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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

Obras da série Alfred Hitchcock apresenta


Carrossel do crime
Histórias pra ler no escuro
Histórias que nunca serão repetidas
Enterro de primeira classe
Histórias pra assustar o Mão Branca
Histórias pra ler com a porta trancada
Histórias pra noites sem luar
Histórias pra tirar o sono
Histórias que mamãe nunca me contou
Histórias que não me deixaram fazer na tevê
Histórias pra ler nas sextas-feiras
Histórias pra ler no cemitério
Querem ver minha caveira
Histórias de arrepiar o cabelo
Histórias assombrosas
Histórias do arco-da-velha
Histórias mal-assombradas
Um presente de terror
A roleta da morte
Histórias que nunca esqueci
Histórias pra leitores sem medo
Histórias que ninguém gostaria de viver
Xeque-mate
Histórias de alta tensão
Histórias que nunca esquecerei
Histórias macabras
Histórias pra dar calafrio
Histórias de mau-agouro

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

Tradução de
A. B. Pinheiro de Lemos

Digitalizado em abril de 2011

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Título original ianque
Tales to make your teeth chatter

Copirraite © 1980, Davis Publications, Inc.


O contrato celebrado com o autor proíbe a exportação deste livro
a Portugal

Direitos de publicação exclusiva em língua portuguesa no Brasil


adquiridos pela
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇO DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171, 20921 Rio de Janeiro, RJ
que se reserva a propriedade literária desta tradução
Impresso no Brasil

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Alfred Hitchcock apresenta

Histórias assustadoras
[orelha]
O inglês Alfred Hitchcock, é até hoje, caminho tiveram uma aventura estranha e
considerado um incomparável mestre do terrível. Essa é a história do conto de Robert
suspense. Sabia, como ninguém, explorar os Colby, Uma prisão na estrada do sul.
instintos humanos ao contar uma história, Se um carro é da mesma marca, ano, cor,
sempre impregnada de momentos de intensa placa, e até as coisas que deixaste dentro lá
expectativa e pavor, que tornaram seus filmes estão, não há por que duvidar que se trata de teu
inesquecíveis, alguns figurando entre as maiores carro. Mas não foi isso que aconteceu com
obras-primas que o cinema produziu. Hérbio Crain. Estranhou o barulho do motor, a
Os mesmos critérios adotados em seus folga no pedal de freio e chegou à conclusão de
filmes usava pra escolher os contos das que havia Algo estranho, que é o título do
coletâneas em livro. Exemplo disso é O magnífico conto de James Michael Ullman, que
escravo, de Henry Slesar, uma história mostra como o terror pode espreitar atrás dos
fascinante, brutal, angustiante, relatando a mais fatos mais insólitos.
estranha aposta que dois homens poderiam E o humor não poderia ser excluído desta
fazer. esplêndida seleção. O velhinho humilde,
Um favor, de Stephen Wasylyk, é um conto maltrapilho, vestindo um casaco que tinha o
diferente. Trata dum ex-herói de guerra marcado dobro de seu tamanho, escondeu uma lata de
pra morrer, alvo da vingança dum milionário salsicha no bolso. Ao chegar à caixa, levando no
psicopata por causa dum comentário carrinho apenas um pacote de leite, um pão
aparentemente inconseqüente. O desfecho é amanhecido e um saco de comida canina,
surpreendente e terrível, pois envolve o surgiram quatro assaltantes mascarados. O que
relacionamento mais profundo que um homem aconteceu a partir desse momento, tragicômico
pode ter. mas que deixa um sorriso nos lábios do leitor,
Testemunha inocente, de Irving Schiffer, só se descobrirá quando chegar à última página
mostra como um fato corriqueiro, de A lata de salsicha, justamente o título do
aparentemente banal, pode representar a solução conto de Joyce Harrington.
dum mistério insolúvel, segundo tudo indicava. Assim são os contos escolhidos por
Foi o que descobriu a linda secretária Júlia ao Hitchcock: Fascinantes, cheios de mistério e
morrer a milionária esposa de seu chefe. suspense, reunidos em coletâneas que quando
Já Estênio e Bárbara Sherwood tiveram um terminamos de ler estamos, invariavelmente,
problema diferente. Ricos, felizes, ainda jovens, com uma sensação de expectativa e ansiedade e
deixando Nova Iorque em pleno inverno, de aguardando a próxima seleção!
carro, buscando o sol da Flórida. E no meio do

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

Í n d ic e
7 O escravo ● Henry Slesar
20 Os dentes no caso ● Carl Henry Rathjen
30 A essência da justiça ● Hal Ellson
36 Um favor ● Stephen Wasylyk
46 A vítima do ano ● Jack Ritchie
53 Testemunha inocente ● Irving Schiffer
63 Prisão na estrada do sul ● Robert Colby
79 Não somos esse tipo de gente ● Samuel W. Taylor
90 Problema de peso ● Duane Decker
93 Algo estranho ● James Michael Ullman
100 A grande caçada ● Talmage Powell
108 A lata de salsicha ● Joyce Harrington
112 Tudo começou cum espirro ● Donald E. Westlake
122 A prova no bolso ● Harold Q. Masur

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O escravo
Henry Slesar

S
entindo a iminência dum pedido de casamento Inger se preparou pro jantar
com cuidado especial e sem sacrificar da pontualidade. Corey gostava que
suas mulheres fossem bonitas, pontuais e, normalmente, alguns anos mais
jovens que Inger podia alegar ser. Mas, ainda beirando os 30 anos, ela se recusara
a sofrer pontada de desespero durante o namoro de dois meses.
Como um bom presságio, Corey a levou ao Windward. Era caro e íntimo. Velas
bruxuleavam. Os martínis foram servidos em copos gelados. Depois da refeição,
enquanto tomavam café e conhaque, os olhos dele se fixaram afetuosamente nos
dela, sua voz baixou uma oitava. Se não fosse pelo fato da atenção dela se desviar
subitamente a um homem de boca larga e sorridente, o momento poderia ter
chegado. O sorriso do homem era tão efusivo e tão obviamente dirigido a Corey
que ela teve certeza duma interrupção. Estava certa. O homem se aproximou da
mesa e cortou o ânimo de Corey.
— Olá, Core. Pensei ter te reconhecido antes mas está muito escuro aqui dentro.
Ele presenteou Inger com uma exibição dos dentes brancos e compridos,
alongando o rosto atarracado. Os olhos eram dum azul bem claro, o cabelo louro se
encurvava no final de cada mecha. Inger olhou a Corey e sentiu um choque quase
elétrico pelo que viu. Os músculos em torno da boca de Corey relaxaram, estavam
tremendo.
— Olá, Ray. — Disse Corey, balbuciando depois de breve hesitação. — Esta é
Inger Flood. Inger, Ray Chaffee.
Inger murmurou:
— Como vais?
— Que maravilha! — Disse Chaffee, com uma exclamação de admiração. —
Tens muito bom-gosto, Core. Imagino que tiveram um jantar íntimo e
extremamente agradável. E uma pena que tenhas de ir embora agora?, hem, Core.
— Pelo-amor-de-deus!, Ray.
— Mas tiveste sorte, Core. Eu poderia ter te reconhecido antes do filé. Foi filé,
não é?, senhorita Flood. Core nunca teve muita imaginação pra comer.
— Ambos comemos um filé. — Declarou Inger, decidida a se manter
controlada. — Também não tenho muita imaginação.
O sorriso se desvaneceu, deixando uma expressão de malícia afável.
— Vamos logo, Core. — Disse Chaffee, a voz musical. — Trates de ir embora.
Deixes o conhaque. O terminarei por ti. Ainda tens crédito aqui. Não é? Pois
passes na caixa e avises pra porem a nota em tua conta. Vamos, Core, te mexas!
O choque de Inger se transformou em perplexidade. Corey estava se levantando.
— Inger, lamento muito...
— Lamentas? Mas o que está acontecendo?
— Tenho de ir embora. — Murmurou, desesperado. — Telefonarei a ti mais
tarde. A tua casa.
— Nada disso! — Interveio Chaffee, bruscamente. — Chega de telefonema
nesta noite, Core. Pares de financiar a companhia telefônica. Vás a casa e te deites.
Amanhã... Ora! Veremos o que se poderá fazer amanhã.
Inger começou a se levantar também mas, inacreditavelmente, a mão do
estranho estava em seu ombro, a empurrando de volta à cadeira.

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— Ficarás aqui, senhorita Flood. Não precisas ter pressa.
— Mas o que é isso?! — Disse Inger, finalmente sentindo raiva. Corey, queres
fazer o favor de dizer a esse homem...
— Não precisas fazer onda. — Disse Chaffee, suave e zombeteiro.
Se sentou ao lado de Inger. Corey hesitou mais um instante, até que Chaffee lhe
sacudiu a mão bruscamente, num gesto autoritário. Corey se virou, como se
atingido por um chicote invisível e se encaminhou à porta, a tensão estampada nas
costas. Inger fez outra tentativa de se levantar mas Chaffee a segurou no cotovelo.
— Fiques, por favor. Não vás ainda. Não é agradável ficar sentada aqui sozinha.
— Não ficarei sentada sozinha. — Disse, rispidamente. — Nem contigo. E tires
a mão de meu braço ou começarei a gritar. Poderás descobrir o que isso significa
pra teu crédito.
Não havia sinal de Corey na rua. Inger esperava que surgisse de repente num
portal e explicasse a brincadeira. Mas, exceto por um táxi parado a alguma
distância, a rua estava deserta. Fez sinal ao táxi.
Na manhã foi despertada pelo telefone e não pelo despertador.
— Inger?
— Vás ao Inferno!
— Não posso te culpar por estar tão zangada. — Murmurou Corey. — Não
posso te explicar agora mas prometo que ainda o farei. Eu não sabia que Chaffee
estava no restaurante. Pra ser sincero, nem sabia que estava na cidade. Pensei ter
me livrado do filho-da-puta durante seis semanas, que sua companhia o tivesse
enviado à América do Sul numa missão especial.
— Ó, Corey, te cales! — Exclamou Inger, se sentando na cama. — Foi uma
brincadeira de mau-gosto e ainda não estou completamente desperta pra ouvir um
pedido de desculpa.
— Queres almoçar comigo?
— Não.
— Por favor!, Inger.
O encontrou num restaurante do qual nunca ouvira falar antes, num bairro fora
de mão. Não fez conexão entre a obscuridade do restaurante e Ray Chaffee até que
tateou o caminho no interior escuro pra alcançar a mesa isolada de Corey, no
fundo.
— Quero que me digas uma coisa, Corey. Estás te escondendo daquele homem?
— Como assim?
— Este buraco que escolheste parece ser freqüentado apenas por curtidores
portugueses e gente parecida. O escolheste apenas por causa de teu amigo?
— Não digas bobagem. — Corey sorriu. — É um restaurante agradável e
sossegado. Muito bom pra namorar.
Ele a beijou na boca, obtendo uma retribuição apenas parcial. Depois pediu os
drinques e, sem esperar a pergunta, tratou de responder:
— Claro que foi uma brincadeira o que aconteceu ontem na noite. Mas é uma
coisa tão estúpida que quase desafia explicação.
— Mas tentes explicar.
— É uma espécie de aposta, uma brincadeira permanente que tenho com
Chaffee.
— Mas quem é? Trabalhas pra Chaffee? É teu patrão?
— Não. É apenas um amigo, usando a palavra no sentido mais amplo. É
engenheiro de computador. Estivemos juntos na universidade. Chaffee, eu e mais
alguns outros tínhamos uma roda de pôquer que acabou sendo dissolvida por dois

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ou três casamentos. Sabes como são essas coisas.
— Não. Não sei. A maneira como aquele homem ordenou que saísses. E a
maneira repulsiva como obedeceste...
Corey se recostou nas sombras e riu. O divertimento parecia genuíno mas Inger
não estava convencida.
— Devo ter parecido um idiota. Mas tinha de ser assim, meu bem. Não posso
esperar que compreendas. Tudo o que espero...
Abruptamente parou de falar.
— O que é?
— Não espero alguma coisa agora. Mas dentro de dois minutos...
— O que mudará em dois minutos?
— Talvez muita coisa.
Corey meteu a mão no bolso e tirou uma caixa pequena, revestida de veludo.
Inger prendeu a respiração, enquanto ele acrescentava:
— Te lembras do que te falei daquela débil-mental de quem estava noivo?
— Leila?
— Isso mesmo, Leila. E te lembras de que falei que devolveu o anel de
noivado?
Inger ficou rígida enquanto ele levantava a tampa, mas a caixa estava vazia.
— Não estou entendendo.
— Eu não permitiria que usasses o maldito anel daquela mulher. Passei na
joalheria nesta manhã e acertei uma troca. Podes passar lá a qualquer hora e
escolheres o anel que quiseres. Isso é, se quiseres.
Inger olhou da caixa vazia ao rosto dele mas outra imagem se interpôs.
Era um garção, carregando um telefone vermelho.
— Mas o que é isso? — Resmungou Corey. — Deve ser um engano.
— Não, senhor — declarou o garção. — É mesmo pra ti, senhor Jensen.
Corey pegou o fone e disse um alô perplexo. A centímetros de seu ouvido, Inger
ouviu a voz metálica de Ray Chaffee:
— Passarinho, passarinho, por que fugiste de casa? Ela está pegando fogo e teus
filhos morrerão.
— Ray, seu miserável!
— Estás sendo insolente, meu velho. E sabes que não tolerarei insolência.
— O que queres? Como soubeste que eu estava aqui? Estás me seguindo de
novo?
— Caias fora daí, Corey. Tua presença num lugar assim me ofende. Estou no
outro lado da rua, numa cabina telefônica. Espero te ver passar a porta dentro de
dois minutos. Não, serei camarada: Dou três minutos.
— Corey, desligues esse telefone! — Interveio Inger, a cabeça zumbindo.
Foi exatamente o que Corey fez. Inger pensou que a brincadeira terminara mas
estava enganada. Corey estava largando o guardanapo em cima da mesa e
empurrando a cadeira a trás.
— Escutes, Inger...
— Não! Não me digas! Irás mesmo embora?
— Tenho de ir, meu bem. É uma coisa que não posso evitar. Tomes aqui! — Pôs
a caixa de veludo na mão dela. — O nome da joalheria está escrito na parte de
dentro da tampa. Talvez possas passar lá ao voltar a casa nesta noite.
— Corey. — Disse ela, incisivamente — Se saíres daqui agora e não me
explicar por que...
— Peças algo pra comer. — Ele lançou um olhar nervoso à porta e largou uma

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nota de 10 dólares em seu prato. — Peças rosbife. É muito bom aqui. Ligarei a ti
mais tarde.
— Se fores embora agora, não quero que me telefones mais tarde!
Mas ele foi.
Inger não pediu o almoço. Usou o dinheiro pra pagar os drinques e foi embora
sem se impressionar com o grunhido de insatisfação do garção. Chegou faminta ao
escritório às 3h e comeu uma torta horrível comprada no carrinho de café.

Corey apareceu no apartamento dela, sem avisar, em volta das 22:30h. Inger já
se vestira pra deitar, com uma camisola tão transparente que a situação poderia ser
provocadora. Mas o ânimo de Corey e também o dela, se diga de passagem,
impediam qualquer coisa além de conversa e uísque. Se sentaram na pequena sala
de estar, um tanto desarrumada.
— Muito bem, Inger. Contarei toda a história. Não o podia fazer antes, pois isso
fazia parte do acordo. Mas estive com Ray e concordou. Até gostou da idéia de
saberes, o que proporcionou uma emoção vulgar ao desgraçado.
Parou de falar, terminou o escocês que tinha no copo. Inger esperou recomeçar:
— Sou seu escravo, Inger.
Ele se levantou pra tornar a encher o copo, usando a ação como pretexto pra não
a fitar.
— Sei que parece absurdo, mas não é tanto assim. Não estou querendo dizer que
me comprou num leilão de escravo ou que temos alguma relação sexual maluca no
estilo de Krafft-Ebing. Ambos somos corretos, embora essa seja uma maneira um
tanto exagerada de descrever Ray Chaffee. O que estou querendo dizer é que tenho
de fazer tudo o que mandar, praticamente tudo. Claro que nada faria que me
causasse um mal físico. Não pode me mandar, por exemplo, pular duma janela.
Isso não estaria nas regras.
— Regras?
— Sou escravo há quase 10 meses. Restam menos de 10 semanas pra que tudo
acabe. Mas não precisas ficar preocupada. Pensei muito em ti, pensei em nós, nesta
situação, decidi que não deveria te encontrar, até que este maldito ano chegasse ao
fim. Mas com Chaffee viajando, pensei que poderia correr o risco.
— Correr o risco de quê?
— Afinal, estava na América do Sul. Deve ter morrido de raiva por ser enviado
até lá justamente agora. Estava começando a gostar de ter um escravo, de poder
mandar nalguém e ser sempre obedecido. E se tornava mais mesquinho a cada dia,
pensando em novas maneiras de me fazer sofrer.
— Não posso estar ouvindo direito, Corey. Devo ter me deitado há uma hora e
tudo não passa dum sonho.
— No caminho a cá — continuou Corey, muito tenso — tentei decidir o que era
pior: Contar a ti ou nada dizer. Qualquer que fosse a decisão eu poderia te perder.
Não queres outro drinque?
— Não.
— Pois quero.
Corey foi encher o copo mais uma vez. Quando voltou estava disposto a
enfrentar os olhos dela.
— Inger, contarei toda a verdade. Há cerca de 10 meses, Chaffee, eu e mais dois
caras tínhamos uma roda de pôquer e garotas.
— Não mencionaste as garotas antes.
— Elas jamais atrapalhavam o pôquer. Seja como for, estávamos todos sentados

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em torno duma mesa numa noite, bebendo. Começamos a falar sobre escravidão.
Isso é, a escravidão nos dias atuais. Ainda existe, sabes. Há muito tráfico de
escravo no Oriente Médio e lugares assim. Houve uma coisa em que, todos
concordamos. Ou melhor, duas. A primeira foi: A escravidão não é horrível? Nada
há de original nisso, é claro, mas é o primeiro sentimento de quem sempre viveu à
sombra da bandeira ianque. Mas também concordamos que a escravidão podia ser
terrível pro escravo mas era, certamente, algo muito bom pro amo. Pondo de lado
todas as considerações morais, o que há de tão ruim em ter dois ou três escravos?
Encaremos a verdade: Devia ser uma coisa maravilhosa. Era o que fez a escravidão
tão popular durante muitos séculos, mesmo em civilizações supostamente
esclarecidas, como a grega e romana. Sabiam que era moralmente errado o que
faziam mas não dispunham de máquina pra tornar a vida confortável e por isso
justificavam a prática. Mesmo hoje, penses em todas as pessoas que vivem
disputando criados. Te lembres das mulheres gordas nos clubes femininos,
passando a metade da vida dando ordens às criadas e a outra metade falando delas.
E quando uma delas diz Minha Bernice é uma jóia preciosa, está se referindo à
criada mais como uma escrava, mais como se fosse uma preta escrava sulista dos
velho tempo do que como empregada remunerada. Não estou certo?
— Por favor, Corey, me poupes os comentários sobre a injustiça social.
— Está bem. Está bem. O que estou querendo dizer é que a escravidão é
atraente. Chaffee até encontrou uma citação de Tolstói a respeito, embora eu ache
que só a procurou depois da aposta.
— Aposta?
— É sobre isso que quero falar: A maneira como tudo começou. Sabes quem foi
Tolstói. Uma espécie de santo russo, defensor da liberdade individual. Só que
escreveu, em seu diário, que a escravidão é um mal, mas um mal extremamente
agradável.
— Mas ainda continua a ser um mal. Não é?
— Por que é involuntária. Os escravos não escolhem ser o que são. São
arrebanhados por traficantes ou vendidos pelos próprios pais, como acontecia com
as meninas na China antiga. Ou eram capturados em guerras, como no caso dos
gregos e romanos. Mas se a escravidão fosse voluntária, se fechando o vazio
moral...
— Foi isso o que fizeste? Voluntariamente te ofereceste pra ser escravo?
— De certa forma, Inger. De certa forma. Foi assim que a noite terminou, numa
espécie de aposta que Chaffee e eu fizemos. Bebêramos muito, mas mesmo, assim
definimos os termos, as regras e condições. Uma das regras era o sigilo e é isso o
que está me permitindo violar nesta noite.
— Estás falando sério? Não é brincadeira?
— Não, Inger, não é brincadeira. Infelizmente, é a pura verdade. Chaffee
apostou que eu não poderia sobreviver como seu escravo durante um ano. Mas o
prazo está quase acabando. Eu ganho, ele perde e as coisas voltam ao normal. Mas
eu não poderia desistir agora. Entendes? Depois de 10 meses eu seria louco se
desistisse, mesmo que me pedisses, mesmo que impusesses uma condição pra
encher aquela caixa que dei a ti.
— Não achas que estás querendo demais?
— Eu não poderia desperdiçar esses 10 meses, Inger. Chaffee me fez conhecer o
Inferno e pode se tornar ainda pior, mas não lhe darei a satisfação de desistir antes
que o ano termine.
— Pareceis duas crianças estúpidas! Deveríeis levar uma boa surra!

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— Não foi tão terrível assim no começo. — Disse Corey, olhando o teto. —
Chaffee não estava acostumado a ter um escravo. A princípio me pedia pra fazer as
coisas, era polido, sempre usava por favor. E todas as ordens eram ínfimas, como
fazer pequenos serviços, ir à biblioteca, chamar táxi. Era um trabalho fácil.
— E depois mudou?
— Não podia me pedir pra fazer algo que pusesse em risco minha saúde,
emprego ou dinheiro...
— Mas podia te humilhar. Eis algo que podia fazer.
Não podia me obrigar a fazer coisas malucas em público. Nada que pudesse
fazer com que a polícia me prendesse. Mas qualquer outra coisa. Sou obrigado a
fazer ou não seria seu escravo. Entendes? Um escravo obedece sem questionar.
Isso é a própria essência, a incapacidade de recusar as ordens do amo. Mas Chaffee
levou muito tempo, quase meio ano, pra descobrir alegria nisso.
— Alegria?
— Isso mesmo. — Corey revirava o copo entre as mãos, interminavelmente. —
Há uma alegria nisso, quase um êxtase. É mais do que a conveniência de ter
alguém pra executar todas as ordens. No fundo há algo de poder. É por isso que as
pessoas se digladiam buscando poder político, social, financeiro. Qualquer um. É o
prazer de dominar as pessoas, a fazer obedecer pelo simples ato de estalar o
chicote.
Inger deixou escapar um muxoxo de repulsa.
— É verdade, meu bem. Sou o escravo e é o amo, mas posso perceber o que faz.
O poder total sobre outro ser humano. Depois de seis meses Chaffee começou a
sentir que o tempo se escoava rapidamente e foi ficando desesperado e mesquinho.
As ordens se tornaram mais brutais e mais freqüentes. Foi nessa ocasião que
deixamos de ser amigos e nos tornamos o que somos agora: Amo e escravo.
Apenas isso, nada mais que isso. E foi também nessa ocasião que começou a
gostar.
Inger se aproximou dele, parecendo inebriada e linda.
— E não desistirias? Nem mesmo que eu pedisse?
— Já te disse. Se tivéssemos nos conhecido há cinco ou seis meses, antes de
Chaffee começar a estalar o chicote, talvez eu estivesse disposto a desistir, a
perder todos os meses que já investira. Mas não agora.
— Corey, me amas?
— Por-deus-do-céu! Ainda não disse isso?

Mais tarde, ela pediu de novo.
— Não, Inger, não é possível. Achas que aquelas situações nos restaurantes
foram horríveis? Pois já houve outras bem piores. Tenho feito todos os tipos de
serviço sujo. Já fui seu valete, mordomo, faxineiro. Já abri mão de muitas noites,
de fins de semana, até das horas de almoço, sempre que assim quis. E então passou
a me seguir em toda parte, me obrigando a renunciar a hábitos, prazeres, amigos.
— E às mulheres também?
— Me obrigou a romper com todas as namoradas. Houve uma ocasião, quando
procurou a garota com quem eu saía e contou o que eu era.
— Pensei que as regras básicas.
— Só se aplicam a mim. O amo não precisa guardar segredo. Só o escravo está
obrigado. E naquela noite contou a ela. E a débil mental...
— Foi Leila?
— Isso mesmo. E talvez Chaffee me tenha feito um favor nesse caso. Mas não

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esquecerei a maneira como nos abordou.
— E disse a ela que eras seu escravo?
— Disse e provou. Me obrigou a rastejar na frente dela. E aquela débil mental
riu. Achou que era engraçado, hilariante. Pediu a Chaffee que a deixasse ter um
pouco de ação, queria brincar também. E no resto da noite fui também escravo
dela, porque isso é parte do acordo. Se tens um amo passas a ser escravo de toda a
raça humana.
— Oh, Corey! — Inger pressionou o rosto contra o ombro dele. — Como
pudeste agüentar isso? Por que não o mataste? Eu teria esmagado a cara dele e a
dela também!
— Tens razão, Inger. Os escravos se revoltam. E isso faz parte da diversão. Só
que eu não o podia fazer. Entendes? Havia investido demais.
O telefone tocou. Já passava de meia-noite e o telefone de Inger era
normalmente silencioso naquela hora.
— Devo atender? — Sussurrou ela. — achas que é...
— Tenho certeza que é.
Inger atendeu e a voz de Ray Chaffee disse, suavemente:
— Como vais?, boneca. Estás com o ouvido doendo? Nosso garotinho já chorou
todas as mágoas?
— Estou contente, que tenhas ligado, senhor Chaffee. — Disse Inger. — Muito
satisfeita. Assim tenho a oportunidade de dizer o que penso a teu respeito.
— Poupes teu fôlego. — disse Chaffee, friamente. — Me deixes falar com o
rapazinho.
— Só depois de me ouvires.
— Me enches o saco e eu descarregarei em cima dele. Estás entendendo?,
boneca.
Inger hesitou um instante mas acabou passando o fone a Corey. E o ouviu dizer:
— Está certo. Já entendi. Está bem. Está bem. Eu disse que faria e farei.
Suspendeu o telefone, na direção de Inger. Mas não a olhou, enquanto dizia, a
voz sem inflexão:
— Ray quer que eu vá embora agora, meu bem. Mas não quer que fiques
solitária. Disse que terá o maior prazer em vir até aqui pra fazer companhia a ti.
Disse que conhece uma maneira de te manter quente e satisfeita.
— Corey!
— Eu agradeceria se concordasses, Inger. Não posso te obrigar, é claro, mas
consideraria um grande favor a mim se deixasses Ray subir agora.
Via fone ela podia ouvir o risinho seco e musical de Chaffee.
— Saias daqui! — Gritou Inger. — Sumas da minha frente!, Corey.
— Por favor, Inger. Poderia ao menos falar com ele?
Ele estendeu o fone a mais perto mas Inger recuou. Corey engoliu em seco e
tornou a aproximar o fone de sua boca, dizendo:
— Com todos os diabos, já fiz o que mandaste! Mas ela não quer falar contigo e
isso é uma coisa que não posso controlar!
Desligou e se virou a Inger, com os olhos marejados de lágrima.
— Prometi que diria isso, meu bem. Era o preço por te contar a verdade.
— Não me ouviste? Sumas daqui, Corey. Não te quero aqui. E nunca mais quero
tornar a te ver. Nunca mais!
Corey deu de ombros. Não era um gesto de indiferença mas de resignação. E
depois saiu, fechando a porta sem fazer barulho.

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Inger não tornou a ter notícia dele até o fim de semana. Corey telefonou na tarde
de sábado e falou cum sussurro de conspirador:
— Estou na galeria Frederick. Na Médisson. Inverti as posições desta vez e
passei a o espionar. Seu apartamento fica no outro lado da rua e acabei de o ver
saindo com o carro. Assim, podemos nos encontrar em segurança.
— Pode ser seguro mas não significa que eu queira te ver. — Disse ela,
friamente.
Mas Inger acabou indo à galeria. Estava cheia de paisagem ondulante. Corey a
recebeu cum sorriso triste e disse:
— Esqueci de pedir que trouxesses dramamina.
Em vez de rir Inger começou a chorar, embora não alto demais que incomodasse
os demais freqüentadores da galeria. Corey a levou a um canto, protegendo a
ambos com o cardápio,1 enquanto dizia.
— Tenho uma idéia. Meu acordo com Chaffee durará mais nove semanas. Não
quero te ver até lá. Nem tentarei te encontrar. Acabaria descobrindo. E isso só
serviria pra piorar a situação.
— Nove semanas? Mas isso é terrivelmente injusto!, Corey.
— Mas é o único jeito. É melhor o fazer pensar que rompemos, pois só assim
nos deixará em paz. Te deixará em paz. Depois disso, caso não tenhas conhecido
outro homem que te interesse, até lá...
— Seu idiota! — Disse ela, tragicamente, o segurando nas lapelas. — Achas que
eu poderia querer algum outro?
— Vamos até a joalheria, Inger. Agora. Se estiveres com meu anel no dedo,
talvez isso faça uma grande diferença.
Ela escolheu um diamante solitário, sem baguete2 ou engaste fantasioso. Corey
achou que o anel era desnecessariamente austero, mas Inger queria assim mesmo.
Voltando a casa o lembrou de que ainda não fizera um pedido de casamento
formal. Ele disse que queria o cenário romântico apropriado. Assim, subiram a rua
59 e pegaram uma charrete, entrando no parque. Inger chorou durante a maior
parte do tempo, mesmo depois do pedido de casamento. O abraçou freneticamente,
sussurrando:
— Corey, vamos juntos até minha casa. Não me deixes agora. Viste aquele
homem horrível se afastando. Talvez não nos incomode. Venhas comigo, por
favor, Corey.
Foram ao prédio de apartamento em que Inger morava. Um pequeno conversível
marrom estava estacionado perto do toldo da frente. Ray Chaffee não estava ao
volante mas Corey conhecia o carro.
— Está aqui, Inger. É melhor eu ir embora.
— Não, Corey, por favor! Pode estar esperando no saguão ou no corredor, lá em
cima. E tenho medo dele!
— Não precisas ter. Não tem como te dominar. Se tentar algo digas que
chamarás a polícia. Se ameaçar contra mim digas que não te importas, que já
rompemos.
— Isso é horrível!
— Telefonarei a ti mais tarde.
Corey se virou e se afastou rapidamente. Exatamente como receara, Inger
encontrou Chaffee esperando, sentado numa poltrona azul bastante velha, no
1
No texto em papel está protegendo a ambos com um programa, o que não faz sentido. Programa significa programa mas
também roteiro, prospecto. No caso só pode se tratar do cardápio. Nota do digitalizador
2
Baguete: sf Ornato da meia, na altura do tornozelo. Diamante de face superior retangular, lapidado com 25 facetas. Pão
comprido, de farinha de trigo. Nota do digitalizador. http://www.kinghost.com.br/

14
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
saguão.
— Boa noite, senhorita Flood. Por acaso viste nosso amigo, senhor Jensen?
— Não, não tenho visto teu amigo e também não quero ver. Nunca mais!
— Nesse caso não estarias procurando um novo amigo? — Ele sorriu. — Não
sou uma mercadoria tão desprezível assim. Talvez um pouco suja mas ainda capaz
de prestar bom serviço.
— Boa noite. — disse Inger, quando elevador chegou. Mas ele pôs a mão na
porta.
— Não comeces com brincadeira, senhorita Flood. Onde estás escondendo o
rapazinho? O meteste no armário ou debaixo de tua cama?
Inger ficou parada. Havia um porteiro nas proximidade, provavelmente lendo o
Daily News na frente do elevador de serviço. Pensou em o chamar mas acabou
mudando de idéia.
— Está bem. Por que não sobes e verificas pessoalmente? De qualquer forma,
preciso perguntar uma coisa.
Ele ficou surpreso. Durante um momento Inger o deixou desequilibrado mas,
entrando no apartamento, se recuperou e passou o braço na cintura dela. Inger deu
um passo de dança pra se desvencilhar e disse:
— Quero que me faças um favor. Canceles essa aposta que fizeste com Corey.
Ele ficou desconcertado e divertido.
— Queres que eu liberte o escravo? Que emita uma proclamação de
emancipação?
— Isso mesmo. Já está cansado da brincadeira e acho que o mesmo acontece
contigo.
Por mais estranho que pudesse parecer, o sorriso se desvaneceu.
— Queres saber duma coisa? Tens toda razão. Se tornou um fardo terrível, não
apenas ao pobre Corey mas também a mim. Sabia que dá muito trabalho ter um
escravo? É uma responsabilidade e tanto. É como herdar uma grande fortuna. A
pessoa fica na obrigação de ter sempre de fazer algo a propósito. Acordo, às vezes,
durante a noite, tentando imaginar como poderei usar Corey no dia seguinte.
Parece doentio. Não é? Mas provavelmente estás pensando que sou doente. Corey
deve ter dito que sou mesquinho e brutal.
— E não é verdade?
— Todos os amos parecem mesquinhos e perversos a seus escravos. Mas não te
preocupes. O velho Corey terá o que merece.
— Quanto vale?
— Como?
— Quanto vale vossa aposta? Estou disposta a fazer um acordo, senhor Chaffee.
— Não sei do que estás falando.
— Estás apavorado com a possibilidade de Corey completar um ano de
escravidão. Não podes deixar de tentar imaginar as coisas mais horríveis pra o
obrigar a desistir. Mas também tenho direito a Corey. E se fizeres o que eu disser,
darei um jeito pra que fiques com teu dinheiro.
Tornando a sorrir, ele perguntou:
— É uma proposta?
— É, sim. Se suspenderes a aposta, imediatamente, prometo que receberás até a
última moeda que Corey ganhar.
— Achas mesmo que podes controlar o rapazinho à vontade? Mas que coisa
interessante!
Chaffee passou a mão no cabelo louro e liso. Então foi avançando, lentamente,

15
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
em direção a Inger.
— Queres saber duma coisa? Recomendo que experimentes outra forma de
persuasão. Não podes compreender como tenho pouco interesse por dinheiro.
As mãos dele estavam em cima de Inger, que deu uma volta com o corpo e se
descobriu nos braços dele. Chaffee era mais forte do que parecia e ela ficou
apavorada. O golpeou com a mão esquerda, no rosto. Bateu com toda força e sentiu
a ponta do diamante cortar a carne. O olho se avermelhou e inchou quase que no
mesmo instante. Chaffee soltou um berro de dor e cobriu o rosto cuma das mãos.
— Me machucaste! — Gritou ele, furioso. — Sua estúpida! Por que tinhas de
fazer isso?
Ele tirou do bolso um longo lenço impecavelmente dobrado e o comprimiu
contra o rosto. Olhou depois o vestígio de sangue no lenço. Empalideceu e Inger
chegou a pensar que ele desmaiaria.
— Sua estúpida! — Repetiu Chaffee.
Ele tornou a comprimir o lenço contra o rosto e saiu pela porta. Inger olhou o
anel de noivado em seu dedo, tocou no diamante e disse em voz alta:
— O melhor amigo duma mulher.

Ela não sabia que horas eram quando as batidas começaram! Sabia apenas que
não era uma hora oportuna pra alguém fazer todo aquele tumulto na porta de seu
apartamento. Olhou o mostrador luminoso do relógio no criado-mudo. Já passava
de três horas da madrugada. Pegou o roupão no pé da cama e foi à sala, querendo
apenas silenciar aquelas batidas terríveis e obscenas em sua porta. A abriu e
deparou com os dois, Chaffee e Corey. Chaffee sorria horrivelmente. Havia algo
disforme no sorriso, algo no rosto que pertencia ao nevoeiro dum pesadelo. Inger
levou um momento pra descobrir que o problema estava no rosto. A face estava
inchada, meio arroxeada, a pele lustrosa e esticada. Desviou a cabeça e olhou a
Corey, imaginando por que romperiam o sossego de sua noite.
Depois que todos foram à sala de estar, Corey encontrou o interruptor que
inundou a tudo com uma claridade desagradável.
— O que aconteceu?, Corey.
— Inger... — A voz era sufocada, os punhos estavam cerrados. — Que deus-
me-ajude agora, Inger. Não deverias ter feito o que fizeste...
— Digas a ela. — Ordenou Chaffee.
Corey estendeu o braço e tocou no braço dela.
— O machucaste, Inger. E poderia ter sido um ferimento muito grave.
— Diga a quem ela machucou. — Ordenou Chaffee.
— Ao mestre. — Disse Corey, os dentes cerrados. — Olhes o que fizeste com
ele, Inger. Estás vendo?
— Me largues!, Corey. — Disse Inger.
— E agora digas a ela. — Acrescentou Chaffee. — Vamos, Corey, diga à
senhorita Flood o que tem de fazer.
— Não te zangues comigo, querida. Depois desta noite não irei. Prometeu que
nada mais haveria depois desta noite. Te deixaremos em paz. Nós dois. Mas tens
de o fazer.
— Fazer o quê?
— Dar um beijo. — Disse Corey. — Sinto muito, Inger. Beijes o olho. O
machucaste. Está realmente muito ferido. Beijes o olho, Inger!
A empurrava em direção a Chaffee, forçando o rosto dela a encontro do olho
ferido. Chaffee estava sorrindo. Só que não era um sorriso mas uma máscara de

16
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
morte, um risus sardonicus. Inger gritou e bateu em Corey, que tentou segurar suas
mãos. Inger podia ver o sofrimento estampado no rosto dele. O detestava e ao
mesmo tempo sentia pena. Corey conseguiu finalmente imobilizar os pulsos dela e
estava gritando alguma coisa a Chaffee. Inger ficou inerte, enquanto Corey a
conduzia ao sofá. Ela fechou os olhos e ouviu Corey dizer outras coisas a Chaffee,
meio irado, meio apaziguador. Ela não abriu os olhos até ouvir Chaffee dizer:
— Muito bem, rapazinho. Já cumpriste teu dever.
Inger virou a cabeça e divisou Chaffee se encaminhando à porta. E Corey o
seguiu. O escravo, obediente, cumprida a tarefa, acompanhava o amo. Saíram,
deixando Inger sozinha.

Setembro passou e depois a maior parte de outubro.
Inger só teve notícia de Corey uma vez. Era uma carta, mal datilografada no
papel timbrado do escritório. E dizia:
Inger
Sei que agora me odeias. Faz sentido dizer que eu te amo? Os grilhões
se rompem no domingo, 28 de outubro. Então ligarei a ti. E não te culparei
por algo que possas me dizer.
Corey
Ela conhecera um homem com quem simpatizara no início de outubro. Era
atraente e parecia ter dinheiro. Saiu com ela três noites numa semana e tentou a
seduzir no fim de semana seguinte, embora sem muito empenho. Quando Inger
começou a chorar, ele a levou a confessar que estava apaixonada por outro homem.
Ela tentara pensar em Corey como morto, desaparecido, alguém que fora embora a
sempre. Mas sabia que nenhuma dessas coisas era verdade. Ele ainda estava perto e
28 de outubro, o dia da libertação, estava próximo. Inger disse ao homem que não
o veria mais.
Na sexta-feira anterior ao dia 28 uma amiga chamada Sílvia foi à casa de Inger,
a fim de lá passar o fim de semana. Seu apartamento estava sendo pintado e ela era
alérgica ao cheiro de tinta. Ela passou a maior parte do tempo falando sobre um
homem chamado Leonardo, que era casado, pedindo conselho a Inger, em voz
queixosa, e ficando emburrada sempre que ouvia a opinião de que devia o largar.
Na noite de sábado, estimulada pelo álcool, Inger perdeu o retraimento normal e
falou a Sílvia sobre Corey Jensen. A amiga ficou escutando, fascinada, seus
próprios problemas românticos momentaneamente esquecidos. Concordou
efusivamente com a conclusão de Inger:
— Terrível! Pavoroso! Podes estar certa de que ficas muito melhor sem ele!
Quanto mais falava a respeito de Corey, no entanto, quanto mais Sílvia
concordava, mais Inger compreendia o quanto sentia saudade dele.
— Achas que telefonará? — Indagou Sílvia, de olhos arregalados. — Achas que
terá essa coragem?
— Não sei.
Sílvia ainda estava dormindo, na manhã de domingo, quando Inger acordou e
começou a olhar o telefone. Ainda não tocara às 2h, quando Sílvia foi embora,
ansiosa em não perder um encontro vespertino com Leonardo.
Às 3h, Inger chegou à conclusão de que seu orgulho não valia o suspense. Ligou
ao apartamento de Corey. O telefone estava ocupado e ela desligou
apressadamente, na esperança de que fosse Corey tentando lhe falar. Nada
aconteceu. Quinze minutos depois já discara o número tantas vezes que o dedo

17
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
estava doendo. Se forçou a esperar meia hora antes de tornar a discar. O telefone,
tocou muitas vezes mas ninguém atendeu. Inger se censurou por tomar uma
decisão errada.
Vestiu uma capa pouco depois das 4h e saiu. Pegou um táxi pra ir ao
apartamento de Corey, tentando não pensar no certo ou errado, em orgulho ou
vergonha.
Inger esperava ter de enfrentar a necessidade de acampar na porta dele mas teve
sorte. Corey abriu a porta, carregando o telefone como se fosse uma valise.
— Espero que seja a mim que estás ligando. — Disse ela, jovialmente. — Ou já
esqueceste que prometeras telefonar?
Ele retorceu o fio do telefone entre os dedos.
— Juro que eu ligaria a ti, Inger. Só que aconteceu um problema. Me dês só um
minuto.
— Está certo. Eu não estava mesmo esperando que te jogasses a meus pés. Mas
ainda estou com teu anel e precisava descobrir se deseja que o conserve.
— Claro que é justamente isso o que estou querendo! As palavras deveriam ter
sido acompanhadas por um abraço, mas Corey ainda estava ocupado com o
telefone.
— Te sentes, meu bem. Esperes só um minuto, enquanto dou este telefonema.
Ele pôs o telefone na mesa e discou.
Alô? Aqui é Corey Jensen de novo. Já sei. Já sei. Mas pensei que poderias ter
sabido algo desde... — A voz se alterou, furiosa. — Mas trabalhas pra ele! Está
bem. Está bem... Basta dar meu recado.
Desligou, batendo o fone com toda força.
— O que foi?, Corey. Pareces não estar muito bem.
— Inger, faças o favor de esperar.
Estava discando outra vez, o rosto molhado de suor. Precisava fazer a barba, os
fios brilhavam com a umidade.
— Marta? Sou eu, Corey. Sei que é muito difícil, mas viste Ray?... Não, não
estou querendo insinuar algo. Queria apenas saber se o viste. Sabes se Ronnie está
em casa? Não, não precisas te incomodar. Se não sabes onde Ray está, com certeza
não vai aparecerá aí. Não posso falar agora. Já estou atrasado. Adeus, Marta.
Ele desligou. Antes que pudesse discar de novo, Inger interveio:
— Já chega!, Corey. Se não podes dispor dum minuto pra mim entre
telefonemas, então é melhor eu ir embora!
Ele reagiu suavemente à ameaça:
— Não entendes, meu bem. Estou tentando o encontrar. Não está no
apartamento e a criada não sabe onde.
— Quem?
— Ray Chaffee. Sumiu! — Corey esfregou as mãos na calça, nervosamente. —
Acho que o desgraçado está tentando fugir!
— Por causa da aposta? Por que venceste?
O telefone tocou e ele saltou pra atender.
— Isso mesmo, sou senhor Jensen. É verdade, pedi a ligação. Alô? Senhor
Valdez!... Isso mesmo. É urgente localizar senhor Chaffee. Acho que está
embarcando num avião da Panagra hoje mas não sei qual é o vôo... É, sim, uma
questão de vida ou morte... Uma pessoa de sua família está muito doente... Sei que
é contra o regulamento, mas... Como?
Ele fez uma pausa, os olhos faiscando.
— Já entendi. Vôo 33, decolando às 6:30h... Não, um recado não adiantará.

18
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Poderá pensar que é um engano... Posso chegar ao aeroporto a tempo... Muito
obrigado, senhor Valdez.
Desligou, exalando fúria e triunfo.
— É mesmo verdade! Está tentando trapacear indo à América do Sul!
— Não estou entendendo, Corey.
— A viagem em junho. Estava arrumando um emprego lá, preparando a fuga.
— Mas por quê? Ele perdeu tanto dinheiro assim?
— Tenho de sair agora, Inger. Preciso chegar ao aeroporto a tempo.
Se encaminhava ao armário mas Inger se postou na frente.
— Dinheiro? — Gritou Corey. — Achas mesmo que apostamos dinheiro?
— Mas apostastes!
— Só que nunca falei em dinheiro. Essa foi tua conclusão. E também não foi
propriamente uma aposta. Foi uma troca, um acordo, uma barganha. Entendes
agora?
— Corey!
— Agora pensa realmente que estou doente. Não é? Pois podes pensar o que
bem quiseres. Mas uma coisa posso garantir, Inger: Não conseguirá escapar. Teve
seu ano e agora terei o meu!
— Um ano? Está querendo dizer que é teu escravo agora, durante um ano?
— Isso mesmo, meu bem. senhor Chaffee pagará sua dívida. Me obrigou a
pagar e agora é sua vez. Estou com o chicote na mão e terá de pular quando eu
mandar, mesmo que eu tenha de o arrancar a força daquele avião!
Fez menção de seguir à porta e Inger o segurou no braço.
— Pelo-amor-de-deus!, Corey. Não faças isso! O deixes ir embora. Não podes
fazer consigo o que fez contigo. Seria horrível demais. Não é humano!
— Pares com isso!, Inger. É uma longa viagem até o aeroporto e preciso...
— Corey, eu não poderia suportar outro ano assim!
— Mas será que não entendes que desta vez não será a mesma coisa? Desta vez
é o escravo e eu o amo...
Isso não faz diferença! Não há diferença entre as duas coisas! Eu não poderia
me casar contigo nessa circunstância. Não poderia suportar! Não me casarei
contigo!, Corey.
Durante um momento a respiração dele se aquietou, os olhos perderam um
pouco do brilho febril. Então disse:
— Sinto muito, Inger, mas não posso evitar. Nada posso fazer agora. Já é tarde
demais.
Saiu rapidamente, fechando a porta. Inger se adiantou e tornou à abrir, gritando
enquanto ele se afastava no corredor, a caminho do elevador, uma voz tão
estridente como ela nunca imaginara que possuísse:
— Vás logo! Podes ir! Vás procurar teu precioso escravo! Espero que sede mui
felizes um com o outro!
Inger fechou a porta, sentindo que devia chorar, mas incapaz de produzir
lágrima. E pensou:
— Aposto que serão mesmo muito felizes. Tenho certeza de que serão.

19
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

Os dentes no caso
Carl Henry Rathjen

N inguém desconfiava de que ele fosse um assassino. Era apenas uma parte
da multidão, postada a alguma distância de McCabe, o chefe do
departamento de polícia, de três homens, de Vista do Vale, enquanto
aguardavam o início solene da escavação prà construção da nova fábrica de
processamento alimentício. Ele até acrescentou seus comentários aos gracejos
dirigidos ao prefeito Bronson, que não realizaria a cerimônia com sua tradicional
pá de placa de ouro e enfeitada com fita.
— Será que ninguém confia mais em ti com uma pá na mão?, prefeito.
— Acho que estás ficando mole de te sentares, na prefeitura, fazendo nada!
Sorrindo jovialmente, prefeito Bronson subiu na escavadeira. Se sentando,
estendeu as mãos aos botões de controle, reluzindo. A caçamba da escavadeira se
estendeu pra cravar os dentes de aço na terra macia: Enquanto recuava, abrindo
uma trincheira, McCabe percebeu que desenterrara ossos humanos.
— Esperes um instante!, prefeito. — Gritou McCabe.
Atrás dele a expressão do assassino não estava diferente, exteriormente, dos
outros rostos aturdidos que se inclinavam a diante, ansiosos, querendo ver mais de
perto. Os olhos castanhos e a voz de McCabe assumiram jeito autoritário. Gritou o
nome dum de seus guardas::
— Tratai de recuar! Knapperman, mantenhas todo mundo longe desta área!
Depois que a multidão estava sob controle, McCabe se adiantou. A escavadeira
atingira o meio do esqueleto, desenterrando vértebras e costelas. Um osso pélvico
estava parcialmente encravado na parede esquerda da trincheira. Disse o prefeito
Bronson, a voz trêmula:
— Não há sinal de roupa. Deve ser um índio, que já está enterrado aqui há mais
de 100 anos.
— Está aqui há muito tempo. — Concordou McCabe. — Não há carne nos
ossos.
Apontou à parede direita da trincheira, onde a terra caíra e expusera um maxilar,
antes de acrescentar:
— Mas aquela placa dentária não sugere que a morte ocorreu há 100 anos. —
McCabe falou a trás, sem virar a cabeça: — Knapperman, chames o médico
legista. E depois faças um cordão de isolamento nesta área. Vasculhes tudo,
procurando possíveis pistas, assim que ele acabar.
McCabe abriu o canivete e começou a remover a terra, cuidadosamente, até
deixar completamente expostas as dentaduras superior e inferior. Não eram de
plástico rosado, como as modernas. A cor básica era escura, quase como a terra,
exceto pelo rosa pra imitar as gengivas.
— Dentaduras vulcanizadas. — Murmurou.
Cautelosamente, McCabe descobriu mais uma parte do crânio. No frontal, logo
acima e entre as órbitas dos olhos, encontrou um buraco de bala. Estava bem
situado demais pra ser considerado tiro acidental. E o fato do corpo ter sido
enterrado também indicava que não fora um acidente.
— Aconteceu, provavelmente, há muitos anos. Alguém pode lembrar o
desaparecimento inexplicado dum homem que usava dentadura diferente das que
se fazem atualmente?

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Se empertigando lentamente, McCabe olhou os rostos curiosos da multidão,
particularmente os de meia-idade e mais velhos. Todos os olhos se encontraram
com os seus.
Durante um momento todos os olhares na multidão foram vazios. E depois
alguém mencionou um nome. Alguém mais comentou que o homem possuía dentes
como os dum cavalo.
Mais recordações e discussões se seguiram. McCabe quase desejou não ter
perguntado.
— Está bem. Está bem. — McCabe suspirou. Talvez pudesse ter uma noção da
época em que acontecera. Se virou a Jess Parkinson, que vendera o terreno prà
construção da fábrica.
— Quando foi a última vez que araste esta terra?, Jess.
— Nunca a arei, nos 20 anos em que me pertenceu. A usava como pasto. Às
vezes revolvia um pouco a terra mas nunca arei de verdade.
— De quem era a terra antes?
— Não sei. Perguntes a ele. — Jess sacudiu o polegar em direção ao grisalho
Verne Warner, que tinha uma agência imobiliária e um escritório de corretagem de
seguro na cidade.
— Fui eu mesmo quem vendeu a propriedade a ele, Mac. — disse Warner. —
Era parte dum espólio que estava sendo liquidado, tendo o banco como executor.
Pertencera à família Hammond:
— Hammond? — Repetiu McCabe, tentando situar o nome. Warner sacudiu a
cabeça.
— Foram todos mortos num acidente de carro. Foi antes de te mudares a cá com
teus filhos, depois que tua esposa...
McCabe acenou com a cabeça tristemente, ao se lembrar, desolado, de que Joan
fora a vítima inocente dum assalto a banco na cidade grande.
— Há quanto tempo Hammond possui este terreno?
— Tanto quanto posso me lembrar. — Respondeu Warner. — E olhes que já
estou aqui há 40 anos.
Tornou a sacudir a cabeça, enquanto McCabe olhava a trincheira.
— Não, Mac, não foram eles. Os Hammond eram trabalhadores e respeitáveis,
freqüentavam a mesma igreja que eu. Nunca soube que tivessem dito uma palavra
mais rude a alguém.
Vários dos espectadores mais velhos assentiram. A esposa de Warner, Agnes,
baixa, gorda e grisalha, interveio na conversa:
— Os conheci muito bem. Imogênia, a filha, foi minha melhor amiga. Eu seria
sua dama-de-honra. Eram ricos e seria um dos maiores casamentos...
— Podes te lembrar se alguma vez araram este terreno? — Perguntou McCabe.
O prefeito Bronson se encarregou de responder:
— Então o esqueleto não estaria esperando que eu o desenterrasse.
McCabe se virou quando o carro do médico legista chegou. Atrás dele as
pessoas recomeçaram a discutir.
— Não me importo com o que os outros possam dizer. Talvez aqueles ricos
Hammond soubessem e por isso nunca araram este terreno.
McCabe foi interceptado pelo presidente da companhia de processamento
alimentício:
— Quanto tempo esperas retardar o início da construção?, chefe.
— Até que eu tenha certeza de que disponho de todas as pistas possíveis pra
reconstituir o que aconteceu.

