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Camila

Meu nome é Camila. Dizem que me pareço com este nome. Nunca pensei que
os nomes tivessem uma aparência. Nomes me parecem como grafia ou sonoridade.
Nada mais. Neles descubro apenas imagens de Letras. Além disso, vejo o nada.

Dizem que me pareço com meu nome. Tenho olhos azuis, meus cabelos são
escuros e, um dia, atravessando uma rua, meus quinze anos completados, percebi
que homens me viam mulher feita. Isso me envaideceu. Em casa sempre notavam
meus defeitos e até me faziam senti-los reforçados. Foi a rua que me deu consciência
de que se eu não era bonita, era pelo menos atraente. Meu corpo poderiam comprar os
homens, como o de minha mãe havia comprado meu pai, um homem que em nada se
parecia com ela.

Nesse tempo eu não pensava em homens. Minha mãe havia deixado a casa e,
pouco tempo depois, meu pai soube, e nós o soubemos por ele, ela estava morando
com o homem que pintava vidros nas portas de bancos e de grandes empresas. Hoje
vejo que a partida de minha mãe não surpreendeu a mais ninguém a não ser meu pai
e nós os filhos.

Meu pai era advogado, um homem rígido nos costumes, na fala, em todos os
seus hábitos, muito consciente do que era certo o que faziam ele e os outros.

Minha mãe era alegre, despreocupada, lutando sempre para fazer de sua vida
uma série de momentos de prazer. Enquanto éramos crianças, havia muitos atritos
entre meus pais, mas a medida em que crescíamos, a vida foi entre eles se tornando
mais tranqüila, nenhum deles se preocupando com o outro, minha mãe mais próxima
de nós e meu pai mais ligado a seus livros e trabalhos.

Foi um tempo muito triste, quando minha mãe nos deixou. Meu pai nos
buscando no Colégio. Ele ia á pé, mesmo nos dias de chuva e nos trazia de mãos
dadas, sua cabeça baixa, humilhado.

Ia á pé , isto não sei porque, mas penso, assim ficava mais fácil evitar que
outros pais , o vissem, fazendo o que sempre era normalmente havia sido por minha
mãe e, agora não mais, ele sem querer dizer aos outros a razão.

Apanhávamos o carro uma ou duas quadras depois do colégio e meu pai


dirigia falando muito e, rapidamente, como se quisesse evitar, que, fizéssemos algum
comentário sobre a ausência de mamãe.
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Em casa o almoço era em silêncio ,quando crises de choro não obrigava a que
um de nós deixássemos a mesa . Nesses casos , meu pai também perdia a sua refeição
para conversar com aquele que chorava e falava que ainda iríamos ter dias muito
felizes, mas, em nossa fantasiosa alegria, ele nunca mais colocava entre nós , a
presença de minha mãe , mesmo sabendo que isso era o que mais nos importava.

Consolar-nos em nossas tristezas infantis havia sido até antes, uma atribuição
de mamãe e , quando meu pai se entregava a esse trabalho , minha irmã e eu,
sofríamos a dor que imaginávamos ele sentia , tendo de ocupar o lugar da mulher que,
havia pedido demissão do dever de nos amar a nós e a ele .

De toda forma , foi sempre uma dúvida para mim, essa questão de imaginar que
minha mãe fosse obrigada a gostar de nós, gostar da vida que levava conosco, como
se , por ser mãe ela houvesse perdido o direito de determinar o seu próprio caminho.

Isto foi o sempre pensei , porque se mamãe um dia havia amado o meu pai,
a ponto de se casar com ele, não sei se concordo com esta obrigação de amar sempre
as mesmas pessoas, quando o normal é que estejamos a cada tempo deixando de ser o
que um dia fomos.

Minha mãe teria deixado de gostar de nós , ou apenas se lhe havia sido pesado o
preço que ela teria de pagar para conservar este amor? ou mesmo quando mamãe nos
deixou nascer, teria ela consciência das muitos deveres que se costuma impor às
mães? sempre pensei todas essas coisas e hoje não sei se o fiz para me desculpar por
ter continuado a julgar minha mãe como alguém cheia de qualidades e de quem em
nenhum momento eu deixei de gostar da mesma forma que havia gostado sempre.

Meu pai andava muito triste, triste e revoltado: sua tristeza me dava pena ;sua
revolta me irritava. Triste ,ele não dormia e comia quase nada. Temia que ele
morresse . Temia por mim , por meus irmãos e por ele mesmo

Meu pai era um homem bom, se não estava no trabalho , estava sempre conosco
e, tanto á minha mãe, como a nós, sempre nos tratou como se fossemos verdadeiras
rainhas.

Estudioso e bem dotado para a profissão, meu pai conseguiu nos dar um bom
padrão de vida e, mamãe à medida em que ele progredia financeiramente, cobrava-
lhe viagens e divertimentos e uma vida social que nos tornasse mais evidentes , num
meio que ela sempre sonhou viver.

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Meu pai se recusava a isso e a cada tempo gastava mais a sua vida , do com
seus únicos amigos, os livros que ele queria fosse companhia inseparável de seus
filhos.

De mamãe ,ele nunca exigiu isso e muitas vezes eu o percebi encantado com o
desconhecimento que ela parecia ter de tudo que não fosse vaidade com seu corpo ,
seu rosto e sua casa.

Quando minha mãe nos deixou, coloquei-me no lugar dela e lhe dei razão :
Éramos todos tão diferentes de tudo que pudesse parecer com minha mãe , que na sua
partida , compreendi quanto sua vida conosco deve ter sido tediosa, porque nada do
que tínhamos era o que lhe agradava

Minha irmã não entendeu as razões de minha mãe , não sei se dela mesma ou
herdada de meu pai , ela compreende a vida como uma soma de deveres e
responsabilidades: Daí concluiu ela , o erro de minha mãe era imperdoável , porque
feria a razão única que lhe tornava merecedora de sua própria vida: para minha irmã ,
a mulher que, se casa e tem filhos, tem o dever de ama-los e de por eles renunciar a
tudo mantendo inalterável através dos tempos , aquilo que ela houvesse afirmado no
dia em que se casou, como se as pessoas devessem continuar sempre as mesmas em
todo o curso de suas vidas.

