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MNEMOSINE REVISTA / Programa de Pós-Graduação em História.

Centro de
Humanidades
Universidade Federal de Campina Grande. n. 1 (2016). Campina Grande: CH /
UFCG, 2016-Trienal
ISSN 2237-3217
1. História I. Universidade Federal de Campina Grande. Centro de Humanidades.
Programa de Pós-Graduação em História

CDD 900

Rua Aprígio Veloso, 822, Bodocongó


58.439-900 – Campina Grande – PB – Brasil
e-mail: menmosinerevista@gmail.com

Equipe de Realização:
Edição de Texto: Noemia Dayana de Oliveira
Arte: Lays Anorina Barbosa de Carvalho
MNEMOSINE REVISTA
Volume 6 – Número 4 – Set/Dez 2015

UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE


Reitor: Prof. Dr. José Edilson de Amorim

DEPARTMENTO DE HISTÓRIA
Coordenadora Administrativa: Profª. Drª. Marinalva Vilar de Lima

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA


Coordenador: Prof. Dr. Iranilson Buriti de Oliveira

COMITÊ EDITORIAL
Prof. Dr. João Marcos Leitão Santos – Editor
Prof. Dr. José Otávio Aguiar – Editor Adjunto

CONSELHO EDITORIAL
Dr. Antônio Gomes Ferreira,
Faculdade de Educação, Universidade de Coimbra, PORTUGAL

Dr. Cristian Wick,


Lecturer for European and Atlantic History, University of the West Indies,
TRINIDAD E TOBAGO

Drª. Elizeth Payne Iglesias,


Escola de História/CIHAC, Universidad de Costa Rica, COSTA RICA

Dr. Gervácio Batista Aranha,


Decano da Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Campina Grande,
BRASIL

Dr. Iranilson Burití de Oliveira,


Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL

Jean-Frédéric Schaub,
L’Ecole Des Hautes Etudes en Sciences Sociales

Dr. Joanildo A. Burity,


Pesquisador Sênior, Fundação Joaquim Nabuco, BRASIL

Drª. Juciene Ricarte Apolinário,


Professora de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL

Dr. Martin N. Dreher,


Professor Emérito de História, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil

Dr. Paulo D. Siepierski,


Professor Titular de História, Universidade Federal Rural de Pernambuco, BRASIL

Dr. Ronald P. Morgan,


Professor of History, Abilene Christian University, Abilene/TX, UNITED STATES
CONSELHO CONSULTIVO

Alarcon Agra do Ó,
Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
André Figueiredo Rodrigues,
Professor de História, Universidade Estadual Paulista/Assis, São Paulo, BRASIL
Ângela Maria Vieira Domingues,
Professora de História na Universidade Nova de Lisboa, PORTUGAL
Antonio Carlos Jucá de Sampaio,
Professor de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro, BRASIL
Antônio Clarindo Barbosa de Souza,
Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Antônio Torres Montenegro,
Professor de História, Universidade Federal de Pernambuco, BRASIL
Carla Mary S. Oliveira,
Professora de História, Universidade Federal da Paraíba, BRASIL
Dilton Cândido Santos Maynard,
Professor de História, Universidade Federal de Sergipe, BRASIL
Durval Muniz de Albuquerque Junior,
Professor de História, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, BRASIL
Edson Silva,
Professor de História, Universidade Federal de Pernambuco, BRASIL
Eduardo França Paiva,
Professor de História, Universidade Federal de Minas Gerais, BRASIL
Elizabeth Christina de Andrade Lima,
Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Geraldo Silva Filho,
Professor de História, Universidade Federal de Tocantins, BRASIL
Marcos Fábio Freire Montysuma,
Professor do Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade
Federal de Santa Catarina, BRASIL
Marinalva Vilar de Lima,
Professora de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Mary Catherine Karasch,
Teacher of History, Oakland University, Rochester/MI UNITED STATES
Patrícia Cristina Aragão Araújo,
Professora de História, Universidade Estadual da Paraíba, BRASIL
Regina Célia Gonçalves,
Professora de História, Universidade Federal da Paraíba, BRASIL
Regina Coelli Gomes Nascimento,
Professora de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Rodrigo Ceballos,
Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Severino Cabral Filho,
Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Silvia Hunold Lara,
Professor de História, Universidade Estadual de Campinas, BRASIL
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ........................................................................................5

ARTIGOS DO DOSSIÊ

A EXPERIÊNCIA DE TRABALHADORES TUTELADOS: A PRESENÇA DE INDÍGENAS


EM OBRAS PÚBLICAS DA PROVÍNCIA DE ALAGOAS
Aldemir Barros da Silva Júnior .............................................................................12

HISTÓRIA E MEMÓRIAS DE MIGRAÇÕES NO NORDESTE INDÍGENA


O “vaivém” dos Xukuru do Ororubá (Pesqueira/PE)
Edmundo Monte ...................................................................................................32

ÍNDIOS TUPINAMBÁ/BA: “O MANTO FOI ROUBADO”! O DESPERTAR


PELOS ENCANTADOS DE UMA “IDENTIDADE ADORMECIDA”
Edson Hely Silva e Tamires Batista Andrade Veloso de Brito ................................53

INTERPRETAÇÕES DO KANAIMÎ NO CONTEXTO RELIGIOSO MACUXI


Manoel Gomes Rabelo Filho..................................................................................76

O ESTADO NOVO E OS POVOS INDÍGENAS: O SILÊNCIO DAS PALAVRAS


Zeneide Rios de Jesus ..........................................................................................87

RELIGIOSIDADE E ENCANTAMENTO: O pagamento de promessa no ritual


indígena Jiripankó
José Adelson Lopes Peixoto e Lucas Emanuel Soares Gueiros ............................111

TRADIÇÕES ADORMECIDAS: PRÁTICAS CULTURAIS E NARRATIVAS NO


COTIDIANO DAS ÍNDIAS PARTEIRAS DA ALDEIA FORTE – BAÍA DA TRAIÇÃO
Aline de Castro ...................................................................................................127

ITAPUCU E O REI: DIPLOMACIA INDÍGENA NA CORTE FRANCESA DO SÉCULO XVII


Ana Paula da Silva e José Ribamar Bessa Freire .................................................137

QUANDO AS CHEFIAS INDÍGENAS SE FORTALECEM ENQUANTO PEQUENA


NOBREZA NOS SERTÕES DAS CAPITANIAS DO NORTE NA SEGUNDA METADE DO
SÉCULO XVIII
Juciene Ricarte Apolinário ..................................................................................152

OS ESTUDOS INDÍGENAS E O BRASILIANISMO CONTEMPORÂNEO NA


AMÉRICA DO NORTE
Hal Langfur ........................................................................................................165

LOS ALIADOS INDÍGENAS DE LOS ESPAÑOLES EN EL TRÁNSITO DE LA


SOBERANÍA IMPERIAL A LA NACIONAL: LOS MOQUINOS DE SANDÍA Y
ABIQUIÚ, NUEVO MÉXICO
Danna A. Levin Rojo ...........................................................................................175

ARTIGOS DE FLUXO

A AMÉRICA LATINA NO PERÍODO 1914-1929: ASPECTOS DA VIDA


POLÍTICA, ECONÔMICA E SOCIAL
Iraci Del Nero da Costa ......................................................................................191

CRER SEM SABER: SOBRE O MODO-DE-PRODUÇÃO RELIGIOSO DA


MODERNIDADE
Eduardo Quadros ...............................................................................................207

FACES DE CARIDADE OU DE CONTESTAÇÃO? A LUTA CONTRA O


DESAMPARO FEMININO NAS CASAS DE CARIDADE FUNDADAS PELO
PADRE IBIAPINA
Noemia Dayana de Oliveira e José Benjamim Montenegro .................................215
APRESENTAÇÃO as reflexões sobre as relações
socioculturais em contextos de
Este dossiê organizado pela dominação e hegemonia políticas
Drª Juciene Ricarte, da Universidade enriquecem os estudos históricos,
Federal de Campina Grande e pelo inclusive quando as reflexões
professor que assina esta também dão conta de temporalidades
apresentação nasceu da constatação precedentes na nossa história de
inevitável que cada vez mais vem onde se originaram as questões
sendo ampliado os estudos sobre a contemporâneas. Os textos ora
temática indígena e com uma publicados situam-se, portanto,
característica marcante: na área de nesse esforço de discutir, buscar
História. São diversas pesquisas compreender certos aspectos de
realizadas nos programas de pós- situações, contextos, evidenciando a
graduação espalhados pelo país – e partir de uma abordagem histórica os
fora dele –, que juntamente com os indígenas como protagonistas.
estudos antropológicos iniciados na Nesse sentido, no texto “A
década de 1980 definitivamente experiência de trabalhadores
tornaram os indígenas um tema tutelados: a presença de indígenas
significativo entre os nas Ciências em obras públicas da Província de
Humanas e Sociais. Alagoas”, Aldemir Barros da Silva
O contexto sociopolítico Júniorpensando o indígena com a
vivenciado nas últimas décadas, com categoria “trabalhador tutelado” no
as mobilizações dos próprios Século XIX, baseado principalmente
indígenas pelo reconhecimento, em documentos da Diretoria Geral
conquistas e garantia de direitos, os dos Índios em Alagoas, discutiu as
conflitos quase sempre bastante diversas formas e os espaços em que
violentos enfrentados pelos índios ocorreu o trabalho indígena naquela
com as invasões das terras que Província a partir de meados do
habitam; a constatação oficial do Século XIX. O autor discorreu sobre a
crescimento demográfico indígena; utilização compulsória da mão-de-
as reinvindicações de políticas obra indígena principalmente nas
públicas específicas para essas obras públicas de aterros e
populações e a considerável presença construções de canais na alagada
indígena nos centros urbanos, dentre Maceió, a capital alagoana.
outros temas, desafiam os estudos Um trabalho em condições
acadêmicos para refletirem sobre insalubres, do qual os indígenas
situações supostamente resolvidas fugiam antes mesmo dos
com o advogado “desaparecimento” recrutamentos forçados nas aldeias a
ocorrido ou gradual dos índios, como mando de autoridades provinciais ou
equivocadamente se acreditava em diretores dos aldeamentos. Em um
uma perspectiva evolucionista. contexto sociopolítico em que
Nas pesquisas recentes são recrudesceram as disputas pelas
revisitadas fontes conhecidas bem terras dos antigos aldeamentos
como novos e diversos documentos situados em regiões de férteis e
foram explorados. Os diálogos com bastante irrigadas, invadidas por
categorias antropológicas, sobretudo, fazendeiros, os índios elaboraram
6
diferentes estratégias para se livrar No texto “Tradições
do trabalho coercitivo, como adormecidas: práticas culturais e
trabalhar nas fazendas o que lhes narrativas no cotidiano das índias
garantia até certo ponto autonomia parteiras da Aldeia Forte-Baía da
para negociações e o sustento para si Traição”, Aline de Castro retomou
e para as famílias. uma discussão muito cara aos
O estudo torna-se muito indígenas no Nordeste: a afirmação
importante em pelo menos dois de expressões socioculturais,
aspectos. O primeiro, quando tratou saberes, conhecimentos
do trabalho indígena, tema “tradicionais” em espaços onde a
desconhecido e até certo ponto um população circunvizinha não
tabu nas discussões sobre a História indígena, autoridades e poderes
do Brasil. E o segundo, porque públicosem geral, negam a existência
mesmo no que passou após os anos indígena. E ainda mais se tratando de
1980 a se chamada no país como a mulheres indígenas parteiras,
“nova história indígena”, ainda não desqualificadas frente ao exaltado
se debruçou devidamente sobre o saber médico como “herança”
assunto. Isso porque além da comum Ocidental, porém que esconde
alegada ausência de fontes para interesses mercantis.
abordar a temática, o trabalho Ao discutir as práticas das
indígena foi desconsiderado em razão parteiras indígenas na Aldeia do
da ênfase na utilização da mão-de- Forte, Baía da Traição/PB, a autora
obra negra escravizada e afirmações evidenciou a importância de saberes
da “inadaptabilidade” dos índios para específicos no contexto e conectados
o trabalho. O que resultou no senso com a afirmação das expressões
comum no arraigado preconceito de socioculturais indígenas,
“preguiçoso” atribuído aos indígenas. notadamente como tema inédito para
Portanto, o texto de Aldemir as reflexões históricas e como
ao evidenciar a importância, as contribuição para compreensão das
formas, os espaços e o relações dos povos indígenas na
protagonismo, particularmente dos nossa sociedade em tempos atuais.
Xukuru-Kariri (Palmeira dos As migrações indígenas,
Índios/AL), no trabalho indígena, principalmente para os centros
contribui sobremaneira para um tema urbanos, tem sido um tema de
desconhecido e além do mais em se alguns estudos. A contribuição
tratando de discussões relativas ao original de Edmundo Monte com o
Nordeste, onde durante muito tempo texto “História e memórias de
foi negada a existência de indígena migrações no Nordeste indígena: o
nessa Região. São reflexões “vaivém” dos Xukuru do Ororubá
relevantes também porque possibilita (Pesqueira/PE)”, estar no enfoque
compreender as dinâmicas das atuais sobre um povo indígena habitando o
relações com as disputas pelas terras Nordeste. É até possível afirmar que
e o trabalho indígena naquela os estudiosos sobre migrações na
localidade, inspirando pensar em Região não conseguiram perceber as
outros lugares no Nordeste. particularidades identitárias indígena
de alguns migrantes, o que é
7
compreensível diante do até com indígenas que vivenciaram
recentemente afirmado sistemático experiências distintas com o Kanaimî,
discurso da inexistência indígena no o pesquisador Manoel Rabelo buscou
Nordeste. refletir sobre os significados dessa
No texto, o autor discutiu as entidade mítica para o universo
migrações de período mais longo religioso Macuxi. Uma discussão que
para o Sudeste em geral São Paulo, e possibilita conhecer outras situações,
sazonais dos índios Xukuru do bem como de alguma forma
Ororubá, habitantes em Pesqueira e aproximar-se das abordagens sobre
Poção, região do Semiárido as expressões religiosas indígenas
pernambucano, que em épocas de em nossa Região.
secas se deslocavam principalmente No texto “O Estado Novo e os
o “Sul”: a região da Mata Sul de povos indígenas: o silêncio das
Pernambuco e Norte alagoana, em palavras”, Zeneide Rios de Jesus
busca de trabalho na lavoura analisou a política de colonização
canavieira. Baseado em memórias empreendida naquele período com a
orais, Edmundo Monte buscou chamada Marcha para o Oeste,
compreender as motivações, quando ocorreram invasões de terras
experiências cotidianas de indígenas ignoradas pelas reflexões
sociabilidades e as formas do históricas da época e posteriores. A
trabalho realizado pelos indígenas autora evidenciou a participação de
nos locais para onde se destinaram. intelectuais no projeto
As reflexões possibilitam além de governamental e como a imprensa
discutir o desconhecido trabalho silenciou a respeito dos impactos das
indígena, atualizá-las nos debates políticas governamentais sobre os
contemporâneos sobre os índios no povos indígenas.
Nordeste. A discussão sobre as relações
Para o pesquisador que se entre políticas governamentais,
dedica ao estudo da temática violências contra os povos indígenas
indígena no Nordeste em suas e atuação da imprensa são bastante
peculiaridades, as experiências de atuais. E as reflexões apresentadas
povos indígenas em outras regiões no texto, questionam o papel dos
no país parece algo distante. O que historiadores na escrita da História
pode ser relativizado na leitura de do Brasil republicano e como pensam
textos como o de Manoel Gomes o lugar dos povos indígenas nos
Rabelo Filho, intitulado processos históricos recentes. E
“Interpretações do Kanaimî no ainda o silêncio sobre o tema no
contexto religioso Macuxi” onde o Ensino de História.
autor discorreu sobre uma dimensão Os Tupinambá em Olivença de
mítica e religiosa, fundamental para forma sistemática tem a identidade
aquele povo indígena habitante em étnica negada por fazendeiros,
Roraima. imobiliárias e empresários do
Baseado na categoria das turismo, invasores das terras
representações sociais, na literatura habitadas pelos indígenas, em uma
socioantropologica que tratou do região paradisíaca no Sul da Bahia. A
assunto e ainda em entrevistas orais afirmação identitária Tupinambá e as
8
mobilizações desses indígenas por que foram dedicados à temática das
reivindicação e garantia de direitos expressões religiosas indígenas no
foram discutidas por Edson Silva e Nordeste atual. E possibilita pensar
Tamires Brito no texto “Índios sobre as leituras indígenas dos
Tupinambá/BA: ‘o manto foi encontros no passado dos universos
roubado’! O despertar pelos religiosos nativos e colonial, as
encantados de uma “identidade traduções e expressões indígenas
adormecida”’. desse encontro, as
Observando um contexto de (des)continuidades, ressignificações,
permanentes tensões, com várias reformulações, associações e
formas de violências contras os afirmações identitárias
Tupinambá, desde as prisões e correlacionadas no universo simbólico
assassinatos de lideranças, queima religioso Jiripankó, possibilitando
de casas, perseguições e expulsões pensar outras situações
de indígenas, a partir da pesquisa assemelhadas ocorridas em áreas
historiográfica e também de mais antigas da colonização, a
memórias orais, os autores buscaram exemplo do Nordeste.
evidenciar as diferentes estratégias A este conjunto de debates
dos indígenas para afirmação étnica, somam-se outros trabalhos de
marcada pela dimensão simbólica fundamental importância, resultantes
intimamente relacionada com as do III Seminário Internacional
expressões religiosas. A situação América Indígena: processos de
vivenciada pelos Tupinambá é por mediação e mestiçagens, que teve
demais emblemáticas para lugar no campus da Universidade
discussões de processos semelhantes Federal Rural do Rio de Janeiro em
vivenciados por outros povos Seropédica entre os dias 28 e 29 de
indígenas no Brasil. setembro de 2015, sob a
As relações entre as coordenação das profas. Izabel
expressões religiosas e a identidade Missagia e Vânia Moreira e contou
étnica foram também analisadas por com o auxílio da CAPES.
José Peixoto e Lucas Gueiros, no Os artigos apresentados
texto “Religiosidade e encantamento: contém as reflexões do Dr. José
o pagamento de promessa no ritual Ribamar Bessa Freire e Ana Paula da
indígena Jiripankó”, onde os autores Silva, Professor do Programa de Pós-
trataram dos rituais desse povo Graduação em Memória Social da
indígena habitante no Sertão de Universidade do Rio de
Alagoas. O estudo foi baseado nas Janeiro/UniRIO e doutoranda do
reflexões de teóricos clássicos da mesmo programa, onde discutem o
Antropologia, assim como estudos protagonismo e a atuação política
recentes e ainda a partir de uma indígenas na dinâmica de conflitos e
pesquisa e observações de campo, interesses que marcaram o período
buscando melhor compreender os historicamente conhecido como
significados da prática do ritual para França Equinocial, notadamente o
a afirmação da identidade indígena. caso dos índios embaixadores na
As reflexões apresentadas no França, sobretudo Itapucu, refletindo
texto somam-se aos poucos estudos sobre a participação destes na
9
produção de “redes globais de debates sobre as questões
conhecimento e poder” suas relacionadas as populações
estratégias em contextos de indígenas, relacionando os estudos
interação sociocultural e política, realizados nos Estados Unidos e no
destacando especialmente o papel de Brasil consideradas as suas
mediadores e articuladores de alguns convergências e singularidades.
líderes indígenas que a exemplo dos Na conferência de encerramento, a
embaixadores Tupi foram buscar uma Drª. Danna Levin Rojo da
resposta oficial para seus problemas. Universidade Autonoma
Metropolitana, México, apresentou
Juciene Ricarte da
em sua conferência a organização e a
Universidade Federal de Campina burocracia do estado colonial,
Grande discute processos de investigando a relação do estado
incorporação de algumas chefias colonial espanhol como agente
indígenas na política da interventor e as populações indígenas
administração portuguesa no Brasil nos diversos espaços de convívio em
nos sertões das capitanias do norte e que estes foram assimilando os
nativos como servidores o
o fundamento da legislação
colaboradores que aparecem
indigenista nas fronteiras interétnicas referidos indistintamente na
que lhe oferecia fundamento, documentação investigada como
notadamente o Diretório dos Índios “índios amigos”. É uma análise
na segunda metade do século XVIII. comparativa de experiências nos
Nesse processo as lideranças diversos territórios ocupados que
adquiriam status de intermediários permite reconhecer que estas
populações nativas agiram muitas
políticos que os conduziram a
vezes como artífices conscientes de
ostentar patentes de oficiais das vilas seu próprio destino e não como
implantadas a partir do Diretório, por meros objetos da manipulação
vezes em favor dos seus grupos habilidosa do espanhol invasor, num
étnicos de origem trazidos a ordem. complexo tecido de relações.
Constata-se, que as iniciativas de Enfim, os textos que
cooptação e valorização das chefias compõem o Dossiê são contribuições
indígenas tornaram-se tradição do significativas para pensarmos os
Estado monárquico português no índios na História do Brasil,
trato com as populações particularmente no Nordeste. E se
conquistadas, objetivando o controle revestem de igual importância
de novas populações. quando também pensados na
Além destes, o conjunto de perspectiva dos questionamentos
textos se encerra com às provocados pela demandas para
conferências de abertura e efetivação da Lei 11.645/2008, que
encerramento do evento, a primeira, determinou na Educação Básica a
realizada pelo professor Hal Langfur, inclusão do ensino da história e
da Universidade de Nova Iorque em culturas dos povos indígenas, com a
Buffalo, que em sua conferência reclamada ausência de subsídios
inaugural apresentou o estado da sobre o assunto. Além disso, o papel
arte dos debates das questões da academia seja de formar
etinoindigenas através de um pesquisadores na pós-graduação e
recenseamento de pesquisas e professores nos cursos de

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licenciatura, embora ao final todos Resta desejar boas leituras, reflexões
sejam de alguma forma e em algum e discussões.
nível docentes, requer o
(re)conhecimento sobre os povos Dr. Edson Silva
indígenascomo sujeitos sociopolíticos Professor da Universidade Federal de
na História do Brasil e a superação de Pernambuco/CA
desinformações, equívocos e e da Pós-Graduação em História da
preconceitos sobre o tema. E os Universidade federal de Campina
textos ora publicados em muito Grande
contribuirão para que isso ocorra.

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A EXPERIÊNCIA DE of June 24, 1845, which regulated the
TRABALHADORES TUTELADOS: A catechetical mission and civilization of the
PRESENÇA DE INDÍGENAS EM Indians. In this process, the 1
Este artigo resulta das
institutionalized power forward on pesquisas realizadas para
OBRAS PÚBLICAS DA PROVÍNCIA a construção da tese, em
indigenous workers forcing them to public
DE ALAGOAS1 andamento, no Programa
service by intensifying the use of de Pós-Graduação em
indigenous labor, especially in public História Social da
Aldemir Barros da Silva Júnior works. In contrast, the Indians have Universidade Federal da
Bahia.
Professor Assistente da Universidade developed strategies to deal with the
Estadual de Alagoas constant forced recruitments in the
aldemirbarrosjr@gmail.com settlements , whose main was apart from
village.
Resumo Keywords: indigenous; job; public
Este artigo analisa as relações de works.
trabalho estabelecidas entre o Governo
provincial e povos indígenas habitantes O Século XIX permite
na região Nordeste, na segunda metade observar um mosaico de formas de
do Século XIX, observando a presença relações de trabalho que extrapolam
dos indígenas em obras públicas
as categorias generalizantes de livre
enquanto trabalhadores tutelados. Para
e escravo, inclusive coexistentes na
isso, utiliza como baliza temporal o
período de atuação da Diretoria Geral dos
mesma atividade, no mesmo espaço
Índios na Província de Alagoas (1845- e, em alguns casos, vivenciadas
1872), instituída pelo Decreto Imperial nº pelos mesmos sujeitos. Esse mosaico
426 de 24 de junho de 1845, que convida a pensar nessas categorias
regulamentava as missões de catequese como um conhecimento em
e civilização dos índios. Neste processo, o desenvolvimento que, na
poder institucionalizado avançou sobre os operacionalização da lógica histórica,
trabalhadores indígenas obrigando-os ao
precisam ser confrontadas com as
serviço público intensificando a utilização
evidências encontradas sobre o
da mão de obra indígena, sobretudo, em
obras públicas. Em contrapartida, os processo observado. Ao aproximar-se
indígenas elaboraram estratégias para de tais categorias percebe-se uma
lidar com os constantes recrutamentos multiplicidade de formas de relações
forçados nos aldeamentos, cuja principal de trabalho, para o momento,
foi o desaldear. destacam-se aquelas tuteladas pelo
Palavras-chave: indígenas; trabalho; governo imperial e provincial;
obras públicas. africanos livres e indígenas.
As experiências dos sujeitos
Abstract
que vivenciaram a tutela são regidas
This article analyzes the working
relationship established between the por uma legislação específica que
provincial government and indigenous respalda o Estado na condução
inhabitants in the Northeast, in the coercitiva desses trabalhadores ao
second half of the nineteenth century, serviço público. No caso dos
noting the presence of Indians in public trabalhadores indígenas tutelados, a
works as protected workers. For this, use lei não representava espaço onde as
as temporal marks the period of relações de trabalho poderiam ser
operation of the General Directorate of
negociadas a partir de uma
Indians in Alagoas Province (1845- 1872)
reivindicação organizada pelos
, established by Imperial Decree No. 426
12
trabalhadores em determinado evidenciando alguns problemas
momento, ou situação. Assim, é quanto à disponibilidade de mão de
possível a hipótese de que a obra local. O governo provincial
experiência dos indígenas com a encontrou dificuldades para mobilizar
exploração da sua força de trabalho, trabalhadores para o serviço público,
a partir do regime tutelar, tinha como sobretudo, obras que buscavam
principal via de confronto – talvez a ampliar e “modernizar” as vias de
única –apresentar-se na condição de transporte, promovendo melhorias na
não tutelado. Neste caso, destaca-se forma de escoamento da produção.
o desaldear como estratégia possível Assim, o caminho que conduzia os
para se livrarem dos recrutados indígenas ao aldeamento levava,
realizados pelo governo provincial. também, à pretensa – muitas vezes
As experiências dos indígenas eficaz – exploração da sua força de
com o trabalho compulsório estão trabalho.
situadas em uma sociedade Na província de Alagoas,
historicamente determinada. Em segunda metade do século XIX,
meados do Século XIX, com a praticamente metade da população
autonomia tributária das províncias indígena desfrutava da segurança
garantida pela manutenção dos dos aldeamentos, o que permite uma
“avanços” do Ato Adicional de 1834 – leitura inversa, destacando que
mesmo com a revisão conservadora metade da população indígena
na década de 1840 – diversos vivenciava a sua etnicidade fora dos
governos provinciais desenvolveram aldeamentos. Isto pode ser
uma política econômica voltada para observado nos resultados divulgados
exportação. No caso da Província de nos censos e mapas da população da
Alagoas, Tenório, ao analisar dados província, onde há o registro da
sobre as finanças, observou que a população indígena aldeada e
partir de 1845 o orçamento começou desaldeada. O Mapa (ANTUNES,
a apresentar saldo “um avanço 1973, p.17) realizado em 1849
auspicioso da arrecadação contabiliza esta população indígena –
proporcionou excelente média da aldeada e desaldeada – e apresenta
receita provincial durante todo um total de 6.603 habitantes em 20
segundo reinado” (TENÓRIO,1996, p. freguesias, dos quais 1.212 índios
84). O autor ressaltou que nesse estavam na freguesia de Porto Calvo
período “o açúcar, o algodão, as e Palmeira dos Índios. Já os dados
madeiras, carnes, cocos e outros produzidos pelo órgão responsável
produtos alagoanos eram enviados a por tratar diretamente com os grupos
vários portos do império inglês”, o indígenas – Direção Geral dos Índios
exigiu adequação da província para – revela um total de 8 aldeamentos,
atender as necessidades desse sendo 644 índios aldeados em Porto
desenvolvimento econômico. Calvo e Palmeira.
Essa adequação da província
ao momento econômico acabou

Extrato do mapa da população indígena da Província de Alagoas em 1849


População Indígena da Província das Alagoas em 1849
13
Comarcas Freguesias Índios
Homens Mulheres
Maceió 28 32
"Ipioca" 248 261
Porto de
Maceió Pedras 10 24
Camaragibe 61 66
Porto calvo 476 454
São Bento 260 257
Alagoas 203 229
Alagoas Norte 301 209
São Miguel 57 41
Anadia 35 44
Anadia Poxim 40 52
Palmeira 147 135
Atalaia 599 711
Atalaia Assembléia 168 129
Imperatriz 233 321
Penedo 31 27
Colégio 187 194
Porto da
Penedo Folha 63 41
Santa Ana 16 19
Mata Grande 46 39
Total por sexo 3.213 3.396
Total 6.603
Fonte: Do autor

A condição de índio aldeado atividades nos aldeamento. O


era entendida pelas autoridades trabalho dos indígenas empregados
locais como disponibilidade de mão em obras públicas caracteriza-se
de obra ao serviço público. Ser índio como tutelado, com o Governo
e desfrutar das terras dos Provincial compelindo os indígenas ao
aldeamentos correspondia a ser serviço público com o argumento da
transformado em mão de obra obrigatoriedade do “índio” em prestar
controlada pelo Estado e utilizada nas esse tipo de serviço, sob pena de
diversas obras públicas realizadas, prisão correcional, conforme previa o
sobretudo em Maceió, capital da Regimento das Missões. A Diretoria
província. As condições de trabalho Geral de Obras Públicas foi o órgão
nessas obras públicas, no entanto, responsável pela solicitação da mão
não eram atrativas – seja no que se de obra indígena à Diretoria Geral
refere à remuneração ou às relações dos Índios, que, em muitos casos,
de trabalho, além de que, no caso não conseguiu atender aos pedidos.
dos indígenas, o engajamento nessas
obras implicava o afastamento das

14
A Diretoria Geral de Obras alagoana e observaram que “na 2
Cf. Folhas: 16-36.
Públicas segunda metade do Século XIX, Assunto: Relatório das
Em meados da década de comerciantes de todos os pontos do Obras Gerais da Província de
Alagoas, obras como o
1850 a Província de Alagoas passou Estado vinham se estabelecer na Quartel do 8º Batalhão de
por um processo de intensificação Vila; houve uma febre de caçadores (folha 18) ;
Deposito das madeiras do
dos trabalhos nas obras públicas, construção”. Nesse momento, a estado, casa de morada e
sobretudo em sua capital Maceió2. economia estava montada a partir de Secretaria do Capitão do
Porto (folha 19); Estrada do
Essa busca por reformas que iniciativas particulares que absorvia Morro do Farol (folha 19);
permitissem aperfeiçoar o parte da mão de obra disponível na Necessidade da construção
de um porto para defesa do
escoamento da produção, além de província, em um contexto de
Porto da capital da Província
melhorias quanto à salubridade, possibilidades de vida para além do (folha 20); Matriz da Capital
encontrou algumas barreiras como, trabalho remunerado em uma (folha 20); Cemitério Público
(folha 21); Hospital da
por exemplo, braços dispostos a economia de mercado ou em obras Caridade (folha 22); Ponte
enfrentar as condições de trabalho públicas. do Poço (folha 22); Ponte da
Satuba (folha 22); Estrada
por jornal apresentadas pelo Governo Quanto à questão social, do Bebedouro (folha 23);
Provincial. Naquele momento, os diante da epidemia de cólera que Estradas e Pontes que não
tem recebido auxilio dos
trabalhadores pareciam estar mais envolvia diversas províncias do cofres gerais: Estrada de
inclinados a trabalhar para Império, Almeida (ALMEIDA, 1996)3 Jaraguá (folha 23); Ponte
particulares, havia a possibilidade de observou que na Província de sobre o Riacho Maceió (folha
24); Estrada do Norte entre
negociar a prestação de serviço Alagoas “a capital era considerada Maceió e Porto Calvo (folha
diretamente com o contratante, além como ponto de extremo risco por 24); Primeira Estrada do
Centro entre a capital e a
das vantagens inerentes a condição situar-se nas vizinhanças de Comarca da Imperatriz
de trabalhador agregado em alguma pântanos e mangues. Assim, foram (folha 25); Mata do Rolo
(folha 27); Oitero (a ferque)
fazenda. tomadas cautelas de asseio, (folha 27); Segunda Estrada
Apesar desse cenário de chegando-se à remoção do do Centro em Direção a
Atalaia, Assembleia,
escassez de mão de obra, havia a matadouro”. Conforme ilustração no
Quebrangulo e Palmeira
necessidade de reformas estruturais mapa a seguir, o Matadouro foi (folha 28); Serra dos Dois
em Maceió em virtude da localização instalado próximo ao Trapiche da Irmãos (folha 29); Terceira
Estrada do Centro em
estratégica para o escoamento da Barra, lugar o que exigiu direção á Cidade das
produção, via porto do Jaraguá, em melhoramentos na estrada de Alagoas, São Miguel, Anadia
e Palmeira (folha 31);
momento de prosperidade econômica acesso. Para que se tenha dimensão Estrada do Centro em
vivenciada pela província. De outra do problema o autor chamou a direção a Villa do Poxim,
Coruripe e Cidade de
forma, pode-se supor que a “invasão atenção para as péssimas condições Penedo (folha 31); Outras
do Cólera Morbus” (ALMEIDA, 1996), de higiene da Cidade de Maceió no Obras da Província. Cadeia
em 1855 e, talvez os preparativos ano de 1856. Tais condições devem desta Cidade (Maceió) (folha
32); Abertura do Rio São
para a visita do casal imperial e sua ter levado à consciência a Miguel (folha 33); Abertura
comitiva, entre 1859/ 1860 necessidade de realizar obras em do Rio Coruripe (folha 33);
Abertura do Canal da Ponta
(DUARTE, 2010), também tenham Maceió, mas lembrando que o Grossa (folha 34);
contribuído para ampliar o canteiro problema esteve presente em toda Matadouro Público (folha
34); Muralha do Palacete
de obras que a cidade se província motivando diversas obras (folha 35); Deposito de
transformou. em outras localidades. materiais das Obras Publicas
(folha 35). APA. Caixa 816.
Sobre o desenvolvimento Em janeiro de 1857 o
Documentos: Obras
econômico Tenório e Lessa, Presidente da Província Antônio Públicas. Ano: 1857-1859.
(TENÓRIO e LESSA, 2013, p. 35) Coelho Sá e Albuquerque iniciou as Quantidade: 01 Volume.

analisaram a importância do algodão obras do aterro e calçamento da rua 3


Possivelmente em virtude
e da cana de açúcar na economia comércio e nivelamento da rua do do surto de cólera que
assolou a província em 1856
15 e 1863.
Rosário. Estas obras faziam parte das que as obras então indispensáveis,
em vistas da necessidade da quadra,
medidas administrativas para atender exigiam rápido andamento. Hoje que
4
OFÍCIO enviado por
as melhorias da Cidade e foram já as obras urgentemente reclamadas Manoel do Nascimento
nesta cidade, estão em próximo Prado, Manoel da Costa
gerenciadas pelo Capitão Mor de estado de conclusão, e que iam, será Pereira Cotrim e Manoel
Engenheiro João Luís de Oliveira acertado volver a administração as José Teixeira de Oliveira
suas vistas com atenção para as vias enviado ao Presidente da
Lobo, Diretor de Obras Públicas de Província Antônio Coelho de
de comunicação da província,
Maceió, nomeado em dezembro de sobretudo para as duas estradas, que Sá e Albuquerque. Maceió,
vão ter a Comarca de Imperatriz6. 30 de janeiro de 1857. APA.
1856. Para sua execução foram
Caixa 816. Documentos:
nomeados Manoel do Nascimento Obras Públicas. Ano: 1857-
Prado, Manoel da Costa Pereira As Falas e Relatórios dos 1859. Quantidade: 01
Presidentes da Província, quando o Volume. Folha:12-13.
Cotrim e Manoel José Teixeira de
Oliveira4. Apesar de não ser possível tema são as obras públicas, não 5
OFÍCIO enviado por

identificar a função exercida por eles revelam a mão de obra utilizada, Manoel do Nascimento
Prado e Guilherme José da
– engenheiros, gerente de obra, abordando apenas a importância do Graça ao Secretario da
mestre de obra, contador – sabe-se serviço prestado à sociedade Presidência da Província
Jose Alexandrino Dias de
que foram empossados pela alagoana e listando os nomes dos Moura. Maceió 17 de
Presidência da Província e que se funcionários responsáveis pelas outubro de 1859. APA.
obras. No entanto, a mão de obra Caixa 816. Documentos:
reportavam à secretaria da Obras Públicas. Ano: 1857-
presidência por ofícios. Eles devem indígena, recrutada nos aldeamentos, 1859. Quantidade: 01
foi utilizada nessas obras, mas Volume. Folha:73-74.
ter passado alguns anos nesses
serviços, pois, em outubro de 1859, parecia não atender a demanda 6
FALLA dirigida á
Manoel do Nascimento Prado enviou imposta pela necessidade do Assembleia Legislativa da
Província das Alagoas na
um extrato com documentos desenvolvimento econômico abertura da sessão
comprovando as despesas e a folha provincial. Em fevereiro de 1857, ordinária do ano de 1856,
pelo excelentíssimo
dos trabalhadores da obra de diante das ordens da Presidência da
presidente da mesma
nivelamento das ruas de Maceió para Província para que fossem Província, Antônio Coelho
apresentados vinte e quatro índios à de Sá e Albuquerque.
liberação dos pagamentos. O extrato Recife, Typ. de Santos &
foi encaminhado à Tesouraria pela comissão encarregada pelo aterro e Companhia, 1856.

