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ARRANJO PRODUTIVO LOCAL DA

OVINOCAPRINOCULTURA NAS MICRORREGIÕES


DOS INHAMUNS E DE CRATEÚS-CE(*)

Francisco Mavignier Cavalcante França


Consultor da EMBRAPA-Caprinos, E-mail: mavignierf@yahoo.com.br
Evandro Vasconcelos Holanda Junior
Pesquisador da EMBRAPA-Caprinos, E-mail: evandro@cnpc.embrapa.br
Jaime Martins de Sousa Neto
Estudante de Agronomia da UFC, E-mail: jaime-martins@hotmail.com

Versão Preliminar

(*) Estudo elaborado no âmbito do Projeto de Apoio ao Desenvolvimento e Transferência de


Tecnologia (PRODETAB) e IICA.

JANEIRO, 2006

1
Sumário

1. INTRODUÇÃO - 4

2. CARACTERIZAÇÃO DA CAPRINOVINOCULTURA NO ESTADO DO


CEARÁ - 5

3. ABORDAGENS CONCEITUAIS DE ENFOQUES DE DESENVOLVIMENTO


- 7

4. METODOLOGIA DE TRABALHO - 12

4.1. Delimitação física do território a ser estudado - 13


4.2. Caracterização do território selecionado como área-piloto - 15
4.3. Sondagem qualitativa junto a atores atuantes nos segmentos da cadeia
Produtiva - 16
4.4. Determinantes das vantagens e desvantagens competitivas do Território
Inhamuns/Crateús, a partir do Modelo Diamante de Porter - 17

5. ANÁLISE DOS RESULTADOS OBTIDOS E PROPOSTAS DE


OTIMIZAÇÃO - 18

5.1. Sob a ótica do desenvolvimento sustentável - 18


a) Dimensão econômica - 19
b) Dimensão sociocultural - 19
c) Dimensão ambiental - 20
d) Dimensão tecnológica (P&D&I) - 20

5.2. Sob a ótica do enfoque de cadeia produtiva - 20


a) Insumos - 20
b) Produção ou criação - 21
c) Transformação/processamento - 23
d) Distribuição - 23
e) Consumo - 24
f) Ambiente organizacional - 25
g) Ambiente Institucional - 26

5.3. Sob a ótica do APL/cluster ou Modelo Diamante de Porter - 28


a) Condições dos fatores de produção - 28
b) Condições de demanda e características dos compradores - 28
c) Contexto das regras, costumes e incentivos - 28
d) Setores correlatos e de apoio - 28

6. PROPOSTAS NORTEADORAS PARA A ADOÇÃO DA BOA


GOVERNANÇA NO TERRITÓRIO DOS INHAMUNS/CRATEÚS - 29

6.1. Elementos-chave de uma conduta de sucesso, segundo Porter - 29


6.2. Processo participativo da implementação da boa governança no
território - 30

2
6.3. Caracterização de uma agência de desenvolvimento mesorregional - 33

a) Resultados macroeconômicos esperados - 33


b) Transformações nos padrões de concepção e gestão de ADR - 34
c) Características marcantes das ADR - 35
d) Linhas de atuação - 36
e) Objetivos das ADR - 36
f) Mecanismos de acesso e interação às ADRs - 36

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS - 37

8. APÊNDICE - 39

3
1. INTRODUÇÃO

O agronegócio da ovinocaprinocultura tem sido um dos segmentos da


economia rural nordestina que tem preocupado mais fortemente aos agentes
públicos e privados. É notável o esforço dos governos estaduais, da
EMBRAPA, do Ministério da Agricultura, das universidades, dos agentes
produtivos, das federações de agricultura, da FETAG, do SEBRAE, do Banco
do Nordeste, do Banco do Brasil e de algumas ONGs, na busca do
soerguimento desta cadeia, em bases sustentáveis.

Paralelo a estes esforços, tem se intensificado os debates e mesmo a


experimentação de novas abordagens do desenvolvimento. Temas como:
desenvolvimento econômico local, abordagem de agronegócios, arranjos
produtivos locais, clusters, polos de desenvolvimento integrado, governança
territorial, agências de desenvolvimento regional e outras modalidades afins,
que incorporam aspectos da globalização e da sustentabilidade, têm permeado
todas as ações dos agentes públicos e privados.

Frente a riqueza dessa realidade criadora é que se vislumbra, por meio de


um esforço orientado e sequenciado, identificar e implementar os mecanismos
e ações que induzirá a cadeia produtiva da ovinocaprinocultura à
sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Este estudo, portanto, visa identificar os processos produtivos, as rotas


tecnológicas adotadas, os sistemas de gestão, os mecanismos de mercado e
as atitudes dos produtores e das instituições que estão impactando, de forma
positiva ou negativa, a cadeia produtiva da caprinovinocultura nas
microrregiões dos Inhamuns e de Crateús. Objetiva, também, propor formas
inovadoras para o adensamento do agronegócio de ovinos e caprinos e para a
boa governança do território composto das microrregiões dos Inhamuns e de
Crateús, ambos no Estado do Ceara.

4
2. CARACTERIZAÇÃO DA CAPRINOVINOCULTURA NO ESTADO DO
CEARÁ

O Nordeste sempre se destacou na produção de ovinos e caprinos, sendo


que o rebanho caprino, segundo (IBGE, 2005), responde por 93% e o ovino por
49% do efetivo nacional. O crescimento dos rebanhos de 2003 para 2004 foi de
4,8%, para caprinos, e 3,4%, para ovinos, acompanhando o desempenho da
bovinocultura nacional que cresceu 4,6%.

Ao sumarizar informações contidas em (NOGUEIRA et al., 2002), pode-se


afirmar que a caprinovinocultura tem exercido um papel fundamental na
geração de emprego, renda e suprimentos de proteína animal às populações
interioranas. Com a absorção de novas tecnologias orientadas para todos os
elos da cadeia produtiva e com a forte demanda por carne ovina e caprina,
vislumbra-se um futuro muito promissor para a atividade.

Em (FRANÇA et al., 2006), é mostrado a importância econômica, social e


ambiental da caprinovinocultura explorada no semiárido nordestino. Aqueles
autores asseveram que a exploração da caprinovinocultura se configura, hoje,
como a principal alternativa econômica do semiárido, por sua vasta
disseminação territorial e alcance social, apesar do baixo nível tecnológico dos
processos produtivos.

No âmbito social, é notória a aderência da atividade ao perfil do agricultor


familiar em função da tradição na atividade e do emprego da força de trabalho
familiar. No campo ambiental, por sua vez, destacam a manutenção e
utilização da vegetação de caatinga, por ser o principal suporte alimentar dos
rebanhos.

A efetivação desse cenário, no entanto, somente ocorrerá se os atores


envolvidos na sua exploração adotarem inovações tecnológicas, gestão
profissional e a incorporação das estratégias do enfoque de cadeia produtiva.

5
Segundo (FRANÇA et al., 2006), “esse despertar pela carne de ovinos e
caprinos é consequência do regionalismo, ensejado pela globalização e pela
busca do atendimento dos anseios dos consumidores (novidade, saúde,
tradição), que sempre ansiavam por tais carnes, mas não havia oferta na
quantidade nem no padrão exigido. Hoje, tais carnes são encontradas em
todas as redes de supermercado, frigoríficos, feiras livres e outros pontos de
venda. Em qualquer restaurante de bom nível, localizado em grandes centros
do País, há pratos à base de carnes de ovinos e caprinos”.

No Estado do Ceara, a região de maior concentração de ovinos e


caprinos compreende as microrregiões dos Inhamuns e de Crateús,
compreendendo 15 dos 184 municípios do Estado. Conforme Tabela 1, nesse
território há um plantel de 790 mil animais que equivalente a 28,7% do total
estadual. Nesses 15 municípios, o rebanho caprino representa apenas 44,7%
do rebanho total.

A taxa de crescimento da avinocaprinocultura, entre 2002 e 2004, foi de


7,9% para o Estado como um todo e de 3,9% para o território selecionado. A
menor taxa do território Inhamuns-Crateus deve-se ao maior percentual de
desfrute dos rebanhos deste polo de produção. No mesmo período, a
ovinocultura cresceu 4,4%, enquanto a caprinocultura de apenas 3,4%.

A seleção do território Inhamuns-Crateús para estudo-piloto deveu-se a


dois fatores determinantes para os objetivos que se quer alcançar, são eles:

a) elevada densidade animal com forte inserção nos mercados local e


regional,
b) bem nível tecnológico das explorações, em relação à média do
Estado,
c) bem nível de empreendedorismo dos produtores e demais agentes
da cadeia produtiva,
d) existência de uma série de programas e ações governamentais em
execução e com bons resultados.

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Tabela 1 - Efetivo de Ovinos e Caprinos nas Microrregiões dos Inhamuns e
Crateús do Estado do Ceará, 2002 e 2004.

MICRORREGIÂO TOTAL
INHAMUNS CRATEÚS CEARÁ
REBANHOS
(A) (B) (A)+(B)
CAPRINOS
2002 140.675 95.956 236.631 836.813
2004 144.629 99.390 244.019 904.258

OVINOS
2002 256.163 267.445 523.608 1.718.818
2004 265.889 280.129 546.018 1.852.448
TOTAL
2002 396.838 263.401 760.239 2.555.631
2004 410.518 379.519 790.037 2.756.706
Fonte: IBGE, 2005.

