Você está na página 1de 3

Aluno (a): Luan Evangelista Neto R.

A: B98700-6
Matéria: Psicoterapia
Semestre: 9º
Campus: São José do Rio Pardo - SP
Supervisor: Silvia Antakly Adib

Como nos tornamos Psicólogos Clínicos? – Virgínia Teles


Carneiro.

Segunda-feira, 02 de abril de 2018

Confirmando a cisão entre a teoria e a prática, essa estruturação curricular


implicitamente carrega a noção da necessidade de um conhecimento prévio para uma posterior
atuação. Esse adiamento da prática dificulta a possibilidade de construir um saber engendrado
com a experiência. Há uma lacuna entre o conhecimento ensinado e a descoberta de si mesmo,
que o processo ensino/aprendizagem contém. Em se tratando da Psicologia, vale lembrar que
ela tem se configurado, no decorrer de sua história, como uma ciência abrangente em termos
teóricos e metodológicos. Vemo-nos diante de diversas correntes psicológicas, que ora se
complementam, ora se contradizem.
É atravessado por essa multiplicidade que o estudante de Psicologia precisa cumprir a
exigência de ter uma filiação teórica e uma coerência lógica que o direcionem para o momento
final do curso, que é o do estágio supervisionado, onde ele acredita que poderá pôr em prática
o conhecimento acumulado nos anos anteriores.
'Isso remete à expectativa que o momento da prática carrega. É a partir desse instante
que se abre a possibilidade de o aluno compreender que a inclusão de sua subjetividade em sua
prática será o principal elo com a teoria. Dito de outra forma, ele perceberá que o principal
instrumento de trabalho do psicólogo é ele próprio.
No contexto da formação em Psicologia, o espaço oficial para realizar essa reflexão,
no sentido etimológico da palavra, como um “fazer retroceder”, é a supervisão.
A supervisão torna-se essencial para a formação do psicólogo clínico, visto que se
tornou o único espaço oficial, dentro do curso de Psicologia, em que o aluno tem a possibilidade
de refletir sobre o seu próprio fazer, e não sobre o fazer de outro. E a partir daí que há uma
abertura para um verdadeiro engendramento teórico. Verdadeiro porque próprio, porque
implica uma descoberta: na descoberta de si mesmo, provocada pelo processo
ensino/aprendizagem.
Assim, mesmo quando não estamos explicitamente focalizando a atenção em algo
determinado, permanecemos conscientes desse algo.
À medida que ganha mais experiência, é como se cada vez mais se integrasse com o
instrumento e cada vez menos prestasse atenção ao movimento correto das mãos. Seus olhos,
ouvidos, mãos atuam harmonicamente ao tocar uma melodia. O instrumento é incorporado,
como se fosse uma extensão do próprio corpo. E se, por algum motivo, focalizar apenas os
movimentos das mãos, correrá o risco de se atrapalhar na execução da melodia. Porém, as regras
aprendidas no início de sua aprendizagem não foram esquecidas; elas estão lá, operando
tacitamente, ou silenciosamente. Mas, se as partes forem focalizadas, perder-se-á o todo.
A contribuição de Gendlin acerca de como se processa a criação de sentido pelo
experienciando é de grande valia para se compreender o fenômeno da aprendizagem
significativa, pois o significado sentido diz respeito a um momento de criação no qual se
encontram articuladas dimensões cognitivas e afetivas.
Nesse sentido, é próprio da clínica uma ação “compreensivamente articulada”, uma
aprendizagem autodescoberta que seja assimilada na experiência. A prática clínica nos
possibilita descobrir o nosso próprio fazer clínico, e não o fazer de outro. Ao aprendermos essa
profissão, não importando o quão separado de nossa vida cotidiana queiramos que ela pareça,
aprendemos novas maneiras de usar tipos de competências que já possuímos. De certa forma,
podemos afirmar que a prática clínica não se ensina diretamente. Porém, não podemos afirmar
que ela não se aprende.
Se voltarmos o olhar para a história da Psicologia, desde o seu nascimento como
ciência até os dias atuais, encontraremos uma Psicologia que, buscando se naturalizar, acabou
se desnaturando. Uma Psicologia que, assentada em Descartes (1596-1650), evidencia uma
dicotomia entre o intelecto especulativo e o intelecto prático: o primeiro leva, através do método
dedutivo, ao cogito ergo sum (penso, logo existo), verdade indubitável em que se assenta a
ciência moderna; o segundo é aquele que direciona a atividade humana, por intermédio da
aplicação teórica, aos fatos objetivos. Acompanhada pela influência de Descartes na filosofia
moderna, nessa tendência a compreender a teoria como distinta da prática, a Psicologia se
organiza como produtora de conhecimento e, posteriormente, como atividade formativa.
Envolvidos nessas questões de insatisfação com o currículo, surge a noção de que o
processo de aprendizagem é compartilhado e ao mesmo tempo solitário. Ocorre um “trazer para
si mesmo” a responsabilidade acerca de sua própria formação. O ingresso na prática parece
provocar esse olhar para si mesmo e, concomitantemente, um certo direcionamento acerca da
própria formação. Fica a pergunta: há um limite de responsabilidades entre o aluno e a
instituição com relação à carência de teoria e prática que os estudantes normalmente sentem?
O momento da prática gera expectativas, dando uma conotação de legitimação ao que
foi aprendido nos anos anteriores. A prática parece abrir a possibilidade de descobertas nos
alunos, não apenas acerca da Psicologia clínica em si, mas também de aspectos pessoais, que
se desvelam a partir da abertura à experiência de prestar atenção e cuidado ao outro. De certa
forma, é um encontro com o inesperado que, ao exigir improvisação e invenção, propicia uma
abertura para o pré-reflexivo. Nesse sentido, a clínica provoca uma aprendizagem
autodescoberta, assimilada à experiência. A prática possibilita que cada um possa se perceber
fazendo, a partir da forma como estão fazendo. E essa “forma” parece dizer muito da
experiência de ser humano de cada um, e não apenas do que foi aprendido durante o curso.
Nota-se, portanto, a surpresa dos alunos ao se sentirem implicados com o próprio fazer.
A prática clínica ganha destaque na constituição do “ser-próprio” do psicólogo, pois
redimensiona a percepção anterior e denota a implicação com o fazer, o que parece abrir um
caminho à frente e um rumo dentro da própria formação. Nesse contexto, em que os alunos se
referem com tanta ênfase à prática, onde está a teoria? Talvez já tenha recuado para uma
dimensão silenciosa ou tácita e, finalmente, sido incorporada.
Podemos até afirmar que a experiência de aprender a ser psicólogo clínico envolve a
nossa própria condição de sermos seres de projeto. Há um ponto de partida, mas não há um fim
certo. Há uma destinação que nos guia para onde imaginamos que vamos chegar. Ou seja, de
concreto mesmo, só há o lugar de onde estou partindo e o horizonte que vislumbro poder
alcançar.

Referência:
MORATO, Henriette T. Penha; BARRETO, Carmem Lúcia B. Tavares; NUNES, André
Prado. Fundamentos de Psicologia – Aconselhamento Psicológicos numa Perspectiva
Fenomenológica Existencial. – Junho, 2009.

LER DOCUMENTO COMPLETO


__________________________ __________________________

Luan Evangelista Neto Silvia Antakly Adib


RA: B98700-6 Orientadora/Supervisora