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DOSSIÊ

de notícias ou um reversor de erros, do ponto de vista época em que os laços fundadores com a mídia tra-

A Epistemologia do Jornalismo Pode


epistemológico, o profissional da imprensa parece dicional distendem-se, o aprofundamento episte-
pouco mais que uma variante do “vagabundo” a que mológico das pesquisas sobre o jornalismo implica

Delimitar seu Território Discursivo?*


se refere Béraud (1927) na medida em que, além das levar em consideração a epistemologia do próprio
técnicas e habilidades profissionais que ele coloca em jornalismo.
jogo, suas formas de conhecer e de divulgar não se
Examinar o jornalismo, sob esta perspectiva,
distinguiriam fundamentalmente das do “homem
não é meramente considerá-lo como um processo
da rua”, do qual ele tradicionalmente não seria senão
que contribui para a construção social da realidade
um tipo de delegado1.
Bertrand Labasse Se for esse o caso, é compreensível que as tentati-
– uma visão que não precisa mais ser defendida ou
ilustrada –, mas imaginá-la como uma estrutura
Professor do Departamento de Francês e Comunicação vas de definir formalmente essa profissão o tenham epistêmica particular. No entanto, o objetivo aqui
da Universidade de Ottawa. feito essencialmente de forma midiacêntrica – e, não é tanto dar uma resposta categórica sobre este
muitas vezes, tautológica (Vistel, 1993) – como a ponto, mas observar o que seu exame sob esse ângulo
ação de fornecer o conteúdo de um meio de infor- permite observar. Por conseguinte, não se trata de
mação. O desenvolvimento subsequente das tecno- trazer novos elementos empíricos, mas de abordar
logias de comunicação e das redes sociais ajudou a elementos conhecidos sob esta perspectiva particu-
Resumo Uma fronteira sempre precisa de um território,
minar esta vinculação orgânica, levando os jornais lar, o que não se opõe de modo algum às outras abor-
Fugidio e complexo, o campo discursivo do jornalismo mas um território nem sempre precisa de fronteiras.
a questionarem-se publicamente: “todos são jor- dagens, mas poderia, até certo ponto, contribuir para
escapa tradicionalmente às tentativas de definir seus li- Embora a literatura ou a pesquisa científica há muito
nalistas? Blogs, sites de cidadãos, fotos e vídeos de completá-las.
mites e especificidade. Poderia, no entanto, ser carac- busquem – com diferentes graus de sucesso – definir
amadores: o monopólio midiático sobre a informa-
terizado como uma maneira particular de conhecer e o que acreditam ser sua esfera legítima, o jornalismo O termo epistemologia, como sabemos, possui
apresentar o mundo tal e qual a percepção comum e a ção está sendo quebrado” (Libération, 20 de agosto
sempre preferiu dispensar um exercício tão incerto. um amplo campo semântico, variando das acepções
epistemologia das formas legitimadas (científica, jurí- de 2005, p. 1)2. Certamente, foi demonstrado que o
Contenta-se, essencialmente, em se vincular, desde mais gerais (a capacidade de conhecer, a evolução
dica etc.) da produção do conhecimento? Nessa pers- jornalismo foi historicamente moldado pela época 7
sua origem, a um projeto fundador facilmente resu- das formas de apreender o real) às mais específicas
pectiva, este artigo examina a gênese das normas pro- e pela forma impressa na qual se inscreveu e em
cessuais do jornalismo francófono e suas evoluções mível: garantir “a coleção (...) de notícias tanto nacio- (os métodos que caracterizam uma determinada
que foi construído como um “modelo moderno de
contemporâneas antes de compará-las a dos aparelhos de nais quanto estrangeiras” (Renaudot, 1632, p. 3). O disciplina). No presente caso, cada uma dessas duas
mediação” (Awad, 2010). Mas em que medida essa
produção de conhecimento mais formais. manual de uma renomada escola de jornalismo atesta, direções parece, mutatis mutandis, relevante: se o
prática poderia, em paralelo, ser considerada inde-
Palavras-chave: Jornalismo; epistemologia; normas; evo- há mais de três séculos, a persistência desse foco na estudo das modalidades de conhecimento do jorna-
lução; diferenciação; perspectivas. pendentemente dessa matriz? Em outras palavras,
captação transparente da notícia: “se devêssemos dar lismo pode, por um lado, contribuir para a compre-
o jornalismo também pode ser concebido de forma
uma definição de jornalismo em três palavras, não a ensão geral do jornalismo, também pode, por outro,
Abstract encontraríamos melhor do que essa: ‘o que o jorna-
não midiacêntrica como uma maneira particular de
ajudar a defini-lo.
Untouchable and composite, the discursive domain of conhecer e dar a conhecer?
journalism traditionally escapes attempts to define its
lismo tem de novidade?’” (Cfpj, 1984, p. 9).
O presente artigo propõe-se a examinar essa
boundaries and specificity. Could it, however, be charac- Uma tal problemática é necessariamente teó-
O apagamento sugerido por essa ambição de apa- dupla hipótese, ao mesmo tempo, diacrônica e sin-
terized as a particular way of knowing and showing the rica: já que o jornalismo, como a pesquisa, só se
rência modesta foi amplamente contestado durante crônica, apoiando-se principalmente em dois cor-
world, at equal distance from the ordinary perception and realiza pela publicação. Tentar examiná-lo “em si”,
o mesmo período. Mas, embora o jornalismo tenha pora restritos (o discurso programático que acom-
the epistemology of legitimated forms of knowledge pro- ao desconsiderar modalidades e contextos de sua
duction (scientific, legal, etc.)? This article examines the sido examinado sob muitos ângulos – notadamente panha o nascimento da imprensa na França e os
publicização, apresenta, evidentemente, os limites
birth of journalistic standards and their contemporary suas práticas, motivações, ideologias, efeitos, respon- textos deontológicos em língua francesa dos últimos
de todo o essencialismo. No entanto, à medida que
evolution, before confronting them with the principles of sabilidade, confiabilidade, seletividade, ética e até cinquenta anos) e também na análise comparativa
esta perspectiva, embora cada vez mais interessante,
more formal systems of knowledge production. mesmo a pureza de sua linguagem – ele permanece de sistemas epistemológicos legitimados. Diante da
não é amplamente explorada nos estudos de jorna-
geralmente considerado como um modo “comum” superabundância de discursos normativos suscita-
lismo (ver abaixo), parece importante verificar quais
de acesso e representação do real. Assim, indepen- dos pelo jornalismo ao longo de sua história, os dois
esclarecimentos adicionais poderiam ser úteis: numa
dentemente de ser considerado como um vendedor períodos escolhidos constituem marcos opostos que
1_ Le reporter regarde pour le monde: il est la lorgnette du monde! permitirão examiná-lo, por um lado, em suas tenta-
(Leroux, 190, p. 1).
tivas iniciais e, por outro, em suas transformações
2_ É significativo que tais questionamentos reiterem paradoxalmente
o vínculo ontológico entre “jornalistas” e “mídia” no momento mesmo contemporâneas. Não se impedirá, no entanto, de
em que se registra o desaparecimento do “monopólio dos instrumen- evocar, entre esses dois extremos cronológicos, cer-
*Tradução_Gisely Hime. tos de difusão” que caracterizou o primeiro (Bourdieu, 1994, p. 7).

