Você está na página 1de 14

Corram para as colinas:

apocalipse zumbi e subversão pós-moderna


JULIANA ABONIZIO*

Resumo
Este artigo busca refletir sobre a sociedade contemporânea a partir da
previsão fictícia de um apocalipse zumbi enquanto manifestação do desejo
de aniquilamento da sociedade tal como está estruturada.
Palavras-chave: juventude; cinema; rebeldia
65

Run to the hills: zombie apocalypse and the postmodern subversion


Abstract
This article reflects on the contemporary culture from de forecast a fictional
zombie apocalypse as a manifestation of the desire for destruction of society
as it is structured.
Key words: youth; movies; rebellion.

*
JULIANA ABONIZIO é Doutora em Sociologia. Docente do Programa de Pós-Graduação em
Estudos de Cultura Contemporânea - ECCO- da Universidade Federal de Mato Grosso. Pesquisadora da
Rede Centro-Oeste de Ensino e Pesquisa em Arte, Cultura e Tecnologias Contemporâneas - Rede CO3.
Apocalipse: medo da morte do Assim, medo da morte individual e
mundo medo do fim do mundo agem como
Está em qualquer profecia, constantes antropológicas, mais ou
Que o mundo se acaba um dia. menos evidenciadas de acordo com as
Raul Seixas conjunturas. Se todas as culturas tem
uma explicação da origem – da
humanidade e do universo – também os
alertas de risco de extermínio tem sua
vez em uma história mítica que se
pretende sempiterna.
De tempos em tempos, o mundo
ocidental alerta-se sobre a iminência do
apocalipse. Apocalipse que pode ser
vislumbrado, previsto, calculado,
visionado, tematizado em obras de
ficção, temido como realidade iminente
e, mesmo, desejado.
É necessário refletir sobre o significado
do termo apocalipse. Pela etimologia,
Os versos da música Profecias (LP apocalipse designa revelação,
Mata Virgem, 1978) do compositor descoberta do que estava oculto e, em
Raul Seixas que utilizei como epígrafe razão da relação com as revelações do
traz à tona a dialética que dinamiza as livro bíblico de mesmo nome, o termo
passou a designar fim do mundo ou fim 66
sociedades: todas as culturas tendem a
se reproduzir através das instituições e dos tempos.
da educação das novas gerações. Em Diante da revelação de uma catástrofe,
contrapartida, todas as sociedades fugir é a melhor opção, como sugeri ao
também sonham em ser diferentes do intitular esse artigo com a expressão:
que são. Essa é a sua dinâmica: a “corram para as colinas”. Expressão de
sociedade alternativa como uma origem duvidosa, mas que se tornou um
sociedade diferente da nativa. É assim meme 1 na atualidade, utilizada como
que a nossa sociedade mumificada é incentivo e constatação da necessidade
assombrada pelos bandos juvenis de escapar.
ansiosos por um apocalipse, mais
precisamente, por um apocalipse zumbi. Há quem atribua a origem da expressão
às páginas bíblicas (Bíblia, 1999), como
Dois medos se misturam entre os em Marcos 13:14, quando Jesus
humanos, de um lado, a consciência de anuncia: “Então, quando virdes o
si enquanto indivíduo proporciona a sacrilégio horrível posicionado no lugar
consciência e certeza da morte, maior onde não deve estar , os que estiverem
angústia discutida por estudiosos do na Judéia fujam para os montes” ou
espírito humano em diversos níveis; de quando um dos anjos fala a Ló em
outro lado, o medo de que o mundo, que Gênesis 19:17: “Livra-te! Salva a tua
dá sentido aos indivíduos ao mesmo vida depressa; não olhes para trás, nem
tempo em que estes lhe atribuem uma
ordem, deixe de existir. 1
Meme significa imitação em grego. É um
termo usado para desgnar expressões ou ideias
de grande popularidade e usos na internet.
pares em nenhum lugar durante tua aniquilamento, ao fim do mundo. No
jornada pela planície! Foge para a entanto, retomando sua etimologia,
montanha, a fim de não pereceres com gostaria de recuperar o sentido de
os demais!” revelação, assim proponho refletir sobre
Em língua inglesa, a expressão “run to o que esse cenário hipotético
the hills” tem origem atribuída, embora catastrófico revela sobre a sociedade
não consensualmente, ao período da que o criou.
colonização inglesa na América do Maffesoli busca discutir sobre o
Norte. Nesta concepção, os apocalipse dentro dessa perspectiva de
colonizadores vinham pelo mar e os revelação, fazendo a ressalva de que
indígenas fugiam para as colinas, a “não é preciso dar a esse termo um
oeste. Tal versão é corroborada com os significado por demais dramático ou
filmes de velho-oeste, nos quais os mesmo melodramático” (2010, p. 22).