Presidência da Província no mesmo calçamento das ruas do Comércio e 7


OFÍCIO enviado pelo
mês, o que demostra o cumprimento Rosário, o Diretor de Obras Públicas Diretor das Obras Públicas
no pagamento dos trabalhadores e de Maceió explicou: Capitão Mor de Engenheiros
João Luiz de Araújo Oliveira
fornecedores de material, o que Lobo ao Presidente da
Tenho a declarar a Vossa Excelência Província Antônio Silva e
permite pensar naquelas obras como quanto aos índios, que apenas Albuquerque. Maceió 17de
prioridade para o Governo existem vinte e nove empregados nos Fevereiro de 1857. APA.
trabalhos gerais e provinciais, sendo
Provincial5. Como explicou o dezenove na ocupação para o aterro
Caixa 816. Documentos:
Obras Públicas. Ano: 1857-
Presidente da Província: que tem de cobrir a rua do Quartel e 1859. Quantidade: 01
dez na estrada para o matadouro, a Volume. Folhas: 57-58
creio cuido, que estes dois daqueles
Nos meus relatórios anteriores a concluir o seu engajamento e por
ocupei-me dos melhoramentos feitos falta de quem o substituía a exigência
nas duas estradas que conduzem de serviço estão ocupados, e quando
desta capital ao centro da província, se, que esta Diretoria dispõe de
ambas em direção a Comarca de dezessete, sendo dez em bom estado
Imperatriz. O ano passado foi mister, e empregados no Quartel, Cemitério e
em consequência da epidemia parar Matriz, e sete em mão.7
com essas obras. Nem havia pessoal
para elas, nem era prudente
empreender melhoramentos Na oportunidade o diretor
dispendiosos, sem conhecer-se a solicitou orientação da presidência
influência da epidemia nas rendas da
província, revelando ainda observar, quanto ao encaminhamento da
16
8
OFÍCIO enviado pelo Diretor
situação: deveria adiar o prazo de Naquele mês de agosto havia das Obras Públicas Capitão Mor
de Engenheiros João Luiz de
cumprimento das obras que estavam trinta indígenas trabalhando nas Araújo Oliveira Lobo à Vice
sendo realizadas para empregar os obras públicas da cidade de Maceió. Presidente da Província Ignácio
braços indígenas, disponíveis naquele O regime de trabalho expresso na José de Mendonça Uchoa.
Maceió 5 de Outubro de 1857.
momento, no aterro e calçamento documentação previa que o índio APA. Caixa 816. Documentos:
das ruas do Comércio e Rosário? A aldeado tinha a obrigação de dar Obras Públicas. Ano: 1857-
1859. Quantidade: 01 Volume.
situação revela a escassez na quarenta dias de serviço nessas Folha: 89.
disponibilidade de mão de obra para obras, depois estariam liberados para 9
OFÍCIO enviado pelo Diretor
os trabalhos em obras públicas, retornarem aos seus aldeamentos12. das Obras Públicas Capitão Mor
sendo os indígenas a opção, senão a Esse trabalho seria remunerado e, de Engenheiros João Luiz de
Araújo Oliveira Lobo à Vice
única, do Governo Provincial. Este conforme registros, os vencimentos
Presidente da Província Ignácio
exemplo é simbólico, pois se trata da giravam em torno de setecentos a José de Mendonça Uchoa.
principal rua do centro urbano e oitocentos réis, o jornal. Os indígenas Maceió 20 de Outubro de 1857.
APA. Caixa 816. Documentos:
comercial da Capital da Província. A passariam pelo menos dois meses Obras Públicas. Ano: 1857-
orientação recebida foi para que nas obras, o que corresponde a 1859. Quantidade: 01 Volume.
Folha: 79.
trabalhadores indígenas fossem quarenta dias úteis de trabalho. No
direcionados para as obras de entanto, passados os dias previstos 10
OFÍCIO enviado pelo Diretor
das Obras Públicas Capitão Mor
higienização da cidade, por ordem do para permanência, era prática de Engenheiros João Luiz de
Vice-Presidente da Província Ignácio comum entre os administradores das Araújo Oliveira Lobo à Vice
José de Mendonça Uchôa8. obras, também aprovada pela Presidente da Província Ignácio
José de Mendonça Uchoa.
De fato, seis meses depois o Presidência da Província, que esses Maceió 20 de Outubro de 1857.
diretor das obras informou a indígenas só poderiam retornar as APA. Caixa 816. Documentos:
Obras Públicas. Ano: 1857-
Presidência da Província que as obras suas casas quando fossem 1859. Quantidade: 01 Volume.
nas estradas do Matadouro e do substituídos por outros. Essa prática Folha: 57-58.
Jaraguá às Mangabeiras haviam sido foi à maneira encontrada pelo 11
Idem.
suspensas em virtude da falta de Governo Provincial para pressionar os
12
Destaca-se que o Regimento
trabalhadores9. A responsabilidade indígenas a tal empreitada, sem
das Missões não regulamenta o
pela falta de trabalhadores recaia na prejuízo às obras13. regime de trabalho. O Artigo
Diretoria Geral dos Índios, ou As obras públicas estavam 1º, parágrafo 35 do Regimento
das Missões, reza que compete
melhor, na dificuldade desta em praticamente paradas no final de ao Diretor Geral dos Índios
conduzir os indígenas, moradores dos 1857 por falta de trabalhadores prevê: “Aprovar e mandar pôr
em execução provisoriamente a
aldeamentos sob sua administração, quando o Capitão Mor Engenheiro tabela, organizada pelos
ao trabalho por jornal no serviço João Luís de Oliveira Lobo, Diretor de Diretores das Aldeias, dos
jornais que devem ganhar os
público. O diretor das obras, inclusive Obras Públicas de Maceió, solicitou ao índios que forem chamados
ironizou com o diretor dos índios Presidente da Província Ângelo para os serviços das mesmas,
quando explicou10 à Presidência da Thomas do Amaral para que ou qualquer outro serviço
público; levando-a ao
Província que suas “reiteradas interviesse junto a Diretoria dos conhecimento do Governo
solicitações não tem sido atendidas Índios. Esta não havia sido à primeira Imperial para a sua final
aprovação”. DECRETO do
talvez por desencontro ou extravio de solicitação do Engenheiro, pois o Governo Imperial nº 426 de 24
ofícios”. No entanto, o próprio diretor mesmo observou que a Vice- de julho de 1846.
das obras reconheceu11 que os presidência já havia encaminhado 13
OFÍCIO enviado pelo Diretor
trabalhadores da Cidade de Maceió despacho ordenando a remessa de das Obras Públicas Capitão Mor
de Engenheiros João Luiz de
não aceitavam o trabalho por jornal, índios para os trabalhos em obras
Araújo Oliveira Lobo à Vice
nem pela quantia de oitocentos reis, públicas. Diante da dificuldade de se Presidente da Província Ignácio
paga pelo serviço. encontrar trabalhadores jornaleiros, José de Mendonça Uchoa.
Maceió, 17 de Agosto de 1857.
em Maceió, a mão de obra indígena APA. Caixa 816. Documentos:
Obras Públicas. Ano: 1857-
17 1859. Quantidade: 01 Volume.
Folha: 84.
parecia ser a principal alternativa ordem não pode ser satisfeito sem
14
OFÍCIO enviado pelo
para as obras públicas. O engenheiro encontrar algum adiantamento de Diretor das Obras Públicas
reconheceu que havia vantagens na trabalhadores16. O problema Capitão de Engenheiro João
utilização dos indígenas como, por apresentado pelo Engenheiro era que Luís de A. Lobo, Diretor de
Obras Públicas de Maceió
exemplo, a constante substituição, os indígenas preferiam trabalhar em solicitou ao Presidente da
sugerindo que o Diretor dos Índios obras particulares, observando que Província de Alagoas Ângelo
Thomas do Amaral. Maceió
poderia fazer remessas de 50 a 60 “estes trabalhadores não são os 12 de dezembro de 1857.
indígenas a cada dois meses14, desembaraçados para o serviço, são APA. Caixa 816.
Documentos: Obras Públicas.
números que permitem pensar na sujeitos de melhor e são uns mais Ano: 1857-1859.
expectativa do governo em relação a ambiciosos que os outros, ordinários Quantidade: 01 Volume.
Folha: 14-15.
esses braços, o que contrastava com de raça mista, indolentes e que só
a remessa do mês anterior, 15 índios procuram o que fazer quando tem 15
OFÍCIO enviado pelo
do aldeamento de Jacuípe15. falta de dinheiro”17. No entendimento Diretor das Obras Públicas
Capitão de Engenheiros dos
Algumas obras urgentes para do engenheiro, os indígenas, por João Lins de Oliveira Lobo ao
a economia provincial estavam serem tutelados pelo Estado, Vice Presidente da Província
de Alagoas Ignácio José de
paralisadas por falta de estariam na obrigação de atender ao Mendonça. Maceió 23 de
trabalhadores. Segundo o engenheiro Governo Provincial às necessidades Novembro de 1857. APA.
Caixa 816. Documentos:
“temos a estrada do Riacho que do serviço público, se submetendo a Obras Públicas. Ano: 1857-
podia ter sido concluída[...] faz-me condições de trabalho que outros 1859. Quantidade: 01
necessário suspender os seus trabalhadores livres não estavam Volume. Folha: 39-40.

trabalhos, incluindo de mato; e o dispostos, como foi o caso da 16


OFÍCIO enviado pelo
aterro da estrada do abertura do Canal da Levada Diretor das Obras Públicas
Capitão de Engenheiros João
Matadouro[...]porque serviço desta Lins de Oliveira Lobo ao Vice
. Presidente da Província de
Alagoas Ignácio José de
Mendonça. Maceió 23 de
Novembro de 1857. APA.
Caixa 816. Documentos:
Obras Públicas. Assunto:
Apresentação dos Índios
enviados do Aldeamento de
Jacuípe, para as obras do
aterro do Matadouro. Ano:
1857-1859. Quantidade: 01
Volume. Folha: 39-40.
17
OFÍCIO enviado pelo
Diretor das Obras Públicas
Capitão de Engenheiros João
Luís de Oliveira Lobo, Diretor
de Obras Públicas de Maceió
solicitou ao Presidente da
província Ângelo Thomas do
Amaral. Maceió 12 de
dezembro de 1857. APA.
Caixa 816. Documentos:
Obras Públicas. Assunto:
Pedido de mão de obra
indígena ao Diretor Geral dos
Índios. Ano: 1857-1859.
Quantidade: 01 Volume.
Folha: 14-15.

18
A abertura do Canal da Levada 18
COSTA, Craveiro.
Maceió. Op. Cit. p. 17.
Ao findar o regime colonial, a povoação de Maceió já era um grande centro
comercial de alguma importância, servindo de empório a uma vasta zona
agrícola, que se desenvolvia pelo vale Mundaú e do Paraíba, cortada por dois
grandes caminhos abertos ao acaso da penetração sertaneja, com diversos
centros açucareiros marginais18.

19
Segundo Almeida (ALMEIDA, destinou orçamento à obra do
2011, p. 32), Maceió teria “duas “prosseguimento da levada”, desta
19
grandes bocas de entrada”, uma em vez utilizando mão de obra indígena. DIAS CABRAL, João
Francisco. A utilidade da
Bebedouro e outra na Estrada do Ressalta-se que neste período ainda geografia. RIHGAL. v. I, Nº 9.
Norte que seguia em direção à não existia oficialmente Diretoria Dezembro de 1876. 240-
247. p. 245.
Mangabeira. Uma terceira via foi o Geral dos Índios, no entanto, tem-se
Canal da Levada por estar situado um registro da Presidência da 20
OFÍCIO enviado pelo
em lugar estratégico, sendo uma Província solicitando20 ao Diretor dos Diretor dos Índios da Vila da
Palmeira Manoel Pereira
opção para a entrada e saída de Índios da vila da Palmeira, Manoel Camelo ao Presidente da
mercadorias produzidas nos vales. Pereira Camelo, que encaminhasse Província de Alagoas
Agostinho da Silva Neves,
De outra forma, também cumpriria a de 20 a 25 índios para o serviço da datado de 29 de dezembro de
função de interligar o porto do obra do canal da Ponta Grossa. 1839. APA. Diretor dos
Índios, M: 37, E:11, 1820-
Jaraguá à capital Alagoas, situada às Na oportunidade, o diretor 1864. In: ANTUNES, Clóvis.
margens da lagoa Manguaba. informou: “tenho dado as primeiras Documentário. Op. Cit.
Segundo Dias Cabral (DIAS ordens, para reunirem-se os mesmos 21
LISTA dos índios que
CABRAL, 1878, p 245) a “gênese do índios e à frente deles fazer ler e marcharam para a obra do
Canal da Levada foi a abertura do propor o objeto que trata o mesmo canal da Ponta Grossa.
OFÍCIO enviado pelo Diretor
canal do Trapiche da Barra da Ponta ofício e comunicarei brevemente à V. dos Índios da Vila da
Grossa”, um projeto de 1828 que não Exc. o resultado”. Consultar os Palmeira Manoel Pereira
Camelo ao Presidente da
foi concluído por falta de recursos. O indígenas sobre a solicitação do Província de Alagoas João
autor explicou que “sendo o Trapiche Governo Provincial para o trabalho Lins Vieira Cansanção de
Sinimbu, datado de 10 de
da Barra o ponto central das em obras públicas não ser prática janeiro de 1840. Arquivo
comunicações de Maceió com os comum, de acordo com a Público de Alagoas, Diretor
povoados às margens das lagoas, foi documentação consultada. No mês dos Índios, M: 37, E:11,
1820-1864. In: ANTUNES,
àquele local escolhido para o trajeto seguinte, em acordo com os Clóvis. Documentário. Op.
do canal que aproximasse relações”. indígenas aldeados, foram listados 16 Cit.

Nesse primeiro momento o Governo indígenas liderados pelo índio e


provincial não investiu qualquer Capitão mor José Manoel21, em
recurso e a obra resultou de uma janeiro de 1840, para atender á
iniciativa particular que beneficiaria, solicitação.
principalmente, os comerciantes Em junho de 1840, o
locais. Presidente da Província Anselmo
Em 1835, surgiram Francisco Perreti declarou que os
divergências em relação ao trajeto trabalhos de abertura do Canal da
que o canal deveria percorrer. Por Levada já estariam concluídos, mas
isso, a Assembleia Legislativa criou “em 1846 ainda não se achava
uma Comissão para discutir o terminada a obra, vigorando o desejo
assunto que no ano seguinte definiu de prolongar a abertura até a Boca
que o percurso seria “da Ponta de Maceió, onde se construiria o cais
Grossa à Boca de Maceió”. O Governo de desembarque” (LEITE E OITICICA,
provincial passou a investir na obra e 1916). Portanto, passados quase
os trabalhos de escavações chegaram duas décadas da criação do projeto
a ser iniciados, mas em razão de original, a obra ainda precisava de
contestações e falta de recursos logo mais investimentos e trabalhadores.
pararam19. Uma década depois, em Os problemas com a obra de
1839, a Presidência da Província abertura do Canal da Levada
20
passaram por diversos gestores que vir com trezentos a quatrocentos
reconheciam a necessidade e índios abrir a levada, o que fizeram,
22
FALLA dirigida à
importância da sua realização, mas não sabendo quem era o Presidente Assembleia Provincial pelo
não conseguiam concluí-la. No caso, da província que ordenou o Presidente da Província José
o Presidente da Província José Bento serviço”(LEITE E OITICICA, 1916). Bento da Cunha Figueiredo.
Maceió, 5 de maio de 1853.
da Cunha Figueiredo, observou que Diante dos números apresentados, In: LEITE e OITICICA,
era a principal via de comunicação constata-se que a mão de obra Francisco de Paula.
Memorial Biográfico do
entre as lagoas do Sul – Mundaú – e indígena foi fundamental na abertura Comendador José Rodrigues
a do Norte – Manguaba –, do Canal da Levada e, considerando Leite Pitanga. Quarto
período (1850- 1875).
destacando22 que por elas passavam as versões citadas, esses RIHGAL. v. VIII, Nº 1.
“todos os gêneros que abastecem a trabalhadores estariam a serviço do Janeiro de 1916. 7- 47.
capital e também todos os materiais diretor dos índios que, nesse caso era 23
FALLA dirigida à
de edificação e mesmo não pequeno partidário do Presidente da Província Assembleia Legislativa da
número de sacas de algodão e sacos que o nomeou. Província das Alagoas na
abertura da Segunda
de açúcar que vem dos engenhos O fato foi que todo esforço Sessão Ordinária do 8ª
situados à margem das mencionadas para a abertura do canal não obteve legislatura pelo Exm.
Presidente da mesma
lagoas”. Na oportunidade, o o resultado esperado. Dias Cabral, Província, o Conselheiro Dr.
presidente considerou a possibilidade descreveu o canal em 1852: José Bento da Cunha
Figueiredo, em 25 de abril
de se abrir outro canal partindo da de 1851. Maceió:
Ponta Grossa – distante um Todas essas esperanças frustrou-as a Typographia de J. S. da S.
natureza do leito do canal e em 1852, Maia, 1851. In: ALMEIDA,
quilômetro ao poente do Canal da já obstruída a levada, declarou o Luiz Sávio de. Os índios nas
Levada – em virtude das condições engenheiro Marcolino que sem o fallas e relatórios
auxilia de barcas de escavação era provinciais das alagoas. Op.
intransitáveis em que se encontrava impossível à remoção dos obstáculos. Cit.
o da levada, em 1850. De dia em dia fugiram as águas, a
Para o Presidente da Província vala se reduziu à lama, o canal ficou 24
PARECER enviado pelo
rego e hoje pede a higiene sejam Engenheiro Conrado Jacob
era de interesse público e de relativa entulhados os atoleiros para que sobre Niemayer ao Presidente da
urgência desembaraçar o canal antes o solo fixo se assentem os trabalhos Província Manoel Pinto de
que liguem a margem da lagoa à Souza Dantas, Rio de
da chegada do inverno. Para isso, em praça do mercado (DIAS CABRAL, janeiro, 2 de novembro de
1851, mandou chamar 1876, p. 246). 1859. APA. Engenheiros, M.
aproximadamente 70 indígenas do 105, E. 11, (1839- 1860).
A considerar o tempo em que In: ANTUNES, Clóvis.
aldeamento da Atalaia para a Documentário. Op. Cit.
empreitada que ficaram sob a o canal esteve necessitando de
administração de Tavares de Macedo reparos, qualquer intervenção já
que, segundo a própria presidência, seria um avanço. Em 1859 o
estava conduzindo a obra de forma Engenheiro Conrad Jacob Niemayer
de satisfatória23. Informações que enviou parecer à Presidência da
devem ser confrontadas com as Província informando a necessidade
apresentadas por Leite e Oiticica de serem realizadas melhorias no
quando registrou o testemunho de Canal da Levada, também chamado
João Ignácio de Moreira, Capitão dos de Ponta Grossa. Para isso, o
Índios nomeado pelo Diretor Geral governo provincial deveria proceder a
dos Índios. Segundo o Capitão “no escavações e desobstruções, além de
tempo de um Pitanga, que era alteração em seu curso,
Diretor Geral dos Índios, ele era prolongando-o até o mercado de
Capitão dos Índios e pessoa de Maceió, o que facilitaria o embarque
confiança do diretor e foi mandado e desembarque de mercadorias24. A

21
manutenção e reformas deste canal tudo indica, os trabalhadores
25
OFÍCIO do Presidente da
envolveram indígenas de diversos indígenas sob o comando do Major Província das Alagoas
aldeamentos em períodos diferentes. retornaram para seu aldeamento com Rodrigo de Souza da Silva
Por se tratar da principal via de recursos próprios, ou seja, em Pontes enviado ao Diretor
dos aldeamentos de Atalaia
abastecimento da capital da condições precárias que não e Santo Amaro. Casa do
província, pode ilustrar a importância estimulavam outros indígenas a Governo das Alagoas.
Maceió, 5 de Novembro de
da força de trabalho indígena para a seguirem pelo caminho de levava às 1836. APA. Diversas
economia local, sendo o canal da obras públicas da cidade de Maceió. autoridades provinciais.
Correspondência ativa. Maço
Ponta Grossa emblemático para a 149, Estante 20. 1836-
utilização de mão de obra indígena. O trabalho por obrigação: 1837. In: ANTUNES, Clóvis.
Documentário. Op. Cit.
A presidência da província, já recrutamento e conflito
na Década de 1830, orientou as A obrigatoriedade de 26
CARTA enviada pelo Major
condições de trabalho dos indígenas indígenas trabalharem em obras Comandante dos índios do
aldeamento do Cocal Antônio
no Canal da Levada: públicas foi utilizada como José de Souza Salazar à
justificativa para os constantes Presidência da provincial.
APA. Secção de Documentos.
Dê as providencias para que sejam recrutamentos realizados por Diretorias Parciais dos
ocupados nisso continuadamente
cincoenta índios. Eles vencerão a diversas autoridades locais nos Índios. M.39. E.11. 1820-
872. In: ANTUNES, Clóvis.
quatrocentos e oitenta réis diários, aldeamentos. Diante dos Documentário. Op. Cit.
descontando-se deste valor o preço
de uma libra de carne seca, e de um
recrutamentos arbitrários, a opção
décimo de farinha, ou de libra e meia dos indígenas pelo trabalho para
de carne fresca, e de um décimo de particulares ou mesmo a busca por
farinha, que se lhes dará, quando V.
Mce, e o referido julguem mais outras formas de vida fora dos
acertado sustentá-los a custa da aldeamentos refletiu no quantitativo
subscrição. Também se distribuirá no
fim do dia, uma garrafa de da população aldeada acarretando a
aguardente por cada dez homens. Os redução da população, sobretudo no
primeiros índios, que vierem, serão
logo aplicados a levantar uma palhoça
número de homens. De fato, já não
para seu abrigo, e dos que lhe havia braços indígenas suficientes
sucederem, pois que de mês em mês
para desenvolver uma economia de
devem ser mudados, recebendo nessa
ocasião o salário vencido. Não serão, aldeamento, pois muitos
porém mudados os primeiros sem que abandonavam os aldeamentos
cheguem os segundos, e assim por
diante, conservando-se sempre o quando recebiam a notícia de que os
mesmo número.25 recrutamentos seriam realizados.
As solicitações de mão de obra
Em janeiro de 1860 o Major indígena pela Presidência da
Comandante do Aldeamento do Cocal Província encontravam nos diretores
Antônio José de Souza Salazar dos índios apenas desculpas por não
solicitou26 à Presidência da Província poderem atender aos pedidos,
que autorizasse a dispensa dos seus enquanto que, por outro lado,
subordinados para que pudessem autoridades policiais prendiam os
retornar as suas aldeias. Eles já poucos indígenas aldeados e os
teriam cumprido o tempo que eram remetiam para as obras públicas sob
obrigados nas obras da cidade, mas a justificativa de estarem cumprindo
estavam sem alimentos para ordens do governo provincial. Dessa
seguirem viagem, o que acabava forma, os indígenas estavam sujeitos
segurando os indígenas em Maceió, ao recrutamento que ocorria tanto
nas obras, por mais tempo. Ao que dentro do que se pode identificar
22
como legalidade quanto ilegalidade. essa lista com os nomes dos índios
Esses recrutamentos eram realizados dispensados do recrutamento para 27
OFÍCIO enviado pelo
tanto através do órgão responsável consideração do Delegado de Polícia. Diretor Geral dos Índios
José Rodrigues Leite
pela administração dos aldeamentos, O diretor dos índios não Pitanga ao Vice-Presidente
quanto por funcionários cuja função apresentou os critérios que ele da Província de Alagoas
Roberto Calheiros de
não previa tal atividade. No entanto, utilizou para isentar esses indígenas
Mello. Maceió, 1 de
não se tem registro de qualquer do recrutamento, mas o envio da outubro de 1856. APA.
punição às autoridades que lista pode ser entendido como uma Documentos avulsos.

realizaram os recrutamentos ilegais, das medidas que visavam controlar 28


De acordo com
o que corrobora a ideia de que o as ações de recrutamento, por ser Espíndola: “Antônio Coelho
de Sá e Albuquerque
campo de ação indigenista não esta parte do exercício da sua entrou em exercício aos 14
estava acomodado à legislação função. Os critérios para a seleção de outubro de 1854 e
passou-o aos 13 de abril
indigenista, sendo na prática, dos indígenas que iriam trabalhar nas aos 13 de abril de 1857,
conduzido pelos interesses do poder obras públicas aparecem nos governando apenas 1
anos, 7 meses e 6 dias;
política e econômico local. registros dos diretores parciais dos
sendo substituído de 1855
Pitanga27, em 1 de outubro de índios, inclusive estes ressaltavam a 1856 duas vezes pelo 1º
1856, observou a existência de que esses critérios eram previstos Vice- Presidente Dr.
Roberto Calheiros de
conflitos jurídicos entre os Oficiais pela legislação. Foi possível Mello, que nestas
dos Índios e autoridades policiais identificar tratamento quando ao substituições esteve 10
meses e 24 dias, e pelo 2º
locais que promoviam recrutamento alistamento entre indígenas casados Vice-Presidente Dr. Ignácio
forçado sob ameaça de prisão dos e os solteiros, com ou sem filhos. José de Mendonça Uchoa
em 1857 durante 7 meses
aldeados. O diretor advertiu as Em 1854, diversos indígenas e 27 dias”. ESPÍNDOLA,
partes envolvidas esclarecendo aos do aldeamento do Cocal desertaram Thomaz. A geografia
“meus índios e aos senhores das obras públicas sob a justificativa alagoana ou descrição
física, política e histórica
delegados, quanto a forma como a de serem casados. O diretor da Província das Alagoas.
qual deveriam proceder o observou29 que "os lotes de índios Maceió: Cata-vento, 2001.

recrutamento tanto para fazerem que último desertaram, do Cocal, 29


OFÍCIO enviado pelo
diligências quanto para serviços ainda não tinham chegado à Aldeia Diretor Geral dos Índios
José Rodrigues Leite
públicos (como o batimento de até a saída do Capitão. Já dei ordem Pitanga ao Presidente da
estradas).” Nesse caso, os Delegados para recrutar os solteiros e remeter Província de Alagoas José
Bento da Cunha
de Polícia deveriam solicitar os casados presos tanto para darem
Figueiredo. Engenho
oficialmente ao Capitão dos Índios – conta dos cavalos, como serem Riachão, 2 de abril de
ou qualquer outro oficial que o congregados ao trabalho”. 1854. APA. Documentos
avulsos.
representasse – que estes estavam Acrescentou ainda que os índios
30
orientados a atender à solicitação, casados que desertaram deveriam OFÍCIO enviado pelo
Diretor Geral dos Índios
pois conheciam os indígenas cumprir o mesmo prazo dos solteiros José Rodrigues Leite
aldeados e a disponibilidade destes nas obras, que era de 40 dias úteis. Pitanga ao Presidente da
Província de Alagoas
para o tal serviço. Na oportunidade, o Foi o caso apresentado por
Antônio Coelho de Sá e
diretor enviou uma relação de nomes Pitanga30 quando denunciou à Albuquerque. Engenho
relativa aos índios do aldeamento da Presidência da Província a prática de Riachão, 14 de março de
1855. APA. Documentos
Sapucaia cujos nomes não deveriam recrutamento ilegal. O diretor avulsos.
ser recrutados pelo Chefe de Polícia, explicou que foi “informado do
subdelegados e inspetores. O Vice- Capitão de Índios Antônio José
Presidente da Província Roberto Ramos, que o índio Felles Chrispim é
Calheiros de Mello28 – ainda gestão casado, posto a mulher o deixasse,
de Sá e Albuquerque – encaminhou tem em sua companhia dois filhos
23
para quem trabalha; o Sr. da posição em que se estivessem, 31
OFÍCIO enviado pelo
Subdelegado nem isso atendia para prendia-se ou soltava-se os indígenas Diretor Geral dos Índios José
recrutar a um índio isento pela Lei do recrutados para o trabalho nas obras Rodrigues Leite Pitanga ao
Presidente da Província de
Recrutamento”. O diretor destacou públicas. Em esclarecimento prestado Alagoas Antônio Coelho de
que fora informado pelo Capitão dos pelo então Capitão de Engenheiros Sá e Albuquerque. Engenho
Índios, uma autoridade que estava João Luiz de Araújo Oliveira Lobo,32 a Riachão, 5 de março de
1855. APA. Documentos
cumprindo o exercício da sua função Presidência da Província registrou avulsos.
e que conhecia os aldeados. Tal que nove índios acompanhados por 32
OFÍCIO enviado pelo
autoridade estava habilitada para seu capitão haviam se apresentado Capitão de Engenheiros João
comprovar a situação de Felles que, para os trabalhos das obras públicas Luiz de Araújo Oliveira Lobo,
Diretor de Obras Públicas de
apesar de não se encontrar mais na de Fernão Velho. O capitão dos Maceió, ao Vice-Presidente
companhia da sua esposa, ainda Índios informou-lhe que, na viagem, da Província de Alagoas
Inácio José de Mendonça
assim caracterizava-se como casado o Inspetor de Polícia Bernardo Aragão
Uchoa. Diretoria de Obras
pela responsabilidade assumida com libertou o índio José Leocádio, que Públicas de Maceió, 1 de
a criação dos seus filhos. estava sendo levado preso por ter outubro de 1857. APA. Caixa
816. Documentos: Obras
O caso do índio Felles desertado das obras. O caso ficou Públicas. Ano: 1857-1859.
Chrispim é simbólico para o mais claro quando o próprio Diretor 22
OFÍCIO enviado pelo
entendimento da disputa pelo Geral dos Índios informou à Diretor Geral dos Índios José
controle da mão de obra indígena. Presidência da Província: Rodrigues Leite Pitanga ao
Vice-Presidente da Província
Ele e outros três indígenas – João de Alagoas Ignácio José de
Nunes, José Raimundo e João Queixo-me a V. Ex.a contra o Inspetor Mendonça Uchoa. Engenho
do aldeamento dos índios da Riachão, 16 de outubro de
Alexandre – haviam sido presos Sapucaia; e peço justiça por haver ele 1857. APA. Documentos
dentro do aldeamento pelo então tido o arrojo de soltar o índio José avulsos.
Leocádio da Cadeia da Vila da Atalaia,
Subdelegado Morissé. O Diretor dos preso a minha ordem e com a
Índios saiu em defesa dos seus circunstância de ser o índio desertor,
argumentando junto a Presidência da já este ano do serviço das obras
públicas, suponho que desertou no
Província que eram “todos bem mês de junho próximo passado, o Sr.
procedidos, trabalhadores e Diretor das obras melhor informará a
V. Ex.a. Seja V. Ex.a meu protetor a
obedientes aos seus Capitães”. Na este respeito, para que a minha força
ocasião pediu que fossem postos em moral não caduque na aldeia da
Atalaia, a ponto de um Inspetor ter a
liberdade para que retornassem para audácia de afrontar a Lei soltando um
o seu aldeamento, sem antes índio preso a minha ordem; e por seu
superior. O Inspetor Bernardo Aragão
ressaltar: “o Sr. Subdelegado cumpra
deve ser processado, ou quem o
com a sua missão com outra gente, induziu, ou deu-lhe força para isso,
não faça cortesia com chapéu tanto para saber respeitar as
autoridades legítimas e legais, como
alheio”31. Diante dos diversos mesmo para não por em execução as
conflitos de jurisdição, destaca-se ameaças que faz de prender aos meus
súditos sem que sejam criminosos,
que os próprios indígenas justamente o caso em que ele os
possivelmente cientes da legislação, pode prender e entregá-los a justiça,
ao contrário é conflitos de jurisdição
apresentavam-se como casados a fim que não convém entre as atribuições
de escapar dos recrutamentos ou de cada Corpo, ou empregados
mesmo reduzir o tempo de públicos.33

permanência nas obras da cidade.


