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Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança - Marcelo Ridenti Marcelo Ridenti, professor da Unicamp traz em seu texto uma análise do cenário cultural e político dos anos 1960 e 70, época do que será chamado de romantismo revolucionário. Nomenclatura formulada por Michael Löwy e Robert Sayre (1995), é tida para explicar o grandioso processo de revolução economia, cultural, pessoal, e em outros setores, que buscava questionar e rebelar-se contra a ordem em busca de uma ruptura drástica com o presente momento.

O contexto era o da guerra fria e a bipartição do mundo nos dois blocos econômicos, ao Brasil,

assim como alguns países de terceiro mundo, uma alternativa libertadora mostrava-se passível de esperança. No país a esquerda utilizava-se de uma quebra com o processo acelerado de urbanização e modernização da sociedade vigente, e apoiava seus pensamentos em um homem ideal, tido agrário, vivente no “coração do Brasil”, não contaminado pela modernidade urbana capitalista. Essa era uma forma de busca de método alternativo de modernização, sem aproximar-se do consumismo e materialismo da época.

Outro projeto que engajava a esquerda era uma nova formulação, condizente com seus ideais, da mistura do branco, do negro e do índio na constituição da brasilidade. Esse era um rompimento ainda maior, pois trazia à luz o questionamento da ordem social existente. Recolocava-se o problema da identidade nacional, explorando suas raízes, no que veio a ser chamado romantismo revolucionário brasileiro do período.

Esse processo de revisão das raízes brasileiras já vinha sendo trabalhado pelos modernistas de 1922, em suas diversas escolas. Havia todo um cenário internacional que estimulava essa busca. Os regimes fascistas, não há muito tempo, haviam subido ao poder com bandeiras nacionalistas, ufanistas, mostrando a potência desse caráter na política. Já em meados do século XX vigora o romantismo revolucionário da época, que cria ruptura com os conceitos envernizados de diferença

de raças, sexo, pensamento político, etc.

Outra causa a estimular a politização da sociedade veio pela crítica à modernidade capitalista, que em seus anos 1950 consolidou-se como desenvolvimentista e após o golpe de 1964 surgiu como política de modernização conservadora. Esse modelo primava pela associação ao capitalismo internacional, com grandes investimentos de um Estado autoritário, sem com isso garantir direitos

de cidadania aos trabalhadores.

Ao finalizar a introdução o autor expõe o conflito que poderia surgir no conceito de nacionalismo, modernização e capitalismo perante a esquerda. O movimento buscava unir a valorização do povo com ideais progressistas. Não excluindo, assim, o capitalismo, mas o tratando como necessário enquanto para buscar no passado as bases para a construção de uma revolução nacional modernizante que, no limite, poderia romper com o mesmo. Assim encerra-se a primeira parte e segue-se para destrinchar o período em tópicos.

O primeiro dos temas são os “artistas da revolução brasileira”. Importantes expositores de pensamento, parte do mundo artístico engajou-se nessa aventura, com intenção ou por acaso, e foram definidores de uma nova forma de se fazer arte e de se pensá-la - ao menos para o que comum ao Brasil. Assim no teatro surgiram grupos que tinham propostas engajadas de retratar e criticar os dilemas de nossa sociedade. Foram muito além da simples representação, o desejo já não era mais importar clássicos, havia, na época, a busca por uma dramaturgia brasileira de fato, escrita, dirigida e interpretada por esses membros do povo.

O Teatro de Arena e o Teatro Paulista do Estudante (TPE), que se associaram primordialmente no intento de alcançar esses valores, atraíram grande visibilidade e seus frutos espalharam-se por todo o Brasil. Primordialmente há de se ressaltar que o Teatro de Arena já despertava bastante interesse da juventude engajada politicamente e o TPE (a exemplo do que hoje são muitos centros acadêmicos “CA’s”, grêmios estudantis e as próprias Uniões de estudantes secundarias e universitários) era ligado a partido de esquerda. As encenações tinham o objetivo de instigar o espectador, na forma que pudesse politizá-lo também. Ali se buscava a não alienação.

No Rio de Janeiro, dissidentes do Teatro da Arena sabiam a quem procurar. A UNE já trazia em sua história toda uma luta pela classe de estudantes e tinha uma grande aproximação com a esquerda, o encontro entre os dois grupos não poderia ser mais produtivo. Das atividades conjuntas nasceu o projeto Centro de Cultura Popular, o famigerado CPC, que unia arte popular no teatro, cinema, literatura, música e artes plásticas. O CPC foi sucesso absoluto e seu projeto foi levado para os principais centros universitários do país ainda em 1962. Com bandeira por intervenção dos estudantes na política universitária e na política nacional, em busca das reformas de base, o projeto deixou legado com 12 filias pelo Brasil.

