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Ludicidade e Psicomotricidade

O jogo e o desenvolvimento infantil

Neste tópico vamos caminhar juntos, procurando perceber a relação intrínseca

existente entre o jogo e o desenvolvimento da criança pequena, uma vez que,

desde a mais tenra idade, como já comentamos, a criança já pratica ações

lúdicas. Basta lembrar de quando falamos dos bebês que fazem vários gestos

por puro prazer, ou seja, realizando o que Piaget chama de jogos de exercício.

A escola deve possibilitar aos educandos um desenvolvimento integral, que

dificilmente irá acontecer se ela não favorecer um ensino dinâmico e

abrangente, em que o jogo seja um grande "aliado". Precisa, para isso, integrar

os conteúdos a serem trabalhados de modo a permitir que a interação entre o

meio físico e o social aconteça, pois, assim, o conhecimento e o senso moral

da criança serão desenvolvidos.

Com relação ao conhecimento, sabemos que a melhor forma de auxiliar a

criança nessa construção é tomar como ponto de partida os saberes que ela

traz consigo, suas necessidades e sua realidade, buscando ampliar esses

conceitos e desafiando sua inteligência.

Já o senso moral configura-se numa construção que acontece de maneira

autônoma no íntimo de cada criança à medida que vai construindo seus

próprios valores morais dentro do meio social em que está inserida,

influenciada pela família, pela escola, pela comunidade e por todos aqueles

que a cercam.

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É importante ressaltar que, quando falamos em desenvolvimento infantil,

estamos nos referindo aos processos de formação das funções humanas, tais

como linguagem, raciocínio, atenção, memória, entre outras.

O desenvolvimento é responsável pela formação dos conhecimentos: ele

sempre resulta de uma interação entre o sujeito, principal fonte de

desenvolvimento e o meio. A aquisição de conhecimentos depende do

desenvolvimento: a assimilação de determinadas informações é possível em

certos níveis de desenvolvimento.

Vale a pena lembrarmos dos quatro estágios de desenvolvimento teorizados

por Piaget. São eles:

Sensório motor - fase da percepção, dos sentidos e dos reflexos, que vai de

zero aos 2 anos, aproximadamente, quando o bebê começa a fazer uso da

memória, da imitação e do pensamento e reconhece que os objetos não

deixam de existir quando eles não estão vendo. Paulatinamente, a criança

passa das práticas reflexas para centrar-se em atividades voltadas aos objetos.

Pré-operacional - fase em que ainda predomina o egocentrismo, pois a criança

tem dificuldade de enxergar o ponto de vista do outro. Esta fase vai dos 2 aos 7

anos, aproximadamente. O educando desenvolve o uso da linguagem e a

capacidade de pensar de forma simbólica, ou seja, dá vida aos seres (sua

boneca está dormindo). Não domina ainda as operações mentais, mas está

próximo disso.

Operacional Concreto - fase que vai dos 7 aos 11 anos, aproximadamente. É

marcada pela lógica e pelo envolvimento da razão (ex.: o coelho não bota ovo

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de páscoa); é capaz de resolver problemas concretos, classificar, seriar e

compreender as leis de conservação e reversibilidade.

Operacional Formal - fase que vai dos 11 anos, aproximadamente, em diante.

Quando a criança começa a compreender os conceitos abstratos; o pensar

torna-se mais científico; é capaz de solucionar problemas de ma¬neira lógica.

 Qual é a relação entre os jogos e os estágios de desenvolvimento

cognitivo de Piaget?

Em primeiro lugar, enquanto educadores, precisamos entender como o

desenvolvimento infantil se processa, concorda? Em segundo lugar, sabemos

que o jogo é capaz de auxiliar positivamente esse desenvolvimento.

Lembre-se: como nossa proposta é trabalhar com a educação infantil, devemos

nos ater principalmente aos dois primeiros estágios, o Sensório Motor e o Pré-

operacional, fases que englobam a primeira infância.