O diretor pediu uma punição
Os conflitos entre as
exemplar para o Inspetor para que
autoridades acabavam gerando
outras autoridades policiais
situações inusitadas, pois a depender
24
respeitassem as jurisdições definidas utilizando tropas armadas para
para seus cargos. No caso de conseguir prendê-los antes que 34
OFÍCIO enviado pelo
qualquer assunto referente aos pudessem desaldear. Não foi possível Diretor Parcial dos Índios
do aldeamento de Santo
indígenas, os oficiais e comandantes identificar a composição dessa tropa, Amaro Antônio Fernandes
dos índios, bem como o diretor do sabe-se que nas diligências seus de Souza Costa ao
Presidente da Província de
aldeamento e o diretor geral membros andavam armados, mas Alagoas Ignácio José de
deveriam ser consultados. Estas sem autorização. Esta infração Mendonça Uchoa. Santo
Amaro, 4 de novembro de
seriam as autoridades locais revelou a existência de conflito entre
1857. APA. Documentos
incumbidas por lei para realização o diretor parcial e o inspetor de avulsos.
dos recrutamentos nos aldeamentos. polícia, quando o Ajudante dos Índios 35
OFÍCIO enviado pelo
No entanto, os indígenas não ficavam relatou que durante uma diligência se Ajudante dos Índios da
passivos esperando a definição de apresentou um “Inspetor por ordem aldeia de Atalaia ao
Diretor Geral dos Índios
qual autoridade do governo provincial do Sr. Delegado de Polícia para José Rodrigues Leite
teria permissão para realizar os tomar todas as Armas da nossa tropa Pitanga. Rua da Boca da
Mata, 30 de agosto de
recrutamentos. Eles elaboravam e tomou uma faca e fez parar toda a 1858. APA. Documentos
estratégias, como o desaldear, para tropa. Eu e o Sr. Diretor Fernandes avulsos.
lidarem com essas autoridades locais, na paz e tranquilidade fizemos com 36
OFÍCIO enviado pelo
inclusive com aquelas que atuavam que o Inspetor entregasse a faca”. O Capitão Mor de
diretamente nos aldeamentos e ajudante e o diretor não reconheciam Engenheiro João Luís de
Oliveira Lobo, Diretor de
estavam presentes no cotidiano dos a legitimidade do cargo de inspetor e Obras Públicas de Maceió,
índios. pediu apoio da Diretoria Geral para ao Presidente da Província
de Alagoas Ângelo
Diante dessa estratégia que pudessem continuar os Thomas do Amaral.
indígena, o diretor recomendou á recrutamentos noturnos. Desta Maceió 5 de maio de
1858. APA. Caixa 816.
Presidência da Província que, quando forma, graças à estratégia de
Documentos: Obras
ele conseguisse recrutar alguns para desaldeamento ou usando os Públicas. Ano: 1857-1859.
o serviço, “Vossa Excelência aqueles conflitos entre autoridades, a Quantidade: 01 Volume.
Folha: 92.
que forem para este fim que Vossa presença da mão de obra indígena
Excelência não solte por pedido de em obras públicas sofreu redução, no
pessoa alguma”, pois os índios que o final da Década de 1850.35
diretor listava para o serviço público As obras tinham prioridade
eram “bastante desobedientes e para o Governo Provincial. Nos
difamadores das leis públicas”34. diversos extratos dos gastos nas
Neste caso, o diretor apresentou obras públicas36 apresentados pelos
critérios de inclusão dos indígenas na responsáveis por gerenciá-las, as
lista dos recrutáveis. O recrutamento listas de despesas apresentadas à
passou a ser utilizado como punição Presidência da Província eram
para aqueles considerados aprovadas de imediato, constando o
“desobedientes” e esta acusação se despacho “pagar em” e “à
aplicava, inclusive aos indígenas que Tesouraria” com a mesma data do
trabalhavam fora dos aldeamentos e envio. De fato, houve aumento das
escapavam ao controle dos diretores despesas municipais aprovadas pela
e oficiais dos índios, saindo do campo Assembleia Legislativa naquele
de ação indigenista. período. Eram despesas com
Para manter os indígenas sob vencimento dos trabalhadores,
o seu controle o diretor parcial diárias pagas ao empregado
organizava recrutamentos noturnos encarregado das compras dos
25
materiais para as obras, aluguel de de vida. Caso fosse a consciência 37
Este termo já foi
casa que servia de quartel aos índios, étnica, a causa seria uma opção discutido para outros
compra de materiais, dentre outros. coletiva e que, possivelmente, períodos, no entanto, para
este texto será pensado
Mas dependiam da mão de obra ocorreria ao mesmo tempo. Observa- apenas como referência na
indígena e esta cada vez mais se que até o momento não se documentação.
escapava ao controle do governo identificou qualquer ação coletiva – 38
PARAÍSO, Maria Hilda
provincial. desaldeamento – dessa proporção Baqueiro. Nota de
Entre o desaldear e o desertar: sair para a região Nordeste. Orientação. Salvador,
2012.
dos aldeamentos ou fugir das obras Neste estudo, o desaldear é
públicas entendido como uma estratégia
O termo índios desaldeados37 indígena frente aos constantes
aparece na documentação oficial para recrutamentos liderados por diversas
se referir aos indígenas que autoridades nos aldeamentos, vistos
deixavam seus aldeamentos, por como local de reserva de força de
diversas razões, sendo uma delas a trabalho. O desaldear era prática
busca por trabalho assalariado. Essa comum caracterizada como uma ação
ação provocou alguns protestos por ao mesmo tempo anônima, e,
parte daqueles que se beneficiavam sobretudo, masculina. Portanto, são
da exploração da força de trabalho homens em idade produtiva,
indígena. Naquele momento, o termo pertencentes a um determinado
foi utilizado enquanto ferramenta grupo étnico, que apresentam uma
política que pretendia descaracterizar possibilidade de pertença étnica –
a população indígena, pois estava em continuavam sendo reconhecidos
andamento o processo de extinção como indígenas, inclusive pelo Estado
dos aldeamentos que, em Alagoas, – distante do pretenso controle
ocorreu em 1872 sob o argumento de externo que havia dentro dos
que os índios se encontravam aldeamentos.
misturados aos nacionais. O anonimato do desaldear põe
O desaldeamento não se um o véu que encobre
caracteriza como ação coletiva individualidades, personagens que
provocada por uma consciência poderiam surgir/ilustrar o processo
étnica, ou seja, uma ação articulada de infiltração dos indígenas em uma
entre os indígenas aldeados que economia de mercado. Decerto, essa
expressasse a vontade do grupo estratégia pode ter contribuído para
diante das condições de vida dentro a construção e alimentação do
dos aldeamentos. Conforme argumento utilizado pela Presidência
Paraíso38, nessa situação, pesava da Província de que os indígenas
bem mais a situação estavam misturados aos nacionais,
socioeconômicos a que esses grupos mas existem outros desdobramentos
estavam submetidos do que a uma dessa ação que merecem ser
consciência étnica. É o observados, para que se
compartilhamento dessa condição de compreendam as transformações no
exploração de trabalho que levava as modo de vida indígena ao longo do
pessoas, inclusive como indivíduos, a Século XIX.
optarem pela saída dos aldeamentos Possivelmente, os indígenas,
e pela busca de melhores condições ao se desaldearem entravam na
26
lógica de modernização das relações negreiro. Os trabalhadores indígenas 39
O recrutamento forçado de
de trabalho da segunda metade do eram disputados entre as autoridades indígenas para compor a
Século XIX, mas não se pode dizer locais que buscavam satisfazer a sua Guarda Nacional não será
abordado neste estudo.
que a sua absorção ao quadro de necessidade de braços para o
trabalhadores rurais seja correlata a funcionamento de engenhos e 40
OFÍCIO enviado por José
sua incorporação à sociedade fazendas. O argumento utilizado pelo Rodrigues Leite Pitanga
Diretor Geral dos Índios ao
envolvente. É inegável que isto tenha Diretor Geral dos Índios para Presidente da Província de
acontecido com grande parte da combater o recrutamento ilegal nos Alagoas João Marcelino de
Souza Gonzaga. Engenho
população indígena, no entanto, não aldeamentos para compor a Guarda Riachão, 25 de dezembro de
caracteriza regra. Este processo é Nacional39 revelou o quanto esses 1863. APA. Documentos
avulsos.
gradual e irregular e reflete as ações trabalhadores indígenas eram
dos indígenas frente à modernização, importantes para os proprietários de
destacando suas motivações engenhos e outros produtores rurais,
baseadas, sobretudo, nas condições também permite observar o quão
econômicas e étnicas, ou seja, na comum era o trabalho fora dos
tensão. aldeamentos:
Esta absorção permite pensar
em como esses indígenas entravam Não obstante as ordens dos
antecessores de V. Exc.a, continuam
nessa lógica. São experiências os Delegados, e Subdelegados na
pontuais que permitem a hipótese de tenaz perseguição aos inermes índios,
sem consciência de serem eles o
que foi possível manter práticas único arrimo de braços que tem a
indígenas em meio ao quadro agricultura nesta província para acudir
genérico de trabalhador rural. Desta a roteação (sic) da terra, e muito
principalmente os proprietários dos
forma, a presença indígena no Engenhos nos Municípios de Porto do
território alagoano durante todo Calvo, Santa Luzia do Norte, e
Atalaia, onde mais abundam das
Século XIX passa por momentos sobreditas propriedades; pois nas
aparentemente desfocados, pois não Aldeias de Santo Amaro, Atalaia,
Urucu, Cocal e Jacuípe vão os
se pode acompanhar os indígenas senhores de engenho chamar os
nos caminhos que levaram as mais índios para acudirem os [ilegível] e
cultivação (sic) que a cana precisa, e
variadas formas de trabalho, apesar
hoje com a influencia do Algodão são
de estarem constantemente voltando todas as Aldeias a Costa d’África a
aos aldeamentos e, desta forma, mais pronta e certa dos braços que
nos coadjuvam em todos os trabalhos
permanecendo em diálogo com a agrícolas40.
tensão que o fez desaldear. Seria
ainda mais difícil acompanhar a sua Destaca-se que os
incorporação, pois a ela antecede o aldeamentos citados estavam
anonimato, este sim, podendo ser localizados no Vale do Mundaú e na
uma forma de absorção. Zona da Mata, região que
A mão de obra indígena concentrava a maior parte dos
contida nos aldeamentos engenhos da província e que, em
representava importante meados do Século XIX, na qual
contrapartida à crescente dificuldade ocorreu o incremento da produção do
no acesso ao trabalhador cativo e, algodão. Nessa região, os indígenas
consequentemente, no aumento do estavam inseridos na dinâmica de
preço dos escravos em virtude da uma economia de exportação e a sua
política de combate ao tráfico mão de obra era utilizada para a
27
produção dos principais itens da mandados para o serviço nas obras
41
economia alagoana, segundo o públicas, ficando os diretores parciais Idem.
diretor, suprindo a carência de dos índios proibidos de os receberem 42
OFÍCIO enviado pelo
negros escravizados41. Tal nos aldeamentos se tivessem sido Capitão Mor de Engenheiros
João Luiz de Oliveira Lobo,
protagonismo na estrutura de recrutados para o trabalho, sem Diretor de Obras Públicas
produção sendo apresentado pelo apresentar dispensa por tempo de de Maceió, ao Vice
diretor geral dos Índios com tamanha serviço ou doença42. A deserção Presidente da Província de
Alagoas Ignácio José de
naturalidade revela que acordos de parecia ser prática comum entre os Mendonça. Maceió, 30 de
trabalho entre indígenas e senhores indígenas, pois, após três meses do Setembro de 1857. APA.
Caixa 816. Documentos:
de engenho eram prática comum. ocorrido, o mesmo diretor das obras Obras Públicas. Ano: 1857-
Nesse caso, retomasse a encaminhou uma relação43 com 1859. Quantidade: 01
Volume. Folha: 48-49.
discussão feita por Barickman sobre nomes, indicando postos e patentes,
a força de trabalho permanente e dos indígenas do aldeamento de 43
De Jacuípe: Sargento
Joaquim José de Costa
confiável quando o autor observou Jacuípe e de Sapucaia que
Anna; Cabo Manoel Ignácio
44
que “os senhores de engenho abandonaram os trabalhos . da Silva; Soldados:
costumavam manter em suas Um caso exemplar foi quando Frutuoso José, Paulo José
Barreto, Rafael de Oliveira,
propriedades alguns empregados o Diretor Geral dos Índios ordenou ao João Soares, Manoel
livres: um caixeiro, um feitor e Diretor Parcial do Aldeamento de Ferreira, José Anselmo,
Antônio Joaquim de Lima.
alguns trabalhadores com habilidades Santo Amaro, Antônio Fernandes de De Sapucaia: Joaquim de
técnicas necessárias na casa das Souza Costa, que recrutasse Silva Correia, Lourenço
José de Albuquerque,
caldeiras para transformar a cana em indígenas. Este lhe informou que Cosmo dos Santos.
açúcar” (BARICKMAN, 2003, p. 217). quando notificou os indígenas que
44
A presença da mão de obra indígena iriam para o serviço público eles se OFÍCIO enviado pelo
Capitão Mor de Engenheiro
na engrenagem de produção na evadiram do aldeamento. Segundo o João Luiz de Oliveira Lobo,
Região do Vale do Mundaú e na Zona diretor parcial, os índios teriam “se Diretor de Obras Públicas
de Maceió, ao Vice
da Mata pode ilustrar a importância encostado a outra qualquer pessoa” Presidente da Província de
da sua força de trabalho para que lhes abrigavam para escaparem Alagoas Ignácio José de
Mendonça. Maceió, 14 de
desenvolvimento da economia local, dos recrutamentos. Essa era uma dezembro de 1857. APA.
mas, sobretudo, revela a sua queixa recorrente, pois os indígenas Caixa 816. Documentos:
Obras Públicas. Ano: 1857-
inserção no quadro de trabalhador construíram uma rede de
1859. Quantidade: 01
rural, mais um sumidouro de índios. solidariedade que os protegia dos Volume. Folha: 50.
O trabalho nas obras públicas, recrutamentos a partir das
da forma como estava sendo prestações de serviços para
realizado, parecia não atrair o particulares. Ainda segundo o diretor,
interesse dos indígenas. O próprio os índios diziam não ser cativos do
Diretor das Obras Públicas informou governo provincial, nem dos diretores
a Vice-Presidência da Província sobre e, desta forma, poderiam escolher
a deserção de índios dos para quem trabalhar. Destaca-se
aldeamentos de Sapucaia e Urucu. que, quando os indígenas faziam
Segundo o diretor, os indígenas negociações e acordos para a
teriam abandonado a obra antes da prestação de serviço para
sua conclusão e, inclusive antes de particulares, ao que tudo indica,
completarem os dias de trabalho que consideravam, também, a
estariam obrigados. Por isso, solicitou possibilidade de proteção diante dos
punição exemplar aos desertores: recrutamentos e, sendo assim,
serem presos e novamente
28
passaram a compor o quadro de de homens ou mulheres, com
45
OFÍCIO enviado pelo
trabalhadores rurais. indígenas do mesmo aldeamento ou
Capitão Mor de
O mês de fevereiro de 1858 de vários aldeamentos. No que dizia Engenheiros João Luís de
foi marcado por várias deserções e respeito aos grupos, foi possível Oliveira Lobo, Diretor de
Obras Públicas de Maceió,
pode ilustrar a forma como elas identificar, por exemplo, grupos ao Presidente da Província
aconteciam. Decerto, havia tensão compostos por indígenas de diversos Ângelo Thomas do Amaral.
Maceió, 8 de fevereiro de
entre os trabalhadores indígenas que aldeamentos e grupo organizados por 1858. APA. Caixa 816.
estavam em seus aldeamentos na lideranças militares. Como exemplos Documentos: Obras
Públicas. Ano: 1857-1859.
expectativa de serem recrutados das denúncias feitas pelo Diretor das Quantidade: 01 Volume.
para os trabalhos em obras públicas, Obras Públicas: Folha: 83.
pois o tempo de permanência nestas 46
OFÍCIO enviado pelo
obras era incerto e os vencimentos Os índios Manoel Cassimiro e Antônio Capitão Mor de Engenheiro
João, do aldeamento de Santo Amaro, João Luís de Oliveira Lobo,
pagos por jornal nada atrativos. Esta desertarão ultimamente das Obras Diretor de Obras Públicas
tensão pode ser entendida como Públicas onde estavam de Maceió, ao Presidente
trabalhando46”; “os índios, Jose
prenúncio das deserções; quando o Rafael, Felipe Tavares Santiago e João
da Província de Alagoas
Ângelo Thomas do Amaral.
indígena não conseguia escapar dos Ferreira de Andrade, este do Maceió 8 de fevereiro
recrutamentos, desaldeando, a Aldeamento da Palmeira e aqueles do 1858. APA. Caixa 816.
de Santo Amaro, desertarão dos Documentos: Obras
deserção seria a segunda opção para trabalhos públicos”47. Públicas. Ano: 1857-1859.
fugir dos trabalhos em obras Quantidade: 01 Volume.
públicas. Não havia um padrão nos O Diretor das Obras Públicas Folha: 83.

motivos que levavam as deserções, entendia que o motivo das deserções 47


OFÍCIO enviado pelo
de forma que não se pode reduzi-la a seria a necessidade dos indígenas Capitão Mor de Engenheiro
João Luís de Oliveira Lobo,
explicações como tempo de serviço e plantarem suas roças nas terras dos Diretor de Obras Públicas
remuneração. Tais explicações aldeamentos e utilizou esse de Maceió, ao Presidente
da Província de Alagoas
permitem observar apenas algumas argumento junto ao Diretor Geral dos
Ângelo Thomas do Amaral.
queixas dos indígenas em relação a Índios para convencê-lo a enviar Maceió 9 de fevereiro
esse tipo de trabalho. trabalhadores para Maceió. Na 1858. APA. Caixa 816.
Documentos: Obras
Havia um padrão na conduta avaliação do Engenheiro e diretor das Públicas. Ano: 1857-1859.
do Governo Provincial diante das obras48, Pitanga poderia “remeter Quantidade: 01 Volume.
Folha: 90.
deserções: “ordenar a captura e algum contingente de índios a fim de
remessa deles para esta Cidade, a serem empregados naquelas obras; 48
OFÍCIO enviado pelo
Capitão Mor de Engenheiro
fim de continuarem no mesmo remessa que julgo não ser difícil na João Luís de Oliveira Lobo,
serviço45”. A solicitação da aplicação atualidade em que não há plantações Diretor de Obras Públicas
e o jornal é mais vantajoso”. No de Maceió, ao Presidente
dessa conduta como medida
da Província de Alagoas
exemplar é recorrente nas caso, o diretor das obras estava se Ângelo Thomas do Amaral.
correspondências trocadas entre o referindo ao trabalho por jornal nas Maceió 3 de maio 1858.
APA. Caixa 816.
Diretor das Obras Públicas e a obras públicas, tendo observado no Documentos: Obras
Presidência da Província, sempre com mesmo documento que faltavam Públicas. Ano: 1857-1859.
Quantidade: 01 Volume.
o registro de despacho favorável serventes nas obras mesmo sendo Folha: 94.
ordenando cumprimento. pago jornal a novecentos réis. Até o
Foi possível identificar momento, ainda não foi possível
algumas práticas de deserção, mas identificar indígenas ocupando outros
que não representam uma forma de cargos além do de trabalhadores
ação estratégica padronizada braçais.
elaborada pelos indígenas. Elas
podiam ser individuais ou coletivas, Considerações
29
De acordo com os mapas regulamentada por legislação
populacionais praticamente metade imperial, mas coordenada pelo poder
da população indígena que habitava a político e econômico local, havendo
Província de Alagoas encontrava-se distinção entre a elaboração da
vivendo fora das terras dos política indigenista e sua efetivação.
aldeamentos. Diversos motivos O poder local indicou os nomes que
levavam ao desaldear, considerando- ocuparam os cargos na estrutura
se, inclusive, a possibilidade de isto administrativa da Diretoria Geral dos
ser uma prática comum aos Índios a partir da compreensão dos
indígenas do período. De fato, havia aldeamentos enquanto lugar de
um fluxo de entrada e saída de reserva de mão de obra que poderia
indígenas dos aldeamentos, aleatório ser utilizada para as mais diversas
à administração dos diretores. O atividades, sejam públicas ou
desaldear também pode ser particulares. O poder
entendido como estratégia indígena institucionalizado avançou sobre os
frente aos constantes recrutamentos trabalhadores indígenas obrigando-os
realizados por autoridades locais para ao serviço público. Desta forma,
os trabalhos em obras públicas. observa-se a função dos aldeamentos
“O caminho que conduzia os indígenas: formar trabalhadores
indígenas ao aldeamento, levava, “tutelados”, prontos para servir. Para
também, à pretensa – muitas vezes o Estado, qualquer comportamento
eficaz – exploração da sua força de dos indígenas que não
trabalho”. A construção desse correspondesse à condição de “índio”
caminho está intrinsecamente ligada – trabalhador tutelado –, como por
à forma como foi montado o campo exemplo, o desaldear, borraria a
de ação indigenista na Província de tênue linha que os distingue dos
Alagoas. Essa montagem foi trabalhadores rurais.

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BASILE, Marcelo. O laboratório da nação: a era regencial (1831- 1840). In:
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realizada ao Penedo e outras cidades sanfranciscanas, Maceió, Zona Lacustre e

30
região Norte da província (1859/1860). Edição Fac-Símile. Coleção Pensar
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ESPÍNDOLA, Thomaz. A geografia alagoana ou descrição física, política e histórica
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______. & LESSA, Golbery Luiz. O Ciclo do algodão e as vilas operárias. Maceió:
SEBRAE, 2013.

RECEBIDO EM: 30/01/2016


APROVADO EM: 22/02/2016

31
HISTÓRIA E MEMÓRIAS DE Palavras-chave: índios Xukuru do
MIGRAÇÕES NO NORDESTE Ororubá; migrações; Zona da Mata e São
INDÍGENA Paulo.
O “vaivém” dos Xukuru do
ABSTRACT:
Ororubá (Pesqueira/PE)
“Era um vaivém!” Thus exclaimed a
Xukuru indian to recall the seasonal shifts
Edmundo Monte of their relatives and other indigenous -
Doutorando em História Social during periods of cutting and harvesting
(UFBA) of sugar cane - towards the sugarcane
Bolsista CAPES region of Pernambuco and Alagoas.
edmundomonte@hotmail.com Inhabitants in the Serra do Ororubá in
the municipalities of Pesqueira/PE and
RESUMO: Poção/PE, the indians migrated from the
“Era um vaivém!” Assim exclamou um semiarid region in search of work in the
índio Xukuru ao rememorar os Northeast itself and in more distant
deslocamentos sazonais de parentes seus areas, such as the Brazilian Southeast.
e outros indígenas – nos períodos de The dichotomy between periodic droughts
corte e colheita da cana de açúcar –, and plots of failure for the indians,
rumo à região canavieira de Pernambuco limited, or even made impossible the
e Alagoas. Habitantes na Serra do clearings subsistence. This article seeks
Ororubá, nos municípios de Pesqueira/PE to analyze the intrinsic elements that
e Poção/PE, os indígenas emigravam da motivated these migrations. Roughly, yet
região semiárida em busca de trabalho no we list the land conflicts between indians,
próprio Nordeste e em áreas mais settlers, farmers and state agents. In the
distantes, como o Sudeste brasileiro. A oral memories of the Xukuru do Ororubá
dicotomia entre as secas periódicas e a indians, we realize that among the target
insuficiência de glebas para os índios, regions mentioned by migrant indians,
limitavam, ou mesmo impossibilitavam os the “Grande São Paulo” stood out from
roçados de subsistência. O presente the others in the category "more
artigo busca analisar os elementos immigrants" indigenous. Historicizing the
intrínsecos que motivavam essas daily life of these subjects in the new
migrações. Grosso modo, elencamos social areas, including the ways and the
ainda os conflitos fundiários entre índios, different experiences of work
posseiros, fazendeiros e agentes estatais. exercised/occupied by Xukuru in the
Nas memórias orais dos Xukuru do metropolis that complement the
Ororubá, percebemos que, entre as objectives of the article.
regiões de destino mencionadas pelos Keywords: Xukuru do Ororubá indians;
índios migrantes, a Grande São Paulo migrations; Zona da Mata and São Paulo.
destacava-se das demais no quesito
“maior número de imigrantes” indígenas.
Historicizar o cotidiano destes sujeitos Os processos históricos e a
nos novos espaços de sociabilidade, gama de especificidades temáticas
incluindo os modos e as diversas nos estudos e pesquisas sobre a
experiências de trabalhos História do Brasil, em diferentes
exercidos/ocupados pelos Xukuru naquela
temporalidades, geralmente
metrópole, complementam os objetivos
mencionam os movimentos
do artigo.
migratórios de distintos sujeitos
históricos. Com exceção de uns
32
poucos (e importantes) estudos Neste artigo, daremos ênfase
sobre migrações indígenas no país no à mobilidade espacial de índios 1
Na Associação Brasileira
campo da História (LUZ, 1988; Xukuru do Ororubá, moradores na de Estudos Populacionais
SILVA, 2007; SILVA, 2009; MONTE, faixa de transição entre o Agreste e o (ABEP), destaco o Grupo
de Trabalho (GT)
2012), é notória a crescente Sertão pernambucano, para o
“Demografia dos Povos
produção acadêmica sobre o tema, trabalho nos canaviais e engenhos na Indígenas do Brasil”, com
desenvolvida por colegas geógrafos, região produtora (Zona da Mata) em inúmeras publicações
sobre o tema. Outros
demógrafos, antropólogos, sociólogos Pernambuco e Alagoas, ao longo dos estudos sobre migrações
etc.1 três primeiros quarteis do século XX. estão disponíveis para
download no site da
ABEP:
http://www.abep.org

Localização geográfica dos municípios de Pesqueira e Poção, onde habitam os Xukuru do Ororubá.
Fonte: IBGE. Adaptações: Edmundo Monte

Algumas peculiaridades mão-de-obra na plantation


instigaram a produção do presente açucareira. (BARROS, 1953;
texto. Inicialmente, ao analisarmos SUAREZ, 1977; LOPES, 1978; MELO,
os deslocamentos sazonais dos 1980; SALES, 1982; MENEZES,
Xukuru, ocorridos nos meses de 2002; ANDRADE, 2005).
agosto ou setembro, percebemos a Não pretendo julgar
invisibilidade historiográfica desses levianamente as menções à figura do
sujeitos. É recorrente, em diversos “corumba” proferidas pelos próprios
estudos sobre o tema, a utilização moradores da Zona da Mata, bem
genérica do termo “corumba”. Assim como aquelas presentes em escritos
eram chamados os migrantes literários e nos estudos acadêmicos,
habitantes no Agreste (e parte do porém, as lacunas socioculturais
Sertão) que, anualmente, intrínsecas nesta alcunha é algo que
empregavam temporariamente sua nos intriga e suscita uma série de

33
hipóteses. Dessa forma, Xukuru do Ororubá (Alberti, 2004:
(re)pensamos na importância de 15; Halbwachs, 1990). 2
Sobre índios do Nordeste
novas discussões, abordagens e que migraram para São
Paulo, consultar: LUZ, L. I.
estudos que evidenciem a presença A Serra do Ororubá: história e da. Os Pankararé de Brejo
de povos indígenas migrantes nestes memórias Xukuru sobre o lugar do Burgo na cidade de São
Paulo. In: Travessia
e em outros lugares, na condição de de origens Revista do Migrante, São
sujeitos que constroem suas próprias Um pesquisador destacou que Paulo, CEM, n. 01, 1988, p.
27-32; Albuquerque, M. A.
histórias.2 Ao longo do artigo, a menção mais antiga sobre a dos S. O regime imagético
observaremos também algumas presença dos índios Xukuru nos Pankararu (tradução
intercultural na cidade de
experiências de migrantes Xukuru, sertões do Norte remonta ao ano de
São Paulo). 2011. Tese
enquanto trabalhadores formais na 1599 (Hohenthal, 1954). Habitando e (Doutorado em
Grande São Paulo. se movimentando desde épocas pré- Antropologia Social),
Florianópolis: UFSC, 2011;
Os percursos teórico- coloniais na região da Serra do MONTE, E. Migrações
metodológicos do artigo privilegiam Ororubá e áreas adjacentes, cerca de Xukuru do Ororubá:
memórias e História (1950-
os diálogos entre fontes orais – 10 mil indígenas vivem atualmente 1990). Dissertação
através das memórias Xukuru –, em 24 aldeias, distribuídas nos (Mestrado em História).
Recife: UFPE, 2012.
subsídios documentais e produções 27.555 hectares da terra indígena
bibliográficas analisadas e estudadas Xukuru do Ororubá, nos municípios
ao longo dos últimos seis anos. No pernambucanos de Pesqueira e
tratamento das fontes históricas, Poção. (Monte, 2012: 88).
etapa que envolve confrontos e/ou Conforme os relatórios finais
ideias em comum, bem como do Censo do IBGE (2010), o órgão
complementações dos dados oficial divulgou que 9.434 indivíduos
coletados, a produção deste artigo se se autodeclararam indígenas, sendo
apoia nos estudos e considerações de 9.335 residentes nas zonas rural e
E. P. Thompson (2001, p. 185) a urbana de Pesqueira/PE e outros 99
respeito dos trabalhadores e outras habitando no município de Poção/PE.
pessoas consideradas comuns. A Esses dados são contestados pelos
“história vista de baixo”, passa aqui a Xukuru. Como parâmetro, citamos os
ser concebida e compreendida a números fornecidos pelo antigo
partir das experiências vividas e SIASI-FUNASA referentes ao mês de
rememoradas pelos próprios sujeitos. julho de 2010. Segundo o órgão de
De maneira resumida, a memória saúde, a população indígena
coletiva construída nos espaços em cadastrada para receber atendimento
movimento (CERTEAU, 1998), onde no município de Pesqueira
indivíduos compartilham situações correspondia a 12.005 indivíduos,
em comum, são aqui expressadas sendo 6025 homens e 5980
nos relatos orais dos/as índios/as mulheres. (Ibidem).

34
Mapa da área indígena demarcada e homologada, com localização das aldeias e estradas de terra.
Fonte: Projeto de Capacitação e Assessoria Técnica/PCAT-Xukuru, 2007. (Monte, 2012: 89)

A depender do ponto de vista Neste arcabouço, percebe-se a


do/a leitor/a – reflexo, talvez, de emergente necessidade de
uma breve interpretação do artigo –, ampliarem-se os diálogos entre os
os dados demográficos que abalizam campos de estudos, destinando
a quantidade de índios habitantes na momentos criteriosos às análises de
Serra do Ororubá e na cidade de processos históricos vivenciados
Pesqueira/PE, podem, pelos Xukuru e demais povos
momentaneamente, ecoar ideias indígenas presentes e atuantes em
e/ou imagens “satisfatórias” sobre as todas as regiões do Brasil.
condições de vida do povo Xukuru do A chegada dos colonizadores
Ororubá. Entretanto, cabe salientar europeus nos trópicos – para além
que as produções de dados dos relatórios descritivos sobre a
numéricos tendem a se apresentar “nova” terra –, se configura na
“como unidades absolutas de gênese de uma série de tramas,
informação que podem ser estratégias, negociações e conflitos
exportadas para outros contextos.” entre os habitantes nativos do litoral
Trazem consigo a “aparência de e os representantes da Coroa
exatidão e objetividade, tornando portuguesa. No final do século XVI e
operações futuras de comparação e ao longo do XVII, com a expulsão
normatização ainda mais invisíveis e dos holandeses da Capitania de
compulsivas” (PACHECO DE Pernambuco e a destruição do
OLIVEIRA, 2011: 655). Quilombo dos Palmares, acentuou-se
o adensamento demográfico nos
35
Sertões da província. (PUNTONI, de povos indígenas, genericamente 3
No Diccionario
2002; ANDRADE, 2005: 152-153). chamados de “bárbaros” ou Topographico, Estatistico e
Igualmente, muitos senhores de “tapuias”. Tais conflitos, grosso Historico da Provincia de
Pernambuco, publicado em
engenho – também criadores de modo, fundamentaram distintas 1863, a Serra do Ororubá,
rezes – alegavam que não tinham alianças nos sertões, bem como onde vivem os Xukuru, é
descrita com magnitude:
como manter o gado na zona fugas e migrações de índios para “Mais parece uma
canavieira. Como os rebanhos eram locais de difícil acesso. Geralmente as cordilheira do que uma só
montanha. [...] A sua
criados de forma extensiva, áreas de brejo de altitude, com suas
elevação é de 800 a 1000
acabavam destruindo as plantações matas características e cursos d’água passos e sua forma
de terceiros, gerando, assim, (ANDRADE, 2005: 153; MELO, irregular.” Sobre a
cobertura vegetal da
problemas de convivência entre 1980). região, o autor destaca a
produtores agrícolas e criadores. Isso Entre os povos que ocorrência de matas na
“parte do nascente, e em
fez com que o Governo determinasse estrategicamente buscaram refúgio outras partes capoeiras e
a interiorização dos criadores de em lugares com recursos naturais plantações de milho,
feijão, mandioca etc.”
gado (MEDEIROS, 1993: 23-26; favoráveis à subsistência (e (Honorato, 1863: 36-37).
ANDRADE, 2004: 45-46). reprodução biológica) das respectivas
A Coroa portuguesa passou famílias, os Xukuru estão inseridos
então a conceder sesmarias nos neste “contingente” de indígenas.
Sertões para tal finalidade. Nesse Estudos apontaram que muitos índios
contexto, salientamos as Xukuru já habitavam espaços que,
complementações de Puntoni sobre o em síntese, englobavam o entorno, o
processo de ocupação do sertão, que sopé e o topo da Serra do Ororubá 3,
“era dinamizado pelo incremento do cuja altitude ultrapassa os 900
povoamento e pela diversificação das metros (SOUZA, 1992; SILVA, 2008;
atividades produtivas. Ao lado do MONTE, 2014: 112). E foi justamente
gado, seguiam as expedições em no cume da Serra do Ororubá, que a
busca de riquezas, pedras e metais Congregação do Oratório no Brasil
preciosos” (PUNTONI, 2002, p. 25). fundou o Aldeamento de Ararobá, em
O mesmo autor analisou os inúmeros 1669. (SOUZA, 1992: 33; VALLE,
conflitos e episódios de violência 1992: 30).
envolvendo “índios, moradores, A política – catequizadora e
soldados, missionários e agentes da expansionista – de aldeamentos
Coroa portuguesa”, ocorridos no indígenas engendrada pela Coroa na
“sertão norte: o atual Nordeste [...] segunda metade do século XVII
do Brasil”, compreendendo a enorme demonstrava algumas intenções d’El
região semiárida, que vai “do leste Rei sobre a questão dos índios na
do Maranhão até o norte da Bahia colônia: enquanto aldeados e aliados,
[...], englobando parte do Ceará, do os indígenas podiam compor as
Piauí, do Rio Grande do Norte, da tropas militares da Coroa (ALMEIDA,
Paraíba e de Pernambuco” (Ibidem). 2010: 71), bem como empregar sua
Conhecido na historiografia mão de obra em diversos tipos de
como a “Guerra dos Bárbaros”, os trabalho. No caso dos Xukuru, os
violentos episódios sucedidos no próprios missionários e os
interior dos Sertões, resultou, fazendeiros criadores de gado
sobretudo, no extermínio de índios e exploravam a mão de obra indígena
36
em diversas áreas da Serra do março de 1762, o Desembargador e
Ororubá (SILVA, 2008: 77). Por se Ouvidor Geral da comarca das
tratar de uma região úmida de brejo Alagoas, Manuel de Gouveia Alvares,
de altitude, cortada pelos rios ordenou:
Ipanema e Ipojuca, a concorrência de
sesmeiros e criadores de gado se [...] aos principais e mais moradores
e índios desta dita povoação, que no
apropriando ilegalmente de lotes na dia vinte e oito do corrente mês, de
Serra do Ororubá, foi um dos tarde, concorram ao terreiro junto da
igreja para se determinar o lugar da
problemas enfrentados pelos Xukuru dita povoação mais próprio para
nas terras do aldeamento. Os servir de praça e para se assinarem
próprios Oratorianos implantaram as áreas ou terrenos competentes
para casas da câmara de audiência e
currais de gado na região para a de cadeia e das mais oficinas
manutenção da missão religiosa e públicas, e para se delinear a forma
em que hão de ficar as ruas e se
consequente acúmulo de bens, regular a construção das casas e
submetendo os índios ao trabalho quintais dos moradores e o
assentamento dos currais em que se
estafante. Os missionários possam recolher os gados em comum
comerciavam o gado, garantindo e se assinar terra para baldios, pastos
públicos e para patrimônio da câmara,
assim a compra de outras terras
com reserva de toda a necessária
próximas à missão. (MEDEIROS, para a distribuição que hão de ter os
1993: 63-64; MONTE, 2012: 26-27). ditos índios moradores na forma
determinada pelo Diretório [...] e para
Em 1757, com a legislação do que além desta fique outra mais terra
Diretório aplicada pelo Marquês de reservada para a encomendação de
outros quaisquer índios e moradores
Pombal, os antigos aldeamentos que venham a unir-se e agregar-se
foram elevados à categoria de vilas e aos existentes (FIAM/CEHM, 1985:
41-42)(grifo nossos).
lugares. A nova lei também
determinava a expulsão dos jesuítas
Em desfavor aos argumentos
da colônia e o sequestro dos seus
de Manuel de Gouveia Alvares sobre
bens. A política pombalina deve ser
a distribuição de terras para os
compreendida numa conjuntura
“índios moradores” ou “outros
internacional, em torno de disputas
quaisquer índios [...] que venham a
territoriais nas terras baixas da
unir-se e agregar-se aos existentes”
América do Sul. Visava ainda o
(Ibidem), inquirimos às memórias
soerguimento do Estado absolutista
orais do povo Xukuru sobre a
português, que avistava nos índios, a
situação fundiária e os conflitos
força motriz para a exploração de
agrários, envolvendo grilagens e
insumos e produtos destinados a
invasões de terras indígenas na Serra
atender as necessidades econômicas
do Ororubá. Vejamos o que nos
da metrópole. (ALMEIDA, 2010;
relatou a índia Maria de Jesus, que,
MONTE, 2014: 108).
em outubro de 2010, tinha 82 anos
O antigo Aldeamento de
de idade:
Ararobá passa então a se chamar Vila
de Cimbres, em homenagem a “uma Eu quando era menina, criança, nós
freguesia existente em Portugal, no sofremos muito. A minha mãe tinha
Concelho de Mondim da Beira” nove filhos. Meu pai trabalhava pra
dar comida pros filhos tudinho.
(FIAM/CEHM, 1985: 256). No mês de Porque a gente passava muito mal