3. ABORDAGENS CONCEITUAIS DE ENFOQUES DE DESENVOLVIMENTO

Nos últimos 30 anos a nossa civilização passou a conviver com uma série
de desafios e oportunidades fruto do efeito do progresso tecnológico nas
atitudes das pessoas. Essa onda virtuosa está redirecionando uma série de
paradigmas até então aceitos e festejados por meio da ampliação da
perspectiva de valores como:

 Estratégias ambientais para sustentabilidade;


 Inclusão social dos ganhos com o desenvolvimento;
 Valorização das diversidades locais;
 Exploração das potencialidades naturais;
 Comunicação para transparência e diálogo entre governo, setor privado
e terceiro setor;

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Nesse processo de mudanças, tracionado pela sociedade, vê-se alterações
estruturais quando se observa que o controle do governo tem diminuído, as
empresas privadas têm aumentado sua influência e a sociedade civil vem
assumindo seu papel com mais afinco e envolvimento.

Esse cenário, muitas vezes, impõe aos agentes produtivos novas


posturas e mudanças radicais que se fazem necessárias à sobrevivência no
longo prazo. Os pilares sobre os quais os atores integrantes das cadeias
produtivas deverão se firmar e agir são:

 Comprometimento empresarial, transparência e sinergia de informações;


 Contribuição na redução da pobreza e das desigualdades sociais;
 Parcerias empreendedoras para a relação ganha-ganha;
 Relacionamento corporativo com o terceiro setor;
 Otimização no uso dos recursos hídricos, minerais e florestais;
 Apoio ao desenvolvimento econômico local.

Como pode se depreender, os desafios são complexos e grandiosos e os


caminhos para sua superação não são triviais. Os mecanismos e as práticas
para o desenvolvimento sustentável já são conhecidas, a inquietação é quem e
como será conduzido o processo virtuoso de desenvolvimento sustentável de
regiões deprimidas como o semiárido nordestino.

A EMBRAPA-Caprinos, como o principal responsável pelo fomento da


ovinocaprinocultura do Nordeste do Brasil, tem o desafio e a oportunidade de
liderar os esforços no sentido de assegurar que o desenvolvimento de tão
relevante atividade econômica e social se dê em bases sustentáveis nas
dimensões econômica, ambiental e social.

O direcionamento teórico-metodológico do Estudo terá três vertentes


que se harmonizam no mundo real, são elas:
 Conceito de desenvolvimento sustentável;
 Enfoque de cadeia produtiva ou agronegócio;
 Arranjo produtivo local, agropolo ou cluster.

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Segundo ECO-92-Agenda 21 (1995), entende-se que “desenvolvimento
sustentável é um conceito que busca conciliar as necessidades econômicas,
sociais e ambientais sem comprometer o futuro de quaisquer destas
demandas” e toda a abrangência e sinergias deste enfoque está contido na
figura a seguir:

Requer ação em três dimensões


o

Im
Me olítica P
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ida

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Eq
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bie
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So

nte

Tecnologia

CrescimentoEconômico
Tornar realidade

Particularizando o conceito de desenvolvimento sustentável para o


sistema produtivo de alimentos e fibras, (BEZERRA & VEIGA, 2000) explicitam
os vetores que deverão ser contemplados no conceito do que foi denominado
de agricultura sustentável, são eles:

 A manutenção, a longo prazo, dos recursos naturais e da


produtividade agrícola;
 O mínimo de impactos adversos ao meio ambiente;
 Retornos adequados aos produtores;
 Otimização da produção com um mínimo de insumos externos;
 Satisfação das necessidades humanas de alimentos e renda;
 Atendimento às demandas sociais das famílias e das comunidades
rurais.

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Já o enfoque de cadeia produtivo ou agronegócio consiste num conjunto
de atividades agropecuárias, industriais e de serviços que mantém sinergias de
caráter tecnológico, comercial e econômico, cuja matéria-prima principal venha
do setor agropecuário ou cujo produto final tenha naquele setor o seu mercado.
(HADDAD, et al, 1999). A figura, a seguir, expressa, visualmente, o campo de
abrangência deste novo enfoque que é dado as explorações agrícolas.

ENFOQUE DE CADEIA PRODUTIVO


OU DE AGRONEGÓCIO

Ambiente Institucional: Cultura, Tradições, Educação e Costumes.

CONSUMIDOR
INSUMOS t1
PRODUÇ
PRODUÇÃO
t2
TRANSFORMAÇ
TRANSFORMAÇÃO
tn
DISTRIBUIÇ
DISTRIBUIÇÃO

Ambiente Organizacional: Associações, Informação, Pesquisa,


Finanças, Cooperativas e Firmas

O conceito expresso em (LOPES NETO, 1988) de arranjo produtivo


local-APL consiste em aglomerações territoriais de agentes econômicos,
políticos e sociais – com foco em um conjunto específico de atividades
econômicas – que apresentam vínculos, mesmo que incipientes. Este conceito
é ilustrado na figura a seguir.

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ARRANJOS PRODUTIVOS LOCAIS,
AGROPOLOS OU CLUSTERS

Mercados
APLs Estratégicos
Globalizados
e Locais
A produção agrícola vetorizando:
• inovação tecnológica
•governança do território
• inteligência de mercado
• dimensões: econômica, social, ambiental

COMPETITIVIDADE

Ainda dentro da conceituação de APL, que será considerado neste


Estudo, a abrangência do conceito considera que os agronegócios devem ser
entendidos como redes de empreendimentos conscientes, compostas por
atores do setor privado, do setor público e da sociedade civil, localizadas em
uma determinada região geográfica e que cruzam várias firmas, intercalam
vários ramos e agregam várias competências, gerando um rápido
desenvolvimento socioeconômico e criando riqueza para a mesorregião.

A governança dos APLs é, também, entendida como um processo de


desenvolvimento econômico local que “é uma nova estratégia de
desenvolvimento, na qual a comunidade assume um novo papel: de
comunidade demandante, ela emerge como agente, protagonista,
empreendedora, com autonomia e independência. Assim, o desenvolvimento

11
econômico local é um processo de articulação, coordenação e inserção dos
empreendimentos empresariais associativos e individuais, comunitários,
urbanos e rurais, a uma nova dinâmica de integração socioeconômica, de
reconstrução do tecido social, de geração de oportunidades de trabalho e de
renda.” (BNB, 1998).

4. METODOLOGIA DE TRABALHO

Em função da peculiaridade do escopo deste trabalho, a metodologia


para obtenção das informações qualitativas e dados estatísticos não seguiu o
padrão convencional preconizado em metodologia de pesquisa científica.

Portanto, para a execução do presente trabalho, a busca de informações


e dados deu-se em três esferas. Uma que correspondeu a uma ampla pesquisa
bibliográfica sobre a cadeia da caprinovinocultura, outra sobre os novos
enfoques do desenvolvimento, ou seja, desenvolvimento sustentável,
agronegócio, arranjo produtivo local e gestão do desenvolvimento (governança)
e, a terceira, que foi uma sondagem feita junto aos atores de todos os elos da
cadeia produtiva da ovinocaprinocultura das microrregiões dos Inhamuns(Tauá)
e Crateús.

As fontes principais de informações foram:

a) Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE;


b) Instituto de Pesquisa Econômica do Estado do Ceará – IPECE;
c) Os estudos sobre o negócio da caprinovinocultura realizados por
FRANÇA et al, 2006;
d) A experiência de desenvolvimento local da Espanha relatado em
documentos de autoria de Francisco Alburquerque;
e) Na experiência do BNB com polos de desenvolvimento integrado;
f) Nos ensinamentos contidos em (PORTER, 1999);

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g) Aplicação de cinco questionários temáticas junto aos atores de cada
uma dos elos da cadeia produtiva.

Para coletar e apreender todas as informações necessários, foram


realizadas visitas à Sobral, Tauá. Independência, Crateús, Parambu, Quixadá,
Monteiro-PB e Taperoá-PB. Em todas essas visitas foram contatados
lideranças locais relacionadas com todos os elos da cadeia produtiva da
ovinocaprinocultura. Em Fortaleza, por sua vez, os contatos foram mantidos
com instituições envolvidas com a atividades, a exemplo do SEBRAE, FAEC,
FIEC, UFC e CENTEC.

4.1 Delimitação física do território a ser estudada

As duas microrregiões selecionadas para comporem o território objeto


do estudo-piloto são: Inhamuns e Crateús. Tais sub-regiões ficam no sudoeste
do Estado do Ceara (ver mapas) e integralmente inseridas na zona semiárida
nordestina. Em Inhamuns são seis municípios onde se destaca o de Tauá por
apresentar as maiores magnitudes dos indicadores socioeconômicos e
territoriais, conforme e mostrado na Tabela 2.

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Em Crateús, por sua vez, são nove municípios, sendo o de Crateús o mais
importante pelas mesmas razoes da importância de Tauá em relação aos
demais. Nessa microrregião, no entanto, há outros municípios que também
merecem destaque, são eles: Nova Olinda e Nova Russas. (Ver Tabela 3).

