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POLÍCIA CIVIL DO RIO DE JANEIRO

ACADEMIA ESTADUAL DE POLÍCIA SYLVIO TERRA


DIVISÃO DE ENSINO POLICIAL

Módulo Operacional

TÉCNICAS DE
INVESTIGAÇÃO POLICIAL

Curso de Formação Profissional para Inspetor de Polícia

Instrutores:

Adrialvaro Nascimento Marco Pedra


Jorge Cypriano Miguel Ticom
Josemar Batista Pérsio Rovero
Júlio Filho Raphael Ferrari
Marcelo Loureiro Renato Voto
Márcio Garcia Roberto Carlos
Márcio Santos Sérgio Barata

2013
PCERJ - ACADEPOL

SUMÁRIO

Introdução à Investigação Policial Página 04


A Inteligência de Segurança Pública e a Investigação Policial Página 07
Técnicas Preliminares de Investigação Página 09
Coleta de Dados e Informações na Investigação Página 13
Técnicas de Entrevista e Interrogatório Página 17
A Investigação Policial no Local de Crime Página 28
Análise/Interpretação e Gestão de Dados Página 33
Interceptação das Comunicações Página 36
Fontes de Consulta na Investigação Página 37
Linhas Investigativas e a Mecânica de Investigação em Bloco Página 38

CRÉDITOS

Autores da apostila em 2010:

 Marcelo Porto Loureiro


 Gilvan Silva Ferreira
 Ricardo do Bomfim Pantoja

Equipe que revisou e atualizou o conteúdo em 2013:

 Adrialvaro Nascimento
 Jorge Cypriano
 Marcelo Loureiro
 Márcio Garcia
 Miguel Ticom
 Pérsio Rovero
 Raphael Ferrari
 Sérgio Barata

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CONTEXTUALIZAÇÃO

A investigação é o elemento central do trabalho da Polícia Civil, conforme disposto


no parágrafo 4° do Art. 144 do CRFB/88: “... as funções de polícia judiciária e a apuração de
infrações penais, exceto as militares”.
Sendo assim, deverá o Agente de Polícia Estadual de Investigação, sob a
supervisão da Autoridade Policial, diligenciar no sentido de reunir elementos que comprovem a
materialidade e a autoria do delito, a fim de fornecer elementos que subsidiem o oferecimento
da denúncia pelo Ministério Público e possibilitem a aplicação da lei penal.

OBJETIVOS DA DISCIPLINA

Criar condições para que o profissional da área de segurança pública possa ampliar
conhecimentos para compreender e diferenciar os procedimentos de JECRIM e Inquéritos,
reconhecendo a necessidade de planejar a investigação e/ou reunir os elementos de
comprovação de autoria e materialidade.
Desenvolver e exercitar habilidades para capacidade de observação das partes e
capacidade de reunir cada um dos elementos investigados, a fim de criar uma totalidade lógica
para a comprovação da hipótese vislumbrada.
Fortalecer atitudes para desenvolver o raciocínio lógico, a perspicácia na
observação e a capacidade de síntese.

ATENÇÃO: Essa apostila é mais um instrumento para auxiliar o seu estudo. As


informações e comentários do Professor durante as aulas são essenciais para o
complemento do seu aprendizado.

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INTRODUÇÃO À INVESTIGAÇÃO POLICIAL

Preferimos o termo Investigação Policial ao termo Investigação Criminal, pois esta


se limita à investigação de crimes e, por experiência, sabemos que a Polícia Civil do Estado do
Rio de Janeiro, além de fazer Investigação Criminal, faz investigações de fatos que não são,
necessariamente, crimes, como estudaremos mais frente.

Conceitos
É o trabalho executado pelo profissional de Polícia, que visa provar a existência ou
esclarecer um fato delituoso e suas circunstâncias, além de identificar o autor ou os autores da
infração penal.
“É o conjunto de indagações ou pesquisas, pessoal ou material, que os Policiais
empreendem em busca da elucidação de fato de intervenção policial, cujos elementos sejam
desconhecidos ou necessitam de completo ou um melhor esclarecimento”. (Detetive Inspetor
Paulo Marano)
É o conjunto de diligências empreendidas no sentido de esclarecer um fato
criminoso ou abrangido por Lei, indicando, ao final, sua autoria e suas circunstâncias.
Investigação Policial é um conjunto de procedimentos interdisciplinares, de
natureza inquisitiva, que busca, de forma sistematizada, a produção da prova de um delito
penal.

Finalidades da Investigação Policial


A produção da prova penal ocorre no Brasil, em grande parte, na fase que antecede
o processo, por meio do Inquérito Policial. A finalidade da Investigação Policial é coincidente
com a finalidade daquele procedimento, dividida em três eixos:

 Finalidade Remota – A aplicação da lei penal e a tutela dos direitos fundamentais do


cidadão;
 Finalidade Mediata – Produzir subsídios para a promoção da ação penal; e
 Finalidade Imediata – Apuração de provas das circunstâncias e da autoria das infrações
penais para indiciamento do autor.

Classificação da Investigação Policial


Os dados tanto poderão ser coletados de vestígios deixados em objetos
relacionados com a prática do delito, como do depoimento de pessoas que, de alguma forma
têm, ou tiveram algum vínculo com o fato investigado.
É a natureza funcional do investigador que irá determinar um dos critérios de
classificação da Investigação Policial.

Classificação quanto à natureza funcional do investigador, segundo a SENASP:

 Investigação Policial Cartorária – É aquela desenvolvida sob o controle técnico-


funcional direto da Autoridade Policial, no âmbito do cartório da organização. Exemplo:
Ordem de serviço expedida a uma equipe de profissionais da Seção de Investigação
para localizar determinada testemunha ou para identificar as testemunhas de um
determinado delito e o reconhecimento de um suspeito.

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 Investigação Policial Técnico-Científica – É aquela desenvolvida pelos peritos, sob a


coordenação técnico-operacional indireta da Autoridade Policial. É feita, mediante
requisição da autoridade que preside a investigação. Exemplo: A análise de mancha de
sangue feita pelo perito, no local de crime e a necropsia feita pelo legista.

Classificação quanto ao momento da execução:

 Investigação Preliminar – É aquela que se inicia logo após a notícia do crime e continua
até a liberação do local pela polícia. Este é o primeiro momento, que acontece quando a
Autoridade Policial se desloca para o cenário do crime, buscando seu isolamento e a
preservação para a busca da prova.

 Investigação de Seguimento – Ocorre após a polícia deixar o local e é feita tendo como
ponto de partida os indícios ou as provas obtidas na Investigação Preliminar. O
segundo momento acontece quando, esgotadas todas as possibilidades de busca de
informações na cena, a investigação se desloca para o cartório da unidade encarregada
do procedimento e para os laboratórios periciais.

Obs.: Essas duas modalidades são gerais e abrangem a investigação cartorária e a técnico-
científica. Especialistas no assunto divergem a respeito do tempo em que as provas começam
a desaparecer, variando entre 24 e 72 horas. Esse tempo depende de fatores como o nível de
proteção (isolamento) do ambiente e as condições climáticas.

Princípios Fundamentais da Investigação Policial


O procedimento investigatório para cumprir sua função tutelar dos direitos
fundamentais precisa moldar-se em princípios que possibilitem essa adequação.
Sendo a Investigação Policial ato da administração pública, incidem sobre ela
princípios que fundamentam a gestão dessa administração, bem como princípios específicos
da metodologia de execução técnico-científica.
Os princípios aplicados à investigação são regras de operacionalidade da função
protetora de direitos fundamentais que lhe é imposta.
Quanto maior o grau de lesividade do ato investigatório, maior deverá ser o cuidado
do investigador com as garantias protetoras do investigado.

Princípios Constitucionais da Investigação Policial


O marco inicial dos princípios que regem a Investigação Policial é o artigo 37, da
Constituição Federal que formula os fundamentos legais que deverão servir de referência para
todos os atos da Administração Pública.
Art. 37: A Administração Pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (...).

Fundamento Legal da Investigação Policial


A Investigação Policial é um conjunto de atos da Administração Pública. Tais atos
administrativos são orientados por princípios que dão legitimidade às práticas do investigador.
No Estado democrático de Direito, a legalidade é fundamental em todos os atos da
administração. Você já deve ter ouvido o provérbio latino que diz: “Todo poder vem da lei”. A lei
é a sustentação de toda a arquitetura da Investigação Policial. Para ter validade, é preciso que
cada parte do processo seja formatada de acordo com o modelo definido em lei.
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O modelo jurídico dos atos está expresso tanto na Constituição Federal como no
Código de Processo Penal e em outras leis especiais que regulamentam atividades,
específicas de investigação Policial, como a “infiltração” de policiais em grupos organizados,
destacando-se a Doutrina de Inteligência de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro
(Decreto nº 37272 de 01/04/2005).
O ato de investigar, por sua natureza, é invasivo; por isso, precisa de controle
absoluto para evitar que o dano causado seja sempre o extremamente necessário para a
coleta da prova.

Trilogia da Investigação Policial


A trilogia compreende o conjunto de três obras ligadas entre si por um tema
comum. Em uma figura geométrica triangular, em que cada extremo será representado por um
instituto da investigação. Assim, teremos na parte superior o CRIME, à direita a PROVA e à
esquerda o AUTOR. A trilogia da investigação policial é formada pelo estudo e pela correlação
entre o crime, as provas e o autor, nesta ordem.
A sequência da trilogia constitui importante recurso ao investigador, mormente nos
casos de homicídio, em que o interrogatório do autor, quase sempre acontece após a produção
de provas. É comum ao policial inverter esta sequência no afã de terminar logo a sua missão,
curvando-se aos encantos da confissão do suposto autor, esquecendo-se da produção de
provas ou as colige, insuficientemente.

CRIME

AUTOR PROVA

É comum no curso da investigação nos depararmos com verdadeiros hiatos na


sequência do iter criminis. Somente o autor poderá revelar detalhes importantes de ligação aos
fatos já conhecidos, tornando a história completa. Nessa hipótese, a conversa com o autor do
crime pode ser produtiva, mas será uma exceção à regra, posto que fases importantes da
investigação podem ser atropeladas, no que concerne à produção de provas.
A produção de provas da autoria é fundamental, já que não há condenação sem as
provas obtidas por meios lícitos, legalmente permitidos, e a confissão do autor do delito, na
maioria dos casos, não tem valor probante. É comum o criminoso, geralmente, orientado por
advogados que não possuem outra estratégia para defesa, alegar em juízo que foi coagido ou
até torturado em sede policial para confessar a prática do crime.

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Outras Considerações:

 Diligência é toda e qualquer saída da sede policial para realizar as investigações, sejam
elas preliminares ou de seguimento, e, também, qualquer ação em que se obtenha um
dado novo para a investigação, mesmo que seja uma consulta na internet ou um
telefonema.

 Entender o crime é primordial a uma investigação bem feita. Devem-se substituir


métodos censuráveis e empíricos pela técnica, pelas ciências e por uma metodologia
que emprega a inteligência e o raciocínio lógico.

 A observação na Investigação Policial tem um sentido muito mais amplo. O


envolvimento de todos os sentidos do investigador empenhado é fundamental na busca
da solução de determinada investigação do fato delituoso. Tudo merecerá uma atenção
especial. Nada ficará de fora de sua observação para posterior análise e interpretação.

 A intuição, como poder de imaginação criadora, muito embora não seja recomendada
tem sua razão de ser. Sempre controlada pelo intelecto, pode e deve ser utilizada
quando não há mais fatos a observar ou conclusões a tirar. A presença deste fenômeno
sempre faz parte do contexto policial. Siga a sua intuição.

A INTELIGÊNCIA POLICIAL DE SEGURANÇA


PÚBLICA E A INVESTIGAÇÃO POLICIAL

Conceitos
A Inteligência é uma atividade de staff com doutrina e metodologia próprias, que
tem por objetivo produzir conhecimento nas organizações, com foco na estratégia, na tomada
de decisões e na defesa das instalações das organizações e de dados e conhecimentos. Neste
contexto, estão inseridas as instituições policiais, pois o crime organizado e a violência urbana
são reflexos de mudança do comportamento social.
“A atividade de Inteligência de Segurança Pública é o exercício permanente e
sistemático de ações especializadas para identificação, acompanhamento e avaliação de
ameaças reais ou potenciais na esfera de segurança pública, orientadas, basicamente, para a
produção e para a salvaguarda de conhecimentos necessários à decisão, ao planejamento e à
execução de uma política de segurança pública e das ações para neutralizar, coibir e reprimir
atos criminosos de qualquer natureza” (Decreto Estadual nº 37.272 de 01/04/2005).
Em suma, a Inteligência de Segurança Pública trabalha para a produção e
salvaguarda dos conhecimentos. Conhecimentos estes que podem subsidiar ou gerar uma
Investigação Policial ou ainda, auxiliar o “tomador de decisão” nas suas atribuições.

