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I PSICANÁLISE

Reflexões sobre a homossexualidade masculina·

FRANCISCO RAMos DB FARIAS··

"O homossexual não quer ser menos que nada,


quer apenas ser mais que nada."

o propósito deste artigo é situar, no escopo da teoria psicanalítica, três hip6.


teses sobre a homossexualidade masculina. Em seguida à discussio das mes-
mas, apresenta-se um modelo explicativo, para com o mesmo tentaranaIis4-Ia
a partir da observação clínica de pacientes abertamente homossexuais, ou
daqueles que evidenciam um componente homossexual no curso do tratamento.
Neste sentido, a homossexualidade masculina será analisada sob quatro
ângulos distintos: enquanto relacionada ao fenômeno da identificaçio; en-
quanto relacionada à estrutura da rede de interações famiIiares; vinculada à
repetição de um dado padrio comportamental, e relacionada ao corpo e ao
investimento libidinal.

Como ser um homem, ter um falo, sem matar simbolicamente o pai e sem ser
castrado por ele? Pergunta difícil, que na maioria das vezes é respondida de
forma simpl6ria e insatisfat6ria. Se esta pergunta fosse feita a Lacan, é provável
que respondesse: tenha um Complexo de 1!dipo e aí estaria a solução para a
questão apresentada. Não obstante, esta solução apresenta-se útil, se é que assim
pode ser dito, apenas no âmbito da teoria, pois na prática surgem impasses que
levam os estudiosos a considerar o fenômeno de ser homem em outras bases.
Mesmo assim, para tratar sobre o primeiro aspecto da homessexualidade mas-
culina, as proposições lacanianas serão utilizadas parcialmente, como ponto de
partida.
O conceito lacaniano que aqui é referido é a identificação que o indivíduo faz
a partir do outro, se observada nos seus estudos sobre o espelho (Lacan, 1978).
Fundamentando-se nestes pressupostos te6ricos, observa-se que o homem
se constitui, como humano, somente a partir do contato com o outro. Desse
modo, é pertinente a afirmação de que a mãe, como o primeiro outro signifi-
cativo da vida de cada indivíduo, representa a base para a organização da perso-

• Artigo apresentado à Redaçio em 18.9.85.


•• Professor de teorias e técnicas psicoterápicas no Departamento de Psicologia da Univer-
sidade Federal do Ceará (UFC). (Endereço do autor: Rua Frei Mansueto, 1.595 - apto.
705 - 60.000 - A1deota - Fortaleza, CE.)

