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A Desmistificação como (Des)Ordenação


da Pátria: Algumas Reflexões sobre As
Naus e Viva o Povo Brasileiro

Lola Geraldes Xavie r


(Universidade de Coimbra)

A literatura é um dos campos culturais mais significativos, a


textualização documenta o espaço e o tempo históricos. Porém,
não podemos restringir a literatura a este nível, o texto literário
terá sempre de ser percepcionado na sua ve1tente simbólica.
Esta vertente simbólica não pode deixar de estar inserida num
cootexto cultural e histórico amplos: local e/ou universal.
Analisaremos as intersecções de textos de autores de nacio-
nalidades (e identidades) diferentes, nomeadamente de Antó-
nio Lobo Antunes e de João Ubaldo Ribeiro. Abordaremos dois
dos seus romances da década de 1980, nomeadamente, As Naus
(1988) e Viva o Povo Brasileiro (1984).
Para o leitor incauto ao ler na capa de um romance, até
então desconhecido, o título: As Naus e tratando-se de um ro-
mance português, as primeiras ilações prender-se-ão, provavel-
mente, com a temática dos descobrimentos, com a exaltação da

97
DIÁLOGOS LITERÁRIOS

história portuguesa do século_XVI. Porém, se acrescentarmos


que o título previsto no princípio era O Regresso das Carave-
las, romance traduzido, por exemplo, para o inglês como The
Return of the Caravels, depressa o leitor hesitará em confirmar
as expectativas iniciais. O substantivo "regresso" coloca-Io-á
de sobreaviso para uma eventual atmosfera narrativa disfórica,
habituado que está à partida das naus.
Assim, António Lobo Antunes ganhou com a síntese neste
título definitivo, que camufla a intenção do autor em narrar as
consequências para os portugueses da perda das colónias portu-
/

guesas em Africa. Também o substantivo "naus" em contrapo-


sição com "caravelas" alarga o universo de referência.
Efectivamente, o romance frustra as expectativas de um
universo eufórico, de exaltação de uma nação. Desta fonna,
não se trata de uma epopéia, mas de uma contra-epopéia, em
que o individual sobressai sobre o colectivo. ~da que este
relevo dado ao individual não seja mais do que aparente, uma
vez que atrás da suposta desumanização individual das perso-
nagens está a desumanização e a destruição de uma identidade
nacional digna de louvor.
As naus que outrora partiram prcnhcs de esperança e uto-
pia, regressam agora com a desilusão, o fracasso. Na realida-
de assistimos a um anarquismo temporal, em que se misturam
referências ao século XVI e ao século XX, nomeadamente ao
pós-25 de Abril. As naus não são mais naus, mas aviões, e os
homens fortes, jovens e patriotas que partiram regressam, ago-
ra, quatro séculos passados, velhos, frágeis, corruptos, despos-
sados de um sentimento de pátria.
Do ponto de vista de Alzira, a mulher de Garcia de Orta,
assistimos à síntese deste regresso, sem que os colonos tenham
concretizado o objectivo da partida - emiquecer: "porque é que
pelo simples desejo de ver o mar aceitei mudar-me para Lixboa
e casar com um maluco de telefonias e sementes, quando o mar
é apenas a celha desta água toda com naus que tomam de África
carregadas de colonos sem fortuna, de malucos que vendem as
A OESMISTJF ICAÇÃO COMO (DES)ORD ENAÇÃO DA PÁTRIA 99

cinZas do pai[ ...] a porcaria do mar e esta cidade com odor de


"l
pia e de caliça .
o mar é, pois, fonte de atracção, mas é uma força que seduz
coroo uma sereia e que não permite salvar o país do abismo. A
constituição da identidade nacional é comprometida quando a
máxima individualidade política não acredita no país que re-
presenta. O próptio rei D. Manuel desabafará, referindo-se a
2
Portugal: "esta bodega toda me pertence" • A capital desse país
se encontra fedorenta e inóspita? De facto, Lisboa é descrita
pelo olhar do "homem de nome Luís" como: "um rodopio de
casas sem destino, uma cavalgada de algerozes, de tapumes, de
flechas de igreja e de ruas a quem as obras camarárias expu-
nham as tripas dos esgotos sob um céu rebentado de pústulas
de nuvens"3 .
Esta cidade de "odiosa claridade que despia as pessoas da
4
misericórdia das suas próprias sombras " é o centro espacial
/