PARÁGRAFO. JAN/JUN. 2017 PARÁGRAFO. JUL/DEZ. 2017


V.5, N.1 (2017) - ISSN: 2317-4919 V.5, N.2 (2017) - ISSN: 2317-4919
tos escritos representativos de períodos de mutação apenas de forma heurística, o status de produção do atribuem um valor ou uma especificidade epistemo- pouca atenção: confrontados, por exemplo, com
intermediária bem conhecidos em outros lugares conhecimento, certamente não é auto-evidente. lógica particular às abordagens jornalísticas, não se quatro artigos apresentados como excertos de uma
(em particular, no século XIX). A análise compara- opõem, evidentemente, em nada a que esses proces- atribuição escolar, de um blog de ensino médio, de
O segundo, profissional, está ligado à auto-re-
tiva subsequente procurará identificar, por sua vez, sos sejam examinados sob este ângulo, já que o jor- um estudo universitário e de uma declaração de uma
presentação do jornalismo. Como mencionado
algumas das características que podem trazer ou dis- nalismo visa, de uma forma ou de outra, adquirir e autoridade pública, os participantes de um experi-
acima, esta prática é geralmente concebida como
tinguir a abordagem jornalística dos processos meto- transmitir conhecimento sobre o estado do mundo. mento não perceberam nenhuma diferença de com-
uma simples intermediação entre a atualidade e os
dológicos formais. petência, credibilidade e retidão entre essas fontes
cidadãos. O romance Sieur de va-partout3 (Giffard, Mais substancial, por outro lado, é a hesitação
(Le Bigot; Rouet, et al., 2007).
Após descrever brevemente sua perspectiva de 1880), ontem e hoje pode celebrar algumas qualida- que pode suscitar a concepção clássica do conhe-
análise (seção 1), este trabalho se voltará à gênese des – sentidos aguçados, ceticismo, audácia, rigor, cimento. De fato, interrogar-se sobre a epistemolo- Classicamente, a maioria das pesquisas que se
e às evoluções subsequentes das abordagens jorna- honestidade etc. – mas sem que estas, mesmo refor- gia do jornalismo tem pouco significado de acordo debruçam sobre as normas reivindicadas pelos jor-
lísticas da realidade. Em seguida, estudará as infle- çadas pela experiência individual e coletiva, difiram com a distinção epistemológica tradicional, e ainda nalistas aborda-as como “rituais estratégicos” de
xões definidoras que traduzem as cartas e os códigos fundamentalmente das de um indivíduo comum. É amplamente compartilhada, opondo-se ao conheci- autoproteção (Tuchman, 1972) e, mais geralmente,
profissionais atuais e os problemas levantados por evidente que a prática jornalística não é em si mesma mento digno deste nome – o domínio do saber legí- como instrumentos de definição identitária e de
eles antes de confrontar as condições e os princípios “comum”, considerando suas possibilidades de coleta timo – e a simples crença, advinda da experiência demarcação territorial (por exemplo, Le Cam, 2009;
da abordagem jornalística com os de dispositivos de informações (acesso facilitado ou exclusivo a cer- cotidiana e socialmente sobre-determinada. Ruellan, 2011).
normativos formalizados, tais como abordagens tos eventos, legitimidade para questionar e exigir
No entanto, após quase meio século de estudos Todavia, um número crescente de obras tende a
legais, contábeis e científicas. Finalmente, esse cami- respostas etc.) ou seu domínio de processos às vezes
sobre o conhecimento5, uma dicotomia tão rígida transpor conceitos advindos do estudo do conheci-
nho o levará a examinar, de forma mais prospectiva, complexos (tomada de imagem ou som, técnicas edi-
tornou-se difícil de sustentar, quer se trate da auto- mento para o das práticas jornalísticas – por exemplo,
as perspectivas que abrirão uma concepção escalar toriais, mesmo processamento de dados estatísticos
ridade infalível e inalterável do conhecimento acadê- a teoria ator-rede (Turner, 2006), a noção kuhniana
deste domínio, começando não da mídia ou dos jor- ou procedimentos pseudo-experimentais...)4, mas
mico ou quer enfatizam o valor empírico do conhe- de paradigma (Mouillaud; Tétu, 1989; Charron;
nalistas, mas do próprio jornalismo. não significa que reivindique um modo de “apreen-
cimento mais profano - por exemplo, o dos pastores Bonville, 1996), ou ainda o modelo de Collins e
são do real” específico para ela. É uma questão de
8 Podemos concluir que, se o jornalismo não pode de Cumbria estudados por Wynne (1992). Como o Evans (Labasse, 2012a; Reich, 2012; Ross, 2011).
“reportar”, “testemunhar”, às vezes “investigar” ou 9
ser contido em uma fronteira rígida, delimitando sublinhava Kuhn (1983), reservar o status do saber Outros até mesmo esqueceram a abordagem do jor-
mesmo “analisar”, sem, no entanto, que nenhuma
de maneira binária a definição sobre o que é ou não para as produções formalizadas da ciência moderna nalismo como uma modalidade ou estrutura epis-
dessas ações refira-se a uma metodologia particu-
seu domínio, por outro lado, seu perímetro pode tornaria barato tudo o que o precedeu ou não veio temológica per si (Ekström, 2002; Ettema; Glasser,
lar (além de certos princípios, tais como sobreposi-
ser entendido de forma progressiva (estendendo-se disso6. Embora esta não seja a orientação primeira7 - 1985; Godler; Reich, 2013; Labasse; 2004, Levine,
ção, aos quais retornaremos posteriormente). Ora,
do mais ao menos jornalístico) o que a evolução das estes trabalhos levam a supor que pode existir, entre 1980). Porém, se as pesquisas parecem conjunta-
a modéstia desta postura não é apenas técnica: ela
doutrinas profissionais tende a consolidar. os dois extremos que constituem a esfera científica mente abrir novas perspectivas para a compreensão
ressalta a semelhança entre o jornalista e seu público,
e o público em geral, não apenas graus de exper- do jornalismo, são mais frequentemente focalizadas
na qual o primeiro, recordando os livros didáticos,
1.  Abordagens em relação à é apenas o representante (por exemplo, Grévisse,
tise intermediárias (Collins; Evans 2002, 2007), em uma prática específica (jornalismo investigativo,
epistemologia do jornalismo mas mesmo maneiras de conhecer “intermediá- jornalismo televisivo...) e, de qualquer forma, ainda
2008, p. 125; Leclerc, 1991, p. 197). Uma vez que “a
rios”, mesoepistemologias. Essas maneiras de saber são pouco numerosas e moderadamente indutivas
retórica da representatividade desempenha (...) um
Abordar, mesmo em teoria, o jornalismo como podem existir sem serem erigidas em metodologia. em relação às abordagens mais clássicas dessa ativi-
papel maior na legitimação do trabalho jornalístico”
uma possível forma específica de saber confronta- Por exemplo, os jornalistas tendem a avaliar as infor- dade, cuja epistemologia geral permanece, pois, em
(Bernier, 2004, p. 21), reivindicar uma metodologia
-se imediatamente com três obstáculos espontâneos mações recebidas em função de uma hierarquização grande parte, pouco clara.
esotérica – supondo que seja desejável e possível –
oriundos do senso comum, do habitus prático e da implícita de fontes (oficiais ou não, credíveis ou não),
coloca em jogo muito mais do que receitas práticas. Naturalmente, as abordagens do jornalismo
tradição acadêmica. enquanto que o grande público tende a prestar-lhes
baseadas nos conteúdos produzidos ou no estudo
No entanto, embora as contradições advindas do 5_ Designar-se-á por esta locução voluntariamente genérica o amplo
O primeiro, empírico, resulta da imperfeição, das práticas in situ constituem uma fonte insuperável
senso comum e do habitus profissional possam expli- espectro de pesquisas filosóficas, históricas, sociológicas, etnológicas,
amplamente admitida, da captação jornalística do discursivas etc., contendo em sua produção, negociação e recepção de informações sobre o “modo de conhecer” deste
car que nem o público em geral nem os profissionais saberes e expertise em comunidades de especialistas e na sociedade
real. Uma vez que o processamento da informação, último: as observações de Gans (1979) nas redações
em geral.
cada vez mais rápido em termos de tempo e breve em 3_ Nota de tradução: obra cujo personagem principal é um repórter. 6_ Kuhn vai, na verdade, mais longe, afirmando, a propósito das várias podem ser lidas como aquelas que Latour e Woolgar
termos de formato, não pretende e pode ser senão 4_ Assim, os jornalistas que coletam para análise amostras de solos concepções sobre a ótica que existiram da antiguidade ao final do (1988) efetuavam ao mesmo tempo em um labora-
contaminados ou de alimentos duvidosos, ou mesmo aqueles que século XVII que “qualquer definição do homem da ciência que exclua
uma aproximação, fornecendo apenas uma visão as personalidades mais criativas dessas várias escolas também excluirá tório de pesquisa. Mas a revelação do que é o jorna-
testam a competência de prestadores de serviço, como mecânicos de
parcial do mundo, em certa medida, subjetiva e, por carros, seguem uma lógica de investigação racional, ainda que negli- seus sucessores modernos” (p. 33). lismo ou a pesquisa científica na prática não aborda
genciem usualmente os princípios metodológicos básicos (duplo-cego, 7_ Na verdade, esses estudos geralmente permanecem focados nas senão incidentalmente (e muitas vezes em termos de
vezes, francamente errada. Concedê-lo, mesmo que caso-controle). ciências naturais ou na avaliação de riscos tecnológicos.

PARÁGRAFO. JUL/DEZ. 2017 PARÁGRAFO. JUL/DEZ. 2017


V.5, N.2 (2017) - ISSN: 2317-4919 V.5, N.2 (2017) - ISSN: 2317-4919
discrepância) o aparelho normativo pelo qual esses (...) a busca da verdade, a qual, no entanto, não para especificar sua abordagem tão cedo e com tanta entre “uns e outros” [87], adota uma postura
me agarro, uma vez que é difícil imaginar que,
modos de aproximação do real são singulares em insistência. mediana e abrangente: “o julgamento dos
entre quinhentas notícias escritas com pressa de
teoria, o qual vale ser estudado por si mesmo. um clima a outro, alguém escape a nossos corres- homens não concorda mais neste ponto do
Se ela visa “dizer sua função social, codificar sua
pondentes que merecem ser corrigidos por seu que faz em todo o resto” [523];
pai, o tempo. Mas talvez haja pessoas curiosas prática (...) para afirmar uma certa distância” (Feyel,
2.  Gênese e construção da relação para saber que, naquele momento, esse barulho 2003, p. 175), a protodoutrina elaborada mensal- • acoplamento à atualidade: ao contrário dos
jornalística com o real era considerado como verdadeiro ... (Renaudot,
mente por Renaudot já adianta uma boa parte dos autores “que escolhem o material que lhes
1632, p. 6-7)10 parece bom sem serem obrigados como eu a
traços pelos quais essa abordagem do mundo «mais
A produção jornalística é indissociável de uma ordenada e mais metódica, mais verdadeira também” seguir aquele que todos os dias se me apre-
assujeição em relação à verdade8, considerada como Esta produção não está menos situada, em prin- senta” [213], a Gazeta é colocada - para usar
(Ginisty, 1920, p. 2) afirma se diferenciar de outras
seu valor dominante (Cornu, 1998, p. 13), seu dever cípio, em um registro de conhecimento que lhe é um clichê moderno - na tomada direta com
narrativas, públicas ou privadas.
fundamental (Bernier, 2004b, p. 125), o primeiro de próprio, superior às fofocas do público, seus “falsos o acontecimento, cuja notícia, mesmo tardia,
seus fundamentos (Kovach & Rosenstiel, 2001, p. 37)), ruídos” e suas notícias “mais frequentemente inven- • Imparcialidade: distinguindo-se do que pode dita seu menu;
a saber, a condição mesma de sua existência (Brin; tadas e baseadas na incerteza de um simples boato” conter “uma carta tendenciosa” [87], as notí- • heterogeneidade: outra característica essen-
Charron; de Bonville, 2004, p. 143). Mas esta condição (1632, p. 6), enquanto está explicitamente colocada cias na Gazeta “não são parciais”, ao contrário cial da imprensa, “a tendência para a varie-
também é sua “maldição” (Esquenazi, 2002, p. 19). abaixo do discurso acadêmico: “a história é o relato d’aqueles que dizem isso. Como aqueles que dade, que é a promessa ‘de tudo’” (Morin,
das coisas advindas: a gazeta é apenas o ruído que olham através de um copo colorido, sua pai- 1969: 13) contrariamente à especialização
O caráter insustentável de tal engajamento era, a atravessa. A primeira é obrigada a sempre dizer a xão os faz julgar os outros de maneira seme- do discurso acadêmico também é reivindi-
desde o início, suficientemente evidente - e imediata- verdade. Para a segunda, é suficiente impedir-se de lhante a si mesmos” [393]; cada pelo editor da Gazette, que enfatiza “a
mente sublinhado pelos sarcasmos das críticas - que o mentir” (1633, p. 125). • a qualidade das fontes e a relação com o diversidade de assuntos e lugares” [337] “não
jornalismo nascente foi forçado a moderar suas reivin-
Notar-se-á que a reversão que o leva a renun- campo: em contraste com os ruídos e notícias tendo nada nesta grande variedade, da qual
dicações. Apenas um ano após o primeiro periódico
ciar a uma reivindicação absoluta – a verdade – em “sem autor” [87], o gazeteiro depende de uma algo poderia não agradar” [523];
em língua francesa9, Renaudot, seu editor e editor,
favor de uma referência negativa – a ausência de rede de fontes identificadas, regulares (“meus • confronto e sobreposição: estes instrumen-
10 descreveu assim seu objeto. Não se trata de divulgar
mentira – não é insignificante: se a verdade é difí- autores” [393]) e próximas “dos mesmos tos fundamentais de validação e legitimação 11
uma verdade absoluta, mas simplesmente algo que
cil de estabelecer, a mentira é, por sua vez, acessível lugares “[173], do qual reportam a informa- da relação jornalística com o real são, senão
mais se aproxima dela:
à refutação empírica. Mutatis mutandis, é por uma ção, que a Gazeta pode assim “buscar até os sistematizados, ao menos apresentados por
inversão, senão semelhante ao menos da mesma climas mais remotos” [393]; Renaudot, que deplora que um boato “às
8_ Sendo os campos semânticos de “verdade” e “veracidade” muitas natureza, que Popper (1973) pedirá o abandono da • autocorreção: sempre provisória, as notícias vezes desperte mais atenção e crédito nos
vezes indistintos, contentar-nos-emos, para não passar em revista
vinte e cinco séculos de filosofia (mas também para respeitar o con- concepção indutiva de demonstração científica, a compensam a pressão do tempo pela “liber- espíritos que o artigo mais preciso de nossas
texto profissional em que são evocados), de empregá-los sem refina- fim de substituí-la pelo critério de falsificação, ou dade para deduzir quando o caso está lá” Relações, extraído de uma série de cartas de
mento excessivo nas acepções correntes e largamente comprovadas:
para a primeira, a conformidade com um estado do mundo real e, seja, a possibilidade de demonstrar a falsidade de um [125], corrigindo os erros “assim que se toma vários lugares, a qual a conformidade terá
para a segunda, o caráter do que se afirma com a intenção de dizer enunciado. Mas é evidente que o discurso editorial conhecimento deles” [ 88]; servido de pedra de toque” [87]. As diver-
a verdade. Por outro lado, o uso de um epíteto setorial (por exemplo,
“verdade jurídica”) se referirá - sempre segundo uma acepção corrente de Renaudot, como aqueles que o seguirão ao longo • adequação: o estado do mundo proposto pelo gências, mesmo entre as fontes, contribuem
- a discursos considerados válidos no âmbito das normas e práticas de dos séculos, não procede de uma reflexão etérea. É jornalismo nascente é fruto de uma arbitra- para acreditar sua aproximação: face à crí-
uma determinada comunidade discursiva.
claramente apologética – o segundo texto, por exem- gem reivindicada entre a complexidade do tica segundo a qual “aqueles que escrevem de
9_ Observemos que a primazia da Gazette de Renaudot em relação às
efêmeras Nouvelles de Vendome e Martin permanece em debate devido a plo, entende “servir como uma resposta para aqueles real e as restrições técnicas (tempo, lugar) e todas as partes do mundo não concordam”, o
incertezas sobre as datas precisas de emissão desses títulos, especialmente que afirmam que Tilly11 não queria morrer como nos cognitivas (clareza, aprovação) que assume editor sustenta que “haveria muito mais apa-
o segundo. Em todo caso, a empresa editorial de Renaudot, baseada em
um monopólio real (privilégio), é, de fato, o ponto de partida para o jor- diziam” – e se inscreve não menos evidentemente explicitamente. Mesmo se a Relação mensal, rência de impostura naqueles que enquadra-
nalismo impresso na França e continuará sendo seu único componente em uma estratégia de promoção e distinção, como rão tantas nações, interesses e opiniões em
por longo tempo. O corpus examinado aqui compreende os anos 1631 e
mais analítica do que a Gazeta semanal, pre-
1632 da Gazette e de seus suplementos periódicos, incluindo suas cole- as de todos os grupos profissionais neste campo, tende “esclarecer o que é obscuro e amplificar conjunto” [173].
ções anuais. Grande parte dos textos relevantes vem da mensal Relation sejam antigos ou modernos, profanos ou eruditos. o que é conciso demais” [249], não o faz na Todos esses elementos contribuem para construir
des nouvelles du monde, da qual cada entrega começava, ao contrário da
Gazette, pelo que hoje seria chamado de “editorial”. Para aliviar as múl- Não é menos impressionante ver uma “corporação” forma “que daria a quem é melhor instruído o status do tipo particular de verdade que Renaudot
tiplas referências às publicações mensais, vamos indexá-los de agora em que, oficialmente, à época, tinha apenas um membro porque lida com seus assuntos” [393];
diante pela página de sua reimpressão no Recueil des gazettes, nouvelles, comercializa, aproximativa, com certeza e, às vezes,
relations et autres choses mémorables de toute l’année 1632 (publicado em • equilíbrio: Renaudot, novamente como seus errônea (como ele não perdeu a oportunidade de
1633), do qual se apresenta a correspondência: [43] janeiro 1632, p. [87] 10_ A ortografia e a pontuação de todas as citações de Renaudot foram
fevereiro 1632, p.1; [88] 1632 fevereiro, p. 2; [125] março 1632, p.1; [173] modernizadas por nós. sucessores, justifica a própria insatisfação de reconhecê-lo) “e, no entanto, não se encontrarão, na
abril 1632, p.1; [213] maio 1632, p.1; [249] junho 1632, p.1; [297] julho 11_ Provavelmente, o general Brabançon Jean T’serclaes de Tilly, que, interesses ou opiniões opostos. Equilibrando minha opinião, dificilmente notícias mais uniforme-
1632, p.1; [337] agosto 1632, p.1; [393] setembro 1632, p. [433] outubro tendo morrido em 1632, teria assim inaugurado a longa lista de mortes
de 1632, p. [475] novembro de 1632, p. [523] dezembro 1632, p. 1. anunciadas um pouco prematura ou aproximativa pela imprensa.
frequentemente as divergências de críticas mente verdadeiras do que as minhas” [297].

