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TRUMARÉ

UMA IDEIA TEATRAL

Raysner de Paula

Outubro de 2017

Para Charles Valadares, meu irmão de vida e de tantas invenções.


UMA IMAGEM INICIAL

Clareia.

Em cena, apenas Trumaré.

Trumaré: menino nascido em dia de maré revirada.

Olha só ele...

Quantas vezes os seus olhos já se encontraram com outros olhos, assim, cheios de
espanto, como agora estão os de Trumaré?

Repara: o coração, dentro do peito dele, retumba bem forte.

As pernas dele estão contagiadas por essa batida coraçãozesca descompassada.


Dançam bambas e tremulosas.

As mãos não ficam para trás e – vejam só - se entregam ao mesmo ritmo


descompassado.

Na boca, os dentes também se rebatem – como quem bate o queixo de frio – e aí pode
ser que qualquer palavra que nasça já surja assim, mastiga-dita.

(...)

Trumaré cantarola algo murmurando, como se conversasse consigo mesmo.

E esse cantarolado vai ganhado força, vai ganhando o espaço, abraçando as paredes,
escorregando todo pra dentro da gente...
Talvez...

Se esse nosso encontro com Trumaré tivesse acontecido num tempo antes desse
tempo de agora...

Antes daquele ronco, do estrondo, antes daquele clarão, antes de tanta fuga nas
pernas, bem antes da guerra...

Talvez...

Trumaré poderia estar agora diante de nós mostrando como aprendeu a engolir um
pedaço da noite para depois arrotar um tanto de breu.

Por toda parte.

E quando estivéssemos mergulhados na escuridão...

O vento sopra.

TRUMARÉ – Escuta!

(...)

TRUMARÉ – Esse vento que sopra

(...)

TRUMARÉ – Como no começo de tudo! O tempo estava adormecido. Por isso, nada
já era sendo o que seria. Mergulhado num breu.

O vento sopra mais forte.

(15 TEMPOS PARA ESCUTARMOS O VENTO)

TRUMARÉ – Nisso, o vento tornou-se brisa assanhada e assoprou a nuca do tempo.

Ainda escuro.

TRUMARÉ – Foi um arrepio! No meio do breu. E a brisa viu que o arrepio era bom
e soprou outra vez.

(...)
TRUMARÉ – O tempo começou a se contorcer, a se enroscar, a rir.

TRUMARÉ – A brisa e o nada davam risadas. O silêncio acabava de se espatifar em


mil pedacinhos.

(...)

TRUMARÉ – Uma festa!

(...)

TRUMARÉ – Aquela imensidão sem cor era só remelexo! Uma tremedeira! Um


arrepio! Um troço!Uma festa. E a brisa muito assanhada não parava de soprar,
agora cada vez mais forte! Uma ventarola que fazia o nada esvoaçar, feito roupa no
varal, como quando numa ventania. De repente, com aquela algazarra, o tempo
acordou!

(...)

TRUMARÉ – E o nada de nada ventou-se pra longe feito roupa avoada desprendida
do varal.

(...)

TRUMARÉ – Escuta: foi assim que o princípio de tudo começou a existir!

(...)

TRUMARÉ – As cores, as formas, as vidas, os cheiros... Uma festa!

Trumaré aponta para o alto. Como se lá estivessem as folhas e os galhos de uma


árvore muito alta.

(...)

TRUMARÉ– Está vendo aquela árvore ali? Olha só o tamanho dela! Vive de fazer
cócegas na barriga do céu! Foi em cima dela que escutei o vento assoprar essa
história. Lá em cima, escuto também o guincho do gavião e gosto! Do tintilar da
gota de chuva riscando o ar antes de espatifar aqui embaixo, gosto também! Escuto
a noite chegando, escuto sabiá chamando chuva, escuto a folha desistindo do galho,
e eu gosto. Eu gosto de ficar bem lá em cima – onde as galhas enchem de cócegas a
barriga do céu.

(...)
TRUMARÉ – Pra subir tão lá no alto tive de aprender da natureza da onça
suçuarana. Do jeito que o bicho chega lá no topo sem a gente terminar de piscar!
Fui ensinado por ela, numa noite de lua cheia.

(SONS DA MATA)

(...)

TRUMARÉ – Um dia, a noite voltava pra casa: no caminho, dei de cara com ela, no
meio da mata, sem nenhum prévio aviso.

(...)

TRUMARÉ – Bicho faceiro, onça suçuarana.

(...)

TRUMARÉ– Mais silenciosa do que o tempo deslizando na gente, esse bicho


quando sai para caçar.

(...)

TRUMARÉ – Quando fui ver já estava de cara com ela. Vi o brilho da lua refletido
no focinho do bicho. Engoli uma golada de fôlego.

(...)

