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ORIENTAÇÃO

VOCACIONAL
OCUPACIONAL
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O69 Orientação vocacional ocupacional [recurso eletrônico] / Rosane


Schotgues Levenfus, Dulce Helena Penna Soares &
colaboradores. – 2. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre :
Artmed, 2010.

Editado também como livro impresso em 2010.


ISBN 978-85-363-2195-0

1. Psicologia. 2. Orientação vocacional. I. Levenfus, Rosane


Schotgues. II. Soares, Dulce Helena Penna.

CDU 159.98

Catalogação na publicação: Renata de Souza Borges CRB-10/1922

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ORIENTAÇÃO
VOCACIONAL
OCUPACIONAL
2ª edição

ROSANE SCHOTGUES LEVENFUS


DULCE HELENA PENNA SOARES
e colaboradores

2010

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© Artmed Editora S.A., 2010

Capa: Paola Manica

Preparação do original: Márcia da Silveira Santos

Leitura final: Janine Pinheiro de Mello e Marcos Vinícius Martim da Silva

Editora Sênior - Saúde Mental: Mônica Ballejo Canto

Editora responsável por esta obra: Carla Rosa Araujo

Editoração eletrônica: VS Digital

Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à


ARTMED® EDITORA S.A.
Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana
90040-340 Porto Alegre RS
Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070

É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte,


sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação,
fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora.

SÃO PAULO
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SAC 0800 703-3444

IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL

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À Silvia,

Com a esperança de que, um dia, seu trabalho


seja tão prazeroso quanto brincar!
Rosane Schotgues Levenfus

Aos meus alunos do Curso de Psicologia da UFSC e do Curso de Formação


em Orientação Profissional do Instituto do Ser por acreditarem
que é possível “facilitar” as escolhas de nossos clientes.
Dulce Helena

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Autores
Rosane Schotgues Levenfus (org.)
Mestre em Psicologia Clínica. Diretora da Projecto - Estudos Avançados em Educação e
Saúde. Sócia fundadora e ex-presidente da Associação Brasileira de Orientação Profis-
sional (ABOP), biênio 2005-2007.

Dulce Helena Penna Soares (org.)


Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Louis Pasteur, Strasbourg, França.
Professora Associada II da Universidade Federal de Santa Catarina, no Programa de
Pós Graduação e na Graduação do Departamento de Psicologia. Ex-presidente da Asso-
ciação Brasileira de Orientação Profissional (ABOP), biênio 1997-1999.

Acácia Aparecida Angeli dos Santos


Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo.
Docente da graduação e do programa de pós-graduação stricto sensu em Psicologia da Universi-
dade São Francisco, Itatiba, São Paulo. Bolsista produtividade do CNPq.

Ana Paula Porto Noronha


Doutora em Psicologia, Ciência e Profissão pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas.
Docente da graduação e do programa de pós-graduação stricto sensu em Psicologia da Universi-
dade São Francisco, Itatiba, São Paulo. Bolsista produtividade do CNPq.

André Jacquemin
Professor titular (aposentado) do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filoso-
fia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Presidente-fundador
da Sociedade Brasileira de Rorschach e outros Métodos Projetivos, desde 1993.

Caioá Geraiges de Lemos


Doutora em Psicologia, Orientação Profissional, pelo Instituto de Psicologia da USP. Membro da
Comissão Primeira Escolha da Associação Brasileira de Orientadores Profissionais (ABOP), biênio
2007-2009. Atua como Orientadora Educacional no Colégio Franciscano Pio XII.

Denise Ruschel Bandeira


Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestre em Psicologia pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Especialista em Diagnóstico Psicológico pela Pontifí-
cia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul. Docente e pesquisadora na área de Avaliação Psicológica na Universidade Fe-
deral do Rio Grande do Sul. Coordenadora pedagógica do Curso de Especialização em Psicologia
Clínica com ênfase em Avaliação Psicológica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Edite Krawulski
Doutora em Engenharia de Produção, área de Ergonomia pela Universidade Federal de Santa
Catarina. Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina. Psicóloga pela

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viii Autores

Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora do curso de graduação em Psicologia


da Universidade Federal de Santa Catarina. Membro do Laboratório de Informação e Orientação
Profissional (LIOP).

Fabiano Fonseca da Silva


Mestre e doutorando em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo. Profes-
sor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Psicólogo do Serviço de Orientação Profissional da
Universidade de São Paulo. Pesquisador do Laboratório de Estudos sobre o Trabalho e Orientação
Profissional da Universidade de São Paulo (LABOR-USP).

Fermino Fernandes Sisto


Doutor em Pedagogia pela Universidad Complutense de Madrid. Livre docente em Psicologia do
Desenvolvimento pela Unicamp. Docente da graduação e do programa de pós-graduação stricto
sensu em Psicologia da Universidade São Francisco, Itatiba, São Paulo. Bolsista produtividade do
CNPq.

Kathia Maria Costa Neiva


Doutora em Psicologia pela Université Paris V – René Descartes. Especialista em Orientação Pro-
fissional pelo Instituto Sedes Sapientiae. Professora e Coordenadora do curso de Psicologia da
Universidade Ibirapuera, São Paulo.

Luciana Albanese Valore


Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo.
Mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo. Professora do curso de Psicologia da
Universidade Federal do Paraná. Coordenadora do Centro de Estudos e Assessoria em Psicologia
e Educação da Universidade Federal do Paraná.

Lucy Leal Melo-Silva


Doutora em Psicologia pela Universidade São Paulo. Mestre em Educação Especial pela Univer-
sidade Federal de São Carlos. Especialista em Grupo Operativo pelo Instituto Pichon-Rivière de
Ribeirão Preto. Professora no Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Editora da Revista da Associa-
ção Brasileira de Orientadores Profissionais (ABOP).

Maria da Conceição Coropos Uvaldo


Mestre e doutoranda em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo. Coor-
denadora e professora do curso de especialização em Orientação Profissional e de Carreira do
Instituto Sedes Sapientiae. Psicóloga do Serviço de Orientação Profissional da Universidade de
São Paulo. Pesquisadora do Laboratório de Pesquisas sobre o Trabalho e Orientação Profissional
da Universidade de São Paulo (LABOR-USP).

Maria da Glória Hissa


Psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Especialista em Psicologia
Clínica e Psicologia Educacional. Coordenadora do Núcleo de Desenvolvimento Psicodinâmico
(NOVO), Rio de Janeiro. Membro da Associação Brasileira de Orientação Profissional (ABOP).

Maria Lucia Tiellet Nunes


Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Livre de Berlim. Psicóloga. Mestre em Psicolo-
gia Teórico-Experimental pela Universidade Federal da Paraíba. Professora Titular da área de Psi-
cologia Clínica nos cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade de Psicologia da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Coordenadora do programa de pós-graduação em
Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

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Autores ix

Mariza Tavares Lima


Psicóloga. Especialista em Educação. Professora titular de Orientação Profissional no curso de
Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Docente no curso de pós-gra-
duação em Orientação Profissional e de Carreira na Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte.
Vice-presidente da Associação Brasileira de Orientação Profissional (ABOP), biênios 1999/2001 e
2003/2005.

Marita de Almeida Pinheiro


Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Pedagoga pela Uni-
versidade Santa Úrsula, Rio de Janeiro. Orientadora Educacional pela Coordenadora do Núcleo
de Desenvolvimento Psicodinâmico (NOVO), Rio de Janeiro. Membro da Associação Brasileira de
Orientação Profissional (ABOP).

Marucia Patta Bardagi


Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Docente no curso de
graduação da Universidade Luterana do Brasil, Campi Santa Maria, Rio Grande do Sul. Docente
nos cursos de especialização em Orientação Profissional e Avaliação Psicológica na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. Atua nas áreas de avaliação psicológica, aconselhamento de carrei-
ra e recursos humanos.

Mauro de Oliveira Magalhães


Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Docente no Instituto
de Psicologia da Universidade Federal da Bahia. Career Coach (Certificado pelo Career Plan-
ning and Adult Development Network, Estados Unidos). Consultor em desenvolvimento de
carreiras.

Milta Costa da Silva Rocha


Psicóloga. Mestre em Engenharia de Produção. Especialista em Saúde Mental e Trabalho.
Docente no Ibmec, Minas Gerais. Docente na Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte e na
Agência de Capacitação e Orientação para o Trabalho (ACOT) .

Regina Anzolch Crestani


Psicóloga. Coordenadora Pedagógica e Consultora de Escolas Franqueadas ao Universitário. Vice-
diretora do Colégio João Paulo I, Rio Grande o Sul. Sócia-fundadora da Associação Brasileira de
Orientação Profissional (ABOP), secretária no biênio 1995-1997) e tesoureira no biênio 2005-2007.

Sônia Regina Pasian


Doutora em Ciências, Saúde Mental pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade
de São Paulo. Mestre em Filosofia, Epistemologia da Psicologia e da Psicanálise, pela Universi-
dade Federal de São Carlos. Docente do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP. Presidente da Associação Brasileira de
Rorschach e Métodos Projetivos (ASBRo).

Yvette Piha Lehman


Doutora e Mestre em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São
Paulo. Psicanalista. Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Professora As-
sociada do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Univer-
sidade de São Paulo. Livre Docente pela Universidade de São Paulo. Coordenadora do Serviço de
Orientação Profissional da Universidade de São Paulo e do Laboratório de Estudos sobre Trabalho
e Orientação Profissional (LABOR).

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Sumário

Apresentação à 2ª edição ........................................................................................ 15

PARTE I
CONTEXTUALIZANDO

1 Orientação profissional na pós-modernidade .......................................................... 19


Yvette Piha Lehman

2 Escola e escolha profissional: um olhar sobre a construção de projetos


profissionais ............................................................................................................ 31
Maria da Conceição Coropos Uvaldo e Fabiano Fonseca da Silva

3 Principais temas abordados por jovens vestibulandos centrados na escolha


profissional ............................................................................................................ 39
Rosane Schotgues Levenfus e Maria Lucia Tiellet Nunes

PARTE II
DIFERENTES CONTEXTOS EM ORIENTAÇÃO

4 Orientação profissional na escola privada............................................................... 57


Regina Anzolch Crestani

5 Orientação profissional em grupo na escola pública: direções possíveis,


desafios necessários ................................................................................................ 65
Luciana Albanese Valore

6 Projeto de carreira, plano de vida: passos para um gerenciamento de vida


profissional e pessoal .............................................................................................. 82
Milta Costa da Silva Rocha

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12 Sumário

PARTE III
DIFERENTES ABORDAGENS EM ORIENTAÇÃO

7 A abordagem cognitivo-evolutiva do desenvolvimento vocacional ......................... 95


Marucia Patta Bardagi

8 Metodologia de ativação da aprendizagem: uma abordagem psicopedagógica


em Orientação Profissional ..................................................................................... 106
Maria da Glória Hissa e Marita de Almeida Pinheiro

9 Orientação vocacional ocupacional: abordagem clínica psicológica ...................... 117


Rosane Schotgues Levenfus

PARTE IV
ORIENTAÇÃO EM SITUAÇÕES ESPECÍFICAS

10 O temor da escolha errada em filhos de pais separados .......................................... 135


Rosane Schotgues Levenfus e Maria Lucia Tiellet Nunes

11 Jovens com perda parental: lidando com o luto e com a escolha profissional ......... 146
Rosane Schotgues Levenfus e Maria Lucia Tiellet Nunes

12 A não escolha profissional em jovens simbiotizados ............................................... 158


Rosane Schotgues Levenfus e Maria Lucia Tiellet Nunes

PARTE V
TESTES E INSTRUMENTOS PARA DIAGNÓSTICO E INTERVENÇÃO
EM ORIENTAÇÃO

13 Teste de Avaliação dos Interesses Profissionais (AIP): uma proposta


de interpretação psicodinâmica .............................................................................. 173
Rosane Schotgues Levenfus e Denise Ruschel Bandeira

14 Contribuições da Escala de Aconselhamento Profissional (EAP)


para a orientação de carreira .................................................................................. 183
Ana Paula Porto Noronha, Acácia Aparecida Angeli dos Santos
e Fermino Fernandes Sisto

15 Desenhos de profissionais com estórias na orientação profissional: possíveis


aplicações ............................................................................................................... 194
Caioá Geraiges de Lemos

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Sumário 13

16 Escala de Maturidade para a Escolha Profissional (EMEP) ........................................ 204


Kathia Maria Costa Neiva

17 Berufsbilder Test (BBT): teste de fotos de profissões em processos de orientação


profissional ............................................................................................................. 211
André Jacquemin, Lucy Leal Melo-Silva e Sônia Regina Pasian

18 Teste de frases incompletas para orientação profissional: uma proposta


de análise .............................................................................................................. 225
Kathia Maria Costa Neiva

19 Jogo: critérios para a escolha profissional ............................................................... 237


Kathia Maria Costa Neiva

PARTE VI
TÉCNICAS PARA INTERVENÇÃO EM ORIENTAÇÃO

20 Modalidades de trabalho e utilização de técnicas em orientação profissional ......... 247


Dulce Helena Penna Soares e Edite Krawulski

21 Técnicas e jogos para utilização em grupos de orientação ...................................... 260


Dulce Helena Penna Soares

22 O uso de narrativas de vida na orientação de carreira: um enfoque


construtivista ........................................................................................................... 274
Mauro de Oliveira Magalhães

23 A avaliação dos valores na orientação de carreiras ................................................. 287


Mauro de Oliveira Magalhães

24 O uso da autobiografia escrita na orientação vocacional ........................................ 299


Rosane Schotgues Levenfus

25 Técnica dos bombons ............................................................................................. 309


Rosane Schotgues Levenfus

26 Técnica do “Círculo da Vida” ................................................................................. 314


Mariza Tavares Lima

Índice ...............................................................................................................................327

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Apresentação à 2a Edição

A primeira edição do livro foi muito bem-aceita pelos colegas de todo o Brasil, o que nos
deixou muito felizes, pois nosso objetivo de difundir o que há de mais moderno campo da Orien-
tação Profissional estava sendo alcançado. Recebemos inúmeros e-mails de várias regiões com co-
mentários diversos, o que nos trouxe outros questionamentos. Vários convites nos foram feitos
para participar de simpósios e congressos, cursos de especialização em Orientação Profissional,
matérias de jornais, revistas e televisão, em função deste livro. Em vários lugares do Brasil, co-
mentava-se a qualidade do livro, carinhosamente chamado por alguns de “A Bíblia da OP”. Esta
obra foi indicada como bibliografia obrigatória em diversos cursos de Psicologia nas disciplinas
de Orientação Vocacional ou Profissional, confirmando mais uma vez o seu alcance.
A modernidade tem feito a vida humana transformar-se de forma muita rápida. O mundo
do trabalho vem sofrendo transformações que não eram sequer imaginadas há cerca de 20 ou 30
anos. Assim também a OP tem sido obrigada a considerar todas essas mudanças. Ressaltamos a
importância de atualizar este livro e por isso estamos agora apresentando sua 2ª edição.
O processo de reconstrução foi iniciado durante o I Congresso Latino-Americano e o VII
Simpósio de Orientação Vocacional Ocupacional organizado pela Associação Brasileira de
Orientação Profissional (ABOP), em Bento Gonçalves, em 2007. Nessa ocasião, constatamos
como nossa área tem se desenvolvido ao vermos novos e antigos colegas apresentando seus tra-
balhos com questionamentos diferentes. Novas abordagens estão sendo desenvolvidas, diversos
testes e instrumentos para a intervenção em Orientação Profissional e de Carreira têm recebido
aprovação do Conselho Federal de Psicologia, além de novas pesquisas com resultados surpre-
endentes na área. Então, não poderíamos deixar de convidá-los a fazer parte deste livro.
Muitos capítulos continuam os mesmos, mas com algumas revisões e alterações que julga-
mos necessárias.
O livro divide-se em seis partes: a contextualização; os diferentes contextos; as diferentes
abordagens; a orientação profissional em situações específicas, finalizando com a apresentação
de testes e instrumentos específicos para diagnóstico e intervenção e as técnicas para intervenção
em orientação.
O resultado será aqui apresentado e desejamos uma boa leitura a todos.

Rosane Schotgues Levenfus


Dulce Helena Penna Soares

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I
CONTEXTUALIZANDO

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1
Orientação profissional na pós-modernidade

Yvette Piha Lehman

e sensoriais, personalidade, além de definir


INTRODUÇÃO qual a profissão mais adequada para o in-
Neste capítulo, serão abordadas as evo- divíduo.
luções e os questionamentos a partir de nossa
experiência no campo de Orientação Profis- 3. Clínico: Enfatizava o papel ativo do indi-
sional que tiveram influência nas transforma- víduo, atribuindo-lhe potencial e recursos
ções no próprio campo de atuação dos orien- para a autocompreensão e autodireção. O
tadores. Isso nos traz novas problemáticas e papel do orientador era facilitar o reconhe-
a necessidade de novas abordagens, as quais cimento e o desenvolvimento do processo.
tanto enriquecem quanto tornam tal tarefa
no processo de Orientação Profissional mais 4. Político e Social: Incluía como fator rele-
complexa. Inicialmente, é importante apre- vante o contexto sociopolítico do processo
sentar um esboço da evolução da Orientação de escolha profissional, para o qual conver-
Profissional no Brasil. giam complexas configurações sociais pas-
A Orientação Profissional passou por sadas, presentes e futuras (Lehman, 1988).
quatro estágios teórico-práticos, segundo
Oswaldo de Barros Santos – pioneiro na área Essas quatro etapas apresentavam aspec-
no Brasil. Conforme palestra proferida no tos afins: em todas elas, a Orientação Profis-
Simpósio de Orientação Profissional (realiza- sional é considerada como “o processo pelo
do em maio de 1987 no Instituto de Psicologia qual o indivíduo é ajudado a escolher e a se
da USP), os estágios foram os seguintes: preparar para ingressar e progredir em uma
ocupação” (Super e Bohn Jr., 1976, p. 199).
1. Informativo: Oferecia informações a res- Evidenciando um espaço institucional com
peito das profissões, suas perspectivas e possibilidades de escolhas, o processo visava
exigências. a harmonizar a inclusão do indivíduo no mer-
cado de trabalho e a favorecer um desenvol-
2. Psicométrico: Não atribuía tanta importân- vimento profissional em etapas sequenciais
cia à realidade e à diversificação do mercado, previsíveis e lineares.
mas valorizava as características pessoais A partir dos anos de 1990, as transforma-
para o sucesso em determinado campo pro- ções no mundo do trabalho ocasionaram um
fissional. O orientador, a partir da análise efeito em escala, o qual teve como consequên-
das funções exigidas em cada tipo de traba- cia o esvaziamento do espaço vital e de subje-
lho, avaliava inteligência, aptidões motoras tivação do sujeito por meio de seu trabalho.

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20 Levenfus, Soares & Cols.

Novos paradigmas e novos contextos se resgatem as articulações entre o indivíduo e


impõem devido à nova realidade de contí- os sistemas sociais.
nua ruptura e imprevisibilidade. O campo da Os novos modelos de vinculação com o
Orientação Profissional passa agora por um trabalho introduzem uma realidade que, na
novo estágio: como a dinâmica do mundo do prática, aumenta as dificuldades do orienta-
trabalho é cada vez menos previsível, estabe- dor profissional: a fragilização das institui-
lece-se um cenário de transição o qual exige ções e a consequente desorientação e a exclu-
das pessoas adaptabilidade e multifunciona- são social.
lidade e coloca a realização do projeto profis- A conscientização de tais modificações
sional em um contexto complexo e mutante. sociais implica a necessidade de um modo
Estamos vivendo agora uma quinta etapa, ativo de elaboração de projetos profissionais
a ERA DE KAIRÓS, a qual, na mitologia gre- sólidos, e ao mesmo tempo, com um objetivo
ga, é associada ao tempo descontínuo, impre- operacional flexível e criativo, a fim de ultra-
visível – em oposição à época de administração passarem a descontinuidade e a fragilidade
científica de Chronos, associada a um tempo das instituições sociais.
linear, lógico e previsível, no qual era possível A reorganização da própria sociedade,
prever um desenvolvimento ocupacional em atrelada às novas relações de trabalho (basea-
um espaço e um tempo determinados. das principalmente no modelo de qualificação
da mão de obra), tem feito surgir novos espa-
ços de intervenção, de reflexão e de trabalho
para a Orientação Profissional, de importân-
cia substancial.

MUDANÇAS DE PARADIGMA
O espaço de atuação da Orientação Pro-
fissional – contido em um campo de interme-
diação entre o indivíduo, o sistema educa-
cional e o mercado de trabalho – sofre uma
importante transformação, pois passa a traba-
lhar com problemáticas mais amplas, os quais
não se atêm apenas a um momento da vida
Kairós (jovens no final do ensino médio).
Tempo não absoluto, descontínuo, não linear, Atualmente, é necessário orientar adul-
(eventos ocorrem de maneira pouco previsí- tos empregados, desempregados, aposenta-
vel) dos, entre outros. A desconstrução do merca-
do de trabalho, fruto das grandes mudanças
ocorridas nas organizações do trabalho e da
mecanização, altera profundamente a relação
do homem com o próprio trabalho e com seu
projeto de vida.
Chronos A globalização trouxe para o homem,
Tempo linear, contínuo, previsível para a educação e para a relação homem-tra-
(eventos acontecem em linha sucessória) balho inúmeras questões. Confrontamo-nos
com novas demandas e com novas ideologias
Qual seria o papel da Orientação na Era que sustentam essa relação.
de Kairós? Esse é um questionamento essen- Na área de Orientação Profissional, ocor-
cial, pois, nessa nova etapa, descortina-se um re uma migração do paradigma primordial
campo muito mais amplo e complexo, o qual do desejo, da realização pessoal e da busca de
apresenta uma perspectiva de trabalho árduo identidade. Antes, a Orientação Profissional
a fim de elaborar uma teoria cujos modelos coincidia com um conjunto de práticas que ti-

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Orientação Vocacional Ocupacional 21

nha como perspectiva o ingresso no mercado continência do indivíduo; como parte de polí-
de trabalho, ou seja, a transição da escola para ticas públicas e verificação da sua efetividade.
o campo profissional; no entanto, agora, enfa- A Orientação Profissional começa a ser consi-
tiza-se o encaixe e a elaboração de projetos, no derada pelas organizações como um modo de
sentido da sobrevivência. upgrade do espaço profissional na instituição.
Vemos que os dois paradigmas correm Isto é, as empresas lançam mão da Orientação
paralelamente, muitas vezes um desqualifi- Profissional para desenvolver metas tanto
cando o outro. Entretanto, não devem ser con- para seus funcionários quanto para a própria
siderados de maneira isolada, pois isso pode empresa, a fim de que a própria instituição se
acarretar consequências muito negativas. Por- fortaleça no mercado.
tanto, esse é um alerta para o orientador pro- Em um mundo de constantes transfor-
fissional: é importante que seu trabalho pres- mações, a Orientação Profissional surge um
suponha a articulação dos dois paradigmas, processo necessário em diversas etapas da
ou seja, a manutenção da dialética entre o Ser vida nas quais ocorrem rupturas na trajetória
e o Fazer. pessoal e profissional, dado o momento de
Salienta-se também que vivemos um grandes modificações no significado social do
momento em que cresce o desequilíbrio entre trabalho dentro do capitalismo globalizado.
o sistema de formação e o mercado de traba- De certo modo, a noção do relativismo do
lho. O enxugamento dos empregos tem como mundo pós-moderno gera no homem um sen-
consequência seleções cada vez mais rígidas timento de continência circunstancial e frágil.
e o desenvolvimento de um ideal da hiper- Isso faz com que as realizações humanas ad-
qualificação, o qual começa a ser o novo lema quiram um cunho deformado e fragmentado,
do mercado. Para sobreviver a esse cenário, o perdendo sua autenticidade social.
campo da Orientação Profissional passa a ter Nesse espaço, o papel que o orientador
como foco uma problemática que vai além da profissional desempenha é o de resgatar o
escolha de uma profissão e que deve incluir indivíduo das tendências de valor de uso
também a importância do trabalho como for- (vínculo alienado) dando sentido à relação
ma de inserção social. do indivíduo com seu trabalho, assim como
Atualmente, não é suficiente nos deter- o de lhe devolver as atividades que produ-
mos na questão da inserção e da transição zem efeitos sobre o mundo (modificações da
profissional, pois caminhamos para uma ar- natureza, objetos novos, produtos culturais,
ticulação dinâmica dos distintos papéis pro- relações sociais, etc.) e que são seguidas por
fissionais (Super, 1985). As formas normativas um reconhecimento próprio, ou seja, pelo
já não são tão previsíveis; passa-se a olhar o reconhecimento e pela recuperação daquilo
jovem como determinante de si mesmo, e o que é criado.
orientador profissional servirá, de maneira É necessário ainda enfatizar o sentido
exaustiva, como suporte tanto para a forma- dos vínculos construtivos para si e para os
ção deste último quanto para seu desenvolvi- demais, a fim de que, por meio deles, o in-
mento pessoal. divíduo se sinta criando, preparando e reco-
As fronteiras entre a atividade de forma- nhecendo melhor a realidade e os outros seres
ção e de orientação tornam-se menos claras. humanos.
Em um contexto de educação continuada, a Por fim, cabe ao orientador, nesse novo
demanda por Orientação Profissional é cons- papel, auxiliar no desenvolvimento de uma
tante, pois as crises profissionais ressurgem identidade interiorizada (Bleger, 1970), pres-
em vários momentos da vida. supondo um sentido coerente e não fragmen-
A tarefa do orientador é completamente tado, um sentimento de continuidade do ser
diferente em cada contexto: uma orientação es- ao longo do tempo e a capacidade de pensar
colar, junto a jovens que devem articular sua de um modo coeso e em um continuum tem-
profissão; junto a populações específicas que poral (passado, presente e futuro).
correm risco constante; orientação em institui- No entanto, tal tarefa torna-se cada vez
ções educativas, para refletir sobre o papel de mais difícil, pois, no cenário do capitalismo

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22 Levenfus, Soares & Cols.

globalizado, novas combinações estão sendo com que o homem caia em uma cultura de
feitas constantemente na sociedade pós-in- sobrevivência. O que passa a importar é o mo-
dustrial, tornando as representações frágeis e mento, o modismo, o passageiro; e isso afeta
tirando das pessoas uma perspectiva de tota- o homem em sua produção, em seu trabalho,
lidade. Tem-se diante dos olhos apenas vários nas organizações e nas próprias políticas or-
fragmentos em constante mudança os quais ganizacionais.
colocam em risco os vínculos, enfraquecendo Flexibilidade torna-se sinônimo de ilusó-
o engajamento em projetos coletivos. rio: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”,
Este aspecto da pós-modernidade pode, e cada vez mais a estrutura social oferece me-
caso não haja plena consciência dele, desvita- nos elementos de sustentação para essa crise.
lizar a ação e a criatividade – transformando- O campo social perde sua força de coesão no
a em uma criatividade impregnada de iso- novo momento de contínua mudança, no qual
lamento e destruição, o que faz daquilo que o vínculo tem de ser prospectivo e a possibili-
criamos pouco compartilhado. dade de fracasso é cada vez maior.
É possível estabelecer um paralelo com Nessa Cultura de Sobrevivência (Lasch,
a constituição do Ser, tal como é descrita por 1983), o futuro se desconecta do passado e do
Winnicott: o bebê primeiro se reconhece a par- presente, impedindo-nos de delinear e repre-
tir do olhar da mãe. Não havendo reconheci- sentar coerentemente um projeto de vida.
mento, acredita que sua ação e que aquilo que Lyotard (1998) assinalou que “o contrato
ele criou não têm sentido: o bebê acha que foi temporário está suplantando, na prática, as
ele que fracassou e sente-se desvitalizado, sem instituições permanentes nos domínios pro-
força para acreditar em sua ação criativa, sem fissionais, nos emocionais, nos sexuais, nos
perceber que o ambiente não lhe foi adequado. culturais, nos familiares e nos internacionais,
De modo similar, é o que ocorre quando refle- bem como nos assuntos políticos” – o que po-
timos sobre nossa ação e participação social. deria anunciar uma próxima crise social e po-
As deformações chegam ao ponto de cer- lítica, dada a perda da continuidade histórica
tos indivíduos perceberem a realidade social e temporal.
com tanta autonomia, que buscam na Orien-
tação Profissional um objeto a ser consumido COMO ESSA IDEOLOGIA AFETA A
(“Qual profissão vai me dar maior oportuni-
dade?”, perguntam os adolescentes; “Aceito
ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL?
qualquer ocupação”, dizem os desemprega- A questão que se coloca hoje não é a de
dos; “Submeto-me a qualquer coisa para me tentar encaixar as antigas teorias aos novos
manter no emprego”, afirmam outros). É evi- problemas, e sim a de desenvolver novas es-
dente, nesses casos, certa inércia. tratégias que não surjam como modelos está-
Na sociedade atual, em que predomina a ticos, mas que se reelaborem e se rearticulem
mecanização, muitas vezes, não se discrimina a todo o momento com as demandas e as rea-
o sujeito das coisas, chegando-se, às vezes, a lidades que se apresentam.
um perfil de homem ambíguo, não discrimi- Em um momento de caos, a situação re-
nado e dependente. quer não um padrão comum, mas sim uma
Como Guichard (2001) assinalou, é neces- intervenção mais pontual, a qual consiga res-
sário esclarecer para o indivíduo que nos pro- gatar o indivíduo envolvido em um processo
cura o impacto da ideologia da pós-moderni- vertiginoso de incompreensão e de perda de
dade, a qual transforma o vínculo do homem sentido.
com o trabalho e com a sua produção social, Isso torna a tarefa do orientador mais
trazendo mudanças profundas que se contra- complexa, pois ele deve tolerar inúmeros
põem amplamente aos modelos e aos sentidos paradoxos: no mundo pós-moderno a identi-
que o trabalho teve até então para a humani- dade deve constantemente incluir a constru-
dade. ção e, ao mesmo tempo, a desconstrução; e
Harvey (1993) observa que as transfor- o orientador deve buscar a individualização,
mações vertiginosas do mundo atual fazem assim como a diversificação.

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Orientação Vocacional Ocupacional 23

É preciso também combinar e considerar sequência de atividades ocupacionais e pro-


fatores que outrora eram totalmente diversos fissionais que uma pessoa executa durante a
e excludentes, mas que, no momento, não são trajetória de vida, incluindo todos os momen-
mais. Recordo o que disse certo aluno de En- tos e os papéis os quais desempenha, em uma
genharia Mecânica: “A área está acabando... sequência singular e intransferível, mas que
Agora é só eletrônica”. Dois anos depois, nas- segue um ordenamento previsível e deter-
cia a mecâtronica. minado por estágios de vida – um padrão de
Assim sendo, a Orientação Profissional carreira (resultante da interação entre fatores
deve dar maior ênfase não à teoria ou à técni- internos e externos).
ca, mas à busca do desenvolvimento de apor- Segundo Super, cada estágio envolve
tes diferenciados, adequados a populações uma série de tarefas vocacionais (respostas
específicas, revelando modos mais sensíveis às demandas e aos estímulos internos e exter-
de abordar o problema da escolha profissional nos), as quais requerem um conjunto de ha-
e subordinando-a ao diagnóstico que aponte bilidades, de qualificações e de competências
qual teoria e qual técnica seriam mais relevan- necessárias para lidar com as experiências de
tes no trabalho com essa ou aquela situação. cada estágio da vida. Nesse modelo profissio-
nal predomina a ideia de profissionais espe-
cialistas (modelo fordista).
JUSTAPOSIÇÃO DO PAPEL A introdução de novas tecnologias e a
PROFISSIONAL E DE ESTUDANTE globalização trouxeram uma dinâmica nova
Mudanças na carreira e na educação na realidade da carreira. Os padrões de de-
senvolvimento profissional que definiam as
O conceito de carreira teve origem em carreiras até então desmoronaram: não há
uma expressão de Roma Antiga: via carraria, mais como estabelecer as etapas de ascensão
que, em latim, significava “estrada para car- profissional segundo critérios previsíveis e
ros”. Foi somente no século XIX que a palavra esperados.
“carreira” passou a definir “trajetória profis- A carreira antes seguia uma direção verti-
sional” – uma propriedade estrutural das or- cal. Ao se ingressar em uma organização, pre-
ganizações ou das ocupações, implicando a via-se o que se podia esperar de cada cargo e
noção de avanço, com expectativa de progres- quais as habilidades que ele exigia. Hoje, essa
são vertical na hierarquia de uma organiza- estrutura não se mantém. A noção de carreira
ção, e, por fim, associando-se a uma profissão, em uma era neoliberal é mais indiscriminada
pressupondo uma estabilidade ocupacional. e segue um modelo de “serpente”, predomi-
Super (1985) foi um dos pioneiros das nando a horizontalidade (pois caminha na
concepções de “carreira”, definida como a superficialidade). Dessa forma, nem sempre

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24 Levenfus, Soares & Cols.

a mudança é um movimento de ascensão; é em ensino atingem o aluno de forma direta,


apenas um deslocamento de posição. podendo até desmotivá-lo no estudo.
Atravessa-se um momento de novas É nesse momento em que se observa uma
configurações, as quais fazem com que a con- tendência crescente da escola de abrir espaços
quista de espaço, a evolução e a sobrevivência para os alunos tomarem contato com o merca-
no mundo do trabalho passem a ser da res- do de trabalho e com o mundo das profissões,
ponsabilidade da própria pessoa. começarem a se integrar a ele. Com isso, sur-
Nem mesmo as organizações mantêm um gem um maior comprometimento, propostas
modelo de cargos e funções claros, associando de projetos de OP e de “Semanas das Profis-
a qualificação do indivíduo a um processo de sões”, expressões da participação ativa da
atualização contínua, cuja realização é delega- escola nessa tarefa, dando ao aluno suporte e
da a ele mesmo, o qual se torna o único respon- espaço de reflexão.
sável por se manter na competitividade dese- É importante que a demanda – existente
jada pelo mercado de trabalho, bem como por no espaço social da Orientação Profissional –
atender aos critérios mutantes de seleção. seja apontada para que orientadores profissio-
Assim, o sujeito, para se instrumentali- nais, professores e orientadores pedagógicos
zar na nova realidade, deverá ser responsável se dediquem a esse novo espaço, formalmen-
por sua formação – isto é, por sua sobrevivên- te instituído pelo sistema ocupacional, ainda
cia no mundo do trabalho. Ele buscará atin- novo no Brasil.
gir esse objetivo por meio do ensino, vendo-o
como seu principal aliado na possibilidade de
crescimento e sobrevivência profissional.
A QUESTÃO DAS COMPETÊNCIAS
Isso tem influência direta na Orientação O termo aponta para uma dinâmica
Profissional, à qual os indivíduos recorrem de “desconstrução” que está ocorrendo nas
por sentirem necessidade de reatualização, profissões e no que diz respeito ao papel da
além de se questionarem constantemente a Orientação Profissional, uma vez que o mode-
respeito de habilidades e qualificações neces- lo de especialista desmorona para surgir em
sárias em um mercado cujo modelo de pro- seu lugar um novo modelo de profissional: o
fissional é o de um sujeito superqualificado. polivalente.
Apoiam-se na Educação Continuada, ou seja, O trabalho, que era a transformação da
na justaposição entre vida profissional e vida natureza, é hoje, assumidamente, ação social.
estudantil que, do ponto de vista da Orien- O trabalho que produzia coisas, hoje produz
tação Profissional, abre espaço para uma in- sociedade (Touraine, 1994).
tervenção preventiva secundária ao atender Surpreendentemente o termo competência
profissionais em crise, desmotivados e sem começa a ocupar com frequência a literatura
perspectivas com a profissão – pois, mesmo sociológica francesa a partir de 1985, por in-
aqueles que têm emprego, vivem em constan- termédio de empresários, de industriais e de
te medo de perdê-lo. empregadores preocupados com as recentes
Nesse contexto, as próprias instituições transformações nos postos de trabalho.
de ensino passaram a ampliar e a desenvol- O termo era inicialmente restrito aos
ver novas áreas que sirvam como indicador meios jurídicos, hoje em dia está marcado
de qualidade e competência, e é nessa con- pela polissemia; e seu uso limitado a uma elite
juntura que vem se ampliando o espaço de intelectual, visto que esta certa competência é
atuação e reflexão da Orientação Profissional exigida para julgar a competência de alguém
no ambiente escolar. (Isambert-Jamaty, 1994).
As escolas começam a participar da As competências são únicas e perten-
questão profissional de modo mais ativo. Isso cem a uma categoria formalizada. Pertencem
se deve, em grande parte, às novas demandas ao modelo de Especialista. As habilidades e
por parte do aluno e à necessidade de a escola as qualificações – da mesma forma que uma
estar presente na questão, uma vez que a es- característica individual – não podem ser en-
colha da profissão e o investimento da família contradas em todos os indivíduos. As compe-

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Orientação Vocacional Ocupacional 25

tências dizem respeito ao uso de técnicas de- A carreira depende, então, das especifici-
finidas que, embora não tenham sido criadas dades do indivíduo e diz respeito às capacida-
pelo indivíduo, são por ele usadas e podem des profissionais, à sua formação sistemática
por ele ser adaptadas às novas situações. A e socialmente controlada. A competência se
noção de competência está associada à exe- define pelo posto de trabalho e encontra-se
cução de tarefas complexas, organizadas, que também e, sobretudo, nos comportamentos e
exigem uma atividade intelectual importante. nas atitudes que têm por característica funda-
Tarefas são realizadas por especialistas. mental antecipar-se aos problemas, e não ape-
A noção de competência, a exemplo da nas solucioná-los (Zarifian, 1995).
noção de qualificação, emerge em um mo- A pergunta que fica é: quando os empre-
mento de crise econômica o qual causa pro- sários pedem competência, estão preocupa-
fundas transformações no aparelho de pro- dos em fazer frente às mudanças já estabeleci-
dução e nas políticas de mão de obra. Alguns das no mundo do trabalho, ou precisam dela
autores sugerem que haveria uma correlação para produzir as mudanças que desejam?
entre o desenvolvimento da informática e o A Orientação Profissional busca, nesse
surgimento de novas competências. Isso cor- contexto, acompanhar essas mudanças, pois
responderia a um determinismo tecnológico. elas atingem de modo violento o trabalhador,
Dadoy (1990) questiona tal aspecto tecnológi- criando a necessidade de desenvolver e en-
co como único fator, pois a competência tem contrar novos modelos e novas estratégias os
sido exigida também em setores nos quais a quais se articulem e auxiliem o indivíduo a re-
informática está ausente. constituir seu vínculo com o trabalho, preven-
Com o fim do fordismo-taylorismo, ocor- do as desestabilizações do sistema e atuando
re uma desestabilização do sistema de produ- como suporte para os eventuais momentos de
ção, o que tem levado a um grande número de crise.
disfunções. As dificuldades em reestabilizar
o sistema levam as organizações a interessa- PANORAMA ATUAL DA ORIENTAÇÃO
rem-se pela formação de pessoal (aumento da
procura pela área de Treinamento e Desenvol-
PROFISSIONAL NO BRASIL
vimento) e pela designação de novas compe- Devemos apontar que no Brasil ocorre
tências (surgimento de conceitos como Gestão um movimento diferente do de outros países,
por Competências). Assim, as demandas das nos quais se concebe a Orientação Profissional
empresas por competências estariam menos principalmente relacionada à orientação esco-
ligadas às novas tecnologias e mais ligadas às lar. Levantamos a hipótese de que isso ocorreu
novas necessidades da produção. em função da falta de políticas públicas em re-
As mudanças ocorridas no mundo do lação à questão da Orientação Profissional e
trabalho variam conforme com os setores e as em função da extrema cisão ocorrida entre a
empresas estudadas, mas existem pontos em área de Orientação Educacional e Orientação
comum: aumento das exigências dos níveis Profissional, fazendo com que o espaço desta
de conhecimento, a descompartimentação das última ficasse extremamente restrito à escola e
“especializações profissionais”, intelectualiza- com que apenas recentemente se abrisse den-
ção do trabalho, tarefas mais complexas, poli- tro dela um espaço de reflexão para a questão
valência e ampliação da autonomia. Em outras da escolha profissional.
palavras, trata-se menos de um conhecimento Observamos que os espaços educacionais
intrinsecamente novo do que de uma descom- que mais aderiram à Orientação Educacional
partimentação dos saberes. foram as escolas de ensino profissionalizante,
Dadoy (1990) também aponta que o sis- como o SENAI e o SENAC, os quais também
tema ainda está desestabilizado e que nossas mantinham trabalhos de Orientação Profissio-
observações são deste momento de transição, nal – inclusive iniciativas como a rede de cur-
advertindo: qual será, então, o lugar do traba- sos vocacionais do SENAI, que, de 1945 a 1958,
lhador no sistema de produção quando este se ofereceu ensino vocacional, ou seja, um espaço
reestabilizar? para descoberta e desenvolvimento dos poten-

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26 Levenfus, Soares & Cols.

ciais de cada um para futuras escolha e inser- dos profissionais e que, em sua maioria, esta-
ção profissionais mais plenas. vam inseridos em universidades, com dupla
Em 1961, é promulgada a LDB (Lei de função – tanto de atendimento à comunidade
Diretrizes e Bases da Educação), que institui a quanto o de treinamento de futuros profissio-
Orientação Educacional (OE) e a então deno- nais na área, visando a pesquisas e à produção
minada Orientação Vocacional (OV) no ensino de conhecimento em Orientação Profissional.
médio e especifica a necessidade de formação De certo modo, esses serviços têm sido
do profissional, possibilitando a ascensão do um ponto de referência para os próprios pro-
ensino privado médio e do início de trabalhos fissionais e vêm contribuindo efetivamente
de OV em escolas de ensino não profissionali- para a formação de orientadores profissionais
zante ou técnico. há quase 40 anos.
O orientador educacional poderia ser Estando ligado ao ensino, à pesquisa e ao
um profissional das áreas de Pedagogia, Psi- atendimento à comunidade, o objetivo maior
cologia, Filosofia ou Ciências Sociais. desses Serviços é o desenvolvimento de moda-
Inspirados nos trabalhos do SENAI lidades de atuação, buscando atender a uma
são criados e instalados, no início da década população não só no final do ensino médio,
de 1960, os Ginásios Vocacionais no sistema mas também a pessoas em crise em qualquer
oficial de educação em São Paulo, os quais momento da vida profissional. Assim sendo,
tinham como função um acompanhamento no Serviço de Orientação Profissional da USP,
individualizado e coletivo dos alunos, visan- em São Paulo, por exemplo, há atendimento
do a um melhor preparo para a realidade do às 8a séries, a todas as séries do ensino médio,
mundo do trabalho (Pimentel e Sigrist, 1974). reescolha de cursos universitários, orientação
Vale salientar que em 1970 é criado o Ser- de carreira, orientação para pessoas com defi-
viço de Orientação Profissional da USP, coor- ciência, entre outros.
denado por Maria Margarida Carvalho, que Além disso, o SOP assessora outras insti-
já fazia novas pesquisas e desenvolvia novos tuições e profissionais, entre elas, o Curso Pré-
métodos, partindo do pressuposto de que os vestibular do Instituto de Psicologia da USP
testes psicológicos e a psicometria eram bons (IPUSP), bem como outros cursinhos sem fins
instrumentos diagnósticos, mas não atendiam lucrativos, além de instituições como a Fun-
à complexidade de um processo de OP. Dessa dação CASA (antiga FEBEM) – atendendo e
forma, buscou-se auxílio nas teorias de Kurt elaborando junto aos profissionais uma assis-
Lewin sobre dinâmica de grupo e no counseling tência que possa colaborar no trabalho não
de Carl Rogers (Carvalho, 1995), desenvolven- só com populações que buscam a USP, como
do-se a orientação profissional em grupo, que também com outras que dificilmente chega-
até hoje é uma técnica diferenciada no serviço. riam a esse Serviço da universidade.
A área da Psicologia, em sua maior parte, Portanto, o Serviço de Orientação Profis-
trabalha a problemática envolvida na escolha sional é considerado como um espaço aberto
profissional basicamente nos consultórios ou à comunidade, elaborando modelos que pos-
em trabalhos pontuais em escolas, de forma sam fazer frente às problemáticas atuais da
paralela à estrutura educacional, em geral área de Orientação Profissional. Com o tem-
sendo realizada por psicólogos escolares con- po, tivemos de separar e instituir novos seto-
tratados. Isso transforma a OP não em uma res, fundando:
meta que a escola tem a fim de ajudar todos
os alunos, mas em uma tarefa de ajudar ape- Î LABOR – Laboratório de Estudos sobre
nas aqueles que têm problemas de escolha e Trabalho e Orientação Profissional
de tomada de decisões.
No Brasil, as questões referentes à Orien- Congrega professores e alunos de pós-
tação Profissional são diagnosticadas e pes- graduação do IPUSP e de outras faculdades,
quisadas mais frequentemente nos Serviços de tendo sido criado para possibilitar a reflexão
Orientação Profissional (SOPs) que possuíam, e a troca de experiências no campo da Orien-
desde seu início, objetivos ligados à formação tação Profissional, visivelmente carente de

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Orientação Vocacional Ocupacional 27

pesquisa e publicações em nosso país. Nesse Tendo em vista as mudanças observa-


sentido, destaca-se pela amplitude de pesqui- das no mercado de trabalho, a Orientação
sas que vem desenvolvendo (mudanças do Profissional se vê frente a novos espaços de
mundo do trabalho e impacto sobre os vários intervenção no sentido de atender às novas
níveis sociais, desenvolvimento de modelos demandas e atuar como suporte para os indi-
de atendimento para escolas públicas, adul- víduos em diversos momentos de crise.
tos, deficientes auditivos e visuais, psicóticos,
internos da Fundação CASA e outros) e reali-
za várias parcerias, como, por exemplo, com a
NOVOS ESPAÇOS DE INTERVENÇÃO
Cidade do Conhecimento – USP, por meio de Aqui destacaremos alguns exemplos dos
cursos a distância para professores. novos campos da Orientação Profissional.
Atualmente, o LABOR vem estudando o
desenvolvimento de um projeto para implan- Escolarização como garantia de inclusão
tação de políticas públicas na área, tendo sido
convidado a assessorar a Secretaria Estadual no mundo de trabalho
de Educação. Além disso, também tem com A Orientação Profissional nesses novos
prioridade o estudo da utilização da internet espaços necessita desenvolver modelos de
como veículo para a Orientação e informação intervenção conforme cada problemática. En-
Profissional. tretanto, a consciência cada vez maior de que
a inserção no mercado de trabalho depende
Î NOP – Núcleo de Orientação Profissional do desenvolvimento educacional parece ser
para os alunos da USP verdadeira para determinada camada da
população, mas não para outra, pois os tra-
O NOP desenvolveu-se aos poucos como balhadores com maior escolaridade são jus-
área de pesquisa, acompanhando as novas tamente os mais atingidos pelo desemprego
problemáticas da área de OP. Implantou-se, (Pochmann, 2001).
assim, há cerca de três anos, um atendimento
específico para os alunos da USP que estavam Orientação Profissional na Grade
em crise ou em processo de desistência do cur-
so ou, ainda, em busca de uma mudança de
Curricular
curso e de orientação para a futura carreira. O sistema de ensino brasileiro realizou
algumas reformulações para acompanhar as
Î NAP – Núcleo de Apoio ao Estudante de mudanças ocorridas no mundo do trabalho.
Psicologia A Lei de Diretrizes e Bases de 1997 determi-
nou que 25% do currículo do ensino médio
O Núcleo de Apoio ao Estudante de Psi- deve ser flexível, de modo a incluir disciplinas
cologia configura-se como um espaço ao qual que sejam adequadas às necessidades da co-
o aluno pode recorrer quando julgar necessá- munidade. Surge, então, um espaço para que
rio, tanto por questões relacionadas ao curso a Orientação Profissional possa se integrar à
quanto ao próprio desenvolvimento profis- grade curricular, tornando formal a responsa-
sional. Esse núcleo busca auxiliar os alunos, bilidade da escola em lidar com a questão.
principalmente os do 5o ano, no que se refere
ao desenvolvimento de seus projetos profis- Orientação Profissional em Cursinhos
sionais, passando inclusive pela informação
sobre estágios e oportunidades de colocação
para a População de Baixa Renda
profissional. O trabalho visa a formação de Organizados pela própria comunidade,
um Setor de Estágios, o qual possa não ape- por universidades e por ONGs, esses cursi-
nas organizar e buscar estágios para os alunos nhos visam a atuar de forma mais ativa sobre
do IPUSP, mas também auxiliá-los na escolha as exigências educacionais, as quais excluíram
baseados nos projetos profissionais futuros. os aluno de baixa renda do sistema educacio-
nal superior, preparando a população carente

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28 Levenfus, Soares & Cols.

para se inserir no sistema universitário e obter trabalho e mais precisamente questionam o


sucesso nos exames vestibulares. vínculo com sua profissão.
Nesse objetivo de dar suporte à inclusão, No primeiro caso, há a necessidade de um
abre-se um espaço de Orientação Profissional Planejamento de Carreira; no segundo, os ter-
longitudinal, no qual é enfocado tanto a ques- mos “Orientação Profissional” ou “de Carreira”
tão da escolha como o apoio durante as crises são mais adequados.
e as inseguranças na manutenção do projeto, Em geral, encontramos em São Paulo um
como plantão de informação profissional, pla- número significativo de Consultorias que se
nejamento de estudos, etc. dedicam ao Planejamento de Carreira para os
cargos executivos no mundo corporativo. En-
Criação de Centros de Carreira nas tretanto, outros tipos de trabalhadores – como
os profissionais liberais – apresentam grande
Universidades dificuldade em encontrar alguma forma de
Recentemente, configuraram-se como atendimento.
um problema social os altos índices de desis- Quanto ao trabalho de Orientação de
tência universitária, servindo como indicado- Carreira, este, em geral, restringe-se a alguns
res da problemática vivida pelo universitário poucos orientadores, destacando-se as uni-
devido à falta de clareza quanto ao projeto versidades e algumas iniciativas nas próprias
profissional futuro. Esses centros visam a empresas.
amparar os universitários durante o curso,
assim como ajudá-los a elaborar um projeto
Sindicatos e Órgãos de Classe
profissional, minimizando, com isso, o pre-
juízo que a própria universidade tem com a Os Sindicatos e Órgãos de Classe vêm
desistência. pouco a pouco mudando seus eixos de ação na
negociação salarial e na obtenção de garantias
para a qualificação de seus associados por meio
Orientação e Planejamento de Carreira
de cursos, de palestras e de outros espaços ain-
Essas duas expressões são normalmente da pouco explorados pelos orientadores.
utilizadas como sinônimos por vários autores
(Vodracek e Kawasaki, 1995; Dias, 2000). Se- Desemprego e Grupos de Reflexão de
gundo Holland (1988), “orientar” se refere a
determinar, adaptar ou ajustar uma posição;
Inclusão Social
dirigir, guiar, reconhecer ou examinar o lu- Junto à Secretaria do Trabalho, criaram-
gar, a posição em que se encontra, para poder se espaços importantes para o desenvolvi-
guiar-se. Enquanto “planejar” refere-se a fa- mento de modelos de atendimento às popu-
zer planos, projetar, traçar. Podemos entender lações desempregadas, que estão à margem
que os vocábulos remetem a dois momentos do processo produtivo – mesmo que esses
distintos. “Orientar” contém a ideia de deso- avanços ainda se restrinjam, em grande parte,
rientação, de alguém que necessita de parâ- a pesquisas acadêmicas.
metros para se guiar; e “planejar” implica um
conhecimento das variáveis para desenvolver Políticas Públicas
um projeto (portanto, não contém a ideia de
desorientação, mas sim a de traçar planos). Visam basicamente à preparação de par-
É importante diferenciar e ter parâme- celas da população para ingressar no mercado
tros para distinguir aqueles que precisam ou ou voltar a ele e ao atendimento de desem-
desejam traçar algumas metas em sua carrei- pregados cujas funções são extintas, os quais,
ra (p. ex., troca de emprego), de pessoas que então, passarão por um centro de treinamento
voluntária (p. ex., crescimento pessoal, desin- para novas funções.
teresse pelo atual trabalho) ou involuntaria- Além disso, destacam-se os programas
mente (demissão, acidente de trabalho, etc.) de estágio oferecidos aos alunos do ensino
se sentem desorientados frente às questões de médio, dando a eles a oportunidade de desen-

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Orientação Vocacional Ocupacional 29

volver as competências necessárias para sua indivíduo é o único responsável por estar ou
inserção no mundo do trabalho. não trabalhando, retirando das empresas, e
mesmo das ações políticas, a responsabilida-
NOVOS ESPAÇOS DE REFLEXÃO de pelo atual estado de precarização da mão
de obra.
Destaca-se a iniciativa do Fórum de Polí-
ticas Públicas em Orientação Profissional, o CONSIDERAÇÕES FINAIS
qual visa a congregar profissionais da área de
Orientação Profissional na elaboração de pro- Como orientadores profissionais, pre-
postas e stratégias com o objetivo de sensibi- cisamos ter consciência da atuação da crise
lizar os governantes em relação à necessidade atual, seja porque o trabalho – ou a noção de
de desenvolvimento e da implantação do pro- trabalho – está se modificando, seja porque
jetos de Orientação Profissional junto às mais o valor do trabalho hoje não é o mesmo que
diferentes populações. antes. Hoje em dia, estamos frente a uma sé-
A criação de um espaço no qual os pro- rie de ideologias paradoxais, que nos mergu-
fissionais possam discutir seus projetos pas- lham em contradições. Na área da Orientação
sados, presentes e futuros, e resgatar a pos- Profissional fica explícita a influência do psi-
sibilidade de vinculação social tem sido uma cológico no social e o contrário disso.
experiência de importância fundamental. Dessa forma, cada vez mais nos confron-
tamos com as encruzilhadas profissionais e
NOVOS ESPAÇOS POSSÍVEIS somos obrigados a lidar com elas. Precisamos
conhecer (e até tentar prever) as condições fu-
Programas de TV: Dois canais pagos já turas da profissão escolhida e ter em mente a
apresentam programas semanais de informa- realidade da educação e da economia do Brasil
ção profissional, sendo que, em um deles, car- – o que parece ser utópico, pois as condições de
reiras de todos os níveis são apresentadas. trabalho são díspares em nosso país, tanto em
Orientação Profissional pela internet: nível técnico quanto educacional.
Apesar do interesse por essa possibilidade, o Nesse momento, em que o aspecto social
que encontramos nos sites brasileiros são basi- passa por uma transformação vertiginosa,
camente informações sobre profissões e testes a apreensão da realidade torna-se confusa e
vocacionais. A Pontifícia Universidade Católi- difusa. Nosso trabalho, muitas vezes, começa
ca (PUCSP) de São Paulo vem desenvolvendo por clarificar, nessa confusão, o que é realmen-
uma pesquisa para criar um modelo de aten- te importante para o indivíduo que escolhe.
dimento não presencial, por meio da internet Isso faz com que o campo de Orientação
(os resultados dessa iniciativa ainda estão em Profissional comece a se ampliar e com que no-
elaboração e, por essa razão, ainda não foram vas situações se delineiem. Tem crescido o in-
divulgados). teresse por essa área e ela passou a despertar a
Publicações de autoajuda: Esse é um atenção de vários setores. Existem diversos ins-
mercado em franca expansão. Em linhas ge- titutos de orientação especializados que visam
rais, esses livros têm como ponto de partida a a fazer frente a essas novas situações, oferecen-
ideia de que é necessário tomar contato com do orientação de carreira e atendimento tanto a
a própria história profissional para poder profissionais de alto nível quanto àqueles que
mudar o rumo dela. É uma abordagem basi- foram dispensados e precisam ser recolocados
camente cognitiva, partindo do princípio de ou, ainda, àqueles que se aposentaram.
que, se entendermos nosso modo de funcio- A Orientação Profissional é hoje um cam-
namento, poderemos modificá-lo de forma po que transcende em muito as teorias e as
racional, por meio da aprendizagem de novos técnicas de cada orientador, pois nela conver-
modelos de atuação. gem todos os conflitos de ordem social, insti-
Esses novos modelos invariavelmente tucional e psicológica que marcam a realidade
remetem à figura do prestador de serviços dos jovens e dos trabalhadores nesse momento
autônomo. O princípio fundamental é que o histórico.

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30 Levenfus, Soares & Cols.

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2
Escola e escolha profissional
um olhar sobre a construção de projetos profissionais

Maria da Conceição Coropos Uvaldo e Fabiano Fonseca da Silva

O homem é, antes de mais nada, um da Estrada de Ferro Sorocabana. Já em 1931,


projeto; um projeto que se vive subjeti- Lourenço Filho fundou o primeiro Serviço Pú-
vamente. (...) O homem não é outra coisa blico de Orientação Educacional e Profissional
senão aquilo que se faz. no Colégio Caetano de Campos.
Jean Paul Sartre Em 1942, a profissão de Orientador Edu-
cacional é regulamentada pela Lei Orgânica do
Previsibilidade é cada vez menos uma re- Ensino, tendo como tarefas o acompanhamen-
alidade do mundo do trabalho. Nesse cenário to individualizado dos alunos e a assessoria
de transição, exige-se das pessoas adaptabili- na escolha ocupacional, sempre visando à in-
dade, multifuncionalidade; uma luta diária tegração entre escola, família e comunidade.
pela sobrevivência. A educação encontra-se no Assim, o ensino profissionalizante foi
centro das atenções nesse contexto, apresen- o berço da Orientação Profissional no Brasil.
tada como a solução para a formação desses Nunca é demais lembrar que a origem das
“novos” profissionais, para o desenvolvimen- escolas profissionalizantes ou técnicas está
to econômico e para a inserção no mercado intimamente relacionada à libertação dos es-
de trabalho. Apesar disso, a Orientação Pro- cravos e à necessidade de dar formação aos
fissional ainda está muito longe do cotidiano órfãos (Plantamura, 1993).
escolar. Por quê? Razões históricas e a falta de A ideia de educação para todos, contida
modelos talvez nos guiem ao entendimento e na Lei Orgânica de 1942 – “até onde permitir
à busca de alternativas a essa questão tão im- suas aptidões naturais, independentemente de
portante. razões econômicas e sociais” (Garcia e Maia,
1990, p.13) – vai de encontro à ideologia das
BREVE HISTÓRICO DA ORIENTAÇÃO aptidões, sintetizada no sucesso dependente
PROFISSIONAL NAS ESCOLAS de esforço pessoal, encontrando nas teorias
traço-fator o sustentáculo para sua efetivação.
BRASILEIRAS Os instrumentos dos Orientadores Educacio-
Segundo Santos (1973), a Orientação Pro- nais para a tarefa de Orientação Profissional
fissional surge no Brasil no início do século eram as baterias de sondagem de aptidões e
XX como um Serviço do Liceu de Artes e Ofí- habilidades, testes de inteligência, inventários
cios em São Paulo, para selecionar e orientar de interesses e informações ocupacionais; ou
jovens para o curso de mecânico, coordenado seja, o chamado modelo clássico de Orienta-
por Roberto Mange, em 1924, que posterior- ção, os “Testes Vocacionais”.
mente, em 1930, dá origem ao Serviço de Se- Apesar da legislação, não havia profis-
leção, Orientação e Formação de Aprendizes sionais capacitados e preparados para o exer-

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32 Levenfus, Soares & Cols.

cício da profissão. O primeiro curso superior Aparentemente dois caminhos distintos


em Orientação Educacional surge em 1945, são trilhados, o da Psicologia e o da Pedago-
mas não teve procura, por ainda não estar gia, ambos em busca de outros referenciais
consolidada a função nas escolas. para o trabalho.
Em 1947, é inaugurado o Instituto de Se- A Psicologia cuida da problemática da
leção e Orientação Profissional (ISOP), tendo escolha profissional, basicamente em consul-
como responsável técnico o psiquiatra e psi- tórios particulares e instituições, valendo-se
cólogo espanhol Mira Y Lopes. das teorias psicológicas, sobretudo a estra-
Em 1961, é promulgada a LDB (Lei de Di- tégia clínica desenvolvida por Bohoslavsky
retrizes e Bases da Educação), a qual institui a (1981).
figura do Orientador Educacional nas escolas Enquanto os educadores buscam alter-
de ensino médio não técnicas e explicitamen- nativas, destaca-se o trabalho de Celso Ferreti
te concede a ele a incumbência do trabalho e colaboradores no CENAFOR, concretizan-
de Orientação Profissional. Naquela época, do-se no Parecer no 75 de 1976, que inclui a
podiam atuar como orientadores educacio- disciplina de PIP (Programa de Informação
nais pessoas com as mais diversas formações. Profissional) nos currículos do ensino médio
Apesar de a bateria de testes ser o instrumen- nas escolas estaduais de São Paulo.
to consolidado do trabalho, começam a surgir O PIP fez parte do currículo de 1977 a 1983
ideias diferentes sobre como entender e rea- com o objetivo principal de estabelecer um vín-
lizar a Orientação Profissional. Destacamos culo entre a população escolar e o mercado de
Santos (1973) e, mais tarde, Carvalho (1995). trabalho, sob coordenação da Orientação Edu-
A regulamentação da profissão de psi- cacional, mas realizada pelos próprios profes-
cólogo, em 1962, coloca os testes psicológicos sores, como já propunha Santos (1973) e Gibson
como de uso exclusivo desse profissional, ex- (1975). A ideia básica era a de que o professor
ceto os Inventários de Interesses, que até hoje é o agente institucional dentro de uma escola,
podem ser comprados e aplicados por peda- é quem mais participa do cotidiano do aluno;
gogos. Acreditamos que seja esse o motivo de é, portanto, figura privilegiada para a tarefa de
os Inventários virarem, no Brasil, sinônimo de Orientação Profissional.
“Teste Vocacional”. O objetivo do PIP era criar condições
Em 1968, a profissão de Orientador para a conscientização sobre o processo e so-
Educacional é prevista em lei, vindo a ser bre o ato de escolha, sobre a realidade socio-
regulamentada em 1973, transformando a econômica, sobre o lugar do indivíduo nessa
Orientação Educacional em uma habilitação realidade; ou seja, uma reflexão muito além
da Pedagogia. O Decreto no 72846, que regu- da escolha. O conteúdo programático tinha
lamenta a profissão, apresenta no Artigo 8o as como pontos principais (Baptista,1984):
atribuições privativas do Orientador Educacio-
nal, relacionadas à Orientação Profissional: 1. Problema da escolha.
2. Informação profissional.
1. Coordenar a Orientação Profissional 3. Mundo do trabalho.
do educando, incorporando-o ao pro- 4. Relação entre educação e trabalho.
cesso educativo global. 5. Oportunidades educacionais relacio-
2. Coordenar o processo de sondagem de nadas ao ensino médio.
interesses, aptidões e habilidades do 6. Plano para escolha profissional.
educando.
3. Coordenar o processo de informação Baptista (1984) conclui que o PIP não ob-
educacional e profissional com vistas à teve eficácia porque partiu de uma imposição
Orientação Vocacional. da legislação, e não de uma demanda da esco-
la, o que gerou pouco envolvimento por parte
Nesse ponto, temos um “cisma”: os psi- de alunos e professores.
cólogos detentores de ferramentas e os peda- A Orientação Profissional na escola pa-
gogos coordenadores do processo. rece ser uma imposição de lei, nunca uma

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Orientação Vocacional Ocupacional 33

realidade ou um desejo manifesto. O mundo técnico – apesar de cada vez mais vermos o es-
do trabalho parece não ser o mundo da esco- vaziamento deste em relação à busca de cursos
la. Pimenta (1984) tenta resolver essa equação superiores – e abre novamente a possibilidade
afirmando que a Orientação Profissional, nas de a Orientação Profissional integrar a grade
suas mais variadas tentativas, não conseguiu curricular, compondo os 25% de disciplinas
cumprir seu objetivo de integrar plenamente escolhidas pela escola para a formação de seus
os vários aspectos envolvidos na escolha, o alunos.
que se daria pela síntese de múltiplas deter- Novos trabalhos de Orientação Profis-
minações. sional nascem da criatividade e da disponibi-
O que temos na escola a partir dessa lidade de alguns professores e orientadores,
época são ações voltadas à informação, cujo mas de forma isolada e assistemática, sendo
evento mais comum é a feira ou o fórum de realizados nessa escola em mudança, em um
profissões, quando profissionais vão à escola e mundo que passa constantemente por trans-
apresentam suas profissões. Apesar de impor- formações.
tante, certamente não resolve as questões de Mesmo assim, a escola resiste em reco-
grande parte dos alunos, além de a qualidade nhecer seu papel nesse processo e, o que é
da informação oferecida ser questionável. ainda mais complexo, desconhece, ou pouco
O mundo da Orientação Profissional no percebe, sua influência nos projetos profissio-
Brasil é a esfera dos psicólogos que acabam nais de seus alunos.
prestando serviços em algumas escolas, qua-
se sempre privadas. O modelo desenvolvido DA ESCOLHA À NOÇÃO DE PROJETO
para o consultório é transferido para a escola.
Sendo assim, deve-se ter consciência de que Na Europa, a Orientação Profissional no
grande parte deles, como já apontava Ferretti esforço de compreender e incorporar essa nova
(1988), dedicava-se apenas a trabalhar os com- configuração do mundo do trabalho apoia-se
ponentes psicológicos da escolha; e, mais do na noção de projeto, nas práticas voltadas aos
que isso, um trabalho que visa apenas à es- adolescentes, distinguindo-se da de escolha pro-
colha de um curso superior, sendo, portanto, fissional. Para alguns autores (Guichard,1995;
restrito a uma classe social. Fonseca, 1994), escolha refere-se a um momen-
Outro aspecto que merece destaque é o to pontual, produzida a partir do conhecimen-
fato de que a Orientação Profissional é sem- to das próprias características e da realidade
pre oferecida como atividade extracurricular, do mundo do trabalho: da articulação entre in-
geralmente no período oposto ao de aulas, formações ocorreria, então, a escolha profissio-
concorrendo com outras atividades, tais como: nal. Guichard (1995) acredita que essas opções
campeonato de futebol, excursões, aulas de re- dos adolescentes se baseiam normalmente em
forço. Assim, a Orientação Profissional é enten- aspirações gerais, mais do que em projetos de-
dida como a resolução de um problema, e não liberados. Para ele, o projeto se configura como
como uma ação educativa, ocupando, em ge- um conjunto de representações do que se con-
ral, um espaço de acessório no contexto esco- sidera mais desejável, não se reduzindo apenas
lar, refletindo a pouca importância que a escola a um desejo ou a intenções vagas. Comporta
dá a essa questão (Ramos e Lima, 1986). Como uma tripla reflexão: sobre a situação presente,
consequência, Lehman (2005) aponta, em seu sobre o futuro desejado e sobre os meios de
estudo sobre evasão universitária, que 76% dos alcançá-lo, levando à criação de estratégias de
alunos que cogitam abandonar seus cursos não ação.
refletiram sobre a escolha e mesmo não procu- O conceito de projeto refere-se a um ho-
raram informações sobre o curso escolhido. mem que não está completamente determinado
A escola não pode mais negligenciar o pelas circunstâncias, por seu passado e por
mundo do trabalho e, pouco a pouco, assimi- seu presente. Pressupõe que o homem possa
la a ideologia e o discurso das empresas e do perceber, analisar e compreender sua situação
capital. A nova LDB (1996) apresenta muitas passada e presente e, a partir dessa leitura,
dessas ideias em seu bojo. Reorganiza o ensino criar um projeto como intenção futura (Uval-

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34 Levenfus, Soares & Cols.

do, 2002). Para Bohoslavsky (1981), qualquer focando o vestibular e os processos seleti-
escolha implica um projeto, e um projeto nada vos.
mais é do que uma estratégia no tempo; con- Crites (1974) já havia afirmado que,
tudo, o trabalho de Orientação Profissional, depois da família, a escola é o agente mais
em geral, limita-se ao momento da escolha. importante da socialização e “vocacionali-
O projeto, por sua vez, vai além: é uma zação”. Idealmente poderíamos esperar que
ação que deve ter em seu cerne o questiona- o papel da escola devesse ser o de favorecer
mento dos meios utilizados e mesmo prever as escolhas autônomas, não reforçando este-
que ocorram resistências, dificuldades ou im- reótipos ou replicando valores. No entanto,
possibilidades em sua realização (Boutinet, essa neutralidade seria possível? Ora, se dese-
2002). Projeto corresponde a uma apropria- nhamos o ambiente escolar como reprodutor
ção em que, a partir de uma confrontação eu- dos valores sociais, como poderia manter-se
exterior, o indivíduo seleciona determinados imparcial na escolha profissional? Mediante a
objetivos, preferíveis a outros. Fica implícito essas interrogações, o que teriam a nos dizer
que, seja qual for o projeto, há sempre uma as teorias e os pesquisadores da área?
elaboração pessoal, na qual o sujeito toma Em geral, a ênfase recai sobre o grupo fa-
plena consciência do significado que a opção miliar (Roe, 1976), sobre fatores psicodinâmi-
particular comporta no presente e no futuro, cos (Bohoslavsky, 1981) ou fatores sociais am-
e que, para sua concretização, é necessário o plos (Ferretti, 1988; Bock, 2002). Entretanto,
cumprimento de certas condições, de certas para Guichard (1995), a escola desempenha
etapas, de um plano de ação (Fonseca, 1994, hoje um papel primordial na vida das pessoas
p. 54). Nesse sentido, no desenvolvimento do – mais amplo do que em períodos históricos
projeto estão envolvidos componentes confli- anteriores –, auxiliado pela divisão crescente
tivos e afetivos em interação constante. O que do trabalho e pela ramificação das possibili-
a noção de projeto traz com maior clareza é a dades de formação. Portanto, para esse autor,
proposta de ação, de como essa solução pode a pesquisa de motivações na determinação de
ser implementada (Ribeiro, 2005). projetos profissionais deve receber novos es-
tudos, nos quais se considere o papel da esco-
A INFLUÊNCIA DA ESCOLA NA la frente aos alunos.
CONSTRUÇÃO DE PROJETOS
PROFISSIONAIS UM OLHAR SOBRE A ESCOLA
Fonseca (1994) ressalta que a escola está
BRASILEIRA
ocupando um novo lugar na vida dos alunos, Inspirado pelos escritos de Guichard
com atribuições que antes eram da família. A (1995, 2001), que confere às escolas de ensino
necessidade de melhoria do nível de forma- médio o papel de delimitadoras da trajetória
ção de mão de obra e o desejo de promoção profissional de seus alunos, e a partir do seu
social – motivado nas famílias pelo crescimen- corpo de valores e de sua postura, foi desen-
to econômico e, sobretudo, pela necessidade volvida uma pesquisa em duas escolas, uma
de escolarização das aprendizagens profissio- pública e outra privada, da cidade de São
nais – refletiram-se em um recuo da influên- Paulo (Silva, 2003). Em ambas realizaram-se
cia familiar para o campo da vida privada e grupos focais com professores, entrevistas
em um aumento do peso da escola em tudo com orientadores educacionais e aplicação
(ou quase tudo) o que diz respeito à educação de questionário aos alunos do último ano
para a vida pública e à aprendizagem da vida do ensino médio. Três aspectos foram con-
em sociedade. (Fonseca, 1994, p.12) siderados no estudo: escolarização, imagens
Assim, a escola é chamada a dar conta de trabalho e gêneros, todos fundamentais
da transição escola-trabalho, apesar de ainda para a construção dos projetos profissionais
assumir um papel passivo, apenas ocupan- e, como apontam Guichard (1995) e Freire
do espaço na mudança de ciclos formativos, (1990), centrais na definição das carreiras dos
principalmente ensino médio-universidade, adolescentes.

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Orientação Vocacional Ocupacional 35

A escola é por excelência o lugar da Na escola pública, a experiência educa-


constituição dos projetos profissionais de cional reforça no aluno a construção de uma
crianças e adolescentes incluídos no sistema imagem de fracasso, desprovida de compe-
educacional (Guichard, 1995, 2001; Fonseca, tências e qualidades (Guichard, 1995, 2001),
1994; Vondracek, Skorikov, 1997). Nessa pes- também colocando a perder a possibilidade
quisa confirmou-se essa premissa, mas com de atuar sobre as dimensões simbólicas das
diferenças importantes entre as escolas pú- permanentes reconstrução e legitimação das
blica e privada. desigualdades sociais.
A escola privada estudada reforçava a A participação dos alunos de escola
ideia do ingresso em um curso superior ou pública no sistema educacional não garante
faculdade tradicional, com respaldo de pro- acesso às melhores oportunidades de forma-
fessores, de orientadores e, provavelmente, ção após o ensino médio, tampouco a lugares
da maior parte das famílias que escolheu essa diferenciados no mercado de trabalho. Bour-
escola. dieu e Champagne (1997) chamam esses alu-
A visão de trabalho dos alunos da escola nos de “excluídos do interior”, pessoas que
privada é distorcida, e os professores interfe- não abandonam a escola, mas estudam em
rem na construção dessa imagem ao servirem escolas desqualificadas, obtendo diplomas
de modelo, como afirmam Paa e McWhirter que têm peso menor no mercado de trabalho,
(2000), reforçando uma imagem estereotipada menos capital cultural incorporado.
de carreira. Nesse processo de desfiliação, a experiên-
A questão de gênero é marcante, mas tra- cia de trabalho dos alunos da escola pública é
tada com desconforto ou simplesmente omiti- invisível para seu corpo de professores, pois
da como preocupação. Os professores das dis- não é valorizada como parte do sistema for-
ciplinas mais valorizadas são homens, assim mal de educação. Para os professores e para
como os coordenadores e donos do colégio. a coordenadora, as pessoas que ascendem a
No entanto, as alunas afirmam que não há di- uma identidade ocupacional são aquelas que
ferença no trabalho para homens e mulheres. adquirem o aprendizado a partir da formação
Os alunos da escola pública aceitam vinculada à educação formal, como cursos
os tradicionais papéis de gênero sem tantos técnicos ou superiores.
questionamentos, ao contrário dos alunos da A escola seria a última alternativa den-
escola privada, o que confirmou as observa- tro de uma comunidade empobrecida, onde
ções de Paiva (2000) sobre os alunos de escola as meninas engravidam cedo e os meninos
pública noturna. O ambiente da escola pública são expostos a situações de violência, inclusi-
é “feminizado”, com mais professoras e uma ve com alguns participando do tráfico e das
perspectiva que valoriza mais o cuidado dos ações de roubo. A função que resta à escola
alunos do que a preparação para a continui- seria, segundo os professores, resgatar uma
dade de sua vida escolar. suposta “autoestima”, ocupando o papel de
Em ambas as escolas, mas em graus di- “cuidadora”.
ferentes, se reforça (e não se desconstrói) a Esse estudo confirma Campos Silva
hierarquização, marcada pelos gêneros, dos (1996), que considera que as escolhas se inscre-
postos de trabalho. A escola perde a oportuni- vem em campos diferentes para os grupos so-
dade de diminuir as iniquidades sociais entre ciais desfiliados (em que o projeto profissional
homens e mulheres. estaria baseado na necessidade de gerar renda
Os alunos e os professores da escola pri- e se manter) e nos grupos privilegiados econo-
vada pesquisada se veem como os eleitos, o micamente (em que seria possível incorporar à
que possibilita o ingresso nas carreiras e nas escolha os desejos e os interesses).
universidades públicas valorizadas. Essa per- Os dois grupos têm possibilidades de
cepção certamente também incorpora valor escolha, mas as teorias tendem a tratar dos
para a escola, que é reconhecida na comuni- grupos privilegiados e a expandir suas con-
dade por aprovar seus alunos na melhores clusões para o grupo de desfiliados, como
faculdades. fez Ginzberg, segundo a leitura de Guichard

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36 Levenfus, Soares & Cols.

