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Discípulos involuntários de Descartes – críticas de Vigotski a teorias dualistas das emoções — Achilles Delari Junior

DISCÍPULOS INVOLUNTÁRIOS DE DESCARTES


críticas de Vigotski a teorias dualistas das emoções
Achilles Delari Junior*

Este é um material para fins didáticos, no apoio ao trabalho de nosso grupo de estudos em teoria histórico-
cultural de Umuarama, como uma primeira aproximação à teoria das emoções de Vigotski (1931-33/2004)
e todo o quadro de referências que este autor submete à crítica, ainda que, como lhe é habitual, sem ao
final apresentar exatamente uma proposta completa de superação do que é criticado. De qualquer
maneira, no próprio movimento de negação da psicologia tradicional realizado por Vigotski, podemos
perceber o contorno das suas próprias posições, daquilo que ele afirma no próprio ato de negar. O capítulo
18 da obra “Teoria das emoções”, de 1931-33, é particularmente interessante nesse sentido, por seu
caráter sintético. Critica tanto a teoria das emoções de Descartes1, quanto algumas de suas supostas
oposições posteriores, que ao final das contas não podem fazer mais do que manter-se no quadro do
mesmo dualismo daquele pensador – seja pelo reducionismo ao fisiológico (James2/Lange3), seja pela
abstração a um psiquismo independente com relação aos processos neuro-funcionais (Freud4 e
Scheler5/Lotze6). Desse modo, Vigotski aponta, ao mesmo tempo, os limites fundamentais da teoria das
emoções de Descartes e os de seus “discípulos involuntários” (VIGOTSKI, 1931-33/2004 – p. 211). Aspectos
afirmativos quanto a uma postura com a qual Vigotski atina são também indicados no texto, sobretudo por
menções à visão de Chabrier7. Sem seguir a exata ordem de exposição do texto, mas procurando manter a
lógica interna de sua organização conceitual, partirei aqui da comparação entre aspectos da teoria de
Descartes com proposições de James/Lange, para em seguida falar de duas tentativas mal sucedidas de
superar as lacunas deixadas por tal confronto: a de Freud e a de Scheler/Lotze. Por último, apresentarei
algumas anotações sobre as alusões a Chabrier, relacionando emoções com ideologia e propondo a
impossibilidade de separação substancial entre emoções inferiores e superiores. Um caminho apenas
esboçado por Vigotski, cujo desenvolvimento atual talvez venha a ser de interesse para o leitor.

1 Distinção e semelhanças entre Descartes e James/Lange

Descartes James/Lange
 Postula uma diferença absoluta entre os animais e o  Teoria das paixões concerne ao homem, mas na
homem: medida em que o homem é um animal superior

Animais Homem  Trata-se de uma teoria “zoopsicológica” das


 Os animais são  Só o organismo humano emoções. E isso se apresenta nos seguintes princípios:
completamente carentes experimenta emoções a) origem animal das paixões humanas
de emoções b) caráter comum das emoções dos animais e do
 Não têm paixões da alma  Paixão = vantagem homem
= já que não têm alma. distintiva do homem c) natureza inata, reflexa e animal das emoções

= Toda teoria das paixões concerne só ao homem = ainda permanecerá o dualismo, na forma de
“emoções inferiores” X “emoções superiores”

*
Psicólogo e pesquisador, mestre em Educação pela Unicamp, na área “Educação, conhecimento, linguagem e arte”. E-mail: delari@uol.com.br
1
René Descartes (1596-1650), filósofo, físico e matemático francês.
2
William James (1842-1910), filósofo e psicólogo norte-ameriano.
3
Carl Georg Lange (1834-1900), anatomista dinamarquês.
4
Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista judeu-austríaco.
5
Max Scheler (1874-1928), filósofo alemão.
6
Rudolf Hermann Lotze (1817-1881), filósofo e lógico alemão, formado em medicina, versado em biologia, precursor da psicologia.
7
Provavelmente, Joseph François Chabrier (? - ?), autor de “Les emotions et les etats organiques” - obra publicada em Paris, pela Alcan em 1911.