TRUMARÉ – As minhas pernas dançavam no descompasso do medo, assim, desse


jeito

(...)

TRUMARÉ – O meu coração parecia querer rasgar o meu peito até parecendo ter
vontade de ser meu primeiro pedaço devorado pela onça.

(...)

TRUMARÉ – Foi quando eu pensei: findarei, ai de mim! Nas ideias, desesperei: AH


COMO EU QUERIA SER LAMA NESSA HORA AGORA! AH COMO EU QUERIA SER
PEDRA! AH COMO EU QUERIA SER GALHA! UMA FOLHA! UMA SOMBRA! SER A
NOITE, SER NADA.

(...)

TRUMARÉ – AH COMO EU QUERIA NÃO SER TRUMARÉ, FEITO ASSIM:


APETITOSO DE TUDO!
(...)

TRUMARÉ – Mas só que entoquei bem escondido esse pensamento nas minha
cachola e não me debulhei lamento nenhum na frente da onça! Ela lá me
encarando, esperando só eu piscar e eu não piscava. Me temperei com bravura e
brio minhas todas carnezinhas. Estava pronto pra teimar minha vida até...

(...)

TRUMARÉ – Pus meu olho no olho da fera.

(...)

TRUMARÉ – Encontrei a coragem morando lá dentro!

(...)

TRUMARÉ – Foi quando escutei o fungado do bicho.

(...)

TRUMARÉ – Ela veio vindo até mim, farejou tudo que era eu. Fiquei uma pedra!

(...)

TRUMARÉ – Curvei em respeito.

(...)

Agora, em cena, tudo será Trumaré diante da onça suçuarana.

No espaço, ele desenhará com o corpo todo o seu remelexo diante da onça: seu jeito
de se afastar aos pouquinhos do de perto da boca dela, seu jeito de olhar com respeito
dentro dos olhos da onça, de sentir o seu bafo quente...

TRUMARÉ - O tempo parado, vento quase nenhum.

Os outros bichos tudo escondido, ao redor, espiando.

As samambaias, chorosas por natureza, lamentavam em silêncio.

As florzinhasmarias-dormideiras espalhadas pelo chão tudo se fecharam em suas


casas.

A rã pulou no lago. A jararaca quase se deu um nó. O jacaré parecia uma pedra.

A lua não quis nem ver. Se escondeu atrás da primeira nuvem que viu.
(...)

TRUMARÉ – E num salto a onça pulou no meu peito.

(...)

TRUMARÉ –O ronrronrrado do bicho me segredou no ouvido (como se a onça


dissesse) apetite meu agranda bem muito (ôarr) carne saboreosa essa que tem
desejo profundo de vida

(...)

TRUMARÉ – E depois, ao invés de me devorar, vendo a minha cara de morto, a


onça soltou uma gargalhada.

(...)

TRUMARÉ – A fera debochava largado do medo meu mal disfarçado. Arreganhava


as presas...

(...)

TRUMARÉ – Aos poucos comecei a rir também, aliviado, por aqueles dentes não
estarem me transformando em mil Trumarés em pedaço.

(...)

TRUMARÉ – Estava sem apetite a onça naquele dia! Queria mais uma companhia...
Vê se eu podia negar?

Trumaré e a onça riem. Gargalham. Fazem festa.

As nuvens respiram aliviadas. Choram de emoção. Chuvaréu cena adentro.

Dançam, na chuva, onça e Trumaré.

(SOM DA CHUVA)

(...)

TRUMARÉ – Naquela noite, a onça me segredou suas maneiras de ganhar alturas


nas árvores. Prestei atenção, pus muito sentido.
Imaginem: Trumaré, então, mostraria como se faz para ser um-entre-gente-e-um
entre-bicho para a gente presente.

Seria como se ele dançasse uma coreografia lenta, silenciosa. Veríamos não mais um
puro Trumaré, mas esse outro ser imaginário, dançando uma onça num corpo de
homem escalando uma árvore.

Depois de mostrado, Trumaré estaria de novo gente-só-gente.

(...)

TRUMARÉ – Minha mãe não aprovava aquela amizade! Achava um desjuízo!


Achava também que eu era só desatino – A minha mãe: puxou foi seu pai!

(...)

TRUMARÉ – O meu pai com a gente não mais estava. Findou-se no dia que eu nasci.

TRUMARÉ – (a mãe e a parteira mostradas porTrumaré) Ai, ai, ai, ai, ai! Força,
mulher! E tiro ela de onde? Respira bem fundo! Um monte de ar! Ai, ai, ai, ai! Esse
ar todo parado, vento quase nenhum, e esse menino? Se perdeu no caminho? Cadê
o seu pai que logo não vem? Cadê você menino? Nasce daí... Ai, ai, ai, ai...

(...)

TRUMARÉ – ERA DIA DE MARÉ REVIRADA. DIA DE TRUMARÉ.

