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reflexões sobre as bem-aventuranças

A FELICIDADE
SEGUNDO
JESUS
Russell P. Shedd

tradução
Corcion Chown

Conteúdo
"kw

Prefácio dos Editores


7
Introdução
9
A Felicidade dos Humildes de Espírito
15
A Felicidade dos que Choram
29
A Gloriosa Felicidade dos Mansos
45
 Felicidade dos que Têm Fome e Sede de Justiça
61
A Felicidade dos Misericordiosos
75
A Felicidade dos Limpos de Coração
8 5
Felizes os Pacificadores
101
 Felicidade dos Perseguidos por Causa da Justiça
1 1 3
Conclusão

Prefácio dos Editores


14a1_~

Dentre as dezenas de contribuições que o Dr. Shedd já prestou à teologia brasileira


por meio da palavra escrita, apresentamos agora A Felicidade segundo Jesus, sua
exposição da parte mais conhecida do Sermão da Montanha. Os que já leram outras
de suas obras, como A Adoração Bíblica, Nos Passos de Jesus, Andai Nele, Tão Grande
Salvação, Lei, Graça e Santificação, O Mundo, a Carne e o Diabo, A Solidariedade da
Raça, Alegrai-vos, no Senhor, A Justiça Social e a Interpretação da Bíblia, podem
testemunhar que seus escritos têm o dom de aliar profundidade de idéias e simplicidade
na comunicação. A Felicidade segundo Jesus não foge a essa regra, conforme verificará
quem se lançar à leitura das páginas a seguir.

Pelo fato de conhecer bem a cultura brasileira e a alma do nosso povo, os escritos
do Dr. Shedd trazem embutido um sabor todo verde e amarelo. É gratificante ler suas
palavras tão bem escolhidas como, por exemplo, quando se refere ao publicano com a
alma "ensopada de pecados". A Felicidade segundo Jesus fala bem de perto ao coração do
brasileiro também pelos muitos exemplos que trazem como cenário cidades e locais
muito familiares como a cidade de São Paulo (numa alusão que ele faz às chuvas torrenciais
do verão paulistano), a Praça da Sé (na capital do estado de São Paulo, famosa pela
presença de crianças abandonadas) e Cambuquira (em Minas Gerais, ao mencionar
uma conferência bíblica ali realizada). Esses detalhes fazem com que nos sintamos em
casa durante a leitura.
Edições Vida Nova deve sua própria existência ao trabalho que durante anos o Dr.
Russell Shedd desenvolveu como missionário, primeiramente em Portugal, e agora há
mais de 35 anos no Brasil. Sua visão de colocar à disposição dos falantes de português
uma literatura teológica sadia e de nível acadêmico está hoje mais do que concretizada e
solidificada pelo ministério da Vida Nova. Seus mais de 220 títulos já impressos
conferem-lhe a posição de liderança nacional como publicadora de obras acadêmicas de
teologia evangélica. Como o próprio Dr. Shedd sempre costuma dizer, é somente a
Deus que toda glória deve ser conferida. Mas gostaríamos de acrescentara isso que
somos infinitamente gratos a Deus e o glorificamos pelo fato de um dia ter chamado
um servo tão fiel, humilde e consagrado para trabalhar entre os brasileiros. A Deus toda
glória, e ao Dr. Shedd toda gratidão da igreja brasileira!

Robinson Malkomes, editor Inverno de 1998


Introdução
1 w

As bem-aventuranças são a introdução ao Sermão da Montanha, que cristãos e


pagãos reconhecem igualmente como uma das declarações mais importantes, em todos
os tempos, do caráter moral. O significado que Jesus pretendia transmitir aos seus
discípulos — e, por extensão, a nós também — precisa de interpretação e de aplicação
séria ao nosso viver diário. Afinal de contas, foram os discípulos que se aproximaram de
Jesus quando ele se assentou diante das multidões (Mt 5.1). A eles Jesus escolhera para
proclamarem a sua salvação e estabelecerem a sua igreja. Não é aqui que se deve procurar
um cristianismo popular, feito sob medida para as vicissitudes populares, que se interessa
em adquirir benefícios materiais e bem-estar físico. O alvo do sermão é a perfeição que
reflete a santidade de Deus (Mt 5.48). As bem-aventuranças resumem e destilam as
qualidades que Deus conclama seus filhos a porém em prática na vida na comunidade e no
mundo.
Anteriormente, Jesus chamara quatro dos seus discípulos para que deixassem seus
barcos de pesca e para fazer deles "pescadores de homens" (Mt 4.18, 19). Abandonaram
seus meios de obter o sustento material garantido, mas não conseguiram tão facilmente
deixar para trás o seu caráter. Jesus, ao convidá-los a segui-lo, pretendia iniciá-los
num período de transformação interior necessária.
Da mesma forma que Moisés trouxe do monte Sinai os mandamentos escritos pelo
dedo de Deus, Jesus assentou-se, noutra montanha, para ensinar os princípios
fundamentais do Reino (Mt
7.24-27).As bem-aventuranças sintetizam a lei de Cristo, da mesma forma que os Dez
Mandamentos epitomam a lei de Moisés.
Somente um compromisso sério com Jesus como Senhor e Salvador faz desse
sermão um código moral e espiritual sério. Realmente, as exigências que Jesus apresenta
são tão contundentes e abrangentes que várias interpretações já foram postuladas para
esse sermão, coma intenção de abrandar ou anular essas exigências. Alguns
dispensacionalistas, no passado, relegavam-no ao milênio, quando, então, os corações
humanos seriam mais brandos e dispostos a seguir os ensinos do Rei Jesus.
Leo Tolstoy, escritor russo de renome, procurou implantar os ideais do sermão
numa colônia, um tipo de encrave cristão dentro do mundo caído. Seu sonho não se
realizou. Já faz muito tempo que os teólogos liberais apelam ao sermão para exemplificar o
ensino maravilhoso de Jesus. Supunha-se que semelhante idealismo criaria o modelo
para aqueles que quisessem implantar o Reino de Deus na terra. Duas guerras mundiais
desmascararam o mal radical no coração humano e a futilidade dos esforços humanos
que visam eliminar o egoísmo, quer individual, quer coletivo.
Albert Schweitzer, teólogo alemão de renome e missionário em Lambarene, na
República do Gabão, achava que o sermão refletia a ética interina de Jesus. Conforme a
teoria de Schweitwr, no começo do século xx, esse sermão tratava de atitudes e ações a
serem adotadas para o período de crise que Jesus previa como um prelúdio para a vinda
do Reino que ele buscava estabelecer. Mas (segundo essa teoria) Jesus fracassou, pois o
Reino não passou a existir na realidade. A ética radical do Reino foi repudiada. Se
Schweitmr tivesse razão, os historiadores e os antiquários seriam os que mais se
interessariam pelo estudo desse sermão.'
Todos aqueles, porém, que confiam na Bíblia para receberem as instruções divinas
para a sua vida, evitarão entrar em qualquer um desses becos sem saída. Para tais pessoas,
esse sermão representa as exigências legítimas do Reino de Deus. É aqui, mais do que em
qualquer outro lugar, que procurarão conhecer os ideais que Jesus Cristo ensinava. Talvez
seja verdadeira a declaração de John Stott, feita diante da Convenção de Keswick de 1972,
de que esse sermão é a parte mais conhecida, mas possivelmente a menos seguida,
dos ensinos de Jesus. Mesmo assim, ela descreve os verdadeiros "filhos do reino", ou
seja: aqueles que, pela graça, foram regenerados pelo Espírito Santo ao 3.6). É possível
que nunca tenhamos conhecido alguém que vivesse perfeitamente à altura dessas
exigências, mas nem por isso o sermão deixa de ser o padrão divino para hoje e
para todos os tempos. Esse sermão é o código de santidade promulgado por Deus.
William L. Pettingill, um dos principais colaboradores da primeira edição da
Bíblia de Scofield, entendia que o Sermão da Montanha tinha o propósito de descrevera
vida durante a reino milenar. Alegava que esse sermão não era o caminho de salvação
para os pecadores. "Nem é a regra de vida para os cristãos... O Sermão da Montanha é
pura lei, e o cristão não está debaixo da lei, mas da graça.., Depois de ter excluído tanto
os ímpios quanto os fiéis, não lhe restou outra escolha senão relegar esse sermão ao
milênio futuro?

Pettingill estava errado, com toda a certeza. Mateus escreveu para as igrejas dos
seus próprios dias e tempos - para a era da graça. Jesus não fez uma exposição da
vontade de Deus para um futuro distante, mas para a igreja, o povo da Nova Aliança. A
promessa segundo os profetas seria cumprida mediante a vinda do Espírito. A lei de
Deus seria escrita no coração dos crentes. Assim como a lei corretamente entendida não
podia ser observada dependendo-se de esforço próprio, esse sermão envolve a graça e o
perdão. Jesus declarou que, para aqueles cuja justiça não exceder a dos estribas e dos
fariseus, a porta de entrada no Reino permanecerá fechada (Mt 5.20). Com isso
queria dizer que a justiça aos próprios olhos não era a essência da lei, nem é ela o âmago
desse sermão. Jesus, mediante a sua morte e ressurreição, atribui a
sua justiça a todos quantos nele crerem (1Co 1.30). Deve haver, no entanto, um reflexo,
da santidade interior que o Espírito Santo implanta naqueles que o conhecem. Há
mandamentos a serem obedecidos por aqueles que declaram que Deus neles habita Go
14.23). C. E Hogg e J. B. Watson declaram: "Nada existe no sermão que não se ache
noutra forma nas epístolas; e, realmente, pouquíssima coisa que não se ache
implícita ou explicitamente naquelas escritas pelo apóstolo enquanto era
prisioneiro em Rorna".' As verdadeiras características dos "filhos do reino" são
demonstradas nas bem-aventuranças mais claramente do que em qualquer outra parte do
sermão. Nesse trecho, não há maneira de deixar despercebida a contracultura do caráter
do Rei vivendo a sua vida nos seus discípulos e através deles. Aqui descobrimos a
"imagem" do Filho de Deus (cf. Rm 8.29) e a perfeição que o Pai exige dos seus filhos
(Mt 5.48). Devemos imitar essa viva descrição de Cristo. Somente ele pós em prática na
carne humana a bemaventumnça das bem-aventuranças, pois somente ele exemplificou
com perfeição todas elas. Nisso conseguimos captar melhor a intenção de Paulo ao
escrever: "Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne..."
(Rm 13.14).

Antes de convidar o leitor a notara riqueza de significado em cada uma das bem-
aventuranças, quero ressaltar algumas considerações. Em se tratando da unidade das
bem-avenrunnças, não há dúvida de que Stou tem razão. As oito bem-aventuranças não
descrevem cristãos diferentes que possuem uma ou outra dessas características. Pelo
contrário, visam caracterizar todos os seguidores genuínos de Cristo. As bem-
aventumnças não são como presentes dados aos misericordiosos, ou humildes, mas que,
entretanto, não são mansos. O cristão que possui uma das bem-aventuranças deve
possuir todas elas.
Cada uma das oito descrições é de uma qualidade espiritual fundamental, mais do
que uma representação de realidades físicas ou políticas. Isso não significa, no entanto,
que essas virtudes têm pouca ou nenhuma aplicabilidade ao mundo real e à nossa
existência de todos os dias. Pelo contrário, é exatamente por serem espirituais que são de
suprema importância em todos os relacionamentos e atitudes humanos. Assim como o
Verbo (Logos) que se tornou carne a fim de tornar real, tangível e visível a glória de Deus,
ascaracterísticas espirituais do cristão "bem-aventurado" devem ser reconhecíveis. Por
certo, é justamente por isso que as bem-aventuranças parecem contradizer o bom-senso.
Nelas, a cidadania celestial reveste-se, na terra, de expressões visíveis (cf. Fp 1.27; 3.20;
1Pe 1.1, 17).
Devemos entender que as bem-aventumnças proclamadas por Jesus são bênçãos
verdadeiras. A palavra "bem-aventurado" (makarios, em grego) significa "feliz", não por
causa das circunstâncias externas, mas por causa da fé mediante a qual o crente recebe
antecipadamente os benefícios que Deus lhe prometeu (Hb 11.1). Jesus promete aquela
alegria espiritual que também conhecemos como fruto do Espírito Santo (GI 5.22). As
bênçãos, assinaladas sempre na segunda parte de cada bem-aventurança, descrevem os
privilégios de pertencer ao reino de Deus e de gozar dele. Cada uma das bem-
aventuranças deve ser considerada parte essencial de um todo. Quem, portanto, recebe
uma das bênçãos aqui prometidas deve desfrutar de todas elas.
Desejo, agora, explicar aos meus leitores o que penso ser o significado de cada
uma das bem-aventuranças e oferecer minha tentativa de aplicá-las de modo relevante.
1

A Felicidade dos
Humildes de Espírito
I w

Há mais de três séculos, Blaise Pascal, inventor da calcula-dom, observou que os


homens buscam continuamente a felicidade. Podem até mesmo se sentir infelizes ao ponto
de se suicidar, mas nem por isso deixam de buscar mais felicidade. Jesus nos faz lembrar
que a felicidade não é algo que existe fora de nós mesmos. Trata-se de uma qualidade ou
atitude interior. O significado do radical de "bem-aventurado" fica próximo das nossas
palavras comuns "feliz", "afortunado". Segundo parece, a busca insaciável do homem
por felicidade não pode deixar de passar pela humildade de espírito. Por que Cristo
colocou essa bem-aventurança em posição de destaque? Thomas Watson respondeu
assim a essa pergunta: "... para demonstrar que a humildade de espírito é a própria base
e alicerce de todas as demais graças que se seguem. Querer que frutos cresçam sem
haver raiz não é diferente do que desejar todas as demais graças sem esta da
humildade".'
Não é fácil definir a pobreza de espírito, porque é uma qualidade rara. A não ser que
Deus focalize em nosso coração o seu Raio X espiritual, nunca chegaremos à condição
de verdadeiramente humildes de espírito. A palavra grega ptochos (literalmente, pobre)
significa mais do que a mera dependência do trabalho do indivíduo para ganhar a soma
mínima necessária para sustentar a vida (gr. penes). Pelo contrário, refere-se à humilde
condição (ou indigência) que gera mendigos e crianças de rua. Os humildes que Jesus
tem em vista são os indigentes, em estado de absoluta
dependência da ajuda de pessoas compassivas. W. Barclay parafraseia a primeira bem-
aventurança de modo desafiador: "Bem-aventurado o homem que reconhece sua
própria debilidade extrema e confia exclusivamente em Deus' .'
Ninguém tem dificuldade para entender o que significa ser humilde em posses
materiais. Esses humildes dependem dos outros. Não possuem dinheiro nem coisa
alguma de valor que alguém deseje. Podemos citar como exemplo as crianças de rua em
São Paulo. Vivem debaixo das pontes e dos viadutos e nada possuem que possam dar
em troca de alimentos, de vestimentas ou de moradia. Quando, num certo dia frio de
inverno, minha filha voltou às pressas da Praça da Sé para casa a fim de buscar roupas
para algumas crianças que viviam num "mocó" (abrigo coletivo debaixo de uma ponte),
tinha justos motivos para isso. A policia tinha invadido aquele "refúgio', tomado e
empilhado todos os seus pertences e incendiado tudo. Por que os policiais não
confiscaram aqueles pertences como despojos da batalha? Simplesmente porque tudo
aquilo não valia nada para os policiais. Esse tipo de pobreza é uma condição em que sua
vitima não tem nada para oferecer em troca, porque ninguém deseja algo que seme-
lhante miserável porventura possua.

Semelhantemente, a humildade de espírito descreve a pessoa humilde que não tem


méritos nem obras que satisfaçam ao próprio eu e que possam ser oferecidos em troca de
benefícios que deseja da parte de Deus. Mas não é possível fechar semelhante negócio
com Deus. Tudo quanto a pessoa possa considerar como crédito está destituído de valor
aos olhos de Deus. Os fariseus, achando-se ricos de espírito, tinham bastante certeza de
que suas boas obras não somente eram aceitáveis diante de Deus, mas também que ele
lhes daria o seu "reino" em troca de tamanho serviço sacrificial. Achavam que, de
alguma forma, podiam transformar Deus em devedor e eles mesmos em credores. Nós
também, freqüentemente, enganamo-nos com uma avaliação de nós mesmos como
credores diante de Deus.
Na parábola do fariseu e o publicano, Jesus deixou meridianamente claro que o
valor espiritual das boas ações do fariseu que orava em intrinsecamente nulo diante de
Deus. Visto que lhe faltava "humildade de espirito", sentiu-se forçado a tentar oferecer
sua moralidade elevada, seus jejuns e suas orações como moeda corrente no céu (U
18.9-11). Deus, porém, não queria aceitar nada disso. Posto que os fariseus eram, em
geral, honrados pela sociedade religiosa ao redor, parecia natural que pensassem que o
próprio Deus também se agradaria deles Uo 5.44).
O publicano não era assim. Batia no peito, contrito, e nem sequer ousava levantar
os olhos ao céu, temendo provocar a ira divina contra sua alma, ensopada de pecados.
"Sê propicio (ou propiciado no tocante ao meu pecado) a mim, pecador!" (Lc 18.13). Deus
correspondeu, justificando-o, assim como fizera com Abraão, tantos séculos antes (v. 14;
Rm 4.3). Ele se deleita em perdoar ao arrependido, ou seja, àqueles que não vêem dentro
de si mesmos nenhum mérito que Deus deseje. Reconhecem que seus delitos e rebeldias
são tantos que só Deus seria capaz de prover perdão segundo as riquezas da sua graça (Ef
2.4). Sendo assim, Deus permanece sendo o credor, e o pecador, o devedor, em
completa dependência de Deus para receber o suprimento continuo da graça que perdoa.
Watson diz: "Antes de nos tornarmos humildes de espírito, não temos a capacidade de
receber a graça. Aquele que está ensoberbecido com o conceito da sua própria
excelência e suficiência não está em condições de receber Cristo".'

A humildade de espírito significa, também, que o cristão aceita de modo realista o


papel de "escravo" em seu relacionamento com o Senhor. Posto que o credo mais antigo da
igreja era a simples declaração pública "Jesus é Senhor" (Rm 10.9), os primeiros
cristãos devem ter-se considerado escravos que "pertenciam" ao seu Senhor, pois ele os
comprara por um preço infinitamente alto (ICo 6.19). Porque não pertencemos a nós
mesmos, não temos condições de fazer trocas com Deus. A obediência é um sinal
indispensável em todo escravo grato de Jesus Cristo (Rm 1.1; Fp 1.1, grego).
A Humildade de Espírito no Antigo Testamento
É desta maneira que devemos considerar como Israel foi redimido do Egito. Os
Dez Mandamentos são apresentados assim: "Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da
terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim" (Êx 20. 2,3).
Os israelitas, por terem recebido esse livramento imerecido, deviam temer ao
SENHOR, andar em todos os seus caminhos, amando e servindo "ao SENHOR [ ... ] Deus,
de todo o [ ... ] coração e de toda a [ ... ] alma" (Dt 10.12). Se Israel tivesse realmente
circuncidado o seu coração em vez de endurecer a sua cerviz, Deus teria continuado a
abençoar o seu povo (v. 16). Um coração incireúnciso e uma cerviz endurecida
importam em rejeição da vontade de Deus. Semelhante indivíduo quer seguir seus
próprios caminhos. "Cada um se desviava pelo caminho" (Is 53.6) é o âmago da iniqüidade
que o Servo Sofredor aceitou carregar sobre si em nosso lugar. Escolher nosso caminho
em vez da vontade de Deus mostra a "riqueza" de um espírito soberbo.
Deus falou com Salomão em resposta à oração proferida na ocasião da consagração
do templo por ele construido. "Se o meu povo, que se chama pelo meu nome se
humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei
dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra" (2Cr 7.14.) Aqui, devemos
notar de novo que humilhar-se é o primeiro passo em direção à oração, à busca do
Senhor e à conversão. Faltando pobreza de espírito, fica impossível "buscar ao Deus
único". Menos ainda podem-se esperar respostas às orações.
Posto que a essência da rebelião é a soberba, não é de admirar que Deus coloque a
humildade de espírito como questão primordial no culto a ele prestado. "Eis que o
obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de
carneiros"
(lSm 15.22). Para Deus, a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação, como a
idolatria (v. 23). A humildade de espírito não abre espaço para a rebelião. Conforme disse
o pequeno Samuel no templo, ao ouvir a voz de Deus pela primeira vez na vida:
"Fala, SENHOR, porque o teu servo ouve" (lSm 3.9). A humildade de espírito marca a
atitude daqueles que escutam a voz de Deus com desejo ardente de obedecera ele. Por
outro lado, "Deus resiste aos soberbos% ao passo que "dá graça aos humildes" (Tg 4.6).
Uzias sofreu as conseqüências de um coração exaltado. Sentia-se forre e seguro,
o que o levou a um pensamento independente e rebelde. Essa atitude causou sua própria
ruína. Entrou no templo e insistiu em queimar incenso no altar, o que era proibido pela
lei de Deus a todos que não fossem descendentes de Arão. Quando o sacerdote
Azarias tentou impedir semelhante ação, Uzias se indignou contra todos os
sacerdotes, pois tinha rebeldia no coração, e isso provocou a ira de Deus contra ele. O
sinal que lhe restou por ter desprezado a ordem de Deus foi a lepra, da qual padeceu até à
morte (w. 20-21). Não tinha aprendido a lição básica da vida, registrada no livro de
Miquéias: "Ele te declarou, o homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de
ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu
Deus" (6.8).
A Humildade de Espírito em Paulo
Deus não permitiu que o apóstolo Paulo se desviasse desse princípio. A humildade
de espírito não é mero aspecto opcional da vida cristã. "E, para que não me
ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne,
mensageirt, de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte" (2Co 12.7).
Não sabemos até que pontoo apóstolo teria sido tentado a gabar-se das muitas
revelações vindas de Deus, nem se seu arrebatamento ao paraíso teria afetado as suas
atitudes. O importante é saber que Deus não lhe deu a oportunidade de cair nessa
tentação. Podemos ter certeza de que Paulo rogava a Deus pela retirada do seu espinho
na carne, com a mesma confiança que Pedro sentia antes de se confrontar com a
tentação de negar a Jesus (2Co 12.8; Jo 13.37, 38). Deus, porém, conhece melhor os
corações do que nós conhecemos a nós mesmos Gr 17.9). O apóstolo aprendeu
muito bem essa lição, conforme vemos na sua epístola a Timóteo: "Cristo Jesus veio ao
mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal" (lTm 1.15). Paulo sentia-
se totalmente carente em assuntos espirituais; todo o seu acervo espiritual vinha do dom
gratuito de Deus.

A Soberba é o Principal Obstáculo à Humildade de


Espirito
Muitos cristãos duvidam quando se lhes diz que os pecados do espírito são um
empecilho à vida espiritual muito maior do que os pecados da carne.' Repetidas vezes,
a Bíblia ressalta a lição de que Deus se opõe aos soberbos (lPe 5.5). Foi a soberba que
provocou a queda de Satanás (cf. Ez 28.15ss. e Is 14.12ss.). Por isso, a linha da batalha
entre Deus e Satanás está delineada exatamente na altura da rebelião de Satanás. Se
nenhuma soberba tivesse surgido no seu coração, ele não teria caído – podemos ter total
certeza disso. Deve ficar claro para todos que um veio de soberba percorre todo pecado e
rebeldia contra Deus.

No centro da soberba está o egoísmo deliberado. Os cinco verbos na primeira


pessoa do singular, empregados no futuro do presente do indicativo pela "estrela da
manhã", revelam seu egocentrismo.' É assim que a soberba produz a auto-suficiência e o
desafio contra o Criador. Foi a mesma soberba no coração de Adão e de Eva que os
impediu de consultar a Deus a respeito das mentiras que a serpente lhes contou (Gn 3.1-
7). Se tão-somente Eva tivesse achado dentro de si mesma a humildade de espírito
suficiente para esperar a comunhão com Deus que sempre mantinha no fim da tarde, ela
teria resistido à tentação. Se Adão tivesse
adiado sua escolha por tempo suficiente para consultar seu verdadeiro Senhor, teria
percebido quão tola seria a desobediência.
"A soberba é a estima demasiadamente alta em que a pessoa tem a si mesma, por
causa dos seus talentos, das suas realizações, dos seus méritos ou da sua posição. O
humilde de espirito tem consciência de privilégios, talentos, realizações, méritos ou
posição, mas atribui todos eles a Deus e os submete ao propósito divino para a sua vida e
para a causa de Cristo." Sendo assim, a soberba, tanto quanto a incredulidade, está na
raiz de todo pecado consciente. Enfrentara oposição de Deus é apenas parte do
problema. Pense nos danos causados nas relações humanas quando os mais simples
delitos se transformam em muros de separação. Os filhos de Deus humildes de espírito
não ficam constrangidos pela humilhação. Não esperam nenhum bem da natureza
caída que têm. Quando tal pessoa é galardoada de louvores, fica constrangida, pois
reconhece que não possui nenhuma qualidade nem capacidade que não tenha recebido
da parte de Deus (lCo 4.7). Não pode facilmente imaginar que acumulará qualquer tipo
de mérito.

Lembre-se de que Jesus disse aos seus seguidores que, a não ser que se tornem
como criancinhas, não entrarão no reino de Deus (Mc 10.15 e paralelos). Nem todas
as características das crianças são admiráveis, de modo que talvez seja proveitoso dedicar
algum tempo para pensar no que existe de recomendável na natureza de uma criancinha:
1) As crianças se dispõem a reconhecer publicamente que erraram.' As crianças estão
bem dispostas a se esquecer dos seus ressentimentos e receber pessoas que antes eram
inimigas. 2) O que deve nos impressionar é que as crianças facilmente se deixam ensinar.
Estão prontas a reconhecer que não sabem alguma coisa e, portanto, têm muita
capacidade para aprender. 3) As crianças reconhecem que precisam de disciplina
quando fazem algo errado.' Não têm a mesma disposição dos adultos de tentar justificar
suas ações erradas, nem de procurar contrabalançar suas más ações com ações boas.
A "síndrome do filho mais velho" na Parábola do Filho Pródigo deixa claro esse
aspecto, pois desmascara a corrupção do coração endurecido pela soberba. Quando o
filho mais velho resistiu ao convite para participar da festa de boas-vindas ao seu
irmão "perdido", demonstrou a oposição que o orgulho ferido faz surgir no coração.
Ele se considerou maltratado pelo pai gracioso... não apenas se recusou a participar da
festa do perdão, mas também criticou amargamente seu pai. "... todos esses anos tenho
trabalhado como um escravo para o senhor e nunca desobedeci às suas ordens. Mas o
senhor nunca me deu um cabrito para eu festejar com os meus amigos" (Lc 16.29, NVI).
Os pobres de espírito nunca reagem à graça com orgulho ferido.