Arq. bras. Psic., Rio de Janeiro, 38(3):101-108, jul./set. 1986


nalidade. Assim, a mãe é, como se sabe,opritrieiro objeto de amor de cadàUnl,
e o que um será depende, em última instância, de como essa mãe se dispõe e se
organiza para cuidar deste indivíduo, em termos de sua estrutura psíquica. 1! pos-
sível que a mãe, ao saber que tem um filho e que este apresenta uma diferen-
ciação biológica em termos de sexo, aja de acordo com os ditames desta diferen-
ciação. A mãe, ao reconhecer a sexualidade biológica do seu filho, tratará de
estruturá-lo a partir desta sexualidade; ou seja, os mecanismos desencadeados
pela mãe no cuidado de um menino não são os mesmos que desencadeará para
cuidar de uma menina. Desse modo, é plausível admitir-se que, tratando-se de
um menino, sua primeira relação com um outro estabelece-se com base em um
amor heterossexual, não evidentemente por parte de si, mas devido ao psiquis-
11lQ mat-erno que aciona dispositivos para estar com e tratar de um homem .
.. Esta relaçãô constitui-se como a base para a primeira identificação do in-
divíduo, que de qualquer maneira que aconteça, tem como objeto a mãe.
A.mãe, para Winnincott(1980), teria como função suprir as necessidades
da· criança. Mas ao fazê-lo, acaba por deixar entrever que deve existir algo que
possa se interpor na satisfação dessas necessidades.
Neste caso, a mãe estaria evidenciando para a criança que não é ela a por-
tador.a do falo. mas tão-somente configura-se COmo um objeto.a desejá-lo. Assim,
abre-se a possibilidade para ã criança buscar o objeto que tem o falo, para a ele
identificar·se· ao invés de· continuar na crença de que ela, criança, é o próprio
falo. ·1!nes-te momento que a primeira desilusão ocorre, sendo fundamental para
a criançá elaborar seus conteúdos internos numa propulsãodesenvolvimental.
;Ramãe quem deve anunciar. para a criança a existência do pai, que ao
contrário dela surge, segundo Lacan (1978), na vida do filho, como um limite
à possibilidade dea criança experimentar uma realização do desejo de formar
com a mãe uma célula narcísica. A entrada do pai na vida do filho desfaz esta
unidade e cria o sujeito enquanto humano e representante da cultura. Portanto,
isto só é. possível caso a mãe estabeleça as mínimas condições para que este fe-
Jiômeno aconteça.
.. Ao descobrir o pai com a ajuda da mãe, o filho passa por um novo pro-
cesso de identificação a esse novo objeto.
O que foi dito até então situa a questão do desenvolvimento humano em
termos ideais. Mas, infortúnios podem acontecer nesta passagem da identificação
coma mãe à identificação com o pai. Um caminho passível pode ser aquele em
que a mãe mostra o pai para o filho, mas impossibilita a criança de ter acesso ao
mesmo. Desta situação tem-se como conseqüência um indivíduo que convive com
a figura paterna sem poder identificar-se a ela e sem reconhecê-la como deten-
tora do falo, por ainda estar fortemente identificado à mãe. A desidentificação
da mãe é então necessária para que o indivíduo se identifique ao pai. hnpossibi-
Htado de identificar-se ao pai para construir sua própria sexualidade, resta ao
indivíduo intensificar sua identificação à mãe e assim desejar o pai como objeto
de amor, tal qual a mãe faz. Neste caso, por não ter podido renunciar ao pai
como objeto de amor, este indivíduo o deseja e, por extensão, deseja todos os
homens, na esperança de vir a obter deles o que não conseguiu obter do pai.
Aqui abre-se então um campo para discutir-se a questão da realização do homos-
sexual, pois acredita-se ser errônea a proposição que afirma que o homossexual
tem uma realização parcial, como admite Bettelheim (1979). Claro que a escolha
que oholfiossexual faz é de um objeto, e quando tenta satisfazer-se com esse
objeto envolve-se por completo, e não utiliza apenas parte de sua libido, con-
soante admitiu Fenichel (1981). Para este autor, a realização é parcial porque
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a libido ..envolvida. numa relação objetaI de um homossexu.al seria caracteristica~
mentep~.genita1. .
No que tange à escolha objetaI, considerado o processo de identificação te<-.
lativo à homossexualidade,. Fenichel (1981) distingue três aspectos: à) a escolha
pode ocorrer sobre uma pessoa por um objeto do mesmo sexo; b) o objetivo ~
xual da pessoa é introduzir parte do seu corpo no corpo do seu objeto ·01,1 deseja
ter algo introduzido no seu corpo; e c) a atitude observada pode ser ativa ou
passiva.
Esses três aspectos que diferenciam e masculinidade da feminilidade às vezes
coincidem num mesmo indivíduo, mas existem casos em que se observa homens
homossexuais muito ativos e mulheres homossexuais bastante passivas. Como. se
observa, o que se define como masculinidade e feminilidade depende muito
mais ·de fatores culturais e sociais do que propriamente de condições biológicas •.
Essa escolha ou atitude que o indivíduo apresenta está de certo modo· re·
lacionada ao processo de identificação. Face ao exposto, o problema da homos,
sexualidade em temIos da identificação intensificada à figura materna reduz à
seguinte questão: dado que o homossexual, como qualquer outro ser _humano,
tem a capacidade de escolher objetos dos dois sexos, algo o levaria a escolher o
objeto do próprio sexo. O fator que aqui aponta-se como decisão nesta escolha
é,. sem sombra de dúvida, a dificuldade na identificação com a figura paterna,
consignada em termos da forte identificação com a figura materna. Claro· que
este não é o único fator. Existem condições que são em si limitadoras da esca.
lha de um objeto heterossexual. Por exemplo, determinadas características físicas
podem ser um obstáculo e se constituírem como conflitantes na escolha de um