21
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
O executivo soltou uma risada.
— Depois de 20, 30, 40 ou mais anos? Por que simplesmente não tornas a
enterrar o esqueleto e...
— Não há prescrição pra homicídio. — Declarou McCabe abruptamente.
McCabe ficou esperando, impacientemente, enquanto Bigbee, o médico legista,
cantarolava baixinho, examinando o esqueleto. Estava pensando se aquele caso
seria mesmo tão antigo e sem esperança de solução como parecia. Bigbee
finalmente se ergueu e se virou pra o fitar.
— Há alguns fatores bem estranhos, chefe.
— O que descobriste? — Indagou McCabe. — Já posso mandar peneirar a terra
ao redor?
Bigbee assentiu.
— Mas duvido muito de que encontres algo. Não vi resquício de roupa, como
metais ou botões, que não entrariam em decomposição tão depressa quanto a carne.
— Olhou a trincheira. — Eu diria que foi enterrado nu.
— Provavelmente como um recurso pra evitar a identificação. — Concordou
McCabe. — Mas não me digas que achas que era um índio, com essas dentaduras.
— Direi tudo o que penso, à minha maneira, se parares de me interromper. Pra
começar, a estrutura dos malares é caucasiana e não índia. Homem. Não há indício
de calcificação articular, artrite pra ti. Portanto. Devia estar abaixo da meia-idade.
E dependendo de testes no esqueleto, calculo que está enterrado aí ao menos há 30
anos. O tipo de dentadura também tende a confirmar esse fato. E dês uma olhada
aqui.
Foi até a vala e pegou o maxilar inferior.
— Vejas esta mandíbula. Foi quebrada uma vez e o osso não consertou direito.
Isso também reflete na gengiva, porque a dentadura inferior é ligeiramente torta.
Se puder localizar o dentista que fez as placas, a deformidade poderia ajudar a
identificar a vítima. — Bigbee soltou uma risada. — E agora, chefe, trates de
cravar os dentes no caso.
McCabe embrulhou cuidadosamente as dentaduras. Jess Parkinson, parado
perto, junto com outros espectadores, exibiu uma expressão de dúvida.
— Pode ter vindo do centro-oeste, como fiz. E já chegou com as dentaduras. Se
for o caso, como esperas encontrar o dentista que...?
Aquele era o trabalho da polícia, pensou McCabe, se afastando. Todas as pistas,
por mais vagas que fossem, deviam ser investigadas, na esperança de que uma
levasse à solução do mistério. Seguiu na caminhonete oficial ao centro da cidade e
encontrou, na rua Principal, um dos dois dentistas de Vista Vale, o jovem e ruivo
doutor Collier, saindo ao almoço. Disse McCabe, entregando as dentaduras:
— Doutor, eu gostaria que, assim que pudesses, me forneças uma descrição
técnica destas dentaduras, prum boletim a ser enviado a todas as associações
odontológicas do país.
O jovem dentista examinou as peças, curioso.
Essas peças vulcanizadas deixaram de ser usadas mais ou menos na ocasião em
que me formei e assumi o consultório de doutor Schmidt aqui. Te ajudarei, é claro.
Mas por que não procuras também o velho doutor Schmidt, se não estiver
pescando? Poderá dizer muito mais do que eu sobre este trabalho.
McCabe assentiu.
— Obrigado. Irei até sua casa e...
O gemido alto da sirene dos bombeiros, se elevando estridente, o interrompeu.
Relutantemente, McCabe foi obrigado a pôr o caso de lado. Um chefe de polícia de

22
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
cidade pequena, carecendo de homens, tinha de ser e fazer todas as coisas. Teria de
acompanhar os bombeiros voluntários pra impedir que os curiosos atrapalhassem.
Chegou ao posto dos bombeiro no momento em que o chefe dos voluntários
comunicava o local aos motoristas:
— Maple Grove, 5km a norte da estrada. A casa de doutor Schmidt.
McCabe ficou subitamente tenso. Talvez o caso não estivesse posto de lado.
Geralmente seguia os camiões dos bombeiro mas dessa vez se antecipou, as luzes
vermelhas piscando, a sirene estridente. Avançou rapidamente em direção à
fumaça preta que subia a nordeste da cidade. Logo pôde ver a casa antiga, as
chamas saindo em todas as janelas, do porão ao sótão. O estábulo adjacente, onde
era guardado o carro do dentista aposentado, também se transformara num inferno
de fogo.
Duas horas depois, preto de fuligem e recendendo a fumaça, McCabe voltou ao
consultório do jovem doutor Collier.
— Não mais despacharei aquele boletim. Estou convencido de que foi doutor
Schmidt quem fez aquelas dentaduras. Foi morto. Sua casa foi encharcada de
gasolina e completamente destruída pelo fogo.
Doutor Collier ficou atordoado.
— Então o assassino ainda está aqui na cidade! Alguém viu...?
— Ninguém viu algo. Mas o descobrirei, mais cedo ou mais tarde. — McCabe
limpou um pouco do suor fuliginoso do rosto — Quando assumiste o consultório,
doutor, o que aconteceu com as fichas dos pacientes de Schmidt?
— Deixou tudo comigo. Estão guardadas aqui.
— Ótimo — McCabe baixou a voz. — Acho que o assassino não sabe disso.
Portanto, nada fales a respeito das fichas.
— Claro. — Doutor Collier franziu o rosto. — Mas há várias caixas, Mac,
talvez duas mil fichas dentárias, em ordem alfabética. Onde devo começar?
McCabe deixou o ar escapar dos pulmões, lentamente.
— E ainda terás de cuidar dos pacientes. Mandarei um homem ajudar a procurar
e também ficar de olho nas coisas, pro caso do assassino calcular...
— Digas pra proteger o assassino, se eu o descobrir primeiro. — Comentou
doutor Collier, sombriamente. — Doutor Schmidt era um homem maravilhoso. Fez
tudo o que era possível pra facilitar meu começo na profissão.
McCabe voltou ao local onde o esqueleto fora encontrado. Knapperman acabara
de peneirar a terra. Descobrira apenas um pedaço de chumbo distorcido.
— Estava dentro do crânio. Parece que era de calibre 22. Não será de muita
ajuda.
— Vás te lavar e depois almoces. — Disse McCabe. — E vás em seguida ao
consultório do doutor Collier. O mais depressa possível.
Experimentava um senso de urgência que não conseguia reprimir. De volta à
sala da polícia, no prédio da prefeitura, se sentou a sua mesa, muito tenso. A busca
às milhares de fichas dentárias poderia levar muito tempo. Poderia, no final,
revelar a identidade da vítima. Até então os moradores da cidade tentariam
recordar os velhos desaparecimentos inexplicados. Se alguém chegasse perto da
verdade e o assassino desconhecido soubesse...
O punho de McCabe bateu violentamente na mesa. Precisava dalguma espécie
de atalho. Revisou o pouco que sabia a respeito da vítima, o esqueleto. Homem.
Idade entre 20 e 40 anos. Perdera todos os dentes. Quebrara um maxilar. Estava
morto ao menos há 30 anos.
McCabe olhou o calendário, subtraindo 30 do ano. Seria mais ou menos 1940. O

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
que acontecia na ocasião? O começo da segunda guerra mundial na Europa. Eua
ainda não entrara. As indústrias de guerra prosperavam. Naquela manhã, no
entanto, ninguém informara sobre um desaparecimento misterioso em volta de
1940.
McCabe tornou a olhar o calendário e subtraiu 40 anos. Em volta de 1929, início
da década de 1930. McCabe ainda não nascera, mas podia lembrar os pais e avós
falando sobre aqueles dias difíceis. A grande depressão. Não havia emprego. Fila
de pão, a sopa de graça. Bancos fechando. Tempestades de areia arruinando
fazendas e fazendeiros do centro-oeste.
Se levantando subitamente, saiu até seu carro e seguiu a rua Principal. Entrou
no escritório de Verne Warner. O idoso corretor imobiliário repôs o fone ao
gancho.
— Estava fazendo uma ligação interurbana ao filho de doutor Schmidt. Estará
aqui amanhã. Foi um choque terrível pra ele. Terrível pra todos numa cidade
tranqüila como a nossa.
O rosto de Verne parecia mais velho, pálido e preocupado, enquanto olhava na
janela.
— Deixa um homem pensando qual de nós, veteranos, será o próximo, porque
talvez saibamos algo. Tens progresso nas investigação?, Mac.
— Toda pista representa algum progresso, até prova em contrário.
McCabe se postou diante da mesa.
— Verne, como era a situação aqui em volta de 1930? Como foram os anos de
depressão?
Warner fez uma careta ao recordar.
— Os preços dos cereais e do gado baixaram a quase nada. Fazendas eram
vendidas pra pagamento de imposto, as lojas na cidade fechavam porque não
conseguiam obter crédito nem receber o que vendiam fiado aos moradores sem
dinheiro. Mas por que perguntas? Tem alguma relação com o que se descobriu
nesta manhã?
— É apenas um palpite. — McCabe hesitou um instante — Verne, nesta manhã
defendeste os Hammond. Não quero discutir contigo mas talvez ajude saber mais
alguma coisa a respeito deles. Eram ricos. Não é?
Warner assentiu.
— Tinham uma grande fazenda de laticínio. Só gado holandês.3 Eram os
maiores produtores do vale.
— E não sentiram a pressão do tempo difícil em volta de 1930?
— Ninguém escapou, Mac. Mesmo assim, creio que se pode dizer que não
sofreram tanto quanto a maioria. E ajudaram muito as pessoas que estavam em
situação pior. — Mesmo assim — insistiu McCabe —houve ressentimento porque
se saíram melhor que a maioria? — Warner lançou um olhar furioso.
— Estás querendo te agarrar a qualquer coisa, Mac. No fundo, queres insinuar
que alguém os provocou, o mataram e enterraram, a fim de manter a posição
respeitável na comunidade. — Warner levantou as mãos, as deixou cair um

3
A holstein, também referida como holstein-frísia e popularmente conhecida como gado holandês, é uma raça de
gado bovino originária da Europa. Surgiu, primitivamente, entre a Frísia (norte de Países Baixos) e o Holstein (Alemanha), há cerca
de vinte séculos. É uma das raças de maior aptidão leiteira conhecida, sendo comum no Brasil, em especial no centro-sul. Também
conhecida em Portugal como turina, é de elevada estatura e facilmente identificada pelo padrão malhado. Nota do digitalizador.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Holstein-Fr%C3%ADsia e http://www.apcrf.pt/gca/?id=147

24
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
instante depois. — Talvez não seja tão improvável assim. Quem pode saber? Mas
parece muito difícil acreditar.
McCabe acenou com a cabeça, sombriamente.
— E sempre poderiam alegar legítima defesa, a menos que evitassem
publicidade. — Suspirou. — De qualquer forma, Verne, obrigado pela ajuda.
— Ajudei nalguma coisa? — Indagou Warner, ironicamente.

McCabe saltou do carro e desceu a rua até o consultório de doutor Collier.
Piscou a um garoto de olhos arregalados que estava na sala de espera agarrado a
uma mulher.
— Não será tão difícil como estás pensando, filho.
Desejaria poder dizer o mesmo em relação a seu próprio problema. Olhou
inquisitivamente a recepcionista, que acenou com a cabeça em direção ao corredor.
Encontrou Knapperman folheando fichas empoeiradas, enquanto da sala mais
adiante vinha o zumbido duma broca.
— Esse barulho me está deixando nervoso, com os dentes rangendo. —
Resmungou Knapperman, que bateu numa pilha de ficha. — E essas coisas me
deixam com dor de cabeça só de pensar em todos os problemas com os dentes que
as pessoas podem ter.
McCabe sorriu debilmente.
— Talvez passes a se lembrar de escovar os dentes depois de cada refeição. —
Ele apontou subitamente. — Ei, nem ao menos examinaste essa ficha!
— Mac, o Doe me disse pra verificar a data da primeira visita do paciente. Se
tem menos de 25 anos, posso esquecer.
— Desculpe.
— Foi nada. — Knapperman sorriu. — Vieste me ajudar?
— Estou procurando ajuda. — Tirou um lápis e um bloco de anotação do bolso.
— Podes me ajudar a fazer uma lista de todas as pessoas de meia-idade e mais
velhas que reconhecemos no local nesta manhã. Tenho certeza de que o assassino
estava lá. Tinha de estar perto pra saber que encontramos as dentaduras. Foi por
isso que imediatamente entrou em ação contra doutor Schmidt.
A lista ficou bastante comprida. McCabe levou o resto da tarde pra investigar os
nomes. Cada homem que entrevistou não estava na cidade há 30 anos ou mais ou
então tinha um álibi pro momento em que doutor Schmidt fora morto. Com isso só
restavam as mulheres na lista. Suspirando, McCabe resolveu ser mais meticuloso e
recomeçou do princípio. Soube que muitas das mulheres estariam na sala da legião,
preparando uma reunião social praquela noite.
Todas se concentraram em torno dele, querendo lhe oferecer uma fatia de bolo,
um sanduíche, uma xícara de café. Aceitou o café mas teve muita dificuldade em
as isolar individualmente prum interrogatório informal. Obteve respostas similares
às que os homens deram. As mulheres não viviam ali há ao menos 30 anos ou
mais, estavam no hospital tendo um filho ou fazendo uma operação, que queriam
descrever meticulosamente. No final só restava um nome a conferir. Era estranho
não a encontrar ali, pois se tratava duma ávida participante de todos os
acontecimentos sociais. Já saía quando ela entrou, esfuziante como sempre.
— Desculpai o atraso, garotas, — gritou Agnes Warner — mas tive de arrumar
o quarto de hóspede. O filho do pobre doutor Schmidt se hospedará conosco
amanhã. Não é terrível o que aconteceu ao pai?
— Senhora Warner. — Interveio McCabe.
— Olá, Mac. Até pareces excitado. Mas não estamos todos, depois do que

25
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
aconteceu hoje? Espero que descubras o patife que...
— Posso falar um momento a sós?
— Se não te importas que eu vá cuidando de minhas tarefas da festa enquanto
conversamos.
— Claro que não me importo.
McCabe ficou esperando, com uma exibição exterior de paciência, enquanto ela
se instalava numa mesa no canto. Outras mulheres encontraram motivo pra ficar
perto. McCabe tratou de falar em voz baixa:
— Disseste, nesta manhã, senhora Warner, que conheceste os Hammond.
— Isso mesmo. Imogênia e eu crescemos juntas. Éramos amigas inseparáveis,
apesar das diferenças entre nossas famílias.
— Diferenças? — Indagou McCabe, a ajudando a arrumar os copos de papelão.
— Não é o que estás pensando, Mac. Tudo corria muito bem enquanto
estávamos prósperos. Mesmo assim havia algo diferente nos Hammond. E quando
o tempo difícil chegou partilharam o que tinham conosco, sem nos fazer sentir que
era caridade.
McCabe assentiu, resignado. Era mais ou menos a mesma coisa que o marido
dela dissera. Os ricos Hammond eram simpáticos e prestativos.
— Eu disse também que seria dama-de-honra no casamento de Imogênia
Hammond. Mas fiquei com a impressão de que o casamento não aconteceu.
O rosto de senhora Warner assumiu uma expressão sombria, enquanto despejava
amendoim num copo de papelão.
— Isso mesmo. Imogênia nunca mais foi a mesma. Ficou retraída, não queria
ver as pessoas, nem a mim. Não porque ficaria embaraçada. Ninguém saberia,
porque o noivado ainda não fora anunciado. Mas eu soube, porque sempre fora
amiga íntima de Imogênia até aquele momento.
McCabe manteve a voz calma:
— Por que o casamento não foi realizado?
— Bom... — Contraiu os lábios. — O tempo era difícil e o pai soube que Jack
queria se casar com ela pelo dinheiro da família.
— Jack quem? — Insistiu McCabe, tenso.
— Jack Tilliman. Conhecera Imogênia desde pequeno. Não apareceu aqui
procurando trabalho, como aconteceu com Verne.
— Senhor Hammond o interrogou sobre o motivo pra se casar com Imogênia?
Houve briga?
Senhora Warner sacudiu a cabeça.
— Não haveria cena, pois ninguém seria capaz de acreditar que Jack pudesse
fazer isso.
— Não teria havido uma cena? Jack Tilliman não foi questionado?
— Não. — Senhora Warner suspirou, enquanto continuava despejando
amendoim — Mas, no final de conta, acho que havia um fundo de verdade. Porque
deixou Vista do Vale e mandou a Imogênia um telegrama de Siátol. Dizia que
lamentava muito mas que Imogênia nunca poderia ser feliz a seu lado, agora que
conhecia a verdade. Imogênia se recusou a acreditar, mesmo assim. Ficou
desolada, se afastou de todo mundo. Não saiu, nem pra ser a dama-de-honra em
meu casamento.
McCabe continuava controlando firmemente a paciência e o pensamento.
— Como o queixo de Jack foi fraturado? Como perdeu todos os dentes?
— Aconteceu quando tinha 19 anos. Um cavalo lhe desferiu um coice na cara e
infeccionou. Teve de usar dentes postiços. Sendo muito jovem, era sensível a

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
respeito e preferia manter segredo. — Parou de falar de repente, os olhos e a boca
se arregalando. — Santo-deus! Não podes estar pensando que aqueles ossos
encontrados nesta manhã...
McCabe se apressou em a interromper:
— Senhora Warner, eu agradeceria se não comentasses enquanto não houver
certeza.
Hesitou por um instante, antes de indagar:
— Por que te mantiveste calada nesta manhã, no local?
— Porque não me ocorreu. Afinal, houvera aquele, telegrama de Jack, como se
ele estivesse vivo. Achas mesmo...
— Não tenho certeza sobre os ossos. — Disse McCabe, esperando que seu rosto
não denunciasse a mentira — A possibilidade acaba de me ocorrer agora. Não
tinha pensado antes algo nesse sentido?
As feições rechonchudas e simpáticas de senhora Warner ficaram coradas.
— Quem não está falando e especulando sobre os Hammond e tudo o que
aconteceu hoje? Acho que não deveríamos, pois não estamos a par dos fatos. Acho
que não posso culpar Verne por ter me chamado de velha fofoqueira quando tentei
puxar conversa a respeito, na hora em que foi almoçar, um pouco atrasado. Ele está
bastante transtornado com essa história. Envelheceu 10 anos. Gostava muito dos
Hammond. Depois que chegou àqui, procurando trabalho, antes de ficarmos
noivos, muitas vezes saíamos os quatro juntos: Jack e Imogênia, ele e eu...
— E não quer falar a respeito. — Disse McCabe. — Obrigado pelo favor,
senhora Warner.
— Mas não te prestei favor!
Ela riu, oferecendo um copo de papelão cheio de amendoim. O pensamento de
McCabe estava bastante confuso quando saiu ao carro.
Foi descendo lentamente na rua Principal. O escritório de Warner estava escuro
mas havia uma luz acesa no consultório de doutor Collier, um pouco mais adiante.
McCabe entrou. O dentista e Knapperman, entre caixas de fichas dentárias,
pareciam tão cansados quanto ele se sentia.
— Experimentes Tilliman, Jack. — Disse McCabe. Doutor Collier leu
rapidamente os nomes na frente das caixas. Encontrou o nome procurado e
removeu as caixas de cima. Folheou rapidamente as fichas e retirou uma. A
examinou rapidamente e depois exclamou:
— Bem na mosca! Knapperman descansou, acocorado.
— Obrigado por nos poupar todo o trabalho, Mac. Mas aonde iremos agora?
— Procurar Verne Warner.
— Posso te poupar a viagem. — Disse Verne Warner, do corredor escuro.
McCabe se virou rapidamente.
— Não te preocupes, Mac. — Acrescentou Warner, a voz cansada. — Sei que
não posso dominar vós três.
Se encostou na soleira da porta, respirando fundo.
— Observei do escritório durante toda a tarde e princípio da noite, sentindo e
sabendo que estavas te aproximando. Eu não deveria ter perdido a cabeça nesta
manhã. Seria melhor que deixasse Fred Schmidt em paz. Afinal só poderia falar
sobre os dentes de Jack. Ele... ninguém poderia adivinhar algo, não com todos os
Hammond mortos.
— Com exceção talvez duma pessoa. — Sugeriu McCabe.
Verne Warner murmurou e sacudiu a cabeça.
— Agnes poderia adivinhar que foi Jack quem encontraste nesta manhã. Mas

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
nada mais descobriria. Somente Imogênia poderia adivinhar mas está morta.
Deveria ter me lembrado de tudo isso. Não podia perder a cabeça.
McCabe respondeu a sua própria pergunta com outra:
— O que Imogênia poderia ter adivinhado? Estavas esperando te casares com
ela?
Verne Warner fechou os olhos.
— Era tempo difícil. Eu estava sem dinheiro, não tinha emprego que durasse.
Seus pais tinham dinheiro. Pensei que sentisse algo por mim, mas acho que estava
apenas me usando pra se certificar de Jack, a quem conhecia desde criança. Jack e
eu acabamos tendo uma discussão por causa dela. Ficamos cada vez mais furiosos.
Saíramos pra caçar coelho e...
— Deste um tiro nele e depois removeste tudo o que pudesse permitir a
identificação. — Interveio McCabe. — Mas não sabias das dentaduras. O
enterraste num dos campos dos Hammond, sabendo que dificilmente seria arado.
— Há mais de 30 anos. — Murmurou o corretor. — Esqueci onde o pusera, até
que o desenterraram nesta manhã. Sabia que era ali, mas esperava...
Tornou a sacudir a cabeça.
— Há mais de 30 anos. Acho que Imogênia nunca falou a Agnes a respeito de
meu sentimento. Mas também não tinha do que desconfiar, depois que enviei o
telegrama com o nome de Jack, de Siátol. E nada do que fiz adiantou. Ela parou de
me ver, parou de ver Agnes. Nem foi a nosso casamento.
Fiquei com medo, até Imogênia morrer, de que retomasse a amizade com Agnes.
E se elas somassem dois mais dois...
McCabe se sentia extremamente cansado.
— Acabei de conversar com tua esposa. Nada desconfia ainda.
— Eu torcia pra que não desconfiasse. — Verne Warner fitou McCabe nos
olhos. — Poderias deixar assim?, Mac.
— Verne, cometeste dois assassínios. — Disse McCabe, falando bem devagar.
— Talvez eu não pudesse fazer muita coisa em relação a Tilliman sem tua
confissão. Mas serás levado a julgamento por ter matado doutor Schmidt.
Doutor Collier assentiu, sombriamente.
— Não, Mac. Não teu tipo de julgamento. — Murmurou Verner Warner. — Já
me submeti a meu julgamento.
Respirando com dificuldade, levou a mão à barriga e começou a cair. McCabe o
segurou, o ajudando a descer até o chão.
— Que veneno tomaste? Knapperman, chames doutor Coolidge.
— Não. — Balbuciou Verne Warner, a voz engrolada. — Tarde demais pra ele.
Mas Mac, tentes, por favor, por Agnes.
Uma e meia hora depois terminou uma conferência no consultório apinhado de
doutor Collier. Além de McCabe, o dentista e Knapperman, lá estavam o prefeito,
o médico legista e doutor Coolidge.
— Nunca se conhece direito as pessoas. Não é? — Comentou prefeito Bronson,
suspirando. — Um cidadão eminente, esteio da igreja e...
— E Agnes. — Murmurou doutor Coolidge. — Feliz no casamento e nunca
desconfiando. Será um choque e tanto.
— A morte, sob qualquer forma, é sempre um choque. — Disse McCabe. —
Então estamos todos de acordo? Foi demais pra Verne Warner, ajudando a
esclarecer o caso?
— Agnes sabe que há algum tempo insisto pra ele descansar. — Lembrou
doutor Coolidge.

28
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
McCabe olhou, inquisitivo, a Doe Bigbee, o médico legista.
— No que nos diz respeito, os dois crimes estão solucionados. Divulgar os fatos
só causará prejuízo a pessoas inocentes. Sendo assim... hum... Está certo.
Declararei, publicamente, que o esqueleto encontrado nesta manhã não pode ser
reconhecido. E quanto a doutor Schmidt...
McCabe interveio:
— Provavelmente estava enchendo o lampião com gasolina pra sair numa
pescaria. A gasolina pegou fogo de repente e aspirou o vapor. Quando os
bombeiros chegaram a casa inteira já estava em chama.
Knapperman falou, hesitante:
— Conseguiremos manter todos os fatos em segredo, em benefício de senhora
Warner?
Doutor Collier assentiu. McCabe presenteou Knapperman com um rápido
sorriso.
— Quem não se mantiver calado poderá descobrir que o caso lhe proporcionou
alguns dentes quebrados.
Rangendo os próprios dentes, mas não se sentindo muito cansado, McCabe saiu
pra transmitir a Agnes Warner a notícia de que seu marido sofrera um ataque
cardíaco fatal.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

A essência da justiça
Hal Ellson

O
caixão era simples, rematado na oficina de Carlos Martínez, sem enfeite, a
madeira nua, pinho macio. A implacável luz solar o fustigava enquanto os
homens o carregavam na rua miserável, pisando a poeira, as pedras e a
luminosidade dispersa das cascas de tangerina murchando ao sol.
Um dia de fogo mas naquela terra de sol permanente era comum. Não mais que
a morte, os pobres, nos barracos e cabanas de adobe, sofriam o flagelo com terrível
freqüência. Os enterros eram comuns e todos do mesmo tipo. Um caixão de pinho
simples pro falecido, quatro homens pra o carregar e um pequeno grupo de gente
acompanhando.
Uma vasta multidão acompanhou o caixão de Rosa Belmonte, a terceira garota
na cidade a morrer violentada. Cachorros famintos, com as costelas expostas,
crianças e mendigos, entre a multidão, emprestavam ao cortejo um ar carnavalesco
que se diluía nos rostos sombrios dos adultos e no silêncio abafado sob o qual a
raiva aguardava a erupção.
A polícia o pôde sentir, um fotógrafo de jornal o fixou com sua objetiva. O
detetive Fiala estava consciente do fenômeno mas despreocupado com a multidão
como tal. Seus olhos procuravam apenas um homem, o assassino, que podia estar
espreitando ali, por sentimento de culpa ou disposição mórbida.
Nenhum rosto lhe atraiu a atenção, até que divisou a limusine, com a multidão
se dividindo em torno. O chefe de polícia, José Santiago, estava sentado ao lado do
motorista, o rosto estufado e moreno, óculos escuros escondendo os olhos azuis
incongruentes, que pareciam pedras gêmeas e refletiam a natureza básica do
homem.
Sem o uniforme poderia ser o homem que estou procurando, pensou Fiala, se
virando e seguindo com a multidão soturna, que se recusava a tomar conhecimento
da violência extrema do sol.
O funeral transcorreu sem incidente e a polícia ficou aliviada, o chefe Santiago
satisfeito. Seu motorista o levou de volta ao prédio da municipalidade, onde ficava
a prefeitura.
O telefone tocou no instante em que entrou na sala, acompanhado por capitão
Torres. Atendeu, escutou um momento e depois dispensou capitão Torres, com um
aceno de mão. Franzindo o rosto agora, falou com o interlocutor, Vítor Quevedo,
prefeito da cidade e aquele que o fizera. Os dois eram, de certa forma, amigos mas
a conversa foi rigorosamente profissional.
O assassínio de Rosa Belmonte, com o assassino solto, como acontecera nos
dois casos anteriores, acarretara severas críticas à polícia, que refletiram em
Quevedo, o expondo às maquinações dos inimigos políticos. Era essa a essência da
queixa de Santiago, junto à exigência brusca de que fizesse algo depressa.
— Fazer o quê? — Perguntou Santiago.
— Encontres o assassino antes da meia-noite.
Atônito, Santiago hesitou, balbuciou algo incompreensível e finalmente
conseguiu dizer:
— Mas, Vítor...
Quevedo o interrompeu rudemente:
— Estou ficando embaraçado, politicamente e de todas as outras formas. Se
queres continuar chefe de polícia descubras o assassino. Se não, estarás liquidado.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Suando profusamente, Santiago desligou e se arriou na cadeira. Lentamente, as
mãos trêmulas, acendeu um cigarro e dispersou uma nuvem de fumaça. O
pensamento eram um caos, o rosto moreno parecia inchado a pique de estourar.
Mas, pouco a pouco, a agitação interior foi se reduzindo. Atrás dos óculos escuros
os olhos frios se iluminaram, enquanto um rosto entrava em foco em sua mente.
Esmagou o cigarro, se levantou, abriu a porta, chamou capitão Torres e lhe deu
a ordem:
— Prendas Manuel Domingo pelo assassínio de Rosa Belmonte.
As atividades criminosas de Manuel Domingo eram há muito conhecidas da
polícia... mas assassínio? Capitão Torres franziu as sobrancelhas em surpresa.
— Tens certeza de que é o homem certo?
— Está duvidando de mim ou de minha fonte de informação? — Indagou
Santiago, confirmando a autoridade e insinuando que o telefonema que acabara de
receber fora a voz dum informante de confiança.
Capitão Torres corou e recuou até a porta, donde disse:
— Prenderei Manuel Domingo pessoalmente.
Às 9h daquela noite um céu negro ameaçava a cidade e os jacarandás se
agitavam a um vento irregular que soprava das montanhas, onde os relâmpagos
amarelados riscavam os céus vazios. Atrás do prédio da municipalidade, quatro
bares estavam virados à praça, vozes elevadas emergindo de cada um.
A noite de sábado estava começando e os músicos se refestelavam nos bancos
da praça, garotos descalços engraxavam sapato, vendiam rosa vermelha como
sangue e branca como pomba, em bandeja de papelão, esquecendo Rosa Belmonte,
como todo mundo.
Foi nesse cenário que capitão Torres chegou com três de seus homens, depois
duma busca intensa e infrutífera em todos os pontos habituais do criminoso
Manuel Domingo.
Capitão Torres estava convencido de que Domingo fugira da cidade quando
seus olhos, por acaso, se viraram na direção dum banco em que dois garotos
disputavam o privilégio de engraxar o sapato de detetive Fiala.
Concedendo um sapato a cada engraxate, Fiala levantou os olhos pra confrontar
capitão Torres e seus três homens.
Os homens eram inócuos, enquanto capitão Torres era um garotinho arrogante.
Só que não era essa sua atitude agora. Ele precisava de ajuda e Fiala, a quem
desprezava e que o desprezava, poderia fornecer a informação de que precisava tão
desesperadamente. Torres anunciou:
— Estou procurando Manuel Domingo. Sabes, por acaso, o paradeiro?
Com um sorriso desdenhoso, Fiala acenou, com a cabeça, a um bar no outro
lado da rua.
— Manuel Domingo está lá dentro. O prenderás?
— Pelo assassínio de Rosa Belmonte. — Respondeu capitão Torres, se virando
em seguida.
Fiala continuou sentado onde estava. Meio minuto depois, Manuel Domingo
passou a porta do bar, no outro lado da rua, acompanhado por capitão Torres e seus
três homens. Todos os cinco atravessaram a praça e entraram no prédio da
chefatura.
Contrafeito, Fiala jogou longe o cigarro e olhou o grupo de homem que saíra do
bar no outro lado da rua. A ira ressoava em suas vozes, a notícia se espalhou
rapidamente na praça: Manuel Domingo fora preso pelo assassinato de Rosa
Belmonte.

31
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Sob o céu negro e furioso uma multidão começou a convergir à chefatura de
polícia. Mas era tarde demais pra dar vazão ao sentimento, pois o breve
interrogatório de Manuel Domingo já fora concluído. Protegido pela polícia, saiu à
calçada e foi rapidamente introduzido num carro esperando.
Chefe de polícia Santiago e o capitão Torres embarcaram num segundo carro.
Com uma escolta de 10 motociclistas os dois carros partiram ruidosamente ao local
do crime, no deserto, a vários quilômetros da cidade.
Os veículos não demoraram a o alcançar, os faróis ofuscantes dos carros e
motocicletas focalizados numa iúca4 alta ao lado da estrada. Fora ali que Luís
Espina, que colhia fibra de planta do deserto, encontrara o corpo de Rosa
Belmonte.
Quando Manuel Domingo saiu do carro o rosto assumiu expressão
fantasmagórica, talvez por causa dos faróis, talvez por medo, estando no local do
crime. O que quer que sentisse, nada disse. Parecia atordoado.
Uma ordem brusca de capitão Torres fez os guardas se espalharem num
semicírculo, empunhando as armas, a fim de prevenir tentativa de fuga. Isso feito,
capitão Torres foi avançando na beira da estrada, junto a Santiago e Manuel
Domingo. Se postou ali, obedecendo a uma ordem, enquanto o prisioneiro e
Santiago continuavam até a iúca.
Manuel Domingo se virou e falou em primeira vez desde que entrara no carro.
Estava apavorado, o céu negro parecia cada vez mais ameaçador, não confiava em
Santiago.
— Me tires desta enrascada!
— Cales a boca, seu idiota! Isto não passa de rotina. Foste acusado.
— Quem me acusou? Digas quem foi!
— Cales a boca e prestes atenção.
Manuel Domingo obedeceu. Seu peito arfava, o queixo estava erguido. De
repente, saiu correndo, numa tentativa de escapar. Calmamente, Santiago disparou
da altura do quadril.
Domingo parecia estar correndo no ar. O peso do corpo o levou a diante, depois
as pernas vergaram e se estatelou no chão do deserto.
Momentos depois Santiago estava postado por cima dele, disparando outro tiro,
enquanto os demais se aproximavam.
A noite negra envolveu o cenário desolado, enquanto os veículos voltavam à
cidade. Santiago olhou o relógio no painel e se recostou. Ainda era muito cedo, o
problema já estava acertado. O prefeito não mais teria motivo pra ficar
embaraçado. Enquanto Santiago sorria a si mesmo, capitão Torres se virou e disse:
— Oficialmente, sabemos agora que Manuel Domingo era culpado de assassinar
Rosa Belmonte. Mas...
— Achas que não matou a garota?
— O senhor acha?
— Não.
— Então por que a tentativa de fuga?

4
Iúca, iúca (Yucca filamentosa): sf Gênero de plantas ornamentais da família das liliáceas, da América. Permanece sempre verde e
não perde as folhas a cada ano. Existem muitas variedades de iúca. Arbusto perene do gênero iúca (Yucca), com cerca de 40
espécies, nativa da América Central e do sul de Eua. As folhas sempre verdes, em forma de espada, nascidas em
verticílios terminais, são resistentes, macias e geralmente têm um espinho agudo no topo, como seus parentes da família agaviácea
(Agavaceae), o sisal e a pita. As flores brancas, em forma de sino, que formam espigas densas que chegam a 2m de comprimento,
têm associações simbióticas notáveis cum tipo de inseto (Tegeticula maculata). Não confundir com o jucá (Caesalpinia ferrea Mart),
cesalpinácea. Árvore mediana, comum na Amazônia mas originária do nordeste do Brasil. Nota do digitalizador
http://www.kinghost.com.br/, http://pt.wikipedia.org/wiki/I%C3%BAca e http://alcoasis.tripod.com/plantas2.htm

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Eu lhe disse que não poderíamos o proteger da multidão, que eu daria
cobertura pra fugir, pois sabia que era inocente.
— Mas atiraste nele.
Santiago ajeitou um cigarro nos lábios.
— Não tive opção.
Acendeu o cigarro, enquanto o comboio prosseguia às luzes da cidade.
No início da manhã o corpo do assassino Manuel Domingo, nu, a exceção do
lençol que cobria a parte inferior, estava estendido numa mesa comprida, sob uma
árvore, numa pequena praça, perto do centro da cidade, pra que todos vissem e se
acautelassem. As moscas chegaram com o calor, a claridade trouxe as multidões.
Durante o dia inteiro os habitantes da cidade desfilaram junto ao cadáver. O
corpo foi retirado ao anoitecer, sem ter alguém pra o chorar.
O caso poderia ter acabado ali, enterrado com Manuel Domingo, se não fosse
detetive Fiala, que tinha certeza duma coisa: Domingo não matara a garota. Com o
assassino ainda solto, Fiala intensificou a investigação, que logo provou ser
frutífera. Foi ao prédio da municipalidade e pediu pra falar com prefeito Quevedo.
Foi informado de que o prefeito saíra pra almoçar com vários homens de muita
importância.
Obtendo o nome do restaurante, Fiala foi até lá, se sentou à mesa ao lado e se
inclinou, dizendo, em voz baixa, pra que somente Quevedo ouvisse:
— Precisamos falar por um momento. Tenho um assunto que pode ser de grande
importância pessoal pra ti.
A atitude era tão solene que Quevedo prontamente assentiu. Depois que ele e
seus companheiros terminaram de comer, o prefeito arrumou uma desculpa pra
permanecer no restaurante e foi se sentar à mesa de Fiala.
— Mas qual é essa questão tão importante que me diz respeito pessoalmente? —
Perguntou ele, na maior ansiedade.
— É importante demais pra ser discutida aqui.
— Neste caso, vamos a meu gabinete.
Fiala assentiu. Os dois se levantaram e saíram na porta. Poucos minutos depois
estavam sentados frente a frente, nos dois lados da mesa de Quevedo, toda
esculpida a mão. O prefeito ofereceu um cigarro. Fiala recusou e apresentou o
caso, informando bruscamente que o chefe de polícia assassinara Rosa Belmonte.
— Uma acusação muito grave. — Disse Quevedo, empalidecendo. — Podes
provar?
Fiala assentiu e relatou como fora procurar Luís Espina, o colhedor de fibra que
encontrara o corpo da garota morta. Com uma sucessão de perguntas hábeis,
conseguira fazer com que o velho acabasse revelando que testemunhara o crime.
— Se isso é verdade, por que Espina não se apresentou antes pra fornecer a
informação?
— Não podia porque não reconheceu Santiago no momento do crime. Sabia
apenas que o assassino guiava um cadilaque azul e branco. Isso era significativo.
Continuei o interrogando e deu uma descrição nítida do motorista, embora não
fornecesse a identidade. Só chegou a isso depois, quando o pressionei. Confessou
que presenciou o espetáculo da noite passada. Viu Santiago matar Manuel
Domingo. Foi nessa ocasião que o reconheceu como o assassino de Rosa
Belmonte.
Quevedo assentiu e disse:
— A palavra dum velho confuso. O depoimento não resistiria num julgamento.
Além do mais, Domingos admitiu a culpa no local do crime, ao tentar escapar.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Admitiu sua culpa? — Fiala sorriu e sacudiu a cabeça. — Esse era o único
fato que eu sabia com certeza desde o começo: Que não era culpado. Manuel
Domingo não poderia ter matado Rosa Belmonte. Não estava na cidade naquele
dia. Sei disso porque o segui até São Rafael, na tentativa de o prender numa de
suas atividades ilegais, o tráfico de marijuana. Ficou num bar em São Rafael até a
noite mas seu contato não apareceu. Talvez soubesse que eu o seguira. Seja como
for, a operação não se consumou. Voltou à cidade às 9h. Nessa altura Rosa
Belmonte já estava morta.
Quevedo já estava convencido da veracidade da acusação de Fiala, mas ainda
havia algo que não estava muito claro.
— Por que Santiago escolheu Domingo pra vítima?
Fiala tornou a sorrir e esclareceu a questão.
— 1 — Disse, erguendo um dedo. — A reputação de Domingo era péssima, a
acusação correspondia a seu caráter. 2, Santiago e Domingo eram sócios. Domingo
controlava a zona do meretrício, com a ajuda de Santiago. Discutiram por causa de
dinheiro. Santiago disse que Domingo o estava roubando. E provavelmente estava
mesmo. Assim, Santiago achou duplamente conveniente o eliminar.
Quevedo assentiu mais uma vez. Estava tudo claro agora. Claro até demais.
Franziu o rosto, empalideceu. Se revelado, o ato terrível de Santiago ameaçaria sua
própria posição. Apavorado, seus olhos se encontraram com os de Fiala. O detetive
lera seus pensamentos e compreendia sua situação difícil.
— Claro que Santiago deve ser levado à justiça mas o prender o deixaria numa
situação terrível.
Bastante abalado, Quevedo assentiu. Mas ainda estava alerta. A declaração de
Fiala insinuava mais do que dizia.
— O que sugeres? — Indagou Quevedo.
Fiala passou a língua no lábio inferior.
— Fales com Santiago. Apresentes os fatos.
— E se os negar?
— Se isso acontecer, digas que será preso. Depois do que aconteceu... — Fiala
fez uma pausa, dando de ombros. — não poderás garantir sua segurança contra a
multidão. Tenho certeza de que entenderá.
— Entender o quê?
— O chames e verás.
Quevedo olhou o telefone e hesitou, dando a Fiala a oportunidade de se
levantar.
— Tomarei um café. Estarei de volta daqui a pouco.
Deixou Quevedo sozinho pra transmitir o terrível recado. Fiala voltou 10
minutos depois ao escritório do prefeito. Quevedo ainda estava transtornado. Nada
disse. Fiala se sentou e estendeu a mão ao maço de cigarro. O telefone tocou nesse
momento. Quevedo atendeu, escutou um momento, repôs o fone ao gancho e
anunciou:
— Santiago acaba de se matar com um tiro.
Tendo previsto isso, Fiala se limitou a dar de ombros e comentar:
— Era óbvio. Não tinha opção.
Nessa altura Quevedo via Fiala sob uma nova luz. O homem era
excepcionalmente esperto e o salvara de seus inimigos.
— Sou agora teu devedor. — Disse ele.
— Foi nada. — Murmurou Fiala.
— Claro que sou. — Insistiu Quevedo. — Além do mais, não tenho um chefe de

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polícia. Aceitarias o cargo?
Fiala sorriu e, pra consternação de Quevedo, sacudiu a cabeça.
— Mas por que não? — Disse o prefeito. — Não estou entendendo. Penses no
que significa ser o chefe de polícia.
— Nesta cidade significa ter muito poder... e o poder corrompe.
— Poderia te corromper?
— Sou feito de carne e osso. Talvez pudesse, embora eu duvide muito.
— Então por que recusas?
— Porque o trabalho não me interessa. É apenas isso. Nada mais.
Fiala se levantou e acendeu um cigarro, encaminhando se à porta. Ainda
aturdido, Quevedo o observou em silêncio um instante, antes de dizer:
— Mas deves querer algo. O que estou devendo?
A mão na maçaneta, Fiala se virou.
— Nada. Apenas sejas mais cuidadoso ao escolher o novo chefe de polícia.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

Um favor
Stephen Wasylyk
— Escutes, senhor Stoneman. — Disse a voz. — Soube que alguém está
pagando um bom dinheiro pra cuidar dum cara chamado Scott, que trabalha no
aeroporto. Não me disseste que era teu amigo?
Meus dedos começaram a rabiscar e desenhar um crânio e ossos cruzados, no
bloco de anotação. Era extremamente improvável que alguém quisesse matar Scott,
mas a voz arquejante e pontuada de fungadela jamais errara.
— Digas quem, Fanhoso.
— Não sei. Te devo um favor e estou pagando. É só isso. Continues a partir
deste ponto, cara.
O telefone ficou mudo. Me recostei na cadeira, os nervos do estômago
contraídos. O veranico chegara à cidade, o sol convertia o nevoeiro perpétuo numa
neblina dourada. Até o telefonema de Fanhoso, fora um dia sossegado e agradável.
Agora, eu tinha de entrar em ação depressa, mas me sentia como um cego solto de
repente numa sala que não conhecia.
Um pombo pousou no peitoril da minha janela, esticou a cabeça em minha
direção alguns segundos, concluiu que um advogado de aparência preocupada, na
meia-idade, não era tipo que costumava distribuir milho e se afastou voando. O
observei descrever uma curva graciosa pra descer.
Há 22 anos, numa tarde ensolarada e nebulosa similar, eu mergulhara tão
graciosa e estupidamente como aquele pombo. Jorge Scott abatera um ME-109 que
estava em minha cauda, uma dívida que eu nunca tivera a oportunidade de pagar.
Se Fanhoso Grogan me devia um favor o mantendo fora da prisão, eu certamente
devia outro favor a Scott por algo muito mais importante.
Apertei o botão de minha linha particular e disquei a Scott Flying, no aeroporto
municipal. A voz de Scott estava divertida:
— A telefonista disse que és João Stoneman mas não posso acreditar. Conheci
outrora um João Stoneman, mas há mais de um ano que não falo consigo. Acho
que foi abatido a tiro por um marido irado.
— A mulher com quem te casaste não quer o marido se relacionando com um
solteirão indecoroso. — O crânio e os ossos cruzados no bloco me fitavam. —
Como vão as coisas, Scott? Alguma novidade?
— Não. A mesma rotina de sempre: Um dia após outro. Se o tempo está bom
voamos. Se não está vamos até casa e fico me preocupando com o dinheiro que
estou perdendo.
— Nada aconteceu de excepcional?
— O que chamas de excepcional?
A voz de Scott estava agora um tanto perplexa.
— Aconteceu na semana passada algo que nunca ocorrera antes?
— Aconteceu mesmo. Um idiota quis me comprar a companhia. Não há
possibilidade. Passei 20 anos desenvolvendo a firma e só agora, que a situação está
boa, posso me sentar e desfrutar o lucro sem muito trabalho.
— Quem queria comprar?
— Não sei. A oferta foi apresentada por intermédio dum advogado chamado C.
J. Mathews, um homenzinho gordo e careca, de olhos astuciosos.

