euro
péias reconhecem a independência do B rasil se ressente da falta de um es
boço interpretativo, ainda que rudimentar. Apesar disso, os eventos que se
desenrolaram nos dois lados do Atlântico estavam intimamente vinculados e
não podem ser explicados sem se compreender o que os conectava. De
a*
fato, entre 1 81 5e l8 2 1, Portugal e Brasil faziam parte formal e institucional
de um "R eino Unido". A interpretação dos problemas políticos e econ ômi
cos do Brasil e de Portugal foi extensa, e assim continuou até pelo menos
meados do século XIX.
M eu objetivo é, de forma preliminar, dar uma nova visão do movimento
de independência do Brasil no contexto com parativo atlântico. Em primeiro
lugar, examinarei alguns problemas teóricos e práticos a respeito do estudo
da independência do Brasil; em segundo lugar, o processo de "descoloni
zação"; em terceiro, delinearei alguns aspectos-chave do contexto interna
cional no qual se desenrolou a independência. Para finalizar, analisarei a h istória

* Tradução de Adriana Lopez.

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180 K e nne th M a x we ll Po r qu e o B ra s il f o i dif e re nte ? 0 co nte x to da inde pe nd ência 1 8 1 91/193
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social e econômica da independência do Brasil, vista a partir das grandes nantes para a investigação histórica; desta vez, não estamo s especulando a
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continuidades entre os períodos colonial e nacional reivindicados pela atual respeito das conexões entre percepções, idéias e ações, mas assistindo à
literatura que diz respeito ao Brasil, e das grandes descontinuidades que di transformação dessa s idéias em estratagemas institucionais e sociais, e e m
zem respeito a Portugal. marcos constitucionais.
Temos a tendência de pressupor que todas essas mudanças ocorrem
para o melhor. Mencion o isto apenas para indicar o quanto nossa visão so
i bre a independência e a descolonizaçã o po de ser subjetiva. Raramente, por
exemplo, consideramos um movimento de independência como uma "coisa
Iniciaremos o estudo do estabelecimento de novas nações a partir de ruim", como uma regressão, um triunfo do "despotismo" sobre a "liberda
velhos impérios com uma certa expectativa e algumas pressuposições. P reli de", da "escravidão" sobre a "liberdade", de um regime "imposto" sobre um
minarmente, estamos pensando na emancipação política do status de colô regime "representativo", da oligarquia sobre a democracia, da reação sobre
nia; também se pressupõe que ocorreu uma certa democratização da política o liberalismo. A pesar disso, no caso da independência do Brasil, todas essas
interna ou, ao meno s, a sua liberalização; desta forma, esperamos ver a der acusações po dem ser imputadas ao novo regime, assim com o de fato foram
rota do despotismo e a emergência de algum tipo de fórmula institucional que feitas na época. ^
expresse a vontade popular, essencial para garantir a legitimidade de qual O Brasil, evidentemente, não estava só ao enfrentar esse dilema. Se
quer Estado novo . A legitimidade, entretanto, não depende apenas de fato "" considerarmos que as na ções independentes da A mérica Latina emergiram
res internos: o reconhecimento do no vo status de nação pelas outras nações após três séculos de dominação ibérica, a persistência da herança colonial se
éuma
essencial; assim comodoo pé,edido
eventualmente, a reconciliação (ou pelo menos tornou uma questão premente. O Brasil tinha, por exemplo, no momento de
aceitação formal de separação), que geralmente significa a sua independência de Portugal, 322 anos de existência; e, vale notar, no ano
assinatura de um tratado internacional com a ex-metrópole. Questões 2000 sua experiência enquanto nação independente da dominação formal
geopolíticas surgem, portanto, como inevitáveis, assim como questões que européia ainda será mais curta do que o período em que esteve sob dom ina
envo lvem a política das grandes potências. A co nstelação das forças exter ção colonial. A pesar disso, a "persistência colonial" das nações da A mérica \
nas, a disposição d estas em intervir ou não, conforme a situação, talvez seja Latina era diferente daquela herdada pelos Estados pós-coloniais que emer
mais importante nesse m omento do que em qualquer outra época da história giram dos impérios europeus na Ásia e na África a partir de meados do
de uma nação. A nova nação também deve cumprir com o brigações no plano século X X . O impacto provocado pela Espanha e Portugal nas Américas v
internacional: contrair empréstimos, realizar e financiar transações comer havia sido m uito mais profundo e, portanto, mais permanente do que foi o
ciais; organizar a vida econômica e financeira; eventua lmente pagar indeniza impacto dos europeus que se impuseram, temporariamente, sobre outras
ções ou assumir o compromisso de quitar débitos coloniais. sociedades m ais antigas do Oriente Méd io até a China, onde as populações,
Da mesma forma do que em outros momentos na vida da história de as religiões, as estruturas sociais e os padrões de comportamento nunca fo
um a nação, decisões fundamentais de natureza fundadora se fazem necessá ram desenraizados ou destruídos da maneira catastrófica com o foram nas
rias no momento da independência. Essas decisões podem envolver ques antigas civilizações da Am érica pré-colombiana. Depois da Segunda Guerra
tões profundas que dizem respeito a vários aspectos da vida nacional: a M undial, particularmente onde não ha via uma grande população de c olonos
organização das esferas social e econôm ica, questões institucionais a respei brancos para complicar a transição, africanos e asiáticos alcançaram a inde
to das estruturas constitucionais, questõ es de o rganização, com o criar ban pendência formal negociando a retirada ou tomando em armas e expulsando
cos e com o impor tarifas ou negociar tratados comerciais e com o criar uma um punhado de soldados, capatazes e administradores brancos. Na Améri-y
moeda factível. É claro que a natureza explícita da multiplicidade de proble ca Latina foram precisamente os soldados, capatazes e adm inistradores eu
mas e decisõ es a serem tomadas transforma tais mom entos em temas fasci- ropeus que expulsaram o s representantes das coroas de Espanha e P ortugal

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182 K e nne th M a x we ll Por que o B ra s il f o i dif e re nte ? 0 contexto do i n d e p e n d ê n c i a 183 92/193
e a uma só vez usurparam a soberania de uma grande massa de população p i o , situavam a emergên cia do B rasil enquanto nação independente dentro
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indígena e de escravos africanos. A Am érica Latina não pode s er compreen do contexto da passagem do capitalismo mercantil para o capitalismo indus
dida em sua totalidade se enxergada apenas pela ótica do contexto das na trial na Europa, e as conseqüentes mudanças que essa passagem ocasionou
ções do 'Terceiro Mundo" que passaram a existir a partir do colapso dos no sistema eco nôm ico internacional. A pesar disso, os interesses britânicos
impérios coloniais francês, britânico e holandês entre 1945 e 1965. Nesse em P ortugal e no Brasil não eram, de fato, monolíticos; dois lobbies ou gru
sentido, o Brasil era, de fato, um "Novo Mundo nos trópicos", como disse pos de interesses distintos mantinham relações econôm icas com Portugal no
uma vez Gilberto Freire, uma sociedade de colonos que se implantou no século que antecede a independência do B rasil: os com erciantes importado
No vo M undo e onde a população - fosse ela européia, africana ou nativa - res de vinho s e o s exportadores de produtos têxteis de lã tinham forte inte
tornou-se de tal maneira miscigenada q ue não pôde ser outra vez segregada resse em manter o velho regime de tarifas que os favoreciam e tendiam a
facilmente. A profundidade extraordinária d o impacto d a colonização espa privilegiar seus direitos extraterritoriais em Portugal, q ue beneficiavam seus
nhola e portuguesa no hemisfério ocidental foi de tal ordem que o processo empreendimentos desde meados do século XV II. Por outro lado, em franca
Yde construção nacional se tornou um assunto intrinsecamente incestuo so. expansão, os agressivos manufatureiros de tecidos de algodão de Lancashire,
que se desenvolveram a partir do final do século XV III, tinham interesse no
livre comércio. Até 1818, esse grupo recebia do Nordeste do Brasil uma
li grande porcentagem da m atéria-prima utilizada em suas manufaturas. E les
não tinham nenhum interesse em perpetuar a dominação política e econômi
N a década de 1820, com efeito, o B rasil negociava seu relacionamento ca de Portugal sobre o B rasil.
com o mundo externo dentro das pesadas limitações impostas pela história, É importante, portanto, não sobrevalorizar o poder das forças pura
pela geografia e por su a experiência colonial. A té recentemente, a interpreta mente econôm icas ou estimar em demasia a inevitabilidade dessas mudanças
ção desse período crítico tem sido fortemente influenciada pela teoria da mais amplas. O s interesses da indústria têxtil de algodã o na G rã Bretanha e
dependência. Mas a teoria da dependência tende a homogeneizar a expe seus apologistas certamente acreditavam q u e suas vantagens relativas permi
riência da América Latina nu m mod elo explicativo mundial. Sob forte influ tiriam q u e seus produtos rompessem a s barreiras tarifárias mercantilistas dos
ência dos movim entos de descolonização da África e da Ásia do século XX , países ibéricos, mas também pressionaram para que essas barreiras fossem
essa abordagem freqüentemente tem negado autonom ia às forças sociais e removidas por meio da intervenção governamental. A abertura dos portos
econômicas em jogo nas chamadas regiões "periféricas". Acima de tudo, \do Brasil, em 1808, foi a primeira ação adotada pela recém-chegada corte
desincentivava a investigação do processo, as causas e a dinâmica da mu portuguesa, depois da fuga de Lisboa. Embora essa ação tivesse como base
dança. Tal quadro criou uma enorme empecilho no caso da Am érica Latina motivações ideológicas, foi essencialmente pragmática e se tornou inevitável
colonial, cujo controle havia sido desde o com eço dos tem pos modernos um a partir do m omento e m que a França m ostrou determinação em incorporar
componente essencial na construção de uma ordem de dominação mundial os portos de P ortugal ao bloqueio continental contra a Grã Bretanha. N o
européia. A teoria da dependência sublimava qualquer investigação a respei que diz respeito aos interesses dos comerciantes britânicos no B rasil, m uitos
to de como a preeminência européia havia sido alcançada e limitava a s expli competidores europeus, entre os quais os próprios franceses, ficaram tem
cações sobre as grandes mudanças de sistemas (o fim do feudalismo, o porariamente fora da jogada. Em tais circunstâncias favoráveis, o s comer
surgimento do capitalismo e assim po r diante) à dinâmica interna das so cie ciantes britânicos rapidamente saturaramo s mercados consumidores d o Brasil,
dades européias. onde a maioria da população era formada por escravos e não por consum i
Estudiosos brasileiros estavam, é claro, bastante enamorados dessa dores livres.
construção teórica e desempenharam um papel importante em su a evolução. Do is ano s depois da abertura dos portos, não é de surpreender que os
Tanto a professora Em flia V iotti da Costa como Fernando Novais, po r exem- britânicos reivindicassem privilégios especiais. O Tratado A nglo-Brasileiro

