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Retórica, democracia...e sofistas! Que relação?

- Nas sociedades democráticas, o regime político deve ser baseado no


diálogo e na procura colectiva das melhores soluções para os
problemas humanos, assim na democracia o poder obtém-se através
da palavra, usada com persuação, nas assembleias.
Os sofistas eram conhecidos como mestres da retórica, ou seja,
dedicavam-se à tarefa de ensinar conhecimentos gerais, gramática e
a arte de eloquência aos cidadãos candidatos à participação activa na
vida política, pois a retórica é a arte de persuadir através da palavra,
a arte de falar com eloquência com o objectivo de conseguir o
assentimento ou convencimento do auditório.
Deste modo, a democracia depende da retórica, visto que através do
confronto de ideias e da persuação chega-se a um consenso que
permite assim resolver os problemas das sociedades.

A maneira de trabalhar a retórica é diferente entre sofistas e filósofos;


Sofistas (professores que andavam pelas cidades; foram muito
importantes):

- contactavam com pessoas e culturas diferentes


circulavam livremente, ou seja, nunca estavam no mesmo sítio
- ensinavam as pessoas (candidatos a participar na vida política) a
defender as suas ideias, através da utilização correcta das palavras
- trouxeram o acesso à cultura, para quem podia pagar -» partir daí,
os sofistas passaram a ser mal vistos pois ganhavam dinheiro à custa
da formação que davam
- começaram a utilizar a retórica segundo os seus interesses, ou seja,
de uma maneira falaciosa (interessavam-se mais pelas técnicas de
eloquência, pela beleza do discurso).

Filósofos :

- interessavam-se mais pela investigação


- fugiam às necessidades materialistas
- visavam o esclarecimento e a compreensão, utilizando uma
linguagem clara que promovesse a procura do conhecimento

Na Grécia, qualquer pessoa podia exprimir as suas ideias, dizer o que


estava mal ou bem - nascimento da democracia (igualdade de
deveres e direitos; justiça para todos; liberdade de expressão – para
aqueles que participavam na organização estrutural das cidades)

Filosofia, retórica e democracia

A filosofia, a retórica e a democracia nasceram na Grécia Antiga.


Dado que numa democracia as decisões políticas são tomadas
publicamente, e não por um tirano, a capacidade de influenciar a
opinião pública é muito valiosa nesta forma de governo. Aqueles que
souberem persuadir pelo uso da palavra terão mais facilidade em
conseguir poder numa democracia.
Os sofistas, entre os quais se destacaram Protágoras e Górgias, eram
professores que ensinavam retórica (entre outras coisas) àqueles que
podiam pagar os seus serviços. Ao aprenderem retórica, os jovens
ficavam em melhores condições de manipular a opinião pública e,
consequentemente, de conseguir poder na sociedade democrática.
O ensino dos sofistas foi duramente criticado por Platão. Na verdade,
Platão opôs a retórica (ou, pelo menos, a retórica no seu uso
manipulador) à actividade filosófica. Segundo Platão, ao passo que os
sofistas ensinam a conquistar o poder pela persuasão, apoiando-se
nas opiniões populares, o filósofo procura o saber, visa descobrir a
verdade. Aristóteles criticou também muita da retórica da sua época,
mas defendeu que esta pode ser bem usada.

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"A definição de retórica é conhecida: é a arte de bem falar, de


mostrar eloquência diante de um público para ganhar a sua causa.
Isto vai da persuasão à vontade de agradar: tudo depende (...) da
causa, do que motiva alguém a dirigir-se a outrem. O carácter
argumentativo está presente desde o início: justificamos uma tese
com argumentos, mas o adversário faz o mesmo: neste caso, a
retórica não se distingue em nada da argumentação. (...). Para os
antigos, a retórica englobava tanto a arte de bem falar - ou
eloquência - como o estudo do discurso ou as técnicas de persuasão
até mesmo de manipulação. "

Breve História:

1.A Retórica surgiu na antiga Grécia, ligada à Democracia e em


particular à necessidade de preparar os cidadãos para uma
intervenção activa no governo da cidade. "Rector" era a palavra
grega que significava "orador", o político. No início esta não passava
de um conjunto de técnicas de bem falar e de persuasão para serem
usadas nas discussões públicas. A sua criação é atribuída a Córax e
Tísis (V a.C), tendo sido desenvolvida pelos sofistas que a ensinaram
como verdadeiros mestres. Entre estes destacam-se Górgias e
Protágoras.