37
quando era pequena. Depois que a indivíduos (posseiros) habitantes no
gente cresceu, foi todo mundo
trabalhar [para fazendeiro]. Mas meu Sertão do Cariri migravam para a 4
Na “Representação à
pai dizia assim, quando a gente criava Serra do Ororubá, onde instalavam Assembleia Geral
uns bodes... A gente num podia soltar Constituinte e Legislativa
[os bodes] porque o dono da terra
fazendas de gado:
do Império do Brasil sobre
não deixava. Aí meu pai dizia: deixe a Escravatura”, elaborada
tá, porque essa terra ainda vai ser Os abaixo assinados ocupam-se por José Bonifácio e que
toda nossa. Porque essa terra foi exclusivamente do trabalho da não chegou a ser
tomada [de nós]! Mas essa terra era agricultura, de onde tiram meios para apresentada “por motivos,
nossa, e nós ainda vamos ser donos se manterem, mas Excelentíssimo cuja relação pertence a
dessa terra. Um dia nós vamos ser. senhor acontece, que indivíduos sem outro lugar, ela foi
Meu pai falava isso, né? (Maria de título algum, entre eles, José dissolvida, e seu autor,
Jesus, índia Xukuru, outubro de Alexandre Correa de Mello, que vindo entre outros Deputados,
2010)(grifo nosso). dos lados do Cariri pela seca, preso e deportado”,
apossou-se de um dos melhores sítios sugeria uma nova lei
do extinto aldeamento, e ali tem “para promover a
Outro depoimento corrobora
fundado, por assim dizer, uma civilização geral dos índios
as memórias da índia sobre as fazenda de gado, que cotidianamente do Brasil, que farão, com
precárias condições de vida de destrói as lavouras dos suplicantes, o andar do tempo, inúteis
que recorrendo à proteção legal, os escravos.” (D’Andrada
muitos Xukuru, cujas terras eram recorrendo às autoridades policiais e Silva, 1825: 5)(grifo
invadidas por fazendeiros e não são atendidos, porque são nosso).
desvalidos, são índios miseráveis, e
posseiros: como tais sujeitos a trabalharem
como escravos para os ricos e
O meu pai falava que aqui já existia poderosos! Essa é a linguagem
os índios, né? Essa área, já era uma dos tais criadores da Serra, que
área demarcada. Só que os índios entendem levar os suplicantes a ferro
eram pouquinhos. Os fazendeiros e fogo. (MONTE, 2014: 109)(grifo
começaram a invadir essas terras. Aí nosso).
ficou a moradia deles [dos índios]
pouquinhas terras. E daí foi quando Sinteticamente, salientamos
eles passaram a partir, se deslocar,
buscando outros meios de vida. De que tais experiências e estratégias de
sobrevivência. O meu avó, o terreno sobrevivência dos Xukuru ocorreram
dele era muito pequeno. [Aí] os
posseiros começaram a atacar os desde a época da presença
terrenos, enganando eles. E eles [os missionária na colônia, com a
índios] iam trocando aqui e ali pra
sobreviver. Só fazia compra num
implantação dos aldeamentos
barraco de algum camarada que era indígenas (século XVII). Perpassaram
posseiro. E, dali, não tinha o dinheiro o período da legislação pombalina em
pra pagar. E os posseiros diziam:
não?! [Então] nós vamos tirar num meados do século XVIII, com a
pedaço de terra. Aí iam tomando as situação se agravando a partir da Lei
terras, tomando as terras... A dívida
era paga com a terra, né? Porque eles de Terras de 1850. Nas últimas
não tinham o dinheiro pra pagar. Meu décadas do Oitocentos, as ideias
avô deu fim a meio mundo de terra
pra ir sobrevivendo. (Cecílio Santana
românticas do período e os debates e
Feitosa, índio Xukuru, outubro de ações em nome do progresso da
2011)(grifos nossos).
nação, culminaram com a extinção
dos aldeamentos no Brasil. Apesar de
Para avigorar os relatos de
alguns políticos4, estudiosos e
memórias Xukuru, destacamos um
literatos intercederem e advogarem
abaixo assinado de 1885, destinado
sobre a presença indígena no
ao Presidente da Província, através
controverso processo de
do qual os índios denunciavam a
miscigenação (ROMERO, 1980: 120-
continuidade de invasões em suas
121) do povo brasileiro, o discurso
terras. De acordo com o documento,
38
imperial oficial e os documentos da 87) Na prática, a atuação do SPI se
época reafirmavam que os índios, resumia ao caráter assistencialista,
àquela altura, estavam confundidos com distribuição de ferramentas para
com a massa da população nacional agricultura e alguns medicamentos:
(ALMEIDA, 2010; SILVA, 2008;
MONTE, 2014: 110). Cabe aqui uma Depois passou algum tempo, mas já
tinha aquele posto [do SPI na atual
observação: agindo e tomando Aldeia] São José. Nesses tempos já
decisões de acordo com os próprios tinham feito lá em São José. O posto
indígena. O primeiro chefe de posto
interesses, os Xukuru e os povos se chamava Geraldo. Chamava 'Seu'
indígenas no Brasil permaneceram Geraldo. Ele ainda dava um milho,
reafirmando suas identidades étnicas, dava uma enxadinha, dava uma foice,
dava umas sementes pra gente
como apontam os novos estudos e plantar, e os índios viviam tudo lá. Ele
abordagens sobre a História Indígena sempre agradava assim. Mas pra
outra coisa? Não! Um remédio ele
no Brasil. dava se o índio tivesse doente...
Em sentido oposto ao (“Seu” Cassiano, índio Xukuru,
outubro de 2011).
tendencioso discurso imperial sobre o
“desaparecimento” dos índios no
Nascido e vivendo na
século XIX, foquemos, por exemplo,
localidade que muitos ainda chamam
na criação do Serviço de Proteção
de "Canabraba", atualmente Aldeia
aos Índios (SPI), em 1910. Os
Cana-Brava, "Seu" Cassiano, com a
Xukuru, após muito pleitearem,
sua fala mansa e a sabedoria
chegando inclusive a enviar uma
acumulada ao longo de oito décadas
comitiva de índios ao Rio de Janeiro,
de vivências e experiências, é
conseguiram, mais de três décadas
daquelas pessoas que adoram uma
depois, a instalação de um posto do
boa conversa. Ainda mais quando os
órgão indigenista oficial na Serra do
temas instigam suas memórias sobre
Ororubá, em meados de 1940.
a presença indígena e as justas
Todavia, os conflitos agrários
reivindicações históricas em torno
envolvendo, de um lado, os Xukuru
dos direitos originários de posse
e, do outro, os posseiros e
sobre as terras na Serra do Ororubá
fazendeiros invasores de terras,
(Pesqueira/PE).
perduraram até o início dos anos
Pai de família, assim como
2000. (SILVA, 2008; SANTOS, 2009;
outros Xukuru, teve que trabalhar
MONTE, 2014: 110).
desde pequeno na agricultura de
Na teoria, o SPI foi “instituído
subsistência com os pais e irmãos.
para gerir a relação entre os povos
Ele nos contou que por diversas
indígenas, distintos grupos sociais e
vezes presenciou o pai e outros
demais aparelhos de poder” (LIMA,
índios migrando sazonalmente, entre
1992: 155). Entretanto, nas
os meses de agosto e setembro, para
atividades cotidianas deste órgão,
trabalharem no corte e colheita da
não era de interesse dos agentes e
cana-de-açúcar na Zona da Mata Sul
inspetores interferir nas disputas e
de Pernambuco e na Mata Norte de
conflitos por terras, entre outros
Alagoas. O próprio entrevistado
imbróglios “com ocupantes não-
passou por essa experiência como
indígenas” na região. (PERES, 2004:
veremos adiante.
39
"Seu" Cassiano também ela deu, a mulher que veio entregar a
área pros índios, já houve pessoas
conheceu a cidade de "São Paulo, brancas com ela. [Foram se
porque eu tenho um menino que apossando] um num canto, outro num
outro, e ficou o índio só naquele canto
mora lá, né?" (Idem) A estratégia que já vivia. Aqui em Cana-brava, em
familiar de mandar os filhos maiores Brejinho, São José, esses lugares
de idade para os núcleos urbanos das assim... Couro Dantas, Vila de
Cimbres, onde nós habitava. Aí
grandes cidades do Nordeste e do ficaram [os índios] naqueles
Sudeste é, de acordo com Marilda cantinhos. Mas outros caras já vieram
com ela e tomaram conta [de tudo].
Menezes, uma forma de reprodução Eram muitos! (“Seu” Cassiano, índio
social das famílias camponesas e Xukuru, outubro de 2011).
indígenas fora dos lugares de origem.
(MENEZES, 2002; MONTE, 2012). As memórias sobre a Guerra
Igualmente, dependendo do tipo de do Paraguai foram endossadas por
emprego conseguido nessas cidades “Seu” Agripino, em entrevista
e das redes sociais que auxiliam em realizada no dia 20 de outubro de
todas as etapas do processo 2011. Naquela data, o indígena tinha
migratório, os filhos ou parentes 87 anos:
podem enviar pequenas quantias em
No tempo dos meus avós, [eles]
dinheiro, como auxílio providencial foram pra lá [pra guerra]. E o que foi
para aqueles que permaneceram na que a Rainha prometeu? A área
indígena. [...] Um dia sai! Vai sair a
região de origem. (FONTES, 2008:
área indígena dos índios, porque eles
54-55; MENEZES, 2002). foram vencedores. [Eles] que
Perguntado sobre a infância venceram a Guerra do Paraguai.
Porque venceram! Lutaram, lutaram,
na Serra do Ororubá, o indígena lutaram... Brigaram e venceram a
relatou que: "Sofri muito! Meu pai e Guerra do Paraguai. A Rainha deu a
mão, que essa terra tinha que ser
o povo daqui era tudo fraco. O índio demarcada pros índios. (“Seu”
antigamente não tinha liberdade. Agripino, índio Xukuru, outubro de
2011).
Teve de uns tempos desse pra cá."
(“Seu” Cassiano, índio Xukuru,
Segundo a historiadora
outubro de 2011). Ao falar em
Verena Alberti, a vivacidade
liberdade, o entrevistado se referiu
expressada numa entrevista de
ao período posterior à demarcação e
História Oral “faz do homem um
homologação da Terra Indígena (TI)
indivíduo único e singular [...] e, por
Xukuru do Ororubá, em 2001.
isso dá vida as conjunturas e
Ele rememorou ainda o
estruturas que de outro modo
compromisso assumido pela Princesa
parecem tão distantes” (ALBERTI,
Isabel, cuja promessa era de doar
2003: 1). Apesar de não terem
aquelas terras para os Xukuru, desde
vivenciado o período em que ocorreu
que os mesmos fossem lutar na
a Guerra do Paraguai, os dois
condição de "Voluntários da Pátria",
indígenas recordaram de maneira
na Guerra do Paraguai:
efusiva os momentos de sociabilidade
com seus pais e avós.
Mas o índio, desde que a Rainha deu
essa área dos índios que foram brigar De tanto ouvir falar a respeito
lá na Guerra do Paraguai, depois foi de determinado acontecimento, o
que ela deu, né? Bom, mas quando
indivíduo ou o grupo tem a
40
impressão de que vivenciou tudo assassinatos de lideranças indígenas,
5
aquilo. É o que Pollak (1992: 202) serenamente, pontuou: "Porque o Referimo-nos ao “Sertão”
ou “Sertões” como os
classifica de acontecimentos "vividos 'caba' que for cobrar esses direito espaços habitados por
por tabela". E um dos nossos [sobre a terra]... O 'caba' cobra, mas povos nativos no interior da
província, a oeste da costa
entrevistados corrobora tal conceito: morre!" (Idem). litorânea. O termo
“Agreste”, cunhado pelo
Meu pai dizia, meu avô dizia tudo, né? povo, ainda não era
O “vaivém” do trabalho:
Não é do meu tempo, mas eles utilizado na época.
passaram por isso, né? Mas eu ainda migrações sazonais Xukuru para
vi, com essa pouca idade que eu a Zona da Mata
tenho, eu vi ainda o primeiro Cacique.
Chamava-se Romão da Hora. Ele
O que atualmente
morreu velho, mas eu ainda vi ele. conhecemos como Zona da Mata,
Depois chegou outro. Outro chamado próxima à faixa litorânea,
Romão. De novo. Mas também
morreu. Depois chegou Jardelino historicamente também se configura
Pereira... Mas depois foi o tempo que em um espaço de imigração sazonal
apareceu esse rapaz chamado
Francisco Pereira de Araújo, o apelido ou definitiva. A mobilidade espacial
era Xicão. Sempre foi um homem que de povos nativos habitantes nos
trabalhou pelo índio. (“Seu” Cassiano,
índio Xukuru, outubro de 2011).
Sertões5 em direção à região natural
canavieira é apontada e estudada
Em sua narrativa, ao destacar desde meados do século XVI. Na
as presenças dos antigos caciques do obra Tratados da terra e gente do
povo Xukuru, citando inclusive o Brasil, o jesuíta Fernão Cardim
reconhecido empenho do finado alertava sobre os efeitos provocados
Cacique Xicão na luta pela pela falta de chuvas na Capitania de
demarcação da atual terra indígena, Pernambuco, motivando a migração
"Seu" Cassiano continuou o relato de índios habitantes no interior da
observando outros detalhes na província para os espaços
questão das terras "doadas" pela canavieiros:
princesa em exercício:
O ano de [15]83 houve tão grande
seca e esterilidade nesta província
As Aldeias tudo dava 20 léguas e [...]. As fazendas de canaviais e
quadras. As Aldeias que a Rainha mandioca muitos se secaram, por
assinou. Tá assinado! Tá no Museu do onde houve grande fome,
Rio de Janeiro. Tá lá os papel. Tá lá a principalmente no sertão de
espada. Tá lá, tudo no Museu do Rio Pernambuco, pelo que desceram do
de Janeiro. Xicão andou lá, [ficou sertão apertados pela fome,
sabendo da história] por esse velho socorrendo-se aos brancos quatro ou
aqui. Porque os outros num sabia. Eu cinco mil índios. Porém passado
já sabia e contei pra ele. Aí ele foi. aquele trabalho da fome, os que
Chegou lá, achou! Mas depois puderam se tornaram ao sertão,
mataram ele [Xicão] lá em Pesqueira. exceto os que ficaram em casa dos
Eu sou um homem velho, [por isso] brancos ou por sua, ou sem sua
eu só posso dizer o que é certo. O que vontade. (CARDIM, 1939: 292)(grifo
é errado, eu não posso dizer pra nosso).
ninguém, né? (“Seu” Cassiano, índio
Xukuru, outubro de 2011).
Estudos apontaram que essas
Pensativo, ao rememorar os migrações, grosso modo,
momentos de tensões e dificuldades perpassaram o século XIX e
na vida cotidiana do povo Xukuru do continuaram até meados das décadas
Ororubá, como os que resultaram em de 1980-90, em consequência dos
41
desmandos políticos/estatais com a ralava milho, fazia comida pros
[índios] trabalhador, pro meu avô e,
problemática das secas periódicas no quando era de nove pra dez horas,
Agreste e no Sertão, agravados pela era que eu ia escrever uma
liçãozinha. Porque eu tinha que
situação fundiária no Nordeste trabalhar pra ganhar meia garrafa de
brasileiro. (BARROS, 1953; SUAREZ, leite. [Era] pra um irmão meu, que
1977; ANDRADE, 2005; MONTE, ele era pequenininho, sabe? E meu
vô, que trabalhava lá com dona Alba,
2012). coitado... [Ele] comia aquela aguinha
Em um estudo anterior de xerém. Morreu mais de fraqueza,
quando vinha e descia aquela Serra,
(MONTE, 2012), durante a fase da com fome. [Porque] pra gente num
pesquisa de campo na Terra Indígena tinha nada. E assim foi a vida dele,
até quando ele morreu. Depois, meu
(TI) Xukuru do Ororubá, realizei pai e o filho dele, nós botava roça
cerca de 30 entrevistas de história aqui na matinha [...] detrás da minha
casa. Meu pai plantava uma rocinha.
oral. Priorizei entrevistar índios/as
Botava um roçadinho de milho, de
Xukuru idosos/as, bem como os/as fava. Quando era o tempo que a
de meia idade que tenham passado faveira já dava pra comer, seu Rafael
[fazendeiro] tacava o gado dentro. Aí
ou vivenciado no seio familiar nós ia apanhar aquela fava com o
experiências de caráter migratório. gado dentro, e botar em casa aquele
monte de fava verde, pra o gado não
Algumas delas, ou pequenos trechos, comer tudo, entende? Essa é a
estão aqui publicados em primeira verdade, não tem outra! Quando não
era isso, meu pai plantava uma
mão. rocinha aqui por detrás e nós ficava
Anualmente, entre os meses com aquele pouquinho de farinha. Às
de agosto e setembro, acentua-se a vezes dava pra passar a semana, às
vezes num dava. (Bernadete Marinho,
preocupação dos Xukuru em relação índia Xukuru, julho de 2009)(Grifos
à escassez de gêneros alimentícios nossos).

na Serra do Ororubá. Sendo bastante


otimista e conforme as memórias Eram poucas as famílias
indígenas, a base da dieta alimentar indígenas que possuíam um
era composta de feijão ou fava, de “pedacinho” de terra – chamadas de
macaxeira, dos derivados da sítios – onde plantavam os gêneros
mandioca; e do mingau ralo feito citados para o próprio consumo.
com xerém e água. Esse período do Essas famílias, a depender da
ano caracteriza-se por ser o início duração das estiagens e dos
das estiagens na região onde alimentos estocados, conseguiam
habitam os indígenas. Sobre as permanecer em seus locais de
consequências da falta de chuvas, origem. Contudo, nos casos de secas
observemos o relato desta índia: prolongadas, era comum o chefe de
família, acompanhado do(s) filho(s)
Era muito ruim. Nem me fale... mais velho(s) emigrar para outras
Trabalhava aqui, [eu e] meu pai, cidades ou regiões em busca de
muito pobrezinho. Minha mãe
trabalhava na agricultura pra me
trabalho temporário, na tentativa de
criar. Aí a minha tia [que] tinha suprir as necessidades alimentares
casado recentemente, tomou conta de
básicas da família.
mim. Entende? Aí minha tia me criou
aqui, onde moro hoje. [...] Eu Entre as estratégias adotadas
trabalhei muito aqui na campina. pela maioria dos índios despossuídos
Plantando capim pra ganhar alguma
coisa. Eu estudei aqui. Agora, meu de terras e impossibilitados de
estudo, como é que era: trabalhava,
42
plantar roçados de subsistência, O povo ia... Ia trabalhar. O serviço
era cortar cana e limpar mato. Na
estava o trabalho temporário na usina num trabalhava não, porque na 6
O termo “Sul” é utilizado
região canavieira de Pernambuco e usina só trabalhava aquele pessoal de pelos Xukuru em
mais entendimento, né? Mas o índio referência à Zona da Mata
Alagoas. Nestes espaços, os Xukuru nunca teve. Os entendimentos deles Sul de Pernambuco e Zona
empregavam sua mão-de-obra no antigamente eram perdidos. Iam da Mata Norte de Alagoas.
corte e colheita da cana-de-açúcar, trabalhar no campo. (“Seu” Cassiano,
índio Xukuru, outubro de 2011).
grosso modo, entre os meses de
setembro a janeiro, retornando para A respeito da falta de
suas casas ao cair das primeiras “entendimento” dos indígenas para o
chuvas na região de origem. trabalho interno nas usinas enquanto
(SUAREZ, 1977; ANDRADE, 2005; “operários do açúcar”, recorremos às
SILVA, 2008; MONTE, 2012). De observações de José Sérgio Leite
forma homogênea e genérica, os Lopes. Segundo o pesquisador, a
moradores da Zona da Mata maior parte dos operários das usinas
chamavam os migrantes temporários tinha origem social nos trabalhadores
de “corumbas”. A utilização da mão- agrícolas dos engenhos, sendo assim,
de-obra advinda do Agreste e do a passagem para a nova condição de
Sertão elevou-se principalmente após trabalho fabril não ocorria de maneira
a criação do Estatuto do Trabalhador rápida, apresentando algumas
Rural, em 1963, como forma de formas de transição:
resposta dos usineiros à organização
sindical em voga no período. Uma dessas formas de transição
(MENEZES, 2002; DABAT, 2007). A manifesta-se à maneira de um
percurso espacial de diversos
generalização em torno da figura do empregos agrícolas em engenhos
“corumba” silenciou e confinou nos cada vez mais próximos à usina –
centro de atração de tal percurso –
“bastidores da história”, a culminando, como caso limite, com o
diversidade de sujeitos sociais que trabalho na horta do usineiro, que é
um ponto de chegada extremo de
trabalhavam nos engenhos e usinas
trabalho agrícola próximo à usina.
no Nordeste açucareiro. (LOPES, 1978: 152).
Ao ser indagado sobre os
deslocamentos sazonais dos Xukuru Premissa básica nas etapas
para a Zona da Mata úmida, “Seu” dos movimentos migratórios – de
Cassiano prontamente respondeu: indígenas ou não indígenas –, são os
modos empregados pelos migrantes
Foram muitos daqui. Eles iam porque até chegarem aos locais de destino.
naquele tempo num tinha salário
[aqui] não. Aí os pobres iam daqui
No caso dos Xukuru, de que maneira
para o Sul. Coitados! Iam oito, dez, eles se deslocavam e em quais
trabalhar lá. Quase todo ano ia. No condições os índios
verão, né? Trabalhavam pro lado de
lá, e quando chegavam [de volta], “desembarcavam” no ambiente
[traziam] um ‘cumêzinho’ pra dar à açucareiro? Nas primeiras décadas do
família. (“Seu” Cassiano, índio
Xukuru, outubro de 2011)(grifo século XX, geralmente o trajeto entre
nosso). a Serra do Ororubá (Pesqueira/PE) e
os municípios de destino dos
E como era o trabalho deles lá
migrantes Xukuru era realizado a pé,
no “Sul”?6
como apontou “Seu” Saturnino:

43
índio Xukuru, outubro de 2011) (grifo
nosso).
Os índios velhos, a metade era
trabalhador, e a outra metade às
vezes num trabalhava porque não No mapa abaixo, destacamos
tinha as posses [de terra] pra
a região de origem dos indígenas
trabalhar. Aí, o finado meu pai
contava aquelas histórias que, quando (Pesqueira/PE e Poção/PE), e os
era nas épocas [do corte e colheita da municípios de destino mais citados
cana], aí se juntava um grupão de
índio velho e novo. Aí, botavam o pelos Xukuru na Zona da Mata Sul de
matulãozinho nas costas e desciam Pernambuco e Zona da Mata Norte de
por aqui pro Sul [de Pernambuco].
Porque nessa época num existia Alagoas:
carro, né? Aí descia tudo de pés pra
trabalhar. (“Seu” Saturnino Feitosa,

A região de origem dos Xukuru e os principais destinos dos migrantes indígenas.


Fonte: IBGE (2010). Adaptações: Edmundo Monte (Monte, 2012: 59).

Os índios habitualmente Para termos uma ideia do


caminhavam em grupos, castigados esforço físico empregado pelos índios
pelo sol ao longo do percurso. Ora nessas caminhadas, vejamos a
seguiam os trilhos da rede ferroviária distância entre dois municípios-
e em outras, as beiradas das chave, de acordo com o processo
incipientes estradas de rodagem. histórico migratório e as
Dependendo da experiência de um ou rememorações dos Xukuru. Partindo
mais componentes do grupo, de Pesqueira/PE, na região Agreste,
utilizavam atalhos pelas matas típicas até o município de Palmares/PE, na
da região. (SILVA, 2009; MONTE, Zona da Mata Sul, os indígenas
2012). percorriam aproximadamente 170
km de distância (MONTE, 2012: 56).
44
Com o passar dos anos e as seguiam do Agreste para a Zona da
melhorias nas rodovias, houve um Mata, abarrotados de “corumbas”.
crescimento na oferta de transportes. (SUARREZ, 1977).
A partir de então, caminhões

Mapa da rede ferroviária de Pernambuco (1954). Em destaque as cidades de Pesqueira e Palmares


Fonte: Rede Ferroviária do Nordeste (RFN). Adaptações: Edmundo Monte

Em 1957, “Seu” Cassiano era mil e cem. Doze horas, o ‘caba’


trabalhava! Mas eu trabalhei.
seguiu para o “Sul”: “Fui de Trabalhei quase seis meses, sempre
caminhão! Nós fomos de trem até juntando um dinheirinho. Só fui uma
vez e tinha mais ou menos 16 anos.
Bezerros e lá nós saltamos e Trouxe um pouco de dinheiro no
pegamos o carro pra usina. E lá se foi bolso. Ave Maria, era um sacrifício!
o carro... Agora a volta foi melhor, (“Seu” Cassiano, índio Xukuru,
outubro de 2011).
porque voltei com dinheiro, né?”
(“Seu” Cassiano, índio Xukuru, A resposta do indígena dialoga
outubro de 2011). com as análises de estudos temáticos
Questionei o entrevistado se (SUAREZ, 1977; SALES, 1982: 126-
todo o esforço empenhado 133; ANDRADE, 2005) e
compensava financeiramente. Essas representam, grosso modo, as
viagens realmente valiam a pena? memórias orais de outros Xukuru
entrevistados em minhas incursões
[Os índios] iam a pulso! Num valia,
não. Mas eles iam pra ver se
na Serra do Ororubá. Sendo assim,
arranjava o que comer. Meu pai foi... as economias provenientes dos
[Todos] iam. Eu num ia porque era
meses de trabalho nos canaviais no
pequeno, né? Agora, depois de eu
com 15 anos, 16 anos, chegou um “Sul” tinham destinos certos: em
rapaz de lá e me chamou pra eu ir. Aí primeiro lugar a compra de alimentos
eu fui pra Usina Pedrosa. E agradeço!
Trabalhei lá [uns] seis meses. Fica em e, em menor escala, a aquisição de
Pernambuco mesmo. [Perto] de peças básicas do vestuário:
Barreiros. Aí eu fui e trabalhei lá na
esteira. Já ganhava por hora. A hora
45
Cheguei em Pesqueira, comprei uma porque nas outras tinha mais. Quem
calça pra meu pai. Comprei uma num tinha rede, dormia no chão e
camisa... Comprei um vestido pra quem tinha armava uma rede. (“Seu”
minha mãe [e] comprei uma chinela Cassiano, índio Xukuru, outubro de
pra ela. Comprei uma alpercata pra 2011).
meu pai. Eu nunca vi meu pai com
alpercata! ‘Eu disse:’ vá meu pai, bote
aí no pé. Aí ele botou. E comprei uma O experiente índio rememorou
roupa pra mim, porque sobrou os sentimentos de alívio e de alegria
quinhentos mirreis. (“Seu” Cassiano,
índio Xukuru, outubro de 2011).
quando retornou para casa: “Aí sim
eu dormi direito!” (Idem) Apesar da
Os corpos exauridos, em experiência na Zona da Mata Sul ter
decorrência das longas jornadas de lhe rendido certa quantia, ele preferiu
trabalho, se potencializavam pela empenhar-se no cultivo de grãos,
frágil dieta no “Sul”: “Era feijão, frutas e outras culturas no sítio da
farinha e charque. Somente [isso]! família:
Tinha o café, mas arroz não se via.”
Não fui mais [para o Sul]. Não! Fui
(Idem). Sobre a questão da
pra canto nenhum, mais. Aí plantei
alimentação dos trabalhadores no um roçado de milho e feijão [e], num
Nordeste açucareiro, os estudos de dia de domingo, eu disse pra meu pai:
o senhor, de hoje por diante num dá
especialistas como Josué de Castro e mais um dia de ‘alugado’ aqui pra
Nelson Chaves evidenciaram a ninguém. Ele virou-se pra mim e
perguntou: ‘por que meu filho?’
situação de subnutrição pela qual Porque tem feijão, tem fava, tem
estavam expostos os trabalhadores milho. Vamos comer e vamos
trabalhar! Aí, num foi mais nunca
na Zona da Mata. Em um inquérito [para o Sul]. (Idem).
realizado na década de 1930, Castro
legitimou as memórias Xukuru sobre “Dona” Lica, uma das
o “Sul”, ao apontar como um grave lideranças do povo Xukuru,
defeito a “terrível monotonia” no tipo expressou sentimentos semelhantes
de dieta estudado, devido “a falta de ao comentar o retorno do pai, após
variedade das substâncias meses de trabalho no “Sul”:
alimentares que entram em sua
composição; dieta quase que Eu só lembro é ele indo e voltando. E
exclusivamente formada de farinha quando ele chegava [...], eu só
lembro que a gente fazia uma festa
com feijão, charque, café e açúcar.” quando era pra eles chegar. A gente
(CASTRO, 1984: 139-140; CHAVES, ficava na maior festa esperando eles.
Porque quando eles vinham, traziam
1948). aqueles torrões de açúcar bem
Nesse contexto, as poucas grande. Assim... E nós se sentava no
chão, quando eles chegavam e abriam
horas livres dos trabalhadores o saco. E trazia [tudo] nas costas,
indígenas destinavam-se ao repouso aquelas pedra de açúcar preto. Aquele
açúcar preto. Nós sentava e fazia a
e raros momentos de sociabilidades
maior farra naquele tijolo de açúcar.
nos barracões: Era farra pra nós! (“Dona” Lica, índia
Xukuru, outubro de 2011).
[A gente] só dormia! Porque eu
pegava meia-noite e largava meio- “Sua cabeça vai ser outro
dia. Dormia gente que só num sei o
quê dentro do barracão. O povo ia
mundo”: os Xukuru na Grande
dormir lá. Tinha cento e tantas São Paulo
pessoas nessa barraca. Isso só numa,

46
“Eu vou procurar minha vida Antigamente o pai é que levava pra
tirar reservista. [Quando ele]
em São Paulo.” Angustiado por ter completou 18 anos eu disse: ‘bora
que se afastar do pai e da mãe, mas meu filho!’ Depois de seis meses ele
foi lá buscar o documento. Aí eu
esperançoso graças às informações disse: ‘você hoje é um cidadão!’ Eu
repassadas pelos irmãos que já sou seu pai, mas não posso mandar
viviam na capital paulista, “Seu” mais em você, viu? Você hoje tem
outro pai na terra: primeiramente
Antônio Pequeno, provavelmente em Deus e segundo, o governo. Nem eu
1952, deixou a Serra do Ororubá e sou mais! Quem é agora, é o governo.
Faça por viver meu filho, faça por
seguiu para São Paulo. Graças às viver. Eu posso lhe dar um conselho,
redes sociais, logo arrumou um mas não domino mais você. Quem
domina é o governo, e se você errar...
emprego (FONTES, 2008: 47-48). (“Seu” Cassiano, índio Xukuru,
Trabalhou por quase 40 anos no outubro de 2011).
Jockey Club de Pinheiros. (MONTE,
2012: 107-108). Antes, porém, fez A continuidade nos conselhos
questão de relatar as dificuldades e ensinamentos, bem como o suporte
enfrentadas na década de 1950, até na expedição de documentos se
desembarcar no destino final: reproduziu aos demais. Dos nove
filhos que criou, dois migraram para
O transporte foi ônibus de [empresa, São Paulo ao atingirem a maioridade:
da] Itapemirim. Não! Foi da
[empresa] Princesa do Agreste. Passei
nove dias! Nove dias no caminho. Aqui [na área indígena] o serviço era
Nove dias... Foi de fome, foi de tudo! grosseiro. Era pesado, na enxada. Aí,
Naquele tempo num era fácil. Era sete um disse assim: ‘meu pai, eu quero ir
dias, oito dias, nove dias, daqui pra embora pra São Paulo!’ Ele calado
São Paulo. Era só na pedra daqui pra estava, calado ele ficou! [Quando] foi
São Paulo. Num tinha asfalto, não. no outro ano, o outro menino
Olha, a gente chegava, olhava assim, completou [dezoito anos] também e
e dizia: que diabo é isso? Só o barro foi tirar os documentos. Foi do mesmo
vermelho, só o barro! Não é jeito do outro! (“Seu” Cassiano, índio
brincadeira, daqui pra São Paulo. E a Xukuru, outubro de 2011).
estrada não ajudava, era só pedra.
Mas graças a Deus se venceu tudo. Para comprar a passagem até
(Antônio Bezerra Vasconcelos, índios
Xukuru, julho de 2009). São Paulo, “Seu” Cassiano vendeu
“uma burra por dois contos e
“Seu” Cassiano, ao contrário quatrocentos. Peguei os dois contos e
do Xukuru Antônio Pequeno, não dei a ele: tome, vá! Aí ele foi
migrou para o Sudeste brasileiro. embora.” (Idem). As redes sociais,
Porém, na condição de pai de família, na época mantida por meio de cartas
o experiente índio estava prestes a ou quando um parente visitava os
testemunhar, novamente, o demais na região de origem em
fenômeno migratório no seio familiar. períodos de férias, foram
Completada a maioridade do fundamentais para a inserção dos
primogênito, “Seu” Cassiano levou o seus filhos no mercado de trabalho
filho para dar entrada nos (Monte, 2012: 88-89). O primeiro
documentos pessoais e, empregando deles hospedou-se na casa de um
sua maturidade e experiência, o tio:
aconselhou:
Já tinha um irmão meu lá. Ele [o
filho] disse: ‘vou pra onde tá tio
47
Mané!’ Ele foi trabalhar com meu sazonais aos definitivos –, nos
irmão, na firma que meu irmão
trabalhava. Ele trabalhou numa processos históricos vividos pelos 7
De acordo com a
fábrica de detergentes. (“Seu” Xukuru, com ênfase na manutenção qualificação e os critérios
Cassiano, índio Xukuru, outubro de adotados por Roberto
2011).
biológica dos indígenas e, em muitos
Cardoso de Oliveira durante
casos, atuando como condição básica um congresso no México,
para a sobrevivência das suas havia similaridades entre os
Completados três anos de camponeses e os indígenas
moradia em São Paulo, o primogênito famílias (MENEZES, 2009: 274-275; no Nordeste. Na época, o
de “Seu” Cassiano deparou-se com MONTE, 2012: 70). autor propôs a linha de
pesquisa “campesinato
uma situação inesperada, gerando Um estudo sobre migrações indígena”. (OLIVEIRA,
consequências na vida cotidiana e no de camponeses7 para os núcleos 1976, p. 67-68).

ambiente de trabalho. O seu tio se urbanos e metropolitanos corroboram


aposentou e propôs ao sobrinho para nossas análises. De acordo com
que o mesmo ocupasse a sua vaga Klaus Wortmann, a mobilidade
de gerente na empresa. Ele não espacial dessas pessoas não
aceitou: representa apenas as condições que
inviabilizam sua existência no local
O cara disse: ‘vai Antônio, você fica de origem. A migração é “parte
na vaga do seu tio.’ Ele disse: ‘eu integrante de suas próprias práticas
num quero não, patrão!’ Porque eu
entrei aqui com o meu tio e ele agora de reprodução” (WORTMANN, 1990:
sai. Ficar no lugar dele eu num fico 35), podendo ser também a condição
não! O ‘caba’ é hômi, né? Aí ele
passou três dias sem ir na firma. para que elas permaneçam
Depois de três dias ele já pediu as reafirmando suas identidades étnicas.
contas. Aí, o que foi que ele fez?
Pegou e alugou um quartinho e foi
Em outras palavras, na medida em
fabricar do mesmo material de lá. que um ou mais componentes da
Porque ele aprendeu [a fabricar
família sai de casa, torna-se mais
detergente]. Graças a Deus tá muito
bem. (Idem). fácil à reprodução social dos
indígenas. Entre os motivos, citamos
Até meados de 2011, os dois a questão de uma melhor distribuição
filhos de “Seu” Cassiano continuavam dos alimentos no seio familiar e a
trabalhando juntos no mesmo ramo. possibilidade dos que migraram
Segundo o pai: “Estão bem!” enviarem quantias em dinheiro para
Inclusive outro filho do indígena, ajudar no sustento da família na
após se casar na Aldeia Cana-Brava, região de origem (MENEZES, 2009:
migrou com a esposa para São Paulo 275-278; MONTE, 2012).
e “mora com os irmãos lá no fundo Nesse contexto, quando
da casa.” (Idem). questionei “Seu” Cassiano Xukuru
Considerando as experiências sobre as atuais condições de vida da
migratórias expressadas nas sua família, ele foi enfático:
memórias dos Xukuru do Ororubá,
não ouso desconstruir os relatos dos Melhorou muito! Hoje eu tô bem,
rapaz. [...] Aposentei já faz 18 anos,
indígenas sobre um período singular [e digo] ao senhor que criei nove
em suas histórias de vida. Mas filhos aqui [na terra indígena], sem
gostaria de chamar a atenção para o dar um dia alugado a ninguém. Casei
todos os nove. Tudo no civil e na
importante papel desses igreja. É muita sorte! É muita sorte e
deslocamentos espaciais – dos consideração que o povo tem, né?