privilegiado da distopia do romance. E uma cidade descrita de


forma sinestésica, uma cidade que "cheira a butano, a fumo de
farturas, à peste dos séculos idos, a mulas de frade e a fezes de
5
chibo doente no ondeado do terreno vago" . Não é certamente
esta a imagem que nacional e internacionalmente se deseja da
capital, reconhecida pela "lumino sa claridade", esta soturnida-
de representa, por metonímia, o Portugal decadente que a obra
pretende simbolizar.
Facilmente se depreen de que o espaço e o tempo do sé-
culo XVI mudaram e com eles a transformação de um país.
Facilmente se depreende que o romanc e é todo ele figurativo
e imbuído de perspectivas antagónicas: numa narrativa em que
as naus foram substituídas por aviões, as personagens históri-
cas são dessacralizadas. Assistimos à dialéctica entre encontr o

l. António Lobo Antunes, As Naus, p. 162.


2. Idem, p. 191.
3. Idem, p. 237.
4. Idem , ibiden1.
5. Idem, p. 38.
DIÁLO GOS LITER ÁRIOS
IOO

e desencontro das personagens entre si, das personagens com


o país a que regre ssam forçadas pelas condições históricas; à
oposição entre força centófuga e centripeta, na fuga da peri-
feria que repre senta m as colónias e no regresso a Portugal, 0
centr o (ainda que um centro-periférico em relação à Europa e
ao desenvolvimento), aind a que este regre sso ao país de origem
seja um falso regresso, porq ue o acolh imen to da pátri a é hostil.
As oposições entre evolução e involução estão tamb ém patentes
na obra, sendo que a evolução perte nce ao domínio do onírico e
a involução ao domínio do real.
Todo o roma nce é uma tentativa de construção simbólica de
pátria, tentativa essa que é infrutífera: Portugal não consegue
verdadeiramente toma r-se centro, pelo sentimento de estranha-
men to que assola as perso nage ns da obra e pelo sentimento de
não-pertença em relação a este país.
A estrutura do roma nce é algo labiríntica, uma vez que nos
dezoito capítulos, sem numeração, vai intercalando-s e o relevo
de diferentes personagens: Pedr o Álvares; "o hom em de nome
Luís "; Francisco Xavier; um casa l anónimo; Man oel de Sousa
Sepúlveda; Vasco da Gam a e Diog o Cão. Dest a feita, a narrati-
va é construída de justa posições de vozes e intercalação entre a
voz e o ponto de vista do narra dor e das diferentes personagens,
"
sendo de ressaltar o relevo dado a Pedr o Alvares Cabr al e ao
"hom em de nom e Luís ", com quatro capítulos cedidos a cada
um (contra dois capítulos para cada uma das restantes persona-
gens), abrindo a obra com Pedr o Álvares Cabral e terminando
com o "hom em de nom e Luís". O leito r facilmente depreen-
de que este hom em seria Luís de Cam ões, pela falta do "olho
esqu erdo ", pela escrita de oitavas e pela referência irónica à
publicação de Os Lusíadas em ediçã o de bolso "com bailarinas
nuas na capa "6 .
A desmistificação das pers onag ens históricas faz-se pelo
relevo dado à desumanização e à desp ersonaliza ção (por exem-

6. Idem, p. 129.
A DESMISTIFI CAÇÃO COMO (DES)ORDENAÇÃO DA PÁTRIA IO I

lo, a personagem do casal anónimo que viveu na Guiné).