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Ramos da Inteligência

 Inteligência – Tem como atividade produzir conhecimentos voltados para atividade-fim,


isto é, a criminalidade em geral. Como “Inteligência Positiva”, direciona seus esforços
para o alvo escolhido.
 Contra-inteligência – Produz conhecimentos para proteger a atividade de inteligência e
a instituição a que pertence. Como “Inteligência Negativa”, direciona a sua atividade
para os assuntos internos, particularmente, os relativos aos desvios de conduta e contra
as ameaças das forças adversas.

Fontes:

 Inteligência Humana – É aquela na qual o agente de inteligência é o ponto central da


aplicação do esforço, mesmo quando apoiado por diversos equipamentos.
 Inteligência Eletrônica – Quando o ponto central é o equipamento que captura os dados
e o agente apenas é o analista dos dados obtidos, dividindo-se em Inteligência
Eletrônica de Sinais, Imagens e Dados.

Produção de Conhecimento:

 Na Inteligência – Verdade com significado.


 Na Investigação – Obtenção de provas.

Cultura de Inteligência
A preparação de profissionais é um passo importante. A formação e qualificação de
profissionais para exercer esta atividade criam no ambiente interno a convicção de que a
Inteligência e as técnicas operacionais somam e ampliam a capacidade investigativa para
enfrentar o crime do mundo atual, bem como a tecnologia de ponta como suporte nas
operações técnicas de interceptações telefônicas e ambientais.
É importante ressaltar que a atividade de inteligência não substitui a investigação
policial. Deve ser uma área de apoio, com atuação sistêmica, disseminando conceitos e
técnicas de produzir conhecimentos, com o objetivo de subsidiar decisões e proporcionar
efetividade nas ações repressivas e preventivas.
Não custa lembrar que o Decreto Estadual nº 37.272 de 01/04/2005 (DISPERJ), em
seu Capítulo II, nº 13, letra E; não permite que documentos de inteligência sejam inseridos em
processos e procedimentos apuratórios, ressaltando que o conhecimento pode e deve ser
usado, de acordo com as normas internas de cada instituição.
Essa última parte nos remete ao Artigo 8º da Lei Estadual nº 2.331 de 05/10/1994, que
prevê que o usuário é o responsável pelo uso e divulgação das informações contidas em
documentos públicos, resguardando-se o direito de indenização pelo dano material ou moral
decorrente da violação do sigilo, sem prejuízo das ações penal, civil e administrativa.

As tecnologias utilizadas pela Inteligência e pela Investigação


O Policial, na incessante procura de informação sobre o crime, deve dispor de toda
a tecnologia existente. Em razão do rápido processo de obsolescência dos recursos, deve ser
constante o investimento na tecnologia de ponta no campo de captação de imagens, voz e
redes corporativas.

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TÉCNICAS PRELIMINARES DE INVESTIGAÇÃO

Diante de um fato, o investigador precisa executar um processo preliminar de


observações e reflexões para formular as primeiras hipóteses sobre a natureza do problema
que lhe é apresentado:

 Se é crime (e que tipo)


 O autor (quem teria interesse, meios e oportunidade para praticá-lo)
 As circunstâncias em que possa ter ocorrido (quando, onde e como aconteceu).

Para isso terá que recorrer a algumas técnicas preliminares que estão em um
contexto chamado de estudo exploratório.

Estudo Exploratório
É um estudo de diagnóstico desenvolvido para a análise de “onde se está” e “como
se está”. Visa um maior conhecimento do fenômeno apresentado e não necessita de uma
hipótese. Envolve levantamento de dados das circunstâncias e do ambiente onde ocorreu o
evento.
São estudos preliminares para demonstrar a realidade existente, a partir de uma
observação sistêmica para configuração do diagnóstico do fato que é colocado para
investigação.
“Normalmente é o passo inicial no processo de pesquisa pela experiência e um
auxílio que traz a formulação de hipóteses significativas para posteriores pesquisas”. Cervo e
Bervian (2002, p. 69).

Referencial do Estudo Exploratório

 Fontes Secundárias – “Referem-se ao material conhecido e organizado segundo um


esquema determinado” (Denker, 2007, p. 156). São informações que não têm relação
direta com o caso, mas dizem do caso ou do ambiente onde ele aconteceu. Exemplos:
publicações de jornais, reportagens de TV, mapas, catálogos telefônicos, bases de
dados e banco de dados.
 Estudo de Caso – É uma forma de colocar o investigador diante de uma situação
prática, onde irá refletir e praticar conceitos e técnicas. O caso é um problema vivido
pela organização que exige uma análise ou decisão. Aplicado ao estudo exploratório
para o plano de investigação, será a análise de uma situação investigada,
anteriormente, similar ao fato objeto do planejamento atual. É a oportunidade de
aprendizagem com os erros e acertos já praticados. Exemplo: um crime ocorrido e
apurado, cujas características são as mesmas do que está sendo apurado.
 Observação Informal – É o método de coleta preliminar de informações necessárias às
primeiras hipóteses e ao plano inicial. É aplicada por meio do reconhecimento.
Exemplo: antes de iniciar a investigação de um possível latrocínio ocorrido em uma
região de comércio no centro da cidade, o investigador se desloca à cena para colher
as primeiras informações, registrar suas impressões iniciais e, com isso, elaborar seu
plano operacional.
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Levantamento de Meios e Modos


O estudo exploratório também serve para levantamento dos meios e modos
aplicados pelo infrator na prática do delito, o que é chamado de modus operandi (modo de
fazer).
Os meios dizem respeito à técnica aplicada. Os instrumentos utilizados do
planejamento ao exaurimento da conduta delituosa. Eles poderão ser documentos, armas,
equipamentos de comunicação, etc.

Escolha da Técnica de Investigação


Adequando a orientação de Denker (2007, p. 160), você pode dizer que a escolha
da técnica de investigação deve ser adotada com a seguinte metodologia:

 A técnica que será empregada em cada investigação dependerá do problema que


está sendo investigado, dos objetivos e da disponibilidade de recursos para realização
do projeto.
 As técnicas não se excluem; poderão ser empregadas em uma mesma investigação
metodologias e técnicas diversas, conforme a variável que está sendo analisada e a
fase do projeto em que se encontra.
 É recomendável iniciar a investigação por um estudo exploratório. Para tomar
conhecimento da situação, o que possibilitará ao investigador decidir quais serão os
métodos necessários às fases posteriores.

Elementos Básicos
As Técnicas Preliminares de Investigação têm a Observação, a Memorização e a
Descrição como os seus três elementos básicos:

1 – Observação
Os instrumentos primários da investigação são os sentidos do investigador. A
intensidade sensorial tem relação direta com o resultado da investigação. Quanto maior sua
capacidade de percepção global do ambiente, maior será a probabilidade de compreender e
encontrar a explicação correta para o delito.
Investigar é observar a realidade. Grande parte das informações que o investigador
procura poderá ser obtida pela observação direta dos fatos. Muitas dessas informações estão
codificadas e precisam de uma leitura cuidadosa. Exemplo: anúncios em jornais poderão
conter códigos de comunicação entre membros de uma quadrilha que pratica tráfico de seres
humanos.
A cena do evento é sempre rica de informações que dependem de criteriosa
observação para serem reconhecidas.

1.1 – Questões básicas na observação


Seja qual for o propósito da investigação, o investigador deverá responder quatro
questões, segundo Denker (2007, p.127):

 O que deve ser observado?


Um documento? Uma pessoa ou grupo de pessoas? Um ambiente? Um vestígio?
Um fato? O plano deverá fazer constar a natureza do alvo observado e a finalidade
da observação, ou seja, que tipo de evidência você pretende encontrar no ambiente,
na pessoa ou no objeto observado que possa estabelecer uma relação entre ele (ou
outra pessoa) e o fenômeno investigado.

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 Como registrar as informações?


Diz respeito à ferramenta que irá ser utilizada para registro das informações que o
investigador pretende encontrar. A tecnologia de hoje é rica em equipamentos para
esse fim e isso terá que ser previsto nos recursos necessários, para que não haja o
risco de o investigador deixar de registrar o dado ou a informação observada.
 Que processos devem ser adotados para garantir a exatidão?
O investigador deverá indicar no plano quais são os procedimentos que poderão
garantir a confiabilidade dos dados coletados. Denker (2007) cita os seguintes
exemplos de processos para verificação da confiabilidade dos dados:
- Permanência prolongada no campo de observação. Quanto mais tempo demorar
a observação e quanto maior for o número de detalhes registrados, maiores
serão as possibilidades de verificação da confiabilidade das informações
colhidas;
- O questionamento por pares. Pedir a colaboração de outros investigadores
envolvidos na análise dos dados;
- A triangulação, ou seja, investigar um mesmo ponto mais de uma maneira;
- A análise de outras hipóteses. O investigador deverá analisar outras possíveis
hipóteses para o caso e cruzá-las com a que está sendo verificada.
 Que relação deve existir entre o observador e observado?
Esse processo é fundamental, principalmente, nas técnicas de entrevista e
infiltração, quando o observador interage, diretamente, com o observado. Esse
critério poderá evitar erros que ponham em risco a investigação e o próprio
investigador.

2 – Memorização
A memorização é o primeiro processo adotado para o registro das informações
colhidas ou dos dados observados, durante a investigação policial. O desempenho da
memória é a chave para o sucesso da observação, bem como para a qualidade da atividade
profissional do investigador.
A memória é que nos define como indivíduos. Ela permite que você administre sua
vida pessoal e profissional. Ela não é um simples banco de dados; influencia seu modo de
ver a vida, de reagir diante dos fatos.
Uma memória ativa e poderosa é à base da nossa qualidade mental global.
Entretanto, a memória poderá falhar, temporariamente, devido ao estresse, cansaço ou
trauma, afetando as atividades da pessoa.

2.1 – Importância da memória para a investigação


É fundamental a coleta de dados e informações e, consequentemente, a
investigação. Dependendo da técnica aplicada, o suporte de registro inicial será apenas a
memória do investigador.
Você verá que algumas técnicas, como a infiltração, exigirão do investigador a
plena capacidade de memorizar informações de forma segura para que possa ser revista
depois.
Durante o processo de observação, quanto maior for a rede sensorial do
investigador, mais segura será a retenção dessas informações para acesso futuro, ou seja,
quanto maior for o número de sentidos que se utiliza para registrar informações sobre um
objeto, pessoa ou evento, maior será a possibilidade de registrá-las, prontamente.

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Exemplo: ao conhecer uma pessoa, se você usa apenas a visão, terá menor
possibilidade de relembrar seu nome. Entretanto, se você, ao conhecer uma pessoa, usar
todos os sentidos ao tentar lembrar seu nome, irá ter mais informações associativas, tais
como calvície, a aspereza da pele da mão, forte cheiro de cigarro, voz macia, etc.
O processo associativo é fortalecido pela capacidade de utilização de todos os
nossos sentidos na coleta de dados e de informações, facilitando sua consolidação.
Pesquisas científicas demonstram que a utilização dos sentidos é um processo
que precisa ser estimulado, diariamente, sob pena de que seja reduzido, gradativamente.

3 – Descrição
Depois de observar os dados e informações, vem a necessidade de registrá-los
para que possam ser analisados e validados como confirmação da hipótese levantada.
Descrever é expor, narrar de forma circunstanciada pela palavra escrita ou falada
tudo o que foi observado pelo investigador.
No sistema jurídico brasileiro, em que o Inquérito Policial é uma peça escrita, a
investigação resulta em relatos escritos, que tanto poderão ser uma informação do
investigador cartorário, como um laudo do perito ou do legista, ou termos e autos.
O investigador irá descrever em sua informação, ambientes, circunstâncias,
objetos, pessoas e suas próprias conclusões a respeito da hipótese levantada.

3.1 – Descrição de pessoas


Fazer a descrição de pessoas não é tão simples como parece. Requer
metodologia própria que possibilite ao encarregado da análise a reunião coerente e
organizada das observações, num processo de verificação de sua confiabilidade como
resposta ao problema.
A descrição necessita ter dados suficientes para confirmar ou não a hipótese
levantada, por exemplo, sobre o suspeito de autoria. Nesse caso, deverá responder a
pergunta: a pessoa observada e registrada tem a característica do suspeito descrito pela
testemunha?

