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INQUISIÇÃO NUNCA MAIS

Pr. Airton Evangelista da Costa


Assembléia de Deus Palavra da Verdade - Aquiraz (CE)
www.palavradaverdade.com - aicosta@secrel.com.br

Aos leitores:

Este trabalho é um esboço, um ensaio, um estudo, em que


condensamos diversos fatos relacionados com a INQUISIÇÃO. O
assunto, de tão vasto, não se esgota nestas páginas.

As dificuldades enfrentadas pela Igreja de Cristo através dos séculos


devem ser conhecidas por todos os cristãos. Os católicos precisam
conhecer a história negra de sua igreja. Os evangélicos não devem
esquecer os heróis da fé, os homens que, com ousadia, romperam
com as tradições, com o poder eclesiástico de sua época, e ajudaram
na implantação de uma igreja reformada, livre do poder papal,
submissa a Jesus, e tendo a Bíblia Sagrada como única regra de fé e
prática.

Conhecer um pouco dos horrores dos tribunais eclesiástico é


descobrir o quão difícil foi a caminhada até os dias atuais. Os
alicerces de nossa fé ficam mais fortalecidos quando nos miramos no
exemplo de nossos irmãos do passado, "atribulados mas não
angustiados; perplexos, mas não desanimados, perseguidos, mas não
desamparados; abatidos, mas não destruídos", pois "BEM-
AVENTURADOS SOIS VÓS, QUANDO VOS INJURIAREM E
PERSEGUIREM E, MENTINDO, DISSEREM TODO O MAL CONTRA VÓS
POR MINHA CAUSA" (Mateus 5.11)

A lista dos mártires e perseguidos parece não ter fim. A Igreja


Católica estava disposta a vigiar e manter sob seu domínio todo o
universo do pensamento humano. Qualquer um que ousasse defender
suas idéias - científicas, religiosas, ou em qualquer área -, em
desacordo com a interpretação do Vaticano, era considerado um
herético, e, por isso, por esse crime, julgado e condenado. Era quase
impossível aos hereges se livrarem da tortura e da fogueira.

Pelo modo cruel como os protestantes foram massacrados; pela


forma cruel com que subjugaram alguns, sob tortura; em razão dos
milhões que perderam a vida nas Cruzadas, nas fogueiras ou de
outras maneiras, e por muitas outras práticas assassinas e injustas
usadas no decorrer de vários séculos de INQUISIÇÃO, não vacilamos
em afirmar que esse monstruoso Santo Ofício foi UM CRIME CONTRA
A HUMANIDADE... todavia, um crime que não mais se repetirá,
NUNCA MAIS. Louvado seja nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
O AUTOR
Pr Airton Evangelista da Costa,
Assembléia de Deus Palavra da Verdade, em Aquiraz (CE)
INQUISIÇÃO: SIGNIFICADO E OBJETIVO

Também chamada de Santo Ofício, INQUISIÇÃO era a designação


dada a um tribunal eclesiástico, vigente na Idade Média e começos
dos tempos modernos. Esse Tribunal, instituído pela Igreja Católica
Romana, tinha por meta prioritária julgar e condenar os hereges. A
palavra "herege" significa aquele que escolhe, que professa doutrina
contrária ao que foi definido pela Igreja como sendo matéria de fé.
Então, todos os que se rebelavam contra a autoridade papal ou
faziam qualquer espécie de crítica à Igreja de Roma eram
considerados hereges. INQUISIÇÃO é o ato de INQUIRIR: indagar,
investigar, pesquisar, perguntar, interrogar judicialmente. Os hereges
seriam os "irmãos separados", os "protestante", os "crentes", os
"evangélicos" de hoje.

Em suma, a INQUISIÇÃO foi um tribunal eclesiástico criado com a


finalidade de investigar e punir os crimes contra a fé católica. Da
Enciclopédia BARSA, vol 7, pags. 286-287 extraímos o seguinte:
Heresia, no sentido geral é uma atitude, crença ou doutrina, nascida
de uma escolha pessoal, em oposição a um sistema comumente
aceito e acatado. É uma opinião firmemente defendida contra uma
doutrina estabelecida.

A Igreja Católica, no seu Direito Canônico, estabelece uma distinção


entre heresia, apostasia e cisma. Assim diz este documento: Depois
de recebido o batismo, se alguém, conservando o nome de cristão,
nega algumas das verdades que se devem crer com fé divina e
católica ou dela duvida, é HEREGE. Se afasta-se totalmente da fé
cristã, é APÓSTATA.

Se recusa submeter-se ao Sumo Pontífice (o Papa) ou tratar com os


membros da Igreja aos quais está sujeito, é CISMÁTICO. (Direito
Canônico 1.325, parágrafo. 2). Então, por esse raciocínio e decreto
de Roma, os milhões de crentes no mundo são hereges e cismáticos
porque negam muitas das "verdades" da fé católica, não se
submetem ao Sumo Pontífice, e só reconhecem Jesus Cristo como
autoridade máxima da Igreja.

De acordo com o que foi noticiado em janeiro/98 pelos jornais, a


Igreja Católica Romana resolveu abrir os arquivos do Santo Ofício ou
Inquisição, colocando-os à disposição dos pesquisadores. Nesses
arquivos constam 4.500 obras sob fatos e julgamentos de quatro
séculos da Igreja Católica, conforme noticiado. A abertura desses
processos é de muita valia para os pesquisadores, historiadores e
interessados em conhecer um pouco mais do passado negro da Igreja
de Roma.

Nem por isso a humanidade deixou de conhecer as crueldades, as


chacinas, o extermínio, as torturas que tiraram a vida de milhões de
hereges. Os arquivos do Vaticano vão mostrar, certamente, com mais
detalhes, como foram conduzidos os processos sumários e quais os
métodos usados para obter confissões e retratações. Todavia, a
guarda a sete chaves dessas informações não impediu que o mundo
tomasse conhecimento dos crimes cometidos pelos tribunais
inquisitórios. A História não pode ser apagada.

O INÍCIO DAS PERSEGUIÇÕES

Embora a Inquisição tenha alcançado seu apogeu no século XIII, suas


origens remontam ao século IV:

- O herege espanhol Prisciliano foi condenado à morte pelos bispos


espanhóis no ano de 1385; e no século X muitos casos de execuções
de hereges, na fogueira ou por estrangulamento;

- em 1198 o Papa Inocêncio III liderou uma cruzada contra os


"ALBIGENSES" (hereges do sul da França), com execuções em
massa;

- em 1229, no Concílio de Tolouse, foi oficialmente criada a


Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício, sob a liderança do Papa
Gregório IX;

- em 1252, o Papa Inocêncio IV publicou o documento intitulado "AD


EXSTIRPANDA", em que vociferou: "os hereges devem ser
esmagados como serpentes venenosas". Este documento foi
fundamental na execução do diabólico plano de exterminar os
hereges. As autoridades civis, sob a ameaça de excomunhão no caso
de recusa, eram ordenadas a queimar os hereges. O "AD
EXSTIRPANDA" foi renovado ou reforçado por vários papas, nos anos
seguintes: Alexandre IV (1254-1261); Clemente IV (1265-1268),
Nicolau IV (1288-1292); Bonifácio VIII (1294-1303) e outros.
Inocêncio IV autorizou o uso da tortura.

OS MÉTODOS DE TORTURA

No seu "Livro das Sentenças da Inquisição" (Liber Sententiarum


Inquisitionis) o padre dominicano Bernardo Guy (Bernardus Guidonis,
1261-1331), "um dos mais completos teóricos da Inquisição",
descreveu vários métodos para obter confissões dos acusados,
inclusive o enfraquecimento das forças físicas do prisioneiro. Usava-
se, dentre outros, os seguintes processos de tortura (imagens de
instrumentos de tortura copiadas no final do texto):

- a manjedoura, para deslocar as juntas do corpo;

- arrancar unhas;

- ferro em brasa sob várias partes do corpo;

- rolar o corpo sobre lâminas afiadas;

- uso das Botas Espanholas para esmagar as pernas e os pés;

- a Virgem de Ferro: um pequeno compartimento em forma humana,


aparelhado com facas, que, ao ser fechado, dilacerava o corpo da
vítima;

- suspensão violenta do corpo, amarrado pelos pés, provocando


deslocamento das juntas;

- chumbo derretido no ouvido e na boca;

- arrancar os olhos; açoites com crueldade;

- forçar os hereges a pular de abismos, para cima de paus


pontiagudos;

- engolir pedaços do próprio corpo, excrementos e urina;

- a roda do despedaçamento funcionou na Inglaterra, Holanda e


Alemanha, e destinava-se a triturar os corpos dos hereges;

- o "balcão de estiramento" era usado para desmembrar o corpo das


vítimas;

- o "esmaga cabeça" era a máquina usada para esmagar lentamente


a cabeça do condenado, e outras formas de tortura.

Com a promessa de irem diretamente para o Céu, sem passagem


pelo purgatório, muitos homens eram exortados pelos inquisidores
para guerrearem contra os hereges. No ano de 1209, em Beziers
(França), 60 mil foram martirizados; dois anos depois, em Lauvau
(França), o governador foi enforcado, sua mulher apedrejada e 400
pessoas queimadas vivas. A carnificina se espalhou por outras
cidades e milhares foram mortos. Conta-se que em um só dia
100.000 hereges foram vitimados.
Depois de acusados, os hereges tinham pouca chance de
sobrevivência. Geralmente as vítimas não conheciam seus
acusadores, que podiam ser homens, mulheres e até crianças. O
processo era sumário. Ou seja: rápido, sem formalidades, sem direito
de defesa. Ao réu a única alternativa era confessar e retratar-se,
renunciar sua fé e aceitar o domínio e a autoridade da Igreja Católica
Romana. Os direitos de liberdade e de livre escolha não eram
respeitados. A Igreja de Roma, sob o pretexto de que detinha as
chaves dos céus e do inferno e poderes para livrar as almas do
purgatório e perdoar pecados, pretendia ser UNIVERSAL, dominar as
nações mediante pressão sob seus governantes e estabelecer seus
domínios por todo o Planeta.

CRUELDADE E MATANÇA

A seguir, um relato sucinto do extermínio de hereges.

A matança dos valdenses - Um dos primeiros grupos organizados a


serem atormentados foi os valdenses. Valdenses eram chamados "os
membros da seita, também chamada Pobres de Lião, fundada pelo
mercador Pedro Valdo por volta de 1170, na França. Inspirada na
pobreza evangélica, repudiava a riqueza da Igreja Católica". O grupo
organizado por Pedro Valdo, um rico comerciante, cria que todos os
homens tinham o direito de possuir a Bíblia traduzida na sua própria
língua.

Acreditavam, também, que a Bíblia era a autoridade final para a fé e


para a vida. Os valdenses se vestiam com simplicidade -
contrapondo-se à luxúria dos sacerdotes católicos - ministravam a
Ceia do Senhor e o Batismo, e ordenavam leigos para a pregação e
ministração dos sacramentos. "O grupo tinha seu próprio clero, com
bispos, sacerdotes e diáconos". Tal liberdade não era admitida pela
Igreja Católica porque não havia submissão ao Papa e aos seus
ensinos. Os valdenses possuíam a Bíblia traduzida na sua língua
materna, o que facilitou a pregação da Palavra.

Outros grupos sucumbiram diante das ameaças e castigos impostos


pelos romanistas. Os valdenses, todavia, resistiram. Na escuridão das
cavernas, cada versículo era copiado, lido e ensinado. Na Bíblia
encontraram a Luz - uma luz forte que inunda corpo, alma e
espírito... uma luz chamada Jesus. Os valdenses foram, certamente,
os primeiros a se organizarem como igreja, formar seu próprio clero e
enviar missionários para outras regiões na França e Itália. Tudo com
muito sacrifício e sob implacável perseguição.

Essa liberdade de ação motivou os líderes romanos a adotarem


medidas duras contra a "seita". Uma bula papal classificou os
valdenses como hereges e, como tal, condenados à morte. A única
acusação contra eles era a de que "tinham uma aparência de piedade
e santidade que seduzia as ovelhas do verdadeiro aprisco". Uma
cruzada foi organizada contra esse povo santo.

Como incentivo, a Igreja prometia perdão de todos os pecados aos


que matassem um herege, "anulava todos os contratos feitos em
favor deles (dos valdenses), proibia a toda a pessoa dar-lhe qualquer
auxílio, e era permitido se apossar de suas propriedades por meio de
violência". Não se sabe quantos valdenses morreram nas Cruzadas.
Sabemos, portanto, que esses obstinados cristãos fincaram os
alicerces da Reforma que viria séculos depois.

Massacre de São Bartolomeu, de François Dubois

O MASSACRE DE SÃO BARTOLOMEU

Os católicos franceses apelidavam de "huguenotes" os protestantes.


Uma designação depreciativa. Já fomos tratados de huguenotes,
hereges, heréticos, protestantes, cristãos novos, irmãos separados,
crentes, evangélicos, etc. Mas o Pai nos chama de FILHOS.

