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UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO


SUL – UNIJUI
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM DIREITO
MESTRADO EM DIREITOS HUMANOS

ADALBERTO WOLNEY DA COSTA BELOTTO

BIOPOLÍTICA, ESTADO DE EXCEÇÃO E SEGURANÇA PÚBLICA: O PAPEL DOS


DIREITOS HUMANOS

Dissertação final do Curso de Mestrado

Orientador: Dr. Maiquel Ângelo Dezordi Wermuth

Ijuí (RS)
2016
1

UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO


SUL – UNIJUI
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM DIREITO
MESTRADO EM DIREITOS HUMANOS

ADALBERTO WOLNEY DA COSTA BELOTTO

BIOPOLÍTICA, ESTADO DE EXCEÇÃO E SEGURANÇA PÚBLICA: O PAPEL DOS


DIREITOS HUMANOS

Dissertação final do Curso de Mestrado em


Direitos Humanos da Universidade Regional do
Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul –
UNIJUI, apresentado como requisito parcial
para a aprovação. DCJS - Departamento de
Ciências Jurídicas e Sociais

Orientador: Dr. Maiquel Ângelo Dezordi Wermuth

Ijuí (RS)
2016
2

Catalogação na Publicação

B452b Belotto, Adalberto Wolney da Costa.


Biopolítica, Estado de Exceção e Segurança Pública: o papel dos
direitos humanos / Adalberto Wolney da Costa. – Ijuí, 2016. –
112 f. ; 30 cm.

Dissertação (mestrado) – Universidade Regional do Noroeste do


Estado do Rio Grande do Sul (Campus Ijuí). Direitos Humanos.

“Orientador: Maiquel Angelo Dezordi Wermuth”.

1. Estado de exceção. 2. Biopolítica. 3. Vida nua. 4. Segurança


pública. 5. Direitos humanos. I. Wermuth, Maiquel Angelo Dezordi. II.
Título. III. Título: O papel dos direitos humanos.

CDU: 342.7:351.74

Zeneida Mello Britto


CRB10/1374
3

UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul


Programa de Pós-Graduação em Direito
Curso de Mestrado em Direitos Humanos

A Banca Examinadora, abaixo assinada, aprova a Dissertação

BIOPOLÍTICA, ESTADO DE EXCEÇÃO E SEGURANÇA PÚBLICA: O PAPEL DOS


DIREITOS HUMANOS

elaborada por

ADALBERTO WOLNEY DA COSTA BELOTTO

como requisito parcial para a obtenção do grau de


Mestre em Direito

Banca Examinadora:

Prof. Dr. Maiquel Angelo Dezordi Wermuth (UNIJUÍ): ______________________________

Profª. Drª. Gisela Maria Bester (UNOESC): _______________________________________

Profª. Drª. Fabiana Marion Spengler (UNIJUÍ): ____________________________________

Ijuí (RS), 25 de fevereiro de 2016.


4

AGRADECIMENTOS

A todos que de uma ou outra forma, direta ou indiretamente, contribuíram no percurso


deste estudo;
Agradeço, de forma especial:
Ao prof. Dr. Maiquel Ângelo Dezordi Wermuth, pela cuidadosa e dedicada orientação
na realização deste estudo;
Ao prof. Dr. Gilmar Antônio Bedin, pelo apoio, diálogos, sugestões ao longo da
pesquisa e pelo acolhimento;
Ao prof. Dr. André Leonardo Copetti Santos, pelas sugestões e instigamentos;
A todos os professores e secretaria do PPG em Direitos Humanos da Unijuí;
Aos colegas e amigos, pelo constante incentivo, convivência e diálogos no decurso
desta tarefa;
A minha esposa Tatiane Belotto, pelo apoio, incentivo, compreensão, parceria nas
pesquisas e na busca constante da nossa evolução como seres humanos.
5

RESUMO

O presente estudo investiga as teses dos filósofos Michel Foucault e Giorgio Agamben visando
a compreender a biopolítica e a produção da vida nua na contemporaneidade, relacionando-as
ao paradigma denominado por Agamben de Estado de Exceção. Nesse sentido, analisa quem
são os indivíduos rotulados como Homo Sacer e em que medida a expansão do Direito Penal
interfere nas políticas de Segurança Pública, o que se revela, no caso dos presídios brasileiros,
na determinação do perfil da massa carcerária no país. Com isso busca-se compreender a crise
do atual paradigma de governo que vem se implementando na contemporaneidade, o qual está
utilizando estes métodos como técnica de governo. Agamben denomina este novo modo
governar a vida em sociedade de Estado de Exceção. Na percepção do filósofo, tal configuração
de governo adquire uma conotação biopolítica, estruturada em um Direito que inclui o indivíduo
mas cria uma situação de suspensão. Nesse Estado de Exceção, o poder soberano acaba por
capturar a vida humana por meio do Direito, ou seja, através dos dispositivos de poder,
transformando estas vidas capturadas em vidas nuas, constituindo um vazio jurídico. Observa-
se que na contemporaneidade este modelo vem se implementando sem precedentes, formando
campos de concentração nos quais a vida nua atinge sua máxima da lógica biopolítica, com a
aniquilação do ser humano. Nesse Estado de Exceção a vida está entregue ao poder do soberano,
o qual dispõe do poder de fazer morrer ou deixar viver, definindo as vidas que são dignas de
serem vividas e as que podem ser aniquiladas, o que representa uma total afronta aos Direitos
Humanos e à Dignidade da Pessoa Humana.

Palavras-chave: Estado de exceção. Biopolítica. Vida nua. Segurança Pública. Direitos


Humanos.
6

RESUMEN

El presente estudio investiga las teorías de los filósofos Michel Foucault y Giorgio Agamben
que buscan entender la biopolítica y la producción de la vida desnuda en el mundo
contemporáneo, relacionándolos con el paradigma llamado por el Estado de Excepción de
Agamben. En este sentido, parece que son los individuos etiquetados como Homo Sacer y en
qué medida la expansión del derecho penal interfiere con las políticas de seguridad pública, que
se revela en el caso de las prisiones brasileñas, en la determinación del perfil de la masa de la
prisión en el país. Con que busca comprender el paradigma actual de crisis de gobierno que se
ha implementado en el mundo contemporáneo, que está utilizando estos métodos como una
técnica de gobierno. Agamben llama a esta nueva forma de gobernar la vida en sociedad de
Estado de Excepción. En opinión del filósofo, una configuración de tal gobierno adquiere una
connotación biopolítica, estructurado en una ley que incluye al individuo, pero crea una
situación de suspensión. En este estado de excepción, el poder soberano resulta para capturar
la vida humana a través de la ley, es decir, a través de los dispositivos de poder, por lo que estas
vidas capturados en las vidas desnudas, lo que constituye un vacío jurídico. Se observa que en
la actualidad este modelo ha estado implementando la formación de los campos de
concentración sin precedentes en la que la vida desnuda alcanza su máximo de la lógica
biopolítica, con la aniquilación del ser humano. En este estado de vida excepción es entregado
al poder del soberano, que tiene el poder de morir o dejar vivir, la definición de vidas que se
vale la pena vivir y los que pueden ser eliminados, lo cual es una ofensa completa a los derechos
humanos y la dignidad humana.

Palabras clave: Estado de excepción. Biopolítica. vida desnuda. Seguridad Pública.


Derechos Humanos.
7

SUMÁRIO

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS ........................................................................................ 8


2 O ESTADO DE EXCEÇÃO E A PRODUÇÃO DA VIDA NUA (HOMO SACER):
DA DISCIPLINA AO BIOPODER ................................................................................... 11
2.1 A sociedade disciplinar .................................................................................................. 11
2.2 A biopolítica e a produção da vida nua (Homo Sacer) .................................................... 21
2.3 O Estado de Exceção como paradigma de governo na contemporaneidade e o
tensionamento dos Direitos Fundamentais ............................................................................ 30
3 A BIOPOLÍTICA E A SEGURANÇA PÚBLICA ......................................................... 43
3.1 Noções críticas sobre o Direito Penal e a Segurança Pública ........................................... 43
3.2 Relações entre a Biopolítica e o Biopoder com os Direitos Humanos no campo das
políticas de Segurança Pública ............................................................................................. 59
4 POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA NO BRASIL .......................................... 73
4.1 As principais políticas de Segurança Pública brasileira e a violação da dignidade da
pessoa humana ..................................................................................................................... 73
4.2 As políticas de segurança vinculadas aos presídios brasileiros e a produção da vida
nua ....................................................................................................................................... 85
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................ 103
REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 109
8

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Os eventos terroristas ocorridos nos Estados Unidos no dia 11 de setembro de 2001,


com a destruição das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, contribuíram com
uma mudança na política criminal mundial de segurança. A partir desse marco, a América
assinala um novo paradigma político nas democracias ocidentais, marcada, na seara da
Segurança Pública, pelo recrudescimento do Direito Penal e Processual Penal e pela
relativização dos direitos e garantias constitucionais. Nesse novo paradigma mundial inverte-
se a lógica da prisão: o que era para ser a ultima ratio passa a ser a regra. Nunca se aspirou tanto
por políticas preventivas ou de segurança. Devido a um momento de alarde em torno dos riscos
vivenciados pela sociedade, o Estado, com o escopo de dar uma resposta satisfatória aos
cidadãos, os quais estão com medo da violência, passa a se utilizar o Direito Penal como se
fosse o único meio satisfatório capaz de solucionar os problemas da Segurança Pública.
Ainda que já decorridas quase duas décadas desse trágico ato terrorista nos EUA, seus
reflexos ainda são sentidos no mundo todo. Percebe-se que o Estado, a fim de satisfazer seus
interesses escusos, mas com o discurso político de que suas ações são de interesse público, se
utiliza de práticas biopolíticas como a vigilância e políticas de coerções, as quais privilegiam
apenas uma pequena parcela da sociedade, beneficiando tão somente as pessoas adaptadas ao
sistema capitalista em uma sociedade de consumo. Nesse ínterim, a forma como o Estado age
frente à sociedade tem sido objeto de estudo por especialistas no assunto, haja vista que esse
novo modelo de Estado de Exceção tende cada vez mais a se arraigar como um novo paradigma
de governo na contemporaneidade, gerando um cenário marcado pela insegurança,
vulnerabilidade, medo, afronta aos Direitos Humanos e à Dignidade da Pessoa Humana. Nesse
Estado de Exceção, o filósofo italiano Giorgio Agamben destaca práticas totalitárias praticadas
pelo soberano. Esta forma de agir do soberano deveria ficar restrita a acontecimentos
excepcionais, possuindo suas limitações a um determinado espaço de tempo e lugar. Entretanto,
o que era para ser exceção torna-se a regra devido ao uso permanente das medidas exercidas no
Estado de Exceção. Depreende-se que a excepcionalidade tornou-se o paradigma adotado pelo
governo na contemporaneidade como uma técnica de governo. Nesse Estado de Exceção o
poder soberano acaba por capturar a vida humana, estando alicerçado no estado de necessidade,
retornando à máxima da teoria da “necessitas legem non habet”, ou seja, a necessidade não
necessita de lei. Nessa acepção, o Estado de Exceção constitui um ponto de desequilíbrio entre
o direito público e o fato político.
O foco central do presente trabalho é colocar em evidência as relações entre o Direito
9

e a política, as relações do ente Estatal com seus cidadãos, e o direito à Segurança Pública sem
que se firam os Direitos Humanos e a Dignidade da Pessoa Humana. O problema que orientou
a pesquisa foi assim formulado: em que medida o paradigma que orienta as políticas de
Segurança Pública brasileiras contemporâneas pode ser associado ao biopoder e à biopolítica
característicos de um Estado de exceção, com a consequente promoção de cesuras entre as vidas
que merecem ser respeitadas e aquelas que não merecem consideração (vida nua) porque
transformadas em “vidas supérfluas” (homo sacer) na gestão calculista da vida?
O objetivo geral do presente trabalho foi compreender como se dá, no campo da
Segurança Pública, o exercício do biopoder e da biopolítica pelo Estado sobre os sujeitos,
analisando as formas de exercício do poder que se encontram efetivamente em jogo em cada
uma das estratégias de segurança (policiamento público, aprisionamento, monitoração
eletrônica, etc).
Como objetivos específicos, o presente trabalho tem a pretensão de:
a) Demonstrar o controle social exercido pelo Estado através do biopoder e da
biopolítica, como formas de controle que coexistem com os dispositivos disciplinares (como a
vigilância, punição e a segregação);
b) Observar se o estado de exceção fere os Direitos Humanos e o Princípio da
Dignidade da Pessoa Humana, bem como o gerenciamento da sociedade através da biopolítica,
separação de castas, cidadãos de bem (bens), com delinquentes (ou inimigos) através do
cárcere;
c) Descrever as possíveis afrontas aos Direitos Humanos e ao Princípio da
Dignidade da Pessoa Humana e danos ou lesões causadas nos sujeitos do Estado;
d) Analisar os aspectos jurídicos, bem como a legitimidade da conduta do Estado,
em criar um estado de exceção como paradigma de governo em nome da Segurança Pública.
Desse modo, o presente trabalho se divide em três capítulos. No primeiro capítulo,
abordar-se-á o tema Estado de Exceção e a produção da vida nua (homo sacer). Inicialmente
trabalhar-se-á com o pensamento de Michel Foucault acerca do câmbio/superposição da
sociedade disciplinar para a biopolítica e a consequente produção da vida nua (homo sacer) que
esse movimento representa, em um diálogo com a ideia de Estado de Exceção extraída das
reflexões de Giorgio Agamben.
O segundo capítulo tem por objetivo analisar o tema da Segurança Pública à luz da
biopolítica e do biopoder, fazendo-se críticas ao Direito Penal sob o prisma dos Direitos
Humanos. Por fim, o terceiro e último capítulo visa a explicar as principais políticas de
Segurança Pública brasileiras e as violações da dignidade da pessoa humana, bem como as
10

políticas de Segurança Pública vinculadas aos presídios e a produção da vida nua, evidenciando
que são esses denominados de vida nua os legítimos homo sacer brasileiros analisando seu
perfil e a quem se destinam as prisões brasileiras.
O método de abordagem utilizado foi o dedutivo, partindo-se do geral para o particular,
ou seja, da análise de bibliografias pertinentes à utilização do estado de exceção pelo poder
Estatal, bem como o gerenciamento da sociedade, através do biopoder e biopolítica.
O procedimento metodológico compreendeu-se através da coleta e análise de
documentos, de leis e de jurisprudência; através do levantamento bibliográfico e documental
(com listagem, formação e cruzamento de dados e elaboração de análises críticas) definição de
conceitos e teorias que foram usadas como categorias na investigação, para formulação da
análise do conteúdo, observando as fases propostas por Lakatos e Marconi (2009 p. 44 ):
“escolha do tema; elaboração do plano de trabalho; identificação; localização; compilação;
fichamento; análise e interpretação e redação.
Diante dos resultados evidenciou-se o surgimento de um Estado de Exceção para
aqueles classificados como indivíduos perigosos, em geral negros, jovens, pobres e com baixo
grau de instrução, ligados ao cometimento de crimes patrimoniais, tráfico de drogas e contra a
pessoa, os quais através de Políticas Públicas de Segurança passam a ser excluídos da
convivência da classe social possuidora de bens, haja vista que a parcela da sociedade não
detentora de capital não tem espaço no novo paradigma de um estado neoliberal capitalista.
Percebe-se uma seletividade com relação ao sistema carcerário, e a utilização de discursos
políticos em prol da expansão do direito penal em detrimento a classe pobre. Nesse sentido, o
Estado passa a exercer uma técnica de governo, criando um espaço vazio de direito, o que
consiste na suspenção dos direitos Constitucionais daqueles marginalizados pelo poder
hegemônico, o que peremptoriamente constitui uma afronta aos Direitos Humanos e a
Dignidade da Pessoa Humana. O cárcere passa a ser o meio empregado para selecionar e
controlar a vida das pessoas, destinando-se em caráter geral para daqueles que estão fora da
lógica do sistema de consumo. Dessa forma se assegura a plena manutenção do sistema de
consumo, proporcionando assim a falsa sensação de segurança aos ricos.
11

2 O ESTADO DE EXCEÇÃO E A PRODUÇÃO DA VIDA NUA (HOMO SACER): DA


DISCIPLINA AO BIOPODER

No presente capítulo, far-se-á uma abordagem das teses foucaultiana e agambeniana


sobre a questão da sociedade disciplinar, biopolítica a produção da vida nua e Estado de
Exceção. Evidenciar-se-ão as características de técnicas disciplinares de esquadrinhamento
sistemático do tempo, do espaço e do movimento dos corpos que compõem a sociedade de
normatização. Analisar-se-ão os reflexos nos indivíduos produzidos por práticas como
vigilância e políticas de coerções, bem como seu escopo ao sistema capitalista e as possíveis
afrontas aos Direitos Humanos e à Dignidade da Pessoa Humana.
Mostrar-se-á a nova forma de governar os corpos dos indivíduos através das técnicas
disciplinares impostas pelo poder hegemônico e a descoberta do corpo como centro de poder,
bem como a forma de governar a vida de todo o conjunto de pessoas que compõe a população
através de biopoderes locais, os quais manipulam a gestão da saúde, higiene, alimentação,
sexualidade, natalidade dentre outros, estando estas gestões sob investimentos políticos.
Abordar-se-á o novo paradigma de governo denominado por Agamben de Estado de Exceção,
o que constitui uma exclusão do indivíduo do direito, mas o deixando ao alcance do direito.

2.1 A sociedade disciplinar

A sociedade disciplinar surge entre o fim do século XVIII e o início do século XIX,
tendo como características um conjunto de técnicas de coerção exercidas através de um
esquadrinhamento sistemático do tempo, do espaço e do movimento dos indivíduos. Esse
modelo resulta em uma manipulação das atitudes e dos gestos dos corpos. É a verdadeira técnica
do poder exercido de forma individual sobre cada corpo. Um exemplo disso é o controle que se
dá no indivíduo através da vigilância, por meio da qual se torna possível o controle de suas
condutas, seus comportamentos e suas aptidões, tendo por escopo o desenvolvimento de suas
capacidades laborativas, tornando-o mais útil a um sistema capitalista então em fase de
formação/consolidação 1.
Nos caminhos percorridos por Michel Foucault, em sua obra Vigiar e Punir, evidencia-
se a maneira como se dá a descoberta do corpo como objeto e alvo de poder2. Desde o

1
REVEL, Judith. Dicionário Foucault. Tradução de Anderson Alexandre da Silva; revisão técnica Michel Jean
Maurice Vincent. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011. p . 36.
2
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história de violência nas prisões. Tradução de Raquel Ramalhete. 41. ed.
12

Renascimento, “introduz-se uma nova forma de relação, que não é poder sobre objetos, riqueza,
mas sobre o corpo e seus atos, o poder sobre o trabalho” 3. Facilmente se percebem os sinais que
apontam o corpo como sendo o novo centro das atenções, por meio da manipulação, da
modelagem e do treino, o que o torna útil ao trabalho 4.
Foucault faz uma analogia do homem como sendo uma máquina, composta
simultaneamente de duas partes: a primeira, a anátomo-metafísica é apontada por médicos e
filósofos; a outra parte é denominada de técnico-política, constituída por um determinado
conjunto de regulamentos que podem ser militares, escolares, hospitalares e através de
processos empíricos e refletidos os quais têm por escopo controlar e corrigir as operações do
corpo5. O Homem-máquina, segundo Foucault, trata-se de uma redução materialista da alma e
uma teoria do ser adestrado. Em sua interioridade reina a docilidade, unindo assim o corpo
analisável ao corpo manipulável. Considera-se corpo dócil, aquele corpo que pode ser
submetido, que pode ser utilizado, podendo ser transformado e aperfeiçoado 6.
O Século XVIII é marcado por um interesse na docilidade do corpo, que passa a ser
considerado como um objeto, que por si só justifica os investimentos realizados de forma
imperiosa e urgente, impondo-se limitações, proibições ou algum tipo de obrigação. O objetivo
não é cuidar do corpo de uma forma coletiva, mas de trabalhá-lo minuciosamente no plano
individual, tendo por escopo um exercício de coerção sobre ele. A ideia é manter o corpo no
mesmo patamar da mecânica, manipulando seus movimentos, gestos, atitudes e destreza com
que realiza suas tarefas, tornando-o, assim, um corpo ativo e controlado, voltado a uma
economia que busca a eficácia dos seus movimentos, uma forma de organização interna, o que
só é possível devido à coação existente sobre o corpo7.
Através dos métodos de controle minucioso das operações do corpo, o qual se sujeita
no modo de agir, pensar, produzir, gerir seu tempo, atribuir-lhe rotinas e hábitos, estas forças
lhe impõem uma relação de docilidade-utilidade, o que se pode denominar de “disciplinas” 8. O
processo disciplinar existe há muito tempo, facilmente observado nos conventos, no exército e
nas oficinas. Entretanto, as disciplinas tornaram-se, nos Séculos XVII e XVIII, formas de
dominação do corpo por excelência. O que não se confunde com a escravidão, pois essa se

Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. p.132.


3
FERRAZ JR, Tercio Sampaio. Estudos de filosofia do direito: reflexões sobre o poder, a liberdade, a justiça e
o direito. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2009, p. 9.
4
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p.132.
5
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p.132.
6
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p.132.
7
FOUCAULT, Michel. op cit,.2013, p.133.
8
FOUCAULT, Michel. op cit,.2013, p.133.
13

baseia numa relação custosa e violenta, Já, na sociedade disciplinar, é a apropriação do corpo a
qual se dá através de processos disciplinares que resultam em um corpo obediente, dócil e mais
útil, formando assim uma espécie de política das coerções, as quais são peremptoriamente um
trabalho sobre o corpo, a verdadeira manipulação calculista de seus gestos e de seus
comportamentos. É como se o corpo humano fosse colocado em uma máquina que tem o poder
de esquadrinhar, desarticular e o recompor em um ser dócil9.
Esse processo disciplinar verdadeiramente é compreendido como uma anatomia
política, a qual é igualmente interpretada como a mecânica do poder. Definindo o jeito de
dominar o corpo humano dos outros, a fim de que operem da forma que se requer, com as
técnicas, de acordo com a agilidade e a eficácia que se espera. Através das técnicas
disciplinares, as forças do corpo referindo-se em termos relacionados à economia e à utilidade,
peremptoriamente produzem corpos submissos, exercitados e dóceis. Por meio da ampliação
do poder do corpo faz com que ele aumente também sua aptidão, ampliando significativamente
sua capacidade, energia e potência o que resulta numa sujeição estrita, na qual a coerção
estabelece no corpo o elo coercitivo entre o aumento da aptidão e uma dominação exacerbada 10.
Após o Renascimento, com a nova forma de relacionamento com o corpo humano, que
passa a ser disciplinado, ocorre uma transformação política, devido a uma mudança nas
tecnologias do poder. Passa-se de um poder de dedução para um poder de produção qualificada
devido a dois fenômenos: o primeiro deles é a emergência de técnicas disciplinares do poder
orientadas pelas necessidades de monopolizar as forças do corpo humano, conhecida como
técnicas e táticas de dominação 11. O segundo fenômeno 12 está relacionado à Biopolítica 13, a
qual serve para administrar e regulamentar o modo de vida desse sujeito político14, de uma
forma geral destinada à manipulação da população, o que será tratado no próximo subtítulo.
Nesse diapasão, o referido poder disciplinar dos corpos é tido como uma nova maneira
de poder, não podendo mais ser transcrito em termos de soberania decorrendo através da
invenção da sociedade burguesa. O que se pode afirmar serviu como um importante e
fundamental instrumento para a implementação do capitalismo industrial e do tipo de sociedade

9
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p.133.
10
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p.133 - 134.
11
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p.
186.
12
REVEL, Judith. Dicionário Foucault. op. cit, 2011. p. 24.
13
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa
Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 1º ed. São Paulo. Paz e Terra, 2014. p.150 – 151.
14
FOUCAULT, Michel. op cit, 2014, p. 146.
14

que corresponde a esse poder, um poder não soberano sujeito à maneira da soberania,
peremptoriamente é o poder disciplinar 15.
O poder disciplinar marca novos paradigmas de regulamentação social, abandonando a
violência que era imposta de uma forma hierárquica, com isso acabava por regulamentar uma
normatização e uma administração das vidas e dos corpos dos sujeitos16. Com relação a esta
hierarquia de poder entre dominadores e dominados Foucault salienta:

O poder vem de baixo; isto é, não há, no princípio das relações de poder, e como
matriz geral, uma oposição binária e global entre os dominadores e os dominados,
dualidade que repercutia de alto a baixo e sobre grupos cada vez mais restritos até as
profundezas do corpo social17.

Foucault, analisa de forma ecumênica os delineamentos do poder disciplinar 18. Critica


a noção de exclusão e intolerância social, relacionado à prisão contemporânea19, destinada aos
desviantes e indesejáveis do corpo social, aplicando a essas punições através de técnicas de
poder. Nessa conjuntura, a prisão serve para exclusão e eliminação da fração da sociedade com
comportamento irregular. O escopo aqui não é exclusivamente aos que transgridam a lei, mas
destina-se a eliminar os que não seguem as normativas sociais 20, atribuindo-lhes o que Garland
denomina de “justiça reparadora”, que consiste no discurso político do combate ao crime,
justificado no senso comum de justiça, entretanto tais políticas atingem apenas os menos
afortunados. “Estes sentimentos residiam, indubitavelmente, mais nos valores aspirados pelas
elites políticas do que na sensibilidade do público em geral21”. Nesse ínterim, Foucault aduz:
“não há exílio nem reclusão que não comporte, além do que se caracteriza de maneira geral
como expulsão, uma transferência, uma reativação desse poder que impõe, constrange e
expulsa”22.
Quando Foucault usa o termo disciplina, está se referindo a um conjunto de técnicas e
procedimentos que têm por escopo a produção de corpos politicamente dóceis 23, os quais são

15
FOUCAULT, Michel. op cit, p. 188.
16
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa
Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 19. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 104.
17
FOUCAULT, Michel. op cit,, 1988, p. 104.
18
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. Tradução Maria Ermantina Galvão. 2 ed. São Paulo: Editora
WMF Martins Fontes, 2010. p.234 – 235.
19
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013. p.103 -104.
20
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. Medo e direito penal: reflexos da expansão punitiva na realidade
brasileira. Porto Alegre: Livraria do Advogado editora, 2011. p. 73 -74.
21
GARLAND, David. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Tradução,
apresentação André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan. 2008. p.53 – 54.
22
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013. p. 4 - 5.
23
REVEL, Judith. op cit, 2011. p . 36.
15

economicamente rentáveis24. O que, a partir do Renascimento, segundo Ferraz, insere-se um


novo paradigma em relação ao corpo. Nesse sentido, os interesses não estão mais voltados aos
objetos ou às riquezas, mas ao exercício de poder sobre o corpo, passando a manipular seus atos
e exercendo poder sobre seu trabalho 25.
A gênese dos dispositivos disciplinares tem por base dois paradigmas punitivos. O
primeiro, o autor nomeia de suplício, a exemplo do caso relatado em que Damiens, no dia 2 de
março do ano de 1757, publicamente é esquartejado, deixado nu e torturado de diversas
maneiras, tais como: aplicação de chumbo derretido, de óleo fervente, de piche em fogo, de
cera e de enxofre pelo seu corpo. Em seguida, tem seu corpo puxado por cavalos
desmembrando-se em quatro pedaços; após esta atrocidade, seu corpo é queimado até se reduzir
a cinzas e posteriormente, lançado ao vento26.
O outro modelo de dispositivo disciplinar, analisado por Foucault, foi elaborado por
Léon Faucher. Por volta do ano de 1838, cria-se um regulamento para jovens detentos de Paris,
no qual se busca o controle do corpo através da manipulação do tempo. Determina-se o horário
em que os jovens detentos devem realizar suas tarefas criando, assim, uma rotina metódica.
Descrevendo nove horas para trabalhar, desde as cinco, no verão e, as seis no inverno, regulando
a mesma forma o descanso, a comida, os estudos e até mesmo as práticas religiosas27.
De acordo com Foucault, a partir do século XIX, inicia-se um processo de transição do
sofrimento do suplício para uma pena de castigo. Tal desaparecimento ocorreu devido a uma
tendência a desconsiderar o suplício, tratando-o com uma maior superficialidade. Essas
transformações institucionais acabaram por mudar códigos em sua forma explícita e de forma
geral, buscando-se um caráter essencialmente corretivo da pena, modulando-se os castigos, com
um sofrimento de forma mais sutil28.
Nesse lapso temporal, de aproximadamente setenta e cinco anos, houve essa separação
entre as duas formas de castigo, com um duplo processo de mutação, com o desaparecimento
do espetáculo punitivo, fazendo com que a pena se desloque da intensidade do sofrimento, o
que era de forma visível, para uma consciência abstrata calcada na certeza de ser castigado, e
uma mudança maior em seu escopo explícito do sistema judicial, em que no lugar de castigar
busca-se a cura e a correção do delinquente29. Nesse diapasão, surgem novas figuras no sistema

24
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013. p. 28.
25
FERRAZ JR, Tercio Sampaio. Estudos de filosofia do Direito: reflexões sobre o poder, a liberdade, a justiça e
o Direito. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2009, p. 9.
26
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p. 9.
27
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p. 11 – 12.
28
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p. 13.
29
CASTRO, Edgardo. Introdução a Foucault. Tradução Beatriz de Almeida Magalhães 1 ed. Belo Horizonte:
16

judiciário carcerário, tais como: psiquiatras, psicólogos, peritos forenses, os quais contribuem
com novos saberes30.
Foucault indica que o suplemento de poder não se manifesta mais no exagero da força
física, ao qual o corpo era submetido através do suplício, mas se adquiriu uma forma não
corporal, a partir da qual se tornou possível e mais dinâmico o manejo da criminalidade e sua
periculosidade, de uma forma mais objetiva. O que se busca através desses novos dispositivos
disciplinares, não é mais o corpo dos indivíduos, mas se busca capturar suas vidas, através de
seu corpo aprisionando suas almas31. Em sua obra Vigiar e Punir o autor fundamenta a tese de
que o nascimento da prisão adquire um alcance mais amplo do que simplesmente o suplício.
Trata-se a prisão como um apoderamento da vida e da alma do indivíduo, baseado em uma
correlativa alma moderna, sendo considerada uma nova forma de julgar. É a gênese da
sociedade disciplinar moderna 32. Essa nova definição da política do corpo calcada em saberes
e tecnologias dissipada entre as instituições e a materialidade dos corpos, acaba formando a
microfísica do poder33.
Com as reformas dos princípios e das técnicas referentes aos castigos, buscou-se
adquirir uma maior regularidade e eficácia, resultando, assim, em um menor custo político e
econômico, tendo em vista que os suplícios eram objetos de indagações há algumas décadas e
suas consequências, em inúmeras vezes, faziam-se contrárias aos resultados pretendidos34. Uma
vez que a população comemorava a coragem e a resistência dos suplicantes como um ato de
valentia que se sobrepunha à brutalidade como eram tratados, sublevando contra o poder que
se exercia sobre eles35.
Com o surgimento do Capitalismo, os delitos contra a propriedade e as fraudes ganham
uma maior importância daqueles delitos de sangue, surgindo assim uma maior necessidade de
castigar de forma mais efetiva. Com o escopo de evitar a reincidência e a fim de prevenir o
delito, buscou-se castigar mais e melhor o delinquente. As grandes mudanças ocorridas no
direito penal surgem através da sensibilidade da sociedade em defender seu patrimônio, e em
nada tem a ver com uma sensibilidade concernente à crueldade das penas, é apenas um cálculo
relacionado à economia da sociedade burguesa e a sua política, utilizando-se da função punitiva

Autêntica Editora. 2015.p. 87.


30
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.87.
31
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.87.
32
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.87.
33
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.88.
34
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.88.
35
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.87.
17

a fim de garantir seu patrimônio 36.


A prisão por excelência não se deu de forma direta e imediatamente com a reforma
penal, uma vez que a dimensão pública do castigo remete à sociedade a lembrança da ruptura
do pacto social, na qual o corpo era exposto a manifestar suas aflições de forma pública,
obrigando-o a trabalhar em locais onde poderiam ser vistos por todos a fim de que o povo
percebesse o destino daqueles que contrariassem ou violassem as leis. O corpo era o apogeu da
aplicação da pena, sendo que o objetivo do sistema carcerário não é a ressocialização do
indivíduo ao pacto, mas o de produzir corpos dóceis e obedientes, em que a instituição
coercitiva toma lugar em uma sociedade punitiva 37.
A instituição carcerária, desde seus primórdios, sempre foi objeto de várias críticas,
tendo em vista a sua incapacidade de conseguir adaptar ou de ressocializar o condenado a voltar
para a civilização urbana38. Foucault aponta esses processos como sendo a transformação de
uma sociedade do suplício em uma sociedade disciplinar, remetendo ao trabalho de Jeremy
Bentham, uma sociedade panóptica 39.
Peremptoriamente o cárcere é mais uma engrenagem desta sociedade panóptica, em que
o escopo está baseado em primeiro lugar a uma necessidade de ajuste entre si do acúmulo de
capital e a aglomeração de corpos advindos da civilização urbana e das novas maneiras de
produção. Esse modelo prisional benthamiano, do panótico, diz respeito a um local de
encarceramento em que vige o princípio da constância de vigilância, local da exposição do
corpo a uma visibilidade total, ocorrendo a decomposição das massas em unidades de
reordenação complexas através de uma hierarquia rigorosa, a qual permite a submissão de cada
corpo humano a uma verdadeira economia do poder. Instituições disciplinares como prisões,
escolas, asilos, ainda nos dias de hoje, apresentam uma arquitetura panóptica, ou seja, uma
arquitetura voltada à constância da vigilância do indivíduo, destinado ao encarceramento e à
repressão dos corpos que ali se encontram. Trata-se do gerenciamento da alma do indivíduo 40.
Nesse diapasão, o poder carcerário passa a normatizar a vida dos indivíduos utilizando-
se da lei. Prevendo o aprisionamento daqueles que não agem de acordo com ela. Com a
utilização do cárcere, como mecanismo de uma sociedade disciplinar, resultou a descoberta de
novos conhecimentos. Ao serem implementados, resultaram em mecanismos disciplinares

36
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.88.
37
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.89.
38
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.90.
39
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.90.
40
REVEL, Judith. Op cit. 2011, p. 37.
18

fortalecidos através deste sistema 41. Segundo Foucault, os colégios, as escolas primárias, os
espaços hospitalares e as organizações militares desempenham os mesmos mecanismos de
coerção que o cárcere, produzindo corpos disciplinados. Isso estabelece um elo entre uma
aptidão aumentada e uma dominação exacerbada. Essas técnicas encontram sua importância
devido ao investimento político realizado no corpo, o qual ganha espaço e se estende e cobre o
corpo social por completo42.
O processo de reclusão consiste na aplicação da lei penal, efetivando-se através do
aprisionamento do corpo, privando-o de sua liberdade, passando a exercer sobre ele práticas
disciplinares de normatização do indivíduo. A relevância consiste em demonstrar a
superposição da lei sobre a norma, o que acaba definindo a sociedade contemporânea 43. Em
uma sociedade disciplinar, o criminoso é visto como um pecador, confundindo-se assim a pena
com uma moral cristã, a qual é imposta pelo sistema judicial 44. Relacionado a esta moralidade,
Foucault descreve de forma analógica estabelecendo uma relação entre o convento e o cárcere,
ou seja, o convento tem por escopo a proteção do indivíduo sacro do mundo exterior, a fim de
que não haja contaminação com o que é considerado impuro. Já o cárcere é exatamente o efeito
ao contrário, é a anulação do indivíduo considerado impuro, a fim de que este não contamine o
mundo exterior45.
O termo disciplina é algo que vem de muito tempo, sendo encontrado tanto nos quartéis
quanto nos conventos. Entretanto, a partir do século XVIII, tais dispositivos disciplinares
sofrem várias mutações, passando não só a neutralizar ou a anular aqueles que eram
considerados inúteis ao capitalismo, mas a partir de então passam a dar utilidade a esses corpos,
tornando-os produtivos e cumprindo funções positivas, passando a ser objeto de apropriação
por parte do Estado, o qual se apodera desses corpos dóceis por meio de um sistema policial
centralizado46.
Com relação ao poder disciplinar, Foucault busca a compreensão do modo em que este
poder torna-se a maneira geral de dominação dos corpos. Esse momento de dominação nasce
com a arte de domínio do corpo humano, na qual o principal não é o aumento das habilidades
corporais, nem o aumento da intensidade de sua sujeição, mas a formação de um mecanismo
que torna o corpo muito mais obediente e mais útil 47. Conforme sustenta Foucault

41
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.90.
42
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p.134.
43
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.91.
44
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p.92-93.
45
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p.87.
46
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.92.
47
REVEL, Judith. Op cit, 2011, p.36.
19

A disciplina não pode identificar-se nem com uma instituição nem com um aparato; é
um tipo de poder, uma modalidade para exercê-lo, que comporta todo um conjunto de
instrumentos, de técnicas, de procedimentos de níveis de aplicação, de objetivos; é
uma física ou uma anatomia do poder, uma tecnologia 48.