48
(“Seu” Cassiano, índio Xukuru, marido] Xicão fez, foi essa curiosidade
outubro de 2011). de conhecer São Paulo. Como meu
8
filho, Marcos, também já foi um Cabe salientar que muitas
migrante pra São Paulo. Passou três entrevistas foram utilizadas
Analisando um interessante artigo da anos. Por incrível que pareça, a em outros textos e
historiadora Maria de Lourdes Janotti mesma data que o pai dele ficou lá, publicações. Todavia,
ele também ficou. Então quando ele alguns trechos de
sobre “A incorporação do testemunho voltou, ele disse: ‘a minha experiência entrevistas de história oral,
oral na escrita historiográfica”, a com São Paulo não deu certo.’ Porque bem como transcrições
o pouco que ele ganhava, só dava pra completas, permanecem
autora destacou que em recentes inéditas e serão
ele se manter. E, para trás, ele tinha
publicações, “se vislumbram, de deixado uma mulher com filho, né? incorporadas nos próximos
Então, eu acho que São Paulo é uma trabalhos.
forma nítida”, um maior cuidado dos
ilusão. Quem já tá lá há muitos anos,
pesquisadores com a escrita da que construiu algo, que hoje dar pra
9
Idealizado e criado em
História Oral. Entre as observações e viver bem, [aí] tudo bem. Agora, pra 2012, o website Índios no
mim, hoje, São Paulo é uma ilusão. Nordeste tornou-se
recomendações, ela enfatizou a Desde a época passada. Porque quem referência para estudantes,
questão do “entrelaçamento dos chegava ali em São Paulo, que não professores e
sabia ler, que não tinha uma pesquisadores interessados
conteúdos de um conjunto de ou que discutem a temática
profissão, só ia pro [serviço] pesado.
narrativas” (JANOTTI, 2010: 19). Na Pesado por pesado, vamos pra indígena. De caráter
agricultura que é melhor. Pelo menos multidisciplinar, o “canal
medida do possível – e de ouvidos virtual de informações
trabalha pra si próprio. (“Dona”
abertos às futuras críticas –, procurei Zenilda, índia Xukuru, outubro de sobre os povos indígenas”
neste texto apoiar-se, também, nos 2011)(grifo nosso). tem espaço para notícias,
subsídios para professores,
caminhos apontados por Janotti. vídeos e filmes temáticos,
O próximo relato, baseando- Neste breve, mas específico além de uma BIBLIOTECA
artigo sobre a História das migrações VIRTUAL com centenas de
se nas diversas entrevistas8 que publicações disponíveis
realizei com os/as índios/as Xukuru Xukuru do Ororubá, as vivências e legalmente para download
do Ororubá, incluindo as transcrições experiências expressadas nas gratuitamente São
documentos históricos,
e análises das mesmas, expõe memórias orais do/s índios/as livros, revistas,
importantes reflexões e, grosso migrantes, “encorpadas” através do dissertações e teses (em
todas as áreas do
modo, sintetiza o arcabouço de diálogo com outras fontes, além de
conhecimento). Acesse:
dúvidas, os sonhos e o cotidiano dos evidenciar os indígenas na condição http://www.indiosnonordes
de sujeitos históricos, o texto vem te.com.br
migrantes indígenas que optaram
pela Grande São Paulo. “Dona” somar-se à diversidade temática de
Zenilda, liderança indígena, viúva do (novos) estudos no campo da
cacique Xicão, e mãe de Marcos História Indígena no Brasil.9
(“Marquinho”), o atual cacique do Reafirmando, portanto, aquilo que
povo Xukuru do Ororubá, rememorou vem sendo discutido e publicado por
as experiências de ambos na maior colegas historiadores, através de
cidade do Brasil: pesquisas minuciosas sobre os povos
indígenas habitantes nas regiões que
Bom, eu acho que era o sonho. E o perfazem o país. Não nos restam
sonho de quase todo mundo é São dúvidas que estes sujeitos estiveram
Paulo. São Paulo é um sonho para o
povo. Eu já fui lá. Não achei muito presentes e atuantes em todos os
bom. E eu acho que o que [o meu momentos na História do Brasil.

FONTES
Entrevistas

49
Agripino Rodrigues do Nascimento, 87 anos. Aldeia Cana-Brava, Serra do
Ororubá, Pesqueira/PE, em 20/10/2011.
Antônio Bezerra Vasconcelos, “Antônio Pequeno”, 75 anos. (Falecido). Aldeia
Cajueiro, Serra do Ororubá, Pesqueira/PE, em 30/07/2009.
Bernadete Marinho, 62 anos. Aldeia Cajueiro, Serra do Ororubá, Pesqueira/PE, em
30/07/2009.
Cassiano Dias de Souza, “Seu Cassiano”, 81 anos. Aldeia Cana-Brava, Serra do
Ororubá, Pesqueira/PE, em 20/10/2011.
Cecílio Santana Feitosa, 44 anos. Aldeia Cana-Brava, Serra do Ororubá,
Pesqueira/PE, em 20/10/2011.
Maria de Jesus, 82 anos. Aldeia Pão-de-açúcar, Serra do Ororubá, Poção/PE, em
23/10/2010.
Maria José Martins da Silva, “Dona Lica”, 58 anos. Aldeia São José, Serra do
Ororubá, Pesqueira/PE, em 19/10/2011.
Saturnino Alves Feitosa, 67 anos. Aldeia Cana-Brava, Serra do Ororubá,
Pesqueira/PE, em 20/10/2011.
Zenilda Maria de Araújo, 61 anos. Aldeia São José, Serra do Ororubá,
Pesqueira/PE, em 19/10/2011.

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RECEBIDO EM 03/01/2016
APROVADO EM 31/01/2016
52
ÍNDIOS TUPINAMBÁ/BA:
“O MANTO FOI ROUBADO”! O PALAVRAS -CHAVE : Tupinambá,
DESPERTAR identidade, Encantados.
PELOS ENCANTADOS DE UMA
“IDENTIDADE ADORMECIDA”1 ABSTRACT : This paper analyzes the 1
Optamos pela expressão
“identidade adormecida”
consents, reelaborations,
utilizada pelo Tupinambá
Edson Hely Silva negotiations and social tensions in Cláudio Magalhães no livro
Doutor em HistóriUNICAMP the context of identity reframing Índios na visão dos índios:
Tupinambá (GERLIC,
CA/Universidade Federal de by/the Tupinambá of Olivença 2001: 07- 08), em
Pernambuco (Ilhéus/BA). Understanding the referência ao período em
que os/as Tupinambá
edson.eddsilva@gmail.com relationships involving such ethnic eram identificados/as
reframing Tupinambá requires the como caboclos/as.
Segundo os/as indígenas,
Tamires Batista Andrade Veloso de establishment of dialogue of teriam os Encantados
Brito historical sources with the history despertado a identidade
Mestranda em História and the theoretical and Tupinambá. O processo do
despertar desta identidade
Universidade Federal de Campina methodological assumptions, trying equivale à expressão
Grande to understand the political “emergência étnica”, nem
sempre bem aceita entre
Bolsista CAPES. dimensions of the situations pesquisadores/as e
tamiemflor@gmail.com experienced. The objective of this indígenas (ANDRADE,
2002: 27).
paper is to help to highlight the
RESUMO : O presente texto analisa os socio-political mobilizations of the
consentimentos, reelaborações, Tupinambá, since the Tupinambá
negociações e tensões sociais no identity remains questioned even in
contexto da ressignificação identitária the academic environment, by
pelos/as Tupinambá de Olivença invading the lands claimed by
(Ilhéus/BA). Compreender as indigenous cited, as well as in the
relações que envolvem tal common sense of other residents as
ressignificação étnica Tupinambá in the region as confrontational.
requer o estabelecimento do diálogo KEYWORDS : Tupinambá, identity,
das fontes históricas com a Delighted.
historiografia e com os pressupostos
teórico-metodológicos, buscando Em janeiro de 2015,
entender as dimensões políticas das entrevistamos Dona Nivalda Amaral
situações vivenciadas. Objetivamos, de Jesus. 83 anos, Tupinambá
por meio deste artigo, contribuir para nascida e moradora de Olivença
evidenciar as mobilizações (Ihéus/BA), cujo nome indígena é
sociopolíticas dos/as Tupinambá, Amotara (que significa “amar a
uma vez que a identidade Tupinambá todos”), uma importante liderança
continua sendo questionada mesmo Tupinambá que marcou a história de
no ambiente acadêmico, pelos seu povo na afirmação da identidade
invasores das terras reivindicadas enquanto um povo indígena. Nesta
pelos citados indígenas, como entrevista, Amotara falou com
também no senso comum dos/as tristeza, mas também com
demais moradores/as naquela região esperança, sobre uma viagem à
tão conflituosa. Brasília realizada em 2012, segundo

53
a narradora, para conversar com o Resumo do Relatório Circunstanciado
2
Presidente Lula. de Delimitação da Terra Indígena Demarcações nos últimos
seis governos. Disponível
No entanto, sabemos que Tupinambá de Olivença, delimitando em:
desde 2011 a Presidente da a TI (2009), ainda que entre 2008 e <http://pib.socioambiental.o
rg/pt/c/0/1/2/demarcacoes-
República é Dilma Rousseff. 2010 o povo Tupinambá tenha sido nos-ultimos-governos>.
Compreendemos a confusão com gravemente violentado pelo Estado, a Acesso em 16/02/2016.
relação aos nomes, pois como partir das ações da Polícia Federal
discorreu Halbwachs a respeito das (2008) e alguns/as de seus caciques
lembranças reconstruídas: “À medida presos/as, Valdelice Jamopoty (2009)
em que os acontecimentos se e Babau (2008 e 2010).
distanciam, temos o hábito de Os/as indígenas realizaram
lembrá-los sob a forma de conjuntos, viagens à Brasília, a exemplo de
sobre os quais se destacam alguns Dona Nivalda (2012), com a
dentre eles, mas que abrangem intensificação dos conflitos
muitos outros elementos, sem que vivenciados sob o mandato da
possamos distinguir um do outro, Presidenta Dilma. Em 2012 a
nem jamais fazer deles uma consultoria jurídica do Ministério da
enumeração completa” Justiça declarou a aprovação dos
(HALBWACHS, 2006: 77). estudos elaborados que concluíram a
É importante ressaltar a tradicionalidade da ocupação do
possibilidade que o Presidente Luís território Tupinambá, contudo, a
Inácio Lula da Silva tenha se tornado portaria declaratória da TI,até o
uma referência política de destaque momento da elaboração desse artigo,
para Dona Nivalda, em comparação não foi assinada. Os conflitos
com a representatividade de Dilma agravaram-se em 2013, culminando
Rousseff, em razãoda expressividade na última prisão do cacique Rosivaldo
do ex-Presidente com relação a Ferreira da Silva, conhecido
temática indígena no Brasil e, nacionalmente como “Babau”, em
particularmente, com relação à TI 2014.
Tupinambá de Olivença. Nos Dona Nivalda carrega,
governos do Presidente Lula (2003- portanto, impressões e vestígios de
2010) 81 terras indígenas foram lembranças com as quais reconstruiu
declaradas e 87 homologadas. o quadro de sua viagem. As
Enquanto que sob os governos da lembranças, nesse sentido, podem
Presidenta Dilma Rousseff (iniciado ser entendidas como “uma
em 2011), apenas 13 terras reconstrução do passado com a ajuda
indígenas foram declaradas e 18 de dados tomados de empréstimo ao
homologadas2. presente e preparados por outras
Com relação às reconstruções feitas em épocas
peculiaridades Tupinambá em anteriores”, da qual “a imagem de
Olivença, sob o governo do outrora já saiu bastante alterada”
Presidente Lula, foram iniciados os (HALBWACHS, 2006: 91). As novas
procedimentos de identificação, imagens do passado recobrem,
delimitação e demarcação da TI assim, as antigas, tratando-se de
(2004), tendo sido aprovado e uma atualização de uma memória
publicado no Diário Oficial da União o não linear.
54
A partir da citada entrevista, (ANTENORE, 2000). Ao retornar à
Amotara denunciou a ausência do Holanda, em 1644, Maurício de
manto Tupinambá no território Nassau, governante de enclave da
indígena: Companhia Neerlandesa das Índias
Ocidentais no território brasileiro
Com Lula. Conversei sim. Eu queria entre 1630 e 1660, após a assinatura
que ele trouxesse, até hoje nós temos
esperança... O manto. O manto que do Tratado de Haia pelo qual a
foi feito pelo um... Um... Um primeiro Holanda reconheceu a soberania
cacique, chamava-se Fulgêncio. Meu
tio Fulgêncio foi quem fez o manto
portuguesa sobre Pernambuco, levou
tupinambá, tudo de pena vermelha de consigo um manto de plumas
guará, pena de guará. vermelhas.
[...] E já foi baixo assinado, já foi
tanta coisa, mas eu acredito que se No entanto, Dona Nivalda
ele, se Lula tivesse assim uma afirma ter reconhecido o Manto
firmezazinha nesse, podia ter
mandado só os índio, nera? Com Tupinambá, guiada pelo espírito de
firmeza, trazia. Muito disse que lá é sua avó, não podendo levá-lo
rei, né? Chegou e disse assim: “É... É
bom que apareceu o dono!”
consigo, apesar de desde o momento
Foi roubado! Porque vivia numa arca do reconhecimento ter manifestado o
de couro, dentro da igreja debaixo do
desejo, segundo a Folha. Sonhando
subterrâneo. Então foi roubado. Os
portugueses quando chegaram por com o dia em que os/as
aqui, que foi quando os jesuíta tava guerreiros/as Tupinambá de Olivença
fazendo a igreja, ficou à vontade...
Não tinha ninguém pra olhar uma resgatarão na Dinamarca o
obra e tudo e roubaram. Acharam que importante símbolo da identidade e
era de valor, levaram (NIVALDA
AMARAL DE JESUS, 2015). ancestralidade destes/as indígenas.
Um dos símbolos culturais entre
Amotara Tupinambá afirmou tantos outros roubados dos/as
ter recordado, a partir das histórias Tupinambá:
contadas por sua avó Ester, as
características do manto feito por seu Disse que até hoje, até hoje tem!
Porque eu fui, eu fui ver se era ele
tio/avô Fulgêncio: vermelho, feito mesmo. Não fui em Brasília, mas fui
com penas de guará. Ironicamente, a em São Paulo. No Parque de
Berapoera. Aí teve uma exposição que
narradora foi convidada pela Folha de teve mais de quinhentos,
São Paulo a reconhecê-lo numa quinhentos... Amostra indígena.
Incrusive ele estava também. Eles
exposição num Museu do Parque levaram, pessoa já representou já, ele
Ibirapuera/São Paulo, a “Exposição tupinambá. E eu fui. [...] Nunca
Brasil +500 Mostra do cheguei assim pra pegar, pra ver, pra
pôr assim de perto assim não! Sabia
Redescobrimento”. porque minha vó contava tudo, né?
De acordo com o citado [...] Ele me soltou, me soltou assim lá
e eu fui guiada pelo espírito de minha
jornal, o “manto tupinambá de penas véa Ester, minha vó, eu fui guiada por
vermelhas”, um dos destaques da ela. Eu via ela assim... [...] Quando
eu cheguei assim uns cinco metro,
exposição, foi levado pelos cinco metro – mediram, deu cinco
holandeses, em 1644, de metro mermo –, antes de chegar de
junto do manto, eu reconheci, e me
Pernambuco para a Dinamarca,
deu um frio minha fia, um frio, me
encontrando-se atualmente no veio um frio assim por debaixo de
acervo “Nationalmuseet”, em meus pés assim... Aquele frio assim
que me tomou toda assim! [...] Fui
Copenhague, sendo por este Museu chegando perto, quando cheguei
conservado e restaurado assim, eu disse: “É esse aqui!” Botei a

55
mão nele assim... “É esse aqui! Ô morte do “cativo”. Aquele que o
meu Deus! Primeira vez que tô
pegando no manto que meu avô fez! autor percebeu como “carrasco”
O manto tupinambá!” [...] Nós nunca vestia-se com o manto de penas e
que queria desapartar desse manto!
Toda vez, era caminhada, era reunião
imitava uma ave de rapina ao matar.
na praça, então, toda vez que tinha “É esse passado vivido, bem
uma coisa assim, feita assim pelos mais do que o passado apreendido
espírito tupinambá, ele tava ali
presente, e pronto!”[...] Dinamarca. pela história escrita” relevante para
É... Dinamarca. Mas eu tô dizendo nós, pois é “nesse sentido que a
que se se juntasse, se esses índio
fosse tudo unido, juntasse! Porque história vivida se distingue da história
abaixo assinada já foi, e tudo... Já foi escrita: ela tem tudo o que é preciso
até de outras pessoas, quer dizer, e
não deu... E ele não entregou, então,
para construir um quadro vivo e
quer uma força mais forte, né? natural em que um pensamento pode
(NIVALDA AMARAL DE JESUS, 2015).
se apoiar, para conservar e
reencontrar a imagem e seu
Ainda de acordo com a Folha
passado” (HALBWACHS, 2006: 75).
de São Paulo, a liderança Núbia
Foi importante para Amotara
Batista da Silva afirmou que os/as
Tupinambá recordar e expressar
Tupinambá vivenciam “um processo
oralmente suas memórias, que
de resgate cultural. Recuperar o
denunciaram a ausência do manto
manto significa trazer a memória de
Tupinambá, assim como parte do
nossos ancestrais para mais perto”
processo histórico violento (por parte
(ANTENORE, 2000). O manto é um
dos não indígenas) e criativo
símbolo antigo da identidade
(pelos/as indígenas) de
Tupinambá, remontando ao Século
transformações identitárias e
XVII. Carlos Fausto (2009: 391 e
territorial que a própria narradora
392) se referiu ao manto como
vivenciou.
indumentária utilizada pelo
“carrasco” no ritual antropofágico de

56
Dona Nivalda reconhecendo o manto Tupinambá na Mostra do
Descobrimento em São Paulo/SP
Fonte: Folha de São Paulo, 01/06/2000.

A matéria a qual nos aculturado” e “índio puro” foram


referimos e da qual extraímos a construídas no século XIX e ainda na
fotografia acima, publicada no jornal atualidade encontram ressonância
Folha de São Paulo foi intitulada entre os que se posicionam contra a
Índios de Ilhéus dizem pertencer à demarcação territorial Tupinambá em
etnia considerada extinta e Olivença, mantendo-se em nossa
reivindicam peça do século 17 – historiografia até a década de 1970.
“Somos tupinambás, queremos o A partir de pesquisas
manto de volta”. É evidente a ênfase interdisciplinares realizadas por
na crença no desaparecimento étnico historiadores/as, antropólogos/as,
dos Tupinambá e a importância do arqueólogos/as e linguistas, que
manto na construção da afirmação da atuam junto aos povos indígenas no
identidade pelos/as indígenas. O Nordeste, tornou-se possível uma
texto publicado na Folha de São “nova história indígena” em que a
Paulo iniciou acentuando tal crença: crença na extinção de tais povos foi
substituída pelas evidentes
Uma modesta comunidade em etnogêneses (ALMEIDA; PROFICE;
Olivença (distrito de Ilhéus, no litoral
sul da Bahia) está tentando mudar a SANTOS, 2014: 61).
história oficial do Brasil. São Em maio de 2002, antes de
aproximadamente mil pessoas, a
maioria lavradores, que não querem
o Brasil tornar-se signatário da
mais receber o tratamento de Convenção 169 da Organização
“caboclos” ou “pardos”, como ocorre Internacional do Trabalho/OIT, a
há pelo menos seis décadas. Dizem-
se índios tupinambás – etnia que a FUNAI reconheceu a identidade
literatura especializada julga extinta étnica dos/as Tupinambá de
desde o século 17 – e exigem, agora,
que o governo os reconheça assim. Olivença, que entre os finais do
Nos últimos 18 anos, discutiram a século XIX e durante todo o século
questão de identidade sem
estardalhaço, quase às escondidas.
XX foram identificados/as como
Em janeiro, porém, sentiram-se caboclos/as, “visto que o conflito de
maduros para torna-la pública e
terras na região gerava o risco de
lançaram uma carta “à sociedade
nacional”, explicando o que desejam morte ao se auto-afirmar indígena”.
(ANTENORE, 2000). E também porque os não indígenas
os denominavam assim a fim de
A historiografia brasileira sob
deslegitimar qualquer tentativa de
a perspectiva do botânico alemão
reivindicar uma especificidade étnica
Von Martius que percorreu O Brasil
(ALMEIDA; PROFICE; SANTOS, 2014:
no início do Século XIX acreditava
64; COSTA, 2013: 29; FERREIRA;
que os povos originários estavam à
MESSEDER, 2010: 186). Esse
beira de total extinção, resultado do
reconhecimento étnico, porém, foi e
processo de inserção e “civilização”
continua sendo questionado pela
dos povos indígenas na sociedade
população regional (Sul da Bahia),
não indígena (MONTEIRO, 2001).. As
principalmente pelos ditos
representações dualistas de “índio
proprietários das terras em Olivença.
57
3
A Santidade de Jaguaripe
A negação da identidade indígenas no Nordeste, explicando a sua “mensagem rebelde”,
sua organização, crenças e
Tupinambá pela sociedade relação de etnogênese como seu templo “que mesclavam,
circundante, porém, não é recente. reconstrução (e não construção, pois de forma original, o
catolicismo e a cultura
Em 1803, o Ouvidor da Comarca de já existente) da identidade étnica no tupinambá”, foi objeto de
Ilhéus afirmou que os/as indígenas fluxo histórico das relações estudo de Ronaldo Vainfas
(1995) em sua
da Vila de Olivença estavam interétnicas e os “processos de
contextualização da
civilizados/as, pois tinham territorialização” envolvendo esses resistência indígena ao
assimilados aspectos da cultura dos povos. Um desses processos ocorreu colonialismo, assim como “as
metamorfoses da mitologia
não índios: “eram cristãos, falavam a no Século XVII e nas primeiras tupi sob o impacto do
língua portuguesa, vestiam-se à décadas do Século XVIII, e esteve colonialismo” e as “atitudes
cotidianas de boicote e
moda ocidental, inclusive casacas, vinculado às missões religiosas ou às transgressão à Igreja e à
adotavam nomes cristãos e “guerras justas”, instrumentos da dominação colonial”
(VAINFAS, 1995: 15; 16;
praticavam atividades ligadas ao política colonial que possibilitaram a 31). Em algumas
comércio e à administração pública” expansão territorial sobre as terras circunstâncias, os/as
(MARCIS, 2004: 118). Admitia-se indígenas e uma “primeira mistura”, indígenasresistiam ao
Cristianismo de tal modo que
que os/as moradores/as de Olivença a partir da catequização de indígenas zombavam dos padres, das
eram descendentes dos/as indígenas de povos diversos reunidos/as nos missas e da simbologia
cristã. Nessa vivência
do antigo aldeamento, porém, o aldeamentos, produzindo perdas multifacetada, símbolos
Estado negava que os tais como também reelaborações nas religiosos cristãos foram
aceitos pelos/as indígenas,
descendentes ainda fossem identidades étnicas. assim como a doutrina dos
Tupinambá. As crianças recebiam aulas Jesuítas foi modificada e
rejeitada conforme as
No entanto, tornou-se de catecismo, eram, portanto,
tradições tupis (VAINFAS,
questionável a suposta integração catequizadas com o objetivo de que 1995: 107-21). Existiram
dos/as Tupinambá à chamada as formas de ser e viver dos/as acordos e desacordos,
apropriações presentes ainda
sociedade brasileira, tendo em vista indígenas fossem esquecidos. A nos dias atuais e “casos de
os processos colonizadores e as língua indígena foi, então, proibida e acordes dissonantes que
revelam contrastes mal
tentativas de imposição ocidental substituída pela língua portuguesa e resolvidos” (BOSI, 1992:
vivenciados pelos/as indígenas em o Latim, o que talvez tenha resultado 30).Também na Tese de
Doutorado em
Olivença. A respeito dos povos na separação entre filhos/as e História/UNICAMP de Maria
indígenas no Nordeste, o pesquisador mães/pais e demais parentes. A Cristina Pompa (2001)
Edson Silva (2003) assinalou suas língua indígena era essencial aos/às encontramos uma análise do
encontro sociocultural da
estratégias de resistências cotidianas Tupinambá, cujo modo de religião cristã católica
(visíveis e invisíveis) sob as socialização de saberes cotidiano romana ocidental com os
“sistemas mítico-rituais”
contínuas ações agressivas ocorria exclusivamente pela indígenas. No contexto
colonialistas. O autor questionou oralidade. No entanto, na medida em colonial em que o “outro” era
visto como um problema a
visões tradicionais nas quais os/as que os adultos aprendiam a língua ser resolvido. O citado estudo
indígenas eram descritos/as como portuguesa e guardavam em sua procurou mostrar que a
religião ocidental não obteve
absolutamente passivos/as, memória a língua tupi, o modo de ser
sucesso total em suas
apontando novas abordagens e viver, era também guardado pela tentativas de imposição, na
históricas: Monteiro (1994), resistência e resiliência (COSTA, medida em que o mundo
simbólico indígena não
Gruzinski (1995), Vainfas (1997)3 e 2013: 109-110). deixava de existir. Para a
Pompa (2001) em que os/as Numa perspectiva autora, o que ocorreu foi “um
processo de tradução
indígenas foram evidenciados/as complementar a de João Pacheco de recíproca, em que os
como sujeitos sociopolíticos. Oliveira, a pesquisadora Teresinha símbolos de um e de outro
constituíram uma linguagem
O antropólogo João Pacheco Marcis (2004: 50) observou ainda de mediação”. As aceitações
de Oliveira (1999) se reportou aos/às que os/as Tupinambá enfrentaram e as transformações se
fizeram presentes.
58
diferentes violências desde que foram Pelo que sugere esta citação,
aldeados/as em Olivença. As muitos aldeamentos foram extintos
violências aumentaram no Nordeste e os/as indígenas
especialmente com a implementação vivenciaram um processo de
do Diretório dos Índios (1758) “caboclização”, “mistura” ou
quando os/as indígenas no Brasil “mestiçagem”: sendo
foram pressionados/as para serem denominados/as caboclos/as pela
integrados/as à sociedade colonial. O sociedade local (SILVA, 2003: 43) e
que pressupunha abandonarem a sua supostamente tomando como sua a
diversidade indígena, a fim de que cultura regional, como se o “índio”
tivessem suas terras incorporadas fosse um estado transitório e
aos interesses do Estado: pudesse ser transformado
transformando os aldeamentos em imediatamente em não índio
vilas que se tornaram projetos de (ARRUTI, 1995: 57-60; CARVALHO;
cidades. DANTAS; SAMPAIO, 1992: 451-452).
Entre outras ações, a O antropólogo Darcy Ribeiro
integração imposta pelo Diretório do afirmou que as “tradições culturais”
Marquês de Pombal ocorreu a partir indígenas, africanas e portuguesas se
de casamentos interétnicos e a fundiram para “dar lugar a um povo
acomodação de colonos brancos nos novo” (RIBEIRO, 1995: 19). Este
antigos aldeamentos, os quais pensamento de fundição e de não
tiveram as propriedades mais existência de uma identidade
regularizadas pela Lei de Terras de indígena começou a ser desenvolvido
1850. Como visto, em 1803, o pelo desde a década de 1950, um
Ouvidor da Comarca de Ilhéus, período de permanência da
Domingos F. Maciel, afirmou que o “caboclização” dos/as Tupinambá de
processo de “civilização” dos/as Olivença, entre outros/as povos
indígenas de Olivença estava indígenas, e de silenciamento de suas
concluído, e que os/as indígenas histórias. Quando a primeira edição
teriam perdido não somente a da obra citada foi publicada, em
identidade como também a posse da 1995, a Constituição Federal de 1988
terra (MARCIS, 2004: 50-62). determinava a proteção aos direitos
Como observou João territoriais indígenas, ainda assim, as
Pacheco de Oliveira: ideias do citado autor eram bastante
influentes em nível nacional.
Ao final do Século XIX, já não se A definição de uma
falava mais em povos e culturas
indígenas no Nordeste. Destituídos de indianidade, importante para o
seus antigos territórios, não são mais reconhecimento étnico oficial,
reconhecidos como coletividades, mas
referidos individualmente como
ocorreu por meio da desconstrução
“remanescentes” ou “descendentes”. da identidade enquanto caboclo/a e
São os “índios misturados” de que da reconstrução do ser Tupinambá.
falam as autoridades, a população
regional e eles próprios, os registros Porém, ainda que identificados/as
de suas festas e crenças sendo como “caboclos/as”, é importante
realizados sob o título de “tradições
populares” (1999: 26). lembrar que no início do século XX,
houve uma ascensão de uma classe
política, econômica e social indígena,
59
de uma elite indígena que ocupava colonização, inicialmente entre povos
cargos administrativos relevantes, indígenas diferentes e
inclusive existindo um coronel posteriormente com a presença
Tupinambá, Manoel Nonato do europeia no Nordeste brasileiro,
Amaral (MARCIS, 2004: 84). causando grande impacto nos modos
Essa ascensão ocorreu ainda de vida indígenas. No entanto, os
que os/as Tupinambá fossem impactos socioculturais tornaram-se
denominados/as “caboclos/as” ou por violentos e impositivos a partir da
isso mesmo ser identificado como chegada dos europeus.
“caboclo/a” era sinônimo de
pertencer ao “povo de Olivença”, um O reconhecimento étnico
pertencimento que não deixou de ser Tupinambá: contradições e
indígena. Segundo Ugo Andrade contraposições
(2002: 72), a designação “caboclo” A Comissão dos Pequenos
mantém uma ambiguidade, pois ao Produtores da Região Sul da Bahia,
mesmo tempo em que denota que representa uma parcela dos que
“mistura de sangue”, portanto, se posicionam contra a demarcação
ilegitimidade da diferença étnica com da TI Tupinambá de Olivença,
relação à população local, também somada aos latifundiários e
aponta para uma ascendência empreendedores imobiliários
indígena. estrangeiros afirmam que no
O processo de processo histórico de colonização
territorialização e suas “misturas”, dos/as Tupinambá por europeus,
discutidos por João Pacheco de iniciado no século XVI e ecoando nos
Oliveira (1999), não foram dias atuais, ocorreram
suficientes para exterminar o modo “descaracterização étnica” e,
de ser e viver dos/as Tupinambá de consequentemente, “desconfiguração
Olivença, entre outros povos dos traços étnicos”, especialmente
indígenas que resistiram a dos “traços genéticos”, referindo-se
colonização. Os/as indígenas em ao fenótipo dos/as Tupinambá
Olivença se identificam como povo (COSTA, 2013: 30).
indígena: são Tupinambá, com sua Porém, os/as indígenas
trajetória sociocultural reelaborada Tupinambá em Olivença, acreditam
no decorrer de todo o processo numa etnicidade comum, a exemplo
histórico vivido, no qual os “sinais da do que afirmou Dona Maria da Glória,
etnicidade” foram retomados “no moradora da Aldeia Serra do
momento em que se impõe a Padeiro/Una e Buerarema/BA,
necessidade de realçar as fronteiras companheira do Pajé Lírio e mãe do
étnicas” (MARCIS, 2004: 121). Cacique Rosivaldo Ferreira da Silva,
Analisando o processo de conhecido como “Babau”:
reconstrução da identidade
Tupinambá de Olivença, Teresinha Mas eu tinha minha história, que
minha avó, meu avô, tudo era índio.
Marcis (2004: 121) observou que Agora a gente não podia se
ocorreram perdas e reelaborações, autodenominar índio porque tinha
uma massacração... Se falasse que
em razão dos relacionamentos era índio, morria. E a minha vó criou
interétnicos desde antes da nós avisano que isso era oculto.

60
Chamava “os caboco”, mas não podia aparência física e da frequência com
falar que era índio. [...] O que é ser
indígena? É nós saber de nossa que são realizados rituais.E assim
história, auto se denominar o que que colocando sob suspeita os critérios
nós é, porque é a gente que tem que
dizer o que é, e aprovar pro Governo,
utilizados pelas agências indigenistas
pro noticiário o que que nós somos. E estatais para o reconhecimento de
nós temos estudo e temos o território, indígenas, que ocorriam, sobretudo,
que nós nunca foi de outro lugar, meu
marido, meus avô, a avó de meu pela comprovação daquelas pessoas
marido, aqui da Aldeia Tupinambá e de terem o domínio do ritual, com
nunca foi de outro canto. [...] Intoce
nós tem prova e nós sabe o que que seus cantos e danças.
nós é! E nós que diz o que que nós é, A negação da etnicidade
não é o Governo que vai dizer! [...]
Temos nossas história, temos os
dos/as Tupinambá de Olivença está
antepassado, temos as mata, temos relacionada ao “jogo de poder entre a
conhecimento do que é ser índio e
heteroidentificação e a
somos índio e não saímos daqui mais
não! Cansemo de negar o que nós é autoidentificação na construção das
pra satisfazer fazendeiro que tomou identidades coletivas envolvidas na
as terra tudo, matou muito índio e
hoje quer cantar de galo em nossa formulação das relações entre os que
Aldeia! E a gente sabe que um dia definem aos outros e os feitos
tem que morrer, então vamos morrer
dizendo o que que nós é! (MARIA DA outros” (MEJÍA LARA, 2012: 38-39).
GLÓRIA DE JESUS, 2015). Cronistas portugueses do
século XVI descreveram a “acentuada
A antropóloga Manuela disparidade cultural entre os
Carneiro da Cunha (1979:46) Tupinambá e os europeus”
reforçou esta ideia, além de (ALMEIDA; PROFICE; SANTOS, 2014:
antropólogos/as interacionistas, ao 62). No entanto, o projeto colonial
definir: “assim, é índio quem se português era o de superar tal
considera e é considerado índio”. disparidade, intervindo nos alicerces
Reafirmando o Estatuto do Índio (Lei socioculturais deste e de outros
nº 6001, de 19 de dezembro de povos indígenas.
1973), no Art. 3, sobre a definição Para o livro Cultura viva:
“Índio”: “É todo indivíduo de origem esperança da Terra, Aracy
e ascendência pré-colombiana que se Tupinambá trouxe afirmações
identifica e é identificado como essenciais para a compreensão da
pertencente a um grupo étnico cujas atual e salientada dúvida sobre a
características culturais o distinguem identidade dos/as Tupinambá de
da sociedade nacional”. Olivença,expressada pela maioria dos
Esclarecendo, portanto, que o não índios que habitam a região Sul
fenótipo não é relevante para o da Bahia, tanto no senso comum
reconhecimento étnico de povos quanto no ambiente acadêmico: a
indígenas. comparação dos/as Tupinambá do
No texto “Morte e vida no século XXI com aqueles/as
Nordeste indígena: a emergência encontrados/as pelos europeus aqui
étnica como fenômeno regional”,José no Brasil no século XVI ou com povos
Maurício Andion Arruti (1995) indígenas que habitam a floresta
apresentou argumentos questionando amazônica. Para Aracy, não somente
as possibilidades de avaliar a o modo de vida dos/as Tupinambá foi
identidade indígena a partir da

61
alterado, como também a cultura cultura”. Atualmente, os/as
europeia: Tupinambá vivenciam processos de 4
O Porancim é o ritual
sagrado dos/as Tupinambá
retomadas, não somente de seu
de Olivença. Uma liderança
A realidade indígena nos dias atuais é território considerado sagrado, como inicia a dança circular e o
bem diferente do passado, da mesma entoar dos cânticos
forma que os tataranetos dos também de sua língua e da prática
sagrados que tratam da
portugueses que chegaram com suas do Porancim4. Natureza, das mobilizações
caravelas nesse solo não se vestem contra os preconceitos
hoje da mesma maneira que seus
O citado pesquisador Arruti
difundidos a respeito do
avós. Nós povos indígenas possuímos denominou de “reencantamento do povo indígena Tupinambá
vestimentas tradicionais próprias e mundo” as possibilidades de de Olivença e pela
grafismos com os quais fazemos demarcação territorial.
pinturas corporais, mas nossa nudez recuperar e constantemente Os/as demais acompanham
ou não nudez, não define ser indígena (re)construir e intervir nos aspectos a liderança, ao mesmo
ou não indígena. Toda cultura é tempo em que dançam,
dinâmica, está sempre em constante simbólicos e socioculturais, tais como
batendo os pés no chão com
movimento... (GERLIC, 2012: 24). o ritual (ARRUTI, 1995: 76). O ritual firmeza e balançando o
Porancim não somente acontece maracá, instrumento
Aracy Tupinambá referiu-se musical sagrado, o círculo
enquanto um dos meios de expressão que compõem, gira.
às indumentárias e grafismos feitos das mobilizações pelo
nas peles dos/as indígenas reconhecimento identitário e pela
Tupinambá em momentos de posse da terra, como também com a
reivindicações e celebrações, isto sua realização torna visível e acentua
porque é corrente na região Sul da os laços coletivos e místicos que são
Bahia as afirmações que os/as as bases para a conquista e
Tupinambá de Olivença deveriam consolidação dos direitos, pois
andar nus para a comprovação de motivam o prosseguimento com
sua autêntica identidade indígena aos outras mobilizações Tupinambá.
não indígenas. Concordamos com O Porancim é celebrado nos
Aracy quando afirmou que na cultura, momentos de reuniões para
ou no modo de ser e viver dos/as discussões, em outras ações em
indígenas, assim como a dos/as não defesa da demarcação da TI e em
indígenas, ocorreram transformações retomadas,para o fortalecimento
por movimentos históricos, dinâmicos espiritual e da identidade coletiva, a
e fluídos. “comunicação dos participantes do
Ainda para o mesmo livro, ritual com os encantados”, no
Kaluanã Tupinambá escreveu o texo processo de reivindicação por seus
intitulado “A história do povo direitos (COUTO, 2003: 74-75). A
Tupinambá de Olivença que não está garantia do território indígena se
nos livros”(GERLIC, 2012: 28), no constitui essencial para a
qual expôs quais aspectos continuidade desta prática “político-
socioculturais foram forçosamente religiosa” E os Encantados são
excluídos temporariamente do “entidades não humanas que
cotidiano Tupinambá: “Para os povos dispõem de domínios territoriais
que não morreram, os portugueses específicos e, conforme a cosmologia
forçaram muita coisa: não falar mais Tupinambá, são os verdadeiros donos
nossa língua materna, vestir roupas e da terra” (UBINGER, 2012: 107).
não fazer mais nosso ritual sagrado, Para os/as Tupinambá, toda
ou seja, queriam descaracterizar um a Natureza contém os Encantados: as
povo que sempre teve sua própria águas e as matas. Numa conversa
62
informal, Célia Tupinambá explicou à No livro Índios na visão dos
pesquisadora Helen Ubinger (2012: índios: Tupinambá (GERLIC, 2001: 5
Em referência ao povo
indígena Tupinambá,
72): “Existem também os encantados 07-08),Cláudio Magalhães falou de escrevemos com a inicial
das estrelas – tipo anjos, um mundo uma “identidade adormecida” por um maiúscula, usando a letra
“T” e no singular, quando
no céu de estrelas encantadas. Tudo período de negação identitária vivida
nos referirmos a
vem de Tupã, é como se fosse um por seus antepassados. Afirmou coletividade indígena. E
sonho”. Em suas vivências junto ainda, uma ideia frequente entre os grafamos “tupinambás” em
minúsculo e no plural,
aos/às Tupinambá, essa não indígenas preocupados com a quando citarmos indivíduos
pesquisadora constatou que tais ascensão constante do Capitalismo: a indígenas. Regra essa de
acordo com a “Convenção
indígenas “mantêm uma cosmologia de que os/as indígenas são para a grafia dos nomes
propriamente Tupinambá”. empecilhos ao progresso do país. tribais”, estabelecida pela
Associação Brasileira de
Obras de Alfred Métraux Sobre isto, pensamos que “cada
Antropologia/ABA em
(1979) e Florestan Fernandes (1970) sistema social utiliza suas energias 14/11/1953, publicada na
indicavam esta relação com os intelectuais dentro dos limites de seu Revista de Antropologia
(vol. 2, nº 2, São Paulo,
“espíritos das matas” entre os horizonte cultural [...]. Não podemos 1954, p. 150-152) e
indígenas Tupinambá (apudUBINGER, mensurar ou classificar esta forma de utilizada nos estudos
acadêmicos sobre a
2012: 46). Segundo os/as indígenas organização a partir de uma escala temática indígena.
em Olivença, foram os Encantados civilizatória ou primitivista...”
que despertaram a identidade (ALMEIDA; PROFICE; SANTOS, 2014:
adormecida, pois “vêm sendo parte 66).
dessa reestruturação coletiva” De acordo com o narrador,
(UBINGER, 2012: 53). É na atualidade existem tupinambás5
fortalecedora a comunicação com os que não assumem sua identidade
Encantados, que por vezes são indígena por conta da interpretação
também seus antepassados, “com os distorcida sobre esta identidade
quais mantêm um laço vivo entre o predominante entre os não
passado e o presente, mediante indígenas, com os quais estes/as
sonhos, intuições, sentimentos, indígenas têm contato. Tal
sensações, decisões e também interpretação incorre em preconceito
lembranças” (MEJÍA, 2012: 38). que marginaliza os/as Tupinambá:
É ainda frequente que os/as
indígenas “escutem” os Encantados Nós não tivemos descanso, são 500
anos de confronto, e sempre
quando estão dormindo, por meio de preservando, reconstruindo. Muito de
sonhos relacionados ao movimento nossos parentes não falam da história
porque foram muito humilhados, hoje
indígena, sobre acontecimentos estão com a identidade adormecida.
previstos (MEJÍA, 2012: 105; 114). Os índios daqui sempre foram muito
Os indígenas afirmam que esta reprimidos, perseguidos. Nós fomos
cercados ideologicamente, sempre
espiritualidade diferenciada os/as nos dizendo que não somos índios,
distingue de outros povos indígenas e que não temos direitos, que somos
selvagens, brutais, que não queremos
dos não indígenas. Em outras que o país desenvolva, mas nós índios
palavras, a diferença identitária somos solidários, libertários, sempre
buscando a igualdade.
Tupinambá está diretamente ligada à Alguns índios não se assumem como
espiritualidade. índios, mas não por uma questão de
covardia, e sim, de sobrevivência
(GERLIC, 2001: 07-08).
Uma “identidade adormecida”

63
Quando em janeiro de 2015 Possivelmente os/as
entrevistamos Dona Nivalda, a tupinambás que não assumem a 6
Integrante da Oca
Digital, um dos
mesma também falou a respeito da identidade indígena, como afirmaram laboratórios ativos da
constante negação da identidade Dona Nivalda e Cláudio Magalhães, ONG Thydêwá de
tecnologias e artes para a
indígena por parte de alguns/as não o fazem por conta das impostas
ampliação da
tupinambás. No entendimento da interpretações preconceituosas pelos comunicação a favor
narradora, para ser Tupinambá, é habitantes não indígenas na região dos/as Tupinambá.

necessário ter raiz no território: sobre o que venha a ser o indígena.