objeto heterossexual. Também existem situações nas quais a falta de mulhe.res
faz com que determinados homens, que normalmente têm uma conduta heterog.."
sexual, pratiquem o homossexualismo. Este é o homossexualismo acidental,. deno,-
minação dada por Freud (1972).
No entanto, numa situação-identificação maciça à figura materna, ou na
condição de falta de mulheres, fica evidente que todo homem Pode fazer essa
escolha de. objeto. Em suma, em dadas condições, o homem prefere mulheres
como objeto sexual, mas na falta destas, os homens se constituem como segunda
escolha. Assim sendo, como no homossexualismo acidental, em que o homem.faz
a segunda escolha, os homens abertamente homossexuais têm uma razão para
evitar a primeira escolha. Essa é uma questão bastante polêmica, pois as con~
jecturas . sobre o porquê não são esclarecedoras. Em termos teóricos, pode-se
tecer considerações enfatizando o problema da identificação como determinante
do porquê o homessexual evita a primeira escolha, mas a observação clínica tem
evidenciado que a rejeição de homossexuais por mulheres é, de certo modo, de
caráter genital, observação esta feita por Szpilka (1979). Então é possível que o
homem homossexual não consiga conviver com a diferença de genitais, ou, con-
forme assinala Freud (1972), tomar contato com essa diferença pode ser algo
apavorador. Essa talvez seja a razão pela qual o homossexual procure parceiros
do mesmo sexo. Neste caso, fica também implícito o temor que o indivíduo tem
de subverter a lei paterna, pois estar com um ser sem pênis, teoricamente cas-
trado, constitui um fator de ameaça e temor. Essa é a razão, para Fenichel(1981),
pelaqtial os homossexuais evitam toda relação com seres desprovidos de pênis.
Não obstante, nem todos os estudiosos compactuám com essa idéia. Acredita-
se que, na realidade, não se trata de uma rejeição à mulher, mas que esta não
exerce, no homossexual, nenhum atrativo que o leve a escolhê-la como objeto
sexual, pois seu objetivo é encontrar no homem algo que não tem ou algo que
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perdeu. Nesse sentido, a questão passa a ser considerada muito mais em termos
dos aspectos mais profundos, do que relacionada a características superficiais.
Aliás, para Cabas (1980), a castração de que fala a psicanálise não se reduz à
perda do pênis tão-somentei corresponde a uma falta que se inscreve no psi·
quismo como motor para acionar os desejos frente à realização. Ainda Greensen
(1982) ressalta que o medo mencionado pode, na realidade, ser um sintoma que
encobre um desejo muito intenso, de natureza inconsciente, vivido pelo homo~
sexual, de ser uma mulher, já que alcançou em seu desenvolvimento apenas um
estágio na identificação.
Acredita-se que, no menino, a reação ao trauma de ver um ser sem pênis
pode ter um papel bastante significativo. Decorrente dessa reação, o indivíduo
pode vir a evitar seres sem pênis pelo medo de vir a se tornar seu semelhante.
Sendo assim, permanece preso, identificado à mãe, para a ela não vir a desejar.
Neste contexto resta-lhe apenas o pai (que é seu idêntico) como objeto de amor
e não como interditor.
No que diz respeito à homossexualidade relacionada à estrutura da rede de
interações familiares, as proposições de Aulagnier (1980) são consideradas, prin-
clpalmente sua formulação de que o ser humano, ao nascer, já tem um papel a
desempenhar, que está prescrito pelo inconsciente materno. Desse modo, a mãe,
como célula da estrutura familiar, desenvolverá uma rede de comunicação na-
turalmente subsidiada pelo pai e pelos demais componentes. Ao indivíduo resta-
lhe se engajar, assumir e representar o papel que lhe está determinado. Este é
o caso de muitos indivíduos que nascem nessas condições: a mãe deseja ter uma
filha e ao saber que está grávida se imagina com uma filha. A partir daí, essa
mãe gera no seu psiquismo uma filha, sem considerar o sujeito que tem no útero.
Por vezes e quase sempre, a mãe corporifica e sexualiza uma filha no seu psi-
quismo, quando no útero se desenvolve um filho.
Não resta dúvida que o indivíduo nascido sob estas condições, inevitavel-
mente experimentará reações de insatisfação, por parte da mãe, diante de uma
expectativa malograda. A mãe, na maioria das vezes, responde a essas insatis-
fações com racionalizações do tipo "eu queria uma menina, mas veio um me-
nino, tudo bem", o que pode ser entendido da seguinte forma: "como nada posso
fazer para evitar esse menino, suporto-o", ou ainda: "crio esse menino, mas
Conservo comigo o desejo dele se tornar uma menina, pois era isso o que eu
queria".
l! claro que todos esses mecanismos são inconscientes, de modo que a mãe
deles não se apercebe. Na maioria das vezes o destino deste indivíduo já estará
traçado: possivelmente uma psicose, ou a homossexualidade. De uma forma ou
de outra, diriam os lacanianos, este indivíduo estaria forc1uído da lei paterna.
Será que se trata de uma forclusão deste indivíduo da lei paterna, ou o que se
passa é que este indivíduo se submete integralmente ao desejo materno, de modo
a não haver espaço para se submeter à lei paterna?
Como se sabe, o indivíduo, ao submeter-se integralmente ao desejo materno,
conforme assinala Aulagnier (1979), torna-se objeto de satisfação da mãe. Por
isso paga um preço muito alto, pelo fato de confinar-se, como afirma Lacan
(1978) numa situação imaginária, por não aceder à lógica e ser sujeito falante,
membro de uma dada cultura.
Na medida em que o filho percebe a insatisfação da mãe, ele se empenha
insistentemente para firmar com ela um vínculo sólido. Uma vez não conseguin-
do, pois· a mãe já o rejeitava enquanto ainda não era sujeito. tentará frenetica-