Peremptoriamente a sociedade disciplinar está relacionada a um dispositivo que se


relaciona entre elementos heterogêneos, tais como: instituições panópticas, regulamentos,
discursos, leis, disposições administrativas, em que se tem por escopo a produção de corpos
humanos politicamente dóceis e economicamente rendáveis, na qual seu funcionamento e
objetivos adaptam-se sempre às novas realidades49.
Com a implementação dessas técnicas, ocorre a definição das características próprias de
uma sociedade disciplinar, fazendo com que haja a manipulação em sua forma celular,
combinatória, genética, orgânica e organizacional em termos de sociedade50. Há de se observar
que essas técnicas devem ser associadas com vigilância panóptica51 acompanhadas por sanções
as quais têm por escopo a correção, a reeducação, cura e a expiação do mal, a verdadeira
ortopedia da moral do indivíduo52.
Como dizia Rush:

Só posso esperar que não esteja longe o tempo em que as forças, o pelourinho, o
patíbulo, o chicote, a roda, serão considerados, na história dos suplícios, como as
marcas da barbárie dos séculos e dos países e como as provas da fraca influência da
razão e da religião sobre o espírito humano53

Através das técnicas disciplinares, percebe-se a maneira distinta de ação e das formas
entre a lei e a norma. A lei, por sua vez, cria um binômio de certo e de errado, permitido e
proibido, remetendo os indivíduos a códigos, nos quais passam a regular seus comportamentos
e suas ações54. Em consequência a não observância das leis acarreta penas nos indivíduos
devido à quebra do contrato social, o qual estabelece obrigações entre partes55. No caso da não

48
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p. 92.
49
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p. 93.
50
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p. 93.
51
REVEL, Judith.. op cit., 2011, p. 37.
52
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p.15.
53
RUSH, B., diante da Society for promoting political enquiries. In: TEETERS, N.K. The Cradle of the
Penitentiary, 1935, p. 30. apud FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história de violência nas prisões. Tradução
de Raquel Ramalhete. 41. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. p.15.
54
BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas. Direito Penal I. Título. Trad. Alexis Augusto Couto de Brito –
Prefácio: René Ariel Dotti – São Paulo: Quartier Latin, 2005. p.40 – 41.
55
BECCARIA, Cesare. op cit, 2005, p.42.
20

observância aos códigos ocorre a criminalização da conduta do indivíduo e a consequente


separação destes dos demais, cerceando sua liberdade56.
Cesare Beccaria relaciona essa relação entre a norma e o comportamento como conditio
sine qua non, condição esta que só se estabelece o castigo no caso da não observância da lei 57.
Nesse sentido, Feuerbach estabelece a lei como base para que haja uma regulamentação nas
ações e na criminalização quanto à conduta dos indivíduos, no conhecido brocado: Nulla poena
sine lege e nullum crimen sine poena legali 58. “Somente as leis podem decretar as penas sobre
os delitos, e esta autoridade não pode apoiar-se senão na obra do legislador que representa toda
a sociedade unida por um contrato social” 59.
Entretanto, a norma está baseada em um conceito de comparativo do que seria
considerado como um ótimo padrão de conduta, dispensando-se os códigos e se buscando o
padrão de referência social em sua excelência. Nesse caso, não há uma separação uns dos
outros, o que ocorre é uma adequação de conduta na qual se iguala o corpo social60.
Nesse sentido, Foucault aponta o ambiente carcerário, hospitalar ou escolar, ainda que
de forma temporária, como práticas de normalização inclusiva, em que se busca a
homogeneização social através do processo disciplinar 61. De acordo com Foucault, essas duas
últimas instituições não são consideradas instituições de exclusão, mas se trata de instituições
que sequestram o corpo e a alma do indivíduo. Num primeiro momento, trata-se a sujeição do
tempo de vida a um tempo de produção, uma vez que, enquanto esses corpos dóceis tiverem
vida, estarão sujeitos a atividades produtivas laborais, regulando inclusive o tempo destinado a
sua diversão e até mesmo, regulando o tempo de seu descanso. Nesse ínterim, percebe-se que
o hospital não tem só a incumbência da cura, e a escola a de ensinar, mas exercem uma função
importantíssima na arte de controle e de produção de corpos dóceis e úteis62
Contudo, com relação à biopolítica e à disciplina, nota-se que esses mecanismos agem
conjuntamente, complementado um ao outro. Constituindo elemento primordial de uma
sociedade de normatização63. No próximo subitem, abordar-se-á a biopolítica, a qual se utiliza

56
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015, p.93.
57
BECCARIA, Cesare. op cit, 2005, p.10.
58
FEUERBACH, Paul Johann Anselm Ritter Von (1775-1833), filósofo e jurista Alemão, imortalizou as
expressões latinas do princípio da legalidade, no parágrafo 20 de seu tratado: nulla poena sine lege e nullum crimen
sine poena legali. (N.T.) apud BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas. Bibliografia. Direito Penal I. Título.
Trad. Alexis Augusto Couto de Brito – Prefácio: René Ariel Dotti – São Paulo: Quartier Latin, 2005. p.26.
59
BECCARIA, Cesare. op cit, 2005, p.26.
60
CASTRO, Edgardo. op cit, 2015,p.93 – 94.
61
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p. 182 – 183.
62
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013, p.216 – 220.
63
FONSECA, Ricardo Marcelo. Foucault o direito e a “sociedade de normatização”. In: Crítica da modernidade:
diálogos com o direito. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2005, p. 119.
21

das técnicas disciplinares a fim de governar não somente alguns indivíduos, mas todo o
conjunto que compõe a população64. O que consequentemente resulta na produção de uma vida
desqualificada e sem valor, produzindo o que Agamben denomina de vida nua de Homo Sacer65.

2.2 A biopolítica e a produção da vida nua (Homo Sacer)

A expressão biopolítica assinala a maneira de governar não somente alguns indivíduos


utilizando-se de técnicas disciplinares, mas todo o conjunto de pessoas que compõe a
população66. A biopolítica surge no final do século XVIII e no início do século XIX
modificando a forma de governar a vida através de biopoderes locais, os quais manipulam a
gestão da saúde, higiene, alimentação, sexualidade, natalidade dentre outros, estando estas
gestões sob investimentos políticos67.
A biopolítica surge com o nascimento do liberalismo, desempenhando um exercício de
governo, o qual tem por escopo a redução de custos relacionados à produção industrial. Nesses
casos, há uma maior probabilidade de governar exacerbadamente em razão do Estado. Esse,
por sua vez, ao desenvolver seu poder biopolítico, passa a ter um crescimento em suas
dimensões. O governo, de forma egocêntrica, passa a existir para ele próprio, ficando a
sociedade em uma situação de exterioridade e de inferioridade em relação ao Estado 68.
Já em Fonseca, a biopolítica aplicada nos mecanismos disciplinares volta-se à norma, a
qual é elemento de suma importância em uma sociedade de normatização. Dessa forma, a
sociedade de normatização incide de maneira individual em cada componente do corpo social,
tanto na disciplina quanto no biopoder, os quais consistem em verdadeiros mecanismos de
normatização do corpo humano e da vida do indivíduo 69.
De acordo com Fonseca, esse aduz que a disciplina:

64
REVEL, Judith. op cit. p. 24.
65
AGAMBEN, Giorgio. AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer O Poder Soberano e a Vida Nua. 2ª. ed. Belo
Horizonte. UFMG. 2014. p.10.
66
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 24.
67
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 24.
68
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 24.
69
FONSECA, Ricardo Marcelo. op cit, 2005, p. 119.
22

É uma forma não necessariamente regulamentada (juridicamente) e não está calcada


numa relação de legitimidade com o ato fundador e originário do aparecimento do
poder. É um poder local, que se exerce de modo capilar, e não de modo maciço e
homogêneo, e que não se pode apreender a partir dos seus níveis de intenção ou de
decisão – já que as intenções (se intenções houver) estão ligadas às práticas efetivas,
nas instâncias materiais de sujeição. O indivíduo, aqui não é um núcleo elementar ou
um átomo primitivo no qual o poder se aplica e submete, mas é ele próprio (o
indivíduo) um dos efeitos do poder, já que o poder transita pelo indivíduo e o
constitui70.

Esse paradigma de governabilidade não se reduz sob a ótica jurídica nem sob a ótica
econômica, mas se apresenta como uma nova tecnologia do poder, em que a população passa a
ser compreendida como um novo objeto71.
A população é compreendida como um “conjunto de seres vivos e coexistentes que
apresentam traços biológicos e patológicos particulares e dos quais a própria vida é suscetível
de ser controlada”, em que se tem por escopo melhorar a gestão da sua força física em prol dos
interesses do governante72.

A descoberta da população é, ao mesmo tempo que a descoberta do indivíduo e do


corpo adestrável, o outro grande núcleo (nó) tecnológico em torno do qual os
procedimentos políticos do Ocidente se transformam. Inventou-se nesse momento, o
que eu chamarei, em oposição à anátomo – política que acabei de mencionar, a
biopolítica73.

Da mesma forma que a disciplina se relaciona como uma anátomo-política dos corpos,
a qual se utiliza nos indivíduos, a biopolítica está relacionada como uma “grande medicina
social”, a qual é praticada em (des) favor da população com o escopo de governar suas vidas,
passando a vida do indivíduo, deste marco em diante, a ser entendida como um objeto de
concentração do campo de poder74.
Ao tratar de uma concepção de biopolítica, levantam-se dois impasses. O primeiro
impasse diz respeito às obras de Foucault relacionadas em seus textos que abordam o presente
tema. Foucault passa a relacionar a biopolítica ao que os alemães do século XVIII denominam
de “Polizeiwissenxchaft”, que por sua vez significa uma preservação da ordem e da disciplina
o que contribuirá para o desenvolvimento do Estado75.

70
FONSECA, Ricardo Marcelo. op cit, 2005, p. 116.
71
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 24.
72
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 24-25.
73
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 25.
74
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 25.
75
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 25.
23

Em outro momento, Foucault estabelece uma relação da biopolítica como uma


superação da “dicotomia Estado/sociedade”, em razão da economia política da vida dos
indivíduos de uma forma mais generalizada. A partir desse dilema, surge a questão de como
processar a biopolítica? Defini-la como um composto de biopoderes? Ou interpretá-la como a
vida sendo o próprio poder? A biopolítica certamente está arraigada na vida, na linguagem, nos
corpos, nos anseios e até mesmo na sexualidade, passando a produzir uma subjetividade em
decorrência deste contra poder o que resultaria um desassujeitamento do indivíduo 76. A
biopolítica é fundamental para a reformulação ética com o político 77. Segundo as análises de
Foucault:

A biopolítica representaria exatamente o momento da passagem da política à ética(...)


a análise, a elaboração, a retomada do questionamento das relações de poder e do
‘agonismo’ entre relações de poder e intransitividade da liberdade são uma tarefa
política incessante é exatamente isso, a tarefa política inerente a toda existência
social78.

Já, há algum tempo, vem se formando um paradigma político denominado de


biopolítica. Foucault trabalha com a tese de que a vida biológica se transforma em objeto da
política. Surgindo dessa maneira o biopoder e a biopolítica. De acordo com Foucault, essas duas
palavras, em algumas situações, adquirem o mesmo significado, entretanto, em outras ocasiões,
adquirem significados diversos79. Essas expressões adquirem uma forma de poder “de fazer
viver ou deixar morrer”, o que em sua simetria é inverso ao poder do soberano, como um poder
de fazer morrer e deixar viver80.
Nesse entendimento, Foucault afirma sobre o biopoder e a biopolítica: “O homem,
durante milênios, permaneceu o que era para Aristóteles: um animal vivo e, além disso, capaz
de existência política; o homem moderno é um animal em cuja política sua vida de ser vivo está
em questão”81.
Dessa maneira, encontra-se um conceito de poder no qual o soberano tem sobre seu
domínio um poder de “fazer viver ou deixar morrer”. Foucault denomina esse fenômeno de “o

76
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 25.
77
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 26.
78
REVEL, Judith. op cit, 2011, p. 26.
79
CASTRO, Edgardo. Los malestendidos de la biopolítica: Foucault, Agamben, Derrida. Quadranti – Rivista
Internazionale di Filosofia contemporânea Salerno – vol. II, nº 2, 2004.p. 110.
80
CASTRO, Edgardo. op cit, 2004, p.111.
81
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I A vontade de saber, 1º. ed. Rio de Janeiro/ São Paulo: Paz
& Terra, 2014. p.155.
24

limiar da modernidade biológica”, ou seja, trata-se do momento em que se institui na


contemporaneidade esse novo poder82.
Nesse ínterim, Foucault sustenta:

La hipótesis que, con el capitalismo, no se pasó de una medicina colectiva a una


medicina privada, sino que se produjo precisamente lo contrario. El capitalismo que
se desarrolla hacia finales del siglo XVIII y comienzos del XIX socializó, ante todo,
un primer objeto en función de la fuerza productiva, de la fuerza de trabajo: el cuerpo.
El control de la sociedad sobre los individuos no se lleva a cabo solo mediante la
conciencia o la ideología, sino también en el cuerpo y con el cuerpo. Para la sociedad
capitalista lo que importaba ante todo es lo bio-político, lo biológico, lo somático, lo
corporal. El cuerpo es una realidad bio-política; la medicina es una estrategia bio-
política83.

Com relação a essa medicina coletiva voltada a maximizar o Estado utilizando-se da


biopolítica como técnica empregada em prol do capitalismo, Agamben desenvolve sua tese de
soberania e governo na obra Homo Sacer, na qual aponta um indivíduo com uma forma de vida
desqualificada (zoé), adquirindo uma vida nua 84. Essa simples vida natural não tinha lugar na
“pólis”, sendo, portanto excluída do meio social, permanecendo apenas quem era considerado
como vida qualificada85.
Agamben, ao fazer uma análise do exercício de poder, traz um conceito jurídico,
institucional e de soberania: “Se pude decir, más bien, que la producción de un cuerpo
biopolítico es la prestación original del poder soberano. La biopolítica es, en este sentido, tan
antigua como la excepción soberana”86.
Agamben salienta que:

Esta vida no es simplemente la vida natural reproductiva, la zoé de los griegos, ni el


bíos, una forma de vida calificada. Ella es, más bien, la vida desnuda del homo sacer
y del wargus, una zona de indiferencia y de tránsito continuo entre el hombre y la
bestia, la naturaleza y la cultura87.

Com relação a bios e zoé, Castro aduz:

82
CASTRO, Edgardo. op. cit, 2004, p.111.
83
FOUCAULT, Michel. apud CASTRO, Edgardo. Los malestendidos de la biopolítica: Foucault, Agamben,
Derrida. Quadranti – Rivista Internazionale di Filosofia contemporânea – vol. II, nº 2, 2004. p.112 – 113.
84
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2004, p. 9.
85
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2004, p.10.
86
AGAMBEN, Giorgio. apud CASTRO, Edgardo. op cit, 2004, p.115.
87
AGAMBEN, Giorgio. apud CASTRO, Edgardo. op cit, 2004, p.121.
25

Por otro lado, respecto de la distinción entre bíos y zoé, como han observado los
filólogos desde la época del Renacimiento, es necesario tener presente que ésta no se
superpone con la separación en hombres y animales. Ella expresa, más bien, la
distinción en una vida que perdura (la zoé) y las formas finitas de la vida (bíos)88.

Em uma concepção de vida, os gregos a descrevem sob duas formas, as quais em sua
etimologia, semântica e morfologia são diferentes entre si. A primeira delas é o que eles
chamam de zoé, na concepção grega tinha o significado “fato de viver comum a todos os seres
vivos” sejam animais, homens ou deuses. O outro sentido de vida para os gregos é denominado
de bíos, que representa a forma de viver de um indivíduo ou de um grupo 89.
De acordo com Foucault, “o limiar de modernidade biológica de uma sociedade situa-
se no ponto em que a espécie e o indivíduo, enquanto simples corpo vivente, tornam-se a aposta
que está em jogo nas suas estratégias políticas” 90. Resultado disso é a animalização do homem,
o que empiricamente se dá através das técnicas políticas empregadas pelo poder hegemônico,
surgindo assim para as ciências humanas e sociais, o poder de proteger a vida ou de permitir o
holocausto desta.
Nesse entendimento, Agamben sustenta:

Em particular, o desenvolvimento e o triunfo do capitalismo não teria sido possível,


nesta perspectiva, sem o controle disciplinar efetuado pelo novo biopoder, que criou
para si, por assim dizer, através de uma série de tecnologias apropriadas, os corpos
dóceis de que necessitava91.

Foucault aponta a entrada da zoé na circunscrição da pólis, ocorrendo a politização da


vida nua, o que marca bastante a contemporaneidade. Apresentando o nazismo como um
exemplo mais contundente de biopolítica o que só seria possível graças à politização da vida
nua92. Nesse diapasão, Agamben aduz que:

E somente uma reflexão que, acolhendo a sugestão de Foucault e Benjamin,


interrogue tematicamente a relação entre vida nua e política que governa secretamente
as ideologias da modernidade aparentemente mais distantes entre si poderá fazer sair
o político de sua ocultação e, ao mesmo tempo, restituir o pensamento à sua vocação
prática93.

88
CASTRO, Edgardo. op cit, 2004, p. 121.
89
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p. 9.
90
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014 p. 9.
91
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p. 11.
92
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p. 11.
93
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p. 11.
26

O que se coloca em evidencia na contemporaneidade não é a bios, mas a zoé, uma vez
que para as técnicas de governabilidade o controle da vida biológica e da população é o foco da
biopolítica moderna94. Foucault defende essa tese apontando a evidência da vida biológica no
espaço público, o que passa a proporcionar paulatinamente o protagonismo da política, de tal
forma que, em última análise, evidenciou-se com a politização da zoé, uma profunda mudança
nas concepções políticas da Antiguidade95.
Nesse sentido, Agamben desenvolve suas pesquisas fazendo uma análise do núcleo
central do ponto de encontro entre o paradigma jurídico-institucional e o paradigma biopolítico
do poder, ou seja, Agamben analisa a relação tênue entre a biopolítica, a soberania a e vida nua
e a sua relação com o poder soberano, o qual passa a inserir esta vida biológica nos cálculos do
Estado96.
Nessa acepção, Agamben refere:

A presente pesquisa concerne precisamente este oculto ponto de intersecção entre o


modelo jurídico – institucional e o modelo biopolítico do poder. O que ela teve de
registrar e entre os seus prováveis resultados é precisamente que as duas análises não
podem ser separadas e que a implicação da vida nua na esfera política constitui o
núcleo originário – ainda que encoberto – do poder soberano. Pode-se dizer, aliás, que
a produção de um corpo biopolítico seja a contribuição original do poder soberano. A
biopolítica é, nesse sentido, pelo menos tão antiga quanto a exceção soberana.
Colocando a vida biológica no centro de seus cálculos, o Estado moderno não faz
mais, portanto, do que reconduzir à luz o vínculo secreto que une o poder à vida nua,
reatando assim (segundo uma tenaz correspondência entre moderno e arcaico que nos
é dado verificar nos âmbitos mais diversos) com o mais imemorial dos arcana
imperii97.

Percebe-se que a politização da zoé não é algo que ocorra apenas na contemporaneidade,
mas surge simultaneamente com a soberania, existindo uma tênue ligação entre poder soberano
e biopolítica, o que leva à implementação de uma vida nua a todos indivíduos. Nessa lógica,
Agamben aponta como uma das características da política contemporânea a inclusão da zoé na
pólis, a qual passa a ser objeto eminente dos cálculos Estatais e na qual a exceção se torna o
paradigma de governo, em que a vida nua permanece às margens do ordenamento jurídico 98.
Nesse sentido Agamben salienta:

94
AGAMBEN, Giorgio. op cit, p.11.
95
CASTRO, Edgardo. op cit, 2013, p. 50.
96
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.14.
97
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.14.
98
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.16.
27

A tese foucaultiana deverá, então, ser corrigida ou, pelo menos, integrada, no sentido
de que aquilo que caracteriza a política moderna não é tanto a inclusão da zoé na pólis,
em si antiguíssima, nem simplesmente o fato de que a vida como tal venha a ser um
objeto eminente dos cálculos e das previsões do poder estatal; decisivo é, sobretudo,
o fato de que, lado a lado com o processo pelo qual a exceção se torna em todos os
lugares a regra, o espaço da vida nua, situado originariamente à margem do
ordenamento, vem progressivamente a coincidir com o espaço político, e exclusão e
inclusão, externo e interno, bios e zoé, direito e fato entram em uma zona de irredutível
indistinção99.

Percebe-se que a vida nua está em evidência na contemporaneidade, principalmente em


uma visão biopolítica em que o Estado a introduz de forma calculista em uma política de
governabilidade, mantendo uma relação tênue entre a vida nua e o poder soberano.
Nesse discernimento, Edgardo Castro sustenta:

Así, para el Agamben de Homo sacer, por ejemplo, la biopolítica hace referencia a
los dispositivos mediante los cuales el ejercicio de la soberanía estatal transforma la
vida humana, individual o colectivamente, en vida desnuda, es decir, expuesta a la
muerte. Para Foucault, en cambio, la biopolítica remite al modo en que la vida
biológica de la población en su conjunto se ha convertido en objeto de administración
y gobierno mediante los mecanismos de normalización que, como se ocupó de
mostrar, no funcionan del mismo modo que los dispositivos jurídicos de la ley100.

Agamben destaca a “figura do direito romano arcaico em que a sacralidade liga-se pela
primeira vez a uma vida humana como tal” 101. Após uma definição ao monte sacro, Festo, um
procurador romano do século I, explana o conceito de homo sacro 102:

Homem sacro é, portanto, aquele que o povo julgou por um delito; e não é lícito
sacrificá-lo, mas quem o mata não será condenado por homicídio; na verdade, na
primeira lei tribunícia se adverte que ‘se alguém matar aquele que por plebiscito é
sacro, não será considerado homicida’. Disso advém que um homem malvado ou
impuro costuma ser chamado sacro103.

Nessa definição de Festo, ao sancionar a sacralidade de uma pessoa, permite que ela
seja morta, sem que se cometa um “parricidium”, o que etimologicamente significa o
assassinato de um homem livre 104. Considera-se que aquele que matasse o homo sacro sairia
impunemente, não sendo levado à morte segundo o que o rito sancionava aos parricidas105. Com

99
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.14 e 15.
100
CASTRO, Edgardo. Lecturas foucaulteanas: una historia conceptual de la biopolítica, 1º ed. La Plata
Argentina: Unipe editorial universitária. 2011. p.16.
101
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.74.
102
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.74.
103
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.186.
104
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.74.
105
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.74.
28

relação a este conceito-limite de homo sacro, Agamben sustenta:

Tudo faz pensar que nos encontramos aqui diante de um conceito-limite do


ordenamento social romano, que, como tal, pode dificilmente ser explicado de modo
satisfatório enquanto se permanece no interior do ius divinun e do ius humanun, mas
que pode, talvez, permitir-nos lançar uma luz sobre seus limites recíprocos. Mais do
que resolver a especificidade do homo sacer, como se tem feito muito frequentemente,
em uma pretensa ambiguidade originária do sagrado, calcada sobre a noção etnológica
de tabu, tentaremos em vez disso interpretar a sacratio como uma figura autônoma e
nos perguntaremos se ela não nos permitiria por acaso lançar luz sobre uma estrutura
politica originária, que tem seu lugar em uma zona que precede a distinção entre sacro
e profano, entre religioso e jurídico. Mas, para avizinharmo-nos desta zona, será antes
necessário desobstruir o campo de um equívoco106.

Com relação à matabilidade do homo sacer, entende-se uma dupla exclusão, a qual
também diz respeito a uma dupla captura da vida, devido à possibilidade de ser sacrificada e à
possibilidade de ocorrer sua exclusão do seio da sociedade. Entretanto, ao mesmo tempo em
que se exclui esta vida do meio social, a própria sociedade volta a incluí-la por se tratar de uma
vida matável, “vida sacra”107.
Nesse entendimento, Agamben refere:

Aquilo que define a condição do homo sacer, então, não é tanto a pretensa
ambivalência originada da sacralidade que lhe é inerente, quanto, sobretudo, o caráter
particular da dupla exclusão em que se encontra preso e da violência à qual se encontra
exposto. Esta violência – a morte insancionável que qualquer um pode cometer em
relação a ele – não é classificável nem como sacrifício e nem como homicídio, nem
como execução de uma condenação e nem como sacrilégio108.

O que se percebe nesse homem sacro é a aplicação de um Estado de Exceção, na qual a


decisão soberana suspende a lei do Estado aplicando-lhe uma vida nua109. Com relação a esta
dupla exceção do profano no religioso e vice-versa, despontando uma “zona de indiferença
entre sacrifício e homicídio” 110. Nesse entendimento, Agamben aduz: “Soberana é a esfera na
qual se pode matar sem cometer homicídio e sem celebrar um sacrifício, e sacra, isto é, matável
e insacrificável, é a vida que foi capturada nesta esfera”111. Nessa acepção, percebe-se que a
vida do homo sacro não encontra respaldo nos direitos humanos, muito menos no direito divino
uma vez que é lícito tirar-lhe a vida, bastando apenas uma decisão do soberano 112.

106
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.76.
107
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.84.
108
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.84.
109
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.84.
110
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.85.
111
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.85.
112
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.85.
29

Nesse ínterim, Nascimento sustenta:

A morte do homo sacer torna-se excepcional por estar inteiramente excluída da


consideração e avaliação tanto do direito humano quanto do direito divino. Ele é a
vida absolutamente e simplesmente matável, objeto de uma violência que excede tanto
a esfera do direito quanto a do sacrifício113.

Com o paradigma da dupla exceção e da dupla captura, devido ao homo sacer pertencer
à divindade e de se encontrar à mercê da morte, correspondendo, segundo Agamben, ao bando
soberano e ao abandono programado, encontra-se em uma zona anômala, em um vazio de
direito, na qual se cria um Estado de exceção, que exclui o sacer do direito, mas permanecendo
ao alcance do próprio direito, uma política de exclusão inclusiva 114.
Com a captura da vida humana, vida esta matável e insacrificável, o homo sacer, ao qual
lhe é imposta uma vida nua, constitui a essência do poder soberano. Essa sacralidade à qual o
homo sacer está submetido contraria os direitos humanos, uma vez que está sujeito a um poder
de morte e a uma completa exposição ao abandono 115.
Nesse sentido, Agamben delineia a estrutura formal da exceção aduzindo:

Aquilo que é capturado no bando soberano é uma vida humana matável e


insacrificável: o homo sacer. Se chamamos vida nua ou vida sacra a esta vida que
constitui o conteúdo primeiro do poder soberano, dispomos ainda de um princípio de
resposta para o quesito benjaminiano acerca da “origem do dogma da sacralidade da
vida”. Sacra, isto é, matável e insacrificável, é originariamente a vida no bando
soberano, e a produção da vida nua é, neste sentido, o préstimo original da soberania.
A sacralidade da vida, que se desejaria hoje fazer valer contra o poder soberano como
um direito humano em todos os sentidos fundamental, exprime, ao contrário, em sua
origem, justamente a sujeição da vida a um poder de morte, a sua irreparável
exposição na relação de abandono116.

Com relação à vida do homo sacer, quando capturada, diz respeito a uma vida humana
matável e insacrificável, uma vida que fica à mercê da morte, considerada vida nua pelo
soberano117. Agamben aponta uma simetria entre a figura do soberano com a do homo sacer,
embora essas figuras se situem em dois polos distintos no ordenamento. Nessa acepção,
Agamben refere: “no sentido de que soberano é aquele em relação ao qual todos os homens são
potencialmente homines sacris e homo sacer é aquele em relação ao qual todos os homens agem

113
NASCIMENTO, Daniel Arruda. Do fim da experiência ao fim do jurídico: percurso de Giorgio Agamben, p.
163. Dados disponíveis em: <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document>. Acesso em: 20 out 2015.
114
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.84 – 85.
115
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.85.
116
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.85.
117
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.84-85.
30

como soberanos”118.
Percebe-se que a vida nua é uma vida desamparada pelo direito, a qual se encontra sem
personalidade e sem capacidades de angariar direitos e obrigações. Nesse diapasão, Nascimento
leciona: “num sentido eminentemente jurídico, poderíamos ainda entender a vida nua como
aquela despida do seu estatuto de direito, nua de personalidade, desprovida da capacidade de
contrair direitos e obrigações” 119.
Denotam-se das teses foucaultiana e agambeniana que a biopolítica e a produção da vida
nua, relacionam-se ao modo de governar a todos pertencentes ao corpo social, através de
técnicas disciplinares, com o principal escopo da redução de custos relacionados à produção
industrial. Passando a rotular indivíduos de Homo Sacer, denominando-os de vida
desqualificada, vida nua, uma vida sem valor. Dessa forma, o Estado justifica suas condutas e
passa a não respeitar os direitos humanos, nem a dignidade da pessoa humana. Nesse sentido,
o governo exerce seu poder exacerbadamente em razão do Estado. Com o intuito de justificar
condutas governamentais, surge um novo paradigma de governo na contemporaneidade que
Agamben denomina Estado de Exceção. Essa tese agambeniana será trabalhada no próximo
subitem, evidenciando a exclusão do indivíduo do direito, mas estando ao alcance desse. Nesse
ínterim, o Estado cria um chamado vazio de direito, um não direito, o que é a verdadeira
essência do Estado de Exceção.

