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A GEOGRAFIA DO RIO GRANDE DO SUL EM MEADOS DO SÉCULO XX:

RETRATOS DO TERRITÓRIO E DA PRODUÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS


GEÓGRAFOS BRASILEIROS

Eduardo Schiavone Cardoso (Org.)


Cesar De David (Org.)

AGB Porto Alegre


A GEOGRAFIA DO RIO GRANDE DO SUL EM MEADOS DO SÉCULO XX:
RETRATOS DO TERRITÓRIO E DA PRODUÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS
GEÓGRAFOS BRASILEIROS

Organização

Eduardo Schiavone Cardoso


Cesar De David

Porto Alegre
2014
MEMBROS DA GESTÃO 2013/2014 DA AGB – SEÇÃO PORTO ALEGRE
Adriana Dorfman – Comissão de Publicações e Intercâmbio
Andréa Ketzer Osório – Diretoria e Comissão de Ensino e Educação Popular
Artur Czermainski Klassmann - Comissão de Ensino e Educação Popular
Bruno Xavier Silveira - Coletivo de Secretaria e Comissão de Ensino e Educação Popular
Carlos Aigner - Comissão de Ensino e Educação Popular
Cláudia Pires - Comissão Interdisciplinar de Assuntos Profissionais e Comissão de Movimento Urbano
Cristiano Quaresma de Paula - Comissão de Geografia e Ambiente
Dilermando Cattaneo da Silveira – Comissão de Geografia e Ambiente
Dirce Maria Antunes Suertegaray - Comissão de Geografia e Ambiente
Evelin Cunha Biondo - Comissão de Geografia e Ambiente
Everton de Moraes Kozeniesky – Comissão Interdisciplinar de Assuntos Profissionais
Fabrício da Silva Caetano - Comissão de Geografia e Ambiente e Comissão Interdisciplinar de Assuntos Profissionais
Felipe Akauan Silveira - Coletivo de Publicações e Intercâmbio
Felipe da Costa Franco - Coletivo de Comunicação e Comissão de Movimento Urbano
Gerson Pagano Galli - Comissão Interdisciplinar de Assuntos Profissionais
Igor Dalla Vecchia - Coletivo de Publicações e Intercâmbio e Comissão deMovimento Urbano
João Pedro Izé Jardim - Comissão de Movimento Urbano
Kinsey Pinto - Comissão de Ensino e Educação Popular
Lara Machado Bitencourt – Coletivo de Comunicação e Comissão de Movimento Urbano
Lara Caccia Schmitt - Coletivo de Tesouraria e Coletivo de Publicações e Intercâmbio
Luciana de Mello - Coletivo de Comunicação e Comissão de Geografia e Ambiente
Lucimar Fátima Siqueira – Comissão de Movimento Urbano
Marcelo Lopes de Souza - Comissão de Movimento Urbano
Marília Guimarães - Coletivo de Tesouraria e Comissão de Movimento Urbano
Nelson Rego - Comissão de Movimento Urbano
Neudy Alexandro Demichei - Comissão de Ensino e Educação Popular
Rafael Zílio - Comissão de Movimento Urbano
Renan Darski - Coletivo de Secretaria e Comissão de Ensino e Educação Popular
Renan William Freitas – Coletivo de Secretaria e Comissão de Ensino e Educação Popular
Renata Ferreira da Silveira – Diretoria e Comissão de Movimento Urbano
Rosilene Mendonça Dutra - Comissão de Ensino e Educação Popular
Sabrina da Rosa Freitas - Coletivo de Secretaria e Comissão de Movimento Urbano
Shaiane Carla Gaboardi - Comissão de Movimento Estudantil
Sian Carlos Alegre - Comissão de Movimento Estudantil
Silvana Campos Silveira - Comissão de Geografia e Ambiente
Sinthia Cristina Batista - Comissão de Movimento Agrário
Suhellen Maiochi - Comissão de Movimento Estudantil e Comissão de Ensino e Educação Popular
Tânia Ferreira da Luz - Comissão de Movimento Agrário
Tarso Germany Dornelles - Comissão de Ensino e Educação Popular
Theo Soares de Lima - Coletivo de Publicações e Intercâmbio
Tiago Bassani Rech – Tesouraria e Comissão Interdisciplinar de Assuntos Profissionais
Tuana da Costa Heres - Comissão de Ensino e Educação Popular
Wagner Innocencio Cardoso – Coletivo de comunicação
William Martins da Rocha – Coletivo de Secretaria

COMISSÃO EDITORIAL
Adriana Dorfman
Felipe Akauan da Silva
Igor Dalla Vecchia
Lara Caccia Schmitt
Nelson Rego

Associação dos Geógrafos Brasileiros - Seção Porto

A Geografia do Rio Grande do Sul em meados do século XX: Retratos do território


e da produção da Associação dos Geógrafos Brasileiros./ Eduardo Schiavone Cardoso (Org.),
Cesar De David (Org.). – Porto Alegre: AGB, 2014.
112f. il.

ISBN: 978-85-89861-07-6
1.Geografia. 2.Território. 3.Associação dos Geógrafos Brasileiros - Seção Porto Alegre.
I.Eduardo Schiavone Cardoso (Org.). II. Cesar de David (Org.). III. Título

CDU 91(816.5)
_____________________________
Catalogação na Publicação
Alexandre Ribas Semeler CRB10/1900
SUMÁRIO

PREFÁCIO: OUTRO/MESMO MUNDO


Nelson Rego....................................................................................................................................................................................5

APRESENTAÇÃO
César De David & Eduardo Schiavone Cardoso................................................................................................................................6

A AGB E A PRODUÇÃO DA GEOGRAFIA DO RIO GRANDE DO SUL


Samanta Diulli Alterman; Bruna Camila Dotto; Marcelo Bêz & Eduardo Schiavone Cardoso..........................................................7

PARTE 1: A PRODUÇÃO NO “ALVORECER DA GEOGRAFIA CIENTÍFICA”...........................................................10

CAPÍTULO 1: AS PAISAGENS DO RIO GRANDE DO SUL: IMPRESSÕES DE VIAGEM:


Aroldo de Azevedo........................................................................................................................................................................11

CAPÍTULO 2: REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY:


Jorge Chebataroff..........................................................................................................................................................................19

CAPÍTULO 3: CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA.


Miguel Alves de Lima....................................................................................................................................................................36

PARTE 2: A PRODUÇÃO NA “AFIRMAÇÃO” DA GEOGRAFIA BRASILEIRA........................................................51

CAPÍTULO 4: PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA.


Jorge Chebataroff..........................................................................................................................................................................52

CAPÍTULO 5: A REGIÃO DE SÃO GABRIEL.


Nice Lecocq Müller (coord.)..........................................................................................................................................................71

CAPÍTULO 6: A VEGETAÇÃO DA FAIXA COSTEIRA SUL-RIO-GRANDENSE.


Ir. Juvêncio..................................................................................................................................................................................100

CAPÍTULO 7: A CONTRIBUIÇÃO DA COLONIZAÇÃO ALEMÃ À VALORIZAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL.


Jean Roche..................................................................................................................................................................................107

POSFÁCIO: A AGB NA CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO REGIONAL


Adriana Dorfman........................................................................................................................................................................111
PREFÁCIO

OUTRO/MESMO MUNDO
Um filme em preto e branco desperta nossa atenção tanto pelo contraste que sentimos em relação aos modos pelos quais,
na narrativa, os sentimentos e valores do mundo passado se expressavam quanto pelo registro das técnicas antigas. Talvez
sintamos, ao mesmo tempo, distanciamento e pertencimento a esse mundo que passou e nos é devolvido pela tela em preto
e branco. De maneira similar, a variada face do interesse - narrativa, técnica, distanciamento, pertencimento - nos acontece
diante da leitura dos textos reunidos neste livro.
Vejam-se, por exemplo, estes trechos do escrito por Aroldo de Azevedo:

“É bem conhecida a pobreza da bibliografia referente ao Rio Grande do Sul. (...) apenas podem os geógrafos contar com estudos
monográficos, de profundidade variável e de caráter nem sempre estritamente geográfico. (...) Por isso tudo, não sentimos cons-
trangimento em escrever as presentes ‘Notas prévias’ que contém exclusivamente algumas impressões deixadas por uma viagem
levada a efeito através de larga porção do Rio Grande do Sul, foi-nos dado o prazer de percorrer, em automóvel, as áreas de ... “

Num mundo que existiu muito antes do SIG, do GPS, do Google Earth e das estradas marcadas por pedágios, foi esse Rio
Grande do Sul, ainda longínquo e desconhecido para os brasileiros habitantes do Brasil nuclear, que mereceu o interesse e a
justificativa expressos pelo eminente geógrafo - no preâmbulo do relato e das análises realizadas com as técnicas da época.
Trata-se do relato sobre um outro mundo, e do nosso mesmo mundo. Assim como um clássico do cinema antigo - por
exemplo, “Em busca do ouro”, do Chaplin -, traz a nós um outro tempo e, simultaneamente, nele podemos encontrar o mo-
vimento da história, onde o mundo de agora já se fazia presente na expansão assimiladora de todas as fronteiras, materiais
e simbólicas, podemos, de modo semelhante, encontrar nos textos deste livro tanto o mundo que passou quanto identificar
raízes de saberes geográficos e do mundo de hoje.
Recuperar e interpretar a história do conhecimento é um modo de constituir com nova solidez essa herança, assim como
uma via para instaurar a própria possibilidade de mudanças de rumos na história desse conhecimento.
Congratulações, pois, ao Eduardo Schiavone Cardoso e ao Cesar de David, por seu trabalho de escavação e de trazer à luz
suas descobertas - contribuição inestimável para nos, geógrafos, que costumeiramente descuidamos da responsabilidade de
melhor conhecermos a história do nosso conhecimento.
Em especial, agradeço em nome da Associação dos Geógrafos Brasileiros, a esse trabalho que recupera registros de tal
vulto relacionados à história da entidade.

Boas leituras!

Nelson Rego
Presidente da Diretoria Executiva Nacional
da Associação dos Geógrafos Brasileiros, gestão 2010-2012

Porto Alegre, 01 de janeiro de 2012

5
APRESENTAÇÃO
A proposta desta obra consiste em reeditar os documentos apresentados e produzidos sobre o estado do Rio Grande do
Sul, nas Assembléias Ordinárias da Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB, realizadas nas décadas de 1940, 1950 e 1960,
possibilitando o resgate, a sistematização, a análise, o reconhecimento e valorização de tais trabalhos. Esses textos aqui reuni-
dos, representam parte significativa dos esforços da Geografia brasileira em compreender a diversidade do território brasileiro
e sua contribuição no processo de produção do conhecimento científico a respeito do Rio Grande do Sul e, mais especificada-
mente, da região da Campanha Gaúcha.
Com esta publicação temos três intenções básicas. Uma é agrupar, inventariar e dar visibilidade a produção sobre a Ge-
ografia do Rio Grande do Sul, até então dispersa, produzida a partir das Assembleias da Associação dos Geógrafos Brasileiros,
realizadas nas décadas de 1940, 1950 e 1960. Outra é reconhecer a importância dos trabalhos realizados, apresentando os
conceitos e temas desenvolvidos nesses estudos precursores, como expressões de um fazer científico que marca um momento
específico da prática dos geógrafos brasileiros, que reconhecidos nacional e internacionalmente, escreveram a Geografia gaú-
cha. E, por fim, preservar a memória da AGB – compromisso de toda a comunidade da qual fazemos parte –, e desses textos
clássicos da Geografia brasileira e gaúcha, oportunizando um sólido alicerce para as pesquisas do presente e do futuro.
Os acervos e anais das Assembléias da Associação dos Geógrafos Brasileiros, das décadas de 1940 a 1960, estão arquiva-
dos, na Biblioteca da AGB em São Paulo, bem como nos acervos de outras instituições. Uma parte deste material, dentre eles os
anais da XIII Assembléia Geral Ordinária da Associação dos Geógrafos Brasileiros, ocorrida em 1958 na cidade de Santa Maria,
foi organizada por Dora de Amarante Romariz, e foram publicados pela AGB em tomos e volumes. Também foram publicados
trabalhos avulsos, referentes aos resultados dos relatórios das pesquisas de campo realizados durante as assembléias.
Tratou-se de realizar o levantamento e a análise destes materiais, identificando artigos e passagens referentes ao Estado,
de modo a sistematizá-los e disponibilizá-los sob a forma de uma publicação. Foram identificados sete trabalhos relativos aos
distintos aspectos da geografia do Rio Grande do Sul, que estão aqui reeditados. Possibilita-se, assim, o acesso a significativas
referências histórico-geográficas produzidas pelo trabalho de geógrafos de meados do século XX, para o desenvolvimento de
novas pesquisas sobre o Rio Grande do Sul, ampliando as possibilidades de investigação e tornando conhecidas estas fontes de
conhecimento.
Os textos foram obtidos a partir das publicações localizadas nas bibliotecas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e da seção São Paulo da AGB. Agradecemos a estas instituições pela disponibiliza-
ção desse material. Nossos mais sinceros agradecimentos a Associação dos Geógrafos Brasileiros por permitir a publicação dos
textos sob sua guarda e, mais que isso, pelo incentivo à realização deste trabalho. Nossos agradecimentos também à Fapergs,
que através de seu programa de iniciação científica, permitiu que jovens geógrafos integrassem esta empreitada.
Esperamos contribuir com os estudos e pesquisas a respeito da Geografia do Rio Grande do Sul, tanto de geógrafos quanto
dos demais interessados nessa área do conhecimento, ao oportunizar novos olhares sobre o que esses clássicos revelam de nos-
sa Geografia e, por que não, também o que podem manter encoberto. Aos leitores nosso desejo que redescubram no antigo,
sempre novas geografias.

Eduardo Schiavone Cardoso


Cesar De David

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A AGB E A PRODUÇÃO DA GEOGRAFIA DO RIO GRANDE DO SUL
SAMANTA DIULI ALTERMANN
BRUNA CAMILA DOTTO
MARCELO BÊZ
EDUARDO SCHIAVONE CARDOSO

Traçar uma linha do tempo para situar o leitor no conjunto dos trabalhos que compõe este livro é uma tarefa que exige
escolhas. A nossa toma como ponto de apoio a proposta de Monteiro (2002), que sistematiza o desenvolvimento da Geografia
brasileira a partir de um conjunto de etapas evolutivas ao longo do século XX, até o início do século XXI.
A primeira delas, definida pelo autor, corresponde ao período de 1900 – 1935 e é denominada de “Preparação para Geo-
grafia Cientifica”. Embora não houvesse formação acadêmica especialmente dirigida à Geografia, egressos das ciências naturais
e sociais já se reuniam numa Sociedade de Geografia fundada em 1883, posteriormente intitulada Sociedade Brasileira de Geo-
grafia. Inauguram-se os Congressos Brasileiros de Geografia, em 1909 e já se dispunha de um razoável acervo de conhecimentos
geográficos produzidos sobre vários aspectos da Geografia do Brasil.
A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) foi fundada em 1934, no mesmo ano em que se iniciavam os cursos de Geo-
grafia em nível universitário no país, dando início ao período chamado de “O Alvorecer da Geografia Cientifica” que abrange os
anos de 1935 a 1956. Este se divide em dois momentos, de acordo com Monteiro (2002): o primeiro, de 1935 a 1948, inicia-se
com a criação da Universidade de São Paulo, especificadamente com a sua Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, e poste-
riormente pela fundação da AGB e do IBGE na cidade do Rio de Janeiro. São estes três vetores: Universidades-AGB-IBGE, que
trilharam e apontaram os caminhos da Geografia brasileira no século XX.
A AGB teve uma atividade mais localizada durante seus primeiros dez anos. Com o crescimento do número de geógrafos
formados no país, em 1945 foi realizada uma reunião na cidade do Rio de Janeiro para a reformulação nos seus estatutos e
previsão de realizar assembleias anualmente, em diversos lugares do Brasil. A primeira ocorreu em Lorena-SP, seguida pela
Assembléia Geral no Rio de Janeiro e posteriormente em Goiânia.
Foi nesse momento que, em 1948, ocorreu a retomada dos Congressos Internacionais que a União Geográfica Interna-
cional realizava a cada quatro anos, interrompidos durante a Segunda Guerra Mundial. No congresso realizado em Lisboa, pela
primeira vez, compareceu uma delegação brasileira apresentando comunicações e filiando-se a algumas das “comissões” man-
tidas por aquela entidade.
O segundo momento do “Alvorecer da Geografia Científica”, de 1949 a 1956, foi caracterizado pelo início da intensa ati-
vidade da AGB, realizando uma verdadeira “cruzada” de divulgação cientifica e difusão profissional da Geografia pelo Brasil.
Seus associados pertenciam a duas ordens de qualificação: os “sócio-efetivos” eleitos com o vínculo da titulação universitária e
produção de trabalhos geográficos e os “sócio-colaboradores” interessados na geografia e em ciências afins, além de geógrafos,
estudantes universitários e professores secundários de geografia.
As assembléias de Lorena e do Rio de Janeiro, ensaiaram um modelo de reunião em que, além da apresentação de comu-
nicações – então submetidas à análise crítica dos sócios mais graduados – havia a realização de trabalhos de campo, efetuados
durante três dias, por grupos de trabalho sob orientação de um coordenador, trabalhando nas vizinhanças da cidade anfitriã e
no estudo da própria cidade.
Nas Assembleias Gerais Ordinárias realizadas anualmente em diferentes locais e diferentes regiões brasileiras eram re-
crutados novos sócios, e à medida que se implantavam novas Universidades, instalavam-se novos centros ou seções regionais
da AGB. As seções regionais passaram a publicar revistas científicas especializadas em Geografia, sendo o Boletim Paulista de
Geografia, com a primeira edição lançada em 1949, o mais antigo em funcionamento nesse novo formato de publicações da
AGB. Outras Seções Regionais lançariam seus boletins científicos nesse período, tal como o Boletim Carioca de Geografia.
Vinte anos após sua fundação, a AGB realiza o I Congresso Brasileiro de Geógrafos na cidade de Ribeirão Preto-SP e, a
partir deste ano, iniciou-se a tradição de realizar “Congressos Nacionais de Geógrafos” a cada dez anos.
Intitulado “A caminho da afirmação”, o terceiro período vai de 1956 a 1968, em que o evento primordial de transição
da fase de formação para a de afirmação é o XVII Congresso Internacional de Geografia da UGI, realizado no Rio de Janeiro em
1956. Neste, a própria preparação e realização tornaram-se a prova da capacidade dos geógrafos brasileiros em sua inserção
internacional.
Seguindo sua proposta, Monteiro (2002) apresenta ainda as transformações e incertezas do final do século XX. Destaca
a realização da Primeira Conferência Nacional de Geografia, patrocinada pelo IBGE, no Rio de Janeiro, em 1968. Este evento
foi utilizado como palco para a “proclamação oficial” da adoção de novas práticas de análise geográfica, a partir da chamada
“Revolução Quantitativa”.
Outros dois conjuntos de acontecimentos são referenciados pelo autor, neste período. O primeiro inclui a reunião da
Comissão da UGI para estudo de Métodos Quantitativos, realizada em 1971 no Rio de Janeiro e a formação da Associação de
Geografia Teorética, com a publicação do primeiro número de seu Boletim, em Rio Claro – SP. No segundo conjunto de aconte-
cimentos, realiza-se a XXIII Assembleia Geral Ordinária da AGB, em Montes Claros (1968) encerrando o ciclo das Assembléias
Gerais Ordinárias.
No ano de 1970 ocorre a reforma dos estatutos da AGB, promovendo os Encontros Nacionais de Geógrafos (ENG), a cada
dois anos. Sediado em Presidente Prudente – SP em 1972, o primeiro ENG inicia uma nova dinâmica de encontros e reuniões
7
da AGB, que já realizou quase duas dezenas de encontros nacionais até hoje, além de manter a realização dos “Congressos
Nacionais” a cada dez anos.

OS TEXTOS E A DIFUSÃO DOS TRABALHOS SELECIONADOS


Os textos que compõe esta publicação foram apresentados e discutidos durante algumas das Assembléias Gerais Ordiná-
rias realizadas pela AGB nas décadas de 1940, 1950 e 1960 e o contato com o material produzido pelos geógrafos, que estavam
presentes nos eventos, proporcionou uma viagem aos primórdios da Geografia produzida sobre o Estado do Rio Grande do Sul.
A importância histórica e científica dos trabalhos permite o desenvolvimento de estudos mais aprofundados, buscando resgatar
e valorizar os saberes dos autores hoje reconhecidos.
Destacamos os aspectos referentes às vivências de jovens pesquisadores ao adentrar nas discussões e reflexões dos au-
tores da época, pensando e analisando o espaço geográfico gaúcho na interrelação com os pressupostos modernos. Pode-se
identificar e considerar as dificuldades que os cientistas encontravam nas muitas realidades com as quais se deparavam, valori-
zando seus esforços em descrever e analisar por meio dos trabalhos de campo, do contato direto com as práticas dos moradores
locais, bem como com as paisagens distintas e, em alguns casos, desconhecidas.
Algumas considerações e observações referentes aos distintos momentos da dinâmica da AGB de então, em que tais
trabalhos foram veiculados ou produzidos, também podem ser tecidas. Ainda que divulgados nos momentos das Assembléias
Ordinárias anuais, algumas atividades complementavam esses momentos, tais como os simpósios, congressos e trabalhos de
campo, demonstrando o dinamismo da entidade.
Sendo assim, dos sete trabalhos elencados, três são resultados de atividades realizadas concomitantemente às Assem-
bléias. São eles: o I Congresso Brasileiro de Geógrafos, o Simpósio Colonização e Valorização Regional e o relatório de trabalho
de campo.
Isso pode sugerir uma dinâmica de atividades de produção e divulgação do conhecimento geográfico, por meio da AGB,
que começa a sinalizar para dois caminhos: a otimização dos momentos de encontro e as discussões mais específicas sobre as
distintas temáticas da Geografia – através dos simpósios.
A produção de estudos, baseados em trabalhos de campo, realizados durante a Assembléia Geral é outro fator que mere-
ce ser destacado. Além desse aspecto, todos os demais trabalhos valorizam as observações e os estudos, em parte etnográficos,
efetuados em campo, demonstrando o significado dessa prática na pesquisa em Geografia oriunda de nossas heranças univer-
sitárias. As publicações possuem um grande número de imagens, o que facilita a leitura e a compreensão dos relatos.

PRODUÇÃO COMPILADA

- AS PAISAGENS DO RIO GRANDE DO SUL (IMPRESSÕES DE VIAGEM) - Aroldo de Azevedo


- Assembléia /data/ local- VII ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS – Campina Grande/
Paraiba 1952
- Referência da publicação dos anais - Anais da AGB,volume VI ,tomo I, São Paulo,1954.

- REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY - Jorge Chebataroff
- Assembléia/ data / local- VII ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS – Campina Grande/
Paraiba 1952
- Referência da publicação dos anais - Anais da AGB volume VI, tomo I ,São Paulo,1954.

- CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA - Miguel Alves de Lima


- Assembléia /data/ local- I CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFOS / IX ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS
BRASILEIROS – Ribeirão Preto/São Paulo - 1954
- Referência da publicação dos anais- Anais da AGB ,volume VIII, tomo I, São Paulo 1956.

- PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA - Jorge Chebataroff


-Assembléia/ data/ local- XIII ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS – Santa Maria/ Rio Grande do
Sul, 1958
- Referência da publicação dos anais- Anais da AGB, volume XI, tomo I, São Paulo, 1959

- A REGIÃO DE SÃO GABRIEL - Nice Lecocq Müller (coord.)


-Assembléia/ data/ local – Relatório de TRABALHO DE CAMPO realizado durante a XIII ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSOCIAÇÃO DOS
GEÓGRAFOS BRASILEIROS – Santa Maria/ Rio Grande do Sul, 1958
- Referência da publicação - Avulso Nº 4 da AGB, São Paulo, 1962.

- A CONTRIBUIÇÃO DA COLONIZAÇÃO ALEMÃ À VALORIZAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL


- Jean Roche
- Assembléia/ data/ local- SIMPÓSIO COLONIZAÇÃO E VALORIZAÇÃO REGIONAL na XVI ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSOCIAÇÃO DOS
GEÓGRAFOS BRASILEIROS – Londrina/Paraná em 1961
- Referência da publicação dos anais- Anais da AGB , volume XIV, São Paulo, 1968.

8
- A VEGETAÇÃO DA FAIXA COSTEIRA SUL-RIO-GRANDENSE - Ir. Juvêncio
- Assembléia data local- XVI ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS – Londrina/Paraná em 1961
- Referência da publicação dos anais- Anais da AGB , volume XIV, São Paulo, 1968.

Em alguns desses estudos fica claro o objetivo de apreender os fenômenos e fatos da natureza e da sociedade. Tal pers-
pectiva, que podemos denominar de “clássica” – nos estudos geográficos de então, acompanha três desses sete trabalhos. Nes-
se momento chega-se a uma nova consideração. Além de uma Geografia com ênfase na análise regional, descritiva e com forte
aporte de observações de campo, aparecem nos quatro demais estudos, temáticas mais circunscritas, relativas à fitogeografia,
à imigração e ao zoneamento do meio físico.
Finalmente, a participação e contribuição de pesquisadores estrangeiros nos eventos da AGB é um ponto a ser observado.
Dentro do escopo de trabalhos aqui reunidos, dois são de autoria do geógrafo uruguaio Jorge Chebataroff e um do pesquisador
francês Jean Roche, versando sobre aspectos de uma Geografia temática que irá se espraiar nas décadas seguintes.
A esse conjunto de considerações preliminares, espera-se o acréscimo de novas contribuições, à medida que tais traba-
lhos possam ser conhecidos e revisitados, contribuindo para a sempre renovada produção do conhecimento da Geografia do
Rio Grande do Sul, reconhecendo e valorizando o trabalho desses precursores e seus estudos da Geografia Brasileira.
Neste sentido, justifica-se a importância de uma publicação que resgata e facilita o acesso a este acervo, partilhando des-
sas fontes de pesquisa, de modo a apresentar o papel da AGB como instância fundamental de construção e difusão de saberes
em suas oito décadas de existência.

REFERÊNCIAS
ANTUNES, C. da F. A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) – Origens, Idéias e Transformações: Notas de uma História. 2008. 308 f. Tese
(Doutorado em Geografia)-Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2008.
AZEVEDO, A. Paisagens do Rio Grande do Sul (Impressões de Viagem). In: ANAIS DA VII ASSEMBLÉIA GERAL - ORDINÁRIA DA ASSOCIAÇÃO DOS
GEÓGRAFOS BRASILEIROS – CAMPINA GRANDE/ PARAIBA 1952. Anais da AGB. São Paulo: Associação dos Geógrafos Brasileiros, 1954. V. VI.
Tomo I. p. 147-162.
CHEBATAROFF, J. Praderas de la América del Sur Templada. In: XIII ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSOSIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS – Santa
Maria/ Rio Grande do Sul, 1958. Anais da AGB. São Paulo: Associação dos Geógrafos Brasileiros, 1958. p. 81-130.
_________________. Regiones Naturales de Rio Grande del Sur y del Uruguay. In: VII ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA DA ASSOCIAÇÃO DOS
GEÓGRAFOS BRASILEIROS – CAMPINA GRANDE/ PARAIBA 1952. Anais da AGB. São Paulo: Associação dos Geógrafos Brasileiros, 1954. p. 115-
145.
JUVÊNCIO, I. A Vegetação da Faixa Costeira Sul-Rio-Grandense. In: XVI ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS –
Londrina/Paraná em 1961. Anais da AGB. São Paulo: Associação dos Geógrafos Brasileiros, 1968. p. 61-77.
LIMA, M. A. Contribuição ao estudo da Campanha Gaúcha. In: I CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFOS / IX ASSEMBLÉIA GERAL DA AS-
SOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS EM 1954. Anais da AGB. São Paulo: Associação dos Geógrafos Brasileiros, 1956. V. VIII. Tomo I. p.
343-375.
MONTEIRO, C. A. F. A Geografia no Brasil ao Longo do Século XX: um Panorama. In: Associação dos Geógrafos Brasileiros. Borrador. São Paulo:
AGB-SP, 2002.
ROCHE, J. A Contribuição da Colonização Alemã à Valorização do Rio Grande do Sul. In: SIMPÓSIO COLONIZAÇÃO E VALORIZAÇÃO REGIONAL
/ XVI ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS – Londrina/Paraná em 1961. Anais da AGB. São Paulo: Associação
dos Geógrafos Brasileiros, 1968. V. XIV. p. 227-241.
MÜLLER, N. L. (coord.) A Região de São Gabriel. In: Relatório de Trabalho de Campo realizado durante a XIII ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSOCIA-
ÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS – Santa Maria/ Rio Grande do Sul, 1958. Avulso Nº 4. São Paulo: Associação dos Geógrafos Brasileiros,
1962. 77 p.

9
PARTE 1
A PRODUÇÃO NO “ALVORECER DA GEOGRAFIA CIENTÍFICA”
Os estudos reunidos nessa seção fazem parte do segundo momento do período denominado “O
Alvorecer da Geografia Científica (1935 -1956)”, de acordo com a periodização de Monteiro (2002). Esta-
mos nos anos de 1949 a 1956, constituindo o imediato pós-guerra quando o país e o mundo passavam
por sensíveis mudanças. É nessa fase que a AGB inicia seu processo de nacionalização, com a criação de
sessões regionais, promoção de trabalhos de campo e reuniões em diferentes estados, motivados pela
reformulação dos estatutos em 1945 e pelas assembléias ocorridas em Lorena e Rio de Janeiro. Também
é nesse período que ocorre o retorno aos seus países de origem de figuras importantes na fundação da
Geografia no Brasil, entre os quais Leo Waibel, Pierre Monbeig e Francis Ruellan.
É na VII ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS, realizada
em Campina Grande, Paraíba, em 1952, que foram apresentados os seguintes textos aqui compilados: As
Paisagens do Rio Grande do Sul: Impressões de Viagem, de Aroldo de Azevedo e Regiones Naturales de
Rio Grande del Sur Y del Uruguay, de Jorge Chebataroff.
Os dois autores são figuras proeminentes na produção geográfica do século XX, em seus países.
Aroldo de Azevedo, professor da Universidade de São Paulo tem uma vastíssima produção na pesquisa e
no ensino de Geografia. Na AGB exerceu cargos diretivos, tanto em nível nacional, quanto na Seção Regio-
nal de São Paulo. Jorge Chebataroff, nascido na região do Cáucaso e um dos grandes mestres da Geografia
uruguaia, é uma presença constante nas atividades da AGB a partir da década de 1950 e no intercâmbio
com os geógrafos brasileiros.
Durante o I CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFOS, realizado concomitantemente com a IX AS-
SEMBLÉIA GERAL DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS, em Ribeirão Preto, São Paulo, em
1954, foi apresentado o trabalho: Contribuição ao Estudo da Campanha Gaúcha, de Miguel Alves de
Lima, cuja atuação diretiva junto à entidade é presente na Seção Regional do Rio de Janeiro, além de sua
participação junto à diretoria do IBGE.
A partir das atas das assembléias que compõe a documentação da AGB, destacam-se, na realização
do I CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFOS, as palavras de Aroldo de Azevedo, então presidente da
entidade, referindo-se a realização de um Congresso de Geógrafos e não um Congresso de Geografia,
corroborando a nomenclatura de Monteiro (2002), ao definir este período. Qual seja, estava se afirmando
uma Geografia no Brasil, produzida pelas primeiras gerações de geógrafos brasileiros.
Dos três trabalhos publicados nas Assembléias da AGB aqui reproduzidos, observa-se que os artigos
de Azevedo e Chebataroff, foram também difundidos em periódicos científicos – o Boletim Paulista de
Geografia e a Revista Uruguaia de Geografia, na década de 1950. Já no trabalho de Lima, consta, ao final,
o parecer de avaliação, emitido pelo relator Antonio Rocha Penteado.

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AROLDO DE AZEVEDO

CAPÍTULO 1
PAISAGENS DO RIO GRANDE DO SUL (IMPRESSÕES DE VIAGEM)1
AROLDO DE AZEVEDO

É bem conhecida a pobreza da bibliografia referente ao Rio Grande do Sul. Além de estudos de caráter geológicos e traba-
lhos de natureza histórica e sociológica, apenas podem os geógrafos contar com estudos monográficos, de profundidade variá-
vel e de caráter nem sempre estritamente geográfico. Como obra de conjunto, o livro de Wolfgan H. Harnisch – “ O Rio Grande
do Sul – A Terra e o Homem” (Liv. do Globo, Porto Alegre, 1941), embora escrito por um não especialista, continua a prestar
bons serviços a quem deseje obter uma idéia geral a respeito dos aspectos marcantes da geografia humana sul- riograndense.
No mais, são as paginas naturalmente reduzidas de obras gerais , como as de Pierre Denis e Preston James, que continuam a
fornecer melhores subsídios.
Por isso tudo, não sentimos constrangimento em escrever as presentes Notas prévias que contém exclusivamente algu-
mas impressões deixadas por uma viagem levada a efeito através de larga porção do Rio Grande do Sul, no mês de outubro de
1951.
Durante os dias que estivemos em Pôrto Alegre, ao tomar parte na “Semana de Estudos Geográficos” organizada pela Fa-
culdade de Filosofia da Universidade Católica do Rio Grande do Sul , foi-nos dado o prazer de percorrer, em automóvel, as áreas
de São Leopoldo, Novo Hamburgo e Caxias do Sul. Em seguida, utilizando a via-férrea, percorremos o vale do Jacuí, fazendo
paradas de 24 horas nas cidades de Rio Pardo, Cachoeira do Sul e Santa Maria; nesse ínterim, utilizando a rodovia, alcançamos
Santa Cruz do Sul e a área municipal de Júlio de Castilhos, já no Planalto. Finalmente, viajando no Trem Internacional, deixamos
Santa Maria e percorremos o Planalto do Alto Uruguai, até Marcelino Ramos, de onde prosseguimos rumo a São Paulo.
Gastando duas semanas nessa excursão (uma das quais em sua maior parte dedicada à referida “Semana de Estudos Ge-
ográficos”), não nos foi possível colher mais do que simples impressões de viagem. Oferecendo-as à Sétima Assembléia Geral
Ordinária da A. G. B., pretendemos tão sòmente transmitir uma parcela de nosso encantamento pelas áreas percorridas e des-
pertar, através das observações feitas e das fotografia colhidas, junto àqueles que ainda não as conhece, o desejo de visitá-las
e de estudá-las de maneira mais aprofundada.

Os grandes horizontes da Depressão Central.

No alto, a planície do baixo Jacuí, com seus canais de drenagem. Em baixo, campinas da Depressão Central. (Fotos do autor).

1 Trabalho indicado para publicação nos Anais, de acôrdo com o parecer do sócio efetivo Nilo Bernardes , discutindo e aprovado em plenário.

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AS PAISAGENS DO RIO GRANDE DO SUL: IMPRESSÕES DE VIAGEM

O Guaíba e o delta do Jacuí – A cidade de Pôrto Alegre acha-se estreitamente ligada ao chamado rio Guaíba: nasceu às
suas margens, há mais de dois séculos; viveu sempre em função dêle, quer para os contatos com o exterior (através das águas
da Lagôa dos Patos), quer para as comunicações com o “hinterland” gaúcho (através do vale do Jacuí); e continua a tê-lo como
base de sua expansão, pois os mais belos e procurados de seus subúrbios acompanham as águas fluviais, numa extensão de
cêrca de 40 km.
Um anfiteatro de morros cristalinos constitui o cenário natural da capital sul-riograndense, fechando o seu horizonte para
as bandas de leste. Dentro dele, uma série de colinas, de contornos suaves, constituídas por terrenos paleozóicos, caracterizam
a topografia urbana. O núcleo principal da cidade – com suas largas avenidas, numerosos arranha-céus, intenso movimento,
graças à presença das melhores casas comerciais, das principais repartições públicas, dos escritórios, dos dois Mercados e das
instalações portuárias – acha-se colocado no próprio berço da aglomeração, por sobre um promontório que avança em direção
ao rio. Dêsse “coração” da cidade, partem as artérias que vão ter aos bairros periféricos e aos subúrbios. Uma população de
382.000 pessoas vive na sede municipal, cujo território abrange um total de mais de 400 mil2. Por isso mesmo, Pôrto Alegre
alinha-se entre as maiores cidades brasileiras e, certamente, não tardará a ocupar o quarto lugar, ultrapassando a velha capital
da Bahia.
Não é nosso objetivo, estudar aqui a capital do Rio Grande do Sul, que bem merece uma monografia, por sua importância
local e regional. Queremos focalizar somente, o grande elemento de seu quadro natural – o Guaíba.
Na geografia brasileira, o Guaíba ocupa uma posição toda especial: os mapas chamam-no de “rio”, embora, na verdade,
não passe de um largo estuário, cujo aspecto faz lembrar, “mutatis-mutandis”, a Gironda. Sua extensão não vai além de 50 km,
sua largura média pode ser avaliada em 10 km. Resulta da junção da águas de pelo menos quatro rios – o Jacuí, o Caí, o do Sinos
e o Gravataí, os mesmos que a tradição diz justificar o nome do velho núcleo de Viamão, se a eles acrescentarmos o próprio
Guaíba. A origem desse largo e tranqüilo estuário constitui um dentre muitos outros problemas, que a geografia precisa resol-
ver com dados científicos.
Tal problema assume um aspecto mais atraente se levarmos em conta que o estuário do Guaíba inicia-se numa região
tipicamente deltaica, num verdadeiro delta interior. Com efeito, o ponto em se concentram as águas do Jacuí, do Caí, do dos
Sinos e do Gravataí corresponde a um Dédalo de ilhas baixas, visivelmente resultantes da acumulação de aluviões carreadas
pelas águas fluviais3. Torna-se preciso consultar uma carta de detalhe ou, melhor ainda, sobrevoar esta área, tal como o fizemos
para se sentir a presença dêsse delta interior. Por que motivo existe ele, antecedendo a larga abertura constituída pelo estuário
do Guaíba? Eis outro problema que se torna preciso esclarecer.
Em todo êsse trecho, percebe-se o domínio absoluto da água e pode-se avaliar a luta que o homem tem de manter para
conseguir sobreviver. Daí a presença de canais de drenagem e o aparecimento de uma paisagem que muito faz lembrar a dos
“polders” da Holanda. Foi esta, pelo menos, a nossa impressão, ao observá-lo de avião, ou ao percorrer pela via-férrea um dos
trechos que a margeiam.

O rio Jacuí

A importante artéria da Depressão Central sul-riograndense põe o “coração” do Estado em fácil contato com Pôrto Alegre. Na fotografia
aparece um aspecto do porto de Cachoeira do Sul, grande centro rizícola. ( Fotos do autor).

2 Os dados referentes às populações das cidades foram extraídos da Sinopse Preliminar do Censo Demográfico, publicada pelo Conselho Nacional de Estatística (Rio, 1951).
3 Por sua extensão, destacam-se as ilhas do Laje, Grande dos Marinheiros, do Quilombo, das Flôres, da Casa da Pólvora e do Pavão.

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AROLDO DE AZEVEDO

Os grandes horizontes da Depressão Central. – O estuário do Guaíba e o delta interior do Jacuí constituem a “sala de en-
trada” da chamada Depressão Central do Rio Grande do Sul, aquilo que poderíamos tembém denominar de Depressão do Jacuí,
dêsde que este rio, com seu afluente (?) Vacacaí Grande, representa o seu principal elemento fisiográfico. É a estreita faixa de
terrenos predominantemente paleozóicos, que se alonga no sentido geral de E-O, encaixada entre o Planalto arenito-basáltico,
ao norte, e o Núcleo Cristalino Rio-grandense, ao sul. Para quem a percorre, acompanhando mais ou menos de perto a corrente
fluvial, a encosta daquele planalto está sempre presente, de maneira marcante, nos limites do horizonte; ao passo que, para o
sul, só muito longinquamente podem-se perceber as elevações cristalinas.
Essa depressão é caracterizada por um rêlevo de altitudes relativas muito modestas e pela presença da planície fluvial, do
que resulta uma notável larguesa de horizontes. A essa monotonia de aspectos vem-se juntar um outro elemento, que serve
para acentuar-lhe o característico: a existência de intermináveis campinas, constituídas por uma vegetação erbácea rasteira,
enfeitadas de florinhas amarelas e brancas na época em que lá estivemos, onde o gado bovino reponta de maneira escas-
sa, dado o caráter extensivo da criação. Por quilômetros e quilômetros, junto à via-férrea, sucedem-se as colinas levemente
abauladas – as “lombas”, no meio das quais surgem depressões muito abertas – os “banhados”. Testemunhos provavelmente
arenito-basálticos e eucaliptais esparsos são os únicos elementos capazes de quebrar a monotonia dêsses grandes horizontes
da Depressão Central.
A rêde de drenagem do Jacuí corresponde a outro problema da geografia gaúcha. Suas cabeceiras encontram-se no Pla-
nalto arenito-basáltico, na região de Passo Fundo, onde aparece com o nome de Jacuísinho, correndo no sentido geral de N-S,
com um caráter francamente “conseqüente”. Depois de vencer as escarpas desse Planalto, atinge a Depressão, através da qual
passa a ter um caráter “subseqüente”, a exemplo do rio Vacacaí Grande, considerado como seu afluente, embora tudo pareça
indicar que este curso d´água deva ser considerado o seu trecho superior, conforme, aliás, já foi afirmado por Viktor Leinz4. Uma
vez atingida a Depressão, passa a correr no sentido O-E, recebendo uma abundante rêde fluvial; os maiores afluentes procedem
do Planalto, entrando-lhe pela margem esquerda, como é o caso do Pardo, do Taquarí (o mais extenso de todos) e dos que al-
cançam na região deltaica. A jusante de Cachoeira do Sul, seu curso passa a ser francamente navegável, desenvolvendo-se atra-
vés de uma planície aluvional, que se vê inundada por ocasião das chuvas do fim do ano. Por isso mesmo, o Jacuí aparece como
a grande artéria natural da Depressão Central e serve de escoadouro às suas mais importantes riquezas – o carvão e o arroz.

Aspectos do rêlevo regional

No alto, “testemunhos” tabulares da Depressão Central. Em baixo, trecho do Planalto ao entrar em contato com a Depressão. (Fotos do
autor).

Não tivemos oportunidade de percorrer a área carbonífera do arrôio dos Ratos, onde se encontram as minas de São Jerô-
nimo e de Butiá, mas pudemos perceber a existência de um sistema de transporte, por meio de cabos de aço e de caçambas,
que conduz o carvão da margem direita para junto à linha férrea, na estação de Silo, logo a montante da confluência do Taquari
e não longe da cidade de Triunfo.
4 LEINZ (VIKTOR), Contribuição à Geologia dos Derrames Basálticos no sul do Brasil, tese de concurso à cátedra de Geologia e Paleontologia da Faculdade de Filosofia da Uni-
versidade de São Paulo. – 1949,pág.48.

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AS PAISAGENS DO RIO GRANDE DO SUL: IMPRESSÕES DE VIAGEM

Já o arroz constitui a maior riqueza da região de Rio Pardo e Cachoeira do Sul, ocupando a planície aluvial, sobretudo à
margem direita do Jacuí. É êle que dá movimento aos pequenos portos dessas duas cidades.
Rio Pardo está colocada sôbre um testemunho de arenito triássico, que se eleva bem próximo às águas do Jacuí. O topo
da elevação contém o trecho comercial e administrativo da pequena cidade (8.500 hab.), com suas ruas calçadas a paralelepí-
pedos e suas melhores lojas. Em nível mais baixo, que se vê alcançando por ruas em ladeiras, encontram-se, do lado norte, o
bairro da Estação ferroviária e, do lado sul, o trecho em que aparece a velha Matriz. Em continuação deste último, atinge-se o
terceiro nível – o da planície fluvial, onde se acha o porto, com alguns trapiches, local de intenso movimento, graças as carroças
e caminhões que até ali vão levar ou apanhar mercadorias, e ponto onde trafega uma balsa que conduz os ônibus destinados à
cidade de Encruzilhada.
Trata-se de uma das mais antigas cidades sul-riograndenses, que se orgulha de haver abrangido, em sua área municipal,
pelo menos um terço do atual Estado e onde podem ser encontrados os testemunhos de um passado glorioso, através de seus
templos, de seus grandes sobrados senhoriais e do antigo Colégio Militar, aspectos que Dante De Laytano estudou com delta-
lhes e competência5. Sua principal artéria é a Rua Júlio de Castilhos, colocada no topo da elevação arenítica em que se apóia. O
elemento negro, reminiscência de seu passado, aparece com freqüência na massa da população urbana, cujo total não atinge 9
mil almas. Mas a marca gaúcha está presente, como em toda a região, graças ao uso vulgarizado das “bombachas”6.
Muito mais vida e movimento apresenta a localidade próxima de Ramiz Galvão (antiga Couto), distrito do município rio-
pardense, devido ao fato de sair dali a linha férrea que a põe em contato com a importante cidade de Santa Cruz do Sul, já na
encosta do Planalto.
Cachoeira do Sul representa o exemplo dessas cidades que fazem parte da área cultural tipicamente portuguesa, confor-
me mostrou muito bem Thales de Azevedo7. Seu aspecto lembra o da cidade paulista de Campinas. Trata-se, como Rio Pardo,
de uma cidade em acrópole, dominando a planície do Jacuí. O Largo da Matriz (Praça Baltasar de Bem) é o trecho mais alto do
centro urbano, embora seja o Alto dos Loretos, bairro suburbano situado ao norte, para além da ferrovia, o trecho mais ele-
vado da região. As calçadas da cidade são feitas com o arenito de Botucatú e velhas habitações atestam a antigüidade de seu
povoamento. Rio Branco é o bairro aristocrático, destacando-se por suas belas residências. Entretanto o que realmente dá vida
à cidade de Cachoeira do Sul (cuja população urbana é de 24 000 hab.) é o arroz: ali se processa o beneficiamento desse cereal,
em numerosos e bem instalados “engenhos”, o maior dos quais é o Engenho Roesch. A rizicultura é feita através de grandes
propriedades pertencentes hoje a cooperativas; não correspondem a nenhum centro de povoamento, caracterizando-se ape-
nas pelos extensos arrozais estabelecidos nas várzeas inundáveis do Jacuí e do Vacacaí Grande. Cachoeira do sul ufana-se, com
razão, de ser o maior empório rizícola de todo o país.

Velhos sobrados de Rio Pardo

Mesmo sem conhecer a história de Rio Pardo, quem a percorrer sente que tem diante de si um centro urbano cheio de tradições gloriosas.
(Fotos do autor).

5 Laytano (Dante de), Almanaque de Rio Pardo, Pôrto Alegre, 1946.


6 Quem percorre o interior do Rio Grande do Sul, tem sua atenção chamada não apenas para o uso das “bombachas”, como também para o costume de tomar o “chimarrão”,
por meio das típicas bomba e cuia; o fato se registra nos próprios hotéis e nos vagões da estrada de ferro. Mais que tudo, porém, impressiona o hábito de servirem-se da
mesma bomba e cuia as pessoas que façam parte do mesmo grupo, nos hotéis ou nos vagões...
7 Azevedo (Thales de), Gaúchos (Notas de antropologia social), Bahia, 1943 – pág. 36 e seguintes.

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AROLDO DE AZEVEDO

Mapa elaborado pelo prof. João Soukup.

A “Zona da Mata” do Rio Grande do Sul. – No Rio Grande do Sul, a floresta surge tanto na encosta do Planalto arenito-ba-
sáltico, como nêle próprio, na área drenada pelo alto Uruguai.
A transição entre a Depressão e o Planalto faz-se de maneira relativamente suave: esporões montanhosos, constituídos
por arenitos da série de São Bento, acabam por se transformar na própria escarpa Planaltina, mais fortemente trabalhada pela
erosão. Cujos topos erguem-se numa altitude relativa de 300 metros, no centro do Estado, constituindo as chamadas “serras”
de Botucaraí e São Martinho. Essa área constitui a moldura setentrional da Depressão, desde as vizinhas do Atlântico (onde o
desnível chega a ser de 800 m), até à região das cabeceiras do rio Vacacaí Grande, já nos domínios da “Campanha”.

Aspectos da Cachoeira do Sul

No alto, a movimentada Rua Sete de Setembro. Em baixo, uma habitação que bem simboliza uma época de sua evolução urbana. (Fotos do
autor).

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AS PAISAGENS DO RIO GRANDE DO SUL: IMPRESSÕES DE VIAGEM

A cidade de Santa Maria (46 000 hab.) oferece, a quem vem de percorrer o vale do Jacuí, a agradável surpresa de encon-
trar um centro progressista, movimentado e culto. Acha-se colocada exatamente nessa área de transição, na “bôca do monte”,
conforme mui acertadamente observaram os que lhe deram o primeiro nome, desenvolvendo-se por sobre uma típica “lomba”,
ao pé dos contrafortes da Serra de São Martinho. Uma larga avenida – a Avenida Rio Branco, aberta no sentido N-S, contém o
“coração” da cidade, e corresponde ao primitivo caminho dos que demandavam o Planalto; a velha rua do Acampamento lem-
brava, até pouco tempo, as origens do povoamento local, pois a semente da cidade foi o acampamento das tropas encarregadas
da demarcação das fronteiras entre os domínios setecentistas de Portugal e da Espanha8. É o centro geográfico do Estado, im-
portantíssimo nó de comunicações, sede da Região Militar, verdadeira “capital” regional, com intensa vida urbana e considerada
a metrópole escolar do Estado.
Olhada em seu conjunto, essa área dominada pelas formações arbóreas caracteriza-se, sob o ponto de vista antropogeo-
gráfico, pela presença do colono de origem européia e, com ele, pela luta travada entre a agricultura e a floresta. Os de origem
alemã predominam logo ao norte de Pôrto Alegre, na área de São Leopoldo e Novo-Hamburgo, ou mais para o interior, na área
de Santa Cruz do Sul. Os de origem italiana já aparecem na encosta e no próprio Planalto, entre os altos cursos de Taquarí e do
Caí, na região de Caxias do Sul, Garibaldi e Bento Gonçalves. Uma paisagem altamente humanizada, graças ao predomínio da
pequena propriedade, com certo ar de “bocage” francês; importantes culturas de vinhas e uma poderosa e variada indústria
(como a de artefatos de couro em São Leopoldo e Novo-Hamburgo, a vinícola na área de influência italiana, a de artefatos de
metais em Caxias do Sul) atestam a importância econômica dessa região colonial, estudada com pormenores por Orlando Val-
verde9. Já na área de Santa Cruz é a cultura do tabaco a grande riqueza, dela derivando uma ativa indústria manufatureira, que
também trabalha com a borracha.
Devido à intensidade desse povoamento e à conseqüente ocupação de um solo mais beneficiado pela chuvas, trazidas
pelas massas de ar oriundas das frente sul, a floresta sub-tropical que encobria a região em foco aparece muito devastada.
São Leopoldo (20 000 hab.) e Novo Hamburgo (20 000 hab.), situados ao pé do Planalto, não oferecem em sua fisionomia
urbana nada que se compare com os núcleos de origem alemã de Santa Catarina. O mesmo podemos dizer de Santa Cruz do
Sul (13 500 hab.), salvo quanto a sua majestosa matriz em puro estilo gótico. Apenas a população, bem marcada pelo elemento
louro, denuncia a presença de um centro de colonização européia. Já o mesmo não se poderá afirmar a respeito de Caxias do
Sul (32 000 hab.) graças ao predomínio das casas de madeira, do uso da carroça de quatro rodas ou à freqüência com que se
encontram mulheres montadas a cavalo, o que positivamente não é comum nas comunidades genuinamente brasileiras. Entre-
tanto, em qualquer dessas cidades, sente-se com facilidade uma animação e uma atividade que muito bem refletem o teor de
seu progresso e de sua vida econômica. Constitui um prazer encontrar-se algo de original e de novo para adquirir, produzido no
próprio local e com uma perfeição que desafia a concorrência estrangeira.

Elementos da paisagem na região colonial

Na região serrana, povoada por alemães e italianos e seus descendentes, assiste-se à luta entre a agricultura e a floresta. Em baixo, casas de
madeira de Caxias do Sul. (Fotos do autor).
8 Veja BELÉM (J.), História do Município de Santa Maria (1797-1933), Liv. Selbach, Pôrto Alegre,1933.
9 VALVERDE (Orlando), Excursão à Região Colonial Antiga do Rio Grande do Sul, na Revista Brasileira de Geografia, ano X, nº 4, outubro-dezembro de 1948.

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AROLDO DE AZEVEDO

No Planalto do Alto Uruguai, a floresta sub-tropical e a mata da araucária têm um outro inimigo: são as serrarias. A indús-
tria madeireira caracteriza, sem dúvida alguma, a área servida pela via férrea, ao norte de Passo Fundo. A partir de Coxilha, po-
de-se dizer, cada estação da “V.F.R.G.S.” corresponde a um centro madeireiro. Getúlio Vargas (antiga Erechim) e Erechim (antiga
Boa Vista do Erechim, depois José Bonifácio) são centros de destaque nessa área: sobretudo Erechim (15 000 hab.) merece uma
referência especial, porque não possui apenas inúmeras serrarias, mas também conta com a presença de moinhos, fundições,
fábricas de vinhos e doces, etc., sendo importante núcleo de origem italiana.
Os grandes horizontes do Planalto – Conhecemos mais de perto o vasto Planalto arenito-basáltico do Rio Grande do Sul,
no trecho correspondente ao que certos mapas gaúchos denominam de Coxilha Grande, que não passa de um mal definido
divisor de águas entre as bacias dos rios Uruguai e Jacuí.
A topografia regional caracteriza-se por ser levemente ondulada, apresentando com freqüência as depressões razas – os
“banhados”. Por se tratar de uma área de “divortium acquarum”, a rêde de drenagem é extraordinariamente escassa, não ofe-
recendo mais do que modestíssimos cursos d´água. A vegetação rasteira, que tão bem define as campinas sul- riograndenses,
representa o grande elemento natural da paisagem; e a pobreza ou permeabilidade de seu solo, provavelmente oriundo do
arenito de Caiuá10, vê-se atestada pela predominância desagradável da “barba de bode”. As árvores constituem verdadeiras
exceções e só aparecem sob a forma de “capões”, de áreas reduzidas. A mesma monotonia, que caracteriza as campinas da
Depressão, também ali se observa, com a diferença que a vista não encontra, para qualquer lado que nos voltemos, nenhuma
saliência do relevo a limitar aquêles grandes e intermináveis horizontes.
Trata-se de um quase deserto, no que se refere às marcas deixadas pelo homem: os rebanhos se perdem naquelas imen-
sas amplidões e a monotonia só é quebrada, de quando em vez, pela presença das estâncias, que se vêm caracterizadas não
apenas por duas ou três construções, de proporções modestas, como pela aglomeração de árvores, que lhes dão sombra.
Tivemos ocasião de visitar a Estância de São Francisco do Pinhal, situada no município de Júlio de Castilhos e de proprie-
dade do sr. Horácio de Mascarenhas. No meio das araucárias, que lhe justificam o nome, ergue-se a sede da estância, simples
mas confortável. Próximo dela o “galpão”, excepcionalmente construído de pedra. Criam-se ali carneiros de raças inglesas e
“merinos”, que fornecem lã, vendida em São Gabriel, de onde toma o rumo dos centros têxteis de São Paulo. Os bovinos são
de raça Cherolêsa, tendo o proprietário importado exemplares da França. Nas pastagens naturais da estância, vivem de 40 a 50
cabeças de gado em cada 87 hectares. Banheiros carrapaticidas e sarnicidas defendem os bovinos e ovinos contra esses flagelos
da vida pastoril.

