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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

TEORIA PSICANALÍTICA - Conceitos Básicos

Autor: Pr. Daniel Barbosa de Melo


Psicanalista Clínico CRPC BA 0052/2007

DETERMINISMO PSÍQUICO
Freud iniciou seu pensamento teórico assumindo que não há nenhuma descontinuidade na vida mental.
Ele afirmou que nada ocorre ao acaso e muito menos os processos mentais. Defendia que há uma causa para
cada pensamento, para cada memória revivida, sentimento ou ação. Cada evento mental é causado pela intenção
consciente ou inconsciente e é determinado pelos fatos que o procederam. Uma vez que alguns eventos mentais
“parecem” ocorrer espontaneamente, Freud começou a procurar e descrever os elos ocultos que ligavam um
evento consciente a outro. A isto se pode chamar de determinismo psíquico.

CONSCIENTE, PRÉ-CONSCIENTE E INCONSCIENTE.

CONSCIENTE
“O ponto de partida dessa investigação é um fato sem paralelo, que desafia toda explicação ou
descrição – o fato da consciência. Não obstante, quando se fala de consciência, sabemos imediatamente e
pela experiência mais pessoal o que se quer dizer com isso” (1940, livro 7, pág. 30 na ed. bras.). O consciente
é apenas uma pequenina parte da mente, como se fosse a ponta de um iceberg. Inclui tudo do que estamos
cientes num dado momento, é a percepção imediata da experiência. Tudo o que conseguimos lembrar de
imediato sem forçar a mente. Embora Freud estivesse interessado nos mecanismos da consciência, seu
interesse era muito maior com relação às áreas da consciência menos expostas e exploradas, que ele
denominava pré-consciente e inconsciente.

INCONSCIENTE
A premissa fundamental de Freud era de que há conexões entre todos os eventos mentais. Quando um
pensamento ou sentimento parece não estar relacionado aos pensamentos ou sentimentos que o precedem, as
conexões estão no inconsciente. Uma vez que estes elos inconscientes são descobertos, ou seja, de alguma
maneira tornam-se conscientes, a aparente descontinuidade parece resolvida. “Denominamos um processo
psíquico inconsciente, cuja existência somos obrigado a supor – devido a um motivo tal que inferimos a partir
de seus efeitos – mas do qual nada sabemos” (1933, livro 28, p. 90 na ed. bras.).
No inconsciente estão elementos instintivos, que nunca foram conscientes e que não são acessíveis à
consciência. Além disso, há material que foi excluído da consciência, censurado e reprimido. Esse material
não é esquecido, perdido, ou deletado, mas não lhe é permitido ser lembrado. O pensamento ou a memória
ainda afetam a consciência, mas apenas indiretamente.
Há uma vivacidade e imediatismo no material inconsciente. Memórias muito antigas quando liberadas
à consciência, não perderam nada de sua força emocional. Estão ali, latentes, muito vivas. Sabe-se que os
processos mentais inconscientes são em si mesmos “intemporais”. Isto significa que não são ordenados
temporalmente, que o tempo de modo algum os altera, e que a idéia de tempo não lhes pode ser aplicada.
A maior parte da consciência é inconsciente. Ali estão os principais determinantes da personalidade,
estão também as fontes da energia psíquica e as pulsões ou forças instintivas (instintos).

PRÉ-CONSCIENTE
Estritamente falando, o pré-consciente é uma parte do inconsciente, mas uma parte que pode se tornar
consciente com a evocação com certa facilidade. As porções da memória que são acessíveis fazem parte do
pré-consciente. Estas porções da memória podem incluir lembranças de tudo que você fez ontem, seu segundo
nome, todas as ruas nas quais você morou, a data da conclusão de um curso, seus alimentos prediletos, o cheiro
do perfume do seu namorado ou marido, o seu bolo de aniversário de 15 anos, sua primeira namorada, sua
primeira relação sexual, uma grande quantidade de outras experiências passadas. Você não está o dia todo, todo
o dia com essas experiências na lembrança, mas você pode lembrá-las sem dificuldade quando quiser. O pré-
consciente é como uma vasta área de posse das lembranças de que a consciência precisa para desempenhar suas
funções.

PULSÕES OU INSTINTOS*

*Aqui cabe uma explicação. O termo pulsão em alemão é trieb, e em inglês, drive. Refere-se ao processo
dinâmico que consiste numa pressão ou força que faz tender o organismo para o alvo. Instinto em alemão é
instinkt, e em inglês intinct, que seria um esquema de comportamento herdado, próprio de uma espécie
animal, que pouco varia de um indivíduo para outro, que se desenrola segundo uma seqüência temporal
pouco susceptível de alterações e que parece corresponder a uma finalidade.

Instintos são pressões que dirigem um organismo para fins particulares. Quando Freud usou o termo, ele não
se referiu aos complexos padrões de comportamentos herdados dos animais inferiores, mas seus equivalentes
nas pessoas. Tais instintos são “a suprema causa de toda atividade” (1940, livro 7, p. 21 na ed. bras.). Freud em
geral se referia aos aspectos físicos dos instintos como necessidades; seus aspectos mentais podem ser
comumente denominados desejos. Os instintos são as forças propulsoras que incitam as pessoas à ação.
Todo instinto tem quatro componentes: uma fonte, uma finalidade, uma pressão e um objeto. A fonte,
quando emerge a necessidade, pode ser uma parte do corpo ou todo ele. A finalidade é reduzir a necessidade
até que mais nenhuma ação seja necessária, é dar ao organismo a satisfação que ele no momento deseja. A
pressão é a quantidade de energia ou força que é usada para satisfazer ou gratificar o instinto; ela é
determinada pela intensidade ou urgência da necessidade subjacente. O objeto de um instinto é qualquer
coisa, ação ou expressão que permite a satisfação da finalidade original.

