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HOMENAGEM

Tribute

Ao marxista impenitente inúmeras referências literárias, históricas


e teóricas? Guardo meus cadernos do

José Paulo Netto mestrado e do doutorado na UFRJ até hoje


e os consulto várias vezes para minhas
próprias aulas e reflexões. Saía dessas
To the unrepentant marxista José Paulo
aulas diretamente para os livros no início
Netto do mestrado, em geral após algumas trocas
de impressões com colegas no famoso
Elaine Rossetti Behring “Sujinho”, do campus da UFRJ, na Praia
Doutora em Serviço Social pela UFRJ e professora Vermelha, espaço de tantos encontros e
associada da Faculdade de Serviço Social da comemorações — a última mais recente,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro/RJ, Brasil.
a eleição de Roberto Leher para reitor da
elan.rosbeh@uol.com.br
UFRJ, felicidade hoje também compar-
tilhada com José Paulo Netto. Falar do
afeto pelo grande amigo que encontrei
Quando Maria Liduína de Oliveira e na vida, bastando para registro lembrar a
Silva, hoje assessora da área de Serviço ele de uma viagem que fizemos juntos de
Social na Cortez Editora, e José Xavier Manaus ao Rio de Janeiro, em 2005, onde
Cortez encomendaram uma homenagem conversamos sobre as minhas escolhas
surpresa para o prof. José Paulo Netto no afetivas, os nossos amores, os preconceitos
8º Seminário Anual de Serviço Social da do mundo e os que estão dentro de nós e
editora, foi com uma imensa felicidade precisam ser superados, nossas próprias
e gratidão a eles que assumi a “tarefa”. contradições mais que humanas? Dizer
Desde então, pensei muito no que poderia da gratidão pelo impulso e pelo diálogo
fazer ou dizer nessa oportunidade ímpar com ele que marcam meu próprio trabalho
que me concederam para dizer de públi- acadêmico, pois ele foi meu orientador
co... O quê? Foi inquietante estar diante no mestrado e no doutorado; e marcam
de uma página em branco para prestar esta também o trabalho político, que em mim
homenagem. não se descolam, como nele também não?
Tantos caminhos possíveis para falar Sublinhar o reconhecimento pela sua im-
de uma pessoa tão importante para o Ser- portância para a sustentação teórica e po-
viço Social brasileiro, com trajetória tão lítica do projeto ético-político do Serviço
rica, e por quem pessoalmente nutro um Social brasileiro, tratando as polêmicas de
afeto tão profundo. Falar da admiração forma democrática, aberta e provocativa,
pelo grande professor que ele é, com suas sem luvas de pelica? Por vezes nosso
aulas pulsantes, sedutoras mesmo, que mestre, dono de um talento retórico como
nunca queremos que terminem, com suas poucos, formula críticas demolidoras e

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http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.051
pertinentes. Incomoda-nos em nossa zona entre outros. Destaco algumas introduções
de conforto com sua ironia de inspiração densas e didáticas, que convidam à de-
abertamente marxiana. Essa verve impla- gustação e ao aprofundamento da leitura
cável é especialmente dedicada àqueles de textos de Marx e Engels, tais como:
que Marx chamava de sicofantas e para a importante edição da Cortez Editora,
os que expressam a decadência ideológica comemorativa dos 150 anos do Manifesto
que atinge a universidade nesses tempos comunista; a belíssima apresentação do
de pensamento pós-moderno, pequena texto de Engels a A situação da classe
política e, sobretudo, de barbarização da trabalhadora na Inglaterra (Boitempo);
vida para as maiorias. O fato é que nos seu texto escrito com Marcelo Braz para
deparamos com argumentos desconcer- a Biblioteca Básica de Serviço Social da
tantes, por vezes inesperados e sempre, Cortez Editora, Economia política — uma
sempre contundentes do nosso mestre introdução crítica; e O leitor de Marx
querido. Falar de sua monumental cultura (Civilização Brasileira), uma antologia
nos domínios da história, da filosofia, da de textos organizada pelo mestre, com sua
teoria social, da política, da literatura, da introdução indispensável e que convida
crítica literária e da música? Neste au- ao debate de vários temas a partir da obra
ditório poucos sabem, por exemplo, que de Marx.
nosso querido professor vem se dedicando José Paulo Netto tem a sua contri-
ao estudo do tango. Falar do homem que, buição singular e criativa no campo da
como Trotski, também ama os cachorros? tradição marxista, em textos muito im-
Falar dos talentos gastronômicos do nosso portantes como Capitalismo e reificação,
mestre, sempre acompanhados de um Democracia e transição socialista e o
ótimo vinho? posfácio a O estruturalismo e a miséria da
Esses são registros, diria, mais pes- razão, de Carlos Nelson Coutinho, que é
soais que tenho a ousadia de registrar muito mais que seu título diz, bem como
aqui. Mais conhecida e reconhecida é sua seus ensaios em Marxismo impenitente,
enorme contribuição para a difusão do me- alguns deles em diálogo com o melhor
lhor da tradição marxista no Brasil. Além do pensamento social brasileiro marxista.
de seus conhecidos cursos de método em Há seus trabalhos de natureza histórico-
Marx (em textos publicados pelo CFESS e -social, como Portugal — do fascismo à
Abepss e pela Expressão Popular, e vídeos revolução, Crise do socialismo e ofensiva
de suas aulas que circulam amplamente neoliberal e sua recente Pequena história
na internet), temos a introdução — com da ditadura brasileira (1964-1985). E há
Carlos Nelson Coutinho — e difusão de especialmente sua inestimável contribui-
Lukács, a exemplo de sua obra Lukács: o ção ao Serviço Social brasileiro como área
guerreiro sem repouso (Brasiliense, 1983), do conhecimento, com obras, entre outras,