Os grandes horizontes do Planalto

No Planalto, reaparecem as campinas infinitas, cuja monotonia só é quebrada pela presença de importantes centros pastoris – as “estân-
cias”. (Fotos do autor).
10 Veja Nogueira (Paulo de Castro), Regiões Fisiográficas do Estado do Rio Grande do Sul, em “Geologia e Metalurgia”, publicação do Centro Moraes Rego, nº 5, São Paulo, 1948
– pág. 77.

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AS PAISAGENS DO RIO GRANDE DO SUL: IMPRESSÕES DE VIAGEM

A tosquia da lã

A criação de carneiros é uma das especialidades da Estância de São Francisco do Pinhal. A fotografia inferior mostra uma ovelha no momen-
to de ser tosquiada. (Fotos do autor).

O Rio Grande do Sul e a Geografia – Da rápida visita que fizemos ao Rio Grande do Sul, trouxemos a convicção de que
aquêle Estado representa um admirável laboratório para pesquisa geográfica, tantos são os contrastes de suas paisagens , na-
turais ou humanizadas, tais são os problemas que estão à espera de uma solução.
Realmente, se acrescentarmos às paisagens apenas esboçadas na presente nota as correspondentes ao Litoral, à Campa-
nha e à zona pioneira do Vale do Uruguai, para só citarmos algumas das mais expressivas, teremos diante dos olhos um mosaico
realmente fascinante para o espírito de qualquer geógrafo.
Mas há ainda os problemas apresentados pela geografia gaúcha. Já nos referimos aos do estuário do Guaíba, do delta
interior do Jacuí e da sua curiosa rede de drenagem. Poderíamos acrescentar o da origem das campinas sul-riograndenses:
serão naturais ou resultam da ação secular do homem ali fixado? Admitida a primeira hipótese, como explicá-las de maneira
satisfatória, se aparecem tanto na Depressão paleozóica como no Planalto triássico e não diferem substancialmente das que
existem noutras latitudes, como é o caso das campina da região de Itapetininga, em território paulista?
São problemas de geografia física, aos quais podem ser acrescentados outros de geografia humana: os historiadores e so-
ciólogos terão explicado suficientemente a presença dos 200.000 negros existentes no território do Rio Grande do Sul? Existirá,
entre as propriedades rurais daquele Estado, algo que se assemelhe às nossas “fazendas” de culturas?
Tudo isso é mais do que suficiente para que as atenções dos verdadeiros geógrafos de nosso país voltem-se, sem demora,
para os encantadores rincões da Terra Gaúcha.

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JORGE CHEBATAROFF

CAPÍTULO 2
REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y URUGUAY
1
JORGE CHEBATAROFF

INTRODUCCION
Desde el ano 1935 estoy estudiando el Uruguay desde el punto de vista fitogeográfico y geomorfológico. Frecuentes
excursiones, algunas de gran duración, realizadas a los más apartados lugares del país, y trabajos de gabinete basados en una
abundante colección de material geológico y botánico, apuntes de viaje, dibujos y gran número de fotografías, así como el
apoyo prestado por algunos especialistas de otras disciplinas científicas (zoología, climatología, etc.) han permitido que pudiera
publicar ya numerosos resultados referentes a la geografía, flora y fauna de nuestro país, mientras iba dando cima a varias obras
que irán apareciendo sucessivamente después de darle la necesaria unidad a los conceptos y resultados derivados de los viajes
y estudios. Felizmente estos no se concretaron tan solo al territorio uruguayo, y rebasaron naturalmente las fronteras políticas
, siéndome permitido estudiar algunas localidades de la Argentina (particularmente junto al río Uruguay) y especialmente del
Brasil, donde aparte de numerosos viajes fronterizos ( que me llevaron hasta Uruguayana, por ejemplo) hice la primera excursi-
ón de larga duración a Porto Alegre, en 1948, donde el apoyo prestado por el botánico Rvdo. Padre Balduino Rambo, del profe-
sor Dr. Lorenzo Mario Prunes Y del ecologista Irmão Teodoro Luiz, me ayundaron a conocer uma extensa área de dicho estado,
particularmente en excursiones personales ó acompañado por el primero de los especialistas nombrados. Luego el contacto con
los ilustres integrantes del Consejo Nacional de Geografía del Brasil, así como con los profesores de las Facultades de Filosofía
de Rio Janeiro, São Paulo y Bello Horizonte y los de la Escuela Politécnica de S.Paulo, y nuevos viajes realizados al interior de Rio
Grande del Sur y al Brasil Central, me abrieron nuevos horizontes, y me alentaron a publicar esta breve nota en la que trato
de reducir a un mínimo el número de regiones naturales recognoscibles en los territorios del Uruguay y Rio Grande del Sur,
teniendo en cuenta en especial manera los rasgos geomorfológicos y los tipos de vegetación que las caracterizan, evitando el
empleo de nomenclaturas heterogéneas y estableciendo la necesaria relación que liga en forma directa las regiones uruguayas
con las riograndenses, no afectadas por los limites políticos.
Si bien la zonación que presento se base principalmente en las particularidades del relieve y de las formaciones vegetales,
no he dejado de lado otros factores, tales como tipos de suelo y las influencias de orden microclimático. En cuanto al clima, en
el Uruguay, las diferencias relativas a la temperatura y pluviosidad media, entre los puntos extremos del país no son muy sen-
sibles, como para servir de base para una división regional. Sin embargo, las regiones naturales existen en el Uruguay, ya que
existe variedad de suelos, de tipos de vegetación y relieve, cuya influencia sobre la actividad humana resulta bastante sensible.
Respecto al problema de si el Uruguay con solo 187 000 kms² puede presentar regiones naturales, teniendo en cuenta que
la Pampa o la Amazonia, mucho mayores apenas ofrecen alguna zonación, nos parece oportuno hacer notar que Suiza, con solo
42 000 kms² presenta tres unidades geográficas, que podrían ser comparadas a verdaderas regiones naturales, y que también
el territorio de Bélgica, país diminuto en comparación con el Uruguay o con Rio Grande del Sur es pasible de una división más
o menos bien fundada.
Los territorios de aspecto uniforme no ofrecen una zonación perceptible, mientras que en aquellos en los cuales se com-
plica el relieve o los tipos de vegetación, y donde es posible descubrir una gran variedad de microclimas, la zonación aparece
naturalmente. Compárese por ejemplo el estado de Amazonas (la parte llana) con el de San Pablo o la llanura siberiana con la
Europa Central, y se advertirá inmediatamente la realidad de lo que acabamos de decir.
Introducimos en el cuadro que presentamos, el concepto de penillanura como característica geomorfológica dominan-
te en la porción Sur y Central de Rio Grande y de gran parte de Uruguay. Eliminamos en cambio de nuestra terminología pala-
bras de significación dudosa como “campiñas”, “campos”, “región ondulada”, “altiplano de Haedo”, “escudo riograndense”, las
que solo pueden tener valor local, y no aceptamos las divisiones basadas estrictamente en las formaciones geológicas u otras de
carácter unilateral. Y para salvar la uniformidad de la nomenclatura así como la claridad de los conceptos , frente a expresiones
tales como Planicie Costera, Planalto, Valle del Rio Uruguay y otras que conservamos, rechazamos términos de valor local tales
como Campos de Vacaria, Costa de Rio Grande, Litoral Lagunar, Región Colonial, y otros carentes de precisión, como “departa-
mentos de sierras y colinas” y “penillanura del Rio Uruguay”, que pueden dar motivos a grandes confusiones.
Tal vez llame la atención en el trabajo el empleo de expresiones tales como “ cuesta basáltica”, “ región basáltica” o “
Planalto basáltico”, que incluyen el término basalto que petrográficamente no resulta muy exacto. Pero tampoco nos parece
oportuno emplear expresiones como “Planalto melafídico” y otras análogas, ya que las rocas que componen el Planalto riogran-
dense o el manto efusivo básico del Sudoeste de este estado y del Noroeste del Uruguay, no son todas meláfidos, sino también
porfiritas labradóricas (según la terminología de LAMBERT); es preferible pues el término basalto, tan empleado por los geólo-
gos americanos, y en el Brasil por ALMEIDA, LEINZ y otros.
La división zonal de un territorio cualquiera, puede hacerse según PRESTON JAMES, de acuerdo con los objetivos perse-
guidos. Así, un geólogo podrá considerar las áreas ocupadas por las formaciones geológicas, un climatólogo las áreas climáticas
o las microclimáticas, y cabe pues al geógrafo, si es que la geografía existe como ciencia, fundamentar la división areal sobre las
realidades geográficas, es decir, considerando áreas integrales y no aquellas que resultan de la estimación de un solo factor. En
tales áreas, el relieve resulta fundamental, lo son también los factores clima, vegetación y tipos de suelos.
La delimitación de las regiones naturales, en el sentido geográfico tiene que tener en cuenta la interrelación de los fac-
tores, pero sin descuidar el orden jerárquico de estos. Si la complicación del relieve crea la diversidad de los paisajes de una
1 Trabalho indicado para publicação nos Anais, de acôrdo com o parecer do sócio efetivo JOSÉ SETZER, discutido e aprovado em plenário.

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REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY

comarca cualquiera, esto significa que el relieve es un factor de primer orden en la delimitación de las áreas geográficas. El día
que se intente dividir a la Amazonia en diversas regiones, el relieve tendrá con toda seguridad poca importancia frente a otros
factores como proximidad a los ríos, densidad de la red fluvial, alejamiento del mar, tipos de suelos, etc. En Rio Grande del Sur,
y en cierta medida en el Uruguay el relieve debe ser considerado como un factor importante en el problema de la división zonal.
De ahí que hayamos fundamentado nuestro trabajo especialmente en los rasgos geomorfológicos del territorio estudiado, pero
sin descuidar, según dijimos anteriormente el clima, los tipos de vegetación y de suelos y otros factores de menor importancia
(proximidad al mar, presencia de lagunas, etc.).

RASGOS GEOGRÁFICOS GENERALES DE RIO GRANDE DEL SUR


Dentro del Brasil, Rio Grande del Sur figura como un estado de mediana superficie, siendo aventajado en este sentido por
los de Amazonas, Mato Grosso, Pará, Goiaz, Minas Gerais, Bahía y Maranhão. De todas maneras ocupa un área bastante más
considerable que la del Uruguay, totalizando casi 283 000 kms². Su situación frente a este país es menos ventajosa , ya que su
litoral costero es medianamente aprovechable y parte de su territorio se presenta demasiado quebrado o demasiado anegadizo
lo que dificulta enormemente las comunicaciones. Además, el Uruguay se encuentra sobre el Plata, porción terminal de una
gran red fluvial navegable que permite la penetración hasta el corazón del continente.
Pero dentro del vasto territorio del Brasil, la situación de Rio Grande del Sur no deja de tener sus ventajas, ya sea por la va-
riedad de sus climas, consecuencia de su posición meridional y su relieve variado, la diversidad de la vegetación, la gran exten-
sión de los campos de pastoreo, el área apta para el cultivo del arroz y la presencia de lagunas que facilitan las comunicaciones.
El Rio Uruguay , en un recorrido de más de 1600 kilómetros contornea trazando un inmenso arco la porción Norte y Oeste
de este estado, y más adelante sirve de limite a la República O. del Uruguay respecto a la Argentina, vale decir que la magna
corriente fluvial encierra con el Plata y el litoral Atlántico alrededor de 470.00 kms. cuad. del área continental ( la superficie
total de la Península Escandinávica).
Rio Grande del Sur es el estado más meridional del Brasil, y está comprendido enteramente dentro da zona templada,
aunque la influencia de las masas de aire procedentes de la porción Sur del continente( por ejemplo el Pampero o Minuano)
está bastante equilibrada por la influencia tropical marina, siendo en algunos puntos muy alta la pluviosidad y la efectividad
de las precipitaciones lo que tiene por consecuencia que en este territorio aparezcan los primeros suelos de laterización más o
menos marcada, tan típicos del Brasil, y que son prácticamente desconocidos en el Uruguay. Dentro del área del estado queda
incluída una parte del Planalto (en parte sedimentario, pero fundamentalmente volcánico), que corresponde al corrientemente
llamado “segundo Planalto”, que se continúa por Santa Catalina y otros estados, y que en esta parte tiene en algunos puntos
más de 1000 m de altura.
Forman la meseta potentes napas de lavas básicas hasta neutras, réticoliásicas, que coronan formaciones sedimentarias
más antiguas, y que buzan suavemente hacia el Oeste , en dirección al valle del Rio Uruguay. Contra de lo que algunos autores
han supuesto, este altiplano no alcanza el territorio uruguayo, ya que los elementos más meridionales que constituyen el manto
basáltico decaen mucho en altura al Suroeste de Rio Grande del Sur y dentro del Uruguay, estando separados topográficamente
de los elementos del verdadero Planalto por la Depresión Central Riograndense, por donde debió pasar en otras épocas un gran
río ( tal vez el propio Paraná, junto con el Uruguay), en dirección a la Laguna dos Patos. Actualmente dicha depresión es recor-
rida por los ríos Ibicuy, afluente del Rio Uruguay, y Yacuy, tributario de la laguna mencionada. La parte Nordeste del Planalto,
cortada por profundas quebradas (verdaderos “cañones” en basalto) constituye la llamada Serra Geral, nombre que se utiliza
habitualmente para designar a todas las rocas efusivas básicas de la gran meseta del Paraná.
Serra Geral, no es propiamente una sierra, en el sentido corriente que se le atribuye a este término. Es simplemente el
borde erosionado de una meseta, cortado por valles de paredes de fuerte pendiente, con separación de mesas de superficie
casi horizontal pero de contornos muy irregulares, de cerros chatos y torres rocosas (éstas últimas se presentan por ejemplo,
junto al litoral del Atlántico).
Las masas basálticas del Suroeste del estado, limitadas al Norte en forma aproximada por la depresión antes indicada,
nada tienen que ver en el sentido geomorfológico con el verdadero Planalto, pues en ellas la altura decae hasta llegar solo a
100 m en Alegrete y menos aún en otros lugares, siendo además bastante menores tales alturas en el Uruguay, salvo junto a las
cuchillas Negra y de Haedo, donde se encuentra la escarpa de lo que aquí llamaremos cuesta volcánica, siendo la pendiente de
la misma muy poco perceptible, y estando inclinada, como lo prueba la topografía y las perforaciones geológicas, suavemente
hacia el Rio Uruguay.
En cuanto a las costas riograndeses del Atlántico, ofrecen un contraste bastante marcado con las platenses del Uruguay,
siendo solo la zona próxima a la Laguna Merín, con sus esteros, una natural continuación dentro del territorio uruguayo, de
los elementos geográficos que caracterizan el litoral riograndense, donde faltan prácticamente las puntas pedregosas ( salvo a
Torres) y las playas en forma de arcos.
Dos elementos geomorfológicos que establecen una estrecha relación física entre los territorios de Rio Grande del Sur y
del Uruguay, sin existir casi una solución de continuidad entre ambos, son, la Penillanura ( en parte determinada sobre terrenos
sedimentarios, y en parte sobre terrenos cristalinos) y el Valle del Rio Uruguay. En la Penillanura , que no es necesariamente
plana, aunque corresponde a un relieve en la etapa de extrema madurez, los elementos estructurales más resistentes aparecen
formando sierras, que algunos autores llaman en Rio Grande del Sur “ sierra de Sudeste”, término según veremos poco feliz y
que parecería referirse a un elemento geográfico dotado de cierta unidad, en contraste con las regiones vecinas.
En la Penillanura la altura general no excede de los 200 m y algunos movimientos de báscula y de compensación isos-
tática ( como ejemplo el levantamiento querandino) pueden haber provocado en algunas porciones un rejuvenecimiento, y
hacia la costa una atrofia progresiva de los tributarios, así como la formación de esteros y de lagunas. Penillanura es en realidad

20
JORGE CHEBATAROFF

sinónimo de peneplano, en el sentido davisiano, y aquí preferimos el uso de la primera expresión solamente porque es más
española. En cuanto a la consideración de la existencia de un relieve de tipo apalachiano en Rio Grande del Sur, del modo como
lo admiten para el Brasil Central Atlántico algunos autores, resulta objetable si se trata de aplicar al territorio de este estado o
al del Uruguay.
En oposición a la Penillanura y hacia el litoral del Atlántico, domina, más allá de la serie de serranías que hacen irregular la
superficie de aquélla, hasta el punto de dar lugar a una subregión según veremos más adelante, la Planicie Costera, verdadera
llanura, que Giuffra llamó en el Uruguay “ llanura Atlántica” y que en el estado de Rio Grande del Sur abarca una extensión
considerable, adelgazándose hacia el Norte. Está formada por sedimentos modernos, entre los que se incluyen arenas, limos,
areniscas flojas, etc., y donde no es salina, es muy apta para el cultivo del arroz.
El Valle del Rio Uruguay, que entre el Uruguay y la Argentina se presenta con caracteres bien definidos, en Rio Grande del
Sur es relativamente estrecho siendo una continuación natural de la cuesta basáltica o de las laderas abruptas del Planalto ( lo
que da en parte el aspecto de una quebrada, en sua porción más alta).
Rio Grande del Sur es sin duda alguna uno de los estados más progresistas del Brasil, superado en este aspecto solamen-
te por el estado de San Pablo. El rápido incremento de su población, el ritmo acelerado de su desenvolvimiento económico y
cultural, así como el desarrollo de sus vías de comunicación, prueban el anterior aserto. Ocupa por su población el cuarto lugar
en el país (1º San Pablo, 2º Minas Gerais, 3º Bahia); con Santa Catalina figura entre los estados de mayor producción de hulla
(alrededor de un millón de toneladas anuales); sobresale además por la producción del arroz, la extracción de yerba, por la ex-
tensión de sus campos de pastoreo y la cantidad y la calidad de sus ganados. También tienen importancia los cultivos de tabaco,
de mandioca, de naranjas, de vid y de trigo.
El clima relativamente templado, la fertilidad de algunos de sus suelos, la gran extensión de sus terrenos anegadizos propi-
cios para el cultivo del arroz y la de los campos de pastoreo, principalmente en la porción Suroeste del estado, explican en parte
esta prosperidad, complementada por un desenvolvimiento modernos de las industrias tales como maderera. la de los vinos,
de productos alimenticios y de calzado.
Pero tanto el borde irregular y abrupto del Planalto, como la continuidad de los terrenos anegadizos, así como la extensión
de los cordones litorales, hacen en el estado sumamente difícil el trazado de los caminos y de las vías férreas, utilizándose por
este motivo, y en vasta escala el avión, siendo el de Porto Alegre, uno de los aeropuertos más activos del continente surameri-
cano.

REGIONES CLIMATICAS DE RIO GRANDE DEL SUR


En una memoria terminada en 1929, y publicada en 1930, LADISLAO COUSSIRAT DE ARAUJO, que fue jefe del Instituto
Meteorológico y Astronómico de Porto Alegre, dio a conocer una división del estado de Rio Grande del Sur en regiones climá-
ticas, destacando que, dada la posición geográfica y la extensión del estado, todo el territorio de éste correspondía a una sola
Provincia climática: la templada. Indudablemente que esta afirmación debía considerarse como válida para el territorio del
Brasil considerado como una unidad aislada.
Dividía a continuación el área de Rio Grande del Sur en ocho regiones o secciones climatológicas, representándolas en un
mapa esquemático, donde los limites estaban figurados por líneas rectas o quebradas. He aquí las regiones reconocidas como
tales:
1 – Campaña, de suelo ondulado, de una altitud media de unos 200 m (cifra a nuestro juicio algo exagerada), y dedicada
en gran parte el pastoreo de ganado, por sus buenas pasturas; limítrofe con el Uruguay.
2 – Sierra del Sudeste, incluyendo las sierras de Encruzilhada, de Tapes, do Herval y otras, y formando un extenso trián-
gulo, casi equilátero con algunas, alturas próximas a 500 m (o alcanzando en algún caso dicha cifra, la que equivale a la altitud
del Cerro de las Animas, del Uruguay).
3 – Litoral, formando una franja bastante estrecha, limitada por uno de sus lados por el Atlántico, comprendiendo en ge-
neral terrenos bajos, esteros y arenales, así como lagunas de gran extensión, tales como la de los Patos, la de Mangueira y una
parte de la Merín. Amplia hacia la frontera uruguaya, dicha franja sufriría un sensible estrechamiento en su porción terminal
Nordeste.
4 – Depresión Central, franja de territorio bastante baja (menos de 100 m) orientada de Oeste a Este, desde el Valle del
Rio Uruguay hasta a región litoral.
5 – Valle del Rio Uruguay, ensanchado hacia la frontera del Uruguay. Excavado totalmente en terrenos basálticos y algunos
terrenos modernos de escasa extensión, con una altitud media de unos 100 m.
6 – Misiones, contigua al mencionado valle, pero con una altitud media de 400m.
7 – Planalto, extensa meseta basáltica, de altitudes apreciables, aumentando estas gradualmente del Oeste al Este, hasta
superar los 1000 m.
8 – Sierra del Nordeste, de alturas variables, cortada por profundos valles, con las laderas cubierta de bosques, en parte
talados.
Como complemento de esta división, agregaba el insigne meteorólogo, que el Valle del Rio Uruguay, podría subdividirse
posiblemente en dos partes, el alto Valle Del Uruguay y el Bajo Valle del Uruguay, limitadas ambas por el paralelo 28º aproxi-
madamente.
Aunque esta división pareció y parece aún muy artificial, sobre todo teniendo en cuenta que las diversas regiones están
limitadas por líneas rectas, el esquema de zonación propuesto resultó útil como hipótesis de trabajo, y además sirvió de freno
para aquellos que creen a pie juntillas, que las regiones fisiográficas, o las edafológicas o aún las de vegetación, están determi-
nadas pura y exclusivamente por las formaciones geológicas.

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REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY

En una interesante publicación del Instituto Brasileiro de Geografía y Estadística, dedicad al clima de Rio Grande del Sur,
aparecida en 1950; el médico y meteorólogo Floriano Peixoto Machado, adopta el esquema trazado por el investigador ante-
riormente citado, sin introducir modificaciones importantes. Tomamos del estudio de Machado los datos siguientes:

Regiones Climáticas Temperatura media anual Pluviosidade anual

1.Campaña 18º1 Entre 1350 y 1650 mm

2.Sierra del Sudeste 16º5 “ 1350 y 1700 “


3.Litoral 17º5(al S.) y 17º9( al N.) “ 1150 y 1450 “
4.Depressión Central 19º4 “ 1300 y 1800 “
5.Valle del R. Uruguay
19º1 “ 1650 y 2000 “
a) Alto
19º7 “ 1350y 1700 “
b) Bajo
6.Missiones 19º2 “ 1800 y 1950 “
7.Planalto 17º1 “ 1550 y 2050 “
8.Sierra del Nordeste 16º0 “ 1800 y 2500 “

Analizando todo el trabajo de Machado, que comprende un estudio muy completo del clima de Rio Grande del Sur,
acompañado por profusión de cuadros numéricos y mapas, se obtiene la impresión de que la existencia de las ocho regiones
climáticas reconocidas por ARAUJO en el territorio del estado, es una realidad casi inobjetable, aunque resulte poco aceptable la
artificiosa manera de cómo fueron trazados sus respectivos limites. Por otra parte, no satisfacen mucho los nombres que se han
dado a tales regiones, de tal manera, que si bien se justifica que dentro de Rio Grande del Sur, pueda hablarse de una Sierra del
Sudeste o de otra del Nordeste, esta nomenclatura pierde todo su valor si se considera al Brasil en conjunto. Además no existe
una verdadera Sierra del Nordeste, sino que se trata del borde oriental del Planalto, muy erosionado y cortado por profundas
quebradas. Tampoco resulta exacto considerar un Alto Valle y un Bajo Valle del Rio Uruguay dentro del territorio riogranden-
se, teniendo en cuenta que la porción baja de dicho valle corresponde a los territorios de la Argentina y del Uruguay. Aunque
acerca de esto último cabría el argumento de que se trata de una división válida solo para Rio Grande del Sur, nombres como
los propuestos pueden conducir a confusiones lamentables, lo que debe evitarse a toda costa.
A pesar de las anteriores observaciones, debe reconocerse que tal esquema presentado por el insigne meteorólogo, na
dado buenos resultados como primera aproximación a la realidad, particularmente en las investigaciones climatológicas rio-
grandenses.

LAS REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR


Desde hace bastante tiempo y considerando los factores geográficos en conjunto, especialmente los geomorfológicos, se
había llegado a subdividir el territorio de Rio Grande del Sur en diversas regiones naturales, y tales divisiones eran utilizadas por
los profesores de enseñanza secundaria y primaria, que las difundían como hechos perfectamente establecidos o bien compro-
bados, trazando a veces los limites con una aparente seguridad.
Así por ejemplo, en un texto ecolar de Alfonso Guerreiro Lima, aprobado en 1911, y titulado Nociones de Geografía, figura
en la edición de 1939 un mapita donde se representan las divisiones o zonas naturales del estado, las cuales corresponden,
salvo alguna que otra excepción a las regiones climáticas de ARAÚJO, que ya hemos mencionado. Damos a continuación el
nombre de las regiones que figuran en dicho mapito: 1 – Campaña (incluyendo la anteriormente llamada Sierra del Sudeste),
2 – Litoral, 3 – Depresión Central, 4 – Valle del Rio Uruguay (sin comprender la primera parte del recorrido de dicho río, donde
el valle se presenta estrecho y mal definido como tal), 5 – Planalto, y 6 – Región Colonial, designación esta última en contraste
con las demás por referirse a un hecho humano y no físico como las anteriores.
Al ilustre botánico Padre Balduino Rambo y al profesor Paulo de Castro Nogueira se deben los primeros intentos serios
para reconocer y delimitar en forma más o menos definida las regiones naturales de Rio Grande del Sur. El segundo de los auto-
res nombrados se refiere, de acuerdo con el título de su trabajo, a las regiones fisiográficas, pero de todas maneras, y teniendo
en cuenta el concepto ( no muy claro por cierto) que encierra la expresión fisiografía, las zonas que presenta se vinculan en
forma estrecha con la verdaderas regiones naturales.
Rambo, autor de notables publicaciones botánicas, utiliza en su obra “La Fisionomía de Rio Grande del Sur”, el material
aportado por los investigadores que le precedieron (particularmente Lindmann y Araújo), pero gran conocedor del territorio
del estado, especialmente de su morfología y de su vegetación, describe en forma detallada las distintas unidades geográficas
aportando la luz de sus propias observaciones, recogidas en multitud de viajes.
Reconoce las siguientes regiones naturales: 1 – Litoral Riograndense, 2 – Sierra del Sudeste, 3 – La Campaña del Sudoeste,
4 – La Depresión Central, 5 – El Planalto (tratando a la Sierra del Nordeste como escarpa erosionada del Planalto). Reduce pues,
en forma razonable a un número exiguo la cantidad de regiones que se pueden reconocer en el territorio del estado , haciendo
un detenido análisis de las mismas. Su trabajo fue publicado en 1942, y luego reproducido parcialmente en el Boletim Geográ-
fico.
Desde el punto de vista fitogeográfico la publicación de Rambo tiene extraordinario valor, lamentablemente utiliza para

22
JORGE CHEBATAROFF

nombrar y delimitar las regiones naturales, designaciones y conceptos antiguos, unos muy atinados y otros discutibles, figuran-
do entre estos últimos Sierra del Sudeste y Campaña del Sudoeste. También la expresión Litoral Riograndense no es muy feliz,
ya que se refiere una llanura de cierta extensión y no tan solo a un litoral.
En cuanto al profesor Nogueira , este investigador dio a conocer en 1948, en la Revista Geología y Metalurgia de San Pablo,
un trabajo (que fue reproducido posteriormente en el Boletim Geográfico) en el que intentaba dividir el estado en una serie de
regiones fisiográficas, basadas casi exclusivamente en las diversas formaciones geológicas. Reconocía las siguientes regiones:
1 – Litoral
2 – Escudo Riograndese
3 – Sedimentos gondwánicos
4 – Planalto
Leyendo el trabajo del ilustre profesor, se entrevé inmediatamente que se trata de un gran conocedor de la geología de Rio
Grande del Sur. Pero en lo referente a la zonación propuesta y la caracterización fisiográfica de las regiones, su trabajo presenta
algunas incongruencias. Al tratar de la región Litoral advierte que también puede ser designada Planicie Costera (o faja litoral).
En lo referente al Escudo Riograndense, nombre poco feliz, ya que el término solo tiene valor cuando se considera a Rio Grande
del Sur como una entidad aparte con respecto al resto del mundo, destaca que se caracteriza por un relieve que no es más que
el resto de la antigua cadena llamada Sierra del Mar. Este último concepto, sustentado por otros investigadores, debería ser
ampliamente discutido, pues si bien es cómodo hablar de una línea más o menos definida de alturas que podría llamarse Sierra
del Mar, es difícil demonstrar que el relieve que actualmente la determina posea la suficiente unidad como para asignarle un
nombre único y tratarla como una verdadera cadena. La propia comparación de este tipo de relieve con el Apalaches, de los
Estados Unidos, no puede admitirse sin discusión, ya que algunos puntos de analogía no quitan que el número de diferencias
sea tan grande que el pretendido parentesco llegue a esfumarse un tanto.
Al tratar de la región denominada Sedimentos Gondwánicos, el profesor destaca solamente los principales rasgos estra-
tigráficos y económicos de la zona, pero no dice casi nada de las formas topográficas resultantes ni de las alturas de la región.
Parecería que la fisiografía estuviera determinada por la sola existencia de los terrenos geológicos, olvidándose la morfología
que resulta fundamental en la definición de los caracteres fisiográficos.
Respecto a las consideraciones hechas acerca del Planalto, es posible admitir gran parte de lo expuesto por el profesor
NOGUEIRA, salvo en lo referente a su prolongación hasta la frontera uruguaya o hasta el interior del Uruguay, donde las alturas
respecto al nivel del mar caen amenudo muy por debajo de los 100 m, lo que muestra claramente que el Planalto no alcanza, ni
mucho menos, la frontera uruguaya. Alegrete, Quarahy y otras localidades se encuentran a solo 100 m de altura, y Uruguayana
a menos 50 m. La denominación pues de Altiplano de Haedo, utilizada por Giuffra para los terrenos basálticos del Uruguay, y
la prolongación del Planalto riograndense hasta el Suroeste del Rio Ibicuy, admitida por Nogueira, no están conformes con la
realidad de los hechos y desde el punto de vista geomorfológico resultan inaceptables.
Por otra parte denominaciones tan dispares como Sedimentos Gondwánicos, término puramente litológico-estratigráfico,
Escudo riograndense, término geológico, Litoral, que se refiere a su posición respecto al océano, Planalto, que es más estric-
tamente geomorfológico, carecen de la necesaria uniformidad en lo referente a la nomenclatura empleada, lo que puede dar
origen a confusiones o malas interpretaciones, tan frecuentes aún en geología y geomorfología.
Estimamos pues que el trabajo del ilustre profesor riograndense no responde al título que lo encabeza, pues en realidad
tiene a delimitar y al mismo tiempo caracterizar las formaciones geológicas principales que ocurren en el estado, pero no llega
a fundamentar en forma clara y convincente las diversas regiones fisiográficas.
Aparte del valioso trabajo de Lindmann sobre la vegetación de Rio Grande del Sur, las referencias de Sampaio, Gonzaga
de Campos, G.D. Ochoa y otros autores, tienen gran importancia en la caracterización de los diversos paisajes botánicos (así
como tipos de suelos) que ocurren en el estado. Desgraciadamente, algunas de estas referencias son de carácter muy general,
y a veces un poco unilaterales. Por ejemplo SAMPAIO reduce a un mínimo inadmisible el número de formaciones vegetales que
caracterizan a Rio Grande del Sur.
Geógrafos como L. Bezerra dos Santos, en trabajos de índole general reconocen como bien fundamentadas las tres regio-
nes naturales que figuran a continuación: 1 – Litoral, 2 – Planalto y 3 – Campiñas, sin que esto signifique que se opongan a la
posibilidad de una subdivisión, lo que en algunos casos podría resultar lógico, y además, de utilidad local.
También el ilustre Prof. C. Delgado de Carvalho, al tratar de los climas que ocurren en el amplio territorio brasileiro, con-
sidera para la parte meridional del país, involucrada dentro del dominio de clima templado, los siguientes tipos climáticos: 1
– Tipo superhúmedo: Litoral austral, 2 – Tipo semihúmedo de latitudes medias: (aquí llama la atención que el autor emplee la
palabra planicie para la llanura y la penillanura indistintamente) y 3 – Tipo semi-húmedo de altitud: Planalto austral. Es decir ,
que tales tipos climáticos, corresponden a las mismas regiones naturales cuya existencia destaca Bezerra dos Santos. Por otra
parte, el propio Delgado de Carvalho ao describir las “zonas” de la Región Sur, indica las características del Litoral, Planalto, y
Planicie Riograndense (llama así lo que para todos otros autores constituye los Campos Meridionales o Campiñas).
Por resolución del 6 de Julio de 1945, del Consejo Nacional de Geografía del Brasil, se admiten como existentes en el es-
tado de Rio Grande del Sur, las siguientes regiones: 1- Campiñas Meridionales (subdivididas en la subregiones de los Campos
del Uruguay y de la Sierra del Sudeste); 2 – Litoral y Sierra ( con las subregiones Litoral Lagunar, Costa de Rio Grande y Litoral
rocoso de Santa Marta, que continua por Santa Catalina); 3 – Depresión del Rio Yacuy; 4 – Planalto (con las subregiones llamadas
Campos de Cuchilla Grande, Vertiente o Ladera del Planalto, subregión Pionera y Campos de Serra Geral).
Salta a la vista la falta de uniformidad en la nomenclatura empleada, particularmente en lo referente a las subregiones.
Además el empleo de términos imprecisos como Litoral, Campos, Vertiente (Encosta) y Campiñas, mezclados con expresiones
como Subregión Pionera, que tiene más sentido histórico que geográfico, o Costa de Rio Grande, en la que no se ve claro a que

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REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY

corresponde, ya que hay otra denominación que es la do Litoral Lagunar, que bien podría prolongarse hasta el Atlántico, ya que
la palabra costa se refiere a la línea limite (e indecisa) que separa aparentemente la tierra del mar, hacen del cuadro propuesto
un tipo de división zonal muy discutible.
Por resolución del 13 de Julio de 1945, se reconocían las siguientes zonas geográficas: 1- Campaña, 2 – Costa, 3 – Litoral
Lagunar, 4 – Sierra del Sudeste, 5 – Depresión Central, 6 – Misiones, 7 – Noroeste, 8 – Campos del Centro, 9 – Colonia Baja, 10
– Colonia Alta, 11 – Passo Fundo, y 12 – Campos del Vacaria. Esta división está en gran parte de acuerdo con la realidad de los
hechos, y cada una de las zonas que se acaban de indicar tiene características propias bien definidas. Sin embargo carece como
la anterior de uniformidad, tanto por los nombres empleados como por los hechos geográficos que se han tomado en cuenta
para proceder a su delimitación. No aparece por otra parte muy clara la diferencia entre Campos y Campaña, ni se destaca nin-
guna característica de zona tales como Nordeste o Passo Fundo.
A nuestro juicio, ambos esquemas pueden tener utilidad práctica, pero con el correr del tiempo deber ser cambiados por
otros que posean mayor precisión y respondan a una mayor uniformidad de la nomenclatura, tendiendo ésta a destacar las
características geográficas de la región a se refiere. Si el clima de Rio Grande del Sur no varia lo suficientemente de un extremo
a otro del estado como para dar lugar a distintas regiones climáticas, hay que acudir a los tipos de relieve, de vegetación y de
suelos para fundamentar las regiones naturales. Lo innegable es que éstas existen en realidad; basta hacer un viaje desde de
Porto Alegre hasta Caxias do Sul para cerciorarse de este hecho. Y sin embargo, se ve claramente en este viaje, que las varia-
ciones en el relieve, la vegetación primitiva, y se observara al detalle, la que ocurre en las características del suelo, son las que
determinan las unidades geográficas naturales, siendo el trabajo del hombre posterior y condicionado en parte por los factores
físicos favorables o desfavorables, cuya importancia relativa debe ser considerada en primer lugar.
No queremos terminar esta discusión de los esquemas de división regional de Rio Grande del Sur propuestos, sin dar al
respecto nuestro propio punto de vista:
Consideramos que es innegable la existencia de una Planicie Costera (o Región Litoral) en el estado de Rio Grande del Sur,
la que no sólo ofrece el aspecto de llanura, sino que lo es por su propia génesis y su estructura, estando formada por sedimentos
modernos (era Antropozoica) más o menos horizontales depositados sobre una cuenca de probable dislocación ( o “graben” al
decir de Octavio Barbosa) de fines del Cenozoico, ya que en una perforación realizada por el Instituto Geológico del Uruguay
cerca de Laguna Merín, se han encontrados fósiles de la transgresión Entrerriana a 120 m. de profundidad ( según Nieves P. de
Medina). En esta Planicie, formada en una zona de movimientos epirogénicos modernos positivos (existen capas de subfósiles
querandinos cerca de la mencionada laguna, a cierta altura sobre nivel, según comprobaciones de N. Serra Y F. Oliveras, en el
Uruguay), se han formado extensas lagunas, como consecuencia de una gradual atrofia de los tributarios del Atlántico y de las
dislocación antes indicada, así como por la vasta acumulación de arena, procendente del antiguo rio que desaguaba probable-
mente donde termina el actual Yacuy, y en tiempos modernos proveniente de la cuenca platense, y dispersada en dirección
Nordeste por el Pampero, cuya acción , milenaria ha favorecido el desplazamiento de los materiales sueltos en forma directa
( movimiento eólico) o bajo la acción del oleaje oblicuo, causante de corrientes costeras semipermanentes. Esta Planicie com-
prende un litoral arenoso junto al Atlántico, y formada por limos y arenas más al interior (litoral lagunar), donde los terrenos
anegadizos, no salinos o muy poco salinos, se prestan admirablemente para el cultivo del arroz. Quien baja de las serranías
situadas al Oeste, determinadas por rocas cristalinas, nota inmediatamente el profundo contraste que forma con esas alturas
esta Planicie Costera, llanura en el verdadero sentido de la palabra, apenas afectada por los efectos de la erosión (como conse-
cuencia del movimiento correspondiente a la regresión querandina).
No puede objetarse tampoco que el Planalto basáltico (o Segundo Planalto del Brasil Meridional) constituye por sí solo
una región natural, aunque por el Suroeste no alcanza la frontera uruguaya, a pesar de prolongarse hasta allí formaciones ba-
sálticas, ya que después de su borde abrupto próximo a la línea que une Jaguarí con Santa María y sigue hasta Novo Hamburgo,
sufre una notable reducción de altura, para dejar lugar a la Depresión Central, que se extiende principalmente sobre terrenos
gondwánicos (región de los Sedimentos Gondwánicos de Castro Nogueira). Alegrete por ejemplo, a solo 100 m de altura sobre
el nivel del mar, esta fuera del verdadero Planalto, aunque algunos testigos de erosión (buttes y mesas) alcanzan a veces mayor
altura.
Como no existe un pasaje brusco del Planalto a la Depresión Central, particularmente en la zona colonial, donde los valles
debido a ríos en parte obsecuentes han recibido un importante aporte de población que ha cambiado la primitiva fisionomía de
la región, se puede considerar al borde erosionado del Planalto (vertiente o ladera del Sudeste del mismo) como una verdadera
subregión, con características propias.
La Depresión Central puede considerarse como una franja limite entre el Planalto y las penillanuras situadas más al Sur,
que penetrando en territorio uruguayo, alcanzan en algunos puntos la costa del Plata. Su condición de región natural es discu-
tible , y tal vez convendría considerarla como una subregión de la Penillanura Sedimentaria Gondwánica, que ocurre en el Uru-
guay, y que ofrece en Rio Grande del Sur un territorio ondulado, con preferencia llano, con remanentes de erosión achatados, o
formando pequeñas cuestas más o menos destruídas o escindidas en sucesiones de cerros chatos, alcanzando algunas cuchillas
como la de Santa Ana más de 200 m de altura. Si bien la Depresión Central tiene un borde prominente al Norte, su limite meri-
dional resulta muy poco definido y difícil de separar de la verdadera penillanura.
También resulta difícil demonstrar que el Valle del Rio Uruguay pueda considerarse como una verdadera región natural. En
efecto, si se consulta un mapa hipsométrico general del continente suramericano, se notará, que dicho valle carece de simetría,
transformándose del lado de la Argentina en una región anegadiza que incluye la laguna de Iberá e inmensos esteros. Su aspec-
to de verdadero valle solo lo conserva en la parte del curso comprendida entre el Planalto y el territorio argentino de Misiones.
Más al Sur, y transpuesta la Depresión Central, por la que corre a unírsele el Rio Ibicuy, penetra en un territorio muy particular,
que tiene al Oeste los esteros de Iberá, y por el Este una suavísima cuesta basáltica, que se inclina en forma apenas perceptible

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JORGE CHEBATAROFF

en dirección del rio, estando su borde abrupto marcado por la cuchilla de Haedo en el Uruguay, y la Serra da Cruz en el Brasil,
siendo el rio Tacuarembó, en el país nombrado, y el rio da Cruz continuado por el Santa María, en Rio Grande del Sur, corrientes
fluviales subsecuentes. Más al Sur, la cuesta basáltica del Suroeste de Rio Grande, y del Noroeste del Uruguay, desaparece bajo
capas cretáceas y terciarias, las cuales se presentan también, pero con espesores distintos, en la provincia argentina de Entre
Ríos, apareciendo delineado otra vez el valle, aunque con mucha mayor amplitud que en el curso superior, donde a veces ofrece
el aspecto de quebrada.
En cuanto a la región llamada por Castro Nogueira, Escudo riograndense, se prolonga en el Uruguay, y por lo tanto no
puede llevar un nombre como el propuesto por dicho autor. En este último país constituye toda una formación geológica desig-
nada por K. WALTHER “fundamento cristalino” o Basamento Cristalino. Geomorfológicamente corresponde a una penillanura
cristalina típica, con serranías y monadnocks agrupados particularmente en la porción Este del país, donde llegan a constituir
una verdadera subregión, aún cuando las sierras no ofrezcan una continuidad absoluta.
Esta penillanura podría denominarse Platino-Atlántica, ya que se prolonga hasta la ribera platense por un lado (Montevi-
deo, Colonia del Sacramento) y hasta el Atlántico por otro (Rocha), penetrando profundamente en Rio Grande del Sur, hasta a
abarcar todo el Escudo Riograndense, según la terminología de CASTRO NOGUEIRA, en el cual las sierras forman, igual que en
el Uruguay una subregión o tal vez una región, ya que aquí la altura media de aquéllas es mayor, aunque la máxima (de unos
500 m) es la misma.
La penillanura cristalina es una realidad geomorfológica que no se puede discutir, dad su relativa madurez (apenas afec-
tada por algunos movimientos isostáticos modernos), ofreciendo los caracteres de un verdadero peneplano, en el sentido da-
visiano. Y sabido es que un peneplano no tiene por qué ser necesariamente plano, como creen algunos ofreciendo Irlanda un
ejemplo notable al respecto, con montañas de más de 1000 m de altura.
Uno de los mayores defectos en que han incurrido los autores que se han ocupado de la división región de Rio Grande del
Sur, es el de considerar al territorio del estado como una entidad completamente separada del mundo, lo que ha determinado
esa falta de uniformidad y valor localista de la nomenclatura a que ya nos hemos referido. Lo mismo ha ocurrido en el Uruguay,
donde la terminología empleada carece también de uniformidad y a veces incluso involucra errores de concepto.

LAS REGIONES NATURALES DEL URUGUAY


Si se compara la superficie del Uruguay con la Pampa argentina, y teniendo en cuenta que ésta no ofrece una marcada
diversidad de aspectos o de ambientes físicos, podría pensarse que el territorio uruguayo, dada su exigüidad no puede ofrecer
verdaderas regiones naturales. Ya hemos dicho, que esta manera de pensar es errónea, ya que el Uruguay es mucho más irregu-
lar y heterogéneo que la Pampa. No hay más que comparar el mapa geológico de la parte llana de dicha región argentina con el
de la República del Uruguay; a igual resultado se llegaría si se cotejaran cartas de suelos, de vegetación, o mapas hipsométricos.
Uno de los primeros y más serios intentos para establecer en territorio uruguayo “zonas” topográficas ha sido realizado
por E. S. Giuffra, quien en algunas de sus obras didácticas y en su extenso libro “La República del Uruguay” ha presentado un
esquema donde se reconocen las siguientes zonas:
1 – Altiplano de Haedo ( se refiere particularmente a la región basáltica, y de cuestas de la arenisca de Tacuarembó).
2 – Región Ondulada Central
3 – Región de colinas y sierras
4 – Penillanura Litoral ( se refiere a la cruzada por el rio Uruguay, es decir, lo que nosotros llamamos valle, correspondiente
a dicho rio).
5 – Penillanura Platense
6 – Llanura Atlántica
El esquema ajustado en cierta medida a la realidad, y caracterizado por la feliz introducción del término “penillanura”,
contiene algunas inexactitudes que conviene destacar:
1 – La expresión “altiplano” aplicada para el conjunto de napas basálticas del país, es evidentemente una exageración,
y proviene tal vez de observar la cuesta volcánica del lado oriental, donde presenta la escarpa o borde más o menos abrupto
(por ejemplo en la cuchilla Negra y la sierra de Tambores). La altura que en la localidad de Tambores llega a 275 m, y en algunos
puntos de la cuchilla de Haedo excede 300 m, decae gradualmente en dirección al Rio Uruguay, siendo la altura media de toda
la región bastante inferior a 200 m (“tierras bajas” de S. Passarge), valle decir que de ninguna manera se trata de un altiplano.
2- La Región ondulada central no existe como entidad propia y debe descomponerse involucrándose sus diversas porcio-
nes en el área de las demás regiones. Por ejemplo, nada tiene que ver la cuenca del río Tacuarembó, con la región granítica y
gnéissica meridional y central del país, de formas redondeadas que contrastan con las achatadas de la porción Norte.
3 – Es evidente que en el Uruguay existe un área muy serrana que se extiende principalmente por los departamentos de
Maldonado y Lavalleja y especialmente allí donde afloran los elementos de las series de Minas, Aiguá y de las Animas. Pero las
sierras no ofrecen una continuidad absoluta y solo pueden llegar a constituir una subregión, dentro de la penillanura cristalina.
4 – La Penillanura Litoral, corresponde en realidad a la porción final del Valle del Rio Uruguay.
5 – La Penillanura Platense existe en realidad, pero no es posible separarla de la Penillanura Platino Atlántica, de extensión
más vasta, ya que en Rocha alcanza la costa oceánica, y además se prolonga por el territorio de Rio Grande del Sur. Por otra
parte GIUFFRA incluyó en ella terrenos llanos tales como los de Arazatí, Santa Lucia Inferior, Carrasco, Solís Grande, considerán-
dolos integrantes de la Penillanura, cuando en realidad corresponden a la Planicie Costera.
6 – La Llanura Atlántica existe realmente, aunque aquí preferimos denominarla Planicie Costera, nombre utilizado también
por algunos tratadistas riograndenses.
En resumen, en el esquema propuesto por Giuffra, debe cambiarse la expresión altiplano por otra que esté en mayor

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REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY

consonancia con la realidad de los hechos. Es preciso además ampliar el área ocupada por sua llanura atlántica, prologándola a
lo largo del Plata, con numerosas soluciones de continuidad. También es preciso prolongar la Penillanura Platense, llamándola
Platino-Atlántica hasta muy al interior de Rio Grande del Sur, y finalmente reducir la Penillanura Litoral a la porción mas baja
o terminal del Valle del Rio Uruguay.
En época relativamente reciente el ingeniero J. Aznárez, en una publicación dedicada a los suelos del Uruguay, expone
la división regional hecha por Giuffra, y destaca basándose en O. D. Ochoa, la diferencia fundamental que separa al Planalto
Riograndense de la región basáltica uruguaya y del Sudoeste de dicho estado, que nosotros consideramos como una verdadera
cuesta volcánica. Hace un análisis de las diversas formaciones geológicas ocurrentes en el país y deduce una zonación de los
suelos del Uruguay presentándola en la forma siguiente:
1 – Campos de limo pampeano.
2 – Campos de capa o estratos de Fray Bentos.
3 – Campos de lavas de Serra Geral (y aquí involucra las rocas efusivas de las series de Minas y de Aiguá).
4 – Campos del Cretácico.
5 – Campos de areniscas de Tacuarembó (incluídas Buena Vista, do Rio do Rastro, Therezina).
6 – Campos de areniscas de Salto.
7 – Campos de calizas Del Queguay.
8 – Zona litoral o litoránea (litoral Este, bañados, campos bajos, costa de la Laguna Merín y otras).
9 – Campos de Granito (y rocas de su séquito).
Indudablemente, esta división zonal está basada enteramente en las distintas formaciones geológicas, y ofrece cierta
analogía con la de Castro Nogueira, pero con el agravante de ser demasiado detallada. Además las diversas zonas propuestas ca-
recen de continuidad, ya que este carácter es peculiar a las manchas de calizas del Queguay y las de limo pampeano. No resulta
práctico (aunque esto tenga importancia agronómica) fundamentar una zona sobre la base del área ocupada por las areniscas
de Salto, que es muy restringida. Pero lo que parece más ilógico aún, es involucrar dentro de los campos de lava, no solo los que
corresponden a la región basáltica, sino a los que ocurren sobre los afloramientos eruptivos volcánicos de las series de Minas y
Aiguá, que comprenden un conjunto muy heterogéneo de rocas, desde ácidas hasta neutras, y en algún caso, básicas.
También resulta poco aceptable que J.Aznárez fundamente la zonación de los suelos exclusivamente sobre las distintas
formaciones geológicas lo que resulta cierto solamente para los suelos azonales, que son relativamente comunes en el país.
Desde el punto de vista geográfico la zonación propuesta por el mencionado autor ofrece algún interés, pero contrasta
vivamente con la presentada por E. S. GIUFFRA, lo que en parte se justifica, teniendo en cuenta la distinta finalidad de las dos
clasificaciones. De todas maneras una convergencia de puntos de vista podría esperarse si se eliminaran algunos errores de
concepto y se dejaran de lado algunos detalles de escasa importancia.
Siempre ha habido la tendencia para admitir diversas regiones en el territorio del Uruguay. Esto es lo que se desprende de
los trabajos de índole geológica de K. Walther y otros, los de carácter geográfico (como el ya citado de Giuffra) y las observa-
ciones agrostológicas y agroeconómicas (Rosengurtt, Campal, Aznárez). Por mi parte he sostenido siempre que en el Uruguay
pueden reconocerse diversas áreas de vegetación, que corresponden aproximadamente a otras tantas regiones o subregiones
naturales. Sobre el particular publiqué en 1942 un trabajo en la Revista Geográfica del I. Panamericano de Geografía e Historia,
donde me esforzaba en establecer las distintas formaciones vegetales que ocurren en el Uruguay.
Por otra parte la carta geológica del país de 1946, ejecutada bajo la dirección de E. Terra Arocena, y diversas cartas par-
ciales debidas principalmente a R. Lamberty y N. Serra, así como los mapas topográficos del Instituto Geográfico Militar, aparte
de otros aportes, incluso los del Servicio Meteorológico del Uruguay y la Dirección de Agronomía, nos ponen en condiciones
de poder trazar a grandes rasgos nuestras regiones naturales, que se prolongan casi sin soluciones de continuidad hasta muy al
interior del territorio de Rio Grande del sur.
Anteriormente indicamos que la Planicie Costera riograndense penetra en nuestro territorio abarcando una parte de los
departamentos de Cerro Largo, Treinta y Tres, y especialmente Rocha, para continuar luego en forma algo irregular y disconti-
nua a lo largo del Plata. Genéticamente la llanura que rodea a la Laguna Merín es algo distinta a las que marginan la costa pla-
tense, tales como las de Arazatí, Santa Lúcia Inferior, Solís Grande y otras; pero como estas últimas son poco extensas no pueden
llegar a ser consideradas como verdaderas subregiones, aunque puede hablarse de “aspectos”, lo que realmente son variables.
Tampoco puede dudarse de que la región de afloramientos del Basamento Cristalino corresponde a una verdadera pe-
nillanura, en la que se destacan numerosas serranías, algunas de porfído (Aiguá), de pórfido y granito (Animas), de cuarcita
(Ballena) o de varios tipos de rocas ( Minas, Carapé, Alférez), determinando una subregión serrana dentro del conjunto. Pero la
Penillanura Cristalina (que debe ser llamada Platino-Atlántica) se opone la Sedimentaria Gondwánica, que difiere de ella por el
predominio de formas achatadas, y valles bordeados por escarpas.
En lo referente a las napas basálticas del Noroeste del territorio, que GIUFFRA había designado como “altiplano de Ha-
edo”, lo que para J.Aznárez resulta inadmisible, nosotros preferimos llamar a la región como Cuesta Basáltica de Haedo, sin
indicar con esto que la roca típica de dichas napas sea un basalto en el sentido estricto de la palabra. Tal vez resulte extraña la
denominación de cuesta para masas volcánicas, ya que tal expresión ha sido empleada para designar formaciones sedimenta-
rias suavemente inclinadas; pero como las napas son varias, existiendo una aparente estratificación volcánica, la denominación
podría aceptarse sin reticencias. Esta cuesta continua por Rio Grande del Sur hasta la Depresión Central.
El problema tal vez más engorroso es el de clasificar la porción del territorio uruguayo continuo al Rio Uruguay, donde
Giuffra veía una Penillanura. Esta región tiene caracteres propios y muy marcados, por lo menos dentro del Uruguay: depósitos
cretácicos y terciarios ( estos últimos con suelos fertilísimos, en parte azonales y en parte pradera, formado sobre las capas de
Frey Bentos), vegetación particular con bosquecillos espinosos de algarrobo ( Prosopis nigra, P.alba ), ñandubay ( Prosopis alga-

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robilla var. ñandubay ), quebracho blanco (Aspidosperma quebracho blanco), chañar (Gourliea decorticans ) y espinillo (Acacia
cavenica), con algunos arbustos espinosos y la palmas Thritrinax campestris y Butia yatuy. En forma convencional se podría
llamar a la región, Valle del Rio Uruguay, continuación de la de Rio Grande del Sur, reconocida por Coussirat Araujo y otros
investigadores. En el Uruguay corresponde al valle bajo, hasta el Salto Grande, de donde continua el valle medio hasta los 28º
aproximadamente, quedando luego la porción de dicho valle con caracteres muy especiales correspondientes al curso superior.