Ser Humilde de Espírito


Bonhoeffer entendia que os verdadeiramente humildes reconhecem sua própria
falência espiritual. Tendo contemplado a bela santidade de Jesus, os humildes de
espírito ficam impossibilitados de se considerar melhores do que os outros. "Se o meu
estado como pecador me parece de alguma forma menos mau ou detestável quando
comparado com o pecado dos outros, na verdade ainda não reconheci que sou pecador 1...]
O amor fraternal pensará em inúmeros atenuantes para o pecado dos outros; somente
para o meu pecado é que não há nenhuma justificativa."

John Owen, um, dos grandes puritanos do século xvii, escreve que "é muitíssimo
aceitável diante de Deus que nos regozijemos em comunhão com ele, no seu amor. Que
ele seja acolhido em nossa alma cheia de amor e de ternura. A carne e o sangue tendem a
ter pensamentos antipáticos contra ele. Nada é mais triste para nosso Senhor e mais
subserviente aos desígnios de Satanás do que pensamentos como estes". Foi essa a
mentalidade do terceiro servo, que escondeu seu talento na terra. Revelou seu coração
orgulhoso mediante as seguintes palavras: "Senhor, sabendo que és homem severo, que
ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhas-
te..." (Mt 25.24). Fica claro que ele não confiava no seu Senhor, nem considerava que
valesse a pena obedecer aos desejos deste. A humildade de espírito explica o serviço fiel
e amoroso dos dois primeiros servos que duplicaram o número de talentos a eles
confiados. Sustentavam um conceito bem diferente no tocante ao Senhor deles. Ele em
bom e generoso. Estava bem disposto para compartilhar as suas riquezas com esses
servos que nada possuíam por conta própria. Esse senhor era tão generoso que lhes deu
gratuitamente os primeiros talentos bem como os que tinham lucrado (Mt 25.21-23).
Ser humilde de espírito é a melhor maneira de descobrir a felicidade que tão
freqüentemente escapa daqueles que procuram uma vida feliz. A frase empregada por
Jesus descreve os que acolheram dentro de si mesmos o espírito humilde de Jesus. Não
se trata de um mero ornamento do cristão. É a essência da vida cristã, conforme afirmou
há muito tempo Richard Baxter, o magnífico pastor puritano. Jesus insistiu na
necessidade de humildade para receber o dom da salvação. O regenerado deve depender
totalmente da graça de Deus. Cristo no crente e o crente em Cristo, isso é o que produz
muitos frutos, conforme disse Jesus: "sem mim, nada podeis fazer" Uo 15.5). A
humildade pode ser aprendida mediante a comunhão com Jesus Cristo, que se oferece
para ensinar aqueles que aceitam com paciência o seu jugo ugo e carregam seu fardo leve
(Mt 11.28-30). Matricular-se na melhor escola para aprender a humildade de espírito
importa em estar vinculado com o Senhor em comunhão inseparável. Que melhor
método didático se pode ter do que o daquele que "a si mesmo não se glorificou" e que,
"embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu" (Hb 5.5, 8)?

João registra um exemplo excelente da humildade do nosso Senhor quando este


colocou água numa bacia e lavou os pés dos discípulos (Jo 13.2-11). Sabendo que, no
dia seguinte, morreria em terrível agonia e vergonha, deixou de lado a ansiedade natural
no tocante à cruz, para desempenhar de modo prático o seu papel de servo. Lavar os pés
era dever do menor escravo." Poucos dias antes, procurara imprimir na mente dos
discípulos esta verdade: "Quem quiser tomar-se grande entre vós, será esse o que vos
sirva" (Mt 20.26-27). Só a bacia e a toalha nas mãos de Jesus transformariam o egoísmo
deles em humildade.
A cruz, de modo mais eficaz ainda, fixou indelevelmente no coração deles a
verdade de que não são os poderosos e fortes os bem-aventurados da terra. Não os reis
entronizados, mas os humildes e desprezados são os que refletem o coração de Deus.
"Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também" Go 13.15).
Demonstramos nossa verdadeira natureza mediante a humildade de espírito na nossa
vida.
"Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as
coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. Ele escolheu as coisas insignificantes
do mundo, as desprezadas e as que nada são, para reduzira nada as que são, para que
ninguém se vanglorie diante dele" (lCo 1.27-29 NVI). Nunca devemos esquecer-nos da
razão disso: "Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de
Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2.8, 9). Foi o mesmo Jesus quem
afirmou que "estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são
poucos os que acertam com ela" (Mt 7.14). Isso indica que a humildade necessária para
receber a vida eterna é um atributo rara.
O cristianismo ocidental atual pensa que o caminho é fácil, e que o eu é passível de
ser aperfeiçoado. É essa distorção da verdade que David Wells debateu em profundidade
no seu importante livro No Place for Truth [Não há espaço para a verdade]." Ouça
suas palavras ressoantes que visam combater a falsa autoconfiança: "O evangelho bíblico
assevera exatamente o inverso, a saber: que o eu está pervertido e mal ajustado w, seu
clacionantento com Deus e com o próximo, que está di, i-, dr rn1; mn e de raciona-
lizações, que é contrário à lei, que . ... .. I ,- de modo que
realmente a pessoa deve morrer para o eu a fim de viver".12 Somente pela dependência
total e pela confiança absoluta na graça oferecida na pessoa e na obra histórica de Jesus
na cruz é possível alcançar a salvação que Deus oferece.
A colisão entre o evangelho e o mundo fica em plena evidência na rejeição cristã
do "Übermensch" (homem dominador) de E Nietzsche, forte, egoísta, autoconfiante,
superior e ousado. Admitir seus próprios erros não passa pela cabeça desse "machão",
já que, aos seus olhos, ele jamais falhou. A altivez é uma tentação peculiar dos que
exercem a liderança. Os discípulos não eram imunes a isso. Várias vezes discutiram entre
si quem em o maior e quem seria o mais exaltado no reino (cf. Me 9.34; 10.4041). Mas
Jesus frisou que quem quisesse ser o primeiro teria de ser o último e servo de todos.
Jesus exemplificou semelhante espírito de abnegação ao esvaziar-se da glória celestial
para viver como o mais humilde carpinteiro e mestre ambulante. Nas suas próprias
palavras: "O próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar
a sua vida em resgate por muitos" (Me 10.45).

Foi a humildade de Jesus que Paulo ressaltou como modelo para a vida cristã
normal. "Tende em vós o mesmo sentimento [atitude] que houve também em Cristo
Jesus." Ele demonstrou essa atitude das seguintes maneiras: 1) Não seguiu o caminho
de Adão, nem de Lúcifer, que tentou usurpara posição suprema do Pai, buscando
igualdade com ele (Fp 2.6). 2) Esvaziou-se a si mesmo, ou seja, despiu-se da glória
divina, a fim de viver entre os homens exatamente como qualquer um deles, porém sem
pecado. 3) Sendo Deus, escolheu voluntariamente tornar-se homem, mesmo com
todas as desvantagens e desafios da vida humana. 4) Humilhou-se até o ponto de levar
sobre si o estigma de um escravo (doidos, em grego). 5) Voluntariamente optou por
obedecer à vontade do Pai, morrendo na cruz. 6) A morte que sofreu foi a mais
humilhante que se pode imaginar, pois foi despido e cravado
numa cruz, forma de execução reservada aos piores elementos da sociedade.
Os humildes de espírito são os que mais claramente vêem a grandeza de Deus. Eles
sentem de maneira tão forte e marcante a sua própria indignidade que não reclamam das
aflições. A soberania de Deus, assim como a sua misericórdia, sempre ordena o que é
melhor. Reconhecem que não podem acalentar ressentimentos, porque percebem que
o perdão que recebem da parte de Deus não conhece limites. Deus não acalenta
ressentimentos contra nós. O coração quebrantado não tem a capacidade de guardar
na memória a culpa dos outros, porque a sua própria culpa lança uma sombra tão
escura que não consegue enxergar nada mais negro do que isso. Sem a humildade, é
impossível alcançar qualquer outra virtude. Os "mestres da espiritualidade
testemunham que, se não tomamos consciência da nossa condição real, jamais podere-
mos ver qualquer outra coisa em sua verdadeira luz. É da humildade — o senso de
contrição interior que fluem todas as outras virtudes cristãs."

O Galardão que Receberão os Humildes de Espírito


Dos humildes de espírito é o reino, segundo nos ensina Jesus. Isso significa que os
ricos de espírito e os soberbos não têm acesso à comunhão com Deus, nem agora, nem
no futuro. O vocábulo "reino" significa "domínio". São banidos da presença de Deus,
que oferece aos pecadores o privilégio de viverem sob o domínio do amantíssimo Pai.
Devemos entender que Nicodemos não poderia entrar no reino de Deus sem nascer
de novo, isto é, sem tornar-se uma criança recém-nascida e aprender a viver na família
da qual Deus é Pai. "Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de
Deus" (Rm 8.14).
Da oração que Jesus ensinou aos seus discípulos, conhecida como o "Pai Nosso",
aprendemos que devemos pedir que o reino venha (Mt 6.10). Nesse mesmo sermão,
Jesus conclamou seus seguidores a buscarem o reino em primeiro lugar. Os humildes
de espírito já possuem o reino, mas ao mesmo tempo pedem a Deus que ele nos mande
o reino. Nesse sentido, deve tratar-se do reino escatalógico que esperamos ser
introduzido na hora da sua volta.
O reino, que pertence aos humildes crentes em Jesus, foi inaugurado na primeira
vinda de Jesus. Teve início na sua vida, na sua morte redentora e na sua exaltação. Ele
reina mais especificamente sobre aqueles que nele confiam e se submetem ao seu
senhorio. São os humildes de espírito que, pela fé, aceitam o seu reinado. Eles também
percebem que falham. Não cumprem perfeitamente as ordens do Rei. Buscam o reino
pelo conhecimento da vontade de Deus revelada na Palavra e pelo auxílio do Senhor
para cumpri-Ia, É nesse sentido que é possível "buscar em primeiro lugar o reino".
Também aguardam a bendita esperança, a "da manifestação gloriosa do nosso grande
Deus e Salvador Cristo Jesus" (Tt 2.13). A essa altura, o reino virá em toda sua glória e
paz. A implantação do reino criará alegria indizível e cheia de glória (1Pe 1.8).

A Felicidade dos
que Choram
rUW

Motivos para chorar não faltam nesse mundo caído. É só ir para qualquer
aeroporto internacional e ver como parentes e entes queridos se despedem uns dos
outros. As lágrimas fluem com naturalidade. É só visitar qualquer velório de uma
cidade como São Paulo e observar como os vivos reagem na presença dos seus
mortos. Logo poderemos ver olhos vermelhos de choro. Ninguém acha estranho que tais
separações entre pessoas queridas provoquem choro.
Vale a pena lembrar que Jesus chorou diante do túmulo lacrado de Lázaro Uo 11.35).
Os circunstantes declararam: "Vejam como ele o amava" (v. 36). A compaixão que Jesus sentia
por Maria e Marta já se nota nos versículos anteriores (v. 33). A tristeza delas tornou-se tristeza
dele, assim como ele agora se compadece de nós em todas as nossas provações (Hb 4.15). A
separação provocada pela morte é apenas uma das muitas causas do choro humano. Quem
consegue ver bem-aventurança num ambiente tão trágico?
Jesus também chorou por causa de Jerusalém (Lc 19.41). Seu lamento brotou da
profunda tristeza que sentia, porque essa cidade rejeitara oportunidades para se arrepender.
"Ah! se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto
aos teus olhos" (v. 42). Jesus previu o sofrimento indizível pelo qual Jerusalém, por ter rejeitado
a sua paz, passaria na geração seguinte. O nacionalismo judaico intensificou-
se durante os quarenta anos entre a ressurreição de Jesus e a destruição de
Jerusalém pelos romanos. Se os judeus tivessem acolhido no coração seu verdadeiro
Messias e seguido o seu caminho, essa tragédia teria sido evitada. Jesus chorou,
mas que bem-aventurança há nas suas lágrimas vertidas?
Jesus chorou ainda no jardim do Getsêmani. "Durante os seus dias de vida
na terra, ele ofereceu orações e súplicas, em alta voz e com lágrimas, àquele
que o podia salvar da morte, sendo ouvido por causa da sua reverente
submissão" (Hb 5.7 NVI). Suas lágrimas foram vertidas porque ele levava sobre si
o fardo dos pecados da humanidade e porque previa a agonia da cruz. Realmente
chorou por causa dos nossos pecados. Como aquele que carregou totalmente os
nossos pecados, também suportou uma intensidade de tristeza além da nossa
capacidade de imaginar. Suas lágrimas revelam o alto preço da expiação que ele
pagou por nossa redenção (cf. Is 53.5, 6).
Onde está a bênção nas lágrimas de nosso Senhor? Isaías diz: "Ele verá o
fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito" (Is 53.11). O autor
de Hebreus também menciona que Jesus, rendo consciência da "alegria que lhe
estava proposta, suportou a cruz..." (Hb 12.2). Não devemos deixar despercebida
a verdade de que suas lágrimas não foram derramadas em vão.
A bem-aventurança dos que choram pode ser achada no equilíbrio entre o
pés" santo e a alegria do Espírito. John Arndt expressa bem essa verdade: "Se
alguém olha para si mesmo, vê mais motivos para estar triste do que para
alegrar-se. Se ele olha de modo correto para a vida dos outros, encontra mais
motivos para chorar por eles do que para invejá-los. Por que o Senhor chorou
sobre Jerusalém, que o perseguiu e matou? O pecado que você cometeu e a sua
cegueira o fizeram chorar (Lc 19.42). Portanto, o principal motivo para
chorar deve ser nosso pecado e a falta de arrependimento das outras pessoas".'
O choro de Jesus oferece um modelo para o choro abençoado. Chorou por
causa do pecado, da tragédia que a desobe-
diência e as suas conseqüências infligem sobre os homens. Fica claro que nem
todo choro é abençoado com santo consolo. O choro e ranger de dentes por
causado pecado sem perdão fornece uma ilustração de como Paulo entende a
tristeza para a morte que o mundo sente (2Co 7.10). A tristeza segundo o mundo
traz muitos tipos de desgraça na sua esteira. O divórcio, a depressão, o suicídio
e a guerra - essa é uma breve lista das tristezas do mundo que não trazem
nenhum fruto de bem-aventurança. Quase todos os dias, noticiários pela
televisão nos impressionam com a tristeza do mundo. O seqüestro de um marido
ou pai, o assassinato de um filho, tudo isso faz fluir um rio de lágrimas. A
causa fundamental de toda violência, de assaltos, da dependência de drogas, de
crianças abandonadas e de tudo quanto é desgraça pode ser explicada como a
ruptura do relacionamento entre o homem e Deus. Adão desobedeceu ao mandamento
claro de Deus. Os descendentes de Adão ainda pensam que violar as leis de Deus
é uma infração secundária, com a qual nem sequer vale a pena se preocupar.
Mesmo assim, o pecado, seguido pela separação de Deus, provoca a sua ira.
Semelhante pecado é castigado com tristezas temporais e eternas.

A Tristeza Segundo Deus


Existe, no entanto, uma tristeza segundo Deus. Nas palavras de Paulo:
"Vocês se entristeceram como Deus desejava" (2Co 7.9, NVI). Essa é a tristeza do
arrependimento que leva à salvação - da qual ninguém se lastima (v. 10).
Semelhante tristeza provém da convicção pelo Espírito Santo ao 16.8-11).
Nenhuma tristeza do tipo que Deus deseja pode ser produzida pelo homem por
conta própria. Somente a aplicação da Palavra de Deus ao coração pecaminoso
pode evitara autojustificação que bloqueia o caminho para o arrependimento.
Considere o caso de Pedro. Sentindo total convicção da sua lealdade a
Cristo, declarou solenemente que nunca negaria o

Senhor. "Estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte" (Lc
22.33). Parece impossível que Pedro tenha amaldiçoado e jurado: "Não conheço
esse homem..." (Mc 14.71). Nisso não sentiu nenhuma tristeza, a não ser quando
se lembrou da palavra que o Senhor lhe tinha dito. Mas logo que a palavra de
Jesus lhe cortou o coração, seu arrependimento foi imediato e profundo:
"chorou amargamente" (Lc 22.62). Abriu a porta para a restauração, para a
conversão segundo a definição de Jesus, que o preparou para fortalecer os seus
irmãos (Lc 22.32).
Judas, por certo, também chorou amargamente por ter traído seu Mestre.
Confessou o seu pecado: "Pequei, pois traí sangue inocente" (Mt 27.4), mas o
fim não foi a restauração, mas a morte por enforcamento, sinal claro do
sentimento que Paulo chamou de tristeza segundo o mundo. Ele não saboreou a
bem-aventurança do consolo que brota do solo preparado pelo Espírito Santo.
Paulo tinha o costume de chorar. Pelo menos parece que durante os anos
importantes do seu ministério em Éfeso, a tristeza preciosa que provém de Deus
inundava o seu coração como ondas do mar. Disse ele aos presbíteros: "... por
três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um" (At
20.31). Se lhe perguntássemos por que chorava, por certo teria respondido que
os sofrimentos dos irmãos, seus problemas não resolvidos e principalmente os
pecados deles, contribuíam para partir o seu coração.
Outra passagem bíblica nos ajuda a entender mais um pouco a tristeza
provocada pelo amor que o apóstolo guardava no coração pelos seus filhos na fé.
Paulo descreve os benefícios da tristeza que Deus produziu no coração dos
coríntios por intermédio da "carta severa", que escreveu com "muitas lágrimas"
(2Co 2.4). Ele mesmo alista vários desses benefícios em 2 coríntios 7.8-16.
Primeiro, Paulo diz que a tristeza produziu "dedicação" (gr. spouden),
isto é, um compromisso para solucionar o problema. Segundo, ela produziu
"defesa" (gr. apologias), no sentido de "ansiedade para estarem isentos de
culpa" (Nvi). Fizeram tudo
quanto era necessário para sanar o problema e sair da situação culposa.
Terceiro, criou "indignação" (gr. aganaktesin), um sentimento profundo de
culpa pela injustiça que cometeram. Quarto, produziu "temor" (gr. phobon),
por reconhecerem que Deus poderia castigar severamente o pecado deles.
Quinto, suscitou "saudade" (gr. epipothesin), um sentimento de alienação que se
aliviaria ao voltarem à comunhão intima com o apóstolo, seu pai na fé (lCo
4.14). Sexto, criou "zelo' (gr. zelos), transmitindo a idéia de solicitude
e forte desejo de reparar os estragos causados pelo pecado. Sétimo, despertou
nos coríntios "vindita" (gr. ekdikesin), o desejo insaciável de vera justiça
feita.
Paulo escolheu todos os vocábulos acima para explicar o que ele entendia
pela frase "tristeza segundo Deus" e as conseqüências dessa tristeza. Elas são
parte importante do arrependimento real que abre o caminho para a
reconciliação. Inúmeros divórcios e ressentimentos poderiam nunca ter
acontecido se as partes interessadas tivessem buscado a bem-aventurança do
choro.
Devemos perceber o contraste radical que existe entre o remorso e o
arrependimento bíblico. Lágrimas de frustração por causa das nossas ações
erradas não têm nada que ver com o lamento do coração quebrantado diante de
Deus.

Encontramos no salmo 51 a passagem bíblica que mais perfeitamente mostra a


realidade da bem-aventurança do choro. "Compadece-te de mim" (v. 1) revela que
a ferida deixada pelo pecado de Davi doeu muitíssimo. Ele roga a Deus que lhe
apague as transgressões e lhe lave a iniqüidade (w. 1-2). Não há nenhuma
indicação de que Davi estivesse tentando se defender ou desculpar-se. Mesmo
sendo rei e tendo agido como qualquer outro rei teria feito sem lhe pesar na
consciência, Davi diz: "... meu pecado está sempre diante de mim" (v. 3). Por
ter pecado contra Deus, e não apenas contra um homem (v. 4), sabia que somente
Deus podia purificá-lo com sangue sacrificial (v. 7). Não pensa levianamente
que sacrifícios de animais, tão facilmente ofertados por um rei, valeriam para
restaurara intimidade com Deus. Por isso Davi

escreve: "Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração


compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus" (v. 17). Todas as
características da tristeza segundo Deus encontram-se nessa confissão.
Nessa lamentação de arrependimento, sobressaem também a alegria e o
júbilo. "Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que exulrem os ossos que esmagaste"
(v. 8). Quando Davi pede a restituição da alegria da salvação da parte de Deus (v.
12), podemos ter certeza de que Deus o atendeu. Davi afirma a bem-aventurança
dos que alcançam o perdão dos pecados (SI 32.1). O homem a quem Deus não atribui
iniqüidade é feliz (v. 2).
Entendemos, portanto, que a alegria dos que choram por causa dos seus
pecados provém do consolo que receberão (Mt 5.4). A felicidade dos que se
arrependem de modo sadio, bíblico e profundo será realmente grande. João 13
também trata desse tema. Nota-se a preocupação de perito ao ouvir as palavras do
seu Senhor: "Se eu não te lavar, não tens parte comigo" (Jo 13.8). O que im-
portava mais para Pedra era justamente manter comunhão contínua com Jesus. Por
isso exclamou: "Senhor, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça" (v.
9). Jesus, então, lança mais luz sobre o simbolismo com que retratou o
arrependimento cristão. Uma vez banhado e unido espiritualmente, basta ao
crente lavar somente os pés (v. 10). Com essa figura de linguagem, Jesus
transmitia a necessidade do constante auto-exame e da confissão, seguidos pela
aplicação do sangue purificador. Então Jesus declarou limpos todos os
discípulos, menos Judas Iscariotes (v. 10). O discípulo recebe o consolo da
comunhão com o Senhor depois de se confessar a ele e de receber dele a lavagem
dos pés (o perdão).

A igreja local também rema incumbência de lavar espiritualmente os pés


dos seus membros. Na celebração da comunhão com Cristo na Ceia, todo irmão
realmente arrependido deve ser admitido. Quando o pão e o vinho são oferecidos
ao pecador arrependido, este é reintegrado à comunhão da família de Deus.

Dessa maneira, a união vertical com Cristo e a horizontal entre os irmãos


serão conseguidas e mantidas.

Como Podemos Aumentar a Tristeza segundo Deus?


A falta de tristeza pelo pecado é a melhor explicação para os olhos
enxutos. O que devemos fazer então? Em seguida, oferecemos algumas sugestões,
todas bíblicas e de eficácia comprovada.
1) "Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros" (Tg 4.8). É só
aproximar-se de Deus e deixar que ele tire um Raio X espiritual do seu
coração, e você sentirá a sua alma comovida e suas emoções sensibilizadas. É a
presença de Deus que leva o pecador a chorar, e é a enormidade dos seus
pecados que derruba suas desculpas mesquinhas. Se buscarmos a Deus com anseio,
conforme fez Davi numa terra exausta e árida (SI 63. 1), não faltará uma grande
tristeza quando percebermos a facilidade com que nos afastamos da sua
presença.
É gostoso aumentar nossa intimidade com o Pai celeste. Muitas vezes, no
entanto, isso requer uma confissão penosa de que temos nos afastado dele a
fim de buscarmos os valores do mundo (1Jo 2.15). Confessar que nos curvamos
diante de um ídolo pelo qual nos apaixonamos é doloroso para nós. Voltar à casa
do Pai é emocionante onante para nós. Chorar é natural para um filho pródigo. O
adúltero que realmente ama a sua esposa não confessa sua queda sem ficar
profundamente comovido.

Isaías aproximou-se de Deus no ano em que morreu o rei Uzias. No templo


teve uma visão do Senhor sentado sobre um alto e sublime trono (Is 6.1). A
visão simultânea, de Deus em toda a sua santidade e de si mesmo em toda a sua
pecaminosidade, levou o jovem profeta à mais profunda lamentação. Suas
palavras "Ai de mim! Estou perdido!" (v. 5) demonstram a reação típica que
marca roda verdadeira busca pela presença do Deus vivo por parte de um pecador
consciente.

2) Rogara Deus insistentemente que ele mande um avivamento. Relatórios


sobre os avivamentos famosos do passado distante, bem como dos mais
recentes, mostram que chorar e lamentar são as características mais comuns.
Quando Deus deseja operar profundamente no coração dos seus filhos, ele
desvenda a corrupção existente lá no intimo.
No dia de Pentecostes, Pedro pregou uma mensagem bíblica como muitos
pregadores têm pregado através dos séculos. Naquela ocasião, porém, os resultados
foram surpreendentes. Não foi feito nenhum apelo, mas 3 000 pessoas se
entregaram a Jesus e foram batizadas. A razão dessa extraordinária manifestação do
poder de Deus para transformar vidas acha-se nas dores agudas de consciência
sofridas pela multidão. Lucas escreve: "Compungiu-se-lhes o coração" (At 2.37),
que significa que ficaram muito aflitos no íntimo. Nada era mais importante
naquela hora do que encontrar um meio espiritual de alívio.
David Brainerd descreve no seu diário o efeito de ter ouvido a Palavra de Deus
em Crossweeksun, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, no século xviii. Os índios
sentiam dores de consciência tão forres que ficavam rolando no chão durante
horas seguidas, pedindo a misericórdia de Deus. Quando receberam a certeza do
perdão, o alivio sentido por eles correspondia ao peso da aflição que tinham
sofrido pouco antes. O consolo da parte do Senhor foi muito precioso. Esse
efeito extraordinário ocorreu em resposta as orações intensas e prolongadas de
Bramerd em favor do avivamento que Deus passou a enviar.