índios atacam os colonizadores saindo Ainda para o autor:
por detrás das colinas. Essa junção da Drama ou melodrama são, não
expressão de fuga e colonização foi podemos esquecer, uma sequência
também tema da canção da banda incoerente de situações
britânica Iron Maiden, que leva imprevisíveis. Não, o apocalipse em
justamente o nome de Run to the hills seu sentido mais primordial é
(1982), cujo no início ouvimos: “white aquilo que apela à revelação das
man came across the sea, he brought us coisas (MAFFESOLI, 2010.p.22).
pain and misery” e o refrão: “run to the Nessa perspectiva, o apocalipse não é
hills, run for you lives”. incoerente, mas incoativo ao expressar o
O medo do fim do mundo só é possível necessário recomeço do que já está 67
com a revelação profética de sua caduco. Nesse sentido, podemos pensar
possibilidade ou certeza. Até hoje, o que ele se afasta do drama e se
medo foi infundado e o mundo aproxima da tragédia, dos nascimentos
permaneceu. A humanidade sobreviveu sucessivos após as mortes trágicas. Mas
à temida passagem dos milênios, tanto o que revela?
para o primeiro quanto para o segundo; O que significa uma sociedade criar na
sobreviveu às profecias de ficção o seu próprio aniquilamento? O
Nostradamus; às perspectivas de fim em que a ficção diz sobre a realidade na
1998 e 2012; às profecias maias; à qual ela se cria? Com essas e outras
guerra nuclear. Cada tempo tem seu questões, propus-me a refletir sobre o
medo. Destaco, na atualidade, a consumo de produtos referente a zumbis
recorrência crescente de citações de um por parte de uma das juventudes
tipo de catástrofe: o apocalipse zumbi. contemporâneas que denomina o
Apocalipse zumbi é uma previsão agrupamento em torno do apreço por
fictícia – cultuada, temida e desejada – tais coisas de cultura zumbi.
de uma infestação de zumbis de O termo cultura zumbi é uma expressão
proporção catastrófica que exterminaria recorrente em redes sociais que
a humanidade, apesar de conter, em sua congregam jovens que compartilham o
base hipotética, a possibilidade de uma gosto por objetos da cultura de massa
construção social pós-apocalíptica. considerados ícones, como filmes,
O sentido do termo apocalipse aqui seriados, histórias em quadrinhos.
parece ser empregado referindo-se ao
Para debruçar-me sobre Nesta reflexão, procuro
produções de massa e a ver o que está manifestado
ela dirigidas, recupero e compreender o que é em
Jameson, que propõe o uma espécie de sociologia
abandono “da concepção gestáltica: tornar presente
da cultura de massa como aos sentidos e com sentido
mera manipulação, pura o que estava lá sem ser
lavagem cerebral e percebido.
distração vazia, efetuada
Cultura Zumbi: da
pelas corporações
gênese ao apocalipse
multinacionais, que
obviamente controlam A ideia de apocalipse
atualmente cada zumbi surgiu na segunda
característica de sua metade do século XX e é
produção e distribuição” tema de incontáveis obras
(1994, p.13). Para o autor, literárias,
se se tratasse apenas disso, o estudo da cinematográficas e televisivas. A
cultura de massa seria semelhante aos primeira obra a retratar o tipo de
estudos de marketing e publicidade, narrativa do apocalipse zumbi não é
mas, em vez disso, ele vê a consenso, mas costuma-se considerar
possibilidade de estudar manifestações como inspiração o livro Eu sou a Lenda,
de massa revelando-as ao “domínio das de 1954, de Richard Matheson, em que
operações e fruições da cultura na vida se conta a batalha travada entre
cotidiana” (1994, p.13) Analisando as humanos e vampiros. George A.
duas primeiras partes do filme O Romero teria emprestado esse cenário 68
poderoso chefão, Jameson defende sua catastrófico para conceber o filme A
proposição de que “toda obra de arte noite dos mortos vivos, em 1968,
contemporânea – seja da alta cultura e substituindo a batalha entre humanos e
do modernismo, ou da cultura de massa vampiros pela guerra entre vivos e
e comercial- contém como impulso mortos vivos, humanos e zumbis.
subjacente (...) nosso imaginário mais
profundo sobre a natureza da vida
social, tanto no modo com a viemos
agora, como naquela que – sentimos em
nosso íntimo- deveria ser” (1994, p. 25)
Segundo Maffesoli, o apocalipse ao
revelar o que está oculto, “torna
aparente o segredo do estar-junto”
(2010, p.23). Nessa acepção, ele revela
em vez de representar, em vez da
função espelho, assim, o apocalipse
“torna presente, faz a presentação do
que está ali, indubitável, irrefutável,
intangível” (idem ibidem). O
pensamento apocalíptico revela o que se
tendia a esquecer.
Pelo excesso de violência, o filme de
Romero causou grande impacto na
época, com destaque para subversão do Mais surpreendente que considerar
happy end: no filme, não há possível uma vida pós-catástrófica,
sobreviventes. Romero consagra-se desvinculando-se indivíduo e sociedade,
como o primeiro a explorar a ideia de é desejar que isso ocorra. A morte da
holocausto e também reinventa o termo sociedade é desejada, mas não se
zumbi, inserindo-o em contexto urbano. projeta outra sociedade, como regia as
Essa nova ideia de zumbi torna-se um utopias socialistas, para substituir a
ícone popular e protagoniza o novo moribunda.
gênero de terror que inspirou e inspira Para Maffesoli (1999), essa é uma
filmes, livros, quadrinhos, games e toda
característica das tribos pós-modernas
sorte de produtos: o apocalipse zumbi. que rejeitam o projeto, a aglutinação de
Como mito anexo, destaca-se o forças e as lutas políticas em favor do
crescimento da ideia de presenteísmo, da potência, da subversão
sobrevivencialismo: pessoas teorizam que garanta uma soberania imediata.