CUADRO GENERAL DE LAS REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY
Dentro del inmenso arco que traza el rio Uruguay, desde las nacientes del rio Pelotas, hasta su desembocadura en la Plata,
quedan comprendidos alrededor de 470 000 km², quedando limitado todo el territorio hacia el Sur por el Rio de la Plata, y al
Este por el Atlántico.
En tan vasta área ( más de once veces la da Suiza) pueden a nuestro juicio reconocerse la siguientes regiones naturales.
1 – Planalto Meridional del Brasil (o según otra terminología, Segundo Planalto), que dentro del territorio contorneado
por el Rio Uruguay podría llamarse simplemente Planalto Riograndense o simplemente Planalto. Corresponde a la parte más
elevada ( más de 300 m) de la formación geológica constituida por el manto (o mejor, sucesión de napas) volcánico de los ba-
saltos de Serra Geral (meláfidos, según unos, porfiritas labradóricas, según otros) y en algunos casos materiales relativamente
más ácidos como la lidleíta de Guimarães.
La mayor latitud se encuentra hacia el Nordeste, cerca de la frontera con Santa Catalina, alcanzando casi 1100 m (locali-
dades como Vacaria, Bom Jesús y San Francisco de Paula, se hallan a más de 900 m de altura sobre el nivel del mar). En esta
porción elevada, el contraste entre las masas testigos del Planalto y los valles o quebradas excavadas por las aguas es muy
profundo, y al conjunto sele llama por esta razón Serra Geral (que corresponde a lo que algunos han designado como Sierra
del Nordeste). La masa basáltica buza hacia el NW, muy suavemente, y en general recubre areniscas triásicas (especialmente
“arenitos” de Botucatú), las que afloran en las zonas denudadas, y a veces aparecen interpuestas entre los sucesivos derrames
de lavas volcánicas.

Foto 1- Camino carretero de Porto Alegre a Caxias do Sul cortando el basalto.

Debido a su gran extensión (más de 100 000 km²), el Planalto ofrece cierta variedad climática y fitogeográfica, lo que ha
movido a algunos investigadores, entre ellos Coussirat Araujo a subdividirlo en regiones. A nuestro juicio se trataría en realidad
de aspectos o a lo sumo de subregiones (Misiones y Sierra del Nordeste, correspondiendo una parte de la primera al Valle del
Rio Uruguay). Así, por ejemplo, en las laderas o escarpas del río Caí, la vegetación varia mucho de acuerdo con la altura, según
nuestras propias observaciones. Además en algunas áreas elevadas del Planalto llega dominar la formación de Araucaria, la que
según Rambo, desciende a veces hasta 500 m de altura, mezclándose con la vegetación subtropical de ladera. Pero esta misma
formación es reemplazada en ciertas áreas (por ejemplo en torno de Vacaria) por vegetación baja, arbustiva o herbácea.
Desde el punto de vista fitogeográfico, el Planalto ofrece pues varias formaciones: a) – Araucaria, b) – Bosque subtropical
de ladera (con numerosas facies), c) – Campos graminosos o simplemente herbáceos, con escaso arbolado. Pero esta vegeta-
ción parece hallarse en un período de invasión por las dominantes subtropicales, con retroceso de Araucaria, y tal vez de los
campos; evidentemente que la acción humana se opone bastante al libre curso de este proceso natural.
La pluviosidad del Planalto varía entre 1500 y 2500 mm (muy superior a la media de nuestro país), y es máxima en la lla-
mada Sierra del Nordeste, muy alta y no muy alejada del mar. La temperatura media anual se aproxima a 17º (algo superior a la

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REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY

media de Montevideo), ocurriendo nevadas en las partes más elevadas de la región, estas tienen lugar, según Peixoto Machado
entre los meses de Mayo y Setiembre; en Julio de 1942 cayeron nevadas en tres días consecutivos, hecho que había acontecido
ya durante años anteriores (1912 y 1925).
La intensa colonización del borde Sudeste del Planalto, donde se hallan aglomeraciones urbanas muy progresistas, ha
motivado que a toda el área, incluyendo terrenos relativamente bajos (donde se encuentra por ejemplo la ciudad de San Le-
opoldo), se la haya denominado alguna vez Región Colonial (o Colonia Baja, y Colonia Alta, según otra nomenclatura). Pero si
bien bajo el punto de vista de la geografía humana podría considerarse como una región especial, no se trata de una verdadera
región natural, y solo de una zona (subregión) de transición del Planalto a la Depresión o la Penillanura.
2 – Penillanura Sedimentaria Gondwánica, que abarca en el Uruguay el territorio comprendido entre el borde Este de la
Cuesta Basáltica de Haedo, y la región donde afloran los elementos constituyentes del Basamento Cristalino, correspondiendo
en Rio Grande del Sur a toda el área donde afloran los sedimentos gondwánicos y una parte del valle del rio Ibicuy entallado en
el basalto. Dentro de la región, la Depresión Central Riograndense, puede considerarse como una verdadera sub-región; en el
Uruguay, tiene como homóloga, aunque menos definida y menos extensa, y sin llegar a constituir una unidad geográfica impor-
tante la aparente depresión por donde corren los ríos Tacuarembó y Negro.
Esta Penillanura, cuyas mayores alturas no alcanzan a 300 m, se distingue de la Penillanura Cristalina Platino-Atlántica,
en que ofrece un paisaje de contrastes entre regiones bajas y masas tabulares, formando estas últimas cerros chatos (o buttes
simplemente) o cuchillas mesas (o mesas). En los cerros y cuchillas suele reconocerse el carácter de cuestas que ofrecen parti-
cularmente las areniscas neogondwánicas, muy erosionadas. Las cuchillas de Taboleiro, de Santa Ana, de Cuñapirú, y la parte
Sur de la mesa de Cuaró, pertenecen a este tipo de formas.

Foto 2 – La Penillanura Sedimentaria, bordeada por la escarpa de la Cuesta Basáltica, que se ve en el fondo (cuchilla Negra).

Siendo las rocas de esta Penillanura en general sedimentarias, han resistido menos a la erosión que las de la Cuesta Basál-
tica, aunque en cierta medida soportan mejor la acción de los agentes de meteorización, dando lugar en el caso de las areniscas
de Tacuarembó (Botucatú) a suelos generalmente azonales. Tales suelos, que son arenosos y relativamente pobres, y fáciles
presas de la erosión eólica, son a veces bastante buenos, como ocurre con los formados sobre las capas neogondwânicas de
Palermo (profundos, con apreciable contenido de cal y otros compuestos útiles, así (como materia humífera). La vegetación
dominante de la Penillanura es la de gramíneas (en las zonas arenosas son comunes Andropogon latteralis, A. condensatus,
Paspalum notatum, y diversos arbustos de los géneros Eupatorium y Vernonia ), pero en las hondonadas, donde existen ma-
nantiales o arroyos (lugares llamados a menudo “grutas”), aparecen grupos. de arboles, aglomerados junto a las escarpas (con
Schinus, Eugenia, Cupania, Ficus, Cassearia, Lithrae, Sebastiania, Luchea, y Erythrina con los troncos poblados de epífitas). En
tales hondonadas son numerosos los helechos (de ahí el nombre de Gruta de los Helechos, del Uruguay).

Foto 3 – Borde de cuesta de areniscas de Tacuarembó, con relieve ruiniforme, en paulatino retroceso.

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Foto 4 – El mayor de los Tres Cerros de Cuñapirú, mesa desprendida de una cuchilla aplanada (Rivera).

Foto 5 – Morro de Zapucaya, ejemplo de butte, desprendido del borde de la cuesta de areniscas de Botucatú.

En cuanto al clima, es relativamente uniforme en la porción uruguaya de la penillanura, pero aún aquí, se nota un incre-
mento de la pluviosidad hacia la cuchilla de Santa Ana, donde caen anualmente más de 1300 mm anuales de lluvia. La Depre-
sión Central riograndense se caracteriza por una temperatura media bastante alta (19º4), y la pluviosidad alcanza en algunos
puntos hasta 1800 mm anuales. En Tacuarembó la temperatura media anual es algo superior a 18º, pero la pluviosidad apenas
pasa de 1200 mm anuales.
De la erosión de las cuchillas mesas o de las antiguas cuestas, han surgido alineaciones de cerros (buttes), tales como los
Once Cerros y Tres Cerros de Cuñapirú, del Uruguay, quedando otros asilados, como el caso del Morro de Zapucaya, próximo a
Porto Alegre, resto espectacular de cuesta, casi con figura de hogback.
3 – Penillanura Cristalina Platino-Atlántica, que comprende las áreas donde aflora el Basamento Cristalino del Uruguay,
y las correspondientes al Escudo Riograndense. La altura media de la región es menor de 200 m y este hecho, así como una
intensa y secular denudación que ha llevado toda la comarca hasta la etapa de extrema madurez, nos obligan a considerar a
toda la región como una penillanura en el sentido estricto de esta palabra, dejando de lado los términos puramente geológicos
tales como escudo, basamento cristalino, región granítica, etc., que hablan más del subsuelo que del paisaje, o expresiones
vagas como campo, campiñas y otras. El subsuelo de la penillanura contiene una impresionante variedad de rocas: granitos,
sienitas, granodioritas, pórfidos, lamprófidos y aplitas, cuarcitas, micaesquistos, anfibolita, gneisses, cloritoesquisto, filitas, etc.,
que emergen (determinando afloramientos) de las capas gondwánicas por un lado, y de las cuaternarias de la Planicie Costera,
por otro.
Dentro del conjunto se detacan en forma bastante nítida las masas eruptivas volcánicas, y metamórficas, de las series de
Minas y Aiguá del Uruguay (equivalentes a la de Maricá, de Rio Grande del Sur), y algunas serranías constituidas por elementos
aún más modernos (granitos jóvenes y riolitas del Uruguay, especialmente en la Sierra de las Animas) y algunas masas graníticas
de Rio Grande. Las zonas serranas, que a veces son simples agrupaciones de monadocks de poca entidad, en algunos casos ocu-
pan un área vasta, y llegan a constituir unidades geográficas con carácter de subregiones: Sierras del Este, del Uruguay, y Sierras
del Sudeste, de Rio Grande del Sur. La altura máxima de estas últimas (Encruzilhada, Tapes, Cangussú, etc.) oscila alrededor de
500 m, y la altura media del área estrictamente serrana, apenas rebasa los 300 m. En el Uruguay, y el Cerro de las Animas tiene
501m, pero la altura media de toda la región serrana talvez no rebase los 200 m, vale decir, que en este último país, la penilla-
nura es más típica que en el estado de Rio Grande del Sur.
Difiere la penillanura propiamente dicha de las subregiones serranas por los tipos de suelos (menos pedregosos, y más
arcillosos y profundos, aunque a veces menos fértiles), y por carecer prácticamente de matorrales y bosques, salvo los que bor-

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REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY

dean las corrientes fluviales, dominando por doquier la pradera de vegetación graminoide (gramíneas, ciperáceas y hierbas en
general bajas, comprendiendo algunos sufrútices y arbustos tales como Bacharis coridifolia, B. articulata, Eupatorium buniifo-
lium y otros). En las regiones serranas domina en el parte alta de las laderas el matorral con Colletia paradoxa, Dondonaea vis-
cosa, Schinus myrtifolius, Sc. lentiscifolius, Heterothalamus alienus, Blepharocalyx angustifolius, Berberis laurina, agregándose
en las partes más bajas Rapanea laetevirens, R. ferruginea, Lithrae brasiliensis, Fagara rhoifolia, Celtis iguanea, Scutia buxifolia,
y algunas palmeras, entre ellas Arecastrum Romanzoffianum. En las hondonadas suele presentarse el arbolillo de la yerba mate
(Ilex paraguariensis), y muchas especies de helechos.

Foto 6 – Sierra Mahoma, mar de piedra granodiorítico.

Foto 7 – Hog-backs casi verticales de cuarcita de la Sierra Ballena (Maldonado).

En cuanto el clima, siendo una región muy extensa, varía bastante si nos desplazamos de Suroeste al Nordeste. Así, por
ejemplo, mientras en el departamento de Colonia (del Uruguay), la pluviosidad es apenas superior a 950 mm anuales, en las
sierras riograndenses supera los 1700 mm. Sin embargo, la temperatura media es casi igual en Colonia que en la Sierra de En-
cruzilhada (Machado indica 16º5 como temperatura media para la Sierra del Sudeste, número que también corresponde a la
ciudad de Montevideo).

Foto 8 – El cerro de las Animas, cima culminante del Uruguay (de pórfido), con 501m.

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El secular modelo del territorio donde actualmente asoman las rocas cristalinas antiguas, así como sedimentos muy meta-
morfizados, realizado principalmente por la erosion fluvial, ha delineado en la penillanura, ondulaciones alargadas denomina-
das cuchillas, término que significa divisorias de agua, ya que cortan el agua de lluvia repartiéndola hacia cuencas distintas. Las
de primer orden son concordantes con las corrientes fluviales de primer orden, y las de los órdenes siguientes concuerdan en
su disposición con los ríos y arroyos del mismo orden, lo que revela inmediatamente la estrecha dependencia de los sistemas
de cuchillas con la red hidrográfica, que en la penillanura tiene en general, aspecto dendrítico. Donde las rocas resistentes han
sido puestas el descubierto aparecen mares de piedra ( por ejemplo, las sierras Mahona y Mal Abrigo, del Uruguay), asperezas
(Polanco y Sepulturas, del Uruguay) y sierras, teniendo estas últimas diversas formas según la roca constituyente: las cuarcitas
son crestadas (S. de la Ballena, Uruguay), las de granito, pórfido y granodiorita son redondeadas ( Sierra Aceguá, en la frontera
uruguayo-brasileira, sierra de las Animas, del Uruguay). Existen además monadnocks aislados (Cerro de Montevideo) o agrupa-
dos (morro de Policia y otros en torno de Porto Alegre, y cerros de Piriápolis, en Maldonado).

Foto 9 - El Cerro de Montevideo, monadnock de anfibolita.

4 – Planicie Costera, o según la terminología de Giuffra, llanura Atlántica, sienda esta última expresión inexacta si se con-
sidera que la región se prolonga a largo de Plata.
Se trata de una verdadera llanura de acumulación sedimentaria, con suelos anegadizos, de drenaje generalmente pobre,
salinos los del litoral, y turbosos o simplemente ácidos los que ocurren en las zonas donde las aguas se escurren con dificultad,
y donde las ciperáceas (por ejemplo Scirpus giganteus), gramíneas y otras plantas forman vastas asociaciones o consociaciones.
Algunas serranías interrumpen la monotonía de la planicie (sierra de San Miguel, en la frontera del Uruguay con el Brasil), y
grupos de médanos ocurren a lo largo del litoral costero.
Palmas butiá (Butia capitata), forman vastas consociaciones. Sobre los planosoles de la región, donde la gramínea Pa-
nicum prionitis cubre vastos espacios. En terrenos anegadizos o en los de agua permanente son comunes Solanum glaucum,
Thalia multiflora, Sagittaria montevidensis, Eichhornia azurea, Scirpus californicus y alguns arbolillos (Sesbania Cephalanthus)
y totoras (Typha).

Foto 10 - Palmas butiá (Butiá capitata) em la región de Castillos (Rocha), en plena planicie anegadiza.

En la zona influída por la marea e de suelo salino, domina la vegetación halófita con Salicornia fruticosa, Limonium brasi-
liense, Juncus acutus, Cakile marítima, Spartina marítima var. brasiliensis, Sd. montevidensis y Chenopodium macrospermum.
En los arenales properan multitud de especies psamófilas, excelentes fijadoras de los materiales sueltos, tales como Spartina
ciliata, Senecio classiflorus, Panicum racemosum, Androtrichium trigynum y el arbusto Dodonaea viscosa.
Los terrenos son en general casi horizontales, no habiendo sufrido dislocaciones en época moderna, salvo un pequeño y sos-
tenido movimiento de ascenso (regresión querandina). Esta emersión afectó bastante a las corrientes fluviales que han adquirido
caracteres de senilidad manifiestos, y ha favorecido la formación de lagunas litorales en la zona de dislocación post-entrerriana.

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REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY

Tratándose de una región muy alargada sus condiciones climáticas varían bastante de un extremo al otro, es decir entre la
costa platense y Torres. Así, por ejemplo, la pluviosidad media de Montevideo es de 1000 mm anuales, mientras que el extremo
Nordeste de Rio Grande del Sur, se registran 1450 mm. La temperatura sufre oscilaciones menores, dada la influencia atenuante
del mar, no alcanzando a 2º la diferencia entre las localidades platenses y la de Torres. Pero tal diferencia se hace sensible, si
hacemos la comparación entre puntos situados junto al mar y otros distantes del mismo.
5 – Cuesta basáltica de Haedo, masa tabular que buza suavemente hacia el Oeste, donde está recubierta por terrenos cre-
tácios, y terciarios (capas de Fray Bentos ) compuesta por varias napas superpuestas correspondientes a otros tantos derrames
de lavas básicas. Al Este ofrece una escarpa relativamente pronunciada, modelada por arroyos obsecuentes (sierras de Gavea,
da Cruz, cuchillas Negra, Haedo, sierra Tambores, mesa de Achar, etc.).
Nada más impropio para esta región que el nombre de Planalto, ya que su altura media es inferior a 200 m (la máxima es
apenas de unos 350 m en la región de Lunarejo de la cuchilla Negra, y el cerro La Virgem, de la cuchilla de Haedo). Además falta
la escarpa del lado Oeste, ya que el basalto desaparece bajo capas sedimentarias, hundiéndose bastante según lo prueban las
perforaciones de Arapey, Paso Ullestie y otras. La superficie de la cuesta, muy pedregosa, con bochas sueltas derivadas de la
meteorización esferoidal, ofrece suelos de pradera, o azonales, poco espesos, pero de gran fertilidad, con muy buenas pasturas
ideales sobre todo para la cría de ovejas. En las quebradas (Valle Edén, por ejemplo, en el Uruguay), la vegetación arbórea se
hace muy densa, pero no comprende ejemplares tan desarrollados como la flora del Planalto, incluyendo muy pocas palme-
ras. A lo largo de las corrientes fluviales los bosques son también abundantes. El clima es bastante suave aunque sometido a
cambios bruscos en pocas horas, siendo además los veranos algo calurosos, y frecuentes las sequías. La temperatura media de
la región es de 18º5, variando la pluviosidad entre 1100 mm y 1500 mm, correspondiendo esta última cifra al interior de Rio
Grande del Sur.

Foto 11 – Borde escarpado de la cuesta en la parte Sudeste de la cuchilla Negra (Lunarejo).

Foto 12 – Quebrada muy ampliada por los arroyos obsecuentes que corren al río Tacuarembó, llamada Valle Éden.

Dentro del área de esta cuesta pueden incluirse algunos retazos de la cuesta de areniscas de Tacuarembó o Botucatú, en
parte fritas, por contacto con las rocas volcánicas, y algunas capas cretácicas más modernas, alejadas del rio Uruguay.
6 – Valle del Rio Uruguay, que puede suponerse iniciado en el preciso lugar donde nace el rio (sabido es que las ramas ma-
dres del Uruguay son los ríos Canoas y Pelotas). Pero el valle, en la porción más alta de la meseta basáltica apenas si se insinúa,
de modo que no puede ser tomado en cuenta como una entidad geográfica particular. El verdadero valle (a veces con aspecto
de quebrada) tiene su comienzo después de la confluencia de los ríos Canoas y Pelotas, en Marcelino Ramos, que es a partir
desde donde la corriente fluvial lleva el nombre de Uruguay, conservándolo hasta su desembocadura en el Plata.
Marcelino Ramos se encuentra todavía a 360 m de altura; Iraí, bastante antes de producirse la confluencia con el Pepirí
Guazú, está a 200 m; Uruguayana, cerca de la frontera uruguaya está solo a 50 m, decayendo esta altura a apenas 10 m en el
puerto de Fray Bentos (Uruguay). Podría llamarse, siguiendo a Araujo, como Alto Valle, al comprendido entre Marcelino Ramos

32
JORGE CHEBATAROFF

y el paralelo 28º, el que pasa cerca de la población argentina de San Javier, y la riograndense de Porto Xavier. En cambio el nom-
bre utilizado por Araujo para designar a la porción siguiente del valle, es decir, Valle Bajo, debe ser substituido por Valle Médio,
el que hasta la región del Salto Grande, entre el Uruguay y la Argentina.
El Valle del Uruguay Medio es bastante amplio, y en el podría incluirse una parte de las Misiones riograndenses. Los bos-
ques, todavía espesos, dejan sin embargo lugar a muchos claros cultivables, y del lado argentino los extensos esteros del Iberá
hacen desaparecer prácticamente la irregularidades del terreno, quedando indefinido en ese sector el valle. Junto al curso del
rio aparecen los primeros depósitos terciarios (por ejemplo en Itacumbú, Uruguay) y al concluir esta sección dominan las arenis-
cas de Salto, de las cuales han surgido suelos arenosos que se dedican al cultivo de los árboles cítricos y al maní. Tales areniscas,
tal vez por un probable incremento moderno de la humedad del clima, han sufrido una desilicificación más o menos manifiesta.
Desde Salto comienza el curso inferior del Rio Uruguay (la antigua división en alto, medio y bajo, que se hacía dentro del
territorio uruguayo es inexacta, como es inexacta también la división propuesta por Araujo). En esta parte, el rio corre por un
valle amplísimo por lo que Giuffra lo llamó Penillanura Litoral, apareciendo marginado por barrancas del lado uruguayo (deter-
minadas por las Capas de Fray Bentos, de la segunda mitad del terciario). En las riberas bajas se desarrollan espesos bosques, y a
cierta distancia de la corriente se ven bosquecillos espinosos de Prosopis, Aspidosperma, Grabowskia, Castela, Açacia, Beberis,
etc. Con algunas palmeras (Trithrinax) y cactáceas.

Foto 13 – Algarrobos (Prosopis) arbolillos típicos del Valle del Rio Uruguay Medio e Inferior.

El suelo es calcáreo, y a veces presenta eflorescencias salinas (con vegetación de Distichlis), siendo en general bastante fér-
til, y constituyendo la zona del trigo del Uruguay. Esto ocurre en los terrenos terciários, ya que los cretácicos son generalmente
más pobres, arenosos y se destinan al pastoreo de ganado. La variedad de suelos de todo el valle resalta, si se tiene en cuenta
que en Rio Grande del Sur, aparece la “terra roxa”, y en algunos lugares la “terra vermelha”, dejando luego lugar hacia la frontera
del Uruguay y dentro de este a suelos de padrera (aunque son frecuentes los azonales).

Regiones Naturales de Rio Grande del Sur y del Uruguay: P- Planalto. B- Cuesta Basáltica. L- Planicie Costera. V- Valle del Rio
Uruguay. S- Penillanura Sedimentaria. C- Penillanura Cristalina.

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REGIONES NATURALES DE RIO GRANDE DEL SUR Y DEL URUGUAY

Gracias al transporte realizado por el propio rio, muchas especies arbóreas típicas del Alto Uruguay y del Uruguay Medio,
se encuentran a veces en el Bajo Uruguay: tales serían Enterolobium consortisiliquun, Poecilanthe parviflora, Inga uruguensis,
Luehea divaricata, Nectandra membranacea ,Lonchocarpus nitidus, y numerosas mirtáceas.
Tanto por sus caracteres edáficos, fitogeográficos y climáticos, así como por su aspecto geomorfológico, las tres porciones
del valle, pueden considerarse como verdaderas subregiones. En algunos puntos del Valle Alto, se registran hasta 2000 mm de
lluvias, en la parte Media 1400 mm y en el Valle Bajo, apenas algo más de 1000 mm anuales. Las temperaturas varían menos
debido a la compensación por la altura del Valle Alto, entallado en el Planalto, habiendo una diferencia de solo 3º entre la media
de M. Ramos y Nueva Palmira.

CONCLUSIONES GENERALES
Se indican en este trabajo para el territorio conjunto abarcado por el estado brasilero de Rio Grande del Sur y la República
Oriental del Uruguay, seis regiones naturales que figuran a continuación, con sus correspondientes subregiones:
1 – Planalto Meridional del Brasil (o Planalto Riograndense, término este último de caracter local).
Subregiones: Borde erosionado llamado por algunos autores Sierra Del Nordeste, siendo preferible tal vez Sierra Geral, y
hacia el Rio Uruguay, las Misiones, de territorio muy ondulado.
2 – Penillanura Sedimentaria Gondwánica (sectores uruguayo y riograndense).
Subregiones: Depresión Central de Rio Grande del Sur. La cuenca del rio Tacuarembó y parte del valle del Rio Negro, del
Uruguay, no difieren mucho de la penillanura misma, no teniendo entidad como verdaderas subregiones.
3 – Penillanura Cristalina Platino-Atlántica (sectores uruguayo y riograndense).
Subregiones: Sierras del Sudeste de Rio Grande del Sur, y Sierras del Este, del Uruguay.
4 – Planicie Costera (o llanura Atlántica, pero con sector platense, desprovisto de continuidad).
5 – Cuesta Basáltica de Haedo (sectores uruguayo y riograndense).
6 – Valle del Rio Uruguay, con varios sectores.
Subregiones: a) – Valle del Alto Uruguay. b) – Valle del Uruguay Medio. c) – Valle del Bajo Uruguay.
La presente división ha sido fundada esencialmente en los diversos tipos de paisajes que ocurren en esta parte del conti-
nente. Otros hubieran preferido establecer las divisiones teniendo en cuente los tipos de suelos, o las modalidades climáticas;
pero de esa manera no hubieran cumplido con las exigencias de la ciencia geográfica. Los nombres dados a las regiones tienen
significado geomorfológico, pero corresponden además a unidades geográficas caracterizadas por su flora, fauna, suelos y cli-
mas particulares, aunque las diferencias resulten en algunos casos poco acusadas. Además no he pretendido hallar los limites
exactos de estas regiones, lo que por orta parte sería hasta cierto punto absurdo, dada la existencia de fajas de transición.

BIBLIOGRAFIA SUMARIA
Figuran a continuación las publicaciones que tienen una relación más o menos directa con los asuntos tratados; se ha
dejado de lado la lista de los trabajos cartográficos.
1 – AZNÁREZ, J. – Apuntes y notas para una nomenclatura de suelos del Uruguay. Rev. Fac. Agron. Montevideo. 1945.
2 - AZNÁREZ, J. – Idem. – Segunda contribución. Rev. Fac. Agron. 1948.
3 – BEZZERA DOS SANTOS, L. – Região Sul. Boletim Geográfico. Nº 13 – 1944. Rio.
4 – BOERGER, A. – Investigaciones Agronómicas. Tomo I. Montevideo, 1943.
5 – COUSSIRAT DE ARAUJO,L. – Memória sobre o clima de Rio Grande do Sul. Rio. 1930.
6 – Conselho Nacional de Geografía – Divisão regional do Brasil. – Região Sul. Rio. 1949.
7 – CHEBATAROFF, J. – La vegetación del Uruguay y sus relaciones fitogeográficas con la del resto de la América del Sur. Rev. Geogr. del Inst.
Panamericano de Geogr. e Historia. México. 1942.
8 - CHEBATAROFF, J. – La vegetación halófila de la costa uruguaya. Rev. Fac. Human. y Ciencias. Montevideo. 1950.
9 - CHEBATAROFF, J. – Regiones naturales del Uruguay y de Rio Grande del Sur. Rev. Urug. de Geografía. Montevideo. 1950. Nº 4.
10 – DE AZEVEDO, A. – Regiones climato-botánicas do Brasil. Bol. Paulista de Geogr. 1950. São Paulo.
11 – DE CAMPOS, G. – Mapa florestal do Brasil. II – Bol. Geogr. Rio. 1944. Nº 16.
12 – DELGADO DE CARVALHO, C. – Geografia Física e Humana do Brasil. 1945. São Paulo.
13 – DE CASTRO NOGUEIRA, P. – Regiões fisiograficas do Estado do Rio Grande do Sul. Rev. Geol. Y Metalurgia. São Paulo. 1948.
14 - DELGADO DE CARVALHO, C. – Geografia regional do Brasil. – São Paulo. 1943.
15 – DE OLIVEIRA, B. – Contribuição para a divisão regional do Paraná. Rev. Bras. de Geogr. 1950. Nº 1. Rio.
16 – DENIS, P. – Amérique du Sud – (Tomo XV – la. part., de la Geographie Universelle, dirigée par Vidal de la Blache y Gallois). Paris.
17 – FALCONER, J. D. – La formación de Gondwana en el Uruguay. Inst. Geol. Del Uruguay. Montevideo. 1936.
18 – GASSNER – Uruguay I- II Vegetationsbilder… - 1913. Berlin.
19 – GUERREIRO LIMA, A. – Noções de Geografia. – Porto Alegre.1939.
20 – GIUFFRA, E. S. – La Republica del Uruguay. Montevideo. 1935.

34
JORGE CHEBATAROFF

21 – JAMES, PRESTON – A expansão das colonias do Brasil Meridonal. Bol. Geogr. 1947. Nº. 49. Rio.
22 – LAMBERT, R. – Estado actual de nuestros conocimientos sobre la Geología de la Rep. Oriental del Uruguay. Inst. Geol. del Ur. 1941. Mon-
tevideo.
23 – LEINZ, V. – Contribuição à geología dos derrames basálticos no Sul do Brasil. – S. Paulo. 1949.
24 – LINDMANN – A vegetação no Rio Grande do Sul. 1906. Porto Alegre.
25 – MAC MILLAN, J. – Los terrenos precámbricos del Uruguay. Inst. Geol. del Ur. 1933. Montevideo.
26 – MÁRQUES DE ALMEIDA, F. F. – Relevo de “cuestas” na bacia sedimentar do Paraná. Bol. Paulista de Geogr. 1949. Nº 3. S. Paulo.
27 – MELLO LEITÃO, C. de – Zoogeografia do Brasil. – S. Paulo. 1947.
28 – MORANDI, L. – Apuntes de Meteorologia. – An. de la Univers. 1928. Montevideo.
29 – OLIVEIRA, A. E LEONARDOS, O . – Geologia do Brasil. Rio. 1943.
30 – OCHOA,G. D. – Divisão regional das terras do Rio Grande do Sul (citado por J. AZNÁREZ).
31 – PEIXOTO MACHADO, F. –Contribuição ao estudo do clima do Rio Grande do Sul. Con. N. de Geogr. 1950. Rio.
32 – ROSENGURTT, B. – Las formaciones campestres del Uruguay 1944. Montevideo.
33 – RAMBO, B. – A flora central antártica e andina no Rio Grande do Sul. Bol. Geogr. 1948. Nº 67. Rio.
34 - RAMBO, B. – A fisionomia do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. 1942.
35 – REYES, J. M. – Descripción geográfica de la Rep. O. del Uruguay. Montevideo. 1859.
36 – RIBEIRO LEUZINGER, V. – Llanos y penillanuras (Transc. del Bol. Geogr.) Rev. Ur. de Geogr. 1950. Nº. 2. Montevideo.
37 – RIBEIRO REISSIG, V. – Sobre lluvias en el Uruguay – Rev. Meorol.
1945. Montevideo.
38 – SAMPAIO – Fitogeografia do Brasil. 1945. S. Paulo.
39 – STELLFELD, C. – Origem e evolução do Brasil fitogeográfico. Bol. Geogr. N. 68. 1948. Rio.
40 – SERRA, A. – Secondary circulation of Southern Brasil. 1938. Rio.
41 – SERRA, N. – Memoria explicativa del mapa del departamento do Treinta y Tres. Inst. Geol. del Ur. 1944. Montevideo.
42 – TEODORO LUIZ (Irmão) – Geobotánica del Sudeste de la América del Sur. Rev. Sudamer. de Bot. 1936. Nº. 3. Montevideo.
43 – VALVERDE, O. – Excursão à Região Colonial antiga do Rio Grande do Sul. Rev. Bras. de Geo. 1948. Nº. 4.
44 – WALTHER, K. – Estudios geomorfológicos y geológicos. Rev. del Inst. Hist. Y Geográfico del Uruguay. 1923. Montevideo.

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CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA

CAPÍTULO 3
CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA
MIGUEL ALVES LIMA
O presente trabalho resulta, principalmente, de uma longa excursão de reconhecimento realizada entre setembro e ou-
tubro de 1953 a essa zona do Estado do Rio Grande do Sul, na qual foram percorridos dezesseis municípios, num percurso de
cêrca de 2.500 km em estrada de rodagem(fig.1).
Seu objetivo, sem maiores pretensões, é atrair a atenção dos geógrafos e pessoas interessadas no estudo da Geografia
do Brasil para uma série de fatos, geralmente relegados a um segundo plano na descrição desse trecho do território daquele
estado, os quais tem incontestável significação para a compreensão de sua paisagem física, bem como dos problemas que a
população deve enfrentar.
Durante todo o período de observações nessa viagem, procurávamos confrontá-las com noções geralmente difundidas
sôbre a região. Verificamos que, sem embargo dos fatos assim apresentados, na realidade existentes como descritos, outros, às
vezes não tão freqüentes, mas, não menos importantes são deixados de à margem, dificultando a explicação e o entendimento
do meio e da vida regional.
Não é, porém nosso objetivo fazer aqui a exegese de tudo o que foi dito sôbre a Campanha Gaúcha, mas, tão somente,
contribuir para que a região seja descrita de um modo pouco mais detalhado, fugindo-se a uma generalização excessivamente
esquemática que vem prejudicando a sua compreensão.
Do mesmo modo, uma certa atualização de conceitos, não sòmente quando às informações como também relativamente
aos valores que a pesquisa geográfica tem incorporado ao seu método,seriam indispensáveis a uma boa apresentação da pai-
sagem que hoje podemos observar percorrendo seu território.
Assim, nos restringiremos a uns poucos exemplos que possam ilustrar em parte os fatos que possamos apreciar.

Fig.1.

ASPECTOS DO RELEVO
A imagem que se apresenta da Campanha Gaúcha é nesse particular de uma região caracteristicamente plana, modificada
aqui e ali por ondulações suaves, de pequena altitude relativa . Essas ondulações são conhecidas pelo nome regional de “coxi-
lhas”, definição simplesmente topográfica, pelo que pouco se apreende da distribuição dêsses acidentes.
Se para o ensino de nível até ginasial não há maiores problemas na utilização dessa nomenclatura e,mesmo, haja intêresse
na conservação do vocábulo como valor cultural, o ensino superior e pesquisa estarão deficientemente informados pelo uso
simples dessa expressão.
O relêvo da Campanha, então, não pode ser dissociado de um conjunto morfológico mais amplo e mais complexo, de que
faz parte.

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MIGUEL ALVES DE LIMA

O Planalto Meridional do Brasil, no seu extremo sul, com sua estrutura concordante apoiada sôbre o embasamento com-
plexo de rochas antigas, aparece inclinado para Sudoeste. Os lençóis de “trapp” que afloram a mais de 1.000 m de altitude
nas proximidades de Bom Jesús, a Nordeste do Rio Grande do Sul, vão aparecer com cêrca de 60 m de altitude, apenas, no
município de Uruguaiana. O embasamento peneplanizado e retomado pela erosão aparece em altitudes superiores a 300 m
no Sudoeste do estado, enquanto os sedimentos triássicos podem ser observados quase a nível do mar no litoral Norte do Rio
Grande do Sul.
Entre as altitudes referidas da superfície do maciço antigo (foto 1) e os 210 m de altitude atribuídos a Livramento, na
fronteira uruguaia e proximidades do contacto entre sedimentos paleozóicos e mesozóicos, aparece uma zona sedimentar de-
primida em que os depósitos do paleozóico superior se sucedem em ordem decrescente de antigüidade de Leste para Oeste.

Foto 1—Bagé- Gabriel- Aos 83,1 km da estrada Bagé – São Gabriel, está-se sôbre o Maciço Antigo ou Escudo Riograndense.
Vê-se o panorama de NE a NW em que se nota a superfície superior dos terrenos peneplanizados a uns 500 m de altitude.
Os granitos que são observados foram nivelados pela erosão. Os solos são rasos, originando-se dêsses granitos róseos
um salmourão grosseiro. A vegetação é rala e arbustiva nos topos; a parte florestal das encostas e vales entalhados na
peneplanície pela rêde hidrográfica foi devastada. A região é de criação extensiva mas, nas baixadas dos vales e nos níveis
menos elevados, a agricultura se vem desenvolvendo, destacando-se as culturas de inverno em rotação de terra melhorada.
O povoamento é ralo e disperso. A quantidade de cactáceas no alto, lembra a caatinga.

Foto: M. A de Lima.

É lícito, pois, imaginar-se que depósitos sedimentares e o derrame de “trapp” que hoje estão muito recuados para Oeste
viessem até mais próximo do núcleo do embasamento e, mesmo, chegassem a recobri-lo. (Fig. 2)

Fig. 2.

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CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA

Uma rêde hidrográfica inicialmente conseqüente, de afluentes da margem esquerda do rio Uruguai e subseqüente de for-
madores do Rio Negro, bem como obseqüentes do rio Jacuí, teriam atacado essa estrutura, vencendo a resistência das camadas
duras do “trapp” e dos arenitos triássicos metamorfizados. Nos cursos superiores dos principais formadores do Ibicuí, vencida
a capa resistente, prevaleceu a tendência geral de desenvolvimento subseqüente, progredindo a erosão normal rapidamente
sôbre as rochas subjacentes. Só no contacto com os afloramentos do embasamento as rochas duras retardaram o avanço em
profundidade, evitando o rebaixamento simultâneo dessa exposição.
Tal processo faria recuar progressivamente o limite oriental do derrame e dos arenitos triássicos, fracionando o rêlevo
compreendido entre esses dois extremos. Essa parte intermediária tenderia, assim, para a depressão periférica ainda hoje em
evolução, modelada pela progressão para a montante das cabeceiras dos rios Santa Maria, Vacacaí e Negro. O rio Ibicuí atraves-
sa a superfície do derrame em passagem conseqüente em seu trabalho mais importante projeta para Oeste as exposições des-
sas rochas , em rêlevo de “cuesta” de grande expressão. Se as escarpas não são mais vivas, isso se deve às já fracas declividades
que aí apresentam os planos dos contactos da estrutura concordante com o próprio curso d’água.
No interior da zona rebaixada entre as camadas “Serras do Sudoeste” e a “cornija” mais ou menos continuação do “trapp”,
proliferam relêvos testemunhos, de forma aproximadamente tabular, devido á resistência oposta pela cobertura de rochas do
derrame ou pelos arenitos metamorfizados pelo mesmo (foto 2). São notáveis, especialmente, os dos divisores dos principais
formadores do Ibicuí, pela margem esquerda, destacando-se os que observam entre Ibirapuitã e o Caverá, e os entre êste ul-
timo e o Santa Maria. Em suas proporções, êsses relevos vão de “taboleiros” a quase chapadas, e freqüentemente, como a do
Cêrro do Catimbau, entre Alegrete e Rosário (fotos 3,4 e 5).

Foto 2- Livramento- D. Pedrito- A uns 13,3 km de Livramento, na estrada de D. Pedrito. Observa-se uma zona dissecada em
relêvo de “mesas” e “taboleiros”, e de escarpas areníticas vivas. As sangas são aqui também “barradas” em açudes como se vê
à esquerda.

Foto: Miguel Alves Lima.

Foto 3 - Alegrete – Rosário- Já a uns 57 km, na estrada de Rosário, vê-se de SW a SE no horizonte , relêvo tabular de grandes
proporções, resíduos de erosão. A ocupação da terra é por pequenas estâncias com criação extensiva de gado mestiço.
Aparecem restos de capões devastados que ocupam as dales (bacias e cabeceiras de rios).

Foto: Miguel Alves Lima.

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MIGUEL ALVES DE LIMA

Foto 4 - Alegrete- Rosário- Na estrada Alegrete- Rosário, ao longo do rio Caverá, vê-se a 25 km de Alegrete, para SE, a
paisagem da zona do Cerro do Catimbau ( morro cônico à esquerda da foto). Relevos de “mesas” e “taboleiros”, com
testemunhos de erosão superpostos acidentam a paisagem de extensos campos. Os bosques de eucaliptos destacam-se
fortemente nessa região de estanciolas.

Foto: Miguel Alves Lima.

Foto 5- Alegrete- Rosário- Ainda na estrada Alegrete- Rosário, a uns 102,6 km de Alegrete, junto a Estância Coentrilho, vêm-se
aspectos do relêvo dissecado de formas predominantemente tabulares, recobertas por campos limpos. A região é de domínio
da criação a mais extensiva, com muito pouco cuidado, mesmo na escolha das raças.

Foto: Miguel Alves Lima.

Onde as camadas duras foram reduzidas, ocorrem lombadas ou espigões suaves -coxilhas baixas -, de solo argilo-areno-
sos. No extremo Nordeste da Campanha, entre Itaquí, São Borja e Santiago, na passagem para zona das Missões, para onde se
ganha em altitude, ao norte do Ibicuí, alternam–se afloramentos de arenito e “trapp” triássicos e o ataque de erosão modelou
característicos relevos de “cuesta” (fotos 6 e 7).
Sôbre a face do derrame, exposta ao sul do Ibicuí, na direção de Uruguaiana, extensas planuras alargam ainda mais o hori-
zonte , seja em superfície estrutural, seja pelo suave modelado dos vales amplos e rasos , na zona de concordância dos afluentes
com o eixo de drenagem do rio Uruguai (foto 8).
Formas dignas de registro aparecem igualmente a sudoeste da região, onde o recuo das cabeceiras do arroio Pai-Passo,
afluente do Ibirapuitã, entalhou a estrutura concordante em profundos “boqueirões”, que modificam substancialmente a pai-
sagem (foto 9).
Vemos assim que uma grande variedade de formas se distribui na Campanha segundo uma certa lógica, decorrente da
natureza da estrutura; de sua composição, inclinada suavemente para Sudoeste, apoiada no embasamento antigo, e , pela evo-
lução da rêde hidrográfica que comanda o modelado do relevo, como hoje se nos apresenta.
Os fatos são convenientemente localizados numa carta topográfica recente 1, mas, nas descrições feitas da região, todos
êsses elementos se perdem sob um esquema geral. Mesmo os autores mais conceituados que se ocuparam do estudo do Rio
Grande do Sul, omitem ou relegam a localização dêsses fatos, não tentando uma descrição explicativa que viria facilitar a sua
compreensão. Ora se limitam a descrever a estrutura2, ora, mesmo, identificando as formas perfeitamente caracterizadas, não
procuram mostrar sua distribuição, tentando correlacioná-las com os fatos geográficos essenciais 3.

1 Carta Geral do Estado do Rio Grande do Sul; Esc.1:750.000, 1941. Organizada pela Diretoria de Terras e Colonização,da Sec. de Agric. Ind. e Comércio; Edit. Liv.do Globo, Porto
Alegre.
2 Castro Nogueira, Prof. Paulo; Regiões Fisiográficas do Rio Grande do Sul; em Boletim Geográfico; Ano VI, n˚64; Conselho Nac. de Geografia, I.B.G.E. Rio de Janeiro, 1948.
3 Rambo, Pe. Balduino, S. J.;A Fisionomia do Rio Grande do Sul, Ensaio de Monografia Natural; Imprensa Oficial, Porto Alegre, 1942; pp. 105-108.

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CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA

Foto 6 - São Borja- Santiago – A 69,8 km de São Borja, já no município de Santiago, vê-se para SE a dissecação do relêvo em
patamares nos quais alternam o arenito e o diabásio. Observa-se o escarpamento de “cuesta” onde se instalaram matas de
encostas e, mesmo, capões, ao longo do vale.

Foto: Miguel Alves Lima.

Foto 7 – São Borja- Santiago – A 77,7 km de São Borja, já no município de Santiago, o relêvo de “cuesta” aparece a WSW e W,
destacando-se a paisagem de campos limpos e pobres de capim “caninha” e “barba de bode”. O povoamento é sempre ralo e
disperso, mesmo ao longo da estrada. A altitude é, aproximadamente, 330 metros.

Foto: Miguel Alves Lima.

Foto 8 – Uruguaiana – Barra do Quaraí – Aspecto do extenso lençol de seixos rolados ao longo da estrada de Uruguaiana –
Barra do Quaraí, a uns 20 km de Uruguaiana. Altitude aproximada neste ponto é de 65 metros.

Foto: Miguel Alves Lima.

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MIGUEL ALVES DE LIMA

Foto 9 – Quaraí – Livramento – A uns 26 km de Quaraí, na estrada de Livramento, vêm-se para NE os profundos “boqueirões”
abertos pelo Arrôio Pai-Passo no platô de diabásio de uns 300 metros de altitude. Resíduos de matas de encosta aparecem
ainda, apesar da devastação sofrida pelas mesmas.

Foto: Miguel Alves Lima.

ASPECTOS DO CLIMA
Quando ao clima, igualmente, perece-nos que seria necessária uma análise um pouco mais detida de suas características,
não só para evidenciar suas particularidades mais expressivas, como para explicar um certo número de reflexos importantes de
sua ação sôbre a vida regional.
O clima da Campanha, como o grande parte do Rio Grande do Sul, é apresentado como tipo sub-tropical, semi-úmido,
com chuvas regularmente distribuídas. Excepcionalmente assinala-se a tendência para um máximo de precipitação de inverno.
Segundo a classificação de W. Köppen, a região está sob um clima mesotérmico, úmido – chuvas regularmente distribuídas
– com verões quentes.
Nada há a objetivar-se quanto as classificações feitas. Na realidade, às médias mensais nos levam a essas conclusões. Mas,
as classificações dêsse gênero servem a definir as condições normais e mais freqüentes de uma determinada região nunca as
circunstâncias extraordinárias que possam ocorrer sem uma grande freqüência, influam elas ou não na vida e na paisagem da
área considerada.
Sabe-se, no entanto, que a Campanha já está numa faixa de transição para um clima verdadeiramente temperado, do qual
as neves esporádicas são um prenúncio. Como uma zona de transição está sujeita a manifestações irregulares dos centros de
ação climática vizinhos, que comandam os padrões de clima mais bem definidos. Assim é que há anos, mais ou menos freqüen-
tes, em que os valores médios mensais se afastam bastante das normais, o que não teria maior significação se não refletisse
substancialmente na paisagem regional.
Ao nosso ver, não estamos na Campanha Gaúcha nesse caso. A própria reduzida freqüência das anomalias citadas permi-
tiu um grande desenvolvimento econômico da região, uma forma de um pastoreio expressivo que, se não chegou a uma fase
intensiva, apresenta reais formas de aperfeiçoamento, entre as quais se destaca da criação de raças européias finas .
Se examinarmos detidamente as informações existentes sôbre a climatologia da Campanha, iremos constatar que, quan-
do à distribuição mensal das chuvas, há duas tendências bem marcadas. Uma linha que una Dom Pedrito a Santa Maria, separa
essas duas zonas, das quais a ocidental mostra maior volume de precipitação no período de outono e a oriental no de inverno4,
o que talvez possa significar uma progressão mais precoce das perturbações – anticiclone móveis – para o Norte, ao longo do
vale do rio Uruguai.
Não é êsse, no entanto o fato mais importante. A existência de um período de verão mais sêco, que corresponde aos mais
altos registros de temperaturas é a razão de secas às vezes desastrosas para atividades da população. Se no ângulo sul - ociden-
tal do Rio Grande do Sul o inverno já usualmente menos chuvoso, precede esses verões sêcos de modo mais acentuado, então
ocorre um desastre, como pudemos observar nos campos da fronteira em 1953. Os solos, ou excessivamente rasos sôbre as
lajes de “trapp”, ou porosos onde aflora o arenito, são incapazes de reter água suficiente para a vegetação e os campos secos
e pisoteados ficam juncados de carcassas de animais mortos pela fome, ou envenenamento pelas ervas daninhas que resistem
à destruição (foto 10).

4 Machado, Floriano Peixoto; Contribuição ao estudo do clima do Rio Grande do Sul. I.B.G.E; Rio de Janeiro.

41
CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA

Foto 10 – Alegrete – Uruguaiana – A uns 70 km de Alegrete. Gado muito magro, quase à morte, num pasto baixo cheio de
“mio-mio”. Não há cerca separando o “potrero” da estrada.

Foto: Miguel Alves Lima.

Não se poderia, igualmente, com base na apresentação simples dessas médias, explicar a existência de um tão grande
número de açudes na Campanha, obras a que são obrigados os estancieiros, para prover o gado de água nas épocas menos
favoráveis.
A saturação da “carga”, ou “lotação” dos pastos do Rio Grande do Sul – média otimista de 70 bovinos por quadra de ses-
maria (87 Ha.)-- com o aumento do rebanho deve ter agravado as condições naturais, mas, de qualquer modo, a desorganiza-
ção que o fato provoca no trabalho que aí se empreende, e, os esforços que se mobilizam em seu combate, não podem ficar
escondidos sob generalização exagerada.
Para avaliação material dos resultados do fenômeno, alinhamos aqui alguns dados obtidos com o Deputado Rui Ramos,
da Associação Pró-Desenvolvimento da Fronteira Oeste:
Perda de gado bovino e ovino na fronteira oeste, por efeito da sêca de 1953: 400.000 cabeças.
Perda no município de Alegrete e Uruguaiana: 80.000 bovinos e 150.000 ovinos.
Perda do município de Quaraí: 45.000 bovinos.
Quanto o outros períodos, poder-se-iam citar dados de Pedro Gomes de Mello5 , experimentado negociante de gado da
região, que se refere às conseqüências da grande sêca de 1943, à qual se aliou a aftosa para dizimar, a seu prejuízo, cêrca de
2.000.000 de cabeças.
Ao fato, aliás, atribuiu a importância de ser uma das razões da crise da produção no Estado.
Ainda que considerarmos extremamente exageradas essas estimativas, os números mínimos que aceitamos, relativamen-
te aos valores apresentados, mostrarão o alcance do fenômeno.
Os quadros anexos, ao fim do presente trabalho, ilustram os fatos expostos. São apresentados as médias de alguns postos
meteorológicos e o resultado de observações anuais de anos seguidos (10) de um posto situado entre êles, nas quais se podem
notar as grandes variações ocasionais das precipitações para um mesmo mês, especialmente no verão ( município de Alegrete).
Não é por falta de advertências que se procede ao estudo do clima usando apenas expressões gerais. Já o Prof. Pierre
Monbeing nos chama a atenção para o fato no seu “Pionniers et Planteurs de S. Paulo”, analisando problemas da vida agricola6
O problema da sêca da Campanha Gaúcha já tem sido examinada especificamente 7, mas os resultados desses esforços
não foram incorporados à sua geografia, correlacionando aos demais fatos de sua explicação.

ASPECTOS DA VEGETAÇÃO
Os campos da Campanha não se apresentam com grande uniformidade de associações. São, ao contrário, muito variados
e sua ecologia é, infelizmente, muito pouco conhecida, razão pela qual se vêm procedendo a experiências de cultivo de pasta-
gem mais ou menos empíricas, não só com o objetivo de melhorar as condições gerais do rebanho, como também, o de obter
um mínimo de segurança contra ocorrências que vimos de focalizar no capitulo anterior.
No reconhecimento a que procedemos não foi possível penetrar mais profundamente os fatos da ecologia vegetal e nas
consultas bibliográficas posteriormente feitas não houve oportunidade de levantar os necessários esclarecimentos para uma
conveniente compreensão dêsse problema. Pesquisadores experimentados que visitaram o Rio Grande do Sul, como Lindmann,
não percorreram tôda a região, pelo muito pouco se tem de contribuição científica convenientemente preparada para o enten-
dimento dessa variedade de distribuição dos diversos tipos de ocorrências.
Essa diferença entre os tipos de campo são, no entanto, flagrantes e a própria tradição gaúcha as assinalada sob uma clas-
sificação empírica e, sobretudo, prática. Útil sem dúvida ao homem da Campanha, deixa porém a desejar para a compreensão
das relações que devem existir entre a vida vegetal e o ambiente. Assim sendo, para fins de estudo, não nos basta a separação
5 Mello, Pedro Gomes; Estudo sobre a pecuária no Rio Grande do Sul; avulso (folheto mimiografado); Porto Alegre, 1952.
6 Monbeing, Pierre; “Pionniers et Planteurs de S. Paulo”; “ Cahiers de la Fondation Nationale des Sciences Polotiques”; Lib Armand Colin; Paris, 1952, pp.49.
7 Senna Sobrinho, Mariano; “O Problema da Estiagem na Fronteira”; avulso; Pôrto Alegre.

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MIGUEL ALVES DE LIMA

desses campos em finos ou superiores, médios e inferiores8, ou, mesmo, em maior número de tipos, como foram arrolados por
Dante de Laytano da tradição da terra em sua interessante obra 9. Essas expressões -1, Campo de areia; 2, Campo dobrado;3,
Campo frouxo;4, Campo grosso; 5, Campo de lei;6, Campo limpo; 7, Campo sujo- se não definem as relações desejadas, mos-
tram, no entanto, uma variedade de tipos que não é geralmente enunciada nas descrições feitas. Acresce ainda a circunstâncias
de estarem associadas, às vezes, a esses tipos de pastagens não só determinados padrões de raças bovinas, como também
diferentes processos de trabalho da terra, o que dá maior significação ao conhecimento mais detalhado de sua distribuição
regional.