O impulso que leva pessoas respeitáveis, aparentemente virtuosas, a


confessar com lágrimas os segredos do coração é normal nos despertarrentos;
espirituais. O avivamento que sacudiu o Wheaton College, uma famosa escola
evangélica de ensino superior nos Estados Unidos, numa quarta-feira, 7 de
fevereiro de 1950, não foi exceção. A reunião na capela durou 39 horas
seguidas, quase exclusivamente repleta de confissões públicas, lágrimas e orações,
buscando perdão e restauração. Alunos
esperavam na fila até mesmo durante 8 horas, só para procurar, mediante a confissão, o
alívio de consciência. O Dr. Edman, presidente da escola, amigo pessoal de Billy Graltam,
escreveu:
Se você tivesse estado junto conosco, teria sentido a presença e o poder de Deus. Um
jornalista de Chicago veio até nós "com o cinismo da sua profissão", segundo ele mesmo
declarou, mas permaneceu conosco para maravilhar-se com a seriedade e a sinceridade
dos alunos. Quem teve um encontro verdadeiro com o Senhor Jesus não considerava longa
demais a espera de seis até oito horas para dar o seu testemunho. Alguns alunos salvos,
mas não quebrantados, ficaram sentados na capela durante mais de vinte e quatro horas antes
de terem o coração quebrantado e movido pelo Espirito de Deus.'
Em 1995, Deus derramou novamente seu Espírito sobre centenas de alunos do
Wheaton, a partir de um domingo, 19 de março. Cerca de mil jovens universitários
puseram-se em pé para confessar os seus pecados e receber oração e apoio. Em
várias noites seguidas, as reuniões dura= entre cinco e seis horas. Certo aluno
escreveu, um mês depois:
Uau! Quando Deus transformacorações, e a coisa mais espantosa que se pode ver! Aqui no
campos, ainda se vêem grandes acontecimentos. Corações endurecidos estão sendo
substituídos por corações sensíveis. Louvado seja o Senhor! Trata-se de um milagre
certamente tão grandioso quanto abrir caminho pelo mar Vermelho. O coração humano é,
sem
Í dúvida, uma das coisas mais difíceis a serem transformadas, e isso normalmente leva

vários anos. Nós temos visto pessoas transformadas da noite para o dia. Pessoas
endurecidas, rebeldes e grosseiras passara a ser pessoas meigas, sensíveis e que oram
muito. É espantoso! Não acredito que haja explicação para isso dentro da perspectiva
humana. Só posso agradecera Deus aquilo que ele está fazendo.'

Muitos dos que confessaram as suas transgressões, acompanharam com lágrimas as


suas confissões. Testemunha= que o alívio e a alegria que se seguiram foram
extraordinários. A presença de Deus na vida dos indivíduos e na sociedade criou uma
atmosfera de grande alegria.
O avivamento entre os zulus em Mapumulo, na África do Sul, mostra novamente
como lágrimas marcam os avivamentos. O missionário Erlo Sregen esforçou -se durante
anos para levantar uma igreja que demonstrasse o amor e a santidade de Deus, mas ficou
profundamente decepcionado. As palavras do pastor Stegen
revelam a condição morna dessa pequena igreja na África do Sul em meados de 1965:
Quando me perguntavam por que o trabalho entre os negros em tão difícil, eu respondia:
"Você tem de compreender que é difícil p ara um branco pregar o evangelho aos zulus, hoje
em dia. Eles não aceitam facilmente o evangelho, pois dizen, ser religião do homem branco.
A maioria dela está com a cabeça cheia de política dos tempos atuais, e muitos estão
influenciados pelo comunismo. Outra razão e que os homens zulus estão sempre
ocupados em beber; os jovens, preocupados cem as coisas deste mundo... Dá para entender
por que as coisas estão desse jeito, por que não pode haver um reavivamento e não há centenas
de conversões. Dá para entender, pois eles têm seus ídolos, seus deuses, etc.". E, de repente,
quando o Espírito Santo começou a atuar, lidou primeiramente comigo. Deus colocou o dedo
nos pecados que havia na minha vida.°
Certo sábado à tarde alguns irmãos da igreja reuniram -se para orar pedindo um
derramamento do Espírito Santo sobre a igre j a. Vários brancos estavam na quadra ao
lado do local. O pastor sentia-se envergonhado. Citando suas próprias palavras:

Pensei em levantar-me e fecharas janelas, de modo que os brancos jogando tênis não
escutassem o que atava acontecendo dentro do prédio... Enquanto fechava a primeira
janela, escutei algo. Em como se alguém me dissesse: "Tudo bem, pode fechara janela e eu
ficarei do lado de fora, e você, do lado de dentro, pois eu não poderei entrar". ... Eu sabia
que não ema janela que deixava Deus do lado de fora, mas o meu orgulho. Pela primeira vez na
minhavida, percebi que o Espírito de Deus é santo. Nunca havia tomado consciência disso... E
tão fácil dizer: "Sou batizado com o Espirito Santo, cheio do Espirito". As pessoas que nos
escutam, no entanto, olham para a nossa vida. Eu conhecia duas pessoas que falavam em
línguas e diziam ter a plenitude do Espírito
Santo. Uma delas tinha um vocabulário sujo... O outro vivia namorando as mulheres dos
outros e pecando com elas... Quando tomei consciência da santidade do Espírito de Deus,
ele me mostrou um lampejo de quão terrível aos seus olhos é o orgulho. O orgulho e um
pecado hediondo. Eu vi algumas palavras escritas diante dos meus olhos. Eram as
seguintes: "Deus resiste ao soberbo". Então, disse: "O quê? Eu não sabia disso". Sempre
pensava que em o diabo quem tornava as coisas difíceis para mim, e quem me oferecia
resistência... A primeira coisa que o Espírito Sianu, faz, quando vem sobre a vida de uma
pessoa é convencê-la do pecado. Há quebrantamento, as pessoas choram por causa dos seus
pecados. Ficam angustiadas, e não alegres. Deus desceu, e seu Espírito está atuando. As
pessoas em quem tal obra ocorre não estão cheias de riso, mas cheias de lágrimas; elas estão
chorando.'
lago Stegen orou:
"O Deus, perdoa-me; não estou certo diante de ti". Então ele conta: As seguintes palavras
vieram à minha mente: "Se agradasse ainda a homens, não seria servo, de Cristo" (Gl 1.10)...
Isto realmente partiu meu coração. Pensei: "Por doze anos venho dizendo aos zulus e aos
outras pagãos que venho a eles como um serva de Jesus Cristo, e tenho pregado a eles o
evangelho. Mas agora, testado e provado pela Palavra de Deus, tenho sido desqualificado" ...
Deus continuou, sem parar, revelando todos os meus pecados um atrás do outro...
Repentinamente, o problema de explicar o fracasso do evangelho entre os negros resolveu-se.
Não eram os ímpios pagãos que impediam que o avivamento viesse. Não eram eles, em eu
mesmo.'
O resu ltad o ma ra vilh oso d e tod o esse p esa r e sofrim ento interiores foi um avivamento.
Desta maneira silenciosa e profunda, Deus operou entre o povo. Certo dia, quando nos
reunimos para orar, Deus, de repente, fendeu os céus e desceu. Nós não tínhamos pedido
nem orado por aquilo, nem sabíamos o que devíamos esperar. Mas, de repente, veio um
som como de um vento poderoso... O Espirito de Deus desceu e ninguém precisou dizer a
outra pessoa que Deus estava no nosso meio.'
As conseqüências dessa ação foram imediatas. Uma feiticeira apareceu sem
ninguém convidá-la. "Eu quero Jesus. Ele pode salvar-me?" Stegen nem podia
acreditar no que acontecia. Ninguém tinha pregado para ela. Ela confessou seus
pecados. "Ore por mim, para que Jesus me liberte desses espíritos malignos."
Vinham feiticeiras e endemoninhados para serem libertados. Não sabiam
explicar, mas achavam que em Deus quem os forçava a vir.8
Milhares de pessoas se converteram. Hoje, depois de trinta anos, a
igreja, com 10 000 assentos em Quasiza-bantu, ao norte de Durban, na África
do Sul, continua desfrutando das bênçãos de um avivamento que começou com
muitas lágrimas.
3) O auto-exame de um coração arrependido é o caminho certo para
alguém sentir r pesar por causa do pecado. Tomás de Kempis escreveu há
séculos: "Quanto mais cuidadosamente (um santo) examina a si mesmo, tanto mais
triste fica. O motivo para nossa justa aflição e remorso são nossas faltas e
pecados" (Livro I, cap. 22). Mas o auto-exame pode ser destrutivo se não for
equilibrado pela fé na promessa do perdão. A esperança e a bem-aventurança do
perdão nos animam a nos examinar de modo mais profundo, e a consolação do
Espirito Santo é a garantia do nosso galardão. C. S. Lewis nos adverte, no
entanto, de que é fácil olhar para dentro sem ver nada de gravemente errado.
Sua personagem chamada Murwgào (leia-se Satanás) escreve ao sobrinho Cupim,
que está a seu serviço, na qualidade de aprendiz:

Você poderá levá-lo a condição na qual se torna possível o auto-exame durante


uma bom sem que fiquem descobertos fatos a respeito de si mesmo que
parecem absolutamente claros aos que tenham convivido com o paciente ou
trabalhado com ele no mesmo escritório.'
4) Contemplar a glória do Senhor Jesus no "espelho" da Palavra (2Co
3.18). O galardão dessa contemplação é a transformação de glória em glória
(v. 18). A glória dessa visão transformadora inclui a incomensurável
profundidade do seu amor por

nós na crucificação. As palavras de Jesus, logo antes da sua morte: "... se Deus
foi glorificado nele, também Deus o glorificará nele mesmo; e glorificá-lo-á
imediatamente" Go 13.32), confirmam a observação de João de que a glória de
Jesus brilhou em todo o seu fulgor na cruz. Paulo encontrou a vitória na cruz:
"Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus
Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo" (GI
6.14). Não devemos imaginar que oferecer nossa vida para ser crucificada seja
uma experiência prazerosa. Mesmo assim, Paulo aceitou a cruz como parte
integrante da sua experiência cristã (GI 2.20). Jesus disse que todo discípulo
dele teria de carregar sua cruz e segui-lo (Lc 9.33). É natural chorar ao
percebermos, juntamente com o jovem rico, que Deus nos aceita somente des-
pojados das nossas riquezas materiais e espirituais. Foi isso que aconteceu com
o jovem, que se retirou contristado (Mc 10.22).
5) Buscar sinceramente, da parte do Senhor, compaixão mais profunda
diante dos sofrimentos provocados pelos pecados e pelas atrocidades cometidas
pelos homens. Jesus chorou ao contemplar a cidade de Jerusalém, marcada para a
destruição. Se Deus derramar o seu amor em nosso coração (Riu 5. 5), nosso
comodismo chegará ao fim. Penetraremos além da casca falsa da aparente
felicidade da cidade para vermos o sofrimento existente abaixo da superfície.
Mateus relata que Jesus, "vendo [ ... ] as multidões, compadeceu-se delas,
porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor" (9.36).

Jeremias exteriorizou a sua tristeza ao contemplar a destruição de


Jerusalém: "Chora e chora de noite, e as suas lágrimas lhe correm pelas faces;
não tem quem a console" (Lm 1.2). Muitos séculos antes da vinda do Consolados,
notamos o desespero do profeta. Quem chora pela cidade hoje? A vinda do
Espírito Santo, daquele que soluciona os problemas mais graves, produz a
compaixão. Estimula a oração. Sendo ele a fonte da compaixão por aqueles que
sofrem, pode-se esperar que haja lágrimas onde
ele agir poderosamente. Se a igreja for cheia do Espírito Santo, ela se levantará
para derramar bálsamo nas feridas da população (cf. Lc 10.25-37). Mas quem
quer desempenhar o papel de Neemias? Ao ficar sabendo da calamidade de
Jerusalém, sentou-se para chorar e lamentar por alguns dias (1.4). O que nos
falta hoje é compaixão e empatia. O que nos falta é a plenitude do Espírito que
desenvolve amor nos filhos de Deus.

O Galardão dos que Choram


Bem-aventurados são aqueles que choram. São estes que seguem o modelo
deixado por Jesus. O seu consolo será grande e precioso. Choram pelos seus
próprios pecados e pelos pecados do próximo. Ficam aliviados ao depositarem
os seus pesares aos pés de Jesus. Choram por causada perda da intimidade com
Deus, mas são restaurados ao receber o seu perdão e abraço de boas -vindas. O
filho pródigo alegrou-se na festa oferecida pelo seu pai. Choram pela
sociedade conturbada e passam a se envolver na obra de resgatar alguns do
lamaçal. Choram pelos perdidos, principalmente pelos membros da sua própria
família, mas confiam que Deus atenderá as suas orações. Choram pelos desviados
e pecadores endurecidos, mas encontram o alento do soberano Senhor da Igreja.
Reconhecem que ele se preocupa muito mais com o mal e com o sofrimento do que
eles. Sentem-se consolados na participação dos sofrimentos de Jesus Cristo (Cl
1.24).

Enfim, são os que choram, que recebem o consolo e, pelo menos em parte,
já nesta vida. Também aguardam pacientemente o cumprimento da promessa
escatológica. Quando Cristo voltar, "Deus mesmo estará com eles. E lhes
enxugará dos olhos toda lágrima" (Ap 21.3, 4).

A Gloriosa
Felicidade dos Mansos
rw

Jesus extraiu do salmo 37.11 essa bem-aventurança. Ali, ela aponta


mais na direção de uma atitude para com Deus do que de uma disposição
para com o próximo.' É fácil compreender erroneamente a mansidão. Algumas
pessoas achato que ela descreve o homem que não possui convicções firmes,
que não toma posição em favor de nenhuma causa. Não rem fé muito firme
em coisa nenhuma e nem se importa com isso. Talvez o homem secular
considere que o manso não tem personalidade, vendo-o como um
covarde, mas, segundo a Bíblia, isso não é ser manso. Ser manso não significa
ser fraco, tímido ou medroso. A mansidão genuína não pode existir sem a
coragem.
Concordamos com Martin Lloyd-Jones que o cristianismo não condena a
coragem. O que pode ser esquecido é que a coragem e o heroísmo eram as
virtudes supremas dos filósofos gregos pagãos. Eram a essência do
estoicismo. Mas a filosofia grega pagã não possuía uma palavra que
representasse a mansidão. "Coragem, e força, e poder - nessas coisas os
gregos acreditavam. É por isso que Paulo nos diz - conforme você se lembra -
que a pregação da cruz em estultícia para os gregos
Melhor é considerar a mansidão como a entrega da nossa vontade a Deus. A
mansidão também exige que nossa atitude egoísta seja substituída pela
submissão àquele que "faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade"
(Ef 1.11). Se entregarmos ao Senhor soberano o direito de controlar todas as
circunsrânciasda nossa vida, será impossível manter um espírito de revolta e
ressentimento. Paulo declara que Deus realmente opera para o bem em todos
os acontecimentos na vida (Rm 8.28). Muitos cristãos, talvez a maioria deles,
alegam que acreditam nesse texto, mas no meio da fornalha da aflição,
quase todos nós somos tentados a nos ressentir das circunstâncias ou das
pessoas que causam a provação.
A humildade descreve uma atitude no tocante a nós mesmos. A maneira de
avaliar a nós mesmos e a nossa auto-estima são questões de humildade, mas a
mansidão diz respeito 'as nossas reações diante das circunstâncias e das
pessoas que Deus coloca em nosso caminho. O sermos afetados por aquelas
circunstâncias da vida que estão além do nosso controle pertence ao âmbito da
mansidão. É fácil detectara mansidão em outras pessoas com quem você precisa
conviver no lar ou no serviço. Descobrir que tipo de pessoa alguém é determina
o que aquela pessoa mais ama e como ela expressa esse amor. A mansidão, assim
como o amor em 1 Coríntios 13.1-7, é abnegada. A maturidade espiritual exige grande
dose de mansidão.

Exemplos Bíblicos de Mansidão


Abmão exemplificou a mansidão quando Deus o testou, ordenando-lhe que
sacrificasse seu único filho, Isaque (Gn 22). Esse herói do Antigo Testamento
não levantou objeções. Não discutiu com Deus. Levantou-se cedo, selou o seu
jumento, levou dois servos além de Isaque e foi sem hesitação ao monte Moriá,
onde construiu um altar. Colocou lenha no altar e amarrou Isaque em cima da
lenha. No episódio inteiro, não há o menor indício de simulação, nem de
frustração ou ira. Soren Kierkegaard viu na atitude de Abraão uma confiança
mais pura do que a resignação e a apatia. A fé de Abraão foi a fonte secreta da
sua pronta obediência. Da mesma forma, a fé deve ser o apoio da nossa própria
travessia das águas profundas da provação. A virtude da mansidão pode

crescer no solo das provações, caso a fé em Deus permita pouco ou nenhum


ressentimento e autocomiseração.
José demonstrou mansidão de um modo muito singular. O ódio e o desprezo
dos seus irmãos não provocaram nele revolta nem hostilidade. Encontrou-se no
seu coração um espírito perdoa-dor, mesmo tendo poder em suas mãos para
vingar-se da inveja e da maldade deles. Considere as palavras mansas de José
após ouvir o pedido dos seus irmãos, rogando misericórdia e perdão: "Não
remais; acaso, estou eu em lugar de Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal
contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que
se conserve muita gente em vida" (Gn 50.19, 20).
Quando José foi acusado falsamente de ter tentado estuprar a mulher de
Potifar, ele superou essa injustiça ao considerá-la uma provação benéfica
proveniente de Deus. Os anos que passou na prisão foram para ele como um
treinamento para desempenhar um serviço maior. Apenas os verdadeiramente
mansos são capazes de passar por tão duras provações sem sentir mágoas, nem
acalentar um espírito de vingança.
Moisés, segundo dizem as Escrituras, era o homem mais manso na terra (Nm
12.3). Em que consistia essa sua mansidão? Existem pelo menos quatro ocasiões em
que a mansidão de Moisés refulge como a estrela da manhã.
1) Quando Moisés renunciou ou as riquezas, as honrarias e o poder que lhe
pertenciam legalmente como filho da filha do faraó (cf. Hb 11.24), deu uma
demonstração nobre da sua mansidão. Vale a pena considerar a explicação que
a Epistola aos Hebreus oferece para essa atitude: "preferindo ser maltratado
junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto
considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do
Egito, porque contemplava o galardão" (Hb 11.25, 26). O amor a Deus, ao seu povo e
ao galardão futuro pesaram mais na balança das suas ambições do que todos os
privilégios que o

Egito podia oferecer. O manso verá além dos "prazeres transitórios do


pecado" e fará suas escolhas à luz dos fatos como um todo.
2) A mansidão de Moisés é percebida na sua relutância em aceitar
o prestígio e o poder que lhe seriam necessários para conduzir os
israelitas para fora do Egito. Segundo parece, a fama que estava para

conquistar pouco ou nada lhe significava. Ver a


glória de Deus era mais importante A
us m ma s mportante do que receber a glória deste mundo (Êx
33.17-23; Jo 5.44). 0 que Tomás de Kempis escreveu serve como
descrição de Moisés: "Ele não se apaixona por nenhuma alegria
particular dele mesmo, nem desejase regozijar em si mesmo; pelo contrário,
deseja, acima de toda coisa boa, ser feliz ao desfrutar de Deus (SI 17.15;
24.6)".'
3) A intercessão de Moisés em favor do povo pecaminoso de
Israel retrata, mais uma vez, um homem cuja mansidão forma o alicerce da
sua vida. Deus, na sua fúria, ameaçara destruir os israelitas rebeldes.
Passou, então, a dizer a Moisés que faria dele uma grande nação para
substituir o Israel rebelde fÉ 32.10).
a e ave
re e e X
Moisés emprega todos os argumentos imagináveis
ira de Deus do seu povo culpado (vv. 11-13). Fazendo assim, renuncia a
oferta divina de ele mesmo ser pai de outra grandiosa nação.
4) No episódio em que Miriã e Arão falaram contra Moisés por ter este
se casado com uma mulher casita (Nm 12. 1), o texto faztrinsparecer
novamente a mansidão de Moisés. Não procurou
envergonhar os irmãos que, por inveja, desafiaram a sua liderança.
lh A lepra que consumia a carne de Mirià foi um castigo da parte de
Deus. Mas Moisés não hesitou em implorar a Deus pela cura da sua irmã.
Nenhum espírito de vingança apoderou-se do seu coração. Nesse
contexto encontramos a declaração: "Era o varão Moisés mui manso, mais
do que todos os homens que havia sobre a terra" (Nm 12.3).
A mansidão de Davi, homem segundo o coração de Deus, também
transparece nas páginas das Escrituras. Tinha coragem

extraordinária, até mesmo para atacar um urso e um leão (lSm 17.34-37) bem
como o gigante Golias. Nenhum outro guerreiro ousava enfrentar esse herói
dos filisteus. Mas nem por isso Davi pensava em subvertera autoridade de Saul,
nem deu nenhum passo para destituí-lodo trono. Sem se importar com todas as
vezes que Saul procurou matá-lo, Davi não permitiu que a inveja e o rancor lhe
invadissem o coração. Não permitiu que sua popularidade viesse a prejudicar
o reinado do seu rival.
Tiago faz menção da paciência de Jó, que sofreu grandes provações,
mas acabou vitorioso (Tg 5.11). É impressionante a mansidão desse sofredor
tão célebre. No meio de todas as suas aflições, mesmo sem poder
compreender o sentido das experiências pelas quais passava, não amaldiçoou
a Deus. Confessou que tinha falado daquilo que não entendia (42.3). Longe de
se amargurar diante de tamanho sofrimento, reconheceu que sua experiência
com Deus consistira só naquilo que ouvira dizer. Depois, chegou a ver a Deus
e finalmente disse: "Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza"
(42.6). Nessa atitude encontramos a humildade e a mansidão bíblicas.
No Novo Testamento sobressai a mansidão de João Batista. No auge da
sua popularidade apareceu Jesus, o Messias. Obviamente, havia
homens leais a João, dispostos a promover a sua candidatura à mais cobiçada
posição em Israel (Jo 1.20). Mas

João Batista constantemente relembrava seu imenso auditório que não em digno
nem sequer de desatar as correias das sandálias de Jesus. João, conforme ele
mesmo dizia, batizava na água, mas o seu sucessor batizaria com o Espírito
Santo. Coragem não lhe faltava, pois não hesitou em denunciar a imoralidade
de Herodes – denúncia que acabou lhe custando a cabeça. Jesus o elogiou
como o maior dos homens nascidos de mulher (Mt 11.11). Também o
comparou com um caniço no deserto, agitado pelo vento (v. 8). Homem
desprendido, abnegado e destituído de qualquer desejo de lutar em beneficio
próprio, João Batista merece a fama de ser uma das mais mansas figuras da
história.
Outro exemplo de mansidão aparece na vida de Timóteo. Lucas põe em relevo
a diferença entre João Marcos, que acompanhou Barnabé e Saulo na primeira
viagem missionária, e Timóteo, que o substituiu na segunda viagem. Marcos
abandonou os missionários por moi ivos não bem esclarecidos, mas suficientes
para Paulo vetar a sugestão de Barnabé de lhe dar uma segunda chance (At
15.27-28). Em contraste com isso, vejamos o elogio que Paulo escreveu a
respeito de Timóteo: "A ninguém tenho de igual sentimento que, sinceramente,
cuide dos vossos interesses; pois todos eles buscam o que é seu próprio, não o
que é de Cristo Jesus. E conheceis o seu caráter provado, pois serviu ao
evangelho, junto comigo, como filho ao pai" (Fp 2.20-22). Timóteo aprendeu
com Paulo a aceitar as duras circunstâncias da vida como investimentos num
futuro glorioso (cf. 2Co 4.17). Preocupava-se mais com o bem-estar dos
irmãos nas igrejas do que com as vantagens que uma vida missionária lhe
pudesse proporcionar (cf. Me 10.29-30).

Jesus, o Grande Exemplo de Mansidão


Jesus era manso e humilde (Mt 11.29), e por isso devemos considerar com
cuidado quais eram as suas atitudes e como reagia diante das circunstâncias
que tinha de enfrentar.
Enquanto criança, Jesus obedeceu a seus pais (Lc 2.51), embora tivesse
o direito de lhes ditar ordens. Seu conhecimento perfeito do certo e do
errado não interferiu em sua submissão às vontades humanas imperfeitas de
José e Maria. Embora saibamos bem pouco a respeito da vida de Jesus quando
menino em casa, não se vêem nele nenhum ressentimento nem expressões
arrogantes de superioridade.
Jesus se "esvaziou" quando deixou sua glória preexistente a fim de
assumir a forma de um servo. As circunstâncias da pobreza e da servidão,
porém, não provocaram hostilidade no seu coração. A mansidá, ~ cia eda mia, ii
ude para com todas as circurís-
râncias da vida. Ele não buscou a igualdade com Deus. (Fp 2.6), ao contrário
de Adão, que tentou usurpá-la.
O Espírito levou Jesus ao deserto para ser tentado pelo diabo. Quarenta
dias de jejum e de lutas contra o grande adversário não produziram nenhum
sinal de desgosto nem de autocomiseração lamuriante. Sua mansidão venceu o
inimigo, pois Satanás não achou nele nenhum ponto fraco por onde pudesse
influenciá-lo. Sua extrema fraqueza física como homem, depois de jejuar durante
quase seis semanas, não o obrigou a nenhuma mudança na sua atitude. Estava
totalmente dentro de sua capacidade transformar as pedras em pães para
saciara fome, mas pensaria em fazer isso somente se seu Pai assim desejasse
que fizesse. Jesus é o exemplo de como um homem manso sempre deixa Deus
determinar o que é melhor em todas as circunstâncias.
Jesus bebeu o cálice que o Pai lhe deu, a despeito de ser um cálice de
extrema amargura, e isso sem o menor sinal de rancor nem de hostilidade (Le
22.41). Até mesmo a injustiça da cruz, exigida pelos cruéis clamores da
multidão amotinada e sedenta de sangue, não abalou a mansidão que sempre fez
parte da sua pessoa: "Foi obediente até à morte, e morte de cruz" (Fp 2.8). Em
favor dos que o crucificavam, Jesus pediu que o Pai lhes perdoasse.

