Clara Maria Cavalcante Brum de Oliveira Wellington Trotta

ESTUDOS PRELIMINARES

PARA UMA

FILOSOFIA

DO

DIREITO

Rio de Janeiro 2006

Clara Maria Cavalcante Brum de Oliveira
Bacharel em Comunicação Social pela FACHA. Bacharel em Filosofia pela UERJ. Especialista e Mestre em Filosofia (Ética e Filosofia Política) pela UERJ Bacharel em Direito pela UNESA. Advogada e Professora de Filosofia Geral e Jurídica e Ética Geral Jurídica na Universidade Estácio de Sá

Wellington Trotta
Bacharel em Direito pela Universidade Gama Filho Bacharel em Filosofia pela UERJ. Mestre em Ciência Política (Política e Epistemologia) pela UFRJ Advogado e Professor de Filosofia Geral e Jurídica e Ética Geral Jurídica na Universidade Estácio de Sá

ESTUDOS PRELIMINARES

PARA UMA

FILOSOFIA

DO

DIREITO

Rio de Janeiro 2006

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Sumário Pá Introdução................................................................................... .......................................... I. O surgimento da Filosofia.......................................................................... II. III. IV. V. ................. A justiça na concepção de Platão (428 – 347 a.C.).................................................... A justiça na concepção de Aristóteles (384-322 29 38 48 62 g. 5 5

a.C.)................................................ A Filosofia no período medieval: Agostinho e Tomás de Aquino............................... O Jusnaturalismo....................................................................... ................................. A filosofia prática de Immanuel Kant (17241804)...................................................... O positivismo jurídico................................................................................... ............... O pensamento de Hans Kelsen (18811973)............................................................. A teoria tridimensional do direito: Miguel Reale (1910

VI. VII.

79 93

IX. X.

10 3 10 9 11 3

-)............................................ Referências Bibliográficas.............................................................................. ....................

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de Oliveira Wellington Trotta 4 . sendo vedada a sua utilização sem autorização expressa dos autores. Clara Maria C.B. elaborado e atualizado para o semestre 2006. ressaltamos que se destina tão somente para uso interno. o texto foi adaptado exclusivamente para as aulas de Filosofia Geral e Jurídica.Prezado (a) aluno (a): Este material. Assim. Nesse sentido. constitui parte integrante do trabalho Estudos preliminares para uma filosofia do direito que elaboramos em nossos estudos de filosofia jurídicopolítica. A obra completa encontra-se depositada no Ministério da Cultura/Fundação da Biblioteca Nacional.1.

insisto em apontar que a história do pensamento filosófico. São Paulo: Martins Fontes. geralmente ministrada em apenas um semestre nos primeiros períodos da faculdade. A grande maioria dos alunos não tem contato com a Filosofia durante o ensino fundamental ou médio. Werner W. “A Grécia representa. Miguel. (Reale. p.Considerações sobre a importância da Filosofia para o curso de Direito “Filosofia do Direito esclareça-se desde logo. Ademais.1 É preciso ressaltar que a Filosofia oferece uma abordagem singular para tratar dos problemas fundamentais da esfera jurídica que focalizam em particular a eterna “insociável–sociabilidade humana”. estudar Filosofia significa estudar os fundamentos da nossa própria cultura. que é a realidade jurídica”. Esta se fundamenta em princípios completamente novos. que se inicia Jaeger. a história daquilo a que podemos com plena consciência chamar cultura só começa com os gregos”. p. um novo estádio em tudo o que se refere à vida dos homens na comunidade. em face dos grandes povos do Oriente. [grifo nosso] 1 5 . 1989. o que torna nossa tarefa ainda mais árdua. Por mais elevadas que julguemos as realizações artísticas. Paidéia: a formação do homem grego. não é disciplina jurídica. 4. religiosas e políticas dos povos anteriores. Poucos se interessam por essa disciplina. Nos dizeres de Werner Jaeger. Muitos alunos indagam: por que estudar Filosofia? Qual a utilidade da Filosofia para o saber jurídico? Nem sempre as respostas que formulamos são convincentes para esclarecer sobre a importância desse saber. 9) Inúmeras vezes percebemos que a falta de interesse pela leitura contribui também para certo desinteresse pelo estudo de Filosofia. um progresso fundamental. Todavia muitos profissionais do Direito descobrem a Filosofia em meio aos seus estudos de pós-graduação e experimentam certa ansiedade em tentar suprir essa falta em sua formação intelectual. Nesse sentido.Introdução 1 . mas é a própria Filosofia enquanto voltada para uma ordem de realidade. Filosofia do Direito.

Podemos então investigar como esse sistema de valores interfere em nossa visão de mundo.39. pois assim podemos avaliar mais os nossos. Ensina a formular perguntas. Significa abolir a pressa e o imediatismo. 2 6 . como soem proceder aos que nada viram”. o início do pensamento racional. isto é. em um olhar cuidadoso diante das obviedades. e até uma conversação premeditada. (. ao lermos um texto filosófico colocamos em ação todo o nosso sistema de valores. Intencionalmente se cuidou de apresentar um estudo propedêutico que pudesse oferecer uma exposição clara e indispensável. configura o nosso ponto de partida. VII a. o grupo social em que fomos criados.uma atitude diante da vida. É bom conhecê-los e seus costumes. Discurso do Método. Os Pensadores.. Mas gostaria de esclarecer preliminarmente que o estudo tem objetivo modesto. Estudar Filosofia significa estabelecer um diálogo com homens de notório saber. constitui as bases de nossa própria cultura. In: Col. capaz de configurar um apoio útil para posteriores estudos de Filosofia do Direito. que foram seus autores. Ingressar nos estudos filosóficos significa fundamentalmente assumir a árdua tarefa do autoconhecimento que implica transformar o seu próprio olhar. Assim. DESCARTES. na qual eles nos revelam tão-somente os melhores de seus pensamentos.) É bom saber algo dos costumes de diversos povos. A Filosofia significa a formação de uma atitude . Como disse Kant em suas lições de Lógica.2 Não posso deixar de mencionar as célebres palavras de Descartes na obra Discurso do Método: “a leitura de todos os bons livros é qual uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados. crenças e atitudes que refletem o grupo social em que se deu nossa socialização primária. muitas vezes desatento. compreender lucidamente que viveram em outras épocas.C. R. ou seja. 1973. filosofar é algo que só se pode aprender pelo exercício. a fim de que julguemos os nossos mais sãmente e não pensemos que tudo quanto é contra os nossos modos é ridículo e contrário à razão..com o povo grego em torno do séc. A Filosofia ensina a pensar. p. São Paulo: Abril Cultural. pelo uso próprio e autônomo da razão. Um exercício sem medo.

Muitas vezes este estudo assume nomenclaturas diferenciadas como. as informações apresentadas fundamentam-se em textos clássicos e comentadores consagrados pela tradição filosófica. buscando não esquecer que os filósofos foram/são homens e que. aquela que estuda a idéia de justiça. educação e época histórica. desvelou-se imperativo observar os diferentes problemas que a nossa cultura formulou ao longo dos tempos com suas respostas e terminologias acerca do que consideravam relevantes. Tratados que versam sobre leis. a partir das realidades que serviam como pano de fundo. em particular. Não podemos esquecer que todo pensador está fadado a ser de seu século a seu contentamento ou pesar.nossa herança grega. Fundamentação do Direito Natural ou elementos Filosóficos do ideal do Direito (Grunlage des Naturrechts oder philosophie Grundriss des Ideals des rechts – 1803) e Bosquejo do Sistema de Filosofia do Direito (Abriss des Systems der rechtsphilosophie – 1828) de Karl Christian Friedrich Krause. Importa ressaltar que a história apresentada focaliza um dos ramos da Filosofia. O ponto de partida está na noção geral da Filosofia como um saber teórico e universal que fundamenta toda a cultura ocidental . Acredito não ter incorrido em erro grave. Assim. civitas ou um Estado. justiça. dar certa objetividade que não comprometa a verdadeira complexidade da matéria. procura-se mostrar que os problemas filosófico-jurídicos são tão antigos quanto as inquietações conscientes dos homens sobre o problema da convivência humana e se desvelam nas concepções fundamentais acerca do Direito e do próprio Estado. ao expor. Procurou-se. direito natural e que assinalam o caminho do pensamento filosófico. uma res publica.Estudaremos em cada época autores e doutrinas que julgamos essenciais para o estudo jurídico. portanto estavam/estão sujeitos às influências de sua origem. Assim. por exemplo. Assim. juris naturalis scientia ou Naturrecht als Philosophie des positiven rechts.3 Direito natural como filosofia do Direito positivo (Naturrecht als Philosophie des positiven rechts – 1797) de Gustav Hugo. podemos afirmar que uma Filosofia do Direito se inicia com os tratados sobre sociedade política: seja uma pólis. O estudo foi essencialmente motivado pelo desejo de compreender melhor a relação direito-sociedade a partir do devir histórico. Historicamente. Elementos de Direito natural e de Ciência Política (Grundlinien der Philosophie des Rrechts oder 3 7 .

Cada um deve procurar sua interpretação. apresentando certas tendências. Nosso objetivo é ampliar a conscientização sobre o assunto e fornecer as condições de possibilidade para uma reflexão filosófica sobre o direito.Metodologia adotada para a disciplina O aprimoramento contínuo oferecido pela Filosofia é importante ferramenta para o desenvolvimento das habilidades necessárias ao advogado. 8 . mas elaborar o seu próprio texto sobre o que foi lido. Nesse sentido. Por isso. participa do seu desenrolar gradual e do seu reencontro consigo mesmo.A abordagem filosófica nos permite então vislumbrar que a transformação das sociedades não implica a superação pura e simples do passado. Não podemos negar a importância da Filosofia. Enfim. Naturrecht und Staatswissenschaft im Grundrisse – 1821) de Hegel. Algumas vezes apontando caminhos que não se devem mais seguir. mas antes ressalta que esse passado existe e persiste no presente. sem a qual cairíamos inevitavelmente num dogmatismo feroz ou num ceticismo tedioso. Recomenda-se que o aluno procure elaborar um pequeno resumo dos pontos mais relevantes. condicionando o focar dos problemas. buscando não copiar o texto. torna-se fundamental pontos a serem tratados a leitura prévia dos em cada aula. validando algumas soluções. pertencendo à história humana. revelando a lógica imanente de certos pontos de vista ou atitudes intelectuais. 2 . porque a própria tentativa de impugná-la significa a essência do filosofar. o Direito. O que importa nesse caminhar é a indispensável tarefa crítica que a Filosofia nos oferece. indicamos outras leituras interessantes e vídeos para que o estudante possa ampliar seus conhecimentos.

toma distância para interrogar e não aceitar as coisas passivamente. mas se configura como possível interpretação. história. linguagem. busca compreender as idéias ou significados gerais: realidade. mas se vê diante de uma reflexão crítica sobre os conteúdos. um saber do homem situado. mas reflexão crítica sobre os fundamentos dessas ciências humanas de suma importância. memória.O conceito de Filosofia Observando a advertência de Marilena Chauí. forma e o conteúdo dos valores éticos. e sim interpretação do sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e no espaço e a compreensão do que seja o próprio tempo. compreensão e reflexão sobre a origem. Filosofia não é História. diferença. prejuízos. na obra Convite à Filosofia. significações da obra de arte e do trabalho artístico. políticos. Trata-se de um saber que se preocupa com as origens. também não pode ser considerada Sociologia ou Psicologia. formas. vontade. contradição e mudança. a natureza e as formas do poder. O olhar filosófico se afasta das crenças. a consciência em suas várias modalidades: imaginação. conflito. cultura. subjetividade. paixões. mundo. inteligência. reflexão. não se reduz à Arte.Parte I – O surgimento da Filosofia 1 . artísticos e culturais. objetividade. “como é” e “por que é” – momentos que constituem o 9 . a Filosofia não se confunde com Ciência. preconceitos. A Filosofia busca desvelar as interpretações e limites de cada época. experiência. pois se trata de um saber que é cronologicamente anterior ao surgimento da própria ciência. causas. A Filosofia diz “não” ao senso comum. repetição. semelhança. A Filosofia está na história. a Filosofia não se limita à esfera Política. sentimentos. Podemos então definir Filosofia como a fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e práticas. por fim. pois é produto cultural do homem. para indagar “o que é”. porém reflexão crítica sobre as origens e formas das crenças religiosas. O seu olhar observa com cuidado as transformações históricas. antes. não é tampouco Religião. mas pode ser entendida como reflexão crítica sobre os procedimentos e conceitos científicos. percepção. comportamento. desejo. natureza.

2 . ao nível do senso comum. “como nos tornamos livres?”. 10 . Assim. portanto. desconexo. opera com conceitos ou idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova. Será possível perceber que as transformações no modo de conhecer ampliaram os campos de investigação do filósofo. a história da Filosofia a partir de períodos que problemas e as questões que. surgiu uma nova mentalidade diante do real? Quais os fatores que se entrecruzaram e propiciaram esse fenômeno em uma cultura tão antiga? Sabe-se que na Grécia do séc. Pessanha. na fundamentação ou justificação do trabalho científico ao indagar “o que é o homem?”. “o que é um valor?”. Sua reflexão é radical.. saber). VI a C. Os períodos foram classificados pela tradição da seguinte forma: Antigüidade Clássica ou Filosofia Antiga. Pitágoras de Samos denominou-se “Filo-sophos” (amante do saber) e não de “sophos” (sábio). a Filosofia enquanto saber exige fundamentação racional do que é enunciado e pensado e deve formar um conjunto coerente de idéias racionalmente demonstráveis. “o que é vontade?”. O valor da Filosofia encontra-se. a origem de tudo o que existe.Origem e Surgimento da Filosofia na Grécia Antiga Como nos lembra o saudoso professor José Américo M. O seu conhecimento se realiza por reflexão que se configura no momento em que o pensamento volta-se para si mesmo a fim de indagar como é possível o próprio pensamento.C. O que teria fundamentado esse novo saber? Por que na Grécia em torno do séc. “o que é a razão?”. VII ou VI a. ou seja. porquanto investiga a raiz. o que significa dizer que não é mera opinião. Filosofia Medieval. Filosofia Moderna e Filosofia Contemporânea. Podemos estudar a Filosofia sob o aspecto temático ou exprimem e manifestam os podemos compreendê-la a partir de seu devir histórico. Na verdade a Filosofia segue uma lógica de enunciados precisos e rigorosos.4 4 O que a A palavra Filosofia formou-se da junção de “Filos-filia” (amigo) com “sophia”(sabedoria. opondo-se ao termo grego “polimathéia” que significa saber comum. fragmentado. os homens colocaram para si mesmos e para o mundo. A Filosofia é um pensamento sistemático. em cada época.pensamento crítico. buscar as razões que conduziram o homem grego a fazer filosofia permanece ainda como um problema aberto.

uma crença na autoridade do narrador. A palavra mito do grego mythos deriva de dois verbos. mas sim um raciocínio lógico. uma explicação racional sobre a origem do mundo e sobre as causas das transformações das coisas. organizado. Nesse sentido. A Filosofia começa quando algo desperta a nossa admiração. pois gonia vem do verbo gennao e do substantivo genos assumindo. Cosmo quer dizer mundo ordenado. mas decorre do poder da razão. O narrador é chamado de poetarapsodo. contradições. deuses. Nesse sentido. coisas divinas. a idéia de geração. ou seja. Será cosmologia quando trata do nascimento e da organização do mundo. a saber: mytheyo que significa contar. ganhava uma aura de divindade. espanta-nos e exige uma explicação sobre a origem do mundo. nomear. designar. 11 . narrar. falar alguma coisa para outros e do verbo mytheo que significa conversar. como no caso dos poetas-rapsodos. respostas fazedoras de mitos.tradição afirma é que a Filosofia foi um fenômeno específico do povo grego e teve continuidade com os povos dominados por ele. racional e coerente. nascimento a partir da concepção sexual e do parto. mito significa um discurso ou narrativa que é considerada verdadeira para seus ouvintes. A palavra proferida pelo poeta-rapsodo. A Filosofia é vista como uma cosmologia. A autoridade dessa nova explicação não decorre de uma pessoa física. as narrativas míticas foram reformuladas ou transformadas numa explicação que não admite fabulações. há uma relação de confiabilidade que repousa sobre a pessoa do narrador. o mito. contar. portanto. Será teogonia quando a narrativa tratar da origem dos deuses. Para o pensamento grego. Teogonia é composta de gonia e theos que significa em grego: seres divinos. a narrativa sobre a origem do mundo é denominada como uma genealogia que pode ser cosmologia ou teogonia. Os gregos acreditavam que ele fora escolhido pelos deuses e que se tornara o transmissor de suas mensagens. portanto inquestionável e incontestável. anunciar. dos povos e dos fenômenos da natureza sem recorrer aos mitos. ou melhor. O seu surgimento marca uma indagação que não aceita respostas mitológicas ou mágicas.

a Grécia já apresentava uma vida social intensa. porque muitos estudiosos entendem que os povos do oriente já sistematizavam doutrinas filosóficas antes dos filósofos gregos. Os dórios oriundos do norte. autor dos famosos poemas que narram as guerras troianas (1260 a 1250 a.). Essa mitologia e seus mitos sobrevivem enquanto se mantiveram vivos na vida cotidiana. Odisseu). Homero. com o desenvolvimento da atividade comercial. 12 . A Filosofia é. por isso o relato mítico não resulta necessariamente da invenção individual. A explicação filosófica. um fenômeno cultural grego. o que ressalta a sua dignidade e importância. ficção. Todavia o que se observa freqüentemente é que não se configurou nesses povos o que ocorreu na Grécia: o processo de laicização do saber. Um dos poetas mais importantes. mitos e deuses. séculos sociedade marcadamente após as guerras troianas. se desenvolveu paulatinamente e permaneceu por muito tempo concomitante às explicações mitológicas que povoavam o imaginário do mundo antigo. Memória. construíram uma aristocrática que paulatinamente se a própria invenção da transformou no que denominamos civilização grega. portanto. política e da ética. com a consolidação das cidades-estados (pólis). nos desvela em suas narrativas o entrecruzamento de história.Não podemos negar que a mitologia grega está intrinsecamente ligada à história da civilização grega. Não há consenso sobre a origem da Filosofia na Grécia antiga.A pólis grega e a consciência jurídica Antes do advento da Pólis. oralidade e tradição são os componentes indispensáveis à sua sobrevivência. Surgiu no momento de estabilização da sociedade grega. a invenção do calendário. expansão marítima que propiciou o surgimento de uma classe mercantil politicamente forte. 3 . que é apenas uma explicação de homens que buscavam saber. um progressivo enriquecimento do comércio e invenção da moeda. que segundo pesquisadores exprimem traços da cultura dórica. as aventuras de Aquiles e Ulisses (nome grego.C. mas da transmissão de uma cultura por várias gerações e da memória de um povo. lenda.

o seu pensamento para possível debate. O que se configurou nesta etapa e a revolução política que ensejou o desenvolvimento do pensamento humano. a discussão. Em sua obra denominada Teogonia descreve a criação do mundo. a persuasão.Este poeta foi considerado o pai da cultura grega por ter sido a sua obra fundamental para a manutenção das tradições. festivais. porquanto marca uma nova fase da cultura grega. 5 13 . 5 O termo pólis propiciou o aparecimento de palavras como político e política e. p. enfim o próprio desenvolvimento do discurso. a pólis configurou um novo momento para os gregos.C. o pensamento de Hesíodo foi igualmente importante. Lentamente se formou uma nova organização social e política que segundo ensina Jean-Pierre Vernant destacou a supremacia da razão. Assim. Além de Homero. a elaboração das leis. Pólis do plural póleis é uma palavra grega que expressa a idéia de cidades-estados autogovernadas do mundo grego. Situa-se. cunhagem de moedas.. Como nos ensina Jaeger. as discussões políticas. dos deuses e a organização do Olimpo. por isso. 1989. o discurso e a razão ganharam grande relevo nessa nova organização social. O discurso tornou-se condição fundamental para a participação nos assuntos públicos. a força do melhor argumento. deixaram de ser privilégio da aristocracia grega. São Paulo: Martins Fontes. a palavra. Paidéia: a formação do homem grego. Jaeger. Em Os trabalhos e Os Dias narra o mito das cinco idades da humanidade. VIII a. ritos e etc. na esfera pública. Cada pólis tinha suas próprias leis de cidadania. Assim. no centro de todas as considerações históricas”. com a invenção da moeda cunhada. costumes. Werner W. a idéia de justiça. conseqüentemente. A pólis valorizou o humano.73. uma nova forma de convivência humana: “A polis é o centro principal a partir do qual se organiza historicamente o período mais importante da evolução grega. a região vivenciou um renascimento das relações comerciais que resultou na ruína das antigas linhagens tribais e no surgimento de pequenas cidades de agricultores e artesãos. do discurso. Por ocasião do séc. Com a palavra pólis surgiu também o direito de cada cidadão de emitir.

Paidéia: a formação do homem grego. 8 A reclamação universal pela justiça já figura claramente em Hesíodo e. A literatura que testemunha a idéia de justiça como fundamento da sociedade humana estende-se desde os tempos primitivos da epopéia. Zeus ofertava aos reis o cetro e themis. 1989. Contudo. dike. cumpre o seu dever. São Paulo: Martins Fontes. ou seja.94. Werner W. aretai (pl. a qual deve ter surgido em conseqüência do enriquecimento dos cidadãos alheios à nobreza. o aumento da oposição entre os nobres e os cidadãos livres. sem leis escritas.) – excelência. Observa-se que a pólis introduz uma verdadeira revolução: “O ideal antigo e livre da Arete6 heróica dos heróis homéricos converte-se em rigoroso dever para com o Estado. Esta última seria o símbolo da grandeza cavaleiresca dos primitivos reis e nobres homéricos. 6 7 14 . um novo locus no pensamento grego. é através dele. 1989. Segundo a narrativa homérica. porque aquele que cumpre a lei e se regula por ela. p. Werner W. tal como são obrigados a respeitar a fronteira entre o próprio e o alheio”. significava que os nobres dos tempos patriarcais julgavam de acordo com a lei procedente de Zeus. 8 Jaeger. p. gerou facilmente o abuso político da magistratura e levou o povo a exigir leis escritas”.C. Não temos fonte sobre a história da codificação do direito grego. Em Homero temos o direito como Themis que etimologicamente significa lei. se converte no lema da luta entre as classes. areté. ideal cavaleiresco dos primeiros estágios da cultura grega aristocrática. Na prática. mas sabe-se ao menos que ao ser escrito assumia o caráter de universalidade. do séc. A idéia do homem justo assume. 91. Jaeger.O interesse pela justiça se desenvolveu na vida comunitária da pólis grega e assumiu um grande valor que se afigurou com a mesma intensidade que a força exercida pelo portanto. ao qual todos os cidadãos sem exceção estão submetidos. VIII até o séc. virtude. que a palavra direito. Jaeger narra que nos tempos homéricos “toda manifestação do direito ficou sem discussão na mão dos nobres que administravam a justiça segundo a tradição. Paidéia: a formação do homem grego. VI a. São Paulo: Martins Fontes. 7 Com a mudança das formas de vida. surgiu um novo espírito centrado na vida pública.

Tais pensadores buscavam a matéria-prima.C. a arché. portanto a busca pelo princípio originário. G. existente em todos os seres. portanto. mas o conjunto de várias cidades autônomas entre si denominadas pólis. Concluiu. Denominou de ápeiron. situada na Jônia. ou substancial de todas as coisas. Seria. denominados filósofos da Physis.As normas que constituíam as leis de Zeus fundamentavam-se no direito consuetudinário e no próprio saber do homem daquela época. Ademais concluiu que o princípio somente a água permanece a mesma a despeito de todas as transformações. Este pensador apresentou grande desempenho em geometria e demonstrou que todos os ângulos inscritos no meio círculo são retos e que originário era a água. 4 . estaria fora do alcance dos sentidos. o infinito a massa geradora de todos os seres. portanto que o ar seria o princípio de todas as coisas. imponderável e. porque a soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a 180º. Esses primeiros filósofos. Anaxímenes fosse realmente de Mileto algo admitia que a origem de todas as coisas mas não o concebia como indeterminado. chegou a prever um eclipse total do sol ocorrida em 28 de maio de 585 a. no entanto. litoral ocidental da Ásia menor. 9 15 . Meu intento nesta parte foi o de mencionar os pré-socráticos mais conhecidos. termo grego que significa o indeterminado. Tales de Mileto foi considerado o primeiro filósofo e sabe-se que era estudioso de astronomia e. tinham como objetivo construir uma explicação racional e sistemática do universo. (org) Os Filósofos Pré-socráticos. segundo conta a tradição. Para um maior aprofundamento sugiro a obra de BORNHEIM. Anaximadro e Anaxímenes. inalcançável aos sentidos. observável. Anaximandro de Mileto acreditava que o princípio primordial transcendia os limites do observável e que. São Paulo: Cultrix. o elemento invisível. Sabe-se que o berço da Filosofia teria sido a pólis de Mileto.Os Filósofos pré-socráticos 9 Já compreendemos que o que consideramos por Grécia Antiga não constituiu um Estado no sentido moderno do termo. Nesta cidade temos três pensadores présocráticos de grande importância: Tales. 1997.

da doxa. Acreditou que o mundo é o lugar das aparências. da essência.C. em inesgotável transformação. o rigor moral etc.C.). O mais célebre foi o denominado “Aquiles” que revela o complexo estudo dos 16 a arché. imóvel e ilimitado. localizada no sul da Itália. Zenão de Eléia (488-430 a. multiplicidade. o não ser não é. único.Pitágoras de Samos viveu na ilha de Samos e posteriormente deslocou-se para Crotona. a diferença entre os seres repousava sobre os números. Seu fragmento mais conhecido menciona que um homem não pode banhar-se . ao fim que configuraria a origem do finito e infinito. impulsionado pela luta de forças contrárias. Essa era a ótica da razão.) foi um grande opositor de Heráclito. a ótica da aparência. Sua escola filosófica foi denominada de mobilista. Acreditava que a luta dos contrários seria o princípio de todas as coisas e por meio dessa luta o mundo se modifica e evolui.C. par e ímpar. Suas contribuições foram numerosas. compreendemos a essência da realidade. discípulo de Parmênides. mas em função do movimento ou vir-a-ser da realidade denota apenas uma aparência enganosa. a crença na imortalidade da alma e na reencarnação. a essência de todas as coisas residia nos números que representavam a ordem e a harmonia. no plano lógico. Parmênides afirmou que: o ser é. Heráclito de Éfeso foi considerado um dos mais importantes filósofos pré-socráticos. e se tornou o representante do pensamento dialético. não desvela a verdade. Nesta região fundou uma escola filosófica preocupada com questões políticas e religiosas. Heráclito concebeu o mundo como dinâmico. dentre elas: o teorema de Pitágoras. o mundo da ilusão e que somente pela razão. pois para ele a vida era fluxo constante. a via a ser buscada pela filosofia. Sabe-se que floresceu pelo ano 500 a. Para Parmênides o ser é e o não ser não é. Por outro lado. A arché teria uma estrutura matemática unidade etc. Parmênides de Eléia (510-470 a. Em seu modo de ver. buscou argumentos capazes de legitimar as afirmações de seu mestre e fortaleceu a idéia de que a noção de movimento era contraditória. Para ele. Acreditava que o ser era eterno. e a ao cabo. região conhecida pelo nome Magna Grécia. Acreditava que o fogo era duas vezes nas águas do mesmo rio.

Outros estudiosos do pensamento grego revisaram essa tese e concluíram que certa reflexão acerca do mundo dos homens teria precedido a reflexão sobre o mundo físico. Truyol y Serra apresenta. espaço. Acreditou que o elemento primordial era constituído por quatro elementos: o fogo. a terra. Empédocles de Agrigento (490-430 a. o vir-aser. o amor. continuaria se movendo. a saber: de um lado. captado pelos sentidos. Efectivamente. ou seja. nesse sentido. a água e o ar. o que traz consigo a personificação dos elementos e das forças naturais e a 17 . incluindo as teogonias míticas. ou seja. este herói não conseguiria alcançá-la em face da vantagem que a tartaruga obteve por ocasião da largada. os pré-socráticos inauguraram o pensamento filosófico quando iniciaram um estudo racional sobre o homem.C. se e somente se. Para entendermos melhor esse paradoxo de Zenão é preciso compreender o exemplo que nos forneceu e que resumidamente é o seguinte: em uma determinada corrida. se a tartaruga (mais lenta) saísse à frente de Aquiles (herói). conciliar a idéia de essência imutável obtida pela razão com a idéia de movimento. tempo e infinito.A idéia de justiça no período pré-socrático Para estudiosos como W. ou seja. por sua vez. Neste argumento Zenão nega o movimento da seguinte maneira: afirma que o mais lento em uma corrida jamais será alcançado pelo mais rápido. concebem os problemas cósmicos como problemas humanos. a vida e a Natureza. personificando a idéia de força de atração ou harmonização das coisas.conceitos de movimento. estas. Mondolfo. 5 . Tais elementos seriam misturados de modos diversos a partir de dois princípios universais.) tentou conciliar as idéias de Parmênides com o pensamento de Heráclito. o mais lento sair bem à frente. o seguinte argumento: “isto é verdade se tivermos em conta a primitiva concepção helênica do mundo e da vida em sua totalidade. fundadas num politeísmo antropomórfico. porque o mais rápido terá que primeiro alcançar o ponto de onde partiu o mais lento que. a preocupação dos primeiros filósofos teria sido com o universo. de outro o ódio responsável pela desagregação ou separação das coisas. Jaeger e R.

11 Esta idéia estaria presente no único fragmento existente da obra Sobre a Natureza. A imagem da comunidade foi útil para a representação da Natureza. a mitologia. as regras morais e os preceitos jurídicos indistintamente misturados. 1985. a pólis. Não fica difícil perceber que a idéia de justiça significava garantir essa convivência harmônica a partir de uma repressão a tudo que pudesse comprometer a ordem estabelecida. Protegida por seus deuses baseava-se em normas tradicionais de fundamento religioso. ou seja. Para este autor. O cuidado com os valores culturais de cada pólis garantia uma convivência pacífica. regulamentações que paulatinamente constituíram o nomos. História da Filosofia do Direito e do Estado. themistes. por exemplo. ou seja. O enigma que perturbava o espírito dos pensadores pré-socráticos era o movimento. Ele afirma a existência de uma justiça cósmica de caráter imanente que preside a geração e a dissolução dos seres particulares. p. 10 A filosofia do mundo natural precisou trabalhar com categorias nascidas da experiência da vida humana. 85-86. idéias semelhantes seriam usadas mais tarde por Parmênides de Eléia e Empédocles de Agrigento nos poemas que cada qual escreveu. A. pp. A justiça aparece no seu poema como um SERRA. Truyol y Serra aponta que Anaximandro teria transposto ou deslocado a idéia de justiça da pólis para o universo. de uma forma ou de outra expressa na literatura disponível à época. 11 Este seria uma grande pólis. Parmênides teria personificado a Justiça nas deusas Themis e Dike entre o dia e a noite e entre a verdade e a opinião. Esse sentido seria alargado diante das novas necessidades que a vida comunitária exigiria. 87. São categorias cuja origem é social: a noção de lei. T. O homem desta época vivia em uma comunidade autárquica e sagrada que configurava o microcosmo. 10 18 . Portugal: Instituto de Novas Profissões. a mudança.apreensão das suas relações segundo a natureza das relações entre os homens”. ambos intitulados Acerca da Natureza. uma grande comunidade sujeita a uma lei ordenadora. o que justifica a necessidade de buscar um elemento primordial que permanecesse sempre o mesmo. Podemos entender por nomos a idéia de ordem da pólis. Cada cidade apresentava independência jurídico-política.

Deste modo. embora nem todos a revelem em sua conduta. a multiplicação de um número ímpar (3) por ele mesmo alcançaria o número 9. Os pitagóricos foram os primeiros a organizar uma teoria da justiça no interior de sua doutrina dos números. Este logos seria o responsável pela harmonia invisível entre os opostos. forçavam o Sol a voltar à órbita se acaso se afastassem. a justiça é luta. Todos os homens participam dessa ordem. transposta para a esfera humana. Todavia esse perpétuo fluir é presidido por uma lei eterna e universal. a lei estende-se sem alteração. Como concebeu a realidade em perpétuo devir. A justiça nessa concepção funda-se na ordem natural presidida pelo número. Pitágoras antecipa também a relação entre Filosofia e política.não é. Esta igualdade aparece como elemento essencial da justiça. 19 . Sabe-se que Pitágoras e Heráclito apresentaram considerações mais explícitas sobre a vida social. conceberam os números como essência das coisas e expressão de harmonia e regularidade no sentido específico de totalidade ordenada. Heráclito evoca as Erínias. o amor e o ódio enquanto forças originais fazem e desfazem as coisas. afirmou ainda que o devir nasce dos contrastes e que este surge da luta. Empédocles usa a idéia de justiça para tentar uma explicação do universo. Essa harmonia. porque a multiplicação de um número par (2) por ele mesmo daria 4.princípio estático que assegura a imutabilidade do ser que ele afirma com vigor: o ser é e o não ser . Cresce o interesse pela vida humana e individual e a Filosofia se configura na possibilidade de uma purificação interior. Simbolizavam a justiça nos números 4 e 9. assume o sentido de uma correlação de condutas. o logos. Por analogia o logos estaria oferecendo ao homem a norma para a ação correta. Esta unidade realizada pelo logos manifesta-se no fogo. Essa lei única e divina alimenta a 12 12 Trata-se de uma das fontes do idealismo ético de Platão. que segundo a narrativa mítica. Com Pitágoras ganha relevo a preocupação ética e religiosa. Os pitagóricos formularam uma definição de justiça como “aquilo que alguém sofre por algo” – a justiça como uma relação aritmética de igualdade entre dois termos. personagens da mitologia que eram servidoras de Dike. Heráclito de Éfeso associa justiça e ordem universal.

anunciou em suas Elegias o conceito de eunomia. superou o sentido de autoridade expresso nos poemas homéricos enquanto sentido da justiça. Ao apresentar esse conflito.lei humana.89. No âmbito literário. VII e VI a. Na fase présocrática houve. Este conflito constitui o núcleo dramático da tragédia Antígona. Sólon. Sólon fustigou a hybris como a máxima negação da ordem. conferindo o seu sentido de sagrado e justificando qualquer sacrifício em seu nome. 13 20 . ou seja.C. T. legislador e poeta. História da Filosofia do Direito e do Estado. Sabe-se que a idéia de igualdade na reciprocidade. a ordem equilibrada. 1985. o que configuraria o que ele entendeu por eunomia. fundada na justiça. Esse predomínio da concepção de Hesíodo aconteceu por ocasião de profundas transformações políticas e sociais nos séc. A lei representa o equilíbrio e a hybris a desmedida. de SERRA. A negação da lei deve ser resolvida com uma sanção conforme o princípio que conhecemos pelo nome de talião: “quem praticou a violência sofrerá violência” (Ésquilo. A cidade deve ser comum a todos e todos devem se interessar por sua conservação. Importa perceber que a moralidade. A. Resgatar o equilíbrio entre o crime e o castigo é função da pólis. Portugal: Instituto de Novas Profissões. A idéia de retribuição está fundada na mais antiga tradição e configura uma legalidade cósmica que para os homens assumia o caráter de férreo destino. um jusnaturalismo cosmológico de cunho panteísta. Sófocles conduz-nos. p. Sófocles acrescenta um problema novo: o do antagonismo entre as leis humanas e as leis divinas. portanto. fundamenta-se numa lei natural. Agamémnon). apresentada na narrativa hesiódica. 13 Essa filosofia natural pré-socrática conferiu validade à concepção helênica de justo percebida em Hesíodo e Homero. tanto para os pitagóricos quanto para Heráclito. Sólon observou a necessidade de homogeneidade social que excluiria as desigualdades excessivas. foram os os poetas trágicos como Ésquilo e Sófocles herdeiros dessa concepção de justiça pré-socrática. que conduziu às codificações e destacou a figura de Sólon.

nesse sentido. à filosofia jurídica da sofística. sua meta era a eutimia que significava um estado de alma sereno e alegre. móveis no vazio. Essa concepção não se estendia ao âmbito político. Este pensador nos conduz à problemática da sofística. Sabemos que Demócrito professou um materialismo mecanicista que considerava os átomos. pois compreendia que a prosperidade do indivíduo está vinculada à vida na pólis. de tranqüilidade e equilíbrio. ou seja. 14 Heródoto de Halicarnasso transpôs para o âmbito da história a concepção de justiça oferecida pela tradição. Sua ética apresenta o que podemos denominar de hedonismo esclarecido. ou filósofos da physis. embora apresente a advertência que a obra humana também poderá gerar um grande mal. a relatividade dos costumes. Trata-se de uma concepção religiosa de justiça em que os deuses ansiosos por justiça procuram manter os homens longe da demasia e dos excessos do orgulho. Daí preocupar-se com questões sobre o bom governo e sobre normas. Segundo Aristóteles. A tradição atribui a Leucipo a inspiração deste pensamento que a rigor despoja o universo de qualquer concepção divina. A importância de mencioná-lo separado dos demais é que ele inaugura o que denominamos de período sistemático da filosofia helênica que. Como Sócrates. na preeminência da alma sobre os sentidos. Esse pensador considerado o “pai da história” apresenta um novo problema: a diversidade das convicções e instituições humanas.certo modo. Demócrito inclina- Chamo a atenção para um ponto interessante: a figura do coro na tragédia Antígona desvela certo vestígio da antropologia sofística que exalta o homem e suas obras.C. 14 21 . longe da desmedida. Um estudo através dos fragmentos deste pensador nos permite perceber que sua ética apresenta um desenvolvimento independente de sua filosofia natural. porque acreditava que tais coisas perturbavam o espírito. por sua vez. combatia o casamento e a paternidade. a não universalidade das leis entre as pólis. os elementos últimos da realidade. Demócrito de Abdera (460-370 a.) foi o último dos pré-socráticos. O seu individualismo se refletia na esfera da família e. culminará no pensamento de Platão e Aristóteles. concebia a felicidade na moderação. todavia reconheça e enfatize o caráter sagrado das leis não escritas. ou seja.