184
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K e nne th M a x we ll Po r qu e o B ra s il f o i dif e re nte ? 0 co nte x to da inde pe ndência 185 93/193
de 1810 impunha, no Brasil, tarifas mais altas aos portugueses do que aos ^Ironicamente, a resistência aos argumentos antiescravistas no Brasil foi
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próprios britânicos, uma imposição que discriminava a "mãe pátria" e repre-. provavelmente mais fraca durante o período da independência do que em
sentava um severo golpe às já frágeis chan ces de reconciliar Portugal com o qualquer outro momento, antes ou depois. No Sul do país, especialmente
Brasil e seu novo status enquanto sede da monarquia. É irônico notar que a em São P aulo, u m a região crítica em termos de oposição política organizada
primeira e a segunda edição da Riqueza das nações, de Adam Smith, \ contra Lisbo a na década de 182 0, a produção de café em larga escala só se
publicadas no Brasil, apareceram em 1811 e 1812 no Rio de Janeiro e na desenvolveu depois que a independência foi alcançada. Na década de 182 1-
Bahia, respectivamente, como que para recordar aos britânicos (e para 3 0 , as exportações de café totalizavam apenas 19 % do total exportado pelo
Brasil, ma s nas duas décadas seguintes, essa participação chegou a 6 3 % do
relembrar aos brasileiros, com certeza) que as potências h egemô nicas nem
sempre praticam aquilo que apregoam. De fato, assim como em meados do total. A expansão do mercado consumidor de café na Europa e na Am érica
século X VI I, Portugal e, mais tarde, o B rasil, se viram obrigados a equilibrar do Norte teve como conseqüência uma retomada intensiva do tráfico de
a necessidade de autonomia e a necessidade de apoio político e militar, es escravos para o R io de Janeiro e a expansão do trabalho escravo no Vale do
pecialmente no que diz respeito ao relacionamento com a Grã Bretanha, a Paraíba e em São Paulo. Nathaniel Leff argumenta que o motivo principal
potência naval e econô mica dominante, e assim sacrificar suas perspectivas das baixas taxas de crescimento econômico do Brasil durante o século XIX
econômicas, sucumbindo a u m relacionamento neocolonial com a maior p o  era o setor agrícola, onde as baixas rendas e a demanda inelástica, intrínse
tência industrial da época. O preço pelo reconhecimen to da independência cas ao trabalho escravo, restringiam o ritmo do crescimento no resto da
em 1825 foi esse. economia. Isso foi, precisamente, o que José Bonifácio de Andrada e Silva
havia antevisto, quando advertia seus contemporâneos, logo no início da
< A pressão comercial britânica foi também algumas vezes contraprodu
cente no que concerne aos interesses políticos de mais longo alcance, na independência
fracasso nacional,
em lidar sobre osdaefeitos
com a questão negativos
escravidão e da de longo agrária
reforma prazo que o
traria
medida em que estes se cho cavam d e frente com interesses fortemente con  para o futuro do Brasil, o que o levou a fazer um apelo corajoso, mas em
solidados no B rasil. Es se foi o caso da questão do tráfico de escravos. A pe v ã o , aos brasileiros em seu manifesto a favor da abolição d a escravidão e de
sar dos compromissos assumidos em tratados firmados entre o Brasil e a suas propostas de reforma agrária em 1822: "A experiência e a razão de
G rã Bretanha para abolir o tráfico, datados de 1810, a influência dos propri monstram què a riqueza reina onde há liberdade e justiça e não onde há
etários de terras e os interesses dos traficantes no Bra sil eram suficientem en cativos e corrupção", argumentava José Bonifácio, completando: "Se este
te fortes para resistir, na primeira metade do século X IX , durante mais de mal persiste, não cresceremos". 1
quarenta anos, à diplomacia da Armada britânica. Aqui, mais uma vez, o
peso da economia britânica se opunha freqüentemente aos propósitos das
iniciativas p olíticas, diplomáticas efilantrópicasda Grã B retanha. Sidney M inz III
tem argumentado
nordeste quedo
da América a revolução industrial
Norte ajudou na Inglaterra,
a reavivar e nosnas
o escravismo estados do
Améri O quadro político e institucional d a independência do Brasil não é me
c a s , ao criar um vasto mercado consumidor urbano para produtos tais com o nos conturbado e contraditório do que foi a transição econôm ica, e a ambi
o café e o açúcar, e ao criar, ao mesmo tempo, uma enorme demanda de güidade da passagem do B rasil de colônia para nação independente é melhor
suprimentos de algodão cru para abastecer os teares da velha e da nova exemplificada na enigmática pessoa de d. Pedro e dos abortados planos de
Inglaterra. E não eram apenas os com erciantes do R io de Janeiro e da B ahia
que financiavam o tráfico ilegal de escravos ou o com ércio legal de algodão,
café e açúcar, que dependiam do trabalho escravo. Foram também os co 1
José Bonifácio de Andrada e Silva. Obras científicas, políticas e sociais. 3 vols., coligidos e
merciantes de Nova York, Londres e Liverpool. reproduzidos por Edgard de Cerqueira Falcão (Santos, 1965), pp. 115-58.

186
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reforma propostos por José Bon ifácio. D . Pedro era, a uma só vez, o herói O s grandes aliados europeus de Portugal - tanto a Grã Bretanha com o
5/10/2018 havia emancipado o B rasil de Portugal e o governante47910924
que temporárioMOTAque.CarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
os memb ros da Santa Aliança - tinham idéias claras a esse respeito, confor
no prazo de uma década voltou para Portugal para lutar n a guerra civil contra
me G eorge C anning, o secretário de Assu ntos E strangeiros britânico escre
seu irmão, assegurando assim que sua filha se tornasse a rainha de Portugal.
veu sucintamente em 1823:
\> Ele era um rei demasiado "liberal" para os padrões da Santa Aliança na
Europa, mas muito " despótico" para muitos brasileiros, sobretudo para os
A única questão é s e o Brasil, independente d e Portugal, será u m a monarquia ou uma
republicanos de Pernambuco que se insurgiram em duas ocasiões para república [...]. A preservação d a monarquia numa parte d a América é objetivo de vital
repudiá-lo. Seu papel, conforme o perfil traçado pela historiografia portu importância para o Velho Mundo.3X
guesa, é o de um defensor d o "constitucionalismo", uma imagem totalmente
incomp atível co m aqu ela traçada pela historiografia brasileira, onde ele foi o Desde o estabelecimento da corte portuguesa no Rio de Janeiro em
governante que rejeitou a constituição e demitiu José Bonifácio e seus ir 1 8 0 8 , o governo d e Londres sempre havia, de fato, feito uma clara distinção x
mãos, líderes da pequena minoria de brasileiros que queriam reformas fun entre as circunstâncias do Brasil e aquelas da América espanhola. C anning
damentais. enfatiza o contraste entre essas situações, quando escreve para Sir C harles
É vital reconhecer, portanto, que no 7 de setembro de 1822, nas mar Stuarteml825:
gens do Ipiranga, nos arredores de São P aulo, quando Dom Pedro, herdeiro
do trono português, gritou "Independência ou morte", estava exagerando. A Não podemos deixar de lembrar que a diferença entre a relação de Portugal com o
questão, em setembro de 1822, não era certamente a "morte" e, apenas Brasil e aquela d a Espanha co m suas Américas nada mais é d o q u e esta - que todas as
indiretamente, a "independência". O B rasil havia sido independente, para colônias espanholas progrediram apesar da mãe pátria, mas que o Brasil tem sido
Xtodas as intenções e propósitos, desde 1808; desde 16 de dezembro de elevado ao
políticos do estatuto
soberanodecomum
reino irmão, ao invés de dependência colonial, pelos atos
d e Portugal e Brasil. Até o momento da emigração da
18 15 o B rasil fazia parte de um reino unido, em pé de igualdade com Portu Família Real para o Brasil, o Brasil era estritamente uma colônia, como o eram o
gal. O que estava em jog o no início da década de 1820 era mais uma ques México, ou o Peru ou Buenos A ires. A partir daquele momento, primeiro começou
tão de monarquia, estabilidade, continuidade e integridade territorial do que uma série de relaxamentos e, depois, a concessão de privilégios, que gradualmente
xde revolução colonial. exaltaram a condição do Brasil e quase inverteram suas relações com Portugal para
Evitar a revolução no Brasil era, também, uma grande preocupação na transformar, durante a residência d e S u a Mais Fiel Majestade no Brasil, a m ã e pátria
numa Dependência de fato.4
Europa. Henry C hamberlain, o ministro britânico no R io de Janeiro em 1 824,
preocupava-se constantemente que as agitações sob a superfície, no B rasil,
mais evidentes nas ruas e na Asse mbléia C onstituinte no Rio, poderiam A questão importante a respeito do Brasil é, portanto, que ele se tornou V
econômica e politicamente independente entre 1808 e 1820, enquanto de
acender [...] uma chama [...] que não será possível controlar, e que pode acabar, sempenhava o papel de centro do Império Luso-B rasileiro. Tornou-se "in
talvez, comestados
pequenos
a destruição do governo imperial e a divisão do país numa variedade de
republicanos independentes, deploráveis em si e causadores da dependente"
imperial", ao em
qual1822 apenasdadepois
os súditos do fracasso
monarquia da experiência
portuguesa de África
na Europa, "centroe
miséria de seus vizinhos, tal como temos testemunhado nas colônias da América Ásia voltavam o olhar em busca de liderança. Essa circunstância pouco c o
espanhola em nossa vizinhança.2 mum ex plica por que em 1820 foi Portugal que declarou sua "independên
cia" do Brasil, e só depois, em 1822, o B rasil declarou sua "independência"
j