Outro trabalho fundamental produzido pelo CPC foi a edição dos três livros da coleção Violão de rua, uma das maiores expressões da revolução romântica. Os poemas enfatizavam os homens pobres e miseráveis na luta dos deserdados de terra, como principal personificação do povo

brasileiro. Com seu ambiente nas favelas ou, principalmente, no campo, os textos denunciavam as condições precárias da dignidade de vida e moradia dessas pessoas. O trabalho reuniu produções que mostravam como os olhos desses revoltosos viam o povo como o próprio libertador da opressão vivenciada.

Assim também surge o Cinema Novo, tendo como princípio a produção independente e de baixo custo, sempre com o cidadão simples (ou seria o não cidadão?) como tema. Um filme citado dessa produção é Cinco vezes favela, patrocinado pelo CPC da UNE, que mostrava o cotidiano da favela em cinco diferentes histórias. Em 2010 uma nova produção foi realizada, dessa vez produzida pelos próprios moradores e com a coordenação-geral de Cacá Diegues, diretor de um dos contos do filme de 1962, e utilizando-se do mesmo nome, contou outros novos cinco episódios. Apesar de muito aclamado, o filme gerou discordância entre os membros do CPC, no qual alguns se afastaram por não concordar com uso da arte como instrumento político.

Em “a reação cultural e política ao golpe de 1964”, o autor passava do pré-64 para o momento seguinte a tomada do governo pelos militares. A primeira leitura que se faz é do já descontentamento do setor, que não sabia que rumo tomaria a inconfidência militar (sempre achei esse termo o mais adequado), mas já a desqualificava. Os motivos poderiam ser desde a destituição

de João Goulart, que utilizava em seus últimos discursos a defesa pelas reformas de base, entre elas

a reforma agrária, até o caráter despótico de tal regime. Nada, entretanto, foi tão incentivador quanto à repressão.

Com os setores populares duramente reprimidos, o refúgio surgiu nas camadas médias intelectualizadas. O reflexo disso, como diz o próprio autor, foi uma “superpolitização da cultura”, pois palco único que servia de “canal de representação política”. Quem buscava participar desse meio inseria-se em manifestações artísticas. Foi desta forma que surgiu e se popularizou o show Opinião, que aproximava teatro da música popular brasileira (MPB), misturando representantes da classe média, classes populares urbanas e campestres. Os ditos três setores sociais que poderiam insurgir contra a ditadura.

O espetáculo fez tanto sucesso que estimulou um homônimo “Opinião 65”, referindo-se ao ano de

seu cartaz 1965, uma mostra de 29 artistas plásticos com interesse na resistência à ditadura. De tal forma no ano seguinte foi produzido o “Opinião 66”. Além da mostra Nova Objetividade Brasileira e outras tantas manifestações críticas da ordem no campo das artes plásticas.

O espetáculo Opinião, por sua vez, serviu para batizar o teatro onde se realizavam suas

apresentações. Ali outras peças, até hoje bastante famosas, foram encenadas, como Liberdade, liberdade, de Millôr Fernandes e Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, de Vianinha e Ferreira Gullar, esse último, provavelmente o maior poeta brasileiro vivo. O teatro também serviu de espaço de encontro dos opositores ao regime.

Outras trupes se destacaram com um repertório ácido, tal como o Teatro Oficina. Originário do teatro dos estudantes da faculdade de Direito da USP, que resistiu enquanto pode à ditadura e viu sem fim chegar por conta da dura repressão. Sua história marcou-se pela encenação da peça de Oswald de Andrade O rei da vela, ao qual mostraram uma norma forma de pensamento para a revolução proposta, era uma “revolução ideológica e formal”, que encontrou paralelo no cinema com Glauber Rocha, nas artes plásticas com Hélio Oiticica e na música com o Tropicalismo. Antes de avançar, não se pode se esquecer de citar a peça Roda-viva de Chico Buarque de Holanda, que se seguiu logo após a apresentação de O rei da vela, e que ficou bastante famosa pelas agressões sofridas pelo elenco por grupos anticomunistas.