Demokatía poderia significar também constituição. V e poderia significar o povo como um todo. Demokratía é considerada uma palavra ambígua no universo ateniense. Podemos afirmar que os ideais democráticos não eram aceitos por todos. A palavra demokratía somente aparece em Histórias de Heródoto e na Constituição de Atenas de Xenofonte. Tradicionalmente. igualdade perante a lei. outros pretendiam uma volta à forma oferecida por Clístenes e alguns defendiam ferozmente uma oligarquia. mas observa-se que a palavra democracia foi inventada tardiamente. entendido como isonomia. comentamos que Clístenes desenvolveu um sistema de democracia. ou ainda uma denominação dada a pequenas áreas dentro da pólis (espécie de divisão em bairros ou comunidades). a partir de um equivalente poético: demou kratousa kheir. Demokratía poderia ser vista como o governo do povo como um todo ou. o conjunto dos cidadãos adultos do sexo masculino. ou seja. literalmente krátos significa poder soberano do demos. ou o próprio povo de Atenas na ekklesía. 6 . sabe-se que esteve presente pelo menos por dois séculos de existência (508 a 322) no mundo grego ateniense. A teoria democrática tal como se configurou em Atenas viu-se diante da tarefa de 22 .se para uma aristocracia vinculada ao conceito de sabedoria: em seu modo de ver os melhores deveriam governar. a maioria pobre do corpo dos cidadãos. todavia acredita-se em certa aparição indireta ou virtual. Demos tinha acepções diversas na Atenas do séc. As fontes fidedignas não revelam quem inventou a palavra demokatía ou quando começou a ser efetivamente utilizada.Democracia ateniense A democracia ateniense não foi obra de um único homem.C. na tragédia A suplicante. Muitos dos seus opositores defendiam um retorno ao sentido de democracia de Sólon. grego. havia inúmeros adversários. em 508-7. que significa “a mão soberana do demos”. entendase aqui Clístenes. aproximadamente em 420 a. registrada em Ésquilo. para um opositor. como o governo das pessoas comuns que estabelecem uma ditadura da maioria sobre os melhores cidadãos. ou melhor.

Os cidadãos de mais de dezoito anos que estivessem inscritos nos registros do seu demo (comunidade) poderiam integrar a ekklesia. 15 23 . Duas instituições eram fundamentais para configurar a imediatez dos procedimentos políticos de Atenas: a ekklesia (Assembléia) e a boulé (conselho dos 500) com seu subcomitê de prutáneis (presidentes). pronunciavam maldições contra traidores e. incentivador da democracia e do imperialismo ateniense. Se constatado a relevância do problema os prutáneis convocavam uma reunião plenária da boulé dos 500 e. Tal função foi posteriormente delegada a um órgão menor de legisladores (nomothétai). A democracia ateniense difere da nossa democracia representativa. visto que esse sistema aperfeiçoou-se ao longo do tempo. A palavra ekklesia significa literalmente: “um grupo que é chamado” e que se reunia em uma colina chamada Pnix a sudoeste da agorá que era o centro cívico de Atenas. 1997. JONES. A primeira reunião era denominada de ekklesia soberana (Kúria). Cada participante era inicialmente verificado. elaboradas por O período mais conhecido ou famoso da demokratía ateniense é o da segunda metade do século V. A democracia descrita por Aristóteles na obra Constituição de Atenas (Athenaion Politeía) não é. convocar-se-ía a ekklesia. De acordo com os relatos de Aristóteles. em seguida iniciavam as oferendas de purificação. como também legislava. órgão encarregado da tomada de decisões da democracia direta ateniense. se necessário. Este órgão não só deliberava sobre as políticas a serem seguidas. todavia as fontes disponíveis que tratam do tema remontam ao século IV. o que compromete seu estudo. sobretudo em face das críticas Aristóteles na obra Política. Peter (org) O mundo de Atenas. a partir de então. na década de 320 a ekklesia realizava quatro reuniões fixas em cada um dos meses que constituíam os dez meses civis. O assunto principal era a política externa.uma reconstrução. por volta de 403 a. todos os problemas de Estado eram observados primeiramente pelos cinqüenta prutáneis que viviam em constante vigilância. a democracia de Péricles15. Segundo especialistas. portanto. São Paulo: Martins Fontes. Péricles: estadista e general.C. as decisões eram tomadas e executadas diretamente pelos cidadãos de Atenas. Uma introdução à cultura clássica ateniense.

Peter (org) O mundo de Atenas. Acreditam alguns historiadores que a população de cidadãos de Atenas flutuava em torno de 20 ou 50 mil pessoas. Nesse sentido. Em Atenas. 16 . Foi JONES. “o condutor do demos“ thesmothétai. no séc. Alguns desses oradores foram também denominados de demagogós que significa literalmente. A ekklesia exigia qualidades especiais em seus oradores que lançavam mão da persuasão para obter êxito em relação aos seus interesses. seis funcionários. Os cidadãos que falam à tribuna eram denominados de rhetores. na antiga Grécia não havia a separação dos poderes. p.começavam as sessões. oradores ou ainda politeuómenoi. Essa habilidade imperiosa para o cidadão ateniense proporcionou um grande desenvolvimento da educação sofística. Os rhetores falavam na ekklesia na qualidade de líderes de pequenos grupos de políticos ou pessoas com idéias parecidas (não confundir com o que chamamos hodiernamente de partidos políticos). 1997. Sabe-se que uma reunião ordinária durava menos do que um dia. Eram agrupamentos informais. Por razões não difíceis de compreender. ou melhor. mas que pelo menos 5 mil efetivamente participavam da ekklesia. Outro fator importante a ser destacado é que na prática nem todos os cidadãos participavam da ekklesia ou poderiam subir à tribuna. onde aquele que expressava com maior clareza suas idéias. entre 400 e 330 a Pnix sofreu reformas para acomodar um número cada vez crescente de cidadãos alcançando o quorum de 13 mil participantes. Tanto o local não comportava um grande número de cidadãos como muitos não se sentiam atraídos pelo debate ou ainda viviam desmotivados pela longa distância que teriam que percorrer dos demos até a Pnix. 16 24 . Uma introdução à cultura clássica ateniense. São Paulo: Martins Fontes. ou seja. democracia ateniense implicava A condução da justiça em Atenas era responsabilidade dos A também uma grande participação do cidadão nos tribunais.210. os políticos. freqüentemente tornava-se o porta-voz. IV introduziram uma espécie de pagamento para compensar o comparecimento que implicava perda de horas de trabalho.

graphé. A graphé paranómom substituiu o ostracismo que foi abandonado por volta de 416. As vespas (422) de Aristófanes que constitui uma sátira sobre os tribunais. todos os tribunais do júri passaram a figurar como Eliaia. Se um orador na ekklesia apresentasse uma proposta inconstitucional. Também foi utilizada na competição pelo sucesso político. ao orador Cf. denominado de Eliaia. mais tarde no séc. Rumores de subversão e problemas de desafeto político também possibilitariam uma graphé. ressaltou que o cidadão de uma democracia não só participava da boulé e ekklesia. Observa Peter V.501 membros e. Observa-se ainda a inexistência de um órgão que funcionasse como a promotoria pública ou uma força policial específica. configuraria um caso público para quem quisesse salvaguardar a democracia. Os dikastai eram pagos por cada dia de sessão. Uma vez emitida a intimação. embora houvesse a distinção entre casos públicos e casos particulares. 17 18 25 . Nos casos públicos a iniciativa ficava a cargo de quem quisesse emitir uma intimação. Jones. O primeiro uso da graphé paranómom foi verificado em 415. mas como primeira instância. pois não havia juízes no sentido moderno.Aristóteles em sua obra Política que participava nos tribunais. por exemplo. Após 462-61. Tais tribunais eram constituídos por jurados em um número que poderia variar entre 201 a 2. momento em que houve rumores de subversão. intimação por escrito. IV. O homicídio. mas “jurados” que eram ao mesmo tempo juízes. Sabe-se que o júri era escolhido de acordo com a necessidade a partir de uma lista anual de 6 mil jurados e. O procedimento específico desses órgãos ficava a cargo da iniciativa particular. na obra supramencionada que o termo “jurado” é um termo inapropriado para designar os dikastai. era considerado como díke por prejudicar o papel da família. Muitas vezes a ekklesia funcionava como tribunal. também foram chamados de dikastéria. não só como fase recursal. eram escolhidos dentre os que se ofereciam para tal. como também. O surgimento de um tribunal popular como recurso contra as decisões das autoridades se deu com Sólon em 594. Cf. nesse sentido. pagamento que fora introduzido por Péricles. Neste último somente a parte ofendida poderia mover a ação que por sua vez era denominada de díke. 17 Podese presumir que o cidadão que comparecia para ser “jurado” era o mesmo que tinha o hábito de comparecer às ekklesias. graphé paranómom18.

Não havia advogados. Segundo os historiadores. Ambas as partes concordavam com a participação de árbitros particulares e se comprometiam a aceitar as decisões. esta ficaria suspensa até o julgamento e. o que contribuiu como argumento válido para a limitação de testemunhos considerados pouco . o povo como jurado julgava o próprio povo na ekklesia o que desvela. As testemunhas embora fundamentais não eram ouvidas pelas duas partes e os jurados reagiam conforme suas emoções e preconceitos morais. Se tal método não fosse eficaz.com proposta de lei inconstitucional. o princípio da responsabilidade democrática alcançando a todos. percebemos as peculiaridades do tribunal ateniense. Na data prevista tal conselho decidia sobre a possibilidade ou não do processo. procedia-se a uma intimação. A parte ofendida se dirigia à agorá e verificava se as leis que lá estavam expostas apoiavam seus interesses e qual o procedimento adequado à sua causa. Peter (org) O mundo de Atenas. Em Atenas. IV havia o recurso da arbitragem. Na verdade. pagaria uma multa e seu projeto seria imediatamente cancelado. sem regras para apresentação de provas e sem juiz. as partes poderiam invocar a arbitragem a qualquer tempo em um processo civil. O testemunho de escravos somente poderia ser aceito se obtido sob tortura. Se viável. o escravo era tido como um bem familiar valioso para o senhor que preferia confiáveis. o réu comunicado perante testemunhas deveria apresentar-se ao árkhon. conselho judiciário em dia estabelecido. sendo considerado culpado. São Paulo: Martins Fontes. a queixa era registrada por escrito e ambas as partes depositavam um sinal referente as custas que o perdedor pagava por inteiro após o julgamento. porque eram considerados objetos sem alma. Sabe-se que no séc. Inicialmente. Na obra Apologia de Sócrates que narra a versão platônica sobre o julgamento de Sócrates condenado à morte em 399. 224. Os jurados votavam imediatamente após a fala dos querelantes. em certo sentido. sem fazer uso de recintos reservados ou de conselhos de juiz. coisas. a intimação era feita verbalmente. O conselho judiciário fixava um dia JONES. 26 não submetê-lo a qualquer tortura. os querelantes falavam em causa própria. 1997. p. Uma introdução à cultura clássica ateniense.

a privação absoluta dos direitos civis: falar na ekklesia.C. nesse sentido.. Uma introdução à cultura clássica ateniense. o que ressalta o sentido democrático na oportunidade de ocupar cargos públicos por turnos. a retórica. Atenas tinha um grande número de funcionários com mandatos anuais. No caso de uma dike a aplicação da sentença era função do ofendido. participar nos tribunais. propriedades ou o exílio. a perda dos direitos civis era de caráter perpétuo. A recusa repetida a fazer um acerto ou acordo poderia ensejar mais processos e até mesmo a perda dos direitos civis (atímia). Os julgamentos em uma graphé e as sentenças de morte proferidas eram atribuições de funcionários da cidade. Em geral. A sua envolve a matemática. Peter (org) O mundo de Atenas. Segundo Aristóteles. sobretudo nos casos considerados particularmente graves e era até mesmo dirigida aos descendentes. escultura e arquitetura).231-2. a lógica e as artes (poesia. JONES. a história. pp. 19 Enfim. V. entrar nos templos e na agorá. A situação de atimía equivalia a estar fora da lei e.para a audiência e determinava que uma cópia da queixa fosse exposta publicamente na agorá. na segunda metade do séc. em 415 a. a ética. 19 Cf. no sentido moderno do termo. integrar a boulé. Segundo seus relatos. 27 . embora a cidade não possuísse uma burocracia. Peter V. antes. Se o condenado se recusasse a pagar a quantia estipulada. São Paulo: Martins Fontes. Jones nos relata um caso curioso. o de Andócides. porém equiparava-se à morte no sentido político. importância Atenas foi a pólis grega que mais contribuiu intelectualmente para o desenvolvimento das ciências e artes. o homem na condição de átimos poderia ser morto ou roubado sem ter A atimía não acarretava a perda das direito à reparação legal. Atenas contava com setecentos funcionários. 1997. a política. que sofreu a perda parcial dos direitos civis por se envolver na profanação dos Mistérios de Elêusis. a lingüística. o querelante vencedor poderia apossar-se de suas propriedades no valor referente à quantia imposta. tal sentença foi revogada por ocasião de uma anistia geral extraordinária concedida em 403.

é o costume. conferindo maior importância à argumentação . seu inimigo declarado. 7 . Tais homens causaram receio e escândalo que se refletiram nas comédias de Aristófanes e nos diálogos de Platão. resta-nos a máxima prudência possível ao tentar compreendê-los. ou seja. 28 . certo ou errado. Eles observavam a diversidade cultural de sua época e percebiam a mudança na esfera das instituições. Todas as informações que temos dos sofistas foram obtidas através dos diálogos de Platão.Seus pensadores desenvolveram teorias que permaneceram válidas durante milhares de anos e algumas perduram até hoje. Atacavam o aspecto sagrado da tradição helênica. Esta cidadeestado experimentou um verdadeiro entrecruzamento de pensamentos filosóficos que contribuiu para a passagem do período cosmológico para a fase antropológica. vinculado à vontade dos homens. pois a tendência à retórica baseava-se em certo racionalismo e um espírito crítico que calcava aos pés a tradição helênica. Estes senhores cultivaram a retórica. A lei e os costumes assumiam um caráter essencialmente humano. A sofística se tornara uma exigência da própria democracia ateniense: formar cidadãos capazes de brilhar nas assembléias. Muitos estudiosos denominaram esta fase como o Iluminismo grego. o estabelece o que é justo ou injusto.A Sofística e Sócrates O século V vivenciou um esplêndido apogeu cultural na cidade de Atenas. Nesse sentido. Foi nesse contexto que surgiram os sofistas. convencional. Mas o que fizeram tais homens? Os sofistas freqüentemente criticavam o fundamento que conferia validade às leis e costumes da tradição. Ressaltaram arbítrio dos homens que a contraposição entre o natural e o convencional. além de não constituir uma unidade sistemática.a arte de convencer por meio do discurso em detrimento da busca pela Verdade. O único estudo da sofística repousa na existência de alguns fragmentos ou fontes indiretas. Nos diálogos de Platão os sofistas figuram como os interlocutores de Sócrates. considerada a capital intelectual do mundo helênico.

Assim como nos pensadores jônicos, o ponto de partida dos sofistas foi o movimento e a procura de uma realidade única capaz de permanecer idêntica a si mesma. Nesse sentido, surgiu com os sofistas a dicotomia natureza (physis) e lei (nomos) ou convenção. A moralidade passa a estar desligada da ordem natural e o interesse pela conveniência assume o status de pilares da vida social. Trasímaco da Calcedônia que figura como personagem na República, livro I, afirmava que a origem do nomos estaria no interesse, interesse do mais forte. Cada governo promulga leis que lhe são favoráveis. O justo é o que interessa ao governo estabelecido. (Trasímaco pretende descrever aquilo que de fato acontecia) Cálicles, personagem do diálogo Górgias de Platão, concebe o nomos como estabelecido em benefício da massa dos fracos como um limite ao excesso de superioridade dos mais fortes. Cálicles confundia os mais fortes com os melhores. Em seu modo de ver, a injustiça consistiria em alguém se destacar dos demais. Há na sua doutrina uma clara oposição entre um estado de natureza e o estado civil, regido por um direito positivo que limita a liberdade natural. O seu conceito de natureza se reduz aos instintos irracionais primitivos e espontâneos no homem. A oposição entre natureza e convenção criou as condições de possibilidades para uma crítica das instituições positivas. Nesse sentido, atacaram os privilégios de cidadania e de classe, a escravidão, a subordinação da mulher ao marido20 e a discriminação entre gregos e bárbaros. Sabe-se que um sofista chamado Antifonte, escrevera a obra Sobre a Verdade da qual restou apenas um fragmento, afirmava a igualdade natural de todos os homens, asseverando que as leis estabelecidas pelos homens eram leis contrárias à natureza que, na verdade, deveriam conduzir a um igualitarismo democrático. Em outro tratado atribuído a Antifonte, Sobre a Concórdia, os fragmentos que se conservaram afirmavam a obediência às leis fundamentadas em um egoísmo enraizado numa educação criadora de hábitos socialmente aceitos.
Os defensores de certo feminismo foram ridicularizados por Aristófanes na obra O congresso das mulheres.
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Crítias, parente de Platão e que fora membro do governo tirânico dos Trinta em Atenas, atribuiu a uma argúcia a origem da obediência às leis e a crença nos deuses. No seu modo de ver como um crime só pode ser punido se a infração for conhecida, o homem teria inventado um ser divino que tudo vê, conhecedor das infrações mais ocultas. Outro sofista importante foi Protágoras de Abdera que, ao lado de Górgias de Leontini, figura como um dos mais antigos representantes da sofística. Sabe-se que Protágoras fora amigo de Péricles e que recebera deste a tarefa de elaborar a redação das leis da colônia ateniense de Turioi, no Sul da Itália, por volta de 444 ou 443 a.C. Observa-se também que Platão tratou-o de forma diferenciada. No mito platônico, Protágoras fundamenta a coesão social nas virtudes do pudor e da justiça, ofertadas aos homens por Zeus. Como os homens viviam em incessantes lutas, Zeus concedeu o dom que iria permitir a edificação das cidades. Esse mito retrata o problema do desenvolvimento das aptidões sociais a partir de uma dura e lenta aquisição do gênero humano prevalecendo sobre as tendências egoístas. Para Protágoras quem não possuir as duas virtudes mencionadas deveria ser eliminado da sociedade, justificando desse modo a supressão dos insociáveis mediante uma teoria da pena como função intimidatória em nome da defesa social. Há a crença numa virtude social média que o esforço pedagógico seria capaz de aperfeiçoar – certo otimismo antropológico. Neste sofista encontramos um relativismo ético que converte em regra desejável a utilidade social. Protágoras transforma o nomos em conseqüência de um acordo de todos os membros da sociedade. O justo será o conveniente em cada caso, desvelando assim, certo pragmatismo. Protágoras configurou também o momento de um relativismo gnosiológico expresso em sua mais famosa frase: “o homem é a medida de todas as coisas: das que são enquanto são; das que não são, enquanto não são”. A sofística contribuiu para a reflexão filosófica na medida em que estimulou os debates sobre os valores partilhados e introduziu novas à formulação de estudiosos do
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idéias. O racionalismo que marca suas considerações críticas inspirou projetos de reformas institucionais que conduziram constituições supostamente perfeitas. Para alguns

helenismo, esse teria sido o momento do surgimento de um gênero literário que para outros só aconteceria muito mais tarde: a utopia. As duas primeiras utopias seriam as de Hipodamo de Mileto e de Fáleas da Calcedônia que foram analisadas por Aristóteles no livro II da Política. A diversidade nas instituições que inspirara os sofistas contribuiu para o surgimento de várias formas de governo. A pólis era a maneira comum de organização, mas o regime variava conforme os indivíduos ou grupos que detinham o poder. Os gregos denominaram de tiranos, os homens que alcançavam o poder de forma irregular, a palavra não tinha o sentido pejorativo que atribuímos. O mundo grego vivenciou a monarquia, o surgimento de uma classe média com a passagem de uma economia natural para uma de cunho mercantil, oligarquias, tiranias e democracia direta que desembocou em demagogia. Heródoto, no livro III, de sua obra História, oferece-nos uma ficção em que há uma séria discussão sobre as diversas formas políticas de governo. Heródoto as observa e as classifica de acordo com o exercício do poder: monarquia, o poder supremo pertence a um indivíduo; oligarquia, o poder pertence a um grupo reduzido de homens que receberam uma educação específica; isonomia, que pertence ao conjunto dos cidadãos, o demos. Esta classificação será sistematicamente observada por Platão, no diálogo O Político e, em Aristóteles, na obra Política. Na época que estamos a considerar dois nomes são importantes para o debate sobre as formas de governo: Isócrates e Demóstenes. Ambos trataram de um problema fundamental à Democracia: a chefia nesse regime democrático. Combateram a demagogia e a corrupção dos tribunais populares. A despeito dos vícios desse regime Demóstenes o considerava o único legítimo. Já Isócrates21 propôs uma reforma que significaria a substituição de uma democracia direta por uma indireta e, nesse sentido, os melhores estariam encarregados da gestão dos negócios públicos. Foi este pensador que distinguiu o sentido de justiça de “dar a cada um o que merece” do sentido “dar a todos o mesmo sem discriminação”. Mais tarde na obra Panegírio de Atenas (380 a.C.)
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Na obra Areopagítico(354 a.C.) e Panatenaico(340 a.C.) 31

observa a necessidade de substituir a obediência cega ao nomos por uma explicação racional convincente.) Este pensador. porém prioriza a clareza nos conceitos. Críton. República dos Lecedemônios. descobrindo seus diferentes aspectos até desnudar a superficialidade e imprecisão de certas opiniões ou juízos proferidos pelo senso comum acerca de tal objeto – Xenofonte(ca. O que se deve advertir é que se torna recomendável comparar a figura de Sócrates traçada por Platão e a apresentada por Xenofonte22. 22 32 . Ciropédia e Econômico.C. Os diálogos platônicos considerados pela tradição como “diálogos socráticos”. Górgias e o livro I da República. Sócrates. 8 . isso se deu de tal forma que muitas vezes uma linha tênue separa o homem lendário do histórico. República de Atenas. a simplicidade na exposição e. tornou-se o ponto de partida de várias correntes doutrinárias. introduz os temas mediante o uso de perguntas e respostas que vão pouco a pouco rodeando o objeto.ressaltou a problemática da política externa e apresentou a idéia de uma confederação pan-helênica que pusesse fim a atomização política da Grécia. não se preocupa com grandes discursos. Eutífron. além das referências feitas por Aristóteles.430-354 a.) – suas obras foram conservadas na íntegra: Hierão. ou seja.C. Sócrates nada escreveu. Sócrates se tornou a figura mais significativa da Filosofia Antiga e. contemporâneo e opositor mais importante dos sofistas. são: Apologia de Sócrates. orienta sua investigação para os problemas humanos. mas enquanto personagem platônico expressou o pensamento de seu discípulo e supostamente o seu próprio de forma que não fica claro a diferença entre o pensamento de um e o do outro.Sócrates (469-399 a. Difere dos sofistas quanto ao método. Pode-se acreditar que Isócrates tenha pressentido a possibilidade da caducidade da pólis grega em face da era dos grandes impérios do período helenístico e romano. Protágoras. assim como os sofistas. Foram considerados como socráticos porque os diálogos posteriores apresentam mais acentuadamente a personalidade de Platão. Na verdade. antes. Sua existência nos foi transmitida por Platão ao colocá-lo como personagem principal em vários de seus diálogos.

É a pólis que torna possível a vida do cidadão. no interior de uma ética comprometida com o aperfeiçoamento da alma humana. nesse sentido. pois acreditava que todos poderiam conhecer a verdade se interrogassem a si mesmos e comparassem seus juízos com os dos demais. Sócrates ensinava que as leis eram necessárias e correspondiam a uma exigência da natureza humana. Mas essa desobediência não pode ir ao extremo de pôr em perigo os alicerces da 23 Cf. ofereceu resistência passiva a uma ordem injusta. portanto a figura do homem insubornável. o papel de tornar possível essa perfeição. Nesse sentido. Também se opusera a um acordo ilegal feito em assembléia popular. se por uma fatalidade a cometeu. Podemos dizer que o seu método o conduziu a um intelectualismo ético. A Filosofia assume. logo há um acordo tácito pelo qual o cidadão deve a sua obediência. No âmbito da filosofia político-jurídica. Seu método enfatiza a necessidade de definições rigorosamente formuladas. a temperança e a justiça são condições indispensáveis para a maior felicidade humana. Sócrates personifica. porque a verdade nasce no interior desse diálogo. Sócrates se opõe à tese sofística da moral do mais forte e do relativismo. Esta legitimidade essencial não é destruída por erros acidentais. Quero dizer com isso que para Sócrates a moral se reduziu ao conhecimento do bem. em certa ocasião. a pena figuraria como um remédio para o homem.método maiêutico. A esse respeito cito Truyol y Serra: “Sócrates vê na cidade uma realidade ética. o diálogo Críton. fundamentada na ordem divina das coisas. O próprio Sócrates alega que. ensinando em seu lugar o princípio segundo qual é mais digno sofrer a injustiça do que cometê-la e.23 Faz-se mister ressaltar que essa postura de Sócrates não torna lícitas considerações de que ele teria sido um positivista que tenha separado o Direito da Justiça. o homem pratica o mal por ignorância do bem. portanto. Isto implica dizer que a obediência às leis é um dever sem excusas. sob o governo dos Trinta Tiranos. No seu modo de ver. O conhecimento se torna uma virtude e. 33 . é preferível aceitar a sanção correspondente. cujo espírito prefere demonstrar uma ignorância confessa a apresentar um falso saber.

1997.C. daí a palavra cínicos para os seguidores desta escola. O nome cínico se deve ao fato de que Antístenes ensina junto ao Cinosarges.323 a. Estas leis estariam nas consciências humanas fundamentando sobretudo as leis positivas. sem os quais é inconcebível uma vida humana digna de tal nome”. Resumidamente podemos dizer que a escola cínica é tradicionalmente atribuída a Antístenes (ca.C.ordem social. p. A escola cínica operou uma aproximação do pensamento de Sócrates e dos sofistas. Pórtico do Cão. Sócrates concebia a existência de leis não escritas advindas da vontade reta da Divindade. visto que Antístenes foi discípulo de Górgias antes de seguir Sócrates. seu pensamento tornou-se o ponto de partida de várias escolas. Outro fator importante é a sua oposição ao regime democrático de Atenas. O seu imperativo ético impelia-o à prática do bem. Peter (org) O mundo de Atenas. 111. ou seja. Uma introdução à cultura clássica ateniense. que acreditava na imortalidade da alma e na justiça divina. O cinismo exagerou o aspecto ascético da personalidade de Sócrates.) outros revelam o nome de Diógenes de Sínope (flc. Nos diálogos Apologia de Sócrates e Fédon conhecemos um pouco dessa morte trágica e podemos perceber Sócrates como um verdadeiro homem virtuoso que não fugiu à morte. destaco os Cínicos e os chamados socráticos menores ou Cirenaicos25.24 Ademais. Todavia não ignorava os conflitos que na realidade aconteciam entre ambas. 24 34 . das que podemos chamar de “socráticas” por aproximarem-se de Sócrates no focar dos problemas por este tratado. foi condenado à morte. a jamais retribuir uma injustiça com outra injustiça. Sócrates foi acusado de introduzir novos deuses e de corromper a juventude. pois não compreendia como uma multidão poderia conduzir corretamente os negócios públicos com a devida competência. Foi exatamente sua crítica ao regime democrático em conjunto a um método que denunciava a superficialidade intelectual de alguns homens o que concitou inimigos poderosos. sobretudo de Górgias. Como já pude mencionar. A virtude é convertida na JONES. 25 Os cirenaicos foram assim chamados por ser o seu fundador oriundo da cidade de Cirene. São Paulo: Martins Fontes. 445-365 a.) como primeiro cínico.

antes de se vincular a Sócrates fora discípulo de Protágoras. Negou-se a vida quando esta não poderia oferecer o mínimo de prazer. Aristipo (435-355 a. ou seja. Um pacifismo radical no interior de um cosmopolitismo igualitário. compreendendo este como satisfação de um desejo. Em seu modo de ver a virtude é uma faculdade de gozar e a sabedoria significa saber procurar o prazer. à cidade. A diferença entre os sábios e os ignorantes repousa sobre a capacidade de autodomínio e desapego aos bens materiais.). portanto eram avessos à propriedade. hedone. glorificando o bom-selvagem26. ao nomos etc. Sabe-se que o seu fundador. O sábio cirenaico afasta-se de tudo o que não oferece prazer. o prazer é fugaz. à família. configurando um verdadeiro conformismo. Comentam os estudiosos que esta doutrina veio a cair num pessimismo motivado pela experiência deprimente da fugacidade do prazer.moderação entendida esta como verdadeira negação de necessidades. logo surge a necessidade psicológica da sua repetição que causa com o tempo um amortecimento progressivo. Pregaram uma desvalorização da cultura e. O seu ideal seria um estado de natureza sem convencionalismos. Os socráticos menores ou Cirenaicos partem de um ponto de vista aparentemente oposto ao dos cínicos. apresentando como saída possível o suicídio. Compreenderam que a forma monárquica seria a mais 26 As idéias do cinismo nos fazem lembrar as proferidas por Rousseau sobre o bom-selvagem. sobretudo de uma participação política e social. o desapego do significado da pólis em face de uma concepção cosmopolita. Os cirenaicos identificaram o bem com o prazer. afasta-se. sem intenções de reformas nas instituições.C. Construíram um jusnaturalismo fundado na moral da renúncia. 35 . hegesias. Postula-se a indiferença em relação aos bens externos. Na ética cirenaica abre-se o caminho para o postulado de uma autosuficiência. Compreendiam natureza como o locus de uma espontaneidade sem esforço. Desaconselhavam o casamento em face do amor livre. Percebe-se um vínculo com Sócrates também distante. Conforma-se com o mundo. O conceito central dos cínicos era a auto-suficiência do sábio e a partir desta concepção formularam críticas às instituições e valores sociais.

Eles professavam um moral e jurídico que mais tarde será adotado por Epicuro. nesse sentido. afirmaram que nada é positivismo posterior justo por natureza e. Não conceberam a dicotomia natureza/ norma. O extremo individualismo que surge opera certo desligamento da felicidade em relação à comunidade e em relação à tradicional concepção do homem como bom cidadão.desejável visto não exigir participação do súdito na vida pública. não há outro direito que o direito fruto da vontade humana. O apogeu dessas duas doutrinas que contribuíram para formação do estoicismo e do epicurismo marca a decadência da pólis grega como forma suprema de vida. mas positivo. 36 .

Ocorre o contrário com aquela cujos dirigentes são mais ávidos de poder”. em cujo pórtico figurava: “Não passe destes portões quem não tiver estudado geometria”. ao afirmar a existência de uma ordem moral objetiva de validade absoluta. isto é. A tarefa de desdobrar em vasta síntese o que em Sócrates era apenas gérmen. Nos dizeres de Truyol y Serra: “Sócrates ultrapassou o relativismo e o individualismo dos sofistas. Para Platão a Filosofia adquire a função de crítica dos fundamentos da cultura.C.119. posteriormente.C. livro VII. a verificação se o conhecimento passa pelos sentidos ou pela razão. de Platão) 1 . nos arredores de Atenas. Filho de uma família da aristocracia ateniense que se dedicava à política. A academia de Platão durou cerca de um milênio.Introdução Platão nasceu em 427 ou 428 a.. Por sua vez. a verdade é que é mais bem governada a polis em que aqueles que devem deter o poder são os menos ansiosos de poder. um sistema. Platão tornouse discípulo de Sócrates. não deixou. viria a caber a Platão”.)27 “Mas. foi discípulo de Crátilo que por sua vez foi seguidor de Heráclito e.C. tanto do sentido de política como dos valores e Este texto foi elaborado em conjunto pelos professores Wellington Trotta e Clara Maria C. a possibilidade do conhecimento enquanto realidade. Fundou sua Academia em 387 a. 27 37 .A justiça na concepção de Platão (428 – 347 a.Parte II . (A República. a problemática do conhecimento. 28 Nesse sentido Platão fornece a primeira formulação clássica da Filosofia. ocasionalmente antinômicos do seu ensino. A obra desse filósofo é uma longa reflexão sobre a decadência dos costumes atenienses. as escolas socráticas limitaram-se a destacar unilateralmente aspectos. 28 P. que desenvolvesse os seus postulados. apesar de tudo.C. Brum de Oliveira. Para isso tem por preocupação o método na relação direta se é possível o conhecimento. o mundo sensível e o mundo inteligível como objetos de conhecimento. até o momento em que Justiniano a dissolveu em 529 d.

isso a partir da aplicação do método socrático (maiêutica). para Platão. Por isso afirma-se que o pensamento platônico é essencialmente político. sendo assim. A partir desse princípio. a essência é a-histórica. em que o conhecimento é superficial. O mito exerce função importante em seus diálogos. ou seja. perecíveis. isso considerando a tradição em que ele se situa e a crise política de seu tempo. fonte de sua dialética. imediato e incompleto. Quando pretendemos conhecer algo. De outro lado. Mundo este que denominou de mundo das sombras. 120).ideais (modelo). comprazendo-se no símbolo e na fábula” (Truyol y Serra. perfeitas. contexto histórico que condenou seu mestre Sócrates à morte. imperfeitos. o de levar seu interlocutor. através da dialética (da discussão). E partindo desse princípio Platão concebeu o mundo em uma realidade dualista: de um lado. Platão em suas reflexões analisa as estruturas múltiplas de sua cidade e suas respectivas interferências na vida dos homens. qual a função do mito no pensamento platônico? “O eros filosófico de Platão voa jubilosamente nas asas do mito. mutáveis. A essência possui existência prévia aos objetos. inteligíveis. ou seja. Tratase de um discurso indireto. No processo de buscar a essência pelo método da discussão. coisas e idéias complexas. Nesse mundo inteligível encontramos as idéias (formas puras) das coisas. enriquecido com símbolos para ajudar na compreensão dos objetos. Platão apela para o mito como recurso. E. a dar luz às idéias. imutáveis. concretos. eternas. concebeu o que chamou de mundo inteligível ou mundo das idéias com realidades abstratas. portanto. a natureza essencial das coisas. descobrimos a 38 . Percebe-se então que Platão abraça o problema socrático da superação do cepticismo gnosiológico (impossibilidade do conhecimento) dos sofistas. Tal análise é realizada por meio do diálogo. trata-se de uma forma permanente na qual persiste às mudanças. uma vez que a tradição mitológica mantém-se como referência cultural importante. o mundo material visível com objetos particulares. uma vez que aprender é recordar as formas puras contempladas pela alma quando livre do corpo. cuja função seria denunciar a fragilidade e a ausência de fundamentos das opiniões dos homens. O papel do filósofo seria.

classe ou função. A prática filosófica envolve assim. É por isso que os sentidos não oferecem a possibilidade do conhecimento verdadeiro e sim aparências enganosas. 1993: 30). independente de origem. as idéias (formas puras) constituem a verdadeira realidade e na sua hierarquia. estabelecendo o que deve ser aceito por todos. A República (Politeia). a mera opinião para um reexame crítico. constitui o eixo em torno do qual gira a sua especulação filosófica. O ponto de partida é o senso comum. coroa-se a idéia do Bem. O seu programa visava instaurar uma política fundamentada no saber. Em contrapartida as coisas singulares que existem no mundo são sombras das idéias que configuram formas primordiais ou arquétipos eternos. É isso que significa a universalidade da razão. A esse respeito o próprio Platão comenta que: “A Filosofia corresponderia a um método para se atingir o ideal em todas as áreas pela superação do senso comum. o abandono do mundo sensível e a busca do mundo das idéias” (A República. o Político (Politikós) e As Leis (Nomoi) são diálogos que nos oferecem a medida da importância da filosofia políticojurídica no pensamento de Platão. Cap. Essa relação hierárquica influenciará seu pensamento político e diretamente suas construções éticas. em certo sentido. o que nos revela a sua Carta VII. da melhor forma de vida em comunidade. O fim supremo do homem é realizar. Esta famosa epístola descreve o processo da vocação político–filosófica de Platão e sua desilusão com a vida pública. por injustiças e corrupções. apenas doxa. o quanto possível. Seu projeto configurava uma concepção pedagógica da 39 . Portanto. vencendo os sentidos por intermédio de uma vida virtuosa fundada no autêntico saber. porque essa hierarquia ontológica existe também na esfera axiológica conseqüentemente. A realidade política de Atenas marcada pelas particularidades. VI e VII). o Bem. O tema da justiça.essência imutável deste algo que está sendo investigado (Manfredo. Importa subordinar os sentidos à razão. visto que os homens públicos são dominados pelos interesses particulares. Platão compreendeu a corrupção como um dos fenômenos de sua época e acreditou que a Filosofia poderia resgatar a ordem e a justiça nas relações sociais. o fez desistir de ingressar na vida pública.

o fundamento da polis. Já a parte da concupiscência está relacionada ao sentido das necessidades elementares. pois de fato suas implicações logicamente que obrigam a criação de uma identidade cultural. isto é. A relevância da educação no pensamento de Platão é outra marca de seu pensamento. A obra a República contempla a idéia de uma comunidade alternativa àquelas existentes. portanto política no sentido de unidade comunitária. As duas dimensões da parte irracional da alma devem se submeter à parte racional através da virtude da temperança ou moderação. Para Platão sua carência propicia a degeneração dos regimes políticos. Para ele uma sociedade deveria ser edificada a partir de laços integrativos. na concepção grega um quanto de harmonia. a razão é a medida de tudo que possa ser perceptível pela inteligência e. a mesma se divide em uma parte racional. A parte irascível corresponde à fortaleza e coragem que permitem seguir os imperativos da razão. Como o sentido da educação é comunitário e a política visa por meio daquela estabelecer laços integrativos no interior da polis. A obediência às leis configura. capaz de estabelecer o que convém a cada um.Relação entre alma e cidade: o governo da razão Na República. Platão concebe a alma como tripartite. Para tanto destaca a importância da educação. ou seja. 40 . Estabelecendo uma analogia da alma com a cidade. 3 . Platão apresenta o que podemos chamar de concepção organicista de sociedade. a justiça afigura-se como a virtude suprema do cidadão.comunidade. Com tais virtudes surge a virtude da justiça que estabelece o equilíbrio de cada uma das faculdades em seu âmbito próprio e função específica. Nessa perspectiva Platão é o primeiro pensador a defender o caráter público da educação. e outra irracional que. ao seu turno se subdivide em irascível (impulsos e afetos) e concupiscente (necessidades elementares). nesse contexto. entregando ao poder público comunitário a responsabilidade de sua execução. Partindo dessa premissa temos que compreender o paralelo que estabeleceu entre a tripartição da alma e a sua teoria da polis. livro IV. como ordem do cosmos. A parte racional é regida pela sabedoria ou prudência.