O massacre de São Bartolomeu ou a Noite de São Bartolomeu ficou


conhecido como "a mais horrível entre as ações diabólicas de todos
os séculos". Com a concordância do Papa Gregório XIII, o rei da
França, Carlos IX, eliminou em poucos dias milhares de huguenotes.
A matança iniciou-se na noite de 24.08.1572, em Paris, e estendeu-
se a todas as cidades onde se encontravam protestantes. Segundo
Ellen G. Write, em seu Livro "O GRANDE CONFLITO", foram
martirizados cerca de setenta mil nesse massacre. "Quando a notícia
do massacre chegou a Roma, a alegria do clero não teve limites.

O cardeal de Lorena recompensou o mensageiro com mil coroas; o


canhão de Santo Ângelo reboou em alegre salva; os sinos dobraram
em todos os campanários; e o Papa Gregório XIII, acompanhado dos
cardeais e outros dignitários eclesiásticos, foi, em longa procissão, à
igreja de São Luís, onde o cardeal de Lorena cantou o Te Deum. Um
sacerdote falou "daquele dia tão cheio de felicidade e regozijo, em
que o santíssimo padre recebeu a notícia e foi em aparato solene dar
graças a Deus e a São Luís".

Para comemorar e perpetuar na memória dos povos esse horrendo


massacre, por ordem do Papa Gregório XIII foi cunhada uma moeda,
onde se via a figura de um anjo com a espada numa mão e, na outra,
uma cruz, diante de um grupo de horrorizados huguenotes. Nessa
moeda comemorativa lia-se a seguinte inscrição: UGONOTTORUM
STANGES, 1572 (A MATANÇA DOS HUGUENOTES, 1572).

Em seu livro "OS PIORES ASSASSINOS E HEREGES DA HISTÓRIA", o


historiador e pesquisador cearense Jeovah Mendes, à pág. 238, assim
registra a fatídica Noite de S.Bartolomeu: "Papa Gregório XIII (Ugo
Buoncompagni) (1502-1585) - Em irreprimível ritmo acelerado
recrudescia o ódio contra os protestantes em rumo de um trágico
desfecho. O cardeal de Lorena, com a aprovação e bênção pontifícia
de Gregório XIII, engendrou o mais horrível banho de sangue por
motivos religiosos em toda a História da França ou de qualquer nação
do mundo. Consumou-se o projeto assassino aos 24 de agosto de
1572, a inqualificável NOITE DE S.BARTOLOMEU, sendo nesse
macabro festival de sangue, morto o impetérrito Coligny, mártir do
Evangelho e honra de sua Pátria. Como troféu da bárbara carnificina,
a cabeça de Coligny fora remetida ao "sumo pontífice" Gregório XIII
(Maurício Lachatre, História dos Papas, volume IV, página 68)".
Os cátaros expulsados de Carcasona

O MASSACRE DOS ALBIGENSES

Albigenses eram os nascidos na cidade de Albi, sul da França. Em


1198, por iniciativa do Papa Inocêncio III, foram instituídos "Os
Inquisidores da Fé contra os Albigenses". Esses franceses foram
considerados "hereges" porque seus ensinos doutrinários não se
alinhavam com os da Igreja de Roma. O extermínio (a cruzada
albigense, também conhecida como cruzada cátara ou cruzada contra
os cátaros) começou no ano de 1209 e se estendeu por 20 anos,
quando milhares de albigenses pereceram. Fala-se em mais de
20.000 mortos, entre homens, mulheres e crianças.
Inquisição espanhola: Autodafé sobre a praça Mayor de Madrid
(Espanha)

O MASSACRE DA ESPANHA

Tomás de Torquemada (1420-1498), espanhol, padre dominicano,


nomeado para cargo de grande-inquisidor pelo Papa Sisto IV, dirigiu
as operações do Tribunal do Santo Ofício durante 14 anos.
"Celebrizou-se por seu fanatismo religioso e crueldade". De mãos
dadas com os reis católicos, promoveu a expulsão dos judeus da
Espanha por édito real de 31.03.1492, tendo estes o prazo reduzido
de quatro meses para se retirarem do país sem levar dinheiro, ouro
ou prata. É acusado de haver condenado à fogueira 10.220 pessoas,
e cerca de 100.000 foram encarceradas, banidas ou perderam
haveres e fazendas. Tudo em nome da fé católica e da honra de Jesus
Cristo.

O MASSACRE DOS ANABATISTAS

Grupo religioso iniciado na Inglaterra no século XVI, que defendia o


batismo somente de pessoa adulta. Por autorização do Papa Pio V
(1566-1572), cem mil foram exterminados.
Gravura a cobre intitulada Inquisição em Portugal

O MASSACRE EM PORTUGAL

Diante dos insistentes pedidos de D. João III, o Papa Paulo III


introduziu, por bula de 1536, o Tribunal do Santo Ofício em Portugal.
As perseguições foram de tal ordem que o comércio e a indústria na
Espanha e em Portugal ficaram praticamente paralisados. "As
execuções públicas eram conhecidas como autos-de-fé. No começo,
funcionaram tribunais da Inquisição nas diversas dioceses de
Portugal, mas no século XVI ficaram apenas os de Lisboa, Coimbra e
Évora.

Depois, somente o da capital do reino, presidido pelo inquisidor-geral.


Até 1732, em Portugal, o número de sentenciados atingiu 23.068,
dos quais 1.554 condenados à morte. Na torre do Tombo, em Lisboa,
estão registrados mais de 36.000 processos". Daí porque os 4.500
processos constantes dos arquivos de terror do Vaticano - Os
Arquivos do Santo Ofício - recentemente liberados aos pesquisadores,
não contam toda a história da desumana Inquisição.

REFERÊNCIAS GERAIS SOBRE A INQUISIÇÃO

A INQUISIÇÃO EM CUBA

Não havia parte nenhuma no mundo onde os protestantes ou hereges


estivessem livres para o exercício de sua fé. Partindo da Europa,
muitos procuraram refúgio nas Américas do Sul e Central, o "Novo
Mundo". Mas para cá também vieram os inquisidores. A inquisição em
Cuba iniciou-se em 1516 sob o comando de Dom Juan de Quevedo,
bispo de Cuba, que, com requintes de maldade, eliminou setenta e
cinco "hereges".
A INQUISIÇÃO NO BRASIL

O padre Antônio Vieira (1608-1697), pregador missionário e


diplomata, defensor dos indígenas, considerado a maior figura
intelectual luso-brasileira do séc. 17 foi condenado por heresia pelo
Santo Ofício, e mantido em prisão por cerca de dois anos. O brasileiro
Antônio José da Silva, poeta e comediólogo, foi um dos supliciados
em autos-de-fé.

A Inquisição se instalou no Brasil em três ocasiões: Em 09.06.1591,


na Bahia, por três anos; em Pernambuco, de 1593 a 1595; e
novamente na Bahia, em 1618. Há notícia de que no século XVIII
Inquisição atuou no Brasil. Segundo o jornal "Mensageiro da Paz",
número 1334, de maio/1998, "cento e trinta e nove "pessoas foram
queimadas vivas, no Brasil, entre os anos de 1721 e 1777.

Todos os que confessavam não crer nos dogmas católicos eram


sentenciados. De acordo com os dados históricos, quase todos os
cristãos-novos presos no Brasil pela Inquisição, durante o século 18,
eram brasileiros natos e pertenciam a todas as camadas sociais.
Praticamente a metade dos prisioneiros brasileiros cristãos-novos no
século 18 era mulheres. Na Paraíba, Guiomar Nunes foi condenada à
morte na fogueira em um processo julgado em Lisboa.

A Inquisição interferiu profundamente na vida colonial brasileira


durante mais de dois séculos. Um dos exemplos dessa interferência
era a perseguição aos descendentes de judeus. Os que estavam
nessa condição podiam ser punidos com a morte, confisco dos bens e
na melhor das hipóteses ficavam impedidos de assumir cargos
públicos. A matéria do Mensageiro da Paz foi assinada por Regina
Coeli.

Do livro "BABILÔNIA: A RELIGIÃO DOS MISTÉRIOS" de Ralph


Woodrow - "As autoridades civis eram ordenadas pelos papas, sob
pena de excomunhão, a executarem as sentenças legais que
condenavam os hereges impenitentes ao poste. Deve-se notar que a
excomunhão em si mesma não era uma coisa simples, pois, se a
pessoa excomungada não se livrasse da excomunhão dentro de um
ano, passava a ser considerada herética, e incorria em todas as
penalidades que afetavam a heresia" (pág. 110).

"A intolerância religiosa que incitou a Inquisição, causou guerras que


envolveram cidades inteiras. Em 1209 a cidade de Beziers foi tomada
por homens que tinham recebido a promessa do papa de que
entrando na cruzada contra os hereges, eles (os assassinos), ao
morrerem, passariam direto para o céu, desviando-se do purgatório.
Reporta-se que sessenta mil, nesta cidade, pereceram pela espada.
Em Lavaur, em 1211, o governador foi enforcado e a esposa lançada
num poço e esmagada com pedras. Quatrocentas pessoas foram
queimadas vivas em Lavaur. Os cruzados assistiram à missa solene
pela manhã, em seguida passaram a tomar outras cidades da área.
Neste cerco estima-se que cem mil albigenses (protestantes) caíram
em um só dia. Seus corpos foram amontoados e queimados. No
massacre de Merindol, quinhentas mulheres foram trancadas em um
celeiro ao qual atearam fogo. Se qualquer uma pulasse das janelas
seria recebida na ponta de lanças. Mulheres foram ostensiva e
dolorosamente violentadas. Crianças assassinadas diante de seus
pais.

Algumas pessoas eram lançadas de abismos ou arrancavam suas


roupas e arrastavam-nas pelas ruas. Métodos semelhantes foram
usados no massacre de Orange em 1562. O exército italiano, enviado
pelo Papa Pio IV, recebeu ordem e matar homens, mulheres e
crianças. A ordem foi seguida com terrível crueldade, sendo o povo
exposto a vergonha e torturas indescritíveis. Dez mil huguenotes
(protestantes) foram mortos no sangrento massacre em paris no "Dia
de São Bartolomeu", em 1572". (páginas 113-114).

Enciclopédia BARSA, volume 8, página 30-31, edição 1977 - "Em


1229, no Concílio de Tolouse, criou-se oficialmente a Inquisição ou
Tribunal do Santo Ofício. A partir deste momento, e sobretudo com o
trabalho dos frades dominicanos, foi-se precisando a legislação e
jurisprudência da Inquisição. O processo era sumário. O acusado
podia ignorar o nome do acusador. Mulheres, crianças e escravos
podiam ser testemunhas na acusação, mas não na defesa.

Num destes processos consta o nome de uma testemunha de dez


anos e idade. O padre dominicano Bernardo Guy (Bernardus
Guidonis, 1261-1331), um dos mais completos teóricos da Inquisição,
enumerou, no seu Liber Sententiarum Inquisitionis ("Livro das
Sentenças da Inquisição"), vários processos para a boa obtenção de
confissões, inclusive pelo enfraquecimento das forças físicas do
prisioneiro".

Do livro "OS PIORES ASSASSINOS E HEREGES DA HISTÓRIA, DE


CAIM A SADDAM HUSSEIN", do cearense Jeovah Mendes, edição
1997, páginas 249-250.

"Em toda a sua calamitosa história, a Igreja Católica nada mais tem
feito que perseguir o homem, sob o sofisma de agir em nome de
Deus. Vejamos os morticínios que ela levou a efeito: As cruzadas à
Terra Santa custaram à humanidade o sacrifício de dois milhões de
vítimas; de Leão X a Clemente IX (papas) os sanguinários agentes do
catolicismo, que dominavam a França, a Holanda, a Alemanha, a
Flandes e a Inglaterra, realizaram a tenebrosa São Bartolomeu, de
que já falamos, degolando, massacrando, queimando mais de dois
milhões de infiéis, enquanto a Companhia de Jesus, obra do
abominável Inácio de Loyola, cometia as maiores atrocidades,
chegando mesmo a envenenar o Papa Clemente XIV.

O seu agente S. Francisco Xavier, em missão no Japão, imolava cerca


de quatrocentos mil nipônicos; as cruzadas levadas a efeito entre os
indígenas da América, segundo Las Casas, bispo espanhol e
testemunha ocular de perseguição e autos-de-fé, sacrificaram doze
milhões de seres em holocausto ao seu Deus; a guerra religiosa que
se seguiu ao suplício do Padre João Huss e Jerônimo de Praga, contou
mais de cento e cinqüenta mil vidas imoladas à Igreja Romana; no
século XIV, o grande Cisma do Ocidente cobriu a Europa de
cadáveres, dado que nada menos de cinqüenta mil vidas foram o
preço cobrado pela ira papal; as cruzadas levadas a efeito a partir de
Gregório VII (papa), roubaram à Europa cerca de trezentos mil
homens, assassinados com requintes de selvageria; nas terras do
Báltico, os frades cavaleiros, além de uma devastação e pilhagem
completa, ainda sacrificaram mais de cem mil vidas.

