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FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

LUCAS LAUX DIAS

O PARODISMO ANTAGÔNICO DOS DEMÔNIOS SEM NOME:


TRANSFORMAÇÕES DOS MITOS CRISTÃOS NOS VIDEOCLIPES DA BANDA
GHOST

Porto Alegre
2018
LUCAS LAUX DIAS

O PARODISMO ANTAGÔNICO DOS DEMÔNIOS SEM NOME:


TRANSFORMAÇÕES DOS MITOS CRISTÃOS NOS VIDEOCLIPES DA BANDA
GHOST

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Centro Universitário
Ritter dos Reis como requisito parcial
para a obtenção do título de Bacharel
em Publicidade e Propaganda.

Orientador: Prof. Me. Francisco dos


Santos

Porto Alegre, 2018


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RESUMO

O presente trabalho buscou identificar os símbolos e imagens presentes no


mito cristão tendo como base a teoria do imaginário e a abordando através de
uma perspectiva baseada em Gilbert Durand. O estudo teve como objetivo
mapear as relações que os videoclipes estabelecem com o imaginário e os
mitos do cristianismo ocidental afim de observar as permanências e
transformações destes nos videoclipes. Através disso, pode-se ter o
entendimento da premissa passada pela banda, o que se procura deixar
reforçado dentro da presente análise mitocritica do estudo. Para tal análise, foi
necessário situar a banda em seu contexto mercadológico a identificando como
um produto cultural atual e, principalmente, de nicho, uma vez percebido que,
ainda que com visível riqueza simbólica e repertório, sua disseminação entre o
público só foi possível através da segmentação de mercados (Cauda Longa),
que serviu como forma de driblar os moldes ditados pela indústria cultural e
pelos veículos de comunicação de massa e dar liberdade aos produtores de
conteúdo que não se adequam ao padrão de grande mídia. Vê-se aqui,
conforme dos estudos de imagem, a banda Ghost como sendo uma figura de
rebeldia, humor e crítica social. Analisa-a sem preconceitos ou julgamentos, o
que de fato a banda tem a premissa de trazer e estuda-se com profundidade os
elementos simbólicos e as imagens que, dentro da perspectiva da teoria do
imaginário, nos permitem identificar isso.

Palavras-chave: mito, imagem, imaginário, indústria cultural


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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Reportagem sobre a banda Ghost 34


Figura 2 - Papa Emeritus II e Nameless Ghouls 35
Figura 3 - Papa Emeritus é retirado a força do palco 36
Figura 4 - Papa Zero e “Irmã” recebendo o Cardinal 37
Figura 5 - Cenas de Abertura: Céu Negro 46
Figura 6 - Cenas adentrando a igreja 48
Figura 7 - Papa Emeritus conduzindo o culto 49
Figura 8 - Exorcismos 50
Figura 9 - Batismo 52
Figura 10 - Palco 60
Figura 11 - Papa Emeritus gesticula em palco 61
Figura 12 - O céu, a luz e a sombra 63
Figura 13 - As mulheres 64
Figura 14 - O menino e a nuvem negra 65
Figura 15 - Emeritus é bajulado 66
Figura 16 - O banquete de Emeritus 67
Figura 17 - As mulheres se despem 68
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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO......................................................................................................04
1.1 OBJETIVO E INTERESSE ................................................................................04
1.2 O OBJETO DE ESTUDO E SUA IMPORTÂNCIA.............................................04
1.3 GHOST: HIPOTESE, GÊNERO MUSICAL E INDÚSTIA CULTUAL.................05
1.3.1 Rock, Heavy Metal e o mercado de nicho.................................................06
1.3.2 Ghost no Brasil.......................................................................................06
1.4 A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO PARA A COMUNICAÇÃO.............................07
2 INDÚSTRIA CULTURAL.....................................................................................08
2.1 O ESTUDO DA INDÚSTRIA CULTURAL........................................................08
2.2 ADORNO, HORKHEIMER E A DIALÉTICA DO NESCLARESCIMENTO...... 09
2.3 WALTER BENJAMIN E A AURA DA OBRA DE ARTE....................................11
2.4 EDGAR MORIN E A CULTURA DE MASSAS................................................12
2.5 CHRIS ANDERSON E A CAUDA LONGA......................................................14
2.6 CONSIDERAÇÕES SOBRE A INDÚSTRIA CULTURAL................................15
3 IMAGEM, IMAGINÁRIO E MITO......................................................................18
3.1 O IMAGINÁRIO...............................................................................................18
3.2 IMAGEM SIMBÓLICA.....................................................................................20
3.3 O SURGIMENTO E O TRIUNFO DO IMAGINÁRIO.......................................21
3.4 O MITO DO CRISTIANISMO..........................................................................23
3.5 AS EVOLUÇÕES E O DESGASTE DO MITO................................................27
3.6 IMAGINÁRIO, ROCK E HEAVY METAL.........................................................28
3.7 OS ESQUEMAS..............................................................................................32
4 METODOLOGIA: EM BUSCA DO IMAGINÁRIO DA BANDA GHOST...........33
4.1 O SURGIMENTO DA BANDA GHOST...........................................................33
4.2 PERSONAGENS, ENREDO E ATUALIDADE................................................35
4.2.1 O anonimato..........................................................................................36
4.2.2 A atualidade da banda..........................................................................36
4.3 TOBIAS FORGE: O HOMEM POR TRAS DA MÁSCARA........................... 38
4.3.1 A principal crise.....................................................................................39
5 VIDEOCLIPES: O CORPUS DE ANÁLISE......................................................40
6 MITOCRÍTICA..................................................................................................42
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7 ANÁLISE........................................................................................................46
7.1 VÍDEOCLIPE HE IS (ELE É): ANÁLISE VISUAL E DECUPAGEM............46
7.2 MITOS PRESENTES EM HE IS (ELE É)...................................................52
7.3 ANÁLISE E DECUPAGEM DO CLIPE YEAR ZERO (ANO ZERO)...........62
7.4 MITOS PRESENTES EM YEAR ZERO (ANO ZERO)...............................67
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS..........................................................................71
9 REFERÊNCIAS............................................................................................74
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1 INTRODUÇÃO

A presente monografia visa analisar as transformações dos mitos


cristãos presentes nos videoclipes da banda sueca Ghost. A partir desse
primeiro ponto, analisa-se a produção audiovisual do videoclipe e sua relação
com a indústria cultural e as imagens simbólicas.

1.1 OBJETIVO E INTERESSE

Objetiva-se mapear as relações que os videoclipes estabelecem com o


imaginário e os mitos do cristianismo e observar as permanências e
transformações destes mitos no conteúdo audiovisual apresentado no formato
de videoclipe pela banda Ghost.
O interesse por esse estudo nasceu diante da percepção do surgimento
da banda Ghost, tal como o interesse pelas temáticas abordadas pela
teatralidade e riqueza de elementos simbólicos e arquétipos trazidos pela
banda. Este estudo parte também da curiosidade pelo entendimento dos
fenômenos de comunicação, tal como a indústria cultural, que estão embutidos
no interesse dos seguidores da banda que se caracterizam como um nicho de
mercado.

1.2 O OBJETO DE ESTUDO E SUA IMPORTÂNCIA

A banda Ghost apresenta-se como um objeto de análise rico para o


campo da comunicação social, tendo em vista a peculiar abordagem teatral e
letras musicais de abordagens que buscam simular um culto obscuro se
propondo a ser o oposto de uma cerimônia católica tradicional.
As simulações paródicas colocam em pauta o paralelo entre o sagrado e
o profano que passa pelo entendimento do conceito de tempo, espaço e
indivíduo perante ao sagrado e em sua oposição. Perante o cenário do Heavy
Metal, o Ghost é conhecido por seu diferencial satírico ao tradicionalismo de
cultos religiosos católicos, seus ritos, valores e comportamentos.
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Entender os fenômenos de imagem que estão presentes na abordagem


da banda Ghost é também entender o cenário da indústria cultural e conhecer
os motivos pelos quais algumas imagens são mais propicias a gerar uma
experiência de produção de sentido mais forte, assim sendo possível analisar
quais símbolos presentes no videoclipe do Ghost merecem destaque para a
análise do enredo da banda.
O entendimento do fenômeno de produção de sentido, mito e símbolos é
importante para a compreensão de como uma banda situada em um nicho de
mercado cultural sendo assim, o presente estudo busca trazer ao entendimento
da comunicação em uma análise diante da perspectiva do imaginário
reforçando a importância das imagens na percepção de sentido humano diante
de fenômenos musicais irreverentes perante ao que é considerado sagrado
com base no que representa o surgimento de bandas como a Ghost no cenário
do entretenimento.

1.3 GHOST: HIPOTESE, GÊNERO MUSICAL E INDÚSTRIA CULTURAL

Parte-se da hipótese que os seguidores encontram nas manifestações


de imagem presentes nos símbolos, nas músicas e na teatralidade trazidas
pela banda uma aversão aos valores morais religiosos atualmente vigentes em
uma sociedade predominantemente cristã. Dessa forma, os fãs encontram na
Ghost uma representatividade de expressão de rebeldia na imagem do grupo.
Considera-se que o mito cristão foi e ainda é um dos mais fortes e
presentes na civilização ocidental, não apenas cumprindo sua função
sociocultural de maneira simplicista, mas exercendo papel de grande ditador de
valores morais que se perpetuam através dos ritos e estabelecem um manual
de conduta quase que universal daquilo que é certo ou errado.
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1.3.1 Rock, Heavy Metal e o mercado de nicho

O Heavy Metal e o Rock sendo gêneros de contestação e rebeldia


dentro do cenário musical, por muitas vezes fazem questão de ser irreverentes
em relação a tradição e os valores sociais impostos em uma sociedade
predominantemente cristã. A indústria cultural, por sua vez, aparece como uma
peneira que diante do mercado de massa visa estabelecer moldes de conteúdo
que vão definir o sucesso ou o fracasso de quem está produzindo o material.
O advento da internet e os meios de comunicação de nicho ganhando
cada vez mais espaço com a convergência midiática, surgiu um divisor de
águas que permitiu com que artistas e suas respectivas artes que antes não
eram vistas pudessem ganhar seu espaço e construir seu público ainda que
critiquem aquilo que os emissores de massa jamais arriscariam veicular.
Foi só através da ascensão dos nichos de mercado que a banda Ghost
(ou Ghost B.C nos estados unidos) conquistou seu espaço criticando
ferozmente o mito cristão através de seu conteúdo audiovisual repleto de
elementos simbólicos que, embora façam referência ao mito cristão, essas não
são concordantes, muito pelo contrário, botam em questão seus valores e
crenças do homem sagrado.

1.3.2 Ghost no Brasil

No Brasil, a banda se popularizou após o festivas Rock In Rio quando


tocou para o mesmo público de bandas consagradas no cenário musical como
é o caso do Metállica. Pode-se dizer que, se objetivo do Ghost era receber a
aclamação do público presente no evento, a banda falhou. O que não faltou
foram vaias para o grupo sueco, alguns aplausos por respeito, porém parte da
plateia chegou, em coro, a comparar o ritmo da banda, que faz referência ao
Rock dos anos 60, com a música da cantora de funk Anitta.
Isso por si só já é um indicio de que a banda Ghost não foi feita para ser
apresentada para um público de massa, pelo menos não o brasileiro. No
entanto, uma vez que o evento os colocou em evidência foram formando-se
grupos nas redes sociais de pessoas que gostaram da apresentação e do ritmo
no estilo heavy metal misturado com o rock clássico.
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O presente estudo no entanto, ainda que leve em consideração e


considere de suma importância, não visa como principal e simples objetivo de
análise este visível exemplo do fenômeno de convergência midiática, isso por
si só seria simples e básico, o desafio está em aplicar a teoria do imaginário
como ferramenta de levantamento de dados e análise e a partir disso ir muito
além daquilo que se faz evidente.

1.4 A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO PARA A COMUNICAÇÃO

Visa-se analisar aquilo que é simbólico, que não é explícito que está
presente na produção de sentido da obra sem necessariamente ser
apresentado pelo interlocutor. Procura-se também o entendimento do mito para
dar base ao estudo simbólico através da mitocritica, assim podendo estudar a
relação do produto cultural oferecido pela banda perante a cultura ocidental
predominantemente cristã e assim entender que tipo de mensagem faz com
que os fãs da banda sintam-se atraídos e quais fatores fazem com que o
público de massa os rejeite.
Precisa-se ter em mente que entender comunicação vai muito além dos
conceitos fundamentais ensinados no âmbito acadêmico, a publicidade, como
parte das ciências sociais aplicadas, não pode restringir-se a aquilo que está
dito e claro e nem deve servir como uma simples ferramenta mercadológica no
campo prático, a teoria e a área de pesquisas no campo do imaginário se faz
necessária para entender as obras culturais ne maneira ampla, tal como o
sentido que elas produzem nas diferentes esferas e culturas, nas diferentes
épocas e nos mais diversos tipos de conteúdo. É preciso entender a sociedade,
seus mitos, ritos e sua cultura para de embasar a comunicação social e suas
práticas. É com base nessa ideia que o trabalho será conduzido através da
perspectiva durandiana da teoria do imaginário.
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2 INDÚSTRIA CULTURAL

A indústria cultural é um termo criado e definido pelos autores como


sistema político e econômico que tem por finalidade produzir bens de cultura.
Adorno e Horkheimer foram os dois principais nomes da escola de Frankfurt,
fundada em 1924 na Alemanha, de onde partiu o termo Indústria Cultural para
atribuir a elementos culturais, dentre os quais está a cultura pop, como
mercadorias de controle social visando o consumo. A indústria cultural,
segundo os autores da escola de Frankfurt, através do uso da arte como
ferramenta mercadológica retira a autenticidade da arte.