Assim como na alma. Faz-se mister ressaltar que as classes da República não se baseiam em uma ordem hereditária. a terceira e última dos artesãos (artífices). comerciantes.A Cidade constaria de três classes diferenciadas por suas funções próprias. não seria necessário o direito positivo. Esta existe para tornar possível a vida humana. Destarte o horizonte do indivíduo seria o horizonte do cidadão. O seu pensamento político inspirou-se no postulado segundo o qual a parte se subordina ao todo. Na cidade platônica. desenvolvidas pela cidade através do processo educacional orgânico-administrado. pois os magistrados deveriam decidir. agricultores e aqueles que constituiriam a base econômica da cidade. Há uma divisão de trabalho que permite coordenar as diversas aptidões visando o bem comum. a segunda dos guerreiros que defenderiam a polis interna e externamente. Nesse modo de ver. Somente as duas classes superiores teriam participação na vida pública. A aristocracia de Platão é uma aristocracia do espírito – o saber legitima o poder. Ademais. Platão equiparava a mulher ao varão observando uma educação idêntica para ambos os sexos. A primeira seria a dos magistrados ou governantes. o que significa dizer que as classes se subordinariam ao bem comum da cidade. em 41 . Platão opera uma inversão na concepção individualista da sofística quanto à relatividade das coisas. buscando o sentido de universalidade pela superação da individualidade absoluta. As classes dos guerreiros e dos artífices aceitam o domínio dos governantes pela ação da temperança ou moderação. a justiça apresenta-se primordialmente para garantia do funcionamento do todo e da manutenção da hierarquia baseada nas tarefas específicas de cada classe. governada pelo sentido da filosofia. guiados pela sabedoria. O ponto fundamental repousa sobre as aptidões pessoais dos membros da polis. o indivíduo se situa no plano coletivo e não em uma autonomia absoluta perante a polis. enquanto que o complexo dos artífices estaria limitado à vida na esfera privada. Platão em seu projeto político-pedagógico suprime a instituição família e a propriedade privada para as duas classes superiores dos magistrados e dos guerreiros a fim de afastar interesses particulares que pudessem conduzir à corrupção. cultivando a fortaleza.

mais velho. Dessa forma. a aristocracia e a democracia. Esta forma poderia conduzir a uma oligarquia que liga o poder à fortuna. Entretanto. uma na República. As legais são a monarquia ou realeza.Organização Política da Cidade Platão nos oferece duas classificações distintas das formas de governo. admite a necessidade de fixar princípios de governo em leis positivas. A cidade descrita na obra As Leis se afigura como uma teocracia em que os magistrados assumem a dignidade de intérpretes da vontade divina. No Político apresenta dois critérios de formas de governo: o número dos que participam do governo e a legalidade ou ilegalidade dos mesmos. em que Platão. desiludido com as experiências na Sicília. pois no seu entender seria a causa de toda a discórdia civil. desrespeitando hierarquias naturais e legítimas. Encontramos três formas legais e três ilegais de governo. caracterizado pela ambição do espírito belicoso. evitando-se o excesso de riqueza e pobreza. capaz de instaurar uma tirania que desvelaria um caráter violento e desenfreado. o governo da multidão. Todas as restantes são formas corruptas que não permitem a realização da justiça. a dinâmica política.cada caso particular. livros VIII e IX e outra no Político. somente uma assume o caráter de justa e legítima: a aristocracia do espírito ou governo dos sábios. apresenta a necessidade de uma legalidade. desemboca na desordem. ou seja. que acaba por ser aproveitada por algum indivíduo ambicioso e audacioso. Reconhece a importância da família e da propriedade privada. Todavia. a democracia. As formas corruptas 42 . Em O Político. o enriquecimento de poucos e a extrema pobreza de muitos poderá gerar a democracia. o que a justiça exigiria segundo as circunstâncias. O Político e As leis. que aspira a igualdade absoluta. Se os guerreiros tomarem o poder teremos uma timocracia ou timarquia que significa governo da honra. Na República descreve cinco formas. 3 . Há uma clara mudança de perspectiva em Platão mais velho. Esse pensamento não perdura nos diálogos considerados tardios. Os seus excessos provocariam a reação dos mais decididos e com seu derrube encerra-se o ciclo constitucional. consciente da imperfeição dos homens.

1995. Nas primeiras obras. ao mesmo tempo. pp. ou seja. permanece na obra A República e se torna o fundamento da idéia de justiça como virtude. As leis são justas porque são editadas por quem pratica a virtude da justiça e a conhece em sua estrutura para além do plano das aparências. Platão enfatiza o agir justo na medida em que considera o outro como portador dos mesmos direitos para a superação da ótica egoísta. “só conhece a justiça àquele que é justo”. Ao relacionar o célebre livro VII. 29 o pensamento platônico sobre a justiça é o ponto de partida para uma reflexão sobre a idéia de justiça como igualdade. Joaquim Carlos. uma mistura de monarquia e democracia que se apresenta como a única capaz de assegurar a paz social. que narra a Alegoria da Caverna em conjunto com sua teoria da reminiscência. na qual a família e o indivíduo formavam um todo harmônico. 43 . Belo Horizonte: UFMG. da República. O sentido de ordem política ideal é o de justiça que correlaciona intrinsecamente lei e justiça. pelo conhecimento da alma e não dos sentidos. que significa a observância permanente da lei e. Segundo Joaquim Carlos Salgado. Platão confere maior rigor sistemático às teorias de Heródoto e Eurípides. numa imagem divina. compreende-se com maior clareza o que o fundador da Academia assinala na Carta VII. isto é. Seu fundamento na liberdade e na igualdade. ou seja. a saber: a justiça como idéia e a justiça como virtude ou prática individual.são: a tirania. Platão apresenta duas perspectivas de sua concepção de justiça na obra a República. a oligarquia e a democracia (demagogia). isto é. como idéia da razão. Esta concepção assimilada por Aristóteles influenciará seu pensamento político. O 29 SALGADO. Nesse sentido encontramos a ligação entre as duas perspectivas do conceito de justiça em Platão: justiça como idéia (forma pura) e justiça como virtude. Nas Leis. A Idéia de Justiça em Kant. Platão apresenta o conceito de justiça comprometido com a idéia de virtude do cidadão ou do filósofo. Na verdade. só conhece a justiça àquele que a compreende na perspectiva divina. acrescenta um novo termo: uma forma mista de governo. 4 .A idéia de Justiça A idéia socrática de que a Cidade (o poder político). 24-29.

uma igualdade geométrica. que fazer a justiça é melhor que recebê-la. 433ª 44 . pode desempenhar no Estado”. a idéia de justiça e a concepção da justiça como hábito de cumprir o direito. Platão amplia essa idéia para além da simples relação entre particulares e a relaciona diretamente com a estrutura de sua cidade. e a justiça como virtude norteada e determinada pela lei. segundo suas aptidões. Embora no Críton. SALGADO. na sua concepção. correlacionando atos justos com alma sadia. o que lhe é adequado. 433a. O que é devido a cada um. 1995. 30 que afirmava a idéia de justiça como dar a cada um o que lhe é devido.31 Platão concebe a justiça como uma preocupação política que repousa na idéia de igualdade. Sócrates. Joaquim Carlos. o que lhe pertence por natureza é o posto que corresponde às suas aptidões e a função que cada um. O seu conceito de justiça assume também o caráter de universalidade enquanto se vincula à idéia de harmonia do cosmos. Seu fundamento na liberdade e na igualdade. Tanto na República quanto no Górgias. Platão elabora duas vertentes do conceito de justiça: a justiça como idéia norteadora do direito e da lei. Platão expressa a difusa idéia de justiça em um conceito preciso a partir do entendimento do poeta Simônides. Platão enfatiza através de seu personagem. A justiça é um compromisso do cidadão com a Cidade. e sofrer a injustiça é melhor que praticá-la. 332c. Belo Horizonte: UFMG. Na República. p. explicita-se na estrutura do Estado Platônico.outro nos desvela uma dimensão exterior e o comprometimento do homem com a sua polis. 30 31 PLATÃO. 27 e Platão. por força dessas mesmas aptidões. a concepção de justiça se apresente como a conformidade das ações com a lei. 433e. Sendo assim. dividido em planos. dedicação ao bom funcionamento da vida coletiva a partir das aptidões naturais de cada um. A República. livro I. A República. A justiça é uma virtude que fundamenta e fortifica a alma. segundo as aptidões de cada um de seus participantes. No dizer de Salgado: “Dar a cada um o que lhe pertence. Na República. na medida em que garante a cada um o que lhe é devido. a essência da idéia de justiça platônica não se limita somente a esse entendimento. de modo semelhante ao que ocorre com a alma humana. Ou dizendo de outro modo. exprime que o melhor modo de viver é o viver praticando a justiça. A Idéia de Justiça em Kant.

após suas escolhas. da Política. As almas dos justos falavam em felicidade e alegria.O projeto platônico: uma utopia? Sabemos que Aristóteles. bebiam a água do rio do esquecimento. mas se configura como a recompensa para aquele que escolhe a vida moral e conforme ao direito. As almas vindas dos subterrâneos. bravo soldado que morreu em combate. Entre os abismos estavam sentados os juízes que julgavam todas as almas e as marcavam com um sinal: os justos entravam pelo abismo da direito. os injustos entravam pelo abismo da esquerda. Disse que. viajou até uma terra estranha onde o solo era rasgado por dois grandes abismos. livro X encontra-se o mito de Er que consagra o sentido de justiça retributiva e transcendente. que conduzia ao mundo subterrâneo. algumas eram sensatas outras tolas. Vejamos. de modo que perdessem todas as recordações da vida passada. O mito narra a história de um guerreiro chamado Er que vivencia a experiência da justiça como recompensa no além-túmulo. Na República. jaz na pira funerária dez dias após sua morte. Observou que as almas dos injustos passavam por uma longa experiência vivenciando dez vezes mais todo o mal que causaram. havia dois buracos correspondentes no Céu. para o Céu. depois de morto. Este é o sentido retributivo da justiça em Platão. recompensas de uma vida virtuosa. Subitamente. volta à vida e narra o que viu no mundo alémtúmulo. Muitas praticavam os mesmos erros. na Ásia Menor. Átropo e Cloto para receberem novas vidas como mortais. para renascer em novas vidas. eram encaminhadas ao trono das Parcas: Láquesis. Por cima. apresenta uma reflexão crítica que considera a República e As Leis como projetos de cidade perfeita e as relaciona com as supostas utopias de Hipodamo de 45 .Por fim Platão desenvolve um conceito de justiça retributiva e transcendente. Cada alma poderia escolher a vida que desejava. 5 . Todas. Er. A justiça para Platão não é deste mundo. natural da Panfília. mas foi escolhido para levar uma mensagem aos mortais. no livro II. após expiarem todo o mal que praticaram e vivenciar as dores do arrependimento. Er não foi autorizado a entrar em qualquer dos buracos.

projeto este que ficou inacabado por ocasião do falecimento do monarca. permanecendo ainda através da corrente franciscana da Escolástica. o platonismo alcançou os Padres da Igreja Grega. no séc. A influência platônica no Renascimento propiciou a abertura de várias Academias a começar por Florença (1459). Plotino tentou fundar uma cidade segundo o modelo da República com a ajuda do Imperador Galeno. através de seu olhar idealista. Embora Platão esteja distante de nossa realidade. XIII. complexo por mecanismos até em certa medida desnecessários. notadamente na Escola de Cambridge. Santo Agostinho incorporou o platonismo (teoria das idéias) na concepção cristã do mundo. a pretensão de Platão era descrever uma comunidade possível na perspectiva de novos valores comandados pela retificação dialética da educação. O idealismo político de Platão exerceu grande influência na posteridade. tendo por 46 . com Henry More (1614-1687). Houve clara influência sobre a obra Utopia de Tomas More (1478-1535) e sobre o conjunto do pensamento de Campanella (1568-1639). mais tarde parcialmente ofuscada pelo predomínio do utilitarismo e do evolucionismo no séc. ajuda-nos a vislumbrar uma possibilidade meio que perdida: a reconstrução de uma nova estrutura social a partir de uma reestruturação do homem para essa nova sociedade. Através dos discípulos de Plotino. Platão. Entretanto. utópico. XIX.Mileto e de Fáleas da Calcedônia. através de Cosme de Médices e dirigida por Marsílio Ficino (1433-99). pode-se ler Platão dentro da dimensão crítica dos costumes. Considerar a República uma utopia dependerá do conceito mais ou menos amplo que se tenha das idéias contidas ao longo de suas linhas. Mesmo não nos parecendo próximo. e dentro dos limites da imaginação. A sua doutrina determinou a orientação do pensamento medieval até a recepção do aristotelismo por Alberto Magno e Tomás de Aquino. dos valores e dos hábitos constituídos por uma visão utilitarista dos interesses imediatos. longe deste mundo nada simples. Nos séculos XVII e XVIII houve grande influência na Inglaterra. temos que ressaltar que a intenção de Platão não era edificar um mundo social irreal. mas construir uma crítica aos fundamentos de sua cultura Como essa mesma cultura se estruturava.

e os outros. ao afirmar que há um só modelo de justiça em todos os Estados . Aqui tens. e castigam os transgressores. 47 . nem de ladrões. da mesma maneira. arriscar-nos-íamos. Sócrates – “Por este motivo. Uma vez promulgadas essas leis. os homens de bem não querem governar nem por causa das riquezas.o que convém aos poderes constituídos. por conseguinte.“Certamente que cada governo estabelece as leis de acordo com a sua conveniência: a democracia. pois. não como quem vai tomar conta de qualquer benefício. sem ter pessoas melhores do que eles. de modo algum concordo com Trasímaco. Ora estes é que detêm a força. como agora as há para alcançar o poder. e tornar-se-ia então evidente que o verdadeiro chefe não nasceu para velar pela sua conveniência. fazem saber que é justo para os governos aquilo que lhe convém. me parece. 24). para quem possam relegá-lo. sem aguardar a necessidade de tal passo. se se pretende que eles consistam em governar. Efectivamente. De tal maneira que todo aquele que fosse sensato preferiria receber benefícios de outrem a ter o trabalho de ajudar ele os outros. exigindo abertamente o salário do seu cargo. Força é. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian: 1993.” (p. porquanto não querem ser apodados de mercenários. que os bons ocupam as magistraturas. É com receio disso. Mas esse ponto havemos de o examinar de novo”. De onde resulta. uma vez que não as estimam. e então vão para o poder. nem mesmos iguais. nem das honrarias. a que houvesse competições para não governar.fundamento o ideal de justiça para além das aparências e do sentido mesquinho que por ora corrói o tecido da vida coletiva. (pp. para quem pensar corretamente. quando governam. Trasímaco -. de onde vem que se arrisca a ser considerado uma vergonha ir voluntariamente para o poder. monárquicas. nem para com ele gozar. mas como quem vai para uma necessidade. a monarquia. mas pela dos seus súbditos. aquilo que eu quero dizer. Tão-pouco querem governar por causa das honrarias. Portanto.38-39) 32 32 Platão. Ora o maior dos castigos é ser governado por quem é pior do que nós. A República. se houvesse um Estado de homens de bem. meu excelente amigo. se não quisermos governar nós mesmos. que a justiça é a mesma em toda parte: a conveniência do mais forte. tirando vantagens da sua posição. a título de que violaram a lei e cometeram uma injustiça. leis democráticas. que sejam constrangidos e castigados. em que a justiça seja a conveniência do mais forte.

Aos 17 anos ingressou na Academia de Platão (este já sexagenário) em Atenas. Por essa ocasião já possuía grande saber e era conhecido por justamente apresentar o que hoje denominamos de conhecimento enciclopédico. Por outro lado. pelo Rei Filipe da Macedônia. pois Alexandre sonhava com a unificação dos gregos. observações científicas. Seu pai Nicômaco foi médico da corte de Amintas II. 33 48 . Narra a tradição que foi o assassinato de Calístenes. daí seus discípulos serem chamados de peripatéticos. que pôs fim à relação entre ambos.C. em Pela capital da Macedônia. Em 342 a. o Grande. colônia grega da Cálcida. casou-se duas vezes e dedicouse à família. Os Pensadores. Ensinava passeando à sombra das árvores do liceu. política e pensamentos. Este grande pensador nasceu em Estagira.A justiça na concepção de Aristóteles (384-322 a. In: Col. 34 Casa religiosa com clausura. ou seja. Se governo com alguma glória. fundou o seu liceu no bosque sagrado de Apolo – nordeste de Atenas.) “Os verdadeiros prazeres do homem são as ações conforme a virtude” (Aristóteles) 1 .Parte III . Dessa enorme produção ‘Se a meu pai devo a existência a meu preceptor devo a arte de me saber conduzir. foi nomeado tutor de Alexandre 33. mar da Trácia. sobrinho de Aristóteles. a ele [Aristóteles] sou devedor”. Alexandre financiou suas pesquisas sobre a flora e a fauna no Mediterrâneo. Aristóteles defendia a estrutura da pólis tradicional. ética. Durante esse período estudou política e os assuntos de governo. uma fusão cultural. surgiram divergências políticas que se tornaram cada vez maiores entre o discípulo e o mestre.C. Por volta de 335 a. a pedido de Alexandre. Após a morte de Platão em 347 a. ou seja.C..Introdução Aristóteles foi o patriarca das Ciências Naturais. Aristóteles escreveu em torno de 400 trabalhos sobre os seguintes temas: educação. discorreu sobre História da Filosofia e psicologia. Desenvolveu estudos sobre as leis da argumentação e da lógica. recinto fechado. Embora esse pensador tenha sido tutor de Alexandre.C. derivado da palavra peripatos que significa um claustro34 que rodeava o liceu..

os neoplatônicos: Porfírio (séc. posteriormente. Temístio (séc.). que os publicou com inúmeros erros. IV d. Aquele que constrói navios mercantes.). enterraram os escritos em um subterrâneo. pela dificuldade em explicá-lo e apresentou uma concepção diferente da realidade. Podemos considerar sua Metafísica como uma obra que desvela uma história da filosofia. Os primeiros comentadores das obras de Aristóteles foram: Alexandre de Afrodisías (séc. IV d. Neleu e. etc. quando analisa as teorias anteriores acerca da convivência humana. posteriormente.C. Aristóteles iniciou o que entendemos por estudo dos problemas filosóficos através do exame crítico das opiniões de seus antecessores.C. os escritos passaram às mãos do tirano de Sila e. Efetivamente eram homens de temperamentos diferentes. Antes do ano 100 a.C. Por ocasião da tomada de Atenas pelos romanos. 35 49 . Platão havia separado as essências36 dos objetos. que temendo o ataque dos príncipes tiranos de Pérgamo. ao aluno deste. em 86 a.sobreviveram apenas 50 ou 49 obras. O mundo platônico é uma ficção. IV d. ornamenta livros. os herdeiros de Neleu descobriram e venderam ao armador35 de livros Apelicon de Teos.. enfeita igrejas.C.). ou seja. no entendimento humano sobre as coisas. as coisas individuais e perecíveis deixam de ser meras “sombras ilusórias”.) e Filopon (séc.C. aos herdeiros de Neleu. Aristóteles compreendia que as essências só existiam em uma inteligência. III d. sem mencionar a tradição familiar e a primeira formação. na Ilha de Eubeia. II d. 36 Essência.C. Aristóteles rejeitou o dualismo platônico. às mãos de Andrônico de Rodes que os catalogou e os editou.C. Quando morreram perderam-se os manuscritos de Aristóteles. em nosso espírito que abstrai das coisas em estado de individualidade. em Cálcis. forma – mundo inteligível. de procedência social distinta. Essa abordagem aparece também na Política. Quando faleceu. salões de festas. seus escritos e sua biblioteca passaram às mãos do discípulo Teofrastos e. por conseguinte. Houve uma grande independência doutrinal em relação a Platão. Aristóteles demonstrou um realismo moderado e um espírito analítico apegado aos fatos. Simplício (séc.).

à arte/técnica (regras – capacidade de ensinar). denominou Organon. por meio da abstração. nesse sentido. conhecimento produtivo (poiesis). Entendeu o conhecimento como processo cumulativo partindo da sensação (prazer/sentidos) em direção à memória (retenção dos dados). Aristóteles não define o direito a partir da idéia de justiça. 37 50 . que trata da quantidade e do número. conhecimento teórico que por sua vez se divide em: física. Metafísica: palavra de origem grega. ou seja. o entendimento humano é capaz de descobrir a idéia oculta no objeto sensível. usada para nomear o conjunto de textos de Aristóteles. que denota com maior precisão a sua filosofia: a ciência dos primeiros princípios e das primeiras causas. Esse conhecimento estaria subdividido em: conhecimento prático (praxis) e nesse campo encontramos os estudos sobre ética e política. alcançando por fim o nível da teoria/ciência que chamou de episteme (conhecimento de conceitos e princípios). Aristóteles apresenta a Lógica ou analytika como um saber instrumental. mas define a justiça em função do Direito. a filosofia primeira ou metafísica37 estuda o ser primeiro ou causa primeira. os tratados de lógica em seu conjunto. Esta não foi usada por ele e sim a expressão Filosofia Primeira. Dentro dessa concepção da inteligibilidade da realidade sensível. Ao contrário de Platão. a realidade sensível é também inteligível e. reflexão e experiência e que se configurava no conceito de justiça. Aristóteles apresentou uma divisão do conhecimento. Substituiu o idealismo de Platão por um empirismo que buscava seu ideal numa concepção de felicidade alcançável pela ação. Esta idéia resume-se no princípio de que o todo é anterior às partes. estudo da estética. Para esse filósofo.Aristóteles foi o fundador da física experimental. formulou sua teoria teleológica segundo a qual todas as coisas existem para um fim e todas as coisas alcançam a perfeição na medida em que cumprem esse fim. O conhecimento tem seu início com a experiência. em seguida à experiência (capacidade de estabelecer relações entre os dados sensoriais). o que desvela a importância do método. que por sua vez. Assim. que estuda o mundo natural e estudos matemáticos. torna-se objeto da justiça e é somente possível no interior de uma pólis. a ciência que estuda os fenômenos do mundo físico.

aquele que fazendo uso público de sua razão. consiste em disposições resultantes do esforço do homem para submeter os seus atos à razão e aos fins supremos da sua natureza. cap. animal social por natureza. 2 . a ética e a justiça. O meio para consegui-la são os hábitos ou disposições do homem graças aos quais saberá realizar as suas obras. V e VI. 38 51 . O homem ao longo da vida encontra uma hierarquia de bens até alcançar o bem supremo que coincide com o seu fim último. Surge a figura do cidadão. O bem é a plenitude e todo ser tende para esta plenitude. 39 Pólis ou cidade-estado: nova forma de convivência centrada na ágora (praça pública) para o debate sobre interesses comuns. A virtude consiste no meio entre a falta e o excesso. II e III. A felicidade em seu modo de ver significa certa maneira de viver específica do homem. estuda a natureza das constituições existentes e dos princípios para seu bom funcionamento. onde examina a política ideal. onde trata da teoria do Estado em geral e da classificação das várias espécies de constituições.A política. A obra está dividida em três partes. resultado do meio em que vive e destinado a desenvolver suas potencialidades na vida em sociedade. O estilo de Aristóteles se desvela em suas próprias palavras a esse respeito. V.no sentido lógico e metafísico. O objeto de pesquisa da Política38 era o estudo das constituições das pólis39. Esse finalismo refletirá em sua concepção ética e política. Para Aristóteles. descoberto em 1891. a política é a ciência da felicidade humana. no livro II. pois cada objeto particular é compreensível em função do todo que o pressupõe. delibera conjuntamente aos seus pares os destinos da cidade. a felicidade. a saber: livros I. §4 -5: “o método de quem estuda filosoficamente Acrescenta-se a esta obra a República dos Atenienses ou Constituição de Atenas. são as virtudes. uma ciência prática que busca o conhecimento como meio para a ação e que se divide em ética e política. O seu objetivo nesta obra era descobrir a maneira de viver que conduz à felicidade humana. livros IV. descobrir a forma de governo e as instituições sociais capazes de assegurar aquela maneira de viver. que tratam da política prática. ou seja. livros VII e VIII. ou seja.

a temperança. 792e). Aristóteles humanizou o fim último. e não apenas seu aspecto prático. noetikos – inteligente. característica. modo de vida habitual. Em Platão é o resultado do hábito (Leis. A sua ética compreende duas categorias de virtudes. a inteligência e a verdade. De um modo geral. A Grande Ética ou Ética Maior. Noético (gr) relativo ao pensamento. Aristóteles aprofunda os ensinamentos de seu mestre Platão (República) na obra Ética a Nicômaco. 40 funciona como elo entre a esfera jurídica e a esfera política. por ter sido editada ou redigida pelo seu discípulo deste nome. Em Aristóteles é usada como um termo geral para atividade intelectual. suntuosidade. a magnificência 42. Diferente de Platão. o valor da opinião dos homens mais velhos e o indispensável valor da experiência da vida e dos costumes da cidade para a elaboração de qualquer Filosofia.qualquer matéria. Uma ação pode ser A Ética a Nicômaco ou Nicomaquéia foi assim chamada por ter sido. uso. uma refundição da anterior. A ordem jurídica e a As virtudes intelectuais ou dianoéticas43 são: a sabedoria. 42 Grandiosidade. V a. o ético em Aristóteles é entendido a partir do ethos41 (do costume) da maneira concreta de viver vigente na sociedade. ou seja. Grande Moral e Tratado das virtudes e dos vícios). em Aristóteles (Ética a Nicômaco. a amizade e a justiça. baseadas na razão. p. fundamentadas na vontade e as virtudes intelectuais. Aquilo que é característico e predominante nas atitudes e sentimentos dos indivíduos que pertencem a uma comunidade e que marca suas realizações ou manifestações culturais. Significa caráter. o mais importante tratado de moral dentre os quatro que escreveu sobre moral (Ética a Nicômaco. a doçura. consiste em não negligenciar ou omitir qualquer detalhe”.C.132. 43 Diánoia: entendimento. Sabe-se que esta obra refere-se ao segundo curso que ministrou e que fora redigido entre 334 e 333 a.C. a generosidade. esplendor. 52 . Como exemplo de virtudes morais temos: a coragem. a saber: as virtudes morais. o fim último foi afirmado no plano terrestre. filho de Aristóteles. Aristóteles escreveu a Ética a Nicômaco na fase em que vivia em Atenas. 1139a) é mais moral do que intelectual. É exatamente o ethos aristotélico que ordem política pressupõem o ethos. Por isso. Truyol y Serra. Ética a Eudemo. Ética a Eudemo. provavelmente editada por Nicômaco. podemos dizer que a sua teoria apresenta o procedimento do homem prudente como válido. 41 Ethos do grego costume. um resumo posterior. 40 A sua teoria ética foi elaborada sobre a base das estruturas morais vigentes na comunidade grega do séc. organizando-a em 10 capítulos subdivididos em pequenas partes.

O homem deve buscar esse aperfeiçoamento para com isso alcançar a felicidade. Nesse sentido. O ponto central torna-se o conceito de atividade. Estes devem se submeter a outrem. assim como. a saber: a sabedoria. Eudemonia e télos estão intrinsecamente ligados formando a base da ética do pensamento de Aristóteles. Aristóteles inicia sua ética a partir da realidade social de sua época. Este pensador considera ainda como importantes: a amizade. Em sentido estrito. livro V da Ética a Nicômaco. Importa observar que a teoria moral de Aristóteles é aristocrática. Aristóteles também 44 Cf. a justiça44 configura o exercício de todas as virtudes. Sua ética é denominada de ética das virtudes ou ética eudemônica. Sob o ponto de vista econômico. atividade no sentido de que o homem deve realizar ao máximo suas disposições ou aptidões. escravos e trabalhadores manuais. para homens sábios. três bens constituem a felicidade para Aristóteles. Na verdade. Em sentido lato. o summum bonum. Este pensador enfatiza que o cultivo da inteligência é o bem supremo. O conceito de eudemonia vincula-se ao conceito de justiça apresentado por Platão na obra A República. sua perfeição. a saúde. porque enfatiza a busca pelo bem viver e pela felicidade. observando-se a instância da alteridade. a sorte e os dons. a verdade é o objetivo da ação intelectual. a virtude e o prazer (recompensa natural da vida virtuosa). a posse de bens (inclui-se aqui o escravo). são bens interiores à alma. uma moral que atinge a elite. 53 . uma ética imanente da felicidade terrestre. no sentido estrito de pleno desenvolvimento das disposições naturais. Platão e Aristóteles concebiam a escravidão como instituição natural que se justificava pela suposta incapacidade de certos homens para se autogovernar. mas que exclui crianças. Aristóteles diz que o escravo é um instrumento indispensável na produção dos bens.considerada como justa quando realiza o equilíbrio das virtudes morais e quando alcança as virtudes intelectuais. O objetivo da ação moral é a justiça. encontra-se como uma virtude ética que implica o princípio da igualdade. felizes e materialmente privilegiados. O homem deve desenvolver suas aptidões para alcançar o seu fim (télos).

compreende a noção de justiça como uma virtude45 que precisa ser praticada constantemente46 e não pode ser tomada como aquisição contínua.47 A justiça é um exercício político. No livro II-6, da Ética a Nicômaco, Aristóteles apresenta o sentido do conceito de virtude como hábito, ou seja, algo construído, algo que temos em potencial. A natureza oferece as condições de possibilidades para que o homem possa desenvolver suas aptidões conforme sua essência racional. A justiça enquanto um valor ético se desvela em nossos atos. “Toda virtude e toda técnica nascem e se desenvolvem pelo exercício”.48 Observa-se que a prática da virtude não se confunde com um mero saber técnico, não basta a conformidade, exige-se a consciência do ato virtuoso. O homem considerado justo deve agir por força de sua vontade racional. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles enumera três condições para que um ato seja virtuoso: 1. O homem deve ter consciência da justiça de seu ato; 2. A vontade deve agir motivada pela própria ação; 3. Deve-se agir com inabalável certeza da justeza do ato. As virtudes são disposições ou hábitos adquiridos ao longo da vida e se fundamentam na idéia de que o homem deve deficiência. Para Aristóteles, a justiça é uma virtude que só pode ser praticada em relação ao outro e de modo consciente. O objeto da justiça é realizar a felicidade na pólis, o seu oposto, a injustiça, poderá ocorrer por falta ou por excesso. Aristóteles distingue duas classes de justiça: a universal e a particular. A justiça universal, total ou integral significa a justiça em sentido amplo que pode ser definida como conformidade ao nomos (norma jurídica, costume, convenção social, tradição). Esta norma constituinte do nomos é dirigida a todos. A ação deve corresponder a um tipo de justo que é o justo legal. “Aquele que contraria as leis contraria a
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sempre realizar o melhor de si. A virtude será uma

espécie de meio termo, de termo médio entre os extremos: o excesso e a

Disposições constantes do espírito, as quais por esforço de vontade inclinam à prática do bem. Cf. livro II-4, 1105b, Ética a Nicômaco. 47 Ressalta-se que a conceituação da justiça como uma virtude não implica o caráter de uma idéia ontologicamente transcendente como acontece em Platão. 48 SALGADO, Joaquim Carlos. A Idéia de Justiça em Kant. Seu fundamento na liberdade e na igualdade. Belo Horizonte: UFMG, 1995, p.33. 54

todos que são por elas protegidos e beneficiados; aquele que as acata, serve a todos que por elas são protegidos ou beneficiados”.49 O membro da pólis se relaciona com todos os demais, ainda que virtualmente, e compartilha com todos os efeitos de sua atitude ou omissão. A justiça universal ressalta a importância da legalidade como um dos aspectos que fundamenta a coesão social. A comunidade existe virtualmente na pessoa de cada membro. O homem virtuoso é aquele que ninguém). A justiça particular significa em sentido estrito o hábito de realizar a igualdade. Este tipo de justiça refere-se ao outro no sentido de uma relação direta entre partes, típica da experiência citadina. Percebemos que este tipo de justiça vincula-se com a justiça universal, pois o transgressor da justiça particular nomos. O justo particular apresenta-se em duas formas distintas: o justo particular distributivo que desvela a justiça distributiva e o justo particular corretivo que apresenta a justiça corretiva. A idéia de justiça distributiva surge no sentido de igualdade na devida proporção. Essa modalidade de justiça regula as ações da sociedade política com seus membros e tem por objeto a justa distribuição dos bens públicos: honras, riquezas, encargos sociais e obrigações. Essa distribuição também se fundamenta na igualdade que não se confunde com uma igualdade matemática e rígida, mas geométrica ou proporcional que observa o dever de dar a cada um o que lhe é devido; observa os dotes naturais do cidadão, sua dignidade, o nível de suas funções, sua formação e posição na hierarquia organizacional da pólis.50 O princípio de igualdade que figura neste tipo de justiça exige uma desigualdade de tratamento, pois sendo diferentes segundo o mérito, os benefícios a serem atribuídos também devem ser diferentes. A outra modalidade de justiça particular é a justiça corretiva ou sinalagmática, que se divide em comutativa e judicial. Trata-se de um tipo
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desvela em seu modo

de agir a observância do princípio neminem laedere (Não prejudique a

se compromete também diante do

BITTAR, Eduardo. Curso de filosofia do direito. São Paulo: Atlas, 2001, p.91. PEGORARO, Olinto. Ética é justiça. Petrópolis, Vozes, 1995, pp.32- 33 55

de

justiça que regula as relações entre cidadãos e utiliza o critério do

justo meio aritmético ou igualdade matemática (se devo x, pagarei x). Observa-se que este tipo não focaliza em primeiro plano as pessoas, mas sim as coisas. Medem-se os benefícios ou prejuízos que as pessoas podem experimentar, ou seja, as coisas e os atos no seu valor efetivo. Nos casos de ações que geram constrangimento para uma das partes, caberá ao juiz restabelecer a igualdade rompida através de uma sentença. Quando há a vontade dos interessados como elemento principal, chama-se justo comutativo (sinalagma)51 e, quando por decisão do juiz a vontade de um deles é contrariada, como o caso dos crimes, chama-se justo judicial ou justo reparativo. Neste último caso o sujeito de uma injustiça é sancionado a reparar o dano provocado indevidamente a outrem.52 Podemos perceber que o princípio de igualdade que figura em seu pensamento recorda as especulações pitagóricas acerca da justiça. Já percebemos que Aristóteles atribui à palavra justiça diversos sentidos que demonstram a possibilidade de classificá-la de diferentes modos. Menciona a idéia de justiça política, quando se refere à comunidade, ou seja, a justiça que organiza a vida comunitária e que, em particular, deve observar o processo deliberativo social (o cidadão). Aristóteles fala em justo doméstico quando observa a esfera da família, ou seja, a justiça para com a mulher, o filho e os escravos – regras
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necessárias à organização do lar.