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2 Distinção e semelhanças entre as teorias explicativa/organicista e descritiva/teleológica

Teoria explicativa (organicista)8 Teoria descritiva (teleológica)


 Representada por James e Lange  Como explicar os “valores”, por exemplo?
 Postula uma explicação fisiológica das emoções
 Mantém um dualismo na oposição:  Eles são inacessíveis ao estudo psicofísico e
“emoções superiores” X “emoções inferiores” psicofisiológico

Exige uma complementação/correção por outra teoria Mantém-se o dualismo

Nessa vertente está a chamada “psicologia teleológica”


 Busca descrever
 Não pretende explicar
 Rompe com a psicologia naturalista (causal)
 Trata-se da “Grande psicologia”9

3 Semelhança e distinções entre as teorias “teleológicas” de Freud e Scheler/Lotze

Freud Scheler
 A “grande psicologia” impõe um enfoque distinto ao  Também representa uma reação à inconsistência da
da “psicologia didática” oficial e ao da “psicologia teoria reflexa das emoções.
médica”. Sendo assim seguem-se duas orientações:
 Diferente de Freud, rechaça [totalmente] a análise
1) é desnecessário conhecer as vias nervosas, para causal.
entender, por exemplo, “o medo”.
 Desenvolve uma fenomenologia (descrição) da vida
2) O afeto inclui: 2.1) inervações motoras, sejam: emocional.
a) reflexos, ou
b) energias  Fala em dois tipos de lei:
2.2) sensação de dupla natureza:
a) percepção de atividades a) Leis causais, relativas a dependências
motrizes realizadas psicofísicas – servem para os processos
b) sensação direta de corporais
prazer-desprazer b) leis lógicas (até então “esquecidas”), são
independentes do psicofísico – servem para os
os quais dão tônus atos emocionais superiores
fundamental ao afeto

Mas não se deduz que isso seja a “SUBSTÂNCIA” do


afeto {= o afeto pertence a outra substância}

8
Os termos entre parênteses não são sinônimos dos que os antecedem. Contudo, são categorias que acrescentam às primeiras. A teoria explicativa
tenta explicar as emoções pela via organicista. A teoria descritiva, não pretende explicar, nesse sentido não busca determinações, não é
determinista. Segundo Vigotski, Espinosa “era um determinista” (1930/1991 – p. 87), no sentido de buscar as causas, portanto, a explicação dos
fatos por sua gênese. A categoria tradicionalmente oposta à do “determinismo”, em filosofia, é a da “teleologia” (nesse contexto, ela significa
ocuparmo-nos dos fins, não das origens; das manifestações, não das causas). Portanto, o “teleológico” aparece aqui como adjetivo complementar
ao “descritivo”, o qual Vigotski também costuma denominar “fenomenológico”. “Teleológico”, é claro, não é uma categoria totalmente apropriada
para Freud, pois em alguns momentos de sua trajetória buscou abertamente o determinismo, seja no campo biológico, seja depois o determinismo
psíquico como tal – entretanto, como se verá nas anotações que virão em seguida, Vigotski relaciona Freud ao teleológico justamente por ele vir a
relegar a um segundo plano as determinações materiais, caindo assim numa modalidade particular de dualismo, oposto, mas complementar àquele
mantido por James/Lange. Estando todos estes, nesse sentido, sob a mesma categoria de “discípulos involuntários de Descartes”.
9
Vigotski não explicita o conceito de “Grande psicologia” à qual adere Freud. Talvez fosse uma psicologia voltada ao que é “grandioso” na vida
humana, o mais elevado, como os valores, a cultura, as artes. Contudo, em Freud, estes são tomados só como objeto de estudo, não como princípio
explicativo. Também talvez “grande” por pretender-se superior àquela que se presta apenas a fins didáticos, acadêmicos, o que parece mais cabível.

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[ter o afeto “substância” própria, está relacionado, para  Scheler possui uma ética fundamentada em Pascal =
Vigotski, à necessidade do nascimento de uma:] . ordem do coração
. lógica do coração
Psicologia profunda dos afetos.10 . razão do coração

 Ela tenta preservar-se causal e determinista.