2.1 O ESTUDO DA INDÚSTRIA CULTURAL

A partir do conceito de Indústria cultural nascido na Alemanha, autores


como Walter Benjamin também se utilizaram do termo fazendo críticas a
reprodutibilidade que retira a autenticidade da arte quando esta é reproduzida
em massa, autenticidade essa que Benjamin chama de aura. Benjamin critica a
reprodutibilidade em massa muito antes do surgimento da internet, que em
comparação ao surgimento da fotografia analógica (exemplo que ele cita em
seus textos) potencializou drasticamente a reprodutibilidade técnica.
É válido lembrar que o avanço da tecnologia que permitiu o surgimento
da internet foi também responsável por benefícios como o surgimento de uma
alternativa aos meios de comunicação de massa, sendo que os meios de
comunicação de massa são vistos por Adorno e Horkheimer (1995) como um
desestimulo à sensibilidade sendo um fator responsável por desconsiderar as
diferenças culturais e alienar a sociedade com forte estímulo publicitário e que
não estimula o pensamento crítico da sociedade. Sendo assim, o surgimento
da internet, que trouxe uma alternativa de acesso a conteúdo de nicho e
variedade cultural e, ao invés de exercer função massificadora dos veículos
tradicionais dominantes, abriu espaço para nichos de mercado cultural,
fenômeno estudado por Chris Anderson na obra Cauda Longa.
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2.2 ADORNO, HORKHEIMER E A DIALÉTICA DO ESCLARESCIMENTO

Na obra A Dialética do Esclarecimento (ADORNO e HORKHEIMER,


1995), procura-se tratar da questão do por que a nossa sociedade chegou
onde chegou, isto é, como foi este caminho e porque ela se transformou no que
ela é hoje. A partir disso, analisam-se os processos sofridos ao longo da
história dando foco ao projeto do iluminismo para entender os fenômenos.
Uma vez que vivemos em um tempo de ascensão cada vez maior de
tecnologia e de informação, por que ao invés de caminhar-se rumo a um
destino de maior coerência e paz entre as diversas formas de entender o
mundo caminha-se, ao invés disso, para áreas cada vez mais conflitantes?
Theodor Adorno e Max Horkheimer (1995) abordam isso a partir de uma
perspectiva pós Segunda Guerra Mundial, quando se utilizou o domínio do
conhecimento e da tecnologia para fins como o projeto Nazista de Adolf Hitler.
Isto é, se o esclarecimento deveria levar a sociedade para seu estado de
maioridade, como pode então algo considerado tão cruel como o nazi-fascismo
obter apoio popular na Alemanha, sendo que este fazia questão de deixar claro
seu objetivo de violência e dominação, onde se quer utilizava-se do aparelho
estatal para maquiar os objetivos nazistas?
O princípio da análise de Adorno e Horkheimer (1995) passa pelo que
Weber chama de desencantamento do mundo, onde o mundo racional
burocrático, segundo o autor, passa por um processo de desencantamento
onde os valores tradicionais são preteridos por ações que visam objetivos
claros, racionais e utilitários. Para Adorno e Horkheimer (1995), a separação
feita entre cultura e natureza é uma das bases para entender-se aspectos
como a divisão do trabalho braçal e intelectual conforme conhece-se hoje e
para entender o nascimento do tipo de dominação específico que se culmina
no iluminismo.
Uma vez que a natureza pode ser vista como caos, algo imprevisível, o
medo de tal caos gera no ser humano uma propulsão que, por sua vez, gera
uma interpretação na qual o próprio ser humano passa a fazer parte dela, e é a
partir disso que, de acordo com Adorno e Horkheimer (1995), nasce o mito. Isto
é, o nascimento do mito surge como uma reflexão sobre a natureza e como
uma forma de indicar o passado, de explicar o presente e de evocar para um
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futuro fenômenos que ainda vão acontecer, onde tudo ocorre sobre um objetivo
claro e tem relação com a sociedade em que as pessoas que estão sobre o
mito vivem, e a partir disso passa a existir uma nova forma de exercer a
dominação.
Antes do que conhecemos por mito, a dominação era feita através do
trabalho direto e imediato, em seguida passou a existir então a possibilidade da
dominação ser exercida de fora do trabalho, com o domínios dos meios de
produção. A dominação do homem sobre o homem naturalizou-se porque o
homem passou a ser parte da interpretação e da natureza subjugada sendo
que o sujeito que tem o olhar distanciado não se fez no mesmo papel que o
homem que está sendo interpretado, o que muito tem a ver com a primazia da
técnica.
A força do esclarecimento está na contradição que a própria tecnologia e
a técnica trazem. Ao mesmo tempo que a tecnologia e a técnica têm a
possibilidade de aumentar o conforto das pessoas, tal como suas
possibilidades, mas ao mesmo tempo o nível de exploração aumenta
exponencialmente. O esclarecimento é totalitário sendo que se insere em todas
as esferas da vida, onde a representação incessante da técnica assim como o
desencantamento do mundo, constituem sujeitos desencantados que validam a
primazia da técnica, sendo adaptáveis a esfera econômica, aos objetivos
tecnocratas assim passando o mercado a ser o juiz dos valores e da liberdade
do sujeito da modernidade desencantada ao extremo.
O sujeito da economia, por sua vez, desencantado ao máximo, toma
conta da sua vivência cotidiana e domina o mercado, sendo ele (o sujeito) a
esfera principal do mundo desencantado, como se fosse o juiz máximo e o
produtor dos valores para a sua vida.
Segundo os autores, na medida em que o domínio sobre a natureza
trouxe um aumento da possibilidade de conforto, este trouxe também consigo o
aumento da exploração tal como a possibilidade de uso das tecnologias e
técnicas para experiência nazista, conforme citado anteriormente e, a partir
disso os autores citam o desenvolvimento da indústria cultural, que possibilitou
uma completa dominação ideológica do homem, isto porque a partir dos meios
de informação e entretenimento a ideologia pode ser reproduzida em massa,
perpetuando as estruturas vigentes e causando estímulos em que a reação é
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necessária.
A grande função da indústria cultural não é fomentar debates sobre
estímulos, mas sim transformar o sujeito em ser passivo, sendo o
conhecimento equivalente ao poder gerado pela primazia da técnica que causa
subjugação e dominação do homem, onde nota-se que, a partir do que deveria
ser o processo emancipatório do sujeito, tornou-se em contrapartida um fator
de aprisionamento. Nota-se daí um efeito onde a própria massa é iludida a
depositar nas esferas econômicas toda a autoridade para dizer o que é válido
ou não.

2.3 WALTER BENJAMIN E A AURA DA OBRA DE ARTE

Ao pé da letra, o termo “aura” significa vento ou respiração e é citado


pelo filósofo alemão Walter Benjamin nas obras Pequena História da Fotografia
(1931) e A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica (1936).
Em ambos os textos, Benjamin utiliza e ressignifica o termo “aura” para
descrever a autenticidade de obras de arte no sentido que são únicas e
materialmente palpáveis uma vez que o indivíduo se faz presente no mesmo
ambiente em que se encontra a obra, sendo possível desfrutar de todos os
fatores que envolvem a relação entre o sujeito e a manifestação artística não
reproduzida.
A crítica de Benjamin diz respeito a perda da aura através da forma com
que a obra de arte é reproduzida em massa, o que teve seu ápice na litografia
e posteriormente na invenção e difusão da fotografia onde, através de um
negativo, passava a ser possível fazer infinitas cópias de uma mesma imagem,
o que teve por fator positivo a difusão e popularização das obras de arte,
considerando que antes disso o acesso as obras era de fácil acesso apenas
para as elites, em contrapartida, ao perder a aura através de reprodutibilidade
em massa da obra a arte passa a atender a fins mercantis onde a essência
artística perde espaço para as reproduções não autenticas e muitas vezes
destorcidas das obras artísticas.
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2.4 EDGAR MORIN E A CULTURA DE MASSAS

Segundo o sociólogo francês Edgar Morin (1969), compreende-se por


cultura o apanhado de normas, símbolos e imagens que juntos formam uma
estrutura e agem sobre os fatores emocionais humanos. Sendo assim, a
cultura dá pontos de apoio no que diz respeito a vida imaginária.
Edgar Morin (1992) foi um dos principais idealizadores do paradigma
culturológico, que contribui para explicar como a publicidade utiliza a cultura de
massa como forma de alienação dos indivíduos através de recursos
midiológicos, formando um sistema de símbolos, mitos e imagens que afetam o
coletivo e a vida pessoal dos indivíduos.
A cultura de massa se adequa a necessidade a aos desejos do público
buscando suprir necessidades afetivas imaginárias e imaterias e diantes disso
a indústria cultural vive a procura de maneiras de padronizar seus produtos e
criar diferenciais afim de que se adequem as necessidade humanas.
Na publicidade, diante desse cenário a função de persuadir vendendo
ideias de status e prazer e adaptar a imagem dos produtos para satisfazer o
que é desejo da grande massa dentro de uma sociedade onde, em um
ambiente capitalista, onde os indivíduos são estimulados a viver para consumir,
através de anúncios que vendem carros, roupas de marca e produtos
desnecessários ao que é básico a sobrevivência humana, o que cria uma
sociedade de meros consumidores que compram para suprir necessidades que
são criadas pela própria indústria cultural.
Segundo Morin (1969), o aspecto estético estabelece relação de
consumo imaginário sendo a estética um tipo de relação humana ampla e
fundamental, não como uma qualidade própria das obras de arte. O imaginário
é então um sistema projetivo que constitui um universo espectral e que permite
a projeção e a identificação mágica, religiosa ou estética onde o espectador
identifica-se com personagens que lhe são estranhos e tem experiências sobre
atividades que não pratíca. É, no entanto, necessário que as situações
imaginárias correspondam a interesses profundos e que exista intimidade com
as necessidade e aspirações do sujeito.
Toda a produção de massa que tem por destino o consumo possui sua
própria lógica e a indústria cultural faz parte disso atendendo a um público
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universal. Ela usa da homogeneização e visa tornar assimilável ao homem


médio os mais diferentes tipos de conteúdo.
O lazer é um dos fatores que fornecem o bem-estar do consumo e de
uma vida privada, surge através dele a possibilidade de ter uma vida
consumidora. O lazer moderno aparece como centro do homem que pretende
se afirmar enquanto indivíduo privado, é esse o lazer que diz respeito a cultura
de massa, lazer que proporciona ignorar as dificuldades no trabalho, não se
interessar pelo núcleo familiar e se manter a parte dos problemas políticos.
Morin (1969) traz também à tona o conceito de Olimpianos, que
consistem em artistas de cinema, jogadores de futebol e celebridades em geral
que a cultura de massa utiliza através de sua magnetização no imaginário
coletivo que se tornam modelos de cultura que encaram os mitos de
autorrealização que combina a vida cotidiana e normal com a vida olimpiana. A
eficiência de tudo isso vem devido ao fato de seus modelos de vida
corresponderem ao modelo aspirado pelo individuo comum.
Os olimpianos sobretudo são modelos de projeção imaginária da
felicidade moderna, felicidade essa que é dividida por Morin (1969) em dois
tipos: a projetiva e a identificativa. A primeira privilegia o instante ideal na
projeção imaginária e a segunda estimula um prazer de todos os instantes na
vida vivida.
A felicidade é considerada por Morin (1969) a religião do homem
moderno diante da ideologia pregada pela cultura de massa onde é valorizado
o indivíduo particular e euforizado o fundo trágico e delirante da vida, assim
como o amor é o tema central da felicidade moderna, sendo ele tornado pela
cultura de massa o fator necessário para qualquer vida pessoal.
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2.5 CHRIS ANDERSON E A CAUDA LONGA

Por muito tempo os grandes veículos e emissoras de comunicação em


massa ditaram o que seria sucesso na indústria do entretenimento. Foi com o
avanço tecnológico dos meios de comunicação que permitem a interação entre
público e o conteúdo, principalmente com o avanço da internet, que os meios
de comunicação de massa passaram a dividir espaço na distribuição de
conteúdo com veículos de comunicação que disponibilizam conteúdos mais
específicos e muito mais variados para um nicho de mercado. Esse fenômeno
de convergência midiática é explicado pelo autor Chris Anderson na oba Cauda
Longa (2006), onde apresenta sua teoria.
A Cauda Longa (ANDERSON, 2006) visa explicar o fenômeno de
segmentação de mercado, explicando a convergência dos mercados de massa
para os nichos de mercado, onde é apresentado por Chris Anderson um gráfico
em formato de cauda que decresce dos produtos de acesso de massa em
comparação a todos os outros produtos que constituem o que é chamado de
nicho de mercado, sendo este último o responsável pela formar a Cauda
Longa, enquanto isso tudo aquilo que é muito popular vai estar inserido na
parte da cabeça.
Para a teoria da Cauda Longa de Chris Anderson, ainda que muitos
escutem grandes artistas do cenário pop, como Shakira, Michael Jackson ou
Beyonce, numa era de globalização como encontra-se a atual sociedade,
pessoas com gostos mais específicos são capazes de formar um mercado
financeiramente tão importante quanto a cabeça. Isto é, principalmente devido
ao fator do surgimento de ambientes onde os mais diversos conteúdos são
disponibilizados, como o Spotify ou o Youtube, um conjunto de mais conteúdos
passa a ter bom potencial de consumo através da demanda de acessos gerada
por estes ambientes que permitem maior segmentação na busca de conteúdo.
A existência da Cauda Longa é fruto da vida de escassez. Percebe-se
isso uma vez que, segundo exemplificação de Chris Anderson, um CD exposto
em uma loja dos EUA custaria vinte e dois dólares por ano levando em
consideração fatores físicos como o valor do aluguel ou a energia elétrica, por
exemplo. Isso significa uma escassez desse espaço sendo que, se o CD em
questão não for vendido pelo menos três vezes ele não deu lucro, mas sim
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prejuízo para o lojista porque uma vez que existia essa escassez de espaço,
produtos de nicho corriam forte risco de ser extintos do mercado.

Para o cenário artístico isto gerou a abertura de uma nova perspectiva,


onde não mais necessariamente vai existir a excessiva preocupação em estar
no grande topo das paradas, isto é, na cabeça, mas tornara-se então possível
viver da arte focando em um nicho de público ao qual seu conteúdo é
relevante. A partir dessa percepção, surge no entretenimento o enriquecimento
da cultura de nicho que abriu espaço para a valorização daquilo que antes não
era considerado de gosto comum, beneficiando o público que passou a ter
acesso mais rico a diversas manifestações artísticas assim como também
beneficiou os produtores de conteúdos mais seletos, que viram-se agora parte
da imensa indústria do entretenimento sem necessitar de veículos tradicionais
de massa, como a televisão ou o rádio que por muito tempo foram os grandes
ditadores da indústria cultural.