36
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Conheço o homem. Mais algo fora do normal?
— Tive lucro na semana passada, embora o tempo estivesse ruim.
— Não saias daí. Voltarei a telefonar a ti.
— Ei, esperes um pouco! Não podes ligar a mim uma vez por ano, fazer uma
porção de perguntas estúpidas e depois desligar!
— Claro que posso. Escutes só.
Desliguei e depois chamei minha secretária.
— Me ligues a um advogado chamado C. J. Mathews.
Me recostei pra pensar. Scott era um homem tranqüilo e popular. Um herói de
guerra recompensado pela cidade, há muito tempo, com um arrendamento a longo
prazo pra operar seu serviço de vôo no aeroporto municipal. Um cidadão
trabalhador e compenetrado. Um improvável candidato a ser assassinado.
O telefone tocou e me apresentei a Mathews como o advogado de Scott. Não
estava autorizado a revelar o nome do cliente interessado na Scott Flying e a oferta
fora retirada. Anotei mentalmente um ponto pra Stoneman, sabendo que uma oferta
legítima jamais seria retirada tão depressa.
O relógio na mesa passou das três e meia. Empurrei a cadeira a trás e me
encaminhei à sala ao lado.
Mathews não podia me revelar quem era seu cliente, mas nada havia que me
impedisse de descobrir por conta própria.
Bati de leve e abri a porta. O velho cavalheiro se virara à janela e ao sol quente,
se refestelara confortavelmente na cadeira, cruzara as mãos sobre a barriga e
acabara adormecendo. Bati em seu ombro. Um olho se abriu.
— Não podes provar, além duma dúvida razoável, que eu estava dormindo.
— Mas posso oferecer uma forte argumentação.
O nome era Martin Chetkos, o homem que me pegara diretamente na faculdade
de direito e me ensinara tudo o que sabia sobre direito criminal, o que não era
pouca coisa. Como recompensa por eu ter aprendido tão bem, me fizera seu sócio e
me deixava cuidar de todo o trabalho, enquanto repousava seus 70 anos na
confortável cadeira de couro e fazia crítica.
— C. J. Mathews, de Mathews, Crane etc. O culpes por isso. É um grande
homem?
— É, sim.
— O cliente teria de ser importante pra que procurasses pessoalmente um amigo
meu, com uma oferta pra comprar sua firma. Não é?
Os olhos de Martin Chetkos se estreitaram, brilhando de interesse.
— Seria razoável supor que se trata do cliente mais importante da firma, um
homem chamado Bessinger. Tentou comprar a firma de teu amigo?
— É essa a pressuposição.
Falei do telefonema de Fanhoso Grogan e de minha conversa, via telefone, com
Scott. Se empertigou e coçou o nariz, um gesto automático quando está satisfeito
ou excitado.
— Creio que tua pressuposição é válida. Pegues teu chapéu. Meu motorista nos
levará. Me recuso a andar nessa atrocidade estrangeira desconfortável e
espalhafatosa que chamas de automóvel.
— Aonde iremos?
— Falar com Scott. Creio que está numa encrenca mas provavelmente não
quererá te ouvir, já que é teu amigo. Mas me escutará e sempre me recuso a contar
a mesma história duas vezes.
Durante a viagem de meia hora ficou sentado com um vestígio de sorriso no

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
rosto, murmurando, em determinado momento, algo que parecia Tudo acontece a
quem espera.
Chetkos foi quase rude no escritório de Scott. Se acomodou na cadeira dele,
assumiu o comando da conversa, as mãos cruzadas sobre a bengala, os dedos
tamborilando incessantemente. Fez um gesto a mim.
— Digas a senhor Scott por que estamos aqui.
Dei a informação e Scott riu. Chetkos ergueu um dedo encarquilhado.
— Não rias, senhor Scott. A fonte de senhor Stoneman é de confiança. Alguém
tenciona te matar. Alguma vez já te encontraste com senhor Bessinger?
Scott sacudiu a cabeça.
— Penses bem, senhor Scott. Bessinger é um homem baixo, de cabelo preto e
liso, olhos pretos e bem chegados, voz estridente. Parece ter tua idade, embora seja
20 anos mais velho. A roupa é sempre dum cinza-escuro.
Scott estalou os dedos.
— O cara da semana passada! — Olhou a mim. — Te lembras de que falei que o
tempo estava péssimo? Estava tão fechado numa manhã que nada podia sair do
solo. Mas ele queria voar a algum lugar, de qualquer maneira. Tentei explicar que
não podia, mesmo que conseguisse encontrar a pista. Mas era como se eu estivesse
falando a uma parede. Ficou dizendo, o tempo todo, que eu indicasse o preço que
queria.
— O que disseste a ele?, senhor Scott.
Chetkos dava a impressão de que já conhecia a resposta.
— O que mais eu podia dizer? Falei que ele estava doido. Chetkos deixou
escapar um longo suspiro.
— Eu sabia que devia ser algo assim. Te direi a respeito de Bessinger, senhor
Scott. A família Bessinger tem uma longa história de distúrbio mental. O pai foi
internado num sanatório e a mãe se matou quando ele ainda era pequeno. Ele
cresceu com o apelido de Louco Bessinger. Um dia brigou e matou outro menino
que o chamara assim. Foi considerado homicídio involuntário e acidental. A esposa
morreu há 20 anos, em circunstância que nunca foi muito bem explicada.
O dia quente estava quase terminando, as nuvens bloqueando o sol. O ar na
janela do escritório parecia subitamente frio.
— Houve muitas histórias a respeito dele, ao longo dos anos. — Continuou o
velho, calmamente. — Nunca foram confirmadas, é claro. Contarei uma, já que a
situação é similar. Bessinger e eu outrora pertencemos ao mesmo clube. Numa
noite, no calor duma discussão sobre política, um homem chamou Bessinger de
maluco. Poucos dias depois recebeu uma oferta pra vender sua companhia. Era tão
atraente que não podia recusar. Mas jamais recebeu toda a quantia acertada. O
comprador era Bessinger. Se recusou a pagar, obrigando o homem a o levar ao
tribunal. Era justamente o que Bessinger queria. Podia se dar ao luxo de sustentar
uma batalha judicial durante anos e foi o que fez. O homem finalmente ganhou o
julgamento, cinco anos depois mas foi morto na noite seguinte, por um assaltante,
quando atravessava um estacionamento.
— Estás querendo me dizer que esse homem sai matando as pessoas que o
chamam de maluco?
Scott estava obviamente cético.
— Estou dizendo apenas que acontecem coisas às pessoas que chamam
Bessinger de maluco.
— Como consegue escapar impune?
— Planejamento e dinheiro. — Respondeu Chetkos. — Senhor Stoneman te

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
poderá dizer que há uma grande distância entre suspeita e prova.
— Ora, senhor Chetkos, se o que dizes é verdade, ele seria responsável por
muitos assassínios. Acho isso muito difícil de acreditar.
— Não falei que era necessário que Bessinger matasse essas pessoas. Tenho
certeza de que na maioria das vezes se contentou em as arruinar. Mas mesmo que
as tivesse matado, isso não deveria te espantar. Costumas ler jornal. Sabes que
houve caso em que alguém, sem motivo aparente, matou seis ou oito pessoas
inocentes, às vezes até uma dúzia. Bessinger é tão diferente assim?
Scott sacudiu a cabeça.
— Ainda não posso acreditar.
— Examines teu caso, senhor Scott. Acreditamos que Bessinger tenciona
mandar te matar. Contudo não formulou ameaça aberta, não efetuou ato pra te
fazer desconfiar. Suponhamos que te acontecesse um acidente. Quem o poderia
ligar a um homem que te falou apenas uns poucos minutos, um homem cujo nome
nem sequer sabias?
Scott nada respondeu. Disse Chetkos, gentilmente:
— Estás vendo? Agora acreditas em mim.
— O que devo fazer? O procurar e pedir desculpa? Chamar a polícia?
— Nenhuma das duas coisas. Um pedido de desculpa seria ignorado. Além do
mais as engrenagens já foram acionadas. A polícia não pode ajudar, pois nenhum
crime foi cometido até agora.
— O homem deveria ser internado num manicômio. — Murmurou Scott.
— Há 40 anos, senhor Scott, que eu e uns poucos outros procuramos alguém pra
proporcionar o motivo e assinar os documentos.
— E por isso devo me apresentar como um pato pra ser abatido numa galeria de
tiro-ao-alvo? — Comentou Scott. Chetkos se virou a mim.
— Posso presumir que teu cérebro analítico já está em funcionamento?
— Até certo ponto. — Respondi. — 1º: Se Bessinger contratou alguém, as
chances são de que tenha determinado que deve parecer um acidente. Não quereria
um homicídio ostensivo e a conseqüente investigação. 2º: Mesmo que fosse lógico
fazer Scott cair durante um vôo, há três problemas nisso. Ele precisaria dum
especialista, a administração federal de aeronáutica se envolveria e, quase
certamente, a cidade ficaria muito interessada no caso, já que Scott opera dum
prédio municipal. Creio que podemos excluir tudo acontecendo aqui ou
relacionada a vôo, pois seria perigoso demais pra Bessinger. 3º: A outra base fixa
da qual Scott opera e onde pode ser sempre encontrado é sua casa. Não creio que
assassino em potencial disponha de tempo ou vontade pra seguir Scott em toda
parte, esperando a melhor oportunidade. Portanto, eu diria que procurará Scott em
sua própria casa. Quarto, uma projeção lógica seria a de que tentará o mais
depressa possível, já que não há sentido em esperar. Talvez mesmo nesta noite.
Parei um instante pra respirar e depois rematei:
— Achas que foi uma análise penetrante?
— Superficial no máximo. — Disse Chetkos. — Pessoalmente, não creio que
será nesta noite. Tanta pressa não é característica de Bessinger.
Ele se levantou, acrescentando:
— Não vejo motivo pra minha presença continuada. Sugiro que senhor
Stoneman passe esta noite em tua companhia, senhor Scott. Tomará todas as
precauções que se tornarem necessárias. Amanhã providenciaremos uma proteção
mais profissional.
Se virou a mim.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Sempre esperei que a oportunidade de deter Bessinger chegasse enquanto eu
ainda era bastante jovem prà aproveitar plenamente. Mas terás de me substituir
agora. Não confies nalguém. Bessinger não sobreviveu tanto tempo por ser
indiferente ou estúpido.
O acompanhei até o carro. Chetkos parecia cansado, as rugas se aprofundavam
em seu rosto. Comentei:
— Podemos usar o mesmo plano que elaboramos no ano passado, em
circunstância similar, se houver necessidade. Podes dar um jeito pra que meu
revólver seja enviado à casa de Scott? Estou ficando velho presse tipo de coisa.
Precisarei dalgum apoio sólido.
Os olhos cansados me sondaram.
— Tens certeza de que poderás controlar a situação? Sei que tens talento à
violência mas eu preferia que não o usasses pra satisfazer meu próprio desejo de
acabar com Bessinger. Podemos levar senhor Scott a minha casa nesta noite e
arrumaremos um guarda-costa amanhã.
Pensei na minha dívida antiga com Scott.
— Estou fazendo isso por mim. Se fosse qualquer outro que não Scott, a firma
de advocacia Chetkos e Stoneman se comportaria como tal, não como detetives
amadores.
Soltou uma risada desdenhosa.
— Amadores. Não me agrada pensar que algum empreendimento a que eu possa
estar associado seja mesclado de amadorismo.
O observei partir. Em cima um bimotor descia. Alcançou a pista, deslizou
suavemente, diminuiu a velocidade, taxiou em direção a Scott Flying, entrou na
fila. O filho de Scott saltou, obviamente voltando até casa dum vôo fretado.
Meia dúzia de pessoas estavam debruçadas na cerca de arame, ao crepúsculo
que se adensava, observando os aviões. Uma delas olhou a mim, deixou a cerca, se
encaminhou a um carro e foi embora. Algo era vagamente familiar na maneira
como o homem se movera.
Eu ainda estava tentando o situar quando entrei no escritório de Scott.
— Estamos com sorte — comentou Scott.
— É uma declaração irônica, se ainda sou capaz de reconhecer essas coisas.
— Carol não está na cidade. Só voltará amanhã na noite.
— Tens razão. Isso torna tudo mais fácil. A última coisa de que precisamos é de
tua mulher fazendo pergunta.
Um rapaz alto, de 20 anos, passou a porta. Scott acenou a ele.
— Deves estar lembrado de meu filho Bill.
Estendi a mão.
— Tinha 15 anos e era muito menor na última vez em que o vi.
— Como vais?, senhor Stoneman.
O aperto do garoto foi superficial, os olhos permaneceram frios. A opinião que
tinha a meu respeito era, provavelmente, tirada da mãe. Disse ao pai:
— Sairei. Angie e eu temos um encontro e não voltarei a casa depois. Ficarei
em sua casa, a fim de não ter de fazer a longa viagem de volta.
— Está certo — disse Scott. — Precisas de dinheiro?
Uma sombra se insinuou no rosto do garoto, que disse, bruscamente:
— Não. Voltaremos a nos falar na manhã.
Me certifiquei de que já se afastara antes de comentar a Scott:
— Estás tendo problemas consigo.
Scott assentiu.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Desde que essa tal de Angie e mais duas amigas alugaram um avião pra
voltar à universidade, na primavera passada, faz o que quer com Bill.
— Fala como se não gostasses dela.
— E não gosto. Não sou exatamente pobre, mas em comparação com seu pai
não passo dum indigente. O garoto está fora de sua classe. Estava drenando meu
recurso tentando acompanhar o ritmo dela. E tive de pôr um freio na coisa. Tentei
explicar que se ela fosse uma mulher conscienciosa não gastaria tanto o dinheiro
do namorado. Mas ele não encara a situação desse jeito. Assim sou o sovina no
caso. Mas o que faremos agora? Um assassino profissional está supostamente atrás
de mim e tenho um advogado como guarda-costa. O que tencionas fazer? Jogar
teus livros de direito nele?
— Nunca se sabe. — Sorri. — Mas, no final, é o que pode acontecer.
Jantaremos e depois iremos a casa.
Trancamos cuidadosamente a casa de Scott, fechando as cortinas. Só uma
janela, num quarto no primeiro andar, ficou destrancada. Eu queria que alguém
tentando entrar na casa usasse aquela janela, pois armara um alarme anti-ladrão
improvisado: Algumas tachas e um barbante comprido levando a um papel no chão
do escritório de Scott. Se a janela fosse levantada, o papel seria deslocado e Scott e
eu poderíamos chegar lá mais depressa do que alguém conseguiria entrar.
O motorista de Chetkos entregara um embrulho, contendo meu magnum 44, de
cano curto. Scott olhou, aturdido, a arma.
— Por que precisas desse canhão?
— Intimidação. — Examinei a arma e cuidadosamente baixei o cão da arma a
uma câmara vazia. — Um dia um amigo, na polícia, me disse que havia duas armas
que um homem experiente nunca desafia a curta distância: Uma espingarda de
cano cortado, pois é praticamente impossível errar o alvo, e um revólver de grande
calibre, pois a vítima é derrubada mesmo que atingida apenas de raspão. Quando se
dispara esta arma, é sempre pra valer. Espero não ter de usar.
Preenchemos as horas com uma conversa sobre o tempo em que voáramos
juntos e nos anos transcorridos desde então. A conversa minguou quando o relógio
passou de meia-noite. Pouco sono na noite anterior acabou me fechando as
pálpebras. Fiquei parado logo abaixo da vigília, cego mas não surdo, ouvindo sons
familiares, sons amistosos, nenhum prenunciando alguém tentando entrar na casa.
Scott se arriou na cadeira atrás da mesa, olhando fixamente o papel, seu horário
regular como homem casado proporcionando mais resistência ao sono. Mergulhei
num sono um pouco mais profundo, um mundo de sonhos, em que observava Scott,
Chetkos e a mim desempenhando nossos papéis, Scott se recusando a acreditar e
eu lhe gritando que Chetkos sabia o que fazia e que 20 anos de prática na justiça
criminal me ensinaram que pessoas como Bessinger podiam existir, que não
hesitavam em contratar alguém como Deeker Jensen.
Acordei abruptamente, trazendo o nome do sonho, agora sabendo por que me
parecera familiar o homem que eu vira naquela tarde, encostado na cerca, perto do
escritório da Scott Flying.
Deeker Jensen. Eu o vira uma vez, apontado num bar no centro. Um homem pra
se contratar. Um profissional caro, perfeito pra alguém como Bessinger.
Não havia motivo razoável pra que Deeker Jensen estivesse naquela cerca, a não
ser que fosse pra vigiar Scott. Liguei a Chetkos e transmiti a informação, que
disse:
— Podes deixar, pois não esquecerei se algo acontecer.
— É melhor fazer algo mais.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Scott gesticulou freneticamente nesse momento, apontando ao papel se
deslocando lentamente no chão. Falei baixinho:
— Lá vamos nós. Estás pronto? Ouvi um estalido, quando Chetkos ligou o
gravador.
— Vão em frente.
Ajeitei o fone no gancho, sem cortar a ligação. Scott e eu avançamos nos tapetes
grossos, em direção à janela do quarto. Se ainda restava dúvida em Scott, agora se
dissipou, a convicção acentuada pelo rosto contraído e duro, na penumbra.
Ouvimos a janela deslizando a cima e o suave estalido quando a veneziana foi
aberta. Um gato miou subitamente na noite silenciosa, um barulho que me
congelou o sangue e fez o coração palpitar. Amaldiçoei todos os gatos que
nasceram desde o princípio dos tempos.
A cortina se avolumou quando alguém passou ao lado de dentro da janela.
Calculando onde estava a cabeça, bati com a magnum e puxei a cortina ao lado. A
arma estava levantada, pra bater de novo, se fosse necessário. O ar da noite entrou
no quarto, bastante frio em contato com meu rosto suado. Estava arriado no
peitoril, imóvel. O agarrei pela gola e o levantei.
Mesmo na penumbra, não foi difícil reconhecer Bill Scott.
Scott me presenteou com algumas palavras seletas, enquanto eu o ajudava a
carregar o garoto ao escritório e o acomodar numa poltrona confortável.
— Poderias o ter matado. — Disse Scott, furioso. Sacudi a cabeça.
— Não com aquela cortina. Mas se tem o hábito de entrar furtivamente nas
janelas, ainda acabará sendo morto.
Eu estava parado atrás da poltrona quando o garoto se remexeu, olhou o pai e
disse:
— Seu velho idiota! Precisavas me quebrar a cabeça só porque esqueci a chave?
Se ele fosse meu filho eu lhe teria arrebentado a cabeça pra valer.
— Não foi ele. — Intervim. — Fui eu.
O garoto se virou bruscamente, segurou a cabeça, gemeu. Sacudiu o polegar pra
mim.
— O que ele está fazendo aqui, agredindo as pessoas desse jeito?
Scott olhou a mim com uma expressão inquisitiva. Sacudi a cabeça. E falei:
— Estávamos conversando sobre o velho tempo. Ouvi alguém entrar
furtivamente na janela e achamos que era melhor não correr risco. Como
poderíamos saber que eras tu? Não deverias passar a noite aqui. Não é? Por que
voltaste a casa?
— Se achas que é de tua conta, Angie e eu tivemos uma briga e resolvi não
passar a noite lá. Algo errado nisso?
— Estás te sentindo bem?, filho. — Indagou Scott, gentilmente.
— A não ser pela dor de cabeça disse, asperamente. — Me servirei um drinque.
— Um drinque só contribuirá pra piorar a dor de cabeça. — Adverti.
— Cales essa boca, Stoneman! Não tens de te meter aqui!
Se me olhara com desdém naquela tarde, o olhar furioso que me lançou agora
estava impregnado de ódio.
— Por que não? — Perguntei suavemente. — Que diferença isso faz pra ti?
Se virou rapidamente, empunhando um revólver de cano comprido, com um
silenciador na extremidade.
— Esta é a diferença. Agora terei de matar a ti também.
Scott, o sangue se esvaindo inteiramente do rosto, os olhos sombrios, fitou o
filho, aturdido. Eu daria qualquer coisa que possuía no mundo pra alterar aquela

42
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
situação, pra fazer com que fosse Deeker Jensen quem passara naquela janela.
— Calma!, garoto. — Murmurei. — Os filhos não saem matando os pais. Te
importas de me explicar por que a idéia te ocorreu? Deve ao menos isso a ele.
Os olhos do garoto se deslocaram, irrequietos. O suor escorria no rosto.
Convivendo com a idéia, se obrigara a acreditar que seria fácil. Mas encontrar nós
dois ali o deixara completamente transtornado.
— É por dinheiro?
Lhe joguei as palavras gentilmente. Não seria necessário muita coisa pra o fazer
entrar em ação. Respondeu , a voz rouca:
— Isso mesmo: Dinheiro. O testamento deixa a companhia pra mim. Eu a
vendo. Só isso.
— Não é tão fácil assim vender uma companhia.
— Já tenho um comprador.
— Aceites a palavra dum advogado, garoto. Nada tens enquanto não estiver no
papel e assinado.
— Tenho a palavra do homem.
— Nada tens. — Insisti, incisivamente. — O levarás aos tribunais se mudar de
idéia? Dirás que mataste teu pai porque o homem prometeu que compraria a
companhia e depois recuou?
— Não há motivo pra desistir. — Declarou o garoto, desdenhosamente. — Pode
comprar a Scott Flying com os trocados que leva no bolso.
Eu precisava arrancar o nome do garoto dalguma forma e naquele ritmo
ficaríamos ali durante a noite inteira.
— Esqueça, Bill — Falei suavemente. — Não matarás alguém.
O garoto sorriu, tenso.
— Ainda estou com a arma.
— Não te mexas, garoto. Apenas olhes a baixo, ao longo da poltrona.
Encontrarás um magnum 44 apontado a tua barriga. Se prestares atenção
descobrirás que está engatilhado, pronto pra disparar. Se teu dedo tremer posso
disparar. Não há possibilidade de me venceres. E esta arma arrancará uma parte
considerável de tua anatomia, não importa onde acerte.
— Podes errar — Balbuciou ele, trêmulo.
— Não é provável. Mas mesmo que isso aconteça, aquela linha telefônica aberta
te enforcará.
Os olhos do garoto se arregalaram quando viu que o fone não estava direito no
gancho.
— Uses a cabeça. A idéia era matar teu pai, dar a impressão de que foi um
assalto, descobrir o corpo na manhã, com o falso álibi de que estavas na casa de
tua namorada, se fosses capaz de fazer tudo isso, o que duvido muito. Mas agora
está tudo perdido e é melhor desistires.
Scott não se mexera, o choque ainda o pregando ao chão. Os músculos dos
maxilares do garoto se contraíram. Suspendi um pouco o magnum. Os ombros dele
vergaram, ele largou o revólver.
Respirei fundo, baixei gentilmente o cão da arma, soltei o gatilho.
— Não querias realmente o matar. — Murmurei, gentilmente. — É preciso mais
do que dinheiro pra alguém como tu. É preciso paixão, ódio ou raiva, mas nada
disso tens com a intensidade suficiente. A garota está te puxando num lado e 20
anos também puxam noutro. Se queres mesmo o dinheiro tanto assim, sabes muito
bem que venderia a companhia e te daria até a última moeda. Foste tolo demais
durante uma noite. Mas agora me digas quem te deu a idéia.

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Houve um silêncio prolongado, até que o garoto finalmente murmurou:
— Bessinger.
Me adiantei e levantei o fone, perguntando a Chetkos:
— Gravaste tudo?
— Até a última palavra. Mas não adiantará. Qualquer garoto que cogita matar o
pai está obviamente precisando dum psiquiatra. Assim, nenhum júri aceitará a
palavra dele contra um esteio da comunidade como Bessinger. Como soubeste que
era o garoto?
— O acertei na cabeça quando estava entrando na janela. E senti o revólver
quando o carregamos a cá.
— Fantástico. Bessinger possui um talento excepcional pra escolher o homem
certo. Como achas que Jensen entrará na cena?
— Acho que foi pura coincidência.
— Não fiques tão certo assim. Pode ter contratado Jensen pro caso do garoto
falhar.
Corri os olhos na sala. Scott se refugiara atrás da mesa e estava acendendo um
cigarro, as mãos trêmulas. O garoto não se mexera. Tive a impressão de que nem
sabia onde estava.
— Deixarei os dois aqui resolverem seus próprios problemas, se não te
incomodas. Scott precisará dum médico pro garoto, e não quero atrapalhar.
— Minha única preocupação agora é com Jensen. Deixei escapar um suspiro.
— Está bem. está bem. Se eu conseguir ficar acordado tempo suficiente darei
uma olhada em torno da casa, só pra te agradar.
— Boa idéia. Podes não ser o melhor advogado do mundo mas darias um ótimo
policial.
Sorri e disse pra desligar. Destranquei a porta do fundo, deixei que meus olhos
se acostumassem à escuridão noturna e comecei a contornar a casa
silenciosamente, me sentindo ridículo. Não estava brincando ao dizer a Chetkos
que estava ficando velho demais àquele tipo de coisa. Lutar com palavras era
muito mais fácil e menos perigoso. Parei no canto da casa. A luz das estrelas
mostrava o caminho curvo que terminava na rua. A simetria dos arbustos nos dois
lados interrompida por uma sombra mais escura, no meio indefinida, a cerca de
10m de distância. Me agachei, apoiei o magnum na casa, mirei o vulto da melhor
forma possível e chamei, cautelosamente:
— Jensen?
O vulto se mexeu, um dedo amarelado apontou a mim, uma bala ricocheteou na
casa de pedra, sobre minha cabeça.
Hesitei um momento. A última coisa que eu queria era disparar o magnum
naquela rua residencial. Se eu errasse não havia como saber onde a bala poderia
parar.
Jensen resolveu o problema pra mim. Outra bala sussurrou sobre minha cabeça,
alguns centímetros mais baixo dessa vez. Soltei um gemido e se adiantou pra
terminar o trabalho. Me comprimi contra a parede, o deixei percorrer a metade da
distância e depois murmurei:
— Já chega!
Ele caiu, atirou outra vez, se agachou. Foi nesse instante que disparei. O
magnum explodiu sonoramente, o balaço o arrancou do chão. Pela maneira como
caiu compreendi que não precisava me adiantar pra verificar o que acontecera.
Me levantei lentamente, me sentindo nauseado, recordando agora: Jensen
deixara o aeroporto depois que o jovem Scott desembarcara do avião. Depois de

44
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
ver o homem que devia liquidar. Ao que eu sabia, o próprio Scott não deixara o
escritório.
Passei por Scott na porta e fui transmitir a informação a Chetkos, furioso.
— Ele tencionava matar os dois. Pensamos que Grogan estava falando sobre
Scott, mas na verdade ele falava sobre o filho. Percebes agora como aquele maluco
formulou o plano? Se o garoto matasse Scott e Jensen matasse o garoto, seria o
ideal. Se o garoto não conseguisse chegar ao fim Bessinger ainda puniria Scott,
fazendo com que Jensen matasse o garoto. Não podia perder.
— Mas perdeu. — Disse Chetkos, gentilmente. — Scott e o garoto ainda estão
vivos.
— Mas claro que não perdeu! — Gritei, bruscamente. — Os dois terão de viver
com o conhecimento de que o garoto tentou matar o pai. Chamas isso de perder?
Chetkos suspirou.
— Talvez não. É melhor desligares. A polícia estará aí a qualquer momento. E
precisarás de minha presença pra confirmar tua história. Não demorarei.
Pus o fone no gancho, sentindo o choque e o desespero ainda estampados no
rosto de Scott. E me perguntei se realmente lhe prestara um favor ao salvar sua
vida. Sabia agora que nunca sossegaria enquanto não agarrasse Bessinger, dum
jeito ou doutro.

45
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

A vítima do ano
Jack Ritchie
— Gostaríamos de te assassinar. — Disse Freddie Thompson.
Eu não esperava a honra e me senti lisonjeado. Mesmo assim encenei resistir.
— Não sei realmente se posso dispor de tempo.
— Não será necessário mais que poucos momentos de teu tempo, professor.
Professor Harding e eu estávamos empenhados numa partida de xadrez quando
Freddie batera à porta de meu aposento na universidade. Ele representava o comitê
designado pra promover o assassínio. Harding acendeu o cachimbo.
— Qual a arma que tencionais usar em professor Ranier?
— A maioria de nós prefere cortar a garganta. — Disse Freddie. — Mas depois
nos lembramos de que uma faca foi usada pra liquidar professor Elberto no ano
passado. Não queremos repetir. Decidimos que um revólver serviria perfeitamente.
— E quando serei assassinado?, Freddie. —Freddie usava lentes muito grossas e
seus olhos penetrantes eram quase tão grandes quanto os óculos.
— No futuro próximo, professor. Talvez amanhã, talvez depois de amanhã.
Preferimos que o momento exato seja surpresa. Achamos que, se souberes de
antemão, podes te sentir tentado a... como podemos dizer... bancar o canastrão.
— Eu não faria isso. — Protestei, irritado.
— Mesmo assim — insistiu Freddie — preferimos que seja surpresa.
Todo ano a última turma de direito de nossa universidade encena um falso
assassínio e um falso julgamento. O assassínio é, geralmente, cometido na
presença de tantas testemunhas espantadas e insuspeitas quanto possível. O
princípio é mostrar aos estudantes, através de julgamento, que o depoimento de
testemunha visual nem sempre merece confiança.
No ano passado, por exemplo, professor Elberto foi apunhalado quando os
alunos estavam trocando de roupa no ginásio.
O assassino, como sempre, é o que, parece, conseguiu escapar do local mas foi
preso e levado a julgamento. O incidente foi testemunhado por 28 alunos e três
professores. Não chegou a haver exatamente 31 descrições diferentes do assassino
mas basta dizer que o réu foi declarado inocente.
— Quem foi escolhido pra me assassinar?
Freddie tornou a sorrir.
— Ainda não chegamos à decisão final. Mas já há alguns voluntários.
— Devo providenciar um saco de plástico com suco de tomate e esmagar contra
o peito quando for baleado?
— Não. Resolvemos que não será necessário neste ano.
Eu pensava que sabia por quê. Quando professor Elberto morrera com seu
macabro suco de tomate, a equipe feminina de rendebol estava no corredor, a
caminho do ginásio. Sete garotas desmaiaram. E o mesmo acontecera com Tanker
Flanagan, o grande astro de nosso time de futebol americano.
Não pude conter um sorriso.
— Sendo assim, terei de recorrer a melhor representação.
— Achamos que tudo correrá naturalmente. — Freddie olhou a Harding. —
Somente o comitê e a vítima devem saber. Guardarás segredo?
— Nada direi. — Garantiu Harding.
Depois que Freddie se retirou, Harding e eu voltamos à partida de xadrez.

46
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Harding estava atacando na coluna do rei.
— Freddie Thompson é um dos estudantes mais brilhantes que esta universidade
já teve.
Acenei com a cabeça, comentando:
— Teve as melhores notas. Quase tudo A.
— Quase?
— Isso mesmo. Durante todo o curso, recebeu apenas um B.
— É mesmo? E quem deu?
— Eu.
Harding moveu o cavalo.
— Uma pena estragar a ficha dele assim. — Harding bateu a cinza do cachimbo.
— Terão de atirar no corpo, é claro. Não na cabeça.
— Por quê?
— Há alguns tipos de cartucho de pólvora seca que expelem um pedaço de
papelão com força considerável. O peito seria o lugar mais seguro pra se apontar o
revólver.
— Usarão, certamente, um cartucho de pólvora seca, que nada projeta.
Harding estava em dúvida.
— Acho que não. Afinal, querem aquela expressão genuína de surpresa em teu
rosto quando a arma for disparada. O que seria obtido pelo impacto da bala de
papelão.
Por algum motivo a perspectiva de sofrer o impacto dum pedaço de papelão me
deixava ligeiramente apreensivo. Harding tomou um peão.
— Sabes quem mais está no comitê de homicídio neste ano? No momento, pude
me lembrar apenas doutro estudante.
— Roy Wickens.
— Um rapaz alto? O que teve de fazer mais um semestre porque não passou
num de teus cursos?
— Não conseguia entender os princípios do direito imobiliário. Fui obrigado a
dar uma nota baixa.
— És um tanto duro com tuas notas. Não é?, Alfredo.
— Acho que não se deve ser indulgente com os estudantes. Estamos numa
universidade e não num jardim-de-infância.
Harding ganhou aquela partida e a seguinte. Quase nunca ganha duas partidas na
mesma noite mas minha mente parecia às vezes divagar.
Eram 10:30h quando paramos. O acompanhei até a porta. Ajeitou o cachecol.
— Sabes, Alfredo, ouvi dizer que o lugar mais seguro pra assassinar é a grande
estação Central, na hora de maior movimento. Imagino que um campus
universitário apinhado possa ser uma boa segunda opção.
Saiu, fiquei lendo algum tempo e me deitei.

Eu estava descendo os degraus da biblioteca. Era um dia bonito e ensolarado. Lá
embaixo havia ao menos uma centena de estudantes, espalhados em pequenos
grupos. As moças empenhadas no motivo básico pra cursar uma universidade, que
era o de arrumar um marido.
E, subitamente, um jovem de cabelo desgrenhado, usando óculos, subiu
correndo os degraus em minha direção. Os lábios estavam contraídos em fúria, os
olhos exibiam uma expressão desvairada. Apontou um revólver imenso a meu
peito. Houve um clarão ofuscante...

47
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Me sentei na cama, esperando que as batidas cardíacas se tornassem inaudíveis.
Depois dum ou dois minutos, forcei um sorriso. O subconsciente tem uma
imaginação pérfida.
Já devia passar de três horas da madrugada quando voltei a cochilar.
Dessa vez sonhei com um enterro de muitas pessoas, no qual eu era a atração
principal.
Voltei apressadamente ao consciente e acendi a luz. Eram apenas 4h da
madrugada mas o tipo de sono que eu estava tendo não seria capaz de revigorar
meus tecidos cansados.
Pus o roupão e fui ao gabinete. Me sentei pra ler mas, inevitavelmente, me
descobri absorvido com a pilha de trabalho dos alunos, à qual teria de dar nota e
devolver na sexta-feira.
O trabalho de James Branner me provocou um suspiro. Como conseguira
sobreviver à cadeira de inglês no curso preparatório e ainda mais se tomar um
aluno exaltado no último ano da faculdade? Obviamente, merecia um C e até isso
era caridade, em minha opinião.
Passei ao trabalho seguinte mas o pensamento permaneceu com Branner. Não
integrava também o comitê de homicídio?
Branner era um rapaz grande, imenso mesmo. E não fora punido com uma
suspensão condicional, durante todo um semestre, ao participar dum motim
estudantil?
Não havia como prever o que uma personalidade tão instável faria. Risquei o C
e lhe dei um B.
Trabalhei até sete e meia e depois fui tomar café. Cheguei ao prédio da
faculdade 20 minutos antes de minha primeira aula e fui à sala dos professores.
Professor Lasson, lendo um jornal numa poltrona de encosto alto, era a única
pessoa presente.
Acenei com a cabeça, me sentei no outro lado da sala e acendi o cachimbo.
Desde que eu rejeitara sua tentativa de fazer com que um de seus livros se
tornasse obrigatório no curso, nosso relacionamento se limitava a acenos de
cabeça, bem frios.
Se conseguisse introduzir seu livro medíocre no currículo duma faculdade de
tanto prestígio como a nossa, 90% das outras faculdades do país certamente o
adotariam também.
Assim, seu prejuízo financeiro fora considerável. Em conseqüência, a expressão
que Lasson me reservava era tão hostil quanto a que se encontra no rosto dum dono
de farmácia5 quando se compra apenas um selo de quatro centavos. Dessa vez,
porém, Lasson me falou:
— O que achas ser a vítima do assassínio neste ano?
Franzi o rosto.
— Sempre pensei que a identidade da vítima fosse um segredo pra todos, a não
ser pros membros do comitê de homicídio.
As pontas de seus dentes afiados ficaram à mostra.
— Pode ser um segredo pros outros mas não é pra mim.
— Por que não?
— Porque sou o guardião da arma.
Talvez fosse a iluminação da sala, mas tive a impressão de que seus olhos
adquiriram, lentamente, um brilho maligno.
— Evidentemente, não podemos permitir que os estudantes carreguem arma de
5
No original farmácia: Farmácia-drogaria que vende outros gêneros de artigo. Nota do digitalizador.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
fogo no câmpus. — Explicou Lasson. — Por isso a arma ficará em meu poder até o
momento em que se tornar necessária.
Um pensamento me ocorreu de repente. Tinha de ser obrigatoriamente um
estudante pra cometer o assassínio? Corrigi prontamente: Pra cometer o assassínio
simulado.
Lembrei que em 1957 professor Jacobson fora golpeado na cabeça por uma
assistente, a professora Mabel Watkins, no momento em que dava aula sobre
direito conjugal. A violência do golpe fora atribuída ao nervosismo dela, mas
também me lembrei de que duas semanas antes Jacobson rompera o contrato de
seis anos de Mabel. Tirara uma licença de uma semana, por motivo de saúde.
Lasson enfiou a mão no bolso e tirou um revólver. Fechei os olhos.
— Esta é a arma.
Tornei a abrir os olhos. E pensei:
— Precisavam escolher uma arma tão grande?
— Um magnum 38. — Acrescentou Lasson. — Um tiro arrebenta o bloco de
motor dum carro.
Por que isso seria de interesse a alguém? Tornou a meter a mão no bolso.
— Estes cartuchos são de pólvora seca.
Fiquei satisfeito ao constatar que os cartuchos não tinham ponta. Meteu a mão
no outro bolso.
— E estas balas são de verdade. Não achas lindas? Dependia do gosto de cada
um.
— As balas que as pessoas usam pra arrebentar bloco de motor?
Assentiu.
— É claro que não gostaríamos que se misturassem com os cartuchos de pólvora
seca.
Eu era a última pessoa do mundo disposta a discutir aquela possibilidade.
— Podes não estar percebendo, — comentei, muito tenso — mas a verdade é
que estás me apontando esse revólver. Soltou uma risada.
— Não está carregado.
Eu suava ligeiramente. Suponhamos que queira realmente...
Mas isso era absurdo. Só porque seu livro medíocre fora rejeitado...
Recuperei o controle. A base de toda a coisa, o homicídio simulado, era a
presença de muitas testemunhas.
Enquanto estivéssemos a sós eu estaria perfeitamente seguro.
Lasson tornou a guardar o revólver e as balas nos bolsos. Menos as verdadeiras.
As contemplou com expressão pensativa.
— Gostaria de saber se um colete a prova de bala seria capaz de deter uma
destas.
Resolvi que estava na hora de ir a minha primeira aula.
Como sempre, Freddie Thompson ocupava uma das cadeiras da frente,
invariavelmente alerta e preparado pra qualquer pergunta. Roy Wickens estava
perto das janelas. Ia à universidade todos os dias apenas pra aparecer naquela aula.
James Branner, a testa baixa sugerindo mais o neandertal que o cro-magnon,
rabiscava no caderno com o coto dum lápis. Parecia estar mal-humorado.
E Emelina Grogan.
Por que é necessário que as alunas pensem que sua educação é um fracasso a
menos que se apaixonem por um dos professores?
O curso e seu grau da adoração seguira o padrão habitual. No início do semestre
achava que a última fila era bastante confortável. À medida que as semanas foram

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
passando, no entanto, gradativamente foi chegando mais perto de mim.
E quando chegara à primeira fila, eu fora obrigado a lhe dizer que era velho
demais pra ela e que, além disso, fizera uma promessa à cabeceira duma
moribunda de manter um celibato eterno.
O amor de minha juventude, Lucinda, uma criatura frágil, sensível e condenada
pelo destino, gradativamente se consumira com algo que parecia tísica, me
deixando sozinho pra enfrentar o mundo, dominado pelo sofrimento, mas
aguardando o momento no futuro em que me juntaria a ela.
Mas não sei como Emelina encarou minha rejeição.
Ainda estava na primeira fila.
Quando soou a campainha das 9:20h suspendi a aula e os estudantes se
retiraram. Mas não Emelina.
Me fitou com o que parecia ser uma compaixão irresistível e disse:
— Não adianta ficar te lembrando de Lucinda, professor. A vida continua.
Não pude conter um suspiro.
— Não pra mim. Simplesmente existo.
Havia mesmo uma lágrima no olho dela?
— Sentes muita saudade dela. Não é?
Meu sorriso traía a maturidade do sofrimento.
— Mais do que posso exprimir com palavra. Mas cada hora que passa me
aproxima dela. Minha existência neste mundo nada significa. Cortejo o perigo.
Tocou meu braço, gentilmente.
— Talvez a vejas em breve. Muito mais depressa do que imaginas.
Enxugou a lágrima do olho e saiu da sala.
O que queria dizer com aquilo?: Talvez a vejas em breve. Muito mais
depressa do que imaginas.
Um pensamento me ocorreu.
Também integrava o comitê de homicídio.
Será que sabia algo?
Eu não tinha outra aula até 10:30h. Fui à biblioteca pra realizar a pesquisa do
estudo que estava escrevendo pruma revista especializada.
Devolvi os volumes de referência às 10:20h e deixei o prédio. Parei um
momento no alto dos degraus.
O dia estava lindo e ensolarado. Embaixo ao menos uma centena de estudantes
estava reunida em grupos, as moças empenhadas em seu motivo básico.
Um calafrio me percorreu o corpo.
Freddie Thompson estava examinando um caderno de anotação mas levantou os
olhos em minha direção. O sorriso nos lábios seria de cumprimento?
O soturno James Branner estava ali, assim como o comprido Wickens. E
professor Lasson. Seus olhos não estavam se estreitando na gloriosa expectativa
dalguma coisa?
E Emelina Grogan, que podia, por misericórdia... Fugi de volta ao interior da
biblioteca.
Enxuguei o suor da testa e fui até a janela.
Era verdade, todos estavam esperando. Eu sabia disso, tão certamente quanto
estava parado ali, apavorado.
Como um homem podia ter tantos inimigos? Talvez eu tivesse sido um pouco
cáustico demais em minhas relações com os outros. Talvez meus cursos fossem um
pouco rigorosos demais. Talvez o mundo precisasse dos maus advogados tanto
quanto dos bons. Talvez eu devesse ter enterrado há muito a história de Lucinda.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Mas o que um homem pode fazer? Deve viver, deve ser si próprio. E quando chega
o momento...
Me empertiguei. Um homem deve ser um homem. Deve ser honesto consigo,
deve se ater a seu caminho, até o último momento. Fui até a escrivaninha e falei a
senhorita Hendricks, a bibliotecária:
— Tens um envelope e um papel?, por favor.
Me deu e me sentei a uma mesa. Enderecei o envelope ao reitor da universidade.
Datei o papel em branco e comecei a escrever:
À mesa, em meu gabinete, encontrarás o trabalho dum estudante
chamado James Branner. Lhe dei um B mas é um erro. Deve ser um C.
Atenciosamente
Alfredo Ranier
Era a minha última vontade mas nunca se deve deixar as coisas a fazer. Levei o
envelope fechado a senhorita Hendricks.
— Por favor, seles e despaches no correio, quando puderes. Fiz uma pausa e me
senti impelido a acrescentar:
— Senhorita Hendricks, quero que saibas que diriges uma das melhores e mais
tranqüilas bibliotecas do país.
E depois passei na vasta porta da frente.
Parei apenas um momento, empertiguei os ombros e saí. Era um dia lindo e
ensolarado. Lá embaixo.
Mas eu já passara tudo isso duas vezes.
Desci lentamente os degraus, a cabeça erguida.
Emergiu abruptamente dum grupo de estudante. Levantou o magnum 38 que
podia arrebentar um automóvel. Fiquei aturdido.
Era professor Harding!
Mas o que eu já fizera...
O cano do revólver relampejou e senti o impacto no peito. Tudo ficou escuro.
Recuperei o sentido quando estavam me carregando à biblioteca. Senti um
impulso intenso de gemer, mas me contive. Morreria como um bravo.
Me acomodaram cuidadosamente num sofá.
— Podes abrir os olhos agora, professor Ranier. — Era a voz de Emelina
Grogan. — Está tudo acabado.
Abri os olhos.
— Foi magnífico. — Comentou Freddie Thompson. — Nunca vi algo mais
natural.
Olhei o peito. Não havia sangue. Freddie parecia um pouco preocupado.
— Estás te sentindo bem?, professor Ranier.
Me sentei lentamente, desabotoei o paletó. Também não havia buraco na camisa
e meu coração estava batendo. O podia ouvir. Não havia dúvida de que estava vivo
e em perfeita condição. Dei graça por conseguir escapar.
— Eu sabia que não cometêramos um erro te escolhendo. — Disse Freddie
Thompson. — És nosso professor predileto.
Minha testa franziu, em perplexidade e espanto. Freddie assentiu.
— Alguns professores me deram A apenas porque não queriam estragar minha
ficha. Mas o senhor me deu um B quando mereci. Admiro tua integridade e
coragem. Me ensinaste a humildade.
É claro que tínhamos de trocar um aperto de mão. Era o que Freddie esperava. O
soturno James Branner sorriu.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Me dás C. Todo mundo me dá -C.
O alto Roc Wickens também tinha algo a dizer:
— Eu precisava dos seis meses extra que passei aqui. Além do mais, não
conseguia passar, do jeito que estava, nos exames da ordem dos advogados.
Emelina Grogan me afagou o ombro.
— Professor, já estudou o espiritismo? Já estiveste numa sessão? Tenho uma tia
que é positivamente psíquica e com muita empatia. Talvez consiga te pôr em
contato com Lucinda. Também és meu professor predileto e não gosto de ver
alguém sofrendo. Não cachorro nem pessoa.
Eu ainda sentia alívio e gratidão pela reviravolta no acontecimento quando
professor Harding entrou na biblioteca na porta do fundo, com expressão radiante.
— Todos ficaram tão aturdidos que não tive dificuldade pra escapar. Alguns dos
estudantes me reconheceram, é claro, e assim teremos o julgamento. Mas tenho a
impressão de que se eu me disfarçasse um pouco poderia escapar impune dum
assassínio de verdade.
Foi nesse instante que percebi a presença de professor Lasson. Estava encostado
numa estante, a mão direita no bolso do paletó, o mesmo bolso em que estavam as
balas de verdade.
Os olhos brilhavam enquanto me observava e um tênue sorriso de censura se
insinuava nos lábios.
Tive o pressentimento terrivelmente forte de que as palavras de Harding lhe
deram uma idéia.
De repente a sala ficou mais fria.
O assassínio poderia ocorrer a qualquer momento, compreendi subitamente. A
qualquer momento mesmo.
Mas poderia também ocorrer num dia lindo, ensolarado.
E lá embaixo ao menos uma centena de estudantes estaria reunida.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

Testemunha inocente
Irving Schiffer
O detetive esperava quando ela saiu do prédio de escritório, às 5h. Subitamente,
no meio das pessoas que voltavam apressadamente a casa, estava parado em sua
frente, jovem, muito alto, voz surpreendentemente gentil e atitude cortês.
— Olá, Júlia.
Tinha 20 anos, uma moça de cabelo escuro, que trabalhava como secretária no
centro financeiro de Nova Iorque. Uma entre muitas, não muito diferente, à
primeira vista, das moças que trabalhavam nas mesas ao redor, bastante bonita, não
muito sofisticada, uma moça de quem todos gostavam, acostumada ao anonimato.
Acima de tudo não estava acostumada a ser abordada por detetive. Olhou ao redor,
constrangida, enquanto as outras moças passavam, convencida de que algumas
reconheceram sargento Ruderman, da visita que fizera ao escritório naquela
manhã.
— Há algum lugar onde possamos conversar em particular? — Indagou, como
se percebesse seus pensamentos. Júlia assentiu, agradecida.
— Há uma lanchonete aqui perto.
A Bill's era uma dessas lanchonetes no formato de vagão, com um balcão
comprido, uns poucos reservados e ótima comida. Se sentaram num reservado,
Júlia virada ao fundo. O sargento pediu dois cafés. Ela olhou as cabines telefônicas
e pensou em ligar à mãe, se fosse chegar atrasada pro jantar. Ele nada disse antes
do café chegar.
— Júlia... senhorita Stevens... uma coisa ficou me perturbando durante o dia
inteiro. Nesta manhã, quando falei contigo no escritório...
— O que é?
— Tive a impressão de que querias me dizer algo. A respeito de teu chefe,
senhor Turner, e de sua esposa.
Ela sacudiu a cabeça. Tomou um gole do café, a fim de desviar os olhos.
— Já te contei tudo, sargento Ruderman.
— Contaste mesmo?
Se não fosse policial a voz suave poderia ser considerada a dum amigo, talvez
um amante. Era um homem simpático, pensou Júlia, provavelmente muito eficiente
na profissão.
— Queres saber o que penso? — Disse, sorrindo por cima da caneca com café
fumegante. — Acho que és uma moça muito confusa. Talvez estejas te
equivocando por senso de lealdade. Pensando bem, gosto duma pessoa que é leal.
Ela não caiu naquela armadilha.
— Francamente, não consigo me lembrar de algo que já não tenha contado.
— Em relação aos Turner, não estavam vivendo muito bem. Alguns amigos do
casal nos deram essa informação. Tiveram uma briga ou uma discussão mais séria
nos últimos dias?
Júlia deu de ombros. Podia perceber que não acreditava mas também não estava
zangado. Era um homem controlado e estava calmo quando terminou de tomar o
café sem desviar os olhos dela durante todo o tempo. Abruptamente olhou o
relógio e pôs algumas moedas na mesa ao garção. Entregou um cartão a Júlia.
— Aqui está meu telefone na delegacia. Podes me ligar a qualquer hora. — O
sorriso foi uma surpresa agradável. — Isso é, caso te lembres de ter algo pra me

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
contar. E agora, por gentileza, podes escrever teu nome e endereço neste outro
cartão?
— Meu endereço? — Repetiu Júlia, cautelosamente.
— Isso mesmo. Por acaso já saíste com um detetive?
Ela pensou nos motivos que ele tinha, em seu trabalho.
— Não te preocupes. — Acrescentou o sargento — Não te procurarei enquanto
o caso não estiver encerrado. Não misturo negócio com prazer. E não me encontro
com moças assim todos os dias.
Júlia simpatizava com ele, um fato a que não podia escapar. E a maneira franca
e quase vulnerável com que ele a olhava era bastante convincente pra qualquer
moça. Escreveu no verso do cartão e o devolveu.
— Terás notícia minha. — Garantiu ele. — Ou talvez, quem-sabe? Talvez eu
tenha notícia tua primeiro. Boa noite, Júlia.
Depois que ele saiu Júlia mal se mexeu. Uma mulher passou e entrou numa das
cabinas telefônicas. Distraidamente, Júlia ficou observando os lábios da estranha,
através da porta de vidro. Pensou de novo que devia telefonar à mãe. Mas não
podia se mexer.
Havia mesmo uma coisa. O detetive estava certo. Não era apenas o problema
entre senhor Turner e a esposa. Ela mentira sobre isso. Havia também outra coisa.
Mas o quê?
Júlia suspirou. Lhe ocorreu que sargento Ruderman podia até pensar que havia
algo entre ela e senhor Turner. Só que não havia. Nada demais. Maria vivia
insinuando que havia mas Maria estava sempre falando, como na manhã do dia
anterior, quarta-feira, no escritório, pouco antes de senhora Turner ligar.
Maria era a secretária de senhor Cassidy, um dos vários vice-presidentes da
Empire Investment, casado, mas um conquistador incorrigível. Às vezes parecia
que a própria Maria, loura e exuberante, o controlava, ao menos um pouco. Na
manhã de quarta-feira houvera muita conversa irreverente antes que senhor
Cassidy passasse nas mesas adjacentes de Júlia e Maria pra entrar em sua sala.
— Às vezes me sinto propensa a esquecer que é casado. — Comentou Maria,
depois que a porta se fechou.
— Falas demais. — Disse Júlia.
— Não tenhas tanta certeza assim. Os homens casados são apenas homens que
por acaso estão casados. Não sejas tão ingênua, Júlia. Todos esses vice-
presidentes, com suas linhas particulares. Aposto que não é só de negócio que
falam atrás das portas fechadas. E aposto que se teu senhor Turner te desse uma
prensa não resistirias até o fim. Posso perceber quando uma garota está gamada.
Ei, trabalhemos, pois teu chefe está chegando!
Senhor Turner era tão diferente de senhor Cassidy quanto se podia conceber.
Com trinta e poucos anos, o vice-presidente mais jovem da companhia, era
elegante, metódico e 100% profissional. Passou rapidamente nas mesas das moças,
ofereceu um bom-dia brusco e desapareceu em sua sala.
— Não posso deixar de admitir que é atraente. — Maria suspirou. — Mas já
viste sua mulher? É 10 anos mais velha, no mínimo. E dá a impressão de que foi
atropelada por um camião.
— Não concordo. — Protestou Júlia.
— É a pura verdade. E aqui todo mundo sabe que se casou exclusivamente por
dinheiro. Lembro quando ela não passava duma cliente rica, há apenas seis meses,
uma solteirona nata, se é que já conheci alguma.
— Também me lembro perfeitamente dela. Era apenas uma mulher infeliz e

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
solitária.
— Tens razão. Mas depois o garoto bonito assumiu a conta dela e, pam!,
acabaram se casando. Verás como, um dia desses, ele largará o trabalho, se
aposentará ao resto da vida, com o dinheiro dela, é claro.
O telefone de Júlia tocou. Salva pelo gongo, pensou, estendendo a mão. Mas foi
um choque e tanto. Por falar no demônio, descobrir quem estava ligando.
— Júlia, aqui é senhora Turner.
— Bom dia. Um momento, por favor. Já avisarei, a senhor Turner, que estás na
linha.
— Não faças isso, Júlia. Não quero que saiba que telefonei. É contigo que quero
falar. Podemos nos encontrar pra almoçar? Preciso ter uma conversa.
— Comigo? — Não havia possibilidade de equívoco quanto ao tom de urgência
da mulher, pensou. — Pois não, senhora Turner. Mas desejas me falar sobre...
Uma explosão de estática a interrompeu, quando a caixa do interfone em sua
mesa adquiriu vida. A luz estava acesa.
— Júlia!
A voz de senhor Turner parecia crepitar. Durante um momento terrível Júlia
experimentou um pânico inexplicado. Ficou olhando, aturdida, o interfone e depois
o fone em sua mão, compreendendo que senhor Turner ouviria se a esposa tornasse
a falar. Rapidamente pôs a mão sobre o bocal do fone. Igualmente depressa,
percebeu que cobrira o lado errado pra impedir a voz de senhora Turner de ser
ouvida e mudou a posição.
— Júlia, queres me trazer a pasta da companhia Sloban? — Ordenou a voz de
Ricardo Turner.
— Pois não, senhor.
Esperou ele desligar o interfone e disse, apressadamente, ao telefone:
— Tenho de desligar.
— Ouvi tudo.
— Telefonarei daqui a alguns minutos. — Prometeu Júlia. — Será melhor eu
usar um telefone externo. Estás em casa?, senhora Turner.
— Estou, sim. Não te esqueças, por favor. Ficarei esperando.
As sobrancelhas de Maria eram dois pontos de interrogação mas Júlia não tinha
tempo pra explicar. Foi aos arquivos, atrás das mesas das datilógrafas, e localizou
rapidamente a pasta de Sloban. Se sentindo estranhamente conspiradora, imaginou
senhora Turner no apartamento na praça Uóchintão, uma mulher gorda, um tanto
deplorável, aguardando seu telefonema. Sem deixar que sua expressão revelasse
um desses pensamentos, bateu na porta de senhor Turner.
Quando entrou na sala Ricardo Turner estava falando no telefone particular. Os
olhos castanhos mal piscaram na direção da secretária, enquanto continuava a falar
com um charme insinuante à cliente viúva, senhora Sloban:
— Isso mesmo, Vera. Sei que não queres correr risco com o principal. E a
Empire Investment não permitiria tal imprudência. Claro que aconselharíamos a
não fazer isso.
Júlia olhou o perfil firme e bonito. Como sempre, afetava seu equilíbrio duma
forma que preferia não reconhecer. Havia dois telefones na mesa, uma extensão do
aparelho na mesa dela e o outro pra contato confidencial com os clientes. Júlia
podia recordar quando senhora Turner era uma das clientes, uma herdeira solitária,
que merecia conversas prolongadas, como a que ele tinha agora com senhora
Sloban. Pensou:
— O casamento, , pondo a pasta na mesa, pode certamente esfriar o ardor dum