Gerald McDermott conta a história de Elizabeth Morris, mãe de um filho


único que, aos 18 anos de idade, foi atropelado e morto por um motorista
bêbado. Essa mãe sentiu-se acometida por dor e mágoa indescritíveis. Além
disso, ela se encheu de ódio venenoso contra Tommy Pigage, um balconista que,
aos 24 anos de idade, matara o filho dela. Esse ódio cheio de mágoa aumentou
quando o tribunal concedeu a Tommy liberdade condicional, em vez de condená-lo
a longos anos de cadeia. Tommy, porém, violou os termos da condicional e acabou
indo para a cadeia. Elizabeth sentiu-se compelida a visitá-lo. Enquanto
conversavam, Tommy exclamou, de repente:

"Sra. Morris, 1...1 eu lamento tanto. Por favor, me perdoe." Até


essa hora parecera impossível perdoar, mas pela primeira vez
Elisabeth viu Tommy não como o assassino do seu filho, mas
como alguém que precisam de amor e orientação. Ela perdoou
Tommy e pediu-lhe que a perdoasse por tê-lo odiado. Tommy foi batizado
na igreja dos Morris pelo marido de Elisabeth, Frank, e o casalpediu ao
juiz que os deixasse buscá-lo todo domingo pata o culto. Em pouco
tempo ele estava passando todos os domingos na custódia deles,
almoçando com eles depois do até culto e estudando a Bíblia com eles por
quase toda a tarde, ate ser levado de volta à cadeia. A última noticia que tive
é que Tommy estava novamente em liberdade condicional e não bebera mais
desde que fora solto.'
A mansidão é o elemento-chave dessa história, pois deu a Elizabeth a
possibilidade de perdoar um inimigo. Isso não lhe
trouxe o filho de volta da sepultura, mas certamente trouxe outra pessoa da
morte para a vida.
"Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo" (Rm 13.14). Com essas
palavras, Paulo apela aos leitores romanos para inculcarem no
coração a virtude da mansidão. A alguns dos cristãos em Corinto faltava
principalmente essa qualidade, de modo que Paulo apela a eles: "... pela
mansidão e benignidade de Cristo" (2Co 10.1). Jesus incluiu a mansidão
entre as virtudes que seus discípulos apren-
deriam se aceitassem o seu jugo e se tornassem seus discípulos (Mt
11.28-30).
A Mansidão na Prática
Em primeiro lugar, a mansidão nos ensina a sofrer sem reclarriaçóes.
Pedro aponta para Jesus como nosso exemplo: "Para isto mesmo fostes
chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos
exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem
dolo algum se achou em sua boca, pois ele, quando ultrajado, não revidava
com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele
que julga retamente" (lie 2.21-23).
O silêncio de Jesus diante dos seus acusadores deixou Pedro muito
impressionado. Conhecia a Jesus tão bem que podia compreender que seu
silêncio não foi causado por medo nem por timidez. Sua explicação inspirada
indica especificamente que Jesus entregou seus direitos ao Pai, ao Juiz
soberano. Se aprendermos de Jesus, levaremos muito a sério o conselho de
Tiago: "Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão" (Tg 3.2). Uma das
muitas maneiras de tropeçarmos freqüentemente com a língua é defender a nós
mesmos ou responderá crítica com acusaçôes ríspidas.
Os primeiros cristãos foram acusados dos crimes mais horrendos, tais
como infanticídio e ateísmo. Escarnecedores espalhavam boatos de que os
cristãos, durante suas reuniões fechadas, devoravam seus próprios filhos. Afinal
de contas, diziam na ceia do Senhor: "Este é o meu corpo... tomai e comei".
Mas a mansidão dos santos desmentia tais tentativas de arruinar a sua
reputação. Não era segredo que sustentavam viúvas e órfãos. Antes do fim do
século I, a igreja em Roma estava sustentando 1 500 viúvas. Três mil órfãos e
viúvas em Antioquia (na Siris) deviam aos cristãos a sua sobrevivência.
Hoje em dia, nós, cristãos, tendemos a ser mais conhecidos pelos nossos
protestos do que pelo nosso amor prático. É fácil criticar, mas o efeito pode
ser negativo, principalmente no caso da critica hostil ou irada. Não é
necessariamente errado confrontar o mal, mas se o propósito final da correção
for esquecido, vociferar com língua venenosa ou escrever uma carta explosiva
pode provocar mais danos do que o bem. Nosso objetivo na vida é
demonstrar que Cristo é a resposta aos problemas de todos os tipos, tanto
pessoais quanto nacionais. Pedro, no entanto, garante-nos que é melhor reagir
com mansidão.
Em segundo lugar, a mansidão facilita a renúncia que Deus requer dos
seus filhos. Jesus disse: "Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia
a tudo quanto tem não pode ser meu discipulo" (Lc 14.33). Fica claro que essa
renúncia cristã não requer

que abandonemos nosso lar e família, nosso emprego ou casa para ir


morar debaixo de uma ponte, mendigando. Renunciar a tudo é uma questão de
entregar nossos direitos egoístas e pessoais. Envolve o novo relacionamento
entre o cristão e o seu Senhor. Quando declaramos que Jesus Cristo é o
Senhor da nossa vida, afirmamos que somos seus escravos. O escravo, por
definição, nada possui. A comida que come, a cama em que dorme, o dinheiro
que gasta, tudo pertence ao seu senhor. O escravo nunca pode esquecer-se de
que nada possui, porque ele mesmo e tudo quanto tem pertencem ao senhor
que o comprou.
Um jovem missionário, Jim Elliot, disse antes de oferecer sua vida como
mártir no esforço para evangelizar os índios selvagens da floresta
amazônica no Equador, em 1956: "Não é tolo quem abre mão do que não pode
reter para segurar firme aquilo que não pode perder". Jesus declarou esse
principio para a vida cristã: "Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
quem perder a vida por minha causa, esse a salvará" (Lc 9.24). Aí está o
coração da mansidão: perder os direitos à vida e a todos os valores que a
acompanham.
Barbara Youderian ficou viúva em virtude do mesmo massacre dos cinco
jovens no qual morreu Jim Elliot. Ela escreveu no seu diário:

Esta noite o Capitão nos informou sobre a descoberta de quatro corpos no


rio. Um deles vestia camiseta e jeans. Rogério em o único que os vestia. Há
dois dias, Deus me deu o seguinte versículo, que se acha em Salmos 48.14:
"... este é Deus, o nosso Deus para todo o sempre; ele será nosso guia ate
a morte". Ao me confrontar coma noticia da morte de Rogério, meu
coração ficou transbordando de louvor. Ele foi digno da sua ida para o lar
celeste. Ajude-me, Senhor, a ser mãe e pai?
O louvor que encheu o coração de Barbara, foi possível porque ela já se
formara na escola da mansidão.
Em terceiro lugar, a mansidão nos instrui no santo procedimento em
nossos relacionamentos no lar. Milhares de mulheres
cristãs convivem com maridos incrédulos. Milhares de filhos moram com pais
não-cristãos. As circunstâncias de muitos desses crentes os pressionam a
resmungar, reagir e condenar as pessoas que Deus colocou para aperfeiçoá-
los.
Peciro, escreveu às mulheres nas igrejas da Ásia Menor: "Mulheres, sede
vós, igualmente, submissas a vosso próprio marido, para que, se ele ainda
não obedece à palavra, seja ganho, sem palavra alguma, por meio do
procedimento de sua esposa ao observarem o vosso honesto comportamento cheio
de temor" (lPe 3.1, 2). A atitude da esposa num lar misto deve demonstrar a
mansidão que se espera de um escravo. A palavra "igualmente", do versículo 1,
chama a atenção do leitor aos versículos anteriores. Neles, Pedro, exorta os
escravos a serem submissos aos seus senhores "com todo temor" (2.18). Ele
argumenta que o sofrimento injusto é grato a Deus, isto é, agrada a ele, porque
reflete o caráter do Senhor Jesus (v. 20).
Quando os crentes sofrem abusos e injustiças dentro do lar, é possível que
se criem ressentimentos profundos. Feridas provocadas pelas pessoas que devem
nos amar e cuidar levam muitos a concluir que os sofrimentos são ataques do
diabo. Um espírito manso ajudará as vítimas a decidir calmamente se ficar em
casa terá um fim positivo ou se estará meramente encorajando o mal. Walter
Hilton diz em seu livro ne Ladder ofPerfection (A escada da perfeição), do
século xlv:

Quando falta essa virtude (a mansidão), a igreja fica infiltrada pelo


obscurecimento da imagem de Cristo. "Creio que a alma que realmente
reconheceu sua própria impureza obscurecida não fica mais vulnerável à luz
falsificada (os enganadores espirituais). Isso quer dizer que quando uma
pessoa resolve realmente, e sem reservas, abandonar o amor ao mundo e é
capacitada pela graça a ter consciência espiritual e conhecimento de si
mesma, mantendo-se com mansidão nessa experiência, não será enganada
por erros, heresias ou fantasias" 6

Segundo Hilton, o primeiro degrau para subir na escada é a


mansidão. Sem ela, nenhuma das demais virtudes, tais como
brandura, paciência, retidão de coração, força espiritual,
temperança, pureza, paz, sobriedade, fé, esperança e amor, pode ser
alcançada. As pressões de uni lar onde Deus é desonrado, onde falta
amor e onde abusar é a norma, podem ser o modo de Deus ensinar
mansidão ao seu filho. Exatamente naquelas situações nas quais faltam
as virtudes cristãs,podemos descobrir quão longe estamos da
mansidão. Nossa maneira de reagir aos pecadores em casa e na igmj .
a pode revelar essa falta. Diz Hilton:
Se você não se sentir indignado contra uma pessoa assim (pecadora),
irado, embora finja exteriormente estar alegre, e se não acalentar ódio
secreto no coração, desprezando-a, julgando-a ou considerando-a indigna;
se você, quando ela intensificar o modo vergonhoso e vil de tratar você,
em palavras e ações, demonstrar-lhe 4fie cada vez mais piedade e
compaixão, quase como você faria com uma pessoa emocional ou
mentalmente perturbada; e s e v ocê for tão impulsionado pelo amor
que realmente não consiga descobrir no seu coração nenhuma
tendência para odiá-la, mas se, pelo contrário, você orar por ela, prestar-
lhe socorro e desejar o melhor para ela (não da boca para fora, como
os hipócritas fazem, mas com o sentimento gemino de amor no seu
coração), então você estará em perfeita caridade para com seu irmão
cristão.'
Meios Eficazes para Aumentar a Mansidão
Primeiro, é recomendável fazer um ato de entrega dos seus direitos a
Deus. Deve-se confirmar no coração que as posses (que os crentes carnais e
mundanos declaram ser deles) não lhe pertencem na realidade. Se Deus é
reconhecidamente o dono de tudo quanto é "nosso", não podemos sentir grande
tristeza se ele tirar o que nos foi emprestado. Certa tarde, no Rio Grande
do Sul, aconteceu o seguinte: irmãos evangélicos estavam ouvindo os
princípios da mansidão e da importância de abrir mão dos direitos sobre todos
os nossos pertences. De repente, certo irmão teve uma crise de tosse. Saiu da
reunião. Ficou chocado ao perceber

que havia um espaço vago exatamente onde tinha deixado o seu carro uma
hora antes. Ficou indignado, disposto a matar o ladrão, se descobrisse quem
ele era. Mas acalmou-se ao relembrar o que estava sendo ministrado na reunião.
A raiva cedeu lugar à gratidão e ao louvor. No dia seguinte, chegando ao
trabalho, sua atitude tão mudada foi o meio que Deus usou para penetrar no
coração de alguns colegas que havia muito precisavam de um testemunho
cristão verdadeiro.
Segundo, pensar seriamente sobre a soberania de Deus. Ele é nosso Pai.
Não permitirá que nada aconteça que não seja para nosso próprio bem. Assim
ensinou Paulo na Epístola aos Romanos: "Sabemos que todas as coisas cooperam
para o bem daqueles que amam a Deus..." (8.28). Alguns dos melhores
manuscritos dizem: "Deus faz com que todas as coisas cooperem para o bem..."
Somos tentados a pensar nos eventos da vida como os evo lucionistas que
apostam no acaso. Não somos fatalistas como os muçulmanos que defendem Alá,
um deus quase impessoal, sem amor e sem compaixão. Mas nós "sabemos" que nada
acontece fora do seu controle. O que muitas vezes não entendemos é o porquê,
nem reconhecemos os benefícios do "mal" que nos acomete.

Não é suficiente entregar nossos direitos sobre coisas e acontecimentos.


Devemos, também, ceder os direitos sobre nossa boa reputação. Quem é realmente
manso não se sente lesado pelas flechas acusatórias, traiçoeiramente lançadas
contra sua pessoa. Muitas vezes, somos alvo da inveja e dos ciúmes. Se
reconhecermos a corrupção profunda do nosso coração, com grande freqüência
descobriremos um elemento de verdade nas acusações lançadas contra nós. Entre
as marcas da carne pecaminosa estão as mágoas e o desejo de nos vingar quando
nosso bom nome é atingido. Por outro lado, perdoar genuinamente reflete a
santidade que o Espírito Santo está gerando em nós.
Os mansos entregam os direitos sobre as pessoas. Quando um acidente ou
uma doença leva um ente querido, ou quando
perdemos a companhia de um marido, filho ou namorado, podemos cair na
tentação de culpar a Deus. Muitos guardam no íntimo uma atitude semelhante ao
terceiro servo na parábola dos talentos. "Senhor, sabendo que és homem severo,
que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste, receoso, escondi
na terra o teu talento..." (Mt 25.24-25). Quem tem coração manso aceita a
supremacia de Deus. Reconhece que as agonias desta vida são passageiras,
produzindo um "peso de glória, acima de toda comparação" (2Co 4.17).

Terceiro, devemos ler as Escrituras com o intuito de nos examinar.


"Verdadeiramente manso é aquele que conhece como é de verdade e tem
consciência disso."' Pelo espelho da Palavra, podemos ver como somos
carentes de mansidão (cf. Tg 1.24-27). De importância secundária, mas ainda
significativa, é a necessidade de ajuda dos homens espirituais do passado. Quem
lê as Confissões de Agostinho e a Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis,
não fica decepcionado. Muitos outros poderão nos estimular a desenvolver a
felicidade da mansidão.
Quarto, a oração fervorosa e constante nos dará grande auxílio na busca
de um espírito manso. Todo avanço em direção à maturidade em Cristo vem
em conseqüência da oração fiel e confiante.

O Galardão dos Mansos

A promessa de Jesus garante aos mansos o privilégio de herdar a terra. A


referência não ema terras físicas que passariam aos mansos nesta vida, no
sentido literal. "Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus
e nova terra" (2Pe 3.13). Parece que Pedro não acalentava a esperança de
possuir grandes mansões antes de partir desta vida. Contemplava a nova
realidade que Deus trará no futuro, após o desfecho da história. Todo o prazer
que remos em possuir coisas nesta vida não passa de um antegozo do santo
prazer que teremos na nova terra que Deus nos dará. Será algo semelhante à
alegria que Adão e Eva teriam desfrutado no jardim do Éden, se o pecado não
lhes tivesse subvertido o coração.
Este galardão foi anunciado por Jesus para nos incentivar a buscar a
mansidão. Quantos relacionamentos e alegrias evaporam todos os dias por
causa da autopromoção, da indignação, da presunção, da vingança e falta de
perdão, da intolerância, das acusações e críticas que não podem coexistir
coma mansidão. Assim, Deus nos fala do caminho seguro para a felicidade.
"Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra."

A Felicidade dos que


Têm Fome e Sede de Justiça
Essa maneira estranha de falar sobre o amor pela justiça chama a nossa
atenção. Fome, todos já experimentaram alguma vez. Sede, também. Deus criou
alimentos e líquidos para saciar nossa fome e sede. Os efeitos da fome sobre o
corpo são impressionantes. A fraqueza, a tremedeira, o sentir-se à beirado
desmaio, tudo mostra como nos afeta a falta de glicose no sangue. A sede aguda
ameaça a vida ainda mais rapidamente do que a fome. Instintivamente, o
corpo clama pelos elementos que necessita para funcionar e sobreviver.
Não é assim que deve sentir nosso espirito quando faltam nutrientes para o
crescimento mento espiritual? Para alguns crentes, o desejo pela comunhão com Deus que
sacia a fome pelo Senhor e" por sua justiça ocorre raramente. Para muitos, nunca ocorre.
E o pior, nesses casos, é que aparentemente não existe nenhum anseio pela presença de
Deus. Não buscam seu suprimento de calorias para vitalizar sua vida espiritual e afastar
a apatia.
A falta de fome física é sinal de doença no corpo. Logo que um vírus ataca com
veemência ou uma infecção infiltra-se no sistema digestivo, o centro de controle
cerebral comunica: "você não está com fome!" A mãe que percebe que o filho não
tem fome se preocupa. Sabe que isso não é natural. Se não tomar providências, os
efeitos serão desastrosos.
Na linguagem figurada de Jesus, a justiça é o alimento espiritual que o cristão
deseja. A mulher samaritana perdeu a
fome pela justiça ao buscaras intimidades e prazeres do sexo. Cinco maridos não
saciaram esse desejo natural que, embora implantado por Deus, os seres
humanos deturpam. "Para o perverso não há paz, diz o SENHOR" (Is 48.22). Isso
faz parte da tendência pecaminosa que todo homem herdou de Adão. Jesus
abriu o entendimento da mulher para que ela reconhecesse o que realmente lhe
traria satisfação. Jesus despertou-lhe a sede de si mesmo Uo 4.29). Quando ela
aceitou Jesus pela fé, despertou-se nela o desejo de santidade pessoal. Em
seguida, ela foi o instrumento para despertar a sede espiritual nos samaritanos de
Sicar, que em seguida ela levou a Jesus.

Que Tipo de Justiça Deve Suscitar a Fome e a


Sede do Cristão?
Dois tipos de justiça enchem as páginas da Bíblia. Há aquela que Deus nos
dá quando cremos em seu Filho. Jesus se torna nossa justiça e santificação
por um ato gracioso de Deus (lCo 1.30; Jr 23.6). Essajustiça segundo a fé é
imputada, nunca merecida, nem paga pelas boas obras que tenhamos realizado.
"Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça" (Rm 4.3; Gn 15.6).
"Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como
divida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua
fé lhe é atribuída como justiça" (Rm 4.4, 5). Para procurarmos essa justiça, é
imprescindível ter fome e sede dela. Como um pecador pode buscar o perdão
e crer no Senhor sem que primeiro Deus lhe conceda essa fome? Thomas
Watson declara: "Veja aqui quão baixo é o preço que Deus coloca nas coisas
celestiais. Trata-se apenas de ter fome e sede. 'Ah! Todos vós, os que tendes sede,
vinde às águas... e comprai, sem dinheiro e sem preço"'.'

O segundo tipo de justiça é a implantada, o fruto do Espírito, juntamente


com todas as evidências do amor de Deus enraizadas no coração do homem de
Deus. Esta é a fome bendita que surge
automaticamente da presença de Deus em nós. "Desejai ardentemente, como crianças
recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento
para salvação" (lPe 2.2). Mas Pedro entende que esse ardente desejo aparecerá somente na
criança com vida, que já experimentou aquele sabor que a leva a ter gosto pelo Senhor
(cf. SI 34.8; 1Pe 2.3).
Não devemos esquecer-nos de que Mateus escreveu sobre a justiça num contexto
judaico da Palestina do século I. No sermão, Jesus mostra que a justiça dos discípulos -
se pretendem entrar no reino dos céus - deve excederem muito a dos escribas e fariseus
(Mt 5.20). Isso mostra que o Senhor não pensava apenas nas boas ações que os judeus
praticavam. Jesus menciona três práticas "justas": dar esmolas aos pobres, orar e jejuar
(Mt 6.1-18). Ele não condena essas ações, mas contrasta a motivação que impulsionava os
judeus religiosos com a dos crentes sinceros. Os profetas faziam o mesmo. Ouçamos
Isaias: "Se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita, então, a tua luz nascerá
nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia" (58. 10). A ajuda ao próximo que
agrada a Deus deve surgir de uma alma cheia de compaixão genuína.
A justiça cuida dos necessitados entre o povo de Deus. Tiago nos lembra de que a
religião pura e imaculada se identifica pelo seu cuidado com as viúvas e órfãos, bem
como pelo guardar-se da contaminação do mundo (Tg 1.27). Um desejo genuíno de
suprir as carências dos pobres é uma maneira de saciar a fome pela justiça. Mais importante
ainda é a abordagem de Paulo. Nem a distribuição de todos os bens entre os pobres tem
proveito algum, a não ser que seja feita com amor (ICo 13.3). A justiça sem amor,
segundo a Bíblia, não tem aceitação diante de Deus.
A justiça também inclui a oração, mas não as dos hipócritas que procuram
impressionar um público humano (Mt 6.5-8). O amor profundo pelo Senhor, nosso Pai
celeste, deve motivar o louvor, as ações de graça e as súplicas que compõem a oração.
A oração pode ser enquadrada na justiça que Deus espera da nossa
parte, se orarmos colocando o SENHOR em primeiro lugar. "Santificado seja o teu nome;
venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mt 6.9-10). Jesus
propõe este modelo para que não tenhamos o pensamento errado de que nossas neces-
sidades importam mais do que a sua glória e vontade. A justiça desvinculada da glória
de Deus é como a casca sem a semente.
A justiça engloba o jejum, mas não o tipo ostensivo que desfigura o rosto para
aparentar santidade (Mt 6.16-18). O jejum tem de ter o seu incentivo no amor pelo
Senhor e no forte desejo de agradá-lo mediante a abstenção dos alimentos. O jejum de
Jesus no deserto de Judá durou quarenta dias. Foi um ato de coragem e submissão ao Pai
e ao Espírito que o conduziu para lá (Le 4.1). Paulo jejuava (2Co 6.5), sem porém
explicar o motivo. A igreja primitiva jejuava regularmente nas quartas e sextas-feiras.
Pode ser que os cristãos achassem que o jejum fortalecia suas orações.
Mateus inclui a justiça no relato do batismo de Jesus. Ele veio da Galiléia para o
Jordão a fim de que João o batizasse (3.13). João tentou dissuadi-lo, dizendo que, pelo
contrário, Jesus deveria batizar a ele. Mas Jesus respondeu: "Deixa por enquanto, porque,
assim, nos convém cumprir toda a justiça..." (v. 15). O significado dessas palavras de
Jesus desafia os comentaristas. Provavelmente, devemos entender que o batismo do Filho
de Deus, sem pecado (v. 17), efetuaria a identificação dos pecados com os eleitos injustos. O
batismo de João em sinal de arrependimento. Mas como poderia Jesus se arrepender?
Segundo o simbolismo, tratar-se-ia de ele tomar sobre si os pecados daqueles que, pela
fé, se aproximariam dele para receber a sua justiça. O batismo de Jesus teve, portanto,
um significado diferente do batismo dos pecadores, que é a demonstração de
arrependimento (cf. At 2.38).
Outras referências ao batismo de Jesus apontam para o presente e o futuro. Jesus
perguntou aos filhos de Zebedeu: "Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o
batismo com que eu sou batizado?" (lit., "estou sendo batizado", Mc 10.38). Nesse
contexto, o batismo de Jesus refere-se à sua morte, mediante a
qual, pela graça, a sua justiça vem a ser nossa. Em Lucas, Jesus disse: "Tenho... um
batismo com o qual hei de ser batizado; e quanto me angustio até que o mesmo se
realize" (Lc 12.50). Novamente, Jesus fala do batismo na morte que outorgaria a justiça
divina a todos os que nele crêem.
Existe uma justiça, portanto, que não se produz por esforço humano. Vejamos a
mensagem de Jesus, após ter multiplicado os pães para cinco mil homens, conforme
João. Nessa ocasião, Jesus se oferece aos seus ouvintes como o maná celeste, o "pão"
que desce do Pai para dar vida ao mundo. Tanto Mateus quanto João apresentam Jesus
como a justiça que ele trouxe e que oferece gratuitamente a todos quantos crêem. No
entanto, os pecadores necessitam ter fome espiritual, para tirarem o devido proveito dessa
justiça graciosa da pane de Cristo. Disse Jesus, num contexto que voltaremos a estudar
mais adiante: "Trabalhai, não pela comida que perece, m a s pela que subsiste para a
vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou
com o seu selo" (Jo 6.27).

Razões Por Que Muitos Não Sentem Fome de Justiça


Watson apresent a sele dos que não sent em fom e nem sede de justiça.'
Resumiremos, em seguida, alguns dos seus pensamentos.
1. Não existe fome quando a alma justa aos seus próprios olhos fica ensoberbecida
com sua própria justiça imaginária (Riu 10.3). A soberba dos que pensam que são bons
impede que sintam o vazio da alma convicta dos seus próprios pecados. O fariseu
descrito por Jesus procurava impressionar, com suas próprias boas ações, até Deus. Voltou
para casa sem ser justificado, ou seja, não ficou farto com a justiça verdadeira. O
publicano, no entanto, como mendigo faminto, implorou a misericórdia de Deus.
Conforme disse Jesus, foi esse publicano que voltou para casa "justificado".
2. Não há fome de Deus e da sua perfeição quando o amor ao mundo e aos seus
deleites enchem o coração. "Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele."'
Os mundanos queixam-se da falta de dinheiro, de saúde ou de liberdade, mas nunca
reclamam porque lhes falta retidão pessoal. Quanto à graça, sentem tanta falta dela quanto
a falta que um cachorro sente de uma biblioteca. Vendo-se obrigados a passar sem
alguma refeição, sentem-se tratados injustamente, mas qualquer desculpa serve para não
participar do banquete de Deus (Mt 22.3-5).
3. Outros estão demasiadamente sonolentos para comer. Vão à igreja para tirar uma
soneca, e não para saciara alma com o glorioso alimento da santidade. São como os
discípulos no jardim, que não conseguiram manter-se acordados por tempo suficiente
para cumprir uma única bom de vigília (Mc 14.37). A sonolência e a fome de justiça são
mutuamente exclusivas.
4. Muitíssimos cristãos li= tão cansados comas atividades mundanas que não têm
mais fome do alimento espiritual. A justiça não lhes apetece porque, de modo semelhante
ao filho pródigo, estavam demasiadamente ocupados alimentando porcos. As alfarrobas
que os porcos comem não são apetitosas, de modo que muitos recusam o alimento
imprestável que lhes é oferecido. Muitos se ocupam tanto com as "revelações" que não
sentem nenhum desejo pelo substancial. Essa em a situação dos cristãos hebreus
incapazes de comer "alimento sólido" porque não tinham posto devidamente em prática
as verdades que já conheciam havia muito tempo (Hb 5.12-14).