2.6 CONSIDERAÇÕES SOBRE A INDÚSTRIA CULTURAL

Pode-se perceber, principalmente após estudar a escola de Frankfurt e


as obras de Edgar Morin, que a indústria cultural é na verdade um molde para
obviedade e uma fórmula que faz com que os produtores de conteúdo
reproduzam valores, ideias e imagens pré-estabelecidas para se adequar ao
cenário vigente do mercado de massa, principalmente naquilo que diz respeito
ao entretenimento. A partir daí cabe citar para fins de ilustração uma famosa
frase do escritor e jornalista indiano Eric Arthur Blair, também conhecido como
George Orwell (1903 – 1950): “A massa mantém a marca, a marca mantém a
mídia e a mídia controla a massa.”.
Nessa perspectiva esquemática apresentada por Blair, pode-se apontar
a publicidade como grande incentivadora da indústria cultural e uma das
grandes responsáveis (se não a mais) pela disseminação da cultura de massa
onde é ela que dá a ordem para a sustentação da mídia enquanto a mídia se
encarrega de estabelecer controle sobre seu público.
Hoje com o advento da convergência midiática e dos meios de
comunicação de nicho, pessoas com idade suficiente para terem vivido durante
um período em que o analógico se apresentava como grande ditador cultural
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de uma juventude, esses indivíduos ao serem indagados por suas referências


de infância no Brasil diante dos anos 80 e 90 tem um perfil nitidamente comum
ou muito parecido de consumo: cresceram assistindo Chaves, Sessão da
Tarde, Cavaleiros do Zodíaco na TV Manchete, ouvindo Raimundos (muitas
vezes sem ter a idade indicada para o conteúdo da banda), acompanharam o
lançamento de Never Mind (álbum do Nirvana), jogaram Super Mário e Mário
Kart no videogame de cartucho, gameboy, se recordam com saudosismo dos
domingos com Airton Senna correndo pela Fórmula 1, viram os clipes do
Michael Jackson no Fantástico e acompanharam suas polêmicas, que por
muito tempo fizeram com que ele fosse demonizado perante ao cenário
brasileiro.
Em contrapartida a tudo isso veio a convergência midiática que, como
anteriormente citado, permitiu o advento do fenômeno da Cauda Longa
explicado por Chris Anderson, e a disseminação de conteúdos que, por sua
imensa variedade, torna-se impossível consumi-lo integralmente. O parágrafo
anterior é uma forma de enxergar isso na prática, já que todos os exemplos
utilizados nele estão agrupados na exata sequência em que aparecem no
videoclipe “Eu nasci há 25 anos atrás” do canal do You Tube Javipior1, ou seja,
ao ler o parágrafo pode-se até identificar a familiaridade dos objetos citados
com as imagens de infância ou juventude (ao depender da idade do leitor), mas
só pode entender a referência feita sequencialmente ao videoclipe utilizado
propositalmente como base da construção do parágrafo o consumidor de
conteúdos de nicho que tem o hábito de consumir e explorar canais de
produtores independentes, que fazem seus próprios videoclipes de humor e
divulgam na plataforma do You Tube. Essa é a grande questão, nenhum
conteúdo passou a ser mais ou menos importante, o que se tornou o grande
critério de relevância para se fazer uma escolha do que assistir é o interesse do
público consumidor e suas necessidades variadas e específicas de desfrutar de
determinado tipo de conteúdo.
Anteriormente citado, o caso do cantor Michael Jackson serve como
grande exemplo da ditadura midiática e de como os meios de comunicação tem
a habilidade de moldar a imagem de uma celebridade pop para movimentar

1 Disponível: em youtube.com/Javipior Acessado em: 25 jun. 2018.


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audiência e capitalizar com anúncios publicitários, por mais que isso coloque
em jogo a imagem de artistas e pessoas que por muitas vezes são inocentes
daquilo que estão sendo acusadas ou que a mídia coloca, através de
suposições atribuídas a ela em sua programação levando o público a debater a
respeito.
Em um passado ainda muito próximo, bandas com características
peculiares como a Ghost, que por muitos é tachada de satanista, dificilmente
fariam sucesso em um cenário de massa dependendo apenas dos veículos
analógicos de comunicação. Ghost é um grande exemplo de produto cultural
de nicho, e este é um dos fatores que torna a banda um objeto de estudo
interessante para a comunicação social e para o campo de estudo do
imaginário.
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3 IMAGEM, IMAGINÁRIO E MITO

Ao falar de imaginário é preciso primeiro contextualiza-lo, considerando


o fato de que se trata de um campo de estudos rico para as ciências humanas,
para o entendimento da psique, para a comunicação social e, na presente
monografia, para a indústria do entretenimento com foco nas produções
audiovisuais.

3.1 O IMAGINÁRIO

Faz-se necessário começar explicando o termo: segundo Wunenburger


(2003) o termo Imaginário no vocabulário das ciências humanas está ligado a
componentes como fantasia, sonho, crença, mito, romance, ficção, entre
outros, sendo possível falar tanto do imaginário de um indivíduo quanto do
imaginário coletivo. Segundo Wunenburger (2003) o significado pode ser
resumido como um conjunto de produções mentais ou materializadas com base
em imagens e linguística. O sucesso da palavra no século XX pode ter sido
atribuído a partir do desagrado da palavra Imaginação, entendida como
faculdade psicológica.
Wunenburger (2007) defende que o imaginário pode ser compreendido
como um tecido de imagens passivas e neutras não dotadas de existência
onde somente a imaginação possui propriedade criadora. Sendo assim, o
imaginário não trata de uma realidade exterior, mas é constituído pelo conjunto
de representações que ultrapassam o limite estabelecido pelas constatações
da experiência.
Segundo Wunenburger (2003), o imaginário possui vertente
representativa e só existe imaginário se um conjunto de imagens ou narrativas
forma totalidade relativamente coerente que produz sentido. Em paralelo a
isso, segundo Bachelard (1988) existe a imaginação criadora, que é a
imaginação literária como uma expressão da ação do psiquismo humano sendo
também aquela que se relaciona às imagens com arquétipos e dão movimento
a ação simbólica, podendo-se contextualizar arquétipos como as imagens que
estão enraizadas na psique do homem em situações não individuais, ou seja,
em situações comuns aos indivíduos que vivem em sociedade e cultura
semelhante.
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Segundo Wunenburger (2007), existem vias de abordagem


convergentes que permitem afirmar que o imaginário seja de uma obra de arte,
de um criador, de um povo ou de uma época está longe de ser um conjunto
anárquico, caótico, feito de associações heteróclitas de imagens, obedece
estruturas e conhece uma história marcada por um jogo sutil de constantes e
de variações no tempo.
Partindo para outra perspectiva na obra de Durand (1989), para o autor
a definição sintetizada de imaginário é o conjunto das imagens, as relações
que essas estabelecem entre si e que geram capital pensado para o homem,
reforçando a ideia de que o ser humano tem enorme capacidade de formar
símbolos ao longo de sua vida cultural e social. Segundo Durand (1994, p.40)
"o imaginário constitui o conector obrigatório pelo qual forma-se qualquer
representação humana.".
Segundo Wunenburger (2007), nos usos recorrentes das ciências
humanas o tempo imaginário remete a um conjunto de componentes
envolvendo fantasia, lembranças, devaneio, sonho, crença não-verificável, mito
e ficção sendo várias expressões possíveis de ser analisada, sendo possível
tanto falar sobre o imaginário de um indivíduo quanto o de um povo a partir da
análise de suas crenças religiosas, produções artísticas, ficções políticas, entre
outros elementos presentes no ambiente.
Wunenburger (2007) para relatar a perspectiva de demais autores sobre
o tema e contribuir com o resultado do estudo presente em sua obra traz a
perspectiva geral de alguns autores, o primeiro deles Paul Ricoeur (2006) que
por sua filosofia da linguagem e das obras literárias, ele privilegiará a
compreensão e a interpretação dos signos com relação somente com as
funções lógicas da explicação que domina os saberes científicos. Ricoeur
(2006) assenta o conjunto das operações reflexivas do sujeito numa metáfora
viva e na conduta narrativa que permite, por meio da encenação mítica,
produzir o sentido temporal de todas as ações humanas.
20

3.2 IMAGEM SIMBÓLICA

Para Ricoeur (2006), uma imagem simbólica ou um relato poético vão


além do seu conteúdo literal que está imediatamente acessível por conta de
sua pluralidade que está repleta de significações. Para ele é preciso ver além
do sentido da imagem imediato, um desvelamento do sentido indireto e oculto.
Em primeiro momento apenas uma parte superficial está visível. “Tornar
inteligível a imagem obriga a apreendê-la indiretamente, a penetrá-la em sua
profundidade, a interpretar seus diferentes níveis de sentido”.
(WUNENBURGER, 2007, p.23).
Outro importante autor lembrado na obra de Wunenburger (2007, p.18) é
Bachelard, que relata que: “com efeito, o psiquismo humano se caracteriza pela
preexistência de representações imagéticas que, intensamente carregadas de
afetividade, organizarão imediatamente sua relação com o mundo exterior.”.
O segundo autor trazido por Wunenberger (2007) é Corbin (1903 –
1978), que se inscreve sobretudo na tradição da fenomenologia advinha de
Husserl, cujos princípios gerais aplica à consciência religiosa voltada para o
suprassensível e não mais para a percepção sensível. Ele redescobre uma
forma de imaginação metapsicológica pela qual a consciência experimenta um
mundo de imagens autônomas, designado por “imaginal”, que constituem
algumas apresentações sensíveis de um mundo inteligível.
Estabeleceu-se assim a maneira pela qual esses textos espirituais
repousam numa hierarquia metafísica de três níveis de realidades: o de um
mundo inteligível, do Uno Divino; o de um mundo sensível a que pertencemos
por nosso corpo; e, por fim, o de uma realidade intermediária na qual o mundo
inteligível segundo figuras concretas como paisagens ou personagens.
O imaginário se apresenta como uma esfera de representações e afetos
profundamente ambivalentes; ele pode tanto ser fontes de erros e ilusões como
forma de revelação de uma verdade metafísica. Seu valor não reside apenas
em suas produções, mas no uso que dele é feito. A imaginação obriga de fato,
a partir disso, a formular uma ética, uma legítima sabedoria das imagens.
O imaginário se apresenta como uma esfera de representações e afetos
profundamente ambivalentes; ele pode tanto ser fontes de erros e ilusões como
forma de revelação de uma verdade metafísica. Seu valor não reside apenas
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em suas produções, mas no uso que dele é feito. A imaginação obriga de fato,
a partir disso, a formular uma ética, uma legítima sabedoria das imagens.
Apesar de sua importância, segundo Durand (1989), nem sempre o
imaginário foi considerado pelos intelectuais, sendo que a partir do século XVII
excluído pois, para época, era sinônimo de irrealidade ou delírio, não sendo
digno de estudo intelectual. Essa ideia foi se modificando ao longo do tempo.
Para o autor o imaginário e suas manifestações que provem tipicamente do
sonho, do onírico ou do rito, são alógicas e, portanto, não é solidificado
especificamente na razão.
Sabe-se que por conta do desemparelhamento do imaginário com a
lógica da razão, durante muito tempo o imaginário encontrou barreiras para sua
solidificação entre a elite intelectual pois entendia-se que apenas a razão
poderia dar alguma legitimação para o estudo do imaginário e, sendo assim, no
século XVII o imaginário perdeu seu espaço, sendo excluído dos processos
intelectuais e ainda tachado como produto de uma casa de loucos, como conta
Durand (1994) em sua obra.

3.3 O SURGIMENTO E O TRIUNFO DO IMAGINÁRIO

Ainda sobre o paralelo entre razão e imaginário Durand (1994) relata


que a dialética de Aristóteles propõe apenas duas soluções, sendo uma delas
verdadeira e outra falsa, assim excluindo qualquer possibilidade de existir uma
terceira solução. Sendo assim, a imagem que não pode ser reduzida a falsa ou
a verdadeira passa a ser desvalorizada, mas a imagem pode se desenvolver
dentro de uma descrição infinita sendo que ela propõe uma realidade velada e
contrapartida da lógica aristotélica que exige claridade e diferença, um dos
fatores que levou a rejeição do imaginário no século XVII.
Segundo Durand (1994), foi no século das Luzes que o imaginário
conseguiu resistir aos maciços ataques do racionalismo sendo visto como um
sexto além dos cinco sentidos, e uma terceira via surgiu, esta daí então
valorizando mais a intuição pela imagem do que a valorização pela sintaxe. Foi
a partir daí que o imaginário começou a ganhar aceitação entre os intelectuais,
tendo posteriormente seu momento de glória quando no campo da psicologia
com a descoberta de inconsciente ligada aos estudos de Freud, chegou-se a
22

comprovação de que o psiquismo humano não se detém apenas a percepção


imediata, também funciona através do inconsciente através das imagens
irracionais do sonho, neurose ou criação poética.
Wunenburger (2007) relata que Freud foi um dos pioneiros do imaginário
ao forjar um método de análise dos sonhos e propor uma decomposição dos
elementos para recuperar significações primárias. Os diferentes constituintes
como tempo, personagem ou ação podem ser capazes de dar interpretações
relevantes sobre o sujeito imaginante podendo a partir disso interpretar afetos
ideias e valores.
Segundo Durand (1994), além do caso de Freud, de alguma forma as
descobertas realizadas por importantes cientistas foram pressentidas por
formação e fontes imaginárias de cada pesquisador. "Desta forma evidencia-se
na discussão irredutível entre um Einsten partidário do deus da ordem de muito
próximo de Jeová Bíblico [...]" (DURAND, 1994, p.70). É possível notar a partir
daí a importância das fontes imaginárias para a evolução da ciência.
Quando passou-se a valorizar o imaginário, de um produto de uma casa
de loucos, o ele passou a ganhar espaço e assim tornar-se uma fortíssima
ferramenta para o estudo da mente humana e dos mitos e imagens que
constituem a cultura de uma sociedade, e é a partir disso que podemos
analisar os fenômenos da indústria cultural e entender a relação do imaginário
no que diz respeito a indústria audiovisual do entretenimento.
Durand (1994) conta que foi a descoberta da onda eletromagnética por
H. Hertz em 1888 que permitiu a explosão da comunicação e difusão de
imagens, que junto aos progressos da física passaram por uma gigantes
expansão com o advento do videocassete e do videodisco, aí se viu o fim, dito
de maneira figurativa, da galáxia de Gutenberg visto a predominância da
informação e imagem visual. Assim se solidifica a indústria cultural agora com
ferramentas tecnológicas para chegar em massa com uma comunicação que
contemplava formas mais ricas de transmitir símbolos e imagens. Sobre a
imagem midiática Durand (1994, p.33-34) defende que ela sempre esteve
presente ditando intenções:
23

A imagem midiática está presente desde o berço até o tumulo,


ditando as intenções de produtores anônimos ou oculto no despertar
pedagógico da criança, nas escolhas econômicas e profissionais do
adolescente, nas escolhas tipológicas (aparência) de cada pessoa,
até nos usos ou costumes públicos e privados, às vezes como
informação, às vezes velando ideologia de uma "propaganda" e
noutra escondendo-se atrás de uma publicidade sedutora [...].

Durand (1994) também nos lembra de que a revolução do vídeo nasce


como efeito perverso justamente do iconclasmo técnico-científico e teve como
resultado triunfante a pedagogia positivista. Pode-se ver ao longo da história
que a comunicação, junto da tecnologia, foi fundamental para a disseminação
da informação, da cultura, da música, da religião e da solidificação dos mitos
na sociedade. Hoje observa-se a importância principalmente do entretenimento
e da religião para a solidificação dos mitos entre a sociedade.