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mente possibilitar-lhe satisfação; mas não obtém êxito, porque essa· marca não
se apaga tão facilmente no psiquismo materno. Devido ao insucesso em relação
a esse objeto, no caso, a mãe, opta por outro objeto para com este fazer uma
identificação, uma vez que com o primeiro objeto não deu certo. Nestas condi·
ções, tem-se um indivíduo que pratica a homossexualidade como tentativa de en·
contro com a masculinidade, e não propriamente como uma forma de obtenção
de prazer, como foi apontado no primeiro aspecto abordado. Desse modo, pc-
de-se assim subentender que existem graus diversos de homossexualidade.
Em suma, conjectura-se que a mãe, primeiro objeto de amor, executa no
indivíduo uma primeira castração, que é maciça, negando-lhe tudo o que é con·
tribuição paterna. Ao passo que a mãe faz essa negação para o filho, nega para
si mesma que é fruto de uma união sexual. Nesse sentido, estará negando que
tem um pai como interditor, e também negará para o filho que este tem um pai
que o interditará.
Na realidade, o que a mãe nega ao filho é a relação deste com sua origem.
Perdido e narcisicamente investido, o filho busca então encontrar no seme·
lhante uma resposta para suas indagações, já que não encontrou estabilidade, ou
como diria Winnincott (1975), a mãe não ofereceu um holding satisfat6rio e
acolhedor.
O que o indivíduo procura é reconstruir seu corpo real, uma vez que a
mãe em nada contribuiu, pois apenas se ocupou em construí-lo no campo do ima-
ginário, às custas de suas expectativas, como do tipo: "queria uma filha e cons-
truí o corpo de uma filha." l! a isto que o indivíduo sai em busca de explica-
ções, tendo que, desse modo, recorrer a diversas circunstâncias, entre elas esco-
lher um semelhante sexual.
Um terceiro aspecto que pode ser apontado como relacionado à homossexua-
lidade é a repetição, como definida por Deleuze (1981).
A utilização desse conceito para explicar a homossexualidade justifica-se pelo
fato de que a repetição, como fenômeno, é algo que impede o surgimento da
diferença, e conseqüentemente da elaboração, para permitir a mudança.
No caso do homossexual homem, a repetição ocorre em termos de imagens
e fantasias relacionadas a uma mãe com postura masculina, ou a um pai com
postura feminina. A adesão a uma figura ou a outra deve-se à possibilidade da
formação de uma complementariedade imaginária frente· às insatisfações apre.
sentadas por uma dessas figuras.
O indivíduo, ao se identificar ao papel que irá repetir, consuma-se num sa·
crifício que tem como objetivo permitir a perpetuação de um dado padrão de
conduta existente na estrutura familiar como herança das gerações anteriores.
Assim, é possível que o indivíduo repita um padrão de um ancestral de uma ge-
ração bem distante de si, padrão esse que se mantém e se perpetua no não-dito
e no segredo. 1! assim que esse padrão de conduta se evidencia e se constitui na
f8mília, como um pedido ao indivíduo que nela surge. Assim, pode-se esperar
que um indivíduo homossexual advenha de uma linhagem de homens submissos
e inoperantes e mulheres geralmente ativas e que assumem a "linha de frente"
em sua família.
Nesse caso, o indivíduo homossexual assume um sacrifício, como numa ati-
vidade ritual, para repetir, quer dizer, perpetuar um padrão de conduta que se
mantém naquela família. Assim, nada de novo é criado, e nestas condições não
rompe com os possíveis vínculos simbi6ticos estabelecidos na estrutura familiar;
vínculos estes criados e construídos como estrutura mítica da família.

