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BEAUD, Stephane; PIALOUX, Michel.

Rebeliões urbanas e desestruturação das classes populares


(França 2005). Tempo Social: Revista de Sociologia da USP ,São Paulo, v.18, n.1, p.37-59, jun. 2006.

Em "Rebeliões urbanas e desestruturação das classes populares", Stéphane Beaud e Michel Pialoux
analisam as rebeliões urbanas ocorridas na França em outubro/novembro de 2005 abordando a
questão da degradação da condição operária. Em tais rebeliões, os autores consideram a
participação de "jovens comuns", que ainda que escolarizados e inseridos no mercado de trabalho,
se encontram em situação instável e más-condições de trabalho. Para Beaud e Pialoux, a
justificativa por trás das recorrentes rebeliões está na "ordem das coisas", fenômenos que
reproduzem uma violência social como o desemprego, precarização das condições de trabalho, a
discriminação e o racismo, a segregação urbana, a desestruturação das famílias, etc.

Em meio a essa situação, as autoridades passam a buscar "culpados", que deveriam ser isolados de
seus grupos, para retomar a ordem e acalmar seus bairros. Entre esses, haveria aqueles "violentos
e irredutíveis" que poderiam ser recuperados, e os "não violentos" que não poderiam ser
contaminados pelos outros. De um lado os "delinquentes", a "ralé", e do outro, os "bons jovens".

Na visão dos autores, os jovens estão no movimento por se identificar com a revolta da sentida
violência social, compartilhando as mesmas condições sociais. É importante analisar a juventude
das periferias francesas e pensar nas causas que levam os "jovens comuns" a aderirem a um
movimento potencialmente violento. Em um espaço de convívio, como os conjuntos habitacionais
HLM, grupos diferentes se encontram, discutem suas posições e compartilham ideias. Há aqueles
bem situados que procuram uma formação em seus estudos e outros desempregados ou
obrigados a estudarem em cursos profissionalizantes. Apesar das diferenças, partilham seus
sentimentos de serem discriminados por sua condição social ou cor da pele.

Por trás do movimento, há uma percepção comum a eles, a desesperança social. Aquilo que antes
era exclusivo dos mais excluídos, como comportamento de risco, roubos, uso de drogas, passa a
atingir também jovens mais escolarizados e jovens operários. A falta de esperança é entendida por
atos de discriminação e racismo. A desregulamentação do mercado de trabalho fornece aos jovens
empregos cada vez sem maiores garantias. As condições de trabalho permeiam a precariedade,
contratos de curta duração ou temporários. Além disso, no meio da concorrência do mercado,
jovens moradores desses conjuntos habitacionais, pobres, negros e árabes sofrem ainda mais com
a discriminação. Soma-se a isso a desestruturação das famílias que sofrem com divórcios,
desqualificação e desemprego dos pais, separação, suicídio, etc.

Beaud e Pialoux propõe uma análise a condição operária "após a classe operária", situando a crise
das periferias francesas nas rebeliões de 2005. Dessa maneira, tratam da desestruturação das
antigas classes operárias, que se caracteriza pelo enfraquecimento político e de seu relativo
enfraquecimento numérico. Tal classe passou para o desinteresse de intelectuais e das estatísticas.
Se antes, essa classe contava com melhores condições através do auxílio de sindicatos, hoje
perderam seus benefícios com o desmantelamento das organizações sindicais. O papel do ensino
também tem grande peso ao passo que sem garantias de sucesso no ensino com escolas
profissionais, os jovens se veem privados da confiança que antes tinham com o ensino profissional.
Por isso os autores chamam atenção a relação das famílias com a escola.

Ao longo da pesquisa dos autores, foi notado a intensificação do trabalho as custas de maior
produtividade, violência sentida pelos operários, além da robotização e surgimento de novas
tecnologia que colocaram de lado a questão operária. Nesse ponto, temos a modernização das
empresas, a informatização, as novas formas de organização do trabalho ligadas a flexibilidade,
propagadas por empresas francesas nos últimos anos.

A partir da década passada, a situação dos trabalhadores franceses só piorou e a desmoralização


dos operários só se acentuou, desconstruindo a figura do "trabalhador". Então, a questão operária
ganhou o centro das atenções públicas novamente, devido ao medo da precariedade e do
desemprego. Além das causas pragmáticas do campo econômico, as causas do enfraquecimento
do mundo operário estão ligadas à construção de sua própria imagem, que é em grande parte,
relacionada ao âmbito intelectual, ou seja, o movimento operário sofreu com a cegueira de
intelectuais e pesquisadores da área.

A fim de neutralizar o impacto da desestruturação do movimento operário e das classes populares,


é preciso entender esse fenômeno e buscar aproximar a questão aos debates progressistas da
classe média e proteger o mundo do trabalho do capitalismo acionário, além de restaurar o poder
emancipador do ensino.