" . narrada e~ a do nonsens~: Franc1s-
Efectivamente, a amb.1enc1a
p .
co Xavier é dono de uma Residencial Apóstolo das lndias que
explora aqueles que regressam à pátria, obtendo o pagamento
da estadia. Diogo Cão é apresentado como ex-fiscal da Com-
panhia das Águas em Luanda: Manoel de Sousa Sepúlveda é
0
viúvo, calvo, que gosta de observar as adolescentes a cami-
nho do liceu, dono de discotecas para as quais são recrutadas
prostitutas exploradas por Fernão Mendes Pinto e Francisco
Xavier e D. Sebastião é um "pateta inútil de sandálias e brinco
na orelha, sempre a lamber uma mortalha de haxixe, tinha sido
esfaqueado num bairro de droga de Marrocos por roubar a um
maricas inglês chamado Oscar Wilde, um saquinho de liamba"
(AN: 179). Oscar Wilde é apenas uma das variadíssimas refe-
rências histórico-culturais no romance. Dom Miguel de Cer-
vantes Saavedra, por exemplo, é apresentado como vendendo
cautelas em Moçambique. Constatamos, pois, que o autor não
escolheu fazer apenas a paródia de personagens portuguesas, e
neste ponto, pode ver-se a desmistificação cultural do ocidente
no seu todo e não apenas de Portugal. O romance apresenta,
pois, uma dimensão supranacional, logo humana.
De facto, algumas personagens anónimas, sob o olhar iró-
nico do narrador, apoderam-se dos modelos políticos da se-
gunda metade do século XX. Deste modo, a democracia e o
socialismo são confundidos entre si, justificadores de anarquia
e de desresponsabilizaçã o de actuações individuais7 • As perso-
nagens vêem-se, pois, deslocalizadas, atingindo a degradação
física e moral. Desta feita, prevalece o sentimento de instabili-
dade, de regresso abortado, de leme à deriva.
Mas o nonsense acentua-se, também, nas descrições que
são feitas, como é exemplo a descrição da forma como se vivia
em casa de Garcia de Orta, apresentado como radioamador e
botânico:

7. Idem, p. 84.
DIÁ LOG OS LITE RÁR IOS
102

a na Rua do Norte em tro..


O homem de nom e Luís rec ebeu uma cam
, e acostumou-se aos poucos
cada garrafa de leite com o cadáver do pai
inha, pegado ao fogão, onde as
não só a dormir rente aos ladrilhos da coz
ias da fome, em mergulhar•
plantas medicinais se contentavam, nas âns
ipientes do lixo, mas também
rilbando molares, pólipos e raízes nos rec
igo, da Coréia ou da Bulgá.
aos desconhecidos que conversavam em cód
ção de comboios, acerca dos
ria, com o empregado dos capilés da esta
uio ou do programa anua] do
novos carburadores dos automóveis de Tóq
8
Ballet do Povo de Sófia .

za toda a obra. o
Ao nonsense alia-se o caos que caracteri
est óri a de am or do pen últ im o cap ítu lo9
entre a dan-
esboço da
Cã o está igualmente
çarina de strip-tease de Luanda e Di og o
a custo em Lisboa,
imbuída de fracassos: o reencontro dá-se
está decrépito, sujo,
ela, velha e feia, tem de se prostituir, ele
itando, porém, o aco-
desleixado e po bre, e não a reconhece, ace
lhimento e a ternura que ela lhe oferece.
civilização (por-
O romance é a negação da possibilidade de
leitor, para a desco-
tuguesa), em que é feito apelo à me mó ria do
a identidade nacional
dificação da metáfora da descrença de um
superior" , ou sem
coesa e civilizada, no sentido de "civilização
pção da palavra.
conotações, de "nação" na verdadeira ace
a bisturi, com o
Es te é um romance de laboratório, escrito
às vezes coloquial,
excesso carnavalesco da linguagem cru a,
ções disfóricas em
que tenta recusar os adjectivos, com descri
o histórica, social e
catadupa. É um romance de desconstruçã
ional.
cultural, de desconstrução da identidade nac

II

iro, de João Ubaldo


O título do romance Viva o Povo Brasile
da brasilidade será a
Ribeiro, cria expectativas. A exaltação