Homossexualidade mtl8CUllna lOS


Uma característica do padrão de conduta que é repetido é que pré-figura
como algo que não pode ser falado e que deve permanecer encoberto. Em ou·
tras palavras, o repetido surge como uma possibilidade de não criar o diferente;
o idêntico que é mantido se constitui como algo que é o núcleo da repetição.
Desse Il1odo, é provável que ex:ista um nível de alguma coisa que se diferencie
em outra, mas que a estrutura mítica da família não permite o aparecimento
dessa diferença; ou mesmo aquilo que é diferente não pode ser representado
ou vivido em ato. Por. isso· ocorre a repetição. Esta, ao nível individual, inscreve,
no caso do homossex:ual, uma série geral de fatos traumáticos (que configuram a
~strutura mítica da fanu1ia) na história do indivíduo.
Porfim, a repetição latente, a qual se remete à repetição manifesta de ele·
mentos idênticos, vincula-se ao ódio na relação pai-filho, que é encoberto por
llma pseudo-id~ntificação ("faço o que minha mãe faz, porém demodoca-
ricaturado"). O objetivo de tudo isso é não dar lugar ao aparecimento das dife-
renças e com. isso, a mudança. Nesse sentido, o homossex:ual é aquele que re-
p~te um padrão, e com este sacrifício perpetua a não-diferença para que, com
jsto, a' simbiose naquela rede familiar se intensifique e se fortaleça. Como se
pode observar, tem-se aqui um outro grau, ou outro tipo de homossexualidade.
Considerando as três hipóteses apresentadas anteriormente, a seguir será
formulado um modelo teórico que esta sendo verificado clinicamente. Trata-se
4a questão da homossexualidade analisada com referência à organização do corpo
e aO investimento libidinal. Este modelo é construído sobre dois conceitos: o
corpo-realidade político-social, da ordem do imaginário, onde se assenta a lin-
guagem, instrumento simbólico limitante do prazer, e investimento libidinal -
a forma e o modo como o indivíduo direciona, como diria Farbairn (1975), sua
libid() em relação a um objeto do mundo externo.
Quanto ao corpo, sabe-se com Leclaire (1979), que é o detonador de todo
o. processo de morte do desejo verdadeiro do indivíduo, que é, segundo Pon-
talis (1978), reconstituir a unidade simbiótica com a mãe, para reviver narcisi-
camente uma vida sem reconhecer e viver a falta ou a interdição. E este corpo
que evidencia para o sujeito a cultura, a norma, a proibição, na medida em que
incorpora a linguagem.
No homossexual subsiste um conflito ao nível do corpo, pois ao passo que
esse corpo se predispõe para a diferença, devido à aquisição da linguagem, o de-
sejo nele está inscrito, insinua a busca de um corpo semelhante' para negar a
diferença que se estabelece com a aquisição da linguagem, e, conseqüentemente,
a falta. Como se explica esse fenômeno? Possivelmente, a adesão a um outro se-
melhante .deve-se ao conflito que o indivíduo vive em ter que matar (morte ima-
ginária) séu desejo de restauração narcísica com a mãe, para ser sujeito da cultu-
ra e, conseqüentemente, reconhecer o pai como aquele que pode executar a cas-
tJ:'ação.
Acredita-se assim que as explicações sobre homossexualidade se atrelam às
proposições expostas e, em termos do desenvolvimento, têm uma seqüência que
pode ser observada nos seguintes momentos: em primeiro lugar, o indivíduo
se subverte ao desejo matemo, e é a mãe que transmite as emoções básicas,
implícitas na trama familiar, isto é, anuncia o mito familiar através do corpo,
transmitindo algo que se repete, ou seja, uma representação do mito familiar.
Em segundo lugar, o indivíduo permanece subvertido ao desejo matemo, de
forma inconsciente, não sendo aberto um espaço para o reconhecimento do de-
sejo paterno. Assim, não se reconhece o pai como representativo do simbólico,
," :.\:B.P .3/86
mas tão~sÍ)mente se adere a ele(pai) como um corpo concreto, objeto de pr~e(.
descótiliecêndcrlhe o aspecto principa~ que é a função paterna detel1ilinada pela
cultura. Neste caso, o pai, ao invés de ser uma representação, passa a sér vi-
Vidooomo algo concreto, ao qual o filho, no caso,homem, não renuncia como
objeto de amor. "
Em terceiro lugar, uma vez não reconhecendo o desejo do pai, fica impedido
de reconhecer o desejo de cultura e de ser um sujeito falante, razão pelaq~al