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
homem. Se houve ardor pra começar.
— Estás esperando algo? — Ele suspendera a conversa e franzia o rosto a Júlia,
irritado. — Mas já que estás aqui...
Ele encostou um dedo na pasta, antes de acrescentar:
— Os relatórios aqui estão atualizados? Estou falando com senhora Sloban e
talvez precise preparar um relatório detalhado pra amanhã.
Júlia explicou que precisava ainda tabular os últimos dividendos mas poderia
atualizar tudo até a manhã do dia seguinte. Ele a interrompeu com um gesto
irritado:
— Se em vez de ficar sonhando de olhos abertos junto a minha mesa, Júlia,
prestasses mais atenção ao trabalho...
Ele empurrou a pasta na mesa, a dispensando. Um momento depois, Júlia saiu,
furiosa, da sala. O olhar de Maria a acompanhou até sua mesa, comentando:
— É evidente que não te ofereceu um aumento de salário.
— Digas uma coisa, Maria: Costumo ficar sonhando durante o trabalho?
— Foi o que disse o bonitão?
Júlia abriu a gaveta e tirou sua bolsa.
— Devo ser uma masoquista pra encontrar algo atraente num homem assim. Se
ele perguntar sobre mim digas que eu estou sonhando aí.
— Ligarás a senhora Turner?
Júlia assentiu.
— Prometi. Quer almoçar comigo. Quer apostar como pedirá pra ajudar a
escolher um lindo presente de surpresa pra seu adorado marido? Arsênico. É isso o
que recomendarei!
O ascensorista estava loquaz e isso ajudou a esfriar Júlia, enquanto descia os
cinco andares até o saguão. O homem atrás do balcão na Bill's, ao lado, lhe acenou
jovialmente. A fé na natureza humana foi momentaneamente restaurada. Júlia
entrou numa das cabinas telefônicas no fundo da lanchonete e ligou a senhora
Turner.
Combinaram o encontro pra 12:30h, num restaurante que estava relativamente
segura de que seu chefe não freqüentaria. Além do mais estava sendo esperado,
naquele dia, num almoço de negócio.
Quando Júlia chegou ao restaurante senhora Turner já estava tomando um
drinque à mesa, as feições rudes, uma máscara de determinação e amargura.
Não demorou muito pra que Júlia compreendesse o motivo daquele semblante
sombrio. Logo depois que a garçonete trouxe o pedido senhora Turner pegou as
mãos de Júlia, através da mesa.
— Júlia, quero que sejas franca comigo. Não tenhas medo de me magoar com a
verdade.
— Tentarei, senhora Turner. Mas o que...
— Quero saber uma coisa: Meu marido está tendo um caso com outra mulher?
Júlia ficou surpresa demais, até pra negar tal conhecimento. Senhora Turner se
inclinou a diante, tensa.
— Preciso saber, Júlia. O deixarei, de qualquer maneira. Entendes? Mas preciso
saber quem é.
— Senhora Turner, de nada sei, realmente.
— Sabes, sim. És sua secretária. Todos no escritório sabem quem é. Quero me
desforrar, Júlia. Tenho certeza de que podes compreender. Quero desgraçar os
dois!
— Ele lhe disse que estava apaixonado por outra mulher? — Indagou Júlia,

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
sentindo o rubor de culpa na face.
— Apaixonado? Ricardo ninguém ama. Usa as pessoas. Se casou comigo apenas
por dinheiro. — A mulher feia sorriu tristemente. — Mas agora está zangado
comigo. Como ficou furioso, ontem na noite, porque me recusei a transferir parte
de meu dinheiro a sua conta! Transferir meu dinheiro? Que espécie de idiota pensa
que sou? E quer saber o que disse quando me recusei? Escarneceu de mim.
Declarou que arrumaria outras mulheres, mulheres bonitas, pra afastar seus
pensamentos dos problemas de dinheiro.
— Mas não disse já ter outra mulher. Não é?, senhora Turner. Apenas ameaçou.
A mulher mais velha sacudiu a cabeça, judiciosamente.
— Não conheces Ricardo. Nunca ameaça se não tem certeza do que pode fazer.
A filosofia do pássaro na mão. Mas quero estragar tudo pros dois. O quero deixar
antes que me deixe. Então nada terá. Ao mesmo tempo quero promover um
escândalo tão grande que perderá, a sempre, toda possibilidade de se casar com
outra mulher rica. Nunca mais sequer falarão consigo depois que eu acabar. Quem
são suas clientes?, Júlia. Quais as mulheres livres?
Júlia estava bastante alarmada.
— Não posso fornecer os nomes de clientes.
Senhora Turner se recostou na cadeira, com uma aparência de derrota. Podia
sentir a determinação de Júlia e definhou.
— Está certo. Compreendo. É claro que não podes fazer isso. Creio que foste o
mais prestativa que poderia ser. E não te preocupes, Júlia. Nada direi a Ricardo a
respeito de nosso encontro. Mas nesta noite direi que está tudo acabado entre nós.
Tornou a sorrir, antes de acrescentar:
— E gostarei de dizer isso . Será interessante ver como tentará me convencer de
que não teve a intenção de me ameaçar, que me ama de verdade. Será uma noite e
tanto.
De volta ao escritório, foi praticamente impossível trabalhar. Senhor Turner
passou a maior parte da tarde ausente, com um cliente, mas Maria não deu sossego
até contar tudo o que lhe acontecera. Foi um alívio partilhar o incidente com
alguém. Foi um alívio ainda maior quando deu 5h, deixou o escritório e seguiu, de
metrô, ao Bronx.
Somente quando estava à mesa do jantar, naquela noite, é que se lembrou da
conta Sloban. A mãe estava censurando sua irmã caçula por não fazer o dever de
casa, por viver sonhando. E compreendeu, de repente, que, na aflição naquela
tarde, esquecera de atualizar a pasta Sloban. A perspectiva de enfrentar senhor
Turner no dia seguinte com aquela negligência era terrível, especialmente depois
da crítica naquela manhã e, levando em consideração o ânimo dele, depois da
conversa naquela noite com a esposa...
Verificou que ainda eram 7h. Podia voltar ao escritório, pegar a pasta e
trabalhar na noite em casa, terminando tudo antes de se deitar. Apesar da objeção
da mãe, pôs o casaco e saiu. O ascensorista noturno no prédio de escritório estava
quase adormecido atrás da mesa. A reconheceu e sorriu, contrafeito.
— Podes me levar até lá em cima e ficar esperando um pouco? — Perguntou
Júlia, enquanto assinava o livro de registro. Ele sacudiu a cabeça e pegou as
chaves.
— Não será possível. Tenho de ficar de plantão aqui embaixo. Mas basta tocar a
campainha do elevador quando estiveres pronta pra descer.
O elevador parecia muito barulhento quando o prédio estava vazio. Ele a levou a
cima, abriu a porta do escritório com uma chave-mestra e voltou ao posto. Júlia se

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sentiu abandonada. Assobiando, acendeu a luz e avançou, entre as mesas vazias, à
sala de senhor Turner.
A pasta Sloban ainda estava sobre a mesa dele. O telefone tocou no instante em
que ela a pegou. Júlia retirou a mão bruscamente.
O efeito do segundo toque da campainha no escritório deserto não foi menos
desconcertante. Quem poderia estar ligando ao telefone particular de senhor Turner
naquela hora?
Ao terceiro toque da campainha se controlou o suficiente pra atender.
— Alô.
— Como? Quem... Quem está falando?
Era a voz de senhor Turner. Dominando rapidamente a surpresa, Júlia se
identificou. Explicou a presença no escritório.
— Tem problema se eu levar a pasta pra trabalhar em casa?
— Não. Não. Já estás de saída?
— Sim, senhor Turner.
Podia imaginar o rosto compenetrado dele. Nunca antes experimentara tal
sensação de intimidade com aquele homem. Talvez fosse simplesmente por ser
noite. E mais que qualquer outra coisa, queria prolongar a conversa.
— Estavas querendo algo?, senhor Turner. Alguém...
— Não. Claro que não. — A risada foi curta, forçada.
— Apenas disquei o número errado. Tomei alguns drinques num bar e fiquei
confuso. Boa noite.
— Boa noite, senhor Turner.
Júlia desligou e ficou olhando fixamente o telefone. Gostaria de saber se
senhora Turner já falara que deixaria ele, deserdando e todo o resto que ameaçara.
Se isso acontecera podia compreender por que andara bebendo. Mas por que
telefonara ao escritório naquela hora? Alguém deveria estar ali? Será que sua
presença afugentara essa outra pessoa? Não podia acreditar que ele discara o
número errado.
Pegou a pasta Sloban e foi ao centro da sala grande. Quase esperava encontrar
alguém espreitando atrás das mesas das datilógrafas. Qualquer que fosse a
explicação, precisava satisfazer a curiosidade. Por que deixar que ele a tangesse
até casa? Poderia fazer o trabalho ali mesmo. Não é? Se sentou a sua própria mesa
e abriu a pasta. Podia terminar de registrar os dividendos em menos de uma hora.
Foi necessário pouco mais de uma hora. Com um senso de realização fechou a
pasta e a levou de volta à mesa de senhor Turner. Em sua própria mesa pegou a
bolsa e o casaco. E nesse instante ficou paralisada.
Como um grito estridente na noite, o telefone na mesa de senhor Turner tocou.
Primeiro uma vez, depois outra e mais outra.
Se virou e olhou a porta de entrada de vidro fosco. Sabia que, a qualquer
momento, alguém entraria abruptamente naquela porta, a fim de atender à
campainha imperiosa do telefone. Mas nenhuma silhueta se aproximou do vidro.
Muito tensa, resistindo ao magnetismo da campainha, Júlia foi atravessando o
escritório. Olhando a trás, Júlia apagou a luz, abriu a porta, saiu, fechou. Parada
diante, do elevador, ouvia a campainha do telefone ainda tocando, como uma
criança impertinente, chamando alguém. Finalmente, um momento antes de o
elevador chegar, a campainha cessou.
Na manhã Maria ouviu os acontecimentos da noite anterior com um espanto de
olhos arregalados.
— Estás querendo dizer que ligou ao escritório? Puxa, devia estar mesmo num

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
porre e tanto. Mas queres saber duma coisa? Não posso imaginar um homem como
ele ficar num porre assim.
Senhor Turner chegou com apenas uns poucos minutos de atraso e parecia
calmo e controlado como sempre. Dava a impressão de ter esquecido que o dia
anterior existira. Depois dum brusco bom-dia, entrou na sala e fechou a porta. O
interfone na mesa de Júlia entrou em funcionamento às 9:20h.
— Júlia, queres ligar à senhora Turner?
— Senhora. Turner?
Estava surpresa em descobrir que senhor Turner ainda falava com a esposa.
— Isso mesmo, senhora Turner. Não me ouviste direito? O que ouviu, pouco
antes de senhor Turner romper a ligação, foi um som desconcertante.
— Isso é estranho. — Murmurou Júlia, se virando a Maria.
— O que é estranho?
Júlia acenou com a cabeça em direção à porta fechada.
— Está ligando a alguém via telefone particular. Pude ouvir discando.
— A outra mulher. — Comentou a loura Maria, estalando os dedos. — Será que
não percebes que quer que ela escute enquanto fala com a esposa? Ou talvez seja o
advogado dele. Podem estar querendo fazer uma gravação como prova no processo
de divórcio.
Júlia ficou irritada consigo por acreditar em Maria, mesmo que apenas um
segundo. Tirou o fone do gancho, pediu uma linha à telefonista e discou. O
telefone de senhora Turner estava ocupado. Maria disse:
— O que esperavas? Está ocupada a falar com o advogado.
Júlia apertou o botão do interfone e ficou esperando que senhor Turner
atendesse.
— O que é?, Júlia.
— O telefone de tua esposa está ocupado, senhor Turner.
— É mesmo? Está bem. Obrigado.
— Devo testar de novo daqui a alguns minutos?
— Não precisas te incomodar. É nada de importante.
Ficou pensativa pondo papel na máquina de escrever e começando a bater um
relatório mensal prum cliente. Estava imaginando seu futuro, como freqüentemente
fazia quando vislumbrava a vida particular alheia. Te casarias com alguém, de boa-
fé, apenas pra descobrir que mal o conhecias? Se pode confiar no sentimento
doutra pessoa?
Absorvida, nem notou os dois estranhos que se aproximavam de sua mesa. Era
pouco antes da hora do almoço. Datilografava quando surgiu em seu campo de
visão a manga dum sobretudo masculino, a mão aberta exibindo uma carteira com
o emblema da polícia.
Foi a primeira vez que viu sargento Ruderman.
— Desculpes te surpreender. Acho que não me ouviste chegar por causa da
máquina. Perguntei se podia falar com senhor Turner, por favor.
Junto outro detetive, um pouco mais baixo e mais velho. Júlia olhou dum a
outro e acenou com a cabeça, vigorosamente.
— Queres me acompanhar? Por favor.
Os levou à sala de senhor Turner. Não entrou atrás deles. Podia imaginar por
que estavam ali.
Quando saíram, com senhor Turner, Júlia quase pôde sentir o que ele sentia.
Nunca o vira tão pálido.
— Júlia, senhora Turner sofreu um acidente. Sairei. — Ele lançou um olhar

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
inquiridor aos detetives. — Estarei ausente no resto do dia.
— Um acidente? É grave?
Ele assentiu bruscamente.
— A criada a encontrou.
Sargento Ruderman interveio:
— Podes deixar. Explicarei tudo a tua secretária, senhor Turner. É melhor ir
agora com detetive Wilson. Irei depois.
Depois que saíram o sargento pediu a Júlia o acompanhar até a sala de senhor
Turner. Ele fechou a porta e acenou pra que se sentasse. Júlia percebeu, pela
maneira quase imperceptível como os olhos castanhos do policial se estreitaram,
que ele sentiu o ressentimento involuntário dela o vendo ocupar a cadeira atrás da
mesa.
— Senhora Turner está morta. Não é?
Ele se limitou a inclinar a cabeça, a observando.
— Como aconteceu? Quando?
Ele manteve a expressão impassível.
— A criada chegou ao apartamento em volta das 10h desta manhã. A hora em
que sempre chega. Encontrou senhora Turner na banheira. Obviamente batera a
cabeça e... Mas não queres, realmente, ouvir os detalhes. Não é?
Júlia virou o rosto.
— Claro que não. Foi um acidente?
— É o que parece. Falaste com ela, via telefone, nesta manhã. Certo?
— Não cheguei a falar. Mas quem te disse isso?
— Senhor Turner. Disse que ligaste a ela hoje na manhã.
— Me pediu pra ligar. Mas não cheguei a falar. O telefone estava ocupado.
— Entendo. — Os lábios do detetive se contraíram num humor espontâneo. —
Foi o que nos disse. Por falar nisso, a que horas senhor Turner chegou ao escritório
nesta manhã?
— Acho que às 9:20h.
— E não deixou o escritório desde então?
Júlia estava satisfeita por ter atrapalhado o interrogador e disse lealmente:
— Passou toda a manhã aqui.
— Isso é ótimo. — Ele também parecia satisfeito. — Já calculamos que morreu
por volta das 9h. Se foi antes ou depois das 9: Eis a questão. Mas nenhum do
telefone no apartamento estava fora do gancho quando lá chegamos ou quando a
criada chegou. E disseste que a linha estava ocupada às 9:20h. Portanto, a
probabilidade é de que estava viva nessa hora e sofreu o acidente pouco depois.
Ele sorriu, enquanto acompanhava Júlia até a porta.
— Não pedirei desculpa por te afastar do trabalho. Posso assegurar que foi um
prazer. — A expressão se tornou subitamente ansiosa. — Admito que tive uma
espécie de pressentimento. Como era o relacionamento entre os dois? Se davam
bem?
Júlia quase contou nesse momento tudo o que acontecera. Ele parecia um
homem afável e de confiança, fácil de se falar. Mas se conteve a tempo. Tinha
certeza, no entanto, de que ele percebera todas as transições.
Enquanto ele abria a porta a expressão era de dúvida e perplexidade. Júlia sabia
que ele não acreditou em sua resposta murmurada de que nada sabia a respeito dos
Turner.
E fora por isso que naquela noite ele a esperava na calçada do prédio e a levara
à lanchonete. Contudo, nem ele podia sondar o quanto ela aprendera nos últimos

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
dois dias sobre o casamento infeliz. O próprio senhor Turner ignorava que ela
conversara com sua esposa e sabia tanto. Seria possível ganhar algo com essa
informação? Só serviria pra magoar senhor Turner.
— Mas então por que — Júlia se perguntava — tinha aquele impulso de querer
falar com sargento Ruderman de novo, de lhe contar tudo?
— Júlia.
Era Maria, que se metera no mesmo lugar que o detetive acabara de desocupar.
— Não fiques tão espantada. — Disse Maria, fazendo um muxoxo. — Vi
quando se encontrou contigo na calçada e fiquei esperando. E sabes que não
consigo resistir a uma fofoca. O que te disse? O que aconteceu?
— Nada aconteceu. Tornou a me interrogar sobre os Turner e nada contei.
— Mas isso é sensacional!
Júlia ficou surpresa.
— Sensacional? Por que dizes isso?
— Qual seria o sentido de criar mais problema ao pobre senhor Turner?
Ela se inclinou a diante, confidencialmente, antes de acrescentar:
— E agora me fales sobre o detetive. Te convidou pra sair?
A mudança na cor de Júlia respondeu à pergunta.
— Eu sabia, até pela maneira como te olhou no escritório, nesta manhã. Pra
minha grande surpresa, menina, fiquei com inveja daquele olhar. E na próxima vez
em que eu te disser que não estou interessada nessas baboseiras sentimentais, que
só o dinheiro conta e que não faz diferença se teu namorado é casado, depois de
tudo o que aconteceu, por favor não acredites em mim.
Júlia pôs a mão na de Maria.
— Nunca acreditei em ti. Mas uma coisa em que quase acreditei foi que tu e
senhor Turner... que vós...
— Senhor Turner? Estás falando sério?
Júlia deu de ombros.
— Teria explicado muita coisa. Mas sei que não é verdade. Mesmo assim,
alguma coisa...
Franziu o rosto, enquanto olhava, além de Maria, as cabinas telefônicas vazias.
Estalou os dedos subitamente.
— E se ele não estivesse, ligando ao advogado ou a outra mulher?, Maria.
— Ele quem?
— Senhor Turner. Te lembras desta manhã, quando eu disse que ligava a
alguém via outro telefone? E se estivesse ligando ao telefone da esposa? Eu teria
um sinal de ocupado se tentasse ligar naquele momento. Não é?
Maria não tinha certeza. Júlia foi até o balcão e pediu que fosse trocada uma
nota de 1 dólar. Entrou depois numa cabina telefônica.
— Preciso descobrir se é isso mesmo.
— A quem ligarás? — Perguntou Maria.
— Ligarei à casa de senhor Turner neste telefone e deixarei tocar. Depois
discarei o mesmo número da outra cabina e verei se tenho sinal de ocupado.
Estendeu uma moeda de 10 centavos à fenda mas retirou a mão abruptamente.
— Não posso ligar à casa de senhor Turner, que pode atender. Ou a polícia pode
ainda estar lá. Tem alguém em teu apartamento?, Maria.
Sua amiga teve um sobressalto.
— A família inteira.
— Minha família também está em casa. Precisamos dum telefone que ninguém
atenda. Que tal o escritório? Maria franziu o rosto.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Pode ser, mas acho que o automático da mesa telefônica transfere uma
segunda ligação a outra linha. Assim, não seria um bom teste. Por que não ligas a
um dos telefones particulares? A linha particular de senhor Turner não passa na
mesa.
Júlia já largara a moeda na fenda. Discou cuidadosamente. Podia ouvir o
telefone tocando no outro lado da linha. Subitamente, Júlia ficou boquiaberta.
Desligou lentamente, com uma expressão atordoada.
— O que aconteceu? — Maria entrou na cabina. — Por que desligaste? Pensei
que deixarias tocar e depois ligar da outra cabina...
Júlia estava sacudindo a cabeça.
— Não há necessidade. Senhor Turner já fez o teste, ontem na noite! Foi por
isso que ligou ao escritório. Agora compreendo por que ficou tão chocado quando
atendi.
— Então foi mesmo ele? Assassinou a mulher? Ela estava, provavelmente,
morta antes que ele chegasse ao escritório nesta manhã?
Júlia estremeceu.
— É inacreditável que isso possa acontecer com pessoas em seu próprio
escritório. Pessoas que vemos todos os dias. Sabes o que me deixa arrepiada?,
Maria. É saber que testemunhei tudo. Fui parte do que aconteceu mas não
compreendi na ocasião.
Meteu a mão na bolsa pra pegar o cartão do detetive.
— Sargento Ruderman disse que eu tinha um senso de lealdade mal-orientado.
Acho que estava certo. — Júlia discou o número no cartão. — É da delegacia?
Sargento Ruderman já chegou? Isso mesmo. Eu gostaria de falar consigo.

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Prisão na estrada do sul


Robert Colby
Acabaram de deixar um trecho de alta velocidade da rodovia interestadual.
Agora, o caminho ao sul, em direção à Flórida, prosseguia numa estrada estreita,
de mão dupla, passando em várias cidades pequenas. Determinado a alcançar o
ponto de parada habitual entre Nova Iorque e a Flórida, antes de meia-noite,
Estênio Sherwood ignorou o reduzido limite de velocidade e acelerou ainda mais o
sedã novo e luxuoso.
Estênio e a mulher, Bárbara, viajavam sem parar desde o amanhecer. Era uma
viagem familiar e monótona. Sempre com pressa de escapar ao inverno,
geralmente paravam apenas prumas poucas horas de sono.
Estênio Sherwood fora um executivo de conta duma grande corretora de valor
de Nova Iorque. Suas especulações pessoais eram muitas vezes mais arrojadas que
as dos clientes. Assim, com 38 anos, acumulara uma fortuna grande o bastante pra
passar o resto da vida fazendo nada, se o desejasse. Mas vendera tudo, exceto
algumas blue-chips, ações de primeira ordem, e estava a caminho de acumular
outra fortuna em negócio imobiliário na Flórida.
A seu lado Bárbara, 31 anos, casaco de pele e atraente, embora às vezes
parecesse enganadoramente altiva, serviu café duma garrafa térmica. Estendeu a
xícara de plástico.
— Não, obrigado, meu bem. Pelo gosto, tenho certeza de ainda é o mesmo café
que nos serviram no ano passado, apenas um pouco requentado. Aqui todas essas
espeluncas na beira da estrada costumam oferecer o mesmo café.
Bárbara riu.
— E devem ter também o mesmo cozinheiro, pois toda a comida tem um gosto
igual.
— Não se chama de comida nesta parte do país, meu bem. Não leste as placas?
Comes e gasolina. Dá um toque doméstico. Apenas uma comida simples e uma
gasolina também simples.
— Também não costumam temperar a gasolina?
— Às vezes acrescentam um pouco dágua.
Bárbara acendeu um cigarro. Estênio perguntou a hora.
— Quase 10h. Está com sono?
— Não. Apenas cansado.
— Queres que eu dirija?
— Teremos de parar, pra abastecer, daqui a pouco. Então trocaremos.
Passaram uma ponte e uma placa informou a mudança de condado. Outra placa
lembrou que o limite de velocidade na noite era de 80km/h. Estênio estava guiando
a pouco mais de 100km/h e novamente ignorou o aviso.
Momentos depois um clarão vermelho surgiu no espelho retrovisor e ele
praguejou baixinho, enquanto o carro da patrulha emparelhava e um guarda fazia
sinal pra que parasse. O dinheiro não seria problema, a multa apenas um
aborrecimento. Mas com a placa doutro estado, certamente o levariam até o posto.
Pela maneira como aqueles guardas matutos cuidavam das coisas, o processo
talvez fosse lento. Já exaustos, a demora impediria que alcançassem o luxo e o
sossego do melhor motel em todo o percurso.
— Provavelmente nos custará quase uma hora. — Disse a Bárbara, enquanto

63
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
freava e parava no acostamento.
— Talvez se contentem com uma advertência. — Sugeriu ela, esperançosa.
Ele soltou um grunhido.
— Não há possibilidade. Darão uma olhada no carro e outra em ti. Com esse
casaco de pele, tratarão de dobrar a multa. Esses caipiras vivem do sangue dos
turistas que passam a toda em seus matagais, em carros imensos, rumo a Flórida.
— Falas como um cético profissional, Estênio. Tenho certeza de que não passa
dum trabalho pra eles e que não se importam com o lugar em que vivemos.
Com um suspiro, Estênio desligou o carro e ficou esperando. Havia dois guardas
e um, o companheiro do motorista, saltou e se aproximou da janela de Estênio,
com uma atitude arrogante. Era alto e corpulento, estava de bota. Algo no uniforme
e na postura rígida fazia com que sua arrogância parecesse digna da Gestapo.
Estênio apertou o botão e a janela elétrica baixou, deixando entrar uma lufada
de ar gelado.
— Tua carteira de motorista, senhor. — Exigiu o guarda. Estênio pegou a
carteira e entregou. O guarda examinou rapidamente, à luz da lanterna, e devolveu.
— Teremos de te levar ao posto, senhor Sherwood. — Declarou, a boca
contraída, o rosto uma mancha pálida na escuridão.
— Admito que estávamos em excesso de velocidade, mas é que, estávamos
muito atrasados. — Disse Estênio, tirando da carteira uma nota de 50 dólares. —
Por que não pegas este dinheiro e pagas a multa por mim?, seu guarda. Eu ficaria
profundamente grato.
O guarda olhou a nota, sem a tocar. Os lábios se entreabriram desdenhosamente.
— Devias saber que isso não resolverá, senhor. E acho que tem muito mais com
que te preocupar além duma simples multa por excesso de velocidade.
— Por favor, seu guarda, não me ameaces. — Protestou Estênio, guardando a
nota na carteira. — Te limites a dizer o que estás querendo.
— Não demorarás a descobrir.
Os olhos do guarda correram o carro, entraram se fixando em Bárbara. Fez
sinal, ao companheiro, pra seguir na frente e entrou, arrogantemente, no banco de
trás do sedã.
— Sigas nosso carro até o posto.
Estênio ligou o sedã e seguiu as luzes traseiras da radiopatrulha. Não adiantava
argumentar com um guarda caipira, concluiu. Mantenhas a calma e converses com
algum superior.
— Por que não nos contas qual é o problema? — Perguntou Bárbara, irritada, se
virando ao guarda, com um rosto tenso, furioso. — Insinuas que cometemos algum
crime grave, quando estávamos apenas em excesso de velocidade.
— Fiques calada — Interveio Estênio, suavemente. — Obviamente é um
equívoco e esclarecerei tudo com o oficial que estiver no comando.
Deixaram a estrada pouco depois, entrando num caminho com o asfalto todo
quebrado, que se transformava em terra batida até o portão dum prédio de madeira.
Havia um globo verde sobre a porta e uma placa que informava Subdelegacia do
xerife. O prédio era pequeno e sombrio.
Acompanhados pelos dois guardas, entraram numa sala retangular, com duas
mesas escalavradas atrás duma grade e algumas cadeiras, uma máquina de escrever
antiga e um arquivo.
O motorista do carro da polícia apertou um botão na parede, logo além da porta.
Ficaram esperando, de pé, desconfortavelmente, antes da grade.
Depois do que parecia tempo suficiente pra reunir um regimento, um homem

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
surgiu duma porta no fundo. Estava abotoando o casaco do uniforme de xerife e
alisando o cabelo preto com a mão calosa. Os olhos castanhos profundos sob
sobrancelhas espessas indicavam que acabara de ser acordado. Era corpulento, de
nariz grande, rosto quadrado. Os olhos contemplaram Estênio e a mulher de casaco
de pele com uma especulação ociosa.
— Ora! Ora! Floyd. O que temos aqui? — Indagou, jovialmente, ao guarda que
efetuara a prisão e cujo companheiro estava no canto, todo arriado, fumando um
cigarro.
— Temos encrenca, xerife. — Disse Floyd, passando ao outro lado da grade.
O xerife se sentou a uma mesa e os dois conferenciaram em voz baixa, as
feições rudes do xerife se franzindo gradativamente. Floyd entregou a folha de seu
bloco de anotação, no qual estivera escrevendo à luz da lanterna, no banco traseiro
do carro dos Sherwood. O xerife foi vasculhar o arquivo e voltou com um papel,
que pôs na mesa, ao lado das anotações do guarda. Comparou os dois papéis um
momento. Levantou os olhos, com uma expressão soturna.
— Excesso de velocidade. Não gosto de gente que ultrapassa a velocidade
permitida. Este condado pode ser duro com gente assim. Damos um jeito pra que
não nos esqueçam tão cedo. Mas tinha um bom motivo pro excesso de velocidade.
Não é?, senhor.
— Não, senhor. — Disse Estênio, submisso. — Não tenho motivo razoável e
lamento muito. Terei prazer em pagar a multa.
— Não tens motivo razoável?, hem! Pois discordo. Quando um homem está
guiando um carro roubado, que vale 10 mil dólares, tem todos os motivos do
mundo pra seguir na estrada como um louco. Porque está, naturalmente, com
pressa de escapar da polícia. E chamo isso um motivo mais do que razoável.
— Carro roubado? — Murmurou Estênio, incrédulo. — Que carro roubado?
Comprei este carro em Nova Iorque há três meses e tenho o registro pra provar que
é meu.
Tirou a licença da carteira e estendeu sobre a grade. O xerife a examinou,
depois olhou o papel em cima da mesa. Levantou os olhos a Estênio.
— É o mesmo carro do aviso de roubado.
— Portanto, é um engano. Não é?
— Nada disso. Ao que eu imagino, tu e a mulher roubaram o carro desse tal de
Sherwood. Talvez fora alguma vigarice, não diz aqui. Mas tiraste o carro do cara,
junto com carteira e documento.
— Fantástico! — Exclamou Estênio. — Absolutamente fantástico! Meu nome é
Sherwood e esta é senhora Sherwood!
— Isso mesmo. — Interveio Bárbara, indignada. — Sou a senhora Sherwood e
este é meu marido. Parecemos uma dupla de ladrão de carro?
— Devo admitir, dona, que mesmo neste casaco de pele roubado pareces muito
boa pra mim. — Respondeu o xerife. — Mas na penitenciária estadual feminina
temos algumas donas com a mesma classe.
Soltou uma risadinha maliciosa, antes de acrescentar:
— Mas não tão elegantes, é verdade.
O xerife sorriu, enquanto Estênio dizia, rispidamente:
— Não estou interessado em teu senso-de-humor, xerife sei-lá-o-quê.
— Xerife Clyde Hamlin, senhor. E é melhor te acostumares a meu senso-de-
humor, porque talvez tenhas de o suportar algum tempo.
Se recostou na cadeira e acendeu um charuto, com movimentos suaves,
indolentes.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Achas mesmo? — Indagou Estênio.
— Hum, hum... — Murmurou Hamlin, acenando com a cabeça, uma expressão
de felicidade, formando um círculo com os lábios e soprando a fumaça a eles,
através da grade. — O que estou dizendo é a pura verdade.
— Sou acusado de roubar meu próprio carro?
Hamlin estreitou os olhos.
— O que me dizes de minha assinatura? Posso assinar meu nome exatamente
como está em meus documentos.
— Um bom vigarista é também um bom falsificador. Não é?, Bart. — disse,
olhando o segundo guarda. — Foste guarda na penitenciária estadual e deves saber.
— É isso mesmo, xerife. Podes aceitar minha palavra.
— Se o carro é teu — interveio Floyd — mostres o título de propriedade ou a
nota de venda.
— Achas que eu andaria com tais documentos? Estão guardados em minha casa.
— É uma pena. — Comentou o xerife. — Em nada ajudarão tão longe.
— Eu gostaria de chamar meu advogado. — Disse Estênio. Hamlin assentiu.
— Está certo? Ele é daqui?
— Claro que não! Nem sei o nome da cidade mais próxima. Meu advogado
mora em Nova Iorque.
— Não permitimos ligação interurbana.
— Pagarei a ligação.
— Não faz diferença. É uma regra. E uma regra é uma regra. De qualquer
forma, um advogado de Nova Iorque de nada adiantaria. Provavelmente não
conseguiria chegar aqui antes dum ou dois dias. O tribunal indicará um advogado.
— Está certo. — Disse Estênio, resignado. — Quanto nos custará pra superar
essa falsa acusação?
O xerife se inclinou a diante, abruptamente.
— Está me parecendo uma oferta de suborno. E já tens uma acusação de
tentativa de suborno. O guarda me disse que tentaste o subornar com uma nota de
50 dólares. Te aconselho a ficar de boca fechada antes de te estrepar todo, senhor.
— Eu gostaria de pagar a fiança. — Disse Estênio, se controlando.
Hamlin sacudiu a cabeça.
— Não será possível nesta noite. Roubo de carro é um crime que somente o juiz
pode determinar a fiança.
— E quando o juiz estará disponível pra fixar a fiança?
— Não posso dizer exatamente. Tem uma porção de caso pra cuidar, o bastante
pra encher um celeiro. Com alguma sorte poderá resolver o assunto amanhã. Mas
eu não contaria com isso.
— E até lá? — Indagou Estênio, fazendo se esforçando pra manter o controle.
— Até lá este lugar é como um motel gradeado. Temos bons quartos no fundo,
grátis. A comida não é grande coisa mas também não é das piores. E agora venhas
e esvazies os bolsos nesta mesa!
Estênio hesitou. Floyd o agarrou no braço e o levou num pequeno portão até a
mesa. Além da carteira com bastante dinheiro Estênio pôs na mesa as chaves, um
lenço, um talão de cheques de viagem no valor total de 1500 dólares e seu talão de
cheque. Também foi obrigado a entregar o relógio e um anel de ouro. O xerife pôs
uma folha de papel na máquina datilográfica.
— Teu nome?
— Stanley Sherwood.
— Teu verdadeiro nome?

66
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Stanley Sherwood.
— Nome desconhecido. — Disse o xerife, datilografando.
Uma pausa e continuou:
— Endereço?
— O mesmo que está na carteira de motorista.
— Endereço desconhecido. — Murmurou o xerife, tornando a bater.
Outra pausa.
— Ocupação?
— Investimento imobiliário e mercado acionista.
Hamlin continuou datilografando. Relacionou as coisas na mesa, contando o
dinheiro e os cheques. Entregou o papel a Estênio, que o leu com raiva e
frustração, certo de que despertaria daquele sonho sórdido a qualquer momento.
Olhou a mulher, parada além da grade, boquiaberta. De olhos arregalados, ela
dobrou a mão metida numa luva preta, levando à boca e mordendo. Parecia
terrivelmente inepta e frágil. Estênio sentiu pena e ao mesmo tempo ficou
ressentido com sua atitude tola, desejando que ela rompesse o silêncio com uma
explosão em sua defesa.
— Se está tudo certo, podes assinar. — Disse Hamlin, estendendo uma caneta.
Estênio assinou o papel e o xerife o guardou numa gaveta da mesa. Os olhos se
fixaram em Bárbara.
— É tua vez agora, dona.
Como ela permanecesse parada, Bart a agarrou no pulso e puxou, cambaleando,
até a mesa do xerife.
— Tires as mãos da minha esposa! — Berrou Estênio.
— Tentes me obrigar. — Respondeu Bart, com um sorriso ameaçador, pondo a
mão na coronha do revólver no coldre.
— Não penses que não irei. — Murmurou Estênio, contraindo os músculos,
perigosamente.
— Não precisas ficar nervoso. — Disse o xerife, removendo o charuto dos
lábios úmidos, num gesto indolente. — Isso não adiantará.
Tornou a olhar Bárbara, acrescentando:
— Muito bem, dona, ponhas tudo na mesa. — Como ela continuasse imóvel,
atordoada, o xerife arrancou a bolsa de suas mãos. — Ficaremos com o relógio e o
anel. A lei diz que não podes ficar com algo. A cela é grande e aconchegante,
também não precisarás da pele.
Embora percebesse que tudo levava a isso, Estênio não acreditara que fossem
mesmo prender Bárbara.
— Ela nada tem a ver com isso!, xerife. Não meterás minha esposa numa cela
imunda!
— Pode chamar de esposa, se quiseres. A lei diz que é uma cúmplice e irá a uma
cela como qualquer outro.
— Prestes atenção, Hamlin. — Ameaçou Estênio, se inclinando sobre a mesa.
— Se tu e teus guardas matutos insistirem em meter minha esposa numa cela, sob
essa acusação forjada, quando sair daqui darei um jeito de espalhar tua carcaça
gorda em todo o condado!
O xerife tirou o charuto da boca, calmamente, contemplou a ponta em brasa um
instante e a comprimiu, selvagemente, no rosto de Estênio, o agarrando no cabelo.
— Talvez nunca mais saias daqui. — Disse ele, quando o grito de Estênio se
desvaneceu a um gemido baixo, a mão cobrindo o rosto ardendo.
O xerife abriu a bolsa de Bárbara e a virou. Meia dúzia de coisas caíram

67
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
ruidosamente na mesa, um batom rolando ao chão. Se levantando abruptamente,
agarrou o casaco de pele na gola e o arrancou com um puxão violento. Tirou a luva
da mão de Bárbara e estava tentando arrancar o diamante grande do dedo relutante,
com uma energia frenética quando Estênio o empurrou e acertou um soco em cheio
na boca, dando ao golpe todo o peso de seus 90 quilos e mais a intensidade de sua
fúria.
Hamlin se estatelou no chão. Se levantou meio desajeitado, o sangue escorrendo
entre os dedos com o qual comprimia a boca. Quando baixou a mão ao coldre,
deixou à mostra um buraco irregular de dentes quebrados.
Levantou o revólver rapidamente e disparou. A pequena chama pareceu se
projetar diretamente ao meio da testa de Estênio, mas o tiro foi sem direção e
apenas arranhou a orelha esquerda.
Floyd desferiu uma cutilada no pulso do xerife, antes que pudesse apertar o
gatilho no segundo tiro, agora mirado com todo cuidado. Bart bateu na cabeça de
Estênio atrás e a escuridão o envolveu.
Quando recuperou o sentido Estênio descobriu que estava deitado no beliche
inferior duma cela tão estreita que quase parecia possível estender o braço e tocar
na parede do outro lado. Aparentemente, a cela não tinha janela, embora houvesse
um tubo de ventilação no teto, ao lado da lâmpada nua.
A cela tinha uma porta de aço, com uma janelinha grande o bastante pra se
passar comida e observar os presos. Na parede do fundo havia um balde grande e
coberto, que Estênio calculou ser uma concessão à higiene.
Observou tudo com apenas um pequeno movimento da cabeça. Tinha a sensação
de que despertava com uma ressaca monumental. A cabeça latejava e tinha uma
pequena bandagem presa na orelha. A face estava dolorida ao contato e começara a
empolar. Lhe tiraram o sobretudo e a luva mas, excetuando isso, estava vestido
como antes. A cela era desconfortavelmente quente, o ar parado estava impregnado
com o cheiro forte de desinfetante.
Pensando agora que talvez houvesse outro preso na cela, se levantou
cautelosamente. Mas não havia alguém no beliche superior. Verificou os bolsos,
mas estavam vazios. Tirando o paletó, olhou ao redor, consternado. Era uma cela
estranha, pouco mais que um caixão grande. Estariam mantendo Bárbara numa
tumba semelhante? O pensamento o deixou insuportavelmente deprimido. E foi
acometido por uma assustadora sensação de claustrofobia.
A única claridade provinha do outro lado da porta, era reduzida pelo tamanho do
vasculhante e mal dava pra dissipar a escuridão na cela. Quanto tempo já teria
passado? Num lugar como aquele não se podia distinguir a noite do dia.
Ele foi até a porta e espiou na abertura, na altura do peito. Divisou um corredor
estreito, com três outras portas, todas idênticas. As celas eram em fila, exceto a
que ficava na extrema direita, no fundo do corredor, o cruzando. No final do
corredor, à esquerda, um guarda estava sentado, de pernas cruzadas, numa cadeira
de madeira, fumando um cigarro. Uma espingarda estava na parede, a seu lado.
Conseguiu passar a cabeça na abertura e chamou o guarda, que se aproximou
com o cigarro na boca. Era jovem e magro, alto, os ombros meio encurvados, o
rosto de camponês.
— Qual é o caso? — O cigarro balançando entre os lábios finos.
— Que horas são?
O guarda olhou o relógio.
— Passam 10 minutos de 11h.
— Da noite?

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Claro. O que mais poderia ser? Não ficaste apagado mais de meia hora. Estás
te sentindo bem?
— Estou vivo, ao menos.
— Tens muita sorte, amigo. O xerife e seus homens não são de brincadeira. —
Tirou a ponta de cigarro da boca, largou no chão e pisou, acrescentando, deliciado:
— Cara, lhe acertaste um direto, pra valer, no mastigador. Terá de providenciar ao
menos dois dentes pra voltar a comer direito.
— Parece que não gostas muito do xerife.
— Hamlin? — Sorriu, meio torto. — Não vou com sua cara. E tenho tantos
motivos pra isso que precisaria dum ano pra contar tudo. Não concordo com o que
está fazendo contigo. E quero que te lembres disso quando chegar o momento de
saíres daqui.
— E quando achas que isso acontecerá?
— Não há como saber. Pela porrada que lhe destes, podes ficar apodrecendo
aqui um mês ou mais, até que esfrie o bastante pra pensar no caso.
— E minha mulher?
— A mesma coisa.
— Mas não pode fazer isso! A lei é clara! E diz que...
— Clyde Hamlin é a lei... sua própria lei. Ao menos aqui.
— Há gente acima dele, que podemos procurar.
— Quando? Já estarás com a barba descendo até a barriga. Além do mais,
encobrirá tudo e seus homens jurarão qualquer coisa que mandar.
— É o que veremos. Qual é teu nome?
— Sam.
— Podes nos ajudar?, Sam.
— Não vejo como.
— Poderia falar com alguém por nós.
— Nada disso. Descobriria e me arrebentaria a cabeça. Não posso me arriscar.
— Eu faria com que valesse a pena, Sam.
— Um homem morto não precisa de dinheiro. E ninguém trai Hamlin. É pirado.
Completamente doido. Aconteceu alguma coisa consigo, há tempo, que o deixou
assim.
— O que foi?
— Talvez eu conte algum dia. Agora tenho de ir.
— Então não podes nos ajudar?
Sam ficou calado, as feições rudes se contraindo, enquanto pensava.
— Talvez eu possa encontrar algum meio de ajudar. — Disse, finalmente. —
Mas não com a lei.
— Como então?
— Não sei. Me deixes pensar um pouco.
— Onde está minha mulher agora?, Sam.
Apontou.
— Lá no fundo. Tem uma cela especial feminina. É mesmo tua esposa?
— É, sim. A cela é igual a esta?
— É, sim. Todas as celas são iguais. Só que a sua é maior. Dá pra quatro
mulheres, até cinco, quando o movimento está bom e ficamos cheios de freguês.
Estênio ficou consternado.
— Nunca viu o interior duma cadeia. Muito menos uma como esta.
— Deveria ser temporária. — Comentou Sam. — Uma cadeia provisória. Iam
construir uma das boas mas nunca começaram. Queres uma fumaça?

69
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Como?
— Um cigarro.
— Bem que estou precisando. Obrigado.
Sam entregou um cigarro e riscou o fósforo pra que Estênio o acendesse.
Pensou, instante, e entregou o resto do maço.
— Tenho mais. Se quiseres acender, basta gritar. Os presos não têm permissão
pra ter fósforo.
Se afastou. Além da porta que dava às celas, na área de recepção, um homem
alto e grisalho, na casa dos 60 anos, elegantemente vestido e exibindo um ar de
dignidade endinheirada, tinha uma confrontação com o xerife Hamlin e seus dois
guardas, Floyd e Bart.
— Mas isso é um absurdo! — Disse o homem, veemente, embora a voz
tremesse de emoção. — É falso e injustificado! Não tens o direito de me reteres
aqui mais um minuto! Que provas tens? Onde está tua testemunha?
— Não me digas o que posso fazer. — Murmurou o xerife Hamlin, que estava
outra vez atrás da mesa, de rosto franzido, o lábio inchado, o que ao menos tinha a
vantagem de ocultar o que acontecera recentemente com seus dentes da frente. —
Temos um aviso pra pegar um motorista que atropelou e matou uma inocente
mulher, atravessando a rua numa cidade 100km a norte daqui. Pois seguraremos
esse homem aqui até que a lei daquela cidade mande alguém pra o buscar.
Uma pausa e o xerife acrescentou:
— Isso mesmo. Nem que demore até o dia do juízo final, estarás aqui quando
chegarem. E providenciarão as provas. Não preciso doutra prova além da que está
neste pedaço de papel. — Baixou os olhos e começou a ler: — Um sedã 1968,
verde claro, com pneus de banda branca. O pára-choque traseiro tem o emblema do
automóvel clube e o pára-lama direito da frente está um pouco amassado. Parece
teu carro. Não é?
— É verdade. Mas meu pára-lama foi amassado quando um homem deu marcha-
ré e...
— Testemunha identificou a placa como a seguintes: — Continuou Hamlin,
lendo. — ID-82347. O que achas disso?, senhor. Não é a placa de teu carro? E o
carro não está registrado em teu nome... Howard W. Stoneman?
— Está, sim. Mas...
— E não serias descrito como — o xerife tornou a olhar o papel — caucasiano,
sexo masculino, em torno de 60 anos, cabelo grisalho, magro, aparenta ser alto...
Se parece contigo. Não é?
— Sim. Mas estou dizendo que é um erro! Nunca, em toda a minha vida...
— Já chega!, Stoneman. Venhas até esta mesa e esvazies os bolsos. Vamos
logo! Floyd, esse homem está pregado no chão? O tragas!
Três dias se passaram e, presumivelmente, três noites também, embora ninguém
pudesse distinguir uma coisa da outra, no confinamento imutável das pequenas
celas.
Na noite seguinte a sua prisão, Estênio Sherwood ganhou um companheiro
relutante pra esquentar o beliche superior. Dennis Kinard era um homem pequeno
e quieto, de 52 anos, despretensioso atrás dos óculos de aro de aço, apesar de ser
vice-presidente duma corporação nacional de produto alimentício. Como Estênio,
viajava à Flórida, em companhia da esposa, num carro que acabara de sair da
revendedora.
Estava ultrapassando o limite de velocidade ao ser preso. Posteriormente, uma
garrafa de escocês aberta foi encontrada no carro. A esposa fora manobrada a

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
admitir que se revezaram ao volante. A garrafa servira como prova à acusação
absurda de que guiavam embriagados. Estavam sob custódia, até que o juiz
arrumasse tempo pra fixar a fiança.
— É claro que se trata duma manobra, alguma fraude que ainda não imaginei.
— Raciocinou Kinard. — Ou esse xerife caipira é um maníaco revoltado contra o
mundo, especialmente o mundo das pessoas que têm alguma posição e riqueza.
Não sei que outros pobres otários meteram nesta lata-de-sardinha, mas sou capaz
de apostar o relógio de ouro de meu avô como possuem carros novos e luxuosos,
como raramente são vistos nesta banda, a não ser quando passam a toda rumo sul.
— Não posso prever como ou quando tudo isso terminará. — disse Estênio. —
Mas o guarda das celas, que parece um amigo no acampamento inimigo, insinuou
que Hamlin é um psicótico que pode estar querendo se vingar dalguma coisa que
sofreu no passado.
— Quando eu sair daqui — prometeu Kinard — esse homem tomará conta de
sua própria cela, mesmo que eu tenha de procurar até o governador!
Depois da chegada de Kinard o guarda Sam se recusou a falar outra vez sobre a
sua oferta de possível ajuda.
— Estou trabalhando nisso. — Era tudo o que dizia, num sussurro, quando
Estênio estava sozinho na porta da cela. — Mas não comentes com alguém. Nada
digas a teu companheiro de cela.
Na manhã do quarto dia, com Estênio num frenesi de raiva e frustração, Sam
destrancou a porta da cela e levou Dennis Kinard ao chuveiro. E piscou a Estênio,
atrás das costas de Kinard.
Estênio não compreendeu a piscadela até que chegou sua vez de tomar o banho
de que tanto precisava.
O chuveiro era um pequeno cubículo no final do corredor. Tinha apenas um
chuveiro de metal, uma pia e um espelho encima. Embaixo do espelho, numa
prateleira, havia um sortimento de artigo de barbear.
Sentando num banco, com a espingarda no colo, Sam esperou até que Estênio
tomasse banho e começasse a fazer a barba antes de falar:
— Te deixei a último de propósito. Assim poderemos bater um papo um pouco
mais longo, sem alguém nos interromper. Primeiro, falarei tudo sobre o xerife
Hamlin. Como já disse antes, é um doido. E posso contar como isso aconteceu. Há
cinco ou seis meses tinha uma filha. Uma coisinha linda, com quase nove anos. A
mãe morrera há muito tempo.
Sam coçou a cabeça.
— O xerife vive aqui, na beira da estrada, neste lado da cidade, a uns 5km a sul,
na estrada principal. Um cara da cidade grande e sua mulher apareceram a toda na
estrada, a mais de 140km/h, de cara cheia, num desses carros bonitos de Nova
Iorque, mais compridos que o carro fúnebre de senhor Peabody. O limite de
velocidade era de 50km/h mas não deram importância.
— E imagino que atropelaram a menina. — Disse Estênio, se virando do
espelho, com o rosto ensaboado.
— Isso mesmo. Não é preciso muita cabeça pra adivinhar. Bateram com tanta
força que foi esmagada como um percevejo contra o radiador. Depois seguiram em
frente e nunca mais foram apanhados. Um motorista de camião viu tudo mas não
conseguiu registrar a placa naquela velocidade. O carro simplesmente sumiu, como
fumaça numa tempestade.
— Como podiam saber que as pessoas no carro estavam embriagadas? —
indagou Estênio, raspando a barba de quatro dias com a navalha, mas olhando Sam

71
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
no espelho.
— Qualquer pessoa que voa nessa velocidade, numa zona de 50km/n, só pode
estar chumbada. — Insistiu Sam.
— E agora Hamlin esfola os turistas ricos que seguem ao sul em carros grandes
e luxuosos. É isso?, Sam.
— Não entendi.
— Se vinga prendendo as pessoas como nós, sob qualquer acusação que puder
forjar.
— É isso mesmo. E quanto mais tempo as detiver aqui, mais gostará.
— E como consegue escapar impune?
— Clyde Hamlin pode estar doido mas continua muito esperto. Sempre dá um
jeito de contornar tudo.
— Lamento muito o que aconteceu com a filha mas isso não quer dizer que o
desculpo. — Estênio lavou o resto do sabão do rosto e se virou, enxugando a pele
com uma toalha de papel. — Nos ajudará?, Sam.
— Depende.
— Depende do quê?
— Depende do quanto molhareis minha mão.
— Não me digas que também estás na conspiração, Sam. Isso te torna quase tão
terrível quando Hamlin e seus rapazes.
Estênio vestiu a camisa suja e começou a abotoar. Sorria um pouco. Não estava
realmente ofendido ou surpreso.
— Não podes me incluir na mesma pocilga que Hamlin e seus meninos. — Sam
coçou o queixo pontudo. — Mas também não sou de fazer as coisas por pura
caridade. E ainda mais do jeito como terei de fazer as coisas neste caso.
— E como seria?, Sam.
— Já que não posso conseguir a ajuda de alguém lá encima, o que nada
adiantaria, o único jeito é vos ajudar a fugir da cadeia.
— E poderia fazer isso?
— Na madrugada, quando Hamlin está dormindo e seus homens estão
patrulhando.
— Agora estás fazendo sentido, Sam!
— Mas é claro que saberiam que fui eu. Não poderia ser outra pessoa. Só tem
um guarda nas celas, que sou eu. Durmo lá na frente, neste lado da porta, Estou
sempre de serviço. Um dia de folga. Bart fica em meu lugar. Já trabalhou na
penitenciária. Não tenho casa e fiquei contente em encontrar até mesmo este
buraco pra me abrigar.
Estênio meteu a camisa dentro da calça, pensativo.
— E se souberem que nos deixaste fugir o que te acontecerá?
— Eu estaria liquidado. Aqui jaz Sam, assim...
Passou um dedo na garganta.
— Mas deves ter uma solução pro problema, Sam, ou não estaríamos
conversando. Não é?
— Só tem uma solução. Quando eu vos soltar terei de me mandar junto. Talvez
só até o outro estado. Ou talvez até a Flórida. Até que seria uma boa. O sol do
verão e cocos, mulheres bonitas, areia sob os pés...
As feições rústicas se iluminaram num sorriso de muitos dentes.
— Muito bem, Sam, o negócio está fechado.
— Não tão depressa, amigo. Fiques calmo até eu pôr as coisas na balança.
Precisarei dalgo mais além duma viagem de graça ao sul. Precisarei duma parada