Tabela 2 - Informações Básicas dos Municípios Integrantes da Microrregião dos


Inhamuns-CE

Índice de
Desenvolvimento População Índice de Renda “per
Municipal- IDM – Estimada Desenvolvimento capita”
Município 2004 Área (km²) 2006 Humano - 2000 R$/2002
Aiuaba 8,57 2434,41 14.452 0,566 1.226
Arneiroz 12,58 1.066,43 7.538 0,587 1.326
Catarina 9,13 486,86 15.547 0,580 1.102
Parambu 14,15 2.303,40 32.302 0,613 1.418
Saboeiro 16,14 1.383,47 16.226 0,561 1.211
Tauá 24,32 4.018,19 51.948 0,665 1.625
Total/Média 14,15 1.948,79 138.013 0,595 1.318
Fonte: IPECE, IBGE.

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Tabela 3 - Informações Básicas dos Municípios Integrantes da Microrregião de
Crateús-CE

Índice de
Desenvolvimento População Índice de Renda “per
Municipal-IDM Estimada Desenvolvimento capita”
Município 2004 Área (km²) 2006 Humano - 2000 R$/2002
Ararenda 18,18 344,13 10.008 0,626 1.476
Crateús 33,19 2.985,41 70.898 0,675 1.944
Independência 19,68 3.218,64 25.262 0,657 1.613
Ipaporanga 14,87 701,99 11.247 0,609 1.429
Mons. Tabosa 19,45 886,3 16.344 0,628 1.387
Nova Russas 28,33 742,76 29.347 0,639 1.763
Nova Olinda 26,74 284,4 12.077 0,637 1.821
Quiterianópolis 10,22 1.040,96 18.355 0,625 1.458
Tamboril 21,23 1.961,63 25.973 0,621 1.580
Total/Média 21,32 12.166,22 219.511 0,635 1.607
Fonte: IPECE, IBGE.

4.2 Caracterização do território selecionado como área piloto

Decidiu-se, como proposta para discussão, que a área-piloto será o


conjunto de 15 municípios que correspondem as microrregiões dos Inhamuns
(Tabela 2) e Crateús (Tabela 3). Considerando que os municípios de Tauá,
Crateús e Independência são os mais importantes e, portanto, referenciais,
para efeito de análise, é que foi elaborada a Tabela 4, a seguir, objetivando
apresentar as informações edafoclimáticas e socioeconômicas
caracterizadoras do que passaremos a chamar agora de Território dos
Inhamus/Crateús.

15
Tabela 4 - Informações Edafoclimáticas e Socioeconômicas de Tauá, Crateús e
Independência

Evento Tauá Crateús Independência


Distância p/ Fortaleza (km) 320 293 274
Altitude (m) 402,7 274,7 343,0
Área (km²) 4.018,19 2.985,41 3.218,64
Tropical quente Tropical quente Tropical quente
Clima semiárido semiárido semiárido
Pluviosidade (mm) 597 731,2 608,4
Temperatura (°C) 26 - 28°C 27 - 28°C 26 - 28°C
Período chuvoso Fev./Abr. Jan./Abr. Fev./Abr.
Vegetação predominante Caatinga Caatinga Caatinga
Bruno não-cálcico, solos Areias quartzosas, Bruno não- cálcico, solos
litólicos, planossolo bruno não-cálcico, litolicos, planossolo
Solos predominantes solódico e podzõlico latossolo vermelho- solódico e podzõlico
vermelho-amarelo. amarelo, planossolo vermelho-amarelo.
solódico e podzõlico
vermelho-amarelo.
População total estimada – 2006 52.330 73.558 26.033
População urbana-2000 (%) 51,44% 67,07 40,63
População rural-2000 (%) 48,50% 32,93 59,37
Densidade Demográfica 2000
(hab/km²) 13,18 25,44 7,94
Taxa de crescimento da pop. (%) 0,13 0,69 0,56
População urbana 1991-2000 1,87 1,96 2,69
População rural 1991-2000 -1,43 -1,48 -0,68
Mortalidade infantil - 2003
(mortes/1000) 13,53 (22,30-Estado) 26,66 (22,30-Estado) 33,49 (22,30-Estado)
Indicador de aprovação-2003 (%):
Ensino Fundamental 87,15 81,92 83,50
Ensino médio 71,87 67,06 81,28
PIB Agropecuário-2002 (%) 23,08 (6,62- Estado) 13,72 (6,62-Estado) 30,59 (6,62-Estado)

Fonte: IPECE, 2005a, 2005b, 2005c.

4.3. Sondagem junto a atores atuantes nos segmentos da cadeia


produtiva

Referida sondagem foi necessária para se conhecer o estágio atual


de cada um dos elos da cadeia produtiva, o nível de adensamento e as ações a
serem empreendidas para tornar a cadeia produtiva da caprinovinocultura, no
território selecionado, mais competitiva, sustentável no longo prazo e
includente. Não foi elaborado uma pesquisa de campo com o rigor estatístico
desejável em função do objetivo deste estudo ser propositivo, isto é, apresentar
um documento referencial para discussão encaminhamentos futuros.

16
Os questionários foram elaborado numa perspectiva de interação
entre todos os elos da cadeia, além dos aspectos relacionados aos ambientes
institucional e organizacional. Para tanto, a sondagem correspondeu a
aplicação e tabulação de 55 questionários estruturados, a seguir elencados,
segundo o elo da cadeia:

> segmento de insumos: 9 questionários


> segmento de produção 22 questionários
> segmento de processamento 7 questionários
> segmento de distribuição 6 questionários
> segmento de consumo 11 questionários.

4.4. Determinantes das vantagens e desvantagens competitivas do


Território Inhamuns/Crateús, a partir do Modelo Diamante de Porter

O Modelo Diamante de Porter preconiza que a competitividade regional é


dependente de quatro vetores que definem a vantagem competitiva de um
território. O Modelo Diamante procura identificar o grau da competição
existente no cluster ou território. Em síntese, “a análise pode ser usada para
identificar contínuas tentativas da empresa em melhorar seu desempenho,
fortalecendo tanto a economia regional em que está inserida, quanto sua
própria competitividade” (FROTA, 2005).
Os quatro determinantes que permitem a criação e sustentação de uma
vantagem competitiva de uma região são apresentados na figura abaixo.

17
O Modelo Diamante permite identificar as razões pelas quais
determinadas regiões se especializam e se desenvolvem e outras permanecem
estagnadas, sendo possível analisar que papel as vantagens e desvantagens
competitivas do território contribuíram para o êxito ou fracasso econômico de
regiões ou países.

5. ANÁLISE DOS RESULTADOS OBTIDOS E PROPOSTAS DE


OTIMIZAÇÃO

5.1. Sob a ótica do desenvolvimento sustentável

a) Dimensão econômica

Situação Atual Situação Desejável e Melhorias


Os eixos da dimensão econômica são os Situação fundiária compatível com a escala de
relacionados aos fatores econômicos de produção.
produção como recursos naturais, capital e
trabalho, conforme caracterização a seguir. Uso sustentável da vegetação de caatinga por
meio de sistemas agrossilvipastoril.
Os recursos naturais como solo, clima e
vegetação são, de um modo geral, Mais de 50% da oferta de alimentos para os
desfavoráveis a agropecuária, no entanto, animais originário da caatinga nativa e
para a ovinocaprinocultura se configura como manipulada.
vantagem competitiva em função da oferta de
alimentos para os ruminantes originários da Infraestrutura econômica otimizada e
caatinga, sanidade dos animais e baixo custo orientada para a cadeia produtiva da
da terra. caprinovinocultura.

O recurso capital, traduzido em infraestrutura Disponibilidade de recursos para custeio


física e fluxos financeiros, se apresenta em pecuário a juros baixos e em volumes
nível satisfatório para início do processo de adequados.
desenvolvimento.
Bases e condições dos financiamento de
E razoável, para os requerimentos da longo prazo adequadas a exploração de
ovinocaprinocultura, a rede de transportes ovinos e caprinos.
terrestres, os equipamentos de educação
formal, a oferta de energia elétrica, as Capital humano preparado e motivado para
comunicações telefônicas, radiofônicas e dar um grande salto no negócio por meio da
televisivas. adoção de novas tecnologias, inovação em
processos produtivos e na gestão do
Os agentes produtivos não dispõem de capital estabelecimento, da cadeia produtiva e da
de giro (custeio pecuário) suficiente para dar governança do território.
maior competitividade a seus negócios e a
oferta de linhas de financiamento de longo
prazo, nos bancos oficiais, e de difícil acesso
por falta de garantias, capacidade de
pagamento e excessiva burocracia.