2.3 O Estado de Exceção como paradigma de governo na contemporaneidade e o


tensionamento dos Direitos Fundamentais

Carl Schmitt, em sua obra Politische Theologie120 de 1922, começa a desenvolver a


teorização da relação do Estado de Exceção com a soberania121, definindo o soberano122 como
sendo aquele que tem o poder de decidir sobre o estado de exceção123. De acordo com a
definição de Carl Schmitt: “Soberano é quem decide sobre o estado de exceção124”. O estado
de exceção é um dispositivo com o qual o poder soberano acaba por capturar a vida humana 125,

118
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2014, p.84-85.
119
NASCIMENTO, Daniel Arruda. op cit, 2015, p. 163.
120
SÁ, Alexandre Franco de. Do Decisionismo à Teologia Política. Carl Schmitt e o Conceito de Soberania.
Universidade da Beira Interior. Covilhã: LusoSofia, PRESS. 2009. p.7.
121
GAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. Tradução de Iraci D. Poleti, 2ª. ed., São Paulo: Boitempo, 2007. p.15.
122
FRANCO DE SÁ, Alexandre. op cit, 2009, p.5.
123
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007. p.15.
124
FRANCO DE SÁ, Alexandre. op cit, 2009, p.4.
125
CASTRO, Edgardo. Introdução a Giorgio Agamben. Uma arqueologia da potência. Tradução de Beatriz de
Almeida Magalhães. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p.75.
31

estando calcado no estado de necessidade retomando a máxima da teoria da126 “necessitas


legem non habet”, ou seja, a necessidade não necessita de lei 127. Nessa acepção o Estado de
Exceção constitui um ponto de desequilíbrio entre o direito público e o fato político 128.
O Estado de Exceção, na Alemanha, ganhou o nome de Ausnahmezustand ou Notstand;
na Itália e na França os termos empregados foram decretos de urgência e estado de sítio político
ou fictício “état de siège fictif”. Nas terras norteadas pelo direito anglo-saxônico, o nome
empregado foi “martial law e emergency powers”129. Agamben entende que a denominação
mais correta a ser empregada ao Estado de Exceção é aquele nome batizado pela Alemanha,
devido ao seu alcance ao ponto fulcral do presente tema, definindo um conceito limite o qual
delineia um limite e dois conceitos130, o que seria à mercê do direito em relação ao sujeito na
qual este não encontra abrigo nas leis, dando muito mais ênfase a uma ideia voltada ao âmbito
militar bélico131.
Com relação ao Estado de Exceção, este não diz respeito a um determinado ramo
específico do direito, mas está além deste, é algo intangível de difícil contenção, o que é
inapreensível e, segundo Agamben, com relação ao Estado de Exceção ainda não se tem uma
teoria definida na esfera do direito público 132. Neste sentido, o Estado de Exceção se encontra
em uma situação paradoxal entre o fático e o jurídico, não se encontrando em nenhum desses
por completo, apenas em uma pequena parcela, nascendo assim a dificuldade em situar com
precisão a qual ramo do direito o Estado de Exceção pertence. Contudo, observa-se que o
Estado de Exceção possui uma importantíssima relevância ao funcionamento do estado de
direito considerando-o a base propulsora133, sendo a resposta imediata no caso de guerras,
revoltas e insurreições134.
O Século XX foi marcado por uma guerra civil considerada legal sob o ponto de vista
jurídico. Com a criação do Estado nazista Adolf Hitler, assim que tomou posse do poder, em
28 de fevereiro, promulgou o Decreto com a justificativa da proteção do povo alemão e do
Estado suspendendo os artigos da Constituição de Weimar, os quais previam as liberdades

126
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. O estado de exceção a partir da obra de Giorgio Agamben. São Paulo:
LiberArts, 2015. p.108.
127
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.108.
128
AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. Tradução de Iraci D. Poleti, 2ª. ed., São Paulo: Boitempo, 2007.
p.11.
129
AGAMBEN, Giorgio. op cit., 2007, p.15.
130
AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua I. Tradução de Henrique Burigo. 2. ed.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. p. 18.
131
CASTRO, Edgardo. op, cit, 2012. p. 76.
132
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p. 11.
133
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015. p.91.
134
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p. 12.
32

individuais135. Do ponto de vista jurídico, o estado nazista, ou seja, o Terceiro Reich, é


considerado o típico exemplo de um Estado de Exceção, o qual perdurou pelo período de doze
anos136, em que o totalitarismo moderno foi implementado através do dito Estado de Exceção,
legitimando todas as ações de uma guerra civil, a qual permite o aniquilamento por completo
da forma física dos adversários políticos, qualquer pessoa que se opunha ao regime nazista
vigente na época ou a quem de alguma forma era indesejável ao sistema político 137. Os motivos
do aniquilamento eram os mais diversos. “Por exemplo, prisão de opositores comunistas e
instalação de tribunais de exceção, aptos a condenar indivíduos à pena de morte”138.
Desse momento em diante, com o surgimento do Estado de Exceção, ainda que de
forma esporádica, mas voluntariamente139 vem interpondo-se embora não sendo declarado no
sentido técnico, é adotado e praticado pelos Estados contemporâneos, até mesmo por aqueles
os quais se declaram democráticos140.
A fim de ilustrar melhor o conceito de Estado de Exceção na contemporaneidade, a
história apresenta vários exemplos de “ditadura constitucional”, eventos ocorridos entre 1934
e 1948, em detrimento da crise que se implementou na Europa resultando na ruína da
democracia europeia, na qual o poder executivo usurpou os poderes no âmbito do legislativo
através de emanação de leis e decretos utilizando-se da urgência para justificar tais práticas.
Desse momento em diante, as democracias ocidentais e o poder legislativo passam a ser
percebidos como apenas ratificadores dos decretos com força-de-lei141 oriundos do poder
executivo142.
Nesse ínterim, o Estado de Exceção encaminha-se cada vez mais forte a se estabelecer
como paradigma de governo dominante na política contemporânea 143. Ocorre que o Estado de
Exceção deveria ser uma medida provisória e excepcional, entretanto transformou-se em uma
técnica de governo que contribuiu com mudanças drásticas em relação à distinção tradicional
das diversas formas de constituição. Nesse sentido, o Estado de Exceção revela-se como um
lugar de irresolução do que seria democrático e absolutismo 144. O Estado de Exceção revela-se,
também, sob o prisma da ótica militar, extravasando limites e expandindo suas fronteiras, o que

135
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.12.
136
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op. cit, 2015, p.98.
137
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p. 13.
138
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p. 98.
139
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.13.
140
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.13.
141
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p. 94.
142
CASTRO, Edgardo. op, cit, 2013. p.77.
143
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p. 13.
144
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p. 13.
33

outrora tratava-se de exceção, contemporaneamente passa a ser considerado normal 145.


Nesse estado de sítio político ou fictício, nota-se que o estado de exceção se direciona
progressivamente à “emancipação do âmbito de guerra”, a qual constitui a gênese da sua
existência146. “Para Agamben, de fato, no curso do século XX, assistimos a um fato paradoxal,
ao que se denominou uma guerra civil legal” 147. Sob essa perspectiva, o estado de exceção
instaura-se contemporaneamente como uma guerra civil legal148.
Segundo Agamben, a exceção é um modelo de exclusão e se trata de um caso singular
no qual quem for excluído não está fora do alcance da norma, mas sim a norma se mantém
relacionada ao indivíduo em forma de suspensão 149. Um exemplo de um Estado de Exceção
contemporâneo biopolítico é o caso dos EUA, onde o direito inclui em si o indivíduo através
da própria suspensão, o que fica evidenciado peremptoriamente com a “military order”150,
promulgada pelo presidente dos Estados Unidos em 13 de Novembro de 2001 e que autoriza a
chamada “indefinite detention” aplicando-se àqueles cidadãos os quais são suspeitos de
envolvimento em atividades terroristas, o que não se confunde com os tribunais militares de
guerra151. Nesse sentido, o Senado dos EUA, em 26 de Outubro de 2001, através do “Patriot
Act”, consente através do procurador geral a mantença da prisão, por um período de sete dias,
a todos aqueles que forem considerados suspeitos de atividades que geram perigo à segurança
nacional dos Estados Unidos. Após esse prazo, o estrangeiro deverá ser extraditado ou acusado
de violar a lei de imigração ou alguma lei penal. O escopo da ordem é anular drasticamente
todo estatuto jurídico que proteja o indivíduo, o que consequentemente produzirá um ser
juridicamente inominável e inclassificável152. As consequências para todos aqueles que forem
capturados é ficar à mercê da lei, tendo em vista não encontrarem respaldos em nenhuma lei,
uma vez que não estão amparados pela Convenção de Genebra, devido a não haver qualquer
previsão legal no estatuto dos prisioneiros de guerra ”POW” 153, tampouco, encontram respaldo
na legislação Norte-Americana. Esses indivíduos que por hora não são considerados
prisioneiros, nem tampouco acusados, mas apenas denominados “detainees”, ou seja, apenas
detidos, acabam se tornando objeto de pura dominação de fato e se tornando vítimas de uma

145
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.92.
146
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.92.
147
CASTRO, Edgardo. op cit, 2013. p.76.
148
CASTRO, Edgardo. op cit., 2013, p.76.
149
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.25.
150
CASTRO, Edgardo. op cit, 2013, p.77.
151
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.14.
152
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.14.
153
Esta sigla em inglês, de acordo com a Convenção de Genebra significa [prisioneiros de Guerra] In AGAMBEN,
Giorgio. op cit, 2007, p. 14.
34

detenção que não possui um tempo determinado, estando totalmente fora do alcance de qualquer
lei ou de um controle por parte do judiciário 154.
A única possível comparação a essa situação jurídica e de fato é o caso ocorrido no
holocausto “Lager” nazista, momento em que os judeus acabaram por perder sua cidadania e
sua identidade jurídica, apenas eram identificados por judeus. “Como Judith Butler mostrou
claramente, no detainee de Guantánamo, a vida nua atinge sua máxima indeterminação”155.
Hitler, através de decreto, passa a suspender direitos e garantias pessoais da Constituição de
Weimar. Como justificativa Hitler aduz o escopo de “proteção do povo e do estado”156.
Ao se fazer uma análise da terminologia jurídica em um direito contemporâneo voltado
ao direito público, a expressão plenos poderes “pleins pouxoirs”, nos traz um sentido de Estado
de Exceção, referindo-se à expansão dos poderes do soberano, atribuindo a este o poder de
promulgar decretos com força-de-lei157. O próprio Schmitt reconhece a mitologema158,
kenomático, no qual surge um vazio de direito, análoga de estado de natureza159.
Nesse diapasão, percebe-se que o estado de exceção passa a se tornar a regra,
posicionando-se mais como uma técnica de governo do que como uma medida excepcional para
combater situações de perigos para o estado160. Nesse sentido, Agamben afirma:

O estado de exceção [...] tornou-se a regra” (Benjamin, 1942, p.697), ele não só
sempre se apresenta muito mais como uma técnica de governo do que como uma
medida excepcional, mas também deixa aparecer sua natureza de paradigma
constitutivo da ordem jurídica161.

O filósofo passa a compreender que o Estado de Exceção ao invés de fazer frente a


perigos de uma forma excepcional, passa a se instalar como um paradigma constitutivo da
ordem jurídica162. Descrevendo ainda que a inversão ocorrida por conta da edição de normas
plenipotenciárias possibilita o executivo a se utilizar dos decretos com força-de-lei com poder
de sobrepor à lei em stricto sensu, inclusive com poder de revogá-la, por sua vez acaba por
inverter a lógica democrática, na qual o legislativo tem a incumbência de representar o povo163.

154
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.14.
155
AGAMBEN, Giorgio. op ci, 2007, p.14 – 15.
156
CASTRO, Edgardo. op cit, 2013, p.76.
157
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.93.
158
Termo utilizado pelos juristas alemães, em especial Schmitt, o qual indica os poderes excepcionais do Reich de
acordo com a Constituição de Weimar em seu artigo 48. Conforme AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007. p. 18.
159
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.17.
160
TACCETTA, Natalia. op. cit., p. 142; RUIZ, Castor M.M. Bartolomé. DVMJA, p. 105. apud TEIXEIRA,
Eduardo Tergolina. O estado de exceção a partir da obra de Giorgio Agamben- São Paulo: LiberArs, 2015. p. 94.
161
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.18.
162
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.18.
163
CASTRO, Edgardo. op. cit, 2013, p.94.
35

O executivo ao usurpar a função do legislativo, acaba desvirtuando e enfraquecendo o regime


democrático fazendo com que se implemente o Estado de Exceção como dispositivo capaz de
capturar a vida humana, o que era para ser provisório se torna uma técnica de governo 164.
Agamben observa a relativa necessidade de estabelecer na constituição ou na lei a
regulamentação expressa no que diz respeito ao Estado de Exceção. É o exemplo de países
como França e Alemanha, os quais divergem da Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos, que,
por sua vez, optam pela não regulamentação do Estado de Exceção de uma forma explícita165.
O Brasil, por sua vez, segue o mesmo sistema da França e da Alemanha, passando a
regulamentar de forma expressa em seu texto constitucional a possibilidade de o chefe do
executivo, ouvindo o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, decretar o
estado de defesa, a fim de preservar ou restabelecer a ordem pública ou a paz social as quais
estão ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou, ainda, quando se
encontrarem em situações de calamidades decorrentes de fenômenos da natureza, ficando
restrito a determinados locais166.
José Afonso da Silva aponta que o estado de defesa pode ser entendido como a defesa
empregada no território nacional, a fim de proteger contra possíveis invasões estrangeiras,
disciplinadas no artigo 34, inciso II da Constituição Federal, podendo também se imiscuir nos
demais caso que tratam os outros incisos. Cabendo ao Presidente da República decretar o estado
de sítio, previsto no artigo 137 da Constituição Federal. Neste mesmo sentido, cabe ao chefe do
executivo a defesa da soberania nacional disciplinada no artigo 91 da Constituição Federal e a
defesa da Pátria, conforme artigo 142 da Constituição Federal, na qual o exército está sob o
comando do Presidente da República 167.
José Afonso da Silva ainda complementa dizendo que o sistema constitucional das crises
estabelece diretrizes as quais tem por escopo a estabilização e a defesa da Constituição quando
se encontra em situações de riscos, processos violentos ou algo que perturbe a ordem
constitucional. De igual forma atua quando se trata de situações que causam risco ao Estado
passando, então, a se defender quando houver ameaça de guerra externa em que a legalidade
normal é suspensa passando a protagonizar a legalidade extraordinária a qual define e delineia
o chamado Estado de Exceção168.

164
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.94.
165
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.22.
166
BRASIL Dados disponíveis
em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.htmArtigo>. Acesso em 20 out
2015.
167
SILVA, José Afonso da. Comentário contextual à constituição. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2007. p.617.
168
SILVA, José Afonso da. op cit, 2007, p.617 – 618.
36

Na contemporaneidade, o Brasil é marcado por dois episódios onde vigorou o estado de


exceção, ficando o poder concentrado de uma forma plena na figura do Presidente. O primeiro
episódio diz respeito à Revolução de 1930. Momento em que a Junta Militar obteve sua
ascensão após sua vitória. O governo foi transferido, em Novembro daquele ano a Getúlio
Vargas, que se tornou chefe do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil.
O Presidente Vargas revestiu-se de plenos poderes passando então a governar através dos
decretos com força-de-lei. Dentre os decretos editados pelo Presidente Vargas, o Decreto de
número 19.398 adquire uma grande relevância devido ao seu conteúdo, onde dispunha a
dissolução do Congresso Nacional; a suspensão das garantias positivadas na Constituição de
1891, abrindo-se uma exceção apenas no caso do habeas corpus; afastamento da competência
da justiça Brasileira em julgar ou questionar os atos praticados pela Junta Militar, O Decreto
também previa que o Chefe do Governo teria o poder para nomear interventores os quais
poderiam agir em qualquer lugar do país169.
Após o conturbado período de Novembro de 1937, através de um golpe de Estado, o
Presidente Vargas, por motivos relacionados à ordem econômica, passa a implementar o Estado
Novo. O que tendencialmente aponta para uma intervenção estatal em atividades privadas. Tais
características denotam a implementação de um Estado de Exceção que encontra respaldo nas
fontes do direito através do princípio da necessidade, e quanto maior for a necessidade maior
será a intervenção estatal em atividades privadas 170.
Esse período do Estado Novo foi marcado pela dissolução do Parlamento, promulgação
da Constituição de 1937, em que previa ao chefe do executivo a amplitude e excepcionais
poderes, passando a extinguir os partidos políticos e a centralizar os poderes em si mesmo
aqueles relacionados aos Estados Federativos. Esse período também foi marcado pela
inobservância aos Direitos Humanos os quais foram feridos devido à intensa repressão contra
aqueles denominados como comunistas e rebeldes, passando à pratica constante da tortura,
declarando-se por guarida a Lei de Segurança Nacional171.
O segundo episódio está relacionado ao Regime Militar, ocorrido em 1º de Abril de
1964, o qual foi marcado também pelos Decretos com força-de-lei. Um dos seus principais
decretos é o Ato Institucional de número 1 e o Ato Institucional de número 5. O primeiro ato
foi editado logo após a tomada do poder pelos militares. Esse decreto previa em seu artigo 10
que no caso do “interesse da paz e da honra nacional, e sem as limitações previstas na

169
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.105.
170
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.105.
171
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.105.
37

Constituição” os Comandantes-em-chefe tinham o poder de suspender os direitos políticos pelo


período de dez anos e, até mesmo, cassar mandatos legislativos, retirado também a possibilidade
do judiciário apreciar suas deliberações172.
Sob a vigência do ato Institucional de número I, ocorreu um número bem expressivo de
cassações. Em um balanço, chega-se a um resultado de 378 atingidos:

Três ex-presidentes da República (Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João


Goulart); seis governadores de Estado; dois senadores; 63 deputados federais e mais
de três centenas de deputados estaduais e vereadores. Foram reformados
compulsoriamente 77 oficiais do Exército. 14 da Marinha e 31 da Aeronáutica.
Aproximadamente dez mil funcionários públicos foram demitidos e abriram-se cinco
mil investigações, atingindo mais de 40 mil pessoas. Castello Branco criou a
Comissão Geral de Investigações (CGI) – para coordenar as atividades dos inquéritos
policiais militares, que começaram a ser instaurados em todo o país. Foi implantado,
em junho, o Serviço Nacional de Informações, cujo poder misterioso cresceria sem
interrupção nos anos seguintes173.

Com relação ao Ato Institucional de número 5, este repugnante surgimento da repressão


dispôs em seu texto o recesso do Congresso Nacional e de todos os demais parlamentos, onde
o seu retorno só seria possível no caso de uma autorização a ser dada pelo Presidente da
República. Esse decreto também previa que, durante a recessão parlamentar, o Executivo
poderia legislar em todas as matérias das esferas federativas; o Presidente da República adquire
o poder de decretar a intervenção nos Estados e Municípios caso houvesse interesse nacional;
prevê a nomeação de interventores. Também poderiam ser suspensos os direitos políticos de
qualquer cidadão pelo período de dez anos, podendo de igual forma cassar mandatos
legislativos em todas as esferas, prevendo que não haveria substituição aos que fossem
destituídos de seus mandatos. Alterando assim o quórum do poder legislativo ficando apenas
com os que efetivamente estavam preenchidos; previsão da suspensão de direitos políticos
(como votar e ser votado), proibição de exercer atividades ou manifestações sobre assuntos
relacionados à política, previsão legal da aplicação da liberdade vigiada, restrição a frequentar
determinados locais, podendo até mesmo impor a determinação de seu domicílio, o Judiciário
não tinha qualquer poder de se imiscuir nestes Atos Institucionais. No decreto, estava previsto
que o Presidente da República poderia decretar estado de sítio174 prorrogando esse por prazo
determinado, podendo confiscar bens os quais eram entendidos como sendo adquiridos através

172
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.105.
173
ARNS, D. Paulo Evaristo. Brasil nunca mais. 16ª ed., Petrópolis/RJ: Editora Vozes. 1986. p.61.
174
Dados disponíveis em:
<http://legis.senado.gov.br/legislação/ListaNormas.action?numero=5&tipo_norma=AIT&data=19681213&link>
. Acesso em: 22 out 2015.
38

de ilícitos, após a realização de investigações. No caso de crimes relacionados a crimes


políticos, segurança nacional, ordem econômica e social e economia popular, poderia ser
suspenso a garantia do habeas corpus175.
Esse paradigma de Estado de Exceção, criado no Brasil em 1964, foi marcado
drasticamente pela afronta direta aos direitos humanos e à dignidade da pessoa humana, pois a
prática da tortura foi implementada como instrumento rotineiro de interrogatórios aplicados a
opositores políticos que iam de encontro aos interesses dos militares os quais detinham o poder
de mando na época, poder esse autoritário e hipertrofiado devido à concentração do excesso
desse poder do qual dispunham176.
Com as mudanças ocorridas em 1964, surgiu um Estado mais forte que, por sua vez,
ocasionou grandes mudanças na estrutura jurídica do país. A repressão e o controle mudaram
radicalmente o sistema de relação entre o Executivo, Legislativo e Judiciário. Com a
monopolização da economia e o achatamento salarial e uma grande série de medidas
autoritárias e repressivas resultou em uma deterioração das condições de vida do povo
brasileiro, passando a agredir fortemente os direitos humanos e a dignidade da pessoa humana,
ocasionando a fome, bem como, o surgimento de favelas, ocorrência de enfermidades, aumento
da marginalidade em expressivos números 177.
Com o fortalecimento da ditadura, edita-se o Ato Institucional de número 2, em outubro
de 1965, o que extingue com todos os partidos políticos e concede ao Executivo poder de fechar
o Congresso Nacional quando lhe for conveniente. As eleições para Presidente da República
passam a ser de forma indireta, e torna a Justiça Militar competente para o julgamento de civis.
Deste episódio em diante passam a existir apenas dois partidos políticos, uma era governista, e
o outro denominado de oposição. Nascendo assim a ARENA (Aliança Renovadora Nacional)
e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), este último passa a ter a incumbência de fazer
oposição, entretanto não era possível contestar o regime militar 178.
Com relação ao Brasil na contemporaneidade, é muito corriqueiro se utilizar de decretos
com força-de-lei, dos mais diversos tipos, e demais regulamentos provindos dos mais diversos
órgãos sejam da administração direta bem como da indireta. Decretos estes dotados com
capacidade de obrigar quem estiver subordinado a sua jurisdição, com poder inclusive de se
sobrepor aos ditames da lei. “Dois exemplos são paradigmáticos nesse sentido de alargamento

175
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p. 106.
176
ARNS, D. Paulo Evaristo. op cit, 1986, p.53.
177
ARNS, D. Paulo Evaristo. op cit, 1986, p.60.
178
ARNS, D. Paulo Evaristo. op cit, 1986, p.61.
39

do Poder Executivo sobre o Legislativo e isolamento da força-de-lei da stricto sensu”179.


O primeiro deles, o que causou grande alvoroço e grandes discussões no Brasil na
atualidade, foi o decreto autônomo. Esse decreto foi criado pelo Presidente da República no
governo de Fernando Henrique, no ano de 2001, e passou a regulamentar o artigo 84 da
Constituição Federal, e a dispor sobre a organização e funcionamento da administração federal.
Esse mesmo decreto dispôs a extinção de cargos públicos vagos, que anteriormente só era
possível através da lei180.
O segundo é a medida provisória, criada pelo artigo 62 da Constituição Federal, a qual
passou a regulamentar a matéria dando a medida provisória força-de-lei181. Nessa perspectiva,
o chefe do executivo poderá se utilizar deste recurso a fim de implementar seus interesses
políticos, entretanto tais ações devem ser de imediato submetidas à apreciação do Congresso
Nacional 182. José Afonso da Silva considera o artigo 62 como sendo demasiadamente longo e
caótico em seus parágrafos e a respeito da medida provisória não precisaria mais que o caput
para sua elucidação para se constatar a seara na qual se está se imiscuindo183. O artigo 84 em
seu inciso XXVI, da Constituição Federal ratifica o artigo 62, em que se evidencia que a medida
provisória “compete privativamente ao Presidente da República”.
A medida provisória e o decreto autônomo são exemplos de ato provindo do Chefe do
Executivo. No Brasil, em nível nacional, estão representados na figura do Presidente da
República, estes atos por sua vez têm o poder de estar no mesmo patamar da lei, obrigando a
todos seguirem seus preceitos. Percebe-se que tanto no artigo 62 quanto no 84 da Constituição
Federal, surge a expressão “força de lei”. Verifica-se que há uma grande concentração de poder
em uma única pessoa, na figura do Presidente da República, o qual acaba usurpando a
competência de 513 Deputados Federais e 81 Senadores da República 184.
O referido artigo 62 é composto por doze parágrafos, compete destacar dois aspectos
referentes a esses, sendo o primeiro deles o descrito no parágrafo 6º: em que a medida provisória
possui o prazo de quarenta e cinco dias contados de sua publicação, para sua apreciação ou
entrará em regime de urgência em cada casa do Congresso Nacional, permanecendo sobrestada,
até que se realize a votação e demais deliberações legislativas a ser realizadas pela respectiva

179
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.131.
180
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.131.
181
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.60 – 61.
182
Dados disponíveis em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>.
Acesso em: 24 out 2015.
183
SILVA, José Afonso da. Comentários Contextual à Constituição. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 443,450 e
seguintes.
184
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.132.
40

casa em que estiver tramitando. Destaca-se nesse parágrafo, a preferência de tramitação da


medida provisória, uma vez que ao ingressar no Congresso Nacional possui preferência de
votação e tramitação diante das demais, a fim de que este ratifique ou não, seu conteúdo, com
isso acaba por mudar a ordem de tramitação da Casa185.
O próximo aspecto a ser destacado em relação à medida provisória é o filtro feito com
base na urgência e relevância, uma vez que fica a critério subjetivo do Chefe do Executivo
apontar o que é urgente e relevante. Para este pode ser urgente e relevante uma determinada
matéria, entretanto outro titular de iniciativa legislativa pode entender que a mesma matéria não
seja urgente nem relevante. Com o exposto, percebe-se a deturpação das funções executivas
frente às funções legislativas, é uma verdadeira usurpação de prerrogativas por parte do
Executivo186. Tais banalidades ficam evidenciadas ao analisar os números de medidas
provisórias desde a Emenda Constitucional número 32, até os dias de hoje, 04 de Maio de 2015,
foram editados 673 medidas provisórias187.
O exposto acima acaba por tracejar quão prescindível é a normatização no que diz
respeito ao estado de exceção, o qual se locomove com extrema destreza entre o fático e o
jurídico. Dando espaço para medidas excepcionais as quais acabam se tornando paradigmas de
gestão política Nacional em um Brasil contemporâneo onde cada vez é mais comum ao
executivo fazer uso de decretos com força-de-lei, medidas provisórias, adquirindo essas uma
forma legal amparada pelo ordenamento jurídico. Agamben aponta a existência de duas
correntes no que diz respeito à probabilidade de acrescentar o Estado de Exceção no
ordenamento jurídico. A primeira corrente entende que o Estado de Exceção é algo que deve
ser recepcionado pelo direito. A partir deste momento, subdivide-se em dois entendimentos: o
primeiro sustenta que o Estado de Exceção deve ser inserido no direito positivo, passando a
fundamentar a existência do Estado de Exceção através do princípio da necessidade; o outro
entendimento, diz respeito a um Estado de Exceção baseado em um direito subjetivo
constitucional e natural, em que o Estado se utiliza do estado de sítio promovendo sua
autoconservação188.
O segundo entendimento a respeito do Estado de Exceção está relacionado a um
fenômeno puramente fatual, fundamentando que o Estado de Exceção necessita de elementos

185
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.132.
186
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.132.
187
Dados disponíveis em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil-03/mpv/quadro/%20geral.htm>. Acesso em: 04 mai
2015.
188
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.38.
41

extrajurídicos189. Nesse diapasão, o jurista alemão Julius Hatschek expõe o seguinte a respeito
dessas duas teorias: a primeira teoria conhecida como a teoria objetiva a qual se fundamenta o
Estado de Exceção a um princípio de direito conhecido por estado de necessidade; a segunda
teoria conhecida como teoria subjetiva do Estado de Exceção que encontra guarida em um
direito constitucional ou a em um direito natural, no qual o Estado é titular deste bastando a
presunção de sua boa-fé ao praticar atos de Estado de Exceção os quais adquirem imunidade
estando livre de qualquer responsabilidade 190.
Agamben sustenta que o Estado de Exceção não se encontra totalmente dentro nem
totalmente fora do direito, sendo que a suspensão da ordem não significa uma exclusão por
completo, muito menos uma ausência desse. “Não há exclusão, mas indeterminação, ponto de
indiscernibilidade entre o jurídico e o fático”191.
O próprio Presidente Getúlio Vargas fundamentava suas decisões na teoria da
necessidade, utilizando-se de um axioma de origem latina que dizia: “necessitas legem non
habet”, ou seja, a necessidade não tem lei192. De acordo com Agamben, a partir dessa frase
surge a tese de que “a necessidade não reconhece nenhuma lei”, e “a necessidade cria a própria
lei”. Essas duas teses se resumem num estado de necessidade, nas quais o Estado está
legitimado a implementar o Estado de Exceção estando assim justificado em suas ações não as
considerando como crime 193.
Agamben ao trabalhar o pensamento do jurista Santi Romano, o qual entendia que a
necessidade era a “fonte primária e originária da lei”. Para o jurista a necessidade é um fato
jurídico194. O jurista descreve:

189
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. Op cit, 2015. p.107.
190
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.107.
191
CASTRO, Edgardo. op. cit., p. 79; TACCETTA, Natalia. op. cit., p. 143. apud TEIXEIRA, Eduardo Tergolina.
O estado de exceção a partir da obra de Giorgio Agamben- São Paulo: LiberArs, 2015. p.107.
192
CASTRO, Edgardo. op. cit., p. 78. apud TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op. cit, 2015, p.108.
193
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.38.
194
TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. op cit, 2015, p.109.
42

A necessidade de que aqui nos ocupamos deve ser concebida como uma condição de
coisas que, pelo menos como regra geral e de modo conclusivo e eficaz, não pode ser
disciplinada por normas anteriormente estabelecidas. Mas, se não há lei, a necessidade
faz a lei, como diz uma outra expressão corrente; o que significa que ela mesma
constitui uma verdade fonte de direito[...]. Pode-se dizer que a necessidade é a fonte
primária e originaria do direito, de modo que, em relação a ela, as outras fontes devem,
de certa forma, ser consideradas derivadas [...]. É na necessidade que se deve buscar
a origem e a legitimação do instituto jurídico por excelência, isto é, do Estado e, em
geral, de seu ordenamento constitucional, quando é instaurado como um dispositivo
de fato, por exemplo, quando de uma revolução. E aquilo que se verifica no momento
inicial de um determinado regime pode também se repetir, ainda que de modo
excepcional e com características mais atenuadas, mesmo depois desse regime ter
formado e regulamentado suas instituições fundamentais195.

Schmitt se utiliza por muitas vezes de Santi Romano e seus trabalhos, em que este
defendia que o Estado de Exceção tinha sua gênese no estado de necessidade, compartilhando
com ele a ideia de que o direito não se esgota na lei. Schmitt percebe que o Estado de Exceção
em que o Estado e o direito contrastam suas discrepâncias, o Estado de Exceção em sua forma
Estatal permanece perene enquanto o direito desaparece196.
Por fim, diante do exposto, nota-se que o Estado de Exceção diz respeito à captura da
vida humana197, alicerçado no estado de necessidade retomando a máxima da teoria “necessitas
legem non”198, ou seja, a necessidade não necessita de lei. Nesse contexto, surge a figura do
soberano o qual é dotado de poder em decidir sobre o Estado de Exceção199. O que constitui um
ponto de desequilíbrio entre o direito público e o fato político 200. Nesse Estado de Exceção, o
soberano passa a governar através de decretos com força-de-lei201, usurpando a função do
legislativo. Ocorre que o que era para ser a exceção tornou-se a regra, constituindo um Estado
de guerra. O presente tema define um conceito limite na qual seria à mercê do direito em relação
ao sujeito, uma vez que se suspendem seus direitos deixando-os em um vazio de direitos, uma
região anômala, ou melhor, um não direito, mas ao alcance desses. No próximo capítulo será
trabalhado um desdobramento do Estado de Exceção o qual se dá através da biopolítica e do
biopoder como justificativa da promoção da Segurança Pública e a utilização do estado penal

195
ROMANO, S. Frammenti di um dizionario giuridico. Milano, Giuffrè, 1983. Sui decreti-legge e lo stato di
assedio in ocasione dei terremoti di Messina e Reggio Calabria. Rivista di Diritto Pubblico, 1909. (reed. In: Scritti
minori). Milano, Giuffre, 1990. V. I. p. 362. apud AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. Tradução de Iraci
D. Poleti, 2ª. ed., São Paulo: Boitempo, 2007. p.43 – 44.
196
SCHMITT, C. Die Diktatur. Politische Theologie. Munchen, 1922. p. 39. apud AGAMBEN, Giorgio. Estado
de Exceção. Tradução de Iraci D. Poleti, 2ª. ed., São Paulo: Boitempo, 2007. p.47 – 48.
197
CASTRO, Edgardo. Introdução a Giorgio Agamben. Uma arqueologia da potência. Tradução de Beatriz de
Almeida Magalhães. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p.75.
198
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p. 11.
199
FRANCO DE SÁ, Alexandre. Do Decisionismo à Teologia Política. Carl Schmitt e o Conceito de
Soberania. Universidade da Beira Interior. Covilhã: LusoSofia, PRESS. 2009. p.4.
200
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.11.
201
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2007, p.60 – 61.
43

para os que não estiverem adaptados a sociedade de consumo, criando-se para estes indivíduos
um verdadeiro Estado de Exceção, ou seja, a suspensão de seus direitos, mas ficando ao alcance
deste.

3 A BIOPOLÍTICA E A SEGURANÇA PÚBLICA

Face ao exposto, abordar-se-á no segundo capítulo o tema a biopolítica voltada para a


Segurança Pública. Desse modo, buscar-se-á consolidar as bases em vista do desenvolvimento
das discussões com relação às críticas ao Direito Penal sob o prisma Segurança Pública, bem
como seus aspectos jurídicos e o novo paradigma de governo que se implementou em nome da
Segurança Pública, como resposta ao medo da violência gerada pela criminalidade, o que Silva
Sánchez relaciona como uma sociedade de risco na contemporaneidade.
Também analisar-se-á os reflexos produzidos nos indivíduos, bem como se esse novo
paradigma de governo respeita os Direitos Humanos e a dignidade da Pessoa Humana. Far-se-
á uma análise da biopolítica e do biopoder com os Direitos Humanos na seara das políticas de
Segurança Pública. Já no terceiro capítulo e última parte do presente trabalho, abordar-se-á sob
o prisma da biopolítica, as principais políticas de Segurança Pública brasileira, bem como as
políticas de segurança vinculadas aos presídios, a uma produção da vida nua e a uma possível
violação dos Direitos Humanos e da Dignidade da Pessoa Humana.

3.1 Noções críticas sobre o Direito Penal e a Segurança Pública

A sociedade na contemporaneidade vive um momento de alarde em torno dos riscos da


criminalidade. Segundo Wermuth, em momento algum se aspirou tanto por políticas
preventivas ou de segurança, por meio das quais o Estado se utiliza do Direito Penal como se
fosse o único meio satisfatório a fim de dar uma resposta aos cidadãos, os quais estão com medo
da violência que se transforma em uma característica dos grandes centros urbanos 202.
Silva Sánchez aduz que o modelo da sociedade contemporânea relaciona-se como uma
sociedade de risco. E esta, por sua vez, reflete diretamente no bem estar das pessoas. Esse
fenômeno contribui para mudanças na estrutura social, uma vez que todos os cidadãos com

202
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. Medo e direito penal: reflexos da expansão punitiva na realidade
brasileira. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2011. p. 9.
44

medo buscam formas alternativas para se protegerem da marginalidade, a qual é percebida


como fonte de riscos pessoais e patrimoniais203.
O 11 de setembro de 2001, com a destruição das torres gêmeas por terroristas, contribuiu
com uma mudança na política criminal mundial de segurança. A partir desse marco ocorreu um
recrudescimento do Direito Penal e Processual Penal para determinados delitos, o que foi
percebido em vários países. Uma das características do recrudescimento do jus puniendi estatal
é o aprisionamento do indivíduo como medida punitiva por excelência. A prisão tornou-se a
regra, o que possibilitou o encarceramento do indivíduo de forma provisória, encontrando como
justificativa a mera suspeita de participação em grupos de crime organizados, ou de
terrorismo 204. Essa rotulação do indivíduo como “marginal” surge na ânsia de neutralizar os
riscos oferecidos por eles oferecidos205. Essa percepção humana do risco social contribui para
a sua generalização. O Estado, então, é chamado para tomar decisões no combate a todos os
riscos produzidos por aqueles que foram marginalizados pelo sistema social206.
Com relação à política criminal, em um contexto mundial estima-se que um terço dos
presos do mundo está detido sem ter passado por um julgamento207. Para os indivíduos que se
encontram nessa situação, os Direitos Humanos não passam de uma ilusão, uma utopia, uma
vez que não são assistidos por estes208.
A questão é que esta política de guerra em nome da Segurança Pública revelou-se eficaz
contra o tráfico internacional de drogas, crimes de lavagem de dinheiro e organizações
criminosas, o que por sua vez serviu com pórtico a essa nova política criminal, a qual se usa
dessa justificativa a fim de expandir o Direito Penal 209.
Porém, existem outros fatores que contribuem para que cada vez mais se expanda o
Direito Penal, tal como a influência da mídia. Esta, através de seus meios de comunicação,
vende a insegurança como mais um “produto”, o que nem sempre condiz com a realidade.
Transmite-se a ideia de um Direito Penal mais recrudescido para solucionar todos os problemas
relacionados à segurança pública e demais conflitos sociais. Desse modo, inflama-se o discurso

203
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. La expansión del derecho penal: aspectos de la política criminal em las
sociedades postindustriales. 2. ed., rev. e ampl. España: Civitas, 2001. p. 26-27.
204
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 9.
205
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. op cit, 2001, p. 29.
206
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. op cit, 2001, p. 29.
207
Dados disponíveis em: <http//www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/141008_presos_sem_julgamento_rm>.
Acesso em: 17 maio 2015.
208
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 10.
209
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 10.
45

por penas com longa duração, o que é bem recepcionado pela sociedade, a qual se atemoriza a
ser vitimada da violência instituída no meio social 210.
O Direito Penal, nesse contexto, passa a ser um instrumento de gestão e de controle
social das camadas subalternas da população. O sentimento de insegurança passa a justificar as
políticas expansivas do Direito Penal. Por sua vez, esta política de expansão do Direito Penal
não está preocupada com a proteção dos Direitos Humanos, muito menos com a classe com
menor poder aquisitivo, tendo em vista que esta classe não pode consumir, uma vez que são
dotados de parcos recursos financeiros. Nesse ínterim, esta classe pobre deve ser excluída do
convívio da sociedade consumista, merecendo ser segregada, (excluída) a fim de que seja
anulado o seu potencial risco 211.
Nesse sentido Wermuth leciona:

O Direito Penal e as instituições do sistema punitivo são eleitos como instrumentos


privilegiados para responder eficazmente aos anseios por segurança, o que decorre do
entendimento de que a sua contundência e capacidade socializadora são mais eficazes
na prevenção aos novos tipos delitivos do que medidas de política social ou
econômicas, ou ainda, de medidas decorrentes da intervenção do Direito Civil ou
Administrativo212.