(1995), em sua proposta de teoria desenvolvi- além de propiciar condições práticas e teóri-
mentista. cas de desenvolver um projeto próprio para
A literatura coloca a escola ora expro- aquela escola, para aquele grupo de alunos,
priando o aluno de uma identidade, ora naquela determinada comunidade. É muito
abrindo espaço para a construção de um pro- interessante observar que, em geral, os pro-
jeto particular, apontando uma encruzilhada: fessores percebem que influenciam seus alu-
reproduzir valores sociais ou possibilitar a nos a gostar ou não de sua disciplina, mas têm
criação de um espaço de autonomia? grande dificuldade de perceber que isso tam-
A escola pode ser um espaço de promo- bém ocorre em relação aos projetos profissio-
ção de autonomia e cidadania, desde que re- nais dos alunos, remetendo necessariamente a
conheça quais são os fatores que interferem uma autoavaliação de carreira e dos próprios
nos projetos de seus alunos. A escola possui projetos profissionais.
um lugar central nos projetos, reproduzindo, Leão (2006, p. 75) ressalta que somen-
muitas vezes sem intenção consciente, valores te uma escola aberta e comprometida com a
e imagens por meio de seu currículo e, princi- comunidade terá possibilidades de diversi-
palmente, da relação entre professores e equi- ficar as atividades do projeto de Orientação,
pe educacional com os alunos. enriquecendo o leque de experiências, como
A questão que permanece é: como criar voluntariado, visitas e estágios com profissio-
na escola um espaço que permita de fato a nais escolhidos, explorando os diferentes re-
seus alunos e, por que não, à comunidade es- cursos de formação e informação.
colar explorar ao máximo suas potencialida- Inclusive, é muito comum a escola dispo-
des, permitindo a construção de projetos pro- nibilizar muitas atividades que dizem respeito
fissionais autônomos e inseridos na história à profissão durante a trajetória do aluno, mas
viva de seus grupos de origem? este acaba não as reconhecendo como tal ou
Qual projeto de orientação deveríamos não conseguindo relacioná-las, porque, de fato,
produzir para auxiliar a escola nesse desafio? essas iniciativas não constituem um processo
Pelletier e Dumora (1984) consideram de Orientação Profissional articulado, reduzin-
que, face à instabilidade característica de nos- do-se a meras atividades, não sendo possível
so tempo, o objetivo da Orientação Profissio- antecipar, avaliar ou controlar os potenciais
nal é fazer com que o adolescente adquira a efeitos. Assim, um projeto de Orientação Pro-
competência de analisar em cada encruzilhada fissional requer, além de um programa prévio
profissional suas características, seus trunfos, bem-articulado, uma teoria que o embase e dê-
seus limites, o ambiente, as oportunidades e lhe sentido.
as dificuldades; construindo projetos com es- Nesse sentido, a proposta de Ativação
tratégias de curto prazo, fazendo os ajustes do Desenvolvimento Vocacional e Pessoal
possíveis e disponíveis. (ADVP), proposta por Pelletier e colaborado-
Algumas experiências em escolas priva- res (1982), tem grande aceitação e aplicação.
das (Uvaldo e Silva, 2001) e públicas (Ribeiro, Esse referencial propõe a instrumentação
2001) apontam para o sucesso de um modelo do aluno, possibilitando-o desenvolver habili-
de Orientação Profissional que estende a inter- dades que o levarão à construção de um pro-
venção no tempo, não se limitando apenas aos cesso de escolha.
momentos de tomada de decisão, intercalan- O processo de ativação consta de quatro
do atividades em sala de aula com trabalhos momentos: exploração (conhecimento de si e
coletivos e até acesso individual aos alunos, do mundo do trabalho); cristalização (ordena-
processo que pode se estender da educação ção do seu modo de ser e de agir); especifica-
infantil ao final do ensino médio. ção (intersecção dos valores do sujeito com as
Contudo, a escola, como agente na cons- possibilidades do meio e da escolha propria-
trução dos projetos profissionais de seus alu- mente dita); realização (revisão das etapas an-
nos, deve preparar sua equipe educacional de teriores e da escolha).
forma a possibilitar o reconhecimento de seus Cada uma dessas tarefas foi dividida
alunos como portadores de competências, pelos autores em subtarefas, organizadas de

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Orientação Vocacional Ocupacional 37

forma a ir das mais gerais às mais específicas, por meio da atuação do desenvolvimento vo-
seja na própria tarefa, seja no processo geral. cacional, ou seja, da transformação das com-
O método se resume em dois momentos: petências que o sujeito possui e do desenvolvi-
mento das que ele não possui para a realização
1. Propor experiências a serem vivencia- de um projeto de vida profissional, e isso, para
das pelos alunos seguindo o progra- os autores, deve ser incorporado ao currículo
ma. escolar (Ribeiro 2001).
2. Criar condições para que essas experiên- Nessa abordagem, o mais importante
cias sejam compreendidas, integrando- não é proporcionar a aquisição de informa-
as a seu universo simbólico por um ções e conhecimentos, mas proceder ao esta-
processo lógico e psicológico. belecimento de uma relação pessoal, motivan-
do um processo de exploração e investimento
Para os autores, a ADVP pressupõe a in- em que os indivíduos situados face às infor-
ternalização de um modelo de escolha e de or- mações, às experiências e às significações te-
ganização de um projeto (tarefa da realização, nham oportunidade de lhes conferir sentidos
incluindo a proposta de escolha substitutiva), e criar estratégias próprias.

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3
Principais temas abordados por jovens
vestibulandos centrados na escolha profissional

Rosane Schotgues Levenfus • Maria Lucia Tiellet Nunes

INTRODUÇÃO o faz que revelam sua maturidade vocacional,


seu desenvolvimento da personalidade e sua
Durante o processo de Orientação Voca- integração (Lidz, 1973). É necessário que se
cional, individual ou coletivo, é comum que os considere a trajetória que o jovem vem realizan-
orientandos abordem diversos assuntos direta- do, as variáveis psicológicas, afetivas, sociais e
mente relacionados à escolha profissional, além econômicas presentes em seu processo; porém,
de outros temas, os quais podem ser entendidos o fator crucial para a definição profissional é o
à luz da abordagem clínica em OV. Em alguns modo como a pessoa se posiciona frente a to-
casos, são problemas que impedem a escolha das essas variáveis, ou seja, o que ela faz disso,
profissional naquele momento; em outros, os como se apropria das influências e para que
temas paralelos podem facilitar nosso entendi- futuro escolhe se lançar (Scheibe, 1997).
mento acerca de determinadas escolhas. Com essas bases, foi considerada, assim
Vale a pena observar, para fins diagnós- como temas centrados na tarefa, qualquer re-
ticos, o quanto os temas trazidos espontanea- ferência diretamente relacionada à questão
mente pelos orientandos encontram-se ou não da escolha profissional: decisão, influências,
centrados na tarefa da escolha profissional. informação, ocupação de pessoas próximas,
Nos Capítulos 10, 11 e 12, são apresenta- autoconceito, identificação, mercado de traba-
das observações referentes a uma série de te- lho, a própria Orientação Vocacional e as dis-
mas paralelos à tarefa da escolha, como separa- cussões sobre universidades e vestibular.
ção dos pais, doenças, perdas; observações que A seguir apresentaremos os principais
surgiram em diferentes grupos de OV, confor- temas abordados pelos jovens centrados na
me características próprias, e que podem afe- tarefa da escolha profissional e sua relação
tar o momento da escolha profissional. com o momento da escolha profissional.
Neste capítulo, são discutidos os princi-
pais temas abordados por jovens em OV nos
momentos em que consideramos estarem cen-
GOSTO
trados na tarefa da escolha profissional.1 Mencionam o que gostam em termos de
Diversos autores já apontaram para um ocupação, referendando a ideia de que nesse
determinado número de tarefas das quais o in- momento o jovem está definindo sua identi-
divíduo deve desincumbir-se durante um pro- dade: quem ele quer ser e quem ele não quer
cesso de OV. É o momento e a maneira como ser, considerando a futura escolha profissional

1
Tópicos pesquisados e analisados pelo método Bardin (1991) na dissertação de mestrado de Levenfus,
2001.

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40 Levenfus, Soares & Cols.

a partir de seus interesses, do que gosta e o que ria mesmo; pega todas as profissões e
pensa ser possível realizar (Soares, 1988 e Ginz- começa a descartar tudo aquilo que tu
berg et al., 1951, citados por Levenfus, 1997b). não gostas; tu vês aquelas poucas coi-
Essas referências podem ser diretas, indi- sas que sobraram; é que nem ele, eu só
retas, claras ou confusas, referentes ao passado sei o que eu não quero; eu não quero
ou ao presente. Coletamos as seguintes falas: Medicina, eu não quero Engenharias.”.
• nada me atrai: “Eu não acho nada que eu
• nomeia profissão: “Eu gosto de Psicolo- goste mais; nada me chama a atenção;
gia; eu quero Fisioterapia; eu quero ser todos os cursos eu os excluí 100%.”.
médica; penso mais na Engenharia Ci- • visão negativa: “A gente sempre tira o
vil.”. pior da profissão; a gente nunca olha o
• não nomeia profissão: “Eu gosto de ana- lado bom da profissão.”.
lisar as coisas; sempre gostei de espor-
tes; adoro coisas de decoração, de botar
uma coisinha aqui, uma coisinha ali; é DÚVIDA
uma coisa legal tratar com pessoas; eu O sentimento de dúvida é inerente ao
gosto de computador.”. ser humano. Nas fases iniciais do desenvolvi-
• área: “É na área da comunicação o que eu mento, a capacidade de discriminação é tênue
quero; se fosse uma área exata eu busca- ou inexistente. Evoluindo para certo estado
ria mais uma área da engenharia.”. de percepção afetiva, de natureza confusio-
• sonhos: “Quero poder tirar as crianças nal, atinge-se a capacidade de discriminação.
da rua; meu sonho é traduzir novela; eu Nessa evolução, o ego passa por um estado de
quero ser rica como todos os outros.”. ambiguidade até alcançar um estado de ambi-
• gostava de: “Quando eu era criança eu valência. Surge, então, a capacidade de se ter
sempre queria ser Veterinária para cui- dúvida e a possibilidade de elaborar o pen-
dar dos bichinhos; um tempo atrás, es- samento. Portanto, o sentimento de dúvida é
tava pensando em Ciências Sociais; eu uma condição adquirida, um sinal de maturi-
queria Medicina quando era pequena; dade, pois pressupõe capacidade de suportar
até naquelas caixas de supermercado a ambivalência frente ao objeto (Levisky, 1995;
eu pensei.”. Levenfus, 1997e).
Em pesquisa sobre o sentimento de dú-
Às vezes também surgem referências vida em sujeitos indecisos quanto à escolha
negativas com relação ao gosto expresso, por profissional, a partir da Análise de Conteúdo
exemplo, em uma tendência a escolher pela da frase de número 172 do Teste de Frases In-
eliminação das profissões das quais não gosta. completas de Bohoslavsky3 (1982), Levenfus
Esse pode ser simplesmente um elemento extra (1997e) chamou a atenção para a importân-
na composição das manifestações que conver- cia que tem o sentimento de dúvida frente à
gem para a decisão. Embora seja difícil a tarefa tomada de decisão. Os jovens apresentaram
de escolher, o jovem bem preparado é capaz de tendência à impulsividade, sentimentos de
fazê-lo mediante o balanceamento maduro en- pânico e depressão, além de formas imaturas
tre os prós e os contras implicados na tomada de e irresponsáveis na tomada de decisão, tais
decisão sobre essa ou aquela ocupação. como relegar a escolha à sorte, ou aos outros,
ou mesmo não decidindo por uma, ficando
• não gosto de: “Nenhum desses dois eu com as duas.
gosto muito; Química não é o que eu As falas mais características a respeito do
gosto.”. tema DÚVIDA costumam aparecer conforme
• descarta o que não quer: “É que eu fui os exemplos seguintes:
descartando os outros que eu não que-

2
Quando fico em dúvida entre duas coisas..............................
3
Sobre o Teste de Frases Incompletas, consultar Capítulo 18

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Orientação Vocacional Ocupacional 41

• dúvida entre duas possibilidades: “Eu gosto ESCOLHA


muito de Publicidade e Artes Plásticas;
eu estou entre Medicina e Psicologia.”. Para fazer uma escolha ajustada, pressu-
• dúvida entre mais de duas possibilidades: pomos que exista capacidade de adaptação,
“Estou indeciso com Relações Públicas, de interpretação e de juízo da realidade, de
Publicidade e Jornalismo; eu estou en- discriminação, de hierarquização dos objetos
tre duas Engenharias, Medicina, Publi- e, em especial, capacidade para esclarecer a
cidade e Psicologia.”. ambiguidade e tolerar a ambivalência nas re-
• dúvida total ou indecisão: “Nunca conse- lações de objeto. Esse tema, incluindo aspec-
gui saber se eu queria uma área exata tos que diferenciam a escolha madura e ajus-
ou uma área humana; sem a menor tada da imatura e desajustada, já foi abordado
ideia do que quero; eu não tenho a por Levenfus (1997d). Reproduzimos aqui as
mínima ideia; eu estou bem dividida; principais verbalizações com relação à temáti-
às vezes eu penso em ser outra coisa; ca da escolha:
fica aquela coisa meio indecisa; eu te-
nho muita dúvida do que eu quero; eu • é difícil: “Eu tenho dificuldade de fazer
estou em dúvida ainda; eu ainda não escolhas em tudo; eu queria que fosse
decidi; eu ainda não sei bem direito o mais fácil (fazer escolhas).”.
que eu quero.”. • é cedo para escolher: “Como era o primei-
ro vestibular que eu ia fazer, não sabia
direito o que queria; no ano passado,
DECISÃO chegou a hora do vestibular, e eu co-
Em raras ocasiões houve verbalizações mecei a pensar se é isso que eu quero,
nas quais os sujeitos declararam estar deci- será que não; daí na hora da inscrição
didos quanto à profissão. Como esses jovens eu botei Medicina; decidi o que ia fazer
buscaram Orientação Vocacional por decla- na última meia hora de inscrição.”.
rarem-se indecisos, propomos pensar que as • vestibular: “Eu não sei o que eu vou fa-
verbalizações sinalizadoras de certeza quanto zer no vestibular.”.
à decisão podem significar que esses jovens
ainda não consolidaram a escolha, mas fazem É comum que os orientandos façam refe-
experimentos no sentido de assumir determi- rências a medos despertados pela situação de
nados papéis. Podem ser também tentativas escolha profissional. De forma geral, os medos
de reafirmar determinadas escolhas para sair referem-se a errar na escolha e ser infeliz e a
do estado de ambivalência. ter de mudá-la. Apontam também pressões
internas e externas as quais contribuem para
• estou decidido: “Eu sei bastante do que dificultar a tomada de decisão de mudança,
eu quero; agora decidi; eu estou bem uma vez já estabelecida a escolha. Essa ansie-
decidida sobre a minha profissão.”. dade parece estar centrada na realidade, pois
as pesquisas apontam para um alto índice de
Apontam ainda sentimentos de angústia evasão nas universidades por abandono ou
frente à indecisão ao pensarem que são os úni- troca de curso.
cos indecisos. Nesse sentido, a abordagem co- Além disso, para Nicholas (1969), cada
letiva mostra-se muito benéfica, pois, em um decisão tomada reduz um pouco a possibilida-
grupo de iguais, percebem que existem outros de de mudança de orientação. O jovem pode
indecisos também. mudar, mas, muitas vezes, sente as mudanças
como inconvenientes, significando prejuízos,
• os outros estão decididos: “Quando tu en- tempo perdido em um outro caminho. Segun-
tras no cursinho as pessoas já estão de- do o autor, nessas situações, mesmo difíceis,
cididas, a maioria das pessoas já sabe partir para a mudança pode ser bem melhor
o que pretende fazer; a maioria quer do que persistir no caminho errado. Embora
Medicina.”. muitos jovens mudem seus planos, pensa-se

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42 Levenfus, Soares & Cols.

que são mais realistas, apesar de menos está- trocar de área: mas tu faz (X) e já tem
veis, do que aqueles que insistem em alcançar conhecimento: vai sair da área?”.
seus inadequados objetivos. • eternidade: “A profissão é para o resto
Existe uma tendência nos jovens a ideali- da vida.”.
zar a ocupação que querem seguir. Eles se ima-
ginam em uma profissão perfeita, ideal, a qual INTERFERÊNCIA FINANCEIRA
responderá a todas as suas aspirações e sobre a
qual poderão projetar seus sonhos (Soares-Luc- A posição socioeconômica da família in-
chiari, 1997b). Imaginam, muitas vezes, que, se flui diretamente no desenvolvimento vocacio-
não encontrarem a profissão ideal, ficarão perdi- nal do jovem no sentido de oferecer maiores
dos para sempre. Costumam descrever seu sen- ou menores possibilidades educacionais. Nas
timento como se só houvesse no mundo uma classes sociais mais favorecidas, nas quais já
profissão que satisfizesse cada pessoa e temem existe uma segurança financeira, é possível
não encontrá-la. Dessa forma, mostram-se apa- uma maior preocupação com a realização ou
vorados frente à possibilidade de escolher erra- com o desenvolvimento pessoal. Em contra-
do (Levenfus, 1997d). partida, na classe média, observa-se um dire-
Em contrapartida, o medo de escolher cionamento para satisfação pessoal e preocu-
errado pode estar respaldado também na pação com o padrão financeiro (Schulenberg,
convivência com diversos jovens que ingres- 1984, citado por Lassance et al., 1993).
saram na universidade e a abandonaram. De A falta de oportunidade ou de condi-
fato, várias pesquisas apontam alto índice de ções para engajar-se nas tarefas do desenvol-
evasão nas universidades brasileiras, desmo- vimento traz angústia e tensão ao adolescen-
tivação do estudante durante sua trajetória te, pois ele ainda não possui meios de lidar
acadêmica ou durante o exercício da profissão com essa situação (Witer, 1988). Nesse senti-
em vista de escolhas imaturas (Rodrigues e do, é interessante assinalar o paradoxo refe-
Ramos, 1997; Levenfus, 1997g; Pacheco et al., rido por Soares-Lucchiari (1993): o ambiente
1997; Hotza e Soares-Lucchiari (1998); Andra- obriga o jovem tomar uma série de decisões
de, 2000; Avancini, 1998). em relação a seu futuro, mas esse mesmo am-
Essa temática é abordada por diversos biente, muitas vezes, apresenta dificuldades
ângulos: que impedem a realização de inúmeros pro-
jetos seus.
• medo de escolher errado: “Medo de errar A perda financeira também aponta para
na escolha; tenho medo de entrar na uma interferência na escolha da universidade.
faculdade e ver que não é o que eu que- Citam as universidades que consideram mais
ria; tenho medo de abraçar uma profis- caras ou baratas, com pagamento facilitado,
são e depois ver que foi errado.”. e o desejo de ingressar preferencialmente em
• ter que mudar: “Tinha medo de escolher uma universidade federal:
e mudar; medo de ter pouco tempo
para mudar; se deixar para mudar tar- • tem que ser na federal: “Eu tenho que
de pode ter sérias consequências; para ir para a federal porque não tenho di-
mudar depende se têm condições de nheiro; eu vou ter que passar na federal
mudar.”. porque minha mãe não tem condições
• pessoas que mudaram: “Minha irmã che- de pagar.”.
gou a fazer um ano de Engenharia (X) e • universidade mais barata: “Meu pai sem-
parou; meu cunhado está deixando (X) pre dizia: tenta passar na federal ou
para fazer (Y); a minha mãe também pelo menos na PUC.”.
trocou de opção profissional.”. • não quer gastar com universidade particu-
• é difícil mudar: “É complicado desistir lar: “Também é o único grupo que faz
de cursar Medicina; como tu já estás esta referência: para que que eu vou
enrolada na escolha, fica difícil sair; as botar dinheiro fora se talvez eu não
pessoas ficam dizendo para quem quer precise?”.

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Orientação Vocacional Ocupacional 43

UNIVERSIDADE • informações: “A ‘X’ trabalharia com três


teorias; dizem que o Direito é muito
O ingresso na universidade adquire um bom também na ‘Y’.“
caráter de tarefa evolutiva por si só, em de- • provão e MEC: “Eu sei que a universida-
trimento da tarefa da adolescência relativa à de ‘B’ está bem equipada de laborató-
escolha de uma profissão ou de uma profis- rio; mas fica uma desconfiança; quase
sionalização. O adolescente, ao escolher sua todos os cursos da ‘B’ tiraram D e E na
profissão, estará pautando sua ação na repre- nota do provão; o que me deixa com o
sentação social de adulto (Andrade, 1993). É pé atrás foi o resultado do Provão dos
uma exigência familiar, uma continuidade três últimos anos.”
natural dos estudos, sem a qual o adolescente
estaria alheio ao próprio grupo de pares. Isso
acarreta, muitas vezes, escolhas pela facilida-
MERCADO
de de ingresso na universidade, geralmente É um importante item a ser considerado
em profissões para ele de segundo escalão e na escolha, desde que não apareça como fe-
sobre as quais pouco conhecimento possui nômeno imutável, isolado, cristalizado. É im-
(Lassance et al., 1993). Para ele, o prestígio portante que o jovem compreenda o mercado
de cursar uma universidade é maior do que o dentro da conjuntura em que vive e em uma
status social da profissão, ou seja, ser univer- perspectiva dinâmica (Neves, 1993).
sitário é um fator de promoção pessoal. Os jovens pesquisados abordam a temá-
A maior parte das verbalizações apon- tica do mercado de trabalho, preocupam-se
tam a universidade “A” como sendo a ideal com ele, e a maioria tende a achar que a in-
por proporcionar liberdade financeira e dar serção no mundo profissional depende mais
status. Preocupam-se com o fato de a univer- das condições deste e de indicação de pessoas
sidade “B” ter tirado notas baixas no Provão influentes do que de seus esforços pessoais.
do MEC* e o quanto isso pode comprometer Na realidade, quem ingressa no mercado
a imagem dos seus alunos. Discutem também hoje encontra menos segurança em relação às
a questão de que, dependendo do curso, algu- atribuições, menores previsões nos intervalos
mas universidades têm mais destaque do que de tempo e nas chances de carreira, bem como
outras, ou seja, todas elas têm alguns cursos maior exigência de flexibilização. O modelo
destacados. precedente, fundado na segurança, na estabi-
lidade e na regularidade, tende a ser substi-
• liberdade por não depender financeiramen- tuído por um outro que privilegia a possibili-
te: “Eu penso em minha independên- dade de mudanças na formação e no trabalho
cia; se ingressar na federal, no sentido (Meghnagi, 1998).
do dinheiro, acho que vou ficar mais Diante desse quadro, o mercado que rege
independente; daí ia ter que continuar as relações sociais de produção exige profis-
aquela dependência, e eu vou ter que sionais que saibam apreender, estejam abertos
dizer aonde eu vou. Pode comprometer ao novo, sejam capazes de pensar seu próprio
a escolha: Se eu passar na universidade fazer e que o façam de forma coletiva.
X e na federal em Educação Física, vou A partir do resgate feito das diversas
fazer Educação Física mesmo gostando construções conceituais da noção de compe-
mais de Fisioterapia. “. tência nas áreas antes apontadas, Manfredi
• é a melhor: “A universidade ‘A’ é a ‘A’; a (1998) identificou um conjunto de conotações
qualidade dos professores da ‘A’ é me- histórica e socialmente construídas referentes
lhor; a parte científica é melhor; tem o a essa noção, o qual poderia ser assim resu-
status da ‘A’.” mido:

*N. de R. Exame Nacional de Cursos foi um exame aplicado aos formandos, no período de 1996 a 2003, com
o objetivo de avaliar os cursos de graduação da Educação Superior, no que tange aos resultados do processo
de ensino-aprendizagem. Fonte: INEP/MEC

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44 Levenfus, Soares & Cols.

• Ddesempenho individual racional e efi- Seguem algumas verbalizações dos


ciente, visando à adequação entre fins e orientandos com relação à temática MER-
meios, objetivos e resultados. CADO:
• Um perfil comportamental de pessoas
que agregam capacidades cognitivas, • locus de controle externo: “Uma das
socioafetivas e emocionais, destrezas coisas que me leva a querer Medicina
psicomotoras e habilidades operacio- também é o conhecimento; meus tios
nais, adquiridas por meio de percursos são conhecidos e influentes; parece um
e trajetórias individuais (trajetórias es- desperdício criar um currículo em cima
colares, profissionais, etc.). do inglês, eles admitem qualquer pes-
• Atuações profissionais resultantes, soa que sabe inglês; sempre tem que ter
prioritariamente, de estratégias forma- alguém que te indique para conseguir
tivas agenciadas e planificadas visando o cargo; sempre tem que ter alguém co-
à funcionalidade e à rentabilidade de nhecido que vai te dar informação, ó, ta
um determinado organismo ou subsis- acontecendo tal coisa, corre lá que tem;
tema social. sem um pistolão é difícil pra tu conse-
guires o cargo.”.
Na opinião dos profissionais do CIEE/RJ • locus de controle interno: “O mercado
(1997), a compreensão de que o profissional, não é bom, mas eu gosto; se tentar e ver
depois de qualificado pela academia, estaria que é isso que quer, você será um bom
apto para exercer sua profissão e galgar a pro- profissional; se você for um bom profis-
metida estabilidade está sendo substituída sional, chega aonde quiser; se a pessoa
pela certeza de que tal estabilidade não existe. realmente está passando por alguma
Assim, a dificuldade de inserção no mercado necessidade, ela corre atrás; o mercado
de trabalho não está somente na falta de infor- influencia, mas vai muito da pessoa.”.
mações, ou na ausência de habilidades práti- • não é bom : “O mercado está terrível; o
cas, nem mesmo na ausência de qualificações mercado para tradutor e intérprete é
acadêmicas, mas também no receio de perder o mais difícil.”.
trem da história, ficar excluído, desatualizado e • é bom em alguma coisa: “O mercado de
não se realizar como ser humano. trabalho é bom para informática; infor-
Strey (1994, p.193) concluiu em sua mática está evoluindo.”.
pesquisa que, “quando chega o momento de es- • não adianta fazer o que gosta se não tem
colher uma profissão, a escolha frequentemente mercado: “Para fazer minha escolha, eu
produz conflitos. O conflito surge porque a pes- penso que não adianta uma coisa que
soa nem sempre sabe como equilibrar os custos eu adoraria fazer, se não tivesse muita
com os benefícios, satisfação imediata e mal-estar retribuição depois; de que adianta fa-
futuro”. zer cinco anos de uma coisa que gosta
Gus (1999) pontua que tudo isso deixa e na hora não tem onde trabalhar? Eu
o jovem temeroso: teme enfrentar uma socie- queria unir o útil ao agradável, ter uma
dade competitiva e excludente (que enaltece profissão de que goste e que tenha bom
a competência), ficando assustado e com difi- mercado.”.
culdades de amadurecer como consequência • não é bom escolher só pelo mercado: “Tanta
do temor de não obter êxito. O futuro para a coisa que não levam adiante; ou você
juventude é eclipsado pelo pessimismo. continua sem gostar.”.
De fato, a pesquisa feita pela Unicef em • pensa no que tem mercado: “Penso o que
novembro de 1999, em 20 países da América está melhor no mercado de trabalho no
Latina e do Caribe, aponta o Brasil em se- momento; dependendo da área, Educa-
gundo lugar no ranking do pessimismo, atrás ção física pode dar dinheiro também.”.
apenas da Colômbia: 69% de crianças e jovens • quer estabilidade: “Você não ganha bem,
brasileiros acham que a vida não vai melhorar mas todo final do mês tem um salário
(Folha de São Paulo, 24 dez. 1999). ali garantido.”.

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Orientação Vocacional Ocupacional 45

INFORMAÇÃO A gama de profissões consideradas pelos


adolescentes no período de inscrição para o
Um dos principais itens observados vestibular é, em geral, restrita a conhecimentos
para que ocorra um consistente processo de mais próximos, como aqueles obtidos por meio
escolha profissional é a informação. de familiares, amigos, figuras estereotipadas e
Conforme a visão desenvolvimentista até pelos meios de comunicação. E o adolescen-
de Super e colaboradores (1963), o comporta- te não sente necessidade de checar ou aprofun-
mento exploratório situa-se na adolescência. É dar essas informações (Lassance et al., 1993).
esse comportamento que permitirá ao adoles- É difícil para o adolescente entrar em
cente adquirir informações sobre si mesmo e contato com as informações do mundo profis-
sobre o mundo que o rodeia. O comportamen- sional, uma vez que essas informações, mui-
to exploratório vocacional visa a abastecer o tas vezes, não estão disponíveis, especialmen-
sujeito de informações novas, complementa- te porque fazê-lo representa entrar em contato
res ou corretivas para a empreitada da escolha com o novo, com o desconhecido, com o mun-
profissional. Da forma como foi definido por do adulto. O adolescente recua diante desse
Jordaan (1963), é um processo que envolve momento, resiste em obter informações, nega
diferentes graus de consciência. A informação conhecimentos que já possui, prefere não sa-
obtida ou pesquisada é influenciada pela per- ber, porque, permanecendo ignorante, não
cepção que tem de si e do ambiente. Super e escolhe, não cresce, não deixa a vida seguir
colaboradores (1963) também alertam para a (Zelam, 1993; Levenfus, 1997c).
resistência que o indivíduo pode desenvolver Por fim, Bohoslavsky (1982) ressalta que
frente à informação caso a experiência colo- a informação é uma condição necessária para
que em dúvida alguns aspectos do autocon- a escolha, mas não suficiente. É um alerta que
ceito. Nessa situação, a percepção pode sofrer faz a profissionais que durante muito tempo
distorções a fim de preservar, validar ou con- acharam que, ao receber informações, o jovem
firmar as fantasias que o sujeito tenta manter estaria instrumentalizado para a escolha.
(Frischenbruder, 1999). A seguir estão relacionadas as principais
Não raro, jovens alegam desconhecimento formas como o tema é abordado pelos jovens
total da profissão pela qual estão interessados. em processo de escolha profissional:
Alguns apresentam ideias bastante distorci-
das; outros demonstram inibições do pensa- • busca: “Eu já assisti a muita aula com
mento ou medo de errar ao expor suas ideias. a minha irmã; eu entrei na Escola Téc-
É comum que os jovens estejam desin- nica da UFRGS e peguei os cursos; eu
formados. Verifica-se que a exploração pro- procuro buscar tudo; eu conversei es-
fissional desenvolvida por eles é pouco siste- ses tempos com o irmão de uma amiga
mática e pouco planejada intencionalmente. minha que faz RP; eu já pesquisei algu-
É significativa a falta de informações que o ma coisa; tentei estudar um pouco das
adolescente demonstra tanto acerca de si mes- profissões; li um livro que fala das pro-
mo quanto acerca do mundo do trabalho e das fissões; fui lá no IPA e me informei.”.
profissões em geral. Suas escolhas são feitas • tem informações: “Na Academia Agulhas
dentre as profissões que podem observar no Negras você vai estudar Psicologia, Di-
meio mais imediato, revelando um comporta- reito, História, Matemática, todas; a Psi-
mento exploratório consideravelmente pobre. cologia tem vários tipos de pensamen-
A tendência de jovens do ensino médio é fazer to; na Administração tem essa parte de
uma escolha profissional apoiada em elemen- calcular as percentagens, esse tipo de
tos pouco consistentes: informações mínimas, controle; estou a par de todos os cam-
geralmente distorcidas, idealizadas ou este- pos; estou a par de todos os cursos.”.
reotipadas, além de serem desarticuladas do • conheço pouco: “Acho que a gente co-
próprio perfil (Lassance, Grocks e Francisco, nhece pouco de cada profissão; eu não
1993; Rodrigues e Ramos, 1997; Frischenbru- conheço o mercado das Engenharias;
der, 1999). acho difícil escolher uma profissão

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46 Levenfus, Soares & Cols.

que não se conhece ninguém que faç Segundo Soares-Lucchiari (1993, 1997b),
aquilo.”. os pais têm um conjunto de expectativas so-
• quer mais: “Queria saber mais sobre bre o futuro dos filhos, um projeto. Desde
algum curso; estou meio querendo sa- antes do nascimento, o filho já é fruto de pro-
ber quais são as ênfases da Assistên- jeções dos pais que variam segundo a ordem
cia social.”. de nascimento do filho, o momento do casal,
• não conheço: “Eu também não conheço a história da família. Citando Carré, a auto-
muito da profissão.”. ra aborda a questão da delegação, apontando
• professor: “A professora falou algumas que a família distribui papéis que os filhos
coisas de Biologia.”. devem desempenhar, muitas vezes ligados
• superficial: “Os sujeitos não conseguem ao peso de realizar o sonho dos pais. O filho
aprofundar suas informações sobre as torna-se, então, depositário das aspirações,
profissões e fazem descrições apenas as mais profundas, que os pais não consegui-
elementares e superficiais: A área da ram realizar, assumindo, assim, o papel de
Medicina é muito ampla, sabe, tem delegado, isto é, (inconscientemente) respon-
muita coisa, sabe; engenheiro constrói sável de realizar uma profissão, por exem-
casa, prédio, tudo relacionado com plo, em seu lugar. Identificando-se ao ideal
cálculo; RP é legal, organizar festas. de seus pais, o jovem tenta corresponder a
Não chegam a falar sobre profissões suas expectativas de ser um grande médico,
e suas atividades; fazem pequenas re- um bem-sucedido empresário ou um célebre
ferências generalizadas: o salário para juiz de direito. Assim, a elaboração do projeto
tradutor e intérprete é mais alto; Psi- profissional vai estar submetida à influência
cologia é só diurno.”. exercida pela família na reelaboração do ideal
de ego na adolescência. Essa utilização dos
INFLUÊNCIAS filhos pelos pais deve deixar espaço suficien-
te para os filhos desenvolverem uma relativa
É muito comum que os orientandos fa- autonomia em suas escolhas. Se o filho não
çam referência ao fato de sentirem influências suscitar nenhuma expectativa nem desejo da
sobre sua escolha. As influências, explícitas parte de seus pais em relação a seu futuro, ele
ou sutis, existem e devem ser consideradas. se sente sozinho, abandonado e encontrará
É importante que sejam conscientes, pois, as grandes dificuldades no momento de fazer
conhecendo, o indivíduo pode utilizá-las de suas escolhas.
forma positiva e construtiva, selecionando-as Em sua pesquisa acerca das questões fa-
e adequando-as a seus próprios desejos e va- miliares relacionadas à escolha profissional,
lores. “A liberdade de escolha e de elaboração Soares-Lucchiari (1997a) percebe que a esco-
de um projeto próprio de carreira depende lha responde a um conjunto de significações
muito mais do conhecimento das influências transmitidas aos jovens pela família, além dos
recebidas do que da ausência delas” (Andra- ideais socioculturais. Essas significações estão
de, 1997, p. 134). ligadas à dinâmica e à história familiar, fre-
Os jovens são unânimes em apontar os quentemente transgeracional, e a importância
próprios pais como os que mais os influen- dos avós deve ser assinalada.
ciam. É quase nula a percepção dos jovens Para Ramos (2000, p.64), a psicanálise,
inclusive com relação à influência de amigos. partindo da concepção do “homem como de-
Conforme Neves (1993), o grupo de amigos, sejante, nos fornece operadores teóricos que
muitas vezes, se constitui em fator de pressão nos permitem considerar que a matriz da es-
até mais autoritário do que a família, impon- colha profissional está no desejo da família”.
do valores e comportamentos; todavia, como Andrade (1997) aponta que a estreita
os adolescentes tentam afirmar uma grande correlação entre os aspectos psicossociais fa-
autonomia em suas decisões, muitas vezes miliares e a estruturação ocupacional do in-
deixam de refletir sobre a influência do grupo divíduo evidencia-se nos planos contextual e
de iguais e dos meios de comunicação. estrutural.

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Orientação Vocacional Ocupacional 47

Em termos contextuais, a influência ocor- desfrute estabilidade. Em menor proporção,


re por meio dos recursos oferecidos e das limi- encontramos verbalizações que apontam os
tações apresentadas. Um dos fatores marcantes pais como neutros, os quais procuram não
é a necessidade enfrentada por muitos jovens interferir e reforçam a liberdade que o filho
de sair da casa dos pais; ou, pelo contrário, a tem para escolher:
necessidade de ficar presos a ela, motivados
pela situação socioeconômica, por exigências • sonha com grandes empresas: “O que será
profissionais ou escolares. que os pais têm com o Polo?; o sonho
No plano estrutural, Andrade acredita da minha mãe é eu trabalhar no Polo
ser no seio da família que se estabelecem os Petroquímico; eles dizem: tu podia
eixos da estruturação da personalidade ocu- conseguir uma coisa na GM; você po-
pacional do indivíduo. O nível de determina- dia conseguir uma coisa na Varig.”.
ção ocorre por meio das influências, muitas • influências ativas: “Minha mãe não gos-
vezes indiretas e não explícitas, da ideologia taria que eu fosse professor; o sonho da
familiar sobre valores e conceitos ocupacio- minha mãe é que eu faça Química; mi-
nais, inclusive pela determinação da própria nha mãe me inscreveu em Engenharia
identidade profissional e da autoestima, fato- de produção.”.
res fundamentais na escolha da carreira e na • cobrança e pressão: “Muitas vezes, ocorre
administração da vida profissional. uma pressão na família; é muito chato
De qualquer forma, as influências não se isso, cobrança; a minha mãe sempre
dão unilateralmente. O indivíduo as filtra se- fala.”.
gundo suas próprias características e também • querem que se tenha sucesso na profissão.
acaba por exercer, em seu meio, uma impor- • os desejos: “Em parte, ilustram desejos
tante influência. O jovem pode identificar-se objetivos: Minha mãe disse que gos-
com aquilo que é esperado para ele, pode re- taria que eu fosse Engenheira; a mãe
cusar tal identificação, e, ainda, em alguns ca- quer que eu faça Informática. Em parte,
sos, toda escolha lhe é impossível (Andrade, indicam contrariedades: Minha mãe fi-
1997; Soares-Lucchiari, 1997). cou meio assim quando eu decidi fazer
O autoconceito social é uma das impor- Administração; quando se escolhe ser
tantes dimensões do autoconceito vocacional. professor a mãe aconselha a não fazer
Diz respeito à imagem social ou ao grau com porque ganha mal; o pai diz: por que
que o indivíduo percebe sua receptividade no não faz uma Engenharia?; a minha mãe
meio social além do grau de valorização que quer Administração; a minha mãe não
este mantém por si mesmo. A percepção de quer que eu seja bióloga.”.
ser eficaz em um comportamento é autorefor- • deixa em dúvida: “Minha mãe me coloca
çada socialmente e depende de uma valori- em dúvida; minha mãe fica me pergun-
zação positiva do indivíduo (Frischenbruder, tando se eu tenho certeza se é isso que
1999). eu quero; minha mãe diz: pensa bem.”.
• imposição: “Apontam sentimentos de
Influência dos pais que pai/mãe impõe: Geralmente os
pais dizem: ‘faz isso porque eu que-
O conteúdo predominante apresentado ro’; quando perguntamos o porquê, os
pelos jovens quanto à influência refere-se à in- pais dizem ‘porque eu quero esta’; os
fluência por parte dos pais. Em grande parte, pais fazem isso porque eles têm domí-
é percebida pelo jovem como uma influência nio sobre nós; ela botou na cabeça que
ativa, na qual os pais falam abertamente ou eu tinha que fazer uma Engenharia.
ditam suas preferências. Os pais, em muitas Apresentam o contra quando o merca-
falas dos orientandos, mais do que enume- do não é bom.”.
rar profissões, sonham que o filho trabalhe • idealizam: “Os pais ficam idealizando,
em grandes empresas brasileiras ou multina- eu quero que meu filho seja isso, seja
cionais e apresentam o desejo de que o filho aquilo; a mãe quer que eu seja famosa;

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48 Levenfus, Soares & Cols.

ela acha que Engenharia dá um status; que desse dinheiro, que desse status;
quer que seja uma coisa que dê dinhei- comecei a ver que minha avó achava o
ro.”. máximo Medicina.”.
• faça uma faculdade: “Meu pai diz: ‘faz • família: “Minha família inteira está ju-
uma faculdade porque não pode ficar rando que eu vou fazer Medicina; a fa-
parado’.”. mília do meu pai gosta de Z; minha tia
• indiferenciação: “Ela quer que eu faça me aconselhou fazer Hotelaria.”.
por ela; acho que ela queria fazer isso • meio: “Eu vim com a ideia de Medicina
e bota isso aí em mim; aquelas famílias porque eu me criei com velho; é muita
tradicionais que só têm médicos, aí tem dentista lá em casa: minha mãe, minha
que fazer Medicina; eu não pude ser irmã e duas tias são dentistas.”.
então você vai ser; às vezes, os pais im- • pessoas: “O pessoal pensa assim: todo
põem assim, fazer a mesma profissão mundo é faculdade; todo mundo dá
dos pais.”. palpite: acho que você combina mais
• apoio incondicional: “Minha mãe e meu com isso, combina com aquilo.”.
pai sempre me apoiaram; eu tenho cer- • amigos/namorado: “Com pouca expres-
teza de que se eu quisesse fazer Educa- são, surgem indicadores de que namo-
ção Física eles iam me apoiar do mes- rados e amigos também influenciam:
mo jeito.”. Só tive influência de meu namorado; eu
• só informam/indireto: “Dizem que sabem tenho vários amigos em faculdades.”.
de outras faculdades; falam em outras • professores: “A professora disse para
profissões só pra me dizer o que que eu fazer Biologia.”.
é; para mostrar o campo que tem mais • cara de...: “Muita gente olha pra mim e
ou menos; os pais influenciam indire- diz: essa aí vai fazer RP; meu pai acha
tamente.”. que eu tenho cara de jornalista; ela tem
• influências neutras: “É aquele negócio jeito de farmacêutica: na Farmácia você
assim: deixa que o X vai saber; meu pai, vê aquela moça magrinha, carinha re-
a princípio, está por mim; meus pais donda, nariz fininho; em meu colégio me
querem que eu faça o que eu quiser; acharam com cara de nutricionista.”.
neste ano eles estão neutros.”.
• não sofrem influências: “A mãe nunca
me influenciou; não tenho nenhuma
AUTOCONCEITO
influência de meu pai; nunca disse- Embora nem todas as dimensões do au-
ram o que eu tinha que fazer; minha toconceito estejam ligadas ao comportamento
mãe até recomendou essa orientação vocacional, este ocupa um dos eixos princi-
porque ela quer que eu decida; minha pais da teoria desenvolvimentista de Super
mãe nunca questionou muito essa par- e colaboradores (1963). A autoestima e as ex-
te do que eu vou cursar.”. pectativas de autoeficácia são algumas das
importantes dimensões do autoconceito que
Além dos pais, os jovens pesquisados in- influenciam no comportamento vocacional
dicam sofrer influências por parte dos avós, da (Betz, 1994 citado por Frischenbruder, 1999).
família, do meio e um tipo de influência que De acordo com a pesquisa de Frischen-
podemos chamar de cara de..., na qual, os su- bruder (1999), o aspecto mais relevante do
jeitos descrevem uma tendência de as pessoas autoconceito dos adolescentes em vias de es-
associarem a cara, o tipo físico e a expressão à colher uma profissão é a percepção de que são
determinada profissão, como, por exemplo, em capazes de organizar seu comportamento de
meu colégio me acharam com cara de nutricionista. forma a obter o rendimento esperado.
Conforme Super e colaboradores (1963),
• avós: “Meu avô já está fazendo altos ao assumir determinada ocupação, o sujeito
planos para quando eu for médica; para tenta implementar o conceito de si mesmo e,
minha avó tinha que ser uma profissão ao estabelecer-se ocupacionalmente, alcança

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Orientação Vocacional Ocupacional 49

a realização de seu autoconceito. Para eles, a medo, não trema; todo mundo sente
construção da identidade profissional ocorre medo por um trabalho que apresenta,
em três processos: formação do autoconceito, mas eu gosto de estar lá na frente.”.
sua tradução em termos vocacionais e sua im-
plementação. Outras falas revelaram senso negativo
A formação do autoconceito ocorre na de autoeficácia. O fato de poder reconhecer
infância concomitantemente ao desenvolvi- suas dificuldades e verbalizá-las pode colocar
mento de identidade, ou self, e evolui a partir o processo em marcha, seja em direção a mu-
dos processos de exploração, diferenciação, danças satisfatórias, seja em direção à manu-
identificação, desempenho de papéis e testes tenção, assunção e valorização de suas carac-
de realidade. O desenvolvimento psicossocial terísticas pessoais.
do indivíduo tem papel fundamental no sen-
tido de fortalecer ou modificar autoconceitos • sou muito emotiva: “Eu sou muito emo-
que foram adquiridos nessa fase. tiva; acho que eu tenho que tratar a mi-
A tradução do autoconceito em voca- nha loucura; imagina o médico choran-
ção, a qual ocorre na adolescência, envolve do, eu ia me apavorar também.”.
aspectos como identificação com um adulto • preguiçoso: “Eu sou meio preguiçoso; só
significativo, maior ou menor êxito no de- de pensar já desanima.”.
sempenho de papéis, consciência da relação
entre as características que o indivíduo pos- IDENTIFICAÇÃO
sui, seus atributos, sua satisfação e sua reali-
zação no exercício de determinado conjunto Escolha por identificação é um item raro
de papéis ocupacionais. Mais tarde, ocorre o em todos os grupos pesquisados. Aparece em
processo de implementação do autoconceito, pequena escala.
com a entrada no mundo do trabalho. O ajus- Apesar disso, a estruturação de um
te vocacional do indivíduo com estabilidade processo de escolha passa pela via da identi-
e satisfação estaria relacionado diretamente a ficação do sujeito a algo que signifique para
uma tradução adequada do autoconceito no ele uma possibilidade de reconhecimento de
mundo ocupacional (Super et al., 1963; Las- uma instância paterna e que lhe possibilite re-
sance et al., 1993). conhecer nela uma filiação4. Uma boa escolha
Conforme a pesquisa de Frischenbruder estaria relacionada a satisfazer a necessidade
(1999), a autoeficácia encontra-se relacionada do sujeito de encontrar um lugar de filiação
a comportamentos de investigação sobre ati- (Golfeto e Junqueira, 1993).
vidades profissionais e de mercado de traba- Ferreira (2000) aponta que as qualidades
lho. Os sujeitos com senso positivo de autoefi- e as preferências dos adolescentes estão rela-
cácia apresentam mais informação vocacional cionadas a identificações feitas com familia-
adquirida, maior grau de satisfação com essas res, professores ou amigos que parecem res-
informações e maior certeza sobre suas prefe- ponder às suas aspirações mais profundas.
rências vocacionais. Para Neiva (1995), as identificações que
o indivíduo estabelece ao longo da vida con-
• falante: “Eu falo bastante; eu sentia que tribuem para sua identidade vocacional. Res-
eu tinha um discurso legal para fazer salta que é comum o adolescente desejar de-
Direito.”. sempenhar a mesma profissão de alguém com
• sou materialista: “Sou muito materialis- quem estabeleceu vínculo positivo. As figuras
ta; sou muito capitalista, levo jeito para parentais, em especial, são fonte importante
trabalhar com dinheiro.”. de identificação.
• enfrento dificuldades: “Vai lá na frente, Entretanto, devemos, como orientadores
você vai tremer, não que eu não tenha vocacionais, estar atentos à observação de Pi-

4
Uma das tarefas propostas pela OV tem a ver justamente com a tentativa de explicitar essas identificações
não reconhecidas como tais.

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50 Levenfus, Soares & Cols.

kunas (1988), de que “o arcabouço da família é tuada diminuição da autoestima. A grande


muito limitado para a maioria dos adolescen- maioria deles continua perseguida por sen-
tes experimentarem novas imagens e novos timentos de fracasso: a autoimagem passa a
papéis” (p. 328). ser motivo de vergonha; é acometido de sen-
timentos de infelicidade, desânimo, etc. (Le-
• pais: “Gosto de História porque minha venfus, 1997a).
mãe é professora; eu gostaria da área
militar porque meu pai é Militar.”. • a concorrência é grande: “Tem que estu-
• irmãos: “Gosto de Psicologia porque a dar muito; é muito concorrido; no que
minha irmã faz Psicologia.”. eu gostaria de fazer seria mais de 60
• outros familiares: “Falei Medicina porque por vaga.”.
eu tenho três tios que fazem parte da • rodou: “No ano passado eu tentei e não
Medicina; tinha uma época que eu que- consegui; fiz o vestibular e não passei;
ria ser dentista porque minha prima era rodei em Matemática.”.
e tal; queria ser advogado desde peque- • quer passar de primeira: “Não sei em
nininho porque meus avós eram.”. que, mas eu tenho que passar; a pres-
• profissional: “Eu vi a psicóloga avalian- são para cima de mim para passar de
do, eu gostei.”. primeira é forte.”.
• amigo: “Eu sou bem chegada a uma pes-
soa que fez comunicação e eu fui fazer.”. Centralização na tarefa da OV e
maturidade para a escolha profissional
VESTIBULAR
Ao pesquisarmos diferentes grupos de
Em nosso país, não se pensa em escolha orientandos, foi formado um grupo composto
profissional com vistas ao ingresso na uni- por jovens que não apresentam nenhuma das
versidade sem que isso envolva a questão relações objetais características dos demais
do vestibular. Os jovens preocupam-se espe- grupos (conforme tratado nos Capítulos 10,
cialmente com a grande concorrência e citam 11 e 12), ou seja, nenhum componente desse
tentativas fracassadas de aprovação. Manifes- grupo ou é filho de pais separados, ou perdeu
tam também o desejo de passar de primeira e o – por morte – um membro da família nuclear
quanto se sentem cobrados a serem aprova- ou apresenta maiores dificuldades no proces-
dos rapidamente. so de separação-individuação.
O desejo de passar de primeira ou de ser Comparado aos demais, foi o grupo que
aprovado logo encontra explicação nos pen- apresentou o maior grau de maturidade para
samentos que realizam equivalência entre o a escolha profissional, haja vista os itens a se-
vestibular e os rituais de passagem (Teixei- guir5:
ra, 1981; Alves, 1986; Levenfus, 1993b, 1997a,
1997g; Levenfus e Trintinaglia, 1995). O ves- • Foi o único grupo que manteve 100%
tibulando estaria equiparado a uma entidade das falas relacionadas à temática direta
limiar: sem identidade enquanto permanecer da escolha profissional, apresentando
“no vestíbulo” – nesse caso, espaço interme- maior qualidade e engajamento na tare-
diário entre o término do ensino médio e o in- fa da escolha.
gresso no curso superior. Mais do que ritual de • É o único grupo a referir diretamente
passagem, esses pensamentos apontam para o os vários fatores que concorrem para
vestibular como uma barreira ritualizada de a decisão profissional, como mercado
ingresso à universidade. de trabalho, meio, influência dos pais
Essa barreira coloca vestibulandos ex- e fatores financeiros, demonstrando
cedentes em situação que desencadeia acen-

5
As verbalizações computadas na primeira parte deste capítulo não pertencem apenas a esse grupo, e sim a
todos os grupos em momentos em que os jovens estavam concentrados na tarefa da escola.

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Orientação Vocacional Ocupacional 51

consciência da tarefa com suas causas e madura. Segundo os autores que estudam as
consequências. características maduras ou imaturas da esco-
• Apresentou uma divisão harmônica de lha profissional, na considerada madura, o su-
interesses profissionais, sendo o único jeito aponta escolhas fundamentadas na reali-
que também os agrupa por áreas. dade. Existe conflito na situação, pois esse não
• Denota maior grau de resolução de dú- é negado, mas o conflito existente tem condi-
vidas. ções de ser administrado. A escolha madura
• Centraliza a questão do medo na ideia não o libera da necessidade de revisar outras
de ter que mudar baseado em uma sé- escolhas e elaborar os abandonos de outros
rie de referências reais que apontam projetos.
pessoas conhecidas que mudaram de Na escolha ajustada, o adolescente con-
curso ou de profissão. segue fazer coincidir seus gostos com as
• Aponta a maior quantidade de refe- oportunidades exteriores, buscando encaixar
rências de busca ativa por informações interesses e aptidões com o que a realidade
com elevado nível de conhecimento e a carreira lhe oferecem. Demonstram ini-
em relação a elas. ciativa para explorar o mundo do trabalho.
• É o único grupo que abordou a univer- Empreendem inúmeras atividades explora-
sidade em sua discussão. tórias, a saber: visita a universidades, cursos
• É o único grupo que refletiu acerca do extraescolares, observação de atividades pro-
vestibular. fissionais e busca de informações por meio
• É o único grupo que retratou o caráter de leituras e conversas (Small, 1953, citado
evolutivo da escolha, apontando que a por Nicholas, 1969; Bohoslavsky, 1982; Ma-
decisão vocacional pode ser uma ques- galhães, 1995).
tão de tempo durante o processo matu- Dessa forma, percebemos existir correla-
rativo do sujeito. ção entre a qualidade das relações objetais e a
produção no momento da escolha profissional.
Esse grupo comportou-se de maneira
próxima àquela que os autores definem como

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II
DIFERENTES CONTEXTOS EM ORIENTAÇÃO

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4
Orientação profissional na escola privada

Regina Anzolch Crestani

O tema Orientação Profissional impõe- particular de ensino médio de Porto Alegre


se como um dos mais relevantes na discussão e interior do Estado do Rio Grande do Sul.
atual sobre vida escolar e inserção do aluno A pesquisa foi realizada por e-mail e contato
no mundo do trabalho. Essa discussão, evi- telefônico com quatro perguntas fechadas (1.
dentemente, precisa acontecer no universo A escola disponibiliza Orientação Profissio-
dos ensinos público e privado. Contudo, a nal a seus alunos? 2. Há quanto tempo existe
presente reflexão restringe-se ao universo da esse serviço? 3. Em qual série é ofertado esse
escola privada. serviço? 4. A atividade é curricular ou extra-
As considerações a propósito da Orien- curricular? ) e uma pergunta aberta quanto
tação Profissional na escola privada, neste à metodologia utilizada no trabalho de OP
capítulo, partem de três estudos: o primeiro (número de encontros, técnicas e instrumen-
é direcionado à existência da OP nas escolas tos utilizados). Das 52 escolas pesquisadas
privadas de Porto Alegre e interior do Rio no RS, 15 oferecem o trabalho de OP em suas
Grande do Sul; o segundo, realizado no iní- escolas, 7 não oferecem e 30 não responde-
cio das minhas atividades profissionais, há ram. Das 15 que oferecem, 6 escolas seguem
18 anos, ocorreu junto a adolescentes pres- o modelo curricular e nove o extracurricular,
tes a enfrentarem o concurso vestibular; o distribuídos tanto nas 2a séries quanto nas
terceiro, focado na área da pedagogia, trata 3a séries. No que se refere à metodologia,
da correlação entre a escolha profissional e 80% realizam as atividades baseadas no au-
os aspectos cognitivos. Busco também olhar toconhecimento, por meio de dinâmicas de
para nossa realidade educativa brasileira, in- grupo; aspectos informativos (visitas às uni-
cluindo reflexões de Paulo Freire, e finalizo versidades e aos locais de trabalho, palestras
com um modelo que reflete a minha prática com profissionais e Feira das Profissões) e
de OP no Colégio João Paulo I, respaldada, uso de testagens (LIP, EMEP, QUATI). Os
em nível teórico, por Pelletier, Bohoslavsky, profissionais que atuam na OP são, em sua
Piaget, Vygotsky, entre outros. grande maioria (87,5%), psicólogos e orien-
Em virtude do VIII Simpósio Brasilei- tadores educacionais.
ro de Orientação Vocacional e Ocupacional, Em suma, no primeiro estudo, pode-
que ocorreu na cidade de Bento Gonçalves, mos inferir que as escolas pesquisadas e que
RS, em 2007, e por ter sido convidada a inte- oferecem OP a seus alunos estão bem estru-
grar a mesa-redonda intitulada Demandas e turadas, tanto por profissionais quanto pela
Modelos de OP na Escola Privada, realizei uma metodologia adotada. Porém, infelizmente,
pesquisa em março de 2007. Para essa pes- algumas escolas ainda não despertaram para
quisa foram contatadas 52 escolas da rede a necessidade do trabalho de OP. Note-se que

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58 Levenfus, Soares & Cols.

57% das escolas não responderam à pesquisa, de uma escola particular de Porto Alegre (RS).
o que significa um descaso para a preparação Os resultados indicaram que 82,6% dos jovens
dos alunos em relação à sua futura inserção pesquisados optaram por estudar em determi-
no mercado de trabalho. nada escola devido à sua característica de pre-
O resultado dessa pesquisa muito me en- parar para o vestibular. Após o ingresso no co-
tristeceu quando comparado a uma outra, nos légio, 60,8% dos pesquisados afirmaram que o
mesmos moldes, realizada em 1990, quando interesse em ser aprovado na universidade fe-
iniciei minhas atividades junto à OP, em um deral aumentou ainda mais. A pesquisa apon-
curso pré-vestibular, quando 60% dos adoles- tou, também, que o motivo que os impedia de
centes relatavam que nunca haviam passado melhorar o desempenho era o fato de 58,6%
por nenhum tipo de OP. Ou seja, passados 18 deles não terem feito ainda sua escolha profis-
anos, pouco mudou no cenário da psicologia sional; 63% acreditavam que o simples fato de
escolar e da orientação educacional no que se estudar nessa escola e atingir a média mínima
refere à OP. Psicólogos e orientadores enfocam para aprovação já era o suficiente para garan-
variados aspectos do mundo escolar e esque- tir automaticamente a aprovação no concurso
cem (ou não priorizam) essa linda fatia que é vestibular e, consequentemente, sua inclusão
preventiva e sadia: a de preparar o jovem para no mercado de trabalho.
sua inserção no mercado de trabalho. A contemporaneidade e o início deste
A minha insistência na importância do novo século caracterizam-se como um tempo
trabalho de OP na escola privada de forma marcado por inúmeras mudanças sociais, eco-
curricular não é de hoje. As estatísticas de nômicas, culturais e políticas. Essa não é uma
transferência e evasão dos cursos de gradua- afirmação nova, assim como também não o
ção nas universidade/faculdades são aterro- é a de que as mudanças estão circunscritas a
rizantes. Além disso, a correlação existente um processo de mundialização da economia e
entre o desempenho escolar dos alunos e a de reestruturação da divisão internacional do
escolha profissional não vem sendo conside- trabalho, de desregularização dos mercados e
rada por uma parcela muito significativa de de modificação dos parâmetros de organiza-
escolas que tendem a observar os alunos de ção social e política.
ponta – os com maiores dificuldades ou os Ao serem discutidos e estudados por
bem-sucedidos – não dando tanta importân- profissionais da área, os processos de desen-
cia no olhar pedagógico aos alunos media- volvimento econômico e o conhecimento,
nos. O estudo objetivava a busca dos motivos frequentemente, são caracterizados como
que levavam o estudante de ensino médio a um dos principais fatores das novas formas
não procurar melhor desempenho cognitivo de organização social e econômica. Muitas
escolar e a se conformar com sua situação de vezes, é tido também como condicionante e
mediano. Considerando o fator conhecimen- gerador de desigualdades e exclusões.
to, foi pesquisado um grupo de adolescentes Freire, em seu livro Educação como prá-
do ensino médio proveniente de escola parti- tica da liberdade, caracteriza a sociedade bra-
cular. O tema focado foi o “aluno mediano”. sileira, a partir dos anos de 1960, como em
Ou seja, o que instiga um aluno a se manter transição. Considera a sociedade vigente
“medianamente”, a não se tornar melhor, como alienada, uma sociedade fechada, por-
com mais condições cognitivas de enfrentar que o centro das decisões está fora dela. É
as provas de vestibular, de se inserir no ensi- uma sociedade dirigida por uma elite que se
no superior e, por conseguinte, no mercado superpõe a seu mundo, uma elite que não
de trabalho, para, por fim, tornar-se um futu- está integrada à sociedade. Para Freire, tal
ro “agente de mudança”. estrutura dificulta a mobilidade social ver-
A amostra foi composta por 46 alunos tical, porque apresenta grandes índices de
de ambos os sexos, com idade entre 15 e 16 analfabetismo é colonial, antidemocrática,
anos, estudantes do 2o ano do ensino médio antidialogal, etc.

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Orientação Vocacional Ocupacional 59

Partindo dessa concepção da realidade cos. O ensino público só foi instaurado, e ainda
brasileira, Paulo Freire propõe métodos para assim de forma precária, durante o governo do
conduzir um processo educativo no qual nin- marquês de Pombal, na segunda metade do sé-
guém seja excluído. Buscando inspiração na culo XVIII. No século XIX, a alternativa para os
maiêutica socrática, pretende viabilizar uma filhos dos pobres não seria a educação, mas sua
pedagogia do processo educativo que inicia transformação em cidadãos úteis e produtivos
pelo diálogo, estabelecendo relações humanas na lavoura, enquanto os filhos de uma peque-
que possibilitem ao povo a elaboração de uma na elite eram ensinados por professores parti-
consciência crítica da realidade do mundo em culares, realidade que permanece até os dias de
que vive. Em outras palavras, o educando, no hoje, em pleno século XXI.
desenvolver do processo educativo, precisa to- A escola, pública ou privada, tem a fun-
mar consciência da realidade, isto é, conhecer a ção de desenvolver a capacidade geral de
realidade em que vive. pensamento e julgamento do aluno, pois o
O processo educativo não é transmis- que acompanha o ser humano até a velhice
são nem doação de conhecimentos, mas sim são as habilidades de deduzir, inferir, com-
participação, envolve educando e educador a parar e raciocinar, a partir de três fatores bá-
partir de uma situação concreta e desafiadora, sicos (cognitivo, afetivo e social), para que se
da qual devem brotar significações e valores estabeleça a identidade no desenvolvimento
para o educando. Nessa perspectiva, o pro- da personalidade, além da transmissão de
cesso educativo acontece a partir do diálogo, conhecimento. Para Piaget (citado por Ries,
durante o qual o educando é, desde o início, 1997), o conhecimento não é, em parte, in-
provocado pelo educador a despertar a cons- fluência do meio e, em parte, produto da
ciência para perceber e compreender a reali- herança; o conhecimento não está no sujeito
dade que o rodeia, a realidade em que vive. O nem no objeto nem no somatório dos dois,
processo educativo deve levar o educando à visto que, entre o sujeito e o objeto, existe a
conscientização do significado real das situa- ação, e é essa que lhe permite construir seu
ções vivenciadas por ele. conhecimento. Segundo o autor, o desenvol-
O principal conceito de Paulo Freire vimento cognitivo é um processo que se re-
privilegia a educação como forma de conhe- aliza em todo ser humano e tem um caráter
cimento que se processa por meio da cons- sequencial, isto é, ocorre em uma série de
cientização da realidade. Isso ocorre quando o estágios, sendo cada um deles necessário.
indivíduo estabelece relações com a realidade Logo, cada estágio resulta, necessariamente,
circundante na tentativa de desvelá-la, isto é, do precedente e, ao mesmo tempo, prepara
percebe a realidade e estabelece as mais di- o seguinte. Portanto, a diferença entre crian-
versas conexões existentes entre as diferentes ças e adultos é de natureza qualitativa, e não
situações possíveis. quantitativa. À medida que a criança desen-
A conscientização tem implicações po- volve sua inteligência, constrói estruturas
líticas e sociais, porque não basta desvelar a cognitivas progressivamente mais comple-
realidade, é necessário transformá-la. E, para xas e mais abrangentes, isto é, ela não se tor-
transformar, é necessária a ação prática sobre na mais inteligente enquanto se desenvolve,
a realidade. Então, desvelar a realidade é agir mas passa a apresentar um tipo de inteligên-
sobre ela, é o que, na filosofia, chamamos de cia diferente da do estágio anterior.
práxis (saber unir a teoria e a prática), quando Estudar não significa o que muitos pen-
o sujeito, a ação e o objetivo da ação são inse- sam e concebem como um simples sentar em
paráveis. bancos escolares e ouvir o que os professores
E qual é, efetivamente, o papel da escola transmitem para refletir, tal e qual, posterior-
e de seus orientadores? mente, em provas ou exames. Trata-se de uma
Desde o início da colonização, as escolas visão muito simplória, tradicional e passiva.
jesuítas eram poucas e, sobretudo, para pou- Pelo contrário, estudar é um ato que envolve

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60 Levenfus, Soares & Cols.

dinamismo e requer muito esforço por parte do Em virtude da problemática pela qual
estudante. Estudar é ação, ação transformadora, todo adolescente passa – elaboração dos lu-
libertadora e construtora de uma nova realida- tos, identificações, transitoriedade do perío-
de. Isso, de certa forma, aparece na pesquisa, na do –, por definição, a adolescência significa
qual nem todos os alunos possuem consciência “crise”. Os chineses, que sempre tiveram uma
de que eles são os agentes de mudança do futu- visão inteiramente dinâmica do mundo e uma
ro e que podem transformar o mundo. A ideia percepção aguda da história, parecem estar
que esses alunos passam é a de que falta muito cientes dessa conexão entre crise e mudança.
tempo para o agir, ou seja, estão no momento O termo que usam para “crise” – wei-ji – é
de acomodação, como fica evidente nos relatos composto dos caracteres “perigo” e “oportu-
de alguns alunos: “ano que vem eu penso no nidade”. Por ser essa uma crise vital – pela
vestibular”; “falta vontade”; “tenho preguiça, qual todos nós, adultos, já passamos, uns de
nunca serei o melhor”; “sei que não vou conse- forma mais acentuada que outros – possui a
guir ser um destaque”. conotação de normalidade.
O orientador, segundo Folberg (1986), Apesar da “crise” e dos conflitos, todo
deve desempenhar o papel daquele que per- adolescente é capaz de escolher. Para isso,
cebe o aluno como um todo, como um ser no entanto, é necessário que ele se conheça
em evolução, em marcha para a maturidade. (gostos, interesses, expectativas) e se motive
Volta-se para a realidade biológica, social, psi- a buscar informações a respeito de seu desejo
cológica e vocacional do orientando e ajuda-o quanto à escolha profissional.
a melhor realizar-se e integrar-se no proces- Com as pesquisas realizadas, os estudos
so geral do viver como autêntico cidadão, no teóricos e as experiências com os adolescentes,
contexto social em que tem de atuar. Confor- penso que urge um trabalho de conscientiza-
me Super (citado por Pelletier, 1985, p.12): ção das autoridades (diretores, supervisores,
orientadores, psicólogos e professores) e das
[...] o papel do orientador consiste escolas da rede privada, a fim de dar uma es-
em auxiliar o indivíduo não só a desen- cuta maior ao trabalho de OP.
volver uma imagem verdadeira de si A seguir, apresento a filosofia que norteia
mesmo e do mundo do trabalho, mas em e o modelo de OP realizado de forma curricu-
auxiliá-lo também a verificar essa ima- lar e extracurricular, em uma escola privada
gem em contato com a realidade e atua- de Porto Alegre; escola que tem por propósi-
lizá-la de modo satisfatório. Ajuda-o, em to ser um espaço social onde o construir da
particular, a compreender para onde vai, educação do indivíduo não pode perder de
isto é, as etapas pelas quais deve passar, vista as ansiedades e os conflitos inerentes à
os fatores capazes de influenciar suas de- própria transformação física e psicológica que
cisões quanto à carreira, a natureza das o aluno está passando. Faz-se necessário não
tarefas de que deve desincumbir-se para prescindir de objetivos claros que garantam
conseguir uma adaptação vocacional a aquisição de competências e de habilida-
satisfatória, a maneira de cumprir essas des necessárias ao aprimoramento intelec-
tarefas e as condições que facilitam ou tual, forjadoras de um cidadão crítico e au-
dificultam seu desempenho. tônomo, capaz de participar e interferir no
mundo em que está inserido.
Super (citado por Pelletier, 1985, p. 38) Assim, a escola está comprometida com
salienta ainda que o “desenvolvimento voca- uma formação que se caracteriza pela inten-
cional é um processo que se estende da infân- cionalidade, pela sistematização e pela or-
cia até a velhice”. Ele se desenrola de maneira ganização de conteúdos de ensino, de forma
ordenada, previsível, dinâmica, visto que re- a preparar o educando para a construção do
sulta da interação entre os conhecimentos do conhecimento, para a responsabilidade, para a
indivíduo e as solicitações da cultura. liberdade, para o trabalho, para a solidarieda-

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Orientação Vocacional Ocupacional 61

de e para a cidadania. O currículo da institui- a família o trabalho desenvolvido pela


ção possui garantia da universalização do sa- escola, convidando-os a serem parcei-
ber e de sua socialização, elevando o nível de ros, orientando e ajudando seus filhos
compreensão por parte do alunado e a do fim no processo da escolha profissional.
maior da educação: o pleno desenvolvimento • Palestra para os alunos do 2o ano: tam-
da pessoa, seu preparo para o exercício da ci- bém ocorre no início do ano, de pre-
dadania e sua qualificação para o trabalho. ferência, no mesmo instante em que
ocorre a dos pais. O colégio convida
MODELO DE ORIENTAÇÃO um profissional para conversar com
PROFISSIONAL – ENSINO MÉDIO os alunos sobre escolha profissional,
vestibular, possibilidades de inserção
no mercado de trabalho e novos cursos
Procedimentos
de graduação oferecidos pelas univer-
Atendimento individual, coletivo e siste- sidades. Essa palestra tem por objetivo
mático aos alunos do ensino médio para que estimular e motivar os jovens quanto a
se conscientizem da importância de uma ade- seu futuro profissional.
quada escolha profissional. • Dinâmicas de grupo: de sensibilização
e de promoção de autoconhecimento –
Execução “Quem sou eu?”. Um dos aspectos mais
importantes dessa fase social e moral
• 2o ano do EM – Curricular: de março está relacionado à busca da identidade.
a setembro, encontros coletivos sema- Alguns autores chamam-na inclusive
nais. A partir de setembro até o final do de “drama da adolescência”, ou seja, re-
ano letivo, encontros individuais. solver o “Quem sou eu?”. A identidade
• 3o ano do EM – Extracurricular: no pessoal é a consciência de si mesmo, é
transcorrer do ano letivo, encontros a coordenação das próprias experiên-
individuais. cias e das expectativas de futuro, é a
apresentação de si mesmo aos outros.
Recursos Didáticos A identidade pessoal forma-se a partir
da história de cada um, de suas expe-
• Palestras para os pais dos alunos do 2o riências, da construção de suas teorias,
ano: no início do ano letivo é feita uma dos instrumentos para a sua relação
reunião com os pais, ocasião em que é com a sociedade adulta, da assimilação
apresentado o projeto do trabalho de das ideologias que caracterizam a so-
OP que será desenvolvido na escola, ciedade. Exemplos de dinâmicas: “Do
bem como uma palestra ministrada por que gosto e do que não gosto?”. Téc-
um profissional convidado que atua na nicas dos “bombons”1, do “Espelho”2,
área de OP. O objetivo é estender para

1
Ver técnica dos bombons no Capítulo 25 deste livro.
2
Técnica do Espelho: Técnica que objetiva trabalhar questões de autoconhecimento e autoimagem. Para
a realização dessa técnica, há a necessidade de dois técnicos: o primeiro permanece com o grupo e dá as
devidas orientações sobre o procedimento, anotando as percepções trazidas e demonstradas pelos alunos; o
segundo fica do lado externo da sala, aguardando os alunos individualmente. O primeiro informa que cada
aluno sairá da sala e será apresentado uma figura; e posteriormente, cada um deverá falar sobre ela para
o grande grupo. A figura é o próprio aluno, seu reflexo no espelho. A técnica é finalizada apresentando o
conto “O Espelho” (Assis, 1998, p. 41) que diz:
Jacobina – personagem central do conto – toma a palavra e, em primeira pessoa, revela como descobriu sua
verdadeira essência, isto é, como reconheceu sua própria identidade ao vestir uma farda de alferes. O relato
é feito a partir da imagem de duas metades de uma mesma laranja que constituí, em última instância, as
duas almas humanas – a interior e a exterior.

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62 Levenfus, Soares & Cols.

dos “Autógrafos”3, da “Bandeira”4, das pastas individuais ao longo do ano leti-


“Colagens”5, etc. vo, facilitando a análise do orientador,
• Frases incompletas de Bohoslavsky.6 oportunizando um momento de autor-
• Autobiografia.7 reflexão do orientando em relação a seus
• Técnicas Informativas: DVDs que tra- gostos, interesses e motivações referen-
tam do assunto; material didático como tes às profissões, e por fim, permitindo
Guia do estudante; encartes de jornais, ao aluno fazer sua opção.
revistas. Trabalho de campo, visita dos
alunos às universidades – salas de au- A cada início de ano letivo, no 3o ano do
las, laboratórios, biblioteca, CPD, etc. EM todos os alunos são chamados a participar
Visita a locais de trabalho, troca entre os de uma entrevista de sondagem sobre sua es-
pais de alunos. colha profissional, a fim de serem agrupados
• Feira das Profissões: tem por objetivo em três situações distintas: já decididos, em
propiciar maior contato dos estudan- fase de decisão e totalmente indecisos. Para
tes que estão em processo de escolha qualquer um dos três casos é aberta a possi-
profissional com os profissionais das bilidade de participar de uma “reorientação”,
mais diferentes áreas de atuação. Para em horário extracurricular, em grupos de até
tanto, são convidados pais, ex-alunos 10 alunos. Em nossa experiência, devido ao
da escola, alunos de universidades trabalho que realizamos em OP ao longo do
e de faculdades, com o propósito de ano letivo, junto aos alunos do 2o ano, são
conversar com os alunos interessados poucos os que procuram uma reorientação.
sobre curso específico, esclarecendo as Os que procuram, geralmente, são casos de
dúvidas quanto ao currículo, atrativos encaminhamentos para profissionais da área,
da carreira, do mercado de trabalho e a fim de trabalhar questões como ansiedade,
de experiências pessoais sobre o dia-a- conflitos, baixa autoestima, etc.
dia do exercício da profissão. Conclui-se que, mesmo passados 500
• Observação e devolução: todas as obser- anos de nosso descobrimento, a educação bra-
vações dos encontros são agrupadas em sileira continua sendo de Terceiro Mundo, sub-

3
Técnica dos Autógrafos: Objetiva instigar a competição, situação essa inerente ao processo seletivo – ves-
tibular e mercado de trabalho. Ensina que toda conquista pressupõe doação e que sem a ajuda de nossa
espontaneidade pouco pode ser obtido, principalmente no que se refere ao relacionamento interpessoal no
futuro mercado de trabalho. Cada aluno recebe uma folha em branco cujo propósito é conseguir o maior
número de autógrafos possíveis em um tempo de 10 minutos. Depois, os alunos revelam suas impressões
e como se sentiram nesse processo de busca e de ser interpelado por alguém. Número de participantes: 15
a 20 (Antunes, 1991, p.77).
4
Técnica da Bandeira: Técnica extraída do livro Aprendendo a Ser e a Conviver, na qual cada aluno toma consciên-
cia dos seus valores, habilidades e limitações, facilitando o autoconhecimento e a reflexão. É entregue aos alu-
nos uma folha na qual consta uma bandeira desenhada, dividida em seis partes, que o aluno deve preencher
respondendo às respectivas perguntas: a) Qual sua melhor qualidade?; b) O que gostaria de mudar em você?;
c) Qual a pessoa que você mais admira?; d) Em que atividade você se considera muito bom?; e) O que mais
valoriza na vida?; f) Quais as dificuldades que você encontra em trabalhar em grupo?. A atividade com a
bandeira leva em torno de 20 minutos e, após, deve ser compartilhada com os demais colegas de sala de aula.
(Baleeiro, 1999, p.83)
5
Técnica da Colagem: Técnica aprendida no curso oferecido pelo SOP(UFRGS) e adaptada pelas estagiárias
do setor de psicologia. Objetiva um confronto com a problemática profissional. Cada aluno recebe uma fo-
lha A3, a qual eles dividem em dois lados, além de revistas, jornais, tubos de cola, canetas coloridas. Em um
dos lados solicita-se que sejam coladas fotos, reportagens, cenas, palavras, frases que revelem a situação,
o momento atual; no outro, que revelem a situação na qual eles se imaginam no futuro, por exemplo, dali
sete anos, tempo mínimo para a finalização do ensino médio e da graduação, momento em que estarão se
inserindo no mercado de trabalho. Finaliza-se com uma apresentação para o grande grupo, quando é feita
a análise final pelo orientador.
6
Ver Capítulo 18 deste livro.
7
Ver Capítulo 24 deste livro.

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Orientação Vocacional Ocupacional 63

desenvolvida, pois ainda é a da sociedade dos Além dessas atividades, no percurso das
excluídos. Mesmo após a nova LDB ter criado diversas definições da adolescência e nas apro-
políticas para a inclusão, dando autonomia e li- priações do termo, pode-se sintetizar o adolescer
berdade às escolas de criar educação dentro da como a busca de um lugar, tarefa historicamente
sua realidade, do seu contexto, ainda estamos agenciada sem duração determinada, ambígua,
engatinhando nesse processo. Neste vasto país, que remete o adolescente a inúmeras indaga-
temos vários “brasis”. No contexto geral das ções e à vasta busca de respostas próprias para
escolas privadas, temos diversos alunos com valores, relações, profissão. Além disso, no que
um único ou principal objetivo: a aprovação diz respeito especificamente à escolha da profis-
no vestibular. Enquanto isso, a grande maio- são, ela vem acompanhada dos terríveis exames
ria dos alunos brasileiros ainda não conseguiu vestibulares e da percepção de uma suposta de-
concluir o ensino fundamental. cepção com o mundo adulto, sem possibilida-
Essas são duas faces dos muitos “brasis”. des de inserção no mundo do trabalho.
Enquanto na escola particular a preocupação Ter espaço na escola para discutir e orien-
concentra-se no desempenho dos alunos fren- tar o profissional do futuro – não só como
te ao desafio dos exames vestibulares, grande aquele capaz de exercitar e aprimorar cons-
parte da juventude brasileira não frequenta a tantemente seu “marketing pessoal” no fluxo
escola e, assim, aumenta significativamente os acelerado do empreendedorismo, da compe-
índices de exclusão. titividade, do darwinismo social e do indivi-
Consideramos importante o olhar lançado dualismo – é iniciar um trabalho cujo efeito se
sobre a escola cujos alunos corresponderam ao estende para além do êxito de uma escolha de
nosso estudo e nos ofereceram elementos para curso adequada. Nesse sentido, atividades que
analisarmos o porquê de não se sentirem mo- discutam conceitos como democracia, justiça
tivados à luta por melhor desempenho, tendo social, solidariedade e responsabilidade com-
em vista as oportunidades que lhes são ofereci- partilhada parecem adequadas e enriquecedo-
das. Portanto, cabe à escola uma preocupação ras à experiência de um programa de OP.
maior em criar projetos, atividades em OP di- Em suma, não se pretende aqui encerrar
recionadas, envolventes e prazerosas para es- esse estudo, mas sim instigar profissionais de
ses alunos, para que motivem-se a progredir na diferentes áreas a se aprofundarem ainda mais
direção do sucesso, para que não desanimem, nessa questão, abordando outros aspectos,
evitando o aumento dos índices de fracasso, de como “a influência das relações familiares no
evasão escolar e, consequentemente, de trans- impedimento do processo de ensino-apren-
ferência em cursos de graduação. dizagem” ou “aspectos patológicos que blo-
Sabe-se que as atividades não devem, queiam a aprendizagem”. Tais aspectos não
e não podem, privilegiar a “memorização do são abordados no presente estudo, embora
conteúdo”: devem ser significativas para os sejam de extrema importância para a compre-
alunos. Ao contemplar as disciplinas de Filo- ensão do desempenho do “aluno mediano”
sofia e Sociologia, agora obrigatórias nos cur- e para a temática da OP. O ser humano, com
rículos das escolas de ensino médio, estamos efeito, transforma o mundo pela ação social do
certos de que podem e devem contribuir com trabalho. Nada mais coerente que a escola, des-
os chamados temas transversais. A escola ins- de sempre e em vários níveis de seu currículo,
tigará não só a motivação extrínseca, mas a preocupe-se com a orientação profissional de
intrínseca também, objetivando uma maior seus alunos e que o faça de forma abrangente,
troca de diálogo entre educador e educando e garantindo a eles a possibilidade de se torna-
estimulando o processo de conscientização do rem, efetivamente, agentes de mudança e cons-
pensar, de acordo com as ideias de Paulo Frei- trutores de uma sociedade mais ética, justa e
re para que o aluno saia da posição cômoda e mais humana.
parta para a ação.