como seria possível sobreviver a essa Há muitas produções em diversas
catástrofe, debatendo sobre estocagem mídias que criam, reforçam e divulgam
de alimentos, armas, defesas, lugares a noção de apocalipse zumbi, cada qual
para se proteger, rotas de fuga e criam tendo características mais ou menos
manuais de como seria possível escapar similares, mais ou menos diferentes.
da morte ou adia-la diante de uma
infestação de zumbis. Cabe ressaltar que A ideia geral do apocalipse zumbi é que
o sobrevivencialismo não se restringe um vírus atacará a humanidade
aos entusiastas da cultura zumbi transformando os humanos em zumbis
expandindo-se àqueles que temem as levando ao aniquilamento da sociedade 69
mais diversas catástrofes, naturais e tal como ela é. Esse vírus pode ser
provocadas. Diversas produções, em transmitido por arranhões e mordidas e,
especial na internet, compartilham dicas em algumas versões, pode ser
de como ser resiliente, como encontrar e transmitido também até pelo ar.
armazenar água na selva, como e Ao morrer e reviver como zumbi, os
quando utilizar determinadas armas, sujeitos se bestializam e atacam seres
como trançar cordas e como utilizar humanos e demais animais com o
criativamente objetos cotidianos na instinto único de se alimentar. Em geral,
direção da sobrevivência. Como os zumbis são vorazes, desprovidos de
exemplo, cito o blog brasileiro Guia do razão, de ego ou superego; são também
Sobrevivente, cujo lema é “sempre lentos em razão de seus músculos
alerta e preparados” (s/d). A intenção do estarem em putrefação e estão sempre
blog é divulgar dicas para aqueles que famintos; orientam-se pelo som e pelo
consideram suas casas “seu refúgio” e cheiro, não constroem laços sociais, não
aqueles que não vão cair se, ou quando, tem a percepção de indivíduo, não
o Estado cair. demonstram medo nem qualquer tipo de
No exemplo citado, é possível perceber raciocínio.
que o medo de um estado de anomia é Os zumbis só são detidos com a
vivido como dilema do indivíduo. A destruição do cérebro que é o órgão
destruição de uma sociedade pode não atacado, mas não destruído, pelo vírus.
ser evitada, mas pode-se sobreviver Como o vírus se propaga rapidamente, a
além da vida social. sociedade entra em colapso, os serviços
públicos páram, os recursos ficam
escassos, o pânico e a desordem social ‘faisandée’, símbolo de um corpo
caracterizam esse estado anômico. Os que apodrece. Uma falsa trégua. A
que não desistem de sobreviver, casa está pegando fogo e tenta-se
refugiam-se como podem, em grupo ou salvar os móveis. Para dizê-lo de
isoladamente lutando por alimentos, modo direto: estão tratando de
salvar, por medo, por dogmatismo,
água e armas de defesa.
os valores que foram elaborados
Um ponto importante é que, em geral, num dado momento (séculos XVII-
quando a praga zumbi é deflagrada, as XIX) num dado lugar: a Europa.
personagens se surpreendem, tomando o Valores próprios do Contrato Social
zumbi por uma pessoa com problemas e que são apresentados como
universais, aplicáveis sem distinção
físicos ou mentais e não as vendo como
em todos os lugares e todos os
um morto reanimado. Pela surpresa, as tempos. Não! Trata-se agora de um
pessoas não se protegem do contágio e a autêntico Apocalipse. De um alegre
praga se alastra, levando ao fim da apocalipse no qual ‘a lei do pai’
humanidade ou, em alguns casos, a uma horizontaliza-se em ‘lei dos
nova sociedade. irmãos’: ecosofia (MAFFESOLI,
2010, p.14).
É possível pensar que a destruição da
sociedade e da humanidade seriam Diante da expectativa de um apocalipse
metáforas do mundo contemporâneo e de mortos vivos, a morte abala os
suas muitas crises – crise da alicerces sociais no que tem de
modernidade, das instituições, do indomesticada.
Estado, da família etc. – e suas muitas
finitudes – fim da história, da política,
as ideologias, etc.. Diferentemente, Morte: da religião à ciência 70
proponho pensar as ficções de Os segredos da morte e as suposições
destruição da sociedade não como do além-túmulo povoavam o medo do
constatação das mortes e crises, mas que viria a ser um morto vivo, ser
como desejo de que a sociedade vigente desconexo da alma e do corpo, entre a
morra, podendo ou não ressurgir. Trata- fronteira humana e espiritual, meio
se então de uma forma de protesto não fantasma, menos humano. O zumbi,
consciente, um desejo disruptor, sem híbrido que é, situado entre as
predições acerca de uma nova ordem, classificações, revela o monstruoso. O
antes instituinte de uma desordem lugar do monstro é a margem, é, por sua
fundadora. natureza ambígua, muitas vezes híbrido,
Essa potência subversiva causa paúra e não sendo totalmente não-humano, mas
tentativas de resgate do estabelecido. ancorado na margem do humano, um
Discorrendo sobre a tentativa de salvar quase humano e, como aponta José Gil
o passado com medo do novo, (2006), é sempre um excesso de
Maffesoli constata o que chama de presença que, simultaneamente, assusta
muitas fórmulas alambicadas: e fascina.