Nesse diapasão, percebe-se a priorização da proteção através da punição, na qual se tem


por escopo a segregação dos denominados grupos de risco, o que de acordo com Wermuth,
pode ser entendido sob a ótica do medo, como sentimento atinente à realidade atual. Há, aqui,
uma predisposição ao sentimento de insegurança, pois percebe-se que os meios de proteção são
ineficazes e os poderes públicos não conseguiram encontrar uma forma de transmitir confiança
à sociedade, a contrario senso, com o apelo midiático, a criminalidade tem se tornado a cada
dia mais assustadora. Ainda, segundo Wermuth:

Não mais se considera o pequeno delinquente como um ser socialmente desfavorecido


e marginalizado ao qual a sociedade estava obrigada a prestar ajuda. Pelo contrário,
também sob efeito de equiparações conceituais equivocadas, os delinquentes
tradicionais, independentemente da gravidade ou frequência de seu comportamento
delitivo, são agora percebidos como inimigos internos, ou seja, como seres que
perseguem sem escrúpulos e em pleno uso de seu livre arbítrio, interesses egoístas e
imorais, à custa dos interesses legítimos da coletividade. Daí terem se tornado “moda”
qualificações como “predador sexual”, “criminoso incorrigível”, assassino em série”,
“jovem desalmado”, etc. as quais refletem o atual status social desumanizado do
delinquente213.

210
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 10.
211
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 10.
212
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 31.
213
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 71.
46

Nesse ínterim, Wermuth relata que as repercussões do discurso das vítimas,


normalmente de cunho vingativo, acabam difundindo políticas de caráter incisivo, no estilo
“Lei e Ordem”, restando assim prejudicadas as garantias penais e processuais. Uma vez que
“Cada vez mais a experiência cotidiana do povo e a sua percepção direta da realidade e dos
conflitos sociais passam a ser considerados fatores de primeira importância na hora de
configurar leis penais e na aplicação dessas leis”214
Essa relação acaba por envolver interesses políticos, uma vez que com a pressão da
mídia, demonstra-se necessário restaurar a confiança na segurança pública, como explica
Garland:

Quanto maior o interesse eleitoral do crime e da punição, mais os partidos da situação


e de oposição competem entre si para obter a credencial de ser duro com o crime,
preocupado com a segurança pública e capaz de restaurar a moralidade, ordem e
disciplina, em face das corrosivas mudanças sociais da pós-modernidade. Na política
criminal, o imperativo reside na reimposição de controle, normalmente através de
meios punitivos. A população neste caso, apontada como mais necessitada de controle
é composta por pobres beneficiários da rede de seguridade social, negros habitantes
de centros urbanos e jovens marginalizados das classes trabalhadoras215.

Desse modo, sob a influência dos meios de comunicação e suas representações dos
chamados “problemas sociais”, as pessoas, impulsionadas pelos seus medos, acabam por
formar consensos sobre os problemas sociais – notadamente sobre a criminalidade –, mas de
uma forma que não conseguem tocar na raiz desses. Trata-se daquilo que destaca Bourdieu, ao
dizer que a mídia acaba por “ocultar mostrando”, ou seja:

Mostrando uma coisa diferente do que seria preciso mostrar caso se fizesse o que
supostamente se faz, isto é, informar; ou ainda mostrando o que é preciso mostrar,
mas de tal maneira que não é mostrado ou se torna insignificante, ou construindo-o de
tal maneira que adquire um sentido que não corresponde absolutamente à realidade216.

Nessa acepção, em que o mundo está inteiramente interligado pelo processo de


globalização, o medo passa a configurar como combustível para a expansão do Direito Penal,
uma vez que as sociedades modernas são dotadas de um sentimento cada vez maior de
insegurança. O medo serve como justificativa para que se expanda o Direito Penal, a fim de

214
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 77.
215
GARLAND, David. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Pensamento
Criminológico, 16. Tradução, apresentação e notas André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan. 2008 p. 280.
216
BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Trad. Maria Lúcia Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. 1997. p.
24.
47

uma resposta satisfatória aos riscos e inseguranças que atemorizam contemporaneamente o


meio social217.
De acordo com Beck, a sociedade de risco, surge a partir do momento em que os perigos
produzidos no meio social são maiores que da própria segurança, estando relacionado a uma
má distribuição de riquezas. Esse risco possui uma relação direta com as riquezas produzidas
pelo grande crescimento econômico bem como o avanço técnico-científico, os quais foram os
principais causadores das atemorizações e coações218.
Beck leciona, por meio de cinco teses, a dialética contemporânea do risco:

a) os riscos gerados pelo processo de modernização são muito diferentes das


riquezas, uma vez que eles podem permanecer invisíveis, assim como podem ser
transformados, ampliados ou reduzidos conforme os interesses em jogo; b) os riscos
contêm um efeito boomerang, atingindo também aqueles que os produziram (ninguém
está seguro diante deles); c) esses riscos não rompem com a lógica do
desenvolvimento capitalista, mas, pelo contrário, são considerados um “grande
negócio” na medida em que proporcionam o aumento das necessidades da população
(em especial no que diz respeito à questão da segurança); d) em face das situações de
risco, o saber adquire um novo significado: nas situações de classe, o ser determina a
consciência, enquanto nas situações de riscos a consciência determina o ser; e) esses
riscos reconhecidos possuem um conteúdo político explosivo: o que até então se
considerava apolítico transforma-se em político219.

Nesse entendimento, Bauman trabalha a representatividade do risco como pressuposto


da regularidade essencial do mundo, de forma a calculá-los e minimizá-los. Para o autor, a ideia
de risco “representa de maneira indireta, e reafirma tacitamente, o pressuposto da regularidade
essencial ao mundo”220. Sob essa conjectura, os riscos, mesmo que em tese, podem ser
calculados. E quando esse pressuposto se afirma torna-se possível arriscar, com uma
probabilidade maior de acerto, a reduzi-los através “da ação ou da inação”221. A problemática
toda diz respeito às chances de insucesso devido a danos ou a outros tipos de catástrofes que
podem ser contabilizadas. Nesse contexto, as angústias derivadas do medo podem ser evitadas
ou até mesmo minimizadas “apenas na medida em que a lei dos grandes números se aplique à
sua ocorrência (quanto maior sua frequência, mais preciso e confiáveis são os cálculos e suas
probabilidades)”222.

217
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 25 - 26.
218
BECK, Ulrich. La sociedad del riesgo: hacia una nova modernidad. Trad. Jorge Navarro, Dabiel Jiménez e
Maria Rosa Borrás. Barcelona: Paidós, 1998. p. 29-30.
219
BECK, Ulrich. Op cit, 1998, p. 29 e 30.
220
BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. p. 129.
221
BAUMAN, Zygmunt. op cit, 2008, p. 129.
222
BAUMAN, Zygmunt. op cit, 2008, p. 129.
48

Sob esta ótica do medo, Bauman ainda aduz sobre os perigos de uma “forma não-
calculável”, trabalhando estes com o viés da incerteza, diferindo um pouco de Beck:

Em um mundo como o nosso, os efeitos das ações se propagam muito além do alcance
do impacto rotinizante do controle, assim como do escopo do conhecimento
necessário para planejá-lo. O que torna nosso mundo vulnerável são principalmente
os perigos da probabilidade não-calculável, um fenômeno profundamente diferente
daqueles aos quais o conceito de “risco” comumente se refere. Perigos não-calculáveis
aparecem, em princípio, em um ambiente que é, em princípio irregular, onde as
sequências interrompidas e a não-repetição de sequencias se tornam a regra, e a
anormalidade, a norma. A incerteza sob um nome diferente223.

Ao se fazer uma análise desses conceitos de risco, incerteza e medo na sociedade


contemporânea, chegar-se-á à conclusão de que nunca o medo e as incertezas estiveram tão
presentes e aflorados no corpo social. Bauman descreve o medo em três formas diversas: em
alguns casos o medo está relacionado às ameaças sofridas pelo corpo e suas propriedades; em
outros casos o medo é percebido de uma forma mais geral sob o prisma da ordem social e da
confiança que se relaciona à segurança e ao “sustento (renda, emprego)” dos indivíduos
componentes do corpo social – inclusive com a probabilidade de ser acometida por uma
invalidez ou até mesmo a senilidade; por último vêm os perigos pelos quais as pessoas sentem-
se amedrontadas por fatores que correspondem à sua posição na sociedade, seja ela relacionada
à classe social, gênero, etnia ou religião, o que gera uma exclusão social224.
As pessoas, segundo Bauman, podem interpretar seus medos sob qualquer destes três
tipos de perigos. Estes tipos de perigos as levam a um sentimento de insegurança e
vulnerabilidade. O medo, bem como a insegurança e a incerteza, pode ser mitigados através de
reações defensivas ou agressivas. Estas reações destinam-se a conduzir o medo e a insegurança
para longe do indivíduo. Em contraponto, o Estado tem a promessa de oferecer proteção e
segurança contra os perigos do segundo e terceiro tipos. O Estado, então, a fim de proteger os
cidadãos dos perigos gerados pelo medo da insegurança social e insegurança pessoal, passa a
dominar a política da vida, ao mesmo tempo administra e dirige estas vidas e passa a garantir
tal segurança através de suprimentos e armas de combate225.
Nesse sentido, Wermuth aponta que, como consequência do medo e da insegurança na
sociedade moderna, ocorre o “aumento da preocupação com as novas formas de criminalidade
que se apresentam nessa realidade, notadamente as relacionadas ao crime organizado e ao
terrorismo”. O autor ainda refere que os atendados de 11 de Setembro de 2001 podem ser

223
BAUMAN, Zygmunt. op cit, 2008, p. 129 e 130.
224
BAUMAN, Zygmunt. op cit, 2008, p. 10.
225
BAUMAN, Zygmunt. op cit, 2008, p. 10 e 11.
49

“considerados o estopim dessa nova doxa do medo”, fato este que expôs a fragilidade e
insegurança do mundo globalizado 226.
Com o afloramento dos riscos, perigos e inseguranças, gerou-se um alarmismo não
justificado em matéria de segurança pública, o qual redundou no clamor social por políticas de
maior presença e eficácia na esfera do controle social. Nesse diapasão, Silva-Sánchez sustenta
que a sociedade contemporânea pode ser percebida como uma “sociedade da insegurança”, ou
“sociedade do medo”, passando a sustentar que a experiência subjetiva de risco se demonstra
notoriamente maior do que a sua existência objetiva. Ou seja, a subjetividade dos riscos adquire
proporções maiores do que realmente estes representam. Nas palavras do autor: “la vivencia
subjetiva de los riesgos es claramente superior a la própria existência objetiva de los
mismos”227.
Nessa lógica, Navarro leciona sobre os efeitos do medo relacionados com a
criminalidade, na qual o cidadão temeroso é induzido a tomar medidas as quais acabam por
mudar seu estilo de vida em busca de segurança. Buscando proteção, refugiando-se do medo,
protegendo-se com trancas, muros, sistemas eletrônicos, cadeados, dentre outros. Estes reflexos
também são sentidos social e economicamente. O temor de ser vítima de um delito afeta grande
parte dos cidadãos e seus reflexos produzem consequências graves. Um dos problemas
relacionados ao medo é que este é percebido como um problema mais grave do que
propriamente a delinquência. Esse receio ao delito é a razão das grandes mudanças nos hábitos
da sociedade que, amedrontada, procura proteger-se criando uma fortaleza ao seu redor. O medo
de ser vítima desencadeia condutas as quais podem ser muito destrutivas no aspecto da vida em
sociedade e comunidade, uma vez que causa mudanças nos espaços públicos, transformando-
os em áreas desertas228.
Ainda nesse sentido Navarro aduz que:

El miedo al delito puede definirse como la percepción que tiene cada ciudadano de
sus propias probabilidades de ser víctima de un delito, aunque también se puede
entender como la simple aprensión de sufrir un delito, si atendemos tan sólo al aspecto
emocional y no a los juicios racionales de ese ciudadano. De hecho, la carga emotiva
suele prevalecer, pues, según numerosos estudios empíricos, el miedo al delito no se
relaciona con las posibilidades reales de ser víctima, esto es, no responde a causas
objetivas y externas229.

226
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 29.
227
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-Maria. op cit, 1999, p. 25 e 26.
228
NAVARRO, Susana Soto. La influencia de los medios en la percepción social de la delincuencia. Revista
Electrónica de Ciencia Penal y Criminología (en línea). 2005, núm. 07-09, p. 09:35. Dados disponíveis em:
<http://criminet.ugr.es/recpc/07/recpc07-09.pdf ISSN 1695-0194 [RECPC 07-09 (2005)>. Acesso em 23
dezembro 2015.
229
NAVARRO, Susana Soto. op cit, 2005, núm. 07-09, p. 09:4.
50

Nesse diapasão, Cepeda relaciona a globalização, e sua livre circulação de novas


tecnologias a um mercado em ascensão e à emergência de novos riscos, os quais possuem uma
estreita relação com as tecnologias, a globalização da economia e da informação. Cepeda ainda
leciona sobre a introdução dos riscos causados pela globalização:

La globalización introduce otras formas de riesgo incertidumbre, especialmente las


relativas a la economía electrónica globaliza, los riesgos de degradación
medioambiental, los riesgos de tipo sanitário-alimentario, los derivados de la
siniestralidad, los derivados de las patologías del presente, entre las que se incluyen
las pandemias aún no superadas en lugar de estar cada vez más bajo nuestro control
está fuera de él. Es más, el progresso de la ciência y la tecnologia, que se suponía que
harían la vida más segura y predecible para nosotros, tienen a menudo un afecto
contrario230.

Com esta emergência dos novos riscos e perigos nasce um sentimento de que através do
direito penal os cidadãos possam encontrar a segurança ou proteção necessárias, as quais por
sua vez aniquilarão por completo os medos gerados pelos novos riscos. Ainda segundo Cepeda,
estes novos riscos ou perigos não justificam tanto alarmismo 231.
Nesse contexto de um direito penal para dar respostas a estes novos medos ou perigos
notam-se a perda humanística da Ciência Penal. Por trás disso está a busca tecnocrática, a qual
alimenta seu próprio sistema de regras, as quais justificam e legitimam a função social desse
sistema. Seus objetivos são, nas palavras de Cepeda: “a) la estabilización simbólica de la
seguridad colectiva; b) la neutralización social de los megarriesgos producidos por el desarrollo
económico; c) la defensa a ultranza del monopólio estatal de la organización social”232.
Esse discurso de um direito penal máximo fere gravemente os Direitos Humanos, uma
vez que sua sistemática serve apenas para manipular e controlar toda uma população, ferindo
também o Estado de Bem estar, sendo que as leis recrudescidas só vão em prejuízo dos mais
pobres. Peremptoriamente, a globalização e ascensão e expansão do direito penal deságua em
discriminação e exclusão dos mais pobres 233.
Nesse sentido, Silva Sánchez salienta que com ascendência dos riscos ocorre um clamor
social para que o Estado dê respostas a estes, de forma a proporcionar mais segurança e
proteção. Este clamor social adquire uma conotação na qual mais proteção é sinônimo de mais

230
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. La seguridad como fundamento de la deriva del derecho penal postmoderno.
Madrid: Iustel, 2007. p. 29 e 30.
231
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p. 30.
232
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p. 30.
233
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.30 – 33.
51

punições. Busca-se, portanto, uma resposta aos riscos através do direito penal234. Nas palavras
de Silva Sánchez:

En medida creciente, la seguridad se convierte en una pretensión social a la que se


supone que el Estado, y en particular, el Derecho penal deben dar respuesta. Al afirmar
esto, no se ignora que la referencia a la seguridad se contiene ya nada menos que en
el artículo 2 de la Declaración de los derechos del hombre y ciudadano de 1789235.

Cepeda ainda sustenta que com os riscos produzidos pela globalização, surge um
aumento do Estado econômico e uma diminuição do Estado social, bem como o fortalecimento
de um Estado penal. Surge uma nova forma de gestão biopolítica, na qual o Estado passa a
excluir o indivíduo que produz risco em nome da segurança social. Coloca-se os indivíduos em
constância vigilância e sujeição ao Estado e suas leis 236.
Nas palavras de Cepeda:

Difuminación del Estado económico, debilitamiento del Estado social, fortalecimento


do Estado penal. Surge así una nueva forma de gestión de las insuficiências
integradoras de contrato liberal, no ya tejiendo una red social de seguridad frente a la
exclusión (safety net), sino a través del ejercicio directo del control social sobre esos
espacios periféricos, mediante un entramado de vigilancia y sujeición (dragnet)237.

A autora ainda refere que esse clamor social por mais segurança, acaba por desaguar em
uma constante vigilância e uma tremenda obsessão por segregação dos denominados grupos de
risco. Esse discurso por um direito penal máximo, amparado no medo e na insegurança, também
faz surgir posicionamentos políticos, os quais se aproveitam das circunstâncias para se utilizar
de políticas-criminais mais severas, com escopo eleitoral238.
Nas palavras de Cepeda:

Se construy socialmente el control y la vigilância como obsesiones, y la segregación


(de grupos de riesgo), la fortificación y la exclusión como urgências. Todas ellas son
respuestas construídas al miedo, como sentimento fundamental de comprensión de la
realidad del presente. Esta utilización del miedo y la inseguridad tende a aumentar el
mismo miedo y la inseguridad. Incluso el nuevo discurso político-criminal conjuga el
discurso del riesgo y del enemigo, pretende lograr un control acturarial de la locura
bélica amparada en el miedo irracional, así como la nueva economía del control social
contribuye tanto a gestionar como a crear el miedo, la alarma social, fenómeno que en
sí mismo supone control239.

234
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-Maria. op cit, 1999, p.29.
235
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-Maria. op cit, 1999, p.29.
236
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.34.
237
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.34.
238
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.34.
239
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.34 e 35.
52

Na ânsia de solucionar os problemas relacionados ao medo busca-se no direito penal


uma solução na qual seja viável a prevenção ao cometimento de delitos. Através da expansão
do direito penal criam-se leis penais mais duras com finalidade de prevenir o crime. Essas
políticas consistem em anular riscos futuros passando a antecipar a punição dos rotulados como
criminosos antes da consumação ou até mesmo da tentativa 240.
Nesse entendimento, Albrecht destaca que o Direito Penal preventivo é um meio
utilizado de justificativa/retórica política. Segundo o autor, por trás desse discurso que inflama
o Direito Penal através de seu recrudescimento há um caráter nitidamente “eleitoreiro”241.
Sobre o assunto, Silva Sánchez passou a desenvolver suas teses com relação à chamada
expansão do Direito Penal criando a chamada “teoria das velocidades” do Direito Penal242. Em
sua obra o autor passa a revelar uma inquietação com o Direito Penal moderno, o qual possui
uma forte tendência à flexibilização dos direitos e garantias Constitucionais bem como os
princípios político-criminais e as regras de imputação, as quais são inerentes à imposição das
penas privativas de liberdade 243.
Silva Sánchez parte da suposição de que o Direito Penal possui intrinsecamente dois
conjuntos diversos de ilícitos: o primeiro está relacionado com infrações penais às quais são
cominadas penas de prisão; já o segundo diz respeito àquelas infrações nas quais estão presentes
os demais tipos de sanções penais244. O autor passa então a aduzir que todos os ilícitos possuem
uma essência penal. Portanto, devem ser apreciados pelo Poder Judiciário, não sendo legítima
a exclusão das infrações penais a fim de que o intitulado “Direito Administrativo sancionador”
fique ao encargo deste245. Esse acúmulo de efeitos penais, derivados dos fenômenos sociais,
jurídicos e políticos é o que Silva Sánchez denomina de expansão do Direito Penal 246.
A fim de que se compreendam melhor as velocidades do Direito Penal, faz-se necessária
a compreensão da evolução e o entendimento das suas principais características. De forma
sucinta, o Direito Penal de primeira velocidade está relacionado à observância dos direitos e
garantias institucionalizadas na Constituição Federal; a exemplo disso, pode-se referir o artigo
5º da Constituição brasileira de 1988 e alguns de seus principais incisos (princípio da igualdade,

240
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 33.
241
ALBRECHT, Peter. El derecho penal en la intervencíon de la política populista. La insostenible situación
del Derecho Penal. Comares, 2000, p. 483-485.
242
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. op cit, 1999, p.159.
243
MASSON, Cléber. Direito Penal – Parte Geral. Vol. 1. São Paulo: Método, 2010. p. 82.
244
MASSON, Cléber. op cit, 2010, p.82.
245
MASSON, Cléber. op cit, 2010, p.83.
246
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. op cit, 1999, p.121.
53

inviolabilidade do indivíduo, bem como seu direito à vida, liberdade, igualdade, sendo lhe
assegurado o direito a segurança e à propriedade, bem como ao devido processo legal) 247. Silva
Sánchez destaca que essa primeira velocidade do Direito Penal é “representada por el Derecho
penal «de la cárcel», en el que habrían de mantenerse rígidamente los princípios político-
criminales clásicos, las reglas de imputación y los princípios procesales” 248.
A essência desse princípio é entender que o Direito Penal deve respeitar a liberdade, a
vida e a igualdade, devendo ser a ultima ratio, ou seja, o encarceramento se dá somente após o
devido processo legal com trânsito julgado da sentença penal condenatória. Uma vez que a
liberdade é a regra, desta forma estarão sendo respeitados os Direitos Humanos e a Dignidade
da pessoa Humana249.
A segunda velocidade do Direito Penal tem como principal característica a substituição
da pena de encarceramento por penas restritivas de direito, pecuniárias, dentre outras penas
distintas da prisão. Nesse segmento ocorrem limitações na vida do infrator, uma vez que lhe
são impostas obrigações equivalentes ao delito praticado. A lei dos Juizados Especiais (Lei nº
9.099/1995), no Brasil, é um excelente exemplo da segunda velocidade do direito penal
identificada pelo autor espanhol, haja vista que em seu artigo 76 prevê o instituto da transação
penal, a qual, segundo Nucci, constitui “uma fórmula alternativa para a punição daqueles que
cometem infrações penais definidas como de menor potencial ofensivo” 250. Nesse ínterim,
conforme lecionam Grinover, Magalhães, Scarance e Gomes, trata-se de uma mitigação da ação
penal, evitando assim um desgaste do processo criminal, sem se discutir sobre a culpabilidade
do agente infrator251.
Nesse discernimento, a Lei nº 11.343/2006 também pode ser considerada um exemplo
dessa segunda velocidade do direito penal. A chamada “Lei de Drogas”, em seu artigo 28,
relaciona medidas diferentes ao encarceramento, tais como: “I – advertência sobre os efeitos
das drogas; II – prestação de serviço à comunidade; III – medida educativa de comparecimento
a programa ou curso educativo”252. Diante do exposto, percebe-se que nestes exemplos da
segunda velocidade do Direito Penal, está presente a ideia da “não prisão”. Com efeito, Silva

247
SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 22. ed. rev. atual. São Paulo: Malheiros,
2003. p. 232-233.
248
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. op cit, 1999, p.163.
249
LENZA, Pedro. Direito Constitucional esquematizado. 13. ed. ver., atual. E ampl. São Paulo: Saraiva, 2009.
p. 713 – 716.
250
NUCCI, Guilherme de Souza. Leis penais e processuais comentadas. 8. ed. rev., atual. E ampl.- vol. 2. Rio
de Janeiro: Forense, 2014. p. 453.
251
GOMES Filho, Antônio Magalhães; Fernandes, Antônio Scarance; Gomes, Luiz Flávio. Juizados Especiais
Criminais. Comentários à Lei 9.099, de 26.09.1995. 5. ed. São Paulo Ed. RT, 2005. p. 48.
252
NUCCI, Guilherme de Souza. op cit, 2014. p. 311.
54

Sánchez descreve que a característica mais marcante da segunda velocidade constitui a


substituição da pena de prisão por penas pecuniárias, as quais proporcionam uma menor
intensidade da sanção. Nas palavras de Silva Sánchez: “una segunda velocidad, para los casos
en que, por no tratarse ya de la cárcel, sino de penas de privación de derechos o pecuniarias,
aquellos principios y reglas podrían experimentar una flexibilización proporcionada a la menor
intensidad de la sanción”253.
Com relação ao Direito Penal de terceira velocidade, este é caracterizado pela
flexibilização dos direitos e garantias constitucionais. Nessa velocidade, a pena de prisão é a
regra. Trata-se de uma combinação entre a primeira e segunda velocidades. Na terceira
velocidade ocorre uma expansão do Direito Penal, constituindo um direito de exceção, havendo
uma distinção entre o Direito Penal do Cidadão e o Direito Penal do Inimigo 254, sendo notória
a percepção da relativização das garantias constitucionais e das políticas-criminais, bem como
as regras de imputação e critérios processuais. Segundo Silva Sánchez, na terceira velocidade
do Direito Penal, “el Derecho penal de la cárcel concurre con una amplia relativizacíón de
garantías político-criminales, reglas de imputación y criterios procesales”255.
Nessa concepção de terceira velocidade do direito penal, surge um direito penal voltado
ao inimigo, o qual, de acordo com Günther Jakobs, destina-se a todos os indivíduos que
“rompem” com o contrato social, de modo que passam a não mais participar dos benefícios por
ele oferecidos, passando a viver fora de uma relação jurídica com os demais integrantes do
Estado256.
Diante desse contexto, a fim de aniquilar os indivíduos rotulados como inimigos257 e
traidores do contrato social, contemporaneamente surgem políticas de segurança pública que se
utilizam de discursos políticos com escopo de recrudescimento do direito penal258 como se fosse
à única solução para resolver os problemas relacionados à criminalidade 259.
Dessa forma, a legislação penal produzida na contemporaneidade possui características
de direito penal de terceira velocidade, uma vez que relativiza as garantias político-criminais e

253
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. op cit, 1999, p.163.
254
JAKOBS, Günther. Direito do inimigo: noções e críticas. Manuel Cancio Meliá; org. e trad. André Luís
Callegari, Nereu José Giacomolli. 6. ed. – Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2012. p. 21.
255
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. op cit, 1999, p.163.
256
JAKOBS, Günther. op cit, 2012, p. 24.
257
GRECO, Luís. Sobre o chamado direito penal do inimigo. Revista Brasileira de Ciências Criminais. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. p.80.
258
JAKOBS, Günther. op cit, 2012, p. 33 e 34.
259
DÍEZ RISPOLLÉS, José Luis. La política criminal en la encrucijada. Buenos Aires: B de F, 2007. p. 84.
55

as regras de imputação e critérios processuais 260. Eis algumas leis que seguem o paradigma de
direito penal em terceira velocidade no Brasil:
a) Lei de interceptação telefônica (Lei nº 9.296/1996), que relativiza a garantia
Constitucional da inviolabilidade do sigilo de correspondências e das comunicações
telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, ambas amparadas pelo artigo 5º, XII, da
Constituição Federal261;
b) Lei dos crimes hediondos (Lei nº 8.072/1990), a qual tem por característica o
recrudescimento do direito penal para alguns tipos de delitos tais como: homicídio praticado
em atividade típica de grupo de extermínio, latrocínio, extorsão qualificada pela morte e
mediante sequestro, estupro art. 213, caput e §§ 1º e 2º, estupro de vulnerável, epidemia com
resultado morte, falsificação de produtos destinados a tratamentos terapêuticos, favorecimento
à prostituição e exploração sexual, bem como genocídio, dentre outros;
c) Lei de execução penal (Lei nº 7.210/1984), que possui como característica, após
algumas reformas recentes, o recrudescimento no cumprimento das penas de crimes hediondos
definindo prazos diversificados para a progressão de regime, bem como instituindo o chamado
regime disciplinar diferenciado262;
d) Lei das organizações criminosas (Lei nº 12.850/2013), que aplica por extensão a ação
controlada, a infiltração, a colaboração premiada, a captação de provas, etc. Destaca-se nesta
lei o combate a organizações criminosas nas quais o terrorismo é combatido com mais
veemência, deforma destinar um tratamento diferenciado aos atos atentatórios, os quais fogem
dos preceitos elencados no artigo 14 II, do Código Penal, adotando uma teoria objetiva, este é
um novo modelo de política criminal cujas caraterísticas contrariam os princípios que devem
orientar o processo legislativo na criação de leis penais.
Percebe-se que em todos esses casos há uma flexibilização dos Direitos e Garantias
Processuais, uma vez que se busca a punição de atos preparatórios ocorridos. Este paradigma
de relativização das garantias constitucionais é o mais sublime exemplo do Direito Penal do
Inimigo ou, nas palavras de Silva Sánchez, do Direito Penal na terceira velocidade 263.
Com relação a este Direito Penal preventivo Cepeda leciona que na contemporaneidade
a preocupação da sociedade está voltada à prevenção dos riscos, fazendo com que se crie no
corpo social uma cultura preventiva. Esta cultura de prevenção, por sua vez, acaba

260
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. op cit, 1999, p.163.
261
NUCCI, Guilherme de Souza. op cit, 2014, p. 476.
262
NUCCI, Guilherme de Souza. op cit, 2014, p.424.
263
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. op cit, 1999, p.163.
56

desencadeando uma intervenção penal desproporcional, a qual persegue todo e qualquer risco,
tendo por escopo a aniquilação dos riscos. Com o Direito Penal Preventivo ou de terceira
velocidade, evita-se o possível dano ou lesão ao bem jurídico tutelado pelo direito penal, uma
vez que o Direito Penal de terceira velocidade adianta-se na punição intervindo na vida do
indivíduo que potencialmente produz riscos, suprimindo suas garantias em busca de uma
presumida eficácia264.
Nas palavras de Cepeda:

Parece que hoy la preocupación social no es tanto cómo obtener lo que se desea, sino
cómo prevenir de daños lo que se tiene. Esto desemboca en una intervención penal
despropercionada, en la que resulta priorita unicamente la obtención del fin
perseguido, la evitación del riesgo en el ‘ámbito previo’ a la lesión o puesta en peligro,
adelantando la intervención penal, o general, suprimiendo garantias en busca de la
presunta eficácia265.

Surge assim uma necessidade de se fazer um controle de todos os comportamentos que


podem ser considerados como inadequados. Estes comportamentos passam a ser tipificados e
criminalizados. Nesse contexto, surge um Direito Penal que passa a orientar o comportamento
da sociedade, unificando comportamentos típicos relacionados a condutas de autoria e
participação, operando-se um adiantamento na punição, haja vista que se equipara a tentativa e
a consumação a condutas de risco 266.
Nesse sentido, Cepeda aduz que a intervenção punitiva volta-se às ações típicas de mera
atividade, as quais dizem respeito a riscos em abstrato, antecedendo até mesmo aos atos
atentatórios, passando a castigar atos preparatórios. Nas palavras da autora:

También se generaliza el castigo de actos preparatórios especificamente delimitados,


se automomiza la punición de la asociación delictiva, cuando no se integra ésta dentro
de las modalidades de autoria y participación, además se aproximan, hasta llegar a
veces e neutralizarse, las diferencias entre autoria y participación, entre tentativa y
consumación, de la misma manera se considera razonable uma certa flexibilización
de los requisitos de la causalidad o de la culpabilidade267.