PARÁGRAFO. JUL/DEZ. 2017 PARÁGRAFO. JUL/DEZ. 2017


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3.  As inflexões da promessa da os efeitos perdidos, o preço do feno e a altura do fórmula audaciosa de um funcionário da Associated sionais: apenas os pesquisadores mais virtuosos ou
rio; ou um anatomista com um bisturi a quem se
veracidade destinava apenas os mortos, enquanto o exercí-
Press15, coincide com o do método - mesmo da os profissionais de mídia pretendem, hoje, dispensar
cio e a aplicação de sua arte lhe eram proibidos ideologia - científico, não só nas ciências da natu- certezas intemporais e universais.
Ao ler, após mais de três séculos, as propostas fei- nos vivos (...) Hoje, era necessário para o escritor reza e da vida, mas também em relação ao real em
periódico, a veracidade do historiador que fala Seria possível estender esse paralelismo a outras
tas em um contexto histórico e uma posição particu- geral (Comte, Renan, Taine...) e até mesmo na fic-
para a posteridade e a intrepidez do advogado tendências – por exemplo, a reintrodução contem-
lar (a situação política da Gazeta) muito específicos que ataca os homens poderosos e a sabedoria do ção (Zola). Não depende das formas discursivas que
porânea do debate público ou do que ocupa seu
incitam evidentemente à vigilância, especialmente legislador que reina sobre seus contemporâneos evoluem em paralelo, organizando o apagamento do
(Desmoulins, 1790 apud Hatin, 1860, p. 243.). lugar, pelo movimento das “ciências cidadãs” e pelo
porque certas outras partes do discurso de Renaudot autor, a proeminência dos fatos e a fria “eficiência”
“jornalismo cívico” até o final do século XX – mas o
são, por sua vez, extremamente datadas12. Mas, inde- de sua apresentação. Enquanto os modos epistolar e
A tendência, como sabemos, será revertida acúmulo de similitudes parciais (preço de qualquer
pendentemente da precaução que tomemos, e apesar narrativo dos artigos científicos estão cedendo lugar
durante o século XIX, à medida que o espaço público aproximação baseada em analogias) traria pouco
das diferenças que inevitavelmente separam os prin- lentamente ao rígido plano “introdução, métodos,
de comunicação se expandir e se diluir. Em 1836, La para aquelas já mencionadas acima.
cípios afirmados e as práticas efetivas, não é menos resultados e discussão”, os artigos de imprensa estão
Presse de Girardin virou as costas para o jornalismo fluindo progressivamente para o molde jornalístico Certamente, não se concluirá que a evolução das
importante constatar o quanto a captação do real
partidário, que “deu à luz tanta dissensão social”, não menos rígido do ataque recapitulativo e da estru- ideias jornalísticas seja diretamente associada à das
reivindicada pelo jornalismo nascente converge por
propondo, por sua vez, “representar, não a opinião turação em pirâmide invertida16. ideias científicas, sendo uma e outra multifatoriais e,
muitos aspectos com aquela dos profissionais con-
interessada de um partido exclusivo, a causa dinás- evidentemente, sujeitas às influências da sociedade
temporâneos. O fato de que esses elementos surgi- Esses dois racionalismos conhecerão novamente
tica de uma família, as teorias inaplicáveis de uma em que ocorrem (sociedade que ambas influenciam
ram a partir da publicação do primeiro periódico em um ponto de viragem paralelo durante o questiona-
escola, mas os verdadeiros interesses gerais (...) “(n ° em troca). Mas o fato é que, portanto, parece difícil
língua francesa incita a se perguntar se – indepen- mento geral dos anos 1960 e 1970. Enquanto epis-
0, 15.06.1836: 1), lisonjeando ao contrário de sepa- reduzir a evolução da captação jornalística do mundo
dentemente de qualquer contingência histórica ou temólogos (Lakatos, Feyerabend...), historiadores
rar, em uma seção (intitulada “polêmica”), o exame apenas ao jogo de interesses políticos ou comerciais
comercial, e apesar de suas participações em legiti- e sociólogos da ciência (Kuhn, Latour...) minam a
dos debates do dia e, em outra, “a reprodução metó- – tão preponderantes quanto são esses últimos – sem
mação e diferenciação competitiva – não poderiam concepção ingênua de uma abordagem científica
dica dos fatos, sem misturas de comentários” (nº 0, operar a mesma redução sob a ótica do pensamento
ser inerentes ao próprio projeto de jornalismo. infalível e estritamente objetiva, a corrente do New
12 15.06.1836: 3). Não foi senão meio século depois, com erudito. Da mesma forma, apontar corretamente o
No entanto, o compromisso referencial do jor- a reorientação de La liberté - pelo mesmo Girardin, Journalism popularizada por Tom Wolfe (e, em par- 13
que as auto-representações do mundo das aborda-
nalismo obviamente experimentou variações notá- em 1866 - e especialmente com a publicação do Le ticular, adaptada na França pela equipe da revista
gens jornalísticas podem ter de míticas (Le Bohec,
veis ao longo do tempo. Mas esse caminho também Matin - “um jornal de informações telegráficas uni- Actuel) contesta os cânones da objetividade jornalís-
2000) não as priva de seu interesse intrínseco mais
é significativo: longe de se reduzir a um aparelho versais e verdadeiras (...), apresentadas de forma pre- tica e reintroduz o olhar do autor17, sem abandonar
do que a medida das separações entre as doutrinas
de transmissão inerte, o jornalismo integra as evo- cisa, clara, alerta e concisa, absolutamente nova.” (N a sujeição fundamental à verdade - que, no entanto,
gerais ou disciplinares das ciências e a realidade das
luções do pensamento intelectual ou acadêmico ° 1, 26.02.1884: 1) - que a concepção moderna do será contestada - mas tomando nota da singularidade
práticas científicas nos proibiram de estudar esses
em sua própria doutrina e em sua relação com o jornalismo factual, em grande parte inspirada no de toda a captura do real. Nenhum desses desenvol-
princípios em si mesmos: independentemente da
mundo. Sem entrar em todos os detalhes, nuances e mundo anglo-saxão, surgirá na França. vimentos transformarão realmente as práticas: os
diversidade de suas motivações e da adesão que reú-
restrições impostas (as restrições de espaço exigem pesquisadores continuam a coletar “dados” e os jor-
Atribui-se classicamente, e não sem razões, esta nem, os elementos declaratórios da percepção jorna-
manter alguns marcos heurísticos), observamos que nalistas, “fatos”. Mas, no entanto, eles contribuirão18
evolução a fatores tecnológicos (o telégrafo, a rota- lística do real manifestam uma substância suficiente
o momento em que conhecimento e razão emanci- para reajustar a reportagem à realidade dos profis-
tiva, o trem...), sócio-demográficos (urbanização e para ser levada a sério.
pam-se de dogmas e princípios para reivindicar uma
alfabetização) e comerciais: satisfazer um público
influência sobre a conduta da cidade é logo seguido 15_ Se este termo emerge efetivamente no século XIX e deve sua for-
em massa implica renunciar à forma e ao tom de tuna popular ao seu emprego em um contexto jornalístico, suas raí- 4.  Pensamento jornalístico entre
pelo surgimento do jornalismo13 “engajado”:
fundo das folhas doutrinais para desenvolver um zes filosóficas europeias o precedem claramente (em um sentido mais crise e (possível) renascimento
restrito). Deve-se notar que, embora essa frase tenha sido atribuída a
(...) o tempo não é mais como quando o jornalista discurso acessível, concreto e ostensivamente “obje- Kent Cooper, Diretor Geral da Associated Press em 1943, por muitos
era um juiz de comédia e músico premiado (...) tivo”, tirando sua legitimidade de sua relação de autores (por exemplo, Blankburn e Walden, 1977, Mindich, 2000), não Por quase quatro séculos, o jornalismo ficou
conseguimos conectá-lo a um escrita original.
ou um promotor que indicava as casas à venda, prioridade com o campo, as testemunhas e os atores satisfeito com formalizações bastante sumárias: no
16_ Embora estas duas evoluções remontem ao século XIX, ambas só
12_ Assim, as passagens obrigatórias da adulação do rei cujas ações dos fatos. Mas a evolução do pensamento jornalís- se generalizaram no século seguinte. mesmo patamar de seu engajamento com a vera-
“irradiam tal esplendor que iluminam todo o continente” [43] podem tico também pode se situar na história das ideias. O 17_ Já que a grande reportagem, por sua vez, nunca foi abandonada. cidade, sua autoconcepção permaneceu mediana.
surpreender em um jornal contemporâneo, pelo menos no Ocidente. 18_ A reflexão sobre os limites da “objetividade” jornalística não se
aumento da referência à objetividade jornalística, “o Mais pensada, sem dúvida, do que a do “homem
13_ É também o momento em que começa a distinção entre os órgãos limita ao momento do New Journalism: para mencionar apenas uma
de informação que, como a Gazeta, trazem notícias, e os periódicos mais alto conceito moral original jamais desenvol- figura marcante neste campo, o fundador do Le Monde, Hubert Beuve- da rua”, mas muito menos do que a dos cientistas,
com pretensões mais intelectuais - os “jornais” no sentido clássico - vido na América e oferecido ao mundo14”, segundo a -Méry, por várias vezes enfatizou suas dúvidas sobre isso. Lembremos, a essência da abordagem jornalística foi especificada
que reportam e comentam as obras do espírito. Mas a invocação do além disso, que a expressão new journalism já havia sido usada para se
jornalismo ainda não corresponde à constituição de uma identidade referir a outras evoluções, incluindo o jornalismo factual e de campo, apenas de acordo com as circunstâncias, geralmente
profissional distinta da dos “homens de letras” em geral. 14_ Todas as citações originalmente inglesas são traduzidas por nós. no século XIX.