[…] modernidade segunda, Distante das fronteiras do mundo etéreo,
modernidade tardia, o zumbi moderno já não traz essa
sobremodernidade, alta conotação sobrenatural, antes a
modernidade, hipermodernidade… naturaliza por meio de um vírus. Há a
(caro leitor, complete a lista como transferência da possessão do corpo por
quiser). Esperamos, agora, por uma um espírito maléfico ou nenhum,
‘modernidade avançada’ ou
considerando espírito algo capaz de agir
no corpo que não vemos nem sabemos o A ideia de corpo apêndice, imperfeito e
que é, para a possessão do corpo pelo composto de peças destacáveis a se
vírus, que o sujeita a sua vontade. Vírus, remodelar, dominante no extremo
tal qual espírito, invisível aos nossos contemporâneo, segundo Le Breton
olhos, indefinível para os não iniciados (2003), aparece na metáfora zumbi que
e solapador do corpo e da vontade. mostra a fragilidade humana diante de
Resta a dúvida: os zumbis naturalizam o um microrganismo. Este tipo de visão
religioso (transformam a explicação foi antevisto na história do monstro do
sobrenatural em explicação científica) Dr. Frankenstein2. O doutor dessacraliza
ou sobrenaturalizam o científico a morte ao ver o corpo como objeto a
elevando seus domínios – como o ser composto, recomposto, animado por
exemplo do vírus – a uma aura outra coisa que não alma, sem ânima,
transcendental? mas animal, este também visto como
Já não é de hoje que se percebeu que o desprovido de alma, subjugado por
instintos e tomado como objeto de uso,
projeto iluminista de desmistificar o
de venda e de troca, apesar dos
conhecimento da realidade,
crescentes movimentos pelos seus
principalmente através da exaltação do
direitos realizados por humanos que lhe
conhecimento científico como único
são solidários.
válido, tornou a própria ciência um
mito, sujeita a rituais variados, como O corpo, ao ser dessacralizado, gera
afirma o sociólogo José Machado Pais, duplo medo: a alma sem corpo, o
oferecendo como exemplos a analogia fantasma, e o corpo sem alma, o zumbi.
entre os batismos e defesas de tese, as Se, cada um ao seu modo dramatiza a
leituras de evangelhos e as leituras de separação corpo e alma, aceitamos mais 71
autores consagrados, além dos facilmente a morte do corpo diante da
seminários, das cátedras e dos domínios supremacia da alma e nos assustamos
disciplinares assemelhados a capelinhas diante do paradoxo gerado pelo zumbi,
no meio universitário (PAIS, 2003, p. sendo um corpo morto mas vivente,
36-37). O autor enfatiza: desprovido de alma. Corpo que não se
A objetividade cega que nega a pode matar posto já estar morto e cuja
subjetividade de quem a apregoa, as fome, insaciável, não conduz a morte.
explicações deterministas que Se o corpo é recurso finito aos
modelam rigidamente a realidade e humanos, beira a eternidade para os
o neopositivismo que impõe à zumbis. Só a destruição do cérebro ou
realidade a sua punitiva legislação sistema neural pode detê-lo atualizando
instalaram-se duradouramente nos a dicotomia corpo e mente.
discursos sociológico como novas e
inegáveis formas de religiosidade. Não são recentes as histórias sobre os
A objetividade tornou-se culto reanimados de diversas espécies, sejam
fanático e apaixonado que recusa a ressuscitados, como Lázaro o foi por
confrontação com o objeto (PAIS, Cristo, sejam reconstruídos como o
2003, p.38).
2
Como pensar o zumbi? Ele volta do Pode-se ler a história do monstro escrita por
Mary Shelley em várias versões publicadas
Mundo dos Mortos ou esse mundo desde o lançamento original em 1818. Pode-se
inexiste sendo o zumbi resulta apenas ainda assistir suas muitas adaptações
resultante da mecânica corporal cinematográficas, sendo uma das mais famosas,
animada por um vírus? a dirigida por James Whale em 1931, produzida
pela Universal Pictures e trazendo Boris Karloff
no papel da criatura.
monstro doutor Frankenstein, sejam os Os mortos não são imediatamente dados
vampiros que ficam no limiar da vida e como tal e, durante algum tempo, a
da morte, sejam feitos de terra ou pedra, depender da cultura, mantém-se vivo,
como Adão e Golem. inclusive com possibilidade de
comunicação com os vivos, nas
Quando se crê que o sopro da vida é
sombras, nos sonhos, nas possessões.
dado por Deus, não há estranhamento
Ainda podem voltar, por exemplo,
no mundo cristão ocidental
como no candomblé da Bahia, no
contemporâneo, mas a tentativa de um
terreiro de Egun com a função de
humano desempenhar esse papel, como
garantir a comunicação entre vivos e
o Prometeu moderno, causa, no
mortos. No entanto, se esses mortos que
mínimo, suspeitas. É por isso que o
voltam trazem possibilidade de cura e
verdadeiro monstro não é a criatura do
conhecimento ancestral, também trazem
doutor, mas o próprio Frankenstein na
narrativa de Mary Shelley que já aponta ameaça de morte.