A mim , tudo me parecia diferente e a respeito não tive coragem de fazer


quaisquer comentários, pois não gostaria de magoa-los, quando já estávamos todos ,
magoados demais. Mas eu sempre achava possível e absolutamente natural que
minha mãe houvesse através do tempo , mudado o seu querer e desejado uma vida de
interesses mais amplos de que lhe permitiam os compromissos de se casar e ter
filhos.

Assim me pareceu que se minha mãe havia cometido algum erro , este era
apenas o de ter assumido o compromisso eterno que se impõe à mãe ou ao pai ,
Pensava tudo isso em silêncio , porque todas as pessoas manifestavam sempre uma
velada ou pública censura ao comportamento de minha mãe, e, eu não teria coragem
de enfrentar ninguém para defender uma pessoa que eu pensava havia agido dentro
de um direito que eu reconhecia como seu, mas, mesmo assim pensando eu era
obrigada a reconhecer, ela não havia se importado tanto com o muito que , pela sua
ausência, sofreríamos todos.

Além de tudo , eu não entraria em atrito com meu pai, defendendo mamãe ,
porque essa defesa poderia parecer uma acusação a ele, e eu seria a última pessoa a
acusá-lo, eu a filha de quem, ele sempre se soube ,mais gostava.

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Meu pai admirava em mim o desejo de uma liberdade absoluta , enquanto era
justamente minha mãe que me prevenia contra isso, que hoje imagino fosse nela , um
sentimento maior de que em meu pai.

Mamãe admirava minha irmã que era mais séria no cumprimento de seus
deveres e aceitava sem qualquer rebeldia , todos os horários e normas da casa ,
menina perfeita , na escola , em casa e até nos passeios.

Meu irmão ainda era muito criança e quando mamãe partiu , nenhum de nós
teria condições de fazer sobre ele qualquer avaliação. Esse mundo de contradições ,
tão humanas, avultava-se em minha cabeça de adolescente e todas as noites, o sono
tardio me dava tempo , para pensando em tudo , decidir os caminhos que me parecem,
os melhores no tempo que a vida me concedesse.

Minha mãe nunca chorou quando junto de nós e a decisão de nos deixar,
creio naturalmente lhe deve ter proporcionado alguma lágrimas que ela manteve
fechada em si mesma e até no último tempo em que esteve conosco se manteve
alegre, bonita e eu sempre dei razão a meu pai de ter se apaixonado por ela.

Logo depois de minha mãe ter ido embora, meu pai se tornou alcoólatra.
Pessoas, homens ou mulheres , muitas vezes levaram-no para nossa casa e o
colocaram na sua cama. Meus irmãos e eu não tínhamos força para tanto Éramos
ainda muito jovens.

As pessoas que o levavam para casa, sempre o fizeram como o fazem os


entregadores de mercadorias , que simplesmente cumprem obrigação de nos entregar
um pacote , cujo conteúdo até ignoram. Neles nunca encontramos qualquer afeto , ou
outra forma de interesse por nossas vidas.

O tempo passou e Papai se tornou muito magro e qualquer de nós


poderíamos buscá – lo na rua quando ele se embriagava . Muitas vezes o
encontramos ferido e aprendemos a curar-lhe o corpo e mal percebemos mais lhe
doía a alma.

Por estranho que o comportamento de meu pai possa parecer , hoje vejo que
dele não podíamos esperar mais de que isso . Ele era calado , quieto , sempre
preocupado com o de mais sério que existe na vida , ele era amável , mas não ria
nunca. Seu mundo cheio de livros tinha um único um único ponto luminoso : A
frívola descontração de mamãe que ele devia admirar exatamente porque era o ser
com que ele nunca seria capaz de se parecer.

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A embriaguez de meu pai durou pouco tempo :Ele morreu em seguida. Sua
morte nos doeu muito. Mesmo quando podíamos compará-lo com minha mãe, ele
sempre nos pareceu melhor do que ela ainda , que nunca possamos dizer que, nunca
possamos dizer que ela tenha sido impaciente ou má para qualquer de nós: Apenas
ela nunca se esqueceu de se mesma , para se lembrar de qualquer de nós, nem mesmo
se estivéssemos doente.

Lembro-me bem , eu ainda criança ardendo em febre , meu pai numa viagem
de trabalho, minha mãe me deixou em casa com meus irmãos tão pequenos ainda e
passou a noite numa festa entre amigos e só no dia seguinte o médico foi chamado e
eu tive de ficar muitos dias hospitalizada , com uma pneumonia que até hoje marca os
meus pulmões.

Quando crianças, era meu pai quem nos contava histórias e em todas as noites
era ele quem brincava conosco, brinquedos cheios de inteligência e imaginação.

Minha mãe era extremamente vaidosa , gostava de festas e sempre quis que
gostássemos das mesmas coisas de que ela gostava :Minha irmã e eu, em criança,
gostávamos de ficar em casa com nossas bonecas e outras crianças vizinhas e
mamãe preferia que , em sua compania fizéssemos longos passeios. Ficar conosco em
casa era-lhe penoso. Minha mãe adorava tudo que a ligasse a vida nos seus aspectos
mais alegres e despreocupados. Era isso que , nela me deixava fascinada e me fazia
ver que meu pai tinha razão para ter se apaixonado por ela.

Minha mãe tinha uma alegria e uma animação, próximas da


irresponsabilidade, mas ,até hoje, não conheci ninguém de presença fosse mais
agradável de que a dela.

Antes, quando meu pai queria ficar em casa, minha mãe também ficava
conosco, mas ficava ansiosa, como se a cada momento acontecesse na rua , um fato
importante de que ela devesse participar. Mamãe era uma pessoa interessante e
divertida.

Nesse tempo ela estava ali. Éramos uma família. Tudo nos parecia tão certo
que nunca nos perguntamos se poderia haver naquela casa algum erro ou
modificação.Com a saída de mamãe não sei se o susto não foi maior de que a dor.

Minha mãe se cansou de viver entre marido e filhos. Passou a sair com
freqüência, com amigos, casais , depois amigas solteiras ou divorciadas e muitas
vezes sozinha :era como se ela não pudesse perder um momento de vida , a vida que
ela em todos os momentos parecia considerar uma dádiva sem par.

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Numa dessas oportunidades em que ela foi mostrar ao mundo sua alegria , ela
conheceu um homem que pintava vidros.