A aprendizagem encontra-se intimamente ligada ao desenvolvimento, sendo a

primeira dependente do segundo, ou seja, as crianças conhecem conforme o

estágio de desenvolvimento em que se encontram, pois é por meio das

diferentes maneiras de aquisição de conhecimentos (aqui entra o jogo) que a

aprendizagem ocorre.

Para que tudo isso, dito na teoria, fique mais claro para você, vejamos como se

dá na prática:

Imaginemos que trabalhamos na educação infantil com crianças de 5 anos.

Sabemos que estas se encontram no estágio de desenvolvimento cognitivo

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Pré-operacional (de 2 a 7 anos) e que, se utilizarmos jogos que estimulem a

fantasia, mais facilmente alcançarão os objetivos que pretendemos, pois

estamos "provocando", incentivando a aprendizagem.

O jogo o Gato e o Rato é um exemplo disso, pois tem como proposta valorizar

as conquistas corporais das crianças, trabalhando o equilíbrio, a coordenação e

a cooperação. Neste jogo um círculo é formado pelas crianças que ficam de

mãos dadas e pernas afastadas. Escolhem então duas delas: uma para

representar o gato, e a outra representará o rato. Gato e rato entram no centro

da roda; o gato tenta pegar o rato, passando por entre as pernas das crianças;

quando o rato é pego pelo gato, trocam-se os personagens para que todas

tenham a chance de participar.

Sendo assim, o jogo proporciona grandes contribuições para o

desenvolvimento da aprendizagem infantil à medida que enriquece os

pensamentos, sentimentos e ações. Afinal, é por meio dele que a criança

reflete, pensa esse mundo, ao mesmo tempo em que vai sendo inserida nele.

Vigotski , que se aprofundou no estudo do papel das experiências sociais e

culturais a partir da análise do jogo infantil, afirma que no jogo a criança

transforma, pela imaginação, os objetos produzidos socialmente.

Assim, os conhecimentos vão sendo construídos pelos educandos dentro

desse processo, bem como a individualidade de cada criança que participa

dessa interação, que o próprio jogo propicia.

Tais interações configuram-se nos momentos em que a criança tem

oportunidade (no nosso caso, dentro do ambiente escolar) de estar com seus

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pares, demonstrando o seu modo de pensar, sentir, comunicar, expressar e

descobrir, compartilhando seus caminhos individuais dentro do grupo,

influenciando as demais crianças e sendo por elas também influenciada.

Essa criança e, mais tarde, esse adulto, inserido nos mais diferentes

ambientes, através da interação com parceiros diversos, vai ter um mundo à

sua volta organizado por regras e códigos simbólicos, diretamente ligados a um

determinado momento e contexto sócio-histórico e aos recursos de que dispõe.

Torna-se assim uma pessoa que reflete a época histórica e o grupo social em

que vive, embora nesse processo construa também suas características

individuais e únicas.

Portanto, o meio social oferece experiências e trocas de experiências únicas

entre os pequenos, proporcionando a construção de novos conhecimentos, que

se dá, sobretudo, pela interação social.

O jogo e o papel do educador

Podemos dizer, em primeiro lugar, que não basta bom senso e, muito menos,

gostar de criança para desenvolver um trabalho com qualidade. É preciso muito

mais que isso, ou seja, que haja formação específica em educação infantil para

efetivar uma prática pedagógica pautada nos princípios de cuidar e educar,

conhecendo a grande responsabilidade de sua função como um educador.

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O ensino possui um papel muito importante na vida da criança, cabendo ao

docente contribuir para a humanização dos indivíduos. A escola tem a função

de possibilitar aos alunos a apropriação do conhecimento produzido

historicamente, levando em consideração que todo o conhecimento produzido

na prática social necessita ser novamente produzido em cada indivíduo

singular. O professor precisa desenvolver métodos que levem ao conhecimento

vinculado à prática social. Ele deve auxiliar a criança a expressar e a

desenvolver por si mesma o que ainda não é capaz de realizar, provocando o

seu desenvolvimento intelectual, físico e afetivo que culminará no

desenvolvimento máximo de suas capacidades. Sendo assim, a ação educativa

precisa englobar as objetivações produzidas ao longo da história e também a

humanização das pessoas, pois o último fato faz com que este trabalho se

diferencie de outras formas de educação.