S. Existem cristãos que se preocupam mais com os enfeites exteriores do que com a
substância. Avaliam com cuidado a oratória, a gramática, mas deixam totalmente
despercebida a substância. Anos atrás contaram-me que, na Bélgica, as pessoas que
vinham escutar os missionários evangélicos não sentiam o menor interesse pelo conteúdo
da mensagem, mas ficavam profundamente perturbadas com os erros do francês dos
estrangeiros.
6. É fácil explicar por que há quem sinta pouca fome pelas coisas de Deus. Levam,
mais a sério suas diversões e jogos do que a justiça. Na hora do jantar, as crianças ainda
estão jogando futebol. Os sinais são inconfundíveis. Para as crianças, brincar é mais
gostoso do que comer. Muitos adultos preferem as telenovelas e os esportes via satélite à
Palavra de Deus. Muitas igrejas de classe média têm experimentado um declínio na fome
de justiça em proporção direta Doma prosperidade dos seus membros. A praia e a
montanha têm mais atrativos para eles do que o banquete do Senhor.
7. Esperaremos em vão a genuína fome e sede de santidade se as discussões e
controvérsias ocuparem o centro do palco. "Roberto da Gália pensava ter visto em
sonho um grandioso banquete, mas alguns dos convidados mordiam pedras duras.
Quando os homens se alimentam somente de questões e controvérsias duras" (lTm 6.3-
4),' é claro que o alimento espiritual nutritivo será negligenciado. Vão roendo ossos,
mas desprezam a carne que os alimentaria.

Incentivos para a Fome e Sede Espirituais


Posto que a justiça provém da parte de Deus, sentir fome de justiça é ansiar por
Deus, fonte única da justiça. Davi ansiava por Deus, porque sentia no coração, depois de
rompida a comunhão, um vazio do formato de Deus. "ó Deus, tu és o meu Deus forte,
eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja" (SI 63.1).
Logo descreve metaforicamente o que sentia quando Deus enchia todo o seu ser: "Como
de banha e de gordura farta-se a minha alma" (v. 5).
"Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários... o meu cálice transborda"
(51 23.5) é um modo poético de dizer que Deus convida seus filhos a sentar-se à mesa com
ele e a comer até se saciarem. "Oh! Provai e vede que o SENHOR é bom" (SI 34.8).
Já tocamos no ensino de Jesus a respeito do Pão que desceu do céu para dar vida ao
mundo (lo 6.33). Alimentar-se de Jesus outorga a vida eterna (v. 50). O pão que Jesus
oferece para os famintos é a sua carne (v. 51). "Em verdade, em verdade vos digo: se não
comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida
em vós mesmos" (v. 53). Jesus usou essa linguagem figurada para ensinar que se não
crermos na realidade histórica da morte de Jesus como sua obra salvifica, não haverá vida
eterna para nós. "O que vem a mim jamais terá fome; e quem crê em mim jamais terá
sede" (v. 35). Assim entendemos que a vida eterna é oferecida aos que têm fome do
Senhor, aos que crêem que ele é o único alimento que confere vida abundante a todos os
que nele crêem (Jo 10.10). Para adquirir esse pão é necessário trabalhar, embora o Filho
o ofereça gratuitamente a quem o quer (v. 27). Os ímpios trabalham pelo pão que
perece. Os prazeres e relacionamentos sem Deus murcham e desaparecem nesta vida.
Quem realmente, buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça receberá o
que há de melhor nesse reino, ou seja, o próprio Senhor.

Mark Twain, um dos mais conhecidos autores norte-americanos de todos os


tempos, definiu bem a tragédia de uma vida sem fome pela justiça.

Miríades de homens nascem; labutam e suam e se debatem para obter o seu pão; disputam e
ralham e brigam; porfiam por obter mesquinhas vantagenzinhas um sobre o outro. A velhice
vai-se acercando deles, e as enfermidades se seguem; as vergonhas e humilhações vão
derrubando seus orgulhos e vaidades. Os entes queridos são tirados deles, e a alegria da vida é
transformada em angústia dorida. O fardo da dor, da preocupação e da desgraça torna-se
mais pesado, ano após ano. Finalmente, morreu a ambição, morreu o orgulho, morreu a
vaidade; no lugar deles, surge o anseio pela soltura. E, finalmente, a morte chega a eles -a
única dádiva sem veneno que a terra sempre tinha reservada para eles - e desaparecem de um
mundo onde nada valiam, onde nada realizaram, onde eram um erro e um fracasso e tolice, e
onde não deixaram o mínimo sinal de terem existido - de um mundo que os lamentará por um dia e os
esquecerá para sempre.'

Agostinho mostrou a desgraçado homem que procura satisfação em outra fonte que
não Jesus Cristo: "ó Deus, tu nos fizeste para ti mesmo, e nosso coração não acha
repouso até que repouse em ti".6
Parece-nos importante reconhecer que referir-nos a Deus como nosso Pão importa
em frisar que ele precisa ser assimilada O corpo humano se mantém por um processo
maravilhoso de digestão. Os alimentos são ingeridos e transformados em vários
elementos que os glóbulos do sangue transferem para os bilhões de células do corpo. Ali
são transformados em energia para que pensemos, andemos e mantenhamos todos os
processos corporais que necessitam de energia. A vida espiritual se mantém por um
processo análogo. O Dr. Paul Brand e Philip Yancey descrevem o triste caso de uma
mulher na estação ferroviária em Madras, na índia. Os alimentos ingeridos por ela, em
vez de fornecerem saúde e energia, alimentavam um tumor que paulatinamente a
matava! A própria religião pode criar esse efeito caso Jesus Cristo não seja o centro, a
fonte da vida.
Se bebermos da água viva pela fé no Senhor (io 7.37-39), o Espírito Santo se tornará
vida em nós e vivificará outros por nosso meio. Recebemos energia para adorar e servir.
Esse processo depende da atuação específica do Espírito Santo. Jesus ensinou
claramente que a presença do Espírito nos discípulos (Jo 14.17) traria este resultado
definido: ".. vós em mim e eu em vós" (v. 20). Jesus recapitula essa verdade no v. 23:
"Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará; e viremos para ele e
faremos nele morada".
A fome e a sede de justiça podem ser saciadas pela Palavra de Deus. Em suas
páginas eternas, inspiradas, Deus guarda mel (Si 19.10; 119.103) e leite genuíno (lPe
2.2). Nas Escrituras encontramos a segunda razão da fome abençoada.
O diabo tentou Jesus a satisfazer sua fome física transformando em pães algumas
pedras que abundavam na região. Jesus, porém, repudiou essa investida, declarando: "Não
só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt
4.4; Dt 8.3). Pode-se concluir, do paralelismo hebraico aqui envolvido, que, assim como
o pão mantém a vida do corpo, a Palavra de Deus mantém a vida espiritual. Quando a
pessoa perde o gosto pelas sagradas letras e faltam-lhe fome e sede por esse alimento
divino, as conseqüências são óbvias: crentes raquíticos, carentes de vitalidade e energia
para gastar no serviço do Rei Jesus. Paulo declara enfaticamente a respeito dele e dos
seus colegas: "... não desfalecemos... não desanimamos" (2Co 4.1, 16). Eles evitavam os
efeitos naturais da subnutrição, alimentando-se bem da Palavra (2Co 3.14).
"Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para
o coração..." Ur 15.16). A alegria de assimilar a Palavra de Deus provém da satisfação de
saber que ele falou conosco e nos comunica a sua verdade. Para ter saúde espiritual o
cristão precisa ser obediente. Mas muitos têm dificuldade em obedecer, porque não
conhecem a vontade do seu Senhor (cf. Lc 12.48).
"A glória de um homem bom é o testemunho de uma boa consciência", diz Tomás
de Kempis.1 Aqui descobrimos a terceira razão que motiva o homem a buscar a justiça
com o mesmo anseio de um cachorro faminto que corre atrás de um coelho. A
consciência maculada é um fardo pesado para carregar. O apóstolo Paulo fez alusão a isso
quando disse: "... me esforço por ter sempre consciência pura diante de Deus e dos
homens" (At 24.16). Acredito que seu esforço se explica não somente no desejo de
alcançar "justa preeminência e muita intrepidez na fé em Cristo Jesus" (1Tm 3.13), mas
também porque uma má consciência intranqüiliza e cria ansiedade. Paulo sentia no
coração que tinha a aprovação de Deus, o que vale muito mais do que a pessoa que se
auto-recomenda (2Co 10.18).
Sugestões para Aumentar a Fome e a Sede de Justiça
A fome e a sede representam o desejo do cristão consagrado. Gaynor Banks disse:
O desejo é uma força poderosa, um dos atributos mais divinos que você tem! "Tudo
quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco." Veja a
qualidade divina do desejo. Faz parte da energia atômica da alma. O reino do céu dentro
de você funciona por meio do desejo. Não o apague, nem o esmague, nem o suprima. Pelo
contrário, ofereça-o a mim. Ofereça-me seus desejos mais elementares, seus anseios pela
felicidade, pelo amor, pelo bem-estar, pelo sucesso, pela alegria, em qualquer nível do seu ser -
ofereça-os livremente a mim e eu os transanutarei de tal maneira que você conseguirá
libertação, realização e isenção total da frustração."
O desejo de comer - a "fome" - pressupõe saúde perfeita. Qualquer ferimento ou
infecção pode prejudicar a saúde e resultar
na diminuição da fome. Logo após a ressurreição da filha de Jairo, Jesus mandou que os
pais lhe dessem algo para comer. Seguramente, ela não se havia alimentado nos dias que
precederam sua morte.
Depois de recuperar a vida e a saúde, a menina sentia fome. Jesus
lembrou aos pais que ela precisaria comer. Toda mãe que já cuidou
de um bebê pode perceber a íntima relação entre a saúde e a fome.
A fome e a sede aumentam com exercícios físicos. Queimar
calorias e transpirar provocam um clamor natural por comida e bebida. Acontece o
mesmo no serviço do Senhor. Os esforços despendidos no exercício da justiça suscitam
a fome espiritual. A
anemia, a falta de apetite e a má nutrição são sinais de apatia e de falta de interesse pela
busca do reino de Deus e da sua justiça. O Médico Divino recomenda a tais pacientes:
"Exercita-te, pessoal-
mente, na piedade. Poiso exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para
tudo é proveitosa porque tem a promessa da
vida que agora é e da que há de ser" (lTm 4.7, 8).

O Galardão dos que Sentem Fome e Sede de Justiça


O galardão dos famintos por justiça é a fartura que Deus lhes dará. Serão
satisfeitos, assim como o Servo do SENHOR, que "verá o fruto do penoso trabalho de sua
alma e ficará satisfeito" (Is 53.11). Deus providenciará o banquete dos justos, que se
fartarão. Na festa das bodas do filho do rei (Mt 22.1-14), os convidados não
compareceram porque tinham outros interesses. Eles com certeza não sentiram fome
pelo banquete especial. Mas para os que tomaram os seus assentos - os mendigos, os
indigentes, os famintos e os favelados - o banquete foi uma festa incomparável. Por duas
razões eles foram os mais bem-aventurados. primeira, porque é óbvio que receberam um
privilégio imerecido, o qual nem em sonhos poderiam imaginar. Segunda, porque
estavam realmente com fome. A alegria desfrutada pelos convidados de um banquete
deve ser proporcional à fome que sentem.
Os santos que estão esperando as Bodas do Cordeiro podem antegozar com
inestimável prazer o tomar assento à mesa com Jesus Cristo em seu reino (Lc 14.15; Ap
19.9). A essa altura a promessa da perfeição já terá sido concretizada. Já não haverá
mácula nas vestes dos redimidos que as lavaram no sangue do Cordeiro. Finalmente, a
justiça de Cristo, a nós imputada, será transformada em justiça de Deus como realidade
concreta. "Santos e irrepreensíveis" (Ef 1.4) são termos que descrevem a perfeição do
cristão, que então passará a ser uma realidade inabalável. Quando tocara última
trombeta, num abrir e fechar de olhos, todo o esforço gasto na busca da justiça será
coroado pela justiça concreta, e essa bem-aventurança tornar-se-á uma realidade eterna.

A Felicidade dos
Misericordiosos
OXW

Duas definições principais nos ajudarão a focalizar a nossa atenção na bem-


aventurança dos misericordiosos. Em primeiro lugar, a misericórdia é uma qualidade
divina pela qual a compaixão nos afeta de modo suficientemente profundo para nos fazer
procurar aliviar o sofrimento do próximo. É compaixão ativa por aqueles que sofrem.
Assim como o bom sannaritano, que achou
o judeu ferido na estrada de Jericó e lhe demonstrou bondade inesperada, todos os
misericordiosos agirão de modo semelhante.
"Misericordioso" também descreve a pessoa que perdoa ao malfeitor que pratica o
mal sofrido pelo inocente. E, portanto, a disposição de oferecer perdão àqueles que
podem ou não merece-lo. Novamente, é Deus quem oferece o melhor exemplo. Considere
o salmo 103.8: "O SENHOR é misericordioso e compassivo; lorgânimo e assaz
benigno". O refrão do salmo 136 repete-se 26 vezes: "Porque a sua misericórdia dum para
sempre". Paulo explica a maravilha da salvação em decorrência da rica misericórdia de
Deus: "... por causa do grande amor com que nos amou" (Ef 2.4). O amor se transforma
em misericórdia no instante em que ele cria compaixão e se traduz em ações que
visam solucionar o problema do necessitado. "O Senhor é cheio de terna misericórdia
e compassivo" (Tg 5.11).
Mas será a misericórdia idêntica á graça? Certo pastor quis esclarecer essa questão ao
seu filho. Este desobedecera ao pai, que declarou que iria castigá-lo com dez cintadas na
região criada por Deus para exercitar as crianças em seus caminhos. Quando o pai
levou para o quarto o filho desobediente e lhe ordenou que se
ajoelha-se ao lado da cama, só lhe deu cinco cintadas. O filho
pai,
p
ficou perplexo: "Não fiquei de receber dez?" "Sim", disse o "mas quero que você
compreenda o que é a misericórdia". Mais tarde, convidou o filho para sair e tomar um
sorvete. "Mas não estou de castigo?" "Sim, é verdade, mas quero que você entenda o que
é a graça." Dessa maneira, o pai sábio ensinou uma lição que o filho não poderia mais
esquecer.
Porque Deus é um Deus misericordioso, exige que as suas criaturas, criadas à sua
imagem, também sejam misericordiosas. "Ele te declarou, 6 homem, o que é bom e que
é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes
humildemente com o teu Deus" (Mq 6.8).
Essa qualidade da misericórdia é tão fundamental aos olhos de Deus que, se um
cristão não perdoar ao irmão, deve saber que Deus aplicará contra ele, o incompassivo,
o pleno rigor da lei. "Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso
Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens... tartipoucci, vosso Pai
vos perdoará" (Mt 6.14-15).

Certa ocasião, Pedro perguntou ao Senhor quantas vezes seria necessário perdoar
um cristão que pecasse contra seu irmão. Pedro sugeriu sete vezes. Jesus, no entanto,
respondeu que perdoar somente sete vezes era demonstrar pouca misericórdia. Antes,
setenta vezes sete seria um número razoável de delitos a serem perdoados. O Mestre
passou, então, a deixar essa lição mais clara ainda por meio de uma parábola. Certo rei
resolveu "ajustar contas com os seus servos" (Mt 18.23). Um deles devia a soma
astronômica de dez mil talentos, uma soma tão absurda que uma vida inteira de trabalho
obteria somente uma fração do dinheiro necessário para pagar a dívida. Ordenou-se que
o devedor e sua família fossem vendidos a fim de saldar pelo menos parte da divida. O
devedor rogou por misericórdia. 0 rei lhe perdoou a dívida. O devedor, porém, lembrou-
se de que oui ti) servo lhe devia uma
pequena soma de cem denários; agarrou-o e, quase estrangulando-o, exigiu que lhe
pagasse a dívida. O pobre homem caiu aos seus pés, implorando paciência e garantindo
que pagaria a dívida integralmente. Quando o rei descobriu o que aquele servo devedor
fizera, mandou convocá-lo. Por que não tratam seu conservo com o mesmo tipo de
misericórdia que ele mesmo recebera? "E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos
verdugos, até que lhe pagasse toda a divida" (v. 34). Essa é a reação que podemos esperar
da parte de Deus, "se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão" (v. 35).
Fica amplamente clara a lição que Jesus quis ensinar. Os incompassivos serão
tratados sem misericórdia. Por outro lado, os misericordiosos são os bem-aventurados
que recebem a misericórdia de Deus, agora e por toda a eternidade.

Razões para o Exercício da Misericórdia


A primeira razão para o exercício da misericórdia acha-se no texto acima. Os
misericordiosos têm motivo para esperar misericórdia da parte de Deus. Essa quinta
bem-aventurança, é óbvio, não é um texto que ensina a salvação pelas boas obras.
Toda pessoa que não confessou seus pecados e confiou no Salvador misericordioso não
tema menor esperança de receber misericórdia no dia do juízo, por mais misericórdia que
ela tenha demonstrado. Esse é um texto para os crentes, irmãos na família de Deus, salvos
pela graça (Ef 2.8, 9).
A segunda razão brota da própria misericórdia de Deus. Nós, que levamos o seu
nome, devemos evidenciar algumas das características do Pai que nos deu vida. João
escreve com muita clareza: "Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu
irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o
amor de Deus?" (1Jo 3.17).
A terceira razão é o exemplo do Senhor Jesus, a quem temos a obrigação de imitar.
A sua compaixão pelos desafortunados era
bem conhecida. "Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas
e exaustas como ovelhas que não têm pasmes (Mt 9.36). A compaixão de Jesus estendia-
se às multidões de ovelhas sem pastor, ou seja: aqueles que não têm ninguém para cuidar
deles nem protegê-los.
O quarto incentivo para demonstrar misericórdia acha-se nos galardões que,
segundo as promessas na Bíblia, serão dados copiosamente aos misericordiosos. Os
cristãos que têm compaixão dos desafortunados e piedade dos que sofrem têm a garantia
da felicidade eterna. A misericórdia de Deus lhes está prometida.
Paulo menciona o dom (charisina) da misericórdia em último lugar na lista
dos dons, em Romanos 12.6-8. Mas não devemos concluir que, por estar no fim da lista,
seja de menos importância que os outros.
Foi a riqueza da misericórdia de Deus que o levou a sacrificar o seu Filho por nós (Ef
2.4). Seu amor sem limites manifestou-se em misericórdia logo que se viu confrontado
com a desgraça dos seus filhos. A compaixão que Deus sentiu pelos pecadores motivou o
plano de resgatar os que estavam "mortos em delitos e pecados" (Ef 2.1). A realização
histórica dessa compaixão divina encontra-se na cruz. As agonias da morte voluntária
de Jesus Cristo não tinham outro motivo senão a sua misericórdia. Foi o mesmo
sentimento que arrancou do coração de Jesus, vitimado pela inveja e pelo ódio dos
homens, a seguinte petição: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lu
22.34).

O apóstolo Paulo também revela sua alegria em poder sofrer pelos colossenses e em
preencher o que faltava dos sofrimentos de Cristo em favor do seu Corpo (1.24). Nessa
identificação com a morte expiatória de Jesus, Paulo focaliza o papel dos servos de
Deus que escolhem voluntariamente pagar o preço de levar o evangelho aos perdidos.
Certamente isso não significa que Paulo achava que suas agonias tinham algum valor ou
mérito que pudesse diminuir o castigo merecido por transgressores como os colossen-
sés. Os sofrimentos de grandes heróis da fé e "santos" não têm nenhum valor sub-
rogatório, conforme alguns têm ensinado. Tão-
somente Jesus, o Cordeiro Deus, pode absolver de pecados
mediante a sua morte expiatória (cf. Jo 1.29).
Em alguns casos, no entanto, o privilégio de semearas boas-
novas da salvação em Cristo custa o derramamento de sangue.
Vale a pena contar um exemplo empolgante. Trata-se da história de um guerreiro manai
da África, que assistiu à conferência para
evangelistas itinerantes em Amsterdã, na década de 1980.
Cem dia, José, que estava andando por uma daquelas estiadas de chão quentes e poeirentas
da África, encontrou-se com alguém que compartilhou com ele o evangelho de Jesus
Cristo. Ali mesmo, na bom, aceitou Jesus como seu Senhor e Salvador. O poder do
Espírito começou a transformar a sua vida; ficou transbordando de tamanha emoção e
alegria que a primeira coisa que queria fazer em voltar à sua própria aldeia e compartilhar
aquelas mesmas boas-novas com os membros da sua tribo.
José começou a ir de porta em porta, contando a todos a respeito da cruz de Jesus e da
salvação oferecida por ela, esperando que os rastos deles se iluminassem da mesma maneira
que acontecem consigo mesmo. Ficou atônito, porém, quando os aldeões, além de nem se
importarem com a salvação, ainda por cima ficaram violentos. Os homens da aldeia
agarraram-no e o mantiveram preso no chão enquanto as mulheres lhe davam chicotadas
com fios de ~c farpado. Foi arrastado para fora da aldeia e deixado para morrer sozinho
no matagal.
Com grande esforço, José conseguiu arrastar o seu corpo para onde havia uma cacimba e
ali, depois de passar dias alternando entre os estados de consciência e de inconsciência, reuniu
forças para se colocar em pé. Não conseguia compreendera recepção hostil da parte de
pessoas que tinha conhecido durante toda a sua vida. Chegou à conclusão de que talvez
tivesse omitido algum detalhe na história de Jesus ou a tivesse contado incorretamente. Depois
de repassar mentalmente a mensagem cristã que ouvira, resolver voltar e, de novo,
compartilhar a sua fé.
José entrou manquejando no circulo de palhoças da aldeia e começou a proclamar
Jesus. "Ele morreu por vocês, a fim de que recebam o perdão e conheçam o Deus vivo",
implorou. De
novo, os homens da aldeia agarraram-no, enquanto as mulheres o surravam, reabrindo
feridas que estavam começando a sarar. Outra vez arrastamm-no inconsciente para fora da
aldeia, onde o deixaram para morrer.
Ter sobrevivido à primeira surra em realmente notável. Só por milagre acabou
sobrevivendo á segunda. Mais uma vez, dias depois, José acordou no matagal, com
lesões e escoriações
-decidido a voltar.
Quando chegou de volta à aldeia, atacaram-no antes de sequer ele abrir a boca. Enquanto o
espancavam pela tenreira e talvez a ultima vez, falou-lhes novamente a respeito do
Senhor Jesus Cristo. Antes de perdera consciência, a última coisa que viu foi que as
mulheres que batiam nele começaram a chorar.
Dessa vez, acordou ria sua própria cama. Aqueles que o tinham espancado com tanta
severidade estavam agem se esforçando para salvar a sua vida e para lhe recuperara saúde.
A aldeia inteira aceitam Cristo.'
Todos os dias, em muitas partes do mundo, há cristãos sofrendo pela sua fé. Esses
sofrimentos poderiam ser evitados se eles simplesmente mantivessem silêncio, deixando
que o mundo condenado em seu redor permanecesse debaixo da ira de Deus Go 3.36).
Mas a compaixão e a misericórdia não lhes permitem guardar silêncio.

Foi essa misericórdia persistente que motivou o capelão Khoo, de Cingapura, a


visitar o cárcere principal e procurar o criminoso mais perigoso do pais, que tinha sido
preso havia pouco tempo... Fora condenado à morte pelos seus muitos crimes, mas o
pastor Khoo não conseguia fugir à pressão que o levou a dizer: "Jesus o ama, e eu
também". O assassino cuspiu no seu rosto. Lentamente, Khoo enxugou os óculos e o
tosto, e virou-se para sair. Mas, no dia seguinte, estava de volta: "Jesus o ama, e eu tam-
bém". De novo, a saliva do criminoso foi como uma ducha no rosto do pastor. Ainda
no outro dia, contou ao preso as mesmas boas novas e recebeu a mesma paga pelos seus
esforços. Incrivelmente, Khoo voltou dia após dia durante um mês e recebeu o mesmo
tratamento. Mas, no trigésimo dia, o pastor recebeu um
telefonema, dizendo que o criminoso estava pedindo a sua visita. Já não estava violento,
mas perguntava: "Quem é esse Jesus que, segundo você me diz, me ama, e quem é você?
Por que continuou voltando, mesmo depois de ter sido ofendido repetidas vezes?". Khoo
explicou-lhe, com toda a singeleza, as boas novas de salvação do amor de Deus, que perdoa
os pecadores perdidos. O bandido foi transformado mediante a fé em Jesus. A única
explicação para semelhante mudança é o dom da misericórdia produzida pelo amor
compassivo de Deus derramado no coração do crente (Riu 5.5).
Não precisamos, no entanto, viajar para fora do Brasil para descobrir exemplos de
compaixão motivada por um dom sobrenatural de misericórdia. Semelhantes heróis
gastam suas forças para resgatar drogados, prostitutas, meninos de rua e para distribuir
sopa aos mendigos. Certo casal cuida de quatorze crianças abandonadas numa casa de
precárias condições de higiene e espaço. Mas as crianças se sentem amadas e seguras,
talvez ainda mais do que muitos filhos na casa dos próprios pais, onde nasceram.
Certo jovem bem conhecido viaja horas de ônibus para visitar os menores
infratores na FEBEm em São Paulo. Poderia procurar um bom emprego que lhe
renderia um salário razoável, mas é a misericórdia que orienta suas escolhas e valores.