A imperatriz Teodora, dando cumprimento a uma penitência imposta


pelo seu confessor, fez massacrar cento e vinte mil maniqueus, no
ano de 845; as disputas religiosas entre iconoclastas e iconólatras
devastaram muitas províncias, resultando ainda no sacrifício de mais
de sessenta mil cristãos degolados e queimados. A Santa Inquisição,
na sua longa e tenebrosa jornada, levou aos mais horrorosos
suplícios, inclusive às fogueiras, algumas centenas de milhares e
pobres desgraçados; segundo o Barão d´Holbach, a Igreja Católica
Romana, pelos seus papas, bispos e padres, é a responsável pelo
sacrifício de cerca de dez milhões de vidas. Que mais é preciso
dizer"?

AS TENTATIVAS DE ALGEMAR A PALAVRA DE DEUS

A história dos massacres e perseguições perde-se no tempo. Quase


impossível para os historiadores é levantar o número exato ou
aproximado de vítimas da Inquisição. O banho de sangue começou na
Europa, mais precisamente em França, e se estendeu por países
vizinhos. Havia, por parte da Igreja de Roma, uma preocupação
constante com a propagação do Evangelho, com o conhecimento da
Palavra, com a tradução da Bíblia em outras línguas. Preocupação no
sentido de proibir. Só pelo fato de um católico passar a ler as
Escrituras estava sujeito a ser considerado um herege e, como tal,
ser excomungado e levado à fogueira. A Bíblia era, assim,
considerada um obstáculo às pretensões da Igreja de Roma, de
colocar todos os povos sob seus domínios.
Muitos meios foram usados para que a Bíblia ficasse restrita ao
pequeno círculo dos sacerdotes, dos padres, dos bispos e dos papas.
Dentre as medidas para conter o avanço da Palavra de Deus estão as
seguintes:

1. Em 1229, o Concílio de Tolouse (França), o mesmo que criou a


diabólica Inquisição, determinou: "Proibimos os leigos de possuírem o
Velho e o Novo Testamento... Proibimos ainda mais severamente que
estes livros sejam possuídos no vernáculo popular. As casas, os mais
humildes lugares de esconderijo, e mesmo os retiros subterrâneos de
homens condenados por possuírem as Escrituras devem ser
inteiramente destruídos.

Tais homens devem ser perseguidos e caçados nas florestas e


cavernas, e qualquer que os abrigar será severamente punido".
(Concil. Tolosanum, Papa Gregório IX, Anno Chr. 1229, Canons
14:2). Foi este mesmo Concílio que decretou a Cruzada contra os
albigenses. Em "Acts of Inquisition, Philip Van Limborch, History of
the Inquisition, capítulo 08, temos a seguinte declaração conciliar:
"Essa peste (a Bíblia) assumiu tal extensão, que algumas pessoas
indicaram sacerdotes por si próprias, e mesmo alguns evangélicos
que distorcem e destruíram a verdade do evangelho e fizeram um
evangelho para seus próprios propósitos... elas sabem que a
pregação e explanação da Bíblia é absolutamente proibida aos
membros leigos".

Jan Hus no Concílio de Constança. Pintura de Václav Brožík

2. No Concílio e Constança, em 1415, o santo Wycliffe, protestante,


foi postumamente condenado como "o pestilento canalha de
abominável heresia, que inventou uma nova tradução das Escrituras
em sua língua materna".

3. O Papa Pio IX, em sua encíclica "Quanta cura", em 8 de dezembro


de 1866, emitiu uma lista de oito erros sob dez diferentes títulos. Sob
o título IV ele diz: "Socialismo, comunismo, sociedades clandestinas,
sociedades bíblicas... pestes estas devem ser destruídas através de
todos os meios possíveis".

4. Em 1546 Roma decretou: "a Tradição tem autoridade igual à da


Bíblia". Esse dogma está em voga até hoje, até porque existe o
dogma da "infalibilidade papal". Ora, se os dogmas, bulas, decretos
papais e resoluções outras possuem autoridade igual à das Sagradas
Escrituras, os católicos não precisam buscar verdades na Palavra e
Deus.

Papa Júlio III

5. O Papa Júlio III, preocupado com os rumos que sua Igreja estava
tomando, ou seja, perdendo prestígio e poder diante do número cada
vez maior de "irmãos separados" ou "'cristãos novos" ou
"protestantes" (apesar dos massacres), convocou três bispos, dos
mais sábios, e lhes confiou a missão de estudarem com cuidado o
problema e apresentarem as sugestões cabíveis. Ao final dos estudos,
aqueles bispos apresentaram ao papa um documento intitulado
"DIREÇÕES CONCERNENTES AOS MÉTODOS ADEQUADOS A
FORTIFICAR A IGREJA DE ROMA". Tal documento está arquivado na
Biblioteca Imperial de Paris, fólio B, número 1088, vol. 2, páginas
641 a 650. O trecho final desse ofício é o seguinte:

"Finalmente (de todos os conselhos que bem nos pareceu dar a Vossa
Santidade, deixamos para o fim o mais necessário), nisto Vossa
Santidade deve pôr toda a atenção e cuidado de permitir o menos
que seja possível a leitura do Evangelho, especialmente na língua
vulgar, em todos os países sob vossa jurisdição. O pouco dele que se
costuma ler na Missa, deve ser o suficiente; mais do que isso não
devia ser permitido a ninguém.

Enquanto os homens estiverem satisfeitos com esse pouco, os


interesses de Vossa Santidade prosperarão, mas quando eles
desejarem mais, tais interesses declinarão. Em suma, aquele livro (a
Bíblia) mais do que qualquer outro tem levantado contra nós esses
torvelinhos e tempestades, dos quais meramente escapamos de ser
totalmente destruídos.
De fato, se alguém o examinar cuidadosamente, logo descobrirá o
desacordo, e verá que a nossa doutrina é muitas vezes diferente da
doutrina dele, e em outras até contrária a ele; o que se o povo
souber, não deixará de clamar contra nós, e seremos objetos de
escárnio e ódio geral. Portanto, é necessário tirar esse livro das vistas
do povo, mas com grande cuidado, para não provocar tumultos -
Assinam Bolonie, 20 Octobis 1553 - Vicentius De Durtantibus, Egidus
Falceta, Gerardus Busdragus.

6. Além de tentar tapar a boca de Deus algemando a Sua Palavra, a


Igreja de Roma modifica ou suprime trechos sagrados da Bíblia para
justificar sua Tradição. Daremos dois exemplos: 1) acatou o livro
apócrifo de Macabeus dentre outros, admitindo-o como divinamente
inspirado, para justificar a oração pelos mortos. 2) suprimiu o
SEGUNDO MANDAMENTO em seu Catecismo.

No Catecismo da Primeira Eucaristia, 12ª edição, Paulinas, São Paulo,


1975, à pág. 70, lê-se: Mandamentos da lei de Deus: 1) amar a Deus
sobre todas as coisas; 2) não tomar seu santo nome em vão; 3)
guardar os domingos e festas; 4) honrar pai e mãe; 5) não matar; 6)
não pecar contra a castidade; 7) não furtar; 8) não levantar falso
testemunho; 9) não desejar a mulher do próximo; 10) não cobiçar as
coisas alheias.

7. Os mandamentos de Deus estão no livro de Êxodo. No capítulo 20,


versos 4 e 5 assim está escrito: "NÃO FARÁS PARA TI IMAGEM DE
ESCULTURA, NEM SEMELHANÇA ALGUMA DO QUE HÁ EM CIMA DOS
CÉUS, NEM EM BAIXO NA TERRA, NEM NAS ÁGUAS DEBAIXO DA
TERRA. NÃO TE ENCURVARÁS A ELAS NEM AS SERVIRÁS". Então,
como se vê, a Igreja Romana suprimiu do seu Catecismo o Segundo
Mandamento. Isto é grave para quem é temente a Deus. Muito grave.
Por que suprimiu? Para que não houvesse o confronto de suas
práticas idólatras com a Palavra de Deus?

Todos esses maléficos expedientes usados para eliminar, alterar ou


suprimir as Sagradas Escrituras não conseguiram êxito. A Bíblia é o
livro mais vendido e mais lido em todo o mundo e está traduzido para
quase 2.000 línguas e dialetos. Só no Brasil são vendidos por ano
mais de quatro milhões de bíblias, afora uns 150 milhões de livros
com pequenos trechos (bíblias incompletas).

Os reflexos desses expedientes, ou seja, as tentativas de algemar a


Palavra de Deus, ainda hoje são sentidos. No Brasil são poucos os
católicos que se dedicam à leitura da Bíblia, embora os carismáticos
estejam mais desenvolvidos no particular. Regra geral se contenta
"com o pouco que lhes são oferecido na missa", e enquanto se
contentam com esse pouco (como sugeriram aqueles bispos ao papa,
item 5 retro) continuam errando. "ERRAIS, NÃO CONHECENDO AS
ESCRITURAS, NEM O PODER DE DEUS". (Mateus 22.29).

O SANGUE DOS MÁRTIRES

Não se pode separar a Inquisição da Reforma, uma vez que as


perseguições, e com elas os inquisidores, surgiram em decorrência do
protesto (advindo daí a alcunha de protestantes) de homens
inconformados com as doutrinas e práticas da Igreja de Roma, cada
vez mais se distanciando do Evangelho de Jesus Cristo. Wycliffe, John
Huss, Jerônimo e Lutero não se calaram diante da luxúria, da venda
de indulgências, do jogo de interesses e do baixo nível moral do clero
romano.

Esses "reformadores" desejavam, em suma, criar condições


favoráveis a que a Igreja Católica Romana corrigisse seus erros.
Apresentavam a Bíblia como única regra de fé e prática; Jesus como
único Sumo Sacerdote; defendiam a liberdade de a Bíblia ser
traduzida na língua de cada povo, de ser lida e interpretada por
qualquer cristão; combatiam a submissão dos governantes aos papas
e a espoliação do povo através de cobrança de impostos para os
cofres de Roma.

"Pelo pagamento de dinheiro à igreja, o povo poderia livrar-se do


pecado e igualmente libertar as almas de amigos falecidos que
estivessem confinadas às chamas atormentadoras. Por esses meios
Roma encheu os cofres e sustentou a magnificência, luxo e vícios dos
pretensos representantes dAquele que não tinha onde reclinar a
cabeça". Em vez de considerar os protestos e analisá-los à luz da
Palavra de Deus, e proceder as mudanças internas cabíveis, Roma
preferiu partir para o ataque.

Criou a Inquisição para exterminar os protestantes; proibiu a leitura


da Bíblia e sua tradução em outras línguas; classificou de heresia
qualquer ensino ou crença contrários à fé católica; sentenciou,
torturou, degolou, exterminou, excomungou, massacrou um número
incalculável de santos. "ENTÃO, VOS HÃO DE ENTREGAR PARA
SERDES ATORMENTADOS E MATAR-VOS-ÃO. E SEREIS ODIADOS DE
TODAS AS GENTES POR CAUSA DO MEU NOME" (Mateus 24.9).

Muitos pagaram com a vida pelo desejo de reformar. Alcançaram a


vitória porque resolveram enfrentar a poderosa Igreja de Roma, os
inquisidores, a fogueira, a excomunhão e toda a espécie de vexames;
enfrentaram acusações e ameaças mas não dobraram seus joelhos
diante dos papas. Vejamos alguns exemplos.
JOHN WYCLIFFE (1320 - 1384)

Wycliffe, teólogo inglês, precursor da Reforma, pregava uma Igreja


sem a direção papal, era adversário das indulgências e combatia o
excesso de bens materiais dos clérigos. Foi doutor de Teologia,
advogado eclesiástico a serviço da Coroa, e tornou-se reitor de
Lutterworth em 1374. Sua maior obra, contudo, foi a tradução das
Escrituras para o inglês. A partir daí a Palavra de Deus se fez
conhecida na Inglaterra.

Ousado e destemido, Wycliffe atacou de forma brilhante o clero


romano, acusando-o de explorar o povo e os governantes com a
venda de indulgências; de criar clima de tensão e horror ao ameaçar
os fiéis com excomunhão; de tentar conter a propagação da Palavra
ao proibir a leitura da Bíblia e a sua tradução para línguas conhecidas
do povo. Chamado a retratar-se por ocasião de uma enfermidade que
muito o enfraqueceu, disse: "Não hei de morrer, mas viver e
denunciar novamente as más ações dos frades".