as desconfianças em relação ao José Carlos Rodrigues (2001) confirma
progresso científico e ao projeto a crença de que os mortos podem voltar
moderno. ao mundo dos vivos, sendo bem vindos
A história do Dr. Frankenstein, dentre como guias espirituais ou trazendo
outras, como o Re-animator de H. P. temor. O autor, utilizando dados do
Lovecraft 3 , trazem a discussão acerca estudo de Maertens, exemplifica que
do início e fim da vida, que não é senão por toda parte, é preciso “disciplinar a
um consenso. ingerência dos mortos na vida dos
vivos: no Laos se amarram os dedos do
Pra alguns, a vida humana já está pé do cadáver; em Uganda, os polegares 72
presente no encontro dos gametas e são amarrados aos artelhos; os Kayapó
solicita um continuum do qual é do Brasil amarram os tornozelos e ligam
artificial isolar os graus; para
as mãos aos joelhos” e assim por diante
outros, ela intervém na nidação na
parede uterina, quando da (RODRIGUES, 2001, p.32).
transformação do embrião em feto, Para Rodrigues, a crença de sobreviver
ou no momento em que se torna em outro mundo recusando-se a morte
viável, quando seu sistema nervos enquanto finitude, além de recorrente
se desenvolve, ou mesmo no em diversas culturas, é bastante antiga
nascimento: a humanização é
como atesta a descoberta de uma perna
gradual e assinala a superação de
etapas biológicas necessárias. de bizonte quase intacta junto a um
Identificar o momento em que o esqueleto do homem de Neanderthal.
embrião adquire sua carga de Segundo o autor, essa descoberta
humanidade escapa a qualquer “permite levantar a hipótese de que os
critério científico e sugere, antes, companheiros do falecido tivessem
uma metáfora metafísica, um juízo querido prover as suas necessidades de
de valor uma questão infinita alimento em um outro mundo”
respostas (LE BRETON, 2003, p. (RODRIGUES, 2006, p. 34).
84-85)
É preciso ressaltar que nem todos esses
mortos vivos, apesar de se situarem
entre a morte e a vida, pertencem à
3
O conto Herbert West – Reanimator de categoria de zumbis. O que a cultura
Lovecraft deu origem ao filme Re-animator: A pop designa por zumbi ou os zumbis
noite dos Mortos- Vivos, de 1985, dirigido por
Stuart Gordon.
que frequentam nosso imaginário
cotidiano foram se constituindo pouco a androides cibernéticos (The Astro-
pouco. Zombies, Ted V. Mikles, 1968).
A noção mais recorrentemente aceita
acerca da origem do mito zumbi é a que Em comum, seus corpos são
recupera crenças vodu afrocaribenhas. desprovidos de alma e podem e devem
O termo zumbi se relaciona à ideia do ser destruídos sem grande comoção,
morto que volta à vida, mas também livrando seus exterminadores da
costuma designar pessoa em estado de condição de assassinos. Apesar de
hipnose ou catatonia, significando ainda Dendle (apud REIS FILHO, SUPPIA,
os que perambulam pela noite. Reis 2011) falar sobre um tabu em mostrar
Filho e Suppia analisam como o mito do corpos humanos em decomposição, a
zumbi foi, processualmente, ganhando explicitação da violência e o
os contornos contemporâneos, para os desenvolvimento dos recursos
autores: cinematográficos permitiram a
Nas décadas de 1930 e 1940. exposição da decomposição, das
Filmes como White Zombie (Victor vísceras e instauram um novo momento
Halperin, 1932), Ouanga (George do cinema de horror.
Terwilliger, 1936). Revolt of the
Zombies (Victor Halperin, 1936), I
Para Rodrigues (2001), todas as
Walked with a Zombie (Jacques sociedades tem prescrições para lidar
Tourneur, 1943), entre outros, com os cadáveres, isso por reconhecer
evocam a discriminação racial no corpo humano seu valor expressivo,
através da relação de submissão e assim, o corpo humano morto nunca é
domínio entre o zumbi vodu e seu considerado como um cadáver qualquer.
mentor (REIS FILHO; SUPPIA, 73
Seguindo esse pensamento, percebemos
201, p.276). que os cadáveres e a putrefação,
O zumbi, na análise dos autores, ocultados na vida contemporânea
apoiados em Luciano Saracino e higienizada, espetacularizados na
Dendle, figura, no período citado, como ficção, não são apenas resultados do
coadjuvante dos vilões humanos e desenvolvimento da tecnologia aplicada
ligados a matrizes culturais evocativas a produção cinematográfica, antes
das mitologias afrocaribenhas e abalam as formas sociais expressas e
egípcias. Já nos anos 50 e na década encarnadas no corpo humano.
seguinte, o termo zumbi passa a ser Ainda para Rodrigues (2006), diante do
aplicado a diversos tipos de criaturas morto, é preciso excluí-lo do mundo dos
fazendo com que Dendle (apud REIS vivos e incluí-lo em uma nova ordem, o
FILHO; SUPPIA, 2011, p.276) perceba que se faz mediante de rituais diversos
esse momento como estranho período próprios de cada cultura:
de transição. Reis Filho e Suppia
Despedir-se de um individuo morto
(2011, p.276) destacam:
é um gesto de exclusão. Mas essa
Invasores marcianos humanoides exclusão deverá ser compensada,
(Zombies of the Stratosphere, Fred invertida de certo modo, em um
C. Brannon, 1952), seres movimento contrário de re-inserção
subaquáticos (Zombies of Mora- do indivíduo, de iniciação, de
Tau, Edward L. Cahn, 1957), renascimento para uma nova vida,
jovens de classe média sob o efeito um novo mundo, uma nova
de drogas hipnóticas (Teenage sociedade. A sociedade do outro
Zombies, Jerry Warren, 1964) e mundo é ainda uma sociedade cujas
relações com a dos vivos são quase Zumbis invadem a cidade:
sempre bastante definidas desindividualização e encenação de si
(RODRIGUES, 2006, p. 34).
