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Resenha Slavoj Zizek: A Permanent Economic

Emergency. New Left Review 64

Diante das manifestações que se difundiram na Europa em 2010, contra as


políticas econômicas severas, temos dois lados da história. Há a ficção, que tem a
mídia e o poder por trás, que dita que as medidas de austeridade não são uma
escolha política, mas uma maneira de lidar com os imperativos financeiros. O
outro lado, o dos manifestantes, trata tais medidas como uma forma do mercado
financeiro de por fim ao que resta do Estado de bem-estar social. Sobre a primeira
versão, temos que a manobra dos governantes europeus não considerou que o
déficit nas contas públicas foi originado, principalmente ao salvamento dos
bancos. Por outro lado, na segunda versão, percebemos como a esquerda
contemporânea encontra-se fragilizada ao ponto que seu movimento não
reivindica mudanças no sistema, mas apenas uma adaptação ao que foi perdido
de suas conquistas sociais, sem um programa consistente. Se dizem que a crise
na zona do Euro representa não só a crise do Euro, mas o fim da União da
Europeia, Zizek indaga "que Europa?" e diz que é aquela Europa que se
acomodou ao mercado financeiro. Porém, diz que ainda há um espaço aberto para
uma reconstrução de uma outra Europa politizada, baseada em um projeto de
emancipação compartilhada.

Se durante os anos do Estado de bem-estar social, as medidas de restrição


orçamentária eram poucas e sempre havia promessas de que tudo iria melhorar,
para Zizek, hoje vivemos em estado de urgência econômica permanente, uma
nova era marcada por políticas econômicas ainda mais severas, com deficiência
em educação, saúde, previdência, além da precarização do trabalho. Nesse
cenário, é cada vez mais difícil para a esquerda lidar com a ideia que a crise
econômica é, sobretudo, uma crise política e que essa não é "natural", já que o
sistema depende de decisões políticas. Pensar que a crise atual não terá grandes
consequências e que o capitalismo europeu continuará a garantir um padrão de
vida relativamente alto para a maioria de sua população, é uma ilusão. Ainda que
existam tantas críticas ao sistema capitalista, falta um debate que conteste as
ferramentas institucionais do Estado de direito burguês.

Sobre esse ponto, temos uma concepção marxista que se mostra bem atual: a
ideia de liberdade para Marx nas relações sociais, em que a real liberdade está
nas transformação das relações sociais. Porém, é uma utopia pensar que a
democracia pode se expandir para outras esferas além do domínio da política,
uma vez que os direitos legais estão aí somente para garantir o funcionamento da
reprodução capitalista. Assim, o autor coloca que é necessário desconstruir dois
fetiches intimamente ligados entre si: as "instiruições democráticas", e do outro
lado negativo, a violência. Na noção de luta de classes, a própria existência do
Estado se confere como um aparato de dominação de classe, em que aquele que
é oprimido, já sofre violência. Portanto, o uso da força por parte dos oprimidos é
justificável ao passo que sua condição é, em si mesma, uma consequência da
violência, no entanto não é necessária, trata-se apenas de uma escolha
estratégica.

Neste estado de urgência econômica, percebemos que não estamos tratando com
movimentos financeiros cegos, mas sim com estratégicas intervenções altamente
organizadas por instituiçoes financeiras e poderes públicos, que buscam resolver
a crise a partir de seus próprios interesses. Nessas condições, Zizek pergunta:
como não propor uma contraofensiva? Para ele, com o desarranjo do estado de
bem-estar social nas economias desenvolvidas, surge a hora da verdade para os
intelectuais radicais de propor uma grande mudança.

Estamos totalmente inseridos na lógica do mercado e da concorrência, seja nos


setores mais básicos que o estado fornece: educação, saúde, sistema eleitoral,
sistema prisional e até a burocracia estatal. Até mesmo nas relações amorosas
absorvemos as leis do mercado, com agências de matrimônio e sites de busca de
parceiros. Sob esses fatos, parece ser impossível uma transformação radical da
sociedade. Porém, para Zizek é nesse ponto que devemos parar e refletir. De
acordo com ele, a nossa época acredita a humanidade alcançou total maturidade
no ponto de vista socioeconômico. No ideário dominante, predomina a imposição
de que não é possível uma transformação radical. Entretanto, diferente do começo
do século XX - em que a esquerda já sabia o que deveria ser feito, mas esperava
pacientemente o momento certo para agir a partir - hoje, não sabemos como
proceder, mas devemos agir sem demora, antes que nossa inércia promova
consequências terríveis.