O Galardão dos Misericordiosos


A Bíblia ensina que os misericordiosos receberão misericórdia da parte de Deus.
Abraão Lincoln afirmou: "A maioria das pessoas é aproximadamente tão feliz quanto
deseja ser".' A felicidade é conseqüência de uma consciência limpa. A psiquiatria
demonstra que muitos pacientes tristes e deprimidos não conseguem afastar do coração
a inveja e nem se ver livres de um fone desejo de vingança. A depressão motivada pela
hostilidade e pela falta de disposição para perdoar é tão comum que os conselheiros
percebem claramente essa relação de causa e efeito.
Dizem Minirth e Meiers: "... A providência básica a ser tomada para vencera
depressão é utilizar os recursos excelentes que temos em Cristo'Y Quando uma pessoa
vaia Cristo pedindo alívio, a exigência da parte dele é que ela se arrependa e renuncie
os seus pecados. É necessário, portanto, que essa pessoa que quer ser crente confesse
que não perdoou a quem a lesou - e somente então conseguirá sentir o amor de Deus e
o perdão da parte de Cristo. Deus não impõe o "olho por olho, dente por dente" que
as pessoas geralmente pressupõem; pelo contrário, ele requer uma resignação que vai
além do bom senso (Mt 5.39-41). O fato é que realmente devemos amar os nossos
inimigos e orar pelos que nos perseguem (vv. 43-44) "para que vos torneis filhos do
vosso Pai celeste" (v. 45). O paradoxo do Sermão da Montanha nunca fica tão evidente
como na exigência de que perdoemos aqueles que não merecem nosso perdão e que em
muitos casos nem sequer o aceitam.
Os benefícios são eternos: "Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também
vosso Pai celeste vos perdoará" (Mt 6.14). Quem realmente recebeu o perdão da parte
de Deus sente-se livre, maravilhosamente feliz. A exultação a que Pedro se refere na
sua epístola descreve a emoção libertadora daqueles que foram regenerados e têm
certeza da esperança viva que os aguarda (lPe 1.6).
A verdadeira religião, pura e cristalina, segundo Tiago, consiste em visitar os
órfãos e as viúvas nas suas tribulações (Tg 1.27). Atribuir pureza ás ações que
beneficiam os necessitados indica que se trata de ações que não receberão muito
reconhecimento nesta vida. Não são ações que insuflam o orgulho mundano, mas não
passam despercebidas pelo Senhor. Ele não deixará de galardoar qualquer filho seu
que oferecer um copo de água fria a um discípulo (Mt 10.42). Os valores do reino são
distintos dos do mundo. A alegria eterna dominará os que, por amor a Cristo, servem
humildemente os que não têm condições de cuidar de si
Mesmos.

A Felicidade dos
Limpos de Coração
A lista que Jesus fez dos súditos de Deus realmente bem-aventurados
inclui todos os que têm o coração limpo. São os que foram lavados no
detergente espiritual que flui das feridas do Filho do homem.
Talvez seja proveitoso fazer uma breve digressão a fim de considerar o
que Jesus queria dizer com a palavra "coração". Ninguém pensaria hoje que
ele se referia ao músculo do tamanho de um punho cerrado, composto de
ventrículos, válvulas que bombeiam sangue em nosso peito a fim de preservar
a nossa vida física. O coração bíblico refere-se ao verdadeiro eu, que pensa,
considera, avalia, resolve, planeja e se regozija ou fica sobrecarregado com
tristezas. A partir dessa perspectiva, o "coração" refere-se ao verdadeiro "ego",
ao "eu" vital. É desse centro de controle e de autoconsciência que fluem as
questões fundamentais da vida.
Sabemos pela Bíblia que Deus testa o coração do homem e julga a sua
sinceridade (1 Cr 29.17). Nesse texto, Davi queria uma confirmação da parte de
Deus. Desejava ter certeza da sinceridade do seu próprio coração, sem
motivação interesseira ou forçada. As ofertas oferecidas por Davi e pelos
e
demais israelitas eram voluntárias, espontâncas motivadas pelo amor.
Qualidades como essa são caracterizadas como atitudes do coração.
Jeremias também declara que o Senhor vê e conhece o que nenhum ser humano pode
perscrutar. Diz esse profeta: "Mas tu, 6 SENHOR, me conheces, tu me vês e provas o que
sente o meu coração para contigo" Ur 12.3) A decepção e a revolta por causa da
prosperidade dos ímpias' que fazem o profeta sofrer são sentimentos do coração.
Jeremias tem muita dificuldade em aceitar que Deus dê seus bons cuidados aos que
não os merecem, ao passo que o fiel profeta sofre o abandono e a falta de cuidados.
Jeremias acha que merece um tratamento melhor. Conviver com um Deus soberano
que não manifesta sua justiça nesta vida cria um problema para o coração.
Salomão observou que as decisões e ambições do homem parecem retas aos seus
próprios olhos, "mas o SENHOR sonda os corações"~Pv 21.2).' É comum avaliar os
nossos "caminhos" de modo positivo, Aclumos que somos, na realidade, irrepreensíveis
(pelo menos aos nossos próprios olhos). Mas Deus penetra através das camadas
defensivas do coração a fim de sondar os motivos e os interesses ali escondidos.
Quando ele faz a sua luz penetrar em nosso íntimo, descobrimos como é enganoso o
coração (Jr 17.9). Por ser "desesperadamente corrupto", a esperança de conhecê-lo
desvanece, se não houvera radiografia do Espírito. "Eu, o SENHOR, esquadrinho o
coração, eu provo os pensamentos" Gr 17.10).
Jeremias mostra que Deus age como o promotor público no tribunal. Descortina
os segredos que ocultamos até mesmo a nós. Torna evidentes as nossas intenções e
revela o egoísmo e o orgulho escondidos atrás das boas intenções e da auto-estima.
Ele desarma as defesas, destrói fortalezas e anula sofismas para levar "todo
pensamento à obediência de Cristo" (2Co 10.4, 5).
Do ponto de vista bíblico, o coração é a fonte dos sentimentos, da vontade e dos
desejos. No judaísmo dos tempos de Jesus, a contaminação resultava do contato com os
"gentios impuros" e com artigos constantes da lista de alimentos proibidos.
Contatos com objetos classificados como imundos contaminavam cerimonialmente,klc
7.15-23)~Jesus; ensinou o contrário. Não é por ingerir um peclaçb-de-carâne proibida
ou por tocar num cadáver que o coração se torna imundo. O que contamina mesmo o
ho-
menti é o que brota de um coração impenitente e sai da boca (v. 15). "Porque de dentro,
do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos,
os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a
blasfêmia, a soberba, a loucura" (Mc 7.21, 22).
O coração deturpado pela queda de Adão e herdado pelos seus descendentes é
uma fábrica de maldade. Mesmo sem o estímulo da tentação externa ou da ação
satânica, o coração gera, por conta própria, atitudes pecaminosas. Após os
hediondos pecados de adultério e homicídio que Davi praticou, ele reconheceu que
somente Deus podia mudar suas atitudes e dispoglFçõ-et,, criando-lhe um coração puro
e renovando-lhe o espírito 151.10).) É notável que o rei-poeta tenha chegado à
conclusão, ja a vinda de Cristo e da promessa do Espírito, que uma solução menos
radical não resolveria seu problema.

Como Devemos Purificar o Coração?


Precisamos indagar: que processo de transformação poderia limpar o coração
humano? Que infusão poderia impedir a produção da imundícia que, via de regra, essa
"fábrica" produz? A senda da felicidade se estenderá diante de todos quantos
alcançarem a pureza de coração segundo a Palavra de Deus.
Devemos observar algumas áreas específicas que exigem o máximo da nossa atenção
para experimentarmos a renovação da mente ou coração (Rm 12.2).

1. A Pureza Sexual
Jesus ensinou nesse sermão que filtrar os pensamentos deve ser uma prioridade
para o homem de Deus. Olhar com intenção impura para uma mulher equivale - aos
olhos de Deus - ao ato sexual cometido no coração (Mt 5.28). Comete-se, assim, o
pecado do adultério sem qualquercomatofli,~ É provável que nenhuma comissão de
disciplina eclesiástica recomende que um irmão seja
expulso da comunhão da igreja porque sua mente deleitou-se num pensamento cobiçoso.
Para Deus, que tem perfeição absoluta na sua santidade, a gravidade do ato externo
e do pensamento do coração são iguais; são pecados que contaminam a pessoa.
A recomendação bíblica é: "Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena:
prostituição (a gratificação sexual por meio de uma mulher que não seja a esposa),
impureza (pensamentos sexuais condenados pela Palavra de Deus), paixão lasciva
(estímulo sexual voltado para alguém que não é a legítima esposa)". Sufocar ou
filtrar todo e qualquer meio e fonte de estímulo ao sexo ilícito é obrigatório
para conseguir um coração puro.
Pode-se conseguir um coração puro somente através de uma luta até à morte contra
os desejos impuros da carne. Os estímulos que alimentamos feitos malignos da carne
devem ser substituídos pelo Espírito Santo. O poder real de Deus, atuando no coração,
é o caminho da vitória, segundo o apóstolo Paulo: "Se, pelo Espírito mortificardes os
feitos do corpo, certamente vivereis" (Rm 8.13). Esse poder do Espírito age na
consciência, traspassando-a ou compungindo-a (At 2.38), revelando, assim,
como é nojento e penoso o pecado.
Viver sob o domínio da carne importa desfrutara satisfação iníqua dos impulsos
contaminados pela pornografia, por carícias e toques eróticos, por estímulos
visuais e tácteis impuros. Viver no Espírito, por outro lado, implica entregar o
coração ao comando daquele que a tudo renova. Por isso, Paulo ora em favor dos
efésios para que Deus, "segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais
fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito, no homem interior; e assim habite
Cristo nos vossos corações..." (Ef 3.16, 17a). Mediante o poder (dunamis) do
Espírito Santo podemos dar a Jesus Cristo as chaves do nosso coração. Somente ele
pode barrar a entrada de pensamentos nocivos e purificar nossa "casa" interior com o
seu precioso sangue (1Jo 1.9).
2. A Pureza de Coração é o Primeiro Mandamento (Dt 6.5; Mt 22.37-38;
Mc 12.30; Lc 10.25-27)
A contaminação fundamental do coração provém do egoísmo idólatra do amor-
próprio. O primeiro mandamento, portanto, requer que amemos a Deus de todo o
coração. Se sinceramente rendermos nosso coração a Jesus Cristo e desejarmos
realmente o seu senhorio sobre nossa vida, os ídolos começarão a cair como Dagom, o
deus esculpido pelos filisteus (1Sm 5.1-5). Veja como Paulo destrona o seu próprio
corpo, ao deixar em segundo plano os cuidados com o seu bem-estar físico: "Em nada
considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e
o ministério que recebi do Senhor Jesus..." (At 20.24). Todos normalmente
atribuem o máximo valor à sua própria vida, mas isso muda no momento em que o
serviço por amor a Cristo desloca o amor-próprio.
Se o Espírito realmente derramou o amor por Deus em nosso coração (Rm 5.5),
podemos esperar que esse amor infinito
vença os desejos da carne. "Andai no Espírito e j . a tisfais
à concupiscência (desejos obsessivos) da carne" Já que o fruto do Espírito
é o amor (GI 5.22), a pureGiraçãorc é alcançada mediante a plenitude do
Espírito (Ef 5.18). Quando o Espírito Santo de Deus impulsiona fortemente e os
cristãos o seguem (GI 5.18; Rm 8.14), e o fortalecimento pelo Espírito se
torna uma realidade no íntimo (Ef 3.16), Cristo vem habitar intensa ou
totalmente (katoikesai, no grego, está na forma intensiva) em "vossos corações" (v. 17).
Somente o Espírito tem poder para formar a imagem de Cristo no íntimo do cristão
(cf. G14.19).
Paulo discorre sobre esse mesmo tema ao contrastaras "obras da carne" com o "fruto do
Espírito" (GI 5.22). A prostituição, a impureza e a lascívia, obras naturais da
carne (v. 19), são deslocadas pela presença do Espírito, gerando seu fruto, o amor
(agape). Em contraste com a feitiçaria, com a macumbaria ou com os despachos, o
Espírito produz paz. Em vez da idolatria, que estimula as mais baixas paixões, o
Espírito produz domínio próprio e longanimidade, enraizados na perseverança de
esperar no Deus vivo. Em lugar de inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias,
dissensões, facções e invejas (v. 20), o Espírito gera benignidade, bondade, fidelidade e
mansidão (v. 22).
Não será possível conseguir um coração puro simplesmente extirpando os maus
pensamentos e excluindo certos desejos naturais, porém pervertidos pelo pecado. Os
monges da Idade Média poderiam nos advertir que nosso íntimo não tolera um vácuo.
Se desejamos sinceramente a felicidade prometida por Jesus, devemos clamar a Deus,por
um tia s Lmede cor4o. Deus prometeu
essa bênção da Nova Aliança inaugurada por Jesus, pela boca de i Ezequiel:
"Aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e
de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós
espírito novo; tirarei de vós o coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito"
36.25-27). j pureza no íntimo é um presente de Deus oferecido aos que-clantam, com
fé, pela fonte que jorra a água viva do Espírito Uo 4.14).
Paulo lutou contra a impureza de coração. Podemos verificar isso em Romanos
7.7-10. A cobiça, condenada pela lei nos Dez Mandamentos, não foi vencida pelo
poder da boa vontade. Podemos também sentir o desespero de Paulo, posto que a lei
proíbe o desejo maligno, mas não oferece nenhuma escapatória. Essa deve ser a razão
que levou Paulo a afirmar que a lei o matou (v. 9). Na inocência da sua infância, sentia-
se bem. A consciência encra
não o acusava. Mas, quando atingiu a idade de se tornar "filho da lei" (bar mitzvá),
descobriu que o pecado já reinava no seu íntimo. Esse fato despertou nele, além da
revolta, o reconhecimento de que não possuía em si mesmo meios de controlar os seus
desejos, nem forças para cortar pela raiz qualquer cobiça ou desejo proi. . - bido. A lei
não oferecia nenhuma esperança de ele conseguir vencer, com um esforço especial,
esse tipo de impureza "cardíaca"!

No fim, porém, Paulo descobriu que o caminho da vitória passa mesmo através do
vale do desespero. Notem-se as bem conhecidas palavras do apóstolo: "Desventurado
homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" A solução vem logo a seguir:
"Graças a Deus por Jesus Cristo". É ele quem implanta a 1ei do Espírito da vida em
Cristo" no coração e "nos livra da lei do pecado" (Rm 8.2).
Agostinho também sabia da intensidade dessa luta para conseguir um coração
puro. Ele escreveu as seguintes linhas famosas para mostrar sua total dependência do
Senhor: "Não tenho a mínima esperança, a não ser em tua grande misericórdia. Sem
dúvida, mediante a continência, somos reunidos e devolvidos à unidade da qual nos
desencaminhamos para a multiplicidade. Tampouco te ama quem alguma coisa amar
fora de ti, ou não amar por amor de ti! Ó amor que nunca te extinguiste e sempre
ardeste! Ó caridade, meu D e us , inflama-me. Tu mandaste a continência. Concede
o que mandaste e manda o que te aprouver".' Agostinho reconheceu, já cedo na sua
vida cristã, que, sem ajuda externa, nunca conseguiria vencera tentação da cobiça.

Maneiras Bíblicas de Purificar o Coração


Já tocamos em alguns meios de vencer a impureza do coração, segundo
ordenam as Escrituras, mas desejamos mencionar aqui mais algumas questões
fundamentais.

1. A Obediência
"Tendo purificado a vossa alma pela vossa obediência à verdade.,." (lPe 1.22) é um
texto que centraliza o assunto da pureza da alma (e do coração) em escutar e obedecer
aos mandamentos do Senhor. No texto citado, Pedro não se refere a um legalismo farisai-
co, mas à sujeição à verdade do evangelho. A lei dos mandamentos foi cumprida por nosso
Salvador na cruz, e suas penalidades foram canceladas (Ef 2.15; C12.14), mas a lei do
Espírito (Rm 8.2) continua
em pleno vigor. Paulo escreveu aos gálatas que "nem a circuncisão, nem a incircuincisâo têm
valor algum, mas a fé que atua pelo amor" (G15.6). "Vós corríeis bem; quem vos impediu
de continuardes a obedecer à verdade?% pergunta Paulo (G15.7). A obediência resulta de
um desejo o maior pela vontade de Deus do que pela nossa própria vontade. Quando
obedecemos ao nosso Pai, descobrimos, como crianças obedientes, a satisfação
extraordinária da comunhão e da aceitação. Experimentamos a união alegre com ele.
"A obediência por fé" (Rm 1.5) refere-se à regeneração que Deus opera naqueles
que crêem. Crer implica sempre em obediência, uma vez que nosso Salvador, o
Cristo ressurreto, é o Senhor e Rei exaltado (At 2.36). Se realmente cremos que ele é
nosso Senhor, não podemos deixar de conhecer a sua vontade nem de fazê-la.
Nesta última metade do século xx surge uma teologia que sustenta a posição de não
se exigir nenhuma obediência. Argumenta-se que Jesus morreu para nos salvar pela fé e
não por obras (ou seja, pela obediência). Segundo essa teoria, é possível optar por um
Cristo salvador, sem necessidade de aceitar o seu senhorio sobre a vida. Essa
experiência não é rara. Muitos testemunham que experimentaram uma nova vida em
Cristo sem ênfase alguma na obediência.

Descrever a experiência da conversão em duas etapas, optando pelo senhorio de


Jesus Cristo somente depois de aceitá-lo apenas como salvador não tem respaldo
bíblico. Essa maneira popular de descrever uma mudança na conversão, seguida por
uma nova experiência de submissão a Cristo como Senhor da vida, parece ser uma
acomodação à carnalidade. De modo completamente contrário à doutrina bíblica, há
quem gostaria de receber Jesus como simples amigo. Para semelhante candidato à vida
eterna, a pergunta fundamental seria: "Qual é o mínimo que tenho de fazer para herdar o
reino de Deus?". É a situação do jovem
rico, que procurou Jesus para saber que mais lhe faltava para ser salvo e herdar a glória
eterna, e descobriu que o Senhor exige
muito mais do que o jovem estava disposto a sacrificar. A graça salvadora realmente é
gratuita, mas o preço é altíssimo, conforme ilustrou Jesus quando contou a parábola do
comerciante de pérolas,
que deveria vender tudo quanto tinha, pois de outra forma nunca adquiriria a pérola de
grande valor.
Não existe a possibilidade de alguém resolver tornar-se cristão e, ao mesmo tempo,
rejeitar os plenos direitos que Cristo
tem sobre a sua vida. Ainda que exista uma teologia que apresente a "carnalidade" como
opção para o cristão, a verdade é que para
se converter é necessário que a pessoa entregue ao Senhor os direitos sobre a sua vida.
Ouçamos as palavras do Dr. John Piper, na
conversa que teve com um monge católico que se converteu, certa
noite na Africa do Sul, durante as orações vespertinas. Sabia que passarada morte para a
novidade de vida quando, na madrugada
seguinte, seu companheiro idoso ficou orando em voz alta. Antes, sentia raiva por causa
disso; agora, não! Com altos e baixos após a
saída do mosteiro, integrou-se num ministério. Aprendeu então a descrevera sua
conversão em duas etapas, de modo semelhante
aos colegas que afirmavam que Cristo era seu Salvador durante certo período, mas que
depois se tornou, também, Senhor da sua vida. O Dr. Piper lhe disse:
Sabe... penso que Jesus era seu Senhor antes daquele ato posterior de submissão. Acho que ele
em seu Senhor na noite em que você foi convertido, e que, a partir de então, a sua
experiência tem sido de submissão cada vez maior aos seus direitos soberanos como Senhor
sobre a sua vida. E não acho que você tem se curvado constantemente desde o momento
em que você "tornou-o Senhor". Nem agora você está plenamente submisso, pois nesse caso
estaria sem pecado. Mas ele continua sendo seu SENHOR agora. E,naqueles tempos, você não
estava plenamente submisso, mas assim mesmo, ele em o seu Senhor.'
A questão importante nessas considerações é lembrar-nos de que Jesus é nosso
Senhor mesmo quando desobedecemos a ele. Se o Espírito regenerador estiver
atuando em mim, tenho certeza de que a desobediência deliberada ou consciente me
será um incômodo. Mais ainda: não devemos alegar ter salvação pessoal se optarmos por
continuar no pecado. O apóstolo João condena essa atitude com estas palavras
contundentes: "Todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu" (1Jo 3.6).
Não adianta declarar que temos uma união salvadora com Cristo e continuar "no
pecado" (ver Rm 6). Por outro lado, muitas vezes Paulo se refere aos cristãos, membros
de uma igreja, que chamam Jesus Cristo de "nosso Senhor". Incluem-se igualmente os
crentes mais maduros bem como os mais novos na fé. Os mais santificados, bem como
os menos dedicados ao Senhor, fazem parte da mesma igreja. Não existem no Novo
Testamento duas categorias de cristãos. Jesus é Senhor de todos, se eles realmente estão
em Cristo. Realmente, Paulo chegou a questionar a experiência regeneradora dos gaiatas
(4.19) e incentiva os corintios a se examinarem para verificar se, de fato, estão na fé (2Co
13.5). Paulo disse aos coríntios: "Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a
Cristo Jesus como Senhor" (2Co 4.5). A pessoa é salva por confessar Jesus como
Senhor e nada menos do que isso.
Existem muitos que têm experimentado uma entrega mais profunda a Jesus,
experiência esta que lhes mudou radicalmente a vida, mas não seria certo declarar que,
antes dessa "segunda bênção", Jesus ainda não em seu Senhor. Além disso, depois de
passarem por uma mudança radical (conforme muitos têm passado), nem por isso
deixaram totalmente de pecar, nem podem dizer que nunca mais desobedeceram ao
Senhor da glória.
Andar no Espírito (GI 5.16) importa em obedecer à vontade de Deus ministrada ao nosso
coração pelo Espírito Santo. Primeiro, devemos definir o que a Bíblia revela ser os
mandamentos do Senhor (cf. Jo 15.10) e reconhecer que sem ele nada podemos fazer
Uo 15.5). Segundo, devemos clamar ao Senhor, pedindo a sua força e poder (Ef 1.19;
3.16). Terceiro, devemos crer que Deus dá força aos que agem à altura, pondo-se em pé e
resistindo ao pecado. Quarto, devemos agradecera provisão do seu poder para
vencermos. Esse plano simples mostra o caminho da obediência.

2. O Arrependimento
Após a primeira pregação ev;ingelística no poder do Espírito Santo, no dia de
Pentecostes, a multidão de ouvintes convictos dos seus pecados perguntou aos
apóstolos: "Que faremos, irmãos?" (At 2.37). O sofrimento interno (o texto diz:
"compungiu-se-lhes o coração") foi o peso da consciência. A tinta solução apresentada
foi esta: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para
remissão de vossos pecados" (v. 38).
A remissão, ou perdão, envolve remoção. Todo pecado mancha o coração. O
arrependimento e a confissão pública (concretizada na celebração da ordenança do
batismo) purificam o íntimo. Jesus instituiu a Ceia com essa mesma finalidade, não mais
para os pecadores que estão abandonando o mundo e os seus valores, mas para os filhos
de Deus que abandonam seu pecado. Foi essa a lição que Jesus transmitiu a Pedro quando
este não queria permitir que Jesus lhe lavasse os pés Go 13.8). Jesus convenceu-o de que,
sem essa lavagem, Pedro não teria mais comunhão com ele (v. 8). Pedro, apavorado,
rogou imediatamente que Jesus lhe lavasse o corpo todo, mas Jesus respondeu que
quem já tomou banho (no batismo) não precisa de nada mais além de lavar os pés.
Assim, somos levados a reconhecer que Jesus usava linguagem simbólica para ensinar a
importância do arrependimento na Ceia. Nesses momentos da participação na
comunhão do corpo e do sangue de Cristo, ele oferece a si mesmo para perdoar aos que
sinceramente se arrependem. João escreve: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel
e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça" (1Jo 1.9).
O arrependimento significa, segundo o grego original, "mudar de mente"
(metanoia). Assim, podemos considerar a renovação da mente uma espécie de
purificação do coração (Rm 12.2). Por meio de Ezequiel, Deus ordenou aos israelitas:
"Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes e criai em vós
coração novo e espírito novo; pois, por que morreríeis, o casa de Israel?" (Ez 18.31).
Por um lado, a pureza de coração é a conseqüência da atuação de Deus convertendo e
limpando as impurezas e a podridão do centro de comando da vida humana. Quando
Deus regenera alguém, ele também purifica e santifica essa vida. Por outro lado, ele
também exige que exerçamos a nossa responsabilidade pessoal. Não podemos deixar de
nos arrepender como o filho pródigo -devemos afastar-nos da imundícia dos porcos,
levantar-nos e voltar à casa paterna. Nosso Pai amoroso está disposto a nos revestir do
"novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que
o criou" (C13.10). Sabemos que é genuíno o nosso arrependimento quando passamos a
sentir nojo do pecado com que antes nos deliciávamos. Um cristão pode cometer pecado,
mas não pode sentir-se bem com seu coração maculado e com sua consciência ferida.
Um arrependimento menos radical pode ser mero remorso. Se o pródigo voltasse
para casa só por causa da fome, da solidão e da miséria em que vivia na terra
longínqua, poderia ter ficado sem amor genuíno pelo pai. Não se sentiria bem em casa
com o pai e com os irmãos. Ficaria muito feliz se o pai lhe arrumasse mais uma soma
expressiva para voltar à vida que gozava antes de se esgotar sua herança original. Se isso
tivesse acontecido, seguramente saberíamos que esse jovem não se arrependera.
Pedro se arrependeu genuinamente por ter negado a Jesus. Judas se suicidou,
porque não se arrependera genuinamente. Pedro mudou a sua mente de forma radical e
foi perdoado e purificado. Passou a ser o mensageiro escolhido por Deus para pregar
aos
milhares que se converteram. Judas sentiu a tristeza do remorso, mas o coração
continuou imundo, firme no caminho da perdição.