 Tal ética encontra justificação rigorosa na análise de
Scheler dos seguintes sentimentos
 Mas sua causalidade é puramente psíquica [a
. sentimentos éticos
substância própria dos afetos é a mente, o neuro-
. sentimentos sociais
funcional (corpo) não é a substância dos afetos].
. sentimentos religiosos
 Opõe-se ao superficialismo da “psicologia acadêmica”.  Devem também ser submetidos à análise
fenomenológica os seguintes sentimentos:
 Não encontra linguagem comum com a psicologia . sentimento de vergonha
fisiológica. . sentimento de medo
. sentimento de pavor
 Freud diz não haver como debater com James/Lange . sentimento de honra
{ver p. 215}.
Há lugar para o problema da ORDEM de
desenvolvimento desses sentimentos nos planos12:
a) individual; e
“Assim, o intento de preservar um exame
b) genérico.
puramente causal dos fatos psicológicos e, ao
mesmo tempo, de não levar à ruína a psicologia
 Trata-se de uma teoria puramente descritiva dos
considerada como uma ciência autônoma e de
sentimentos superiores = oposta à teoria fisiológica
não por seus problemas nas mãos da fisiologia,
obriga a psicologia profunda a reconhecer a
 Unida à metafísica e a um sistema metafísico
absoluta independência substancial dos proces-
determinado = baseado na impossibilidade de
sos psíquicos e a autonomia da causalidade psí-
dedução genética dos sentimentos
quica” (VIGOTSKI, 1931-33/2004 - p. 215 – grifo
meu)
 Retorna à divisão cartesiana:
paixões espirituais x paixões sensíveis

Lotze

Próximo a Scheler estava [anteriormente] Lotze, autor


que afirmou (mas sem desenvolver em detalhe) que:

1) A vida dos sentimentos superiores tem:


. natureza intencional
. natureza cognitivo-avaliativa

2) Há uma “lógica do coração”

2.1 No sentimento de valor das coisas (e de


suas relações) => nossa razão tem um meio,
sério e importante, de revelar a verdade.

10
Em notas sobre intervenções de Vigotski em apresentações internas de seu grupo, entre 1931-1934, ele alude à “psicologia dos cumes (não
determina a “profundidade”, mas o “cume” da personalidade)” (1934/1991 – p. 130). Critica a “psicologia superficial” (fenomenológica) e a
“psicologia profunda” (psicanalítica), que quer explicar o homem por suas “profundezas”, sua natureza subterrânea. A psicologia dos “cumes”,
“elevações”, visa a compreender o ser humano a partir dele mesmo. Como em Marx: “ser radical é tomar as coisas pela raiz, mas a raiz para o
homem é o próprio homem”. Assinalemos que o “próprio homem” define-se como ser social, simbólico e histórico. Em oposição à tônica da
“psicologia profunda”, com seu ser humano individual, biológico e a-histórico. Sete anos antes, discutindo a “Crise da psicologia”, Vigotski já notava
que “a psicanálise mostra suas tendências profundamente estáticas e não dinâmicas, conservadoras, antidialéticas e antihistóricas.” (1927/1991, p.
299), o que é reiterado em 1934: “a psicologia profunda afirma que as coisas são o que eram” (VIGOTSKI, 1934/1991 – p. 130).
11
Blaise Pascal (1623-1662), físico, matemático, filósofo moralista e teólogo francês.
12
Aqui Vigotski dá a entender que haja algum lugar para o problema da gênese das emoções nesse sistema, mas logo abaixo sugere não haver tal
possibilidade. Conferindo com a tradução inglesa (VIGOTSKI, 1931-33/1999), nota-se que não há uma omissão da negativa, e a tradução espanhola
parece correta, não demandando confrontar com o russo, em princípio. Pode-se interpretar que o lugar para a “ordem” esteja “posto”, mas não
esteja necessariamente desenvolvida a explicação sobre como algum sentimento derivado pode emergir com relação ao originário.