PARÁGRAFO. JUL/DEZ. 2017 PARÁGRAFO. JUL/DEZ. 2017


V.5, N.2 (2017) - ISSN: 2317-4919 V.5, N.2 (2017) - ISSN: 2317-4919
na temporalidade e sob a forma apressada de sua No entanto, como já foi dito, a caracterização prá- 2001, p. 36) dos princípios do jornalismo, apresen- ções – uma similaridade notável: se eles se apegavam
produção cotidiana (artigo, editorial ...). Assim, os tica fundamentada no apego a um meio de informa- tado como uma “disciplina de verificação” (Kovach; ao jornalismo de “direitos” e “deveres”, abstinham-
métodos e a natureza deste “profissionalismo impre- ção impresso ou audiovisual, perdeu seu significado Rosenstiel, 2001, p. 12), e a explorar o que uma ver- -se habitualmente de especificar em que consistia o
ciso” (Ruellan, 1993) permanecem incertos mesmo em face da diluição operada pelas novas tecnologias dade jornalística pode ser: dito jornalismo, que não aparecia apenas como uma
nos manuais. que permitiram a todos acessar e divulgar infor- consequência desencarnada da liberdade de expres-
É o que procura o jornalismo - uma forma
mações fornecidas por fontes. A concorrência das são. Assim, na Bélgica, “a liberdade de imprensa é a
Este baixo grau de formalização explica-se em prática ou funcional de verdade. Esta não é a
novas mídias é obviamente comercial, mas a própria principal salvaguarda (...)”, da qual se segue que “a
parte pela natureza aberta desta profissão, bem verdade em um sentido absoluto e filosófico. Esta
questão do valor jornalístico coloca os profissionais imprensa deve ter o direito a (...)” (Código de prin-
como pela fraca coesão dos atores e pela espon- não é a verdade de uma equação química. Mas o
diante de um teste socrático radical: ou a captação cípios do jornalismo, 1982). Se uma alusão tímida à
taneidade nada teórica de seus usos discursivos (a jornalismo pode - e deve - procurar a verdade em
jornalística do real é uma “arte” – isto é, “conhece natureza do trabalho jornalístico é notável talvez a
“ingenuidade” da qual Renaudot já se lisonjeava, um sentido que podemos operar no cotidiano
as causas do que faz e pode justificar cada uma de partir da década de 1970, isso é tão incidental (decla-
ironizando aqueles que pretendiam que não (Kovach; Rosenstiel, 2001, p. 42).
suas operações” (Platão, 1826, p. 345) – ou é apenas ração europeia, chamada de Munique, 1971) ou
deveriam «ignorar nada de todas essas ciências»
“uma utilização, uma rotina, uma profissão, onde a Se o processo inova por sua característica siste- ambígua (Código Suíço, 2005) que parece – talvez –
(525)). Mas isso é devido, em grande parte, ao
arte não entra na verdade por nada, mas que supõe mática, muito incomum no campo do jornalismo, fortuita: o jornalismo permanece definido de forma
fato de que este domínio de atividade jamais foi
na alma de tato, audácia e grandes disposições natu- sua principal conclusão, como vemos, difere pouco implícita (por exemplo, a declaração da Federação
confrontado com a necessidade de realmente
rais para conversar com os homens” (Platão, 1826, p. da doutrina apresentada por Renaudot, na época de Internacional de Jornalistas, 1986) ou explícita (por
se definir. Estando protegido das agonias de um
229); em todo caso, ela não se distingue das habilida- Richelieu e dos mosqueteiros e, portanto, enfrenta o exemplo, código do Luxemburgo, 2006), por sua
aprofundamento sistemático por sua posição – a
des do público, nem também dos animadores de sites mesmo problema fundamental da referência à ver- colaboração com um órgão de imprensa. Em 1996,
exclusividade de seu acesso ao campo e suas fon-
de entretenimento ou blogs egoístas. dade, ao qual retornaremos mais tarde. Por outro lado, no entanto, o código de Quebec tentou uma mistura
tes, e mais ainda o “monopólio dos instrumentos
esta iniciativa circunscrita, nascida no seio da franquia em dois momentos, que sujeitou à mídia a descrição
de difusão” (Bourdieu, 1994) – o jornalismo pode Se os profissionais, dos quais se imagina que mui-
mais proeminente do jornalismo norte-americano20, de atividades específicas:
ser definido, inclusive na lei, por esta mesma posi- tos se contentariam voluntariamente com a segunda
não pode, por si só, estabelecer a existência de uma
ção específica: é um jornalista que alimenta um descrição se ela não conduzisse seu trabalho à dis- Neste Guia, o termo “jornalista” refere-se a qual-
14 tendência mais global do jornalismo a partir de sua
órgão de informação. Foi suficiente adicionar “a solução, decidiram realmente enfrentar o desafio de quer pessoa que exerça a função de jornalista em 15
imprecisão constitutiva. Para isso, é necessário exami- nome de uma empresa jornalística. Exerce fun-
título profissional”, enfatizando assim a separa- uma explicação específica e reivindicável, em suma,
nar a evolução dos documentos normativos de alcance ção de jornalista é a pessoa que executa, com a
ção com os “amadores” da literatura advinda no para sair da indeterminação já evocada; este poderia finalidade de divulgar informações ou opiniões
geral, elaborados dentro dele. Vamos nos concentrar
final do século XIX, a fim de encontrar-se equi- ser o início do maior ponto de mudança no pensa- ao público, uma ou mais das seguintes tarefas:
mais precisamente aqui nos textos coletivos com voca- pesquisar informações, reportar, redigir entre-
pado com uma caracterização factual, evadindo mento jornalístico. Ora, o exame da literatura profis-
ção deontológica (códigos, cartas, proclamações etc.) vista ou preparar relatórios, análises, comentá-
qualquer questionamento abstrato. Trata-se de sional permite ressaltar efetivamente os índices de tal rios ou crônicas (...) (1996, p. 2).
publicados em francês, nos países ocidentais21, nas
uma rejeição persistente, como evidenciada, por maturação. O exemplo mais aprofundado é a aborda-
últimas cinco décadas ou – no caso de escritos ante-
exemplo, pela disputa entre uma união sindical gem realizada, há mais de uma década, pelo comitê Por outro lado, a “Carta de Qualidade” elaborada
riores – tendo estado em vigor durante este período22.
de jornalistas e a confederação sindical da qual de jornalistas interessados. Preocupados com a perda em 2007, no âmbito das Cátedras Internacionais de
dependia19: esta última destinava-se a incluir a de fidelidade do público e a mistura entre jornalismo Em geral, os textos escritos antes do final do século Jornalismo, anuncia uma inversão de precedência, a
união sindical no seio de uma seção expandida de e entretenimento (o “jornalismo de comunicação”, XX apresentavam – além de suas próprias prescri- referência à mídia apenas esclarecendo a descrição
trabalhadores da comunicação e da cultura, mas, observado por Charron e de Bonville, 2004), mas funcional:
20_ Ela surgiu, na mudança da Fundação Nieman para o Jornalismo
diante dos protestos dos jornalistas, concordou em também, em termos mais gerais, pela perspectiva de na Universidade de Harvard, da aproximação dos executivos editoriais
preservar a especificidade do sindicato, desde que ver “desaparecer o jornalismo no seio do universo e de jornalistas de renome, particularmente interessados em interações o jornalista é aquele cujo trabalho é pesquisar
com a academia.
fornecessem os critérios para determinar se um mais amplo da comunicação” (Kovach; Rosenstiel, informações, verificá-las, selecioná-las, situá-las
21_ Nós nos arrependemos ainda mais de não mencionar aqui outros em seu contexto, hierarquizá-las, formatá-las e
funcionário estava ou não coberto por este último. 2001, p. 10), o coletivo decidiu “engajar os jornalistas países, muitos dos quais, notadamente no norte da África, estão atu- eventualmente comentá-las. Faz isso por meio
No entanto, este pedido, aparentemente lógico, foi e o público em um exame minucioso do que o jorna- almente engados em processos de redefinição do status jornalístico de mídia impressa, de radiodifusão, televisão ou
extremamente interessantes. No entanto, tendo em conta as pecu-
fortemente rejeitado pelos membros jornalistas, lismo deveria ser” (Kovach. Rosentiel, 2011, p. 11), liaridades dessas várias abordagens, ligadas a contextos específicos
mídia digital, usando textos, sons, imagens fixas
ou em movimento. (p. 2)
que denunciaram o convite a tal exercício como recorrendo, para este fim, a mais de vinte reuniões de extensão da liberdade de expressão, implicaria desenvolvimentos
incompatíveis com o tamanho de um artigo já muito longo.
argumento inaceitável. públicas e cem entrevistas individuais, bem como
22_ Notemos, contudo, que um texto do corpus não foi publicado em A revisão da Carta do Sindicato Nacional dos
a duas pesquisas por questionários. A síntese des- francês, mas foi escolhido devido ao alcance (teoricamente) bilíngue
sas pesquisas, muito densa para ser detalhada aqui, da associação profissional da qual emana. Por outro lado, não estão, Jornalistas da França foi, em 2011, a primeira a rom-
19_ Este episódio não-documentado é uma observação de campo feita evidentemente, incluídos no perímetro examinado as cartas internas per verdadeiramente com essa ligação. Tal evolução é
no congresso anual da União dos sindicatos dos jornalistas CFDT levou, em particular, a reafirmar a verdade como para uma empresa da imprensa, os relatórios ou ainda os testes de
de Lannion (2001), a qual o autor dessas linhas foi convidado como “o primeiro e o mais confuso” (Kovach; Rosenstiel, profissionais sem vocação representativa (o que não impede de se ainda mais importante que a carta original, publicada
observador. referir a eles ocasionalmente).

