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Informação, conhecimento e sabedoria.


A incontrastável complexidade da mente humana, que não pode ser completamente descrita sequer por
ela mesma, pode, no entanto, ser resumida a apenas três palavras – ao menos, no que se refere à sua capacidade
de compreensão e interpretação do mundo e de si mesma: informação, conhecimento e sabedoria. Mas, afinal, o
que os diferencia?
Até uma geração atrás, os atuais mecanismos de busca eram coisa de ficção científica (e isto vale tanto
para os hardwares, como os smartphones em cada bolso e cada bolsa, quanto para os programas). Além disso, eles
não tiveram um desenvolvimento incremental, para usar uma palavra feia porém precisa, como no caso da
pesquisa científica ou do avanço tecnológico em geral: os carros, por exemplo, vêm se desenvolvendo desde o
final do século XIX por uma sucessão de pequenos incrementos em suas características. Obviamente, numa certa
escala de tempo, isso também é verdade para a computação, a partir de meados do século XX. Mas desde que o
computador pessoal e a internet surgiram, entrando em seguida no mercado, no fim desse mesmo século, o
desenvolvimento e a ampliação da rede foi explosivo. Hoje há bilhões de pessoas conectadas e números
incalculáveis de dados sendo buscados e acessados. A palavra que resume tudo isso é informação. E não é por
acaso que informação e dados sejam, neste contexto, sinônimos: dado é o particípio passado do verbo dar (do
latim dadu, a partir de dare), e significa algo que se deu, no sentido de que aconteceu. A informação, portanto, é
simplesmente o registro de algo que ocorreu.
Quando se pensa nas chamadas mídias sociais, nada poderia ser mais exato ou verdadeiro. Mas isso
também vale para os mecanismos de busca: pois o que se busca é simplesmente informação, em seu outro sentido
principal: “[1] Elemento, princípio ou quantidade conhecida que serve de base à solução de um problema.
[2] Ponto de partida em que assenta uma discussão. [3] Princípio ou base para se entrar no conhecimento de algum
assunto” [Houaiss]. Elemento conhecido, ponto de partida, base para adentrar no conhecimento de algo: a
informação é (mais uma vez) algo dado – e no caso particular da rede, nos dois sentidos, porque é, ou ao menos
parece ser, gratuita. Em resumo, a informação é algo que preexiste. A relação de quem a acessa com a informação
acessada é, portanto, passiva quanto à sua geração ou origem. Além disso, o acesso a uma dada informação, ou a
uma informação dada, não leva a nada além da própria informação acessada. A informação é um fim em si mesma
– a que hoje chegam bilhões de indivíduos em todo o mundo.
Sua relação com o conhecimento, porém, é bem diferente, e está sintetizada acima: uma informação ou
um dado é uma “base para se entrar no conhecimento de algum assunto”. A informação, portanto, pode levar ao
conhecimento. Mas não leva ao conhecimento necessariamente, muito menos automaticamente. A chave, aqui,
está no verbo: “base para se entrar”. O conhecimento, ao contrário da informação, não é algo dado, mas algo
ativamente criado, gerado, produzido. Conhecimento é, em certo sentido fundamental, informação nova. Não
informação nova para algum indivíduo em particular, que dela tivesse até então desconhecimento, mas nova no
próprio conjunto das informações acumuladas. Conhecimento se adquire, não do conjunto de informações prévias
(dados), mas do mundo. E por isso pressupõe um trabalho de busca, de prospecção, de pesquisa, não em um banco
de dados, não no “mundo virtual”, mas no bom e velho mundo real. Essa busca, à diferença daquela feita por
informações na rede, não se limita e não pode se limitar à formulação de uma pergunta ou questão ou dúvida que
será respondida pela própria busca – cujo nome mais apropriado, no caso de rede, deveria ser consulta.
A busca de conhecimento tem na formulação de uma questão (na verdade, de uma hipótese, a ser testada
em sua verdade ou falsidade) apenas seu início. A parte principal é a criação de um protocolo, de um programa,
de um procedimento controlado e controlável de busca de novos dados, ou novas informações, que possam ser
interpretados de modo demonstrável (no sentido de confirmar ou negar a hipótese pré-concebida). O
conhecimento, portanto, ao contrário da informação, exige trabalho intelectual prévio de formulação de hipóteses
a serem testadas, e trabalho intelectual e prático posterior a fim de colocá-las em teste. Adquirir conhecimento é,
em seu sentido mais fundamental, testar novas hipóteses (caso contrário, de um modo ou de outro, volta-se às
informações, aos dados – o que vale também para o chamado “conhecimento tradicional”, conjunto de
informações cristalizado e consolidado pela tradição). Em suma, enquanto adquirir informação se limita a ter
acesso à informação (e à informação adquirida ou acessada), adquirir conhecimento significa prospectar, sondar,
perscrutar, partes ou aspectos ainda não conhecidos do mundo, da realidade, da vida. Para usar uma velha
metáfora, empreender um esforço no sentido de conseguir lançar alguma luz sobre regiões até então obscuras
da experiência humana (assim, à diferença da informação, recebida por bilhões de indivíduos, o conhecimento é
adquirido por uma parcela ínfima da população mundial, os especialistas ou profissionais das várias áreas de
pesquisa – ainda que uma parte desse conhecimento seja, mais cedo ou mais tarde, transformada em informação
acessível).
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Podemos, agora, tentar falar de sabedoria. Porque ela pode ser resumida como o resultado daquela mesma
experiência submetida à reflexão. Se sua parte primeira, ou seu pressuposto, é a experiência, esta não é a parte
principal. Experiência (ou experiências) todo ser humano adquire a partir do momento em que sai do útero
materno. Mas a experiência, em si ou por si, assim como a informação, não leva a nada além de si mesma, por
maior que seja. E assim como na relação entre informação e conhecimento – que pressupõe uma ação
consciente para se passar da primeira para o segundo –, a passagem da experiência para a sabedoria também a
pressupõe. E essa ação consciente, aqui, é a própria reflexão. Re-fletir é se dobrar sobre; daí a conotação da
palavra reflexo, ou seja, a flexão ou dobra da luz sobre alguma superfície lisa, luz que então retorna para o
observador. Refletir é, neste caso, “dobrar-se”, debruçar-se, sobre a experiência (incluindo informações e
conhecimentos adquiridos). Se a informação, como algo dado, exige apenas um mecanismo de busca ou acesso,
e se o conhecimento, sendo o descobrimento, o desvelamento de informações até então desconhecidas sobre o
mundo, exige a formulação de hipóteses a serem testadas e de instrumentos de teste, a reflexão exige,
fundamentalmente, nada; isto é, a estase, a parada, a interrupção de todo fluxo, seja de informações, de
conhecimentos ou de experiências, a fim de que o pensamento possa se debruçar sobre tudo o que foi por eles e
com eles adquirido. Se alguma sabedoria é possível, ela é e só pode ser o resultado lento e longo e árduo do
trabalho abstrato da reflexão sobre a matéria bruta da experiência; o voltar-se da mente sobre aquilo mesmo que
a nutriu e lhe deu forma e substância ao longo da vida.
É evidente ser esta uma época que absolutamente não privilegia a reflexão. Ao contrário. O predomínio
absoluto é da busca passiva por dados, por informações, e, ao lado disso, pelo consumo e pelo divertimento
(entertainment). Tudo isso é, por natureza, oposto, em todos os sentidos, ao trabalho de reflexão, que, além de
lento, silencioso e estático, é introspectivo.
Pode-se então concluir que, enquanto a busca de informação envolve bilhões de indivíduos, e a geração
de conhecimento, uma parcela ínfima da população mundial, a reflexão, sem a qual não há sabedoria possível,
representa uma parcela virtualmente nula dessa mesma população. Dito de outro modo, se somos, de fato, a
“sociedade da informação”, e, também, uma “sociedade do conhecimento”, somos, ao mesmo tempo, uma cultura
avessa ou impermeável à reflexão, uma sociedade irreflexiva e, por isso, tão rica em informação (e conhecimento)
quanto pobre de sabedoria.
Por Luis Dolhnikoff.