2
Charles K. W ebster (org.). Britain a n d t h e Independence ofLatin America, 1812-1830: Select
Documents from th e Foreign Office Archives, 2 vols. (Londres/Nova York: Oxford University 3
Press, 1938), vol. I, pp. 240-1. Ibid., p. 236.
4
Ibid., pp. 265-6

18 8 K e n n et h M a x w e l l
P o r q u e o B r a s il fo i d ife r e n te ? 0 c o n te xto d a in d e p e n d ên c ia
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de Portugal. O "Manifesto da Nação Portuguesa aos soberanos e povos da
Am érica portuguesa. O sistema d a monarquia centralizada havia estabeleci
Europa", que foi promulgado pelos rebeldes do Porto em 1820, soava como
5/10/2018 do Org
47910924MOTACarlosGuilherme uma Viagem
forte presença institucional desde 1808; e esse fator foi crítico para
a-slidepdf.com
muitas outras declarações de independência dos estados coloniais e continha
determinar o sucesso de d. Pedro na proteção de seu novo império aos
muitas das mesm as queixas; a única diferença era que esse manifesto fora
desafios im postos pelos republicanos. Portanto, a resposta à s perguntas aci
promulgado por rebeldes de um a cidade na Europa, e não por rebeldes de
ma formuladas é, provavelmente, "não". Em outras palavras, a base so cial^
algum porto colonial da América. O manifesto do P orto declarava:
predisposta a enfrentar mudanças radicais era mais forte em Portugal, na
O s portugueses começam a perder as esperanças para com o único recurso e meio décadadadecontinuidade
favor 1820, do queeranomais
Brasil,
fortee no
o motivo disso
Brasil do que éem
queP ortugal
o movimento
que, ema
de salvação qu e lhes foi deixado em meio à ruína qu e quase consumiu su a querida
terra natal. A idéia do status de colônia ao qual Portugal te m sido c o m efeito 1 8 0 8 , havia perdido não só a monarquia, com o também se sujeitara a inva
reduzido, aflige profundamente todos aqueles cidadãos que ainda conservam o sões, à guerra e a um protetorado britânico de fato.
sentimento de dignidade nacional. A justiça é administrada a partir do Brasil para os
povos leais da Europa, o que implica numa distância de duzentas léguas e excessivo
Enquanto isso, no Brasil, as ameaças à ordem social depois de 1790
custo e demora [...]5 ficaram estreitamente associadas ao republicanismo, e tenderam a produzir
uma m aior coalizão dentro da elite, especialmente entre a dos proprietários
de terras. Aqui, o medo do contágio da revolta de escravos do Haiti estava
sempre presente nas mentes, e a "liberdade", se também chegasse a implicar
IV em "igualdade", certamente levantaria problemas fundamentais numa socie
dade hierarquizada em termos raciais e sociais.

Mas se a revolução "anticolonial" ocorreu no Porto e não no Rio de ções àMais uma vinda
ameaça vez, o de
Brasil
baixoapresenta ambigüidades,
foi a de se já que uma
propor a eliminação das rea
do trabalho
Janeiro, as perguntas interessantes, n a perspectiva do Brasil, são as seguin escravo e a substituição deste por trabalhadores livres. Mas no Brasil, a
t e s : o desejo de independência no Brasil era suficientemente forte para q u e o despeito da eclos ão de um a série de revoltas de escravos na B ahia durante
desenlace resultasse na independência se as Cortes não tivessem obrigado o esse período, o temor de uma revolução social não foi argumento suficiente
rei a voltar para a Europa; o sentimento antimonarquista no Brasil era sufi para obrigar os pod erosos a desafiar seus interesses materiais mais imedia
cientemente forte para provocar um movim ento republicano, como os que tos e a embarcar no caminho da reforma do sistema de produção baseado
haviam ocorrido na América do N orte e em boa parte da Am érica espanho no trabalho escravo.
la , e que haviam rejeitado tanto a monarquia com o a dom inação européia? Até os britânicos, que apesar d e muito falarem, n ão aboliram o trabalho
Essas perguntas não são apenas teóricas - é preciso recordar que o escravo em suas próprias colônias até meados da década de 1830 , reconhe
republicanismo havia sido a principal corrente ideológica entre os conspira- ciam, em particular, a força dos interesses dos proprietários de escravos.
dores de Minas Gerais em 1788-89, dos alfaiates baianos em 1789, e em
1817 em P ernambuco, assim como durante a década de 1820. O problema, Henry C hamberlain assim disse a George C anning:
tratando-se do caso do Brasil, é que todos esses movimentos republicanos Não há dez pessoas em todo o Império qu e considerem o tráfico um crime, ou que
foram, ou ao menos poderiam ser, interpretados como revoltas regionais o enxerguem sob qualquer outro ponto de vista a não ser aquele do lucro ou do
^contra a autoridade centralizada e uma ameaça à integridade territorial da prejuízo, um a mera especulação mercantil qu e deve ter prosseguimento enquanto
for vantajosa.6

Souvera,ns aux
Sr^r^rrzr - **" *'— * • * » » 6
Charles K. Webster, op. cit ., vol. I, p. 233.