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64 Levenfus, Soares & Cols.

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5
Orientação profissional em grupo na escola pública
direções possíveis, desafios necessários

Luciana Albanese Valore

Este capítulo tem como propósito com- Inicialmente, é importante situar esse
partilhar algumas reflexões referentes ao pro- tipo de intervenção no contexto mais amplo
cesso de Orientação Profissional no contexto das diferentes atuações que configuram o de-
da escola pública, a partir da experiência de- nominado “fazer psi”.1 É preciso deixar claro
senvolvida em um projeto de extensão uni- que psicólogo se tem em perspectiva e, tendo
versitária da Universidade Federal do Paraná, em vista que o assunto é orientação profissio-
junto a estudantes do ensino médio da rede nal, torna-se oportuno tentar delinear os con-
pública e privada do Estado. tornos que circunscrevem a identidade profis-
Ao sermos procurados para supervisão sional desse orientador profissional.
em OP, é comum ouvir como primeira per- Para os propósitos deste texto, parece-
gunta: “Que técnicas devo utilizar?”. Natural- nos suficiente afirmar que a identidade profis-
mente, diante de um novo trabalho, nossas sional constrói-se em um processo contínuo,
inquietações iniciais costumam girar em tor- passível de revisão e de constantes ressigni-
no das ferramentas de que iremos dispor para ficações, definindo-se, essencialmente, pelo
obtermos êxito em nosso empreendimento. tipo de compromisso, de ideal e de meta com
Contudo, antes de nos propormos a tirar qual- os quais o profissional vincula-se e identifica-
quer coelho de dentro da cartola (se é mesmo se.
que tal coelho está lá!), é preciso considerar a Sendo assim, considerando o que se tem
natureza e a razão de ser de tais ferramentas, discutido nos recentes eventos e publicações
articulando-as ao método do qual decorrem e, que tratam da formação em psicologia2, vis-
sobretudo, aos objetivos do profissional que lumbramos um profissional comprometido,
as utiliza. essencialmente, com a promoção de saúde,

1
Embora estejamos nos referindo ao psicólogo no papel de orientador profissional, cabe lembrar que a atuação
em OP não se restringe aos profissionais de psicologia, podendo ser exercida também pelo orientador educa-
cional. Fundamental, em qualquer caso, é a formação específica nesse campo de intervenção, em geral obtida
por meio de estágios profissionalizantes e de cursos de especialização. Tal formação deverá garantir a com-
preensão dos fundamentos e o domínio das estratégias que configuram o método clínico em OP, proposto
no presente capítulo. Nessa perspectiva, torna-se igualmente necessária uma formação em psicanálise, pois,
como se verá adiante, o método clínico vincula-se aos princípios formulados pela teoria psicanalítica. Além
disso, considerando-se as especificidades que envolvem a formação do psicólogo e a do pedagogo, parece-
nos ser sempre interessante pensar na OP como um campo de atuação interdisciplinar, envolvendo ambos
os profissionais tanto quanto os de áreas afins à temática da escolha profissional e de suas articulações com a
sociedade e com o mercado de trabalho, como o sociólogo, o economista e o administrador.
2
Novamente, cabe ressaltar que a referência ao campo da psicologia ocorre em função de nossa área de atua-
ção. Reflexão semelhante torna-se recomendável no que concerne à formação em pedagogia.

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66 Levenfus, Soares & Cols.

como bem colocam Bock e Aguiar (1995), com lação homem-trabalho-sociedade, os múltiplos
a superação de subjetividades heterônomas determinantes da escolha e o peso que lhes atri-
e com a explicitação das crescentes situações buímos, as indagações que nos faremos a res-
de exclusão predominantes na sociedade con- peito do objeto de intervenção serão diferentes.
temporânea. Nessa perspectiva, tem-se como Por qual prisma olhar: a escolha da profissão ou
ideal um psicólogo comprometido com a cria- a construção de uma identidade profissional? O
ção de novos canais de comunicação e com “o que fazer” ou o “quem ser”? As aptidões e os
o desenvolvimento de relações comunitárias interesses ou o sujeito como um todo? A carrei-
mais cooperativas. ra ou o projeto de vida?
Isso posto, pensamos que, da definição Baseados em nossa experiência e nos
dos objetivos que vêm norteando a práxis do trabalhos de renomados estudiosos em OP,
psicólogo, podem-se configurar os objetivos como Bohoslavsky (1991), Levenfus (1997),
dessa práxis quando ela assume a forma de Super (1957), Soares-Lucchiari (1993), Lisboa
um processo de OP. Como agente de mudan- (2000), entre outros, entendemos que o obje-
ças das relações sociais e do modo como o to de estudo e de intervenção em OP consiste
sujeito se posiciona quanto ao seu querer, na identidade profissional, a qual não remete
teremos que assumir que o lugar ocupado apenas ao “o que fazer” – como conjunto de
pelo orientador profissional, seja um psicó- tarefas ocupacionais predeterminadas –, mas
logo seja um orientador educacional, será o ao “quem ser e quem deixar de ser”, integran-
de instrumentalizador (um dos) da aprendiza- do-se à identidade pessoal mais ampla. Pensa-
gem da escolha da profissão e das transformações mos que a identidade profissional consiste em
pessoais nas relações do sujeito consigo mesmo e uma posição subjetiva diante da vida, do mundo
com seus ideais, com o outro e com o mundo que e de seu papel nesse mundo. Tal posição é cons-
o cerca. truída por meio das relações interpessoais e
A premissa de que o orientador profis- deriva de uma série de princípios, valores e
sional opera como instrumentalizador da es- posturas – ora reconhecidos, ora desconheci-
colha coloca-nos frente à questão do método dos pelo sujeito – os quais, ao serem articula-
a ser utilizado em OP. Não é nosso objetivo dos com o ideal de cada um, constituirão um
alongarmo-nos nessa temática, proficuamen- “projeto de vida”.
te abordada em outros capítulos neste livro; Uma vez escolhido o prisma, será possí-
apenas gostaríamos de assinalar alguns pon- vel definir a lente com que conduziremos nos-
tos que norteiam nosso trabalho de OP em es- sa tarefa. Na perspectiva aqui assumida, tra-
colas, a fim de torná-lo mais claro ao leitor. ta-se do método clínico, tal como foi proposto
por Bohoslavsky (1991) em sua contraposição
OBJETO DE INVESTIGAÇÃO E DE à modalidade estatística em OP.
INTERVENÇÃO EM OP
Fazer clínica na escola?
No processo de OP, concebemos o méto-
do de intervenção como algo que, mais do que A opção pelo método clínico em OP, no
um conjunto de procedimentos, representa contexto da escola, pode suscitar mal-entendi-
uma estratégia do pensamento3, uma articu- dos entre os quais o de se conceber tal trabalho
lação de conceitos e de proposições que confi- como um processo psicoterapêutico. Parece-
gura um objeto de estudo e permite uma dada nos importante, para evitar possíveis equívo-
análise. Disso resulta que, para se poder esta- cos e frustrações quanto aos resultados preten-
belecer o método em OP, é preciso perguntar- didos e alcançados, que tanto a escola quanto o
se acerca de seu objeto. próprio orientador profissional tenham claros
Dependendo de como concebemos o lugar os limites entre uma e outra proposta.
ocupado pela profissão na vida de alguém, a re-

3
Esta concepção é retirada do pensamento de Foucault, sendo abordada em sua obra História da Sexualidade
vol.1 A Vontade de Saber(1999).

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Orientação Vocacional Ocupacional 67

Se, por um lado, não há como negar fins terapêuticos, fundamentado na psicopa-
as interfaces entre os processos, posto que a tologia). É útil também para se fazer o enqua-
OP pode produzir efeitos terapêuticos4 e, em dramento5 da intervenção em uma situação
certo sentido, guarda proximidade com a psi- institucional distinta da do consultório. Desse
coterapia focal, e que a psicoterapia implica modo, a intervenção nos grupos não seguirá
igualmente a revisão das escolhas pessoais, os moldes tradicionais da intervenção de um
por outro, não se pode sobrepor um tipo de psicanalista em situação de análise individual
intervenção a outro. Os objetivos, o manejo ou coletiva. O que aí se preserva, na medida
dos processos psíquicos (aí implicada a ques- do possível, em que o processo grupal de OP
tão da transferência), as intervenções e a pos- em uma escola assim o permita, é um certo
tura do coordenador dos grupos são distintos distanciamento por parte do orientador pro-
em cada situação. fissional, uma “dissociação instrumental”6, do
Além disso, a OP realizada na modali- imaginário grupal. Todavia, sua atitude tende
dade clínica apresenta um caráter psicopeda- a ser muito mais participativa e, por vezes,
gógico, uma vez que se propõe a auxiliar na diretiva.
aprendizagem da escolha da profissão. Mas, Se pensamos em um orientador profis-
então, como conceber o termo “clínico”? sional comprometido com a promoção da
Bohoslavsky (1991) tece várias conside- saúde e com tudo mais o que postulamos
rações relevantes a propósito dessa questão. anteriormente, vemos que, em contraposição
Não é nosso objetivo aqui retomá-las, e sim à modalidade estatística em OP, o método
sinalizar que, por “clínico”, entendemos uma clínico, com sua implicação ética de respeito
estratégia de escuta, uma determinada aborda- ao desejo do outro, atende mais satisfatoria-
gem do objeto de intervenção que considera os mente aos ideais que norteiam a intervenção
aspectos inconscientes determinantes da posi- do psicólogo na sociedade contemporânea,
ção subjetiva frente à problemática da escolha. pois lhe permite propiciar condições para
Nesse sentido, em nosso trabalho, valemo-nos que o orientando possa redimensionar suas
da escuta clínica psicanalítica para compreen- escolhas, seus ideais, seus interesses e suas
der o universo singular de cada orientando potencialidades, considerando o que possa
em seu processo de escolha, de crescimento e vir a conhecer de si e do chamado “mundo
de construção da sua identidade e do seu pro- do trabalho”, e o que possa vir a reconhecer
jeto de vida, bem como para poder discernir de si pela via das identificações nesse mundo.
os meandros do acontecer coletivo. A escuta Além disso, por meio do trabalho em grupo,
clínica revela-se um valioso instrumento no o orientando poderá vir a aprender novas for-
trabalho com a resistência, entre outros me- mas de se comunicar e de se relacionar com o
canismos psíquicos, e com os boicotes (tantas outro, em um rico exercício de inserção social.
vezes observados no processo de OP) frente às Ao se trabalhar com a ideia de um projeto de
angústias suscitadas pelo/no movimento de vida, e não apenas com a de um curso a ser
tornar-se “gente grande”. escolhido por ocasião do vestibular, oferece-se
Em certa medida, pode-se afirmar que ao orientando a oportunidade de exercer um
o referencial clínico psicanalítico serve, exa- papel comprometido e responsável, tanto na
tamente, em seu caráter de referência, para se construção de seu destino individual quanto
pensar a dinâmica da escolha profissional e no da comunidade em que se insere.
a implicação de cada orientando em relação São exatamente esses nortes da atuação
ao processo de OP (sem qualquer pretensão psicológica, ao mesmo tempo tão gerais (a
de se fazer um estudo psicodiagnóstico com ponto de permitir a descrição de uma catego-

4
Como o do autoconhecimento e o da mudança pessoal (aspectos bem observados por Müller, 1988).
5
Retornaremos a este ponto na discussão referente aos procedimentos.
6
O conceito de “dissociação instrumental” foi desenvolvido por Bleger (1984) e refere-se a uma atitude clíni-
ca a ser mantida pelo psicólogo, a qual irá lhe permitir, por um lado, identificar-se com os acontecimentos
ou com as pessoas; por outro lado, irá lhe possibilitar manter certa distância, a fim de que não se veja pes-
soalmente implicado nos acontecimentos que devem ser estudados.

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68 Levenfus, Soares & Cols.

ria profissional) e tão singulares (posto que se vorecendo a compreensão do papel


redefinem em cada ato de intervenção, segundo social que cada profissional exerce em
as representações particulares que cada psicólo- um determinado cenário (como algo
go constrói acerca de sua prática, de si e desse si que não está dado de saída, mas que
em prática; que determinam os procedimentos se constrói continuamente na relação
e as técnicas de seu fazer). Nesse sentido, não dialética entre o profissional e a comu-
se iluda: não há receita pronta. É justamente nidade), e possibilitando a superação
isso o que torna este trabalho tão gratifican- da postura individualista passiva pela
te. Os procedimentos são criados conforme o postura cooperativa e comprometida
contexto e o que se espera dele. Além disso, com o outro.
há que se considerar o que o próprio contex-
to deseja para si próprio. Tendo isso em vista, A inserção institucional do trabalho de
apresentamos a seguir – a título de inspiração OP oferece oportunidades extremamente fér-
- algumas ideias para se pensar em uma pro- teis que podem contribuir para a ampliação
posta de OP em grupo, para alunos do ensino do alcance da intervenção psicológica, valo-
médio, na escola pública. rizando, inclusive, aos olhos da comunidade
como um todo, a presença – geralmente rara
– do psicólogo na escola. O mesmo pode ser
PROPOSTA DE OP PARA AS ESCOLAS dito quanto ao orientador educacional, pois,
PÚBLICAS embora normalmente faça parte da equipe
pedagógica, nem sempre encontra-se atuando
Objetivos principais da OP na escola em OP. Assim, junto à realização dos grupos
pública de OP, parece-nos bastante viável, e desejável,
que o orientador profissional trabalhe visan-
Ancorados no objetivo central da OP – do a oportunizar, para os educadores, a reflexão
instrumentalizar a escolha e a construção da acerca da problemática da escolha profissio-
identidade profissional pela via do autoco- nal e do papel por eles exercido na construção
nhecimento e da articulação entre o conheci- da identidade de seus alunos, possibilitando
mento dos aspectos implicados no “mundo um lugar de fala e de escuta também para a
do trabalho” e o universo subjetivo de cada escola.
orientando –, no contexto da escola pública,
caberia propor alguns outros objetivos igual-
mente relevantes: PROCEDIMENTOS DE INTERVENÇÃO:
• Oportunizar a análise dos mitos con- Como oferecer a proposta de OP para a
cernentes ao sucesso – ou ao fracasso – escola?
profissional de estudantes provenien-
tes de escolas públicas. Quer a iniciativa de desenvolver uma OP
• Favorecer e exercitar o processo de es- seja do orientador profissional, quer surja da
colha, de tomada de decisões, em uma escola, é sempre conveniente estabelecer um
comunidade que, geralmente, repre- contrato de trabalho, um “enquadramento da
senta-se a si própria como “não tendo tarefa”7, a fim de aparar algumas arestas que
escolha”. rondam o imaginário institucional e – por que
• Contribuir para o desenvolvimento de não – também o do próprio orientador pro-
uma postura ativa na busca de infor- fissional a respeito desse tipo de intervenção.
mações. Para ambas as partes, torna-se fundamental ex-
• Propiciar a reflexão acerca das rela- plicitar os objetivos da OP, o método utilizado
ções homem-trabalho-sociedade, fa- e o alcance possível da intervenção realizada.

7
Esta noção é retirada de Bleger (1984), que a define como sendo a tentativa de tornar constantes as variáveis
presentes em cada situação particular de intervenção.

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Orientação Vocacional Ocupacional 69

Naturalmente, tanto o cronograma quanto o pletamente seguros quanto à carreira


planejamento das atividades devem permitir escolhida, parece-nos mais realista e
flexibilidade em respeito à dinâmica de cada desejável que eles possam aprender
grupo. Embora a previsão quanto ao desen- a escolher, aprender sobre si e sobre
rolar do processo e aos resultados obtidos não seus limites, sobre a realidade social/
seja totalmente possível, convém, contudo, profissional e sobre sua inserção nessa
sempre oferecer uma estimativa acerca das realidade. A segurança advém dessa
expectativas que se tem e das possibilidades etapa prévia. Finalmente, cabe refletir
com que se conta para poder concretizá-las. a respeito do caráter voluntário da par-
Em outras palavras, o que se pode prometer ticipação dos orientandos nos grupos:
para a escola e para os orientandos é o com- se um dos objetivos da OP é o desen-
promisso de se fazer um trabalho bem feito, o volvimento de uma postura autônoma
qual não depende apenas da boa vontade do diante da escolha, não há sentido em
orientador, mas, principalmente, da implica- obrigar alguém a fazer aquilo que, no
ção de todos os que estão, de alguma forma, momento, não pode assumir como sen-
envolvidos com o processo. Nesse sentido, é do seu desejo. É claro que, pensando-se
importante deixar claros alguns pontos: sobretudo nas turmas de ensino fun-
damental, pode-se propor um trabalho
• A eficácia de um trabalho conjunto psi- obrigatório, voltado a todos os alunos
cólogo-escola: quanto maior a partici- de uma mesma turma (às vezes, isso
pação desta – na sensibilização dos pode ser feito em conjunto com algum
alunos, na viabilização dos recursos e professor). Várias atividades de sen-
no desenvolvimento de atividades pa- sibilização para as ocupações e para a
ralelas aos grupos de OP8 –, melhores escolha são feitas assim. Todavia, caso
serão os resultados. do presente artigo, trataremos exclusi-
vamente da condição de grupos de OP
• Os principais pressupostos da modalidade com voluntários.
clínica de OP e as expectativas que EXIS- • O número de vagas, a clientela (alunos de
TEM quanto aos resultados: sem dúvida, todas as séries), os procedimentos de divul-
é da competência do orientador profis- gação e de inscrição para os grupos, as eta-
sional definir os rumos metodológicos pas e o cronograma do processo de OP, os
de sua intervenção; contudo, parece- recursos a serem utilizados, os horários e os
nos ser bastante relevante explicar o honorários: Existe uma série de detalhes
porquê da escolha deste método e não técnicos e operacionais os quais preci-
de outro. Muitas vezes, a demanda da sam ser tratados em uma primeira con-
escola e dos próprios alunos é a de que versa, sendo bastante interessante fazer
ele aplique algum teste milagroso, a um planejamento conjunto a respeito
partir do qual se possam profetizar as deles. Nesse sentido, pode-se apre-
verdadeiras vocações. Convém, por- sentar posteriormente uma proposta
tanto, desmistificar o uso exclusivo escrita contendo esses itens. Outra al-
dos inventários de interesses e das ternativa é montar um mural na sala
baterias de aptidões, apresentando à dos professores com o cronograma da
escola as vantagens da utilização de OP e com recortes de jornais, revistas,
outros instrumentos (testes projetivos, etc., concernentes ao tema. A finalida-
de personalidade, dinâmicas de gru- de do mural é motivar o envolvimento
po, discussões, etc.). Um outro ponto dos professores, embora não se dispen-
a ser mencionado refere-se ao objeti- se uma reunião prévia de apresentação
vo da OP: mais do que esperar que os da proposta. Um ponto que costuma
orientandos finalizem o processo com- ser questionado refere-se ao número de

8
Sugestões destas atividades encontram-se adiante.

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70 Levenfus, Soares & Cols.

orientandos por grupo (em nossa expe- tucional, da psicodinâmica de seu funciona-
riência, temos observado que o número mento. O conhecimento das representações
máximo desejável de integrantes não (que os alunos têm de si, da vida e do tra-
deve passar de 12-14). Normalmente, balho) e das expectativas construídas pelos
a escola espera um número maior, o docentes quanto ao sucesso-fracasso profis-
que certamente inviabiliza a eficácia sional dos alunos pode ser valioso a fim de
de uma OP conduzida na modalidade se planejar, mais criteriosamente, uma OP.
clínica. É conveniente, então, assumir Por fim, cabe considerar que esse “enqua-
frente à escola o compromisso com a dramento da tarefa” é algo a ser confirmado
qualidade. em diversas ocasiões, e não apenas em uma
• Benefícios para os orientandos e para a pró- conversa inicial. A sua importância reside em
pria escola com a implantação de um servi- tentar se firmar, de comum acordo, algumas
ço de OP: no caso de a OP ser conduzi- bases de atuação.
da pelo psicólogo e de a escola nunca
ter tido um profissional atuando nessa Approach aos interessados: procedimentos
área, um dos principais pontos a serem de divulgação e de sensibilização
tratados, inicialmente, remete à apre-
sentação da própria Psicologia. Por A apresentação da proposta de OP para
que e para que um psicólogo na escola? os alunos pode ser feita contando com re-
Psicólogo não faz só terapia? Esclarecer cursos diversos: palestras, murais, cartas
essas questões, tentando apontar os be- pessoais, folders, exposição em sala de aula,
nefícios trazidos pela OP para os alu- reuniões com grupos de alunos durante o
nos – sobretudo no que se refere a seu recreio, entre outros. Além disso, resulta de
amadurecimento pessoal, ao exercício forma interessante o uso de procedimentos
de troca com o grupo, à autoestima e de sensibilização para a problemática da es-
à motivação para envolver-se com os colha profissional, como filmes seguidos de
estudos – é fundamental. Para tanto, debates, elaboração de teatros (com os pró-
o próprio psicólogo precisa ter claro o prios alunos ou com a colaboração de alunos
que está fazendo e em que pode con- que já tenham participado da OP), discussão
tribuir: daí a importância de uma for- em sala de aula nas diferentes disciplinas (no
mação consistente para atuar em OP caso de um trabalho articulado aos professo-
e da reflexão constante quanto às im- res). O importante nesse approach é o orien-
plicações de tal atuação. Muitas vezes, tador profissional mostrar a cara, dizer a que
uma supervisão com outro profissional veio e em que acredita ao propor tal processo
pode ajudar. e, em se tratando do psicólogo, desvincular
a OP da ideia de terapia grupal, procurando
A apresentação desses itens, nunca é desmistificar o pré-conceito de que psicólogo
demais lembrar, pressupõe igualmente, por é coisa para louco.
parte do orientador profissional, uma escu- Nessa etapa, é oportuno retomar com
ta. Assim, a ocasião do contrato de trabalho os alunos os principais itens componentes do
revela-se bastante rica para efeitos de um “enquadramento da tarefa” antes proposto.
diagnóstico preliminar do funcionamento Naturalmente, por mais claras que sejam as
da escola, no caso de o orientador não fazer informações prestadas, o imaginário de cada
parte dela. Nesse sentido, é proveitoso ouvir um se encarrega de distorcê-las ao seu bel-
e perguntar muito: sobre a escola, sobre os prazer. Por isso, muitas serão as ocasiões em
professores, sobre as atividades curriculares que o orientador terá de repeti-las com outra
e extracurriculares desenvolvidas, sobre a linguagem. O intuito dessa etapa é o de possi-
clientela e sobre a comunidade mais ampla. bilitar o exercício da escolha: caberá ao aluno
Havendo tempo disponível, é recomendável decidir se quer ou não fazer parte do processo
realizar um reconhecimento prévio (junto à proposto.
comunidade escolar) acerca da cultura insti-

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Orientação Vocacional Ocupacional 71

As inscrições para a OP • Favorecer a aproximação entre os alu-


nos e o orientador profissional.
O processo de inscrição para a participa- • Reapresentar a proposta de OP, eluci-
ção nos grupos pode ser enriquecido com o dando eventuais dúvidas ou fantasias
preenchimento (sempre por parte do interes- (ainda que elas retornem durante a
sado) de um formulário, contendo – além de OP).
dados pessoais – questões voltadas à investi- • Analisar a demanda para a OP e para
gação da situação frente à escolha e da mo- o estágio de escolha em que o aluno se
tivação para a OP. Em geral, uma semana é encontra.
tempo suficiente para se cumprir tal etapa, a • Possibilitar a distribuição equilibrada
qual pode ser operacionalizada pela secretaria de orientandos em cada grupo (não
da escola. Em contrapartida, o acompanha- colocando todos os tímidos juntos, por
mento das inscrições pelo orientador permite exemplo).
a observação de alguns aspectos interessan- • Conhecer um pouco do universo parti-
tes, como, por exemplo, quem a faz sozinho cular de cada entrevistado, sobretudo
ou acompanhado por um grupo de colegas, no que se refere a seus interesses e a
quem quer inscrever um outro aluno, quem seu posicionamento frente à situação
exige fazer parte do mesmo grupo de seu me- de escolha.
lhor amigo ou namorado. Além disso, possi- • Verificar a necessidade de encaminha-
bilita o esclarecimento de dúvidas concernen- mento para psicoterapia (complemen-
tes à proposta de OP e ao funcionamento dos tarmente ao processo de OP ou antece-
grupos. dendo-o).
Por ocasião das inscrições são agendadas • Investigar a adequação do processo
as entrevistas individuais, comunicando-se de OP proposto para cada orientando
aos alunos que a falta não justificada repre- (tanto no que concerne aos princípios
senta desligamento do programa (tendo-se da modalidade clínica quanto no que
isso em vista, é sempre oportuno estabelecer concerne ao fato de a OP ser realizada
uma lista de espera). em grupo).
Com relação aos custos da OP, em nossa
experiência com escolas públicas, temos obser- Visando ao alcance de tais objetivos, pen-
vado que o trabalho gratuito pode favorecer o samos que o modelo de entrevista semidire-
descompromisso dos alunos para com a pro- cionada mostra-se bastante eficaz, na medida
posta. Nesse sentido, como alternativa, parece- em que permite flexibilidade sem, contudo,
nos interessante combinar com eles algum tipo favorecer a dispersão das falas. Nesse senti-
de pagamento simbólico, o qual, não necessa- do, consideramos importante conversar com
riamente, deva ser em dinheiro (os honorários o entrevistado a respeito de alguns aspectos:
profissionais deveriam ser acertados com a
escola), mas por meio da doação de materiais • a razão de sua vinda e suas expectati-
de consumo, almofadas, etc. Evidentemente, a vas com relação à OP;
questão vai variar de acordo com cada situa- • o conhecimento ou a experiência pré-
ção particular; caberá ao orientador profissio- vios que ele possa ter com relação à OP
nal, mediante a análise da cultura institucional ou a qualquer outro tipo de interven-
em que está inserido, definir qual o melhor ção psicológica, bem como as represen-
procedimento a ser adotado. tações construídas quanto à figura do
psicólogo;
• os receios e as angústias relacionados
As entrevistas e os encaminhamentos
ao futuro profissional;
A realização de entrevistas individuais • suas representações acerca de trabalho,
(de, no mínimo, 40 minutos) é fundamental sucesso-fracasso profissional, projeto de
para a formação dos grupos e atende aos se- vida;
guintes objetivos:

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72 Levenfus, Soares & Cols.

• seu momento particular quanto à esco- Os grupos de OP


lha profissional (o que já sabe – e como
o soube – a respeito, o que imagina pre- Terminada a etapa das entrevistas, ini-
cisar ainda saber e o porquê, os fatores ciam-se os grupos. É oportuno convocar pes-
que influenciaram nessa escolha – ou a soalmente cada entrevistado, relembrando-o
falta deles); da data de início da OP.
• sua escolha vista pelos outros (expecta- A realização de encontros semanais, de
tivas de pais, amigos, professores); duas horas cada, costuma ser bastante provei-
• representações construídas acerca de tosa. A duração do processo grupal pode ser
si: habilidades, dificuldades, interes- pensada em torno de dez semanas, sendo a di-
ses, etc.; visão dos encontros concebida em função das
• expectativas com relação a si próprio; seguintes temáticas e dos seguintes objetivos:
• expectativas com relação ao orientador
profissional. 1. Apresentação pessoal e integração dos
orientandos,9 reflexão em torno das expec-
Os aspectos anteriores podem ser com- tativas grupais quanto à OP, discussão refe-
plementados ou substituídos por outros, de- rente ao contrato de trabalho de funciona-
pendendo da situação. No momento da en- mento do grupo e reflexão em torno do ato
trevista, importa atentar não apenas ao que é de escolher (partindo de situações simples e
dito, mas também a como é dito e a partir de cotidianas até se chegar à questão da esco-
que lugar: a investigação quanto à posição subje- lha da profissão) (primeiro encontro).
tiva frente à escolha e à vida de modo mais amplo é
nossa meta prioritária. Para tanto, a escuta clíni- 2. O processo de escolha e de tomada de decisões
ca, à qual nos referíamos anteriormente, se faz (foco: as minhas escolhas e as escolhas que fize-
valer. É justamente essa escuta das repetições, ram para mim): A discussão em torno dos as-
das contradições, das lacunas, das ambiguida- pectos e das implicações presentes em uma
des e da polissemia presentes no discurso que situação de escolha e de tomada de decisões
irá nos nortear também para a necessidade de constitui o foco desta etapa. No início do
uma segunda entrevista ou de um encaminha- processo, o objetivo é introduzir a temática
mento para psicoterapia. Este último pode ser a fim de retomá-la posteriormente, à luz de
necessário ao identificarmos no entrevistado um novo olhar. Nessa discussão prelimi-
excessiva angústia – mobilizada pela própria nar, é feito o levantamento das condições
situação de escolha ou por fatores pessoais ou necessárias para a realização de uma esco-
familiares outros – que não poderia ser traba- lha pessoal, dos fatores que a influenciam,
lhada em uma situação de OP. Nesse sentido, das expectativas familiares e, sobretudo,
é tarefa do orientador investigar a questão dos sentimentos que tal situação mobiliza
prioritária a ser trabalhada, a fim de deter- – principalmente frente à exigência de se
minar o melhor encaminhamento. Há casos, tornar “gente grande”. Além disso, são le-
por vezes mais delicados de configurar (“as vantados os principais interesses ocupacio-
aparências enganam”), em que simplesmen- nais dos orientandos, bem como o que eles
te não há demanda para um trabalho de OP: reconhecem como sendo suas habilidades,
explicitar isso para o entrevistado já é, por si correlacionando-as a possíveis perfis profis-
só, uma forma de intervenção. Por fim, ainda sionais (um encontro).
que o entrevistado resolva seguir uma psico-
terapia com o mesmo orientador profissional 3. O olhar para dentro de si (foco: passado-pre-
(no caso de este ser psicólogo), não nos parece sente): Neste momento, em continuidade
recomendável que isso se dê no contexto da ao anterior, foca-se o autoconhecimento,
escola. É importante preservar o enquadra- principalmente no que concerne ao “quem
mento. fui” e ao “como me tornei assim”, ao “do

9
A partir do terceiro encontro, convém não aceitar novos membros.

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Orientação Vocacional Ocupacional 73

que eu gostava e do que não gostava”, ao angústia, a qual é esperada e até desejada,
“o que eu sabia fazer e o que eu não sa- pois propicia ao orientando um maior con-
bia”, ao “como costumava escolher e re- tato consigo e com aquilo que desconhece,
solver meus problemas” (como me sentia mobilizando-o para a busca. Neste ponto, a
e a quem recorria), ao “quem eram meus grande pergunta é: “O que espero para meu
heróis e o porquê”, ao “quais eram os mis- futuro e o que preciso para chegar lá?” (um
térios que me intrigavam”, ao “quem eu encontro).
queria ser quando crescer” e ao “o que
meus pais esperavam de mim”, até se 5. Olhar para dentro, percebendo-se dentro de uma
chegar ao “quem sou e como sou hoje” sociedade (foco na relação eu-mundo social/pro-
e à situação presente dos demais pontos fissional): Aqui, objetiva-se proporcionar a
abordados na análise da história passada análise sobre a inserção pessoal no contexto
(gostos, habilidades, escolhas, etc.). Essa social, mediante o exercício de uma profis-
reflexão objetiva a percepção de si como são, além de promover a mobilização do
um ser continuamente em processo, sem- grupo para a busca de informações sobre
pre diferente e, ao mesmo tempo, sempre as ocupações existentes e para a discussão
igual a si mesmo. O fato de essa reflexão em torno das condições pessoais (às vezes,
se dar na presença de iguais fortalece a co- vivenciadas como “falta de condições”) re-
esão e a identificação grupal, propiciando ferente à obtenção de êxito profissional. Um
maior segurança em um momento em que aspecto importante a ser trabalhado nesse
isso se revela tão frágil – como frágil é o momento é o da problemática da escolha e
momento da adolescência – e favorecendo da ascensão social, no contexto das classes
o desenvolvimento das etapas posteriores sociais referenciadas como desfavorecidas.
da OP (em média, um encontro). Nessa perspectiva, as discussões retoma-
rão as temáticas propostas no item anterior,
4. O olhar para fora (foco no presente apontando versando sobre as questões: como eu parti-
para o futuro) voltando o olhar para dentro (foco cipo desse mundo que vejo em volta? O que
no projeto de vida): Nesse momento, as ques- eu gostaria de fazer nele? Como eu pode-
tões centrais são: em que mundo eu vivo? ria me inserir e quais são as minhas chan-
Quais são as necessidades da sociedade em ces? O que penso dos ideais pessoais em
que vivo? E do planeta? O que as pessoas minha sociedade? Em que medida eu me
em volta de mim fazem? Quais são as ocu- reconheço neles? Em que medida me des-
pações existentes? Quais eu valorizo, quais conheço? O que eu conheço sobre o mundo
não? Por quê? Quais são os ideais pessoais do trabalho? O que falta conhecer para eu
em minha sociedade? O que é o mercado de poder escolher? Por que eu tenho que fazer
trabalho? O que é preciso para se dar bem vestibular? O que vai acontecer se eu não
nele? O que é se dar bem? Na discussão re- passar? Será que, como estudante de uma
lacionada ao futuro, objetiva-se retomar es- escola pública, eu tenho condições de fazer
sas mesmas questões, inserindo-as em um uma universidade (ainda mais se ela for pú-
exercício imaginativo de construção dos ce- blica)? Como me permitir escolher quando
nários sociais futuros e de suas possíveis de- a minha necessidade maior é a de arrumar
mandas, das mudanças que poderão ocorrer um bom emprego?(um encontro).
em termos da relação homem-trabalho-so-
ciedade. Pretende-se, com isso, a abertura 6. Olhar para fora (foco nas ocupações e nas carrei-
do imaginário para o futuro (ideais, sonhos, ras existentes): Verdades e mitos referentes
receios, obstáculos, expectativas pessoais), às ocupações e às carreiras existentes, tanto
visualizando-o como uma porta a ser aber- de nível técnico quanto de nível superior,
ta, sendo a profissão uma de suas chaves. configuram a temática a ser trabalhada
Dimensionar a profissão no contexto de um nesse momento. Objetiva-se enfocar a im-
projeto de vida futura, ainda que em cará- portância da informação e da revisão de
ter de esboço preliminar, costuma provocar pré-conceitos construídos acerca das profis-

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74 Levenfus, Soares & Cols.

sões e de seus pré-requisitos. Pretende-se, tante conversar abertamente a respeito dos


igualmente, tratar das características que resultados obtidos, contrapondo-os aos es-
configuram o ensino superior, as exigências perados, relembrando aos orientandos que
feitas nesse nível, os objetivos da formação ainda não se sintam seguros quanto à esco-
universitária, as dificuldades presentes na lha, pois decorre de um processo interno de
vida acadêmica. Além disso, trabalha-se elaboração, cujo tempo é bastante particu-
com os orientandos no sentido de instru- lar. É preciso investigar, com o orientando
mentalizá-los para a busca de informações, em dúvida, seu nível de consciência quanto
discutindo-se possíveis alternativas de pes- aos possíveis caminhos a serem trilhados na
quisa sobre as profissões (dois encontros, mais busca de confirmação de sua escolha. Outro
uma visita à principal universidade pública da aspecto a ser trabalhado é o desligamento
região. Adiante, descrevemos tal atividade). do grupo, os lutos daí decorrentes (último
encontro).
7. Novo olhar para dentro (foco na escolha cons-
ciente): Chegando ao final da OP, não ne- É nesse movimento contínuo do olhar e
cessariamente chega-se ao término do do sentir, do dizer e do escutar (sobretudo a
processo de escolha de uma profissão. si próprio), de dentro para fora e de fora para
Contudo, nesse momento, é preciso um dentro, que a OP pode favorecer a construção
esforço de síntese, de articulação de todos de algumas bases para o desenvolvimento da
os aspectos abordados, quer pela via do identidade profissional. Ao fazer uso de uma
autoconhecimento, quer pela via do co- escuta clínica, o orientador profissional pode-
nhecimento das ocupações, dos cursos de rá auxiliar na problematização das questões
graduação (após a visita à universidade), apresentadas, na interpretação dos conflitos
das condições necessárias para se fazer inconscientes, na análise do sentido produzi-
uma escolha e, principalmente, da tomada do pelo discurso dos orientandos, no esclare-
de consciência de alguns fatores motiva- cimento de suas dúvidas e, sobretudo, na aco-
cionais relacionados a ela. Busca-se aqui lhida de suas angústias, transformando-as em
o resgate dos sentimentos vivenciados nas motivação para o difícil processo de crescer e
descobertas feitas na OP. As questões a se- de aprender a escolher.
rem discutidas podem ser: frente a tudo o Ao se considerar os aspectos inconscien-
que descobri na OP, como estou me sen- tes do processo de escolha, pode parecer con-
tindo? O que posso aproveitar disso para traditório, e até mesmo impossível, elencar
minha escolha? O que mais preciso saber? temáticas a serem trabalhadas, encerradas em
O que ainda me impede de escolher? Do uma determinada etapa e ordenadas em uma
que tenho medo? De que forma minha fa- dada sequência cronológica (não por acaso re-
mília está encarando essas descobertas? lacionou-se entre parênteses o tempo previsto
Como estou visualizando meu projeto de para cada discussão, o qual – ao todo – corres-
vida? Quais ideais o norteiam? Qual pro- ponde às 10 semanas previstas para a OP). A
fissão me permitirá concretizá-lo? Afinal, divisão feita, a definição das temáticas e, sobre-
quem eu quero ser quando crescer? (um tudo, a sua distribuição no tempo foi aqui ela-
encontro). borada tendo em vista as finalidades didáticas
8. Olhando de fora para dentro de mim: Como que uma exposição, do gênero deste artigo, de-
cheguei aqui na OP e como estou saindo? manda. Todavia, que fique claro ao leitor que
Sinto-me pronto para crescer? Como foi, aqui esboçamos um planejamento ideal.
para mim, trabalhar nesse grupo e como Em tese, uma OP em grupo na escola
me sinto agora ao ter de deixá-lo? Essas poderia seguir a sequência temática pro-
questões sintetizam os temas que pautam posta antes. Contudo, tanto o número de
o momento de encerramento dos grupos. encontros e seu encadeamento quanto às
A realização de uma autoavaliação e da questões trabalhadas, tudo é passível de al-
avaliação do processo de OP consistem no terações, dependendo das características e
principal objetivo dessa etapa. É impor- das necessidades de cada grupo. Às vezes,

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Orientação Vocacional Ocupacional 75

ao trabalharmos o autoconhecimento, por assinalar alguns recursos utilizados sem, po-


exemplo, sentimos a necessidade de investir rém, descrevê-los (até porque, no âmbito do
novamente na integração grupal, ou preci- presente livro, encontram-se sugestões de téc-
samos entrar com a discussão sobre as pro- nicas extremamente interessantes e originais,
fissões para motivar o grupo, entre outras as quais poderão servir como oportuna refe-
questões. rência ao leitor). Assim, baseados nos autores
Como se pode observar, o que fazemos indicados e em nossa própria experiência, no
nos grupos é aprofundar e enriquecer as ques- contexto de uma OP realizada em grupo, com
tões formuladas na entrevista individual, pe- alunos do ensino médio, e sempre tendo em
las vias da discussão e da vivência grupal. As vista as inúmeras questões levantadas para
expectativas familiares, as representações so- cada temática e etapa previstas anteriormente,
bre si e a angústia do crescimento são temáti- podem ser utilizados:
cas que permeiam e fundam todo o processo,
ainda que não explicitamente. Na verdade, • questionários individuais (sobre inte-
nem sempre é possível abordar tantos aspec- resses, escolhas, representações de si
tos em nove encontros: há que se considerar e do mundo do trabalho, projeto de
o momento, a motivação e a maturidade dos vida), os quais serão retomados na dis-
orientandos. Convém também lembrar que o cussão grupal;
grupo exerce um papel ativo na escolha das • vivências individuais voltadas ao pas-
questões a serem trabalhadas, questões que sado e ao futuro;
se mesclam ao longo dos encontros, retor- • dramatizações de diversas situações
nando vez ou outra. O que nos interessa é: problemáticas (“um dia no futuro”,
como retornam? E o que esse retorno quer “contando aos pais sobre a decisão to-
nos dizer? mada”, “fazendo vestibular”, “eu em
Uma última observação diz respeito ao meu ambiente de trabalho”, etc.);
trabalho com a informação: o tempo é exíguo • redação de uma carta aos pais, falando
para se fazer um “curso” sobre as profissões. sobre a escolha;
Nem é esse o objetivo, mesmo porque é im- • dinâmicas de integração grupal;
possível ao orientador conhecê-las todas em • dinâmicas de despedida;
profundidade. Investe-se, então, no incentivo à • colagens, esculturas vivas, trabalho
busca de conhecimento, instrumentalizando os com argila, cartazes, construção de his-
orientandos para a leitura crítica das informa- tórias;
ções obtidas através de diferentes meios (guias, • técnicas individuais e coletivas dire-
revistas, jornais e TV, visitas a empresas, entre- cionadas ao reconhecimento das habi-
vistas com profissionais, etc.). lidades pessoais dos orientandos, cor-
relacionando-as aos diferentes perfis
Algumas considerações sobre as técnicas ocupacionais;
• jogos voltados às profissões e discus-
Existe uma abundante e rica bibliografia são de material informativo correlato;
concernente a técnicas específicas de interven- • role-playing da atuação profissional e
ção em OP,10 bem como a dinâmicas de grupo de entrevistas com profissionais.
facilmente adaptáveis às finalidades específi-
cas de cada encontro realizado.11 Além disso, o Além dos instrumentos utilizados nos
trabalho com grupos costuma estimular a cria- grupos, contamos com a visita a uma universi-
ção de novos instrumentos destinados precisa- dade (selecionando-se, em geral, a mais procu-
mente ao momento vivenciado por um grupo rada por ocasião do vestibular) e com a solicita-
em particular. Neste Capítulo, limitamo-nos a ção de tarefas de casa.

10
Recomendamos a consulta às obras de Soares-Lucchiari (1993), de Lisboa e Soares (2000), de Levenfus
(1997) e de Carvalho (1995), entre outros autores.
11
A este propósito, indicamos a obra de Serrão e Baleeiro (1999), que apresenta várias dinâmicas voltadas ao
trabalho com adolescentes.

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76 Levenfus, Soares & Cols.

Havendo a possibilidade de se combinar liação por escrito. Em anexo, há um exemplo


com a universidade uma visita aos cursos de de formulário a ser utilizado para esse fim. No
graduação, objetivando o conhecimento das último encontro, é oportuno deixar em aberto
instalações físicas e dos currículos dos vários a realização de uma entrevista individual de
cursos, bem como a conversa sobre “a vida na fechamento para os orientandos que sentirem
universidade” e sobre “as profissões e o cam- essa necessidade.
po de trabalho”, com estudantes e professores Outra avaliação a ser feita concerne à es-
universitários, é bastante proveitoso fazê-lo. cola. Uma reunião com a comunidade escolar
Esse tour pela universidade demanda amplos que tenha acompanhado a OP é fundamen-
planejamento e preparo (sobretudo dos do- tal.
centes que irão receber os orientandos, para
que conheçam os objetivos do trabalho de OP
e, com isso, possam adequar sua exposição so- ENVOLVENDO A ESCOLA E A
bre o curso). Em geral, realiza-se ao longo de FAMÍLIA: SUGESTÕES DE ATIVIDADES
uma semana (o que é mais viável, do ponto de EXTRAGRUPO DE OP
vista da instituição), mas outras alternativas
de distribuição do tempo podem ser cogita- Paralelamente à intervenção com os alu-
das. É importante incentivar a participação nos, convém considerar a realização de um
dos orientandos em várias visitas, e não ape- trabalho de sensibilização com os pais. Isso
nas na dos cursos em que têm interesse mais pode ser feito mediante a proposta de reuni-
imediato. ões mensais ou bimestrais, nas quais, além de
A adoção de tarefas de casa, por sua vez, se apresentarem os princípios e os objetivos
é produtiva, pois propicia a continuidade da da OP em grupo, irão ser trabalhadas a ques-
OP fora do grupo, estabelecendo uma ponte tão da escolha na sociedade contemporânea, a
entre um encontro e outro. O fato de os orien- influência familiar e as possíveis contribuições
tandos terem ou não feito a tarefa rende boas que os pais podem oferecer para a escolha dos
discussões quanto à implicação do grupo para filhos, suas expectativas e seus temores com
com o processo. Assim, questionários indivi- relação ao futuro deles e suas representações
duais, genoprofissiograma (Soares-Lucchiari, acerca do mundo do trabalho, do sucesso e do
1997), colagens, pesquisas sobre profissões, fracasso profissional e dos aspectos que com-
entrevistas com profissionais, entre outros, põem um projeto de vida. Um procedimento
constituem excelentes recursos a serem utili- interessante consiste na redação de uma car-
zados. ta, contendo os votos que os pais fazem aos
filhos, a qual poderá ser lida pelos filhos no
Avaliação do processo grupo de OP.
Além deste trabalho, julgamos ser muito
A avaliação do processo de OP é feita importante implicar os educadores no proces-
continuamente. Em muitos momentos, du- so de OP, pois, ao instrumentalizar seus alunos
rante os encontros, é preciso resgatar o con- para a compreensão e a transformação da rea-
trato de trabalho, os objetivos e os papéis de lidade e, principalmente, ao contribuir para a
cada um no grupo. Nessas ocasiões, costuma- formação de atitudes, a instituição educativa
se fazer uma avaliação do processo para po- constitui um importante agente na construção
der retomá-lo, às vezes, em outra perspectiva. da identidade profissional.
Contudo, há um momento próprio para a ava- Assim, pensando em um processo de OP
liação que coincide com o fechamento da OP, integrado às demais ações desenvolvidas na
no qual pode-se pedir aos orientandos a ela- escola, tem-se como possível tarefa do orien-
boração de uma carta ou de um desenho, ou a tador profissional a de redimensionar junto à
realização de uma dramatização em que cada equipe pedagógica a utilização dos recursos
integrante possa fazer uma avaliação de si e existentes no processo ensino-aprendizagem,
do processo de OP nesse processo. Além da de modo a fazê-los convergir também para a
discussão em grupo, pode-se fazer uma ava- aprendizagem da escolha profissional. Esse

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Orientação Vocacional Ocupacional 77

objetivo poderia ser alcançado mediante al- profissões e sobre as relações homem-
gumas propostas: trabalho-sociedade.
• Realização de palestras e seminários
• Realização de grupos operativos com para jovens, pais e professores sobre a
os professores, cuja tarefa consistiria escolha da profissão e a elaboração de
em discernir as representações que se um projeto de vida no contexto da so-
têm do aluno, do trabalho e da socie- ciedade atual.
dade, visando a explicitar os mecanis- • Desenvolvimento de material informa-
mos de construção da identidade dos tivo sobre as profissões (de níveis supe-
alunos. rior e técnico) e sobre os cursos técnicos
• Desenvolvimento de grupos de sen- e de graduação.
sibilização para a problemática da es- • Criação de oficinas para os alunos, nas
colha com os professores, nos quais quais, por meio das diferentes moda-
o resgate de suas próprias vivências lidades de expressão artística (como o
poderia auxiliá-los quanto à percepção teatro, a dança, a música, a literatura)
dos conflitos existentes na elaboração sejam trabalhados os conflitos, medos
da escolha de seus alunos. e mitos presentes na adolescência.
• Acompanhamento da prática peda- • Desenvolvimento de um trabalho de
gógica, com o objetivo de auxiliar na articulação entre os professores do en-
articulação entre os conteúdos traba- sino superior e os professores do ensi-
lhados em sala de aula e os elementos no médio.
que compõem o perfil profissional das
diversas carreiras. OP NA ESCOLA PÚBLICA: DIREÇÕES
• Desenvolvimento, junto ao corpo do-
cente, de instrumentos diagnósticos de
POSSÍVEIS, DESAFIOS NECESSÁRIOS
avaliação dos interesses e das poten- Inserir um processo de OP no contexto
cialidades dos alunos. da escola pública abre possibilidades impen-
• Realização de palestras ou de grupo sadas ao orientador profissional habituado
de estudos com os professores sobre ao trabalho, em certa medida solitário, do
temáticas concernentes à escolha pro- consultório. Embora os objetivos dessa mo-
fissional, como: o desenvolvimento in- dalidade de intervenção, independentemente
fanto-juvenil, as etapas da construção do contexto em que se dê, sejam semelhantes,
da identidade profissional, a função do seus possíveis encaminhamentos no âmbito
trabalho na saúde mental, as exigên- da escola são muitos. Se, por um lado, ao as-
cias do mercado de rabalho, etc. sumir os educadores também como clientes
da OP, constatamos um acréscimo considerá-
Em um âmbito institucional, o orien- vel de trabalho para o orientador; por outro,
tador profissional pode ocupar o lugar de ao considerá-los como parceiros no processo
articulador (portanto, daquele que auxilia de aprendizagem da escolha dos alunos, po-
a pensar e a fazer acontecer, e não o daque- demos pensar em um compartilhamento de
le que executa sozinho) de outras possíveis tarefas. A ação conjunta – orientador e esco-
ações voltadas à OP: la – certamente só tem a enriquecer e, como
a atuação interdisciplinar é algo ainda a ser
• Realização de Feiras de Profissões (in- conquistado, eis aí – ao lado da difícil meta
cluindo as ocupações de nível técnico) de implicação da escola quanto à escolha e ao
e de outros eventos que possam inte- projeto de vida de seus alunos – um primeiro
grar a equipe pedagógica no processo desafio para o orientador profissional que se
de OP. propõe a atuar em uma instituição.
• Desenvolvimento de programas peda- Em se tratando da escola pública, um ou-
gógicos, para os alunos em geral, visan- tro desafio a ser considerado diz respeito ao
do à discussão sobre a escolha, sobre as enfrentamento da diferença: caberá ao orien-

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78 Levenfus, Soares & Cols.

tador saber lidar com as possíveis diferenças de uma escolha satisfatória e as possibilidades
quanto à realidade social de seus orientandos, de superação de eventuais dificuldades.
sem escamoteá-las em nome de um discurso Por fim, há que se considerar como prin-
falsamente democrático em que se mistifica cipal desafio a ser assumido o crescente aban-
a “igualdade de oportunidades” em uma so- dono para com as instituições públicas em nos-
ciedade marcada, o tempo todo, pela exclu- so país. Não por acaso se tem, em uma outra
são. Em contrapartida, caberá ao orientador, ponta dessa mesma realidade, um outro tipo
igualmente, conseguir se deparar com seus de abandono e de uma – quase – desistência:
próprios pré-conceitos e com representações a dos educadores que, malgrado as melhores
construídas a respeito de tais diferenças que, intenções, desistem de seus propósitos mais
em geral, configuram tal comunidade como nobres de educadores, frente às péssimas con-
carente, desfavorecida, desprivilegiada. Resulta dições de trabalho (e, ao fazerem-no, acabam
daí que, não obstante muitas carências não por desistir, ainda que sem o saber, também
sejam apenas supostas, e o orientador profis- de seus alunos, vistos como “aqueles que não
sional terá de apontá-las em algum momento têm mais jeito”). Acrescente-se aí o abandono
(como quando se depara, por exemplo, com dos alunos que, malgrado tantas expectativas,
deficiências graves no uso da língua em um frente aos consecutivos fracassos e à falta de
orientando que pretende cursar direito ou perspectivas (por vezes, apenas imaginada),
jornalismo...), não será ele, fazendo coro ao desistem dos estudos em busca de um empre-
conjunto das profecias autorrealizadoras de go que lhes garanta a sobrevivência.
sucesso ou de fracasso, a definir o “melhor A OP na escola pública, em um momento
caminho” para a escolha de seus orientan- ou outro, terá de se defrontar com isso. Diante
dos, tendo em vista suas condições de ordem dessa possível realidade da evasão de corpos e
cognitiva ou socioeconômica. Nem será sua a de desejos, resta ao orientador criar a oportuni-
missão de preencher as faltas com algo insti- dade e mobilizar a coragem necessária para se
tuído a partir de seu imaginário. sonhar, e – por que não – concretizar um outro
Isso posto, parece-nos inevitável man- cenário em que o ato de escolher, tão abandona-
ter-se sempre aberto, tanto para poder ouvir do por uma grande maioria de brasileiros, não
(e suportar o que escuta) quanto para poder, fique restrito à condição de falta de escolha, e
junto aos orientandos, analisar – de modo rea- em que a aposta em um projeto de vida possa
lista - as condições existentes para a realização se fazer valer.

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Orientação Vocacional Ocupacional 79

REFERÊNCIAS

BLEGER, J. Psico-higiene e psicologia institucional. Porto Alegre: Artmed, 1984.


BOCK, A.M.B.; AGUIAR, W.M.J. Por uma prática promotora de saúde em orientação vocacional.
In: BOCK, A.M.B. et al. A escolha profissional em questão. 2.ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995.
cap. 1, p.9-23.
BOCK, A.M.B. et al. A escolha profissional em questão. 2.ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995.
BOHOSLAVSKY, R. Orientação vocacional: a estratégia clínica. 8.ed. São Paulo: Martins Fontes,
1991.
CARVALHO, M.M.M.J. Orientação profissional em grupo: teoria e técnica. São Paulo: Psy, 1995.
FOUCAULT, M. História da sexualidade. 13.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999. v.1: A vontade de sa-
ber.
LEVENFUS, R.S. et al. Psicodinâmica da escolha profissional. Porto Alegre: Artmed, 1997.
LISBOA, M.D.; SOARES, D.H.P. (Org.). Orientação profissional em ação: formação e prática de
orientadores. São Paulo: Summus, 2000.
MÜLLER, M. Orientação vocacional: contribuições clínicas e educacionais. Porto Alegre: Artmed,
1988.
SERRÃO, M. et al. Aprendendo a ser e a conviver. São Paulo: FTD, 1999.
SOARES-LUCCHIARI, D.H.P. Uma abordagem genealógica a partir do genoprofissiograma e do
Teste dos Três Personagens In: LEVENFUS, R.S. et al. Psicodinâmica da escolha profissional. Porto
Alegre: Artmed, 1997. cap. 9, p. 135-160.
SOARES-LUCCHIARI, D.H.P. (Org.). Pensando e vivendo a orientação profissional. 2.ed. São Paulo:
Summus, 1993.
SUPER, D.E. The psychology of careers: an introduction to vocational development. New York:
Harper, 1957.

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80 Levenfus, Soares & Cols.

ANEXO I:
AVALIAÇÃO: PROJETO ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

I - VOCÊ, A SUA ESCOLHA E O SEU FUTURO

1. (pequena redação) Conte para nós como você se via e estava se sentindo antes de par-
ticipar do grupo de OP. E agora, como você se vê? Como está se sentindo com relação à
escolha da profissão? O que você pode aprender, através dos grupos de OP, a respeito
de você mesmo? Se quiser, pode complementar sua redação com um desenho.

2. Como você se considera atualmente quanto à escolha da profissão?


( ) já fez uma escolha e está tranquilo com ela. Qual foi sua escolha?
( ) está em dúvida entre duas profissões. Quais seriam?
( ) está em dúvida entre três profissões. Quais seriam?
( ) está em dúvida entre várias (mais do que três) profissões?
( ) continua não tendo a mínima ideia do que escolher?
( ) outra situação: qual?

3. Caso você tenha assinalado uma dentre as cinco últimas alternativas, responda: o que
lhe deixa em dúvida ainda? Como você se sente com relação a isso? O que você pode
fazer para acabar com tal(is) dúvidas(s)?

4. Quais objetivos você tem para a sua vida futura? De que modo a profissão que você irá
escolher, ou que já escolheu, está relacionada a esses objetivos?

5. Quais contribuições, como profissional, você poderia trazer para o desenvolvimento


da sociedade brasileira?

II- VOCÊ E A ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

1. O trabalho de OP atendeu às expectativas que você tinha


( ) em nada
( ) um pouco, mas deixou a desejar
( ) parcialmente (50%)
( ) bastante – (mais que 50%)
( ) totalmente
( ) foi além das expectativas

2. De que forma você contribuiu para que essas expectativas fossem atendidas?

3. Qual nota você se daria (referente à participação no processo)? Por quê?

4. Qual nota (de 0 a 10) você daria ao coordenador de seu grupo? Por quê?

5. Em que a OP ajudou você? Dê uma nota de 0 a 5 para cada alternativa:


( ) a saber mais sobre você mesmo (suas motivações para a escolha)
( ) a compartilhar experiências com outros jovens na mesma situação
( ) a saber mais sobre você (seus interesses, o que você gosta e o que não gosta)
( ) a conhecer os fatores que estão influenciando sua escolha

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Orientação Vocacional Ocupacional 81

( ) a saber mais sobre suas habilidades


( ) a compreender melhor o que seja se tornar um profissional
( ) a conhecer mais as profissões, o mercado de trabalho
( ) a clarear melhor seu projeto de vida futura
( ) a conhecer como você costuma escolher algo e as dificuldades que sente
( ) a conhecer os cursos universitários
( ) a entender melhor o que a sociedade espera de um futuro profissional;
( ) a perder o medo do vestibular
( ) a lidar melhor com as expectativas de sua família
( ) a diferenciar o que querem para você do que você quer para você
( ) a visualizar como você, como profissional, pode contribuir para a sociedade
( ) a diminuir suas angústias
( ) a sentir-se mais seguro e confiante com você mesmo
( ) a saber onde e como buscar resolver suas dúvidas
( ) a tornar-se “gente grande”
( ) outra alternativa. Qual?

6. Como foi trabalhar em grupo?

7. Do que você mais gostou na OP? Por quê?

8. Do que você menos gostou? Por quê?

9. Quais são suas críticas e sugestões para a OP?

10. Comentários Adicionais:

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6
Projeto de carreira, plano de vida
passos para um gerenciamento
de vida profissional e pessoal

Milta Costa da Silva Rocha

INTRODUÇÃO para atrair novas oportunidades; conhecimen-


to para adaptação às exigências do mercado
Sucesso e realização profissional, carreira de trabalho atual.
brilhante e satisfação individual, conciliando Ainda que as exigências do mercado
desejos pessoais com a realidade do mundo do venham à frente, o real desejo das pessoas,
trabalho: esse é o objetivo de jovens estudantes, apresentado desde o início, nos primeiros en-
de adultos, de profissionais e, muitas vezes, de contros, é poder investir em uma atividade
recém-aposentados ao procurarem o serviço de que lhes dê prazer e traga alegria. Trata-se de
orientação profissional e de carreira. trabalhar, de alguma forma, realizando seus
Tomando como referência esses objeti- sonhos. Entretanto, esse desejo é apresentado
vos, a partir das transformações no trabalho, timidamente, quase que dificultando a fala ra-
este capítulo visa a fazer uma reflexão a res- cional do indivíduo que, em geral, insiste em
peito das escolhas que se deve fazer, das de- buscar orientação fora de si, tanto no mercado
cisões a serem tomadas, dos caminhos e da quanto no próprio orientador, como se esti-
bagagem que se deve levar ao caminhar para vesse buscando respostas prontas, vindas de
a busca de uma nova profissão. Como uma fora, para anseios que apenas têm chances de
jornada, serão descritos alguns passos para a serem atendidos com contribuições internas
elaboração de um projeto de carreira consis- vindas da própria pessoa.
tente, viável e desejável, na medida em que Frente a esse contexto, por opção meto-
se considere quem é a pessoa, o que valori- dológica, decidiu-se investigar como vem se
za, o que lhe dá prazer e alegria, com quem dando a elaboração de projetos e de carreiras,
ela pode contar e, principalmente, aonde ela centrando-se no papel do orientador, ou seja,
quer chegar. aquele que atua no atendimento de orientação
Por outro lado, ocorre que frequentemen- profissional e de carreira.
te a demanda inicial é apresentada como um A escolha do tema tem como base tam-
pedido urgente de ajuda para uma tomada bém o conhecimento e a ampla experiência
de decisão relacionada às seguintes questões: profissional da autora deste Capítulo e se de-
escolha de um curso superior ou reopção; es- veu, sobretudo, à sua percepção intuitiva de
colha de cursos de qualificação e complemen- ser esse estudo um exemplo paradigmático
tação da formação para atender às exigências de apoio aos profissionais que estão elabo-
da atividade profissional atual; adaptação ao rando projetos de carreira.
perfil organizacional; visibilidade no mercado

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Orientação Vocacional Ocupacional 83

REVISÃO DA LITERATURA de para enfrentar as permanentes transforma-


ções em sua vida, sejam elas sociais, pessoais
Abordagens sobre sonhos, obstáculos e ou profissionais. É importante salientar que,
contos embora o planejamento profissional pareça
perfeito, deve ser revisado regularmente, pois
Quando o sonhar não é permitido ele é tão dinâmico quanto é dinâmica nossa
Sonhar parece uma tarefa fácil, mas, quan- própria vida. É preciso saber redirecionar a
do seu tema é o sucesso profissional, percebe- carreira sempre que necessário, principalmen-
se uma desvinculação de objetivos pessoais e te quando surgirem novas oportunidades.
profissionais. Em uma abordagem diferencia-
da acerca de uma compreensão subjetiva da Quando os obstáculos surgem
carreira, deve ser questionado o modo como Nesse aspecto, os objetivos de vida evo-
o indivíduo percebe sua história pessoal, suas luem naturalmente, à medida que as circuns-
habilidades, suas atitudes, suas crenças e seus tâncias mudam e em que as dificuldades se
valores. Por que não pensar no projeto de car- apresentam. Uma promoção, um novo filho,
reira como parte de um projeto de vida? Com um divórcio, um casamento, morte na família:
relação a isso, Soares (2002b, p. 24) destaca que todas são oportunidades para as pessoas re-
“a profissão tem de ser vista como uma relação pensarem seriamente o que deve ser mudado.
conectada entre trabalho e vida”. Mudanças fundamentais, algumas previstas,
No atual quadro de mudanças em cur- outras não, moldam o destino de quase todos.
so, antes de propor a elaboração do projeto O desafio é usá-las favoravelmente, usá-las
de carreira, propõe-se a reflexão a respeito de como oportunidades para a autorrenovação.
possíveis e desejáveis atividades para forma- Segundo Gardner (citado por Lorsch e Tier-
ção e experiência do indivíduo. Primeiramen- ney, 2003, p. 253), “a maioria das pessoas tem
te, sugere-se que se liste as atividades em or- potencialidades que jamais são desenvolvidas
dem de importância. A seguir, pede-se que se simplesmente porque as circunstâncias em
dê uma nota de 0 a 10 para o grau de atração suas vidas jamais as exigiram”.
pelo projeto (desejabilidade) e uma nota de 0 a
10 para a probabilidade de êxito (viabilidade). O conto dos patos
É importante ressaltar que se costuma obter Antigamente, as pessoas diziam que to-
como resultado um mapa de atividades total- dos os patos voavam. Todos os anos, antes da
mente viáveis, mas pouco desejáveis. chegada do inverno, tinham que voar 8 mil
Em minha recente pesquisa a respeito milhas em busca de temperaturas mais ame-
dessa atividade, constatou-se que 95% das nas, fugindo do frio. Certa vez, um homem,
propostas são viáveis. A análise de dados per- com pena dos patos pelo esforço que faziam
mitiu verificar também que 5% das propostas indo e vindo todos os anos, resolveu aquecer
valorizam o desejo de realizá-las. os lagos. Fez isso e os patos não tiveram que
É possível inferir que tal percentual fre- partir naquele ano. Outros patos vieram, e ali
quentemente é invertido quando se trata de se tornou um lugar com temperaturas agra-
atendimento a adolescentes que, ao realiza- dáveis, e o vôo de 8 mil milhas tornou-se des-
rem a atividade, privilegiam atividades com necessário. No ano seguinte, fizeram a mesma
grandes chances de trazer prazer na realiza- coisa, e os patos não precisaram mais voar.
ção. Com o tempo, suas penas ficaram atrofiadas,
Dessa forma, a orientação de carreira bem como suas patas e pernas. Perderam a ca-
deve propor o planejamento e a implemen- pacidade de voar...
tação de um plano que considere sonhos, va- Nesse contexto, os obstáculos colocam as
lores, potencialidades, possíveis obstáculos e pessoas frente a novas situações. O resultado
desenvolvimento de habilidades específicas. é que elas, diante das situações desfavoráveis,
Essa base proporcionará ao indivíduo facilida- acabam aplicando seus talentos a novos desa-

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84 Levenfus, Soares & Cols.

fios. Essas novas situações e a autorrenovação os preparativos menos detalhados. É possível


ficam lado a lado, seja em um novo cargo, em até mesmo correr riscos, não fazendo reservas
uma nova empresa ou em uma carreira com- e deixando a viagem fluir.
pletamente nova. Portanto verifica-se que mu- Dinsmore (2002) sugere, que ao progra-
dar sempre parece arriscado no início, pois se mar a viagem de férias, deve-se considerar
troca o conforto das experiências conhecidas questões que abordam preferências, dispo-
pela incerteza. Em contrapartida, pode-se di- nibilidade de recursos, tempo disponível e,
zer que o maior risco, contudo, é permanecer principalmente, o sonho de conhecer ou de
em situações em que há muito já não apresen- retornar a um lugar prazeroso. Seguindo essa
tam desafios. Em um novo ambiente, é pos- linha, o autor apresenta no Quadro 6.1 o que
sível avançar e enfrentar novos desafios com se pode fazer em uma viagem dos sonhos.
nova energia; no ambiente antigo, corre-se o Assim, percebe-se que há vantagens e
risco de atrofiar. desvantagens em fazer acontecer e em deixar
Assim sendo, obstáculos, dificuldades, in- fluir. O mais sensato parece ser adotar a forma
vernos rigorosos, tempestades que as pessoas híbrida, a qual não engessa os planos e pro-
enfrentam na vida podem torná-las mais cria- porciona novas experiências. Novas maneiras
tivas, mantendo-as atualizadas. Por fim, pode- de entender o mundo levam à revisão de sig-
se inferir que nenhum projeto sem desafio fará nificados e à criação de novos sonhos. Assim,
com que essas pessoas e esses profissionais me- pode-se ir vivendo, de sonho em sonho, por
lhorem. toda a vida, criando e caminhando em direção
aos sonhos, lembrando que a estrutura básica
O projeto, uma jornada do projeto é fundamental para não se perder
de vista a linha de chegada.
Planejando uma viagem
Um projeto de carreira pode ser compa- Um ponto de chegada
rado ao planejamento para uma viagem. Pri- Lorsch e Tierney (2003, p. 247) destacam
meiramente é preciso definir o destino. Se a a importância de se ter um ponto pessoal de
viagem é curta, a bagagem pode ser simples, chegada.

Quadro 6.1 – Filosofia de vida: deixar fluir ou fazer acontecer?

O QUE COMO VANTAGENS DESVANTAGENS


Planejar cada passo, desde as Resultados, Requer
passagens, reservas de hotel, lugares a planejamento, disciplina, pouca
FAZER serem visitados, compras, restaurantes, facilidade para flexibilidade,
ACONTECER bem como pesquisa sobre o clima do avaliação, pouca criatividade.
lugar, bagagem apropriada, gastos viabilidade e
diários, entre outros. recursos.

Não planejar, deixar que a viagem seja Flexibilidade, Resultados


DEIXAR uma surpresa. poucas limitações, indesejáveis,
FLUIR possibilidade de situações
mudar de rumo. inesperadas.
Planejar a parte essencial para não ter Mantém a Exige um certo
ADOTAR A
surpresas desagradáveis e, ao mesmo estrutura básica e grau de disciplina
FORMA
tempo, deixar fluir, permitindo-se permite abertura para não perder o
HÍBRIDA
experimentar o que não estava previsto. para inovar. foco.

Fonte: Adaptado de Dinsmore (2002).

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Orientação Vocacional Ocupacional 85

Como um capitão, você também na- criança. Kanitz (2003) chama a atenção para o
vegará os mares da vida com mais suces- tema, dizendo que provavelmente ninguém
so se tiver um ponto no horizonte rumo gostaria de ficar com a parte menos glamou-
ao qual se mover. Isso significa traçar rosa da profissão, trabalhando com a limpe-
um ponto claro de chegada, ser explícito za, por exemplo. No entanto, é preciso que
acerca de onde quer chegar na vida, em alguém o faça. Verifica-se, dessa forma, que
todas as suas dimensões: carreira e famí- pensar em um projeto que considere o que se
lia, comunidade e a si próprio. Significa, gosta de fazer não significa ter prazer o tem-
ainda, reavaliar essa direção, à medida po todo. Qualquer que seja a atividade pro-
que as circunstâncias de sua vida evo- fissional escolhida, haverá sempre um preço
luem. a se pagar, algum esforço e, por que não di-
zer, algum tipo de sacrifício a se fazer. Pensar
É importante ressaltar que o ponto de em projeto ideal, então, é pensar em alguma
chegada deve ser pessoal. O sonho é pessoal, atividade possível dentro das habilidades já
projetos de vida são pessoais. Antes de se de- adquiridas, no desenvolvimento de novas
finir o ponto de chegada, é necessário respon- habilidades, no aprendizado constante, na
der às seguintes questões: Qual o significado utilidade da tarefa, nos retornos do trabalho
de riqueza para você? Quanto é o bastante? e no respeito ao perfil pessoal.
Quanto tempo você deseja permanecer em Segundo Quesnel (1996), a mitologia
sua carreira? Existe alguma segunda, ou mes- também inspira as pessoas nesse tema, com
mo uma terceira, possibilidade de atuação no a história de Pigmalião, o qual conheceu a
futuro? Quanto está disposto a investir nessa mulher perfeita. As formas de seu corpo e a
carreira? E a vida pessoal, cônjuge, filhos? Terá suavidade de sua face se complementavam
tempo para eles? O que sucesso significa para e eram totalmente harmoniosas. Não havia
você? Essas são perguntas difíceis, mas fun- nela nenhuma curva tão pronunciada que a
damentais. Delas dependerá o modo como se tornasse exagerada nem tão sutil que a fizesse
sentirá daqui a 10 ou 20 anos. As respostas de passar despercebida. Nenhum exagero. Havia
um jovem em início de carreira provavelmen- perfeita sinergia entre majestade e sensuali-
te serão diferentes se comparadas às respostas dade, suavidade; de beleza indescritível, sor-
de um profissional com mais experiência, com riso enigmático e olhar ligeiramente perdido.
amplo patrimônio líquido e filhos crescidos. Nem um defeito sequer. Apenas um detalhe
Entretanto, até ter definido explicitamente afastava Pigmalião da felicidade de usufruir
seus objetivos e suas aspirações de vida, as tal companhia: aquela mulher era uma está-
pessoas não podem, de fato, saber que tipo tua esculpida por ele mesmo e pela qual se
de concessões elas se supõem a fazer para apaixonara. Pusera nela toda a perfeição per-
alcançá-los. mitida pela arte.
Com base nessa história da mitologia
Projeto ideal versus projeto real grega, reflete-se o comportamento humano
Elaborar um projeto de carreira com base em busca de modelos ideais de vida e de seu
nos sonhos não significa tentar atingir a per- sofrimento por não conseguir transformá-los
feição, bem como não significa planejar uma em realidade. Como esclarece Mussak (2003),
carreira que privilegie apenas as atividades essa busca é baseada em modelos emocionais
que se gosta de fazer. Naturalmente, se for e estão desprovidos da lógica necessária para
perguntado a um jovem, por exemplo, o que lhes dar sustentação. Daí decorrem as diver-
ele mais gosta de fazer, talvez ele responda: gências entre o ideal e o real. Para a maioria
tomar cerveja na praia, ver TV, curtir a noite, das pessoas, esse gap é absorvido por uma es-
ficar de “papo para o ar”. Porém, se ele qui- trutura de personalidade capaz de lidar com
ser ser um pediatra, provavelmente terá que a frustração. Para outras, é motivo de para-
trabalhar de madrugada, ouvindo choro de lisação ou desistência. Decerto que o bom é

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86 Levenfus, Soares & Cols.

inimigo do ótimo: quem não se contenta em talmente realizados; importa que existam, pois
fazer certo, querendo sempre fazer perfeito, sua existência dá sentido à vida, e não a sua
não consegue produzir pragmaticamente. realização. A pessoa deseja ser feliz? Esse é um
grande sonho. Provavelmente, o maior sonho.
Com amor, há possibilidades É seu guia, seu direcionador.
Pigmalião não desistiu. Perdido de amor A resposta para a primeira pergunta do
por aquela mulher, foi à luta. Não se paralisou projeto de carreira de uma pessoa deve estar
diante do obstáculo aparentemente intrans- contida em sua missão de vida. Dela sairão as
ponível. Tentando transformar sua expectati- outras respostas para as visões de curto, mé-
va em realidade, procurou Afrodite, deusa da dio e longo prazos, para enfrentar os obstácu-
beleza e do amor, a qual concordou em dar los, para se determinar, a cada dia, a linha de
vida à escultura, transformando-a em uma chegada.
mulher de verdade. Enfatiza-se que quando
as pessoas fazem algo por amor tem maiores [...] felicidade não é uma estação
chances de chegar mais perto da perfeição de chegada, mas uma maneira de viajar.
(Mussak, 2003). Não espere ser feliz algum dia, quando
A história de Pigmalião inspira as pes- chegar a seu destino. Busque ser feliz
soas a não serem medíocres abrindo mão de hoje, amanhã, sempre, durante toda a
projetos, de sonhos e de realizações. Inspira- jornada. Aproveite o caminho, cada pa-
as a aceitar seus limites e viver em um mundo rada, cada etapa. Cada etapa é um sonho
realista, sem abrir mão de seus sonhos. So- menor que o aproxima de seu ideal. Es-
nhar é preciso! Mudar para melhor, perma- tes, sim, são sonhos que devem ser cum-
nentemente, é a única forma de escapar da pridos, em benefício daquilo que faz sua
mediocridade, que faz as pessoas não exerce- vida ter sentido. (Walter, 2005, p. 25)
rem a função de protagonistas, mas apenas de
espectadores da própria vida. Quanto à visão, ela é aquilo que se quer
A vida das pessoas é parecida com essa ser em determinado período de tempo. É a vi-
história. Quando imaginam e agem com amor, são que permite às pessoas sonhar, mas com
dedicação, determinação, habilidade, compe- “os pés no chão”, na realidade. Há os que
tência, ética e lógica, elas têm condição de tor- sonham e sonham com seus sonhos, passan-
nar sua imaginação realidade. Corroborando do a vida a curti-los, mas pouco fazem para
tal visão, Mussak (2003, p.190) afirma que “a realizá-los, pois dão-se por satisfeitos em le-
diferença entre ser alguém que apenas sonha var a vida conforme “a Vontade de Deus”,
e ser alguém capaz de transformar sonhos em ao sabor do acaso e das oportunidades que
realidade não está em nossa expectativa, mas eventualmente aparecem. Por outro lado, há
no que fazemos com ela”. os que sonham e não se contentam em sonhar;
transformam seus sonhos em visões claras,
Projeto de carreira em objetivos e vão à luta. Criam recursos, de-
senvolvem competências e preparam-se para
Missão e visão as oportunidades que vierem.
Antes de começar a elaboração de um Se não surgem oportunidades, inven-
projeto de carreira, devem ser respondidas tam, criam. Persistem até realizá-los, ou criam
algumas questões básicas: qual seu sonho? novos sonhos. Segundo Mussak (2003), há
Aonde você quer chegar? Qual é sua missão? pessoas capazes de competir, e essas são as
A missão é aquilo que as pessoas querem competentes; há pessoas capazes de construir
ser na vida. É aquilo que as aproximam de seu novos cenários, e essas são as que estão além
ideal. Não importa que seus sonhos mudem; da competência.
importa que a vida tenha significado e faça Dessa forma, é preciso ser competente,
sentido. Não importa que tais sonhos sejam to- ou melhor, metacompetente, não apenas para

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Orientação Vocacional Ocupacional 87

atender especificamente às exigências do mer- 8. Amplie suas perspectivas: já que está se


cado de trabalho, mas também para elaborar falando do futuro, não se esqueça de que
seu projeto de vida, baseado em suas visões, há muitas formas de trabalho além da
sem nunca perder de vista sua missão. Sen- vida corporativa. Uma pessoa pode ser
do que a missão, o sonho maior, não é apenas consultor, professor, empreendedor, entre
uma meta, é uma maneira de enxergar a vida. outros.
É ela a responsável pelo verdadeiro signifi- 9. Jogue conversa fora: compartilhe seus pla-
cado dos detalhes do percurso, da alegria da nos pessoais com o marido ou com a espo-
chegada. sa, com um parente ou amigo. Troque ideias
sobre o futuro da carreira com pessoas que
Modelos de plano de carreira: conheçam sua área de atuação e tenham
o modelo Vicky Bloch mais experiência. Cultive e amplie sua rede
Vicky Bloch (citado por Oliveira, 2005) de relacionamentos.
sugere o Plano de Carreira em 10 lições, con- 10. Revisite seus planos anualmente - faça uma
forme descrito a seguir. revisão anual e transfira o que for preciso
para sua agenda. Um exemplo: se uma das
1. Faça duas perguntas essenciais: Quais são decisões é ter uma vida mais saudável, ano-
meus talentos? O que me dá prazer? Segun- te em todas as segundas-feiras o lembrete
do a autora, quanto mais você aproximar “fazer exercícios três vezes nesta semana”.
uma coisa da outra, maiores serão as chan-
ces de realização. Construindo um projeto de carreira
2. Siga sua vontade e não a dos outros: pense Quanto ao que considerar na construção
no que você gostaria realmente de ser, e não de um projeto de carreira, uma pessoa precisa
no que os outros gostariam que você fosse. ter o seu projeto. Se ela não tem um projeto,
Planeje um futuro que combine com suas certamente está trabalhando para o projeto de
aspirações e com seus talentos. alguém. Segundo a autora deste trabalho, um
3. Seja realista: não liste um número exagera- projeto deve considerar:
do de objetivos, impossíveis de serem reali-
zados no tempo estipulado. a. O sonho: o que quer ser na vida? Aon-
4. Estabeleça prioridades: em vez de planejar o de quer chegar?
aprendizado de dois idiomas nos próximos b. O perfil e o jeito de ser: escolher uma
cinco anos e fracassar em ambos (afinal, a profissão significa escolher um estilo
vida das pessoas não se limitará a estudar de vida.
línguas), concentre-se naquele que é mais c. A saúde: sem energia ficará difícil en-
importante para seus objetivos. frentar os obstáculos do caminho e
5. Aposte na autocrítica: somente quem conhece usufruir de cada conquista.
bem as próprias necessidades de aprendiza- d. Ambição: quanto a pessoa quer a ga-
do e desenvolvimento consegue ir direto ao nhar? Muito para sobrar, o suficiente
ponto para se aprimorar. para o básico?
6. Lembre-se de que o futuro começa agora: e. O desenvolvimento: de que maneira
o planejamento não pode ser dissociado a atividade vai torná-lo uma pessoa
de sua situação atual. Informe-se sobre os melhor?
planos da empresa em que você trabalha e f. Os stakeholders: pessoas importantes pa-
analise os rumos de sua área de atuação. ra você, pois elas impactam e são im-
7. Seja flexível: esteja sempre pronto para pactadas por suas decisões.
reavaliar seus planos a partir de um acon- g. As habilidades: atividades realizadas
tecimento significativo que não estava no com maior facilidade.
script. h. A motivação: disposição para enfren-
tar dificuldades, obstáculos e persistir.