intensifica seus componentes narcísicos de forma defensiva, frente às insatisfa-
~s d.ecorrentes dos insucessos nas suas identificações. Acrescente-se a isso as
düiculdades,com que se depara por não se desligar imaginariamente da relação
s;mb!~tiC~ ,com, sua mãe. ,
.}~estesentido, subsiste uma ilusão que garante apenas a condição de ser um
s~eito que:não fala, uma vez que não se constituiu simbolicamente. Em outras
palavras, o homossexual homem tem dificuldade de colocar de lado seu desejo
<le: ~c;:stallr~ão narcísica, para aceitar o corte que se faz ao introjetar o desejo
d,á cultura. , ' " " ,
, ': ' O qlle faz na realidade é tentar (diz-se tentar porque nunca se consegue ne-
garQC()J:"te). O resultado é um indivíduo que tem, por um lado, o seu desejo
verdadeiro, que cria uma demanda solicitando faça isto; e, por outro lado, há
uma determinação que lhe diz: seja isto. Essa situação evidencia conflitos que
impossibilitam o indivíduo de seguir no reconhecimento de suas diferenças.
O que na realidade o homossexual não consegue é matar seu desejo para
falar .~sintaxe da cultura, que predetermina unia forma' de,atuação para o in~
divíduo. Note-se então que a questão assim analisada déve-se, muito' mais a pa-
râmetros sociais, culturais e psíquicos, do que a instâncias de ordem biológica,
conforme já mencionado.
Frente a essas dificuldades, o homossexual masculirio se reorganiza para
Cbfu istd· superar essa situação que se apresenta conflitante. Esse processo de
organização se faz ,às, custas de um remanejamento da libido, conformando um
processo que configura-se em três fases: num primeiro momento, devido' à in-
tensificação narcisista, ocorre, um contra-investimento num objetá idêntico, pois
o homossexual: masculino, ao eleger um objeto sexual semelhante, ,está investindo
em si mesmo, tal qual Narciso. Não obstante, há Umà diferença: no narcisismo,
este, processo se faz conscientemente, enquanto que no homossexualis~o mas-
culínonãó.' '
Num segundo momento há um re-investimento, porque o objeto idêntico serve
apenas como um espelho onde a libido incide, mas reflete no objeto que a emi-
tiu, não havendo nenhuma retenção porque o objeto sendo igual não absorve.
Nesse 'caso, o indivíduo toma contato com a libido contra-investida.
Finalmente, num terceiro momento, concentra a relação num único objeto
que é ele próprio, podendo-se dizer que a relação fica dessexualizada, porque
não oCOJrC nos dois componentes wna divisão do fluxo e retenção da libido como
numa relação heterossexual. ~ nesse sentido que McDougall afirma ser a re-
lação homossexual a ilusão de dois, vivida por um, pois a libido envolvida no
processo fica concentrada num único objeto.
Isto decorre do fato de que, ao haver o contra-investimento de Ulll par-
ceiro no outro, não há uma ruptura no fluxo libidinal pelo fato de esses objetos
serem idênticos, e não se evidencia realmente a falta, a razão pela qual a relação
pode se polarizar apenas em um dos componentes, sendo que o outro se cons-
Ji()moss~xilaltdade masculina 107
titui como um elemento que co-opera na realização daquele que vive, no mo-
mento de prazer, uma situação dupla: um psiquismo que reconhece a falta e a
teme, e um corpo que a nega substancialmente.
Esta é a situação que a clínica evidencia com freqüência nos homossexuais
masculinos.

Abstract

This article is an attempt to propose, within the scope of psychoanalytic theory,


three hypotheses on male homosexuality. After discussing those hypotheses, an
explanatory model is presented by means of which an analysis on male homose-
xuality is started from clinic observation of patients who have overtly accepted
their homosexuality as well as of patients whose homosexual component has been
manifested in the course of their treatment.
In that connection, male homosexuality will be analysed from four different
perspectives: in relation to the phenomenon of identification; in relation to the
structure of the network of family inetractions; bound to the recurrence of a
given pattem of behavior; in relation to one's body and to libidinal investment.

Referências bibliográficas
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