Tendo sido levado pela terceira vez ao tribunal eclesiástico, e acusado


de heresia, Wycliffe declarou: "Com que julgais estar a contender?
Com um ancião às bordas da sepultura? Não! Estais a contender com
a Verdade, Verdade que é mais forte do que vós e vos vencerá".
Deus livrou Wycliffe da fogueira: faleceu repentinamente após um
ataque de paralisia. Sua voz silenciou, mas sua fé em Jesus Cristo fez
discípulos em todo o mundo.
JOHN HUSS (1369 - 1415)

Divulgador das idéias do santo Wycliffe, natural da Boêmia, depois de


completar o curso superior ordenou-se sacerdote, havendo exercido o
cargo de professor e mais tarde de reitor da universidade de Praga.
Huss, embora não estivesse de acordo com todos os ensinos de
Wycliffe, ficou bastante influenciado pelas idéias desse inglês, e
resolveu aprofundar-se mais no estudo da Bíblia. O segundo passo foi
denunciar o verdadeiro caráter do papado, o orgulho, a ambição e a
corrupção da hierarquia. Defendia a Bíblia como sendo a única regra
de fé e prática do cristão, e ensinava que a Palavra de Deus podia ser
pregada por qualquer pessoa.

Esse tipo de liberdade de pensamento não era admitido pela todo-


poderosa Igreja de Roma. A reação veio rápida. O santo Huss foi
convocado a comparecer perante o papa, em Roma. Apoiado pelos
governantes e por uma parcela da população, ele não atendeu ao
chamado. Diante de tão grande afronta ao Sumo Pontífice, Huss foi
excomungado e a cidade de Praga interditada. Com a interdição, o
povo ficaria privado das bênçãos divinas, bênçãos que somente o
papa, como representante de Deus, tinha autoridade para ministrar.
Era isso que ensinava a Igreja era assim que pensavam muitos.

O período da Inquisição - uns 600 anos - foi um período negro na


história da Igreja de Roma. Muitos povos, muitos grupos, muitas
nações se enchem de orgulho e júbilo quando falam do seu passado.
A Igreja Católica Romana não tem do que se alegrar. A lista dos
ANTIPAPAS compreende 39 sumos pontífices, no período de 217 a
1449, abrangendo, portanto, um interregno de 1.200 anos, conforme
a Enciclopédia BARSA. O clímax da imoralidade papal deu-se no
período de 1378 a 1417, "durante o qual houve diversos papas ao
mesmo tempo: a França e seus aliados obedeciam ao Papa de
Avignon, enquanto a Alemanha, a Itália e a Inglaterra ao de Roma".

No caso do santo Huss, acusado de heresia, não se sabia a quem


recorrer porque a Igreja estava dividida. Daí porque a pedido do
imperador Sigismundo, o Papa João XXIII - um dos três papas rivais -
convocou um concílio geral na cidade de Constança, ao qual
compareceram, como réus, o excomungado John Huss e o Papa João
XXIII, este acusado por vários crimes cometidos durante seu
ministério no período de 1410 a 1415: fornicação, adultério, incesto,
sodomia, roubo, simonia, assassinato. "Foi provado, por uma legião
de testemunhas, que ele havia seduzido e violado trezentas freiras, e
que havia montado um harém em Boulogne onde não menos de
duzentas meninas tinham sido vítimas de sua lubricidade".
Condenaram-no por cinqüenta e quatro crimes.
Deus colocou num mesmo tribunal um "herege" e um papa. O único
"crime" do santo Huss fora o não se submeter à vontade de Roma.
Por isso, foi condenado à fogueira. Antes da fogueira, Huss foi preso
e lançado numa masmorra. Da prisão escreveu a um amigo: "Escrevo
esta carta na prisão e com as mãos algemadas, esperando a sentença
de morte para manhã... Quando, com o auxílio de Jesus Cristo, de
novo nos encontrarmos na deliciosa paz da vida futura, sabereis quão
misericordioso Deus Se mostrou para comigo, quão eficazmente me
sustentou em meio de tentações e provas".

Em outra carta disse: "Que a glória de Deus e a salvação das almas


ocupem a tua mente, e não a posse de benefícios e bens. Acautela-te
de adornar tua casa mais do que a tua alma; e, acima de tudo, dá
teu cuidado ao edifício espiritual. Sê piedoso e humilde para com os
pobres, e não consumas haveres em festas".

Antes de ser levado ao local da execução, deu-se a cerimônia da


degradação: as vestes sacerdotais do santo Huss foram arrancadas e
sobre sua cabeça colocaram uma carapuça de papel com a inscrição
"Arqui-herege". "Com muito prazer, disse Huss, levarei sobre a
cabeça esta coroa de ignomínia por Teu amor ó Jesus, que por mim
levaste uma coroa de espinhos.

Invoco a Deus para testemunhar que tudo que escrevi e preguei foi
dito com o fim de livrar almas do pecado e perdição; e, portanto,
muito alegremente confirmarei com meu sangue a verdade que
escrevi e preguei". As chamas começaram a tomar conta do seu
corpo. Huss orou várias vezes até perder a voz: "JESUS, FILHO DE
DAVI, TEM MISERICÓRDIA DE MIM". O martírio do Santo Huss se deu
em 6 de julho de 1415, no mesmo dia de sua condenação. Naquele
mesmo dia o santo John Huss se encontrou com Jesus, no Paraíso.

JERÔNIMO DE PRAGA (1360 - 1416)

São Jerônimo, embora consciente do risco que corria, apresentou-se


ao Concílio de Constança (sudoeste da Alemanha), ano de 1414, para
defender os ensinos do seu amigo John Huss, e dar testemunho de
sua fé. Logo após haver confirmado suas idéias "heréticas", foi
encarcerado numa masmorra, alimentado a pão e água. Doente,
debilitado e abandonado por amigos, cedeu à pressão dos
inquisidores e declarou que retornaria à fé católica. Ainda assim,
retornou à prisão e lá permaneceu por trezentos e quarenta dias.

Durante esse tempo, refletiu sobre a sua fraqueza de fé e se sentiu


envergonhado de haver cedido. Verificou que não valia a pena negar
as verdades bíblicas para salvar a pele. Novamente perante o
Concílio, Jerônimo falou: "Estou pronto para morrer. Não recuarei
diante dos tormentos que me estão preparados por meus inimigos e
falsas testemunhas que um dia terão que prestar contas de suas
imposturas diante do grande Deus, a quem nada pode enganar.

De todos os pecados que cometi desde minha juventude, nenhum


pesa tão gravemente em meu espírito e me acusa tão pungente
remorso, como aquele que cometi neste lugar fatídico, quando
aprovei a iníqua sentença dada contra Wycliffe e com o santo mártir
John Huss, meu mestre e amigo".

E prosseguiu Jerônimo: "Confesso-o de todo o coração e declaro com


horror, que desgraçadamente fraquejei quando, por medo da morte,
condenei suas doutrinas. Portanto, suplico a Deus Todo-Poderoso Se
digne perdoar meus pecados, e em particular este, O MAIS
HEDIONDO DE TODOS. Provai-me pelas escrituras que estou em
erro, e o abjurarei. São as tradições dos homens mais dignas de fé do
que o Evangelho do nosso Salvador"?

São Jerônimo foi logo levado à fogueira. Quando as chamas


começaram a queimar seu corpo, orou ao Pai: "Senhor, Pai Todo-
Poderoso, tem piedade de mim e perdoa os meus pecados; pois
sabes que sempre amei Tua verdade".

JOANA D'ARC (1412 - 1431)

Uma das milhares de vítimas dos autos-de-fé do Santo Ofício.


Dizendo-se enviada por Deus, ela desejou e conseguiu, embora
parcialmente, livrar sua Pátria, a França, da dominação inglesa. A
"heroína da França" não se livrou das mãos dos inquisidores. Por
causa de suas ousadas atitudes, foi acusada de feiticeira, sortílega,
bruxa, pseudo-profeta, invocadora de espíritos malignos, idólatra
maldita e amaldiçoada, escandalosa, sediciosa, perturbadora da paz
do País, incitadora de guerras, cruelmente sequiosa de sangue
humano, mentirosa, perniciosa, abusadora do povo, mágica,
supersticiosa, cruel, dissoluta, invocadora de diabos, apóstata,
cismática e herege.

Joana d´Arc, vítima de uma traição, é feita prisioneira e entregue ao


Tribunal da Inquisição para julgamento espiritual. O inquérito é
comandado pelo Bispo Messire Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, a
quem coube intermediar o resgate da donzela por dez mil escudos
franceses, a fim de ser entregue ao Vigário Geral da Inquisição da Fé
no Reino de França. A alegação era a de que, por ela, "Deus tinha
sido ofendido sem medida, a Fé excessivamente afrontada, e a Igreja
desonrada".

O Tribunal da Inquisição funcionava assim: se o réu reconhece a


culpa, há esperança de ser reconduzido ao rebanho de Deus, e será
condenado à prisão perpétua; se não se retrata, será torturado uma
vez. Como a tortura não podia ser renovada, era apenas
"interrompida" no caso de desmaio. A nova sessão de tortura seria
uma continuação, e não uma nova tortura. Lembremos que o
emprego da tortura foi permitido pelo Papa Inocêncio III.

Condenada a ser queimada viva como relapsa, herética e feiticeira,


Joana d´Arc foi supliciada publicamente na Praça do Mercado Velho,
em Rouen (França), em 30 de maio 1431. Por ato do Papa Bento V,
em 1920, a "maldita" donzela foi canonizada. Aos olhos da Igreja
Católica ela, agora, é uma santa. Aos olhos de Deus, ela sempre foi
uma santa, a Santa Joana d'Arc.

MARTINHO LUTERO (1483 - 1546)

Considerado o fundador da doutrina protestante, o santo Lutero, de


naturalidade alemã, doutorou-se em Teologia pela Universidade de
Wittenberg, e, por esse tempo, leu pela primeira vez a Bíblia. Tendo
sido tomado de um imenso desejo de ter uma comunhão mais
estreita com Deus, resolveu ser monge e entrou na Ordem dos
Agostinianos, no ano de 1505. Lutero levava uma vida de
simplicidade, de jejum e orações. A leitura da Bíblia lhe havia
despertado a consciência. Foi tocado pela luz do Evangelho e estava
decidido em caminhar no Caminho chamado Jesus.

Em 1510, "esteve sete meses em Roma, a fim de tratar assuntos


relacionados com a Ordem, e voltou de lá impressionado com o que
vira: luxo, pompa, casas suntuosas para os monges que não raro de
banqueteavam fartamente. E não apenas isso. Ele se encheu de
espanto ao ver a iniqüidade entre o clero, "gracejos imorais dos
prelados, profanidade durante a missa, desregramento e
libertinagem". "Ninguém pode imaginar", escreveu ele, "que pecados
e ações infames se cometem em Roma... Se há inferno, Roma está
construída sobre ele".

Ainda em Roma, quando fazia penitência subindo de joelhos a


"escada de Pilatos", ouviu uma voz dizendo: "O justo viverá pela fé"
(Rm 1.17). Entendeu, então, que os homens não podem alcançar a
salvação por suas obras. As penitências exigidas pelo clero romano
não tinham valor algum. Seu afastamento de Roma se tornou cada
vez maior.

Lutero se indignou com a venda de indulgências. Pecados cometidos,


ou os que porventura fossem praticados no futuro, eram perdoados
pela Igreja, bastando que o pecador pagasse certa quantia. Lutero
pregava que somente o arrependimento e a fé em Jesus Cristo
poderiam salvar o pecador. O destemido sacerdote resolveu tomar
uma atitude extrema. Afixou na porta da igreja de Wittenberg
noventa e cinco teses contra as indulgências.

Com base na Bíblia, mostrava que o Papa ou nem qualquer homem


pode perdoar pecados. "Mostrava que a graça de Deus é livremente
concedida a todos os que O buscam com arrependimento e fé".
Rapidamente os ensinos de Lutero se espalharam pela Europa, e as
verdades bíblicas começaram a se instalar nos corações. "ASSIM
SERÁ A PALAVRA QUE SAIR DA MINHA BOCA: ELA NÃO VOLTARÁ
PARA MIM VAZIA, MAS FARÁ O QUE ME APRAZ, E PROSPERARÁ
NAQUILO PARA QUE A ENVIEI" (Isaias 55.11).

"Aquele que deseja proclamar a verdade de Cristo ao mundo, deve


esperar a morte a cada momento". Com esse pensamento Lutero se
dirigiu a Augsburgo, cidade alemã, onde se defrontaria com os
representantes do Papa Leão X. Convidado a retratar-se, Lutero não
se dobrou diante de ameaças e confirmou todas as verdades que
dissera em seus escritos. Não poderia renunciar à verdade.
O prelado inquisidor, cheio de ódio, disse-lhe: "Retrate-se ou mandá-
lo-ei a Roma". Roma seria o fim do caminho, o caminho da morte, a
morte na fogueira, tal qual acontecera com John Huss. Na madrugada
do dia seguinte, estando a cidade às escuras, Lutero conseguiu se
evadir de Augsburgo contando, para isso, com a ajuda de amigos.
Escapou milagrosamente das mãos do representante papal que
intentara prendê-lo.