3.2 – Técnica de descrição de pessoas


A melhor descrição das pessoas deve ser iniciada na cabeça, seguindo-se para os
membros inferiores chegando até os pés, de forma detalhada.
Na descrição geral das pessoas, devem ser observados fatores como: a raça, o
sexo, a idade aparente (se não for possível a informação correta), a estatura, o peso
(aparente), a compleição, a cor e o topo do cabelo e dos olhos, a cor da pele, a presença ou
ausência de bigodes, barba, a condição dentária, cicatrizes e marcas, uso de óculos e
peculiaridades físicas, tipo físico, cor e aspecto da roupa, etc.
Nem sempre é possível obter-se a completa descrição da pessoa suspeita, mas,
mesmo a descrição parcial pode ser de valor inestimável, principalmente, quando submetida à
análise comparativa com outros dados.

3.3 – Descrição física geral e particular das pessoas:

 Nome (nomes usados, vulgo);


 Sexo, raça, cor, nacionalidade;
 Idade (aparente pelo menos);
 Estatura (presumível, comparando-a com a própria ou com a de outra pessoa);
 Peso (presumível);

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 Compleição física (gordo, magro, esguio, forte, encurvado, ombros caídos, obeso,
estômago proeminente, etc.);
 Marcas e cicatrizes (naturais, produzidas ou tatuagens);
 Modo de falar (forte, suave, rouco, grosso, fino, lento, rápido, gagueira, sotaques,
gírias);
 Modo de andar (coxeando, etc.);
 Defeitos físicos;
 Tipos de cabeça, sobrancelhas, nariz, boca, dentes, bigode, orelhas, barba, pescoço,
ombros, tórax, braços e mãos.

3.4 – Descrição de indumentária:

 Camisa: cor, material, modelo;


 Gravata: cor, material, modelo;
 Calça, paletó, cinto, sapatos, luvas, jóias, óculos, etc.

Obs.: Em uma descrição de pessoas devem ser registrados os dados imutáveis. A descrição
deve ser honesta, realista, sem influências pessoais ou preconceituosas. Devem ser
particularizadas, pois as descrições genéricas pouco servem para a investigação. Observe no
indivíduo, não o que de comum possa existir, mas o que de particular apresenta, isso permitirá
uma identificação mais segura.

COLETA DE DADOS E INFORMAÇÕES


NA INVESTIGAÇÃO POLICIAL

É a técnica/fase da investigação em que se busca obter informações sobre a


realidade específica, ou seja, as circunstâncias em que ocorreu o delito e quem teria praticado.
São diversas maneiras e ferramentas para operá-la: o reconhecimento, os informantes, a
campana, a infiltração, a entrevista, a reprodução simulada dos fatos e a acareação, que
veremos neste ponto da matéria.
Mas, não podemos nos esquecer de outras ferramentas, como: a análise de dados,
a interceptação telefônica, a interceptação ambiental, as fontes de consulta, a análise de
imagens, a análise de sinais, etc.
A formulação da ferramenta de coleta é feita em função do fenômeno investigado e
das variáveis necessárias para sua explicação. Todos os dados e informações levantados
terão que ter relação com o fato em apuração, para que possam ser validados como prova.
Há diferença entre dados e informação? Qual é a utilidade prática desses conceitos para a
investigação policial? E conhecimento, você sabe o que é?

 Dados – São informações que, fora de um contexto, não possuem valor suficiente para
compreensão de um fenômeno, ou seja, o meio pelo qual a informação e o
conhecimento são transferidos.

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 Informação – São dados organizados, manipulados e tratados dentro de um contexto,


contendo algum significado como explicação do fato em apuração.

 Conhecimento – É a informação organizada, contextualizada e com o entendimento de


todos seus significados. É resultado da interpretação da informação e de sua aplicação
em algum fim, especificamente, para gerar novas hipóteses, resolver problemas ou
tomar decisões.

1 – Coleta de dados por meio do Reconhecimento


O reconhecimento é uma técnica de observação visual direta ou por meios
eletrônicos, que requer memorização e descrição dos dados observados. É uma atividade
preliminar de investigação que também ocorre durante o estudo exploratório. Busca as
primeiras informações sobre as atividades do investigado, sua identificação e as características
ambientais e geográficas de um determinado ambiente operacional.
É uma técnica que busca a coleta de dados sobre o ambiente operacional e o alvo
específico. Oferece parâmetros para a percepção do grau de risco do procedimento
investigatório.
O reconhecimento elabora um retrato fiel do ambiente onde será desenvolvido o
procedimento policial. É uma visão antecipada do cenário da investigação. Ajudará a
formulação das hipóteses preliminares do fenômeno investigado.
Dependendo do grau de risco tanto para a eficácia da investigação quanto para
integridade física do investigador, do investigado e das demais pessoas que possam vir a ser
envolvidas, o reconhecimento poderá ser ostensivo ou velado, com ou sem meios de disfarce
do observador.

2 – Coleta de dados por meio de Informantes


A coleta de dados por meio do informante é uma busca de informações para norteio
da investigação. É uma observação intermediária de suporte, baseada em fonte secundária.
O informante não é uma testemunha do evento. É alguém que tem informações
complementares à investigação. Poderá ser a pessoa que conhece as características físicas do
suspeito de autoria do crime, ou, ainda, a pessoa que exerce alguma atividade que, pela
natureza e ambiente onde ocorre, tem informações importantes para o norteio da investigação.
Exemplo: o barbeiro de confiança do suspeito, que escute suas confidências.

2.1 – Definição de Informante


Informante é a pessoa que, não pertence à polícia, colabora com o investigador,
criando facilidades ou fornecendo informações negadas para a verificação da prova. Não
confundir com o alcaguete, que é, vulgarmente, chamado de “X-9”.
O informante poderá ser recrutado de forma induzida ou voluntária. Seu
recrutamento deverá ocorrer entre pessoas que têm ou tiveram algum potencial relacionamento
com a pessoa, o dado ou ambiente de quem se quer informação.
O informante é um elemento desconhecido no processo da investigação. Seu
papel é fornecer dados preliminares ao investigador, auxiliando-o na leitura do caso, para que
possa formular as hipóteses preliminares.
O informante complementa ou confirma as informações colhidas por outros meios.
Muitas vezes é quem anuncia, em primeira mão, informações explicativas ou aponta a melhor
pista a seguir.
Exemplos: alguém que conhece o suspeito e sabe que em sua terra natal o mesmo
já cometeu crimes idênticos; ou que ouviu dizer quem seria o autor do crime.

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Obs.: Optamos por definir o termo informante na coleta de dados e informações na


investigação com um sentido mais amplo e específico para uma investigação. Em disciplina
própria, serão apresentadas outras informações, por exemplo, a Inteligência de Segurança
pública classifica o informante em três tipos: Colaborador, Informante e Agente Especial.

3 – Coleta de dados por meio de Vigilância


Também conhecida como Campana, tocaia, “abajur”, etc. Muitas vezes o
investigador terá que permanecer por horas ou dias, observando pessoas, ambientes, objetos
ou circunstâncias, para colher dados importantes para a produção de informações para a
investigação policial.
A vigilância poderá ser de pessoas procuradas pela justiça, criminosos em
atuação, e até de testemunhas e vítimas que precisam ser encontradas.

3.1 – Vigilância
É a observação de forma contínua e discreta de pessoas, ambientes, objetos ou
circunstâncias, com o objetivo de obter dados que formulem informações relacionadas com a
prova do delito.

3.2 – Tipos de Vigilância


Na vigilância, a observação deverá ser sistemática e contínua, pois qualquer lacuna
poderá comprometê-la ou até inutilizá-la por completo.

Quanto ao alvo, a vigilância pode ser:

 Vigilância Móvel – É aquela em que o investigador segue a pessoa observada em


seus deslocamentos, a pé ou em veículo. Exemplo: observação de uma pessoa que
se desloca por vários pontos da cidade, durante o planejamento e a execução de um
delito.
 Vigilância Fixa – É aquela em que a observação é feita de um ponto fixo, do qual o
investigador não se desloca. Exemplo: observação pela janela de um apartamento do
movimento de um ponto de tráfico de drogas.

Quanto aos agentes, poder ser:

 Vigilância a Pé – É aquela em que o investigador se desloca a pé.


 Vigilância Transportada – É aquela em que o investigador se desloca em um meio de
transporte motorizado ou não.

Quanto ao grau de sigilo, pode ser:

 Sigilosa – Quando o alvo não tem conhecimento que está sendo observado
 Ostensiva – Propositalmente realizada para que o alvo tenha ciência que está sendo
observado.

3.3 – Planificação da Vigilância


Cada diligência deverá ter seu plano, por mais simples que seja. O investigador
não deve se lançar despreparado à vigilância, sem um planejamento. Imprevistos poderão
ocorrer pondo em risco não só a investigação, mas sua própria segurança.

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4 – Busca de dados por meio de Infiltração


Há momentos em que os dados que o investigador precisa para a construção da
prova estão em ambientes fora de seu alcance, em um universo antagônico. Entretanto, é
importante que ele colha esses dados, pessoalmente, com ação de infiltração. O ato é,
realmente, de penetração e permanência em um ambiente.
A infiltração consiste na penetração velada e dissimulada em ambientes onde são
planejadas ou executadas atividades delituosas, para a busca de dados que possam explicar
as circunstâncias e a autoria desses delitos.
Essa é a modalidade de maior risco para o investigador. Daí a necessidade de um
planejamento sério que diminua esse risco e aumente a garantia de sucesso.

4.1 – A Infiltração
O planejamento operacional para a execução da infiltração, além de cuidar das
necessidades comuns, como definir os tipos de dados que deverão ser buscados, os recursos,
os procedimentos a serem adotados, requer outros cuidados específicos.
O planejamento obedecerá às normas impostas nas Leis nº 9.034/95 (Repressão
ao Crime Organizado), nº 11.343/2006 (Repressão ao Tráfico Ilícito de Drogas) e Decreto
Estadual nº 37272 de 01/04/2005 (Doutrina de Inteligência de Segurança Pública do Estado do
Rio de Janeiro.

4.2 – Fase final


O plano de ação também deverá prever os procedimentos a serem adotados pelo
infiltrado na fase final da diligência. Nessa fase, ele já terá as informações que procurava; em
muitos casos, a confirmação da prática do delito ou a identificação e o paradeiro de pessoas e
coisas, quando, então, poderá haver uma ação policial de repressão.
Nos contatos com a base de gestão da diligência, o infiltrado passa circunstâncias
que propiciarão um plano para a fase final. Serão respondidas questões como: Quando deverá
ocorrer a prisão do infrator observado? Quando e como deverá ocorrer o resgate do infiltrado?
Contudo, como regra geral, não deverá o infiltrado agir sozinho, no desfecho da
diligência, executando, por exemplo, prisões.
Qualquer que seja a forma do desfecho da diligência terá que haver extremo
cuidado com a retirada do investigador infiltrado.

5 – Coleta de dados por meio da Entrevista


A entrevista é outra Ação de Busca aplicada na busca de dados para a apuração do
delito. Seu objetivo é obter informações sobre o fato objeto da investigação, por meio de
testemunhos.
Consiste numa lista de indagações em que o investigador procura colher as
informações necessárias para a formulação ou confirmação de uma hipótese. O conhecimento
produzido por meio da entrevista é a referência de um relato verbal e de sinais não-verbais do
entrevistado sobre o fato vivenciado por ele.
Pela entrevista, o investigador capta a realidade de um evento pela visão do
entrevistado. É ferramenta na coleta de informações na tentativa de responder as questões
básicas da investigação: Quem? O que? Onde? Por quê? Como? Com Quem? Quando?
Sua característica principal é a informalidade. É aplicada, em regra, para ouvir
testemunhas, vítimas e suspeitos. Poderá ser utilizada, também, como auxiliar de outra ação
de busca de dados e informações na investigação, como infiltração, vigilância e obtenção de
dados de informantes.
No sistema processual brasileiro, a entrevista aplicada à investigação policial
poderá ter caráter de estudo exploratório que antecede o planejamento de uma atividade
operacional com a busca e apreensão, a vigilância, etc.
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O investigador deverá está seguro dos objetivos da entrevista, para garantir a


obtenção de informações relevantes e reveladoras. Para isso terá que se preparar, elaborando
um plano de ação.
A característica principal da entrevista é a interação entre pessoas. Uma tem o
dado, outra busca esse dado. É um jogo de troca de informações, que voltaremos explorar
mais adiante, junto com as Técnicas de Interrogatório.