8. Idem, p. 160.
9. Idem , p. 195.
/\ DESMIS TIFICAÇ ÃO COMO (DES)OR DENAÇ ÃO DA P ÁTRlA 103

rimeíra suposição a formular sobre o tema abrangente do ro-


~ance. E o leitor não se enganará, por completo, resta que esta
exaltação é feita sob o olhar paród ico e, sobretudo, irónico do
narrador. Por outro lado, o "povo" apresenta-se semanticamen-
te, na obra, não só como conjunto de indivíduos que têm a mes-
ma origem, a mesma língua e partilham um passado histórico e
cultural comum, mas també m como classe mais desfavorecida
,,
material e culturalmente. E desta classe que surgirá Maria da
Fé, a heroína do romance, a revolucionária que lutará não só
pelos seus, como pelo país, referindo que "nós somos o povo
desta terra" 10 • O "nós" refere-se aos negros, mulatos, aos po-
bres e ostracizados .
Viva o Povo Brasileiro aborda aspectos da história do Brasil
de 1647 a 1972, focando os vários mome ntos políticos do im-
pério português, da chegada dos holandeses à Bahia, passando
pela República até à Ditadura. São três século s de história do
Brasil, contendo em comu m a exploração e o espezinhamento
do povo. A ênfase da acção é colocada no século XIX, em mo-
mentos de luta e determinação da nacionalidade.
Segundo João Ubaldo, o livro nasceu de um desafio dos
seus editores e da lembrança de uma afirmação de seu pai, que
dizia: "Livro que não fica em pé sozinho, não presta". Como os
seus livros sempre tiveram poucas páginas, diante da provoca-
ção, fez um com mais de seiscentas.
Viva o Povo Brasileiro é, assim, um roman ce dividido em
vinte capítulos, num discurso repleto de analepses, prolepses e
elipses constantes. Trata-se da metáfora do povo brasileiro, a
saga de um povo em busca da sua identi dade e afirmação.
O romance Viva o Povo Brasileiro não pode ser classificado
como histórico, até porque, se o fosse, teríamos que distinguir o
romance histó1ico do século XIX do romance do século XX. A
obra trata do processo de formação políti ca e sociocultural do
Brasil, mas a perspectiva é a de quem observa criticando, é o

10. João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro, p. 373.


D IÁLOGOS LITERÁRIOS
I04

que se percebe na epígrafe: "O segredo da Verdade é o seguinte:


não existem fatos, só existem histórias".
Desde o início da obra, desvenda-se, assim, uma crítica à
forma como se tem tido aceso à História. Coloca-se em con.
fronto a forma oficial da História com as experiências daqueles
que geralmente são a camada silenciosa da sociedade, contras~
ta-se a historiografia tradicional com a versão fundamentada na
experiência de vida das personagens. Como refere Rita Olivie.
ri-Godet, a propósito de \qva o Povo Brasileiro:

O romance é um libelo contra a histoliografia tradicional e sua cum-


plicidade com o poder [ ...], bate-se contra uma história que aprisiona,
ao impor o pensament o de um grupo como o pensamento da sociedade
como um todo 11 •

Assim, a história oficial é que vai ser alvo da desconstrução


do escritor, que coloca em evidência a permanência de uma
estrutura social fundamen tada na exploração e na exclusão his·
tórico-social.
O povo deixa de ser preterido como sujeito do processo his-
tórico e torna-se agente activo na construção da nacionalidade,
contribuindo, por exemplo, para a desmistificação do heroísmo
a que muitas vezes a histólia se dedica.
Viva o Povo Brasileiro narra a anti-História do Brasil, as
personagens são, maioritariamente e na essência, anti-heróis.
De um lado, temos figuras proeminentes que enriqueceram ex·
piorando pobres ou outros ricos, enveredando pela corrupção e
exploração das fraquezas do Estado: é o caso da generalidade
dos elementos da família Ferreira-Dutton. Do outro lado, apa-
rece-nos o exército, composto maioritariamente por figuras do
povo, mas que aglide o próprio povo. As demais personagens
que representam o povo são-nos mostradas por um narrador he-
terodiegético, nem sempre omniscien te, que manipula a acção

11. Rita Olivieri-Godet, "Memória, História e Ficção em Viva o Povo Brasileiro


de João Ubaldo Ribeiro", p. 9.
A DESMISTIFICAÇÃO COMO (I?ES)ORDENAÇÃO DA PÁTRIA 105

de modo a fazer sobressair essas figuras que geralmente são


ignoradas pela História: ex-escravos, cozinheiras, aventureiros,
pescadores e, sobretudo, negros ou mulatos.
O verdadeiro herói do romance é, de facto, o povo, o povo
que se revolta contra a opressão dos regimes políticos, dos ho-
rnens poderosos e ricos. Mas há mais povo: o povo que aceita
a subjugação. Esse é apenas focado na obra, não intervém, não
se manifesta. Nessa medida, é também anti-herói, apesar de ser
exaltado o seu sofrimento, a apatia não o conduz à acção.
A verdadeira heroína da história é Maria da Fé, mulher e
mulata. Esta é mais uma provocação à História, que geralmente
guarda pouco espaço para as mulheres e, menos ainda, se forem
negras ou mulatas. A heroína da história aglomera em si sangue
de índio, de negro e de branco, e sangue europeu, africano e
autóctone, sendo, desta forma, a alegoria do povo brasileiro na
miscigenação rácio-cultural, que há de ser uma base identitária
(por vezes repugnada) da nação.
Desta forma, o romance coloca em relevo várias críticas
sociais, desconstruindo a versão comumente aceite da História
que nem sempre contempla a camada mais silenciosa da popu-
lação.