3. A Eliminação do Estranho
A pureza de coração também caracteriza o cristão que enxerga claramente um
único alvo na vida: o sumo bem. Jesus descreveu essa atitude em termos de um olho
bom que permite que somente a luz penetre no íntimo. O coração dividido procura
agradar a dois senhores. O Senhor, porém, disse: "Ninguém pode servir a dois senhores;
porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará o
outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas" (Mt 6.24).
O primeiro e grande mandamento exige essa mesma singeleza de visão, esse único
propósito na vida. Amar a Deus de todo
ocoração, de toda a alma, de todo o entendimento e de toda a força (Mc 12.30 e paralelos)
exclui o amor dominante a qualquer outra pessoa ou coisa, já que o coração fica
concentrado em um só propósito - amar a Deus. A razão por que Deus nos criou foi que
lhe concedamos a supremacia em tudo quanto ambicionamos
 que a glória dele seja a prioridade em todas as nossas atividades
 esforços.
Mas, se formos honestos, descobriremos que não estamos buscando em primeiro
lugar o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6.33). Outros alvos e interesses nossos deslocam
o Senhor do trono de nossa vida, pelo menos temporariamente. Assim como Acâ, vemos
entre os despojos "uma capa babilônica, e duzentos ciclos de prata, e uma barra de
ouro" Os 7.21) que nos seduzem, contaminando o coração. Paulo afirma que "o amor
do dinheiro é raiz de todos os males" (lTm 6.10), não porque o dinheiro seja algo
pecaminoso em si mesmo, mas porque ele tem uma facilidade impressionante de se tornar
nosso deus e de dominar toda a nossa atenção. Não e só dinheiro que pode contaminar o
coração, pois
qualquer outro desejo ou motivo tema capacidade de nos enredar nas suas tramas.
Hoje, não é fácil encontrar um cristão como Timóteo, nem nos dias dele, nos
meados do primeiro século na cidade de Roma. Disse o apóstolo Paulo: "Porque a
ninguém tenho de igual sentimento que, sinceramente, cuide dos vossos interesses; pois
todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus" (Fp 20.21).
Timóteo percebeu a importância de eliminar da sua vida tudo quanto não estava
sujeito a Jesus Cristo. Voluntariamente, tornou-se cativo do propósito que Deus Pai teve
em enviar seu Filho para, morrer e ser exaltado em seguida (Fp 2.911). Esse propósito
foi e é "para em todas as coisas ter a primazia" (Ci 1.18).
Em vários trechos das suas epístolas, Paulo revela a pureza do seu coração ao
eliminar seus interesses próprios. Escolhemos dois textos apenas, para demonstrar sua
singeleza de coração. "Uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás estão, e
avançando para as que diante de mim ficam, prossigo para o alvo, para o prêmio da
soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Fp 3.13-14). Para poder concentrar-se no
alvo da suprema vocação, tinha de esquecer-se das metas ultrapassadas e, com singeleza,
fitar os seus olhos em Deus e no seu propósito. "Em nada considero a minha vida
preciosa para mim mesmo, contanto, que complete a minha carreira e o ministério que
recebi do Senhor Jesus..." (At 20.24.) A pureza de coração transparece em tais afirmações
porque evidenciam o fato de que Deus e seu reino eram mais importantes para ele do que
a própria vida.

O Galardão dos Limpos de Coração


Jesus prometeu que os limpos de coração verão a Deus. Os santos podem
antegozara alegria da visão de Deus. Paulo disse: "Agora, vemos como em espelho,
obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em• parte; então, conhecerei
como
também sou conhecido" (]Co 13.12). Os pecadores serão condenados e excluídos da
presença de Deus no juízo final, mas os que têm o coração imaculado contemplarão a sua
face. Certamente, nenhuma recompensa poderá ser maior do que essa. Ser conduzido à sua
presença gloriosa, sem ser um pecador culpado e aterrorizado, sem precisar evitar seu olhar
santo, essa será a grande recompensa do santo.
Davi, sob inspiração divina, respondeu às seguintes perguntas: "Quem subirá ao
monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar?" Esta é a resposta: "O
que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade... Este
obterá do SENHOR a bênção..." (SI 24.3-5). Davi prenuncia o que Jesus ensinou. Os
limpos de coração terão o privilégio de permanecer na presença de Deus. Terão
acesso ao seu trono. Receberão respostas às suas orações nesta vida e intima comunhão
com o Senhor na vida do porvir.

Por outro lado, o salmista declara: "Se eu no coração contem-


plam a vaidade, o Senhor não me teria ouvido" (SI 66.18). Con-
cluímos que a pureza de coração influi diretamente na comunhão
com Deus nesta vida e marca o destino de iodos na vida futura.
A pureza de coração será coroada pela gratidão transbordante
daqueles que, no futuro glorioso, reconhecerão o quanto nosso
Senhor sofreu para tornar disponível o seu sangue purificador.
Nossa atual percepção de quão grande foi o preço da nossa
redenção fica obscurecida pelas trevas na nossa alma pecaminosa.
No entanto, é certo que no futuro glorioso ficará claro a todos
nós quão alto foi o preço pago. Jesus indicou essa realidade quando
contrastou o amor evidenciado pela mulher pecadora com a
amizade superficial de Simão, o fariseu. A declaração de Jesus
"aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama" (Lc 7.47) não revela
que Simão precisava de pouco perdão, mas mostra o quanto ele
não percebia essa necessidade. Durante esta vida, captamos uma
idéia somente muito vaga da profundidade da nossa necessidade
de perdão. Só na consumação futura é que saberemos, com clareza cristalina, quão
errôneo foi o nosso comportamento e por que preço foi retirada a nossa culpa. O
resultado será alegria inefável, permanente e cheia de glória (lPe 1.8).

Felizes os Pacificadores
1 w

Os pacificadores são todos aqueles que fazem e promovem a paz.


Como devemos entendera natureza da paz apresentada na Bíblia? Existem, no
mínimo, três tipos. Em primeiro lugar, mencionaríamos a paz que os homens podem
desfrutar com Deus. Em segundo lugar, existe a paz que une os homens nos seus relacio-
namentos. Finalmente, a paz que transborda do coração humano que está em paz com
Deus. Procuraremos sempre ter em mente esses três tipos de paz bíblica e dela reconhecer
a bem-aventurança e a recompensa.
A paz com Deus tem, forçosamente, a primazia. Há mútua inimizade entre Deus e o
homem, porque o pecado do homem pôs-se entre os dois. A revolta do homem contra
Deus, seu Criador, produziu inimizade com ele. "Inimizade" é o termo que Paulo escolheu
para descrever o relacionamento entre Deus e o homem, o rebelde (Rm 5.10). A ira de
Deus revela-se do céu contra roda impiedade e perversão dos homens (Rm 1.18). A paz
do Éden foi desfeita pela desobediência deliberada de Adão. As conseqüências ficaram
imediatamente visíveis quando o primeiro casal tentou esconder-se do seu Criador e foi
expulso do jardim. Caim, ao assassinar Abel, oferece ainda outro exemplo da atitude
hostil do homem contra Deus e contra a sua justiça. A guerra do homem contra Deus e
contra a sua lei continua até hoje.
A ausência gritante de shalom (palavra hebraica que significa paz, harmonia e bem-
estar) entre Deus e as suas criaturas é indicada
por Paulo em Romanos: "Não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma
se fizeram, inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer" (Rm 3.11-12). A
desconfiança e a inimizade do homem contra Deus demonstram-se de duas maneiras mais
específicas:
1. Indiferença para com Deus. Isso significa simplesmente que o homem não se
interessa em buscar um relacionamento vital com Deus. Vira as costas ao seu Criador e
deliberadamente, se faz de surdo quando ele chama. O homem, mediante a sua
indiferença, espera escapar da realidade ameaçadora que Agostinho expressou assim:
"Tu nos criaste para ti mesmo. O coração do homem inquieta-se até achar repouso em
ti".
Essa inquietude desconfortável revela o propósito original de Deus de cumprir o
significado real de Emanuel, "Deus conosco". O pecado nos tem separado de Deus,
conforme declara Paulo ao descrever o mundo pagão como alheios ("ateu", Ef 2.12). A
ira de Deus é contra o ateísmo, juntamente com outras evidências do pecado humano.'
2. A segunda maneira de o homem expressar sua inimizade inata contra Deus é
mediante a idolatria. Em vez de adorar o Criador, faz seus próprios deuses e lhes presta
as
honrarias e a devoção devidas somente ao próprio Deus. Quando, portanto, um
ídolo é adorado, há clara ausência da paz que o pacificador se deleita em promover.
Existem eruditos que protestam contra um affectus (sentimento emocional)
juntamente com um effectus em Deus. Mas o fato é que Deus realmente se i ra contra
os pecadores.' A Bíblia não abre mão dessa atitude de Deus contra a injustiça. Escute
as palavras do profeta Naum: "O SENHOR é Deus zeloso e vingador,
 cheio de ira, o SENHOR toma vingança contra os seus adversários
 reserva indignação para os seus inimigos" (Na 1.2). É impossível negar a i ra do reto juiz
do universo contra a iniqüidade dos homens.
Jonathan Edwards, renomado pastor do avivamento do século xviii, tinha
razão ao pregar o sermão tão contundente quanto famoso "Pecadores nas Mãos de
um Deus Irado". Quem desejar eliminar esse elemento da natureza divina terá de jogar a
Bíblia no lixo. G. C. Berkouwer afirmou: "... na cruz de Cristo, a justiça e o amor de
Deus são revelados simultaneamente"? Se Deus não fosse infinitamente santo, não se
iraria contra os pecadores.
Por trás da adoração cerimonial requintada de Israel no Antigo Testamento há
evidências da ira de Deus. Se o pecado não provocava a imediata condenação divina da
iniqüidade do homem, em porque o sangue sacrificial dos animais cobria simbolicamente
o pecado. Os holocaustos e as ofertas pelo pecado "propiciavam" temporariamente a ira de
Deus. Hebreus declara que o mero sangue de animais irracionais não podia aplacar a ira
divina de modo definitivo (9.12). O sacrifício dos animais não produzia paz permanente
com Deus. A reconciliação segundo o Antigo Testamento não somente era temporária,
como também incompleta. Na realidade, somente o sacrifício perfeito do corpo de
Cristo na cruz elimina a ira divina contra os pecados de criaturas responsáveis (Hb
10.10).

Paulo concorda com o autor de Hebreus, quando afirma que Deus pmp6s o
sangue sacrificial de Jesus como propiciação "... para manifestara sua justiça, por ter
Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos" (Rm
3.25). A propiciação transmite a idéia de desviar a ira de Deus. Tendo manifestado
sua justa i ra contra o Filho, Deus não mais se ira contra o pecador arrependido. Os
animais sacrificiais prenunciavam o papel pacificador do Messias, do Servo Sofredor
que um dia realmente faria a paz entre Deus e o homem (cf. Is 53.5-12). "Se não
houvesse um Deus santo, a expiação não apresentaria problema algum. É a santidade
do amor de Deus que torna necessária a cruz upiadom."'
Jesus é o pacificador exemplar, visto que ofereceu voluntariamente seu sangue
vicário na cruz. Uma vez pago o preço do pecado do homem, já não há motivo para
a justa i ra de Deus contra os pecadores que aceitam seu convite para se reconciliar com
ele (2Co 5.20-21). É por isso que Paulo escreve: "Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que
antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Porque ele é nossa paz,
o qual de ambos fez um... e reconciliasse ambos (judeus e gentios) em um só corpo com
Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade" (Ef 2.14-16).
Em Colossenses, Paulo toca no mesmo assunto, vendo-o de outro, prisma: "E a vós
outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas
obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua
morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis..." (Cl 1.21-
22). A missão pacificadora de Jesus Cristo cancelou a culpa do pecado e,
conseqüentemente, pacificou a ira, mudou a atitude dos pecadores no tocante a Deus e
criou a paz entre o Pai e seus filhos adotivos.
Entendemos, portanto, que Jesus Cristo, o único mediador entre Deus e os homens
(1Tm 2.5), cumpriu seu papel pacificador por meio do sacrifício de sua vida. Feita a
propiciação da justa ira de Deus, não há mais motivo para a ira de Deus contra os remidos.
Podemos levar totalmente a sério que Deus não pode se irar contra nós se ele já aceitou o
pagamento dos nossos pecados na cruz. Os fiéis, igualmente transformados pelo Espírito
regenerador, reconhecem que são filhos amados com o direito de chamá-lo "Aba, Pai!"
(Rm 8.15).
Jesus é o pacificador sem igual. Nenhuma outra reconciliação entre os homens
encerra uma inimizade tão intransponível. E nenhuma inimizade entre nações chegou a
um desfecho tão abençoado. Devemos render toda glória àquele que fez a paz entre
pessoas tão distantes, tão ofendidas mutuamente e em oposição tão profunda entre si.
Essa sétima bem-aventurança oferece o galardão de os pacificadores serem
chamados "filhos de Deus" (Mt 5.9). Mas, lembremo-nos de que este é o título que
descreve perfeitamente a pessoa de nosso Salvador. Sendo Filho de Deus e Filho do
homem, tinha a possibilidade ímpar de revelar a nós o coração de Deus e também de
interceder por nós (Hb 7.25). Paulo tinha convicção da importância do papel de Jesus
como intercessor: "Quem os condenará (os eleitos de Deus)? É Cristo Jesus quem
morreu ou antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus, e também intercede
por nós" (Rm 8.34). Devemos compreender que o ministério incessante de Jesus perante
o Pai é sacerdotal, uma contínua representação do povo pelo qual morreu. O perfeitíssimo
relacionamento entre Jesus Cristo e o Pai eterno é confirmado pelo seu direito
integral de pleitear a nossa causa. Ele é nosso irmão, sendo também descendente de
Adão. Ele se identifica completamente conosco (Rm 8.29; Hb 2.10). Neste papel, Jesus
Cristo cumpre o que ninguém mais pode realizar. Ele é o pacificador que continuamente
mantém afastada de nós a ira de Deus, mesmo quando o que mais merecemos é castigo e
condenação.

Os Evangelistas São Pacificadores


Pacificadores são também todos aqueles que anunciam as boas-novas da paz em
Jesus. Assim escreveu Isaías: "Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as
boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação" (Is
52.7; Rm 10.15). Tanto o evangelista quanto o m issionário, juntamente com todos
aqueles que dão testemunho da sua fé, estão incluídos entre os que promovem a paz
entre inimigos e, principalmente, entre Deus e os homens.

Pacificadores Entre os Homens


Julgando pela ênfase que a Bíblia atribui à unidade, podemos ter certeza de que Jesus
também incluía nessa bem-aventurança
os pacificadores entre os homens. Mas não devemos confundir pacificar os homens
com apaziguá-los. A experiência pessoal e da política internacional demonstra que apaziguar
promove mais atritos do que soluções. É possível adiar conflitos cedendo às pressões
agressivas de um déspota como Adolfo Hitler ou como Saddam Hussein, mas o resultado
decepciona. O Pastor Martin Lloyd-Jones afirma: "Não se estabelece a paz meramente
evitando o conflito armado, pois isso não dá solução real ao problema".' Para reinara paz
ent re os homens, seria necessário que Deus operasse um milagre de purificação do
coração daqueles que provocam a briga e a guerra. Tiago reconhecia a impossibilidade de
criar a paz sem transformações mais profundas no coração: "De onde procedem guerras e
contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne?
Cobiçais e nada tendes, matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer
guerras..." (4.1-2).

Devemos perceber com clareza cristalina que a ausência da paz entre pessoas e
povos se explica pelo pecado que irrompe no meio dos relacionamentos humanos.
Pecados tais como a inveja, o egoísmo e o ódio são armas satânicas eficientes para
provocar desentendimentos e lutas. O espírito de vingança corrói os relacionamentos.
Como poderíamos mesmo esperar paz numa sociedade na qual o amor a Deus não tem
lugar nos corações (Rm 5.5)? A lista das obras da carne destaca com mais exatidão as
atitudes humanas consideradas normais, que aniquilam a paz: "... inimizades, porfias,
ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas..." (GI 5.20-21). Os gálatas corriam
o perigo de se destruir mutuamente, mordendo e devorando uns aos outros (GI 5.15).
Faltavam pacificadores preparados por Deus para solucionarem os problemas com o
amor misericordioso que perdoa.
Paulo também culpa a "carne" pelos "ciúmes e contendas" que infectavam os
corintios (lCo 3.13), que haviam abraçado o evangelho da paz, mas mia transformação
não fora suficientemente profunda para anular o egoísmo e o partidarismo
entre os membros da igreja. Os dons (carismas) acabaram sendo usados ao ponto de
promovera vaidade e a vanglória em vez de produzir o amor e a harmonia.

Na realidade, a paz sempre precisa de uma obra pacificadora


do Espírito Santo. Paulo afirma: "... o pendor da carne dá para a
morte, mas o do Espírito, para a vida e paz" (Rm 8.6). Na lista do
fruto do Espírito, em Gálatas 5, a paz aparece em segundo lugar,
imediatamente após o amor (v. 22). Tiago cita um trecho das
Escrituras que não encontramos noutro lugar em nossas Bíblias,
mas somente aqui: "É com ciúme que por nós anseia o Espírito,
que ele fez habitar em nós" (Tg 4.5). Segundo parece, Tiago refere-
se ao forte desejo que o Espírito tem pela paz entre os filhos de
Deus. Devemos pedir a ele, com confiança, que pacifique a
agressividade da nossa carne, a fim de reproduzir a paz que ele
anseia por estabelecer em nossas comunidades, igrejas e famílias.
Jesus Cristo recebeu o título "Príncipe da Paz" (Is 9.6), bem
antes de nascer neste mundo. O Espírito Santo, enviado pelo Pai
para glorificar seu Filho Uo 16.14), é quem promove a paz.
Concluímos que, onde a paz não reina, o Espírito está sendo apa-
gado (lTs 5.19), ou entristecido (Ef 4.30). Se a unidade fosse auto-
maticamente concedida pelo Espírito, não precisaríamos da
seguinte ordem bíblica: "... esforçando-vos diligentemente por pre-
servar a unidade do Espírito no vínculo da paz" (Ef 4.3). Se
tomarmos o cuidado de examinar o contexto, notaremos que
quando falta a paz, faltam a humildade, a mansidão, a longanimi-
dade e o amor que nos levam à aceitação de pessoas diferentes e
estranhas. Toleram-se suas idéias e pensamentos distintivos
enquanto não forem, contrários aos bons costumes e às doutrinas
centrais da Bíblia (Ef 4.2-3). Assim, manter a paz requer nosso
esforço deliberado, em dependência do Espírito. Hebreus emprega
a frase "segui (diokete, em grego) a paz com todos" (12.14). Sugere
que precisamos concentrar energia e planejamento na busca da
paz, da mesma maneira que fazem os atletas que correm para
alcançar uma coroa ou medalha olímpica. Sem esforço dedicado, não é provável que
se consiga manter a paz.
E o que poderíamos dizer a respeito da falta de paz em muitos lares cristãos?
Nossos dias se caracterizam pelo divórcio, pelas separações e por atritos entre cônjuges e
familiares. Segundo a Bíblia, Deus criou o homem e a mulher para demonstrarem o
amor e o auxílio mútuos que caracterizam a união da própria Trindade. Não seria nesse
sentido que o casal foi criado "à imagem e semelhança de Deus"? Quando duas pessoas
se casam, tornam-se "uma só carne" (Gn 2.24). Jesus explicou que uma só carne
significa que "... não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou
não o separe o homem" (Mt 19.6). Paulo observa que os maridos devem amar as suas
respectivas mulheres assim como amam "ao próprio corpo. Quem ama a sua esposa a si
mesmo se ama" (Ef 5.28). É uma anormalidade o fato de alguém decepar membros do
próprio corpo, a não ser no caso de uma cirurgia obrigatória. Da mesma maneira, separar
marido e mulher por divórcio é contrário à própria criação de Deus.
O fracasso da paz internacional ou entre grupos étnicos como na antiga Iugoslávia,
na luta contra os tordos no Iraque ou entre os hutus e os tutsis em Ruanda, deve-se às
mesmas causas que provocam as lutas dentro do lar. O egoísmo, a inveja e a falta de
perdão se intrometem e transformam o amor quase celestial em hostilidade quase
infernal. Faltando recursos além dos humanos, não são de admirar as estatísticas
vergonhosas no que diz respeito ao divórcio. Se não conseguirmos vencer o pecado no
íntimo, ele não demorará para aparecer na forma de rupturas nas famílias
desestruturadas. A paz desaparece do lar assim como a neblina se dissipa diante do sol
da manhã.

Qualificações dos Pacificadores


Quem tem a missão de promover a paz é uma pessoa constrangida pelo amor de
Deus (2Co 5.14-15). Jesus veio ao
mundo para mediar a paz entre Deus e os homens. Assim, o pacificador cristão é inserido
na sociedade para promovera reconciliação e manter a união. Após sua conversão e
recepção da plenitude do Espírito Santo (At 9.17), Paulo passou a amar intensamente os
gentios, mas sem deixar de amar os judeus (Rm 9.1-3). Sua preocupação com estes era
tão grande que o motivou a levantar uma oferta entre os gentios para suprir as
necessidades dos cristãos pobres da Judéia (ver 2Co 8 e 9, bem como Rm 15.25-27). O
apóstolo anelava por ver gentios e judeus se amando e se aceitando. Sonhava com a
participação mútua de judeus e gentios no mesmo Corpo de Cristo. Não se contentava só
com a doutrina da unidade da igreja, mas também zelava por vê-Ia posta em prática.
Podemos entender um pouco mais a respeito dessa preocupação que Paulo tinha
pela paz entre judeus e gentios quando nos lembramos do que aconteceu em Antioquia.
Quando alguns representantes da igreja em Jerusalém foram visitar a igreja em Antio-
quia da Síria, Pedro e Barnabé, bem como mais alguns desses visitantes, separaram-se
dos gentios. Não havia entre eles confraternização à mesa. O motivo desse
distanciamento da parte dos irmãos judeus foi o receio sentido por aqueles que tinham
subido de Jerusalém, vindos da pane de Tiago (GI 2.11-14). Paulo resistiu a Pedro "face
a face" e reprendett-o na presença de todos, "porque não procediam corretamente segundo a
verdade do evangelho" (v. 13).

Paulo, com a perceptividade que Deus lhe dera, reconhecia que manter uma
divisão teológica entre crentes que observavam a lei, inclusive as cerimônias judaicas, e
os que confiavam somente em Jesus, pela fé, destruiria a unidade do evangelho. Por fim,
acabaria com o próprio evangelho. Paulo declarou que ele mesmo morrera para a lei a
fim de viver para Deus. Sendo corajosa essa tomada de posição, ele a compara com uma
crucificação com Cristo (GI 2.19-20). Somente assim seria possível manter a unidade entre
aqueles que antes eram inimigos e levá-los a ser um só corpo em Cristo. Para Paulo, essa
concórdia entre gentios e judeus não
em mera teoria, mas uma realidade essencial que exigia ação e dedicação total.
É impossível calcular os danos que a igreja teria sofrido se Paulo não tivesse
assumido esse compromisso pacificador. De modo bem ativo, perseguia a paz e a
promovia.' Paulo, tendo esse alvo em vista, defendia seu próprio modo de
adaptar-se ao mundo gentio e judeu dentro das circunstâncias que surgiam (1Co
9.1927). Estando, em Cristo, independente de todos, fez-se "escravo de todos,
a fim de ganhar o maior número possível" (1Co 9.19). Entendia, mais claramente
do que seus colegas, que ser revestido de Cristo implica na eliminação das
divisões entre judeus e gentios, entre escravos e livres, entre homens e
mulheres, e afirmou categoricamente: "Todos sois um em Cristo Jesus" (Gl
3.28).
O pacificador se preocupa, em última análise, com o alvo de todos os homens,
que é alcançar a paz com Deus. "AI está o retrato essencial do pacificador...
alguém que não provoca conflitos, mas que tudo faz a fim de estabelecera paz."' O
pacificador investe suas energias em solucionar as contendas e em eliminar as
hostilidades entre os homens.

O Galardão dos Pacificadores

Jesus afirma que os pacificadores serão chamados "filhos de Deus". Mateus se


refere a esse relacionamento privilegiado cada vez que fala em "vosso Pai"
como o Pai dos fiéis. O título "filho" reside no fato de Deus chamá-los
filhos, mas também no fato de serem reconhecidos pelos homens como "nascidos de
Deus" (1Jo 3.9; 5.4). O pacificador, da mesma maneira que os apóstolos diante do
Sinédrio (At 4.13), demonstra o que aprendeu com Jesus e recebe forças e
direção do seu Espírito. O Filho unigênito de Deus repassou a seus "irmãos" uma
qualidade essencial do seu próprio caráter (cf. Hb 2.10-12). No futuro, depois da
morte e ressurreição finais dos cristãos, a sua filiação divina brilhará com
fulgor ainda maior.
O propósito da predestinação, o que Deus planejou antes da fundação do mundo,
em aumentar o número de seus "filhos". Paulo afirma claramente essa verdade em
Romanos: "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para, serem
conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre
muitos irmãos" (Rm 8.29). Jesus sofreu as agonias da cruz a fim de tornar em
realidade a filiação dos pecadores. Seu sacrifício pacificador tornou possível
a adoção dos filhos de Adão. Dessa maneira, os pecadores, uma vez reconciliados
com Deus, ganham o direito legítimo de serem chamados filhos de Deus.
Ser "filho" implica em várias responsabilidades. 1) Aceitar o nome do Pai. O
nome de Deus é pronunciado sobre a pessoa na hora do batismo "em nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo" (Mt 28.19; Tg 2.7). Deve ser inconcebível que um
"filho" legítimo tenha vergonha do Pai ou hesite em confessar seu nome (cf. Hb
13.15). 2) Demonstrar na aparência e no caráter alguma semelhança com o Pai. Esse
foi o objetivo original da criação do homem (Gn 1.26-27). Nossas ações e
atitudes são indicadores da nossa filiação. 3) Ser um filho de Deus implica
em amor pelo Pai. Significa que haverá prazer em se comunicar com ele e
receber mensagens dele. Não há como entender a atitude de "crentes" que não
buscam a presença de Deus diariamente numa "hora de meditação", nem querem
desfrutar da comunhão com outros membros da família de Deus na igreja (cf. Hb
10.25).
8
A Felicidade dos Perseguidos
por Causa da Justiça
Iw

Aúltima das bem-aventuranças nos adverte de que a dedicação total à justiça


poderá nos acarretar sofrimentos físicos e mentais. Mas Jesus reitera a declaração da bem-
aventurança dos perseguidos por causa do Senhor: "Bem-aventurados sois quando, por
minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra
vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim
perseguiram aos profetas que viveram antes de vós" (Mt 5.11-12).