Vamos considerar o modo como esses objetos aparecem numa pessoa com sede. O corpo desidrata-se até o
ponto em que precisa de mais líquido; a fonte é a necessidade crescente de líquido. À medida que a necessidade
torna-se maior, pode tornar-se consciente como “sede”. Enquanto esta sede não for satisfeita, torna-se mais
pronunciada; ao mesmo tempo em que aumenta a intensidade, também aumenta a pressão ou energia disponível
para fazer algo no sentido de aliviar a sede. A finalidade é reduzir a tensão. O objeto não é simplesmente um
líquido: leite, água ou refrigerante, mas todo ato que busca reduzir a tensão. Isto pode incluir levantar-se, ir a
uma lanchonete, escolher entre vários sucos, mandar prepará-lo e bebê-lo.
Enquanto as reações iniciais de busca podem ser instintivas, o ponto crítico a ser lembrado é que há
possibilidade de satisfazer o instinto plena ou parcialmente de várias maneiras. A capacidade de satisfazer
necessidades nos animais é via de regra limitada por um padrão de comportamento estereotipado. Os instintos
humanos apenas iniciam a necessidade da ação; eles nem predeterminam a ação particular, nem a forma como
ela se completará. O número de soluções possíveis para um indivíduo é uma soma de sua necessidade biológica
inicial, o “desejo” mental (que pode ou não ser consciente) e uma grade quantidade de idéias anteriores, hábitos
e opções disponíveis.
Freud assumiu que o modelo mental e comportamental normal e saudável tem a finalidade de reduzir a
tensão a níveis previamente aceitáveis. Uma pessoa com necessidades continuará buscando atividades que
possam reduzir esta tensão original. O ciclo completo de comportamento que parte do repouso para a tensão e
a atividade, e volta para o repouso, é denominado modelo de tensão-redução. As tensões são resolvidas pela
volta do corpo ao nível de equilíbrio que existia antes da necessidade emergir.
Ao examinar um comportamento, um sonho, ou um evento mental, uma pessoa pode procurar as pulsões
psicofísicas subjacentes que são satisfeitas por essa atividade. Se observarmos pessoas comendo, supomos que
elas estão satisfazendo sua fome; se estão chorando, é provável que algo as perturbou. O trabalho analítico
envolve a procura das causas dos pensamentos e comportamentos, de modo que se possa lidar de forma mais
adequada com uma necessidade que está sendo imperfeitamente satisfeita por pensamento ou comportamento
particular.
No entanto, vários pensamentos e comportamentos parecem não reduzir a tensão; de fato, eles aparecem
para criar tensão, pressão ou ansiedade. Estes comportamentos podem indicar que a expressão direta de um
instinto foi bloqueada. Embora seja possível catalogar uma série ampla de “instintos”, Freud tentou reduzir esta
diversidade a alguns básicos.

INSTINTOS BÁSICOS
Freud desenvolveu duas descrições dos instintos básicos. O primeiro modelo descrevia duas forças
opostas, a sexual (ou, de modo geral, a erótica, fisicamente gratificante) e a agressiva ou destrutiva. Suas últimas
descrições, mais globais, encararam essas forças como mantenedoras da vida ou como incitadoras da morte (ou
destruição). Ambas as formulações pressupõem dois conflitos instintivos básicos, biológicos, contínuos e não-
resolvidos. Este antagonismo básico não é necessariamente visível na vida mental pois a maioria dos nossos
pensamentos e ações é equivocada não por apenas uma dessas forças instintivas, mas por ambas em
combinação.
Freud impressionou-se com a diversidade e complexidade do comportamento que emerge da fusão das
pulsões básicas. Por exemplo, ele escreve: “Os instintos sexuais fazem-se notar por sua plasticidade, sua
capacidade de alterar suas finalidades, sua capacidade de se substituírem, que permite uma satisfação instintual
ser substituída por outra, e por sua possibilidade de se submeterem a adiantamentos...” (1933, livro 28, p. 122
na ed. bras.). os instintos são canais através dos quais a energia pode fluir. Esta energia obedece a suas próprias
leis.

LIBIDO E ENERGIA AGRESSIVA


Cada um desses instintos gerais tem uma fonte de energia em separado. Libido (da palavra latina para
“desejo” ou “anseio”) é a energia aproveitável para os instintos de vida. O uso do termo por Freud é às vezes
confuso, uma vez que o descreve como quantidade mensurável. “Sua produção, aumento ou diminuição,
distribuição e deslocamento devem pronunciar-nos possibilidades de explicar os fenômenos psicossexuais
observados” (1905a, livro 2, p. 113 na ed. bras.).
Outra característica importante da libido é sua “mobilidade” a facilidade com que pode passar de uma
área de atenção para outra. Freud a natureza passageira da receptividade emocional como um fluxo de energia,
fluindo para dentro e para fora das áreas de interesse imediato.
A energia do instinto de agressão ou de morte não tem um nome especial. Ela supostamente apresenta
as mesmas propriedades gerais que a libido, embora Freud não tenha elucidado este aspecto.

CATEXIA
É o processo pelo qual a energia libidinal disponível na psique é vinculada a ou investida na
representação mental de uma pessoa, idéia ou coisa. A libido que foi catexizada perde sua mobilidade original
e não pode mais mover-se em direção a novos objetos. Está enraizada em qualquer parte da psique que a atraiu
e a segurou.
A palavra original alemã, besetzung, significa ocupar e investir; se você imaginar seu depósito de libido
como uma dada quantidade de dinheiro, catexia é o processo de investi-la. Uma vez que uma porção foi
investida ou catexizada, permanece aí, deixando você com essa porção a menos para investir em outro lugar.
Estudos psicanalíticos sobre luto, por exemplo, interpretam o desinteresse das ocupações normais e a
preocupação com o recente finado como uma retirada de libido dos relacionamentos habituais e uma extrema
ou hiper catexia da pessoa perdida.
A teoria psicanalítica está interessada em compreender onde a libido foi catexizada inadequadamente.
Uma vez liberada ou redirecionada, esta mesma energia está então disponível para satisfazer outras
necessidades habituais.

ESTRUTURA DA PERSONALIDADE
As observações de Freud a respeito de seus pacientes revelaram uma série interminável de conflitos e
acordos psíquicos. A um instinto opunha-se outro; proibições sociais bloqueavam pulsões biológicas e os
modos de enfrenta situações frequentemente chocavam-se uns com os outros. Ele tentou ordenar este caos
aparente propondo três componentes básicos estruturais da psique: o ID, o EGO e o SUPEREGO.

O Id – O Id “contém tudo que é herdado, que se acha presente no nascimento, que está presente na constituição
– acima de tudo, portanto, os instintos que se originam da organização somática e que aqui, no id, encontram
uma primeira expressão psíquica, sob formas que nos são desconhecidas” (1940, livro 7, pp. 17-18 na ed. bras.).
É a estrutura da personalidade original, básica e mais central, expostas tanto às exigências somáticas do corpo
como aos efeitos do ego e do superego. Embora as outras partes da estrutura se desenvolvam a partir do id, ele
próprio é amorfo, caótico e desorganizado. “as leis lógicas do pensamento não se aplicam ao id... impulsos
contrários existem lado a lado, sem que um anule o outro, ou sem que um diminua o outro” (1933, livro 28, p.
94 na ed. bras.). O id é o reservatório de energia de toda a personalidade.
O id pode ser associado a um rei cego cujo poder e autoridade são cerceadores, mas que depende de
outros para distribuir e usar de modo adequado o seu poder.
Os conteúdos do id são quase todos inconscientes, eles incluem configurações mentais que nunca se
tornaram conscientes, assim como o material que foi considerado inaceitável pela consciência. Um pensamento
ou uma lembrança, excluído da consciência e localizado nas sombras do id, é mesmo assim capaz de influenciar
a vida mental de uma pessoa. Freud ressaltou o fato de que materiais esquecidos conservam o poder de agir
com a mesma intensidade, mas sem controle consciente.