190
Kennerh Maxwell Po r qu e o B ra s il f o i dif e re nte ? 0 co nte x to da inde pe nd ência 191
http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 96/193
O p r ó p r io J o s é B o n if á c io d e s c r e v e u a s itu a ç ã o ta l c o m o a v iu , c o m e s c r a v o s , ta l c o m o J o s é B o n if á c io , o f a z ia m n ã o p o r c a u s a d a h u m a n id a d e
5/10/2018
g r a n d e r e a lis m o , a o e n v ia d o b r itâ n ic o H e n r y C h a m b e r la in47910924
e m a b r il MOTA
d e 1 8 2Carlos
3: d o s Org
Guilherme e s c rViagem
a v o s , m aas -pslidepdf.com
o r q u e d e s e ja v a m e lim in a r o s n e g r o s .
O s id e ó lo g o s d o " liv r e c o m é r c io " n o B r a s il ta m b é m a d o ta r a m e s s a
Estamos totalmente convencidos da inadequação do tráfico de escravos [...] m as devo postura essencialmente racista. José da Silva Lisboa, que havia clamado pela
frisar candidamente que a abolição não pode ser imediata, e eu explicarei as duas
principais considerações q u e no s levam a essa determinação. U m a é d e ordem econô a b e r tu r a d o s p o r to s a o p r ín c ip e r e g e n te e m 1 8 0 8 , a r g u m e n ta v a , e m 1 8 1 8 ,
mica, a outra de ordem política. q u e o p r o g r e s s o d e S ã o Pa u lo s e d e v ia " à e x tr a o r d in á r ia p r e p o n d e r â n c ia [ lá]
d a r a ç a b r a n c a " . O R io G r a n d e d o Su l, o c e le iro d o B r a s il, h a v ia s id o , ig u a l
A primeira se baseia na absoluta necessidade de tomarmos medidas para garantir um m e n te , c o lo n iz a d o " p e la r a ç a p o r tu g u e s a , e n ã o p e la p o p u la ç ã o d a E tió p ia " .
aumento da população branca antes d a abolição, para q u e a s lavouras do país possam
continuar produzindo, caso contrário, com o fim do suprimento de negros, a lavoura T o m a n d o c o m o e x e m p lo a Ilh a d a Ma d e ir a , e le g a r a n tia q u e " a e x p e r iê n c ia
diminuirá, causando grandes transtornos [...] esperamos adotar medidas para atrair te m m o s tr a d o q u e u m a v e z q u e s e e s ta n c a o s u p r im e n to d e a f r ic a n o s, a r a ç a
imigrantes europeus para cá sem perda de tempo. Assim que estes começarem a não diminui e declina, mas se torna melhor e mais branca [...]" Ele desejava
produzir esse efeito, a necessidade do fornecimento de braços africanos diminuirá
v e r o c â n c e r d a e s c r a v id ã o e lim in a d o d e s d e o r io d a Pr a ta a té o A m a z o n a s .
gradativamente, e eu espero q u e e m alguns poucos anos se coloque um ponto inal no
tráfico para sempre [...] " A m e lh o r á r e a d a A m é r ic a s e r á p o v o a d a p o r r e b e n to s d a Á f r ic a o u d a
E u r o p a ? " , q u e s tio n a v a . P a r a e v ita r " o h o r r ív e l e s p e tá c u lo d a c atá s tr o fe q u e
A segunda consideração d iz respeito à conveniência política, n a medida e m q u e afeta
a popularidade e, talvez até, a estabilidade do governo. Poderíamos enfrentar a crise r e d u z iu a r a in h a d a s A n tilh a s a u m a Ma d a g a s c a r " , o B r a s il d e v e e v ita r s e
e a oposição daqueles que se dedicam ao tráfico, mas não podemos, s e m u m grau de to r n a r u m a " N e g r o lâ n d ia " . 8
risco que nenhum homem em sã consciência possa pensar em correr, tentar no mo A q u e s tã o d a e s c r a v id ã o le v a n ta v a a s s im p r o b le m a s f u n d a m e n ta is s o 
mento presente propor uma medida que iria indispor a totalidade da população do b r e q u a l s e r ia o c a m in h o d e s e já v e l p a r a o d e s e n v o lv im e n to d o B r a s il, p r o 
interior [...] A quase totalidade de nossa agricultura é feita por negros e escravos. Os blem as que eram fundam entais para se estabelecer o tipo de sociedade, Estado,
brancos, infelizmente, pouco trabalho fazem, e se os proprietários rurais tivessem
seu suprimento de trabalhadores repentinamente cortado, deixo q ue vossa mercê faça sistema legal e governo que o Brasil, enquanto estado independente, iria ado
julgamento do efeito que isso teria sobre essa classe de gente desinformada e pouco ta r . E r a u m a q u e s tã o q u e d iv id ia o s h o m e n s " e s c la r e c id o s " . A q u e le s q u e
ilustrada. S e a abolição viesse para eles antes q ue estivessem preparados, todo o país e r a m o s m a is a r d o r o s o s d e f e n s o r e s d o laissezfaire, q u a n d o is s o s ig n if ic av a
entraria em convulsão, de uma ponta até a outra, e não há como calcular as conse a r e m o ç ã o d a s f u n ç õ e s r e g u la d o r a s d o E s ta d o , q u a s e s e m p r e e r a m a q u e le s
qüências para o governo ou para o próprio país. q u e e s ta v a m m a is c o m p r o m e tid o s c o m o tr á f ic o d e e s c r a v o s e a e s c ra v id ã o .
Sabemos q u e , enquanto isso persistir e o estado de escravidão tiver continuidade no Aqueles que apoiavam a interferência do governo, particularmente no tocan
país, a verdadeira e sólida indústria nã o pode se enraizar, a prosperidade vigorosa nã o te a o c o n tr o le d e p r e ç o s e à g a r a n tia d o a b a s te c im e n to d e p r o d u to s d e s u b 
pode existir, e nossa população não será significativa e, portanto, estamos tão pro
fundamente convencidos destas verdades que, se possível fosse, aboliríamos a am s is tê n c ia p a r a a p o p u la ç ã o , e r a m ta m b é m o s q u e m a is s e o p u n h a m a o tr áf ic o
bos. 7 d e e s c r a v o s e à e s c r a v id ã o . U n s v ia m a p o p u la ç ã o e s c r a v a c o m o o in im ig o
interno e, tal como José da Silva Lisboa e José Bonifácio, acreditavam que o
Brasil não se desenvolveria sem a criação de uma força de trabalho livre e da
E s ta s o b je ç õ e s à e s c r a v id ã o , c o n tu d o , n ã o e r a m ta n to o r e s u lta d o d e
e u r o p e iz a ç ã o o u d o b r a n q u e a m e n to d a p o p u la ç ã o . O u tr o s c o n s id e r a v a m a
s e n tim e n to s d e o r d e m " h u m a n itá r ia " o u " f ila n tr ó p ic o s " , m a s u m a r e s p o s ta
e s c r a v id ã o c o m o e s s e n c ia l à p r o s p e r id a d e d o B r a s il. A q u e le s q u e a ta c a v a m
a o s p r o b le m a s p o s to s p o r u m a s o c ie d a d e e m q u e a s p r in c ip a is lid e r a n ç a s
o laissezfaire q u a n d o e s te e x ig ia a r e m o ç ã o d a q u ilo q u e c o n s id e r a v a m c o n 
in te le c tu a is a c r e d ita v a m q u e o e q u ilíb r io r a cia l d a p o p u la ç ã o e r a p e r ig o s a 
tr o le s g o v e r n a m e n ta is a ju iz a d o s , e r a m o s m a is f a v o r á v e is a o liv re c o m é r c io
m e n te in s tá v e l. A q u e le s p o u c o s q u e p r e g a v a m a e v e n tu a l e m a n c ip a ç ã o d o s

8
7
Ibid., pp. 222-3. José da Silva Lisboa, Memória d o s benefícios políticos d o governo d e el-rey nosso senhor d . João
V I. Rio de Janeiro, na impressão regia, 1818.

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192 Kenneth Maxwell 97/193
internacional, porque o livre comércio prometia estimular a imigração de eu
5/10/2018 47910924MOTACarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
ropeus e oferecia a possibilidade de uma aliança com a Grã Bretanha contra
o tráfico de escravos.
Intelectuais, traficantes e patriotas brasileiros, em suma, longe de con
cordarem a respeito deste tema central, estavam am argamente divididos quan
do se tratava de abolir ou não a escravidão. Podiam abraçar o liberalismo,
mas
acessoseuaos
zelomercados,
"revolucionário" ficava
à proteção estritamente elimitado
da propriedade a um dedesejo
a garantias de
que as
dívidas seriam pagas. Nesse quadro, o centralismo, a monarquia e a conti
nuidade eram fundamentais. Os "patriotas" do Brasil eram realistas e não
podiam ir além da sua base de apoio social. Aqueles que assim fizeram,
como José B onifácio, foram logo descartados. A escravidão e o capitalismo
industrial provaram ser compatíveis, de fato, nos quadros do sistema atlânti
co do século XIX - o capitalismo industrial vicejou graças ao algodão e ao
café produzidos por escravos tanto quanto o capitalismo comercial havia
vicejado com o açúcar produzido por escravos. Nesse contexto, José
Bonifácio de Andrada e S ilva, o "patriarca" do movimento da independên TRAÇO DE UMA DAS MUITAS CVILIZAÇÕESQUE ANTECEDERAM A PRESENÇAEUROPÉ.A NA AMÉRICA TROPI-
cia, e um dos mais ardorosos defensores de mudanças estruturais - inclusive CAL. PINTURA RUPESTRE. SÃO RA MUNDO NONATO, PlAUÍ. (Caus C. MeyerAyba)
da abolição da escravidão e do tráfico de escravos - foi uma dupla vítima.
Não foi apenas o próprio sistema econômico, tanto o interno quanto o de
dimensão atlântica, que criou condições hostis às suas propostas; ele tam
bém foi vítima das políticas adotadas pela Grã Bretanha, cuja excessiva
pressão ajudou a minar a única administração que tinha um verdadeiro
compro misso com o fim da escravidão e do tráfico de escravos. De fato, em
conversas secretas mantidas com Henry Chamberlain, em abril de 1823,
José Bonifácio alertou os britânicos a não pressionarem d emais ou andarem
rápido demais:

Você sabe o quanto eu, sinceramente, detesto o tráfico de escravos, o quanto acredito
ser
ser ele
feitoprejudicial ao país,As
imediatamente. o quanto
pessoasdesejo a sua total
não estão cessação,
preparadas paraembora
isso, eisso
aténão
quep ossa
seja
feito, colocaria em risco a existência do governo, se tentarmos fazê-lo repentinamen
te. A própria abolição é uma das principais medidas que desejo apresentar à Assem
bléia sem falta, mas isso deve ser bem administrado e não podemos ter pressa [...]
Com relação às Colônias ou à Costa da África, nada queremo s lá ou em qualquer outra
parte. O Brasil é suficientemente grande e produtivo para nós, e estamos satisfeitos
com o que a P rovidência nos deu.
C AP I VAR A. SÃ O RA I M U N D O N O N A T O , P I A U Í . (Fundação
Desejaria que seus navios de patrulha tomassem todos os navios negreiros que encon P I NT UR A R UP ES TR E. P AR QUE NAC I ONAL S ER R A DA
trassem no mar. Não quero mais vê-los, eles são a gangrena de nossa prosperidade. A Museu do Homem Americano - FUMDHAM)

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 98/193
ESTALEIRO DA
DUARTE PACHECO PEREIR A,
RIBEIRA DAS NAUS.
5/10/2018 47910924MOTACarlosGuilherme
OÍOrg Viagem
R ANDE CAPITÃOaGENE
-slidepdf.com
(Iconographia) RAL DA ARMADADE CALE- \
cvr. VICEREÍEGOUERNADOR.
30MALAÜARNAJNDIA.
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REITO DEBAIXO RO PALIO
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CiíAÓ QUE MANDOUFAZER
PARAESTE FI M D£ ,
ME S. DOMINGOSDE
VAQUAL PUBLICOU
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CAÓ pENfiGIRI.CÀ

icosoBrsPom
^^^^^^
de

" O FINO BRASIL"

DUARTE PACHECO PEREIRA (1 4 8 0 - 1 5 3 3 ) , NOBRE


PORTUGUÊS, NAVEGADOR E AUTOR DE ESMERALDO DE SLTU
ORBIS (ESCRITO DE 1505 A 1508) , ESPECIALISTA EM

Q U E S T Õ E S DE G E O G R A F I A E C O S M O G R A F I A . ( I c o n o g r a p h i a )

O H I S T O R I A D O R P O R T U G U Ê S J O A Q U I M B A R R A D A S DE
PORTO DE LISBOA E AFROTA
DAS ÍNDIAS. TALHO-DOCE CARVALHO L EVANTOU, NOS ANOS SETENTA DO SÉCULO XX,

POR LAFITAU. PARIS, 1733. A HIP ÓTESE DE DUART E PACHECO SER O VERDADEIRO

(Biblioteca Mário de Andrade, "DESCOBRIDOR" DO BRASIL JÁEM 1498, DOIS ANOS ANTES

São Paulo) DA EXPEDIÇÃO DE PEDR O ÁLVARES CABR AL.


(Arquivo C G. Mota)

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 99/193
|
5/10/2018 47910924MOTACarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com

COSTUMES DOS ÍNDIOS.