Diante disso, antes de iniciar o trabalho com os jogos, o educador deve

planejar tanto o espaço de tempo, ou seja, definir o tempo diário que destinará

aos jogos, quanto o espaço físico, isto é, se terá de desenvolver tais atividades

na classe, no pátio, no parque ou em outros locais. Deverá selecionar, também,

os materiais e/ou brinquedos que serão necessários para utilização durante os

jogos.

Contudo, a fim de identificar os jogos mais adequados para trabalhar com

nossos alunos, é importante que observemos o comportamento deles enquanto

brincam, procurando perceber o grau de interesse e motivação de cada um,

bem como o seu desenvolvimento vem acontecendo.

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Após observar tudo o que foi sugerido, ainda não devemos partir para o jogo.

Estabelecer combinados com as crianças é o próximo passo. Impor regras não

é o melhor caminho, pois devemos democratizar as escolhas, pois juntos

decidiremos o que pode ou não ser feito. Assim, possibilitaremos um espaço de

interação com troca de ideias, vivências e experiências, atitudes que também

contribuem para o desenvolvimento do raciocínio lógico.

Se agirmos dessa forma, já estaremos dando um grande passo para despertar

na criança o interesse em participar dos jogos que serão propostos, uma vez

que tudo foi decidido junto com ela.

Por fim, ainda é importante frisar que: um educador que dispõe de uma boa

formação para lidar com a criança pequena, com certeza não irá esquecer que

os jogos podem ser propostos por ele, mas nunca impostos. Os educandos

devem participar da escolha para que tenham a oportunidade de expressar

suas opiniões e para que possam desenvolver, assim, a iniciativa, a

criatividade e a tão desejada autonomia, pois a criança não somente aceita as

regras, mas as questiona.

Afinal, o que é brincar?

O Novo Dicionário Eletrônico Aurélio (século XXI) apresenta várias definições

para esta palavra. Vejamos três delas: "[...] 1.Divertir-se infantilmente; entreter-

se em jogos de crianças; 2. Agitar-se alegremente; foliar, saltar, pular, dançar;

3.Dizer ou fazer algo por brincadeira; zombar, gracejar."

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Você pode perceber que o brincar está intimamente ligado à ludicidade, à

alegria, à espontaneidade e, principalmente, às crianças (apesar de sabermos

que não só as crianças brincam).

Nosso papel, enquanto educadores, é redescobrir as possibilidades da

brincadeira no cotidiano escolar, identificando o brincar como instrumento de

aprendizagem e, sobretudo, como um grande "parceiro" na construção da

autonomia das crianças.

De acordo com o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil:

No ato de brincar, os sinais, os gestos, os objetos, os espaços valem e

significam outra coisa daquilo que aparentam ser. Ao brincar as crianças

recriam e repensam os acontecimentos que lhes deram origem, sabendo que

estão brincando.

Podemos perceber, assim, que, por meio da brincadeira, a criança se

desenvolve, pois investiga, descobre e compreende o mundo que a cerca,

agindo sobre ele.

Por fim, o brincar deveria estar sendo posto constantemente em questão e

prática em nossas instituições, principalmente aquelas que lidam com crianças,

pois no brincar, não se aprendem somente conteúdos escolares, aprende-se

algo sobre a vida e a constante peleja que nela travamos.

É brincando que a criança se apropria do mundo à sua volta, constrói sua

própria realidade, e dá a ela um significado. Esta atividade configura-se como

uma das muitas formas de construção dos saberes infantis, permite a interação

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com o outro e o desenvolvimento dos aspectos afetivos, cognitivos, emocionais

e físicos a partir da "dramatização" de diferentes papéis.

Desde o primeiro jardim de infância inaugurado no Brasil em 1875, já se

pensava na importância de se trabalhar o lúdico.

Como podemos perceber, a ideia de inserir o lúdico nas instituições infantis não

é recente, assim como a prática pedagógica que parte da realidade da criança

para ampliar-se, a fim de trabalhar as potencialidades dos educandos.