(...)

TRUMARÉ – (imitando a sua mãe) Ai, ai, ai, ai.

(...)

TRUMARÉ – (imitando a sua mãe)Nasce menino! Escorre de mim! Seu pai logo já
vem e quer tanto te ver. Que tempo parado!

(...)

TRUMARÉ – Minha mãe ainda não sabia: o barco do meu pai não tinha voltado do
mar. A maré revirada. Tudo virado.

(...)

TRUMARÉ – ÁUDIO DO MAR. ESCUTAMOS O MAR.

(...)

TRUMARÉ – Eu já estava no caminho de chegança nesse mundo. Na porta de


entrada.
(...)

TRUMARÉ – (chamando) Trumaré!

(...)

TRUMARÉ – Um homem já velho, na porta contrária.

(...)

TRUMARÉ – Sorria pra mim.

(...)

TRUMARÉ – Era o meu pai?!

(...)

TRUMARÉ – (imitando o pai) Nasce logo, menino! Tem dó da sua mãe! Não
emperra o caminho!

(...)

TRUMARÉ – Veio até mim e começou a me sacudir. Mas foi? Foi não. Era a minha
mãe.

(...)

TRUMARÉ – ACORDA!(imitando a mãe) Trumaré, acorda menino! Não


destrambelha sem jeito! Apruma o peito, põe de pé o juízo, toma logo caminho,
porque o sol não tarda a nascer.

(...)

TRUMARÉ –(queixoso) Eu não queria acordar, queria mais ver meu pai.
(anunciando, enfático, decidido) Era o meu pai? Disso não sei. Só sei que bufei o
acordar tão-tão cedo!

TRUMARÉ – Vou um dia adinheirar bem muito! Enricar-me bastante. E ser só


dormilança!

(...)

TRUMARÉ – Minha mãe ficou que nem a senhora, assim (uma mulher da plateia)
do mesmo jeito que estava, só escutando...Comecei a inventar formas... Tanto
pedaço de chão sem nada plantado! Vou aproveitar um tanto assim pra
investirnumnovo cultivo!

(...)
TRUMARÉ –O que vou plantar?

(...)

TRUMARÉ – O que plantando sempre dá?

(...)

TRUMARÉ – Sem muito trabalho, sem trelele...

(...)

TRUMARÉ – Vento!

(...)

TRUMARÉ – Vou plantar vento pra colher tempestade...

(...)

TRUMARÉ – Pensa no aguacéu!

(...)

TRUMARÉ –(como se fosse sua mãe)Nisso, minha mãe: Não quero saber de
tempestade nenhuma colhida aos montes/aqui/ perto de casa/ é de jeito nenhum.
Pode ir tirando o seu cavalinho da chuva...

(...)

TRUMARÉ – (como se fosse a sua mãe) Nem pensar que quero minha roupa no
varal todo dia enxovalhada com esse seu aguaceiro todo! Apruma o juízo, Trumaré.

(...)

TRUMARÉ – Tinha de arrumar ocupação que não destrumbicasse o trabalho já


feito pela minha mãe!Minha primeira invenção? Tempo perdido.

(...)

TRUMARÉ – Perdido, perdido: tempo perdido...Perdido aonde? No chão, no


riacho? Debaixo das pedras? Num ninho? Num cesto? Dentro de casa? No meio das
roupas? Mãe – você viu o meu tempo? Você viu? Perdi o meu tempo! Aonde
mesmo? Não sei. Passei por ali, depois fui até lá... Comecei a caçar...

(...)

TRUMARÉ – E não é que fui achando tempo perdido por todo caminho. Pus tudo
num cesto. Chegou o domingo – corri para a feira – olha o tempo perdido! Quem
compra? Quem quer? Num estalo de tempo, tudo vendido. Quem que não quer um
bocado de tempo em pleno domingo?

(...)

Isso tudo era Trumaré...

Antes daquele clarão, antes de tanta fuga nas pernas, bem antes da guerra...

A gente de Trumaré reunia assim, quando no fim da tarde.

E cada pessoa oferecia uma pequena porção de música que estivesse consigo naquela
hora...

Antes de o dia acabar aqueles sons diferentes brincavam de ser música, de ser um só
corpo, de cantar aquela gente...

E Trumaré dançava, no meio da roda, todos aqueles ritmos sendo um só.

E cantava...

E era.

TRUMARÉ – Sabe o que eu sei? Engolir um pedaço de noite e arrotar um bocado de


breu, espia pra ver.

Um breu.
Clareia.

Novamente estamos diante daquela primeira imagem: no meio da cena, só Trumaré.

O homem cantarola algo murmurando, como se conversasse consigo mesmo. E esse


cantarolado vai ganhado força, vai ganhando o espaço, abraçando as paredes,
escorregando todo pra dentro da gente...

