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'Vargas redefiniu o país na crise de 30; a chance é que o PT faça o mesmo na primeira grande

crise da globalização'. Entrevista com Chico de Oliveira

Dona Joventina preconizava para o filho Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira uma carreira
venturosa no sacerdócio. Chico, porém, era apenas um em uma prole de onze; isso deve ter facilitado a
desobediência ao roteiro materno. O desvio do percurso o levaria ao engajamento profano que começou
com a adesão ao Partido Socialista, aos 20 anos de idade; mas nem por isso a rota gauche o afastou
da leitura dos evangelhos. É tomando emprestado a palavra dos profetas que o sociólogo nascido em 7 de
novembro de 1933, em Recife, companheiro de Celso Furtado no início da Sudene, fundador do PT e
do PSOL, hoje um analista mordaz de ambos com reflexões que incomodam mas não são ignoradas,
resume as esperanças –“talvez fosse melhor dizer a torcida”, retifica— em relação ao papel que a
esquerda brasileira, especificamente o PT, poderá jogar diante do que classifica como a “primeira grande
crise da globalização capitalista”.

A reportagem e a entrevista é da Agência Carta Maior, 06-01-2009.

“Aproveitai as riquezas da iniqüidade, aproveitai”, acentua o sociólogo, doutor honoris causa pela USP e
pela UFRJ. Chico adiciona à evocação de São Paulo um sentido de engajamento que resume a brecha
diante da qual, à moda gramsciana - cético na razão, otimista na ação, torce por um aggiornamento do
projeto petista para a sociedade brasileira.

“Naturalmente, todas as outras crises foram globais devido ao peso da centralidade capitalista no
processo, mas essa”, observa com entusiasmo intelectual na voz, “é a primeira crise da globalização do
capital; uma crise de realização do valor que tem na derrocada financeira sua epiderme mais visível, mas
não a essencial”.

O cerne do colapso sistêmico decorreria, no seu entender, da fantástica ampliação da fronteira da mais-
valia nos últimos 20 anos. “Oitocentos milhões de pares de braços foram incorporados ao mercado de
trabalho mundial com o avanço econômico da China e da Índia”, dimensiona. A riqueza produzida por esse
perímetro dilatado da exploração capitalista –“que alia salários miseráveis à tecnologia de ponta”--
agregaria ao sistema “uma usina de extração de mais-valia relativa de proporções inauditas”. Um fluxo
incapaz de se realizar nos mercados de origem, “onde é muito baixo o custo de reprodução da mão-de-
obra”.

O sociólogo extrai daí a convicção de que se trata de uma crise do modo de produção no apogeu da
globalização capitalista. Não apenas uma derrapada na gestão financeira do sistema, como acreditariam
analistas da própria esquerda. Se a potencialização da mais-valia gerou sobras de capital na periferia para
sustentar o déficit norte-americano –a China tem US$ 1,1 trilhão investido em títulos do Tesouro - e
barateou o consumo no coração do império, numa endogamia até certo ponto vitoriosa, por outro lado
não elevou os salários de ricos, nem de pobres. Ao contrário, depauperou o mundo do trabalho urbi e
orbe. “A quebradeira imobiliária é um sintoma dessa contradição clássica, amplificada, entre a globalização
do valor e a impossibilidade de realizá-lo na mesma escala porque não há poder aquisitivo equivalente,
nem na periferia nem no núcleo do sistema”, reafirma.

Chico pede calma ao entusiasmo afoito; não, ele não antevê um horizonte de derrocada final do
capitalismo –“não se destrói o capitalismo, o capitalismo se supera”, reporta a Marx. Mas os dias que
correm sinalizariam no seu entender uma inegável e brutal reacomodação de forças em escala planetária;
aquilo que, insiste, será periodizado no futuro como a primeira grande crise da globalização capitalista. É
aí que enxerga um hiato no hegemon norte-americano. A trinca descortina também uma fresta de
esperança política —“torcida”, como ele prefere-- em seu ceticismo intelectual. É através dela que Chico
contempla a oportunidade crucial para o país, para a esquerda e para o PT –“aproveitai as riquezas da
iniqüidade, aproveitai ...”