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88 Levenfus, Soares & Cols.

No que concerne ao quarto passo (crie


Além disso, Dinsmore (2002) cita oito pas- uma visão para sua vida), agora que a pessoa
sos para a elaboração de um projeto de carreira, já sabe quem é, qual é sua missão e quem pode
conforme demonstrado no Quadro 6.2. lhe ajudar a cumpri-la, é hora de estabelecer
No que concerne ao item “descubra quem que metas você pretende atingir em determina-
é você” o primeiro passo no projeto de vida da do período de tempo. Inicie com a visão de cur-
pessoa o (recurso humano) vital é ela mesma. to prazo, fazendo projeções para daqui a três
Por isso, saber quem você é marca o ponto anos. A visão para médio prazo ou dos próxi-
de partida. Essa não é uma tarefa fácil, mas mos 10 anos assegura a continuidade e ajuda
as perguntas a seguir ajudam nessa reflexão: a visualizar o caminho a ser percorrido mais
Quais são meus valores básicos? Quais são adiante. A perspectiva de longo prazo, que vai
meus pontos fortes? No que preciso melhorar? até a aposentadoria, fornece a visão global de
Quais as oportunidades que poderei aprovei- realizações a serem alcançadas. Por fim, pense
tar? O que ameaça meus planos? Quanto do nos anos dourados. Afinal, uma pessoa tam-
meu tempo eu vivo no passado, remoendo ou bém precisa viver bem essa etapa de sua vida.
analisando fatos que já ocorreram? Da mesma O quinto passo diz respeito ao gerencia-
maneira, quanto do meu tempo vivo no futu- mento do tempo. Uma boa maneira de geren-
ro, imaginando, sonhando, esperando e pla- ciar bem o tempo é diferenciar os assuntos
nejando? E quanto ao presente? importantes dos urgentes. Importantes são
O segundo passo – coloque sua missão no as atividades relacionadas aos projetos que
papel – mostra que, se a visão do sonho pesso- têm influência direta sobre os resultados que
al é cristalina, otimista e motivadora, ela facil- se deseja alcançar. Urgentes, mas não impor-
mente se traduzirá em uma missão pessoal que tantes, são assuntos que devem ser delegados,
o lançará em direção às suas metas. reorganizados ou deixados para depois.
Fazer parcerias é o terceiro passo. Sozi- “Administre suas finanças” é o sexto
nho, não é possível construir uma missão pes- passo citado por Dinsmore (2002). Esse tra-
soal. O sucesso profissional depende da qua- balho inclui planejamento, estimativa, orça-
lidade das interações que se estabelece com mento e controle. Determine quais recursos
seus stakeholders, ou seja, com as pessoas que (monetário, humano, material e intelectual)
apoiam, influenciam e são influenciadas pelas serão necessários para cada tipo de atividade
suas ações: pais, chefes, parceiros, amigos, pa- relacionada a seu projeto. Estime custos, faça
rentes, entre outros.

Quadro 6.2 Passos para elaboração de um projeto

PASSOS DISCRIMINAÇÃO
PRIMEIRO Descubra quem é você
SEGUNDO Coloque sua missão no papel
TERCEIRO Faça parcerias
QUARTO Crie uma visão para sua vida
QUINTO Gerencie seu tempo
SEXTO Administre suas finanças
SÉTIMO Conte com os riscos
OITAVO Junte todas as peças
Fonte: Adaptado de Dinsmore (2002).

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Orientação Vocacional Ocupacional 89

orçamentos, controle e busque, se necessário, Estudos realizados pela Korn Ferry Inter-
uma renda adicional. national, em parceria com a revista Você S/A
No que diz respeito ao sétimo passo – em 2003, apontam seis novas competências
conte com os riscos –, é importante enfatizar emocionais para seu sucesso profissional:
que a pessoa deve procurar identificar riscos,
tentando prever de onde podem vir. Adquirir 1. Tolerância à ambiguidade: habilidade para
um bom plano de saúde e apólices de seguro lidar com o incerto e com o inesperado.
podem ajudar a lidar com algumas ameaças. 2. Compostura: capacidade de absorver frus-
Finalmente, o último passo – junte to- trações.
das as peças é aquele em que é preciso fazer 3. Autoconfiança: confiar em seu potencial.
com que todos os passos sejam gerenciados 4. Empatia: capacidade para se colocar no lu-
ao mesmo tempo. Já que mudanças de planos gar do outro.
são inevitáveis, faça planos flexíveis, capazes 5. Energia: capacidade de manter a energia, o
de adaptação, sem perder qualidade. “Por foco e o compromisso.
fim, não se esqueça de que nenhum projeto de 6. Humildade: capacidade de adaptação.
vida vale a pena se não tiver qualidade”. Em
outras palavras: “Uma pessoa tem obrigação A Faith Popcorn, em parceira com a Re-
de ser feliz”. (Dinsmore, 2002). vista Executiva, descreve um modelo para
que uma pessoa possa desenvolver seu pro-
Não há projeto viável sem parcerias jeto: o “Click”.

Minarelli (2001) enfatiza a importância de


Abrace a ideia de que o
se cultivar uma boa rede de relacionamentos,
C CORAGEM mundo muda e escolha
pois ela é a “conta corrente”, o “capital social”
seu lugar nele
do profissional atual. Segundo o autor, quando
uma pessoa tem uma boa rede de relaciona- Deixe para trás todos os
L LIBERDADE
mentos, não precisa, nem deve, pedir trabalho. seus medos
As oportunidades chegam até ela. Ele sugere
Olhe o mundo com
que seja utilizada a técnica da “Coisa” para I INSIGHT
olhos diferentes
uma pessoa fazer uma aproximação e para
atrair as boas oportunidades de trabalho. Mantenha-se
firmemente
C COMPROMISSO
comprometido com
C Conselhos
seu projeto
O Orientações Estude, prepare-se: não
K KNOW HOW se conforme com
I Informações
a mediocridade
S Sugestões

A Aproximação CONSIDERAÇÕES FINAIS


Tendo em vista o levantamento biblio-
Conforme o autor, uma pessoa deve pedir gráfico, a reflexão e a análise dos conteúdos
conselhos, orientações, informações, sugestões tratados, pode-se dizer que a sociedade con-
e aproximação. A aproximação vem por últi- temporânea está passando por períodos de
mo, como consequência da postura, mostrada crescimento e de mudanças que levam as pes-
pelas atitudes anteriores de busca de conheci- soas a buscarem por novas oportunidades de
mento e de investimento na área de interesse. crescimento e prosperidade.

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90 Levenfus, Soares & Cols.

O delineamento da discussão de pro- tornaram cada vez mais complexos e demo-


jeto de carreira como plano de vida, longe rados.
de se resumir a um mero debate retórico so- Deve-se destacar que os resultados des-
bre passos para um gerenciamento de vida se estudo permitiram verificar que, na busca
profissional e pessoal, encontra suporte nas pela realização profissional e nas conquistas
crescentes preocupações dos consultores, re- realizadas pelas pessoas, normalmente elas
lacionadas à busca de uma melhor posição não estão felizes com o que são, que conquis-
para essas pessoas no cenário competitivo taram e, muito menos, com o que têm. En-
contemporâneo. tretanto, destaca-se que alguns profissionais
Considerando a jornada de quem busca conseguem prestígio, reconhecimento, rique-
sucesso profissional, verificou-se que esta é zas, mas se sentem sozinhos, tristes, insegu-
realizada com base na inserção ou reinserção ros e infelizes, refletindo e impactando o ver-
no mercado de trabalho, sendo marcada cada dadeiro sentido de satisfação e sucesso, que
vez mais por um tempo de espera maior, exi- é sempre pessoal. Esses profissionais vão,
gindo planejamento, estratégia, esforço e foco ao longo do tempo, em direção a objetivos
nos objetivos. De forma específica, o tempo desvinculados dos propósitos pessoais que
de espera para profissionais em processos guiam sua existência. Assim, esquecem qual
de transição no mercado é em torno de seis é a missão de sua vida, seu sonho maior.
meses com acompanhamento de um servi- Sendo assim, a preocupação dos orien-
ço especializado. Esse tempo tende a dobrar tadores passa a ser ajudar o profissional em
quando não há um suporte especializado. sua jornada, ressaltando-se a elaboração de
Os diversos estudos realizados desta- um projeto de carreira estruturado. Enfatiza-
cam também que a busca por emprego não se que as pessoas têm perfis diferentes e,
tem sido uma das tarefas mais fáceis. Uma portanto, objetivos diferentes: não há projeto
das explicações possíveis pode ser, que para de carreira igual. A definição do objetivo de
obter maiores chances no mercado, o profis- carreira apenas pode ser feita se colocados de
sional precisa descobrir os setores que ofe- lado os estereótipos de mercado e se privile-
recem maior demanda, bem como conhecer giado o autoconhecimento. Mais do que pla-
e entender como acontecem os processos de nos de carreira, são projetos de vida.
recrutamento e seleção que, por sua vez, se

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Orientação Vocacional Ocupacional 91

REFERÊNCIAS

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III
DIFERENTES ABORDAGENS
EM ORIENTAÇÃO

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7
A abordagem cognitivo-evolutiva
do desenvolvimento vocacional

Marucia Patta Bardagi

O primeiro escopo teórico na área da psi- As teorias desenvolvimentais, entre as quais


cologia vocacional foi formulado por Frank se destaca a perpectiva cognitivo-evolutiva de
Parsons (1909), com a publicação do livro Super, afirmam que as decisões vocacionais
Choosing a vocation, no qual o autor estabelece começam na infância, perdurando até a idade
as três etapas da escolha profissional: a análise adulta, com ênfase no aspecto sequencial do
das características individuais, a análise das comportamento vocacional, e surgiram a par-
características das ocupações e o cruzamento tir da segunda metade do século XX, gerando
das informações em uma direção profissional. grande volume de pesquisas e intervenções.
Desde as formulações de Parsons, conside- Além de Donald Super (1957, 1963, 1980), teó-
rado o primeiro teórico do desenvolvimento ricos como Ginzberg e colaboradores (1951)
vocacional, vários modelos e várias teorias são exemplos de pensadores da corrente de-
foram concebidos para explicar o desenvolvi- senvolvimental.
mento vocacional do indivíduo e a tomada de González (1995) indica que a diferença
decisão de carreira. O propósito deste capítulo entre os enfoques está nas respostas que cada
é apresentar alguns dos principais pontos da um oferece aos aspectos filosóficos e na maior
abordagem cognitivo-evolutiva do desenvol- ou menor congruência entre os aspectos teó-
vimento vocacional, sistematizada pelo psicó- ricos e a proposta de intervenção. Cada uma
logo americano Donald Super. Tal abordagem das teorias implica uma concepção filosófica
configura-se internacionalmente como uma da realidade, do mundo do trabalho, da esco-
das mais influentes e duradouras no âmbito lha, da pessoa e dos valores, assim como dos
da psicologia vocacional e de carreira; no en- componentes da intervenção. Em um estudo
tanto, permanece pouco conhecida entre os seminal, Osipow (1990) procurou identificar
orientadores brasileiros, sobretudo em função as principais convergências e divergências
do escasso material publicado no país. entre as teorias vocacionais mais influentes.
Na divisão realizada por Pimenta (1981), Em seu entender, as teorias que parecem do-
o qual adota a classificação clássica feita por minar os estudos internacionais sobre carrei-
Crites (1974), é possível dividir as teorias ra são: teorias tipológicas (especialmente a de
psicológicas do desenvolvimento vocacional Holland), teoria da aprendizagem social, teo-
– cujo foco é o indivíduo e cuja escolha é de- ria desenvolvimental e teoria do ajustamento
terminada, mais do que tudo, pela dinâmica ao trabalho (work adjustment). Para o autor,
de suas características e só indiretamente pelo essas abordagens são predominantes por suas
meio – em quatro grupos principais: teorias bases empíricas e sua utilidade operacional,
do traço e fator, teorias psicodinâmicas, teo- além do apelo universal de suas ideias. Todas
rias desenvolvimentais e teorias da decisão. essas grandes teorias possuem alguns aspec-

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96 Levenfus, Soares & Cols.

tos afins: a influência dos fatores biológicos, a A ABORDAGEM EVOLUTIVA DO


influência familiar (parental), a influência da DESENVOLVIMENTO VOCACIONAL
personalidade, os tipos de resultados obtidos,
os métodos utilizados e a relevância do está- O principal expoente da corrente de-
gio de vida. Os fatores biológicos costumam senvolvimental é o americano Donald Super
ser destacados por todas as abordagens e ge- (1957, 1963c, 1975, 1980; Super e Bohn Junior,
ralmente são descritos como um background 1976; Super, Savickas e Super, 1996). Entre as
importante, mas incontrolável. A família e, inúmeras classificações acerca das teorias so-
em especial, os pais são também citados por bre escolha profissional (Brown, Brooks e Ass.,
todas as teorias, que destacam em maior ou 1996; Crites, 1974; Pelletier et al., 1985; Pimen-
menor grau seu papel como modelos, fon- ta, 1981), há uma congruência em estabelecer
tes de reforço e fornecedores das condições a importância das concepções evolutivas de
contextuais de desenvolvimento dos filhos. Super como uma das mais influentes abor-
Quanto aos resultados, o autor estabelece dagens na área. O autor construiu sua teoria
uma diferença entre as proposições mais enfatizando a relação entre o autoconceito e a
voltadas para a escolha propriamente dita escolha da carreira, mostrando como o indiví-
(Holland e Ajustamento ao Trabalho) e para duo tende a escolher carreiras que confirmem
o processo de escolha (Desenvolvimental e a percepção que ele tem da própria identidade
Aprendizagem Social). pessoal (conjunto de interesses, habilidades e
Nesse sentido, ao tentar analisar a quali- características de personalidade). Para Balbi-
dade das escolhas feitas, principalmente nos notti (2003), pode-se descrever o desenvolvi-
diferentes momentos do desenvolvimento, mento de carreira de Super como um processo
seria mais produtivo optar por uma das duas psicossocial.
últimas abordagens. A personalidade seria O desenvolvimento da carreira, con-
um aspecto principal em todas as teorias, forme definiu Crites (1974), seria o processo
mas cada uma busca salientar alguns traços inferido a partir das mudanças sistemáticas
em detrimento de outros. Quanto às etapas observadas no comportamento vocacional ao
de vida, Osipow (1990) aponta que apenas a longo do tempo. Durante muito tempo, não
teoria desenvolvimental contempla tal aspec- houve ênfase, por parte de pesquisadores e
to de forma adequada, pois sua descrição dos orientadores, a esse desenvolvimento, e sim
momentos em que as decisões vocacionais são às escolhas de carreira e ao ajustamento ao
tomadas relaciona-os aos estágios de vida e trabalho. Super foi um dos principais teóricos
suas consequentes transições. Além disso, im- a se preocupar com a trajetória do compor-
plica, necessariamente, alterações no desen- tamento vocacional. Savickas (1994) afirma
volvimento de carreira a partir do contexto de que uma das mais importantes contribuições
vida. O modelo cognitivo-evolutivo, que vê o do modelo desenvolvimental de Super foi a
desenvolvimento vocacional como um aspec- criação de um vocabulário sistemático, com
to do desenvolvimento global do indivíduo, definições operacionais apropriadas, para ex-
contempla duas premissas importantes para o plicar o comportamento vocacional do indiví-
trabalho do orientador profissional, destaca- duo ao longo do ciclo vital. Nesse modelo, a
dos por Bock e Aguiar (1995): há uma discus- escolha profissional (e a própria formação da
são central sobre as condições da pessoa que identidade profissional) não é um comporta-
escolhe e uma compreensão dos determinan- mento focal, mas o resultado de um processo
tes da escolha como múltiplos, mesmo que a de desenvolvimento vocacional que ocorre ao
decisão seja individual. Importante também é longo da vida (Savickas, 1995; Super, 1963c).
o caráter pragmático da abordagem desenvol- Decisões, mudanças e dúvidas vocacionais
vimental. Para Guichard e Huteau (2001), Su- não aparecem somente na adolescência, e é
per não tinha um objetivo fundamentalmente cada vez maior o número de pessoas localiza-
explicativo, mas sim de definir os princípios das em vários pontos do desenvolvimento vo-
para intervenções de orientação e aconselha- cacional que buscam auxílio ou simplesmente
mento de carreira eficazes. desafiam os técnicos da Orientação Profissio-

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Orientação Vocacional Ocupacional 97

nal a elaborarem novos modelos explicativos da adultez jovem, os indivíduos encontram-


e métodos de ação. se no estágio de Exploração, em que as prefe-
A teoria de Super é resultado direto de rências vocacionais são organizadas em torno
suas observações empíricas, especificamente da experimentação, do teste de hipóteses e do
de um estudo longitudinal iniciado em 1951 desempenho de papéis, delineando um pro-
que acompanhou indivíduos desde o 9o ano cesso de tradução do autoconceito em termos
da escolarização americana (14-15 anos) por 25 vocacionais. É um período de transição, em
anos em sua trajetória de carreira. A princípio, que a autoanálise das próprias características
as concepções de Super (1957) centravam-se e habilidades é constante e o autoconceito não
na passagem gradual e sistemática que os in- é tão estável. As tarefas de desenvolvimento
divíduos faziam por estágios razoavelmente são a realização de uma ampla exploração das
estáveis do desenvolvimento vocacional, de- ocupações, a tradução do autoconceito em
nominados Crescimento, Exploração, Estabe- escolhas ocupacionais-educacionais, a troca
lecimento, Manutenção e Desengajamento. progressiva de uma escolha generalizada por
Nesses estágios, seria necessário desenvolver uma escolha mais específica e a conversão
habilidades específicas e efetivar o cumpri- dessa preferência (verbal, indicando inclina-
mento de tarefas evolutivas que, de forma ção, adesão) em uma realidade concreta, por
complementar, forjariam a continuidade da meio da educação especializada e do ingresso
carreira e construiriam uma trajetória de no mundo ocupacional (Magalhães, 2005).
aprendizado que capacitaria o indivíduo a re- No decorrer da adultez jovem, inicia-
alizar escolhas profissionais; essas tarefas po- -se o estágio de Estabelecimento, no qual se
dem ser típicas de determinados períodos etá- faz uma implementação da escolha, isto é,
rios ou não ter qualquer relação com a idade a conversão das preferências especificadas
ou com as sequências de desenvolvimento. A em uma realidade ocupacional, por meio
própria complexificação dos contextos sociais do comprometimento com o mundo do tra-
e interacionais vivenciados pelo indivíduo balho. Há uma estabilidade do autoconceito
contribui para a aquisição das habilidades e em termos vocacionais e uma concentração
estabelece exigências diferenciadas ao longo de esforços para permanecer e progredir na
do tempo. área escolhida (Pimenta, 1981). Para Gui-
O desenvolvimento de carreira é defini- chard e Huteau (2001), o sujeito nesse estágio
do como o processo de crescimento e apren- deve poder assimilar uma cultura profissio-
dizagem que resulta em um aperfeiçoamento nal e organizacional, desempenhar suas ta-
e na modificação gradual no repertório de refas adequadamente, encontrar um lugar
comportamento vocacional dos indivíduos. satisfatório, consolidar a posição atingida e
O estágio de Crescimento, segundo Super ampliar os ganhos alcançados, estabelecendo
(1957), coincide com o período da infância e da um padrão de carreira. Seguem-se, ainda, os
pré-adolescência, em que as escolhas não são Estágios de Manutenção e Desengajamento.
sistemáticas, mas fantasiosas e buscam o des- O estágio de Manutenção, representaria a rea-
pertar de interesses e habilidades. O indivíduo lização de tarefas da maturidade, com suas
descobre as primeiras capacidades e constrói características de continuidade dos planos es-
o autoconceito por meio da identificação com tabelecidos, em que há comportamentos de
figuras significativas da família (pais, avós, ir- conservação do que foi alcançado e, mais re-
mãos) e da escola (professores, colegas). Nes- centemente, a capacidade de se manter atua-
se estágio as tarefas de desenvolvimento são lizado e capaz de inovar, estabelecendo para si
começar a se preocupar com o futuro; aumen- novos desafios (Guichard e Huteau, 2001; Ma-
tar progressivamente o nível de autonomia galhães, 2005). Na etapa de Desengajamento,
comportamental; convencer a si mesmo da relacionada à senescência, o indivíduo plane-
importância das realizações escolares e pro- ja sua retirada do mundo do trabalho, com o
fissionais, e adquirir as primeiras habilidades gradual enfraquecimento e posterior afasta-
e atitudes de trabalho (Guichard e Huteau, mento das atividades profissionais, criando
2001). Ao longo da adolescência e no início um novo modo de vida fora do trabalho.

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98 Levenfus, Soares & Cols.

No entanto, a partir das reformulações autoconceito, e essa relevância pode variar


feitas pelo autor (Super, 1980), as dimensões de indivíduo para indivíduo; por exemplo,
contextuais e as características individuais enquanto para algumas pessoas o papel de
fazem com que esse percurso não seja linear trabalhador pode ser o mais importante na
(acompanhando a idade cronológica) ou ocor- estruturação da identidade, para outras o pa-
ra com todos os indivíduos da mesma forma. pel parental vem a ser o mais importante. O
O momento em que ocorrem o as transições autoconceito vocacional, de modo específico,
de um estágio a outro do desenvolvimento seria aquela parte do autoconceito relativa à
vocacional podem variar muito de pessoa percepção de características vocacionalmente
para pessoa. Magalhães (2005) aponta que a relevantes a qual permite ao sujeito expressar
revisão dos modelos de estágios de carreira sua identidade por meio da escolha profissio-
está associada à revisão dos modelos do de- nal, por exemplo. A estrutura do autoconceito
senvolvimento humano como um todo, se- não é rígida: pode transformar-se ao longo
guindo as tendências contemporâneas que do tempo e se organiza, principalmente, pelo
apontam para uma visão mais transicional da comportamento exploratório do sujeito.
trajetória de vida. Dessa forma, a carreira pas- O comportamento exploratório é outro
sou a ser vista como uma sequência alternada componente destacado do desenvolvimen-
de mudanças e períodos de estabilidade. to vocacional. Nas concepções evolutivas, o
Mesmo sabendo que o desenvolvimento comportamento exploratório desempenha
vocacional é eminentemente dinâmico, torna- um papel fundamental – permite a reunião de
se necessário conhecer as características nor- informações essenciais à formação do auto-
mativas de cada período, as demandas sociais, conceito (geral e vocacional) e organiza a ex-
os comportamentos a serem adquiridos e as ca- periência, forjando uma maior maturidade de
racterísticas de cada indivíduo em particular a carreira. O conceito de comportamento explo-
fim de estabelecer um curso de ação no sentido ratório vocacional foi sistematizado por Jor-
de promover o desenvolvimento de carreira. daan (1963). Desde a origem experimental, a
Como aponta Pimenta (1981), embora Super exploração aparece como um comportamento
não tenha incorporado a dimensão socioeco- fornecedor de informações e importante para
nômica à teoria, depreende-se sua interferência a aquisição de aprendizagens. É essencial-
no processo de escolha, uma vez que a estrati- mente um comportamento de solução de pro-
ficação social não permite a mobilidade social blemas, proposital e voluntário. Para Jordaan
absoluta e as oportunidades não são iguais (1963), o objetivo da exploração é suprir de-
para todos. Mais tarde, no decorrer de seus es- terminadas informações sobre o próprio su-
tudos, o autor passou a descrever a ocorrência jeito ou sobre o meio e verificar ou encontrar
de miniciclos de desenvolvimento dentro de subsídios para hipóteses que auxiliem o indi-
cada um dos estágios, apontando para o cará- víduo a escolher, preparar, assumir, ajustar-se
ter dinâmico e em constante transformação do ou progredir em uma ocupação. Essa busca
desenvolvimento de carreira, em um modelo de informações envolve experimentação,
espiral de evolução. investigação, tentativa e teste de hipóteses,
Ao longo do desenvolvimento de car- entre outros comportamentos. Contudo, o
reira, alguns aspectos fundamentais são a comportamento exploratório varia muito de
construção e a transformação do autoconceito pessoa para pessoa em termos de intenciona-
vocacional (Super, 1963c). Autoconceito é um lidade, de fonte, de métodos, de quantidade e
constructo próximo ao de identidade, o qual de clareza de objetivo (Jordaan, 1963).
reúne as percepções que o sujeito possui sobre Super (1963) incorporou o conceito de
si mesmo e o qual organiza suas experiências exploração à abordagem evolutiva do desen-
ao longo da vida. O autoconceito é formado volvimento vocacional, inclusive nomeando
no desempenho dos diferentes papéis sociais uma etapa do desenvolvimento como etapa
e ocupacionais que cada um assume ao lon- exploratória. O autor defendia que a explora-
go da vida. Nessa trajetória, alguns papéis ção é um comportamento que acompanha to-
têm maior relevância para a estruturação do das as etapas do desenvolvimento vocacional,

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Orientação Vocacional Ocupacional 99

mas que é mais característico da fase da ado- para se engajar e manter atividades explora-
lescência, tendo em vista a natureza das tare- tórias (Flum e Blustein, 2000). Nesse sentido,
fas evolutivas as quais o indivíduo está sujei- a exploração não só é um comportamento sis-
to. A atividade exploratória teria por objetivo temático e intencional, como também a infor-
desenvolver preferências antes da efetivação mação resultante de eventos inesperados ou
de uma escolha profissional e da entrada no não planejados, que, além disso, contribuem
mundo do trabalho, sendo voltada tanto para para o desenvolvimento de carreira. Uma re-
o interior (self exploration) quanto para o ex- visão não extensiva de pesquisas empíricas
terior (environmental exploration) do indivíduo relativas à exploração vocacional corrobora a
(Super, 1963c). Mais tarde, Pelletier e colabo- importância dada a esse constructo pelos teó-
radores (1985), em sua abordagem operatória ricos do desenvolvimento vocacional. Os es-
do desenvolvimento vocacional, incluíram a tudos têm relacionado a exploração à decisão
exploração como uma das tarefas desenvol- (Blustein et al., 1994; Magalhães, 1995; Sparta,
vimentais da escolha, e não mais como um 2003; Sparta, Bardagi e Andrade, 2005), à sa-
estágio. Para a realização da atividade explo- tisfação profissional (Frischenbruder, 1999), à
ratória seriam necessárias habilidades e atitu- autoeficácia vocacional (Bartley e Robitschek,
des cognitivas como “busca de novidades e de 2000; Frischenbruder, 1999; Ryan et al., 1996) e
mudança, observação, curiosidade, iniciativa ao desenvolvimento de expectativas realistas
por ensaio e erro, identificações sucessivas e e comportamento de busca de oportunidades
múltiplas, produção de hipóteses, gosto pelo (Phillips e Blustein, 1994; Werbel, 2000).
risco e desejo de autonomia” (p. 50). Nesse Entre os estudos nacionais, Magalhães
caminho de busca de informações, são produ- (1995), em uma pesquisa qualitativa com ado-
zidas reações afetivas as quais desencadeiam lescentes indecisos, observou que os partici-
determinadas crenças sobre o valor e sobre a pantes mais indecisos apresentavam muitas
importância de futuros comportamentos ex- dificuldades tanto para explorar características
ploratórios (Frischenbruder, 1999). pessoais quanto para elaborar seu autoconceito
Super (1963c) afirma que a exploração e sua tradução em termos de atributos pessoais
é um processo que sustenta a formação do vocacionalmente relevantes, mostrando, por
autoconceito, configurando um comporta- conseguinte, pouca motivação e pouca inicia-
mento constante ao longo da vida, mas que tiva para explorar alternativas ocupacionais,
se intensifica nos momentos que antecedem tomando decisões mais impulsivas, com base
e seguem períodos de mudança vocacional na estratégia de tentativa e erro. Sparta (2003),
ou pessoal (Blustein, 1997; Jordaan, 1963). em um estudo quantitativo com alunos do 3o
Ao analisarmos as dimensões interna e exter- ano do ensino médio, também encontrou fortes
na do comportamento exploratório, observa- correlações negativas entre a indecisão voca-
se uma correlação positiva entre elas (Sparta, cional e as diferentes dimensões da exploração
2003; Werbel, 2000), uma vez que, por um lado, avaliadas. Em outro estudo com adolescentes,
a exploração do ambiente ocupacional leva à Frischenbruder (1999) concluiu que a maioria
necessidade de análise dos próprios valores e dos participantes explora o mundo profissio-
interesses e, por outro, a autoanálise das habi- nal (e pessoal) de forma pouco sistemática e
lidades, das necessidades e dos valores leva a não intencional, sugerindo que a busca de in-
uma busca por experiências e oportunidades formações vocacionais ocorre de forma casual,
que venham ao encontro dessas características. sem seguir um planejamento estruturado. Os
Hoje a exploração deve ser vista não como adolescentes, ao ingressarem no ensino su-
um estágio ou como uma tarefa, mas como perior, têm mais chances de se decepcionar e
um processo com função adaptativa para o in- construir uma trajetória de desengajamento
divíduo não somente no âmbito vocacional. com o curso e com a instituição.
O processo engloba comportamentos especí- É interessante salientar que, no estudo
ficos de busca de informações sobre si mes- de Frischenbruder (1999), os participantes re-
mo e sobre o mundo circundante, além de um lataram que a informação é importante para a
componente atitudinal, referente à motivação escolha, mas não se engajaram, efetivamente,

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100 Levenfus, Soares & Cols.

em comportamentos de busca dessa informa- e dos recursos cognitivos e emocionais para


ção, demonstrando excessiva passividade. É lidar com as tarefas evolutivas do desenvol-
provável que tal tipo de comportamento seja vimento de carreira de forma consistente, sem
frequente também entre universitários ou desorganização do autoconceito, tomando de-
mesmo entre adultos. Sparta (2003) identificou cisões vocacionais com qualidade, diz-se que
entre seus participantes pontuações altas na ele possui maturidade vocacional (Balbinot-
dimensão Foco da exploração, expressando o ti, 2003; Fouad e Arbona, 1994; Super, 1983).
grau de certeza sobre as próprias preferências O conceito de maturidade é fundamental
profissionais, certeza que estaria intimamente na abordagem desenvolvimental e permeia
relacionada à tarefa evolutiva de cristalização grande parte dos estudos na área, sendo de-
(delimitação de preferências profissionais) finido como a capacidade de adotar, por um
(Pelletier et al., 1985; Super, 1957; Super et lado, comportamentos compatíveis com as
al., 1963). Esse resultado indica, segundo a tarefas de desenvolvimento com as quais se
autora, que os adolescentes parecem estar se depara e, por outro, estar em relativa sintonia
comprometendo com escolhas profissionais com as demandas sociais em relação aos ou-
sem realizar um processo exploratório amplo, tros indivíduos no mesmo contexto evolutivo
talvez movidos pela pressão social exercida (Super, 1980; Super et al., 1996). O autor criou
sobre eles para que especifiquem uma esco- o termo maturidade em um período inicial de
lha. De qualquer forma, os estudo brasileiros suas formulações teóricas, visando a avaliar
sobre o tema são unânimes em apontar as de- o estágio de desenvolvimento de carreira al-
ficiências dos adolescentes na área. Frischen- cançado por estudantes de diferentes idades
bruder (1999) observou, ainda, em relação às e níveis de instrução e sua respectiva pronti-
diferenças de gênero, que as meninas apre- dão para a tomada de decisões (Super, 1955).
sentam maior nível de comportamento ex- Com o passar do tempo, segundo Magalhães
ploratório do que os meninos, com diferenças (2005), ao descrever a carreira na vida adulta
significativas nas dimensões de busca interna, e perceber que habilidades, competências e
de busca externa e de intencionalidade, suge- atitudes de enfrentamento podem não variar
rindo que elas tendem a se engajar de forma com a idade, Super passou a utilizar o termo
mais sistemática e deliberada em atividades adaptabilidade de carreira, indicando um equi-
exploratórias. No entanto, a literatura não é líbrio entre o mundo do trabalho e o espaço
consistente em relação à diferença de gênero pessoal, além de habilidades para buscar e
na exploração; enquanto alguns estudos con- aceitar mudanças nos papéis de carreira ao
firmam a maior exploração feminina (Sparta, longo do tempo.
2003), outros indicam o contrário (Blustein As dimensões da maturidade propostas
et al., 1994) ou, ainda, não apontam diferen- por Super (1983) seriam:
ças (Ketterson e Blustein, 1997; Sparta et al.,
2005). Os estudos que indicam maior explora- a) Capacidade de planejamento: depen-
ção masculina tendem a justificá-la pela maior de da autonomia do indivíduo, da
percepção de oportunidades de trabalho e adoção de uma perspectiva temporal e
menor percepção de barreiras por parte dos da autoavaliação das condições favo-
homens. Ao considerar a idade, também os ráveis ou desfavoráveis em relação à
resultados não são conclusivos, mas há indí- carreira, estando relacionada também
cios de que a exploração aumenta à medida à autoestima.
que o tempo passa (Frischenbruder, 1999; Ket- b) Capacidade de exploração: a presença
terson e Blustein, 1997; Sparta, 2003; Sparta et ou não do comportamento explorató-
al., 2005). Isso pode se dever ao fato de que os rio vocacional permite diferenciar en-
próprios contextos de vida vão se complexifi- tre escolhas racionais e refletidas da-
cando e exigindo maior exposição e busca de quelas impulsivas ou dependentes.
informações por parte do indivíduo. c) Informação: informações sobre o mun-
De volta à teoria cognitivo-evolutiva, do do trabalho e as opções oferecidas
quando o indivíduo dispõe das habilidades é um pré-requisito para a prontidão

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Orientação Vocacional Ocupacional 101

(readiness) em termos de tomada de turais sobre o desenvolvimento vocacional, es-


decisão; pecialmente avaliando o impacto dos valores
d) tomada de decisão: habilidade decor- de trabalho sobre a continuidade da carreira.
rente da avaliação das possibilidades, Guichard e Huteau (2001) apontam que Super
das consequências possíveis dessas de- e os teóricos que compartilham suas ideias
cisões e da probabilidade de as conse- continuaram transformando a teoria, incorpo-
quências acontecerem; rando elementos em três direções principais:
e) orientação à realidade: consiste em au- a) proporcionar um lugar maior aos fatores
toconhecimento, realismo e avaliação psicossociais e aos determinantes sociológicos
situacional. e culturais da construção de projetos de vida e
de carreira; b) redimensionar o lugar ocupado
O conjunto dessas características com- pela carreira no espectro de papéis do indiví-
põe a prontidão para a tomada de decisão ou, duo; c) diminuir a importância das avaliações
mais tecnicamente, a prontidão do indivíduo objetivas em benefício das autopercepções do
para emitir os comportamentos necessários indivíduo. O modelo integrativo das concep-
em resposta às demandas sociais de cristali- ções de Super está apresentado na Figura 7.1.
zação e de especificação de escolhas e/ou mu- Na perspectiva espiral de desenvolvi-
danças vocacionais (Savickas, 1994). mento, em que um mesmo sujeito está exercen-
Em suas últimas formulações, Super do simultaneamente diferentes papéis os quais
(1980) concebeu a abordagem do life span, life podem ou não estar relacionados a atividades
space para descrever a forma como o indiví- ocupacionais – e em que suas relações com o
duo circula em diferentes posições ao longo trabalho podem estar configurando processos
da vida, como organiza suas relações com o de crescimento, de exploração, de estabeleci-
trabalho e como os aspectos familiares e so- mento, de manutenção ou de declínio (inde-
cioculturais interagem na carreira individual. pendentemente da fase macroevolutiva em que
O espaço vital é o conjunto de papéis que um se encontre) – diferenças individuais também
indivíduo desempenha ao longo da vida, em são impostas por características contextuais.
cenários diferentes. Entre os papéis, podemos Balbinotti (2003), em uma revisão do contexto
citar o de filho, de estudante, de trabalhador, de maturidade vocacional de Super, reúne es-
de cidadão, de cônjuge, de progenitor, de lei- tudos apontando as principais influências no
surite, de dono de casa, de aposentado, etc. desenvolvimento de carreira, sejam familiares,
Esses nove papéis principais seriam exercidos econômicas ou étnico-culturais. A família, por
em quatro cenários privilegiados – a casa, a exemplo, costuma influenciar o desenvol-
escola, a comunidade e o local de trabalho. No vimento individual das necessidades e dos
entanto, assim como na descrição do autocon- valores (gerais e profissionais), fornecendo
ceito, nem todos os papéis ou cenários têm a aos filhos maiores ou menores possibilida-
mesma relevância para todas as pessoas, além des de aquisição de informações e de desen-
de existirem outras possibilidades, dependen- volvimento da habilidades fundamentais na
do da trajetória individual. Na compreensão tomada de decisão (Bardagi e Hutz, 2006;
do desenvolvimento de carreira individual é Super, 1957). Já as leis de oferta e procura de
necessário estar atento às interações entre os emprego, o custo dos estudos, a automação,
vários papéis e às influências dessas intera- os ciclos econômicos, a tecnologia, todos são
ções na vida de trabalho. Segundo Teixeira fatores econômicos que influenciam o início
(2002), é importante salientar que cada papel é (escolha), as mudanças e as adaptações que
definido por seu próprio desempenho e pelas podem ocorrer no curso da carreira (Balbinot-
expectativas geradas sobre ele (ou seja, aquilo ti, 2003).
que o indivíduo efetivamente faz e aquilo que Alguns autores, como Young e Chen
se espera dele em uma dada situação). (1999), descrevem a influência econômica
Em seus últimos trabalhos, Super e seus pela via da classe social ou sociocultural, in-
colaboradores (Super e Sverko, 1995) concen- dicando que ela causa um impacto na carreira
traram esforços em realizar estudos transcul- não apenas pela diferença na disponibilidade

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102 Levenfus, Soares & Cols.

de recursos, mas também pelo efeito sobre as os estágios e sobre o conceito de maturidade,
atitudes de trabalho, pelo encorajamento re- depreendem-se a mudança que o indivíduo
cebido e pelas experiências que o indivíduo precisa fazer para lidar adequadamente com
pode ter, formando um contexto sociopsicoló- as diferentes demandas sociais que recaem so-
gico particular de desenvolvimento. Fouad e bre ele em épocas sucessivas e a necessidade
Arbona (1994) enfatizam que, ao mesmo tem- do desenvolvimento de recursos cognitivos e
po em que não considera extensivamente os comportamentais para dar conta das decisões
aspectos socioculturais e raciais em suas for- de carreira que precisa enfrentar. Formula-
mulações, a abordagem desenvolvimental de ções posteriores incorporam a importância
Super é uma das mais flexíveis à incorporação do comportamento exploratório e da forma-
de variáveis culturais por outros pesquisado- ção do autoconceito para a escolha profissio-
res. Para as autoras, Super compreendia que nal, uma vez que a obtenção de informações
o desenvolvimento de carreira emerge da in- variadas e realistas sobre si mesmo e sobre o
teração dinâmica entre os fatores individuais mundo do trabalho permite uma articulação
e socioeconômicos e outros fatores, como a es- maior entre as dimensões pessoal e social da
cola, a família e o mercado de trabalho. escolha e a tradução mais apurada da identi-
dade em termos ocupacionais. Por fim, a des-
CONSIDERAÇÕES FINAIS crição do modelo life span, life space inclui as
várias transições entre papéis e contextos por
Uma vez expostos alguns dos conceitos que passa o indivíduo, configurando a traje-
principais da teoria desenvolvimental de Su- tória de carreira como um processo indivi-
per (1957, 1963c, 1980; Super e Bohn Junior, dual, mediado tanto pelas questões internas
1976; Super et al., 1996), pode-se estabelecer (idade, gênero, maturidade, características
uma progressiva complexificação das con- biopsicológicas) quanto externas (oportuni-
cepções do autor quanto ao desenvolvimen- dades educacionais, contextos familiar, eco-
to da carreira. Das formulações iniciais sobre nômico e cultural).

Figura 7.1. Modelo life span, life space, de Donald Super. Fonte: Super, D. E., Savickas, M. L. e
Super, C. M. (1996). The life span, life space approach to careers. Em D. Brown, L. Brooks et al.
(Orgs.), Career choice and development: Applying contemporary theories to practice. San Francisco,
EUA: Jossey Bass.

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Orientação Vocacional Ocupacional 103

Como pode ser observado, ao contrário compreensão da problemática vocacional.


do que muitos possam pensar, a importância Espera-se que, a partir da descrição de seus
de Super e de suas concepções de carreira per- componentes principais, tenha-se desperta-
manecem na atualidade. Seu valor não reside do o interesse pelo estudo e a utilização da
apenas na relevância histórica de ter sido um perspectiva cognitivo-evolutiva do desen-
dos teóricos que contribuiu para a afirmação volvimento vocacional nas intervenções em
da área do aconselhamento vocacional e de orientação profissional realizadas no contexto
carreira, mas em ter fornecido um dos escopos nacional.
teóricos mais completos para intervenção e

REFERÊNCIAS

BALBINOTTI, M.A.A. A noção transcultural de maturidade vocacional na teoria de Donald Su-


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8
Metodologia de ativação da aprendizagem
uma abordagem psicopedagógica
em Orientação Profissional

Maria da Glória Hissa • Marita de Almeida Pinheiro1

NOVOS PARADIGMAS E DEMANDAS As transformações na sociedade, nas or-


CONTEMPORÂNEAS ganizações e nas pessoas trazem renovação de
valores, de paradigmas, de caminhos e de re-
Na evolução da história da humanidade cursos; dessa forma, colocam os profissionais
sempre ocorreram mudanças sociais e econô- que trabalham em Orientação Profissional
micas; uma das áreas em que essas transfor- frente a constantes desafios. É preciso utilizar
mações se refletem de forma significativa é a modalidades de atendimento que possibili-
do mundo do trabalho. Os setores produtivos tem ao indivíduo o acesso a informações ne-
são continuamente atingidos, causando alte- cessárias para que possa encontrar alternati-
rações nas paisagens ocupacionais e profissio- vas de ação e modificar estruturas existentes,
nais. A feição do trabalho altera-se de forma com capacidade de encarar a mesma situação
profunda: profissões são extintas; outras, mo- sob uma pluralidade de aspectos. Torna-se
dificadas; outras, ainda, são criadas. necessário, então, buscar formas de atuação
que atendam às características e às demandas
Provavelmente, não existe época contemporâneas.
em que não tenha havido uma transição; É dentro dessa perspectiva que expo-
nem todas as épocas, porém, mudam mos, neste capítulo, a abordagem psicope-
com a mesma intensidade e com a mes- dagógica aplicada à Orientação Profissional.
ma velocidade. Muitas vezes, temos a Nessa modalidade, consideramos o indiví-
sensação de que, em 10 anos, se faz mais duo com potencialidades para aprender a
história do que em um século. escolher sua profissão e decidir como quer
Nos últimos 10 anos, vivemos uma e como pode dar continuidade a seu projeto
evolução tecnológica mais intensa do que de vida. A aprendizagem da escolha é esta-
nas fases lentas e longas da Idade Média. belecida a partir da ativação de processos
Em determinados momentos, temos a sen- cognitivos os quais favorecem a aquisição e
sação de que se trata de uma mudança de a apropriação ativa de conhecimentos, com
época. Entretanto, não é apenas um fator uma compreensão crítica da realidade para
da História que muda, mas é todo o para- que ocorra uma inserção consciente no mun-
digma – com base no qual os homens vi- do do trabalho.
vem – que se altera. (De Masi, 2000, p. 20) A abordagem apresentada apoia-se em
um enfoque psicodinâmico o qual enfatiza a

1
Agradecemos especialmente a leitura cuidadosa e os comentários feitos pela psicóloga Heloisa Porto Xavier
Fernandes.

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Orientação Vocacional Ocupacional 107

compreensão do indivíduo como um ser ativo experiência em processo (Zaslavsky, 1979), que
frente à sua existência e em processo contínuo descreve e ilustra a experiência desenvolvida
de desenvolvimento. Considera que o homem a partir da introdução do Planejamento por
constrói o mundo e nele se constrói, em cons- Objetivos e apresenta uma nova abordagem
tante dialética, tecendo, assim, complexa rede de ação com Enfoque Psicodinâmico.
de vínculos e relações sociais. O trabalho junto às escolas foi intensifi-
A Orientação Profissional pautada nes- cado, ampliando-se para o atendimento a jo-
sa ótica tem compromisso com a melhoria da vens universitários com vistas à reavaliação
qualidade de vida e com o favorecimento da da escolha de cursos superiores. Estendeu-se,
existência digna das atuais e das futuras gera- posteriormente, a adultos em diversos mo-
ções, com a compreensão de que o exercício mentos de tomada de decisão e, ainda, ao
da profissão e a cidadania caminham juntos. acompanhamento de carreiras, em diferentes
contextos profissionais e ocupacionais.
SITUANDO NOSSA HISTÓRIA Em 1991, apresentamos em Brasília, no
III Encontro Nacional de Gestalt Terapia, o
A criação de uma metodologia com abor- trabalho intitulado Aplicação dos princípios
dagem psicopedagógica teve como ponto de gestálticos de uma metodologia ativa: abordagem
partida o trabalho iniciado na década de 1970 e psicopedagógica (Hissa e Pinheiro, 1991). Essa
se voltava, essencialmente, para o atendimento apresentação representou um marco em nossa
a adolescentes, com a finalidade de apoiá-los história por ter sido a primeira exposição da
em seu processo de escolha profissional. metodologia à comunidade científica.
No trabalho de Orientação Vocacional Desde então, estamos realizando o apro-
realizado até então se utilizavam recursos psi- fundamento e a atualização do esquema teóri-
cométricos e técnicas inerentes às concepções co e expandindo nossa experiência profissional
teóricas e metodológicas vigentes no cenário com a utilização da Metodologia de Ativação
da época. da Aprendizagem® (MAP) (Hissa e Pinheiro,
A necessidade de se promover uma re- 1997).
formulação do trabalho em Orientação Vo- Inicialmente, serão expostos os referen-
cacional em bases mais dinâmicas levou à ciais teóricos básicos da metodologia, amplia-
realização de estudos e pesquisas quanto à dos e atualizados com autores contemporâneos.
problemática da Orientação Vocacional. Des- Em seguida, serão focalizados os princípios
ses estudos, resultou, em 1973, a tese de mes- fundamentais que integram e articulam o de-
trado Percepção ocupacional e desenvolvimento sencadeamento do processo de aprendizagem
vocacional do adolescente (Pinheiro, 1973). da escolha profissional, sendo apresentada a
A busca por novas compreensões do estrutura do Planejamento por Objetivos, prin-
processo de escolha profissional conduziu um cipal eixo de nossa proposta de ação.
grupo de profissionais das áreas da psicologia Finalmente, passaremos do campo concei-
e da educação a organizar um ciclo de estu- tual para a aplicabilidade da proposta que cons-
dos, a partir de uma estratégia clínica, coor- titui nossa modalidade de atuação no campo da
denado pelo psicólogo argentino Rodolfo Bo- Orientação Profissional.
hoslavsky, em 1976, no Rio de Janeiro. Esses
estudos ampliaram-se com as contribuições BASES TEÓRICAS DA METODOLOGIA
de Donald Super, Denis Pelletier e Charles
Bujold, que estiveram no Rio de Janeiro nesse A construção da Metodologia de Ativação
mesmo período. da Aprendizagem® (MAP) apoia-se nos refe-
Os estudos desenvolvidos convergiram renciais teóricos básicos do modelo de ativação
para um projeto de Orientação Vocacional, dos processos cognitivos proposto por Pelletier
elaborado pela equipe que atuava no Serviço e colaboradores (1977). O trabalho desenvolvi-
de Orientação Educacional do Colégio Brasi- do até os dias de hoje por essa equipe no Cana-
leiro de Almeida (RJ). Desse trabalho surgiu a dá permite manter uma atualização de nossos
publicação do livro Orientação vocacional: uma pressupostos iniciais (Pelletier et al., 2001).

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108 Levenfus, Soares & Cols.

As teorias desenvolvimentistas de Donald uma vez que é ponto de apoio e instrumento


Super (1972) e a compreensão da estrutura do para a operacionalização de ações. Reflete-se,
intelecto de J. P. Guilford (in Pelletier, 1977) em- sobretudo, na nossa forma de atuar, conduzin-
basam também a metodologia que inclui a con- do à necessidade de redimensionar o papel pro-
tribuição do construtivismo de J. Piaget (1983) fissional, pois é preciso conciliar a inovação com
e a visão educacional de Paulo Freire (1987) a o pensamento anterior e utilizar os referenciais
partir de sua inovadora proposta de ação. teóricos para aumentar os espaços de ação.
Os enfoques teóricos fundamentam-
-se ainda na visão psicanalítica da escola ar- FUNDAMENTOS BÁSICOS DA
gentina com Rodolfo Bohoslavsky (1977) e E.
Pichon-Rivière (1986), integrando conceitos
ABORDAGEM PSICOPEDAGÓGICA
oriundos da psicologia social. A estratégia de ação da abordagem psi-
A operacionalização da abordagem copedagógica fundamenta-se em:
psicopedagógica apoia-se nos princípios da
Gestalt-Terapia que enfatiza a integração de • Princípios de ativação da aprendiza-
experiências em totalidades significativas e gem
é ampliada com as contribuições da Gestal- • Princípios da unidade operatória
pedagogia (Burow, 1985). • Princípios do processo operatório
A atual prática de ação vem sendo en- • Princípios do processo decisório
riquecida com estudos que desenvolvemos • Princípios da Gestalt
como membros do Centro de Desenvolvimen-
to da Intuição e Criatividade (CDIC), dirigido PRINCÍPIOS DE ATIVAÇÃO DA
pelo psicoterapeuta Edgardo Musso (2001).
Os estudos realizados no CDIC contribuem
APRENDIZAGEM
para a discussão de questões a respeito de Apresentados por Pelletier e colaborado-
nossa visão de mundo e integram diferentes res (1977), são três os princípios para a ativa-
compreensões para definir estratégias, na prá- ção da aprendizagem:
tica, a partir de um contexto mais amplo. São
pensamentos, percepções e valores que se ar- 1. As experiências devem ser vividas.
ticulam e se complementam com ideias e con- 2. As experiências devem ser tratadas cogni-
tribuições de G. Deleuze (2001) e F. Guattari tivamente.
(1981); com a visão de mudança de paradigma 3. As experiências devem ser integradas lógi-
de F. Capra (1996); com a inteligência emocio- ca e psicologicamente.
nal de D. Goleman (1995), e com a terapia cog-
nitiva de H. Maturana (1995) e da escola chi- Esses princípios devem ser pensados de
lena com a terapia cognitiva de H. Maturana maneira integrada, articulando-se dinamica-
(1995). Ampliam-se, ainda, com os conceitos mente. Procuram mobilizar o indivíduo em
de Prigogine (1996) quanto à imprevisibilida- tudo o que ele é, o homem integral, com suas
de e com a concepção de transdisciplinarida- motivações, com seu modo de ver e perceber
de da ciência de Morin (1997). o mundo, com seu universo, com suas habi-
As contribuições de autores contemporâ- lidades intelectuais, suas potencialidades e
neos viabilizam o aprofundamento em teorias suas emoções.
que acompanham a dinâmica do pensamento A ativação do desenvolvimento da apren-
e as transformações do homem no mundo. dizagem pode ser, então, definida como uma
O contato com novos paradigmas representa abordagem que consiste em exercitar, por meio
uma evolução no conhecimento e possibilita de situações apropriadas, habilidades e atitu-
utilizar diferentes caminhos na compreensão des. Entendemos como habilidades as opera-
da subjetividade. ções internas envolvidas no tratamento da ex-
A convergência desses referenciais permi- periência e, como atitudes, os efeitos cognitivos
te que sejam criados procedimentos e técnicas e afetivos da atividade que se expressam em
que integram nossa concepção metodológica, ações.

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Orientação Vocacional Ocupacional 109

PRINCÍPIOS DA UNIDADE Com essa perspectiva, Bohoslavsky con-


OPERATÓRIA sidera que fazem parte do processo os mo-
mentos de seleção, de escolha e de decisão,
A unidade operatória possibilita a união assim compreendidas:
da reflexão e da ação, favorecendo o apren-
der a compreender condutas, a expansão da • Seleção: etapa em que há discrimina-
consciência e o desenvolvimento do potencial ção e hierarquização dos objetos dispo-
intuitivo-criador do indivíduo, habilitando-o a níveis;
perceber, a sentir e a pensar para dar sentido ao • Escolha: etapa em que se estabelece re-
ato concreto, sem desviar o pensar do ato de fa- lação mais íntima com os objetos possí-
zer (Pichon-Rivière, in Hissa e Pinheiro, 1997). veis, havendo ambiguidade e ambiva-
lência frente a eles;
PRINCÍPIOS DO PROCESSO • Decisão: etapa em que há ação sobre a
OPERATÓRIO realidade e elaboração de projetos para
apoderar-se do objeto e torná-lo seu
Há uma relação entre as variáveis intelec- (Bohoslavsky, 1977).
tuais e as operações implicadas na realização
das tarefas estimuladoras do desenvolvimen- Esses fundamentos integram-se confor-
to. As tarefas integram um conjunto de ações, me a configuração mostrada na Figura 8.1.
permitindo estabelecer um vínculo com os
objetivos operacionalizados que são os orga-
nizadores do processo da aprendizagem.
As etapas desse processo comportam
tempos de exploração, de categorização, de
avaliação e de realização. Essa concepção leva
a considerar, respectivamente, os processos
cognitivos dos pensamentos criativo, concei-
tual, avaliativo e implicativo (Pelletier, 1977).
Trabalhar cognitivamente uma experiên-
cia, ativando as estruturas intelectuais, consis-
te em relacionar tarefas e processos do pensa-
mento, como apresenta o Quadro 8.1.

PRINCÍPIOS DO PROCESSO
DECISÓRIO
A aprendizagem do processo decisório
contribui para a construção da identidade
profissional a partir de identificações perce-
bidas no decorrer do processo de desenvolvi- Figura 8.1
mento pessoal.

Quadro 8.1. Tarefas Operatórias

Tarefas operatórias Pensamento


Explorar - Perguntar - Formular hipóteses - Ter novas ideias Criativo
Categorizar - Reunir - Agrupar - Estruturar - Sintetizar Conceitual
Avaliar - Comparar - Hierarquizar - Escolher - Ordenar Avaliativo
Realizar - Prever - Situar-se no tempo e no espaço Implicativo

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110 Levenfus, Soares & Cols.

PRINCÍPIOS DA GESTALT der como a pessoa estrutura sua experiência


presente para ampliar a percepção de si, em
A presença ativa do indivíduo na realiza- um contato criativo com o meio, favorecendo
ção das atividades, operacionalizadas a partir as condições para o equilíbrio, para a integra-
das tarefas, abre caminhos para que ele possa ção e para o crescimento do indivíduo como
perceber, tomar consciência, estabelecer rela- um todo.
ções e descobrir significados, por meio dos A experiência é o fundamento mais im-
recursos da Gestalt, com os conceitos destaca- portante do aprendizado e pode ser ampliada
dos no Quadro 8.2 (Burow, 1985). na criação de práticas apropriadas para atin-
A teoria da Gestalt é um pilar importan- gir os objetivos planejados.
te na construção da abordagem psicopedagógica Na operacionalização da metodologia,
por ser uma base psicológica cuja integração as atividades mobilizam o indivíduo como
dos conceitos centrais possibilita ativar a um todo e geram o surgimento de figuras que
aprendizagem e construir recursos técnicos o indivíduo precisa em dado momento para
os quais permitam desencadear e dar signi- atender às necessidades existentes em seu
ficado às atividades. campo existencial no aqui-e-agora.
Para promover qualquer aprendizagem, As condições da situação de atendimen-
é preciso dar mais atenção aos aspectos da to propiciam autossuporte para que o indiví-
compreensão do que à mera acumulação de duo desenvolva a consciência dos fatores que
informações: as unidades perceptivas apre- geram as dificuldades presentes e estabeleça
sentam-se com sentido, em marcos mais glo- novos contatos consigo mesmo visando a agir
bais do que quantitativos (Santomé, 1998). com autorresponsabilidade na tomada de de-
A aplicação dos Princípios da Gestalt na cisão. A unidade operatória é alcançada com a
abordagem psicopedagógica, utilizada em agilização propiciada pelos Princípios da Ges-
Orientação Profissional, permite compreen- talt, ilustrada na Figura 8.2.

Quadro 8.2 Princípios da Gestalt

Contato Experiência Consciência


Percepção Autossuporte Aqui-e-agora
Autorresponsabilidade Figura-fundo Campo

Figura 8.2

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Orientação Vocacional Ocupacional 111

ABORDAGEM PSICOPEDAGÓGICA EM
ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL
“Neste modelo educativo, o orientador
procura favorecer a construção de um proje-
to tanto profissional quanto pessoal, fruto de
ideais e compromissos próprios de cada um”
(Pelletier et al., 200l).
A experiência desenvolvida em Orien-
tação Profissional, articulada à base teórica
anteriormente exposta, possibilitou-nos a am-
pliação da compreensão do modelo de atuação
com enfoque psicodinâmico, visão que enfatiza a
estrutura dinâmica da personalidade do indi-
víduo na sua interação com o meio. Figura 8.3
A abordagem psicopedagógica, utilizada
na Metodologia de Ativação da Aprendizagem® O planejamento da ação em função dos
(MAP) em Orientação Profissional, permite ao objetivos tem um caráter intencional e inclui
indivíduo colocar-se como sujeito da aprendi- etapas e metas. A concretização da ação plane-
zagem, considerando seus aspectos cognitivos, jada para atingir os objetivos propostos é feita
afetivos e socioculturais (Figura 8.3). por meio de tarefas para promover a apren-
Essa abordagem visa a atender às de- dizagem dos conteúdos a serem ativados nos
mandas do momento histórico do indivíduo momentos de autopercepção, percepção dinâ-
para que ele possa aprender a selecionar, a mica do mundo e visão prospectiva, inerentes
escolher e a decidir a profissão que quer e às etapas do processo de desenvolvimento
pode ter, de que modo e em qual contexto. Re- pessoal.
presenta uma intervenção que está centrada A utilização do Planejamento por Objeti-
no Planejamento por Objetivos apresentado no vos é diversificada, podendo ser adaptada para
Quadro 8.3. atender diferentes situações:

Quadro 8.3 Planejamento por Objetivos

Etapas do
desenvolvimento Objetivos Conteúdos
pessoal A

• Situar-se em seu momento • Visão de passado, presente e T


Autopercepção histórico. futuro. I
dinâmica • Tomar consciência das • Percepção de interesses, aptidões
potencialidades e possibilidades. e características pessoais. V
I
• Explorar e organizar
D
Percepção informações sobre o mundo em • Conhecimento e informações
dinâmica do transformação. objetivas sobre o mundo. A
mundo • Descobrir identificações e ampliar • Função social do trabalho. D
alternativas de escolha.
E
• Definir metas. S
Visão • Construção de um projeto de vida
• Experimentar-se em um possível
prospectiva a curto, médio e longo prazo.
papel ocupacional e profissional.

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112 Levenfus, Soares & Cols.

ação que permitem que as informações che-


• trabalho com uma única pessoa ou com guem ao sujeito de forma:
um grupo;
• nível de maturidade do indivíduo; • original, espontânea, criativa, ampla,
• momento do desenvolvimento pessoal; diversificada;
• tempo disponível para a realização do • clara, organizada, estruturada, classifi-
trabalho; cada, com significado;
• nível socioeconômico do indivíduo ou • avaliada, selecionada, escolhida, possí-
grupo (Zaslavsky, 1979). vel, desejada;
• situada no tempo e no espaço, em um
Esse planejamento contempla a opera- contexto histórico e geográfico, per-
cionalização das tarefas operatórias que se mitindo ao indivíduo prever e propor
expressam em um conjunto sequencial de realizações.
atividades, organizadas a partir da estra-
tégia de ação correspondente às etapas do APLICABILIDADE DA ABORDAGEM
processo de desenvolvimento pessoal e pro-
fissional. Essa estratégia norteia a condução
PSICOPEDAGÓGICA
do atendimento em Orientação Profissional A abordagem psicopedagógica expande
(Quadro 8.4). a visão de ocupação e de profissão para a to-
O Quadro 8.4 constitui um referencial de mada de decisões diversas, como definição de
apoio que permite ao profissional estabelecer cursos, de profissões, de ocupações e de ati-
atividades que promovam a aprendizagem vidades, desde a juventude até os diferentes
dos conteúdos. momentos da idade adulta.
A ativação do processo de aprendizagem Para ilustrar um processo de atuação em
apoia-se em uma estratégia e em uma tática de Orientação Profissional escolhemos, como
clientela, o adolescente em fase de conclusão

Quadro 8.4 Etapas do Processo de Desenvolvimento Pessoal e Profissional

ETAPAS ESTRATÉGIA DE AÇÃO

Entender a escolha como um momento do processo histórico pessoal, integrando


vivências passadas, o presente e as expectativas quanto ao futuro. Desbloquear,
AUTOPERCEPÇÃO reconhecer e ampliar a compreensão das próprias características e do potencial para
DINÂMICA identificar áreas de interesse, resgatar aptidões e explorar possibilidades de agir
e produzir. Pensar sobre si mesmo, em seu cotidiano, no que gosta de fazer, nas
habilidades que tem e quer desenvolver, ampliando a consciência da autonomia.

Aumentar a gama de informações a fim de dar à pessoa oportunidade de conhecer


alternativas diversificadas e integradas à realidade. Fornecer informações objetivas
PERCEPÇÃO do mundo e criar situações para a descoberta de novas opções, possibilitando a
DINÂMICA DO consciência do papel social no aqui-e-agora, ampliando a visão de mundo a partir
MUNDO dos contextos familiar e social. As informações são trabalhadas de forma integrada
com a realidade externa e com o momento atual da pessoa, levando em conta os
fatores que possibilitam uma situação específica de escolha.

Experimentar a vivência de um futuro papel profissional ou ocupacional, explorando


e avaliando alternativas, definindo metas desejáveis e realizáveis. Conscientizar-se
VISÃO
dos fatores implicados nas alternativas que tem e da responsabilidade pessoal para
PROSPECTIVA
elaborar um projeto, estabelecendo um plano de ação que possibilite selecionar,
escolher e decidir profissões e ocupações que tragam satisfação.

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Orientação Vocacional Ocupacional 113

do ensino médio, no momento decisório cor- dentes a cada uma das etapas do processo de
respondente à escolha de curso superior, vi- desenvolvimento pessoal e profissional são
sando ao ingresso na faculdade. descritas no Quadro 8.5.
A estrutura básica, apresentada no Quadro As instruções das atividades são espe-
8.5, corresponde a uma modalidade de aten- cialmente elaboradas para que os conteúdos
dimento que pode ser individual ou coletiva, possam ser operacionalizados. As interven-
com uma ou duas horas de duração, respecti- ções do orientador, norteadas pelas etapas
vamente. O planejamento é elaborado de forma do processo de desenvolvimento pessoal e
intencional a partir dos objetivos; inclui um nú- profissional, propiciam a ativação das tarefas
mero preestabelecido de oito sessões semanais, operatórias de exploração, de categorização,
e a distribuição das atividades, por encontro, é de avaliação e de realização, para que o indi-
estabelecida conforme com o desenvolvimento víduo possa viver a experiência e tratá-la cog-
do atendimento. O trabalho em grupo é realiza- nitivamente, o que torna possível a integra-
do em sistema de dupla coordenação. ção lógica e psicológica da aprendizagem.
A fixação do tempo é considerada um O indivíduo, percebendo e definindo for-
fator imprescindível para a agilização do pro- mas de agir diante da diferença, encontra sua
cesso de trazer conteúdos internos à consciên- singularidade e desenvolve autonomia para
cia e fundamenta-se nos princípios de ativa- utilizar recursos novos na resolução do coti-
ção do desenvolvimento cognitivo com uma diano, em um ato concreto que permite a cons-
atuação apoiada na Gestalt (Burow, 1985). trução criativa de um estilo de vida.
Utilizamos recursos e técnicas participa- “A construção ou a elaboração de um
tivas, como exercícios, jogos, pesquisas, deba- projeto de vida faz parte do processo de ma-
tes, reflexões, exposições, situações simuladas turação afetiva e intelectual e, como tal, supõe
e dramatizações. As atividades correspon- ‘aprender a crescer’” (Casullo, 1994, p.18).

Quadro 8.5 Quadro de Referência

QUADRO DE REFERÊNCIA

Etapas Atividades Descrição


• Caracterização da modalidade de atendimento.
• Preenchimento de ficha de inscrição com dados pessoais e
Contrato contexto familiar.
• Informações quanto à duração, ao número e à frequência das
sessões.
• Redação das expectativas do orientando quanto à proposta,
Expectativas a partir das perguntas: Por que veio fazer a OP? O que espera
do trabalho?
Autopercepção • Utilização de recurso gráfico de uma linha horizontal que
dinâmica representa a trajetória de vida do orientando para que assinale
Trajetória marcos significativos desde o nascimento até a data de
realização dessa atividade.

• Levantamento do cotidiano do orientando, tendo como


referencial quatro categorias:
- Gosto e faço
Quadrantes
- Gosto e não faço
- Faço e não gosto
- Não gosto e não faço
Continua

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114 Levenfus, Soares & Cols.

Continuação

QUADRO DE REFERÊNCIA

Etapas Atividades Descrição


Análise de • Identificação de produtos e produtores em propagandas
propagandas extraídas de revistas.
• Categorização de profissionais em áreas produtivas
representativas dos setores econômicos, com preenchimento
Áreas
de folha impressa que contém duas colunas: profissões sem
produtivas
formação de nível superior e profissões de nível superior (Hissa
e Pinheiro, 1998).

• Conhecimento e exploração dos conteúdos e das formas de


Campos de profissões a partir dos oito campos de trabalho descritos por
trabalho Ane Roe (Pinheiro, 1973).
Percepção
dinâmica do • Apresentação de listagem por ordem alfabética de profissões
mundo de nível superior existentes no Estado brasileiro onde está
Listagem de
sendo realizado o atendimento (Hissa e Pinheiro, 2001).
profissões
• Estabelecimento de relação entre áreas produtivas, campos de
trabalho e profissões. Técnica RP (Hissa e Pinheiro, 1998).

• Ampliação de informações objetivas sobre o mundo do trabalho,


utilização de manuais e guias de profissões, de sites da internet,
Consultas
de folhetos de divulgação de cursos, de jornais, de currículos de
orientadas
cursos, de informativos com localização de instituições e acesso
ao Banco de Informações Profissional do NOVO (BIP).

Entrevista • Realização de entrevista estruturada com roteiro básico


com definindo estilo, forma e conteúdo das profissões (Zaslavsky,
profissional 1979).

• Dramatização feita pelo orientando expressando-se oralmente


Dramatização “como se fosse” o profissional entrevistado descrevendo sua
profissão.

Seleção e • Escolha de profissões entre as já selecionadas.


escolha de Estabelecimento de prioridades, avaliando possibilidades
profissões profissionais desejáveis e realizáveis.

• Integração dos fatores que compõem a profissão escolhida:


Visão Construção
características, atividades desempenhadas, estilo, áreas de
prospectiva da profissão
estudo, preparação requerida, locais e ambientes de trabalho.

• Continuação da trajetória de vida, iniciada na primeira sessão,


Trajetória
para a decisão da profissão, avaliando o processo vivenciado,
continuada
refletindo sobre as perguntas: como se percebe agora em
relação às expectativas iniciais? Como quer dar continuidade à
Avaliação
sua história a partir da decisão profissional?
do processo
• Estabelecimento de etapas de um projeto de ação a curto,
médio e longo prazos.

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Orientação Vocacional Ocupacional 115

CONSTRUÇÃO, TRANSFORMAÇÃO E talizar o indivíduo para que ele possa


CONTINUIDADE perceber as próprias características e o
próprio potencial de desenvolvimen-
Os resultados da aplicabilidade da meto- to, tendo acesso às informações para a
dologia construída permitem-nos afirmar que compreensão de seu processo de deci-
o indivíduo pode aprender a escolher a profis- são.
são. Essa certeza resulta de nossa experiência • O trabalho de Orientação Profissional
em Orientação Profissional, com a utilização contribui para redimensionar os va-
da abordagem psicopedagógica ao longo de lores das pessoas e os do próprio tra-
quatro décadas de trabalho. balho, fortalecendo a autoestima e a
As transformações sociais geram múlti- consciência do significado do serviço
plas demandas, expandem campos de trabalho que prestam à sociedade.
e abrem um leque de novas possibilidades de • É importante atingir-se a consciência
atendimento no que se refere à escolha de uma social por meio de informações que
ocupação ou profissão. esclareçam o alcance da Orientação
Acreditamos que a Orientação Profis- Profissional e ampliem a credibilidade
sional envolve um conjunto de fatores, e os nesse tipo de trabalho.
profissionais que atuam nessa área precisam
ampliar continuamente sua visão para esta- É fundamental, ainda, trazer uma visão
rem sempre afinados com a compreensão do ampla e sistêmica dessa temática, na qual fa-
contexto social e com as formas de trabalho tores sociais, políticos e econômicos estão in-
contemporâneas. terconectados e são interdependentes.
Essa proposta metodológica possibilita Podemos afirmar que a Orientação Pro-
considerar relevantes os seguintes aspectos: fissional deve ter como meta ajudar as pessoas
a se prepararem para trabalhos que propiciem
• As transformações no mundo do traba- alegria, buscando a própria satisfação, o que
lho exigem uma renovação na maneira certamente trará como consequência a melho-
de pensar com o objetivo de identificar ria em sua competência e produtividade.
possibilidades de atuação em diferen- Nossa modalidade de atuação em Orien-
tes projetos, com uma ação empreen- tação Profissional representa uma contínua
dedora para perceber tendências e pre- construção que está sendo sempre revista e
ver mudanças. enriquecida com novas experiências e com
• A Orientação Profissional necessita novos estudos, oferecendo uma base que leve
estar sempre criando formas de atuar a reflexões sobre a questão da Orientação Pro-
frente à realidade para conceber uma fissional sob a ótica da aprendizagem, contri-
estratégia de ação diversificada. buindo, assim, para difundir e renovar a ima-
• No processo de Orientação Profissio- gem pública da Orientação Profissional.
nal, o papel do orientador é instrumen-

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116 Levenfus, Soares & Cols.

REFERÊNCIAS

BOHOSLAVSKY, R. Orientação vocacional: a estratégia clínica. São Paulo: Martins Fontes, 1977.
BUROW, O.; SCHERPP, K. Gestaltpedagogia: um caminho para a escola e a educação. São Paulo:
Summus, 1985.
CAPRA, F. A rede da vida. São Paulo: Cultrix, 1996.
CASULLO, M.M. et al. Proyecto de vida y decision vocacional. Buenos Aires: Paidós, 1994.
DELEUZE, G. Empirismo e subjetividade: ensaios sobre a natureza humana segundo Hume. São
Paulo: Ed. 34, 2001.
DE MASI, D. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
FREIRE, P. et al. O processo educativo segundo Paulo Freire e Pichon-Rivière. Petrópolis: Vozes, 1987.
GOLEMAN, D. A inteligência emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.
GUATTARI, F. Revolução molecular: as pulsações políticas do desejo. São Paulo: Brasiliense, 1981.
HISSA, M.G.; PINHEIRO, M.A. Aplicação de uma metodologia psicopedagógica em orientação voca-
cional/ocupacional: três décadas de uma experiência. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE ORIENTA-
ÇÃO VOCACIONAL/OCUPACIONAL, 3., 1997, Canoas. Anais... Canoas: ABOP, 1997.
_____. Aplicação dos princípios gestálticos na criação de uma metodologia ativa: abordagem psicopeda-
gógica. In: ENCONTRO NACIONAL DE GESTALT TERAPIA, 3., 1991, Brasília. Mimeo.
_____. Informativo das Profissões de Nível Superior, Rio de Janeiro, n.12, 2008.
_____. Percepção dinâmica do mundo do trabalho: técnica RP: realidade profissional. In: ENCON-
TRO ABOP, 3., 1998, Florianópolis. Anais...
MATURANA, H.; VARELA, F. A árvore da vida. São Paulo: Psy, 1995.
MORIN, E. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertran, 1997.
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO DA INTUIÇÃO E CRIATIVIDADE. Disponível em:
<http://www.cdic.com.br>. Acesso em: 30 jul. 2001.
PELLETIER, D. et al. Définir et confirmer son choix professionnel. Disponível em <http://www.
globenet.org/diane>. Acesso em: 29 ago. 2001.
PELLETIER, D. et. al. Desenvolvimento vocacional e crescimento pessoal. Petrópolis: Vozes, 1977.
PIAGET, J. Psicologia da inteligência. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 1986.
PINHEIRO, M.A. Percepção ocupacional e desenvolvimento vocacional do adolescente. 1973. 105 f. Dis-
sertação (Mestrado em educação) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, 1973.
PRIGOGINE, I. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. São Paulo: Ed. Universidade
Estadual Paulista, 1996.
SANTOMÉ, J.T. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto Alegre: Artmed,
1998.
SUPER, D. Psicologia ocupacional. São Paulo: Atlas, 1972.
ZASLAVSKY, I. et al. Orientação vocacional: uma experiência em processo. Rio de Janeiro: Eldo-
rado, 1979.

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9
Orientação vocacional ocupacional
abordagem clínica psicológica

Rosane Schotgues Levenfus

A adoção de uma perspectiva do orientação: psicólogos, pedagogos, economis-


sujeito psicológico, que não desintegra o tas e outros (CFP, 2001, 2003, 2005, 2006).
comportamento vocacional das restantes O fato de os testes serem encaminhados
facetas da experiência humana, acarreta e avaliados positivamente pelo CFP, de uso
para o psicólogo, do ponto de vista das exclusivo do psicólogo, não significa que seu
opções de intervenção, exigências incom- uso seja restrito à clínica. Na forma com que
paravelmente superiores àquelas com me proponho a apresentar a abordagem clínica
que se poderia confrontar no quadro de em OP, neste capítulo, essa proposta passa a ser
uma prática mais estruturada, quase es- dirigida somente ao profissional da psicologia,
tandardizada, de Orientação Vocacional. a partir, também, da utilização de testes.
(Nascimento e Coimbra, 2005, p. 17) Embora em alguns momentos a aborda-
gem psicanalítica seja mensionada como um
dos precursores da abordagem clínica, os lei-
INTRODUÇÃO tores perceberão que essa proposta abrange
A Orientação Vocacional Ocupacional conceitos de psicologia do desenvolvimento,
(OVO) já foi por mim abordada com enfo- comportamental e psicodinâmica de uma for-
que clínico psicanalítico (Levenfus, 1997b). ma mais ampla.
Naquela época preocupei-me em enfatizar
que a abordagem psicanalítica não era de uso
exclusivo do psicólogo e, fazendo referência
CONCEITO
a Knobel (1986), tampouco se restringia ao A história da Orientação Profissional
trabalho no consultório, podendo estender-se vem unida à história do conceito de vocação
às escolas e a outros âmbitos. Continuo com- (deriva de vocatio: “chamado interior”). Con-
partilhando dessa opinião. forme Veinstein (1994):
Passados os anos nos quais houve um
grande incremento dos estudos em OP no • Se se entende que a vocação é inata; se
Brasil, contamos com muitas publicações cien- nasce com destino para alguma tarefa
tíficas, novos instrumentos e testes. Com o ad- determinada...
vento da normatização dos testes psicológicos ... então a Orientação só tem que desco-
pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), a bri-la e dizer ao indivíduo.
fim de garantir a qualidade psicométrica dos • Se a vocação ocorre por meio de apren-
instrumentos, o campo da OP também pôde dizagens...
definir de forma mais clara o campo de atua- ... então a Orientação avalia o que se
ção do psicólogo, já que existem muitos fa- aprendeu e o que se pode aprender.
zeres comuns aos diferentes profissionais da Nesse caso, a Orientação conduz.

