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Curso de Gestão Pública e Governo

Catarina Rodrigues Duleba

Economia do Desenvolvimento

Conceitos de Desenvolvimento Capitalista, Desenvolvimento socioeconômico,


Desenvolvimento sustentável, Subdesenvolvimento, Planejamento e Políticas públicas.

Desenvolvimento capitalista, desenvolvimento socioeconômico e desenvolvimento


sustentável

Segundo Singer (2004), o desenvolvimento capitalista é aquele que se faz com o


respaldo do grande capital, pautado nos valores do livre funcionamento do mercado, do
individualismo, das virtudes da concorrência e do Estado mínimo, ou seja, está inserido
na estrutura econômica capitalista, sem preocupação com ganhos sociais e distribuição
dos efeitos deste desenvolvimento. Tem a propriedade privado do capital como uma de
suas bases, o que acaba por excluir a classe trabalhadora, promovendo então, um
desenvolvimento seletivo.
Já a lógica do desenvolvimento socioeconômico é abordada por diversos autores
de maneiras diferentes. Este conceito é comparado ao crescimento econômico por
clássicos e neoliberais, porém não leva em conta a concentração de renda e o
escalonamento econômico. Para outros teóricos, o desenvolvimento socioeconômico só
é possível quando está condicionado ao desenvolvimento social, com melhoria da
qualidade de vida e aumento da renda. Logo, o desenvolvimento de uma nação, está além
apenas da acumulação de capital e do aumento da produtividade, já que considera a
necessidade de maior distribuição de renda e condições materiais e sociais. Devemos
lembrar que no sistema capitalista, o foco está na acumulação de capital e no lucro e,
portanto não há espaço para se promover o desenvolvimento social. Sendo assim, o
Estado é imprescindível para conciliar os interesses do capital com melhorias sociais
neste sistema.
O desenvolvimento sustentável está na ideia de conciliação de desenvolvimento
na economia, sociedade e meio ambiente. Este conceito é baseado em um crescimento
que não comprometa às necessidades e condições de vida das gerações futuras,
considerando inclusão social e ambiental. Porém, esta ideia encontra diversos desafios,
especialmente quando inserido no sistema capitalista. O crescimento econômico no
sistema capitalista está baseado na lógica de produção e consumo exacerbado, que
provoca destruição ambiental e esgota recursos naturais. As sociedades de países mais
desenvolvidos como norte-americanos e europeus já detêm uma qualidade de vida com
alto consumo e não estão dispostos a abdicar deste estilo de vida. Já o resto do mundo
que ainda não ascendeu a este padrão, almeja alcançá-lo. Porém, mesmo com a tecnologia
e inovação, não parece ser possível o acesso deste padrão de vida a todas as pessoas do
planeta, sem esgotar todos recursos disponíveis. Muitos acordos internacionais são
realizados buscando reduzir os impactos ambientais, porém, muitas vezes são burlados
ou suspensos quando não vão de encontro aos interesses do mercado. Assim, percebemos
que o desenvolvimento sustentável é um desafio no capitalismo.