A urgência norte-americana em lamber as próprias feridas – “disso será feito em boa parte o governo
Obama”— inaugura uma janela obrigatória de rediscussão do desenvolvimento brasileiro. É valioso
lembrar que o raciocínio parte do autor de um texto clássico da radiografia analítica do desenvolvimento
nacional. É de 1975 seu famoso ensaio “Economia brasileira: crítica da razão dualista”. Com ele, e
com o golpe de 64 fechou-se o ciclo da crença na existência de dois brasis, um capitalista, outro atrasado,
dualidade que legitimaria sonhos reformistas desastrosos ancorados na suposta existência e disposição
modernizante de uma burguesia nacional “aliada”.
O hiato de reacomodação capitalista que se abre agora, ao contrário, reservaria à esquerda, no seu
entendimento, uma paradoxal possibilidade de repetir a história modernizante , mas não como farsa –“o
que seria uma tragédia”-- e sim como ousadia e criatividade condensadas em um projeto democrático
popular. “Trata-se de recriar um 1930 do século XXI”. A alegoria serve apenas para resumir o torque que
se cobra das forças dispostas a superar a crise como requisito obrigatório para derrotar a coalização
conservadora liderada pelo PSDB em 2010. “Na grande crise capitalista de 1930 tivemos uma reordenação
do desenvolvimento brasileiro enfiada goela abaixo da plutocracia paulista”, lembra Chico de Oliveira
para dar o crédito à visão de estadista de Getúlio Vargas. “Aquele foi um projeto arquiteto por cima;
desta vez trata-se de fazer uma reordenação tão profunda,ou maior; mas induzida por baixo, pelas forças
sociais da base da sociedade brasileira em nosso tempo”.

O PT, no seu entender, seria o operador desse aggiornamento histórico do desenvolvimento. “É quem
dispõe de massa e de liderança, enquanto os demais agrupamentos socialistas constituiriam a ponta de
lança instigadora do processo”. Em defesa provocativa dessa tese, o sociólogo exemplifica cobrando a
metamorfose daquilo que já caracterizou, no calor do debate político, como “uma nova classe”: “O PT tem
a força sindical; a estrutura sindical tem todos os fundos de pensão sob seu controle”, cutuca. A chance
de emancipação do país na atual crise seria uma inusitada demonstração de competência e ousadia
política da esquerda na canalização de fundos públicos para deflagrar um ciclo inédito de investimento
pesado na economia. “Falo em se criar algo como cinco EMBRAERs por ano; acelerar o crescimento e
dar um novo rumo à economia e à sociedade”, entusiasma-se no seu raciocínio. “Se um estancieiro
gaúcho fez isso na crise de 1930 porque uma Dilma, que honestamente só conheço através da má
vontade explícita da mídia; ou, quem sabe, um Gabrielli (presidente da Petrobrás), não poderiam ser
instrumentalizados para fazê-lo na crise atual?”. A pergunta recebe da mesma voz uma ponderação
pausada: “Devemos tratar essa possibilidade com uma discussão ampla e aberta; não oficialista,
tampouco sectária, menos ainda cravejada de acusações entre petistas e não petistas. O que está em jogo
é uma reacomodação brutal de forças; se ela devolver o poder aos tucanos aí sim estaremos fritos: eles
ficarão aí mais dez anos”.

Eis a entrevista.

A crise financeira atual repõe a centralidade do trabalho, ou seja, devolve à esquerda o


sujeito histórico que ele acreditava ter se esfarelado na história?

Na verdade, não concordo que essa seja uma crise financeira; tampouco acho que a sua origem esteja
nos mercados financeiros centrais. A meu ver estamos diante de uma crise da globalização do capital.
Todas as outras também foram crises globais, claro, devido à centralidade do capitalismo norte-
americano. Mas essa crise não floresce exatamente num ponto geográfico; à rigor, se formos localizá-la
seria na incorporação da mais-valia gerada na China e na Índia nos últimos vinte anos; novidade esta que
influenciou o conjunto da globalização capitalista e redundou no atual colapso; uma crise de realização do
valor. O sintoma financeiro é sua manifestação mais evidente, mas não a sua essência.