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118 Levenfus, Soares & Cols.

• Se a vocação é o conjunto de habilida- dizem respeito, que são percebidos, conheci-


des para certas tarefas... dos, necessários, desejados. Quando alguém
... então a Orientação mede, hierarquiza se orienta, analisa os valores ditos e os não di-
e assinala as áreas nas quais se acredita tos, tratando de harmonizá-los para guiar sua
que o sujeito renderia mais. ação.
• Se vocação é um processo de intercâm- O ocupacional é o fazer, que necessita de
bio e síntese entre disposições, tipo de objetos, ferramentas, símbolos, técnicas e es-
personalidade e resultados de aprendi- tratégias para efetivar o vocacional.
zagem... O vocacional sem o ocupacional, como bem
...então a Orientação diagnostica esses assinala Veinstein (1994) em nosso prefácio, “é
níveis e trata de correlacioná-los. só fantasia, sonhos, esperanças”. “O ocupacio-
• Se a vocação é o conjunto de chamados nal sem o vocacional é alienação, é fazer sem
interiores os quais resultam da inter- sentido”.
nalização de chamados do ambiente e Dissociar vocacional de ocupacional é pro-
da própria experiência, em uma ma- vocar uma dicotomia entre ser e fazer.
triz existencial, o fazer é uma manifes-
tação do ser e este se encontra e se faz
em seu fazer;
ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL
• Se a vocação se amplia como o vocacio- Para todos os efeitos, prefiro reservar o
nal em todo o desenvolvimento histó- termo “Orientação Profissional” para o traba-
rico de uma pessoa, assumida em sua lho que se limita a informar e a orientar a res-
autonomia de escolha e de decisão... peito de profissões, mercado de trabalho, apli-
... então a Orientação é criação e re- cando técnicas de aprendizagem sem enfatizar
criação contínua dessa história pesso- as questões intrapsíquicas do orientando.
al na história compartilhada, compre- A OP é um trabalho extremamente ne-
endendo tanto a si mesmo quanto à cessário e deveria compor obrigatoriamente
sua percepção alheia com o que deve os currículos escolares – pelo menos durante
relacionar-se em uma síntese harmô- todo o ensino médio – pois é notório o quanto
nica, de projeto presente e projeção no a falta de informações redunda em escolhas
futuro. Nesse processo de Orientação, equivocadas.
o ocupacional é ato e proposta que
tanto deriva como propõe condições ORIENTAÇÃO VOCACIONAL
ao vocacional.
OCUPACIONAL
Para a OVO, o vocacional tem relação Considero a OVO um processo mais
íntima com o sentido que se encontra para a abrangente, que diz respeito não somente à
vida. É o que se sente e se pretende ser. Esse informação das profissões, como também a
vocacional necessita sintetizar, a princípio, as toda uma busca de conhecimento a respeito
diferentes “novelas” que foram escritas para de si mesmo (características de personalida-
cada sujeito, ainda antes de seu nascimento, de, interesses familiares e sociais do orientan-
no caminho de chegar a ser autor de seu pró- do), promovendo o encontro das afinidades
prio roteiro (Veinstein, 1994). do sujeito com aquilo que pode vir a realizar
Quanto ao termo orientação, prefiro em forma de trabalho.
entendê-lo como auxiliar terapeuticamente
alguém a encontrar um direcionamento para
Um modelo dual
sua vida, um “que fazer”, pelo do reconheci-
mento de uma identidade profissional, a par- O jovem que busca auxílio para resolver
tir do conhecimento de seu mundo interno e uma questão vocacional nem sempre está
do mundo ocupacional. disposto a questionar mais profundamente
Orientar-se é guiar-se no espaço e encon- acerca de sua dinâmica interna e descobrir as
trar, entre diversos valores, aqueles que lhe bases neuróticas de sua dificuldade. Mesmo

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Orientação Vocacional Ocupacional 119

assim, em grande parte dos casos, é possí- A estratégia clínica


vel solucionar a dúvida vocacional. É nesse
contexto que Bordin (1975) formula a ideia Bohoslavsky (1982) denominou Orienta-
da OVO, denominada “asesoria vocacional”, ção Vocacional - estratégia clínica, a uma moda-
como um tratamento diferente da psicaná- lidade que adota “um conjunto de operações,
lise. por meio do qual o psicólogo ascende à com-
Esse autor descreve três fases do pensa- preensão da conduta do orientando e facilita
mento psicológico com relação à questão vo- para este último o acesso à sua própria com-
cacional. Em um primeiro momento se con- preensão”. Entende que a entrevista clínica é
siderava a escolha como o processo de estar o instrumento principal para ajudar o jovem a
bem-informado das posições disponíveis em chegar a uma decisão autônoma.
diferentes ocupações, dos requerimentos edu- Para esse autor, os movimentos que
cativos, das condições de trabalho e dos salá- “configuram uma estratégia correspondem a
rios. Esse modelo centrava-se nas motivações critérios racionais que surgem do quadro de
extrínsecas para o trabalho e para a vocação. Em referência daquele que a usa”. Na Argenti-
uma segunda fase, o conceito de escolha voca- na, as influências teóricas foram basicamente
cional foi ampliado em termos de um modelo psicanalíticas, refletindo ele esse contexto de
misto de motivações extrínsecas-intrínsecas por trabalho.
meio das relações das demandas psicológicas As principais fontes teóricas da estra-
da ocupação com as características pessoais tégia clínica em OVO, como apontou Müller
do adolescente. Esse modelo consistia em in- (1988), provêm da psicanálise e da psicologia
terpretar os resultados de testes com a finali- social.1
dade de elucidar qual ocupação exigia reque-
rimentos assim. Essa concepção de processo de Da psicanálise derivam, em espe-
Orientação ainda prevalece em alguns estabe- cial, os conceitos de instâncias psíquicas:
lecimentos de educação secundária e prepara- (ego, id e superego) e a ideia de um in-
tória, como já referido. consciente atuante, dinâmico, que se ex-
Nos anos 1930, com a ênfase às teorias pressa não só em sonhos, atos falhos, sin-
da personalidade e sua dinâmica, as dificul- tomas, mas também em todo um sistema
dades para realizar uma escolha vocacional de percepção de mundo e de expressão
passaram a ser consideradas como sintomas pessoal, mediante a busca de objetivos
de um problema emocional ou neurótico. que colocam em jogo motivações e dese-
Naquela época, algumas vezes, estimula- jos profundos muitas vezes consciente-
va-se o cliente a resolver seus problemas mente desconhecidos.
transformando a OVO em uma ampla psi- (Müller, 1988, p. 13)
coterapia. Dessa forma, o processo ficava
tão incompleto quanto o primeiro modelo. A constituição do ego e do superego, o
Assim, buscou-se um modelo dual: o mode- narcisismo, o ideal de ego, os mecanismos
lo de escolha extrínseca-intrínseca aliado ao de identificação, de idealização, de sublima-
modelo interno dinâmico. ção, bem como os conceitos de identidade, de
É feita referência à OVO em diferentes transferência, de contratransferência, as estru-
âmbitos. Posso considerá-la um momento na turas da personalidade, entre outros, são apor-
psicoterapia em que são tratadas questões vo- tes importantes de Freud e seus seguidores.
cacionais, bem como uma forma específica de Da psicologia social procedem as noções
tratamento clínico. de vínculo, de grupo interno, de estrutura e de

1
Nos últimos anos, temos encontrado relatos de abordagem clínica junguiana que trata das manifestações dos
complexos e sua interferência no processo de OP, bem como relatos de contribuições da Gestalt nas quais se
articula a proposta diagnóstica de Bohoslavsky com conceitos Gestalt de autorregulação organísmica e ciclo de
contato (Moraes, 2007; Canedo, 2007). Também Rappaport (2001) apresenta sua leitura lacaniana da formação
da identidade profissional, salientando que a subjetividade tem que ser percebida e trabalhada em um con-
texto ideológico que a rejeita.

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120 Levenfus, Soares & Cols.

dinâmica dos grupos, além de outros aportes OVO clínica em moldes focados e breves, em
de Pichon Rivière, Ulloa, Kesselman e outros. sua maioria, com utilização básica do referen-
De tudo isso resulta a OVO como um cial psicanalítico (Neiva, 2003; Rassi, Souza,
processo, uma trajetória, uma evolução me- Vilas Boas e Valore, 2001; Lima, 2001; Melo-
diante a qual os orientandos refletem sobre Silva, 2003).
sua problemática e buscam caminhos para Na forma como estou acostumada a rea-
sua elaboração. lizar o atendimento, em muitos pontos ele se
assemelha ao que se denomina Psicoterapia
Tudo o que se trabalha durante a Breve Focal. Apoio-me em Lemgruber (1984)
OVO tem por finalidade levar o orien- e Fiorini (1985) para explicitá-la.
tando a pôr em prática seu protagonis- É importante destacar que o atendimen-
mo quanto a conhecer-se, conhecer a rea- to “breve” não se caracteriza pelo tempo que
lidade e tomar decisões reflexivas e de ocupa, e sim por uma técnica com caracterís-
maior autonomia, que levem em conta ticas específicas. Costuma-se apoiar a concei-
suas próprias determinações psíquicas tuação dessa modalidade psicoterápica em
assim como as circunstâncias sociais. seu caráter não regressivo.
(Müller, 1988, p. 14) É bastante indicada para quadros agu-
dos, em especial, situações de crise ou des-
No processo de “tomar consciência”, é compensações; para situações de mudança,
importante a interpretação do que se expressa por exemplo, em transição de etapas evoluti-
livre e transferencialmente, das sobredetermi- vas (adolescência, casamento, graduação, me-
nações subjetivas da identidade vocacional, nopausa, aposentadoria), bem como para dis-
das relações de produção e de poder próprias túrbios de intensidade leve ou moderada de
do sistema social, o que, por sua vez, também início recente. Por tudo isso nos parece bem
é questionado pela mobilização ideológica do indicado à resolução da crise vocacional.
adolescente ( Bohoslavsky, 1975). Não é possível, sob essa técnica, produzir
Tudo isso significa que uma prática res- mudanças na estrutura essencial da personali-
ponsável em OVO não pode ser alienada a dade, nem é esse o seu objetivo. No entanto, é
ponto de perder de vista que muito do que o defendida a ideia de que essa técnica produz
indivíduo “pode chegar a ser” seja reflexo do modificações dinâmicas de maior alcance do
quanto a estrutura social lhe permite chegar a que a mera supressão de sintomas.
ser e, por outro lado, do quanto o indivíduo Fiorini (1985) observa que o atendimento
(emocionalmente são) pode apropriar-se de no modelo breve produz modificações corre-
sua escolha e realizar-se ainda que esteja inse- latas na manipulação das defesas, com a subs-
rido em uma estrutura social alienante. tituição de técnicas mais regressivas por ou-
tras mais adaptativas; maior ajustamento nas
A OVO COMO ATENDIMENTO relações com o meio (comunicação, trabalho,
etc); incremento da autoestima, da sensação
CLÍNICO BREVE de bem-estar pessoal, da autoconsciência; am-
Embora seja salientado que a OVO pode pliação de perspectivas pessoais, esboço ini-
ser tanto um momento de um tratamento cial de alguns tipos de “projeto” individual.
psicoterápico quanto um recurso oferecido A técnica de atendimento clínico breve
por escolas ou empresas, serão apresentadas tem características distintivas baseadas em uma
algumas questões que poderiam identificar tríade. Os aspectos essenciais e característicos
a OVO como um atendimento clínico breve do método são atividade, planejamento e foco.
a ser exercido pelo psicólogo.2 Cabe apontar
que inúmeras clínicas de psicologia de uni- Atividade: Um ponto de concordân-
versidades brasileiras prestam o serviço de cia geral em atendimentos breves refere-se

2
Outros autores também têm apontado, em sua prática, a OVO como atendimento breve e focado (Müller,
2004; Mello, 2002 e Nascimento, 2007).

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Orientação Vocacional Ocupacional 121

à necessidade de maior atividade por parte o problema do paciente dinamicamente e em


do terapeuta. Essa atitude deliberadamente estabelecer um foco de trabalho e um planeja-
mais ativa, em contraposição à postura clás- mento terapêutico.
sica de neutralidade, é um aspecto central Um planejamento terapêutico deve ser
nesse tipo de técnica que “transgride” a “re- necessariamente flexível, e, mesmo que a es-
gra de abstinência” da psicanálise. tratégia mais ampla possa manter-se inalte-
Se o terapeuta escolher atuar em um trata- rada durante o tratamento, a tática emprega-
mento breve, ele necessariamente estará optan- da será sempre passível de modificações, de
do por maior atividade e maior participação, acordo com as necessidades surgidas ao longo
sendo necessária a adoção de atitudes como: da terapia.
Além disso, a correta avaliação do pa-
• Avaliar e diagnosticar as condições in- ciente é um elemento básico no planejamento
ternas do paciente. terapêutico, devendo ser ressaltado o fato de
• Estabelecer um foco a ser trabalhado que fazer uma avaliação prévia não significa
durante o processo. rigidez na estratégia a ser seguida nem im-
• Combinar com o paciente um contrato possibilidade de ela ser revista ao longo da
terapêutico discutindo o foco estabele- terapia. Nesse sentido, a avaliação psicológica
cido (no caso, a busca de resolução da tem também o papel de permitir que se faça,
problemática vocacional). antes de tudo, uma indicação terapêutica. É
• Planejar a estratégia básica a ser se- importante lembrar que nenhuma das técni-
guida durante o processo terapêutico cas terapêuticas pode, ou deve, ser indicada
(inclusive se a OVO será individual ou indiscriminadamente para qualquer caso, em
coletiva). qualquer situação, da mesma forma, portanto,
• Atuar em uma linha de focalização deve ser em OVO. A escolha do tipo de tra-
que implica interpretações seletivas, tamento não é ditada pelo quadro clínico ou
atenção seletiva (em contraposição à pela sintomatologia, mas sim pela estrutura
atenção flutuante) e “negligências” se- da personalidade, pelas condições egóicas do
letivas. paciente e pela demanda.
• Agilizar o processo terapêutico utili- Diversos testes psicológicos psicomé-
zando recursos alternativos à interpre- tricos, projetivos e expressivos têm sido uti-
tação transferencial clássica. lizados em Orientação Vocacional tanto no
• Opor-se ao desenvolvimento de neu- diagnóstico de orientabilidade quanto no de-
rose de transferência por meio de in- senvolvimento da Orientação.
terpretações que valorizem também a Assim como Nascimento (2007), outrora
realidade atual do paciente. trabalhamos apenas a partir de entrevistas.
• Criar um clima que possibilite ao pa- No entanto, percebemos a falta de alguma
ciente vivenciar seus impulsos sem a informação que apenas o resultado de um
necessidade de lançar mão de defesas teste poderia fornecer em tempo breve e com
como forma de proteção e da ansieda- segurança. Essas informações – referentes a
de por eles desencadeada, isto é, propi- habilidades e a interesses específicos, traços
ciar que o paciente vivencie uma Expe- de personalidade, grau de maturidade, entre
riência Emocional Corretiva (EEC). outros – que podem levar muito tempo para
serem investigadas por meio de entrevistas,
Planejamento: As condições necessárias às vezes são obtidas com segurança por meio
para o êxito de um atendimento breve são, da testagem psicológica. Com a testagem, não
além de disponibilidade e de capacidade do esperamos ajudar diretamente na resolução
paciente em explorar sentimentos, a capaci- do conflito, mas sim na sua compreensão.3
dade do terapeuta em sentir e compreender

3
Outros estudos também apontaram a importância do uso de testes psicológicos no processo de Orientação
Profissional com vistas a aprofundar o autoconhecimento (Manfredini, Hatzenberger e Pereira, 2007; Nasci-
mento, 2007; Mello, 2002; Müller, 2004).

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122 Levenfus, Soares & Cols.

Nessa perspectiva, não se propõe mo- A ORIENTAÇÃO VOCACIONAL


mentos diferentes para entrevista, para testa-
gem e para devolução.
CLÍNICA NA PRÁTICA
Consideramos o diagnóstico e a avalia-
Tais aspectos serão discutidos ao ção do paciente essenciais para o planejamen-
longo das entrevistas e não são resulta- to terapêutico e para o estabelecimento da tá-
dos finais para o orientando levar consi- tica na condução do caso.
go. Os resultados dos testes, trabalhados A fim de realizar o trabalho de orientar
no decorrer do processo e integrados o jovem profissionalmente, é preciso pensar
a seu autoconceito, devem auxiliar o em
orientando a compreender em que po-
dem contribuir para sua escolha pro- • quem é o sujeito da escolha;
fissional. Portanto, tão logo realizado o • realizar um diagnóstico quanto à sua
teste, seus resultados devem ser comuni- orientabilidade;
cados, mesmo que no meio do processo, • qual será o melhor manejo para o jo-
visando a ampliar o conhecimento que o vem, conforme seu diagnóstico;
orientando pode ter de si mesmo. Tam- • como, quando e em que situação os
bém o conteúdo da comunicação deve pais participarão, ou não, do processo;
ser associado aos demais conhecimentos • o quanto o terapeuta “está em dia” com
que já foram elaborados no processo, ou suas questões vocacionais;
seja, a informação dos resultados deve • dispor de informações sem as quais
ser integrada aos demais aspectos con- qualquer trabalho dessa ordem perde
siderados para a escolha da profissão. o valor.
(Nascimento, 2007)

Foco: Define-se como foco o material


O SUJEITO DA ESCOLHA
consciente e inconsciente do paciente, delimi- Entre os sujeitos que manifestamente
tado como área a ser trabalhada no processo buscam auxílio para escolher uma profissão
terapêutico por meio de avaliação e de plane- (pedem por OVO, e não por psicoterapia), na
jamento prévios. maior parte dos casos, deparo-me com um jo-
Focalizar significa que o terapeuta levará vem, segundo minha experiência, em vias de
o paciente a trabalhar emocionalmente, sobre- concluir o ensino médio ou tendo-o concluído
tudo, uma área antes determinada – no caso, recentemente.
a escolha da profissão. Para atingir esse objeti- É muito importante que em momento
vo, o terapeuta lançará mão, principalmente, algum se perca de vista todo o contexto de
de três recursos técnicos: mudanças no qual se insere um adolescente.
Submetido a uma das maiores crises do de-
• interpretação seletiva: procura-se in- senvolvimento humano, não surpreenderia
terpretar sempre o material do pacien- que esse sujeito encontrasse problemas para se
te em relação ao conflito focal; definir profissionalmente em meio a um turbi-
• atenção seletiva: buscam-se, por meio lhão de definições ideológicas, religiosas, éticas
dela, todas as possíveis relações do e sexuais.
material que o paciente traz com a pro- Percebe-se que a consolidação da iden-
blemática focal; tidade profissional é uma das últimas tarefas
• “negligência” seletiva: levará o tera- da adolescência, mas a clientela que busca
peuta a evitar qualquer material que, OVO nem sempre está em fase adiantada de
mesmo sendo interessante, possa des- conclusão do processo adolescente (Leven-
viá-lo demais da meta a ser atingida. fus, 1997a). Vêm empurrados por uma cultura
que dita, em nosso país, que a escolha por
uma profissão deve ocorrer ao término do
ensino médio, momento que nem sempre

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Orientação Vocacional Ocupacional 123

coincide com a maturidade necessária a tal DIAGNÓSTICO DE ORIENTABILIDADE


tarefa. A identidade ocupacional não é uma
aquisição independente da formulação da Ao considerar a formação e a consoli-
identidade pessoal e submete-se às mesmas dação da identidade profissional como mais
leis e dificuldades que conduzem a essa con- uma das que compõem o todo de um sujei-
quista. to, percebe-se que nem todos os que buscam
A grande questão a ser formulada (no um processo de OVO necessariamente serão
que estou de acordo com Bohoslavsky) não beneficiados. A formação e a consolidação da
deveria ser “por que este adolescente não identidade profissional são parte de um pro-
consegue escolher?”, mas “por que este ado- cesso. Orientar em termos vocacionais um
lescente, em um momento tal como aquele em jovem que ainda não adquiriu determinadas
que se encontra, pode, não obstante, tomar condições prévias e necessárias torna-se uma
uma decisão?”. tarefa contraproducente.
Considerando que os adolescentes que Baseamo-nos em Bohoslavsky (1982) e
atendo procuram a OVO por motivação pró- em nossa experiência para enunciar alguns
pria, grande parte de meus estudos baseiam- pontos os quais, acreditamos, devam ser ob-
se naqueles que por algum motivo não estão servados para fins de diagnóstico:
conseguindo escolher. É notório que a maioria
deles encontra-se com uma surpreendente a) o motivo da procura por OVO. Exa-
falta de informações acerca das profissões, minar o motivo pelo qual o jovem nos
além de grandes distorções a respeito das que procura. Observando “o que o traz
mencionam. aqui”, podemos perceber alguns da-
Digo “surpreendente” porque estamos dos importantes acerca, por exemplo,
na Era da informação, e basta acessar a inter- dos mecanismos de defesa utilizados
net para navegar em sites de universidades, frente ao momento. Alguns não têm
guias de profissões, entre outros. Se compa- ansiedade motivadora para o proces-
radas com o nível e com a quantidade de in- so e procuram-nos “porque os amigos
formações que possuem acerca de assuntos o fizeram”. Alguns não manifestam
como música, carros, computadores, bares e ansiedade, que pode estar totalmente
roupas da moda, percebe-se que no terreno projetada, por exemplo, no desejo dos
profissional as informações que têm são míni- pais. Outros se relacionam de forma
mas e superficiais. mágica, esperando resoluções rápidas,
É difícil para o adolescente entrar em fáceis e instantâneas a partir de algum
contato com as informações do mundo teste. Nascimento e Coimbra (2005)
profissional especialmente porque fazê- alertam que nem sempre os motivos
-lo representa contatar com o novo, com o são apresentados de forma evidente.
desconhecido, com o mundo adulto. O ado- Às vezes, mesmo quando a procura é
lescente recua diante desse momento, resiste voluntária, eles podem ser difusos e
em obter informações, nega conhecimentos inespecíficos por diversos fatores: por
que já possui, prefere não saber, uma vez que, não identificarem suas necessidades
permanecendo ignorante, não escolhe, não predominantes, por não se sentirem
cresce, não deixa a vida passar. seguros para expor sua demanda, por
Desse modo, é necessário abordar a não conseguirem exprimir diretamen-
questão, aliviar a ansiedade, elaborar lutos, te suas preocupações.
preparar o adolescente para poder buscar e
aproveitar verdadeiramente (conhecer) as b) fantasias de resolução. Muitas vezes,
informações a que ele tem acesso. Sem isso, já na primeira verbalização, o orien-
pode-se ministrar-lhe aulas, fornecer-lhe toda tando expõe fantasias de enfermidade
a espécie de material informativo sem que o e cura. Ou seja, expõe suas expecta-
conteúdo seja apreendido. tivas conscientes, ou inconscientes,

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124 Levenfus, Soares & Cols.

frente ao processo de OVO, incluindo de escolher bem se deixar de lado “as boba-
componentes transferenciais. gens” de sua adolescência e se converter, da
noite para o dia, em um “adulto sério”. Pode
Bohoslavsky ressalta que esse processo ser percebida na relação transferencial na for-
estrutura-se basicamente em torno de duas ma de comportar-se como um cliente sério,
ancoragens: uma de busca e outra de repulsa. deixando de lado suas rebeldias e sua vontade
Busca: Para escolher e decidir, o orientan- de “fazer o que quiser”.
do pode buscar uma ou mais das seguintes
situações: c) momentos pelos quais o adolescente
passa: Bohoslavsky situa três momen-
• Liberdade: Necessita libertar-se – em tos: seleção, escolha e decisão:
seu mundo interno, em sua fantasia Seleção: O momento de seleção coloca
– dos vínculos de dependência que em jogo a função (do ego) de discriminação.
caracterizam o momento evolutivo Para obter êxito na escolha vocacional, é ne-
que vive. Um dos principais vínculos cessária a capacidade de discriminação tan-
a ser solucionado é o simbiótico. Para to de objetos internos quanto externos. Um
fim diagnóstico, é importante pesqui- fracasso nessa função conduz a projeções e
sar como o adolescente acredita que introjeções maciças os quais comprometem
alcançará sua emancipação, assume a percepção (“poder ver” e “poder se ver”).
diversas formas, como competência, Adolescentes com dificuldades de individu-
rebeldia, submissão às figuras de auto- ação manifestam, geralmente, indiferença (as
ridade que são percebidas também na carreiras, as profissões lhe parecem equiva-
forma como são transferidas ao orien- lentes e intercambiáveis) e grande confusão
tador vocacional. quanto às classificações afetivas que fazem
• Apoio: O adolescente pode estar em das carreiras e profissões. As alterações desse
busca de apoio direto ou indireto. Na momento caracterizam-se, basicamente, por
busca de apoio direto, em geral mani- bloqueios afetivos ou, pelo contrário, por “na-
festa desejo de que o orientador diga moros” maníacos com uma ou outra porção
qual a carreira que deve seguir. Na da realidade ocupacional. Nestas situações,
busca de apoio indireto, pede por con- nas quais o adolescente ainda não conseguiu
firmações: “A Sra. acha que tenho apti- estabelecer vínculos diferenciais com os obje-
dão para tal carreira?”, “Será a Medici- tos, e nas quais se acha comprometida a função
na realmente minha vocação?”. do ego capaz de estabelecer relações satisfató-
• Permissão: “No caso de procura por rias e estáveis com os objetos, consideraria o
permissão, os adolescentes aceitarão adolescente como não orientável no momento,
melhor um contrato cooperativo com o priorizando a psicoterapia como forma de ad-
psicólogo, pois o que esperam é uma quirir suporte para se submeter futuramente à
situação socialmente determinada, orientação vocacional.
na qual possam reatualizar, em uma Escolha: O momento da escolha pressupõe
síntese, as escolhas efetuadas em sua o estabelecimento de vínculos diferenciais com
fantasia”(Bohoslavsky, 1982). É como os objetos. Esse momento evoca funções do
um prolongamento de sua “moratória ego relacionadas à capacidade de estabelecer
psicossocial”, conforme Erikson (1976 relações satisfatórias e relativamente estáveis
e 1987), na qual solicitam a participa- com os objetos. Um fracasso nesse momento
ção de um sócio de papel permissivo revela rupturas mais ou menos permanentes
- no caso, o orientador. nas relações objetais do sujeito e reflete-se na
escolha profissional, comumente, por blo-
Repulsa: Nas fantasias de resolução basea- queios afetivos ou, ao contrário, por “relações”
das em repulsa, o jovem sente que só pode es- maníacas com uma ou outra porção da realida-
colher bem se deixar de lado aspectos infantis. de ocupacional. Estando fixado nesse momen-
Por exemplo, pode fantasiar a possibilidade to, o adolescente apresentará constante ambi-

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Orientação Vocacional Ocupacional 125

valência frente aos objetos. Para Bohoslavsky profissionais fantasiadas, luto pela adoles-
(1982) o que difere fundamentalmente uma cência, pelas identificações profissionais que
escolha ajustada de uma desajustada é o grau abandona, entre outros. Bohoslavsky (1982)
de conflito experimentado na situação. Segun- prefere utilizar o termo “resolução” no lugar
do ele, na escolha desajustada, os conflitos não de “tomada de decisão”; no tom conotativo
são elaborados e resolvidos, mas controlados de “tornar a solucionar” (resolução), que é
e negados. Nessa situação, o jovem apresenta- como, do ponto de vista dinâmico, o sujeito
se sem conflitos frente à escolha. Não toma realmente atua nessa situação. Na situação de
consciência das implicações envolvidas no decisão, o adolescente vê reativados antigos
processo. Um dado que também nos confere mecanismos postos a serviço da elaboração
importantes impressões para o tratamento da de situações de perda. É capaz de reconhecer
conflitiva vocacional está na forma como o jo- seu medo e sua tristeza e, inclusive, as altera-
vem agrupa as carreiras por meio de critérios ções de ambos os tipos de afeto. Esse reconhe-
que busca escolher, como êxito ou fracasso fácil cimento é mais próprio dos momentos finais
ou difícil, prestígio ou desprezo, entre outros, da orientação vocacional ou do adolescente
e eles também aparecem mais relacionados às que vem elaborando bem toda a problemática
fantasias do que à realidade das carreiras. As interna que compreende escolher uma pro-
características das escolhas levaram Ginzberg fissão. Ainda no momento de decisão podem
e colaboradores (1951 citado por Jersild, 1969) ocorrer oscilações, nas quais o jovem regride
a identificar três períodos distintos no processo às ansiedades ligadas ao fracasso no estudo,
de realização de escolhas: ao desejo de seguir todas as carreiras, à ne-
gação de sua capacidade de decisão. Caso
• Escolhas fantasiosas: esse período coinci- exista, nesse momento, um bom processo de
de, em geral, com o período de latência elaboração, essas defesas apresentarão ape-
do desenvolvimento (mais ou menos nas caráter momentâneo, diferenciando-se,
dos 6 aos 11 anos). em qualidade, daquelas vivenciadas inicial-
• Escolhas tateantes: inicia por volta dos mente. No entanto, uma variedade de fato-
11 ou 12 anos. O jovem costuma basear res pode influir claramente na tomada de
as escolhas em seus interesses, começa decisão. Para ponderá-los de forma sadia, o
a prestar mais atenção às suas capaci- adolescente deverá lidar com a realidade e
dades e a demonstrar consciência de aprender a tolerar frustrações. Pfromm Net-
aspectos como os diferentes treinamen- to (1976) apresenta uma série de fatores (aqui
tos exigidos pelas diversas profissões. reunidos) elaborados por Katzenstein (1955)
Um pouco mais tarde, o jovem procura que conduzem o jovem a uma decisão profis-
sintetizar muitos fatores e avaliá-los sional desajustada:
em termos de seus valores e objetivos
que, aliás, também estão em processo • quando a decisão é determinada por
de formulação. um único fator (o econômico, o tradi-
• Escolhas realistas: por volta dos 17 anos, cional), desprezando-se os demais;
o adolescente passa para um período de • quando a decisão ocorre por mero aca-
transição: as considerações mais subjeti- so ou dada determinada circunstância
vas a que ele dava importância no pas- da vida;
sado vão sendo substituídas pelas con- • quando a decisão é prematura, ocorren-
siderações mais realistas a que ele irá do em etapas iniciais da adolescência,
atribuir maior importância no futuro. nas quais ainda não está consolidada a
identidade profissional;
Decisão: Esse momento implica a possibi- • quando a escolha é feita sem conheci-
lidade de suportar a ambivalência, de resolver mento da profissão e de si mesmo.
conflitos, de postergar ou graduar impulsos, de
tolerar frustrações, etc. Pressupõe a elaboração d) ansiedades predominantes: A fim de
de lutos, como luto pela perda das escolhas elaborar o diagnóstico vocacional, se-

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126 Levenfus, Soares & Cols.

gundo Bohoslavsky – talvez mais do do à entrevista sem saber para que veio, por
que o tipo de ansiedade, o interesse, o que e que interesse tem nisso. A ansiedade é
objeto ao qual se liga, a persistência ou confusional, baixa, e a conduta manifesta é de
a mobilidade e o tipo de mecanismos extrema dependência.
defensivos que desencadeia – deve-se Dilemática: Um pouco mais evoluída que
observar esses aspectos dentro da clas- a anterior, a situação dilemática revela um jo-
sificação dos tipos de ansiedade (con- vem que percebe que existe algo importante
fusional, persecutória e depressiva): que acontece a seu redor. Ele também percebe
que enfrenta uma dúvida. Pode demonstrar
Uma intensa ansiedade do tipo confusio- sentimentos de urgência – com ansiedade ca-
nal atrapalha na capacidade discriminatória, es- racterística – expressos, por exemplo, no medo
sencial para a escolha profissional. Uma intensa de que “nunca deixará de ser adolescente se
ansiedade persecutória pode abalar os limites não escolher alguma coisa”. Apresenta fanta-
do ego, irrompendo uma ansiedade confusio- sias claustrofóbicas e agorafóbicas, temendo
nal que se manifesta nas entrevistas de OVO ficar preso entre os polos “ou-ou” do dilema.
como um modo peculiar de defesa. Ansiedades Na situação dilemática, há dificuldade
depressivas fora de modulação podem atrapa- de discriminação entre carreira-matéria-cur-
lhar significativamente a elaboração de lutos sos-profissão, o que torna muito difícil que o
pertinentes ao momento de uma escolha. adolescente consiga efetuar uma boa seleção,
Lebovich de Duarte, citado por Bohosla- necessária para uma decisão adequada.
vsky, baseando-se no objeto implicado nos vín- O adolescente apresenta como defesas
culos persecutório, depressivo ou confusional, principais a dissociação, a identificação proje-
propõe a seguinte classificação de “fantasias e tiva maciça e a negação; tem tendências a re-
temores”, segundo suas manifestações clínicas cair em situação predilemática especialmente
referentes: quando nega a situação dilemática: “Não tenho
problema nenhum, os outros que se virem”.
• à autoimagem (impotência, dependên- Bohoslavsky sustenta a hipótese, do ponto de
cia, onipotência, etc.); vista dinâmico, de que os processos de disso-
• ao futuro (medo do fracasso, da rivali- ciação são intensos e de que a confusão aparen-
dade, da inveja, da negligência profis- te é uma defesa a mais para manter dissociado
sional, etc.); o objeto ambivalente original.
• à vida universitária (sentir-se supere- Problemática: Nesse nível, o jovem de-
xigido, medo do trote, ansiedades de monstra uma real preocupação. As ansiedades
reparação); se apresentam moderadas, do tipo persecu-
• ao ensino médio (desvalorização, di- tória ou depressiva (ou oscilando entre elas).
ficuldades para discriminar matéria- Os conflitos são bivalentes, ou seja, há mais
faculdade, matéria-professor, matéria- discriminação, embora não apresente, ainda,
profissão). integração. Apresenta posições dicotômicas:
“Quero isso para me realizar, aquilo para ga-
e) situações que o adolescente vivencia: nhar dinheiro”; “Tenho habilidade para tal coi-
Na resolução do conflito vocacional, sa, mas isso não me interessa”; “Sei do que eu
os adolescentes passam por quatro gosto, mas não sei o que vou fazer”.
situações: predilemática, dilemática, As defesas principais são a projeção, a
problemática e resolução. É importan- negação e, às vezes, o isolamento, quando um
te para o diagnóstico vocacional iden- dos termos do conflito é o afeto: “As coisas
tificar em que situação, predominante- de que eu gosto são as que me preocupam”.
mente, o adolescente se encontra. Então, os sentimentos são isolados, e o ado-
lescente já não se sente tão preocupado: “Vou
Predilemática: Nessa situação, o jovem escolher com a razão, sem me preocupar, por-
não percebe que deve realizar uma escolha. que no mundo de hoje não dá para ficar esco-
Apresenta muita imaturidade, sendo trazi- lhendo aquilo de que se gosta”.

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Orientação Vocacional Ocupacional 127

Esse nível de defesa já é diferente da ne- ao silêncio do terapeuta, submetendo o terapeuta


gação apresentada na situação predilamática, a seu silêncio (sic). Lembra-se também de ter
na qual não se sabe do que se gosta ou não se ouvido de uma tia que “deve ser chato ser psi-
gosta, tampouco do que pode ou não fazer. cólogo porque esse profissional deve ficar se
Na situação problemática, o grau de relacionando com todos como se estivesse cli-
conflito já determina uma dinâmica tal, que o nicando”. Esse comentário atraiu ainda mais a
torna possivelmente capaz de superá-lo, inte- atenção do rapaz, que confirmou sua hipótese
grando seus termos em uma síntese superior. de que o psicólogo pode realmente proteger-se do
Revela-se como um indivíduo egoicamente contato íntimo. Ao tomar consciência de seus
“disponível” para ver, pensar e agir no que propósitos quanto a essa escolha e ao obter
diz respeito a seu mundo futuro. a informação de que não é esse o objetivo do
Resolução: Nessa situação, o objeto já está profissional da psicologia, pois também se
mais integrado. Busca-se encontrar uma solu- analisa a fim de conhecer e solucionar proble-
ção para o problema, tendo já experenciado mas pessoais, mostrou-se bastante surpreso
solucionar problemas anteriores. Esses pro- e imediatamente afirmou que, dessa forma,
blemas implicavam escolhas e, assim, a ela- perdia seu interesse por essa profissão.
boração de lutos. Dessa forma, objetos podem
ser abandonados e separados de projetos em ORIENTAÇÃO VOCACIONAL
um nível de conflito suportável. O jovem rea-
tiva antigos mecanismos postos a serviço da
OCUPACIONAL VERSUS PSICOTERAPIA
elaboração de situações de perda. Reconhece O adolescente que busca orientação
seu medo e suas tristezas. nem sempre está disposto a descobrir as ba-
f) carreiras como objeto: Esse item ses neuróticas de sua escolha submetendo-
diagnóstico diz respeito à relação que o jovem se à psicoterapia, mesmo porque o processo
estabelece entre a escolha e o objeto. Consiste psicoterápico tradicional talvez não auxilie
em analisar as carreiras como objetos do com- suficientemente esse adolescente se conside-
portamento do adolescente. Eles podem ca- rarmos os instrumentos que utiliza e a meta a
racterizar-se como objetos que acompanham, que se propõe.
protegem, perseguem, destroem, reparam, A OVO permite o uso de técnicas am-
retêm, etc., independentemente do que a car- plamente informativas, uma atividade mais
reira ou a profissão seja “na realidade”. interna por parte do terapeuta, maior concen-
O orientador deve observar como o ado- tração da tarefa no foco da questão vocacio-
lescente associa as carreiras às situações de nal. Além disso, às vezes ocorre em um curto
êxito ou fracasso, facilidade ou dificuldade, espaço de tempo, mas apresenta também suas
prestígio ou desprestígio, etc. limitações. Ela esbarra justamente na situação
Carreira como objeto que protege, por em que o adolescente apresenta impedimento
exemplo, foi citado por Sérgio, 16 anos, ao emocional para realizar uma escolha, necessi-
cogitar o curso de Psicologia. Tendo sofrido tando, muitas vezes, submeter-se à psicotera-
abuso sexual na infância e sendo muito teme- pia, que permite resolver a questão desde que
roso de seus desejos homossexuais latentes, o adolescente (e isso me parece sumamente
referia a profissão de psicólogo como algo que importante frisar) esteja bem diagnosticado
pudesse colocá-lo em uma posição defensiva. quanto à sua orientabilidade.
Recorda, com raiva, de um psicoterapeuta que O desenvolvimento vocacional é, como
o atendeu durante um ano e meio, referindo- diz Jersild (1969), um processo complexo afe-
se a ele como “veado e incompetente”, porque tado por muitos fatores, alguns internos ao
não falava nada, deixando-o desesperar-se indivíduo e outros ambientais. Há fatores que
com seu silêncio. Sérgio diz ter permanecido podem ser antecipados, outros não. O jovem
em tratamento, pois sentia-se obrigado pelo pode ter plena consciência de alguns desses
pai (nova referência a abuso e à submissão), fatores, ter um conhecimento um pouco vago
mas passou a permanecer em silêncio do iní- de outros e desconhecer totalmente muitos
cio ao término das sessões para não submeter-se deles. Estará em condições de tomar decisões

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128 Levenfus, Soares & Cols.

vocacionais mais adequadas aquele adoles- guidamente funciona como “uma porta de
cente que tiver um amplo conhecimento de si entrada para a psicoterapia”. Esses artigos
mesmo e do ambiente. A finalidade da orien- também relatam que questões psicológicas
tação que se presta ao jovem é justamente outras têm sido levadas pelo orientando na
ajudá-lo a obter esses conhecimentos. OVO, assim como temas vocacionais surgem
Em minha prática, é muito comum re- em psicoterapias em geral (Nascimento e
ceber telefonemas de pais interessados em Coimbra, 2005a, 2005b; Mello, 2002; Oliveira
marcar horário para que seu filho passe pelo et al., 2007; Campos, 2007; Santos et al., 2007;
processo de OVO. Em seguida, me comuni- Grando Filho et al., 2007).
cam que há muito tempo desejavam que o Para todos os efeitos, agrupei as situa-
filho consultasse com psicólogo em vista de ções mais típicas da seguinte forma:
outros problemas e que foi a partir da ideia
de realizar uma OVO que conseguiram con- 1. O jovem busca auxílio para escolher uma
vencê-lo. Comunicam-me, assim, que gosta- profissão, nessa busca:
riam, se possível, que eu “tentasse atrair seu a) resolve sua problemática vocacional e
filho para uma psicoterapia”.4 Por outro lado, finaliza o processo;
muitos dos jovens que atendo comparecem à b) resolve sua problemática vocacional e
OVO com uma nítida demanda para psicote- faz outras problemáticas;
rapia. “Aproveitam” a oportunidade de estar c) não consegue resolver sua problemá-
frente a um psicoterapeuta para pedir ajuda tica vocacional, e a questão é redimen-
na resolução de outros problemas que lhes sionada.
parecem mais emergentes naquele momento; 2. O jovem busca OVO muito motivado (cons-
confessam dificuldade de pedir aos pais para ciente ou inconscientemente) a tratar espe-
frequentar uma psicoterapia ou, tendo feito cialmente de outros problemas de ordem
essa solicitação, tiveram o pedido negado. emocional.
Com isso, devemos estar atentos a um pedi- 3. Os pais procuram o terapeuta para fazer
do de se submeter a uma OVO, pois “fazer OVO com seu filho, tendo a expectativa de
um teste vocacional” tornou-se uma comu- que ele siga em psicoterapia.
nicação, de certa forma, aceita entre pais e 4. O jovem busca uma psicoterapia para tratar
filhos adolescentes. Ainda sob outro ângulo, de diversos aspectos, sendo a problemática
percebo, muitas vezes, o quanto um paciente vocacional um deles.
em psicoterapia acaba por apontar questões
vocacionais que nem sempre estão ao alcan- Em relação às situações anteriores, é pos-
ce de serem resolvidas pelo terapeuta.5 Essa sível inferir o seguinte:
questão que abordei em 1997 tem aparecido
em diversos artigos científicos que apontam 1a. É perfeitamente possível resolver uma
claramente que a Orientação Vocacional se- problemática vocacional durante um pro-

4
Nascimento e Coimbra (2005b) afirmam que em situações nas quais o cliente foi convencido por familiares
a buscar orientação vocacional, tendo como segunda intenção sua permanência em psicoterapia, o cliente
poderá não pretender mais do que atestar sua disposição a colaborar com os aspectos significativos ou sim-
plesmente agradar os familiares. Objetivamente, pode mesmo não haver nenhum motivo que justifique a
intervenção junto a esse indivíduo, sendo que o pedido pode provavelmente sinalizar mais problemas sistê-
micos ou mesmo inseguranças pessoais das figuras significativas do que indicar propriamente problemas e
dificuldades reais do cliente.
5
Faço esta referência dirigida a algumas questões específicas que resumo aqui basicamente quanto à questão
da informação. Seguidamente o paciente refere distorções nas informações que possui, e muitas vezes não
interessa a essa técnica averiguar essas informações, e sim o significado que essa referência tem em outro
contexto que está sendo tratado. Além disso, caso interessasse tratar desse conteúdo de forma manifesta,
encontraríamos outras barreiras como o fato de que nem sempre o terapeuta percebe a distorção por falta de
informações ocupacionais, não estando também instrumentado a informar. Nascimento e Coimbra (2005a)
também apontam que o reduzido interesse que os profissionais da psicologia revelam pelo comportamento
vocacional dos indivíduos pode levá-los a negligenciar a avaliação e a intervenção em problemas vocacionais
nos casos em que estes surgem concomitantemente a problemas pessoais.

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Orientação Vocacional Ocupacional 129

cesso de OVO e encerrar oportunamente algum conflito emocional está interferindo


esse atendimento. na escolha profissional. Tranquilizo-os que,
1b. É provável que surjam outras problemáti- se houver necessidade de tratamento psico-
cas a serem solucionadas. Ampliar o foco terápico comunicarei ao adolescente (como
implica um novo contrato. sempre faço). Nessa situação, trabalho junto
1c. Mesmo estando muito motivado a resolver ao adolescente o significado que tem para
a problemática vocacional, nem sempre o ele mesmo e para sua relação com os pais o
sujeito estará preparado para tal. Conclui- processo psicoterápico. É evidente que isso
se isso através do diagnóstico de orienta- tudo não garante que um jovem com pro-
bilidade, dimensionando o prognóstico e blemas ingresse em um tratamento, e isso
dando o encaminhamento necessário. deve ser esclarecido junto aos pais.

Creio ser oportuno salientar o quanto 4. Por fim, irei me referir ao jovem que, em
percebo o trabalho em OVO como um espaço meio a um processo psicoterápico, solici-
profissional privilegiado em termos de profi- ta ser orientado profissionalmente. Essa é
laxia em saúde mental, algo que me encanta uma questão delicada. Esse pedido pode
e que considero pessoalmente realizador. Te- estar a serviço de uma resistência, mas pode
mos acesso a uma população em crise, poden- ser algo de que ele realmente necessita – ou
do estar disponíveis a atender muita gente em ambas as possibilidades. Cabe ao terapeu-
vista do caráter breve e coletivo em que pode ta distinguir uma situação de outra, bem
se realizar a OVO. É possível diagnosticar e como a prioridade a ser abordada.
encaminhar o jovem e seus familiares a re-
solver situações em tempo hábil. Prevenimos Existe uma grande demanda em análise
também um futuro desacerto vocacional. e em psicoterapias acerca da insatisfação no
trabalho, das desadaptações e de questiona-
2. Quando o jovem busca OVO muito motiva- mentos vocacionais. Aquele que trabalha com
do a tratar especialmente de outros proble- adolescentes finais, adultos jovens, em espe-
mas de ordem emocional, trabalho no senti- cial, estará seguidamente frente a problemas
do de tornar consciente esse desejo. Ajudo o de ordem vocacional.
jovem a fazer o contato que necessita esta- Percebo, como afirma Lidz (1983), que
belecer com a família para que tenha apoio estamos bem mais informados sobre questões
moral e acesso a esse atendimento. Às vezes, sexuais e escolha de parceiro conjugal do que
intervenho junto aos pais a pedido do ado- sobre questões vocacionais e escolha profissio-
lescente. Quando percebo alguma gravida- nal, apesar de esse tema estar fortemente inse-
de no caso, solicito, eu mesma, o compareci- rido no cotidiano do ser humano e participar
mento dos pais. É comum também que pais enormemente de suas questões conflitivas.
me solicitem a esclarecê-los a respeito do Quando, por exemplo, uma adolescente
encaminhamento que dou aos filhos. Essas em psicoterapia diz que iniciou o uso de con-
situações são combinadas previamente com traceptivos e o terapeuta percebe que o faz
o adolescente que, seguidamente, participa de forma inadequada, certamente não ficará
da entrevista junto com os pais. restrito a interpretar as motivações incons-
cientes que a levam a fazer uso inadequado
3. Quando o pedido por OVO é feito pelos do contraceptivo. Trata-se de adolescentes,
pais, “em acordo com o filho”, com a inten- e isso nos diz muito. Além de interpretar as
ção de fazer com que ele ingresse em psico- motivações inconscientes, o terapeuta talvez
terapia, invariavelmente converso com es- verifique a procedência da informação que
ses pais, ouço suas preocupações e trabalho a adolescente obteve e venha a corrigi-la ou
a forma como tentaram ou não comunicá- encaminhá-la para tal. Trata-se de prevenir
las ao filho. Esclareço os objetivos da OVO situações que comprometam o ego da pa-
e falo a respeito de uma avaliação psico- ciente, tal como uma gravidez indesejada na
diagnóstica, pois necessitamos entender se adolescência.

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130 Levenfus, Soares & Cols.

Com relação à questão vocacional deve- rece intervenções amplamente informativas,


ria acontecer o mesmo: o adolescente comenta colocando em risco a relação transferencial,
que vai fazer “Arquitetura, pois sempre gos- o terapeuta pode encaminhar o adolescente
tou de desenhar”, ou que vai cursar “Ciências para que, em paralelo à psicoterapia, resolva
da Computação porque sempre gostou de ma- as questões vocacionais. Assim como psicote-
nusear pequenos programas”, ou que preten- rapeuta ou psicanalista podem encaminhar,
de cursar “Odontologia, já que tem um bom circunstancialmente, a tratamentos auxiliares
mercado de trabalho”. Pode ser que ele esteja (reeducadores especiais, fisioterapeutas, fo-
muito enganado quanto à sua percepção ou noaudiólogos e outros que se fizerem necessá-
quanto às informações que recebeu. Muitos rios face ao objetivo de alcançar a adaptação
terapeutas não intervêm nessa situação com do adolescente à vida), com maiores possibi-
a mesma expressão que o fariam na situação lidades de crescimento para a idade adulta,
sexual de risco. Por quê? Não é uma situação podem recorrer à OVO como atendimento
de risco? Fico pensando sobre o alto índice de que siga paralelo à análise. Da mesma forma,
evasão das universidades brasileiras (por vol- aconselhamos aos orientadores educacionais
ta de 40% no primeiro ano de curso, conforme que encaminhem seus alunos para psicotera-
dados continuamente apresentados desde o II pia quando identificarem que eles apresentam
Simpósio Brasileiro de Orientação Vocacional limites para a resolução de alguns casos ape-
e Ocupacional, 1995). nas com a Orientação Profissional.
Acredito que frequentemente o psico- Por isso, temos tentado esclarecer um
terapeuta deixa de intervir nessas situações, pouco acerca da OVO, para que os profis-
mais por falta de informação do que por limi- sionais que atendem adolescentes saibam da
tações da técnica. Quando a técnica não favo- existência desse recurso.

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IV
ORIENTAÇÃO EM SITUAÇÕES ESPECÍFICAS

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10
O temor da escolha errada
em filhos de pais separados

Rosane Schotgues Levenfus • Maria Lucia Tiellet Nunes

É na adolescência, fase em que as relações como positiva ou negativa – frente à questão


com a família podem estar mais conturbadas, da escolha profissional.
que ocorre a decisão por uma carreira profis- Para tanto, foram reunidos em um grupo
sional. Esse evento, embora não determinante de Orientação Vocacional apenas jovens filhos
isolado do sucesso ou insucesso profissional, de pais separados.1 É importante ressaltar que
é, sem dúvida, um importante fator nesse sen- todos eles se inscreveram para participar da
tido e na estruturação do próprio indivíduo Orientação Vocacional por demandas próprias
(Andrade, 1997). e não sabiam, no início das tarefas, que esta-
Soares-Lucchiari (1997b) observa que a vam em um grupo homogêneo (filhos de pais
dificuldade de escolher uma profissão está, se- separados). A primeira reunião coletiva foi
guidamente, relacionada a situações conflituo- gravada e posteriormente transcrita e estuda-
sas latentes ou manifestas nas relações familia- da na forma de Análise de Conteúdo (Bardin,
res. Andrade (1997) supõe que uma existência 1991). Dessa forma, salientamos que não esta-
rica, com a incorporação de valores familiares mos falando em qualquer jovem filho de pais
associados à realização e à autoconfiança, pa- separados frente ao momento da escolha pro-
rece indicar segurança e otimismo no projeto fissional, e sim especificamente daqueles que
de carreira. buscaram ajuda por não estarem conseguindo
Diversas pesquisas têm se ocupado em solucionar suas demandas vocacionais.
estudar a repercussão da separação dos pais O conteúdo da conversação exposta por
sobre o psiquismo dos filhos. Esse tema tem esse grupo se assemelha e, ao mesmo tempo,
suscitado muita polêmica, inclusive na área difere-se em vários aspectos do conteúdo das
científica, como veremos a seguir. questões discutidas em outros grupos pesqui-
No entanto, será que a separação dos sados.2
pais repercute de alguma forma sobre o ado- Em primeiro lugar, serão abordados
lescente no momento da escolha profissional? alguns tópicos relativos à questão geral da
Buscamos, com essa pergunta, simplesmente repercussão da separação dos pais sobre o
pesquisar se a questão familiar confere aos jo- psiquismo dos filhos, para mais adiante ser
vens alguma forma característica ou alguma focalizada essa questão em torno do momento
demanda específica – sem querer avaliá-la da escolha profissional.

1
Parte da pesquisa de mestrado de Levenfus (2001).
2
Foram pesquisados, além do grupo com filhos de pais separados, outros três grupos: jovens que perderam
(por morte) um dos pais; jovens com difícil desencadeamento do segundo processo de separação-indivi-
duação (Mahler, 1982; 1993); jovens que não apresentam nenhuma das nuances levantadas nos grupos
anteriores.

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136 Levenfus, Soares & Cols.

A separação para os filhos é uma ça que acaba de tomar conhecimento de que


passagem de vida da maior importân- o pai ou a mãe está com câncer, ou de que o
cia. Muita coisa muda, a rearrumação avô ou a avó acaba de falecer. A mesma rea-
é extensa: há a perda do convívio com ção pode sobrevir caso ela ouça dizer que a
pai e mãe na mesma casa, a possibilida- situação do pai piorou e que talvez ele fique
de de perda do convívio cotidiano com desempregado. A autora conclui que não se
irmãos, a modificação de hábitos e roti- trata de um comportamento característico da
nas, a modificação do padrão de vida. situação de separação dos pais: é um compor-
(Maldonado, 1991, p.134) tamento que testemunha sempre um abalo
profundo. Dessa forma, entende-se ser trau-
A SEPARAÇÃO DOS PAIS mática a situação da separação.

As crianças percebem com clareza o cli-


ma pesado de tensão das etapas finais de um
A ADAPTAÇÃO
casamento, mesmo que os pais não briguem Estudo realizado com adolescentes, fi-
na frente dos filhos. lhos de pais divorciados, demonstrou que,
Mesmo quando as crises conjugais sérias transcorridos cinco anos após o divórcio, es-
não são abertamente discutidas, as crianças ses adolescentes pareciam estar adaptados em
mais sensíveis apresentam sintomas e altera- termos escolares, no melhor relacionamento e
ções de conduta, funcionando como caixa de no humor (Buchanam et al., 1996). Já Carter
ressonância dos conflitos do casal. e McGoldrick (1995) apoiam a ideia de que
Algumas crianças se isolam, passam horas um mínimo de dois anos e um grande esforço
no quarto, quase não falam; outras aumentam após o divórcio são necessários para que uma
a solicitação de atenção ou adoecem. É impor- família se reajuste à sua nova estrutura.
tante que a criança tenha uma noção de conti- Embora os autores antes mencionados
nuidade de vínculos afetivos e possa dispor de apontem para uma diminuição dos sintomas
pessoas que a apoiem com sensação de estabili- desencadeados pela separação com o passar
dade e segurança em um momento da vida tão do tempo, Wallerstein (2000) é enfática em
cheio de perdas e impactos (Maldonado, 1991; afirmar, com base em sua mais recente pes-
Riera, 1998; Wallerstein e Kelly, 1998). quisa com 131 filhos de casais divorciados,
Há crianças e adolescentes que precisam ao longo de 25 anos, que relatos de muito
de mais tempo do que outros para assimilar a sofrimento são comuns a todos os casos.
separação, o que implica, muitas vezes, mo- Muitos se consideravam sobreviventes de
dificações de conduta, especialmente na baixa um cataclismo de proporções cósmicas. A
do rendimento escolar. “Não é raro o aumento criança, em sua vida pós-divórcio, se sente
de sintomas como dor de cabeça, febre, diar- abandonada e marginalizada. A pesquisado-
reia, vômitos, perda ou excesso de apetite” ra considera que a separação dos pais é uma
(Maldonado, 1991, p.135). Para a autora, esses marca, um estigma, que as crianças carrega-
sintomas, por vezes, podem ser reveladores rão para toda a vida. A maioria dos filhos do
das reações de angústia no período inicial divórcio atribui à separação dos pais parte
da adaptação após a separação. As modifica- de seus insucessos nos relacionamentos. A
ções de conduta comuns nesse período são: imagem negativa do casamento leva muitos
grudar-se na mãe com medo de que ela vá a fazer más escolhas de parceiros ou a fugir
embora; dormir muito mais do que o habitual de compromissos. Observa também que se
a fim de negar os problemas; apresentar difi- trata de um mito imaginar que a separação é
culdades de adaptação na escola. Os sintomas uma crise temporária, cujos efeitos são mais
tendem a atenuar-se ou a desaparecer quando danosos na hora da separação. Trata-se de
um novo equilíbrio é alcançado na nova situ- uma crise de longo prazo e, em alguns casos,
ação de vida. interminável.
Dolto (1988) observa que esses mesmos Diferentemente do que pensa Wallerstein
sintomas podem ser apresentados pela crian- (2000), Maldonado (1991) acredita que

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Orientação Vocacional Ocupacional 137

Ter pais separados não significa Magagnin e colaboradores (1997), pes-


ficar emocionalmente perturbado pelo quisando a possibilidade de alterações no
resto da vida. A maioria dos problemas autoconceito do adolescente de ambos os se-
dos filhos não tem início com a separa- xos frente ao sistema familiar intacto e não in-
ção, mas são fruto das dificuldades do tacto, à adaptação escolar, ao relacionamento
vínculo pais-filhos, em parte devido à com iguais e ao comportamento destrutivo em
própria história da pessoa com seus pais áreas urbanas de alto risco de desastres perce-
e devido aos reflexos da vida conjugal in- beram que existe uma satisfação familiar que
satisfatória. (p.142) corrobora uma boa relação com os pais, sendo
que a segurança pessoal tende a ser reforçada
Essa autora observa que a adaptação à quando os pais vivem juntos.
separação é mais prolongada quando os filhos Em famílias cujos pais vivem juntos, se-
têm uma relação boa e agradável com ambos gundo esses autores, o adolescente apresenta:
os pais. Nesses casos, a perda da convivência
diária com eles é mais difícil de aceitar. • alto índice de autocontrole;
Quando o relacionamento é cheio de atri- • alto índice de segurança pessoal;
tos, conflitos e tensões, e o filho é excessivamen- • uma tendência de alto índice de self-
te cobrado, exigido, perseguido ou relegado a moral;
segundo plano, a perda da convivência diária • índice de self-somático baixo e médio-
pode vir a ser um grande alívio. “Isso, eviden- -baixo;
temente, não quer dizer que não haja dor nem • índice de autoconceito elevado.
perda: ninguém se separa sem dor, e é impos-
sível que os filhos passem por esse período a Em famílias cujos pais vivem separados,
salvo, inteiramente resguardados dos aconteci- o adolescente apresenta:
mentos” (Maldonado, 1991, p.138).
Como em outras fases do ciclo de vida, • prejuízo da segurança pessoal;
em que as questões emocionais não resolvidas • baixo autocontrole;
permanecerão obstaculizando relacionamen- • baixo rendimento escolar;
tos futuros, as tarefas emocionais devem ser • mais frequência no uso de drogas;
completadas pelos membros da família que se • médio índice de self-moral;
separa. Isso inclui elaborar luto pelo que foi • índice de autoconceito baixo ou médio-
perdido e manejar sentimentos como mágoa, -baixo.
raiva, culpa, vergonha. As famílias que não
conseguirem resolver adequadamente essas Sendo a adolescência um período crí-
questões podem permanecer emocionalmente tico, com características próprias, sujeito
paralisadas por anos ou por gerações (Carter a crises de identidade relacionadas com as
e McGoldrick, 1995). influências socioculturais, quanto melhor
sucedidas forem as experiências e as vivên-
AUTOCONCEITO cias do adolescente, mais positivo parece
ser o conjunto de percepções a respeito de si
Nem todas as pesquisas são unânimes mesmo. “O autoconceito do adolescente se
em afirmar que os adolescentes de famílias torna significativo para o desenvolvimento
intactas possuem um autoconceito mais adequado ao longo das etapas que ele per-
elevado do que os das famílias cujos pais corre no ciclo vital familiar” (Magagnin et
estão separados. Porém, a pesquisa de Ma- al., 1997, p.15).
gagnin e colaboradores (1997) verificou que Na adolescência, as áreas do desenvolvi-
os adolescentes com autoconceito elevado mento, como aspirações profissionais, valores
são filhos de pais que vivem juntos. Nessas do papel sexual, autoconceito, sentimentos de
mesmas variáveis, os filhos de pais separa- competência e realização, podem ser influen-
dos apresentam um autoconceito baixo ou ciadas pela ruptura familiar (Barber e Eccles,
médio-baixo. 1992, citados por Magagnin et al., 1997). Esses

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138 Levenfus, Soares & Cols.

mesmos autores destacam que famílias sem o para fins de análise de conteúdo), esses orien-
pai são consideradas incompletas e contribuem tandos fizeram diversas referências concretas
para autoestima baixa, delinquência, abandono. dirigidas a informar sobre o recasamento dos
Em sua pesquisa, Andrade (1997) obser- pais, os irmãos oriundos de outro casamento e
vou que uma família bem-estruturada, na qual a observação de outros casos de separação na
o indivíduo recebeu uma carga adequada de família. Enfocam sua relação com os pais, osci-
energia grupal e pôde desenvolver-se harmo- lando entre afirmar bom relacionamento com
niosamente dentro de uma dinâmica grupal eles e afirmar que desconhecem o pai por sua
saudável, na qual o indivíduo pôde amadu- total ausência.
recer sendo respeitado como tal e respeitan- Apontam as mágoas vividas em função
do os demais, na qual os limites de cada um da separação e o sentimento de que antes era
foram observados e os potenciais individuais melhor. Essa tônica confere ao tema da esco-
adequadamente otimizados e promovidos, lha profissional algumas singularidades des-
gerará, certamente, indivíduos mais seguros critas a partir de agora.
e altivos, capazes de estabelecer com a vida
profissional uma relação construtiva e praze-
Negação e idealização
rosa. Por outro lado, uma família na qual o in-
divíduo se desenvolveu de forma deficitária No grupo formado somente por filhos
ou destrutiva gerará sujeitos inseguros e limi- de pais separados, se comparado aos demais
tados em seus potenciais ocupacionais. grupos pesquisados, é o que mais nomeia as
profissões de que gosta e o que menos aponta
Vários estudos concluem que a desejos ocupacionais da infância, apresentan-
separação dos pais denota um impac- do um alto engajamento na tarefa da escolha
to negativo no autoconceito dos filhos, futura sem muito resgate de lembranças das
uma vez que a percepção dos conflitos escolhas infantis.
familiares e/ou a infelicidade do ca- Isso remete à questão da elaboração dos
sal aumenta as dificuldades ao ajusta- lutos pelas escolhas infantis. Escolher impli-
mento social e pessoal do adolescente. ca a perda dos outros objetos que serão dei-
(Magagnin et al., 1997, p. 15) xados. À medida que a decisão profissional
vai se integrando à história do adolescente,
Andolfi e Angelo (1989) e Magagnin e a elaboração do luto fica facilitada. É comum
colaboradores (1997) enfatizam que a família que o adolescente expresse sentimentos como
intacta cria um autoconceito mais positivo, tristeza, solidão, ambivalência e culpa no pro-
principalmente nos aspectos que dizem respei- cesso de elaboração. Observa-se também com
to ao relacionamento afetivo, às aquisições es- frequência, que nesse processo o adolescente
colares, às amizades e à autonomia. Portanto, o recorda e recupera acontecimentos antigos,
grupo familiar assegura uma coesão interna e projetos abandonados, lembranças passadas,
uma proteção externa, propiciando um sistema integrando-os e vinculando-os a decisões
de atividades que possui um valor normativo atuais (Bohoslavsky, 1982; Neiva, 1995; Le-
para a organização dos instintos e das emoções venfus, 1997a). O fato de quase nada disso
dos indivíduos, ajudando o adolescente a dis- ocorrer no grupo formado somente por filhos
criminar o real do imaginário. de pais separados faz pensar que esses jo-
vens, oriundos de casamentos desfeitos, po-
dem apresentar dificuldades na elaboração
ASPECTOS REFERIDOS POR FILHOS de lutos, preferindo negar o passado.
DE PAIS SEPARADOS QUE BUSCARAM A dificuldade em lidar com a perda en-
ORIENTAÇÃO PARA ESCOLHA DA contra respaldo também no fato de que, além
PROFISSÃO de esse grupo não ter feito formulações nega-
tivas acerca das profissões, esses jovens ten-
Durante o primeiro encontro de Orien- dem a se manifestar apenas de forma extre-
tação Vocacional (que foi gravado e transcrito mamente positiva (negando), idealizando as

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Orientação Vocacional Ocupacional 139

profissões, percebendo apenas suas boas qua- servá-lo, pois se deparar com todos os seus
lidades e desprezando a percepção das partes aspectos pode levá-lo à desvalorização com-
que desvalorizam. Tal fato, acrescido da forma pleta, ao abandono e ao sentimento de que
como os filhos revelam que os pais lidam com nada resta, como ocorreu na categoria em que
o trauma da separação, dando regalias, parece referiram o pai.3 É como se estivessem se de-
reforçar a tendência a negar a perda e a lidar fendendo do trabalho de luto que ocorre no
de forma maníaca com ela: processo de desidealização frente às carreiras
(Levenfus, 1997a; 1997b).
Depois da separação os pais ficam dando
algumas regalias para que aqueles problemas COMPORTAMENTO EVITATIVO
fiquem escondidos; para que você esqueça que
aquilo foi traumático.
FRENTE À TOMADA DE DECISÃO
Uma das maiores ansiedades que acome-
De fato, em recente entrevista dada à re- te os filhos de pais separados pesquisados no
vista de divulgação, Wallerstein (2000) afirma momento da escolha profissional diz respeito
estar provado que filhos de casais separados à tomada de decisão. Apresentam um compor-
sofrem mais de depressão e apresentam mais tamento evitativo referindo não estarem pre-
dificuldade de aprendizado do que os prove- parados ainda, sendo cedo para fazê-lo. Isso se
nientes de famílias intactas, embora alguns contradiz com seus constantes apontamentos
pesquisadores (Wagner, Falcke e Meza, 1997) a respeito das profissões que lhes interessam.
apontem que as consequências nos filhos di- Foi o grupo que mais nomeou as profissões de
minuem à medida que o divórcio se torna mais seu interesse atual com alto engajamento na
comum e aceitável. Wallerstein (2000) assere tarefa da escolha futura e o que mais refere an-
que é uma bobagem imaginar que só porque siedade relacionada ao temor de escolher erra-
há vários colegas do filho de pais separados do. Tal fato leva a lembrar Bohoslavsky (1982),
passando pelo mesmo sofrimento isso reduza a respeito de um comportamento tipicamente
o dele. Segundo ela, esse fato não o faz sentir- fóbico que, nessa situação, leva o sujeito a re-
se melhor; a experiência do divórcio é doloro- correr a velhos e conhecidos padrões, mesmo
sa e irreparável para qualquer um. quando manifestam conscientemente o desejo
A forma com que os jovens pesquisados de resolução. É claro que devemos manter em
perceberam apenas positivamente o mundo pauta as questões reais e já estudadas a res-
ocupacional aponta para uma tendência a se peito do quanto é cedo para resolver a proble-
relacionar de forma dissociada com o objeto. mática vocacional no momento do término do
Não estando preparados para defrontar-se ensino médio, mas esse tipo de conteúdo foi
com ansiedades depressivas, alguns jovens referido apenas no grupo de jovens com pais
tendem a mantê-lo idealizado a fim de con- separados. É possível que esse grupo possa es-

3
O tema Pai foi categorizado apenas pelo grupo formado por filhos de pais separados.
cheio de problemas: “O pai é cheio de problemas, sabe, ele tem coisas de depressão; às vezes ele começa a gritar;
entrar em crise.”.
bebe: “Ele bebe muito; agora ele bebe fundo.”.
sempre desempregado: “Meu pai está sempre desempregado.”.
não ganha muito: “Ele não ganha muito, quando arruma um emprego ele mal se sustenta.”.
nunca deu nada: “Meu pai nunca pagou nada.”.
joga: “O dinheiro na mão do meu pai não para; o dia em que ela (mãe) saía do serviço com dinheiro ele gas-
tava tudo antes de chegar em casa.”.
se atira nas cordas: “Meu pai se atira um pouco nas cordas; ele disse que se a minha mãe não tivesse emprego
fixo aí ele ia se preocupar mesmo.”.
mentiroso: “Ele disse que não ia deixar faltar nada.”.
não assumiu a gravidez; não dá notícias; tem pouca escolaridade.
contribui com alguma coisa: “Contribui com alguma coisa, muito pouco, mas contribui.”.
adora o que faz; se mata trabalhando; pensa nos filhos.

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140 Levenfus, Soares & Cols.

tar fazendo manobras de adiamento, manten- tante lembrar que essa temática foi discutida
do a crise adolescente em aberto, como refere somente pelos membros do grupo formado
Blos (1996), em vista da crise mal resolvida da por filhos de pais separados. Por isso, é pos-
separação dos pais. sível observar que, além dos temores naturais
Queixam-se de que é difícil escolher, ocasionados pela necessidade de decidir, es-
novamente fazendo referências a sentirem-se ses jovens apresentam exacerbado o medo de
pressionados a tomar decisões prematuras, errar na escolha, com base nos acontecimen-
fato exemplificado com situações em que a es- tos familiares.
colha pelo curso deu-se tão somente na hora É notória e direta a relação que o grupo
da inscrição para o vestibular. faz entre o medo de ter que mudar sua esco-
lha profissional e a vivência do casamento fa-
lido que, segundo eles, constituiu-se em uma
O medo de escolher errado
má escolha conjugal por parte dos pais. De
Verbalizações apontando um grande fato, diversos autores pesquisados por Wag-
medo de escolher errado aparecem com ênfa- ner e colaboradores (1997) apontam que, além
se bem maior nesse grupo pesquisado (filhos dos problemas que filhos de pais separados
de pais separados) do que nos demais. Como podem apresentar com respeito às suas rela-
formularam várias verbalizações com conteú- ções interpessoais, eles também podem apre-
dos específicos a esse tema, foi possível divi- sentar casamento precoce ou medo quanto a
di-las em três itens: seu futuro casamento. Na questão em estudo,
diríamos: medo quanto às suas escolhas futu-
• Ter que mudar: “Tenho medo de abra- ras, gerando impulsividade ou adiamento da
çar uma profissão e depois ver que foi decisão profissional.
errado; se deixar para mudar tarde
pode ter sérias consequências; para
Relação casamento-profissão
mudar depende se tem condições de
mudar.”. É o único grupo pesquisado que faz re-
• Relaciona com casamento falido: “Pra lações entre escolha conjugal e escolha profis-
que que a gente vai atropelar os passos sional; entre casamento e profissão.
se a gente já viu?; em casa foi uma es- Pensam que, assim como no casamento,
colha que não deu certo; a escolha de na profissão é preciso que a pessoa aprenda
uma profissão não deixa de ser como a se relacionar bem com os demais sob o ris-
um casamento.”. co de não conseguir estabilizar-se. Acreditam
• É bom pensar muito: “É bom que você que o casamento, assim como a profissão, de-
sente a cabeça e pense muito bem an- veria ser uma escolha para a vida toda e que
tes; eu posso olhar de todos os ângulos, uma escolha profissional malfeita afetará o
de repente, não precisa errar.”. resto da vida do sujeito.
Por um lado, são verbalizações diretas
Sabemos que a consolidação da identida- no sentido dessa relação; de outro, são encon-
de profissional é uma das últimas tarefas da tradas preocupações quanto a garantir o fu-
adolescência, e a clientela que busca Orien- turo de forma independente de uma relação
tação Vocacional nem sempre está em fase conjugal:
adiantada de conclusão do processo adoles-
cente (Osório, 1986; Outeiral, 1994; Levenfus • relação direta: “O casamento é uma tro-
1997c). Veem-se empurrados por uma cultura ca e a escolha da profissão também, você
que dita que a escolha por uma profissão deve vai escolher uma profissão, vai ter que
ocorrer ao término do ensino médio, momen- lidar com pessoas; o casamento é pra ser
to que nem sempre coincide com a maturida- pra vida toda; a escolha (da profissão)
de necessária a essa tarefa. vai afetar o resto da minha vida.”.
Apesar de pensar que o tema seja justi- • quero poder sustentar meus filhos:
ficado pelas circunstâncias citadas, é impor- “Quero que dê para pagar os estudos

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Orientação Vocacional Ocupacional 141

dos meus filhos; que dê meio termo pra De fato, a pesquisa de Lassance, Grocks
ter a minha casa própria.”. e Francisco (1993) apontou que os jovens que
procuram decidir a profissão centrados na
A questão da escolha conjugal, que reme- facilidade e na amplitude de possibilidades
te a temas como o amor, deve estar presente e de inserção no mercado de trabalho não pa-
teve seu representante na questão da escolha recem ocupar-se com as práticas profissionais
profissional com as abordagens de que é im- específicas, demonstrando imenso desconhe-
prescindível gostar do que se faz. Esse conteú- cimento acerca de cada uma das profissões
do foi explicitado de forma imperativa para a envolvidas em suas escolhas.
ideia de que, para realizar determinada esco- Utilizando-me da máxima nem só de
lha, é preciso gostar do objeto. Definem a es- pão vive o homem, citamos Odorizzi e Rosiski
colha profissional com termos que relacionam (1997), que entendem que, quando se aborda
paixão pela profissão à felicidade e má escolha a questão do trabalho, pensa-se nele como
a estados de infelicidade. fonte de renda e subsistência, ou seja, uma das
De fato, o adolescente sofre imensamente maiores preocupações do ser humano. Entre-
quando apenas durante o curso percebe que a tanto, o trabalho deve ter muitos outros signi-
decisão estava incorreta. Brooks (1959) já su- ficados para o indivíduo, seja como realizador
geria que o fracasso na escolha exerce influên- de potencialidades individuais, seja como ele-
cias negativas na personalidade do jovem, mento que possibilita a realização dos tempos
como tendência a desenvolver atitudes de culturais, dos tempos ideológicos e dos tem-
inferioridade e inibição de seus esforços para pos de lazer, assegurando plena satisfação e
outros direcionamentos, sendo conveniente equilíbrio do homem como cidadão.
orientar o jovem no sentido de prevenir esse Tendo vivenciado a separação dos pais,
tipo de fracasso. esses orientandos discutem a questão da pre-
Especialmente os orientandos filhos de sença ou da ausência de amor pelos objetos
pais separados concentraram a maior parte como fundamental na ideia de continuidade
das falas sobre mercado de trabalho em um da vinculação. Esse grupo teme ter que trocar
espectro negativista quanto a ele. No entanto, de escolha por não gostar do curso e teme ser
sua marca principal é uma angústia relacio- difícil manter esse casamento só por amor. São
nada à ideia de que não adianta fazer o que enfáticos ao apontar que casamento não é um
se gosta se não tem mercado, assim como não conto de casal, amor em baixo da ponte, indicando
adianta escolher pelo mercado quando não se que outras várias questões implicam a manu-
gosta da profissão. Existe o grande desejo de tenção do casamento. Dessa forma, referem,
poder conciliar o gosto com o mercado, mas a por exemplo: se não é o que você quer não vai ser
angústia é a de que essa conciliação seja im- feliz; trabalhar o resto da vida com uma coisa que
possível. não gosta vai ser infeliz.