O justo político abrange duas outras formas de justiça: o justo natural e o justo legal. O justo natural significa o que será sempre o mesmo em toda parte, independe da vontade humana, ou melhor, para existir não precisa de qualquer decisão ou ato de positividade. O justo legal, que em princípio poderia ser cumprido de maneiras diferentes, passa a ser obrigatório por ser assumido pelo nomos vigente em uma pólis.54 Este tipo de justo decorre do ato legislativo e configura-se no
Bilateral. Aqui percebemos que a idéia que fundamenta a responsabilidade civil já estava presente na experiência da pólis grega. 53 Os diversos modos de falar de justiça podem ser observados em: Grande Moral, 1194 b,1193b, Retórica,1373; Política, 1279a, 1301b. 54 Decretos, sentenças, as decisões do poder administrativo, caracterizam-se por circunstancialidade ou especialidade.
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e opera 57 no termo deste desenvolvimento. O justo natural é constituído por noções e princípios comuns que encontram fundamento na própria natureza racional do homem. Há uma lei natural ou direito natural que desvela a natureza da comunidade política. Em seu modo de ver a Natureza experimenta o movimento. a injúria etc. Os conflitos entre preceitos jurídicos legais e preceitos jurídicos naturais não invalidavam a ordem jurídica da pólis grega. a Natureza não é um princípio estático. um princípio geral pode acarretar uma lei específica. um preceito da justiça natural. A teoria do ato e potência nos ajuda a compreender . O princípio neminem laedere que significa que não devemos prejudicar as pessoas. um animal político é chamado a viver na pólis por força de sua própria essência. em atenção à justiça natural. A justiça natural sofre as transformações típicas da racionalidade. O ponto de partida é o princípio da naturalidade da sociedade política. A cidade-estado é uma realidade natural e nesse âmbito há uma relação entre razão.conjunto de disposições vigentes na pólis. exceto em um sistema corrompido. o julgador. Nesse sentido. Tanto o justo natural quanto o justo legal constituem a ordem normativa da cidade. A natureza de uma coisa revela-se como Aristóteles concebeu a relação homem e pólis. não eram concebidos por Aristóteles. atualização do ser (a doutrina do ato e potência). lei e igualdade. ou seja. ou seja. Podemos compreender a mutabilidade da justiça natural a partir da concepção aristotélica de physis. o homem. A eventual tensão entre a generalidade abstrata da lei e a singularidade concreta dos casos reais era mediada pela eqüidade (epieikéia). Temos que observar que o justo legal encontra sua origem no justo natural. coloca-se como legislador. Para Aristóteles. Esta relação se esclarece quando percebemos que caminhamos do geral para o particular. mas dinâmico. A eqüidade é a forma corretiva da justiça legal quando esta engendra certa injustiça pela própria generalidade de seus preceitos normativos. é o que em cada ser está latente como potência e se desenvolve em conformidade com o fim. pode ser positivado em norma que prevê uma punição para atos como o homicídio. Trata-se de um movimento perene que permeia todos os seres.

Aristóteles define o homem équo como aquele que não é rigoroso nos princípios da moral. Nesse sentido. um homem équo. A razão é comum a todos os homens . “a ordem é a lei e o governo da lei é preferível ao de qualquer cidadão. pois teria validade geral. portanto. historicamente a pólis é a ultima fase de um processo ascendente de sociabilidade. No Direito da pólis há elementos naturais e permanentes e também convencionais e mutáveis. Belo Horizonte: UFMG. o julgador assumindo a postura do legislador torna-se um homem preocupado com a correção ética da justiça. na medida em que pode ser compreendido como um critério de ajuizamento da igualdade ditada pela SALGADO. esta deve ser anterior ao indivíduo. Todavia. Por ser o nomos a razão desprovida de paixão deve ser a suprema autoridade da sociedade política. vai além da razão de ser da lei escrita e se liga diretamente ao sentido de lei natural. o nomos. 55 58 . Política. embora não imutável porque até a própria natureza é mutável.a adaptação da lei ao caso concreto. Joaquim Carlos.todos são iguais. 56 Há no homem um impulso social que se desvela primeiramente na família. Seu fundamento na liberdade e na igualdade. Para Aristóteles. ou seja. 56 Cf. A Idéia de Justiça em Kant. em seguida na aldeia até alcançar a estrutura equivalente a uma pólis grega. A lei comum seria uma lei natural ou original. dirá Aristóteles na Política. 40-41. 1995. O grego reverenciava o nomos (a lei ou costume) porque era fundamental para a existência da própria pólis como comunidade éticapolítica. 55 na aplicação da justiça. A lei escrita ou não escrita. surge da experiência citadina e. O termo eqüitativo desvela o sentido de que o justo ultrapassa a simples dimensão da lei escrita. o nomos é razão porque realiza a igualdade jurídica formal. é intrinsecamente superior a qualquer decisão individual por mais sábia que seja. mas que fundamenta seus juízos Se o objetivo da atividade humana é a vida na pólis. independente da opinião dos homens. pp. Capítulo 1. A conformidade com a lei apresenta a relação que o sentido de justiça particular mantém com a idéia de eqüidade. porque a lei é a razão sem apetites”. A cidade é por sua natureza uma unidade na diversidade. quando esta se configura como a pior solução.

na medida em que essa prática se destina à realização do seu elemento fundamental: a igualdade. ou 58 Os elementos que compõem o conceito o outro. A justiça no entendimento de Aristóteles se afigura em como fazer um bem para o outro. só se realiza voluntariamente ou conscientemente. SALGADO. p. pois a justiça é uma virtude que só pode ser praticada em relação ao outro de modo consciente. na medida em que procura o benefício da comunidade. buscando uma igualdade entre as partes. 59 ARISTÓTELES. Os pensadores. embora seja um conceito já pensado pelos pitagóricos. justo. 1979. São Paulo: Abril Cultural. O ato de justiça exige a mediação da vontade. aplicada mecanicamente. Observo que a razão significa para Aristóteles uma forma superior da natureza humana. Belo Horizonte: UFMG. Enfim. O équo 57 é aquele que busca a igualdade no momento concreto da relação da justiça. 1995. apresenta o caráter de definição da idéia de justiça. o sentido de igualdade que aparece em Aristóteles. A eqüidade surge para corrigir os lapsos da lei convencional. Col.razão conforme à lei natural. A justiça seria o bem supremo no âmbito da política. a A dimensão do ser racional 59 de justiça são: seja. ou a conformidade com a lei. As circunstâncias particulares exigem a aplicação da eqüidade para dirimir um caso concreto. a consciência do ato (vontade). pp. a conformidade com a lei e o bem comum. a igualdade. O bem comum é o fim ou o bem principal da pólis. Seu fundamento na liberdade e na igualdade. Joaquim Carlos. O homem injusto é aquele que age com injustiça. ou o bem comum de modo geral. A noção de alteridade é fundamental ao seu conceito de justiça. O objetivo é realizar a felicidade na pólis num plano mais alto.1130a. 57 58 59 . Ética a Nicômaco. O pressuposto fundamental do pensamento de Aristóteles acerca da justiça é a idéia de que o homem é um ser destinado naturalmente à vida em comunidade – a sociabilidade como um imperativo da natureza humana. embora não queira receber o ato injusto de outrem. não corresponder à justiça. busca uma felicidade no âmbito da comunidade. alteridade observada enquanto é fundamental para realização da justiça. sobretudo quando a lei. 37. Reto. A Idéia de Justiça em Kant. 1134b. aristotélico outro.

que deve fazer ou não. Observa que o princípio de autoridade em cada um dos regimes repousa sobre a situação econômica: a oligarquia.Segundo Aristóteles. No Renascimento. Cada pólis necessita de um governo que corresponda ao seu caráter e necessidades próprias. na Escolástica. ou da norma costumeira ou ainda do padrão de comportamento partilhado na comunidade. executiva e judicial. 1110ª Idem ibidem. a ação que depende do agente e que este realiza conscientemente. Aristóteles também distinguiu as atividades do governo em deliberativas ou legislativas. democracia radical. 61 A moralidade do ato fundamenta-se no critério da premeditação ou escolha deliberada. na riqueza de uma minoria. tirania. até ser estudado diretamente e predominar a partir do séc. ato voluntário significa aquele “cuja origem se acha no agente que conhece todas as circunstâncias da ação”. na fraude e violência. como disse anteriormente. O aristotelismo alcançou o ocidente através dos árabes e judeus. E apresentou um ponto de vista técnico-político preocupado com a conservação do poder e com a ética. fundamentou doutrinas opostas à Escolástica e muitas vezes incompatíveis com o Cristianismo. aristocracia. em traduções latinas indiretas. três formas puras: monarquia. na monarquia e aristocracia. 60 Somente o homem é capaz de possuir uma faculdade da vontade apta a discernir o menciona: “Chamo voluntário. Aristóteles também compreende que o melhor governo seria um governo misto. XIII. Na Ética a Nicômaco. Vinculou-se 60 61 Idem ibidem. sem ignorar a pessoa que a ação afeta os meios empregados e o fim da ação”. uma maioria pobre. O fato é que Aristóteles usa um critério econômico para distinguir tais formas. isto é. ou seja. A teoria das formas de governo em Aristóteles segue a clássica organização apresentada por Platão no Político. oligarquia e democracia radical que equivale à demagogia. Salgado observa que na pólis o justo não está separado do direito positivo em geral. democracia moderada ou política. e três impuras: tirania. sobretudo pela Escola de Toledo. 1135ª 60 . p. Com Tomás de Aquino houve uma adaptação prévia do aristotelismo ao Cristianismo. uma virtude superior. p.

de novo ao Cristianismo através da neo-escolástica católica dos séculos XVI e XVII e com a escolástica protestante. tem sido visto em boa parte com olhos 61 . No que se refere à sua filosofia prática até hoje o mundo aristotélicos.

Na idade média há uma nova relação entre Deus e criatura. ou seja. O sentimento da grandeza de Deus. nesse sentido. ressalta um só destino para o gênero humano. A novidade que a perspectiva cristã oferece é radical em sua concepção de Deus. um pensamento que se desenvolve nos limites das verdades estabelecidas pela fé. próprio do judaísmo. A novidade da perspectiva religiosa cristã propiciou o que alguns compreendem como filosofia cristã.A Filosofia no período medieval: Agostinho e Tomás de Aquino “(. O mundo torna-se o lugar da experiência que permitirá a superação espiritual para a salvação. é transposto para o cristão e contribui para fortalecer o sentido da humildade como virtude. A concepção grega do homem integrado na Natureza ou na pólis cede lugar à interioridade do sujeito. Deus não é só o Senhor dos Hebreus. A criação do homem “a imagem e semelhança de Deus” lhe confere certo esplendor: possui uma dignidade intrínseca. Isso fica mais claro quando comparamos o sábio estóico com o santo cristão: o sábio estóico se orgulha de se assemelhar à divindade. Não podemos perder de vista como os povos primitivos e depois os gregos concebiam a concepção acerca da criação que engendra uma divindade. mas o Pai.O Mundo Medieval O cristianismo nasceu em um mundo helenizado impregnado de elementos religiosos orientais. o santo cristão. Surge uma nova absoluta dependência de tudo e todos para com Deus. Paulo de Tarso 1 . 62 . conjugando em um só o poder e o amor. na busca de fundamentos racionais.Parte IV .) não cuideis da carne com demasiados desejos”. que não é um ser autônomo e sim criatura nada pode sem a graça divina. A idéia de filiação divina fortalece a solidariedade essencial para a comunidade que passa a se afigurar como uma pessoa moral que participa de uma história universal e... O homem vive o drama da queda e da redenção como fatos históricos.

A idade Média foi considerada a época intermediária entre a Antigüidade e os tempos modernos.Segundo Truyol y Serra. nas inspirações superiores. esperança e caridade) que passam a ofuscar as virtudes morais. o cristianismo pelas suas origens e suas primeiras lutas. O cristianismo promoveu uma modificação nos valores éticos: operaram a transcendência do fim último. por fim. A sabedoria grega apresentava um interesse direcionado para o mundo. A Patrística tem seu lugar nos séculos II –VI e a Escolástica. A razão grega partia da realidade tangível e visível. na adivinhação etc. Na sabedoria hebraica ou da salvação. o seu paganismo lançava raízes no pensamento mágico. O medievalista Alain de Libera ensina em sua obra A 62 63 Deposição do imperador Rômulo Augústulo. o que significa dizer que não é através da razão. Dentro deste período antigo e depois medieval do cristianismo a tradição estabelece os seguintes limites: o pensamento patrístico e o escolástico. pertence à Antigüidade. O período que se dá entre essas duas épocas se define por uma silenciosa afirmação social e política da cristandade medieval e sua cultura. Durante seis séculos firmou seus passos com êxito crescente até ser reconhecido oficialmente no Império Romano. A transfiguração da felicidade em bem-aventurança. sendo ele perfeito. A razão grega acreditava no destino. na boa ou má sorte. Este conflito marcou o fim do período antigo e o esforço da Idade Média em articular a sabedoria divina com a sabedoria humana. do comportamento humano. Deus é quem concebe a sabedoria ao homem. onde Deus se torna o valor supremo. do vir-a-ser. A vitória de Maomé II contra Constantino XII (1453). é o período compreendido entre a queda do Império Romano do Ocidente (476)62 e a tomada de Constantinopla63. 63 . mas da fé que o homem alcança a felicidade. do XII ao XIV. Esta felicidade está expressa no sentido de posse ou visão intuitiva de Deus. Nesse sentido. E. Surge o Deus pessoal criador do mundo. Na sua fase inicial o pensamento cristão desenvolve-se paralelamente ao pensamento pagão da última fase. Compreendemos que o mundo antigo nos oferecia o espetáculo da competição entre duas sabedorias: a grega e a hebraica. destacaram as virtudes teologais (fé. independente e livre.

é nessa época que o poder político cristão decide erradicar a filosofia pagã. então. em geral. (. e o mau gosto arabesco estragou as escolas. Sutilezas vãs e bárbaras tomaram o lugar da antiga filosofia. para nós.. para alguns.. interesses. (. o 64 . conquista de um só grupo os cristãos ocidentais. Introduziu-se. do ponto de vista do cristianismo ocidental. que eram praticamente os únicos objetos dos filósofos de então”. É um imperador romano que se esforça por acabar com a filosofia como instituição e realidade social. O período da Idade Média é. repartem segundo suas perspectivas. avaliam. imprimem suas diretrizes e direções. o impulso e apogeu de uma cultura. os franceses trouxeram os livros de Aristóteles comentados pelos árabes. os problemas. a história da filosofia medieval é constituída por várias fases: a latina.) O espaço histórico em que se situa Justiniano não é medieval nem tardo-antigo: o tempo em que sua ação se inscreve é o da romanidade. portanto. o marquês Gilbert-Charles Le Grende de Saint-Aubin retrata a filosofia medieval de modo nada lisonjeiro: “Após a tomada de Constantinopla. da suprema afirmação da romanidade bizantina. Para outros pensadores árabe-muçulmanos.. impõem esquecimentos. tradições. Este autor entendeu que o ocidente cristão foi filosoficamente estéril e só despertou do seu longo sono a partir Mencionou que das influências do oriente muçulmano para o ocidente muçulmano e depois para o ocidente cristão.) Portanto. da reconstrução da unidade do Império de Constantino. Na verdade. “O século de Justiniano é. a árabe-muçulmana e uma judaica. um período crucial: é o século da reconquista. Em seu Tratado da Opinião (1735). uma filosofia tirada de Avicena e de outros comentadores africanos.Filosofia Medieval (1998) que a história da filosofia medieval é escrita. e apoderaram-se da lógica e da metafísica. Justiniano é um romano. esse gesto não é isento de conseqüências. os campos de investigação. a Idade Média configurou o nascimento. E que. a grega. pois fixa os objetos. como a arquitetura e as demais artes haviam sido corrompidas pelo gosto gótico. podam. Uma idéia aceita na visão de Alain de Libera é a de que a Idade Média viu a teologia cristã tomar definitivamente o lugar da filosofia grega.. Ora.

nem a filosofia está morta. Este pensador tornou-se mestre em retórica e. mas também como resultado de juízos racionais. Dentre os inúmeros padres da Igreja.14-5. Foi nesse contexto que surgiu a Filosofia Patrística com a missão de apresentar uma única versão do Evangelho. província romana e faleceu como bispo de Hipona em 430. a leitura de um determinado diálogo de Cícero. Agostinho pregou uma aproximação entre o pensamento platônico e o pensamento cristão.conflito entre o helenismo e o cristianismo não termina com o suposto exílio dos filósofos64 na Pérsia. 65 O cristianismo triunfa a partir de Constantino (c. 280 – 337) permitindo a liberdade de culto aos cristãos e reconhecendo a competência da autoridade episcopal nos processos civis. nessa época. inicia-se um movimento de deslocamento ou de translação da ciência: a translatio studiorum. Com o edito de Milão. É preciso lembrar que este pensador conheceu a filosofia de Platão através dos filósofos neoplatônicos de Alexandria e de traduções latinas. na cidade de Tagaste. 2 . aos 72 anos de idade. não só como revelação divina. destacou-se Santo Agostinho. Ao contrário. Agostinho vivenciou os últimos anos do Império Romano. Compreendeu essa decadência como a mão de Deus castigando os homens da cidade terrena e anunciando o triunfo do cristianismo. segundo relata em suas Confissões. que vai durar até o final da Idade Média”. Na prática o cristianismo já possuía estrutura organizada denominada Igreja (ekklesia). momento da descoberta do pensamento de Aristóteles. p. considerado “o pai da filosofia cristã”.Aurélio de Agostinho A influência da filosofia cristã de Agostinho perdurou até o século XIII. a Igreja de Roma foi erigida em centro da cristandade o que engendrou inúmeras disputas sobre divergências na interpretação da mensagem de Jesus. Tentou-se munir a fé com argumentos racionais. Hortensius. 65 . O confronto de opiniões fortaleceu a Igreja católica (em grego Igreja universal). 64 65 Simplício e Damáscio. Aurélio de Agostinho nasceu no Norte da África.

Contra os Maniqueus e as Confissões. A sua filosofia foi elaborada a partir de uma aproximação entre neoplatonismo de Plotino e Porfírio com os ensinamentos de São Paulo e o evangelho de São João. A mente humana que é mutável e falível possui a centelha divina que é o seu intelecto – imagem e semelhança a Deus. fundada por Mani. há um conhecimento prévio. Na obra Cidade de Deus (c. Escreveu os diálogos De magistro. 66 . Contra os Acadêmicos. Com este pensamento Agostinho explica o ponto de partida do conhecimento humano. bispo de Milão. Sobre a trindade e Cidade de Deus. que apresentava uma visão dualista do mundo: o bem versus o mal. Para Agostinho a filosofia antiga consistia do em uma preparação da alma uma para a do contemplação da verdade revelada. ou seja. Na escola de Alexandria. inatista. no séc. Agostinho aderiu ao maniqueísmo. o platonismo era interpretado como uma antecipação do cristianismo. independente da experiência que permite o processo do conhecer.413. todavia desenvolveu uma teoria da interioridade e iluminação. Agostinho rejeitou a doutrina platônica da anamnese.427) nosso autor interpreta a história da humanidade desde o gênesis até o juízo final e a redenção. Mais tarde interessou-se pelo sermão de Santo Ambrósio. Dessa concepção surgiu uma forte desvalorização mundo. o despertou para os estudos filosóficos. Essa noção de interioridade se configura como um prenúncio do conceito de subjetividade que surge no período moderno (In interiore homine habitat veritas). III. estudou os filósofos neoplatônicos em particular Plotino e em 386 converteu-se ao cristianismo. Agostinho apresentou teoria conhecimento na mesma direção da filosofia platônica. religião de origem Persa. Essa interioridade permite acessar a Verdade. Sua contribuição para o desenvolvimento de uma filosofia cristã se deve à sua formulação relacionando teologia e filosofia. sua teoria do conhecimento com ênfase na subjetividade e uma teoria da história expressa na obra Cidade de Deus.que exprime um verdadeiro elogio à filosofia. Quando assumiu a diocese de Hipona redigiu Sobre a doutrina cristã.

somente através de algo que transcende a própria alma humana: Deus. pois aquele que não é não pode ser enganado” – apresentou a primeira certeza. Nesta obra Agostinho apresenta a felicidade como a motivação do pensar filosófico e formula a tese segundo a qual o homem não tem razão para filosofar. apresentando um fio condutor. enfatizou que a alma possui funções importantes dentre as quais a de permitir o conhecimento verdadeiro. No diálogo Alcebíades. o Papa acima dos Reis e nobres feudais. portanto. a essência do ser humano . Platão define o homem como uma alma que serve ao corpo. nesse sentido. formula a noção de história. a percepção sensível. Agostinho assimilou essa transcendência hierárquica da alma sobre o corpo e. Esta está presente nas Sagradas Escrituras. Há um saber prévio existindo de modo infuso que cria as condições de possibilidade para o 67 em que o seu pensar o difere da . passa a ser vista como indagação humana à procura da beatitude. sem início e sem fim. temos dois tipos diferentes de conhecimento: um limitado aos sentidos. por conseguinte. No que se refere à sua teoria do conhecimento. ou seja. e outro conhecimento necessário. A filosofia. eu sou. Este sentido de história deveria incutir na mente humana que a história é aquela que exprime o triunfo da Cidade Divina. imutável e eterno. Com esta idéia na Cidade de Deus. Ocorre que esta idéia já estava presente em Platão e chegou a Agostinho através de Plotino.Assim. rompendo com a concepção grega de uma visão cíclica. exceto para atingir a felicidade. Quando formulou a seguinte frase: “eu me engano.o homem como ser pensante materialidade do corpo. Mas como o homem que é mutável e falível acessa a Verdade? Para Agostinho. Agostinho antecipou a reflexão do cogito cartesiano. Assim. Agostinho afirmou que o erro está em querer que as sensações possam expressar uma verdade ao sujeito. Agostinho representa o momento da cristianização da Europa Ocidental e ressalta a supremacia do poder espiritual sobre o poder temporal. excluindo-se. daí resulta a necessidade da fé como um novo ânimo para viver. Agostinho utilizou a metáfora platônica da alegoria da caverna ou mito da caverna e apresentou o conhecimento verdadeiro como aquele que previamente foi iluminado pela luz divina.

Essa especificidade se desvela nas faculdades da Alma: a memória. Todavia essa igualdade não esgota a idéia de justiça. a salvação depende de Deus. a inteligência e a vontade. Agostinho quis dizer que a cada um será dado segundo o seu mérito. a lei humana. ou seja. 66 Falar de uma Filosofia jurídica implícita no pensamento de Agostinho nos lembra a influência que Cícero exerceu em seu pensamento. Nos dizeres de Joaquim Salgado. a lei natural e. O que temos que perceber é que Agostinho está afirmando a tese segundo a qual todo conhecimento verdadeiro é resultado de um processo de iluminação divina. A percepção de um conteúdo na alma decorre da irradiação divina. portanto iguais. onde figura a idéia de dar a cada um o que é seu. todos os homens são filhos de Deus e.conhecimento humano. Esta última é a mais importante porque é o centro da personalidade humana: é livre e nela reside também a essência do pecado que é a transgressão da Lei Divina criada por Deus. a observância da lei de Deus. Com Agostinho. O homem é criatura privilegiada porquanto feito à semelhança de Deus. portanto. não existe como um princípio poderoso a reger o mundo. Deus é um Ser transcendente que daria fundamento à Verdade. Importa perceber que Deus não substitui o intelecto humano. a privação do bem. criador do Céu e da Terra. O homem é réprobo miserável condenado à danação eterna e só recuperável mediante a graça divina. a justiça consistirá à moda aristotélica da justiça distributiva. lex naturalis e lex humana. está no horizonte desse princípio ou fórmula. o mal é o não-ser. Se todos são iguais. surge uma nova concepção de justiça: a justiça divina. depois. Nesta nova concepção. 68 . Para Agostinho. O próprio Deus. Assim a suma justiça é a 66 Calvino (1509-1564) levou as teses agostinianas às últimas conseqüências. pois o homem deve dar-Lhe amor incondicionado. A queda do homem decorre do seu livre-arbítrio e. Há que se falar também na graça como um tipo de justiça em sua doutrina da iluminação. Agostinho assimilou a concepção estóica da existência de uma lei natural universal dividida em Lex aeterna. o sentido de igualdade perante a lei se configura no próprio princípio de justiça que preside o ato de criação. na verdade precisa dele.

como igualdade de todos. a cidade que não observa esta ordem pratica a injustiça. No que se refere à Lei humana. Esta sua concepção legitimou a servidão. a justiça perfeita. para que a justiça perfeita se opere na cidade. Assim. mas uma religião que servia de contestação da ordem imperial vigente (os romanos). Na ordem natural. A Patrística de Agostinho foi marcadamente um período em que predominou o Novo Testamento como doutrina constituída por regras morais e pela crença na salvação através do sacrifício de Cristo. O homem tornado escravo não deve subverter a ordem social. Essa nova religião buscava no campo dos filósofos gregos os conteúdos para uma filosofia cristã. Agostinho justifica o castigo infligido aos maus. Segundo José Américo M.adequação do agir humano com a vontade divina. A lei eterna liga a criatura a Deus e a justiça se configura na submissão à vontade divina. desprezando a carne e valorizando a alma.58. portanto consiste em dar a cada um o que é seu. Agostinho enfatizou que esta deve ter como fonte de referência a Lei natural. que por sua vez é ditado pela vontade de Deus. 67 Salgado. só acontece na cidade de Deus. 67 A finalidade última do homem é Deus e. pois a servidão nasce do pecado e serve ao propósito de expiação dos males praticados. A justiça está no reconhecimento do homem como imagem de Deus. é a submissão absoluta a Deus. a cidade de Deus e a cidade dos homens em Santo Agostinho. a nova fé não apresentava fundamentação filosófica. A igualdade dos homens entre si é posta por santo Agostinho como absoluta. Como os homens não são perfeitos e se tornam pecadores. P. Joaquim. Nesse sentido afirma Joaquim Salgado: “Dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César é um princípio que fundamenta a doutrina da diferença entre o inteligível e o sensível. nesse sentido. Combater esse mal é um dever sem piedade. a lei natural prescreve a harmonia do homem com ele mesmo. Esta dignidade é o que confere o equilíbrio. com a natureza e com o sobrenatural. A justiça. 69 . mas somente na esfera da cidade de Deus”. Pessanha.

sumas de teologia e a assimilação da filosofia natural peripatética. o apogeu das formas literárias criadas no final do séc. fora conhecida antes. entre o que se sabe pela convicção interior e o que se demonstra racionalmente. os franciscanos ou “irmãos menores” de Francisco de Assis (João Bernardone).Predominaram nesta fase escritos que apresentavam o cristianismo em sintonia com as verdades racionais. Apologia de Sócrates e Banquete. Crítias. O ingresso do pensamento de Aristóteles foi preparado pelo pensamento dos peripatéticos árabes.Tomás de Aquino O século XIII foi denominado de “século de São Tomás” e da “escolástica”. podemos dizer junto com Libera que nunca existiu o aristotelismo em estado puro e que Tomás de Aquino realizou uma certa desplatonização do pensamento aristotélico. Segundo Libera: “Os medievais. prosseguindo com Leonardo Bruni que traduz o Fédon. o Mênon e o Fédon traduzidos por Henrique Aristipo da Catânia. O período entre 1200 e 1300 é marcado pelo surgimento de duas ordens mendicantes: os dominicanos ou “irmãos pregadores” de Domingo de Gusmão. pensaram que Aristóteles compusera 70 . 3 . a criação das universidades. seu comentador. XIII. Além de Agostinho destacaram-se São Justino. as únicas obras de Platão acessíveis eram o fragmento do Timeu traduzido por Calcídio. XV com a tradução da República pelo emigrado bizantino Manuel Crisóloras. em geral. sétima e oitava cruzadas. pois a obra de Avicena. pois a verdadeira difusão do pensamento de Platão ocorreu no séc. A obra de Aristóteles só foi conhecida em parte por volta do séc. Termina com as traduções de Platão e Plotino realizadas por Marsílio Ficino. O problema central da Patrística foi. XIII. XII: comentários de sentenças. Clemente de Alexandria e Orígenes. Tal fato ressalta que os tradutores de Toledo interessavam-se mais pela filosofia árabemuçulmana e judaica do que pelo corpus aristotelicum. novas traduções de Aristóteles e de Averróis. Górgias. também. Temos. Este momento é o período da quinta. sexta. No início do séc. XII o que gerou conseqüências para a história do aristotelismo medieval. Nesse sentido. portanto o problema da relação entre razão e fé. Tais textos não tiveram grande repercussão no séc.

As proibições se dirigiam à Metafísica. é um fenômeno ambíguo. pois entendia que a fé não teria mérito quando a razão humana estivesse a emprestar seus recursos. XII até a segunda metade do século XIII e intelectualmente trazido à cena a partir da segunda metade do séc. Ademais. levando em conta a redescoberta do texto aristotélico pelos comentários ou pelas leituras do peripatetismo árabe. Somente na Universidade de Toulouse. a composição nada tinha de intrinsecamente ligado”. levando em conta os numerosos apócrifos. Para compreender o lugar exato de Aristóteles no pensamento medieval latinófono é preciso ter em mente os três fatos elementares: 1. 68 P. quando. sendo esta restrição reeditada em 1263. na verdade. é um fenômeno supradeterminado. a própria categoria “aristotelismo” é desconhecida na Idade Média e o avanço de Aristóteles foi institucionalmente combatido desde o final do séc. Somente a Lógica de Aristóteles. Inocêncio IV estende a proibição até a Universidade de Toulouse. de Aquino. 71 . a querela do aristotelismo é transposta para o interior da faculdade de Teologia. pelo contrário. XIV.orgânica e completamente suas obras. a o método que do as grande obras comentário. reduzida ao estritamente necessário se relacionou com a teologia da época. Eles não imaginaram a gênese interior do corpus nem as condições concretas de sua composição. o conhecimento de Aristóteles pelos latinos é fenômeno tardio. começa aproximadamente 700 anos após a queda do Império romano do Ocidente. o séc. um aristotelismo neoplatonizante. XII em particular corresponde aos anos sombrios de uma verdadeira ditadura intelectual de Aristóteles. Acreditava-se que a Lógica era neutra. o papa Gregório IX previne os teólogos contra as novidades profanas. Ledo engano. 2. Estagirita fundamentado em recortes do texto e na sua recomposição por divisões e subdivisões impôs idéia do apresentavam um plano perfeitamente ordenado. 359. 3. Com Averróis e Tomás lógicas.68 Para a maioria dos historiadores da filosofia medieval. Em 1230. Aristóteles é lido sem restrição – Aristóteles não seria mais corrigido. aos livros naturais e às sumas extraídas dessa. incorporados pela tradição interpretativa.

Os realistas sustentam que há uma existência efetiva dos universais. discípulo de Plotino. Essa existência pode ser à maneira platônica ou à moda aristotélica. Por volta de 1239 retorna a casa dos pais antes de ingressar na Universidade de Nápoles. Os nominalistas compreendiam que os universais eram termos que designam idéias gerais. História da Filosofia. Aos cinco anos foi oferecido como oblato70 à abadia beneditina de Monte Cassino permanecendo até quatorze anos. nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos. ingressa como noviço na ordem dos Irmãos Disse Porfírio: “enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na sua pura inteligência. Fato que constituía ameaça para o acordo entre a reflexão filosófica e a fé cristã. 69 Em 1244. 72 . p. nem. A partir do séc. as obras de Aristóteles começam a ser divulgadas por intermédio dos árabes que continuavam instalados em Espanha. se são corpóreos ou incorpóreos. Tomás de Aquino nasceu em 1225. Do século XI ao século XIII. O aristotelismo será conhecido através dos comentários dos árabes. Importa perceber a diferença entre o sentido literal e o saber simbólico. Veja-se a Rosa como símbolo de perfeição.todavia tornando-se letra morta. seu pai foi conde de Aquino. XII. A preocupação da Escolástica com as palavras resulta da investigação da Bíblia como portadora de verdades. pura abstração que o intelecto faz. no interior das Universidades.107. o problema que apaixonou a Idade Média e que orientou a reflexão filosófica foi o problema dos universais. meras palavras sem existência real. fundada por Frederico II. levantado a propósito da obra Isagoge de Porfírio69. formando parte dos mesmos” Apud. no caso de subsistirem. Por tanto. O papado não teve poder para impedir a difusão do aristotelismo através de Averróis. A indagação era: qual a relação entre as palavras e as coisas? O célebre romancista Umberto Eco escreveu a obra O nome da rosa para colocar essa questão medieval dos universais. neste período desenvolveuse grande estudo da linguagem para depois examinar a realidade das coisas. A palavra rosa subsiste à morte da própria flor – qual seria a relação entre o nome e a coisa? Linguagem e realidade? Diante de tais indagações os medievais tomaram duas direções: o nominalismo e o realismo. 70 Oblato: leigo que se oferece para o serviço monástico.

Aquino estava firmemente agarrado ao princípio da não-contradição. agostinianos. Nenhuma verdade de fé pode 73 a lecionar na Universidade de . Em 1259 é chamado à Itália por Alexandre e torna-se o teólogo da cúria pontifícia. Em 1272.pregadores e renuncia ao abadado do Monte Cassino. conservadores. o papa Gregório X o envia para a Universidade de Nápoles. De 1248 a 1252 viveu em Colônia sob a orientação de Alberto Magno. inimigos de todas as novidades e. confiante no poder da razão relacionado à autoridade da fé. sob escolta. Libertado por suas irmãs em 1245 foi para Universidade de Paris em busca do mestre Alberto Magno que empreendia a reforma dos estudos teológicos. Em 1277. Etienne Tempier e pelo primaz de Inglaterra. Por ocasião de sua ida à Paris em companhia do mestre geral da ordem. Nenhuma verdade certa do ponto de vista da razão pode ser contrária à fé. Todavia. encontra a universidade de Paris dividida por lutas doutrinais. os franciscanos. Em 1256 obtém de seu protetor. Sua doutrina encontra inimigos entre os franciscanos e dominicanos. Robert Kildwarby. Por ocasião de uma viagem com o objetivo de assistir o concílio de Lyon. ou seja. Regressa a Paris em 1252 e obtém o título de bacharel bíblico e sentenciário. De um lado. encarregado de comentar o livro das sentenças de Pedro Lombardo. Estava convencido da unicidade da Verdade. Começa Paris com 27 anos. por conseqüência. o papa Alexandre IV. o averroísmo latino que negava a individualidade da alma humana e professava que o universo era tirado de Deus por necessidade e. o título de mestre. Tomás escreve obras a pedido do papado com vistas a observar o Novo Testamento e o pensamento grego. contra os projetos de sua família. morre de uma doença (1274) aos 49 anos. um centro de estudos teológicos. Elabora seus comentários sobre as obras de Aristóteles a partir da tradução de Guilherme de Moeberke. Em 1269. seus irmãos o levam para a casa de sua família. para organizar um studium generale. o tomismo foi condenado simultaneamente pelo bispo de Paris. o papa João XXII encerra o processo de canonização de Tomás em 1323 e afirma que seus escritos são milagres. de outro. do aristotelismo.