TRUMARÉ – (diz, interrompendo a cantoria) Um clarão! Um ronco! Um estrondo!


Quase nem vi! Só sei que assim: acordei assustado, num pulo! Aquilo não podia ser
ronco de gente, nem ronco de bicho, criatura nenhuma! Era coisa maior, era ronco
de... (produz um som guerra)Vindo de perto! No meio da noite! Outro clarão! Quase
nem vi! Outro ronco! E não era dentro de mim. (onomatopéias de guerra)Era lá
fora. Estava pra lá da mata que nos abraçava. Ouvi me dizerem/Apruma o corpo,
Eu não estava entendendo muita coisa. Eu estava no meio de um sonho tão...
Trumaré. Corre, menino./ E o ronco mais forte. /(onomatopéia de guerra)/ Corre
Trumaré/ Mas corro pra onde? Pra cima, pra baixo? Vou pra qual lado? Pra perto
de quem?/ Não destrambelha parado! Põe fuga nas pernas.

(...)

TRUMARÉ – Saí noite adentro. O tempo parado. Vento quase nenhum. E um


cheiro...

(...)

TRUMARÉ – Era o bafo da guerra!

(...)

TRUMARÉ –A guerra: coisa mais carabostufa! Ranhentacarnefedida! Apetroscada!


Fedegundaesmolenta! Vindo sem dizer que vinha./Põe fuga nas pernas.

(...)

TRUMARÉ – Foi o que eu fiz! E era pai, e era mãe, era irmão, avó, irmã, avô. Tudo
fazendo também! Gente daqui e acolá, os que moravam mais perto e os que
moravam distante, tudo gente que eu sabia o nome, tudo correndo, pra longe bem
longe. Se escondendo da guerra. A minha mãe...

(...)

TRUMARÉ – Um clarão! Um estrondo! No meio do breu. Comecei a correr.

(...)

TRUMARÉ – Parei para olhar uma última vez.

(...)
TRUMARÉ – A invasão.

(...)

TRUMARÉ – Vinha marchando. Vinha raivosa. Gritava pra gente “existir mais
inútil”.

(...)

TRUMARÉ – Existir mais inútil? Logo o da gente...

(...)

TRUMARÉ – Atearam fogo em tudo.

(...)

TRUMARÉ – Fogo que tantas vezes havia aquecido nossos existires, o nosso
alimento, clareado nossos passos no meio do breu.

(ESCUTAMOS O FOGO)

TRUMARÉ – Desatinei vendo aquilo! Pus mais fuga nas pernas e fugi bem muito.
Corri muito chão, cortei madrugada, nem olhei para trás. De tanta fuga, debaixo
dos meus pés já não tinha terra, era tudo mar...

(...)

O espaço da cena agora é como se fosse uma jangada.

Trumaré sobre ela. Jangada no mar.

E como seria?

Se o mar dançasse um balé revoltoso.

Se chovesse uma chuva bem fria?

(TEMPO)

Trumaré na jangada no meio do mar...

(TEMPO)

Num quando a brisa soprar quase nada;

Num quando o céu se iluminar com as estrelas;


Num quando o sol for de lascar;

Num quando Trumaré em sua jangada receber a visita de tubarões;

Tartarugas e outros bichos marinhos;

Num quando o alimento for só devaneio...

E outros quando que só quando numa jangada no mar...

Por dias? Meses? Anos?

Marejou Trumaré: menino nascido em dia de maré revirada.

TRUMARÉ – E cheguei aqui. Diante de vocês. Com a minha estória que é também a
estória da minha gente. A minha voz. Nesse lugar... Que parece seguro. Diante de
vocês...

(...)

Trumaré examina a geometria de cada pessoa.

TRUMARÉ – Que lembram tanto a minha gente.

(...)

TRUMARÉ – Alguém me disse uma vez: não perde nunca a chance de semear
estória onde o olho enxergar um coração fértil...

(...)

O vento do começo de tudo sopra novamente.


TRUMARÉ – Escuta,

Trumaré reconhece: é o vento que soprou no início de tudo.

Soprando de novo, aqui e agora, a nuca do tempo.

Trumaré, então, imagina: pode transformar o aparente “nada” do palco num lugar
como se fosse aquele onde vivia a sua gente. Pode convidar os presentes para recriar
os momentos que ele vivia com o seu povo. Pode, inclusive, inventar outros também.
Não por pensar que essas pessoas sejam sua gente, mas essa é uma forma dele e sua
estória seguirem existindo, aqui e agora, e quanto mais dela, ao longo do tempo,
puder ser falar. Essa feitura dura o tempo possível até que o vento sopre mais forte e
espalhe de novo as pessoas que agora carregam consigo, de alguma forma, Trumaré
e sua gente para mais longe da guerra.

07 out 2017.

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