O Ego – O ego é a parte do aparelho psíquico que está em contato com a realidade externa. Desenvolve-se a
partir do id, à medida que o bebê torna-se cônscio de sua própria identidade, para atender e aplacar as constantes
exigências do id. Como a casca de uma árvore, ele protege o id mas extrai dele a energia, a fim de realizar isto.
Tem a tarefa de garantir a saúde, segurança e sanidade da personalidade. Freud descreveu suas várias funções
em relação com mundo externo e com o mundo interno, cujas necessidades procura satisfazer.

São estas as principais características do ego: em conseqüências da conexão pré estabelecida entre a percepção sensorial e a ação
muscular, o ego tem sob seu comando o movimento voluntário. Ele tem a tarefa de autopreservação. Com referência aos
acontecimentos externos desempenha essa missão dando-se conta dos estímulos externos, armazenando experiências sobre eles (na
memória), evitando estímulos excessivamente internos (mediante a fuga), lidando com estímulos moderados (através da adaptação)
e, finalmente, aprendendo a produzir modificações convenientes no mundo externo, em seu próprio benefício (através da atividade).
Com referência aos acontecimentos internos, em relação ao id, ele desempenha essa missão obtendo controle sobre as exigências
dos instintos, decidindo se elas devem ou não ser satisfeitas, adiando essa satisfação para ocasiões e circunstâncias favoráveis no
mundo externo ou suprimindo inteiramente as suas excitações. É dirigido, em sua atividade, pelas considerações das tensões
produzidas pelos estímulos; despejam estas tensões nele presentes ou não ou são nele introduzidas. A elevação dessas tensões é, em
geral, sentida com desprazer e o seu abaixamento como prazer... o ego se esforça pelo prazer e busca evitar o desprazer (1940, livro
7, pp. 18-19 na ed. bras.).

Assim, o ego é originalmente criado pelo id na tentativa de enfrentar a necessidade de reduzir a tensão
e aumentar o prazer. Contudo, para fazer isto, o ego, por sua vez, tem de controlar ou regular os impulsos do id
de modo que o indivíduo possa buscar soluções menos imediatas e mais realistas.
Um exemplo pode ser o de um encontro heterossexual. O id sente uma tensão que surge da excitação
sexual insatisfeita e poderia reduzir esta tensão através da atividade sexual direta e imediata. O ego tem que
determinar quanto da expressão sexual é possível e como criar situações em que o contato sexual seja o mais
satisfatório possível. O id é sensível à necessidade, enquanto o ego responde às oportunidades.

O Superego – Esta última parte da estrutura da personalidade se desenvolve não a partir do id, mas a partir do
ego. Atua como um juiz ou censor sobre as atividades e pensamentos do ego. É o depósito dos códigos morais,
modelos de conduta e dos construtos que constituem as inibições da personalidade. Freud descreveu três
funções do superego: consciência, auto-observação e formação de idéias. Enquanto consciência, o superego
age tanto para restringir, proibir ou julgar a atividade consciente; mas também age inconscientemente. As
restrições inconscientes são indiretas, aparecendo como compulsões ou proibições. “Aquele que sofre (de
compulsões e proibições) comporta-se como se estivesse dominado por um sentimento de culpa, do qual,
entretanto, nada sabe” (1907, livro 31, p. 17 na ed. bras.).
A tarefa de auto-observação surge da capacidade do superego de avaliar atividades independentemente
das pulsões do id para tensão-redução e independentemente do ego, que também está envolvido na satisfação
das necessidades. A formação de idéias está ligada ao desenvolvimento do próprio superego. Ele não é, como
se supõe às vezes, uma identificação com um dos pais ou mesmo seus comportamentos: “O superego de uma
criança é com efeito construído segundo o modelo não de seus pais, mas do superego de seus pais; os conteúdos
que ele encerra são os mesmos e torna-se veículo da tradição e de todos os duradouros julgamento de valores
que dessa forma se transmitiram de geração em geração” (1933, livro 28, p. 87 na ed. bras.).

RELAÇÃO ENTRE OS TRÊS SUBSISTEMAS


A meta fundamental da psique é manter, e recuperar, quando perdido, um nível aceitável de equilíbrio
dinâmico que maximiza o prazer e minimiza o desprazer. A energia que é usada para acionar o sistema nasce
no id, que é de natureza primitiva, instintiva. O ego, emergindo do id, existe para lidar realisticamente com as
pulsões básicas do id e também age como mediador entre as forças que operam no id e no superego e as
exigências da realidade externa. O superego, emergindo do ego, atuas como um freio moral ou força contrária
aos interesses práticos do ego. O superego fixa uma série de normas que definem e limitam a flexibilidade do
ego.
O id é inteiramente inconsciente, o ego e o superego o são em parte. “Grande parte do ego e do superego
pode permanecer inconsciente e é normalmente inconsciente. isto é, a pessoa nada sabe dos conteúdos dos
mesmos e é necessário despender esforços para torná-los conscientes” (1933, livro 28, p. 89 na ed. bras.).
Desta forma, o propósito da psicanálise é, na verdade, fortalecer o ego, fazê-lo mais independente do
superego, ampliar seu campo de percepção e expandir sua organização, de maneira a poder assenhorear-se de
novas partes do id.

FASES PSICOSSEXUAIS DO DESENVOLVIMENTO


À medida que o um bebê se transforma em criança, uma criança em adolescente e um adolescente em
adulto, ocorrem mudanças marcantes no que é desejado e em como estes desejos são satisfeitos. As
modificações nas formas de gratificação e as áreas físicas de gratificação são os elementos básicos na descrição
de Freud das fases de desenvolvimento. Freud usou o termo fixação para descrever o que ocorre quando uma
pessoa não progride normalmente de uma fase para a outra, mas permanece envolvida numa fase particular.
Uma pessoa fixada numa determinada fase preferirá satisfazer suas necessidades de forma mais simples ou
infantil, ao invés dos modos mais adultos que resultariam de um desenvolvimento normal.