Percebe-se, também, que com a expansão do direito penal em uma terceira velocidade,
ocorre um desrespeito ao princípio da legalidade, uma vez que ocorre uma mitigação das
formalidades penais268. Este direito penal antecipatório viola ao princípio da taxatividade, uma

264
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.321.
265
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.321.
266
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.313 - 410.
267
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, p.332.
268
SILVA SÁNCHEZ, Jesús-Maria. op cit, 1999, p.163.
57

vez que criminaliza comportamentos que possam gerar riscos, passando a tipificar estes como
crimes. Há ofensa também no que diz respeito à culpabilidade, visto que se punem condutas as
quais antecedem aos atos preparatórios269.
Diante de um quadro tal, Cepeda esclarece as razões pelas quais os legisladores passam
a aderir a políticas-criminais que configuram um modelo de Direito Penal simbólico e
enganoso. Em primeiro lugar está a criação de uma boa imagem perante a sociedade, uma vez
que ao se adotar medidas radicais de políticas-criminais estas adquirem um condão de atender
e resolver o problema dos riscos e da Segurança Pública. Evidenciam-se interesses escusos de
forma que o legislador busca angariar votos, uma vez que tal discurso em prol de um Direito
Penal do Inimigo soa bem entre a sociedade. Outro motivo da adoção do Direito Penal enganoso
é o fato de seu custo ser mais barato nas soluções dos problemas, haja vista que tratar o problema
desde a raiz significa um alto custo aos cofres públicos, pois programas sociais sempre têm
altas despesas e seu efeito social não compensa em termos de liberdade. Portanto, o cárcere
torna-se a opção por excelência, tendo em vista ser mais barato e seu resultado imediato, uma
vez que se exclui o risco do corpo social270.
Cepeda ainda sustenta que este Direito Penal em terceira velocidade está desvirtuado de
sua função, uma vez que apenas engana a opinião pública ao oferecer solução aos problemas
dos riscos da segurança pública, problemas estes que logo se observa que não correspondem à
realidade. A aplicação desta política-criminal em um direito penal expansivo se mostra cada
vez mais ineficaz, haja vista que nas sentenças judiciais condenatória passam a punir delitos de
baixa incidência lesiva, a contrario senso, no que tange a delitos mais graves, o Direito Penal
acaba sendo inerte271.
Nesse diapasão, percebe-se que a consequência imediata do Direito Penal de terceira
velocidade é uma forçada expansão, a qual tem por escopo meramente uma função simbólica
que se evidencia como mega preventiva272. Outro motivo pelo qual se utiliza da expansão de
um Direito Penal do Inimigo, é o fato de que o Estado na busca de eximir-se de suas obrigações
em promover o bem-estar social, se utiliza de um aparato repressivo contra comportamentos
que ameacem ou transgridam a ordem273.
Conforme sustenta Wermuth, tais campanhas punitivas são mecanismos hábeis para o
controle social e racial, haja vista que se utilizam de estratégias de “substituição das instituições

269
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.313.
270
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.336-337.
271
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.337.
272
CEPEDA, Ana Isabel Pérez. op cit, 2007, p.334.
273
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 40 e 41.
58

de assistência às classes pobres – típicas do Welfare State – por estabelecimentos penais” 274.
Neste entendimento, percebe-se que a seletividade sociorracial no âmbito do Direito penal trata-
se de uma estratégia do Estado neoliberal, o qual se utiliza dessa artimanha, a fim de manter
sob seu controle a população não detentora de capital, uma vez que esta é considerada
hipossuficiente e à mercê do Estado275.
A finalidade da seletividade é livrar a classe com poder de consumo da convivência da
classe pobre, uma vez que esta classe lhe causa desconforto e gera uma sensação de insegurança.
Para tanto, se utiliza o direito penal com o escopo de selecionar quem ocupa determinados
espaços dentro da sociedade 276. Contra esta parcela da população, a qual é dotada de parcos
recursos financeiros, emprega-se uma política de tolerância zero. Também há um interesse em
anulação desses indivíduos, haja vista que além de gerarem sentimentos de desconforto aos
ricos geram também insegurança e desordem social, considerando que esta parcela pobre da
população possui atitudes de não submissão aos desígnios de paradigmas de um Estado
neoliberal. Na medida em que se utilizam políticas-criminais de tolerância zero, nas quais a
prisão serve para assegurar o isolamento da classe pobre, a qual foi rotulada devido às suas
origens étnicas, e são consideradas com desprezo tendo em vista não serem consideradas
importantes para o paradigma de um Estado neoliberal em seu plano econômico e político277.
Nessa lógica a prisão por excelência elucida a função desempenhada pelo Direito Penal
em expansão, o qual atribui políticas de tolerância zero e uma ideia de Lei e Ordem, em que se
tem por escopo o isolamento e neutralização dessa classe indesejada278. Bauman salienta que
as prisões no mundo globalizado foram planejadas para que servissem como fábricas de
exclusão de pessoas que já estão habituadas à sua condição de excluídas. O que se compreende
desse sistema de exclusão é que se trata de uma técnica na qual se imobiliza o indivíduo que se
deseja excluir do convívio social de uma sociedade de consumo 279.
Bauman ainda faz um comparativo do modelo de prisão em um mundo globalizado com
os campos de concentração:

Se os campos de concentração serviram como laboratórios de uma sociedade


totalitária nos quais foram explorados os limites da submissão e servidão e se as casas
de correção panópticas serviram como laboratórios da sociedade industrial nos quais

274
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 41.
275
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 41.
276
WACQUANT, Loic. As prisões da miséria. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 30.
277
WACQUANT, Loic. Crime e castigo nos Estados Unidos: de Nixon a Clinton. Revista de Sociologia e
Política. Curitiba, 1999. N 13, p. 48. apud WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. Medo e direito penal: reflexos
da expansão punitiva na realidade brasileira. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2011. p. 42.
278
WACQUANT, Loic. op cit, 2011, p. 42.
279
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p. 121.
59

foram experimentados os limites da rotinização da ação humana, a prisão de Pelican


Bay é um laboratório da sociedade “globalizada” (ou “planetária”, nos termos de
Alberto Melucci) no qual são testadas as técnicas de confinamento espacial do lixo e
do refugo da globalização e explorados os seus limites280.

No entendimento de Bauman, percebe-se que assim como os campos de concentração


serviram como laboratórios em que se explorou os limites da submissão e servidão, e as casas
panópticas281 serviram como laboratórios na sociedade industrial, tendo como finalidade tornar
rotineira a vida dos indivíduos, as prisões na contemporaneidade são consideradas como
laboratórios em que são testadas técnicas de confinamento em indivíduos rotulados como
inimigos ou traidores os quais são considerados como lixo e refugo humano, sendo estes
explorados até seu limite282.
Bauman ainda destaca acerca da expansão do Direito Penal e a rapidez com que se dá a
punição através do encarceramento. Nas palavras do autor:

O que sugere a acentuada aceleração da punição através do encarceramento, em outras


palavras, é que há novos e amplos setores da população visados por uma razão ou
outra como uma ameaça à ordem social e que sua expulsão forçada do intercâmbio
social através da prisão é vista como um método eficiente de neutralizar a ameaça ou
acalmar a ansiedade pública provocada por essa ameaça283.

Bauman leciona que a prisão constitui o melhor método para a expulsão forçada da
classe considerada como lixo e refugo da globalização, haja vista que esta classe pobre é
percebida como uma ameaça à ordem social. Portanto, a prisão por excelência é uma eficiente
técnica de neutralizar estas ameaças. Desta forma, se tornará possível acalmar a ansiedade
daqueles inseridos em um contexto social de uma sociedade globalizada 284.
No entendimento de Wacquant, esta política de exclusão, a qual se utiliza do sistema do
Direito Penal, trata-se de escolha dos destinatários para a aplicação do Direito Penal, na qual o
Estado se utiliza da punição de comportamentos delinquentes para justificar sua conduta de
exclusão. Há também o interesse eleitoral na qual a expansão do Direito Penal possui uma
conotação de tranquilidade e paz social285.
Na visão de Garland, as políticas econômicas e sociais encontram no crime,
justificativas as quais legitimam a punição da classe pobre. O Estado possui o poder

280
BAUMAN, Zygmunt. op cit, 1999, p. 121.
281
FOUCAULT, Michel. op cit, 2013. p. 190 e 191.
282
BAUMAN, Zygmunt. op cit, 1999, p. 121.
283
BAUMAN, Zygmunt. op cit, 1999, p. 122 e 123.
284
BAUMAN, Zygmunt. op cit, 1999, p. 122 e 123.
285
WACQUANT, Loic. op cit, 2011, p. 62 e 63.
60

disciplinador, passando então a punir a pobreza que comete crimes, os quais são entendidos
como problemas de indisciplina 286.
Nesse ínterim, as respostas ao crime que possam ser tidas como veementes, efetivas e
inteligíveis são mais atraentes, ao passo que aquelas que possam ganhar um interpretação
pejorativa são consideradas inconvenientes. Ou seja, “o problema está mais na retórica política
e aparência do que efetividade prática” 287.
Conforme Streck, é de clara percepção a intenção do legislador penal ao dar prioridade
aos crimes de proteção da propriedade, em detrimento das classes mais pobres. A punição e
exclusão desta classe com parcos recursos é o maior interesse das classes economicamente
privilegiadas. O autor faz destaque a estas distinções ao relatar que,

O ato de alguém furtar uma bolsa, um relógio ou uma camisa, será apenado, de acordo
com o artigo 155 do Código Penal, com uma pena que varia de um a quatro anos de
reclusão e multa. Paradoxalmente, se o furto de um bem móvel recebe do Estado uma
punição tão drástica, o mesmo não se pode dizer no tocante à integridade física do
cidadão. Com efeito, a ofensa à integridade corporal é sancionada pelo Código Penal
com uma pena de três meses a um ano de detenção, a qual, na prática, dificilmente
ultrapassa a seis meses, resultando simplesmente, em substituição por multa, em geral
não mais do que algumas dezenas de reais. Já o abandono de uma criança recém-
nascida, tipificado no artigo 134 do Código Penal, sujeita o infrator a uma pena que
varia de seis meses a dois anos. Desse modo, a simples subtração de um relógio é
castigada com o dobro do rigor do que o abandono de um infante288.

Diante das discussões elencadas até agora, percebe-se que a expansão do Direito Penal
serve para que se promova a exclusão e segregação da classe pobre, a qual é considerada como
lixo e refugo humano de uma sociedade globalizada. Nesse contexto, a prisão se tornou um
paradigma por excelência de exclusão e anulação dessa classe, a fim de que se ofereça uma
suposta segurança à classe de consumo. Nesse diapasão, o Direito Penal, o qual deveria ser a
ultima ratio, tem sua lógica invertida drasticamente, passando a ser a primeira opção a fim que
se promova o encarceramento do seu público alvo, ou seja, (os pobres), uma vez que não
estando adaptados à globalização, não podendo fazer parte de uma sociedade de consumo, não
resta outra opção além de segregá-los para que não produzam riscos sociais e gerem uma
sensação de insegurança para a classe elitizada. Com a prisão obtém-se a anulação imediata dos
indivíduos que produzem riscos sociais; também a prisão é considerada pelos governantes como
a medida por excelência, uma vez que atentem de forma mais eficaz aos seus interesses

286
GARLAND, David. La cultura del control: crimen y ordem social en la sociedad contemporánea. Trad.
Máximo Sozzo. Barcelena: Gedisa, 2005. p. 220.
287
GARLAND, David, op cit, 2005, p. 88.
288
STRECK, Lenio Luiz. Tribunal do júri: símbolos e rituais. 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998.
p.31.
61

políticos, haja vista que a prisão tem o condão de excluir todos aqueles que foram
marginalizados pelo poder hegemônico e possui um baixo custo financeiro. Observa-se que
essas medidas são muito bem recepcionas pela população em geral, o que repercute
positivamente nas urnas e principalmente geram um sentimento de segurança para a classe de
consumo.
A característica do sistema de Direito Penal Brasileiro em sua expansão é o cárcere por
excelência, cujas penas não tem o condão de apenas defender a sociedade, buscar a prevenção
e a não reincidência delitiva, mas por trás de um discurso político para angariar votos, busca-se
a colocação dessa casta social pobre dento dos presídios, os quais são uma verdadeira lata de
lixo humano, pois não respeitam os Direitos Humanos e muito menos a Dignidade da Pessoa
Humana, servindo apenas para excluir todos aqueles que não estão adaptados a um mundo
globalizado de consumo. No próximo subitem trabalhar-se-á a influência da Biopolítica e do
Biopoder com os Direitos Humanos sob a ótica da Segurança Pública.

3.2 Relações entre a Biopolítica e o Biopoder com os Direitos Humanos no campo das
políticas de Segurança Pública

Foucault, em sua obra “História da sexualidade I: a vontade de saber”, discorre sobre a


maneira pela qual a vida entra na sociedade, bem como a forma por meio da qual o Estado passa
a conduzir a vida dos seres humanos através do poder biopolítico (biopoder), surgindo com isso
um direito de “fazer morrer e deixar viver” 289, o que constitui o genuíno símbolo do poder
estatal. Exercendo seu direito de matar, voltando-se a um direito de fazer viver e deixar morrer,
contribui-se para transfiguração na seara do direito, ocasionando a transição da soberania a um
sistema biopolítico.
Retomando as lições foucaultianas, Agamben salienta:

À luz dessas considerações precedentes, entre as duas fórmulas insinua-se uma


terceira, que define o caráter mais específico da biopolítica do século XX: já não fazer
morrer, nem fazer viver, mas fazer sobreviver. Nem a vida nem a morte, mas a
produção de uma sobrevivência modulável e virtualmente infinita constitui a tarefa
decisiva do biopoder em nosso tempo290.

O direito de vida e morte característico do poder soberano perpetua-se ao longo do


tempo. Este direito possui sua gênese na patria potestà, oriundo do direito Romano, em que o

289
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 145.
290
AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz: o arquivo e o testemunho, p. 155.
62

pai da família romana dispunha do direito a vida de seus descendentes, bem como de seus
escravos, sendo lícito tirar-lhes a vida: aquele que dá a vida tem o poder de retirá-la. Surge,
assim, o direito de fazer morrer ou deixar viver291. Este direito de vida e morte é uma
característica que marca o poder do soberano. Entretanto, o direito de dispor do poder de fazer
morrer ou deixar viver não é absoluto, uma vez que só se aplica este direito no caso em que o
soberano se encontre ameaçado em sua própria existência 292. Seria o caso de responder às
ameaças provindas de inimigos ou situações hostis em que o soberano, a fim de se proteger,
legitima suas ações em um direito de guerra, podendo convocar todos aqueles que estão sob sua
tutela para que saia em defesa do Estado, expondo-se diretamente à morte, passando a exercer
sobre seus súditos uma espécie de direito “indireto de vida e morte”. Entretanto, no caso de um
súdito cometer um delito infringindo a lei, é lícito ao soberano dispor sobre a vida deste
indivíduo, passando a exercer um poder de morte sobre este indivíduo, tolhendo a vida como
forma de castigo293.
Nesse sentido Foucault leciona:

Encarando nestes termos, o direito de vida e morte já não é um privilégio absoluto: é


condicionado à defesa do soberano e à sua sobrevivência enquanto tal. seria o caso de
concebê-lo, como Hobbes, como a transposição para o príncipe do direito que todos
possuiriam, no estado de natureza, de defender sua própria vida à custa da morte dos
outros? Ou deve-se ver nele um direito específico que aparece com a formação deste
ser jurídico novo que é o soberano? De qualquer modo, o direito de vida e morte, sob
esta forma moderna, relativa e limitada, como também sob sua forma antiga e
absoluta, é um direito assimétrico. O soberano só exerce, no caso, seu direito sobre a
vida, exercendo seu direito de matar ou contendo-o; só marca seu poder de vida pela
morte que tem condições de exigir. O direito que é formulado como “de vida e morte”
é, de fato, o direito de causar a morte ou de deixar viver 294.

Percebe-se que o poder de fazer morrer ou deixar viver era o símbolo do soberano. Esse
poder era empregado como forma de confiscar a vida dos súditos, mesmo que isso significasse
o derramamento de seu sangue. Poderia o soberano confiscar produtos, trabalho, bens, tempo,
corpos e, inclusive, a vida de todos os que estão sob sua tutela 295.
Estes mecanismos de poder, a partir da época clássica, no Ocidente, começam a sofrer
mutações. O confisco passa a ser apenas uma peça desse mecanismo de poder, surgindo outros
tais como a vigilância, o aumento das forças e sua organização, tornando-as completamente
manipuláveis. Em razão disso, “o direito de morte tenderá a se deslocar ou, pelo menos, a se

291
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014. p. 145.
292
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 145.
293
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 145.
294
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, 145 e 146.
295
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 146.
63

apoiar nas exigências de um poder que gere a vida e a se ordenar em função de seus
reclamos”296.
Sobre o tema, Foucault sustenta:

Essa morte, que se fundamentava no direito do soberano se defender ou pedir que o


defendessem, vai aparecer como o simples reverso do direito do corpo social de
garantir sua própria vida, mantê-la ou desenvolvê-la. Contudo, jamais as guerras
foram tão sangrentas como a partir do século XIX e nunca, guardadas as proporções,
os regimes haviam, até então, praticado tais holocaustos em suas próprias populações.
Mas esse formidável poder de morte – e talvez seja o que lhe empresta uma parte da
força e do cinismo com que levou tão longe seus próprios limites – apresenta-se agora
como o complemento de um poder que se exerce, positivamente, sobre a vida, que
empreende sua gestão, sua majoração, sua multiplicação, o exercício, sobre ela, de
controles precisos e regulações de conjuntos. As guerras já não se travam em nome
do soberano a ser defendido; travam-se em nome da existência de todos, populações
inteiras são levadas à destruição mútua em nome da necessidade de viver 297.

Diante desse contexto de vida e morte, percebe-se que os massacres tornaram-se


essenciais à gestão da vida. O que está em jogo é a sobrevivência dos “corpos e da raça”.
Inúmeros regimes de governo passaram a travar guerras, o que resultou em uma grande
mortandade à humanidade. O poder de levar uma nação à morte é inversamente proporcional à
outra nação preservar sua vida. Esta técnica de guerra sustenta-se sob o alicerce de uma legítima
defesa, em que matar justifica-se em prol da sobrevivência. Este princípio de matar em nome
da vida passou a ser adotado pelos Estados. Entretanto, esta razão de existência não é mais
jurídica, mas passou a ter um cunho biológico, devido à percepção de que “o poder se situa e
exerce ao nível da vida, da espécie, da raça e dos fenômenos maciços de população” 298.
Nesse diapasão, a pena de morte por um longo período é estabelecida como
demonstração de poder do soberano. Constituía-se como uma resposta do soberano a todos os
que iam de encontro aos seus anseios, lei ou que fossem consideradas hostis. Entretanto, no
momento em que o poder passou a governar a vida, ocorreu uma mudança nessa lógica de fazer
morrer, passando a uma lógica de deixar viver em razão do poder do soberano. Há de se
observar que a mudança da lógica de fazer morrer para deixar viver, nada tem a ver com
sentimentos humanitários: é puramente uma lógica voltada ao exercício do poder soberano ao
ser biológico299.
Nesse entendimento Foucault fundamenta:

296
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 146.
297
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 147.
298
FOUCAUT, Michel op cit, 2014, p. 147 e 148.
299
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 148.
64

De que modo um poder viria a exercer sua mais altas prerrogativas e causar a morte
se o seu papel mais importante é o de garantir, sustentar, reforçar, multiplicar a vida
e pô-la em ordem? Para um poder deste tipo, a pena capital é, ao mesmo tempo, o
limite, o escândalo e a contradição. Daí o fato de que não se pôde mantê-la a não ser
invocando, nem tanto a enormidade do crime quanto a monstruosidade do criminoso,
sua incorrigibilidade e a salvaguarda da sociedade. São mortos legitimamente aqueles
que constituem uma espécie de perigo biológico para os outros 300.

Nesse ínterim, com o advento do biopoder, “pode-se dizer que o velho direito de causar
a morte ou deixar viver foi substituído por um poder de causar a vida ou devolver à morte”.
Este fenômeno da passagem da morte a um novo paradigma que agora é a própria vida. Somente
o Estado possui o direito de fazer morrer ou deixar morrer 301.
Este poder sobre a vida e a morte que surgiu no século XVII tem como objeto o corpo.
Como se este fosse uma máquina de produção. Um ser adestrado cujas capacidades são
aumentadas extraindo-se suas aptidões e forças, fazendo com que aumente sua “utilidade e
docilidade”, de modo a contribuir para a sua completa integração a estes sistemas de controles
de forma eficaz e voltada à economia, caracterizada como a “anátomo-política do corpo
humano”302.
O segundo poder o qual surgiu no século XVIII focou-se sobre o corpo-espécie.
Conforme Foucault:

No corpo transplantado pela mecânica do ser vivo e como suporte dos processos
biológicos: a proliferação, os nascimentos e a mortalidade, o nível de saúde, a duração
da vida, a longevidade, com todas as condições que podem fazê-los variar; tais
processos são assumidos mediante toda uma série de intervenções e controles
reguladores: uma biopolítica da população. As disciplinas do corpo e as regulações da
população constituem os dois pólos em tomo dos quais se desenvolveu a organização
do poder sobre a vida. A instalação – durante a época clássica, desta grande tecnologia
de duas faces – anatômica e biológica, individualizante especificante, voltada para os
desempenhos do corpo e encarando os processos da vida – caracteriza um poder cuja
função mais elevada já não é mais matar, mas investir sobre a vida, de cima a baixo303.

O poder de morte, que outrora era característica do poder soberano, agora aparece sob
outro paradigma, sendo este o da administração dos corpos através de uma “gestão calculista
da vida”. Essa gestão se concretiza através das disciplinas em suas diversas modalidades, tais
como “escolas, colégios, casernas, ateliês, práticas políticas, natalidade, longevidade, saúde,
habitação, migração”, técnicas estas as quais tem por escopo a sujeição e o controle da

300
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 148.
301
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 148.
302
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 148.
303
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 150.
65

população. Surge, assim, a “era do biopoder”304.


O biopoder teve um importante papel para o desenvolvimento do capitalismo, uma vez
que através do controle dos corpos, os quais tem por escopo a produção, ocorreu um
ajustamento deste com os fenômenos dos processos econômicos 305.
O capitalismo, por sua vez, exige cada vez mais do corpo humano. É necessário um
aumento constantemente de seus esforços, utilidade, e docilidade, a fim de que mais se produza.
Para que este corpo corresponda às expectativas do capitalismo, são necessários métodos que
aumentem significativamente suas aptidões, o que só é possível através dos “grandes aparelhos
de Estado, como instituições de poder”, o que por sua vez garante a preservação da
produtividade dos corpos dóceis em larga escala 306.
Esse processo da majoração das aptidões dos corpos só é possível através da utilização
das técnicas de poder, as quais estão presentes em várias instituições como: “família, exército,
escola, polícia, medicina individual, ou na coletividade”. Estas técnicas agem em prol dos
processos econômicos. Estes fatores contribuem para a preservação do capitalismo. Além disso,
se utilizam de técnicas de segregação e hierarquização social, o que por sua vez passa a garantir
o domínio do poder hegemónico. Resultado disso é a acumulação de capital pelos detentores
do poder, os quais exploram as forças dos corpos dóceis, sua produtividade ao máximo, visando
ao lucro, havendo uma distribuição desproporcional de riquezas, o que só é possível através do
exercício do biopoder307. Todo este investimento sobre o corpo foi indispensável ao
desenvolvimento do capitalismo naquele momento308.
Outro reflexo do desenvolvimento do biopoder é atividade em que a norma se relaciona
com o sistema jurídico da lei. Neste sentido Foucault leciona:

A lei não pode deixar de ser armada, e sua arma por excelência é a morte; aos que a
transgridem, ela responde, pelo menos como último recurso, com essa ameaça
absoluta. A lei sempre se refere ao gladio. Mas um poder que tem a tarefa de se
encarregar da vida terá necessidade de mecanismos contínuos, reguladores e
corretivos. Já não se trata de pôr a morte em ação no campo da soberania, mas de
distribuir os vivos em um domínio de valor e utilidade. Um poder dessa natureza tem
de qualificar, medir, avaliar, hierarquizar, mais do que se manifestar em seu fausto
mortífero; não tem que traçar a linha que separa os súditos obedientes dos inimigos
do soberano, opera distribuições em torno da norma. Não quero dizer que a lei se
apague ou que as instituições de justiça tendam a desaparecer; mas que a lei funciona
cada vez mais como norma, e que a instituição judiciária se integra cada vez mais num
contínuo de aparelhos (médicos, administrativos etc.) cujas funções são sobretudo

304
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 150 e 151.
305
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 151 e 152.
306
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 152.
307
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 152.
308
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 152.
66

reguladoras309.

“Uma sociedade normalizadora é o efeito histórico de uma tecnologia de poder centrada


na vida”310. Ao se fazer alusão às sociedades que se tem conhecimento tendo por parâmetro o
Século XVIII, percebe-se um retrocesso jurídico, uma vez que toda legislação, seja ela a própria
Constituição, a partir da Revolução Francesa, bem como os códigos elaborados ou aqueles que
já passaram por uma reforma, ou qualquer processo legislativo, é a forma que se estabelece um
sistema no qual os indivíduos são moldados e passam a aderir a esta sistemática
substancialmente normalizadora311.
Com relação a esta biopolítica e bioporder, do século XIX, as resistências em desfavor
destes poderes encontram-se centrada precisamente naquilo que mais se busca o domínio, ou
seja, a própria vida do ser humano enquanto ser vivente. Estas resistências se operam
anteriormente ao século XIX, através de grandes batalhas, lutas, revoltas, dentre outras formas
de resistências, as quais evidenciam a este “sistema geral de poder”. O que se busca não é a
efetivação de um direito arcaico, mas o reestabelecimento da vida como um objeto em si
mesmo, o que se concretiza través da satisfação das suas necessidades fundamentais, a essência
concreta do ser humano, a concretização de suas virtualidades e a de completude do possível 312.
Utópico ou não, a busca por esta plenitude de virtualidades em prol do ser vivente,
opera-se então um processo de luta, o qual é concreto e tem como escopo voltar-se contra o
sistema que busca controlar a vida do ser humano através de técnicas sistemáticas de biopoder
e de biopolítica313. A vida se tornou por excelência objeto de disputas políticas, sendo esta muito
mais que um direito do homem, indo de encontro à biopolítica e ao biopoder os quais buscam
sua sustentação através de ratificações de direito 314.
Nesse sentido Foucault destaca que:

O “direito” à vida, ao corpo, à saúde, à felicidade, à satisfação das necessidades, o


“direito”, acima de todas as opressões ou “alienações”, de encontrar o que se é e tudo
o que se pode ser, esse “direito” tão incompreensível para o sistema jurídico clássico,
foi a réplica política a todos esses novos procedimentos de poder que, por sua vez,
também não fazem parte do direito tradicional da soberania315.

309
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 155 e 156.
310
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 156.
311
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 156.
312
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 157.
313
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 156.
314
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 156.
315
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 157.
67

Esta maneira na qual a vida entra na sociedade, assim como a maneira pela qual o
Estado passa a conduzir a vida dos seres humanos através do poder biopolítico e biopoder, faz
surgir um direito no qual se é lícito causar a morte ou simplesmente deixar que viva. Este
símbolo constitui o genuíno poder estatal316. O Estado passou a exercê-lo em nome da
Segurança Pública, justificando práticas preventivas que, por sua vez, compreendem um
paradigma de Segurança Pública. Ao se fazer uma correlação entre tais práticas de Segurança
Pública e os Direitos Humanos, levando em conta os princípios democráticos, percebe-se um
paradigma de autoritarismo político e social317. Uma vez que o Estado, ao exercer seu direito
de matar, volta-se a um direito de fazer viver e deixar morrer, contribuindo assim para
transfiguração na seara do direito, ocasionando a transição da soberania a um sistema
biopolítico318.
Segundo Agamben, estes apontamentos correlacionados à biopolítica e ao biopoder
passam a definir o caráter mais pontual da biopolítica do século XX: aqui já não se busca fazer
morrer, nem se fazer viver, mas se busca a sobrevivência do indivíduo. Produzindo meramente
uma espécie de sobrevivência a qual é perfeitamente modulável pelo sistema biopolítico o que
por sua vez constitui o escopo do biopoder contemporaneamente 319.
A fim de que se compreenda a relação existente entre a Segurança Pública sob o prisma
dos Direitos Humanos, se faz necessário o entendimento do que é Segurança Pública. Em uma
definição de Segurança Pública mais clássica, são aquelas que dão destaque as instituições
policiais, que tem por escopo a preservação da ordem pública, a garantia do patrimônio, e a
promoção de segurança ao cidadão. Estas percepções dogmáticas encontram respaldo
usualmente na legislação vigente, tal como o Código Penal, Código de Processo Penal, dentre
outros, os que por sua vez se compreendem como instrumentos jurídicos totalmente obsoletos,
uma vez que não são eficazes nem adequados na contemporaneidade 320.
Nesse diapasão, Oliveira sustenta que o conceito de segurança deve ser compreendido
como uma maneira de proteger as liberdades individuais, não implicando na exclusão das
garantias de segurança do Estado contemporâneo, podendo se afirmar que a Segurança Pública
é dotada de uma conotação de correlação entre a ordem social e a ordem política. Nesse sentido,
o Estado possui legitimidade para fazer o uso da força, uma vez que é responsável pela

316
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 145.
317
DIAS, Lúcia Lemos. A política de segurança pública entre o monopólio legítimo da força e os Direitos
Humanos: A experiência da Paraíba no pós 1988. Tese de Doutorado. Recife, 2010, p. 66.
318
FOUCAUT, Michel. op cit, 2014, p. 145.
319
AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz: o arquivo e o testemunho, p. 155.
320
DIAS, Lúcia Lemos. op cit, 2010, p. 66.
68

promoção da segurança de todos os seus súditos, incumbindo-lhe a intermediação entre estes


indivíduos321. Entretanto, o Estado deve ficar sob o crivo da legalidade, de acordo com o jurista
alemão Feuerbach, o qual imortalizou o princípio da legalidade com o jargão “nulla poena sine
lege e nullum crimen sine poena legali”322. O Estado deve ficar restrito à legalidade, buscando
respaldo na legislação vigente em seu território de abrangência, não podendo agir a seu bel
prazer e muito menos criminalizar condutas as quais não são previstas pela legislação vigente
anteriormente à sua consumação 323.
Com relação a uma noção da ordem social em uma perspectiva voltada à Segurança
Pública, passa adquirir uma conotação de tranquilidade pública e a garantida de ordem pública
e política. Nesse sentido Fernandes passa a lecionar:

A ordem social estabelecida constitui o fundamento da segurança individual e a


segurança coletiva é garantia do respeito a vida intima, pela vida privada e pela vida
pública. Por isso, o poder político, a sociedade civil e os cidadãos desenvolvem um
esforço conjunto para preservar a ordem social, como condição indispensável ao
exercício dos direitos do homem e das liberdades fundamentais324.

Nesse diapasão nota-se um equilíbrio entre o monopólio da Segurança Pública, os


costumes, as leis, e os Direitos Humanos. A fim de se alcançar os objetivos da preservação da
ordem social sem desrespeitar os Direitos Humanos, o Estado procura se utilizar dos meios
necessários para atingir os objetivos de construir uma sociedade centrada na paz social e
estabilidade da ordem pública325.
Nesse contexto de Segurança Pública se percebe a instituição do monopólio da violência
estatal, uma vez que o Estado é a único que possui a legitimidade para agir em nome de todos,
tomando como preceito, a fim de garantir esta suposta segurança, à liberdade dos indivíduos.
Neste diapasão, o Estado passa a encontrar limites no princípio Constitucional da Legalidade,
uma vez que só deve agir enquanto houver previsão legal. A fim de aplicabilidade, se leva em
conta a existência real de fatores sociológicos, com isso surge uma associação na qual se vincula
o conceito de segurança ao de paz pública ou até mesmo da ordem pública. Este conceito de

321
DIAS, Lúcia Lemos. op cit, 2010, p. 69.
322
BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas. Tra. Alexis Augusto Couto de Brito – Prefácio : René Ariel
Dotti – São Paulo: Quartier Latin, 2005. p. 26 in FEUERBACH, Paul Johann Anseln Ritter Von. Nulla poena
sine lege e nullum crimen sine poena legali. p.20.
323
DIAS, Lúcia Lemos. op cit, 2010, p. 69.
324
FERNANDES, Antônio José. Poder político e segurança interna. In: VALENTE, Manuel Monteiro Guedes
(Org.) I Colóquio de Segurança Interna, Instituto Superior de Ciências Política e Segurança Interna. Coimbra:
Almedina. 2005. p. 33.
325
FERNANDES, Antônio José. op cit, p. 2005, p. 33.
69

Segurança Pública se baseia em um ideário liberal, os quais se voltam para os Direitos Civis 326.
Nesse ínterim, Faria Costa leciona que estes Direitos Civis, podem ser compreendidos
como um Manifesto do garantismo. Seria o manifesto das garantias de direitos processuais
penais, no qual surge um liame entre os cidadãos com um Estado detentor do “ius puniendi”
327
. Sob outra ótica dos Direitos Civis, a Constituição Federal de 1988, buscou resguardar a
dignidade da pessoa humana, a cidadania e o pluralismo político a todos os cidadãos. Em que
pese a Constituição Federal, em sua essência procura inibir práticas dos seus agentes estatais,
tal como o emprego da tortura, o que por sua vez, constitui crime contra a humanidade. A prática
da tortura não encontra nenhuma guarida mesmo em nome da Segurança Pública, uma vez que
a Carta Constitucional de 1988 reconhece os Direitos e valores do homem, passando a defender
os direitos civis e a liberdade partidária dos cidadãos. Estas conquistas as quais estabeleceram
um Estado Democrático de Direito, foram angariadas após anos de sofrimento através da
resistência do povo frente às ilegalidades sofridas por um governo militar autoritário, o qual
buscou implantar a ditadura militar tendo como característica a intolerância e a violência 328.
Essa ascensão dos Direitos Humanos frente a um Estado totalitário, em uma visão de
Bobbio, se deu através de lutas constantes contra o poder absoluto do soberano os quais se
caracterizaram como liberdades individuais centrados em Direitos Civis, os quais se
transmutam para um sujeito de direitos, não estando mais o indivíduo a uma sujeição absoluta
do Estado. Desta forma se percebe que os Direitos Humanos surgem em desfavor do
absolutismo do ente Estatal, o que acabou limitando significativamente seu poder. Estes direitos
são denominados como liberdades negativas, uma vez que estas garantias estão voltadas a não
intervenção do ente Estatal na liberdade dos indivíduos329.
Bobbio ainda leciona que estes direitos civis foram sendo paulatinamente conquistados
por uns, e logo passou a ser estendido a todos os indivíduos, os quais acabaram angariando o
direito a liberdade do credo religioso bem como a liberdade de expressão. O que por sua vez
contribuiu para o surgimento do princípio da igualdade. Onde se diz que todo homem é igual
perante a lei. Nesse diapasão se percebe que todo homem tem a mesma medida de liberdade e
direito que o outro330.
O princípio da igualdade passou a ser aclamado pela Declaração Universal dos Direitos

326
DIAS, Lúcia Lemos. op cit, 2010, p. 69.
327
BECCARIA, Cesare. op cit, 2005, p. 16.
328
BECCARIA, Cesare. op cit, 2005, p. 16 e 17.
329
BOBBIO, Noberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro. Editora Campus, 1992. p. 72.
330
BOBBIO, Noberto. Op cit, 1992. p. 70.
70

Humanos331, em seus artigos I e II, nos traz esta ideia de liberdade e igualdade.

I. Todas as pessoas, mulheres e homens, nascem livres e iguais em dignidade e


direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras
com espírito de fraternidade.
II. Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos
nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,
religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza,
nascimento ou qualquer outra condição.