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
grande. Bem grande. Perderei um bom emprego, um lugar pra me abrigar da chuva,
uma comida pra me esquentar a barriga. O que eu sempre quis foi abrir um
pequeno negócio por conta própria. Talvez uma pequena lanchonete. Ou mesmo
um estande de cachorro-quente.
— Estou ouvindo mas continuas muito longe. Sejas mais objetivo. Quanto?
— Acho que 10 mil resolveria o problema.
— Dez mil? Sam, estás exagerando. Desças das nuvens. Ponhas os pés no chão.
Está bem?
Sam acendeu um cigarro, aspirou fundo.
— 10 mil. — Repetiu. — É pegar ou largar. Pra mim é a grande chance da vida.
Pra ti apenas uma insignificância. Prum homem importante como tu, o que
representam 10 mil dólares? — Se levantou. — Penses nisso, se quiseres. 10 mil
contra o quê? Dois meses, talvez seis, nesta lata fedorenta. Acho que será mais que
seis, pra pagar os dentes quebrados do xerife. Pode ser que agüentes. Mas tua
mulher não resistirá. Outra semana e estará subindo nas paredes.
Estênio acenou com a cabeça, gravemente. Era verdade. Bárbara não seria capaz
de suportar tal experiência. Ficaria irremediavelmente abalada. E não se podia
dizer que Estênio não dispunha de dinheiro...
— Mas acontece que não tenho tanto dinheiro assim comigo, Sam. Onde
poderia arrumar?
— Faças um cheque. — Disse Sam, um sorriso sonhador pairando nos lábios
finos — Pode ser em meu nome, Sam Packer. Levarei ao banco onde tenho uma
conta pequena e depositarei. Ficaremos esperando. Quando o cheque for
compensado, tirarei todo o dinheiro e depois nós três nos mandaremos em teu carro
espetacular, a toda velocidade.
E Sam fez com a mão o gesto do carro deslizando a longe.
— Pode demorar três ou quatro dias antes que o cheque seja compensado, Sam.
— Sei disso. Mas posso pedir uma compensação especial, mais rápida.
— E onde eu arrumaria o cheque?, Sam. Meu talão foi confiscado com todas
minhas outras coisas.
— Ficou tudo guardado num armário. Posso pegar a chave.
— Podes também pegar o resto de nossas coisas? Os cheques de viagem, minha
carteira, relógios, anéis e casacos?
— Por 10 mil dólares, por que não?
— E as chaves do carro?
— As chaves serão a primeira coisa. Afinal, não poderemos ir a alguma parte
sem roda.
— Como saberei que posso confiar em ti depois que receberes o dinheiro?
— O que quereres? Uma nota promissória minha? Tens outra pessoa em quem
possas confiar aqui?
— Está certo, Sam. Mas devo advertir...
— Não me venhas com advertência ou não fecharemos o negócio, meu chapa.
— E quando começaremos?
— Nesta noite mesmo, o mais tardar. Te tirarei da cela e te levarei até meu
cubículo, pra preencher o cheque. Faremos isso quando o tal de Kinard estiver
dormindo. Ele pode contar a Bart depois. E Bart contaria a Hamlin. Não confies
em alguém. Entendes? Fales com Kinard e estarás liquidado.
Estênio assentiu.
— Podes me deixar ver minha esposa um momento?
— Não tem possibilidade. Poderia provocar confusão. As outras mulheres

73
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
também quereriam falar com seus homens. Mas tentarei transmitir uma palavra tua
a ela, sem que as outras percebam. — Com o cano da espingarda, apontou à porta.
— Estás pronto? Então vamos embora.
Já passavam de duas horas da madrugada, no relógio de Sam, quando foi buscar
Estênio. Enquanto os roncos suaves de Kinard confirmavam estar profundamente
adormecido, Sam chamou baixinho e abriu a porta da cela. Avançaram em silêncio
no corredor, até o quarto de Sam, que não passava dum armário embutido um
pouco maior. Continha uma cama, uma mesa minúscula e uma cadeira. Um
uniforme e outras roupas estavam penduradas nas paredes. Sam pôs a espingarda
na mesa e abriu uma gaveta da mesa.
— Peguei o talão de cheque. — A mão vasculhando o interior da gaveta —
Tornarei a guardar no armário ainda nesta noite e nunca saberão a diferença. Sei
que tenho uma caneta aqui.
Estênio estivera olhando a espingarda. Estava a seu fácil alcance, com Sam de
costas. Era uma decisão assustadora, a ser tomada numa questão de segundos. Se
os outros estivessem perto, poderia haver um tiroteio e talvez alguém saísse ferido,
inclusive Bárbara, depois que a tirasse da cela. Por outro lado, se Sam o traísse...
Estênio pegou a espingarda e a apontou.
— Te vires, Sam. E tomes cuidado com o jeito como o fazes. Sam ficou
paralisado um instante, antes de olhar atrás e se virar, lentamente.
— E essa a boa-fé que tens em mim, hem? — Falou com expressão aturdida,
sacudindo a cabeça. — Pensei que fôssemos amigos.
— Jamais comprei um amigo que não me traísse. Não é pelo dinheiro, que pode
ser substituído. Penso em minha esposa. Quero que saia daqui e prefiro confiar
nesta arma do que em ti. Ao menos é um processo mais rápido.
Sam acendeu um cigarro sem pedir permissão, se encostou na mesa. Estava
perfeitamente calmo, controlado. Mesmo atrás da arma. Estênio se sentiu aturdido
com a confiança dele.
— Quero as chaves, Sam. Das celas, de meu carro e do armário.
Sam soprou a fumaça.
— Me amarrarás ou baterás pra me deixar sem sentido?
— Nenhuma das duas coisas. Espetarei esta espingarda em tuas costas, enquanto
me ajudas.
— E se eu não quiser te entregar as chaves? E se eu pular em cima de ti neste
momento, disputando a espingarda? Me darias um tiro?
— Não, Sam. Isso seria ruidoso demais. Prefiro quebrar alguns ossos em tua
cabeça, sem fazer barulho.
Sam sorriu jovialmente.
— Eu estava apenas te testando, pra saber do que és capaz. Vamos logo
trabalhar no cheque. Esta espingarda não está carregada.
Se virou e desta vez tirou o talão de cheque e uma caneta da gaveta. O que
dissera não era mentira. Estênio descobriu que a arma estava mesmo descarregada.
A jogou em cima da cama, furioso.
— Eu não deixaria uma arma carregada a alcance de minha própria mãe. —
Comentou Sam, desdenhosamente. — Além do mais, não tinhas chance. Eu estava
com a mão embaixo da mesa, no botão dum alarme que poderia despertar um
cadáver no próximo condado. Mas nada de ressentimento. Gostei de tua coragem.
E agora te sentes e faças logo o cheque.
Estênio deu de ombros. Se arriou na cadeira e preencheu o cheque.
— O tempo está se escoando depressa. — Disse Sam, guardando o cheque no

74
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
bolso. — Voltemos à gaiola, passarinho.
Outro dia se arrastou, a monotonia interrompida apenas pelas refeições, que não
eram boas nem más, apenas insossas. Logicamente, a noite se seguia ao jantar,
embora não houvesse outra indicação além do relógio de Sam e do apagar da luz
na cela às 9h.
O dia fora como todos os outros. Hamlin não aparecera, nem pra se vangloriar.
Seus assistentes, Floyd e Bart, também não apareceram. Só foram vistos nas duas
primeiras noites, ao passarem na porta da cela escoltando presos bem vestidos e
mortificados, de ambos os sexos.
Depois do blecaute, Estênio adormeceu imediatamente. Despertou horas mais
tarde, ao que parecia, embora a manhã ainda não fora assinalada pela claridade
incômoda da lâmpada no teto. Inquieto, ficou deitado, de costas, olhando a dentro,
à teia emaranhada de seus pensamentos. Estranhamente, quando ouviu o barulho,
estava envolvido no problema absurdo de tentar recordar a cor exata dos olhos de
Bárbara. Seria possível que realmente não soubesse?
O som foi criado pela abertura furtiva da porta da cela. Levantou os olhos a
tempo de ver Kinard entrar silenciosamente, enquanto Sam se afastava, depois de
trancar a porta cum estalido mínimo de metal contra metal. Estênio se levantou
num pulo. Kinard parou abruptamente, se encolhendo todo.
— Onde estiveste? — Murmurou Estênio, embora já soubesse a resposta.
— Ti... tive uma conversa com Sam. Queria que avisasse as autoridades
superiores que estamos sendo detidos aqui sem processo.
— É mesmo? E o que disse?
— Disse que não havia possibilidade. O risco era grande demais.
— E foi então que fizeste o cheque. Hem?
— Que cheque?
— És um bom sujeito, Dennis, mas é também o pior mentiroso que já conheci.
Como se estivesse em confissão, Dennis se arriou exausto no beliche de Estênio
e começou a retorcer as mãos.
— Quando fez o pedido? Quando te levou ao chaveiro?
Na escuridão, a cabeça de Kinard balançou afirmativamente.
— E depois disse pra não me contar ou o negócio não seria feito. Certo?
Kinard virou a cabeça, com um sorriso triste de resignação. E murmurou:
— Ao que posso perceber, a mesma coisa aconteceu contigo.
— Fomos enganados! — Disse Estênio, alteando a voz, temerariamente. —
Fomos enganados juntamente com todos os outros otários que agarraram na estrada
e trouxeram a este suadouro!
— Tens razão. Parece que é a manobra deles. O que faremos agora?
— O que faremos? Ficar sentados, esperando darem a próxima cartada?
— Acabarão nos soltando. — Balbuciou Kinard. — Não?
— Mas pode demorar até seis meses. E quando se pensa bem a respeito, por que
nos soltariam nalgum momento, nalguma circunstância? Sabemos demais e somos
muitos pra podermos ser contestados. Além disso haveria prova, nos cheques
descontados. Até o fato de que estivemos desaparecidos confirma nossa história.
Nesta altura somos as pessoas que desapareceram misteriosamente na estrada ao
sul. Devem estar vasculhando todo o país nos procurando.
— Mesmo assim, não têm opção além nos soltar. — Insistiu Kinard. — Nos
libertam ou...
— Ou o quê?, Dennis. És um policial desonesto, envolvido numa manobra de
extorsão tão suja que podes ser condenado à prisão perpétua se um promotor

75
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
esperto der um jeito de converter a acusação em seqüestro pra obtenção de resgate.
No final, tudo se resume a seqüestro... Simplesmente pagamos nosso próprio
resgate. O que farias com esses cidadãos considerados honestos e de confiança,
que se apresentarão pra te acusar, se por acaso os soltar?
Uma expressão horrorizada surgiu no rosto de Kinard, evidente mesmo na
escuridão da cela.
— Pre... prefiro não responder a essa pergunta, se não te importas.
— Já respondeste.
Os cinco dias subseqüentes foram ainda mais aterradores porque transcorreram
num vácuo inquietante de insinuação, sem ser aliviado por indicação do que estava
a acontecer. Durante um dia e uma noite Sam sumiu e foi substituído por Bart.
Depois houve quatro dias de Sam Silencioso, pois não respondeu às perguntas e
ignorou as acusações que lhe foram lançadas por meia dúzia de vozes, ressoando
no corredor.
Empurrava as bandejas de plástico com a comida nas aberturas, sem dizer
palavra, o rosto impassível aparecendo um momento, antes de sumir, pra só voltar
a ser visto na refeição seguinte.
No quinto dia depois que Estênio descobriu a trama, Sam não apareceu com o
jantar. Nenhuma bandeja foi entregue mesmo quando as luzes das celas foram
apagadas. E Sam não estava em seu posto habitual, no final do corredor, a
espingarda encostada na parede, ao lado, fumando um cigarro atrás de outro.
Estênio trocou algumas especulações com Kinard, os dois gritaram da porta da
cela e foram respondidos por gritos doutras celas, um deles identificado como
sendo o de Bárbara, meio estrangulado, histérico. Todos os sons finalmente
cessaram, numa morte antinatural. Nada restou além da pulsação distante do que
Estênio identificara recentemente como um gerador acionado a gasolina.
Quando até esse som cessou abruptamente, todas as luzes se apagaram. Houve
um período de pânico, com murros nas paredes, portas sendo sacudidas, se
seguindo um silêncio ainda mais alarmante.
— Será que não percebes? — Disse Estênio a Kinard, que totalmente estava
batendo com o ombro na porta da cela. — Foram embora. Todos foram embora.
Kinard ficou ainda mais apavorado.
— Está querendo dizer que foram embora e nos deixaram trancados aqui pra
morrer de fome?
— Exatamente.
Estênio experimentou uma profunda melancolia. Com Bárbara a apenas alguns
passos de distância no corredor, era possível que nunca conseguisse a alcançar. Se
postou ao lado de Kinard, na porta, e gritou:
— Não entres em pânico, Bárbara! Fiques calma! Encontraremos um jeito de
escapar!
Não houve resposta, mas ouviu um soluço abafado. Desesperado, se afastou da
porta e voltou ao beliche. Kinard se sentou ao lado, atordoado. Depois dum
minuto, fungou e disse:
— Sentes cheiro de fumaça?
Estênio levantou a cabeça e respirou fundo.
— Não. Só o mesmo ar parado de sempre. Nada de fumaça. A única coisa em
fogo é tua imaginação.
— É possível. Mas senti o cheiro de fumaça e acho que são capazes duma coisa
assim. Nos deixar morrer queimados, dar a impressão de que foi um incêndio
acidental. Será que não percebes? É a solução perfeita!

76
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
A voz se alteou num alarme trêmulo. Estênio foi forçado a farejar o ar outra
vez. Agora era imaginação ou podia também sentir o cheiro de fumaça?
— Fumaça ou não, não comeces a gritar fogo!. As pessoas aqui acabariam se
matando entre si na tentativa de escapar.
— Está esfriando. — Murmurou Kinard. — Desligaram o aquecimento, a fim de
congelarmos até a morte. Talvez não tenhas te ocorrido, Estênio, mas todos
morreremos na escuridão. O que quer que aconteça, nunca saberemos se foi no dia
ou na noite.
— Cales a boca!, Kinard. Estás me deixando nervoso.
Cruzando os braços pra se manter aquecido, Estênio fechou os olhos. E,
surpreendentemente, dormiu. Quanto tempo? Seria um minuto ou uma hora? Algo
o despertou. Um som que não podia situar. E houve um claro retinir metálico no
chão da cela. O reconheceu imediatamente. Se levantou num pulo, colidindo com
Kinard, que descia do beliche superior
Estênio se abaixou e tateou no chão. Se levantou com uma chave grande na
mão. Estendendo o braço na abertura da porta e tateando a baixo, conseguiu inserir
a chave na fechadura e girar. A porta da cela se abria.
— Está acabado, Dennis. — Disse ele, baixinho. — Estamos livres.
Tornou a pegar a chave e, segurando Kinard no braço, seguiu no corredor em
direção à frente do prédio.
— Temos de encontrar alguma luz, Dennis. — Disse, na porta de ligação entre a
área das celas e o escritório. — Até um fósforo ajudaria.
Estênio descobriu que a porta não estava trancada e a empurrou. Foram
saudados pelo clarão suave dum lampião a querosene sobre a mesa de Hamlin.
Projetava sombras bruxuleantes na sala vazia.
— Um ótimo toque. — Murmurou Kinard. — No último segundo ficaram moles
e passaram a destilar o mel da bondade humana.
— Provavelmente foi Sam, antes de fugir. — Disse Estênio, soltando uma risada
desdenhosa. — Mas o lampião deve ter sido apenas um esquecimento.
Nada encontraram nas mesas. Não havia papel nos arquivos. Um armário grande
estava aberto, vazio. Mas numa mesa estavam empilhados casacos e luvas. Até o
casaco de pele de Bárbara, dos mais caros, fora deixado, por alguma ironia da
natureza humana.
Estênio saiu e esquadrinhou a escuridão. Era um local remoto, cercado por
mata. A distância divisou um estábulo arruinado, um barracão pequeno. Deu a
volta no prédio e voltou, informando:
— Estamos numa fazenda abandonada. Eram falsos policiais. E escaparam com
tudo: Carros e todo o resto. Estamos a pé.
—Não tem importância. — Respondeu Kinard. — Estamos livres!
Parecia quase feliz. Estênio pegou o lampião e disse:
— Vamos logo soltar os outros!
Estavam parados, sob o brilho frio das estrelas, seis homens e cinco mulheres,
na escuridão do inverno. Estênio segurava o lampião e abraçava Bárbara, enquanto
olhavam o prédio, que parecia pequeno, desolado e abandonado.
— Devemos o queimar. — Disse Howard Stoneman, o homem que fora
falsamente acusado de ter atropelado uma mulher e fugido.
— Estaríamos apenas queimando uma prova. — Protestou Estênio. — E
seríamos como os próprios animais que estamos caçando.
— A polícia cuidará do caso. — Disse Dennis — Se conseguirmos encontrar
um policial de verdade num raio de 150km.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— A cidade fica muito longe? — Perguntou Stoneman.
— Sam falou em 5km, após chegarmos à estrada principal. — Respondeu
Estênio. — Se não estava mentindo, a distância até a cidade deve ser 8km.
— Uma caminhada terrível com este tempo. — Resmungou Kinard, mais a si.
— Jamais conseguirei chegar lá de salto alto. — Lamuriou uma mulher.
— Conseguirás, nem que eu tenha de te carregar em todo o caminho. — Disse
um homem.
— Pois partamos logo, duma vez. — Decidiu Estênio.

Dentro do estábulo antigo, o falso xerife Hamlin e seus três cúmplices, Floyd,
Bart e Sam, estavam parados na escuridão, observando nas frestas das tábuas
carcomidas. O uniforme já substituído por macacão e blusão, que usavam quando
as operações policiais estavam suspensas. Hamlin observava o clarão do lampião
se afastando. A seu lado o ganancioso Sam indagou quanto fora o lucro.
— Já calculei tudo na cabeça. — Anunciou Hamlin. — São 60 mil dos seis
cheques que Sam conseguiu descontar no banco e 5800 dólares em dinheiro, se
incluirmos os cheques de viagem que podemos falsificar. Relógios, anéis e o resto
do saque darão mais 5000, calculando o mínimo que um receptador pode nos dar.
Tirando o aluguel desta velha fazenda, diria que dá mais de 70 mil. Levamos nove
dias. Portanto, dá oito mil por dia.
— Puxa, isso é que é colheita! — Exclamou Sam, na maior alegria.
— É uma pena que não possamos nos livrar daquelas banheiras reluzentes —
comentou Floyd. — Acho que daria pra se chegar perto de 100 mil.
— Mas é muito arriscado. — Objetou Hamlin. — Além do mais, roubar carro
não é nossa linha.
— Detesto deixar os carros aqui no estábulo. — Disse Bart, pesaroso. —
Voltarão e, com certeza,os encontrarão.
— A verdade é que eu só queria ganhar um pouco de tempo extra, obrigando os
otários a saírem daqui a pé. — Murmurou Hamlin.
Correu os olhos na escuridão, onde o brilho distante do lampião surgiu mais
uma vez e desapareceu numa curva da estrada. Disse:
— Muito bem. Já sumiram e podeis apostar que demorará ao menos 2h antes de
conseguirem despertar a polícia naquela cidadezinha miserável. Nessa altura já
estaremos no outro estado. Vamos embora!
A porta do estábulo foi aberta e Floyd saiu com a falsa radiopatrulha,
desprovida das marcas. Sam fechou a porta do estábulo e embarcou junto aos
outros. Floyd seguiu à subdelegacia, onde Hamlin mandou parar. Sam entrou com
uma lanterna. Não demorou a voltar.
— Está completamente limpa. Não deixamos pista. — Fez uma pausa. — É uma
cadeia simpática e aconchegante a que construímos aqui. É uma pena. Todo esse
trabalho por nada.
Hamlin soltou uma risada desdenhosa.
Chamas 70 mil de nada? Além do mais, podemos converter outra velha casa de
fazenda numa linda cadeia. Vamos logo, Floyd! Tem uma porção de condado
perdidos aí, e ainda mais otários da cidade grande esperando pra ser depenados!

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

Não somos esse tipo de gente


Samuel W. Taylor
Me lembrei que numa tarde de domingo Pretinho foi envenenado, que a manhã
fora fria, com um forte nevoeiro, como pode acontecer na região da baía de São
Francisco mesmo em pleno verão. Peggy e eu convidáramos os deKadt prum
churrasco e a expectativa do acontecimento era algo sensacional pra Sue, nossa
filha, que ficou desapontada como somente uma criança de oito anos pode ficar na
perspectiva dum churrasco dentro de casa. Mas o nevoeiro acabou se dissipando
em volta de meio-dia e ficou o clima apropriado prum churrasco, não quente nem
frio. O tipo de dia no qual nós, californianos, gostamos de receber os turistas. Um
lindo dia?, repetimos, com indiferença. Não notara. É sempre assim, durante
o ano inteiro.
Lucila e Carl deKadt eram nossos vizinhos, além da cerca de parreira, no lado
sul. Formavam um belo casal. Carl era bonachão, um pouco gordo e indolente,
enquanto Lucila era uma ruiva esguia, determinada e bonita, embora pessoalmente
eu prefira uma mulher como Peggy, com um pouca mais de carne em torno dos
ossos e uma disposição que lhe permite relaxar ocasionalmente.
Carl e Lucila levaram Hérbio Berry pro churrasco. Hérbio era primo de Carl, de
Sacramento, que estava passando o fim de semana. Hérbio fazia visita freqüente
mas sempre achei que não era pra ver Carl. Lucila era uma cozinheira excepcional
e Hérbio era um sujeito grandalhão, com apetite voraz e, ainda por cima, solteiro.
Depois de comer fomos a junto da cerca, a fim de jogar uma partida de malha,
Lucila e eu contra Hérbio e Carl. Estávamos empatados em 12 pontos quando Sue
se aproximou correndo.
— Papai, Pretinho está doente! Mamãe quer que vás dar uma olhada nele!
— Já irei. Assim que terminar a partida.
Lucila e eu estávamos na frente, com 18 a 16, quando Peggy se aproximou.
— Jorge, acho melhor vires logo dar uma olhada em Pretinho.
Havia um tom de urgência na voz e por isso tratei de atender sem esperar que a
partida terminasse. Pretinho estava deitado em seu canto da garagem. Era um
cachorro pequeno, mistura de púdol e pêlo-de-arame, feio o bastante pra ser
simpático. Estava ofegante e a intervalo se contorcia e deixava escapar um gemido.
Estivera mordendo a língua.
Quando cheguei com o cachorro ao hospital veterinário em Elcamino, o
veterinário sacudiu a cabeça.
— Não se pode fazer mais. Cuidaremos apenas pra que sofra o mínimo possível.
Tínhamos Pretinho desde que Sue nascera. Deixei escapar um suspiro longo,
cansado.
Já passava de 10h quando cheguei a casa. No instante em que entrei, Peggy me
fitou nos olhos e baixei a cabeça. Comecei a praguejar, o que é a reação impotente
dum homem diante da lágrima duma mulher. E exclamei:
— Eu só gostaria de saber quem é capaz de fazer uma coisa dessa!
— Não, Jorge. — Protestou Peggy. — É melhor não sabermos.
Talvez ela estivesse certa. Peggy geralmente estava. Não queríamos saber quem
eram tais pessoas. Pessoas como nós não queriam saber que gente assim existia.
Pretinho fora um cachorrinho amigo, era impossível o manter em forma, porque

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
todos na vizinhança lhe davam comida.
Contamos a Sue, na manhã seguinte, que Pretinho devia ter sido atropelado por
um carro. Peggy e eu decidimos que não queríamos outro cachorro, ao menos
durante algum tempo, especialmente enquanto houvesse um envenenador na
proximidade. Pensamos que talvez pudéssemos dar um gato a Sue. Um gato daria
um jeito nos geômios,6 que insistiam em esburacar os canteiros de flor de Peggy.
Olhando a trás, pensando a respeito durante as noites acordado, cheguei à
conclusão de que envenenar o cachorro foi o primeiro passo dum plano pra me
matar. Mas se alguém me dissesse tal coisa na ocasião eu teria rido em sua cara.
Logo eu? O que eu fizera pra que alguém pudesse querer me assassinar? Qual o
proveito que alguém poderia ter com minha morte? Era absurdo. Coisas assim não
aconteciam a gerentes das unidades locais da cadeia de sapataria Fit-All Shoe. Eu
não estava perseguindo a esposa de alguém. Não jogava em cavalo nem enchia a
cara habitualmente. Não estava envolvido no tipo de coisa que podia levar à
violência nem conhecia pessoa que estivesse. Jorge Granger, avenida Colégio,
1138, Picos do Bosque, era apenas um homem comum, com uma esposa simpática
e uma hipoteca razoável, com uma filha e uma fossa séptica problemática, pagando
prestação dum carro, móvel, geladeira, cortador de grama elétrico, seguro e conta
de dentista, com investimentos mínimos e geômios entre as petúnias. Havia mil
homens como eu somente em Picos do Bosque. As pessoas não saem assassinando
os homens comuns.
Mas se não fosse eu e sim Peggy a vítima visada? A serena e adorável Peggy.
Mas isso também era absurdo. Claro que era absurdo. E era isso que me mantinha
acordado na noite. Talvez até fosse Sue a vítima visada. Qual a pessoa insana que
podia estar tramando a morte da esposa ou duma menina de oito anos? Eu ficava
acordado, recordando cada detalhe, tentando descobrir o fato significativo que
talvez ajudasse a enfrentar a situação.
Lembrei que, ao chegar a casa no sábado, Peggy me contou que Lucila
finalmente conseguira persuadir Carl a começar a pintar a casa. Há um ano ou mais
que Lucila o vinha pressionando mas o indolente Carl podia se mostrar teimoso
quando se tratava de fazer esforço desnecessário. Mas não estava fazendo muita
coisa, explicou Peggy. Cada vez que olhava encima da cerca via Carl descansando
no alto da escada, fumando um cigarro e remexendo lentamente o balde de tinta.
— Nenhum fio de cabelo está fora do lugar, os sapatos continuam engraxados, a
calça bem passada. — Comentou Peggy, rindo — Lucila gasta mais energia o
pressionando que ele pintando. Jamais conseguirá mudar o marido. Por que
continua tentando?
Carl era um ótimo corretor de seguro. Possuía um ar de serena confiança,
somada a ausência de senso-de-humor, o que lhe permitia oferecer um prato cheio
de chavões com absoluta sinceridade. Não tinha muito ímpeto mas Lucila dispunha
do bastante pros dois. Era ela quem mantinha um registro de todos os chamados e
obrigava Carl a responder.
— Lucila deve chamar Hérbio pra ajudar ou Carl passará o verão inteiro nesse
trabalho. — Comentei.
— Disse que o carro de Hérbio está com algum problema. Ele virá mais tarde,
de ônibus.

6
Geomióidea (Geomyoidea) são uma superfamília de roedor que inclui geômio, rato-canguru e parentes fósseis.
Atualmente esses roedores habitam somente as Américas. Nota do digitalizador. http://ca.wikipedia.org/

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Hérbio Berry chegou naquela noite e Lucila foi, de volkswagen, o buscar na
estação rodoviária. Peggy comentou:
— Com Hérbio aqui acabarão de pintar a casa amanhã.
Hérbio era um grandalhão que gostava de exercício mas não tinha muita chance
de o fazer. Há 10 anos ou pouco mais fora um jogador de beisebol profissional e
passara duas temporadas atuando numa equipe da liga principal. Agora corretor
imobiliário em Sacramento.
Começaram a trabalhar na manhã seguinte, antes da alvorada. Os ouvi fazendo
barulho com os andaimes e baldes, enquanto ainda estavam na cama, as vozes
claras e estridentes, no sossego da manhã. Ao nos sentarmos pro desjejum já
pintaram quase todo o lado da casa que dava a nós. O cabelo louro de Carl estavam
agora desgrenhados e a roupa salpicada de tinta, na medida em que tentava
acompanhar o ritmo de Hérbio e Lucila. Ela estava no andaime com os dois
homens, pintando também.
Eu estava servindo café quando Hérbio Berry soltou um grito. Levantei os olhos
no instante em que Hérbio caía, de cabeça, do andaime, com o principal balde de
tinta na mão. Lucila gritou. E depois Hérbio se levantou do chão, coberto de tinta
da cabeça aos pés, desatando a rir. Nessa altura descobri que despejara café na
toalha limpa de Peggy.
— Estás sensacional! — Gritei, à janela, a Hérbio.
Ele tornou a subir no andaime e começou a se esfregar no lado da casa, usando a
roupa e o cabelo como uma brocha. Carl uivava de tanto rir. Lucila disse a Carl
que fosse ao centro pra comprar mais tinta, vendida na farmácia Plaza, que sempre
abria nos domingos, enquanto lavara a tinta do cabelo de Hérbio. Carl se
aproximou de minha casa pouco depois.
— Meu VW não quer pegar. Posso tomar emprestado teu carro pra ir ao centro?
Entreguei as chaves.
— Isso te ensinará a não querer mais saber desses carros estrangeiros.
— Nunca aconteceu antes. Mas agora o carro se recusa a pegar.
Foi à garagem e eu voltei a meu desjejum. Peguei a xícara de café no instante
em que Carl batia a porta do carro. Tomei um gole e estava baixando a xícara
quando houve um ronco alto e algo me empurrou. Era como ser apanhado por uma
onda imensa. A mesa foi levantada e projetada de cabeça a baixo através da sala.
Vi a cafeteira errando por pouco a cabeça de Peggy, enquanto ela caía a trás. Fui
arremessado contra o fogão, os calcanhares mais altos que a cabeça. Todas as
janelas da cozinha foram espatifadas e o teto levantado, deixando entrar alguns
raios solares. Toda a parede que dava à garagem desmoronou a dentro. Apesar de
tudo isso, porém, Sue continuou sentada exatamente onde estava, a colher erguida
na metade do caminho à boca. Uma explosão pode fazer coisas estranhas e,
naquele caso, não tivera efeito sobre a criança.
Minha memória não é muito clara sobre os poucos minutos subseqüentes.
Estava completamente tonto, meus ouvidos zumbiam. Peggy me ajudou a me
levantar e havia um filete de sangue começando a escorrer em sua face (apenas um
arranhão. A verdade é que tivéramos muita sorte). Lá fora, soavam gritos e pés
correndo, com vizinhos se aproximando. Alguém começou a sacudir a porta da
cozinha, mas a explosão a deixara emperrada.
— Todos bem aí dentro?, Jorge.
Era o rosto redondo e a basta cabeleira crespa de Berto Miles na janela. Nosso
vizinho do outro lado.
— Acho que sim. Como estás?, Peggy.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Peggy parecia muito jovem naquele momento. Era a mesma mocinha esguia, de
cabelo e olhos castanhos, muito grandes, que se sentara a meu lado durante um
trimestre inteiro em psicologia 61 (nos sentávamos em ordem alfabética, seu nome
era Greve e meu Granger), antes que eu reunisse coragem suficiente prà convidar a
sair.
— Estou bem — disse ela a Berto Miles. — E graças-a-deus Sue nem foi.
— Estão bem aqui dentro. — Gritou Berto Miles, virando a cabeça. — Jorge,
Peggy e Sue.
— Jorge, Peggy e Sue? — Indagou alguém. — Então quem estava no carro
quando explodiu? Quem foi explodido em pedacinho?
Nesse instante, dalgum lugar, ouvi Lucila gritar:
— Carl!
O caixão estava fechado no funeral. Acho que não restava muita coisa do corpo
de Carl deKadt. Senhor Wheeler, do gabinete do xerife, encarregado da
investigação, concluíra que uma carga de dinamite fora colocada embaixo do
banco dianteiro, ligada, por um fio, ao motor-de-arranque. Carl entrara, batera a
porta, inserira a chave, virara pra ligar o motor-de-arranque e fora morto
instantaneamente. Ao menos não sofrera. Pobre Carl. E se não fosse por puro
acaso, pensei, enquanto baixavam seu caixão à sepultura, eu é que morreria. A
carga de dinamite não era destinada a ele. Obrigado, Carl, mas por que uma coisa
assim tinha de acontecer?
Esse é o tipo de coisa que pode interferir com o sono da gente. Mais duas horas
e todos teríamos saído ao carro, Peggy, Sue e eu, vestidos pra ir à igreja. Mas
Lucila finalmente conseguira persuadir Carl a começar a pintar a casa, o carro de
Hérbio estava na oficina e o VW de Carl não queria pegar, Hérbio caíra do
andaime com a tinta e Carl pegara meu dodge emprestado pra comprar mais.
Voltando a casa, depois do enterro, Peggy disse subitamente:
— Foi por isso que envenenaram Pretinho. Se livraram do cachorro, a fim de
poderem colocar a dinamite no carro durante a noite, enquanto estávamos
dormindo.
Voltei a casa o mais depressa possível, preocupado com Sue, a quem
deixáramos com uma babá. Foi maravilhoso descobrir que Sue estava bem.
Fora uma coisa planejada com antecedência. Não havia como prever o que
aconteceria em seguida.
No dia seguinte, Peggy foi ao centro e comprou outro cachorro, pequeno e
agitado, tão vira-lata quanto Pretinho fora. Sue ficou deliciada com seu novo
cachorro, especialmente porque poderia o ter dentro de casa. Tínhamos um motivo
pra permitir isso. Um cachorro dentro de casa não pode ser envenenado na noite.
No dia seguinte, na loja, recebi uma carta. Fora remetida da própria cidade. O
envelope parecia uma coisa que Sue poderia ter feito, com tesoura e cola, meu
nome e endereço composto com letras e números recortados dum jornal. O bilhete
dentro era do mesmo tipo de colagem. E dizia:
Tiveste sorte. Mas na próxima vez serás tu, mulher e filha.
Senhor Wheeler, do gabinete do xerife, disse que duvidava muito que houvesse
outra tentativa da mesma forma. Era um homem magro, com uma ponte de quatro
dentes na frente, não das melhores. Tinha o hábito de chupar pastilha de hortelã e
uma paixão por pergunta que pudesse revelar um motivo pra alguém querer me
matar. Mas eu lhe disse uma dúzia de vezes:
— Não há motivo. É, simplesmente, um louco. Alguém fugido do hospício.
Senhor Wheeler insistia em dizer que duvidava dessa possibilidade e continuava

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
a meter pastilha de hortelã na boca.
— Penses bem, senhor Granger. Não se trata dum crime de impulso. Alguém
tem um motivo muito forte.
Um idiota! Era essa a avaliação que eu fazia de senhor Wheeler no momento.
Alguma vez já viste tua fotografia na primeira página e teu nome numa
manchete de jornal? Alguma vez já foste apontado na rua, atormentado por
curiosos, evitado por pessoas que não querem chegar perto até que a poeira
assente? Alguma vez já experimentaste a sensação de estar apartado do resto do
mundo, pensando que aquele homem não és tu, não pode ser, porque não é igual a
ti e não se ajusta a teu lugar na vida?
Só que era real. Especialmente na noite, quando se acordava.
Os operários estavam consertando a casa. Eu tinha de enfrentar o pessoal do
seguro a respeito e também da aquisição dum novo carro. Já era o suficiente pra
interferir com o sono duma pessoa. E enquanto permanecia acordado na noite, eu
recordava cada detalhe do que acontecera, voltando, insistentemente, ao passado,
tentando encontrar o incidente que fizera tudo aquilo acontecer. Todo mundo tem
inimigo, dissera senhor Wheeler. Todo mundo tem algo que outra pessoa quer. Ou
queria. Todo mundo já prejudicou e magoou alguém.
Tom Stone? Fora meu rival por Peggy e a competição fora das mais acirradas.
Tom ameaçara dar um jeito em mim, nem que fosse a última coisa que fizesse.
Mas também prometera esperar Peggy e seis meses depois acabara se casando com
Alice Duke. Isso acontecera 11 anos antes. Tom e Alice tinham agora quatro
filhos.
Henrique Traut fora assistente da gerência na primeira loja Fit-All, onde eu
trabalhara. Nunca esquecerei seu sorriso furtivo na noite em que me mostrou como
roubar a loja. Com nós dois trabalhando juntos, disse, poderíamos fazer uma
limpeza em regra. Quando rejeitei a proposta compreendi que não me perdoaria.
Apresentou ao chefe relatórios desfavoráveis a meu respeito mas mesmo assim não
fui capaz de o denunciar. Já estava pensando em largar o emprego quando Traut foi
apanhado em flagrante. Jurou que se vingaria de mim por o denunciar, mas isso
acontecera há muito tempo, antes de eu me casar. Na verdade pedi Peggy em
casamento porque ficara com o cargo de Traut. Será que uma coisa assim está
fermentando tanto tempo? Eu nunca mais tornara a ver Traut desde que fora
despedido.
Na loja local tive de tomar uma providência cuma das mais respeitáveis donas-
de-casa da cidade, Lídia Primrose, cujo marido pertencia ao conselho municipal,
por causa de roubo. Eu não via por que deveria fornecer sapatos grátis a toda sua
família. O incidente fora resolvido discretamente mas, certamente, tanto ela quanto
o marido ficariam contentes se eu morresse.
Eu tivera também alguns atritos no clube de serviço comunitário, onde presidia
o comitê de admissão. Em particular, impedira que Phil Buckwalter ingressasse no
clube, ano após ano, apesar de sua preeminência, riqueza, influência e desejo
intenso de ser associado, apesar das acusações de que assumia essa atitude por
rancor pessoal. O fato puro e simples era que a casa noturna de Buckwalter não
passava duma espelunca desonesta, algo que eu não podia provar nem abertamente
acusar mas que me obrigava a impedir seu acesso, dum jeito ou doutro.
Ficando acordado na noite e começando a pensar a respeito, se fica espantado ao
descobrir em quantos calos já se pisou. Desfeitas, afrontas, discussões, brigas.
Coisas que prontamente afastamos do pensamento, até que se começa a vasculhar a
memória, procurando alguém que deixou a ofensa fermentar ao longo dos anos.

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Os comerciantes que passavam pra me cumprimentar, os membros da
associação de melhoramento da rua Principal, as pessoas que freqüentavam minha
igreja, os associados do clube, os vizinhos. Nenhum podia imaginar que a os
cumprimentar eu sempre me perguntava se seria aquele. O caixa da lanchonete, o
zelador do prédio, meu contador, assinante da gerência, vendedores. Alguém entre
vós está a fim de me matar e a minha família. Senhor Wheeler, do gabinete do
xerife, estava tentando descobrir por quê. Mas tudo o que me importava era quem.
Eu descobriria o porquê depois.
Eu tivera uma discussão com o vizinho do outro lado da rua, que tinha o hábito
de sair de marcha-ré de sua entrada de carro e entrar na minha, a fim de facilitar a
curva na rua estreita. Eu não me importava que aproveitasse minha entrada mas
objetava a que sempre errasse e passasse sobre meus canteiros. Assim, Fred Lacey
e eu trocáramos algumas palavras ásperas. Eu atropelara o gato dum sujeito que
vivia no final do quarteirão e isso provocara uma discussão. O ressentimento
poderia ter fermentado nele, se transformando em ódio assassino, apesar de haver
se mudado há muito tempo e eu ter até esquecido seu nome? E é claro que não
falávamos com Lóris Neilsson desde que ameaçara dar um tiro em Pretinho por
andar em seu gramado novo. Mas a verdade é que ninguém na vizinhança falava
com Lóris.
Mas tais coisas não poderiam se avolumar pra virar homicídio premeditado. Ou
poderiam? Ao que eu lera, a maioria das pessoas é morta por coisas banais: Uma
desfeita, uma discussão, uma humilhação, uma afronta, a cobiça por uns poucos
dólares. Vendo a situação nesse ângulo, podia haver muitas pessoas tramando
minha morte, inclusive Peggy, que poderia a querer pra receber o dinheiro do
seguro.
Peggy também não estava conseguindo dormir. O rosto estava ficando vincado,
os olhos castanhos ainda maiores. Tentáramos evitar que Sue tomasse
conhecimento mas ela soube por intermédio das outras crianças, a partir do
momento em que o assunto chegou às manchetes de jornal. O que representaria,
pra ela, saber que alguém estava planejando sua morte ou a morte de sua mãe e
pai? A verdade é que a infância está sempre repleta de terror.
— Não sei o que fazer, Jorge. — Disse Peggy, falando baixinho, os dois
acordados em plena madrugada.
— Pedi transferência. Não deve ser difícil. Muitos gerentes sonham com uma
loja na Califórnia.
— Mas o que isso pode significar pra tuas futuras promoções?
— Não ajudaria.
— Acho que isso não tem importância neste momento.
— Deves retirar esse pedido de transferência, Jorge. Deves.
— Não sou um herói, meu bem. Quero apenas fugir de toda essa terrível
confusão.
— Mas aqui, ao menos, estamos entre pessoas que conhecemos. E todas as
pessoas aqui estão se perguntando quem anda fazendo essas coisas.
— Tens razão. E uma sabe.
— E a polícia também está agindo. Todos trabalham no caso. O gabinete do
xerife, a polícia municipal, porque recebeste a carta na loja. E agora é também um
assunto federal, porque usaram o correio. Nossa proteção é justamente ficar aqui,
Jorge, onde há tanta gente ajudando. É tudo o que temos. Não podemos perder a
confiança em toda essa gente.
— Está certo, meu bem. Retirarei o pedido de transferência.

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Estava certa. E, pensando bem, era inadmissível tentar fugir. Tratamos de nos
adaptar, da melhor maneira possível. Eu ia almoçar em casa todos os dias, só pra
conferir a situação, em vez de comer no centro. Sue não mais usava o ônibus
escolar. Peggy a levava à escola e a buscava todos os dias. Eu mantinha meu rifle
de caça carregado e pronto, na prateleira superior do armário embutido no
vestiário. Notei que Sue não mais assistia os filmes de oeste, policiais e outros
programas de violência da televisão, aos quais se mostrara extremamente fascinada
apenas uma semana antes. Não sei se isso acontecia porque era uma comparação
pálida com a coisa real ou se estava nervosa demais pra querer a coisa real. Uma
criança não costuma revelar o que a está atormentando.
Quando cheguei a casa pra almoçar, no sábado, os vizinhos estavam reunidos
em torno da casa, todos falando sobre os chocolates envenenados.
— Eu disse a Peggy que não havia necessidade de te incomodar via telefone. —
Informou Lucila.
A ruiva que enviuvara recentemente parecia em péssima condição. De qualquer
forma, Luci era do tipo nervoso, que exagera em tudo. Estava vivendo de café e
cigarro desde que Carl morrera, seis dias antes. A tragédia a abalara
profundamente. O primeiro marido de Lucila fora morto num acidente de carro. O
segundo levara um tiro durante uma caçada a veado. E agora Carl. Todos os três
mortos acidentalmente. Eu sentia muita pena dela ao pensar que Carl morrera com
a bomba que me era destinada.
Os vizinhos me informaram sobre os chocolates, todos falando ao mesmo
tempo. Peggy estava ajudando Lucila a separar as coisas da casa. Havia coisas que
o camião da mudança levaria a Sacramento, onde Hérbio Berry lhe arrumara um
emprego no escritório imobiliário no qual trabalhava. Outras coisas seriam dadas
ao exército de salvação e muitas ficariam na casa, que Lucila ainda tinha de pôr a
venda. Havia também muitas porcarias acumuladas, que precisavam ser separadas
e levadas ao depósito de lixo.
As duas fizeram uma pausa no meio da manhã e tomavam café em minha casa
quando o carteiro chegara. Havia um pacote endereçado como a carta que eu
recebera, letras e números recortados e colados. Lucila advertira a Peggy pra não
abrir, temendo uma bomba ou algo parecido. Ela telefonara a senhor Wheeler, no
gabinete do xerife, que viera imediatamente e levara a pacote. Pouco antes de eu
chegar a casa pra almoçar, ele ligara pra informar que o pacote era de bombom
com uma espécie de arsênico. Liguei a Wheeler e descobri que não estava muito
impressionado.
— Uma tosca tentativa. — Comentou, profissionalmente. Tudo aquilo lhe
acontecia num dia de trabalho. — O endereço foi feito no mesmo estilo da carta
que recebeste. E devia ter visto os bombons. Estão completamente melados, o pó
branco se derramando dalguns. Não enganariam um bebê.
— Grande dedução. — Falei asperamente. — Mas já imaginaste se Peggy
estivesse na casa de Lucila e Sue abrisse o embrulho? A menina estaria morta
então!
— Não adianta gritar, senhor Granger.
— Idiotas, incompetentes, parasitas do dinheiro público!
Eu lhe disse exatamente o que pensava a seu respeito e de todo o gabinete do
xerife. Depois de ter desligado, é claro.
Era como a vida na selva. Nunca se ficava na direção do vento. Se aproximava
de cada moita na expectativa de que ali estivesse a emboscada.
O problema era que eu não estava acostumado à selva. Não sabia sobreviver.

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Hérbio Berry chegou de Sacramento na tarde, a fim de ajudar Lucila a arrumar
as coisas prà mudança. Como a casa estava uma confusão foram jantar conosco. E
Hérbio passou a noite conosco. Foi bom o ter ali. Era alto e corpulento, um antigo
atleta, perfeitamente capaz de enfrentar qualquer situação. Tomara todas as
providências pro enterro e cuidara dos detalhes prà venda da casa de Lucila.
Depois que Sue foi se deitar, abri uma garrafa e relaxamos. Todos estávamos
precisando. Tomei duas doses a mais, pra dizer a verdade, mas foi maravilhoso me
sentir bem e não me importar com algo, mesmo que isso implicasse uma ressaca na
manhã. Eu não sabia que Hérbio podia ser tão engraçado quando bebia demais e
Lucila riu e relaxou de verdade. Ela já tivera seu período de lágrima e estava agora
rompendo a tensão com o riso. Quando a ruiva e o ex-jogador de beisebol
engrenaram, ri tanto que cheguei a ficar com as costelas doídas. Peggy não gostou
muito da maneira como estávamos nos divertindo, mas também nunca toma mais
que um drinque. Pessoalmente, eu estava contente em ver Lucila se desvencilhar
da tragédia. Ficara tensa como uma corda de violino e eu receara que pudesse
arrebentar.
Na manhã seguinte, eu estava ajudando Lucila e Hérbio a embalar as coisas
quando Peggy chamou da cerca. Ela e Sue iam à escola dominical e deixara o
irrigador ligado nas petúnias. Eu poderia desligar dentro de 15 minutos?
Eu disse que sim. Mas esqueci a água ligada até cerca de 1h depois. Ora, pensei,
não haveria mal em deixar as petúnias bem encharcadas.
Entrando em casa resolvi esquentar o café que sobrara. Me sentia indisposto da
noite anterior. Acendi o gás embaixo do bule de café e procurei o jornal da noite
anterior, que ainda não tivera a oportunidade de ler. Peggy nunca deixa os jornais
espalhados e, como sempre, o encontrei na cesta de papel. O peguei e abri... e uma
chuva de papel picado, como confete, flutuou até o chão. Alguém andara rasgando
o jornal com uma tesoura. Parecia a obra duma criança, apenas recortando o jornal.
Mas eu sabia que não fora Sue e que não fora um simples recorte.
O jornal estava intato ao desjejum. Eu esperava dar uma olhada enquanto
Hérbio fazia a barba, mas Lucila aparecera nesse momento. Eu sabia que o jornal
só fora cortado depois que eu estava com Lucila e Hérbio na outra casa, ajudando a
embalar as coisas. E compreendi tudo no mesmo instante. Fora Peggy.
A última pessoa no mundo que eu poderia imaginar. Peggy. Por quê? Pelo
seguro? Um amante? O quê? Um romance com o líder do coro na igreja?
Encontros clandestinos no supermercado, vagueando entre os corredores com seus
carrinhos? Beijos roubados atrás da porta fechada da sala da escola dominical,
encontros entre os carvalhos e sequóias nas colinas? Tudo era possível. O amor
sempre encontra um meio. Mas não condizia com Peggy. De jeito nenhum.
Ou será que condizia?
O que eu sabia realmente a respeito de Peggy? O que um homem realmente sabe
a respeito de sua esposa? Era meiga, amorosa, mas isso também acontece com as
esposas que tinham ligação clandestina e temperavam o desjejum do marido com
arsênico. Nenhum marido seria envenenado ou liquidado pelo amante da esposa se
desconfiasse que tal coisa podia acontecer.
Houve um silvo súbito no bule de café. Peggy. Me servi uma xícara. Peggy.
Acabei despertando, depois que tomei um gole do café escaldante. Tornei a pôr o
jornal na cesta de papel e atravessei a cerca pra continuar a ajudar Lucila e Hérbio.
Estavam no sótão, separando coisas. Fiquei trabalhando lá embaixo. Estava
tirando os quadros das paredes da sala de estar e guardando numa caixa quando a
campainha da frente tocou.