6 – Reprodução Simulada dos fatos e a Acareação


Embora sejam institutos processuais penais, previstos no Artigo 7º e Artigos 229 e
230 do Código Processo Penal, respectivamente, também são maneiras de se obter
informações sobre a realidade do fato investigado e que veremos mais à frente, no ponto das
Práticas Cartorárias na Investigação Policial.

TÉCNICAS DE ENTREVISTA E INTERROGATÓRIO

Métodos de entrevista
A entrevista pode ser aplicada de duas maneiras: quanto ao modo de formulação
dos quesitos e quanto às circunstâncias em que ocorre.

Quanto ao modo de formulação dos quesitos, a entrevista pode ser:

 Estruturada – Elaborada com perguntas determinadas. O entrevistador elabora quesitos


pré-determinados.
 Semiestruturada – Permite maior liberdade ao entrevistado, pois as perguntas, apesar
de determinadas a um tema ou temas, são formuladas, livremente.
 Cognitiva – Busca maximizar a quantidade e a qualidade de informações obtidas de
uma testemunha.
 Mista – O entrevistador utiliza uma junção das técnicas anteriores.

Quanto às circunstâncias em que ocorre, pode ser:

 Ostensiva – Quando em situação de normalidade o entrevistador não precisa esconder


sua identidade funcional.
 Encoberta – Quando, por conveniência da investigação, o entrevistador precisa ocultar
sua identidade funcional, assumindo outra que lhe permita acesso ao entrevistado, sem
revelar a finalidade da entrevista.

Fases da entrevista
A Preparação, a Execução e a Análise são as três fases distintas da Entrevista,
como veremos a seguir:

1 – Fase de Preparação da Entrevista


A preparação da entrevista é de grande importância, pois é quando serão definidos
os objetivos e, em razão deles, a estratégia a ser adotada.

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O tempo de duração de uma entrevista poderá ser bastante curto, mas com
resultado duradouro e de efeito extraordinário na investigação. O investigador poderá sair de
uma entrevista com todas as informações que esperava ou sem qualquer informação relevante.
Tudo depende de como planejou e executou o processo.
A entrevista busca conhecimentos, dos quais, o entrevistado terá que ser um
potencial depositário. No contexto da investigação, o entrevistador precisa identificar as
pessoas com potencialidade de informações que interessem para a resolução do crime.

1.1 – O Inventário
O estudo exploratório deverá municiar o investigador com todo o fundamento
teórico necessário para a execução da entrevista.
O entrevistador fará um inventário com todos os dados conhecidos sobre o caso e
sobre o alvo da entrevista (perfil), para a elaboração do plano da entrevista.
As informações colhidas, especialmente, na cena do crime, servirão de referencial para as
questões a serem feitas.
Ele fará um esquema das perguntas-chave que servirá de roteiro para a entrevista.

1.2 – Fatores que poderão alterar a qualidade da informação:

 Distância física em relação ao incidente;


 Capacidade física da testemunha;
 Condição emocional no momento da ocorrência;
 Experiência e aprendizado prévio; e
 Preconceito e parcialidade.

2 – Fase da Execução da Entrevista


A entrevista é, fundamentalmente, um processo de comunicação. Portanto, sua
condução deverá aplicar os princípios de relações humanas.
Muito embora a palavra seja a linguagem mais comum na transmissão de
mensagens entre as pessoas, há também a linguagem gestual que deverá ser observada pelo
entrevistador, pois sempre estará carregada de mensagens que complementam a
manifestação verbal.

2.1 – Barreiras à comunicação


O entrevistador deverá criar um ambiente de empatia para que receba o feedback
necessário do entrevistado. A melhor técnica é a da audição ativa, isto é, ouvir e não apenas
escutar.
Um exemplo de audição ativa é você pedir que o entrevistado dê exemplos ou
explique melhor sua informação. A audição ativa estabelece uma relação de confiança e
respeito entre os interlocutores.

2.2 – Condução da entrevista


Segundo Heráldez (Creación de falso recuerdos durante laobtencion de
pruebastestimoniales), somente a partir do uso adequado das informações decorrentes da
investigação científica, será possível assegurar níveis mais altos de justiça, segundo nos
ensina Arend (Testemunho Fidedigno).
Para o mesmo autor, a psicologia tem exercido importante papel na aplicação dos
métodos científicos na busca da prova de um crime, principalmente, na valorização das causas
e consequências humanas do delito. Esse processo é mais claro na obtenção e análise das
provas testemunhais.
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A prova testemunhal é parte importante da verdade real do fato, objeto principal da


investigação policial e do processo penal. Muitas vezes, é a prova mais significativa dessa
verdade, portanto, deverá receber o trato necessário a sua fidedignidade. O testemunho
fidedigno também depende da correta inquirição.
A psicologia tem propiciado estudos científicos que expliquem melhor o
funcionamento da memória que, para Stein, citada por Arend (Testemunho Fidedigno), é o
“coração” da prova testemunhal, criando métodos de inquirição que podem contribuir para a
prevenção das “falsas recordações”.

3 – Fase da análise da entrevista


É necessário que o investigador submeta todo o conteúdo obtido a uma análise
global para avaliar seu grau de credibilidade como prova de um delito.
A credibilidade dos depoimentos ocorre em função de dois parâmetros, segundo
Arce e Farina (Peritacion Psicológica):

 Validade – Serve para estabelecer a admissibilidade da análise de conteúdo.


 Confiabilidade – Diz respeito à indicação de realidade contida na declaração.

3. 1 – Análise da validade das declarações


Análise da validade da declaração deve ocorrer dentro de um contexto onde sejam
consideradas todas as provas colhidas, tanto testemunhais como materiais.
Considere outros testemunhos, outras declarações que o entrevistado tenha dado
em momentos diversos, como no local de crime para o investigador cartorário ou para o perito,
ou ainda, para o primeiro policial a entrevistá-lo.
Considere, também, as informações colhidas pelos peritos e registradas em seus
relatórios (laudos periciais).

Técnicas de Entrevista
Parte da doutrina prefere usar o termo Tipos de Entrevista quando se refere à
Entrevista Cognitiva e à Entrevista Estruturada.

1 – Entrevista Cognitiva
Uma das técnicas pesquisadas e aplicadas pela psicologia é a entrevista cognitiva
que busca dar confiabilidade e validade aos depoimentos.
A entrevista cognitiva “é um processo de entrevista que faz uso de um conjunto de
técnicas para maximizar a quantidade e a qualidade de informações obtidas de uma
testemunha”, segundo Pergher e Stein (Entrevista Cognitiva).
Segundo Heráldez (ibidem), a entrevista cognitiva recebe a tal denominação pelas
seguintes razões:

 Porque em seu procedimento se assegura que as perguntas não sugiram respostas;


 Porque se dá orientações sobre o tipo de perguntas que podem ser elaboradas de
acordo com a idade, história educativo-cultural e outras características de seu
desenvolvimento.

2 – Entrevista Estruturada
Essa técnica é organizada com o objetivo de colher o máximo de informações com
o mínimo de contaminação com falsas memórias. A entrevista estruturada se desenvolve,
basicamente, em três passos. Veja-os a seguir:

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 Primeiro Passo – O entrevistador formulará perguntas abertas, procurando estabelecer


o menor grau possível de condução da entrevista. Procurará deixar que a narrativa seja
espontânea. Depois dessa fase inicial é que serão formuladas perguntas mais
específicas e de forma progressiva. Inicialmente, deverá provocar um relato livre com
perguntas, como: por favor, procure narrar, com o maior número de detalhes possíveis,
tudo o que presenciou do fato.

 Segundo Passo – Nessa etapa serão introduzidas perguntas com o final aberto. A
pergunta com final aberto tem a mesma estrutura da pergunta aberta, entretanto, se
refere a um personagem específico do evento. Exemplo: por favor, procure narrar, com
o maior número de detalhes possíveis, tudo o que se recorda sobre a pessoa que viu
atirando na vítima.
Nesse momento, o entrevistador terá que estar preparado para não introduzir no
depoimento, informações e detalhes que não sejam oferecidos pelo entrevistado. O
entrevistador passará a formular perguntas específicas sobre os detalhes para que,
exaustivamente, os deixe bem claros. Não poderá haver dúvidas sobre as informações,
pois delas poderão decorrer procedimentos injustos, como prisão e condenações de
inocentes.

 Terceiro Passo – A fase final da entrevista aplicada com a técnica de perguntas


estruturadas tem o objetivo de eliminar todas as dúvidas, confirmando a fidedignidade
do depoimento. O entrevistador deverá solicitar ao entrevistado que relate, novamente,
todos os detalhes do fato. É o momento de consolidar as informações coletadas em um
processo de cruzamento com outras informações.

A dignidade da pessoa entrevistada


Muitas vezes o investigador, diante de informação que se considera falsa, poderá
concluir que o entrevistado está mentindo, deliberadamente, quando, então, reagirá com
alguma prática coativa (Artigo 342 do Código Penal – Falso Testemunho).

Falsa Memória
No estudo do tema que trata das técnicas de entrevista, é importante o
conhecimento de um fenômeno que é fator de grande importância no resultado do processo, o
qual os psicólogos denominam de Falsa Memória.
Para Heráldez (ibidem), Falsa Memória ou Falsa Recordação, é toda informação
memorística em que há total ou parcial diferença com os fatos de interesse.
Esse fenômeno alerta para o cuidado e preparo que o investigador deve ter com a
prova testemunhal. A falsa memória poderá se transformar em causa de injustiça na aplicação
de uma pena, caso não seja, devidamente, detectada pelo entrevistador que tanto poderá ser o
próprio investigador, como o promotor de justiça, o advogado, o juiz ou, ainda, os psicólogos e
assistentes sociais forenses.
As Falsas Memórias deverão ser detectadas para evitar erros na aplicação da
pena. O investigador deve ter sumo cuidado na análise das informações memorísticas, a partir
do processo de coleta das informações.

Características da Falsa Memória


Seguindo o ensinamento de Heráldez (ibidem), há dois tipos básicos de falsa
memória:

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 Falsa Memória Espontânea – Resulta de mecanismos internos de distorções da


memória. Sua origem pode estar em qualquer mecanismo memorístico de formatação
da informação.
Ao convidar a testemunha a fazer esforço para descrever com clareza todos os
fatos, o entrevistador poderá estar destruindo a possibilidade da criação de falsas
recordações.

 Falsa Memória Implantada – Resulta da exposição do entrevistado à falsa informação e


da incorporação da mesma ao seu repertório de conhecimento. Sua origem está em um
terceiro recurso de informação. Exemplo: um comentário que alguém faz sobre um fato
e a testemunha ou vítima incorpora em seu reconhecimento como se fosse informação
do evento presenciado por ela. Ou, ainda, o entrevistador ao formular a pergunta, faz de
maneira tal que nela está embutida a sugestão de resposta, como: “O suspeito não
tinha barba?”.

Otimização da qualidade dos depoimentos


Para otimização da qualidade dos depoimentos, o entrevistador deverá, dentre
outras técnicas, realizar perguntas abertas, minimizar o número de interrogatório e de livre
relato dos fatos.
Frequentemente, as perguntas são sugestivas ou exigem que o entrevistado
relembre a experiência por ele vivida, como por exemplo: Como era a pessoa que viu
assaltando a vítima? Era grande? Branca? Usava casaco? De que cor? Estava calçada com
tênis de corrida?
Além disso, há sempre outro fator a ser considerado. Normalmente, o ambiente em
que ocorre a entrevista é um cenário estressante, como a sala da delegacia ou um local de
crime, sempre muito carregado de emoções.
O entrevistado também poderá ser levado a responder sem atentar para o fato da
resposta está ou não completamente certa, quando submetido a perguntas intimidativas como,
por exemplo: Você sabe que será processado se estiver prestando informação errada?
Sua reação poderá ser a busca de falsa memória para satisfazer o entrevistador e,
com isso, se perde a verdade do fato.
Quanto maior for o tempo entre a entrevista e o evento investigado, maior é a
probabilidade de que sejam implantadas falsas memórias, principalmente, quando as
perguntas forem sugestivas de respostas.