Por fim os recursos humanos, representados


pelos trabalhadores rurais e pelos agentes
produtivos, são suficientes em termos

18
quantitativos e precários em termos
qualitativos. Há nas duas microrregiões um
bom nível de conhecimento da exploração de
ovinos e caprinos. Esta característica pode
ser considerada como uma vantagem
competitiva potencial.

b) Dimensão sociocultural

Situação Atual Situação Desejável e Melhorias


Essa dimensão apresenta um quadro muito Sistema de saúde eficiente e com ampla
aquém do desejável para a população dos 15 cobertura, esgoto e água encanada em níveis
municípios do território. O sistema de saúde e semelhantes aos grandes centros urbanos do
pouco eficiente e cobre apenas as situações Estado e inexistência de casas de taipa.
mais simples. A cobertura de água encanada
e esgoto deixa muito a desejar, sobretudo, no Baixa taxa de desemprego e empregos
meio rural. Há uma incidência muito grande formais de baixa sazonalidade.
de casas de taipa sem um mínimo de
condições dignas de habitabilidade. Desenvolvimento econômico local integrado e
sustentável com forte valorização do
A taxa de desemprego e muito elevada e o artesanato e dos valores artísticos culturais
emprego e sazonal e informal. Este quadro locais.
contribui muito para o aumento da violência
no campo e a incidência de roubo
generalizado de animais.

Em função do baixo nível de escolaridade e


de renda da população, os valores locais não
são valorizados e, portanto, não contribuem
para a competitividade do território na forma
de selo de origem para os animais da região e
manutenção do patrimônio histórico.

c) Dimensão ambiental

Situação Atual Situação Desejável


Assim como em todo semiárido cearense, o Preservação e medidas mitigadoras dos
quadro relacionado a dimensão ambiental impactos sobre o meio ambiente.
apresenta alguns problemas relacionados
com deposição de lixo a céu aberto, Estabelecimentos rurais estruturados para
desmatamento e queimada para exploração melhor resistir aos efeitos das estiagens.
da agricultura de subsistência, super pastejo
da caatinga pelos ovinos e graves escassez Modelos de exploração de ovinos e caprinos
de água nos períodos de seca. sustentáveis e economicamente viáveis.

19
d) Dimensão tecnológica (P&D&I)

Situação Atual Situação Desejável


A dimensão tecnológica do território para a Infraestrutura de P&D&I aderente aos
cadeia da ovinocaprinocultura e razoável se requisitos da cadeia produtiva da
comparada as demais zonas de produção. caprinovinocultura.
Porém, faz-se necessário a otimização dos
vários componentes de forma a ofertar Ambiente favorável a inovação.
serviços e mecanismos que tornem o negócio
competitivo. Ações desenvolvidas com foco nas ações
dos agentes produtivos.
No território, sobretudo em Tauá, há uma
série de programas, pesquisas, estudos e
ações correlatas ocorrendo, originário dos
vários níveis de governo e elos da cadeia
produtiva. O esforço ainda está na fase
caórdica (simbiose entre caos e ordem),
porém, projetos como este e muitas outros
deverão alicerçar a atividade para trilhar as
estratégias do desenvolvimento sustentável.

5.2. Sob a ótica do enfoque de cadeia produtiva

a) Insumos

Empreendimentos ofertadores de medicamentos, rações, reprodutores,


matrizes, máquinas, equipamentos e outros insumos

Situação Atual Situação


Desejável/Melhorias
Segmento compatível com o quadro atual e preparado para Cadeia produtiva
incrementos qualitativos e quantitativos da cadeia produtiva da alicerçada em bases
ovinocaprinocultura. 90% dos comerciantes têm mais de cinco competitivas.
anos de experiência na atividade, 55% tem nível médio ou
superior relacionados à agropecuária e 34% exploram, também, Disponibilidade de capital
a criação de pequenos ruminantes. de giro comercial e
custeio(produtor) de fácil
89% dos clientes estão num raio de 50 km e a oferta dos acesso e baixo custo.
produtos é suficiente em 56% das lojas e aquém da demanda em
44% da unidades de vendas. A demanda predominante é por
insumos para a sanidade animal (44%), seguido por genética Infraestrutura das
(33%) e alimentação (23%). propriedades adequada,
em termos de manejo
As vendas são individualizadas e em pequenas escala em 37% sanitário e alimentar.
dos estabelecimentos. Do total das vendas, 75% é feita a prazo,
com pouca inadimplência. Não há regularidade das compras, ao
longo do ano, por 62% dos produtores. Atores da cadeia
produtiva conscientes
Quanto a integração com os demais elos da cadeia produtiva, que a atividade é a
constatou-se que: 11% dos comerciantes são também melhor opção para o
caprinocultores, 44% desempenha outras atividades agricultor familiar na
agropecuárias e as atividades de consultoria e assistência região em análise.
técnica em veterinária o percentual chega a 44% do total dos

20
empresários. Um fato auspicioso é que, do total dos
comerciantes pesquisados, 67% integram entidades associativas Presença da EMBRAPA
relacionadas a agronegócios. e dos prestadores de
assistência técnica, de
A atividade se apresenta com uma certa estabilidade financeira gestão e comercialização
(baixo risco) uma vez que integra um mix de atividades mais intensa e
econômicas do empresário. Para 55% dos estabelecimentos, a disseminada.
contribuição do negócio de insumo é de no máximo 40%,
enquanto, somente 12% dos comerciantes contam com mais de
80% da renda familiar originário do negócio de insumos.

Quanto as perspectivas futuras, foi constatado que 89% dos


comerciantes informaram que a atividade vai “melhorar muito”,
em função de: melhor organização dos produtores, crescimento
da atividade e a boa genéticas dos plantéis.

Os comerciantes entrevistados argumentos que a demanda por


insumos poderia ser maior uma vez que há uma necessidade
não considerada em função de: falta de recursos por parte dos
produtores (67%), desinteresse em modernizar a atividade (67%)
e falta de sensibilização e assistência técnica (44%).

É notável o fato de que 100% dos atores do segmento defendem


e reputam como de grande importância as ações e programas
governamentais (EMBRAPA, SEBRAE, BNB, Banco do Brasil,
SENTEC, UFC, UECE, Prefeituras, etc.). O destaque, neste
mister, coube à EMBRAPA-Caprinos pela diversidade de ações,
compromisso com os resultados e elevada especialização nos
temas tratados.

b) Produção ou criação

Representada por minis, pequenos, médios e grandes produtores e suas


associações ou cooperativas.

Situação
Situação Atual Desejável e
Melhorias
Os resultados da sondagem indicam que nas duas microrregiões Mini produtores
estudadas está havendo melhoria significativa do nível inseridos no processo
tecnológico das explorações de ovinos e caprinos, bem como um de modernização e
incremento dos rebanhos. Saliente-se, no entanto, que tais expansão da atividade.
ganhos são mais significativos em empreendimentos com
plantéis acima de 100 animais e criadores com maior nível de Aumento da escala de
escolaridade ou capacidade empreendedora. produção dos
estabelecimentos.
A sondagem constatou que a região selecionada pode ser
considerada um polo de produção de ovinos e caprinos em face Maior percentual do
da importância econômica e social do negócio para a duas mercado regional e
microrregiões. Nesse sentido, foi identificado que mais de 77% nacional atendido pelos
dos entrevistados exploram a atividade há mais de cinco anos o produtores da região.
que indica a experiência na atividade. Os proprietários usam, em
média, 50% de mão-de-obra contratada para manejar o rebanho, Maior valor agregado
predominantemente de ovinos (70%). aos animais vendidos
(idade, peso e
As vendas são feitas, predominantemente, para a própria região sanidade).

21
produtora (95% num raia de 50 km). O produto vendido é o
animal vivo (77%) e animal abatido (23%), sendo as vendas Predominância na
feitas, sobretudo, a intermediários e abatedouros. venda dos animais a
abatedouros/frigoríficos
Um dado sugestivo é o fato de que 68% dos entrevistados ou animais já abatidos.
informarem que aumentaram seus rebanhos nos últimos cinco
anos e apenas 9% reduziu seu plantel. Infraestrutura de
manejo das
Os pontos fortes das propriedades foram: suporte forrageiro propriedades
(77%) e genética (41%). Infraestrutura e comercialização da suficientes e
produção foram os pontos fracos indicados. O que mais prejudica adequadas.
o desempenho dos estabelecimentos são: escassez de água
(56%), falta de cooperação entre os produtores (50%) e baixos Eliminação do roubo
preços dos animais vendidos (54%). de animais.

Praticamente todos os produtores exercem outras atividades, Assistência técnica


além da criação de ovinos e caprinos. Apenas 9% só tem como suficiente e de
fonte de renda a exploração de pequenos ruminantes. Quanto a qualidade.
participação em entidades associativas, apenas 23% não são
ligados a nenhuma entidade, enquanto, 50% estão associados a Associações,
pelo menos uma agremiação. cooperativas e
sindicatos fortes e
Quanto a diversificação nas fontes de renda, foi informado que atuantes.
apenas 4% dos entrevistados auferem mais de 80% de sua
renda familiar da criação de ovinos e caprinos. O percentual Região dotada de
restante possuem outras fontes de renda, a ponto de 32% do abatedouros ou
total só retirar até 20% de renda total. frigoríficos.

O otimismo reinante na atividade foi registrado na sondagem Acesso ao crédito rural


quando 50% dos criadores informaram que a atividade “vai facilitado e com bases
melhorar muito” e, 27%, “melhorar pouco”. Apenas 5% disseram e condições adequadas
que vai piorar. As principais justificativas apontadas para a à ovinocaprinocultura.
informação acima foram: demanda aquecida e melhoramento
genético.