Fase Oral – desde o nascimento, necessidade e gratificação estão ambas concentradas predominantemente em
volta dos lábios, língua e, um pouco mais tarde, dos dentes. A pulsão básica do bebê não é social ou interpessoal,
é apenas receber alimento para atenuar as tensões de fome e sede. Enquanto é alimentada, a criança também é
confortada, aninhada, acalentada e acariciada.
A boca é a primeira área do corpo que o bebê pode controlar; a maior parte da energia libidinal
disponível é direcionada ou focalizada nesta área. Conforme a criança cresce, outras áreas do corpo
desenvolvem-se e tornam-se importantes regiões de gratificação. Entretanto, alguma energia é
permanentemente fixada ou catexizada nos meios de gratificação oral. Em adultos, existem muitos hábito orais
bem desenvolvidos e um interesse contínuo em manter prazeres orais. Comer, chupar, mascar, fumar, morder,
lamber ou beijar com estalo, são expressões físicas destes interesses. Pessoas que mordicam constantemente,
fumantes e os que costumam comer demais podem ser pessoas parcialmente fixadas na fase oral, pessoas cuja
maturação psicológica pode não ter se completado.
A fase oral tardia, depois do aparecimento dos dentes, inclui a gratificação de instintos agressivos.
Morder o seio, que causa dor à mãe e leva a um retraimento do seio, é um exemplo deste tipo de comportamento.
O sarcasmo do adulto, o arrancar o alimento de alguém, a fofoca, têm sido descritos como relacionados a esta
fase do desenvolvimento.
A retenção de algum interesse em prazeres orais é normal. Esse interesse só pode ser encarado como
patológico se for o modo dominante de gratificação, isto é, se uma pessoa for excessivamente dependente de
hábitos orais para aliviar a ansiedade.

Fase Anal – A medida que a criança cresce, novas áreas de tensão e gratificação são trazidas à consciência.
Entre dois ou quatro anos, as crianças geralmente aprendem a controlar os esfíncteres anais e a bexiga. A criança
presta uma atenção especial à micção e à evacuação. O treinamento da toalete desperta um interesse natural
pela autodescoberta. A obtenção do controle fisiológico é ligada à percepção de que esse controle é uma nova
fonte de prazer. Além disso, as crianças aprendem com rapidez que o crescente nível de controle lhes traz
atenção e elogios por parte de seus pais. O inverso também é verdadeiro; o interesse dos pais no treinamento
da higiene permite à criança exigir atenção tanto pelo controle bem sucedido quanto pelos “erros”.
Características adultas que estão associadas à fixação parcial na fase anal são: ordem, parcimônia e
obstinação. Freud observou que esses três traços em geral são encontrados juntos. Ele falou do caráter anal cujo
comportamento está intimamente ligado a experiências sofridas durante esta época da infância.
Parte da confusão que pode acompanhar a fase anal é a aparente contradição entre o pródigo elogio e o
reconhecimento, por um lado e, por outro, a idéia de que ir ao banheiro é “sujo” e deveria ser guardado em
segredo. A criança não consegue compreender inicialmente que suas fezes e urina não sejam apreciadas. As
crianças pequenas gostam de observar suas fezes na privada, na hora de dar descarga, e com freqüência acenam
e dizem-lhes adeus. Não é raro uma criança oferecer ou desejar oferecer a seu pai ou mãe parte de suas fezes.
Tendo sido elogiada por produzi-las, a criança pode surpreender-se ou confundir-se no caso de seus pais
reagirem ao presente com repugnância. Nenhuma área da vida contemporânea é tão carregada de proibições e
tabus como a área que lida com o treinamento da higiene e comportamento típicos da fase anal.

Fase Fálica – Bem cedo, já aos três anos, a criança entra na fase fálica que focaliza as áreas genitais do corpo.
Freud afirmou que essa fase é melhor caracterizada por “fálica” uma vez que é o período em que uma criança
se dá conta de seu pênis ou da falta de um. É a primeira fase em que as crianças tornam-se conscientes das
diferenças sexuais.
As opiniões de Freud a respeito do desenvolvimento da inveja do pênis em meninas foram longamente
debatidas em círculos psicanalíticos, assim como em outros lugares. Freud concluiu, a partir de suas
observações, que, durante esse período, homens e mulheres desenvolvem sérios temores sobre questões sexuais.
O desejo de ter um pênis e a aparente descoberta de que lhe falta “algo” constituem um momento crítico
no desenvolvimento feminino. Segundo Freud: a descoberta de que é castrada representa um marco decisivo
no crescimento da menina. Daí partem três linhas de desenvolvimento possíveis: uma conduz à inibição sexual
ou à neurose, outra à modificação do caráter no sentido de um complexo de masculinidade e a terceira,
finalmente, à feminilidade normal.
Freud tentou compreender as tensões que uma criança vivencia quando sente excitação “sexual”, isto é,
o prazer a partir da estimulação de áreas genitais. Esta excitação está ligada, na mente da criança, à presença
física próxima de seus pais. O desejo desse contato torna-se cada vez mais difícil de ser satisfeito pela criança,
ela luta pela intimidade que seus pais compartilham entre si. Esta fase caracteriza-se pelo desejo da criança de
ir para a cama de seus pais e pelo ciúme da atenção que seus pais dão um ao outro, ao invés de dá-la à criança.
Freud viu crianças nessa fase reagirem a seus pais como ameaça potencial à satisfação de suas
necessidades. Assim, para o menino que deseja estar próximo de sua mãe, o pai assume alguns atributos de um
rival. Ao mesmo tempo, o menino ainda quer o amor e a afeição de seu pai. Aí ele começa a identificar-se com
o seu pai para obter a atenção e carinhos de sua mãe. A criança está na posição insustentável de querer temer
ambos os pais.
Em meninos, Freud denominou essa situação complexo de Édipo, segundo a peça de Sófocles. Na
tragédia grega, Édipo mata o pai (desconhecendo sua identidade verdadeira) e, mais tarde, casa-se com a mãe.
Quando finalmente toma conhecimento de quem havia matado e com quem se casara, o próprio Édipo
desfigura-se arrancando os dois olhos. Freud acreditava que todo menino revive um drama interno similar. Ele
deseja “possuir” sua mãe e “matar” seu pai para realizar este destino. Ele também teme seu pai e receia ser
castrado por ele, reduzindo a criança a um ser sem sexo e, portanto, inofensivo. A ansiedade da castração, o
temor e o amor pelo pai, e o amor e o desejo sexual por sua mãe não podem nunca ser completamente resolvidos.
Na infância todo complexo é reprimido. Mantê-lo inconsciente, impedi-lo de aparecer, evitar a te mesmo que
se pense a respeito ou se reflita sobre ele – essas são algumas das primeiras tarefas do superego em
desenvolvimento.
Para as meninas, o problema é similar, mas sua expressão e solução tomam um rumo diferente. A
menina deseja possuir seu pai e vê sua mãe como a maior rival. Enquanto os meninos reprimem seus
sentimentos, em parte pelo medo da castração, a necessidade da menina de reprimir seus desejos é menos
severa, menos total. A diferença em intensidade permite a elas “permanecerem nelas (situação edipiana) por
um tempo indeterminado; destroem-na tardiamente e, ainda assim, de modo incompleto”.
Seja qual for a forma que realmente toma a resolução da luta, a maioria das crianças parece modificar
seu apego aos pais em algum ponto depois dos cinco anos de idade e voltam-se para o relacionamento para os
seus companheiros, atividades escolares, esportes e outras habilidade. Esta época, da idade de 5, 6 anos até o
começo da puberdade, é denominada período de latência, um tempo em que os desejos sexuais não-resolvidos
da fase fálica não são atendidos pelo ego e cuja repressão é feita, com sucesso, pelo superego. A partir desse
ponto, até a puberdade, estende-se o que se conhece por período de latência. Durante esse período a sexualidade
normalmente não avança mais, pelo contrário, os anseios sexuais diminuem de vigor e são abandonadas e
esquecidas muitas coisas que a criança fazia e conhecia. Nesse período da vida, depois que a primeira
eflorescência da sexualidade feneceu, surgem atitudes do ego como vergonha, repulsa e moralidade, que estão
destinadas a fazer frente à tempestade ulterior da puberdade e a alicerçar o caminho dos desejos sexuais que se
vão despertando.