Diferença entre conhecimento e informação - Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

No dia a dia, normalmente não estabelecemos diferença entre conhecimento e informação. Mas observe: a
diferença existe e percebê-la é muito importante para entender o verdadeiro sentido da pesquisa. Tentarei explicar
com um simples exemplo: Quando alguém diz: “a água ferve a 100 graus Celsius”; ou “o Brasil é o país com o
maior número de cidades do mundo”, estas declarações são informações, ou seja, dados sobre determinados fatos
ou circunstâncias da existência. Ao simplesmente nos apropriamos delas, costumamos dizer que “temos
conhecimento sobre o assunto”. Eis o grande erro!
Conhecimento não é simples apropriação de informações, no sentido de memorizá-las ou guardá-las em
nossa mente como se o intelecto fosse um grande catálogo. Vale dizer que os computadores são muito mais
eficientes do que nós para guardar informações.
O Conhecimento (bem como o aprendizado de uma forma geral) não é coisa guardada ou ato de guardar,
o conhecimento é uma atividade intelectual, um processo mental onde indagamos, questionamos e estabelecemos
relações entre as diversas informações obtidas. O que resulta deste processo, claro, são novas informações que,
por sua vez, serão comunicadas, apreendidas e também empregadas em novos processos.
Assim, ainda que uma proposta de pesquisa seja uma simples coleta de informações sobre determinado
assunto, a verdadeira pesquisa vai além, questionando e confrontando informações, indo além do conhecimento
posto e do senso comum.