Foto 11 - Alegrete- Vista panorâmica tirada do km 18 para NW, na estrada para Uruguaiana. A topografia muito plana do
derrame de diabásio que aí aflora é suavemente dissecada pelos arroios rasos, superficiais. Na grama baixa pastam ovelhas e
algum gado da raça “Hereford”.

Foto: Miguel Alves Lima.

Foto 12 – Alegrete – Quaraí- Vista da paisagem entre Alegrete e Quaraí, logo após o acampamento do D.A.E.R., a uns 90
km de Alegrete. Vêm-se enormes extensões planas a uns 150 m de altitude, com campos limpos onde predomina o capim
“caninha” em solos escuros e profundos.

Foto: Miguel Alves Lima.

Não parecem ocasionais as tentativas de cruzamento de raças européias com zebú – nas proximidades de São Borja, por
exemplo- se nos apoiarmos mais uma vez na experiência dos homens da região , como Pedro Gomes de Mello, que afirma10:
“Acho que nas zonas de campos regulares e ruins , só se pode ter gados de regulares a bons pesos, amestiçando com zebu, e
isto foi o que observei durante 30 anos de comprador de gado no Rio Grande do Sul “.
De nossa parte, não poderíamos ir além de um testemunho de fato, mas, descritivo, por enquanto. Observamos maior
freqüência dos chamados “ pastos finos”, contendo muito trevo ( Trifolium polymorpho e Desmodium triflorum) capim forquilha
( Paspalum notatum), por exemplo, nas zonas em que o derrame de “trapp” no extremo sudoeste do Estado deixa formar uma
película de solo, mesmo de pequena espessura, como nos municípios de Alegrete e Uruguaiana (foto 11). Onde êsses solos
são mais profundos e úmidos , mas, bem drenados, ocorre o “capim caninha” ( Andropogon lateralis) ( foto 12). Este último é
8 Quintana, Milton; “Posição Econômica de Alegrete”; avulso; Ed. Globo; Porto Alegre, 1939.
9 Laytano, Dante de; “A Estância Gaúcha”; edição do Serv. de Inform. Agrícola; Ministério da Agricultura; Rio de Janeiro, 1952.
10 Mello, Pedro Gomes; ob. cit, pp.10.

43
CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA

mesmo considerado padrão de solos profundos entre os homens da região.


Êsses tipos finos são os que mais sofrem os efeitos da sêca, como pode depreender do que foi anteriormente exposto. Os
descampados facilitam a circulação dos ventos, ativando, assim, mais ainda, a obra da evaporação.

Foto 13 - Quaraí – Livramento – Nas proximidades de Quaraí, a 12,3 km da cidade, na estrada para Livramento, vê-se para NW
o campo baixo em terreno pedregoso de degradação do “sill” de diabásio, que aflora superficialmente.

Foto: Miguel Alves Lima.

Entre Alegrete e Quaraí, e, Quaraí e Livramento, em trechos mais acidentados do terreno, a rocha aflora praticamente viva
a superfície, diminuindo consideravelmente a parte de pastagens de qualidade ( foto 13,14 e15). Essas áreas são freqüentadas
de preferência pelas ovelhas, mais rústicas que os bovinos, que se locomovem com mais facilidade e, alcem de menos exigentes
quanto à pastagem, têm maior capacidade de aprender os vegetais baixos e pequenos. Aumentam aqui, também, espécies que
praguejam os campos, como a “Chirca” ( Baccharis glutinosa, Pers. e, Eupatorium dendroide), que se observam como generali-
dade em tôda a região percorrida. Há também maior ocorrência local do “mio- mio”11, planta tóxica muito conhecida em toda
a Campanha (fotos 16 e17). À proporção que se caminha para os fundos dos vales, os pastos melhoram um pouco, ainda que
se tornem mais “grossos”.

Foto 14 – Quaraí – Livramento – Ainda na estrada Quaraí- Livramento, a uns 11 km de Quaraí, nas rampas suaves do platô
de altitude de 201 m, mais ou menos, coberto predominantemente de capim “caninha”, o solo se torna mais pedregoso pela
desagregação dos blocos de diabásio e aparece muita “palma de espinhos”. Vêm-se ovelhas pastando nesses locais.

Foto: Miguel Alves Lima.

11 Baccharis coridifólia.

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MIGUEL ALVES DE LIMA

Foto 15 – Quaraí – Livramento – Ainda na estrada Quaraí- Livramento, mais ou menos no mesmo ponto da vista anterior, a
paisagem para NE apresenta os mesmos aspectos.

Foto: Miguel Alves Lima.

Foto 16 – Alegrete- Uruguaiana- Aspecto geral da pradaria de grama baixa, a uns 55 km de Alegrete, onde pasta o gado
“Polled Angus”, “Hereford” e “Durhan”.

Foto: Miguel Alves Lima.

Foto 17 - – Alegrete- Uruguaiana- Aspectos de pastagens invadidas pelo “alecrim” e “mio- mio”, a uns 60 km de Alegrete. Os
solos são rasos e pedregosos: diabásio aflorante. Os carneiros são marcados a tinta de côr para que se não estrague a lã.

Foto: Miguel Alves Lima.

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CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA

Os afloramentos de sedimentos arenosos em pontos elevados da topografia coincide com maior ocorrência de capim
“barba de bode” (Aristída sp., ou, pallents), notadamente entre São Borja e Santiago. Êsses campos são muito semelhantes aos
do planalto goiano- matogrossense (fotos 16, 17 e 18).

Foto 18 – Uruguaiana- Itaquí- Na estrada Uruguaiana-Itaquí, já a 15 km de Uruguaiana, vê-se o platô de grande regularidade e
escassamento povoado, coberto de capim “barba de bode”. Vista para SW.

Foto: Miguel Alves Lima.

A alternância de pastagens de melhor ou pior qualidade estará possivelmente ao jôgo dêsses fatôres – rocha matriz, na-
tureza e espessura do solo, e , forma de relêvo; de um modo mais geral, ao tipo de clima.
Uma perfeita compreensão dêsses fatos só poderá ser obtida quando tivermos um estudo ecológico sistemático de tôda
a vegetação da Campanha.
O que se pode dizer com segurança é que as campinas dessa parte da fronteira gaúcha não apresentam grande uniformi-
dade de composição, dentro do conjunto mais ou menos semelhante. Que essa diferença de composição em áreas definidas
parece responsável pela capacidade de “lotação” dos pastos - de que dependem a densidade do rebanho e sistema de uso da
terra -, cuja média é estimada em 70 cabeças de bovinos, ou 150 de ovinos por quadra de sesmaria- 87 ha. – e que possivelmen-
te, orientam os esforços de aperfeiçoamento do trabalho, no que se relaciona com o rendimento do gado em pêso.
Se compararmos a lotação de um pasto de “barba de bode”, de capacidade de 20 a 30 cabeças de bovinos por quadra, com
a média otimista referida, podemos apreciar as diferenças que tais ocorrências podem acarretar.
Tais fatos não nos parecem desprezíveis para uma grande região caracteristicamente criadora.

ASPECTOS DA ECONOMIA
É ainda a Campanha Gaúcha apresentada usualmente como área de franco domínio da criação bovina, em que se pratica,
também, a criação de ovelhas, de modo mais ou menos expressivo.
O exame dos dados fornecidos pelos serviços oficiais nos últimos anos, comparados aos de outros períodos antigos,
dão-nos algumas referências interessantes e quem percorrer essa parte do Rio Grande há de se surprender com o número de
ovelhas que irá observar ao longo de todos os percursos; há de encontrar nas cidades mais desenvolvidas uma quantidade
considerável de “ barracas”12 bem como uma grande preocupação com negócios de lãs. Os quadros que damos abaixo mos-
tram-nos a situação dos efetivos do rebanho e da produção de lã em determinados períodos, para alguns dos municípios mais
importantes e característicos da fronteira :

Produção de lã

Peso (em Kg) Variação Percentual (%)


Município 1920 1939 1950 1920-39 1939-50
Alegrete 193 038 728 660 1 414 200 277,4 94,1
Bagé 153 670 1 001 880 1 931 400 551,9 92,8
Livramento 246 247 712 800 1 228 800 189,5 72,4
Uruguaiana 128 520 1 247 220 2 682 000 870,4 115,0

12 “Barracas”; galpões ou armazéns em que se deposita ou enfarda a lã para venda ou exportação.

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MIGUEL ALVES DE LIMA

Rebanho de ovinos

Número de cabeças Variação Percentual (%)


Município 1920 1940 1950 1920-40 1940-50
Alegrete 265 544 306 438 471 400 15,4 53,9
Bagé 264 088 416 590 643 800 57,7 54,4
Livramento 324 447 312 636 409 600 3,6 31,0
Uruguaiana 489 731 575 571 894 000 17,5 55,3

Rebanho de bovinos

Número de cabeças Variação Percentual (%)


Município 1920 1940 1950 1920-40 1940-50
Alegrete 478 700 330 015 431 000 -31,0 30,6
Bagé 324 167 321 795 277 000 -0,7 -13,9
Livramento 401 551 290 187 329 200 -27,7 13,4
Uruguaiana 412 318 340 080 273 200 -17,5 -19,7

Observamos que de 1920 para 1939 houve um aumento substancial da produção de lã bruta de um modo geral e que
Bagé e Uruguaiana, que não eram os maiores produtores em 1920 tiveram um aumento de produção muito maior que Alegrete
e Livramento, passando à liderança nos totais.
De 1939 para 1950, Alegrete passou a expandir êsse tipo de atividade e se não chegou a ombrear-se com os dois outros
quanto aos totais entregues ao mercado, cresceu de produtividade relativa, de modo a só ser superado nisso por Uruguaiana.
Tais fatos, pelos números, refletem o crescimento vertiginoso do rebanho ovino na Campanha, notando-se, apenas, para
os municípios mencionados, um pequeno atraso na evolução do processo em Livramento, onerado por uma perda de 3,6% do
rebanho entre 1920 e 1940.
É interessante notar que tal incremento da criação de ovinos corresponde a uma nítida retração dos esforços no pastoreio
de bovinos nos municípios mencionados. Tais fatos se refletem mesmo na diminuição sensível do rebanho bovino, que, se foi
geral na década 1920-1940, prosseguiu em 1940-1950 onde maior foi o aumento do rebanho ovino – Bagé e Uruguaiana.

Foto 19 – Alegrete – Uruguaiana – Estância do Posto Velho (do Dr. Saint-Pastous), a 56 km de Alegrete. Vêm-se dois
reprodutores “ Merino- Australiano”, nascidos e criados nessa estância. Êsses carneiros produzem lã em menor quantidade do
que os daa raça “Corriedale”, porém, ela é mais fina e alcança melhor preço. Notar a simplicidade das construções e as roupas
dos peões. Um deles está descalço.

Foto: C.A. de Medina.

As grandes sêcas de 1943 já citadas não serviriam a explicar ao mesmo tempo, para a década de 1940-1950, a diminuição
de 19,6% do rebanho bovino de Uruguaiana e o crescimento de 30,6% do de Alegrete, ao seu lado. Outras causas teriam, por-
tanto, influído nesse fenômeno.
Entre os fatôres que poderiam ter contribuído para isso, lembraríamos que a menor exigência das ovelhas quanto às
pastagens, numa zona de ocupação já saturada pelo sistema extensivo de criação, seria uma delas. Às lotações médias de 70
cabeças por quadra com bovinos teríamos a oposição convenientemente das 150 cabeças de ovino menos exigentes, se isso
fosse uma ocupação igualmente rendosa.
O apuro de raças ovinas – Romney March, Corriedale e Merino -, adaptando-se, ao mesmo tempo aos diversos padrões
de pastagens e o mais rápido desenvolvimento da inseminação artificial entre elas, poderiam ser também arrolados (foto 19).
A erradicação da “sarna” dos campos do Rio Grande, grande vitória da técnica obtida no último decênio, deve igualmente

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CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA

ter contribuído para encorajar vivamente os criadores. Os maiores progressos técnicos quanto à produção de ovinos seriam,
assim, outro elemento dessa transformação.
Um fato porém se destaca, e ousamos avançá-lo aqui antes mesmo de podermos analisá-lo em tôda sua plenitude, como
seria necessário.
É largamente conhecido que mais de 90% da lã bruta da Campanha são exportados para São Paulo, que já em 1938 absor-
via 62%, ou melhor, contribuía com essa porcentagem no total da produção de fios e tecidos no Brasil. Nosso melhor cliente no
exterior era a Alemanha, que comprava 94% da produção exportada do país, num valor de 26,5 milhões de cruzeiros. A indus-
trialização se processava ràpidamente no Brasil e só as fabricas de casimiras passaram a produzir de 1930 para 1937, de 4,212
milhões de metros para 8,500 milhões. Em conseqüência, dos 712.000 kg das manufaturas de lã importadas pelo país em 1929,
passamos a apenas 91.000 kg em 193913.
A Segunda Guerra Mundial desorganizou o mercado externo, numa fase de grande incremento industrial interno.
A grande procura da lã bruta pela indústria nacional e, posteriormente, o processo inflacionário mantiveram os preços em
constante alta, alimentando a produção e favorecendo todos aqueles empreendimentos anteriormente citados.
Em particular, como já referimos, o gigantesco desenvolvimento industrial de São Paulo vem absorvendo àvidamente essa
matéria prima.
Somos de opinião que a existência dêsse mercado de crescente capacidade vem sendo uma das causas principais dessa
grande transformação que se opera nos campos do Rio Grande. As proporções dêsse fato têm grande significação econômica,
as quais não vem tendo necessário destaque na apresentação dos aspectos da geografia gaúcha.
Se tornarmos os dados oficiais do Ministério da Agricultura 14 para o ano de 1950, ano que foi controlado por um Recen-
seamento Geral, chegamos à seguinte apuração:
E’ aceito na Campanha que o “desfrute” médio do rebanho, ou, o que se vende dêle por safra, é de cerca de 13%. Essa
porcentagem do rebanho de um município é que representa a produção anual de bovinos.
A lã produzida era em média para 1950 de 3 kg por ovelha, por ano.
Para as cotações médias do ano de 1950, teremos seguintes valores:

Bovinos Produção de Lã (Bruta)


Valor Total
13% do Peso Total Valor Total
Municípios (Unidade:
rebanho (Kg) ( Cr $)
Cr$ 1 400,00)
Alegrete.... 56 030 78 442 000,00 1 414 200 56 568 000,00
Bagé 36 010 50 414 000,00 1 931 400 69 530 400,00
Livramento 42 796 59 914 000,00 1 228 800 44 236 800,00
Uruguaiana 35 516 49 722 000,00 2 682 000 118 008 000,00

A posição relativa de Livramento pode ser influenciada pela existência aí do grande frigorífico da Armour do Brasil S.A.,
mantendo, assim, para o município maior interêsse na produção de bovinos.
As informações mostram a expressão regional da produção de ovelhas, de um modo geral e, mais do que isso, que em
municípios tradicionais, como Bagé e Uruguaiana, essa produção, é hoje mais valiosa que a obtida do rebanho bovino.
Os reflexos dêsses fatos são muitos e poderíamos exemplificar, a título de ilustração, apontando dois dêles.
O tipo de confinamento do rebanho teve que adaptar-se a essa transformação. As cêrcas precisam ter trama um pouco
mais fechada e o arame farpado passou a ser mais inconveniente. Por isso as cercas devem ter maior número de fios, cinco em
média, dos quais apenas o penúltimo, de baixo para cima, é farpado. De um modo geral elas se tornaram mais caras, pelo au-
mento da extensão de um fio usada. Dado o grande tamanho médio das propriedades, o capital investido no empreendimento
deve ser, necessàriamente, maior.
Os trabalhos como tosquia – “esquila” – nas safras de lã – geralmente novembro-dezembro - aumentaram consideravel-
mente e a expressão dêsse gênero de atividades mudou de valor, influindo na caracterização dos tipos ou estilos de vida. Não
só a mão de obra suplementar é atraída nessa fase dos trabalhos do campo dado o pequeno número de pessoas que operam
numa estância - em média, um capataz e três peões, para uma propriedade de 10 quadras -, como se organizam grupos espe-
cializados no trabalho de “esquila” que, em trabalho volante e por contrato, realizam a operação de estância em estância, para
aqueles que não dispõe dos meios de cortar a lã do seu rebanho no seu tempo devido.
Tudo isso modificou substancialmente a atitude do gaúcho com relação ao gado bovino e suas preocupações, quanto
muito, se dividem entre os dois gêneros de atividade.
Tal transformação, repetimos, não parece ter merecido a devida atenção daqueles que têm focalizados os aspectos da
paisagem natural e cultural do Rio Grande do Sul.
De um modo geral, chegamos à conclusão de que todos esses elementos se perderam pela excessiva generalização que
se faz na descrição da paisagem da Campanha. Imagens estereotipadas se conservam através do tempo, sem que se note um
esfôrço renovador quanto ao método de trabalho e atualização dos elementos informativos.
As conquistas da Geografia Geral não são, assim, incorporadas aos trabalhos recentes e não só ficamos com uma imagem
falsa ou deformada da paisagem como, igualmente, não dispomos de elementos para a compreensão dos fatos assinalados.
Se o presente trabalho merece o interêsse dos que se esforçam pelo aperfeiçoamento da Geografia no Brasil, teremos
alcançados os objetivos que nossas modestas contribuições poderiam pretender.
13 Brasil,1941; anuário pub. Pelo Minist. das Relações Exteriores; D.F.
14 Diretoria da Estatística da Produção, Ministério da Agricultura, Rio de Janeiro, D.F.

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MIGUEL ALVES DE LIMA

Alegrete - Totais de chuvas no Decênio de 1928-1937, em mm.

Anos
Meses 1928 1929 1930 1931 1932 1933 1934 1935 1936 1937
Jan. 134,5 137,2 193,9 151,7 108,6 231,2 133,3 161,5 155,7 62,9
Fev 199,0 70,2 51,9 97,2 123,7 156,8 167,6 151,2 32,2 147,0
Mar. 86,0 162,0 296,5 46,9 171,1 139,5 122,3 125,2 170,2 151,8
Abr. 154,8 4,6 142,2 137,9 538,7 109,1 66,5 59,6 170,4 111,0
Mai. 182,3 175,6 391,5 125,0 125,0 70,3 208,7 35,3 371,6 74,5
Jun. 95,7 140,7 52,7 163,2 53,7 30,9 157,1 77,0 234,7 58,3
Jul. 100,9 180,6 79,8 131,2 80,5 71,0 61,3 106,9 130,3 177,5
Ago. 99,6 98,3 154,5 94,8 105,4 68,0 76,6 127,3 119,9 133,7
Set. 201,2 261,6 59,9 42,0 159,9 95,9 61,6 39,0 121,6 140,0
Out 181,7 351,3 79,9 100,0 175,5 257,2 156,7 264,3 234,5 100,2
Nov. 60,4 5,4 217,6 158,9 143,9 48,2 98,4 99,9 107,7 180,6
Dez. 172,7 210,8 26,1 44,0 200,1 41,0 102,3 336,5 91,7 36,6
(In “Posição Econômica de Alegrete”, de Milton Quintana; Porto Alegre; 1939; páginas 18-19; editora “O Globo”).

Obs.- Notar as grandes variações da precipitação mensal, de um ano para o outro, especialmente nos meses de verão. O exame
das normais dá idéia de um grande regime de chuvas bem distribuídas, em bons totais, mas observa-se que a realidade não
pode se contar com chuvas volumosas regulares. O fato de elas faltarem, às vezes no verão é grave.

Temperaturas médias no decênio de 1928-1937 (˚c).

Meses 1928 1929 1930 1931 1932 1933 1934 1935 1936 1937
Jan. 24,7 25,8 23,2 25,1 26,5 24,6 26,0 24,7 23,6 24,6
Fev 22,9 25,0 24,6 25,3 23,5 23,6 22,1 24,0 22,9 24,7
Mar. 22,5 20,6 21,4 23,0 23,0 21,7 23,1 23,7 22,4 21,0
Abr. 19,9 18,4 19,0 17,9 18,9 18,4 15,9 16,7 18,7 18,0
Mai. 15,5 13,1 17,1 12,5 13,8 17,5 16,3 16,2 18,3 14,6
Jun. 12,1 11,1 18,9 11,5 12,3 12,2 15,5 15,7 15,5 14,8
Jul. 13,3 14,1 12,4 13,1 17,0 10,5 12,2 12,8 13,4 11,5
Ago. 14,2 14,0 14,2 15,0 12,5 15,3 14,5 13,4 12,2 15,4
Set. 15,8 12,2 15,0 14,2 16,2 16,2 16,1 14,7 16,2 15,8
Out 18,4 17,5 16,9 19,2 19,3 19,1 18,0 16,9 18,4 16,0
Nov. 22,3 20,9 21,1 20,1 22,7 20,7 20,4 21,1 20,7 19,8
Dez. 23,6 23,6 24,3 24,7 24,0 24,0 23,3 23,2 24,4 22,3
(In “Posição Econômica de Alegrete”, de Milton Quintana; Porto Alegre; 1939; páginas 18-19; editora “O Globo”).

Chuvas (Valores normais, em milímetros).

ESTAÇÔES JAN FEV MAR ABR. MAI. JUN. JUL. AGO. SET. OUT. NOV. DEZ. ANO

BAGÉ 109 110 102 114 139 142 113 125 161 110 92 97 1414
LIVRAMENTO 108 97 133 145 130 120 95 118 118 122 102 116 1404
S. GABRIEL 135 117 140 149 157 166 138 145 142 135 105 119 1648
URUGUAIANA 125 92 139 167 129 102 68 77 100 135 101 121 1356

Temperatura (Valores normais, em ˚C).

ESTAÇÔES JAN FEV MAR ABR. MAI. JUN. JUL. AGO. SET. OUT. NOV. DEZ. ANO

BAGÉ 23,8 23,2 21,5 18,2 14,9 12,4 12,3 13,2 14,7 16,7 19,8 22,2 17,7
LIVRAMENTO 23,8 23,3 21,4 18,1 15,4 12,5 12,4 13,2 14,9 17,1 20,0 22,6 17,9
S. GABRIEL 24,6 24,1 22,3 19,1 15,7 13,5 13,1 14,1 15,8 18,0 20,9 23,4 18,7
URUGUAIANA 26,1 25,3 23,4 19,9 16,4 13,7 13,5 14,5 16,3 19,2 22,0 24,6 19,6

Período:1912-1942

49
CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA CAMPANHA GAÚCHA

PARECER
Trabalho constando 15 páginas datilografadas, 2 mapas, 21 fotografias, 4 tabelas climáticas.
O trabalho “resulta principalmente de uma longa excursão de reconhecimento” (set, out. 1953), realizado pelo autor na
parte sudoeste do Estado do Rio Grande do Sul.
Seu objetivo, diz o autor é “atrair a atenção dos geógrafos e pessoas interessadas no estudo da Geografia do Brasil” para
certos fatos que se acham relegados a um plano secundário, mas “os quais tem incontestável significação para o entendimento
de sua paisagem física, bem como dos problemas que a população aí radicada deve enfrentar”.
Êsses fatos que o autor agrupa como “uma série de fatos”, são na realidade, quatro grupos de fatos, a saber: aspectos do
rêlevo, particularidades climáticas, aspectos da vegetação e, finalmente, observações relativas à economia regional.
Aspectos do rêlevo – ressalta o autor as formações sedimentares da zona sudoeste da Campanha e seus derrames de lava,
correspondente a um rêlevo de “mesas e taboleiros” e também a um rêlevo de cuestas típicas.
Diz o autor que “autores os mais conceituados se limitam ora a descrever a estrutura, ora identificando as formas perfei-
tamentes caracterizadas”, não procuram mostrar sua distribuição ( Cita Paulo de Castro Nogueira e Balduino Rambo).
Tenho a impressão que da leitura de ambos nos leva a declarar que é possível mostrar a distribuição e a correlação entre
o rêlevo e a estrutura da zona, e mais, é possível mostrar que a Campanha Gaúcha, neste ponto, é do ponto de vista do relevo,
muito diferente daquela comumente descrita ( o autor aliás não apresenta esta distribuição).
O clima – Parte o autor da noção generalizada e divulgada do clima da região. Apresenta 4 tabelas climáticas, mas ne-
nhum gráfico climático, que facilitasse a compreensão do fenômeno. Mais do que nunca os valores médios passam a ser relati-
vos. Realmente o período sêco é evidente; mas não é desconhecido para geógrafo brasileiro. Mas também é certo de que êsse
período sêco de verão, não é próprio de tôda a Campanha. Trata-se de uma anomalia em se considerado o conjunto da região.
A vegetação – Ressalta o autor que os campos não são uniformes, fato aliás muito conhecido e divulgado. Mas, soube
correlacionar, e muito bem, a vegetação ao solo e rocha matriz, diferenciando assim boas e más pastagens e justificando assim
a sucessão de diferentes tipos de campos.
A economia – Ressalta a Campanha como importante zona de criação de ovelhas, criação esta em grande desenvolvimen-
to (são menos exigentes quanto às pastagens). Os dados (rebanho e lã) são muito mal apresentados. Não há um gráfico ou um
diagrama, ou pelo menos uma tabela em que resumissem os diferentes elementos para uma comparação.
O autor procura e consegue explicar o desenvolvimento da criação de ovelhas, e a retração da criação de bovinos, relacio-
nando tal fenômeno não só com a crescente procura do grande mercado consumidor de lã, que é São Paulo.
Conclui, mostrando a conveniência de se divulgar melhor os aspectos estudados, a fim de evitar falsas idéias ou deforma-
ções de paisagem, aperfeiçoando assim os conhecimentos de geografia do Brasil.
A meu ver, o autor necessita proceder às correções indicadas: necessita fazer uma revisão nas legendas das fotografias
para evitar a dispersão de fatos assinalados na foto, necessita colocar os mapas em condições a serem impressos; necessita
excluir as tabelas climáticas (ou apresentá-las em anexo), substituindo-as por vários gráficos; necessita substituir os nomes das
partes do trabalho, sugerindo o Relator as seguintes denominações: A) Aspectos do rêlevo; B) O problema da sêcas; C) O pro-
blema dos pastos; D) A criação de gado.
Sugiro também, tendo em vista o conteúdo do trabalho, para evitar generalizações (que levaram o autor a apresentar o
seu trabalho), a substituição do titulo do mesmo. Em vez de “Contribuição do estudo da Campanha Gaúcha”, qualquer outro
como “Notas sôbre a parte ocidental da Campanha Gaúcha”.
Concluímos: de acôrdo com o Regulamento o Regimento Interno do I Congresso Brasileiro de Geógrafos, Art. 27, o traba-
lho apresenta inegável interêsse geográfico, resulta de observações originais do autor e também goza do necessário ineditismo.
Todavia, de acôrdo com Art. 28, os mapas e fotografias não foram apresentadas em condições de ser impressos.
Assim sendo opino pela divulgação do mesmo, nos Anais do I Congresso Brasileiro de Geógrafos, sanadas as falhas apon-
tadas e desde que se enquadre devidamente nos têrmos do Art. 28, por considerar, como professor de Geografia do Brasil uma
contribuição interessante ao estudo de uma pequena parcela do território nacional.
ass. Antonio Rocha Penteado - Relator

50
PARTE 2
A PRODUÇÃO NA “AFIRMAÇÃO” DA GEOGRAFIA BRASILEIRA
O terceiro período da Geografia brasileira no século XX, denominado por Monteiro (2002) “A cami-
nho da afirmação” vai de 1956 a 1968. Inicia-se com o XVII Congresso Internacional de Geografia, da UGI,
realizado no Rio de Janeiro e culmina com o ano de 1968, marco das lutas políticas e culturais do século
passado e dos anos de chumbo brasileiros.
Em 1958, a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, sedia a XIII ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSO-
CIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS, durante a qual é apresentado o trabalho: Praderas de la América
del Sur Templada, de Jorge Chebataroff, presente nessa ocasião acompanhado de outros representantes
da Associação dos Geógrafos Uruguaios. Esse mesmo trabalho, um ano depois, é apresentado na Revista
do Instituto Panamericano de Geografia e História.
Durante essa Assembléia é produzido o relatório intitulado: A Região de São Gabriel, coordenado
por Nice Lecocq Müller. Tal estudo foi publicado originalmente como Avulso n. 4, em 1962, pela AGB,
e consta do resultado dos trabalhos de campo realizados na Campanha Gaúcha. Nice Lecocq Müller,
professora da Universidade de São Paulo e atuante nas diretivas das Seções Regional e Nacional da AGB,
coordenou e sistematizou o trabalho de campo realizado por 17 participantes do evento, provenientes de
várias localidades e instituições, que por três dias percorreram a Campanha Gaúcha 1.
Lamentavelmente, o trabalho dos demais grupos, que realizaram as saídas de campo para outras
áreas próximas – Planalto, Depressão do Jacuí, Zona rural de Santa Maria e Cidade de Santa Maria, foram
apenas relatados na assembléia, não sendo registrados de forma sistematizada.
Em 1961, na cidade de Londrina, Paraná, tem lugar a XVI ASSEMBLÉIA GERAL DA ASSOCIAÇÃO DOS
GEÓGRAFOS BRASILEIROS, quando são apresentados os trabalhos: A Vegetação da Faixa Costeira Sul
-Rio-Grandense, de Ir. Juvêncio e A Contribuição da Colonização Alemã à Valorização do Rio Grande do
Sul, de Jean Roche, como integrante do Simpósio Colonização e Valorização Regional, realizado durante
a assembléia.
Não obtivemos referências sobre o autor Irmão Juvêncio, porém acrescenta-se que seu trabalho
foi orientado pelo geógrafo pernambucano Gilberto Osório de Andrade. A presença de participantes nas
assembléias da AGB, inscritos e identificados a partir de sua nominação religiosa é recorrente, como pode
ser observado nos autores do relatório produzido durante a Assembléia realizada em Santa Maria.
Tal como Jorge Chebataroff, o professor da Universidade de Toulouse, Jean Roche é um autor pre-
sente em vários momentos das atividades da AGB de meados do século passado. Tendo vivido por oito
anos no Rio Grande do Sul, após a Segunda Guerra, pesquisou e estudou a imigração alemã, da qual
resulta sua tese de doutoramento.
Do Simpósio realizado durante a XVI Assembléia e dirigido por Lysia Maria Cavalcanti Bernardes,
constam publicadas, além da apresentação de Jean Roche, mais sete contribuições dos autores seguintes:
Orlando Valverde, Pasquale Petrone, Lysia Bernardes, Nilo Bernardes, Antonia Déa Erdens, Altiva Pilatti
Balhana e da dupla Sonia Esmeralda Cerqueira Bremer e Helena da Gama Lobo d’Eça. Aos textos apresen-
tados são acrescidas as transcrições dos debates. No mesmo evento foi realizado o Simpósio Geografia e
Planejamento Regional, dirigido por Orlando Valverde.

1 Orientadora das pesquisas de campo realizada na região de São Gabriel. Participaram também Lysia Maria Cavalcanti Bernardes, Cecília França,
Michel Tabuteau, Antônio Rocha Penteado que se encarregaram da direção dos grupos de trabalho. Dentro dos vários grupos, cumpriram suas
tarefas com louvável dedicação: Alba Maria Baptista Gomes, Lília Veira, Marly Bustamante, Olga Cruz, Olga Ramos, Palmira Monteiro, Ruth
Simões, Edgar Kuhlmann, Éli Piccolo, Francisco Takeda, Ignácio Takeda, Irmão José O. Goettert e Rauquírio Marinho.

51
PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA

CAPÍTULO 4
PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA1
JORGE CHEBATAROFF

INTRODUCCIÓN GENERAL
El estúdio de la vegetación y la delimitación de las diversas regiones fitogeográficas pueden llevarse a cabo de distintas
maneras. Estos trabajos pueden limitarse a reconocer y cartografiar los diversos tipos de vegetación con la finalidad de prepa-
rar un mosaico ó mapa de la comarca de que se trate, en los cuales figuran representadas las áreas ocupadas por las masas de
arbolado, las arbustivas, las de pradera, las mixtas, etc. Esta labor se ve altamente facilitada por la utilización de la fotografia ó
la simple inspección aérea, ambas tan en boga em la actualidad. Aunque los masaicos y mapas obtenidos de esta manera resul-
tan útiles, no pueden considerarse desde el punto de la fitogeografía científica, suficientes, ya que por si sólos no nos informan
debidamente respecto de la composición florística ni de algunos detalles fisionómicos, de las agrupaciones vegetales represen-
tadas. Resulta indispensable realizar también observaciones y estudios em el terreno, los que siempre conducen a resultados
más seguros y decisivos. Por otra parte, resulta difícil distinguir desde el aire, ó reconocer en las aerofotografías, una formación
herbácea climática frente a otras originadas por la acción perturbadora del hombre sobre antiguas áreas arboladas ó arbustivas
(formaciones disclimáticas). Tampoco podrían diferenciarse bien los diversos tipos de bosques, aunque com frecuencia las ae-
rofotografías y la inspección aérea proporcionan datos suficientes como para poder separar los tipos fisionómicos, por lo menos
em sus grandes rasgos. Así por ejemplo, para una vista ejercitada, resulta fácil distinguir las áreas ocupadas por la araucaria en
los planaltos subbrasileños.
En países aún poco conocidos ó escasamente explorados, el simple reconocimiento y la representación cartográfica de
los diversos tipos de vegetación, sin um estudio detallado de la composición florística, como método fitogeográfico, resulta
aparentemente prévio a la utilización de todos los demás. Pero en comarcas donde la vegetación es bien conocida, y existen
abundantes datos acerca de la flora, el método florístico debe ser preferido al puramente fisionômico, por ser más fecundo
em resultados prácticos. De todas maneras cualquier trabajo de índole fisionómica debe ser acompañado por investigaciones
florísticas, y cuando se realizan éstas, los tipos de vegetación deben ser tenidos especialmente em cuenta. Por ejemplo, el valor
económico de un bosque ó de una pradera no puede ser apreciado en base de su extensión, de su aspecto ó de la densidad y
altura de sus componentes, sino que es preciso conocer las espécies que los integran. La falta de este último conocimento ex-
plica en parte la impasibilidad que mucha gente muestra ante los incendios deliberados de bosques, de formaciones arbustivas
y de praderas. A veces no basta el simple conocimento de la composición florística, sino que hay que saber algo de la ecología
de cada especie ó de las comunidades que integran la formación.
Por outra parte las agrupaciones vegetales han tenido su historia y evolucionan continuamente, aún cuando naturalmente
lo hagan en forma muy lenta. Por lo tanto, a los métodos fisionómicos y florístico, hay que agregar en la medida de lo posible,
las observasiones é investigaciones relativas al dinamismo de la vegetación y de la flora. Por ejemplo, los bosques marginales
que se alargan junto a la riberas del rio Uruguay Medio é Inferior, tienen en parte una composición semejante a la de los que
marginan a los tributarios uruguayos y mesopotâmicos argentinos, de esta gran corriente fluvial; pero incluyen además algunas
especies particulares como el ibirapitá, el timbó, el lapacho, el lapachillo, la flor de cepillos, el ingá, el obajay, etc. que junto a
tales tributarios son accidentales ó faltan por completo, por lo menos a partir desde cierta distancia de sus respectivas desem-
bocaduras. Este hecho revela que parte de la vegetación marginal del río Uruguay corresponde a una intrusión subtropical,
llevada a cabo aprovechando la orientación y las condiciones favorables derivadas de la presencia del próprio río.
La falta de arbolado ó su escasez en algunas áreas geológicamente nuevas, no puede atribuir-se a condiciones climáticas
ó edáficas adversas. A veces ocurre que en razón de la própria juventud de estas áreas, la vegetación arbórea no há tenido el
tiempo suficiente para llegar a colonizar ó a invadir tales áreas, ó no há contado con factores eficientes capaces de facilitar su
dispersión. Tambiém ocurre que la talla reducida de los componentes de un bosque, de un matoral, y aún de una pradera no
siempre es debida a los factores naturales sino a la acción perturbadora humana, sea ésta directa (incendios, talado) ó indirecta
( pastoreo de animales). Estos hechos no sólo son conocidos en el Sudán y el Asia Occidental, sino también en el Uruguay y en
ciertos puntos de la Argentina. Tanto aquí como en el Uruguay, la pradera prístina ú original, tal como la hallaron los primeros
colonos no existe ú ocupa áreas bien determinadas que van reduciéndose con el correr del tiempo. El propio cerrado del Brasil,
aún en el supuesto caso de que constituyera la vegetación climática de las chapadas y planaltos interiores del país vecino, ha
sido modificado en grandes extensiones por la acción humana. Los que así no piensan, olvidan que a vegetação original, cuando
es fuertemente perturbad, no se repone nunca con fidelidad, y al reconstituirse lo hace a través de largas etapas sucesionales.
Tanto el método fisionômico, como el florístico y el dinâmico resultan valiosos en fitogeografía, pero los dos primeros
tienen carácter más descriptivos que el último. Pensamos que cierta combinación de los três métodos sería más efectiva en los
trabajos geográficos, aún cuando los botánicos preferirán inclinarse hacia el método florístico. Al geógrafo orientado hacia la
fitogeografía interesa la fisionomía de la vegetación, pero no puede despreocupar-se tampoco de la composición florística de la
misma. En el presente trabajo combinamos ambos métodos, teniendo en cuenta que el área estudiada es relativamente bien
conocida tanto desde el punto de vista fisionómica como del florística. La dificultad principal estriba en emplear una nomencla-
tura clara y comprensible, y cabe destacar que en este sentido, ha reinado, como lo destaca muy bien A. L. Cabrera, siempre una
anarquia manifesta en los diversos autores. Respecto a los limites de las diversas regiones consideramos que siempre han de
ser provisórios, y casi nunca perfectamente nítidos, siendo frecuentes las zonas de transición ó de engranaje. Las terminologias
1 Trabalho indicado para publicação nos Anais, de acordo com o parecer do sócio efetivo AZIZ NACIB AB’SÁBER, discutido e aprovado em plenário.

52
JORGE CHEBATAROFF

empleadas por los investigadores que se han ocupado de la vegetación sudamericana son muy a menudo discutibles. Es así que
Alberto Castellanos y R. Pérez Moreau, notando que el tipo de vegetación dominate de la Povincia fitogeográfica llamada por
ellos Bonariense, en gran parte duriherbosa, no corresponde exactamente a una estepa de gramíneas ni a una pradera, han
propuesto llamarla provisoriamente “cachul”, nombre que la daban los indios pampas. El segundo de los autores nombrados,
indica en otro trabajo que el nombre más conveniente para la llanura bonariense no es el de Pampa, sino Lelfinar. Sobre estos
câmbios de designaciones nos ocuparemos en el presente trabajo.
Si los exploradores y los geógrafos pioneros utilizaron frecuentemente el método fisionómico con preferencia a los demás,
ha sido porque no pudieran deternese lo suficientemente para examinar la vegatación al detalle, ó no hicieron las necesarias
coleciones de plantas.
El problema fundamental de la fitogeografía sigue siendo siempre el de dar una idea lo más exacta posible de la vegeta-
ción de sus relaciones com el médio (de ésto se ocupa también la ecologia vegetal), de la distribuición de los vegetales y sus
causas, y del dinanismo de la vegetación. No debe descuidar tampoco la composición florística de las diversas formaciones
vegetales, y su importancia económica. La presente exposición acerca de las formaciones pratenses (ó “camprestes”) de la
América del Sur templada, tiene por objeto la exposición fiel de los hechos observdos, tanto desde el punto de vista fisionómico
como del florístico, pero al mismo tiempo tiende a plantear y resolver si es posible algunos problemas de dinámica vegetal. Los
estudios florísticos están lo suficientemente adelantados tanto em el Uruguay como al Este de la Argentina y la porción más me-
ridional del Brasil, como para permitir dar una buena idea de la composición de la flora de toda la región que examinamos. Esta
corresponde a la llamada por Grisebach, hace unos ochenta años,Formación Uruguaya, y más tarde por Hauman, Provincia (de
transición) de las Sabanas Uruguayas. En este trabajo designaremos a esta región fitogeográfica como Provincia Uruguayense,
tomando como eje al río Uruguay que la cruza, y que recoge las aguas de una cuenca que ocupa una buena parte de dicha re-
gión. Examinaremos con menos detalle outra formaciones pratenses, herbáceas y seudoesteparias, principalmente la llamada
por diversos autores Formación Pampeana, y designada en 1944 por Alberto Castellanos y R. Pérez Moreau con el nombre de
Provincia Bonariense.
En relación al uso que hacemos de algunas expresiones, que pueden ser discutibles, aclararemos que “uruguayense” es
preferible a “uruguaya” por no referirse al Uruguay solamente, empleándose la segunda de las expresiones nombradas para
designar todo aquello que es de pertenencia del mencionado país; en cambio “uruguayense” sería un adjetivo puramente fito-
geográfico y además latinizado, lo mismo que “bonariense” preferido por los botánicos a “bonaerense”. Por outra parte, hemos
tratado de prescindir del término “campo” que es vago é impreciso, que en el Uruguay se emplea con frecuencia para designar
algo que está en oposición con la ciudad, es decir, todo lo que está fuera de ella, y em el Brasil, formaciones arbustivas tales
como los cerrados se suelen llamar tambiém “campos cerrados”. Aunque veremos que la vegetación pratense del Uruguay y del
Sur de Rio Grande del Sur no es uniforme, no se puede hablar tampoco de “formaciones campestres” en plural, ya que serían
em todo caso asociaciones ó facies.
En cuanto a la nomenclatura propuesta por Rubel, lo que se refiere a la vegetación herbácea resulta insuficiente, hecho
que ya fué observado por Castellanos y Pérez Moreau, cuando notaron que la vegetación pampeana no podía recibir la designa-
ción de “duriherbosa” y menos la de “sempervirentiherbosa”, aplicándole el nombre de “cachul” que utilizaron los índios pam-
pas. Lo que se acaba de consignar no significa una crítica encaminada a proponer el rechazo de la clasificación de Rubel, que
es por otra parte muy buena. Lo que ocurre es que resulta insufuciente para distinguir ó caracterizar las diversas formaciones
herbáceas. Expresiones como “duriherbosa” y “sempervirentiherbosa” parecen estar ubicadas en el extremo de una serie, de
la cual los tipos intermédios no han recibido designación alguna; además, en campos ondulados como los del Uruguay, pueden
altenar diversos tipos de vegetación herbácea, presentándose por ejemplo en las planícies de inundacíon fluvial asociaciones
de “emersiherbosa”.

AREAS CUBIERTAS POR VEGETACIÓN PRATENSE EM LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA

Formaciones herbáceas de Sud América


A pesar de su ambigüedad a menudo manifesta, términos como estepa, pradera y sabana, son utilizados ampliamente
en geografia. Con el progreso de la exploración, el levantamiento de cartas de vegetación y las investigaciones fitogeográficas
cada vez mas detalladas, tales expresiones han resultado demasiado amplias, ó insuficientes para llamar todos los tipos de
vegetación herbácea conocidos. Por ejemplo, con su apresuramiento que no ha dejado de tener consecuencias molestas, se
ha aplicado el término estepa a las formaciones vegetales ralas y compuestas de xerófilas que ocurren en la periferia de los
desiertos (por ejemplo, el Sahara) ó que caracterizan algunos semidesiertos y regiones montuosas áridas, a pesar de ser tales
formaciones muy diferentes a las que se presentan en las verdaderas estepas de la Europa Sudoriental y en una parte del Asia.
Esta confusión ha llevado a algunos autores a negar a la expresión estepa un real significado fitogeográfico. Si bien es cierto que
las formaciones esteparias tienen cierto “aire de família”, resulta desacertado que tipos de vegetación que ocurren en semide-
siertos permanentes hayan sido equiparados a la vegetación fluctuante, pero en general graminosa ó puramente herbácea, que
aparece em Ucrania y en una parte de los Great Plains de los Estados Unidos, que sufre la periódica influencia de un invierno
relativamente seco y frio, y los rigores de un verano ardiente.
También há resultado vago el término pradera, aplicado a las más variadas formaciones herbáceas, y sobre todo el de
sabana, que incluso fué utilizado por Hauman para caracterizar la vegetación del Uruguay. En relación a la Pampa, vários autores
han llegado a la conclusión que ninguna de las tres denominaciones que acabamos de analizar puede aplicársele, ni siquiera
el intermédio de pradera esteparia. Parecería que la mejor posición para evitar aplicar a las formaciones herbáceas en forma
equivocada algunos de dichos términos, sería la de utilizar en todos los casos la expresíon campo, palabra que aparentemente

53
PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA

se refiere a los espacios descubiertos de bosque ó de formaciones arbustivas más ó menos cerradas. Pero con el uso de esse
término, la vaguedad aumentaria aún más, pues existe una infinidad de tipos de campos, y algunos de ellos pueden ser consi-
derados como verdaderas sabanas ó praderas.
Preciso es convencerse que las expresiones campo, pradera, estepa y sabana, ya han cumplido su misión, y fueron úti-
les en una época en que el conocimento fitogeográfico de la superficies del globo recién estaba en sus comienzos. No puede
esperarse que en una disciplina relativamente nueva, pero que se va integrando rápidamente, las terminologias sean claras y
definitivas, y resulta loable el esfuerzo de quienes proponen nomenclaruras cada vez más detalladas y perfectas. En este sentido
cabe destacar el extraordinario valor que encierra la clasificación de tipos biológicos propuesta por Rubel y otros autores, que
aunque insuficiente aún, ya desempeña un papel importante como hipóteses de trabajo. A nuestro juicio, esta clasificación,
rica en la terminologia aplicable a las formaciones áridas (siccideserta, frigoridesert, litorideserta, mobilideserta, rupideserta,
saxideserta) resulta en cambio pobre en relación a las formaciones herbáceas y a las formaciones mixtas. Por ejemplo, dejando
de lado la “altherbosa” aplicable a determinadas sabanas, entre elo que Rubel llama “duriherbosa” y “sempervirentiherbosa”
pueden considerarse tipos de vegetación intermedios y mixtos, estas últimos en forma particular en las penillanuras. No se ve
claramente por otra parte, dónde habría que ubicar los “prados alpinos” y ciertos “campos de planalto”, ni tampoco las forma-
ciones de parque y los cerrados del interior del Brasil.
En esto trabajo trataremos de utilizar las terminologías de los especialistas regionales, las que en caso de no ser discuti-
bles, tienen más valor en general que las propuestas por autores que no han visto ó no han contado con suficiente bibliografía
acerca de ciertas comarcas por ellos consideradas. Después de haber recorrido personalmente las “pampas de Achala, de Po-
cho, etc. de la Argentina, y haber tenido contacto directo con la vegetación de una apreciable área de la Pampa Húmeda del país
vecino, hallamos que la utilización de la expresión pampa para designar la vegetación del Uruguay ó la de la porción Sudoeste
de Rio Grande del Sur, es puramente gratuita é inadmisible. Sería preferible en todo caso dejar que se siga empleando la pala-
bra campo, que aunque vaga y de extraordinaria amplitud, sólo pretende indicar que en tales regiones domina la vegetación
herbácea; y podría utilizarse la expresión campo limpio, como se hace en el Brasil, para designar las formaciones herbáceas
desprovistas de árboles, palmeras y aún arbustos de talla apreciable.
En general las formaciones herbáceas de la América del Sur templada difieren entre sí no sólo por su composición florísti-
ca, su densidad, sus cambios de aspecto, por la altura media de sus integrantes y demás caracteres fisionómicos más o menos
perceptibles, sino también por la riqueza de especies, las comunidades y asociaciones que las integran, los ciclos fenológicos,
la proporción de plantas no graminoides, la proporción de terófitas, geófitas, etc. y de arbustillos leñosos. Todas estas caracte-
rísticas son el reflejo de las condiciones ambientales pero también dependen de la historia de la vegetación, de su antigüedad y
de su estabilidad frente a la acción de origen antropógeno. Como lo observa atinadamente Gaussen, los endemismos si existen,
no siempre corresponden a las plantas dominantes. Pero los endemismos son útiles cuando se utilizan los métodos florísticos ó
se procura reconstruir la historia de la vegetación; los tendremos en cuenta al considerar las diversas provincias fitogeográficas.
En la presente exposición nos ocuparemos preferentemente de las formaciones típicamente pratenses, y la limitación de
su área, estará condicionada al análisis previo de las formaciones herbáceas de la América del Sur templada. Por formaciones
pratenses entendemos lo que se llaman vulgarmente “pastizales” con perdominio de gramíneas ó de plantas graminoides (cipe-
ráceas, juncáceas, iridáceas, etc.), dispuestas en agrupaciones relativamente densas, de porte poco elevado, y sin un xerofitis-
mo marcado, salvo en forma muy localizada (mares de piedra, serranías, arenales). Pero destacaremos desde ya que la pradera
definida de esta manera no ocupa todo el territorio del Uruguay ni del Sudoeste de Rio Grande del Sur, sino que constituyo allí
el tipo de vegetación dominante.
Estas formaciones pratenses surgen dentro de un conjunto de formaciones herbáceas que no constituyen verdaderas
praderas, pero que abarcan un área muy amplia dentro de la América del Sur templada. En Chile estas formaciones herbáceas
carecen de continuidad, aunque se presentan ocupando áreas importantes en la Provincia Chilena de Transición y en determi-
nadas porciones de la Provincia Subantártica, donde el viento suele controlar la vegetación arbórea, aunque también parece ser
decisiva la influencia del suelo que con frecuencia es turboso. En la Argentina las formaciones herbáceas abarcan una extensión
considerable y se presentan en una parte de la Patagonia; en la Pampa Húmeda, en la Mesopotamia argentina, en una parte del
Chaco, en la llamada Pampa de Achala enclavada en las serranías cordobesas, apareciendo en la Puna de Atacama, una vegeta-
ción rala subdesértica ó halofítica que hasta cierto punto podría ser llamada esteparia (si nos atenemos al concepto de que una
estepa puede abarcar la vegetación propia de los semidesiertos). Gran parte del Uruguay y del Sur y Sudoeste de Rio Grande
del Sur, están ocupados por vegetación herbácea. Esta también se presenta en una parte del gran Planalto Meridional del Brasil,
en ciertas porciones de Mato Grosso y del Paraguay.
De toda esta vegetación la propiamente pratense ocurre especialmente en lo que desde hace ya bastante tiempo se llama
Provincia Uruguaya de vegetación la que aquí denominaremos Provincia Uruguayense, abarcando todo el Uruguay, la Meso-
potamia argentina y los Campos del Sudoeste de Rio Grande del Sur. En relación a la Pampa argentina húmeda ú oriental, la
expresión “pratense” no parece ser apropiada para designar el tipo de vegetación que la caracteriza; pero tampoco se trata de
una verdadera estepa.
En relación a los “campos de planalto” que ocurren en el Brasil Meridional y en una parte de Mato Grosso, los hay de muy
diversas características fisionómicas y florísticas. Dejando de lado los cerrados propiamente dichos y las caatingas, E. Kuhlmann
destingue en el Brasil, los siguientes tipos de vegetación mixta y puramente herbácea:

1 - Vegetación mixta: a) Vegetación de restingas; b) Alternancia de selva y campo; c) Complejo Pantanal.


2 - Vegetación campestre: a) Estepas de Rio Branco; b) Campos del Planalto Meridional y de la Campanha; c) Campos
serranos; d) Campos de “várzea” (planicies generalmente inundables). Todos estos tipos campestres corresponden a los

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JORGE CHEBATAROFF

llamados “campos limpios”, donde los arbutos son bajos, escasos ó se destacan poco en el conjunto de la vegetación.
3 - Vegetación de los campos “sucios”.

Tuve la oportunidade de discutir esta clasificación de E. Kuklmann, sugiriendo algunas modificaciones en la que el mencio-
nado fitogeográfico presentó en primera instancia. De todas maneras, debo reconocer que mi duda acerca de la similitud entre
los campos de Planalto y los de la Campanha Riograndense era un tanto infundada, ya que tras de un examen más meditado
de las características que ofrecen ambas formaciones, surge el hecho de que los campos de Planalto se parecen a los de la
Campanha, en los que por otra parte no reina la uniformidad que muchos imaginan. La causa de esta semejanza puede ser la
compensación que la altura determina en relación a la variación climática originada por el cambio de latitud además, el substra-
to rocoso del que derivan los suelos del Planalto (basálticos, areniscas) es parecido ó idéntico al que ocurre en la Campanha. No
se puede negar que las comunidades vegetales, la composición florística, la proporción de terófitas, geófitas, hemicriptófitas,
etc, varíen entre los campos de Planalto y los de la Campanha; pero las homologías y las similitudes son siempre numerosas.
El principal problema que dificulta la homologación de los campos de altitud de Vacaría y otras localidades cubiertas de
vegetación herbácea, con los que caracterizan la porción Sudoeste de Rio Grande del Sur y el Norte del Uruguay, es el referente
al escaso conocimiento que tenemos todavía de las diversas facies, comunidades y asociaciones vegetales, composición de la
flora y demás detalles, de la vegetación del Planalto Meridional del Brasil. Los estudios hechos y publicados hasta ahora, son
desde el punta de vista fitogeográfico, insuficientes para extraer conclusiones definitivas. Por esta razón, excluíremos del plan
del presente trabajo, para dejarlos para mejor oportunidad a los “campos de Planalto” y centraremos por el momento nuestra
atención sobre los “campos de la Campanha”, tan semejantes por diversos aspectos a los del Uruguay.