III

Ambos os romances são transtemporais e anti-épicos, na me-


dida em que As Naus desconstroem a mitificação de persona-
gens históricas portuguesas, banalizando-as; por sua vez, Viva o
Povo Brasileiro é anti-épico na medida em que as personagens,
à excepção de Maria da Fé e Patrício Macário, são frágeis, cor-
ruptos, e anti-heróis.
São, porém, estas personagens que evidenciam a saga de
um povo em busca da sua identidade e afirmação, represen-
tando, As Naus, a metáfora do povo português perdido no caos
do passado e do presente, sem cultura suficiente para perceber
ro6 DIÁLOGOS LITERÁRIO S

as transformações político-ideológicas do país. Por seu turno,


Viva o Povo Brasileiro é a metáfor a do povo brasileiro na en-
cruzilhada temporal do passado-presente-futuro. No romance
de João Ubaldo o futuro é esperan ça de concretização dos ide-
ais defendidos,, pela heroína do romance: liberdade, igualdade e
fraternid ade. E desta forma que se compre ende o final fantásti-
co da obra: ''Ninguém olhou para cima e assim ninguém viu, no
meio do temporal, o Espírito do Homem , erradio mas cheio de
esperan ça, vagando sobre as águas sem luz da grande baía" 12.
Em As Naus, porém, não existe a regeneração pelo futuro, a
13
obra termina com um irredutível "imposs ível'' .
A miscigenação é outro tema comum aos dois romances,
vista de forma negativa em ambos. Em Viva o Povo Brasileiro é
explícito o menosprezo das personagens (brancas, sobretudo) em
relação à mestiçagem, perspectiva ironicamente explorada pelo
narrador, uma vez que o povo brasileiro é o resultado dessa mistu-
ra. Maria da Fé representa a síntese da miscigenação brasileira.
Em As Naus a miscigenação não é objecto explícito de des-
criminação. Porém, não deixa de ser inocent e o facto de a mu-
,,
lata, mulher de Pedro Alvares Cabral, ser obrigada a prostituir-
se para pagar o alojamento da farru1ia. A mulher em As Naus
aparece quase sempre como a prostituta explorada.
Assim, são temas comuns aos dois romances a corrupção
e exploração dos mais fracos, geralmente os mais pobres e as
mulheres. Estas são exploradas por violação em Viva o Povo
Brasileiro e pela prostituição forçada em As Naus.
O tema da liberdade é também comum aos dois romances.
A liberdad e em As Naus é do,, domínio da irresponsabilidade, da
anarqui a, o que leva Pedro Alvares Cabral, faminto, a desaba-
14
far: "raios partam a liberdad e se a liberdade é isto" • Por sua
vez, a liberdade em Viva o Povo Brasileiro é vivida de forma
ideológica profund a e explícita. Budião, persona gem do povo,

12. João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro, p. 673.


13. Idem, p. 247.
14. António Lobo Antunes, op. cit., p. 69.
A DESMISTIF ICAÇÃO COMO (DES)ORDE NAÇÃO DA PÁTRIA 107

percepciona-a em toda a sua abrangê ncia: "sabia que a liberda-


de de um não era nada sem a liberdad e de todos e a liberdade
não era nada sem a igualdad e e a igualdad e há que estar dentro
do coração e da cabeça, não pode nem· ser comprad a nem im-
posta" 15. Em ambos os romance s, o povo não se apresent a, pois,
preparado para usufruir da liberdad e.
A visão disfóric a do país, centrada na capital, em relação a
As Naus, é igualme nte explora da de forma irónica pelo narrado r
em Viva o Povo Brasileiro. Enquan to que o Brasil não sai jJeso
das críticas em As Naus, sob o olhar irónico do narrador , a con-
,,
versa do Infante D. Henriqu e com D. Pedro Alvares Cabral:

Encalhem-me no Brasil e tragam-mo cá antes que um veneziano


idiota o leve para Itália, e a gente trouxe-lhe ao Algarbe [ ...]esse monstro
esquisito de carnavais, papagaios e cangaço, de tal jeito que ao vê-lo,
assim estupidamente enorme, arrastado por dezassete galés e mil e qua-
trocentos pares de bois, isto sem contar as mulas e os escravos mouros,
se apartou dos seus e nos perguntou baixinho, ca hera homem avisado
e de bõo entendimento, Para que quero eu tal coisa se já tenho chatices
que me sobram?, de modo que nos ordenou que o pusessemas, durante
a hora da sesta, onde o tínhamos achado, sem conservar um papagaio
sequer, e nos esquecessemos logo da pelagra e dos mortos que padecêra-
mos para lho dar, e ao pajem que interrogou, apontando a janela, Senhor,
que nação é?, respondeu sem hesitar, na sua voz rouca de almirante an-
corado, que era um banco de areia da baixa-mar, meu palerma, que nem
o litoral conheces, e com muita Ave-Ma.ria e muito trabalho obedecemos
ao que nos disse, ou seja puxar o Brasil de volta para a América e quem
viesse depois que se tramasse com aquilo [ ...] 16•

Como observa mos, o olhar irónico, depreciativo, não recai


tanto sobre o Brasil, mas sobretud o no esforço vão das desco-
bertas, como se se tratasse de um capricho de Senhore s que não
abandonavam terra firme, esquece ndo o número de vidas que
tais descobe rtas custava m a Portugal . O uso da ironia destaca,

15. João UbaldoRib eiro, op. cit., p. 313.


16. António Lobo Antunes, op. cit., pp. 68-69.
ro8 DIÁLOGO S LITERÁR IOS

também, a forma como se desistiu dos territórios descobertos,


desresponsabilizando-se os portugueses no processo histórico
dos países que colonizaram. A experiência do colonialismo
está, assim, patente nas duas obras, em perspectivas diferente:
colonizadores e colonizados, respectivamente.
Esta visão do Infante quanto à (des)necessidade do Bra-
sil encontra-se em oposição com a visão de que os brasileiros
têm em relação aos portugueses, em Viva o Povo Brasileiro: "O
Brasil era atrasado, infinitamente atrasado e desconhecido [...]
17
brasileiro só é importante para português" •
A relação temporal é elemento de coesão textual destes
romances lntersecciona-se passado e presente em As Naus e
é cronol ógicamente a história do Brasil em Viva o Povo Bra-
sileiro. Os intentos são semelhantes: o aparente apanágio de
um povo, desventrado nas suas fraquezas, n? que se refere ao
romance de João Ubaldo Ribeiro, com algumas mais-valias.
Se, por um lado, a História, em Viva o Povo Brasileiro, con-
tribui para a ordenação da pátria, por outro, em As Naus, essa
História permite a desordenação desta outra pátria. Em Viva
o Povo Brasileiro esta ordenação da pátria sofre um processo
de osmose entre um ante e um agora em que, subjacente, se
assiste a uma tentativa de (r)estabelecer a identidade do povo
brasileiro. Em As Naus nem o narrador, nem as personagens
acreditam nesta identidade possível.
A história enquanto deslocalização da cultura apresenta-se
como espaço supranacional e mítico, em que a procura da iden-
tidade desconhecida se afigura irónica. A temporalização sofre
também, no discurso, na desconstrução, em que o presente é
o tempo da continuidade, da encruzilhada entre o passado e o
futuro. A desmistificação da história aparece como elemento de
(des)ordenação da pátria.
A mensa gem dos dois romances é semelhante, porém a
disparidade dos processos discursivos utilizados pelos autores

17. João Ubaldo Ribeiro, op. cit., p. 473


A DESMIS TIFICAÇ ÃO COMO (OES)O RDENAÇ ÃO DA PÁTRJA 109

camufla esta semelhança . O humo r de João Ubaldo Ribeiro


opõe-se ao discurso agónico de António Lobo Antunes. A lin-
guagem ubaldina, bem-humorada, envolvente e surpreendente,
e os processos retórico-estilísticos, usados pelo escritor, fazem
de Vcva o Povo Brasileiro um romance sedutor, cujo número
de páginas não assusta o leitor mais reticente, após o início da
leitura. Por sua vez, a contenção nos adjectivos e advérbios,
a preferência dada ao discurso indirecto livre, a catadupa de
sensações e descrições inverossímeis a que o leitor é submetido
transformam As Naus num romance inquietante.

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