Você está na página 1de 4

Resenha do Livro:

A ERA DA CURADORIA, O que importa é saber o que importa.

Autores do livro: Mario Sergio Cortela e Gilberto Dimenstein

Por Jean Silva.

Em toda discussão sobre educação, seja com o viés humanista, cogtivista, ou


qualquer outro, a fala em que os alunos mudaram, e a escola também tem que mudar,
está presente. Agora mais dinâmicas, as escolas necessitam de professores que
tenham condições de fazer o que os autores chamam de “Curadoria do
Conhecimento”. Eles afirmam ainda que a informação está mais acessível, e a escola
não é mais a fonte de todo o conhecimento, contudo, pode fazer os alunos irem ao
encontro desse conhecimento, de forma organizada e profícua.

Em dado trecho do texto, Cortela exemplifica que exercer a curadoria é também


disponibilizar blogs e sites sobre diferenciados temas, agregando informação e
organizando ferramentas de estudo e conhecimento. Assim, Dimenstein (jornalista e
educador) segundo Cortela, também é um curador do conhecimento. O texto
corrobora diversas vezes com teorias bastante discutidas no universo da Educação
(refiro-me a Educação como objeto de estudo), além de fazer menção direta a dezenas
de autores, como Paulo Freire, por exemplo.

Um dos autores do livro “A Era da Curadoria” é Gilberto Dimenstein, jornalista


consagrado, que tem como principal legado (para a “curadoria” do conhecimento), o
site Catraca Livre (essa afirmação deve-se ao fato de diversas vezes o autor citar o site
no livro) e dentre suas obras se destacam: “A guerra dos meninos”, “A democracia em
pedaços”, “As armadilhas do poder: bastidores da imprensa” e “O aprendiz do futuro”.
De grande influência no meio político, tem como amigos pessoais o Senador Cristóvão
Buarque e o ex presidente Fernando Henrique Cardoso. O jornalista afirma que o ápice
de inquietação em relação a sua profissão, ocorreu quando ele estava escrevendo
matérias sobre violência infantil. Nesse momento ele teve certeza que não queria mais
só “informar”, mas sim “formar”, para que situações como aquelas que relatou em
seus livros (A Guerra dos Meninos e Meninas da noite), pudessem ser evitadas. Dessa
forma, deu-se início sua também bem sucedida jornada pela educação. O texto insinua
que Dimenstein trilhou o caminho da comunicação para a educação, caminho com
sentido oposto ao de Mario Sergio Cortela, Filósofo e Educador, que lecionou por anos,
e depois consagrou-se como palestrante e escritor, ou seja, foi da educação para
comunicação.
Para os autores, a educação e a comunicação andam lado a lado, segundo
Cortela (pag 17), não há como separar educação e comunicação, porque ensinar é
comunicar, assim como comunicar é ensinar, ou seja, as duas transitam dentro da
mesma ideia. Contudo, quando fala-se de jornalismo e educação escolar, o consenso é
que existem diferenças, o jornalista não propõe, é isento, não posiciona-se, já a
educação escolar tem o objetivo de propor. Com relação a política, o jornalismo tende
a afasta-se, já a educação aproxima-se da política, afirmação corroborada por Paulo
Freire que dizia que educação é um ato político. O livro é apresentado na forma de
diálogo, e no decorrer da conversa, o que os autores chamam de “A Era da Curadoria”
vai sendo apresentada e principalmente, exemplificada e demonstrada através de
passagens e posturas de pessoas que em determinado momento da história, seja por
força política, de mídia, ou mesmo pelo poder de suas ideias, foram exemplos de
curadores.

Como filosofo que é, Cortela fala da origem da palavra curar, que remete a
curadoria, ele afirma que Curar em português lusitano é “pensar”, e pensar é capaz de
cuidar. Cortela ainda afirma que:

A era da curadoria é um momento em que organizamos os nossos


espaços de convivência, de vida comum, estruturados em algumas
instituições como a escola, os meios de comunicação, em que aquele
que é o responsável por coordenar as atividades tem o espírito de
curador, isto é, alguém que precisa proteger e elevar para tornar
disponível, para as pessoas que ali estão, seja o conhecimento na
escola, seja a informação em relação ao mundo digital. (Cortela e
Dimenstein, pag 19).

Acredito que falar em curadoria, pensar em ser um curador do conhecimento, vai


ao encontro do papel do professor em diversas teorias, Robert Gagné por exemplo,
fala do papel do professor em sala como o responsável pela instrução, que é a
atividade de planejamento e execução de eventos externos à aprendizagem com a
finalidade de influenciar os processos internos para atingir determinados objetivos. Na
“Era da Curadoria”, essa instrução não passa mais só pelo banco de escola, pode ser
feita de diversas formas, e principalmente, a todo o momento.