GRAVURA DO LIVRO UNE FÊTE H O L A N D E S E S E Í N D IO S A L I A D OS . P O RM E N O R D A P RA N CHA " P A R A H Y BA E RI O G R A N D E " , D E F RA N S


BRÉS1L1ENNE CÉLÉBRÉE À ROUEN EN POST. G. BARLEUS, 1647. (Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro)
1550. (Iconographia)

"Estou chegando eu, vossa comida."


Hans Staden

H A N S S T A D E N . I L U S T RA Ç ÃO D O
LIVRO DUAS VIAGENS AO BRASIL,
D E S U A A U T O RI A . M A RBU RG ,
5 5 7 . (Biblioteca Nacional, Rio de O ÍNDIO CAÇADOR. TAPEÇARIA GoBELIN, C. 1692.
Janeiro)
(MASP, São Paulo)

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 100/193
5/10/2018 RO D RI G O D E S O U S A CO U T I N H O , 47910924MOTACarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
CO N D E D E L I N H A RE S .
LITOGRAFIA DEC A G G I N I , 1843.
(Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
Rio de Janeiro)

PAULISTA E MENDIGO BRASILEIRO. LITOGRAFIA AQUARELADA. JAMES HENDERSON, 1821.


(Col. Pedro Corrêa do Lago)

M A R Q U Ê S DE
P O M BA L . G RA V U RA
D E L E M A Í T RE .
J E A N F E RD I N A N D
D E N I S , 1846.
Biblioteca Mário de I CEG O GUIADO POR UM PRETO. AQUARELA SOBRE PAPEL. MIGUEL
Andrade, São Paulo) I DUTRA C 18 45 . (MASP, São Paulo)

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 101/193
" M o s t r e - s e a o Brasil q u e n ã o o q u e r e m o s a v a s s a l a r c o m o o s a n t i g o s d é s p o t a s ; p o r é m c o n t r a o s facciosos "0 Brasil agora é feito para a d e moc ra c i a , ou para o despotis
r e
5/10/2018b e l d e s , m o s t r e - s e q u e a i n d a t e m o s u m c ã o d e f i l a , o u l e ã o t a l q u e , s e o s o l t a r m o s , h á - d e t r a z ê -
47910924MOTACarlosGuilherme l o s a m o Org e m q u e r e r da
- e r r e iViagem a r- e u m a monarquia constitucio
- l hslidepdf.com
obedecer à s Cortes, a o R e i e à s autoridades constituídas no Brasil." n a l . O n d e e s t á u m a aristocracia rica e i n s t r u í d a ? O n d e
está u m c o r p o d e m a g i s t r a t u ra h o n r a d o e i n d e p e n d e n 
Borges Carneiro, 22 d e maio de 1822
te ? E q u e p o d e u m c l e r o i m o r a l e ignorante, sem
crédito e s e m r i q u e z a ? Q u e r e s t a p o i s ? "

José Bonifácio, Avulsos,


em P r o j e t o s p o r á o B r a s i l

CI P RI A N O BA RA T A DE ALMEIDA, REVOLUCIONÁRIO BAIANO E


\ DEPUTADO Às CORTES DE LISBOA, CIRURGIÃO FORMADO PELA
V UNVERSIDADE DE COIMBRA ( Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro)

J O S É BO N I F Á CI O PO R D E BR E T
(Biblioteca Mário de Andrade, São Paulo)

SESSÃO DO CONSELHO DE
2 DE SETEMBRO DE 1 8 2 2 .
N E S S A RE U N I Ã O - COM
_ PARTICIPAÇÃO DA PRINCE
SA L E O P O L D I N A , J O S É BO N I F Á CI O , J O S É CL E M E N T E P E RE I RA , M A RT I M F RA N CI S CO , G O N Ç A L V E S L E D O ,
" S E S S Ã O DAS CO RT E S DE L I S B O A " , DE O S CA R P E RE I RA DA S I L V A . A N T ÔN I O CA RL O S CA E T A N O M I RA N D A M O N T E N E G RO , M A N U E L A N T ÔN I O F A RI N H A E L U Í S P E RE I RA N Ó BRE G A - SÃO
DISCURSA À DIREITA VERGUEIRO CONVERSA COM F E I J Ó . ATRÁS, C PRIANO BARATA TOMADAS AS PRIMEIRAS MEDIDAS PARA A PROCLAMAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA. ÓLEO DE G E O RG I N A DE
(Museu Paulista, São Paulo) ALBUQUERQUE (Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro)

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 102/193
5/10/2018 47910924MOTACarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
"E Evaristo apoderou-se da revolução
no mesmo dia em que ela triunfou
[ 7 d e a b r i l d e 1 8 3 1 ] , f ru s t r a n d o o s p r o 
pósitos dos que a queriam levar às últi
mas conseqüências."

Otávio Tarqüí nio de Sousa,


E v or i s t o d a V e i g a

EVARISTO DA VEÍGA. LITOGRAFIA DE


SlSSON C 1 85 9. ( Biblioteca Mário de
PERNAMBUCO, C 18 40 . LITOGRAFIA KlDDER, 1 86 6. (Biblioteca Nacional, Rio de Janei
Andrade, São Paulo)

" D e 1 8 5 2 a t é ho je [ 1 8 5 5 ] , a r r e fe 
c i m e n t o d a s p a i x õ e s , q u i e t aç á o n o p r e 
sente, ansiedade do futuro, período de
transação."

Justiniano José da Rocha,


Açõo, reação e transação

JUSTINIANO JOSÉ DA ROCHA, PROFESSOR E


JORNALISTA. LITOGRAFIA DE M A R I N
LAVIGNE (Biblioteca Nacional, Rio de FESTA DOS COROADOS (DETALHE). LITOGRAFIA. SPIX & MAR T I US , 1823-1831.
Janeiro) (Biblioteca Mário de Andrade, São Paulo)

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 103/193
5/10/2018 47910924MOTACarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com
"Não seria justo que nos dessem tão bem a
liberdade?"

0 escravo crioulo Francisco

NEGRO COM FACÃO. LITOGRAFIA DE


G E O RG E H. L Ô W E N S T E R N , C. 1827.
(Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro)
VISTA DE S A L V A D O R, BA H I A . L I T O G RA F I A . J E A N F E RD I N A N D D E N I S , 18 38 . (Biblioteca Nacional,
Rio de Janeiro)

&S» " M i n h a a s c e n d ê n c ia p o r l in h a m a t e r n a p r o 
cede de negros haussás, escravos africanos
tra zid os d o Sud ão e afamados na história
das sublevações baianas contra os escra
vistas."

Carlos Marighella,
Por que resisti à prisão

" N E G R O S QUE VÃO LEVAR A ÇOITES". I


L I T O GRA F I A D E L U D W I G & B R I G G S . M A RI A RI T A M A RI G H E L L A ,
(Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro) DESCENDENTE DE HAUSSÁS (I con ogra phia )
mmmm

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 104/193
5/10/2018 47910924MOTACarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com

' ' P Á T R I A " . Ó L E O DE PEDRO


BRUNO. (Museu da República.
Rio de Janeiro)

CHICO DI ABO
atravessando com uma lança o monstro mais bárbaro 6 hediondo, que tem visto o mundo—o execrando
Francisco Solano Lopcz, destruidor de sua própria pátria!...

SEMANA ILUSTRADA, N 4 8 5 , 2 7 MAR. 1 87 0. (Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro)

SERTANEJAS DO ARRAIAL DE
CANUDOS PRESAS PELO
EXÉ R C I T O, dconographia

Por que o Brasi foi diferente? 0 contexto da independência 19 3


http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 105/193
" N ã o h o u v e r u p t u ra d o r e g i m e c o l o n i a l, população que queremos é branca, e espero ver chegar logo da Europa os pobres, os
que sobreviveu com o absolutismo do desditosos, os industriosos; aqui eles terão fartura, com um clima bom; aqui eles serão
5/10/2018 r e g i m e i m p e r i a l , c o m a l e g i s l a ç ã o a r 47910924MOTACarlosGuilhermeOrgfelizes;
Viagem elesasão
-slidepdf.com
os colonos que queremos. 9
caica, com a relativa imobilidade ad
m i n i s t r a t i v a , com a a l i e n a ç ã o da s
elites, com a fragilidade da conjuntura
e a estabilidade da estrutura, imutável
e incapaz de atender às necessidades Para alimentar esse sistema atlântico e para manter a organização eco
nacionais. O período colonial e sua so nômica da produção, entretanto, uma coisa era evidente: o Brasil não preci-\
b r e v iv ê n c i a d e t e r m i n a m t o d o o s u b d e  sava de Portugal. Os ressentimentos e as dificuldades financeiras e econômicas
senvolvimento posterior." que levaram à convocação das Cortes em Lisboa, em 1820, e à formulação
José Honório Rodrigues, 1970
da constituição liberal, surgiram, em grande p arte, devido à perda dos privi
légios e monopólios de Po rtugal no comércio colonial; e, uma vez reunidos
os constituintes, as medidas das Cortes logo refletiram esses imperativos. As
Cortes não só obrigaram d. João VI a retornar para Lisboa, como ainda se
puseram a legislar para colocar um fim aos pod eres que ele havia cedido a
seu filho m ais velho, d. Pedro, que havia sido deixado no Rio na condição de
regente. Os brasileiros viram que as medidas das Cortes de Lisboa, com
apoio total dos odiados comerciantes e imigrantes portugueses no Brasil,
eram uma tentativa de "recolonização" que faria o tempo voltar atrás nos
treze anos em que o Rio havia sido a sede do governo. Co m esses aconteci
mentos como pano de fundo, d. Pedro desafiou as instruções das Cortes
para que retornasse à Euro pa. Primeiro aceitou o título de "Defensor P erpé
tuo do Brasil" dado pelo C onselho Mun icipal do Rio de Janeiro no início de
1822 e, depois, em 7 de setembro de 1822, emitiu sua declaração de "ind e
pendência" nas cercanias de São Paulo.
A emancipação política do Brasil é, portanto, um longo e cumulativo
processo, que manteve sua continuidade ao longo do caminho; 1808, 1816,
1822 e até 1831 são todos momentos importantes na afirmação dessa gra
dual separação e na definição da nacionalidade. O caminho teve mom entos
árduos, com certeza. O reconh ecimento internacional só veio em 1825, de
pois de longas neg ociações e da promessa de que o Brasil pagaria a Portugal
uma grande indenização. A guerra eclodiu com renovado vigor no Sul, na
fronteira d a Band a Oriental, e só chegou ao fim uma década depois, com o
JOSÉ H O N Ó RI O RO D RÍ G U E S T OM A P O S S E N A A CA D E M I A BRA S I L E I 
RA D E L E T R A S , 1969. À D I RE I T A , F RA N C I S CO IG L É S I A S . (Arqui
C. G. Mota)
9
Charles K. W ebster, op. cit., vol. I, pp. 222-3.