Seu tomismo não é uma simples justaposição da filosofia e da teologia. a criação do mundo ou o mistério de um Deus em três pessoas. não é um impulso cego da sensibilidade. A sua originalidade reside no equilíbrio interior que realiza entre a supremacia da teologia e a autonomia da filosofia. não somente para dar um mínimo de sentido intelectual à palavra Deus. e menos ainda um sacrificium intellectus. O conhecimento da fé pressupõe e pré-exige a validade do conhecimento natural de Deus. mas é o próprio 74 .Fé e Razão Para Tomás de Aquino. O teólogo apela para a razão natural. No entanto. tal como não há conhecimento sobrenatural sem a possibilidade dum conhecimento natural. objeto adequado da fé. e a teologia revela tanto melhor o caráter sobrenatural da fé quanto mais respeitar a luz natural da razão.1 . Para Tomás. a fé significa obediência e confiança na Palavra de Deus. Pela adesão total que ela exige dum ser dotado de razão e vontade. Mas estabelece uma relação que mostra a filosofia servindo tanto melhor à teologia quanto mais rigorosamente filosófica ela for. A verdade é só uma. por exemplo. embora existam duas vias para atingir. transcende o objeto próprio da razão. Não há um Deus para a fé e outro para a razão: só a afirmação de Deus pela fé difere da afirmação de Deus pela razão. Não existe fé para um ser privado de razão. não para provar este ou aquele artigo de fé.negar uma verdade natural. A necessidade duma inclusão não do conhecimento a natural de no uma conhecimento sobrenatural significa necessidade anterioridade histórica do conhecimento filosófico de Deus relativamente ao ato de fé. suscita por si própria a pesquisa teológica. a fé ultrapassa a razão. Com a expressão Fides quaerens intellectus de Santo Anselmo se define no trabalho da teologia: a fé em busca da inteligência. Deus. mas. mas também porque é o mesmo Deus que é visado pela razão e pela fé. a fé não está ligada a uma pesquisa da razão natural para demonstrar aquilo em que se acredita. 3. mas para explicitar o conteúdo desses artigos e captar a ordem dos argumentos pelos quais se passa de um para outro.

e. Nesse sentido. graças à revelação. elas vivem uma da outra e realizam-se numa promoção mútua e nessa relação recíproca. o acordo da Filosofia com a Teologia. A priori é impossível saber e crer uma mesma coisa sob o mesmo ponto de vista. A teologia que é iluminada pela luz natural da fé. mas diretamente de Deus.Deus o objeto real – objectum ut res – da fé e da razão. devido à sua maior semelhança com a Ciência Divina. E segundo E. De fato. e no mesmo indivíduo. Gilson. a Teologia é mais perfeita que a filosofia. no Tomismo. mas 75 . nem a razão é anexada pela fé. no entanto. a grandeza filosófica de Tomás de Aquino muitas vezes é esquecida ao denominá-la de “filosofia aristotélicotomista”. O Tomismo caracteriza-se na crença inabalável no acordo entre a verdade terrestre evidenciada pela razão e a verdade de fé recebida pela revelação. é conseqüência necessária das exigências da razão e não simples desejo. entre a fé e a razão. Nem a fé está subordinada à razão. todavia sob perspectivas diferentes. encontram-se a si mesmas. Na visão de Édouard Hugon. Tomás de Aquino seguiu as trilhas de Aristóteles. o filósofo aprecia as causas segundas. A especulação teológica depende diretamente da fé. Para Tomás somos feitos de tal modo que o nosso intelecto deve partir dos conhecimentos obtidos através da luz natural da razão para ser encaminhado para os conhecimentos que ultrapassam a razão e formam o objeto da teologia. Filosofia constitui simplesmente a pré-compreensão ou o preâmbulo necessário à inteligibilidade das verdades reveladas. o teólogo encara-as na sua relação com Deus. ao mesmo tempo. O filósofo considera as criaturas em si mesmas. O que é objeto da fé não é da ciência. O teólogo aprecia as causas primeiras. a reflexão filosófica é essencialmente obra da razão. O mérito do Tomismo é manter assim. Não cabe à Filosofia procurar para a teologia essa evidência do seu objeto que a tornaria uma ciência perfeita mesmo para nós. Há uma inclusão do conhecimento natural no conhecimento sobrenatural. uma distinção sem separação e uma união sem confusão. Mas Tomás acredita que para um mesmo objeto poderá haver fé e saber. uma vez que Deus se conhece primeiramente a si mesmo e vê em si próprio todo o resto. não recebe os seus princípios da filosofia.

A noção de ser é o fundamento primeiro das coisas e a última determinação da perfeição das mesmas. em primeiro lugar o objeto e depois o sujeito. sabemos através de uma operação lógica que Deus é e o conhecemos por meio de uma analogia.14. levando às últimas conseqüências aquilo que Aristóteles esboçara. 76 . I. Porto Alegre: EDIPUCRS. Édouard. os seres de razão nada mais são que idéias formuladas pela razão. O seu tomismo origina-se da percepção sensível do mundo para dela tirar no âmbito da inteligência um conjunto conseqüente e harmonioso de teses. cuja realidade objetiva está tão somente na inteligência. seu realismo é a filosofia do ser e da verdade.reformulou-os de tal modo que arquitetou uma nova filosofia. ou dizendo de outro modo. para que melhor se atinja a realidade existencial das coisas. Deus seria a explicação de todas as coisas. conceituadas pela inteligência. “Se o Tomismo admite entes de razão. O ser é a própria natureza de Deus. Em primeiro lugar. apreendidas pelos sentidos. das perfeições e da ordem harmoniosa das coisas. Somente em Deus o ser atinge a sua suprema perfeição. mas para que se manifeste a verdade” (De Coelo et Mundo. dirigindo-se às explicações últimas das mesmas. “O critério supremo do tomismo é a verdade imparcialmente aceita”. A noção do ser é a primeira que afeta nossa inteligência e perpassa todos os nossos conhecimentos. Os Princípios da Filosofia de Tomás de Aquino: as vinte e quatro teses fundamentais. da causalidade existente entre elas. depois a mente. da contingência.71 Diz-nos Tomás de Aquino: “O estudo da filosofia não é para se saber o que os homens pensaram. por conseguinte. ou seja. as coisas. Introduziu na filosofia peripatética os conceitos de Deus como criador das coisas. Nessa trajetória partia das percepções mais primitivas até alcançar a certeza do Ser Supremo: das mudanças. temporalidade da matéria-prima. p. O ponto fundamental de sua filosofia é o realismo. Deus é o ser de ato puro destituído de 71 HUGON. O seu ponto de partida é a realidade das coisas e não das idéias imaginadas. Deus une todas as perfeições na infinitude de um ser que vem de si mesmo e que desconhece mudanças e sucessão.22). Tomás de Aquino buscou as razões principais das coisas existentes. do próprio ser. verdade que seria a correspondência da mente com as coisas. 1998.

A liberdade afigura-se como livre-arbítrio.qualquer imperfeição ou potência – a perfeita posse e simultânea de todas as perfeições: é o ser eterno (Boécio) ”. A concepção ética de Tomás de Aquino é teleológica.Justiça e Sinderesis O cristianismo opera um deslocamento no sentido da liberdade.73 A sinderese atua para desvelar o bem. mas sim Idem ibidem. Na visão aquiniana o mal só encontra sentido enquanto “bem aparente” e isto significa dizer que decorre de um equívoco que pensa o mal como se fosse o bem. de conceitos (. Ética a Nicômaco. passa a figurar para os medievais somente no interior de cada ser humano e se articula com a idéia de vontade dividida entre bem e mal. ou seja. percebemos a despolitização da liberdade e a sua moralização junto à concepção de culpa originária. 72 73 72 a vontade divina. Nesse sentido. 3. de experiências hauridas pela prática da ação. ou seja. Na verdade Tomás de Aquino compreendeu o mal como privação do bem ou estado de ignorância do verdadeiro Bem. é capaz de formar um grupo de princípios. A noção de responsabilidade assume um 77 . Partindo dessa experiência podemos cunhar os principais conceitos acerca do que é bom ou mal.. porque enfatiza o fim último do obrar ético na noção de Bem Comum.2 . aquilo que a todos agrada (bonum est quod omnia eppetunt). Surge a idéia do dever e da obrigação que exige submissão à papel novo: a responsabilidade individual. Enquanto para os antigos a liberdade era um conceito essencialmente político. A atividade ética consiste no que denominamos de atividade da razão prática. Ver. A sua filosofia denominou a razão prática de sinderese ou sinderesis que poderá ser entendida como um conjunto de conhecimentos conquistados a partir da experiência habitual.14. capacidade racional de discernir o bem do mal para alcançar o fim último. Isto quer dizer que os hábitos não são inatos. justos e injustos).) que permitem a decisão por hábitos (bons e maus. ou seja. p.. Livro VII: o agir ético como um agir pendular entre o vício e a virtude. Segundo Eduardo Bittar: “Todo conjunto de experiências sinderéticas. justo ou injusto.

Uma lei insuficiente e incompleta. II. 3. podemos afirmar que BITTAR. cap. 232. Uma lei racional.conquistados a partir da experiência. o homem deverá guiar-se por princípios extraídos da experiência sinderética. actum justitiae pracedit quo aliquid alicuius suum efficitur. A lei positivada é importante no sentido de que conduz o homem ao caminho virtuoso do Bem Comum e torna a convivência social pacífica. Em outras palavras. como já se disse fazer o bem e evitar o mal (bonum faciendum et male vitandum). 2. São Paulo: Saraiva. do temor de sua onipresença e da vontade de orientar-se de acordo com a palavra que salva. o meio entre excesso e carência. Essa experiência formará a lei natural que apresentará as seguintes características: 1.75 A igualdade que figura nesta definição de justiça é uma igualdade entre pessoas. Bittar observa que na visão aquiniana é da interioridade virtuosa que o homem retira o necessário para a elaboração da conduta externa. 75 Aquino. será. o bem que se pratica é fruto da fé e do conhecimento da divindade. segundo uma razão geométrica. sicut in rebus humanis patet. Encontramos ecos do pensamento aristotélico que concebia a justiça como uma virtude e o conceito romano de justiça como vontade perene de dar a cada um o que é seu. Tomás de Aquino afirma expressamente que justiça é dar a cada um o que é seu: Cum iustitiae actus sit reddere unicuique quod suum est. para a qual representa uma diretriz. 2. p.”74 Nesse modo de ver. ou seja. 74 78 . originária que somente poderá ser considerada como princípio norteador. A justiça é uma virtude. Eduardo C. Uma lei rudimentar. ou seja. ou seja. no sentido de que exige o complemento de uma lei positiva. Curso de ética jurídica: ética geral e profissional. B. é essa a base das operações da razão prática. pois é fruto da experiência racional ou sinderética. assim dirigida em sua finalidade. Justiça é um hábito que se desvela nas atitudes ou comportamentos dos homens. Tomás de Aquino apresenta o seu conceito de justiça a partir do seu conceito de ethos. A ética exige o sentido de justiça no âmbito das relações entre homens. XXVIII. 2002. T. Summa Contra Gentiles. O princípio da razão prática. Liv.

A razão grega partia da realidade tangível e visível. A razão grega acreditava no destino. na boa ou má sorte. na adivinhação etc. onde Deus se torna o valor supremo. o seu paganismo lançava raízes no pensamento mágico. nas inspirações superiores. 79 . 2. 3. independente e livre. as virtudes teologais (fé. Na sabedoria hebraica ou da salvação. Estudamos que o mundo antigo nos oferecia o espetáculo da competição entre duas sabedorias: a grega e a hebraica. esperança e caridade) se colocam acima das virtudes morais. a transfiguração da felicidade em bem-aventurança. O cristianismo promoveu uma modificação dos valores éticos: 1. a transcendência do fim último. sendo ele perfeito. o que significa dizer que não é através da razão. Surge o Deus pessoal criador do mundo. do vir-a-ser. A sabedoria grega apresentava um interesse direcionado para mundo. Deus é quem concebe a sabedoria ao homem. do comportamento humano. Este conflito marcou o fim do período antigo e o esforço da Idade Média em articular a sabedoria divina com a sabedoria humana.Aquino quer dizer que a Lei divina (lex aeterna) possui uma supremacia que a coloca em uma instância superior em relação à lei natural e positiva. Nesse sentido. Esta felicidade está expressa no sentido de posse ou visão intuitiva de Deus. mas da fé que o homem alcança a felicidade.

duas versões do direito natural: a versão naturalista de Ulpiano e a versão racionalista de Cícero. em versão racionalista. conforme à razão.O jusnaturalismo no pensamento antigo e medieval As primeiras manifestações do jusnaturalismo aconteceram na Grécia. O mundo grego antigo desenvolveu um jusnaturalismo cosmológico. oposta à de Cícero. Esta concepção que se configura em uma versão naturalista. São Paulo: Nova Cultural. Há a afirmação de um conceito de “justo por natureza” que se contrapõe ao “justo por lei” que fora enfatizado pelos sofistas que já entendiam a expressão “justo por natureza” de formas distintas e com conseqüências políticas também diversas.O Jusnaturalismo 1 . XII). Essa idéia acabou por reduzir o direito natural ao mero instinto. compreendia a Natureza como se fosse governada por uma lei universal. In: Coleção Os Pensadores. Os padres da igreja ao acolherem as idéias de Cícero. posto que incluía também como seres animados os seres irracionais. imutável e eterna. Essa concepção apresentada em Roma por Cícero. os motivados apenas por instinto. portanto. por exemplo. O jusnaturalismo presente no pensamento de Platão e Aristóteles. posteriormente retomado pelos estóicos. Temos. Os juristas romanos também buscaram no estoicismo a idéia de um direito natural como. A idade Média se identificava com a doutrina de um suposto direito natural revelado por Deus a Moisés e com o Evangelho (Graciniano – séc. Ulpiano que chegou a definir o direito natural como aquilo que a natureza havia ensinado a todos os seres animados. 76 “Epicuro”. racional e imanente. foi adotada por muitos escritores medievais. ou seja. Na obra De Republica. exerceu grande influência no pensamento cristão dos primeiros séculos. se viram diante de uma grande tarefa: conciliar esse direito natural com a idéia de lei revelada. Cícero76 defendeu a existência de uma lei verdadeira. 80 . governador do universo. 1988. Foi Tomás de Aquino que compreendeu a lei natural como aquela fração da ordem imposta pela mente de Deus.Parte V . que não muda com os países e com os tempos e que o homem não pode violar sem renegar a sua própria natureza humana.

o direito natural passara a ocupar status privilegiado. baseando-se no princípio de que o direito particular prevalece sobre o direito geral – “lex specialis derogat generali”.Jusnaturalismo no pensamento renascentista e moderno Segundo os estudiosos. ou seja. para um retorno à Antigüidade clássica. Tomás de Aquino foi severamente criticado por seus coetâneos. uma vez que adquirira o status de norma fundada na própria vontade de Deus – como a lei escrita por Deus no coração dos homens. Enfim. 2 . mas tão somente era considerado como um direito comum. posto pela sociedade civil. O objetivo perseguido por esses intelectuais era abandonar as idéias medievais. O direito natural é percebido como aquele contido na lei mosaica. A doutrina tomista foi considerada por muitos comentadores como uma retomada do pensamento estóico-ciceroniano da lei verdadeira enquanto racional. 77 Conforme exprime Sófocles na tragédia grega sob o nome de Antígona. O direito positivo como um direito especial ou particular de uma dada civitas. O seu jusnaturalismo foi de grande importância. Desta concepção derivou a idéia jusnaturalista do direito natural como superior ao direito positivo. Nesse contexto. A esse respeito ressalta Norberto Bobbio que se trata de uma distinção de grau e não de qualificação. 81 . na época clássica. pois tanto um como outro se configuram como direito na mesma acepção do termo. o direito positivo assumira o caráter de fenômeno social. Por outro lado. inúmeros agrupamentos sociais cada qual dispondo seu próprio ordenamento jurídico. 77 Não podemos olvidar que a sociedade medieval era marcadamente uma sociedade pluralista.que se acha presente na razão humana – uma norma racional. mas hoje é considerado o filósofo medieval mais importante do catolicismo. pois constituiu a base do jusnaturalismo católico. no Velho Testamento e no Evangelho. Somente com o advento do positivismo jurídico é que o direito natural é excluído da categoria do direito. o termo Renascimento significa um movimento intelectual que se iniciou por volta do final do século XV. No sentido amplo. o direito natural não era concebido como superior ao direito positivo.

Os pensadores florentinos que valorizavam a política e defendiam os ideais republicanos das cidades italianas contra o império romano-germânico. devastada por inúmeras dissensões e uma esplêndida florescência do humanismo. A inquisição foi reativada no Concílio de Trento (1545-63) 82 . Bocaccio. Tomas Morus. 2. Michelangelo. 3. Essa fase marcou também o momento inicial de uma filosofia do direito e do Estado explícita como resultado do homem em seu novo papel de criador no mundo social. Kepler e tantos outros. a saber: 1. Surgem cientistas e filósofos que revisitaram as questões medievais. na qual a observação assume papel fundamental. o céu não era finito e o homem deixava de ser criatura miserável. 78 Foi um momento em que o homem perdeu suas certezas e verdades. Dante. a valorização da razão e da liberdade. aumentando a tensão entre os imperadores e o papado (liberdade política versus autoridade eclesiástica). Galileu Galilei. Camões. que nesta fase ressurge um interesse pela pesquisa natural. das técnicas e das artes. a partir do neoplatonismo e a descoberta do hermetismo que compreendiam a Natureza como um grande ser vivo. a “Reforma” que tem sido considerada responsável pelo surgimento do protestantismo no séc. o homem como microcosmo e o conhecimento da Natureza através da magia natural (alquimia e astrologia). Erasmo de Rotterdam.Renascimento configura um momento de tensão entre duas autoridades: a do Papa e a das monarquias. O pensamento platônico. Maquiavel. Este é o século de Shakespeare. da política. Durante essa fase muitos precursores da ciência sofreram nos Tribunais da Inquisição. ou seja. Trata-se de uma época de grande crise da consciência européia. Três concepções predominaram no período do Renascimento. Leonardo Da Vinci. o estudo da cultura greco-romana. Observa-se. Os reformadores protestantes voltaram as costas à Giordano Bruno ( 1548-1600) foi condenado à morte por apresentar a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico ( 1473-1543) e a infinitude do universo. a exaltação do homem. afinal. 78 XVI fortaleceu o individualismo intelectual e estético desse humanismo crescente. No âmbito religioso. portanto. a partir de uma nova ótica. Cervantes. órgão da Igreja encarregado de descobrir e julgar os hereges. a Terra não era mais o centro do universo. A concepção do homem como artífice de seu próprio destino através do conhecimento.

a criação da Imprensa. um retorno ao pensamento agostiniano. num plano mais vasto. Este é o momento de crise. características liberais. crise que caracteriza a transição da Cristandade medieval para o Estado moderno. Grócio diferenciou direito natural e direito positivo da seguinte maneira: “O direito natural é um ditame da justa razão destinado a mostrar que um ato é moralmente torpe ou moralmente necessário segundo seja ou não conforme à própria natureza racional do homem”. e se deve à grande disputa entre as alas extremas do voluntarismo calvinista e o pensamento tomista de influência estóica-ciceroniana. XVII características laicas80 e no campo político. Este autor sustentou que o direito natural é imutável e independente de Deus como legislador supremo. pretendendo com isso reatar a Antigüidade cristã. O que importa perceber é que. o descobrimento da América. Na profundamente o cenário europeu: verdade vários acontecimentos contribuíram para essa mudança: o combate ao pluralismo feudal.81 de 1625. independente de qualquer interferência divina. o surgimento da palavra Estado . enunciada na obra De iure belli ac pacis. Não eclesiásticas ou leigas. a tentativa de enfraquecer o papado. o pensamento de Grócio teria fortalecido o caminho para esse pensamento laicizado no âmbito da moral e da política. Como ressalta Truyol importantes desta etapa y Serra79.tradição medieval. Na verdade o direito 79 80 81 Truyol y Serra. sob o aspecto terminológico. Do direito da guerra e da paz 83 . designando a idéia de coisa pública.lo stato. uma cultura laica e antiteológica. dentre os acontecimentos mais do pensamento humano. e. fortaleceram a oposição à Escolástica medieval. Alguns autores entenderam que a origem do jusnaturalismo moderno estaria na doutrina de Hugo Grócio (1583-1645). momento do surgimento de uma nova cultura. p. a expansão da economia no sentido de um capitalismo.5 Do renascimento a Kant. Hugo Grócio afirmou que o direito natural é ditado pela razão. um alterou o advento do Estado soberano. Segundo alguns comentadores. as viagens de exploração ultramarina pondo o Ocidente em contato com outros povos. Esta sua idéia anuncia o modo de ver da época que estaria por vir. O jusnaturalismo moderno assumiu no séc. a época do Iluminismo.

o segundo momento do jusnaturalismo configura o momento de uma teoria dos direitos subjetivos. por sua vez. O jusnaturalismo de Grócio e o jusnaturalismo do séc. Spinoza. apresentava-se sob o nome: Do direito natural e das gentes. escritos em 1680 e publicados em 1690 que já observava limitações ao poder real. Tomásius e Rousseau foram o pensamento racionalista de Hugo Grócio forneceu as condições de possibilidades para considerados representantes dessa escola. a idéia de um contrato originário como origem da sociedade. A Escola Clássica do Direito Natural apresentou e defendeu algumas idéias. e eterno. 84 .possui uma dupla origem. Na Inglaterra. de John Locke. 3 . Rio de Janeiro: Forense. Tais idéias no seu conjunto contribuíram para o processo de laicização do direito. A obra de Grócio difundiu com grande sucesso a idéia de um direito natural. Bobbio observa que entre 82 NADER. universal Hobbes. a saber: a valorização da natureza humana como fonte do direito natural. Segundo Paulo Nader82. Puffendorf. temos a obra Dois tratados sobre o governo. a saber: a recta ratio e a appetitus societatis (desejo de uma sociedade tranqüila e ordenada). Além de Hugo Grócio. ao largo do pensamento do holandês Hugo Grócio. Locke. A conseqüência mais relevante do seu pensamento foi a idéia de adequar a lei positiva e a Constituição a esse direito natural e legitimar a possibilidade de resistência e desobediência civil em caso de conflito. cuja fonte repousa exclusivamente na validade da sua conformidade com a razão humana. o advento da Escola Clássica do Direito Natural. como também conduziram ao sentido de um direito natural imutável. a existência de direito naturais inatos. Paulo. XVII foram de grande importância. Filosofia do direito. 2003. a crença num suposto estado de natureza.Características do jusnaturalismo moderno A diferença marcante entre o jusnaturalismo antigo-medieval e o jusnaturalismo moderno repousa sobre o fato de que o primeiro vincula-se à idéia de que tal direito constituiria uma teoria do direito natural como norma objetiva. pois fundamentaram teoricamente o que entendemos por direito internacional daquela época que.

como também na Declaração da Independência dos Estados Unidos da América (1776). Os indivíduos abandonam o estado de natureza (diversamente entendido. Por conta deste traço essencial. mas sempre carente de organização política) e fazem surgir o Estado politicamente organizado e dotado de autoridade para garantir os direitos naturais. Vattel. Esse modo de ver modifica também a figura do Estado que passa a não ser mais visto como instituição necessária por natureza. Isto quer dizer que se acham presentes em todas as doutrinas legítimas dessa corrente de pensamento político. sobretudo em Rousseau e Kant. Wollf. Faz-se mister ressaltar que. As doutrinas jusnaturalistas modernas consideraram a sociedade como efeito de um contrato entre os indivíduos. mas sim como obra voluntária dos indivíduos. ressaltando peremptoriamente a necessidade do respeito e reconhecimento desses direitos por parte da autoridade política. conquanto diversamente entendidos pelos vários expoentes do jusnaturalismo moderno (Grócio. o jusnaturalismo do séc. a Declaração dos Direitos do 85 . a teoria do contrato afigurou-se como uma historieta de ficção. o da norma.o direito natural da Antigüidade clássica. Milton. deixando de lado o aspecto objetivo. este contrato se desdobraria em dois momentos: o pacto de união e o pacto de sujeição. Fichte) são conceitos característicos desta corrente de pensamento. ou mera idéia reguladora capaz de explicar racionalmente a realidade histórico-política da formação do Estado. Locke. O jusnaturalismo moderno enfatiza o aspecto subjetivo do direito natural. do período medieval e do período moderno não há rupturas. Direitos inatos. isto é. A tradição constitucionalista inglesa inspirou-se na doutrina do direito natural. Rousseau. visando salvaguardar os direitos naturais. A legitimidade do Estado é assegurada por um pacto entre cidadãos e um soberano. mas continuidade. Cumberland. Kant. Pufendorf. XVII e XVIII fundamentou doutrinas políticas de tendência individualista e liberal. estado de natureza e contrato social. os direitos inatos. que afirmaram a existência de direitos do homem inalienáveis. Nesse sentido.

Desta forma. Hobbes (1588-1679). Sentiu-se em certo momento uma forte necessidade de reforma legislativa. Rousseau (17121778). XVIII.As teorias do contrato e o direito natural Por contratualismo entendemos teorias diversas com problemas e soluções também diversas. XVII e fins do séc. um acordo tácito ou expresso entre a maioria dos indivíduos.O estado de natureza como mera hipótese lógica a fim de ressaltar a idéia racional ou jurídica do Estado. Nesta concepção o fundamento da obrigação política repousa consenso expresso ou tácito que legitima uma autoridade que os represente e encarne (contratualismo clássico). a saber: 1 . Tais autores apresentaram o uso comum de uma mesma sintaxe ou estrutura conceitual para racionalizar a força e alicerçar o poder no consenso. J. Em sentido amplo. o contratualismo compreende aquelas teorias políticas que vêem a origem da sociedade e o fundamento do poder político na figura jurídica do contrato. Pufendorf (1632-1694). 86 . a fraternidade e a igualdade. Althusius (1557-1638). 4 . J. Outro efeito importante do jusnaturalismo moderno foi a reformulação da legislação positiva para torná-la adequada às novas exigências. que teve os seguintes expoentes: J. I. J. o jusnaturalismo com sua teoria de um direito absoluto e universalmente válido.Os que sustentavam a passagem do estado de natureza ao de sociedade como um fato histórico realmente ocorrido para dar conta do problema antropológico da origem do homem civilizado. ou seja. Kant (1724-1804). 2 . S.-J. Locke (1632-1704). enquanto ditado pela razão. seria capaz de oferecer as bases doutrinais para uma reforma racional da legislação. podemos compreender dois níveis distintos. assim. Spinoza (1632-1677).Homem e Cidadão (1789) configurou um dos primeiros atos da Revolução Francesa que proclamou a liberdade. acordo que assinalaria o fim do estado natural e o início do estado social e político. Em sentido restrito. representa uma escola que floresceu na Europa entre os começos do séc. T.

Este direito natural teria validade em si. ou seja. seria anterior e superior ao direito positivo e. Qualquer atividade política que se oponha às normas do direito natural será considerada ilegítima. aquele estabelecido pelo Estado e cuja validade não dependeria de valores éticos. caracterizando-se por possuir um direito natural.Encontramos. a de lei ditada pela razão. a necessidade de legitimar o Estado. específica do homem. uma forma de convivência onde existiam apenas relações intersubjetivas entre os homens. um sistema de normas de conduta diversa do sistema constituído pelas normas fixadas pelo Estado. ou seja. Este seria o momento anterior à formação da sociedade política. as leis criadas pelo soberano que tenderiam a substituir o direito consuetudinário. Todas essas versões partem do pressuposto que o direito natural é constituído de normas logicamente anteriores e eticamente superiores às do Estado. em caso de conflito. sem um poder político organizado. os jusnaturalistas admitiam a existência de um suposto estado de natureza. colocando como base de toda juridicidade o pacta sunt servanda.O conceito de jusnaturalismo segundo Guido Fassò O jusnaturalismo é uma doutrina que afirma a tese segundo a qual existe e pode ser conhecido um direito natural. que a encontra dentro de si. animal racional. Na história da filosofia jurídico-política surgiram três versões do jusnaturalismo: a de lei estabelecida por vontade da divindade e por esta divindade levada aos homens. Enfim. 87 . assim. O jusnaturalismo é uma doutrina oposta ao positivismo jurídico que enfatiza a existência de um só direito. 5 . a idéia do direito como a única fonte de racionalização das relações sociais. a de lei natural em sentido estrito e conatural a todos os seres animados. construir um sistema jurídico que evidencie a autonomia dos sujeitos desse contrato. ele prevaleceria. Três fatores explicam essa idéia: a influência da escola do direito natural com a qual o contratualismo está relacionado.

pois este filósofo entendia que o direito natural poderia mudar no tempo. Nesta obra o direito positivo é denominado de direito legal. sua bondade é objetiva. o direito positivo é aquele que estabelece ações que.Proposta para uma distinção entre direito natural e direito positivo Segundo ensina Norberto Bobbio. à razão natural e o segundo tipo corresponderia às estatuições do povo.Critérios de distinção entre direito natural e direito positivo Norberto Bobbio enumera seis critérios para distinguir direito natural e direito positivo. 7 .83 Observa-se que este critério não pode ser atribuído a Aristóteles. O segundo critério repousa sobre a diferença entre imutabilidade e mutabilidade: o direito natural é imutável. No direito romano a dicotomia direito natural e direito positivo pode ser vista a partir da distinção entre jus naturale (inclui-se aqui o jus gentium) e jus civile. o primeiro tipo de direito corresponderia à natureza. antes de serem reguladas. mas se imposta por lei. que seria o correlato ao nosso direito positivo. O primeiro critério baseia-se na antítese universalidade/particularidade: o direito natural é universal. o direito positivo particular (Aristóteles). podem ser cumpridas indiferentemente de um modo ou de outro. a saber: 1. Segundo Bobbio. 83 88 . da Ética a Nicômaco de Aristóteles. na obra O positivismo jurídico. 2. o direito natural se define pelos termos “justiça” e “direito”. do Livro V. a clássica distinção entre direito natural e direito positivo já se encontra claramente exposta no cap. O direito natural seria aquele que a natureza ensina aos homens e o direito positivo aquele organizado por um determinado povo em uma determinada época. são ações consideradas boas em si mesmas. o direito natural possui eficácia em toda parte e prescreve ações cujo valor não exige ajuizamentos. devem observar o seu modo prescrito em lei.6 . Para Aristóteles. VII. o direito positivo é mutável (Paulo). O direito positivo tem eficácia apenas nas comunidades políticas em que é posto.

A formação do Direito Positivo e sua aplicação exigem a atuação do jurista prático e a presença do teórico. mas está presente em todas as dimensões da juridicidade. o juiz deve possuir o pendor para a reflexão.”84 De um modo geral. de acordo com o pensamento de Giovanni Reale85. São Paulo: Paulus. Se o conjunto de princípios é alcançado pela reflexão. Rio de Janeiro: Forense. Paulo. 6. 2003. o comportamento observado pelo direito positivo depende da sua tipificação para ser justo ou injusto. p.907. 1991. a figura do jurista. Não há dúvida de que o jusnaturalismo configura uma doutrina muito antiga que relacionou direito e justiça. a sua conversão em Direito Positivo. Como a tarefa do Direito Natural não se limita na orientação ao legislador. no poder 4. o direito positivo. 154-172. 5. a esfera do realismo jurídico e a positivismo jurídico. Este critério concerne ao objeto de cada direito: o comportamento regulado pelo direito natural poderá ser considerado bom ou mau por si mesmo. fonte do direito: o direito natural funda-se no poder da razão. 86 Falarei do realismo jurídico e do positivismo na apostila “O positivismo Jurídico”. Sugiro a leitura do capítulo XIII – “A doutrina do Direito Natural”. podemos observar. Este critério refere-se ao modo pelo qual o direito é conhecido por seus destinatários: o direito natural é conhecido pela razão. p. O pensamento jusnaturalista NADER. sem se esgotar. o direito positivo é conhecido através de uma declaração de vontade. O último critério refere-se à valoração das ações: o direito natural estabelece o que é bom. pois deve influenciar na aplicação do Direito aos casos concretos. Filosofia do direito. O terceiro e mais importante critério refere-se à do povo (Grócio). 84 esfera do 89 . Nos dizeres de Paulo Nader: “Se no Direito natural se destaca a atuação do filósofo e no Direito Positivo. História da Filosofia: Do romantismo até nossos dias.163. Giovanni. identificado este com o jurisfilósofo. o direito positivo o que é útil. exige o jurista prático. É preciso não perder de vista a importância do direito natural para a reflexão jurídica e que este direito não pode ser considerado como mera filosofia do direito positivo.3. 85 REALE. pois a sua missão não lhe impõe o sacrifício da neutralidade axiológica. que os estudos de Filosofia do Direito ao longo de nossa história baseavam-se em três esferas distintas entre si86: a esfera do jusnaturalismo. é de reconhecer que não podem as duas ordens se apresentar como departamentos alheios entre si. pp.

Nesse sentido. São princípios e não normas. a lei não apenas é direito injusto. Podemos entender por direito natural os princípios que norteiam as fontes geradoras da norma jurídica e que também atuam efetivamente em sua aplicação.). porque o valor justiça é indispensável.de Gustav Radbruch (1878-1949) expresso na obra Filosofia do Direito (1932) apresenta claramente essa relação entre validade e justiça: “Quando uma lei nega conscientemente a vontade de justiça – por exemplo. que constitui o núcleo da justiça . ao mesmo tempo em que se desvela como seu maior desafio. é conscientemente negada pelas normas do direito positivo. portanto... já que existem princípios jurídicos fundamentais mais fortes do que toda normatividade jurídica. justa. falta-lhe validade (. não se confundem com os desdobramentos posteriores. quando submetidos à mutação. Quando estudamos o direito natural. Onde a justiça não é sequer perseguida e onde a igualdade. os anseios da doutrina jusnaturalista estão presentes na própria experiência vivida. independentes de credo.) Oos juristas também devem encontrar a coragem para rejeitar-lhe o caráter jurídico. não estamos afastados da nossa realidade concreta. mas em geral também carece de juridicidade”. o respeito à diferença e à paz. Todos nós.. O maior problema da doutrina jusnaturalista está em compreender a seguinte questão: o que é a justiça? Seria possível encontrar critérios que nos permita estabelecer definitivamente o que é o justo? Essa pergunta constitui o pano de fundo do pensamento jusnaturalista. O direito natural não se reduz ao 90 o direito a um ambiente ecologicamente equilibrado. Os direitos naturais não configuram a base fundamental para a vida em sociedade? O Direito pode estar desvinculado dessa dimensão? Apesar dos esforços de muitos filósofos e juristas ou de juristas-filósofos. Pode haver leis tão injustas e danosas socialmente que é preciso rejeitar-lhes seu caráter jurídico (.. a tal ponto que uma lei que os contradiga carece de validade. ou seja. porque temos como pano de fundo . Lutamos por direitos humanos e os pressupostos jusnaturalistas. mas imersos no pensamento dos seres humanos comuns ou medianos. a igualdade. temos interesse por uma vida digna. Princípios que são a-históricos e. concedendo arbitrariamente ou rejeitando os direitos do homem -. Desejamos direitos naturais como a liberdade. temos uma grande e árdua tarefa: a de refletir sobre essas questões.

se confunde com os próprios princípios gerais do direito que estão na base da elaboração das normas e na sua aplicação ao caso concreto. Destaca-se que esse soberano. somente possível em razão do poder coercitivo do Estado.Hobbes. normas de direito positivo com raiz costumeira e normas de direito positivo com fundamento no direito natural. na certeza de que o mesmo é assegurado pela paz. O direito natural. não faz parte do pacto. à vontade do soberano que não é outra senão o interesse pelo bem comum. Temos. O poder soberano no sistema hobbesiano é aquele exercido por um homem ou por uma assembléia de homens. condição de eficácia dos pactos firmados. 8 . Nesse momento. isto é. mas um direito costumeiro possui elementos do direito natural. O direito natural é a própria expressão da natureza humana. O seu lugar ontológico não é a cultura.unidade necessária ao interesse do bem comum. sua 87 O item 8 é de autoria de Wellington Trotta 91 . portanto. não resulta do mundo da vida. Locke e Rousseau. embora sendo fruto do pacto firmado por todos. mas a natureza humana.1 .juiz capaz de impor uma só vontade . 8. celebra-se o pacto maior quando todos põem suas vontades particulares ao serviço do bem maior. uma vez cedido e transferido o domínio que cada um tem sobre si mesmo em favor do Estado . o poder soberano é instituído no momento em que uma multidão de homens passa do estado de natureza ao Estado político.Thomas Hobbes (1588-1679) 87 No entendimento de Thomas Hobbes (1588-1679). não estabelece nenhuma relação de bilateralidade com este ou aquele membro da sociedade. do estado de guerra permanente de todos contra todos ao Estado enquanto centro ordenador da vida em sociedade. a segurança e o bem estar de todos os súditos. Os homens passam a viver sob a “espada pública” da lei.sentido de um direito costumeiro. não é figura contratante. capaz de promover a paz. na verdade.

o soberano não pode promover injustiças e insegurança no plano interno e no plano externo. garantindo justiça e paz. Sendo o Estado conditio sine qua non à preservação da paz e da justiça. visto que numa sociedade fundada na lei.ação fundamenta-se no preceito erga omnis. no respeito aos contratos válidos. todo e qualquer contrato válido deve ser cumprido. utilizar as estradas em segurança. não há nenhuma divisão de poder. o poder soberano. Os membros dessa sociedade podem trabalhar. Aquela multidão de homens quando instituiu o Estado. Sua ação é sempre justa. a garantia dos interesses firmados. expandir riquezas e dormir tranqüilamente. pois o soberano em suas determinações o tem como força instrumental na execução da justiça. caso assim não proceda. instala-se a insegurança. tanto no plano interno quanto no externo. o firme e violento contra-ataque do seu exército é a medida da segurança territorial de toda e qualquer invasão externa. ter propriedade. sendo portanto livre no exercício do poder. o receio da punição leva o respeito à lei por parte dos súditos. designou seu representante para exercer autoridade necessária e eficiente ao interesse da unidade dos homens. Finalizando. em troca oferecendo toda obediência possível. a guerra de todos contra todos em ato e potência. Seu poder não é um fim em si mesmo. a beligerância propriamente dita e sua permanente pré-disposição: a insegurança total. é apenas instrumento de coesão das forças existentes. O soberano deve ser forte para impor sua autoridade. os limites do soberano. pois isso é a perfeita expressão de justiça. Em nome dessa obediência e da representatividade. os limites da soberania exercida por um só corpo político absoluto estão relacionados ao exercício de sua função. Tanto o bem 92 . ou seja. O soberano representa a soberania do Estado e guarda zelosamente a sociedade constituída. O soberano é o supremo mandatário. exerce o poder no firme propósito de manter a paz e possibilitar as condições necessárias ao quotidiano da vida. este mesmo Estado detém os meios necessários ao fim perseguido. sua finalidade consiste na esperança de todos celebrando e respeitando contratos. é o retorno ao estado de natureza. Tais meios são absolutos. desenvolver a indústria e o comércio. a fragmentação. Entretanto. sair de casa sem nenhum medo de saque.

constitui um problema a ser devidamente estudo. Destarte dividiu-se o presente texto em três tópicos e uma conclusão. 93 . Se de fato isso ocorre ou não na ordem material.2 . Toma-se John Locke (16321704) por fundamento em razão de uma tese muito simples: ao se debruçar sobre a Constituição brasileira de 1988. Quando esse fim não é alcançado e os súditos passam a viver sob o estado de insegurança. N terceiro e último tópico.do povo quanto o bem do soberano são inseparáveis. o fim de todo Estado: justiça e segurança. instituído para fazer valer o bem comum. logo se percebe os valores da livre iniciativa. destaco o sentido de legalidade tanto como premissa fundamental para o pensamento de Locke. manter sua existência. como uma realidade construída enquanto algo necessária ao bom termo da sociedade. só lhes resta o uso da razão. garantir sua vida da melhor maneira possível. da propriedade e da divisão dos poderes políticos com o propósito de organizar um governo civil capaz de atinar para as expectativas dos indivíduos.John Locke (1632-1704) A proposta do presente seminário é analisar os conteúdos daquilo que comumente entendemos por direitos civis e em que medida o pensamento lockiano é suficiente para responder as exigências das novas relações políticas existentes em nossos dias. 8. situando-o na tradição filosófica como um pensador preocupado com a ordem legal nas relações de sociedade. como vítimas de injustiças. este é o legítimo representante daquele. não encontram no soberano o poder de solução (podendo ser até o soberano agente de injustiças e insegurança). No segundo tópico faço uma pequena resenha do pensamento político de Locke. o que seria o retorno à barbárie. do trabalho. O primeiro tópico trabalho a noção de direitos civis a partir da Carta de 1988 sem travar nenhuma discussão doutrinária.