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como Capitalismo monopolista e Serviço criticado e superado pelo nosso próprio
Social, Ditadura e Serviço Social, suas homenageado, que enfrentou seus com-
imprescindíveis “Cinco notas a propósito panheiros de partido — o PCB — nesse e
da questão social”, inúmeras conferências, em tantos outros debates, ao lado de Carlos
capítulos e artigos. Há seus textos de po- Nelson Coutinho, homenageado por ele
lêmica, de desmistificação dos modismos, hoje neste importante espaço histórico de
a exemplo de sua crítica à Boaventura de resistência, o Tuca. E ao lado também do
Sousa Santos e mais recentemente sua “amorável”, nas palavras de José Paulo,
leitura crítica de Thomas Piketty, artigo Leandro Konder. Trata-se aqui de registrar
que aguardamos ansiosamente! Há tex- o papel do indivíduo na história, no caso
tos de crítica literária, como Realismo e a história do Serviço Social brasileiro,
antirrealismo na literatura brasileira... especialmente nos últimos trinta anos, o
Enfim, não é possível aqui fazer, neste carinho, o reconhecimento desse grande
breve espaço, um apanhado global da professor, marxista impenitente, profun-
obra do nosso querido homenageado, que damente comprometido com a revolução
é muito mais extensa do que os destaques social, com seu anticapitalismo atávico e
que estou fazendo a partir das minhas comunismo visceral, mineiro, nascido em
portas de chegada e de alguns exemplos, 1947 na margem esquerda do rio Paraibu-
o que mostra a complexidade da minha na, em Juiz de Fora. A homenagem é um
tarefa. Pois trata-se de alguém que na sua meio de agradecer a ele e a todos os per-
singularidade está embebido da particula- sonagens que fizeram parte dessa trajetória
ridade histórica brasileira acompanhando tão importante para nós do Serviço Social
e fazendo a crítica de seus desdobramen- e da luta social. Há cinco pessoas que gos-
tos em conjunturas diferentes, e também taria de registrar neste momento e que são
embebido da dinâmica da totalidade significativas na trajetória de nosso mestre:
histórica; e incide ainda como sujeito sua mãe, que participou do movimento de
político vinculado à classe trabalhadora legalização do PCB e certamente foi uma
sobre essas múltiplas dimensões que ele influência constitutiva; Milton “Barbeiro”,
tão bem explica em suas aulas sobre o que ofereceu uma ediçãozinha de capa ver-
método dialético. de do Manifesto do Partido Comunista e o
Queria dizer também que em tempos levou para o Partido; o camarada Juca “do
de espetacularização de tudo, é uma res- Brasuca”, que o recebeu em seu exílio em
ponsabilidade enorme homenagear alguém Portugal; a Octavio Ianni, um orientador
da estatura de José Paulo Netto, pois não se muito especial que o recebeu na PUC-SP
trata aqui de fazer qualquer concessão ao junto com outros importantes professores
culto da personalidade que marcou certo dessa instituição pioneira do Serviço So-
viés da tradição marxista devidamente cial no Brasil; e Carlos Nelson Coutinho,

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seu grande amigo e companheiro de tantas Aquilo que faz nosso mestre vibrar: os
batalhas políticas e pessoais. No nome trabalhadores em luta.
dessas presenças originárias e marcantes,
homenageio a ele e todas as outras presen- Grândola, Vila Morena
ças: seus companheiros, companheiras,
amigos, amores, filhos e netos. Zeca Afonso
Para finalizar esta homenagem queria
“Grândola, vila morena
oferecer uma música ao meu querido
Terra da fraternidade
amigo, mestre, revolucionário José Paulo
O povo é quem mais ordena
Netto. Pensei muito se o faria, pois sei que
Dentro de ti, ó cidade
como musicista sou melhor professora,
Dentro de ti, ó cidade
sem falar que sou tímida quando toco para
O povo é quem mais ordena
mais que duas pessoas. Mas como uma
Terra da fraternidade
revolucionária não foge à luta, quero lem-
Grândola, vila morena”
brar pela música um episódio central na
vida de Zé Paulo, a Revolução dos Cravos
em Portugal, que ele teve a oportunidade
de viver e acompanhar em seu exílio da Recebido em 5/6/2015
ditadura brasileira. Uma música que era ■

cantada na rua, nas marchas, nas praças. Aprovado em 28/7/2015

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