Dizendo assim vocês não entendem porque minha mãe nos contava que o seu
amigo pintava vidros , só quando mais tarde, conheci o que ele fazia e, então já era
adulta percebi, o trabalho daquele homem era muito mais importante de que pintar
vidros: Minha mãe nunca viu mais de que isso, ela era sempre muito atenta ao que
ficava longe dela.

Na verdade era um trabalho daquele homem era especial : uma aparência do


que vi mais tarde em Notre Dame e em Chartres .Era uma arte difícil e, ainda muito
rara entre nós.

Esse homem fazia cores maravilhosas, e, para bancos, grandes empresas e


Igrejas e todos o recebiam como um gênio: Com ele , minha mãe foi a lugares ricos e
bonitos, onde tenho certeza, ela nunca iria com meu pai. Ele não teria tempo para isso,
sempre achou que o seu trabalho era mais importante de que tudo e que sendo
amável com os filhos e com a mulher , teria cumprido todos os seus deveres, como se
a vida não exigisse mais de que o absolutamente necessário.

Minha mãe , muito antes de nos deixar , nos falava desse homem que pintava
vidros, mas nunca valorizou-o pelo seu trabalho, falava que ele era bonito, dançava
e cantava muito bem, ela não chegou a perceber que ele era um artista, pois nunca foi
de seu feitio ver nas coisas o que fosse além do óbvio.

Nunca soube , nem procurei saber se o homem que, pintava vidros tinha mais
dinheiro que meu pai. Sabia apenas que ele gostava de festas á noite , freqüentava
bons restaurantes e luxuosas casas de dança. Isso minha mãe nos dizia e nós a
ouvíamos encantados, crianças demais para fazermos qualquer pergunta.

De tudo isso minha mãe gostava e, tudo isso eram coisas que meu pai chamava
de futilidades. Meu pai era muito sério em tudo o que fazia e, nunca se deteve na
beleza ou no prazer estava sempre ligado ao útil.

Minha mãe se encantou com esse homem que se chamava Bolivar e dele ela
nos falava com tanto entusiasmo que, mesmo sem o conhecermos chegamos a
admirar tanto esse homem, que nunca fomos capazes de odiá-lo e mesmo que nos
tenha causado tanta dor .

Compreendi a decisão de mamãe :Em tudo que a vida me permite , posso me


admirar do quanto me pareço com ela. Cheguei mais tarde do que ela e me foram
sábias as duas lições.
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A nós as crianças ela nos mostrou um anel que o homem lhe havia dado Ela
nos pediu segredo disso , mas, talvez justamente por isso , não demos qualquer
importância ao fato e dele não falamos a meu pai :

Quando minha mãe desapareceu, no dia , nos tornamos todos adultos e


compreendemos que , deste anel não deveríamos falar nem a meu pai nem a
ninguém. Era como se isso fosse a prova de um crime de que tínhamos conhecimento
e poderíamos ter evitado, e vimos porque ela nos falava tanto daquele homem
:Éramos ainda crianças, e confiantes e no que ela nos falava, que éramos os únicos ,
a ter certeza de o falado não ia além do que estava nas palavras.

.Meu pai , no pouco tempo em que ele ainda ficou entre nós, nunca fez censuras
a ela , como se ele quisesse que dela tivéssemos nosso julgamento próprio e cada um
de nós hoje fala de mamãe de forma tão diferente que ela se transformou em três
pessoas, uma para cada um de seus filhos: Thiago que a odeia e diz que ela é uma
prostituta ignorante irresponsável Soraya diz que ela é monstruosa que não amou
nem os próprios filhos, e eu que, hoje tenho pena dela e , não peço desculpas a
ninguém por ser filha daquela mulher a que todos condenam, mesmo sabendo que
pessoas não me dão o direito de gostar dela e muito menos de admira-la.

Esquecem-se de que ela é minha mãe e que eu não pude me esquecer de que
ela me contou historias de fada, deu-me a mão quando eu mal sabia andar, mostrou-
me o sol, as flores e me fez ouvir canto das pessoas nas casas humildes por onde
passamos quando eu era criança ; esquecem-se de que foi ela quem me abriu os olhos
para o lado bom de nossas vidas e me deu a capacidade de ser feliz, mesmo quando
tudo vai mal e não se pode ter ilusões .

No dia em que minha mãe se foi, ficamos todos adultos num instante,
independentemente da variação da idade, tudo no momento exato em que ficamos
sabendo :minha mãe havia abandonado meu pai: não era uma partida era um
abandono, uma parte de nós havia sido arrancada e doía. Doía muito , doía na
própria carne.

Foi assim: Cedo fomos para a escola , sem termos visto a mãe ou o pai .Não
houve estranheza nisto: Meu pai se levantava muito antes de nós e ia para o trabalho
sem nos ver; Mamãe acordava tarde e não nos via , se não quando voltávamos da
escola. Isso normal , todos os dias, não foi diferente naquele dia: Nem mesmo no
rosto de Lília que nos servia o café e nos apressava para a escola mostrava qualquer
diferença em relação ao que era nos dias normais.

Quando voltamos da escola para o almoço encontramos o pai em casa . Isso já


não era o comum: Ninguém nos buscou no colégio , habito de minha mãe .Disso
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fomos avisados pelas professoras , como de ordinário , acontecia algumas vezes.
Encontramos os olhos da empregada, Maria ,vermelhos pareciam maiores do que
haviam em qualquer dia , antes . Ela arrumando a mesa parecia ter medo das
vasilhas: segurava-as com força , de um modo diferente do que era costume, como
se temesse que elas lhe caíssem das mãos.

Meu pai, antes sempre calmo , pareceu agitado e nos mandou assentarmos à
mesa, mesmo antes de ela estar servida : Queria – nos todos ali, ainda sem trocarmos
o uniforme, pela roupa mais comum que, usávamos durante o dia.

Chamou Maria para que também se assentasse á mesa. Isso era inteiramente
fora do comum. .Minha mãe sempre manteve a empregada longe de nós, dizia que
era para evitar que tivéssemos maus hábitos e nos crescemos falando erradamente a
nossa língua.

