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RESENHA DO LIVRO "A ALBION REVISITADA : CIÊNCIA, RELIGIÃO,

ILUSTRAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DO LAZER NA INGLATERRA DO


SÉCULO XVIII"
REVIEW OF THE BOOK "THE ALBION REVISITED : SCIENCE, RELIGION,
ILLUSTRATION AND MARKETING OF THE LEISURE IN ENGLAND IN THE
EIGHTEENTH CENTURY"

O livro A Albion revisitada: ciência, religião, ilustração e comercialização do lazer


na Inglaterra do século XVIII1, de Luiz Carlos Soares2 está dividido em cinco capítulos de
258 páginas, sendo que 79 páginas são de referências e de ilustrações. Trata-se de um livro
interessante, pois explora o contexto político, social e comercial do século XVIII de uma
maneira inovadora através da análise de vários momentos-chave pouco explorados pela
historiografia mais recente da História da Inglaterra. O objeto do livro baseia-se na formação
do autor, historiador e pesquisador do CNPq e da academia inglesa e certamente resulta de
suas pesquisas ao longo da carreira resultando num trabalho sério e de importante
contribuição para a Academia e o público em geral.
No primeiro capítulo, o autor desenvolve uma contextualização da Inglaterra do ponto
de vista político no século XVIII, analisando o papel de vários partidos políticos da época
como os whigs e os tories, além de demonstrar como os pensadores modernos tinham uma
visão de mundo centrado no governo da Grã-Bretanha. Aqui a intenção de Luiz Carlos Soares
é de destacar o papel dos pensadores britânicos na formação do governo, viés destacável,
visto que poucos autores consideram o papel dos filósofos e pensadores neste contexto. A
preocupação de Luiz Carlos Soares com o contexto visto através dos temas tratados em geral
apenas pela filosofia se torna um dos pontos mais interessantes desse capítulo.
No segundo capítulo, Soares dá um foco maior nas contribuições e influências de Isaac
Newton no campo político nesse período conturbado do século XVIII. Isso é interessante,
pois geralmente analisa-se Newton como um pensador com grandes contribuições no campo

1
SOARES, Luiz Carlos. A Albion revisitada: ciência, religião, ilustração e comercialização do lazer na Inglaterra
do século XVIII. Ed. 7 letras: Rio de Janeiro, 2007.
2
Bacharel (1976) e Mestrado (1980) em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) no Rio de Janeiro.
Possui doutorado também em História pela Universidade de Londres (1988). Faz parte do Programa de História
Social da Universidade Federal Fluminense (UFF) e dedica-se à História social do século XIX e História da Ciência
e da Tecnologia na Inglaterra do século XVIII.
da Física, mas aqui o descobrimos interagindo com outros pensadores políticos da sua época,
como John Locke. Assim, neste capítulo vemos uma nova faceta de Newton, atuante junto a
outros pensadores políticos menos citados nos livros de Filosofia.
No terceiro capítulo, o centro das atenções são as Universidades britânicas. Neste
capítulo, ele explora o papel das várias dissidências religiosas do Anglicanismo na História
da Inglaterra, no século XVIII, desde os mais conhecidos, como o Unitarismo, até os menos
conhecidos, como os Socinianos. No caso do Unitarismo, Soares destaca de forma
surpreendente, apresentando o papel político que eles tiveram em episódios importantes da
historiografia moderna inglesa do século XVIII, como as King and God Riots (Revoltas do
Rei e de Deus), em 1791, e o Trinity Act (Ato Trinitário), em 1813. Além disso, ele mostra
um panorama e as consequências, geradas por esses eventos que afetaram várias cidades e
suas instituições, como Birmingham. Até aí, ele resume e chama a atenção, de forma
equilibrada, como estas correntes religiosas foram fundamentais para a estruturação das mais
famosas Universidades da Inglaterra, desde o período de sua construção e fundação até o
histórico de sua formação e de seu corpo docente, como Birmingham e Manchester. Porém,
neste segmento da obra parece-nos que o foco se dilui um pouco e inflete para informações
expositivas das Universidades britânicas.
No quarto capítulo explora-se a Lunar Society de Birmingham, em todos os aspectos
desde sua fundação em 1755, os seus pensadores mais importantes como Joseph
Priestley(1733-1804), Richard Steele(1672-1729) e Joseph Addison (1672-1719). Além disso,
fala da periodicidade dos encontros em dias específicos da semana, especialmente em noites
de lua cheia, até seu declínio em 1813, devido ao fato de que vários membros da Lunar
Society eram Unitaristas, e estes foram perseguidos durante as King and God Riots (Revoltas
do Rei e de Deus). Nesse segmento, Soares conseguiu abordar de forma clara e equilibrada,
como essa sociedade inglesa se destacou e se tornou uma das sociedades mais importantes do
século XVIII numa cidade que não era a capital inglesa. Aspectos da História da Cultura
inglesa na Modernidade que apresenta-nos um panorama de debates de alto nível que se
desenrolam fora do âmbito universitário anteriormente apresentado.
No último capítulo o autor detém-se na importância do lazer no século XVIII, e as
consequências que as bebidas alcoólicas traziam à sociedade. Inicialmente, ele introduz como
esse processo de lazer, como o teatro ou os clubes, gerou uma sociedade de consumo,
formada por aristocratas. Nesse ponto, ele explica os fundamentos do comércio e do lazer, de
forma surpreendente e interessante, até chegar a outro ponto interessante que é o papel das
bebidas alcoólicas por grande parte do século XVIII. É surpreendente a reflexão sobre o gim e
a cerveja, que, na percepção de Soares, teriam sido ferramentas decisivas em momentos-chave
na História do século XVIII inglês e seu impacto nos movimentos radicais da época. Destaca-
se a descrição do panorama da Inglaterra do século XVIII, através de seus aspectos mais
cotidianos, como a pobreza, a sujeira presente no ar e a sua atmosfera violenta nas cidades e
campo. Um contexto mais amplo dos ambientes em que transitavam os atores mais instruídos,
mas também as pessoas mais simples.
Levando tudo isso em conta, podemos dizer que se trata de um trabalho que possui
uma leitura indispensável a todos que se interessem pela História inglesa do século XVIII.
Luiz Carlos Soares faz jus a sua área específica de formação e pesquisa, a História Moderna,
ao escrever esse livro, o que se demonstra na divisão equitativa das matérias dos capítulos
sem que haja uma sobreposição de temas, assim como no domínio do contexto e das
discussões mais específicas e na competente análise das relações entre o meio intelectual
britânico e o quotidiano da vida urbana na Inglaterra em meio ao Iluminismo. O título faz
menção a Albion, que parece resgatar uma versão crítica sobre a Inglaterra na linha dos
escritos e ilustrações de William Blake, onde a Inglaterra é associada a um gigante
denominado Albion. Na mitologia de Blake, Albion teria sido assassinado por Bruto de Tróia,
assumindo a formação do reino da Bretanha. Considerando-se que Blake foi um crítico das
autoridades laicas e eclesiásticas inglesas (Igreja Anglicana), adepto do Unitarismo inglês, a
opção de Soares de colocar Albion no título traz a discussão para o resgate destas tensões na
Inglaterra Contemporânea.