Subdesenvolvimento

O subdesenvolvimento é a condição de alguns países capitalistas em que sua


situação econômica e social é inferior a de países considerados desenvolvidos. Celso
Furtado é um dos autores estudados nesta disciplina que faz uma reflexão importante
sobre o assunto. O autor considera que as condições históricas que permitem o
desenvolvimento em alguns países, não estão presentes nas economias subdesenvolvidas.
O subdesenvolvimento é o resultado de um processo histórico, que repartiu o mundo em
uma estrutura “centro-periferia”, e de uma escolha política, que visa copiar os estilos das
economias centrais, subordinando a incorporação do progresso técnico no mundo
periférico. Em uma situação periférica e em um sistema que reproduz grandes assimetrias
sociais, há impedimentos à inovação e difusão do progresso técnico que inviabiliza
transformações endógenas no sistema capitalista. Há grande discrepância entre as
economias centrais e periféricas na capacidade de elevar a produtividade média do
trabalho, bem como na capacidade de socialização do excedente entre salário e lucro.
Também é evidente que há uma impossibilidade de coordenar os requisitos técnicos e
econômicos de cada etapa de incorporação de progresso técnico. Os países periféricos
não têm força própria, então, neste processo, reagem de uma maneira adaptativa
condicionada, de fora para dentro, de maneira dependente às economias centrais. Tais
fatores acabam por manter a dependência externa e a assimetria social interna dos países
subdesenvolvidos. Mesmo com o processo de industrialização, não há capacidade de
consolidar um mercado interno que considere todo o conjunto da população, problema
originado da opção pela modernização dos padrões de consumo como princípio que
orienta a incorporação de progresso técnico. Outra questão enfrentada pela periferia é a
dificuldade em estabelecer uma política econômica baseada na defesa dos interesses
nacionais, sendo isso um reflexo do colonialismo cultural das classes dominantes.
Observa-se também a impossibilidade de controlar os “centros internos de decisão” que
resultam nas recorrentes crises de estrangulamento cambial, a frequência de crises
monetárias e a situação permanente de fragilidade fiscal. As economias subdesenvolvidas
também são identificadas pela reprodução de heterogeneidades estruturais, sendo
produtivas, sociais e regionais. É importante lembrar que a condição de
subdesenvolvimento não é uma fase necessária para alcançar o desenvolvimento, mas
sim, uma característica de países que não tiveram as mesmas condições políticas,
econômicas, materiais e sociais para atingir seu próprio desenvolvimento. Portanto, o
Estado é fundamental nesse processo em que possa defender os seus interessas para
investir naquilo que possa reduzir as dificuldades apresentadas anteriormente.

Desenvolvimento capitalista, desenvolvimento socioeconômico e desenvolvimento


sustentável no Brasil

A formação e o desenvolvimento econômico brasileiro no capitalismo originou-


se tardiamente e em uma condição de coadjuvante no cenário da economia mundial.
Desde o princípio, o capitalismo brasileiro é baseado em uma economia exportadora
agrícola ou de produtos supérfluos com baixa tecnologia. Devido à incorporação desigual
do progresso técnico na estrutura da economia mundial, existe uma divisão internacional
do trabalho, que separa as economias industrializadas de um lado – com estruturas
produtivas diversificadas e tecnologia homogênea, o centro –; e de outro lado, há as
economias exportadoras de produtos primários, matérias-primas e alimentos – com
estruturas produtivas especializadas, a periferia, que não possuem comando sobre seu
próprio crescimento, já que dependem fundamentalmente das demanda do centro. De
acordo com MELLO (J.M. Cardoso, 1991), há uma tendência à concentração dos frutos
do progresso técnico nos países do centro. Nesta dinâmica, há o aprofundamento do
desenvolvimento desigual, já que o centro mantem sua produtividade e a inovação, além
de se apropriar de parte dos resultados do progresso técnico da periferia.
A economia capitalista teve origem no Brasil com o crescimento da economia
cafeeira (primeiro ciclo de 1886-1918), que gerou níveis de preços elevados no mercado
internacional até 1890. Porém, devido à queda da demanda externa e da taxa de câmbio,
com crise nas exportações, o Estado brasileiro criou em 1906 a primeira política de
valorização do café. Tais políticas perduraram por um bom tempo, sendo um instrumento
fundamental para combater às crises no mercado, com o Estado como principal agente na
manutenção dos preços. A economia cafeeira foi gravemente afetada mais uma vez pelo
cenário internacional com a Crise de 1929, o que fez com que os mecanismos estatais
modificassem a dinâmica econômica, priorizando o mercado interno. Com uma forte
acumulação de capital, a economia cafeeira pôde lançar as bases para o processo de
industrialização, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Entretanto, essa
industrialização encarou problemas decorrentes da condição periférica do país, como
desequilíbrios nas técnicas importadas, no desemprego estrutural e na fragilidade da
demanda interna. O intento da industrialização não era parte de um projeto de
desenvolvimento integrado, que considerasse outras preocupações sociais. Esse projeto
estava pautado na economia agroexportadora e, portanto, estava dependente e
condicionado aos interesses deste setor. No governo Vargas houve um grande empenho
em promover a industrialização, porém foi um processo restrito já que não havia bases
técnicas e financeiras para a instalação de indústrias de bens de produção. Para promover
o desenvolvimento industrial, há intervenção estatal, criando políticas públicas, empresas
e bancos estatais, porém ainda é forte a dependência externa. Não houve preocupação
para que este desenvolvimento atingisse também a esfera social, muito menos uma
preocupação com desenvolvimento sustentável, como também não houve planejamento
para o desenvolvimento a longo prazo.