A essência seria o barateamento da mão-de-obra mundial?

A essência é a impossibilidade de realizar o valor gerado por ela; ou seja a mais-valia extraída da
incorporação adicional de 800 milhões de novos operários baratos ao mercado de trabalho mundial. Isso
produziu uma revolução na medida em que dobrou ou triplicou a oferta de mão-de-obra oferecida ao
capitalismo, dilatando a fronteira da mais-valia, sem contudo propiciar uma expansão equivalente da
capacidade de realizá-la.

Por quê?

Porque o custo de reprodução de mão-de-obra nas sociedades onde se expande a nova fronteira da mais-
valia, casos da China e da Índia, principalmente, é muito baixo, ainda que a exploração esteja aliada à
tecnologia de ponta. Estamos diante de uma crise clássica de realização do valor, amplificada; uma crise
da globalização capitalista. O colapso das hipotecas nos EUA é a manifestação disso. De um lado, a
produção na China e na Índia barateou o consumo norte-americano; propiciou também sobras de capital
na periferia para financiar o Tesouro dos EUA. A China sozinha tem mais de US$ 1 trilhão aplicado em
papéis do governo Bush. De onde saiu esse dinheiro? Certamente não foi geração espontânea. É mais-
valia extraída do operário chinês que não se realiza lá porque o custo de reprodução da mão-de-obra local
é baixíssimo.
Mas a crise não marca o esgotamento dessa endogamia China/EUA?

Ela funcionou bem durante algum tempo e continuará a girar porque é proveitosa aos dois lados. Ao
mesmo tempo a engrenagem esfarela o mundo do trabalho urbi e orbe; os assalariados norte-americanos
simplesmente não têm fonte de renda para o padrão de consumo que ainda desfrutam; estão devolvendo
casas e vão morar em garagens coletivas, dentro dos seus carros. Obama teria que elevar brutalmente o
poder aquisitivo dessa gente para contornar a crise. Fará isso? Honestamente, não sei dizer. O fato é que
as implicações desse processo devem ser estudadas cuidadosamente; estamos diante de algo maior que a
própria manifestação financeira da crise; algo que persistirá para além dela e condicionará todos os passos
da história neste século

(NR – Carta Maior levantou alguns dados que reforçam as preocupações de Chico de Oliveira: a
incorporação ao mercado capitalista da produção chinesa, indiana e de países da antiga União Soviética
colocou trabalhadores de todo mundo em concorrência internacional direta pela primeira vez na história;
trabalhadores ocidentais tornaram-se minoria num mercado mundial que ganhou 1,2 bilhão de operários
adicionais nos últimos 30 anos; 350 milhões de trabalhadores treinados, e mais caros, do Ocidente,
responsáveis pela maior parcela da produção global até recentemente, estão sendo desalojados de
empregos e salários; das 3 bilhões de pessoas ativas no mercado global hoje, metade ganha menos de
US$ 3 por dia.

A China, a nova oficina do mundo, tem um custo/hora do trabalho de US$ 0,60, contra média de US$ 30/h
na Alemanha, US$ 21 nos EUA e cerca de US$ 4,50 no Brasil .Resultado: dados compilados pela Comissão
Européia revelam que a parcela de riqueza destinada atualmente aos salários é a mais baixa desde 1960
(o primeiro ano com dados conhecidos). Em contrapartida, a riqueza abocanhada pelos detentores do
capital financeiro vinha batendo recordes seguidos até o colapso atual. A produtividade ao mesmo tempo
não pára de crescer –desde 2001, cresceu 15% nos EUA e saltou em média 8% a 10% ao ano na China.
Entre 1990 e 2004, a participação dos produtos chineses no total de bens importados pela AL cresceu de
0,7% para 7,8%. No mesmo período, a fatia dos produtos brasileiros na região subiu de 5,3% para
6,5%).

O que o senhor está dizendo é que a tentativa de equacionar a crise a partir de sua
manifestação financeira não basta ?