Vindo de mamãe , esse argumento não me convencia ,já que ela nunca me
pareceu pessoa interessada neste tipo de cuidados e em todo meu contato com ela
não me lembro de vê-la envolvida com livros ou revistas que não fossem de ginástica
ou maquiagem.

Não tínhamos medo do que papai iria falar conosco: sabíamos que ele
nos falaria de uma coisa séria , mas não seria uma reprimenda : ele foi sempre
bondoso e nunca achou que fizéssemos erros muito graves.

Naquele dia , sentimos que ele falaria de alguma coisa muito séria e ficamos
todos em silêncio , o que também era fora do comum:

Meu pai disse simplesmente: Sua mãe nos deixou. Partiu com outro homem. A
vida de vocês , mudará um pouco .Farei o possível para que não seja muito. .

De um jeito o de outro, a mãe de Vocês deixou esta casa , não voltará mais.
Lília continuara fazendo o serviço doméstico e Camila fará o que a mãe fazia. Isso é
o de importante que eu queria lhes falar. Mas devo alertar-lhes também que- disse ele
mudando o tom da voz:

As pessoas dirão que sua mãe cometeu um grande erro. Dirão que mulher
casada e com filhos não poderia ter feito isso. Meu pai nos olhou a todos e continuou
a falar com a mesma firmeza e o mesmo olhar sereno:

Vocês não são e nem serão responsáveis pelos atos de outras pessoas, nem
mesmo pelos atos de sua mãe, mantenham a dignidade que só se diminui pelos erros
que sejam de cada um de nós. Se alguém se afastar de vocês por atitudes minhas ou
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de sua mãe , não se importem , será sempre o comportamento de pessoas pequenas ,
de quem vocês é que deverão se afastar.

Meu pai disse isso mas de todos nós foi ele o que mais se sentiu humilhado pelo
que havia feito minha mãe.

Hoje vejo que nada afeta mais a auto estima de um homem de que o adultério
cometido por sua mulher. È como se lhe disse que ele não é viril e sem este atributo
ele não pudesse ter outros.

Na época ,nenhum de nós entendeu na fala de meu pai, nada além do fato de
que mamãe nos havia abandonado a todos e, isso foi suficiente para que naquele dia,
o almoço houvesse voltado intacto para a cozinha.

Quando meu pai foi para o trabalho, disse –nos que devíamos todos trocar a
roupa da escola e depois devíamos ir estudar como fazíamos sempre. Tenho certeza
de que ele sabia que isso nos seria impossível: ele apenas queria amenizar a
importância do que poderia ter sido uma tragédia.

Ninguém conseguiu fazer nada naquele dia, nem em muitos outros, logo a
seguir mas um de nós que encontrasse o outro com olhos vermelhos de chorar dizia
simplesmente : estou muito gripado hoje.

Essa desculpa nos ajudava a esconder a vergonha de chorar pela ausência de


uma pessoa que livremente nos havia deixado e de quem a vida incipiente nos
ensinou, tínhamos o direito de esperar que nos amasse.

Minha tia morava ao lado de nossa casa, mas, desde esse dia nunca mais nos
visitou. Irmã de minha mãe, ela entendia que, não havia lugar para ela na casa de meu
pai, sem razão , ela se sentiu participante do comportamento de mamãe, ou talvez
temesse que meu pai a ferisse falando horrores de sua irmã.

Ela nos mandava bolos e biscoitos pela empregada e nos olhava de longe, mas
evitava que a víssemos.

Nossos primos também se afastaram de nós e só os víamos no caminho da


escola, tempo que antes aproveitávamos o tempo para brinquedos e trocas de
pequenos segredos, agora era usado em fazermos de conta que não os víamos e nem
éramos vistos por eles.

Zenite e eu éramos da mesma idade e sempre nos demos muito bem : a partida
de minha mãe só mudou o nosso relacionamento , no sentido de que passamos a no
encontrar longe dos adultos:
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Minha tia e meu pai mudaram todo o relacionamento familiar só porque minha
mãe nos havia deixado e , ao perdermos mamãe tivemos de perder quase todas as
outras pessoas a quem amávamos.

Com o tempo todos os meus primos foram se afastando de nós tudo porque eles
repetiam o que a mãe deles falava de meu pai: Ela dizia , em sua casa e, mesmo em
outros lugares que meu pai era ante social, vivia só pelo dinheiro e pensava que se a
mulher era casada , nada mais na vida lhe devia importar.

Diziam até que meu pai determinava o tipo de roupas ou penteados que mamãe
devia usar. Isso nunca foi verdade.

Minha tia devia gostar muito de mamãe , mas não havia sido capaz de
entender suas razões e, para defender sua irmã não encontrou outro meio de atacar
meu :

Isso não me incomodou, mas mesmo assim fui eu a primeira de minhas irmãs ,
a facilitar o afastamento que minha tia queria ter de nós, pois , pequenos freqüentes
atritos me foram mais desgastantes de que os grandes e únicos.

Minhas irmãs diziam que o marido de minha tia era irresponsável , que a o
casal vivia de festas , não se importavam com o trabalho e nem com os filhos. Na
verdade, em casa de minha tia todas as noites pessoas reuniam-se , as mulheres
cantavam e tocavam violão os homens às vezes se ajuntavam a eles ou se afastavam
para um jogo que se chamava truco.

Também isso não me incomodava: eles sempre foram mais pobres de que nós ,
mas, nunca nos exploravam e eram felizes na sua pobreza.

Desde que minha mãe se foi , meus irmãos passaram a notar os vestidos
ruins de minhas primas , a alegria com que viviam : consideravam que, aquela era
uma casa de vagabundos e não escondiam o que pensavam de meus primos tão
crianças quanto meus irmãos.

Essas acusações infantis, foram aos poucos nos afastando de todos da família
de minha mãe :Zenite e eu continuamos muito amigas , uma amizade estranha porque
tínhamos que mantê-la em segredo , como se nela alguma coisa houvesse de errado ,
quando na verdade , nos parecia quem estavam errados eram todos os outros, que
misturavam as coisas e complicavam tudo.

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Algum tempo passado meu pai foi ficando muito doente. Poucos amigos
vinham vê-lo. O senhor Laurentino era um deles: Um homem de cabelos brancos,
muito bondoso e que continuou cuidando de nós, mesmo depois da morte de meu pai.