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— Podes atender?, Jorge. — Gritou Lucila do sótão.
— Está certo.
Fui à porta da frente.
— Entrega especial pra senhor Herbert Berry.
— Podes deixar que entregarei.
A carta estava endereçada com letras recortadas dum jornal e coladas no
envelope. Fora despachada da própria cidade, o carimbo tinha menos de 1h. Eu
sabia que Peggy a remetera, no caminho à escola dominical. Mas por que a
Hérbio?
— Podes trazer aqui a cima?, Jorge.
Era Hérbio, gritando lá de cima. O que significava que ouvira tudo. Eu teria de
entregar a carta. E por que não? Nada sabia de Peggy. Eu era o único que sabia.
Fui ao fundo da casa, subi a escada e passei no alçapão que dava acesso ao
sótão. Hérbio e Lucila estavam num canto, separando o conteúdo dum baú.
— Talvez o chefe vendera a propriedade Gresham. — Disse ele, enquanto
estendia a mão ao envelope.
Ficou imóvel, abruptamente, ao ver como o envelope estava endereçado. Lucila
prendeu a respiração, visivelmente mais tensa que em qualquer outra ocasião. Se
entreolharam, lentamente, os rostos terrivelmente pálidos. A barba preta de Hérbio
em contraste, as sardas de Lucila ressaltando. Subitamente ela pegou o envelope,
rasgou e desdobrou a carta do interior.
— É mentira! — Gritou.
A voz de Hérbio estava rouca de tensão:
— Quem mandou?
— Peggy... quem mais poderia ser?
Então ela também sabia. Em breve estaria nas manchetes, pra que todos
tomassem conhecimento: Esposa trama a morte do marido.
— Peggy sabia a nosso respeito — Lucila estava dizendo. — Carl era um
imbecil confiante. Jorge jamais poderia adivinhar. Os homens são uns tolos. Mas
não se pode enganar uma mulher numa coisa assim. Se Peggy não sabia antes, deve
ter percebido ontem na noite, quando bebemos demais. Sabe como nos sentimos
um pelo outro.
E também percebi nesse instante. Toda a coisa.
— Te cales, sua idiota!
Hérbio a agarrou nos ombros e compreendi que não era a primeira vez que
punha as patas imensas nela. Hérbio Berry não estivera fazendo aquelas viagens
desde Sacramento nos fins de semana apenas pelos talentos culinários de Lucila.
Por que eu fora tão cego? O fim de semana é melhor período prum corretor
imobiliário. Costuma realizar a maior parte dos negócios nos sábados e domingos.
— Fiques de boca fechada! — Hérbio advertiu Lucila.
— Se ela sabe então ele também. — Disse Lucila, bruscamente. — São casados.
Furiosa, ela jogou a carta ao chão. Vi o bilhete, com as letras recortadas do
jornal: Carl foi o terceiro marido dela. És o próximo, seu idiota.
— Tramaram tudo isso juntos! — Gritou Lucila a Hérbio, estridente.
Hérbio se virou a mim. Ainda não me ocorrera, até aquele momento, como era
realmente grande. Era uma cabeça inteira mais alto e devia pesar ao menos mais
40kg.
— O que tens a me dizer?, companheiro.
Eu poderia ter lhe contado tudo naquele momento. Carl deKadt fora um corretor
de seguro e um corretor de seguro é sempre seu melhor cliente. O mataram por

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dinheiro. A bomba no carro nunca fora destinada a mim. A primeira carta e os
bombons envenenados visavam a dar a impressão de que eu era a vítima desejada,
que a morte de Carl fora puramente acidental. Tudo fora planejado: A morte de
Pretinho, a queda de Hérbio do andaime, o VW que não queria pegar. Os bombons
nunca visaram nos causar mal. O endereço colado já era advertência suficiente e
além disso estavam mal preparados, o arsênico se derramando em vários. E Lucila
ainda estava de vigia, na ocasião da entrega, pra intervir em qualquer emergência.
Era tudo perfeitamente claro, mas confrontando com um homem muito maior, ex-
atleta, não pude deixar de dizer:
— Não tenho idéia do que estais falando, Hérbio.
— Sabem. — Disse Hérbio a Lucila. A verdade deve ter transparecido em meu
rosto. — Falei que algo aconteceria!
Lucila era agora a mais forte.
— Mas o que podem provar? As pessoas sabem de muitas coisas sobre as quais
não falam. — Ela apontou a mim. — Lembres a ele pra não falar, Hérbio. Dês uma
lição que não esquecerá tão depressa. O faças saber que não estamos brincando.
Era um tanto difícil acreditar, mesmo enquanto eu contornava as caixas e baús,
me abaixava atrás duma pilha de jornal velho, me refugiava atrás da máquina de
costura, corria a um fogão a lenha, que Hérbio Berry estava me perseguindo
implacavelmente, os braços compridos estendidos, tentando me acuar num canto.
Hérbio era um amigo. Nosso relacionamento envolvera jogar malha, comer
churrasco, beber uísque, contar história. Ríramos juntos na noite anterior, enquanto
tomávamos uma garrafa de uísque. Dormira em nossa casa, um hóspede. Mas
agora estava me perseguindo, me tangendo a um canto do sótão, enquanto eu
disparava duma coisa a outra.
Fora um atleta profissional e estava relaxado agora, como um atleta sempre fica,
aguardando a oportunidade, enquanto eu me desgastava correndo dum lado a outro.
É claro que Peggy não poderia saber que sua pequena manobra, iniciativa própria,
levaria a uma situação como aquela. Tudo o que certamente tencionava era se
livrar de dois assassinos. Fiquei tenso, sabendo que estaria perdido depois que
Hérbio desse o bote.
Mas eu não ficaria acuado num canto. Quando tentei escapar, no entanto, ele
estava esperando e arremeteu a cima de mim, com a rapidez e agilidade do atleta.
Eu sabia que não poderia alcançar o alçapão que dava acesso ao sótão. Então
recorri à manobra que costumava usar quando era pequeno e me via perseguido por
um garoto maior. Me joguei ao chão, ao lado, e estendi a perna pra o fazer
tropeçar.
O pé imenso de Hérbio bateu em minha panturrilha e pensei ter quebrado a
perna. Gritou, um único grito, rouco, estridente, enquanto se projetava ao alçapão
aberto. O ouvi bater na escada de mão e depois se estatelar no chão. Rastejei até o
alçapão. Quando olhei a baixo, cheguei à conclusão, a julgar pela maneira como o
corpo estava caído, de que Hérbio morrera.
Ajoelhado ao lado dele estava senhor Wheeler, do gabinete do xerife. E fiquei
surpreso ao divisar dois guardas uniformizados um pouco além.
— Foi uma sorte eu não estar subindo a escada quando ele caiu. — Comentou
senhor Wheeler. Ele se levantou e pôs uma pastilha de hortelã na boca. — Isso
poupa ao estado a despesa do julgamento dum deles. Ela está aí em cima?
— Está.
— O que as pessoas são capazes de fazer por dinheiro. Tens uma esposa esperta,
senhor Granger. Quando ela telefonou, nesta manhã, pra informar que os dois

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estavam apaixonados, compreendi tudo no mesmo instante. Meu pensamento
entrou em foco. Estavam fazendo com que nos concentrássemos em ti, enquanto
escapavam impunes. Estás te sentindo bem?
— Estou, sim.
Ou ao menos eu pensava estar.

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Problema de peso
Duane Decker
Fatstuff, o Gordo, pôde sentir com os dedos que o terno que a enfermeira
trouxera era de tecido canelado. Isso significava que não era seu terno.
— Está havendo um erro. — Disse, contrariado. — Estas não são minhas
roupas.
— Tens razão. — Confirmou a enfermeira. — Mas tuas roupas ficaram
completamente rasgadas no acidente. Terás de te contentar com estas até comprar
outras. Uma cortesia, se diga de passagem, do exército da salvação.
— Ã? — Murmurou Fatstuff, apaziguado. — E quando as ataduras serão
removidas de meus olhos?
— Assim que o médico chegar. E chegará a qualquer momento.
— Ótimo. Acho que esperarei e só me vestirei depois que puder ver o que estou
fazendo.
Se recostou na cabeceira levantada do leito de hospital. Podia se lembrar
nitidamente do acidente. No final daquela manhã começara a atravessar a campina
atrás da casa de Berta. Sabia o que fora sua desgraça: Tomara três talagadas de
uísque de centeio pra encontrar coragem, depois saíra ao sol terrivelmente quente.
Em seu estado físico precário, abatido como estava, fora péssimo.
No outro lado da campina, na beira do bosque, alcançara o poço seco, o lugar
onde escondera o dinheiro, muitas semanas antes. Metera o dinheiro num balde
galvanizado, que estava esperando no fundo seco do poço.
Tinha na mão um cabide de arame, a parte triangular achatada, parecendo um
gancho na extremidade dum pepino. Prendera uma corda no outro lado. Formava
um instrumento simples, destinado a ser manobrado dum lado a outro, até que o
gancho prendesse na alça do balde. Então poderia levantar o balde e pegar o
dinheiro, todos os 30 mil dólares.
Mas quando chegou no poço o sol quente e o uísque, o corpo debilitado, tudo se
juntou. Um momento antes de desmaiar, se lembrava ter batido a cabeça e o corpo
no cimento áspero do exterior do poço.

Agora, olhando o relógio sobre a entrada da enfermaria, Fatstuff constatou que
eram quase 5h. Isso significava que já perdera 6h e que Berta estava, certamente,
andando dum lado a outro da rodoviária de Pomerói, crescendo a suspeita de que
ele pegara o dinheiro e fugira, a abandonando. Se ficasse furiosa, vingativa, podia
muito bem telefonar e lançar a polícia em cima de Fatstuff. Tinha de sair dali o
mais depressa possível, pegar o dinheiro e encontrar Berta na rodoviária de
Pomerói, antes que ela perdesse a paciência. Perguntou à enfermeira:
— Como vim parar aqui?
— Um caçador passou lá. Te encontrou inconsciente. Meio te carregou meio
arrastou até o carro. Foi assim que suas roupas ficaram estragadas. E te trouxe.
Se sentiu grato ao caçador. Podia recordar tudo claramente. compreender como
tudo saíra errado desde o começo. Mesmo assim ainda não era tarde demais. O
dinheiro continuava lá, esperando ser recolhido apenas por ele.
O começo até que fora bom. Estava vagabundeando, pedindo carona rumo Nova
Iorque. Meses atrás, no anoitecer, se descobrira no arredor duma cidadezinha
insignificante, Appleton.
A luz da casa da fazenda, a 100m da estrada, o chamava alegremente. Berta

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
abrira a porta. O convidara a entrar, a jantar, sugerira que passasse a noite ali. E
bem que estava precisando.
Era uma viúva pobre e solitária, tendo apenas uma casa de fazenda infestada de
cupim. Fatstuff, no entanto, experimentara a maior alegria em passar uma semana
ali. E depois que passara a confiar nele Berta lhe falara do plano que fizera há
muito tempo, esperando apenas o parceiro certo.
Explicara que mais adiante, a caminho da estrada Postal, a cerca de 0,5km de
distância, havia uma trilha de terra que só levava a um lugar: A fábrica de
ferramenta Macklin. Todas as sextas-feiras, às 3h em ponto, o velho Macklin
passava na casa de Berta e entrava na trilha de terra levando o dinheiro do
pagamento mensal dos operários. Sempre fazia o trabalho sozinho. Sempre fora um
individualista ferrenho, E agora estava velho, fraco, confiante. E indefeso.
Tudo o que Fatstuff precisava fazer, explicara Berta, era estar na trilha deserta
antes das 3h, depois se deitar no meio do caminho, quando ouvisse o barulho dum
carro se aproximando. Senhor Macklin, que era diácono na igreja local, certamente
pararia o carro e saltaria pra oferecer ajuda a um homem doente ou ferido. E Berta
tinha uma velha luger com que Fatstuff poderia ameaçar senhor Macklin, enquanto
o aliviava do dinheiro. Ela deixaria seu cupê escondido na beira da estrada Postal,
a 50m de distância. Depois de pegar a dinheiro, Fatstuff seguiria até o carro e
fugiria à rodoviária de Pomerói, embarcando num ônibus a Nova Iorque. Como
ninguém veria o carro em conexão com o assalto, Berta pegaria um ônibus a
Pomerói, entraria em seu carro e se encontraria com Fatstuff em Nova Iorque.
— É de fato muito simples. — Dissera Berta.
E Fatstuff concordara. Aceitara o plano integralmente.
Mas acontecera que o velho Macklin estava armado e houvera uma troca de tiro.
Mas Fatstuff vencera.
Dera o velho Macklin por morto. Parecia morto a Fatstuff, que não perdera
tempo em verificar e fora pegar o cupê escondido de Berta. Mas agora, com um
caso de homicídio em cima, não se sentira seguro em ir a Pomerói. Em vez disso,
voltara à casa de fazenda, buscando refúgio. Sabia que teria de passar algum tempo
escondido. Por isso pensara em esconder o dinheiro no poço seco. Enquanto Berta
não soubesse onde estava o dinheiro teria de o esconder, o cuidar.
Mais tarde, via rádio, souberam que o velho Macklin morrera, mas não antes de
fornecer uma descrição detalhada e terrivelmente acurada de Fatstuff.
— O homem baixo mais gordo que já vi. — O velho Macklin disse. — Um
desses baixinhos que costumam chamar de Meia-Tonelada. Bochechas imensas. As
coxas tão grossas que quase rasgavam a calça quando se mexia. Uma barriga
estufada. Não se pode deixar de perceber. O tipo de homem que se destaca na da
multidão.
Fatstuff e Berta compreenderam que isso significava que não poderiam exibir o
rosto e corpo fora da casa. Em Appleton todos notariam e se lembrariam. Fora
então que tivera a grande idéia: Ficaria escondido no sótão e faria dieta, até se
transformar num homenzinho esquelético, anêmico.
Passara quase dois meses no sótão em solidão. Berta só lhe servia alface, leite
desnatado, toranja, coisas assim. Os quilos foram se evaporando, até que
finalmente parecia um esqueleto ambulante. E, finalmente, se sentira seguro pra
voltar a agir.

Se virou de lado no leito hospitalar. Estava pensando que fora a dieta de fome,
os tragos de uísque e o sol quente que causaram o desmaio junto ao poço. Mas,

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
sem saber disso Berta pegara o ônibus a Pomerói. Estava esperando. Se ficasse
furiosa demais... Perguntou à enfermeira:
— Tenho de assinar algo pra sair daqui?
— Não. Estás gozando de boa saúde. E tua mente... A concussão foi apenas
temporária. Ora, eis o médico chegando!
Fatstuff se sentou na beira da cama. Sentiu um contato no ombro e ouviu a voz
vigorosa do médico:
— Olá!
Fatstuff apalpando o terno.
— Doutor, claro que agradeço a roupa de presente, mas não achas que deveriam
ser um pouco mais justas?
— Tenho certeza de que descobrirás que te cabem perfeitamente.
— Está brincando? — Insistiu Fatstuff. — Este terno parece tão grande quanto
uma barraca!
— Acontece que tens comido um bocado desde que apagaste.
— Mas isso aconteceu nesta manhã!
Sentiu o médico removendo as ataduras dos olhos, cuidadosamente. E o ouviu
dizer:
— Nesta manhã? Ora, mas que engano! Estamos no dia 17 de setembro e foste
trazido no princípio de agosto. Tua mente e olhos estiveram inócuos desde então,
desde que bateste a cabeça naquele cimento.
As ataduras foram retiradas. Fatstuff se levantou, lentamente. Em passos firmes,
foi até um espelho grande, no outro lado da enfermaria. Chegou lá e ficou
espantado ao se contemplar.
Não conseguia deixar de olhar.
Era outra vez o Meia-Tonelada. Lá estavam de novo as bochechas enormes, as
coxas grossas, a barriga protuberante. Se alguma diferença havia, era a de estar
ainda mais gordo do que fora antes da dieta de fome. Sabia que, no momento em
que saísse do hospital seria apanhado pela polícia. Antes que pudesse pegar o
dinheiro ou deixar a cidade. A suas costas ouviu o médico dizer:
— Já estás pronto? Podes ir embora agora.
Fatstuff tentou encontrar a voz mas tudo o que pôde foi pensar:
— Não! Não! Não!

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

Algo estranho
James Michael Ullman
Assim que entrou na movimentada rua do centro, saindo da garagem, Hérbio
Crain compreendeu que algo estava errado.
O carro parecia inexplicavelmente lento. Além disso as molas pareciam mais
flexíveis que o normal, o motor barulhento demais e no primeiro sinal vermelho o
pé desceu demais no pedal de freio.
— Mas que-diabo!
A seu lado, a esposa Rosa, uma mulher baixa e atarracada, franziu o rosto.
— Qual é o problema agora?, Hérbio. Passaste a noite inteira reclamando. No
restaurante a carne estava fria, no teatro tinha corrente de ar, e quando fomos
tomar um drinque o serviço estava péssimo. Já não agüento mais e não me importo
de dizer. Afinal, este é nosso 34º aniversário de casamento. Por que estás
estragando tudo pra mim? Acho...
— Claro, claro... — Murmurou, distraidamente.
Era um homem magro e pequeno, de cabeça branca, beirando os 60 anos, com
uma atração pelas gravatas-borboleta que usara na juventude. Ao longo dos anos se
acostumara de tal forma às críticas de Rosa a seu comportamento que não mais lhe
causavam impressão.
— Mas há algo estranho neste carro. Não está reagindo da maneira certa.
— Não digas bobagem. És meticuloso demais. Sempre regulando o carro,
passando um tempo exagerado remexendo embaixo do capô. Se passasses a metade
desse tempo pensando no que o futuro nos reserva...
O sinal mudou. Hérbio calcou o acelerador mas outra vez a reação foi lenta
demais.
—... estaríamos numa situação muito melhor. — Continuou Rosa. — Te
aposentarás em breve. E tua pensão não será grande coisa. Nunca iniciaste aquele
programa de investimento de que sempre falaste e agora teremos...
— Pararei um minuto.
— Que absurdo! Não é permitido estacionar aqui!
— Não me importo. Quero examinar este carro, porque de repente não tenho
certeza se é mesmo nosso carro. Rosa estava incrédula.
— Mas do que estás falando? Deixamos o carro há cinco horas naquela garagem
e nos deram um talão. Há cinco minutos entregamos o talão e devolveram o carro.
A mesma marca, modelo, ano, cor, tudo enfim. Aqui...
Ela fez uma pausa, abrindo o porta-luva.
— Aqui estão todas nossas coisas, exatamente como as deixamos. Mapas
rodoviários, o estojo de pronto-socorro, a lanterna, moedas pra parquímetro... —
Ela fechou o porta-luva e olhou o banco traseiro. — E lá está o cobertor velho, pra
que o cachorro não suje o estofamento.
Com uma expressão sombria, Hérbio parou sob um lampião e desligou o motor.
Rosa sacudiu a cabeça, exasperada, enquanto Hérbio acendia a luz do teto e
examinava o interior do carro. Era verdade, parecia o mesmo. Mas não se lembrava
daquela mancha no teto.
Ele saltou. As placas eram mesmo as suas, lá estava o amassado no pára-lama
dianteiro esquerdo, que alguém fizera num estacionamento. Mas o lugar seria
exatamente o mesmo? Ao que podia se recordar, era um pouco mais alto.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
E depois encontrou duas marcas que não existiam antes de levar o carro à
garagem: Um arranhão comprido no porta-mala e um amassado grande no pára-
choque traseiro.
Tomando uma decisão, voltou ao volante, ligou o carro e deu partida.
— Satisfeito? — Indagou Rosa.
— Estou, sim. Não é nosso carro. O porta-mala está arranhado e o pára-choque
traseiro está amassado. Voltaremos.
— Mas isso é demais! Não quereres dizer que te lembras de todos os arranhões!
E mesmo que não estivessem no carro antes de deixarmos, podem ter acontecido
enquanto estava na garagem. Além do mais, por que alguém se daria ao trabalho de
fazer com que um carro se parecesse com outro?
— É o que tenciono descobrir.
Poucos momentos depois encostou o carro no meio-fio, numa área de
estacionamento proibida, no outro lado da garagem, uma estrutura de concreto, de
quatro andares, parecendo um caixote.
— Se eu entrasse na rampa de entrada levariam o carro até o alto. Mas não
pretendo lhes dar este carro enquanto não devolverem o nosso. Portanto, pararemos
aqui. E se a polícia rebocar não me importo. Vamos embora.
Abriu a porta, mas Rosa se recostou no assento, cruzando os braços sobre o
peito.
— Nem por 1 milhão de dólares eu te veria bancar o idiota. Eu sabia que não
deveria te deixar tomar aqueles uísques e os drinques depois do teatro. O álcool
sempre te sobe direto à cabeça mas nunca antes te comportaste assim.
— Está bem! Fiques esperando aqui. Na verdade, é até melhor. Se um guarda
pedir que te afastes, digas onde estou e por quê.
— Farei nada disso! Tenho certeza de que te meteria numa cela junto com
outros bêbados.
Deixou Rosa furiosa, atravessou a rua e entrou na sala de espera, onde havia
cerca duma dúzia de pessoas.
Atrás do guichê da caixa uma moça corpulenta, de cabelo escuro, óculos de aros
grossos, observou a aproximação, sem interesse.
— Com licença. Tenho uma queixa a apresentar.
— Sobre o quê?
— Peguei um carro aqui, há poucos minutos, mas o manobreiro me deu o carro
errado.
A caixa piscou os olhos, aturdidos. Diversas pessoas se viraram pra olhar.
— O carro errado? — Repetiu a moça. — Não estou entendendo. Se o
manobreiro trouxe o carro errado, por que o aceitaste?
— Porque parecia meu carro. Tinha até minhas placas e minhas coisas no porta-
luva. Mas não é meu carro.
— É a coisa mais absurda que já...
— Não é brincadeira! — As conversas na sala cessaram. — Sou um cidadão
responsável, caixa dum banco importante. Eis...
Entregou o cartão de visita.
— Onde está o carro que te demos?
— No outro lado da rua. Minha esposa está lá, me esperando.
Enquanto falavam diversas pessoas entraram na sala e formaram uma fila atrás
dele.
— Já me disseram que muitas coisas estranhas acontecem em garagens como
esta, pneu trocados, até motor. Mas esta é a primeira vez, ao que eu saiba, que um

94
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
carro inteiro é trocado.
Os olhos se estreitando atrás das lentes grossas, a moça o estudou um momento.
Seria a imaginação ou ela parecia, de repente, apreensiva com algo? A moça
chegou a uma decisão e disse:
— Está bem, senhor. Nada posso fazer. Chamarei senhor Bland.
— Quem é?
— O proprietário. Tem vários negócios nesta parte da cidade e provavelmente
está em seu escritório agora.
Virou as costas, pegou um telefone e discou. Hérbio não pôde ouvir o que ela
disse. Atrás as pessoas na fila se remexiam impacientemente. A caixa levantou os
olhos a ele e disse:
Senhor Bland quer saber se podes discutir o problema em seu escritório. Fica
num restaurante que possui perto daqui e...
— Não irei a alguma parte. — Declarou Hérbio, obstinado.
Lhe ocorrera que sua grande vantagem era a multidão na sala de espera. Quanto
mais pessoas o ouvissem formular a bizarra queixa mais depressa alguma
providência seria tomada. A caixa trocou mais algumas palavras com Bland e
anunciou:
— Estará aqui dentro de 5min, senhor. E agora, por favor, te afastes um pouco
pra que eu possa atender essas outras pessoas.
Hérbio se recostou num banco. A caixa falara 5min mas 10min, 15min, 20min
transcorreram e senhor Bland ainda não aparecera. Enquanto isso, quando não
estava atendendo os fregueses, a moça de óculos na caixa parecia
excepcionalmente ocupada ao telefone.
Finalmente, quase meia hora depois da moça ter chamado, um carro grande,
último modelo, parou na rampa de entrada. Um homem alto, de corpo bem feito, na
casa dos 40 anos, saltou. Usava um casaco azul-marinho e calça bege, o cabelo
preto elegantemente arrumado.
Entrou na sala de espera e olhou a caixa, que acenou com a cabeça em direção a
Hérbio.
— Sou Phil Bland. — Disse o homem, suavemente. — Tens certeza de que não
podemos resolver o problema em meu escritório? Estaríamos mais confortáveis.
— Não. Prefiro conversar aqui.
— Está certo. — Bland sorriu e estendeu a mão. — Te importas de me dizer
quem és?
Aturdido com a cordialidade de Bland, Hérbio apertou a mão e balbuciou uma
apresentação.
— Muito bem, Hérbio. Comecemos a conversa. Tento dirigir um negócio
honesto mas admito que de vez em quando acontecem coisas, lá em cima, das
quais não tomo conhecimento. Qual é o problema?
Hérbio repetiu a história. A sala de espera ficou novamente em silêncio.
— Parecia teu carro mas não era. — Disse Bland — Não estou duvidando de tua
palavra, mas como podes ter certeza?
— Já contei! Não estava reagindo da maneira certa. As molas, o freio, uma
porção doutras coisas.
— E chegaste a essa constatação napenas uns poucos quarteirões?
— Isso mesmo. As coisas mais importantes, porém, foram o arranhão no porta-
mala e o amassado no pára-choque.
— Amassados e arranhões? — Bland correu os olhos na sala, com expressão
tolerante, conspiratória — As pessoas geralmente reclamam essas coisas com

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
nossa companhia seguradora. Mas essa história sobre a troca dum carro inteiro é
tão extraordinária que abrirei uma exceção em teu caso. Quanto queres pelos
arranhões e amassados?
— Mas que-diabo! Não estou tentando te enganar. Voltei até aqui porque o
carro que me devolveram não é o mesmo carro que deixei.
Bland assumiu uma expressão sombria.
— Não estás brincando. Não é? Tentarei ser razoável. Mas o que exatamente
estás querendo que façamos? Isto é, presumindo que tenha realmente acontecido o
que disseste.
Uma boa pergunta. Hérbio compreendeu subitamente que não sabia exatamente
o que Bland ou outra pessoa na garagem poderia fazer naquela hora e que sua volta
tão cedo talvez fosse um erro impetuoso mas já chegara àquele ponto e tinha de
persistir.
— No mínimo, quero que alguém me explique satisfatoriamente o que está
acontecendo. Ou então subirei à garagem e procurarei meu verdadeiro carro.
— Pra tua própria proteção não posso permitir que faças isso. Esta é a hora mais
movimentada da noite. Os manobreiros sabem o que fazem nas rampas mas um
estranho acabaria, quase certamente, sendo atropelado.
— Se não quer me deixares subir, talvez permitas que a polícia o faça.
— Claro, claro... Mas, primeiro, onde está esse carro errado que dizes que te
entregamos?
— Como já informei a tua caixa, está no outro lado da rua. Minha esposa está lá
e...
— Eu gostaria de dar uma olhada.
Hérbio e Bland saíram. Uns poucos curiosos da sala de espera foram atrás.
A área de estacionamento proibido, no outro lado da rua, onde Hérbio deixara o
carro e a esposa, estava agora vazia. Incrédulo, Hérbio ficou olhando fixamente o
lugar, enquanto murmurava:
— Não estou entendendo...
— Tua esposa guia?
— Claro. Mas geralmente não vai além da estação do metrô em nosso subúrbio.
Jamais guia com um tráfego tão intenso.
— Mas pode guiar. Não é? Tem as chaves do carro?
— Sempre leva na bolsa. Mas...
— Se sua chave funcionou, então só podia ser teu carro. Não é? Quanto tempo
ela levaria pra ir daqui até casa?
— Uns 20min ou 25min.
— E há quanto tempo a deixaste sentada no carro?
Hérbio olhou o relógio.
— Há quase 40min.
— Nunca te ocorreu que possa ter se cansado de esperar? Talvez seja melhor
ligar a tua casa dentro dalguns minutos, a fim de verificar se chegou lá sã e salva.
Bland pegou o braço de Hérbio e o levou de volta à sala de espera. Hérbio
notou, vagamente, que parecia agora haver muito mais gente ali do que antes.
Anunciou:
— Pessoal, parece que o carro misterioso se foi. A mulher de Hérbio o ligou
com sua própria chave e foi embora.
— Não faria uma coisas dessa. — Disse Hérbio, tentando pensar direito. — Não
nesta noite.
— Há algo especial nesta noite?

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— É nosso aniversário de casamento.
— O que fizestes?
— Jantamos fora. E depois...
— Bebeste algo no jantar?
— Dois uísques. Mas...
— Sempre tomas dois uísques antes do jantar?
— Claro que não. Fomos ao teatro e... fomos tomar um drinque depois. Mas foi
só um.
— Estou entendendo. Normalmente, nunca bebes. Mas nesta noite...
O telefone tocou no guichê. A moça de óculos atendeu, escutou um momento e
disse:
— É pra senhor Crain. Uma mulher. Diz que é tua esposa. Enquanto a moça
entregava o fone a Hérbio todos os olhos estavam fixados nele.
— Hérbio? — Não podia haver dúvida de que era a voz de Rosa. — Estou em
casa. E quero que venhas logo.
— Rosa? Mas por que não...
— Peguei um táxi, mas venhas imediatamente. Não quero mais falar a respeito.
Ela desligou. Atordoado, Hérbio ficou olhando o fone. Seria possível que
estivesse enganado desde o início? Poderia alguns drinques ter alterado tanto seu
julgamento? Tinha antes certeza absoluta de que era o carro errado, mas agora...
— O que disse?, Hérbio.
— Voltou a casa. E quer que eu volte também.
— Claro, claro... O 34º aniversário de casamento, um jantar de gala, uísque,
teatro, um drinque depois... — Bland piscou sorridente às outras pessoas na sala de
espera. — Disseste que foi apenas um, mas talvez esqueceste os outros.
— Ei, esperes aí! — Começou Hérbio, furioso.
— Está bem. Está bem. — Bland irradiava uma tolerância afável. —
Chamaremos um táxi pra ti. E até pagaremos a corrida. Na manhã dês outra olhada
no carro. Se achares que foi danificado aqui, poderemos chegar a um acordo.
Combinado?
Subitamente, Hérbio compreendeu o que devia fazer. O próprio Bland lhe
oferecera a resposta. Respirou fundo, ajeitou a gravata-borboleta e puxou as
mangas, se preparando pro esforço que faria.
— Desculpe. Talvez eu tenha bebido mais do que deveria. Não criarei mais
problema. E obrigado pelo oferecimento, mas há um ponto de táxi na esquina.
Pegarei um táxi lá. E só posso dizer uma coisa: Realmente pensei que era o carro
errado.
Enquanto Hérbio saía da sala de espera, um carro parou na rampa de entrada.
Um casal saltou, de costas a Hérbio. A porta do carro estava aberta, o motor
ligado.
Rapidamente, Hérbio se instalou ao volante do carro esperante, fechou a porta e
pisou fundo no acelerador. O carro disparou a diante.
Atrás se elevou um clamor da sala de espera e alguns homens saíram correndo a
seu encalço. Hérbio os ignorou. O coração disparado, num ritmo alarmante, foi
subindo a toda velocidade ao segundo andar.
Ali, havia uma parede coberta com setas e indicações confusas. Hérbio não
dispunha de tempo pra tentar compreender. A opção era simples, virar à esquerda
ou à direita. Resolveu virar à esquerda.
Foi um erro. Concluiu a curva pra se descobrir avançando no caminho errado,
através dum corredor comprido, entre carros estacionados. E outro carro, em

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
sentido contrário, avançava a toda em sua direção.
Hérbio freou bruscamente. E o mesmo fez o manobreiro que guiava o outro
carro. Pararam a poucos centímetros duma colisão de frente. Mas, no processo, o
carro de Hérbio derrapou e bateu de lado nalguns carros estacionados.
Enquanto o manobreiro o fitava, espantado, Hérbio saltou. Ainda tonto do
impacto, olhou ao redor. Isso mesmo, lá estava, metido num canto, a cerca de 30m,
o carro verdadeiro, com a frente toda amassada e o pára-brisa estilhaçado.
Mais além, se afastando dum telefone na parede, havia dois homens, ambos de
terno, arrastando Rosa.
Hérbio gritou. Eles se viraram.
Rosa estava amordaçada e tinha uma equimose na testa.
Hérbio contornou o carro do manobreiro, tornou a gritar e correu aos homens.
Um tirou uma pistola da cintura e mirou. Hérbio parou e abriu a boca pra gritar de
novo, mas a arma foi disparada, a escuridão o envolveu.
Uma mulher perguntou:
— Como te sentes?
Hérbio abriu os olhos. Estava deitado num leito de hospital. O fitando, atrás dos
óculos de aros grossos, estava a caixa da garagem.
— O pior possível.
— A bala roçou teu crânio mas os médicos dizem que não foi muito grave. Tua
esposa também está bem. A verás daqui a pouco. Antes devo me apresentar.
Ela mostrou um emblema e acrescentou:
— Sou a detetive de segunda classe Sue Marino. E em nome do departamento,
quero te agradecer por ter sido alerta bastante pra perceber que o carro não era teu
e voltar pra reclamar. Se não o tivesses feito a quadrilha de Bland poderia escapar
impune.
— Impune? — Repetiu Hérbio. — Impune do quê?
— Do assassínio do manobreiro que levou teu carro a cima, quando o deixaste,
no início da noite. O manobreiro e eu éramos agentes secretos. Seu nome era
Gowan e se infiltrara na quadrilha de Bland. A garagem era um ponto de
transferência de grandes cargas de narcótico. A mercadoria era escondida em
carros dirigidos por mensageiros. Todos os manobreiros pertenciam à quadrilha.
Antes dos acontecimentos da noite passada estávamos prontos pra explodir toda a
operação quando chegasse o próximo grande carregamento.
— Mas o que saiu errado ontem na noite?
— Um novo membro da quadrilha reconheceu Gowan. Dois homens estavam
esperando em cima quando ele subiu com seu carro. Gowan os avistou e tentou
escapar. Lhe estouraram os miolos com espingardas. O pára-brisa de teu carro
ficou todo estilhaçado, o interior cheio de sangue, a frente toda amassada quando
bateste contra a parede. Não estava em condição de ser devolvido ao proprietário.
— Por que não disseram simplesmente que meu carro fora roubado?
— Isso levaria a polícia à garagem. A quadrilha precisava de tempo pra limpar a
sujeira lá em cima, se livrar de teu carro e do corpo de Gowan. Assim usaram os
contatos no submundo pra determinar o roubo dum carro igual ao teu. Nesta cidade
isso não demora muito. Esperavam que, no escuro, não percebesses a diferença.
Planejavam te seguir e roubar o carro mais tarde, a fim de que nunca soubesses o
que acontecera. Comunicarias à polícia um roubo de carro de tua residência e não
duma locadora donde desaparecera um agente secreto da polícia.
— Assim, quando voltei com o carro, resolveram me matar e também a Rosa.
— Isso mesmo. A qualquer custo queriam te impedir de procurar a polícia

98
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
ontem na noite. Seqüestraram tua esposa e depois tentaram te atrair a longe com o
telefonema. Mas eu já estava preocupada com Gowan. Normalmente, eu o via
freqüentemente do guichê. Mas havia horas que não aparecia. E quando apareceste,
com tua história absurda, e Bland concordou em vir à garagem pra falar contigo,
tive certeza de que o incidente estava relacionado com o desaparecimento de
Gowan. Dum modo geral Bland ignorava todas as reclamações dos fregueses.
— Os telefonemas que deste enquanto eu esperava Bland foram à polícia?
— Exatamente. Enchemos a sala de espera com policiais à paisana. Mas ainda
não sabíamos o que acontecera a Gowan ou como agir na situação. Assim, não
poderíamos ficar mais felizes quando entraste naquele carro e subiste na rampa.
Isso nos permitia tudo. Nossos homens saíram atrás de ti, salvaram tua esposa e
prenderam toda a quadrilha. Muitos já falaram o suficiente pra garantir
condenação.
Fez uma pausa.
— Só tem uma coisa. Depois que tua esposa telefonou, por que não pegaste um
táxi pra voltar a casa, como sugeriu? Nos contou que tinha um revólver encostado
na cabeça durante o telefonema e só pôde dizer umas poucas palavras. Não teve
possibilidade de te avisar de que era uma armadilha.
— Foi justamente por isso que receei que algo lhe acontecera. — Hérbio sorriu.
— Se tivesse realmente ido até casa sozinha diria mais que poucas palavras. Mas o
que finalmente me levou a tomar a decisão de roubar um carro e subir foi uma
coisa que Bland disse. Sabia que era nosso 34º aniversário de casamento mas eu
não lhe dera essa informação. Obviamente, ele ou alguém trabalhando pra ele
soubera disso por intermédio de Rosa. O que significava que estava envolvido até
o pescoço em tudo o que acontecia naquela garagem.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

A grande caçada
Talmage Powell
Não é difícil compreender por que não posso determinar a localização da ilha. É
uma dessas centenas de ilhas que se desprenderam da massa continental, ao longo
do perímetro do golfo do México, do leste do Texas ao oeste da Flórida.
Incontáveis dessas ilhas permanecem como foram criadas, selvas de mangues
subtropicais, enxameando de vida venenosa, separadas da civilização por pequenas
baías, estreitos, braços-de-rio. Tais ilhas apresentam um padrão e por isso têm
muita coisa em comum.
Os incorporadores têm se instalado em inúmeras dessas ilhas da costa do golfo,
abrindo a selva com trator, bombeando, drenando, aterrando, plantando grama e
palmeira, fazendo rua, marina, campo de golfe, lote pra casa, escola e condomínio
luxuoso. Dedicadas à bela-vida, essas ilhas também têm muita coisa em comum.
Aquela da qual estou falando, no entanto, é usada prum propósito que a torna
singular.
Contemplei a ilha em primeira vez dum helicóptero em vôo baixo, num dia
quente, abafado. Parecia pacífica e convidativa, nadando em nossa direção num
golfo cintilante, dum azul-esverdeado. O formato era o dum dedo estendido no mar
sereno, com 7km ou 8km de comprimento e 3km de largura.
A extremidade norte fora suntuosamente preparada prà habitação humana. Entre
gramados e jardins tropicais, uma casa moderna, de vidro e sequóia, projetava suas
três alas ao sol. O gramado se inclinava suavemente a uma praia branca e a marina,
onde flutuavam uma lancha de alto-mar e uma pequena escuna, com as velas
ferradas.
A sul da casa havia uma imensa piscina, no formato de rim, quadras de tênis,
uma pista de pouso com um cessna estacionado. Ao lado, havia duas construções
de cimento, que calculei alojarem as bombas, geradores e outras coisas
indispensáveis pra manter a ilha em perfeito funcionamento.
Aquele paraíso artificial ocupava apenas a extremidade norte da ilha. Menos de
1,5km a sul da casa, a selva se estendia, um emaranhado verde, criando o próprio
crepúsculo, intemporal, sempre se renovando. Parecia com paciência de Jó,
aguardando o momento em que reivindicaria de volta a pequena parte que as
pessoas subtraíram.
LaFarge, o xerife, estava pilotando o helicóptero e até então se limitava a
grunhir cada vez que eu perguntava aonde me levava e por quê.
Consciente do peso das algemas nos pulsos, estudei seu perfil, de ossos
salientes, trigueiro, cruel. Um brilho nos olhos escuros, sob as sobrancelhas
espessas, uma contração dos músculos no corpo imenso, me advertiram que a ilha
era nosso destino.

A cidadezinha de LaFarge, Ogathalla, era um pontinho sem importância no
mapa, uma encruzilhada de prédios carcomidos, no meio dos pinheiros, pouco mais
que uma placa de limite de velocidade e um sinal de trânsito na rua principal, pra
deter a grande kawasaki que eu estava guiando.
Antes que o sinal mudasse, uma radiopatrulha vermelha e branca, empoeirada,
emblema no lado e luz piscando na capota, encostou diante de minha motocicleta.
O vulto grande e indistinto atrás do volante se inclinou em minha direção e acenou

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
com o polegar ao meio-fio.
Obediente, empurrei a motocicleta até o meio-fio. O homem que eu conheceria
como LaFarge saltou do carro da polícia e avançou a mim. Me estudou
atentamente, meu rosto um tanto esquelético, o corpo em brim, o cabelo louro e
crespo sob o capacete, os olhos atrás dos protetores, as sandálias de couro, o saco-
de-dormir preso atrás do assento.
— Qual é teu nome?, garoto.
— Rogers, seu guarda.
— Aonde ias?
— Descendo a costa.
— Descendo a costa aonde?
— Talvez Tampa. Ou Sarasota, Forte Myers... Qualquer lugar pra trabalhar e
passar o inverno ao sol.
— Donde vens?
— Elpasso.
— E antes disso?
— Fênix, Losângeles, Lasvegas.
— Tens gente? — Os olhos escuros e profundos fazendo com que a pergunta
ficasse importante.
— Gente?
— Família. Alguém que possa responder por ti. Tirei os óculos protetores e o
fitei, franzindo o rosto.
— Por que preciso de alguém pra responder por mim?
— Não costumamos dar boa-vinda a vagabundos que aparecem em Ogathalla de
motocicleta.
— Não sou exatamente um vagabundo de motocicleta, seu guarda. Tenho
dinheiro. Pago tudo o que consumo.
Chutou o pneu da frente quase gentilmente.
— Apenas passeando aí, conhecendo o país, desfrutando a liberdade,
trabalhando quando te dá na veneta?
— Mais ou menos isso.
Mas era mais profundo. Remontava a questões difíceis, indagações cristalizadas
em minha mente na ocasião em que fui um dos últimos soldados a voltar do
Vietnã. Perguntas simples, sem resposta imediata: Quem sou, onde está a verdade
entre as falsidades, o que significa viver, o que fazer com a minha vida.
Eu estava tentando definir uma porção de dúvidas que me dominavam mas
duvidava de que aquele rufião de uniforme pudesse compreender, mesmo que
estivesse interessado. E, por isso, acrescentei:
— Resumiste tudo com perfeição, seu guarda.
— É o que veremos. Podes estar certo de que descobriremos tudo a teu respeito.
— se deslocou ao lado, com passo curto. — E agora saias dessa motocicleta,
garoto. A cadeia local fica ali adiante. Dá pra ir a pé.
Fiquei atordoado de surpresa. A expressão em meu rosto lhe arrancou um riso
brusco.
— Ultrapassar o limite de velocidade ao atravessar a cidade já servirá, pra
começar. Queres acrescentar também uma acusação de resistir à prisão?
Senti o ímpeto de o agredir e fugir na motocicleta. O percebeu em meus olhos e
baixou a mão ao revólver.
— Faças isso. — Convidou, suavemente. — Gosto de pisar em gente de tua laia,
esmagar com o calcanhar. Faça isso e te acertarei antes que os outros tenham

101
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
chance.
A referência aos outros não fazia mais sentido que o resto da situação. Mas senti
claramente o sadismo e não sobrevivera até aquela altura da vida pra oferecer a um
xerife pré-histórico uma desculpa pra descarregar seus recalques.

Passei o resto do dia numa cela de 2×3m2, na cadeia de Ogathalla. As celas
perto de mim, no prédio velho e decrépito, estavam vazias, me deixando suspenso
num calor sufocante e aos resquícios dos cheiros de 10 mil ocupantes anteriores.
Eu não estava ainda sentindo muito medo. Calculava que LaFarge era um rufião
entediado, querendo reforçar a auto-imagem como homem forte. Me prendera sob
falso pretexto mas não poderia ir além disso. Afinal, estávamos em Estados-
Unidos da América.
Não podia perceber outra possibilidade. Eu vinha do nada, seguia ao nada.
Tinha dinheiro prà viagem: O suficiente, esperava, pra satisfazer LaFarge e um
juiz desonesto, num tribunal irregular.
Acabei dormindo, numa poça de suor azedo e com o fedor do beliche incômodo.
Na manhã seguinte LaFarge apareceu na cela, me sorrindo através das grades da
porta. Passou um pequeno prato de estanho na abertura na base da porta.
— Desjejum, Rogers.
Segurei as barras, as articulações embranquecendo.
— Quero um advogado.
— Já tens idade suficiente pra não te preocupares com essas coisinhas. Relaxes
e aproveites a hospitalidade de Ogathalla, enquanto podes.
Pareceu não se importar com as coisas que gritei, enquanto se afastava.
Voltou no final da tarde, com outro prato de lavagem. Depois do vazio do dia, o
som doutro passo humano era bem-vindo, ou quase.
— Não podemos ser razoáveis?, Xerife. — Ignorando a comida.
— Claro. Sou o homem mais razoável e compreensível de todo o condado.
— Então qual é a acusação contra mim?
— Ainda não me decidi. Mas estou o investigando como nunca foste
investigado antes. Posso ser um xerife caipira mas tenho um telefone que fala ao
resto do país, um emblema e um título. Antes de eu acabar, saberei se, algum dia,
cuspiste na praça Eras.
Fiquei sem saber o que dizer durante um momento. Parado ali, o observando no
espaço entre as grades, senti os primeiros calafrios de apreensão se espalharem no
corpo. Murmurei, passando a língua nos lábios:
— Xerife, tenho alguns direitos.
— Aqui, garoto? Quem disse isso?
— Não podes me manter aqui a sempre.
— Quem disse isso? Tem alguém pra vir te tirar?
O sol foi gradativamente mergulhando ao horizonte, como sempre fazia, a noite
chegou, com sua sombra opressiva e indesejável. As dúvidas que me atormentaram
tanto tempo adquiriam uma estranha intensidade ali, na escuridão da cadeia de
LaFarge. Mas eu não podia me angustiar com qualquer coisa, inclusive as horas na
frente, e não podia admitir a perspectiva de LaFarge dar a última palavra.
Fiquei parado junto à janela única, pequena e gradeada, escutando os ruídos
noturnos do pântano próximo. LaFarge não poderia me deter mais seguramente se
tivesse me posto numa tumba, embora eu soubesse, amargamente, de minha
passagem no Vietnã, que prisioneiros podiam derrubar paredes antigas e
apodrecidas sem muita dificuldade.

102
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Finalmente me virei e me sentei na beira do catre, a cabeça entre as mãos.
Depois dalgum tempo me estendi de costas, sentindo as depressões do catre, o
ouvindo ranger a cada vez que respirava. Parecia preste a arrebentar e cair. Com
esse pensamento meus olhos se abriram abruptamente.
Me sentei rapidamente e olhei o pé do catre. As molas e suportes ressaltavam ao
luar. Minhas mãos exploraram e testaram a estrutura. Um suporte diagonal no
canto, um pedaço de metal velho, com cerca de três centímetros de largura e 15 de
comprimento, parecia resistir no lugar apenas com a ajuda da ferrugem. A
ferrugem se desprendeu em fragmentos quando peguei o suporte e torci dum lado a
outro.
Foi um trabalho mais difícil que parecia. As beiradas do metal deixaram minhas
palmas esfoladas. O esforço e o calor úmido da noite arrancavam de minha pele
um suor pegajoso. Mas eu dispunha de tempo suficiente. Pacientemente, continuei
a torcer o suporte, dando puxões ocasionais. Finalmente, quando a lua deslocara as
sombras no chão, senti... ou imaginei... que o suporte cedia um pouco mais.
Depois o rebite numa das pontas saiu do buraco corroído pela ferrugem. Com
esse pé-de-apoio desprendi a outra extremidade. Meu coração bateu mais forte
quando levantei o suporte e desferi dois golpes contra um LaFarge imaginário,
pairando na escuridão.
Apareceu na cela duas horas mais tarde que o habitual, na manhã seguinte.
— Conversaremos um pouco antes de comeres.
Enquanto metia a chave na fechadura, me observou através das grades, como a
determinar como eu estava reagindo. Naquela altura eu estava maduro, todo
amarfanhado, sujo, barbudo, uns poucos quilos tendo se derretido dum corpo que
não poderia suportar a perda. LaFarge sorriu de satisfação com o que viu. A arma
de metal ficou um pouco mais quente contra meu antebraço, escondida dentro da
manga.
LaFarge abriu a porta. Enquanto retorcia a chave pra retirar da fechadura antiga,
o pedaço de metal escorregou até minha mão.
LaFarge baixou os olhos à fechadura e nesse momento entrei em ação. Se virou
bruscamente, vislumbrando o metal avançar em sua direção. O medo lhe vergou os
joelhos e o empurrou contra a porta. O reflexo o salvou. O tirante de metal errou a
cabeça e resvalou no ombro. Ainda segurando a porta, recuou cegamente. O tirante
de metal bateu na beirada da porta em movimento. Antes que eu pudesse recuperar
o equilíbrio e desferir um terceiro golpe, LaFarge estava fora da cela, puxando a
tranca. A porta era uma barreira entre nós.
Houve um momento de silêncio, em que ficamos nos fitando. LaFarge esfregava
o ombro mas se doía. Parecia não se importar.
— Fizeste agora com que se tornasse um caso pessoal, Rogers. — Disse,
suavemente. — Gostarei de te levar aos outros. E gostarei de verdade, podes ter
certeza.
Olhei o pedaço de metal em minha mão, agora inútil. Abri os dedos e deixei o
metal cair no chão de cimento sujo, ruidosamente. Finalmente levantei os olhos e
fitei LaFarge através das grades.
— Quem são esses outros? O que está acontecendo?, afinal. Por que logo eu?,
LaFarge.
— Porque estavas no lugar certo na hora certa.
— Mas isso é loucura!
— Podes pensar em muitas coisas no mundo que não sejam? — Tirou as
algemas do cinto. — Esfries enquanto podes, garoto. Não mais correrei risco

103
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
contigo. E agora estendas as mãos a fora. As duas mãos, na mesma abertura, a fim
de que não o prendas na porta, e ajustemos as algemas. E depois faremos uma
pequena excursão no heliporto atrás da cadeia e daremos um passeio aéreo.
Ficarias surpreso com a quantidade de crime nesta região: Caçador ilegal,
fabricante de uísque clandestino, ladrão e assassino. O helicóptero é o único meio
de caçar alguns.
A viagem não foi tão pequena assim. LaFarge voou ao sul, até que a praia
apareceu embaixo. Seguimos a costa a leste. Sobrevoamos uma estrada cheia de
veículo parado, cortamos a esteira dum petroleiro que vinha, provavelmente, do Irã
ao movimentado porto um pouco além do horizonte, em nossa retaguarda.
Lá embaixo desfilavam casas ns beira da praia, com atracadouros particulares,
hotéis cor-de-rosa e brancos, quilômetros e mais quilômetros de praias brancas,
com velas ao largo.
A estrada virou ao norte, através duma floresta de pinheiro e cipreste. Viramos
ao sul, acompanhando a curva duma praia, onde já não se viam mais vestígio de
ocupação humana.
Entre 8min a 10min LaFarge se afastou da praia e sobrevoou diversas ilhas,
repletas de vegetação luxuriante. Nenhuma interessou a LaFarge. Então surgiu o
dedo, um quarto de puro luxo artificial, três-quartos de selva. O helicóptero
começou a baixar.
Enquanto nos aproximávamos da propriedade três pessoas saíram da ala oeste
da mansão e começaram a correr ao sul, através do gramado.
— Estão indo nos receber. — Comentou LaFarge.
— Os outros?
— Isso mesmo. — LaFarge soltou uma risada curta. — Ganho 10 mil cada vez
que lhes trago um tigre. Ajuda um pobre xerife do interior a sobreviver. Mas é
verdade que não encontro todos os dias um ninguém numa motocicleta que atende
às exigências rígidas. Te sentes melhor sabendo que vales 10 mil dólares?
LaFarge pousou o helicóptero a uma distância considerável da casa e a não mais
de 100m do ponto em que começava a selva.
Enquanto LaFarge me cutucava com a arma os três homens pararam, formando
um semicírculo a meu redor e me examinando atentamente.
Eram todos jovens, bem próximos de minha idade, vestindo bermuda cáqui,
blusão de caça e bota. Cada um tinha uma carabina pendurada no gancho do braço.
Tive a vaga impressão de que já os vira antes, de os conhecer dalgum tempo ou
lugar, o que parecia impossível.
O homem a minha direita era alto e magro, músculos rijos, rosto encovado, o
crânio corrugado, careca, embora tivesse apenas vinte e poucos anos.
Diretamente em minha frente estava um homem corpulento, cujo rosto moreno e
compleição me lembravam LaFarge. O terceiro membro do grupo, a seu lado, era
alto, de ombros largos, rosto redondo, cabelo louro arrumado no mais puro estilo
afro que eu já vira. LaFarge disse:
— Rogers, este é o clube de caça Quixote. O careca é Hepperling. O corpulento
é McMurdy. E o pantera com a flor de cabelo louro é Convers.
Ouvindo os nomes compreendi por que não me pareceram totalmente estranhos.
Eu e milhões doutras pessoas já os conhecera, a distância, na televisão e nos
suplementos dominicais.
Hepperling representava milhões em açúcar, McMurdy em navegação e Convers
em petróleo. Os três eram descendentes de famílias que, em todos seus ramos,
sempre representaram mais de 1 bilhão (109) de dólares em riqueza econômica e