Vivemos num mundo caído. Satanás, o deus desta em, é um


arquidemônio cruel e agressivo. Não está disposto a deixar cristãos
inocentes terem uma vida pacífica neste mundo – se depender
dele! Jesus teve de enfrentar a hostilidade irracional dos homens e
de Satanás nos seus dias e por isso disse: "Tenho-vos mostrado
muitas obras boas da parte do Pai; por qual delas me apedrejais?"
go 10.32). Foi por causa do ódio de um mundo dominado pela
inveja que Jesus foi hostilizado. Quem estiver destituído do conhe-
cimento de Deus poderá chegar ao absurdo de matar um cristão e
julgar com isso "tributar culto a Deus" Uo 16.2). Jesus disse: "Se me
perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros" Go 15.20).
Exemplos de perseguição na Bíblia não parecem, porém,
ser motivos de regozijo. Elias provocou contra si mesmo a ira da
rainha Jezabel, porque ele amava a justiça (1Rs 19.2). Sabe-se bem
como ele ficou desanimado com essa perseguição. Jeremias é
conhecido como o profeta chorão, não necessariamente por ter

alguma tendência natural à depressão e à autocomiseração, mas porque foi vítima da


perseguição da parte de uma geração ímpia e de um rei incrédulo. A tradição (sem
comprovação histórica) nos informa que Isaías foi serrado ao meio por Manasses, o filho
iníquo de Ezequias (ver Hb 11.37). Não precisamos pesquisar muito para concluir que a
perseguição dos profetas era uma das maneiras prediletas de os reis e líderes de Israel
demonstrarem sua revolta contra as palavras e ações disciplinares de Deus.
No Novo Testamento, os escribas, os fariseus, os caduceus e os herodianos,
igualmente, viam em Jesus uma ameaça contra seu poder e autoridade sobre as pessoas.
Perseguições e conspirações para matar o Senhor eram o resultado natural dessa
situação. Os três capítulos que conservam os ensinos de Jesus sobre o futuro enfatizam
que os seguidores de Jesus seriam odiados por todas as nações (Mt 24.9). Marcos é mais
especifico: "... vos entregarão aos tribunais e às sinagogas; sereis açoitados, e vos farão
comparecer à presença de governadores e reis por minha causa, para lhes servir de
testemunho" (Mc 13.9). A perseguição furiosa contra os cristãos será perpetrada até
mesmo por membros da própria família deles. "E sereis entregues até por vossos pais,
irmãos, parentes e amigos; e matarão alguns dentre vós. De todos sereis odiados por
causa do meu nome" (Lc 21.16, 17). Os evangelhos não nos iludem: atos odiosos de
violência contra os seguidores de Jesus serão uma extensão do ódio que o mundo sente
pelo Filho de Deus.
O relato de Lucas a respeito da história da igreja primitiva inclui grandes trechos
sobre as perseguições que surgiram para afligir os líderes. As autoridades judaicas, para
começar, prenderam os apóstolos porque anunciam a ressurreição de Jesus (At 4.2). A
oligarquia religiosa experimentou o uso de ameaças (4.21) e pensou em aplicar a pena de
morte (5.33). Açoites e proibições de falar no nome de Jesus (5.40) não foram capazes de
apagar o ardor com que os apóstolos encorajavam seus ouvintes a crer no Senhor Jesus.
Estêvão foi martirizado por causa da sua corajosa defesa da fé (7.1-60).
Em seguida, Herodes Agripa I resolveu decapitar o apóstolo Tiago, agradando assim
aos judeus. Planejou também matar Pedro, mas o plano foi frustrado pela intervenção
divina (Ar 12).
Ao longo do livro de Atos dos Apóstolos, a perseguição é tão comum como raios e
trovões no verão em São Paulo. A conversão de Paulo aconteceu enquanto viajava a fim
de levar a efeito uma missão, autorizada pelo Sinédrio, visando prender e torturar os
cristãos em Damasco, na Síria. O próprio Paulo não demoraria muito, depois da sua
conversão, para sentir a fúria do ódio despertado pela pregação das boas-novas. Mas isso
dificilmente foi uma surpresa para ele, posto que Jesus dissera a Ananins: "... eu lhe
mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome" (At 9.16). Quando Paulo foi à
sinagoga a fim de pregar aos judeus as reivindicações de Cristo, a reação deles foi quase
automática: denúncias, hostilidade e até mesmo apedrejamento (At 14.19-27). Em Êeso,
o foco da animosidade surgiu entre os fabricantes de imagens de prata. A aceitação
generalizada do evangelho tinha diminuído as vendas das imagens tão drasticamente
que Demétrio incitou um motim na cidade inteira para dali expulsar Paulo e seu
cristianismo (At 19.23-41). Paulo disse aos coríntios que lutara contra animais selvagens
em Éfeso (lCo 15.32) e que chegara tão próximo do martírio que podia descrever o
acontecimento como se "a sentença de morte" tivesse sido pronunciada contra ele (2Co
1.9). Outras descrições das suas perseguições podem ser lidas em 2 coríntios 11.23-25.
Não somente o ódio contra Paulo chegou ao ponto de ebulição no átrio do templo,
quando o apóstolo cumpria um voto ali, como também quarenta homens juraram
solenemente que não comeriam enquanto não o matassem (At 21.27-40; 23.12-22). Esse
episódio marcou o início de quatro anos de prisão. Ele acabou sendo decapitado em Roma,
aproximadamente em 67 d.C. Poucos homens na história passaram por sofrimentos
mais severos ou mais freqüentes pela sua dedicação à causa de Jesus Cristo.
Pedro escreveu aos novos cristãos na Ásia Menor que não deviam ficar surpresos
com o "fogo ardente que surge no meio de
vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse
acontecendo" (1Pe 4.12). Explicou que chegara ocasião do início do juízo na casa
de Deus (v. 17). Tais sofrimentos, causados pela perseguição, estão de
conformidade com a vontade de Deus (v. 19). A leve perseguição que os cristãos
brasileiros precisam enfrentar não deve ser considerada normal. E essa exceção à
norma bíblica não deve nos levara esperar que essa perseguição continuará sendo
leve durante muito tempo. A fúria do inimigo poderá derramar o seu ódio contra
o povo de Deus em qualquer momento que o diabo considerar conveniente para a
causa dele.
O livro de Apocalipse foi escrito especificamente para encorajar os cristãos a
resistirem com firmeza ao adversário que anda em derredor e ruge, procurando
alguém para devorar (1Pe 5.8). Em Apocalipse, esse mesmo leão é descrito como um
dragão, como uma fera consumida pela sua i ra contra os cristãos (Ap 12.12). Ele luta
contra os santos e lhe é concedido vencê-los (13.7), no sentido de matá-los. Nesse último
livro da Bíblia, a perseguição é tão intensa e generalizada que se chega a duvidar de que
haverá algum sobrevivente.
É importante lembrar que a batalha espiritual, de conformidade com o Novo
Testamento, é basicamente defensiva. Devemos vestir-nos de toda a armadura de
Deus, para que possamos resistir no dia mau e, depois de termos vencido tudo,
permanecer inabaláveis (Ef 6.13). A perseguição sempre tem sido uma ameaça; e ela
crescerá, à medida que os dias do fim nos levarem ao término da história que
conhecemos.

A perseguição e o martírio não se limitam aos tempos bíblicos e à Em das


Trevas. A perseguição nunca esteve ausente na história da igreja verdadeira. Os
imperadores romanos perseguiam os seguidores de Cristo por muitas razões. Nem (58-
68) queria escapar das suspeitas de ter sido ele quem incendiou Roma, de modo que
lançou a culpa sobre os cristãos. Domiciano (81-96) perseguia os crentes porque temia
possíveis rivais. Aurélio (161180) odiava os cristãos porque ele mesmo favorecia o
estoicismo.
Décio (249-251) considerava o cristianismo uma ameaça contra a sua política e o seu
poder. Diocleciano (284-305) perseguia a igreja
porque via nela uma lealdade mais forte a Cristo do que a si mesmo.' A igreja
que tanto sofrera nas mãos dos imperadores
não hesitou, cerca de mil anos depois, em empregar a mesma arma contra pessoas
consideradas hereges. Em 1231, o papa
Gregório ix instituiu a Inquisição, que alcançou seu apogeu no fundo mesmo
século. A partir de 1400 ela foi retomada na Espanha
e, posteriormente, na Contra-reforma.1 "Os hereges que se retratavam recebiam a
alternativa de passar o restante dos seus dias na
cadeia, como penitência, mas os que persistiam na sua heresia eram
executados."' Milhares de pessoas entregaram a vida por
amor à fé nos dois primeiros séculos da Reforma.
Mais recentemente, o sofrimento pela fé cristã tem ocorrido
nos Estados totalitários que não permitiam nenhuma lealdade rival. Os nazistas
perseguiam os judeus e os cristãos. Os governantes comunistas têm contra eles
um histórico infame de pren-
der e martirizar os fiéis. Certo pastor chinês chamado Josué deu uma preleção
na Conferência Bíblica da Maturidade, em Cambu-
quira-MG, há cerca de 5 anos. Tinha sofrido especificamente pela sua fé cristã.
Depois do martírio do seu pai — fuzilado por ser pastor —, Josué passou por
vinte e um anos de trabalhos forçados
em condições desumanas. Milhares de outros têm sofrido de modo semelhante por não
querer negar o seu Senhor e abraçar os dogmas
marxistas.
O poeta cubano Armando Valadares escreveu na revista
Seleções (1987) o testemunho brilhante de um pastor a quem conheceu no seu longo
período na prisão. Essa descrição nos oferecerá
pelo menos uma idéia da bem-aventurança dos que sofrem por amor a Cristo.
Todas as tardes, pouco antes do anoitecer, a voz trovejante do Irmão da Fé, conforme
chamávamos o pregador protestante Gerardo, ecoara pelos corredores conclamando os
homens à religiosas, os guardas entravam nas celas e nos espancavam, mas tão logo partiam,
começávamos a orar e a cantar de novo. A voz do Irmão da Fé entoava, mais alto do que o
tumulto: "Glória, glória, aleluia!'.
O Irmão da Fé tinha estado em La Cabana e na LI. de Pinos. Ele mesmo em seu sermão
mais comovente. Sempre nos animava, convidava-nos para as reuniões de oração, lavava as
mapas dos enfermos - e ajudava muitos homens a enfrentar a morte com coragem e
serenidade. Acima de tudo, ele nos ensinava a não odiar; todos os seus sermões
continham essa mensagem.
Quando os guardas lhe davam uma surra, os olhos do Irmão da Fé pareciam arder; seus
braços se abriam diante dos céus, como se fossem trazer dali o perdão para os seus algozes, e
ouvíamos como ele clamava: "Perdoa-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem!"
Conseguiu dar um jeito de transmitir sua fé a nós, mesmo nas circunstâncias mais
desesperadorn, mesmo quando foi trucidado em lioniato em 1975, continuando a perdoar
aos seus algozes, enquanto os projéteis de metralhadora rasgavam o seu peito.4
Em 1981, o missionário Chet Bitterman, da Associação Wycliffe de Tradutores
da Bíblia, foi seqüestrado pelo grupo
guerrilheiro M-19 na Colômbia. Ficou preso durante sete semanas, enquanto sua esposa Brenda
e duas filhinhas o aguardavam em
Bogotá. O preço do resgate seria a retirada da Wycliffe da Colômbia. O Dr. J. Piper
conta o que aconteceu:
Fuzilarem-no pouco antes da aurora - com um único tiro no peito. A polícia achou seu
cadáver no ônibus onde morreu, num estacionamento ao sul da cidade. Enava limpo, com
a barba feita, sem tensão no rosto. Uma bandeira da guerrilha envolvia-lhe os restos
mortais. Não havia sinais de tortura.'
O motivo do martírio desse servo do Senhor foi político: o conflito entre os ideais do
evangelho e os de Marx.
O dia 29 de setembro de 1996 foi o dia da convocação de cristãos evangélicos da
América do Norte para que orassem em
favor dos cristãos perseguidos ao redor do mundo e para que pensassem em que se
podia fazer por eles. Os participantes ainda

procuram meios de aliviar a perseguição que somente neste ano provocará a


morte de centenas de crentes.1 Fica evidente que pouco interessa às autoridades governamentais
levantar a questâo da
perseguição de cristãos evangélicos. Tendo estes pouca expressão política, por serem uma
minoria, os governos não recebem pressão
suficiente para agir em favor deles.
A perseguição religiosa também faz parte da teologia
deturpada do islamismo.
Roberto Flussem Qambar, cristão recém-convertido, em 29 de maio, num julgamento
que durou menos de um minuto, foi declarado oficialmente um apóstata da fé islâmica
(apesar de a Constituição do pais assegurar absoluta liberdade de religião). Sua casa foi
invadida, saqueada, e aquilo que não puderam roubar foi depredado. Sua atitude é
impressionante: "Eu era um empresário rico. Tinha lindos carros, viajava para a Europa,
os Estados Unidos e a África... Estou totalmente excluído da minha empresa, da minha casa,
cio meu statis, dos meus bens, da minha esposa, dos meus filhos. Mas, acreditem, eu sinto
alegria. Todas as vezes em que penso nele, meu Senhor, recebo uma tremenda alegria...
Membros do Parlamento, jornais, pregações nas mesquitas, todos estão pedindo por
minha morte. O que está em questão é se eu tenho ou não direito de viver como cristão
em meu pais.'
Razões para a Alegria no Meio da Perseguição
De modo distinto das demais bem-aventuranças, esta última repete a palavra grega
makarios (w. 10-11) como para dizer que a
felicidade dos perseguidos é dobrada. Em seguida, acrescenta duas palavras: "regozijai-vos
e exultai" (v. 12). Todo sofrimento é desagradável; portanto, devemos tentar
entender os motivos bíblicos que nos convencerão a ter alegria nas perseguições.
Primeiro, Jesus afirma a bem-aventurança de receber injúrias
e perseguição por causa da justiça, porque os que assim sofrem
maltrates têm direito ao reino dos céus (Mt 5.10). A partir dessa declaração de Jesus, pode-se
deduzir que a perseguição do crente parece sinal certo de que dele é o reino de Deus, tão
almejado
pelos santos. Enquanto a perdição dos perseguidores está "segurada, para os inocentes,
vítimas da sua hostilidade, isso é evidência da salvação (Fp 1.28).
Segundo, os filhos de Deus não devem esperar ficar isentos da disciplina. Provas
enviadas por Deus são sinais da sua paternidade amorosa. No momento do
sofrimento, este "não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois,
entretanto, produz fruto pacifico... de justiça" (Hb 12.11). No contexto de Hebreus,
"disciplina" refere-se à perseguição, não aos sofrimentos comuns da vida terrena.
Se Deus afasta o sofrimento de nossas vidas, parece que somos filhos ilegítimos.
Nesse caso, não teríamos motivo para pensar que realmente nascemos de novo. Deus
não é pai dos que nunca tiveram de enfrentar o inimigo cruel ou o sofrimento imerecido.
"O Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe. É para disciplina
que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois, que filho há que o pai não corrige?
Mas, se estais sem correção, de que todos se rem tornado participantes, logo, sois
bastardos e não filhos" (Hb 12.6-8).

Terceiro, Jesus não somente acolhe como membros do seu reino os perseguidos por
causado evangelho, mas também promete um grande galardão na vida vindoura àqueles
que, por causa do Senhor e do evangelho, sofrem a hostilidade do mundo (Mt 5.12). Uma
recompensa além da herança da vida eterna desafia a nossa imaginação. Paulo também
escreveu a respeito do tamanho do galardão que Deus oferecerá aos perseguidos.
Escutemos as suas palavras: "Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para
nós eterno peso de glória, acima de toda comparação" (2Co 4.17). Para o apóstolo, o
valor do galardão é mais do que suficiente para compensar qualquer tribulação que os
inimigos do evangelho possam provocar. Além disso, é incalculável o contraste entre a
quantidade de aflição sofrida pelo crente, por causa da fé, e o seu galardão futuro. Sofrer
perseguição não parece agradável nem leve
no momento do sofrimento, mas, em comparação com o galardão (o "peso de glória"),
pesa menos na balança da experiência do que uma pena de passarinho. Além disso, a
tribulação tem pouca duração. É "momentânea", ao passo que o peso de glória é eterno.
Os sofrimentos desta vida, quaisquer que sejam a sua intensidade e a sua natureza, não
perduram. Não podem durar mais do que a nossa vida neste mundo. Depois, vem a
bonança.
Quarto, Paulo acrescenta outro motivo para a alegria na perseguição,
declarando: "Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós" (Cl 1.24),
referindo-se às tribulações que experimentava por amor aos colossenses. Seguramente,
não devemos interpretar essa afirmação de modo vicário.1 Os sofrimentos dos santos
não produzem um acervo de méritos a serem aproveitados pelos menos consagrados.
Não há sustento bíblico para semelhante ensino. Cristo é o único que carregou sobre si
os pecados do mundo. Somente ele foi castigado pelas nossas transgressões, levando
sobre si a nossa culpa.
Os extraordinários sofrimentos que Paulo enfrentou por causa do evangelho foram
de grande proveito para os colossenses. Quando o amor pelo SENHOR vem de encontro à
barreira do pecado levantada pelo diabo e seus aliados, é de esperar que isso redunde em
sofrimento. A proclamação de Cristo nas regiões pagãs suscitou intensa oposição a Paulo,
mas, como resultado, os colossenses foram alcançados com o evangelho. Qualquer
missionário que aceita o desafio de evangelizar os povos não alcançados pode ter a
certeza de que será atacado pelo inimigo, com investidas diabólicas contra os
embaixadores do Rei.
Paulo acrescenta que ele preenche "o que resta das aflições de Cristo" (Cl 1.24).
Pode ser que os sofrimentos do Corpo de Cristo sejam sentidos pela Cabeça, que é
Cristo. Essa verdade transparece na pergunta de Jesus ao infame perseguidor na estrada
de Damasco: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" (Ar 9.4). Quem persegue a igreja
atinge o Cristo ressurreto. A morte vicária de
Jesus oferece perdão com base na substituição. Ele oferece o seu corpo no altar para
expiar os pecados do mundo Uo 1.29; 1 Jo 2.2). Mas há uma "sobra" de tribulações
pelas quais os voluntários, guerreiros de Deus, devem passar por amor ao evangelho, a
fim de fazer que a mensagem penetre nos territórios controlados pelo demônio. Paulo
sente muita satisfação em divulgar a fé, mesmo com sofrimentos. Ele disse aos irmãos na
Ásia Menor: "Peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, pois nisso está a
vossa glória" (Ef 3.13). Aos crentes em Filipos ele escreve: "... mesmo que seja eu
oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, alegro-me e, com todos vós,
me congratulo" (Fp 2.17). O martírio de Paulo não devia ser motivo de tristeza para
os cristãos da Macedônia, uma vez que o sangue vertido pelo apóstolo poderia trazer
maiores benefícios para a igreja do que o ministério ativo realizado por ele em vida.
Sabe-se que a perseguição pode provocar de duas reações uma. Em alguns cristãos
temerosos, provoca silêncio. Jesus advertiu contra a timidez, representada pela candeia
escondida debaixo do alqueire (Mt 5.15). Na sua Parábola do Semeador (ou dos quatro
tipos de solo), refere-se assim ao solo sem profundidade, por ter pedras logo abaixo: "A
que caiu sobre a pedra são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; estes não
têm raiz,
z, crêem apenas
por algum tempo e, na hora de provação, se desviam" (Lc 8.13 e paralelos). As ameaças
feitas pelo mundo podem levar alguém a negar o Senhor diante dos homens (Mt 10.32).
Quem negar o Senhor nesta vida, será repudiado por Cristo na vida futura (v. 33). A
timidez não é desculpa adequada diante de Deus. São esses tímidos que negam Cristo que
João tem em mente quando cita os covardes entre os candidatos para o lago que arde com
fogo e enxofre, a saber: a segunda morte (Ap 21.8). Os "covardes" são os que, na hora de
dura perseguição, se distanciam do Senhor que deu sua vida por eles. Procuram se livrar
do "embaraço" do cristianismo na hora do perigo. Serão deserdados no dia final.
A perseguição, porém, também tem um efeito positivo. Ela, inevitavelmente,
fortalece a igreja. Afasta os membros acomodados e sem conversão real e acrescenta ferro
ao sangue de pessoas como Lutem que, em Worms, na Alemanha (1521), disse na hora
da maior pressão contra sua doutrina evangélica: "Aqui firmo os pés! Não posso
tomar outra atitude. Deus me ajude". Toda a força da Igreja Católica daqueles tempos,
juntamente com o poderio do Santo Império no reinado de Carlos V, foram
insuficientes para convencê-lo a recuar.
A morte de Policarpo em Esmirna, em cerca de 155 d.C., é mais um exemplo em
que os sofrimentos de um homem de reputação santa trouxeram um grande impulso ao
evangelho. Quem poderia ter deixado de ouvir da ocasião em que o venerável pastor da
igreja foi queimado na estaca aos 86 anos de idade? Quem teria desconhecido o motivo
desse ato brutal dos romanos? Policarpo não quis escapar da fogueira, por causa da sua
lealdade a Jesus. O pastor veterano lembrou-se de que Jesus também poderia ter evitado
a cruz, mas escolheu essa morte vergonhosa por amor a todos nós. Não é sem razão
que os historiadores falam do sangue dos mártires como a semente de onde brotam
muito mais crentes.
De conformidade com Apocalipse, os cristãos venceram o dragão (Satanás), "por
causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a
própria vida. Por isso, festejai, ó céus, e vós, os que neles habitais..." (12.11, 12). A bem-
aventurança dos perseguidos tem algo que ver com o testemunho que deram. Seus
sofrimentos produziram frutos evangelísticos. Ainda há outro motivo para a alegria: "os
decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de
Deus..." são os mesmos que se sentarão em tronos para reinar com Cristo após a
ressurreição (Ap 20.4).
Conclusão

Não é necessário repetir o que fica claro em todas as bem-aventuranças. Elas


descrevem a felicidade que pertence aos que vivem com consciência limpa. O
caráter do cristão maduro, ressaltado pelas bem-aventuranças, é aquele que os
regenerados sempre almejaram. Por que não seria automática semelhante
transformação progressiva do coração dos filhos de Deus? Em Gílatas, Paulo faz
uma lista de qualidades semelhantes àquelas citadas nas bem-aventuranças,
classificando-as como "fruto do Espíriro" (GI 5.22, 23). Seria fácil concluir que esse
fruto crescerá de modo natural, independentemente de qualquer iniciativa nossa.
Mas, é claro, o caráter cristão não surge tão facilmente como um cacho de uvas
numa videira bem irrigada e fertilizada.

Não devemos permitir que a ênfase sobre os dons carismáticos sobrenaturais


do Espirito Santo obscureça a importância do fruto do Espírito para o caráter
cristão. Se atentarmos para o que agrada a Deus, sempre daremos prioridade a ter o
caráter de Cristo. Entre os mais graves obstáculos que impedem a unidade do
grupo e a formação de uma equipe ministerial estão os problemas provocados pela
imaturidade-0 próprio Jesus teve de lidar com falhas no caráter dos seus discípulos.
É fácil perceber neles a falta de espiritualidade e de prontidão para servir e pouco
desejo e disposição para a santificação (Mc 10.35-45). Todos os membros das
igrejas, principalmente os que participam da equipe pastoral, devem examinar a si
mesmos quanto à sua maturidade na fé. Jesus
exige que cada um descubra e retire a trave do seu próprio olho antes de tentar tirar o
argueiro do olho do seu colega.,
Paulo sentia na pele o amor de Cristo que nos constrange: "julgando nós isto: um
morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem
não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou" (2Co
5.14-15). Glorificar a Deus na vida é demonstrar claramente a presença de Cristo em nós
(2Co 3.18; Rm 8.29) mais do que operar milagres e prodígios. É importante levantar
igrejas nas quais Cristo seja formado (G14.19). Certamente, Paulo queria ensinar com
isso que o caráter de Cristo deve se manifestar nos membros do seu Corpo, a igreja.
Devemos sempre nos lembrar de que a obra de Cristo na cruz e o novo nascimento
devem produzir o amor fraternal (1Pe 1.22). A igreja cristã formada pelo Espírito Santo
deve manter a prioridade do amor a Deus e ao próximo (Lc 10.26-28).

A felicidade deve ser o alvo de todos os que servem ao Deus único e bendito (1Tm
1.11). A infelicidade que predomina em muitos corações, talvez na maioria dos que se
dizem filhos de Deus, tem só uma explicação: eles ainda não cultivaram as virtudes dos
bem-aventurados súditos do reino de Jesus. Assim como uma doença física apresenta
sintomas como dores, fraquezas, tonturas e náuseas, a vida "carnal" produz
relacionamentos difíceis e infelizes. Não fossem as dores físicas, certamente o homem
se destruiria rapidamente em acidentes, descuidos e exageros de todos os tipos. Deus nos
fala graciosamente a respeito da vida realmente feliz. Essa bem-aventurança envolve
todo o caráter cristão que glorifica a Deus e cria bons relacionamentos com o
próximo. Deus nos ajude a ser mais zelosos na busca dessa perfeição que ele concede aos
seus filhos que, sincera e persistentemente, a almejam (Hb 12.14). Busquemos todos os
meios de concretizar as bem-aventuranças em nossas igrejas e famílias. Acima de tudo,
valorizemos as virtudes do caráter cristão para nossa própria felicidade, nesta vida e na
vida do porvir.