Foi ele quem orientou nossa vida a partir desse tempo, também foi ele quem
influenciou ao juiz de menores , para que me fizesse tutora de meus irmãos, mesmo
que para isso tivesse de retardar o processo por muito tempo até que eu me tornasse
maior .

Foi ele também quem me ajudou a tomar todas as providências , para que
nossas vidas continuassem , em tanto quanto possível , a mesma que haveria sido se
contássemos com a presença de nossos pais.

Maria foi uma grande amiga: Estava em nossa casa a muito tempo , e sua
história , a descobrimos depois de sua morte.

Antes de estar conosco ,ela havia sido casada com um homem de condição
social um pouco melhor de que a dela: Maria tinha os cabelos cor de trigo maduro e
disso resultou que lhe todos em sua cidade a apelidaram de Maria Trigo.

O nome soava como um carinho e Maria , babá dos filhos de ricos da sua
cidade, sendo carinhosa e boa para com as crianças, tornou-se uma pessoa
especialmente querida na cidade onde minha mãe havia nascido.

Casados , meus pais vieram morar na cidade onde nascemos e quando Maria
foi expulsa de casa pelo marido, veio para a nossa casa, antes mesmo que qualquer de
nós, os filhos, houvéssemos nascido A história de Maria mostrou-me uma certa
inutilidade do bem , do amor e de muitos valores que quase todos nos tentam passar.

Esteve conosco todo esse tempo e, a bem da verdade foi mais dona da casa e,
até mais mãe de que mãe que sempre ocupou de outras coisas que lhe pareciam mais
interessantes de que simplesmente estar com crianças ou cuidar de casa e fazer
delícias na cozinha,

Resistiu conosco a partida de mamãe , o alcoolismo de papai e foi por esse


tempo que descobrimos todos a dimensão do carinho da mulher que em casa, minha
mãe sempre nos havia mostrado, devia ser tratada a distância. Em mamãe isso , eu
não compreendi e hoje o justifico pensando que muito antes do homem que pintava
vidros talvez mamãe em segredo tivesse outros amores que fossem do conhecimento
de Maria e ela quisesse não se tornasse conhecido de nenhum de nós.

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Um dia já éramos moças minha irmã e eu, quando Maria desapareceu sem
dizer nada e o último capítulo de sua história nos foi contado pelo Jornal:

Ficamos sabendo que ela havia sido assassinada pelo seu amante, um policial
que apresentou como motivo para o crime o fato de tendo ele querido abandoná-la ,
ela ter-lhe ameaçado de matar a esposa e filhos.

Sempre tive certeza de que esse homem mentiu, para se desculpar: Maria não
faria ameaças e não creio que ela fosse capaz de qualquer maldade, mas meus
irmãos e eu , embora adultos nada fizemos para que esse homem pagasse pelo que
fez. mostrar às pessoas quanto havia sido covarde e mau , o amante de Maria, uma
pena que me pesa até hoje. Essa é uma das culpas de que não me livrarei nunca.

A morte de meu pai não trouxe minha mãe de volta, ela nos mandou de onde
estava um documento pelo qual passava aos filhos a renuncia de todos os direitos
que lhe viessem em razão da ausência de meu pai..

Não sei se foi nobreza ou ignorância da parte de minha mãe, mas ela nos deu
quase tudo que era dela e se não nos deu mais , não entendi bem, o que lhe sobrou
foi apenas o que não lhe era permitido doar .

Minha mãe não se preocupou nem um pouco com seu futuro, parece-me que
ela nem pensou na hipótese de que o homem, pintor de vidros a abandonasse ou muito
pior ainda , morresse.

Foram momentos muito difíceis de nossas vidas quando percebemos que no


mundo , não tínhamos mais com quem pudéssemos contar , além do senhor
Laurentino, ligado a nós pelo único fato de ter sido um empregado de meu pai.

Tínhamos condições de manter uma empregada, mas, a dificuldade de


encontrar a pessoa exata para exercer este cargo, numa casa praticamente sem dono,
foram muitas , não maiores de que o desconforto que essa ausência nos causava.

A morte do senhor Laurentino não nos apanhou de surpresa e até achamos todos
que ele morreu no tempo certo, dois dias antes de chegar aos noventa anos.

Ficamos sozinhos no mundo , os três. Minha tia morava ao lado de nossa casa:
Ela não existia mais de que para comentar com azedas censuras tudo o que se
passava em nossa casa, de onde ninguém assumiu o papel de dona, nem mesmo eu
que teria idade mas não vontade para isso.

Seus comentários feitos com vizinhos ou amigos costumavam nos chegar


piedosamente através de estranhos e, com o tempo ,todos nós, os três passamos a
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sentir por ela um desprezo maior do que sentiríamos pelos ditadores e criminosos de
guerra: Se rapaz ou moça aparecia em nossa casa , minha tia comentava com os
vizinhos e dizia que não tínhamos como fugir da condição de filhos de minha mãe.

Minha Tia devia pensar que nos denegrindo a imagem , comprovaria a lisura de
sua casa: Minhas primas , como dizia minha tia, deveriam ser moças decentes , em
companias decentes, tudo tão decente que minha irmã e eu descobrimos cedo o
imoral nessa forma de decência: Criamos para nos valores diferentes e nos afastamos
de todos que, nos pudessem lembrar a casa de minha tia.

E fomos crescendo os três tão diferentes um dos outros e tão unidos que este
milagre muitas vezes debito á falta de qualquer autoridade em nossa casa, pois por
muito que eu houvesse querido me transformar em mãe, a tarefa me era de todo
impossível: eu não passava de irmã, querendo da vida as mesmas coisas que todos os
jovens querem.

Éramos os três buscando cada um sua forma de ser e seu caminho de ser feliz,
caminho já marcado pela ausência de nossa pais, mais pesada a de mamãe.

De vizinhos amigos e até mesmo de colegas de escola , tivemos de suportar


uma censura velada ou não á minha mãe até mesmo quando desejavam ser piedosos.
Isso me enchia de raiva e não raro de humilhação.

Foi sobretudo quando me apareceu o primeiro namorado que esta dor me veio
com toda força e talvez tenha sido esta força , o primeiro impulso que recebi para ser
a Camila que sou.