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em 1918 (e revisada em 1938), que exerceu uma influ- a “algumas abordagens reconhecíveis” (p. 4). bem é eminentemente subjetivo (não há ditador que Jornalistas canadenses parece se orientar: não é
ência notável sobre as que a seguiram. Ora, enquanto não reivindica o bem público e a moral), a verdade irrelevante que seja seu comitê de ética, encarre-
Aqui novamente a tradição crítica das pesquisas
o decano de 1918/1936 evocava, sem mais detalhes, não é o menos: supondo que o jornalismo possa ofe- gado do relatório, que não apenas apresentou o
em jornalismo incitaria a reduzir essas várias decla-
apenas os deveres de um “jornalista digno desse recer a “verdade” - e isso a ele é excluído, por razões critério de “um conjunto particular de métodos”
rações para discursos de autolegitimação (o que são
nome”, a nova versão tenta resumir a essência do jor- de meios, temporalidade, lugar, complexidade etc., (p. 3), mas até considerou que as definições pre-
evidentemente em certa medida). Mas, para julgá-
nalismo, em que ela “consiste” (a questão da “forma cada um dos quais suficiente (ver Labasse, 2004) – cedentes de jornalismo estavam “sobrecarregadas
-los indignos de “chamar atenção”, seria minimizar
de imprensa na qual ele exerce” é somente incidental): seria impossível, como observou Renaudot, acor- com avaliações éticas” (p. 3).
a lógica das transformações globais que as deter-
dar opiniões divergentes de seus leitores sobre isto.
O jornalismo consiste em pesquisar, verifi- minam e a coerência da evolução que desenham ao Mas quais regularidades podem ser ressaltadas
Em outras palavras, persistir, como fazem Kovach e
car, situar em contexto, hierarquizar, formatar, longo de um período de tempo notadamente breve. dentro de uma profissão cuja vagueza e diversidade
comentar e publicar informações de qualidade;
Rosenstiel, na definição do jornalismo pela promessa
Com efeito, tais propósitos, portadores de uma dupla foram mencionadas acima? Alguns tentaram fazer
não pode ser confundido com a comunicação. de verdade equivale a manter sua própria negação,
Seu exercício exige tempo e meios, seja qual for ruptura muito desconfortável – não apenas em rela- sínteses nacionais (Rhodes, 2012) ou internacionais
em teoria, mas também na prática (como as vagas da
o suporte (p. 1). ção aos órgãos de informação (que já não condi- (Unesco, 1974) de textos existentes. No entanto, estes
notícia abundam em testemunhos). O que foi emba-
cionam o jornalismo), mas também em relação ao últimos são limitados – para além da sua orienta-
raçoso na época do “monopólio” dos profissionais
Este ponto de mudança, essencial em princípio, público (que não recorre às etapas evocadas pelo SNJ ção pro domo – pela natureza pouco analítica acima
sobre a informação torna-se mortífero quando esse
mas discreto em sua formulação, dificilmente parece ou pelo CAJ) – teriam sido dificilmente concebíveis mencionada: a prevalência da dimensão ética, em
monopólio se desintegra e o valor agregado do jor-
ter atraído atenção de praticantes e observadores. vinte anos antes de parte das organizações manter particular, reduz a poucas coisas a reflexão sobre
nalismo deve ser justificado.
Por outro lado, o próximo passo, dado (independen- o consentimento, pelo menos passivo, dos jornalis- eventuais especificidades da perspectiva jornalística.
temente do anterior) pela Associação Canadense de tas filiados: mesmo constrangida pela disseminação As duas vias que permitiriam realmente ao jorna- Ora, o método e os valores são mais do que preceitos
Jornalistas (CAJ, 2012), é bastante notável – e subli- das novas tecnologias, a primeira ruptura desnuda- lismo romper o impasse conceitual, cívico e comer- práticos: eles podem se referir a concepções opos-
nhado por um comunicado de imprensa – para que -os da proteção identitária oferecida pelos órgãos cial tem um alto custo simbólico e reflexivo. Na ver- tas de jornalismo. O primeiro tende a identificá-lo
não passe despercebido: intitulado “O que é jorna- de imprensa e chama, a partir da segunda, aquela dade, eles convergem, no final, para a necessidade de como um discurso autotélico (informar, sendo con-
lismo?”, este paper discute a relutância dos jornalis- que as submete em contrapartida das considerações se debruçar seriamente sobre a terceira dimensão de siderado como um fim em si mesmo) quando os
16
tas em se definir23, apenas ultrapassando-se a si pró- normativas, sacudindo a liberdade individual que seu ethos, a metodologia, até então afogada nas nebu- segundos conduzem à sua orientação e, às vezes, a 17
prios: “No final do dia, estávamos convencidos de reivindicam. losidades combinadas do bem e da verdade: instrumentalização em favor de ideais de maior valor
que era eticamente inaceitável que continuássemos (por exemplo, a preservação da ordem social, ou pelo
• - ou, como a maioria das profissões advindas
discutindo a ética jornalística, encolhendo-se diante 5.  A amálgama dos engajamentos à maturidade, o jornalismo acaba por aban-
contrário, seu questionamento), mesmo que os faça
de uma definição de jornalismo em si” (2012, p. 2), prevalecer sobre qualquer outra consideração:
donar a impossível obrigação de resultados
uma questão que, até então, parecia “muito abstrata De Renaudot a Kovach e Rosenstiel, o discurso (dizer a verdade) pela qual se apresenta à ava- o jornalismo ético, no sentido de uma prática
para exigir atenção” (1-2). jornalístico sobre a captação jornalística do mundo liação, para substituí-la por uma obrigação de preocupada com os indivíduos como seres huma-
engloba pelo menos três dimensões – axiológica, meios (informar corretamente), o que impli- nos, preocupado com a democracia e a responsa-
Além de sua natureza reflexiva e determinada,
ontológica e metodológica – cuja amálgama persis- caria explicar suas normas metodológicas;
bilidade pelo que está escrito, é mais importante
o texto do comitê se distingue por um componente do que a noção de neutralidade moral que é
tente manteve a confusão em torno desta prática e
excepcional de acordo com os usos discursivos do • - ou, no caminho da lógica de adaptação incorporada na técnica de reportagem objetiva
preveniu seu desenvolvimento conceitual. Do ponto (Cohen-Almagor, 2008, p. 150).
jornalismo: uma revisão da questão dos “paradigmas esboçada por Renaudot e seus sucessores
de vista axiológico, apresenta-se como um discurso
existentes” (p. 2), apoiada em uma bibliografia de 24 contemporâneos, comercializando não mais
ético, baseado no interesse público e reivindica o Mesmo abstraindo os fins perseguidos para con-
referências em formato APA. Mas, acima de tudo, é a verdade, mas a “verdade jornalística” apre-
respeito pelos princípios moralmente recomendá- siderar apenas os meios, as normas que definem um
o primeiro texto coletivo (ver Meyer, 1991, para uma sentada corretamente como tal. De toda
veis (é, por exemplo, a partir desse ângulo que Feyel, jornalismo eticamente recomendável são, muitas
proposição individual) a reivindicar um status epis- forma, esse salto exigiria mais do que uma
2003, leu os escritos de Renaudot ou que Charon, vezes, de natureza diferente daquelas que garantem a
temológico para o jornalismo, uma vez que o define petição de princípio: implicaria ser capaz de
2003, estudou as cartas jornalísticas). Do ponto de qualidade de sua produção. Assim, as considerações
não apenas por seu objeto e seu caráter criativo, mas caracterizá-la explicitamente, o que suporia
vista ontológico, ele foi confrontado por quatro sécu- que promovem, por exemplo, o respeito pela privaci-
também por seus métodos: “o trabalho jornalístico novamente especificar os métodos a partir
los com o problema da verdade, que ele tenta – com dade ou reprimem o roubo de documentos, por mais
fornece claramente evidências de uma disciplina dos quais ela deriva, ou seja, que ela “requer”.
sucesso mitigado – adaptar às realidades de sua pro- desejáveis que o sejam, não são pertinentes de um
autoconsciente, projetada [calculada] para fornecer
dução. Mas, por necessárias que sejam à orientação Assim, com ou sem verdade, o jornalismo pode- ponto de vista estritamente epistemológico (podemos
uma descrição justa e equitativa dos fatos, opiniões e
de toda a atividade humana, incluindo o jornalismo, ria eventualmente ser condenado a se destacar por produzir boas informação por meios repreensíveis),
debates em jogo em uma situação dada”, recorrendo
as referências ao “bom” e “verdadeiro”, particular- sua metodologia, no sentido mais amplo do termo. assim como, no campo científico, as experiências,
23_ “Muitos dirão que o fato mesmo de procurar uma definição para o
jornalismo (...) é uma abordagem elitista e eticamente inaceitável” (p.1).
mente maleáveis, confinam-no em um impasse. Se o É, além disso, o salto para o qual a Associação dos tradicionalmente autotélicas, podem ser moralmente