3.4 O MITO DO CRISTIANISMO

Para Eliade (1992), autor este que trouxe fortemente para o campo de
estudos do imaginário o paralelo entre o sagrado e o profano, o mito tem a
função de contar uma história sagrada e relatar um acontecimento ocorrido em
tempos passados narrando as façanhas de Entes Sobrenaturais em uma
perspectiva onde, graças a ele, uma realidade total ou um fragmento passa a
existir, daí relatando a sacralidade ou sobre naturalidade das obras destes
entes. Desta forma, o mito por se tratar de uma história sagrada passa a ser
verdadeiro porque refere-se a realidades. Isto é, aquilo que é fictício para o
homem profano, diante da perspectiva do imaginário do homem sagrado passa
a ser real.
Durand (1994) ao descrever os mitos relata que os seus processos
consistem na repetição e sincronicidade das ligações simbólicas que os
compõe, sendo que o mito não raciocina nem descreve, o que ele tenta fazer é
convencer através da repetição as derivações possíveis.
Um exemplo de mito predominantemente presente na cultura atual do
ocidente sãos os mitos cristãos, sendo perceptível sua hereditariedade tal
como sua presença predominante em escolas, universidades, adornos, entre
outros locais de convívio social comum além de, claro, as igrejas. Em todos
esses locais nota-se a presença se símbolos do cristianismo: a cruz, a figura de
24

Jesus Cristo, da Ave Maria e de inúmeros outros santos presentes na cultura


católica. Além disso, a própria Bíblia é em si um material riquíssimo de análise
simbólica. Por exemplo: a mulher de vestes brancas que aparece no livro de
Apocalipse, para muitos cristãos a interpretação é de que ela simboliza a igreja
remanescente, para outros trata-se apenas de um elemento de linguagem
metafórica para se referir a algo maior.
Quando Durand (1994) fala sobre o mito ele defende que o trajeto
antropológico representa a afirmação na qual o símbolo deve participar de para
emergir nas raízes da representação do sapiens e, na outra ponta, nas
variáveis interpelações do meio cósmico e social. Argumenta também que para
tornar-se um símbolo, a estrutura de posição fornecida pelo posicionamento do
reflexo dominante na vertical necessita a contribuição do imaginário cósmico e
sociocultural. No que se refere ao fator sociocultural estão envolvidas as
pedagogias de elevação, queda e do infernal, por exemplo.
Segundo Wunenburger (2007) o mito possui uma forma exemplar de
transformação dentro do imaginário. A estabilidade de um imaginário, por
exemplo, mítico, vincula-se com sua raiz numa estrutura profunda que faz
nascer uma constelação de relatos sem que nenhum possa vir a ser
considerado primordial, isto é, não se conhece de maneira específica e direta o
que originou de fato este mito.
Sobre a função do mito Durand (1994) argumenta que: "Como o mito
não é nem um discurso para demonstrar nem uma narrativa para mostrar, deve
servir-se das instâncias da persuasão indicadas pelas variações simbólicas
sobre um tema" (DURAND, 1994 p.60). Isto é, como o mito não se trata de algo
demonstrativo a variação simbólica é importante para a persuasão sobre um
determinado tema, sendo assim os símbolos são fundamentais para qualquer
análise do imaginário.
Durand (1994, p.9) afirma que: "Sem dúvida nossa herança ancestral
mais antiga e incontestável é o monoteísmo da Bíblia. A proibição de criar
qualquer imagem como um substituto para o divino.". Nessa citação Durand
refere-se a um dos dez mandamentos onde Deus diz que nenhuma imagem ou
escultura pode ser adorada, sendo ele o único digno de adoração. Daí é
possível ver o valor existente nos símbolos na composição de um mito tão
presente na construção da sociedade como é o mito cristão.
25

Segundo Eliade (1955) o mito sempre conta como algo passou a existir,
qual foi o princípio de sua criação ou explica como um padrão se iniciou, sendo
assim, ao conhecer o mito conhece-se a origem das coisas e
consequentemente estabelece-se domínio sobre elas. O mito também pode ser
vivido no sentido de que se é impregnado pela reatualização dos valores
sagrados, sendo o mito um ingrediente vital da civilização humana podendo ser
descrito como uma realidade viva, isto é, diante do imaginário do homem
sagrado, Deus não está morto como diz Freud em uma de suas mais famosas
frases. No caso do mito cristão, nutre-se a curiosidade humana de saciar-se de
respostas como: de onde viemos, quem somos e para onde vamos.
Para Durkheim (1989), é possível definir que a religião é algo
predominantemente social manifestado através de representações coletivas de
grupos dirigidos com finalidade de confortar alguns dos estados mentais dos
indivíduos inseridos neles.
Uma vez que o encontra no cristianismo uma solidificação e um conforto
para suas dúvidas, os símbolos presentes em sua religião passam a ser
sagrados e, via de regra, essa sacralidade passa a fazer parte do seu cotidiano
e daqueles que estão ao seu redor, considerando que o mito cristão transmite
ao homem sagrado o desejo ou a obrigação de pregar a palavra daquele que o
criou, lhe deu vida, entendimento, sabedoria e vida eterna.
Parte-se da premissa de que, quando o homem e sua estrutura familiar e
social nutrem-se do sagrado forma-se um fator de facilitação para a formação
de símbolos uma vez que, segundo Durand (1994) a formação de todo o
símbolo precisa da estrutura dominante do comportamento cognitivo, estando
relacionados a isso os níveis de educação que se sobrepõem na formação do
imaginário, argumentando que em primeiro lugar encontra-se o ambiente
geográfico mas desse já regulamentado pelos símbolos parentais na educação
ou o nível lúdico das aprendizagens.
É também possível observar no cristianismo a dualidade entre imagens
do bem e do mal, Deus e o Diabo como detentores específicos dos respectivos
conceitos de certo e errado. Durand (1994) relata sobre a dualidade onde cada
termo precisa do outro para existir, sendo que em qualquer projeção imaginária
precisa haver uma conivência mutua para que ambos existam. Durand
26

exemplifica isso: “quando evocamos Diabo em nome do bom Deus é porque


precisamos dele! Como Freud já observara, o herói depende do monstro ou
dragão para transformar-se num herói. (1994, p.83)”.
Percebe-se no ocidente uma predominância do cristianismo e de seus
valores conservadores que notavelmente passam de geração para geração, e
percebemos o quanto esse mito é forte por conta do tempo em que ele impacta
a civilização sendo que para Durand (1989) o imaginário sofre mudanças fortes
ao decorrer do tempo e das gerações sendo que, segundo o autor, isso corre
em um período entre 150 a 180 anos, tempo esse que é equivalente a três
gerações dentro do que hoje considera-se geração. O tempo serve por tanto
como uma forma de institucionalização pedagógica com reflexo social em
ambiente global e, sendo assim, observar a repetição de comportamento de
geração para geração enriquece a análise do imaginário.

3.5 AS EVOLUÇÕES E O DESGASTE DO MITO

Sobre as mudanças do imaginário ao decorrer do tempo Durand (1994)


relata que mudanças são regidas por um princípio dos limites sendo que um
limita no tempo a gestão de uma base mítica e outro as escolhas das
mudanças míticas. Como exemplo de duas vigas míticas antagonistas Durand
(1994) cita o nacionalismo e comunismo leninista-stalinista:

Duas vigas míticas antagonistas: uma oficializada pelos poderes


políticos, e a outra, subterrânea e "latente". Aquela encontrando
conforto nas teorias cientistas e pseudo cientificas, esta mascarando
os problemas e as angustias da nossa modernidade debaixo de
soluções e imagens de teorias herméticas antiquíssimas. (p.66)

O mito também possui suas fases evolutivas, Segundo Durand (1998)


perenidade, derivações e desgaste constituem as evoluções ou manipulações
sofridas pelo mito. A perenidade é um termo utilizado na filosofia ou na
sabedoria como: sophia perennis ou filosofia perennis, se encontrando sempre
ao lado do logos e da razão e não ao lado do mythos.
Para Wunenburger (2007) pode-se afirmar que todo mito evolui segundo
dois processos: seja um mito ele próprio articulado em mitemas, que passa por
uma espécie de ou então se preste a um processo de derivação.
27

O mito é chamado, em virtude de seu compartilhamento e de sua


transmissão, a uma metamorfose permanente. Os narradores do mito, em
asseguram sua renovação contínua ao defender que contar mitos é introduzir a
diferença e, portanto, participar da renovação, da recriação do mito através da
repetição.
Ainda sobre o mito Wunenburger (2007) pode-se distinguir três
passagens do mito tradicional para o mito literário sendo ela a reanimação
hermenêutica, onde os mitos podem gerar uma retomada de seu sentido dentro
de um novo contexto cultural, a bricolagem mítica, onde então o mito se
transforma não pela própria atividade mas sim pela reorganização da
arquitetura narrativa e, por fim, temos a transfiguração barroca, no qual uma
formação mítica se vê transformada por uma reescritura lúdica que atua por
meio de inversões. O autor defende que em determinadas culturas, se vê
submetido a perpétuas transformações, que implicam ao mesmo tempo
movimentos de emergência e de declínio de alguns mitos. Essa transformação
dos mitos é importante de ser analisada, já que ela atinge de tanto os mitos
literários e artísticos em geral como os mitos sociais e políticos que impactam a
sociedade.
Ainda tratando sobre a evolução do mito, Durand (1998) afirma em sua
obra que perenidade é o conceito de qualquer coisa que se mantem afirmando
que na perenidade parte do mito de mantem intacta durante um longo espaço
de tempo, todavia, a perenidade é relativa a comunidade podendo
determinados mitos serem mais perenes que outros, caso em que podemos
citar os mitos cristãos.
O mito, segundo Durand (1998), é quadro senão formal pelo menos
esquemático que é preenchido por elementos diferentes, e isso é denominado
como derivação, que é uma modificação do interior do mito e junto com a
perenidade compõe as duas faces do mito, sendo que o mito jamais
desaparece, mas por conta de seu movimento temporal onde existem períodos
de deflação e inflação ele desgasta-se.
O desgaste do mito acontece no período de deflação, ocorre quando as
derivações a um momento limiar e crítico onde se perde o condutor conjunto
que constitui o mito. Isso consiste numa derivação que se afasta muito de suas
28

bases já que existe uma estrutura dinâmica do mito que se desenvolve num
cenário.
Um adendo importante a ser feito, principalmente quando se trata do
estudo do imaginário voltado a comunicação social e a indústria do
entretenimento, é o de segundo Durand (1998), a sociedade vive em uma
esfera repleta de imagens onde existe constantemente bombardeados destas.
Quando o indivíduo se vê sufocado pelo excesso de informação, procura cada
vez mais estabelecer filtros para captar aquilo que melhor interessa para a sua
atenção, sendo assim o valor dado a emissão da imagem tal como a atenção
destinada a ela está diretamente ligada ao receptor e como ele lida com o
filtrando imagens.
Guardando em mente o conceito de inflação e deflação do mito citado
anteriormente, observa-se que, dentro de um padrão geral, quando existe em
determinado grupo social uma força impositiva e de certa forma autoritária,
existe também o surgimento de manifestações artísticas que rebelam-se contra
a imposição através da música, da pintura, do teatro ou de outra expressão
artística que esteja ao seu alcance. Pode-se tomar como exemplo disso a
reação no Brasil durante e posteriormente ao golpe militar de 1964, de onde
surgiram manifestações artísticas que ainda hoje são aclamadas pelo público.
O fenômeno anteriormente citado encontra base no mito, uma vez que o
imaginário de um indivíduo é, por exemplo, inseparável dos grandes símbolos e
mitos políticos presentes na esfera em que ele vive.

3.6 IMAGINÁRIO, ROCK E HEAVY METAL

Ao observar o cenário da indústria do entretenimento podemos notar o


forte papel do Rock e do Heavy Metal como ferramenta de expressão de
inconformidade. Segundo Christe (2010), o Heavy Metal surgiu em meio a um
cenário onde predominava a cultura Hippie, onde se pregava a paz e o amor
diante de um cenário de conflitos sociais e em meio a guerras, sendo assim o
Heavy Metal aparecia como uma expressão de rebeldia e insatisfação perante
esse cenário, surge daí um gênero criado para expressar uma insatisfação
social.
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Para Leão (1987) o que caracteriza o Heavy Metal, muito além das
roupas ou dos instrumentos é sua essência primitiva, para ele uma das
características que influenciou a aceitação do gênero musical foi seu apelo
rebelde diante do cenário conservador dos Estados Unidos que apontou o
Heavy Metal como ritmo do diabo. Aí observa-se mais uma vez uma tendência
social de, através do mito cristão, classificar um movimento de oposição ao
padrão da época fazendo uso da imagem do Diabo, isto é, o mal e
contrapartida do bom, um cenário polarizado onde precisa existir o mal para
que o bem estabeleça-se com imagens que representa aquilo que é
supostamente correto diante de uma ideologia.
Sobre as forças antagônicas de bem e mal, forças essas que podem ter
sua existência evidenciadas pelo comportamento social em classificar o Heavy
Metal como o gênero do Diabo, sobre tais Durand (1998) exemplifica que nas
culturas tradicionais como no pensamento grego o mito vem através do
princípio de forças divergentes e opostas, o bem e o mal e está interligado com
aquilo que é designado como princípio de prazer e princípio de realidade e a
guerra de Deuses se traduz em termos de nostalgia, queda, pecado, rebelião,
exílio mas igualmente em redenção e salvação considerando a existência da
economia da salvação.
Segundo Eliade (1965) o sagrado e o profano constituem duas
modalidades de ser único, que coexistem, mas que são dispares. A
manifestação de ser profano nunca vai ser estrito no sentido da palavra porque
dentro do espaço e do tempo dos homens profanos, por mais profanos que
sejam há momentos sagrados, como o nascimento de um filho ou o primeiro
beijo.
Segundo Eliade (1965), as ameaças exteriores da profanidade estão
ligadas à figura maligna de demônios que a ameaçam causar caos ao Cosmos.
De acordo com o autor, aparecem sempre como dois conceitos paralelos e
opostos, onde o profano ameaça ao sagrado uma vez que o cosmos é uma
formação de obra divina, a ameaça que vem contra ele é vista como algo que
pode vir a ser causado pelos demônios que se rebelam o divino para promover
o caos e a destruição.
30

Durkheim (1989) afirma que a distinção da realidade dentro da religião


consiste em duas partes opostas, a sagrada e a profana. A sagrada se
caracteriza por agrupar um conjunto de crenças que em sincronia formam uma
unidade, o que pode ser chamado de religião, crença ou rito. Isto está
diretamente ligado a sensações emoção e crença, por isso existe a reação
imediata de defesa, quando o sagrado é profanado, o que pode ter acontecido
diante do surgimento do Heavy Metal perando ao conservador cenário dos
Estados Unido da América.
Independentemente de como são classificadas por uma sociedade
conservadora, pode-se dizer que ideias sociais, representadas por seus
gêneros musicais típicos, como é o caso do Rock n’ Roll e do Heavy Metal, são
responsáveis por suprir uma considerável demanda da indústria do
entretenimento. Segundo Wasler (1993), gêneros estão ligados às ideologias
sociais e existem porque esta é uma demanda da sociedade.

[...] gêneros existem porque as sociedades coletivamente escolhem e


codificam os atos que correspondem as suas ideologias. Discursos
são formados, mantidos e transformados pelo diálogo; falantes
aprendem e respondem para outros, os significados das reiterações
nunca são permanentemente fixos, não pode ser encontrado num
dicionário (WALSER, 1993, p. 28).

Segundo Chacon (1985), o rock como gênero musical pressupõe a


integração do conjunto ou do vocalista com o público, procurando estimulá-lo a
sair de sua convencional passividade perante os fatos. Para Chacon, (1985) o
rock é e se define pelo seu público que, por ser variável, exige que o rock se
adapte em função do processo de choque com a cultura local e com a
mudança de tempo e gerações, sempre valorizando as letras. É importante
observar em cima disso que, segundo Wunenburger (2007) a riqueza de um
texto dentro da perspectiva do imaginário vem através da virtualidade das
significações de sua potencialidade de surgimento de novos sentidos.
Pode-se notar que o Rock, principalmente em seus primórdios, além de
crítica social, era rico em letras e canções de ritmo explosivo com refrãos
marcantes e sempre cantados e repetidos por diversas vezes pelo vocalista da
banda. Isso vai de acordo com o que escreve Durand (1994) onde ele cita que
a música, da mesma forma como o mito, é onírico depende da simétrica dos
31

temas onde um sentido só pode ser atribuído através da repetição e da


redundância.