Embora diante de tantas dificuldades, já classificado de herege,


excomungado e condenado, Lutero não diminuiu suas severas críticas
ao papado e às doutrinas romanas. Disse: "Estou lendo os decretos
do pontífice e... não sei se o papa é o próprio anticristo, ou seu
apóstolo...". Enquanto isso os papas intensificavam o negócio das
indulgências.

O Papa Alexandre VI, predecessor de Júlio II, foi quem instituiu a


venda de indulgências, pois precisava de dinheiro "para adornar com
diamantes e pérolas a filha Lucrécia Bórgia". Esse papa não só foi
amante de sua própria filha, a célebre Lucrécia Bórgia, como foi
amante, também, da irmã de um cardeal que se tornou o papa
seguinte, Pio III, em 1503. Os papas Júlio II e Leão X, por sua vez,
apelaram para o rendoso comércio do perdão, aquele tendo em mira
a construção da Basílica de São Pedro e este para satisfazer seus
gastos supérfluos.

Um dos encarregados da venda de indulgências, o frei João Tetzel,


fazia-o com voz forte nas feiras anuais, oferecendo a sua mercadoria.
Dizia: “Assim que o dinheiro tilinta na caixa, a alma salta fora do
purgatório”.

Ninguém mais se importava em pecar e a moralidade estava em


baixa. Se algum padre desejasse impor alguma penitência, os fiéis
apresentavam o documento comprovando a "compra" do perdão
divino. Enquanto a Igreja de Roma subtraía elevados recursos
financeiros ao povo, com heresias, superstições e ameaças, Lutero se
aprofundava no estudo da Bíblia.

Declarava abertamente que não havia distinção entre pecado mortal


e pecado venial - como dizia o catolicismo - pois, afirmava, "pecado é
pecado, sem gradação, e qualquer pecado leva ao inferno, pois afasta
o pecador de Deus". Boa parte de seus sermões era destinada a
protestar contra o comércio das indulgências, dizendo que estas eram
inúteis.

E perguntava: "Se o Papa pode libertar as almas do purgatório


quando lhe dão dinheiro, por que não esvazia de uma vez o
purgatório?" Abrimos aqui um parêntese para perguntar: se as
missas de sétimo dia podem livrar as almas do purgatório, por que
não se faz uma única missa (um missão) em favor de todas as almas
e as livra de uma só vez do fogo purificador?

Martinho Lutero continuou derrubando uma a uma, com a Palavra, as


doutrinas romanas. A um enviado do Papa Leão X, que lhe propôs
uma reconciliação e alegou, como argumento, a autoridade do Papa,
Lutero respondeu com firmeza: "Só na Bíblia e não no Papa reside a
autoridade". E continuou: "O próprio Cristo é o chefe da Igreja e não
o Papa. Não lhe é permitido estabelecer um artigo de fé, sem base
bíblica. "O papa é soberano legítimo, não com direito divino, mas
humano".

No dia 15 de junho de 1520, com a bula Exurge, o Papa Leão X


"condenou quarenta e uma proposições de Lutero, ameaçando-o de
excomunhão, se não se retratasse dentro de sessenta dias". Essa
bula condenava, em suma, a liberdade de consciência. O historiador
Schaff assim definiu o documento: "Podemos inferir daquele
documento em que estado de servidão intelectual estaria o mundo
atualmente, se o poder de Roma houvesse conseguido esmagar a
Reforma. Difícil será avaliar quanto devemos a Martinho Lutero, no
terreno da liberdade e do progresso..." Num gesto memorável de
audácia, destemor e ousadia, Lutero queimou a bula papal em praça
pública a 10 de dezembro de 1520.

Por mais de uma vez Lutero compareceu diante dos emissários de


Roma. Aconselhado a não se apresentar em razão do risco que corria,
Lutero respondeu: "Ainda que acendessem por todo o caminho de
Worms a Wittenberg uma fogueira... em nome do Senhor eu
caminharia pelo meio dela; compareceria perante eles... e confessaria
o Senhor Jesus Cristo".

Na presença do imperador Carlos V, da Alemanha, de príncipes e


delegados de Roma, que esperavam uma retratação do excomungado
herege, Lutero falou: "visto que vossa sereníssima majestade e
vossas nobres altezas exigem de mim resposta clara, simples e
precisa, darei, e é esta: não posso submeter minha fé, quer ao papa,
quer aos concílios, porque é claro como o dia que eles têm
freqüentemente errado e se contradito um ao outro. A menos que eu
seja convencido pelo testemunho das Escrituras... não posso retratar-
me e não me retratarei, pois é perigoso a um cristão falar contra a
consciência. Aqui permaneço, não posso fazer outra coisa; queira
Deus ajudar-me. Amém".

As tentativas de reconciliação do sacerdote Martinho Lutero com o


papado, ou seja, os planos de fazê-lo voltar ao aprisco de Roma
fracassaram todos: "Consinto em que o imperador, os príncipes e
mesmo o mais obscuro cristão, examinem e julguem os meus livros;
mas sob uma condição: que tomem a Palavra de Deus como norma.
Os homens nada têm a fazer senão obedecer-lhe. No tocante à
Palavra de Deus e à fé, todo cristão é juiz tão bom como pode ser o
próprio papa, embora apoiado por um milhão de concílios".

O Concílio em Worms não se deteve em examinar, pelas Escrituras,


as verdades contidas nos pronunciamentos e escritos de Lutero.
"Deus não quer - dizia ele - que o homem se submeta ao homem,
pois tal submissão em assuntos espirituais é verdadeiro culto, e este
deve ser prestado unicamente ao Criador. Alertado de que estava
proibido de subir ao púlpito, recusou-se a obedecer: "Nunca me
comprometi a acorrentar a Palavra de Deus, nem o farei".

LUTERO LIVRA-SE DA FOGUEIRA

Tão logo expirasse o prazo de um salvo-conduto que o imperador lhe


concedera, Lutero, conforme resolução do Concílio, deveria ser preso,
todos os seus escritos destruídos; a ninguém era permitido dar-lhe
comida ou bebida, e os seus discípulos sofreriam igual condenação.
Isto, em outras palavras, significava FOGUEIRA. O plano de Deus era
outro. Para livrá-lo da fogueira um grupo de amigos "seqüestrou" a
Lutero e o transportou, através da floresta, para o castelo de
Wartburgo, construído nas montanhas, e de difícil acesso.

Lutero alguns anos depois saiu daquele castelo e continuou fazendo


discípulos e pregando o Evangelho da salvação. A Reforma estava
implantada. A Luz alcançava muitos países. Iluminou a Europa, as
Américas, a América do Sul, o Brasil... porque ninguém pode algemar
a Palavra de Deus.

GALILEU GALILEI (1564 - 1642)


Físico italiano fez numerosas descobertas nos campos da Física e da
Astronomia. Com seu telescópio (luneta) descobriu as montanhas da
Lua, os satélites de Júpiter, as manchas solares, as fases de Vênus,
os anéis de Saturno. Suas descobertas e ensinos foram considerados
uma heresia pelos censores romanos. Acabrunhado, doente, preso
em Roma, assinou sua retratação. Antes, os inquisidores lhe
mostraram a sala de tortura e os respectivos instrumentos.
Combalido e ajoelhado diante dos representantes do Papa Urbano
VIII, leu e assinou sua retratação:

"Eu, Galileu Galilei, tendo sido trazido pessoalmente ao julgamento e


ajoelhando-me diante de vós, Eminentíssimos e Reverendíssimos
Cardeais, Inquisidores Gerais da Comunidade Cristã Universal contra
a depravação herética... juro que sempre acreditei em cada artigo
que a sagrada Igreja Católica, Apostólica de Roma, sustenta, ensina e
prega.. Mas porque este Sagrado Ofício ordenou-me que
abandonasse completamente a falsa opinião, a qual sustenta que o
Sol é o centro do mundo e imóvel, e proíbe abraçar, defender ou
ensinar de qualquer modo a dita falsa doutrina... com sinceridade
abjuro, maldigo e detesto os ditos erros de heresia..."

A diabólica Inquisição não só condenou os ensinos de Galileu, mas


também os de Copérnico. O Tribunal Inquisitório assim se
pronunciou: "A tese de que o Sol é o centro do sistema e não se
move ao redor da Terra, é néscia, absurda, teologicamente falsa e
herética, sendo frontalmente contrária às Sagradas Escrituras".

Galileu livrou-se da fogueira, mas passou vários meses sob prisão.


Muito doente e cego, veio a falecer no dia 8 de janeiro de 1642. E a
Igreja de Roma acabava de escrever mais um capítulo de terror em
sua história. Em janeiro de 1998, o Papa João Paulo II, formalizou o
tardio pedido de perdão ao notável astrônomo Galileu.

Podemos imaginar quão constrangedor para esse notável homem foi


ajoelhar-se diante de uma corte devassa e negar anos e anos de
estudo e observação. Dizem que Galileu, antes de morrer, balbuciou:
"a terra por si se move".

MÁRTIRES ANÔNIMOS

Wycliffe, Huss, Jerônimo e Lutero foram citados apenas como


exemplo. O caminho da fogueira foi trilhado por milhares e milhares
de mártires anônimos, gente simples, discípulos fervorosos, pessoas
indefesas e pobres, homens, mulheres, jovens, velhos e crianças,
vítimas da sanha assassina dos representantes da poderosa Igreja
Católica Romana, que, aliada ao poder das armas, teve a pretensão
de ser universal e de impor suas doutrinas aos seus súditos.
Mártires anônimos foram os albigenses e os valdenses; mártir quase
desconhecido foi Luís de Berquin, que, apaixonado pelo Evangelho,
foi estrangulado e queimado em 1529 sem tempo para dar uma
última palavra; mártires anônimos foram muitos franceses queimados
vivos com requintes de crueldade, sem direito a defesa. A todos
esses homens de fé e de coragem, baluartes da defesa das Sagradas
Escrituras como única fonte de autoridade, a eles nossa homenagem
póstuma, nossa gratidão, nossa admiração pelo que fizeram em prol
de um cristianismo livre de heresias, de idolatria, de práticas pagãs.

UM CRIME CONTRA A HUMANIDADE

Recuso-me a chamar a INQUISIÇÃO de Santo Ofício ou de Santa


Inquisição. Seria santa se inspirada por Deus ou a Seu serviço. Não
foi de inspiração divina porque Deus é amor. Deus não gera o ódio
nos corações dos homens. Ele não é a fonte do mal.

Não foi de inspiração divina a Inquisição porque Deus não iria


perseguir, torturar e executar homens e mulheres que defendiam as
Escrituras Sagradas, ou seja, a Palavra de Deus; não foi de inspiração
divina porque muitos dos papas que direta ou indiretamente
comandaram os massacres - papas, frades, monges, padres, cardeais
(o clero romano) - não possuíam a direção do Espírito Santo, pois
foram chamados de "anti-papas" em razão do baixo nível moral em
que viviam (adultério, imoralidade sexual, estupros, luxúria, etc.).

Quem comandou a Inquisição ou os Tribunais Eclesiásticos foi o


próprio Satanás. O maior inimigo de Deus e do homem, ele, o Diabo,
foi quem arquitetou esse plano diabólico nos palácios de Roma, pois
ele era e é o mais interessado em algemar a Palavra de Deus; em
não permitir a divulgação e propagação do Evangelho; em cristianizar
o paganismo ou paganizar o cristianismo. A Inquisição teve, portanto,
origem diabólica. O paradoxo é que esse crime contra a humanidade
foi urdido no seio de uma igreja que se declarou infalível e dona da
verdade.

Em nenhuma outra época se assistiu com tanta realidade o


cumprimento da profecia de Jesus:

-"Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e vos


matarão. Sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.
Nesse tempo, muitos se escandalizarão, trair-se-ão mutuamente e se
odiarão uns aos outros. Surgirão muitos falsos profetas, e enganarão
a muitos... e este evangelho do reino será pregado em todo o mundo,
em testemunho a todas as nações. Então virá o fim". (Mateus 24.9-
14).
O cumprimento dessa profecia continua em andamento. Milhares de
cristãos são mortos anualmente em todo o mundo. Mas, por outro
lado, o evangelho do reino continua sendo pregado ("será pregado
em todo o mundo"), mudando a vida de milhões de pessoas.

As Cruzadas e a Inquisição mataram mais gente do que o nazismo na


Segunda Guerra Mundial, na qual morreram seis milhões de judeus.
Os massacres em nome de Deus vitimaram um número bem superior
de pessoas classificadas de "hereges", acusadas de desenvolverem
uma fé contrária à da Igreja Católica, de não aceitarem a "infalível"
autoridade papal e de combaterem, ousadamente, a imoralidade, a
ganância e a corrupção no clero romano.

Não se tem notícia de que os assassinos da Inquisição tenham se


submetido a um tribunal internacional para responder por seus
crimes. Um ou outro papa foi preso e condenado, como no caso do
Papa João XXIII (1410-1415) julgado e condenado pelo Concílio de
Constança por cinqüenta e quatro crimes da pior espécie.