Com a conquista dos Direitos de liberdade e igualdade, constitui-se o princípio da


Universalidade, o que segundo Bobbio a Universalidade “não valem para os direitos sociais,
nem mesmo para os direitos políticos, diante dos quais os indivíduos são iguais só
genericamente, mas não especificamente”332.
Com a diversidade da sociedade moderna e a dilação dos Direitos Humanos, estes
passam a surgir de varias maneiras tais como os direitos de primeira geração os quais garante
direitos civis e políticos, os de segunda geração os quais dizem respeito a direitos sociais, os de
terceira geração os quais estão relacionados acerca da importância da tutela do meio ambiente,
os de quarta geração os que se relacionam com a ética da manipulação da engenharia genética
do indivíduo333. Com relação a esta gama de expansão dos Direitos Humanos Bobbio leciona
que não se pode desassociar a teoria da pratica, da mesma forma que não se pode perder o foco
da referencia de direito na sociedade 334.
Nessa acepção há uma obrigatoriedade em se levar em conta os Direitos Humanos com
as realidades sociais sob a ótica da Segurança Pública, uma vez que estes promovem a proteção
de todos os indivíduos tanto de forma individual como coletiva 335. Nesse sentido surge uma
convergência entre os Direitos Humanos e a Segurança Pública, uma vez que de um lado esta
o direito a vida, liberdade, os quais constituem em Direitos Humanos, o de outro lado o bem
estar coletivo de todos integrantes da sociedade. Surge assim para o Estado dever de controlar
sua intervenção no corpo social de forma a promover a Segurança Pública sem se imiscuir na
vida do cidadão. Passando a controlar a violência e a criminalidade através de suas intervenções
através dos órgãos de Segurança Pública 336.

331
Dados disponíveis em: <http://www1.FOLHA.UOL.com.br/folha/sinapse/ult1063v298.shtml> Acesso em : 08
setembro 2015.
332
BOBBIO, Noberto. Op cit, 1992. p. 71..
333
LENZA, Pedro. Direito Constitucional esquematizado. 13.ed. rev. Atual e ampl. São Paulo: Saraiva 2009. p.
670 – 671.
334
BOBBIO, Noberto. Op cit, 1992. p. 73.
335
BOBBIO, Noberto. Op cit, 1992. p. 74- 75.
336
BOBBIO, Noberto. Op cit, 1992.. p. 71-76.
71

Nessa lógica o professor Sérgio Bova passa a lecionar uma definição de biopolítica
Estatal, a qual é exercida pelos órgãos de Segurança Pública através das polícias e políticas
Públicas:

É uma função do Estado que se concretiza numa instituição de administração positiva


e visa a por em ação as limitações que a lei impõem à liberdade dos indivíduos e dos
grupos para salvaguardar e manutenção da segurança das pessoas à segurança da
propriedade, da tranquilidade dos agregados humanos à proteção de qualquer outro
bem tutelado com disposição penal337.

A polícia por sua vez tem por escopo o desempenho de duas funções: tal como a
preservação da ordem pública e salvaguardar a Segurança Pública. A ordem pública esta
relacionada com a repressão de qualquer tipo de manifestações às quais possam desencadear
alterações nas relações políticas-econômicas as quais envolvam classes sociais. A Segurança
Pública por sua vez se direciona a salvaguardar a integridade física da população, seus bens e
salvaguardar contra aqueles que forem considerados hostis ao social338.
Nesse discernimento percebe-se que a Segurança Pública aponta para o sentido de
proteção de um Direito Humano como a vida do cidadão, de uma forma teórica, diferentemente
de uma Segurança Pública que visa à manutenção da ordem pública. Ao aglutinarmos estes dois
vieses de Segurança Pública, a propensão é que se prevaleça à ordem Pública. Uma vez que o
interesse é defender a sociedade capitalista, a qual possui como característica a desigualdade e
a discriminação social, o que tende a priorizar a defesa do patrimônio voltando-se a proteção
de uma classe a qual é possuidora de bens 339.
Nesse ínterim voltado a Segurança Pública, em que de um lado se encontra os princípios
de Direitos Humanos e a dignidade da pessoa humana, bem como o direito da preservação da
ordem pública, a garantia do patrimônio, e a promoção de segurança ao cidadão, do outro lado
se encontra o Estado Soberano o qual detêm o monopólio da violência e a incumbência de
garantir a ordem pública e social. Busca-se um equilíbrio na balança da justiça de forma que o
Estado mantenha a ordem pública e social sem lesar os Direitos Humanos e a dignidade da
pessoa humana. Nesse seguimento Lúcia Lemos Dias explica como se daria um equilíbrio entre
Direitos Humanos, respeito à dignidade da pessoa humana e Estado garantidor da ordem pública
e social, em prol da Segurança Pública. Nesse diapasão se faz necessário o filtro dos Direitos
Humanos, que por sua vez passa a proteger a todos os grupos e principalmente aqueles grupos

337
BOVA, Sérgio. Polícia. In: BOBBIO, Norberto et. Al. Dicionário de Polícia. (Orgs). Brasília: Editora UNB,
1999, Vol. 2. p. 944.
338
BOVA, Sérgio. Op cit, 1999, p. 944.
339
BOVA, Sérgio. Op cit, 1999, p. 945.
72

mais vulneráveis.

A política de Segurança Pública deve ser configurada como política pública (social)
incorporando, também, as necessidades de segurança dos grupos socialmente
vulneráveis, devendo contemplar as várias dimensões do direitos. Ou seja, ela deve
apresentar-se de forma democrática, perpassando pelos Direitos Humanos – direitos
civis, políticos, econômicos e sócios-culturais de forma indissociável, em
conformidade com o modelo do Estado democrático de Direito340

Diante do exposto percebe-se que existe uma necessidade de discutir o tema Segurança
Pública sob a óptica da justiça e dos Direitos Humanos, em um contexto de Estado Democrático
de Direito. Uma vez que o ente estatal não pode se utilizar dos órgãos de Segurança Pública
como instrumentos de coerção para satisfazer seus próprios anseios. Mas deve desenvolver
políticas de Segurança Pública e sociais, as quais promovam a paz social, igualdade econômica,
redução da criminalidade e sua violência, preservação da ordem pública, a garantia do
patrimônio, e a promoção de segurança ao cidadão, sem desrespeitar os Direitos Humanos e a
Dignidade da Pessoa Humana. No próximo capítulo abordar-se-á, as principais políticas de
segurança pública brasileiras e a violação da dignidade da pessoa humana, bem como as
principais políticas de segurança as quais estão vinculadas aos presídios e a produção da vida
nua.

340
DIAS, Lúcia Lemos. op cit, 2010, p.72 e 73.
73

4 POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA NO BRASIL

O escopo do presente capítulo será realizar uma análise das principais políticas de
Segurança Pública no Brasil tais como: o Plano Nacional de Segurança Pública, o Programa
Nacional de Segurança Pública com Cidadania e suas relações com o Programa Nacional de
Direitos Humanos, os quais trazem novas luzes aos problemas relacionados à Segurança
Pública. Bem como se estas políticas atendem aos princípios dos Direitos Humanos e da
Dignidade da Pessoa Humana. Abordar-se-á também a implementação das Unidades de Polícia
Pacificadora (UPPs), em áreas urbanas com altos índices de criminalidade e de violência, seus
aspectos jurídicos e seus reflexos na vida dos que vivem em áreas conflituosas.
Analisar-se-á dados de acompanhamentos dos números dos encarceramentos realizados
pelo mundo todo, constatando-se a seletividade do sistema carcerário, bem como o perfil
daqueles que se encontram aprisionados. Evidenciar-se-á as políticas de segurança voltadas aos
presídios e a produção da vida nua e as possíveis afrontas aos Direitos Humanos.

4.1 As principais políticas de Segurança Pública brasileira e a violação da dignidade da


pessoa humana

Na contemporaneidade, o Estado busca constantemente reestruturar-se a fim de


satisfazer as necessidades de uma sociedade dinâmica. Nesse constante processo civilizatório,
surge a necessidade da manutenção da Segurança Pública, a fim de que se garanta o pleno
exercício da cidadania. No atual paradigma de sistema capitalista, o Estado desempenha a
função de garantidor da Segurança Pública, concretizando-se através do controle social
exercido por mecanismos jurídicos e aparatos institucionais.
De acordo com Adorno, a Segurança Pública consiste em um processo articulado, que
se caracteriza através da interdependência institucional e social. No que tange às políticas de
Segurança Pública, estas são definidas e instituídas por mecanismos e estratégias de controle
social, por meio das quais ocorre o enfrentamento da violência e da criminalidade através de
ferramentas que se utilizam da punição por excelência 341.
Sobre o tema, Bengochea leciona que a segurança da sociedade é condição essencial

341
ADORNO, S.Bordini. A gestão urbana do medo e da insegurança: violência, crime e justiça penal na
sociedade brasileira contemporânea. Tese (apresentada como exigência parcial para o Concurso de Livre-
Docência em Ciências Humanas) – Departamento de Sociologia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo, 1996. p. 282.
74

para o exercício dos direitos e garantias dispostos no texto Constitucional. A fim de ser
efetivada a Segurança Pública, é necessário que o Estado forneça meios estruturais através de
seus órgãos de segurança, para a efetivação e promoção da Segurança Pública, a fim de
satisfazer as demandas sociais. Essas instituições ou órgãos estatais são incumbidos de
promover e de garantir a segurança da sociedade através de ações coercitivas utilizando-se do
controle social. Esse conjunto de ações denomina-se de Sistema de Segurança Pública, o que
consiste em um conjunto de ações traçadas em planos e em programas que têm por escopo a
promoção da Segurança Pública em sua forma individual e coletiva 342.
Em um contexto de um Estado neoliberal e globalizado, em que o aspecto econômico é
uma de suas principais características, esse fator acaba sendo responsável por profundas
mudanças na estrutura do Estado em sua forma de se organizar politicamente. No que tange à
Segurança Pública, o ente estatal acaba substituindo o Estado Social por um Estado Penal,
justificando essa conduta como resposta aos perigos produzidos por aqueles que não estão
inseridos nesta nova ordem social343. Esses mecanismos apresentam hábeis instrumentos de
controle social e racial, bem como desempenham uma seletividade sociorracial, uma vez que
passam a excluir a classe pobre da política assistencialista passando a exercer uma política de
mero encarceramento. O Estado, dessa forma, possui um total controle da classe
economicamente hipossuficiente344.
Passetti leciona sobre os efeitos da globalização, com relação às segregações, que “por
Estado penalizador, os estudos e pesquisas procuram mostrar as dimensões atuais dos efeitos
da globalização nas segregações, confinamentos e extermínios de populações pobres, adulta,
juvenil e infantil”345. Segundo Wacquant, o que ocorre é um processo de criminalização da
classe hipossuficiente, tipificando-se criminalmente as condutas da classe pobre que se encontra
à mercê da miséria. De acordo com o autor, esse paradigma de exclusão se relaciona diretamente
com a “insegurança social gerada em toda parte pela dessocialização do trabalho assalariado, o
recuo das proteções coletivas e a mercantilização das relações humanas” 346.
Nesse contexto, Wacquant evidencia o surgimento do Estado Penal, como consequência
da ruína das relações econômicas e sociais de produção e das melindrosas formas de trabalho,
situações estas ditadas por um Estado Neoliberal, o qual se interessa apenas em atender aos

342
BENGOCHEA, J. L. et al. A transição de uma polícia de controle para uma polícia cidadã. Revista São
Paulo em Perspectiva, v. 18, n. 1, 2004. p. 119-131.
343
PASSETTI, E. Anarquismos e sociedade de controle. São Paulo: Cortez, 2003. p. 134.
344
WERMUTH, Maiquel Ângelo Dezordi. op cit, 2011, p. 41.
345
PASSETTI, E. op cit, 2003, p. 170.
346
WACQUANT, L. op cit, 2001. p.13.
75

ditames do mercado. Nas palavras de Wacquant:

Em tais condições, desenvolver o Estado penal para responder às desordens suscitadas


pela desregulamentação da economia, pela dessocialização do trabalho assalariado e
pela pauperização relativa e absoluta de amplos contingentes do proletariado urbano,
aumentando os meios, a amplitude e a intensidade da intervenção do aparelho policial
e judiciário, equivale a (r)estabelecer uma verdadeira ‘ditadura sobre os pobres’347.

Nesse cenário, percebe-se um fortalecimento das relações mercantis que passam a gerir
as relações sociais, ocasionando um enfraquecimento do Estado, ou seja, a economia passa a
ditar as regras. Essa gestão de controle dos mecanismos sociais se dá de forma simultânea com
o recrudescimento do direito penal, uma vez que este passa a penalizar condutas da classe pobre
a fim de fortalecer a relação de poder que exerce sobre eles. A consequência disso é um Estado
menos intervencionista para a classe mais rica, de modo a permitir um aumento em larga escala
do lucro da exploração do mercado de consumo, em detrimento dos pobres. Já em relação à
classe pobre, o Estado passa a exercer um controle exacerbado através de um Estado penal 348.
Nesse diapasão, o Estado, ao recrudescer o direito penal por intermédio de um processo
expansivo, passa a reprimir a classe pobre através da “institucionalização de processos de
criminalização de segmentos sociais, excluídos das possibilidades oferecidas pelo mercado,
como forma de dar respostas aos anseios da sociedade em geral”, corroborando para que o
Estado privilegie apenas os detentores do capital, os quais são intitulados “donos do poder”,
num total prejuízo aos Direitos Humanos e à Dignidade da Pessoa Humana, uma vez que tal
paradigma de um Estado Neoliberal serve apenas aos ricos detentores do capital e aos
manipuladores da economia, em um total contrassenso à função que o Estado deveria
desempenhar. Nesse sentido, surge um Estado para a classe pobre com menos assistencialismo
e com uma maior vigilância. Já para os ricos, o Estado acaba agindo em conluio, exercendo
cada vez menos controle sobre a classe detentora de capital. Desse modo, surge uma
penalização direcionada aos mais frágeis do sistema capitalista 349.
Nesse processo de democratização que ocorre no Brasil contemporâneo, mesmo já se
passando duas décadas após a ditadura militar, percebe-se que poucas foram as mudanças
ocorridas na seara da Segurança Pública. Permanece o Estado penalizador arraigado na
institucionalização da criminalização da classe pobre. Sob a fachada de um Estado democrático,
no qual o conceito de democracia fica apenas na teoria, percebe-se que o Estado vive um forte

347
WACQUANT, L. op cit, 2001. p.10.
348
WACQUANT, L. op cit, 2001. p.10.
349
CARVALHO. Vilobaldo de.; SILVA, Maria do Rosário de Fátima. Política de Segurança Pública no Brasil:
avanços limites e desafios. R. Katál, Florianópolis, v 14. Nº1, 2011. p.61.
76

paradigma de autoritarismo disfarçado.


De acordo com Adorno:

No Brasil, a reconstrução da sociedade e do Estado democráticos, após 20 anos do


regime autoritário, não foi suficientemente profunda para conter o arbítrio das
agências responsáveis pelo controle da ordem pública. Não obstante as mudanças dos
padrões emergentes de criminalidade urbana violenta, as políticas de segurança e
justiça criminal, formuladas e implementadas pelos governos democráticos, não se
diferenciaram grosso modo daquelas adotadas pelo regime autoritário. A despeito dos
avanços e conquistas obtidos nos últimos anos, traços do passado autoritário revelam-
se resistentes às mudanças em direção ao Estado democrático de Direito350.

Após a queda do regime militar, surge um novo paradigma de governo denominado


democrático. Nesse processo de transição da ditadura, a democracia enfrenta um grande
obstáculo: manter a Segurança Pública e resolver o problema da insegurança das cidades,
utilizando-se de seus órgãos de Segurança Pública sem ferir os princípios democráticos. A
dificuldade da promoção da Segurança Pública é solucionar esses conflitos sem se utilizar de
técnicas empregadas no tempo da ditadura militar, as quais não respeitam os Direitos Humanos
e a Dignidade da Pessoa Humana. A Constituição de 1988 deixou a desejar no que tange à
construção de uma política de Segurança Pública voltada a obedecer aos princípios de um
Estado Republicano, haja vista que os órgãos responsáveis pela promoção da Segurança Pública
não agiram de imediato de forma conjunta com o corpo social na construção democrática de
uma política de Segurança Pública capaz de dar uma resposta eficaz aos conflitos sociais do
país sem desrespeitar os Direitos Humanos351.
Nesse ínterim, Pereira destaca os interesses e as contradições peculiares às relações de
povo e de governo na construção da política de Segurança Pública:

Trata-se, pois, a política pública, de uma estratégia de ação, pensada, planejada e


avaliada, guiada por uma racionalidade coletiva na qual tanto o Estado como a
sociedade desempenham papéis ativos. Eis porque o estudo da política pública é
também o estudo do Estado em ação (Meny e Toenig) nas suas permanentes relações
de reciprocidade e antagonismo com a sociedade, a qual constitui o espaço
privilegiado das classes sociais352.

Percebe-se que à medida que a sociedade se organiza através de instituições


representativas permite uma maior representatividade frente ao Estado. A sociedade organizada

350
ADORNO, S. op cit, 1996. p. 233.
351
CARVALHO. Vilobaldo de. E SILVA, Maria do Rosário de Fátima. Op cit, 2011. p.61.
352
PEREIRA, P. A. P. Discussões conceituais sobre política social como política pública e de direito de
cidadania. In: BOSCHETTI, I. (Org.). Política social no capitalismo: tendências contemporâneas. São Paulo:
Cortez, 2009. p. 96.
77

possui um maior poder de barganha, e de forma conjunta com o ente estatal passam a
desenvolver políticas de Segurança Pública com maior eficiência voltada para a realidade
social. Passando a entender a Política Pública como algo a ser pensado e a ser planejado e
constantemente avaliado de forma conjunta entre sociedade e Estado, uma vez que ambos
desempenham papéis ativos em um contexto social. Haja vista que a matéria de Política Pública
deve ser tradada com maior relevância entre Estado e sociedade, desenvolvendo relações de
empatia e reciprocidade353.
De acordo com Farah, as Políticas Públicas desenvolvidas pelo Brasil nos anos 1980,
tinham como principais características a centralização de suas decisões, as quais delineavam as
políticas de Segurança Pública Nacional, bem como toda questão financeira centralizada.
Também ocorria uma fragmentação institucional pelo caráter setorial, e a principal
característica desta política de Segurança Pública era a exclusão por completo da sociedade
civil na participação da criação e da elaboração de políticas ou programas de Segurança
Pública354.
Para o bom funcionamento das políticas de Segurança Pública, faz-se necessário o
envolvimento de diversas esferas governamentais, bem como dos poderes da República
Federativa. Portanto, cabe ao Poder Executivo toda a parte da gestão e o planejamento de forma
conjunta com a sociedade, a fim de desenvolver políticas de Segurança Pública que visem a
prevenir e a reprimir a criminalidade 355, a violência, bem como a execução penal, de forma que
não se firam os Direitos Humanos e tampouco a Dignidade da Pessoa Humana. Já o Poder
Judiciário fica incumbido de assegurar o devido processo legal e a aplicação da legislação
vigente aos delitos cometidos dentro de sua jurisdição356. Fica a encargo do Poder Legislativo
a criação de leis 357, as quais sejam eficazes ao funcionamento adequado do sistema de justiça
criminal, bem como em consonância à dignidade da pessoa humana e ao respeito aos direitos
humanos.
Embora a Constituição Federal de 1988 tenha desenvolvido sistemas de Segurança
Pública em que se estabelecem responsabilidades legais ao Estado a fim de promover a
Segurança Pública de forma individual e coletiva, no Brasil, entretanto, essas políticas de

353
PEREIRA, P. A. P. op cit, 2009. p. 96
354
FARAH, M. F. dos S. Parcerias, novos arranjos institucionais e políticas públicas no nível local de
governo. In: FERRAREZI, E.; SARAIVA, E. (Org.). Políticas públicas, Brasília: ENAP, 2006. (Coletânea, v. 2).
p. 189 e 190.
355
CARVALHO. Vilobaldo de.; SILVA, Maria do Rosário de Fátima. Op cit, 2011. p.62..
356
LENZA, Pedro. Direito Constitucional esquematizado. 13 ed. rev. Atual. E ampl. São Paulo: Saraiva, 2009.
p. 713.
357
LENZA, Pedro. op cit, 2009. p. 354.
78

Segurança Pública são impróprias para a realidade social. Segundo Sapori, não há eficácia na
forma de planejar, monitorar e avaliar os resultados obtidos no combate à criminalidade, muito
menos um emprego eficiente do erário Público na promoção da Segurança Pública. Tanto na
esfera Federal quanto na Estadual, as políticas de Segurança Pública dos últimos 20 anos se
resumem em dar resposta tão somente a acontecimentos imediatistas de conflitos de ordem
pública, não tratando o problema em sua origem358. Nas palavras de Sapori:

Planejamento, monitoramento, avaliação de resultados, gasto eficiente dos recursos


financeiros não têm sido procedimentos usuais nas ações de combate à criminalidade,
seja no executivo federal, seja nos executivos estaduais. Desse ponto de vista, a
história das políticas de segurança pública na sociedade brasileira nas duas últimas
décadas se resume a uma série de intervenções governamentais espasmódicas,
meramente reativas, voltadas para a solução imediata de crises que assolam a ordem
pública359.

Sob uma ótica mais humanista, a Segurança Pública deveria ser entendida como um
processo “sistêmico e otimizado” em que a sociedade e o Estado de forma conjunta
desenvolvam ações de políticas públicas, as quais busquem certificar a proteção dos Direitos
Humanos estendendo-os a toda a coletividade. Desse modo, ocorrerá uma justiça mais
equânime em sua forma de agir, haja vista que esta justiça teria por escopo a recuperação e
tratamento de todos aqueles que em algum momento acabaram por violar a lei. Esse processo
de recuperação respeitaria a cidadania de todos e promoveria a dignidade da pessoa humana 360.
De acordo com Bengochea:

A segurança pública é um processo sistêmico e otimizado que envolve um conjunto


de ações públicas e comunitárias, visando assegurar a proteção do indivíduo e da
coletividade e a ampliação da justiça da punição, recuperação e tratamento dos que
violam a lei, garantindo direitos e cidadania a todos. Um processo sistêmico porque
envolve, num mesmo cenário, um conjunto de conhecimentos e ferramentas de
competência dos poderes constituídos e ao alcance da comunidade organizada,
interagindo e compartilhando visão, compromissos e objetivos comuns; e otimizado
porque depende de decisões rápidas e de resultados imediatos361.

Nesse panorama, percebe-se que, a fim de que haja uma maior eficácia nas ações
governamentais no combate à violência e à criminalidade, deve haver uma cooperação entre
sociedade e Estado. Desse modo serão desenvolvidas políticas de Segurança Pública que dizem

358
SAPORI, L. F. Segurança pública no Brasil: desafios e perspectivas. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007. p.
109.
359
SAPORI, L. F. op cit, 2007. p. 109.
360
BENGOCHEA, J. L. et al. A transição de uma polícia de controle para uma polícia cidadã. Revista São
Paulo em Perspectiva, v. 18, n. 1, 2004. p. 119-121.
361
BENGOCHEA, J. L. et al. Op cit, 2004. p. 120.
79

respeito à realidade fática social com a observância aos Direitos Humanos e à Dignidade da
Pessoa Humana. O tema Segurança Pública somente passou a ser debatido como “dever do
Estado e responsabilidade de todos”, após uma década da promulgação da “Constituição
Cidadã”. Nessa ocasião, as políticas de Segurança Pública passaram a ser compreendidas sob o
prisma de uma sociedade Republicana, a qual está pautada na proteção dos Direito Humanos e
na Dignidade da Pessoa Humana. Nesse diapasão, no ano de 2000, cria-se o Plano Nacional de
Segurança Pública (PNSP). Sete anos mais tarde é criado o então Programa Nacional de
Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), os quais trazem novas luzes aos problemas
relacionados à Segurança Pública 362.
Após a influência exercida pela Conferência Mundial de Direitos Humanos, ocorrida
em Viena no ano de 1993, o então Presidente Fernando Henrique Cardoso cria, no ano de 1996,
o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). Esse programa passou por algumas
otimizações e, no ano 2000, foi instituído o II Programa Nacional de Direitos Humanos,
ocorrido após a IV conferência Nacional de Direitos Humanos de 1999. O objetivo do novo
programa era demonstrar uma reorganização da gestão em Segurança Pública. Já no ano de
1995, o Governo Federal cria a Secretaria de Planejamento de Ações Nacionais de Segurança
Pública (Seplanseg), a qual se encontra na seara do Ministério da Justiça. Entretanto, no ano de
1998, essa secretaria é modificada para Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), e
seu escopo era funcionar de forma conjunta com todos os Estados pertencentes à Federação,
como se cada um desses fosse uma engrenagem com o objetivo de implementar a política
nacional de Segurança Pública em todo o território nacional. A instituição da Senasp,
pertencente ao órgão do Executivo, teve o condão de melhorar os sistemas de gerenciamento
administrativo no que tange à Segurança Pública Nacional. Desse esforço, surge o Plano
Nacional de Segurança Pública (PNSP). Esse plano evoca-se ao combate da violência no país,
agindo primordialmente nas áreas com maiores conflitos sociais e com maior criminalidade.
Outra finalidade deste plano é a otimização das ações do órgão de Segurança Pública de modo
que passem a respeitar os Direitos Humanos e a Dignidade da Pessoa Humana363.
Lopes considera o Plano Nacional de Segurança Pública como a primeira política
nacional e democrática em Segurança Pública. Política essa que é voltada ao incentivo
tecnológico e ao aperfeiçoamento da sistemática de integração na qual as políticas de Segurança
Pública agem em consonância com a sociedade. Nas palavras do autor:

362
CARVALHO. Vilobaldo de.; E SILVA, Maria do Rosário de Fátima. Op cit, 2011. p.62.
363
CARVALHO. Vilobaldo de.; E SILVA, Maria do Rosário de Fátima. Op cit, 2011. p.62 e 63.
80

O Plano Nacional de Segurança Pública de 2000 é considerado a primeira política


nacional e democrática de segurança focada no estímulo à inovação tecnológica; alude
ao aperfeiçoamento do sistema de segurança pública através da integração de políticas
de segurança, sociais e ações comunitárias, com a qual se pretende a definição de uma
nova segurança pública e, sobretudo, uma novidade em democracia364.

Evidentemente que o uso de novas tecnologias contribui significativamente no auxílio


à Segurança Pública, uma vez que torna mais eficaz suas ações. Nesse ínterim, o uso de
tecnologias de ponta recomendadas pelo PNSP é entendido como tática de ação. O PNSP traça
uma nova “doxa” em Segurança Pública, por meio da qual procura a repressão e a prevenção a
todo e qualquer tipo de criminalidade ocorrida em território nacional. A fim de angariar recursos
financeiros para custear o PNSP, no mesmo ano em que este é criado, surge o Fundo Nacional
de Segurança Pública (FNSP). Mas apesar desses volumosos investimentos financeiros e
avanços tecnológicos em Segurança Pública, não se garantiram resultados satisfatórios. Nesse
entendimento, Fernando Salla aduz:

O Plano Nacional de Segurança Pública [...] compreendia 124 ações distribuídas em


15 compromissos que estavam voltadas para áreas diversas como o combate ao
narcotráfico e ao crime organizado; o desarmamento; a capacitação profissional; e o
reaparelhamento das polícias, a atualização da legislação sobre segurança pública, a
redução da violência urbana e o aperfeiçoamento do sistema penitenciário. Uma
novidade é que no plano, além dessas iniciativas na área específica de segurança, eram
propostas diversas ações na esfera das políticas sociais. O plano, no entanto, não
fixava os recursos nem as metas para ações. Ao mesmo tempo, não estavam
estabelecidos quais seriam os mecanismos de gestão, acompanhamento e avaliação do
plano365.

Nesse contexto, embora o PNSP compreendesse 124 ações e 15 compromissos voltados


para as mais diversas áreas ao combate ao narcotráfico e ao crime organizado em especial,
mesmo com todo o reaparelhamento das polícias e programas que combatessem a violência das
cidades, tratava-se de um plano inócuo, haja vista não possuir metas a serem alcançadas por
suas ações. O plano também não dispunha de fixação dos recursos destinados às referidas ações
e, além disso, era operacionalmente desajustado, tendo em vista que os mecanismos de gestão
não estavam estabelecidos. O plano também não passava por avaliações periódicas a fim de
atestar sua eficiência e eficácia. Nesse sentido, percebe-se que o PNSP demonstrou poucos
avanços práticos, e um total fracasso em seus objetivos 366.

364
LOPES, E. Política e segurança pública: uma vontade de sujeição. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009. p.
29.
365
SALLA, F. Os impasses da democracia brasileira: o balanço de uma década de políticas para as prisões
no Brasil. Revista Lusotopie, Paris, v. 10, 2003. p. 430.
366
SALLA, F. op cit, 2003. p. 419 – 435.
81

Nesse segmento, Adorno leciona que as políticas de Segurança Públicas não estão
conseguindo conter o crescimento da criminalidade, das violações dos Direito Humanos e da
violência de modo geral. Nas palavras do autor:

As políticas públicas de segurança, justiça e penitenciárias não têm contido o


crescimento dos crimes, das graves violações dos direitos humanos e da violência em
geral. A despeito das pressões sociais e das mudanças estimuladas por investimentos
promovidos pelos governos estaduais e federal, em recursos materiais e humanos e na
renovação das diretrizes institucionais que orientam as agências responsáveis pelo
controle da ordem pública, os resultados ainda parecem tímidos e pouco visíveis 367.

Os desafios a serem enfrentados, em relação à Segurança Pública, devem ser tratados


com maior seriedade e responsabilidade pelo Governo, com os olhos fitos na eficácia e
eficiência, devendo ser compreendidos como um processo extenso e complexo, a serem
confrontados tanto pela sociedade civil quando pelo Estado. Efetivamente, com a participação
da sociedade na criação de políticas de Segurança Pública, as ações tendem a ser mais eficazes
e eficientes em seus resultados. Também serão assim respeitados os Direitos Humanos e a
Dignidade da Pessoa Humana. Ao se implementarem tais medidas, busca-se de igual forma
respeitar a democratização de um Estado Republicano e como resultado de tais políticas em
Segurança Pública estar-se-á atendendo aos anseios da população.
Da mesma forma que o PNSP do governo Fernando Henrique Cardoso, a política de
Segurança Pública implementada no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
não obteve a eficácia esperada. Em 2007 cria-se, então, um novo programa voltado à Segurança
Pública, o qual é denominado Pronasci, tendo como base o segundo mandato do presidente
Lula368.
Esse programa tem por escopo a integração dos Estados em suas ações destinadas à
promoção da Segurança Pública. O objetivo principal do programa era combinar ações de
políticas sociais que prevenissem delitos e controlassem a criminalidade nos grandes centros
metropolitanos, já que nesses centros ocorrem altos índices de delinquência. Nesse sentido,
fixaram-se metas e destinaram-se investimentos que resultaram em avanços na formação das
Políticas Públicas e acabaram reestruturando todo seu sistema. Nesse sentido, Freire salienta
que o Pronasci:

Parte da natureza multicausal da violência e, nesse sentido, defende a atuação tanto


no espectro do controle como na esfera da prevenção, por meio de políticas públicas
integradas no âmbito local. Dessa forma, uma política pública de Segurança Cidadã

367
ADORNO, S. op cit, 2002. p. 8.
368
Dados disponíveis em: <http://www.mj.gov.br.pronasci>. Acesso em: 02 novembro 2015.
82

envolve várias dimensões, reconhecendo a multicausalidade da violência e a


heterogeneidade de suas manifestações369.

Freire evidencia que uma Política Pública Cidadã envolve várias dimensões, devido à
multicausalidade da violência. O Pronasci, nesse sentido, revela uma nova forma de
entendimento da Segurança Pública, que passa a desenvolver políticas públicas voltadas a
garantir a cidadania da população, sob um contexto de um Estado Democrático de Direito.
Evidencia-se a mudança no paradigma da Segurança Pública, o que contribui para o
fortalecimento da democracia, uma vez que tais políticas de Segurança Pública são voltadas ao
cidadão. Nas palavras de Freire, “na perspectiva de Segurança Cidadã, o foco é o cidadão e,
nesse sentido, a violência é percebida como os fatores que ameaçam o gozo pleno de sua
cidadania”370.
Freire ainda defende uma política de Segurança Pública Cidadã na qual se exige uma
abordagem multidisciplinar, a fim de ser mais eficiente ao combate à violência, uma vez que
suas causas são as mais diversificadas possíveis. Nas palavras do autor:

A perspectiva de Segurança Cidadã defende uma abordagem multidisciplinar para


fazer frente à natureza multicausal da violência, na qual políticas públicas
multissetoriais são implementadas de forma integrada, com foco na prevenção à
violência. Nesse sentido, uma política pública de Segurança Cidadã deve contar não
apenas com a atuação das forças policiais, sendo reservado também um espaço
importante para as diversas políticas setoriais, como educação, saúde, esporte, cultura,
etc371.

Nesse diapasão, percebe-se que o Pronasci desenvolve políticas de Segurança Pública


que acabam inovando na seara de políticas em Segurança Pública, uma vez que passam a tratar
a questão do enfrentamento da violência bem como a criminalidade de uma forma integrada
com ações sociais humanizadas o que, segundo o Ministério da Justiça, “articula políticas de
segurança com ações sociais; prioriza a prevenção e busca Política de segurança pública no
Brasil: avanços, limites e desafios atingir as causas que levam à violência, sem abrir mão das
estratégias de ordenamento social e segurança pública” 372.
Em suma, o Pronasci representa, em essência, políticas públicas que se baseiam em
princípios democráticos e humanitários, em que a participação do corpo social atua
constantemente na formação de uma cultura de paz, a ser implementada paulatinamente a médio

369
FREIRE, M. D. Paradigmas de segurança no Brasil: da ditadura aos nossos dias. Revista Brasileira de
Segurança Pública, Ano 3, edição 5, ago./set. 2009. p. 105 e106.
370
FREIRE, M. D. op cit, 2009. p. 107.
371
FREIRE, M. D. op cit, 2009. p. 107.
372
Dados disponíveis em: <http://www.mj.gov.br.pronasci>. Acesso em: 02 novembro 2015.
83

e a longo prazo. Tomam-se medidas que buscam atenuar a violência e a criminalidade, por meio
de estratégias como a criação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), as quais são
implementadas em zonas urbanas com altos índices de criminalidade e de violência 373.
O Estado, ao reconhecer a necessidade de reorientar estratégias em ações de controle
com a devida manutenção da Segurança Pública, passa a ocupar zonas urbanas conflituosas
pela criminalidade e pela violência, através da instalação das Unidades de Polícia Pacificadoras,
o que contribui para a redução dos índices de criminalidade, entretanto, isso ocorre de forma
limitada, ficando restrita à área de implementação das UPPs. Por outro prisma, isso pode
significar a reintegração do Estado, passando a se fazer presente nas áreas retomadas, exercendo
um maior controle territorial. Também sobre outro aspecto, o Estado pode ser percebido como
um aparelho garantidor dos direitos básicos da classe pobre ao exercício da cidadania, o que é
característico de um Estado Democrático de Direito 374.
Na busca pela redução da criminalidade e da violência no âmbito do Pronasci, o tema
Segurança Pública tem sido objeto, constantemente, de diálogos nos mais variados segmentos
da sociedade. Partindo de premissas reelaboradas a partir de conferências ocorridas nos âmbitos
municipais, estaduais e conferências organizadas pelas entidades representantes da sociedade
civil, no ano de 2009, o Governo Federal realizou a 1ª Conferência Nacional de Segurança
Pública (Conseg). Essa Conferência possibilitou a reelaboração de forma democrática dos
princípios e das diretrizes que foram fundamentais para que se desenvolvessem programas
centrados na segurança pública, os quais levam em conta a realidade social de cada localidade,
com a participação tanto da classe trabalhadora quanto da sociedade civil, a fim de que se
desenvolvesse de forma integrada a nova política de Segurança Pública 375.
Esta primeira Conferência em Segurança Pública tinha como principal objetivo discutir
a forma de gestão democrática bem como:

Controle social e externo, integração e federalismo; financiamento e gestão da política


de segurança; valorização profissional e otimização das condições de trabalho;
repressão qualificada da criminalidade; prevenção social dos crimes e das violências
e construção da cultura de paz; diretrizes para o sistema penitenciário e diretrizes para
o sistema de prevenção, atendimentos emergenciais e acidentes 376.