Também à minha irmã essas histórias impressionaram: Minha irmã , logo que
conheceu o homem que mais tarde viria ser seu marido, sofreu uma transformação
enorme :vestia-se de roupas muito sóbrias, ia á igreja todas as noites e vinha sempre
pelo caminho de volta, a cabeça baixa , os braços no peito, segurando o livro de
orações.

Minha irmã foi uma jovem comedida nas palavras, via religiosos na televisão e
o seu modo me deixou muito assustada pelo menos até o momento em que ela
apareceu em casa com o seu namorado, um homem que me parecia ter sido feito para
a mulher em que minha irmã se transformara.

Minha irmã foi sempre mais séria e responsável de que eu, mas desde que Ivan
apareceu em sua vida, ela se transformou em uma senhora idosa , enxergando erro e
sedução vulgar , no mais doce dos sorrisos, numa fala mais alta ou num vestido de
verão.
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Uma vez lhe falei disso, queria que ela voltasse a ser jovem , que não tentasse
provar aos outros que ela não se parecia com minha mãe: Se minha mãe , não havia
sido perfeita, não tínhamos culpa disso, mas Soraya discordou de mim e disse que
me faltava o direito de mudar-lhe a idéia ou os modos, pois os meus, livres e
devassos, a prejudicavam e com eles ela não havia se envolvido. Minha irmã estava
com a razão. Nunca mais lhe falei disso. Nunca deixamos de ser solidária uma com a
outra, mas, os espaços que ocupavam as nossas vidas , tornaram-se absolutamente
delimitados.

Meu irmão se deu bem com o namorado de minha irmã. Mantive-me a certa
distância desse moço, sério, trabalhador, mas reconhecidamente menos inteligente e
culto de que meu pai.

Ele me dizia brincando , o que, eu tinha certeza ele pensava a sério, dizia que
eu era ligeiramente louca , o que em nada me ofendia pois sempre pensei o mesmo,
não só dele como de minha irmã, ele desde sempre e ela no novo papel que
encarnava.

De mim, eu nunca disse nada a respeito desse homem, sério e espiritualizado


de mais para sua idade : os dois me pareciam , reencarnações de cavaleiros
medievais, ele e ela sempre dispostos a morrer pela fé.

Nunca soube o que a sério, eles pensavam de mim e a respeito disso nunca fiz
perguntas:

Ao contrario deles, eu me exorcizava do passado em bares e boates , uma vida


sem pressa e sem quaisquer parâmetros.

De estranho em mim , era que em todos esses lugares evitei tudo o que me
fizesse controle de mim mesma , como se temesse a todo instante que as pessoas que,
me cercavam pudessem saber tudo que minha vinha a cabeça.

Não fiz uso de álcoois ou quaisquer drogas que me fizessem sair de mim:
Sempre me quis consciente de mim mesma , o outro foi sempre para mim uma
testemunha, quase sempre temível.

Cada um de nós , os irmãos, era muito importante para o outro e o medo de nos
perdermos um ao outro, nos ensinou a deixar que cada um fosse ele mesmo, por isso
quando Ivan nos trouxe em casa a sua noiva exuberante, de excessiva maquiagem
decotes pródigos , saia colada ao corpo nem mesmo o seu cigarro pelo qual minha
irmã é alérgica, nos fez manifestar para com ela o mínimo de desagrado.

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De meus amores, todos demoraram a saber, porque passaram a ser tão
transitórios que eu nunca mais os levava em casa:

Jacinto havia estado conosco. Havia quase chegado a fazer parte da família, até
que um dia me veio dizer que era melhor que nos separássemos , porque a senhora
sua mãe não estava de acordo em que ele se casasse . com alguém cuja mãe não
havia tido um comportamento decente.

Faço muita questão de mostrar-me razoável, porque defendo que as pessoas tem
direito a liberdade de ser ou de pensar, mas, mesmo assim desde esse tempo quem
era mais desprezível , se Jacinto ou a senhora sua mãe.

Nesse tempo me lembrei de meu pai e considerei que esta senhora era pequena
demais para minha cabeça e , só hoje voltou a falar de Jacinto e de sua mãe, e não o
falo por eles , falo por mim.

Mas a medida em que o tempo passava , outros homens vieram ao meu


caminho , todos eles ávidos do corpo que eu havia herdado de minha mãe e
desinteressados da cabeça que veio de meu pai.

E foram tantos os problemas que me vieram disso , que, uma vez cheia de
amargura disse a minha irmã: Sempre penso mal dos homens e, me engano, eles são
piores do que pensei.

Minha irmã se manifestou muito chocada quando lhe disse isso e culpou-me
pelos meus modos de mulher alegre, freqüentando festas, os vestidos colados ao
corpo, uma lembrança viva do que havia sido minha mãe

Nunca tive intenção de me fazer uma pessoa diferente daquela que eu queria
ser, nenhum homem poderia valer para mim a renúncia de mim mesma , porque
nunca imaginei possível , a renúncia de toda uma vida: Um dia eu haveria de ser eu
mesma. Admitir essa renuncia , talvez tenha sido o primeiro erro de minha mãe: Os
outros vieram desse.

Quando meus pais se casaram naturalmente eles haviam mostrado um ao outro


imagens irreais de se mesmo e quando se tornaram reais , seu casamento se tornou
impossível.

Nos caminhos de minha irmã e de seu marido , eu via as marcas desse mesmo
erro e temia o momento em que eles se descobrissem.

Nunca pude imaginar, pessoas tão cumpridoras de deveres religiosos quanto


eram eles, os dois ; Na casa de minha irmã a mentira estava sempre embutida:
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Falavam sempre uma verdade e procediam de acordo com ela, mas o falso estava no
ar e era ele que todos respiravam.

Tudo era tão perfeito na casa de minha irmã que até as crianças choravam
pouco e, se o faziam, tinha-se a impressão de que também para o chora tinha hora
marcada. Tanta ordem desordenava minha cabeça e meus atos.

A casa de minha irmã foi se me tornando desagradável , tudo me causando a


impressão de que minha irmã vivia provando a se mesma que ela era diferente de
minha mãe .

Minha irmã me dava pena :ela se transformou em alguma coisa que não podia
ser a filha de meu pai e menos ainda de minha mãe: na sua ânsia de ser aceita pelos
outros eu sentia que ela havia deixado de ser ela mesma.

