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ABANAlIZAÇÃO

DA INJUSTiÇA
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Christophe Dejours
Tradução Luiz Alberto Monjardim

5ª edição

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A banalização da injustiça social

Esse sofrimento aumenta com o absurdo de um esforço no tra- Capítulo

balho que em troca não permitirá satisfazer as expectativas criadas no


plano material, afetivo, social e político. As conseqüências desse sofri-
mento para o funcionamento psíquico e mesmo para a saúde são preocu-
pantes, como veremos mais adiante neste livro. Mas o sofrimento não de-
Como tolerar o intolerável?
saliva a maquinaria de guerra econômica. Ao contrário, alimenta-a, por
lima sinistra inversão que cumpre elucidar.
Na verdade, homens e mulheres criam defesas contra o sofri-
mento padecido no trabalho. As "estratégias de defesa" são sutis, cheias
mesmo de engenhosidade, diversidade e inventividade. Mas também en-
cerram uma armadilha que pode se fechar sobre os que, graças a elas,
conseguem suportar o sofrimento sem se abater.
Para compreender como chegamos a tolerar e a produzir a sorte
Indubitavelmente, quem perdeu o emprego, quem não conse-
reservada aos desempregados e aos novos pobres numa sociedade que to-
gue empregar-se (desempregado primário) ou reempregar-se (desempre-
davia não pára de enriquecer, devemos primeiramente tomar consciência
do sofrimento no trabalho. Temos igualmente que analisar certas estraté- gado crônico) e passa pelo processo de dessocialização progressivo, so-
gias de defesa particularmente preocupantes porque nos ajudam a fechar fre. É sabido que esse processo leva à doença mental ou física, pois ataca
s olhos para aquilo que, no entanto, infelizmente intuimos. Mas não nos os alicerces da identidade. Hoje, todos partilham um sentimento de me-
enganemos. No sofrimento, assim como nas defesas, e mesmo no consen- do - por si, pelos próximos, pelos amigos ou pelos filhos - diante da
timento para padecer ou infligir sofrimento, não há mecanismo incoercível ameaça de exclusão. Enfim, todo mundo sabe que a cada dia aumentam
ou inexorável. Em matéria de defesa contra o sofrimento, não há leis natu- em toda a Europa o número de excluídos e os riscos de exclusão, e nin-
rais, e sim regras de conduta construídas por homens e mulheres. guém pode em sã consciência esconder-se atrás do véu demasiado trans-
Na falta de meios conceituais indispensáveis para analisar sofri- parente da ignorância que serve de desculpa.
mento e defesa, não podendo pois apreendê-los nem dominá-Ios, volta- Por outro lado, nem todos partilham hoje do ponto de vista se-
mo-nos para as condutas que alimentam a injustiça e a fazem perdurar. gundo o qual as vítimas do desemprego, da pobreza e da exclusão social
Se, por outro lado, fôssemos capazes de refletir sobre o sofrimento e o seriam também vítimas de uma injustiça. Em outras palavras, para mui-
medo, bem como sobre seus efeitos perversos, em vez de desconhecê- tos cidadãos, há aqui uma clivagem entre sofrimento e injustiça. Essa cli-
Ias, talvez não pudéssemos mais consentir em fazer o mal ainda que nos
vagem é grave. Para os que nela incorrem, o sofrimento é uma adversi-
repugne fazê-lo. Refletir sobre a relação subjetiva para com o trabalho
dade, é claro, mas essa adversidade não reclama necessariamente reação
permite que nos desliguemos daquilo que insensivelmente nos levou a
política. Pode justificar compaixão, piedade ou caridade. Não provoca ne-
agir como se fizéssemos nossa essa máxima altamente suspeita: à Ia guer-
re comme à Ia guerre!
cessariamente indignação, cólera ou apelo à ação coletiva. O sofrimento
somente suscita um movimento de solidariedade e de protesto quando
Este livro não tem por objetivo fazer um balanço nacional da
condição que é dada aos trabalhadores de nosso país. Certamente as re- se estabelece uma associação entre a percepção do sofrimento alheio e a
lações de trabalho não evoluem no mesmo ritmo em toda parte, de mo- convicção de que esse sofrimento resulta de uma injustiça. Evidentemen-
Ia que se observam importantes disparidades regionais. Mas as situa- te, quando não se percebe o sofrimento alheio, não se levanta a questão
ções que aqui analisaremos são atestadas por sondagens realizadas in 10- ela mobilização numa ação política, tampouco a questão de justiça e in-
. Não sabemos se a evolução que descrevemos deverá estender-se a to- justiça.
país. Muitos especialistas temem que sim. Seja como for, tal receio Para compreender o drama que representa a precariedade da
"i s6 jusüfica que nos dediquemos sem mais tardar ao estudo. mobilização contra o desemprego e a exclusão, seria preciso analisar pre-