É isso. A contribuição de Chesnais à compreensão da dinâmica capitalista foi importante num outro
momento porque os marxistas sempre tiveram dificuldade em lidar com a questão financeira. Mas a
interpretação chesniana não dá conta da crise atual. É uma crise de realização do valor.

1930 também foi uma crise de realização do valor e se resolveu....

Uma crise de realização do valor circunscrita ao território das economias centrais. Ainda assim exigiu um
Roosevelt; e uma Guerra mundial para ser contornada. Esse paralelo apenas reafirma a gravidade do
que temos diante de nós; e o que temos é uma crise da globalização à 29; o ferramental dos anos 30 não
dá conta disso.

O receituário keynesiano?

As opções keynesianas valiam para uma economia fechada que podia conter a livre movimentação de
capitais; hoje você precisaria de um dinheiro mundial para regular a parafernália financeira; socorrer
déficits em conta corrente e harmonizar desequilíbrios comerciais etc. O dólar não é isso; o dólar é uma
moeda hegemônica, não é o dinheiro único que o instrumenal keynesiano necessitaria para ter eficácia
atualmente.

Estamos diante de um longo processo de solavancos e limbo sem redenção...

Uma crise longa, dura, que exigirá reacomodação brutal de forças e vai impor mudanças em todo o
mundo e no Brasil também. Mas não tenhamos ilusão: o capitalismo não chegou ao limite. Tampouco é o
fim da associação China/EUA; de algum modo ela prosseguirá porque é proveitosa aos dois lados.
Ademais, o capitalismo não se destrói, ele é superado, como o leitor atento de Marx bem sabe.

Que espaço sobra para a periferia do sistema, caso do Brasil, entre outros?
Estamos emparedados entre a concorrência chinesa e a desordem financeira no coração do capitalismo. A
crise nos pega no meio do caminho e, naturalmente, não podemos regredir e adotar um padrão chinês de
salários de miséria. Alguns até gostariam, mas não dá, felizmente não dá mais e tentar seria uma
calamidade social de proporções incalculáveis.

Qual opção à paralisia, se é que existe uma - e viável?

Não existiu Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado.
Criar algo como cinco EMBRAERs por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo
ancorado-o agora em forças sociais da base da sociedade. Carlos Lessa sugeria isso no BNDES, no
começo do governo Lula; não deixaram...

Mas o Brasil de Vargas não existe mais...

Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país;
enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como um estadista da nossa história. A
elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional.

Haveria espaço para esse salto nas condições do capitalismo do século XXI?

A crise é tão grave que abre um período de suspensão do hegemon; não sua derrocada, mas um hiato
para lamber as próprias feridas. Isso tomará boa parte do tempo e das energias desse Obama, em relação
ao qual, diga-se, não compartilho do otimismo de muita gente de esquerda. Mas o fato é que ele estará
ocupado e com uma quantidade apreciável de problemas. Abre-se um espaço, portanto. Talvez até mais
que isso: haveria uma potencial complementariedade de interesses se tivéssemos aqui um arranque de
investimento público pesado. Isso de certa forma repercutiria positivamente no coração da economia
norte-americana. Estamos diante de uma fresta histórica: uma suspensão do hegemon e um espaço de
complementariedade para remar na mesma direção, o que poderá favorecer os dois lados a sair do
buraco...

Internamente a elite talvez não veja as coisas assim, como propriamente complementares,
quando se associa crescimento a um arranque pesado de investimento público.

Nossa burguesia se transformou em gangue. Expoentes nativos são figuras do calibre de um Daniel
Dantas ou esse Eike Batista que opera dos dois lados da fronteira boliviana; não se pode contar com
protagonistas dessa qualidade para qualquer coisa, menos ainda para uma agenda de desenvolvimento.
Não há saída por aí. Mas o Brasil também não teria saído da crise de 30 se Vargas fosse esperar a mão
estendida da plutocracia de São Paulo, por exemplo. Ele ocupou o espaço e fez.

Logo...

Logo precisaria reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Kubitschek e de um Vargas; para fazer
por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base
social para mudar a economia e a sociedade. Cinco EMBRAERs por ano e ponto final.