Subdesenvolvimento, planejamento e políticas públicas

O subdesenvolvimento é um tipo de condição de um país no sistema capitalista e


diz respeito às suas condições materiais e políticas. O desenvolvimento socioeconômico
é produto de planejamento realizado fundamentalmente pelo Estado. Temos ao longo da
história muitos exemplos de países em que tiveram desenvolvimento econômico e social
através de forte intervenção estatal, ou a superação do subdesenvolvimento por uma
incisiva influência na economia, principalmente com uma articulação entre setores
público e privado. Heidemann (2009) define a política pública como práticas, ações,
diretrizes políticas fundamentadas em leis e executadas como funções do Estado por um
governo para solucionar questões gerais e específicas da sociedade. Assim, o Estado
desempenha uma presença mais direta e prática na sociedade, especialmente mediante ao
planejamento, que presume políticas estabelecidas previamente. Portanto, para que a
adoção de políticas públicas para o desenvolvimento seja eficaz é fundamental que haja
planejamento. De acordo com Chang (2010), o ‘planejamento indicativo’ foi utilizado em
muitos países capitalistas com êxito. Neste tipo de planejamento, um governo de um país
capitalista determina objetivos relativos à economia, como investimentos em indústrias
estratégicas ou em infraestrutura, por exemplo, e trabalha juntamente com o setor privado
para atingi-lo.
Sabemos que o capitalismo por si só não tem o desenvolvimento econômico,
sobretudo o desenvolvimento social como objetivo. Assim, não existe um processo
natural de desenvolvimento ou superação do subdesenvolvimento. Por isso, se faz
necessário a intervenção estatal, já que o Estado tem instrumentos capazes de articular os
diversos setores da sociedade para empreender investimentos em áreas estratégicas,
estimulando o desenvolvimento tecnológico e inovação e coordenar a cadeia produtiva
do país. Superar o subdesenvolvimento e alcançar um desenvolvimento sustentável só
será possível por meio de um conjunto de ações do Estado e planejamentos
macroeconômicos de longo prazo.
Referências

CHANG, H.J. (2010). 23 coisas que não te contaram sobre o Capitalismo. São Paulo:
Editora Cultrix.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil, 22 ed., São Paulo: Editora Nacional,
1987.

HEIDEMANN, F. G (2009). Do sonho do progresso às políticas de desenvolvimento. In


Políticas Públicas e Desenvolvimento: bases epistemológicas e modelos de análise.
Brasília: Universidade de Brasília.

HOCHMAN, G., ARRETCHE, M., and MARQUES, E., orgs. Políticas públicas no
Brasil [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2007.

KON, A. (1994). A experiência brasileira de planejamento econômico governamental


federal: análise dos planos implementados e suas consequências. Revista de
Administração de Empresas. v.34, n.3, São Paulo.

MELLO, J. M. C. (1991). O capitalismo tardio. São Paulo: Editora Brasiliense.

SEN, A. (2000). Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia das Letras.

SINGER, P. (2004). Desenvolvimento capitalista e desenvolvimento solidário. Estud. av.


v.18 n.51. São Paulo. Disponível em <
www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000200001 >.