Com a primeira Conferência Nacional de Segurança Pública, possibilitou-se a


cooperação da sociedade civil, através de suas entidades representativas, na elaboração das

373
CARVALHO. Vilobaldo de.; SILVA, Maria do Rosário de Fátima. op cit, 2011. p.65.
374
CARVALHO. Vilobaldo de.; SILVA, Maria do Rosário de Fátima. op cit, 2011. p.65.
375
CARVALHO. Vilobaldo de.; SILVA, Maria do Rosário de Fátima. op cit, 2011. p.65.
376
Dados disponíveis em: <http:// www.mj.gov.br.conseg>. Acesso em: 03 novembro 2015.
84

novas políticas em Segurança Pública. O que contribuiu de forma significativa para o avanço
dessas políticas foi a participação da sociedade na elaboração de diretrizes e princípios
norteadores, ocasionando o fortalecendo do modelo democrático. Obtiveram-se, como
resultado dessa discussão, dez princípios e quarenta diretrizes os quais serviram de alicerce das
políticas de Segurança Pública em todo âmbito Nacional, ficando definidos como princípios
dessa política:

Ser uma política de Estado que proporcione a autonomia administrativa, financeira,


orçamentária e funcional das instituições envolvidas, nos três níveis de governo, com
descentralização e integração sistêmica do processo de gestão democrática,
transparência na publicidade dos dados e consolidação do Sistema Único de
Segurança Pública (SUSP) e do Programa Nacional de Segurança Pública com
Cidadania (Pronasci), com percentual mínimo definido em lei e assegurando as
reformas necessárias ao modelo vigente377.

Com as Conferências Nacionais de Segurança Pública, surgiu um novo paradigma de


Segurança Pública, no qual se criou uma política de Estado. Isso significa dizer que a sociedade
toma parte na criação e na elaboração das políticas a serem implementadas, saindo de um
paradigma retrógado no qual ocorria uma política de Governo na qual não havia a participação
da sociedade. Com isso, evidencia-se uma evolução, pelo menos de forma teórica, no que diz
respeito às políticas de Segurança Pública, restando avaliar os resultados práticos. Por óbvio
que os princípios e diretrizes elencados nas Conferências Nacionais de Segurança Pública, por
si só, não subsistem, pois necessitam do acompanhamento da sociedade, que desempenha um
papel fundamental na implementação e manutenção de tais políticas, através de suas
reinvindicações, acompanhamentos e fiscalizações, o que se dá através de seus órgãos
representativos378.
Conclui-se que a colaboração da sociedade civil – através de seus representantes – na
criação de políticas de Segurança Pública, contribuirá para tornar tais políticas mais justas,
humanizadas, respeitadoras dos Direitos Humanos, bem como da Dignidade da Pessoa
Humana, uma vez que tornará possível o controle dessas políticas pela sociedade, a qual age
conjuntamente, tirando do Estado o monopólio das decisões.
Nos últimos dez anos, têm sido corriqueiros os debates em Segurança Pública na busca
por uma política que respeite o Estado Republicano. Os Fóruns Brasileiros de Segurança
Pública (FBSP) têm reunido autoridades e estudiosos do assunto de todo o mundo, na busca de
soluções mais adequadas para enfrentar o problema da criminalidade e da violência pública. Ao

377
Dados disponíveis em:<http:// www.mj.gov.br.conseg>. Acesso em: 03 nov 2015.
378
CARVALHO. Vilobaldo de.; SILVA, Maria do Rosário de Fátima. op cit, 2011. p.65.
85

se perpetuar programas como o Pronasci e as Conferências Nacionais de Segurança Pública,


estes consequentemente passaram a reestruturar o Conselho Nacional de Segurança Pública
(Conasp), o que traduz a angariação de maiores espaços, os quais, por sua vez, possibilitam
maiores discussões dos temas voltados à Segurança Pública. Obtém-se, assim, políticas mais
humanizadas, com significativos avanços na eficiência e na eficácia, haja vista que são sensíveis
às peculiaridades e às necessidades de cada área na qual serão implementadas 379.
Nessa seara de políticas em Segurança Pública, vive-se um constante debate entre o
emprego de ações repressivas ou preventivas. A primeira opção relaciona-se com políticas de
lei e ordem típicas de um direito penal mais recrudescido. Já a segunda alternativa se assemelha
a políticas mais humanistas, que investem em políticas de ressocialização, inclusão,
investimentos na educação, redução da desigualdade social, o que se aproxima mais dos direitos
humanos. Nesse diapasão, Adorno leciona sobre os desafios dos governos democráticos:

Salir de este círculo cerrado que supone la aplicación de la ley y el orden para la
protección de los derechos humanos, como si fuesen domínios irreconciliables,
constituye el mayor desafio a las políticas públicas de seguridad y justicia formuladas
e implementadas por gobiernos democráticamente elegidos380.

No próximo subitem, serão trabalhadas as políticas de Segurança Pública vinculadas aos


presídios, bem como a produção da vida nua. Também abordar-se-á quem são esses cuja vida
não vale nada, qual é o perfil desse homo sacer produzido pela falência da Segurança Pública,
e como ficam os Direitos Humanos e a Dignidade da Pessoa Humana na relação do cárcere.

4.2 As políticas de segurança vinculadas aos presídios brasileiros e a produção da vida


nua

Ao analisar os dados de acompanhamentos dos números do encarceramento realizados


pelo mundo todo, fornecidos pelo International Centre for Prison Studies, uma organização
não governamental cuja sede encontra-se em Londres, verificar-se-á que o Brasil encontra-se
em quarto lugar no ranking mundial de população carcerária 381. Entretanto, se compararmos
com os demais países da América do Sul, verificar-se-á que o Brasil encontra-se em primeiro
lugar no número de aprisionamentos. Ao cortejar o número de presos em relação à população
de cada país em termos mundiais, sem levar em conta os inimputáveis, o Brasil encontra-se na

379
CARVALHO. Vilobaldo de.; SILVA, Maria do Rosário de Fátima. op cit, 2011. p.65.
380
ADORNO, S. Bordini, op cit, 2006. p. 48.
381
Dados disponíveis em: <http://www.prisonstudies.org/>. Acesso em: 06 nov 2015.
86

41ª posição. Devido à gravidade do problema, tem-se despertado o interesse de estudiosos,


pesquisadores e defensores dos Direitos Humanos, a fim de compreender os motivos desse
processo de encarceramento, a partir do qual a exceção tornou-se a regra382.
O que se depreende dos apontamentos do International Centre for Prison Studies é que
existe uma propensão em termos mundiais a um crescimento do cárcere, o que pode ser
consequência de políticas criminais e um recrudescimento do Direito Penal destinado a uma
parte específica da sociedade, ou seja, aos mais frágeis que se encontram em situação de
vulnerabilidade devido à sua situação econômica, bem como a cor de sua pele, o que é uma
total afronta aos Direitos Humanos e à Dignidade da Pessoa Humana.
Nesse prisma da seletividade carcerária, percebe-se que as instituições do sistema de
justiça focalizam sua exclusão, constrangimento e anulação de forma selecionada a certa
parcela da sociedade, o que por sua vez acaba gerando um tratamento diferenciado na seara da
Segurança Pública, da Justiça Criminal, e do direito penal. Zaffaroni leciona que: “se o sistema
penal tivesse realmente o poder criminalizante programado, provocaria uma catástrofe
social”383. Nesse ínterim, Schmidt ratifica o entendimento de Zaffaroni e complementa
afirmando que “se o poder punitivo formalizado incidisse em todos os crimes praticados,
teríamos o aprisionamento de todo o sistema social” 384. Nessas afirmações críticas da
criminologia, evidenciou-se um grande abismo no exercício de definir o que se deve considerar
crime. É evidente que só se criminaliza aquilo que é do interesse de quem legisla. Trata-se de
um poder criminalizante, o que demonstra que o sistema de justiça criminal age somente de
forma seletiva385.
Esse processo seletivo de criminalização desdobra-se em duas fases: a primeira fase
chamada de primária, e a segunda fase chamada de secundária. A criminalização primária,
segundo Zaffaroni, “é o ato e o efeito de sancionar uma lei penal material que incrimina ou
permite a punição de certas pessoas”386, ou melhor, trata-se de elaboração de leis criminais com
interesses políticos. A criminalização secundária diz respeito às ações punitivas por
determinadas pessoas de forma concreta. Segundo Zaffaroni, são aquelas ações realizadas por
juízes, policiais, promotores, delegados e agentes penitenciários. Após cumprida a primeira

382
Dados disponíveis em: <http://www.prisonstudies.org/>. Acesso em: 06 nov 2015.
383
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em Busca das Penas Perdidas: A Perda da Legitimidade do Sistema Penal.
5 ed. Rio de Janeiro: Revan, 2001. p. 26 e 27.
384
SCHMIDT, Andrei Zenkner. O Método do Direito Penal sob uma Perspectiva Interdisciplinar. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2007. p. 130.
385
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. op cit, 2001. p. 26 e 27.
386
ZAFFARONI, Eugenio Raúl; BATISTA, Nilo; ALAGIA, Alejandro; SLOKAR, Alejandro. Direito Penal
Brasileiro: Primeiro Volume – Teoria Geral do Direito Penal. 3 ed. Rio de Janeiro: Revan, 2006. p. 43.
87

etapa, na qual os legisladores selecionam o que consideram como crime, as agências policiais
selecionarão quais indivíduos serão criminalizados, uma vez que não será possível investigar,
processar e punir a todos387.
Nessa acepção, Andrade afirma que os agentes penais gozam de prerrogativas abissais
de discricionariedade na aplicação da norma em casos concretos, o que se evidencia através das
estatísticas, em especial no que se refere aos denominados “crimes de colarinho branco”.
Segundo a autora: “nem todo delito cometido é perseguido; nem todo delito perseguido é
registrado; nem todo delito registrado é averiguado pela polícia; nem todo delito averiguado é
denunciado; nem toda denúncia é recebida; nem todo recebimento termina em condenação” 388.
Essa seletividade de criminalização secundária direciona-se especificamente para
aqueles que fazem parte da população socialmente subalternizada. De acordo com Rusche e
Kirchheimer, partindo de uma perspectiva marxista, “todo sistema de produção tende a
descobrir formas punitivas que correspondem às suas relações de produção”389. Nesse
segmento, Zaffaroni revela que a intenção é estabelecer uma relação de pena e mercado de
trabalho, em que quanto mais pessoas forem aprisionadas, menor será a oferta de mão-de-obra
e, consequentemente, maior será o salário. A contrario sensu, quanto menos presos recolhidos
ao cárcere, maior será a oferta de mão-de-obra, ocasionando uma redução salarial390.
Nesse ínterim, percebe-se que o sistema de justiça criminal atua somente de forma
seletiva391. Segundo Vera Malaguti Batista, “a partir dessa escola, conhecida como labeling
approach, ocorre uma correção do próprio conceito de criminalidade: o que existe são
processos de criminalização. A criminalidade seria uma realidade social atribuída” 392. De
acordo com Baratta, “a criminalidade, mais que um dado preexistente comprovado
objetivamente pelas instâncias oficiais, é uma realidade social de que a ação das instâncias
oficiais é elemento constitutivo”393.
Percebe-se que, para a classe detentora do capital, suas infrações penais atraem pouca
atenção do direito penal. Nesse diapasão, para a classe hipossuficiente o direito penal é

387
ZAFFARONI, Eugenio Raúl; BATISTA, Nilo; ALAGIA, Alejandro; SLOKAR, Alejandro. op cit, 2006. p. 44
e 45.
388
ANDRADE, Vera Regina Pereira. A Ilusão de Segurança Júridica - do controle da violência à violência do
controle penal. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2015. p. 262 e 263.
389
RUSCHE, Georg; e KIRCHHEIMER, Otto. Punição e Estrutura Social. 2. ed. Rio de Janeiro: Revan –
Instituto Carioca de Criminologia, 2004. p. 20.
390
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. op cit, 2011. p. 156.
391
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. op cit, 2001. p. 26 e 27.
392
BATISTA, Vera Malaguti. Introdução Crítica à Criminologia Brasileira. Rio de Janeiro: Revan, 2011. p.
77.
393
BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: Introdução à Sociologia do Direito
Penal. 3. ed. Rio de Janeiro, Revan: Instituto Carioca de Criminologia, 2002. p. 179.
88

percebido como mais repressivo e encarcerador, haja vista o elevado rigor no preceito
secundário da pena, desdobrando-se em um punitivismo mais exacerbado focalizado naqueles
delitos característicos da classe pobre, tal como os crimes patrimoniais, tráfico de drogas e
homicídios394.
Para esta parcela da sociedade, dotada de parcos recursos, a vida passa a não valer nada,
ficando em total abandono, passando e ser excluída do convívio social, anulando a vida deste
indivíduo através da prisão, obtendo-se assim uma vida nua, desqualificada e sem valor, uma
vida totalmente desamparada pelos Direito Humanos. Agamben denomina esta vida nua de vida
desqualificada. Trata-se de uma vida semelhante à vivida por uma obscura figura do direito
romano arcaico, o homo sacer, pois trata-se de uma vida matável, uma vez que é considerada
impura e situa-se no cruzamento entre uma matabilidade e uma sacrificabilidade 395. Para esse
indivíduo impõe-se um limite no seu agir, criando um estado de exceção, suspendendo-se a lei,
transformando-o em uma vida nua396. Segundo Reyes Mate, ao interpretar a tese de Walter
Benjamin, percebe-se que, para este, o estado de exceção é a regra dos oprimidos “algo
tremendo porque está reconhecendo que a democracia dos Estados democráticos é só para
alguns”397. Nos tempos contemporâneos, esses oprimidos dizem respeito àqueles não inseridos
na sociedade de consumo, o que segundo Wacquant, ao referir-se ao modelo contemporâneo de
governo em um paradigma de estado neoliberal, determinou-se “uma verdadeira ditadura sobre
os pobres”398. Nesse contexto, Agamben define a vida nua de homo sacer como um abandono
dos Direitos Humanos, na qual o Estado exerce o verdadeiro poder de morte e abandono 399.
A fim de se compreender melhor a seletividade do sistema carcerário, far-se-á uma
análise dos perfis da população carcerária no Brasil, de modo a se averiguar a existência de um
estereótipo dos que serão considerados suspeitos. A partir do perfil das pessoas aprisionadas no
Brasil, de acordo com dados fornecidos pelo InfoPen, e com o escopo de compreender o
fenômeno do hiperencarceramento, esses dados permitirão a compreensão da distribuição da
população carcerária em todo país. Referindo-se a gênero, cor da pele, raça declarada, faixa
etária, nível de escolaridade, tipos de delitos, tempo do preceito secundário, peculiaridade
processuais, prisionais, bem como a porcentagem de segregação entre pessoas declaradas

394
SINHORETTO, Jacqueline. Mapa do encarceramento: Os jovens do Brasil. Secretaria – Geral da
Presidência da República/ Secretaria Nacional de Juventude, Brasil. 2015. p. 13.
395
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2010. p. 76.
396
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2010. p. 84.
397
MATE, Reyes. Meia Noite na História: Comentários às teses de Walter Benjamin Sobre o conceito de
história. São Leopoldo: Unisinos, 2011. p. 162.
398
WACQUANT, Löic. op cit, 2001. p. 10.
399
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2010. p. 85.
89

brancas e negras400.
Salienta-se que a desigualdade relacionada à aplicação de regras e a procedimentos
judiciais difere entre grupos sociais e raciais. Estudos indicam que se aplicam penas mais
recrudescidas a indivíduos de cor negra, comparada às penas aplicadas às pessoas brancas.
Mesmo com a alteração do paradigma da ditadura militar para o regime democrático não houve
contribuição para a retificação desta desigualdade social e racial na seara da justiça criminal401.
Vargas aponta que, nos crimes contra a liberdade sexual, na fase judicial, quando do
oferecimento da denúncia, a percentagem entre negros e brancos é muito similar. No entanto,
negros e pardos possuem o maior índice de condenação 402. Nesse sentido, Lima e Sinhoretto,
com base em pesquisas realizadas no ano de 1991 a 1998 no estado de São Paulo, sustentam
que réus de cor negra são mais propensos a serem condenados do que réus de cor branca 403.
De acordo com dados fornecidos, juntamente com o INFOPEN404, tornou possível
quantificar a massa carcerária no Brasil, tomando como parâmetro o período de 2005 a 2012.
Nesse período, percebe-se que houve um aumento de 74% da massa carcerária brasileira. No
ano de 2005 havia 296.919 presos, sete anos mais tarde esse número passou para 515.482
presos405. Deste montante, 190.828 encontravam-se presos no Estado de São Paulo, ou seja, um
terço da população carcerária do país. Minas Gerais aparecia em segundo lugar, no que tange à
população carcerária com a expressão de 45.540 presos406.
Outra constatação que se percebe, através dos dados do IMFOPEN, é a superlotação
carcerária, o que desrespeita os Direitos Humanos bem como a Dignidade da Pessoa Humana.
A fim de que se efetuasse este parâmetro tem-se o ano de 2012 por base. Foram empreendidos
cálculos nos quais se leva em conta o número de presos pelo número de vagas no sistema
carcerário. Neste momento, não se levou em conta o tipo de regime do cumprimento da pena.
O estado que apresenta o maior déficit de vagas no sistema prisional é o estado de Alagoas,
sendo que para cada 3,7 presos existe apenas uma vaga. O segundo estado também é do
Nordeste: Pernambuco apresenta 2,5 presos para cada vaga que possui. Logo em seguida, vem

400
SINHORETTO, Jacqueline. op cit, 2015. p. 13.
401
SINHORETTO, Jacqueline. op cit, 2015. p. 13.
402
VARGAS, Joana Domingues. Indivíduos sob suspeita: a cor dos acusados de estupro no fluxo do sistema
de justiça criminal. Dados [online], v. 42, n. 4, 1999.
403
LIMA, Renato Sérgio de; TEIXEIRA, Alessandra; SINHORETTO Jacqueline. Raça e gênero no
funcionamento da justiça criminal. Boletim IBCCrim, n. 125, 2003.
404
Dados disponíveis em: < http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-
terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf >. Acesso em 07 nov 2015.
405
Dados disponíveis em: < http://www.justiça.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-
terça-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf >. Acesso em: 07 nov 2015.
406
LIMA, Renato Sérgio de; TEIXEIRA, Alessandra; SINHORETTO Jacqueline. Raça e gênero no
funcionamento da justiça criminal. Boletim IBCCrim, n. 125, 2003.
90

Amapá e Amazonas. Em termos gerais, o Brasil apresenta como média 1,7 presos para cada
vaga que possui no sistema carcerário, o que se evidencia a superlotação do sistema carcerário
brasileiro, em flagrante afronta aos Direitos Humanos, produzindo a verdadeira condição de
homo sacer.
Nesse sentido, Agamben leciona: trata-se da exclusão do homo sacer largado à zoé, uma
vida desqualificada e sem valor, objeto eminente de cálculo do poder estatal, onde a exceção
do cárcere e seu desrespeito tornou-se a regra, refere-se ao espaço destinado à vida nua, uma
vez que esses indivíduos se encontram à margem do ordenamento jurídico, mas ao alcance
deste, coincidindo com o espaço político de “exclusão e inclusão, externo e interno”, a zoé que
acaba entrando em “uma zona de irredutível indistinção” 407.
No que diz respeito à população carcerária no Brasil, 38% corresponde a presos
provisórios, os quais ficam na custódia do Estado aguardando julgamento. Desse montante,
61% dos presos são condenados e já estão cumprindo pena e 1% corresponde aos que estão sob
medida de segurança. Dos presos que já possuem sentença condenatória e estão cumprindo
pena, 69% encontram-se no regime fechado, no regime semiaberto 24% e apenas 7% no regime
aberto. Os números totais correspondem 218.694 encarcerados no regime fechado, 75.053 no
cumprimento da pena em regime semiaberto e 22.324 no regime aberto408.
No que tange ao gênero da população carcerária do Brasil, predomina a população
masculina 409, embora o CNJ (por extenso) aponte um aumento em 567% da população
carcerária feminina em quinze anos, subindo de 5.601 detentas em 2000 para 37.380 em 2014.
A maioria dos casos se deu pelo tráfico de drogas, correspondendo a 68% das prisões. O InfoPen
pela primeira vez faz uma análise mais profunda relacionada a gênero 410.
Mesmo com o aumento de 567% da população carcerária feminina no Brasil, isso
corresponde a 6,4% do total da população carcerária nacional. O que chama atenção é que a
taxa de mulheres presas no país é superior ao crescimento geral da população carcerária,
correspondendo a 119% de aumento no mesmo período comparado até 2014. Em termos gerais,
a população carcerária feminina está na quinta posição em comparação com outros países,
ficando apenas atrás dos Estados Unidos (205.400 detentas), China (103.766), Rússia (53.304)

407
AGAMBEN, Giorgio. op cit, 2010. p. 16.
408
Dados disponíveis em: <http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-
terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf>. Acesso em: 07 nov.
409
Dados disponíveis em: <http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-
terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf>. Acesso em: 08 nov 2015.
410
Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/80853-populacao-carceraria-feminina-aumentou-
567-em-15-anos-no-brasil>. Acesso em: 08 nov 2015.
91

e Tailândia (44.751)411.
Com relação ao perfil da população carcerária feminina no Brasil, aproximadamente
30% estão presas provisoriamente. O estado de Sergipe adquire um destaque negativo, em que
99% das detentas são provisórias. São Paulo consta com 9% que estão aguardando julgamento.
Pesquisas também apontam que 68% das mulheres presas são de cor negra, 31% brancas e 1%
amarela. No estado do Acre, no ano de 2014, 100% das detentas eram negras. O Ceará vinha
em segundo lugar com 94% de sua população carcerária feminina negra, e, a seguir, o estado
da Bahia com 92% de detentas negras412.
Em relação à faixa etária, 50% são mulheres que têm entre 18 e 29 anos; 18% entre 30
e 34 anos; 21% entre 35 e 45; 10% entre 46 e 60 e 1% tem idade igual ou superior a 61 anos.
No que se relaciona à escolaridade, 11% possui ensino médio, 50% ensino fundamental
incompleto, 34% ensino médio completo, 4% são analfabetas, e com nível superior menos de
1%413.
Segundo dados do INFOPEN, com relação aos tipos de estabelecimentos penitenciários,
o Brasil possui 1412 unidades prisionais, apenas 103 são exclusivamente femininas num total
de 7%, 1070 masculinas e 239 mistas abrigando homens e mulheres. Das unidades exclusivas
das mulheres, poucas estão adequadas com estruturas mínimas. O atendimento médico é
precário e faltam médicos ginecologistas, obstetras e especialistas em saúde da mulher. 34%
das penitenciárias femininas possuem cela ou dormitório próprio para gestantes. Nas
penitenciárias mistas, esse número é de 6%; 32 % possuem berçário, 5% possuem creches 414.
Verifica-se, neste contexto, um total desrespeito aos Direitos Humanos e à Dignidade da Pessoa
Humana, uma vez que não se respeitam as condições mínimas de saúde, infraestrutura,
condições físicas para as mulheres e suas crianças.
Em relação à escolaridade dos detentos masculinos, a grande maioria não concluiu o
ensino fundamental. A menor parte possui ensino superior, entretanto, vem aumentando o
número de detentos que estão chegando ao ensino médio. Poucos são os analfabetos, uma
parcela quase que insignificante. Esses dados são precários, uma vez que são ausentes essas
modalidades de informações nos sistemas do INFOPEN, de modo geral415.

411
Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/80853-populacao-carceraria-feminina-aumentou-
567-em-15-anos-no-brasil>. Acesso em: 08 nov 2015.
412
Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/80853-populacao-carceraria-feminina-aumentou-
567-em-15-anos-no-brasil>. Acesso em: 08 nov 2015.
413
Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/80853-populacao-carceraria-feminina-aumentou-
567-em-15-anos-no-brasil>. Acesso em: 08 nov 2015.
414
Dados disponíveis em: < http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/80853-populacao-carceraria-feminina-aumentou-
567-em-15-anos-no-brasil>. Acesso em: 09 nov 2015.
415
Dados disponíveis em: <http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-
92

Através dos dados coletados, pode-se constatar que, nos anos de 2005 a 2012, a maior
parcela da população carcerária masculina era composta de jovens entre 18 e 24 anos.
Evidenciando uma maior concentração de jovens no que tange à população carcerária nacional.
Entretanto, está ocorrendo um aumento da população carcerária em todas as faixas etárias.
Outro fator que se destaca é a seletividade do sistema carcerário no que diz respeito à cor dos
apenados. Constata-se que no Brasil existem mais negros do que brancos cumprindo penas. No
ano de 2005, em números mais concretos, a população carcerária possuía 92.052 negros presos
enquanto o número de brancos correspondia a 62.569. Percebe-se então, que 58,4% da
população carcerária no ano de 2005 era composta por negros416.
Entretanto, no ano de 2012, houve um aumento da população carcerária de cor negra,
passando ao patamar de 60,8%, correspondendo a 292.242, para 175.536 brancos. É notório
que quanto mais cresce a população carcerária no Brasil, mais negros são aprisionados. A fim
de que se tenha uma maior percepção da seletividade racial do sistema penitenciário brasileiro,
deve-se levar em conta o número de brancos e o número de negros que compõem a sociedade.
Em 2012, para cada grupo de 100 mil habitantes brancos maiores de 18 anos, havia 191 brancos
no cárcere. Já com relação aos negros, esses números são bem mais expressivos, para cada 100
mil habitantes negros maiores de 18 anos, 292 encontravam-se encarcerados, segundo dados do
INFOPEN417.
Outro fator que aponta para a seletividade do sistema prisional Brasileiro é o etário. Ao
se fazer um comparativo de número de habitantes por número de jovens e não jovens
aprisionados ficou demonstrada essa seletividade etária. No ano de 2012, a cada grupo de 100
mil habitantes, acima de 18 anos, 648 são jovens. Já em relação aos não jovens, a cada 100 mil
habitantes acima de 18 anos, 251 têm mais de 29 anos. Ou seja, o número de jovens é quase
três vezes maior que o número de não jovens 418, o que evidencia a seletividade do sistema penal
brasileiro não só no que diz respeito à cor, mas também ao fator etário 419.
No sistema penal brasileiro, percebe-se uma forte tendência punitivista, na qual, os
operadores do Direito, mais especificamente aqueles da justiça criminal, corroboram para esses
acontecimentos. Percebe-se uma deficiência no exercício do direito de defesa do réu, bem como

terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf >. Acesso em: 09 nov 2015.


416
Dados disponíveis em: <http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-
terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf> Acesso em: 09 nov 2015.
417
Dados disponíveis em: <http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-
terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf>. Acesso em: 09 nov 2015.
418
Dados disponíveis em: <http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-
terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf>. Acesso em: 09 nov 2015.
419
Dados disponíveis em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12852.htm>. Acesso
em: 09 novembro 2015.
93

a complacência do Ministério Público em não fiscalizar as atrocidades que ocorrem no sistema


carcerário420. Ao avaliar o funcionamento do sistema carcerário brasileiro, com relação ao
tempo de prisão, percebe-se que 18,7% não precisariam estar encarcerados, haja vista que
29,2% dos encarcerados cumprem pena de quatro a oito anos de prisão, 18,7% cumprem pena
de até quatro anos. Dessa forma, 48% dos detentos poderiam estar cumprindo outras medidas
previstas no Código Penal421 o que contribui significativamente para a superlotação do sistema
prisional422.
Outro fator de extrema relevância para se evidenciar mais uma vez a seletividade do
sistema penal brasileiro é a tipificação dos crimes mais corriqueiros pelos quais a grande massa
carcerária cumpre pena. Analisando o período de 2008 a 2015, percebe-se que a grande
concentração de crimes diz respeito a delitos contra o património, correspondendo
aproximadamente a 50% das prisões. Logo em seguida, vêm os crimes relacionados ao tráfico
de drogas, correspondendo a 20% dos encarceramentos. Em terceiro lugar aparecem os crimes
contra a pessoa, que correspondem a 12% das prisões. Entretanto, esses crimes contra as
pessoas possuem uma peculiaridade, já que poucas vezes se chega aos culpados423. Conforme
nota do INFOPEN, as outras categorias de crimes se dividem em:

Na categoria outros estão inclusos os crimes que, ao longo dos anos analisados,
mantiveram representatividade igual ou menor que 5%. São eles: crimes contra os
costumes (4,1%), contra a paz pública (1,6%), contra a fé pública (0,9%), contra a
administração pública (0,2%), praticados por particular contra a administração pública
(0,2%), Estatuto da Criança e Adolescente (0,2%), genocídio (0%), crimes de tortura
(0%), contra o meio ambiente (0%), Lei Maria da Penha (0,6%) e Estatuto do
Desarmamento (5%)424.

Diante do contexto, é possível afirmar que existe uma seletividade no que tange ao
Sistema Carcerário Brasileiro, haja vista as políticas penais mais recrudescidas as quais punem
severamente a classe pobre, em que o perfil diz respeito em sua grande maioria a negros e a
jovens, os quais não possuem instrução ou a possuem em baixo nível. Além disso, são autores
de crimes patrimoniais, tráfico de drogas, crimes contra a pessoa, estes crimes em sua grande
maioria correspondendo a 82% dos encarceramentos. Também se destaca, como um dos fatores
do hiperencarceramento, o excesso de prisões provisórias no Brasil, correspondendo a quase
40%. Já entre os condenados em sua grande maioria correspondendo a 70% encontram-se

420
SINHORETTO, Jacqueline. op cit, 2015. p. 36.
421
NUCCI, Guilherme de Souza. op cit, 2011. p. 402.
422
SINHORETTO, Jacqueline. op cit, 2015. p. 36.
423
SINHORETTO, Jacqueline. op cit, 2015. p. 37.
424
SINHORETTO, Jacqueline. op cit, 2015. p. 37.
94

cumprindo pena no regime fechado, desses 29% têm uma pena a ser cumprida de quatro a oito
anos de reclusão425. E uma pequena parcela de aproximadamente 18% tem no máximo até
quatro426 anos de cumprimento de pena, que poderia ser substituída por outras medidas
diferentes da prisão, na maior parte dos casos. Fica demonstrado o descaso dos operadores do
Direito, em especial, os envolvidos com política criminal tais como o Ministério Público que
age como custos legis tendo por obrigação fiscalizar o que fica muito aquém do que se espera
de uma instituição de tamanha relevância social, e a Defensoria Pública que ainda se encontra
em uma situação frágil, devido sua infraestrutura em termos Nacionais. Resultado disso tudo é
que tornam corriqueiras notícias de que pessoas permanecem mais tempo presas do que
deveriam ficar.
Nesse ínterim, Andrade aborda a seletividade do sistema penal e também leciona a
respeito dos motivos que justificam a existência das prisões em um país como o Brasil. A autora
enfrenta essa temática em dois eixos. O primeiro relaciona-se ao discurso da criminologia e das
teorias das penas, no qual a prisão adquire uma legitimidade para todos aqueles que cometem
algum tipo de delito, passando a construir a figura e o conceito de criminoso. Nesse
entendimento, a prisão deveria combater todos que coincidissem com as características desse
conceito. O segundo eixo diz respeito aos verdadeiros escopos funcionais do cárcere, arraigado
na história e na criminologia crítica, o que deslegitima a política do encarceramento 427.
Com relação a esse conceito de criminoso, a autora se refere a práticas tidas como
criminosas por uma minoria de pessoas que se vinculam “aos baixos estratos sociais”, ou seja,
atribui-se o conceito de criminoso à classe pobre, passando também a vincular conceitos de alto
grau de periculosidade em que a prisão, nesses casos, passa a encontrar justificativas para sua
existência, uma vez que servirá de laboratório para sua regeneração. Segundo a autora:

Daí nasce um discurso sobre criminalidade que a associa com periculosidade e


violência individual, e justifica a existência de prisão com o ideal de tratamento dos
perigosos e de ressocialização dos delinquentes. Em torno desta promessa, que entrou
para a teoria jurídica com o nome de “função preventiva especial da pena”,
construindo-se uma arquitetura de conceitos, como personalidade, classificação de
criminosos, antecedentes, reincidência, progressão de regime, ou seja, o modelo do
Direito Penal do autor, e é este modelo que vai justificar e legitimar historicamente a
existência da prisão428.

425
Dados disponíveis em: <http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-
terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf>. Acesso em: 09 nov 2015.
426
NUCCI, Guilherme de Souza. op cit, 2011. p. 402.
427
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Pelas mãos da criminologia: o controle penal para além da
(des)ilusão. Rio de Janeiro: Revan; ICC, 2012. (Pensamento criminológico; 19) 1ª reimpressão, 2014. p. 304.
428
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 304 e 305.
95

Nesse discurso, em que se busca combater a criminalidade e os riscos da periculosidade


e da violência produzida pela classe pobre, percebe-se uma seletividade no que tange ao sistema
carcerário, haja vista o escopo em punir não quem comete qualquer tipo de crime, mas tão
somente aqueles crimes cometidos por essa classe pobre. Nessa visão classista, busca-se a
anulação dessa classe do baixo estrato social colocando-os em laboratórios carcerários429.
De acordo com Andrade:

A Criminologia tradicional construiu, com esse discurso, aquilo que a Criminologia


posterior (critica) veio chamar de ideologia penal dominante, em relação às funções
da pena, sobretudo de prisão, e aos seus destinatários, os indivíduos perigosos, daí
porque eu vou referir-me, aqui, a um defensivismo periculosista, ou seja, a uma
ideologia que vai simbolizar, para nós, que a prisão nos defende do crime na medida
em que ela é capaz de nos devolver o criminoso normalizado430.