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
muito poder. Pra cada um a maioridade significara fundo de investimento, subsídio
e herança com que o resto dos mortais jamais sonhara. Os três poderiam reunir os
recursos e comprar um pequeno país subdesenvolvido em vez duma simples ilha.
Como quixotes freqüentemente alcançaram as manchetes jornalísticas: Caindo
de avião e desaparecendo no Alasca durante uma semana, na ocasião duma caçada
a urso; caçando jaguar em áreas tribais vedadas aos brancos na América do Sul;
criando um incidente internacional quando as autoridades quenianas os prenderam
por caça ilegal a elefantes machos e depois fazendo questão de insultar o governo
queniano perante câmaras de televisão do mundo inteiro. LaFarge estava dizendo:
— Rogers é completamente seguro, pessoal. Não tem laço familiar, não tem
amigo íntimo. Ninguém pra fazer a primeira pergunta sobre um desaparecimento.
— Sabemos disso. — McMurdy ignorou LaFarge como ser humano — Sempre
fazemos nossa investigação quando seguras alguém. Temos os agentes e os meios.
LaFarge suportou o tom insultuoso de McMurdy como um cachorro bem
treinado. McMurdy me contemplou da cabeça aos pés.
— Pareces ser bem duro, Rogers. Teu pai foi embora quando tinhas seis ou sete
anos e nunca mais tiveste notícia. A mãe tornou a se casar. Uma vagabunda. Os
dois morreram num desastre automobilístico quando saías da escola secundária.
Trabalhaste, enquanto cursavas a universidade, durante dois anos. Partiste ao
Vietnã. Lá a coisa não foi fácil. Ferido uma vez. Foi um dos últimos a voltar.
— Não tinha muita coisa pela qual voltar.
— Mas sobreviveste. — Interveio Hepperling. — Pareces sobreviver a qualquer
coisa. O que é um bom presságio. Deves dar um dos bons.
— Torçamos pra que isso aconteça. — Comentou Convers — Há meses que não
temos uma boa caçada na ilha.
Acho que eu já desconfiara da verdade quando cercaram o helicóptero com
carabina. Agora, no entanto, a realidade se tornava mais terrível, a cada segundo
que passava. Mas eu ainda me recusava a acreditar. Não podia. Depois os olhei, a
selva, de novo eles, e tive de acreditar. Convers sacudiu a vasta cabeleira em
direção à selva.
— Receberás um cantil e ração, antes de te embrenhares na selva, Rogers.
Quanto tempo de vida comprarás dependerá de tua astúcia e força.
Não fui capaz de me mexer.
— Estás entendendo?, Rogers. — Perguntou Hepperling.
— Claro. — A palavra saiu rouca como um sussurro — Caçareis tudo, em toda
parte, até esgotardes o prazer normal. E agora, quando surge a oportunidade, nesta
ilha, caçais a nata entre todas as presas.
— Até que ponto estás com medo?, Rogers. — Perguntou Convers, como se o
assunto realmente o interessasse.
— Se eu caísse de joelhos ajudaria?
— Na última vez — comentou Hepperling — a presa quase enlouqueceu antes
de sair correndo à selva, gritando que estávamos doidos, que não era verdade.
— Sei que é verdade. Em 27 anos de vida descobri que tudo é possível neste
planeta. Adolf Hitler. Cientistas que vivem falando em dedicação e devotam suas
vidas a inventar bombas maiores e germes mais mortíferos. Charles Manson. A
Máfia. Não tenho dúvida de que vós três sois reais, relativamente brandos, em
comparação com algumas coisas que acontecem.
Me afastei alguns passos do helicóptero e fiquei olhando a selva. Me sentei na
relva fria.
Mas acontece que eu também sou real, companheiros. E só me deixardes uma

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
opção. Não pode ser doutra forma. Me recuso a participar. A caçada está suspensa.
Se aproximaram, suas sombras me envolvendo.
— É justamente esse o ponto. Nada mais há pra vós. Sem uma presa em fuga,
tentando sobreviver mais algumas horas na selva, nada mais há pra vós. Pegastes o
tigre errado desta vez.
— LaFarge. — Chamou McMurdy, suavemente. LaFarge se aproximou de
mim. Sacou sua arma.
— Queres ser abatido aqui mesmo?, Rogers.
— Claro que não. Não quero ser abatido aqui ou noutro lugar, por muitos e
muitos anos. Mas estás jogando contra um inimigo que nada tem a perder,
LaFarge. Não importa o que faças, a caçada está encerrada. E não creio que
receberás algum dinheiro por mim ou merecerá muita confiança no futuro.
Disparou a arma quase em minha cara. O clarão me ofuscou. Senti a bala me
beliscar o couro cabeludo. Reprimi a necessidade de vomitar em toda parte.
— Terás de fazer algo melhor do que isso, LaFarge. Encostou o cano em minha
têmpora e lentamente engatilhou o revólver.
— Esse é o meio mais seguro de garantir que não haverá caçada, LaFarge.
Dando um passo a trás, arriscou um olhar aos rostos de seus jovens
empregadores. Não gostou da maneira como o estavam fitando. A impressão era de
que o estavam avaliando. E isso não o agradaria. Juntou meu nome e um palavrão.
— Te levantes!, Rogers. Te obrigarei a correr! Terás de sumir na selva!
Explodiu o pé metido na bota em direção a minha cara. Mas não tinha a
coordenação ou rapidez dum vietcongue. Minhas mãos algemadas escoraram o
tornozelo em movimento. Fiz um movimento brusco, o derrubando de costas.
Antes que ele pudesse recuperar o fôlego, eu já arrancara o revólver e me virava
aos outros. Ordenei:
— Esperai!
Nenhuma carabina se mexeu. Tinham cérebro além de dinheiro. Sabiam que
poderiam me vencer, mas não com total segurança.
Foi uma dessas encruzilhadas na vida pra mim, não por causa dalgo externo mas
por causa do pensamento que me surgiu, plenamente desabrochado. Pensei em
minha vida difícil, desde o nascimento. Parecia que já tardava o momento de fazer
algo por um cara chamado Rogers. As perguntas básicas não mais incomodavam.
Tive certeza, naquele momento, do rumo que minha vida tomaria. Deixei que um
sorriso se avolumasse em meus lábios.
Em reação, a tensão inicial dos quixotes se desvaneceu. Se entreolharam, me
fitaram. Na verdade havia muito mais aproximação entre os quixotes e eu que entre
qualquer um de nós e LaFarge. Declarei:
— Companheiros, ser xerife dum condado nesta região é uma atividade das
mais arriscadas. Se LaFarge aparecesse nalgum canto de pântano, morto a tiro,
todos pensariam que fora abatido por um fabricante ilegal de uísque ou um caçador
clandestino.
Virei o cano da arma na direção a LaFarge.
— À selva, grandalhão.
— Estás maluco!, Rogers. Pessoal, digas a ele...
Parou de falar abruptamente ao olhar os quixotes. E não pôde mais desviar os
olhos. Deu um passo a trás, depois outro. E o que quer que fosse que usara como
coragem, durante toda a vida, morreu de repente. Perdeu o controle e saiu
correndo, desaparecendo, rapidamente, na selva.
McMurdy era o que estava mais perto de mim. Cuidadosamente, virei o revólver

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
e o estendi, segurando no cano.
— Senhores, acho que a caçada recomeçou. E não vos esqueceis de pegar a
chave das algemas quando o abaterdes.
Foi assim que começou minha ligação com os quixotes. Ganho agora 25 mil
dólares por ano, mais as despesas. Freqüento os balneários mais elegantes. Tenho
um carro-esporte de 12 mil dólares. Consumo as melhores comidas e vinhos, tenho
um guarda-roupa sob medida.
Não é de surpreender que eu tenha praticamente de fugir das mulheres.
Geralmente escolho os mais bem-apessoados e saudáveis da colheita de rapazes de
cabeça vazia, de famílias boas e ricas, que largaram o estudo e foram embora,
nunca mais dando notícia. São mais fáceis de enganar e depois que chegam à ilha
já é tarde demais pra compreenderem que enfrentam algo inteiramente diferente do
fim de semana romântico e emocionante que lhes fora prometido. Figuram entre os
jovens que fogem de casa todos os anos e nunca mais são encontrados. É
impossível acompanhar seus rastros até a ilha. Cuidarei disso.
Mulheres, a suprema presa. Os quixotes acharam que a sugestão era sensacional
quando lhes apresentei. Acrescentei a oferta de atuar como agente deles,
vasculhando o país procurando a presa ideal, levando cada uma à ilha. Já
demonstrei que sou de absoluta confiança e os quixotes respeitam meu conselho.
Recapitulando minha nova vida, acho que se pode dizer que devo a LaFarge um
voto de agradecimento.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

A lata de salsicha
Joyce Harrington
Eu estava no supermercado, na quinta-feira, e vi o velho meter no bolso uma
lata de salsicha.
Não tive a intenção de reparar. Não observaria uma coisa assim se pudesse
evitar. Não é o que todo mundo faz? Mas lá estava eu, contornando a gôndola de
picle e condimento, e ele, um velhinho num velho e grande capote, com a lata na
mão. E logo a lata estava no bolso. Acho que devo ter parecido surpresa, porque
foi assim que me senti. Se não ficasse tão surpresa nunca teria olhado a ele. Mas
não tive tempo de ajustar minha vista e fingir que estava procurando uma boa
oferta na prateleira de atum.
Me olhou de volta, furtivo, assustado e furioso ao mesmo tempo. Estava sujo
também. As roupas estavam imundas, havia uma linha preta no pescoço e o cheiro
não era dos mais agradáveis. Registrei tudo isso na fração de segundo em que
fiquei parada. Pensei: Não te preocupes, meu velho, pois não contarei a
alguém. Mas não podia dizer isso a ele. Não é?
Olhei seu carrinho de compra, enquanto empurrava o meu no corredor. Tinha
um pão amanhecido e um pacote de leite desnatado, grande demais pra pôr no
bolso. Pensei. Aproveites pra levar, também, um sabonete, meu velho. E depois me
perdi em consideração sobre a variação do espaguete semanal num rigatone ou
talvez lasanha. Quando se cozinha pruma família de sete pessoas, cinco das quais
estão abaixo dos 12 anos, a única coisa de que se pode ter certeza é de que
espaguete uma vez por semana deixará todo mundo feliz, especialmente minha
bolsa.
Tornei a avistar o velho no balcão de carne, onde debatia os méritos da oferta
especial de três galinhas inteiras contra a pechincha da semana, um rosbife
redondo por um preço que deveria ser suficiente pra comprar uma vaca inteira,
com casco, rabo e tudo o mais. Estava inclinado sobre as costeletas de carneiro,
vermelhas, brancas e lustrosas, em seus invólucros da plástico transparentes, como
se fossem diamante, expostos a pessoas como si (e como eu) se espantarem e
desejarem. Acho que estava babando mas não esperei pra descobrir se planejava
um grande assalto às jóias da coroa da seção de carne. Peguei um saco de galinha e
fui à seção de alimento congelado e vegetal fresco. Seria bastante arriscado,
pensei, tentar levar algo da seção de carne. Por tudo o que sabíamos era que os
guardas da Brink's podiam estar enfileiradas a cada dois metros no outro lado, as
metralhadoras prontas pra entrar em ação contra os fregueses com ânimo de
gatuno.
Depois de pegar banana e suco de laranja segui à saída. Se aproximava a hora
do jantar e a multidão da quinta-feira especial começava a diminuir. O escritório
do corpo de bombeiro, onde cuido a contabilidade e despacho cobrança, ficava a
dois quarteirões do supermercado. Minha casa ficava a três, logo depois da
esquina, na outra direção. Eu ia a pé ao trabalho e nas manhãs de quinta-feira
rebocava meu velho e barulhento carro de compra. Jimmy já teria voltado das
docas antes que eu chegasse a casa com a compra. As crianças o estariam ajudando
no preparativo de nosso tradicional jantar de panqueca de quinta-feira. Tudo
funcionava perfeitamente, com Jimmy e as crianças trabalhando, enquanto a
vizinha, senhora McIntyre, tomava conta do pequeno Kelvin, que tinha apenas três

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
anos e era pequeno demais pra freqüentar a escola. Contudo, mesmo com nós dois
trabalhando, se tornava cada vez mais difícil encher o carrinho de compra.
Havia apenas dois caixas funcionando quando cheguei à frente do
supermercado. Uma era caixa-rápido, pra pequena compra, por isso tive de entrar
na outra, logo atrás duma mulher do tipo estacionar-e-comprar. Creio que todo
mundo conhece: Param o carro no caixa e depois se afastam, apressadamente,
correndo no corredor, enchendo os braços com latas e caixas, despejando no
carrinho, voltando pra pegar mais. Pensam que estão passando alguém a trás mas
tudo o que fazem é desperdiçar energia e deter a fila. Algumas vezes se metem em
briga. Parece que sempre são mulheres gordas, o cabelo em rolo. Aquela não era
exceção. Chegou, apressada, com um saco de batata, de 5kg embaixo dum braço e
uma embalagem de seis latas de leite-em-pó no noutro, dizendo a mim:
— Estou quase acabando. Não passes em minha frente.
E se afastou. Resolvi que não valia a pena me exasperar com a situação e me
acomodei pra esperar a minha vez. O caixa estava atendendo a uma compra grande
e eu era a terceira na fila depois. Calculei que teria de esperar cerca de 15min ou
20min e comecei a ler o Daily news, que eu guardara desde a manhã, a fim de que
Jimmy pudesse ler também. O velho se encaminhou ao caixa-rápido e notei que
acrescentara um saco de ração canina ao leite e ao pão em seu carro. Fiquei
imaginando o que mais teria acrescentado à lata de salsicha nos bolsos do capote
volumoso.
A coluna de Cartas dos leitores estava muito engraçada, como sempre. Eu
estava lendo a carta dum homem de Ilha Staten, que queria despachar todos os
viciados em tóxicos ao Alasca, os obrigando a trabalhar no oleoduto, a fim de que
pudéssemos receber petróleo de lá e assim nos livrarmos dos árabes. Por isso não
reparei quando os quatro garotos entraram a se espalharam na frente do
supermercado. Ninguém sabia que eram apenas garotos naquele momento, é claro,
pois todos usavam máscaras de esquiar e três empunhavam revólver. Até um
garoto parece adulto quando tem um revólver na luva.
A primeira indicação que tive de que algo estava errado foi quando os dois
caixas pararam de retinir e toda a loja ficou estranhamente silenciosa. Um dos
mascarados estava à porta, outro se encaminhava ao cubículo do gerente. Um
terceiro ficou postado no final dos caixas, brandindo o revólver, a fim de que todos
pudessem constatar que era real. O quarto pegou uma bolsa de compra, a abriu e
disse, bem alto:
— Todo o dinheiro a esta bolsa! Entendido?
Nós entendemos. Os caixas começaram a retirar notas das gavetas das
registradoras, largando na bolsa. O gerente saiu do cubículo onde estava dormindo
ou sonhando com os aumentos de preço da semana seguinte. Esbarrou num
mascarado, que comprimiu o revólver contra a pança e o obrigou a voltar, em
direção ao cofre de aço no interior do cubículo.
— Carteiras e bolsas também, senhoras e senhores. Esvaziai os bolsos. Tudo a
minha bolsa de compra.
Abri minha bolsa e tirei a carteira velha com os 40 dólares que mal dariam pra
pagar a compra em meu carrinho. A mulher estacionar-e-comprar chegou com
uma alface e um saco de cebola bem a tempo de participar da diversão. Tentou
recuar, na ponta dos pés, à segurança dos balcões de legume mas o mascarado na
porta gritou:
— Fiques onde estás!, dona.
Soltou um pequeno guincho mas parou. O velho, que acabaria de pôr o leite, o

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
pão e a comida canina no balcão da caixa, tremia como um doente. Eu também
estava bastante abalada mas sentia pena do velho que tivera coragem bastante pra
encher os bolsos com comida e agora perderia o pouco dinheiro disponível.
Observei a mão trêmula se encaminhando ao bolso, esperando que puxasse um par
de notas velhas e amarrotadas de 1 dólar. O que saiu foi a lata de salsicha e o velho
não tremia quando a arremessou. A lata atingiu o mascarado no final das caixas
entre os olhos, que cambaleou a trás, caindo sobre a pilha de caixas vazias ao
longo da janela. O velho não parou aí. Devia ter bolsos do tamanho de bolsas de
compra. Uma lata de feijão saiu voando ao mascarado que dominava o gerente, o
acertando atrás da orelha. E depois todo mundo entrou no espetáculo. O que estava
com a bolsa de compra, recolhendo o dinheiro, caiu de joelho quando o caixa-
rápido o acertou, a curta distância, com uma lata de suco de abacaxi. Garrafas de
soda deslizaram no ar e algumas explodiram no contato, disparando gêiseres de
espuma. Arremessei duas latas de cerveja. Jimmy devia me ver em ação, pensei, e
acompanhei com um saco de açúcar de 2kg. Estávamos todos tão entusiasmados,
no ardor da batalha, que acho que esquecemos que aqueles brincalhões estavam
armados.
O mascarado na porta não esqueceu. Disparou um tiro a esmo entre a saraivada
de mercadorias voando e depois atravessou a porta. Foi o bastante. O cara era um
exímio atirador ou apenas deu um tiro de sorte: O fato é que o velho arriou entre os
balcões de caixa, como se tivesse apagado subitamente.
Os outros três mascarados estavam gemendo no chão, no meio dos escombros
de latas amassadas e garrafas quebradas. Um tinha sangue escorrendo na abertura
do nariz na máscara. O gerente segurava os dois revólveres restantes, um em cada
mão, dando a impressão de que estavam em brasa.
O velho continuava estendido no chão, muito pálido sob a sujeira, o capote
grande aberto, deixando à mostra os muitos bolsos que acrescentara ao interior.
Um dos caixas foi ao cubículo do gerente e acionou o alarme.
Quando o Guarda Kenny Regan entrou no supermercado, dois minutos depois,
todos nos sentimos profundamente tristes e deprimidos. O velho ainda estava
caído, parecendo morto. Não podíamos ver sangue mas por tudo o que sabíamos
fora atingido nas costas e sangrava no chão, embaixo do capote.
Kenny se aproximou dos três mascarados encolhidos no chão, seus sapatos
imensos esmagando cacos de vidro, açúcar e soda derramada, numa mistura
repulsiva.
— Muito bem! — Gritou— Agora veremos suas caretas horríveis!
Um a um os mascarados foram se revelando e foi quando soubemos que não
passavam de garotos. O mais velho não podia ter mais de 15 anos e os outros eram
tão parecidos que deviam ser irmãos. Três pares de olhos assustados se deslocaram
no círculo de rostos atentos.
— O que achais disso? — Falou Kenny. — Um bando de assaltantes infantis!
O gerente interveio, estridente:
— O que farei com isso?
Estendeu os dois revólveres como se fossem duas dúzias de ovos podres. Um
dos caixas indagou:
— Seu guarda, o que faremos com o velho? Pode determinar se está morto ou o
quê?
Percebi que Kenny estava começando a ficar nervoso com todas aquelas
perguntas. Por isso, fiquei aliviada, e ele também, quando as duas radiopatrulhas
pararam diante do supermercado, logo seguidas por uma ambulância municipal.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Em poucos minutos a loja enxameava de homens de expressão duras e todos
apresentávamos nossas versões da tentativa de assalto. Mais carros de polícia
chegaram e os três garotos foram algemados e levados. Kenny Regan providenciou
pra si um posto sossegado, alheio aos interrogatórios. Impávido e silencioso, ficou
guardando a porta, impedindo os curiosos de entrarem e as testemunhas de saírem.
No meio de toda confusão e barulho ouvi, de repente, a voz excitada e estridente
do gerente:
— Eu sabia que o velho estava roubando coisas daqui mas juro que o deixaria
levar o que quisesse se isso lhe devolvesse a vida!
— Estás falando sério?, Jack.
O supermercado ficou quase tão silencioso quanto no momento em que os
revólveres nas mãos dos mascarados tornavam a conversa difícil. Os atendentes da
ambulância, que tentavam manobrar uma maca com rodinha no espaço apertado no
final dos balcões dos caixas, pararam enquanto observavam, atônitos, o freguês se
levantar.
— Está mesmo falando sério? — Insistiu o velho. Ficou de pé, se apoiando no
balcão e apalpando todo o corpo com as mãos trêmulas e sujas.
— Pensei que tivesses levado um tiro! Pensei que estivesses morto! —
Balbuciou o gerente, indignado.
— E isso faz alguma diferença? — O velho soltou uma risadinha. — Levei um
tiro mas não estou morto.
Meteu a mão no bolso superior do capote surrado e tirou uma lata de carne
moída. A lata tinha um buraco, por onde saía um filete de carne. Ergueu a lata e
mexeu com os pés, como se fosse uma estranha dança da vitória e gritou:
— Doravante sempre levarei uma lata de carne moída junto ao coração! E agora
quero que me digas, Jack: Tua oferta ainda está de pé?

Meia hora depois, eu ia rumo casa, empurrando o carrinho, a solavanco, levando
a compra e uma história e tanto pra contar a Jimmy e às crianças. O velho estava a
caminho de sua casa ou do quartinho miserável onde vivia, com o dinheiro
minguado da pensão, levando um carrinho abarrotado de mercadoria, tudo de
graça. Infelizmente, tenho de admitir, todos os fregueses precisaram pressionar o
gerente pra o obrigar a cumprir a promessa, enquanto Kenny Regan e os outros
guardas sorriam e olhavam o outro lado. Minha nota de caixa flutuava sobre uma
das bolsas no carrinho que eu rebocava. Quarenta dólares e 39 centavos. Eu tivera
de dar ao caixa um passe do metrô e quatro moedas de cinco centavos que
vasculhara no fundo da bolsa. Se a situação se tornar ainda pior, provavelmente
terei de tomar uma providência, como aumentar os bolsos de meu casaco.

111
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

Tudo começou cum espirro


Donald E. Westlake
Alberto sentiu as primeiras fungadas e teve o primeiro espirro na segunda-feira,
dia da agência de correio. Mas não se preocupou. Em sua experiência as fungadas
surgiam e passavam com a mudança de estação, não grave o suficiente pra exigir
uma visita ao médico da família. Como poderia saber que aquelas fungadas eram o
prenúncio dalgo além da primavera? Não havia motivo pra pensar que dessa vez...
Seja como for, segunda-feira era o dia da agência de correio, como acontecia em
todas as segundas-feiras, há mais de um ano. Com ou sem fungada, Alberto passou
sua rotina normal do dia da agência de correio como de hábito. Ou seja, 5min antes
de meio-dia tirou da gaveta superior esquerda um envelope grande, tamanho ofício,
colocou na máquina de escrever e endereçou a si:
Alberto White
A/c Agência postal
Monequois, Nova Iorque
Em seguida, depois de olhar cuidadosamente ao redor, pra ter certeza de que
senhor Clemente não estava à vista, acrescentou um endereço pra devolução, no
canto superior esquerdo:
Depois de cinco dias devolver a
Beto Harrington
Monequois Herald-Statesman
Monequois, Nova Iorque
Tirando o envelope da máquina datilográfica Alberto pegou um selo na gaveta
do meio e o afixou! Guardou o envelope, ainda vazio, no bolso interno do paletó.
Era um de seus pequenos prazeres, mas intenso e muito secreto, o fato de que o
próprio senhor Clemente, sem o saber, estava fornecendo os selos pra manter o
sistema em operação.
Datilografar os dois endereços no envelope absorvera a maior parte dos últimos
5min antes de meio-dia, arrumar a mesa consumiu os últimos segundos. Assim,
exatamente no meio-dia, Alberto pôde se levantar, virar à direita, se encaminhar à
porta e deixar o escritório pra almoçar, fechando a porta na qual se lia
Jasão Clemente, advogado
Sua primeira parada, naquele dia e em todas as segundas-feiras na hora do
almoço, foi na agência de correio, onde pediu o volumoso envelope branco que o
esperava na entrega geral.
— Aqui estamos, senhor White! — Exclamou Tom, o funcionário, como de
hábito. — O escândalo semanal!
Alberto e Tom passaram a se conhecer relativamente bem no curso dos últimos
15 meses. O que era compreensível, já que Alberto aparecia todas as segundas-
feiras pra buscar sua carta. A fim de dissipar, antecipadamente, suspeita que
pudesse passar na cabeça de Tom, Alberto explicara, logo no começo, que Beto
Harrington, o famoso repórter de cruzadas cívicas do jornal de Monequois, o
empregara como uma espécie de investigador pra conferir denúncia e informação
confidenciais enviadas pelos leitores do jornal.
— É um trabalho em horário parcial, além de minha função com senhor
Clemente. E é absolutamente confidencial. Por isso Beto me envia o material aos

112
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
cuidados da agência postal. E também por isso fingimos não nos conhecer.
Tom, o funcionário postal, sorrira, piscara um olho e garantira:
— Palavra de escoteiro!
Mais tarde, porém, Tom, o funcionário postal, devia ter refletido no assunto,
pois numa segunda-feira perguntara a Alberto:
— Por que deixas o material ficar aqui tanto tempo? Quase uma semana, na
maioria das vezes.
Devo pegar a carta na segunda-feira, não importa quando Beto a envie. Se eu
vier aqui todos os dias do ano posso levantar suspeita.
— Tens razão. — Tom, o funcionário postal, assentira, doutamente, mas
acrescentara: — Não quererás perder a correspondência. Não é? E aqui, neste
canto, está escrito, Devolver depois de cinco dias. Pois significa exatamente o
que diz. Não pegando até cinco dias estará acabado.
— Devolverias mesmo a carta?
— Não há outro jeito. É o regulamento, senhor White.
— Acho ótimo. Tenho certeza de que Beto não gostaria que as informações
ficassem abandonadas aqui tanto tempo. Se eu deixar uma carta aqui mais de cinco
dias podes a devolver. Beto e eu ficaremos gratos.
— Está certo.
— E jamais entregues uma dessas cartas a alguém que se apresente em meu
nome.
— Podes ter certeza de que isso jamais acontecerá, senhor White. És tu ou
ninguém.
— Não entregues, mesmo que receba um telefonema dalguém dizendo que sou
eu e que está enviando um amigo pra pegar a carta por mim.
Tom, o funcionário postal, piscara e dissera:
— Sei o que estás fazendo com senhor White e compreendo tua preocupação.
Mas fiques tranqüilo. O correio de Estados-Unidos não te deixará na mão. Jamais
alguém receberá uma dessas cartas que não tu e senhor Harrington. Posso garantir.
Nos meses seguintes Tom, o funcionário postal, não fizera mais pergunta e a
vida seguira risonha e feliz. É claro que era necessário que Alberto lesse a coluna
de Beto Harrington no Herald-Statesman. É que Tom, o funcionário postal, sempre
comentava os escândalos incríveis que Beto Harrington incessantemente descobria
e denunciava, querendo saber se Alberto tinha relação com aquele caso em
particular. Alberto dizia que não, na maioria dos casos, explicando que quase todas
as informações recebidas provavam ser infundadas. Quando admitia que sim, de
vez em quando, que tal e tal reputação arruinada ou crime denunciado foram parte
de seu trabalho secreto pra Beto Harrington, Tom, o funcionário postal, ficava
radiante como o vencedor dum programa de pergunta na televisão.
Tom, o funcionário postal, era, obviamente, um conspirador nato, que nunca
encontrara, até então, uma vazão pra sua inclinação natural.
Hoje, no entanto, Tom, o funcionário postal, nada tinha de secreto pra
conversar. Em vez disso observou Alberto atentamente e perguntou:
— Estás resfriado?, senhor White.
— Estou apenas fungando um pouco.
— Pareces estar com os olhos remelentos.
— Já disse que estou apenas fungando.
— Deve ser o tempo.
Alberto concordou que era o tempo, deixou a agência postal e foi à lanchonete
no prédio da municipalidade, onde disse a Célia, a garçonete:

113
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Acho que comerei o rosbife hoje.
A esposa de Alberto, Elizabete, prepararia o almoço pra ele com a maior
satisfação e Alberto o comeria com igual satisfação. Só que senhor Clemente não
admitia que funcionários dum escritório de advocacia, mesmo de 40 anos, com
óculos de aro de aço, cabelo recuando e barriga estufando, ficassem sentados a
suas mesas no escritório e comessem sanduíche dum saco de papel. Daí a excursão
diária à lanchonete, que servia comida conveniente, embora não fosse tão
esplêndida quanto o cardápio sugeria.
Enquanto Célia, a garçonete, se afastava pra pedir o rosbife, Alberto foi ao
banheiro lavar as mãos e também prosseguir a rotina normal do dia da agência de
correio. Tirou do bolso lateral direito do paletó a carta que Tom, o funcionário
postal, acabara de lhe entregar, a abriu cuidadosamente e retirou o volumoso maço
de documento. Transferiu tudo ao envelope novo que datilografara antes de sair do
escritório. Alberto fechou o novo envelope e guardou no bolso interno do paletó,
depois rasgou o envelope velho em pedaços bem pequenos e jogou ao vaso,
puxando a descarga. Lavou as mãos, saiu pra se sentar a sua mesa normal e comeu
um passável almoço de ervilha, batata frita francesa, pão de centeio, café e rosbife.
Descobrira os originais daqueles documentos oito anos antes. Senhor Clemente
estava no tribunal e Alberto precisava duma informação que estava num
documento determinado. Sem outro motivo, vasculhara a mesa de senhor
Clemente. Reparara que uma gaveta parecia um pouco mais curta que as outras.
Tirara a gaveta pra ver o que havia atrás e encontrara uma caixa metálica verde,
despertando sua curiosidade. Dentro da caixa descobrira que senhor Clemente era
um homem muito rico, mas muito rico mesmo, obtendo a fortuna por meios
altamente desonestos.
Senhor Clemente era um velho terrível, magro, de cabeça branca, que ainda
incutia o pavor nos conhecidos. E muitas vezes esse pavor tinha razões concretas,
pois sempre andava com uma bengala e se sabia que já a usara contra pessoas que
o trataram com grosseria nas ruas, ônibus, lojas ou onde estivesse. Sua banca de
advocacia cuidava basicamente de negócio imobiliário e dos problemas de
pequenas corporações locais. Os documentos na caixa provavam que senhor
Clemente roubara sistematicamente de espólios e corporações, escondera a maior
parte do dinheiro em contas bancárias sob nomes falsos e era várias vezes
milionário.
Uma miscelânea confusa de pensamento passara na mente de Alberto ao
descobrir tais documentos. Primeiro: Ficara aturdido e desapontado em saber da
perfídia de senhor Clemente. É verdade que a irascibilidade do velho sempre
impedira que Alberto realmente gostasse dele mas ao menos sempre o respeitara e
admirara. Descobria agora que o respeito e admiração eram imerecidos. Segundo:
Ficara apavorado com a perspectiva do que senhor Clemente faria se soubesse da
descoberta de Alberto. Aqueles documentos retratavam um homem implacável o
bastante pra diante de nada se deter, se pensasse que a denúncia era iminente. E
terceiro: Se espantando, pensara em chantagem.
Naqueles primeiros momentos caleidoscópicos Alberto White se descobrira
ansiando coisas de cuja existência antes ignorara: Acapulco, lindas mulheres,
esmuques, carros-esporte, drinques espetaculares, apartamentos de cobertura.
Senhor Clemente pagaria todas essas coisas a fim de manter fechada a boca de
Alberto?
Claro que pagaria. Se não houvesse um meio melhor de calar a boca de Alberto.
E Alberto estremecera ao pensar nos meios melhores.

114
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Apesar disso ainda queria todas aquelas coisas. Luxo e tranqüilidade, viagem,
aventura, pecado. Uma vida intensa.
A intervalo, ao longo dos meses subseqüentes, fora tirando documento da caixa
verde de metal e fazendo cópias fotostáticas. E assim continuara até dispor de
prova suficiente pra pôr senhor Clemente atrás das grades até o século 22.
Escondera as provas na garagem atrás da pequena casa que partilhava com a
esposa Elizabete. E nada fizera nos quatro anos seguintes.
Precisava dum plano. Precisava arrumar as coisas de tal jeito que as provas
fossem parar nas mãos das autoridades caso algo lhe acontecesse. Também
precisava dar um jeito de convencer senhor Clemente de que dispunha das provas e
as autoridades as receberiam, que o velho não teria possibilidade de se apoderar
delas. Não era fácil. Durante quatro anos Alberto não encontrara um jeito.
Então lera um conto dum escritor chamado Richard Hardwick, descrevendo o
método que Alberto acabara adotando, com os documentos despachados a si e
devendo ser apanhados na própria agência postal, um repórter investigador famoso
indicado como endereço pra devolução. Alberto prontamente pusera o plano em
prática, aparando os documentos a proporções razoáveis e pondo em circulação no
sistema postal. Descobrira que tudo funcionava exatamente como Hardwick
descrevera.
Agora, tudo o que restava era abordar senhor Clemente, detalhar as provas e
precauções, acertar termas satisfatórios e desfrutar uma vida de luxo eterno.
No mesmo dia em que largara o envelope numa caixa de correio na primeira
vez, também fora enfrentar senhor Clemente no covil dele. Ou seja, na sala
particular. Alberto batera na porta antes de entrar, como fora ensinado anos e anos
antes, ao conseguir o emprego. Entrara na sala e dissera:
— Senhor Clemente...
Senhor Clemente levantara o rosto ossudo e lançara um olhar furioso a Alberto.
— O que é?, Alberto.
— Aqueles arrendamentos Duckworth. Queres presta tarde?
— Claro que quero presta tarde. Eu ontem disse que quero presta tarde.
— Sim senhor.
Alberto batera em retirada. De volta a sua mesa, se sentara e ficara piscando,
atordoado. Abrira a boca na sala de senhor Clemente com a intenção de dizer:
Senhor Clemente, sei de tudo. Mas fora com uma consternação espantada que
se ouvira dizer em vez disso: Aqueles arrendamentos Duckworth. Além do fato
de que não tinha intenção de dizer isso, havia o fato adicional de que já sabia que
senhor Clemente queria os arrendamentos Duckworth praquela tarde. Não apenas
fora uma pergunta errada mas também inútil. Alberto pensara:
— Fiquei com medo e mais nada. E não há razão pra ter medo. Tenho todas as
provas e não se atreveria a me fazer algo.
Mais tarde, no mesmo dia, Alberto tentara outra vez.
Fora no momento em que levara os arrendamentos Duckworth. Os pusera na
mesa, ficara imóvel alguns segundos, tossira hesitante e dissera:
— Senhor Clemente...
Senhor Clemente ficara ainda mais furioso do que na vez anterior.
— O que é desta vez?
— Não estou me sentindo muito bem, senhor Clemente. Gostaria de tirar o resto
da tarde de folga, por favor.
— Já datilografaste os documentos Wilcox?
— Ainda não, senhor.

115
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Pois então datilografes tudo e depois podes ir.
— Sim, senhor. Obrigado. Um Alberto entristecido deixara a sala de senhor
Clemente, sabendo que fracassara de novo e sabendo também que não haveria
sentido em tentar outra vez naquele dia, pois continuaria a fracassar. Assim,
datilografara os documentos Wilcox, arrumara a mesa e voltara a casa uma hora
mais cedo, explicando a Elizabete que se sentira um pouco enjoado no escritório, o
que era verdade.
Nos 15 meses seguintes Alberto efetuara freqüentes tentativas de comunicar a
senhor Clemente que estava no processo de o chantagear. Mas quando abria a boca
era sempre uma outra frase que saía. Às vezes, na noite, praticava diante do
espelho, definindo a situação e sua exigência com admirável clareza e brevidade.
Noutras ocasiões escrevera os discursos e se empenhara em decorar. Mas os
discursos preparados eram sempre muito verbosos e pesados.
Era perfeitamente óbvio, em sua mente, o que tencionava dizer. Falaria da
descoberta e do plano de usar o sistema postal. Explicaria o desejo de viajar, como
tencionava remeter as provas a cada semana a um novo local: Cannes, Praia
Palmeira, Cataratas de Vitória... Ressaltar que precisaria de dinheiro suficiente pra
recolher a correspondência antes de expirar o prazo fatal de cinco dias. Diria que
achava que Elizabete talvez fosse caseira demais pra desfrutar a vida que o marido
tencionava levar doravante mas ainda sentia afeição por ela e preferia pensar que
senhor Clemente cuidaria dela devidamente, durante sua ausência.
Diria tudo isso. Algum dia. Estava convencido de que ainda restava esperança.
Chegaria o dia em que teria coragem suficiente ou um desejo de boa-vida bastante
forte. E nesse dia o faria. Só que tal dia ainda não chegara.
Enquanto isso, remeter, receber e tornar a remeter os documentos da chantagem
virara uma parte normal da rotina semanal de Alberto, integrada em sua vida
ordenada, como se nada tivesse de estranho. Todas as segundas-feiras, a caminho
do almoço, pegava a carta na agência postal. Todas as segundas-feiras, no banheiro
da lanchonete, transferia os documentos ao novo envelope, rasgava e jogava no
vaso o envelope usado. Todas as segundas-feiras, saindo do almoço e voltando ao
escritório, largava a carta numa caixa de correio no caminho.
A carta chegaria a Tom, o funcionário postal, na terça-feira. Quarta-feira seria o
primeiro dia, quinta o segundo, sexta o terceiro, sábado o quarto, o domingo se
pulava e segunda era o quinto, o final dum ciclo e começo doutro.
Aquela segunda-feira, em particular, não foi diferente doutras, a não ser pelas
fungadas. Célia, a garçonete, comentou o fato, dizendo, ao servir o rosbife:
— Parece que estás ficando doente, senhor White.
— Estou apenas fungando.
— Provavelmente é uma dessas gripes de 24 horas que andam aí.
Alberto concordou com o diagnóstico, tratou de comer, pagou, deixou a gorjeta
habitual. Voltou ao escritório, fazendo duas paradas no caminho. A primeira foi na
caixa do correio, onde largou o envelope pruma nova rodada no sistema postal. A
segunda foi numa farmácia, onde comprou uma caixa de lenço de papel.
Preferia pensar que Célia, a garçonete, estava certa sobre a extensão das
fungadas e espirros, só durante 24 horas, mas duvidava de que isso acontecesse.
Pelas experiências passadas sabia que ficaria assim ao menos três dias. Teria
coriza e ficaria com os olhos remelentos até quinta-feira, quando começaria a
melhorar.
Só que não foi assim que aconteceu. A segunda-feira chegou ao final sem
novidade. Terça e quarta passaram. A quinta-feira amanheceu nublada e abafada,

116
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
tanto no mundo exterior como no interior da cabeça de Alberto. Saiu de casa de
capa e galocha, o guarda-chuva pendurado no braço. Fungou e espirrou durante
toda a quinta-feira, consumindo uma caixa inteira de lenço de papel no escritório.
E a sexta-feira foi ainda pior. Elizabete, o tipo de mulher que parece mais
natural quando está usando um avental e preparando uma torta de maçã, deu uma
olhada em Alberto na manhã de sexta-feira e declarou:
— Nem precisas te levantar. Telefonarei a senhor Clemente e avisarei que estás
doente demais pra trabalhar hoje.
E era verdade. Alberto estava doente demais pra trabalhar, doente demais pra
protestar por ter de ficar na cama, tão doente que até esqueceu a carta esperando na
agência postal.
Permaneceu tão doente e igualmente alheio a tudo durante todo o fim de
semana, passando a maior parte do tempo num cochicho irrequieto, se sentando, de
vez em quando, pra tomar canja, chá com torrada e se deitando pra dormir mais um
pouco.
Em volta das 11h da noite de domingo Alberto despertou dum sono profundo,
cuma visão do envelope na mente. Era como se sonhara: O envelope muito branco
e solitário em seu compartimento, uma mão se estendendo pra o apanhar. Uma mão
que pertencia a Beto Harrington, o repórter dos grandes escândalos.
— Santo Deus! — Elizabete estava dormindo no quarto de hóspede enquanto
Alberto estava doente, por isso não o ouviu. — É melhor eu estar bom amanhã.
Se recostou no travesseiro e ficou acordado mais algum tempo, pensando a
respeito. Mas ainda não estava curado na manhã. Acordou na segunda-feira com o
barulho da chuva batendo na janela do quarto. Se sentou na cama, compreendeu
que estava tão tonto e fraco quanto antes. Sentiu o pânico começar a o envolver
como uma manta de fogo. Mas lutou pra o reprimir, embora não o extinguisse. De
qualquer forma tinha de permanecer calmo.
Quando Elizabete entrou no quarto, a fim de perguntar o que quereria pro
desjejum, Alberto disse:
— Preciso dar um telefonema.
— A quem?, querido. Podes deixar que ligarei.
— Não! — Protestou Alberto, firmemente. — Eu é que tenho de ligar!
— Querido, terei o maior prazer...
Alberto raramente ficava irritado mas se tornava insuportável quando isso
acontecia.
— O que te deixaria feliz agora não me interessa. — O tom sardônico de voz
um pouco abafado pelo bloqueio do nariz. — Preciso dar um telefonema e tudo o
que peço é que me ajudes a ir até a sala.
Elizabete protestou, pensando estar sendo cuidadosa mas acabou
compreendendo que Alberto não cederia e concordou. Estava muito fraco. Se
apoiando nela, desceram a escada ao primeiro andar e foram à sala de estar.
Alberto se arriou na poltrona ao lado do telefone e ficou ofegando ali alguns
minutos, exausto do esforço. Enquanto isso, Elizabete foi à cozinha, a fim de
preparar um lindo ovo pochê, em suas palavras.
— Um lindo ovo pochê... — Murmurou Alberto.
Se sentia vil, infame. Nunca estivera fisicamente tão fraco e, ao mesmo tempo,
nunca experimentara desejo tão violento de quebrar os móveis, gritar, provocar
algazarra, espancar as pessoas. Se senhor Clemente estivesse ali Alberto lhe teria
falado tudo sem hesitação. Nunca fora tão brutal.
Nem tão fraco. Mal conseguiu levantar a lista telefônica, e virar as páginas foi

117
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
um verdadeiro suplício. E depois, como já era de se imaginar, procurou no lugar
errado pra começar, na letra C de correio. Finalmente encontrou o telefone num
dos subtítulos, sob a indicação geral de Governo federal. Discou e disse à pessoa
que atendeu:
— Quero falar com Tom, por favor.
— Tom o quê?
— Como é saberei? Tom!
— Senhor, temos três Tom aqui. Queres falar com Tom Skylozowsky, Tom...
— Tom! — Gritou Alberto. — No guichê de entrega geral!
— Á, sim. Esse é Tom Kennebunk. Esperes um instante.
Alberto esperou três minutos. A intervalos dizia alô mas não obteve resposta.
Pensou em desligar e discar de novo mas podia ouvir voz no fundo, o que
significava que o fone ainda estava fora do gancho no outro lado, o que
significava, provavelmente, que se cortasse a ligação agora e discasse de novo teria
um sinal de ocupado. Sua impaciência foi finalmente recompensada pela voz de
Tom, o funcionário postal, dizendo:
— Alô. Queres falar comigo?
— Sou eu, senhor White, Tom. — Disse Alberto, se esforçando a imprimir um
tom de jovialidade à voz. — Alberto White. Tenho certeza de que te lembras de
mim.
— Mas é claro! Como vais?, senhor White.
— É justamente esse o problema, Tom. Não estou muito bem. Passei todo o fim
de semana na cama, doente, e...
— E uma pena, senhor White. Mas eu bem que comentei, na agência, que não
estavas bem.
— Estavas certo.
— Percebi logo quando te vi. Estás lembrando? Comentei até que parecia estar
com os olhos lacrimejando.
— E verdade, Tom. — Disse Alberto, refreando a impaciência. E se apressou a
acrescentar, antes que Tom, o funcionário postal, pudesse oferecer mais alguma
reminiscência médica: — Mas estou telefonando pra falar da carta que tens pra
mim.
— Me deixes verificar. Esperes um instante.
Antes que Alberto pudesse impedir ele largou o telefone na mesa e se afastou.
Enquanto Alberto ficava sentado, numa raiva impotente, esperando que Tom, o
idiota, voltasse, Elizabete apareceu com uma xícara de chá fumegante e disse:
— Bebas isto, querido. Te ajudará a recuperar a força.
Ela pôs a xícara na mesinha do telefone e ficou parada ali, as mãos cruzadas
sobre o avental. Hesitou um instante mas acabou acrescentando:
— Esse telefonema deve ser muito importante.
Ocorreu a Alberto que teria de explicar tudo a Elizabete, mais cedo ou mais
tarde. Ainda não tinha idéia de qual seria a explicação que inventaria mas esperava
que uma idéia ocorresse antes de precisar a usar. Até lá uma atitude um tanto mais
cordial de sua parte poderia servir como substituto adequado. Ajeitou a feição num
simulacro de sorriso, levantou o rosto e disse:
— Sabes que estou tratando de negócio. Uma coisa que devia ser feita hoje, de
qualquer maneira. Como vai o ovo pochê?
— Estará pronto num minuto.
Ela voltou à cozinha. Tom, o funcionário postal, tornou a falar no telefone um
minuto depois:

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Há mesmo uma carta, senhor White. E já sabes de quem.
— Tom, escutes com atenção. Estou doente mas espero estar melhor amanhã.
Guardes essa carta. Não a mandes a Beto Harrington.
— Esperes um instante, senhor White.
— Tom!
Mas já se afastara.
Elizabete voltou à sala e fez a pantomima de que o ovo pochê já estava pronto.
Alberto acenou com a cabeça, exibiu a careta de sorriso e fez sinal, com a mão, pra
que se retirasse. Tom, o funcionário postal, voltou ao telefone e disse:
— Senhor White, estamos com a carta desde a terça-feira passada.
Elizabete estava outra vez parada junto. Alberto disse ao telefone:
— Estarei de pé e a buscarei dentro dum ou dois dias.
Acenou vigorosamente pra Elizabete se retirar.
— É melhor telefonar a Beto Harrington. — Sugeriu Tom, o funcionário postal.
— Digas pra reenviar a carta assim que a receber de volta.
— Tom, guardes a carta pra mim!
— Não posso fazer isso, senhor White. Deves estar lembrado de que já
conversamos sobre isso. E tu mesmo disseste que eu a despachasse de volta, se não
aparecesse prà buscar em cinco dias.
— Mas estou doente!
Elizabete insistia em ficar parada ali, parecendo preocupada com o bem-estar de
Alberto, quando na verdade estava louca de curiosidade pra saber o que acontecia.
Tom, o funcionário postal, disse, com calma irritante:
— Se estás doente, senhor White, não deves estar fazendo serviço secreto.
Exceto embaixo do cobertor, hem? Ha ha ha!
— Me conheces!, Tom. Não és capaz de reconhecer minha voz?
— Claro, senhor White.
— A carta não está endereçada a mim?
— Senhor White, o regulamento postal...
— Que se dane o regulamento postal!
Elizabete parecia chocada. O silêncio de Tom, o funcionário postal, parecia
chocado. O próprio Alberto também estava um pouco chocado. E acrescentou:
— Desculpes, Tom. Estou meio transtornado, doente, de cama e tudo o mais.
— Não é o fim do mundo, senhor White. — Disse Tom, o funcionário postal,
tentando, obviamente, ajudar. — Senhor Harrington não te queimará numa
fogueira por isso, se estás doente.
Alberto, com uma nova idéia sugerida pela presença permanente de Elizabete
em sua frente, disse:
— Já sei o que fazer, Tom. Mandarei minha esposa buscar a carta. — Isso
implicava contar a verdade a Elizabete ou, ao menos, uma versão abreviada da
verdade, mas não podia mais ser evitado. — Mandarei que leve uma identificação
minha, como a carteira de motorista, juntamente com um bilhete meu.
— Não será possível, senhor White. Te lembras de que me disseste a não
entregar a carta a outra pessoa, não importavam telefonema ou outra coisa?
Claro que Alberto se lembrava. Só que aquela situação era diferente.
— Por favor, Tom. Não podes compreender?
— Ora, senhor White, me obrigaste a dar a palavra.
— Cales a boca! — Gritou Alberto, finalmente admitindo a si, que nada
conseguiria, bateu o fone.
Elizabete perguntou:

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— O que aconteceu?, querido. Nunca te vi agir assim.
— Não me perturbes agora. — Murmurou, sombriamente. — Só te peço que não
me aborreças agora.
Tornou a folhear a lista telefônica, encontrou o número do Monequois Herald-
Statesman, discou e pediu pra falar com Beto Harrington. A telefonista disse:
— Um momento, por favor.
Nesse momento, Alberto imaginou como poderia ser a conversa. Diria ao
repórter que uma carta que ele nunca remetera seria devolvida? Logo prum repórter
como ele? Pedir a alguém como Beto Harrington pra não abrir um envelope que
chegara a suas mãos pelo método mais estranho e misterioso seria o mesmo que
jogar um pedaço de carne crua numa jaula e pedir ao leão fazer o favor de não
comer.
Antes que o momento se esgotasse Alberto desligou o telefone. Sacudiu a
cabeça dum lado a outro, tristemente, murmurando:
— Não sei o que fazer. Simplesmente não sei o que fazer.
Elizabete indagou:
— Devo chamar doutor Francis?
Doutor Francis fora consultado via telefone na sexta-feira, dera uma receita e se
encarregara pessoalmente de ligar à farmácia e pedir que entregassem os
medicamentos à casa dos White. Se dizia, com alguma razão, que doutor Francis
não fazia uma visita domiciliar se o paciente ainda estivesse vivo. Mas Alberto,
subitamente incendiado por uma nova idéia, gritou:
— Isso mesmo! O chames! Digas pra vir imediatamente! Enquanto espero
comerei aquele ovo pochê!
Doutor Francis chegou em volta das 14h, tirou a capa encharcada. Era a pior
tempestade da primavera, até então. Disse, irritado como sempre:
— Muito bem. Vejamos essa emergência.
Alberto permanecera no primeiro andar, estendido no sofá da sala, sob
cobertores. Se ergueu e gritou:
— Estou aqui, doutor!
Doutor Francis entrou na sala.
— Estás com uma virose. Te receitei na sexta-feira.
— Doutor, preciso ir hoje à agência postal de qualquer maneira. É uma questão
de vida ou morte. Quero que me dês algo, uma injeção ou algo parecido, algo que
me manterá de pé tempo suficiente pra chegar à agência de correio.
Doutor Francis franziu o rosto.
— Mas que história é essa?
— Tenho de ir até lá!
— Andas vendo demais os filmes de espionagem na televisão. Não importa o
que queres. Estás doente e ponto-final. Tomes os medicamentos que receitei,
fiques na cama e talvez já possas te levantar no final da semana.
— Mas tenho de ir até lá hoje!
— Mandes sua mulher.
— Não!
Em fúria e frustração, Alberto se levantou. Deixou o sofá numa confusão de
cobertores espalhados, cambaleou até o vestíbulo, pegou o sobretudo no armário e
o vestiu sobre o pijama, meteu um chapéu na cabeça e, de chinela, e se
encaminhou à porta da frente. Elizabete e doutor Francis estavam gritando mas ele
nada ouvia. A dois passos além da porta, as chinelas de Alberto deslizaram na
calçada molhada. Caiu, braços e pernas se agitando. E foi assim que desmaiou.

120
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Elizabete e doutor Francis o carregaram à cama. E ali ficou, depois que doutor
Francis o examinou, silencioso e soturno, furioso com o mundo.
Ainda estava lá na tarde de quarta-feira quando Elizabete entrou com uma
estranha expressão no rosto e disse:
— Alguns homens desejam falar contigo, querido. Alberto sabia quem eram.
— Quero falar com ninguém! — E acrescentou, numa explosão: — Com
ninguém! Será que não compreendes que perdi meu emprego?