O animal não se vê como individuo, por
Contudo, os zumbis recusam-se a fazer isso não teme a morte:
a passagem. Zumbis metaforicamente
propõe o despertar para o fim dessa É com a consciência de si que
aparece um enrijecimento da
sociedade. É essa que deve morrer. Eles
individualidade, capaz de enfrentar
levantam do lugar onde se dorme, há aí a tirania da espécie, o indivíduo,
uma noção de despertar que pode ter um agora consciente de si, chamará
apelo subversivo. Eles não são morte: a perda de sua
integrados em outra sociedade, eles individualidade (RODRIGUES,
destroem a vigente. Esse é o seu 2001, p.19).
potencial revolucionário. E, como
Ao morrer, o indivíduo torna-se um
outros movimentos sociais, os zumbis
corpo e é como tal que é tratado, por
formam um corpo coletivo a ocupar a
isso fala-se do enterro do corpo, do
cena pública e as ruas da cidade.
velório do corpo e não do indivívuo que
Zumbie walk é uma flash mob na qual as morava ou era proprietário do corpo
pessoas se vestem de zumbis e ocupam vivo. Rodrigues (2001) demonstra que o
locais de grande movimento imitando a ritual funerário varia de acordo com a
aparência e o trejeito do que se importância social do defunto, pois a
convenciou esperar de um zumbi, corpo morte não é apenas o desparecimento do
algo putrefeito, meio arrastando, corpo, mas o término das relações
controle motor abalado e grunhidos. sociais que ele encarnava e
Uma das primeiras Zombie Walks que possibilitava. 74
se registrou foi em 2003 em Toronto, Na cultura zumbi, o indivíduo, pleno de
Canadá. A primeira versão brasileira foi laços sociais e representante de papéis
em 2006, em Belém. Desde então, essas (pai, mãe, namorado, etc.) deixa de o
intervenções urbanas ocorrem em várias ser quando morre e revive na forma de
cidades do mundo todo tendo seus zumbi e, é por isso que zumbi não tem
participantes cooptados pela mídia nome, da mesma forma que o monstro
eletrônica principalmente, além de criado pelo Dr. Frankenstein também
flyers e cartazes. permaneceu inonimado. Apesar de não
Nessas ocupações do espaço público, o ser imobilizado pela morte nem tendo
corpo putrefeito é exibido, mas o que totalmente o corpo físico destruído por
essa exibição esconde? Haveria uma ela - embora muito atingido – a pessoa
vida potencial clamando por si mesma que se torna zumbi é colapsada pela
na exibição da morte que, morte em essência que destrói as
paradoxalmente, é ocultada nas relações sociais que aquele corpo, em
sociedades ocidentais contemporâneas? vida, significava.

Eles falam do que não se fala e trazem A morte de um indivíduo –


aos olhos aquilo que se esquiva ao considerando morte justamente perda da
olhar. individualidade – sem funeral a
proporcionar ritualisticamente a
reprodução do grupo pode possibilitar a
produção de algo novo, algo que não se
planeja, mas cuja recusa ao estabelecido
é explícita.
O corpo zumbi é um corpo indócil, corporiedade cuja ação – dançar,
bestial que recusa a domesticação. andar, rir, chorar, falar…- não faz
Vestir-se de zumbi, desejar se-lo, mais que tornar expressa
idolatra-lo representa uma forma de (RODRIGUES, 2001, p.20).
recusa às marcas sociais impressas no O zumbi é desinvidualizado, portanto
corpo e todas as relações que delas morto, ainda que vivo e serve como
adviriam. O corpo zumbi é um corpo metáfora da constituição dos sujeitos na
livre. pós-modernidade: a queda do
Esse corpo livre não é capturado pelos individualismo, da qual fala Maffesoli
rituais de passagem do mundo dos vivos (1998). Para esse autor, na pós-
ao mundo dos mortos, justamente modernidade, a pessoa sobressai-se em
porque, revivo, impede a existência do relação ao indivíduo, sendo este um dos
funeral. pilares da modernidade, junto com
autonomia, racionalidade e progresso.
Os funerais são ao mesmo tempo, Diferentemente, na sociedade hodierna,
em todas as sociedades – vê-lo- assiste-se a um reencantamento do
emos adiante – uma crise, um
mundo, revive-se o mito ao mesmo
drama e sua solução: em geral, uma
transição do desespero e da tempo em que se desconfia do progresso
angústia ao consolo e à esperança. e dos benefícios da ciência.