Cuidados na entrevista do suspeito


Nos cuidados com o suspeito, obrigatoriamente, terão que estar incluídos,
principalmente, os que dizem respeito aos seus direitos fundamentais.
A condição jurídica do suspeito de autoria, que usufrui os direitos do autor
inconteste, é sempre uma das dificuldades práticas que o investigador encontra na apuração
dos delitos.
Ele não é obrigado a falar. Não é obrigado a incriminar-se. Pode não falar a
verdade sem as consequências do falso testemunho. Tem direito ao acompanhamento do
advogado e de dar informação sobre seu paradeiro para os familiares. Entretanto, se for o
autor do delito, será depositório de informações fundamentais para a investigação, cuja coleta
dependerá da habilidade técnica do entrevistador.
Diante desse cenário, o investigador terá que adotar alguns cuidados especiais
para preservar e colher a primeira versão do depoimento do suspeito, sem a contaminação
com fatores naturais decorrentes de sua autodefesa, como a construção de um álibi.

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Observação da linguagem
O investigador deverá observar a linguagem simbólica do suspeito que lhe dirá
muito mais que a linguagem falada. Observar e anotar seu estado emocional, a linguagem
corporal, os vestígios que possam impregnar suas vestes e corpo, como pequenas lesões e
fraturas (arranhões, hematomas, fraturas de unhas, etc.), marcas de violência em sua roupa
(rasgos, falta de botões, marcas de objetos, etc.) e dores.
A entrevista deverá ser com perguntas estruturadas. Qualquer álibi que o suspeito
apresente deverá ser, imediatamente, verificado.
Uma regra básica para uma entrevista com um suspeito é nunca entrevistá-lo sem
ter em mãos informações suficiente para isso, além de manter o suspeito separado das
testemunhas e de outros suspeitos.

Diário da investigação
O investigador não pode confiar, demasiadamente, em sua memória. Deve manter
registro detalhado e sistematizado das informações coletadas. Essa necessidade se torna
evidente na medida em que a investigação avança, aumenta seu grau de complexidade e
maior é o volume de informações que precisam ser, devidamente, preservadas.
Convém fazer um registro diário de tudo que é coletado. Esse processo possibilita
que o investigador tenha o controle das informações colhidas e, ao final, sistematize todas elas
facilitando a análise e validação.
As anotações das informações colhidas na cena do crime permitirão, aos que irão
conduzir a investigação de seguimento, ter acesso a referências sobre tudo o que foi e não foi
investigado.
Os equipamentos eletrônicos existentes permitem maior rapidez e segurança nas
anotações, muito embora, ainda, seja válida a velha caderneta de papel. Ande sempre com
ferramentas que possibilitem rápidas anotações.

Técnicas de Interrogatório
O Delegado de Polícia e autor de livros do gênero, Luiz Julião Ribeiro, descreveu
essas técnicas, antes do ano 2003, para uma apostila que foi utilizada na Academia de Polícia
Civil do Distrito Federal.
Devido ao tempo decorrido e também, para adequar ao perfil peculiar de alguns
criminosos que atuam em nosso Estado, fizemos a atualização da parte jurídica e algumas
alterações no texto original.

1 – Espontaneidade
De todas as técnicas que veremos a seguir, esta é a mais simples, a mais utilizada,
a mais genuína e a mais recomendada em razão das vantagens que oferece na coleta da
verdade. Sua principal vantagem é o grau de liberdade e isenção que o entrevistado ou o
interrogado desfruta no decorrer do trabalho.
Devido a esta característica, dificilmente, o suspeito se nega a falar quando o
policial lança mão dessa técnica, o que leva o suspeito, geralmente, a dizer alguma coisa, às
vezes, até por educação.
O policial deve começar o trabalho de entrevista ou interrogatório sempre pela
Técnica da Espontaneidade, oportunidade em que poderá estudar a postura psicológica do
investigado e aferir se ele prima ou não pela verdade.
A técnica consiste no interrogado, sem qualquer interferência do interrogador,
narrar, livremente, o fato criminoso. Por esta técnica, o declarante faz uma narrativa da sua
versão dos fatos da forma mais livre possível.

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Ainda que a narrativa não corresponda àquilo que já foi apurado nos autos, o
interrogador não deverá interferir, tudo registrando, fielmente, inclusive não deixando
transparecer que não está acreditando na versão apresentada.
Se a versão for mentirosa, certamente, não resistirá ao crivo da investigação séria,
profissional e criteriosa. Naturalmente, a verdade acabará vindo à tona.
Todavia, nem todo autor do crime confessa o fato, espontaneamente, e aí se faz
necessário o emprego de outras técnicas para se chegar à verdade.

2 – Indução
A Técnica da Indução também é das mais importantes e permite ao investigador
direcionar a entrevista ou o interrogatório. Através dessa técnica, penetra nas circunstâncias do
delito e elucida pontos relevantes omitidos durante a narrativa espontânea.
Esta técnica é caracterizada pela confecção de perguntas bem elaboradas que
induzam o investigado a dar uma resposta certa, precisa, sobre este ou aquele momento do
delito, sobre esta ou aquela circunstância não esclarecida.
As perguntas devem ser claras, diretas e de preferência curtas para que não paire
dúvidas ao investigado sobre a resposta que deverá dar. Além disso, elas devem ser sutis, de
maneira que o investigado se sinta à vontade, não interferindo no seu sistema emocional, o
que lhe poderia prejudicar a memória (Falsa Memória).
O investigador, além de ter os devidos conhecimentos do fato e de estar preparado
para realizar o interrogatório, jamais deve contar ao interrogado detalhes do que está sendo
investigado, pois se não for assim, poderá correr o risco de prejudicar a coleta da verdade,
objetivo único da polícia.
É muito comum o investigado, espontaneamente, apresentar um álibi ou negar a
autoria, narrando uma história mentirosa. De um modo geral, ainda que o investigado resolva
narrar os fatos, de forma espontânea, dificilmente, o fará de forma completa. Isso acontece
tanto, intencionalmente, ou por qualquer outro motivo, como esquecimento e até mesmo por
desconhecer alguns detalhes.
Podemos citar como exemplos o fato de o investigado ter disparado cinco tiros, sem
saber quantificá-los ou sem noção do órgão da vítima que foi atingido. Ou ainda, ter perdido
qualquer pertence próprio no local do crime, sem ter percebido ou sem saber se tinha,
realmente, perdido o objeto na cena do crime.
Assim, pela Técnica da Indução, formulando perguntas bem elaboradas, o
investigador levará o investigado a elucidar, completamente, o delito ou a detalhar de tal
maneira o álibi, a mentira, que ficará impossível de sustentá-la após uma investigação séria e
competente.

3 – Persuasão
E quando o interrogador pergunta e o interrogado não responde? Há pessoas que
se limitam a dizer “não fui eu” ou “sou inocente”. Existem aquelas que, simplesmente, abaixam
a cabeça e nada respondem. Agem como se as perguntas não fossem dirigidas a ela. Outras
ainda, simplesmente, choram, são acometidas de crises nervosas. Sem falar naquelas pessoas
que se tornam agressivas ou violentas.
Como é possível observar, as reações das pessoas são as mais diversas e
imprevisíveis. Em casos como tais, o investigador deverá agir com a máxima habilidade. Deve
puxar outros assuntos, mostrar-se interessado pela situação do interrogado, dar-lhe razão por
ter agido desta ou daquela maneira, enfim, conquistar a confiança dele, e em seguida, procurar
mostrar as vantagens de confessar a verdade, em benefício próprio.
Consta no Artigo 186 do CPP, após a redação dada pela Lei nº 10.792/03, que o
silêncio do investigado não o condena. Contudo, não se pode negar que o silêncio do
investigado, muito embora não condene ninguém por si só, poderá formar por várias razões a
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convicção do juiz num contexto probatório. Além disso, é uma atitude que propiciará o
evidenciamento de suspeitas por parte da polícia, motivando a intensificação das
investigações.
Como o próprio nome está a indicar, esta técnica tem por objetivo persuadir,
convencer o investigado a primar pela verdade dos fatos. Assim, o policial deverá argumentar
com os benefícios da própria lei, fazendo ver ao entrevistado que ele só tem a ganhar se disser
a verdade.
O policial não deve inventar benefícios inexistentes; deve se verdadeiro, a fim de
que seus argumentos evidenciem créditos. Esses benefícios vão depender de cada caso
concreto e da habilidade do policial.
Mas quais seriam os benefícios que poderiam levar alguém a confessar um crime?
O primeiro argumento é que, uma vez esclarecido o fato criminoso cessa a perseguição da
polícia, perseguição essa que poderá durar até vinte anos.
Todos sabem dos transtornos que causam na vida de uma pessoa, principalmente,
as de classes mais altas, a atuação policial no decorrer de uma investigação. Além disso, a
investigação produz evidentes reflexos junto às pessoas do relacionamento do investigado.
Portanto, a cessação da pressão social e da imprensa pode, ainda, constituir um
forte argumento a convencer uma pessoa a esclarecer o delito. Lembrar que o investigador vai
poupar os familiares das consequências reflexas da investigação, também funciona como meio
de persuasão.
O segundo argumento, que poderia ser usado em casos específicos, era o texto
original das Leis 8.072/90 (Lei de Crimes Hediondos) e 9.269/96. A primeira lei criou o § 4º no
Artigo 159 do CP e a segunda modificou o texto do mesmo, mas manteve a redução de pena
de um a dois terços nos casos em que o autor delatasse seus comparsas, facilitando a
libertação de uma pessoa sequestrada.
Com a inversão do posicionamento da nossa Corte Suprema sobre a possibilidade
de progressão de regime prisional, mesmo em se tratando de crimes hediondos e
assemelhados e por consequência, com as mudanças advindas com a Lei 11.464/07 no texto
original da Lei nº 8072/90, a presente técnica perdeu muito a sua eficiência.
Restou a Lei 9.807/99, que no seu Artigo 13 diz que o juiz poderá conceder o
perdão judicial, com a consequente extinção da punibilidade ao acusado que, sendo ele
primário, tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação ou o processo
criminal. Mas, sabemos que este tipo benefício não foi bem aceito pelos praticantes de crime e
vem sendo adotado de forma incipiente.
Temos ainda, a confissão espontânea, prevista no artigo 65, inciso III, letra d, do
CP, constituindo, assim, um fomento à confissão e que poderá servir de argumento pelo policial
junto ao investigado.
Outros argumentos ainda podem ser utilizados pelo investigador como a
possibilidade de responder o crime em liberdade, em face da primariedade, dos bons
antecedentes, de ter residência fixa, emprego e profissão certa, etc.

4 – Desmentido
Como já foi dito, anteriormente, caso o investigado tenha optado por mentir e, tendo
o investigador por meio da Técnica da Indução, colhido as mentiras da forma mais completa e
minuciosa possível, bem como arrecadado provas contundentes que o desminta, poderá então,
aplicar a presente técnica.
Esta técnica consiste em relacionar e mostrar ao interrogado que ele está faltando
com a verdade, mostrando ponto por ponto todas as mentiras apresentadas e ao mesmo
tempo desmentidas com provas irrefutáveis.

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Na aplicação desta técnica não se deve entrar no mérito das mentiras. Nesse
momento, não se deve ainda questionar as mentiras, pois temos o objetivo de mostrar ao
investigado que suas mentiras foram desmascaradas.
Depois de cada técnica, sempre se deve oferecer ao investigado a oportunidade de
dizer a verdade. Com paciência, o investigador deverá aguardar a reação do investigado
agindo sempre com calma e segurança.
Chegando a esse ponto, deve-se voltar a usar a Técnica da Espontaneidade e pode
fazer isso com frases curtas do tipo:

 E aí, o que você tem a me dizer sobre isso?


 Diga-me o que está acontecendo?
 Como se vê, está provado que você mentiu, quer dizer-me a verdade?

5 – Questionamento
Com a falta de sucesso na aplicação da Técnica do Desmentido, isto é, a
permanência do interrogado na versão falsa, o interrogador deve partir para um
questionamento de tudo que for contrário e falso, em face das provas escolhidas.
Esta técnica consiste em o policial questionar tudo o que tiver dito o investigado e
que não estiver de acordo com o que já se apurou:

 O investigado era inimigo da vítima e nega até que a conhecia.


 Foi visto no local ou nas imediações do crime e nega que ali esteve.
 Pode se beneficiar com a morte da vítima e esconder esta circunstância.
 Possui a arma de fogo em seu nome e afirma que nunca teve a arma.

Além disso, a técnica é aplicada para questionar determinadas atitudes do


investigado que não estiverem, diretamente, relacionadas com a execução do crime, mas
denotam reflexos do delito, como por exemplo:

 Uma viagem inesperada logo após o crime.