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inaceitáveis (Chester Southam, Stanley Milgram...), cialmente para o quadro financeiro (a “verdade con- sar dos problemas filosóficos levantados pela bibliográficas referenciadas. O jornalismo
sendo metodologicamente irrepreensíveis. tábil” de uma empresa ou de um país é, muitas vezes, noção de “fatos”, a acordar uma prevalência a aplica-se a seu modo (e com mais vigilância
distante da realidade destes), ou ainda para o quadro estes ou àquilo que ocupa o seu lugar; em alguns países do que em outros), pela
Esta analogia, no entanto, refere-se a outra abor-
judicial. Frutos de sistemas de produção distintos, • Uma condição de divulgação, segundo a qual designação precisa de lugares, momentos e
dagem da questão das normas: a perspectiva com-
essas formas de conhecimento derivam sua validade os conhecimentos produzidos devem ser tor- atores, até vítimas, da atualidade (o que lem-
parativa. Teorizada notadamente por Everett Hughes
dessas normas internas, mas não coincidem necessa- nados públicos. bra, se necessário, o questionamento mne-
para o estudo das profissões, resulta também fre-
riamente no exterior com elas (a “verdade judicial” mônico26 das perguntas “Quem? O quê?
quente na descrição do jornalismo (por exemplo, Por outro lado, mas de forma menos uniforme e
foi vista em uma questão, por exemplo, a reparação a Quando? Onde?” e, acima de tudo, pela atri-
Tuchman, 1972; Bourdieu, 1996; Esquenazi, 2002; menos sustentada, os quadros epistêmicos permitem
um prejuízo, opor-se à “verdade científica”, segundo a buição de propostas ou informações a fontes
Gauthier, 2010...) e, sobretudo, onipresente na auto- identificar (sem fingir exaustão aqui):
qual as causas invocadas não conseguiram, de modo identificadas, o uso de fontes mantidas em
descrição disso. Com efeito, desde suas origens, esta
algum, produzir os efeitos avançados25). • Um princípio de exclusividade, seja passivo, anonimato para sua proteção sendo – teori-
última localizou menos seu discurso no absoluto do
porque estatutário (nem os magistrados nem camente mais do que nos fatos – uma prática
que em relação aos outros, em particular o discurso Ao contrário das habilidades de um açougueiro
os contadores estão em concorrência com os de exceção;
científico, do qual Meyer ainda propôs a adoção dos ou de um marinheiro, qualquer que seja sua per-
padrões: “considerar o jornalismo como se fosse uma cepção, os procedimentos judiciais, contábeis ou homólogos no tratamento de um determi- • Um princípio de delimitação, que circuns-
ciência, aplicar o método científico, a objetividade científicos constituem quadros epistêmicos, em que nado arquivo), seja ativo: a pesquisa objeti- creve o que, entre as inúmeras dimensões da
científica e os ideais científicos em todo o processo” se realizam na descrição de um estado do mundo, vou produzir novos conhecimentos, ser o realidade examinada, será levado em consi-
(Meyer, 1991). Mas, embora o recurso a comparações a produção de um discurso referencial (julgamen- segundo a fazer uma descoberta não tem deração ou rejeitado. Se os quadros judiciais e
com outras profissões seja notadamente comum em tos, contas, relatórios de pesquisa), que também é a valor. Mas, estranhamente, essa lógica é con- contábeis definem de forma vinculativa o que
discursos internos e externos sobre jornalismo, esse razão de ser do jornalismo. Ora, todas essas estrutu- siderada como sã no caso da ciência e consi- eles devem conhecer ou negligenciar, os cien-
recurso permanece geralmente mais anedótico do ras apresentam, desde o início (ou seja, na própria derada como viciosa no caso do jornalismo, tistas usam a definição de uma problemática
que sistemático. Ora, a abordagem comparativa, cuja vulgata), “dimensões comuns” manifestas. Afirmam onde se denuncia – especialmente do lado de para definir os aspectos relevantes e excluir os
“essência é procurar diferenças dentro das dimensões entre seus imperativos fundamentais: fora – a “corrida pelo furo” sem se pergun- demais. É também o significado do “enqua-
18 tar se a aspiração à exclusividade não pode- dramento” jornalístico, em que alguns profis-
comuns ao conjunto dos casos” (Hughes, 1970, p. 19
• Uma condição de imparcialidade (distancia- ria ser uma força motriz por trás da busca de sionais vêm uma maneira de se distinguir da
150), inclusive entre profissões extremamente distan-
mento) e de desinteresse pessoal: os casos de informação; concorrência, enquanto que é fundamental-
tes em aparência, parece particularmente apropriada
conflito de interesses que todos eles reencon- • Um princípio de contiguidade, que visa limi- mente uma ferramenta epistemológica para a
para perceber os “limites do legítimo e respeitável”
tram mostram a possível separação entre prá- tar a distância e as intermediações em relação delimitação da atenção;
(Huges, 1970, p. 154-155). No entanto, como foi refe-
ticas e princípios, mas não invalidam estes, à abordagem do real: o contador deve poder • Um princípio de atualidade, segundo o qual
rido acima, nossa intenção não é, de forma alguma,
que conduzem, pelo contrário, a reiterar verificar “sobre as peças” os dados que lhe são a informação é válida somente se for proces-
pesquisar no terreno das manifestações empíricas
publicamente; submetidos, o juiz rejeita o simples boato, da sada dentro de um período limitado após sua
de atitudes profissionais reais: pelo contrário, con-
centrar-nos-emos em normas24 já bem conhecidas, a • Uma condição de independência do autor em mesma forma que o pesquisador e o jorna- aparição. Por definição, a descoberta cientí-
análise não visando senão identificar as “dimensões relação a empreendimentos políticos ou eco- lista valorizam o acesso direto ao campo e aos fica produz sua própria atualidade (mas o
comuns” e as “diferenças”. nômicos ou, em qualquer caso, ao seu con- documentos ou fontes; processo que leva à publicação começa assim
trole direto (mesma observação); • Um princípio de racionalidade argumenta- que os dados foram obtidos e analisados). O
6.  Similaridades e divergências dos • Uma condição de sinceridade, envolvendo tiva que, como Gauthier apontou, é no caso quadro epistêmico financeiro, por sua vez, é
casos epistêmicos não só não mentir stricto sensu, mas também do jornalismo “menos rígido do que o racio- dedicado apenas ao último exercício contábil,
não esconder os pontos discordantes (o juiz cínio lógico e científico marcado pela necessi- e sua atualização se acelerou (para as empre-
deve levar em conta todos os elementos, o dade. Mas impõe, contudo, ao jornalista “um sas listadas no mercado de ações, o balanço
Assim que se tenta definir as condições de pro-
pesquisador mencionar os dados conflitan- rigor que por ser menos afiado, no entanto, anual tradicional foi adicionado a resulta-
dução de uma possível “verdade jornalística”, muitos
tes etc.); impõe um dispositivo demonstrativo relati- dos trimestrais). O quadro jurídico também
sistemas de produção de conhecimentos específicos
• Uma condição de factualidade, levando, ape- vamente apertado” (2010, p. 230); atribui especial importância à atualidade: em
– ou estruturas epistêmicas – estão disponíveis para
países com direito codificado, regras de pres-
comparação. Se o quadro científico produz não a ver- • Um princípio de referência que visa garantir
crição rigorosas proíbem até o tratamento
dade, mas a “verdade científica”, o mesmo se dá, espe- 25_ Este é particularmente o caso de vários julgamentos de indeniza- a rastreabilidade do acesso ao real: os docu-
ção franceses relacionados à campanha de vacinação contra a hepatite de fatos muito antigos. No entanto, é o jor-
24_ Que sejam erigidas em regras explícitas (e, às vezes, em obriga- B, mas também vimos as verdades científicas e judiciais oporem-se em mentos contábeis e as provas judiciais devem
ções legais) ou que possam ser deduzidas de preceitos abundantemente questões como, na França, a autenticidade de uma estatueta egípcia ser repertoriados e indexados, as amostras 26_ Antes de se tornar um molde discursivo jornalístico, esse questio-
documentados em outros lugares, notadamente nos manuais de apren- ou mesmo, nos Estados Unidos, o caráter de fruta ou de vegetal de namento era um componente da invenção retórica e, mais tarde, da
dizagem (e de aculturação) das profissões consideradas. tomates comuns.
de pesquisa caracterizadas e as referências pesquisa acadêmica (ver Labasse, 2012b).