• Não adianta fazer o que gosta se não


Autoconceito superpositivo
tem mercado: “Pra fazer minha esco-
lha, eu penso que não adianta uma coi- É interessante observar a contradição
sa que eu adoraria fazer mas que não apresentada por esses jovens. Assim como
tivesse muita retribuição depois; de os orientandos dos demais grupos pesquisa-
que adianta fazer cinco anos de uma dos, colocam a maior parte do locus de con-
coisa que você gosta e na hora não ter trole como externo na questão do mercado de
onde trabalhar? Eu queria unir o útil trabalho, ou seja, pensam que o ingresso no
ao agradável, fazer uma profissão que mercado de trabalho depende muito mais da
goste e que tenha bom mercado.”. conjuntura externa do que das capacidades e
• Não é bom escolher só pelo mercado: potencialidades do indivíduo.
“Tanta coisa que não levam adiante; ou Em contrapartida, foi o único grupo a
você continua sem gostar.”. fazer exclusivamente referências positivas a
seu autoconceito, inclusive relacionando-as

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142 Levenfus, Soares & Cols.

com êxito às tarefas esperadas pela profissão. essa observação. A partir do resgate feito das
Demonstram pensar que sua situação lhes diversas construções conceituais da noção de
coloca em vantagem. Acham que os filhos de competência, Manfredi (1998) identificou um
pais separados têm mais iniciativa, responsa- conjunto de conotações historica e socialmen-
bilidade, determinação, têm pais mais empe- te construídas referentes a essa noção, que po-
nhados, são mais alegres que os demais. Ver- deria ser assim resumido:
balizam que o filho de pais separados adota
atitudes, como • desempenho individual racional e efi-
ciente visando à adequação entre fins e
• tomar a dianteira/ter mais iniciati- meios, objetivos e resultados;
va nos trabalhos em grupo: “a gente • perfil comportamental de pessoas que
sempre puxava o resto; a gente sempre agregam capacidades cognitivas, so-
acabava levando todo mundo nas cos- cioafetivas e emocionais, destrezas psi-
tas; sempre os mesmos que tomavam a comotoras e habilidades operacionais,
dianteira”; adquiridas por meio de percursos e
• ser mais responsáveis; trajetórias individuais (percursos esco-
• estar pronto para lutar mais; lares, profissionais e outros);
• ser mais determinado; • atuações profissionais resultantes, prio-
• ser mais positivo; ritariamente, de estratégias formativas
• ter pais mais empenhados; agenciadas e planificadas visando à
• enfrentar as dificuldades: “você vai lá funcionalidade e à rentabilidade de um
na frente e vai tremer, não que eu não determinado organismo ou subsistema
tenha medo, não trema; todo mundo social.
sente medo por um trabalho que apre-
senta”; Diante desse panorama, o mercado que
• ter um discurso legal: “eu sentia que rege as relações sociais de produção exige
eu tinha um discurso legal para fazer profissionais que saibam aprender e estejam
direito”; abertos ao novo, sejam capazes de pensar seu
• gostar de aparecer, de estar lá na fren- próprio fazer e que o façam de forma coletiva.
te; Uma das contradições do grupo pesqui-
• ser sociável; sado está na dificuldade do fazer coletivo. Os
• ser prestativo. jovens expressaram conteúdos relativos à sua
falta de confiança nas pessoas e à sua tendência
Wallerstein (2000) diz que a adolescên- a preferir trabalhar isoladamente. Pela ótica do
cia começa mais cedo para filhos de famílias grupo é melhor não depender dos outros, com os
que sofreram um processo de separação. Boa outros não se pode contar. O grupo é enfático ao
parte das crianças passa a ocupar-se dos pro- afirmar que não dá para confiar nos outros, que
blemas da mãe e, algumas vezes, dos conflitos acabam faltando com sua parte nas obrigações;
do pai. Não raro elas têm de desenvolver por ora refere-se aos colegas de escola em trabalho
conta própria seus conceitos de moralidade. de grupo, ora refere-se aos pais.
Os mais velhos tendem a cuidar dos irmãos Concluímos, então, que os orientandos
mais novos, como se fossem adultos. E isso é pesquisados, filhos de pais separados, mani-
vantajoso? Na opinião do grupo, sim. festaram sentimentos perfeitamente cabíveis
Porém, será que essas atribuições favore- nos tempos atuais. No entanto, ao imaginarem-
ceriam a entrada do sujeito no mercado de tra- se com melhores qualidades que os demais jo-
balho, segundo a orientação da nova ordem vens, seria de se esperar que se sentissem mais
mundial? fortalecidos quanto ao ingresso no mercado
Se pensarmos essa questão sob o pris- de trabalho, o que não ocorreu. Deixamos em
ma do movimento atual de substituir a no- aberto a questão sobre esses jovens se darem
ção de qualificação pelo chamado modelo da conta de uma sobreadaptação, de sua pseu-
competência, talvez pudéssemos considerar doindependência, por forças das circunstân-

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Orientação Vocacional Ocupacional 143

cias (separação dos pais) ou simplesmente pela melhor não depender dos outros, com os outros não
realidade do mercado de trabalho. se pode contar:

PAI DESVALORIZADO VERSUS MÃE • Não dá para depender dos outros: “Se
COMPETENTE eu fosse depender do meu pai eu estava
frita; por isso eu acho que a gente é assim
O pai é tema de discussão somente nesse (desconfiado dos outros); já aconteceu
grupo. É muito significativa a representação também de eu depender e acabar fazen-
desvalorizada que o grupo tem da figura pa- do o trabalho sozinho; nunca me esque-
terna. A grande maioria das falas descreve o ço de uma vez que tive que fazer um tra-
pai como sendo cheio de problemas psiquiátricos, balho em grupo e ninguém se mexeu; eu
alcoolista, jogador compulsivo, desempregado, não gosto de depender de ninguém.”.
sem capacidade de se sustentar e de ajudar os • As pessoas dependem das outras para
filhos, ausente, despreocupado com os filhos trabalhar: “Se a pessoa for trabalhar
e mentiroso. Em uma quantidade bem menor em algum lugar ela vai ser contratada
são feitas referências ao pai contribui com algu- de alguém; de certo modo ela depende
ma coisa (pensão), é trabalhador, gosta do que dos outros; precisa ter alguém que pre-
faz e pensa nos filhos. cise daquele serviço.”.
A ausência de um modelo paterno, se-
gundo algumas pesquisas, contribui para o O grupo é enfático ao afirmar que não dá
aparecimento de dificuldades na consecução para confiar nos outros, que as pessoas aca-
de tarefas desenvolvimentais no âmbito voca- bam faltando com sua parte nas obrigações.
cional (Young, Friesen e Persons, 1988). Ora refere-se aos colegas de escola em traba-
Bastante diversa da imagem do pai está lho de grupo, ora refere-se ao pai.
a imagem da mãe. Esta é tida como uma mu-
lher batalhadora, trabalhadora, concursada,
Mulher e trabalho
independente, que ganha bem e gosta do que
faz: minha mãe pagou a faculdade dela; passou no O grupo composto por filhos de pais
concurso do magistério em primeiro lugar; ela ga- separados foi o único que debateu acerca da
nha bem lá. mulher como trabalhadora. É o único grupo
Lassance e colaboradores (1993) consta- no qual todas as mães são trabalhadoras.
taram a expressiva presença da influência pa- O conteúdo é bastante entendido pela
terna nas escolhas vocacionais de sujeitos de ótica da separação, e percebe-se uma grande
ambos os sexos. O pai é comumente referido preocupação quanto ao futuro. Fazem proje-
como um modelo, enquanto a mãe frequente- tos no sentido de que sua profissão seja capaz
mente aparece como conselheira. Segundo a de lhes garantir o sustento pessoal e o de seus
fala do grupo, os filhos de pais separados pa- filhos como se estivessem prevendo um futu-
recem apresentar uma inversão nesses valores ro de separação. É como se estivessem que-
identificatórios. rendo se prevenir da situação financeira que
suas mães vivenciaram com a separação.
A tendência principal é a de achar que a
Medo de depender dos outros
mulher não pode contar com o homem para
A questão da separação, com todas as prover seu sustento e o dos filhos. Exemplifi-
queixas referentes à falta de participação ade- cam o quanto suas mães tiveram perda no po-
quada do pai, parece desencadear nesse grupo der aquisitivo depois da separação em decor-
a temática da dependência. Embora este tema rência da ausência do pai como provedor e da
– dependência – esteja presente em todos os dificuldade deles em manter a pensão em dia.
grupos estudados, é no grupo de filhos de
pais separados que predomina uma generali- • Não pode contar com o homem: “Mi-
zada falta de confiança. Pela ótica do grupo é nha mãe se dependesse do meu pai,
estava frita; como é que a mulher vai

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144 Levenfus, Soares & Cols.

ficar se o marido não tem condição de querem ir para o mercado de trabalho para
dar uma pensão fixa?; não dá para ficar sustentar melhor a família do que o parceiro
esperando demais pelos outros; todas seria capaz.
as mulheres separadas com as quais
eu convivi tinham emprego e batalha- • Quer ser melhor que o marido depois
vam.”. da separação: “Se os filhos ficarem com
ela, ela vai se preocupar em ser melhor
Em quantidade bem menor, surge a ideia que o marido dela, vai se empenhar
de que as mulheres precisam trabalhar para para sustentar a família inteira.”.
auxiliar no orçamento doméstico em vista da
economia do país.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
• Precisa ajudar no orçamento: “As mu- A família de hoje está mudando e o efeito
lheres estão trabalhando cada vez mais desta mudança social no momento da escolha
porque há a necessidade; porque os ma- profissional é importante de ser compreendi-
ridos, se elas são casadas, não estavam do. As entradas e saídas de novos membros
conseguindo dar conta do recado com repercutem nos processos identificatórios
seu emprego.”. que, para Bohoslavsky (1982), estão na base
das escolhas profissionais. A influência fa-
Algumas referências foram feitas no sen- miliar no momento da escolha profissional é
tido de apontar que, em decorrência da sepa- inquestionável e deve ser analisada à luz das
ração, a mulher se torna competitiva com o mudanças, do efeito que tem nos processos
ex-marido. Segundo a fala do grupo, as mu- identificatórios e na construção da subjetivi-
lheres separadas, com raiva do ex-marido, dade daquele que escolhe (Oliveira, 1999).

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11
Jovens com perda parental
lidando com o luto e com a escolha profissional

Rosane Schotgues Levenfus • Maria Lucia Tiellet Nunes

É comum que, em uma idade próxima Muito pouco encontramos na literatura a


aos 18 anos, os jovens já tenham perdido, por respeito de associações entre escolha ou car-
morte, um membro da família nuclear? Pouco reira profissional e a morte de um dos pais.
comum, diríamos. Nessa fase da vida é mais Em seu estudo O demônio como substituto pa-
comum que percam gum dos avós. terno, Freud (1923/1974) refere que é comum
No entanto, de forma surpreendente, que um homem adquira depressão melancóli-
deparamo-nos tão seguidamente, em Orienta- ca e inibição em seu trabalho em decorrência
ção Vocacional, com jovens órfãos de pai ou da morte de seu pai. Pesquisa realizada por
mãe – ou de ambos – que esse dado levou a Magalhães, Lassance e Gomes (1998) apon-
uma pesquisa de levantamento sobre a inci- tou que “as estruturas familiares de sujeitos
dência e sobre as características desse fenôme- indecisos ocasionam perturbações afetivas
no (Levenfus, 1997d). De fato, conforme des- que dificultam um envolvimento produtivo
crevemos no Capítulo 4 deste livro, podemos na tarefa de decisão vocacional” (p. 47). Em
esperar que, em média, 10% dos jovens que dois sujeitos pesquisados, o falecimento do
se apresentam para Orientação Vocacional pai na primeira infância representa um acon-
(voluntariamente, por reconhecerem dificul- tecimento traumático que parece associado à
dades em escolher a profissão) perderam, por indecisão vocacional.
morte, um dos pais. Partimos, então, a pesquisar se a perda
Esse fenômeno foi percebido não somente de um dos pais repercute de alguma forma so-
no levantamento realizado com 1.059 sujeitos bre o adolescente no momento da escolha pro-
(ver Capítulo 4), como também surgiu entre fissional.3 Buscamos, como em outros grupos
casos apresentados por profissionais-alunos pesquisados, apenas averiguar se essa questão
do curso “Estudos Avançados em Orienta- confere a esses jovens alguma forma caracte-
ção Vocacional Ocupacional”.1 Além disso, ao rística ou alguma demanda específica – sem
convocar jovens interessados em inscrever-se querer avaliá-la como positiva ou negativa –
gratuitamente em um processo de Orienta- frente à questão da escolha profissional.
ção Vocacional para fins de pesquisa,2 dos 72 Para tanto, foram reunidos em um grupo
jovens inscritos, 11 apresentavam perda por de Orientação Vocacional apenas jovens com
morte de um dos pais, configurando nessa pe- perda parental por morte.4 É importante res-
quena amostra pouco mais de 15%. saltar que nessa pesquisa todos os orientan-

1
Curso ministrado a psicólogos e orientadores educacionais sob coordenação de Levenfus, na cidade de
Porto Alegre-RS
2
Pesquisa de Mestrado em Psicologia Clínica (Levenfus, 2001).
3
Levenfus, 2001.
4
Parte da pesquisa de mestrado de Levenfus (2001).

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Orientação Vocacional Ocupacional 147

dos se inscreveram por demandas próprias e separada, então, de acordo com Wolfenstein,
não sabiam no início das tarefas que estavam citado por Worden (1998), as crianças muito
em um grupo homogêneo (órfãos). A primeira pequenas não fazem luto devido à sua limi-
reunião grupal foi gravada e posteriormente tação em termos de teste da realidade, cons-
transcrita e estudada na forma de Análise de tância de objeto e devido ao fato de elas uti-
Conteúdo (Bardin, 1991). O conteúdo da con- lizarem mecanismos regressivos para lidar
versação exposta por esse grupo se asseme- com a perda e rapidamente encontrar objetos
lha, e também difere, em vários aspectos do substitutos.
conteúdo das questões discutidas em outros Worden (1998) acredita que as crianças
grupos pesquisados.5 fazem o luto, e que é necessário encontrar um
Primeiramente, abordaremos alguns tó- modelo de luto que se adapte a elas, e não lhes
picos relativos à questão geral da repercussão impor um modelo adulto. Embora as crianças
da morte de um dos pais sobre o psiquismo pequenas apresentem comportamentos seme-
infantil ou juvenil dos filhos, para mais adian- lhantes ao luto quando as ligações são rom-
te focalizarmos essa experiência em torno do pidas, o principal problema está centrado em
momento da escolha profissional. torno do desenvolvimento cognitivo da crian-
ça. As pessoas necessitam de um certo nível
SOBRE A PERDA PARENTAL NA de desenvolvimento cognitivo para compre-
INFÂNCIA ender a morte por não conseguirem integrar
o que não compreendem. Cita que alguns
Quando a perda do pai ocorre na infân- dos conceitos cognitivos necessários para que
cia, a criança pode não ter um luto adequa- seja totalmente compreendida a morte são:
do e, mais tarde, com frequência, apresentará (1) tempo, incluindo a ideia de eternidade,
sintomas de depressão ou de inabilidade para (2) transformação, (3) irreversibilidade, (4)
ter relacionamentos próximos na vida adulta casualidade e (5) operação concreta. Em seus
(Worden, 1998). estudos, Worden (1998) cita Piaget e Inhelder
Houve muitas controvérsias ao longo dos (1969), que afirmam serem as crianças capa-
anos, em especial nas escolas psicanalíticas, zes de desenvolver as operações concretas so-
sobre o fato de as crianças serem ou não ca- mente a partir dos 7 ou 8 anos.
pazes de fazer um luto. Worden (1988) aponta
a posição de diversos autores a respeito dessa SOBRE A PERDA PARENTAL NA
questão. De um lado, situa pessoas como Wol- ADOLESCÊNCIA
fenstein (1966), que afirma serem as crianças
incapazes de fazer o luto antes de terem uma Com relação aos adolescentes, conforme
total formação de identidade, a qual ocorre no Riera (1998), estes são especialmente vulnerá-
final da adolescência, quando a pessoa deve veis à morte de alguém querido, por causa de
estar totalmente diferenciada. Por outro lado, todos os horizontes conflitantes da adolescên-
há autores como Furman (1974), que assumem cia e da interdependência entre os membros
a posição oposta: as crianças podem fazer seu da família. Especialmente no caso da morte de
luto a partir dos 3 anos, quando a constân- um dos pais, o adolescente é afetado não ape-
cia de objeto é alcançada. Em seu artigo Pesar nas pela perda emocional significativa, como
e luto na primeira e segunda infâncias, Bowlby também pela mudança na responsabilidade
(1960b) antecipa essa idade para os 6 meses. familiar e na vida cotidiana.
Parte da controvérsia tem como foco a Em vista da natureza mutável do adoles-
própria definição de luto. Se o luto envolve cente, os estágios de luto, como negação, raiva,
a tarefa de se desligar do objeto de ligação e negociação, depressão e aceitação são vividos
reconhecer a si próprio como uma entidade linearmente. As pessoas oscilam entre esses es-

5
Foram pesquisados, além deste, outros três grupos: jovens filhos de pais separados; jovens com difícil
desencadeamento do segundo processo de separação-individuação (Mahler, 1982) ; e jovens que não apre-
sentam nenhuma das características encontradas nos grupos anteriores.

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148 Levenfus, Soares & Cols.

tágios, em diversos ritmos, às vezes fixando-se Freud (1923/1974) descreve que o luto
em um deles ou passando por cima de outro. é a reação normal à perda de um ente queri-
É frequente que os adolescentes do, à perda de alguma abstração que ocupou
reajam ao luto diminuindo seu mundo, ou o lugar de um ente querido, como o país, a
seja, voltam sua atenção e concentram-se em liberdade ou o ideal de alguém, e assim por
uma ou duas coisas que, repentinamente, diante.
emergem de sua amplitude usual de ativida- Embora o luto envolva graves afasta-
des. Esse encolhimento de seu mundo lhes mentos do que constitui a atitude normal para
dá maior senso de controle frente a um acon- com a vida, Freud (1923/1974) acreditou que
tecimento incontrolável e essa é, frequente- este é superado após certo espaço de tempo e
mente, uma resposta saudável e útil. julgou inútil ou mesmo prejudicial qualquer
O modo como um adolescente reage à interferência em relação a ele.
morte depende de diversos fatores: seu re- O luto profundo (a reação à perda de
lacionamento com a pessoa que morreu, sua alguém que se ama) encerra o mesmo estado
experiência anterior com a morte, o tipo de de espírito penoso, a mesma perda de interes-
morte (súbita ou prolongada), as reações das se pelo mundo externo – na medida em que
pessoas à sua volta e sua personalidade bási- este não evoca esse alguém – a mesma perda
ca. da capacidade de adotar um novo objeto de
Qualquer que seja o modo como ele lide amor (o que significaria substitui-lo) e o mes-
com o luto, é um processo a longo prazo (e é mo afastamento de toda e qualquer atividade
mais longo quanto mais próxima a pessoa que que não esteja relacionada a pensamentos so-
faleceu). Não é algo pelo qual ele passe e con- bre ele (Freud, 1917/1974). Segundo Fenichel
siga superar em algumas semanas ou em al- (1981), em seguida a experiências decepcio-
guns meses. Isso se torna uma parte sedimen- nantes, a libido é retirada da realidade tam-
tada de seu passado; quando outra pessoa bém nas pessoas neuróticas e normais.
querida morrer, a morte anterior é relembrada Já na melancolia, os traços mentais dis-
tanto como uma experiência quanto como um tintivos são um desânimo profundamente
processo de luto (Bowlby, 1998; Bromberg, penoso, a cessação de interesse pelo mundo
1998; Riera, 1998). externo, a perda da capacidade de amar, a
inibição de toda e qualquer atividade e uma
diminuição dos sentimentos de autoestima a
Luto e melancolia
ponto de encontrar expressão em autorrecri-
Bromberg (1998) observou que a análise minação e em autoenvilecimento, culminan-
comparativa que Freud (1923/1974) fez entre do em uma expectativa delirante de punição
luto e melancolia demonstra que o luto pode (Freud, 1923/1974).
ser um modelo de depressão clínica: ambos Isso sugeriria que a melancolia está de
são reação a uma perda e caracterizam-se por alguma forma relacionada a uma perda obje-
um espírito deprimido, pela perda de interes- tal retirada da consciência, em contraposição
se e pela inibição de atividades. A diferença é ao luto, no qual nada existe de inconsciente a
a ausência, no luto, de culpa, de autoacusa- respeito da perda. A analogia com o luto leva
ções e de rebaixamento da autoestima. a concluir que a pessoa sofrera uma perda re-
Para todos os efeitos, existem pareceres lativa a um objeto; aquilo que o paciente me-
bastante controversos a respeito do luto como lancólico diz aponta para uma perda relativa a
patologia. Bowlby (1989) é bastante enfático seu ego.
com relação à ideia de que a psicanálise clas- O melancólico exibe ainda uma outra
sifique como patológicos processos que não faceta que está ausente no luto – uma dimi-
parecem ótimos, apesar de, conforme sua opi- nuição extraordinária de sua autoestima, um
nião, serem absolutamente normais. empobrecimento de seu ego em grande esca-
Apresentamos o conceito freudiano de la. No luto, é o mundo que se torna pobre e
luto e melancolia, seguido de contribuições vazio; na melancolia, é o próprio ego. O su-
de outros autores. jeito representa seu ego como sendo despro-

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Orientação Vocacional Ocupacional 149

vido de valor, incapaz de qualquer realização função das manifestações contrárias a esse
e moralmente desprezível; ele se repreende e referidas pelo pai antes da morte. Essas ma-
se envilece, esperando ser expulso e punido. nifestações do pai haviam provocado temor e
Degrada-se perante todos e sente comiseração ódio ao pai.
por seus próprios parentes por estarem rela- Supõe que é possível que seu pai fosse
cionados a uma pessoa tão desprezível. Não contra seu desejo de se tornar pintor. Se assim
acha que uma mudança se tenha processado fosse, sua incapacidade de exercer sua arte após
nele, mas estende sua autocrítica até o pas- a morte do pai seria, a expressão do conhecido
sado, declarando que nunca foi melhor. Esse fenômeno de obediência adiada e, tornando-se
quadro de um delírio de inferioridade (prin- incapaz de ganhar a vida, seria compelido a
cipalmente moral) é completado pela insônia aumentar seu anseio pelo pai como protetor
e pela recusa a se alimentar, e – o que é psico- contra os cuidados da vida. Em seu aspecto
logicamente notável – por uma superação do de obediência adiada, seria também expressão
instinto que compele todo ser vivo a se apegar de remorso e uma autopunição bem-sucedida
à vida. frente ao ódio sentido pelo pai.
A melancolia é, por um lado, como o De acordo com Freud (1923/1974), a
luto, uma reação à perda real de um objeto característica mais notável da melancolia, e
amado; mas, acima de tudo isso, é assinalada aquela que mais precisa de explicação, é sua
por uma determinante que se acha ausente no tendência a se transformar em mania – es-
luto normal ou que, se estiver presente, trans- tado que é o oposto dela em seus sintomas.
forma esse em luto patológico. Na melanco- Como sabemos, isso não acontece com toda
lia, a relação com o objeto não é simples; ela é melancolia. Alguns casos seguem seu curso
complicada pelo conflito devido a uma ambi- em recaídas periódicas, entre cujos intervalos,
valência (Freud, 1923/1974; Mark, 1997). sinais de mania talvez estejam inteiramente
ausentes ou sejam apenas muito leves. Outros
A MARCA DA AMBIVALÊNCIA revelam a alteração regular de fases melancó-
licas e maníacas, o que leva à hipótese de uma
A perda de um objeto amoroso constitui insanidade circular.
excelente oportunidade para que a ambivalên-
cia nas relações amorosas se faça efetiva e ma-
A qualidade do vínculo
nifesta. As ocasiões que dão margem à doença
vão, em sua maioria, além do caso nítido de Para Bromberg (1998), a qualidade do
uma perda por morte, incluindo as situações vínculo estabelecido inicialmente determina-
de desconsideração, de desprezo ou de desa- rá os vínculos futuros e os recursos disponí-
pontamento, as quais podem trazer para a re- veis para enfrentamento e para elaboração de
lação sentimentos opostos de amor e ódio ou rompimentos e de perdas. Um vínculo seguro
reforçar uma ambivalência já existente (Freud, permite o desenvolvimento da autoconfiança
1923/1974). e da autoestima. Em um estudo, os resulta-
Provavelmente, no caso estudado por dos mostram que a medida de autoestima é
Freud (1923/1974), O demônio como substituto negativamente correlacionada com tendência
paterno, em que um homem adquire depressão à depressão, ao se sentir isolado e solitário e
melancólica e inibição em seu trabalho em de- suscetível a somatizações.
corrência da morte de seu pai, o homem fora A autora observa que esses são os sin-
ligado ao pai por um intenso vínculo amoro- tomas mais frequentemente encontrados na
so. Por outro lado, seu luto pela perda do pai reação de luto, incluindo também o rebaixa-
tem grandes probabilidades de se transformar mento da autoestima. Explica, assim, o luto
em melancolia quanto mais sua atitude para patológico. Considera que aqueles que desen-
com ele portar a marca da ambivalência. volveram vínculos básicos frágeis não desen-
Nesse mesmo trabalho, Freud aponta o volveram de forma positiva a autoconfiança e
fenômeno da obediência adiada, na qual o per- a autoestima. Nesses casos, com o rompimen-
sonagem sentia-se inibido para o trabalho em to de um vínculo por morte, a reação de luto

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150 Levenfus, Soares & Cols.

apresentará as marcas desse déficit, e a difi- emocionais, mobilizam uma certa quantidade
culdade de superação será intensificada pela de energia que resulta em empobrecimento ao
dificuldade em encontrar novas possibilida- nível de outras atividades.
des de vinculação, seja com uma pessoa, com Pensamos também que um dos fatores
uma ideia, seja com uma atividade. que contribui para a dispersão da tarefa rela-
ciona-se à prevalência de lembranças negati-
CARACTERÍSTICAS APRESENTADAS vas do morto (apresentadas por esse grupo),
contrárias à boa elaboração de luto na qual
EM ORIENTAÇÃO VOCACIONAL POR seria mais comum encontrar a sua idealização
JOVENS COM PERDA PARENTAL (Stroebe e Stroebe, 1987, citados por Brom-
berg, 1998). Nesse sentido, alguns sujeitos da
Dispersão de energia psíquica
pesquisa verbalizaram o seguinte:
O grupo de Orientação Vocacional for-
mado por jovens que perderam por morte • “Ele dava mais atenção para meu ir-
um dos pais, apresenta uma significativa dis- mão.”
persão de energia psíquica6 que poderia estar • “Ele não era de colocar muito dinheiro
investida na tarefa da escolha. A energia psí- em casa.”
quica fica, nesse caso, retida na resolução do • “Meu pai saía poucas vezes comigo e
luto. Isso é perceptível pelo fato de ter sido o com meu irmão.”
grupo que menos se concentrou na tarefa da
escolha,7 apresentando, na maioria das falas, Isso pode, como assinalamos anterior-
conteúdos ao redor da temática da perda do mente, predispor-se ao luto patológico ou à
ente querido. Diversas são as alusões à morte melancolia.
de um dos pais. Em menor escala referem per-
das de pessoas próximas e perdas morais ou
A marca do inconformismo
de relacionamento.
Em um relato muitas vezes pleno de O grupo relatou quando e como ocorreu
emoção, de lágrimas e de ansiedade, in- a morte, deixando visivelmente a marca do
cluindo a participação de um sujeito obeso inesperado, do sofrimento, da vivência como
e de outro seriamente envolvido com uso de traumática:
drogas, o tema da perda e do sentimento de
solidão foi se manifestando desde o primeiro • “Foi enfarto repentino.”
encontro de OP desse grupo. A manifestação • “Ela tinha câncer de mama, depois vol-
de lágrimas –, ou olhos marejados –, a ex- tou e tomou conta do cérebro.”
pressão geral de tristeza, os cantos da boca
caídos, o olhar triste e os distúrbios alimen- Expressões de emoção e inconformismo
tares são sinais de que o luto está presente estão muito manifestas nesse grupo, como:
(Stroebe e Stroebe, 1987, citados por Brom-
berg, 1998). • “Eu não consigo me conformar.”
Preocupação com as lembranças do fale- • “Eu não consigo superar.”
cido – tanto as boas quanto as más – e a ne- • “Eu nunca consegui falar sobre meu
cessidade de falar incessantemente sobre isso pai sem chorar.”
parecem ocupar os interesses sobre outros • “Eu choro muito de noite.”
tópicos. A perda de interesse e a inibição são
fenômenos plenamente explicados pelo traba- Anseio pelo falecido, ondas de saudade
lho de luto no qual o ego é absorvido (Freud e dor intensa são expressões de luto manifes-
1923/1974). Segundo Laplanche e Pontalis to (Stroebe e Stroebe, 1987, citados por Brom-
(1986), um sintoma, ou alguns transtornos berg, 1998).

6
Conforme conceito freudiano de economia psíquica.
7
Emitiu menos verbalizações diretamente ligadas à problemática da escolha profissional.

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Orientação Vocacional Ocupacional 151

Negação • Sem um pistolão é difícil conseguir o


cargo.
A negação da morte também está presen-
te nas verbalizações, como, por exemplo: As múltiplas referências feitas à necessi-
dade de um pistolão nos remete à ausência do
• Quando ele morreu eu estava choran-
pai. É como se a presença do pai fosse funda-
do, só que parecia que tinha morrido
mental para facilitar a inserção do sujeito no
um primo meu, e não meu pai.
mercado. Eles se sentem desprotegidos sem o
• Não sei se ele está vivo ou morto.
pistolão, ou seja, psicanaliticamente falando, o
falo fundamental para facilitar a inserção do
Bromberg (1998) considera que a teoria
sujeito na cultura e no trabalho.
de Bowlby “oferece uma boa interpretação
teórica para aspectos dos lutos normal e pa-
tológico, não explicados por outras aborda- Efeitos da baixa autoestima
gens” (p. 24). Ocorre a sensação de ter a pre-
Entre os grupos pesquisados, esse é o
sença da pessoa morta, da raiva sentida, dos
único a apontar um questionamento medro-
sentimentos ambivalentes, das tentativas de
so sobre sua capacidade para desempenhar
manter o vínculo mesmo desconsiderando as
determinada profissão. Esses sentimentos de
evidências da realidade e da necessidade de
inadequação, fracasso e incompetência nas
encontrar a pessoa perdida.
próprias possibilidades e o sentimento de que
É possível que tudo isso explique o fato
nada vale a pena aparecem também como si-
de esse grupo apontar apenas verbalizações
nais da presença do luto (Stroebe e Stroebe,
com conteúdo de muita indecisão e dúvida
1987, citados por Bromberg, 1998).
com relação à escolha profissional, pois, para
Na pesquisa de Frischenbruder (1999),
fazer uma escolha ajustada, é preciso tolerar a
com adolescentes em vias de escolher a pro-
ambivalência nas relações de objeto (Bohosla-
fissão, a dimensão da depressão apresentou
vsky, 1982; Levenfus, 1997c; 1997d).
baixa pontuação, apontando que os adoles-
centes em geral percebem seu autoconceito
Pessimismo quanto ao mercado de
com poucos aspectos depressivos, contribuin-
trabalho e necessidade de ter um Pistolão do para um autoconceito harmônico. Esse
Outra evidência da presença do luto é o não foi o caso dos jovens com perda parental,
pessimismo sobre as circunstâncias atuais e como segue.
futuras, a desesperança e a perda de propósi- A categoria Autoconceito desse grupo é
to na vida (Stroebe e Stroebe, 1987, citados por marcada por algumas peculiaridades. É o úni-
Bromberg, 1998). Esse conteúdo está presente co grupo que faz referências a ser do Estado
nas verbalizações acerca do mercado de traba- do Rio Grande do Sul. Essa subcategoria ocu-
lho. Uma visão negativista toma conta desse pa mais da metade das verbalizações do au-
grupo que acha que o mercado não é bom ou toconceito. A grande maioria das falas revela
apenas é bom em algumas áreas. Na maior parte aspectos negativos de ser gaúcho. Em parte,
das verbalizações relativas a esse tema, afir- são feitas relações entre ser gaúcho e a pouca
mam que sua inserção no mercado depende aceitação destes no mercado de trabalho em
mais das condições deste do que de seus es- outros Estados. De outra parte, são feitas ver-
forços pessoais. Nas referências ao predomi- balizações de como os outros percebem o gaú-
nante locus de controle externo, encontra-se a cho como veado (homossexual ou desprovido
ideia de que é necessário um pistolão para colo- de pênis-pistolão), da roça, ou seja, de forma
car a pessoa no mercado de trabalho: desvalorizada. O que se faz necessário ressal-
tar é que essas referências feitas aos gaúchos
• Sempre tem que ter alguém que lhe in- vieram nas associações do grupo a respeito do
dique para entrar no cargo. estado de orfandade. O grupo fazia referên-
• Sempre tem que ter alguém conhecido cias no sentido de que:
que vai lhe dar informação, ó, tá acon-
tecendo tal coisa, corre lá que tem.

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152 Levenfus, Soares & Cols.

• nós não somos 100% pessoas normais; aspirações. No entanto, algumas dessas aspi-
• não que a gente seja louco; não somos rações, como o desejo de tirar as crianças da
normais dentro dos padrões da socie- rua, retratam identificação com sua situação
dade; de orfandade.
• criança precisa dos dois pais vivos para Ao referir-se aos lutos pelo self, Bohos-
ser uma pessoa equilibrada. lavsky (1982) aponta um sentimento que ex-
pressa a ânsia de se completar. O adolescente
Dessa forma, entendendo pelo prisma menciona isso como quero me encontrar, quero
psicanalítico, diríamos que, por mecanismos me realizar, ou como foi referido no grupo,
de projeção e deslocamento, as associações re- quero uma profissão perfeita, satisfazer uma re-
feridas como ser gaúcho se relacionam ao esta- alização espiritual. Supõe a busca de um reen-
do de orfandade. Em poucas falas os sujeitos contro com algo que gostaria de ter ou ser e
apontam aspectos positivos do Estado do Rio que não possui. Falta-lhe na fantasia porque
Grande do Sul. Nestas, por exemplo, enaltecem sente que perdeu esse atributo que, certa vez,
o Orçamento Participativo, o que entendemos possuíra. Esse é um dos fatores que motiva
como estando relacionado a ser o único grupo a identificação com os outros. A escolha da
que verbaliza que os filhos trabalham para aju- carreira seria uma situação em que se vive
dar no orçamento familiar: nós (os filhos) traba- essa ânsia por complementar-se e implica a
lhamos também; eu trabalho o dia inteiro.8 recuperação dos afetos e dos objetos que sen-
Além dessas, houve referências, por te perdidos; portanto, evoca capacidade de
exemplo, a sentir-se como filho não desejado, reparação e elaboração de lutos. Nas depres-
a saber de seus limites, a se autoanalisar, a ser sões, a idealização é mantida pela liberação
materialista, demonstrando manter contato da busca do prazer para que nada falte, im-
com o mundo intra e extrapsíquico. Em uma possibilitando que a perda do objeto se sim-
fala – não sou um rebelde sem causa – fica muito bolize (García, 1999).
claro que não é a troco de nada que o grupo
apresenta tantas “auto” e “alo” referências ne-
A influência do morto
gativas. A orfandade reina quase que absoluta
na categoria do autoconceito. A respeito dessa questão, encontramos
O melancólico exibe uma diminuição a peculiaridade do grupo em apontar, entre
extraordinária de sua autoestima, um empo- as influências dos pais, algumas referências a
brecimento de seu ego em grande escala. No pai/mãe morto(a). A categoria Identificação nos
luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; chamou a atenção por não aparecer apenas no
na melancolia, é o próprio ego. O paciente referido grupo. Poderia-se pensar na ausência
representa seu ego como sendo desprovido de objeto para identificação em função da per-
de valor, incapaz de qualquer realização e da, mas nos parece não ser o caso – porque
moralmente desprezível; ele se repreende e existem outras relações de objeto e porque fo-
se envilece, esperando ser expulso e punido, ram feitas referências à ocupação e ao supos-
tal qual as referências de que acenam o gaú- to desejo do morto. Como a maior parte das
cho como nãoreconhecido, desvalorizado e lembranças do morto é negativa, isso pode
rejeitado pelos demais (Freud, 1923/1974). dificultar a identificação. Mas o que chama a
atenção é que na categoria das Influências são
feitas referências a que pai/mãe vivo sugere
Interesses profissionais e luto
ao filho profissões identificadas com o gênero
Para todos os efeitos, esse grupo apre- do morto.9 Dessa forma, algumas mães pra-
senta uma distribuição harmônica de inte- ticamente impuseram o desejo de que a filha
resses profissionais, sendo que é o único a escolhesse alguma Engenharia, bem como foi
apresentar também a categoria desejos como sugerido a um sujeito masculino que perdera

8
Especialmente no caso da morte de um dos pais, o adolescente é afetado não apenas pela perda emocional
significativa, como também pela mudança na responsabilidade familiar e na vida cotidiana (Riera, 1998).

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Orientação Vocacional Ocupacional 153

a mãe, e que se ocupa das tarefas domésticas, afirmar que, se estivesse vivo, estaria apoian-
que cursasse Hotelaria. do sua escolha. A idealização do falecido, ma-
Entendemos essa situação como uma es- nifesta pela tendência a ignorar qualquer de-
colha profissional baseada em uma identifica- feito e a exagerar as características positivas,
ção com o morto e com uma fantasia de união também é um indicador de que o luto está
com ele que, na fala dos sujeitos, é mais por presente (Stroebe e Stroebe 1987, citados por
desejo do vivo do que deles próprios. Fenichel Bromberg, 1998).
(1981) explica que é preciso identificar Nesse grupo, namorados e tios aparecem
como pessoas influentes, sendo importante
quais são as ideias que, inconscien- destacar que em todos esses casos essas pessoas
temente, se ligam ao conceito de morte. ocupam o lugar de pai/mãe falecido(a) no sen-
Há vezes em que essas ideias são de ín- tido de que é a pessoa com quem mais os ado-
dole libidinal e se fazem inteligíveis pela lescentes pesquisados mantêm contato.
história do paciente. Por exemplo, estar Algumas verbalizações são feitas no sen-
morto significa reunião com uma pessoa tido da não aceitação das influências que de-
morta. (p. 195) vem ser ignoradas. Quando a relação pais-filhos
se dá de forma harmoniosa, as opiniões dos
Talvez por isso, na categoria Dependên- pais permanecem valorizadas sem que haja aí
cia versus Independência, é expresso o desejo submissão, e a família permanece sendo sen-
de se afastar do vivo. Por um lado, existem tida como um fator estabilizador e apoiador.
queixas dessas imposições profissionais; por Não é o caso desse grupo, que faz diversas
outro, de forma mais clara, o vivo faz movi- queixas de abandono e expressa sentimentos
mentos de engolfamento do filho para subs- de raiva para com pai/mãe vivo(a) e demais
tituir o morto ou para aplacar sua solidão. familiares.
Segundo Stroebe e Stroebe (1987), citados
por Bromberg (1998), o rechaço ao vivo, bem
Solidão
como uma irritabilidade em relação à família
e aos amigos, pode ocorrer por sentir que não O grupo afirma sentir falta não apenas
entendiam ou não gostavam tanto do morto, de pai/mãe morto(a), mas também do vivo.
ou não entenderam o luto ou mesmo por eles Inúmeras são as queixas de que o vivo ou au-
não substituírem o morto. senta-se muito do lar, ou conversa pouco.
Ainda com relação às influências, na
fala dos sujeitos, embora também existam • “No fim de semana quando eu quero
percepções de que os pais impõem seu dese- que ela (mãe) esteja ali para conversar,
jo, na maioria das vezes, atuam no sentido de ela sai com alguém.”
discordar ou questionar a escolha dos filhos, • “Eu sinto falta da minha mãe porque
deixando-os em dúvida. Afirmam que, em ela viaja a semana inteira.”
geral, os pais dão o contra quando o mercado • “Meu pai eu vejo só à noite.”
não é bom. Essa grande preocupação do vivo • “Eu me sinto como ela, como se não ti-
com relação a garantir o mercado pode estar vesse pai nem mãe.”
relacionada à vivência da morte, que torna
real a visão de que os pais não são eternos e Algumas tentativas são feitas no senti-
os filhos terão que prover meios de sustento do de amenizar o sentimento de solidão. Na
na falta deles. Poucas são as verbalizações maioria das verbalizações, a tentativa consis-
que denunciam tanto as imposições quanto à te em substituir a falta dos pais por um na-
neutralidade dos pais. morado mais velho que, segundo o grupo,
As referências feitas a pai/mãe morto(a) dá atenção e proteção. Percebemos aqui claros
com relação à influência são no sentido de indicadores de confusão de objeto em falas

9
Pesquisando gênero e escolha profissional, Lassance (1987) e Strey (1994) apontaram para uma tendência à
qualificação das profissões como tradicionalmente femininas ou masculinas.

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154 Levenfus, Soares & Cols.

explícitas, como: eu não sei se eu o enxergo como Em raras ocasiões, houve verbalizações
um pai ou como um namorado. nas quais os sujeitos declaram estar decididos
Também fazem tentativas de aplacar a so- quanto à profissão.
lidão buscando a companhia de amigos, mas Existem estudos acerca deste tipo de
é referida como não sendo suficiente. O grupo comportamento, em que as escolhas ocupa-
aponta que tios e outros parentes próximos cionais seriam presididas por uma progres-
também não substituem afetivamente o lugar siva eliminação de alternativas e pelo reforço
do pai morto. É comum que pessoas enluta- das alternativas não excluídas, restringindo
das apresentem dúvidas quanto aos motivos gradativamente a gama de opções e aumen-
daqueles que oferecem ajuda. A sensação de tando a certeza da decisão (Hershenson e
solidão, mesmo na presença de outras pesso- Roth, 1966, citados por Levenfus, 1997b). Es-
as, e crises periódicas de intensa solidão, são ses mesmos autores afirmam que o processo
manifestações frequentes na situação de luto é diferencial e específico de cada sujeito e tem
(Stroebe e Stroebe, 1987, citados por Brom- relação com a base experiencial e com a sua
berg, 1998). história pessoal. Assinalamos aqui que essa
Tudo isso redunda em um doloroso sen- forma de escolha ocorreu com ênfase apenas
timento de vazio e desesperança. no grupo de jovens com perda parental. Asso-
ciamos essa situação àquilo que Bohoslavsky
(1982) resumiu no termo deuteroescolha10. Ou
O negativo das profissões
seja, como o adolescente escolhe escolher, po-
Uma visão acerca das profissões, que dendo implicar, inclusive, não escolhas, esco-
classificamos como negativa, foi característica lhas por omissão.
desse grupo. Predominam as falas em que o
sujeito revela que a escolha ocorre por elimi-
Pouca informação
nação do que não gosta, restando algo em que
pensar, as sobras: Esse grupo, assim como os demais pes-
quisados, apresenta busca ativa de infor-
• “Pega todas as profissões e começa a mações; no entanto, elas foram reveladas de
descartar tudo aquilo de que você não forma superficial. Referem desejo de obter
gosta.” mais informações demonstrando consciência
• “Você vê aquelas poucas coisas que so- do despreparo. A pesquisa realizada por Fris-
braram.” chenbruder (1999) revelou que:

As demais verbalizações correm todas no Estados depressivos nos adoles-


sentido de que o sujeito só identifica coisas de centes que buscam escolher a profissão
que não gosta, os pontos negativos e os senti- estão associados a pouca informação
mentos de que nada o atrai: vocacional, a menor satisfação com a in-
formação profissional obtida no proces-
• “É como ele, eu só sei o que eu não so exploratório, a menor certeza de suas
quero.” preferências vocacionais, a menor per-
• “Eu não quero medicina, eu não quero cepção das semelhanças entre suas op-
engenharias.” ções profissionais e as possibilidades de
• “A gente sempre tira o pior da profis- trabalho oferecidas no mercado e a uma
são.” exploração do self e do meio realizada
• “A gente nunca olha o lado bom da de forma assistemática. (p. 60)
profissão.”
Algumas verbalizações foram feitas afir-
mando saber tudo de todas as profissões. Estas

10
O termo deuteroescolha foi referido por Bohoslavsky (1982, p. 108). Criou-se esse termo em analogia ao de
deuteroaprendizagem (aprender a aprender), para referir-se ao processo de como o sujeito escolheu esco-
lher.

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Orientação Vocacional Ocupacional 155

foram realizadas todas por um mesmo sujeito vivo se case de novo ou de que o namoro acabe.
que apresenta traços de comportamento com- Uma estratégia para não perder o vínculo com
pulsivo e onipotente. o vivo, para não magoá-lo, é procurando fazer
Esse traço compulsivo está presente tam- tudo o que o vivo deseja, inclusive com relação
bém nas verbalizações relacionadas a dificul- às suas escolhas. Ao optarem, muitas vezes, os
dades financeiras que ocorreram depois da jovens estarão priorizando exageradamente as
morte. Em geral, as queixas referem-se a limi- opiniões e os valores da família, sendo muito
tações e à perda financeira, mas, em alguns ca- comum o jovem sentir que, com sua opção, es-
sos, a perda não interferiu no padrão de vida. tará beneficiando ou magoando algum familiar
Encontramos relatos de raiva do destino em (Andrade, 1997).
que a morte tenha ocorrido e sentimentos de Os orientandos com perda parental fo-
injustiça, como, por exemplo: ram os únicos a fazer projetos de casamento,
que denominei como Futuro da dependência, ou
• “A gente era tri bem financeiramente seja, planejam casar-se e dividir as despesas
quando o pai era vivo.” da casa com o parceiro. Essa afirmação, como
• “Eu seria exatamente como minha pri- se pode ver no Capítulo 10, é feita de forma
ma (se o pai estivesse vivo).” totalmente oposta pelos orientandos filhos de
pais separados. Isso leva a pensar que o fato
As referências a comportamentos compul- de terem perdido por morte um dos pais não
sivos ocorreram como nos exemplos a seguir: atrapalha a ideia de, no futuro, vir a constituir
uma família.
• “Eu tenho em mente trabalhar sábado, É importante registrar a verbalização a
domingo, feriado, 24 horas por dia.” respeito da ambivalência entre pais e filhos
• “Quero poder adquirir televisão, vide- com relação à independência e aos limites.
ogame, videocassete, tudo.” Embora tal fato pareça ser comum aos demais
adolescentes, esse registro só foi possível de
Tensão, inquietação atípica, hiperativi- ser coletado na análise de conteúdo desse gru-
dade, frequentemente sem completar as ta- po:
refas (fazer coisas apenas para se manter ati-
vo), também são citadas como manifestações • “O jovem de hoje é meio estranho, nós
do luto (Stroebe e Stroebe, 1987, citados por ficamos surpresos com a reação dos
Bromberg, 1998). Aqueles que labutam sem pais.”
parar sentem necessidade incessante de traba- • “Você fica esperando um NÃO e ela
lhar, a fim de não sentir uma tensão interna diz PODE.”
insuportável (Fenichel, 1981). • “Você começa a pensar que ela não ta
nem aí para mim, está me largando de
mão.”
Futuro da dependência
• “Se começa a prendê-lo, aí ela prende
A perda financeira também aponta para você demais.”
uma interferência na escolha da universidade.
Citam as universidades que consideram mais Conforme os achados de Liljja (1998), por
caras ou baratas, com pagamento facilitado, mais paradoxal que pareça, em seu processo
e o desejo de ingressar preferencialmente em de independização e autodescoberta, o ado-
uma universidade pública. lescente necessita tanto de autonomia quanto
Por fim, na contrapartida de um anseio de contenção. Ele quer descobrir o mundo e
por independência, existem também expres- a si mesmo, mas necessita da proteção e con-
sões de medo de perder o vivo ou o namora- tenção familiar. A ausência dessa contenção e
do.11 O medo é manifesto pelo temor de que o de limites claros (autonomia total) é percebida

11
As referências ao namorado aconteceram em um caso em que o namorado é a única referência viva do
sujeito.

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156 Levenfus, Soares & Cols.

pelo adolescente como abandono, causador te às queixas de solidão pela ausência do vivo
de terríveis angústias. –, incapazes de dar limites claros e exercer a
Os pais desejam que o filho se indepen- função de reverie (Bion, 1994), provocando no
dize e, ao mesmo tempo, temem essa inde- adolescente sentimentos de rejeição, este não
pendização. Vivenciam a crescente autono- encontrará condições favoráveis para o seu
mia dos filhos de modo duplo: por um lado, desenvolvimento e para a aquisição de novas
sentem-se contentes ao ver o filho crescer e aprendizagens que lhe possibilitariam o en-
desprender-se gradualmente. Por outro lado, frentamento de novos desafios e a aquisição
podem sentir a separação como algo sofrido e de uma identidade (Liljja, 1998).
vivenciam o crescimento do filho como uma O indivíduo que se encontra dominado
perda. Os movimentos de autonomia do filho por ódio, inveja ou ciúme dos pais poderá ser
poderão ser sentidos pelos pais como rejeição incapaz de formar símbolos, impossibilitando
da família, provocando movimentos de hosti- progressos, porque não há meio de gerar o
lidade dos pais para com os filhos. pensamento (Bion, 1974).
Por sua vez, os filhos desejam um espa-
ço de privacidade longe dos pais e, ao mesmo
tempo, temem essa autonomia que, muitas
CONSIDERAÇÕES FINAIS
vezes, lhe é concedida de forma ambivalente. Os jovens enlutados que buscaram
O jovem que escolhe e aceita crescer, de certo auxílio no momento de realizar a escolha
modo, destrói, desestrutura o grupo familiar, profissional, consumidos por dúvidas, apre-
pois está dando um grande salto no sentido sentaram uma série de fatores coadjuvantes
da separação, o que acarreta uma enorme re- ou comorbidades que precisavam ser solu-
estruturação de si mesmo e de todo o grupo cionadas antes, para que o adolescente dis-
familiar. Isso torna mais fácil entender o sig- pusesse de energia psíquica a fim de investir
nificado que tem as expectativas da família a na tarefa da escolha.
respeito da carreira que o adolescente escolhe. Para fazer uma escolha ajustada, pressu-
É como se fosse uma forma de compensar e põe-se a existência da capacidade de adapta-
reparar os danos causados. Nas famílias para ção, de interpretação e de juízo da realidade,
as quais o sentimento de destruição é muito de discriminação, de hierarquização dos ob-
intenso, o filho fica culpado e/ou não conse- jetos e, em especial, capacidade para esclare-
gue escolher, ou procura escolher coisas que cer a ambiguidade e tolerar a ambivalência
não estão tão ligadas a seu interesse pessoal nas relações de objeto; por isso, propomos
como ao interesse da família (Bohoslavsky, que esses fatores sejam todos investigados e
1982; Levenfus, 1997a; Liljja, 1998). tratados em conjunto no processo de Orienta-
Se os pais são percebidos como forte- ção Vocacional (Bohoslavsky, 1982; Levenfus,
mente hostis ou negligentes – e isso nos reme- 1997c e 1997d).

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12
A não escolha profissional
em jovens simbiotizados1

Rosane Schotgues Levenfus • Maria Lucia Tiellet Nunes

Observamos, na prática com adolescen- der se ver. O momento da escolha pressupõe,


tes em processo de Orientação Vocacional, di- portanto, o estabelecimento de vínculos dife-
versos níveis de indecisão ou caracterizações renciais com os objetos.
da escolha profissional relacionados ao grau Alguns jovens que buscam auxílio para
e à qualidade de resolução do vínculo simbi- resolução vocacional apresentam pais que
ótico. Percebemos também que adolescentes se identificam excessivamente com o filho e
com antecedentes de grandes dificuldades na sobre ele projetam expectativas onipotentes
fase de separação-individuação2 se apresen- (Levenfus, 1997b). O pai frustrado pode ten-
tam, perante a eleição vocacional, bastante tar experimentar, por meio do filho, o sucesso
conflitados (Levenfus, 1993, 1997b). que nunca obteve. O pai que teve excelente
De fato, Pfromm Netto (1976) já situa- desempenho pode ficar frustrado e ressentido
va a escolha ocupacional e o ajustamento ao caso o filho não alcance façanha semelhante.
trabalho como elementos constitutivos de Não raro, pais que sentem o filho como uma
um processo de diferenciação e integração extensão sua regulam a autoimagem por
sucessivos, desenvolvido ao longo da vida meio do sucesso daquele. Se o filho não for
do indivíduo. bem-sucedido, a autoimagem desses pais fi-
Do ponto de vista clínico da Orientação cará ameaçada. Esses jovens vêm em busca
Vocacional, Bohoslavsky (1982) já salientava de algo que os realize, desde que preencha a
que o momento de seleção e escolha profissio- expectativa dos pais. Mostram-se conflitados
nal coloca em jogo a função (do ego) de dis- e culpados frente ao sentimento que lhes des-
criminação. Segundo ele, é necessário discri- perta perceberem-se diferentes daquilo que
minar tanto objetos internos quanto externos, lhes foi projetado.
e o fracasso da função de discriminação pode Buscando aprofundar essa questão, reu-
conduzir a projeções e introjeções maciças que nimos em um grupo de Orientação Vocacional
comprometem a capacidade de poder ver e po- apenas orientandos que manifestaram dificul-

1
O conflito básico da crise adolescente, conforme Paz (1986), é a elaboração do vínculo de dependência sim-
biótica, a remoção de suas relações objetais. Os vínculos simbióticos persistem em certos níveis, mesmo no
adulto, coexistindo com aspectos mais diferenciados e individualizados da personalidade. Apesar disso,
um certo grau de dessimbiotização é necessário para que se alcance um estado de autonomia e emancipação
(Mahler, 1982; 1993). O movimento de dessimbiotização aponta a existência de um impulso à diferenciação
e individuação gradativas, visando à aquisição e ao estabelecimento da identidade pessoal (Osório, 1995).
2
Refiro-me ao processo de separação-individuação teorizado por Mahler (1982, 1993). Esse tema encontra-se
detalhado em Levenfus (1997b).

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Orientação Vocacional Ocupacional 159

dades de resolução do segundo processo de dade de maternagem. Na hipótese de fixação,


separação-individuação.3 poderá preservar o estado simbiótico e estabele-
A primeira reunião grupal foi gravada e cer uma relação de dependência infantil em sua
posteriormente transcrita e estudada na for- vida amorosa. Na possibilidade de transformar
ma de Análise de Conteúdo (Bardin, 1991). esse modelo relacional primitivo em algo fun-
O conteúdo da conversação exposta pelo cional, como parte do seu self e de sua identida-
grupo apresentou características marcan- de masculina, pode tornar-se um pai maternal,
tes, considerando as observações já pontua- presente e provedor.
das por Bohoslavsky (1982) e por Levenfus
(1997b, 2001), especialmente se considerados O PROCESSO MOBILIZA DIVERSAS
os outros grupos pesquisados.4
Inicialmente abordaremos a questão ob-
ANSIEDADES
jetal pertinente a esse grupo para, em seguida, A individuação adolescente é acompa-
apresentarmos de que forma essa questão in- nhada de sentimentos de isolamento, de soli-
terfere no processo de escolha profissional. dão, de desamparo, de desespero, de confusão
e outros que justificam as mudanças de humor
A INDIVIDUAÇÃO NA ADOLESCÊNCIA da adolescência (Blos, 1996). Representa, con-
forme Blos (1994), o fim irrevogável de alguns
O conflito básico da crise adolescente é a dos mais caros sonhos megalômanos da in-
elaboração do vínculo de dependência simbió- fância. Os processos de desprendimento e de
tica, a remoção de suas relações objetais (Paz, diferenciação na adolescência são vividos com
1986). Muito semelhante ao processo infantil angústia em vista da desorganização e de de-
– e igualmente complexo – o processo de in- sestruturação da precária identidade adquirida
dividuação na adolescência deve constituir até o momento (Paz, 1986).
um passo final a um senso de identidade (Blos, Tendo em vista as ansiedades mobiliza-
1994). das pela ameaça da perda do vínculo simbió-
Esse processo de discriminação eu-não- tico residual da infância, Osório (1995) aponta
eu não ocorre repentinamente. Além disso, que o adolescente tenta restaurar a situação
seguindo o princípio epigenético das aqui- original com a adesão a substitutos aleatórios
sições graduais e sucessivas, também tal di- dos primitivos objetos parentais. É por isso
ferenciação nunca se completa por inteiro, e que os jovens se identificam maciçamente
certo grau de simbiotização se mantém inde- com seus ídolos, apresentam um caráter pos-
finidamente (Osório, 1995). sessivo em suas relações de amizade ou, ain-
Se um remanescente da parte fusionada da, supervalorizam o objeto amado quando se
subsiste em toda a personalidade, é de sua apaixonam. Existe, assim, um desejo de recu-
amplitude que depende o déficit na personifi- perar um estado de fusão com o outro frente
cação, no sentido de realidade, no sentimento à ameaça de separação e perda definitiva do
de identidade, na confusão de papéis mascu- vínculo simbiótico inicial, ameaça acarretada
linos e femininos, no déficit na comunicação pela intensificação dos mecanismos de dife-
em plano simbólico como incremento dela no renciação que agora ocorrem.
plano pré-verbal (Paz, 1986). Em contrapartida a essa tendência sim-
Levisky (1995) cita, por exemplo, a possibi- biotizante ou de manutenção do estado origi-
lidade de um rapaz se fixar ou transformar suas nal de indiferenciação com a matriz familiar,
primeiras experiências simbióticas em capaci- Osório (1995) aponta a existência de um im-

3
Os sujeitos inscreveram-se para um processo de Orientação Vocacional oferecido para fins de pesquisa
e preencheram um questionário prévio. Foram selecionados para esse grupo aqueles que preencheram
critérios característicos dentro dessa temática – tais como dificuldade de ingresso na escola fundamental,
somatizações e outros – sem que os sujeitos soubessem que estavam inseridos em um grupo homogêneo.
4
Foram pesquisados, além de grupo com jovens simbiotizados, outros três grupos: jovens que perderam
(por morte) um dos pais; jovens filhos de pais separados; jovens que não apresentam nenhuma das nuanças
levantadas nos grupos anteriores. Ver Capítulos 11, 10 e 4, respectivamente.

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160 Levenfus, Soares & Cols.

pulso à diferenciação e à individuação grada- mes paternos, agora, foram incorporados ao


tivas, visando à aquisição e ao estabelecimen- próprio sistema ético, e não mais por medo de
to da identidade pessoal. desagradar aos pais e defrontar-se com inten-
Bleger (1973), citado por Levisky (1995), sos sentimentos de perda.
assinalou que a problemática do adolescente
consiste em “como desconectar-se a partir da
Desidentificação
fusão primitiva e organizar outro tipo de co-
nexão ou relação” (p. 99). Essa parte fusiona- É um processo necessário para a forma-
da da personalidade funciona como se fosse ção da identidade. O sujeito, antes identifica-
um protótipo identificatório, com o qual a nova do com o objeto, passa a perceber-se de forma
identidade em formação se compara, se des- diferenciada, não totalmente identificado com
vincula e se transforma, em grande parte, em o objeto.
elementos que comporão a identidade adul- Muitos jovens apresentam dificuldade
ta. em desconectar-se dos objetos primitivos ao
nível da desidentificação. Conforme Cassor-
la (1991), aspectos das múltiplas identidades
Desidealização
anteriores (ou múltiplas facetas da identida-
É o processo pelo qual o jovem passa de anterior) são desinvestidas para que o in-
quando percebe os objetos de forma mais rea- divíduo possa dar outro curso à sua história.
lista, menos onipotente e idealizada de como O indivíduo necessita se desvencilhar das
imaginara. identidades mais primitivas e se reidentificar
O jovem apresenta grande resistência em a partir da escolha de novos objetos. Embo-
deixar para trás as ligações objetais infantis ra carregado de dor e culpa, em vista do luto
que tão importantes foram para a sobrevivên- que o acompanha, tal processo é fundamental
cia psicológica e para perpetuar a crença na para a construção de uma nova identidade e
perfeição. Essa noção é duramente desafiada de um novo modelo de vida.
na adolescência, levando o jovem a passar por Cabe pontuar ainda que a desidentifi-
um processo de desidealização com um efei- cação é um processo normal e esperado, di-
to desilusório mais ou menos devastador no ferindo do que se classifica como abandono
sentido de self do adolescente. prematuro, uma desconexão rápida dos ob-
Grande parte do que tinha sido útil no jetos primitivos. Nesses casos, podem surgir
superego diminui em importância e agora se profundos sentimentos de vazio, e Cassorla
torna parte do ego, ficando cada vez mais in- (1980) aponta para a probabilidade de esses
corporada à orientação básica com a qual são casos evoluírem para o suicídio, somatiza-
tomadas as decisões. As diretivas que ajudam ções ou para a organização de uma pseudo-
o indivíduo a decidir o que é aceitável agora maturidade representativa de um falso self.
dizem respeito a normas sociais e culturais e
a padrões ideológicos que são superiores aos
Duas acepções acerca da separação
ditames paternos (Lidz, 1973).
Tendo se tornado alguém capaz de per- É importante manter distintas as duas
ceber os pais de uma perspectiva mais adulta, acepções que a psicanálise tem acerca da se-
menos onipotente e como sendo dissociados; paração. Uma acepção – significa que uma pessoa
possuindo tanto capacidades como inadequa- deixa uma outra com a qual estabelecera uma rela-
ções e com o superego mais ameno, o adoles- ção de confiança. O indivíduo envolvido sabe
cente tem mais probabilidade de transformar quem é o outro, quem lhe falta, quem é ele
as emoções em sinais aliados para promover mesmo e o que a falta da pessoa o faz sentir.
comportamentos e atitudes maduras e saudá- Admite-se desde sentimentos como solidão,
veis (Lidz, 1973). tristeza, raiva ou dor, até alívio e liberdade,
Dessa forma, conclui Lidz (1973), um sem que um exclua o outro. Nesse contexto, o
jovem poderá, inclusive, escolher a profissão outro é percebido como livre para ir e vir, para
que fora sugerida pelos pais porque os dita- escolher seus relacionamentos ou renunciar a

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Orientação Vocacional Ocupacional 161

eles. Essas separações não implicam ruptura Esse grupo quase não fala
do vínculo afetivo com o objeto ou perda do
amor porque o objeto confiável não está de O grupo de Orientação Vocacional
fato abandonando o sujeito (Quinodoz, 1993). composto por jovens supostamente im-
Nas palavras desse autor: bricados em um processo de separação-
-individuação mal resolvido apresentou gran-
Nesse contexto, a separação adqui- de diferencial. Foi o grupo com a menor quan-
re um caráter provisório pois implica a tidade de verbalizações, chegando a apresen-
esperança do retorno, mesmo que toda tar menos que a metade da média dos demais
separação desperte o temor sempre pos- grupos. O debate transcorria de forma tranca-
sível de uma perda real definitiva ou de da,5 os assuntos pareciam não se desenvolver.
uma perda de amor. Em outros termos, a Apesar da pouca quantidade de verbaliza-
ausência da pessoa investida toca o indi- ções, qualitativamente nos pareceu suficiente
víduo em seus afetos, sem causar dano para entender o processo, até mesmo porque
à estrutura psíquica de seu ego. Em tais a alexitimia6 é característica da problemática
condições, no caso de perda – isto é, de psicossomática – asma – também apresentada
separação definitiva – existe dor psí- por este grupo.
quica ligada ao trabalho de luto, mas a
perda do objeto não provoca a perda do
Muita indecisão e dúvida
ego. (p. 44)
Quanto à escolha, predominam verba-
Na outra acepção, o indivíduo apresenta lizações com conteúdo de muita indecisão e
sinais de angústia que indicam que a integri- dúvida: eu estou bem dividida.
dade de seu ego se sente ameaçada, incons- Nas situações nas quais o adolescente
cientemente, pela perspectiva do perigo de ainda não conseguiu estabelecer vínculos di-
separação de uma pessoa considerada impor- ferenciais com os objetos, a dificuldade da es-
tante. Nesse caso, persiste uma relação muito colha pode retratar uma dificuldade pessoal
particular de apego entre ego e objeto carac- frente à capacidade de discriminação e dife-
terizada, entre outras coisas, pela persistência renciação tanto das profissões quanto de seus
de partes do ego insuficientemente diferencia- próprios aspectos. Podem manifestar indife-
das de partes do objeto (Quinodoz, 1993). rença (às vezes eu penso em ser outra coisa), como
Esse mesmo autor refere ainda que os se as profissões lhe parecessem equivalentes e
processos de diferenciação e de separação es- intercambiáveis.
tão estreitamente relacionados com o trabalho Conforme pesquisa fenomenológica rea-
de luto. Justifica isso afirmando que aceitar lizada por Magalhães e colaboradores (1998),
separar-se de outra pessoa implica não só a os indivíduos indecisos com relação à esco-
capacidade de efetuar um trabalho de luto da lha profissional apresentam dependência em
relação entre duas pessoas – uma aceitando seus relacionamentos interpessoais dentro e
separar-se da outra – mas também a capaci- fora do grupo familiar, redundando em pouca
dade de realizar o trabalho de luto em termos autonomia para o comportamento explorató-
de ego, o que supõe a renúncia à fusão com o rio. Esse aspecto é identificado na formulação
objeto do qual se separa – um aceitando dife- pobre, ou inexistente, de perspectivas de fu-
renciar-se do outro. turo relevantes vocacionalmente e também na

5
Os pacientes psicossomáticos com pensamento operatório apresentam um tipo de relação, chamada de rela-
ção branca, devido à ausência de associação entre os fatos, uma vez que estes são relatados como isolados,
desvitalizados. A palavra expressa o relato da ação sem ideação fantasiosa, limitando-se aos gestos, assim
como o vincular-se à materialidade dos fatos relatados, não se conectando aos do passado, nem aos que
possam ocorrer futuramente. O relato é feito como uma sucessão de fatos privados de vitalidade, chegando
ao intento de forma pragmática e concreta, sem associações (Barros, 1995).
6
A alexitimia se apresenta como uma incapacidade de associar os afetos às representações mentais, não ha-
vendo palavras para as emoções (Barros, 1994, 1995).

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162 Levenfus, Soares & Cols.

ausência de uma atitude antecipatória e pla- que apresentou a menor quantidade de busca
nificada, a qual seria resultante de uma cons- ativa por informações. Todas as demais ver-
ciência autônoma da necessidade de decidir. balizações foram no sentido de descrever de
A autonomia é prejudicada por interferência forma muito superficial aquelas que dizem
de aspectos afetivos e, embora sujeitos inde- conhecer:
cisos tenham a consciência da necessidade de
cumprir a tarefa da decisão ocupacional, fato- • “A área da Medicina é muito ampla,
res de personalidade, interpessoais e afetivos sabe, tem muita coisa, sabe.”
boicotam os comportamentos independentes • “Engenheiro constrói casa, prédio,
e racionais para a solução do problema. tudo relacionado com cálculo.”
Na teorização de Mahler (1982), esse • “RP é legal, você vai organizar festas.”
fenômeno encontra explicação se considerar-
mos a segunda subfase do processo de separa- Parecem mais alheios à realidade exter-
ção-individuação (a de exploração) que ocorre na e com pouco comportamento exploratório.
entre o 8o e 16o mês. Inicialmente, a explora- Pesquisas recentes na área apontam que os
ção é caracterizada pelo início da capacidade sujeitos indecisos vocacionalmente caracteri-
da criança de separar-se fisicamente da mãe. zam-se por pouca motivação e pouca inicia-
Após vem o período de exploração propria- tiva para explorar alternativas ocupacionais
mente dito, caracterizado pela locomoção em (Magalhães, 1995; Magalhães et al., 1998).
postura vertical. A criança passa a demonstrar
uma aparente falta de interesse pela mãe, com
Sem influência e sem desejo dos pais
grande investimento no exercício de suas fun-
ções autônomas; no entanto, necessita ainda É o único grupo pesquisado que, ao fa-
muito de sua mãe como ponto estável para lar em influências e em ocupações de pesso-
preencher a necessidade de reabastecimento as próximas, refere-se apenas aos pais. Nos
emocional por meio do contato físico. demais grupos, os jovens falaram de amigos,
A mãe que se torna ambivalente, reagindo professores, namorados, avós, vizinhos, en-
ao distanciamento do filho, provavelmente di- tre outros. Isso demonstra como esses jovens
ficultará sua separação; aquela que o estimula tendem a ficar encerrados na relação familiar
às novas descobertas, por sua vez, oportuniza nuclear, alheios aos contatos com o mundo
que ele desloque seu interesse a outros objetos externo.
e ao mundo que o rodeia. Para separar-se é ne- É quase nula a expressão de desejos por
cessário antes estar unido por um vínculo se- parte dos pais. Imposição não aparece nesse
guro em que predomine amor, aceitação, e não grupo. Segundo eles, a forma de os pais inter-
hostilidade e rejeição. Também é necessário um ferirem é com informações sobre as profissões,
encorajamento por parte dos pais de atitudes com tentativas muito indiretas de deixar trans-
exploratórias fora do círculo familiar. parecer seus desejos. Na fala desses jovens, na
Para além do grupo familiar está o traba- maior parte das vezes, os pais dão apoio incon-
lho como um importante fator de aproximação dicional às escolhas dos filhos. Não parece exis-
do indivíduo com a realidade. Por meio dele, tir espaço para discórdias ou raivas:
o indivíduo está preso a uma parte da realida-
de, que é a comunidade humana, proporcio- • minha mãe e meu pai sempre me
nando uma valiosa oportunidade de descarga apoiaram;
dos impulsos libidinais, componentes narcísi- • eu tenho certeza de que se eu quisesse
cos agressivos e eróticos (Blos, 1994). fazer Educação Física eles iam estar a
mesma coisa;
Alheios à realidade externa e baixo índice • eles só dizem que sabem de outras fa-
culdades;
de informação • falam em outras profissões só para me
O grupo composto por jovens simbioti- dizer o que que é; para mostrar o cam-
zados, quando comparado aos demais, foi o po que tem mais ou menos mercado.

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Orientação Vocacional Ocupacional 163

Pela observação de Bowlby (1998), se Identificado com a doença, foi o único


entende que pessoas com ansiedade de sepa- grupo a relacionar o desejo de cursar Medici-
ração exacerbada não conseguem demonstrar na em vista de ser asmático e querer ajudar a
raiva e ódio devido ao medo de serem aban- outros asmáticos a lidar com a problemática:
donadas novamente. Portanto, esse ótimo cli-
ma mascara dificuldades de relacionamento • “Influenciou eu querer Medicina por
familiar. Estudos apontam que bons níveis de causa da asma.”
saúde familiar, muitas vezes, encontram-se • “Acho que um pouco tem a ver com
associados não somente a núcleos que favo- isso.”
recem a expressão de carinho, ternura e afeto, Nesse sentido, Labate e Cassorla (2000)
mas também de agressividade, raiva e hostili- perceberam, em sua pesquisa com profissio-
dade (Wagner, Ribeiro, Arteche e Bornholdt, nais da saúde que lidam com câncer, que eles
1999). frequentemente são identificados com as fan-
Nas poucas falas em que registramos in- tasias e ansiedades do paciente. Concluíram
fluência dos pais, notamos a marca da indife- que esses profissionais escolhem sua área de
renciação: atuação movidos principalmente por motivos
inconscientes.
• “Sabe aquelas famílias tradicionais que Quinodoz (1995) observa que as resso-
só têm médicos, aí tem que fazer Me- nâncias corporais permitem analisar as vicissi-
dicina.” tudes das relações de objeto. Segundo McDou-
• “Eu não pude ser então você vai ser.” gall (1987), a criança inicia o destino de doenças
• “Às vezes, os pais impõem assim, fazer psicossomáticas em seus conflitos primitivos e
a mesma profissão dos pais.” iniciais em sua relação com a mãe. Essa autora
afirma que as pessoas que sofrem de reações
O projeto dos pais nem sempre é único; psicossomáticas graves tiveram um relacio-
ele pode conter uma série de contradições namento muito complicado no início do seu
mais ou menos antagônicas, ligadas a duas desenvolvimento. Quando o trauma psíquico
lógicas: uma que leva à reprodução e outra é precoce, o bebê, por não poder elaborar situ-
que leva à diferenciação. Na lógica que leva ações de tensão, de dor mental ou de uma esti-
à reprodução – e que eu chamaria de indife- mulação excessiva, apresentará manifestações,
renciação – os pais desejam que o filho torne- invariavelmente, de natureza psicossomática
se como eles, que seja a continuação de suas (Mc Dougall, 1989).
vidas, que façam aquilo que eles fazem. Na Pedrozo (1995) explica que:
lógica da diferenciação, o desejo dos pais é o
de que o filho seja alguém, diferente, encora- a localização do self no corpo não
jando a singularidade e a oposição (Soares- é automática, nem está presente no mo-
Lucchiari, 1997). mento do nascimento. De forma gradual,
o bebê vai se tornando capaz de integrar
PROBLEMAS RESPIRATÓRIOS E partes do corpo, sensações físicas, esta-
dos mentais e estados emocionais com a
MÉDICOS IDENTIFICADOS ajuda do ego materno. A mãe atenta aos
Todos os participantes desse grupo cuidados físicos com o bebê, ao segurá-
apontaram para histórico de asma, sendo que -lo, manipulá-lo e ao estar por perto para
alguns, inclusive, a apresentam na atualidade. atendê-lo, oferece uma moldura, uma
Alguns autores relacionaram a síndrome as- sustentação que ajuda a criança a definir
mática a processos identificatórios precoces. e a fortalecer seus contornos em termos
Citados por Dias (1996), Greene e Engel (s/d) físicos e psíquicos. O bebê então passa
estudaram a qualidade das relações objetais a ter existência no corpo, com um inte-
precoces para compreender como o sintoma rior e um exterior demarcados por uma
asmático se relaciona com conflito entre de- membrana, e o corpo é sentido como o
pendência e independência. centro do self. (p. 90)

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164 Levenfus, Soares & Cols.

O desenvolvimento pleno da psique pos- • “Ataca só quando está muito frio; as


sibilita ao ser humano relacionar-se com a rea- crises vinham de madrugada.”
lidade externa e adaptar-se, ou recusar-se a se • “Quando dá crise, dá falta de ar; eu
adaptar, criar e fazer suas próprias escolhas. quase morria sufocada.”
Para relacionar-se com a realidade de ma- • “Minha mãe tinha asma também.”
neira adaptativa, não pode ter havido falhas
excessivas na relação mãe-bebê que abalem a Além disso, o grupo refere fragilidade
estrutura básica de self. Caso contrário, pode e risco. Mesmo os que apresentam remissão,
emergir o colapso (breakdown), apontando que abordam a fragilidade com a ideia de que:
o excesso de falhas pode resultar no fracasso
de uma organização de defesa, um estado da • “A gente não pode fazer nada, tem que
psique que não pode ser pensado. O funcio- estar sempre cuidando.”
namento psíquico normal se expressaria pelo • “corri risco de vida no domingo.”
pensar, ou seja, pela aquisição de símbolos. • “Qualquer gripezinha pode virar uma
No caso de um colapso, a invasão é de tal pro- pneumonia.”
porção, que é impossível representá-la (Paiva,
1985; Winnicott; Shepherd e Davis, 1994; Pe- Essa questão parece estar intimamente
tersen, 1997; 2000). relacionada à característica particular desse
Como comentamos anteriormente, essa grupo em referir-se às profissões classifican-
pode ser a explicação para a baixa produção do-as como leves ou pesadas.
desse grupo em termos de verbalizações. As referências a que profissões relacio-
Em seus estudos, Barros (1994; 1995) nam o leve e o pesado são bastante subjetivas,
aponta a alexitimia como uma incapacidade atendendo à ótica de cada sujeito. As rela-
de associar os afetos às representações men- ções feitas adjetivando, por exemplo, o Di-
tais, não havendo palavras para as emoções. reito como pesado porque tem que ler muito, e
Enfatiza que os sintomas, o pensamento ope- descartando-o como escolha por esse motivo,
ratório e a alexitimia são expressões da pato- ou Relações Públicas como leve porque organiza
logia dos sentimentos, com consequente difi- festas parece estar relacionada à autoimagem
culdade no estabelecimento do contato afetivo de doença e fragilidade explicitadas por esse
real e na expressão da capacidade de criação grupo.
e/ou de ciência. A forma como o jovem agrupa as carrei-
ras por meio de critérios que busca escolher
(como êxito ou fracasso, mais fácil ou difícil,
Quero uma profissão bem leve
prestígio ou desprezo) – e que, por sua vez,
Os jovens desse grupo fizeram diversos aparecem mais relacionadas às fantasias do
comentários com relação a seu histórico de que à realidade dessas carreiras –, constitui-
asma, abordando sintomas, providências to- se em um dado diagnóstico que nos confere
madas nas situações de crises, hereditarieda- importantes impressões para o tratamento
de, como: da conflitiva vocacional (Bohoslavsky, 1982).
Esse mesmo autor salienta ainda uma questão
• “Minha mãe me levava direto para o pertinente à escolha que deve ser observada
médico.” com finalidade diagnóstica para estabelecer o
• “Minha mãe levantava para dar remé- rumo da orientação. Diz respeito à relação que
dio.” o jovem estabelece entre a escolha e o objeto,
• “Tive que ficar um tempão usando ou seja, o que denominou de carreiras como
bombinha.” objeto. Consiste em analisar as carreiras como
• “O remédio dá taquicardia.” objetos do comportamento do adolescente.
• “Quando eu tinha um mês eu fui parar Esses podem caracterizar-se como objetos que
no hospital com risco de vida por cau- acompanham, protegem, perseguem, destro-
sa da asma.” em, reparam, retêm, independentemente do
que carreira ou profissão seja na realidade.