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A banalização da injustiça social
Christophe Dejours

cisamente as relações ou os vínculos que se estabelecem ou se desfazem


ca do trabalho.é que tem implicações nos campos psicológico e socio-
entre sofrimento alheio e injustiça (ou justiça).
lógico, pode nos trazer algumas luzes. Em suma, a psicodinâmica do
As pessoas que dissociam sua percepção do sofrimento alheio
trabalho sugere que a adesão ao discurso economicista seria uma mani-
do sentimento de indignação causado pelo reconhecimento de uma in-
festação do processo de "banolização do mal". Minha análise parte da
justiça adotam freqüentemente uma postura de resignação. Resignação
"banalidade do mal" no sentido em que Hannah Arendt emprega essa
diante de um "um fenômeno": a crise do emprego, considerada uma fa-
expressão com referência a Eichmann. Não, como fez ela, no caso do
talidade, comparável a uma epidemia, à peste, ao cólera e até à Aids.
sistema nazista, mas no caso da sociedade contemporânea, na França,
Segundo essa concepção, não haveria injustiça, mas apenas um fenôme-
em fins do século xx. A exclusão e a adversidade infligidas a outrem
no sistêrnico, econômico, sobre o qual não se poderia exercer nenhuma
em nossas sociedades, sem mobilização política contra a injustiça, deri-
influência. (No entanto, mesmo no caso de uma epidemia como a Aids,
vam de uma dissociação estabelecida entre adversidade e injustiça, sob
constata-se que as reações de mobilização coletiva são possíveis, e que
o efeito da banalização do mal no exercício de atos civis comuns por
não se é obrigado a aceitar o fatum ou a aderir à tese da "causalidade
parte dos que não são vítimas da exclusão (ou não o são ainda) e que
do destino", a qual seria antes conseqüência de uma paralisia das capa-
contribuem para excluir parcelas cada vez maiores da população, agra-
cidades analíticas [Flynn, 1985].) Acreditar que o desemprego e a ex-
vando-Ihes a adversidade.
clusão resultam de uma injustiça ou concluir, ao contrário, que são fru-
Em outras palavras, a adesão à causa economicista, que separa a
to de uma crise pela qual ninguém tem responsabilidade não é algo
adversidade da injustiça, não resultaria, como se costuma crer, da mera
que dependa de uma percepção, de um sentimento ou de uma intui-
resignação ou da constatação de impotência diante de um processo que
ção, como o é no caso do sofrimento. A questão da justiça ou da injus- nos transcende, mas funcionaria também como uma defesa contra a cons-
tiça implica antes de tudo a questão da responsabilidade pessoal: a res- ciência dolorosa da própria cumplicidade, da própria colaboração e da
ponsabilidade de certos dirigentes e nossa responsabilidade pessoal es- própria responsabilidade no agravamento da adversidade social. Vale
tão ou não implica das nessa adversidade? acrescentar que aquilo que tentarei analisar aqui nada tem de excepcio-
As noções de responsabilidade e de justiça concernem à ética nal. É a própria banalidade! Não só a banalidade do mal, mas a banali-
e não à psicologia. O juízo de atribuição, por sua vez, passa principal- dade de um processo que é subjacente à eficácia do sistema liberal econô-
mente pela adesão a um discurso ou a uma demonstração científica, mico. Então, não é uma novidade? Não! Somente é nova a identificação
ou ainda a uma crença coletiva, que seja inconteste para o sujeito que de um processo. Processo que se torna mais visível, na época atual, em
julga. virtude das mudanças políticas verificadas nas últimas décadas. Algum

A meu ver, a atribuição da adversidade do desemprego e da ex-


clusão à causalidade do destino, à causalidade econômica ou à causalida- 2 Essa disciplina - inicialmente denominada psicopatologia do trabalho - tem por obje-
de sistêrnica não advém de uma inferência psico-cognitiva individual. A to o estudo clínico e teórico da patologia mental decorrente do trabalho. Fundada ao final
tese da causalidade do destino não é resultado de uma invenção pessoal, da II Guerra por um grupo de médicos-pesquisadores liderados por L. Le Guillant, ela ga-
nhou há uns 15 anos um novo impulso que a levou recentemente a adotar a denominação
de uma especulação intelectual ou uma investigação científica indivi-
de "análise psicodinâmica das situações de trabalho", ou simplesmente "psicodinârnica do
duais. Ela é dada ao sujeito, exteriormente. I rabalho", Nessa evolução da disciplina, a questão do sofrimento passou a ocupar uma po-

Por que o discurso economicista que atribui o infortúnio à cau- sição central. O trabalho tem efeitos poderosos sobre o sofrimento psíquico. Ou bem con-
tribui para agravá-lo, levando progressivamente o indivíduo à loucura, ou bem contribui
salidade do destino, não vendo responsabilidade nem injustiça na ori- para transformá-lo, ou mesmo subvertê-lo, em prazer, a tal ponto que, em certas situa-
gem desse infortúnio, implica a adesão maciça de nossos concidadãos, ções, o indivíduo que trabalha preserva melhor a sua saúde do que aquele que não traba-
com seu corolário, à resignação ou à falta de indignação e de mobiliza- lha. Por que o trabalho ora é patogênico, ora estruturante? O resultado jamais é dado de
nrncmão. Depende de uma dinâmica complexa cujas principais etapas são identificadas e
ção coletiva? Para responder a essa pergunta, creio que a psicodinârni-
unalísndas pela psicodtnârnica do trabalho.