à igualdade e à propriedade nos termos estabelecidos pela lei.2 . Pode-se dizer que a propriedade assume um caráter imprescindível nas relações político-sociais. Para pensar os direitos civis (aqueles individuais e coletivos) face à exclusão social que atormenta a vida brasileira. no seu art. Tomemos como ponto de partida o significado de direito natural para depois situar seu pensamento. portanto os direitos civis assumem a dimensão de necessidade social.Noção de direitos civis dentro da Constituição de 1988 Primeiramente é preciso entender o significado de direitos civis e com isso verificar o grau de responsabilidade que a constituição de 1988 impôs ao Estado brasileiro na consecução de seu fim.2.Jusnaturalismo e a doutrina política de John Locke Partindo. à liberdade. mas também como necessariamente responsável pelo corpo social.8. No entanto. A propriedade corrobora o nível do indivíduo na sociedade.1 . Isso porque a propriedade no nosso sistema político assume a possibilidade do homem se manifestar não somente como igual. Esses são os elementos que informam os direitos civis na constituição brasileira de 1988. à segurança. Por direitos civis pode-se entender todos os direitos concernentes ao homem no tocante à vida. 8.2. A satisfação do indivíduo implica no equilíbrio da sociedade que é pensada como um corpo representado na perspectiva dos seus componentes. Entende-se que tais direitos são essenciais não só ao plano do indivíduo como também ao plano coletivo. para isso é preciso que analisemos o pensamento desse filósofo inglês. O cientista político italiano Guido Fassò assevera que: 94 . A propriedade pronuncia o real sentido de cidadania porque sou cidadão quando disponho de mim mesmo como ser capaz de produzir. focalizou-se o item propriedade como problema central. pode-se pensar com Locke que o corpo político tem por fim a administração dos conflitos dos homens em sociedade no tocante ao respeito do direito de propriedade. de tal premissa. 5º. porque implica o nível de liberdade do indivíduo e o sentir-se cidadão de fato. pois.

prosperidade diretamente relacionada ao sentido de propriedade. nenhuma diferença qualitativa no que diz respeito à felicidade. Nesse contexto. É nesse contexto que surge a figura de John Locke como um verdadeiro filho do século XVII. cravadas no cotidiano legal da sociedade. podemos perguntar ao velho Locke o que levou o homem a deixar o estado de natureza. todo homem tem direito ao fruto do seu trabalho. 88 Bobbio. já que esta toma daquela a irrestrita liberdade e não apresenta. para fundar uma sociedade civil. é anterior e superior ao direito positivo e. que por sua vez determina a forma de organização coletiva visando um modo de produção de bens à vida material.“Jusnaturalismo é uma doutrina segundo a qual existe e pode ser conhecido um ‘direito natural’. logo a propriedade assume o status de categoria político-epistemológica. ou se quisermos como Locke. que é justamente a capacidade de compreensão existente nos homens. Brasíkia: UnB. aparentemente.) Dicionário de ciência política. 95 . descoberta pela razão. mas um ditame da justa razão que mostraria aos homens os limites daquilo que convém. A tese jusnaturalista moderna compreende que o direito natural expressa uma relação de princípios compreendidos pela razão. que para o filósofo inglês pode ser sintetizada em vida (bem estar). E ele que deve prevalecer” . em caso de conflito. Nesse aspecto. todos pelo trabalho. ou seja. a pudessem está construir sua prosperidade. aquele se assenta na tese de que o direito natural deveria representar um sistema de normas objetivas. Tais direitos não seriam uma construção dos Estados ou das legislações. Este direito natural tem validade em si. 88 Em contrapartida há especificidades dentro do pensamento jusnaturalista. posses e liberdade. Para Locke. Norberto (org. 2000: 655. O jusnaturalismo de Locke pressupõe uma ordem universal a partir de um Deus que criou os homens para o propósito segundo o qual. a começar pela distinção entre junaturalismo antigo e jusnaturalismo moderno. à propriedade e ao bem estar dos homens. um sistema de normas de conduta intersubjetiva diverso do sistema constituído pelas normas fixadas pelo Estado (direito positivo). Enquanto epistemológica promove a compreensão da propriedade como chave dos movimentos políticos. situação de relativa paz. Enquanto este constitui uma teoria dos direitos subjetivos.

e a sociedade civil apenas deve. O poder para Locke é sempre uma relação entre os homens.Locke. por isso a lei será o novo referencial. ratificar tal princípio. É na propriedade que os homens dimensionam suas possibilidades e constroem a felicidade por meio do trabalho. responderia que vivendo sob a sociedade civil o homem terá mais segurança para desfrutar daquilo que ele concebe. É preciso a constituição de um juiz permanente. conhecido. afirma Locke: “Ninguém pode na sociedade civil isentar-se das leis que a regem”. Locke aponta a lei como guardiã dessa vontade expressa pela racionalidade. Em torno de tais perspectivas funda-se uma sociedade que será absorvida por uma organização política capaz de promover a justiça sob o primado da lei. liberdade e posse. observa-se imediatamente a razão como instrumento dessas vontades particulares consentidas. onde o poder total está em sua volta para inteira satisfação. lato sensu. capaz de resolver tudo pela onisciência. o imperioso é a vontade particular. contrária aos interesses de todos. Locke não concebe uma sociedade civil vivendo sob o arbítrio de um poder absoluto. tal princípio. Isso porque pelo direito natural somos todos iguais. É a lei e não mais o absolutismo o parâmetro da vida em comunidade. Em Locke não há como separar felicidade de liberdade. a ordenação precisa dessa mesma conduta. trabalho de propriedade. Seu julgamento sempre será parcial e voltado para si mesmo. tal necessidade existencial. riqueza sem esforço permanente. uma renúncia coletiva capaz de estabelecer padrões possíveis de conduta. uma espécie de ação por reflexo. imparcial e que governe seu julgamento sob a égide da lei. pois ameaça à propriedade e o resultado do seu trabalho. Nesse ponto. é preciso que haja uma lei definidora para julgar corretamente cada caso apresentado ao conselho. As garantias devem ser iguais para todos no corpo político. elaborada pela 96 . A sociedade civil não tem outro fim senão defender tal valor. gênese do bem estar social. Sendo a sociedade civil uma construção pelo consentimento. pela legalidade. justiça de bem estar comum. O poder absoluto não visa o bem comum. e que precisam contratar os meios pelos quais essas concessões serão respeitadas. No sistema absoluto. com certeza. como propriedade: vida.

quanto à guerra. O Poder Executivo é aquele que executará as leis. o Estado. cujos membros não podem pertencer a outro poder. quanto à paz. O Poder Legislativo não passa de representação popular. e que sua ação não seja mais que a chancela política de seus interesses. Nele está a esperança da preservação da sociedade que se constituiu para tirar o melhor proveito possível da propriedade. não pode transferir sua competência a outro poder. chamado por Locke de poder supremo. distintos do Legislativo. O Poder Federativo é uma extensão do executivo. do bem estar comum. por isso é supremo e a ele são submetidos os poderes executivo e federativo. Atua no âmbito comunal. uma vez elaboradas extinguese a legislatura e seus membros voltam a ser súditos. comandada pelo princípio da legalidade que se constrói no parlamento. sua finalidade é elaborar leis. sua ação positiva visa toda comunidade. e o fórum dessa discussão é o Legislativo. poder permanente na administração dos negócios públicos escolhidos pelo Legislativo. Se a lei obedece ao critério da razão. sua função é relativa aos negócios estrangeiros. O Poder Legislativo só é o ordenador da sociedade porque tem representação popular e sua destinação é elaborar leis justas e precisas ao bem comum. Outra característica do Legislativo é que sua atuação não é permanente. O Estado não existe para satisfazer um grupo de pessoas. o garante da justiça. seu surgimento só pode ser construído pela discussão. símbolo da sociedade civil. O Legislativo sendo expressão da vontade da sociedade.mesma sociedade civil por meio de representação parlamentar. Os exercícios dos poderes Executivo e Federativo podem ser realizados pelos mesmos membros. nos problemas intra-sociedade. A sociedade é um corpo político. sua extensão visa a permitir que a sociedade seja a verdadeira fonte de poder. somente existe para promover a paz na possibilidade da segurança permitir o gozo e o uso da propriedade. orgânico. Locke deixa claro em seu Segundo Tratado Sobre O Governo Civil. Esse poder supremo é a representação da sociedade. que a sociedade sob um poder político. justamente associada aos interesses dos homens que deixaram as incertezas do estado de natureza para 97 . bem como na execução da justiça entendida como bem estar comum.

Locke afirma que o corpo político está subordinado à sociedade. Locke enfatiza que o objetivo pelo qual o homem ingressa na sociedade civil consiste em construir normas para garantir a propriedade e.3 – Poder Legislativo e as leis como premissas de segurança política Ao iniciar o capítulo XI do Segundo Tratado. podese. e sendo assim. Na formulação política lockiana.viverem sob uma ordem legal. 8. e assim não acontecendo. que sendo a propriedade um direito natural. portanto. por fim. Nesse sentido. tem a função de estabelecer normas necessárias à existência da sociedade como um corpo político. gozo e disponibilidade. o papel do Poder Legislativo é de ordem primordial. o Executivo para aplicá-las. Locke está pensando naqueles homens proprietários de terra. mesmo não atentando para tal princípio. Todavia. seus atos não podem contrariar tal princípio. isto é. Se o Poder 98 . o Estado declarando guerra à sociedade em razão de sua insubordinação. daquilo que constituiu pelo trabalho. por fim estabelecer funções de poder distintas para que não haja arbitrariedade por parte dos poderes constituídos. supor que todos aqueles que formam uma sociedade devem ter direitos resguardados por ela. Ao construir sua tese de que o homem abandona o estado de natureza e contrata com outros homens a sociedade civil para a preservação da propriedade. ao que o nosso autor chama de propriedade. nesse sentido cabe ao Legislativo o papel de edificá-las na proteção da vida. Para Locke. todos. o dissolverá para constituir um outro Legislativo para um novo governo. inclusive os que não possuem a si mesmos. o Poder Legislativo assume o status de poder supremo dentro de uma sociedade que pretende como governo a própria legalidade. e os homens iguais. por relação. sem distinção devem ser contemplados no seu direito ao uso. enseja o direito à resistência e. o poder legislativo institui normas para comandar a sociedade.2. posse de bens e liberdade. portanto não levando em consideração aqueles que não possuem alguma propriedade. forçosamente podemos pensar que o filósofo inglês trouxe algo de diferente.

algo intrínseco à própria condição humana. de administrar os limites das ações humanas em sociedade. em seus atos.89 acorrentado por cadeia de elos convencionados. isto posto leva ao raciocínio que o Estado em sua função precípua. ou pode se destituído de suas funções para que um outro modelo leve em conta os homens como realmente iguais. logo seria absurdo um governo ou mesmo um Estado que fuja de suas funções essenciais. A legalidade é o espírito do sistema político lockiano. Ou o Estado exerce o seu papel na contemplação dos seus fins. 99 . que é o verdadeiro soberano.Legislativo agir de forma diversa de sua destinação.Jean-Jaques Rousseau (1712-1778) “O homem nasce livre e por toda a parte encontra-se a ferro”. Claro que essa legalidade pode se tornar algo conservador para aqueles que estão fora do círculo dos proprietários que por sua vez organizam a sociedade. 9 . Assim JJ Rousseau (17121778) inicia a famosa obra. tais poderes públicos somente existem em função do soberano que é o povo. Caso ocorra. onde repousa toda autoridade subordinada à 89 Rousseau. ou se todos os poderes. não pode se furtar do dever de contemplar os seus membros em suas múltiplas expectativas. o Legislativo submetido ao povo e a administração submetida a esse mesmo povo. com uma observação pertinente: a liberdade não é algo relacionado à convenção ou mesmo uma prerrogativa legal. RJ: Edições de Ouro. não respeitarem o povo. mas uma condição natural. É a liberdade a única e possível condição legítima de organização social. Mas o que importa é destacar a legalidade submetida ao povo. O dado da exclusão social é sem sombra de dúvida o fato de não possuir propriedade. caberá ao povo destitui-lo e formar um outro que atenda ao pacto firmado como fim último. caberá ao próprio povo apelar para os céus no sentido de desobediência civil. Para Locke. ou pelo menos não possuir a si mesmo como tal. Os homens acordam entre si os limites de suas ações para que esse limite seja administrado pela sociedade na pessoa do poder público. JJ. existencial. O Contrato Social. visto ser a liberdade uma necessidade pré-social. O contrato social. s/d: 28.

em que o povo se assume como ser livre sustentado pela igualdade. A liberdade é a própria qualidade humana. a escravidão como antítese é a plena renúncia dessa humanidade. sustentada por convenção e interesses mesquinhos. Essa mesma vontade geral não é uma soma de vontades particulares. “Qual é o fim da associação política? A conservação e a prosperidade de seus membros. procurando manter-se tão livre quanto livre fora no estado de natureza. A 90 Idem: 120.vontade de uma idéia coletiva. Nesse sentido todos os cidadãos são iguais. e o gênero humano. supõe que ocorreu nas condições em que os homens tinham pela frente obstáculos prejudiciais à sua conservação e limite de forças que cada um dispunha. mas a materialização do soberano. A sociedade civil não se estrutura para livrar-se do medo permanente do homo homini lupus. ora garantida pela vontade geral. o estágio primitivo já não podia subsistir. unidos pelo mesmo objetivo. se não mudasse de modo de vida. 100 . Foi para garantir a liberdade e os bens que o homem superou as inconveniências do estado de natureza e instituiu o que chamamos de sociedade civil. a suprema fonte de poder da sociedade. “sendo. emanada do soberano. Tal passagem. a do estado de natureza ao estado de sociedade. pereceria. porém. instância deliberativa do corpo político. E qual é o meio melhor de que se conservam e progridem? Seu número e população” 90 O contrato social tem como fim buscar uma associação que guarde a pessoa e os seus bens. Rousseau concebe vontade geral como expressão de um desejo de todos. a força e a liberdade de cada indivíduo os instrumentos primordiais de sua conservação” (Rousseau. s/d: 35). pela cultura do cultivo e da produção. vontade comum. O pacto social visa a conservar a liberdade garantindo a posse e sua transformação em propriedade pelo trabalho. positivamente sob forma de lei. em que todos. Os homens trocaram sua liberdade irrestrita pela liberdade civil. Sendo assim Rousseau dimensiona a liberdade como valor absoluto. cada um obedeça a si mesmo. como também não se organiza para proteger e gozar a propriedade por mais amplo que seja o seu conceito.

ao finalizar o presente texto. nem sequer o contrato social” (45). aquele que irá executar. O pacto social dá ao poder soberano. poder absoluto sobre seus membros. o soberano não admite em seu seio homens desiguais. estabelece todos os direitos e deveres dos cidadãos. é o soberano a legitimação da ordem social onde se dará sob forma de assembléia. que em Rousseau não existe a possibilidade do poder legislativo existir fora do soberano. encarregado da manutenção das liberdades civil e política. do soberano com o Estado. O limite do poder soberano está adstrito ao contrato social naquilo que se convencionam naquilo que ficou firmado como interesse público. não podemos confundir o soberano com as instâncias administrativas do poder.igualdade é uma condição de semelhança na sociedade civil. representando interesses particulares. visto que o soberano embora permanente enquanto garante da vontade geral se dá em assembléia. pois se assim não fosse a soberania não seria uma emanação de poder e sim de lutas individuais. fonte da vontade geral. Rousseau entende que não se pode representar vontades. O povo não pode prescindir do seu direito-dever de participar da vida 101 . Não podemos esquecer que Rousseau desconsiderava importante qualquer mediação parlamentar. Gostaríamos de ressaltar. de exposição da vontade geral. mas o poder soberano não é obrigado aos súditos: “não há nem pode haver qualquer espécie de lei fundamental obrigatória para o corpo do povo. É o interesse público o norte do poder soberano em suas deliberações. ou seja. corpo político da sociedade civil. e no governo que se estabelece a relação do todo com o todo. que só existe enquanto possibilidade jurídica graças à legitimação desta por parte do soberano. O poder executivo “é um corpo intermediário estabelecido entre os súditos e o soberano”. O poder soberano pela sua própria natureza é quem institui o poder executivo. sua instituição obedece aos princípios da liberdade e da igualdade. O poder soberano exerce a função de ordenar a vida social. administrar as leis promulgadas. O soberano só pode ser o povo no seu momento de deliberação legislativa. meio que fixa. na lei como força da vontade geral. todos os súditos são obrigados ao poder soberano. inclusive sobre a propriedade.

s/d: 131). comissários do povo. abrir mão desta condição é arruinar todo o corpo político. “A diminuição do amor à pátria. é colocar sob perigo e mesmo arruinando toda organização estatal constituída. a imensidão dos Estados. nula é toda lei que não leva sua chancela. a ação do interesse particular. os abusos do governo fizeram com que se imaginassem o recurso dos deputados ou representantes do povo nas assembléias da nação” (Rousseau.política do seu Estado. É importante ressaltar que os deputados são 102 . as conquistas. O povo é quem ratifica a lei.

segundo uma lei universal possível. Durante os anos de 1747 e 1754 viveu momento de grandes dificuldades.) 1. Naquela época o professor na categoria de livre-docente recebia somente um valor correspondente ao número de horas de ensino e ao número de alunos que freqüentavam o curso. em uma cidade da Prússia Oriental denominada Königsberg. corrente radical do protestantismo prussiano. 103 . Sobre a expressão corrente: isto pode ser correto na teoria. Estudou no Collegium Fridericianum. I.A233-4. Nesse período precisou trabalhar como preceptor. de forma totalmente desinteressada em relação a qualquer possibilidade de fama ou riqueza.. XVII. foi sua indeclinável aversão por qualquer forma de carreirismo. Entre 1740 e 1747 estudou na universidade de sua cidade freqüentando os cursos de ciência e filosofia. e que pode coexistir com a liberdade de cada um.Introdução Immanuel Kant nasceu em 1724. Nosso autor se concentrava em sua pesquisa filosófica.” (KANT. Kant recusava adulação em relação a protetores poderosos. dirigido pelo pastor pietista F. nascido na Igreja Luterana alemã no séc. o que lhe renderia 91 qualquer forma de Movimento de intensificação da fé.Parte VI – A filosofia prática de Immanuel Kant (1724-1804) “Ninguém pode me constranger a ser feliz à sua maneira (. Nasceu numa modesta e numerosa família de artesãos. mas apesar das condições desfavoráveis estudou muito se atualizando. Schultz. Mais tarde em 1770 passou no concurso para professor ordinário com a dissertação De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis. Sua mãe o educou segundo os princípios do pietismo91. ao direito de outrem) aspirarem a um fim semelhante. contanto que não cause dano à liberdade de os outros (isto é. A.) mas a cada um é permitido buscar a sua felicidade pela via que lhe parecer boa.. mas nada vale na prática (1793). Por volta de 1778 chegou a receber um convite por parte do barão von Zedlitz para assumir uma cátedra em Halle. Uma das características mais marcantes do caráter moral de Kant além de metódico e sistemático. Em 1755 obteve o título de doutor e conseguiu lecionar na Universidade de Königsberg como livre-docente.

um pagamento pelo menos três vezes maior do que o de Königsberg. Kant recusou tal oferta e com ela outra referente a um cargo público vinculado à mencionada cátedra. Em 1781 nasceu sua primeira crítica denominada de Crítica da Razão Pura, posteriormente em 1788, a Crítica da Razão Prática e, em 1790, a Crítica da Faculdade de Julgar. Cumpre dizer que este autor situou-se dentro da atmosfera intelectual que caracterizou o iluminismo alemão. O seu criticismo estabeleceu limites à razão humana quando afirmou que só podemos conhecer aquilo que nós mesmos criamos. O seu pensamento deve ser estudado como uma nova forma de filosofar que nasceu no interior das mudanças estruturais que tipificaram a própria modernidade:
“A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que se submeter. A religião, pela sua santidade e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame.”92

Essa nova maneira

de filosofar reivindica

como pressuposto

fundamental a liberdade, uma liberdade de fazer uso público da razão em todas as questões sem a direção de outrem. Esse uso público da razão significava para Kant a liberdade para pensar enquanto intelectual e a possibilidade de expressar suas idéias ao público leitor.93 Após a morte de Frederico, o Grande, monarca esclarecido, em 1786, seu sucessor, Frederico Guilherme II, desenvolveu uma política antiiluminista. Kant recebeu uma advertência desse novo monarca que havia intensificado a tutela e a censura, por ter publicado a obra A religião nos limites da simples razão (1793). Kant acabou por silenciar suas críticas diante da advertência proferida pelo Gabinete Imperial. Após argumentar em favor do uso público da razão, prometeu obedecer, o que para alguns configurou momento de grande triunfo para os inimigos de uma filosofia crítica e inovadora.

92 93

Crítica da Razão Pura (1781-1787). Lisboa: Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, AXI. "Resposta à pergunta: que é Esclarecimento?” (1783) In: Textos Seletos. Edição bilíngüe. Petrópolis: Editora Vozes, 1974.

104

O

criticismo transcendental sofreu uma interpretação de cunho

idealista, especialmente no pensamento de Fichte, a despeito de sua resistência e desprezo a essa interpretação. Nos seus últimos anos tornouse quase cego, perdeu a memória e a lucidez intelectual, sobrevindo sua morte em fevereiro de 1804. 2 - O conceito de liberdade no pensamento de Kant Para Kant, o homem está submetido às leis da natureza (determinismo) e, ao mesmo tempo, às leis da liberdade. O homem é capaz de perceber que ele próprio é a causa dos fenômenos que existem no mundo, ou seja, compreende que a razão humana é livre e determinante e, portanto, o homem possui uma liberdade que o difere dos animais. Kant denominou essa especificidade do homem de liberdade transcendental. É justamente no âmbito da vontade94 ou razão95 prática que posso perceber essa liberdade no seu uso prático, ou seja, a liberdade prática ou independência da vontade pode ser demonstrada quando a razão nos fornece a “regra de conduta”96, quando entra em jogo o que devemos ou não fazer. É exatamente nessa experiência interior, exclusivamente pessoal, que conhecemos a idéia de liberdade transcendental como um tipo de causalidade da razão capaz de determinar a vontade, a agir com ou sem as influências de impulsos sensíveis (interesses). O que Kant entendeu pela esfera da prática? Kant concebeu a liberdade transcendental, ou seja, o homem é dotado de livre-arbítrio e, portanto, tudo o que se relaciona com essa dimensão do livre-arbítrio “é chamado prático”.97 Resulta dessa afirmação que devo entender por prático o que diz respeito à moral e ao direito. Então, a liberdade prática, que significa liberdade da vontade, é uma variante da liberdade transcendental. Deve-se observar, portanto, que este autor se filiou a uma
94

Faculdade de representar mentalmente um ato que pode ou não ser praticado em obediência a um impulso ou a motivos ditados pela razão. 95 Faculdade que tem o ser humano de avaliar, julgar, ponderar idéias universais; raciocínio, juízo. 96 Crítica da Razão Pura (1781-1787). Lisboa: Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, A803 / B831.

Crítica da Razão Pura (1781-1787). Lisboa: Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, A802 / B830.
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105

tradição filosófica que estabeleceu a separação entre uma faculdade superior (a razão) e uma faculdade sensitiva (as inclinações). Nesse sentido, a independência da vontade de motivos empíricos está estritamente relacionada com a fundamentação da moralidade kantiana. Porque a moralidade implica o conceito de autonomia, que é conseqüência da existência de uma vontade livre de motivos sensíveis ou direções estranhas. Kant precisou de uma liberdade transcendental relacionada com a dimensão racional do homem para construir a sua teoria moral. Seu argumento se baseia na idéia de que sempre que nos pensamos como livres reconhecemos a consciência da possibilidade de autonomia. Se como ser racional o homem é dotado de uma vontade livre capaz da elevada função de permitir a moralidade, seria contraditório que este mesmo homem permanecesse sob tutelas. E, assim, associada à idéia de liberdade está a idéia da autonomia, que, por um lado, é entendida como liberdade em relação a direções estranhas e, por outro, como a liberdade da faculdade da vontade capaz de autolegislar. 3 - A ética e o imperativo categórico Immanuel Kant surgiu no contexto do Esclarecimento ou Iluminismo com sua famosa teoria moral que ressaltava o ser racional como absolutamente responsável por sua conduta. Nesse sentido, consagrou uma ética das normas contra as éticas finalistas. Destacou que a busca pelo bem não poderia fazer parte da moralidade, mas o cumprimento da lei pela lei98, enfatizando, com isso, que a ética significa a obediência à lei moral, lei esta que está em mim e que se identifica com a minha consciência. Sua teoria moral apresenta, portanto, três características fundamentais: o aspecto cognitivista, ou seja, a crença na possibilidade de decidir as questões prático-morais com base em razões, o que implica dizer que os juízos morais são passíveis de serem fundamentados; o sentido formalista, pois elabora um princípio moral (imperativo categórico) limitado às questões referentes à justiça e não ao “bem viver”; e, por fim,

98

Crítica da Razão Prática (1788). Lisboa, Edições 70, 1994, A111-115. 106

Vol. ela existe até mesmo contrariando o “eu quero”. O princípio moral vale universal e incondicionalmente. 159 107 . O seu princípio moral denominado imperativo categórico foi formulado pela primeira vez na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785). Ao contrário. “Observações críticas à Crítica da Razão Prática”. uma vez que os juízos morais devem erguer uma pretensão de validade universal. p. 544. Uma 99 nossa própria consciência a fim de identificar se as intenções que fundamentam uma determinada ação são moralmente interrogação estruturada numa indispensável compreensão das BRITO. sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio. Os princípios podem ser técnicos se valem para todos os seres racionais. mas entraria na perspectiva de todos os outros. Em uma de suas formulações determina: “Age de tal maneira que trates a humanidade. que não aceitaria ser guiado por outrem. O formalismo moral de Kant refere-se à idéia de que a vontade racional deverá ser orientada por princípios a priori. A. Kant afastou o sentido do “eu quero” em favor do “eu devo”. na medida em que abstrairia da sensibilidade e buscaria “um ponto de vista universal”100. válidos universalmente. tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro. mas condicionados pelo fim particular que se almeja. empírico. p. 100 Crítica da Faculdade do Juízo (1793). Assim. isso implica a capacidade do ser humano de agir segundo princípios ou determinar-se segundo a razão. In: Revista Portuguesa de Filosofia. Esse imperativo formulado por Kant configurou um exercício típico do pensar esclarecido (iluminismo). Com isso. pois superei meus próprios obstáculos quando agi por dever. XLIV. a lei moral em Kant não precisa do aspecto volitivo no sentido do “eu quero” para existir. 1995. 1988. J. os da moralidade.” Tal princípio funcionaria como um teste a ser realizado pela boas. os da prudência condicionam-se ao desejo e ao caráter do ser que age. Rio de Janeiro: Forense Universitária. princípios práticos objetivos que são válidos para todos os seres racionais – não decorrem de nenhum fim subjetivo.o caráter universalista.99 A ação adquire um valor moral. independente de qualquer inclinação pessoal.

As leis éticas. a validade de uma máxima subjetiva somente poderia ser reconhecida pela razão como moralmente correta se apresentasse uma obrigação moral que qualquer um pudesse desejá-la. Na terceira parte da introdução geral.As leis da liberdade: as leis morais e as leis jurídicas Como nos mostra este filósofo. A legislação jurídica diz respeito às ações sob o ponto de vista externo. Encontramos nesse ponto o problema inicial da filosofia do direito: a distinção entre as duas esferas. mas em particular a idéia do dever como impulso. Kant concentra seus esforços na clássica distinção entre a legislação moral e a jurídica. ao contrário. que liga a representação da lei ao fundamento de determinação do arbítrio para realização de tal ação.exigências antecipada. o dever como impulso. vinculam-se às determinações das ações e revelam a moralidade. o que efetivamente distingue as duas legislações não é tão somente o fato de uma legislação ser interna e a outra externa. 108 . no segundo. Assim. 4 . o homem vivencia a tensão entre os impulsos e a razão e encontra. Nesse sentido. No primeiro momento. o que configura o sentido de legalidade. além das leis da natureza. Nesse sentido. Para entendermos melhor essa idéia temos que considerar que toda legislação – como diz Kant – possui dois elementos constitutivos. no caso da legislação jurídica temos o sentido de liberdade como exercício do arbítrio e no caso da legislação ética. que significa a representação da lei como necessária à ação e que portanto converte a ação em dever. a saber: o elemento objetivo. temos o que Kant denominou de conhecimento teórico da possibilidade da regra prática e. a liberdade apresenta-se tanto no exercício externo quanto interno do arbítrio. destacando a mera conformidade com o que prescreve a lei. por reconhecê-la como válida. as da liberdade denominadas de leis jurídicas e leis morais. de reciprocidade numa comunidade ética idealmente Esse imperativo categórico ou princípio moral serviria ao propósito de fornecer as condições de possibilidade para o desenvolvimento de um certo discernimento moral. e um elemento subjetivo.

ou seja. por ser mais ampla. dentre estas. “a coincidência de uma ação com a lei do dever”103 e a moralidade quando o dever afigurar-se como impulso da ação. não um chamado atraente”. pertencem à ética. embora admita como impulsos em sua legislação deveres que desprendem de outra legislação. 219. Editorial Tecnos. pp. Aquela. Idem ibidem. No que diz respeito à esta última. há deveres éticos diretos (moralidade) e deveres éticos indiretos (legalidade). pp. La Metafísica de las Costumbres (1797). 1994. desde que sejam deveres. Mas justamente por isso. de uma legislação externa. teremos a legalidade se houver uma simples conformidade externa com a lei.102 relacionada ao dever em Assim. porém não excluindo as externas. todo dever é considerado dever de 101 102 103 104 La Metafísica de las Costumbres (1797). Op.101 A implicação mais imediata desta distinção é o fato de que os deveres característicos da legislação jurídica são externos. que não compreende esta última condição na lei e que admite também um motivo diferente da idéia do próprio dever é jurídica. ou seja. quando “a máxima da ação [coincidir] com a lei”104 Há também deveres interiores que não são éticos e deveres exteriores que não são jurídicos. cuja determinação não pode transpor de modo algum em uma legislação externa. a legislação ética não pode ser externa (ainda que de uma vontade divina). vemos facilmente que estes motivos.“A legislação que erige uma ação como dever. pelo contrário. é ética. 109 . e o dever.. pois não exigem a idéia de um dever interior. Madrid: Editorial Tecnos. Madrid. das últimas porque tem que ser uma legislação que obrigue. pp. envolve também a legislação jurídica. o que justifica a afirmação de Kant a respeito da legislação ética como geral: “A legislação ética converte também em deveres ações internas. senão que afeta a tudo o que é dever em geral. 225. diferentes da idéia do dever. Disto se infere que todos os deveres. 218-9. porque a legislação ética inclui também em sua lei o impulso interno da ação (a idéia do dever). das inclinações e aversões e. ao mesmo tempo como impulso. 1994. Faz-se mister ressaltar com certa cautela que é preciso não esquecer que a legislação ética. mas nem por isso sua legislação está sempre contida na ética”. cit. Isso implica dizer que todos os deveres são também deveres éticos. têm que extrair-se de fundamentos patológicos da determinação do arbítrio. simplesmente por serem deveres.

p. A esfera da ética vincula-se à liberdade interna e a esfera jurídica à liberdade externa. pois se constitui no conceito limite capaz de conferir sentido e direção à conduta humana na esfera da vida em sociedade. autonomia”. para esclarecer e justificar o seu conceito de direito. ou seja. O conceito de direito coincide com o conceito de autonomia no sentido de que “A legislação própria da razão prática é a liberdade em sentido positivo. V.virtude. 1964.A liberdade interna e externa Depois de apreciar essa distinção entre legislação interna e externa. Hildesheim.107 Esta relação entre direito e autonomia exclui qualquer possibilidade de violência. A Filosofia de Immanuel Kant. O primeiro tipo de liberdade refere-se à faculdade de agir segundo leis que a nossa própria razão nos fornece. 1995. 1986. 5 . a jurídica. R. R. p. São Paulo: Iluminuras. liberdade ética e liberdade jurídica. o 105 106 107 TERRA. R. Brasília: Unb.578 apud Rohden.106 As normas jurídicas e éticas derivam da razão e não da natureza. menoridade e os mais variados tipos de desrespeitos para com certas regras de convivência mútua. EISLER. O conceito de liberdade vincula-se necessariamente à idéia de uma sociedade. A partir desta concepção podemos dizer que o direito identifica-se com a idéia de autonomia. p. daí o sentido de limitação recíproca. o segundo tipo de liberdade. R. 125. ou dizendo de um modo mais breve. p. A Política tensa: idéia e realidade na Filosofia da História de Kant. remete-nos à faculdade de agir no mundo exterior. portanto. leis que ordenam na medida em que somos livres. mas limitada pela mesma liberdade presente nas outras pessoas.194. Derivam da vontade humana legisladora. Kant Lexikon. Kant relaciona o atributo de interno e externo ao conceito de liberdade. A liberdade torna-se o ponto chave entre as duas esferas. 79 GALEFFI.105 Os atributos de interno e externo apenas sinalizam para a forma de adesão. 110 . Surge. pois não podemos esperar que todos tenham motivação ética para o cumprimento das leis. um outro critério de distinção que se baseia no sentido de liberdade interna e liberdade externa. As leis morais e jurídicas são leis da liberdade. Então. observando ou não o animus com o qual é cumprida uma ação.

a saber: as naturais e as positivas. reforça a idéia do seu imperativo categórico no sentido de que prescreve a todos a necessidade de se pôr no papel de um suposto legislador para observar a possibilidade de universalização das máximas do agir. as leis obrigatórias podem ser de dois tipos. ainda que não haja nenhuma legislação jurídica a seu respeito.âmbito da moralidade diz respeito à liberdade interna e o âmbito da legalidade à liberdade externa. na esfera do direito. 1994. No âmbito da legislação externa. 108 Neste momento.109 108 109 La Metafísica de las Costumbres (1797). somos responsáveis por todas as nossas ações primeiramente diante de nossa própria consciência e depois. pp. como um legítimo representante do dizer que o direito se pensamento jusnaturalista. Madrid: Editorial Tecnos. Kant. As leis externas positivas são aquelas cuja obrigação depende necessariamente de uma legislação externa efetiva. Podemos pensar a liberdade interna atuando nos dois momentos. 224. Para Kant. 111 . no âmbito da ética e na esfera jurídica. confere a faculdade de poder obrigar outrem mediante seu arbítrio. Na verdade. somos responsáveis frente a nós mesmos. entende que as leis positivas encontram seu fundamento nas leis naturais. No âmbito da ética. 225. Na relação entre liberdade e dever não podemos relacionar estritamente a liberdade interna com os deveres que Kant denomina de deveres para consigo próprio e a liberdade externa com deveres para com o próximo. o que equivale fundamenta na moral. a lei natural fundamenta a autoridade do legislador. em alguns casos. ou seja. La Metafísica de las Costumbres (1797). As leis externas naturais são aquelas cuja obrigação é reconhecida a priori pela razão. pp. 1994. Tal relação exige a presença de dois seres humanos para a limitação recíproca da própria liberdade externa. ou seja. embora a relação jurídica tenha como característica fundamental a intersubjetividade. diante do olhar dos outros. “Por conseguinte – afirma Kant -. deves considerar tuas ações primeiro desde o teu princípio subjetivo: todavia podes reconhecer se esse princípio pode ser também objetivamente válido”. somos responsáveis frente à coletividade. Madrid: Editorial Tecnos.