194 Kenneth Maxwell P o r q u e o Brasil fo i dif erente? 0 c ontexto da i n d e p e n d ê n c i a 195

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 106/193
estabelecimento, sob o auspício britânico, do Estado-tampão independente Bibliogra fia selecion ad a
do
5/10/2018
Uruguai, delineando no S ul uma f
  ronteiram
  enos ambiciosa d o que aquela
47910924MOTACarlosGuilherme Org
ANNINO Viagem
, Antônio, a-slidepdf.com
LETVA, LUÍS Castro & GUERRA, François-Xavier. De los impérios a Ias naciones:
que havia sido pleiteada durante a colônia ou o reino unido. A Bahia e o Iberoamérica. Zaragoza: IberCaja, 1994.
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de d. Pedro, em (um
1831. apenas
E foique, na décadaera
de sobrinho,
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duque de Ca xias ho mem ironicamente, COATSWORTH, John H. " Econom ic and Institutional Trajectories in N ineteenth Century Latin
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Alle n & U n w in ,1 9 8 2 .
com o conseqü ência, o tráfico de escravos perdurou até a metade do século MACAULAY, Neill. Dom Pedro: the Struggle or Liberty in Brazil and Portugal, 1798-1834.
e a escravidão até a década de 18 80/E também não é de surpreender que Durham: D uke University Press, 1986.

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http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 107/193
r
5/10/2018 m Idéias de Brasil: formação
47910924MOTACarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com

e problemas (1817-1850)

Carlos Guilherme Mota

D e v e o B r a s i l o lh a r p a r a t r á s , p a r a e n c h e r o v a z i o , qu e t e m d e s d e o p o n t o
de que s a i u , a té o p o n t o a t u a l d e o u t r a s n a ç õ e s , p re e n c h e n d o a s ér i e
intermédia com brevidade, m as com prudência.

José Bonif á c io

E m c a d a p a í s p e r m a n e c e u m a m a t r iz d a H i s t ó r ia , e e ss a m a t r iz d o m i n a n t e
marca c o n s c i ê n c ia c o l e t i v a d e c a d a s o c i e d a d e .
a
k AAarc Ferro

http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 108/193
5/10/2018 47910924MOTACarlosGuilhermeOrgViagema-slidepdf.com

I
N. primeira metade do século XI X, plasmam-se novas idéias de
Brasil no mundo luso-afro-brasileiro, na Europa, nas Américas do Norte e
do S ul. Sem un idade constitucional ou cultural consolidada, sem ter resolvi
do , ou sequer equacionado, alguns de seus problemas básicos, posto que
não era uma nação, o Brasil emerge em 1822-1823 com o entidade política
no cenário internacional.
Sufocado pelo clima político-ideológico da R estauração antibonapartista,
mas já no compasso das revoluções liberais que varreriam o mund o a partir
de 1820, o processo de descolonização no B rasil ganha alento até 1848, na
maré montante da revolução ocidental, com foco na república dos Estados
Unidos e em algumas capitais européias. Desenredando-se das malhas da
Santa Aliança, tem início, naqueles anos decisivos, a longa caminhada do
novo e malformado país-continente na busca, marcada po r avanços e recuos,
de uma identidade propriamente nacional.1
Carregando um passado de três séculos de escravidão e pesada tradi
ção clerical de base jesuítica, os desafios da co ntemporaneidade se impu
nham às suas lideranças, primeiro ilustradas, dentre elas José Bonifácio e
irmãos, e depois revolucionárias liberais, como E varisto da Veiga e Bernardo
Pereira de Vasconcelos.
Idéias de "Brazil" se adensaram naquele período decisivo compreendi
do aproximadam ente entre 1817 e 1850, quando se consolidaram estruturas
de dominação da sociedade estamental-escravista e se adaptaram teorias
sociais e culturais que embasariam o n ascente modelo autocrático-burguês.
1
Para a discussão do conceito de nação e nacionalismo, ver E ric J. Hobsbawm, Nações e naciona
lismo desde 1780. Programa, mito e realidade (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990), espe- «i
cialmente o capítulo "A nação como novidade: da revolução ao liberalismo".

200 Ca r lo s Gu ilh e r me M o ta
I d é i as d e B r a s il : fo r m a ç ã o e p r o b l em a s ( 1 8 1 7 - 1 8 5 0 ) 2 0 109/193
1
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M odelo que definiria o padrão civilizatório consolidado ao longo do proces Naq uele contexto preciso, tinha início a História d o Brasil. A puram-se,
5/10/2018 so de formação econômico-social e político-cultural que marcaria
47910924 os dois
MOTA CarlosGuilhermeentão,
OrgViagem algumasamatrizes e formas de pensamento, modos de ser e tipos de
-slidepdf.com
séculos seguintes.2 comportamento social e po lítico que passariam a se r progressivamente iden
Delinearam-se então, mais nitidamente, formas de sociabilidade, de tificados com o "nacionais". O u seja, d e produções "naturais" e identificadoras
sensibilidade e dominação, de auto-explicação histórico-geográfico-cultural, da nação emergente, com seu s modo s de pensar, estilos de comportamento,
assim como ideo logias e modos de pensar q u e caracterizariam o perfil d essa apropriação e usos d o espaço qu e tipificariam o sistema social específico
entidade político-institucional abstrata denominada "B rasil". Naçã o à qual que se implantou naqueles anos decisivos de formação do Brasil contempo
deveria corresponder, à semelhança d e outros Estados nacionais, uma "soci râneo.
edade" mais ou menos homogênea, a sociedade "brasileira". No processo, A vaga revolucionária liberal de 1 820 é o pano de fundo da Indepen
pontilhado de conflitos, insurreições, golpes e acomodações, forjou-se a " n a  dência política de 182 2-18 23, que se desdobraria, completando-se, no bo jo
cionalidade" co mo categoria histórica e, não meno s importante, como ideo  de outra vaga revolucionária internacional, também liberal e nacional, a da s
logia p olítica e cultural. revoluções de 1830. Com efeito, o 7 de abril de 1831, quando Pedro I é
A denominada Revolução d a Independência foi o ponto de partida para forçado a abdicar, torna-se uma data revolucionária nessa periodização, a o
a construção de um sistema ideológ ico consistente, tendo como pilar a idéia assinalar também um a m udança d e mentalidade. Da consciência amarga, in
de nação, alimentada pela elaboração contínua de um a História nacional e, dividual, do "viver em colônias", descrito n a Bahia pelo professor Luís dos
portanto, de u m a historiografia que a cu ltivasse. Historiografia q u e se defini Santos Vilhena em 1 8 0 1 , o autor de Recopilação de notícias soteropolitanas
ria e se adensaria n a vertente que vem de Abreu e Lima, C onstâncio, Olivei
e brasüicas, ao sentimento coletivo de "viver em nação independente", após
ra Lima, política
Evolução Capistrano, Caio ePrado
do Brasil Formaçã Júnior
o do (sobretudo em suas obras
Brasil contemporâneo), até 1 8 2 2 , e sobretudo após 1831, passou-se nessas partes da América do Sul
por experiência histórica de grande profundidade, suas reverberações che
o manual História do Brasil, de Otávio Tarqüínio de Sousa em co-autoria
com Sérgio Buarque de Holanda, alcançando o estudo de Nelson Werneck gando aos nossos dias.
Sodré, As razões da Independência. E se desdobrando, mais recentemen De fato, as manifestações envolviam coletividades maiores, com atua
te , na obra de José Honório Rodrigues, Revolução e contra-revolução da ção da imprensa e surgimento de partidos ou facções. Quando o movimento
Independência. 3 liberal-nacional d e 1831 eclodiu no R io de Janeiro, mobilizaram-se cerca de
600 cidadãos armados em 30 de março. A data da insurreição da tropa
2
Para uma compreensão desse processo, ver, de Florestan Fernandes, A revolução burguesa no (comandada pelos irmãos Lima e S ilva) e d a manifestação popular n o Cam
Brasil (Rio de Janeiro: Zahar, 1975) e Circuito fechado (São Paulo: Hucitec, 1976), especial po de Santana contra o monarca fora marcada para o dia 6 de abril e, na
mente o capítulo 1, "A sociedade escravista n o Brasil". Ver também de Barbara e Stanley J. Stein, véspera da abdicação, "entre meio-dia e três horas da tarde tinham afluído
Colonial Heritage in Latin America (Nova York: Oxford University Press, 1970), especialmen
te o capítulo V (edição brasileira, pela Paz e Terra). Sobre essas "outras" idéias de Brasil, o ao Campo de Santana cerca de duas mil pessoas. Às cinco esse número
historiador João José Reis vem oferecendo interpretações inovadoras desde 1982, sobretudo a dobrara".4
partir de seu estudo Rebelião escrava no Brasil. Ver também a importante coletânea, J. J. Reis
(org.), Escravidão e invenção da liberdade. Estudos sobre o negro no Brasil (São Paulo: Na quela encruzilhada histórica, emergiram com vigor as temáticas da
Brasiliense/CNPq, 1988). independência/dependência, das formas de inserção do Brasil no sistema
3
A meu ver, a obra que representa a culminância dessa linhagem, sintetizando a referida teoria da internacional, do mode lo político ideal, da construção da sociedade civil -
História do Brasil que tem origem na Independência, é de Manuel de Oliveira Lima, Formação
histórica da nacionalidade brasileira (Rio de Janeiro: Leitura, 1944), com prefácios de G ilberto particularmente no tocante à questão dos escravo s, dos índios, do contrato
Freire, M. Martinenche e José Veríssimo. Em José Honório Rodrigues, Independência: revolu
ção e contra-revolução (Rio de Janeiro: Francisco A lves, 1975), 5 vols., o leitor poderá encon
trar uma vasta gama d e informações. V e r , do mesmo autor, na coletânea Ensaios livres, publicada 4
Ver a descrição desses acontecimentos em Otávio Tarqüínio de Sousa, Evaristo da Veiga (Belo
postumamente por Leda Boechat Rodrigues (São Paulo: Imaginário, 1 9 9 1 , prefácio de Carlos G. Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1988), pp. 94-5 (Coleção História dos Fundadores do
Mota), o estudo "O parlamentarismo no Brasil e seu retorno". Império do Brasil).