(RODRIGUES, 2001, p.21) A natureza do conhecimento científico é
Sem a solução proposta pelo funeral, a estabelecida com o estabelecimento de
angústia não passa e o que se vê é o seu método. Esse método, hoje
desespero. A sociedade abalada pela questionado, revisado e, em grande
perda e sem o seu reforço ritual parte superado, mas não abolido, 75
desmantela-se, mas não haveria aí um possibilitava – ou assim se propunha – a
desejo de desmantelamento? Não é essa explicar os fenômenos e desvendar as
a subversão proporcionada? leis que lhe faziam funcionar. O mito,
diferentemente do conhecimento
A morte – independente neste momento científico, não procura a explicação,
do reviver conseguinte como zumbi – antes constitui-se de uma narrativa que
abala a uma só vez os laços sociais que permite entendimento sobre o mundo
aquele corpo permitia, pois morto para em que se está na medida em que
sempre ou metamorfoseado em zumbi, organiza esse mundo. As narrativas
o individuo com o qual se estabelecia acerca do surgimento e da aniquilação
relações não mais irá existir. Mas o do mundo permitem aos sujeitos que
corpo permanece, mas não permanece organizem esse mundo atribuindo-lhe
como o corpo cuja sociedade se sentido de realidade, uma vez que esta é
encarnava. socialmente construída (BERGER;
Portanto, a morte, sob o angulo LUCKMANN, 1999), e servem como
humano, não é apenas a destruição guias para ação naquilo que
de um estado físico e biológico. Ela consensualmente denominam – e (co)
é também a de um ser em relação, elaboram - de realidade.
de um ser que interage. O vazio da
mrote é sentido primeiro como O projeto iluminista, ao tentar explicar
vazio interacional. Não atinge o mundo e prescrever com a intenção de
somente os próximos, mas a prever as ações humanas, denuncia os
globalidade do social em seu mitos como ilusão e, deste modo,
princípio mesmo, a imagem da substitui o tempo mítico pelo tempo do
sociedade impressa sobre a
progresso, da evolução, da linearidade. esquerda, o cenário apocalíptico da
Suas consequências aliadas ao estilo de Noite dos Mortos Vivos conotam a
vida moderno são a pressa e a angústia sociedade anômica, sujeitos não
de contar precisamente o tempo que individuados, ou indivíduos produzindo
torna a morte mais próxima; são em série andando sem porque .
também o desencantamento do mundo e Para Reis Filho e Suppia:
a ausência de sentido e são, sobretudo,
os (des) envolvimentos dada a A importância de A noite dos
segmentação e a fragmentação. De Morto-vivos reside na relevância da
realidade compartilhada, o mundo representação moderna do zumbi,
que desata a correspond~encia entre
moderno constrói-se de realidades
morto-vivo e religião – construindo
partilhadas, parceladas. outra relação: a do zumbi como
Agora, assiste-se ao retorno do tempo metáfora da corrupção social e
mítico, segundo Maffesoli (1998), um política, da falência do Estado e da
tempo que não se destina a um fim, mas família modelar. (REIS FILHO;
atravessa verticalmente a história SUPPIA: 2011, p.280)
permitindo a permanência a longo Para os autores (2011, p.280), Romero
prazo. O mito vive no instante eterno. mostra o fracasso das relações sociais,
pois, se os protagonistas demarcam os
zumbis como inimigo, no decorrer da
Considerações: rir do medo narrativa, a verdadeira ameaça passa a
garantindo a vida ser “o tenso relacionamento entre os
O filme de Romero inova ao representar sobreviventes, uma alegoria da
os zumbis em contexto atual e urbano e corrupção do tecido social e do colapso 76
sujeito apenas aos impulsos biológicos, do marco civilizatório advindos da
sendo sua único impulso alimentar-se “epidemia zumbi””. Ainda segundo os
de carne humana. Tendo como pano de autores, é a partir da obra de Romero
fundo dessa produção a guerra fria, a que os zumbis desenvolvem uma
luta por direitos civis e a própria popularidade crescente não só em obras
agitação da década, Dendle o considera cinematográficas, mas como
o morto vivo moderno um símbolo da protagonistas em outras tantas mídias,
trivialização do individuo e a perda da como HQs (Walking dead) , games
noção sagrada da vida (apud REIS (Zombi, de 1986, The evil dead, de
FILHO; SUPPIA, 2011). Dessa forma, 1984, Horror Zombies from the cript de
o filme de terror é interpretado em suas 1990, Corpse killer, de 1994 etc.), livros
conotações política e o zumbi perde sua (Manual de Sobrevivência zumbi), clips
relação com a religiosidade passando a musicais (Thriller, de Michael Jackson,
se conectar ao universo da ficção dirigido por John Landis em 1983) e
cientifica: epidemias, vírus criados em séries televisas (a adaptação do HQ
laboratório, etc. Na interpretação de Walking dead).
Reis Filho e Suppia (2011, p.278), o Apesar da ideia de Romero ser seguida,
zumbi se seculariza e se despreende “da os autores consideram que houve uma
esfera religiosa para se coadunar ao autalização do modelo com Resident
contexto cultural, social e político dos Evil que tematiza a desconfiança em
anos 1960”. relação aos rumos da evolução
Diante das desesperanças políticas e a científica, apesar dessa desconfiança já
decepção com projetos de direito e da ter sido antevista, na análise que faço,
no clássico Frankenstein e no Re- José Carlos Rodrigues (2001) reflete
animator de Lovecraft. Para Neil sobre a dificuldade de pensar a morte,
Ferguson, (apud REIS FILHO; sendo esta justamente o impensável e,
SUPPIA, 2011, p. 281), “tal acepção de tão evitada na realidade, é tomada
reflete os medos do nosso tempo acerca por ele como objeto científico. Para o
dos perigos da manipulação genética e autor:
da propagação de novas doenças pelos Na escala das existências
laboratórios”. individuais, posto que pode ocorrer
Além da crise das relações sociais e da antes do nascimento, a morte é a
crítica a ciência, há outra corrente única certeza absoluta no domínio
da vida: evento derradeiro, cujo
interpretativa que compreende a
peso de acontecimento não pode ser
metáfora zumbi como crítica ao que se
negado, mesmo que se lhe negue o
seria a sociedade de consumo. Diz-se valor de aniquilamento.