3.7 OS ESQUEMAS

Wunenburger (2007) relata sobre os esquemas, noções desenvolvidas


através de Bachelard (1985) hoje muito usada em análises do imaginário que
pode servir de ferramenta para a análise de letras, músicas e videoclipes. Os
esquemas possuem em seguida por meio dos arquétipos e depois dos
símbolos. Sua ação é dividida em dois regimes de constituição de imagens e
de relatos, o que Bachelard (1985) vai chamar de noturno e diurno. O primeiro
deles é categorizado como intimista, este então tende a aglutinar os elementos
atuando sobre as analogias e as eufemizações das diferenças, já o diurno
rende ao contrário a valorizar os cortes, os antagonismos e as antíteses. O
estudo dos materiais do imaginário permite assim obter, a partir desses dois
regimes, três estruturas que se organizam em torno de constelações
simbólicas: uma estrutura a chamada diairética também conhecida como
heroica, que valoriza, conforme Wunenburger (2007) cita as imagens do
bestiário, da oposição noite-dia, de queda, de armas, uma estrutura inversa,
mística, com seus procedimentos de simbolização que seguem a inversão
como encaixa, imagem maternal ou a intimidade com a tumba, a taça, alimento
nutritivo); entre as duas, sempre dependendo do regime noturno conciliador,
uma estrutura cíclica, dramática ou então sintética.
32

4 METODOLOGIA: EM BUSCA DO IMAGINÁRIO DA BANDA GHOST

Objetiva-se, através do estudo a seguir, fazer um levantamento dos


símbolos e estabelecendo relação com o mito cristão assim trazendo através
deste a leitura e da aplicação da metodologia mitocrítica a tradução das
representações presentes nos videoclipes.

4.1 O SURGIMENTO DA BANDA GHOST

A banda Ghost, chamada nos Estados Unidos de Ghost B.C, uma vez
que no país existe uma com este mesmo nome, é uma banda dos gêneros
Metal e Rock criada no ano de 2008 na cidade de Linköping e que ganhou
destaque no cenário pop no ano de 2010 com o lançamento de album Opus
Eponymous, posterior a gravação do CD Demo com três músicas (Death Knell,
Prime Mover e Elizabeth), o que rendeu ao grupo o contrato com a gravadora
Rise Above Records. Apesar de sua criação como banda no ano de 2008, a
banda Ghost só começou a se apresentar no ano de 2010 no Festival Live Evil,
em Londres e no Festival Hammer Of Doom, em Wurtzburgo.
Mesmo com o importante salto dado pela banda em sua carreira no ano
de 2010, o apelo da proposta do grupo para muitos ainda deixava a desejar, e
para vários dos que hoje são fãs da banda isso só foi possível com o
lançamento de Infestissumam, o segundo álbum da banda publicado no ano de
2013. É o que conta a engenheira de som Laura Hörlle 2, 29 anos, que
conheceu a banda no ano de 2012 na Noruega, país em que a banda já se
tornava muito popular. Laura conta que de início não gostava muito da Ghost
pois via nela a mera proposta de um apelo oportunista utilizando-se de
elementos puramente estéticos e de música vazia e repetitiva para chamar
atenção, mas com o surgimento de Infestissumam a engenheira de som mudou
sua visão ao notar que a banda Ghost se colocava em um caminho onde não
se tratava apenas de apelo visual. Foi aí que Laura, hoje fã do grupo, começou
a criar carinho e admiração pela banda.
No Brasil um dos grandes responsáveis pela popularização da banda foi
o festival Rock In Rio do ano de 2013. Entretanto, se apresentando no mesmo

2
Entrevistada diretamente pelo autor via telefone. Questionada sobre aspectos da estrutura da banda e de
sua opinião enquanto profissional da área e fã.
33

dia que bandas como o Metállica, o sexteto sueco não teve boa aceitação do
público brasileiro que estava presente no festival de forma que era perceptível
o desprezo da plateia pela presença da banda, onde em tons de deboche
durante as canções de músicas que tinham uma pegada um pouco direcionado
para o pop a plateia chegou a chamar pela cantora Anitta. Já na imprensa,
ainda que a apresentação do grupo não mostrasse nada além do que é sua
proposta desde o ano de 2008, veículos conhecidos por adotar uma postura
mais conservadora em seu conteúdo, noticiaram a apresentação da banda
Ghost como um deboche à igreja:

Figura 1 – Reportagem sobre a banda Ghost

Fonte: Veja.com

Apesar da rejeição em palco, a transmissão do Rock In Rio serviu como


uma maneira de engajar o debate nas redes sociais. Entre críticas e elogios, a
banda se solidificou para seu nicho de mercado brasileiro e hoje conta com
diversos fã-clubes virtuais, além de uma boa economia afetiva presentes na
venda de produtos da banda. Este fenômeno que aconteceu após
apresentação da banda em um dos maiores festivais do mundo nos demonstra
que o público de massa brasileiro não é culturalmente receptivo a proposta da
banda e que o valor do grupo para a indústria do entretenimento é um exemplo
vivo de nicho, conforme visto anteriormente.
34

4.2 PERSONAGENS, ENREDO E ATUALIDADE

O grupo tem como característica de destaque utilizar-se da teatralidade


tanto quanto de elementos audiovisuais contento imagens que fazem
referência ou citam explicitamente o maligno e, do que por alguns críticos de
música é chamado de horror show, como características para ganhar destaque
e singularidade no cenário musical. Além disso, suas canções ao mesmo
tempo que são lentas trazem energia pesada, com sons altos de guitarra e tons
de cantos gregorianos, assim como referências ao Rock dos anos 70
acompanhados de letras em Inglês e Latim, o que dá aos shows da banda o ar
de missa sombria.
Outra característica de destaque da Ghost é a riqueza de personagens,
começando pela figura do Papa Emeritus, vocalista e principal símbolo da
banda que interpreta o papel antagônico ao de um papa tradicional. O Papa
Emeritus da banda Ghost teve três versões: o Papa I, o Papa II e o Papa III,
sendo o critério para o surgimento de um novo papa o lançamento de um novo
álbum da banda.

Figura 2 – Papa Emeritus II e Nameless Ghouls

Fonte: Página oficial da banda no Facebook


35

4.2.1 O anonimato

O anonimato era outra marca registrada da banda, já que por muito


tempo o vocalista e fundador do grupo Tobias Forge, músico sueco que na
banda faz o papel do Papa Emeritus, conseguiu permanecer anônimo, tal como
os outros integrantes da banda, que não possuem nomes individuais, apenas
são chamados de Nameless Ghoul. A identidade de Tobias como sendo o
Papa Emeritus só foi confirmada no ano de 2017 quando todos os integrantes
deixaram a banda, revelaram sua identidade e processaram o vocalista por
conta de cachês que, segundo os ex-integrantes, não teriam sido pagos.
Tobias então seguiu com o Ghost, contratou uma nova banda anônima e deu
andamento ao que havia começado.

4.2.2 Atualidade da banda

O ano de 2018 foi marcado pelo surgimento de novos personagens, já


que a banda se prepara para o lançamento de Praquelle, seu quarto disco em
estúdio previsto para estrear no mês de junho. O último líder da banda, Papa
Emeritus III, depois do último show de Meliora (disco antecessor a Praquelle),
na Suécia, foi teatralmente retirado à força pelos seguranças do show,
enquanto isso, outros dois seguranças conduziam até o palco o Papa Emeritus
Zero, um papa já aparentemente afligido pela idade, com máscara de oxigênio,
bengala e mãos tremulas, o Papa Zero se apresenta como um líder do
Conselho Papal e promete: “Eu sou o Papa Emeritus Zero. A festa acabou e
agora uma nova era se inicia. A Idade Média começa agora”.
36

Figura 3: Papa Emeritus é retirado a força do palco

Fonte: elaborado pelo autor a partir de imagens do show da banda.

De início, muitos fãs chegaram a crer que o Papa Zero seria o


personagem que substituiria o Papa Emeritus III, o que não aconteceu. Este
Papa na verdade revelou-se um personagem de transição no enredo teatral da
banda para preparar a chegada do Papa Emeritus IV. Isso porque Tobias
Forge, o homem por traz das máscaras, disse em entrevista à revista Metal
Hammer estar ansioso por um conceito de antiguidade versus novo. Para
Tobias, o Papa Zero pode ser um líder ancião da igreja mas é preciso de uma
figura mais jovial e vibrante para fazer as massas dançarem, por isso a decisão
de colocar o Papa Zero como o mestre de um novo personagem que estaria
por vir.
Algum tempo após o surgimento do Papa Zero, a banda Ghost lançou
em seu canal oficial do You Tube uma sequência de vídeos intitulada New
Blood, com três capítulos em formato de esquete. Entre as cenas que
aparecem na trilogia, acontece o diálogo do Papa Emeritus Zero cum uma
religiosa com vestes semelhantes a utilizada por freiras, onde é mencionado o
sucesso obtido pela banda mencionando o Grammy, prêmio do último disco.
Mas a mensagem passada na sequência é de que isso não é suficiente e o
grupo precisa de um líder com mais jovialidade, energia e carisma sexual, isto
é, um papa mais jovem.
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Então, com trajes de Cardial, surge nessa sequência de vídeos o mais


novo personagem: Cardinal Cópia. Com características muito joviais o novo
personagem é o último personagem de transição antes do surgimento do Papa
IV, pois é ele quem o Papa Zero terá a missão de transformar no novo papa até
o lançamento do novo disco em junho.

Figura 4: Papa Zero e “Irmã” recebendo o Cardinal

Fonte: elaborado pelo autor a partir de imagens do show da banda.

Sendo assim, atualmente a composição do grupo conta com o Papa


Zero, com aparições em shows e vídeos para a internet, o Cardinal, atualmente
o vocalista e protagonista temporário da banda, e os Nameless Ghoul, os
instrumentistas mascarados.
Pode-se perceber através do panorama aqui descrito baseado na
atualidade da banda um enredo, embora antagônico, muito fiel e paródico aos
ritos presentes no mito cristão, sendo que a transição papal tradicional da igreja
católica onde após Con Clavi um cardial se torna Papa, é só um dos exemplos
presente no forte enredo da banda.

4.3 TOBIAS FORGE: O HOMEM POR TRÁS DA MÁSCARA

Para entender a estrutura da banda Ghost, é importante saber o papel


exercido por Tobias. Como citado anteriormente, o músico sueco teve sua
identidade confirmada como sendo o Papa Emeritus apenas no ano de 2017,
isto é, ele conseguiu o feito de permanecer anônimo por nove anos até que um
processo coletivo de ex-integrantes da banda junto a uma entrevista de rádio
onde o próprio confirmou sua identidade após um monólogo homenageando
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seu irmão que havia falecido no dia em que a banda divulgou seu primeiro
trabalho na plataforma My Space.
A entrevista concedida pelo vocalista para a rádio a rádio sueca Sommar
i P1, em agosto de 2017, foi um dos principais marcos na carreira do músico
que se obrigava a partir dali a abandonar a proposta de anonimato que vinha
seguindo severamente durante anos. Em estado raro de demonstração de
emoção em entrevistas Tobias explica que uma banda que toca músicas como
Prime Mover não poderia subir ao palco usando camiseta e calça jeans,
precisa ser algo grandioso, anônimo e teatral.
Além disso, durante a entrevista, antes da confirmar pela primeira vez
sua identidade, Tobias direcionou uma fala para seu falecido irmão
enaltecendo tudo o que o Ghost havia conquistado até o momento, citando o
fato de estarem tocando em grandes arenas, terem ficado amigos dos
integrantes do Metálica, relatou que sua mãe estava orgulhosa por tudo aquilo
e ela mesmo fazia questão de dizer a todos quem ele era, mesmo que isso
fosse para ser anônimo, mas que isso não tinha mais nenhuma importância.
Após o desabafo, Tobias profere a frase que passou a ser histórica para o
Ghost, marcando por fim a quebra do anonimato de seu idealizador: “Eu sou
Tobias Forge. Eu sou o homem por trás da máscara do Ghost.”

4.3.1 A principal crise

Foi também durante ano de 2017, ainda antes da polêmica do processo


dos ex-membros da banda que Tobias, em uma entrevista a rádiometal.com.br
no dia 28 de março declarou que o Ghost não era uma banda de formação fixa,
por isso as inúmeras mudanças na formação da banda. Ele deixou claro que a
banda que tocava nos shows ao vivo não era a mesma que gravava para os
álbuns e que no momento já não havia mais ninguém da formação inicial, de
2008 sendo então ele o centro de todos os acontecimentos. Tobias demonstra-
se assim mais do que um líder da banda, ele exerce o papel de dono dela,
sendo a Ghost uma espécie de projeto solo com participações de
instrumentistas selecionados por ele
39

5. VIDEOCLIPES: O CORPUS DE ANÁLISE

Seja na música, no palco, mas principalmente em seus videoclipes


existe a possibilidade de analisar de maneira eficaz imagens ricas que se
referem ao mito cristão e seus ritos juntamente a forma que a Ghost os utiliza
para transmitir sua mensagem. Afim de contemplar ao máximo a riqueza de
elementos presentes na obra de Tobias Forge junto aos demais músicos da
banda Ghost, serão utilizados videoclipes publicados nos canais oficiais da
banda junto a elementos de apresentação de shows oficiais e extraoficiais.
Foram selecionados para o corpus de análise videoclipes lançados entre o ano
de 2013 e 2018, contemplando singles de três diferentes álbuns para assim
obter uma amostragem consistente sobre o trabalho da banda nos últimos
tempos, considerando também que os álbuns utilizados, de acordo com as
métricas apresentadas pelo Youtube (principal plataforma de divulgação dos
videoclipes), são os de maior sucesso em número de acessos.

A) Year Zero (Infestissumam - 2013)

Year Zero, lançado no ano de 2013 junto ao álbum Infestissumam (que


significa hostil em latim) que estrou no dia 10 de abril, o som mistura Rock com
Metal Progressivo. O som contém um coro macabro e batidas que levam o
ouvindo à disco music.
A música é uma das únicas que a criação não foi ideia de Tobias Forge, na
época o Papa Emeritus II, mas sim de um dos Nameless Ghoul, o guitarrista
Martin Persner. Tobias, entretanto, fez questão de escrever a letra e fazer
todos os arranjos musicais desta canção que foi o segundo single do álbum.
O videoclipe da música gravada pela Loma Records foi lançado no dia 25
de março de 2013 e foi dirigido por Amir Chamdin, que por conta das cenas de
nudez no clipe precisou fazer uma versão censurada para a divulgação no
Youtube. Em uma primeira visão do clipe é possível ver uma velha casa de
madeira onde dentro estão mulheres com trajes tradicionais de freiras, quando
chega um homem de vestes pretas no ambiente, é recebido calorosamente
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pelas mulheres e junto delas faz uma ceia. Assim que o homem se retira do
ambiente todas tiram suas blusas e vestem a roupa dos Nameless Ghoul.