O senhor acredita nesse aggiornamento do PT?

Se depender de torcida para que aconteça tem a minha. A lógica de acomodação de forças que a crise
mundial impõe é de dimensões tão brutais, tão inauditas que exige da esquerda brasileira um
desassombro igualmente inusitado.

E os recursos para esse ciclo de investimentos pesados?

O PT tem a base sindical e a base sindical tem o controle de todos os fundos de pensão

(NR: os fundos de pensão aplicam apenas na dívida pública federal recursos da ordem de R$ 155 bilhões
de reais).
Então tem recursos para serem remanejados e repactuados com a base trabalhadora; dentro dela o PT
desfruta igualmente de massa e representatividade.

Essa é uma agenda para 2010?

É uma questão delicada para ser tratada num debate aberto; sem oficialismos de uns, nem preconceitos
de outros. A história brasileira repete um impasse do desenvolvimento que não pode ser respondido com
uma farsa porque seu resultado seria uma tragédia. Dessa vez o que se vislumbra como possível, repito, é
fazer por baixo, com bases sociais existentes, e organizações disponíveis, aquilo que nos anos 30 e nos
anos 50 se fez por cima: destravar o desenvolvimento e expandir o mercado interno. É preciso tratar isso
com cuidado, insisto, sem oficialismos do PT, nem o sectarismo do Psol e do PSTU.

A candidatura de Dilma Roussef pode oferecer a amarração a esse esforço?

Honestamente não conheço a ministra Dilma, exceto pelo que leio da má vontade explícita da mídia em
relação a ela. Torço para que seja aquilo que amigos petistas dizem que é. Ou então, que seja alguém
como o Gabrielli, o presidente da Petrobrás, que certamente também sabe o que está em jogo e as
variáveis para sair da crise. Trata-se de articular uma coalizão de forças dentro da qual o PT seria o
operador porque é quem tem massa e liderança eleitoral; os grupos à esquerda teriam seu papel de
ponta-de–lança. O fundamental é ter um debate com muita abertura e sem preconceitos.

Se a crise se agravar há risco de a oposição ganhar terreno e viabilizar uma vitória de Serra?

Serra antes de ser um personagem político é um caso psiquiátrico. Qual é o seu projeto afinal? É a
obsessão pessoal e doentia pelo poder. Diante de uma crise da proporção que temos pela frente, porém,
se você não avançar será soterrado por manifestações mórbidas. A pá de cal viria na forma de uma vitória
tucana em 2010; aí sim estaríamos todos fritos. Eles ficariam aí por mais dez anos.

7/1/2009

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Por falta de opção, PT volta a seduzir

Maria Inês Nassif, jornalista, em artigo publicado no jornal Valor, 15-01-2009, comenta a entrevista de
Francisco de Oliveira, sociólogo, concedida à Agência Carta Maior, 06-01-2009.

Eis o artigo.

A crise financeira internacional pode colocar o Partido dos Trabalhadores (PT) diante de um novo
paradoxo. A crise política enfrentada pela legenda em 2005 provocou importantes baixas, em especial de
intelectuais - que lhe garantiam massa orgânica -, mas o PT conseguiu sobreviver quase sem perda
eleitoral graças aos grupos que dominavam a máquina e a política tradicional. O P-SOL é um produto
dessa cisão interna. Ocorreram outras defecções que não engrossaram tentativas de formar legendas mais
densas à esquerda, mas que tiveram inegáveis repercussões negativas sobre a vida do PT. A relação com
movimentos sociais e com a igreja católica progressista, que eram os tentáculos que lhe davam
capilaridade, sofreu grande desgaste - que começou, aliás, antes do escândalo do mensalão, quando as
demandas da base ideológica foram abortadas por uma política econômica ortodoxa conduzida em fina
sintonia pelo então ministro Antonio Palocci e pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