A Fase de Latência – Denomina-se fase de latência o período que vai aproximadamente dos cinco aos dez
anos de idade. Este período caracteriza-se por uma aparente interrupção do desenvolvimento sexual, em que os
impulsos eróticos exercem menor influência na conduta e o ego encontra uma trégua para os conflitos
emocionais que vinham se desenrolando nas fases anteriores. Afastando-se temporariamente dos interesses
sexuais, a criança utiliza a energia psíquica para o fortalecimento do ego, o qual se torna mais bem equipado
para lidar com os impulsos e principalmente com o mundo externo. Com o ego fortalecido e o superego em
crescente desenvolvimento, a criança volta-se para novos campos como a escola, as amizades, os jogos e outras
atividades. Supõe-se que os interesses sexuais diminuam por causa das sublimações ou formações reativas que
dominam o comportamento. “Não há uma latência absoluta”. Quando os conflitos das fases anteriores não
encontram o caminho para a solução, o período de latência passa a ser turbulento: a criança é irritada, agressiva,
exibicionista, masturbadora e dada a excessiva curiosidade sexual ou então, por defesa, tem mau
aproveitamento escolar ou manifestações francamente neuróticas como pavor noturno, enurese, dificuldades
alimentares, etc.
A fase de latência pode ser dividida em dois períodos: um dos cinco aos oito anos, e outro dos oito aos
dez anos. No primeiro, os problemas edipianos estão ainda na superfície e a criança tende a usar defesas contra
impulsos eróticos e agressivos. Depois de oito anos, os conflitos da criança são menos agudos porque o
superego está mais estruturado e ela é capaz de enfrentar a realidade com maior independência. Por formação
reativa ao ciúme e inveja, passa a desejar que outras crianças tenham também os seus privilégios e, assim, de
fascista transforma-se em democrata e começa a formar a idéia de justiça social. O maior contato com a
realidade leva a criança a considerar que os pais não são tão sábios ou poderosos como julgava. Que cometem
erros, nem sempre falam a verdade e nem sempre são tão bem sucedidos como outras pessoas.

Fase Genital – a fase final do desenvolvimento biológico e psicológico ocorre com o início da puberdade e o
conseqüente retorno da energia libidinal aos órgãos sexuais. Neste momento, meninos e meninas estão ambos
conscientes de suas identidades sexuais distintas e começam a buscar formas de satisfazer suas necessidades
eróticas e interpessoais.
Inicia-se no fim do 4º ano de vida e vai até o fim da puberdade. (Zonas Erógenas Primárias, o Clitóris
para a mulher e o Falo para o homem). Traços desta fase devem ser superados pela criança, para poder atingir
a maturidade. O prazer se dá, para o menino, através da secreção, que é obtida pela fricção. Nesta Fase, segundo
Freud, o Pênis representa o maior Valor Psicológico e Objetal. Daí advém na Menina, os Sentimentos de
Castração. Já, o Menino, apresenta o Temor da Castração, em função do medo de perder algo que tanto valoriza.
Nesta fase, a Libido em geral, se direciona a um Objeto do Mundo Exterior, que é um dos pais, mais
frequentemente, o do sexo oposto. A Agressividade dirige-se ao do mesmo sexo. Esta é a situação do Complexo
de Édipo.

(FASE GENITAL PROPRIAMENTE DITA)


Nesta Fase, a Vida Imaginativa novamente se torna mais rica. Há uma volta dos Impulsos das Fases
Anteriores e dos Temores de Castração.
Nas Meninas, quando o sangue que saí da vagina, na fase da menstruação, confirma seus temores arcaicos, de
que os conteúdos valiosos do interior do seu corpo, quer dizer, os filhos que poderia vir a ter um dia, estejam
definitivamente danificados. Tais sentimentos podem gerar-lhe inibição sexual e aumento de suas defesas viris.
Pode produzir-se uma cisão em seu desenvolvimento, evoluindo bem em sua parte intelectual e se tornando
demorada e infantil, em sua parte emocional e sexual. Porém, as que têm experiências passadas boas; sentem
exatamente ao contrário, com a menstruação. Classicamente se define a Maturidade, em função do Predomínio
Genital conseguido sobre os Impulsos pré-genitais, capacitando o adulto, de conseguir uma Satisfação Genital
Plena.
Mecanismos de Defesa do Ego: São diferentes tipos de operações em que a defesa pode ser especificada. Os
mecanismos predominantes diferem segundo o tipo de afecção considerado, a etapa genética, o grau de
elaboração do conflito defensivo, etc.
Não há divergências quanto ao fato de que os mecanismos de defesa são utilizados pelo ego, mas permanece
aberta a questão teórica de saber se a sua utilização pressupõe sempre a existência de um ego organizado que
seja o seu suporte.
Foi este o nome que Freud adotou para apresentar os diferentes tipos de manifestações que as defesas
do Ego podem apresentar, já que este não se defronta só com as pressões e solicitações do Id e do Superego,
pois aos dois se juntam o mundo exterior e as lembranças do passado.
Quando o Ego está consciente das condições reinantes, ele consegue sair-se bem das situações sendo
lógico, objetivo e racional, mas quando se desencadeiam situações que possam vir a provocar sentimentos de
culpa ou ansiedade, o Ego perde as três qualidades citadas. É quando a ansiedade-sinal (ou sinal de angústia),
de forma inconsciente, ativa uma série de mecanismos de defesa, com o fim de proteger o Ego contra uma dor
psíquica iminente.
Há vários mecanismos de defesa, sendo alguns mais eficientes do que outros. Há os que exigem menos
dispêndio de energia para funcionar a contento. Outros há que são menos satisfatórios, mas todos requerem
gastos de energia psíquica.
As defesas do ego podem dividir-se em: a) Defesas bem sucedidas, que geram a cessação daquilo que
se rejeita; b) Defesas ineficazes, que exigem repetição ou perpetuação do processo de rejeição, a fim de impedir
a irrupção dos impulsos rejeitados.
As defesas patogênicas, nas quais se radicam as neuroses, pertencem à segunda categoria. Quando os
impulsos opostos não encontram descarga, mas permanecem suspensos no inconsciente e ainda aumentam pelo
funcionamento continuado das suas fontes físicas, produz-se estado de tensão, com possibilidade de irrupção.
Daí por que as defesas bem sucedidas, que de fato, menos se entendem têm menor importância na psicologia
das neuroses. Nem sempre, porém, se definem com nitidez as fronteiras entre as duas categorias; há vezes em
que não se consegue distinguir entre “um impulso que foi transformado pela influência do ego” e “um impulso
que irrompe com distorção, contra a vontade do ego e sem que este o reconheça”. Este último tipo de impulso
há de produzir atitudes constrangedoras, há de repetir-se continuamente, jamais permitirá relaxamento pleno
gerará fadiga.