A pesquisadora Teresinha Marcis
Outros chega na casa do outro índio: apontou para um “grande
“Você é o quê?” “Sou Tupinambá!”
Mas têm outros que você chega numa desconhecimento dos povos
casa e diz: “Você é índia?” “Não, eu originários durante a Colônia, o
nem sei...” Se não sabe, num é, num
é? Tem que saber suas raízes! É... Ó!
Império e a República” (2004). Tal
Tem gente aqui, que chega aqui em desconhecimento permanece e
casa e diz assim: “A raiz da senhora provoca equívocos sobre a identidade
da onde veio? Aí eu vou explicar da
onde foi que vem que é que cê chega Tupinambá de Olivença e suas
aqui diz assim: “Eu sou”, diz, “eu sou reformulações, continuidades e
Tupinambá”, mas nem sei de que raiz
você é, de que família você é – raiz é descontinuidades no decorrer de
família, né? – De que família você é? décadas.
Aí você vai dizer de que família você é
(NIVALDA AMARAL DE JESUS, 2015).
Para a composição do citado
livro Cultura viva: esperança da
Com base na compreensão Terra, o Tupinambá Jeanderson,6
dos processos históricos vivenciados quando apresentou um pouco de sua
pelos/as Tupinambá de Olivença, atuação na Oca Digital, enfatizou a
envolvendo interações étnicas de necessidade de viver com dignidade
assimilações, reelaborações e e liberdade, sem que a identidade de
resistências, com relação à seu povo seja distorcida
identidade deste povo, podemos preconceituosamente. Os invasores
afirmar que “a força de sua diferença do território reivindicado pelos/as
se mantinha” (COSTA, 2013: 32). Tupinambá, assim como os demais
Porém, ainda que sempre não indígenas contrários à
distintos/as dos não indígenas, os/as demarcação territorial costumam
Tupinambá foram e continuam sendo divulgar por mídias eletrônicas (blogs
denominados/as “caboclos/as de e sites), outdoors (espalhados na
Olivença”, tendo sua identidade entrada da cidade de Buerarema) e
indígena negada. No entanto, “se outros meios de comunicação, tais
ainda hoje tais argumentos ecoam e como jornais, rádio e televisão, uma
encontram quem os defenda é caracterização falsa da identidade
porque existem aqueles que, num Tupinambá.
movimento contrário, continuam a
reafirmar suas identidades” Nós aprendemos a lidar com o mundo
e também passar para o mundo quem
(CARVALHO, 2013: 05). As somos e como nós agimos, nós
mobilizações sociopolíticas dos/as lutamos por um mundo melhor com
dignidade, porque o que nós mais
Tupinambá são, portanto, contínuas queremos é ser livre, poder andar
e resistentes às negações de sua tranquilamente nas ruas sem sermos
olhado dos pés a cabeça e sem
identidade étnica.
64
sermos chamados de vagabundos, expressam “o terror e a intolerância
ladrões, descarados. [...] O mais
importante é que além do orgulho de absoluta e opera o código da
sermos indígenas, somos pessoas violência bruta e inominável”. Deste
direitas (GERLIC, 2012: 26).
modo, entendemos que as violências
simbólicas e físicas direcionadas
São “representações
aos/às Tupinambá não estão
socioculturais sobre os índios
limitadas aos primórdios da
Tupinambá” que decorrem numa
colonização, ocorreram desde então
“visão negativa acerca das suas
e se estendem à contemporaneidade.
ações”, além de “criminalização,
A fotografia abaixo é de um
preconceito e violência” (COSTA,
outdoor encontrado em 2013 em
2013: 30). Por meio da Oca Digital
Buerarema, uma das cidades na qual
e/ou também por mídias eletrônicas,
se encontra parte do território dos/as
Jeanderson e outros/as Tupinambá
Tupinambá de Olivença. O outdoor
divulgam outra imagem identitária de
veiculou a falsificação dos/as
si mesmo e de seu povo. Atualmente,
indígenas de Olivença, além de,
os/as Tupinambá contam com uma
inversamente à situação, acusando-
rádio local, a partir da qual afirmam
os/as da injustiça, miséria e fome
a identidade indígena (com base na
que indignam os/as próprios/as
apresentação de palavras na língua
indígenas e outros habitantes no
Tupi, de músicas do ritual Porancim e
município. É, evidente, um manifesto
outros aspectos identitários),
em oposição à conclusão do processo
divulgando informações e momentos
demarcatório da TI Tupinambá em
de reuniões para discussões
Olivença que exige a “devolução das
relacionadas à demarcação territorial.
terras aos produtores da agricultura
O pesquisador João Pacheco
familiar”, ainda que estes produtores
de Oliveira (2014: 73) alertou para
não sejam os principais contrários à
“situações de violência extrema em
demarcação, mas sim os
que os indígenas se tornaram o foco
latifundiários.
de condutas intolerantes e racistas”,
afirmando ainda que tais situações

65
Outdoor na entrada da cidade de Buerarema num período de
conflitos armados entre fazendeiros e os/as Tupinambá.
Foto: Tamires de Brito, 09/2013.

Diante desses Tupinambá, dialogaram com


acontecimentos, a emergência de outros/as tupinambás a respeito da
uma história sobre as retomadas de “consciência identitária indígena” e
identidades e territórios indígenas no do etnônimo do grupo. O Pajé Lírio,
Nordeste ocorre como uma demanda morador na Serra do Padeiro, nos
dos/as próprios/as indígenas, “uma municípios de Una e Buerarema/BA
espécie de exigência de que sua foi um dos que confirmaram serem
história seja reconhecida”. A os/as indígenas em Olivença
memória oral e os livros escritos Tupinambá. Desde então, a partir das
pelos/as indígenas são contribuições memórias dos/as anciões/ãs, os/as
à História que, contrapartida, toma Tupinambá despertaram para
um “sentido humano”, questões sobre a sua identidade
democratizando-se e devolvendo a indígena (UBINGER, 2012: 53-55).
estas pessoas seu passado, Conforme narrativas das
“reafirmando-lhe um protagonismo citadas indígenas, ambas deram
que haviam perdido em benefício de continuidade ao rompimento do
uns poucos” (GARRIDO, 1992: 36). silêncio a respeito da identidade
indígena entre os/as Tupinambá de
O despertar da “identidade Olivença. Nas palavras de Pedrísia:
adormecida”
A partir da atuação na Foi em 1989 que eu procurei buscar
um pouco, saber a identidade nossa,
Pastoral da Criança e no Coletivo de aí o pessoal ficouperguntando, até
Educadores da Região Cacaueira meus primo ficava: “Você é caboca?”
E eu dizia assim: “Sou caboca e
(CAPOREC), em 1989, Dona Nivalda, souíndia, porque caboco, no que eu li
Núbia Batista e Pedrísia Damásio, nas história, é uma mistura de branco
que também são lideranças com índio” (COUTO, 2003: 67).

66
Eu busco fortalecer os rituais e os
traços culturais do meu povo, da
As evidências indicam que mesma forma que nossos
os/as Tupinambá de Olivença foram antepassados faziam.
É um ritual religioso e festivo que é
inicialmente estimulados/as por Dona nossa forma de celebrar a vida, a
Nivalda, Pedrísia Damásio e Núbia natureza. Nossos antepassados
Batista a pesquisarem e refletirem faziam e vem passando de geração
em geração. Apesar de todos os
sobre a temática indígena, para massacres, das opressões sofridas,
assumir a identidade Tupinambá e a enfim... Hoje vivenciamos ainda nosso
ritual, por isso o Porancim é um
reivindicação de direitos territoriais. grande Patrimônio do Povo
Contudo, nas memórias narradas de Tupinambá de Olivença (GERLIC,
2011: 36).
anciões/ãs e lideranças, registradas
no livro Memória viva dos Tupinambá Ensinado pelos antepassados
de Olivença (2007:12), organizado e pelos/as anciões/ãs, o Porancim
por professores/as Tupinambá, foi aproximou e aproxima crianças de
apresentada uma Carta Indígena diferentes idades, adolescentes,
Tupinambá de Olivença à Sociedade adultos/as e idosos/as. Em conversa
Brasileira.Elaborada em janeiro de informal com Dona Nivalda,
2000, na qual os/as Tupinambá de conhecida como Amotara Tupinambá,
Olivença afirmaram que estavam contou que quando criança, assim
“excluídos do direito à existência como outras da mesma idade,
como povo Tupinambá de Olivença”. percebia o Porancim como uma
A carta deixou evidente que existe grande ciranda, uma brincadeira
ainda um quadro recente de não importante. A partir de tal atividade
reconhecimento da identidade lúdica, foram e são ensinados
Tupinambá pelos não índios, conhecimentos acerca das relações
especialmente no Sul da Bahia. sociais e com os espaços naturais e a
A prática do ritual Porancim importância deste aspecto identitário
é ainda outra forma de resistência à para os/as Tupinambá.
violação da identidade Tupinambá, Desde cedo, a partir da
que fortalece os/as indígenas em posição que cada um/a ocupa na
suas mobilizações diárias. O grande roda (quem a lidera e em que
Porancim compõe a afirmação da ordem os demais se posicionam),
atual identidade Tupinambá, assim como observando quem inicia
considerado pelos/as indígenas como cada canção entoada durante o
um patrimônio sociocultural do povo ritual, aprende-se sobre as relações
Tupinambá de Olivença. A esse sociais estabelecidas no território. O
respeito, Jaguatey Tupinambá, no estudo dos aspectos que compõem o
livro Índios na visão dos índios: Patrimônio Cultural Tupinambá exige
somos patrimônio, enfatizou que a uma abordagem interdisciplinar,
partir da prática ritual, os/as especificamente entre áreas do
Tupinambá perpetuam o modo de ser conhecimento que dialogam mais
de seus antepassados: constantemente como a História, a
Antropologia e a Sociologia.

67
Ilustração 03– Ritual Porancim Tupinambá de Olivença.
Os indígenas cantam e dançam, vestindo vestes específicas.
Fonte: Índios na visão dos índios: somos patrimônio (GERLIC, 2011: 36).

Um laço sagrado ente a seus corpos com tinta de jenipapo,


identidade Tupinambá e o de fazer artesanatos, construir suas
território casas de taipa, caçar, pescar e
Uma das caciques cultivar, foram socialisadas para
Tupinambá de Olivença, Valdelice os/as curumins (crianças) pelos/as
Jamopoty, foi entrevistada em anciões/ãs “por meio das interações
dezembro de 2010. A narrativa cotidianas [...] de uma forma lúdica e
tornou-se um dos textos que também divertida” (ALMEIDA; PROFICE;
compõe o livro Cultura viva: SANTOS, 2014: 68).
esperança da Terra. Na entrevista, Além desses saberes de
Valdelice, entre outras reflexões, ordem prática, quando adolescentes,
discorreu sobre a forte ligação entre os/as Tupinambá passam a conhecer
a identidade Tupinambá e o “os saberes abstratos” ou “os saberes
território: “Não se pode falar de filosóficos de sua cultura” ligados à
cultura, educação, de saúde, sem espiritualidade, à coletividade e ao
falar de território” (GERLIC, 2012: sentimento de pertença à Natureza,
23). Assim como Valdelice, que atribuem significado sagrado a
entendemos que no território tais práticas (ALMEIDA; PROFICE;
Tupinambá em Olivença ocorrem as SANTOS, 2014: 68-69). Deste modo,
relações históricas entre estes/as vem sendo mantida “viva a chama da
indígenas de maneira coletiva e ancestralidade” (COSTA, 2013: 35).
individual, formando identidades. São estes aspectos
As práticas cotidianas de socioculturais contrastantes com os
beber giróba (feita de mandioca), não indígenas a serem objetivados
celebrar o Porancim junto aos “dentre aqueles que mais carregam
Encantados, bem como a Festa do nas cores da contrastividade”. Tais
Divino Espírito Santo e a Puxada do aspectos, todavia, são móveis e
Mastro de São Sebastião, utilizando fluídos “num tempo de mundo global”
vestimentas específicas e pintando e de “hegemonia capitalista” e de

68
possibilidade da intervenção criativa uma das expressões socioculturais
pelos/as Tupinambá. De modo que o Tupinambá em Olivença, a Festa da
processo do despertar da identidade Puxada do Mastro de São Sebastião,
ou “renovação étnica” é marcado cuja realização anual é também um
pela inventividade e dinâmica “e não meio de afirmar e atualizar
o resgate de tradições congeladas” memórias, um “documento vivo” que
(ANDRADE, 2002: 36-44). “comemora a memória” (COSTA,
Em janeiro de 2015, também 2013: 106). Assim também, a Festa,
entrevistamos Dona Maria de Lourdes enquanto processo histórico de
(80 anos), que ensinou de que e festejar reafirmando a identidade do
como é feita a giróba. Por vezes, é povo indígena Tupinambá de
ainda acrescentado o açúcar à bebida Olivença.
feita de “mandioca mansa (Mandioca Segundo a narradora, roupas
Caravela, Olho Roxo)”. Há também contaminadas por varíola foram
quem deixe a bebida fermentar por doadas aos indígenas de Olivença
dois dias. Importante destacar que a enquanto mais uma violência contra
mandioca, também utilizada para a este povo.Foi então que São
produção de farinha, é o principal Sebastião impediu que os/as
alimento dos/as Tupinambá de indígenas continuassem a morrer,
Olivença (COSTA, 2013: 103; segundo a crença dos/as Tupinambá
VEIGAS, 2007: 160). de Olivença:

É feita da mandioca! Cozinha a A raiz da Puxada do Mastro foi assim:


mandioca, o aipim, né?! Quando tá Chegou, um pessoal chegaram aqui,
bem cozinhadinho pega o garfo, encontraram aquelas mulheres tudo
machuca e tem o vaso colocar pra de tanga e olhava assim, já via tudo,
ficar bem azedinha. Quando tá azeda né? Via tudo. Porque era bugariana,
pode pôr na vasilha e beber. Se era aqueles paninho bem frágil
quiser o açúcar, pode pôr o açúcar. E mesmo, que a gente botava remendo,
fica, e bebe. botava remendo, mas num sigurava
O pessoal antigamente, os caboclo aquele remendo, num sigurava. Eu
dizia que era a vitamina. mesmo cansei de vestir bugariana,
Aí invês de tomar o café, né?! chegava assim, olhava e via tudo! Aí
Tomava a giróba. Aí meu pai, meu eu tinha vergonha de vestir, mas não
irmão, gostava de beber, aí ele... queríamo andar nu, né? Tinha
bastava fazer meu pai... aí chegava vergonha, num gostava, andava, até
os vizinho lá, aí ele: “ Vamo tomar, rasgava. Pra poder vestir.
vocês quer o que? Quer café?! Não! Chegou esse carro cheio de gente,
Nós vamo tomar o cauim!” É a giroba, pessoal assim... Foi embora pra
né?! Salvador. No outro dia, chegou um
Você pega o aipim, cozinha. Quando carro, dois carro, intupetado de
tá bem cozinhadinho, pega o garfo roupa! As roupinha tudo limpinha,
machuca e põe a água e adoça. Não! tudo passadinha a ferro, tudo
Põe a água e bota lá bem tampadinho dobradinha, tudo. [...] Dois carro
assim, encostado assim, num lugar cheio, foi chegando, abrindo na rua, e
bem que fica quente. Se tiver um foi chamando: “Cadê os índio pra
fogão que nem tem antigamente receber as roupa?” Que é. Tinha mais
tinha, aqueles fogão de lenha assim, gente. Ajuntou foi gente! Fechou
de lenha. Aí botava o, assim é... o... mesmo! Aí pronto, na mesma hora
como é que chama?! O catuto. E que davam, dava uma hora, eles
botava lá. De manhã cedo pegava e vestiam as roupa. Tudo engomadinha!
levava e eles tomavam (MARIA DE Usava roupa ingomada, roupa branca
LOURDES, 2015). ingomada, vestia tudo, vestia.
Aqueles que vestia premeiro, esses,
Ainda na entrevista Amotara meu avô mesmo morreu disso.
Interraram na roça, na roça dele. E
Tupinambá, contou sobre “a raiz” de
69
não interra no cemitero não! Só será levantado no dia seguinte, num 7
Na Serra do Padeiro, a
interra nas roça deles. Aí, interra festa ocorre no dia 19 de
desse jeito. Quando chegou, vestiram outro ritual, e terá a imagem de São janeiro iniciando com a
logo as roupa, contaminou. Tinha Sebastião fixada em sua extremidade Matança do Boi (UBINGER,
gente que fazia pena, menina! 2012: 77).
Chegava assim, fazia pena! Porque
superior.
quando virava, a pessoa quando É levantado por três grupos
virava, ficava a pele toda, ficava na de homens, que puxam três cordas,
cama, não ficava na cama porque não
tinha lençol que guentasse! Botava por lados diferentes, formando um
palha de banana, quando virava triângulo, puxando e equilibrando o
assim saia tudo, as pele, saía tudo na
palha de banana. A palha de banana Mastro até que esteja erguido.
jogava tudo fora. Era assim mermo, Somente depois de erguido, a
tudo assim desse jeito. É uma
malvadeza! E morreu foi índio! Porque
imagem do Santo é posta no topo.
eles se ajoelharam tudo na porta da Para finalizar a festa, são feitas
igreja e pediram a Nossa Senhora da
orações e promessas, em memória
Escada(NIVALDA AMARAL DE JESUS,
2015). da criação da festa com o advento da
crise de varíola, quando foi
A festa, que ocorre no dia necessário recorrer a São Sebastião
seis de janeiro, em homenagem aos pela cura dos/as Tupinambá de
Santos Reis, tem início com a escolha Olivença. O Mastro do ano anterior é
da árvore e posterior derrubada da queimado na fogueira de São João e
mesma que é transformada em novas árvores são plantadas(COSTA,
Mastro e ofertada a São Sebastião.7 2013: 120-128). Ainda atualmente
No entanto, para cortar a madeira São Sebastião é visto como o
antes de entrar na Mata, deve-se “médico de todas as aldeias”, sendo
pedir autorização aos Encantados. Ao cultuado quando os/as Tupinambá
Mastro é atribuida força e proteção estão enfermos/as físico e/ou
aos/às indígenas de Olivença. Desde espiritualmente (UBINGER, 2012: 80-
o corte da madeira, os/as Tupinambá 81; COUTO, 2008: 103).
comem (farinha de mandioca e carne No entanto, desde 1985,
seca), bebem(giróba) e cantam aproximadamente, a administração
“Ajuê, Dão!”. Crianças e adolescentes local e seus financiadores (empresas
realizam um rito semelhante ao dos de bebidas) passaram a fazer uso da
adultos, cortando uma madeira Festa para atrair turistas e com isso
menor e mais leve, com o auxílio obter lucros. Esta transformação tem
daqueles. Na fase adulta, existe o aproximado os não indígenas que
ritual de passagem para o corte do desejam apenas diversão, sem o
Mastro (COSTA, 2013: 110-120). conhecimento do sentido espiritual
Quando o Mastro foi que a festa possui, e,
descascado, parte das cascas é usada consequentemente, afasta os/as
como amuleto pelos/as indígenas, indígenas que percebem aspectos
está pronto para ser coletivamente cruciais à festa adulterados por um
puxado. Inicialmente pela Mata, “processo de carnavalização”
passando por uma “duna fossilizada, (COSTA, 2013: 125-127).Uma de
onde se localiza o ‘Sítio Arqueológico nossas entrevistadas, Delfina Ferreira
do Sirihiba’” e pela praia, até chegar Barbosa (81 anos),contou que “Aqui
à Praça de Olivença, a Aldeia Mãe, era festa, era puxada de mastro dos
em frente à igreja. O Mastro somente índios! Hoje tá tudo misturado... Hoje
70
os índio vai, mas é uns ‘quatro ou gratidão, as fitas que enfeitariam a
cinco’ que vai...”. Bandeira quando da festividade,
A Festa da Bandeira do estarão no ambiente do parto. A
Divino Espírito Santo inicia com o criança é ainda enrolada na Bandeira
“Banho da Paixão” no mar na “sexta- quando esta chega (COSTA, 2013:
feira santa” ou “sexta da paixão”. Em 137-143).
dia de lua cheia, quando também se Contam os/as anciões/ãs que
dança o Porancim,ocorrendo durante a Festa da Bandeira do Divino
os quarenta dias de Páscoa e sendo Espírito Santo surgiu a partir de um
encerrada no dia de Pentecostes. Os dia de caça dos Tupinambá onde
chamados “romeiros” recebem a atualmente está localizada a Igreja
benção do padre na Igreja de Nossa de Nossa Senhora da Escada. Onde
Senhora da Escada e, ao som de atualmente está o altar da Igreja, foi
bumbo e tambor, saem em dois encontrada uma “índia de madeira”,
grupos separados, levando Bandeiras na forma de Santa, debaixo do “pé”
do Espírito Santo, decoradas com de gameleira. Quando da construção
flores. Um grupo concentra-se no da Igreja, o “pé” de gameleira foi
centro de Olivença ou Aldeia Mãe; o cortado, no entanto, descobriu-se
outro segue para as roças, dividindo- que as raízes da árvore têm grande
se em outros três grupos. O número medida, alcançando a beira do mar.
de participantes de cada grupo Onde acaba a raiz, há uma “Fonte
aumenta ao longo dos dias. dos Milagres”, brotando águas
Carregam consigo “as bênçãos do sagradas e curativas (COSTA, 2013:
Divino” (COSTA, 2013: 130-137). 145).
Nas casas, as Bandeiras são Em Olivença existe também
levadas aos altares onde estão “os o Balneário de Tororomba, uma
Santos e os maracás”, recebendo estância hidromineral com piscinas e
fitas e os romeiros, “esmolas” cachoeiras artificiais, mas com águas
(frutas, caças, galinhas, porcos e vindas diretamente do rio, portanto,
dinheiro). Além disso, ao chegarem ferruginosas e ricas em iodo,
na hora da refeição ou no momento magnésio e bicarbonato. De acordo
de dormir, os/as moradores/as os com Dona Nivalda Amaral de Jesus,
acolhem. Para finalizar, o grupo da as citadas piscinas eram medicinais
Aldeia Mãe encontra o grupo que se (e ainda o são, embora os
dirigiu às roças e retornam à Igreja frequentadores do Balneário talvez
para colocarem as Bandeiras de volta não tenham conhecimento) e
no altar. Para os/as Tupinambá de sagradas. Erlon Costa também
Olivença, o Divino Espírito Santo afirmou que as águas “são
acompanha o nascimento das consideradas milagrosas, capazes de
crianças, enquanto um Encantado, curar doenças ligadas à pele ou
sendo assim valorizado pelas mesmo com funções terapêuticas”
parteiras e mulheres grávidas. Em (2013: 77).

71
Balneário Tororomba em Olivença, Ilhéus/BA
Foto: Tamires de Brito, 01/2015.

Ainda assim, os não índios e não tinha esse negócio de


vender banho, não. Eles chegaram e
indígenas transformaram o espaço logo transformaram nossa piscina
em local comercial, onde, para sagrada em comércio (GERLIC, 2012:
11).
desfrutar das águas nas piscinas, é
necessário pagamento. O local foi
As circunstâncias históricas,
também alterado, perdendo suas
os conflitos, as negociações e
característicasoriginais. Conforme
adaptações fizeram parte das
Dona Nivalda:
vivências multifacetadas de
indígenas, construídas por estes
A piscina era medicinal. Antes do
banho, a gente tomava dois ou três sujeitos históricos que
copos da água para limpar o frequentemente reelaboram suas
estômago, o intestino, a pele. Aquela
água curava tudo. Naqueles tempos, expressões socioculturais. Trata-se
não tinha água encanada, então a de estratégias para a autoafirmação
gente botava na lata e carregava na
cabeça até chegar em casa. Aí coava, dos modos de vida indígenas a partir
botava no pote e ia beber. O lugar era das possibilidades.
bem rústico, com uma bica de patí
(árvore). Nós tomávamos banho junto
A identidade étnica dos/as
de uma pedra grande que tinha lá. O Tupinambá de Olivença foi percebida
povo de fora, quando chegava, ia logo como uma construção histórica e
tomar banho. E depois que os brancos
começaram a frequentar, eles tiraram dinâmica, a partir de reelaborações e
a pedra. Mas a piscina foi feita pelos incorporações de novos
72
conhecimentos advindos de possível, portanto, ao/a
experiências individuais e/ou pesquisador/a encontrar uma suposta
coletivas nas relaçõessociopolíticas, cultura original desses/as indígenas
econômicas e ecológicas. Não sendo (MARCIS, 2004: 8-10).

Referências
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da Bahia. Rio de Janeiro e Coimbra: 7Letras/Almedina, 2007.

Entrevistas:
Delfina Ferreira Barbosa, 81 anos. Aldeia Mãe, Olivença, Ilhéus/BA, em
22/01/2015.
Maria da Glória de Jesus, 60 anos. Aldeia Serra do Padeiro, Buerarema-Una/BA,
em 04/07/2015.
Maria de Lourdes (Dona Dedé), 80 anos. Aldeia Mãe, Olivença, Ilhéus/BA, em
22/01/2015.
Nivalda Amaral de Jesus (Amotara Tupinambá), 83 anos. Aldeia Mãe, Olivença,
Ilhéus/BA, em 22/01/2015.

Periódico eletrônico:
ANTENORE, Armando. Índios de Ilhéus dizem pertencer à etnia considerada
extinta e reivindicam peça do século 17 – “Somos tupinambás, queremos o manto
de volta”. Folha de São Paulo, São Paulo, 01 jun. 2000. Disponível em
<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0106200006.htm>. Acesso em
15/01/2015.

RECEBIDO EM 02/01/2016
APROVADO em 21/01/2016

75
INTERPRETAÇÕES DO KANAIMÎ take an interpretive way to verify that
NO CONTEXTO RELIGIOSO these attitudes toward Kanaimî if present 1
Os Macuxi é um povo
MACUXI in the identity of Macuxi. It is possible indígena de origem
that these identity characteristics can linguística Karib localizadas
explain addition to behavior, their ao longo do Rio Branco no
Manoel Gomes Rabelo Filho Estado de Roraima –Região
religiosity. conhecida como Circum-
Doutorando em Ciências da Keywords: Kanaimî, Religion, Macuxi, Roraima – na fronteira
Religião/UNICAP Violence, Identity. entre Brasil, Guiana e
Professor de Sociologia na Educação Venezuela – e seus
afluentes, sobretudo dos
Básica no Estado de Roraima Introdução campos no Estado, em uma
mgrabelo@bol.com.br área com a vegetação de
Este texto parte do princípio cerrado.
de que os Macuxi1 compreendem o
Resumo: Este texto expõe Kanaimî2 como um ser terrível,
2
O Kanimî – em língua
interpretações sobre o Kanaimî dentro do Macuxi – é traduzido para a
destruidor da vida e dos sonhos, que língua portuguesa como
contexto religioso dos índios Macuxi. A
alimenta o medo nas malocas3 Kanaimé ou Canaimé. Esta
metodologia usada perpassa pelas expressão aparece na
concepções de representações sociais,
através das histórias contadas pelos literatura
aplicadas às ciências sociais e as ideias mais velhos. Esse povo vê na relação socioantropológica de
língua francesa como
de interpretação, aplicadas ao contexto entre os integrantes da tribo e os Canáemés e de inglesa e
religioso dos Macuxi. As referências, além Kanaimî um problema existencial e espanhola como Kanaima.
da literatura socioantropológica, são uma fonte da estrutura identitária do 3
Expressão da região
entrevistas de dois indígenas que povo Macuxi. Neste sentido, há um Circum-Roraima para
relataram ter sido atacados pelo Kanaimî paradigma que frequenta a indicar a Aldeia.
em dois diferentes contextos. No primeiro
elaboração de suas representações. 4
Além dos Macuxi, exiete
há uma atitude de coragem diante dele, e os Taurepang, os Arekuna,
Os limites entre ser ou não Macuxi ou
no outro de medo. A partir destas os Kamarakoto e os
representações tomamos um caminho
Kanaimî, do ponto de vista Ingarikó que fazem parte
interpretativo para verificar se estas interpretativo, são mínimos. Às do mesmo tronco
linguístico Karib. No
atitudes diante do Kanaimî estão vezes, os Macuxi informam que há entanto na Região ocorre
presentes na identidade do povo Macuxi. Kanaimî entre entre eles e até pode grande influência mútua
É possível que estas características entre os Macuxi e os
ser um Macuxi ou mesmo da própria
Wapixana do tronco
identitárias possam explicar, além dos família. linguístico Aruak.
comportamentos, a sua religiosidade. Tais interpretações (SANTILLI, 2016).
Palavras-Chave: Kanaimî, Religião,
configuram como são pensados os
Macuxi, Violência, Identidade.
espíritos que influenciam a cultura
Abstract: This article presents
Macuxi. O Kanaimî se apresenta
interpretations of Kanaimî within the como um deles e fornece modificação
religious context of Macuxi Indians. The em diversos comportamentos,
methodology used pervades the orientando o cotidiano ao longo do
conceptions of social representations, Rio Branco e seus afluentes no
applied to the social sciences and the Estado de Roraima, incluindo tribos
interpretation of ideas, applied to the próximas, que possuem fronteira
religious context of Macuxi. References
étnica muito tênue, diferenciadas por
beyond the anthropological literature, are
formas de residências que formam
the testimonies of two Indians who
reported being attacked by Kanaimî in descendências de diferentes
two different contexts. At first there is a procedências, em especial nas zonas
brave attitude before him, and the other de intercessão entre as etnias.44
with fear. From these representations (SANTILLI, 2016).