B) He Is (Meliora – 2015)

He Is é um single lançado no ano de 2015 que se tornou um dos grandes


destaques do álbum Meliora e da discografia da banda Ghost. É possível
analisar no som a presença de elementos tanto do Rock quanto do Metal, além
de um videoclipe rico e um dos com aparição mais explicita (se não o mais) de
imagens presentes no mito cristão, tanto de denominação evangélica quanto
católica.
A letra da música já existia em versão demo desde antes do ano de 2015,
entretanto, a banda julgou que ainda não estaria apta a ser produzida
oficialmente. A inspiração que ajudou na composição da letra só apareceu
após a morte de Selim Lemouchi, vocalista da banda holandesa The Devil’s
Blood, muito próximo de um dos membros presentes na formação da banda
Ghost de 2015, o autor da letra de He Is.
O vídeo clipe é dirigido por Zev Deans, e contém elementos visuais
brilhantes que acompanham uma música suave. No clipe Emeritus lidera uma
congregação atuando como líder religioso, durante seu culto ele segura rosas
brancas e abraça crianças. Ele também é visto batizando jovens e expulsando
demônios, além de ser visto recebendo dinheiro da congregação em bandejas.
É possível notar no clipe um excesso de alegria por parte das pessoas dentro
da igreja onde o Papa Emeritus está. Vale ressaltar que o álbum Meliora trata
de uma utopia/distopia da sociedade moderna.
41

6. MITOCRÍTICA

O autor Gilbert Durand em sua obra intitulada Campos do Imaginário


(1996) visa atribuir uma explicação didática sobre o funcionamento do mito e
sobre sua forma de análise, a mitocrítica, metodologia esta que será utilizada
neste trabalho para analisar os mitos e símbolos dos mitos cristãos presente no
enredo da banda Ghost.
Segundo Durand (1996), o mito surge em primeiro momento como um
discurso. Este discurso traz à tona personagens, situações e cenários que,
segundo ele, são mais ou menos não naturais, no entanto, é sempre no
aspecto não natural que está situado o discurso mítico, que é segmentado em
pequenas unidades semânticas intitulada de mitemas.
Para Durand (1996), o mito pões em ação uma lógica especial, uma pré-
lógica que não é habitual, lógica essa que chegou a receber o apelido de pré-
semiótica. Durand faz demarcações para a definição de mito. Em primeiro
lugar, seria ele definido pelo léxico, no nome próprio, no nome da personagem,
no local, no cenário e nos elementos. Já o segundo ponto é definido pela
articulação dos mitemas, sendo essas articulações redundantes o que significa
que o mito na lógica demonstrativa através da repetição.
Para melhor esquematizar o funcionamento do mito e explicar suas
evoluções e mutações, Durand (1996) descreve três categorias: perenidade,
derivações e desgaste. A primeira delas, a perenidade, é aquilo que sempre se
mantém e encontra-se ao lado da razão, ela é, dentro do mito, aquilo que se
mantém. A perenidade está do lado dos resíduos, já as mudanças e
metamorfoses no interior do mito estão ao lado das derivações. Segundo
Durand (1996) o mito é um quadro esquemático preenchido por diferentes
elementos, e é a isto que se atribui o termo derivação.
O desgaste é atribuído aos períodos de deflação do mito, período esse
em que o mito desvia de seu estado comum de bom funcionamento. Já ao
tratar dos desgastes do mito Durand (1996) afirma que existem dois tipos de
desgastes provenientes da mesma forma, a disjunção entre conotação e
denotação uma vez que existe excesso de uma destas duas partes o mito
perde sua função mítica.
42

Segundo Durand (1996) um mito só existe através de uma série de


mitemas qualitativos ou figurativos, existindo sempre uma ligação entre uma
denotação qualitativa e uma conotação caracterizada por uma série de atos,
situações. Desde o momento em que existem flutuações nos mitemas pode
falar-se em derivação.
Para Durand (1996) o mito não parte de um momento zero, assim como
também nunca conserva seu estado puro. Existem, no entanto, inflações e
deflações e é por esta razão que o mito vive.
Segundo Durand (1996), ocorre o desgaste do mito quando se chega a
um limiar de derivação que falta definir e não é igual para todos os mitos,
depende, no entanto, da importância de cada um. O mito, no entanto, nunca
desaparece por conta de mitemas limitados e quando um mito desaparece,
outro o substitui.
Durand (1996) faz estas observações afim de guiar o estudo do aparelho
mítico e servir como ferramenta para o estudo e o entendimento na
identificação de ideologias e terminologias de uma sociedade e de uma época.
É nisso também que se apoia a mitocrítica, onde Durand de maneira didática
vai apontar instruções para sua aplicação.
A mitocrítica descreve uma narrativa literária, sendo também essa
podendo ser musical, cênica ou pictural sendo que, antes de qualquer coisa, é
necessário estabelecer seus objetivos e ter em mente o que é relevante para o
estudo do objeto de análise tendo sempre em vista que o mito é o modelo
matriarcal de toda a narrativa.
Durand (1996) descreve seis níveis de narrativa, o primeiro deles é o
próprio título, que pode revelar importância se este for redundante num autor
ou ele pode conduzir a um contra senso e para exemplificar isso Durand (1996)
usa o caso do livro Assim Falava Zaratustra, obra esta que não se referia a
Dionísio como acreditava seu autor mas sim a Hermes.
Em segundo lugar, Durand (1996) fala da obra de pequena dimensão, o
soneto, a balada a novela e argumenta que este são mais intimidativas quanto
a suas intenções, podendo gerar inúmeras interpretações.
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Em terceiro lugar, Durand (1996) fala então das obras de grandes


dimensões como romances e coleções de esboços argumentando que dentro
disso a mitocrítica pode ser exercida com maior eficácia.
Em quarto, Durand (1996) fala sobre obras completas de autores onde a
amplitude a obra permite distinguis épocas na gênese mítica de uma obra
levando em consideração que ali existe, durante sessenta ou setenta anos da
vida do autor, materiais dos mais diversos períodos, e é aí que chegamos a
importância do quinto nível, que é justamente a época a ser analisada em uma
obra. Por último, Durand (1996) fala do terreno de investigação que abar um
espaço e um tempo, onde mais vasto for o terreno mais ampla será a análise a
seu respeito. Além do levantamento de terreno, é necessário que uma
mitocrítica contenha uma recolha de amostras que seja significativa.
Dentro do método qualitativo a repetição, a metábole está bem inserida
na redundância que caracteriza o mito. A qualificação está inserida em atribuir
qualidade bem definida a um ato, a um objeto ou a uma situação onde dentro
da mitocrítica, utilizando os anteriormente já citados, contexto temporal e
terreno, deve-se o considera-los nesse método para atribuir uma análise.
É preciso ter em vista também que toda a obra tem uma necessidade de
interpretação e na música isso se faz mais evidente. A leitura e a interpretação
desta são, em última análise a tradução que da vida a obra.
No caso da banda Ghost, faz necessário analisar qualitativamente os
mitos presentes na obra, os símbolos e suas interpretações afim de
entendermos quais elementos míticos se fazem presente na significação da
obra, visando sua temporalidade e o terreno amplo de estudo oferecido pelo
repertório deste objeto de estudo.
44

7. ANÁLISE

Neste capítulo serão analisados os videoclipes já apresentados


anteriormente no corpus de análise da presente monografia. Visando o
entendimento e o detalhamento dos símbolos e imagens do mito cristão, tal
como a observação de suas repetições presentes nos videoclipes e afim de
entender seus diversos contextos em paralelo com a letra, será praticada neste
capítulo ama decupagem do material audiovisual seguida posteriormente da
análise do conteúdo através da metodologia mitocrítica de Gilbert Durand.

7.1 VÍDEOCLIPE HE IS (ELE É): ANÁLISE VISUAL E DECUPAGEM

Figura 5 – Cenas de Abertura: Céu Negro

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “He Is”.

O videoclipe da música “He Is”, com duração de 4min e 20s, mostra em


sua abertura um céu negro. Vê-se o logotipo da banda Ghost em 3D, a câmera
vai descendo até que se vê o Papa Emeritus vestindo um terno branco sobre
um fundo totalmente preto e segurando uma rosa também na cor branca. a
câmera foca Papa Emeritus em plano médio onde com olhos arregalados ele
tira a rosa branca da frente de seu rosto e começa a cantar.
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A câmera então foca em Papa Emeritus em plano médio onde com olhos
arregalados ele tira a rosa branca da frente de seu rosto e começa a cantar. É
possível ver uma sobreposição de baixa opacidade com Emeritus mudando a
postura de seu corpo. Vê-se posteriormente a isso o Papa Emeritus de braços
abertos recebendo o abraço de crianças que, assim como ele, vestem trajes
integralmente brancos. Ao fundo negro é possível ver estrelas.
Vê-se as mãos de Emeritus, utilizando luvas brancas, de onde surgem
seis esferas luminosas que são oferecidas a uma das crianças.
Durante a passagem de cenas vem o canto em que a letra diz:

Nós estamos aqui de pé no abismo


E o mundo está em chamas
Dois amantes impossíveis tentando alcançar
A besta de muitos nomes
Ele é
Ele é o brilho e a luz sem os quais eu não posso ver
E ele é
Insurreição, ele é rancor
Ele é a força que me fez ser
Ele é
Nosso soberano pai
Nossa amável mãe
Ele é
(GHOST, 2015, tradução nossa)

A duração temporal deste conjunto de cenas e canto dentro do


videoclipe vai de: 00:01 até 01:18.
46

Figura 6 – Cenas adentrando a igreja

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “He Is”.

Vê-se mulher jovem com trajes brancos soprando um dente de leão


(planta), posteriormente aparecem mais mulheres jovens correndo ao ar livre
também de branco no pátio da igreja estampando sorriso em seus rostos e
saltitando, elas adentram a porta da igreja. Lá dentro está Emeritus
gesticulando com as mãos em direção ao peito enquanto canta. Posteriormente
ele ergue os braços para cima, gestualidades estas que parodiam a de um líder
religioso conduzindo um culto ou missa diante de sua congregação.

As mulheres entram na igreja. Sobre a plataforma está Emeritus. Dentro


da igreja vê-se pétalas de rosas brancas espalhadas pelo chão, pessoas
sentadas nos bancos olhando para Emeritus, flores penduradas nos bancos. É
possível ver muito brilho enquanto as mulheres, todas sorridentes, se
encaminham até a plataforma. Vê-se também com destaque o olhar de
deslumbre em uma das mulheres presentes no grupo.

Enquanto as cenas acontecem a letra diz:

Nós estamos nos escondemos dentro de um sonho


E todas as nossas dúvidas agora estão destruídas
A guia da Estrela da Manhã
Conduzirá o caminho até o vazio
(GHOST, 2015, tradução nossa)
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A duração temporal deste conjunto de cenas e canto dentro do


videoclipe vai de: 01:18 até 01:45.

Figura 7 – Papa Emeritus conduzindo o culto

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “He Is”.

Emeritus, que veste trajes predominantemente brancos com alguns


detalhes dourados, está usando óculos escuro na cor preta, objeto esse que se
destaca. Vemos daí um coral inteiramente composto por mulheres regido pelo
Papa Emeritus, que segue gesticulando como um líder religioso que está
regendo cânticos da sua congregação, limpa o suor enquanto segue
conduzindo a igreja inteira que está cantando.
Vê-se o Papa Emeritus de óculos escuros passando por entre os bancos
da igreja segurando uma bandeja e erguendo uma hóstia enquanto outro
homem, na condição de seu auxiliar, de cabelos longos e de óculos escuros
segura um cálice dourado, ele anda em meio a igreja de braços abertos para
cima segurando em sua mão direita um lenço.
Um homem de terno preto que recolhe dinheiro da congregação com
uma bandeja prateada e utilizando óculos, coloca em seu bolso uma das notas
que estava sobre a bandeja, enquanto o dizimo é recolhido Emeritus vai
botando a mão sobre a cabeça dos que ali estão presentes.
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Enquanto as cenas acontecem a letra diz:

Ele é
Ele é o brilho e a luz sem os quais eu não posso ver
E ele é
Insurreição, ele é rancor
Ele é a força que me fez ser
Ele é
Nosso soberano pai
Nossa amável mãe
Ele é
(GHOST, 2015, tradução nossa)

A duração temporal deste conjunto de cenas e canto dentro do


videoclipe vai de 01:45 até 02:47

Figura 8 – Exorcismos

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “He Is”.

Vê-se o assistente de Eméritus trazendo para frente da plataforma uma


mulher inteiramente vestida com trajes pretos, o mesmo faz com que ela se
ajoelhe. Emeritus se aproxima de uma das fiéis que está ajoelhada, esta no
entanto está vestida de branco com saia preta cantando de olhos fechados, ele
em um primeiro momento apenas gesticula e recua para longe da jovem.
Posteriormente volta, bota a mão na cabeça da menina e a derruba sobre
mulheres vestidas integralmente de branco.
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Emeritus põe a mão sobre a cabeça de um homem de vestes pretas,


este é exorcizado e cai sobre as mulheres vestidas de branco. O mesmo é feito
com uma mulher e outro homem. Todos os exorcizados vestem preto.
Enquanto as cenas de exorcismo acontecem a letra diz:

Ele é
Ele é o brilho e a luz sem os quais eu não posso ver
E ele é
Insurreição, ele é rancor
Ele é a força que me fez ser
Ele é

Ele é o brilho e a luz sem os quais eu não posso ver


E ele é
A desobediência que nos mantém junto
Ele é
Nosso soberano pai
Nossa amável mãe
E nós estamos caindo
Sobre o precipício
(GHOST, 2015, tradução nossa)

A duração temporal deste conjunto de cenas e canto dentro do


videoclipe vai de 02:47 até 03:34
Vê-se mulheres jovens de branco alegres indo em direção a um lago e
sendo recebidas na beira por Emeritus, que as abraça. Papa Emeritus vai
batizando jovens de branco por imersão uma a uma. Ao levanta-las da água é
possível ver seus seios, e eles se destacam ao ganharem foco com o
fechamento do plano neles, onde as vestes após estarem molhadas parecem
fazer uma espécie de decote antagônico onde cobre-se o busto e mostra-se o
restante.
50

Figura 9 - Batismo

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “He Is”.

7.2 MITOS PRESENTES EM HE IS (ELE É)

É possível perceber, através da análise detalhada do conjunto dos


elementos presentes no videoclipe, uma espécie de paródia teatral antagônica
ao rito da missa ou culto presente no mito cristão, tal como a igreja, onde o
homem sagrado cultua sua divindade. É possível notar elementos, tanto de
gesticulação, objetos e ritos, tomando como exemplo o batismo por imersão,
que tanto as práticas de igrejas evangélicas como católicas estão inseridas no
videoclipe da banda Ghost, que pode ser interpretado como uma crítica satírica
ao homem religioso e sua fé.
Chama atenção para a premissa crítica do clipe o verso que diz que os ali
presentes estariam vivendo um sonho, sonho este capaz de sanar todas as
dúvidas, que muito provavelmente fazem referência ao cristianismo e seu
ensinamentos e valores que procuram atribuir significado as questões vitais e
dúvidas profundas do ser humano com respostas que apelam ao divino. A
religião é então classificada como um sonho, uma vez que está intangível a
realidade e entendimento do homem profano.
51