Mesmo com o crescimento do rebanho e a euforia dos


produtores, alguns fatores estão freando a melhoria tecnológica e
econômica dos empreendimento. São eles: escassez ou
dificuldades de acesso a financiamentos (77%), falta de
assistência técnica (41%), desconhecimento das novas
tecnologias (41%) e desestímulo pessoal (41%).

Dos 22 produtores entrevistados, apenas sete não são


beneficiários de programas governamentais em execução na
região, no entanto, 100% informaram que tais programas (Projeto
Aprisco, Produção Integrada, etc.) são de grande importância
para a modernização da ovinocaprinocultura.

22
c) Transformação/Processamento

Frigoríficos, abatedouros e beneficiadores

Situação
Situação Atual Desejável e
Melhorias
O segmento de transformação/processamento é o elo mais frágil 100% dos animais que
da cadeia. Não há na região nenhum frigorífico/abatedouro entrarem no circuito de
especializado no abate de pequenos ruminantes. Portanto, comercialização
100% do abate dos animais realizado na região não é feito de abatidos em ambientes
conformidade com as recomendações dos órgãos apropriados e
governamentais competentes. fiscalizados pelos
órgãos governamentais
98% dos animais vendidos são abatidos na própria região e 43% ligados a fiscalização
dos estabelecimentos não conseguem atender a demanda por sanitária.
carnes de ovinos e caprinos.
Produtos finais de
É notável o fato de que nenhum agente produtivo do segmento elevada qualidade em
exerce apenas esta atividade, pois, 100% deles auferem abaixo termos de sanidade,
de 40% de suas rendas com a atividade em análise. cortes, embalagem e
conservação.
Como era de se esperar, tais agentes pouco participam de
entidades associativas ligadas a cadeia da ovinocaprinocultura, Fornecimento da
considerando que 72% “não participam”. Quanto ao futuro da matéria-prima
atividade, informaram: “vai continuar como está”: 44%, “vai suficiente e regular
melhorar pouco”: 14%, “vai melhorar muito”: 28% e “vai piorar”: para atender a
14%. Como se vê, tais atores também estão satisfeitos com a demanda.
atividade de exploram.

Todos acham importantes os programas governamentais


atuantes na região e informaram que os estabelecimentos não
utilizam as “melhores práticas tecnológicas” em função de: falta
de recursos financeiros (86%) e falta de fiscalização sanitária
(57%).

d) Distribuição
Supermercados, venda direta pelo produtor, frigorífico, intermediários, mercados públicos,
feiras e outros entes similares

Situação Atual Situação Desejável e Melhorias


Considerando o enfoque de cadeia produtiva, Oferta suficiente de animais de
foram entrevistados agentes de distribuição de qualidade, regularidade e qualidade.
carnes de ovinos e caprinos localizados em
centros de produção (Tauá e Crateús), de Frigoríficos e curtumes bem distribuídos
processamento (Quixadá) e de demanda espacialmente e operando em escala
(Fortaleza). O perfil do segmento identificado na economicamente viável.
sondagem demonstra que a cadeia da
ovinocaprinocultura tem no segmento fortes Disponibilidade de linhas de
componentes para sua ampliação e financiamento para investimento e
modernização. capital de giro com bases e condições
adequados ao segmento.
Identificou-se que 83% dos entrevistados
estão há mais de cinco anos na atividade e o
percentual restante refere-se a empreendedores

23
emergentes que apostaram no negócio. E
marcante o fato de que 50% dos distribuidores
não conseguem atender a demanda o que vem
ao encontro da informação dos atores de todos
os elos de que a atividade vai continuar
crescendo e sendo um bom negócio.

A demanda pelos produtos derivados de


ovinos; caprinos não restringe-se apenas a
carnes. Há demanda significativa por carnes de
primeira, de segunda, por vísceras e por manta
de carneiro. Como a pesquisa concentrou-se no
polo Tauá e Crateús deu para constatar a
importância de tal região na formação da
demanda visto que a oferta, em determinados
meses do ano, não e suficientes para atender ao
consumo de referido polo.

Os distribuidores são agentes da cadeia com


bem nível de competitividade tendo em vista que
66% deles exploram outras atividades
econômicas e que todos eles auferem menos de
40% de suas rendas com a distribuição dos
produtos em análise. Tal perfil caracteriza o
segmento como de baixo risco e, portanto,
competitivos. Assim como nos demais
segmentos, foi relatado por 83% dos
entrevistados a carência de financiamento
apropriado para o negócio.

Para corroborar ainda mais as vantagens


competitivas do segmento, os frigoríficos
industriais e curtumes especializados em ovinos
e caprinos estão operando com capacidade
ociosa acima de 50%.

b) Consumo

Restaurantes, consumo familiar e autoconsumo e outros segmentos


de consumo

Situação Atual Situação Desejável e Melhorias


Foram entrevistados 11 consumidores, sendo Oferta suficiente e regular de cortes
sete residentes na região de Tauá e Crateús e especiais de animais criados no Ceara.
quatro em Fortaleza.
Cardápios, a base de carnes e
Assim como nos demais segmentos, os derivados de ovinos e caprinos,
resultados obtidos com a sondagem confirmam a ofertados por todos os restaurantes do
excelente perspectiva da ovinocaprinocultura Brasil.
para o Estado do Ceara. 64% dos consumidores
informam que a disponibilidade de carne está Características e valores nutricionais
muito aquém da demanda o que e referendado das carnes de ovinos e caprinos
pela informação de que 46% dos consumidores conhecidas pelos consumidores.
entrevistados informaram que dos sete dias da
semana, em quatro consomem carne de ovinos -
caprinos. A preferência e pela carne de 1ª.

24
qualidade (64%) e pela manta (27%).

64% são consumidores tradicionais e 18%


são novos. A decisão pelo consumo de carnes e
derivamos de ovinos e caprinos são pelos
seguintes fatos: já serem habituados (73%),
alimento saudável (36%), baixos preços (27%) e
novidade (18%).

73% dos entrevistados sinalizaram que vão


aumentar o consumo em função da melhoria na
qualidade da carne, da diversificação dos
cardápios e do aumento do número de
restaurantes especializados.

d) Ambiente Organizacional

Resultante do conjunto de ações e mecanismos que várias entidades


desempenham no território em prol da cadeia produtiva da caprinovinocultura.
As entidades ou entes que mais se destacam no envolvimento com a
problemática do agronegócio da ovinocaprinocultura são: Embrapa-Caprinos,
Sebrae, FAEC, BNB, SEAGRI, EMATER, Banco do Brasil, UFC, UECE,
prefeituras municipais, Ascoci, sindicatos rurais, Incra e outras entidades
atuantes nos 16 municípios selecionados como integrantes da área-piloto.
No quadro a seguir serão apresentados as entidades e seus programa e ações
atualmente em execução, nas duas microrregiões.

Situação Desejável
Situação Atual e Melhorias
EMBRAPA-Caprinos Maior integração entre as
entidades com projetos
a) Produção Integrada de Carne de Ovinos e Caprinos: na região.
promover a melhoria dos Arranjos Produtivos Locais (APL´s)
de caprinos e ovinos da Microrregião Homogênea (MRH) dos Melhoria significativa em
Sertões dos Inhamuns, através da capacitação de atores locais termos quantitativos e
e da introdução de boas práticas e da integração dos diversos qualitativos da
manejos e atividades do sistema produtivo como alimentação, assistência técnica,
reprodução, manejo do rebanho, sanidade, instalações, sobretudo para os mini
escrituração zootécnica, tecnologia de carne, comercialização produtores.
e gestão da empresa rural.
Ovinocaprinocultura
priorizada pela SEAGRI e
b) Ações de capacitação de produtores familiares visando considerada como
a difusão e transferência de tecnologias de sistemas de atividade estruturante do
produção de caprinos, contribuindo para o desenvolvimento Semiárido.
sustentável do território dos Inhamuns.

c) Implantação de duas unidades artesanais Melhor orientação e


demonstrativas de processamento de carne caprina e ovina. acompanhamento dos
produtores que tomam
empréstimos no BNB e
Banco do Brasil.

25
SEBRAE e FAEC Instalação de
abatedouros ou
Projeto Aprisco: visa desenvolver, organizar e fortalecer as frigoríficos para evitar o
“estruturas de governança” da Cadeia Produtiva da abate clandestino e
Ovinocaprinocultura do Ceará, buscando a coordenação de agregar valor à produção
ações, a articulação de esforços e a integração de local.
competências, orientadas para a viabilização de negócios.
(SEBRAE.CE, 2006). Criação de mecanismos
e ações que viabilize a
gestão do
PREFEITURAS MUNICIPAIS desenvolvimento do
Projeto Agente Rural território (a boa
Projeto Reserva Estratégica Alimentar governança).

Cristalizar o sentimento
CENTEC-CVT de cooperação entre
Projeto de capacitação em manejo produtivo de ovinos e todos os atores públicos
caprinos. e privas das doas
microrregiões.