202
C a rlo s G u ilh e rm e M o to Idéio s de B ra s il: f o rm a ç ã o e p r ob l em a s ( 1 8 1 7 - 1 8 5 0 ) 203
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de trabalho e da propriedade - , do sistema educacional e, enfim, da identi


o esforço dos liberais [...] do dia 7 de abril de 1831 começou a nossa existência
dade cultural. A lguns p rincípios que deveriam reger a sociedade nacional a nacional; o B rasil será dos Brasileiros, e livre [...] os homens sejam colocados dentro
se r construída surgiam explícitos nas mentes das principais
5/10/2018 lideranças
47910924 refor
MOTA doViagem
CarlosGuilhermeOrg quadro dasadoutrinas; sejam exemplos da regra e não a regra deles mesmo s; é então
-slidepdf.com
mistas ou revolucionárias, a começar p elo monarquista-constitucional José que seremos livres e dignos de rivalizar com os nossos conterrâneos e prim ogênitos
Bon ifácio, crítico do escravismo: da liberdade americana- os cidadãos dos Estados Unidos. 7

A sociedade civil tem por base primeira a justiça, e por fim principal a felicidade dos
Em meio a intensa internacionalização, conflitos, negociações, aquare
homens. Mas que justiça tem um homem para roubar a liberdade de outro homem, e las e sonde
faturas etos, tratados descritivos
pagamentos, e traçados urbanísticos,
exílios e sensibilidades além dedesenha
desencontradas, en saios,
o que é pior, dos filhos deste homem, e dos filhos destes filhos?5
ram-se variadas idéias de Brasil, que iriam caracterizar as formas de pensa
Entretanto, naquela conjuntura, o q ue se con solidou foi um certo tipo mento do que comumen te, nos embates políticos sobretudo, se denominava
de imaginário e de consciência propriamente nacional - bem com o uma de "nação".
terminada idéia de Brasil - marcadamente conservadores, que o próprio C om a descolonização e a Independência, o Brasil integrava-se no con
patriarca já c riticava: " O despotismo de certo país que conheço é açucarado certo das nações. A s três vagas revolucionárias européias de 1820, de 1830
e m ole; mas por isso m esmo perigoso, por tirar todo nervo aos espíritos, e ("o sol de julho") e d e 1848 ("a primavera d os povos") mudariam a fisionomia
abastardar corações".6 do mundo. N a vaga liberal de 182 0, a primeira sublevação eclodiu na Ale
A revolução e a contra-revolução da Independência, se consideradas manha, sobretudo nos meios universitários, teve caráter constitucionalista e
em seu resultado geral, confluíram num processo reformista, de acomoda foi prontamente reprimida por M etternich. N a Espanha, m ilitares de C ádiz,

eção as entre as com


classes províncias
erciais,e num
elitesprocesso
de variada
queextração, os estamentos
desembocaria senhoriais
na Conciliação de organizados para combater
nhola, sublevam-se os de
em janeiro colonos revolucionários
1820 sob o comando dodatenente-coronel
América espa
meados do sécu lo, garantidora da inviável "paz" do Segundo Império e da R iego, obrigando o rei Fernando VI I a restabelecer a Constituição de 1812.
ordem escravista. Se José Bonifácio julgava que, "sem muito sangue, a de Em N ápoles, em julho de 1820, os "carbonários", sob o comando de Pepe,
mocracia brasileira que se possa estabelecer, nunca se estabelecerá sen ão obrigaram o rei Ferdinando I a submeter-se a uma C onstituição; em 182 1,
quando passar à aristocracia republicana, ou governos dos sábios e honra no P iemonte, o m ovimento carbonário impõe u m a constituição, log o reprimi
d o s " , seu antagonista o jornalista Evaristo d a Veiga, outra figura dominante dos todos pelas forças austríacas, restabelecendo-se o poder absoluto. Na
no cenário político e cultural da primeira metade do sé culo X IX , definiria o França, em fevereiro de 1820, o duque de Berry, sobrinho do rei, é assassi
ponto "ideal" desse p rocesso: nado, e o movimento da "Charbonnerie" se estende a Saumur, Belfort,
Thouars e Colmar. Também na Rússia, com a morte do czar Alexandre I,
Nada de jacobinismo de qualquer cor q u e seja. Nada de excessos. A linha está traçada houve tentativa fracassada de se implantar um regime constitucional (insur
- é a da Constituição. Tornar prática a Constituição que existe sobre o papel deve ser reiçãoA decabrista, 1825). do Ancien Regime, representada por Metternich
Europa absolutista
5
"A propriedade foi sancionada para o bem de todos", advertia mais adiante o deputado José e o czar, atemorizada com e sses m ovimentos liberais, aos quais se somam as
Bonifácio d e Andrada e Silva, em sua "Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa
do Império do Brasil sobre a escravatura", em Projetos para o Brasil, organização de Miriam
Dolhnikoff ( S ã o Paulo: Companhia das L etras, 1998), p. 60. Sobre a questão social, ver a síntese
de seu pensamento em nosso estudo, incluído em Lourenço Dantas Mota (org.), Introdução ao José Bonifácio, "Todo governo em revolução só faz descontentes", em Projetos para o Brasil,
Brasil. Um banquete no trópico (São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1999). Ver também as cit., pp. 208-209. As citações de Evaristo acham-se na Aurora Fluminense, n. 276, de 9 de
sínteses dos pensamentos de Nabuco, Euclides, Capistrano, Freire, Buarque, Caio, Faoro, Antô dezembro de 1 8 2 9 ; n. 470, de 11 de abril de 1 8 3 1 ; n. 477, de 27 de abril de 1831, respectivamen
nio Cândido, José Honório e Florestan, citados no presente capítulo. te . Ver Otávio Tarqüínio de S ousa, capítulos III, IV e V , em Evaristo da Veiga, cit. Como se sabe,
6
Ibid., p. 250, "Avulsos".
de 1823 a 1841 ocorreram várias deportações.

204 C a rlo s G u ilh e rm e M o ta I d é i a s d e B ra s i l: fo r m a ç ã o e p r o b l em a s ( 1 8 1 7 - 1 8 5 0 ) 205