Las “pampas” y la formación pampeana


Son muchas las áreas llanas y planicies elevadas que han recibido de parte de diversos autores la designación de “pampa”,
palabra al parecer de origen quechua, que al decir de R. Pérez Moreau, fue utilizada por indios que nunca alcanzaron la Pampa
argentina propiamente dicha. Dicha expresión se aplica en territorio boliviano a planicies situadas a gran altura, cubiertas con
preferencia por vegetación baja, en general, herbácea (pastos duros ó duriherbosa). En la Argentina se aplica a planicies
interserranas elevadas como las de Achala, Pocho y Olaén, que tienen vegetación distinta, siendo muy abundante en la Pampa
de Pocho la palma caranday (Trithrinax campestris), mientras que en la de Achala domina el pasto ichu (Stipa ichu). Se usa por
otra parte la misma expresión para designar las llanuras centrales, donde la Pampa Húmeda es la más típica, situada al Este,
siendo pocos los autores que han empelado el término “pampa” para aplicarlo a la porción Occidental, donde el terreno es con
frecuencia medanoso y se eleva progresivamente respecto al nivel del mar, allí reinaría la Pampa seca, expresión para muchos
incorrecta, siendo preferible la denominación de Monte argentino, Espinar ó alguna otra, que evoquen la presencia de montes
ralos, espinosos y estepas de gramíneas duras, y de plantas de porte almohadillado (estepas subdesérticas). Pero tras de llamar
a todas estas regiones “pampas”, algunos autores han ido más lejos, y han incluído entre ellas a todo el territorio del Uruguay, el
de la Mesopotamia argentina, el del Sudoeste de Rio Grande del Sur, y no conformes aún con esto, han prolongado las pampas
por la superficie de los planaltos del Brasil Meridional hasta alcanzar el estado de San Pablo. Parecería que la intención fuese la
de oponer a las formaciones boscosas (Araucaria) y selváticas, las formaciones herbáceas, lo que configura en la actualidad una
simplificación demasiado acusada para una ciencia progresista como la fitogeografía.
Teniendo en cuenta el origen de la expresión “pampa” y el hecho de que la Pampa Húmeda argentina no es prácticamente
ni una verdadera estepa, ni una pradera típica, A. Castellanos y R. Pérez Moreau, han propuesto dejarle el nombre de “cachul”
empleado por los indios que la habitaron. El último de los autores nombrados cree que la designación más conveniente podría
ser Lelfinar y no Pampa, y que esta última expresión debería reservarse para el propio Monte cercano ó inmediato a la Cordil-
lera Andina. A nosotros se nos ocurre que aún siendo impropio el nombre de “pampa” aplicado a la Pampa Húmeda (Oriental
ó Bonariense), ya se ha impuesto de tal manera, que será difícil excluirla de la nomenclatura fitogeográfica. Nos parece que
el único problema a resolver es saber si la vegetación pampeana corresponde a una estepa, a una pradera, a una pradera es-
teparia, etc. aún sin dejar de llamarse con nombre propio Pampa, que eso es lo menos importante; por otra parte es factible
admitir la existencia a la vez que “pampas de altura”, las “pampas de llanura”. Por otra parte la Pampa como provincia botánica,
puede comprender estepas, praderas, praderas esteparias y hasta matorrales arbustivos y monte ralo. Desde el punto de vista
fisionómico tampoco debe ser necesariamente una formación de pradera pura ó de estepa típica, pudiendo combinarse estos
caracteres ó repetirse de acuerdo con los cambios de las condiciones ambientales (microclimas, topografía, hidrología, suelos,
etc.). Por ejemplo la Pampa de Pocho, está cubierta por una vegetación que a veces es puramente herbácea, otras veces de
“parque” y en determinadas áreas abunda la estepa halófila ó la consociación de palma caranday (la que a veces se asocia a los
elementos constituyentes del “parque de mimosáceas”); esta “pampa” ni siquiera corresponde a una provincia botánica parti-
cular, sino que pertenece a un conjunto mucho mayor, bastante heterogéneo, con caráter de verdadera provincia fitogeográfica.
Lo que hoy llamamos Pampa argentina, para Lorentz era la Formación de las Pampas (dividiéndola Holmberg en subforma-
ción de pastos tiernos al Este y Noreste, y de pastos duros al Oeste), para Hauman la Pradera pampeana, para Parodi la Estepa
pampeana (concordando con esta designación última, Kuhn). Debemos destacar que personalmente nos pareció la Pampa más
semejante a una pradera al Este y Noreste, mientras que al Oeste, donde es más arenosa, más seca y tal vez más antigua, nos
impresionó su carácter más estepario.
Castellanos y R. Pérez Moreau ubicaron en 1944 a la vegetación pampeana en una provincia fitogeográfica que llamaron
Provincia Bonariense, siguiendo el mismo procedimiento A. L. Cabrera (aunque este último al Este y el Noreste del territorio de
aquélla, una franja ó talar bonaerense) perteneciente a la Provincia del Espinal. Esta franja fué estabelecida y delimitada por
Parodi, y para nosotros nada tendería que ver con la Formación Pampeana propiamente dicha (1942).

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PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA

Foto 1 – Pradera esteparia al Oeste de la Pampa, de suelo algo ondulado cubierto por Stípeas (Aristida, Stipa), con espinillos a
lo largo de un arroyo.

Foto 2 – Vegetación graminosa subalpina de la Pampa de Achala, con predominio de pasto ichu (Stipa ichu), a 2000m. de
altura. En la figura se ve un bloque gnéissico ahuecado por la humedad en parte inferior sombría.

Un hecho bien estabelecido es la pobreza florística de la Pampa; además la casi total ausencia de árboles. En relación
al primer carácter debemos destacar que mientras que Parodi menciona para el partido de Pergamino (provincia de Buenos
Aires), al que estudió detenidamente, unas 450 especies de plantas, nosotros para un área mucho menor, pero pedregosa, del
Uruguay (Mal Abrigo) hemos indicado unas 700 especies, entre fanerógamas y criptógamas vasculares. La pobreza en árboles
es por otra parte manifiesta, aunque aparecen el espinillo y el algarrobo, junto con algunos arbustos cuando se marcha hacia
el Noroeste; un amplio anillo que A. L. Cabrera llama Espinal rodea prácticamente la Pampa, caracterizándose por la presencia
de bosquecillos ralos mesoxerófilos ó xerófilos (aparte de espinillo y algarrobo, incluyen chañar, tala, molle y otras especies).
A nuestro juicio la pobreza florística de la Pampa, y la ausencia de árboles en la misma, se debe a su juventud más que
a condiciones edáficas ó climáticas adversas. Este concepto fué defendido hace ya bastante tiempo (1938) por Monticelli,
mientras que otros autores sostenían que la escazes ó ausencia de arbolado era debida a los vientos fuertes y continuos. Esta
última opinión chocaba con el hecho bien comprobado que en el Monte argentino, donde los vientos son también intensos y
frecuentes, existe el arbolado, aún cuando éste sea de carácter xerofítico. La circulación subterránea, el control impuesto por
las voraces hormigas, y otros factores aducidos para dar una explicación satisfactoria en relación a este interesante problema,
no han dado tampoco resultado. Modernamente (1947) Parodi se inclina a atribuir la ausencia de endemismos pampeanos al
origen moderno de la vegetación ó a la formación eólica de la región, pero en relación a la pobreza arbórea sostiene que se debe
a las características estructurales del suelo (compacidad y escasa aereación) y al verano demasiado seco que atenta contra las
plántulas que se desarrollan durante la primavera, aprovechando un tiempo relativamente húmedo.
A nuestros juicio y compartiendo en gran parte las ideas sustentadas anteriormente por Monticelli, la pobreza arbórea de
la Pampa, lo mismo que la pobreza florística se deben a su origen geológico moderno, principalmente. No existen por otra parte
factores efectivos de diseminación que pueden haber dispersado las simientes de los árboles a partir de los centros de origen
que se hallan en las zonas periféricas, más antiguas; tales dispersiones han tenido lugar en cambio, a lo largo de corrientes flu-
viales importantes como el río Paraná y el Uruguay, y los cursos superiores de los ríos Cuarto, Tercero y otros. El poblamiento
fue más fácil con los elementos herbáceos y sobre todo los graminoides. Consideramos sin embargo que factores tales como la
acción desecante de los vientos, la escasa efectividad de las precipitaciones, las sequías, la compacidad de suelo, la profundidad
de la napa freática y el calor y sequedad estival tienen bastante importancia. Por esta razón, si bien aceptamos que la juventud

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JORGE CHEBATAROFF

de la Pampa y la ausencia de medios eficaces para el transporte de simientes son fundamentales para dar una explicación sa-
tisfactoria de la pobreza de arbolado, admitimos también que los demás factores coadyuvantes son bastante efectivos, sobre
todo por la suma de sus influencias.
El actual Río de la Plata, se extendía en otras épocas muy al interior del continente en forma de amplio golfo, el que luego
se fué colmando de sedimentos paulatinamente, a lo largo de dos etapas de mucha duración; es probable que la región nueva
así formada recibiera sus elementos florales de las regiones vecinas, tales como el Monte Argentino, las Sierras Pampeanas, la
Mesopotamia argentina y aún del Uruguay (sobre todo si se admite que antiguamente el Paraná y el río Uruguay corrían a través
de la Depresión Central Riograndense hacia la Laguna de los Patos y el Atlántico). Posteriormente estos mismos ríos habrían sido
los responsables de las intrusiones de vegetación subtropical a lo largo de sus cursos hasta el propio Rio de la Plata, de tal ma-
nera que árboles como el timbó (Enterolobium contortisiliquum), laurel (Nectandra falcifolia), lapacho (Lonchocarpus nitidus),
palo amarillo (Terminalia australis), el aguay (Chrysophyllum marginatum), el ingá (Inga uruguensis), el lapachillo (Poecilanthe
parviflora), etc, pueden coleccionarse en el curso inferior de estos ríos.

Foto 3 – Porción de la Pampa invadida por cardo ruso (Salsola kali) al Sur de la Provincia de Córdoba.

Foto 4 – La curiosa Pampa de Pocho está cubierta en áreas muy vastas por la palma caranday (Trithrinax campestris) con la
que alternan algunos componentes de la vegetación de “parque” (Acacia, Prosopis, et.) y tapíz bajo de pasturas.

Con la retirada progresiva del Plata, del antiguo “monte” marginal del golfo que se reducía cada vez más, quedó ocupando
una posición cada vez más continental y se hizo xerófilo. Los caldenses, algarrobos, etc. ocupan actualmente el área que en
otras épocas se caracterizó por una vegetación menos espinosa y más densa. Pero de esas mismas áreas salieron los disemínu-
los colonizadores que han dado origen a una buena parte de la vegetación actual de la Pampa.
Siguiendo a Drude, Parodi considera que la Pampa tiene una vegetación más semejante a la esteparia que a la pradera,
por ofrecer un reposo estival bien marcado. Este autor se refiere indudablemente a la estepa de tipo ucraniano y no a la que
ocurre en la periferia de los desiertos. Hacemos notar esa relación teniendo en cuenta que muchos autores se han opuesto a
concederle el carácter de “esteparia” a la Pampa, basándose en las estepas subdesérticas y no en las de tipo ucraniano, las que
nada tienen que ver unas con las otras. Se ha llegado a una situación que cada vez que se habla de estepa debe especificarse
si se trata de la que caracteriza la porción Sudoriental de Europa y una parte de Asia, ó de la que rodea a algún desierto. A las
estepas periféricas las llamaremos aquí “estepas subdesérticas” reservando el término original para las formaciones esteparias

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PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA

eurasiáticas. En cuanto a la Pampa, aún admitiendo como lo hace Parodi, que se trata de una formación estépica, esta seme-
janza debe admitirse con cierta reserva, ya que esta región carece de un invierno tan rudo como el ucraniano ó el húngaro.
De todas maneras, domina en ella una vegetación graminoide cuyo aspecto sufre notables fluctuaciones a través del año que
son a veces magnificadas por las sequías. Lo que Frenguelli llama Estepa Pampeana periférica parece corresponder más a una
estepa que lo que el mismo autor denomina Estepa Pampeana central (ubicada al Este de la anterior). Para nosotros, y ante
una nomenclatura insuficiente, estos dos aspectos de la Pampa pueden involucrarse bajo la expresión Pradera esteparia, ya que
hasta cierto punto su vegetación reúne los caracteres de las praderas y de las estepas, pareciéndose más a las primeras, al Este,
y a las segundas, al Oeste (Estepa Pampeana periférica, de Frenguelli). Desde el punto de vista florístico corresponden ambas
a la Provincia Bonariense, de A. Castellanos y R. Pérez Moreau, ó a la Pampa, de A. L. Cabrera. Este autor la divide en cuatro
porciones, pero cuidando de separar de ella como parte de otra Provincia el Talar de la Provincia Buenos Aires (el que forma
una franja marginal a lo largo del litoral platense). Tales distritos son: el Occidental, el Oriental, el Uruguayense y el Austral. Este
último presentaría caracteres más estépicos que los otros tres. A nuestro juicio, el distrito Uruguayense no debe ubicarse dentro
de la Provincia Bonariense ó Pampeana, sino en la Uruguayense, con el nombre de distrito Mesopotámico; ese distrito tiene una
flora muy semejante a la del Uruguay, más rica en especies que la de la Pampa, y desarrollada sobre campos ondulados; sobre
este particular volveremos más adelante.
Al llamar pradera esteparia a la Pampa lo hacemos en carácter provisorio, ya que entendemos que el problema para de-
signarla subsiste; sólo pensamos que aplicando aquella denominación no nos colocamos en una situación extrema como los
que la han considerado como pradera ó como verdadera estepa (aún del tipo ucraniano). Por otra parte, recordamos lo dicho
anteriormente: que la Pampa tiene aspecto más pratense al Este y más estépico al Oeste; este hecho lo han reconocido por
otra parte diversos autores. La vegetación pratense esteparia sería en la región, climática, pero fuertemente perturbada por la
influencia humana; hasta es posible que pocos campos hayan quedado libres de esta influencia.
De la nomenclatura de tipos de vegetación propuesta por Rubel, sólo la expresión “duriherbosa” podría corresponder a
una parte de la Pampa, sobre todo allí donde los caracteres estépicos se insinúan en forma acusada. En cambio “semperviren-
tiherbosa” del mismo autor carecería de aplicación, salvo para espacios muy reducidos y próximos a corrientes fluviales, en
la porción Noroeste de la región. La pradera esteparia pampeana sería intermedia entre la “duriherbosa” y la “semperviren-
tiherbosa” y para nosotros se extendería sólo por la porción Este y Noreste de la Pampa, es decir en el distrito Oriental (de A. L
Cabrera) y sólo en pequeñas porciones del Pampeano Oriental; en cuanto al distrito Uruguayense, pertenecería a otra provincia
florística. En resumen, la pradera esteparia, se presentaría sobre todo en la porción más Oriental de la Formación Pampeana;
el resto que comprende una vegetación de duriherbosas dominantes, y que incluso se desarrolla sobre terrenos arenosos y
no derivados de limo pampeano, podría ser considerado, como lo sostiene A. L. Cabrera, como una estepa de gramíneas (aún
cuando no sea idéntica a la ucraniana ó a la húngara), y bastante distinta a las “estepas periféricas” de los desiertos estepas
argelinas, del Asia Central, etc.).
Kellogg ha dicho al referirse a los diversos suelos que ocurren en el mundo, que “pueden hallarse blancos y negros, pero
los hay muchísimos, desgraciadamente para toda clasificación, que son grises”. Así también, tratándose de vegetación, los
“grises” son frecuentes, y las clasificaciones y nomenclaturas propuestas resultan insuficientes para abarcarlos y nombrarlos
debidamente.
Resumiendo diremos que la Pampa está cuberta de vegetación graminosa estépica, hacia el Oeste, pero que adquiere los
caracteres de una pradera esteparia, y no de verdadera estepa, hacia el Este. Es una región pobre en árboles aún a lo largo de
los cursos fluviales, es geológicamente nueva y relativamente pobre desde el punto de vista florístico; sobre vastas áreas la ve-
getación presenta cierta uniformidad fisionómica y florística que la distinguen de la Provincia fitogeográfica Uruguayense. Esta
uniformidad es real y no aparente, salvo cuando ocurren cambios en la constitución del suelo; de ahí que Parodi haya llegado
a distinguir hasta ocho distritos dentro de la formación (subchaqueño, pergaminense, de la depresión del Salado, occidental,
austral bonarense, napostaense, petrofítico y psammofitico), agregando la vegetación halofítica que ocurre localmente, pero
que es bastante frecuente. Mientras que en la Provincia Uruguayense se presentan “montes” fluviales, serranos y de quebrada
ó escarpa, la Pampa carece práticamente de ellos; faltan además en ésta las palmeras, que se presentan en diversos puntos
del Uruguay y de la Mesopotamia argentina. Por estas y otras razones, que presentaremos más adelante, el calificativo de
“pampas” a la vegetación del Uruguay es doblemente erróneo. En primer lugar, porque la vegetación uruguaya y mesopotámi-
ca difieren de la pampeana; y en segundo lugar, y de acuerdo con las consideraciones hechas anteriormente la propia Pampa
Argentina no sería una “pampa” verdadera.
De acuerdo con el título a que responde el presente trabajo, deberíamos describir aquí la vegetación pampeana; pre-
ferimos remitir al lector a trabajos publicados recientemente por Parodi (1947) y A. L. Cabrera (1953) donde se da una idea
fisionómica y florística muy completa sobre el particular. Ambos autores no concuerdan en numerosos puntos; la tendencia del
primero es la fisionómica, aunque no descuida la florística; A. L. Cabrera, tal como lo destaca en su publicación, utiliza el método
florístico. Los distritos considerados por uno y otro autor son designados de diversa manera y están distribuídos y delimitados
en forma distinta. Y mientras Parodi admite la existencia de un “parque mesopotámico” (1934), Cabrera introduce dentro de
una parte de él su distrito pampeano Uruguayense. Este punto de vista, que nosotros no apoyamos, tampoco ha sido compar-
tido por A. Castellanos y R. Pérez Moreau (1944) que incluyen la Mesopotamia dentro de la Provincia Uruguaya (que nosotros
llamaremos Uruguayense).

La Provincia Uruguayense
Hace ya cerca de un siglo que Grisebach destacó la existencia de una vegetación uruguaya distinta a la de las comarcas
vecinas, llamándola Formación Uruguaya. Para Lorentz (1876) dicha vegetación quebada comprendida bajo la denominación

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JORGE CHEBATAROFF

de Formación Mesopotámica, la que se extendería por la Argentina (entre los ríos Paraná y Uruguay, con exclusión de una parte
de la vegetación de Misiones), por todo el Uruguay, y la porción meridional de Rio Grande del Sur. Hauman (1931) destacó la
existencia de una Provincia (de transición) de Sabanas Uruguayas, distinta a la Pampeana; esta designación del mencionado
autor no resultó muy feliz en relación al uso del término sabana, pero no deja de ser bastante correcta con respecto al resto de
la denominación y a la extensión abarcada por la mencionada provincia fitogeográfica. Acertadamente A. Castellanos y R. Pérez
Moreau, no sólo destacan la existencia de una Provincia Uruguaya, que abarca la porción Sur y Sudoeste de Rio Grande del Sur,
todo el Uruguay y la Mesopotamia argentina, sino que establecen que esta última ultrapasa al Oeste el límite del río Paraná que
algunos autores le asignaban (1944). A. L. Cabrera, limitándose al territorio argentino al delimitar sus provincias fitogeográficas,
prefiere no considerar una Provincia Uruguaya, y descompone a la Mesopotamia argentina relegando su vegetación por un
lado a la Provincia Pampeana (distrito Uruguayense), por otro, a la Provincia del Espinal, y los montes franjas de los ríos Paraná
y Uruguay los deja dentro de la Provincia Subtropical Oriental (que comprende fundamentalmente el territorio de Missiones
y el Norte de la provincia administrativa de Corrientes). A nuestro juicio, el concepto de una Provincia fitogeográfica Uruguaya
(que nosotros llamaremos Uruguayense), en el sentido que le dan A. Castellanos y R. Pérez Moreau, debe mantenerse, pues
corresponde bastante a la realidad; la vegetación mesopotámica argentina es similar a la del Oeste del Uruguay, y difiere mucho
de la de la Pampa propiamente dicha. Las contradicciones relativas a la distribución y las características de las diversas regiones
fitogeográficas parecen haber tenido con frecuencia lugar, por la limitación de algunos investigadores a considerar la vegetación
dentro de ciertas fronteras políticas, sin preocuparse de lo que ocurre en los países vecinos. Es evidente que ni el río Uruguay, ni
la Laguna Merín, ni ningún otro accidente fronterizo en una región desprovista de grandes barreras fitogeográficas, constituyen
límites insalvables para la vegetación.

Esquema provisorio de las provincias fitogeográficas de la porción Sudeste de la América del Sur (Según J. Chebataroff basado
en A. Castellanos y otros autores y de acuerdo con su propio punto de vista).

De acuerdo con A. Castellanos y R. Pérez Moreau la provincia que ellos llaman Uruguaya, teniendo en cuenta los endemis-
mos puede sudividirse en dos porciones: la Occidental, que corresponde a la Mesopotamia argentina, que según se ha dicho
se extiende hasta el otro lado del río Paraná, y la Oriental, que abarca el territorio uruguayo y la porción más meridional de Rio
Grande del Sur. Aunque en principio aceptamos esta división, entendemos que la vegetación mesopotámica se presenta con
caracteres nítidos dentro del territorio uruguayo a lo largo del río Uruguay, principalmente en los departamentos de Paysandú
y Rio Negro, hecho que hemos destacado en diversas oportunidades (1942, 1951 y 1953); vale decir, que esa vegetación no
sólo excede el límite fluvial impuesto por el Paraná al Oeste y el Sudoeste (región deltaica), sino que también hace lo mismo
en dirección Este, pasando al otro lado del río Uruguay, donde el algarrobal y hasta cierto punto el espinillar, resultan caracte-
rísticos, lo mismo que la escazes de flechillas (Stipa, Aristida) en las formaciones herbáceas ( a pesar de la presencia de Stipa
brachychaeta, no muy abundante).
En el ámbito del territorio uruguayo Gassner (1913) distinguió los siguientes tipos de vegetación: campos, vegetación de
bañado, palmares, bosques ribereños, vegetación serrana y vegetación de los arenales. Más recientemente (1944), Rosengurtt
en un trabajo agrostológico referente a praderas naturales del Uruguay, distingue: los campos, la vegetación de los bañados ó
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PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA

esteros, los rastrojos, la vegetación de los pedregales, la de los arenales y de los campos arenosos, los herbazales silvestres y
los herbazales halófilos. Ambos trabajos se ajustan bastante a la realidad aportando elementos para llevar a cabo una división
fitogeográfica del territorio uruguayo. Por otra parte, estos aportes resultan útiles, como los de Lindmann (1906) y de B. Rambo
(1942) para establecer una zonación fisionómica y aún florística en territorio de Rio Grande del Sur (porción meridional).
Por mi parte (1942), mostré que la vegetación del Uruguay se emparentaba con la de las comarcas vecinas, teniendo ca-
racterísticas mesopotámicas a lo largo de una franja inmediata al río Uruguay (a veces bastante ancha); serranas hacia el Este
y el Norte (serrarías, quebradas, cerros, escarpas, etc.); y conservando características propias en el Centro y Sur, por lo que
designé a esta porción del territorio en relación a su vegetación “Formación Pampeana Rioplatense”, prolongada al otro lado
del estuario platense por el Talar bonaerense (de Parodi).

Foto 5 – Campo de bochas de basalto, muy característico de la Cuesta Basáltica de Haedo, con pastura rala y corta, donde
domina Tripogon spicatus. Cercanías de A. Catalán Chico (Artigas).

Foto 6 – Pradera mixta con pastos tiernos y estrato más alto de Stipa, Aristida y Andropogon, en campos ondulados próximos
a la Sierra Mahoma (S. José).

Foto 7 – Claros con suelos de escaso espesor cubiertas de pasturas de mediana calidad en el mar de piedra llamado Sierra del
Mar Abrigo (San José).

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JORGE CHEBATAROFF

Foto 8 – Praderas en terrenos gondwánicos de Cerro Largo (cerca de Melo) con afloramientos areniscosos.

En Rio Grande del Sur, la vegetación del Valle del río Uruguay es netamente subtropical, pero en la llamada Campanha, en
la Sierra del Sudeste (porción meridional) y en una parte del Litoral, se asemeja bastante a la que caracteriza zobas de condi-
ciones físicas similares del Uruguay (campos y escarpa basáltica, areniscas de Tacurembó, terrenos ubicados sobre sedimento
gondwánicos, serranías del Este y suelos anegadizos que contornean la Laguna Merín). La vegetación pratense uruguaya se
continúa sin solución de continuidad en territorio riograndense, pero sufre sensibles modificaciones después de la Depresión
Central, y bastante al Norte del río Camacuá, a donde se hallarían los límites de la supuesta Provincia Uruguaya de vegetación,
cuya existencia nosotros admitimos junto con A. Castellanos y R. Pérez Moreau. Dentro del territorio, la pradera, que es el tipo
de vegetación dominante, aunque no el único, ofrece notables variaciones cuando merchamos hacia el Norte se atraviesa el río
Negro. La abundancia de suelos azonales, inicipientes y parcialmente truncados por erosión, hace que la naturaleza del substra-
to ejerza una influencia bastante marcada sobre esas variaciones; es así que la vegetación pratense de la penillanura cristalina,
es muy diferente a la que se desarrolla sobre la Cuesta Basáltica, ó la que ocurre sobre areniscas gondwánicas. Por ejemplo, la
asociación que tiene como especie de gramínea dominante al espartillo ó flechilla común (Stipa charruana), es típica de una
buena parte de la penillanura cristalina, sobre todo en terrenos bajos y consistentes, pero no pedregosos ó serranos; en cambio
varias especies de Andropogon, principalmente A. panyculatum, A. tener y A. lateralis, abundan en terrenos arenosos derivados
de areniscas de Tacuarembó (Botucatú) ó en las cretácias, donde se agregan Botriochloa saccharoides y B. perforata. Sobre la
Cuesta Basáltica dominan pasturas cortas que alternan con diversas plantas bajas no graminoides, salvo en lugares húmedos y
de suelo profundo donde las especies de Paspalum y otras se hacen numerosas.
Tampoco en el Uruguay como en la Pampa, no se puede hacer entrar toda la vegetación herbácea dentro de la clasifi-
cación propuesta por Rubel, ya que aún habiendo en territorio uruguayo vegetación “duriherbosa”, “sempervirentiherbosa”,
“emersiherbosa”, etc. la constante ondulación del terreno, sobre todo en la penillanura cristalina, la forma dendrítica de la red
hidrográfica y su densidad marcada, la escasa profundidad de la napa freática en muchas áreas, la variedad de suelos y de subs-
tratos rocosos, determinan cambios en la vegetación, la que oscila entre los tipos extremos (aún sin alcanzarlos probablemen-
te) propuestos por Rubel, pero perteneciendo casi siempre por sus características a tipos intermedios no contemplados en la
clasificación de dicho autor. El canutillo (Andropogon lateralis) forma en ciertas localidades arenosas y húmedas una verdadera
“altherbosa”; en zonas de bañados y en torno de las lagunas del Este y las que ocurren junto a algunos ríos y arroyos, aparecen
la “emersiherbosa” (pajonales anegadizos) y no faltan tampoco los componentes de la “submersiherbosa”. Pero aunque parezca
extraño, la pradera típica del Uruguay, es una formación mixta que tiene sobre grandes proporciones del área territorial un tapiz
bajo, graminoso (pero con numerosas especies que no son propiamente gramíneas) que recuerda la “sempervirentiherbosa”,
junto al cual ó mezclado con él, se desarrolla otro tapíz más elevado de flechillas y de otros pastos duros, de aspecto más fluc-
tuante en relación al transcurso de las estaciones favorables y desfavorables, pero que no llega a comportarse como verdadera
vegetación de estepa. La pradera uruguaya, salvo tal vez en lo que concierne a la vegetación desarrollada sobre suelos arenosos
ó muy pedregosos (parte de la Cuesta Basáltica y areniscas de Tacurembó, por ejemplo) difiere bastante de la de la Pampa,
donde el carácter estepario es más evidente.
Por otra parte, alternado ó formando un estrato más alto sobre el tapíz graminoso, se extendien en territorio uruguayo
formaciones arbustivas ó subarbustivas bastante densas, llamadas chircales, siendo la planta dominante generalmente la chirca
común (de hoja pinnada), compositácea (Eupatorium buniifolium), que en terrenos arenosos del Norte es reemplazada por
Vernonia nitidula, y en las porciones elevadas y pedregosas de la Cuesta Basáltica por Carelia cistifolia y algunas especies de
euforbiáceas (por ejemplo Croton cuchilla-nigrae, indicada por primera vez para el país por el autor de este trabajo). De porte
más bajo, pero muy abundantes son las carquejas (Baccharis trímera, B. cylindrica, B. notosergila, B. articulata), el mío mío
(Baccharis coridifolia), el sirí (Croton campestris), y en campos muy afectados por el pastoreo, surgen los Eryngium, plantas no
leñosas pero bastante rígidas y de porte elevado.
Toda esta vegetación se continúa naturalmente por el territorio de Rio Grande del Sur, donde ocurren asociaciones her-
báceas y arbustivas similares, aunque denunciando una mayor riqueza florística, principalmente en zonas muy onduladas ó ser-
ranas. Todos los conocimientos que hoy poseemos sobre las praderas del Uruguay, son aplicables a los campos riograndenses,
que también son fundamentalmente praderas mixtas, con sus vastas formaciones arbustivas y subarbustivas, desconocidas en

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PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA

la Pampa Húmeda ú Oriental. Pero como lo observa M. Alves Lima (1956), estas praderas distan mucho de ser uniformes, y los
hombres de campo distinguen en ellas diversos tipos de campos, tales como “campos de areia”, “campos dobrados” (campos
de oladas del Uruguay), “campos grossos”, “campos de lei” y otros. Precisamente los campos llamados de “areia”, que corres-
ponden a los arenosos derivados de areniscas de Tacuarembó y otras, del Uruguay, son de una pobreza forrajera extraordinaria,
aunque resisten a las sequías, como quedó demostrado en 1943. En cambio, campos desarrollados sobre limos calcáreos (capas
de Palermo, limo pampeano, capas de Fray Bentos, etc.) son en el Uruguay sumamente fértiles y de pasturas de gran calidad;
en Rio Grande del Sur son menos frecuentes, pero existen en determinadas zonas.

Foto 9 – Algarrobal con Prosopis nigra, P. algarobilla, palma caranday (Trithrinax campestris) con pasturas bajas desarrolladas
en suelos alcalinos (Paysandú, arroyo Negro).

Foto 10 – Campos graminosos con estrato más alto de chirca (Eupatorium buntifolium) en la zona del Carro Miriñaque
(Rivera).

Prolongándose las formaciones geológicas del Uruguay hacia el Sur del Brasil, sin solución de continuidad, y teniendo
en cuenta que muchos suelos de esta parte de la América del Sur evidencian una azonalidad bastante marcada, resulta fácil
explicar la semejanza de los tipos de vegetación dominantes. Tanto en el Uruguay, como en Rio Grande del Sur, existen suelos
zonales, que recuerdan por sus características a los suelos de pradera (ligeiramente podzolizados) y aún a los chernozioms de-
gradados, pero donde afloran basaltos, areniscas de cemento no calcáreo, y aún algunos integrantes de la Brasilia (cuarcitas,
gneises, etc.), los suelos azonales con frecuentes, ya que los procesos de meteorización son en estas regiones relativamente
lentos, sobre todo en relación a los que caracterizan el Brasil Tropical. Por otra parte, las diferentes formaciones geológicas,
tomadas en sus grandes líneas, han dado lugar a unidades geomorfológicas características y distintas entre sí, las que hoy tie-
nen más importancia fitogeográfica que las diferencias climáticas, que en esta región son poco acusadas. Efectivamente, no
principalmente el clima el que en el Uruguay y el Sur del Brasil causa una zonación vegetal de detalle, sino el soporte edáfico,
la hidrografía y las formas topográficas. Por ejemplo, los “montes” ó bosquecillos selváticos bordean en ambos territorios los
ríos y los arroyos, ó contornean las lagunas cuando estas no ofrecen orillas anegadizas; “montes” de otro tipo se instalan en
las laderas serranas, en las escarpas de basalto y de areniscas ú ocurren en las quebradas. Ya hemos indicado anteriormente
la diferencia que separa a la vegetación herbácea que ocurre en la penillanura cristalina, de la que caracteriza a los suelos de-
rivados de areniscas de Tacuarembó.
Teniendo en cuenta los hechos antes apuntados, y la composición florística que en territorio uruguayo es conocida para
muchos áreas gracias a los trabajos de Rosengurtt, Herter, Legrand, Chebataroff y otros, se puede asegurar que las unidades
geomorfológicas, pueden representar distritos florísticos de la porción uruguaya de la Provincia que estudiamos, pudiéndose
prolongar hacia el territorio de Rio Grande del Sur, hasta alcanzar la Depresión Central, y tal vez algo más al Norte de ésta, y por
una gran parte del litoral del vecino estado, hasta la mitad aproximadamente de la Laguna de los Patos (boca del río Camacuá).
La Mesopotamia argentina no quedaría excluída, según veremos enseguida de este cuadro, pero sí la zona que abarca los este-

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JORGE CHEBATAROFF

ros de Iberá y las Misiones argentinas.

Las unidades geomorfológicas reconocidas por el autor de este trabajo (1951) son las siguientes:
1 - Penillanura Cristalina (con los sectores uruguayo y riograndense).
2 - Penillanura Gondwánica (sedimentaria), con los sectores uruguayo e riograndense).
3 - Cuesta Basáltica (sectores uruguayo y riograndense).
4 - Litoral (planicies platenses y atlánticas, uruguayas y riograndense).
6 - Planalto (Rio Grande del Sur).
6 - Valle del Rio Uruguay (extendido por el Noroeste de Rio Grande del Sur, y luego entre el Uruguay y la Argentina).
Dentro de la penillanura cristalina podría aislarse además un sector serrano, que se presenta al Este del Uruguay y el Su-
leste de Rio Grande del Sur, con carácter de subregión.

El Valle del río Uruguay se presenta muy amplio del lado argentino, especialmente en la zona de las lagunas y esteros
de Iberá, y sigue bastante amplio hacia el Sur. Del lado uruguayo y sobre todo, del brasileño está mejor limitado. Todo el valle
contiene una vegetación característica, con intrusiones subtropicales en el monte franja fluvial del río Uruguay, y con algarrobal
y espinillar a cierta distancia de dicha corriente, especialmente del lado argentino (se trata de una vegetación de “parque” que
incluye la palmera caranday, y que para A. L. Cabrera no sería otra cosa que la prolongación del Espinal, periférico de la Pampa).
En la porción central de Entre Ríos domina una vegetación herbácea que recuerda bastante a la del Uruguay, constituyen-
do un distrito que llamaremos Entrerriano. Una franja de suelos arenosos ó con rodados, con palmares yatay (Butia yatay)
ocurre en Corrientes y Entre Ríos, y reaparece en el Uruguay, donde tampoco falta dicha especie de palmácea, que constituye
palmares discontinuos, a veces surgiendo junto al “monte” de los arroyos (Chapicuy, Quebracho) ó elevándose en plena pradera
(Palmar de Quebracho); junto al río Negro forma los palmares de Mujica y Porrúa.
Desde el punto de vista florístico, la vegetación de las serranías uruguayas y riograndenses es muy distinta a la de la pe-
nillanura cristalina propiamente dicha, por lo que debe ser considerada jerárquicamente como perteneciendo a un distrito es-
pecial, que posee sus bosquecillos serranos y de quebrada, sus matorrales arbustivos y sus pastizales de gramíneas duras, salvo
en el fondo de los valles (así, por ejemplo, el Valle de Fuentes, del departamento de Lavalleja, del Uruguay, contiene pasturas
excelentes).

La división de la Provincia Uruguayense podría llevarse a cabo en la forma siguiente (desde el punto de vista florístico):
1 - Distrito de la Penillanura Cristalina (Uruguay y Rio Grande del Sur).
2 - Distrito de la Penillanura Sedimentaria Gondwánica (incluyendo sólo la parte Sur de la Depreción Central) extendida
por el Uruguay y Rio Grande del Sur.
3 - Distrito de la Cuesta Basáltica (Uruguay y Rio Grande del Sur).
4 - Distrito de la Planície Atlántica (en Rio Grande del Sur, no abarcaría la parte Norte de la región Litoral, y en el Uruguay
podría abarcar un subdistrito constituído por las planicies anegadizas platenses, discontinuas).
5 - Distrito de las Serranías del Este del Uruguay.
6 - Distrito de las Serranías del Sudeste de Rio Grande del Sur.
7 - Distrito del Rio Uruguay (Valle del río Uruguay Medio e inferior, que abarcaría una buena porción de la Mesopotamia
argentina).
8 - Distrito de las Cuchillas Entrerrianas (herbáceo).
9 - Delta del Paraná (con intrusiones subtropicales numerosas). Este distrito lo ubicamos en la Provincia Uruguayense,
siguiendo a A. Castellanos y R. Pérez Moreau, quienes relacionaban su vegetación con la Provincia Uruguaya) y Galeria
Paranense (que abarcaría la vegetación marginal del Paraná hasta cerca de Goya).

CARACTERÍSTICAS PRINCIPALES DE LAS PRADERAS DE LA PROVINCIA URUGUAYENSE


En cada uno de los distritos integrantes de la Provincia Uruguayense existen áreas cubiertas de vegetación herbácea; pero
ellas se reducen a un mínimo en el Delta Paranense y la Galería Boscosa que margina este río, y son poco extensas en el Valle del
Rio Uruguay Medio é inferior, donde sobre espacios relativamente grandes la vegetación climáx es el algarrobal, con algarrobo
negro (Prosopis nigra), ñandubay (P. algarobilla), espinillo (Acacia caven), quebracho blanco (Aspidosperma quebracho-blanco),
tala crespo (Celtis sp.), chañar (Geoffraea decorticans), palma caranday (Trithrinax campestris) y diversos arbustos (Berberis
ruscifolia, Castela Tweediei, Grabowskia duplicata, etc.). De todas maneras en el valle existe también vegetación graminosa
ocupando las zonas periféricas de los “montes”, adquiriendo a veces bastante amplitud, pero resulta difícil señalar un límite con
respecto a los distritos vecinos. La exigua extensión de los campos graminosos del valle del río Uruguay está compensada con
frecuencia por la gran calidad de las pasturas donde a las gramíneas se suman numerosas especies de leguminosas bajas (Trifo-
lium, Adesmia, Lupinus, Galactia, Stylosanthes, Lathyrus, Vicia , Poiretia) y plantas pertenecientes a otras familias (malváceas,
compuestas, etc.) La flechilla representativa del distrito, que aparece también en el Entrerriano y al Oeste de la Cuesta Basáltica
es Stipa brachychaeta. En suelos arenosos son frecuentes los Andropogon y además Trichachne sacchariflora, Elionurus can-
dius, Chloris retusa, Aristida circinalis, algunos Eragrostis y Briza, a los que se agregan plantas no graminoides como Pterocau-
lon, Stevia, Thelesperma, Achyrocline, etc. También existen suelos alcalinos donde las gramíneas dominantes son Sporobolus
pyramidatus, Distichlis spicata, Pholiurus incurvus y Puccinellia glauscescens. Los campos con diversas especies de Paspalum,
Setaria, Diplachne, Echinocloa, generalmente con pasturas bajas, son de alta calidad, sobre todo si se desarrollan sobre capas de
Fray Bentos, donde los suelos recuerdan a las rendzinas (horizonte A, bastante obscuro, con los horizontes inferiores bastante

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PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA

claros y ricos en cal.) Tales campos son conocidos en Soriano, Rio Negro y otros departamentos uruguayos del llamado Litoral.
También son poco extensos los campos graminosos de las Serranías del Este del Uruguay y de las llamadas Serras do
Sudeste de Rio Grande del Sur. Estas serranías están pobladas de vegetación arbórea baja con canelón (Rapanea laetevirens,
R. ferruginea), arrayán (Blepharocalyx angustifolius), socará (Mirrhinium rubriflorum), aruera serrana (Lithraea brasiliensis),
el coronilla (Scutia buxifolia) el guayabo colorado (Eugenia cisplatensis) y numerosos arbustos tales como la espina de la cruz
(Colletia paradoxa), chirca de monte ó vassoura (Dodonaea vicosa), carobá (Schinus letiscifolius) y el llamativo romerillo (Hete-
rothalamus alienus). En dirección a las serranías brasileñas esta vegetación cambia bastante.

Foto 11 – Vegetación graminosa de bañado con penacho (Cortadera Selloana) junto a un tributario del Rio Cuarto (Argentina).

Foto 12 – Campos graminosos del Sudoeste de Rio Grande del Sur, cerca de la Serra da Cruz (al Norte de Livramento). En la
figura se ve el extremo de un azude arrocero.

Foto: A. Taddey.

Particularmente en las Serranías del Uruguay, los campos que ocurren en las laderas pedregosas se componen de gramí-
neas duras, tales como Trachypogon montufari, Aristida teretifolia, Stipa filifolia, Melica macra, a las que se suman plantas de
otras familias, especialmente Baccharis (B. crispa, B. ochracea, B. articulata) y Cronton (C. lanatus, C. montevidensis, C. pycno-
cephalus). Son frecuentes pasturas bajas compuestas por Aristida venustula, Eragrostis Neesii, Glechon marifolia y otras espe-
cies. Algunos de estos campos contienen tréboles y otras leguminosas; en general son aptos para la cría de ovinos y caprinos.
En Rio Grande del Sur se conservan algunas de estas características, pero la variedad florística es sensiblemente mayor.
En relación a la pradera que ocurre en la Mesopotamia argentina, en el distrito que hemos llamado Entrerriano (ó de
las Cuchillas Entrerrianas), su vegetación ha sido descrita entre otros por Parodi, Burkart y A. L. Cabrera. Este último, según ya
vimos la ubica en su distrito Uruguayense, ai que incluye dentro de la Provincia Pampeana; al parecer, Burkart halla diferencias
apreciables entre esta pradera y la vegetación herbácea que ocurre en la Pampa; lo mismo hace Parodi, y sobre todo A. Cas-
tellanos y R. Pérez Moreau. Son frecuentes en esta pradera Melica papilionácea, Aristida murina, Stipa brachychaeta, Panicum
Bergii, Bouteloua megapotamica, Botriochloa laguroides, Stipa Neesiana, Piptochaetium montevidensis, Cenchrus pauciflorus,
Adropogon pnyculatum, Paspalum notatum, P. plicatulum, Axonopus compressus, Paspalum dilatatum, dando estas últimas
especies valor forrajero a los campos, en los que no faltan Adesmia, Vicia, Trifolium, Stylosanthes y otras especies que no son
gramíneas. La vegetación se parece tanto a la del uruguay, y ofrece tan marcadas diferencias con la Pampa Central, que no que-
da duda de que el distrito es parte integrante de la Provincia Uruguayense. Las galerías de los ríos Paraná y Uruguay contienen
árboles procedentes de regiones subtropicales, pero también otros que parecen propios de la región como Sapium longifolium,
Eugenia uniflora, E. opaca, Luehea divaricata, Ruprechtia salicifolia, R. polistachya, Salix Humboldtiana, etc. En el Delta Para-
nense, la vegetación hidrófila, que comprende árboles, arbustos y hierbas, entre ellas gramíneas como Panicum grumosunm,

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JORGE CHEBATAROFF

Paspalum Urvillei, Phragmites communis, y multitud de ciperáceas.


Burkart divide la formación que el llama “parque mesopotámico” en los siguientes distritos: Sur de Misiones y Norte de
Corrientes, Esteros y lagunas del Iberá, Ribera del Paraná, Ribera del Uruguay, Montiel, Centro y Sur de Corrientes y Entre Ríos,
Delta del Paraná. Nuestro distrito Entrerriano comenzaría al Sur de Montiel (que es un bosque ralo mesoxerófilo) y llegaría hasta
las proximidades de la llanura anegadiza por donde corre el Paraná ramificado en brazos, y el Delta. Estos campos entrerrianos
están dedicados principalmente a la ganadería, y están bastante perturbados por la acción de pastoreo.
En el distrito de la Planicie Atlántica, los terrenos anegadizos son muy extensos, existiendo condiciones favorables para
el cultivo del arroz. Podría separarse allí la vegetación propia de “litoral lagunar” y del “litoral atlántico propiamente dicho”. La
primera comprende en realidad numerosos tipos de comunidades que van desde las de árboles hasta la vegetación sumergida
y flotante de las lagunas. Al parecer esta flora es relativamente nueva, y es probable que haya tenido alguna vez conexión con la
de la zona de Iberá y del Paraguay, ya que según una hipótesis a que nos hemos referido, el Paraná habría corrido en otras épo-
cas hacia la Laguna de los Patos. La porción lagunar y anegadiza del distrito (poblada de esteros y campos llanos con planosoles
y suelos turbosos) es el paraíso de las plantas hidrófilas. Entre las especies de talla apreciable se encuentran la palmera butiá
(Butiá capitata) que forma vastas consociaciones, que sufre los estragos del higuerón parásito (Ficus Monckii); el ceibo (Erythri-
na crista-galli) llamado también curticiera, que se presenta en suelos anegadizos con toda una serie de platas características
del ceibal: Eupatorium tremulum, Hibiscus amoenus, Scirpus giganteus; Buettneria scabra, Canna glauca, Sesbania punicea,
etc. siendo abundante a veces el sarandí colorado (Sephalanthus glabratus) y el curupí de bañado (Sapium montevidensis). En
los bañados ó esteros propiamente dichos la vegetación “emersiherbosa” se compone de paja brava (Panicum prionitis), gra-
mínea de talla elevada, lo mismo que el penacho (Cortadera Selloana) menos abundante pero de inflorescencias llamativas; el
duraznillo blanco (Solanum glaucum) y la cardilla (Eryngium pandanifolium). La “submeriherbosa” se compone de flotantes y
sumergidas y comprende los camalotes (Pontederia cordata, Eichhornia azurea), Thalia multiflora, las totoras (Typha angustifo-
lia, T. latifolia), numerosos juncos (Scirpus californicus, Juncus microcephalus), ciperáceas muy elevadas de los géneros Scirpus
y Cyperus y Rhynchospora, y otros géneros de hidrófitas (Sagittaria, Hydrocleis, Cabomba, Jussiaea, Echinodorus).

Foto 13 – Campo anegadizo del Este del Pantanal Matogrossense, con varios ejemplares de palma burití (Mauritia flexuosa).

Foto A. Taddey.

Foto 14 – Campos anegadizos (pirizal) del Sur de Mato Grosso, con consociaciones de palma carandá (Copernicia australis).

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PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA

Las pasturas desarrolladas sobre planosoles configuran verdaderas praderas, que suelen sufrir intensamente las sequías;
los pastizales suelen contener gramíneas de calidad, pero son muchos los que se caracterizan por su pobreza forrajera (por
ejemplo, el Rincón de Ramírez, entre el Yaguarón y el Tacuarí inferior). Un hardpan de arcilla suele hacer el suelo impermeable.
Más hacia el Atlántico se halla el dominio de las psamófilas (plantas de las arenales y médanos) y de las halófilas. Las
primeras comprenden algunas gramíneas que forman pastizales ralos y de escaso valor, siendo las especies más conocidas Pas-
palum racemosum, Spartina ciliata y Holcus lanatus. Todas son buenas fijadores de dunas. Entre los arbustos de halla Dodonaea
viscosa; muy común en los arenales algo salinos Senecido crassiflorus.
Entre las halófilas características existen algunas gramíneas: Paspalum vaginatum, Spartina montevidensis, Sp. Maríti-
ma, Agropyron repens. Cuando se agregan Paspalum pumilum, Ischaemum Urvilleanum, Hordeum pusillum, etc. en terrenos
arenosos débilmente salinos, los pastizales pueden ser destinados a pastoreo. Entre las demás especies de halófitas citaremos
Salicornia fruticosa, Juncus maritimus, J. acutus, Sesuvium portulacastrum, Cakile marítima, Philoxerus portulacoides.
Tanto en el Uruguay como en Rio Grande del Sur, las formaciones pratenses del distrito de la Planicie Atlántica se dedican
a pastoreo extensivo, con variados resultados, en general poco satisfactorios.
Los distritos de la Penillanura Cristalina, dela Penillanura Sedimentaría Gondwánica y de la Cuesta Basáltica, son los que
ofrecen formaciones pratenses más extensas, tanto en el Uruguay como en Rio Grande del Sur. La pradera es más uniforme
sobre la Cuesta Basáltica que sofre las penillanuras; esta cuesta presenta en su escarpa Oriental (cuchilla Negra, principalmente)
bosques serranos y de quebrada muy ricos en especies arbóreas, arbustivas y enredaderas. Los principales componentes son el
guaviyú (Eugenia pungens), el Francisco Alvarez (Luehea divaricata), el cambuatá (Cupania vernalis), el guayabo común (Feijoa
Sellowiana), la aruera (Lithraea molleoides), la anacahuita (Schinus molle), el quillay (Quillaja brasiliensis), la higuera de monte
(Carica quercifolia), el espina corona (Xylosma ciliatifolium). Los “montes” fluviales son también bastante ricos en especies,
mezclándose con las comunidades arbóreas la palma chirivá (Arecastrum Romanzoffianum); un viraró muy fornido (Ruprechtia)
y el corondá (Gledistchia) ocurren con frecuencia en estos bosques marginales.
Los campos, si bien presentan vegetación graminosa abundante, donde son pedregosos, a las gramíneas se unen plantas
bajas de otras familias, formando un tapíz algo discontinuo. A pesar de su aparente pobreza, tales campos son muy aptos en
general para la cría de ovinos (campos “ovejeros”). En determinados lugares del departamento de Artigas (Uruguay) y en las
proximidades del Cuareim en el SW del Brasil son frecuentes los campos algo elevados llamados de “bochas” donde la vegetaci-
ón es muy pobre, y de escaso valor alimenticio: se presentan allí las gramíneas Tripogon spicatus, Eragrostis Neesii, Microchloa
indica, Bouteloua megapotamica, típicas “malas hierbas” en el sentido forrajero.
En los campos bajos, a veces anegadizos, donde el suelo es relativamente profundo, las pasturas suelen ser de alta calidad,
con especies de Paspalum, Setaria, etc. En pleno “monte” fluvial el ganado encuenta pastizales más ó menos aprovechables,
donde ocurren Oplismenus setarius, Bromus uruguayensis y otras gramíneas, con las que alternan plantas pertenecientes a
otras familias. En los campos bajos pero de fondo rocoso abunda una especie de Selaginella, y en lugares más secos arbutillos
de la familia de las euforbiáceas son muy frecuentes (Croton campestris, principalmente).
Aunque las pasturas de la Cuesta Basáltica son en general aceptables, sobre todo para ovinos, la región sufre intensamen-
te las sequías; además algunos campos, excesivamente pedregosos, tardan en reponerse de los afectos de aquéllas, años en-
teros. Así por ejemplo, después de la sequía 1942-1943, fueron muchos los campos “arruinados” que hasta hoy no han podido
reponerse debidamente en los lugares desfavorables.
Dada la formación geológica compleja que es la porción sedimentaria del Gondwana uruguayo y riograndense, los suelos
son variados, y la vegetación presenta bastante heterogeneidad. Ya hemos indicado anteriormente que los suelos derivados de
areniscas de Tacuarembó (Botucatú) y Rio Bonito, se caracterizan por su relativa azonalidad y son pobres. Las pasturas compren-
den varias especies de Andropogon, y además Chloris retusa, Axonopus suffultus, Eragrotis purpurascens, Paspalum plicatulum,
etc. con plantas no graminodes numerosas, principalmente compuestas (Eupatorium calyculatum, Baccharis gnaphalioides,
Achyrocline satureoides, y el arbustillo Vernonia nitidula), mejorando los campos en zonas húmedas donde aparecen algunos
Paspalum, Digitaria, Setaria, Axonopus de cierto valor forrajero, aunque cuando el suelo es francamente arenoso domina el
canutillo (Andropogon lateralis). En terrenos gondwánicos relativamente arcillosos ó calcáreo, como los derivados de las capas
de Palermo, las pasturas son muy superiores a las indicadas, con contenido de especies de Digitaria, Bromus, Paspalum, Echi-
nocloa, Lathyrus, Festuca, Lolium, Medicago, Adesmia, Trifolium, Rottboelia, muchas de ellas de reconocido valor forrajero.

Foto 15 – Las formaciones pratense al Norte del Uruguay, en el sinuoso borde escarpado de la Cuchilla Negra. En primer
plano, campo situado a bastante altura; luego campos bajos, con montes fluviales a lo largo de los arroyos; a fondo, la Cuchilla
Negra.

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JORGE CHEBATAROFF

Foto 16 – Planosoles anegadizos, con pasturas bajas, controladas por el ganado, y consociación de palma butiá (Butia
capitata). Cerca de Castillos (Rocha).

También entre los terrenos gondwánicos los hay pedregosos, como lo son los de una parte del Itararé, sobre los cuales se
han desarrollado suelos casi siempre pobres, siendo las pasturas de calidad mala ó mediana, con abundancia de pastos duros,
carquejas, senecios de vello blanquecino, amarantáceas (Pfaffia, Gomphrena), etc. También son pedregosos, pero con pasturas
de mejor calidad, los suelos desarrollados sobre lo que Falconer designó como “basaltos intrusivos”, los que probablemente
son rocas básicas de sills, puestos al descubierto por la erosión. El tapíz graminoso recuerda a veces al de la Cuesta Basáltica.
En las laderas las cuchillas del distrito gondwánico es frecuente la “macega” ó paja estrelladora (Erianthus Trinii) que el
ganado come sólo en épocas de sequía muy marcada. Entre los arbustillos que ocurren en estos campos, aparte de Vernonia
nitidula, ya indica, aparecen otras compuestas como Vernonia grandiflora, mirtáceas como Campomanesia aurea, rambáceas
como Discaria longispina, etc.
Un arbolillo común sobre cerros y montículos areniscosos es Leucothoe eucalyptoides. En la cima de algunos cerros cha-
tos, como los tres de Cuñapirú ocurren pasturas ralas, con abundante cantidad de Andropogon, Chloris, Aristida, y numerosos
arbustillos (principalmente compuestas y euforbiáticeas). Las laderas de estos cerros están bordeadas de bosque ralo, con
higuerón, laurel, cambuatá, guayabo, anacahuita, carobá y otras especies.
Las formaciones pratenses de la Penillanura Cristalina presentan cierta uniformidad cuando los suelos son arcillosos (de-
rivados de la meteorización y edafización de materiales graníticos, sieníticos ó de filitas), y en cuanto a calidad son variables de
acuerdo con la topografía y la presencia más ó menos grande de afloramientos rocosos, junto a los cuales el suelo es general-
mente “crudo” ó incipiente. En las porciones bajas y donde ocurren principalmente los llamados “campos de oladas”, mejoran
suelos y pasturas. En zonas donde afloran cuarcitas, los suelos y pasturas son pobres, y casi sucede lo mismo cuando los terre-
nos derivan de gneises ácidos. Aunque la azonalidad de los suelos es manifiesta junto a los mares de piedra, existen áreas donde
el perfil del suelo está bien desarrollado, y en general puede hablarse de suelos de pradera, aunque con frecuencia ligeramente
podzolizado (hecho que algunos como J. Setzer y J. Chebataroff, atribuyen al cambio de clima el que se habría hecho más hú-
medo, aunque podría ser debido al tipo de cobertura vegetal la que muchas veces es de chirca común y pasturas algo altas y
abundantes). Siguiendo a Rubel, podría decirse que en la Penillanura Cristalina, sobre la porción más elevadas de las cuchillas
domina la “duriherbosa” mientras que hacia el fondo de los valles la “sempervirentiherbosa”; pero ya hemos indicado que esta
terminología resulta demasiado extrema para el Uruguay y Rio Grande del Sur, y es mejor considerar una pradera mixta, con
tendencias unas veces hacia “duriherbosa” y otras hacia “sempervirentiherbosa”. Efectivamente, vastas áreas, si bien se hallan
cubiertas por flechillas (Stipa charruana, S. papposa), ó de chirca (Eupatorium buniifolium), contienen un tapíz más bajo de gra-
míneas tiernas con las que se asocian plantas rastreras ó prostradas de otras familias. En el tapíz bajo puede hallarse la gramilla
(Stenotaphrum secundatum), Setaria caespitosa, Panicum decipiens, Eragrostis cilianensis, Paspalum notatum, Koeleria phleoi-
des (en campos perturbados), Rottboelia Selloana, Digitaria aequiglumis, Paspalum proliferum, Setaria geniculata, Poa annua,
Brachypodium distachyum, Adesmia bicolor, Trifolium polymorphum, Mecardonia montevidensis, etc. A veces este tapíz está
libre del más alto, y ofrece algunas gramíneas de porte elevado (Paspalum dilatatum, Lolium temulentum, Echinocloa colonum,
Bromus erectus y otras). En campos pastoreados intensamente han penetrado diversas especies tales como ciertas cardillas
(Eryngium), cardos (Cynara, Cirsium, Carduus), abrepuño (Centaurea calcitrapa), cardo crespo (Carthamus lanatus), algunas
carquejas (Baccharis trímera, B. cylindrica), el mío mío (Baccharis coridifolia), la pata de perdiz (Cynodon dactylon). Además las
especies autóctonas han sufrido un decrecimiento muy acusado en altura y han sido con frecuencia raleadas, penetrando en
los espacios libres diversas malezas, y gramíneas de inferior calidad.