A História condena a todos, mas a justiça maior virá do céu: o Rei


dos reis e Senhor dos senhores, o Justo Juiz, quando voltar,
derramará seus juízos sobre a Terra, e os criminosos que morreram
sem arrependimento e conversão receberão o merecido castigo. O
sangue dos mártires estará sempre na lembrança dos homens. As
perseguições e os massacres foram contra o próprio Jesus. Vejam o
que disse Jesus a Saulo, este que perseguia os cristãos (Atos 9.4-5):

- Saulo, Saulo, por que me persegues?

- Eu sou Jesus, a quem tu persegues.

PALAVRAS FINAIS

O que relatamos neste estudo representa apenas uma pequena


parcela do que realmente foi a diabólica Inquisição e o que ela
representou de negativo para toda a humanidade. Os representantes
papais nunca agiam sozinhos. A igreja Católica estava atrelada de tal
forma aos imperadores, reis e governos que, por vezes, não se sabia
o que pesava mais num massacre: se o motivo religioso, em que
Roma defendia seus altos interesses, ou o político, sob manobra dos
governantes. O certo é que a parceria Igreja-Estado fabricou uma
arma mortífera: A Inquisição. O sanguinário Hitler tentou purificar a
raça ariana executando o povo judeu. Os sanguinários inquisidores
tentaram purificar a fé católica matando os "hereges".

Uma pergunta que devemos fazer é a seguinte: a Igreja Católica,


apostólica e romana, foi realmente guiada desde sua instituição pelo
Espírito Santo? Se a resposta for negativa, então a criação da
Inquisição está plenamente justificada. Se positiva a resposta, isto é,
se aceitarmos a versão de que o Espírito de Deus guiou essa Igreja
desde o seu nascedouro, teremos que fazer outra indagação: O
Espírito Santo errou ao escolher homens sanguinários para dirigir a
Igreja de Cristo? O Espírito de Deus erra?

Quando lemos o livro de Atos, deparamo-nos com o Senhor Jesus


orientando, exortando e guiando Sua Igreja e até comissionando
obreiros. Vejamos alguns exemplos:

1. "O anjo do Senhor disse a Filipe: Levanta-te, e vai para a região do


sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta"
(Atos 8.26).

2. "Disse o Senhor a Ananias, numa visão: Levanta-te, e vai à rua


chamada Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de
Tarso, chamado Saulo, pois ele está orando... vai, ele é para mim um
vaso escolhido para levar o meu nome perante os gentios, os reis e
os filhos de Israel" (Atos 9.10-15).

3. "Disse o Espírito Santo: Apartai-vos a Barnabé e a Saulo para a


obra a que os tenho chamado" (Atos 13.1-2).

4. "Passando (Paulo e Timóteo) pela Frígia e pela província da


Galácia, foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a palavra
na Ásia. Quando chegaram à Misia, tentavam ir para a Bitínia. MAS O
ESPÍRITO DE JESUS NÃO LHO PERMITIU" (Atos 16.6-7)

Assim, em muitas ocasiões o Espírito de Deus conduziu os destinos


da Igreja de Cristo. Em nenhum momento vêem-se aqueles santos
cometerem qualquer deslize, qualquer ato reprovável. Não
alimentavam o desejo de exterminar as pessoas que não aceitavam o
Evangelho ou não se convertiam.

Para justificar os crimes cometidos pelos inquisidores a Igreja de


Roma põe a culpa no Diabo. O Espírito Santo permitiu que forças
demoníacas se instalassem na sede dessa Igreja, em Roma, donde
saíram as bulas e decretos papais autorizando ou consentindo as
Cruzadas, os massacres, as perseguições? Proibindo a tradução da
Bíblia em outras línguas? Proibindo aos leigos a leitura das Sagradas
Escrituras? Autorizando a venda de perdão (indulgências) como se
fora uma mercadoria? Impedindo a livre manifestação do
pensamento?

Não, não foi o Espírito de Deus que comandou essa carnificina


chamada Inquisição. Quem armou essa trama foi o mesmo espírito
que enganou a Eva; o mesmo que tentou a Jesus no deserto, e o
mesmo que encarnou em Hitler. Foi ele mesmo, o Diabo, que
assumiu o comando em Roma e dirigiu o banho de sangue na Europa
e em outras partes do mundo. A igreja Católica perdeu uma das
melhores oportunidades de sua história de voltar-se à Palavra de
Deus, remover os empecilhos, rever suas doutrinas, ouvir os
reformadores, humilhar-se, arrepender-se e suplicar a misericórdia
do Senhor. Somente assim a influência maligna seria contida.

Por mais que desejemos fazer reflexões com serenidade, não


conseguimos conter nossa perplexidade diante de tantos desatinos
promovidos por homens que se diziam "Vigários de Cristo" e
"infalíveis". Os crimes cometidos em nome da fé católica, quer nas
Cruzadas, quer nos Tribunais de Inquisição, são crimes
inqualificáveis, crimes contra a humanidade, e como tal devem ser
lembrados por todos os séculos.

Jesus afirmou que "AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERÃO


CONTRA A SUA IGREJA" (Mateus 16.18). Não prevaleceram. A Igreja
de Cristo, que parecia aterrada diante do poder de Roma, saiu-se
vitoriosa. As muralhas de Jericó foram derrubadas. De nada valeram
as perseguições, as humilhações e a matança. A luz do Evangelho se
espalhou por todo o mundo.

Não houve como impedir a propagação do Evangelho do nosso


Salvador. Mais uma vez o inimigo foi derrotado. Acossados em
determinada cidade ou região os crentes procuravam refúgio nas
cavernas, nos guetos ou em outras nações. Mas por onde passavam
davam testemunho de sua fé. Por toda a parte a fé bíblica era aceita
com alegria, em substituição à fé católica.

A Igreja de Roma viu cair por terra seu intento de ser universal. A
palavra "católica" quer dizer universal. Nas regiões onde o
protestantismo prevaleceu, a Igreja romana foi substituída por uma
série de igrejas evangélicas autônomas, completamente desligadas
do poder papal. O sangue dos justos serviu para regar a Palavra
plantada. A Inquisição não impediu o crescimento numérico e
qualitativo dos protestantes, que, submissos a Deus e à Sua Palavra,
desprezam tradições e dogmas não alinhados com a Bíblia Sagrada.

Louvado, engrandecido e exaltado seja o nome do nosso Senhor e


Salvador Jesus Cristo. Eis aí apenas um esboço do que foi a diabólica
INQUISIÇÃO, que tantos malefícios causou à humanidade. Muito
longe estamos de conhecer todos os labirintos dos tribunais
inquisitórios. O atual representante da Igreja de Roma (estamos em
agosto/98) tem ensaiado pedidos de perdão, como no caso de Galileu
Galilei. Mas pergunto: pedido de perdão a quem? A Deus? À
Humanidade? Às famílias das vítimas? Ora, não se pode pedir perdão
a Deus em nome de um pecador. Ademais, não é o caso de pedido de
perdão em nome da entidade religiosa, porque não será a Igreja
Romana que receberá o castigo eterno. O castigo será individual.
Cada um receberá pessoalmente a sentença do Justo Juiz. Logo, o
pedido de perdão formulado pela Igreja Católica, através de seu líder,
é na verdade um gesto elogiável, uma manifestação de humildade,
mas, por si só, não apaga o pecado dos algozes da Inquisição. Sem
arrependimento não há perdão e sem perdão não há salvação.

Todos os envolvidos nos massacres - papas, cardeais, frades,


monges, reis e rainhas - se não se arrependeram de seus crimes e
não rogaram o perdão de Deus, ou seja, se não se converteram ao
Senhor Jesus antes de morrerem, certamente estão num lugar de
TORMENTOS, e ali aguardarão a plenitude dos tempos para serem
lançados no GEENA. É assim que ensina a Palavra de Deus:

"Mas, quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e


aos HOMICIDAS, e aos adúlteros, a aos feiticeiros, e aos idólatras, e
a todos os mentirosos, a sua parte será NO LAGO QUE ARDE COM
FOGO E ENXOFRE, que é a segunda morte" (Apocalipse 21.8).

Pintura representando um "Auto de fé" da Inquisição Espanhola


Visões artísticas sobre o tema geralmente apresentam cenas de
tortura e de pessoas queimando na fogueira durante os rituais.

INQUISIÇÃO NUNCA MAIS

Católicos e protestantes hoje vivem em paz. A Igreja Católica não


mais classifica os protestantes de "hereges". Hoje, chama-os de
"irmãos separados". Exceção feita às escaramuças na Irlanda do
Norte, que duram 30 anos, crentes e católicos não se defrontam, não
se enfrentam no corpo a corpo. O Vaticano, não se pode negar,
empenha-se pela paz entre as nações. A Igreja Católica reconhece
seus erros e, humilde, pede perdão à Humanidade. Devemos perdoá-
la, mas não podemos apagar a História. A verdade é que as fogueiras
do Santo Ofício não mais se acenderão. Nunca mais Inquisição.
Graças a Deus.

GLOSSÁRIO

ABJURAR - Renunciar solenemente a uma crença ou


religião.Desdizer-se ou retratar-se.

ALBIGENSES - Membros de uma seita religiosa no sul da França, nos


séc. XII e XIII. Negavam a realidade da encarnação de Jesus Cristo e
condenavam a procriação.

ANTIPAPAS - São considerados os falsos papas. Chefe de igrejas


locais, geralmente bispo, que pretendeu, por oposição ao Romano
Pontífice, governar toda a Igreja Católica. Hipólito foi o primeiro anti-
papa de 217 a 235, nascido em Roma, eleito pelo povo.

APÓSTATA - Aquele que renuncia à fé cristã.

AUGSBURGO - Cidade da Alemanha.

AUTOS-DE-FÉ - Cerimônias em que se executavam as sentenças da


Inquisição. Passou a chamar-se assim, principalmente, o suplício dos
penitentes pelo fogo.

CLÉRIGO - Aquele que pertence à classe eclesiástica. Sacerdote


cristão.

CLERO - A corporação dos sacerdotes. Classe eclesiástica.

CONCÍLIO - Reunião de bispos da Igreja Católica, convocados para


estudar assuntos de interesse eclesiástico.

CONSTANÇA - Cidade da Romênia.

CONTRA-REFORMA - Movimento restaurador iniciado pela Igreja


Católica, com vistas a superar as dificuldades surgidas com a
Reforma. O Concílio de Trento (1545 - 1563) concretizou esses
esforços.

CRUZADAS - Expedições militares de caráter religioso que se faziam


na Idade Média, contra hereges ou infiéis.
EXCOMUNGAR - Separar da Igreja Católica qualquer dos seus
membros. Expulsar, tornar maldito, condenar.

GUETO - Rua ou bairro onde são isoladas pessoas ou grupos por


imposição econômica, racial ou religiosa.

HEREGE - Pessoa que professa doutrina contrária ao que foi definida


pela Igreja como sendo matéria de fé. Eram chamados os que se
opunham às doutrinas da Igreja Romana.

HUGUENOTE - Designação depreciativa que os católicos franceses


deram aos protestantes, especialmente os calvinistas, e que estes
adotaram.

ICONOCLASTA - Indivíduo que não reverencia imagens ou obras de


arte. Que as destrói.

ICONÓLATRA - Diz-se do indivíduo que adora ou venera imagens,


ídolos ou obras de arte.

IGNOMÍNIA - Grande desonra. Infâmia.

IMPETÉRRITO - Destemido, impávido, sem temor.

INCESTO - União sexual ilícita entre parentes consangüíneos, afins ou


adotivos.

INDULGÊNCIA - Graça concedida pela Igreja Católica aos seus


membros, perdoando total ou parcialmente a pena devida a um
pecado. Perdão de pecados. A venda de indulgências pelo Papado foi
a principal causa da Reforma.

INQUISIÇÃO - Nome dado a um tribunal eclesiástico criado


oficialmente em 1229, no Concílio de Toulouse, também chamado
Tribunal do Santo Ofício, com poderes para julgar, condenar à morte
ou prender pessoas suspeitas de não professarem a fé católica.

INQUISIDOR - Juiz do Tribunal da Inquisição.

LUBRICIDADE - Qualidade de lúbrico: lascivo, sensual, devasso.

MANIQUEU - Adepto ou membro do maniqueísmo, seita que teve


simpatizantes na Índia, China, África, Itália e sul da Espanha,
segundo a qual o Universo foi criado e é dominado por dois princípios
antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto
ou o Diabo.
MÁRTIR - Pessoa que sofreu tormentos, torturas, perseguições ou a
morte por sustentar a fé cristã.

MONGE - Religioso que vive em mosteiros e está sujeito a uma regra


comum.

NOITE DE SÃO BARTOLOMEU - Designação dada à matança de


huguenotes que se iniciou em Paris na noite de S. Bartolomeu (em 24
de agosto de 1572) e se estendeu por toda a França, e até 3 de
outubro daquele ano o número de mortos elevou-se a 50.000.