O conceito de igualdade decorre desta idéia de liberdade como direito inato. pp. “Razão Prática e Direito” In: Racionalidade e Ação. somente podemos denominar livre o arbítrio”. 1992. na Metafísica dos Costumes ressalta que só há um único direito inato. Madrid: Editorial Tecnos. 226. Porto Alegre: Editora Universidade UFRGS/ Instituto Goethe – ICBA. In: I. pp. 1995. ele é sob este aspecto livre do determinismo natural e tem uma vontade própria. p. “se o homem é capaz de determinarse por uma razão independente. 1974 e Lisboa: Edições 70. 237. que no homem é livre. Por conseguinte. como diz Rohden. pois 110 111 La Metafísica de las Costumbres (1797). senão imediatamente à legislação concernente às máximas das ações (portanto. Kant. 113 Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785). São Paulo: Abril Cultural. não pode chamar-se nem livre. à razão prática mesma). 112 . da qual derivam os conceitos e leis tanto morais como jurídicas”. Os Pensadores.110 Kant estabeleceu a relação entre liberdade e arbítrio quando estabeleceu a possibilidade da liberdade ser percebida no sentido de autodeterminação pela razão. que é a liberdade outrem: “A liberdade (independência do arbítrio necessitante de todo outro). BA99. portanto exige liberdade: “a vontade que não se refere senão à lei. o que implica dizer que o homem é livre por ser racional. daí que seja também absolutamente necessária e não seja ela mesma suscetível de coerção alguma. nem não livre. 1994. V. ou. O arbítrio determinado diretamente pela razão pura é o livre-arbítrio. pois entende que as leis procedem da vontade e as máximas do arbítrio. na medida em que pode coexistir com a liberdade de todo outro segundo uma lei universal.128 112 La Metafísica de las Costumbres (1797). 1994. Col. pois fundamentou seu argumento no fato de que a vontade se refere tão somente à lei. pertencente a todo homem em virtude de sua humanidade”112 no sentido de independência do arbítrio de Apresentou na Fundamentação: “a liberdade tem de pressupor-se como propriedade da vontade de todos os seres racionais”113.Esse exercício nos permite conhecer nosso arbítrio e consequentemente nossa liberdade.111 Embora Kant afirme a existência de direitos inatos em À Paz Perpétua. o arbítrio liga-se às ações e. ROHDEN. Madrid: Editorial Tecnos. é o único direito originário. porque não se refere às ações.

O direito consiste em limitar as ações: a minha liberdade de me apoderar das coisas encontra seu limite na liberdade do outro em agir da mesma forma. sublinho mais uma vez que não é a experiência da violência como pensava Hobbes.115 Essa circunstância nos leva a pensar que Kant nega a origem do direito como derivado da propriedade. Nesse sentido. A igualdade 114 inata é: “a independência que consiste em não ser obrigado por outros senão àquilo a que também reciprocamente podemos obrigar-lhes” homem íntegro e o conteúdo Na verdade. A racionalidade permite o reconhecimento recíproco e a unificação das vontades e. 6 . a igualdade. R. É a razão que nos impulsiona a abandonar o estado de natureza. ser da formulação do imperativo categórico acima mencionado já se encontram no princípio da liberdade originária como elementos constitutivos dela. a lei jurídica não é algo inato. Trata-se de uma razão prática-jurídica e não pragmática. Kant entende que só podemos nos considerar possuidores de algo quando há o reconhecimento dessa posse de forma não diretamente relacionada com a detenção física. ou seja. embora seja concebido como estado 114 115 La Metafísica de las Costumbres (1797).A lei jurídica e a sociedade civil Para Kant. direcionada a interesses particulares independentes de qualquer moralidade.todos são igualmente independentes. pois o que seria a propriedade nos primórdios da sociedade senão o reconhecimento de uma posse arbitrária? O conceito de posse em Kant funda-se sobre a inata posse comum da superfície da Terra e sobre a vontade universal. Editorial Tecnos. Brasília. mas um princípio da razão. mas surge do acordo entre indivíduos autônomos para justamente assegurar a realização da liberdade. 113 . Kant justificou o ingresso no estado de direito a partir do conceito de racionalidade. pp. 237-8 GALLEFFI. 1994. Unb. A Filosofia de Immanuel Kant. Madrid. nesse sentido. O direito é uma exigência da razão que apresenta aos homens um procedimento para solucionar conflitos. Este conceito torna-se um conceito limite que direciona a conduta dos indivíduos para uma vida em sociedade. 1986. a qualidade do homem como sui iuris.

p. com a doutrina do contrato e do direito natural. pp.50. 118 Ele acreditava que havia uma tendência natural da história humana para uma ordem jurídica universal. Kant demonstrou uma grande aversão por um Estado do tipo paternalista que mantinha os súditos na condição de uma menoridade perpétua. Por felicidade entenda-se o pleno desenvolvimento de todas as suas disposições. cuja meta seria assegurar a liberdade de cada um com base em uma lei universal racional e. já que a verdadeira função do Estado não se confunde com essa tarefa. 1992. Segundo N. Ednub. mas de oportunidade. o Estado assume a figura de associação voluntária com vistas a defender alguns interesses. é uma conseqüência necessária do único direito inato: a liberdade. presente no texto “Idéia de uma História universal sob La Metafísica de las Costumbres (1797). nesse sentido. a justiça pertence a ele. Edição bilíngüe. A legislação civil deve realizar o direito natural que serve de fundamento racional à legislação positiva. em favor de um estado de direito. N. portanto cognoscível pela razão de todo homem e. Nesse sentido. compreendendo o típico egoísmo humano. onde não há uma razão privada. Kant compreendia o direito natural como não estatutário e. condenou o Estado eudemológico que pretendia tomar para si a tarefa de tornar seus súditos felizes. mas deve ser tão somente salvaguardar a liberdade que permita a cada um buscar a sua própria felicidade. Bobbio. mas um interesse comum e um tribunal capaz de assegurar e reconhecer os direitos de todos. 118 "Resposta à pergunta: que é Esclarecimento?” (1783) In: Textos Seletos. Bobbio. o Estado para Kant deve reconhecer em cada um a habilidade de ser seu próprio senhor e. o Estado pode e deve usar a coerção mediante leis para senão eliminar. Direito e Estado no Pensamento de Emanuel Kant. 117 Kant partiu em defesa desse modelo de Estado. Madrid: Editorial Tecnos. 297-8. A igualdade formal. A 482-3 116 117 114 . não permitir qualquer privilégio ou interesse especial protegido. 116 Isto posto. pelo menos controlar os abusos.de direito privado. Na sua idéia do homem como cidadão do mundo ou cidadania mundial. portanto. Petrópolis: Editora Vozes. 1994. que não é igualdade de posses. um ordenamento jurídico cosmopolita. Brasília. 1974. portanto.

Editorial Tecnos. Uma lei universal do direito que determina que devo agir externamente de forma tal que preciso sempre respeitar a liberdade do arbítrio do outro nada mais é do 119 La Metafísica de las Costumbres (1797). e nessa relação recíproca não interessa muito saber o fim a que se propõem. estudo denominado pelo nome técnico de jurisprudência jurisprudência (Iurisprudentia). 230. Além da doutrina do direito e da encontramos a Ciência do Direito. 7 . distinto do direito privado que existia no Estado de Natureza. aquele que conhece as leis externas em sua aplicação aos casos que se apresentam na experiência. Dessa idéia. Assim. Kant entende que o conceito de direito diz respeito a uma relação externa entre pessoas cujas ações implicam-se mutuamente. 115 .A doutrina do Direito Kant define a doutrina do direito como um conjunto de leis que se apresentam como leis externas ou exteriores. pp. 1994. por meio das quais o arbítrio de um pode estar de acordo com o arbítrio de um outro segundo uma lei universal da liberdade”. isto é. Madrid. implica uma espécie nova de direito público em geral. em última análise. mas entre arbítrios. mas sim a forma da relação. Kant formula pela primeira vez na obra em foco o seu conceito de direito como “o conjunto das condições. do direito público interno do Estado Civil e do direito público externo da ordem internacional.o ponto de vista Cosmopolita” e que reaparece no opúsculo A Paz Perpétua e na Metafísica dos Costumes como Ius Cosmopoliticum.119 O princípio universal do direito expressa a necessidade de coexistência dos arbítrios segundo uma lei universal. cujo interessado é o jurisperito (Iurisperitus). Para compreendermos o direito como idéia da justiça é preciso abandonar o campo empírico e dirigir-se à razão pura. que corresponde ao conhecimento sistemático da doutrina do direito natural (Ius naturae). trata-se de conciliar a liberdade de um com a liberdade do outro. Não se trata de uma relação entre um arbítrio e um desejo. Kant inferiu duas máximas já mencionadas: o dever de hospitalidade e o direito de visita. Trata-se de uma relação jurídica particular que encontra de um lado o Estado e de outro um cidadão de um diferente Estado. a liberdade em sociedade. que constituem o que se chama direito positivo.

Mas inspirado em C. p. São Paulo: Paulus. Idem. Quando usamos a expressão coerção legal limitamos esse sentido para um tipo específico de controle baseado em leis positivas. pode parecer contraditório relacionar o direito com a liberdade mediada pela coerção.120 É preciso levar em conta os três elementos constitutivos do seu conceito de direito: o primeiro diz respeito apenas às relações externas. e concorda com o mesmo. isto é. Kant postula uma relação intrínseca entre direito e coerção. História da Filosofia. D. lembrando que: “A resistência que é oposta àquilo que impede um efeito serve como auxiliar para este efeito. o terceiro não se preocupa com a matéria do arbítrio. Thomasius122. Tudo aquilo que é injusto é um impedimento para a liberdade enquanto esta está submetida a leis universais e a coerção é um obstáculo 120 121 122 La Metafísica de las Costumbres (1797). e se fique limitado a regular a relação entre arbítrios. pois está diretamente ligado a esse sentido de obrigar alguém a agir de uma forma e não de outra. A coerção garantias de que tal fato aconteça em que as leis positivas se vinculam e que podemos denominar de “coerção recíproca universal implica que se desista de procurar convencer os outros do que é ou não justo. Madrid. Assim. N. G. O direito. 1990. 1994.II. 231. por meio da coerção. aparentemente mais do que a moral. A origem da concepção coercitiva é atribuída a C. 116 . V. é um direito intersubjetivo. está relacionado à coerção. há a possibilidade de conseguir provocar no outro certa conduta. Num estágio pré-positivo. ou seja. pois o direito não concerne aos objetos particulares. Editorial Tecnos. o segundo estabelece a relação entre arbítrios. 817. pois a intersubjetividade pode ocasionar lesões nos outros. Thomasius. ibidem. explica como funciona tal coerção capaz de salvaguardar a liberdade. e REALI. e ANTISERI. mas sem efetivamente. BOBBIO. mas tão somente com a forma.121 À primeira vista. O termo coerção pode ser entendido como a possibilidade de regular as relações humanas a partir de leis externamente válidas. pp.que uma obrigação que me determina a razão: “age exteriormente de maneira que o uso livre do teu arbítrio possa estar de acordo com a liberdade de qualquer outro. segundo uma lei universal”. sem nenhum componente ético ou intencional”. Cf.

é injusto). 231. Cf ainda Aristóteles: “Livre é o homem que tem a si mesmo como fim e não o outro”( Metafísica. A liberdade exterior compatibilizada com a liberdade dos demais é a forma universalizada da possibilidade de convivência humana. 1994. Quando um certo uso da própria liberdade é um impedimento para a liberdade segundo leis universais (ou seja. Belo Horizonte: UFMG. Este modo de agir se afigura como uma forma deturpada de liberdade no sentido da capacidade do homem como ser racional. a criação de um espaço público sem constrangimento injusto. p. 124 Com isso. enquanto serve para impedir um obstáculo posto à liberdade. mas nada vale na prática” (1793) quando afirma que a lei da coerção recíproca corresponde à liberdade de cada um sob o princípio da liberdade universal e na Metafísica dos Costumes.123 Esta passagem indica que há certo uso da liberdade que se configura como obstáculo a um outro tipo de liberdade regrada e que a coerção.ou uma resistência à liberdade. ROUSSEAU. J. 226-8. que entendia a liberdade como a obediência à lei que o homem prescreve a si mesmo. desde que o não impeça a força ou a lei”( Institutas. III. quando comenta a semelhança com a “lei da igualdade da ação e reação” 125. I. Do Contrato Social. ou seja. 1994. La Metafísica de las Costumbres (1797). está de acordo com a própria liberdade. a coexistência pública dos homens. Esse vínculo da liberdade com a lei foi herdado por Kant do pensamento de Rousseau. exercer a liberdade a qualquer custo ou o mal praticado por alguém fere a liberdade de outrem. segundo leis universais. V e XI.2). O acordo entre liberdade e coerção já havia sido apontado no texto “Sobre a expressão corrente: isto pode ser correto na teoria. Madrid: Editorial Tecnos. se a autodeterminação é algo indisponível e envolve necessariamente um espaço público. ainda Montesquieu. é justo”. pp. Cf. p. a definição Romana: “Liberdade é a faculdade natural de fazer o que se quer. então a coerção oposta a tal uso. 1996. Madrid: Editorial Tecnos. 126 123 124 O conceito de liberdade é comum à doutrina do direito (relacionada à 125 126 La Metafísica de las Costumbres (1797). fica excluída qualquer possibilidade de uma liberdade irrestrita ou irracional porque iria contradizer essa relação que fundamenta a moral e o direito e que ademais confere status privilegiado ao homem em relação à natureza. 892b) e “o que não é senhor de si mesmo é capaz de desejar. 1111b). SALGADO. J. Se a razão implica liberdade. ou seja. 1995. 232. Cap. A idéia de Justiça em Kant: seu fundamento na liberdade e na igualdade. cf.J. São Paulo: Martins Fontes. 3. 117 . é indispensável ao direito. mas não de agir por livre escolha”( Ética à Nicômaco. nesse sentido. Espírito das Leis.

uma vez que falar em direitos exige a existência de um “a priori originário”. e o princípio formal de sua possibilidade considerado segundo a idéia de uma vontade universalmente legisladora. Assim surge o direito público da necessidade de coexistência inevitável.condição formal da liberdade externa) afirmam a relação da liberdade com a lei. Brasília: Ednub. a liberdade.311. ou seja. O sentido de justiça liga-se ao sentido de um estado jurídico. 118 . Direito e Estado no Pensamento de Emanuel Kant. com o sentido de estado civil somente é pensável a partir do conceito de autonomia. “aquela relação dos homens entre si que contém as condições sob as quais unicamente cada um torna-se partícipe de seu direito. Nesse sentido. p. 1992. jurídico-política em termos de compreensão 128 Para alguns autores. chama-se justiça pública. p. Podemos até argumentar que ele formulou uma teoria da justiça como liberdade e que muito pode ter influenciado na elaboração dos fundamentos teóricos do Estado Liberal. a partir de um ordenamento instituído mediante a publicidade de suas leis para que todos possam usufruir de seus direitos: a Constituição. Kant pode ser estudado como o filósofo do iluminismo. Kant estava vinculado a essa concepção liberal. Bobbio. Podemos dizer que os fundamentos passam históricos do por pensamento uma fase jurídico histórica contemporâneo necessariamente importante: o pensamento liberal do século XVIII .época de Kant. a Crítica da 127 128 La Metafísica de las Costumbres (1797). 1994. A ética e o direito Ao pensarmos o direito pensamos também a liberdade na idéia do arbítrio de todos unificados no conceito de vontade universal legisladora. Madrid: Editorial Tecnos. quando definiu o direito como o conjunto das condições por meio das quais o arbítrio de um pode estar de acordo com o arbítrio de um outro segundo uma lei universal. A justiça consiste no respeito à vontade universal.73-4. e à doutrina da virtude (relacionada à condição formal da liberdade interna). 127 A relação da Constituição que consiste na vontade unificada. pois apresentou campos de cultura diferentes. o que justifica a sua definição do direito estar formulada a partir do conceito de liberdade. Kant teria inserido a temática filosóficodas condições transcendentais da experiência jurídica. N.

sem dúvida. portanto inspiram-se em valores morais comuns às duas esferas. conferindo sentido às normas jurídicas. como a personificação do princípio da justiça. a relação que estabeleceu entre indivíduo. dignidade da pessoa humana inspiram o direito. mas ambos habitam o mesmo terreno. como uma exigência da razão.razão pura. Em particular. Ademais. no âmbito prático e a Crítica do juízo no âmbito da arte. na medida em que está intimamente vinculado à ética. Kant compreendeu a relação do direito com a moral a partir de uma intuição política e histórica da origem do Estado. portanto. autonomia moral. Ademais apontou noções como dignidade da pessoa humana. etc. uma vez que não é possível pensar o direito sem necessariamente estar ligado à figura do Estado e ambos encontram sua fundamentação e legitimação na autonomia. Habermas chamou (sob a ótica de sua teoria 119 . É possível que a preocupação de Kant com a fundamentação do cumprimento do direito como um dever moral se relacione com o fato de que o desenvolvimento humano e moral não acontecem senão por meio da interação social. Estado de Direito. reputando indispensável a conquista da razão e da liberdade. é preciso considerar que para uma sociedade livremente associada. Princípios éticos universais como a justiça. igualdade. Por conseguinte. a Crítica da razão prática. O direito é. personalidade e autonomia). mas também pode relacionar-se com o sentido de cumprimento do dever por puro respeito à lei. O Estado se revela. ética e direito se dirigem à conduta humana e. pessoa moral e cidadão submetido às leis. animado por um procedimento diferente do procedimento ético. o que J. A legislação jurídica não está adstrita somente ao âmbito da coerção. no Âmbito teórico. mas também como transformação da nossa autocompreensão (racionalidade. o direito pode ser entendido não apenas como imposição externa. contrato social como princípio regulativo. liberdade. o direito também exige um reconhecimento moral capaz de justificar a sua necessidade de limitação recíproca da liberdade. direitos naturais como princípios morais. reciprocidade.

129 120 . Kelsen e Radbruch. outra se fundamentando na Crítica da Razão Prática. ligada à filosofia dos valores. uma valorizando a Crítica da Razão Pura. Vol. Stammler. ou seja. 1997. a saber: a Escola de Marburgo. Direito e democracia: entre a facticidade e validade. o mundo dos valores. HABERMAS. o que desvela a preferência pelo pensamento de Kant expresso na Crítica da Razão Pura. I. o mundo do dever ser. a partir do qual se esboçara a passagem de uma análise do direito natural para o estudo da filosofia do direito.da ação) de “duplo aspecto da validade do direito. J. Da filosofia kantiana surgiram duas correntes distintas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 129 onde a legalidade pode ser obtida por meio da coação ou por consciência da necessidade de Essa relação entre ética e direito ultrapassa os limites da simples garantia dos direitos individuais e alcança também a importância de legitimar as leis jurídicas fundamentando-as na idéia de um sujeito racional autônomo na qualidade de co-legislador e no sentido da idéia de vontade geral. 49-53. ligada às ciências sociais e jurídicas e a Escola de Baden. E autores contemporâneos com suas éticas de inspiração kantiana como Jürgem Habermas e John Rawls. p. Del Vecchio. A Escola de Baden focalizou em especial os conceitos de valor e cultura. A Escola de Marburgo compreendeu o predomínio do problema lógico sobre o problema ético.” obediência à lei. De tais escolas surgiram os mais importantes intérpretes neokantianos de uma filosofia voltada para a experiência jurídica como Renouvier. A fundação científico-positiva do Direito ensejou uma filosofia do direito inspirada no criticismo de Kant.

cada qual caracterizando sua época e sua cultura jurídica. se ligam mais a Condorcet do que a Comte. ou seja.A origem do termo positivismo Sabemos que o termo positivismo. As escolas moralistas são aquelas que valorizam o direito natural e se caracterizam 130 Sabadell. São Paulo: Revista dos Tribunais. portanto.As escolas Jurídicas Segundo ensina Ana Lúcia Sabadell130 podemos compreender a expressão “escola jurídica” como um grupo de autores que compartilham uma determinada visão sobre a função do direito. Na visão de alguns especialistas o termo positivismo foi utilizado pela primeira vez na escola de Saint-Simon. validade e conteúdos. 2000. p. Catecismo positivo (1852) e Sistema de política positiva (1852-1854). como funciona o direito e como deveria ser configurado esse direito. suas regras. Discurso sobre o espírito positivo (1844).O positivismo jurídico 1 . segundo como designação de doutrinas que se ligam à de Comte ou que tem por tese comum a idéia de que só o conhecimento dos fatos é fecundo. Várias escolas jurídicas surgiram ao longo dos anos. Encontramos. refere-se primeiramente à doutrina de August Comte (1793-1857) exposta nas obras Curso de filosofia positiva (1830-1842). renunciando a todo e qualquer conhecimento a priori. 17. 2 . De um modo geral. que o modelo da certeza é fornecido pelas ciências experimentais. cada escola jurídica oferece respostas a três indagações: o que é o direito. podemos classificar as escolas em dois grandes grupos: as escolas moralistas e as positivistas. inúmeras escolas rivais e outras que apresentam pontos de continuidade entre si. escolas que se inspiraram em outras dando continuidade às suas concepções. ou seja. mestre de Comte e que o sentido de conjunto de idéias ou tendências intelectuais que atribui à constituição e ao progresso da ciência positiva uma importância preponderante para o progresso. em seu sentido estrito. segundo as próprias declarações deste. Manual de sociologia jurídica. 121 . Nesse sentido.Parte VII . Ana Lúcia.

p. comportamento social. Na verdade. o “espírito do povo”. Justus Moser (1720-1794). no campo filosófico-jurídico o historicismo se configurou na Escola Histórica do Direito. Savigny invocou contra a lei escrita. 131 Bobbio. Assim. a primeira preparou o segundo através de sua crítica radical do direito natural”. o direito vive na consciência popular porque é do povo que ele nasce. Para Savigny.por um pensamento jusnaturalista. Savigny respirou a atmosfera romântica dos alemães de Heidelberg. Para este filósofo-jurista Ressaltamos aqui uma que direito e linguagem apresentam um início anônimo e visam atender tendências e interesses múltiplos de um povo. O positivismo Jurídico. a força viva dos costumes. advertência de Norberto Bobbio: “Note-se bem escola histórica e positivismo jurídico não são a mesma coisa. Trata-se do espírito do povo (Volksgeist) que produz o direito positivo. Adam Muller e Gustav Hugo (1765-1844) que só considerava o direito positivo como objeto da ciência. 131 contudo. portanto. N. A função legislativa seria. em particular no pensamento de Friedrich Karl Von Savigny (1779-1861).A Escola Histórica ou Romântica A escola Histórica ou romântica representou uma tendência importante no quadro anti-racionalista da primeira metade do século XIX. pois temia o perigo de leis destituídas de eficácia. Segundo estudiosos. a lei abstrata e racional. reclamando uma visão mais concreta e social do Direito. considerado um dos precursores do historicismo político-jurídico. 45 122 . o historicismo foi um movimento filosófico-cultural contra a razão iluminista e que no âmbito jurídico pretendia a dessacralização do direito natural.1 . Joseph De Maistre (1754-1821). recebeu influência de vários autores como: Edmundo Burke (1729-1797). ou seja. temos pela primeira vez uma refutação filosófica do direito natural. comparando-o ao fenômeno da linguagem. a expressão da necessidade de dar ao direito positivo uma existência exterior cognoscível. As escolas positivistas são aquelas que entendem o direito como um sistema de normas que regulam o 2.

o historicismo focaliza o seu caráter individual. que representaram a realização política do princípio da onipotência do legislador”. ser investigado nas grandes codificações ocorridas entre o fim do séc. Foi neste momento que houve uma certa identificação com o positivismo jurídico – o direito como expressão de uma autoridade legitimada para legislar. a Escola Histórica do direito não foi precursora do positivismo jurídico. São Paulo: Ícone. ambas se posicionaram criticamente em relação ao próprio juspositivismo. ao contrário. XIX. a saber: a intenção de substituir um olhar generalizante e abstrato da história humana por uma visão que considera o homem em sua individualidade. a escola sociológica e a escola realista que no final do séc. XIX. é possível falar em Homem com caracteres sempre iguais e imutáveis 132 O Positivismo Jurídico: lições de filosofia do direito. mas de certas correntes jusfilosóficas como. onde objeta a codificação. segundo o qual (De Maistre). Ao observarmos as características da Escola Histórica temos que ressaltar um traço fundamental. Enquanto os racionalistas consideravam o homem como integrante de uma humanidade abstrata. 123 . 1995. além da obra que marcou o grande florescer do Direito romano na Alemanha.132 Sabemos que as codificações foram incentivadas pelo pensamento iluminista que congregou a idéia de um sistema de normas racionalmente elaboradas com a exigência de um código imposto pelo Estado. p54. XVIII e o início do séc. “O fato histórico que constitui a causa imediata do positivismo jurídico deve. Sistema de Direito Romano Atual (1840).Sua obra fundamental foi Da Vocação de nosso Tempo para a Legislação e a Jurisprudência (1814). por exemplo. Bobbio enumera cinco características da Escola em apreço: 1. Assim. Conforme ensina Norberto Bobbio. Valorização da individualidade/diversidade histórica – pretende-se a superação do entendimento dos jusnaturalistas.

Bobbio observa que Savigny apresentou traços importantes no interior desse pensamento. a saber: 1. mas o elemento passional e emotivo do homem. 2. Os iluministas desprezavam o passado e zombavam da ingenuidade e ignorância dos antigos (Justus Moser) 5. O Historicismo deixava. Com o passar dos anos. Valorização do sentido irracional na história/há impulsos e paixões .2. Nesse sentido. Valorização da tradição.a mola mestra da história não é a razão. 4. Os perigos da cristalização do direito numa única coletânea jurídica – perigo da codificação do direito germânico. 4. o direito espontâneo. 3. portanto de ser um Historicismo de conteúdo social e passava a configurar um historicismo meramente lógico-dogmático. 5. Reviver o antigo direito germânico mais adequado ao povo alemão. O costume é um direito que nasce diretamente do povo. no sentido de ir buscar os antecedentes dogmáticos para conhecer melhor uma regra. Valorização da descrença no progresso iluminista – há certo pessimismo antropológico porque não acredita nos magníficos destinos e progressos da humanidade (Burke). as origens. a Escola Histórica passou a dar preferência à história dos textos legais. A escola histórica do direito realizou estudos jurídicos a partir desse novo modo de pensar o homem e sua história. os seus seguidores limitaram-se a fazer a interpretação histórica. instituições e costumes da sociedade – esta idéia foi difundida por Herder e Burke que valorizavam os costumes formados através de um desenvolvimento lento e secular. A impossibilidade de um direito único e igual em todos os tempos e lugares. Valorização das normas consuetudinárias que expressam verdadeiramente uma tradição. 3.2 . Idealização do passado – valorizam o passado.A polêmica entre Thibaut e Savigny sobre a codificação na Alemanha 124 . pois o direito passa a ser visto como um produto da história. 2. após a morte de Savigny. O direito nasce do sentimento de justiça e não do cálculo racional. ou seja.

Antes de Thibaut. baseada em privilégios. Thibaut (1772-1840). ensaio Sobre a Para ele o direito necessidade de um direito civil geral para Alemanha (1814). separados uns dos outros por causa de um labirinto de costumes heterogêneos. Ocorre que grande polêmica surgiu por ocasião em que os exércitos da França revolucionária ocuparam uma parte da Alemanha. Afirmou que: “Os alemães estão a muitos séculos paralisados. A inspiração iluminista de Thibaut pode ser expressa na citação do lema sapere aude. O positivismo jurídico. oprimidos. As diversidades locais expressam o arbítrio dos vários príncipes. entre história e razão para a construção de um sistema de direito positivo. como convite à coragem intelectual. Justamente agora se apresenta uma ocasião inesperadamente favorável para a reforma do direito civil como não se apresentava e talvez não se apresente mais em mil anos. que figura no posição da chamada escola filosófica do direito. uma estreita relação entre o movimento do iluminismo e o processo de O pensamento de Thibaut. N.58.Já compreendemos que os iluministas realizaram uma crítica demolidora do direito consuetudinário enquanto herança do século das trevas e um verdadeiro obstáculo aos princípios de uma nova civilização que valoriza a razão e codificação. Thibaut 133 Apud. palavras de Horácio. Este código adotara princípios estranhos a um povo que vivia em situação semifeudal. dentre eles: Rehberg que elaborou um artigo em defesa da tradição prussiana. logo o direito germano não é natural. tornadas célebres no Iluminismo como grito de batalha. Immanuel Kant utilizou esse mote no texto “Resposta à pergunta: que é Iluminismo?” (1784). em parte irracionais e perniciosos. 125 . Esta situação gerou a oposição de vários conservadores alemães. obscuro e primitivo. Na verdade assumiu uma posição moderada. Configura-se. de conciliação. Bobbio. famoso jurista alemão fez uma apreciação anônima do texto conservador de seu coetâneo. portanto.”133 a autoridade do Estado. exprimiu a germânico é insuficiente. p. difundindo o Código de Napoleão. onde a codificação prussiana de 1797 conservava a distinção da população em castas. mas fruto dos interesses.

Os iluministas estavam convencidos de que existia um verdadeiro direito.O Código de Napoleão: Cambacérès e Portalis O Código de Napoleão entrou em vigor em 1804 ocasionando uma profunda mudança no pensamento jurídico moderno. 2. Segundo Bobbio. Não era extremista e 126 . jurista e político prudente que participou da Convenção que decidiu a morte do Rei Luiz XVI. Savigny fundamenta seus argumentos em Bacon quando este autor afirma que para um povo proceder à instauração de um novo sistema jurídico é preciso que o nível civil e cultural seja superior. Para este pensador a codificação paralisa o desenvolvimento do direito. porquanto serviu de base para várias codificações um verdadeiro corpo de posteriores e também porque configurou sistematicamente organizadas e normas expressamente elaboradas. dentre elas as de Savigny que afirmou a artificialidade das legislações. Suas idéias provocaram recensões. momento em que a idéia de codificar o direito adquiriu consistência política.3 . O fato é que a sociedade francesa encontrava-se fragmentada e na concepção racionalista as velhas leis deveriam ser substituídas por um direito simples e unitário. Mas a Alemanha de Savigny encontrava-se em crise. Em seus escritos ressalta a falta de maturidade do povo alemão para o processo de codificação. Como fato histórico fundamental destacamos a Revolução Francesa. por isso propunha o renascimento e o desenvolvimento do direito popular. Nesse sentido. O processo de codificação das normas francesas encontra sua origem na cultura racionalista que predominou no interior do pensamento iluminista. o novo código se distanciou progressivamente da inspiração originária se reaproximando da tradição jurídica francesa do direito romano comum. Os juristas da Revolução se propuseram a eliminar a multiplicidade de normas jurídicas pelo desenvolvimento histórico e instaurar no seu lugar um direito fundado na Natureza e adaptado às exigências universais humanas. O protagonista desta primeira fase de codificação foi Cambacérès (1753-1824).reafirma a necessidade de uma legislação geral cujas vantagens são para os Juízes e a unificação da Alemanha.

na realidade. poderá ser processado como culpável de justiça denegada”. da obscuridade ou da insuficiência da lei. O juiz deve usar a interpretação. O papel mais importante foi realizado por Portalis (1746-1807). 18 Brumário. Os projetos inspirados nas idéias do jusnaturalismo racionalista representavam a Revolução quando esta queria fazer tábula rasa de todo o passado. a expressão orgânica e sintética da tradição francesa do direito comum. Neste caso. perseguido por Robespierre e posteriormente protegido no governo de Napoleão. do Código dispõe: “O juiz que se recusar a julgar sob o pretexto do silêncio. 1794 e 1796. O projeto definitivo do novo código abandonou decididamente a concepção jusnaturalista. Mas as intenções da comissão napoleônica pretendia elaborar uma síntese do passado que não deveria excluir os costumes e o direito comum romano. Na verdade este autor evocou a definição ciceroniana do direito natural. crítico do pensamento kantiano. liberal moderado. Elaborou severa crítica contra os excessos da revolução e representou em certo sentido o início do movimento de Restauração. Durante a Convenção este jurista apresentou três projetos para um novo código de clara inspiração jusnaturalista. Em um dos seus projetos já equiparava filhos naturais aos legítimos. proposição radicalmente nova. a integração da lei e buscar no interior do próprio sistema legislativo resolver o silêncio da lei. Na verdade foram os primeiros intérpretes que e no consideraram o novo código uma ruptura com o passado entendimento de Bobbio. o de 1793. foi nomeado segundo-cônsul e depois arquichanceler. a possibilidade do divórcio e da comunidade patrimonial.chegou a se opor a Robespierre. O código de Napoleão representou. a adoção do princípio da onipotência do legislador – um dos dogmas fundamentais do positivismo jurídico. O projeto do Código Civil foi obra de uma comissão criada por Napoleão. foi este último que apresentou características mais técnicas e uma notável atenuação das idéias jusnaturalistas que influenciou na elaboração de um projeto definitivo do Código Civil Francês. O problemático art. o dogma da onipotência 127 . Com o golpe de Estado operado por Napoleão. 4o. Dos três projetos. fundada em princípios como igualdade dos cônjuges.

estes. Os intérpretes compreenderam que este artigo a necessidade de buscar na própria lei a solução. advento. gerando um outro dogma.4 . que limita o juiz na sua esfera de afigurando-se através 128 .. a escola de exegese. portanto o estudo do direito deve ser substituído pelo estudo dos códigos. pela qual os juízes se abstinham de decidir e devolviam os atos ao poder legislativo para obter disposições a propósito. Para essa escola o direito está feito. a saber: 1. Foi essa visão consagrada pelos intérpretes que se configurou na escola dos primeiros intérpretes do Código de Napoleão. Esta escola foi acusada de fetichismo da lei por considerar o novo código uma ruptura com o direito precedente. Com o surgimento dos códigos emergiu também a necessidade de interpretar a letra da lei.A Escola de Exegese A outra escola importante é a Escola de Exegese que em sentido amplo significava a interpretação passiva dos Códigos. doutrina Podemos enumerar algumas causas para o seu caminhos simples para resolver conflitos. A intenção dos legisladores do novo Código era evitar a possibilidade de uma prática judiciária.do legislador impõe ao juiz a necessidade de encontrar resposta para todos os problemas. o da completude do ordenamento jurídico. 3. A possível terceira causa é a tripartição dos poderes. sem recorrer operadores 2. ideológico da estrutura apenas do Estado da moderno. visavam como Para costume. 4o. indicava os critérios com base nos quais pode o juiz decidir na hipótese do silêncio ou qualquer incerteza. A crença na vontade do legislador expressa de modo seguro e completo e a necessidade de limitarse aos ditames dessa autoridade legislativa. o art 9o. Além do art. a do outras direito fontes etc. 2. os mais jurisprudência. fundamento competência.

de 1880 até o fim do séc. O respeito pelo princípio de autoridade: os primeiros comentadores do código gozaram de grande prestígio e influenciaram inúmeros juristas posteriores. que são normas gerais escritas emanadas pelo Estado. O princípio da certeza do direito. As características fundamentais dessa escola são: 1. considerado período do seu apogeu. o seu início. Interpretação da lei fundada no legislador: se a lei é manifestação da vontade do Estado. não apresentando senão lacunas aparentes. 2. As pressões políticas que foram operadas pelo regime napoleônico em favor do ensino acadêmico centrado somente no direito positivo. XIX. 4. excluindo-se assim as concepções das teorias gerais do direito e as concepções jusnaturalistas. 4. 5. ou seja. A tese fundamental da Escola é a de que o Direito por excelência é o revelado pelas leis. O culto ao texto da lei: o operador do direito deve seguir rigorosamente o que está escrito. A história da influência dessa escola pode ser dividida em três fases: de 1804 a 1830. constitutivas de direito e instauradoras de faculdades e obrigações. 5. de 1830 a 1880. O verdadeiro jurista deve partir 129 . A escola exegética configurou um procedimento específico de análise comentando artigo por artigo do Código Napoleônico. sendo o Direito um sistema de conceitos bem articulados e coerentes. Desvalorização da importância e significado do direito natural para o jurista. um processo lógico. Concepção rigidamente estatal do direito: as normas jurídicas legítimas são aquelas impostas pelo Estado. busca-se na vontade do legislador a correta interpretação da lei nos casos de obscuridades e lacunas. a idéia de que o direito fornece um critério seguro de conduta que permite antecipar os resultados – uma regra certa. o seu declínio.seguinte metáfora: “a boca através da qual fala a lei”. 3.