http://slidepdf.com/reader/full/47910924-mota-carlos-guilherme-org-viagem-a 111/193
revoltas nacionais na Grécia e nas co lônias ibéricas na Am érica, crê assistir a
quim N abuco, Rui B arbosa e o senador Sousa Dantas, os dois últimos co
um "comp lô jacobino", com foco em P aris.8 nhecidos como "os nossos ingleses".
5/10/2018 Ne sses embates entre revolução e restauração, o Brasil nasce alinhado
47910924 MOTACarlosGuilhermeOrg Viagem
Em a-slidepdf.com
conclusão, entende-se por que "esse processo histórico-social que
com os m ovimentos contemporâneos. A problemática de "nossa identida vinculou o destino da nação emergente ao neocolonialismo provocou co nse
d e " , de "nossa nacionalidade" encontra sua raiz nessa determinada conjuntu qüências de enorme monta para a estruturação e a evolução do capitalismo
ra histórica internacional e num contexto sociocultural específico. Não dentro do país", segundo Florestan Fernandes. A essa "estrutura neocolonial
procuramos aqui "enunciar uma verdade histórica válida para todos e que de predizíveis e inevitáveis conseqüências sociais", segundo expressão de
seria tão absurda quanto imaginária", como adverte Marc Ferro. Quando Stanley e Barbara Stein, corresponderia um conjunto de formulações que
muito, esboça-se um esforço para reconstruir algumas das determinações poderiam ser enfeixadas sob o rótulo de pensam ento "liberal". Nos quadro s
desse passado tal como foi vivido e percebido por essa sociedade que co desse novo colon ialismo criado pelo imperialismo, essa ideologia por assim
meçava a se pensar "brasileira". Não por acaso o mais fecundo historiador dizer liberal cumpriria papel imp ortante ao abrandar as relações de dom ina
brasileiro do século XX , Caio Prado Júnior, denominou esse período decisi ção do Ancien Regime geradas no período colonial. O liberalismo, nessa
vo como sendo de "Revolução da Independência", conceituação dialetizada perspectiva, não seria uma idéia fora do lugar; ao contrário, consolidou-se
e aprofundada por outro importante estudioso do período, José Honório como eficiente "disfarce para ocultar a metamorfose dos laços de dependên
Ro drigues, que definiu essa fase crucial de nossa história como de revolução cia, para racionalizar a persistência da escravidão e d as formas correlatas de
e também de contra-revolução. dominação patrimonialista".9
Reside aí o nó histórico em que se enreda nossa ambígua contempo- Numa visão de conjunto, importa notar que, nessa sociedade em que
raneidade, ou melhor, a dessa formação histórico-cultural abarcada pela idéia se reforçou o senhoriato escravista e se entranhou a ideologia cultural do
de "Brasil". Idéia fundadora ligada à de nacionalidade que remanesce no escravismo, criaram-se mecanismos e mores que definiriam e encaminha
discurso historiográfico-cultural n ascente, e persiste em temáticas e visões riam no plano propriamen te político a longa história de conflitos, sobretudo
ora exóticas e pitorescas, ora rebrotando em análises que consideram tal os do Período Regencial (1831-1840), com desdobramentos, conciliações
formação "tardia" e desatualizada, ora alimentando projetos político-econô e reformas qu e se prolongariam por todo o século, com a vitória permanente
micos em que "n ossa cultura" surge como notavelmente promissora, e assim da contra-revolução preventiva e fortalecimento do Estado.
por diante. Naq uele contexto, enraízam-se os discursos reformista ilustrado, No plano ideológico, a formação dessa idéia de Brasil teve desdobra
depois liberal, em seguida liberal-nacional, que irão desembocar na " Que s mentos mais complexos, com a vitória do pensamento conservador. Os es
tão nacional" a partir da segunda metade do século XIX, já com registro tudos clássicos do historiador Jacques Go dechot permitem comp reender que,
jacobin o no último quartel do século. Discurso que se realimenta de tempos no plano ideológ ico, o resultado foi, nessa perspectiva, o enraizamento his
em tempos, perpassando os quase dois séculos de nossa independência po tórico-social da doutrina e da ação conservadora da contra-revolução fran
lítica. Tal nó aperta quan do se constata que a idéia de "Brasil co ntempo râ cesa ao longo do século XIX - ou, quando menos, de suas vertentes
n e o " (ou, na interpretação de Florestan Fernandes, a "Idade Moderna do
Brasil") cristalizara-se já encravada no sistema mundial de dep endências da ideológicas mais brandas, de Siéyès a Chateaubriand e Madame de Staôl,
ou, quando mais "avançadas", de B enjamin Constant. Daí entender-se por
época, com uma elite que se educara no fino trato com os interesses euro que um liberal como E varisto - defensor da liberdade constitucional, do sis
peus aqui implantados. No ápice desse processo, já na segunda metade do tema representativo e da liberdade de imprensa - proclama va no seu jornal
século, afirmar-se-iam algumas das melhores cabeças do país, desde Joa-

8
Cf. J.-B. Duroselle, UEurope de 1815 à nos jours (Paris: PUF, 1964), pp. 96-7. Ver também 9
Florestan Fernandes, Sociedade de classes e subdesenvolvimento (Rio de Janeiro: Zahar, 196 8),
René Rémond, O século XIX (1815-1914) (São Paulo: Cultrix, 1976), pp. 34-6; Sérgio Corrêa da pp. 10-4;Stanley e Barbara Stein, A herança colonial da América Latina (Rio de Janeiro: Paz e
Costa, Pedro I e Metternich (Rio de Janeiro: Editora A Noite, 1952). Terra, 1970), p. 114.

206 Id é ia s d e B r a s il: fo r ma çã o e p r ob l em a s ( 1 8 1 7 - 1 8 5 0 ) 207


Ca r lo s Gu ilh e r me M o to

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Aurora Fluminense: "Faça-se tudo quanto é preciso, mas evite-se a revolu nova era nos estudos históricos, por sintetizar todo o século X IX . A pesar de
ção".
seu tempero comtiano ("o mais robusto pensador do século"), a teoria da
5/10/2018 A força dessa ideologia mobilizadora da improvável47910924
"paz do Segu
MOTA ndo
CarlosGuilhermeHistória
OrgViagem do Brasil - com sua correspondente periodização - condensada
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Império" foi suavizada, além das boas maneiras do imperador-sábio P edro nessa síntese antológica constitui a matriz d a qual partiriam os estudos po ste
n, pela ideologia regressista de liberais como Bernardo de Vasconcelos ("Fui riores de Caio, M anuel Bonfim, José Honório Rodrigues, Florestan e mesmo
liberal"), que seria combatida depois pela melhor tradição historiográfíca por Raymundo Faoro (para citarmos alguns clássico s do pensamento radical no
assim dizer radical, de Capistrano de Abreu a Florestan Fernandes. Linha Brasil): "Som os o ún ico caso histórico de uma nacionalidade feita por uma
gens de pensamento assemelhadas às que em Cuba desaguariam nas posi teoria política [...]".10
ções de José Marti e, no Peru, em José Carlos Mariátegui, ou ainda, nos Em síntese, uma consistente idéia de Brasil se consolidara por volta
projetos dos teóricos e educadores da Revolução Mexicana de 1910. E dos anos 1840-50. A partir de fora, porém com viva elaboração interna,
essa temática torna-se atual nesta passagem de século, de vez que aquela plasmou-se, desde 1831 até 1850, uma certa ideologia do "caráter nacio
visão conservadora, travestida em teoria da História, sob no va linguagem, n a l " brasileiro. E também de um certo modo de se contar nossa história, pois
volta a enternecer a nova historiografia p ós-moderna, esquecida talvez das nesse mom ento despontaram historiadores como Solano C onstando e Abreu
duras recomendações político-sociais que o pitoresco Bragança escreveu e Lima, em cujos compêndios se fabricava, se instituía e se estabilizava, com
para sua sucessora, a princesa Isabel, esposa do conde francês D'Eu, o sinais diferentes, uma outra visão "nacional" da História do B rasil, menos
vencedor da guerra contra o Paraguai. conservadora, europeizante e colonialista que a d e M artius ou Varnhagen.11
Tal idéia conservadora de Brasil, fundadora do quadro político-ideoló- O país tomava forma sob a preeminência inglesa. Inserido naquele con
gico que seria dominante entre 1824 e 1889, instalou-se no Instituto Históri texto econômico-cultural, a obra de John Armitage, não por acaso inglês,
co e Geográfico Brasileiro, abrigou-se nas teorias de Varnhagen e alimentou numa visão atualizada e crítica, indicava em 1836 o nascimento d e uma na
o substrato ideológico d a contra-revolução vencedora. Fixava-se, nessa ver ç ã o , tendo por balizas cronológicas 1808 e 1831. Como escrevia ele na
tente e desse modo, o conceito de nação. No plano político-institucional, à introdução de seu livro: " É possível que a história contemporânea possa, em
contra-revolução vencedora correspondeu a metodologia da conciliação a alguns caso s, ser escrita com mais acerto por um estrangeiro".
partir de meados do século XIX, somente alterada com o movimento Cu rioso tal comentário, quando se observa q u e aquela p o r muitos con
republicanista. A lterada, mas n ão apagada completamente, pois na história siderada a primeira história "nacional" tenha sido escrita justamente p o r ele,
das formas de pensamento, de tudo fica um pouco; em áreas de passado
colonial, fica muito. 1
° Lia-se, nas principais cidades do B rasil. N o Rio de Janeiro, sede da monarquia tropical, em 1 821,
Com a guerra contra o P araguai, a retomada do m ovimento republi o Diário do Rio de Janeiro anunciava venda de livros em oito lojas. Havia intensa atividade de
canista, a abolição da escravatura, a Proclamação da R epública e a repres leiloeiros (em geral, ingleses), o principal dos quais era Jorge Dodsworth, correspondente comer
cial de Hipólito José da Co sta, com escritório na rua da Alfândega, que anunciava a chegada de
são a Canudos encerra-se uma certa visão de Brasil: assiste-se ao tournant números do Correio Braziliense em navios que vinham de Liverpool. Após 1822 e a Constituin
decisivo, com a descoberta de um outro Brasil pelo republicanista radical te , o número de leitores aumentou. Em 1 8 2 3 , Evaristo vendia em sua loja de livros, por exemplo,
Euclides da Cunha (1866-1909). Os sertões, obra publicada em 1902, ao o Cours de politique constitutionelle, em 8 volumes, de Constant, e várias obras de Bentham.
Evaristo (pseudônimo arcádico, de poeta aliás medíocre: Alcino) era leitor, além de Constant e
revelar indiretamente as mazelas da república, também procedia a o julga Bentham, d e Ricardo, S a y , Sismondi, F o y , Blackstone. Em 1 8 2 7 , e l e vendia obras de S a y , Sismondi,
mento da monarquia e do legado colonial, abrindo um novo período de crí Ganilh, Broussais, Racine e Voltaire, e livros sobre o s Estados Unidos e sobre o México. Para uma
tica para a construção da nova História das Mentalidades no Brasil. Em visão mais ampla do tema, ver Mansa Lajolo e Regina Zilberman, A formação da leitura no
Brasil (São Paulo: Ática, 1996).
nossa perspectiva, entretanto, o estudo insuplantado de E uclides, "Da In de 1
' O estudo mais recente e crítico sobre essa visão é o de Karen M . Lisboa, A Nova Atlântida d e Spix
pendência à Repú blica (esboço político)", publicado em 1900 e incluído em e Martius: natureza e civilização na Viagem pelo Brasil (1817-1820) (São Paulo: Hucitec/
seu livro À margem da História, pode ser considerado o sinalizador de uma Fapesp, 1997). Uma nova edição de À m argem da História, prefaciada por Miguel Reale, foi
publicada pela Livraria Martins Fontes em 1999 (Coleção Temas Brasileiros).

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