EMATERCE Criação de selo e origem


para os animais da
Assistência técnica e elaboração de projetos
região.
BNB
Apoio financeiro com recursos do FNE e PRONAF

BANCO DO BRASIL
Apoio financeiro com recursos do PRONAF

Ministério do Desenvolvimento Agrário


Financiamento à infraestrutura produtiva, a fundo perdido,
por meio do PRONAF, com destaque para o financiamento de
um abatedouro.

e) Ambiente Institucional (sociocultural)

Constitui-se num conjunto de potencialidades, posturas, tradições,


vocações, características locais e outras situações peculiares com forte
conotação sociocultural que se inserem na conformação da cadeia produtiva
em estudo. No caso em analise, os vetores identificados se apresentam de
forma desafiadora uma vez que se configuram em ameaças ou pontos fracos
ao mesmo tempo que são potenciais vantagens competitivas.

Situação Atual Situação Desejável e Melhorias


Manta de carneiro
Carne do carneiro inteiro dessossada Adoção de práticas racionais no processo de
largamente consumida na área em estudo. preparação, refrigeração e embalagem.
Não há padrão de qualidade nem mercado Criação de demanda regular tanto na área em
formal para o produto. estudo como em outras regiões do País.

26
Euforia na cadeia produtivo em
função do aquecimento na
demanda
Há uma forte demanda pelos animais Produtores organizados para melhor
produzidos, no entanto, não há oferta comercializarem seus animais, instalação de
organizada e os preços recebidos são baixos frigoríficos, melhoria e aumento do rebanho.
em função da venda ser feita,
predominantemente, a intermediários e por
não existir na região nenhum abatedouro-
frigorífico.
Cenários para a criação de caprinos
Tendência decrescente do rebanho Melhorar a qualidade do animal para abate,
caprino e consumo restrito a região. Ainda e melhorar o manejo, ampliação espacial do
marcante a aversão a criação de caprinos por mercado em função da qualidade da carne e
ele ser de difícil manejo e não dar status a seu introduzir a produção de leite de cabra na
criador. região.
Qualidade da carne e do couro em
função da origem
E patente a preferência pela carne de Fazer uma ampla promoção da carne dos
animais criados na Caatinga em função do animais da região, inclusive, criando uma
sabor peculiar e da tradição. O couro dos certificação e origem. Quanto ao couro,
ovinos e caprinos nordestinos também tem melhorar o manejo dos animais e as técnicas
características especiais que o mercado de esfola dos animais para que o percentual
reconhece a ponto de a demanda ser bem de couro de 1ª. qualidade se aproxime de
superior que a oferta. 100%
Problemática do crédito rural
Apesar da disponibilidade e das boas Criação, no âmbito das associações dos
condições das linhas de financiamento (FNE e produtores, de uma equipe especializada em
PRONAF), há problemas operacionais elaboração, negociação e acompanhamento
relacionados com garantias, inadimplência, dos financiamentos bancários.
tarifas bancarias, pouco prazo para
reembolso, burocracia e aversão dos
produtores a tomar empréstimos.
Abate clandestino
100% dos animais abatidos na região não Instalação de abatedouros, com as
e feito em abatedouros oficiais. respectivas autorizações de funcionamento,
nos principais municípios produtores.
Bioma Caatinga
A vegetação de caatinga vem sendo Ampliar a exploração de pequenos ruminantes
sistematicamente dizimada por meio da por meio do uso otimizado da caatinga
exploração da agricultura de subsistência e (sistema agrossilvipastoril) e reduzir a
retirada de madeira para lenha e carvão. exploração antieconômica de grãos e de
madeira. Assegurar que mais de 70% do
suporte forrageiro anual seja originário da
caatinga nativa e manipulada.
Violência roubo de animais
Falta de segurança das famílias rurais e
elevada incidência de roubo de animais o que Policiamento ostensivo, agilidade nos
redunda na migração para a cidade, aumento inquéritos e processos e punição dos
de custos e abandono da atividade. infratores.

27
5.3. Sob a ótica do APL/cluster ou Modelo Diamante de Porter

a) Condições dos fatores de produção (qualidade e custos dos fatores)

Vantagem Competitiva Desvantagem Competitiva


Grande parcela da alimentação dos animais Degradação da vegetação de caatinga,
originária da caatinga que é determinante no ocorrência de secas periódicas, mão-de-obra
sabor agradável da carne, clima semiárido desqualificada e deficiência de recursos para
favorável à sanidade dos animais, baixo custo custeio da produção.
da terra e da mão-de-obra familiar,
infraestrutura econômica suficiente para a
arrancada do desenvolvimento regional,
disponibilidade de tecnologias adaptadas e
disponibilidade de linhas de financiamento de
longo prazo.

b) Condições de demanda e as características dos compradores

Vantagem Competitiva Desvantagem Competitiva


Demanda real não atendida, demanda Mercado ainda concentrado na região, baixa
potencial muito promissora, preferência do qualidade do produto vendido, falta de
consumidor por produtos originários do regularidade da oferta e baixo preço dos
semiárido, não aceitação de produtos de animais vendidos.
baixa qualidade, consumidores distribuídos
em todas as classes sociais.

c) Contexto das regras, costumes e incentivos

Vantagem Competitiva Desvantagem Competitiva


Euforia dos produtores com a atividade, Roubo de animais, região não livre da febre
aumento dos rebanhos e entrada de novos aftosa, incentivos governamentais pontuais e
agentes produtivos, tradição da região na burocratizados, tendência declinante da
produção e venda de ovinos e caprinos e caprinocultura, baixa inserção dos minis
elevado consumo “per capita” local. produtores e falta de uma política estratégica
para o negócio.

d) Setores correlatos e de apoio

Vantagem Competitiva Desvantagem Competitiva


Oferta local de insumos, matrizes, Desarticulação interinstitucional, fragilidade do
reprodutores, máquinas e equipamentos segmento de processamento, dificuldades
adequada e suficiente para as necessidades operacionais das linhas de financiamento à
locais, existência da EMBRAPA-Caprinos, do atividade e inexistência de empresas âncoras
Projeto Aprisco-SEBRAE, do BNB e Banco do ou integradoras.
Brasil. Grande oferta de eventos de
capacitação, sentimento associativista
crescente e envolvimento sustentável do
poder público local.

28
6. PROPOSTAS NORTEADORAS PARA A ADOÇÃO DA BOA
GOVERNANÇA NO TERRITÓRIO DOS INHAMUNS/CRATEUS

6.1. Elementos-chave de uma conduta de sucesso para o


desenvolvimento sustentável de um território, segundo os princípios
contidos em PORTER (1999)

 priorizar cadeias produtivas que apresentam mais vantagens


competitivas no território;

 valorizar e prestigiar os atores envolvidos diretamente com as


cadeias produtivas priorizadas;

 descentralizar e melhorar a qualidade e a frequência da assistência


técnica;

 promover estreita ligação entre as instituições públicas, privadas e


do terceiro setor objetivando otimizar suas ações preconizadas para
os agronegócios priorizados;

 Promover eventos de capacitação em todos as vertentes dos


agronegócios priorizados de forma intensa e continuada;

 Adequar a política da C&T&I aos pontos fortes do território;

 Disseminar mais intensamente as tecnologias comercialmente


relevantes;

 Facilitar movimento de pessoas de fora do território com


conhecimento especializado;

 Desenvolver infraestruturas convencionais e também de lazer e


cultura;

 Promover e incentivar o acesso aos financiamento de baixo custo e


longo prazo;

 Criar fluxos de informações de qualidade e de fácil acessos aos


agentes produtivos e a população como um todo;

 Estimular a participação da comunidade na solução de problemas e


viabilização de projetos desenvolvimentistas do território;

 Reduzir a dependência da economia local de outros centros


econômicos em termos de suprimentos de bens de consumo, de
capital e de insumos.

29
6.2. Processo participativo da implementação da boa governança no
território

FASE I – ALINHAMENTO INSTITUCIONAL

Refere-se à fase preparatória do processo, fundamentalmente de


articulação com as instituições estratégicas da região, visando a parceria para
concretização do processo de desenvolvimento integrado do território. As
etapas desta fase são a seguir elencadas:

a) Gestões administrativo-institucionais: corresponde a fase inicial das


negociações objetivando sensibilizar e envolver as entidades públicas, privadas
e do terceiro setor no esforço de construção do projeto estratégico e
operacional para a boa gestão do desenvolvimento do território;

b) Workshop de lançamento e construção da proposta de desenvolvimento


integrado da mesorregião;

c) Nivelamento conceitual das equipes de gestão das entidades envolvidas.

d) Treinamento Técnico Interinstitucional das equipes técnicas das entidades


envolvidas;

Fase I – Alinhamento Institucional

30
FASE II – CONSTRUÇÃO DA VISÃO DE FUTURO, IDENTIFICAÇÃO DE
PROJETOS ESTRUTURANTES E INDICADORES DE PERFORMANCE

Nesta etapa do processo de construção, procura-se definir quais os


objetivos macros a atingir, onde se deseja chegar – visão de futuro -- com as
ações do Projeto Messorregional. Nesse processo, deverão ser identificados e
aprovados por todos os entes envolvidos, os projetos estruturantes e os
indicadores de performance do projeto. Esta fase compõe-se dos seguintes
eventos:

a) Construção da visão de futuro;

b) Elaboração e análise técnica do diagnóstico referencial;

c) Integração, priorização e negociação das propostas;

d) Criação do fórum permanente de divulgação e discussão com a sociedade;

e) Início da operacionalização e do gerenciamento.