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São estas as 2 respostas da psicologia contemporânea [tempo de Vigotski]


à questão que era insolúvel para a “teoria reflexa”
Freud busca elucidar o enigma: Scheler busca elucidar o enigma:
 Nas profundidades metafísicas do psiquismo humano  Nas alturas metafísicas onde a paixão se revela
– na vontade de Schopenhauer13 separada das funções vitais

 Busca a base das paixões nas esferas subterrâneas,  Busca a base das paixões nas esferas supraterrestres.
subterrestres.
 Dirige a atenção à música estrelar da esfera celestial.
 Utiliza de bom grado as imagens do reino subterrâneo
ou inferno, das profundidades extremas do espírito
humano.

 Trata-se da metafísica em sua forma pandemoníaca.  Trata-se da metafísica em sua forma teísta.

Ambas as respostas são [acabam sendo] um COMPLEMENTO inevitável de uma psicologia superficial das emoções
que as reduz à “sensação de reações viscerais e motrizes”

4 Anotações sobre as contribuições de Chabrier/Vigotski

No início do capítulo 18, Vigotski ao polemizar com a teoria de James/Lange faz algumas menções pontuais
a Chabrier. No curso da exposição, em alguns momentos não fica claramente diferenciado até que ponto
está expondo as idéias deste autor e onde passa a expor sua própria posição. Buscarei apenas resgatar o
contexto das citações e algo dos comentários de Vigotski que as seguem.

4.1 Da crítica à hipótese visceral sobre as emoções

Segundo Vigotski, a teoria de James/Lange supõe uma natureza “inata, reflexa e animal das emoções”
(1931-33/2004 – p. 211). Isso se aplicaria também às emoções humanas. Sendo assim, os aspectos
emocionais da vida humana, poderiam ser tratados como um vestígio de nossa herança animal no processo
evolutivo, sendo o homem mais evoluído aquele no qual os processos racionais prevalecem (ver também
VIGOTSKI, 1932/1998). Nesse ponto se explicita a posição de Chabrier:

“(...) os críticos da teoria [de James/Lange] compreenderam que, de


fato, na hipótese visceral se trata da natureza animal das emoções
humanas. Referimo-nos a Chabrier, que expôs esta idéia da maneira
mais brilhante. Propondo esta questão, disse Chabrier, penetramos
no coração mesmo do problema e tocamos uma objeção capital
formulada ante um mecanismo estabelecido de maneira absoluta e
imutável, que é posto em ação de maneira automática em quanto
se manifesta a excitação correspondente. É possível que isso seja
certo para as emoções primitivas da criança, mas não pode sê-lo
para as emoções habituais dos adultos”

(VIGOTSKI, 1931-33/2004 – p. 212)

13
Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão da corrente irracionalista. Segundo Vigotski, em trabalho anterior: “É um fato (...) que a
doutrina de Freud sobre o papel primário das paixões cegas, papel que se reflete de forma inconsciente e desvirtuado na consciência, remonta
diretamente à metafísica idealista da vontade e às representações de Schopenhauer. Em suas conclusões mais extremas, o próprio Freud assinala
que se acha perto de Schopenhauer. Mas também em suas premissas fundamentais, assim como nas linhas determinantes de seu sistema, está
ligado à filosofia do grande pessimista, como pode por de manifesto a análise mais simples” (1927/1991, p. 299).

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4.2 Da crítica à distinção dualista entre emoções superiores e inferiores

Vigotski está preocupado em compreender as emoções propriamente humanas. E diz que o próprio James
nota esse problema, embora o termine por resolver de modo dualista, ficando as emoções básicas
reduzidas à “hipótese periférica”14 e os “sentimentos mais finos” assumidos como existentes, mas ainda
inexplicáveis de um ponto de vista materialista. Vigotski faz algumas afirmações gerais como ponto de
partida, que serão depois reiteradas junto a elaborações de Chabrier. Dentre elas podemos destacar as
seguintes:

 “(...) até o indivíduo mais limitado sempre possui algum ideal


mais ou menos vago, uma certa consciência mais ou menos
perceptível”

 “[Mesmo] os sentimentos mais baixos apareceram a partir de


tradições, crenças ou preconceitos religiosos”

 “Sua natureza [dos sentimentos] não permite considerá-los


reações instintivas a excitações que não dependem de um
sistema ideolologicamente estabelecido”

(VIGOTSKI, 1931-33/2004 – p. 212 – grifos meus)