Por chocar a classe média, no objetivo de ela se sentir privilegiada e mobilizar-se, o Oficina ficou conhecido como parte constitutiva do movimento Tropicalismo. Essencialmente formado por musica popular, o movimento também teve papel em outros campos como artes plásticas e cinemas, mas entraria para história por seus artistas musicas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, os mutantes, entre outros. O Tropicalismo era expoente da idéia de um país absurdo, contraditório, ao mesmo tempo em que dialogava com outras culturas internacionais, consumindo-as.

Mais uma vez o cenário mundial era complacente com o pensamento nacional. A cultura produzida aqui estava em afinidade com os movimentos não tupiniquins. O movimento hippie tinha forte apelo com Janis Joplin, e ganhou maior importância em 1969 com o festival de Woodstock. Os interesses eram próximos: o fim das guerras, principalmente a que acontecia no Vietnã, o fim ao racismo, pela liberdade sexual e o uso de drogas. É desse pensamento em escala internacional que também se valoriza Andy Warhol e demais artistas da pop art, além de músicos entretidos na contracultura, como os Beatles e os Rolling Stones.

Uma grande crítica ao movimento era justamente sua absorção de outras culturas, como explicado

no texto, por passagem escrita por Hélio Oiticica, criador do termo Tropicália, que explica o que o movimento seria: “Para a criação de uma verdadeira cultura brasileira, característica e forte, expressiva ao menos, essa herança maldita européia e americana terá de ser absorvida,

antropofagicamente, pela negra e pela índia de nossa terra”. Em uma época onde a esquerda tinha grande influência na cultura, era fácil compreender como esse grupo discordava de qualquer idéia que não antiimperialista, anti-americanista. No mais, era o mesmo que nunca romper com os grilhões do período colônia, sempre na condição de importador, passivo, submisso.

Ridenti dá importante espaço para o Tropicalismo, que, ainda que tenha durado de 1967-68, até hoje é bastante celebrado. Como o movimento não se associa essencialmente a política, eu deixo de sustentá-lo, pois fugiria a minha proposta de paralelo entre cultura e política, e, principalmente, cultura como refúgio para a prática política nos anos da ditadura militar.

Configurado o cenário, em 1968 baixa-se o Ato Institucional número 5 (AI-5) a legitimação da opressão e repressão de qualquer tipo por parte do governo. Os poderes centralizaram-se no executivo federal com a colocação do Congresso Nacional e as Assembléias Legislativas Estaduais em recesso e surgiu com o poder de legislar por decreto. A justiça eleitoral subiu unicamente à mão dos militares que ganharam poderes para cassar mandatos e suspender direitos políticos. O Judiciário declinou, os militares haviam ganhado o direito de aposentar ou demitir juízes e funcionários públicos, os crimes políticos seriam julgados por tribunais militares e o habeas corpus fora suspenso em crimes contra a segurança nacional. Como dizem, foi o golpe dentro do golpe, a inconfidência militar.

Com a tortura e os assassinatos banalizados pelo governo, através de entes como o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e o Destacamento de Operações de Informações Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) e outros, o AI-5 foi efetivo em amedrontar os opositores. Outras medidas foram tomadas para garantir maior enfraquecimento da oposição: estudantes, intelectuais, políticos e artistas oposicionistas foram presos, cassados, torturados ou forçados ao exílio. Os meios de comunicação foram severamente censurados. Não se tolerava contestação ao governo.

A partir de 1968 a busca do autor é quanto aos espaços de abertura dentro do regime. A análise é que os artistas que insurgiram abertamente contra o regime sofreram sanções, ao passo que este mesmo governo deu oportunidade àqueles que se mantiveram “calados”. Os militares durante seu processo de governança investiam em áreas de comunicação e cultura, incentivando o desenvolvimento capitalista privado.

Conhecida por ser protagonista de documentário inglês proibido no Brasil, a rede Globo, empresa televisiva criada por Roberto Irineu Marinho, recebia, assim como outras redes de TV (mas não

tanto quanto a Globo), investimentos governamentais em telecomunicações. Ao modo que também serviam como propaganda do regime, era justificável sua manutenção e incentivo. Ao mesmo passo, com essa forte centralização, instituições estatais surgiram para subir ao monopólio no controle da cultura. A iniciativa privada floresceu e estimulou as industriais televisivas, fonográficas, editoriais, de agência de publicidade. Essas últimas empregaram artistas e intelectuais, que puderam exercer seu trabalho, dentro dos limites estabelecidos pelos militares.