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A banalização da injustiça social Chrlstophe Dejours

co tempo. Segundo a interpretação mais corrente, essa insólita passivida- não é a causa da desmobilização. Seria antes o resultado desta, resulta-
de coletiva estaria ligada à falta de perspectivas (econômica, social e políti- do que, por muitos anos, foi ao mesmo tempo incerto e surpreendente.
ca) alternativas. Certamente é difícil negar essa falta de alternativa rnobili- Esse período de 15 anos também se caracteriza, no universo do
zadora. Mas seria ela, como pensam muitos analistas, a causa dessa inér- trabalho, pela adoção de novos métodos de gestão e direção de empresas, o
cia social e política ou sua conseqüência? Particularmente, não creio que que se traduz pelo questionamento progressivo do direito do trabalho e das
os movimentos coletivos de dimensão social sejam habitualmente mobiliza- conquistas sociais (Supiot, 1993). Esses novos métodos se fazem acompa-
dos pela vontade de marchar para uma felicidade prometida, ainda que nhar não apenas de demissões, mas também de uma brutalidade nas re-
por uma ideologia estruturada. Entendo que -a mobilização tem sua prin- lações trabalhistas que gera muito sofrimento. Decerto que essa brutali-
cipal fonte de energia não na esperança de felicidade (pois sempre duvida- dade é denunciada. Mas a denúncia permanece absolutamente sem con-
seqüência política, pois não há mobilização coletiva concomitante. Ao
mos dos resultados de uma transformação política), mas na cólera contra
contrário, essa denúncia parece compatível com uma crescente tolerância à
o sofrimento e a injustiça considerados intoleráveis. Em outras palavras, a
injustiça. Acaso devemos ver nisso a prova da fragilidade dos discursos
ação coletiva seria mais reação do que ação, reação contra o intolerável,
de denúncia no plano político ou o indício de uma duplicidade que, por
mais que ação voltada para a felicidade.i' Exemplo disso, entre outros, são
trás da denúncia, esconde uma tolerância crescente? Será que a denún-
os movimentos grevistas de novembro/dezembro de 1995: o que os pro- cia funciona aqui de uma maneira inusitada, ou seja, que em vez de ca-
vocou foi a cólera contra o desmantelamento do serviço público, e não a talisar a ação política ela serve para familiarizar a sociedade civil com a
perspectiva de um futuro risonho. Voltando à falta de alternativa ideológi- adversidade, para domesticar as reações de indignação e para favorecer
ca, sou propenso a crer que ela é geneticamente secundária, e não primá- a resignação, constituindo inclusive uma preparação psicológica para pa-
ria, em relação à falta de mobilização coletiva contra a adversidade e a in- decer a adversidade?
justiça infligidas a outrem.
Nessa perspectiva, devemos tentar explicar de outra forma, que
não pela falta de utopia social alternativa, a precariedade da mobiliza-
ção coletiva contra o sofrimento. O problema passa a ser então o do de-
senvolvimento da tolerância à injustiça. É justamente a falta de reações
coletivas de mobilização que possibilita o aumento progressivo do desem-
prego e de seus estragos psicológicos e sociais, nos níveis que atualmen-
te conhecemos.
É indiscutível que os anos Mitterrand (1981-95) foram marca-
dos por uma reviravolta ideológica em relação aos ideais socialistas, sob
a forma de um "economicismo de esquerda". Mas essa reviravolta políti-
ca, que consiste em colocar a razão econômica acima da razão política,

3 Nessa esfera, portanto, as condutas coletivas se distinguem das condutas particulares cu-
jo primum movens, em vez de racional, pode ser primariamente induzido pelo desejo (ou
pela pulsão). Tal diferença me parece atestada pela experiência clínica em psicodinâmica
do trabalho, que faz do médico ou do pesquisador uma testemunha privilegiada do surgi-
menro e da extinção dos movimentos coletivos concernentes à justiça e à injustiça nos lo-
cais de trabalho. Essa experiência, comparada à experiência clínica do psicanalista, sugere
- voltaremos a esse ponto mais adiante - uma diferença radical entre processo de mo-
bilização subjetiva individual e processo de mobilização coletiva na ação.

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