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nalismo que traz ao princípio da atualidade a zidos e condicionam sua admissibilidade. evocar apenas os países ocidentais, a distin- tem poder coercivo” (pp.1-2).
maior devoção, a ponto de ter feito a designa- Por outro lado, o jornalismo, preservando a ção entre fatos e opiniões, por exemplo, que é
Na ausência de uma estrutura ordinal – cuja
ção de sua produção: atualidade, notícias e até “ingenuidade” reivindicada por Renaudot, particularmente exigida em Quebec, Bélgica
rejeição pode ser facilmente compreendida – a ideia
mais news em inglês. No entanto, isso muitas apresenta-se como uma prática desprovida e Luxemburgo, permanece desconhecida da
de um título não-obrigatório de jornalista profissio-
vezes transgride essa assimilação ingênua (e da necessidade de confrontar o real com uma carta francesa. O princípio estadunidense
nal, implicando notadamente o respeito de normas
passiva): em muitos casos – reportagens, pes- base preexistente de conhecimentos setoriais: exigindo a reprodução na íntegra de toda
explícitas, ressurgiu em Quebec, em 2011, seguindo
quisas, até mesmo artigos práticos simples – uma profissão na qual a leitura não precede a afirmação citada não seria apenas inimaginá-
as recomendações de um relatório sobre o futuro
a abordagem jornalística, longe de “seguir” escrita. No entanto, as práticas aqui diferem vel em muitos países europeus, mas também
da informação nesta local (Payette, 2010). A minis-
a atualidade, produz seu próprio caráter novamente de usos legítimos. Os jornalistas, é moderado em Quebec, onde os jornalis-
tra mandatária do relatório finalmente rejeitou esse
recente exatamente como pesquisa científica. como sabemos, leem muito entre eles, não só tas devem “respeitar fielmente o significado
projeto, argumentando discordâncias por ele levan-
pelo recurso eventual a arquivos28, mas tam- das declarações que fazem” (p. 3). Contudo,
Enfim, alguns princípios não são compartilha- tadas29. Contudo, os debates, nesta ocasião, per-
bém, especialmente, pela consulta do que os o mais importante é que essas normas não
dos por todos os quadros epistêmicos. Este é, por mitiram observar, aqui novamente, uma evolução
outros acabaram de escrever sobre o assunto apresentam característica restritiva, pois sua
exemplo, o caso do discutível princípio da erosão, significativa: enquanto, em 2002, um projeto seme-
em curso. Contudo, esta “circulação circular violação dificilmente pode levar a mais do
em virtude do qual uma espécie de ordem natural lhante fora “rejeitado visceralmente” (Cauchon,
de informações” (Bourdieu, 1996, p. 22) não que a desaprovação dos pares.
é delegada para a tarefa de remover as declarações 2002, p. A1) pelos membros da Federação dos jor-
é ensinada como tal nas escolas e manuais Assim, o jornalismo situa-se novamente em
erradas. A “mão invisível do mercado” (ou o colapso nalistas profissionais de Quebec, a nova proposta foi,
de jornalismo. Ora isso poderia ser não um uma posição mediana. Condenado pela diluição
das empresas) deve, portanto, suprimir o conheci- na mesma federação, uma década depois, aprovada
vício, mas uma necessidade epistemológica da Internet para explicitar a superioridade de sua
mento comum das contabilidades fantasiosas como a por mais de 85% dos votos expressos. É verdade que,
real, cujo aprofundamento técnico e crítico produção e, em particular, a confiabilidade desta
“mão invisível da ciência” deve varrer as teorias ou os como observado anteriormente por Langelier, cujas
poderia ajudar os futuros profissionais a posi- última, na profusão de comunicadores improvisados
resultados imprecisos. O jornalismo não é o último a contribuições históricas e legais constituíram a base
cionar seus textos de forma reflexiva em rela- ou mercantis, não pode se reclamar uma estrutura
confiar em tal processo (“o tempo, nosso pai”, como dos debates de 2002 e 2011:
ção a artigos anteriores, em vez de sofrerem epistêmica completa capaz, senão de garantir, pelo
o invocou Renaudot), enquanto o campo judicial –
20 influência difusa destes; menos legitimá-lo: sem um dispositivo definido para
cujas participações para os litigantes não são apenas são os períodos de crise do jornalismo, aqueles 21
epistêmicas – é relutante em aceitar uma erosão tão • por outro lado e acima de tudo, qualquer produzi-la, não pode haver, nem implicitamente, em que as condições do exercício da função se
tornaram intoleráveis, ou quando os agentes sen-
aleatória, que substitui por uma rígida sucessão de quadro epistemológico maduro implica um “verdade jornalística”.
tiram suas conquistas profissionais ameaçadas
filtros formais (recurso, cassação, revisão). Este é conjunto de protocolos técnicos, formali- por toda sorte de excessos e a legitimidade de
também o caso de um eventual27 princípio de origi- zados e tornados públicos, que se impõem 7.  Questões de identidade e sua função questionada, que a demanda de reco-
nhecimento de um status profissional fez-se mais
nalidade, segundo o qual o discurso produzido deve àqueles que reivindicam esse quadro ou a perspectivas epistemológicas urgente (2010, p. 62).
emanar do autor que se lhe atribui, mas com o que as uma subcategoria dele. Assim, os códigos de
finanças e a justiça, pouco preocupadas com os pro- processo civil e penal, as regras de controle A maneira jornalística de conhecer, uma vez que Tudo o que vimos acima parece ir claramente
blemas de plágio, nada se importam. e registro de inscrições contábeis ou as for- se tenta abordá-la como tal, muitas vezes coloca o nesse sentido, a questão da especificidade do jorna-
mulações de “boas práticas” científicas são jornalismo em uma luz paradoxal. O que dizer, por lismo parece posta de forma cada vez mais aguda.
De toda forma, a coleta indutiva de semelhanças opostas aos profissionais e podem até justi- exemplo, de uma profissão considerada corpora-
que aproximam o jornalismo de marcos epistemoló- ficar a exclusão, se necessário, daqueles que tiva, mas que recusa, ao contrário de muitas outras Apesar da sua persistência ao longo do tempo, a
gicos legitimados e o separa do mero conhecimento pretendem agir de acordo com sua própria profissões, a proteção de uma fronteira de normas? discordância aparentemente paralisante entre a aspi-
secular, é menos significativa do que a busca de carac- fantasia. De sua parte, o jornalismo possui Esse contraste é particularmente impressionante em ração a normas e a rejeição a impedimentos – este
terísticas comuns a esses quadros, mas das quais o efetivamente certas regras e métodos explíci- Quebec, onde mais de 40 ordens profissionais reco- último vigorosamente aplicado pelos empregado-
jornalismo seria desprovido. Ora, pelo menos duas tos – dos quais os processos, frequentemente nhecidas asseguram a exclusividade de acupunturis- res – deixa aberto um caminho conceitual promis-
delas são particularmente manifestas: confundidos, de confrontação de opiniões e tas, tradutores ou urbanistas (e até conselheiros de sor. Como o pensamento de identidade jornalística,
verificação cruzada de elementos factuais, ou orientação ou consultores de recursos humanos), liberado de seu vínculo definitivo com a mídia e não
• por um lado, os quadros epistêmicos
ainda o recurso (em princípio) sistemático de mas onde o guia de deontologia para jornalistas – podendo ser reduzido ao tratamento da atualidade
baseiam-se normalmente na mobilização sis-
retificação como meio de assegurar a precisão porém, um dos mais elaborados – enfatiza que “nem imediata sem excluir uma grande parte de sua pro-
temática de um corpus de textos anteriores
das informações – mas essas prescrições mais o título de jornalista nem o ato jornalístico são reser-
(jurisprudência jurídica, revisão de litera-
ou menos precisas não são uniformes. Para vados senão para um grupo particular de pessoas. O 29_ Além das divergências habituais (entre as concepções libertárias e
tura científica, práticas e normas contábeis,
regulatórias do jornalismo, entre antigos e recém-chegados, entre jor-
etc.) que enquadram os discursos produ- 28_ O que hoje é muito facilitado pelas novas tecnologias, mas não ao
meio jornalístico é um ambiente aberto e os jornalis- nalistas e proprietários de empresas jornalísticas etc.), esta proposta
ponto que esta consulta seja apresentada e ensinada como um pré-re- tas querem isso (...) O presente Guia, portanto, não bate-se em oposição entre várias organizações suscetíveis de atribuir
27_ Pode-se perguntar se este é um princípio epistemológico ou moral. quisito para rotina (ou pré-requisito) para escrever um artigo. as cartas de imprensa.

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dução, nem pode, muito menos – nem quer – base- um documento ou o inventar são duas ordens de agora é evocada como constituinte fundamental da “Ao se recusar a supervisionar sua profissão, os
ar-se em características ligadas aos profissionais (a transgressão muito diferentes). Nesta perspectiva, abordagem jornalística por todas as cartas recentes, jornalistas deixaram aos juízes fazer isso por eles”,
questão “quem é jornalista?”, aparece, muitas vezes, considerar como “jornalistas profissionais” aqueles mesmo na França32, reforçando o estabelecimento resumiu, à época, um profissional (Venne, 2004, p.
como insolúvel ou até mesmo indesejável), tem ape- que reivindicam tais critérios epistemológicos (nem do jornalismo como “uma disciplina de verificação”, A7), observando que “os ‘padrões profissionais’ sobre
nas um passo a dar para se refazer a partir de seu sequer os críticos de arte podem optar por endossá- proposta por Kovach e Rosenstiel. os quais os tribunais apoiam-se para julgar uma
objeto (“o que é o jornalismo ?”). No entanto, este -los ou não), que a eles conformam sua produção em causa poderiam ter sido previamente definidos pela
Fora do campo, a pressão das novas competições
último questionamento apresenta uma vantagem uma medida razoável e que deles retiram seus rendi- própria profissão (...)”. De fato, a evolução da juris-
desempenha um papel já mencionado, bem como
notável: presta-se mal à dicotomia. O exame do mentos, preservaria a abertura desta profissão com prudência canadense, que, como a de outros países
a perda (relativa) da confiança pública, mas essas
jornalismo como um quadro epistêmico embrioná- tanta frequência celebrada, sem condená-la à evanes- ocidentais (especialmente anglo-saxônicos), cami-
influências são menos diretas do que as da juris-
rio mostra, de fato, a presença de regularidades de cência nem liberá-la de princípios axiológicos, como nha mais na direção de um crescimento na liberdade
prudência que, face aos silêncios dos profissionais,
intensidade e uniformidade variáveis, mas também o respeito da presunção de inocência, que a enqua- de expressão, parece epistemologicamente à frente
definiram em seu lugar as regras das “boas práticas”
de uma flexibilidade global que sugere que o caráter dram em outro lugar, mas não a definem. do pensamento praticante, operando a dissociação
jornalísticas. Este é o caso, por exemplo, da neces-
jornalístico de uma mensagem só pode ser apreciado entre o jornalismo e as empresas de mídia35, sepa-
Assim, podemos abordar a essência gradual da sidade de dar a todos a oportunidade de apresentar
gradualmente. Assim, qualquer discurso poderia ser rando o problema da metodologia e o da verdade36, e
atividade jornalística como a da atividade terapêu- sua própria posição quando está implicada em um
mais ou menos “jornalístico” de acordo com sua con- até mesmo estabelecendo, neste último caso, distin-
tica: um pai cuidando dos riscos de uma criança próximo artigo33, sob o receio de condenações, que
cordância maior ou menor com essas regularidades, ções marcantes entre verdades informativas, judiciais
valoriza bem as lógicas e métodos terapêuticos, está integrada aos procedimentos normais dos jor-
no primeiro grau das quais, provavelmente, as con- e financeiras.
sem que essa prática temporária e sumária confun- nalistas muito antes de aparecer em seus textos nor-
dições fundamentais acima mencionadas (imparcia-
da-se com um profissional da medicina (enquanto, mativos, dos quais muitas vezes permanece ausente. Assim, quaisquer que sejam as razões para isso,
lidade e desinteresse, independência, sinceridade,
inversamente, certas especialidades médicas, como a Esta pressão metodológica é particularmente explí- o aprofundamento da epistemologia do jornalismo,
factualidade, divulgação) particularizadas por outras
medicina forense, têm apenas ligações tênues com a cita no Canadá, onde o Supremo Tribunal apontou dentro e fora desta profissão, parece tornar-se uma
propriedades, relativas à captação e à validação do
essência da atividade terapêutica). já em 200434 que perspectiva essencial, não só para compreendê-la,
conhecimento (ver em particular supra), bem como
mas também para praticá-la.
22 sua adaptação discursiva (imperativos de clareza, Este é provavelmente um salto muito abstrato
interesse etc., não examinados aqui, mas ampla-
a verdade e o interesse público são fatores a 23
para alguns dos profissionais, até mesmo descon- serem considerados, mas eles não desempe-
mente atestados em fatos e princípios, de Renaudot fortável para alguns deles (a condição de imparciali- nham necessariamente um papel determinante. 8.  Conclusão
(...) É preciso examinar na íntegra o conteúdo
às cartas contemporâneas). dade, em particular, não se presta à subordinação do da reportagem, sua metodologia e seu contexto.
jornalismo ao compromisso político, tanto na teoria Uma das tradições dominantes da pesquisa em
De acordo com o princípio orientador aplicável
Se, como afirmou um editor, “existe uma essência em matéria de responsabilidade por difamação, jornalismo é examinar sua produção real e descartar,
como na prática31). O fato de que muitos pré-requi-
do jornalismo constituída por princípios universais, o jornalista ou a mídia em questão terá come- por razões óbvias, os discursos que ela mantém sobre
sitos conceituais, como a questão do uso do corpus tido uma falha somente se demonstrar que não
independentes das condições sociais de sua produ- si mesma. Sem questionar as premissas desta aborda-
de artigos anteriores, permanecem em grande parte respeitou os padrões profissionais. A conduta do
ção” (Joffrin, 1998, p. 6), especificar esta essência sem jornalista razoável torna-se uma baliza da maior gem, e muito menos suas realizações, este artigo, no
sem discussão, mostrando ainda que o pensamento
delimitá-la – e isso parece realmente possível – pode- importância (p. 97, sublinhado por nós). entanto, arriscou uma abordagem oposta (examinar
jornalístico não acabou de construir os alicerces de
ria ajudar a esclarecer problemas e, em particular, o os discursos em vez de sua tradução para os fatos),
uma epistemologia reivindicável. 32_ País que os observadores estrangeiros consideravam até agora
da identidade profissional. Quer se trate de um blo- mais inclinado aos debates de ideias do que às sobreposições sistemá- a fim de procurar nestes discursos as pistas de uma
gueiro casual ou de um repórter aguerrido, um texto Contudo, as dinâmicas normativas, tanto interna ticas e à factualidade obsessiva. postura epistemológica particular.
seria de natureza jornalística – questionável, por como externamente, parecem estar se movendo nessa 33_ Epistemologicamente, essa restrição ressalta tanto a condição de