Outro grande massacre surgiu com a massificação e a desgraça do Ensino Público de primeiro e segundo graus. Era a lógica da modernização conservadora da educação, que seguia com o incentivo ao ensino privado e a criação de um sistema nacional de apoio à pós-graduação e à pesquisa para universidades, um espaço onde havia muita resistência ao regime. Essa foi

considerada a solução para os problemas apontados por estudantes em 1960. Essa afirmação não é coesa ao passo que o movimento estudantil sempre esteve associado à esquerda, portanto, contrário

ao ensino privado, e suas lideranças, em suma maioria, vieram de escolas públicas. Fica a ressalva.

Com essa agressão às escolas públicas, enfraqueceu-se o caráter formação do cidadão consciente nas camadas mais populares, seguido de um aumento na diferença da cultura consumida pelas elites

e pelos mais pobres. A base educacional e cultural da população diminui e o resultado é o desejado:

um povo menos político participativo.

Após essa pequena análise dos anos de chumbo, passa-se para o momento de rompimento: o período pós-anistia, 1979, já com a abertura gradual, lenta e segura proposta por Geisel, mas efetivamente garantida por Figueiredo. A arte política parte nesse momento para uma nova reestruturação, reflexo da mudança que a própria esquerda brasileira sofreria com o pluripartidarismo e o fim da ilegalidade dos partidos comunistas. Em 1980 a sociedade também sofre com o desaparecimento do intelectual ou artista atormentado com sua condição privilegiada em uma sociedade tão desigual. Todo o engajamento seguiu para o intelectual profissional competente e competitivo no mercado das ideias, centrado na carreira e em seu próprio bem-estar.

O texto segue nessa discussão da nova modelagem do artista e intelectual de esquerda, de seu não

engajamento e de como isso está relacionado com o modelo econômico e social atual. Explica também como os espaços para encontros e discussão de pensamentos diminuíram vertiginosamente

e como a primazia não é mais para o detentor do conhecimento, tal como o era antigamente, e sim

pelo símbolo de estima em uma sociedade capitalista, materialista: o burguês bem sucedido. Demais páginas se seguem sobre o declínio da arte política durante a após a abertura militar.

A reflexão que fica é quanto a real criação por partes dos nossos artistas e intelectuais. Em todas as fases expostas, o Brasil não mais fez do que “internizar” os movimentos e pensamentos internacionais. Querendo ou não, até em sua fase nacionalista, não foi mais que um antropófago das culturas estrangeiras.

Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança - Marcelo Ridenti

A década de 1960 talvez tenha sido a época de maior convergência revolucionária entre

política, cultura, vida pública e privada. A rebeldia contra a ordem social vigente, e o desejo de uma revolução social, eram diálogos constantes nesse período. É são nas manifestações artísticas que esses “rebeldes” encontram uma, de diversas formas, para se expressarem. Partidos e movimentos de esquerda, intelectuais e artistas prezavam a ação para mudar a história e construir um novo

homem. Esse novo homem seria aquele do passado, o autêntico homem do povo, o verdadeiro brasileiro. Vindo do interior do Brasil, ele não fora influenciado pala urbanização capitalista. Esse era o ideal de sujeito que os movimentos esquerdistas buscavam, a fim de construir uma nova nação. Exemplos desse homem seriam o indígena, o negro e os camponeses.

O processo de questionar a ordem social vigente no Brasil se enquadrou no “Romantismo

Revolucionário Brasileiro”. Colocava-se à prova o problema de identidade nacional e política do povo brasileiro. Entre os traços em comum do romantismo brasileiro e o de outras nações estão:

liberação sexual, busca por renovação, desejo de viver o momento, vida boêmia e a fusão entre vida pública e privada.

Antes do golpe de 1964, já existiam expressivas manifestações artísticas no Brasil. Muitas deles, já contestadoras da realidade. Uma delas foi o Teatro de Arena. Formado em 1956 através da junção do Teatro Paulista dos Estudantes (TPE) e, do então pequeno, Arena. Essa fusão gerou uma renovação da dramaturgia nacional. O novo Teatro Arena não buscava influência nas vanguardas estrangeiras, não queriam mais apenas importar peças de países ricos. Eles buscavam identidade própria, baseado na cultura brasileira e no “novo homem”. Era a nacionalização e popularização do teatro.