PAPA - Título dado ao chefe da Igreja Católica Apostólica Romana.


Também chamado Sumo Pontífice Romano.

PROCESSO SUMÁRIO - Objetivo, resumido, sem formalidades, rápido,


sem apelação para a instância superior, sem direito a defesa.

PROTESTANTES - Nome dado aos partidários do protestantismo que,


no séc. XVI, compreendia uma crença contrária à fé católica e à
autoridade suprema do papa.

REFORMA - Movimento religioso e político que, no princípio do séc.


XVI, quebrou a unidade católica, dividindo a Igreja em dois campos:
o católico e o protestante.

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - Conflito iniciado no dia 1º de


setembro de 1939 e terminado em 2 de setembro de 1945. Iniciou-se
com a invasão da polônia pelos alemães. A Inglaterra e a França
declararam guerra à Alemanha poucos dias depois. A maioria dos
países do mundo participou dessa guerra, inclusive o Brasil. O conflito
terminou com a derrota dos alemães.

SIMONIA - Tráfico de coisas sagradas ou espirituais, tais como


sacramentos, dignidades, benefícios espirituais.

SODOMIA - Relação sexual anal entre homem e mulher, ou entre


homossexuais masculinos.

SÚDITOS - Aqueles que estão submetidos à vontade e outra pessoa.


Vassalos.

TE DEUM - Expressão de origem latina que significa "A ti Deus".


Cântico da Igreja Católica em ação de graças, que principia por essas
palavras.

TOULOUSE - Cidade do sudoeste da França.


VALDENSES - Nome pelo qual são conhecidos os membros de um
grupo protestante fundado na região francesa de Vaud (hoje cantão
da Suíça), no Século XII.

REFERÊNCIAS BIOGRÁFICAS

ALEXANDRE IV - Papa de 1254 a 1261. Autorizou a instalação do


Tribunal Inquisitório em França.

BONIFÁCIO VIII - Papa de 1294 a 1303. Sobre ele diz a The Catholic
Encyclopedia: "Dificilmente qualquer possível crime foi omitido -
infidelidade, heresia, simonia, grosseira e inatural imoralidade,
idolatria, mágica, perda da Terra Santa, morte de Celestino V, etc.
Historiadores protestantes e até mesmo modernos escritores
católicos classificam-no entre os papas iníquos, como ambicioso,
arrogante e impiedoso, enganador e traiçoeiro. O poeta Dante visitou
Roma e descreveu o Vaticano como um "esgoto de corrupção". Uma
das frases desse Papa: "Gozar e deitar-me carnalmente com
mulheres ou com meninos não é mais pecado do que esfregar as
mãos".
GALILEU GALILEI - (1564 - 1642) - Italiano nascido em Pisa.
Introduziu o método experimental como o mais importante dos
métodos das ciências naturais. Fez numerosas descobertas e
invenções, a exemplo da luneta (mais tarde telescópio) com que
desvendou alguns mistérios dos astros. Defendeu a tese de que a
Terra e os demais planetas se moviam em torno do Sol, sendo este o
centro do Sistema. A Igreja Católica prestou um desserviço à Ciência
ao julgar, condenar e prender um dos mais fecundos investigadores
da época.

GREGÓRIO XIII - Papa no período de 1572 a 1585. Aprovou a


Cruzada contra os huguenotes, cujo desfecho se deu a 24 de agosto
de 1572, "Noite de S. Bartolomeu". Como troféu, recebeu a cabeça
de Gaspar de Coligny.
INOCÊNCIO III - Papa no período de 1198 a 1216. Autorizou a
Cruzada contra os albigenses, sul da França, em 1208.

JERÔNIMO DE PRAGA - Religioso tcheco, discípulo do reformador João


Huss; acusado de ataques às autoridades eclesiásticas, foi condenado
à fogueira pelo Concílio de Constança em 1416. Nasceu em 1360.

JOANA D´ARC - (1412 - 1431) - Heroína francesa também chamada


a "Virgem de Orleans". À frente de um pequeno exército que lhe
confiara o Rei Carlos VII, venceu aos ingleses em Orleans e Patay
(1429). Considerada herética, foi condenada à fogueira em 1431 e
canonizada em 1920.

JOHN HUSS - Nascido em 1369 e queimado vivo na fogueira em


1415. Teólogo e reformador religioso tcheco natural de Husinec,
Boêmia. Acusado de heresia e condenado à morte por não abjurar
suas idéias.
JOHN WYCLIFFE - Nasceu em 1320 e faleceu em 1384. Teólogo
inglês, precursor da Reforma, natural e Hipswell. Pregava uma Igreja
sem a direção papal, era adversário das indulgências e combatia o
excesso de bens materiais dos clérigos. Suas doutrinas foram
condenadas no concílio de Constança.

JOSÉ JEOVAH MENDES - Nasceu em Itapiúna (CE), a 24 de maio de


1955. Na década de 60 ingressou na Escola Apostólica de Baturité -
CE, dos padres jesuítas, para dar curso à sua vocação sacerdotal.
Alguns anos depois se desligou dessa Ordem e ingressou no
Convento dos Franciscanos, em Canindé (Ce), onde permaneceu até
1976. Autor do livro "OS PIORES ASSASSINOS E HEREGES DA
HISTÓRIA", onde faz duríssimas críticas à Igreja Católica Apostólica
Romana.

LEÃO X - Papa no período de 1513 a 1521. Nasceu em Florença


(Itália). Excomungou formalmente a Lutero em 1521. Seu nome civil:
Giovanni de Médicis. Seus recursos financeiros garantiram rápida
ascensão na Igreja: aos oito anos de idade já era arcebispo, e aos
treze foi cardeal. A The Catholic Encyclopedia relata que Leão X
"entregou-se sem restrições aos divertimentos... possuído por um
amor insaciável ao prazer... gostava de dar banquetes e
divertimentos caros, acompanhados por orgia e bebedeira".

MARTINHO LUTERO - Nascido em 1483, natural de Eisleben, Saxônia,


fundador da doutrina protestante, em oposição ao catolicismo.
Doutorou-se em Teologia pela Universidade de Wittenberg. Em 1517
submeteu suas teses a debate. Em 1520 foi excomungado como
herege pelo Papa Leão X. faleceu em 1546.

TOMÁS DE TORQUEMADA - (1420 - 1498) - Sacerdote espanhol da


Ordem dos Dominicanos, inquisidor-geral da Espanha por muitos
anos, responsável pela morte de 10.200 cristãos não católicos na
fogueira, afora cerca de cem mil pessoas encarceradas ou expulsas
do país.

BIBLIOGRAFIA

ALMEIDA - Bíblia de estudo pentecostal. Revista e corrigida.


Sociedade Bíblica do Brasil.

CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos.


ENCICLOPÉDIA BARSA. Enciclopédia Britânica Ltda. 15 volumes,
edição 1977.

MENDES, Jeovah. Os piores assassinos e hereges da história. 1997.

VIDAS ILUSTRES. Coleção - Volumes VI (os cientistas) e IX (líderes


religiosos).

WHITE, Ellen G. O grande conflito. Edição condensada; Tradução de


Hélio L. Grellmann; 1992.

WOODROW, Ralph. Babilônia: a religião dos mistérios.

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INQUISIÇÃO – INSTRUMENTOS DE TORTURA E EXECUÇÃO


http://www.historiadigital.org/2010/04/30-instrumentos-de-tortura-e-
execucao.html

Roda Alta

A roda alta era reservada aos criminosos responsáveis por delitos


contra a ordem pública: assassinos, ladrões, estupradores. De uso
muito comum na Europa alemã, na Baixa Idade Média até o início do
Século XVIII. Era um suplício duplo: o réu era colocado nu, deitado
no chão, com os pés e as mãos fixados em anéis de ferro. Sob seus
ombros, cotovelos, joelhos e tornozelos, eram colocados robustos
pedaços de madeira.

Então, o carrasco, com a roda, despedaçava-lhe todos os ossos,


esmagando as juntas, mas evitando ferimentos mortais. Na segunda
parte do suplício, o corpo da vítima, assim todo triturado, era
dobrado sobre si mesmo e colocado em cima de uma roda de carroça,
na horizontal, sobre uma estaca, e ali deixado por vários dias até
morrer. Alguns chegavam a durar vinte dias nessa posição, e eram
alimentados à noite para prolongar o seu sofrimento.
Viola das Comadres

A viola das comadres existia em vários modelos: em ferro ou em


madeira, para uma ou duas mulheres, mas a sua destinação era
sempre a mesma. Mais que um instrumento de tortura propriamente
dito, representava um instituto da justiça punitiva medieval e era
usado no confronto daquelas senhoras que tivessem feito um
escândalo ou tivessem sido fofoqueiras ou briguentas.

Outras variações desse instrumentos punitivo eram reservadas às


mulheres que se batiam em público (neste caso eram fechadas em
uma única viola e obrigadas a "conviver" por um dia inteiro), além
das moças que engravidassem antes de se casar. Neste caso, eram
usadas as "tranças de palha", que as infames eram obrigadas a usar
na frente das portas das principais igrejas, nos dias de festa.

Açoite

O açoite é um castigo conhecido e utilizado desde os tempos mais


remotos. No período medieval, era reservado principalmente aos
vagabundos e mendicantes, mas não eram excluídas as mulheres da
época responsáveis por escassa fidelidade aos maridos ou de ultraje a
noções usuais de pudor. A família dos açoites é vastíssima, e cada
período histórico teve seus modelos preferidos.

De fato, no período medieval, era usado o flagelo em forma de


estrela, aqui apresentado como açoite de ferro. Havia também outro
modelo conhecido como "gato de nove rabos", de efeito atroz. Este,
de fato, servia para tirar a pele das costas e do abdômen e, para
aumentar o seu efeito, as cordas eram banhadas em uma solução de
salmoura.

Cavalete

No cavalete, o condenado era colocado deitado com as costas sobre o


bloco de madeira com a borda cortante, as mãos fixadas em dois
furos e os pés em anéis de ferro. Nesta posição (atroz por si mesma,
se pensarmos que o peso do corpo pesava sobre a borda cortante),
era procedido o suplício da água.

O carrasco, mantendo fechadas as narinas da vítima, introduzia na


sua boca, através de um funil, uma enorme quantidade de água:
dada a posição, o infeliz corria o risco de sufocar, mas o pior era
quando o carrasco e os seus ajudantes pulavam sobre o ventre,
provocando a saída da água, então, se repetia a operação, até ao
rompimento de vasos sanguíneos internos, com uma inevitável
hemorragia que colocava fim ao suplício.

Berlinda

A berlinda existia nos locais de mercado e feiras, ou na entrada das


cidades. Era um instrumento considerado obrigatório na Idade Média,
em quase todas as regiões da Europa. Este e outros instrumentos,
fazem parte de uma série de punições corporais, que deviam
constituir um exemplo para os outros.
Era reservada aos mentirosos, ladrões, beberrões e às mulheres
briguentas. Era um castigo considerado leve, mas quase sempre a
pena virava suplício e tortura quando a vítima (pescoço e braços
imobilizados na trave) levava comumente tapas e/ou era insultada
pelo povo.

Algemas

As algemas da época dos antigos egípcios, eram instrumentos


utilizados para agrilhoar escravos e condenados. As de madeira,
serviam para a transferência de prisioneiros, impedindo, assim, que
fugissem. As de ferro, além do uso acima, eram também utilizadas
para pendurar as vítimas nos muros das prisões, criando condições
de imobilidade que levavam, muitas vezes, à loucura.

Balcão de Estiramento

O suplício do balcão de estiramento, ou alongamento longitudinal


mediante tração, era utilizado comumente já no tempo dos egípcios e
babilônios. Desde a Idade Média, até o final do Século XVIII, esse e
outros instrumentos para desmembramento, constituíam apetrechos
fundamentais em cada sala de tortura da Inquisição.

A vítima era colocada deitada sobre um banco e tinha os pés fixados


em dois anéis. Os braços eram puxados para trás e presos com uma
corda acionada por uma alavanca. A partir desse momento,
começava o estiramento que, imediatamente, deslocava os ombros e
as articulações do condenado, seguido pelo desmembramento da
coluna vertebral e, então, pelo rompimento dos músculos,
articulações, abdômen e peito. Antes desses efeitos mortais, porém,
o corpo do condenado se alongava até trinta centímetros.

O Despertador

O despertador foi idealizado pelo italiano Ippolito Marsili, e deveria


marcar uma mudança decisiva na história da tortura. Seria um
sistema capaz de obter confissões, sem infligir crueldade ao corpo
humano. Não se quebrava nenhuma vértebra, calcanhar ou junta da
vítima. Consistia o aparelho em deixar o condenado acordado o maior
espaço de tempo possível. Era também denominado "suplício do
sono".