 Posturas enganosas antes do delito.
 No caso de crimes passionais, o relacionamento deteriorado com a vítima.
 Interesses econômicos em jogo, etc.

Em suma, nessa técnica questionamos tudo que o investigado alegou em seu favor
ou tudo que fez e que esteja mal esclarecido ou desmentido.

6 – Vulneração
Seja qual for o posicionamento do interrogado, mentindo ou silenciando sobre a
prática criminosa, ou seja, resistindo a qualquer das técnicas, anteriormente aplicadas, dever-
se-á aplicar a Técnica da Vulneração.
Esta técnica tem por objetivo minar as resistências do investigado. Consiste no
policial fazer um minucioso levantamento de tudo que souber do suspeito, deixando evidente
que ele nada mais tem a esconder da polícia, principalmente, os aspectos negativos de sua
vida, como por exemplo:

 Históricos e antecedentes criminais.


 Seu envolvimento com qualquer circunstância do crime.

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 Vícios de que seja portador.


 Relacionamento com pessoas de má conduta.
 Informações comerciais que tenham relevância com o fato (SPC, BACEN, etc.).

Em seguida, concitar o entrevistando à honradez, fazendo apelos com sustentáculo


nos princípios morais, religiosos, sociais, etc. Por fim, fazer o investigado crer que seu
posicionamento é absurdo e que o interrogador não quer ouvir mais mentiras. Ele está ali para
ouvir somente a verdade, porque não tem mais tempo a perder. Dizer ao investigado que ele,
por não ser capaz de assumir seus próprios atos, está tendo uma postura covarde.
Neste momento, o investigador procurará deixar claro ao investigado que está lhe
oferecendo uma última oportunidade de se defender, apresentando uma versão verdadeira e
sensata, tentando usar, mais uma vez, a Técnica da Espontaneidade.

7 – Alternância
No caso das seis técnicas, anteriormente, descritas não surtirem qualquer resultado
positivo na busca da verdade, podemos aplicar a Técnica da Alternância. Ela consiste na
aplicação das técnicas precedentes, recomeçando pela Técnica da Espontaneidade. A
diferença é que cada técnica deverá ser aplicada por um policial diferente, desse modo,
alternando as técnicas e seus respectivos aplicadores.
Cada policial deverá estar, plenamente, certo da técnica que irá aplicar, além de
conhecer com profundidade o fato delituoso sob investigação e a pessoa que vai interrogar. Se
o policial estiver despreparado, poderá colocar a perder todo o trabalho realizado, até então.
Esta técnica tem proporcionado bons resultados práticos, pois é muito comum o
investigado, no decorrer da aplicação das técnicas, escolher um dos policiais para revelar a
verdade. O que se percebe é que as pessoas se sentem mais à vontade com um policial, do
que com outro, muito provavelmente, por sentir mais confiança, mais simpatia, maior afinidade;
fenômeno comum nas relações pessoais e interpessoais.

8 – Informação Cruzada
Esta técnica é aplicada somente nos casos em que estamos investigando dois ou
mais participantes do delito. Em regra, deve ser aplicada por um único policial, de maneira que
se mantenha um perfeito domínio dos pontos abordados e que esses pontos sejam explorados
junto a todos os investigados.
Consiste em inquirir os investigados em salas separadas, de forma que um não
tome conhecimento do teor das declarações feitas pelo outro. Quando o investigador verificar
que existem divergências, questionar o investigado que, de acordo com o conjunto probatório,
estiver faltando com a verdade.
Havendo oportunidade, colocar um frente ao outro e fazer uma breve acareação, de
maneira a desmentir aquele que estiver mentindo, tomando o devido cuidado para que um não
saiba, exatamente, até que ponto o outro revelou os fatos.
Portanto, a acareação deve ser breve e restringir-se, somente, ao ponto em que
houve a divergência, de tal forma que fique a impressão, tanto para um como para o outro
investigado, que outros pontos também foram revelados.

9 – Suspense
Esta técnica deve ser usada, apenas, quando o interrogador não dispõe de muitos
indícios ou provas contra o interrogado. Consiste em fazer com que ele creia que a polícia já
sabe muito sobre a sua participação no crime, mas sem se arriscar, sem se expor.

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Assim, logo após fazer o interrogado entrar na sala de entrevista ou de


interrogatório, fazê-lo esperar por algum tempo e de vez em quando alguém entra e faz alguma
pergunta, como por exemplo:

 Inicialmente, alguém pergunta o nome do interrogado, como se já soubesse a resposta:


─ Qual é o seu nome mesmo, hein?
 Posteriormente, outro policial adentra na sala como se já soubesse de tudo e indaga já
falando o nome: ─ Então você que é o “fulano de tal”, não é?
 Se tiver alguma prova algum objeto relacionado com o crime, deixar, disfarçadamente, o
interrogado ver, mas sem tocar no assunto e sem ele perceber que existe essa
intenção.
 Se houver alguma testemunha do crime, ou mesmo pessoa do relacionamento da
vítima, também sem demonstrar intenção, permitir que o interrogado a veja, mas sem
que mantenham contato.

Depois de usar essa técnica e se tiver dado certo, aplicar as outras técnicas já
estudadas, começando, preferencialmente, pela Técnica da Espontaneidade.

10 – Blefe
Parte da doutrina não gosta ou não recomenda a aplicação dessa técnica, porém
sem expor os motivos. Todavia, a experiência em investigação vem indicando que a Técnica
do Blefe pode funcionar com sucesso. Tem aplicação quando o investigador dispõe de poucos
elementos probatórios e precisa colher algum dado do investigado.
Neste caso, o interrogador faz o interrogado crer que já tem provas contra ele, que
testemunhas já depuseram e apontaram-no como autor. Ou ainda, passar a falsa idéia de que
seu comparsa já está preso e que a sua prisão poderá sair a qualquer hora. Se for, realmente,
o autor, talvez se sinta “desarmado” e acabe por falar a verdade.
É uma técnica que, somente, deverá ser aplicada em último caso. Não é demais
reafirmar que nunca se deve dizer nada ao suspeito sobre as circunstâncias do delito.

11 – Emprego do Detector de Mentiras (Polígrafo)


Por ocasião da realização do II CISP (Curso de Inteligência de Segurança Pública),
houve uma demonstração por parte do representante de um fabricante estrangeiro desse tipo
de equipamento, pois estavam tentando vendê-lo para SESEG.
Talvez o software não tenha sido utilizado corretamente. Mas, a impressão geral foi
de que o aparelho não era preciso e que poderia ser usado apenas como fator psicológico,
abalando o interrogado, levando-o a cair em contradição ou até a falar a verdade por não saber
o real efeito do aparelho.
Além de não termos experiência com essa técnica, deve-se questionar os seguintes
aspectos técnico e legal:

 Seu resultado é preciso?


 Qual é à margem de erro?
 O interrogado é obrigado a se submeter ao teste do Polígrafo?
 É aceito como prova?

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Resumo e dicas para a preparação do interrogatório ou da entrevista:

 Preparar-se com antecedência, analisando o fato, lendo a notícia do crime, estudando


os laudos e examinando as provas e vestígios. O policial tem o dever de conhecer o
fato que investiga melhor do que o investigado, a fim de que saiba o que vai indagar,
com segurança e pertinência.

 Conhecer e estudar os costumes e aspectos do lugar onde ocorreu o crime, além de


fazer um “levantamento” do inquirido (histórico e antecedentes criminais, informações
comerciais, etc.).

 Elaborar e anotar as perguntas que pretende fazer ao inquirido, checando,


posteriormente, se não esqueceu nenhuma. Não confie na sua memória.

 Jamais fornecer dados e circunstâncias do delito, tanto para testemunhas como para os
possíveis autores, visando evitar um possível falso testemunho ou uma falsa confissão.

 Não se deixar influenciar por qualquer preconceito e não deixar sua atuação descambar
para o lado pessoal. Se virar uma questão pessoal, providenciar outro policial para
conduzir o interrogatório. Deixar claro que está apenas realizando o seu trabalho.

 Identificar o padrão do inquirido. Conversar por alguns minutos sobre assuntos diversos
(futebol, política, etc.). Além de “desarmar” uma possível versão preparada, talvez seja
possível verificar se a pessoa gagueja, apresenta sudorese, se desvia das perguntas,
se responde olhando para os olhos do interlocutor.

 Atenção para condutas que tentam passar uma imagem de honestidade ou tráfico de
influência ou bajulação, tais como: “vou à igreja todos os dias”; “nunca entrei numa
Delegacia de Polícia”; “sou amigo do policial tal”; “fulano de tal te mandou um abraço”;
“parece que te conheço de algum lugar”; “não foi você que prendeu fulano?”; “mandei
consertar a viatura da delegacia tal”.

 Observar e ter cuidado com: bajulações, tentativas de encontrar pessoas em comum,


excesso de auto-valorização, respostas longas e evasivas, uso excessivo de palavras
convincentes (“pode ter certeza”, “vai por mim”, “juro por tudo que é mais sagrado”).

A INVESTIGAÇÃO NO LOCAL DE CRIME

Conceitos
Local de Crime é a área ou o recinto externo ou interno, onde houve uma infração
penal e ali se encontram os vestígios do crime (cadáver, instrumentos utilizados, detritos
diversos e etc.).
“É o local onde a ciência, a lei e a lógica irão se encontrar com a finalidade do
entendimento da ocorrência da infração penal”.
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Considerações gerais:

 A fundamentação legal encontra-se no artigo 6º do CPP, “Logo que tiver conhecimento


da prática da infração penal, a Autoridade Policial deverá: I – dirigir-se ao local,
providenciando para que não se alterem o estado e a conservação das coisas, até a
chegada dos peritos criminais”.

 O local de crime tem que ser interditado por força de Lei (Artigos 6º e 169 do CPP) e
essa interdição é regulamentada pela Resolução Conjunta nº 052 de 20 de Setembro de
1991.

 Para isolar e preservar a cena do delito é preciso definir o espaço a ser considerado
como tal. Assim, o conceito espacial do local de crime deve ser compreendido numa
leitura que vá além das fronteiras do espaço físico onde estejam as evidências ou o
próprio corpo do delito (cadáver, vítima de lesões, documentos, armas, etc.).

 O local de crime é interditado em nome da Autoridade Policial que tenha competência


legal para apurar o fato.

 O local compreende no mínimo a cena do crime, as vias de acesso e as áreas


adjacentes onde existem ou haja a probabilidade de serem encontrados vestígios.
Qualquer outra área não adjacente à área e que se venha saber que contém vestígios,
também deverá ser interditada.

 O local interditado é dito “isolado” e isto significa que ninguém poderá tocar em nada
antes da polícia.

 Após os exames periciais, o local é liberado pela perícia para a Autoridade Policial, que
a seu critério, mantém a interdição para a comunidade.

 Após exaurir as investigações realizadas no local, este então será liberado,


definitivamente, pela Autoridade Policial (desinterditado).

 Detritos diversos (manchas de sangue, esperma, guimba de cigarro e etc.) são


registrados e coletados pela perícia. Armas, instrumentos, qualquer objeto e valores
são recebidos para lavrar o respectivo Auto de Apreensão.

 O “isolamento” e a preservação do local de crime são um problema antigo e


permanente. Nem sempre a culpa é do policial. Esbarra-se na falta de conhecimento da
população que, em geral, não atribui a devida importância para este procedimento.

 A cena de um crime é o ambiente de maior evidência da interdisciplinaridade da


Investigação Policial. Nele estão, lado a lado, conhecimentos diversos operados por
investigadores cartorários e técnico-científicos (legistas, peritos criminais e
papiloscopistas), além dos profissionais de outras funções, como: bombeiros militares,
policiais militares, guardas municipais, agentes de trânsito, agentes penitenciários e
outros, eventualmente convocados.

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 A falta de entrosamento entre todos os presentes na cena de um crime poderá interferir


nos resultados da investigação, contribuindo para o baixo índice de solução de crimes.
Lembrando que, um local de crime bem explorado pelo investigador e demais
profissionais envolvidos no processo investigativo, já é um bom começo.