É difícil elencar todas as contribuições que o brincar pode trazer para a criança,

porém, algumas são impossíveis de esquecer, como o favorecimento da

autoestima e da interação junto às outras crianças e o desenvolvimento da

autonomia a partir da iniciativa que exercita todas as vezes em que a criança

entra em contato com o lúdico.

As brincadeiras alimentam o espírito imaginativo, exploratório e inventivo do

faz-de-conta e a isso chamamos de lúdico. Brincar tem o sabor de desconhecer

o que se conhece, pois cada brincadeira é um universo a ser sempre

(re)descoberto, (re) vivido, (re)aprendido.

Assim, o faz-de-conta possui uma importância e um significado muito grande

para a criança e para os adultos que a cercam e se preocupam com ela, pois é

capaz expressar seus sentimentos por meio desta atividade, afinal, não se faz-

de-conta que se faz-de-conta, e brincar não é uma mentira, é uma atitude em

que tudo de si está presente.

Brincar permite à criança não somente demonstrar alegrias e coisas que a

fazem bem; permite também que venham à tona os seus anseios, angústias,

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conflitos e tristezas, ou seja, as coisas que lhe incomodam, pois muitas vezes,

durante essas situações lúdicas, ela expressa o que sente e/ou sofre

passivamente.

Enquanto brincam, os educandos estruturam o seu próprio mundo, recordam

os acontecimentos que vivenciaram ativamente e dão a eles uma resposta, um

significado. Finalmente, por meio do jogo simbólico, eles aprendem a atuar, a

possuir iniciativa, pois têm a curiosidade e as atividades autônomas

estimuladas.

A brincadeira é permeada por coisas que surgem da imaginação da criança, e,

apesar de não ser verdadeira, também não é uma mentira. No entanto, ao

mesmo tempo, podem expressar verdadeiramente situações boas ou ruins que

vivenciam em seu cotidiano, uma vez que tais pensamentos e atitudes vieram

do mundo real e foram para o universo do "faz-de-conta". Isso é muito

interessante.

A Psicologia observa os significados que a brincadeira representa na vida da

criança, em especial, porque é uma ciência que estuda os fenômenos

psíquicos e o comportamento. Todos os movimentos e reações são vistos

atentamente e indicam vários traços de quem está brincando, ou seja, são

expressões de como a criança vê o mundo e como deseja que ele seja. Assim,

ela representa e demonstra sua realidade brincando de casinha, de escolinha,

entre outros.

A Sociologia, por estudar principalmente as relações que se estabelecem entre

pessoas dentro de uma sociedade, e a Antropologia, por refletir acerca do ser

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humano e do que lhe é específico, observam o que está contido numa

brincadeira e são capazes de mostrar como se organiza uma cultura, uma vez

que a criança, ao brincar, expõe acontecimentos e seres imaginários que

simbolizam aspectos da vida humana e representam fatos ou personagens.

A Arte, por ser uma atividade que supõe a criação de sensações ou de estados

de espírito de caráter estético e carregados de vivência pessoal, observa o

brincar como algo parecido com o fazer artístico, pois é por meio dele que a

criança cria uma música, faz um desenho, pinta, escreve um conto, entre

outros.

Na educação, o brincar tem sido foco de diversos estudos, os quais têm

revelado que a brincadeira começa a ser vista como um importante instrumento

pedagógico.

No entanto, os educadores devem refletir como e em que momento podem

usar o brincar como um instrumento de aprendizagem.

Sei que muitas vezes pensamos: o brincar pode envolver qualquer atividade
em sala de aula? A resposta seria: sim e não. Sim, à medida que o conteúdo a
ser trabalhado possibilite que a criança desenvolva suas habilidades ao
descobrir, imaginar e participar da brincadeira. Não, quando a criança é
"obrigada" e limitada a fazer aquilo que o educador espera que ela faça, sem
que possa utilizar o faz-de-conta, a imaginação e tenha como função apenas
encontrar soluções para perguntas e questionamentos do conteúdo proposto.

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