Fase II - Visão de Futuro e Projetos Estruturantes

31
FASE III – CAPACITAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE LOCAL

Após a realização dos eventos/atividades previstas nas fases I e II,


serão necessários esforços de capacitação, em vários níveis e abordagens, e
de criação e/ou fortalecimentos dos fóruns/conselhos/comitês necessários à
sustentação técnica e política do projeto mesorregional. As ações e atividades
desta fase são:

a) Eventos variados de capacitação técnica empresarial e institucional;

b) Potencialização dos fóruns/comitês/conselhos;

c) Integração, priorização e negociação das propostas;

d) Institucionalização e instalação da agência de desenvolvimento.

Fase III - Capacitação e Organização da Sociedade

32
FASE IV – GOVERNANÇA TERRITORIAL POR MEIO DA AGÊNCIA DE
DESENVOLVIMENTO REGIONAL

Processos continuo de discussão, inovação, negociação, execução,


avaliação e divulgação das ações e mecanismos do processo de gestão do
desenvolvimento ou boa governança do território a partir de um ente
institucionalizada a exemplo de uma agencia de desenvolvimento local.

FASE IV – Governança Territorial por Meio da Agência de Desenvolvimento


Regional

6.3. Caracterização de uma agência de desenvolvimento regional

a) Resultados macroeconômicos esperados

> interiorização do desenvolvimento


> absorção do excedente de mão-de-obra do semiárido
33
> irradiação equilibrada do desenvolvimento
> inserção competitiva nacional e internacional
> melhoria da qualidade de vida (indicativos sociais)
> dimensão ambiental como oportunidade de negócio
> fortalecimento da iniciativa privada, especialmente dos mini e
pequenos cidadania como prática consolidada.

b) Transformações nos padrões de concepção e de gestão de ADR

Os dois quadros a seguir, adaptados de (ALBUQUERQUE, 2001),


fazem um comparativo didático entre as visões atuais e as proativas das
estratégias basilares das agências de desenvolvimento regional. Este item
é aqui apresentado como forma de sensibilizar e mostrar os novos
paradigmas que deverão ser adotados daqui para a frente no esforço de
levar a boa governança para o território dos Inhamuns/Crateús.

Comparativo entre os Padrões Centralizado e Descentralizado

PADRÃO CENTRALIZADO PADRÃO DESCENTRALIZADO

Verticalidade Horizontalidade
Políticas ditadas “de cima para baixo”. Políticas concertadas entre os distintos
agentes/atores sociais e articuladas em torno
de objetivos estratégicos.

Generalidade Seletividade
Políticas supostamente válidas para Políticas desenhadas segundo diferentes
qualquer região. perfis produtivos de cada segmento, região
ou território.

Setorial/Funcional Territorialidade
Políticas que têm, em geral, uma Políticas que tomam por referência a
perspectiva setorial ou funcional: políticas economia nacional ou regional como um
agrícolas, industrial, do café, da peque3ne e conjunto econômico, social e político, com
média empresas, etc. especificidades espacialmente localizadas
(clusters, arranjos produtivos, polos, etc.)

Fonte: ALBURQUERQUE, 2001.

34
Comparativo entre as Abordagem “Velhas” e “Novas” da Gestão do
Desenvolvimento ou Boa Governança

PLANEJAMENTO GESTÃO DO
VETORES TRADICIONAL DESENVOLVIMENTO
Objetivos Desenvolvimento Polarizado Desenvolvimento Integrado
Mecanismos Ênfase no crescimento Crescimento visando a
Quantitativo diversificação, a inovação e a
Grandes Projetos/Enclaves competitividade da estrutura
produtiva. Numerosos projetos.
Criação de um Entorno Inovador.
Organização Planejamento Operacional Policy Networks
Administração Centralizada Gestão Estratégica
Agentes Estado Central Estados Central e Locais
Grandes Empresas Atores Sociais Locais
Organizações Não-Governamentais
Entidades de Integração Econômica
Unidades de Setores (indústria, agricultura, Rede de Empresas, Cadeias
Referência etc.) Produtivas, Eixos, Clusters, Distritos
Produtos (caju, leite, etc.) Industriais, Arranjos Produtivos,
Tipo de Empresa (mini, pequena, Plataformas Tecnológicas, etc.
média, grande)
Fonte: ALBURQUERQUE , 2001.

b) Características marcantes das ADRs

 São as instituições de caráter intermediário entre o público e privado ou


do terceiro setor;

 São organismos criados sob o amparo do Setor Público, embora não


sejam necessariamente de propriedade ou comando exclusivamente
estatal;

 São estatuídas de maneira concertada entre os agentes sociais


envolvidos;

 Mesmo quando estatais, as ADR´s possuem elevada autonomia de


ação;

 É uma instituição pivô que, organizada de forma semelhante a uma


rede neural, atua articulando e integrando diversas outras instituições
que respondem pela prestação de serviços específicos.
35
d) Linhas de Atuação

 Informação
 Capacitação de Recursos Humanos
 Inovação Tecnológica
 Internacionalização de Negócios
 Desenvolvimento de Novas Unidades Produtivas
 Serviços de Gestão Empresarial e Financeira
 Provisão de Infraestrutura
 Gestão de Instrumentos Financeiros

e) Objetivos das Agências de Desenvolvimento Regionais

 Um objetivo prioritário das Agências de Desenvolvimento é o


estabelecimento de relações institucionais e redes ou canais de
colaboração com outros organismos e associações vinculados às suas
áreas de atuação.

 As Agências de Desenvolvimento buscam facilitar contatos, proporcionar


o acesso a novas tecnologias, identificar mercados para as empresas
regionais ou locais e atrair investimentos produtivos.

f) Mecanismos de acesso e interação com as ADRs

 Nos grupos de Trabalho e/ou lideranças


 Se inserindo no empreendimento integrado como agente produtivo
 Criando mecanismos para manter-se informado
 Formando parcerias e alianças
 Fazendo publicidade e compartilhando experiências
 Tomando atitudes proativas e colaborativas

36
 Buscando a competitividade compartilhada

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBURQUERQUE, F. Desenvolvimento econômico: caminhos e desafios


para a construção de uma nova agenda política. Rio de Janeiro: BNDES,
2001.

BEZERRA, M. do C. L. & VEIGA, J. E da. (Coords). Agricultura sustentável:


subsídios à elaboração da Agenda 21 Brasileira. Brasília: MMA/IBAMA,
2000.

BNB. Documento básico do Projeto Pólos de Desenvolvimento Integrado.


Fortaleza, 1998.

ECO-92. Agenda 21. Brasília: Câmara dos Deputados, 1995.

FROTA, I. L. N. Análise dos determinantes da vantagem competitiva da


carcinicultura nordestina. Recife: UFPE, 2005. (Dissertação de Mestrado).

FRANCA, F. Mavignier C. Gestão de agropolos no Brasil. In: Anais do 3º.


Encontro Internacional – Agropolos como estratégia de desenvolvimento.
Fortaleza: BNB, 2002. pp. 265-284.

FRANÇA, F. M. C., MARTINS, E. C., HOLANDA JUNIOR, E. V. & SOUSA


NETO, J. Indicadores de viabilidade financeira e econômica de sistemas
de exploração de ovinos e caprinos no Nordeste do Brasil. Embrapa-
Caprinos: 2005. (No prelo).

HADDAD, P. et al. A competitividade do agronegocio e o desenvolvimento


regional no Brasil: estudo de cluster. Brasília: CNPq-EMBRAPA, 1999.

IBGE. Produto interno bruto dos municípios, 1999-2002. Rio de Janeiro,


2005.

IBGE. Produção pecuária municipal, 2002-2004. Rio de Janeiro, 2006.

IPECE. Perfil básico municipal: Tauá. Fortaleza, 2005a.

IPECE. Perfil básico municipal: Crateús. Fortaleza, 2005b.

IPECE. Perfil básico municipal: Independência. Fortaleza, 2005c.

LOPES NETO, A. O que e cluster? Fortaleza: BNB/IPLANCE, 1988.

37
NOGUEIRA, A. & ALVES, M. O. Potencialidades da cadeia produtiva da
ovinocaprinocultura na região nordeste do Brasil. BNB/ETENE: Fortaleza,
2002.

PORTER, M. Competição: on competition. Estratégias competitivas


essenciais. Ed. Campus, 1999.

SEBRAE-CE. Projeto Aprisco: ovinocaprinocultura. www.ce.sebrae.com.br.


Acesso: 25/10/2006.

SEBRAE-PB. Projeto de Desenvolvimento Regional Integrado e


Sustentável do Cariri Paraibano: Pacto Novo Cariri. João Pessoa, 2005.
101 p.

38
APÊNDICE

As Agências de Desenvolvimento Regional da Espanha

As ADRs constituem um novo instrumento de ação no âmbito regional, que tem


contribuído positivamente para dar conteúdo à política econômica territorial na
experiência recente do Estado autônomo espanhol, mediante a incorporação
de objetivos inovadores com um suporte organizacional de caráter empresarial.