 A ida ao local de crime não se resume apenas ao estrito cumprimento da normativa


prevista no CPP. Na realidade é uma ótima oportunidade para arrolar testemunhas,
obter informes sobre a autoria, motivação do crime, as armas utilizadas, os veículos
utilizados, a posição do cadáver e para gravar na memória uma “fotografia do que
ocorreu”. Quanto a esta última parte, “fotografia do que ocorreu”, será de grande valia
para o encarregado da investigação, quando estiver procedendo à oitiva de pessoas,
pois a qualquer tempo em que for relatado algo que seja contrário a realidade dos fatos,
poderá ser contraditado pelo policial, já que ele esteve no local.

 Fica evidente que no local do crime, minutos após a sua prática, várias pessoas que
presenciaram, ou souberam de detalhes do crime, devido à curiosidade lá estão e,
abertamente, contam detalhes e circunstâncias a respeito do ocorrido, que no dia
seguinte ou se esquecem, ou por medo são forçados a se esquecer.

 No clamor da ocorrência, o policial consegue ouvir das testemunhas a perfeita narrativa


do que ocorreu, como e porque, já que as pessoas quando diante de uma cena de
crime, falam com mais liberdade, já que pensam não estar se comprometendo, ou, por
vezes, não têm tempo para preparar suas “defesas”. Isso não ocorre quando as
pessoas comparecem para depor na Delegacia de Polícia depois de algum tempo, às
vezes até já orientadas e/ou acompanhadas por advogados.

 Igualmente, não raro o (s) autor (es) do crime retorna (m) ao local do crime para
observar o seu feito, acompanhando o trabalho policial com vista a interesses próprios.

 Quando o local do crime for de homicídio e o cadáver estiver em via pública, vale à
pena tentar fazer a “infiltração”, que é a técnica de um policial chegar ao local do crime
antes e separado dos demais, misturando-se aos populares para ouvir os comentários
sobre o caso.

 Nas ocorrências denominadas inicialmente como “Auto de Resistência”, seguir as


diretrizes básicas determinadas na Portaria PCERJ nº 553/2011, no que diz respeito ao
local do crime.

 Ainda quando do comparecimento ao local do crime, com a chegada da perícia criminal,


é possível acompanhar o trabalho dos peritos e até tirar dúvidas, ou fazer
questionamentos, quanto à possível mecânica do evento, causa da morte, trajetória de
projéteis, etc.

* Sugestão de Leitura: Artigos 6º e 169 do Código Processo Penal, Resolução Conjunta nº


052/91, Resolução SEPC nº 609/93, Portaria PCERJ nº 553/2011 e Decreto 3.044/80.

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Classificação do local de crime

Quanto ao estado de preservação:

 Idôneo – Aquele que se encontra intacto, tal como foi deixado pelo autor do delito. Sem
alterações do seu estado.
 Inidôneo – Aquele cujas características originais foram alteradas. Não se encontra mais
como fora deixado pelo infrator. É um local violado. A violação tanto pode ser feita pelo
autor, para dificultar sua identificação, como por outras pessoas que, inadvertidamente,
ali ingressam para socorrer a vítima ou por simples curiosidade. Ou, ainda, pelo agente
que tomou as primeiras providências para delimitação e preservação do local.

Quanto ao espaço físico:

 Imediato – É o local propriamente dito. Aquele onde ocorreu a execução do delito.


 Mediato – É o espaço físico constituído pelas adjacências do local imediato, onde
existam vestígios do delito.
 Relacionado – É o local que, mesmo separado, fisicamente, dos locais imediato e
mediato, está a eles conectado por vestígios do delito. Local onde tenha ocorrido uma
das sequências da prática do delito.

Obs.: A diferença entre o local mediato e o local relacionado, é que o local mediato está,
fisicamente, ligado ou nas proximidades do local imediato, enquanto o relacionado não.

Isolamento e preservação do local do crime


O isolamento possibilita a proteção da zona de investigação técnico-científicado
local de crime, da ação de pessoas e de qualquer outra ação alheia ao processo.

Investigação no local do crime (levantamento das primeiras hipóteses):

 Os limites impostos ao investigador cartorário na cena do crime não o impedem de


acompanhar a investigação do perito, de forma cuidadosa, com preservação,
observando, colhendo e repassando informações ao investigador técnico-cientifico,
formulando suas primeiras hipóteses.
 A busca sistemática de informações no cenário do delito deve ser um trabalho de
equipe, cada um fazendo sua parte, sem interferir na autonomia do outro, mas
colaborando com a troca de informações.
 O investigador cartorário poderá sair da cena do crime com a hipótese definitiva. As
observações cuidadosas desse ambiente poderão permitir a descrição do “modus
operandi” (modo de praticar o crime) e do perfil do autor. Cada vestígio ali deixado está
carregado de informações sobre os fatos ocorridos e sobre as pessoas envolvidas.
Cabe ao investigador decifrá-los.
 Os dados colhidos na cena do crime contribuirão para o planejamento da investigação
como um todo e para os planos operacionais, em especial as entrevistas.

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 Esse processo só será possível se houver interação entre as duas modalidades de


investigação (cartorária e técnico-científica). Não há qualquer fundamento técnico-
científico legal que justifique o distanciamento dos dois investigadores na cena do crime
e em nenhum outro momento da investigação.

Reavaliação das zonas de controle


Antes de o perito entrar na zona de investigação técnico-científica, ele deve partir
de um briefing com o coordenador da investigação, os investigadores cartorários e o agente
que delimitou as zonas de investigação.
O briefing tem o objetivo de inteirar o perito das informações colhidas até ali, da
indicação dos limites das zonas de investigação e segurança e reavaliação, se necessário dos
limites dessas zonas.
Ao final, haverá um debriefing para a troca de novas informações que subsidiarão
as estratégias para a investigação de seguimento que se desenvolverá dali em diante.
Não pode haver nesses contatos qualquer interferência na necessária autonomia técnica dos
investigadores.

Investigação cartorária no local de crime


Mesmo havendo uma autoria conhecida, ela poderá ser, inicialmente, só uma
hipótese que precise ser verificada e confirmada pela investigação. A verificação pode levar o
policial à prisão do infrator, se for o caso.

Os métodos que podem ser adotados para a prisão do infrator são:

 Abordagem e coleta de testemunhos no local de crime;


 Abordagem de pessoas no local de crime;
 Identificação do autor.

Investigação pericial no local de crime


A investigação mais efetiva na cena do crime diz respeito à coleta de provas
materiais.
Esse processo, que é desenvolvido, em regra, pelo perito criminal e pelo
papiloscopista, depende da colaboração dos demais investigadores, especialmente, na
delimitação do ambiente onde se encontram os vestígios.
Identificadas as informações deixadas na cena do crime, o investigador pericial as
recolhe para análise, interpretação e validação como elemento de prova.

Essa coleta pode ocorrer por vários meios:

 Fotografias;
 Filmagens;
 Desenhos;
 Técnicas de Remoção.

Liberação da cena do crime


Antes de sair, é recomendado observá-la da perspectiva da defesa e ter certeza de
que não deixou passar nada de relevante. (Mingardi, 2006, p.55).
A liberação do local é atribuição da Autoridade Policial coordenadora da
investigação.
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A experiência tem demonstrado que algumas vezes, principalmente, quando a


delimitação da zona da cena não é feita com o devido cuidado, após a saída do perito, são
identificados outros vestígios em ambiente fora do perímetro de investigação técnico-científica.
Essa possibilidade é mais factível quando a cena do crime está localizada em
campo aberto.

Cuidados para liberação


É recomendável que antes de liberar a cena, se repita todo o processo feito para o
isolamento, principalmente, se for num ambiente muito extenso.
Havendo dúvidas quanto à existência ou não de vestígios que não foram
recolhidos, o ambiente deverá continuar isolado para reexame. Essa possibilidade é mais
provável em ambientes escuros e amplos ou com muitos compartimentos ou, ainda, em locais
abertos sob chuva. Nesses casos, devem ser montadas estratégias com uso de equipamentos
que facilitem a visibilidade dos vestígios.
Qualquer estratégia deverá ser em comum acordo com a equipe de investigação técnico-
científica, que deverá ser chamada ao local, caso sejam encontrados novos vestígios.

ANÁLISE/INTERPRETAÇÃO E GESTÃO
DOS DADOS DA INVESTIGAÇÃO

Há todo um processo de transformação dos dados colhidos na investigação que


dirá como ocorreu o delito. Temos algumas denominações para esse processo, mas num
primeiro instante e com uma visão simplista, chamaremos esse processo de análise de dados
da investigação.
Feita a coleta dos dados, o investigador deve concentrar sua atenção na análise e
interpretação das informações formatadas. O objetivo é dispor as informações de maneira
sistematizada, para que possam ser transformadas em respostas ao problema posto,
inicialmente. Para que isso ocorra é preciso uma análise da credibilidade dessas informações
como prova do delito em apuração.

Metodologia de análise
Nenhum dado da investigação poderá ser interpretado, isoladamente. O
conhecimento apurado na investigação, para ser validado como prova, deve ser considerado
no seu contexto.
Esse contexto envolve todas as informações colhidas pela investigação, tanto a
cartorária como a técnico-científica – depoimentos, relatórios do agente investigador cartorário,
laudos periciais, reconhecimentos, relatórios de atividades financeiras, relatórios sobre
atividades fiscais, etc.
Para reforçar esse conhecimento e demonstrar alguma praticidade, veja alguns
métodos postos para análise de dados que poderão ser adequados à investigação policial.
Segundo Davenport & Prusak, citados por Santiago Jr. (2004, p. 29), a transformação da
informação em conhecimento é possível a partir da:

 Comparação – Entendimento sobre como as informações relativas a um determinado


assunto podem ter alguma relação ou aplicação em outras situações.

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 Consequência – Implicação que determinada informação pode trazer para a tomada de


alguma decisão e/ou ação.
 Conexão – Relação entre a informação adquirida e um conhecimento já existente.
 Conversação – Interpretação daquela informação a partir do entendimento sobre o que
as pessoas pensam sobre ela.

Vale lembrar a afirmação de René Magritte: “Tudo quanto vemos, esconde alguma
coisa”. A prática e a pesquisa científica têm confirmado essa assertiva. Na investigação de um
delito, o investigador deve ter a habilidade de sempre esgotar todas as possibilidades de
manipulação e observação dos dados colhidos, para poder inseri-los ou infiltrá-los no contexto
da prática delituosa objeto da apuração.
Não há dúvida de que a investigação policial é um sistema complexo de coisas,
fatos ou circunstâncias que formam uma rede de dados, exigindo cuidados especiais na gestão
e na análise, para que dela sejam extraídas as informações que serão validadas como prova.

A gestão e a capacidade de antecipação aos crimes


Com tecnologia de ponta e as técnicas de inteligência, qualquer organização tem
potencial capacidade de antecipação. Para tanto, é importante a fixação de processos de
busca sistemática, com auxílio de tecnologia, fazendo, constantemente, uma monitoração do
ambiente social, dirigida a fatos e situações reais e, aparentemente latentes, que podem gerar
problemas para a segurança pública.
Contudo, é preciso compartilhamento e ter acesso a dados. Uma das ferramentas
importantes nesta questão é a Análise Criminal, desenvolvida (auxiliada) pela Inteligência de
Segurança Pública, permitindo uma visão projetiva e prospectiva dos fenômenos criminais e
seus determinantes. É uma área com propensão para visualizar padrões de comportamento e
perfis do crime.
Outro instrumento, que se constitui verdadeira mudança de paradigma nas
organizações policiais, é a cognição investigativa pela análise de vínculos, que veremos
adiante.

A complexidade e a moderna atividade Investigativa Policial


Apesar do aparente caos formado pela complexidade das informações que deverão
ser analisadas e geridas, elas não estão soltas no contexto, e sim, interligadas, vinculadas,
estabelecendo uma conexão que precisa ser ressaltada à percepção do investigador.
A tecnologia da informação (TI) entra como ferramenta importante na visualização
dessa rede de vínculos que irão possibilitar a percepção de todo o contexto do delito. Com ela
surge a chamada Inteligência Artificial (IA) formatada a partir de tecnologia surgida com a
moderna ciência da computação.