76
As representações se uma das possibilidades de “organizar
constituem de dois depoimentos o mundo do sentido” (PADEN, 2001,
coletados durante a pesquisa de p. 10).
campo do Mestrado em Ciências da O delineamento que
Religião da Universidade Católica de pretendemos encaminhar ao
Pernambuco concluída em 2012 no contexto religioso Macuxi será
Recife. O imaginário dos Macuxi a apoiado pela representação e pela
respeito do Kanaimî explica grande interpretação como apresentadas por
parte das doenças e dos problemas Paden. Focaremos nas visões dos
ocorridos nas malocas indígenas. depoimentos, com a intenção de
Nosso objetivo é elaborar uma aproximar a realidade vivida da
interpretação a respeito desse ser. religião desse povo, buscando dar
Muitos acontecimentos são sentido às interpretações dos
explicados a partir dele. A vida do informantes. Medo e coragem fazem
Kanaimî é como vivência em outra esse povo orientar o mundo do
dimensão e que pode influenciar no sentido, mostrando sua identidade e
cotidiano dos Macuxi. Coragem e suas relações com os espíritos.
medo diante do Kanaimî são A interpretação conta o que
comportamentos determinados pela uma coisa é e as abordagens sobre a
violência, sobretudo se os ataques religião podem ser conflitantes,
terminam em morte. contraditórias, fragmentadas e
incongruentes. No entanto, embora
A concepção de interpretação e desarticuladas podemos ampliar a
representação da religião e o perspectiva, manter um
contexto religioso Macuxi distanciamento para que tenhamos
No que se refere à um olhar sobre os conceitos e as
interpretação William E. Paden nos ideias sobre a religião Macuxi. A
informa que só se pode chegar à intenção é superar as questões
religião por meio de um ponto de internas de qualquer religião para ter
vista e será necessário distanciar-se como objeto “a questão dos
das diversas visões para tomar contextos em que é observada e
consciência delas. Uma perspectiva explicada” (Ibid., p. 14).
pode revelar muito sobre uma teoria Ao abordar a religião
religiosa, mas o conjunto de diversas indígena refletiremos sobre o seu
noções sobre ela pode apresentar significado, mesmo que este
uma interpretação multifacetada nos apresente perspectiva fragmentada e
contextos mais diversificados. A contraditória. Estes aspectos não
concepção do mundo depende da invalidam os valores nela presentes.
forma como o vemos, dos óculos do O olhar sobre ela indicará o
observador, do conhecimento e das diferente, o diverso e a interpretação
lentes da cultura. As visões de ampliada a partir de seus contextos
mundo são apenas visões e a vivenciais.
maneira de abordar um assunto, uma A trama interpretativa de
religião ou de se aproximar de um pensar a religião tem horizonte
tema qualquer, são apenas canais, limitado. Isto quer dizer que cada

77
qual – podendo ser as posições do O estudo dos diversos
fiel, do cientista ou do sem religião – esquemas interpretativos nos faz ver
apresenta o tema a partir de sua que a nossa própria visão de mundo
própria perspectiva e as outras é apenas uma visão. Com esta
visões permanecem obscurecidas. consciência é possível visualizar a
Desta forma há uma perspectiva pluralidade de perspectivas e
monoposicionada das teorias entender que a própria interpretação
religiosas e uma interpretação é situada, e a forma como
condicionada por posições e conhecemos o mundo está se
territórios advindos do campo tornando pluralista (Ibid., 2001).
linguístico a qual só é acessível aos Estes conceitos ajudarão a
que as compartilham. “As culturas e melhor compreender o ponto de vista
religiões tradicionais naturalmente do povo Macuxi. A sua visão de
assumiram seus próprios pontos de mundo se constitui de diversos
vista como absolutos” (Ibid., p. 15). espíritos que agem sobre a realidade
A visão do Macuxi pode ser em diversos momentos. Ora agem
monoposicionada, no sentido de para realizar coisas boas – a
ocultar as outras, mas sua produção agrícola e a produção de
interpretação pode não apresentar frutas – ou coisas ruins – as doenças
exclusivismo ou absolutismo, devido e desavenças comunitárias e a
a ausência de dogmas. O contexto da violência.
tradição Macuxi possibilita abertura a Em relação às
outras interpretações. O fato deste representações a serem analisadas
povo abandonar sua religião advém de entrevistas que revelam a
tradicional sem interferir totalmente visão do Macuxi. O Kanaimî é
em sua tradição pode indicar que simbolizado como a estrutura do mal
possui identidade clara em relação a que se manifesta pela doença e pela
outras visões. violência do cotidiano deste povo.
Os esquemas usados pelas Representar o Kanaimî dá ao Macuxi
culturas passam a ser concebidos a chance de interagir com os
como explicação da própria espíritos do seu contexto social.
realidade, colocando-os como o Retirada do senso comum a
centro do universo, criando noção de representação significa a
calendários e ordenando o espaço e o interpretação e simbolização de um
tempo a partir de seus absolutos dado objeto. Refere-se ao
sagrados. Pode-se afirmar com Paden conhecimento prático da vida social
que: “O que não se podia perceber – de sujeitos originados nas relações
tão coesas e autoritárias eram essas comuns da vida cotidiana. As
visões tradicionais do mundo, e tão representações sociais são estruturas
inocentes de uma genuína cognitivo-afetivas que se apresentam
perspectiva transcultural – era que em alguns contextos nas interações
esse esquema 'linguagem/realidade' sociais. Constituem a expressão da
constituía uma interpretação do realidade intraindividual, na qual são
mundo entre centenas de outras exteriorizados os afetos (SPINK,
diferentes” (Ibid., p. 16). 2011).

78
A partir de elementos conteúdo dos depoimentos indica
afetivos, mentais, sociais as algo novo referente aos 5
Os Taurepang
representações sociais integram a comportamentos contraditórios – (Taulipang) são indígenas
do grupo Pemon, e os
cognição, a linguagem e a coragem e medo – dos indivíduos e Ingaricós (Ingarikó)
comunicação dessas relações, da relação destes com a religião pertencem ao grupo
Kapon; ambos da família
intervindo na realidade material, indígena. linguística karib, mesma
social e ideativa. A elaboração das família linguística da qual
pertencem os Macuxi
representações devem ser O Kanaimî na literatura
(AMODIO, et al.,1989).
compreendidas em seus contextos, socioantropológica
pois são eles que as engendram. A O Kanaimî, para a cultura
elaboração das representações dos índios Macuxi da região Raposa
sociais requer uma série de Serra do Sol, situada no Nordeste do
reinterpretações no espaço de Estado de Roraima, é um ente que
interação. Este é o objeto de estudo age para praticar o mal através da
das representações sociais, o qual violência física e da violência
possui seus tempos históricos e “espiritual”. Estas formas violentas se
findam na construção dos caracteriza pelo conjunto de orações
significados sociais. Essa elaboração que o Kanaimî faz para realizar os
se dá pelos conteúdos circulantes na seus atos e a ação violenta. Tal ente
sociedade, pelas forças originadas no pode ser um animal ou um homem,
processo de interação social e as ou que tem o poder de se
pressões para definir as identidades transformar em animal ou homem.
coletivas. O contexto é intertextual Ao se referir aos indígenas
no sentido de possuir um texto Macuxi, Taurepang e Maiongong5,
sociohistórico, advindo da Theodor Koch-Grünberg destacou
subjetividade e um texto que é parte que
das relações sociais. Os conteúdos
das representações sociais podem o conceito de kanaimé desempenha
um papel muito importante na vida
ser remotas, locais e atuais. Nelas há desses índios. Designa de certo modo
o tempo curto, o tempo vivido e o o princípio do mau, tudo o que é
sinistro e prejudica o homem e de que
tempo longo (Ibid.). ele mal consegue se proteger. O
Neste texto interessará o vingador da morte, que persegue o
tempo vivido, visto que o imaginário inimigo anos a fio até matá-lo
traiçoeiramente, esse “faz kanaimé”.
social dos indivíduos entrevistados Quase toda morte é atribuída ao
referem-se ao “processo de kanaimé. Tribos inteiras tem a má
fama de ser kanaimé. Kanaimé,
socialização […] das disposições porém, é sempre inimigo oculto, algo
adquiridas em função da pertença a inexplicável, algo sinistro. “Kanaimé
não é um homem”, diz o índio. Ele
determinados grupos sociais” (Ibid., anda por aí a noite e mata gente, não
2011, p. 99). Ainda que raro com a maça curta e pesada,
como a que se leva ao ombro durante
reconheçamos que o aqui e agora da
a dança. Com ela, parte “em dois
interação pode demandar a todos os ossos” da pessoa que ele
diversidade e a criação, afastando a encontra; só que a pessoa não morre
imediatamente, mas “vai para casa. À
possibilidade da demonstração das noite, porém, fica com febre e, depois
representações mais estáveis e das de quatro ou cinco dias morre”
(KOCH-GRÜNBERG, 2006, p. 70).
permanências no imaginário social, o

79
A importância referida pelo interpretativo do Kanaimî:
antropólogo é uma delimitação da
6
identidade de cada povo em relação Quem experimentou no próprio corpo No entender de Koch-
as agudas febres da Guiana, Grünberg (2006) os
ao Kanaimî. Parece um ser invisível, especialmente a malária com os seus Serengóng teriam se
quando esse autor informa ser o sintomas, entende essa crença dos misturado com os
índios. Taurepang. Provavelmente
princípio do mau. O fato de não “Matar é uma boa ação, e não aqueles foram integrados a
conseguir se proteger em relação a acontece nada com o homem que faz esses, formando uma
isso.” mesma tribo.
ele, o índio desenvolveu uma espécie
Às vezes, o kanaimé veste a pele de
de alerta constante. Delega ao uma onça ou um veado e assusta as
Kanaimî uma série de ações da vida pessoas com ela. Os Seregóng6 e os
Ingarikó no alto Cotingo e a nordeste
cotidiana, o que faz com que haja do Roraima são considerados aqui
uma série de comportamentos entre kanaimé muito maus. Diz-se que
alguns Seregóng se estabeleceram
os Macuxi que se justificam por esse outrora na Maloca Bonita junto à
entendimento. Por exemplo: evita-se Serra do Mairari, que é habitada por
índios Taulipang e Makuschí. Mas que
sair durante noites escuras;
então na condição de kanaimé,
costuma-se ter cuidado maior em mataram várias pessoas sem motivo.
épocas de colheitas, porque nessa Por isso Pitá não quer gente dessas
tribos em sua aldeia (KOCH-
época o Kanaimî pode aparecer em GRÜNBERG, 2006, p. 70).
festas e realizar atos violentos. O
vingador de morte comentado por Numa conversa com os
Koch-Grünberg o caracteriza como xamãs Maiongong (Majonggóng)
uma pessoa e, na frase seguinte, sobre o Kanaimî Koch-Grünberg nos
indica que toda morte é a ele informa ser um chefe Taurepang
atribuída, é configurado como uma (Taulipáng):
doença. A indicação de que Tribos
inteiras possam ser de Kanaimî é Dizem que o pior kanaimé de toda a
região é Dxilawó, chefe de uma aldeia
uma alusão às guerras ocorridas no Taulipáng próxima da missão do alto
passado entre elas e que Surumu, o homem mais odiado
também entre os companheiros da
provavelmente teriam sido tribo. No fundo ele é um homem
comentadas pelos informantes do bastante bom, Manduca acha, mas
antropólogo. A caracterização de sua mão não presta. Ela se separa do
corpo quando ele dorme e encarrega
inimigo oculto dada pelo autor parece todos os maus espíritos possíveis, na
ser referência a um tipo de ser que forma de onça, cobras gigantescas
etc., de fazer mal às pessoas. A
ataca com um pedaço de madeira epidemia de febre que grassou aqui e
quando as pessoas estão sós e nos arredores durante a época das
chuvas é atribuída a esse pobre
andam a noite. O fato de quebrar os diabo, assim como a doença da
ossos, não matar imediatamente e a encantadora filhinha de Pirokaí. Se a
criança morresse, diz o pai, ele
vítima sentir febre antes de morrer,
mataria Dxilawó. Mas isso é coisa
aparecem na grande maioria dos remota, pois meu Pirokaí não é
depoimentos entre os indígenas da nenhum herói (KOCH-GRÜNBERG,
2006, p. 79).
região.
A respeito de alguns destes A questão da mão como uma
aspectos o próprio Koch-Grunberg força separada do resto do corpo é
também faz algumas observações um aspecto diferente, mas pode
importantes para o processo explicar o fato de muitos Kanaimî
80
serem pessoas comuns e conhecidas O Majonggóng, de novo, está
terrivelmente fanfarrão: diz que, em 7
e que subitamente se transformam sua terra, não há piuns, nem
Um indígena informante
de Koch-Grünberg.
em outra pessoa, tanto na forma da carapanãs, nem kanaimé. Que os
Arekuná do Caroni “fazem kanaimé”,
ação moral quanto no que ela fazia assim como os Ingarikó e os
costumeiramente e deixou de fazer. Serengóng e os Pischaukó. Que os
Quando se transformam em animais, Ingarikó-kanaimé também
envenenaram o inglês. Diz que em
os Kanaimî nos revelam suas sua terra tudo é muito melhor.
possibilidades e são considerados (KOCH-GRÜNBERG, 2006, p. 111)

maus espíritos. O oposto de mão má


é a mão boa referida ao rezador ou Koch-Grünberg relatou que a
Tarenpokon, como os Macuxi o palavra Kanaimî era ouvida com
chamam. frequência entre os índios da região.
Além dos Taurepang, como Quando havia uma doença grave ou
afirmado acima, os Ingaricós e os morte de várias pessoas era referida
Seregongs também são considerados como causa a sua desgraça. Pode ser
Kanaimî: uma pessoa, um vingador de um
assassinato ocorrido. Ele persegue
“Pitá7 diz que os Ingarikós são suas vítimas durante anos para
kanaimé perigosos. Quando respondo alcançar seus objetivos. É um
“não tenho medo!” ele diz depressa,
“eu também não!”. Além disso o
assassino clandestino a vagar pelas
kanaimé só mata pessoas sozinhas, à noites, algum homem mal que
noite, “a caminho”, mas nunca várias
prejudica os outros com suas
juntas, de modo que nada temos a
temer. Apesar disso, a coisa lhe feitiçarias. Todos fazem Kanaimî e
parece pouco segura, pois quando podem existir tribos inteiras de
alguém quer comprar uma espingarda
inglesa, ele faz o outro esperar até Kanaimî. Podendo ser uma tribo
termos regressado do [Monte] hostil vizinha, a qual por sua
Roraima, já que ainda precisará de
arma de fogo “para matar os kanaimé inimizade anterior tornou-se uma
dos Ingarikó e dos Seregong!”. amizade duvidosa. Estas são abertas
(KOCH-GRÜNBERG, 2006, p. 82)
ou secretamente consideradas
Kanaimî. Uma tribo chama a outra
Uma das formas de o
desta forma (KOCH-GRÜNBERG apud
Kanaimî se manifestar é pelos gritos.
CIRINO, 2008).
Sempre que ouvidos são associados
William Curtiss Farabee
a eles: “No jantar, Teodoro conta que
afirmou que o índio poderia viver
nossa gente ouviu um Kanaimî
eternamente, se não existisse o
gritando quando pescava rio acima. A
Kanaimî. Os pajés e outras tribos são
gente percebe nitidamente como a
possíveis Kanaimî que causam
floresta parece sinistra e esses
doenças. Por influência dos brancos,
habitantes da savana aberta e, nós
o fato de não poderem eliminar os
agora sentimos o mesmo” (KOCH-
maus pajés, os índios se tornam
GRÜNBERG, 2006, p. 82).
vulneráveis à sua ação (FARABEE
Interessante é observar a
apud CIRINO, 2008).
visão dos Maiongong em relação ao
Coudreau relatou que o
Kanaimî na interpretação de Koch-
tuxaua e um grande número de
Grünberg:
crianças novas da Malacacheta
morreram de febre. O novo tuxaua
81
decidiu fundar outra maloca, livre da medo às pessoas com o fito de
maldição (COUDREAU apud CIRINO, adoecê-las. 8
Os nomes das pessoas são
fictícios que se referem aos
2008). Estas maldições estão No imaginário Macuxi o depoimentos D1 – José – e
associadas à presença de Kanaimî no Kanaimî representa também a D2 – Maria (RABELO FILHO,
local em que as pessoas mortas por estrutura simbólica do mal. Quando 2012, p. 178-179).

sua ação foram enterradas. Este é os índios afirmam “fazer Kanaimé” 9


A expressão normal,
um dos motivos pelo qual indígenas significa que uma pessoa pode estar, repetida duas vezes, indica
uma ênfase dada pelo
da região não entram em locas onde ou com o seu espírito, ou imitando-o depoente para indicar que as
há restos mortais de antepassados, para assustar os outros. Um ou pessoas encontradas pelo
Kanaimî ficam com febre e
pois é considerado um local proibido, diversos assassinatos ao mesmo adoecem de forma grave,
causador de doenças. tempo são compreendidos como sua definhando até a morte, o
que não foi o seu caso.
Estes aspectos apresentados manifestação. Podem ser pessoas,
sobre a compreensão do Kanaimî consideradas boas, que foram
informa algumas características de invadidas por ele e fizeram o seu
como é interpretado. O povo Macuxi mesmo mal.
se sente vítima de sua violência e Tomamos aqui duas
frequentemente são encontradas representações, uma com o
pessoas que não falam sobre o sentimento de coragem diante do
assunto, ou que sentem dificuldades Kanaimî e a outra com uma atitude
de se expressarem sobre o que de medo.
ocorreu com elas diante dele. Os Esses depoimentos foram
outros povos que possuem um coletados em 2010; de duas pessoas
contato direto com os Macuxi da etnia Macuxi, às quais
possuem as mesmas impressões a denominamos aqui de José (60 anos)
respeito do Kanaimî e o representam e Maria (38 anos); tendo como
de formas muito semelhantes. objetivo a elaboração da dissertação
de Mestrado.8 Retomamos os
Duas representações do Kanaimî significados do Kanaimî adaptados ao
Os Kanaimî possuem contexto religioso, com o objetivo
sentidos muito diversificados. esclarecê-los.
Existem aquelas pessoas que se José descreve assim o seu
dispõem a falar e usam formas encontro com o Kanaimî: O que eu vi
jocosas ao referirem-se a ele. Ora foi “que saiu correndo como um
aparece como animal que se cachorro e depois saiu correndo em
transforma em humano e vice-versa, pé […], mas não foi só eu que vi
ora é humano que se vê atacado por não”, o meu filho já viu. O tuxaua
um espírito e outras vezes é espírito
que vaga pelos campos e florestas falou que é um Kanaimé velho,
porque dizem que o Kanaimé novo
com o objetivo de se fortalecer com a não faz isso. […] Eu tinha encontrado
morte dos humanos. Às vezes é um ele outra vez. Aí eu disse: A próxima
vez que eu encontrasse ele, ia correr
bicho que invade casas, roças e atrás dele, e corri mesmo. Eu fiquei
estradas para obter algum benefício, normal, normal.9 Até quando ele saiu
e em outros momentos possui um correndo e pulou fora do caminho, aí
eu vim embora (RABELO FILHO,
poder assustador que passa nos 2012, p. 178).
caminhos de transeuntes, fazendo

82
Do relato de José entende-se visto que os fatos relatados
que o Kanaimî é uma espécie de ocorreram em caminho habitual 10
Tradução nossa de: Les
animal fantástico, semelhante a um frequentado pelo depoente. Como tribus mansas ont une peur
terrible de se bêtes fauves,
cachorro, mas que corre de pé como José se sentiu seguro na presença do avec lesquelles elles
um ser humano. Esta característica Kanaimî? Possivelmente pelo fato n'entretiennent aucune
relation, si ce n'est celle de
de ter um poder de se transformar dele conhecer muito bem a região e victime à assassin.
em animais e homens aparecem nas já ter ouvido falar de muitas histórias
11
Refiro-me ao universo de
interpretações de Koch-Grünberg: Às e que diante dele, ter medo seria
21 indivíduos entrevistados,
vezes o Kanaimî vestia-se na pele de muito pior. do total de cerca de 300
jaguar para assustar a vítima que se Maria relatou que na sua moradores das Malocas
Cantagalo e Maturuca, que
desesperava, ficava doente e morria experiência de ter visto a Kanaimî se representam o Kanaimî
rapidamente (apud CIRINO, 2008). sentiu mal: “porque ele me assustou. como um ser extremamente
perigoso do qual a maioria
Henri A. Coudreau afirma que “as Me senti mal. Nunca me espantei sente muito medo. Apenas
tribos mansas possuem um terrível com o Kanaimî, aí passei mal José e outros dois
entrevistados afirmaram ter
medo dos animais selvagens, com os mesmo. Daí fiquei com medo desse enfrentado o Kanaimî por
quais há relação [com os canaemés], Kanaimî, de andar de noite.” Ela alguns instantes.
de se tornarem vítima do assassino” contou que o seu pai foi quem a
(COUDREAU, 1886, p. 8).10 A curou e que o fato já fazia muito
interpretação de Edson Soares Diniz tempo. Ela passou um mês doente e
informa que “os canaimés podiam que sentia “fraqueza no corpo”. Ela
chegar no recinto em forma de destacou ainda o fato de o Kanaimî
onças, veados, macacos, pássaros, ter apenas a espantado, mas que
tartarugas, cobras e índios de alguma tem “Kanaimé que deixa morto”
outra tribo” (DINIZ, 1971, p. 69). (RABELO FILHO, 2012, p. 179).
A atitude de José, em A maneira como Maria
destacar que o seu filho viu, serve discorreu sobre os fatos, sendo o
para tentar provar a sua afirmação. Kanaimî extremamente mal.
No entanto, a maioria dos casos de Podemos interpretá-lo como o ser
pessoas que encontraram o Kanaimî que age por suas habilidades
estava só e nunca comunicavam aos espirituais. Quando ela afirma se
outros o que havia ocorrido. As sentir mal com a sua presença. O
histórias dos Kanaimî, às vezes, são “susto” caracteriza o tipo de ação
ouvidas pelos Macuxi com que o Kanaimî usou para atacá-la. É
desconfiança, a não ser que a pessoa uma ação considerada violenta, mas
consiga provar o fato ocorrido. com sua força e seu poder
Quando alguém morre por doença demandados pela suposta
desconhecida, esta é atribuída ao superioridade espiritual que ele
Kanaimî. possui e que a usa para o mal.
A coragem de José não é Outro fato importante é o
comum, pois a atitude de enfrentar o fato de ter ocorrido à noite. Sabe-se
Kanaimî, em diversos casos que o Kanaimî realiza os seus males
analisados, aparecem poucas durante à noite, pois se ocorresse
vezes.11 Esta representação indica durante o dia seria reconhecido. O
um ser estranho que invade o espaço medo provocado pelo “susto” do
geográfico conhecido pela vítima, Kanaimî e a sua prática de violência

83
leva os Macuxi a saírem pouco de provocar a violência física ou
casa, especialmente nas noites muito espiritual nos integrantes das 12
Neste período ocorrem
escuras e na época das frutas e da comunidades indígenas Macuxi e festas frequentes, pois o
povo Macuxi tem o hábito
colheita da mandioca, em geral entre povos vizinhos. A sua ação é de produzir as bebidas
novembro e janeiro.12 identificada quando o indivíduo típicas e convidar a todas
as malocas vizinhas.
Maria contou que obteve a adoece sem explicações e quando
sua cura com muitas dificuldades. O sofre ataques de violência física, no
seu pai era um rezador e teve seu qual o Kanaimî realiza certos rituais,
atendimento com rapidez, o que podendo a pessoa chegar à morte. As
explica o fato de ela ter sido salva. vítimas de seus ataques quase
Caso o ataque do Kanaimî ocorra em sempre estão sós, de passagem em
lugar distante, onde não haja pajé ou lugares ermos, ou lugares habituais
rezador, dificilmente a pessoa escapa isolados, mas sempre em locais
da morte. No caso, Maria ficou escuros e à noite.
doente e sentiu fraqueza. Tal fato O Kanaimî também pode ser
revela que os poderes espirituais do visitante de lugares distantes, o qual
Kanaimî agiram apenas através do possui uma linguagem estranha, que
“espanto”, do “susto”. Se o Kanaimî fala o idioma Macuxi, mas com
quisesse ou pudesse, poderia ter sotaques. Os índios Macuxi de
provocado sua morte, ou ainda ter Roraima afirmam que eles podem ser
usado de violência física. moradores da Guiana, lugar que
O Kanaimî neste caso possui grande quantidade de plantas,
funcionou “como o bandido dos as quais são atribuídos diversos
brancos” (ARAÚJO, 2006, p. 138). poderes de que os Kanaimî são os
Ele teve o propósito de causar males seus controladores. Eles podem ser o
à saúde de Maria. Tal medo causado indígena de outra tribo, que
pelas perseguições levam os querendo se vingar dos Macuxi
Macuxi a saírem sempre invadem suas casas, se aproveitam
acompanhados. No momento em que de suas roças e fogem para as
Maria foi atacada estava só, fato que montanhas e florestas deixando para
revela a atitude considerada mais trás rastros de seus malfeitos. Podem
comum em relação aos ataque dos ser o próprio Macuxi que conquista a
Kanaimî. confiança de suas vítimas, indivíduos
das comunidades, e que aos poucos
Considerações finais vai se revelando uma pessoa
O contexto religioso do violenta, chegando a matar com o
Kanaimî refere-se também aos seus intuito de realizar ritual sarcófago
aspectos culturais, sociais e próximo ao cemitério onde sua vítima
antropológicos, visto que seria é enterrada.
impossível separar as suas Existem representações que
interpretações destes aspectos. indicam o Kanaimî como seres de
O Kanaimî pode ser um ente tribos desconhecidas e isoladas que
espiritual que age nas pessoas ou se rebelam contra a forma de viver
nos animais – em especial no dos outros, porque tiveram seus
Tamanduá – com o intuito de familiares mortos ou doentes, e que

84
acreditam que suas ações maldosas diante do Kanaimî sejam
poderiam salvar os seus parentes. orientadores diretos dos ritos e
Outra ainda afirmam ser um animal, manifestações religiosas deste povo,
ou gente que se autotransforma em no entanto, isto pareça ser possível.
animal para fugir pelos campos e Interpretamos que o Kanaimî,
encontrar locais de festas para se representado em seu contexto, pode
divertirem bebendo caxiri e causando influenciar nos comportamentos dos
confusões, brigas e discórdias entre indivíduos. A relação entre o Kanaimî
os indivíduos das comunidades e os medos provocados por ele
Macuxi. projetam à cultura Macuxi diversos
Quanto à questão identitária comportamentos – não andar sós à
dos Macuxi, o Kanaimî integra o noite, não pescar só, evitar sair em
conjunto de seres existentes na sua noites escura – e estes podem ou
cultura. A manifestação religiosa não vincularem-se aos ritos de
deste povo indica que o Kanaimî pajelança. Isto significa que a
simboliza a morte em potencial, representação dos Macuxi, acerca do
representa o perigo que a vida lhes Kanaimî, delineia diversos sentidos à
impõe. Não está em nosso objetivo sua existência.
defender que o medo e a coragem

Referências
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Wapixana. Coleção Histórico-antropológica n. 1, CIDR – Centro de Informação
Diocese de Roraima, Brasília: Coronário, 1989.
ARAÚJO. Melvina. Do corpo à alma: missionários da consolata e índios Macuxi em
Roraima. São Paulo: Humanitas, 2006.
COUDREAU, Henri Anatole. Voyage au Rio Branco, aux Montagnes de la Lune, au
haut Trombetta (mai 1884—avril 1885). Rouen: Imprimerie de Espérance
Cagniard, 1886.
DINIZ, Edson Soares. O xamanismo dos índios Makuxí. In: Journal de la Société
des Américanistes. Tome 60, 1971, p. 65-73.
GUARESCHI, Pedrinho. JOVCHELOVITCH, Sandra. Textos em representações
sociais. 12ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
KOCH-GRÜNBERG. Theodor. De Roraima ao Orinoco: v. I Observações de uma
viagem pelo norte do Brasil e pela Venezuela durante os anos 1911 a 1913.
Tradução Cristina Alberts-Franco. São Paulo: UNESP, 2006.
SANTILLI, Paulo. Povos indígenas no Brasil. 2004 Disponível em:
<http://pib.socioambiental.org>, Acesso em 30/03/2016.
RABELO FILHO, Manoel Gomes. A representação social do Kanaimî, do Piya'san e
do Tarenpokon nas Malocas Canta Galo e Maturuca, 2012. Dissertação
(Mestrado). Universidade Católica de Pernambuco. Programa de Mestrado em
Ciências da Religião, Recife, 2012.
SPINK, Mary Jane. Desvendando as teorias implícitas: uma metodologia de análise
das representações sociais. In: GUARESCHI, Pedrinho. JOVCHELOVITCH, Sandra.
Textos em representações sociais. 12ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

85
RECEBIDO EM 07/01/2016
APROVADO EM 02/02/2016

86
O ESTADO NOVO E OS POVOS context as well as the approach of some 1
Antropologicamente a
INDÍGENAS: O SILÊNCIO DAS of them with government policies.
noção de “Terra Indígena”
PALAVRAS Demonstrated even as the newspaper A diz respeito ao processo
Manhn informed its readers about the jurídico-político conduzido
March to the West. Government policies pelo Estado. Já a de
Zeneide Rios de Jesus “território Indígena”
have impacts on indigenous peoples, remete à construção e a
Professora da Universidade Estadual such raids and taken from their vivência, culturalmente
de Feira de Santana/UEFS. territories. Also showed silencing that still variável, da relação entre
zeneiderios@hotmail.com uma dada sociedade e sua
prevails in Brazilian history and teaching base territorial, Cf.: Gallois
of history in relation to indigenous issues (2011).
Resumo: relating to periods beyond the colonial
Esse texto tem por objetivo apresentar context. It was concluded that the
alguns aspectos da política de colonização Brazilian government used the press to
denominada de Marcha para o Oeste, legitimize the colonization policy and
efetivada durante o Estado Novo, e seus silence about the violent advance on
impactos sobre as populações indígenas. indigenous lands.
Pesquisa qualitativa de caráter Keywords: Indigenous; Estado Novo;
bibliográfico e documental. Os resultados Silencing.
apontaram as condições que favoreceram
uma atuação expressiva dos intelectuais
nesse contexto, bem como a INTRODUÇÃO
aproximação de alguns deles com as No início da década de 1940,
políticas governamentais. Demonstraram
o Estado brasileiro, sob a presidência
ainda como o jornal A Manhã informava
de Getúlio Vargas, formulou uma
aos seus leitores sobre a Marcha para o
Oeste. As políticas governamentais
política de colonização que visava
tiveram impactos para as populações povoar e desenvolver a região
indígenas, a exemplo de invasões e Centro-Oeste. Esse projeto foi
tomadas de seus territórios. Também denominado de Marcha para o Oeste
mostraram o silenciamento que ainda e contou com uma ampla divulgação
prevalece na historiografia brasileira e no da imprensa, por intermédio do
ensino de história, em relação às jornal A Manhã, que criou uma
temáticas indígenas referentes aos
coluna diária para tratar desse tema.
períodos para além do contexto colonial.
Por intermédio de
Concluiu-se que o governo brasileiro
utilizou a imprensa para legitimar a
intervenções políticas, legais e
política de colonização e silenciar acerca ideológicas, o Estado brasileiro
do avanço violento sobre as terras adentrou vários territórios indígenas,
indígenas. subjugando muitas etnias que até
Palavras-Chave: Indígenas; Estado aquele momento haviam se mantido
Novo; Silenciamento. longe do alcance dele. Órgãos
responsáveis pela formulação e
Abstract:
aplicação das políticas indigenistas, a
This text aims to present some aspects of
exemplo do SPI foram fundamentais
settlement policy called March to the
West, carried out during the Estado Novo,
para facilitar o acesso do Estado às
and their impact on indigenous peoples. terras indígenas1.
Qualitative research of bibliographic and Com a Marcha para o Oeste o,
documentary character. The results Estado Novo não só lançava um
showed the conditions that favored a projeto político, mas também um
significant acting of intellectuals in this discurso cultural sustentado por
87
intelectuais como Cassiano Ricardo e o silenciamento que o jornal
muitos outros. Esse discurso promoveu em relação à presença das
promovia uma invisibilidade dos populações indígenas nos territórios
grupos indígenas, legitimando um devassados pela Marcha, largamente
projeto que resultou na intervenção referidos no jornal como “espaços
direta sobre as comunidades vazios”.
indígenas que tiveram seus modos de Por meio do exemplo dos
vida devassados e suas terras Xavante, povo alcançado pelo projeto
espoliadas. de colonização do Estado Novo,
Este texto explora as relações analisamos os efeitos dessa política
entre o Estado Novo e os povos para as comunidades cujos territórios
indígenas, por meio da Marcha para o encontravam-se na região Centro-
Oeste. Seus objetivos são orientados Oeste. Apontamos a atuação de
pela busca de uma compreensão em órgãos relacionados com a questão
torno de aspectos fundamentais indígena, como o SPI, para a
nesse processo, a exemplo das efetivação dos objetivos propostos
formas de participação da imprensa, pela Marcha para o Oeste, e
dos intelectuais e dos órgãos avaliamos a forma como as
responsáveis pela política indigenista, comunidades atingidas posicionaram-
bem como os impactos dessa política se frente ao projeto e demonstraram
para os povos indígenas. Nesse os limites dessa política de Estado.
sentido, apresentamos considerações Neste texto, a questão do
respaldadas em uma breve pesquisa silêncio nos motivou a fazer uma
realizada no jornal A Manhã e numa avaliação tanto no que se refere ao
bibliografia sobre esse tema. silenciamento promovido no contexto
Consideramos a atuação dos da política aqui examinada quanto o
intelectuais junto ao governo, como silêncio que ainda impera na
forma de identificar a colaboração historiografia e no ensino de História,
dessa categoria para difundir e mantendo temas como esse restritos
legitimar esse projeto por meio da às lacunas que caracterizam, em boa
imprensa e de um debate sobre o parte, as questões indígenas. Ao
Brasil que ganhou força no pós 1930, incluir considerações nesse sentido, o
conferindo a esse grupo um lugar de texto pretende contribuir com as
destaque na sociedade brasileira, reflexões que nos últimos anos têm
comportando, em muitos casos, uma se voltado para pensar os desafios da
atuação direta no governo, História Indígena e para propor
especialmente após 1937, com a escritas e leituras que resultem em
criação do Estado Novo. novas interpretações sobre esses
Analisamos algumas edições povos, desmontando o projeto de
do jornal A Manhã, sobretudo as que apagamento da presença indígena
circularam no ano de 1941, quando que perpassou a historiografia
esse periódico enfatizou a Marcha brasileira desde o século XIX até os
para o Oeste, fazendo uma ampla anos setenta do século XX, mas que
propaganda desse projeto e ainda hoje mantém alguns dos seus
legitimando as ações ideológicas do efeitos.
Estado. Nessas análises, apontamos
88
O BRASIL NOS ANOS 1930: muito tempo fossem reelaborados no 2
Essa década apresenta
INTELECTUAIS EM AÇÃO E período entre guerras de forma a se desafios, na medida em que
APROXIMAÇÕES COM O ESTADO tornarem politicamente úteis e temos, por um lado, um
movimento tido como
As falas a seguir foram servirem às necessidades do período, “revolução”, que alterou
publicadas na obra Introdução à a exemplo do nazismo e do fascismo significativamente o cenário
político brasileiro e, por
Realidade Brasileira, lançada no ano (BERTONHA, 2000). outro, a constituição de um
de 1933, de autoria de Afonso Arinos Nesse contexto marcado por Estado autoritário com uma
forte ampliação do caráter
de Melo Franco (1905-1990), com o incertezas, crises, mudanças e uma
intervencionista sobre a
objetivo de indicar o papel dos intensa polarização ideológica, os sociedade. Trata-se de um
intelectuais brasileiros no conturbado intelectuais brasileiros tiveram período de modernização
econômica e social, mas há
contexto dos anos 1930: grande expressividade e os estudos também uma convivência
sobre o Brasil ganharam uma nova com o que podemos chamar
de “tradicional”, como a
Donde se conclui que a dinâmica. Trata-se de um período em permanência de práticas
responsabilidade dos intelectuais
cresce na proporção da facilidade da que foram criadas políticas públicas, clientelistas, ainda que estas
não tenham permanecido
sua ação [...] Os povos atrasados sobretudo durante o Estado Novo, com o mesmo vigor e
como o nosso, sem capacidade de
defesa ou de reação, sem livre
com vistas a regulamentar as prestígio que possuíam
relações de trabalho, a educação, a antes. Tem que se
arbítrio, tomam o destino que lhes
acrescentar ainda a violência
indicam aqueles que possuem a única saúde pública, a questão agrária, a física e simbólica exercida
força ativa da sociedade que é a força
questão indígena e a cultura. Com pelo Estado.
espiritual. (FRANCO, 1933, p. 6).
esta última, buscou-se privilegiar a 3
Listamos, nas referências
A década de 19302 tem sido “identidade nacional brasileira”. deste texto, uma literatura
na qual o leitor pode
apontada como um período singular, Nesse caso, uma das medidas encontrar um panorama
cuja característica mais significativa adotadas foi a criação de uma política desse Mercado Editorial, que
seria a ambiguidade. Marcada por nos fornece informações
cultural que resultou em grande
importantes sobre as
crises e mudanças, ela se caracteriza destaque para os intelectuais editoras e seus respectivos
também por uma significativa ênfase (GOMES, 2007). editores, bem como das
publicações, a exemplo das
na circulação de ideias por meio de Esse cenário nacional e várias Coleções publicadas
intelectuais e de um mercado internacional aguçou os na época. Cf.: Chaves
(2011), Dutra (2004),
editorial crescente e renovado3. questionamentos e incentivou ainda Franzini (2006), Pontes
A crise do capitalismo que mais as produções dos intelectuais (1988).
assolou o mundo nas primeiras brasileiros que, aliás, desde décadas
décadas do século XX foi vivida e anteriores, com destaque para as
sentida de formas diferenciadas nos primeiras do século XX e a atuação
diversos países. No Brasil, essa crise dos Modernistas, eram instados a
impactou e condicionou as opções de pensar o país. A produção ensaística
governo durante vários anos. Seus destinada, na maioria das vezes, a
reflexos somaram-se aos impactos refletir sobre problemas cruciais do
advindos do Movimento de 1930 e Brasil, a exemplo do “atraso
deram o tom das profundas econômico e social”, ganhou maior
transformações que marcariam o país robustez a partir da década de 1930
em diversas áreas. De múltiplas (GOMES, 2012), quando se observou
dimensões, pois atingia aspectos não só maior interesse por esses
econômicos, políticos, sociais e estudos, mas também condições
culturais, a crise do capitalismo favoráveis ao seu desenvolvimento,
permitiu que ideias, conceitos e além de propiciarem a criação de
problemas existentes na Europa há Universidades (FÁVERO, 2006) e o
89
crescimento significativo do mercado intelectuais brasileiros. Dividindo
editorial (HALLEWELL, 1985). espaços nas páginas da imprensa
Esse contexto complexo e escrita, intelectuais de direita e de
multifacetado, que exigiu dos esquerda escreviam sobre seus
intelectuais brasileiros um interesse projetos para o Brasil. Colaborando
crescente pela realidade e pela em periódicos modernistas, revistas
formação do Brasil, requeria, de cultura, publicações oficiais ou
entretanto, uma potencialização nas não, a intelectualidade que girava em
formas de circulação dos saberes torno do governo ou não, encontrava
produzidos. O incremento do espaço para fazer coro aos projetos e
mercado editorial foi fundamental ideias que acreditavam ser o melhor
nesse sentido, resultando, na década para o país e para seus interesses,
de 1930, em um momento fossem eles pessoais ou de classe.
expressivo, especialmente no tocante Encontraram também meios
às publicações que visavam entender de expressarem o que pensavam em
e explicar o país, com ênfase em sua tempos difíceis, marcados por uma
formação e em seu povo. conjuntura de guerras e crescimento
Nesse período, a imprensa das soluções autoritárias. Alguns,
manteve seu papel fundamental, valendo-se de formas “dissimuladas”,
possibilitando aos intelectuais ousaram discordar, ainda que
brasileiros posicionarem-se acerca indiretamente, do pensamento
dos grandes debates sobre o país, autoritário instalado no pós 1937
fazendo, com isso, circularem suas (LUCCA, 2011); outros utilizaram
ideias. Essa imprensa, entendida aqui esses espaços para legitimar as
como divulgação sistemática de políticas do governo ou os projetos
notícias geralmente veiculadas por que conceberam como primazia do
jornais e revistas, destacou-se como grupo ao qual pertenciam. Dentre os
espaço de agregação, que instituía veículos de comunicação que
redes específicas entre os permitiram essa cooperação entre
intelectuais. Os vários jornais e intelectuais e governo, o Dossiê Era
revistas, alguns com vida breve, Vargas, publicado no site da
outros dotados de longevidade, Fundação Getúlio Vargas (ca. 2016),
constituíram-se em espaços tanto de elenca as revistas Ciência Política,
circulação das ideias e produções dos Estudos e Conferências, Dos Jornais,
intelectuais, dos projetos Brasil Novo, Planalto e a Revista
governamentais, quanto de embates Cultura Política. Esta última destaca-
em torno dos projetos políticos e se pelo objetivo de explicar e
questões artístico-literárias da época divulgar as transformações operadas
(LUCCA, 2011). no país via Estado Novo.
Atendendo à heterogeneidade O jornal A Manhã compõe
que marcava o grupo de intelectuais, esse grupo de publicações que
os jornais e as revistas no pós 1930 divulgavam os projetos do Estado
também se configuraram como Novo, dando legitimidade aos atos
espaços diversos que refletiram a governamentais. Sob a direção do
complexidade do multifacetado jornalista, poeta e ensaísta Cassiano
cenário em que se moviam os Ricardo (1895-1974), um dos
90
intelectuais que colaborava com o de contribuírem para a formação de
Estado, esse periódico difundia a uma memória coletiva, na medida 4
Exemplo disso pode ser
ideologia do Estado Novo para toda a em que suas ideias circulavam em encontrado na Edição 13 do
jornal A Manhã, de 23 de
sociedade. variados espaços e passavam a ser agosto de 1941, quando foi
Na seção seguinte, apropriados de diversas maneiras, divulgado o Programa
Cultural do Ginásio Piedade
demonstraremos a forma como esse especialmente pela via da oralidade. transmitido pelo rádio. Esse
jornal divulgou a Marcha para o Conforme Schwarcz e Starling programa, organizado pelo
professor Gama Filho,
Oeste, política de colonização e (2015), a natureza do Estado Novo ficava a cargo dos alunos e
ocupação do interior do Brasil, era autoritária, modernizante e defendia a Marcha para o
Oeste seguindo a linha do
atendendo ao objetivo de divulgar os pragmática. Como qualquer governo
jornal. Outros exemplos
projetos do governo de Getúlio de força, dependia do consentimento são: “Movimento
Vargas, para promover, junto à da maioria da população. Para atingir Oesteano”, criado em São
Paulo, envolvendo
população brasileira, a aceitação e o esse objetivo, o governo investiu em estudantes e professores,
apoio aos referidos projetos. um aparato capaz de legitimar e em sua maioria, das
Faculdades de Direito e
difundir seu ideário político. O Medicina Veterinária da
A “MARCHA PARA O OESTE” NAS Departamento de Imprensa e Faculdade Mackenzie, e
“Cruzada Rumo ao Oeste”
PÁGINAS DO JORNAL “A MANHÔ Propaganda (DIP) constituía-se em
movimento sediado no Rio
A instituição de um governo uma máquina bem planejada, capaz de Janeiro.
autoritário, em 1937, trazia a de interferir em todas as áreas da
necessidade de criação de um cultura brasileira. Uma das ações do
aparato discursivo voltado para a DIP foi a exploração do potencial da
difusão de sua ideologia. A produção imprensa escrita, criando publicações
dos intelectuais foi fundamental para com o propósito de divulgar e
sustentar e legitimar as ideias que legitimar seus projetos.
embasavam a políticas Os jornais e revistas
governamentais desse momento. possibilitaram que essa imprensa
Jara (2011) analisou a estreita fosse utilizada para elaborar os
relação entre intelectuais e política, elementos fundamentais da ideologia
quando estudou o papel dos do Estado Novo, de modo a serem
discursos públicos na construção das compreendidos pelos leitores. Nas
identidades indígenas no México. matérias, simplificavam-se ideias e
Para essa autora, esse discurso as apresentavam de forma que os
público é conformado pela junção do leitores se sentissem atraídos por
discurso político e a produção elas. A apresentação visava a
intelectual, o que nos leva a refletir compreensão dos projetos políticos,
sobre essa produção e a formulação mas pretendia também suscitar
de projetos e políticas públicas, emoções capazes de envolver os
implicando na associação dos leitores de forma que se sentissem
intelectuais com o poder, mesmo que partes daqueles projetos4.
esses não ocupem cargos nas O Jornal A Manhã cumpria
instituições e nos órgãos essa função, ao divulgar o projeto da
governamentais. Marcha para o Oeste. Em 1941
No contexto aqui referido, os iniciava sua circulação no Rio de
intelectuais podiam, sim, influenciar Janeiro, exibindo a coluna intitulada
em decisões importantes que “Marcha para o Oeste”. Daquele ano
afetavam a vida da população, além até julho de 1945, esse periódico foi
91
dirigido por Cassiano Ricardo, autor país e o governo. Dentre elas,
5
da obra também intitulada de Marcha destacamos as referentes à Marcha Esse jornal diário
contava com
para o Oeste, publicada em 1940, na para o Oeste, cujas matérias eram
colaboradores famosos,
qual faz uma analogia entre a tratadas numa coluna exclusiva, entre eles Gilberto Freyre,
organização do bandeirantismo do geralmente acompanhada de uma Afonso Arinos de Melo
século XVI e a política de colonização sugestiva ilustração, que trazia o Franco, Vinicius de Morais,
Cecília Meireles, Ribeiro
formulada pelo Estado Novo. O jornal mapa do Brasil e representava
Couto, entre outros. Para
A Manhã era um órgão oficial do iconograficamente os elementos que maiores informações ver o
Estado destinado a divulgar as caracterizavam a referida marcha, link “A era Vargas dos
diretrizes propostas pelo regime para como podemos observar na anos 20 a 1945”, na
página da Fundação
um público diversificado.5 reprodução a seguir:
Getúlio Vargas ([ca.
Em sua primeira edição, A 2016]).
Manhã trazia várias notícias sobre o