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Orientação Vocacional Ocupacional 165

Confusão quanto às classificações afetivas O grupo refere também oscilações de hu-


mor, como:
Nessa situação, os sujeitos podem ma-
nifestar também confusão quanto às classifi- • “Quem me conhece sabe que ou eu es-
cações afetivas que fazem de carreiras e pro- tou rindo ou estou chorando de emo-
fissões, como, de fato, é o teor principal da ção.”
categoria autoconceito do grupo, expressas
em falas como o desejo de ser médica porque McDougall (1989) amplia a noção de ale-
xitimia: não se trata somente de ter palavras
• “Quando vejo na TV crianças nascen- para as emoções, mas também de apresentar
do, eu choro três vezes mais que a mãe uma incapacidade para distinguir um afeto
que está ali.” do outro, seja doloroso ou prazeroso.
• “Se uma criança olha pra mim eu já fico Na contrapartida da emotividade, le-
assim, em estado de graça.” vantamos também referências de sujeitos que
dizem:
As alterações desse momento caracteri-
zam-se, basicamente, por bloqueios afetivos • “Não gosto de conversar com os ou-
ou, pelo contrário, por “namoros” manía- tros.”
cos com uma ou outra porção da realidade • “Tem uma amiga minha que diz que eu
ocupacional (Bohoslavsky, 1982; Levenfus, sou superfechada com certas coisas.”
1997c). • “Quando estou deprimida não gosto
de botar pra fora.”
AUTOCONCEITO DE EMOTIVIDADE E
Isso parece coincidir com a dificuldade
INCOMPETÊNCIA respiratória do asmático que é a de não conse-
As verbalizações relativas ao autocon- guir colocar o ar para fora. De uma forma ou
ceito descrevem esses sujeitos como muito de outra, não existem palavras para expressar
emotivos. São muitas as referências a ser ex- sentimentos.
tremamente emotivo. Sobre essa emotividade o
grupo apresenta crítica sendo o único que fala
Pânico
em necessidade de submeter-se a tratamento
psicoterápico: acho que eu tenho que tratar a mi- Além das referências à emotividade, exis-
nha loucura. Associações são feitas no sentido tem outras relacionadas a ser tímido e ser apa-
de que tal emotividade atrapalharia o desem- vorado. Resgato novamente a expressão: imagi-
penho profissional do sujeito, o que também na o médico chorando, eu ia me apavorar também,
gera sentimentos de culpa por antecipação, para apontar sinais de Transtorno de Pânico
como, por exemplo: a que esses sujeitos estão suscetíveis, além do
sintoma da Asma. É interessante assinalar que
• “Já pensei que eu podia ser menos alguns pesquisadores encontraram correlação
emotiva.” entre Transtorno do Pânico e asma brônquica
• “Imagina o médico chorando, eu ia me (Shavitt et al., 1992; Gentil, 1997 citados por
apavorar também.” Menezes, 2000). Portanto, o sujeito não está
• “Já pensei várias vezes: e se nasce uma preparado para o relacionamento com terceiros
criança com problemas e morre?” e denuncia também a falta de continência ma-
• “Tenho medo às vezes até de me sentir terna ou função de reverie7 (Bion, 1975; 1994),
culpada.” que daria conta do pavor, das ansiedades ca-
• “Eu começo a chorar porque eu estava tastróficas, como antes descrevi, e que pode es-
ali para salvar.” tar associada ao Transtorno do Pânico.

7 “Reverie é aquele estado anímico que está aberto à recepção de qualquer objeto do objeto amado e, por-
tanto, capaz de receber as identificações projetivas do lactente, sejam sentidos por ele como boas ou más”
(Bion, 1975, p. 59).

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166 Levenfus, Soares & Cols.

Em sua pesquisa, Silva (1996) aponta quanto intelectual e social, podendo, inclusi-
sinais de que o pânico está relacionado a es- ve, protagonizar o aparecimento de enfermi-
tados evolutivos iniciais, que envolvem um dades físicas e mentais.
sentimento de extremo desamparo, levando
a uma reação global, intensa e primitiva do
Peculiaridades
organismo.
Shear e colaboradores (1993), citados Alguns temas levantados por esse grupo
por Silva (1996), propuseram um modelo no foram demasiadamente particularizados. Ou-
qual uma irritabilidade neurofisiológica inata tros temas que foram abordados pelos demais
predispõe ao medo primitivo, que seria au- grupos simplesmente foram ignorados por
mentado em uma relação com pais não tran- esses jovens. Todas as questões que vêm a se-
quilizadores, resultando em um transtorno guir ajudam a dar o colorido desse grupo.
na relação de objeto e persistência do conflito Em suas falas a respeito da Orientação
entre dependência e indepen dência. Haveria Vocacional, foi o único grupo a apresentar hi-
um incremento dos temores catastróficos de póteses sobre o que a pesquisa estaria queren-
abandono e fantasias de perigo catastrófico do observar.
que, em conexão a uma vivência negativa,
dispararia a crise de pânico. A autora cita • “A pesquisa quer ver se a escolha da
também indícios de que os pacientes com profissão pode ter a ver com algum
Transtorno do Pânico vivenciaram uma rela- trauma.”
ção simbiótica com uma mãe superprotetora, • “Pode ter a ver com algum medo que
levando à hipótese da ansiedade de separa- ocorre quando você está escolhendo a
ção ser um fator significativo no desenvolvi- profissão.”
mento desse transtorno.
Por fim, a situação de emotividade e as As hipóteses relacionaram-se à existên-
oscilações de humor podem ser entendida cia de traumas e medos que podem interferir
também pela teorização de Bowlby (1989) na escolha, demonstrando que esses jovens
que reforça a importância de os pais forne- têm algum reconhecimento e sintonia com
cerem uma base segura a partir da qual uma sua problemática.
criança ou um adolescente pode explorar o É pertinente apontar que, em sua totali-
mundo exterior e a ele retornar, certos de que dade, os sujeitos foram inscritos por terceiros
serão bem-vindos, nutridos física e emocio- na pesquisa, ou seja, não foi de forma autô-
nalmente, confortados se houver um sofri- noma que tomaram conhecimento da pesqui-
mento e encorajados se estiverem ameaça- sa; demonstraram interesse e inscreveram-se
dos. A consequência dessa relação de apego é – como ocorreu com a maioria dos outros
a construção de um sentimento de confiança jovens pesquisados. Referem uma forma to-
e segurança da criança em relação a si mes- talmente passiva e dependente diante da rea-
ma e, principalmente, em relação àqueles lidade:
que a rodeiam, sejam estes suas figuras pa-
rentais ou outros integrantes de seu círculo • “Uma amiga minha me inscreveu.”
de relações sociais. Um importante traço • “Eu sou amiga deles e colocou nós pra
do comportamento de apego é a intensida- se inscrever [sic]”
de da emoção que o acompanha, o tipo de • “Ela colocou meu nome na pesquisa,
emoção que surge de acordo com a relação daí a secretária me ligou pra ver se eu
entre a pessoa apegada e a figura de apego. ia vir.”
Lebovici (1987), desenvolvendo essas ideias,
reforça que, se tudo está bem, há satisfação McDougall (1983) refere também a limi-
e um senso de segurança, um sentimento de tada capacidade desses sujeitos de desem-
estabilidade; mas se essa relação está amea- penhar um papel parental protetor para si
çada, existem ciúme, ansiedade e raiva, acar- mesmos; eles ficam como que esperando que
retando consequências tanto de ordem física outra pessoa o faça por eles.

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Orientação Vocacional Ocupacional 167

Além disso, foi o único grupo que não frustrações e a encontrar satisfação por meio
fez referências ao futuro da escolha, nem de tarefas realizadas de forma mais livre, sem
referiu medos de escolher errado. O fato de a ajuda parental.
não encontrarmos essa subcategoria coincide De um processo de separação-individua-
com sua tendência a fazer mais referências ção bem-resolvido se espera o surgimento de
ao passado do que a projeções futuras, bem um self bem delimitado, que discrimina o que
como a somatizar sentimentos não verbali- está dentro do self e o que está fora e, em ter-
zados. mos relacionais, relaciona-se com o objeto to-
Esse grupo também não apresentou a tal (Ladame, 1978, citado por Liljja, 1998).
categoria Mercado – apresentada por todos Entendendo que a escolha profissional
os demais. Não referiu também a categoria acarretará um elemento que virá a constituir
Identificação; não fez alusões a estar profis- a identidade de um sujeito, percebemos que
sionalmente decidido ou à temática univer- esse elemento só poderá agregar-se genuina-
sidade ou ao vestibular. Parece estar dema- mente a uma identidade que já possua seus
siado preso ao passado e alheio ao mundo elementos básicos, adquiridos no processo de
externo. separação-individuação (Levenfus, 1997b).
Pensamos que a ausência desses conteú- Dessa forma, concordamos com a obser-
dos pode estar relacionada à falta de um “des- vação de Magalhães (1999):
ligamento bem-sucedido dos objetos familia-
res infantis internalizados. A descoberta de os sentimentos de ansiedade e de
novos objetos extrafamiliares no mundo exter- confusão referidos pelos clientes podem
no é impedida, retardada ou permanece restri- ser específicos às tarefas evolutivas que
ta à simples reprodução e substituição”(Blos, enfrentam, mas também podem estar as-
1996, p. 98). Da mesma forma, é impossível sociadas às perturbações recorrentes na
identificar-se com o que não está fora. integração da personalidade, quais se-
jam, as dificuldades na aquisição de um
CONSIDERAÇÕES FINAIS sentimento autônomo, coerente e estável
de si mesmo, capaz de reconhecer neces-
Os autores comentam sobre as dificul- sidades prioritárias, fazer opções e assu-
dades dos pais em facilitarem o processo de mir responsabilidades. (p. 172)
individuação dos filhos e sobre as dificulda-
des dos filhos em se separarem de seus pais, Se, como aponta Klein (1981), “o simbo-
chegando a afirmar que a separação de pais lismo é o fundamento de toda sublimação e
e adolescentes é a tarefa desenvolvimental de todo talento, (...); além disso, sobre ele se
mais importante da adolescência (Paz, 1986; constrói a relação do sujeito com o mundo
Fleming, 1993). exterior e com a realidade em geral” (p. 297),
Fleming (1993) entende o processo de au- presumimos o quão comprometidos estão
tonomização do adolescente como estando em para a tarefa da escolha profissional os ado-
estreita interdependência com a individuação, lescentes que, nessa pesquisa, apresentaram-
ou seja, à medida que a individuação se pro- se com dificuldades na resolução do vínculo
cessa, a autonomia cresce. A estimulação por simbiótico ou com traumas que comprome-
parte dos pais leva o adolescente a explorar e tem a função simbólica.
a experimentar o novo, levando-o a superar

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168 Levenfus, Soares & Cols.

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Orientação Vocacional Ocupacional 169

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V
TESTES E INSTRUMENTOS PARA DIAGNÓSTICO
E INTERVENÇÃO EM ORIENTAÇÃO

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13
Teste de Avaliação dos Interesses Profissionais (AIP)
uma proposta de interpretação psicodinâmica

Rosane Schotgues Levenfus • Denise Ruschel Bandeira

Durante muitos anos, sem testes de in- -Graduação em Psicologia da UFRGS, foi pos-
teresses validados para Orientação Voca- sível a sistematização do AIP. A partir de então
cional, Levenfus começou a trabalhar com o se observou, dentre outros aspectos, interes-
LIP (Carlos Del Nero, 1984; Levenfus, 2002). ses diferenciados por sexo, nova distribuição
A opção se deu, em 1986, pela busca de um dos interesses por campo, diferentes graus de
instrumento de fácil aplicação individual e co- interesse (interesse real e interesse relativo),2 e
letiva, de rápido levantamento1, que pudesse surgiu a necessidade de criar um novo instru-
ser utilizado como mais um subsídio para o mento que atendesse a essas observações. A
atendimento. construção do AIP surgiu também da necessi-
Depois de alguns anos e de mais de duas dade de oferecer aos psicólogos que trabalham
mil aplicações do LIP em Orientação Voca- com orientação vocacional um instrumento
cional, Levenfus pode perceber o quanto um eficaz, confiável e atualizado na avaliação dos
teste de interesses profissionais, com caracte- interesses profissionais. Dessa forma, subme-
rísticas mais objetivas, pode fornecer também temos o instrumento à avaliação do Conselho
um bom panorama psicodinâmico. Federal de Psicologia e, desde maio de 2009,
Esse foi nosso ponto de partida para a os psicólogos brasileiros passaram a dispor de
construção do AIP. Em conjunto com a Profa. mais um instrumento validado.
Dra. Denise Bandeira, do Programa de Pós-

1
Esses requisitos ocorreram em vista de que Levenfus começara a trabalhar em um curso pré-vestibular com
grande demanda de orientandos.
2
Utilizando o LIP em uma sessão com um adolescente “extremamente quieto”, que apresentava muita di-
ficuldade para desenvolver suas ideias, ficando em atitude totalmente passiva frente à orientadora e se
comunicando de forma monossilábica, Levenfus (2002) decidiu aplicar o LIP de um modo diferente. Pediu
ao jovem que ficasse com o caderno de questões, deixando para a psicóloga a tarefa de marcar suas respos-
tas, que lhe seriam comunicadas. O jovem aceitou prontamente a tarefa, parecendo aliviado. Em mais de
80% das questões o rapaz referia não gostar de nenhuma das duas dizendo estar escolhendo uma porque
o teste obrigava.
Levenfus começou a fazer uma marca diferente na folha de respostas: quando o rapaz escolhia uma porque
gostava, marcava um X. Se a escolha era feita por obrigação, marcava apenas /.
Com isso, foi possível fazer um gráfico em dois planos: um como “manda o teste”, e outro, apenas com as
respostas “inteiras” do sujeito. Essa possibilidade resultou em observações que muito contribuíram para
a elaboração do AIP com a possibilidade de sinalizar se a escolha foi feita “por obrigação”, ou seja, se seu
interesse é real ou relativo. Ao repetir esse procedimento com diversos orientandos percebemos grande
receptividade por parte dos mesmos. Era comum que durante o rapport demonstrassem descontentamento
com a ideia de serem obrigados a marcar questões de que não gostavam. Dessa forma, ficaram aliviados,
pois, por meio da marca / poderiam comunicar seu descontentamento com a questão marcada.

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174 Levenfus, Soares & Cols.

CAMPOS DE INTERESSES a investigação do mundo físico, mas no que


diz respeito ao estudo dos fenômenos natu-
O AIP foi construído com base em 10 dife- rais, da reação química (orgânica e inorgânica)
rentes campos de interesses, cabendo ao orien- e das práticas experimentais em laboratório.
tador observar, no conjunto de interesses, quais Se a preferência apresentada for predo-
profissões atendem às maiores demandas. minantemente pelo CFQ, o orientando pode-
rá se interessar, por exemplo, por Engenharia
• CFM – Campo Físico/Matemático Química ou por Bacharelado em Química. No
• CFQ – Campo Físico/Químico entanto se, junto com esse, também for apon-
• CCF – Campo Cálculos/Finanças tado interesse pelo CBS, poderá relacionar
• COA – Campo Organizacional/Admi- profissões tais como Farmácia, Bioquímica ou
nistrativo Nutrição.
• CJS – Campo Jurídico/Social
• CCP – Campo Comunicação/Persua- CCF – Campo Cálculos/Finanças: É impor-
são tante distinguir o interesse pela matemática
• CSL – Campo Simbólico/Linguístico financeira da matemática pura “aplicada às
• CMA – Campo Manual/Artístico engenharias” do CFM. Derivamos para esse
• CCE – Campo Comportamental/Edu- campo os interesses pelos cálculos do tipo esta-
cacional tístico e financeiro. Como descreveu Del Nero
• CBS – Campo Biológico/Saúde (1998), essa área relaciona-se à aplicação de re-
gras para determinar quantidades, circunstân-
CFM – Campo Físico/Matemático: tem re- cias por meio de cálculo, avaliação, investiga-
lação com a investigação dos mundos físico e ção, previsão de riscos, bem como ao interesse
matemático. Diz respeito à aplicação de leis e por previdência, pecúlios e pensões.
de propriedades dos corpos, bem como a um É comum ouvir jovens referirem “eu
tipo de pensamento lógico-dedutivo. Traduz odeio matemática” e encontrar baixo interes-
também o interesse pelas ciências que revelam se pelo CFM e alto interesse pelo CCF. No se-
fenômenos da natureza nos campos elétrico/ guimento da entrevista torna-se perceptível a
eletrônico e mecânico. atração desse jovem por negócios, finanças e
Todas as profissões que compreendem atividades afins. Todo sujeito que tenha “es-
interesses puros por Física ou por Matemática pírito empreendedor” estará às voltas com
estarão cotadas, seja na forma de licenciatura pensamentos financeiros, calculando o custo-
ou de bacharelado, bem como a maior parte das benefício de seus empreendimentos. Inclusive
engenharias. Dessa forma, por exemplo, se o su- o advogado pode ser muito interessado, por
jeito também demonstrar interesse pelo Campo exemplo, no campo tributário; o arquiteto
Físico/Químico (CFQ), poderá nos levar a pen- também deve preocupar-se com o custo da
sar em engenharias e em tecnologias relacio- obra. Cabe ao orientador compreender o in-
nadas à Química. Se os interesses relativos ao teresse por um campo conjugado aos demais.
CFM estiverem conjugados ao Campo Biológi- Porém, certamente, o orientador encontrará,
co/Saúde (CBS), poderão nos levar a pensar em em níveis muito acima da média, o interesse
“engenharias relacionadas à biologia” – Enge- nessa área quando o orientando estiver iden-
nharia de Pesca, Sanitária, Meio Ambiente. tificado com profissões tais como Economia,
Alguns orientandos, por sua vez, apre- Ciências Contábeis, Atuariais e outras tipica-
sentarão grandes interesses pelo grupo CFM mente financeiras.
+ CSL + CMA – revelando um grupo de in-
teresses que coincide bem com as exigências COA – Campo Organizacional/Administrati-
reveladas, por exemplo, pelos cursos de Ar- vo: Embora o interesse por esse campo possa
quitetura, Design ou Desenho Industrial. evidenciar profissões de cunho empreendedor,
comercial e empresarial, o orientador deverá
CFQ – Campo Físico/Químico: O Campo ter o cuidado de perceber a amplitude de pro-
Físico/Químico também guarda relação com fissões que podem estar relacionadas a esse

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Orientação Vocacional Ocupacional 175

interesse. Administrar pode relacionar-se à Bi- versas questões que envolvem tributos, leis
blioteconomia, à Enfermagem, assim como ao trabalhistas, etc.
engenheiro (especialmente Engenharia de Pro-
dução) ou ao arquiteto que estiver gerenciando CCP – Campo Comunicação/Persuasão:
uma obra. Um processo judicial, além de ser Embora os inventários de interesses não se
muito burocrático também requer controle ad- ocupem da determinação de habilidades ou
ministrativo sobre prazos e procedimentos. de capacidades para desempenho de tare-
Ao notar níveis de interesse muito infe- fas, notamos que o CCP atrai o interesse de
riores à média, o orientador poderá se indagar pessoas habilidosas em seu potencial verbal
sobre qual o motivo de tal desinteresse. Fre- de argumentação. Persuadir está fortemen-
quentemente encontramos esse interesse muito te relacionado ao convencimento de pessoas
baixo em jovens que estão com dificuldades de acerca de um pensamento que o sujeito deseja
“administrar os próprios conflitos”, inclusive transmitir. Dessa forma, esse campo reúne in-
os relacionados à escolha da profissão. Obser- teresses voltados a induzir, comandar, liderar,
vamos que não é comum encontrar índices de influenciar, formar juízo, vender ou conven-
interesse muito superiores à média nesse cam- cer pessoas ou grupos.
po. Quando isso ocorrer, pode ser que coinci- O conhecido dito popular “Quem tem
dentemente estejamos frente a um sujeito com boca vai a Roma” é sábio em apontar o quanto
fortes traços de personalidade obsessiva (Le- essa capacidade verbal, quando devidamente
venfus, 2002). Todas essas observações hipo- polida, pode facilitar a conquista de objetivos
téticas só poderão ser confirmadas mediante o e, nos tempos modernos, a entrada no merca-
uso de instrumentos de avaliação apropriados. do de trabalho. Em estudos clínicos, podemos
perceber o quanto o CCP pode apresentar-se
CJS – Campo Jurídico/Social: O CJS respon- muito inferior à média em pessoas inibidas
de por um campo de interesse em “Humanas”. (Levenfus, 2002, 2005).
Diz respeito ao interesse pelo comportamento Em termos ocupacionais, pode-se dizer
humano em nível grupal, religioso, cultural, que professores, políticos, vendedores, Rela-
racial, amplamente social. Os interesses pelo ções Públicas e outros costumam apresentar
campo jurídico certamente se formam em vis- fortes interesses nesse campo da comunicação
ta das diferenças nos comportamentos huma- verbal. Contudo, sempre é necessária uma
nos. Não por acaso, o curso de Direito chama- avaliação contextualizada. Por exemplo, po-
-se Ciências Jurídicas e Sociais e o campo da pularmente, a persuasão é tida por muitas
comunicação chama-se Comunicação Social. pessoas como uma habilidade fortemente li-
Afinal, se todos os homens se comportassem gada à advocacia. Porém, no Brasil, o Direi-
de maneira idêntica, para que serviriam as to é exercido na maioria das vezes por meio
leis? Se a comunicação não for fenômeno di- de comunicações escritas e não verbalizadas.
rigido ao ser humano, a quem será? Muitos jovens identificam-se com o advogado
Contudo, nesse teste diferenciamos tal do cinema americano e ignoram as diferenças
campo sociológico daquele que diz respeito ao no exercício dessa profissão nas diferentes
interesse específico pelo comportamento hu- culturas. Por isso, sempre há de se ter o cui-
mano em nível da Educação e da Psicologia, dado com as estereotipias criadas em torno
que aparecerão no CCE – Campo Comporta- de muitas profissões. Sabiamente, Del Nero
mental/Educacional. (1998) já apontava que o Direito Criminal po-
É importante observar que, embora deria estar também relacionado a habilidades
qualquer ser humano inserido em normas nesse campo, mas que a escolha pelo Direito
sociais deva ser conhecedor das mesmas e baseia-se preponderantemente no Campo
todo profissional será regido por normas Simbólico/Linguístico – CSL, como apresen-
éticas, em algumas profissões esses conheci- taremos adiante.
mentos são objeto e ferramentas de trabalho
como, por exemplo, nas Ciências Contábeis CSL – Campo Simbólico/Linguístico: O CSL
em que o profissional terá de lidar com di- é de uma riqueza ímpar em termos de infor-

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176 Levenfus, Soares & Cols.

mações que podem prestar ao orientador em áreas exatas que necessitam trabalhar com
sua tarefa. Preferimos abordar esse tema divi- desenho, volumes, como no caso da Arqui-
dindo-o em dois campos: 1) enquanto estudo tetura, do Design Industrial, da Engenharia
da linguagem e das línguas; 2) enquanto refe- Mecânica; ou linguagens como na produção
rência ao mundo simbólico e potencial inter- de softwares ou de composição musical. Des-
pretativo da linguagem. sa forma, torna-se compreensível o interesse
conjugado por CFM + CSL.
1) Estudo da linguagem e das línguas: Com- A presença de índices baixos no CSL só
preendido dessa forma, o campo da Lin- deve preocupar o orientador em situações nas
guística traduz o potencial de comunicação quais um substrato emocional ou cognitivo
de ideias e fatos por meio da escrita de li- possa responder pelo baixo índice de produ-
vros, artigos e outros textos. O potencial de ção simbólica como nos casos de alexitimia3,
comunicação verbal, como já descrevemos, dislexia ou inibições na área do pensamento e
encontra-se no CCP. O sujeito interessado da linguagem (Levenfus, 2002, 2005).
no CSL seguidamente apresentará gosto
pela leitura geral e pela literatura, ou pode CMA – Campo Manual/Artístico: Observa-
ser que se sinta atraído pelo estudo da lín- mos que o interesse pelo campo artístico tra-
gua nacional e/ou línguas estrangeiras. O duz mais claramente o fazer artístico do que
interesse no manejo da linguagem escri- o pensar criativo. Por esse motivo, denomi-
ta poderá se apresentar em uma série de namos esse campo como Manual/Artístico.
profissões que nela se apoiam, como, por Seguidamente o sujeito refere gosto por tra-
exemplo: Letras, Jornalismo e Direito. balhos manuais diversos, pela observação da
estética das artes ou pela expressão corporal.
2) Mundo simbólico e potencial interpretativo: É comum referirem, por exemplo, que gostam
a linguagem enquanto manifestação simbó- de copiar desenhos, mas que não conseguem
lica é o que atribui a esse campo a riqueza produzi-los mentalmente. Normalmente, isso
de informações que mencionamos anterior- acontece quando o CSL está baixo, eviden-
mente. O campo da interpretação aqui se ciando estar nessa área o potencial criativo –
manifesta como necessário à compreensão relativo ao mundo simbólico.
do conjunto de letras e palavras. É nesse Sujeitos interessados em cursar Artes
campo que se atribui significado aos obje- Plásticas ou Artes Cênicas costumam apresen-
tos. Em sujeitos com fortes interesses nesse tar esse interesse acima da média. No entanto,
campo, poderemos encontrar desejosos em um razoável conjunto de profissões também
cursar, por exemplo, Psicologia, descreven- contempla esse interesse em vista das ativida-
do uma facilidade em compreender os sen- des manuais que lhe competem. É o caso da
timentos dos outros; em entender os desenhos Odontologia, da Arquitetura, das atividades
das crianças. A experiência clínica mostra laboratoriais, cirúrgicas, etc.
que sujeitos que se descrevem como cria- Nos últimos tempos, com o advento da
tivos costumam apresentar índices acima internet e com a expansão tecnológica, muitas
da média nesse campo, que responde mais profissões que surgiram contemplam interes-
pela criatividade do que o Campo Manual ses pelo campo artístico. Destacam-se nesse
Artístico – CMA, como apresentaremos a campo as profissões ligadas a Web Design, De-
seguir. Pessoas com facilidade para escul- sign Visual, Desenvolvimento de Games.
pir, pintar, escrever poesias e ler partituras
poderão demonstrar interesse no CSL. CCE – Campo Comportamental/Educacional:
O CCE diz respeito ao interesse pelo compor-
O interesse manifesto por esse campo tamento humano, no nível individual, grupal,
parece imprescindível aos profissionais das familiar ou amplamente social. Os interesses

3
A alexitimia se apresenta como uma incapacidade de associar os afetos às representações mentais, não ha-
vendo palavras para as emoções (Barros, 1994; 1995).

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Orientação Vocacional Ocupacional 177

podem ser de ordem emocional, educacional, MATERIAL E APLICAÇÃO


ajuste social e outros, evidenciando, em seu
maior grau, profissões tais como a Psicologia, O AIP é constituído por um caderno de
Serviço Social, Pedagogia e Ciências Sociais. aplicação reutilizável, uma folha de respostas,
Já em níveis de interesse pelo menos pró- um protocolo de levantamento para cada sexo,
ximo à média, é possível encontrar toda uma um crivo de apuração e um manual. Este, além
gama de profissões que dirigem seu objeto de todas as instruções pertinentes, inclui um
ao ser humano quando somados ao CJS tais guia com 210 profissões de nível superior.
como a Comunicação Social, as Ciências Jurí-
dicas e Sociais, e a Administração no campo 1) Caderno de aplicação: Trata-se de um cader-
de RH. no reutilizável contendo 200 atividades as
Esse campo pode despertar interesse quais 20 atividades de cada campo de inte-
mesmo em quem apresenta alto interesse em resse e estão distribuídas de tal forma que
áreas exatas como CFM e/ou CFQ. Por exem- cada campo seja confrontado com todos os
plo, seguidamente o encontraremos presente outros e com ele mesmo duas vezes.
em candidatos à Arquitetura, pois seu objeto
está muito relacionado ao homem em seu ha- 2) Folha de respostas e rapport: Para cada ati-
bitat. Nessa configuração, poderá ser encon- vidade numerada, existe um espaço corres-
trado também nas licenciaturas em Matemá- pondente na folha de respostas. Esse espaço
tica, Química e Física. É importante observar é um quadrado dividido por um risco em
que esse campo também apresenta diferenças diagonal. É nesse espaço que o sujeito de-
de interesses relacionados ao sexo do sujeito, verá responder acerca de seu interesse real
tendendo a interessar as mulheres em níveis ou relativo pela atividade. Dessa forma,
mais evidentes (Levenfus, 2002, 2005; Leven- o rapport consiste em pedir ao orientando
fus e Bandeira, 2007). que escolha, dentre cada par de atividades,
aquela que lhe desperta maior interesse,
CBS – Ciências Biológicas e da Saúde: As assinalando essa preferência no respectivo
Ciências Biológicas dizem respeito ao corpo espaço na folha de respostas. É permitido
humano, ao reino animal, ao vegetal e aos ao sujeito marcar as duas atividades do par
microorganismos. O interesse por essa área desde que perceba gostar muito das duas,
diz respeito à própria vida. com a mesma intensidade. Em contraparti-
É novamente na observação sobre o con- da, é proibido deixar um par em branco, ou
junto dos campos que notaremos, por exemplo, seja, caso não goste de nenhuma das duas,
se o interesse pelo Campo Biológico e da Saúde mesmo assim, o sujeito deverá marcar aque-
(CBS) reside predominantemente sobre o ser la que, comparada à outra, desperte maior
humano ou sobre plantas, animais ou micro- interesse. Nesse caso, o sujeito deverá mar-
-organismos. Caso no mesmo teste se apresente car somente metade do quadrado.
também um interesse pelo CCE, o sujeito ten-
derá a optar por áreas da saúde, envolvendo 3) Crivo de apuração: É uma folha vazada a ser
humanos ou animais em vez de plantas. colocada sobre a folha de respostas a fim de
Frequentemente, o sujeito com interesses apurar o total de itens de interesse real e re-
muito superiores à média nesse campo será lativo em cada campo.
aquele que manifestará interesse pela Medi-
cina, pelas Ciências Biológicas, pela Enfer- 4) Protocolo de levantamento: É composto de da-
magem, pela Medicina Veterinária ou pelas dos de identificação do sujeito, uma tabela
Ciências Biomédicas. No entanto, esse inte- de registro dos interesses reais, relativos e
resse também é perceptível, com menor inten- totais por campo e gráficos para registro
sidade, mas pelo menos na média, nos cursos das respostas para cada sexo. Nos gráfi-
como: Psicologia, Educação Física, Nutrição, cos, as médias estão demarcadas. Por fim,
Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Tera- há um espaço para registro de informações
pia Ocupacional (Levenfus 2001, 2002, 2005). adicionais de interesse do psicólogo.

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178 Levenfus, Soares & Cols.

ACHADOS SOBRE INTERESSES ACHADOS SOBRE LEVANTAMENTO


DIFERENCIADOS POR SEXO DE ÁREAS CONJUGADAS
Já havia sido observado que algumas Ao mesmo tempo em que damos atenção
áreas de interesses apresentavam médias di- às diferenças de gênero, devemos observar os
ferenciadas entre as respostas de moças e ra- Campos de forma conjugada. Nesse teste, não
pazes (Bueno, Lemos e Tomé, 2004; Levenfus, se interpreta a partir do Campo de interesse
2002; Levenfus e Bandeira, 2007; Sáinz, Lois maior, mas, conjuntamente, a partir de todos
e Sáez, 2007). No AIP, os homens costumam os interesses que estiverem acima da média,
pontuar mais alto do que as mulheres nos já que as profissões reúnem em si diferentes
campos CFM e CCF. Já as mulheres pontuam áreas de interesse. Isso quer dizer que o orien-
mais alto que os homens nos campos CCE. tador deve ter um olhar dinâmico e sempre
Assim sendo, o orientador deve estar atualizado acerca das diversas profissões exis-
atento ao fato de, por exemplo, uma moça tentes no mercado.
estar interessada por esse campo mesmo que Por exemplo, no caso da Administração
não pareça ser seu maior interesse registrado de Empresas (Figura 13.1), existe um predomí-
no teste como um todo. É preciso verificar o nio de interesses conjuntos em CCF e COA.
interesse comparado à média de cada sexo. Pensando dessa forma, é possível perce-
Existem estudos que apontam profissões ber que, alguém com interesse concomitante
predominantemente femininas ou masculi- pelo CBS e COA poderá estar interessado em
nas. Outro indicador dessas preferências é Administração Hospitalar. Outro exemplo
observável pela proporção de homens e mu-
lheres em alguns cursos de graduação, tais 20 20
como Psicologia e Pedagogia, caracterizadas 19 19
pelo Campo Comportamental Educacional, e 18 18
Engenharias, caracterizadas pelo Campo Físi- 17 17
co Matemático.
16 16
Esses resultados chamam a atenção
15 15
para alguns fatores relevantes. Por exemplo,
se a resposta para o sexo feminino em CFM 14 14
aproxima-se, na média, aos 7 pontos, então 13 13
podemos afirmar que a moça que preencher 12 12
11 pontos nessa área encontra-se em nível su- 11 11
perior à média e pode demonstrar, com isso, 10 10
forte interesse por essa área. Enquanto isso, 11
9 9
pontos para os rapazes, aponta, apenas, um
8 8
interesse mediano, já que a média para o sexo
masculino é 11. A diferença também existe em 7 7

outros campos, especialmente no CCE, indi- 6 6


cando que as mulheres, comumente, têm mais 5 5
interesse por esse campo, sem que isso sig- 4 4
nifique, necessariamente, que seja indicador 3 3
do seu perfil profissional. Ou seja, uma moça
2 2
que apresentar em seu gráfico, o valor 11 para
1 1
CFM e 11 para CCE, estará apontando interes-
se maior por CFM do que por CCE, visto que A B C D E F G H I J

esse valor encontra-se superior à média para CFM CFQ CCF COA CJS CCP CSL CMA CCE CBS
as mulheres em CFM enquanto que está em
nível médio inferior em CCE. Figura 13.1 Exemplo de um gráfico de um
jovem do sexo masculino interessado em
Administração de Empresas.

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Orientação Vocacional Ocupacional 179

seria de alguém muito interessado em CFM CMA, é importante que tenha criatividade
e COA. Nesse caso o interesse em Adminis- e pensamento abstrato (CSL). Mas não pode
tração pode ser satisfeito em Engenharia de ficar no esquecimento o fato de esta ser uma
Produção. área exata, com uma base de cálculos pareci-
Vejam abaixo alguns outros exemplos da com Engenharia (CFM). Em diversos casos
de gráficos característicos. Eles são meramen- atendidos em psicoterapia e reorientação pro-
te ilustrativos das diferentes possibilidades. fissional, com estudantes de Arquitetura em
Cada orientando deve ser entendido pelo iminência de desistir do curso, observamos
orientador como caso único e deve ser consi- que o desejo de desistência estava relacionado
derada a história pessoal de cada sujeito. a uma grande dificuldade em conseguir apro-
No caso da Medicina (Figura 13.2), exis- vação na cadeira de Projeto I, apresentando
te um predomínio de interesses conjuntos em inúmeras repetências. Em todos os casos nos
CFQ e CBS. quais a dificuldade de realizar projetos esta-
Na Figura 13.3 é possível visualizar um va presente, os sujeitos apresentaram níveis
exemplo de resposta para Arquitetura, em abaixo da média em CSL. Também era co-
que existe um predomínio de interesses con- mum que jovens fossem para a Arquitetura
juntos em CFM, CSL e CMA. baseados em um interesse somente em CMA
A Arquitetura é uma profissão que re- (gosta de desenhar ou decorar) sem que fosse
quer múltiplas habilidades e, portanto, múl- verificado seu interesse no CFM.
tiplos interesses. O arquiteto conjuga a área É enriquecedor perceber a gama de va-
humana e a exata como poucos. Além do riações possíveis por meio de uma leitura di-

20 20 20 20
19 19 19 19
18 18 18 18
17 17 17 17
16 16 16 16
15 15 15 15
14 14 14 14
13 13 13 13
12 12 12 12
11 11 11 11
10 10 10 10
9 9 9 9
8 8 8 8
7 7 7 7
6 6 6 6
5 5 5 5
4 4 4 4
3 3 3 3
2 2 2 2
1 1 1 1
A B C D E F G H I J A B C D E F G H I J
CFM CFQ CCF COA CJS CCP CSL CMA CCE CBS CFM CFQ CCF COA CJS CCP CSL CMA CCE CBS

Figura 13.2 Exemplo de um gráfico de uma Figura 13.3 Exemplo de um gráfico de


jovem do sexo feminino interessada em jovem do sexo masculino interessado em
Medicina. Arquitetura.

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180 Levenfus, Soares & Cols.

nâmica. Nossa proposta aqui não é apresentar mos verificar o motivo. Assim como, também
todas as variações, até mesmo porque seria im- podemos questionar quando as respostas fo-
possível fazê-lo, em vista de sua infinitude. rem muito diferentes da média em seu con-
junto.
ENTENDENDO A QUALIDADE DA Na Figura 13.4 temos um gráfico de uma
jovem que se dizia muito interessada por Psi-
RESPOSTA cologia. Embora sua pontuação fosse muito
O AIP foi construído com a possibilidade acima da média em CSL e CCE, ambas espe-
de assinalar meia resposta no caso de o inte- radas para a escolha de Psicologia, grande
resse ser relativo, ou seja, quando o sujeito parte das escolhas foram relativas, marcadas
não se interessa por nenhuma das atividades por obrigação.
da dupla, mas se vê frente à necessidade de Após o exame dessa jovem, entendeu-se
escolher. A essa escolha, chamamos interesse que a quantidade de respostas relativas era
relativo. Dessa possibilidade, podem-se obser- um indicador do quanto ela estava envolvida
var diferentes fenômenos que, se constatados severamente com uso de drogas. Percebemos,
em entrevista clínica e/ou outros testes, aju- em diversos casos, que a defasagem grande
dam o psicólogo a entender alguns motivos em diversas áreas pode ser demonstrativa de
que podem estar interferindo na possibilida- baixa motivação, quadros depressivos e abu-
de de escolha. so de drogas. Em outras palavras, quando al-
Percebemos que, em média, três ou qua- guém vai escolhendo sem gostar, está comu-
tro escolhas são relativas em cada Campo. nicando algo como: não gosto de nada; nada me
Quando essa média for ultrapassada, deve- dá vontade. Casos semelhantes podem ocorrer
em jovens que não têm interesse por cursar a
20 20 universidade e se veem pressionados a esco-
19 19
lher um curso. Às vezes, o maior interesse do
jovem é realizar um intercâmbio após o ensi-
18 18
no médio e seus interesses se apresentam al-
17 17
tos em tudo o que diz respeito ao intercâmbio
16 16 e baixos nas questões ocupacionais.
15 15 No caso a seguir (Figura 13.5), a jovem
14 14 interessada em cursar Odontologia apresenta
13 13 interesses totalmente compatíveis com essa
12 12
profissão. Durante entrevista clínica, queixou-
se de timidez, medo de entrar na faculdade e
11 11
ficar muito vermelha ao conviver com colegas
10 10
que não conhecia. Referiu também dificulda-
9 9 des para apresentar trabalhos em sala de aula.
8 8 Como pode ser observado, os interesses rela-
7 7 tivos foram justamente marcados em grande
6 6 quantidade nos campos relacionados à vida
5 5 social, comportamental e comunicação. Em
casos como esse, é responsabilidade do psicó-
4 4
logo, além de dar um feedback ao orientando
3 3
relativo à escolha profissional, instruí-lo ou
2 2 encaminhá-lo para o alívio dos sintomas.
1 1
A B C D E F G H I J CONSIDERAÇÕES FINAIS
CFM CFQ CCF COA CJS CCP CSL CMA CCE CBS
“Não é compatível com um conceito di-
Figura 13.4 Exemplo de um gráfico de uma nâmico da personalidade o uso de testes cujos
jovem interessada em Psicologia. fundamentos pertençam a posições atomísticas

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Orientação Vocacional Ocupacional 181

que mostrem funções isoladas sem ver a estru- Social pode estar relacionado, para alguém, a
tura e a dinâmica global da personalidade” vivências de carência? Não raro alguém é ca-
(Bonelli, 1995, p.73). paz de se interessar por Educação Física ba-
As escalas e os levantamentos de prefe- seado em fantasias de permanecer jovem ao
rências profissionais, em sua maioria, podem longo da vida!
estar a serviço de uma concepção basicamente Enfim, muitos questionamentos e casos
atuarial da orientação vocacional em que, para poderiam ser apresentados. A maior preocu-
determinados interesses correspondam deter- pação, no entanto, foi a de lançar uma nova
minadas ocupações, de forma taxativa e este- luz sobre a possibilidade ainda pouco explo-
reotipada. A interpretação da pontuação, em rada em testes de levantamento de interesses
um enfoque psicodinâmico, como diz Bonelli profissionais, como a de levantar hipóteses
(1995), deve realizar-se não a partir da pontua- qualitativas a partir de dados essencialmente
ção, mas do sujeito em questão. quantitativos. Nesse momento, contando com
Dessa forma, nos interessa compreender o AIP, instrumento que proporciona um exa-
o que determinado interesse significa para de- me aprofundado, essa tarefa se torna muito
terminado adolescente. Quantas vezes encon- mais acessível aos Orientadores Profissionais
tramos um jovem tímido que busca aprimorar e beneficia de forma inquestionável o orien-
suas relações sociais por meio de um curso li- tando.
gado a Comunicações? Interesse pelo Serviço

20 20
19 19
18 18
17 17
16 16
15 15
14 14
13 13
12 12
11 11
10 10
9 9
8 8
7 7
6 6
5 5
4 4
3 3
2 2
1 1
A B C D E F G H I J
CFM CFQ CCF COA CJS CCP CSL CMA CCE CBS

Figura 13.5 Jovem interessada por


Odontologia refere queixas características
de fobia social.

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182 Levenfus, Soares & Cols.

REFERÊNCIAS

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BONELLI, A.R.L. La orientación vocacional como proceso: teoria, técnica y práctica. Buenos Aires:
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BUENO, J.M.; LEMOS, C.G.; TOMÉ, F.A. Interesses profissionais de um grupo de estudantes de
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DEL NERO, C. Áreas, profissões e objeto, 1º contato: sucessor de vocação e seus caminhos, 8 áreas,
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LEVENFUS, R.S.; BANDEIRA, D.R. Avaliação dos Interesses Profissionais (AIP): um estudo
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PROFISSIONAL, 8., 2007, SÃO PAULO. São Paulo: Vetor, 2007. p. 122-123.
MILAGROS SÁINZ, A.L.; LOIS, D.; LÓPEZ SÁEZ, M. Comparación entre estudiantes de carre-
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IVSemana/comunicaciones/sainz_lisbona.htm>. Acesso em: 05 mar. 2007.
.

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14
Contribuições da Escala de Aconselhamento
Profissional (EAP) para a orientação de carreira

Ana Paula Porto Noronha • Acácia Aparecida Angeli dos Santos


• Fermino Fernandes Sisto

INTRODUÇÃO enfoques teóricos que valorizam aspectos va-


O presente capítulo analisa a Escala de riados, quer da indecisão para a escolha, quer
Aconselhamento Profissional (EAP), cujo ob- do próprio significado do aconselhamento
jetivo é a caracterização das preferências por profissional. Nesse sentido, podem ser desta-
algumas atividades profissionais em detri- cados Chartrand e Camp (1991); Pope (2003);
mento de outras. A concepção que subsidiou Santos (1997); Santos e Coimbra (1994); Smith
a construção do EAP prevê que as pessoas e Campbell (2003), entre outros.
gostam de realizar atividades que não são Essa temática tem sido tratada por estu-
apenas aquelas típicas de sua profissão. Con- diosos que se fundamentam em ampla gama
sequentemente, optou-se por falar em perfil de abordagens, com base nas quais foram de-
profissional, com base no qual é possível ca- rivadas propostas de práticas de aconselha-
racterizar diferentes níveis de intensidade de mento. Essa multiplicidade pode ser justifica-
escolhas em relação a diversos tipos de ativi- da em razão dos muitos fatores envolvidos no
dades. Também julgou-se pertinente incluir aconselhamento de carreira e, em alguma me-
uma breve revisão histórica e a descrição de dida, pode ter colaborado para a ampliação e
alguns dos trabalhos que foram divulgados a proliferação de abordagens. Algumas delas
em publicações recuperadas nas bases de da- são frequentemente mencionadas na literatu-
dos do Brasil e do exterior. ra específica da área, a saber, a teoria do traço
É importante lembrar que a Escala de e fator, a psicodinâmica, a desenvolvimental
Aconselhamento Profissional foi construída e a de tomada de decisão, descritas com mais
com base em pesquisas realizadas com estu- detalhes a seguir (Leitão e Miguel, 2004).
dantes universitários. Tomando como referên- As teorias do traço e fator também são
cia os resultados obtidos com esse segmento denominadas como tipológicas e estão vincu-
da população, foram elaboradas as normas. ladas à abordagem diferencial da psicologia.
Também serão relatados os estudos de vali- Até os anos de 1950, a maioria dos autores
dade e de precisão, desenvolvidos quando da as adotava, encarando a escolha ocupacional
construção do instrumento. como um evento específico decorrente das
aptidões e de capacidades inatas das pes-
Interesses Profissionais e Orientação de soas. Assim sendo, a atuação do orientador
Carreira reduzia-se a identificá-las da melhor maneira
possível, haja vista que era entendido que a
Nas publicações sobre o tema, identifi- integração entre as características pessoais e
cam-se vários pesquisadores com distintos aquelas específicas das ocupações garantiria

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184 Levenfus, Soares & Cols.

o bem-estar pessoal e o desempenho profis- Sem dúvida, uma das perspectivas


sional adequado. A teoria de Holland (1963) mais conhecidas dos profissionais da área de
é apontada como a mais representativa e a orientação profissional é a desenvolvimen-
mais utilizada dessa abordagem. tal, divulgada amplamente a partir de Super
Sob a perspectiva psicodinâmica, a esco- (1953). Segundo ela, a escolha de uma carrei-
lha profissional é concebida como um dos perí- ra é encarada como um fenômeno intrinseca-
odos de transição para a identidade adulta. As- mente relacionado ao desenvolvimento geral
sim, ela compreende necessidades individuais, do ser humano, decorrente da integração de
identificações, aptidões e valores, bem como experiências de vida. Na obra do autor, os
as formas de defesa contra impulsos. Segundo estágios que antecedem e conduzem à matu-
Bordin e Koplin (1973), a escolha profissional é ridade profissional são detalhadamente des-
resultante do equilíbrio entre o autoconceito e critos. Um de seus principais pressupostos
o papel profissional, havendo conflito quando é a crença de que, à medida que as pessoas
o indivíduo percebe que suas motivações não crescem e experimentam a realidade, os in-
são compatíveis ao papel profissional preten- teresses mais específicos vão se delineando.
dido. A orientação profissional característica Nesse contexto, a compreensão dos fatores
dessa abordagem tem como principal foco o dificultadores da escolha profissional depen-
conflito motivacional intrapsíquico entre o au- de do conhecimento sobre o desenvolvimen-
toconceito e o papel profissional. É importante to dos estágios ao longo da vida do sujeito
observar que o autoconceito é concebido como em orientação.
identidade operacional diferenciada, que favo- Santos e Coimbra (1994) consideram que
receria a integração aos papéis profissionais. a escolha saudável seria aquela cujo percurso
Em que pese a força que o autoconceito tem no conduz à maturidade profissional, facilitando
momento de escolha profissional, podem sur- o momento da decisão. Sob essa perspectiva,
gir problemas de integração sempre que hou- os autores entendem a maturidade vocacional
ver conflitos de identidade ou que o indivíduo como um conjunto de atitudes frente à esco-
não tiver clareza de foco. lha profissional. Dela fariam parte elementos
A aplicação da abordagem psicodinâ- como a determinação, a responsabilidade e a
mica no aconselhamento profissional está independência, somadas a outros aspectos ne-
fundamentada na identificação dos tipos de cessários (autoconhecimento e conhecimento
conflitos intrapsíquicos que ocorrem duran- da realidade). A maturidade, em decorrência,
te a indecisão profissional. Carvalho (1995) seria o produto resultante de um processo que
esclarece que o desenvolvimento de papéis se dá durante a vida. Só ao longo do desen-
ocupacionais adultos envolve um processo volvimento o indivíduo consegue definir gra-
bastante complexo, cujo resultado é o forta- dualmente o que quer e o que pode fazer no
lecimento da identidade profissional. Alguns âmbito profissional.
estudiosos têm publicado pesquisas sobre Quanto aos aspectos perturbadores do
orientação profissional no enfoque psicana- desenvolvimento dos estágios, os autores re-
lítico. Nessa linha, reforçando as contribui- ferem-se a duas categorias, a saber, os aspectos
ções que essa teoria pode trazer para a área de ordem extrínseca e os de ordem intrínseca à
de orientação profissional, Zacharias (1994) pessoa (Duarte, 1997; Mangas, 1997; Santos, Ri-
recorreu aos tipos psicológicos junguianos beiro e Campos, 1997). Os aspectos intrínsecos
em pesquisa realizada com um grupo de ao indivíduo englobam dimensões afetivas,
policiais militares. Das publicações mais re- como dependência emocional, desmotivação,
centes, destacam-se os trabalhos de Velloso baixa autoestima; cognitivas, como rigidez de
(2000), que focalizam o momento de escolha pensamento, raciocínio infantil, desconcen-
profissional na adolescência à luz da psica- tração; e sociais, que estariam relacionadas à
nálise, bem como o de Campos (2001), que pouca informação a respeito da profissão, a
apresenta uma revisão da literatura de traba- dificuldades de adaptação ao cotidiano profis-
lhos desenvolvidos sobre a orientação profis- sional, entre outras. Tais categorias concernem
sional nessa mesma abordagem. a dois microssistemas presentes na vida do ho-

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Orientação Vocacional Ocupacional 185

mem, o educacional e o familiar. Assim, a qua- pressupostos teóricos, visa a oferecer condições
lidade das relações estabelecidas em cada um que facilitem a busca de uma identidade mais
deles pode auxiliar ou dificultar a formação da clara e diferenciada, uma vez que proporciona
maturidade vocacional. oportunidades de reflexão para a escolha ade-
Muitos adeptos dessa teoria conside- quada (Müller, 1988). Nesse sentido, sempre
ram que o percurso desenvolvimental leva pressupõe a existência da avaliação do indiví-
necessariamente a uma maior ou menor ma- duo, que pode envolver, dependendo da con-
turidade vocacional, compreendida como a cepção adotada, o conhecimento de suas carac-
capacidade para resolver tarefas relaciona- terísticas – como personalidade, habilidades e
das à carreira profissional. Assim, entendem interesses – bem como de condições do ambien-
a indecisão profissional como uma cristaliza- te, especialmente as relacionadas à família.
ção precoce a qual impede que o indivíduo Há cerca de 40 anos, Mattiazzi (1977) fez
faça seleção e especificação de seu caminho críticas ao pequeno avanço no conceito de in-
profissional (Gati, Krausz e Osipow, 1996). teresses profissionais. Ele afirma que desde a
A última abordagem – e a mais conhe- década de 1950 não havia incremento no cons-
cida na orientação profissional – é a do pro- tructo, tendo sido Fryer, em 1931, um marco
cesso de tomada de decisão. Seu pressuposto importante na definição, com a publicação da
básico é o de que as dificuldades da escolha obra The Measurement of Interests. Posterior-
estão diretamente relacionadas à imaturida- mente, Strong (1954) cria seu instrumento de
de da pessoa para tomar uma decisão pro- avaliação, concebendo interesse profissional
fissional, bem como à insuficiência de infor- como padrões de gostos, desgostos ou respos-
mações adequadas sobre si mesmo e sobre tas indiferentes.
as áreas profissionais. Dessa forma, aspectos Savickas (1995) faz uso das considera-
como a falta de motivação e a existência de ções iniciais de Strong (1954) em seus estudos.
mitos em torno da tomada de decisão sobre Para ele, os padrões podem ser medidos pelo
a carreira, entre outros aspectos, seriam os uso de escalas que possuem itens homogê-
desencadeadores dos problemas mais proe- neos (construção racional); pelas escalas que
minentes na orientação profissional. Na possuem itens heterogêneos referentes a inte-
perspectiva de Gati, Krausz e Osipow (1996), resses ocupacionais e construídas empirica-
que adotam o modelo taxonômico, a dificul- mente; por aqueles instrumentos derivados
dade inerente à escolha da profissão é com- de concepções teóricas. Em acréscimo, defen-
preendida como resultante da identidade de que o uso dessas escalas pode revelar os
difusa de elementos da experiência interna padrões de gostos dos indivíduos, ao mesmo
do orientando. Em decorrência disso, para os tempo em que revela características de sua
autores, a escolha mais ajustada é aquela que personalidade.
favorece o alcance das metas estabelecidas Em sintonia com essa concepção, mui-
pela própria pessoa. tos estudos têm verificado a relação entre os
Entre outras teorias existentes, menos di- constructos por meio da correlação entre ins-
vulgadas e/ou mais recentes, encontra-se a teo- trumentos de medida. Um representante im-
ria sistêmica, que tem especificamente valori- portante dessa corrente é Holland (1963), com
zado a importância das características culturais seu modelo tipológico. Para esse autor, havia
e de suas implicações no desenvolvimento de uma profícua relação entre interesses profis-
carreira. Adotando uma visão multicultural, os sionais e a personalidade do indivíduo, de tal
adeptos da abordagem reputam como relevan- sorte que a congruência entre personalidade
te para expansão e aplicação do aconselhamen- e ambiente promoveria a satisfação no tra-
to de carreira a rede de influências originada balho. A ideia é compartilhada por Ehrhart e
de aspectos pessoais, sociais e ambientais dos Makransky (2007), entre outros. Para eles, em
vários contextos (Arthur e McMahon, 2005). especial, é importante avaliar em que medida
Com base nos aspectos mencionados até cada um dos constructos (interesses e perso-
aqui, pode-se concluir que o processo de Orien- nalidade) prediz a percepção dos indivíduos
tação Vocacional, independentemente de seus sobre suas vocações e sobre o trabalho.

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186 Levenfus, Soares & Cols.

Especialmente no que se refere ao conceito mento de outras, tal como já afirmado ante-
de interesses, passados outros 40 anos, depois riormente. Dessa forma, o instrumento pre-
da apreciação de Mattiazzi (1977) a respeito da tende fornecer aos usuários o estabelecimento
lenta evolução dos estudos sobre o tema, Lei- de perfis de carreiras, entendendo-se que uma
tão e Miguel (2004) trazem à tona novamente pessoa que escolhe uma dada carreira possa
essa consideração. Eles defendem que Savickas não preferir atividades relacionadas tão so-
(1995) é o autor que melhor integra o conceito. mente à área subjacente diretamente envolvi-
Darley e Hagenah (1955, citados por Savickas, da nela, mas também apresentar interesse por
1995) defendem que o constructo pode ser vis- atividades tradicional ou aparentemente mais
to como uma ponte que liga o indivíduo ao relacionadas com outras carreiras.
papel social. A metáfora está em consonância
com a etimologia do termo; em latim, interesse
Escala de Aconselhamento Profissional
significa ‘entre’ (inter) e ser/estar (esse).
Um aspecto importante que pode justi- (EAP)
ficar a pequena evolução do conceito refere-se O instrumento foi elaborado pelos au-
à construção dos instrumentos de avaliação. A tores do presente capítulo. Foi utilizado um
maior produção de escalas elaboradas empiri- conjunto de 220 itens, organizados a partir
camente não favoreceu o desenvolvimento e a das descrições das várias profissões apresen-
consequente verificação de novas teorias. Tal tadas em guias de profissões e em descrições
consideração pode ser exemplificada pelo estu- dos perfis profissiográficos de universidades
do de Ottati, Noronha e Salviatti (2003). Os auto- brasileiras, disponibilizados na internet. Fo-
res analisaram oito manuais de testes utilizados ram catalogadas atividades de 65 profissões:
no âmbito da orientação profissional no Brasil. Administração; Agronomia; Arquitetura e ur-
Os resultados revelaram que grande parte deles banismo; Arquivologia; Artes cênicas; Artes
não apresentava fundamentação teórica. Plásticas; Astronomia; Audiovisual; Bibliote-
Em síntese, pode-se afirmar que o grande conomia; Ciências da Computação; Ciências
desafio imposto ao orientador educacional/ Aeronáuticas; Ciências biológicas; Ciências
profissional é o de avaliar competentemente as biomédicas; Farmácia e bioquímica; Ciências
características do indivíduo e de seu contexto Contábeis; Ciências Econômicas; Ciências So-
para, com base em uma das perspectivas teóri- ciais; Cinema e Vídeo; Dança; Desenho Indus-
cas assumidas, auxiliá-lo no processo de desco- trial; Direito; Ecologia; Educação; Educação
berta de si e do mundo do trabalho. Sabe-se que física; Enfermagem; Engenharia Aeronáutica;
no exterior inúmeras são as pesquisas publica- Engenharia Agrícola; Engenharia de Alimen-
das, tal como apontado até aqui. No entanto, no tos; Engenharia Ambiental; Engenharia Civil;
Brasil, há poucos instrumentos com qualidades Engenharia da Computação; Engenharia Elé-
psicométricas baseadas em estudos empíricos, trica; Engenharia Física; Engenharia Florestal;
disponíveis para o uso, na atuação do psicólo- Engenharia Mecânica; Engenharia Naval; En-
go no aconselhamento profissional. A relevân- genharia de Produção; Engenharia Química;
cia desse tipo de instrumental se justifica, uma Estatística; Filosofia; Física; Fisioterapia; Fo-
vez que tais ferramentas têm por objetivo iden- noaudiologia; Geografia; Geologia; História;
tificar as características próprias do avaliando Hotelaria; Jornalismo; Letras; Matemática;
em relação aos interesses. Vale reafirmar que é Medicina; Medicina Veterinária; Meteorolo-
importante que se realizem mais pesquisas bra- gia; Moda; Música; Nutrição; Oceanografia;
sileiras com o objetivo de construir ou validar Odontologia; Pedagogia; Psicologia; Publici-
instrumentos já existentes. dade, Propaganda e Marketing; Serviço So-
O foco do instrumento aqui apresentado cial; Teologia e Turismo.
está voltado para a identificação de interesse A análise de conteúdo dos itens foi a
profissional. É importante salientar que nesse tarefa seguinte. Assim, os autores organiza-
trabalho o constructo de interesse profissional ram aqueles que eram semelhantes, ainda
está sendo compreendido como a preferência que representassem profissões distintas, de
por algumas atividades laborais, em detri- tal modo que foram eliminados os itens re-

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Orientação Vocacional Ocupacional 187

petidos e aqueles que, mais frequentemente, automatizadas de produção alimentícia, criar


representavam profissões distintas. Com isso, programas de computadores, projetar satéli-
chegou-se a uma escala de 61 itens, que in- tes e foguetes, estudar propriedades físicas da
cluem todas as áreas e representa várias pos- atmosfera, construir e montar instrumentos e
sibilidades profissionais. O formato da escala peças de aeronaves, projetar robôs e sistemas
é Likert, com cinco pontos, de frequentemente digitais para fábricas, desenvolver semicon-
(5) a nunca a desenvolveria (1). dutores de fibra ótica, produzir equipamentos
O instrumento foi estudado a partir da de captação de energia solar, elétrica e nucle-
aplicação em 762 universitários, sendo 59% ar” compõem a Dimensão 1 (Ciências Exatas).
mulheres, com idades entre 17 e 73 anos, com A Dimensão 2 (Artes e Comunicação) reuniu
uma média de 24,14 (DP=7,14). Houve uma itens que investigam “o interesse por estudar a
nítida concentração entre os 18 a 22 anos, fai- origem e evolução do homem e da cultura”. Ao
xa que incluiu 55,3% da amostra. No que se lado disso, incorporou outros, a saber, “dese-
refere aos cursos, o de Psicologia esteve mais nhar; escrever e revisar textos; entreter hóspe-
representado (21,9%), seguido de Engenharia des, associados e turistas em hotéis, spas e clu-
(10,4%) e administração (10,4%). Os cursos bes; desenhar logotipos e embalagens; dublar;
que menos contribuíram para a composição recuperar obras e objetos de arte; produzir
da amostra foram Turismo, Jornalismo e Me- desfiles, catálogos, editorias de moda e campa-
dicina veterinária. nhas publicitárias; criar uma vinheta; criar, mi-
Quanto aos estudos psicométricos, pro- xar e editar trilhas sonoras de filmes ou vídeos;
cedeu-se a análise fatorial exploratória pelo coordenar a apresentação de um espetáculo
método dos componentes principais e rotação de dança; ensaiar artistas para um espetáculo;
varimax. Nenhum item precisou ser eliminado, responsabilizar-se pela direção teatral; fazer a
considerando-se os índices de saturação supe- montagem das cenas de um filme”.
riores a 0,30; no entanto, alguns saturaram em A Dimensão 3 (Ciências Biológicas e da Saú-
vários fatores, o que era esperado, dado que de) caracterizou-se pelas atividades de “orien-
a escolha de atividades poderia ser comum a tar a população sobre prevenção de doenças;
várias carreiras. Dessa forma, foi alcançado o realizar cirurgias; participar de equipes de sal-
valor de 57,31% de variância explicada, para vamento; analisar o metabolismo dos seres ani-
os sete fatores encontrados, que a partir de mais e vegetais; fazer pesquisas genéticas; au-
agora receberão o nome de dimensões. xiliar no tratamento de pacientes com derrame
Dando continuidade à determinação da cerebral, paralisias, traumatismo, entre outros;
qualidade do instrumento, foi investigada a investigar a natureza e a causa de doenças; pre-
correlação item-total. Considerando cada uma venir lesões e reabilitar sujeitos machucados;
das dimensões separadamente, identificando- dar atendimento ambulatorial em empresas”.
-se como menor coeficiente de correlação o va- A Dimensão 4 (Ciências Agrárias e Am-
lor 0,36. Pode-se afirmar que o índice está aci- bientais) ficou composta pelas seguintes ativi-
ma dos valores mínimos aceitáveis para esse dades: “analisar e controlar produtos indus-
tipo de análise (Guilford e Fruchter, 1978). A trializados, como medicamentos, cosméticos,
interpretação das sete dimensões extraídas da insumos ou alimentos; orientar a população
análise fatorial será descrita a seguir. sobre prevenção de doenças; elaborar plano
diretor de zoneamento de região ou cidade; re-
alizar turismo ecológico; investigar a natureza
Descrição das dimensões
e a causa de doenças; desenvolver equipamen-
As atividades “envolver-se em pesquisas tos para monitoramento e controle das condi-
espaciais, montar bancos de dados digitais, ções ambientais; controlar propriedades físicas
controlar propriedades físicas dos solos, de- dos solos; prevenir doenças em lavouras e re-
senvolver equipamentos para monitoramento banhos; empenhar-se na preservação do meio
e controle das condições ambientais, divul- ambiente; analisar e elaborar relatórios sobre
gar e vender softwares, analisar e interpretar impacto ambiental; elaborar laudos sobre o
dados numéricos, planejar e implantar linhas impacto de atividades humanas no ambiente

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188 Levenfus, Soares & Cols.

marinho; reduzir o impacto de atividades in- e epistemológicas; colaborar na elaboração de


dustriais, urbanas e rurais no meio ambiente; programas educacionais”.
dirigir unidades de preservação ecológica”. A Dimensão 7 (Entretenimento), a última,
Já a Dimensão 5 (Atividades Burocráticas) englobou “produzir desfiles, catálogos, edi-
agrupou os itens “analisar e controlar produ- torias de moda e campanhas publicitárias;
tos industrializados, como medicamentos, cos- gerenciar os serviços de aeroportos; atender
méticos, insumos ou alimentos; elaborar plano hóspedes, associados e turistas em hotéis, spas
diretor de zoneamento de região ou cidade; e clubes; promover a instalação de hotéis; co-
participar de processos de seleção, admissão e ordenar a preparação de refeições em hotéis e
demissão; criar programas de computadores; restaurantes; gerenciar flats, pousadas, hotéis,
estruturar e manter base de dados; gerenciar parques temáticos”.
os serviços de aeroportos; classificar e organi- Uma preocupação dos autores era inves-
zar documentos; analisar e interpretar dados tigar em que medida as dimensões encontra-
numéricos; conduzir relações entre empresa e das se ajustariam às carreiras universitárias
empregados; divulgar e vender softwares; coor- cursadas pelos estudantes. Com vistas à inves-
denar as operações fiscais e financeiras de em- tigação dessa problemática, as médias obtidas
presas; montar bancos de dados digitais; cuidar pelos participantes em cada dimensão foram
de princípios e normas relativos à arrecadação comparadas, tomando-se como referência os
de impostos, taxas e obrigações tributárias”. respectivos cursos. Os resultados obtidos per-
A Dimensão 6 (Ciências Humanas e Sociais mitiram observar que pessoas de diferentes
Aplicadas) ficou composta por itens condi- carreiras podem se interessar por atividades
zentes com atividades de “conduzir relações que não são características de suas dimen-
entre empresa e empregados; recuperar obras sões. A Tabela 14.1 ilustra a distribuição das
e objetos de arte; classificar e organizar docu- maiores e menores médias em cada uma das
mentos; atender instituições que realizem tra- dimensões. Assim sendo, reforça o argumento
balhos sociais voltados para a religião; escre- de que algumas atividades podem ser interes-
ver e revisar textos; estudar origem e evolução santes para as pessoas independentemente do
do homem e da cultura; classificar e indexar curso que escolheram. Também mostram que
livros, documentos ou fotos; estudar o passa- há casos em que se interessem por atividades
do humano em seus múltiplos aspectos; ana- pertencentes a mais de uma dimensão.
lisar a sociedade em questões éticas, políticas

Tabela 14.1 Carreiras com maiores e menores médias nas diferentes dimensões

Maiores médias Menores médias


Dimensão 1 Engenharias Fisioterapia
Educação física, Turismo, Pedagogia e
Dimensão 2 Veterinária e Medicina
Jornalismo
Educação física, Jornalismo e
Dimensão 3 Medicina, Fisioterapia e Veterinária
Engenharias
Educação artística, Jornalismo,
Dimensão 4 Veterinária, Turismo Engenharias, Fisioterapia, Educação
física, Psicologia
Educação artística, Medicina,
Dimensão 5 Administração, Direito
Fisioterapia
Pedagogia, Jornalismo, Psicologia,
Dimensão 6 Veterinária
Direito
Dimensão 7 Turismo Medicina

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Orientação Vocacional Ocupacional 189

Pode-se afirmar, a partir do exposto, que No que se refere às carreiras com uma
pessoas de uma determinada carreira podem dimensão muito clara (Grupo 1), entre as es-
ter seu maior interesse em apenas uma dimen- tudadas, Educação artística e Fisioterapia ca-
são (p. ex., engenharia), enquanto outras po- racterizaram-se pelo foco de interesse muito
dem ter alto interesse em atividades de mais de específico. Chama a atenção o fato de que em
uma dimensão. Assim sendo, realizou-se outro 50% ou mais das atividades esteve presente o
estudo com o objetivo de compreender as pre- pouco interesse por elas. A Tabela 14.2 oferece
ferências, bem como as rejeições dos sujeitos, as distribuições em percentual dos estudantes
quanto às áreas avaliadas pelo instrumento. de educação artística pelas diferentes dimen-
Os resultados permitiram a organização sões. Para facilitar a leitura da tabela, as di-
dos dados em três grupos de perfis, caracteri- mensões serão apresentadas pelos respectivos
zados com base nos escores identificados em números, ou seja, Ciências exatas (1), Artes e
cada uma das dimensões. O primeiro apre- Comunicação (2) e assim sucessivamente.
sentou um percentual alto em apenas uma di- A preferência dessas pessoas foi pela Di-
mensão, com percentuais baixos nas demais, mensão 2 (Artes e Comunicação), sendo que
sugerindo uma tendência à rejeição das ativi- não revelaram interesse pelas atividades das
dades que as compõem. Um segundo grupo Dimensões 1 (Ciências Exatas), 3 (Ciências
apresentou um percentual mais acentuado Biológicas e da Saúde) e 5 (Atividades Buro-
em uma ou duas dimensões, que poderiam cráticas), 4 (Ciências Agrárias e Ambientais) e 7
ser caracterizadas como escolhas secundárias, (Entretenimento). Quanto à Dimensão 6 (Ciên-
mas específicas. O último grupo ficou integra- cias Humanas e Sociais Aplicadas), a distribui-
do por carreiras cujos participantes não apre- ção foi homogênea.
sentaram preponderância nítida em nenhuma A Tabela 14.3 revela os achados referen-
das dimensões, mas percentuais médios em tes ao curso de fisioterapia. Concluiu-se que
várias delas. Uma apresentação mais detalha- as pessoas nitidamente preferem atividades
da dos três grupos será oferecida a seguir. relacionadas à Dimensão 3 (Ciências Biológi-

Tabela 14.2 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Educação Artística

Dimensões
Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7
Baixo 50,7 10,4 52,2 43,3 68,7 26,9 25,4
Médio baixo 26,9 16,4 34,3 26,9 17,9 22,4 32,8
Médio alto 13,4 16,4 9,0 14,9 9,0 29,9 20,9
Alto 9,0 56,7 4,5 14,9 4,5 20,9 20,9

Tabela 14.3 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Fisioterapia

Dimensões
Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7
Baixo 59,5 42,9 31,0 52,4 52,4 28,6
Médio baixo 19,0 23,8 2,4 33,3 28,6 28,6 31,0
Médio alto 19,0 21,4 35,7 26,2 16,7 14,3 19,0
Alto 2,4 11,9 61,9 9,5 2,4 4,8 21,4

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190 Levenfus, Soares & Cols.

cas e da Saúde). Em contrapartida, há rejeições lhidas, assim como as das Dimensões 2 (Artes
pelas dimensões 1 (Ciências Exatas), 2 (Artes e e Comunicação), 4 (Ciências Agrárias e Am-
Comunicação), 5 (Atividades Burocráticas) e 6 bientais), 6 (Ciências Humanas e Sociais Apli-
(Ciências Humanas e Sociais Aplicadas) e, em cadas) e 7 (Entretenimento), cujo percentual
menor intensidade, pelas dimensões 4 (Ciências de escolha foi ainda menor. Dessa forma, suas
Agrárias e Ambientais) e 7 (Entretenimento). atividades preferidas são bastante específicas,
Entre as carreiras com uma dimensão assim como as preteridas.
nítida, mas com aceitação de outras ativida- As escolhas do curso de Administração
des, das investigadas, sete encaixaram-se nes- também podem ser compreendidas dessa for-
se perfil. Assim, nas carreiras de Engenharia, ma. As informações estão relacionadas na Ta-
Administração, Jornalismo, Medicina, Peda- bela 14.5, apresentada a seguir.
gogia, Turismo e Veterinária, houve um foco Observou-se uma predileção pelas ativi-
em dimensões específicas, e um interesse me- dades da Dimensão 5, e pela 7 em menor grau.
nor, mas considerável, foi mostrado para ou- Quanto às rejeições, as atividades da Dimen-
tras dimensões. Também rejeições de ativida- são 3, em maior intensidade, e as Dimensões
des em certas dimensões foram observadas. 2 e 6 em menor intensidade, destacaram-se. A
Na Tabela 14.4 é possível observar com mais Dimensão 4 apresentou uma distribuição ho-
clareza essas constatações. mogênea.
Os futuros engenheiros expressaram for- A Dimensão 6 (Ciências Humanas e So-
te preferência pelas atividades da Dimensão 1 ciais Aplicadas) foi a que mais se destacou en-
(Ciências Exatas) e secundariamente pela Di- tre os participantes do curso de jornalismo. Ao
mensão 5 (Atividades Burocráticas), tal como lado disso, a Dimensão 2 (Artes e Comunicação)
pode ser observado na Tabela 14.4. Nessa pode ser considerada secundária, conforme
mesma direção, as atividades da Dimensão 3 pode ser observado na Tabela 14.6. Em relação
(Ciências Biológicas e da Saúde) não são esco- às maiores rejeições, estiveram representadas

Tabela 14.4 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Engenharia

Dimensões
Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7
Baixo 2,1 35,1 52,6 36,1 12,4 46,4 40,2
Médio baixo 3,1 32,0 26,8 18,6 20,6 23,7 32,0
Médio alto 21,6 26,8 13,4 22,7 35,1 22,7 20,6
Alto 73,2 6,2 7,2 22,7 32,0 7,2 7,2

Tabela 14.5 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Administração

Dimensões
Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7
Baixo 5,7 21,6 39,8 26,1 1,1 25,0 2,3
Médio baixo 33,0 28,4 36,4 26,1 12,5 25,0 28,4
Médio alto 38,6 34,1 15,9 26,1 27,3 28,4 29,5
Alto 22,7 15,9 8,0 21,6 59,1 21,6 39,8

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Orientação Vocacional Ocupacional 191

as atividades das dimensões 3 (Ciências Bio- ilustra também as atividades das dimensões
lógicas e da Saúde) e 5 (Atividades Burocráti- rejeitadas (Entretenimento, Ciências Humanas
cas), em maior intensidade, e as dimensões 1 e Sociais Aplicadas, Atividade Burocráticas,
(Ciências Exatas) e 4 (Ciências Agrárias e Am- Ciências Exatas, Artes e Comunicação).
bientais) em menor intensidade. Em relação à A última carreira incluída nesse grupo
Dimensão 7, qual seja, Entretenimento, há uma (uma dimensão nítida, mas com aceitação de
distribuição razoavelmente homogênea. outras atividades) é a pedagogia. A Tabela
Os estudantes de medicina preferiram cla- 14.8 ilustra os resultados.
ramente as atividades da Dimensão 3 (Ciências A carreira de pedagogia mostrou reações
Biológicas e da Saúde) e, secundariamente, da 4 de aceitação de atividades de três dimensões,
(Ciências Agrárias e Ambientais). A Tabela 14.7 ainda que sua preferência tenha sido pela Di-

Tabela 14.6 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Jornalismo

Dimensões
Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7
Baixo 46,2 11,5 57,7 46,2 50,0 7,7 23,1
Médio baixo 19,2 15,4 26,9 19,2 26,9 19,2 34,6
Médio alto 30,8 26,9 11,5 23,1 15,4 23,1 23,1
Alto 3,8 46,2 3,8 11,5 7,7 50,0 19,2

Tabela 14.7 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Medicina

Dimensões
Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7
Baixo 42,5 43,8 1,4 11,0 46,6 39,7 54,8
Médio baixo 27,4 32,9 1,4 39,7 39,7 38,4 26,0
Médio alto 20,5 12,3 17,8 24,7 11,0 15,1 12,3
Alto 9,6 11,0 79,5 24,7 2,7 6,8 6,8

Tabela 14.8. Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Pedagogia

Dimensões
Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7
Baixo 29,4 8,8 41,2 29,4 20,6 2,9 14,7
Médio baixo 41,2 35,3 35,3 26,5 32,4 26,5 17,6
Médio alto 17,6 23,5 8,8 11,8 26,5 20,6 44,1
Alto 11,8 32,4 14,7 32,4 20,6 50,0 23,5

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192 Levenfus, Soares & Cols.

mensão 6 (Ciências Humanas e Sociais Apli- profissionais e rejeitam outras. Em acrésci-


cadas). Observou-se de maneira secundária mo, o instrumento favorece a interpretação de
que houve alto interesse por atividades das seus resultados, de tal modo que pessoas de
Dimensões 7 (Entretenimento) e 2 (Artes e Co- diferentes carreiras podem se interessar por
municação). A maior rejeição se deu pela Di- atividades que não são características de suas
mensão 3 (Ciências Biológicas e da Saúde) e, dimensões.
em menor intensidade, pelas Ciências Exatas O objetivo dos autores foi o de apresentar
(Dimensão 1), Ciências Agrárias e Ambientais um instrumento de avaliação de interesses que
(Dimensão 4) e Atividades Burocráticas (Di- pudesse vir a colaborar com os processos de
mensão 5). orientação profissional e de carreira. Tal como
Por último, encontram-se as carreiras nas mencionado, a EAP permite olhar não apenas
quais não foi possível estabelecer uma dimen- para a definição de uma carreira, mas também
são muito clara. Nesse aspecto, em particular, analisar o interesse do indivíduo sob a pers-
podem ser incluídas as carreiras de direito, pectiva de escolha de atividades que podem
educação física e psicologia, cujas preferên- estar presentes em carreiras distintas.
cias e rejeições não se mostraram, em geral, Por certo, a realização de outras pesquisas
altas. Em síntese, há prevalência de certas di- com o instrumento poderá propiciar a expan-
mensões, mas não há tendência marcada de são do conhecimento sobre as características
escolha por parte dos participantes. psicométricas deles. Ao lado disso, é necessá-
rio que estudos com faixas etárias distintas se-
jam realizados com vistas a ampliar os limites
CONSIDERAÇÕES FINAIS de sua aplicabilidade. Convém destacar que
O presente capítulo teve como objetivo muitos outros estudos são ainda necessários,
a apresentação da Escala de Aconselhamen- com amostras distintas e grupos de minorias,
to Profissional, cujo pressuposto é o de que para os quais há poucos instrumentos em con-
os indivíduos escolhem algumas atividades dições de uso no cenário nacional.