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras

A prova no bolso
Harold Q. Masur
Há uma pequena máxima judicial, um tanto cínica, que diz: Se não podes
suportar a sentença não cometas o crime.
Juiz Eduardo Marcus Bolt, um juiz federal de Estados-Unidos, não deu
importância a essa exortação. Cometeu um crime e, quando foi descoberto, a
perspectiva de passar algum tempo numa penitenciária federal o deixou
transtornado. Afastado do cargo, expulso da ordem dos advogados, repudiado
pelos colegas, o ego abalado, privado de sua linda esposa. Tudo isso era mais do
que podia suportar. Por isso encostou o cano dum revólver na têmpora e puxou o
gatilho.
Isso acabou com os problemas do juiz mas criou alguns novos à viúva, Laura
Bolt. Alta, loura, inocentes olhos azuis, dentes perfeitamente encapados pra seu
trabalho como modelo de moda, interrompera a carreira ao se casar com o juiz.
Mas a retomou após a viuvez. Agora estava sentada junto de minha mesa, pálida,
apreensiva, trêmula.
— O homem quer o dinheiro de volta.
— Que dinheiro?
— O dinheiro que alega ter dado a meu marido.
— O suborno de 50 mil dólares?
— Acho que sim. Me disse, via telefone, que pagou 50 mil dólares a Eduardo,
pra fazer determinado serviço mas isso não aconteceu. — Me lançou um olhar de
súplica desesperada. — Vim te procurar, senhor Jordão, porque eras o advogado de
Eduardo e foste muito prestativo depois... Ã... depois de seu acidente.
Ignorei o eufemismo. Eu fora realmente o advogado de juiz Bolt. Talvez cerca
de meia hora. Na ocasião em que me contratara presidia o julgamento de Ira
Madden, presidente da união dos metalúrgicos.
Madden era acusado, pelo governo, de desviar 1 milhão de dólares dos cofres da
organização sindical. Embora não fosse possível provar, se desconfiava de que
guardara o dinheiro numa conta numerada na Suíça.
Quando o julgamento ainda estava em andamento, o departamento de justiça
começara a investigar o rumor de que um dos lacaios de Madden, um homem
chamado Floyd Oster, oferecera ao juiz um suborno de 50 mil dólares. Justamente
essa quantia fora encontrada escondida, com adesivo, sob um pára-lama do carro
do meritíssimo, as notas identificadas, pelos números de série, como duma retirada
recente duma conta de Madden. Em pânico o juiz me enviara um SOS, me
convocando a sua casa pruma conversa. Mas devia estar na beira dum colapso,
porque se matara antes deu chegar.
O julgamento fora anulado. Agora, o governo se preparava pra levar Madden a
julgamento outra vez. Floyd Oster, o responsável pelo suborno, estava indiciado.
Houvera diversas outras complicações que eu conseguira resolver prà viúva.
Agora, aparentemente, precisava de novo minha ajuda.
— Contes exatamente o que aconteceu, senhora Bolt.
Engoliu em seco, respirou fundo.
— A ligação foi ontem, tarde da noite. Um homem telefonou e disse: Prestes
muita atenção, dona, porque só falarei uma vez. Pagamos 50 mil ao juiz.
Prometeu nos ajudar numa coisa mas se acovardou e estourou os miolos

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
antes de cumprir sua parte. Queremos nosso dinheiro de volta. Estás me
entendendo?, senhora Bolt. Queremos os 50 mil. Estejas com toda a grana
na mão depois de amanhã e voltaremos a entrar em contato. E não te
esqueças de ficar longe da polícia ou te arrependerás do dia em que
nasceste.
— Puro blefe! — Declarei. — Ameaça vazia.
— Não! — A voz se alteou histericamente e se inclinou a diante, segurando na
beira da mesa e apertando com toda força — Uma coisa terrível aconteceu no
caminho a cá. Saí de meu prédio e quando dei um passo além do meio-fio, pra
atravessar a rua, um carro arrancou subitamente e disparou em minha direção.
Pensei: É agora! Eles sabem que telefonei prum advogado e me punirão,
matarão ou aleijarão. Fiquei paralisada. Incapaz de me mexer. No último
instante o carro desviou bruscamente e passou por mim a toda.
A recordação fez com que o sangue se esvaísse do rosto, o deixando alvo.
— Poderias identificar o motorista?
— Não sei. Aconteceu muito depressa.
Peguei um recorte de jornal num de meus arquivos.
— Olhes esta fotografia. Parece o homem que viste?
Observou a fotografia atentamente, a testa franzida.
— Hum... Não tenho certeza. Esse homem é Floyd Oster?
— Isso mesmo. Ao que sabemos desse inseto em particular, é nosso alvo mais
provável.
— Mas não sabe que não estou com o dinheiro, que a polícia o confiscou como
prova?
— Não se importaria com isso. Sabe que tens o seguro do juiz.
Estava na beira da lágrima.
— Mas não têm direito a isso! É minha única segurança!
Parecia ignorar seus predicados. Com aquele corpo exuberante e irresistível,
tinha toda a segurança de que poderia precisar, muito e muito tempo.
— Fiques tranqüila, senhora Bolt. Estás sob meus cuidados.
Ela conseguiu exibir um débil sorriso.
— Não quererás um pagamento inicial?
Nunca recuso pagamento. Parecia ansiosa em preencher um cheque, como se a
transferência de dinheiro pudesse garantir o sucesso. Depois ela se retirou me
recostei na cadeira e pensei um pouco no caso.
Floyd Oster, indiciado, estava solto sob fiança. Seu advogado, Eduardo Colson,
era o assessor jurídico da união dos metalúrgicos. Normalmente, um homem como
Oster nunca seria capaz de pagar um advogado tão caro. Eu podia presumir que o
sindicato, sob pressão de Ira Madden, estava pagando o honorário de Colson.
Por coincidência o escritório de Colson ficava três andares acima do meu, no
centro Rockefeller. Liguei até lá e fui informado de que estava em audiência e só
voltaria ao escritório no dia seguinte. Não vi impropriedade em passar encima de
Colson e entrar em contato com Oster diretamente. Certamente Oster tinha
instrução pra manter a boca fechada. Mas eu não estava interessado em dialogar
com o homem. Queria apenas que escutasse. E admito que era uma posição
quixotesca.

O prédio de apartamento era uma casa antiga adaptada, que em nada diferia dos
vizinhos, na zona oeste de Manhatão. Quando toquei a campainha pediu,
cautelosamente, que eu me identificasse. Depois abriu a porta até o ponto em que a

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
corrente de segurança permitia. Floyd Oster, homenzinho rude, de rosto afilado,
com sorriso que parecia uma cimitarra e igualmente letal, era o braço-direito de Ira
Madden. Se lembrou de mim sem satisfação, de nosso último encontro.
— Posso entrar?, Floyd.
— Não.
— Preciso dizer uma coisa.
— Digas a meu advogado.
— Se Ed Colson souber o que estás tentando fazer abandonará teu caso e terás
que arrumar um novo advogado.
— Ed Colson trabalha pro sindicato. Faz o que mandam.
— Tens certeza?
— Digas logo o que queres e depois sumas.
— Nunca aprendes. Não é?, Floyd. Neste momento estás sob a mira dum
promotor federal, sob a acusação de suborno. Mas isso não é suficiente. Estás
procurando mais encrenca acrescentando uma acusação de extorsão a teu
indiciamento. Pois direi uma coisa: Fiques longe de Laura Bolt. Mais um
telefonema ameaçador, outra tentativa de intimidação como a história do
automóvel nesta manhã, e prometo que acabarei contigo.
— Estás me falando grego.
— Não tentes blefar, Floyd. Entregues os pontos. Sabes exatamente do que
estou falando. E não acredito que estejas agindo por instrução de Ira Madden. Com
o que escondeu, 50 mil é uma ninharia. Portanto essa é tua pequena operação
particular. Mas acho melhor a suspender. Não importunes mais a dona. Porque se
alguma coisa acontecer à senhora Bolt pode estar certo de que o telhado cairá em
tua cabeça.
Ficou visivelmente perturbado. Me gritou um palavrão e bateu a porta.

Talvez estivesse precisando desesperadamente de dinheiro. Talvez a ganância
lhe dissipasse o bom-senso. O que fosse, a viúva do juiz estava de novo ao
telefone, no final da manhã seguinte, transtornada, na beira do pânico. Recebera
outro telefonema. Os bancos fechariam pro fim de semana e assim segunda-feira
seria seu último prazo, a voz indagando se gostaria de comparecer a meu enterro
antes do seu e lembrando o automóvel que quase a fizera voar ao ar como uma
boneca de trapo.
Tratei de a acalmar, desliguei, marchei ao elevador e subi três andares até o
escritório de Eduardo Colson. O advogado de Oster teria de ler pra ele a lei que
tratava de casos assim. A secretária de Colson me disse que ele estava de saída pro
almoço e que sem um encontro marcado...
— Pois digas que Scott Jordão está aqui.
Ainda hesitou mas acabou falando via telefone. Dez segundos depois Colson
apareceu. Um homem alto, de andar desajeitado, fumante de cachimbo, feição
rude, vasta cabeleira castanha. Eduardo Colson era um orador de tribunal da velha
escola, um tanto espalhafatoso mas duro, inteligente e profundo conhecedor dos
meandros da lei.
— Prometeste que me convidarias pra almoçar um dia, colega. — A voz
retumbante, usando as duas mãos pro aperto. — Deve ter sido ao menos há um
ano. Mas entres, entres.
Me segurou no cotovelo e me conduziu a sua sala, Tinha companhia. Uma
mulher do tipo solteirona, magra e reta, cabelo emaranhado e olhos suaves, que
pareciam passar a maior parte do tempo idolatrando Colson. Fez a apresentação:

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Minha noiva, Lili Madden.
— Filha de Ira Madden?
— Isso mesmo. Conheces meu pai?
— Não pessoalmente.
— Lili e eu ficamos noivos na semana passada. — Informou Colson.
Ela levantou a mão, exibindo orgulhosamente uma pedra azul-branca que devia
ter no mínimo cinco quilates. Absorveu a claridade do meio-dia e faiscou. Não
representava um grande fardo financeiro pra Colson, pensei, se levando em
consideração o honorário que recebia da organização sindical. De qualquer forma
Lili Madden estava tão obviamente apaixonada que, com certeza, se contentaria
com um anel de fantasia de qualquer loja de departamento.
Eu já vira algumas vezes Colson comboiando lindas mulheres na cidade. Era, de
fato, conhecedor. Então por que se satisfazer com uma mulher tão feia como Lili
Madden? Por uma questão de segurança, provavelmente. Colson gostava da boa
vida e como genro de Ira Madden sua posição como assessor jurídico da
organização estaria garantida.
— Queres um conhaque?
— Não, obrigado. Poderíamos conversar em particular um momento?
— Temos uma mesa reservada pro almoço. Precisas muito tempo?
— Dez minutos deve ser suficientes.
— Esperes um pouco, por favor, Lili. Há revista na sala de espera.
Ela sorriu, os olhos perdurando no rosto dele algum tempo, antes de se retirar.
Colson murmurou:
— Uma garota maravilhosa.
— Tantos anos solteiro, Ed. De repente resolveste te amarrar?
— Não achas que já era tempo? Não estou ficando mais jovem.
Se acomodou atrás da mesa, cruzou as mãos.
— Sobre o que desejas falar?, colega.
— Sobre um de teus clientes, Floyd Oster.
Fez uma careta.
— Não posso separar o joio do trigo. Como advogado do sindicato tenho de o
defender também.
— Nada de mais. Mas deves estar sugando o homem implacavelmente.
— Como assim?
— Oster está se arriscando, tentando conseguir uma grana alta.
— Isso é impossível. Oster não está gastando com a defesa. O sindicato pagará a
conta.
— Nesse caso está envolvido num pequeno empreendimento particular,
altamente ilegal. Ou talvez esteja sendo estimulado por teu futuro sogro.
O sorriso de Colson se desvaneceu.
— Aonde estás querendo chegar?, Jordão.
Relatei tudo, do princípio ao fim.
— És advogado de Oster. Conheces os antecedentes. Aqueles 50 mil que deu a
juiz Bolt...
— Correção: Falta um advérbio. Supostamente deu.
— Duvidas da culpa?
— Todo acusado conta com uma presunção de inocência.
— Uma frase eloqüente, Eduardo. Pra Oster, no entanto, não passa dum aspecto
técnico. Se juiz Bolt estivesse vivo e pudesse testemunhar o governo não teria
problema em meter o cliente na prisão durante alguns anos.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Talvez sim, talvez não.
— De qualquer forma alguém entregou 50 mil, em dinheiro vivo, ao
meritíssimo, enquanto Ira Madden estava em julgamento por desviar recurso do
fundo sindical. Não foi uma doação de caridade. E quem mais precisava do favor
do juiz, de tratamento preferencial, uma recomendação tendenciosa ao júri? O fato
é que Floyd Oster tenta recuperar o dinheiro.
— O que te faz ter tanta certeza de que é Oster?
— Chega de conversa, Ed. Tudo aponta ao homem. E o promotor federal
adoraria o incriminar. Certamente esse incidente não ajudará Ira Madden ao voltar
ao tribunal.
Colson sacudiu a cabeça.
— Não posso acreditar que Oster seja tão estúpido.
— Se tivesse algo que não um vácuo na cabeça não estaria metido nessa
encrenca.
— Achas que me escutará?
— És seu advogado.
— E isso representa alguma força de pressão?
— Conhece o valor de teus serviços. Podes ameaçar o abandonar.
— É justamente o que não posso fazer. Mas esquecerei as regras um momento e
conversarei consigo. Te lembres de que o pessoal do sindicato às vezes pede meu
conselho mas nem sempre o adota.
— Talvez tenham aprendido a lição. Tanto Madden como Oster estão
enfrentando sérias acusações.
— Madden acha que pode escapar.
— Como? Subornando os juízes?
— Foi uma absurda tolice. Não participei.
— Seja como for, parece que querem acrescentar acusações extra ao
indiciamento. Na próxima vez terás um jurista meticuloso presidindo o julgamento.
Parece que teus clientes estão mesmo dispostos a liquidar qualquer possibilidade
de absolvição.
Colson se levantou. Foi até a janela, se virou, ficou me olhando, os músculos
dos maxilares contraídos.
— Está certo, Jordão. Terei uma conversa com Oster. Deixarei tudo bem claro.
E tens minha promessa solene de que...
A campainha o interrompeu. Voltou à mesa e atendeu
— Quem? Quem? Á, sim. Podes pôr na linha. — Ficou escutando e vi a tensão e
o choque estampados no rosto, antes de acrescentar, num sussurro abafado: — Ó,
não! Quando aconteceu? Claro, claro... Irei imediatamente.
Desligou e levantou os olhos a mim, a tensão ainda maior.
— Ira Madden morreu.
Deixei escapar um assovio baixo.
— Como aconteceu?
— Acidente automobilístico. Madden estava ao volante, seguindo ao norte, na
rodovia Franklin D. Roosevelt. Perdeu o controle na saída da rua 42 e bateu numa
coluna de concreto. Era confiante demais pra prender o cinto de segurança e ficou
quase empalado no volante.
— Estava sozinho?
— Não. Floyd Oster estava consigo.
— Ã!? Ficou muito ferido?
— Teve o pulso quebrado. Parece que levantou a mão pra proteger o rosto

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
contra o pára-brisa. — Colson sacudiu a cabeça. — Como darei essa notícia a Lili?
Adorava o velho tirano.
O que precisavam era privacidade. Colson exibia uma expressão angustiada
quando passei na porta. Pensei que sabia o que o preocupava. Há sempre facções
dissidentes dentro dum sindicato, lutando pelo controle total. Um novo grupo
poderia afastar todos os velhos companheiros de Ira Madden, inclusive o assessor
jurídico Eduardo Colson.

Madden teve um esplêndido bota-fora: Caixão de bronze, um cortejo de 200m,
oferenda floral mais apropriada a um casamento. Compareci nos últimos rituais por
curiosidade mas não tive prazer nisso. Os funerais constituem um ritual pagão,
saboreados apenas pelos agentes funerários, os inimigos e, possivelmente, alguns
herdeiros do falecido.
Lili Madden, a filha, única parente sobrevivente, os ombros vergados, o rosto
oculto por um véu preto, conseguia se manter empertigada com a ajuda do forte
braço direito de Ed Colson. Floyd Oster não estava entre os homens que
carregaram o caixão. Seu braço esquerdo, engessado, estava apoiado numa tipóia
que passava no pescoço. Não havia expressão identificável no rosto.
Num tom untuoso o clérigo que presidiu a cerimônia entoou uma ladainha sobre
as virtudes e realizações incomparáveis de Ira Madden, a tal ponto que o próprio
falecido ficaria espantado. As palavras arrancaram soluços convulsivos de Lili
Madden.
As pessoas se afastaram da beira do túmulo pouco antes do plantio final.
Observei Ed Colson conduzir Lili até uma limusine e depois voltar a uma rápida
conversa com Floyd Oster. Havia uma carranca no rosto de Oster. No final Colson
levantou os braços num gesto de frustração e voltou a junto da noiva. Oster
embarcou no carro seguinte.

Telefonei a Laura Bolt assim que voltei a meu apartamento. Seu serviço
telefônico informou que fora passar o fim de semana fora. Pensei: Por que não?
Manhatão não era, propriamente, um lugar bem-aventurado durante o verão
sufocante. Eu também ansiava uma folga. Dois dias de pescaria num lago
sossegado nas montanhas era uma boa idéia. Emalei umas poucas coisas essenciais
e pedi meu carro.
Depois, seguindo até a alameda Henrique Hudson, meio por impulso meio
porque ficava no caminho, resolvi parar proutra conversa com Floyd Oster.
Estacionei diante do prédio e toquei a campainha. Sem resposta. Mantive o dedo
no botão longo tempo mas acabei desistindo. O encontrei ao deixar o prédio,
avançando em minha direção, carregando uma embalagem de seis cervejas.
Bloqueei seu caminho na entrada. Me lançou um olhar frio, reptiliano.
— Saias da frente, Jordão.
— Não gostas de escutar! Hem, Floyd. Não a mim nem a teu advogado.
Estúpido, teimoso, ganancioso. As palavras não conseguem penetrar em teu crânio
e por isso tentarei outra coisa.
— O quê?, por exemplo. — Indagou, desdenhosamente.
— Te meter atrás das grades. Meu projeto pessoal, Floyd. Acabarei contigo. Ira
Madden não está mais aqui pra te proteger. Gente nova assumirá o controle do
sindicato. E Colson também te abandonará. Portanto, Floyd, estás sozinho. E se...
Parei de falar de repente, por causa dum brilho súbito nos olhos e um ligeiro
deslocar do peso do corpo. E quando a ponta do sapato pesado de Oster disparou a

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
cima, me virei rapidamente, agarrando seu tornozelo e torcendo a perna numa
curva de 90º. O arranquei do chão e, quando o larguei, se estatelou na calçada,
agitando os braços. Oster aterrissou sobre o braço quebrado e relinchou como um
cavalo num estábulo em chama.
Me abaixei, contrito, pra o ajudar. Se esquivou, cuspindo palavrão. Tinha o
vocábulo dum carroceiro.
— Deixes esse pobre homem ferido em paz! — Gritou uma voz estridente, atrás
de mim.
Era uma mulher pequena e encarquilhada, mal-vestida, um chapéu de flor
branca, rosto firme, brandindo um guarda-chuva.
— Não estás envergonhado do que fizeste? Um homem do seu tamanho! Como
tiveste coragem de agredir senhor Oster? Um homem ferido e desamparado! — Os
lábios estavam tão comprimidos que eram invisíveis. Me ameaçou com o guarda-
chuva. — Te afastes! Vamos logo! Se não o largares agora, efetuarei uma prisão de
cidadã por agressão criminosa!
Reprimi um sorriso. Aquela mulherzinha espalhafatosa mal conseguiria levantar
a agulha da balança até os 40 quilos mas não duvidei de que estava mesmo
disposta a me agarrar o braço e levar à delegacia mais próxima. Abaixei os olhos a
Oster.
— Desculpes por teu pulso, Floyd. Foi inevitável. Mas doravante não haverá
diálogo.
Me virei rapidamente, voltei ao carro e fui embora. Parei de pensar em Oster
depois de passar na Ponte Jorge Washington e começar a seguir ao norte na rota
17.
Foi um fim de semana dos mais proveitosos. Peguei seis trutas de tamanho
médio. Limpei, temperei, cozinhei e comi com a maior satisfação. Ia à cama cedo e
me levantava cedo, pensando como seria maravilhoso passar todo um mês
empenhado naquele saudável esforço. Voltei a Nova Iorque na manhã de segunda-
feira.
Um visitante me esperava no saguão do prédio de apartamento: Sargento-
detetive Wienick, muito sério, barrigudo e calvo.
— Tiveste um bom fim de semana?, advogado. — Perguntou polidamente.
— Um comitê de recepção do departamento de polícia de Nova Iorque. —
Murmurei. — Muito bem, sargento. Qual é o problema?
— Quero oferecer um passeio de graça num veículo municipal. O tenente deseja
falar contigo.
Se referia a tenente João Nola, da delegacia de homicídio, que estava sentado
em sua sala. Moreno, magro, preciso, abrupto a ponto de descortesia,
provavelmente o melhor policial de Nova Iorque. Embora não mantivéssemos
contato recentemente, dispensou todas as amenidades.
— Passaste o fim de semana fora, advogado. Por que não comunicaste a tua
secretária onde poderias ser encontrado?
— E ficar à mercê do telefone? De jeito nenhum.
— Talvez houvesse uma emergência.
— As emergências são pros médicos e não pros advogados. — Alteei uma
sobrancelha. — Qual é teu problema?, tenente.
— Nós dois temos um problema. E o teu pode ser maior que o meu. Wienick,
deixes a dona dar uma olhada nele.
O sargento saiu e voltou um momento depois, introduzindo na porta a
mulherzinha com o guarda-chuva. Estacou abruptamente, me olhando. Apontou um

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
dedo trêmulo e anunciou, com voz estridente:
— É ele! É esse o homem! O vi atacar o pobre senhor Oster. Vi com meus
olhos. — Deu um passo a trás. — É perigoso. Não o deixai chegar perto de mim.
Não se permite que um homem assim ande solto na rua.
— Não tens dúvida? — Perguntou Nola.
— Tenho uma visão perfeita, tenente. Deveis determinar a pena capital. A
prisão é boa demais pra...
Nola a interrompeu:
— Providencies que a senhora seja levada de volta a sua casa, sargento.
Wienick a segurou no braço e conduziu, firmemente, à porta. Nola se recostou
na cadeira, sacudindo a cabeça tristemente.
— Nada digas. — Falei. — Me deixes adivinhar. Algo aconteceu a Oster.
— Isso mesmo.
— Uma prensada?
— O suficiente pra o levar ao necrotério.
— Não posso dizer que estou desconsolado, tenente. A sociedade sobreviverá à
perda. Quando aconteceu?
— Na tarde de domingo.
— Enquanto eu estava lá nas montanhas, pescando.
— Tens prova?
— Se for necessário.
— Uma questão de rotina, advogado. Insisto.
— Então terás. Dês a informação, por favor. Quem encontrou o corpo?
—Senhora Scrimshaw.
— Quem?
— A velha. Holy Scrimshaw.
— Estás brincando...
— É esse mesmo o nome, Advogado. — Um sorriso se insinuou no rosto do
tenente, incipiente, rápido. — Teve a impressão de ouvir um tiro e desceu pra
investigar. A porta de Oster estava aberta. Estava arriado numa poltrona, com uma
bala na têmpora esquerda. Por volta de duas horas da tarde. Senhora Scrimshaw
voltou correndo a seu quarto e nos telefonou. Chegamos em poucos minutos.
Contou a briga que tiveste com Oster na sexta-feira. Disse que entraste em teu
carro e que se lembrava da placa.
— Extraordinário!
— É mesmo extraordinária. Não conseguimos te encontrar e calculamos que
foste passar o fim de semana fora. Está tudo aí. E agora vamos ao outro lado. O
que aconteceu entre tu e Oster?
— É uma história comprida, tenente.
— Tenho tempo pra escutar. Podes começar.
Deixei escapar um suspiro, me recostei e relatei a tentativa de Oster de
extorquir dinheiro da viúva Bolt. Escutou atentamente, os olhos se estreitando.
— Seriam os 50 mil dólares supostamente pagos a juiz Bolt pra decisões
favoráveis no julgamento de Ira Madden?
— Exatamente.
— Tens certeza de que foi Oster?
Tudo aponta a ele.
— Por que tu? Por que ela não procurou a polícia?
— Porque ele a advertiu a não procurar a polícia e a dona ficou apavorada.
— Sexta-feira foi a última vez que viste Oster?

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Foi.
— Não conseguiste o demover e resolveste recorrer a um pouco de força.
— Sabes muito bem que não sou disso, tenente. A violência não é meu estilo.
Oster ignorou minha primeira visita. Pedi a Ed Colson que interviesse, mas Oster
continuou irredutível.
— E então?
— Eu tencionava o entregar à polícia.
— És bem alto e corpulento, advogado. Estás querendo me dizer que Oster
tentou te enfrentar mesmo com um braço na tipóia?
— Tenente, Floyd Oster era um demônio selvagem. Se o chute me acertasse, eu
ficaria no estaleiro durante semanas. O derrubar foi um ato puramente defensivo.
Raramente perdia uma altercação. Te lembres do que aconteceu naquele acidente.
Matou Madden e apenas fraturou o pulso de Oster.
Nola me estudou em silêncio longo tempo. Finalmente chegou a uma decisão e
anunciou:
— O acidente não matou Ira Madden.
Me empertiguei na cadeira.
— Como?!
— Madden já estava morto quando o carro bateu na pilastra. Como vítima dum
acidente foi levado ao necrotério. Um atendente encontrou um medicamento em
seu bolso. Tabletes de nitroglicerina. Sabe pra que servem?
— Endurecimento das artérias. Geralmente receitadas pra arteriosclerose.
— Correto. Encontraram também um anti-coagulante. Obviamente, Ira Madden
era candidato a um infarto. Houve uma autópsia e o médico legista encontrou um
coágulo bloqueando uma das principais artérias do coração. O médico legista disse
que isso o matou num piscar de olho e foi por isso que perdeu o controle do carro.
— E Madden manteve seu estado em segredo.
— Naturalmente. Não queria que os inimigos no sindicato soubessem.
— Havia o nome dalgum médico nos frascos de medicamento?
— Certo doutor Lewis Bukantz.
— Já o interrogaste?
— Se mostrou relutante em falar mas arrancamos o bastante pra esclarecer a
situação. Madden tinha antecedente de hipertensão, pressão alta. Sofreu o primeiro
infarto há um ano. Recusou a hospitalização. Bukantz o aconselhou a pedir ao
governo um adiamento do julgamento, alegando que a tensão e ansiedade poderiam
exacerbar seu estado.
Alteei uma sobrancelha.
— Exacerbar?
— Linda palavra. Não é? A aprendi com o médico.
Significa exagerar ou intensificar a doença. Madden recusou.
— Não poderia fazer outra coisa. Haveria necessidade duma petição do
advogado de Madden, apresentando um motivo prà solicitação.
— Então o médico lavou as mãos da responsabilidade.
Sacudi a cabeça.
— Parece que a lei é um tanto estranha nesses casos. O problema cardíaco é,
presumivelmente, uma questão particular, que não afeta o público. Só que devem
cancelar a licença do paciente pra guiar um carro. É que se tiver um ataque numa
rua apinhada pode a matar pedestres inocentes.
— Tens razão, Advogado. E isso já aconteceu no passado. — Fez uma pausa, os
olhos fixos em mim, se estreitando. — Como vais de história?

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Essa não dá pra entender. De que história estás falando? Moderna, medieval,
antiga?
— Antiga.
— Quanto?
— 896 BC.7
— 9 séculos antes de Cristo. Não é minha especialidade. Sou um entusiasta da
guerra civil americana. Mas por que perguntas?
— Dês uma olhada. — Estendeu um pedaço de papel pequeno, com os vincos de
dobra — Encontramos na carteira de Oster.
Ali estava, escrito a lápis: 1 – 896 BC. Nada me dizia. Nada me recordava.
Levantei os olhos.
— Por que não verificas com um historiador especializado na era?
— Foi o que fiz. Professor Bernard Buchwald, de Colúmbia. Tentou encontrar
algo. — Nola fez um gesto desolado. Mas quem mantinha registro naquele tempo?
Talvez uns poucos hieroglifos em cavernas. Nada que pudéssemos usar.
— Achas que a data é significativa?
— Esse papel estava na carteira de Oster, advogado. O homem foi assassinado.
Podemos ignorar? Muito bem, me deixes testar outra vez. Aqui tem outra coisa. —
Estendeu um segundo pedaço de papel. — Também estava na carteira de Oster. O
nome dum homem. Já ouviste falar nele?
Estudei atentamente o papel, como uma das manchas de tinta de doutor Herman
Rorschach. Dizia: CH Jorge, NAS. Não havia ponto depois das iniciais.
Esquadrinhei fundo mas o nome não desencadeou reação. Finalmente declarei:
— O nome é estranho pra mim. Mas reparei que a letra neste papel é diferente
da que está no outro.
— Correto. A data foi escrita com a letra de Oster, o nome por Ira Madden.
Comparamos as caligrafias com outras amostras.
— CH Jorge... Já o descobriram?
— O nome não consta nas listas telefônicas dos cinco distritos. Uma pergunta,
Advogado: Conheces alguma organização, título ou órgão do governo que tenha as
iniciais NAS?
— Não, ao que posso me recordar neste momento, mas o fundo de pensão da
união dos metalúrgicos, a suposta fonte do saque de Ira Madden, investiu
amplamente no mercado acionário. Alguns dos títulos provavelmente não estão
relacionados e foram negociados fora do mercado. Assim, NAS pode ser uma
abreviatura da National Assocation of Security Dealer (Associação Nacional dos
Distribuidores de Valor).
— Se CH Jorge estivesse no negócio seu nome não constaria na lista telefônica?
— Claro. Mas em qual lista? Suponhamos que tenha um escritório em Newark,
Passaic, Jersey City, Hoboken... Podes continuar daí.
Nola parecia contrafeita.
— Ou qualquer uma entre mil outras cidades. Madden negociaria com qualquer
palhaço que lhe desse uma parte substancial da comissão.
— Por que não ligas à NASD e perguntas se CH Jorge é um de seus membros?
Nola bateu a mão na testa e no instante seguinte pegou o telefone e gritou uma
ordem. No momento em que desligava a porta se abriu e Wienick voltou.
— Nem precisas tirar o chapéu. — Disse Nola, bruscamente. — Vás buscar
Laura Bolt.

7
BC, em inglês, é Before Christ (antes de Cristo). Nota do tradutor. Em português é AC mas a tradução não pode ser
feita porque a sigla interage com o enredo. Nota do digitalizador

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Ei! Esperes um pouco! — Protestei. — Por que a incomodar? Não podes a
deixar em paz?
— A culpa é tua, advogado. Disse que Oster tentava extorquir dinheiro de
senhora Bolt. Oster vira um cadáver de repente. Portanto, temos de apertar a dona
pra saber se ela tem culpa no cartório.
— Então terás de a interrogar em minha presença. Sou o advogado.
— E a aconselharás a nada dizer.
— Não te preocupes, tenente. Senhora Bolt nada tem a esconder. Estava fora da
cidade quando aconteceu.
— Muito conveniente. Todas as partes interessadas dão um jeito de deixar a
cidade quando um crime ocorre.
— Nem todas, tenente. Apenas Laura Bolt e eu. Ao que parece, alguém ficou
pra fazer o trabalho.
— Sei disso. Ou talvez tenha voltado furtivamente o tempo suficiente pra
apontar uma arma.
— Laura Bolt nunca disparou um revólver. Não seria capaz de acertar uma
parede no interior duma sala.
— Sabes disso com certeza?, Advogado.
Exibi um sorriso.
— Não. Posso conversar cinco minutos com senhora Bolt antes de começar à
espremer?
— Eu preferia que não.
— Tenente, o supremo tribunal federal concede a todos os acusados o direito de
permanecer em silêncio até que consultem um advogado. Já ouviste falar das
comunicações privilegiadas. Onde está o privilégio se não posso falar com ela em
particular?
— Quem consegue argumentar com um advogado? Muito bem. Podes fazer a
consulta aqui mesmo, em minha sala.
— Tem microfone escondido?
— Faças um favor, advogado. Vás...
— Não termines, tenente. Não seria distinto. Se... — A campainha soou. Ele
levou o fone ao ouvido, escutou, alteando uma sobrancelha.
— O homem não pode esperar? Está certo, mandes entrar.
Ele desligou, me olhou e acrescentou:
— Fiques aqui. Deve ser interessante.
O visitante de Nola era um primata magro, calvo, compenetrado, com olhos de
computador e uma boca tão fina que parecia uma navalha. Se apresentou com uma
voz sem inflexão, exibindo também as credenciais: Senhor Harry Prime, divisão de
fraude, serviço da receita federal. Queria informação sobre Floyd Oster e soubera
que tenente Nola estava encarregado da investigação do homicídio. Nola
perguntou:
— Oster estava marcado pruma investigação especial?
— Nada disso, tenente. Oster entrou em contato com meu departamento há
alguns dias e iniciou negociação preliminar. Queria saber do honorário de
informante.
Nola franziu o rosto.
— Honorário de informante?
— Recompensa a dedo-duro. Um aviso aos cavalheiros do SRF sobre a
sonegação de imposto dalguém e a recompensa do governo ao dedo-duro, uma
porcentagem do dinheiro recuperado, se houver.

132
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Senhor Harry Prime me fitou com evidente aversão.
— Não me lembro de ter ouvido teu nome.
— Scott Jordão.
— Á, sim. Já ouvi falar de ti. Pra tua informação, senhor, preferimos não
chamar de recompensa a dedo-duro. Honorário de informante é muito mais
apropriado. Um indivíduo que nos ajuda a recuperar dinheiro que legitimamente
pertence ao governo é um patriota que está cumprindo o dever cívico.
— Senhor Prime, qualquer momento em que Floyd Oster cumprisse um dever
cívico por motivos patrióticos devia ser declarado feriado nacional.
Nola abriu os braços.
— O que exatamente queres de mim?, senhor Prime.
— Talvez seja melhor eu te dar, antes, alguma informação, tenente. Quando
entraste em contato conosco, Floyd Oster disse que tinha informação valiosa sobre
um sonegador de imposto. Não identificou o homem nem forneceu informação
sobre onde se encontraria o fundo ilegal. Disse que a quantia era considerável,
mais de 1 milhão de dólares. Queria saber qual a percentagem que poderia esperar.
Na conclusão de nossa conversa, marcou um encontro comigo pro final desta
semana. Já sabes o que aconteceu: Oster foi morto, impedindo nova declaração. O
serviço de receita federal gostaria de saber se tua investigação já encontrou algo
que possa nos ajudar.
— Ainda não. Não estamos cuidando do caso há tempo suficiente.
— Podes nos dizer algo das pessoas a quem estava ligado?
— O único nome que me ocorre é o de Ira Madden. Mas não há indício de que
traíra seu antigo patrão. Posso dar uma sugestão?
— Claro.
— Oster era processado pelo departamento de justiça. Há meses que o
investigavam. Parece provável que o promotor federal preste distrito disponha de
informação mais ampla a respeito dele do que eu.
— És o próximo de minha lista. — Prime virou a cabeça, bruscamente, pra me
fitar, com súbita recordação. — Scott Jordão... Não deverias ser o advogado de
juiz Bolt naquela acusação de suborno pela qual Oster era processado?
— Isso mesmo.
— Sabes algo sobre o caso?
Não no momento. Mas tenho uma cliente que será interrogada sobre o assassínio
de Oster e por isso tenho um motivo especial pra investigar. Se eu descobrir algo
que envolva sonegação de imposto não me tornaria um candidato a honorário de
informante?
Ele exibiu uma expressão consternada.
— Cada caso possui mérito específico. És advogado, atuas em nome da lei.
— Só que, no caso, não estaria sendo assalariado mas apenas um cidadão
tentando cumprir um dever cívico. Paguei ao governo toda minha vida. Não me
importaria em recuperar um pouco. Tudo estritamente legal, é claro, de acordo com
as vossas próprias regras. E agora, senhor Prime, não tentes te esquivar. Terei
direito a uma participação?
Ele teve de limpar uma obstrução na garganta. Falou com dificuldade, como se
qualquer pagamento saísse de seu próprio bolso:
— Senhor Jordão, se nos forneceres informação que ajude materialmente o
governo a efetuar uma recuperação, então terás direito a honorário.
— Quanto?
— Não creio que ficaria desapontado.

133
Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— 10%?
— Por aí.
10% de 1 milhão não é de se desprezar.
— Muito bem. Verei o que posso fazer.
Prime tirou um cartão do bolso.
— Ligues a este número.
Se levantou e apertou a mão de Nola. Omitiu a formalidade comigo. Depois que
se retirou, Nola me lançou um olhar inquisitivo.
— Conheço essa expressão, advogado. Sempre me perturba. Sabes algo.
— Apenas uma vaga noção, tenente. Uma teoria sem prova.
— Talvez eu possa ajudar.
— Mais tarde, talvez. Depois que eu definir melhor as coisas.
Assentiu, resignado, sabendo que seria inútil insistir. A porta se abriu e sargento
Wienick voltou, acompanhado por uma indignada Laura Bolt, se queixando
amargamente. A silenciei com a mão levantada. Falei:
— Esse simpático cavalheiro é tenente João Nola. Nos permitirá usar sua sala
pruma conversa e garante que não há microfone escondido.
Nola reprimiu um comentário e saiu, levando Wienick. Fiz muitas perguntas a
Laura Bolt e não fiquei especialmente impressionado com as respostas. Fora a
Montauk de carro, hóspede de amigos no fim de semana. Também convidaram um
homem, solteiro, um companheiro possivelmente apropriado pra Laura. Mas fora
impossível: 10min depois da apresentação já o detestava. Na manhã seguinte, bem
cedo, se desculpara aos amigos e voltara à cidade.
Portanto estava na cidade na ocasião em que Floyd Oster fora liquidado.
É verdade. Soubera da morte de Oster. Não estivera perto do apartamento dele.
Sua reação? Não lamentava. Ao contrário, estava até exultante. Terminara o fim de
semana assistindo televisão. Não recebera telefonema.
Compreendi que Nola adoraria aquela situação. Com a presunção anglo-
saxônica de inocência precisaria dalgo mais que coincidência antes de a deter
como testemunha material. Finalmente abri a porta e chamei:
— É toda tua, tenente.
A atitude dele, durante os 30 minutos de interrogatório, foi de ceticismo polido.
No final nos dispensou, ainda insatisfeito. Eu sabia que antes de uma hora estaria
com uma equipe em campo, vasculhando a vizinhança de Oster, mostrando
fotografia da sedutora senhora Bolt. A meti num táxi.
As teorias precisam dum período de maturação, o tempo necessário pra
desabrochar. Por isso ignorei os táxis e fui andando, pensando em tudo no
caminho. Destino: Segundo andar da biblioteca pública, uma sala devotada
exclusivamente a finança e economia. Quase todos os habitantes da sala estavam
debruçados sobre mesas compridas, estudando, atentamente, boletins do mercado
acionário, procurando a oportunidade esquiva de ganhar um dólar fácil, sem ter de
derramar o suor do rosto.
Pedi um manual volumoso sobre bancos estrangeiros e refúgios fiscais no
exterior. Procurei durante muito tempo, cansando os olhos, virando as páginas, até
que senti um alvoroço de excitação. Algo me atraíra a atenção. Examinei
meticulosamente, conferindo e confirmando, uma suposição lógica se seguindo a
outra.
Tenente Nola e eu fôramos precipitados e arbitrários ao concluir dos fatos
disponíveis. Estávamos errados em duas coisas: 896 BC não era uma data e CH
Jorge não era um homem.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Minha pista inicial fora fornecida por senhor Harry Prime, ao nos informar que
Floyd Oster procurara o serviço da receita federal querendo saber qual era o
honorário de informante. Por que Oster faria tal coisa? Muito simples: Sabia que
alguém cometera uma fraude fiscal. Quem? E quem mais poderia ser além de Ira
Madden, suspeito de remeter à Suíça fundo desviado de sua organização sindical?
Oster sempre estivera perto de Madden, um lacaio leal, mas Madden morrera e não
há lucro em ser leal a um cadáver.
Agora estava morto e o promotor federal pro distrito sul de Nova Iorque
provavelmente não sentia pesar. Já tinha caso em andamento em quantidade
suficiente pra o ocupar até o próximo milênio. Sendo assim não lamentava limpar
sua área dos processos contra Ira Madden por peculato e contra Floyd Oster por
subjugar um juiz federal, consignando os casos ao arquivo morto.
O que já não acontecia com tenente Nola. Um homicídio fora cometido em sua
jurisdição. Assassínio é assassínio, mesmo a liquidação dum espécime tão
ordinário como Floyd Oster.
O caso também permanecia aberto pra senhor Harry Prime, da receita federal.
Enquanto achasse que havia possibilidade de engordar ainda mais as burras do
governo, tencionava insistir, investindo contra o espólio de Madden, se fosse
necessário. Soubera que Ed Colson fora indicado no testamento de Madden como o
executor.
Depois de deixar a biblioteca tentei uma forma de isometria mental, com
fragmentos da memória, ao acaso. Senti que determinadas conclusões deviam ser
transmitidas às autoridades. Nola não estava disponível. Liguei a Harry Prime e me
convidou pra comparecer a uma conferência em seu escritório, na manhã seguinte,
com Ed Colson e o tenente.
O escritório do serviço da receita federal em Manhatão, na rua Igreja, é um
prédio que nunca deixou de me parecer inóspito. Prime se sentou atrás de sua mesa
e presenteou cada um com o típico olhar vigilante do coletor de imposto. Disse:
— Uma declaração preliminar, apenas pra definir a situação. Há quatro homens
nesta sala. Cada um tem objetivo diferente. Tenente Nola quer pegar um assassino.
Quero receber até o último centavo do que nos é devido do espólio de Ira Madden.
Senhor Colson, como testamenteiro de Madden, gostaria de manter o espólio
intato. E senhor Jordão quer um pouco de ação.
— Correção! — Intervim. — O dinheiro seria um bônus periférico, bem
recebido mas não essencial. Meu objetivo principal é inocentar Laura Bolt de
suspeita de homicídio.
Prime se mostrou cético.
— Mas não recusarias os honorários de informante.
— Recusarias?
Pareceu surpreso e se apressou em mudar de assunto:
— Senhor Colson, foste o advogado de Madden. Eras também o advogado de
Floyd Oster. Sabias que Floyd Oster entrara em contato com este escritório antes
de sua morte, informando que tinha informação sobre uma fraude fiscal
envolvendo 1 milhão de dólares.
Colson sacudiu a cabeça.
— Eu não sabia disso, senhor Prime. Floyd Oster fazia muitas coisas que eu não
sabia.
— Se uma fraude fora cometida e Oster sabia: Podes imaginar a identidade de
quem a cometeu?
— Sou advogado. Prefiro os fato a palpite.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
— Não é verdade que Ira Madden fora acusado de desviar recurso do fundo de
pensão da união dos metalúrgicos?
— E verdade que fora acusado. Mas um processo não é prova. Estava muito
longe de ser condenado.
— Somente sua morte evitou que isso acontecesse.
— Estás enganado. Uma carência de prova alcançaria o mesmo efeito.
— Pois bem, senhor Colson. Nós, da receita federal, estamos convencidos de
que Oster se referia a Ira Madden. Gostarias de comentar a respeito?
— Não especialmente, senhor Prime, mas farei. Suponhamos, apenas como
argumento, que Ira Madden estivesse vivo, fosse julgado e condenado, que o
dinheiro desviado do fundo de pensão fosse localizado. Onde a receita federal
entraria nesse quadro?
— Madden não pagou imposto sobre esse dinheiro.
— Estás enganado, senhor Prime. Outra vez nada admitindo, a que impostos te
referes? Esse dinheiro, se roubado do fundo de pensão, pertence à organização
sindical. E como assessor jurídico da união dos metalúrgicos, tenciono
providenciar pra que qualquer recuperação vá direto a nossos cofres. A receita
federal não tem direito a um centavo.
Prime ficou aturdido, piscando os olhos várias vezes. Dum modo geral, na
presença de autoridades fiscais, a maioria dos cidadãos fica apreensiva, humilde,
contrita. Uma alteração nesse padrão sempre provoca sobressalto. Harry Prime
ficou subitamente desorientado, sem saber o que dizer. Mas tenente Nola tinha o
que falar:
— Como advogado de Floyd Oster, senhor Colson, deves ter conversado
consigo em numerosas ocasiões.
— Só nos preparativos pro julgamento por suborno. Eu gostaria de deixar uma
coisa bem clara, tenente: Acho que Floyd Oster era um leproso moral. Em
circunstância normal não permitiria que um verme como Oster passasse na porta de
minha sala. Só aceitei seu caso porque era empregado da união e porque Ira
Madden pediu.
— Encontramos um pedaço de papel, no cadáver de Oster, com o nome CH
Jorge. Alguma vez mencionou alguém com esse nome?
Colson franziu o rosto.
— Não me lembro.
— O nome estava escrito com a letra de Ira Madden. Madden mencionou um
CH Jorge?
— Não. Quem é?
— Não sabemos. Depois do nome estavam as letras NAS. Resolvi declarar
nesse instante:
— CH Jorge não é o nome dum homem.
Um súbito silêncio. Todos os olhos se fixaram em mim. Nola perguntou, a voz
suave:
— Podes explicar?, por favor, advogado.
— É um endereço em Barramas, tenente. Mais especificamente, na ilha Nova
Providência.
— Continues falando.
— CH Jorge é uma abreviatura que significa Caribe House, rua Jorge. E NAS
representa Nassau.
— Quem vive lá?
— Ninguém. É a sucursal dum banco suíço com matriz em Zurique.

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— Como descobriste isso?
— Deves estar lembrado que também encontraste um número no bolso de Floyd
Oster: 896 BC A princípio pensaste que fosse uma data. Depois, tendo em vista a
informação de senhor Prime sobre a sondagem de Floyd Oster, me ocorreu que
poderia se referir a uma conta numerada secreta num banco suíço. Assim, consultei
um livro de referência na biblioteca e entre os bancos relacionados estava um com
sede em Zurique, banque Credit.
Nola percebeu no mesmo instante.
— Banque Credit, BC.
— Exatamente. 896 BC O número duma conta no banque Credit. Verifiquei que
o banco tinha uma sucursal em Caribe House, na rua Jorge, em Nassau. Tudo
combinava. Era óbvio demais pra que se pudesse considerar coincidência.
— E a quê se ajusta o número 1 antes de 896?
— Se ajusta ao número 1 na união dos metalúrgicos, Ira Madden.
— E Oster descobriu tudo?
— Encontrou a prova no bolso dele.
Prime disse, bruscamente:
— Jamais alguém me mencionou isso.
— Pois tomas conhecimento agora. E não me surpreenderia se aquela conta foi
recentemente transferida da matriz em Zurique à sucursal em Barramas, a fim de a
tornar mais rápida e facilmente acessível.
— Por que Madden não cancelou a conta? — Perguntou Prime. — Saberia que o
governo recentemente negociou um tratado com a Suíça sobre informação a
respeito de fundo ilegal.
— Meu palpite é de que se preparava pra fazer isso e o faria se o infarto não o
liquidasse primeiro. Nola interveio:
Madden estava morto. Quem mais tinha motivo pra matar Oster?
— Me parece que todos estavam propensos a apontar Laura Bolt.
— Isso é história passada.
— Ótimo. Porque não foi a única vítima. Floyd Oster estava chantageando
também outra pessoa.
— Quem?
Apontei.
— Nosso amigo advogado, senhor Eduardo Colson.
A cadeira de Colson foi bruscamente empurrada a trás e caiu quando se
levantou.
— De que-diabo estás falando?, Jordão.
— Estou falando de chantagem. Extorsão. Floyd Oster pode ter sido um verme
mas seu cérebro funcionava muito bem. Sabia o que estavas querendo. Percebeu
tua manobra antes de qualquer outra pessoa e te pressionou pra receber uma parte
do lucro.
— O que insinuas?
— Não estou insinuando mas afirmando claramente. Na presença de
testemunhas. Eras o advogado pessoal de Ira Madden. Eras o testamenteiro. Sabias
que deixara tudo pra Lili, do estado cardíaco de Madden e que poderia morrer a
qualquer momento.
Colson ficou ainda mais tenso.
— E daí?
— Então procuraste a moça. Despejaste todo teu charme. Ela nunca recebera
cantada e ficou radiante. Se apaixonou. E como! A vi em teu escritório, fascinada.

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Alfred Hitchcock apresenta Histórias assustadoras
Planejavas te casar com a moça e depois seria fácil roubar a herança.
Especialmente o dinheiro nas Barramas. 1 milhão de dólares livres de imposto.
— Mas por que eu precisaria do dinheiro de Lili? Sou um advogado bem-
sucedido.
— Tentes outra história, Colson. Essa não colará. Há 10 anos que estás limitado
a um só cliente: A união dos metalúrgicos, o feudo pessoal de Ira Madden. Agora
Madden está morto e quando a oposição assumir o comando serás, provavelmente,
despedido. É tarde demais pra recomeçar uma banca. Por isso estavas desesperado.
Todos sabem que és um grande gastador e não poderias suportar uma mudança de
vida. Por isso estava ansioso em meter as mãos naquele dinheiro que Madden
escondia numa conta numerada.
O suor cobriu o rosto de Colson.
— Como eu podia saber onde guardava o dinheiro?
— Sabias porque Madden te contou. Uma providência essencial pra que a filha
recebesse o dinheiro. Esse é o procedimento na transferência de contas secretas. O
banco tem registrado o beneficiário do depositante, que quando morre, o advogado
deve comunicar ao banco e apresentar um atestado de óbito, permitindo a
transferência da conta. Nesse caso pra Lili Madden. Mas seria apenas durante
pouco tempo, já que no final assumirias tudo. Não sobraria um centavo à união dos
metalúrgicos. E sabendo disso tudo, Oster queria arrancar uma parte de ti.
Linhas brancas emolduravam a boca de Colson.
— Se estava fazendo chantagem comigo por que procuraria a receita federal?
— Pra te pressionar. A fim de que aceitasses o negócio. Por isso é que Oster
tinha de ser liquidado.
Colson encostou a mão em seu peito.
— Insinuas que matei Floyd Oster?
— Não insinuo mas acuso diretamente. Conhecias Oster e sabias que te
arrancaria até o último centavo. Não havia opção. Visitei o homem. Sei que não
abriria a porta pra visitante. Mas abriria a porta pra ti, especialmente se pensasse
que seria pra tratar de negócio.
Colson se virou, olhando a Nola e Prime, os braços abertos num gesto de apelo,
a voz impregnada de sinceridade.
— Algo aconteceu a Jordão. Acho que enlouqueceu. Sou um advogado
respeitável. É um absurdo pensar que eu poderia matar um homem por dinheiro.
— Dinheiro é o motivo de sempre. — Comentei. — Neste caso, 1 milhão de
dólares. Muitos homens já saquearam por muito menos. Mas ainda tinhas outro
motivo, Colson. Acho que foi a força atrás da tentativa de Oster de subornar juiz
Bolt. Tramaste tudo. Conhecias bem os tribunais pra saber que juiz Bolt era
vulnerável. E estavas apavorado com a possibilidade de Oster perder o controle no
tribunal e te incriminar. Isso seria teu fim: Cumplicidade, conspiração, expulsão da
ordem, desgraça, prisão. O que achas disso como motivo?
Uma veia escura ressaltou em diagonal sobre seu olho esquerdo.
— Não tens prova.
— Talvez não. Mas tu sim, Colson. E estás com ela, em tua mão direita suada.
Oster foi morto com uma bala na cabeça. Portanto o assassino disparou uma arma.
A polícia realizará um teste de nitrato pra verificar se há resíduo de pólvora na
pele de tua palma. E se o teste for positivo, como poderás explicar? Exercício de
tiro-ao-alvo em teu escritório?
Levantou a mão e a contemplou, aturdido.
— E isso não é tudo. Não creio que tiveras o tempo ou a lembrança de largar a

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arma no mar, na barca de Ilha Staten. A polícia saberá onde procurar. A encontrará
e fará o teste balístico.
Colson transferiu o olhar a mim, passando a língua nos lábios.
— Queres mais?, Colson. Pois eis: Tenente Nola lançará um verdadeiro exército
em campo, localizando testemunha pra provar que estiveste na proximidade do
prédio de Oster no momento crítico. É uma área densamente povoada. Alguém
deve ter te visto, chegando ou partindo.
Encontrou a voz, só que muito rouca:
— Irei embora. Não sou obrigado a ficar aqui, escutando os delírios desse
louco.
Quando se encaminhava à porta, os passos apressados, um tanto desajeitados,
Nola se levantou depressa e bloqueou o caminho.
— Não tão depressa, advogado. Temos coisas a discutir na chefatura.
Ed Colson piscou, os olhos perdidos. Dobrou o corpo e vomitou, ali mesmo, no
escritório de Manhatão do serviço da receita federal.

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