exemplo, no caso de um Lucien Bodard30 - apenas em direção. Dentro do campo, como vimos, um traba-
imparcialidade quanto os procedimentos legítimos de confrontação - Do ponto de vista diacrônico, este exame permi-
sobreposição.
função do grau que reivindica e aplica tudo ou parte lho de reflexão e de codificação, que está se aprofun- 34_ Mas essa tendência geral não é nova. No mesmo contexto - o
tiu observar, desde o nascimento do jornalismo fran-
desses princípios, e independentemente da sua vera- dando, ressalta cada vez mais questões de definições de Direito Civil - a Corte de Apelação de Quebec já observava, uma cófono, a construção de uma doutrina expandida e
década antes, que “no caso de uma reportagem, deve-se verificar se a
cidade (pode-se enganar muito jornalisticamente ou que introduzem questões de métodos: assinala, por pesquisa anterior foi realizada com precauções normais, usando téc-
nicas de investigação disponíveis ou habitualmente empregadas. (...) 35_ Os tribunais canadenses geralmente consideram apenas o ato
ter razão baseado unicamente em suas impressões), exemplo, o surgimento da noção de “verificação”, que intrínseco de informar (comunicar fatos de interesse público) sem vin-
Se houver um prejuízo para a reputação, esta violação somente pode
ou mesmo de sua virtude (como foi dito, roubar ser uma fonte de responsabilidade civil quando for dolosa. Ela apenas culá-lo diretamente à pertença a organizações midiáticas nem conce-
31_ Mas, precisamente, uma abordagem gradualista, evita exclusões terá essa característica se encontrar uma violação dos padrões profis- der-lhes imunidade ou privilégios particulares, mas tendo em conta,
binárias baseadas em limites mais ou menos arbitrários (“é propa- sionais de investigação e da atividade jornalística” (1994, p. 1820, s.n.). se necessário, esses últimos como elemento contextual (no Quebec, a
30_ Famoso pela qualidade de sua escrita, este grande repórter tinha, ganda, não jornalismo”) e coloca essa oposição em uma espécie de jogo Por sua vez, a lei das províncias de direito comum também se abriu Lei de Imprensa instaura, no entanto, algumas regras especiais para
por outro lado, a reputação de solicitar mais sua criatividade do que de soma zero : quanto mais ativismo, menos jornalismo. Deve-se notar para a questão dos métodos, o Supremo Tribunal do Canadá autori- difamações cometidas pela imprensa).
suas pernas, do que ele se defendia sem pressa: “o que é a realidade? que a concepção gradualista do jornalismo não exclui a possibilidade zando agora aos acusados de difamação “de se exonerar ao estabelecer 36_ O julgamento de 2009 citado acima afirma explicitamente “uma
Uma coisa muito subjetiva. Tudo o que se sente em um país, um evento, de distribuir a algumas pessoas o título de jornalista “profissional”: que eles agiram de maneira responsável, esforçando-se por verificar defesa modificada que daria maior peso à diligência realizada pelo réu
são potencialidades, faça isso e é uma questão de talento” (Bodard e pelo contrário, permite pensar com mais serenidade o grau de adesão as informações fornecidas a propósito de uma questão de interesse para verificar os fatos em detrimento do exame da verdade ou da falsi-
Zylberstein, 1970, p. 38). aos princípios jornalísticos necessários para tal título. público” (2009, p. 642). dade das declarações difamatórias» (p. 669, s.n.).

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já próxima do que será quase quatro séculos depois, tiva estrutural (a partir da mídia), sociológica (a partir ASSOCIATION BELGE DES ÉDITEURS DE Outros trabalhos citados
uma doutrina inserindo a captação jornalística do dos atores) e crítica (a partir dos textos produzidos), JOURNAUX ET FÉDÉRATION BELGE DES
real entre a percepção comum disso e seu conheci- mas também em uma perspectiva epistemológica (a MAGAZINES. Code de principes de journalisme. AWAD, Gloria. Ontologie du journalisme. Paris:
mento erudito. Em segundo lugar, permitiu notar partir de seus modos de aproximação da realidade). Bruxelas: Conseil de déontologie journalistique, L’Harmattan, 2010.
que as inflexões posteriores desta doutrina, geral- 1982.
Embora seja menos solidamente empírico e talvez BÉRAUD, Henri. Le flâneur salarié. Paris: Éditions
mente atribuídas unicamente a fatores econômicos
mais abstrato do que outros, este ângulo permite, com CONSEIL DE PRESSE. Code de déontologie. de France, 1927.
ou tecnológicos, apresentavam mutatis mutandis
efeito, levantar ou esclarecer questões muito concretas, Luxemburgo: Conseil de presse, 2006.
concordâncias suficientes com as do pensamento BERNIER, Marc-François. Éthique et déontologie
como as de métodos e técnicas legítimas, mas também
científico (positivismo, relativismo...) para inscrever du journalisme. Quebec: Presses de l’Université
as das proscrições - a “caça ao furo”, a auto-referência CONSEIL SUISSE DE LA PRESSE. Directives rela-
o pensamento jornalístico na história das ideias. Laval, 2004a.
“circular”, o “sensacionalismo37” etc. - que, se fossem tives à la Déclaration des devoirs et des droits du
A abordagem jornalística do real não preservou, intrínsecos à abordagem jornalística, beneficiar-se- / de la journaliste. Interlaken: Conseil suisse de la
BERNIER, Marc-François. Une vision systémique
ao longo do tempo, um nível intermediário de cons- -iam de serem pensados e dominados em vez de serem presse, 2005.
de la vérité en journalisme. Les cahiers du journal-
trução, nem profano nem teórico, assumindo, mesmo denunciados em vão e praticados com astúcia. Além isme. 13, 2004b, p. 124-131.
CFPJ. Guide de la rédaction. Paris: Les guides du
reivindicando, a imprecisão de sua própria caracte- disso, tende a confirmar que uma caracterização deste
Centre de formation et de perfectionnement des
rização. Ora, o estudo dos textos deontológicos con- campo fundamentado no próprio jornalismo, em vez BLANKENBURG, William B.; WALDEN, Ruth.
journalistes, 1984.
temporâneos permitiu revelar os sinais de uma rápida de nos jornais, jornalistas ou notícias, parece, senão Objectivity, Interpretation, and Economy in
evolução para um estágio de formalização aumentada: fácil, ao menos concebível, e que poderia constituir DEUTSCHER JOURNALISTE VERBAND ET Reporting. Journalism Quarterly. 54 (3), 1977, p.
ameaçado de dissolução pela crescente confusão de uma resposta para os problemas nos quais as outras AUTRES SYNDICATS DE JOURNALISTES 591-595.
conteúdos e a generalização dos meios de recolhi- abordagens de definição se encontram. EUROPÉENS. Déclaration des devoirs et des
mento e disseminação de informação, o jornalismo BODARD, Lucien; ZYLBERSTEIN, Jean-Claude.
Paradoxalmente, esta questão das normas é par- droits des journalistes. Paris: Union Syndicale des
parece obrigado a explicitar a especificidade de sua Bodard à la question. Le Nouvel Observateur. 274
ticularmente pouco normativa: não só porque, longe Journalistes - CFDT, 1971.
abordagem do real para justificar o valor dela. (9), 1970, p. 38.
24 de pretender definir o que o jornalista deveria ser,
FÉDÉRATION INTERNATIONALE DES
BONVILLE, Jean De; BRIN, Colette; CHARRON,
25
Porém, esse aprofundamento conceitual interno contenta-se em tentar especificar o que parece cons-
JOURNALISTES. Déclaration de Principe de la
permanece obstruído, por um lado, pelo seu caráter tituí-lo, mas também porque, inversamente aos cri- Jean. Nature et transformation du journalisme:
FIJ sur la Conduite des Journalistes. Bruxelles:
pouco analítico, que geralmente amalgama o pro- térios de demarcação binária, incentiva uma concep- Théorie et recherches empiriques. Quebec: Presses
Fédération internationale des journalistes, 1986.
blema dos valores morais, o da “verdade” e o das con- ção gradual da natureza mais ou menos jornalística de l’Université Laval, 2004.
dições explícitas de validade do jornalismo, por outro das atividades e produções midiáticas. No entanto, FÉDÉRATION PROFESSIONNELLE DES
BONVILLE, Jean De; CHARRON, Jean. Le para-
lado, pela diversidade geográfica e ideológica de seus não é completamente desprovida de questões axio- JOURNALISTES DU QUÉBEC. Guide de déon-
digme du journalisme de communication: essai de
atores e, finalmente, por seus fundamentos essencial- lógicas: seja em uma perspectiva cidadã ou profis- tologie des journalistes du Québec. Montreal:
définition. Communication. 17(2), 1996, p. 51-97.
mente introspectivos. sional, o fortalecimento conceitual e metodológico Fédération professionnelle des journalistes du
do jornalismo, ou seja, a sua adesão à maturidade Québec, 1996. BOURDIEU, Pierre. L’emprise du journalisme. Actes
Por esta razão, esta pesquisa recorreu a uma abor-
epistemológica, poderia, sem qualquer sombra de de la recherche en sciences sociales. 101, 1994, p.
dagem comparativa, intrinsecamente limitada, mas
dúvida, ser qualificado como “desejável”. SYNDICAT NATIONAL DES JOURNALISTES.
suscetível de ajudar a localizar e classificar certas pos- 3-9.
Charte des devoirs professionnels des journal-
síveis regularidades da abordagem jornalística, con-
Referências istes français. Paris: Syndicat national des journal- BOURDIEU, Pierre. Sur la télévision. Paris: Liber,
frontando-a com estruturas epistemológicas forma-
istes, 1938. 1996.
lizadas e legitimadas. O exame permitiu distinguir
algumas das condições e princípios pelos quais a cap- Excertos do corpus
SYNDICAT NATIONAL DES JOURNALISTES. CAUCHON, Paul. Les journalistes rejettent l’idée
tura jornalística do mundo poderia ser comparada a ASSISES INTERNATIONALES DU Charte d’éthique professionnelle des journalistes. d’une loi-cadre. Le Devoir, 2002, p. A1.
um quadro epistêmico explícito, ao mesmo tempo que JOURNALISME. Charte de la Qualité de l’In- Paris: Syndicat national des journalistes, 2011.
sublinha certos pontos que o proíbem, pelo menos CHARON, Jean-Marie. L’éthique des journalistes au
formation. . Malakoff: Association Journalisme et
hoje, de reivindicar completamente tal estatuto. THE CANADIAN ASSOCIATION OF xxe siècle: De la responsabilité devant les pairs aux
Citoyenneté, 2003.
JOURNALISTS / L’ASSOCIATION CANADIENNE devoirs à l’égard du public. Le Temps des médias. 1,
Em nossa opinião, no entanto, esse percurso ape- DES JOURNALISTES. What is journalism?
ASSOCIATION GÉNÉRALE DES JOURNALISTES 2003, p. 200-210.
nas confirma o interesse que se pode ter em considerar Brantford: The Canadian association of journalists,
PROFESSIONNELS DE BELGIQUE,
a atividade jornalística não apenas em uma perspec- 2012. COLLINS, Harry M.; EVANS, Robert. The Third
37_ Veja Labasse, 2012c, para um desenvolvimento deste ponto.

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