O tormento do despertador, definido no início como tortura não cruel,


diante da Inquisição teve muitas variações, até chegar ao
procedimento absurdo de se amarrar com cordas firmes a vítima,
suspendê-las e deixá-las cair com todo o peso do corpo contra o ânus
e as partes sexuais mais sensíveis sobre a ponta da pirâmide,
esmagando os testículos, o cóccix e, no caso de uma condenada, a
vagina, causando dores atrozes. Muitas vezes a vítima desmaiava de
dor. Então era reanimada para se repetir a operação. O despertador
passou, então, a ser chamado "o berço de Judas".

Esmaga-Seios
No Século XV, as bruxas e a magia estavam em evidência. As crenças
populares nesse campo eram tão enraizadas, que foi muito ativo o
comércio do "óleo santo", cinzas, hóstias consagradas, banha de
cadáveres, sangue de morcego e similares. Então, as bruxas e os
bruxos passaram a ser considerados "hereges". Assim, o combate à
heresia foi levado para o terreno da magia negra.

Era comum, também, atribuir-se a uma pessoa bem-sucedida em


negócios ou com o dom de sucesso repentino a acusação de magia.
E, dentre vários instrumentos de suplícios, geralmente preferia-se
recorrer ao ferro em brasa, que o fogo sempre foi mais "eficaz" na
luta contra os demônios. Os esmaga-seios, aquecido em brasa, fazia
parte dos instrumentos empregados contra as bruxas. Na Franca e na
Alemanha, esse instrumento tinha o nome de tarântula, ou aranha
espanhola. Com ele se despedaçava o peito das meninas-mães ou
das culpadas de aborto voluntário.

Guilhotina

A Revolução Francesa apagou todos os rastros da tortura, mas deixou


de pé o patíbulo. O inventor da guilhotina foi o filantropo Dr. Ignace
Guillotin. A Assembléia sancionou uma lei, em 3 de julho de 1791,
pela qual "todas as pessoas condenadas à morte terão a cabeça
cortada".

Um ano depois, iniciou-se a utilização da guilhotina. Depois de


diversas experiências feitas com cadáveres, morreu na guilhotina o
primeiro condenado, no dia 25 de abril de 1792. Foi decapitado o
condenado por nome Nícola Giacomo Pelletieri, e o carrasco foi
Charles Henry Sansom, o mesmo que, em seguida, decapitaria o rei
da França, Luis XVI.
Empalador

A tortura do empalador está entre os suplícios mais ferozes e


bárbaros. É típico dos países do Oriente Médio. Praticavam-na, talvez
como pioneiros, os reis assírio-babilônicos, e em larga escala. Destes,
passou aos turcos e é provavelmente através deles que sua triste
utilização difundiu-se na Europa Medieval. Era uma punição
geralmente imposta aos prisioneiros capturados com armas nas
mãos.

As vítimas eram, primeiramente, desnudadas e, então, literalmente


enfiadas de baixo para cima numa estaca pontiaguda. Em similiar
posição, eram deixadas sobre os muros aos castelos invadidos, ou em
frente às fortalezas assediadas. Atroz era a agonia dos infelizes que
sobreviviam por diversos dias até que, para livrá-los, alcançava-os a
morte por hemorragia.

Cócegas Espanholas

Similar a um garfo encurvado, as cócegas espanholas eram usadas


para fazer "cócegas" no inquirido, em todas as partes do seu corpo.
Era usado na Península Ibérica, de 1300 a 1700. Servia, também,
para arrastar as vítimas em frente aos tribunais, sem tocá-los com as
mãos. Grande parte dos prisioneiros eram sujos, com doenças e
infecções.
Esmaga-Polegar

O esmaga-polegar era um instrumento usado como alternativa às


principais torturas, ou um tipo de amedontramento, antes de
começarem as próprias. O acusado sofria a mutilação do polegar
simplesmente com o aperto do parafuso. Usado na Alemanha e na
Itália do Norte entre 1300 e 1700, esse método muito doloroso servia
para obter delações, informações ou confissões de delitos, muitas
vezes não cometidos.

Roda do Despedaçamento

A roda do despedaçamento produzia um sistema de morte horrível. O


réu era amarrado com as costas na parte externa da roda. Sob ela
colocavam-se brasas, e o carrasco, girando a roda cheia de pontas,
fazia com que o condenado morresse praticamente assado. Em
outros casos, no lugar de brasas se colocavam instrumentos
pontudos, de maneira que o corpo ia sendo dilacerado à medida que
se movimentava a roda. Esteve em uso na Inglaterra, Holanda e
Alemanha, no período de 1100 a 1700.
Esmaga-Joelhos

O esmaga-joelhos era colocado na perna da vítima, na altura do


joelho, e apertado até que as pontas penetrassem na carne,
estraçalhando a rótula. O exercício era repetido várias vezes, o que
causava inutilização permanente da perna. Era uma tortura aplicada
na Ásia, principalmente no Sião, até o Século XIX. Era utilizada
contra ladrões e estelionatários. Para os assassinos, depois da
tontura, vinha a morte por decapitação.

Empalador ao Contrário

O empalador ao contrário é considerado ainda pior do que o


empalador original. Foi usado pelos turcos de "Solimão, o Magnífico",
na conquista da Europa Oriental. Foi usado, também, na Iugoslávia,
Romênia, Hungria e Bulgária. A morte era terrificante e lenta, porque
não chegava até que a estaca atingisse a garganta, porquanto o
sangramento (uma vez que a vítima estava de cabeça para baixo) era
muito lento.
Serrote

O serrote era um instrumento de execução. O condenado era


suspenso pelos pés e, então, o carrasco iniciava a operação de serrá-
lo de cima para baixo. O motivo desta posição era assegurar uma
oxigenação do cérebro e impedir que o sangramento fosse muito
forte e rápido. Assim, a vítima não perdia a consciência até que o
serrote chegasse no umbigo.

A esta morte cruel foram condenados todos os oficiais franceses


capturados pelos espanhóis na campanha de Napoleão pela conquista
da Península Ibérica, em 1807. No final da guerra, a vingança
francesa foi muito brutal. No Museu do Prado, de Madri, muitos
quadros representam tais episódios.

Forquilha do Herege

Ao herege era reservado um tratamento diferente daquele dado aos


condenados comuns, visto que o objetivo da penitência era a sua
alma, ainda que no momento da morte. A Inquisição espanhola
representava a fase aguda do processo acusatório contra as heresias,
e atingiu índices de extrema crueldade. Todos os instrumentos de
tortura não eram senão o preparo para a morte da vítima, que se
aproximava a passos largos.

A forquilha do herege era colocada no tórax e embaixo do queixo do


condenado, e com uma cinta de couro era apertada contra o pescoço,
fazendo com que as pontas penetrassem na carne. Foi muito usada
no período de 1220 a 1600. Não era usada para obter confissões,
mas como uma penitência empregada antes da execução do
condenado.

Cadeira Inquisitória Menor

A cadeira inquisitória menor era usada na Europa Central,


especialmente em Nuremberg e em Fegensburg, até 1846, durante
os procedimentos judiciais. O inquirido apoiava todo o seu peso sobre
o assento, que era colocado em posição inclinada para a frente.

Com o passar das horas, a posição incômoda tornava-se muito


dolorosa, pelo efeito das agulhas nos braços e nas costas. Em outras
variações, a cadeira, muitas vezes de ferro, podia ser aquecida -
sobre cujas pontas incandescentes tinha de sentar o condenado.

O Machado

O machado talvez seja o mais antigo instrumento de suplício capital.


É conhecido em todos as partes do mundo. A execução pelo machado
era reservada aos condenados nobres, enquanto os plebeus eram
supliciados por instrumentos que comportavam longas agonias antes
da morte.

Pelo machado foi decapitado Jacques D'armagnac, duque de


Nemours, condenado em 1477 pelo Parlamento por crime de lesa-
majestade, em Paris. Os filhos dele foram condenados a ficar sob o
palco de execução para serem banhados pelo sangue do pai. Desse
modo foram decapitados também, em 1535, João Fisher, bispo de
Rochester, e Thomas Morus, por não terem se submetido às ordens
vigentes.

Virgem de Nuremberg

A idéia de se mecanizar a tortura nasceu na Alemanha, e ali originou-


se a virgem de Nuremberg. Foi chamada assim porque o seu
protótipo foi construído no subterrâneo do tribunal daquela cidade. A
primeira execução de que se tem notícia foi realizada em 1515.

Diz-se que a pena foi aplicada a um falsário que permaneceu no


interior da Virgem entre espasmos atrozes durante três dias. As
lâminas eram móveis e postas em posição tal que não podiam matar
imediatamente o condenado. Somente o feria gravemente, fazendo
com que morresse de hemorragia.

Cadeira Inquisitória

A cadeira inquisitória era instrumento essencial em interrogatórios na


Europa Central, especialmente em Nuremberg, até o ano 1846. O réu
sentava-se nu, e, com o mínimo movimento, as agulhas penetravam-
lhe o corpo, provocando efeitos terríveis. Em outras versões, a
cadeira apresentava assento de ferro, que podia ser aquecido até
ficar em brasa.

A cadeira do retrato foi encontrada no castelo San Leo, próximo a


Rimini, na Itália. O castelo era o cárcere do papa até 1848, e nele
morreu o célebre mago Cagliostro, que com os seus poderes
extraordinários conquistou todas as cortes da Europa. A cadeira tem
1.606 pontas de madeira e 23 de ferro.

Garrote

O garrote foi instrumento de pena capital usado na Espanha até a


morte de Franco. A última execução foi em 1975, quando um
estudante de 25 anos foi executado e logo em seguida reconhecido
inocente. O instrumento servia para estrangulamento dos condenados
e era "o golpe de misericórdia" para os condenados à fogueira.

Os católicos que pediam para morrer debaixo da fé católica


alcançavam o privilégio de serem sufocados primeiro. Os que
declaravam querer morrer pelo judaísmo ou por outra religião eram
conduzidos vivos à fogueira. No garrote, a vítima sentava-se de
costas no banquinho de madeira, com o pescoço encostado ao poste.
Uma presilha e um parafuso sufocavam-no.

Açoite de Ferro

Mais do que uma tortura, o açoite de ferro era utilizada na guerra. Na


Idade Média, os cavaleiros, com esta arma, golpeavam os cavalos
adversários ou procuravam desarmar da espada os outros cavaleiros.
No final da batalha, esta bola de ferro era usada para matar inimigos
feridos. Juntamente com a espada e a lança, usavam-na também nos
torneios.
Apetrechos de Mutilação

Os apetrechos de mutilação eram pinças e alicates e estavam sempre


presentes na lista dos instrumentos de tortura dos carrascos da Idade
Média. Eram usados a frio ou em estado incandescente e provocavam
dores fortíssimas e mutilações. As pinças eram usadas principalmente
para a ponta dos seios, unhas ou para extrair pedaços de carne.

Os alicates tubulares eram usados para a castração. Os especialistas


em atrocidades já haviam descoberto, para uso das pinças, as partes
mais sensíveis do corpo humano. Também se usava marcar o rosto
dos ébrios, vagabundos, ciganos e blasfemadores com um ferro em
brasa, deixando uma marca irremovível.

Mesa de Evisceração

Chamava-se de mesa de evisceração, ou de esquartejamento


manual. Nesse instrumento, o condenado era colocado deitado, preso
pelas juntas e eviscerado vivo pelo carrasco. O carrasco abria-lhe o
estômago com uma lâmina, prendia com pequenos ganchos as
vísceras e, com a roda, lentamente ia puxando os ganchos.

Os órgãos iam saindo do corpo da vítima durante horas, até que


chegasse a morte. Alguns condenados permaneciam vivos durante
dias depois de eviscerados, pois o carrasco tinha a habilidade de
extrair das vítimas os órgãos não-vitais. Esse suplício esteve em uso
em Portugal e na Espanha, de 1300 a 1800.
Esmaga-Cabeças

O esmaga-cabeças esteve em uso, ao que parece, na Alemanha do


Norte, e gozava de certa preferência. O se funcionamento é tão
simples quanto cruel. Colocava-se a cabeça do condenado com o
queixo sobre a barra inferior, e com o rosqueamento a cabeça ia
sendo esmagada.

Primeiro, despedaçava os alvéolos dentais, as mandíbulas, e então a


massa cerebral saía pela caixa craniana. Mas com o passar do tempo
esse instrumento perdeu a sua função de matar e assumiu o papel de
tortura do inquisidor. Ainda permanece em uso em países onde a
polícia emprega tortura para obter confissões, com a diferença de que
são usados materiais macios, para não deixar marcas.

Caixinha para as Mãos

A caixinha para as mãos era usada como punição aos furtos leves
praticados por domésticos. Também foi empregada como meio de
punição pelos tribunais do Século XVIII, para penalizar pequenos
furtos. Prendendo geralmente a mão direita, esta era ferida com
pregos. Além das dores do momento, o condenado ficava com a mão
inutilizada.

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