2.Os sofistas adquiriram durante o século V a.C., grande prestígio


como professores de Retórica.
A Retórica era antes de mais o discurso do Poder ou dos que
aspiravam a exercê-lo. "O orador, escreve Chaim Perelman, educava
os seus discípulos para a vida activa na cidade: propunha-se formar
homens políticos ponderados, capazes de intervir de forma eficaz
tanto nas deliberações políticas como numa acção judicial, aptos, se
necessário, a exaltar os ideais e as aspirações que deviam inspirar e
orientar a acção do povo.". O discurso retórico visava a acção, por
isso se propõe persuadir, convencer os que escutam da justeza das
posições do orador. Este primado da acção leva a maioria dos
sofistas, a desprezarem o conhecimento daquilo que discutiam,
contentando-se com simples opiniões, concentrado a sua atenção
nas técnicas de persuasão.

Foi sobretudo contra este ensino que se opuseram Sócrates e Platão.


Ambos sustentaram que a Retórica era a negação da própria
Filosofia. Platão, no Górgias e no Fedro, estabelece uma distinção
clara entre um discurso argumentativo dos sofistas que através da
persuasão procura manipulação os cidadãos, e o discurso
argumentativo dos filósofos que procuram atingir a verdade através
do diálogo, pois só esta importa.

A Filosofia surge assim como discurso dirigido à razão, e não à


emoção dos ouvintes . Esta é aliás a condição primeira para que a
Verdade possa ser comunicada. Não se trata de convencer ninguém,
mas de comunicar ou demonstrar algo que se pressupõe já adquirido
- a Verdade de que o filósofo é detentor.

3. Aristóteles foi o primeiro filosofo a expôr uma teoria da


argumentação, nos Tópicos e na Retórica, procurando um meio
caminho entre Platão e o Sofistas, encarando a Retórica como um
arte que visava descobrir os meios de persuasão possíveis para os
vários argumentos. O seu objectivo é o de obter uma comunicação
mais eficaz para o Saber que é pressuposto como adquirido. A
retórica,torna-se numa arte de falar de modo a persuadir e a
convencer diversos auditórios de que uma dada opinião é preferível à
sua rival

4. É neste quadro definido por Aristóteles que a Retórica irá evoluir,


confinando-se à uma arte de compor discursos que primavam pela
sua organização e beleza (estética), desvalorizando-se a dimensão
argumentativa cultivada pelos sofistas.

Esta arte conheceu um grande desenvolvimento na época helenística.


Em Roma, Cícero (político e brilhante orador, do séc. I a.C),
sistematizou os fundamentos da retórica, em duas obras
fundamentais De Oratore e Orator. Considerou-a uma verdadeira
ciência, cujo exercício exige uma enorme cultura. O objectivo do
orador era provar, agradar e comover. A retórica divide-se então em
várias, culminando neste período com Quintiliano (séc.I d.C),cuja
única obra que chegou até nós se chama justamente Institutio
Oratoria. A Retórica torna-se em Oratória, ou seja, na arte de falar
bem.

Durante a Idade Média, a argumentação adquiriu enorme divulgação,


nomeadamente entre os cléricos, ocupando um lugar central na
educação (fazia parte do Trivium).

5. Na Idade Moderna, a retórica continuou a desfrutar ainda de algum


prestígio nos países católicos, recorde-se a este respeito o notável
orador que foi Padre António Vieira. A tendência do tempo era todavia
outra. A Retórica como arte argumentativa começou a ser
completamente desacreditada. Descartes reafirma o primado das
evidências sobre os argumentos verosímeis. Na mesma linha, se
desenvolve o discurso científico. Não se trata de convencer ninguém,
mas de demonstrar com "factos", "dados", "provas" a Verdade (única
e irrefutável).

6. No século XX a Retórica volta a ser retomada, em consequência do


generalização das teses relativistas e o descrédito das ideologias. A
"Verdade" que os filósofos afirmavam, não pode ser mais admitida
como um ponto de partida para qualquer discussão. Antes de a poder
afirmar o que quer que seja como verdadeiro, o filósofo deve procurar
a adesão de um dado auditório para as suas posições. Todas as
filosofias não passam de opiniões plausíveis que devem ser
continuamente demonstradas através de argumentos também eles
meramente plausíveis. Neste sentido, toda a filosofia é um espaço
sempre em aberto e susceptível de continuas revisões.

As estratégias argumentativas parecem estar nitidamente


secundarizadas, face às técnicas de persuasão usadas pelos novos
meios de comunicação de massas, como a publicidade ou a televisão.