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PRADERAS DE LA AMÉRICA DEL SUR TEMPLADA

Foto 17 – Estudio de las pasturas por el método del cuadrado (sierra Mahoma). Campo de pasturas bajas y con Paspalum
Arechavaletae.

Foto 18 – Campos muy pobres areniscosos, con barba de bode (Aristida pallens). Artigas, arroyo Pintado.

Foto 19 – Efectos de pastoreos de distinta intensidad en campos separados por alambrado; a la izquierda, invasión de
carqueja (Baccharis cylindrica) y a la derecha campo de flechilla (Stipa charruana) y pasturas bajas (Paspalum, Stenotapfum).
Mal Abrigo (San José).

Foto 20 – Campo muy empobrecido por pastoreo excesivo con caprinos en la Sierra Ballena (Maldonado). Invasión de
carqueja (Baccharis trímera) y cardillas (Eryngium).

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JORGE CHEBATAROFF

Este desmejoramiento de los campos ha sido general en algunas áreas, ya sea por las frecuentes “quemas” de campo,
como por el recargo de ganado y la erosión y agotamiento de los suelos. Muchas áreas se han conservado mejor, gracias a des-
cansos prudenciales y la selección de los potreros, y un manejo racional de las praderas. En cuanto a las praderas artificiales,
hasta ahora son escasas, y de importancia local. Algunos campos cultivados son utilizados en épocas propicias para el pastoreo
llamado de “rastrojo”, muy generalizado en el Uruguay y en Rio Grande del Sur, donde la presencia de gramíneas como Echino-
cloa crus-galli, E. colonum, Lolium multiflorum, Digitaria sanguinalis, Paspalum dilatatum, Setaria geniculata, y otras, ofrecen
un forraje apetecible.
En el área de Mal Abrigo, del Uruguay, si bien la flechilla común ó espartillo (Stipa charruana) es muy abundante, ocurren
formando asociación las gramíneas siguientes: Stipa Neesiana, Piptochaetium lasyanthum, P. bicolor, Chloris bahiensis, Setaria
caespitosa, Stenotaphrum secundatum, Lolium multiflorum; en terreno más alto ocurren Stipa papposa, Eragrostis lugens, Bou-
teloua megapotamica, Piptochaetium montevidensis, Eragrostis Neesii.
En el estudio de las pasturas uruguayas, han sido utilizados los métodos sociológicos y estadísticos, por ejemplo, el méto-
do del cuadrado y transecciones, por Rosengurtt en Palleros (Cerro Largo) y J. Jackon (Soriano) y por J. Chebataroff en Mal Abri-
go, (San José). Estudios muy detenidos han sudo realizados además por los autores antes nombrados en Chapicuy (Paysandú),
Costa Platense, Catalán Chico (Artigos), Cerro de las Animas, Palmar de Porrúa (Rio Negro) y muchos otros lugares, algunos de
los cuales han sido publicados y otros están en vías de publicación. En Rio Grande del Sur tales estudios han sido menos nume-
rosos, pero son muchos los investigadores que se dedican a llevar a cabo un mejor conocimiento de la vegetación del estado
(Araújo, Rambo, etc.)
En las praderas de la Provincia Uruguayense pastan actualmente unos 24 millones de cabezas de ganado vacuno y 43
millones de ganado ovino. Algunos de estos ganados son de alta calidad. Por unidad areal, esta provincia tiene mayor número
de animales que la provincia pampeana, ó cualquier otra de la América del Sur.

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA
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NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

CAPÍTULO 5
A REGIÃO DE SÃO GABRIEL
RELATÓRIO APRESENTADO POR
NICE LECOCQ MÜLLER
ORIENTADORA DAS PESQUISAS DE CAMPO REALIZADAS DURANTE A XIII ASSEMBLÉIA GERAL
(SANTA MARIA, JULHO DE 1958).

SUMÁRIO

I – Apresentação

II – As características gerais da Campanha Gaúcha e a região de São Gabriel.

III – Os elementos fisiográficos e a diferenciação das paisagens naturais.

A estrutura geológica.

As formas de relevo.

A vegetação.

A diferenciação das paisagens naturais.

IV – A ocupação humana e a diversificação das paisagens rurais.

A atividade pastoril.

A atividade agrícola.

O “habitat” e as paisagens rurais.

V – A cidade de São Gabriel.

VI – Conclusão.

I - APRESENTAÇÃO
O presente estudo representa o resultado das pesquisas realizadas no decorrer da XIII Assembléia Geral da Associação dos
Geógrafos Brasileiros, entre os dias 7 e 9 de Julho, na região de São Gabriel, na Campanha Gaúcha. Baseia-se intrinsecamente,
nos dados colhidos por observação e inquérito durante a excursão, apenas completados por dados estatísticos e bibliográficos
na medida em que contribuíram para elucidar os problemas encontrados. Na realidade a bibliografia existente é, na sua maio-
ria, muito geral para fornecer dados específicos em relação à área que nos coube estudar.
Durante os três dias de trabalho, três dos grupos em que se subdividiu a equipe percorreram itinerários diversos, em di-
reção ao Sul (até o Cerro do Ouro), a Oeste (até São Onofre e Inhatium) e ao Norte da cidade (até Santa Tereza), enquanto que
um quarto grupo se dedicou a inquéritos e estudos no núcleo urbano de São Gabriel, que serviu de sede à equipe.
Se em mim recaiu a tarefa da elaboração dêste estudo, foi por ter sido encarregada de dirigir a pesquisa e de apresentar
à Assembléia o relatório preliminar dos resultados obtidos; todo e qualquer merecimento do trabalho, cabe inteiramente, à
equipe que tive o prazer e a honra de liderar. É um grato dever, assim, aqui consignar meus agradecimentos, por terem possibi-
litado levar a têrmo meu compromisso, aos companheiros Lysia Maria Cavalcanti Bernardes, Cecília França, Michel Tabuteau e
Antônio Rocha Penteado que se encarregaram, com grande eficiência, da direção dos grupos de trabalho, bem como aos demais
componentes da equipe que, dentro dos vários grupos, cumpriram suas tarefas com louvável dedicação: Alba Maria Baptista
Gomes, Lília Veirano, Marly Bustamante, Olga Cruz, Olga Ramos, Palmira Monteiro, Ruth Simões, Edgar Kuhlmann, Eli Piccolo,
Francisco Takeda, Irmão José O. Goettert e Rauquírio Martinho.
Que ainda me seja permitido renovar, em nome de tôda a equipe, os agradecimentos a todos os que em São Gabriel,
contribuíram, pela carinhosa recepção, pelas facilidades oferecidas, pelas informações, para a realização do presente estudo.

71
A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

II - AS CARACTERÍSTICAS GERAIS DA CAMPANHA GAÚCHA E A REGIÃO DE SÃO GABRIEL


A Campanha gaúcha é comumente invocada como sendo região suavemente ondulada, recoberta de vegetação de cam-
pos, onde impera a criação de gado. Dentro desses grandes traços, forma um bem caracterizado quadro geográfico, formado
de elementos simples e bem definidos: as coxilhas, o pampa, as estâncias. Como síntese essa imagem pode ser retida para o
conjunto da Campanha. No entanto, quando se analisam detalhes, não resta dúvida, como já frisou Miguel Alves de Lima1, que
ela peca por demasiada generalização.
Analisando-se os elementos fisiográficos, já na topografia, encontra-se maior variedade de formas que, simplesmente,
ondulações suaves; na cobertura vegetal, embora verificando-se que os campos dominam a paisagem, forçoso é reconhecer
que há nêles diferenças de composição e de aspecto, conforme as variações locais de rêlevo, solos e clima.
Do ponto de vista da ocupação humana, mesmo admitindo-se ser o pastoreio a atividade mais difundida na Campanha,
tem –se que reconhecer que essa mesma ocupação inclui modalidades diversas, principalmente as ligadas à criação de carnei-
ros, que veio modificar os moldes tradicionais da vida do criador gaúcho. E não se pode ignorar a grande inovação das paisagens
da Campanha, representada pela introdução e desenvolvimento da agricultura, baseada na produção do trigo.
Num exame de detalhe, a grande uniformidade da Campanha, pelo menos na porção que nos coube estudar, assume um
significado mais didático do que real. Há muitas micro-paisagens, variadas e bem caracterizadas, dentro do grande conjunto. A
área de São Gabriel apresenta especial interêsse, mostrando como, dentro de um território restrito, encontram-se na Campa-
nha aspectos bem diversos, quer do ponto de vista físico quanto humano. Através da variedade que aí encontramos, pudemos
perceber a real complexidade do que, aparentemente, apresenta grande homogeneidade. Do ponto de vista humano, ficando
entre a área de Bagé, onde a triticultura teve maior incremento e as de Oeste, onde ainda predomina a atividade tradicional da
criação, a região estudada apresenta ainda o especial interrêse de poder representar o contacto ou zona de transição entre a
Campanha Clássica, de pecuária, e a Campanha evoluída, onde já se introduziu a atividade agrícola.

1 LIMA (Miguel Alves de) – Contribuição ao estudo da Campanha Gaúcha, Anais da Associação dos Geógrafos Brasileiros, Vol. III, tomo I, págs. 343-373.

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NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

III - OS ELEMENTOS FISIOGRÁFICOS E A DIFERENCIAÇÃO DAS PAISAGENS NATURAIS

A estrutura geológica
As paisagens naturais da região de São Gabriel diferenciam-se, basicamente, em função da existência, em território do
município, de duas áreas de estrutura geológica diversa. Mais extensa, e, por isso de maior significação paisagística, é a forma-
ção sedimentar, que faz parte da faixa de “sedimentos gondwânicos” do Estado do Rio Grande do Sul que, começando no litoral
Norte, à altura da Lagoa dos Barros, estende-se para o interior, na direção leste-oeste, acompanhando o curso do rio Jacuí, para
depois, acompanhando o rio Santa Maria, flexionar para o Sul, indo até a fronteira com o Uruguai. A segunda formação geoló-
gica que ocorre é a cristalina, que abrange área menos extensa do que a primeira, restringindo-se ao quadrante sudoeste do
município, onde representa parte da porção extremo-ocidental do “escudo rio-grandense” 2.
Sendo bem mais ampla a representação de terrenos sedimentares, sôbre êles foi cumprida a maior parte dos itinerários
e, em conseqüência, das observações realizadas3. De Santa Maria a São Gabriel a viagem foi inteiramente feita em terrenos se-
dimentares, podendo-se, reconhecer, neste percurso, diversas formações. No primeiro trecho, feito em direção sussudeste, de
Santa Maria ao desvio para São Sepé, a 13 quilômetros aquém desta cidade, percorreram-se sedimentos triássicos série do Rio
do Rastro e permeamos da série Passa-Dois, os primeiros recobrindo a primeira parte do trajeto, com bem maior representação
do que os segundos. Pouco se pôde observar, em detalhe, dessas informações, devido ao estado de avançada decomposição
do terreno, podendo-se apenas notar a existência de terrenos mais argilosos, provavelmente de decomposição de folhelhos e
argilitos, e terrenos mais arenosos, oriundo, talvez, dos siltitos e arenitos. No segundo trecho, do desvio a São Gabriel, no rumo
oeste-sudoeste, a quase totalidade do itinerário desenvolveu-se sobre sedimentos da série Tubarão, próximo ao contacto com
o cristalino. Nesta porção do percurso, aproximadamente a meio caminho, foi registrada, a leste, a ocorrência de arenitos de
granulação média e grosseira, da formação Rio Bonito, grupo Quatá, dando origem a uma cornija. Outra observação de itinerá-
rio diz respeito a afloramentos, localizados no pequeno povoado de Santa Margarida, de rocha rósea, não tendo sido possível
identificar tratar-se de granito, quartzo-pórfiro (casos em que ficaria evidenciada a posição de contato com o cristalino) ou um
“boulder” de tilito, depositado por geleiras.

A cidade de São Gabriel está localizada sobre sedimentos da formação Itararé sendo que para o Norte, tomando-se a
direção nornoroeste, logo reencontram-se os terrenos da série Passa-Dois, dominando os siltitos da formação Irati, que se
apresentam, freqüentemente, cortados por intrusões. Da estrada de Tiarajú, tomando-se o desvio para Rosário do Sul, no rumo
oeste-sudoeste, reencontram-se, à altura do Inhatium, os sedimentos da série Rio do Rastro.
A grande variedade de formações sedimentares é explicada pelas direções dos itinerários que, a partir de Santa Maria até
o desvio da de São Sepé e daí até São Gabriel, Tiarajú e Inhatium, grosseiramente nos sentidos norte-sul e leste-oeste, cortaram
perpendicularmente a curvatura com que se dispõem no Estado do Rio Grande do Sul os terrenos sedimentares triássicos e
permo-carboníferos. Devido à grande premência de tempo não foi possível o estudo detalhado dessas formações mas, mais
dois fatos observados, merecem citação: a presença de laterita e de cascalheiros. A laterita ocorre, com alguma frequência,na
porção ao norte de São Gabriel (terrenos da série Passa-Dois) onde se apresenta com pequenas espessuras, de 1 a 2 cm4 . Quan-
2 As denominações “sedimentos gondwânicos” e “escudo rio-grandense” são utilizadas por Paulo de Castro Nogueira em Regiões fisiográficas do Rio Grande do Sul, in “Boletim
Geográfico”, n.º 64, pág.337. Sua classificação das regiões fisiográficas sofreu críticas, que reputamos justas, do Prof. Chebataroff. Se adotamos sua terminologia é porque,
exatamente por ser mais geológica do que fisiográfica, aqui nos convinha.
3 As observações geológicas devem-se ao colega de equipe Francisco Takeda, completadas, na área de Tiarajú-Santa Tereza, pelas de Eli Piccolo.
4 Esta medição foi feita em corte de estrada a 16 quilômetros a noroeste de São Gabriel. A laterita acompanha, aí, a curvatura da colina, desaparecendo pouco antes do fundo
do vale.

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A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

to aos cascalheiros, foram encontrados tanto no trecho entre o desvio de São Sepé e São Gabriel como no que medeia entre
esta cidade e Santa Tereza, em terrenos da série Tubarão e Passa-Dois, respectivamente. No primeiro trecho citado destaca-se
o cascalheiro que, para quem se dirige para São Gabriel, se encontra pouco antes do povoado de Vila Nova, formado por seixos
angulosos de quartzo, intercalado com camadas pouco espessas de solo, aflorando em alguns pontos. Os cascalheiros ao norte
de São Gabriel são mais freqüentes, sendo formados por material variado (granito, quartzo, madeira silicificada, etc.), caracte-
rizado, também, pelo predomínio absoluto dos seixos angulosos; o maior dêsses cascalheiros foi encontrado nas imediações do
povoamento de Santa Tereza, ao norte de Tiarajú.

Foto 1 – Relêvo característico da Campanha Gaúcha – Aspecto geral de relevo amadurecido, com ondulações amplas e de
inclinação suave, com pequenos desníveis.

Foto: I. N. Takeda.

Quanto aos terrenos cristalinos, embora se tenha acompanhado o contacto durante todo o percurso entre o desvio de
São Sepé e São Gabriel, só foram eles encontrados ao sul da cidade, devendo o contacto com a formação Itararé ocorrer entre
8 e 18 quilômetros de distância do núcleo urbano pela estrada de Lavras. A geologia desta área é bastante complexa, ocorrendo
várias formações, como mármores da série Porongos, encaixados concordantemente com xistos5; xistos cortados por pegma-
titos constituídos por quartzo e, em menos proporção, feldspato e mica muscovita6; intrusivas diversas, inclusive o granito7 e,
mais para o Sul, já na área de Cerro do Ouro, contrafortes quartizíticos. De modo geral, a partir do contacto, tornam-se mais
freqüentes as ocorrências de afloramentos de rochas cristalinas, que se apresentam fortemente inclinadas.

As formas de relêvo
À variedade da estrutura geológica corresponde a diversidade das formas de relêvo. Tomando-se a área constituída por
terrenos sedimentares que, no conjunto do Estado, faz parte da chamada “depressão central”8, apresenta-se ela como uma
área pouco elevada, com altitudes médias da ordem de 120m (nível de São Gabriel), máximas, nos divisores de águas, de cerca
de 170m e mínimas, no fundo dos vales, de 75-80m. O relêvo, de modo geral, é aí suavemente ondulado, com pequenos des-
níveis, as elevações sendo representadas pelas “coxilhas”9. As partes baixas, embora possam ser secas, são freqüentemente
ocupadas por brejos10, por cursos d´água11 ou pelos “açudes”, pequenos reservatórios de água construídos pelo homem.
Apesar dos suaves declives e pequenos desníveis, as “coxilhas” são, por vêzes, atacadas pela erosão torrencial que, por
desbarrancamentos sucessivos no manto de decomposição, dá origem a ravinas que lembram as “vossorócas” e que são es-
pecialmente representativas a noroeste de São Gabriel, em terrenos da série Passa-Dois, onde chegam a constituir grandes
conjuntos12. As vertentes são, ainda, trabalhadas pela erosão das cabeceiras de rios e de “sangas”13 fato que, somado aos
desbarrancamentos, faz com que as “coxilhas” clássicas, em forma de perfeitas calotas, sejam relativamente raras. Além dis-
so, o consagrado relêvo da Campanha, de ondulações suaves e abertas, típicas de um estágio final de evolução, pode ter sua
uniformidade quebrada por outras formas de relêvo. No trecho entre o desvio de São Sepé e o povoado de Vila Nova, por
exemplo, aparecem formas de relevo mais vigorosas, com maiores desníveis: trata-se do efeito da ação erosiva seletiva que,
pela alternância de rochas de diferentes resistência, abriu vales assimétricos, modelando apenas escarpas e cornijas. Como
exemplo, pode ser citada a escarpa do rio Vacacaí, próximo ao povoado de Vila Nova, onde, devido à ocorrência do arenito
Quatá, os desníveis são da ordem de 100 m, tendo sido registrados 175 m no topo e 75 m no fundo do vale14. Entre as elevações
estendem-se, nessa área sedimentar, grandes extensões de baixadas, algumas delas pantanosas e inundáveis, correspondendo
à cabeceira dos cursos d´água, que se apresentam fortemente colmatadas. O fato sugere reorganização da drenagem ligada,
provavelmente, à captura do Vacacaí para a bacia do Jacuí.

5 Ocorrência registrada na estância Panorama.


6 Ocorrência registrada na estrada para Lavras, pouco antes do desvio para a estância Panorama.
7 Ocorrência registrada na estância Panorama.
8 A chamada “depressão central” tem continuidade em território uruguaio, propondo Chebataroff, em Regiones naturales Del Rio Grande Del Sur y Del Uruguay, in “Anais da
Associação dos Geográfos Brasileiros”, Vol. VI, tomo I, págs. 115-145,para o conjunto, a designação de “peneplanície gondwânica”
9 O têrmo “coxilha”designa, localmente, toda e qualquer elevação de terreno, numa definição puramente topográfica, sem qualquer sentido morfológico.
10 Regionalmente, esses terrenos baixos e alagados são chamados “banhados”.
11 Aos pequenos cursos d´água tendo origem nos banhados chamam-se, regionalmente, de “sangradouros”.
12 Essas ravinas são conhecidas, regionalmente, pelo nome de “barroca” sendo que a um conjunto delas reservam o nome de “barroqueira”.
13 Designação dada aos pequenos cursos d´água que secam no período da estiagem.
14 - As observações sôbre as formas de relêvo nas regiões sedimentares são devidas aos colegas Antônio Rocha Penteado e Elí Píccolo.

74
NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

Fotos 2 e 3 – “Barrocas” – Vista frontal e lateral de formas de ravinamento resultantes de desbarrancamentos sucessivos no
manto de decomposição. No caso, a rocha local eram folhelhos permeanos, da formação Iratí. Foto tirada a 13 quilômetros ao
N de São Gabriel, altitude 135 m.

Foto: E. Piccolo.

Foto 4 - Relêvo ocasionado por erosão seletiva – Escarpas e cornijas esculpidas em afloramento de arenito Quatá, entre os
povoados de Santa Margarida e Vila Nova, a Leste de São Gabriel. Notar, em primeiro plano, parte da floresta-galeria que
acompanha o curso do Vacacaí.

Foto: E. Piccolo

Quanto à área cristalina, que foi percorrida em direção sudeste até Cerro do Ouro, é ela bem mais elevada que a área se-
dimentar, apresentando, também, maiores desníveis. O nível médio é da ordem de 200 m e as elevações aumentam de altitude
progressivamente para o Sul, passando da quota dos 250 m à dos 400 sendo que a leste, a julgar pelas elevações observadas de
Cerro do Ouro, as altitudes devem ser sensivelmente maiores. Na porção mais próxima de São Gabriel o relevo é suavemente

75
A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

ondulado, apresentando alguns cerros coroados por afloramentos rochosos; no entanto, à medida que se caminha para o Sul,
a topografia vai-se exacerbando, surgindo cerros cada vez mais elevados, culminando nos contrafortes quartzíticos da área do
Cerro do Ouro. A impressão geral é de relevo evoluído, caracterizado por linhas de cumiada de altitude variável, mais altas para
o Sul e para o Leste15.

A vegetação
Enquanto que a estrutura geológica e as formas de relevo contribuem para introduzir elementos diversificadores nos qua-
dros fisiográficos da área de São Gabriel, a vegetação se incumbe de fornecer o denominador comum que, ao mesmo tempo
lhe dá unidade, integra-a na grande região natural da Campanha. De fato, é a associação campestre que domina e esta predo-
minância, como para todo o conjunto, tem sido considerada como resposta às condições do clima úmido com estiagem estival16
e a má drenagem dos terrenos, com excesso de umidade no inverno e deficiência no verão17. É certo, porém, que, embora esse
tipo de vegetação seja considerado como original, os campos devem ser, hoje em dia, muito diferentes, estruturalmente, dos
primitivos. Anacreonte Ávila de Araújo18, a propósito, faz uma citação, de autor não mencionado, bastante significativa: “Os
campos eram tão altos, que mesmo a cavalo ficava-se com os membros inteiramente encharcados”. Na área de São Gabriel
os campos atuais devem ser encarados como resultantes de profundas alterações, ocasionadas pela ação de fatôres bióticos e
agravadas pelos fatores climáticos, como as grandes secas. Zona de antigo e intenso pastoreio, os campos da região sofreram
a ação das queimadas periódicas e de sua utilização pelo gado. O fogo vem eliminando as grandes gramíneas cespitosas e os
sub-arbustos, enquanto que o pastoreio modifica o aspecto dos campos, reduzindo a altura das gramíneas, especialmente
quando ocupados por carneiros. Em casos excepcionais, provavelmente em áreas em que o primitivo revestimento vegetal era
mais ralo, o uso intensivo pela criação fez com que surgissem formações com características estépicas. Embora modificados, os
campos do município são, em sua maioria, pradarias típicas de clima úmido, com estiagem de verão, quase sempre com uma
cobertura contínua de gramíneas no extrato mais baixo19.

Foto 5 – Vegetação de baixada úmida, ou “banhado” – Na água, tipos de vegetação aquática; nas margens, as características
gramíneas de colmo erecto e rígido. Aspecto do banhado do Inhatium, a W. de São Gabriel.

Foto: I. N. Takeda.

Foto 6 – Vegetação de baixada “enxuta”, no Inhatium – Campos formados por cobertura contínua de gramíneas baixas,
constituindo o chamado “pasto de primeira” ou “de lei”. Neste caso, notava-se grande proporção de trevos na composição
florística.

Foto: I. N. Takeda.

Com base na topografia é possível reconhecer-se três tipos de campos, que refletem condições ecológicas bem distintas:
1 – vegetação das várzeas:
alagadas – onde predominam as gramíneas altas, de colmo erecto, como o “capim caninha” (Andropogon lateralis);
enxutas – em que aparecem espécies mais mesófilas;
2 – das encostas: com gramíneas, ervas diversas e arbustos, especialmente da família Compositae, não muito altos, es-
parsos ou agrupados;
3 – vegetação dos topos: com gramíneas baixas, podendo sobressair a “barba-de-bode” (Aristilda pallens Cav.).

15 As observações referentes ao relevo da área cristalina devem-se aos companheiros de equipe Edgar Kuhlmann e Francisco Takeda.
16 SETZER (José) – A origem das terras pretas de Bagé, “Revista Brasileira de Geografia”, Ano XIII, nº 3, págs. 370-401.
17 WAIBEL (Leo) – Princípios da colonização européia no sul do Brasil, “Revista Brasileira de Geografia”, Ano XI, nº 2, págs. 159-222.
18 ARAÚJO (Anacreonte Ávila de) – O gramado – Disclimax da vegetação campestre, Pôrto Alegre, Secretaria de Negócios Agrícolas, Industriais e Comerciais, 1948.
19 As observações fitogeográficas são devidas ao companheiro de equipe Edgar Kuhlmann.

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NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

Foto 7 – Vegetação campestre com arbustos agrupados - A cobertura campestre aparecendo bastante invadida por
compostas. Notar, no extremo direito da fotografia, a ação da erosão diferencial.

Foto: I. N . Takeda.

Foto 8 – Vegetação campestre das partes elevadas - Gramíneas baixas, com representação da “barba-de-bode” e com
algumas plantas invasoras.

Foto: I. N. Takeda.

Embora, aparentemente, não haja influência direta dos tipos de solos sôbre os diferentes tipos de campos, algumas
correlações foram observadas. Nas manchas da chamada “terra preta”, mais freqüentes ao Sul de São Gabriel, registraram-se
ocorrências de campos de revestimento contínuo, considerados como “pastos de lei”. Nos solos mais ácidos notou-se a predo-
minância de campos com gramíneas de colmo erecto e rígido enquanto que, nos mais arenosos, encontrou-se maior ocorrência
da “barba-de-bode”. Finalmente, cabe, ainda, citar o aparecimento de espécies xeromórficas, nos afloramentos rochosos dos
cerros e arenitos metamórficos, tais como Cereus peruvianus, Opunthia monocantha e Echinocactus sp. Enquanto no caso das
“terras pretas” parece haver mais nítida influência pedológica na vegetação, nos demais casos há, também, correlações com a
topografia e conseqüente condição de umidade.
Seguindo-se um critério misto, florístico-paisagístico, pode-se distinguir nos revestimentos campestres encontrados as
seguintes categorias:
I – Campos sem “barba-de-bode”:
1 – com cobertura contínua de gramíneas formando um estrato baixo:
com trevo (Trifolium polymorpho), “capim forquilha (Paspalum notatum Flügge Gram) e “mio-mio” (Baccharis coridifolia
DC Comp). Esta última forma um estrato de até 1 m de altura, com cobertura mais ou menos densa;
com mio-mio e aroeira branca ou aroeirinha (Lithraea molleoides Engl. Anacard), que se encontram muito espalhados por
toda a área, por vezes formando pequenos capões.
2 – com gramíneas altas e compostas, sem gramíneas baixas: é o tipo das baixadas úmidas;
3 – com cobertura densa de compostas invasoras, por vêzes desaparecendo as gramíneas baixas:
com predominância da composta chirca (Eupatorium virgatum DC);
com predominância da composta carqueja (Baccharis trimera DC), completamente desprovida de gramíneas.
II – Campos com “barba-de-bode”:
1 – com cobertura densa de barba-de-bode, aparecendo mio-mio e outras compostas, sendo também freqüente uma
umbelífera espinhenta, o caraguatázinho (Eryngium ep);
2 – com distribuição regular e fraca de tufos de “barba-de-bode” que, embora predominante, pode ocorrer combinado
com outras espécies semi-arbustíferas esparsas;
3 – com distribuição irregular e muito fraca, ocorrendo a mirtácea guariroba do campo (Campomanesia áurea Berg.), ar-
bustos que podem formar grupamentos de tal maneira densos que acabam por suprir outras espécies.

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A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

Foto 9 – Florestas galerias – Aspecto de campos cortados por matas ciliares.

Foto: E. Píccolo.

Cabe indicar que nem sempre os campos recobrem ininterruptamente tôda a área do município, podendo aparecer pe-
quena manchas de matas. Estas podem ser ciliares, limitando-se a acompanhar trechos de cursos fluviais, constituindo comu-
nidades semi-decíduas, ou estenderem-se pelas vertentes, sendo, então, inteiramente decíduas. São matas de árvores baixas,
tendo maior ocorrência na porção oriental do município.

A diferenciação das paisagens naturais


Se a vegetação contribui para dar unidade ao todo, formando um quadro fisiográfico caracterizado pelos campos, é pre-
ciso admitir que, em detalhe, essa mesma cobertura campestre oferece variações suficientemente perceptíveis para criar dife-
renciações dentro do conjunto. De modo geral, já se pode distinguir a parte oriental, especialmente caracterizada pela maior
ocorrência de matas, da ocidental, onde os campos aparecem quase que sem interrupções. Somando-se aos característicos
morfológicos, teríamos que distinguir na região de São Gabriel duas unidades paisagísticas: a das “coxilhas” e a das colinas. A
primeira seria a do quadrante noroeste do município, apresentando relevo de ondulações muito suaves, alternando-se com
amplas baixadas, úmidas ou secas, recobertas por vegetação dominantemente campestre, diferenciadas por condições topo-
gráficas e de umidade. A segunda, que coincide com o quadrante sudeste, seria a de colinas cristalinas, onde o relêvo, embora
ainda suave, se caracteriza por maior movimentação, com ausência de amplas baixadas e com “cerros” relativamente elevados;
a vegetação, ainda de campos, apresenta, no entanto, numerosas incidências de capões de mata e de matas galerias.
Assim, dentro de uma aparente uniformidade paisagística a região de São Gabriel, pela sua posição de intermediária entre
as chamadas “serras de sudeste” e a “depressão central” do Estado do Rio Grande do Sul, mesmo podendo ser considerada
como pertencente à grande região natural da Campanha, apresenta algumas diferenciações nos quadros naturais que, dentro
de um estudo local, nos parecem dignos de nota.

IV - A OCUPAÇÃO HUMANA E A DIVERSIFICAÇÃO DAS PAISAGENS RURAIS

A atividade pastoril
Na ocupação do solo do município de São Gabriel predominam as pastagens, que correspondem a 88% de sua superfície
ou, em números absolutos, a 481.367 ha no total dos 541.251 ha do município20. A predominância das pastagens evidencia a
grande importância da criação, contando São Gabriel, em 1950, com um rebanho bovino de 313.107 cabeças e com 283.567
cabeças de ovinos. No conjunto da Campanha, que representa a principal área pastoril do Estado do Rio Grande do Sul, o mu-
nicípio de São Gabriel tem relativa importância. No que se refere ao gado bovino, em que se destaca o município de Alegrete
(481.359 cabeças), São Gabriel pode se comparar aos municípios de Bagé (322.738 cabeças), D. Pedrito (334.289), Livramento
(319.925) e Uruguaiana (337.547). Quanto ao gado ovino, sua importância é relativamente menor: vários municípios contam
com rebanhos de mais de 400.000 cabeças, tais como Alegrete (522.534), Bagé (472.448), D. Pedrito (413.155). Livramento
(465.178) que, por sua vez, são amplamente ultrapassados por Uruguaiana (778.380).
A grande importância da criação dentre as atividades econômicas do município prende-se ao fato de constituir ela uma
forma tradicional de ocupação do solo, desenvolvida em função da grande ocorrência de pastos naturais, tal como, característi-
camente, aconteceu em toda a Campanha. Ainda hoje são as pastagens naturais que, basicamente, são utilizadas para a criação,
uma vez dos 481.367 ha já citados, apenas 1.444 ha correspondem a pastagens artificiais. Essas pastagens são, pois, a própria
vegetação campestre, embora modificada, e os criadores, usando o termo “campo” como sinônimo de “pastagem” reconhecem
três variedades, caracterizadas por determinadas espécies que, na maioria das vezes, não passam de espécies invasoras ou até
mesmo ruderais:

20 I.B.G.E – Censo econômico do Estado do Rio Grande do Sul, 1950. Todos os dados estatísticos doravante citados são desta mesma fonte, salvo indicação em contrário.

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NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

Foto 10 – Paisagem pastoril na Campanha de São Gabriel – Tipicamente do sistema de criação extensiva, o gado é criado solto
em pastagens naturais. Na fotografia notam-se algumas manchas de árvores, de que servem os animais como proteção contra
o sol, vento e geada.

Foto: A. R. Penteado.

Foto 11 – Torrão de sal – O único cuidado com a alimentação do gado, criado solto, é o fornecimento do sal.

Foto: I. N. Takeda.

1 – “Campos de lei ou “de primeira” – caracterizados pelo capim forquilha (Paspalum notatum Flügge Gram.), alguns car-
rapichos dos gêneros Adesmia e Medicago, o trevo (Trifolium polymorphum Leg.) e a composta mio-mio (Baccharis coridifolia
D.C). Estes pastos ocorrem na áreas de solos férteis, de elevado teor calcáreo, sendo mais comuns nas encostas e nas várzeas
enxutas; neste último caso, podem ser caracterizados, ainda, pela grande representação do capim flexilha (Boutelona megapo-
tamica Spe).
2 – “Campos comuns” ou “de segunda” – caracterizados pela ocorrência da capim “rabo de burro” ou, como é conhecido
regionalmente, “cola de zorro” (Andrapogon paniculatus Kunth Gram.), pelo capim caninha (Andrapogon lateralis Mes. Gram.)
e, em pequena proporção, o capim “barba-de-bode” (Aristilda pallens Cav.) que surge, especialmente, nas partes elevadas. Os
pastos deste tipo aparecem nos solos de maior acidez que os precedentes.
3 – “Campos de terceira” – que são constituídos, quase inteiramente, pelo capim “barba-de-bode”. Estes pastos são ex-
cepcionalmente encontrados no município, correspondendo a áreas elevadas, de solos muito arenosos.
A forma de pastoreio usual em São Gabriel corresponde, integralmente, ao tipo clássico dominante na Campanha gaúcha.
É uma criação eminentemente extensiva, ficando o gado à sôlta em pastagens naturais, recebendo apenas o sal, e aí se manten-
do durante todo o ano, até mesmo no inverno, quando procura refúgio contra as geadas nos capões de mato e nos eucaliptais.
Somente o gado leiteiro e os plantéis de reprodução são estabulados, ou “quartelados”, como se diz regionalmente. Exceção
compreensível, quer pela imposição da proximidade da sede para os trabalhos de ordenha, quer pela preocupação do aprimo-
ramento dos rebanhos21.

21 Tanto o rebanho bovino quanto o ovino são, hoje, de raças selecionadas. No primeiro destacam-se as raças Hereford, Durhan, Polled-Angus, Shorthorn e Devon. Entre os
ovinos são mais comuns as raças Romy-Marsh e Corredale. Só excepcionalmente encontram-se ainda raças mais rústicas, especialmente nas áreas de piores pastos.

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A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

Foto 12 – A grande propriedade pastoril – Da sede de sua fazenda o estancieiro, até onde vai sua visão, só vê as terras de sua
propriedade (Estância Inhatium).

Foto: I. N . Takeda.

Foto 13 – Instalações necessárias à criação – Mangueira para gado, vendo-se, à direita corredor e a entrada de acesso ao
banheiro carrapatcida.

Foto: I. N. Takeda.

O sistema extensivo, como é característico, liga-se a uma pequena mão-de-obra: estâncias com área de 123 quadras de
sesmaria e rebanhos de cerca de 8.500 bovinos e outros tantos ovinos, contam apenas com três capatazes e oito peões. Essa
pequena mão-de-obra, livre das preocupações com a alimentação do gado, concentra-se em outras atividades. Basicamente
resumem-se elas nos rodeios e nos banhos dados aos animais como prevenção e tratamento contra parasitas. Os rodeios são
feitos com diversas finalidades: marcação das rezes, castração, separação do “desfrute”, ou seja, dos animais que serão vendi-
dos, etc. Os banhos, pouco freqüentes no inverno, são dados regularmente no verão, época de maior reprodução das parasitas,
representando um trabalho relativamente intenso. Cada banho atinge, em média, a 200 animais de cada vez, o que significa que
para grandes rebanhos poderão ser necessários de 2 a 3 operações por semana a fim de que cada animal receba, pelo menos,
um banho por mês.
Em correlação com o sistema de criação extensiva, a propriedade pastoril, é via de regra, grande. No município de São
Gabriel existem 349 propriedades pastoris, com uma área total de 311.064 hectares22, o que dá a média de 891 ha por pro-
priedade. Freqüentemente essas grandes propriedades, para melhor possibilidade de administração e trabalho dividem-se em
“postos”, cada um sob a responsabilidade de um capataz, que conta com a ajuda de um par de peões. De modo geral, diante do
caráter cada vez mais absentistas dos proprietários, o capataz funciona como verdadeiro administrador, pelo que recebe uma
porcentagem nos lucros da venda do gado bovino e uma parte dos “burregos” (carneiros novos), além do direito à casa, carne,
leite e, às vezes, de manter pequena lavoura de subsistência chamada “horta”. Os peões, empregados fixos, usam uma habi-
tação coletiva, o “galpão”, e sua remuneração é feita à base de salários fixos (cerca de Cr$ 1.000,00 mensais), tendo também
direito ao fornecimento, pelo patrão, de carne.

FOTO 14 – Forquilha para gado - Instrumento que, prendendo o animal pelo pescoço, com a cooperação de cêrcas
estreitamente colocadas, que ficam de cada lado do animal, imobiliza-o, permitindo certos tratamentos, como por exemplo,
curativos e medicação.

Foto: I. N. Takeda.

22 Sem se contar as 407 propriedades agro-pastoris, que correspondem ao total de 211.885 ha.

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NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

Foto 15 – Banheiro carrapaticida para carneiros – Presos em pequeno curral, os carneiros são encaminhados por um corredor
até o banheiro, recebendo aí o necessário tratamento ou curativo contra as parasitas que os atacam.

Foto: I. N. Takeda.

Dentro das possibilidades oferecidas pelas grandes extensões, as propriedades pecuaristas dedicam-se, na sua maioria,
à criação conjunta de gado bovino e ovino. Em relação ao gado bovino as “estâncias”, ou propriedades de criação, dedicam-
se, quase sempre, às três fases do processo: à cria, à recria e à engorda23. A essas diferentes etapas correspondem exigências
específicas em alimentação e rebanho e, em conseqüência, varia o número de cabeças utilizando cada unidade de superfície
de pastagens, o que é chamado a “lotação”. A “lotação”, por sua vez, deve variar de acordo com o tipo de pastagem e, repre-
sentando a opinião generalizada na região, teríamos:
1 – para a “cria” e “recria”, lotações de 100 cabeças por quadra de sesmaria24
em pastos “de primeira” e de 60 nos “de segunda”;
2 – para a “engorda”, lotações de 60 cabeças por quadra de sesmaria em pastos “de primeira” e de 40-45 nos “de segunda”.
Essas “lotações”, reconhecidas como ideais, nem sempre são, no entanto, respeitadas: é corrente a praticada “super- lo-
tação”, quer por se colocar maior número de cabeças do que seria aconselhável por unidade de superfície, quer por se acres-
centarem os carneiros sem que haja uma diminuição proporcional do gado bovino. Encontramos uma estância em que, em
campos “de primeira”, para cria e recria, a lotação é de 70 a 100 cabeças de gado bovino com o acréscimo de 350 a 500 ovelhas;
nos campos “de segunda”, ainda para a cria e recria, a lotação é de 50 cabeças de gado bovino e 250 cabeças de carneiros. Isso
quando é admitido, de modo geral, que para cada cinco carneiros dever-se-ia retirar uma rez da lotação. Em compensação, para
a engorda, essa mesma estância mantém apenas 60 cabeças de gado bovino nos campos “de primeira” e 40 nos “de segunda”,
sem acrescentar carneiros. Outra das estâncias visitadas chega à lotação de 110 cabeças de gado bovino por quadra de sesma-
ria, a que acrescentam ainda cerca de 150 ovelhas: mesmo levando-se em conta que nela predominam os pastos “de primeira”,
é indiscutível que há super-lotação.
As conseqüências da super-lotação dos pastos são sérias, constituindo verdadeiro problema para a pecuária da região.
Há verdadeiro desgaste das pastagens e, segundo alguns, devido à introdução dos carneiros, o desaparecimento das melhores
gramíneas, ficando o pasto sem resistência para enfrentar os dois períodos de crise, no verão devido à estiagem, e no inverno,
devido as geadas. Contra as sêcas de verão a única medida preventiva adotada pelos pecuaristas é a construção de “açudes”
que, se não servem às pastagens, pelo menos garantem água para o gado. Mesmo assim, já houve épocas dos açudes secarem
completamente, como no ano de 1946, em que um dos grandes estancieiros da região, depois de perder 600 cabeças e de ter
aberto 80 açudes, viu-se na contingência de comprar outra propriedade, em Livramento, para receber seu rebanho durante
o restante do verão. Mesmo quando os açudes não secam completamente, o gado sofre: afunda-se na lama das margens, de
onde tem que ser, freqüentemente, retirado; em vista da falta de água e de alimentação, acaba por se aglomerar ao redor das
sedes, como que procurando auxílio, mugindo e balindo ininterruptamente. No inverno os campos, parcialmente queimados
pela geada, novamente se empobrecem. O gado, mal alimentado, perde peso chegando, segundo informações, a diminuírem
os animais cerca de 50 quilos nesse período. Diante do problema, agravado pelas super-lotações, várias soluções tem sido
aventadas. Alguns criadores, dispondo de menor área ou contando com pastos de má qualidade, abrem mão do “engorde”,
23 A “cria” abrange o primeiro ano de vida dos animais, a “recria” diz respeito aos animais de “sobreano” (mais de um ano) a dois anos e meio; quanto à engorda (ou “engorde”,
como dizem), atinge os animais de 2 anos e meio a 3 ou 4 anos, quando serão vendidos para as xarqueadas ou frigoríficos.
24 A “quadra de sesmaria” corresponde a 50 “quadras”. A “quadra” corresponde a 132 metros quadrados.

81
A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

preferindo, embora com menor lucro, vender o seu gado ao atingir os dois anos e meio de idade. No município, em conseqüên-
cia dessa atitude de alguns criadores, já há quem se especialize apenas na engorda, constando das estatísticas 4 propriedades
“invernistas”, com área total de 2.479 ha. Outros, especialmente os que também desenvolvem atividade agrícola, começam a
formar pastagens artificiais ou a plantar forragens. São, no entanto, como que experimentações que, estimulados pelo Posto
Experimental de Forragens, os pecuaristas são tentados a realizar. A área em pastagens artificiais é ainda muito pequena no
município, representando 12% do total das pastagens existentes. Quanto a forragens, são ainda menos representativas que
as pastagens artificiais, constituindo verdadeiras experiências dos criadores: numa estância de 123 quadras de sesmaria, por
exemplo, apenas 1,5 quadra estava plantada em forragens25.
A opinião generalizada, quer entre os pecuaristas, quer entre os agrônomos regionais, é que, diante da demanda e dos
preços, é impossível pretender-se a diminuição das lotações, o que implicaria na diminuição dos rebanhos. Assim sendo, tudo
indica que a criação, na região de São Gabriel, como provavelmente em toda a Campanha gaúcha, tenderá a perder suas ca-
racterísticas tradicionais evoluindo do sistema extensivo para formas de combinação com a agricultura: as forragens parecem
constituir a única solução para suprir as deficiências dos pastos naturais, empobrecidos pelas sêcas, pelas geadas e pelas super
-lotações.
A criação de ovinos, na opinião de alguns, contribui para o desgaste das pastagens, prejudicando-as ainda mais. Apesar
disso, o rebanho ovino tem aumentado, em ritmo mais acelerado que o próprio rebanho bovino: enquanto que este passava
de 317.107 cabeças para 347.00026, respectivamente nos anos de 1950 e 1957, num aumento da ordem de 9%, o número de
carneiros passou, nos mesmos anos, de 283.567 a 484.300, o que corresponde a um crescimento de 70%. Este maior cresci-
mento de rebanho ovino em relação ao bovino talvez possa ser interpretado como uma espécie de resposta ao cansaço das
pastagens, uma vez que os carneiros são menos exigentes em alimentação; no entanto, não nos parece pouco provável que
a maior demanda de lã no mercado interno, especialmente pelo desenvolvimento das tecelagens de lã em São Paulo, tenha
agido como importante elemento propulsor do aumento dos rebanhos de ovinos. A introdução da criação de carneiros não
afetou, sensivelmente, a vida nas estâncias, pois que, dentro do mesmo sistema extensivo e utilizando os mesmos pastos, não
representa grande acúmulo de trabalho de mão-de-obra. No entanto, criou duas necessidades novas: instalações especiais para
banhos contra parasitas e a tosquia. As primeiras construídas, como é tradição, ao lado da sede, são utilizadas pelos próprios
trabalhadores das estâncias, que se encarregam do banho: representam uma sobrecarga no calendário de trabalho, mas não
exigem mão-de-obra extra. O mesmo não se dá com a operação da tosquia ou “esquila”, na nomenclatura regional: sendo um
trabalho delicado e que deve ser feito em relativamente pouco tempo (a safra vai de novembro a dezembro), torna-se neces-
sário o contrato de trabalhadores especializados, os “esquiladores”. Em geral são grupos volantes (na média compostos de um
capataz e três peões), que percorrem as propriedades, fazendo o serviço por empreitada.
Do ponto de vista econômico a pecuária desempenha importante papel na vida do município. Na base do “desfrute” habi-
tual de 13% do rebanho, pode-se calcular que, no ano de 1957, em todo o município, foram negociadas cerca de 45.000 cabeças
de gado bovino. Desse total, apenas pequena parte foi abatida no Matadouro Municipal, para o consumo público: 4.618 cabe-
ças, o que corresponde a pouco mais de 10% do gado negociado. Também a indústria local de xarque, apesar de ter alcançado
uma produção, ainda em 1957, do valor de Cr$ 71.701,00, não é grande consumidora do gado vendido, pois que abateu apenas
13.236 rezes. A maior parte do gado do município, realmente, sai de seu território, com destino aos frigoríficos, principalmente,
de Rio Grande, Pelotas, Canoas e Porto Alegre, para onde o gado segue por via férrea; também o grande frigorífico de Rosário
consome boa parte do gado de São Gabriel, que para lá, segue a pé. Além desses destinos, também segue uma parte para Bagé
e, em bem menor escala, sempre por ferrovia, para Tupanciretã e Julio de Castilhos. Esta situação deverá alterar-se em futuro
próximo, graças ao novo frigorífico instalado em São Gabriel, e que deverá, nos primeiros meses de 1959, estar em pleno fun-
cionamento. Com capacidade para abater 25.000 rezes, boa parte do gado do município deverá encontrar colocação na própria
cidade, diminuindo, assim, o número de cabeças que sairá para outros municípios.
Quanto à lã, sua produção, paralelamente ao desenvolvimento dos rebanhos, tem aumentado consideravelmente, pas-
sando de 457.470 toneladas em 1950 para 810.000 em 1957. Os principais mercados compradores são os de São Paulo e Rio de
Janeiro, para onde ela é exportada já em fio.

A atividade agrícola
A ocupação do solo pela agricultura corresponde, no município de São Gabriel, à área relativamente modesta que, no en-
tanto, tem demonstrado tendência a se expandir. Enquanto que em 1950 apenas 17.861 ha eram cultivados, correspondendo a
3% da superfície total, em 1957 as lavouras já ocupavam 38.981 ha, ou seja, cerca de 7% da área total27. A ocupação agrícola do
solo, no município, é relativamente pouco variada, correspondendo, por ordem de importância, ao trigo (30.781 ha), ao arroz
(4.580 ha), ao milho (1.150 ha) e ao linho (2.500 ha). Desses produtos, os mais importantes são os dois primeiros, pois o milho
não basta para o consumo interno, devendo ser importado de outras áreas e o linho é ainda plantado em muito pequena escala,
apesar de ser sensível o aumento recente da área por ele ocupada, podendo talvez aí encontrar o município nova e proveitosa
produção:

25 No caso, tratava-se de uma associada, de aveia e azevem, na proporção de ¾ e ¼, respectivamente. A combinação é explicada pelas variações climáticas: se o ano for chuvoso,
o azevém garantirá o pasto na primavera; se, ao contrário, for seco, a aveia medrará.
26 Os dados para o ano de 1957 foram-se fornecidos pela Prefeitura de São Gabriel, através do agente local de estatística.
27 A rigor, essa proporção é realmente um pouco maior, uma vez que não foram incluídas as áreas em forragens, para as quais não logramos obter dados.

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NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

Área cultivada Produção


1944 145 ha 88.450 kg
1949 80 ” 56.000 ”
1954 130” 160.000 ”
1957 2.500” 1.864.800 ”

Outro produto que poderá vir a ter certa importância na economia regional é a cevada, cuja introdução e desenvolvimen-
to foram facilitados pela agricultura mecanizada e pela presença de mercado certo, a Cervejaria Brahma que, incentivando a
produção, distribui as sementes, orienta a cultura, providencia armazenamento e o transporte para Porto Alegre. Quase todos
os lavradores tem uma parte de sua área cultivada dedicada à cevada (variando entre 10 e 50 quadras agrícolas), vários tendo
demonstrado planos de ampliar suas plantações no próximo ano. Tudo indica que essa produção aumentará: os rendimentos
foram tão elevados na última safra (mais de 50 sacas por quadra, em terreno adubado) que as sementes para o próximo plantio,
por ocasião de nossa pesquisa, já se encontravam esgotadas.
De produtos agrícolas de maior significação econômica, o arroz é o de mais antiga cultura, devendo sua introdução na
região se datar da primeira década do século. Sua produção não tem aumentado, tendo mesmo acusado certo retrocesso, por
ocasião da introdução do trigo, de que já se recuperou sem, no entanto, ter chegado ainda a atingir os níveis anteriores:

Área cultivada Produção


1944 5.486 ha 19.000 ton
1950 5.400 ” 10.400 ”
1957 4.580 ” 17.100 ”

Deve-se observar, analisando-se os dados acima, que, embora sem atingir o nível anterior de produção, a cultura do arroz
acusou, no ano de 1957, melhor rendimento que em 1944, ou seja, 3.734 kg por hectare, em lugar dos anteriores 3.463 kg/ha.
Essa produtividade maior deve ser encarada, no entanto, como apenas uma média, pois que encontramos culturas com rendi-
mentos muito mais elevados, da ordem de 6.700 kg/ha.
A cultura do arroz é nas baixadas, fora da planície inundável, em áreas relativamente pequenas: no ano de 1956 foram
registrados apenas três produtores com mais de 130 quadras agrícolas cultivadas28 e nove com mais de 50 quadras e menos
de 10029, todas as demais culturas sendo feitas em pequenas áreas. A pequena extensão dos arrozais parece ser explicada por
vários fatôres: o regime de terras ligado a essa produção, a limitação das possibilidades de rotação dos campos de cultura e os
problemas ligados à irrigação.

Foto 16 – Terrenos de cultura do arroz em repouso – Depois de cultivados por 3-4 anos com o arroz os solos entram em
repouso por período equivalente, revertendo às pastagens, como se vê neste trecho da baixada do rio São Gabriel.

Foto: I. N. Takeda.

Foto 17 – Canal de irrigação para a cultura do arroz – Devido ao pequeno declive, a água corre com muita lentidão (Baixada do
Inhatium).

Foto: I. N. Takeda.