Essa ideologia penal “defensiva-periculosista” é uma percepção mitológica dos


operadores do Direito e da sociedade com relação à função desempenhada pela prisão, haja
vista que o cárcere não normaliza ninguém, não recupera delinquente, apenas tem uma função
retributiva, ou seja, produzir o mal para quem pratica o mal. Essa função retributiva muito se
assemelha ao suplício do mundo medieval, o que é uma afronta aos Direitos Humanos431.
Com relação a esta seletividade realizada pelas agências incriminadoras, Zaffaroni
relaciona que se trata da exclusão daqueles que circulam em espaços públicos com um
estereótipo de características daquilo que foi rotulado como ser delinquente. Nas palavras do
autor, “as agências acabam selecionando aqueles que circulam pelos espaços públicos com o
figurino social dos delinquentes, prestando-se à criminalização”432.
Andrade assevera que a “pena da prisão é a pena por excelência do capitalismo, assim
como, por exemplo, o açoite foi a pena do escravismo” 433. Nessa função da pena sobre a lógica
capitalista, a prisão desempenha a função de manutenção e de reprodução da ordem social
capitalista, agindo de forma conjunta com outros tipos de mecanismos que corroboram com
esta lógica tal como o mercado de trabalho e a escola. O resultado disso é a “funcionalidade na
estrutura social capitalista”, bem como a reprodução da “desigualdade específica de classe no
capitalismo”434.

429
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 304 e 305.
430
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 305.
431
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 305.
432
ZAFFARONI, Eugenio Raúl; BATISTA, Nilo; ALAGIA, Alejandro; SLOKAR, Alejandro. op cit, 2006. p. 44-
46.
433
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 306.
434
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 306.
96

A prisão por excelência se define sobre a lógica do capitalismo, produzindo um controle


social, mais especificamente o controle da classe pobre, produzindo desigualdades sociais,
criando conceitos de criminosos, os quais são tidos como um inimigo interno do capital, e
produzindo seletividade435.
Nessa lógica, Andrade sustenta:

Essa construção do criminoso, essa construção social do inimigo interno, ocorre de


forma desigual, e esta desigualdade a Criminologia da reação social e crítica chamou
de seletividade, que aparece como lógica estrutural de funcionamento do sistema
penal, no qual a prisão ocupa um lugar fundamental porque a prisão vai estigmatizar
e perpetuar os indivíduos no status social onde eles se encontram e a evidencia da
seletividade no mundo ocidental fica clara com a observação da clientela da prisão. E
então nós perguntamos: para quem servem efetivamente as prisões no mundo
ocidental e no Brasil? Esta pergunta se responde, com certeza, a partir da realização
dos censos penitenciários brasileiros (1994) que visibilizaram estatisticamente o perfil
dos criminalizados no Brasil436.

Analisando esses apontamentos da autora de forma conjunta com o perfil analisado logo
acima, segundo dados do INFOPEN, não resta dúvida em se afirmar que a prisão é seletiva e
segue a lógica do capitalismo, o qual se utiliza do cárcere a fim de dar sustentabilidade à sua
(des)ordem. Passando a produzir desigualdade social, controle e exclusão da classe pobre,
criando para essa uma figura de inimigo interno, perigoso e violento. Nota-se que o interesse
na punição não é em punir todos que cometeram crimes, mas tão somente aqueles crimes
cometidos pela classe pobre, tal como os crimes patrimoniais e tráfico de drogas, o que
evidencia uma total seletividade dos clientes do cárcere437. Outra percepção é que não passa de
mito de uma ideologia defensiva-periculosista do senso comum dos operadores do Direito e da
sociedade a ressocialização e a recuperação do delinquente, uma vez que a prisão não é um
laboratório que ressocializa e recupera o delinquente, mas apenas o exclui do convívio social,
e retribui o mal com o próprio mal, o que mais se assemelha a um sistema penal medieval 438.
A fim de compreender a política contemporânea deste Estado de exceção e a figura de
homo sacer, criados pelo próprio Estado, Agamben leciona que essa estrutura estatal da
soberania implementada não se trata de um conceito jurídico, nem político, muito menos de
“norma suprema do ordenamento jurídico”, mas diz respeito a uma estrutura originária onde o
direito relaciona-se com a vida e a “inclui em si através da própria suspensão 439. De forma que

435
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 306 e 307.
436
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 307.
437
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 304 – 307.
438
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 304 – 307.
439
AGAMBEN, Giorgio. Op cit, 2010. p. 35.
97

a classe pobre ao ser encarcerada é excluída e posta a uma situação de exceção, em um


significado etimológico da exceção é a própria captura do homo sacer, o qual é posto para fora
incluindo-o neste novo paradigma jurídico-político por meio da sua própria exclusão 440.
Nesse paradigma que se implementou o Estado de Exceção, o soberano não fica limitado
a uma essência constitucional, aquela idealizada por Weimar, mas adquire um poder ilimitado
e, ao analisar a situação fática do perigo da Segurança Pública, passa a decidir e a expor a nudez
do bando, o que é característica do seu poder soberano, colocando-os em uma zona de exceção
onde não há mais legalidade ou ilegalidade em suas decisões, apenas existe um campo “híbrido
de direito e de fato, no qual os dois termos tornaram-se indiscerníveis”441.
Hannah Arendt compara esse estado de exceção, criado pelo cárcere, aos campos de
extermínio, já que ambos se assemelham e são regidos pelos mesmos princípios totalitários,
“onde tudo é possível”. Cria-se então um espaço onde a lei é inteiramente suspensa, onde o
“fato e direito se confundem sem resíduos, neles tudo é verdadeiramente possível 442.
Nesse discernimento, Agamben refere:

Se não se compreende esta particular estrutura jurídico-política dos campos, cuja


vocação é justamente a de realizar estavelmente a exceção, o incrível que aconteceu
dento deles permanece totalmente ininteligível. Quem entrava no campo movia-se em
uma zona de indistinção entre externo e interno, exceção e regra, licito e ilícito, na
qual os próprios conceitos de direito subjetivos e de proteção jurídica não faziam mais
sentido; além disso, se era um hebreu, ele já tinha sido privado, pelas leis de
Nuremberg, dos seus direitos de cidadão e, posteriormente, no momento da “solução
final”, completamente desnacionalizado. Na medida em que os seus habitantes foram
despojados de todo estatuto político e reduzidos integralmente a vida nua, o campo é
também o mais absoluto espaço biopolítico que jamais tenha sido realizado, no qual
o poder não tem diante de si senão a pura vida sem qualquer medição443.

Nesse ínterim, em que o Estado de Exceção tornou-se a regra, surge um espaço


biopolítico no qual seus ocupantes passam a ser despojados de todos e de quaisquer direitos,
ficando à mercê do poder do soberano, adquirindo uma vida sem valor, uma vida
desqualificada, uma vida nua, que se encontra fora do direito, mas ao alcance deste444.
Sequeira complementa:

Parece que as vidas do bandido, do abandonado, do exilado, do estrangeiro, tal qual a


do homo sacer, estão no limiar do direito e da lei, regidas pelo estado de exceção,
numa exclusão-inclusiva, numa lógica cruel, já que segrega, separa, e coloca-as à

440
AGAMBEN, Giorgio. Op cit, 2010. p. 166.
441
GAMBEN, Giorgio. Op cit, 2010. p. 166.
442
ARENDT, Hannah. apud GAMBEN, Giorgio. Op cit, 2010. p. 166.
443
GAMBEN, Giorgio. Op cit, 2010. p. 166 e 167.
444
GAMBEN, Giorgio. Op cit, 2010. p. 166 e 167.
98

mercê daquele que segregou, num processo de captura445.

Agamben ainda descreve a vida nua como consequência de uma transformação do “fato
e o fato em direito”, na qual esses dois planos possuem tendência a reverter-se em
indiscerníveis. Segundo o autor:

Não se compreende a especificidade do conceito nacional-socialista de raça – e,


juntamente, a peculiar imprecisão e inconsistência que o caracteriza – se esquece-se
que o corpo biopolítico, que constitui o novo sujeito político fundamental, não é uma
quaestio facti (como, por exemplo, a identificação de um certo corpo biológico) nem
uma quaestio iuris (a identificação de uma certa norma a ser aplicada), mas a aposta
de uma decisão política soberana, que opera na absoluta indiferenciação de fato e
direito446.

Diante desse contexto, comprovam-se os verdadeiros motivos do cárcere. Do mesmo


modo em que os campos de concentração foram utilizados como laboratórios em uma sociedade
totalitária, na qual se explorou as fronteiras da submissão e aniquilação, assim como as prisões
panópticas encontraram seu propósito supremo na vigilância perene, o que garantiu ao seu
interno o total controle de sua rotina, bem como a prisão de Pelican Bay foi planejada com o
escopo de excluir pessoas as quais já “habituadas à sua condição de excluída” 447, em que esses
indivíduos de vida nua448 eram excluídos em uma compreensão espaço-temporal449, como
características de técnicas de imobilização. As prisões da sociedade globalizada contemporânea
em tudo a isso se assemelham. Trata-se de “técnicas de confinamento espacial do lixo” 450 em
que se exclui todos aqueles que não estão inseridos na ótica do capitalismo 451, colocando
aqueles que foram rotulados como perigosos, violentos452, cometedores de crimes contra o
patrimônio, tráfico de drogas e contra a pessoa, em geral negros, pobres, jovens, analfabetos453,
em presídios, o que é um verdadeiro depósito de lixo humano 454.
Trata-se de uma forma de exclusão dessa classe pobre do convívio daqueles inseridos
no capitalismo. A questão do cárcere é extremamente preocupante, do ponto de vista ético, haja

445
SEQUEIRA, Vania Conselheiro. Uma vida que não vale nada: Prisão e Abandono Político-Social.
Universidade Presbiteriana Mackenzie. Psicologia ciência e profissão. 2006. p. 667.
446
GAMBEN, Giorgio. Op cit, 2010. p. 167.
447
BAUMAN, Zugmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p. 121 e
121.
448
GAMBEN, Giorgio. Op cit, 2010. p. 166.
449
BAUMAN, Zugmunt. Op cit, 1999. p. 121 e 121 e 122.
450
BAUMAN, Zugmunt. Op cit, 1999. p. 121 e 121 e 122.
451
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 306 – 307.
452
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op cit, 2014. p. 304.
453
Dados disponíveis em: <http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-
terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf>. Acesso em: 15 novembro 2015.
454
BAUMAN, Zugmunt. Op cit, 1999. p. 121 e 121 e 122.
99

vista que essas pessoas encarceradas, tidas como criminosos e perigosos, punidos em larga
escala, são “pessoas pobres e extremamente estigmatizadas que precisam mais de assistência
do que punição”455.
Com o escopo de amenizar o desrespeito aos Direitos Humanos trazidos pela
segregação, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) 456, está promovendo mutirões457 de Juízes,
Promotores, Defensores e Advogados, os quais visitam os estabelecimentos prisionais em cada
estado, analisando a situação processual dos apenados, tanto os provisórios quanto os
definitivos, na iniciativa de reduzir irregularidades relacionados à grande massa carcerária,
garantindo a aplicação correta das leis, em especial, a Lei de Execução Penal. O objetivo do
projeto é a promoção dos direitos fundamentais na seara prisional, o que vem ocorrendo desde
2008458.
Em resumo, os mutirões agem para assegurar o devido processo legal, revisando a
situação dos presos – tanto os definitivos quanto os provisórios –, e também para inspecionar
os estabelecimentos carcerários do país459.
Já surtem os efeitos dos beneficiários do programa, já que os números apontam para
mais de 400 mil processos analisados, a concessão de mais de 80 mil benefícios, tal como
progressão de regime, o direito de ter a liberdade de forma provisória, e o direito ao trabalho
externo, mais de 45 mil presos postos em liberdade de forma definitiva, pois já haviam
cumprido o tempo de sua pena460.
À frente do programa está o “Departamento de Monitoramento e Fiscalização do
Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas (DMF)”. O qual foi
instituído pela Lei de número 12.106, de dezembro de 2009. O órgão tem a incumbência de
fiscalizar as condições dos aprisionamentos, apurar as ações de reinserção dos presos no meio
social, acompanhar o trâmite dos processos criminais, bem como a execução penal e auxílio
aos adolescentes infratores461.
Alicerçado no programa mutirão, o Departamento de Monitoramento e Fiscalização

455
BAUMAN, Zugmunt. Op cit, 1999. p. 121 e 121 e 122.
456
LENZA, Pedro. op cit, 2009. p. 569.
457
Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/sistema-carcerario-e-execucao-penal/pj-mutirao-carcerario>.
Acesso em: 15 nov 2015.
458
Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/sistema-carcerario-e-execucao-penal/pj-mutirao-carcerario>.
Acesso em: 15 nov 2015.
459
Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/sistema-carcerario-e-execucao-penal/pj-mutirao-carcerario>.
Acesso em: 15 nov 2015.
460
Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/sistema-carcerario-e-execucao-penal/pj-mutirao-carcerario>.
Acesso em: 15 nov 2015.
461
Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/sistema-carcerario-e-execucao-penal/pj-mutirao-carcerario>.
Acesso em: 15 nov 2015.
100

aconselha a implementação de algumas diretrizes a serem acolhidas pelas instituições do


sistema de Justiça, em níveis federal, estadual e distrital, passando a desenvolver programas
como o “Começar de Novo”, que incentiva a capacitação profissional dos detentos, egressos do
sistema prisional, e aos condenados com penas alternativas, tanto adultos como adolescentes.
Esse programa também incentiva as empresas a dar oportunidades de trabalho aos egressos do
sistema carcerário. Com isso a empresa recebe o Selo “Começar de Novo”, concedida pelo
Conselho. O programa também prevê o saque do FGTS em contas pertencentes aos presidiários,
as quais permanecerem inativas por mais de três anos, abrindo a possibilidade do saque de igual
forma para os portadores de patologias graves. Esse programa já beneficiou mais de 27 mil
detentos462.
Outra política pública aplicada no sistema carcerário é o Plano Nacional de Segurança
Pública, o qual já foi abordado no subitem anterior, faltando apenas a abordagem das políticas
implementadas voltadas para o sistema prisional, o que não difere em nada, pois seguem nas
mesmas diretrizes, tal como aperfeiçoamento do sistema de Segurança Pública com base na
integração dessas políticas, bem como ações sociais e comunitárias, investimentos em
tecnologias que contribuem com a eficiência do sistema carcerário 463. O programa também
prevê o investimento em aparelhamento e qualificação profissional, capacitando seus
agentes464.
Os programas de Políticas Públicas de segurança implementados não foram capazes de
garantir a contenção de crimes, violações de direitos humanos, bem como a violência de modo
geral. Conforme leciona Adorno:

As políticas públicas de segurança, justiça e penitenciárias não têm contido o


crescimento dos crimes, das graves violações dos direitos humanos e da violência em
geral. A despeito das pressões sociais e das mudanças estimuladas por investimentos
promovidos pelos governos estaduais e federal, em recursos materiais e humanos e na
renovação das diretrizes institucionais que orientam as agências responsáveis pelo
controle da ordem pública, os resultados ainda parecem tímidos e pouco visíveis 465.

Nesse ínterim, percebe-se que ainda se tem muito a fazer em nome da Segurança
Pública. Isso torna-se evidente principalmente quando se analisam os relatórios das ações

462
Dados disponíveis em: <http://www.cnj.jus.br/sistema-carcerario-e-execucao-penal/pj-mutirao-carcerario>.
Acesso em: 15 nov 2015.
463
LOPES, E. Política e segurança pública: uma vontade de sujeição. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009. p.
29.
464
SALLA, F. Os impasses da democracia brasileira: o balanço de uma década de políticas para as prisões
no Brasil. Revista Lusotopie, Paris, v. 10, 2003. p. 430.
465
ADORNO, S. op cit, 2002. p. 8.
101

apontadas pela Senasp, que indicam ações a serem implementadas pelos Órgãos da Segurança
Pública, na seara de implementação do SUSP, notam-se limitações e contradições uma vez que
não é clara a inclusão do sistema prisional. Nesse diapasão, a fim de políticas públicas voltadas
aos sistemas prisionais mais eficazes, CARVALHO e SILVA lecionam que:

Estabelecer ações integradas no campo da segurança pública sem que o sistema


prisional, receptor dos resultados de ações policiais ou judiciais, dominado em alguns
estados pelo crime organizado, esteja contemplado, significa limitar as possibilidades
de atuação coordenada, tanto de forma vertical quanto horizontal. Nesse contexto, as
questões relacionadas à situação prisional não podem ser pensadas e trabalhadas de
forma deslocada dessa realidade, tendo em vista que as ações, voltadas para o
enfrentamento da violência e da criminalidade, ao culminarem com a prisão, impõem
a questão do cumprimento da pena na lógica estrutural do sistema de segurança
pública466.

À título de conclusão do presente capítulo diante das teses suscitadas evidencia-se um


Estado de Exceção para aqueles rotulados como indivíduos perigosos, em geral negros, jovens,
pobres e com baixo grau de instrução, os quais através de Políticas Públicas de Segurança
passam a ser excluídos do convívio da classe de consumo, uma vez que não se adaptaram ao
novo paradigma de um estado neoliberal capitalista. Nota-se uma seletividade com relação ao
sistema carcerário, haja vista que os legisladores cada vez mais se utilizam de discursos
políticos com o escopo de angariar votos para expandir o direito penal em nome da Segurança
Pública, criando leis penais mais recrudescidas voltadas à anulação da classe pobre, no qual o
maior interesse é a exclusão desses indivíduos dos locais públicos frequentados pela classe de
consumo. Nesse paradigma de exclusão, o escopo apenas exclui a presença indesejada desses
marginalizados pelo poder hegemônico, outro fator que corrobora com esta política de exclusão
e cárcere é o fato de ter um elevado custo financeiro para tratar a causa e também demanda um
longo tempo para sanar o problema da desigualdade social.
Na verdade, o que esses indivíduos marginalizados pelo sistema precisam é de ajuda
com políticas humanísticas sociais, e não o cárcere. Em um segundo momento, os agentes de
segurança passam a perseguir apenas “os considerados de risco”, rotulados como perigosos e
violentos, em geral, estão ligados ao cometimento de crimes patrimoniais e tráfico de drogas.
Nessa acepção, o Estado apenas está fazendo uma gestão da miséria, exercendo uma
técnica de governo, passando a criar um espaço vazio de direito, no qual se suspende os direitos
dos marginalizados, embora fiquem ao alcance do direito. Cria-se a figura do homo sacer, o
qual é desprovido de qualquer benefício legal, como leciona Agamben. Trata-se de um

466
CARVALHO. Vilobaldo de.; SILVA, Maria do Rosário de Fátima. op cit, 2011. p.64.
102

indivíduo de vida nua, uma vida sem valor, uma vida matável, vida que pode ser sacrificada
sem que se cometa crime algum. Isso tudo contribuiu para a banalização do cárcere. O que
deveria ser a ultima ratio, passa a ser a primeira opção. A exceção torna-se a regra, ferindo
gravemente os Direitos Humanos e a Dignidade da Pessoa Humana.
A prisão, nesse sentido, passa a ser o meio empregado para selecionar e controlar a vida
das pessoas, em geral daqueles com parcos recursos financeiros, excluindo os marginalizados
com o escopo de assegurar a plena manutenção do sistema de consumo, proporcionando assim
a falsa sensação de segurança aos ricos.
A prisão, no Brasil, é uma verdadeira lixeira humana. Trata-se de um total abandono do
ser humano pelo Estado, o qual age fora da lei. Além disso, é o lugar em que se implementam
os verdadeiros campos de concentração, um verdadeiro horror e afronta aos Direitos Humanos
e à Dignidade da Pessoa Humana. Um lugar de aniquilamento, abandono e exclusão, não só do
homem, mas da alma que perde suas esperanças de uma vida justa e sem desigualdade.
103

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho buscou analisar as relações entre o Direito e a política, a relação do


ente Estatal com seus súditos, o direito à Segurança Pública sob o prisma dos Direitos Humanos,
fazendo-se uma análise mais aprofundada das teses foucaultianas e agambenianas, as quais
consistem na biopolítica e a produção da vida nua bem como o Estado de Exceção.
Nesse objetivo, retomaram-se as lições desses dois grandes filósofos, a partir das quais
evidenciou-se que o direito de vida e morte é uma das características do poder soberano. Sua
gênese é oriunda do Direito Romano, nesse Direito é lícito ao pai de família romana dispor da
vida de seus descendentes, bem como de seus escravos, sendo lícito tirar-lhes a vida
considerando que aquele que dá a vida tem o poder de retirá-la. Surgindo dessa forma o direito
de fazer morrer ou deixar viver. Nessa perspectiva compreende-se a implementação do Estado
de Exceção e da biopolítica na produção da vida nua. Esse paradigma de governo cada vez mais
se apresenta na contemporaneidade como técnica de governo.
Nesse Estado de Exceção Agamben denúncia as constantes práticas totalitárias
realizadas pelo soberano. Esta forma de agir do soberano deveria ficar restrita a acontecimentos
excepcionais, possuindo suas limitações a um determinado espaço de tempo e lugar, entretanto,
o que era para ser exceção torna-se a regra devido ao uso permanente das medidas exercidas no
Estado de Exceção. Depreende-se que a excepcionalidade tornou-se o paradigma adotado pelo
governo na contemporaneidade como uma técnica de governo. Nesse diapasão na percepção de
Agamben, o Estado de Exceção passa a ter uma conotação biopolítica estruturada em um
Direito que inclui o indivíduo mas cria uma suspensão para esse, surgindo com isso uma região
anômala, na qual esse indivíduo fica à mercê do direito, não encontrando abrigo nas leis, dando
mais ênfase a uma ideia voltada ao âmbito militar bélico.
Esse paradigma de governo constitui o iustitium, no qual o governo rege a vida da
sociedade através de decretos com força de lei configurando como técnica de governo em um
modelo de Estado de Exceção que de forma progressiva vem se implementando em todas as
democracias ocidentais sem precedentes utilizando-se dessas técnicas para promoção da
Segurança Pública ferindo gravemente os Direitos Humanos. Os últimos séculos o Estado de
Exceção e a biopolítica chegaram a sua máxima expressão: exemplo disso foram os campos de
concentração do século XX, em especial Auschwitz onde se conseguiu chegar ao máximo da
lógica biopolítica com a aniquilação do ser humano, atribuindo-se a estes uma vida sem valor
e nua. Nesse Estado de Exceção a vida estava entregue ao poder do soberano, este dispunha do
poder de fazer morrer ou deixar viver, definindo as vidas que são dignas de serem vividas e
104

quais vidas poderiam ser aniquiladas, tornando essas vidas, vidas nuas sem valor desqualificada
em uma total situação de miserabilidade relembrando ao homo sacri, o qual é lícito tira-lhe a
vida sem que se cometa homicídio, estes são os homo saceres, conforme denomina Agamben.
Evidencia-se que o Estado de Exceção assemelha-se em muito como o Estado nazista criado
por Adolf Hitler, o qual marcou o século XX por uma guerra civil considerada legal sob o ponto
de vista jurídico. Com a criação do Estado nazista Adolf Hitler, assim que tomou posse do
poder, em 28 de Fevereiro, promulgou o Decreto com a justificativa da proteção do povo
alemão e do Estado suspendendo os artigos da Constituição de Weimar, os quais previam as
liberdades individuais. Do ponto de vista jurídico, o estado nazista, ou seja, o Terceiro Reich é
considerado o típico exemplo de um Estado de Exceção, o qual perdurou pelo período de doze
anos, em que o totalitarismo moderno foi implementado através do dito Estado de Exceção,
legitimando todas as ações de uma guerra civil, a qual permite o aniquilamento por completo
da forma física dos adversários políticos, qualquer pessoa que se opunha ao regime nazista
vigente na época ou a quem de alguma forma era indesejável ao sistema político.
Desse momento em diante, com o surgimento do Estado de Exceção, ainda que de
forma esporádica, mas voluntariamente vem interpondo-se embora não sendo declarado no
sentido técnico, é adotado e praticado pelos Estados contemporâneos, até mesmo por aqueles
os quais se declaram democráticos. A fim de ilustrar melhor o conceito de Estado de Exceção
na contemporaneidade, a história apresenta vários exemplos de “ditadura constitucional”,
eventos ocorridos entre 1934 e 1948, em detrimento da crise que se implementou na Europa
resultando na ruína da democracia europeia, na qual o poder executivo usurpou os poderes no
âmbito do legislativo através de emanação de leis e decretos utilizando-se da urgência para
justificar tais práticas. Desse momento em diante, as democracias ocidentais e o poder
legislativo passam a ser percebidos como apenas ratificadores dos decretos com força-de-lei
oriundos do poder executivo.
Nesse ínterim, o Estado de Exceção encaminha-se cada vez mais forte a se estabelecer
como paradigma de governo dominante na política contemporânea. Ocorre que o Estado de
Exceção deveria ser uma medida provisória e excepcional, entretanto transformou-se em uma
técnica de governo que contribuiu com mudanças drásticas em relação à distinção tradicional
das diversas formas de constituição. Nesse sentido, o Estado de Exceção revela-se como um
lugar de irresolução do que seria democrático e absolutismo. O Estado de Exceção revela-se,
também, sob o prisma da ótica militar, extravasando limites e expandindo suas fronteiras, o que
outrora tratava-se de exceção, contemporaneamente passa a ser considerado normal.
Nesse estado de sítio político ou fictício, nota-se que o estado de exceção se direciona
105

progressivamente à “emancipação do âmbito de guerra”, a qual constitui a gênese da sua


existência. Para Agamben, o Estado de Exceção é entendido como uma guerra civil legal.
Segundo Agamben, a exceção é um modelo de exclusão e se trata de um caso singular no qual
quem for excluído não está fora do alcance da norma, mas sim a norma se mantém relacionada
ao indivíduo em forma de suspensão. Um exemplo de um Estado de Exceção contemporâneo
biopolítico é o caso dos EUA, no qual o direito inclui em si o indivíduo através da própria
suspensão, o que fica evidenciado peremptoriamente com a “military order”, promulgada pelo
presidente dos Estados Unidos em 13 de Novembro de 2001 e que autoriza a chamada
“indefinite detention” aplicando-se àqueles cidadãos os quais são suspeitos de envolvimento
em atividades terroristas, o que não se confunde com os tribunais militares de guerra. Nesse
sentido, o Senado dos EUA, em 26 de Outubro de 2001, através do “Patriot Act”, consente
através do procurador geral a mantença da prisão, por um período de sete dias, a todos aqueles
que forem considerados suspeitos de atividades que geram perigo à segurança nacional dos
Estados Unidos. Após esse prazo, o estrangeiro deverá ser extraditado ou acusado de violar a
lei de imigração ou alguma lei penal. O escopo da ordem é anular drasticamente todo estatuto
jurídico que proteja o indivíduo, o que consequentemente produzirá um ser juridicamente
inominável e inclassificável. As consequências para todos aqueles que forem capturados é ficar
à mercê da lei, tendo em vista não encontrarem respaldos em nenhuma lei, uma vez que não
estão amparados pela Convenção de Genebra, devido a não haver qualquer previsão legal no
estatuto dos prisioneiros de guerra, tampouco, encontram respaldo na legislação Norte-
Americana. Esses indivíduos que por hora não são considerados prisioneiros, nem tampouco
acusados, mas apenas denominados “detainees”, ou seja, apenas detidos, acabam se tornando
objeto de pura dominação de fato e se tornando vítimas de uma detenção que não possui um
tempo determinado, estando totalmente fora do alcance de qualquer lei ou de um controle por
parte do judiciário. A única possível comparação a essa situação jurídica e de fato é o caso
ocorrido no holocausto “Lager” nazista, momento em que os judeus acabaram por perder sua
cidadania e sua identidade jurídica, apenas eram identificados por judeus. Judith Butler
demostrou peremptoriamente, no detainee de Guantánamo, local este no qual a vida nua atinge
sua máxima indeterminação. Hitler, através de decreto, passa a suspender direitos e garantias
pessoais da Constituição de Weimar, e como justificativa Hitler aduz o escopo de proteger o
povo e o Estado.
Denotam-se das teses foulcaultiana e agambeniana que a biopolítica e a produção da
vida nua e o Estado de Exceção relacionam-se ao modo de governar a todos pertencentes ao
corpo social, através de técnicas disciplinares, com o principal escopo da redução de custos
106

relacionados à produção industrial. Passando a rotular indivíduos de Homo Sacer,


denominando-os de vida desqualificada, vida nua, uma vida sem valor. Dessa forma, o Estado
justifica suas condutas e passa a não respeitar os direitos humanos, nem a dignidade da pessoa
humana. Nesse sentido, o governo exerce seu poder exacerbadamente em razão do Estado, com
o intuito de justificar condutas governamentais, surge um novo paradigma de governo na
contemporaneidade que Agamben denomina Estado de Exceção.
Diante desse Estado de Exceção e biopolítico, no qual é possível a suspensão dos
Direitos Constitucionais, o Estado com a justificativa de promover a Segurança Pública vem se
utilizando da expansão do Direito Penal a qual serve para que se promova a exclusão e
segregação da classe pobre, sendo esta classe considerada como lixo e refugo humano de uma
sociedade globalizada. Nesse contexto, a prisão se tornou um paradigma por excelência de
exclusão e anulação dessa classe, a fim de que se ofereça uma suposta segurança à classe de
consumo. Nesse diapasão, o Direito Penal, o qual deveria ser a ultima ratio, tem sua lógica
invertida drasticamente, passando a ser a primeira opção a fim que se promova o
encarceramento do seu público alvo, ou seja, (os pobres), uma vez que não estando adaptados
à globalização, não podendo fazer parte de uma sociedade de consumo, não resta outra opção
além de segregá-los para que não produzam riscos sociais e gerem uma sensação de insegurança
para a classe elitizada. Com a prisão obtém-se a anulação imediata dos indivíduos que
produzem riscos sociais; também a prisão é considerada pelos governantes como a medida por
excelência, uma vez que atentem de forma mais eficaz aos seus interesses políticos, haja vista
que a prisão tem o condão de excluir todos aqueles que foram marginalizados pelo poder
hegemônico e possui um baixo custo financeiro. Observa-se que essas medidas são muito bem
recepcionas pela população em geral, o que repercute positivamente nas urnas e principalmente
geram um sentimento de segurança para a classe de consumo.
Nesse seguimento, percebe-se que a característica do sistema de Direito Penal brasileiro
em sua expansão é o cárcere por excelência, cujas penas não tem o condão de apenas defender
a sociedade, buscar a prevenção e a não reincidência delitiva, mas por trás de um discurso
político para angariar votos, busca-se a colocação dessa casta social pobre dento dos presídios,
os quais são uma verdadeira lata de lixo humano, estando superlotado o que constitui um total
desrespeito os Direitos Humanos e a Dignidade da Pessoa Humana, servindo apenas para
excluir todos aqueles que não estão adaptados a um mundo globalizado de consumo.
À título de conclusão do presente trabalho diante das teses suscitadas evidencia-se um
Estado de Exceção para aqueles rotulados como indivíduos perigosos, em geral negros, jovens,
pobres e com baixo grau de instrução, os quais através de Políticas Públicas de Segurança
107

passam a ser excluídos do convívio da classe de consumo, uma vez que não se adaptaram ao
novo paradigma de um estado neoliberal capitalista. Nota-se uma seletividade com relação ao
sistema carcerário, haja vista que os legisladores cada vez mais se utilizam de discursos
políticos com o escopo de angariar votos para expandir o direito penal em nome da Segurança
Pública, criando leis penais mais recrudescidas voltadas à anulação da classe pobre, no qual o
maior interesse é a exclusão desses indivíduos dos locais públicos frequentados pela classe de
consumo. Nesse paradigma de exclusão, o escopo apenas exclui a presença indesejada desses
marginalizados pelo poder hegemônico, outro fator que corrobora com esta política de exclusão
e cárcere é o fato de ter um elevado custo financeiro para tratar a causa e também demanda um
longo tempo para sanar o problema da desigualdade social.
Na verdade, o que esses indivíduos marginalizados pelo sistema precisam é de ajuda
com políticas humanísticas sociais, e não o cárcere. Diante dessa política de exclusão evidencia-
se também uma perseguição por parte dos agentes de Segurança Pública aos considerados
grupos de risco, rotulados como perigosos e violentos, em geral, estão ligados ao cometimento
de crimes patrimoniais, tráfico de drogas e crimes contra a pessoa.
Nessa acepção, o Estado apenas está fazendo uma gestão da miséria, exercendo uma
técnica de governo, passando a criar um espaço vazio de direito, no qual se suspende os direitos
dos marginalizados, embora fiquem ao alcance do direito. Cria-se a figura do homo sacer, o
qual é desprovido de qualquer benefício legal, como refere Agamben. Trata-se de um indivíduo
de vida nua, uma vida sem valor, uma vida matável, vida que pode ser sacrificada sem que se
cometa crime algum. Isso tudo contribuiu para a banalização do cárcere. O que deveria ser a
ultima ratio, passa a ser a primeira opção. A exceção torna-se a regra, ferindo gravemente os
Direitos Humanos e a Dignidade da Pessoa Humana.
A prisão, nesse sentido, passa a ser o meio empregado para selecionar e controlar a vida
das pessoas, em geral daqueles com parcos recursos financeiros, excluindo os marginalizados
com o escopo de assegurar a plena manutenção do sistema de consumo, proporcionando assim
a falsa sensação de segurança aos ricos.
A prisão, no Brasil, é uma verdadeira lixeira humana. Trata-se de um total abandono do
ser humano pelo Estado, o qual age fora dos princípios Constitucionais. Além disso, é o lugar
em que se implementam os verdadeiros campos de concentração, um verdadeiro horror e
afronta aos Direitos Humanos e à Dignidade da Pessoa Humana. Um lugar de aniquilamento,
abandono e exclusão, não só do homem, mas da alma que perde suas esperanças de uma vida
justa e sem desigualdade.
Diante do exposto percebe-se que existe uma necessidade de discutir o tema Segurança
108

Pública sob a óptica da justiça e dos Direitos Humanos, em um contexto de Estado Democrático
de Direito. Uma vez que o ente estatal não pode se utilizar dos órgãos de Segurança Pública
como instrumentos de coerção para satisfazer seus próprios anseios. Mas deve desenvolver
políticas de Segurança Pública e sociais, as quais promovam a paz social, igualdade econômica,
redução da criminalidade e sua violência, preservação da ordem pública, a garantia do
patrimônio, e a promoção de segurança ao cidadão, sem desrespeitar os Direitos Humanos e a
Dignidade da Pessoa Humana.
109

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