1. Sublimação: É o mais eficaz dos mecanismos de defesa, na medida em que canaliza os impulsos libidinais
para uma postura socialmente útil e aceitável. As defesas bem sucedidas podem colocar-se sob o título de
sublimação, expressão que não designa mecanismo específico; vários mecanismos podem usar-se nas defesas
bem sucedidas; por exemplo, a transformação da passividade em atividade; o rodeio em volta do assunto, a
inversão de certo objetivo no objetivo oposto. O fator comum está em que, sob a influência do ego, a finalidade
ou o objeto (ou um e outro) se transforma sem bloquear a descarga adequada. (O fator de valoração que
habitualmente se inclui na definição de sublimação é melhor omitir). Deve-se diferenciar a sublimação das
defesas que usam contracatexias; os impulsos sublimados descarregam-se, se bem que drenados por uma trilha
artificial, enquanto os outros não se descarregam.
Na sublimação, cessa o impulso original pelo fato de que a respectiva energia é retirada em benefício
da catexia do seu substituto. Nas outras defesas, a libido do impulso original é contida por uma contracatexia
elevada.
As sublimações exigem uma torrente incontida de libido, tal qual a roda de um moinho precisa de um fluxo
d’água desimpedido e canalizado. É por isto que as sublimações aparecem após a remoção de certa repressão.
Para usar uma metáfora, as forças defensivas do ego não se opõem frontalmente aos impulsos originais,
conforme ocorre no caso das contracatexias, mas incidem angularmente; daí uma resultante em que se unificam
a energia instintiva e energia defensiva, com liberdade para atuar. Distinguem-se as sublimações das
gratificações substitutivas neuróticas pela sua dessexualização, ou seja, a gratificação do ego já não é
fundamentalmente instintiva.
Quais são os impulsos que experimentam vicissitudes desta ordem e quais são as condições que determinam a
possibilidade ou a impossibilidade de sublimação?
Se não forem rejeitados pelo desenvolvimento de uma contracatexia (o que os excluirá do
desenvolvimento ulterior da personalidade), os impulsos pré-genitais e as atitudes agressivas concomitantes
organizam-se, mais tarde sob a primazia genital. A realização mais ou menos completa desta organização é
indispensável para que tenha êxito a sublimação daquela parte da pré-genitalidade que não é usada sexualmente
no mecanismo do pré-prazer. É muito pouco provável a existência de sublimação da sexualidade genital adulta;
os genitais constituem um aparelho que visa à realização da descarga orgástica plena, isto é, não sublimada. O
objeto da sublimação são os desejos pré-genitais. Se estes, porém, tiverem sido reprimidos e se permanecem
no inconsciente, competindo com a primazia genital, não podem ser sublimados. A capacidade de orgasmo
genital é que possibilita a sublimação (dessexualização) dos desejos pré-genitais.
O que determina a possibilidade de o ego conseguir chegar à solução feliz desta ordem não é fácil dizer.
Caracteriza-se a sublimação por: a) Inibição do objetivo; b) Dessexualização; c) Absorção completa de um
instinto nas respectivas seqüelas;
d) Alteração dentro do ego. Qualidades todas estas que também se vêem nos resultados de umas tantas
identificações, qual seja, no processo de formação do superego.
O fato empírico das sublimações, sobretudo as que se originam na infância, dependerem da presença de
modelos, de incentivos que o ambiente forneça direta ou indiretamente, corrobora a asserção de Freud no
sentido de que a sublimação talvez se relacione intimamente com a identificação. Mais ainda: os casos de
transtorno da capacidade de sublimar mostraram que esta incapacidade corresponde a dificuldades na promoção
de identificações. Tal qual ocorre com certas identificações, também as sublimações são capazes de opor-se e
se desfazerem, com êxito maior ou menor, certos impulsos destrutivos infantis; mas também podem satisfazer,
de maneira distorcida, estes mesmos impulsos destrutivos; de algum modo, toda fixação artística de um
processo natural “mata” este processo. É possível ver precursores das sublimações em certas brincadeiras
infantis, nas quais os desejos sexuais se satisfazem por uma forma “dessexualizada” em seguida a certa
distorção da finalidade ou do objeto; e as identificações também são decisivas neste tipo de brincadeiras.
Varia muito a extensão da divisão do objetivo na sublimação. Há casos em que a diversão se limita a inibição
do objetivo; a pessoa que haja feito a sublimação faz, precisamente, aquilo que o seu instinto exige que faça,
mas isso depois que o instinto se dessexualize e se subordine à organização do ego. Noutros tipos de
sublimação, ocorrem transformações de alcance muito maior. É até possível que certa atividade de direção
oposta ao instinto original substitua, de fato, este último. Certas reações de nojo, habituais entre as pessoas
civilizadas, sem vestígio das tendências instintivas infantis contra as quais se desenvolveram originalmente,
incluem-se nesta categoria. O que ocorre, então, é idêntico ao que Freud chamou transformação no contrário;
uma vez completada, toda a força de um instinto opera na direção contrária.

2. Repressão: É a operação psíquica que pretende fazer desaparecer, da consciência, impulsos ameaçadores,
sentimentos, desejos, ou seja, conteúdos desagradáveis, ou inoportunos.
Em sentido amplo, é uma operação psíquica que tende a fazer desaparecer da consciência um conteúdo
desagradável ou inoportuno: idéia, afeto, etc. Neste sentido, o recalque seria uma modalidade especial de
repressão.
Em sentido mais restrito, designa certas operações do sentido amplo, diferentes do recalque: a) ou pelo caráter
consciente da operação e pelo fato de o conteúdo reprimido se tornar simplesmente pré-consciente e não
inconsciente; b) ou, no caso da repressão de um afeto, porque este não é transposto para o inconsciente mais
inibido, ou mesmo suprimido.

