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Em memória de Victor Jara e Vladimir Herzog: Aos nossos

mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta


Marcos Antonio Corbari*
Com informações da Carta Capital,
Portal Vermelho, PSTU e Correio do Povo

Tempos estranhos estes que vivemos em nossa madre América. As forças conservadoras que
sangraram nossa história com a mão pesada da violência em pleno coração só século XX tem
voltado a se manifestar pelos expedientes ocultos do embate simbólico neste nosso ainda incerto
século XXI. Nesta semana, porém, justamente o campo simbólico trouxe algum alento, fez crer que
a luta vale a pena e, em nome de cada um caído nos tempos de lá ou nos tempos de cá, nós que aqui
estamos devemos seguir em frente por mais árdua que pareça a peleia. É bem como diz as palavras
de ordem reproduzidas no título deste texto: por cada um de nosso mortos nos comprometemos a
nenhum minuto de silêncio e sim a uma vida inteira de luta.
A primeira lembrança vem desde o Chile, onde a voz do poeta e cantor Victor Jara foi calada
pelo criminoso Pinochet e seus capangas fardados. Poucos dias após esmagar o florescente
socialismo de Allende, em 1973, o exército chileno calaria a voz do professor, pesquisador, poeta,
violeiro e cantor mais representativo, sem o saber que seus versos seguiriam na voz do povo como
extensão de seu pensamento e de seus sonhos. Mesmo destino foi selado ao dirigente do Partido
Comunista chileno, Littrè Quiroga. Passaram-se 45 anos até que um tribunal fechasse a conta com
uma sentença, mas ela chegou com palavras de condenação: os 8 militares responsáveis pela
detenção, tortura e assassinato dos dois militantes foram condenados a 18 anos de prisão – Hugo
Sánchez Marmonti, Raúl Jofré González, Edwin Dimter Bianchi, Nelson Haase Mazzei, Ernesto
Bethke Wulf, Juan Jara Quintana, Hernán Chacón Soto, Patricio Vásquez Donoso – , enquanto o
oficial acusado de encobrir o crime – Rolando Meno – , foi condenado a cinco anos e 62 dias.

A segunda surge nos noticiários deste nosso Brasil, em meio ao golpe jurídico-parlamentar que
volta a por nossa frágil democracia sob ameaça. Trata-se da condenação do estado brasileiro pela
Corte Interamericana de Direitos Humanos (CorteIDH), motivada pela omissão frente ao assassínio
do jornalista Vladimir Herzog em cela da polícia política, em 1975, então alardeada como suicídio.
Aqui não há assassinos nomeados, todos encobertos pela infame covardia do anonimato. Como não
se digna nominar os agentes, paga a oficialidade a que estavam submetidos ao mando: para a Corte,
o Estado é responsável pela violação ao direito de “conhecer a verdade e a integridade pessoal” em
prejuízo das famílias do jornalista assassinado. Nas entrelinhas da sentença se pode ler a verdade
nua e crua a partir da falta de investigação, julgamento e sanção dos responsáveis pela tortura e
assassinato de Herzog e, em seu nome e sobrenome, ali representadas as milhares de palavras
caladas pelo viés da violência quando não se havia mais competência de argumento para o embate
justo de ideia. A Corte impõe ao Brasil a reabertura do caso, a instauração de processo de apuração
adequada e anula os benefícios de eventuais tutelas vencidas (anistia ou prescrição) por se tratar de
um crime contra a humanidade.

*Jornalista, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores


colaborador do jornal Brasil de Feto/RS e integrante do coletivo
de comunicação popular Rede Soberania

Caso Jara:
Na manhã de 11 de setembro de 1973 Victor Jara foi detido, juntamente com centenas de
estudantes, na universidade onde atuava como professor e pesquisador. Quase em concomitância o
palácio de La Moneda era bombardeado e o presidente democraticamente eleito – Salvador Allende
– entregava sua vida para não ser capturado. Todos foram presos e levados para o Estádio do Chile.
Jara foi reconhecido por um oficial e, apartado de seus companheiros, brutalmente torturado. Teve
as mãos dilaceradas – para que não tocasse mais seu violão – e acabou fuzilado por mais de 40 tiros.
Seu corpo seria localizado dias depois e sua voz e poesia se tornariam um dos mais fortes símbolos
de resistência, apropriada aos mais diversos povos em situação de opressão. (fonte: PSTU)

Caso Herzog:
Diretor de jornalismo da TV Cultura, Vladimir Herzog, o Vlado, foi convocado pelo DOI-Codi em
1975 a prestar depoimento sobre seus vínculos com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). No dia
seguinte, estava morto. No mesmo dia da prisão, o Exército divulgou que Herzog tinha se suicidado
e confirmou a versão em uma posterior investigação da jurisdição militar. A versão oficial foi
sustentada por uma foto onde se vê o corpo do jornalista enforcado, cujo cenário foi questionado
desde a primeira veiculação. Na imagem, Vlado estava de joelhos dobrados, com a cabeça pendida
para a direita e o pescoço preso a uma tira de pano. Testemunho de colegas jornalistas de Herzog
também detidos firmaram relato contrário: ele havia sido torturado e morto pelos militares. (fonte:
Carta Capital)
Assista ao documentários a seguir e saiba mais detalhes sobre a vida e martírio da Jara e Vlado:

“El Derecho de Vivir en Paz” (1998) – Direção de Carmen Luz Parot.


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“Vlado - 30 anos depois Brasil” (2005) - Direção: João Batista de Andrade.


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