Três foram as circunstâncias históricas que, na experiência espanhola recente,


contribuíram para tornar necessário esse tipo de intervenção. Em primeiro
lugar, o conjunto de graves e novos problemas gerados pelo impacto da crise e
da reestruturação econômica setorial, dentre os quais cabem ser destacados o
crescente desemprego e a destruição de parte do tecido produtivo empresarial.
Em segundo lugar, está o fato de que a aposta na descentralização política,
para que integrasse a construção do novo Estado democrático, após a morte
do general Franco. E, por último, o avanço do processo de integração
econômica na Comunidade Européia e a necessidade de adaptação a esse
novo cenário com maiores exigências competitivas.

A criação das ADRs na Espanha iniciou-se na década de 80, sendo pioneira a


Sociedade para a Promoção e Reconversão Industrial do País Basco (SPRI),
datada de 1981. Depois vieram o Instituto de Fomento Regional de Astúrias
(IFR), criado em 1983, e, no ano seguinte, o Instituto para a Média e Pequena
Indústria da Generalitat Valenciana (Impiva) e o Instituto Madrileno para
Desenvolvimento (IMADE). O Centro de Informação e Desenvolvimento
Empresarial (Cidem) é a ADR da Catalunha, que iniciou suas atividades em
1985, da mesma forma que o Instituto de Promoção Industrial de Andaluzia
(Ipia), posteriormente rebatizado como Instituto de Fomento Andaluz (IFA), em
1987. Nos anos seguintes, as demais regiões, sob diferentes formas, vêm
criando instituições territoriais específicas com objetivos semelhantes aos aqui
enumerados.

Nas atas de constituição de fundação das ADRs, costuma-se destacar que


suas finalidades principais são a dinamização, a modernização e a
39
diversificação do sistema produtivo interno da região correspondente. Em
alguns casos são mencionados, da mesma forma, os problemas do emprego e
a necessidade de criar postos de trabalho.

Ao observar sua evolução, percebe-se uma transição a partir da utilização de


medidas diretas palpáveis e do corte vertical, centradas nos incentivos
financeiros (como primeiras ações de choque para enfrentar a crise), para o
empenho de esforços intangíveis não-financeiros destinados a fomentar a
introdução de novas tecnologias, prestar serviços de apoio às PMEs, criar
empresas, informar sobre mercados externos e gerar infra-estruturas
tecnológicas de caráter estratégico. As atividades de algumas ADRs incluem,
além disso, programas orientados para conseguir um maior equilíbrio territorial
nas suas respectivas comunidades autônomas.

Como foi mencionado, as ADRs na Espanha são financiadas, principalmente,


por fundos públicos, apesar de atuarem fora da administração pública e
estarem sujeitas ao direito privado. A SPRI basca, por exemplo, é uma
sociedade anônima que recebe um aporte majoritário da Fazenda Geral Basca
e outros aportes menores de instituições financeiras territoriais, como as caixas
de poupança estaduais e municipais. O critério básico para dar forma jurídica
às ADRs tem sido dotá-las do máximo de agilidade e operacionalidade para
tomar decisões e garantir a transparência quanto ao destino dos fundos,
evitando a excessiva complexidade burocrática das administrações públicas.

A qualidade do pessoal nas ADRs é um fator determinante por se tratar de um


trabalho no qual a transparência e a eficiência técnica, aliadas ao estilo das
relações humanas e dos contatos pessoais, devem possibilitar a geração de
um alto grau de confiança entre os empresários da região, superando a
suspeita e o desconhecimento mútuo que tradicionalmente existem na velha
administração pública, no setor empresarial e nos demais atores sociais
territoriais. Em tudo isso influem o entorno legal e institucional em que opera a
ADR, os fundos de que dispõe e – de maneira bastante determinante – o
entusiasmo e a lucidez com que os dirigentes políticos territoriais apóiam uma
estratégia de desenvolvimento própria, baseada no fomento dos recursos
endógenos, na promoção da inovação tecnológica e na maior articulação da
base produtiva territorial.

40
Um objetivo prioritário das ADRs é o estabelecimento de relações institucionais
e redes ou canais de colaboração com outros organismos e associações
vinculados às suas áreas de atuação. Igualmente, por intermédio da rede
territorial de agências na própria Comunidade Autônoma e no exterior, as
ADRs buscam facilitar contatos, proporcionar o acesso a novas tecnologias,
identificar mercados para as empresas regionais ou locais e atrair
investimentos produtivos.

A presidência das ADRs é ocupada, em geral, pelos conselhos (ministérios


regionais) de economia, indústria e comércio das Comunidades Autônomas do
estado Espanhol. Cabe ao presidente da ADR sua representação superior,
assim como a presidência do seu conselho diretor, sendo responsável por zelar
pela adequação das ações ADR às linhas gerais da política econômica do
governo regional. A representação ordinária e a administração e a gestão das
ADRs ficam a cargo de um diretor geral, com o apoio de uma secretária geral.

As Primeiras Agências de Desenvolvimento Regional na Espanha


Percentagem
Percentagem do do Orçamento
Comunidade Orçamento de 1989 Orçamento Anual por Orçamento sobre o sobre o
Ano de
Autônoma Agência de Desenvolvimento (Milhões de Ptas e Habitante (Ptas e PIB da Orçamento
Constituição
(região) US$) US$) Comunidade Global da
Autônoma Comunidade
Autônoma (%))
Sociedade para Promoção e
4.112 Ptas (US$
País Basco Reconversão Industrial do 1981 1.869 Ptas (US% 15) 0,14 1,075
32,9)
País Basco (SPRI)
Instituto de Fomento Regional
Astúrias 1983 350 pts (US$ 2,8) 308 Ptas (US$ 2,5) 0,028 0,63
de Astúrias
Instituto para a Pequena e
Comunidade Média Indústria da 3.523 Ptas (US$
1984 932 Ptas (US$ 7,5) 0,073 0,765
Valenciana Generalitat Valenciana 28,2)
(Impiva)**
Instituto Madrileno de 3.502 Ptas (US$
Madri 1984 707 Ptas (US$ 5,6) 0,047 1,562
Desenvolvimento 28,0)
Centro de Informação e
1.388 Ptas (US$
Catalunha Desenvolvimento Empresarial 1985 227 Ptas (US$ 1,8) 0,015 0,16
11,1)
(CIDEM)
Instituto de Fomento da
Murcia 1986 1.165 Ptas (US$ 9,3) 1.143 Ptas (US$ 9,1) 0,11 2,269
Região de Murcia (IFRM)
Instituto de Fomento Andaluz 8.075 Ptas (US$
Andaluzia 1987 1.175 Ptas (US$ 9,4)' 0,13 0,784
(IFA) 64,6)

-----------------
Texto extraído na íntegra do livro ALBURQUERQUE, F., Desenvolvimento
Econômico Caminhos e Desafios para a Construção de uma Nova Agenda
Política. Rio de Janeiro:
BNDES, 2001. pp. 171 a 174.

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Formas jurídicas e caracterização das entidades que são compatíveis com
A missão das agências de desenvolvimento
FORMAS CARACTERÍSTICAS
O que é Órgão colegiado
Objetivo Normatizar, deliberar e consultar
Princípios Definidos no regulamento interno
Comitê de Bacia Gestão/organização Diretoria, secretaria executiva, plenária, câmaras técnicas e câmaras consultivas regionais
Representantes da União, dos estados, dos municípios, dos usuários das águas, de entidades
Composição
civis, conforme abrangência geográfica da bacia.
Lei que regula Criado por decreto federal com base na Lei 9.433/97
Espaço aberto que congrega instituições públicas e privadas, representações de classe,
O que é
segmentos organizados da sociedade, universidades e instituições financeiras
Objetivo Desenvolvimento regional
Fórum Comprometimento, ética, participação democrática e resultados tangíveis socialmente justos e
Princípios
ecologicamente corretos
Gestão/organização Secretaria executiva e câmaras temáticas
Composição Plural e ilimitada
O que é Entidade privada prestadora de serviço privado de interesse público
Voltado ao ensino, à pesquisa, ao desenvolvimento tecnológico, `acultura, à saúde e ao meio
Objetivo
ambiente
Princípios Podem ser definidos pelos membros. A lei estipula o funcionamento, os órgãos e as deliberações
OS
Formada por membros do poder público e da sociedade civil com contrato de gestão com a
Gestão/organização
sociedade civil
N° de associados Ilimitado
Lei que regula Lei n° 9.637/98
Organização sem fins lucrativos, autônoma, voltada para o atendimento de organização de base
O que é
popular
Contribuir para o desenvolvimento da sociedade por meio da promoção social complementando a
Objetivo
ONG ação do estado
Princípios Definidos pelos membros a partir das idéias que os unem
Gestão/organização Gerida pela assembléia-geral e pela diretoria executiva
N° de associados Ilimitado
O que é Sociedade civil de direito privado sem fins lucrativos
Objetivo Sociais de interesse geral fa sociedade, conforme artigo 4° da lei que a regula
Princípios Definida na lei, de caráter ético e comportamental
OSCIP Definido em estatut, sendo formada por sócios.É instituído um termo de parceria com o poder
Gestão/organização
público
N° de associados Ilimitado
Lei que regula Lei n° 9.790/99

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