3. A Racionalização: É uma forma de substituir por boas razões uma determinada conduta que exija
explicações, de um modo geral, da parte de quem a adota. Os Psicanalistas, em tom jocoso, dizem que
racionalização é uma mentira inconsciente que se põe no lugar do que se reprimiu.
É um processo pelo qual o sujeito procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico,
ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, uma idéia, um sentimento, etc., cujos motivos
verdadeiros não percebe; fala-se mais especialmente da racionalização de um sintoma, de uma compulsão
defensiva, de uma formação reativa. A racionalização intervém também no delírio, resultando numa
sistematização mais ou menos acentuada.
A racionalização é um processo muito comum, que abrange um extenso campo que vai desde o delírio
ao pensamento normal. Como qualquer comportamento pode admitir uma explicação racional, muitas vezes é
difícil decidir se esta é falha ou não. Em especial no tratamento psicanalítico encontraríamos todos os
intermediários entre dois extremos; em certos casos é fácil demonstrar ao paciente o caráter artificial das
motivações invocadas e incitá-lo assim a não se contentar com elas; em outros, os motivos racionais são
particularmente sólidos (os analistas conhecem as resistências que a “alegação da realidade”, por exemplo,
pode dissimular), mas mesmo assim pode ser útil colocá-los “entre parênteses” para descobrir as satisfações ou
as defesas inconscientes que a eles se juntam.
Como exemplo do primeiro caso encontraremos racionalizações de sintomas, neuróticos ou perversos
(comportamento homossexual masculino explicado pela superioridade intelectual e estética do homem, por
exemplo) ou compulsões defensivas (ritual alimentar explicado por preocupações de higiene, por exemplo).

4. Projeção: Manifesta-se quando o Ego não aceita reconhecer um impulso inaceitável do Id e o atribui a outra
pessoa. É o caso do menino que gostaria de roubar frutas do vizinho sem, entretanto ter coragem para tanto, e
diz que soube que um menino, na mesma rua, esteve tentando pular o muro do vizinho.
Termo utilizado num sentido muito geral em neurofisiologia e em psicologia para designar a operação pela qual
um fato neurológico ou psicológico é deslocado e localizado no exterior, quer passando do centro para a
periferia, quer do sujeito para o objeto.
No sentido propriamente psicanalítico, operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro
(pessoa) ou coisa (qualidades, sentimentos, desejos e mesmo “objetos”) que ele desconhece ou recusa nele.
Trata-se aqui de uma defesa de origem muito arcaica, que vamos encontrar em ação particularmente na
paranóia, mas também em modos de pensar “normais”, como a superstição.

5. Deslocamento: É um processo psíquico através do qual o todo é representado por uma parte ou vice-versa.
Também pode ser uma idéia representada por uma outra, que, emocionalmente, esteja associada a ela. Esse
mecanismo não tem qualquer compromisso com a lógica. É o caso de alguém que tendo tido uma experiência
desagradável com um policial, reaja desdenhosamente, em relação a todos os policiais.
É muito corrente nos sonhos, onde uma coisa representa outra. Também se manifesta na Transferência, fazendo
com que o indivíduo apresente sentimentos em relação a uma pessoa que, na verdade, lhe representa uma outra
do seu passado.
Fato de a importância, o interesse, a intensidade de uma representação ser suscetível de se destacar dela para
passar a outras representações originariamente pouco intensas, ligadas à primeira por uma cadeia associativa.
Esse fenômeno, particularmente visível na análise do sonho, encontra-se na formação dos sintomas
psiconeuróticos e, de um modo geral, em todas as formações do inconsciente.
A teoria psicanalítica do deslocamento apela para a hipótese econômica de uma energia de investimento
suscetível de se desligar das representações e de deslizar por caminhos associativos.
O “livre” deslocamento desta energia é uma das principais características do modo como o processo
primário rege o funcionamento do sistema inconsciente.

6. A Identificação: É o processo psíquico por meio do qual um indivíduo assimila um aspecto, uma
característica de outro, e se transforma, total ou parcialmente, apresentando-se conforme o modelo desse outro.
A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações.
Freud descreve como característico do trabalho do sonho o processo que traduz a relação de semelhança,
o “tudo como se”, por uma substituição de uma imagem por outra ou “identificação”.
A identificação não tem aqui valor cognitivo: é um processo ativo que substitui uma identidade parcial
ou uma semelhança latente por uma identidade total.

7. A Regressão: É o processo psíquico em que o Ego recua, fugindo de situações conflitivas atuais, para um
estágio anterior. É o caso de alguém que depois de repetidas frustrações na área sexual, regrida, para obter
satisfações, à fase oral, passando a comer em excesso.
Considerada em sentido tópico, a regressão se dá, de acordo com Freud, ao longo de uma sucessão de
sistemas psíquicos que a excitação percorre normalmente segundo determinada direção. No seu sentido
temporal, a regressão supõe uma sucessão genética e designa o retorno do sujeito a etapas ultrapassadas do seu
desenvolvimento (fases libidinais, relações de objeto, identificações, etc.).
No sentido formal, a regressão designa a passagem a modos de expressão e de comportamento de nível inferior
do ponto de vista da complexidade, da estruturação e da diferenciação.
A regressão é uma noção de uso muito freqüente em psicanálise e na psicologia contemporânea; é concebida,
a maioria das vezes, como um retorno a formas anteriores do desenvolvimento do pensamento, das relações de
objeto e da estruturação do comportamento. Freud é levado então a diferenciar o conceito de regressão, como
o demonstra esta passagem acrescentada em 1914 em três espécies de regressões: a) Tópica, no sentido do
esquema do aparelho psíquico. A regressão tópica é particularmente manifestada no sonho, onde ela prossegue
até o fim. Encontra-se em outros processos patológicos em que é menos global (alucinação) ou mesmo em
processos normais em que vai menos longe (memória); b) Temporal, em que são retomadas formações
psíquicas mais antigas; c) Formal, quando os modos de expressão e de figuração habituais são substituídos por
modos primitivos. Estas três formas de regressão, na sua base, são apenas uma, e na maioria dos casos
coincidem, porque o que é mais antigo no tempo é igualmente primitivo na forma e, na tópica psíquica, situa-
se mais perto da extremidade perceptiva.