Ivan, marido de minha Irmã era pontual em seus horários, usava ternos
escuros, sem se importar com a temperatura, nunca deixou de usar colete nem
desprezou o relógio de bolso, prezo a uma gôndola de coral :Eram sempre tão iguais a
se mesmos , como imóveis no tempo a casa dia mais veloz.

Para minha irmã, nunca um homem foi tão elegante quanto o seu marido.

Meu irmão tinha um tempo feliz: A mulher havia decidido que daquele
casamento , filhos nasceriam mais tarde, porque agora muito jovens ele e ela , melhor
seria que aproveitassem a vida em viagens e passeios- Diziam sempre , filhos nos
obrigam a muitas responsabilidades.

O trabalho de ambos favorecia a este tipo de vida: Ele trabalhava para um


jornal de nome e ela vendia reportagens feitas à sua escolha para quem livremente as
comprasse, geralmente revistas femininas.

Quando não sei porque razões , as viagens de trabalho foram diminuindo, meu
irmão foi mudando de vida e a mulher dele antes cheia de alegria , agora se
entregava ao trabalho tedioso a que se dão as mulheres, exclusivamente donas de
casa.

Minha irmã , Soraya e minha cunhada que se chamava Laura se davam muito
bem: Quando as duas se entretinham em conversas domésticas eu me mantinha em
silêncio e quando era eu quem lhes falava de minha vida, especialmente a noturna,
elas riam, diziam-me que eu era louca e não havia em nenhuma delas um mínimo
sinal de censura.

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De meu trabalho nunca lhes falei .Dele esperava muito : o que me veio de
aborrecimentos sempre me pareceu normal e os prazeres que ele pudesse me dar,
sempre me foram inúteis . Se procurei ler alguns livros e aprender quaisquer coisas
não o fiz mais de que o suficiente para que minha fala fosse agradável aos homens
de bom gosto, a quem eu pudesse acompanhar em lugares interessantes.

Sei que a mim me achavam fútil e esses juízos não me preocupavam , porque
também eu as achava , idiotas.

Minha cunhada resistiu a isto por pouco tempo e logo avisou a meu irmão de
que precisava de um trabalho, porque a rotina domestica lhe parecia insuportável:

Meu irmão discordou pois era exatamente nesse tempo em que sua situação
profissional, aconselhava a que eles tivesse filhos e em vez do trabalho minha
cunhada conseguiu em menos de um ano, um lindo par de gêmeos.

Minha cunhada a esse tempo tinha tantos filhos, que de muitos deles eu nem
sabia o nome e ela mesma ás vezes os confundia: Não acredito que essas crianças
tenham sido bem cuidadas , mas para que isso acontecesse minha irmã não se poupou
de nenhuma ruga, doenças ou muitos quilos alem do que lhe normais.

Nesse tempo conheci Anselmo, um homem casado de filhos adultos e


casamento mantido por várias conveniências e nenhum prazer :De inicio Anselmo
me vinha ver uma vez por semana, no horário em que a mulher estava certa, ele teria
reuniões com os diretores da firma de que, ele era um dos sócios.

Meus encontros com Anselmo , num apartamento especialmente reservado ,


agora para mim, antes por muitas outras, ficaram durante muito tempo em segredo,
até que numa de minhas férias , tudo devidamente acertado, Anselmo e eu fizemos
juntos , uma viagem tão feliz que me valeram as viagens que não fiz , com outros
homens que lhe antecederam.

Foi neste tempo que conheci, Notre Dame e Chartres . Foi neste que me
lembrei do homem que pintava vidros. Estes homens e estes lugares me deram
consciência me deram consciência e orgulho do quanto eu me parecia com minha
mãe. Eu tinha nesse tempo , a mesma idade que contava mamãe no tempo em que ela
nos deixou.

Foi neste tempo em que tomei consciência de que enquanto muitas mulheres
tinham como virtude o aprender a sofrer , maior virtude seria que , no meio de tudo
de ruim que a vida nos costuma dar, a grande aula , ainda não dada seria aquela
que nos ensinasse a sermos felizes.
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Votando de viagem , fui convidada a não mais aparecer na casa de minha irmã ,
tinham eles como certo que minha presença entre eles seria de todo nociva á
educação de minhas sobrinhas, que nos seus oito , nove anos diziam eles –eram
adolescentes.

Não pude compreendê-los nesse comportamento: Tudo o que eu havia feito até
então, eles o sabiam e nunca me haviam sequer falado disso, a única novidade estava
em meus vestido , agora comprados em lojas elegantes e as jóias que me foram dadas
por Anselmo, antes não dadas por qualquer outro, simplesmente porque os outros ,
não tinham as condições de Anselmo e homem que não foi o primeiro , nem haveria
de ser o último em minha vida.

Meu irmão , tão logo soube de minha chegado , levou-me uma cesta de
censuras , falou-me até que eu deveria me mudar senão de cidade, pelo menos de
Bairro, porque conhecidos diriam todos que eu era filha de minha mãe e que isso nos
honrava a nenhum de nós.

Foi então que eu lhe respondi que ele não poderia falar por mim, falasse apenas
por ele, que a mim ser filha de minha mãe não orgulhava ou deixava humilde: Minha
mãe havia sido capaz de usar do direito de traçar o seu caminho , cometeu apenas um
único erro , o de ter se casado e este me conhecendo como conhecia, deixava-o
inteiramente fora de meus planos.

Meu irmão não se afastou de mim, evitava que eu fosse a sua casa e me
tratava com uma ternura enorme , tentava levar-me ao psiquiatra e , triste dizia aos
amigos que ele me tinha como uma pessoa doente.

Durante muitos anos tive noticias do que se passava em casa de meus irmãos ,
notícias nunca são verdadeiras e eu sempre soube disso.

As notícias sempre me vinham agradáveis: Minhas sobrinhas, bonitas,


saudáveis, progredindo nos estudos e até em ligeiros amores, meu cunhado e meu
irmão, avançando em seus negócios e profissões, todos felizes com suas mulheres e
filhos.

Da família, a única de todas as casas em que eu era aceita era a de Zenite de


onde eu sabia alegrias e tristezas se alternavam: Zenite continuou professora
primária , cuidando dos filhos dos outros e daqueles que havia tido, esses apenas dois,
educá-los ficava dispendioso e até o tempo do afeto despendido poderia ser pouco
para outros que lhes viesse , nisso como em quase tudo estavam ela e o marido de
acordo.