A) Os regimes diurno e noturno analisados no videoclipe

Bachelard (1998) fala da existência do sonho noturno, que seria o sonho


passivo que chega até o indivíduo enquanto dorme, entretanto, ele fala também
da existência do sonho que trata-se de um devaneio, o sonhar acordado onde
o indivíduo possui postura ativa, todavia, quando tal sonho passa a aprisionar o
indivíduo este então deixa de ter uma postura ativa. Na gramática grega
existem duas definições para sonho, o Oniro, sendo ele um sonho desbravador
profético e o Onar que é o sonho enganador. Dentro então da crítica que a
banda busca fazer, o homem religioso está dentro de um sonho de devaneio,
onde já perdeu ou está perdendo sua postura ativa diante das influências do
mito cristão que carregam o sujeito ao sonho enganador.
O videoclipe em sua direção artística através da separação de cores faz
questão de deixar na cor branca tudo aquilo que, dentro da perspectiva teatral
e da premissa do clipe, é pra ser algo bom, e preto tudo aquilo que representa
o mal, tanto é que, conforme visto na decupagem do videoclipe, todos os
indivíduos que foram submetidos ao exorcismo vestiam alguma peça de roupa
preta. Isso demonstra a existência no videoclipe dos conceitos que Gilbert
Durand (1998) separa entre diurno e noturno, onde o próprio Papa Eméritus
que veste branco durante todo o videoclipe se coloca no papel heroico como
antítese. Pode-se perceber que a banda Ghost tenta refletir em sua obra a
existência de uma sociedade esquizomorfa diante do aspecto religioso, em que
existe o bem e existe o mal como dois conceitos polarizados onde as pessoas
estão a todo o momento tentando determinar como elas vivem, de que lado
estão e como o próximo deve reger sua vida.
No regime diurno sempre existe a combatividade, o bem depende do mal, e
é nesse papel (do bem) que em primeiro momento Papa Eméritus se coloca no
caso de uma interpretação literal do videoclipe, como um grande líder religioso
que está salvando seus fiéis dos demônios. O papel feito por ele no clipe passa
a ideia a congregação de que ele vai oferecer a salvação em nome de algo
superior, ideia essa muito simbolizada pelo batismo, que dentro do mito cristão
significa a redenção dos pecados para se tornar um novo ser perante ao divino
52

e conquista a vida eterna. Diga-se de passagem, é característico do diurno o


combate a ideia de morte.
Já numa análise não literal, uma vez que no aspecto religioso a sociedade
tende a se polarizar, quando um homem sagrado assisti ao videoclipe e
entende que ‘ele’ na verdade está se referindo ao diabólico, Papa Emeritus
deixa então de exercer papel diurno, já que não sendo ele um ser sagrado para
o homem cristão, ele está então no papel daquele que vai conduzir os homens
ao abismo combatendo a Deus, e esse abismo para o homem sagrado significa
a morte.
Nessa análise, vendo o clipe de uma perspectiva que está sendo satírica
aos olhos do homem sagrado, Emeritus então exerce poder noturno, dizendo
em seus versos sem nenhuma preocupação demonstrada em sua entonação
ou em suas gestualidades que estamos todos caminhando sobre um abismo e
considerando que para o homem sagrado cristão tudo aquilo que se apresenta
dentro do âmbito religioso mas que no entanto não exerce sacralidade é uma
forma de conduzi-lo a mentira e a morte. Papa Emeritus, no entanto, se faz
indiferente ao brincar e satirizar tais fatos, o que passa a ideia de que a morte
para ele não é algo tão significativo, característica nítida do regime noturno.
Na direção artística do clipe já se nota o papel do preto e do branco nas
representações simbólicas de bem e mal, devemos nos atentar aos óculos
escuros, objeto que se repete em diversas cenas do videoclipe em sua maioria
sendo utilizado em ambiente interno estando assim fora do seu valor funcional
enquanto objeto. Ele se sobressai aos trajes brancos, e é importante destacas
o fato de que os óculos só estão sobre o rosto de Papa Emeritus e das
pessoas que exercem funções cerimoniais, aqueles que estão promovendo o
culto. O preto, simbolizando para o contexto o mal, ao se colocar sobre os
olhos de quem exerce o poder sobre a congregação é um símbolo de poder em
relação a função, poder esse que faz parodia a quem acredita carregar uma
verdade e dentro de tal verdade absoluta se julga no poder de inferi-la ao seu
próximo.
53

B) A luz, Deus e o heroico

Analisa-se como característica do videoclipe a presença forte da luz solar,


essa que aparece tanto em ambiente aberto, como é o caso do jardim e do
lago, como também podemos vê-la em ambiente fechado no caso da igreja,
onde inclusive existem cenas que Emeritus aponta suas mãos em direção a
ela.
A luz solar, segundo Durand (1989), faz parte da segunda estrutura
esquizomorfa, que é destinada à vitória sobre a morte. A morte, por sua vez, é
considerada o maior medo do indivíduo humano, sendo ela uma pulsão que
leva o sujeito a procurar maneiras afim de esquivar-se dela, e uma dessas
fugas é encontrada na religião cristã onde em seu mito é pregado que, se você
possui uma vida dentro dos padrões morais e da obediência a Deus, Ele te
recompensará com a salvação da morte e o levará ao paraíso, onde a vida é
eterna será pura, coberta de verdade e habitada apenas por aqueles que tem
seu nome escrito no livro da vida:

As nações andarão em sua luz, e os reis da terra lhe trarão a sua


glória. Suas portas jamais se fecharão de dia, pois ali não haverá
noite. A glória e a honra das nações lhe serão trazidas. Nela jamais
entrará algo impuro, nem ninguém que pratique o que é vergonhoso
ou enganoso, mas unicamente aqueles cujos nomes estão escritos
no livro da vida do Cordeiro. (APOCALIPSE 21:24-27)

Deus, para o homem sagrado, está no regime diurno, no papel heroico


em que com sua espada, símbolo de seu poder, matará o dragão e livrará
aqueles que o seguem da morte. A luz, por sua vez, é a ascensão, o esquema
diairético, que, segundo Durand (1989) corresponde aos gestos de reflexo
postural tal como a mão na postura vertical e o olhar para cima, que são
símbolos de representantes da valorização.
Montanha, céu e poder, especialmente na religião, são símbolos
espetaculares da luz solar. Dentro do videoclipe de He Is podemos ver a luz
irradiando a natureza, Emeritus como líder da igreja que gesticula pra cima
como se estivesse invocando um ser superior, heroico e poderoso como é feito
por pastores e padres quando regem suas missas e cultos mas, é lógico, o
gênero do clipe não é o gospel e sim a rebeldia do rock e a premissa não é
54

louvar ao sagrado mas sim satiriza-los utilizando-se desses símbolos porém


com versos que nos dão brecha para o real entendimento da obra.

C) A representação dos símbolos de purificação e as suas relações


com o mito cristão no videoclipe

Um símbolo de muita repetição dentro do videoclipe é o da mulher, a


imagem da mulher dentro da literatura bíblica está ligada ao pecado original,
relatado na Bíblia no livro de Gênesis onde a serpente lhe oferece um fruto que
seria a passagem para o conhecimento do bem e o mal, sendo ela a
responsável por come-lo e seduzir o homem para que o fizesse. Neste mito, a
serpente encontra-se acoplada a árvore em uma temporalidade animal e outro
vegetal, como emblema de um triunfo e recomeço da flor e do fruto onde a
partir do período que o comece encontraria a transcendência.
Tendo em vista a predominância de mulheres no videoclipe juntamente as
flores espalhadas por todos os ambientes, inclusive marcantemente presente
na mão de Emeritus na abertura do videoclipe, flor essa que se trata de
natureza morta. Mitologicamente a flor é uma das representações da morte de
um herói e da ressurreição, o que pode simbolizar dentro do clipe a posição de
Papa Emeritus como um anti-herói, um ser de regime diurno, que ostentando a
flor estaria satirizando a Deus, isso, no entanto é um símbolo da mitologia
grega. Em Roma, por sua vez, a flor, especificamente na cor branca tinha
significado de inocência e castidade e era jogada em rituais fúnebres sobre o
caixão de jovens virgens e por isso foi adotado por parte da comunidade cristã
sendo um dos símbolos ligado a Maria como demonstração de sua virgindade
e pureza já que, segundo o mito cristão, Maria gerou Jesus sendo virgem
através da obra do espirito santo.
É provável então que a banda Ghost tenha adotado o símbolo da rosa
branca para He Is baseando-se no símbolo do mito cristão para que, junto a
constante presença de moças jovens que louvam e aparecem felizes em
diversas cenas do videoclipe, seja ilustrada a sacralidade da pureza e da
virgindade como um conceito moral, que é tão pregada no mito cristão.
55

D) O batismo paródico trazido pelo videoclipe da banda Ghost

Atrelado a questão da pureza e da virgindade, precisa-se trazer à tona


batismo que acontece ao final do clipe. O batismo é visto por Durand (1989)
como uma liturgia que repetem o drama temporal sagrado. Trata-se de um
comprometimento através de um rito purificador tradicionalmente diairético.
Durand (1989) descreve o batismo como um esquema agrolunar de
sacrifício, morte, túmulo e ressurreição, sendo uma iniciação que de maneira
geral compreende um sacrifício que é ocasionado por paixão divina.

A Bíblia também faz citação ao batismo como morte e ressurreição:

Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos batizados em Cristo
Jesus, fomos batizados em sua morte? Portanto, fomos sepultados
com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como
Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também
nós vivamos uma vida nova. (ROMANOS 6:3-4)

O clipe He Is é o primeiro da banda Ghost que traz a representação de


um batismo por imersão, prática que em geral é realizada por igrejas
evangélicas protestantes seguindo o exemplo do batismo de Jesus Cristo
realizado por João no rio Jordão. A premissa do batismo como rito do mito
cristão de forma geral é a purificação dos pecados para o renascimento
purificado em Deus.
No entanto, a premissa trazida nas cenas externas finais, no lago,
parece ser antagônica ao que é praticado nas igrejas. Isso pode ser analisado
principalmente na cena 34 do videoclipe quando, ao batizar uma das jovens de
branco e onde já foi visto que estas representam pureza principalmente no
aspecto sexual no que diz respeito a virgindade.
É possível ver, durante o batismo uma imagem de erotização da jovem de
branco ao sair da água, o que se demonstra intencional no videoclipe já que os
seios da jovem não aparecem com a naturalidade como, por exemplo, seria o
caso se estivessem expostos como presentes no arquétipo alimentar que
fornece o leite, ao invés disso, vemos um fechamento de plano nos seios da
moça. É claro que é preciso lembrar que elementos presentes em conteúdos
56

audiovisuais, como a dança, não existem como não conter erotismo uma vez
que, no caso da dança, é por si só um rito de fecundidade, porém a cena o
contexto do videoclipe não se trata disso.
Com base nessa análise da erotização, pode-se analisar que o batismo
dentro da perspectiva do videoclipe da banda Ghost tem a representação de
um papel diferente ao do batismo tradicional, onde ao invés da purificação dos
pecados rumo a uma vida de retidão moral nos valores religiosos cristão existe
o inverso disso, onde é representado a saída da pureza para a impureza e o
pecado, o que ressalta nessas cenas o papel noturno do videoclipe na
perspectiva de visão do homem sagrado.

E) Análise da letra de He Is: seu contexto e suas metáforas

Embora a letra de He Is repita o verso ‘Ele é [...]’ por diversas vezes, em


nenhum momento ela atribui nome a ‘Ele’. Como recurso neste subcapítulo
afim de melhor esclarecer a proposta da banda Ghost com He Is, utilizaremos
para o enriquecimento da análise a teatralidade de palco utilizada pelo grupo
nas performances dessa canção, onde é menos abstrata a premissa desta
obra.
No entanto, não se pode analisar a letra de He Is sem antes perceber o
ritmo que traz uma referência instrumental a música gospel. Podemos
interpretar na melodia uma espécie de paródia a música tradicional tocada
principalmente em igrejas evangélicas, com sons de guitarra mais lentos,
vocais prolongados, entonação que passa calma e direciona o foco para a
letra. Assim como em Cirice, outra música de sucesso do mesmo álbum, a
banda não faz apelos diretos ao diabólico em sua letra.
Neste hit da banda Ghost o grupo assume um ritmo mais calmo e uma
musicalidade mais suave, onde, pela primeira vez, o Papa Emeritus não
aparece no videoclipe utilizando os trajes tradicionais de Papa antagônico. Em
He Is, conforme já visto anteriormente na apresentação detalhada do
vídeoclipe através da decupagem, o Papa Emeritus aparece não só de terno
como em um terno branco com detalhas dourados e segurando uma rosa,
também branca.
57

Segundo Durand (1998) existem três categorias que constituem o aparelho


simbólico sendo a primeira delas o esquema denominado metaforicamente
como verbal, os esquemas são o capital referencial de todos os gestos
possíveis da espécie Homo Sapiens, sendo o verbo aquilo que diz respeito a
expressão corporal principalmente do que diz respeito a motricidade dos
membros: “Não apenas o pênis é verbal!” (DURAND, 1998, p.76). O verbo
citado na obra de Durand (1998) refere-se a mímica, ao gesto e a dança.
Uma representação da categoria verbo do aparelho simbólico é fortemente
exemplificada na teatralidade trazida ao palco no show da banda Ghost B.C,
onde da dança, da mímica e dos gestos surgem as principais imagens.

Figura 10 - Palco

Fonte: elaborado pelo autor a partir do vídeo do show.

Em palco, durante o show ao vivo da banda, ao fundo, Emeritus é visto


manipulando os coreógrafos que estão em palco como se fossem bonecos.
Papa Emeritus aparece na tela do palco sem a caracterização tradicional de
Papa, mas Tobias Forge aparece cantando ao vivo caracterizado com as
vestimentas tradicionais do Papa Emeritus, assim como os Nameless Ghouls
que usam sua vestimenta tradicional desde que o álbum de He Is foi lançado:
máscara prateada com chifres e roupas pretas. No palco, um dos Nameless
58

Ghouls aparece tocando piano, instrumento frequentemente presente em cultos


e missas das igrejas católicas e evangélicas.
“Nós estamos de pé no abismo, e o mundo está em chamas. Dois
amantes tentando alcançar a besta de muitos nomes”, assim começa a letra de
He Is, descrevendo um mundo em chamas, que podemos deduzir que
simboliza tudo que existe de ruim queimando o que há de bom, isto é, a
imagem do mal em posição vitoriosa sobre a imagem do bem. A besta de
muitos nomes traz a imagem do Diabo, mas também pode se referir de
maneira irônica a imagem de Deus, uma vez que na Bíblia Sagrada tanto Deus
junto da santíssima Trindade, quando o Diabo junto aos seus anjos que junto a
ele foram expulsos do céu, são representados por diversos nomes. Pode-se
deduzir que seja uma frase ambígua, mas em ambos os sentidos existe uma
referência tendenciada a enaltecer a imagem do mal e satirizar as imagens
relacionadas ao cristianismo.
Em seguida aparece na canção o verso: “Ele é o brilho da luz sem os
quais eu não posso ver”, uma provável referência aos que buscam no teísmo
uma atribuição de sentido para existência. É relevante para a análise que
Durand (1989) tem como base a ideia de que a finitude da vida provoca
desconforto ao homem o fazendo buscar através de atitudes imaginativas um
conforto para a ideia de morte transformando seu significado. Essas atitudes
imaginativas somam os conceitos de percepção, recepção de imagens,
símbolos e mitos resultando no imaginário que teria por sua principal função
levar ao homem de diferentes formas possíveis o conforto diante da certeza de
morte e da temporalidade.

Figura 11 – Papa Emeritus gesticula em palco

Fonte: elaborado pelo autor a partir do vídeo do show.