Nota-se nessas três afirmações a relação das emoções com aspectos exclusivos do ser humano: (a) uma
“consciência mais ou menos perceptível”; (b) uma série de práticas e/ou linguagens culturais como
“tradições, crenças ou preconceitos”; e (c) “um sistema ideologicamente estabelecido”, do qual os
sentimentos não são independentes15. James também teria conhecimento disso, da existência de
sentimentos propriamente humanos, e assim buscou estabelecer diferenciações, por exemplo:

Para William James:

Medo de um homem O compadecimento de uma mãe


ante um urso que passou
pela morte do filho

Emoção grosseira Sensibilidade fina

Contudo, ao tentar explicar a diferença entre tais modalidades de processos afetivos e/ou emocionais,
James, segundo Vigotski, acabaria por colocar as “sensibilidades morais superiores” como originárias “de
uma atividade puramente espiritual” (VIGOTSKI, 1931-33/2004 – p. 212). Enquanto as “sensibilidades
físicas inferiores”, teriam uma “explicação fisiológica” (idem). Nesse momento da discussão, Vigotski volta a
recorrer a Chabrier, para defender a concepção de que não pode haver distinção absoluta entre emoção
inferior e superior. Com exemplos etnocêntricos, próprios da época, contudo proporcionando ao mesmo
tempo uma pista interessante, para ultrapassar o dualismo de James. Vejamos:

14
Isto é: à fisiologia dos sistemas orgânicos “periféricos” (vasomotores ou viscerais), independente dos processos “centrais” – aqueles relativos aos
sistemas neuro-funcionais mais avançados, próprios do ser humano.
15
A relação das emoções com a ideologia e aspectos sócio-antropológicos já aparece no texto de Vigotski sobre os sistemas psicológicos no qual fala
da diferença do ciúme do ocidental com relação ao do muçulmano (ver VIGOTSKI, 1930/1991 – p. 87).

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“Com toda razão, Chabrier se refere a que o sentimento de fome,


o qual habitualmente se considera dentro do grupo de
sensibilidades corporais inferiores, é já no homem civilizado um
sentimento que, desde o ponto de vista da nomenclatura de
James, pode-se considerar fino, e que a simples necessidade de
alimentar-se pode adquirir um sentido religioso quando conduz
ao rito simbólico da comunhão mística entre o homem e a
divindade. E, inversamente, o sentimento religioso, que por regra
geral se considera uma emoção puramente espiritual,
provavelmente não deve ser referido ao grupo de emoções
superiores em piedosos canibais que sacrificam seres humanos à
divindade. Por conseguinte, não existe emoção que seja por
natureza superior ou inferior, como não existe emoção que seja
por natureza independente do corpo, que não esteja unida a
este”

(VIGOTSKI, 1931-33/2004 – p. 213)

Se o ato canibal de sacrificar um outro à divindade, alimentando-se dele, deve ou não também ser
considerado emoção superior, não vem ao caso discutir aqui. Contudo, a lógica do argumento pode ser
atual, no sentido da conclusão mais geral e progressista a que o autor chega: “não existe emoção que seja
por natureza superior ou inferior, como não existe emoção que seja por natureza independente do corpo,
que não seja unida a este”. Apenas nisso reside, ao menos em termos programáticos, já toda a distinção
entre a concepção de Chabrier/Vigotski e a oposição dualista entre emoções superiores e inferiores tanto
em Descartes como em seus “discípulos involuntários”, cujas idéias principais são apontadas no capítulo
fichado aqui. Esta postura mais afirmativa de Vigotski, quanto à teoria das emoções, é reiterada no
parágrafo seguinte, com ênfase no desenvolvimento das emoções como um processo integral, indivisível:

“Por isso não há porque dividir o enorme âmbito das emoções


em duas partes, a uma das quais se poderia aplicar a hipótese
periférica, coisa que seria impossível para a outra. Não existem
sentimentos que por direito de nascimento pertençam à
categoria superior, enquanto que outros estariam vinculados,
por natureza, à categoria inferior. A única diferença radica em
sua riqueza e complexidade, e todas nossas emoções são
capazes de ir adquirindo todos os graus de evolução dos
sentimentos. Cada emoção só pode qualificar-se desde o ponto
de vista de seu grau de evolução, razão pela qual a única teoria
das emoções que se pode qualificar como satisfatória é a que se
pode aplicar a todos os graus de desenvolvimento”