8. O Isolamento: É um processo psíquico típico da neurose obsessiva, que consiste em isolar um


comportamento ou um pensamento de tal maneira que as suas ligações com os outros pensamentos, ou com o
autoconhecimento, ficam absolutamente interrompidas, já que foram (os pensamentos, os comportamentos),
completamente excluídos do consciente.
Entre os processos de isolamento, citemos as pausas no decurso do pensamento, fórmulas, rituais, e, de
um modo geral, todas as medidas que permitem estabelecer um hiato na sucessão temporal dos pensamentos
ou dos atos. Certos doentes defendem-se contra uma idéia, uma impressão, uma ação, isolando-as do contexto
por uma pausa durante a qual “… nada mais tem direito a produzir-se, nada é qualificada de mágica por Freud;
aproxima-a do processo normal de concentração no sujeito que procura não deixar que o seu pensamento se
afaste do seu objeto atual.
O isolamento manifesta-se em diversos sintomas obsessivos; nós o vemos particularmente em ação no
tratamento, onde a diretriz da associação livre, por lhe ser oposta, coloca-o em evidência (sujeitos que separam
radicalmente a sua análise da sua vida, ou determinada seqüência de idéias do conjunto da sessão, ou
determinada representação do seu contexto ideo-afetivo). Freud reduz, em última análise, a tendência para o
isolamento a um modo arcaico de defesa contra a pulsão, a interdição de tocar, uma vez que “… o contato
corporal é a finalidade imediata do investimento de objeto, quer o agressivo quer o terno”.
Nesta perspectiva, o isolamento surge como “… uma supressão da possibilidade de contato, um meio
de subtrair uma coisa ao contato; do mesmo modo, quando o neurótico isola uma impressão ou uma atividade
por pausa, dá-nos simbolicamente a entender que não permitirá que os pensamentos que lhes dizem respeito
entrem em contato associativo com outros”.
Na realidade, pensamos que seria interessante reservar o termo isolamento para designar um processo
específico de defesa que vai da compulsão a uma atitude sistemática e concentrada, e que consiste numa ruptura
das conexões associativas de um pensamento ou de uma ação, especialmente com o que os precede e os segue
no tempo.

9. Formação Reativa: É um processo psíquico que se caracteriza pela adoção de uma atitude de sentido oposto
a um desejo que tenha sido recalcado, constituindo-se, então, numa reação contra ele. Uma definição: é o
processo psíquico, por meio do qual um impulso indesejável é mantido inconsciente, por conta de uma forte
adesão ao seu contrário.
Muitas atitudes neuróticas existem que são tentativas evidentes de negar ou reprimir alguns impulsos,
ou de defender a pessoa contra um perigo instintivo. São atitudes tolhidas rígidas, que obstam a expressão de
impulsos contrários, os quais, no entanto, de vez em quando, irrompem por diversos modos.
Nas peculiaridades desta ordem, a psicanálise, psicologia “desmascaradora” que é, consegue provar que a
atitude oposta original ainda está presente no inconsciente. Chamam-se formações reativas estas atitudes
opostas secundárias.
As formações reativas representam mecanismo de defesa separado e independente? Dão mais impressão
de constituir conseqüência e reafirmação de uma repressão estabelecida. Quando menos, contudo, significam
certo tipo de repressão que é possível distinguir de outras repressões. Digamos: É um tipo de repressão em que
a contracatexia é manifesta e que, portanto, tem êxito no evitar de atos repressivos muito repetidos de repetidos
de repressão secundária. As formações reativas evitam repressões secundárias pela promoção de modificação
definitiva, “uma vez por todas”, da personalidade. O indivíduo que haja constituído formações reativas não
desenvolve certos mecanismos de defesa de que se sirva ante a ameaça de perigo instintivo; modificou a
estrutura da sua personalidade, como se este perigo estivesse sem cessar presente, de maneira que esteja pronto
sempre que ocorra.

10. Substituição: Processo pelo qual um objeto valorizado emocionalmente, mas que não pode ser possuído, é
inconscientemente substituído por outro, que geralmente se assemelha ao proibido. É uma forma de
deslocamento.

11. Fantasia: É um processo psíquico em que o indivíduo concebe uma situação em sua mente, que satisfaz
uma necessidade ou desejo, que não pode ser, na vida real, satisfeito.
É um roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos
deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em última análise, de um desejo
inconsciente.
A fantasia apresenta-se sob diversas modalidades: a) Fantasias conscientes ou sonhos diurnos; b)
Fantasias inconscientes como as que a análise revela como estruturas subjacentes a um conteúdo manifesto; c)
Fantasias originárias.

12. Compensação: É o processo psíquico em que o indivíduo se compensa por alguma deficiência, pela
imagem que tem de si próprio, por meio de um outro aspecto que o caracterize, que ele, então, passa a considerar
como um trunfo.

13. Expiação: É o processo psíquico em que o indivíduo quer pagar pelo seu erro imediatamente.

14. Negação: A tendência a negar sensações dolorosas é tão antiga quanto o próprio sentimento de dor. Nas
crianças pequenas, é muito comum a negação de realidades desagradáveis, negação que realiza desejos e que
simplesmente exprime a efetividade do princípio do prazer.
A capacidade de negar pares desagradáveis da realidade é a contrapartida da “realização alucinatória dos
desejos”. Anna Freud chamou este tipo de recusa do reconhecimento do desprazer em geral “pré-estádios da
defesa”.

3.15. Introjeção: Originalmente, a idéia de engolir um objeto exprime afirmação; e como tal é o protótipo de
satisfação instintiva, e não de defesa contra os instintos. No estádio do ego prazeroso purificado, tudo quanto
agrada é introjetado. Em última análise, todos os objetos sexuais derivam de objetivos de incorporação. Do
mesmo passo, a projeção é o protótipo da recuperação daquela onipotência que foi projetada para os adultos.
Contudo, a incorporação, embora exprima “amor”, destrói objetivamente os objetos tais como coisas
independentes do mundo exterior. Percebendo este fato, o ego aprende a usar a introjeção para fins hostis como
executora de impulsos destrutivos e também como modelo de um mecanismo definido de defesa.
A incorporação é o objetivo mais arcaico dentre os que se dirigem para um objeto. A identificação,
realizada através da introjeção, é o tipo mais primitivo de relação com os objetos.

BIBLIOGRAFIA

FADMAN, James. Teorias da Personalidade. Editora Harbra, 1986, São Paulo.

BRABANT, Georges P. Chaves da Psicanálise. Ed. Zahar, 1977. Rio de Janeiro.


CABRAL, Álvaro e NICK, Eva. Dicionário Técnico de Psicologia. Cultrix, São Paulo.

D’ANDREIA, Flávio Fortes. Desenvolvimento da Personalidade. Bertrand, 2000, RJ.

ETCHEGOYEN, R. Horácio. Fundamentos da Técnica Psicanalítica. Ar Médicas

FENICHEL, Otto. Teoria Psicanalítica das neuroses. Atheneu, 1981, SP.


Postado por Pr. Daniel Barbosa de Melo às 14:06
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