Além de referência cultural, o Teatro de Arena acabou se tornando um pólo de atração político. Lá, jovens engajados politicamente se encontravam para trocar ideias e discutir a realidade brasileira. Após o golpe de 64, o Arena viria a se tornar um centro de resistência cultural. Outro centro importante de resistência e manifestação cultura do pré-64 foi o “Centro Popular de Cultura” (CPC). Ele foi criado no início dos anos 1960, da junção de dissidentes do Teatro de Arenas e a UNE (União Nacional dos Estudantes). Ele tinha o objetivo de fazer uma arte popular em diversas áreas, como cinema, teatro, literatura, artes plásticas e música. Graças ao

projeto UNE Volante comitiva de dirigentes que iam aos principais centros universitários de todo o país, levando propostas políticas aos estudantes o CPC conquistou 12 filias por todo o Brasil. Um projeto ligado ao CPC e que representa claramente o “Romantismo Revolucionário Brasileiro” é a coletânea de poemas “Violão de Rua – Poemas para a liberdade”. Durante os três volumes, transparece a emoção dos poetas pelo sofrimento do próximo e a denúncia das condições de vida subumanas na cidade e no campo. O drama dos retirantes nordestinos e a reforma agrária são diversas vezes citados. Os poetas recusavam as ações de latifundiários, imperialistas e capitalistas. Nos poemas, podemos observar a idealização do homem do campo, simples, pobre. Esse mesmo homem considerado “ideal” para os movimentos esquerdistas.

A sétima arte também contribuiu com a reflexão sobre a realidade brasileira. O Cinema

Novo, composto por cineastas e intelectuais como Glauber Rocha, talvez o maior expoente, fez deslanchar filmes independentes e de baixo orçamento com o slogan, “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.”. No conturbado período pós-golpe de 1964, os artistas usaram de seus espetáculos para fazerem protestos contra o governo. Estudantes e canais de representação política começaram a se inserirem em manifestações políticas a fim de lutarem em prol da liberdade. Assim, a esquerda fortaleceu a cultura, tendo como o primeiro marco, o show Opinião, unindo teatro e música popular brasileira. O Opinião fez enorme sucesso, sendo representando por Zé Kéti, Nara Leão e João do Vale.

Show Opinião Marcelo Ridenti também destaca o Teatro Oficina, originado por estudantes da USP, que ganhou força depois da encenação da peça de Oswald de Andrade O rei da vela, que expõe uma critica ao subdesenvolvimento e dependência externa do Brasil, que vai de encontro com filme Terra em Transe de Glauber Rocha, sendo seguida da peça de Chico Buarque Roda Viva, recriada por José Celso Martinez Correa. Com o Rei da vela coloca-se a questão da identidade nacional, construindo assim, o movimento chamado tropicalismo.

Roda Viva

A Tropicália, segundo Carlos Nelson Coutinho, foi formada pelas ideias de Glauber Rocha.

O movimento era formado por artistas, principalmente da musica popular como Caetano Veloso,

Gilberto Gil, Tom Zé, Os mutantes entre outros de diversos campos da arte.

Rita lee (Os Mutantes) sobre o Tropicalismo:

A contracultura era um dos pilares que influenciava o tropicalismo. Pregando mensagens

como “paz e amor” e “faça amor, não faça guerra”, muito usados pelos jovens americanos em

manifestações contra a Guerra do Vietnã.

O movimento hippie, com seu modo de vida alternativo também influenciou o movimento

brasileiro. Hélio Oiticica foi o autor do termo Tropicália, um projeto ambiental que inspirou o movimento de mesmo nome. Segundo o militante tropicalista Torquato Neto, o tropicalismo seria assumir tudo o que os trópicos podem dar, sem preconceitos. Para Caetano Veloso, a palavra-chave do tropicalismo seria o sincretismo. O movimento juntava psicodelismo, moda, comportamentos hippies e música pop. Também se influenciaram pelo

cinema, pelos Beatles e outros grupos de rock. As ideias antropofágicas dos modernistas “caíam como uma luva nos pontos de vista dos tropicalistas”. A cultura nacional que se formou, empenhava-se em constituir uma identidade nacional.

O autor insere trechos do livro de memórias de Caetano Veloso, Verdade Tropical, no qual o

tropicalista fala sobre os anseios dos participantes do movimento, da “identificação poética” deles com a esquerda e de seus exílio em Londres.