28 O que equivale a 17.160 m² ou, aproximadamente, a 2,5 quadras de sesmaria.


29 O que corresponde a 6.600 m² ou a uma quadra de sesmaria.

83
A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

Em relação ao primeiro dos elementos citados, se cêrca de 50% dos produtores de arroz plantam em terras próprias, a ou-
tra metade arrenda terras para a cultura. Segundo Lysia Maria Cavalcanti Bernardes30, a “proporção realmente extraordinária de
lavouras arrendadas tem sua razão na mentalidade tradicional do fazendeiro gaúcho, avêsso ao trabalho da lavoura, preferindo
arrendar suas terras a outrém”. É provável que o elemento da tradição pecuária tenha realmente influência na falta de interesse
que alguns fazendeiros têm demonstrado pela agricultura mas, no caso do arroz, os proprietários preferem, por vêzes, arrendar
principalmente devido às dificuldades com mão-de-obra e irrigação, preferindo não dividir suas disponibilidades financeiras
ou sua atenção e concentrar-se na criação. Os poucos que produzem arroz diretamente em suas terras, limitam-se a cultivar,
por isso, pequenas áreas; excepcional é o caso de propriedades (como a Bernardes, com 200 quadras em arroz) que cultivam
grandes áreas. Mesmo assim, a produção “direta” é relativa, uma vez que o sistema, diante da não conveniência de manter uma
mão-de-obra numerosa, é freqüentemente o de parceria, em que o proprietário, só contribuindo com a terra, recebe 20% da
produção. Também ao arrendatários não fazem grandes culturas, pois o preço da terra é elevado: de Cr$ 30.000,00 a 70.000,00
por quadra de sesmaria quando, para pastoreio o preço é de, apenas Cr$ 10.000,00 a 30.000,00.
Além dessas razões para limitação das áreas cultivadas, outro fator ainda influi para esse fato: o sistema de cultura. Na
produção do arroz adota-se a prática de cultivar o solo durante 3 ou 4 anos, deixando-o descansar, a seguir, por igual período de
tempo, revertendo às pastagens. Com esse sistema de rotação dos campos de cultura há, automaticamente, uma limitação das
áreas cultiváveis com a impossibilidade, dentro dessas técnicas, de um aumento ponderável da produção.
Acresce, ainda, que a necessidade de irrigação também contribui para a referida limitação das superfícies cultivadas. O
sistema de irrigação mais empregado é o que utiliza água de pequenas represas, as “barragens”31, formadas graças à construção
de muros de retenção, chamados “taipas”; dessas represas a água escoa-se, por gravidade, até os arrozais, seguindo os canais
abertos para esse fim. Excepcionalmente, é empregada a água de rios e arroios pois que, além de raros na região, exigiriam a
prática de elevação por bombeamento. Ora, não sendo a água abundante e sendo trabalhosa e dispendiosa a construção das
“barragens”, também a irrigação vem limitar a extensão das culturas, especialmente quando se considera a itinerância das cul-
turas, que, por vezes, exige a abertura de novos canais e, outras vezes, até mesmo a construção de outra “barragem”.
A cultura do arroz na região de São Gabriel é feita com técnicas que parecem, até certo ponto, contraditórias. De um lado,
há um relativo primitivismo, representado pela itinerância das culturas, resultado da ausência de técnicas de refertilização do
solo; o que se faz é apenas esperar que este, revertido às pastagens, recomponha-se pelo repouso e pela adubação que receber
do gado que pastar nas “palhadas”. Por outro lado, no entanto, a rizicultura tem também traços de modernismo, registrando-
se no período de 1950-51, quando apenas tinha início a triticultura, a existência de 51 tratores utilizados, exclusivamente, na
produção do arroz.
Apesar da estabilização da produção, sem aparente possibilidade de sensível acréscimo no futuro, o volume de arroz
produzido em São Gabriel está muito acima da demanda local, destinando-se, em sua maior parte, à exportação. No ano de
1957 foram expedidas, por estrada de ferro, 15.699 toneladas de arroz beneficiado32; cerca de 75% desse arroz que sai de São
Gabriel, segue para o pôrto do Rio Grande, de onde é reexpedido, por via marítima, para os Estados de São Paulo, Paraná, Santa
Catarina, Espírito Santo, Bahia e para o Distrito Federal. Os 25% restantes seguem para Pôrto Alegre, de onde é reexportado,
sempre por ferrovia para outros Estados. A situação de inferioridade de Pôrto Alegre em relação ao Rio Grande como centro de
exportação do arroz se deve à diferença dos fretes, 40% mais elevados nas estradas de ferro em relação à via marítima.
Em comparação com o arroz, o trigo representa não só um produto de maior significado econômico, bem como uma
lavoura que utiliza, relativamente, técnicas mais avançadas. Desde sua introdução, a lavoura do trigo vem se desenvolvendo a
passos seguros no município, com áreas cultivadas e produção cada vez maiores:

Área cultivada Produção


1944 183 ha 160 ton
1950 3.054 ” 2.145 ”
1957 30.781 ” 36.937 ”

No que concerne à área cultivada, verifica-se que, uma vez que não houve modificação sensível em relação às superfícies
cultivadas em arroz, a cultura do trigo foi a grande responsável pelo aumento da área em cultura do município, que, como já
nos referimos, passou de 17.861 há em 1950 para 38.981 ha em 1957. No conjunto da área cultivada neste último ano o trigo
ocupa a maior parte, equivalente a 78%.
Quanto à produção, o considerável aumento entre 1950 e 1957 veio colocar São Gabriel entre os maiores produtores de
trigo da campanha gaúcha e entre os grandes produtores de todo o Estado. Enquanto em 1950 apenas o município de Bagé
se destaca na região, em 1956, ao par do grande incremento que o trigo teve em tôda a Campanha, São Gabriel aparece em-
parelhado com Bagé, equiparando-se, numa classe de produção entre 30.000-50.000 ton, aos municípios de Caçapava do Sul,
Encruzilhada do Sul, Cachoeira do Sul, Cruz Alta, Passo Fundo e Sarandi e apenas ultrapassado pelos municípios de Carazinho,
Palmeira das Missões, Erechim e Lagoa Vermelha, com produção superior a 50.000 ton33.
A cultura do trigo em escala comercial começou, no município de São Gabriel, a cerca de dez anos34; a iniciativa da pro-
dução em grande escala coube à Cia. Trigosul, organizada com capitais de São Gabriel e Pôrto Alegre, e da qual participavam,
30 BERNARDES (Lysia Maria Cavalcanti) – Cultura e produção do arroz no sul do Brasil, “Revista Brasileira de Geografia”, Ano XVI, nº 4, págs. 403-438.
31 Na região distinguem-se as “barragens”, construídas para a irrigação, dos “açudes”, muito menores, e que se destinam ao fornecimento de água para o gado.
32 As espécies mais produzidas em São Gabriel são as “Blue-Rose” (ou tipo 388), “Guaiba” (também chamado “japonês”) e “Fortuna” ou “amarelão”. O tipo “Zenith”, agulhado,
não se adaptou bem à região, redundando em fracasso, apesar de vária tentativas, estimuladas pela preferência do principal mercado consumidor, São Paulo, por essa varie-
dade. Ultimamente um novo tipo, “Palmares”, pouco exigente em relação aos solos e com boa resistência às secas, vem sendo produzido na região.
33 FORTES (Amyr Borges) – Aspectos fisiográficos, demográficos e econômicos do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1958.
34 As pesquisas e inquéritos sobre a produção do trigo na região foram orientados e realizados pela colega Lysia Maria Cavalcanti Bernardes.

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ainda, alguns russos da Polônia e “russos verdadeiros”, vindos de Santa Rosa para esse fim35 . Com o sucesso dessa iniciativa,
veio o apoio oficial que, a partir de 1951-52, trouxe grande aumento das lavouras: enquanto o Fomento Estadual colaborava
pelo fornecimento de sementes e pela realização da análise das terras, o Banco do Brasil passava a financiar a produção36.

Na região de São Gabriel foram encontradas condições favoráveis à triticultura. O clima se presta a essa lavoura embora,
às vêzes, a freqüência de chuvas no fim de junho e começo de julho interrompa o plantio, retardando o seu término para agôsto;
a estiagem de verão em nada prejudica o trigo, pois coincide com o período de entre-safra. Quanto aos solos, os de “vocação”
realmente tritícola são, especialmente, os da porção meridional do município, que fazem parte da área das chamadas “terras
pretas” de Bagé. Trata-se de solos de coloração escura, que não correspondem a formações geológicas específicas, sendo
explicados por condições de clima, sub-úmido, com invernos frios e úmidos e verões quentes e secos37. No município de São
Gabriel as “terras pretas” apresentam-se em “manchas”, mais freqüentes e extensas no seu quadrante sudeste, sobre terrenos
metamórficos e onde o grande número de veios de quartzo e pegmatitos tornam-os, por vezes, inaproveitáveis para a lavoura.
São terras argilosas, mas com permeabilidade satisfatória, com profundidades até 60 cm. Êstes solos são os preferidos para a
cultura do trigo, sendo utilizados, em regra, sem acréscimo de adubo. No entanto, o trigo não é cultivado apenas nas “terras
pretas”, sendo também ocupados outros tipos de solo: são, especialmente, os terrenos da série Itararé que, tendo condições
físicas apropriadas, podem ser aproveitados com aplicação de corretivos e de adubos. O principal requisito em relação a solos
para a triticultura é que sejam “enxutos”, sendo, então, os solos de vertentes e de encostas, argilosos mas com certa permea-
bilidade, os preferidos. A fim de evitar erosão e facilitar o uso do maquinário, as vertentes não deverão ser muito inclinadas.
Empiricamente, as terras apropriadas para a cultura do trigo são, regionalmente, assim reconhecidas:
1 – as que apresentam, em sua cobertura vegetal, o “mio-mio”, considerado, a um tempo, como padrão de bons pastos e
de terra enxuta e fértil, indicada para a cultura do trigo;
2 – terras com “barba-de-bode” que, convenientemente adubadas e tratadas, podem ser aproveitadas.
Como se vê, não há coincidência entre os bons pastos e as terras apropriadas para a lavoura, havendo bons pastos que
são recusados para a cultura devido ao aparecimento de espécies como a “vassourinha” e “capim quebrante”, que acusam
demasiada umidade para a triticultura.
No que diz respeito ao regime de exploração da terra, o trigo começou a ser cultivado no sistema de parceria “a-meia”: ao
proprietário cabia fornecer, a troco de 50% da safra, a terra, a maquinaria, os adubos e as sementes enquanto que os lavradores,
com direito à outra metade da produção, contribuíam com seu trabalho, pagando apenas a depreciação das máquinas. Esse
sistema, atualmente, é pouco adotado e adquiriu novas bases: no caso das famílias russas remanescentes das primeiras que
aí haviam se instalado, o proprietário apenas fornece a terra, recebendo de 15 a 25% da produção, enquanto que no caso de
um outro produtor, de origem holandesa, o proprietário apenas fornecendo, também, a terra, está recebendo a alta proporção
de 50%. Esta evolução da parceria indica claramente dois fatos: a alta valorização das terras, uma vez que o proprietário, pelo
seu mero usufruto, recebe alta proporção das colheitas e – por outro lado – o alto aparelhamento técnico do produtor que,
graças ao aumento das possibilidades de produção consegue, ainda entregando parte da safra ao proprietário, ter resultados
compensadores.
35 Esses russos, habituados em sua terra de origem à cultura do centeio, haviam adotado, como colonos em Santa Rosa, o sistema do plantio de milho combinado à criação e
engorda de porcos. Tendo falhado os entendimentos com o governo estadual de se fixarem no projetado e não realizado núcleo colonial de Hulha Negra (Bagé), entraram em
contacto com os que organizavam a Cia. Trigosul, com a qual estabeleceram contrato de trabalho. Findo o contrato e dissolvida a Sociedade, alguns permaneceram em São
Gabriel como triticultores, dispersando-se os demais pelos municípios de São Sepé, Cachoeira do Sul e Bagé.
36 Os empréstimos são feitos quando o agricultor tem, pelo menos, três anos de atividade na cultura, reside no município e tem bens (imóveis, gado, maquinaria, veículos). Sem
exigência de bens como garantia, pode ser feito um empréstimo até Cr$ 100.000,00, satisfeitos os demais quesitos.
37 SETZER (José) – Op. cit.

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A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

O sistema da parceria, mesmo evoluído, é hoje pouco adotado; a regra é o sistema do arrendamento. Este oferece várias
vantagens aos proprietários: contam com renda fixa, independente de oscilação da produção ou dos preços, podendo manter-
se alheios aos negócios do trigo, livres das especulações, dos problemas econômicos-finaceiros, de novos investimentos de
capital. Além do mais, o arrendamento é feito em bases bastante vantajosas, devido à crescente procura de terras para cultivo
e à valorização conseqüente das mesmas: enquanto em 1948 arrendava-se uma quadra de sesmaria, para lavoura, por Cr$
2.500,00, os preços hoje, para a cultura do trigo, vão a Cr$ 70.000,00 – 80.000,00 e até mesmo Cr$ 100.000,00, com contratos
feitos à base de 3 – 4 anos. Devido aos altos níveis do valor do arrendamento, tem-se verificado como que uma paralisação da
venda de terras, que só se tem efetuado, praticamente, em caso de heranças ou de ação judicial: em 4 ou 5 anos o proprietário
recebe, em arrendamento, o valor de sua propriedade38 . Mesmo não havendo vendas, no entanto, há casos de propriedades
que desapareceram como estabelecimento rural, pois toda a sua área, em diferentes parcelas, foi arrendada.
Quanto aos arrendatários, pode-se distinguir o grupo dos pequenos do dos grandes arrendatários (ou “fortes”, como se
diz regionalmente). Os pequenos arrendatários, com uma base, em média, de 2 a 4 quadras de sesmaria, são representados
por famílias principalmente de origem estrangeira (russos, dinamarqueses, holandeses) por capatazes e outros elementos que,
conseguindo algum pecúlio, se lançam no negócio progressivamente, o que é facilitado pela venda a prazo da maquinaria. Os
arrendatários “fortes”, muito mais numerosos, contam entre 4 e 12 quadras de sesmaria, em média, e são, quase sempre, pes-
soas residentes na cidade (médicos, advogados, comerciantes, etc)39 que, conseguindo financiamento, promovem a cultura,
entregando-a a capatazes para dirigirem a parte agrícola da exploração. Dentre os grandes arrendatários aparece, ainda, um
outro elemento: estancieiros pecuaristas que, interessando-se pela triticultura, arrendam algumas quadras a fim de não dimi-
nuírem suas pastagens.
Com grandes ou pequenos produtores, é o sistema de arrendamento que predomina embora possam ser citados alguns
casos de produtores ocupando, com o trigo, terras próprias. Em grandes propriedades a cultura do trigo é rara, podendo-se
citar, como um dos poucos exemplos, a Estância Cerro do Ouro, que combina a triticultura (270 – 300 quadras agrícolas) com a
criação (15 quadras de sesmaria). Também entre os pequenos produtores é pouco comum a cultura ser feita em terras próprias
nesta caso, tratam-se apenas de lavradores que, apesar da grande dificuldade em comprar terras, conseguem adquirir uma ou
duas quadras de sesmaria, em geral completadas por área arrendada.
De modo geral, as explotações ligadas ao trigo são muito maiores que as de arroz que, como vimos, atingem, no máximo,
2,5 quadras de sesmaria. Em 1956 os dados estatísticos acusam 29 produtores com mais de 4 quadras de sesmaria em trigo,
sendo:
1 propriedade com 12 quadras de sesmaria
2 propriedade com mais de 10 quadras de sesmaria
10 propriedade com mais de 6 quadras de sesmaria
16 propriedade com mais de 4 quadras de sesmaria
Mesmo os pequenos produtores, com áreas entre 2 e 4 quadras de sesmaria, ficam equiparados ou acima dos maiores
produtores de arroz.
As grandes extensões plantadas em trigo podem ser explicadas pelo fato de se tratar de uma cultura mecanizada em todas
as suas fases, exigindo pequena mão-de-obra. Aproximadamente, há uma base de um empregado permanente por quadra de
sesmaria, o que faz com que os pequenos produtores, conforme o número de pessoas válidas na família, possam chegar a ter
nenhum trabalhador assalariado40.
Sendo recente a triticultura no município, ainda não se criou, nessa atividade, um sistema definido de uso da terra. As
condições atuais de cultivo variam com a maior ou menor fertilidade da terra dependendo, também de se tratar de exploração
direta ou por arrendamento. No caso das terras pretas da zona do Cerro do Ouro, o trigo é plantado num mesmo lote três ou
quatro anos em seguida, seguindo-se um período de pousio de, em regra, três anos; dentro desse sistema, tem-se obtido pro-
dução satisfatória sem emprego de adubo41. No entanto, nas áreas de terra preta, existem também casos de utilização sucessiva
mais prolongada, de seis a nove anos, com descanso mais curto, de um a dois anos: já há, mesmo, produtores que encaram
a possibilidade, caso o preço do trigo ser compensador, de adotar um sistema de ocupação contínua mediante o emprego de
adubos. Fora das áreas de terra preta o emprego sistemático de adubo é a regra. As terras são analisadas através da Secretaria
da Agricultura do Estado, das cooperativas agrícolas ou das próprias companhias de adubos (como o “Moinho Santista”, a “Com-
panhia Riograndense de Adubos” e a “Companhia Brasileira de Adubos”), sendo
então aplicado o composto apropriado ao tipo de solo, na proporção usual de 2 sacos de adubo para um de semente.
Além disso, nos terrenos mais ácidos faz-se necessária a correção pela calagem, empregando-se o calcário proveniente da esta-
ção de Waick, ao sul de São Gabriel.

38 Uma das famílias russas conseguiu, com grande dificuldade, comprar uma quadra de sesmaria por Cr$ 400.000,00. Na base dos preços atuais do arrendamento, ficou ela paga
em pouco tempo.
39 Várias vezes ouvimos, na região,a expressão: “trigo é cultura de doutor...”.
40 O valor médio de pagamento aos assalariados é de Cr$ 800,00, frequentemente com direito a uma lavoura de subsistência, a “horta”. Para tratoristas, por vezes só empregados
por tarefa, o pagamento é da ordem de Cr$ 6.000,00. Nos dois casos, tratam-se de salários mensais.
41 Dizem os lavradores dessa área que a adubação é desaconselhável nas terras pretas, pois provoca grande desenvolvimento da planta em prejuízo das espigas.

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Foto 18 – Paisagem do trigo em área de terrenos sedimentares – Terreno preparado para o plantio, vendo-se ao fundo, a sede
da propriedade, caracteristicamente cercada pelo arvoredo.

Foto: I. N. Takeda.

O plantio do trigo é feito a partir dos últimos dias de abril, terminando, se as chuvas de outono não forem excessivas, na
primeira quinzena de julho: caso contrário, estendem-se até agôsto. Essa grande duração da fase de plantio é explicada pela
necessidade de, com o menor número de semeadeiras, plantar a maior área possível: o tempo estando firme, chega-se até
mesmo a trabalhar à noite. Para compensar o longo período do plantio, empregam-se variedades com diferentes ciclos vegeta-
tivos, começando pela de duração mais longa, que é a “Rio Negro”, usualmente semeada nas encostas mais baixas, por se estar,
então, em período relativamente sêco. Seguem-se então as demais variedades (Frontana, Bagé, Fortaleza, Prelúdio, Lavras),
com predominância da Frontana que, apesar de exigir colheita imediata, pois “deita” logo que a espiga amadurece, é preferida
devido a sua boa aceitação no mercado e altos rendimentos.
A colheita é iniciada na primeira quinzena de novembro, ou a mais tardar na segunda, devendo a safra estar terminada
até o fim do ano. Sendo êsse período relativamente curto, é a colheita feita por automotrizes combinadas42, recorrendo-se à
mão-de-obra suplementar, constituída por diaristas, obtidos na própria área rural ou nos núcleos urbanos43. Os que não pos-
suem automotrizes combinadas, alugam-as de vizinhos ou de pessoas que as possuem para êsse fim, ou entregam a colheita a
“empreiteiros”, já havendo mesmo uma companhia (COMATA), que se dedica a êsse trabalho.
Sendo tanto o plantio quanto a colheita operações mecanizadas, grande é o número de máquinas agrícolas empregado
apenas na cultura do trigo: em 1956 registraram-se 550 tratores e 150 automotrizes combinadas no município.

42 A automotriz colhe, em média, 400 sacas, correspondendo, por dia, a 6-8 quadras agrícolas.
43 Para efeito de avaliação dos braços extras necessários, a propriedade de Cerro do Ouro, com apenas 6 empregados fixos, usa, na época da colheita, num período médio de 40
dias, 20 diaristas. O pagamento dessa mão-de-obra é feito na base de Cr$ 100,00 a Cr$ 120,00 por dia, “a seco” (sem direito a refeições), fora as horas estraordinárias.

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A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

No período da entre-safra os campos raramente são utilizados: alguns plantadores, proprietários das terras, poderão, nes-
se período, plantar leguminosas, como a soja ou o “feijão miúdo”, que servem de adubo verde. Essa prática, em tese elogiável,
encontra na região numerosos, obstáculos, entre êles o de sobrecarregar o calendário agrícola: colhido o trigo, tem-se que pro-
ceder imediatamente à aração e plantio das leguminosas a fim de colher-se em abril a tempo de preparar-se novamente o solo
para o início da semeadura do trigo, no fim desse mês. Outro fato que trava o desenvolvimento das culturas de leguminosas é
a necessidade de se deixar os campos para o gado, que aproveita a “soca”: a entre-safra do trigo, correspondendo à estiagem,
coincide com a fase mais crítica da pecuária, que precisa convocar todos seus recursos a fim de poder atender às necessidades
dos rebanhos. Os proprietários de terras, possuindo gado, soltam-no então no restolho; os arrendatários, por sua vez, não
possuindo gado, alugam as terras para os criadores44. Por outro lado, predominando o sistema de arrendamento, a maioria não
se preocupa com a manutenção da fertilidade dos solos; além disso, como os adubos empregados tem sido suficientes para
manter bons rendimentos, muito poucos acham compensador o plantio de leguminosas para obtenção de adubo verde.
Dentro das técnicas empregadas, os rendimentos são satisfatórios, variando, normalmente, com o tipo de solo e, espora-
dicamente, com as condições climáticas. Nas terras pretas, sem adubação, o rendimento médio é da ordem de 40-50 sacas de
60 quilos por quadra agrícola, podendo alcançar até 60 sacas; nos outros tipos de solos, com adubação, é em média de 35 sacas
chegando, ao máximo a 50 sacas. Se as condições climáticas forem desfavoráveis esses rendimentos podem descer a 30 e 20
sacas, respectivamente para as terras pretas e outros tipos de solo.
Com uma produção sempre crescente, o trigo representa hoje o principal produto agrícola do município. No ano de 1957
foram expedidas de São Gabriel, por ferrovia, 34.523 ton. de trigo em grão e 760 ton de farinha de trigo45, com destino, princi-
palmente, para Rio Grande e Pôrto Alegre, de onde é redistribuído para o resto do país.

O “habitat” e as paisagens rurais


Tomadas em conjunto, pode-se dizer que as paisagens rurais da região de São Gabriel tem como base os elementos liga-
dos à atividade tradicional da criação de gado.
Os quadros citados pela pecuária, embora de marcante individualidade, são extremamente uniformes, pois que as unida-
des agrárias pastoris, as “estâncias”, pouco variam entre si, repetindo-se sempre os mesmos elementos. Do sistema de criação
extensiva, ligado à grande propriedade, resultam as grandes áreas em pastos, apenas interrompidas, a distâncias bastante
grandes, por grupos de árvores. De um lado, tratam-se dos capões de mata e dos eucaliptais, que servem de refúgio ao gado
contra o sol, o vento e as geadas. Por outro lado, esses agrupamentos de árvores correspondem ao “arvoredo”, o pomar que,
por praxe, envolve ou serve de fundo à casa de residência, formando um anteparo contra os ventos, especialmente o minuano,
ao mesmo tempo que fornece frutas. Além das matas, eucaliptais e pomares, a imensa extensão das pastagens só é interrom-
pida, aqui e ali, pelos “açudes”, esses pequenos reservatórios dágua para uso do gado, obtido pela barragem de cursos dágua
por diques de terra.
Nessa imensidão de pastos, apenas cortada pelos agrupamentos de árvores que se destacam na paisagem, o “habitat” se
nos apresenta essencialmente disperso, representado pelo conjunto de construções que forma a sede das estâncias46. Todos
os elementos de trabalho e de alojamento aí se encontram reunidos: a casa de moradia, os depósitos, os alojamentos dos em-
pregados, as instalações necessárias à atividade pastoril. As construções ficam, em regra, no topo ou na ruptura de declive das
coxilhas, podendo variar sua posição em relação ao conjunto da propriedade, ora ficando em uma extremidade das terras, ora
em ponto mais centralizado. É claro que o número de construções, suas dimensões e seu aspecto não são uniformes, variando
de acordo com o tamanho e tipo da propriedade; mas há tipos médios, bem definidos, que podem servir como exemplo e nos
quais nos basearemos para descrever como se apresenta uma sede de estância.

Foto 19 – Sede da estância – Os pontos em que se localizam as sedes das estâncias destacam-se na paisagem das imensas
pastagens pelo arvoredo que a cerca. O conjunto de construções (sede, depósito, galpão) dispõe-se em alinhamento. À
direita, visão parcial de um açude (Estância Inhatium).

Foto: I. N. Takeda.

44 O aluguel varia de Cr$ 10,00 a Cr$ 50,00 por cabeça, por mês.
45 Só em épocas de safras excepcionais segue o trigo por rodovia, pois enquanto o frete ferroviário é de Cr$ 39,00 por saca, os caminhões cobram Cr$ 45,00.
46 Na parte referente ao “habitat” contamos com elementos colhidos pelo Prof. Michel Tabuteau, além de informações fornecidas por todos os grupos de trabalho.

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Foto 20 – Casas de arrendatários com cultura de trigo – À imitação das estâncias, também são cercadas de árvores. Notar, na
casa da direita, um pouco escondido pelas árvores, o galpão, de construção rústica.

Foto: I. N. Takeda.

A casa de residência principal é a mais ampla e bem acabada construção do conjunto, às vêzes já bastante antiga, mas com
dependências mais recentemente acrescentadas, tais como: terraços e pátios. O planejamento interno é simples, caracterizado
pela disposição de cômodos enfileirados, relativamente dependentes de uma sala principal, plano tão comum nas grandes
residências rurais brasileiras. Internamente, o conforto é relativo, mesmo porque, cada vez mais, os proprietários tendem a
morar na cidade, passando na estância apenas alguns meses por ano: móveis freqüentemente antigos, mas sólidos e por vezes
bonitos, dispondo-se de maneira singela num ambiente simples, despido de ornamentos supérfluos, mas escrupulosamente
limpos. Na sala, em todas as casas que visitamos, aparece um elemento constante: a lareira. Às vezes, certos recursos modernos
estão também presentes, como um refrigerador (a querozene) ou um rádio de pilha.
Ao lado da residência principal é comum aparecer uma outra casa menor: poderá ser ocupada pelo filho do proprietário,
que administra a fazenda, servir de casa-de-hóspedes, destinando-se a suprir as acomodações da casa principal em períodos de
maior afluxo de visitantes, ou ser a moradia do capataz. Esta segunda casa é pequena, constando de poucas peças básicas: sala,
quarto e banheiro, a ausência da cozinha como que indicando uma dependência em relação à residência principal.
Finalmente, ainda dentro das construções residenciais, tem-se o alojamento dos empregados da estância, o “galpão dos
peões”, “galpão da peonada” ou, simplesmente, “galpão”. Há casos, nas construções mais antigas, em que o galpão fica anexo à
casa do proprietário; agora, é mais comum ficar isolado, fato que já foi interpretado como um indício de maior distância social
entre o estancieiro e seus empregados47. Trata-se de moradia coletiva dos peões, típica das estâncias, de construção rústica.
Uma grande peça principal, em um só corpo ou em corpos contínuos, sem divisão, serve de depósito e de sala social: aí cozinha-
se, num fogão de trempe, no meio da sala, ou numa lareira encostada à parede; aí reúnem-se os peões à noite, para as refeições
e as conversas ao pé do fogo, regadas a chimarrão. Além dessa peça principal, há os quartos, cômodos separados por divisões
simples, por vêzes comunicando-se entre si e sem portas que as isolem. Freqüentemente, o galpão não tem forro e nem asso-
alho: o teto é de telha vã, o chão de terra batida. Num caso, entretanto, encontramos um galpão com chão recoberto de tijolos
e, em outro, com teto forrado, pois que, sob o telhado, ficava o paiol.

Foto 21 – Vista parcial das instalações da sede de uma estância - Num mesmo alinhamento, vê-se, da esquerda para a direita,
a moradia principal, a tão freqüentemente encontrada morada secundaria e depósito. A fotografia não alcançou o galpão dos
peões, que se seguia aos depósitos (Estância do Inhatium).

Foto: I. N. Takeda.

47 SODRÉ (Nelson Wernek) – O Galpão, in “Tipos e Aspectos do Brasil”, Rio de Janeiro, I. B. G. E. , 1956, pág.375.

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A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

Foto 22 – Vista parcial de um “galpão de esquila” – Interior de um galpão destinado à operação de tosquia das ovelhas e
depósito de lã.

Foto: I. N. Taked.

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Além das residências, o núcleo da sede agrupa ainda as instalações necessárias à lide pastoril. Tomando-se como base a
estância tradicional, aí ficam os currais, as mangueiras, o banheiro carrapaticida, necessários à criação do gado bovino. Todos
esses elementos concentram-se ao redor da sede, representando as várias fases de trabalho que o criador tem com o rebanho,
desde a separação de reprodutores, vacas de cria e do “desfrute”, até o banho contra parasitas.
Êste quadro, que já estaria completo até fins do século passado, é hoje mais rico, graças à introdução da criação de car-
neiros, que veio acrescentar ao núcleo das sedes outros traços: a casa ou galpão de “esquila”, os currais e banheiros especiais
para os carneiros, os depósitos para a lã. Em alguns casos não houve construção especial para a “esquila” e o depósito de lã,
servindo, para êsses fins, o próprio galpão dos peões; em outros casos, porém, há o aparecimento de um segundo galpão, re-
servado ao alojamento dos “esquiladores”, ao depósito de lã e à operação de tosquia. O que sempre foi acrescentado é o curral
para os carneiros, o banheiro especial, preferivelmente localizado junto à instalação dos “esquiladores”. Além da introdução de
novos elementos na paisagem das estâncias, a criação de carneiros veio modificar alguns dos já existentes. Embora se trate de
uma questão de detalhe, podemos citar as alterações observadas nas cêrcas dividindo as propriedades entre si ou mesmo os
“postos” ou diversas áreas de pastagens da mesma estância: enquanto só havia o gado bovino, as cercas eram de 3 fios, de ara-
me farpado; com a introdução do carneiro, houve necessidade de uma trama bem fechada, passando as cercas a serem feitas
com 5 fios. Além disso, foi também preciso substituir o arame farpado por arame liso, pois que aquele, quando tocava o animal,
arrancava-lhe a lã48. Daí as cercas atuais, de 5 fios, sendo 4 de arame liso e apenas um, o segundo de cima para baixo, de arame
farpado que, por sua altura, não será atingido pelos carneiros e só servirá para afastar as rezes.
O conjunto de instalações que forma o núcleo da estância poderá se repetir, em escala mais modesta, dentro da mesma
propriedade. Isto ocorre quando a estância, por ser muito grande, é dividida em “postos”: em cada um aparece, numa réplica
modesta de sede, a casa principal (neste caso ocupada pelo capataz-posteiro) e, ao lado, o galpão dos peões. Conforme a or-
ganização do trabalho na estância, o “posto” poderá também contar com currais e banheiros carrapaticidas; só o “galpão da
esquila” é que não aparece, pois o trabalho de tosquia é centralizado na sede.
No passado as estâncias eram mais habitadas, pois, além do núcleo da sede e dos “postos”, havia ainda as moradias dos
“agregados”. Tratava-se de pessoas que moravam em pontos extremos da propriedade, com direito a fazer pequena roça de
subsistência, a trôco de serviços avulsos prestados na estância. O “agregado” é hoje um tipo humano praticamente desapare-
cido, graças ao êxodo rural, cada vez mais acentuado, e às novas possibilidades abertas para êsse pessoal ou o incremento da
agricultura comercial. A estância de hoje é menos povoada que antigamente: desaparecem os agregados e o número de peões
é hoje menor do que já foi.
Essa paisagem e êsse “habitat”, ligados à tradicional atividade da criação, só são encontrados, em seus traços mais puros
e típicos, em algumas áreas da região de São Gabriel. Em outras, encontram-se modificados, graças à introdução e difusão das
atividades agrícolas.
Antes de mais nada, mesmo no caso de ser o próprio estancieiro quem explora a lavoura do arroz ou do trigo, as duas
atividades – criação e agricultura – quase nenhuma ligação apresentam. Cada uma delas tem pessoal à parte e, as vêzes, até
mesmo seu próprio capataz; cada área de ocupação recebe designação diferente, “estância” para a parte dedicada ao pastoreio,
“granja” para a porção cultivada. Quando a “granja” constitui a menor parte de uma propriedade há um desdobramento do
“habitat”, aparecendo novos conjuntos de construções, destinadas aos trabalhadores, à maquinaria e aos depósitos agrícolas.
Essas construções não tem sempre a mesma disposição e aspecto. Às vêzes, a presença de um capataz só para a agricultura cria
um pequeno conjunto que lembra o da sede da estância: uma casa de moradia ao lado de um galpão que, embora construído
dentro dos moldes tradicionais, serve de depósito da maquinaria. Como o trabalhador agrícola frequentemente tem família,
diferentemente dos peões, em regra solteiros, os alojamentos comuns desaparecem, substituídos por casas várias, que se
agrupam, desordenadamente, ao redor do galpão da máquinas e da moradia do capataz. A ordem linear da sede da estância é,
pois, substituída por um agrupamento amorfo, com maior número de construções. No caso da cultura do arroz, êsses conjuntos
localizam-se à beira da várzea que é utilizada, em ponto pouco elevado e sêco. No caso do trigo não há regra geral na localização
em relação às culturas, talvez devido à sua itinerância mais desordenada (o arroz, mesmo itinerante, sempre fica limitado às
várzeas) : de qualquer forma, procuram pontos elevados e cercam-se de arvoredo, à moda das sedes de estância.
Quando se trata de antiga estância em processo de evolução para a agricultura, há tôda uma série de adaptações. A sede
fica ainda ligada à criação, tanto assim que aí reside o capataz do gado. Mas as demais construções sofrem modificações e novas
unidades são acrescentadas. Numa propriedade visitada, ao sul de São Gabriel, o antigo galpão dos peões é hoje depósito de
sementes, só sendo ocupado como moradia na época da colheita do trigo pelos trabalhadores diaristas então contratados. Foi
construído um novo e grande galpão que, na sua maior parte, serve de depósito de trigo e de hangar e oficina para a maquina-
ria; a parte menor, separada por tabiques de madeira, é que serve de alojamento aos peões. Se a presença da agricultura faz-se
sentir da sede, há, no entanto, dissociação no que diz respeito às moradias dos que cultivam a terra: tanto o capataz quanto o
pessoal permanente de lavoura moram em casas isoladas “nos fundos”, mas não muito afastadas da sede, cercadas por peque-
nos pomares e hortas individuais.
No caso de áreas cultivadas por arrendatários a habitação sugere, freqüentemente, a tradicional sede de estância: há a
residência e, ao lado, o galpão. Este serve mais ao abrigo da maquinaria que de alojamento de empregados, pouco numerosos
entre arrendatários, sendo às vêzes de construção rústica, simples armação de madeira coberta de galhos secos ou de palha,
constituindo o que chamam de “ramada”. De modo geral, no entanto, os arrendatários, que tendem a permanecer longo tempo
na mesma propriedade através de renovação de contrato, fazem construções relativamente sólidas, de tijolos, recobertas de
telhas. São bastante raras, no município de São Gabriel, as casas rústicas de taipa ou de tijolos de turfa, recobertas de palha: se
aparecem, são como galpões, só excepcionalmente como moradias.
48 Dizem alguns criadores que o carneiro, sentindo o cheiro da lã na cerca força a passagem, talvez por pensar que por ali passara outro animal, prejudicando, assim, sua lã e
podendo se machucar.

91
A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

Se o “habitat” ligado ao arrendatário, lavrador de trigo, pode aparecer disperso pela propriedade, correspondendo cada
conjunto de construções a uma unidade de cultivo, êle pode, também, tender à aglomeração. Assim, no caminho entre o
desvio de São Sepé e São Gabriel, dois “povoados”49, de Vila Nova e de Santa Margarida, contam, entre seus habitantes, com
grande representação de arrendatários. Curioso é que as casas, dispostas junto à estrada, favorecem às famílias uma atividade
suplementar, à base de bares e petiscarias para servir aos viajantes. Trata-se de arrendatários que não possuem maquinaria,
alugando-a, e que, por esse motivo, não necessitam de construções especiais dentro da área que cultivam.
Às vêzes o arrendatário poderá, até mesmo, morar nos núcleos urbanos. Trata-se, então, de arrendatários absentistas,
que entregam a lavoura a capatazes, desenvolvendo nas cidades outra atividade. Tiarajú constiui exemplo bem típico dêsses
pequenos centros urbanos intimamente ligados à vida rural vizinha. O núcleo nasceu no século passado, em função da estrada
de ferro Pelotas-Urugauiana e do ramal que, de Cacequi, estabelece ligação com Pôrto Alegre por intermédio de Santa Maria.
A semente da aglomeração foi a estação, em tôrno da qual se localizavam vários elementos, hoje bem típicos da atividade rural:
máquinas de beneficiamento de arroz, depósitos para trigo, currais para o embarque de gado. Ao lado dos empregados dessas
organizações e da estrada de ferro, Tiarajú reúne famílias intimamente ligadas às lides do campo: diaristas, tratoristas, arrenda-
tários. As demais atividades, de ordem religiosa, escolar ou administrativa, não caracterizam a comunidade, não criam funções
especiais e nem servem para defini-la. Tiarajú é essencialmente um centro rural, sem sinais significativos de vida urbana.

Foto 23 – O peão, tipo humano tradicional da Campanha – Como símbolo da ocupação tradicional da Campanha o peão
apresenta-se como o tipo humano característico.

Foto: A. R. Penteado.

Assim, embora ainda seja padrão o “habitat” rural disperso, originado pela criação, sentem-se os primeiros sinais de
tendências para a aglomeração, em conseqüência do sistema de arrendamento agrícola. Ao lado da transformação ocorrida no
“habitat” a ocupação do solo acusa modificações ainda mais sensíveis, alterando as linhas mestras das paisagens tradicionais da
Campanha. Ao lado dos pastos a perder de vista, que ainda predominam no quadrante NW do município, apenas cortados, aqui
e ali pelos arrozais, surgem as não pequenas extensões de trigais, especialmente na porção SE da área de São Gabriel. Percor-
rendo-se a região, não se tem a confirmação de que as paisagens da Campanha são monótonas e bem estabelecidas, tendo-se,
ao contrário, a sensação de estar-se diante de um processo de mudança no sentido de maior diversificação e, principalmente,
de quadros ainda não perfeitamente definidos. A maior variedade na ocupação do solo parece resultar em melhor aproveita-
mento, quer considerando-se o aproveitamento de áreas anteriormente abandonadas, como a de várzeas, quer o melhor rendi-
mento de terras férteis, como as pretas, de vocação evidentemente agrícola. É verdade, no entanto, que essas modificações são
ainda muito recentes para se poder aquilatar suas possibilidades de permanência. Os problemas ligados à agricultura são tão
numerosos e sérios quanto os que cercam a pecuária. A região passa por um período de mudança, de redefinição de valores, e é
ainda muito cedo para se poder considerar o que observamos como algo de definitivo. De qualquer forma, as novas tendências
já produziram seus frutos e delas ficarão, mesmo se não vingarem, as marcas na paisagem.

49 Na região dão o nome de “povoado” a qualquer conjunto de casas.

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NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

Foto 24 – O novo tipo humano da Campanha: o tratorista - Em contraposição ao peão, o tratorista é o símbolo da fase
moderna da Campanha, a do desenvolvimento da agricultura. À direita, vê-se uma construção nova: o galpão da maquinaria.
Ao fundo, a sede da propriedade, com sua característica cercadura de árvores.

Foto: E. Píccolo.

V - A CIDADE DE SÃO GABRIEL


A cidade de São Gabriel, seguindo o sítio clássico de tôdo o “habitat” da região, está localizada sobre uma elevação. Trata-
se de “coxilha” de tôpo relativamente amplo que, com altitudes de 110-120 m, alarga-se bastante para o N e W, descambando
suavemente nessas direções. A L e ao S o declive é mais abrupto, pois que aí sofreu erosão pelo rio Vacacaí e seu afluente a
“sanga” da Bica.
No conjunto da região, São Gabriel se nos apresenta como ponto de concentração de várias vias de circulação, ligando-se
a Bagé e Livramento, em direção ao S, a Rosário a W, a Santa Maria ao N e a São Sepé a L. Mantém-se, assim, como que uma
pré-destinação histórica, uma vez que nasceu em função do cruzamento das estradas que partiam de quatro enormes estâncias
do passado: São Luís, que hoje compõe o município de Alegrete, São Vicente e São Pedro Mártir, no atual município de Santa
Maria e Santa Tecla, hoje no município de Bagé. Essa posição de nó de comunicações, importante na primeira fase de desen-
volvimento da cidade, não logrou garantir à cidade, ainda, um papel de centro de ligação entre as várias regiões ou dar-lhe a
posição de capital regional. São Gabriel, dentro da hierarquia das cidades gaúchas50 é apenas um “centro local”, com modesta
função de relação, servindo, basicamente, à área imediatamente vizinha. Dêste ponto de vista, suas ligações com o exterior são
de ordem secundária, destacando-se suas ligações com a sua área rural imediata, tão íntimas que as formas de atividades e os
problemas do meio rural refletem-se nitidamente na vida urbana.
Como centro de área pastoril, posição em que se manteve até pouco tempo, São Gabriel cresceu lentamente. Do núcleo
inicial, representado pela praça principal da cidade e localizado na espécie de promontório que o topo da colina desenha em
direção ao Vacacaí, o núcleo começou por ocupar a parte mais elevada da “coxilha”, avançando para W; a partir de 1873, ain-
da na mesma direção, começou a descer a vertente chegando, em 1938, às margens da via férrea, que, além do declive mais
suave, influiu também no crescimento da cidade naquela direção. Êsse desenvolvimento foi relativamente lento, pois que se
processou num período de 137 anos, a contar da fundação da cidade (1801). Foi a partir de 1950, quando se desenvolveu a tri-
ticultura no município, que a cidade tomou impulso, expandindo-se, principalmente, em direção ao N e aumentando sua área,
praticamente, de 2/3 da que possuía até aquela data. Êsse crescimento recente da cidade, que coincide com o incremento da
agricultura na região, corresponde à atração que a cidade passou a exercer sobre a população rural, para aí atraída devido às
novas possibilidades de trabalho, surgidas em função das máquinas de beneficiamento, dos armazéns, dos serviços de trans-
porte. Paralelamente, observou-se sensível aumento do crescimento vegetativo da população de São Gabriel a partir de 1951,
com ápice em 1955, graças, como se nota, ao desenvolvimento da natalidade:

Ano Nascimento Óbitos Crescimento Vegetativo


1946 813 508 305
1947 836 458 398
1948 781 480 301
1949 792 462 330
1950 870 462 408
1951 1.354 437 917
1952 1.487 467 1.020
1953 1.432 507 925
1954 1.441 488 953
1955 1.669 549 1.120
1956 1.595 518 1.077
1957 1.564 607 957
51

50 GEIGER (Pedro Pinchas), Exemplos de hierarquia de cidades no Brasil, in “Boletim Carioca de Geografia”, Ano X, nº 3-4, págs. 5-15.
51 Dados fornecidos pelo Serviço de Estatística Regional.

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A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

Planta do sítio urbano

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NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

Foto 25 – O sítio de São Gabriel – Visto de leste, da outra margem do Vacacaí.

Foto: I. N. Takeda.

Foto 26 – Local de nascimento da cidade – No topo da colina, hoje correspondendo à sua praça principal.

Foto: I. N. Takeda.

Além do crescimento marcante cujo início coincide com as primeiras safras representativas do trigo no município, a cidade
tem-se modificado nos últimos anos. São Gabriel foi uma cidade pacata, servindo de residência a estancieiros, atendendo por
seu comercio varejista, até hoje não muito importante, às necessidades da população rural, girando tôda sua vida econômica e
seus interêsses ao redor da pecuária. Através da “Associação Rural”, logo reuniu os pecuaristas que, assim organizados, encon-
travam maiores facilidades para enfrentar demandas, adquirir medicamentos e vacinas para o gado, expor, comprar e vender
animais por meio de sua exposição anual. Essa associação mantém ainda todo seu prestígio, o que é atestado pelo valor cres-
cente das transações efetuadas por seu intermédio:
1942 Cr$ 909.800,00
1943 1.029.994,00
1944 2.590.491,00
1945 1.235.490,00
1946 1.545.560,00
1947 1.747.300,00
1948 2.246.645,00
1949 2.631.750,00
1950 Não há dados
1951 2.142.140,00
1952 2.439.400,00
1953 2.978.190,00
1954 3.776.700,00
1955 5.313.950,00
1956 6.729.717,00
1957 8.549.000,001
52

52 Dados fornecidos pela Associação Rural.

95
A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

Hoje, com o desenvolvimento da agricultura, multiplicaram-se as instituições cooperativas na cidade, contribuindo consi-
deravelmente para mudar seu ritmo de vida e até mesmo seu aspecto. As primeiras foram as de arroz, de que atualmente exis-
tem duas: a do “Engenho Gabrielense” e a “Batoví”, fundadas, respectivamente em 1947 e 1951. Congregando os produtores
de arroz que possuam um mínimo de 3 quadras cultivadas, essas cooperativas se encarregam do beneficiamento, armazena-
mento, venda e embarque do produto, garantindo ainda o fornecimento de sementes e o serviço de manutenção da maquinaria
agrícola. Embora haja vários “engenhos” de arroz particulares, que beneficiam o produto de vários lavradores, as cooperati-
vas encarregam-se da maior parte, tendo, em 1957, beneficiado 231.000 sacas, cabendo 63.000 ao “Engenho Gabrielense” e
168.000 à “Cooperativa Arrozeira Batovi”53.

Foto 27 – Rua central da cidade de São Gabriel – As casas tem estilo arquitetônico uniforme, devendo datar da mesma época,
provavelmente fins do século passado ou início deste século.

Foto: I. N. Takeda.
53 Dados fornecidos pelas cooperativas de arroz.

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NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

Foto 28 – Rua da periferia da cidade de São Gabriel – Com o recente crescimento da cidade, novas ruas vem sendo abertas
em sua periferia, sendo bastante numerosas aí as construções novas.

Foto: I. N. Takeda.

Ao lado das cooperativas de arroz surgiram, há cêrca de três anos, as que filiam os produtores de trigo; conta a cidade com
duas organizações especializadas, a “São Gabriel” e a “Vacacaí”, servindo ainda a esse fim o “Engenho Gabrielense” que, por
não haver coincidência de safras, dedica-se também ao beneficiamento e armazenamento do trigo.
Êsse movimento cooperativista, nascido em tradicional organização ligada à pecuária, ampliado pelas que se ligaram à
rizicultura e triticultura, acabou por se completar com a fundação de mais duas associações: a cooperativa da lã e a de consumo.
A cooperativa de lã “Tejupá” , fundada em 1952, comercializa a lã, classifica-a, coloca-a, encarregando-se ainda de fornecer
máquinas de tosquia aos associados; seu raio de ação é relativamente mais amplo que das outras associações congêres, abran-
gendo criadores de Lavras do Sul, Caçapava do Sul, Rosário do Sul e General Vargas. A cooperativa de consumo tem por objetivo
vender aos associados todos os bens de consumo, desde gêneros de primeira necessidade, tecidos e confecções até adubos,
sementes e maquinaria agrícola.
Tôdas essas organizações cooperativistas, concentrando a produção e atendendo aos interêsses dos pecuaristas e agricul-
tura tiveram sensível influência na vida da cidade, sem se contar a que teve em seu crescimento, a que já nos referimos. São Ga-
briel, que antes só se animava, por assim dizer, com a feira anual do gado, é hoje uma cidade bastante movimentada, agitando-
se a cada período sucessivo de safra. Suas ruas são constantemente percorridas por caminhões e por tratores, estabelecendo
a ligação entre o meio rural e os centros de beneficiamento e comércio de produtos. A cidade, outrora tipicamente um centro
comercial e social modesto, recebeu tôda uma série de novos elementos, representado pelas grandes construções de armaze-
namento e beneficiamento de cereais, pelos depósitos e oficinas de veículos e de maquinaria. Ultimamente, acrescentaram-se
mais duas grandes obras: o Frigorífico Santa Brígida, que nos primeiros meses de 1959 deverá estar em pleno funcionamento,
e o grande silo recém-terminado, construído por iniciativa da “ Rede Nacional de Armazéns e Silos”.
Ao lado dessas organizações, direta e intimamente ligadas à produção de sua área rural, São Gabriel recebeu também
outras instituições, indiretamente aí estabelecidas em função do desenvolvimento de sua atividade econômica. Podem-se citar
as companhias que empreitam o serviço mecanizado das lavouras, vendem ou alugam a maquinaria, como a COMATA; os vários
bancos que se encarregam dos financiamentos e das transações54 e as instalações oficiais de incremento agrícola, como, por
exemplo, o Posto de Agrostologia, que vem funcionando como uma estação experimental de forragens.

Foto 29 – Vista da cidade de São Gabriel – Nota-se, ao fundo e à esquerda, o silo recém-construído e que já integra a
paisagem urbana.

Foto: A. R. Pentado.

54 Podemos citar o “Banco da Província do Rio Grande do Sul”, o “Banco do Rio Grande do Sul”, o “Banco Nacional do Comércio”, o “Banco do Brasil” e o “Banco Agrícola Mer-
cantil”.

97
A REGIÃO DE SÃO GABRIEL

Foto 30 – Vista interna de parte das instalações do novo frigorífico – Local de corte e preparo da carne antes de ser colocada
nas câmaras frigoríficas.

Foto: I. N. Takeda.

Foto 31 – Tráfego em rua da área periférica de São Gabriel - Nas ruas que servem de entrada da cidade o tráfego é por vêzes
não só intenso como composto dos mais variados tipos de veículos. No caso, nota-se uma carreta de bois, jipe, carroça,
caminhão e bicicleta.

Foto: I. N. Takeda.

Foto 32 – Carregamento de arroz diretamente dos armazéns – Os grandes armazéns de cereais, localizados à margem da
estrada de ferro, contam com ramais particulares que permitem o carregamento direto.

Foto: I. N. Takeda.

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NICE LECOCQ MÜLLER (COORD.)

Com tudo isso, mudou o ritmo de vida de São Gabriel, mudou a paisagem urbana. Com maior diversificação de funções,
com a crescente importância econômica, São Gabriel vem, também, aumentando seu raio de ação. Embora esteja longe de po-
der ser comparada com Santa Maria, verdadeira “capital regional” e ainda não possa se emparelhar com outros centros urbanos
da Campanha, como Bagé, Livramento, Uruguaiana e Alegrete, a cidade de São Gabriel, sendo ainda um centro local, já começa
a fazer sentir sua influência sôbre vários municípios vizinhos. Para isso contribui o nódulo de comunicações aí estabelecido; no
entanto, é inegável que os serviços oferecidos pelas várias cooperativas e, agora, pelo novo frigorífico e pelo silo são também
responsáveis pela drenagem da produção de áreas extra-municipais para a cidade de São Gabriel.
Com seus 17.958 habitantes na área urbana, São Gabriel acusa o grande desenvolvimento por que passou, uma vez que,
em 1950, o censo acusou, naquela mesma área, apenas 7.511 almas. Se ainda tem aspecto de cidade tradicional em sua parte
mais central e antiga, o crescimento recente da periferia, o movimento de suas ruas, os vários problemas que a administração
municipal enfrenta, acusam uma verdadeira “crise de crescimento”. A cidade está em plena mudança, refletindo o fenômeno a
que se assiste em sua área rural.

VI - CONCLUSÃO
Dos estudos realizados na cidade e no município de São Gabriel sente-se tratar-se de área que, pertencendo embora à
grande região geográfica da Campanha, começa a tomar rumos inteiramente novos que, talvez, também se façam sentir em
outras áreas, como a de Bagé. Sendo o fenômeno ainda recente, o que explica o caráter provisório de muitas das soluções ado-
tadas para os vários problemas, não é possível prever-se, de modo seguro, quais suas perspectivas futuras. Na procura, ainda
confusa, de melhor aproveitamento de suas possibilidades, apenas se esboçam algumas linhas mestras de prováveis novas
funções e paisagens. O processo de mudança, ainda em andamento, poderá alterar seus rumos e descobrir novos caminhos. É
tudo muito atual para se poder distinguir o que se tornará definitivo.
De qualquer forma, mesmo que tudo o que descrevemos ainda venha a se modificar, teremos fixado um momento da
evolução geográfica de um pequeno trecho da Campanha gaúcha, a região de São Gabriel.