(VIGOTSKI, 1931-33/2004 – p. 213)

4.3 Do caráter histórico das emoções humanas e de sua relação com o conjunto da personalidade

A teoria de James acabaria, ao fim das contas, tornando-se fatalista, por separar as emoções do “sistema
das representações” (aqui Vigotski deve estar se referindo aos aspectos culturais, ideológicos, constitutivos
das emoções) e relegar, assim, sua explicação a fenômenos animais e/ou por deixar seus aspectos
históricos e culturais sem explicação alguma, pertencentes ao campo do insondável. Mais uma vez a
contribuição de Chabrier é lembrada, mesmo que de passagem:

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“As diferenças profundas que revelam as emoções do homem


segundo a época e o grau de civilização – como, por exemplo, a
diferença entre a adoração mística do cavaleiro [medieval?] a
sua dama e a galanteria dos nobres do século XVII – não podem
explicar-se a partir desta teoria. Se imaginamos, diz Chabrier, a
natureza infinitamente rica da emoção mais pobre, se prestamos
menos atenção à suposta psicologia dos organismos unicelulares
que aos destacados novelistas e escritores, se simplesmente
utilizamos a preciosa informação que nos proporciona a
observação das pessoas que nos rodeiam, nos vemos obrigados
a reconhecer a absoluta inconsistência da teoria periférica. Em
efeito, é inadmissível que a mera percepção de uma silhueta
feminina provoque automaticamente um sem fim de reações
orgânicas das que poderia nascer um amor como o de Dante por
Beatriz, se não se pressupõe o conjunto das idéias teológicas,
políticas, estéticas e científicas que conformavam a consciência
do genial Alighieri”

(VIGOTSKI, 1931-33/2004 – p. 213-214)

Diante destas constatações, Vigotski segue argumentando que os adeptos de uma teoria periférica
esqueceram-se de que “toda emoção é uma função da personalidade” (1931-33/2004 – p. 214). O que fez
com que tal tentativa de avanço científico viesse a requerer como complemento “uma verdadeira teoria
dos sentimentos humanos”, a qual pela via das abordagens descritivas, teleológicas, e/ou metafísicas
(como as descritas sinteticamente acima), permaneceu herdeira involuntária de Descartes. Ficando ainda
por se construir uma teoria dos sentimentos humanos que tenha como algumas de suas categorias
principais: a consciência, a cultura, a ideologia, a história e a personalidade humana, em suas relações
inter-constitutivas. Como um convite às gerações futuras e às que hoje com elas já se comprometem.

* * * * *

Achilles Delari Junior


Umuarama, PR, 14 de novembro de 2009
Material para fins didáticos.
Produção voluntária e independente.
Passará por revisões posteriores

5 Referências

VIGOTSKI, L. S. (1927/1991) El significado histórico de la crisis de la psicología: una investigación


metodológica. In: ______. Obras Escogidas. Tomo I. Madrid: Visor y Ministerio de Educación y Ciencia.
VIGOTSKI, L. S. (1930/1991) Sobre los sistemas psicológicos. In: ______. Obras Escogidas. Tomo I. Madrid:
Visor y Ministerio de Educación y Ciencia.
VIGOTSKI, L. S. (1932/1998) As emoções e seu desenvolvimento na infância. In: ______. O
desenvolvimento psicológico na infância. São Paulo: Martins Fontes.
VIGOTSKI, L. S. (1931-33/1999) The teaching about emotions: historical-psychological studies. In: ______
(1999) The collected works of L. S. Vygotsky. Vol. 6. Scientific legacy. New York, Boston, Dordrecht,
London, Moscow: Kluwer Academic/Plenum Publishers
VIGOTSKI, L. S. (1931-33/2004) Teoría de las emociones: studio histórico-psicológico. Madrid: Akal
Universitaria.
VIGOTSKI, L. S. (1934/1991) El problema de la consciencia. In: ______. Obras Escogidas. Tomo I. Madrid:
Visor y Ministerio de Educación y Ciencia.

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