59

Como já mencionado, Durand (1989) ao citar o conceito de verbo do


aparelho simbólico refere-se, entre outras coisas, aos gestos. Pode-se
perceber durante o show que o Papa Emeritus, sendo uma versão antagônica
de Papa, repete gestos tradicionais da missa católica, primeiro juntando as
duas mãos, símbolo cristão de agradecimento culturalmente feito ao dizer
amem, após isso Emeritus abre os braços, parodiando de maneira satírica a
forma com que o padre no rito católico dá a benção aos fiéis presentes na
missa.
Ainda que os elementos visuais, as letras e os gestos simbolizem uma
missa antagônica, onde o culto é feito enaltecendo imagens malignas da
mitologia cristã não pode se dizer que se trata de um rito de cunho sagrado
nem que estamos falando de um mito uma vez que, para Eliade (1955), é
necessário para vivenciar os mitos uma experiência religiosa justamente pelo
fato da transição de tempo cronológico reatualizar os eventos fabulosos e
resistir a obra dos entes sobrenaturais onde o indivíduo evoca a presença dos
personagens presentes nos mitos e torna-se contemporâneo deles, mas no
caso não existem figuras sagradas, nem a quebra de cronologia, o que se faz
presente na gestualidade, postura e nas imagens predominantes que
aparecem no show da banda Ghost B.C é de cunho puramente satírico, por
fim, ilustrado pelo verso: “Nós estamos nos escondendo dentro de um sonho e
todas as nossas dúvidas estão destruídas”.
Trata-se de mais uma crítica ao teísmo e ao homem sagrado que se
esconde dentro de um sonho, um devaneio, uma idealização celeste do mito
cristão de promessa de paraíso e encontram a resposta para todas as dúvidas
em sua religião e seguem seus códigos morais pela promessa de salvação e
vida eterna.
Percebe-se perceber que tal crítica se faz também presente nas demais
músicas do álbum de He Is.

7.3 ANÁLISE E DECUPAGEM DO CLIPE YEAR ZERO (ANO ZERO)

Diferente de He Is, a música Year Zero deixa claro o sujeito pela qual ela
se refere em seus versos, de toda a discografia da banda Ghost não existe
qualquer outra música que cite tantas vezes demônios como cita direta e
60

claramente a letra de Year Zero. Antes de tratar dos símbolos e dos sujeitos da
canção será feita sua decupagem afim de mostrar com clareza os símbolos
presentes no videoclipe.

O videoclipe começa com a imagem de uma criança sobre uma sacada


levantando seu braço verticalmente para o céu em direção a luz. O menino usa
óculos e veste roupas sociais bem arrumadas. Vê-se depois disso apenas
escuridão em uma cena onde tudo fica preto e logo depois, em plano
sequência, podemos observar um túnel, aparentemente de trânsito, onde a
única iluminação são as lâmpadas de teto. A imagem balança, dando a
impressão de que a imagem do túnel está sendo vista de dentro de algum
veículo como um carro.

A imagem do túnel começa a se fundir através da redução de opacidade


feita na edição gráfica e começa a aparecer a mão que aparenta ser deste
mesmo menino, só que agora em frente a uma janela de aspecto antigo.

Figura 12 – O céu, a luz e a sombra

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “Year Zero”.


61

Como mencionado anteriormente, esta música desde o início deixa claro o


sujeito a que se refere, na verdade não só um mas seis entidades demoníacas.
Durante as cenas descritas a única coisa que é cantada na música é:

Belial, Behemoth, Belzebu


Asmodeus, Satanás, Lúcifer
Belial, Behemoth, Belzebu
Asmodeus, Satanás, Lúcifer
(GHOST, 2013)

Vê-se então no ambiente interno, mulheres vestidas com roupas


normalmente utilizada por freiras. O ambiente passa ar de antiguidade, com
objetos de aspectos medievais. É possível ver castiçais entre o grupo de
mulheres que está presente no ambiente.

Figura 13: As mulheres

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “Year Zero”.

Vê-se entre as cenas uma mulher jovem, de bela aparência perante aos
padrões estéticos, vestindo saia, de cabelos soltos, pernas cruzadas e
mordendo lentamente uma maçã. Além disso, o símbolo do espelho também se
faz bastante presente em várias cenas.
Destaca-se até esta parte do videoclipe olhares de indiferença, estes
olhares estampam o rosto de todas elas, jovens e velhas, que se encontram
todas em uma situação de convívio aparentemente cotidiano.
62

Enquanto isso, é possível ouvir a canção dizer:

Desde o amanhecer do tempo


O destino do homem é o mesmo dos piolhos
Igual a parasitas
Movendo-se sem seus olhos
Um dia de acerto de contas
(GHOST, 2013, tradução nossa)

Em meio a aparição das mulheres em ambiente interno, uma das cenas


mostra novamente o menino, em plano aberto. Posteriormente o plano fecha e
atrás dele surge uma espécie de nuvem negra.

Figura 14: O menino e a nuvem negra

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “Year Zero”.

Posteriormente as cenas do menino, o videoclipe mostra Emeritus


adentrando o local. Quando Emeritus entra em cena, os olhares de todas as
mulheres presentes saem do aspecto de indiferença e entram no aspecto de
alegria, todas começam a estampar sorrisos em seus rostos. Emeritus
imediatamente entra, e de logo as mulheres o cercam e o bajulam. Ele passa a
ser o centro das atenções nas cenas.
63

Figura 15: Emeritus é bajulado

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “Year Zero”.

Emeritus e as mulheres começam então uma espécie de ceia, ou jantar.


É trazido a mesa um enorme cacho de uvas, bifes de carne crua e até mesmo
um coração que é posto sobre um prato. O clima de bajulação em cima de
Emeritus prossegue junto aos versos:

Salve Satanás, Arcanjo


Salve Satanás, bem-vindo ano zero
Salve Satanás, Arcanjo
Salve Satanás, bem-vindo ano zero
(GHOST, 2013, tradução nossa)

Posteriormente, aparecem cenas de uma ceia ou jantar, onde Emeritus e


as mulheres ali presentes tem como refeição uvas, carne crua, vinho e até
mesmo um coração. É possível ver ar de sensualidade quando Papa Emeritus
coloca uma das uvas na boca de uma das mulheres. É possível notar também
no clipe certo ar de cavalheirismo por parte de Emeritus.
64

Figura 16: O banquete de Emeritus

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “Year Zero”.

Papa Emeritus após a refeição tira seu chapéu e cordialmente se


despede do ambiente em que estava. Ao se retirar as mulheres começam a
despir-se das roupas de freira. Elas se olham nuas diante dos espelhos e então
vestem as roupas dos Nameless Ghouls.

Figura 17: Mulheres se despem

Fonte: elaborado pelo autor a partir do videoclipe “Year Zero”.

7.4 MITOS PRESENTES EM YEAR ZERO (ANO ZERO)

É possível notar logo de cara após a decupagem a riqueza de elementos


simbólicos que podem ser analisados. Mas antes de tudo é necessário explicar
que o álbum em que esta música está inserida tem forte abordagem crítica ao
papel da mulher diante do homem religioso.
65

A) A mulher e o patriarcado cristão

Tal como em He Is, vemos em Year Zero a imagem da mulher sendo


utilizada ao inicio do videoclipe simbolizando castidade, uma vez que todas as
mulheres ali presentes estão trajadas com roupas de freira. No entanto, tal
pureza só se faz presente enquanto Emeritus, representando a força masculina
do clipe, não está em cena.
Já quando Emeritus aparece é extremamente bajulado, sendo que o
videoclipe permite perceber que só com sua chegada é que as mulheres tiram
o olhar de indiferença do rosto para expressar surpresa e alegria com sua
chegada, e tal alegria é expressada na suposta honra de servi-lo.
Vemos aí, uma vez que a imagem da mulher é utilizada para fazer elo
simbólico com o pecado original, onde na cenas chega inclusive a aparecer
uma das mulheres de saia curta cruzando as pernas e mordendo a maçã,
tradicional símbolo do livro de Gênesis da história de Adão e Eva, onde Eva
levou Adão a comer do fruto do conhecimento do bem e do mal, popularmente
simbolizado pela maçã (considerando que a Bíblia em nenhum momento
especifica qual seria esse fruto), através da sedução de Eva.
Pode-se também perceber que o prato servido para Emeritus pelas
mulheres é, literalmente, a carne que a ele é servida com fartura, sem qualquer
cozimento, crua. E não apenas bifes, é também servido um coração sobre uma
tigela. Uma vez que Emeritus tem o papel representativo do homem na
produção de sentido do videoclipe, a carne e o coração servido por mulheres
para ele possui um peso simbólico da representação da servidão sexual e da
submissão ao homem.
No entanto, ao final do videoclipe, quando Emeritus se retira do local elas
rebelam-se ao tirar os trajes típicos da castidade, ficarem nuas longe do
julgamento moral do homem que ali não se faz mais presente, e passam a
deixar o papel de passividade para adotar um papel ativo.
Ao assumir o papel ativo, no gesto de colocar as vestimentas negras dos
Nameless Ghoul, na visão do homem sagrado, a mulher passa a exercer
características do regime noturno, onde se o deus cristão e o cuidadoso
homem da casa representariam o heroico, elas por sua vez, assim como as
bruxas que foram perseguidas na idade média, representariam a figura
66

pecaminosa que poderia conduzir o homem a morte e ao pecado. Porém, é


somente assumindo tal posição que a mulher poderia então passar a ter a
postura ativa diante do homem sagrado.

B) O menino e a libertação de pensamento

Vemos ao inicio do clipe um menino com braço em posição vertical em


direção a luz. Como já tratado anteriormente, tal gesto tem o significado de
busca por um ser maior. É possível perceber forte semelhança entre o menino
e Tobias Forge, talvez isso possa ser um indicio de que a presença do jovem
na peça possa se tratar de uma auto representação do artista.
Percebe-se três cenas importantes em que o menino aparece em paralelo
ao enredo do videoclipe: No início, erguendo sua mão rumo a luz, no meio com
um livro onde dentro de um cenário predominantemente branco uma nuvem
negra passa a cobrir sua cabeça e ao final, onde ele parece estar conformado,
quase chegando a abrir um sorriso.
É necessário levar em consideração o ambiente ao seu redor, que passa a
ideia de que o menino clama por algo maior, busca conhecimento (simbolizado
pelas cenas com materiais escolares) tentando encontrar algum poder heroico
e diurno mas no entanto a nuvem negra, cumprindo função mística de
revelação entra em sua cabeça possibilitando a aquisição de conhecimento
que o leva a fechar o livro, para de procurar a luz heroica e se conformar, algo
parecido com o niilismo. Isso reforça-se uma vez que considerado que
enquanto o menino aparece em cena os versos cantados são:

Desde o amanhecer do tempo


O destino do homem é o mesmo dos piolhos
Igual a parasitas
Movendo-se sem seus olhos
Um dia de acerto de contas
(GHOST, 2013, tradução nossa)

Percebe-se aí uma repetição dos dois enredos que acontecem em paralelo no


videoclipe tal como um fator comum: tanto as mulheres com o fruto do
conhecimento do bem e do mal como o menino apenas adotam postura ativa
ao final do clipe, e pelo mesmo motivo: o conhecimento
67

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao fim do presente estudo nota-se que foi aqui possível analisar a


produção audiovisual tal como sua relação com a indústria cultural,
compreender os produtos culturais e suas associações com o imaginário e os
mitos do cristianismo, recensear as imagens simbólicas dos videoclipes e
mapear as relações que estas possuem com o imaginário e o mito cristão.
Analisou-se aqui que a Ghost é uma banda voltada ao nicho de mercado
como um exemplo de uma das partes da Cauda Longa, uma banda que
através da internet driblou os padrões pregados pela indústria cultural, o grupo
jamais obteria sucesso se visasse disseminar seu conteúdo na mídia analógica
de massa. Isso porque a absorção da real mensagem que a banda se propões
a trazer não é de fácil absorção, ela não entra através de sons pesados e de
gritos enfurecidos, mas sim pelo canto melódico, pela teatralidade, e pelo
conteúdo crítico ao mito cristão, o que poucas bandas se arriscam a criticar tão
abertamente quando o grupo sueco faz justamente por medo de uma não
aceitação da indústria cultural.
Os mitos cristãos presentes nos videoclipes da banda Ghost aparecem
em forma de abordagem paródica para criticar as atitudes do homem sagrado.
Isso ilustra-se muito bem tomando por exemplo o batismo, anteriormente
levantado em análise, que se trata de uma cerimônia tradicional cristã, onde a
banda utiliza-se, no caso, das vestes brancas que ainda que estas
mantivessem-se brancas no clipe. Após o batismo, quando a mulher sai da
imersão, tal símbolo mudava sua premissa de significação no momento em que
os trajes molhados destacavam os seios das mulheres como elemento erótico.
Aí, se mantem a imagem do batismo por imersão, mas transforma seu
significado naquilo que a banda quer trazer.
Tal exemplo deixa uma crítica ao batismo, ato de purificação para os
cristãos, que dentro do mito significa que seus pecados ficaram nas águas e
que ele a partir daí passa a ser um novo ser e, a partir daí, está pronto para
viver a purificação. Quando o Ghost faz isso parecer na verdade um ritual
repleto de erotismo ele passa a atribuir outro significado ao batismo, e o
68

mesmo rito passa a ter outro significado, o significado de que o batismo nada
purifica.
Fica claro que o Ghost tem um intuito paródico que transforma ritos e
símbolos tradicionais cristão em uma ressignificação que faz crítica a postura
hipócrita da igreja supostamente salvadora, o patriarcado, a submissão e a
objetificação erótica da mulher, a ideia de que um ser superior olha por nós e é
capaz de conduzir o homem a vida eterna e a castidade. É isso que se pode
ver ressignificado quando a banda usa sua teatralidade como ferramenta crítica
a tais mitos.
Se muitos ouvintes de Heavy Metal criticam o grupo pela sua pegada
mais melódica e suave, o mesmo não pode ser dito da mensagem passada
pela banda. Esta, quando bem absorvida e interpretada, é pesada, é rebelde,
afronta valores e levanta crítica, papel esse que artistas no cenário do Rock e
do Heavy Metal são constantemente cobrados a desempenhas, o que é
justificável pois, como vimos, o Rock nasce como uma ferramenta de
expressão de rebeldia.
Percebe-se que o Ghost faz é o uso de elementos tradicionais do mito
cristão para criticar a religião, seus valores patriarcais, sua hipocrisia e a
atitude de muitos que a seguem. Caso fosse neste trabalho necessário atribuir
um rótulo para o presente objeto de estudo, o que não é a pretensão, nota-se
que na verdade o enredo e a produção de sentido passados através do
contexto geral dos videoclipes é muito mais parecido com a crítica feita pelo
ateísmo do que com a premissa de seitas satânicas, que visam adorar a algum
demônio.
O presente estudo demonstra a importância da análise dos fenômenos
do imaginário trazidos por Durand e demais pesquisadores, filósofos e
pensadores, o quanto os símbolos, arquétipos e mitos podem ser
fundamentais, para estudar a relação entre comunicação social e o
entretenimento.
Nota-se também no objeto de estudo um forte exemplo da importância
da análise dos símbolos para a interpretação de um conteúdo audiovisual.
Percebe-se o quanto é importante estar atento ao mito que se faz presente
nesse tipo de conteúdo afim de entender se julgamentos e preconceitos as
ideias dos mais diferentes tipos de arte e como o seu sentido é produzido.
69

A presente pesquisa limitou-se a analisar conteúdo audiovisual da banda


em seus principais videoclipes, o que por si só é um material que disponibiliza
imensa riqueza simbólica e imagens. Entendeu-se aqui as evoluções do mito
cristão presentes no conteúdo da banda entre os anos de 2013 e 2015, período
de consolidação da banda e de maior relevância. No entanto, em 2018, a
banda encaminha-se para uma nova abordagem onde elementos e premissas
já tradicionais do prometem dar espaço a algo novo. Pode-se esperar por
novos símbolos, nova abordagem e, quem sabe, a novos perspectivas e
evoluções míticas, sendo este um material importante para a continuidade e a
complementação do estudo dos mitos do cristianismo baseados na banda
Ghost.
70

REFERÊNCIAS

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