Cada vez mais tenho convicção, que no futuro a informação vai chegar no aluno,
antes mesmo de ele chegar na escola, e quando for o momento do encontro na escola,
o aluno também fará o papel de curador do conhecimento, expressando-se, e também
dividindo o que aprendeu. Dimenstein diz que o Educador precisa inserir-se,
comprometer-se, interferir, buscando luz, mesmo em meio às trevas. Aqui acredito ser
possível fazer um paralelo com nossa realidade, a luz é o conhecimento, que vem da
educação, como agente transformador, as trevas representam nossa atual conjuntura,
alunos desenteressados, indo para a escola obrigados. O fato é que eles mudaram, por
sua vez, a escola bem pouco. Cabe aos professores, buscarem ser curadores do
conhecimento, trazendo para a relidade do aluno, para os espaços de educação e
comunicação o “profissional”, que vai cuidar, repartir, proteger e elevar a informação,
tornando-a acessível por meio das tecnologias digitais. Nesse ímpeto os autores
comentam sobre o surgimento, importância e função social do Google, do Yahoo e do
Facebook, como espaços de possibilidades de informação, destacando os Blogs, Sites e
o Wikipédia, como possíveis curadores, ou modos de curadoria. Uma vez que são
repositórios de informações captadas, tratadas e dispensadas aos seus respectivos
interessados.

As cidades também são colocadas pelos autores como instituições capazes de


promover a curadoria do conhecimento. Cortela afirma que as grandes cidades
funcionam como grandes redes sociais, em que os indivíduos interagem e convivem,
criando redes. Agora a ágora ( ágora é o nome dado as praças das principais cidades
gregas antigas, local onde existiam os mercados e que muitas vezes servia para a
realização das assembleias do povo) é colocada de forma mais dinâmica, a
comunicação mistura-se com a cidade, a cidadania e o processo educativo, tendo
como personagem principal o cidadão, que se comunica, interege e também faz o
papel de curador. Mais uma vez o site Catraca Livre idealizado por Dimenstein é citado
e colocado como uma experiência que exemplifica o ato de ser curador do
conhecimento. O texto afirma que, na época o site tinha em torno de trinta milhões de
usuários, e mesmo situado em um bairro de São Paulo, era sustentado pelo conceito
de fertilidade, ou seja, a união entre a informação e o seu contexto, fazendo mais uma
vez mensão a Paulo Freire, que fala do conceito de “leitura de mundo”.

A conversa segue, e eles afirmam que a educação deve tirar o indivíduo de um


lugar e levá-lo para outro, ou seja, a educação deve promover mudanças, o que
novamente vai ao encontro de diversas teorias educacionais. Alguns teóricos afirmam
que a aprendizagem é uma mudança de estado interior que se manifesta através da
mudança de comportamento e na persistência dessa mudança, ou ainda, que é uma
mudança comportamental persistente e ocorre quando o indivíduo interage com seu
ambiente externo, ou seja, os mesmos objetivos. Essa ideia é corroborada no quinto
capítulo, “Aprender em tempo real e pelo resto da vida” em que Dimenstein afirma
que nessa nova era da comunicação, não é possível abrir mão dos conceitos da
educação para comunicar, nem dos conceitos da comunicação para educar, já que
educação e comunicação estão se tornando uma coisa só.

A conversa entre eles nos leva a refletir sobre a quantidade de informação


presente em nossas aulas, e assim como os indivíduos em geral, temos que decidir o
que realmente é importante saber, ou seja, o que importa é saber o que importa.
Cortella atenta para a necessidade de sermos gestores do conhecimento, numa luta
contínua contra a efemeridade e a obsolescência da informação e dos seus canais, ou
seja, vale mais trabalhar com seus alunos algo aprofundado, capaz de promover uma
mudança de comportamento persistente, do que somente informar, por informar, de
forma superficial, todos os temas do currículo. Novamente os autores alertam para a
necessidade de uma mudança de postura das instiuições educacionais, tornando-se
centros sofisticados de curadoria do conhecimento. Dimenstein afirma que a escola,
assim como a mídia, correm riscos de todos os lados, e esse risco está associado a
escolha do que é importante que o aluno aprenda, quais habilidades ele traz de casa e
quais a escola interfere diretamente.

Alguns casos de sucesso trabalham o empreendedorismo já na pré escola, por


acentuarem habilidades relacionadas a resiliência, a disciplina, o auto controle, o
trabalhar junto…, abonando as discussões sobre habilidades sócio-emocionais e
principalmente as ideias de autores ditos humanistas.

A conversa é finalizada com a reflexão: “O que importa é saber o que importa”, e


nos leva a refletir sobre a tese de que a história da cidadania é a história do
empoderamento! A facilidade em comunicar e a velocidade das informações em rede,
a imprensa livre e as plataformas digitais é que permitem uma visão real, e múltipla
dos fatos, é o que, como o próprio significado da palavra empoderar diz, concede
poder ao cidadão em todos os sentidos.

Você também pode gostar