Em 1968 é decretado o Ato Institucional nº 5 (AI-5), conhecido como o golpe dentro do golpe, endurecendo mais ainda o regime. Vários estudantes, intelectuais, artistas e políticos foram torturados, casados ou forçados ao exílio. A imprensa foi duramente censurada assim como qualquer contestação ao governo. Surge o slogan, “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

A agitação cultural e política no mundo durante a década de 60 ligava-se a uma série de

fatores comuns em diversas sociedades como a crescente urbanização, aumento da classe média, maior acesso ao ensino superior (predominância de jovens na população), conservadorismo político e o avanço tecnológico (que possibilitaram mudanças de comportamento da população), levando-se em consideração as especificidades locais, como a luta pelas reformas de base antes do golpe de 1964 no Brasil e a luta armada em decorrência deste. Essas ligações por si só não determinam a

existência das diversas ações inovadoras nos campos referidos, mas mostram-se como uma espécie de base para estas. Essas ações tinham como princípio norteador aproximar a política e cultura do dia-a-dia através do fortalecimento da imaginação, dando origem a movimentos libertários (principalmente em 1968), que continham no seu âmago características comuns como a ascensão da ética da revolta e da revolução (desobediência civil), novas doutrinas revolucionárias, negação da sociedade de consumo (guerras imperialistas), crise no sistema educacional e político (conservador) e

principalmente a ânsia por liberdade pessoal e coletiva responsável pelo surgimento de diversos movimentos pelos direitos civis. Assim ao analisarmos estes movimentos é possível encontrarmos, principalmente no cenário brasileiro onde a industrialização era recente e a classe dominante ainda era profundamente arcaica e aristocrática, certa evolução dos ideais modernistas no início do século passado. Após a derrota das esquerdas brasileiras e as mudanças políticas internacionais durante a década de 70, ideais como o da proximidade de uma revolução social e a utilização de novas tecnologias como forma de libertação dissiparam-se levando consigo o ensaio geral de socialização da cultura e as demais ações ligadas a esta. Tendo o governo ditatorial (após uma série de movimentos repressores) criado órgãos e instituições (Ministério das Comunicações, Embratel, Embrafilme, Conselho Federal de Cultura entre outras.) e unindo-se a iniciativa privada, florescendo assim uma indústria cultural pautada principalmente no setor televisivo (Rede Globo), fonográfico, editorial e de propaganda visando à incorporação dos intelectuais oposicionistas e o ambiente cultural dominado pela esquerda, algo que se mostra efetivo até a abertura político- econômica no final dos anos 80. Isto ocorreu devido há uma série de concessões em relação à liberdade de criação e de mudanças na conduta destes intelectuais, considerando que neste momento históricos estes buscavam mais o apelo individual do que o social, adotando a mercantilização da cultura em detrimento aos objetivos dos movimentos contestadores da década anterior. O ensino superior fortalece-se enquanto o 1º e 2º grau públicos transformam-se em obsoletos. A pós-graduação é incentivada desde que os seus beneficiários não se opusessem ao Estado, procurando viver em função do ambiente acadêmico. Os pedidos de modernização de certa forma são atendidos e conceitos como o da revolução sexual enraízam-se no sistema, adquirindo novos significados. Com a Lei da Anistia (1979) e o Pluripartidarismo (1980) entre outras medidas que decretavam o fim do regime, ficou evidente a necessidade de reformulação da esquerda em relação ao valor da democracia, do individualismo, dos direitos civis (incluindo as minorias) e principalmente do conceito de cidadania. Movimentos contestadores e o surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT) (fundamentado no novo sindicalismo, nas Comunidades Eclesiais da Igreja Católica e de intelectuais e militantes dos antigos movimentos de esquerda), aliado a degradação do regime comunista soviético norteiam esse período de transição na história brasileira. O auto-sacrifício em prol da revolução e do partido, perdeu força em detrimento da individualidade, criando-se novas alternativas. O antigo modelo de intelectual ou artista rebelde torna-se ultrapassado, os dilemas sobre privilégios de uns e a falta destes para outros, presentes no

sistema capitalista são vistos como imutáveis (dogmas se estabelecem nas universidades, teoria e prática não se misturam, cultura e política se afastam do cidadão). A institucionalização dos intelectuais e seus danos é visível, sendo que este termo ganha o significado de profissão. A arte contestadora torna-se artigo de luxo nas galerias, anseios por consumo surgem nas diversas classes da sociedade e o conservadorismo modifica-se ganhando fôlego novo. Após o “Consenso de Washington” e o surgimento de uma Nova Ordem Mundial liderada pelo Estados Unidos, as antigas alternativas de contestação ficam pouco usuais e pequenos focos de resistência tentam manter vivos como o movimento Arte contra a Barbárie (1999) e diversos fóruns que visam usar a arte e outros meios para educar a sociedade divergindo da hegemonia cultura do pensamento neoliberal vigente. Mantendo vivo o desejo de diminuir a influência da cultura de massa, que contribui para a manutenção do sistema.