Tecnologia da Informação - TI
A TI é uma ferramenta estratégica e facilitadora da análise e gestão do
conhecimento na investigação. Ela permite a transmissão e o acesso rápido a um enorme
volume de informações, tornando ágil seu processo de tratamento, manipulação e
interpretação.
O uso da tecnologia permite ao investigador ter acesso a interpretações de dados e
informações sobre ligações telefônicas, registros, sinais, cadastros e conversas, de forma ágil e
sistemática.
Com aplicação da TI é possível descobrir e interpretar vínculos que, a olho nu, são
imperceptíveis ao investigador que se acha diante de um grande volume de dados.
Pela clareza do ensinamento, vale a leitura do texto de Ferro e Alves:
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“Em algum lugar, no âmago de um complexo de dados e informações provenientes de


fontes humanas, de conteúdo e de tecnologia, pode estar a “chave” de uma
investigação, que, entretanto, se mantém oculta, devido a um enorme volume e
aparente dispersão de dados e/ou informações individualmente consideradas. Assim,
investigar o crime, em tempos de globalização, implica lidar com relações numerosas,
diversificadas e difíceis de analisar e compreender. O sucesso desse trabalho, portanto,
irá quase sempre depender da capacidade de analisar e perceber, em sua
complexidade, dados distintos sintetizados, reunidos em um ambiente virtual. Tal
ambiente deverá permitir a visualização de inter-relações complexas (vínculos), coisa
que a mente humana não conseguiria processar de outra forma.
Por tudo que vai citado anteriormente, a investigação policial precisa ser hoje
multifacetada, dado a complexidade de seus objetos, devendo poder realizar as
seguintes ações: (I) verificar a existência de elementos associados, (II) identificar
relações entre fatos conexos e (III) construir modelos de informação sintetizada,
possibilitando a compreensão da investigação como um todo e de suas partes
constitutivas. Assim, situações complexas da Investigação Policial exigem um processo
de transformação de grandes volumes de dados díspares em informações sintéticas e
conclusivas’’. (Ferro e Dantas, A descoberta e a análise de vínculos na complexidade
da Investigação Policial moderna. ibidem).

Análise de Vínculos
Um dos métodos aplicados na investigação policial para análise de dados é a
análise de vínculos - AV. A AV é uma técnica de busca de dados, com a possibilidade de
estabelecer conexões entre eles, desenvolvendo modelos baseados em padrões dessas
relações, ou seja, por meio de um programa de computador, o investigador visualiza e conhece
todos os vínculos estabelecidos entre os dados colhidos, desenhado, graficamente, essa rede
de conexões que irá formatar, exatamente, todas as condutas que deram causa à prática
delituosa.
Permite a visualização gráfica de relações entre pessoas, objetos, dados, etc., as
quais, por um processo normal de análise, passariam despercebidas do investigador. São
utilizados como ferramentas da AV, aplicativos de informática como o IBM-I2, da IBM e o
Nexus, da Digitro.

Objetivo da Análise Global


Qual o sentido da análise global das informações coletadas pela investigação
policial?
É a consolidação de sua credibilidade como prova. Não basta supor, por exemplo,
que um grupo de pessoas investigadas pela prática de roubos e extorsões, formava uma
quadrilha. É preciso que a investigação demonstre que entre elas havia uma associação com
vínculos psicológicos, destinada à prática de delitos.
Da mesma forma, no caso de crime organizado, não basta, diante de uma série de
informações, como depoimentos, registros bancários, contas telefônicas, registros patrimoniais,
etc., afirmar que se trata de uma organização criminosa, sem que os fatores que determinam
as características de uma organização sejam, devidamente, demonstrados na investigação.

Benefícios das informações colhidas


A análise das informações é a sistematização do conhecimento construído na
investigação, consolidando os vínculos recíprocos entre atores do delito e desses com a
conduta delituosa.

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A análise é o processo de testificação, validação e codificação das informações


para transformá-las em conhecimento chamado prova, que irá fundamentar o processo de
julgamento do infrator.
Esse conhecimento não deve se perder nas burocracias de um processo sem que
reverta em benefícios para a gestão de novos casos.
As informações colhidas durante a investigação formam um ativo intangível que
agrega valores às demais atividades da polícia como prestadora de serviço público.
Nesses conhecimentos há know-how técnico, criatividade e inovações que
precisam ser mantidos ao alcance da organização policial para o processo de reutilização no
aprendizado de seus agentes.

INTERCEPTAÇÃO DAS COMUNICAÇÕES

A interceptação das comunicações é uma das mais importantes ferramentas de


investigação. Na Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, sistemas compostos de dispositivos
de alta tecnologia, conectados às operadoras de telefonia, foram incorporados e instalados na
estrutura da Inteligência Fluminense, permitindo a todas as unidades de investigação a
condução da operação técnica, de forma muito profissional.
Além da credibilidade e confiabilidade dos sistemas, permite a organização da
operação, fiscalização e administração da atividade, de acordo com os parâmetros legais.

Previsão legal
A Lei n 9.296, de 24 de julho de 1996, regulamenta os procedimentos de
Investigação Policial na aplicação de técnicas de interceptação de comunicações telefônicas,
de qualquer natureza, bem como do fluxo de comunicações em sistemas de informática e
telemática, ou seja, regulamenta o Inciso XII, parte final, do Art. 5° da Constituição Federal.

Banalização da interceptação das comunicações


Na Lei supracitada, gostaríamos de chamar a atenção para a redação do Artigo 2º
e seu Inciso II: “Art. 2° - Não será admitida a interceptação de comunicações telefônicas
quando ocorrer qualquer das seguintes hipóteses: II - A prova puder ser feita por outros meios
disponíveis;”
Portanto, a interceptação deveria ser o último recurso e só deveria ser concedida
quando a prova não pudesse ser estabelecida por outros meios de investigação, mas a prática
vem nos mostrando que nem sempre isso ocorre.
A interceptação é uma importante ferramenta da investigação que nem sempre vai
fornecer sozinha dados suficientes para a investigação policial.

Má gestão dos dados obtidos


Além da banalização, algumas equipes não sabem explorar na sua totalidade os
dados fornecidos com a quebra do sigilo telefônico e outras se limitam a escutar, esperando
que o alvo ou os alvos venham a falar as informações que precisam durante a conversa, sendo
que às vezes, tais informações já estavam disponíveis no audit ou na conta reversa, por
exemplo.

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FONTES DE CONSULTAS NA INVESTIGAÇÃO

Exemplos de algumas bases de dados que são utilizadas no cotidiano das


investigações realizadas. A utilização inteligente dessas ferramentas produz resultados
bastante satisfatórios:

 INTRAPOL
 SEI (Sistema Estadual de Identificação) / Portal da Segurança
 INFOSEG
- Pessoas
- Veículos
- Armas
- Condutores
- Receita
- SISME
- INTERPOL
 QWS (PRODERJ)
- Base Estadual
- Base Nacional
- Outras consultas
 REDE MEDUSA
- Base Servidores
- Controle de Viaturas
- Base de Órgãos
 SICWEB
- Desaparecidos
- SARQ POLINTER
- CDL Localizador
- Laudos
- Armas
 ROWEB
 SIPEN
 SINIVEM
 SIAD (Sistema de Identificação Adolescente)
 SIAB (Sistema de Identificação Abrigados)
 INFOPEN
 Gerencial Web
 SCO
 SIP
 SAT
 SCAF

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 INTERNET
- Receita Federal
- Sites de Informações Comerciais (SERASA, Natt, Decidir)
- Tele Listas (Fornece números de telefones a partir do nome do proprietário da
linha ou do endereço de instalação. Sua desvantagem em relação ao Natt está
no fato de não gerar resultado a partir da inserção de um número de telefone,
todavia o serviço que presta é gratuito).
- TJ / TRF / TRE
- JUCERJA
- Sites de buscas
- Facebook, Twitter, Orkut e demais sites de relacionamentos
- Site da ECT
- Google Earth / Google Maps

LINHAS INVESTIGATIVAS E A MECÂNICA


DA INVESTIGAÇÃO EM BLOCO

Linhas Investigativas:

 Individual – Como o próprio nome já indica, analisará apenas os dados daquele fato
investigado. Deve-se investigar a vítima, traçando-se sua personalidade e sua vida
pregressa, com o objetivo de sustentar ou não a narrativa do fato apurado. O autor deve
ser investigado de forma semelhante à vítima, acrescentando-se a confirmação ou não
de anotações criminais e de histórico criminal na mesma modalidade. Estes dados
permitem traçar um perfil psicológico do autor.

 Em Bloco – Baseia-se no confronto das informações obtidas em um grupo de


procedimentos investigativos da mesma natureza, possibilitando a identificação da
autoria e o robustecimento da prova testemunhal e material pela conexão dos fatos. Em
suma, pela repetição do modus operandi empregado, identifica-se uma sequência de
crimes realizados pelo mesmo autor ou grupo. Os dados da vítima, dos autores, do fato
em si e as características de cada infração penal, são recolhidos e registrados para uma
futura análise comparativa.

Mecânica da investigação em bloco


Alguns procedimentos em seus diversos seguimentos produzem dados que fornecem
subsídios para todas as outras investigações. A Investigação em Bloco trata da comparação
dos dados investigativos de uma investigação com outros ilícitos de mesma natureza. As
informações devem ser, devidamente, classificadas para posterior catalogação.
Cuidados com relação aos dados obtidos, seu registro no campo correto do SCO e a
devida classificação da informação de acordo com sua natureza e características é
fundamental para o êxito das investigações em bloco.
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1 – Dados dos Envolvidos


Recolhe e registra dados da vítima e do autor. No procedimento investigativo os
envolvidos de maior relevância são identificados como vítima e autor. Ambos devem ser objeto
de acurada análise e ter recolhidos os seus dados para posterior tratamento, destacando:

 Dados qualificativos.
 Características físicas e observações.
 Descrição das vestes e acessórios.
 Vida pregressa e parentesco.
 Histórico de anotações policiais e relacionamentos procedimentais.

2 – Dados do Fato

2.1 – Recolhe e registra os dados do fato


Nos diversos fatos investigados, existem alguns dados comuns que são de grande
relevância e devem ser recolhidos com precisão, pois são importantes não só para compor
estatísticas corretas, mas, principalmente, para proporcionar às investigações uma maior
resolutividade, são eles:

 Hora, dia e local.


 Características do local da infração penal.

3 – Marcas Características

3.1 – Recolhe e registra características da infração penal:


Uma ação delituosa cerca-se de características próprias, seguidas quase que,
fielmente, por seus autores, repetindo atos que permitem identificá-los na comparação das
investigações.

3.2 – Devem ser destacados nas Investigações Preliminares:

 Os meios empregados para perpetrar a infração penal.


 Os instrumentos empregados para perpetrar a infração penal.
 A identificação do bem juridicamente tutelado.
 A quantidade e o sexo dos autores

4 – Trata os Dados e Gera Informações

4.1 – Perfil dos autores e das vítimas


Os dados qualificativos, as características físicas e as observações, a descrição
das vestes e dos acessórios, a vida pregressa e o parentesco, o histórico de anotações
policiais e os relacionamentos procedimentais permitem traçar o perfil dos autores e das
vítimas em determinado tipo de infração penal.

4.2 – Identifica tempo e lugar


A hora, o dia, o local e suas características permitem identificar o tempo e o lugar
de determinado tipo de infração penal.

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4.3 – Identifica o Modus Operandi


Os meios, os instrumentos, a identificação do bem juridicamente tutelado, a
quantidade e o sexo dos autores possibilitam identificar o modus operandi.

5 – Confronta informações
Gerada as informações por meio do tratamento dos dados, o resultado é
classificado em blocos de características comuns, norteados pelo perfil dos principais
envolvidos, pelo tempo e lugar da ação ou omissão e modus operandi do ilícito.

5.1 – Realiza combinações


Os blocos de características comuns devem ser combinados para potencializar as
informações originais, permitindo a obtenção de análises múltiplas dos seguintes parâmetros:

 Perfil do autor.
 Perfil da vítima.
 Tempo.
 Lugar.
 Meios.
 Instrumentos.
 Bens.
 Quantidade dos autores.
 Sexo dos autores.

5.2 – Realiza análise das combinações:

 As possibilidades de combinações dos nove parâmetros (autor, vítima, tempo, lugar,


meios, instrumentos, bens, quantidade e sexo de autores) resultariam em uma
quantidade elevada de resultados, havendo a necessidade de filtrar as análises,
mediante a seleção apropriada dos parâmetros de efetiva relevância.

 Ao número total de possibilidades de resultados, ou seja, o quantitativo deve ser


associado à relevância e a qualidades das informações, permitindo uma análise racional
e objetiva do que foi coletado e classificado.

5.3 – Identifica incidência criminal e procedimentos


A partir da análise combinatória dos resultados obtidos pelo uso do SCO e SIP é
identificada a incidência criminal da UPAJ, devidamente, segmentada em grupos de
procedimentos, com características semelhantes de:

 Autorias.
 Vítimas.
 Modus Operandi.
 Tempo
 Lugar.

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