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15
Desenhos de profissionais com estórias
na orientação profissional
possíveis aplicações

Caioá Geraiges de Lemos

INTRODUÇÃO Descobri, além disso, nos estudos-


Em minha prática de atendimento a ado- -piloto realizados com a técnica, que sua uti-
lescentes em processos de Orientação Profis- lização não se limita aos adolescentes, poden-
sional (OP), sempre senti a necessidade de do também ser aplicada nos atendimentos de
encontrar um canal de comunicação que me aconselhamento de carreira de adultos jovens
possibilitasse dialogar com os orientandos a em fase de inserção no mercado de trabalho e
partir de proposições que eles mesmos pudes- até mesmo de adultos que apresentam ques-
sem construir e desenvolver. tionamentos a respeito de suas carreiras, des-
Durante meus estudos de mestrado (Le- de que se disponham a realizar desenhos.
mos, 2000), cuja dissertação foi publicada em Um processo de OP é um trabalho de
livro (Lemos, 2001), desenvolvi o Procedimen- intervenção breve, que dura em torno de 8 a
to de Desenhos de Profissionais com Estórias 10 encontros. Em face do tempo limitado que
(DP-E), uma versão temática do Procedimento o orientador profissional dispõe, a utiliza-
de Desenhos Livres com Estórias (D-E), pro- ção de uma técnica projetiva específica para
posto por Trinca (1987). Estava inicialmente a área, como é o caso do DP-E, pode ser um
motivada a criar um canal de comunicação importante recurso auxiliar, juntamente com a
com o adolescente em fase de conclusão do en- entrevista semidirigida em Orientação Profis-
sino médio interessado em escolher uma pro- sional. Ambas possibilitam o rápido levanta-
fissão. A técnica obteve ótima aceitação entre mento de um grande volume de informações
essa faixa etária, pois além de apresentar ca- permitindo, além da elaboração do diagnós-
racterísticas lúdicas, auxiliava o orientando a tico vocacional, que essas informações sejam
expressar seus anseios, suas aspirações e seus trabalhadas ao longo do processo a partir do
temores em relação à vida profissional futura. próprio material que o orientando produziu.
A boa receptividade do DP-E deve-se também Ressalto ainda que as técnicas projetivas
ao fato de ser um recurso facilitador para o tra- são um meio menos usual de comunicação
balho com esse tipo de clientela, que, em geral, do que a linguagem oral; propiciam ótimas
tende a ser lacônica, utilizando-se apenas de condições para o diagnóstico da personali-
poucas palavras para explicar suas dúvidas e dade, pois possibilitam a emergência de as-
anseios. Além disso, por sua própria condição pectos mais profundos e inconscientes que
de imaturidade, trata-se de uma população o sujeito não tem conhecimento, não quer
que desconhece as razões que a motivam a se ou não pode revelar, uma vez que têm um
interessar ou a valorizar determinadas ocupa- conteúdo simbólico menos reconhecido (Van
ções em detrimento de outras. Kolck, 1984).

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Orientação Vocacional Ocupacional 195

O material coletado durante a disserta- segundo pedido contém características mais


ção de mestrado foi tão rico, que excedeu os superegóicas e do Ideal de Ego. O terceiro
objetivos iniciais da pesquisa, o que me fez pedido representa os temores em relação à
dar continuidade aos estudos sobre o DP-E em vida profissional, a perda do Ideal colocado
minha tese de doutorado (Lemos, 2006). Nela, nos pedidos anteriores. Revela também como
desenvolvi estudos de validade e precisão o indivíduo faz para superar a crise, mesmo
com o objetivo de estabelecer critérios de aná- perdendo. O quarto desenho supõe uma sín-
lise seguros para seus futuros usuários. Este tese e uma elaboração dos três pedidos ante-
capítulo é uma breve apresentação da técnica riores, além de requerer do examinando um
a partir da apresentação de um atendimento esforço de abandonar sua condição de jovem
em orientação profissional que realizei. ou adolescente para imaginar-se como adulto,
Na próxima seção, há uma breve expli- exercendo uma ocupação. Os estudos sobre
cação a respeito de algumas características do os aspectos psicodinâmicos das unidades de
DP-E e alguns aspectos relevantes que devem produção do DP-E encontram-se publicados
ser considerados para a análise do material em artigo científico (Lemos, 2007).
produzido. Na seção posterior, é apresenta- Com relação aos procedimentos de análi-
do um estudo de caso de atendimento em OP se e aos critérios para a avaliação do DP-E são
no qual foi empregado o DP-E como recurso vários os aspectos que devem ser observados.
diagnóstico: trata-se de um adolescente em A seguir, apresento alguns mais relevantes.
fase de escolha profissional (primeira esco- Preliminarmente cada unidade de pro-
lha). O nome do orietando foi modificado a dução (Desenho + Estória + Inquérito + Títu-
fim de preservar o sigilo de sua identidade. lo) deve ser examinada segundo a estratégia
holística de livre inspeção proposta por Trin-
ca (1987). Realizam-se sínteses por unidade
CARACTERÍSTICAS E ANÁLISE DOS de produção e uma síntese global das quatro
DESENHOS DE PROFISSIONAIS COM unidades.
ESTÓRIAS1 Nesse tipo de análise procura-se identifi-
car os principais conflitos expressos nos dese-
Os Desenhos de Profissionais com Estó- nhos e nas tramas das estórias, a resolução que
rias são compostos de quatro pedidos, cada o examinando faz (ou não) desses conflitos, se
um deles considerando uma unidade de produ- ele propõe soluções mágicas e idealizadas ou
ção formada por desenho, estória, inquérito e realistas e possíveis.
título: Para as análises tanto dos desenhos
Primeiro pedido: Desenhe um profissional fazendo quanto das estórias utilizo o referencial pro-
alguma coisa. posto por Van Kolck (1984), em termos dos
Segundo pedido: Desenhe um profissional realiza- aspectos adaptativos, expressivos e projeti-
do fazendo alguma coisa. vos. Para avaliação dos aspectos adaptativos,
Terceiro pedido: Desenhe um profissional em crise procuro verificar se a produção do orientando
fazendo alguma coisa. está de acordo com os pedidos solicitados e
Quarto pedido: Desenhe você, em sua profissão fu- se os desenhos e estórias que realizou estão
tura, fazendo alguma coisa. adequados à sua idade, ao sexo e aos níveis
socioeconômico e cultural.
Cada uma das unidades de produção Para avaliação dos aspectos expressi-
apresenta características psicodinâmicas pró- vos, analiso o significado dos aspectos gerais
prias. O primeiro pedido está relacionado ao do desenho partindo do princípio básico de
desejo na vida profissional e está mais rela- que o desenho representa o indivíduo e a fo-
cionado ao Ego Ideal (ego do narcisismo). O lha de papel, o ambiente: posição da folha,

1
Considerações mais detalhadas sobre os procedimentos de análise do DP-E, bem como sua aplicação, serão
futuramente publicadas em forma de manual, pois se encontram em fase de aprovação no Conselho Federal
de Psicologia.

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196 Levenfus, Soares & Cols.

localização do desenho na página, tamanho APRESENTAÇÃO DE ESTUDO


do desenho em relação à folha, atitudes em
relação ao desenho, indicadores de conflito
DE CASO
(omissões, borraduras, sombreamentos, etc). Dados pessoais
Os aspectos expressivos sempre devem ser Nome: Paulo (nome fictício)
considerados em relação ao pedido especí- Idade: 18 anos
fico em que eles aparecem. Por exemplo, a Escolaridade: ensino médio concluído
omissão de pernas na figura humana tem o Tipo de escola: particular
significado de sentimentos de falta de auto- Profissão da mãe: psicóloga e professora
nomia (Buck, 2003). Se tal omissão ocorrer universitária
no segundo pedido (profissional realizado), Profissão do pai: jornalista
esse indicador de conflito sugere a percep- Irmão mais velho de 23 anos: estudante
ção do examinando de que não possui au- de Propaganda e Marketing
tonomia para alcançar a realização profis-
sional. Na estória, procuro observar, no caso Resumo da entrevista em Orientação
do exemplo citado, se o profissional conse- Profissional:
gue empreender ações para superar as difi- Paulo foi trazido para a OP pela mãe (o
culdades que enfrenta e para alcançar seus pai não compareceu às entrevistas). Ele con-
objetivos, se essas ações estão adequadas ao ta estar em dúvida a respeito de várias pro-
contexto e ao campo ocupacional retratado fissões. Chegou a fazer seis meses do curso
no desenho. de Pedagogia na PUC entretanto, achou-o
Para a análise dos aspectos projetivos, muito teórico, não gostou do que aprendia
procuro identificar os fenômenos incons- e desistiu. Atualmente pensa em Jornalismo,
cientes que incluem a dinâmica encoberta Psicologia ou alguma profissão na área de
de conflitos. Para tanto, são levantadas as criação, como Propaganda e Marketing, pois
características atribuídas aos profissionais diz gostar dessa parte. Refere também gos-
que o examinando escolheu desenhar em tar de profissões que estudam o lado social,
cada pedido: os temas retratados, as motiva- como Sociologia. Os pais apoiam suas opções
ções dominantes, as reações ao ambiente, o profissionais.
desempenho das figuras identificatórias, as
características do Ideal de Ego e do Supere- Primeiro pedido: Desenhe um profissio-
go, o manejo do tempo, os mecanismos de nal fazendo alguma coisa.
defesa, entre outros. Observações de aplicação: Demorou 15
Cabe observar também o movimento ela- segundos para iniciar o desenho, após pen-
borativo ao longo das unidades de produção, sar um pouco comentou: “Ah... tá bom!”.
se o examinando é capaz de adaptar-se à ta- Iniciou o desenho pela cabeça da figura hu-
refa e consegue realizar insights ao longo das mana central, fez o corpo e os cabelos, fez a
quatro unidades de produção ou, ao contrá- lousa ao fundo, a mesa com seus objetos e,
rio, se ocorre um progressivo incremento da por último, finalizou desenhando as cabeças
ansiedade e dos mecanismos de defesa, não dos alunos.
permitindo que o examinando se aproxime Estória: “É um professorzão, ele tá dan-
das questões mais conflitivas que experimen- do uma aulinha pra molecada, ah, que mais,
ta em relação ao futuro profissional. sei lá, a galera tá gostando de assistir, não
Para melhor compreensão dos critérios sei (risos), não sou muito bom pra isso... Eu
explicados nesta seção, apresento na seção imaginei uma aula de professor (silêncio). (E
seguinte um estudo de caso de atendimento o que mais?) sei lá, não sei o que mais... É um
em OP que exemplifica como é realizado o professor de terceiro ano do ensino médio,
diagnóstico vocacional utilizando-se o DP-E ele tá ensinando matéria pros alunos... (O que
como recurso técnico e de que maneira foi ele está ensinando?) Não sei do que ele dá aula.
pensada a intervenção a partir desse diag- (Tente imaginar alguma coisa)... Literatura...
nóstico. Acho, não sei.”.

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Orientação Vocacional Ocupacional 197

Inquérito: (Qual a idade do profissional?) do, ele foi aproveitando as oportunidades de


28 anos, (Qualidades do profissional?) É engra- trampo e chamaram ele. (Coisas que mais gosta
çado... faz humor com os alunos... sabe ou- na profissão?) De dar aula. Poder passar para
vir... não se prende só ao profissional... não as pessoas, ajudando o futuro da molecada.
é chato, se preocupa com os alunos, mesmo Quando ele chega ele tem prazer em dar aula.
fora da sala, dá uma aula boa, o pessoal acaba (Coisas que menos gosta na profissão?) Não gosta
gostando dele mesmo assim. (Defeitos do pro- de ter que lidar com diretor, ele dá aula de um
fissional?) Ele chega atrasado, como profissio- jeito não tradicional e o diretor se mete, tô me
nal ele chega atrasado, demora pra devolver lembrando de um professor, ele levava coisas
as provas e às vezes se esquece de explicar diferentes pra aula, coisas atuais, revista com
alguma coisa importante. (Como chegou a ser o matérias, coisa não só de livro de escola, tinha
que é?) Ah, ele estudou muito na facu, sempre mais dinâmica de grupo... eu lembro disso.
soube o que queria, decidido até, se deu bem (Quais os desejos e as aspirações do profissional?)
no que ele queria e foi indo até ser contratado Tem vontade de não parar nunca de dar aula
na escola para dar aula. (Como ele era antes?) e de as pessoas para quem ele deu aula se lem-
Inteligente, mas ele não sabia que ele ia dar brem dele e tenham aprendido coisas que ele
aula um dia, conforme o tempo foi passan- ensinou nesse tempo todo.

Figura 15.1 Paulo: Primeiro desenho.

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198 Levenfus, Soares & Cols.

Título: A história do . . . o professor, não percebe o ambiente (folha) como insuficiente


sei (risos), um dia do cotidiano. para conter todos os aspectos de si mesmo
que deseja colocar, precisando “cortá-las” da
Análise da primeira unidade de produção folha.
Paulo apresenta bastante dificuldade em
O desenho do profissional apresenta um elaborar uma estória nesse primeiro pedido,
tamanho adequado, a figura aparece centrali- que é um momento de adaptação à tarefa, pre-
zada na folha e está em ação, o que evidencia cisando da aplicadora para incentivá-lo. Sua
bons recursos egóicos do examinando. O pro- dificuldade pode também ser decorrente do
fissional é desenhado sem rosto, o que sugere fato de não conseguir atribuir uma identida-
que é muito difícil para Paulo imprimir “uma de ao profissional: apesar de definida a pro-
cara”, uma identidade ao profissional. As rou- fissão (um professor) não consegue definir o
pas largas e os cabelos longos expressam o de- que ele ensina. O inquérito aponta que Paulo
sejo de trabalhar em um ambiente informal e a se identifica com esse profissional devido às
manutenção de características adolescentes. suas características de companheirismo, ami-
Paulo faz o desenho em perspectiva, de zade, afetividade, “um professorzão”, e não
tal forma que o observador é colocado atrás pela atividade que exerce. O professor é um
da cabeça dos alunos que estão assistindo à bom profissional por ser extremamente afeti-
aula, o que sugere um certo distanciamento vo com seus alunos, mas não é competente em
da situação que está sendo retratada. O traça- relação às funções exigidas pelo cargo. O de-
do no desenho é bastante carregado, e Paulo sejo desse adolescente parece estar relaciona-
reforça o desenho várias vezes, o que é indica- do a encontrar uma atividade profissional na
tivo de angústia frente ao pedido (Van Kolck, qual ele possa expressar sua afetividade e não
1984). As cabeças dos alunos aparecem corta- precise ficar preso às atividades burocráticas
das pelo papel, sugerindo a continuidade des- ou rotineiras. Identifica-se com um profissio-
sas três figuras humanas para além da folha. nal que tem uma maneira não convencional
Esse aspecto pode ser indicativo de que Paulo de exercer sua função.

Figura 15.2 Paulo: Segundo desenho.

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Orientação Vocacional Ocupacional 199

Segundo pedido: Desenhe um profissio- era de família pobre, sem muita chance, aí
nal realizado fazendo alguma coisa. sem querer ela descobriu que tinha resistência
Observações da aplicação: Começa a para aguentar maratona, foi recebendo apoio
desenhar imediatamente após o pedido, faz da família, amigos e outros caras que sabiam
primeiro a cabeça da figura humana, o corpo, da profissão dela e disseram que ela tinha fu-
a linha de chegada e finalmente a plateia ao turo e ela foi conseguindo. (Quais os desejos e
fundo. as aspirações dessa profissional?) Continuar ven-
Estória: profissional realizado? Sabe o cendo e ter saúde para continuar exercendo a
que eu pensei? Naquela mulher chegando da profissão dela. (Quais as principais qualidades?)
corrida da maratona, ela tava realizada. En- É persistente, não tem apoio de cima, só força
tão... acabou de ganhar a maratona, tá feliz, interior e o apoio de quem gosta dela. (Quais
era o objetivo mesmo dela, que era ganhar a os principais defeitos?) Engraçado... não consi-
maratona, ela tá realizada porque conseguiu. go pensar nos defeitos... poucos, ela deve ter
Ela pensa no dinheiro que ela tá ganhando, tido uma vontade de desistir, mas não desis-
que a vitória também tá relacionada a poder tiu então não é um defeito, porque ela às ve-
ter dinheiro para as coisas dela. (E o que mais?) zes é meio preguiçosa pra treinar, mas se ela
Depois ela vai subir no pódio, receber um ganhou já não é tanto mais, ela já tá sentindo
prêmio, reconhecimento das pessoas e a par- realizada. (Então qual seria o defeito dela?) Não
tir daí mais chance de trabalho, de corridas, sei... ela vai ser convencida depois, porque ela
vai ter patrocinadores. ganhou, mas é porque ela ganhou, ela não vai
entender a fama, vai ficar achando “sou a me-
Inquérito: (Qual a idade da profissional?) 22 lhor”, depois ela vai cair na real, que não é a
anos, ela já é bastante realizada e é “mó” nova. maior coisa do mundo, é só uma vitória.
(Quais as coisas de que mais gosta na profissão?)
O espírito de competição, competitividade, de Título: A corredora
se preparar para competir. (Quais as coisas de
que menos gosta na profissão?) A falta de patro-
Análise da segunda unidade de produção
cínio, não reconhecimento pelo esporte, eu tô
imaginando uma brasileira. No Brasil, o único O desenho da profissional aparece no-
esporte que é valorizado é o futebol e ela sofre vamente bem constituído, centralizado, bom
pra conseguir patrocínio. (Como chegou a ser o tamanho e sem rosto, características já discu-
que é?) Se esforçando muito, treinando muito tidas anteriormente. A presença de movimen-
pra poder ganhar por que as outras pessoas to voluntário na figura humana é indicativo
também treinam muito. (Como era antes?) Ela de grande mobilidade psíquica (Van Kolck,

Figura 15.3 Paulo: Terceiro desenho.

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200 Levenfus, Soares & Cols.

1984). Paulo escolhe retratar uma atividade tressante, só o que vem à minha cabeça é esse
ao ar livre, dinâmica, até certo ponto alter- negócio de escritório, relatório, prazo para
nativa, pois foge aos padrões tradicionais de entregar... essas coisas, pressão de chefe. (Me
profissão. Entretanto, esta requer disciplina, conta uma história sobre esse profissional que você
dedicação, empenho, persistência e força in- desenhou.) Eu imagino o cara cansado, depois
terior para enfrentar as adversidades, uma de trabalhar a semana inteira em algo que ele
vez que é muito difícil vencer devido à falta nem goste muito, trabalha para ter dinheiro,
de patrocínio e de reconhecimento do esporte. cansado de fazer o que não gosta, tipo insatis-
A escolha de uma mulher para retratar a rea- feito... (E como vai terminar essa estória?) termina
lização na profissão indica que ele possui re- o cara chegando em casa cansadão, aquela ve-
ferências profissionais femininas muito fortes lha rotina de não falar com a mulher direito e
e presentes, possivelmente a figura materna. com o filho, ir dormir porque tem que acordar
Pode indicar também a percepção de Paulo de no sábado porque tem que trabalhar também,
que a realização profissional é da “ordem do mais ainda.”.
feminino”; portanto, sentida como mais dis-
tante de si. Inquérito: (Idade do profissional?) 30 anos,
A profissional aparece com características (Qualidades do profissional?) ele é... bom no que
idealizadas, não consegue encontrar defeitos ele faz, por isso que tá contratado na empresa,
nela, a preguiça e a falta de persistência são mas não é o que quer fazer, faz tudo direitinho,
características pessoais que ele procura negar entrega tudo dentro do prazo, mexe bem no
nesse pedido. Diferentemente do pedido an- computador, entende das manhas, é comuni-
terior, no qual apresenta um profissional até cativo. (Quais os defeitos do profissional?) Tá liga-
certo ponto displicente com suas obrigações do a não gostar de fazer o que ele faz, relaxado,
no trabalho, Paulo busca corresponder às exi- faz o que pedem, mas poderia fazer melhor, se
gências sociais do que é considerado um bom tivesse amor pelo trabalho, ele entrega tudo,
profissional, para então conseguir reconheci- mas não faz com capricho, sabe. (Como chegou
mento social, retorno financeiro e oportuni- a ser o que é?) Ele... não sei... ah, foi meio indi-
dades de crescimento profissional. Nesse sen- cação, ele foi indo, foi aproveitando chance, já
tido, a unidade de produção apresenta mais que não fez a faculdade que ele queria, estava
características do conjunto superego-ideal de insatisfeito com o curso, fazendo o que não
ego (Nijankin e Braude, 2000) que a unidade queria, aí um amigo que devia trabalhar tam-
de produção anterior, a qual apresenta mais bém lá chamou e ele foi ficando, em vez de ser
aspectos relacionados ao desejo na profissão. um emprego temporário ele acabou ficando.
(E o que vai acontecer?) Vai demorar pra ele sair,
Terceiro pedido: Desenhe um profissio- mais uns três anos, aí ele consegue sair. (E o que
nal em crise fazendo alguma coisa. ele vai fazer?) Não sei, imaginei fazendo o que
Observações de aplicação: Ao ouvir o ele gosta, 30 anos, não vai voltar pra faculdade,
pedido, faz o seguinte comentário: “Nossa, fazer alguma coisa com essa área, mas em ou-
meu!... Aaah tá! Primeira coisa que eu pen- tra empresa, ou abrir uma sociedade com um
sei: escritório... o cara em crise trampando na amigo. (E ele vai ficar menos infeliz?) Vai. (Como
frente do computador.” Enquanto desenha a ele era antes?) Eu imagino ele fazendo faculda-
figura humana, a mesa e o computador, co- de, molecão . . . Ah, um cara normal, não é um
menta sobre minhas anotações, o que será que cara especial, ele foi pra um emprego formal,
eu estou analisando do inconsciente dele. En- trabalho normal. (Quais seus desejos e suas aspi-
quanto desenha as “baias” do escritório, faz a rações?) Ter um emprego que não tivesse chefe,
seguinte observação: “Esse aqui é um que não ou até por mim, ele nem sabe o que queria na
quer trabalhar em lugar fechado”. verdade, mas ele sabe que não é isso o que ele
quer, ele quer um emprego mais leve, menos
Estória: “Um cara triste, trampando num pressão, essas coisas. (Do que ele mais gosta na
escritório, de saco cheio, de gravata... (E o que profissão?) Não sei,... gosta do computador, da
mais?) tipo, quando eu vejo um trabalho es- parte da criação, uma parte do trabalho ele

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Orientação Vocacional Ocupacional 201

gosta, ele suporta mais. (Quais as coisas de que por não saber o que quer da vida, ser alguém
ele menos gosta?) Não gosta da parte de cobran- normal, e não especial, e terminar desperdi-
ça, muita enrolação, tipo burocracia, coisas, çando seus talentos em uma atividade que o
documentos que ele tem que fazer. faz sentir-se oprimido.

Título: Não sei... O insatisfeito, o infeliz. Quarto pedido: Desenhe você, em sua
profissão futura, fazendo alguma coisa.
Diante do pedido, comenta: “Mas eu
Análise da terceira unidade de produção
não sei!” (Tente imaginar alguma coisa, veja se
O comentário em relação às minhas ano- você consegue.). Pensa mais de meio minuto
tações reflete a emergência de ansiedades pa- e faz a seguinte observação: “Queria fazer
ranoides frente ao pedido que obriga o indi- diferente do primeiro desenho, mas não con-
víduo a entrar em contato com a crise. Para sigo”. Faz a figura humana central, a figura
Paulo, a crise é conformar-se a uma profissão humana de costas e cabelos compridos à di-
convencional, cobranças burocráticas, uma reita do profissional e a terceira figura huma-
rotina escravizante e estressante. No desenho, na de perfil com o livro na mão. Finaliza com
as baias são fechadas no teto, o que indica a a lousa atrás.
percepção de que o ambiente é restritivo. O Estória: “Não sei como explicar, mas
traçado é mais carregado que nos dois primei- é tipo como se fosse um plano, um projeto,
ros desenhos; a cadeira e os sapatos do profis- mas não é uma aula, é uma explicação. (Ob-
sional, indicativos do contato com a realidade, serva a diferença de tamanho das figuras humanas
aparecem muito sombreados, denotando forte e espanta-se) Nossa! O profissional é muito
angústia frente à situação retratada. Pela pri- maior que as duas outras pessoas! Mas era
meira vez aparecem os traços faciais no rosto pra ser como se fosse grupo, não eu o profes-
do profissional, o que revela que Paulo tem sor. (Como assim?) Um projeto, penso em um
clareza do que não deseja para si. Seu temor projeto, estudo, sei lá. E eu tô dando a minha
em relação à vida profissional futura é acomo- parte na explicação. (E o que vai acontecer?) Sei
dar-se e deixar-se levar pelos acontecimentos lá, eu não sei se é bem um projeto, na verdade

Figura 15.4 Paulo: Quarto desenho.

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202 Levenfus, Soares & Cols.

era... não sei... alguma tese, querendo provar menor, o que demonstra que o desenho apre-
alguma teoria de alguma coisa de social que senta menos conteúdos angustiantes.
dá certo, mais ou menos isso. (E como termina A estória e o inquérito contêm alguns
a estória?) A gente conseguiu provar, os três elementos que definem a atividade do pro-
juntos, desenvolvendo uma ideia.”. fissional; lembram a função de um professor
universitário: o profissional busca desenvol-
Inquérito: (Qual a idade do profissional?) ver ideias (uma tese) e provar alguma teoria
25 anos, (Quais as qualidades?) estudioso, tá de algum aspecto social. O profissional realiza
fazendo o que ele quer. (Quais os defeitos?) criticas às teorias dos outros, estuda a socie-
Defeitos... defeito é sempre mais difícil, não dade, pretende fazer contribuições para essa
aceitar algumas teorias de alguns outros, ser área do conhecimento. Pode-se verificar que
meio crítico assim... demais. (Quais as coisas de houve um movimento elaborativo de Paulo
que mais gosta?) O estudo da sociedade é legal. ao longo dos quatro pedidos.
(Quais as coisas de que menos gosta?) O que tem
de errado na sociedade. (Quais os desejos e as
Trabalho de Intervenção em Orientação
aspirações?) Conseguir entender a sociedade e
acrescentar alguma coisa para essa disciplina. Profissional
Nas sessões posteriores, mostrei os dese-
nhos e reli as estórias a Paulo, explicando, de
Análise da quarta unidade de produção
uma maneira que ele pudesse compreender,
Paulo vê a profissão de professor como os aspectos analisados em cada unidade de
estranha a si mesmo (egodistônica): gostaria produção. Resgatei com ele o desejo por ati-
de ter feito diferente do primeiro desenho, vidades nas quais ele pudesse comunicar algo
porém não conseguiu. Embora seja um res- às pessoas e expressar sua afetividade; retomei
gate do tema do primeiro desenho, ligado ao com ele os motivos que o levaram a escolher
desejo na profissão, Paulo reluta em reconhe- o curso de pedagogia. Trabalhei com Paulo o
cê-lo e assumi-lo. Espanta-se ao perceber sua seu temor a ter que se submeter a atividades
posição de destaque no conjunto da equipe burocráticas e rotineiras que impedissem a
(aparece maior e centralizado na cena) e de- expressão de sua criatividade. Ressaltei que
fine-se como professor negando essa ideia. O toda função possui algum aspecto burocráti-
tempo de reação acima de 30 segundos pode co, por mais criativa que possa ser. Sinalizei
ser outro elemento indicativo dessa dificulda- o desejo de reconhecimento social, em provar
de. A figura do profissional é a única retratada suas ideias aos outros, etc. Mostrei também a
na cena sem rosto, o que denota novamente forte influência de uma figura feminina como
a dificuldade em ver-se nessa posição. Entre- referência profissional em sua vida, possivel-
tanto, a cena retratada é mais integrada que mente sua mãe. Paulo explicou que o trabalho
no primeiro desenho: os alunos estão pró- de sua mãe dentro da psicologia e da área aca-
ximos ao professor, são colocadas de corpo dêmica relacionava-se à psicologia social, que
inteiro e possuem rosto, também estão mais era algo que ele admirava muito. Ao aproxi-
participantes no trabalho do profissional. O mar-se dessas questões, Paulo, ao término do
profissional perdeu os cabelos longos, e a rou- processo de OP, escolheu o curso de Psicolo-
pa parece menos informal, dando a impressão gia, mesmo após termos considerado juntos
ao observador de ser uma figura mais velha, carreiras como Sociologia (Ciências Sociais)
enquanto as demais figuras humanas retrata- e Geografia. Paulo considerou também como
das (que podem ser entendidas como aspectos uma importante possibilidade seguir uma
da personalidade de Paulo que aparecem dis- carreira acadêmica.
sociados) ainda conservam mais características Em síntese, o trabalho de OP com Pau-
adolescentes. A cena como um todo está mais lo consistiu em imprimir um rosto à sua pro-
próxima do observador; além disso, o traçado fissão futura, aproximando aspectos de sua
está menos carregado, houve menos reforça- personalidade que ele tinha dificuldade em
mento das linhas, e a pressão sobre a folha foi reconhecer.

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Orientação Vocacional Ocupacional 203

CONSIDERAÇÕES FINAIS Considero ainda o DP-E uma importante


contribuição para a Orientação Profissional,
Foi apresentado um novo recurso técni- em face da existência de muito amadorismo
co e instrumental para a prática de Orienta- nessa área específica de atuação. Essa técnica
ção Profissional. As análises de cada uma das apresenta estudos de validade e precisão que
unidades de produção do DP-E e do material objetivam definir critérios seguros de análise
como um todo permitem ao psicólogo orien- para seus futuros usuários, bem como unifor-
tador profissional o levantamento de infor- mizá-los por meio de parâmetros qualitativos
mações relevantes para o desenvolvimento e quantitativos.
do trabalho com seu orientando. Ao longo do O adequado uso do instrumento requer
teste, o examinando pode projetar seus dese- do usuário certa familiaridade com os pro-
jos, suas expectativas, seus medos e suas an- cedimentos de aplicação e análise, necessá-
siedades em relação à vida profissional, além ria não apenas nesta que apresentei, mas em
de se colocar exercendo uma atividade profis- todas as técnicas projetivas, o que qualifica o
sional futura. trabalho do profissional.
Procurei demonstrar que o DP-E é uma Assim sendo, espero que os leitores que
técnica facilitadora na comunicação com o tenham se interessado em utilizar os Dese-
cliente. Além disso, o DP-E, aliado a outros nhos de Profissionais com Estórias em seus
recursos, como entrevistas, observações, e à atendimentos venham a ter experiências tão
possibilidade de discussão dos resultados en- interessantes e enriquecedoras quanto as
contrados com o próprio orientando, permite que tenho experimentado em minha prática
identificar dificuldades e perspectivas para o como orientadora profissional e como pes-
trabalho que será desenvolvido. quisadora.

REFERÊNCIAS

BUCK, J.N. H.T.P: casa-árvore-pessoa, técnica projetiva de desenho: manual e guia de interpre-
tação. São Paulo: Vetor, 2003.
LEMOS, C.G. Adolescência e escolha da profissão. São Paulo: Vetor, 2001.
_____. Desenhos de profissionais com estórias: desenvolvimento e características psicodinâmi-
cas. Revista Brasileira de Orientação Profissional, São Paulo, v.8, n.2, p.41-55, 2007.
_____. Desenhos de profissionais com estórias na orientação profissional: estudos preliminares de va-
lidade e precisão. 2006. 241 f. Tese (Doutorado) – Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvi-
mento, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.
_____. O impacto das transformações do mundo do trabalho na aquisição da identidade profissional de
adolescentes. 2000. Dissertação (Mestrado) – Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento,
Universidade de São Paulo. São Paulo, 2000.
NIJAMKIN, G.C.; BRAUDE, M.G. O questionário desiderativo. São Paulo: Vetor, 2000.
TRINCA, W. Investigação clínica da personalidade: o desenho livre como estímulo de apercepção
temática. São Paulo: EPU, 1987.
VAN KOLCK, O.L. Técnicas projetivas gráficas no diagnóstico psicológico. São Paulo: EPU, 1984.

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16
Escala de maturidade para
a escolha profissional (EMEP)

Kathia Maria Costa Neiva

Quando um jovem procura orientação tação de um caso no qual a escala foi aplicada
profissional, algumas das perguntas que fre- no início e no final do processo de orientação
quentemente nos fazemos como orientadores profissional.
profissionais são: Onde este jovem está em seu
processo de escolha? Perdido, em dúvida, quase O CONCEITO DE MATURIDADE
decidido ou querendo confirmar uma escolha já PROFISSIONAL
feita? Será que este jovem tem maturidade sufi-
ciente para escolher uma profissão neste momento Super (1955) introduziu a expressão ma-
de sua vida? Quais as dificuldades que este jovem turidade profissional, referindo-se ao conjunto
está enfrentando para escolher sua profissão? de comportamentos e atitudes que um indiví-
Como poderemos ajudá-lo no seu processo de esco- duo deve empreender objetivando sua inser-
lha profissional ? Da mesma maneira, quando ção profissional. Para esse autor, existem está-
finalizamos um processo de orientação pro- gios de desenvolvimento vocacional, e o nível
fissional, é comum formularmos perguntas de maturidade corresponde ao lugar ocupado
do tipo: Será que a decisão tomada por este jovem pelo indivíduo no continuum desse processo
foi realmente uma decisão madura? ou Mesmo de desenvolvimento.
não tendo escolhido uma profissão, este jovem Crites (1961 e 1965) interessou-se em
evoluiu em seu processo de escolha profissional? compreender melhor esse conceito e, assim,
A falta de instrumentos que permitam não construiu um modelo teórico baseado no pa-
apenas diagnosticar melhor a situação do drão proposto inicialmente por Super (1955).
jovem orientando no início do processo de Ele considerou a maturidade para a escolha
orientação profissional, mas também avaliar, profissional como um fator geral composto
de forma mais precisa, sua evolução ao lon- de quatro dimensões: consistência, realismo,
go do processo de orientação profissional, competência e atitude. De tal modelo resultou
levou-me a estudar com mais atenção o con- a construção do Inventário de Maturidade
ceito de Maturidade para a Escolha Profissio- Profissional (CMI), que possui dois subtestes:
nal e construir a Escala de Maturidade para a o Teste de Competências e a Escala de Atitu-
Escolha Profissional (EMEP). des (Crites, 1965, 1978a, 1979b). Embora essa
O objetivo deste capítulo é apresentar aos escala tenha sido traduzida para vários idio-
leitores a EMEP – um instrumento que tem se mas, são importantes as críticas feitas sobre as
mostrado bastante útil para nós, orientadores várias versões com relação à sua validade e à
profissionais. Inicialmente, discorrerei sobre sua fidedignidade (Westbrock et al., 1980; Alvi
os aspectos teóricos e técnicos da escala para, e Khan, 1982, 1983; Huteau e Ronzeau, 1974;
em seguida, contextualizá-los com a apresen- Japur e Jacquemin, 1989).

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Orientação Vocacional Ocupacional 205

As ideias acima nortearam o delineamen- em um pequeno grupo de estudantes do ensi-


to do modelo de maturidade para a escolha no médio do Liceu Franco-Mexicano, antes e
profissional, por mim proposto (Neiva, 1998, após a participação em um grupo de orienta-
1999), e a construção da EMEP. Para atingir a ção profissional. Alguns itens das subescalas
maturidade para a escolha profissional, é ne- foram adaptados da Escala de Atitudes do
cessário o desenvolvimento de certas atitudes CMI, elaborada por Crites (1965). Essa versão
e a aquisição de determinados conhecimen- não foi submetida a um estudo de validade e
tos. A maturidade para a escolha profissional de fidedignidade, pois a amostra na qual foi
é, portanto, composta de duas dimensões: aplicada era muito reduzida.
Atitudes e Conhecimentos. A dimensão Atitudes A segunda, que surgiu em 1995, foi cons-
compreende três subdimensões: truída em espanhol e possuía um total de 46
itens. Para essa versão, foram eliminados al-
1. Determinação para a escolha profissional. guns itens da original, reformulados outros e
Refere-se a quanto o indivíduo está de- inseridos novos. A escala foi aplicada em uma
finido e seguro com relação à sua esco- amostra de 600 alunos mexicanos que cursa-
lha profissional. vam o ensino médio em escolas particulares;
2. Responsabilidade para a escolha profissio- avaliou-se sua validade e sua fidedignidade e,
nal. Trata de quanto o indivíduo se en- a partir disso, foram obtidas normas para as
gaja no seu processo de escolha e quan- três séries do ensino médio.
to empreende ações para efetivá-la. A versão atual, que foi construída em por-
3. Independência na escolha profissional. tuguês em 1996, mantém a estrutura da ante-
Refere-se ao grau de independência rior. A maioria de seus itens foram traduzidos
presente na escolha profissional, sem e adaptados da versão espanhola; apenas seis
que o indivíduo seja influenciado pe- itens são novos. Essa escala foi aplicada em
las ideias de familiares, professores, uma amostra de 1176 alunos do ensino médio
amigos, meios de comunicação, etc. de escolas públicas e particulares da cidade de
São Paulo. A escala demonstrou, através de
A dimensão Conhecimentos compreende estudo, níveis de validade e de fidedignidade
duas subdimensões: satisfatórios (Neiva, 1998, 1999). Foram obtidas
normas para os alunos de escolas públicas e
1. Autoconhecimento. Refere-se a quanto particulares das três séries do ensino médio.
o indivíduo sabe sobre os diferentes
aspectos de sua pessoa que são rele-
Descrição da Escala
vantes para a sua escolha profissional:
características pessoais, habilidades, A Escala de Maturidade para a Escolha
interesses, valores, etc. Profissional é um instrumento destinado a alu-
2. Conhecimento da realidade educativa e nos do ensino médio, cujo objetivo é avaliar
socioprofissional. Trata de quanto o in- o nível de maturidade para a escolha profissional.
divíduo sabe a respeito de aspectos va- Pode ser aplicada individualmente ou em gru-
riados das realidades escolar e profis- po, e sua aplicação dura em média 15 minutos.
sional: profissões existentes, mercado Tanto a sua forma de aplicação quanto a for-
de trabalho, nível salarial, níveis de en- ma de avaliação são simples e fáceis. A escala
sino, cursos, instituições de ensino, etc. é composta de 45 afirmativas, que indicam ati-
tudes em relação à escolha profissional. Exis-
A ESCALA DE MATURIDADE PARA A tem 23 itens positivos (afirmações que indicam
maturidade) e 22 itens negativos (afirmações
ESCOLHA PROFISSIONAL que indicam imaturidade). A tarefa do sujeito
Para chegar à versão atual da EMEP, é avaliar a frequência de cada atitude, classi-
foram construídas e testadas várias outras ao ficando-a em uma das cinco modalidades de
longo de cinco anos. A primeira, que surgiu resposta : (1) nunca , (2) raramente, (3) às vezes,
em 1994, foi construída em francês e aplicada (4) frequentemente e (5) sempre (Neiva, 1999).

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206 Levenfus, Soares & Cols.

Esses itens estão agrupados nas seguin- Conhecimento da realidade educativa e so-
tes subescalas: Determinação, Responsabili- cioprofissional.
dade, Independência, Autoconhecimento e

Apresentam-se, a seguir, como exemplo, dois itens de cada subescala: um positivo e um


negativo:

Subescala Itens

(+) Penso que já decidi minha futura profissão.


Determinação
(-) Me sinto confuso(a) com relação à minha escolha profissional.

(+) Reflito sobre como decidir minha futura profissão.


Responsabilidade (-) Penso que ainda não devo me preocupar com a minha escolha
profissional.
(+) Acho que a opinião de meus pais pouco influencia a minha escolha
profissional.
Independência
(-) Penso que me deixo influenciar pela opinião das pessoas sobre a
profissão que devo escolher.
(+) Para mim é fácil separar minhas habilidades em mais fortes e mais
Autoconhecimento fracas.
(-) Tenho dificuldade para definir que tipo de pessoa eu sou.

Conhecimento da (+) Posso apontar facilmente as profissões que oferecem um bom


Realidade Educativa e mercado de trabalho.
Socioprofissional (-) Considero que sei muito pouco sobre o nível das universidades.

Para a avaliação de cada subescala, exis- tal o quadro de normas que corresponda ao
tem crivos específicos que facilitam o cálculo tipo de escola cursada pelo orientando (parti-
da pontuação bruta obtida pelo sujeito em cular ou pública) e à sua série escolar (1º, 2º ou
cada uma delas. São obtidas, assim, pontua- 3º ano do ensino médio). Para obter a classifi-
ções brutas para as cinco subescalas e para a cação de cada pontuação Percentil utiliza-se a
escala total. Cada pontuação bruta é conver- Tabela 16.1:
tida à pontuação Percentil, utilizando-se para

Tabela 16.1. Classificação da Pontuação Percentil – EMEP*

PERCENTIL CLASSIFICAÇÃO
1 MUITO INFERIOR (I-)
5-10 INFERIOR (I)
20-25 MÉDIO INFERIOR (MI)
30-70 MÉDIO (M)
75-80 MÉDIO SUPERIOR (MS)
90-95 SUPERIOR (S)
99 MUITO SUPERIOR (S+)
* Esta tabela foi extraída do manual da EMEP (Neiva, 1999, p. 64), com a autorização da Vetor Editora Psi-
copedagógica.

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Orientação Vocacional Ocupacional 207

Os passos detalhados sobre aplicação, não tenha havido evolução, tampouco que
avaliação e interpretação da EMEP, bem como não tenha havido amadurecimento em rela-
os quadros de normas, podem ser encontrados ção à escolha profissional. A comparação dos
no manual da escala (Neiva, 1999). A interpre- resultados pré e pós-orientação profissional
tação dos resultados é feita tomando como base permite detectar os aspectos que mais se de-
aquilo que mede cada subescala. senvolveram e os que ainda necessitam um
maior amadurecimento. Uma pesquisa rea-
lizada comprovou essa utilidade do instru-
Usos da Escala
mento (Neiva, 2000).
A Escala de Maturidade para a Escolha Avaliar o programa de Orientação Profissio-
Profissional pode ser utilizada em várias áreas nal desenvolvido. A comparação dos resultados
da Psicologia e com diferentes objetivos: pré e pós orientação profissional permite tam-
Detectar alunos que necessitam de orien- bém avaliar o trabalho de orientação profissio-
tação profissional. Os alunos que apresentam nal desenvolvido pelo orientador. Instituições,
um nível de maturidade para a escolha pro- profissionais e serviços de orientação propõem
fissional abaixo da média deveriam ser enca- programas de orientação baseados em dife-
minhados para uma orientação profissional, rentes concepções teóricas e metodológicas,
visando o desenvolvimento de tal maturida- mas carecem de um instrumento que permita
de. Para as instituições de ensino que traba- avaliar a consistência e a eficácia do trabalho
lham com um grande contingente de alunos, proposto. A EMEP pode ser de grande valia na
esse instrumento pode ser muito útil, uma avaliação de programas de orientação profis-
vez que permite um diagnóstico rápido, sional (Neiva, 2000; Nogueira, 2004).
simples e fidedigno. Além disso, através dos
resultados da EMEP, é possível conscientizar
Apresentação de um caso
os alunos para a sua dificuldade de escolha e
sensibilizá-los para a necessidade de buscar M. é uma moça de 19 anos que acabou a 3º
ajuda profissional. ano do ensino médio, fez um ano de cursinho
Diagnosticar e planejar o processo de Orien- e prestou vestibular para Jornalismo, passan-
tação Profissional. A aplicação da escala no do na segunda opção, Ciências Sociais, na qual
início do processo de orientação profissional se matriculou. Buscou Orientação Profissional
permite ao orientador diagnosticar os aspec- incentivada pelo pai, que estava preocupado
tos mais e menos desenvolvidos da maturida- com a sua carreira profissional. Formulou sua
de do aluno e, consequentemente, planejar de dúvida entre continuar o curso de Ciências
forma mais clara o trabalho a ser desenvolvi- Sociais e depois fazer Jornalismo (ideia que o
do. Um exemplo seria o caso de um adolescen- pai incentivava, considerando que o curso de
te que apresenta um nível abaixo da média na Ciências Sociais poderia dar-lhe uma base sóli-
subescala de Responsabilidade. O orientador da para o de Jornalismo); solicitar transferência
deveria conscientizá-lo do seu pouco engaja- para Jornalismo ou fazer Publicidade.
mento no processo de escolha profissional e Seu interesse por Jornalismo já existia
sensibilizá-lo para a necessidade de empreen- há algum tempo. Sempre gostou muito de
der mais ações com vistas ao amadurecimento pesquisar, considerando-se muito curiosa e
dessa decisão. comunicativa. Fez um estágio em uma edito-
Avaliar a evolução do orientando ao longo ra durante o qual participou de uma pesqui-
do processo de Orientação Profissional. A apli- sa para um livro e teve de entrevistar várias
cação da escala no início e no final do pro- pessoas. Esse estágio reforçou seu interesse
cesso de orientação, e a comparação dos por Jornalismo. Já havia pensado também em
resultados iniciais e finais, permite avaliar Publicidade, mas o que a desestimulou foi a
a evolução do sujeito ao longo do processo. ideia de ser obrigada a fazer um projeto para
Muitos indivíduos finalizam o processo de agradar o cliente, “fazer do jeito que ele qui-
orientação profissional sem terem escolhido ser” (sic). Entretanto, a orientanda tem uma
uma profissão, mas isso não significa que amiga que cursa Publicidade e está transmi-

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208 Levenfus, Soares & Cols.

tindo outra ideia de tal situação; isso a fez re- nal de M. era médio, indicando que ainda ne-
tomar seu interesse por essa profissão. Com cessitava desenvolver algumas atitudes e ad-
relação a Ciências Sociais, apesar de concor- quirir alguns conhecimentos para tomar uma
dar de certa forma com a ideia do pai, prefere decisão madura e consciente. Apesar de M.
fazer um curso que lhe ofereça a possibilidade estar responsabilizando-se bastante por sua
de uma atuação prática. Não quer ficar tanto escolha profissional e empreendendo ações
tempo estudando. Mas preocupa-se em fazer para efetivá-la (Responsabilidade = MS), ela
seu pai aceitar o seu ponto de vista. ainda estava bastante indecisa e insegura (De-
A reprovação no vestibular de Jornalismo terminação = MI), deixando-se influenciar por
foi uma vivência difícil para M. e também para algumas pessoas, certamente seu pai e amigos
sua família, visto que ela sempre foi uma boa (Independência = M).
aluna, destacando-se em seu grupo escolar. M. mostrou ter pouco conhecimento so-
Essa situação parece ter abalado a autoconfian- bre si, sobre seus interesses, suas motivações,
ça da orientanda com relação às suas capacida- suas habilidades, seus valores (Autoconheci-
des e ao seu projeto profissional. A interferên- mento = MI); e mostrou algum conhecimen-
cia de seu pai, uma figura importante para M., to da realidade educativa e socioprofissional
parece aumentar sua insegurança e dificultar (M). Esses resultados indicavam claramente
seu processo de escolha profissional. Apre- as dificuldades de M., sua insegurança, as in-
sento, na Tabela 16.2, os resultados obtidos na fluências que estava absorvendo e seu autoco-
EMEP, aplicada na primeira sessão. nhecimento deficiente.
Os resultados iniciais mostraram que o Durante o processo de orientação pro-
nível de maturidade para a escolha profissio- fissional, que durou cerca de 10 sessões in-

Tabela 16.2 Resultados da EMEP Pré-Orientação Profissional

ESCALA PERCENTIL CLASSIFICAÇÃO


Determinação 25 Médio Inferior (MI)
Responsabilidade 80 Médio Superior (MS)
Independência 60 Médio (M)
Autoconhecimento 20 Médio Inferior (MI)
Conhecimento da realidade
50 Médio (M)
educativa e socioprofissional
Maturidade total 50 Médio (M)

Tabela 16.3 Resultados da EMEP Pós-Orientação Profissional

ESCALA PERCENTIL CLASSIFICAÇÃO


Determinação 50 Médio (M)
Responsabilidade 99 Muito Superior (S+)
Independência 75 Médio Superior (MS)
Autoconhecimento 30 Médio (M)
Conhecimento da realidade educativa
90 Superior (S)
e socioprofissional
Maturidade total 80 Médio Superior (MS)

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Orientação Vocacional Ocupacional 209

dividuais, procurei trabalhar esses aspectos, nificativamente seu nível de conhecimento a


ajudando-a a se conhecer melhor, a identificar respeito de realidade educativa e socioprofis-
suas motivações e seus interesses, suas habili- sional (S).
dades, seus valores, seus critérios de escolha e No final do processo de Orientação Pro-
suas expectativas em relação ao futuro; a supe- fissional, M. mostrou-se mais confiante em re-
rar os conflitos existentes na relação com seu lação à sua escolha profissional e melhor pre-
pai, a forte influência exercida por ele, suas parada para defendê-la junto a seu pai. Ainda
expectativas versus as expectativas de seu pai; assim, procurei conscientizá-la da necessidade
e a ampliar sua informação sobre a realidade de continuar buscando um maior autoconhe-
profissional (Neiva, 1995, 2007). Apresento na cimento e reforçando sua autoconfiança.
Tabela 16.3, os resultados obtidos ao reaplicar
a EMEP na última sessão.
Os resultados mostram que M. desenvol-
CONSIDERAÇÕES FINAIS
veu sua maturidade para a escolha profissio- A Escala de Maturidade para a Escolha
nal (MS), assim como todos os aspectos que a Profissional tem se mostrado um instrumento
compõem. Ela engajou-se ao máximo no seu útil para Orientadores Profissionais nas áreas
processo de escolha, alcançando um alto nível clínica, escolar e de pesquisa. Como instru-
de responsabilidade com relação a tal decisão mento diagnóstico, permite uma avaliação
(S+). Passou a levar mais em conta suas pró- simples e rápida da situação do orientando
prias opiniões, influenciando-se menos pelas frente ao processo de escolha e auxilia o pla-
opiniões dos outros e principalmente pelas nejamento do trabalho a ser desenvolvido du-
do seu pai (Independência = MS). M. desen- rante a orientação profissional. Como instru-
volveu sua segurança, avançando na sua es- mento avaliativo da evolução do orientando,
colha (Determinação = M), decidindo que pe- oferece um parâmetro do alcance do trabalho
diria transferência para Jornalismo, pois essa realizado, dos aspectos desenvolvidos e da-
profissão era a que mais correspondia ao seu queles ainda a desenvolver. Como todo ins-
perfil. Além disso, aumentou, um pouco, seu trumento psicológico, ele pode ser utilizado
nível de autoconhecimento (M) e elevou sig- em diversas pesquisas.

REFERÊNCIAS

ALVI, S.A. E KHAN, S.B. A study of the criterion related validity of Crites’ Career Maturity In-
ventory. Educational and Psychological Measurement, 42:1285-1288, 1982.
ALVI, S.A. E KHAN, S. B. An investigation into the construct validity of Crites’ Career Maturity
model. Journal of Vocational Behavior, 22:174-181, 1983.
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17
Berufsbilder Test (BBT)
teste de fotos de profissões em
processos de orientação profissional

André Jacquemin • Lucy Leal Melo-Silva • Sônia Regina Pasian

CONTEXTUALIZAÇÃO DO BBT tados preliminares dos trabalhos científicos


desenvolvidos com o BBT no Brasil. Trata-se,
A história de criação e de desenvolvi- na verdade, do manual do BBT para o contex-
mento de qualquer instrumento de análise das to brasileiro que deverá, necessariamente, ser
variáveis psicológicas dos indivíduos retrata, consultado pelos psicólogos interessados em
necessariamente, posicionamentos teóricos de utilizar essa técnica.
seus autores, além, é claro, de vivências pesso- A partir dessa base, muitos avanços fo-
ais e motivações particulares de seu trabalho. ram realizados na utilização do BBT em nos-
Assim também acontece com o BBT, mas com sa realidade, fundamentando melhor seu uso
a peculiaridade de seu criador sempre teste- de forma válida e confiável (Jacquemin, 1997;
munhar nos contatos pessoais estabelecidos Melo-Silva e Jacquemin, 1997; Sbardelini,
nos centros universitários onde divulgou sua 1997; Melo-Silva e Santos, 1998; Ribeiro, 1998;
técnica, como no Centro de Pesquisas em Psi- Melo-Silva, Bonfim e Assoni, 1999; Melo-Silva,
codiagnóstico da Faculdade de Filosofia, Ciên- Noce e Andrade, 1999; Melo-Silva e Jacque-
cias e Letras de Ribeirão Preto – Universidade min, 1999; Bernardes, 2000; Melo-Silva, 2000;
de São Paulo, um forte envolvimento afetivo Welter, 2000a, b). Com tal perspectiva, desde
com suas ocupações. Transmitia plenamente sua introdução como técnica de avaliação psi-
sua satisfação e sua realização profissional, cológica em nosso contexto (Jacquemin, 1982),
exemplificando sua concepção teórica sobre o o BBT passou por amplo processo de valida-
mundo do trabalho e sua importância na vida ção, como já descreviam Jacquemin e Pasian
dos indivíduos. (1991) ao historiar o uso da técnica no Brasil:
Não há maneira de abordar o BBT como
recurso técnico em processos de Orientação As novas perspectivas que o BBT
Profissional sem relatar essa história e solicitar desperta e abre para a orientação em ge-
a atenção para este componente do instrumen- ral nos motivaram a divulgá-lo no Brasil
to. A comprovação dessas evidências pode ser (Jacquemin, 1982), assim como a iniciar
elaborada pelos capítulos da tradução brasi- diversas pesquisas sobre a validade in-
leira do livro original sobre o BBT (Achtnich, terna do material e sua adequação ao
1991). Esse material constitui a base de consulta contexto cultural brasileiro, já que as fo-
dos profissionais que utilizam tal instrumento, tos focalizam aspectos culturais próprios
pois contém elementos descritivos do método, de personagens europeus e, às vezes, ati-
sua história, sua utilização técnica (normas de vidades que podem ser pouco conheci-
aplicação, de avaliação e de interpretação), sua das no Brasil. (p. 208)
aplicabilidade e seus limites, incluindo resul-

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212 Levenfus, Soares & Cols.

Resultados desse longo processo de adap- se entende por Orientação Profissional. Reite-
tação do BBT ao contexto sociocultural brasi- ramos aqui as afirmações de Achtnich (1991):
leiro estão condensados na criação do BBT-Br,
em suas versões masculina e feminina, mate- Consideramos o aconselhamento
rial a ser utilizado pelos psicólogos brasileiros, em Orientação Profissional como um
conforme atestam as recentes publicações de processo de desenvolvimento. O acon-
Jacquemin (2000); Jacquemin, Noce e Assoni selhamento em Orientação Profissional
(2000) e Jacquemin, Noce, Assoni, Okino, Pra- tem a chance de promover no sujeito um
do e Zeotti (2000); Jacquemin, Noce, Okino, processo de maturação e de tomada de
Santos, Assoni, Bianchi e Marcos (2000a, b). consciência. (...) A tomada de decisão
Considerando esse panorama, o presente capí- pertence àquele que procura seu cami-
tulo descreve sucintamente o instrumento em nho profissional; contudo, essa toma-
si e concentra a atenção sobre as possibilidades da de decisão não lhe será possível se
informativas e o uso do BBT em processos de ele não puder clarificar suas próprias
Orientação Profissional, postulando a existên- tendências. Assim, concebemos o teste
cia de domínio teórico-metodológico sobre a como um instrumento desse processo de
técnica. clarificação. (p. 19)

OBJETIVO E PRINCÍPIOS TEÓRICOS Com base nessa concepção de uma parti-


DO BBT cipação ativa e intensa do orientando em seu
processo de Orientação Profissional, o BBT
Como retratado no próprio nome do ins- emerge como um recurso técnico bastante rico
trumento (Berufsbilder Test – BBT: Teste de Fo- e promissor. Por ser baseado em fotos de ativi-
tos de Profissões), seu objetivo é a clarificação dades profissionais, pode oferecer elementos
da inclinação profissional, podendo ser con- da dinâmica psíquica dos indivíduos direta-
siderado, por suas características constitucio- mente relacionados com a temática da escolha
nais, uma técnica projetiva de avaliação psico- ocupacional. Como disse Draime (1991) a res-
lógica. Nesse sentido, encaixa-se no grupo de peito da constituição do BBT:
instrumentos com amplas possibilidades de
aplicação e de recursos interpretativos para Além do mais, essas fotos represen-
diferentes contextos, oferecendo informações tam profissionais em atividade. Perma-
significativas sobre o perfil de interesses e mo- necemos no contexto da orientação. Co-
tivações (conscientes e inconscientes) do indi- locar a questão da orientação em termos
víduo ou do grupo de indivíduos a ele subme- de escolha profissional ou de projeto de
tidos. Como disse Achtnich (1991) no prefácio existência, no sentido como o entende
da edição francesa de seu livro: Szondi, pai espiritual do autor do teste,
é, sem dúvida, o essencial da abordagem
O BBT favorece um contato huma- de M. Achtnich. (p. 7)
no. É aí que está sua maior qualidade e
não se deve negligenciá-la. (...) Em resu- Nesse processo de busca de um “projeto
mo, o teste permite a orientação daqueles de existência” satisfatório, em termos profis-
que desejam compreender melhor sua sionais, é que as formas masculina (Achtnich,
vida, sua pessoa, seu destino. (p. 8) 1971) e feminina (Achtnich, 1973) do BBT po-
derão auxiliar na conscientização das deman-
A amplitude de aplicações do BBT pode- das internas ou, nos termos de Achtnich, na
ria suscitar a questão: como é o uso do BBT clarificação das inclinações profissionais.
no processo de Orientação Profissional? Quais
suas possíveis contribuições e seus limites téc-
Sua constituição
nicos? Por que, para que e como utilizá-lo?
Certamente para essas perguntas devem Composto por 96 fotos, o BBT representa
existir respostas de contextualização do que pessoas exercendo atividades profissionais,

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Orientação Vocacional Ocupacional 213

sendo constituído por duas versões: mascu- • Fator M: a matéria, o concreto, o terres-
lina (Achtnich, 1971) e feminina (Achtnich, tre, a possessão, o poder.
1973). Na forma feminina, possui quatro fotos • Fator O: oralidade (Or: necessidade de
complementares. As fotos são distribuídas em falar, discorrer, comunicar; On: neces-
função dos oito fatores de inclinação, confor- sidade de nutrir, alimentar).
me formulação teórica de Achtnich (1991):
Cada foto do teste representa um parea-
• Fator W: ternura, sensibilidade, dispo- mento fatorial de duas tendências. O fator
nibilidade, necessidade de tocar, apal- que possui o caráter evocador mais forte é o
par, estar disponível. primário, representado pela atividade mostrada
• Fator K: força física, dureza, agressivi- na foto e designado por uma letra maiúscula
dade, obstinação. (Exemplo: W). A segunda tendência, chamada
• Fator S: aspecto social (Sh: disponibi- fator secundário, representa o objeto, o objetivo,
lidade para ajudar, necessidade de fa- o instrumento e o local da atividade profissio-
zer o bem, interesse pelo outro, cuidar, nal, sendo designado por uma letra minúscula
curar; Se: energia psíquica, dinamismo, (Exemplo: s).
coragem, capacidade para se impor, Esses elementos podem ser melhor visua-
luta por independência, necessidade lizados na Figura 17.1.
de movimento e deslocamento). Os fundamentos dessa estruturação bási-
• Fator Z: necessidade de mostrar, estar ca do BBT podem ser depreendidos da seguin-
em evidência, representar; estética. te abordagem de Achtnich (1991):
• Fator V: inteligência, razão, lógica, ne-
cessidade de clareza de pensamento, Cada foto possui um caráter de evo-
delimitação, objetividade, realidade. cação que articula os pensamentos e os
• Fator G: espírito, intuição, imaginação sentimentos de um sujeito em um senso
criadora. bem determinado. Cada foto contém um

Figura 17.1 A foto da cabeleireira (Wz) na versão feminina do BBT-Br (2000): fator primário W e
fator secundário z.1

1
Esta foto foi uma das inúmeras testadas durante o processo de adaptação do BBT ao contexto sociocultural
brasileiro. Está aqui representada para ilustrar os fatores (primário e secundário) da técnica, mas sem cor-
responder à elaboração final do teste. Optou-se por essa representação (e não pela representação real da foto
do BBT) objetivando a proteção ética ao material.

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214 Levenfus, Soares & Cols.

fator primário e um fator secundário, isto um falseamento de racionalizações. Per-


é, ela representa uma acoplagem fatorial, mitir, assim, uma elaboração da estru-
na qual o fator primário possui um ca- tura de uma inclinação profissional pré-
ráter de evocação mais forte que o fator -conceitual, passível de maior proximi-
secundário. (...) Geralmente a atividade dade com o mundo interno e de suas
representada na foto será a expressão do implicações nas escolhas cotidianas, in-
fator primário, enquanto o objeto profis- clusive ocupacional.
sional, o meio, etc., representam o fator
secundário. (p. 39) Para reforçar as possibilidades do pro-
cesso de clarificação da escolha profissional
Essa constituição técnica do BBT está mi- por meio do BBT, destacamos o argumento
nuciosamente descrita e abordada no manual utilizado por Draime (1991):
do instrumento (Achtnich, 1991), o qual indi-
camos aos interessados na aprendizagem do Se o teste de Achtnich tem seu lu-
método. gar na consulta de orientação, devemos
Do ponto de vista técnico, o BBT está acrescentar que ele se inscreve também
constituído de forma a ter como vantagens em um estilo de consulta centrada na
enquanto instrumento de avaliação psicoló- escuta, visando à clarificação da escolha
gica, como pela palavra. A maior parte dos testes
aparecem como instrumentos a ‘serviço
• ser composto por fotos, naturalmente do olhar’ do psicólogo que deve com-
suscitadoras de interesse de conta- preender, ter uma visão clara para dar
to pelo material, ao menos na grande um conselho. É o esquema da pesquisa
maioria dos indivíduos a elas expostos. linear da verdade objetiva que coloca o
Utilizar-se, dessa forma, da linguagem orientando em uma posição de objeto de
das imagens, em um contato visual, na observação. A passividade que é induzi-
qual as possibilidades projetivas po- da nele pela atitude de observação impe-
dem ocorrer de forma espontânea; de a iniciativa de um trabalho pessoal de
• atingir uma esfera afetiva do indiví- clarificação que, em nosso ponto de vista,
duo, não lhe exigindo uma abstração deve ser feito pelo próprio orientando, se
conceitual direta sobre o mundo ocu- quisermos chegar a uma escolha profis-
pacional, embora exista subliminar- sional motivada. (p. 7)
mente por meio da atividade proposta
(escolher fotos de atividades que agra- Esse estilo de consulta apontado por
dam, desagradam ou são indiferentes Draime (1991) corresponde à modalidade
a ele); clínica de Bohoslavsky (1971/1991), que tem
• solicitar que o indivíduo seja ativo no fortemente influenciado a Orientação Profis-
processo de contato com o material, sional no Brasil, em oposição à modalidade
exercitando decisões, escolhas, posi- estatística utilizada na primeira metade do sé-
cionamentos pessoais (classificação culo passado. Na modalidade clínica, o orien-
das fotos, como antes referido). Em tando é ativo e capaz de escolher.
outras palavras, o indivíduo que passa Dessa forma, enfatiza-se no BBT a rele-
pelo BBT experimenta e sinaliza direta- vância da atividade do orientando e de seus
mente no contato com o psicólogo seu processos de decisão sobre as fotos dos profis-
processo de tomada de decisão, essen- sionais como uma amostra de seu modo de ser
cial em Orientação Profissional; e de agir em seu cotidiano, componente signi-
• oferecer um processo de sistematização ficativo da Orientação Profissional. Analisar os
de informações sobre interesses e moti- indicadores técnicos do BBT a partir da pro-
vações do indivíduo ou de um grupo de posta de seu autor corresponde a uma atitude
indivíduos de modo a compor uma re- de valorizar o processo projetivo e a emergên-
presentação de elementos internos sem cia dos determinantes inconscientes da esco-

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Orientação Vocacional Ocupacional 215

lha profissional, recorrendo-se, para tanto, ao potencial específico de gratificação e de satis-


processo de escolha de fotos e de elaboração fação. Nesse sentido, toda profissão exigirá
de associações pessoais sobre elas. Parece-nos do indivíduo algumas características como
adequado novamente citar um trecho do pre- aptidão, disponibilidade afetiva (inclinação
fácio de Draime (1991) para a edição francesa pessoal), interesse, motivação (a partir de suas
do livro de Achtnich, reforçando sua ênfase na necessidades) e treinamento (teórico e práti-
relevância das associações desenvolvidas pelo co) para determinadas ações. Nesse complexo
indivíduo sobre as fotos do BBT como material processo é que o indivíduo desenvolverá sua
significativo para a compreensão de seu mun- identificação profissional, ou seja, o reconhe-
do interno. Em suas palavras: cimento do que de fato existe na atividade
ocupacional que poderá ser exercido como
É esta última etapa que o teste de fonte de gratificação de suas necessidades,
Achtnich privilegia, no sentido de que assumindo um papel e uma identidade pro-
ele é um campo aberto à palavra. Verba- fissional.
lizar escolhas e rejeições de fotos, comen- Portanto, torna-se claro que nos proces-
tar os agrupamentos efetuados e sobre- sos de Orientação Profissional será necessário
tudo explicitar – pelas associações – as também o conhecimento das características
origens da escolha de cada foto (fase cen- técnicas das profissões, a fim de permitir o re-
tral da prova) são as etapas que levam o conhecimento de suas exigências e de suas pos-
orientando a clarificar sua escolha. É, em sibilidades de satisfação pessoal. Essa noção
outros termos, reconhecer, denominan- da estrutura fatorial das profissões é elemento
do, as motivações profundas da escolha teórico fundamental nos processos de Orien-
profissional, e permitir que elas se arti- tação Profissional que integram o uso do BBT.
culem pela palavra e ganhem finalmente Esse cuidado técnico decorre diretamente do
sentido na coerência da decisão que será fato de que, no instrumento proposto por
tomada. (Draime, 1991, p. 7) Achtnich (1991), há um embasamento teórico
associado à concepção da Análise do Destino,
Essas palavras localizam com proprie- de Szondi (1944/1972), em que a atividade
dade os princípios norteadores básicos da profissional corresponderia a um processo de
utilização do BBT no processo de Orientação socialização dos impulsos e de necessidades
Profissional, fundamentando a busca por essa vitais. Pelo processo do desenvolvimento hu-
técnica no contexto referido. mano, as necessidades pessoais se transforma-
riam em interesses profissionais, em direta de-
O BBT E AS PROFISSÕES pendência das oportunidades e das demandas
socioculturais do ambiente em que se vive. O
As possibilidades informativas do BBT conhecimento e a tomada de consciência das
estão associadas, como anteriormente refe- demandas internas, associados ao reconheci-
rido, à clarificação de inclinações motivacio- mento da estrutura fatorial das profissões, se-
nais, e não às capacidades pessoais. No en- riam condições necessárias para a promoção
tanto a opção por uma atividade ocupacional de opções ocupacionais satisfatórias.
implica, necessariamente, acomodações do A partir de tais noções, pode-se depre-
indivíduo à realidade objetiva em que vive. ender a relevância da análise da concordân-
Na verificação das oportunidades do mundo cia entre a estrutura de uma profissão e a
real para a satisfação das motivações internas, inclinação pessoal de um indivíduo, como
inclui-se a necessidade do conhecimento e do sempre enfatizado por Achtnich (1991). Nos
reconhecimento das efetivas potencialidades casos em que houver correspondência entre
individuais, das características das atividades ambas, haverá, com maior probabilidade, su-
profissionais e das transformações sociais, po- cesso profissional e, nessa concepção teórica,
líticas e econômicas do mundo do trabalho. bem-estar, felicidade, ou seja, saúde mental.
Toda profissão é constituída por uma de- A discordância entre a inclinação pessoal e a
terminada estrutura de exigências e por um estrutura profissional, por sua vez, seria fator

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216 Levenfus, Soares & Cols.

estimulador de frustrações, fracasso profis- Por essa postulação, o BBT acabou sendo
sional e seus correspondentes: insatisfação, estruturado de forma a retratar essa realidade
adoecimento, sofrimento no exercício do tra- do mundo ocupacional em cada uma de suas
balho. Esses elementos podem ser facilmente fotos componentes, oferecendo uma represen-
depreendidos na seguinte passagem: tação simbólica das opções existentes em nos-
so ambiente. Cada foto do BBT, portanto, ofe-
O rendimento profissional depende recerá um contato direto com uma atmosfera
diretamente da satisfação e do interes- profissional, com suas funções relevantes, com
se que se dedica ao trabalho e, assim, a seus instrumentos e meios profissionais, com
clarificação das inclinações toma uma seu objeto de ação e com seu local de trabalho.
significação prognóstica. Quando a pro- Decorre dessa construção teórico-técnica a ati-
fissão escolhida não corresponde às incli- vidade de posicionamentos pessoais proposta
nações, falamos de escolha profissional ao indivíduo no instrumento projetivo, como
discordante, a qual ocasiona uma insatis- formula Achtnich (1991):
fação e, por conseguinte, uma queda do
rendimento. No melhor dos casos, uma As fotos do teste mostram os profis-
mudança de emprego pode ocorrer; no sionais no trabalho. O sujeito que deve
pior, a escolha discordante pode provo- escolher entre tais imagens identifica-se
car a doença e as reações psíquicas mór- por um breve instante com o trabalhador
bidas. (Achtnich, 1991, p. 11) representado e se vê confrontado com a
pergunta: “Eu poderia, assim como este
Assim, torna-se evidente a relevância em trabalhador, efetuar tal trabalho com os
se conhecer as características da estrutura fa- mesmos instrumentos e estes materiais,
torial das profissões, bem como as inclinações neste meio profissional?”. A estrutura
motivacionais individuais. de inclinação do sujeito é solicitada atra-
O universo profissional é constituído por vés da identificação com o trabalhador.
uma estrutura fatorial composta por diferen- A partir da interpelação afetiva, o sujei-
tes elementos (que estão representados nas to opera espontaneamente uma escolha.
fotos do BBT), conforme claramente expõe (p. 17)
Achtnich (1991):
Com base nesses pressupostos, sustenta-
Toda descrição da profissão comporta os -se a utilização do BBT como técnica de ava-
seis seguintes aspectos: liação projetiva, tendo por meta a clarificação
da inclinação profissional do indivíduo ou de
• a designação precisa da profissão; um grupo de indivíduos.
• as atividades exercidas nesta profis-
são; AS POSSIBILIDADES DE APLICAÇÃO
• o objeto profissional, material, aquilo a DO BBT
que as atividades se referem;
• os instrumentos e meios utilizados Considerando a riqueza de elemen-
para este fim; tos suscitados pelo BBT, tanto em termos
• o local onde as atividades profissionais estruturais e quantitativos quanto em seus
são exercidas; aspectos qualitativos, ele poderá servir
• o objetivo visado. como instrumento auxiliar nos processos de
Orientação Profissional de jovens, em reo-
Sem qualquer dúvida, entre estes rientações (reopções) de estudos, em pro-
seis aspectos, o papel determinante está cessos de análise de fracassos/insatisfações
associado às atividades: principalmente profissionais ou da progressão nas carreiras
o que é feito é que constitui a profissão. (em adultos). Ou seja, tenderá a ser útil tan-
(p. 145) to no momento da formação da identidade
profissional quanto em situações de conflito

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Orientação Vocacional Ocupacional 217

com papéis ocupacionais assumidos no de- O BBT NA ORIENTAÇÃO


correr da vida, sobretudo na atual realidade
de vulnerabilidade e de instabilidade das
PROFISSIONAL
condições ambientais do exercício profissio- Da interação de fatores anteriormente
nal, que podem impelir um indivíduo a um apresentada e do reconhecimento do papel
processo de mudança de profissão. Apesar relevante do mundo interno nas escolhas ocu-
da complexa rede de fatores associados às pacionais é que advém a utilidade do BBT em
trocas ocupacionais, se poderia considerar, Orientação Profissional.
ao menos teoricamente, que “um indivíduo Dentro de suas amplas perspectivas de
aspira a uma mudança de profissão quan- aplicação no presente capítulo, pretende-se,
do sua própria estrutura de inclinação não por meio do estudo de caso de uma adoles-
corresponde àquela da profissão” (Achtnich, cente, ilustrar as possibilidades e os cuidados
1991, p. 193). necessários para uma válida e confiável recor-
Considerando a relatividade dessa afir- rência ao BBT como uma técnica adequada
mação em nosso contexto sociocultural con- em processos de Orientação Profissional em
temporâneo, vislumbram-se amplas possi- nosso contexto sociocultural. Pretende-se,
bilidades de uma profícua utilização do BBT dessa forma, oferecer elementos ilustrativos
também nesses campos de aplicação, ou seja, e técnicos que permitam aos psicólogos o re-
no mundo adulto, além de sua já referida sig- conhecimento e a reflexão sobre as possibili-
nificativa contribuição na Orientação Profis- dades informativas do BBT no esclarecimento
sional de jovens em processo de formação de dos conflitos vocacionais, na perspectiva do
identidade pessoal e ocupacional. orientador profissional, mas, principalmente,
Em síntese, reafirmamos outra passagem aos orientandos, facilitando-lhes a tomada de
do criador do BBT para atestar a riqueza da consciência de suas inclinações e o desenvolvi-
possibilidade de acesso à estrutura de inclina- mento de seus projetos de vida profissional.
ção pessoal do indivíduo: Esse estudo de caso foi desenvolvido
a partir de uma intervenção realizada com
Os pareamentos e as combinações adolescentes do sexo feminino, cursando a
múltiplas produzem a imagem da estru- segunda série do ensino médio de uma esco-
tura de inclinação pessoal, a qual não é la da rede pública estadual de Ribeirão Preto.
um esquema inerte mas, ao contrário, A adolescente selecionada, para ilustrar esse
um arranjo de escolha, ativo e dinâmico. processo será denominada Karen (nome fic-
(...) Um princípio interno influencia nos- tício) – tinha 18 anos por ocasião da coleta
sos comportamentos de escolha e dá as de dados. Ela foi participante voluntária de
diretivas afirmativas e negativas na com- um processo de Intervenção em Orientação
petição das motivações. Essa estrutura Profissional em grupo, proposto por uma
hereditária está sujeita às influências múl- das autoras, como parte das atividades técni-
tiplas e variadas da educação e do meio, cas de sua tese de Doutorado em Psicologia
às sublimações e às formações reacionais. (Melo-Silva, 2000), sob orientação do Prof.
(Achtnich, 1991, p. 11) Dr. André Jacquemin.
A forma feminina do Teste de fotos de pro-
Cabe destacar que os instrumentos de fissões (BBT): Método projetivo para a clarificação
avaliação em Orientação Profissional podem da inclinação profissional, de Achtnich (1973),
ser utilizados como recurso auxiliar, visando publicado e comercializado no Brasil pelo
a corroborar, retificar ou ampliar os dados Centro Editor de Testes e Pesquisas Psicológi-
obtidos pelo orientador nas entrevistas diag- cas, foi aplicada na íntegra nesse caso, seguin-
nósticas (Müller, 1988), não substituindo, em do-se sua padronização técnica (Achtnich,
contrapartida, a entrevista clínica. É nesse 1973 e 1991). Tal aplicação do BBT ocorreu no
sentido que o BBT é utilizado em processos de início e após um ano do término do proces-
Orientação Profissional. so de Orientação Profissional, incluindo-se
as fotos adicionais. A história das cinco fotos

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218 Levenfus, Soares & Cols.

preferidas foi elaborada em três situações. Na queria fazer em termos profissionais. No iní-
primeira e na segunda história, ambas feitas cio do processo, citou pensar em atividades
durante o processo de Orientação Profissional como: comércio, secretariado, serviço social
(respectivamente no início e no final do pro- e decoração. Durante a orientação profis-
cesso), as fotos-estímulo foram as mesmas da sional dirigiu seu interesse para ocupações
primeira aplicação do BBT. A terceira história como fisioterapeuta, cabeleireira, secretária e
foi constituída a partir da segunda aplicação comerciante (abrir uma loja). Ao término da
do BBT, realizada um ano após a intervenção intervenção, seu interesse afunilou-se e pôde
em Orientação Profissional. Nessa situação, especificar opções pelas carreiras de fisiotera-
as cinco fotos escolhidas não seriam (e não fo- peuta e de cabeleireira, definindo-se, um ano
ram) necessariamente as mesmas da primeira depois, por terapia ocupacional.
aplicação do BBT, embora mantivessem ele- A análise qualitativa dos protocolos do
mentos simbólicos em comum, validando os BBT de Karen evidenciou com clareza mudan-
resultados obtidos. ças em seu posicionamento pessoal diante do
mundo profissional, direcionando-a à tomada
A ANÁLISE DOS RESULTADOS DE de consciência acerca de seus interesses e de
KAREN suas demandas internas a serem concretiza-
dos na opção por uma carreira ocupacional.
Por tratar-se de um estudo de caso, os Os resultados nas duas aplicações do
resultados serão aqui analisados qualitati- BBT mostraram seu interesse predominan-
vamente, objetivando exemplificar as con- temente voltado para atividades do fator W
tribuições do BBT na prática do Orientador (disponibilidade, ternura), como mostram os
Profissional, por meio da análise da situação Quadros 17.1 e 17.2, tanto na estrutura de in-
de conflito profissional inicial e sua resolução clinação primária quanto na secundária, em
posterior nessa estudante do ensino médio. ambas as aplicações. Em seguida, seu interes-
Durante a intervenção, Karen disse vá- se sinalizou-se dirigido para atividades dos
rias vezes que não tinha a menor ideia do que

Quadro 17.1 Estrutura de inclinação profissional primária ponderada e secundária para as es-
colhas positivas e negativas de Karen na primeira aplicação da forma feminina do
BBT (Achtnich, 1973)

Escolhas Positivas Escolhas Negativas

Estrutura Primária: W5 O3 S2,5 Z1 G1 V0,5 K0 M0 Primária: k8 m7 v5,5 z5 g5 s3,5 o3 w2


de
inclinação Secundária: w4 s4 v3 z2 m2 o2 k1 g0 Secundária: g11 k9 v9 o9 m7 s5 z5 w3

Quadro 17.2 Estrutura de inclinação profissional primária ponderada e secundária para as es-
colhas positivas e negativas de Karen na segunda aplicação da forma feminina do
BBT (Achtnich, 1973)

Escolhas Positivas Escolhas Negativas

Estrutura Primária: W5 O3 S2 Z1,5 G1,5 V0,5 K0 M0 Primária: k8 V6 m6 g5 Z5 s2,5 w2 O2


de
inclinação Secundária: s5 w4 o3 k2 z2 v2 m1 g0 Secundária: g10 o8 z7 v7 m7 k6 w5 s4

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Orientação Vocacional Ocupacional 219

fatores O (oralidade, necessidade de comuni- 104 (Z) – int