As eleições de 2006, que reconduziram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da
República, marcaram uma pequena distensão, pelo menos do Palácio do Planalto, com esses setores. No
segundo turno da eleição, não houve uma adesão à candidatura Lula com grande entusiasmo: apenas um
voto contra o tucano Geraldo Alckmin (SP), cuja tradição conservadora acenava com uma política mais
linha-dura contra os movimentos sociais do que a que já havia sido excessivamente rigorosa nos governos
Fernando Henrique Cardoso. Lula, nesse caso, seria o "menor pior".
A saída de Antonio Palocci do Ministério da Fazenda; o deslanche, de fato, do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC) - que foi quase uma carta de compromisso de Lula de rompimento
com a política econômica ortodoxa, embora tenha deixado rolar uma política financeira ortodoxa; e, por
fim, as respostas do governo à crise que veio de fora, quando o país vivia um inédito momento de
crescimento de consumo e emprego. Entre alguns intelectuais - uns que criticaram severamente o
governo Lula; outros que se mantiveram afastados -, o desafio enfrentado pelo país agora tem restituído
ao PT, ao menos na teoria, o status de único aparelho ideológico de esquerda capaz de movimentar um
processo efetivo de mudança, um desenvolvimento capaz de mover o país em outra direção; e o partido
com mais densidade para atrair os demais grupos de esquerda para esse projeto.

O sociólogo Francisco de Oliveira, um dos primeiros quadros intelectuais a criticar os rumos que o
partido tomou no poder, deu uma entrevista à "Agência Carta Maior" dando centralidade ao PT como
operador do que considerou um "aggiornamento histórico do desenvolvimento". Poderia exercer esse
papel porque "é quem dispõe de massa e liderança, enquanto os demais agrupamentos socialistas
constituiriam a ponta de lança instigadora do processo". O singular em sua análise é que, na hipótese de
assumir o comando de um processo de desenvolvimento nacional - a exemplo do que Getúlio Vargas fez
em 1930 - contariam a seu favor as deficiências que, no passado, levaram o próprio Oliveira a afastar-se
dele. O sociólogo foi o primeiro a apontar para os efeitos nocivos do controle da máquina partidária pelos
grupos oriundos do sindicalismo, e a detectar a formação de uma classe que ascendeu politicamente via
sindicalismo e socialmente desprendeu-se da classe de origem, quando passou a responder pelo
investimento de milionários fundos de pensão. Chamou os integrantes dessa classe de "ornitorrincos".

Diante da crise, no entanto, o partido se credenciaria exatamente por isso. "O PT tem a força sindical; a
estrutura sindical tem todos os fundos de pensão sob o seu controle", afirmou, na "Carta Maior". A
ousadia do PT seria canalizar os recursos dos fundos para investir pesado na economia. "Falo em criar
algo como cinco Embraers por ano, acelerar o crescimento e dar um novo rumo à economia e à
sociedade. Se um estancieiro gaúcho (Getúlio Vargas) fez isso em 1930, por que Dilma, que
honestamente só conheço através da má vontade explícita da mídia, ou quem sabe um Gabrielli
(presidente da Petrobras), não poderiam ser instrumentalizados para fazê-lo na crise atual?"

Para isso, no entanto, continua Oliveira, "seria preciso reinventar o PT; um PT com a ousadia de um
Kubitschek e de um Vargas, para fazer por baixo o que eles fizeram por cima. Um arranque do
desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade".

Politicamente, todavia, o PT teria que passar por mudanças radicais para cumprir um papel histórico
semelhante ao exercido por Vargas. Nos arranjos internos pós-crise do mensalão, prevaleceram grupos e
pessoas com domínio sobre a máquina. As negociações internas, em especial no PT paulista - que tem um
grande peso nacional -, fortaleceram-se grupos muito mais afinados com a política tradicional do que
ideologicamente comprometidos com o programa partidário. A luta pelo poder interno tem inibido
lideranças novas, e no vácuo as antigas, a quem se atribui a cultura da máquina de fazer votos, vêm
ampliando o seu poder. Não têm hegemonia, hoje, intelectuais orgânicos com liderança e capacidade de
formulação para transformar o PT em algo mais do que um projeto de poder - num projeto de partido que
tem liderança e substância para executar um projeto de grande mudança para o país.