Os romanos não eram tão voltados para ratio scripta. jurisprudência significava o conhecimento das coisas divinas e humanas. Objeto: norma imposta pelo legislador. escritas e sua sistematização. prudência do direito. prática dos tribunais (Capitant). 134 130 . a corrente historicista se configurou a partir da denominada escola histórica do direito. em particular o termo Phrônesis fundamental para a ação honesta.do Direito Positivo. Todavia. No sentido romano. ou seja. a obra que antecipa o pensamento da escola histórica foi a obra de Gustavo Hugo sob o título Tratado do direito natural como filosofia do direito positivo de 1798. 135 É preciso entender o que significa jurisprudência. mas a de juris-prudentia. 3. A juris-prudentia estaria situada entre o logos (razão) e o ethos (prática). No campo filosófico-jurídico. que propiciou o desenvolvimento de certo desencantamento em relação ao direito natural. Os romanos não atribuíram a característica de ciência. O exemplo clássico dessa crítica foi a reflexão anti-racionalista elaborada pelo historicismo do séc. Na verdade. O historicismo compreendia o homem na sua individualidade. temos jurisprudência como: 1. ou seja. eram os princípios que constituíam o melhor de sua preocupação. convém ressaltar. Surge assim a idéia de uma Dogmática Jurídica134 conceitual ou uma Jurisprudência135 conceitual.O surgimento do positivismo jurídico Norberto Bobbio aponta. sem procurar respostas fora das leis. cuja finalidade era realizar o justo. que a interpretação se limitava a um trabalho rigorosamente declaratório. entre o fim do século XVIII e o começo do séc. na Alemanha. Essa concepção (normativista e conceitual do Direito) compreendia que a lei deveria ser atingida em seu espírito e. Significa dizer que existe uma ratio iuris específica. conjunto das ciências do Direito que busca o conhecimento do Direito Público e Privado (Radbruch). se confundia com a própria Filosofia. XIX. uma interpretação conceitual de regras do Direito. na obra O positivismo jurídico. XIX encontrando em Karl Friedrich von Savigny seu maior expoente. Estudam-se as regras vigentes. porquanto formularam críticas ao direito natural. o que nos remete a Aristóteles em sua classificação das virtudes. ou seja. ao contrário da corrente do jusnaturalismo que considerava a humanidade abstratamente. alguns acontecimentos que foram importantes para o surgimento do positivismo jurídico. onde este autor concebe o direito natural como um conjunto de considerações filosóficas sobre o próprio direito positivo. disciplina jurídica no sentido geral (Austin). 2. como objeto do jurista. leal e justa. No sentido moderno. Qualquer mudança na lei deveria seguir o processo legislativo. o direito natural passa a Dogmática jurídica – ciência empírica do direito positivo. 3 .

reunindo em seu seio os maiores civilistas da Europa. como o individualismo econômico a concebia. O surgimento dessa nova postura consistia na defesa intransigente do indivíduo e de suas iniciativas. Dois princípios se tornaram concretos: a igualdade perante a lei e a lei geral para todos. na liberdade e na segurança das relações jurídicas. antes da Revolução Francesa. além do Direito natural. Segundo Miguel Reale. restou à Revolução Francesa de 1789. contribuindo assim para o surgimento de um novo modo de considerar o direito. Compreende-se. canônico e a opinião dos doutores. o Direito estava dividido em sistemas particulares. Com a promulgação deste código fortaleceu-se a convicção de que a sua tarefa fundamental deveria consistir em interpretar os textos de maneira autêntica. Percebiam-se abusos legislativa multifacetada e empírica e fraudes. na proteção da propriedade privada. O juiz através de um trabalho de exegese poderá sempre encontrar uma solução para cada caso. na obra Filosofia do Direito. Observa-se que este direito positivo significa aquele direito que existe ou pode existir em qualquer Estado. Enfatiza a separação entre juízos de fato (o direito tal qual é) e juízos de valor (o 131 . como expressão da razão. Não admitiam lacunas.ser uma filosofia do direito positivo. portanto o grande entusiasmo que provocou o Código Civil Napoleônico. Tratava-se de um sistema jurídico complexo constituído pelos usos e costumes. de maneira que tudo já estivesse de certo modo ordenado no sistema legislativo. Com essa obra este autor opera a passagem do jusnaturalismo (lato sensu) para o pensamento juspositivista. O positivismo jurídico apresenta o Direito como avalorativo. cada região possuía seu sistema de regras. dentre eles a igualdade jurídica. Diante desta obra comprometida pela força dos interesses. Representou um corpo harmônico e lógico de preceitos. levar a cabo a tarefa de materializar seus ideais. pelos preceitos do direito Romano. bastaria o trabalho de interpretação. ou seja. uma vez que esgota e esvazia a tradição jusnaturalista. Essa visão de mundo propiciou o surgimento da Escola de Exegese. para se obter respostas convenientes a todas as lides e demandas. na França. capaz de atender a todas as hipóteses ocorrentes na vida. de 1804.

cuja validade do direito repousa na sua estrutura formal. O positivismo jurídico sustenta a idéia da obediência absoluta à lei. De acordo com os ensinamentos de Norberto Bobbio. o termo direito se afigura como avalorativo ou não valorativo. “O positivismo jurídico nasce do esforço de transformar o estudo do direito numa verdadeira e adequada ciência que tivesse as mesmas características das ciências físico-matemáticas.136 Estamos no âmbito da avaloratividade do direito enquanto ciência. O positivismo jurídico compreende a norma como um comando (teoria da norma jurídica). situação esta que propicia o aparecimento de uma teoria chamada teoria da coatividade do direito. A justiça decorre da sua validade. Nesse sentido. 4. 135. O positivismo sustenta a teoria da interpretação mecanicista que consiste em enfatizar o aspecto declarativo em detrimento de uma análise criativa ou produtiva. Deste modo de ver surge uma teoria da validade do direito denominada formalismo jurídico. São Paulo: Ícone. 1995. implicando em uma teoria imperativista do direito. na separação entre juízos de fato e juízos de valor. Bobbio podemos observar sete problemas fundamentais nessa doutrina: 1. Este é um 136 O Positivismo Jurídico: lições de filosofia do direito.direito como deveria ser). pois foi apresentado pelo jusnaturalista Christian Tomasius. Nesse sentido. A validade da norma jurídica decorre da sua origem em um ordenamento jurídico. O positivismo jurídico compreende o direito como um fato e não um valor. 2. A teoria da legislação como fonte do direito. 5. naturais e sociais”. 3. p. 6. A teoria do ordenamento jurídico considera o conjunto de normas jurídicas vigentes numa sociedade e implica uma teoria da coerência e da completude deste ordenamento jurídico. pois pretende um conhecimento objetivo da realidade. O direito é definido em função do conceito de coação. Observa o autor supracitado que este caráter do direito não é exclusividade do juspositivismo. O direito não recebe o qualificativo de bom ou mau. o positivismo entende o Direito como Ciência. não formulando juízos de valor. ou seja. 7. Na relação entre lei e costume admite-se apenas o costume secundum legem e eventualmente o praeter legem. Isto significa dizer que o jurista deve estudar o direito do mesmo modo como o cientista estuda a realidade natural. Segundo N. A ciência deve excluir de sua esfera juízos de valor. 132 .

O positivismo estuda o direito tal qual é e não como deveria ser. Para o juspositivista há uma redução da concepção valorativa na concepção validativa. enquanto que o filósofo do direito considera imprescindível investigar o fundamento e a justificação do direito.traço fundamental na separação entre o mundo antigo e o moderno: o homem moderno renuncia a uma visão metafísica da realidade. Observa-se. Encontramos aqui uma dois critérios independentes entre si. Com a distinção entre juízos de valor e juízos de fato. para fins didáticos. ou valorativa ou deontológica. uma definição filosófica pode ser considerada ideológica. 133 . a filosofia do direito pode ser definida como o estudo ou investigação acerca do direito a partir de certo ponto de vista valorativo. determinada norma será válida se pertencer a um ordenamento jurídico e. ou seja. Desta dicotomia podemos observar duas possibilidades para definir o direito. Uma norma jurídica será justa quando corresponder a esse direito ideal. há uma passagem na obra de N. que o conceito de valor não se confunde com o de validade. Segundo Bobbio. ou seja. uma vez que uma norma jurídica é válida quando faz parte de um ordenamento jurídico real. portanto. a saber: a definição científica e a definição filosófica. Uma definição científica tem como característica o fato de ser avalorativa define o direito como ele é. O juspositivista estuda o direito independente de juízos de valor. Bobbio que expressa a crítica que os juspositivistas fazem aos filósofos do direito: “Os positivistas jurídicos não aceitam as definições filosóficas porque estas (introduzindo uma qualificação valorativa que distingue o direito em verdadeiro e aparente. juspositivista estuda o direito real sem se vincular com um suposto direito ideal. efetivamente existe em uma determinada sociedade. pois define o direito tal como deve ser para plenitude de determinado valor. segundo satisfaça ou não um certo requisito deontológico) restringem arbitrariamente a área dos fenômenos sociais que empírica e factualmente são direitos”. ou seja. justa (legítima). O valor de uma norma jurídica indica a qualidade de tal norma conforme sua relação com um suposto direito ideal. Com efeito. há uma separação entre ciência do direito e filosofia do direito.

a definição do direito em Kant 134 . ou o bem comum.As definições valorativas apresentam uma estrutura teleológica.137 A justiça. As definições juspositivistas Kelsen. ou ainda o bem comum. Austin e simples técnica. o direito é definido como uma exemplo. definem o direito relacionado a um fim (telos). ou ainda a liberdade individual são valores que o direito deve realizar. Como 137 Cf. as definições de Hobbes. são definições neutras. ou seja. As mais tradicionais definem o direito como um ordenamento jurídico necessário para alcançar a justiça.

na verdade. a mentalidade escolástica que preparou a abordagem lógica das questões filosóficas. Foi. O objetivo da obra seria discutir e propor os princípios e métodos da teoria jurídica. Sua obra foi de extrema importância para o pensamento jurídico do séc. Uma das teses do Círculo de Viena era afastar o conhecimento metafísico. sociólogo e juiz (entre 1921-1930) da Corte Constitucional da Áustria. Olga Neurath. pensadores antimetafísicos. ficou imune à corrente do idealismo. O círculo de Viena era constituído por um grupo de jovens doutores em Filosofia da ciência que organizavam colóquios semanais. Kelsen vivenciava uma época marcada pelo 135 .O pensamento de Hans Kelsen (1881-1973) “O anseio por justiça é o eterno anseio do homem por felicidade. Exilou-se nos Estados Unidos por ocasião do advento do nazismo e lecionou na Universidade de Berkeley. a ética e a religião do âmbito científico. Wittgenstein e Freud. A universidade de Viena se mantivera sob a influência católica e. o liberalismo com seu patrimônio de idéias originadas do Iluminismo. XX. portanto. XIX. Félix Kaufmann. um grupo de pensadores que contribuíram para o surgimento do neopositivismo professores da vienense. filósofos da ciência. filósofo. portanto. Carnap e tantos outros. XIX. procura essa felicidade dentro da sociedade” Kelsen 1 – Introdução Este pensador foi jurista de notável valor. Os filósofos de do Círculo de Viena eram Universidade Viena. Otto Neurath.Parte VIII . Kelsen foi influenciado pela filosofia do Círculo de Viena que era. Kelsen freqüentou o conhecido Círculo de Viena que reunia intelectuais como Carnap. Sua obra mais importante foi Teoria Pura do Direito (1934). Não podendo encontrá-la como indivíduo isolado. Foi iniciador do que se denomina de lógica jurídica e autor intelectual da Constituição republicana austríaca. reflexo dos debates metodológicos que ocuparam os intelectuais do séc. A cidade de Viena era propícia ao surgimento do neopositivismo porque nesta região se desenvolveu durante a segunda metade do séc. dentre eles destacamos: Hans Hahn. do empirismo e do utilitarismo.

trata-se de um comando. alguns entendiam a metodologia correta como aquela que aproxima o direito e as demais ciências humanas. normas são prescrições de dever-ser que 138 Isto posto podemos focalizar o conceito de norma em Kelsen. Kelsen propôs o princípio da pureza. Kelsen procurou um conhecimento objetivo. Nesse entrecruzamento de correntes. mas no seu modo de ver deveria ser observado autonomamente pelo jurista sob pena de incorrer em debates infindáveis. isto quer dizer que. Outros compreendiam a ciência jurídica como esfera autônoma. o direito é um fenômeno complexo. Tércio Sampaio Ferraz Jr. desvinculado de qualquer ideologia.positivismo jurídico nas suas diversas tendências e pelos teóricos da livre interpretação do direito. Introdução à ciência do direito. 293320. O que podemos entender por norma senão uma regra de conduta que poderá ser moral. Franco. despir o direito de caracteres humanos). Nesse sentido. 1997. o que resultou na acusação de reduzir o direito à norma. Para este autor. Com esse objetivo. pp. 138 136 . Revista dos Tribunais. o pensamento de Kelsen se comprometia com a busca de um método e objeto próprios. São Paulo. todavia não tenha sido essa a sua intenção. As normas morais e religiosas fundam sua obrigatoriedade na consciência pessoal. oferece o seguinte exemplo: existe a categoria de ser e a do dever ser. o ato de levantar o braço em uma palestra poderá Sugiro a leitura do capítulo 10 – “conceito de lei e norma jurídica” na obra MONTORO. Há que se falar também na tentativa de uma volta aos parâmetros do direito natural. segundo o qual o método e o objeto específicos da ciência jurídica deveriam ter o enfoque normativo. ou seja. abandonar a dimensão social e valorativa (para alguns. portanto. conferem ao comportamento humano um sentido prescritivo e. obriga ou permite determinado comportamento. Essa proposta causou polêmica. capazes de superar as confusões metodológicas e dar mais autonomia científica ao jurista. ou seja. Esse momento colocava em relevo a própria autonomia do direito enquanto ciência jurídica. o direito deveria ser visto como norma e não como fato social ou valor transcendente. religiosa e jurídica. as prescrições são prescrições de dever ser. livre de qualquer juízo valorativo. produto da vontade humana que proíbe. Sem dúvida. as jurídicas são protegidas por uma eventual força coercitiva externa.

posta por um poder eficaz). compreendendo a necessidade do direito se afigurar como uma esfera autônoma em relação à moral e a política. for estabelecida em conformidade com as prescrições contidas na norma fundamental. A validade de uma norma está ligada a normas superiores que culminam numa norma fundamental. Sem essa ordem normativa. e somente se. valorativamente neutra. Ainda que haja uma norma injusta.ter dois sentidos. O conhecimento para ser científico deve ser neutro em relação aos valores. . será válida e legítima desde que decorra de uma norma fundamental legítima. o Estado deixaria de existir no sentido jurídico. Direito e Estado se confundem. Isto implica dizer que o Estado se configura num conjunto de normas estabelecidas prescrevendo uma sanção para determinados comportamentos. O objeto da ciência do direito é a norma posta por o que o princípio metodológico 137 autoridade competente. Kelsen compreende a ciência jurídica como uma ciência pura de normas e as investiga no seu encadeamento hierárquico.Princípio metodológico fundamental Tal princípio significa a condição primeira para que a doutrina do direito se torne ciência. essa existência chama-se validade. Kelsen também elaborou uma teoria da norma fundamental onde a norma somente será considerada jurídica e legítima se. Disto decorre que todo o ordenamento jurídico vale e é legítimo em função dessa norma fundamental (constituição. Nesse sentido. pois não é da competência da doutrina jurídica discutir acerca dos valores buscados pelo direito e sim ressaltar uma preocupação eminentemente jurídico-científica. Esses são os limites apresentados pelo princípio metodológico fundamental. Kelsen foi grande defensor da neutralidade científica aplicada à ciência jurídica. O cientista do direito deve abster-se de valores estranhos ao objeto da ciência jurídica. Essa norma adquire existência independente de seu autor. um descritivo onde interessa apenas observar que alguém levantou o braço e um sentido prescritivo onde levantar o braço deve ser entendido como voto a favor de uma proposta. 2 . Para Kelsen.

econômicos. “Proposições jurídicas são. As normas jurídicas recebem o qualificativo de válidas ou inválidas e as proposições podem ser consideradas como verdadeiras ou falsas. a saber: 1. Com essa distinção entre norma jurídica e proposição jurídica.Norma jurídica e proposição jurídica A distinção entre norma jurídica e proposição jurídica é considerada uma das mais importantes para a teoria kelseana. deve ser internado num estabelecimento adequado. Percebemos que a proposição liga dois elementos. 3 . afirma que uma determinada conduta típica implica em certa sanção – tem caráter descritivo. Kelsen pretendia acentuar ainda mais a diferença entre a atividade de aplicação do direito e a desenvolvida pelo cientista jurídico. mas busca uma pluralidade de significações cientificamente pertinentes e fixa esse limite. Antecedente: dados determinados pressupostos. resulta do ato de vontade. Ou 138 . deve ser-lhe aplicada uma pena. Procurando uma fórmula geral. deve proceder-se a uma execução forçada de seu patrimônio. A norma jurídica prescreve a sanção que se deve aplicar no caso de ações ilícitas – tem caráter prescritivo. juízos sobre as normas jurídicas. Como diz Kelsen na obra Teoria Pura do Direito. É esta a forma fundamental da proposição jurídica”. uma proposição jurídica que é um juízo hipotético ou condicional. se alguém não paga uma dívida. sempre na forma estabelecida pela ordem jurídica. Conseqüente: decorre a efetuação de um ato de coerção. morais ou políticos interferentes na produção da norma e também os valores prestigiados em sua edição. culturais. A utilização do princípio metodológico fundamental implica uma hermenêutica jurídica que se abstém da idéia de um único sentido correto para a norma jurídica. as seguintes: se alguém comete um crime. por exemplo. deve efetivar-se um ato de coação. 2.fundamental exige é a exclusão do âmbito de interesse do jurídico os fatores especificamente sociais. resulta do ato de conhecimento. pela mesma ordem jurídica estabelecida. se alguém é atacado de doença contagiosa. temos: sob determinados pressupostos fixados pela ordem jurídica. Podemos dizer que as proposições jurídicas são reflexões.

Coelho que “As normas jurídicas. fundamentos e sistemas da moral. mas que obrigam determinados atos ou omissões. poderá ocorrer que um jurista qualquer tenha formulado um juízo equivocado acerca da tal lei – sua proposição será falsa. por descreverem a conduta tida por ilícita como antecedente e a punição como conseqüente”. ou seja. afirma Fábio U. p.dizendo de outro modo. Ligam uma determinada previsão com atos de coação: se fulano cometeu homicídio deverá ser punido com reclusão de seis a vinte anos. têm a estrutura de uma proibição. ou entre diversas condutas humanas com diversos atos coativos na qualidade de sanção. Dessa estrutura básica podemos inferir duas possibilidades de conexão. ou relacionar intrinsecamente as normas proibitivas e obrigatórias. O primeiro tipo aplica-se para a generalidade dos casos e o segundo em situações específicas. O argumento de Kelsen se baseia em duas observações. tratado dos deveres. 139 139 . uma vez que qualquer proibição pode ser Deontologia.Estrutura da norma jurídica Sabemos que o direito se distingue de outras ordens sociais por meio do uso da coação prescrita em suas normas. Para entender Kelsen. em terceiro lugar. A primeira refere-se ao fato de que existe a possibilidade de interdefinir. assim. 36. 1999. em relação às normas permissivas. do grego déontos. Kelsen se mantém nos limites da primeira alternativa: a estrutura da norma jurídica é descrita pela proposição jurídica como a ligação deôntica entre a referência a certo comportamento e a sanção correspondente. 4 . a saber: ou temos uma ligação deôntica entre uma ação/omissão e uma sanção. São Paulo: Max Limonad.140 O fato de Kelsen ter reduzido as normas jurídicas a uma estrutura de proibição gerou algumas objeções: a primeira delas relativa às normas que não proíbem. estudos dos princípios. As proposições jurídicas se referem a enunciados deontológicos139. 140 Coelho. uma lei poderá ser válida ou não conforme a sua existência no mundo jurídico e uma proposição acerca de uma lei poderá ser ou não verdadeira. Fábio U. enunciados que prescrevem alguma conduta através do verbo dever ser. com relação às normas revogatórias e conceituais. Nesse sentido. a segunda.

São Paulo: Max Limonad. p. Tais hipóteses configuram o sentido de normas permissivas positivas (a atitude em si poderia configurar um ilícito penal). 141 Coelho.traduzida por uma obrigatoriedade e vice-versa. A validade exige também a eficácia da norma jurídica e. Para entender Kelsen. nosso autor rejeita duas idéias: a de que a validade não depende da eficácia. Como exemplo desse tipo de normas permissivas positivas. como também. ainda que o respectivo comando não se compatibilize com disposição contida em normas de hierarquia superior”. 1999. encontramos na permissão negativa a inexistência de proibição.em estado de necessidade. a partir da dicotomia entre a norma singularmente considerada e a ordem positiva como um todo. inc. Coelho menciona as hipóteses de exclusão de ilicitude previstas no art. O argumento usado em favor das normas permissivas baseia-se na possibilidade de distinguir a permissão em negativa (o que não é proibido é permitido) e positiva (dependente das normas proibitórias). II. Fábio U. Kelsen denominou tais normas não autônomas de secundárias e as sancionadoras de primárias. normas não autônomas precisam de normas sancionadoras. Proibir certa conduta equivale a obrigar a omissão da mesma conduta. 5 . sobretudo no que concerne ao problema da manifestação de vontade de uma autoridade competente: “A norma jurídica é válida se emanada de autoridade com competência para editá-la. nesse ponto.Validade e eficácia A validade da norma jurídica para Kelsen vincula-se inicialmente à sua relação com a norma fundamental. 140 . 23. a de que validade e eficácia se identifiquem.141 Como um legítimo representante do pensamento jurídico-positivista. II – em legítima defesa. Kelsen relaciona validade e eficácia.. mas na permissão positiva a manifestação de uma proibição à qual se liga. Nesse caso. Para Kelsen certas normas não possuem autonomia. do CP: “Não há crime quando o agente pratica o fato: I . 41. mas encontram em outras normas proibitivas o complemento para seu sentido no mundo jurídico. Fábio U. III – em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito”.

6 . a saber: 1. um homicídio e a punição correspondente há uma ligação de outra ordem e esta ligação é a imputação. 141 . os cientistas do direito operam de forma diferente dos cientistas sociais. mas guardam forte relação entre si. A eficácia necessária à vigência da ordem jurídica é medida em termos globais. ou seja. global da ordem jurídica. Todavia. mas relações de imputação. a norma singularmente considerada perde eficácia se houver ineficácia global da ordem jurídica. A validade da ordem jurídica não depende da eficácia de todas as normas que a constituem. A reivindicação do representante do tráfico organizado e a do agente fiscal diferem fundamentalmente por não ter a primeira validade jurídica. Isto quer dizer que.Qual seria a posição de Kelsen? Observando as duas instâncias: a da norma singularmente considerada e a da ordem positiva. A competência da autoridade que a editou. A sanção referente ao homicídio não foi causada pela conduta em si mesma. nesse sentido. ainda que alguns dos seus artigos sejam totalmente ineficazes e conseqüentemente inválidos. isto é. porque o direito instituído pelo Estado se revela eficaz e torna legítima tal situação. 2. na medida em que não se sustenta em norma hipotética alguma. se a legislação de um país vigora. Segundo Kelsen. entre dois fatos como. São três os pressupostos que condicionam a validade da norma jurídica. O direito pertence a uma ciência normativa que não visa O mínimo de eficácia que A eficácia desconsidera a inobservância episódica ou temporária. a eficácia se revela como condição de validade em ambas as instâncias e nesse sentido qualquer norma jurídica totalmente ineficaz é inválida. mas exige a prova de seu acontecimento. pois não estabelecem relações de causalidade. com base na norma hipotética fundamental. a segunda reivindicação é válida. este autor sustenta que as normas deixam de ser válidas se perderem a eficácia. por exemplo.Causalidade e imputação O objeto da ciência jurídica compreende as normas e. 3. Validade e eficácia não são termos sinônimos. o inverso é possível.

A imputação não deriva de nenhum outro conseqüente imputado. mas tão somente examinar as normas e estruturar seus enunciados a partir do princípio da imputação. 7 . uma cadeia de sucessões. a violência. pois estes estão preocupados com as normas jurídicas. Imputar significa atribuir coisa desonrosa ou criminosa a uma pessoa. a causalidade independe dessa interferência. A multiplicidade de valores sobre o justo reafirma a possibilidade de o direito positivo se chocar pelo menos com algum sentido de justiça. Causalidade significa uma relação necessária e universal entre dois termos no caso das ciências naturais. Trata-se de um julgamento de valor que possui caráter subjetivo. 2. A imputação depende da vontade humana. Há o ponto inicial e o terminal. por exemplo. não há uma cadeia de sucessões. creditar algo que não seja evidente ou decorra analiticamente. a sociologia que vincula por causalidade a taxa de desemprego e o índice de Duas distinções são relevantes entre causalidade e imputação. saber: 1.Direito e Justiça Para Kelsen. claramente definidos na proposição jurídica. o direito positivo desvinculase de questões de justiça.prescrever condutas. 142 . relativo. ou seja. a justiça possui valor inconstante. Como doutrinas morais não fazem parte do conhecimento dos juristas. dissolúvel e mutável. ou uma ligação de causa e efeito também utilizada pelas ciências sociais como. a causalidade implica em infinitude.

sua vida foi marcada por intensa participação nos movimentos estudantis e políticos de sua época. aos 31 anos. sem que a tarefa de um repercutisse. num sentido estático. psicologia. 143 Reale formulou uma teoria tridimensional do direito com caráter três termos (fato. Novíssima história da filosofia. escreveu inúmeros artigos e livros. Bacharel em Direito desde 1934. ocupou a cátedra outrora ocupada por João Arruda. de modo dialético relacionando diferente das diversas teorias tridimensionais que correlacionaram norma. Em seu modo de ver: “Quem assume. pois. Foi professor de latim. ou seja. rumo a determinado valor”. São Paulo. 1989. apresentou sua concepção culturalista do Direito. Miguel Reale tentou uma “síntese entre o sujeito ético do kantismo e o espírito histórico do hegelianismo”. CRETELLA JUNIOR. “A norma jurídica é a indicação de um caminho.3. porém. Rio de Janeiro: Forense Universitária. uma posição tridimensionalista.Introdução Miguel Reale ocupa lugar de destaque no pensamento filosóficojurídico brasileiro. direito comercial. (Miguel Reale) 1 . fato e valor.A teoria tridimensional do direito: Miguel Reale (1910 -). José. Reale ressaltou a insuficiência daqueles que defendiam “um verdadeiro dualismo ou uma justaposição de perspectivas. Com esta obra. segundo a qual o estudo do fenômeno jurídico somente será possível a partir de um estudo integral. até mesmo quando o estudioso se REALE. de maneira direta e permanente.288. como se houvesse um direito para o jurista e um outro para o filósofo. 1994. português. legislação fiscal. cada um deles isolado em seu domínio.. axiológico e prescritivo do Direito. porém para percorrer um caminho devo partir de determinado ponto e ser guiado por certa direção: o ponto de partida da norma é o fato. uma apreciação panorâmica e completa dos elementos do Direito em detrimento de uma postura unilateral baseada apenas no fato jurídico. p. ou seja. com a apresentação da tese Fundamentos do Direito. já está a meio caminho andado da compreensão do direito em termos de experiência concreta . 142 143 143 . Saraiva. Miguel Teoria Tridimensional do Direito. p. o aspecto fático. Em 1941. na tarefa do outro ” 142 Segundo exprime Cretella Júnior. valor e norma).Parte IX .

não se contentando apenas com o estudo dogmático do direito. social e histórica. divide-se em três partes. Esta última posição é a da teoria tridimensional do direito sustentada vigorosamente por Miguel Reale. 1994. a palavra Direito assumiu sentidos diferentes conforme interesses e preferências que em cada momento 144 REALE. valor e norma. ou de normativo na vida do direito”. no seu entender. na qual o direito se considera em seus três elementos indispensáveis: fato. p. 11. 144 . Nesse sentido o jurista precisa interpretar o problema da justiça. mas um objeto cultural que supera o dualismo de ser e dever ser. a deontologia jurídica que indaga o fundamento da ordem jurídica e a razão da obrigatoriedade das normas de Direito. a epistemologia jurídica que estuda os objetos das diversas ciências jurídicas. ou o direito em sua estrutura ôntica e em sua estrutura racional. com o reconhecimento da insuficiência das perspectivas resultantes da consideração isolada do que há de fático. o direito não é um objeto natural.A tridimensionalidade da lei Segundo Miguel Reale. a culturologia jurídica que estuda o Direito como cultura. como esforço humano de conquista e preservação daquilo que se concebeu como válido. por isso a Filosofia do Direito. a partir de estudos sociológicos e filosóficos. já está revelando salutar repúdio a quaisquer imagens parciais ou setorizadas. a ciência jurídica encontra problemas de natureza axiológica. o mundo das normas faz parte de uma área maior que é o mundo da cultura humana em geral. ideal ou simplesmente valorativo. de axiológico ou ideal. São Paulo: Saraiva. a saber: seja. a ontognoseologia jurídica que indaga as estruturas objetivas e como são pensadas em conceitos. Nesse sentido. da legitimidade da obediência às leis.contenta com a articulação final dos pontos de vista do filósofo. embora consciente de que cada uma destas matérias tem seus métodos próprios. Para os culturalistas. 144 Segundo Reale. observando sua natureza e implicações. Miguel Teoria Tridimensional do Direito. 2 . do sociólogo e do jurista. no campo das ciências sociais encontramos palavras que apresentam uma multiplicidade de acepções ao longo do devir histórico.

finalmente. como medida de concreção do valioso no plano da conduta social: e. também podemos estudar o Direito como fato social e histórico.145 Miguel Reale observa que encontraremos os três elementos onde quer que se encontre a experiência jurídica e é nesse modo de ver que podemos falar em triplo enfoque do Direito. como os significados da palavra Direito se delinearam segundo três elementos fundamentais: o elemento valor. A importância do Direito Romano se afigura na ciência que denominavam de jurisprudência (senso prudente de medida) que focalizava o Direito como norma. o elemento norma. Se não houvesse na base uma categoria axiológica – o valor vida – não teriam sentido tanto a elaboração de uma norma que visa à preservação do valor 145 REALE. p. São Paulo: Saraiva. Temos primeiro um fato – fulano matou sicrano.compensar . através de um estudo sumário da experiência das estimativas históricas. por fim. Inicialmente o homem vivenciava o direito como um fato. coincidindo a análise histórica com a da realidade jurídica fenomenologicamente observada”. como condição da conduta. que hoje se nos apresenta como algo intuitivo e evidente. o elemento fato. base empírica da ligação intersubjetiva. fato e valor. E. 509. portanto. depois essa idéia cedeu lugar para a intuição do direito como sentimento do justo e conseqüentemente ao sentido de obrigação jurídica. . Miguel. No fato está implícito o atentado contra um valor ético fundamental – o valor da vida. Filosofia do Direito. “Eis aí. como intuição primordial. podemos pensar no exemplo oferecido por Severo Hryniewicz: “tomemos um exemplo do Direito Penal: a prática de um homicídio. de algum modo. 145 . temos uma norma jurídica – artigo 121 do CP – que prevê uma sanção para. objeto de estudo da Ciência do Direito ou Jurisprudência e da Filosofia do Direito na esfera da Epistemologia. 1998. Para entendermos melhor essa relação entre norma.histórico recebeu certo destaque.o desrespeito ao valor. objeto de investigação da Sociologia e da Etnologia do Direito e da Filosofia do Direito na parte denominada Culturologia Jurídica. podemos ainda observá-lo como norma ordenadora da conduta. Podemos observar o Direito enquanto valor. No dizer de Reale. estudado pela Filosofia do Direito na parte denominada de deontologia Jurídica.

vida, quanto todos os procedimentos posteriores ao fato no âmbito penal”.146 Reale afirma que a teoria tridimensional é fruto da verificação objetiva da consistência fático-axiológica-normativa de qualquer porção ou momento da experiência jurídica. É formada de consciência de todas as implicações do direito – a essência triádica do direito. Uma análise rigorosa desta teoria implica formular algumas questões: como se garante a unidade a partir desses três fatores? Como se correlacionam? Como se distinguem? Para Reale, fato, valor e norma estão sempre correlacionados não importa o ponto de vista: se filosófico, sociológico ou jurídico. Tal correlação possui natureza dialética, uma mútua implicação entre esses elementos – entre fato e valor que implica em um momento normativo. Segundo exprime nosso autor, o direito “não é puro fato, nem pura norma, mas é o fato social na forma que lhe dá uma norma racionalmente promulgada por uma autoridade competente”. A novidade da teoria de Reale está na utilização do conceito de dialética, retirado do sentido do termo alemão lebenswelt, que significa mundo da vida presente na obra Crise das Ciências do filósofo alemão Edmundo Husserl (1859-1938) que desenvolveu um pensamento crítico do positivismo (em sua pretensão de objetivismo e verdade científica). Para Husserl, toda consciência é intencional, ou seja, não há consciência separada do mundo, não há objeto em si, afastado da consciência que o percebe. Isto significa dizer que não há fatos com objetividade pretendida, pois o mundo que percebo é o mundo para mim. A crise da ciência se desvela na sua tentativa de redução da razão à racionalidade científica. Na verdade, a ciência não tem nada a nos dizer sobre nossa liberdade. A mera ciência do fato exclui o homem de sua análise. Assim, Reale insere o conceito de dialética na relação entre fato, valor e norma, a partir do sentido de mundo da vida (lebenswelt) que expressa o complexo de noções, opiniões, regras, valores e etc, ou seja, uma vida cultural que está em constante acontecer, o lugar de nossas originárias formações de sentido. O direito está, portanto,
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inserido na

HRYNIEWICZ, Severo. Para Filosofar hoje. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1999, p.135. 146

fervilhante experiência do mundo da vida. E essa tridimensionalidade não se limita à esfera jurídica. A função da Filosofia para Reale está na tarefa de libertar a história da fetichização da ciência e da técnica – da clausura para desvelar a verdadeira humanidade. O mundo da vida é o mundo da criatividade intencional da subjetividade. Reale entende que a norma jurídica é muito mais do que simples proposição lógica de natureza ideal: é antes uma realidade cultural e não mero instrumento técnico de medida no plano ético da conduta; a sua elaboração não é mera expressão do arbítrio do poder e nem resulta da tensão fático-axiológica, mas um processo onde o poder é condicionado por um complexo de fatos e valores. A experiência jurídica é a experiência histórica cultural, na qual o valor atua como um dos fatores constitutivos dessa realidade (função ôntica) e, concomitante, como prisma de compreensão da realidade por ele constituída (função gnoseológica) e como razão determinante da conduta (função deontológica) – tripla função do valor revela a historicidade do homem e a experiência histórica do direito. Reale difere de Kelsen, pois este jurista separou as três esferas na tentativa de desacreditar a sociologia jurídica e a filosofia jurídica e preservar a Teoria pura do direito. Queria desacreditar a jurisprudência sociológica ou a teoria da justiça como campos apropriados de indagação de natureza jurídica. Kelsen formulou, segundo Reale, uma tridimensionalidade metodológica negativa, só a ciência do direito possui caráter jurídico. Na verdade o direito acontece no seio da vida humana. Trata-se de um processo existencial do indivíduo e da coletividade imersos no mundo da vida.

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