que os zumbis comem qualquer coisa. (RODRIGUES, 2001, p.17)
Na verdade não, comem carne e,
segundo algumas teorias, a preferência é Essa certeza está incerta. A ideia de
a carne humana. Contudo, um zumbi ressuscitados e de vida eterna é
come outros animais, desde que frescos, encontrada em várias culturas, porém,
não adotando uma dieta putrefágica. isso não significa que nós, ocidentais,
Muitos interpretaram a voracidade dos não acreditássemos na certeza da morte.
zumbis como metáfora da alienação Essa certeza – mas acreditada do que
consumista da sociedade provada – é abalada pelo apocalipse
contemporânea. Assim, se os zumbis zumbi, justamente como dramatização
comem sem critério e são insaciáveis - de um período em que todas as certezas
77
na verdade, tem períodos de saciedade se esvanecem, inclusive a maior de
muito exíguos – pelo corpo humano, todas, a certeza da morte. Pessoas
muitos críticos e moralistas viam nessa infectadas não descansam em paz, não
narrativa a crítica ao consumismo que encontram com o senhor, não fazem a
tudo come, indistintamente, e nunca passagem, revivem e de um modo
satisfaz. inverossímel, com falhas lógicas na
argumentação das próprias narrativas.
Em vez de refletir sobre a antropofagia, Em vez de falhas na lógica, na
pode-se interpretar o que de fato verossimilhança, prefiro abordar essa
significa comer o corpo humano. Não é narrativa incerta como crítica às lógicas
de carne que se trata, mas o que se ocidentais, formais e baseadas na
consome vorazmente é uma ideia de identidade.
corpo humano, posto ser o corpo
exatamente isso, uma ideia, sujeita a No apocalipse zumbi é possível ser e ser
cultura, a contextos e conjunturas o contrário do que se é,
específicas. Ao comer a carne humana, simultaneamente. O infectado, morto e
os zumbis comiam toda ideia de corpo revivido não torna-se um não-ser, mas
humano e de humanidade representada torna-se um monstro. A morte expulsa
por aquelas ideias. pela lógica, puxa os nossos pés pela
fantasia e o humor é uma das maneiras
A sabedoria popular afirma que para encontradas pelas juventudes
morrer, basta estar vivo. A narrativa em contemporâneas para opor o Poder -
torno do apocalipse zumbi desafia essa relacionado à política – à Potência,
certeza e traz a ambiguidade: como presente na subversão e no espaço da
matar o morto? Está ele mesmo morto? farsa.
Referências _________. No fundo das aparências. Rio de
Janeiro: Vozes, 1999.
BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas. A
construção social da realidade: Tratado de ________. Saturação. São Paulo:
sociologia do conhecimento. Petrópolis: Vozes, Iluminuras/Itaú Cultural, 2010.
1999.
MAIDEN, Iron. Run to the hills. IN: The
BÍBLIA, Português. Bílbia sagrada: antigo e number of the beast, 1982, 9 faixas. Duração
novo testamento. Traduação dos originauis 44min47. Gravadora EMI, Produção: Martin
medianet a versão dos Monges de Maredsous Birch.
(Bélgica) pelo Centro Bíblico Católico. São
PAIS, José Machado. Vida Cotidiana: enigmas
Paulo: Ed. Ave-Maria Ltda, 1999.
e revelações. São Paulo: Cortez, 2003.
COPPOLA, F.F. O poderoso chefão. Produção
REIS FILHO, Lúcio Reis; SUPPIA, Alfredo.
de Albert S. Ruddy. Paramount Pictures/Afran
Dos cânones sagrados às alegorias profanas: a
production, 175 min., 1972.
laicização do zumbi no cinema. Mneme:
COPPOLA, F.F. O poderoso chefão II. Revista de Humanidades, UFRN, Natal – 11
Produção de COPPOLA, F. (29), jan/jul 2011.
F.,FREDERICKSON, G., ROOS, F. Paramount
RODRIGUES, José Carlos. O tabu do corpo.
Pictures, 200 min., 1974.
Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001.
GIL, José. Monstros. Lisboa: Quetzal, 1994.
_____. O tabu da morte. Rio de Janeiro:
GUIA do sobrevivente. Disponível em: Fiocruz, 2006.
http://sobrevivencialismourbano.blogspot.com.b
ROMERO, George. A noite dos mortos vivos.
r/. Acesso em 03 de julho de 2014.
Produzido por STREINER, R.; HARDMAN,
JAMESON, Frederic. Reificação e utopia na K., p&b, 96min., 1968.
cultura de massa. Crítica marxista, São Paulo,
SEIXAS, Raul. Profecias. IN: Mata Virgem,
nº1, pp. 1-25, 1994.
1978. 10 faixas. Duração 25min23. Gravadora
LE BRETON, David. Adeus ao corpo. WEA, Produção: Marco Mazzola. 78
Campinas- SP: Papirus,2003.
WHALE, J. Frankenstein. Produzido por
MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o LAEMMLE JR., K., p&b, Universal Studios, 71
declínio do individualismo nas sociedades de min., 1931.
massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
1998.
Recebido em 2014-07-03
Publicado em 2014-11-07