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CASO 1

M. A. V., 48 anos, sexo feminino, negra, 161cm de altura, 80 kg chega à


farmácia em que você faz atendimento com a seguinte receita:
Propranolol – 80 mg
- tomar 3 comprimidos ao dia

Durante o atendimento, a paciente pede para aferir a pressão – resultado: 150


X 95 mmHg – e relata que a pressão arterial está difícil de controlar e que faz
uso de propranolol a mais de 4 meses.

Ao pegar o medicamento a Srª M.A. aproveita para pedir um frasco de


descongestionante nasal (a base de efedrina) e comenta que usa há bastante
tempo, por causa de uma rinite, mas que há alguns meses, além do nariz, tem
sentido um pouco de falta de ar “mais profunda”.

1- Quais os mecanismos de ação dos medicamentos citados?


O propranolol é um anti-hipertensivo que atua bloqueando os receptores
adrenérgicos do tipo beta (FONTANELLA, 2003). Ele é um beta bloqueador não
seletivo, portanto, exerce seu bloqueio tanto sobre os receptores beta 1 como
sobre os receptores beta 2 (CONCEIÇÃO, 1991). A efedrina é uma substância
simpatomimética que causa estimulação alfa e beta adrenérgica. Ela estimula a
liberação de catecolaminas endógenas estimulando os receptores beta 1, alfa 1 e
beta 2 adrenérgicos (FORTE et al., 2006). Descongestionante nasal alfa 1 por
fazer vasoconstrição.
2- Comente o esquema posológico, quais orientações seriam passadas?
Tomar um comprimido com alimento, três vezes ao dia num intervalo de 8
horas para cada comprimido.
3- Pode haver interação entre os medicamentos citados? Qual?
Sim, pois pode haver um antagonismo competitivo dos receptores beta,
pois o propranolol inibe e a efedrina estimula. Os descongestionantes nasais
podem diminuir o efeito de anti-hipertensivos, porque promovem uma
vasoconstrição desregulando a pressão arterial. Durante o uso do
descongestionante tópico deve-se fazer monitoramento da pressão.
Descongestionantes de uso oral não devem ser usados.
4- Pode ser que uma interação com alimentos também seja a causa do
descontrole da PA da paciente? Se sim qual a conduta neste caso?
Não, pois os alimentos aumentam a biodisponibilidade do propranolol além
de reduzir o efeito de primeira passagem. A dose máxima de propranolol diária é
de 640 mg, então ele pode ser administrado com alimentos desde que esta dose
não seja ultrapassada.
5- O fato de ser uma paciente negra é importante quando se pensa em
hipertensão arterial?
Sim, pois o efeito dos beta bloqueadores se deve à sua ação em beta 1,
mas também decorre da diminuição da renina renal e pacientes de etnia negra
possuem baixo nível de renina, não resolvendo o problema deles (VALE;
DELFINO, VALE, 2003). Além disso, eles têm propensão a ter hipertensão arterial.
Deve-se associar um diurético.
6- Os problemas relatados (dificuldade de controle da pressão e falta de ar)
podem possuir alguma relação com os medicamentos em uso pela
paciente? Qual?
Sim, pois a efedrina é um vasopressor e possui efeitos de
vasoconstrição e estimulação cardíaca o que acarreta consequentemente, uma
elevação da pressão arterial e da freqüência cardíaca (FORTE et al., 2006). Além
disso ela pode estar usando de maneira inadequada o medicamento. A falta de ar
pode se dever à broncoconstrição causada pelo uso do propranolol, já que ele é
um beta bloqueador que age tanto em beta 1 como em beta 2, e ao bloquear beta
2 causa esta broncoconstrição (PORTO et al., 2003). Deve-se verificar se a falta
de ar ocorre durante o exercício físico, porque beta 2 é ativado durante a pratica
de atividade física.

7- Calcule o IMC da paciente e responda se o peso dela pode ser uma das
causas ligadas a hipertensão e se, de acordo com o IMC da paciente, o
medicamento propranolol foi bem indicado. Justifique as suas respostas
apontando as condutas a serem tomadas neste caso.
IMC= 30,86
Sim, pois ela está acima do peso, já que o IMC normal seria de 25 Kg. m2
e o resultado dela foi de 30 Kg. m2 (MANCINI, 2001). Normalmente a obesidade
esta relacionada a dislipidemia que leva à disfunção arterial por enrijecimento do
vaso. O propranolol não foi bem indicado, pois ao bloquear o receptor beta 3 ele
diminui a lipólise, aumentando triglicerídios e HDL prejudicando a perda de peso
ou levar a paciente ao ganho de peso pelo não consumo de triglicerídios pelo
tecido adiposo além de aumentar o risco de dislipidemia (PORTO et al., 2003). Ela
deve ser orientada a controlar a alimentação. O médico deve ser informado sobre
as reações que ela anda apresentando.

Referências:

FONTANELLA, Bruno J. B.. Ansiedade situacional e abuso de propranolol:


relato de caso. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo,v. 25, n. 4, p.
228-230, out. 2003.
FORTE, Rafael Y. et al. Infarto do miocárdio em atleta jovem associado ao uso
de suplemento dietético rico em efedrina. Arquivo Brasileiro de Cardiologia,
v. 87, p. 179-181. 2006.

MANCINI, Marcio C. Obstáculos diagnósticos e desafios terapêuticos no


paciente obeso. Arquivos Brasileiros de endocrinologia e metabologia, São
Paulo, v. 45, n. 6. São Paulo. 2001.

DA CONCEIÇÃO, Mario J. Sistema adrenérgico e anestesia. Revista


Brasileira de anestesiologia. Rio de Janeiro, v. 41, n. 5, p. 313-322. 1991.

DO VALE, Nilton B.; DELFINO, José; DO VALE, Lúcio F. B.. O conhecimento


de diferenças raciais pode evitar reações idiossincrásicas na anestesia?.
Revista Brasileira de anestesiologia. Rio de Janeiro, v. 53, n. 2, p. 258-277.

PORTO, João et al. Incontinência urinária secundária ao carvedilol. Revista


Medicina Interna, v. 10, n. 2, p. 87-90. 2003.