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Arezzo, aquele marido lindo de minha prima , não tinha mais o cabelo loiro , a
idade os embranquecera, mantendo azuis os lhos que sempre foram de ternura,
ajudava com cuidado para que não sobrassem á mulher trabalhos incômodos ou
pesado.

E quando Anselmo, sem qualquer aviso, me veio dizer que na sua vida eu não
valia mais que um incomodo – era incomoda, o curto tempo de lagrimas que esta
despedida grosseira me deu , eu o chorei em casa de Zenite e tanto ela quanto o
marido me lembravam amorosos de que ser feliz era uma arte e, nesse mais de que eu
outro tempo eu devia cultivá-la.

Mesmo tendo sido Anselmo , o primeiro homem que me abandonou, a dor de


sua ausência não me foi tão penosa quando eu a imaginava ela seria possível, mas
ainda não havia se tornado real.

Foi quase tão grande quanto aquela que , um dia sem pensar, me vi diante de
um espelho e me enxerguei envelhecida e feia , e uma pergunta não pensada me veio
á cabeça:” O que fiz de minha vida?”

Dura comigo , a mulher envelhecida e velha que havia visto no espelho, me


veio a certeza de que meu tempo fora usado muito levemente , dele eu não havia
feito nada de útil, responsável ou comprometedor e se no dia seguinte , por acaso eu
estivesse morta , no mundo eu não teria deixado sinais.

Mas foi por esse tempo que eu tive de deixar o meu mundo, porque me veio da
casa de meu irmão, de onde eu apenas sabia as crianças iam bem na escola, a mãe
continuava bonita e feliz, o homem próspero em seus negócios, tudo tão bonito
quantos são bonitas as naturezas mortas, de lá me veio a notícia:

Sandra, mulher de meu irmão , jornalista experiente que havia sido, mãe de
lindos filhos , ela havia se matado, meu irmão que deveria estar vivo , sentia-se
também como morto. Eu queria vê-lo. Diriam todos foi pouco o tempo em que estive
com meu irmão , penso que foi muito tempo. Muito e pouco são relativos demais.
Estive três meses em casa de meu irmão :Ele se desculpava da morte de sua mulher.

Falava de suas desculpas e remorsos . Eu apenas ouvia. São muito úteis e raras
as pessoas que ouvem. Meus sobrinhos ficavam em maior silêncio. Passaram muitos
dias deitados em suas camas, as cabeças cobertas , raramente olhando o teto.

Depois de um tempo foram voltando ao colégio, depois aos amigos , por fim
aos passeios , um de cada vez e eu tentava descobrir a quem minha cunhada estaria
fazendo mais falta.
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Achei que era à Elisa porque foi justamente ela quem fez questão de aparentar
que aquele suicídio, não passava de um fato normal . Um dia Elisa me disse Minha
mãe permitiu que meu pai a matasse , os dois não são mais de assassinos .Elisa tinha
quinze anos . E percebi que ela havia sido capaz de perceber seus pais , sem
qualquer mistura de afeto

Ela descreveu meu irmão como um homem autoritário ciumento , sem qualquer
respeito pela mulher . Não só a sua mas todas, mesmo ou principalmente as filhas.
Elisa via tudo de um modo que me pareceu muito simplista Elisa não viu mais de que
sexo nas razões porque a mãe havia por tanto tempo suportado aquele marido, que
por acaso era seu pai E dizia :Mamãe era inteligente, tinha profissão deveria ter
deixado meu pai , antes que ele a houvesse anulado tanto Teve a vida que mereceu e
a morte foi a de sua escolha. Amanhã terei me esquecido dela , de meu pai , nunca me
lembro.

Encontrei-me em Elisa. E não havia pensado nisso, mas de todos os filhos de


meu irmão era Elisa a que mais se parecia comigo: A diferença e que eu havia
desculpado meu pai e minha mãe E Elisa não desculpou nenhum dos dois. Elisa teve
mais coragem de que eu ou foi menos capaz de entender as pessoas . Houve um
tempo em que pensei estar entendendo a todos . Nesse tempo não me entendi. Elisa
se entendia ela marcava o seu espaço e foi por isso que ela , pouco mais tarde se
afastou de todos nós . Não sabemos sequer se ela está viva. Dela, ela não nos deixa
saber coisa alguma. O pai, meu irmão que ora se culpava pela morte da mulher,
outras vezes acusava-a de louca, apenas chora a ausência da filha. Disso não tem
coragem de dizer coisa alguma.

Os irmãos nunca falam de Elisa. Marisa assumiu a casa , em lugar de sua mãe,
mas antes mesmo que houvesse ocupado totalmente esse espaço, meu irmão arranjou-
lhe um marido, um homem que a abandonou e saiu pelo mundo sem procurar notícias
nem mesmo do único filho que minha sobrinha chegou a ter.

Marisa não culpa o homem que a abandonou, ela sempre diz , ele sabia que eu
não o amava, sabia mais que nosso casamento resultou do fato de que nossos pais
queriam se livrar de nós quando éramos ainda muito crianças. Hoje somos amigos e
falamos disso, mas o que sentimos um pelo outro é piedade, apenas isso.

Meus sobrinhos os homens conseguiram se arranjar na vida.

Não sei se são felizes .Os homens são mais retraídos .mantêm mais silêncio
sobre suas vidas.

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Quando minha irmã também foi surpreendida , descobrindo que o marido tinha
outra mulher, o susto nos uniu a todos os irmãos: Todos os homens tinham direito a
isso , menos naturalmente meu cunhado: Ele era extremamente sério, via tão bem os
erros alheios e tinha um deus sempre presente em suas falas.

Minha irmã também acreditava nesse marido e era tão bonito vê-los juntos , não
muito novos , mas felizes voltando da igreja , o único lugar que pensávamos ele seria
capaz de ir alem do escritório.

Minha irmã e seus filhos ficaram sós , não apenas sozinhos , mais de que isso
desamparados. E minha irmã foi de todos nós a maior surpresa . Abandonada e com
filhos pequenos conseguiu emprego , fez cursos e mais de que isso.

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