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A VEGETAÇÃO DA FAIXA COSTEIRA SUL-RIO-GRANDENSE

CAPÍTULO 6
A VEGETAÇÃO DA FAIXA COSTERIA SUL-RIO-GRANDENSE1
IR. JUVÊNCIO
A zona costeira do Rio Grande do Sul possui uma área aproximada de 33.000 Km2 e abrange 9,5% da superfície total do
Estado, 50% dos quais ocupados pelas águas. São 643 Km de costas a partir da fronteira de Santa Catarina ao arroio Xuí, marco
limítrofe com o Uruguai. E’ uma faixa estreita, de norte a sul, cuja largura oscila muito sendo que se registram as mais impor-
tantes variantes nas regiões de Tôrres com 0 Km, Osório com 15 Km, Tapes com 80 Km, Pelotas com 45 Km, Jaguarão com 80
Km. O relêvo desta extensão é relativamente fraco, acusando em média 10 m. De norte a sul pode-se seccionar a área em três
setores distintos: Tôrres-Palmares, Palmares-molhes de Rio Grande ou restinga de Pernambuco, ainda conhecida por restinga
do Estreito, e molhes-Xuí ou restinga do Albardão.
Os sedimentos quaternários de que é formada pertencem ao holoceno e ao pleistoceno. Próximo à orla marítima se
estende uma área dunar cuja largura e altura variam muito. A maior extensão dos cômoros de areia e, conseqüentemente, as
maiores alturas das mesmas, se localizam na retaguarda das praias do Quintão, São José do Norte e Sarita. Nestes mesmos lo-
cais a mobilidade dunar é bastante acentuada. Êste fenômeno é coadjuvado pela dominância de fortes ventos locais que secam
a exondação marinha e a enviam para o interior. As dunas ganham tal mobilidade que invadem as lagunas costeiras e acabam,
freqüentemente, por aterrá-las. As primeiras filas de dunas são impelidas para o interior pelas segundas, estas pelas que se
formam a seguir, de sorte que verdadeiro sistema de vagas de assalto arenoso desencadeia-se sôbre a planície contígua à praia.
Distinguem-se na costa gaúcha línguas de areia, dunas latitudinais, dunas longitudinais, dunas semicirculares ou falsiformes,
marcos ondulatórios e dunas fixas de vegetação. A primeira fila de dunas por detrás da linha do estirâncio se fixa logo sob a
influência da umidade marítima e se recobre de uma viridente gramínea halófila.
A altura das dunas varia muito. A fila paralela à orla marítima mede de 1 a 6 m e as maiores, no interior dêsse verdadeiro
mar de cômoros de areia, atingem de 10 a 20 m. Essa imensidade de areia não provem unicamente da devolução do transporte
fluvial, mas antes da serra granítica soçobrada no oceano por ocasião da grande fratura que deu origem às escarpas do norte,
centro e sudeste do Estado hoje interiorizadas pelas restingas litorâneas. As antigas enseadas foram colmatadas e a costa sul
-riograndense, em largos traços, descreve uma curva convexa voltada para o sudeste.
Por detrás da faixa das dunas migrantes estendem três variedades geomórficas cuja estruturação resulta do incessante
recuo do mar com a implantação das restingas: laguna, pantanal e planície. E’ efêmera a existência delas. O acentuado recuo
marinho, 4 a 5 m por ano, e a colmatagem pela ação das lamas, areia e vegetação higrófila transforma rapidamente o aspecto
das vastas planuras. A própria coloração dêsses detritos adquire as mudanças as mais diversas em pouco tempo. A parte super-
ficial de quase tôda restinga é constituída de uma mistura de areia e húmus pardo.
A pequena declividade da faixa costeira condicionou a drenagem local. Os pequenos rios e as “gamboas” são constante-
mente obstruídos pelas vagas de areia e pela vegetação que, aos poucos, se assenhora do terreno. Aparecem, dessa forma, na
zona central da restinga, terrenos eminentemente plásticos, soltos, permeáveis, frescos e profundos. Ao passo que as lombadas
consolidadas são envolvidas por banhados e terrenos alagadiços. Êstes fatos e a ausência de estradas de sólido gabarito difi-
cultam a penetração na área costeira.
Estruturados os grandes traços que caracterizam a área costeira sul-rio-grandense, estaremos aptos a compreender me-
lhor a vegetação que se superpõe à região.
Ao se percorrer a região tem-se a impressão que houve uma regressão climática não muito remota quando uma parte da
atual restinga já se encontrava consolidada. A vegetação nem sempre teria sido o que é agora. A natureza estéril atual, onde
uma vegetação escassa e semidecídua se impôs, devia ter sido mais exuberante no inicio das formações locais. Êste fato é ates-
tado pelo encontro, lado a lado, de vegetais de mesma espécie com acentuadas diferenças de desenvolvimento e rigor. O avan-
ço das areias e outros fatores geológicos devem ter influído nesta regressão vegetativa que presenciamos atualmente. Dentre
os fatôres desfavoráveis à vegetação costeira podem-se apontar a mudança contínua dos climas sul-rio-grandenses, os borrifos
marinhos, a pobreza nutritiva das areias, a permeabilidade excessiva dos solos, o sal marinho que ainda impregna os solos, o
calor intenso do sol, a violência dos ventos, a mobilidade das dunas, a grande densidade animal nos pastos, a ação humana na
lavra dos terrenos de cultura e outros secundários.
O poder fixativo da flora desapareceu na zona interna do Albardão e, em largos trechos, da restinga do Estreito. As dunas
marcham para o interior recobrindo já, em parte, a velha planície de restinga. O solo não mudou; é a mesma areia. Portanto
a mesma vocação do terreno para a vegetação de restinga com a sua flora hoje acantonada na faixa interna e impossibilitada
de galgar o cômoro dunoso. A fitogeografia nos revela ali o acantonamento de uma flora, em tempos expansiva e na pista do
mar, hoje estabilizada em recuo em muitos pontos. Os processos geológicos de sedimentação inicial, pelo recuo do mar, ainda
continuam. A sedimentação de areias e de argilas é incessante, tanto pela ação das vagas como pela ação fluvial e eólia. Faz-
se uma dupla conquista do lado do mar pela expulsão das areias pelas vagas e sua interiorização pelo vento; do lado interno
da restinga pela precipitação de dunas nas lagunas e pela sedimentação fluvial que entulham em pouco tempo vastas áreas.
Êste último fato obriga as administrações públicas a manter constantes dragagens nos canais de acesso Pôrto Alegre, Pelotas e
outros pequenos portos internos.
Os senões do fenômeno supra podem provir somente de mutações climáticas recentes com aumento geral na graduação
térmica. E essa diferenciação mais recente dos climas pode ter provocado o aparecimento de tipos novos, adaptados a condi-
ções mais frias que ainda não conseguiram uma perfeita aclimatação mesológica.
1 Queremos deixar aqui o nosso muito obrigado ao Prof. Gilberto Osório de Andrade pela orientação e sugestões na execução deste trabalho.

100
IR. JUVÊNCIO

A restinga do Albardão é mais despida do que as faixas costeiras da restinga do Pernambuco e do trecho Palmares-Tôrres.
Além da linha de dunas, na restinga do Albardão, ergue-se uma macega baixa, seguindo-se uma área campestre plana, outra de
cômoros de areia e uma de zonas palustres. Ao sul, sôbre a laguna Mirim, um pouco afastado do arroio Xuí, encontra-se um vas-
to palmital, que deu o nome ao povoado aí chantado. E’ um território plano, cortado por pequenas colinas, depressões ínfimas
e avultado número de alagadiços. Multiplicam-se os regatos e os ribeiros marginados de matas de galeria onde sobressaem
a figueira, o sarandi, o salso, o curupi, o vime, a tarumã, a corticeira, a coronilha e outros vegetais secundários. De cá e de lá
acantonam-se florestamentos artificiais de eucaliptos. As forrageiras campestres, na área pecuarista, estão em franca melhoria.

Foto 1 – Entrada Real, 8 Km ao sul de Palmares. Pequenas matas naturais, em que predominam as figueiras bravas, localizam-
se nas lombadas consolidadas.

Foto do Autor.

A restinga de Pernambuco ou do Estreito é pobre em revestimento vegetativo. Ao sul de Palmares, em terrenos firmes,
desenvolve-se um grande butiazeiro. As pastagens das vizinhanças são pobres. Nas planícies de São Simão os capões são co-
muns. Em Mostardas, esparsos núcleos vegetais ocupam o terreno. Na área do Estreito a uniformidade do terreno é cortada por
manchas de vegetação que perlongam a estrada. Em São José do Norte a vegetação é de formação artificial para a contenção
das areias invasoras. Em geral, em tôda a restinga, encontram-se as associações vegetais mais na lombada central e no lado
externo da laguna dos Patos. As associações de pestana, a cavaleiro de lombadas consolidadas, constituem uma característica
local. Além disso, os pecuaristas, para fins econômicos e de sombra a fim de abrigar os rebanhos, plantaram numerosos capo-
netes de eucaliptos ao longo da “Estrada Real” (criada no período do Brasil-Colônia para passagem de tropas e comunicação
costeira sul-rio-grandense com o Rio de Janeiro) que corta a restinga de norte a sul (foto 1). E’ uma simples passagem pelas
areias mais consolidadas.
De Palmares até Tôrres, na linha interna das lagunas, as associações vegetais naturais e os caponetes artificiais são em
número muito mais avultado do que nas áreas anteriores.
Para combater as dunas migrantes e atenuar os efeitos climáticos desastrosos ao longo de toda costa do Estado encontra-
se em estágio adiantado o trabalho de fixação de dunas. Para isso, empregam anteparos de junco para acumular e concentrar
os cômoros de areia que depois são fixados com variadas espécies arbustivas. Êste trabalho está sendo executado pelo Serviço
de Fixação de Dunas e ainda por Companhias particulares de nucleamento de novos balneários e pelos proprietários de casas
de veraneio. Para êsse fim, foram introduzidas espécies novas como o pinheiro marítimo, a lomba verde, a acácia marítima e
coníferas diversas. A diferença local quanto ao teor pluviométrico, direção e freqüência dos ventos não permitiu que tôdas
aquelas espécies vingassem ao longo de tôda a costa.
Fenômeno semelhante se observa no que diz respeito ao desenvolvimento dos quatro biótipos das associações do cômo-
ro, referidas por A. Sampaio que nem sempre vingam e se verificam em tôda a extensão da restinga gaúcha: 1. Biótipo grami-
nóide na rampa da praia; 2. Biótipo herbáceo; 3. Biótipo crassicante representado por cactáceas; 4. Biótipo lenhoso, formado
pelas árvores da restinga até o cerradão do interior. Sua limitação não é precisa. Há interpenetrações. E, em muitos casos, há
ausência completa de tipos.
A região intertidal é desprovida de vegetação. A parte submersa abriga colonizações biológicas intensas até a profundi-
dade de uns 50 cm. Diversifica-se extraordinàriamente segundo a topografia das praias e o habitat natural de cada espécie. A
variação vegetal, no limite superior da flutuação da maré, se encontra em estreita correlação com a duração e altura das marés.
A flutuação das colônias do fito e zooplancton marinho varia durante as estações anuais e segundo o alcance estacional das on-
dulações. Com o retrocesso normal dessas ondulações marinhas para a linha comum, grande número daquelas espécies ficam
isoladas e, privadas dos sais marinhos nutritivos, perecem. Suas carcaças são, posteriormente, arrastadas pela maré enchente
ao sopé da primeira fila de cômoros de areia onde se decompõem com o perpassar dos tempos e fornecem materiais que enri-
quecem os solos praianos possibilitando, assim, o desenvolvimento de associações vegetais diversas.
O rápido recuo do mar, nessa praia, não impede que a vegetação logo se apodere da nova terra, recobrindo-a em etapas
sucessivas de agrupamentos florísticos delimitados pela distância da influência marinha. Sucessões de tais agrupamentos se
entretocam. Trata-se do ciclo morfológico e biótipo das dunas, de A. Sampaio, aplicável às restingas, visto que, também neste
caso é patente a influência dos sêres vivos no melhoramento das areias onde há uma vegetação climax sujeita a sucessões; uma
vegetação prepara a outra ou condiciona o meio ambiente para que novas formações vegetativas possam vingar.
A flora das restingas apresenta uma sucessão ininterrupta até a uniformização quase completa das formações vegetais
nas zonas de contacto de terrenos mais antigos. Essa uniformidade não é geral. Há regiões onde a vegetação é mais densa e o
101
A VEGETAÇÃO DA FAIXA COSTEIRA SUL-RIO-GRANDENSE

biótipo lenhoso se subordina a extensões mais abertas de plantas herbáceas e graminóides. Outras, ao contrário, conquanto
raras, apresentam adensamentos florísticos de porte mais vigoroso e agigantado.
A pouca variedade das composições florísticas em cada uma dessas sucessões agrupacionais vem, lógica e fundamental-
mente, da homogeneidade da textura, da estrutura e da composição química da rocha matriz fornecedora dos solos decompos-
tos no interior sul-riograndense e carregados pelas águas ao mar e devolvidas pelas marés ou simplesmente superpostos aos
terrenos quaternários pelas enxurradas. Somam-se ainda causas secundárias de adaptação ao meio e ao clima. Como espécie
de adaptação perfeita aos solos locais se enfileira a palmácia Butia Capitata que se estende de Tôrres a Santa Vitória do Palmar.
E’ claro que sua existência rareia em alguns trechos. A vegetação mais rica e exuberante que margeia a orla interna da laguna
Mirim, do lado uruguaio, em relação ao brasileiro onde é mais pobre e enfezada deve ter por causa, sem dúvida, a diferença de
composição dos solos.
A vegetação que se desenvolve nas restingas tem considerável importância para a manutenção de sua estrutura. A se-
qüência paralela de elevações minúsculas intercaladas por baixadas divide, naturalmente, a flora que se superpõe, em tipos
peculiares à feição topográfica. A classificação da flora heteróclita das restingas, quanto ao habitat e ao sistema de nutrição, de
A. J. Sampaio, com alguma modificação, é aqui bem evidente. Em vez de três, preferimos quatro agrupamentos vegetais para o
caso sul-rio-grandense condicionados pelo clima, solo e hidrologia locais.
1 - Flora xeromorfa, sendo, em geral, lenhosa, de pequeno porte, de raizame longo, de fôlhas coriáceas revestidas de
cerosidades e de tronco enxuto e retorcido. Invade e ocupa as dunas consolidadas.
2 - Flora higrófila, concentrando-se nas baixadas úmidas. As espécies higrófilas são-exuberantes e se localizam em zonas
mais afastadas da praia. Distinguem-se por suas raízes pequenas, fôlhas largas, abundantes e permanentes. Registram-se
entre elas, de modo especial, a figueira brava e a maria-mole, plantas climax das baixadas úmidas do Rio Grande do Sul.
3 - Flora aquática ou hidrófila que se concentra e se desenvolve nos alagados e contornos lacustres inundados e inun-
dáveis. Enfileiram-se entre elas a corticeira, o jerivá, os aguapés, os salgueiros, os sarandis e uma infinidade de espécies
aquáticas.
4 - A vegetação halófila que vive nos terrenos e lugares salgados à beira do mar ou das lagunas. As margens das lagunas
salgadas são menos abundantes em flora do que as de água doce. Sua cobertura é constituída de tufos de vegetação e de
psamófilas. Invadem também os pântanos e as dunas que ainda conservam concentrações salinas. A vegetação halófila é
mais viçosa nas baixadas litorâneas junto aos canais separatórios das inúmeras ilhas próximas a Rio Grande onde é enor-
me a influência da penetração das águas marinhas.
Êstes agrupamentos vegetais, apesar de contínuos, jamais se misturam. A vegetação das elevações nunca invade o solo
das baixadas, mesmo quando completamente enxutas. A existência do lençol de água superficial, tornando o subsolo hostil às
raízes da vegetação xeromorfa dos terrenos altos, e as precipitações salinas esterilizantes, resultantes da evaporação das lagu-
nas salgadas, explicam êsse fenômeno. No alto das dunas consolidadas e já bastante interiorizadas dominam os agrupamentos
de aroeiras, pitangueiras, moitas de gravatás, cardos, etc., enquanto que nas depressões se adensa a vegetação herbácea,
higrófila e de baixo porte.
Para se compreender melhor a espécie de cobertura vegetal nesta imensa faixa costeira meridional, após as referências
genéricas, procuramos estabelecer uma classificação e distribuição, apenas do ponto de vista geográfico. Discordamos da clas-
sificação de Edgar Kuhlmann por achá-la incompleta e da de Balduino Rambo por ser muito prolixa, excessivamente botânica e
pouco geográfica. Preferimos adotar outra classificação, mais geográfica, baseada em estudos de João Dias da Silveira e Alberto
Lamego, adaptando-os à zona costeira sul-rio-grandense, em quatro grandes associações vegetativas:
1 - Faixa sub-litorânea. Pode ser subdividida em três sub-associações: a) Flora dos litorais rochosos (Tôrres, Itapuã e São
Lourenço do Sul); b) Flora dos litorais arenosos (todo o litoral em geral); c) Flora das regiões encharcadas (banhados das
restingas).
2 - Vegetação sôbre dunas e restingas consolidadas, com uma subdivisão cronológica em: a) Vegetação de dunas e restin-
gas recentes; b) Vegetação de dunas e restingas antigas.
3 - Vegetação das terras alagadas de água doce (matas de pestana).
4 - Vegetação das colinas e terraços costeiros.
Passaremos a fazer uma síntese sôbre essas associações vegetais. Não é intento nosso fazer um estudo sistemático desta
flora e de suas peculiaridades. Interessam-nos mais as influências mesológicas mútuas do relêvo, da vegetação, dos solos e dos
climas. Será antes um simples apanhado de fatos e constatações de pesquisas de campo, do que de sistematizações botânicas.

Da faixa sub-litorânea
Ao nos referirmos à flora dos litorais rochosos apenas queremos assinalar os pontos onde ainda hoje o mar ou alguma
laguna em sua orla rochosa, pertencente ás formações geocronológicas anteriores ao quaternário, se recobre de matas. Tais
sejam os casos de Tôrres e lagunas dos Barros e Quadros onde aparecem os derrames basálticos e Itapuã e São Lourenço do Sul
constituídos de terrenos do complexo cristalino granítico.
Em Tôrres, na beira do litoral atual, já não existe cobertura vegetal. Sòmente aparece ao sopé da Serra Geral onde as
matas se identificam às associações de cima do planalto sul-rio-grandense. E’ o caso do lado interno das lagunas dos Barros e
dos Quadros.
Em Itapuã se encontra o contraste das áreas vizinhas baixas e alagadas da atual restinga. E’ o último contraforte granítico
da páleo-costa no lado interno ao norte da laguna dos Patos. Itapuã (ponta de pedra alta), transformado em horto florestal e
parque turístico pelo governo do Rio Grande do Sul, deixa à vista matacões maciços de tamanhos inincontráveis nas vizinhanças
que se alteiam sôbre as partes baixas dos contornos. Uma vegetação quase atlântica cobre os declives de permeio com uma

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IR. JUVÊNCIO

vegetação xeromorfa. A ondulação lacustre vai desgastando constantemente os enormes blocos graníticos semeados à beira da
água. Petrófitas recobrem as rochas em decomposição. A natureza pétrea e a persistência erosiva dos elementos líquidos se de-
frontam ocupando alternadamente o pôsto de vencido e de vencedor na luta da transformação incessante da crosta terrestre.
Em São Lourenço do Sul existem reminiscências de flora da páleo-costa marítima, mas de porte reduzido. Êsse fato é con-
dicionado, provàvelmente, pelos solos graníticos muito quartzificados que formam o embasamento local.
O litoral atual não oferece o fenômeno dos mangues.
A flora dos litorais arenosos está parcialmente soterrada pelas areias movediças que se acumulam em tôrno. A grande
profundidade que atingem as raízes e rizomas sempre lhes fornece umidade em suficiência para a sobrevivência. Localizam-se,
de preferência, na frente dos cômoros movediços. Aí os seus rizomas compridos, que conseguem enfrentar a ação destruidora
dos ventos persistentes, penetrando nas capas úmidas da areia inferior, conseguem sobreviver e, aos poucos, avassalar grandes
trechos, fixando as areias movediças. Variadas associações de amarantáceas rasteiras e espécies com colmos grossos e rígidos
se irradiam em tôdas as direções. Os rizomas compridos e rasteiros de que são dotadas se escondem profundamente na areia
donde sobem os feixes foliares em séries raras, sendo que as hastes grossas e rígidas são envolvidas em baínhas brancas e
largas.
A flora das regiões encharcadas é mais viçosa e exuberante. Nas depressões, entre as dunas movediças e já consolida-
das, após as fortes chuvaradas, represam-se naturalmente as águas. Os sedimentos acumulados lhes mudam a topografia e o
aspecto fisiográfico. Fixa-se a areia movediça com as próprias inundações e o acréscimo de materiais húmicos em mistura com
sementes forma, em breve, uma cobertura vegetal. A vegetação psamófila é de pequena estatura e pouco densa e os caules são
duros, rígidos e impróprios para a pastagem do gado vacum, mas procurados pelos ovinos e caprinos. Distinguem-se, contudo,
nos brejos mais interiores e de maior durabilidade grupos de vegetação ereta e delgada ao lado de uma vegetação rastejante
formando tufos e tapêtes compactos. Prolifera nestes últimos brejos, mais úmidos, uma vida orgânica ativa. O lençol de água
muito superficial se aquece fàcilmente e coopera nessa multiplicação biológica. Os centros dos brejos, em geral, mais deprimi-
dos, concentram os limos e encerram uma rica flora linófila. Muitas vêzes, forma-se uma verdadeira corrente de brejos que se
estendem entre as inúmeras lagunas em sucessivas linhas paralelas por detrás da orla oceânica. Na proximidade das grandes
lagunas dos Patos, Mirim, Barros e Quadros, tanto na parte interna como na externa, os prados naturais úmidos, verdejantes
e de alta fertilidade são mais extensos (foto 2). Os sacos lacustres, lamacentos, em que retrocedem os juncais e avançam os
capins de qualidade superior também são numerosos. De permeio abundam as mirtáceas e as rosetas campestres. Os juncos
e junquilhos das barranqueiras lacustres, atingem, por vêzes, proporções e um viço a tôda prova. Nas margens das águas cor-
rentes e na superfície dos subsolos úmidos desenvolvem-se prados uliginosos. Nos declives, de minúsculas proporções, onde
se aninham fontes de águas perenes, vicejam gramíneas todo o ano. Enquanto que em tôrno das poças de águas estagnadas
formam-se esporulações variadas e as transformações orgânicas que aí se efetuam atraem uma fauna diversificada.

Vegetação sôbre dunas e restingas consolidadas


Na vegetação de dunas e restingas recentes predominam gramíneas e ciperáceas. A flora das areias é parcialmente pas-
mófila e, em parte, tem caracteres de formação halófila. A primeira fila de cômoros de areia, logo além da praia, se reveste
parcialmente de gramíneas de rizomas muito longos que têm grande apetência de umidade. Com isso, acham-se fixas. Mas,
além dêsse primeiro renque dunar, encontra-se a área de dunas móveis. Por detrás dessas formações seguem-se, quase sem
alteração, os campos de areia movediça, os campos de inundação, de terra brejosa, de pastos úmidos, de pastos salgados, de
matas de brejo, de campos secos, de vegetação ruderal e, por fim, as verdadeiras matas subtropicais e temperadas já na zona
de contacto com formações geológicas anteriores ao quaternário. A monotonia enche o espaço. Isoladas e batidas pelos ventos
do mar algumas espécies são raquíticas, enquanto que nos brejos são luxuriantes e vigorosas.
As restingas recentes são planas e constituídas de um chão mediamente firme. Os ventos já não têm mais aquela influên-
cia exagerada da proximidade litorânea. As formações herbáceas são pouco desenvolvidas, misturando-se com os vassourais e
manchas arbustivas ralas onde predominam as espécies xeromorfas. A cobertura vegetal rala e sem grande poder fixativo das
maiores elevações, coadjuvada pela ação eólia, favorece a exumação da areia que adquire novas fases de divagação. Nas man-
chas mais úmidas concentram-se juncais e musgos (foto 3).

Foto 2 – Na proximidade da laguna das Barras os prados naturais úmidos, verdejantes e de alta fertilidade são mais extensos.
A foto mostra uma área ocupada pela rizicultura e que, na época, se achava em repouso.

Foto do Autor.

103
A VEGETAÇÃO DA FAIXA COSTEIRA SUL-RIO-GRANDENSE

Foto 3 – As restingas recentes são planas e constituídas de um chão medianamente firme. Pequenas matas ralas, em que
predominam as espécies xeromorfas, aí existem. Nas elevações o vento favorece a exumação das areias. A foto mostra a área
de contôrno da laguna do Peixe, ao sul de Mostardas.

Foto do Autor.

A vegetação de dunas e restingas antigas é lenhosa, algo compacta e disposta nas elevações arenosas das restingas já
consolidadas. Nas pequenas depressões arenosas, porém mais ricas em matéria orgânica e vegetal, concentram-se gramíneas
de pequeno porte. Nos pontos mais sêcos proliferam as cactáceas. O tapête vegetal é desigual. Misturam-se os arbustos anãos
e débeis com outros de maior porte e mais robustos. Caracteriza-se pela heterogeneidade das espécies e pela descontinuidade
de concentrações.
Encontram-se também terrenos brejosos de vastas extensões. São várzeas sáfaras, sem possuírem uma drenagem bem
definida. Os ventos ressecantes ainda atuam, mas com grande atenuação. As manchas de campos com capins grossos e de
pastos sujos se misturam com capins finos e pastos limpos. Não há uma nítida linha separatória. E’ comum o fenômeno do
agrupamento, lado a lado, de plantas xeromorfas e higrófilas. A maioria da vegetação traz estampada nas partes foliares um
brilho extraordinário que passa pelas nuanças do verde-amarelo, ao verde-cinza, ao verde-azulado, ao verde-bruno e ao bru-
no-amarelado.

Vegetação das terras alagadas de água doce ou paludosa


Distingue-se pela grande quantidade de arborescências autóctones, de folhagem caduca e coberta de epífitas. Típico é o
sistema de agrupamento que se nota então. O núcleo central do agrupamento é constituído de espécies bem desenvolvidas,
enquanto que os contornos se acham em degenerescência e trazem estampados os sinais dos ventos marinhos. As trepadeiras,
as orquídeas, a barba de pau, a tiririca, a samambaia e a avenca avultam. Localizam-se nos contornos dos brejos e das águas
estagnadas. Em muitos lugares aparecem brejos cuja vegetação está em extinção ou completamente morta em cujos troncos se
multiplicam com grande exuberância epífitas variadas (foto 4). Êsse fenômeno pode-se atribuir à ausência de drenagem provo-
cada pelos entulhos locais. As composições ciliares se caracterizam pelos arbustos de aspecto minúsculo em que se salientam a
corticeira, os salgueiros, as várias espécies de epífitas vistosas muito procuradas pelos colecionadores e muito raras nas matas
do interior do Estado.

Foto 4 – Palmeiras gerivás em definhamento, ostentando epífitas exuberantes, nos brejos das proximidades da laguna Itapeva.

Foto do Autor.

O tapête das pastagens é denso. Predominam as gramíneas macias e de hastes pequenas. Anicham-se nas depressões do
terreno e no circuito dos capões. O humus aí acumulado e o regular teor de umidade são, ao meu ver, os causadores dêste fato.

104
IR. JUVÊNCIO

São gramados sempre frescos e verdes, recantos quietos e convidativos. Constituem os campos limpos e de capins finos da área
litorânea. Plantas tenras e de caules herbáceos se multiplicam com a maior facilidade. O ajuntamento vacum nesses rincões
contribui enormemente para a adubagem dos solos.
Nas pequenas ilhas, na proximidade de Rio Grande, formações herbáceas densas açambarcaram a superfície total. Faz
exceção a ilha dos Marinheiros que possui apenas uma fimbria arbustiva de contôrno, sendo que por detrás desta faixa de al-
gumas centenas de metros domina a duna movediça. As margens baixas internas são ocupadas pela horti-viticultura. A parte
central da ilha forma um verdadeiro circo deprimido rodeado de dunas que alcançam 10 m de altura. As baixadas e depressões
são ocupadas por uma vegetação psamófila exuberante.

A vegetação de colinas e terraços costeiros


Desenvolve-se em terrenos sêcos onde dominam a figueira, os cipós, os jerivás e formações arbustivas heterogêneas. A
topografia geral das lombadas de pouca declividade, de diminuto revestimento vegetal, deixa o chão sem abrigo contra a in-
solação e os ventos. A qualidade da terra é, pela maior parte, argilo arenosa dissecada, imprestável à vegetação e de reduzida
permeabilidade. As águas pluviais escoam-se superficialmente e fornecem poucos ingredientes nutritivos ao solo que é extre-
mamente pobre. A vegetação enfezada que se superimpõe participa, em parte, dos aspectos semidesérticos. O domínio dessas
formações se localiza por detrás da primeira linha de lagunas e na zona de contacto na proximidade da Serra Geral ou do Escudo
Rio-grandense. Sòmente solos aluvionares mais ricos trazidos do interior do Estado por agentes erosivos poderão, com o tempo,
elevar o teor nutritivo e modificar, desta maneira, a pobre cobertura vegetal local (foto 5).

Foto 5 – A topografia geral das lombadas de pouca declividade, de diminuto revestimento vegetal, deixa o chão sem abrigo
contra a insolação e os ventos. Lombadas na parte interna da Laguna da Porteira, 4 km da praia do Quintão.

Foto do Autor.

Capoeiras e vassourais se disseminam em tôrno das habitações assentadas quase sempre nos pontos mais elevados des-
sas lombadas centrais ou de retaguarda. E’ o domínio de espécies secundárias e degradadas.
O litoral sul-rio-grandense, como se vê, não apresenta a suntuosidade florestal de outras regiões do território nacional,
nem o número representativo de exemplares de flora, decididamente aborígenes e típicos. Nas planícies, nas ilhas, nos areais e
nos terrenos sujeitos às aluviões ou às contínuas estagnações de água acham-se abundantes plantas anuais, perenes, frutescen-
tes e de alto porte. Nas enseadas lacustres isentas dos ventos dominantes, os juncais auxiliam a formação de pontais (foto 6).

Foto 6 – Nas enseadas lacustres isentas de ventos dominantes, os juncais auxiliam a formação de pontais. A foto mostra o
lado interno da laguna dos Patos, em Tapes.

Foto do Autor.

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A VEGETAÇÃO DA FAIXA COSTEIRA SUL-RIO-GRANDENSE

BIBLIOGRAFIA
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106
JEAN ROCHE

CAPÍTULO 7
A CONTRIBUIÇÃO DA COLONIZAÇÃO ALEMÃ À VALORIZAÇÃO DO RIO GRANDE DO
SUL1
JEAN ROCHE
A colonização alemã no Rio Grande do Sul apresenta um certo número de características especiais: sendo uma das mais
antigas no Brasil aparece, entretanto, como sendo moderna, de 1824, por ter sido uma colonização planificada, dirigida. O papel
desempenhado pelo govêrno imperial foi relevante, tanto em sua concepção quanto na realização de uma emprêsa duplamen-
te audaciosa: povoar o sul do Brasil com estrangeiros para reforçar a ocupação de uma província fronteiriça e introduzir peque-
nos proprietários que praticassem “faire valoir” direto, numa região em que tôdas as terras recobertas pelos campos haviam
sido atribuídas a grandes proprietários, de origem lusa, que obtinham seus recursos da criação extensiva. O desenvolvimento
da colonização germânica foi, portanto, difícil pois que a administração imperial não tinha experiência alguma neste domínio
e que o Rio Grande do Sul possuía, no início do século XIX, uma estrutura social e econômica homogênea, sólida, dinâmica,
dificilmente penetrável pelos elementos alógenos com os quais aí nada havia a fazer.
Desta forma, a colonização aí instalou-se e desenvolveu-se inteiramente à parte do Rio Grande tradicional. Isto não dei-
xou de acarretar pesadas conseqüências: aumento das distâncias entre as zonas de produção e os mercados, isolamento das
colônias, etc. Tornou-se, porém, mais fácil para nós acompanhar a evolução dêsses estabelecimentos e estudar o papel dessa
colonização na valorização da região mais meridional do Brasil. Depois de haver relembrado a importância da contribuição dos
imigrantes e de seus descendentes quanto à demografia, tentaremos apreciá-la no tocante ao domínio econômico, ou mais
exatamente na valorização das zonas sul-riograndenses que povoaram. Partindo da suposição de que a história e a distribuição
geográfica das colônias alemãs no Rio Grande do Sul já sejam conhecidas, entraremos diretamente no assunto.
Não existe nenhuma proporção entre o número de imigrantes alemães que foram acolhidos no Rio Grande do Sul, desde
1824, e o dos teuto-riograndenses de hoje. O sucesso dêsse povoamento tem algo de surpreendente e recompensou, além de
tôda expectativa, o govêrno brasileiro pelos esforços despendidos para atraí-los e fixá-los. A iniciativa revolucionária do govêrno
imperial viu-se, portanto, plenamente justificada.
Evidentemente não foram apenas as características geográficas que orientaram para o sul do Brasil uma corrente regular
de imigração de proveniência européia. Era necessário o impulso de um a serviço do Estado e a subvenção de fundos públicos
para fazê-la surgir e se desenvolver, evitando que os imigrantes tivessem que custear as despesas de uma travessia dispendiosa,
longa e difícil, pela concessão de vantagens (cessão de terras gratuitamente ou a baixos preços, provisões diversas, subsídios,
etc.). O apêlo à imigração, fundamento indispensável da colonização no Brasil, foi pois o “fait du prince”...
É bem verdade que a emigração germânica jamais se voltou para o Brasil com a mesma intensidade com que o fêz para
os Estados Unidos da América do Norte, embora jamais tenha cessado de fornecer contingentes, a não ser entre 1830 e 1844 e
durante as duas guerras mundiais. Fora dêsses períodos de crise, ano algum se passou sem que chegassem imigrantes alemães.
Entre 1824 e 1830 recebemos 5 350; êsse número pouco elevado, foi porém suficiente para apresentar à administração
problemas que ela estava aprendendo a resolver, quando os parlamentares brasileiros suprimiram o crédito para a coloniza-
ção estrangeira, o que foi, aliás, o início da crise política desencadeada pela abdicação de D. Pedro I. A Revolução Farroupilha
irrompeu em 1835 e foi sòmente quando Caxias pacificou o Rio Grande do Sul, que êste pôde novamente receber imigrantes.
Entre 1844 e 1874 entraram 22 392. Foi o maior contingente que partiu da Alemanha entre os sobressaltos liberais de
1848 e o estabelecimento do Império Alemão, antes da dupla revolução agrícola e industrial que transformou a Alemanha no
fim do século XIX, antes da aparição do espírito colonial. A emigração alemã para o Brasil teve, portanto, como característica
fundamental o ser individual, independente da política da Mãe-Pátria, que jamais consagrou verbas aos núcleos povoados
por emigrantes de origem germânica. Êstes representaram, entretanto, a parte principal dos colonos que se instalaram no Rio
Grande do Sul. A partir de 1874 deixaram de ser os únicos, pois começou então a imigração italiana que foi no Rio Grande do
Sul, tanto quanto no resto do Brasil, mais numerosa, bem mais numerosa.
Entre 1874 e 1884 entraram apenas 5 415 imigrantes alemães, graças ao interêsse que o govêrno brasileiro começava
a manifestar pela imigração proveniente de países menos imperialistas, de Estados menos fortes, em virtude, sobretudo, da
incerteza em que êle se debatia durante os últimos anos do Império.
Entre 1884 e 1914 o Rio Grande do Sul acolheu 17 751 imigrantes alemães, que vieram reforçar a corrente regular de que
se alimentavam as novas colônias abertas pelo Estado no Planalto.
Entre 1918 e 1939 entraram ainda uns 25 000, tendo entretanto o Estado interrompido, desde 1914, a imigração oficial,
pois as terras livres de que ainda dispunha, estavam reservadas para os descendentes dos imigrantes já instalados. Se por um
lado o seu número crescia consideràvelmente, por outro já se achavam adaptados à derrubada de florestas.
Entre 1824 e 1939, entraram no Rio Grande do Sul aproximadamente 75 000 pessoas de origem germânica. Sem dúvida,
é muito pouco. Instalaram-se, entretanto, sem intenções de regressar. Constituíram os núcleos de povoamento fundados pelo
Govêrno central e pelo Govêrno local, depois os de estabelecimentos abertos pela iniciativa particular, injetando regularmente
sangue nôvo nas artérias dêsse nóvel organismo.
O sucesso dêsse povoamento pode ser medido pelo número de teuto-riograndenses, que são avaliados em mais de 900
000 em 1950, ou seja mais de um quinto da população do Estado nessa data. Sua percentagem passou de 131%, em 1890, para
21,6% em 1950, o que é tanto mais significativo de sua fecundidade pois a população do Rio Grande do Sul, nesse mesmo perí-
1 Traduzido do francês por Dora de Amarante Romariz.

107
A CONTRIBUIÇÃO DA COLONIZAÇÃO ALEMÃ À VALORIZAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL

odo, passou de 897 455 a 4 164 821 habitantes. O número de teuto-riograndenses mais do que duplicou entre 1920 e 1950, o
que é tanto mais notável já que os dois terços de imigrantes se tinham instalado no Rio Grande do Sul antes de 1914. Acresce
também que a fecundidade das famílias de origem germânica prolongou, tanto quanto aumentou, a contribuição do sangue
alógeno. Basta comparar os dois valores:
Número total de imigrantes entrados no Rio Grande do Sul ................................ 75 000
Número total de riograndenses de origem alemã ............................................... 900 000
Para se poder avaliar o pleno sucesso da política de povoamento inaugurada em 1824 pelo Govêrno brasileiro. A adapta-
ção ao nôvo meio não causou nenhum problema, pois que uma parte dos imigrantes estabeleceu-se definitivamente, tendo-se
êles multiplicado, nas gerações seguintes, proporcionalmente mais do que a população de origem luso-brasileira. Não sómente
aumentaram em número, mas parecem nunca se terem ressentido do clima sub-tropical embora não se tenham instalado de
início nas regiões menos quentes do Rio Grande do Sul, mas pelo contrário, terem-se perfeitamente adaptado, física e inte-
lectualmente, às condições geográficas locais. Quantitativa quanto qualitativamente, sua condição demográfica foi, portanto,
considerável.
Nada há, portanto, de extraordinário que êsse enxêrto perfeitamente bem sucedido, se tenha desenvolvido e propiciado
novos frutos. Assim como há sangue de origem alemã nas veias de um riograndense em cinco, assim também há uma paisagem
teuto-riograndense, a que foi estabelecida pelo trabalho dos imigrantes e seus descendentes. O tipo da casa rural ou citadina, a
distribuição do habitat rural, a origem e o desenvolvimento dos núcleos urbanos onde são praticados o comércio e a indústria,
eis algumas das marcas germânicas na terra brasileira, outros tantos indícios reveladores de uma atividade sui-generis.
Logo que os imigrantes foram instalados nos lotes que o Govêrno brasileiro lhes havia concedido, assim como logo que os
seus descendentes, por sua vez, se haviam estabelecido nas propriedades adquiridas em tôrno dos primeiros núcleos ou nas
novas colônias, transformaram-se êsses homens, bom grado, mau grado, em agricultores, e seus filhos assim permaneceram
até hoje, voluntàriamente sem dúvida, em nove décimos dos casos. Derrubaram a floresta, cultivaram as terras. Isso quer dizer,
entretanto, que a iniciativa do Govêrno brasileiro, desejoso de valorizar novas zonas que haviam permanecido até então deso-
cupadas porque não interessavam aos milicianos – criadores da Campanha riograndense – tenha tido um sucesso tão grande,
tão nítido quanto em matéria de povoamento?
A colonização agrícola fêz-se a partir dos núcleos fundados no limite da floresta virgem. Não sòmente expandiu-se para
o interior desta, afastando-se dos campos, dos vales inferiores amplamente navegáveis, voltando as costas ao mundo gaúcho
com o qual não podia manter nenhum contacto, mesmo econômico, como também não pôde ter outros horizontes que não
os da floresta. Assim, foram colonos, não só no início como ainda até hoje permaneceram nas recentes colônias, “fazedores de
terras”.
Derrubando a floresta, conquistaram novos domínios, ampliaram a área útil do Rio Grande do Sul e seu trabalho foi ime-
diatamente recompensado por uma valorização das terras tornadas aráveis, valorização mais do que proporcional a dos campos
e superior à elevação dos preços correntes em conseqüência da desvalorização da moeda. Foi posta assim em culturas uma
superfície superior a do Benelux. Suas “colônias” não se comparam, portanto, com nenhuma das antigas “regiões” agrícolas da
Europa: pautam-se bem pela escada “americana”.
Esta conquista da terra arável deixa, entretanto, supor a aquisição de uma técnica de derrubada, a dos primeiros ocupan-
tes, a dos caboclos, a dos índios. Foi pelo machado e pelo fogo que se operou essa conquista. Foi ao preço de uma regressão
técnica que os penetradores puderam sobreviver nas clareiras que haviam acabado de abrir. Não se tratava de limpar os campos
como na Europa, se o imigrante havia sido agricultor; tanto ex-agricultor quanto ex-citadino devia aprender a abater as árvores,
a queimar as ramagens sêcas, a cultivar plantas robustas, as únicas capazes de crescer no solo ainda atravancado de tôcos. As
primeiras tentativas de cultivar, à moda européia, o centeio, o trigo, o linho, etc., fracassaram e foram ràpidamente abandona-
das desde que o estabelecimento de relações comerciais em Pôrto Alegre permitiu escapar à autarcia, possibilitando pela troca
dos excedentes das colheitas, a aquisição de vestuários, alimentos ou objetos diversos. Foi quase imediatamente, ao final de
alguns anos apenas, que a agricultura dos colonos alemães adquiriu um caráter comercial; a posterior penetração na floresta e
a subida do rebordo do Planalto, depois de 1890, apenas o vieram reforçar. Se não queria ser “soterrado” pela abundância das
colheitas que lhe fornecia uma terra, penosamente devastada, o colono devia vender os seus produtos, não importava a que
preço fôsse.
Visto isto, foi constrangido a se limitar os produtos que pudessem ser expedidos para longas distâncias. A partir da se-
gunda metade do século XIX a agricultura das colônias alemãs dedicava-se a uma meia dúzia de plantas, umas de subsistência
(milho, feijão, batata, mandioca). Outras industriais (cana de açúcar e tabaco). À exceção da cana, tôdas elas são de origem
americana. Salvo o tabaco porém, nenhuma delas se destinava à exportação e em sua grande maioria constituíam produtos
destinados à alimentação diária da população brasileira. Assim, as colônias não foram teatro de uma revolução agrícola com-
parável à que transformou São Paulo no século XIX e o Paraná no século XX. Consagrada essencialmente a uma produção de
subsistência, a agricultura das colônias alemãs foi por muito tempo relegada a um plano inferior pela administração brasileira
que avaliava, entretanto, o sucesso da colonização pelo desenvolvimento de uma economia agrícola à qual ela não fornecia
nem assistência técnica nem equipamento regional e cujas possibilidades de escoamento para sua produção, achavam-se for-
çosamente limitadas.
Êsses problemas cada vez mais se agravaram, à medida que a colonização se expandia sob a pressão de um galopante
acréscimo demográfico. O estabelecimento de outras colônias no Planalto, a partir de 1890, obrigou a novas derrubadas; o
transporte dos produtos a uma distância que fôra consideràvelmente aumentada, reduzia, proporcionalmente às despesas, o
preço ao qual o colono podia pretender. Bem cedo as antigas colônias viram esgotar-se a fertilidade de seus solos e assistiram
à partida da maioria dos descendentes de seus habitantes, em busca de novas terras virgens.

108
JEAN ROCHE

Desde o início do século XX é no Planalto que podem ser encontradas as principais colônias fornecedoras dos produtos
mais importantes, e cujo mapa de distribuição coincide com o das serrarias.
Dêsse modo, a agricultura dos imigrantes alemães, foi condenada a ser pioneira, mas, limitados pela lentidão do desen-
volvimento dos meios de transporte e pela rapidez do declínio de produtividade das terras, os colonos perderam, regularmente,
por um lado o que poderiam ganhar, e pelo outro, foram sistemàticamente vencidos nessa corrida contra o tempo. Tiveram
constantemente que escolher entre o empobrecimento progressivo se permanecessem no mesmo local e a emigração, fôsse
esta para novas zonas pioneiras ou para as cidades do século XX.
A origem dêsse problema acha-se, sem dúvida, na incompatibilidade entre a natalidade e o regime de propriedade por
um lado e, por outro, na conservação de uma técnica rotineira, a da queimada devastadora, ou mais exatamente a da queimada
periódica. E’ a repetição desta, em períodos cada vez mais curtos, que acarretava e acelera o empobrecimento das terras. Livres
de qualquer entrave feudal, liberados das taxas fundiárias que pesavam sôbre quase todos os agricultores europeus, desem-
baraçados das classes parasitárias até que se expandisse a dos comerciantes indispensáveis, jamais conheceram a segurança
camponesa européia (pois eram pequenos proprietários) nem a prosperidade pioneira americana (pois continuavam a empre-
gar uma técnica devastadora). Não há exemplo mais paradoxal de misoneismo rural...
Foi, portanto, com o regime da pequena propriedade atingindo agora uma fase de crise técnica e social, que a noção da
contribuição dos colonos alemães à valorização do Rio Grande do Sul voltou à baila: o balanço de suas atividades agrícolas
está longe de ser positivo pois não trouxeram, não adaptaram, nem descobriram, técnicas agrícolas capazes de evitar o rápido
esgotamento do solo que haviam desflorestado, capazes de evitar seu empobrecimento tanto mais injusto quanto aumenta
proporcional e concomitantemente com a quantidade de trabalho utilizada.
Em contraposição o comércio, oriundo da expedição de produtos agrícolas para Pôrto Alegre, e da importação dos bens de
consumo, objetos necessários aos agricultores, descreveu nas colônias a mesma curva que a agricultura: ascendente no período
de euforia pioneira, descendente logo após. Foi por uma reversão (2?) de suas atividades e de seus capitais que os comerciantes
puderam superar os efeitos de senilidade precoce dos estabelecimentos rurais de origem européia. O objetivo principal dessa
reversão foi a industrialização. Não se trata porém mais da valorização de uma região rural, agrícola. Foi nas principais cidades,
sobretudo na capital, em Pôrto Alegre, que se desenvolveu uma indústria de origem germânica poderosa, próspera, dinâmica.
Esta indústria, salvo exceções, originada em cidades, de capitais obtidos pela acumulação de lucros comerciais, só muito rara-
mente teve por base o modesto “atelier” de um artesão rural, pois o artesanato declinou ao mesmo tempo que a agricultura
à qual cedia a sua produção ou à qual condicionava os produtos antes de sua expedição; foi abalado pelo desenvolvimento dos
meios de comunicação e banido pelo surto recente das indústrias.
O estudo da contribuição dos colonos alemães à valorização do Rio Grande do Sul é pois exemplar, pois revela todos os
erros cometidos no século XIX por uma administração que tateava ou por sociedades de colonização especulativas ou filantrópi-
cas. Explica a crise que as colônias alemãs passam atualmente, pois que o sistema agrário (regime de propriedade ultra dividido
e a técnica agrícola devastadora da queimada) é incompatível com os progressos demográficos dêsses estabelecimentos. Não
se trata sòmente de um atraente campo de pesquisas para as ciências humanas, mas sobretudo de uma lição cujo preço não
será por demais elevado, se os ensinamentos forem aproveitados tanto para corrigir e concertar o que foi possível nas colônias
existentes, quanto para orientar em outras regiões do Brasil uma verdadeira valorização das últimas terras virgens indispensá-
veis à sobrevivência, não sòmente da Nação brasileira como também a de tôda a Humanidade.

DISCUSSÃO
PASQUALE PETRONE – Comentou o tópico em que é comparado o meio rural ao urbano, em função dos aspectos polí-
ticos da colonização. Na sua opinião, realmente os centros urbanos se constituiram em principais ambientes políticos ligados
à colonização: abrigavam tipografias, escolas, associações de tôda natureza, inclusive as de cunho eminentemente político e,
no período de pré-guerra, inclusive sedes de partidos políticos. Do ponto de vista sociológico, as comunidades rurais exercem
papel mais importante, pois, através do lar e a limitação de contactos permitem a permanência dos traços culturais – os meios
rurais constituem um caldo de cultura favorável ao aparecimento dos quadros de liderança cuja existência é favorecida nos
meios urbanos.
JEAN ROCHE – Esclareceu que houve várias tentativas industriais fracassadas (curtume em São Leopoldo, cerveja em Pôrto
Alegre). Havia uma corrente de industriais ligados à Alemanha que mandavam o couro, o fumo e outros produtos para serem
tratados na Europa. Poucas indústrias vieram do artesanato; nas indústrias de São Leopoldo, por exemplo, só há cerca de 10
nomes de antigos colonos. Na maioria dos casos, os capitais procedem de Pôrto Alegre ou de outros centros urbanos.
PEDRO GEIGER – Perguntou se não houve transferência de elementos artesanais para Pôrto Alegre e, partindo daí, para
as cidades vizinhas. Perguntou também se não se pode reconhecer no Alto Uruguai, áreas de população de origem alemã mis-
turada a outras populações.
JEAN ROCHE – Explicou que as indústrias de Pôrto Alegre foram fundadas por elementos vindos do comércio. Quanto à
segunda pergunta: em princípio, as casas de enxamel correspondem à colonização alemã e as casas de madeira à colonização
italiana; porém, nota-se que há uma reconquista das zonas puramente germânicas por colonos italianos que compram aos ale-
mães as terras mais pobres do vale do Taquari, por exemplo. Já no Alto Uruguai há uma nítida distinção entre uma colonização
e outra – houve a preocupação de conservar comunidades étnicas homogêneas.
PEDRO GEIGER – Perguntou se se verifica descapitalização das áreas velhas pela compra de terras e se há companhias que
se dedicam à compra de terras.
JEAN ROCHE – Respondeu que quem tem recursos permanece agricultor, apenas os colonos mais pobres vão se empregar
2 Reversão (significando reconversion)

109
A CONTRIBUIÇÃO DA COLONIZAÇÃO ALEMÃ À VALORIZAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL

na cidade. Focalizou ainda que na colonização alemã nunca a paisagem se apresenta tão destruída como na antiga zona do café.
Antes de sobrevir a decadência dá-se a emigração; ficam no antigo lote apenas o casal de velhos e um filho, os outros partem.
A pequena propriedade foi um elemento de prosperidade; porém, desde 1950, há um movimento de reagrupamento de par-
celas da zona de colonização alemã, hoje inferiores a 5 e 8 hectares. O sistema de pequena propriedade, que tanto sucesso
teve no século XIX, está numa fase de crise econômico-social. Verifica-se que na zona de velha colonização alemã, de 10 a 11%
das propriedades estão arrendadas. Há um regime de economia mista perto dos centros urbanos; o antigo colono emprega-se
na cidade e a família cultiva 2 a 3 hectares. Em resumo, perto das cidades permanecem as pequenas propriedades e mais para
longe verifica-se o reagrupamento.
AROLDO DE AZEVEDO – Observou que se nota um contraste entre a paisagem urbana de São Leopoldo e Nôvo Hamburgo
e a de Joinvile e Blumenau.
JEAN ROCHE – Esclareceu que São Leopoldo foi o bêrço da colonização, porém hoje é um foco de assimilação; é o lugar de
maior proporção de casamentos mistos. Cidade próxima a Pôrto Alegre, sempre teve recursos e recebe constantemente popula-
ção de origem lusa chamada pela indústria e pela vida administrativa. Foi constantemente remodelada e a casa típica alemã foi
em geral derrubada. Em Nôvo Hamburgo manteve-se maior ligação com a Alemanha através da indústria. No conjunto, nota-se
o desaparecimento progressivo da casa de tipo tradicional alemão.

110
POSFÁCIO
A AGB NA CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO REGIONAL
Não se pode, sem quebra de dignidade,
renunciar o passado ou parte dele.
É um patrimônio que nos pertence íntegro:
com todos os seus serros (sic) e acertos,
com seus defeitos e suas perfeições,
com seus vícios e suas virtudes –
como tudo que é humano.
Souza Docca, 1931

Nos últimos anos tenho dedicado parte do meu tempo à digitalização dos 40 anos de Boletim Gaúcho de Geografia por
acreditar ser importante revitalizar as formas de distribuição e publicação da revista, permitindo-lhe alcançar os interessados
nas temáticas geográficas segundo as demandas contemporâneas da comunicação científica. Perder-se-ia, caso contrário, a
contribuição de pesquisadores importantes ou nem tanto, os textos inaugurais de alguns dos grandes geógrafos de hoje, as no-
tas que registram parte da história da Associação dos Geógrafos Brasileiros – seção Porto Alegre, os testemunhos das formas de
fazer ciência desde 1974 registradas nas páginas do periódico. A publicação em meio digital permite uma revisão de conteúdos
e coloca questões sobre as formas de desenvolvimento do pensamento geográfico no Rio Grande do Sul.
Ao receber os textos aqui publicados, tive a grata surpresa de constatar que, antes mesmo de haver uma seção local, a
Associação dos Geógrafos Brasileiros já participava na descrição e análise do espaço regional do Rio Grande do Sul. Nada mais
coerente do que um esforço para divulgar tal produção em meio digital, em acesso aberto, permitindo ampla circulação de seu
conteúdo.
A produção aqui reunida retrata um momento em que emergia com vigor um projeto de desvendar nossas terras, conhe-
cer os mais distantes rincões, e empreender a longa tarefa de construção da civilização brasileira. Este projeto nacionalista se
fazia em diferentes frentes: através do ensino da Geografia moderna de Delgado de Carvalho, nos levantamentos realizados
pelo IBGE e pelas mãos dos membros da Associação dos Geógrafos Brasileiros, em expedições realizadas durante os Congressos
de Geografia. A Geografia que se ensinou no Brasil até a Reforma Francisco Campos, no ano de 1931, revestia-se de um caráter
descritivo, centrado em infinitas listas de dados e topônimos a serem memorizados, no que ficou conhecido como “Geografia-
nomenclatura” ou, segundo Delgado de Carvalho, Geografia-administrativa, pois subdividia o território nacional considerando
os estados da federação, eixando em segundo plano as regiões naturais. Resgato Delgado de Carvalho por termos em mãos
importantes textos do “pai da Geografia Moderna” uruguaia, Jorge Chebataroff, nome familiar aos nossos hermanos, que se
educavam em seus manuais escolares. E Chebataroff, em sua análise das regiões naturais, também contesta os efeitos do na-
cionalismo metodológico.
A partir da década de 1930, dissemina-se lentamente a “Geografia Moderna”. Cabe esclarecer que essa “Geografia Mo-
derna” é concebida pela “Geografia Crítica” como “Geografia Tradicional”. O Brasil moderno, aquele do século XX, foi marcado
pela busca de inspiração na cultura popular e regional, na realidade brasileira até então ignorada e menosprezada, voltando-se
aos tipos regionais, ao mesmo tempo em que fazia o elogio da máquina e do progresso, do urbano industrial, da ciência e da
civilização. Os textos aqui reunidos testemunham os esforços dos geógrafos em desvendar e interpretar nosso território dentro
dos cânones da época, 1958, em que foram escritos.
Ao longo dessas décadas, a Geografia se institucionalizou e a produção científica se metamorfoseou – alguns dirão que
se democratizou, outros que se banalizou. A Associação dos Geógrafos Brasileiros em sua seção Porto Alegre já foi acadêmica,
crítica, libertária e tantas outras tarefas já tomou para si. Se os textos aqui reunidos dão relevo às regiões e estudos da geogra-
fia física, as palavras-chave da Geografia gaúcha contemporânea são a cidadania, a cidade, o ensino, o território, o espaço, a
globalização, o meio ambiente, o geoprocessamento...
A AGB, em suas tarefas e produção, se comporta como uma superfície de refletância do mundo, ela mostra o espaço
geográfico não como um espelho o faria, mas através de interpretações plenas de significados herdados conscientemente ou
contrabandeados pela memória. Como se forma nosso campo temático? De onde vêm os textos que escrevemos e lemos? Em
parte, vêm de nossa observação do mundo, de nossa moral, mas também são fruto de nossos precursores.
Para qualificar nossa expressão como comunidade, uma das vias é conhecer esses precursores e trabalhar para que seus
textos não se percam. Sigamos reivindicando nossa memória, criando história, registrando-nos na escrita, nos esforçando por
significar.

Adriana Dorfman
Coletivo de Publicações da
Associação dos Geógrafos Brasileiros - seção Porto Alegre, gestão 2012-2014

Porto Alegre, 1º de maio de 2014

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