Figura 1 – Ilustração que acompanhava a coluna Marcha para o oeste do jornal A


Manhã

Fonte: CIVILIZAÇÃO..., 1941, p. 8.

A ilustração dava aos leitores de conquistar o que se denominou na


informações fundamentais sobre a época de “vazios” territoriais, além de
proposta do governo, ao apresentar reparar a pouca interação dos centros
um país que partia do litoral para o urbanos. Tratava-se de uma política
seu interior num claro processo de territorial que era acompanhada de
colonização. Nela estão expostas as ações voltadas para o povoamento
ideias que embasavam o programa das áreas consideradas “vazias”, um
governamental, que tinha como um sistema de deslocamento
dos focos a geopolítica e o objetivo populacional e de comunicação que
92
exigia abertura de estradas, criação ao ir pessoalmente aos chamados
de malha ferroviária, Sertões, levantando “[...] todos os
desenvolvimento da navegação e o problemas que afetavam a
estímulo à conquista da terra e verdadeira alma brasileira”
também ao trabalho. (CIVILIZAÇÃO, 1941, p. 8).
Na primeira edição de A O termo Marcha para o Oeste
Manhã também identificamos a extrapolava os limites da região
inspiração para a qualificação do Centro-Oeste, uma vez que o jornal
espaço tido como “vazio”, na medida deixava claro que a coluna que
em que, ao fazer referências ao recebeu essa denominação
processo de urbanização no Brasil e à destinava-se ao que era considerado
superpopulação das cidades, o jornal o “nosso imenso hinterland”. Todas
caracterizava esse quadro com uma as regiões brasileiras localizadas
frase atribuída a Euclides da Cunha, distante dos modernos e
que afirmava ser a civilização progressistas centros urbanos eram
brasileira uma “civilização de vistas como foco privilegiado do
fachada” (CIVILIZAÇÃO, 1941, p. 8). processo civilizador, englobadas no
O periódico informava aos seus plano do governo e propaladas pelo
leitores que a mudança para aquela jornal, cujo objetivo explicitado era
situação estava chegando com a oferecer aos seus leitores, em seus
Marcha para o Oeste e que estaria artigos, “[...] um curso de geografia
diariamente demonstrando que a animada, viva, palpitante” a fim de
nossa civilização não viria de fora, “[...] fomentar em cada brasileiro,
mas do próprio coração da terra. Tal desse ou daquele recanto do país,
observação levava em conta a ideia um maior apreço e um conhecimento
de que o programa tinha inspirações mais perfeito dos vários ambientes
no bandeirantismo do período de nossa grande nacionalidade”
colonial, mas, naquele momento, os (MARCHA, 1941a, p. 8).
atores desse processo seriam os Em muitas matérias, a região
próprios brasileiros. Nordeste também ganhava destaque.
Os leitores de A Manhã O ponto de partida para a série que o
também foram informados de que a jornal pretendia que fosse um curso
mudança que estava em curso de geografia era a região do Cariri,
chegava num momento em que o no Ceará. Entretanto, ao longo das
Brasil esperava “uma grande voz”, várias edições, outros lugares da
capaz de ressoar por todos os cantos região Nordeste mereceram destaque
do país, mostrando os “males das na referida coluna, especialmente
cidades hipertrofiadas”, e que aqueles que apresentavam rico
traçasse o “verdadeiro sentido da potencial econômico e baixa
civilização brasileira”. Por isso a densidade demográfica.
Marcha para o Oeste era, segundo o “Descobrir o país aos seus
jornal, “a síntese da moderna próprios habitantes” era a fórmula
política” empreendida por Getúlio apresentada pelo programa e
Vargas, o dono da voz esperada. O veiculada no jornal, para que o país
governante, por sua vez, comprovava chegasse a “[...] surpreendentes
as possibilidades do seu programa, fontes de uma riqueza ainda não
93
conhecida inteiramente” (MARCHA, elaboração de uma política 6
Embora o jornal aponte
1941b, p. 8). A região de Mato educacional que fosse capaz de a fundação de Goiânia
Grosso figurava como o grande transformar os indivíduos em “[...] como um dos projetos da
Marcha para o Oeste,
atrativo e um excelente potencial de fatores de progresso regional e
estudos indicam a
pastagem. Era concebida como um aproveitamento dos recursos imprecisão dessa
local onde rebanhos poderiam naturais, pelo incremento da associação, demonstrando
que os planos para a
multiplicar-se, aproveitando bem pecuária” (COLONIZAÇÃO, 1941, p. construção de Goiânia
seus campos. Getúlio Vargas visitava 7). Entretanto, chamava a atenção antecedem os anos 1940,
e também os propósitos
essa região e, segundo o jornal, que para o fato de que a política que da política de colonização.
o associava aos bandeirantes, o deveria concretizar os objetivos da Cf. Silva e Mello (2013).
presidente “[...] ia sem lutas e sem Marcha para o Oeste, seria a de
instrumentos de guerra, fortalecendo organização dos territórios de
as raízes da nossa nacionalidade e fronteira, pois estes, com “batalhões
irradiando o prestígio de uma política avançados”, não seriam apenas as
construtiva” (MARCHA, 1941b, p. 8). “barreiras vigilantes” de nossa
Diante da grandeza dos integridade territorial ou marcos de
recursos naturais divulgados pelo nossas linhas limítrofes. Seriam
governo, o Brasil era considerado especialmente, “[...] grandes
uma potência passiva que precisava reservas de brasilidade e as mais
ser explorada após a conquista do poderosas células de nossa
interior, condição que era atrelada civilização futura” (COLONIZAÇÃO,
aos progressos da nação. Esse 1941, p. 7).
potencial, referendado pelas Para este texto, consultamos
incursões que o próprio presidente as edições de A Manhã no período de
fazia, ao sobrevoar e visitar áreas 1941 até 1945, quando Cassiano
consideradas ermas e despovoadas, Ricardo deixou a direção do jornal
precisava ser explorado e (julho de 1945) e Getúlio Vargas, o
administrado mediante algumas governo (outubro de 1945). A coluna
estratégias elencadas pelo jornal e Marcha para o Oeste foi publicada
consideradas de vulto, tais como: a quase que diariamente no ano de
fundação de Goiânia6, criação de 1941, aparecendo de forma mais
colônias agrícolas, proteção à família espaçada nos anos seguintes. A
para estimular a proliferação nativa, última aparição da Coluna, com sua
construção de diversas artérias respectiva ilustração, foi em 7 de
ferroviárias, reorganização ferroviária março de 1945. (O I CONGRESSO,
da estrada Madeira-Mamoré e 1945, p. 8). O jornal, não informa
assistência direta do governo federal sobre a exclusão dessa seção, ela
aos municípios que reconquistassem apenas deixa de constar. Depois
os seus antigos forais disso, as referências à Marcha para o
(COLONIZAÇÃO, 1941, p. 7). Oeste continuaram aparecendo,
O Jornal também apresentava porém de forma bastante irregular e
ao público os projetos futuros para a sem constituir um espaço específico.
conquista do interior brasileiro. A tônica das matérias que
Dentre as medidas a serem tomadas, compunham a coluna destinada à
estavam: formulação de uma política Marcha para o Oeste era centrada
decisiva de orientação econômica, nos termos “progresso” e
94
“modernidade”, “não civilizado” e governantes e ideólogos do Estado
“processo civilizador”. Essas Novo, constituíam a riqueza passiva
expressões construíam o sentido da do país. Logo, esses povos
Marcha para o Oeste. Por outro lado, figuravam, para os defensores da
raramente as matérias faziam Marcha para o Oeste, como
qualquer menção aos indígenas. verdadeiros obstáculos ao projeto de
Ainda que a política de colonização uma pretensa brasilidade que não os
empreendida com essa Marcha tenha incluía desde tempos remotos.
avançado ferozmente nos territórios No caminho dessa Marcha,
em que viviam várias etnias, o povos como Xavante, Borôro, Bakairi,
silêncio sobre eles caracterizou a Txikão, Juruna, Kalapálo, Kamayurá
quase totalidade dos artigos. e muitos outros mostravam aos
Essa constatação permite-nos governantes e ao Brasil inteiro os
concordar com a afirmação de que o equívocos da propaganda desse
silêncio é fundante. Para Orlandi projeto e, especialmente, dos
(2007, p. 14), há um “[...] silêncio objetivos pretendidos por ela.
que atravessa as palavras, que existe Mostravam, sobretudo, os limites de
entre elas, ou que indica que o uma política autoritária centrada
sentido pode ser sempre outro, ou numa ideia enviesada de brasilidade
ainda que aquilo que é mais excludente e atrelada aos interesses
importante nunca se diz”. Ainda capitalistas cujas terras indígenas
conforme essa autora, “[...] as representavam a centralidade.
palavras são cheias de sentido a não
dizer” (ORLANDI, 2007, p. 14), e isso A “MARCHA PARA O OESTE” E OS
nos ajuda a entender o aparato POVOS INDÍGENAS
discursivo utilizado pelo jornal A Esse contexto de efetivação
Manhã, ao tratar diretamente de uma da Marcha para o Oeste é
política tão cara aos povos indígenas. frequentemente associado a um
Sua estratégia foi silenciar, de forma processo de reorganização,
gritante, sobre a condição desses modernização e burocratização do
povos e os impactos que a Marcha Estado. Nele, diversas agências
para o Oeste teve sobre eles. estatais ampliaram suas ações por
Ao enfatizar as ações de um todo o território brasileiro. Interessa-
Estado que se autodenominava nos, para os objetivos deste texto, a
moderno e progressista, responsável atuação do Serviço de Proteção aos
por levar a civilização para os rincões Índios (SPI) que, a partir da década
não civilizados do país, o periódico de 1940, experimentou uma
calava o que havia de mais expansão sem precedentes, atingindo
significativo na política do Estado, regiões até então mantidas à
silenciava sobre o que não podia ser margem das ações do Estado
dito. Silenciava acerca da violência brasileiro (ROCHA, 2003).
com a qual o Estado brasileiro tratou Em 1910, com a criação do
as comunidades indígenas que, a Serviço de Proteção aos Índios e
despeito das afirmações de territórios Localização de Trabalhadores
vazios e despovoados, habitavam Nacionais (SPILTN), o Estado
parte dos espaços que, na visão dos brasileiro lançou as bases para o
95
estabelecimento de uma política de órgão de proteção dos indígenas, sua
caráter puramente laico com os visão em relação a esses povos sob
povos indígenas tanto em relação à sua tutela pautava-se pela concepção
formação dos quadros que que preconizava o fim inexorável
compunham esse órgão quanto à sua dessas populações. Apoiando-se em
ideologia de ação (LIMA, 2011). Em uma visão evolucionista, o Estado
1918, por meio de uma reforma brasileiro encarava a condição
administrativa baseada na Lei nº indígena como transitória. Esses
3.454, o Estado retirou desse órgão a povos “estavam índios”, pois, na
competência de localizar medida em que fossem
trabalhadores nacionais, passando a incorporando-se à sociedade
chamá-lo apenas SPI (ROCHA, nacional, deixariam de ser índios.
2003). Nesse processo, cabia ao SPI
Ao longo dos anos, o SPI foi “melhorar” esses indivíduos, para
ganhando uma estrutura mais que se incorporassem à sociedade
complexa e burocratizada. Suas brasileira vista sob o signo da
transformações aparecem homogeneidade e da harmonia
relacionadas a contextos históricos (ROCHA, 2003).
específicos e a projetos do governo. Essa ideia de nacionalização e
Da mesma forma, a condução da integração não era a única a guiar a
política indigenista também seguia, política do SPI para as populações
em grande medida, diretrizes indígenas. Entretanto, para fins deste
consoantes os projetos do Estado. texto, nos restringiremos a ela, na
Assim, o SPI, que em 1930 medida em que preconizava a
encontrava-se subordinado ao nacionalização dos indígenas e sua
Ministério do Trabalho, passou, em integração na sociedade brasileira.
1934, para o Ministério da Guerra. Já Essas medidas eram vistas como
em 1939, esse serviço voltou à condição essencial para a evolução
alçada do Ministério da Agricultura, desses povos e implicavam na
quando a questão indígena passou a transformação de todas as práticas
ser relacionada com a colonização. tradicionais que orientavam o
Nesse contexto, os indígenas foram cotidiano desses grupos e incluíam a
vistos como potenciais liberação dos territórios indígenas. Ao
colaboradores, que, se bem longo dos anos, a questão da
orientados, poderiam tornar-se úteis nacionalização dos indígenas
para as populações civilizadas na contemplou vários significados e
condição de trabalhadores agrícolas. esteve atrelada aos projetos
A partir dos anos 1940, as governamentais.
reformulações feitas nesse órgão No contexto da Marcha para o
conferiram-lhe uma configuração que Oeste, nacionalizar os indígenas não
permaneceu até 1967, quando foi significava mais, conforme observou
extinto e a Fundação Nacional do Rocha (2003), transformá-los em
Índio (Funai) o substituiu (ROCHA, guardas de fronteira ou
2003). trabalhadores rurais, como se
Não obstante o SPI buscava no início do século XX.
configurar-se oficialmente como Interessava ao Estado, transformá-
96
los em colonos, modelo mais ambiente primitivo” (O PROGRAMA...,
apropriado aos objetivos da Marcha 1941, p. 8).
cujos interesses voltavam-se para a O rastro da Marcha para o
colonização e o controle geopolítico Oeste revela situações muito aquém
do território. Nesse contexto, o termo de um “estado de felicidade”,
integração vai se sobrepondo cada sobretudo para os grupos indígenas
vez mais ao termo nacionalização. que foram alcançados pelos
Durante a proposição e instrumentos da chamada
aplicação da Marcha para o Oeste, modernização do Estado brasileiro. A
várias mudanças afetaram a política negação da face violenta da Marcha
indigenista. Foram criados alguns para o Oeste aparece em diversas
órgãos cujo trabalho de cooperação edições do jornal, que estimulavam a
com o SPI possibilitaram a aceleração posse dos territórios considerados
do trabalho de “pacificação” de vários vazios, propalando seu potencial
povos indígenas da Amazônia econômico e instigando o povo
Ocidental, como o Conselho Nacional brasileiro a aproveitá-lo. Raramente
de Proteção aos Índios (CNPI), a são citadas as comunidades
Fundação Brasil Central (FBC) e a indígenas que viviam nesses
Superintendência do Plano de territórios e, quando o são, as terras
Valorização da Amazônia (SPVEA). por essas ocupadas jamais lhes eram
(ROCHA, 2003). Essa política de atribuídas. Seus ocupantes eram
“pacificação” equivalia, conforme tratados como “[...] míseros,
Oliveira (2014), a um processo dito provisórios habitantes” (O
humanitário, exercido pelo Estado PROGRAMA, 1941, p. 8).
com objetivo de proteger a população O resultado desse processo foi
altamente vulnerável e desfavorecida o atendimento aos chamados do
que, naquele contexto, precisava ser governo, mediante uma vigorosa
contatada sem o exercício da propaganda, por correntes
violência. migratórias que se deslocaram para a
A coluna Marcha para o Oeste região central, formando frentes de
do jornal A Manhã, apresentada expansão e provocando conflitos
anteriormente, tinha como um dos intensos com as populações
objetivos criar uma visão romântica e indígenas, em função das questões
mítica da política de colonização. Nas relacionadas com a disputa pelas
matérias publicadas, era corrente a terras. Por sua vez, o SPI, que em
ideia de que se tratava de um convite 1940, como vimos, passou a ser
para aventuras. Uma aventura capaz subordinado ao Ministério da
de proporcionar felicidade para quem Agricultura, aliou a política
a abraçasse. Dizia-se que a Marcha indigenista aos objetivos da Marcha.
era mais do que a possibilidade de A ação desse órgão, assentada no
alcançar a felicidade; era, binômio proteção-assistência, traduz
especialmente, uma forma de os discursos oficiais, reforçando a
distribuição dessa. Tratava-se da ideia da necessidade de o Estado
circulação da crença de “[...] criação amparar os indígenas por meio de
de uma vida sem violências, no uma legislação especial, definida
como tutela, para garantir a posse da
97
terra. No entanto, a noção de terra, que, inevitavelmente, os indígenas
nesse caso, apresenta-se de forma desapareceriam, já, que pela lógica
muito restrita e completamente oficial, gozavam de um estado
distinta da ideia de território. transitório. No caso citado, o
Conforme o Estado, bastava garantir indígena identificado como da etnia
aos indígenas a terra para morarem Caingangue, passou a ser um ex-
e subsistir (ROCHA, 2003). Essa índio, que experimentava, naquele
política subvertia todas as contexto, as benesses da vida
necessidades e lógicas dos grupos civilizada numa relação em que era
indígenas e recrudescia ainda mais a sugerida a existência da comunhão
grave situação de conflitos entre brancos e indígenas. Esta
engendrada pelas políticas do Estado situação era tida como possível
com a conivência do SPI. graças ao “melhoramento” do índio
Falamos anteriormente que a promovido pelas práticas introduzidas
política do SPI apontava na direção pela política indigenista, que se
do “melhoramento” dos indígenas, achava capaz de torná-lo apto para
que deveriam ser integrados e conviver com os “civilizados”. Ao
nacionalizados, e que sua indígena, com base nessa concepção,
incorporação à sociedade civilizada restava tornar-se um deles e abrir
era vista como um processo mão de sua identidade.
inexorável. A imprensa ajudava a Essa política, nefasta para as
difundir esse pressuposto, usando populações indígenas, corroborou o
recursos como a crônica publicada no processo de avanço nas terras desses
jornal O Estado de Mato Grosso com povos, favorecido pela política de
o título de A Flecha do Bugre, em que colonização do Estado, protagonizada
narrava o episódio ocorrido com pela Marcha para o Oeste. Ao longo
Bandeira de Melo quando a serviço do século XX, as populações
do SPI teve seu capacete de cortiça indígenas conviveram com as
atravessado por uma flecha. A chamadas frentes de expansão que
narrativa informava que, ao retornar avançaram sobre seus territórios
a sua residência, Bandeira de Melo tradicionais por meio de um processo
resolveu usar a flecha como um violento com a participação de “[...]
objeto decorativo em seu gabinete de jagunços, pistoleiros, oficiais de
trabalho. Passado o tempo, um justiça, juízes, enfim, diversos
funcionário do SPI teria levado um atores, em uma batalha desigual
“bugre recém-catequizado” para a [...]” (ROCHA, 2003, p. 150).
sua residência. O indígena, tratado Situação muito diferente da
na crônica como um “ex-silvícola”, propagandeada pelo jornal A Manhã,
para surpresa de todos, reconheceu que descrevia a colonização dessas
ter fabricado a flecha e teria áreas como pacífica e harmônica.
lastimado bastante o fato de quase As ações do Estado, ao
ter ceifado a vida do seu grande e instituírem uma política de ocupação
recente “amigo e benfeitor” (A do interior do Brasil, associaram-se a
FLECHA, 1940). outras estratégias de colonização, o
A crônica ajudava, que nos leva a concordar com Rocha
indiretamente, a divulgar a ideia de (2003), quando afirma que a Marcha
98
para o Oeste não pode ser entendida como elemento capaz de atrapalhar o
sem o estabelecimento de uma desenvolvimento do Brasil Central 7
Os Postos Indígenas
constituíam unidades
relação entre ela, a Expedição (GARFIELD, 2011). A resistência dos básicas para a
Roncador-Xingu (ERX) e a política Xavante ao projeto colonizador pode implementação da política
indigenista. Geralmente
indigenista. Com a edição da Portaria ser constatada também em notícias
localizavam-se dentro de
nº 77, de 3 de junho de 1943, veiculadas em outros periódicos, uma reserva. Para
instituída pela Coordenação de como observamos na revista O informações mais
detalhadas sobre esses
Mobilização Econômica, Cruzeiro, na matéria escrita em 1946 postos e seu papel,
apresentavam-se as metas oficiais da pelos repórteres Nasser e Marzan consultar Rocha (2003).
referida expedição: “A criação de vias (1946).
estratégicas de comunicação com o Diante do perigo oferecido
Amazonas através do interior do país pelos Xavante, o Estado buscou a
e a necessidade de exploração e de cooperação da Fundação Brasil
povoamento do maciço central do Central (FBC) com o Serviço de
Brasil, nas regiões da cabeceira do Proteção ao Índio (SPI) para facilitar
Rio Xingu” (ROCHA, 2003, p. 165). a penetração no território Xavante. O
Formada por homens SPI passou a atuar na tarefa de
recrutados em São Paulo, Rio de “pacificar” os indígenas, usando os
Janeiro e Centro-Oeste, a equipe Postos Indígenas7 Pindaíba, Pimentel
inicial da expedição Roncador-Xingu Barbosa e São Domingo. Essa aliança
– contrariando os preparativos possibilitou que, em 1946, o SPI
iniciais, que previam sua saída de montasse mais uma “frente de
São Paulo, como forma de simbolizar atração” e conseguisse o contato com
o bandeirantismo –, partiu de os Xavante (ROCHA, 2003).
Aragarças, fronteira dos Estados de É preciso registrar, porém,
Mato Grosso e Goiás, em direção ao que tal empreitada não transcorreu
Rio das Mortes, território dos com grande facilidade, o que nos leva
Xavante, povo que até aquele a desmontar os pressupostos que
momento era arredio ao contato com definem os povos indígenas como
os brancos. Em 1945, com a seres destituídos de qualquer
deserção de alguns componentes, a possibilidade de engendrarem
Expedição foi recomposta, incluindo, estratégias políticas e de resistência.
na ocasião, os irmãos Vilas Bôas com O processo de pacificação dos
reconhecido papel nos trabalhos de Xavante, pretendido pelo SPI, foi
“pacificação” de povos indígenas do longo, violento, intermitente,
Alto Xingu (ROCHA, 2003). contestado e minado, muitas vezes,
As narrativas sobre os pela ação dos Xavante, conforme
Xavante criavam a imagem de relata Garfield (2011). Os esforços
grandes estrategistas, muito hábeis iniciais para tal “pacificação”
nas guerras de guerrilhas (ROCHA, ocorreram em 1941, quando uma
2003). Eram tidos como índios pequena equipe do SPI iniciou a
temidos, por armarem emboscadas chamada fase do “namoro”, que
para os intrusos. Tais referências consistia em deixar ferramentas,
faziam com que fossem vistos como roupas e outras oferendas para que
um perigo constante, e sua os indígenas recolhessem,
hostilidade era ressaltada e indicada facilitando, assim, a aproximação
99
entre os dois grupos. Nesse mesmo Nos anos de 1948 e 1949,
ano, não obstante terem recolhido as novas expedições foram organizadas
oferendas, os Xavante responderam com o objetivo de penetrar pelo
à intrusão do Estado brasileiro, Xingu em direção à Serra do
matando a bordunadas o chefe Cachimbo/Teles Pires. Tratava-se de
Genésio Pimentel Barbosa e mais território com vários povos indígenas,
cinco integrantes da equipe. Dessa que, paralelo aos trabalhos de
forma responderam às investidas do construção de pistas de pouso, foram
SPI para pacificá-los (GARFIELD, “pacificados”. Nesse sentido, o SPI, a
2011). ERX e a FAB foram abrindo terreno e
Em 1944 nova tentativa foi “pacificando” etnias como Kalapálo,
feita com a chefia de Francisco Kamayurá, Kayabí, Jurúna, Txikão,
Meireles. Nessa fase, o apoio logístico Suyá e Txukahamãe (ROCHA, 2003).
dado pela Força Aérea Brasileira Essas comunidades indígenas
(FAB) foi fundamental para que o SPI tiveram seus territórios devassados e
pudesse localizar mais facilmente as suas aldeias foram afetadas por
aldeias Xavante, evitasse acidentes e epidemias, como as de gripe, que
elaborasse estratégias de contato dizimaram muitas vidas. Os Kalapálo
(GARFIELD, 2011). Só após dois anos são exemplares nesse sentido. Em
de “namoro” é que o SPI pôde dar 1946, vivendo numa aldeia próxima
por encerrada sua missão de do acampamento da ERX, perderam
“pacificar” os Xavante, num contexto 28 vidas em função de um surto de
em que Getúlio Vargas já não estava gripe. Essas baixas ocorreram numa
mais no poder, mas “[...] não deixou população de apenas 180 indivíduos.
de se orgulhar das transformações Surtos de malária, sarna, gripe,
forjadas pelo Estado Novo” sarampo, tuberculose e desnutrição
(GARFIELD, 2011, p. 95). afetaram as comunidades indígenas
Cabe aqui um parêntese para das regiões devassadas pela Marcha
as observações feitas por Garfield para o Oeste, que sofreram muitas
(2011), quando chama a atenção baixas. A situação médico-sanitária
para o fato de que a pacificação em só foi mais ou menos controlada na
questão não atingiu os Xavante de década de 1960, diante da
forma geral, pois estes não possuíam assustadora taxa de mortalidade
uma estrutura política centralizada. entre esses povos (ROCHA, 2003).
Cisões internas fizeram com que Essa ação do Estado abriu
grupos dessa etnia se dirigissem para espaço para que a sociedade civil
variados lugares antes da chegada da intensificasse o avanço sobre os
expedição. Logo, a pacificação sob o territórios indígenas. Anos antes do
comando de Francisco Meireles início da Expedição Roncador Xingu
dirigia-se apenas à comunidade da já havia registros de que o processo
região do Rio das Mortes, cuja aldeia, de modernização do Estado favorecia
denominada de Aröbönnipó, chefiada essa situação. Se voltarmos ao ano
por Apoena, foi a que o SPI contatou em que foi instituído o Estado Novo,
em 1946. O Estado brasileiro poderemos localizar registros desse
chegava, portanto, a apenas uma tipo no primeiro número da Revista
parte dos povos Xavante. do Serviço do Patrimônio Histórico e
100
Artístico Nacional (SPHAN). Em um biblioteca de muitas centenas de
volumes... (TORRES, 1937, p. 25).
artigo intitulado “Contribuição para o
Estudo da Proteção ao Material
A afirmação dessa antropóloga
Arqueológico e Etnográfico do Brasil”
encerra-se com a observação de que
a antropóloga do Museu Nacional,
centenas de volumes de livros seriam
Heloisa Alberto Torres traçava as
necessários para exemplificar os
linhas condutoras da política que o
casos que atestavam tal assertiva,
SPHAN adotaria para o tratamento do
mas ia além, ao sugerir que a
patrimônio produzido pelas
ambição pelas terras indígenas
populações indígenas e fazia sérias
comportava ações que “[...]
denúncias a respeito do esbulho das
apressavam o desaparecimento do
terras indígenas.
índio atrasado e inaproveitável”
Para Torres (1937), era
(TORRES, 1937, p. 25). Suas
imprescindível o reconhecimento do
observações estavam pautadas na
direito que os indígenas possuíam em
ação do Estado com seus órgãos
relação às terras que habitavam,
produtores das políticas indigenistas,
portanto deveriam ser conservados
deixando claro que, nos rastros
em seus ambientes e de acordo com
dessas políticas, muitos inimigos
seus modos de vida. Argumentava
tradicionais dos indígenas,
que, por meio de uma política de
fortalecidos pelos poderes locais e
reparação, o Estado deveria
pelo próprio governo federal, tiravam
compensar as perseguições que
proveito do aumento das pressões
esses povos sofreram ao longo dos
econômicas sobre as terras indígenas
séculos. A antropóloga reconhecia
nas regiões onde ocorria a expansão
que havia uma dificuldade grande a
da sociedade.
ser enfrentada para a conservação
Conforme Oliveira (2014, p.
dos indígenas em suas terras, diante
137), no contexto republicano “[...]
do processo de modernização em
as ‘pacificações’ foram fundamentais
curso. Argumentava que, entre os
para insular os indígenas em
chamados progressistas, persistia a
pequenas faixas de terras, liberando
ideia de que os indígenas deveriam
paralelamente vastos espaços para
desaparecer, quanto mais depressa
serem apropriados por interesses
melhor. E ressaltava que esse
privados”. Se analisarmos a atuação
espírito progressista, na maioria das
do SPI e relacioná-la à intensa
vezes, acobertava grandes ambições,
propaganda veiculada no Jornal A
que tinham como foco as terras
Manhã, na coluna Marcha para o
indígenas.
Oeste, compreenderemos como a
ação conjunta desse órgão com os
É a castanha, é a seringa é a madeira
das terras demarcadas para índios demais responsáveis pela política de
que desperta neles tamanhos pruridos colonização empreendida pelo Estado
de progresso; que os leva a
manifestar-se desse modo e, pior do Novo culminou na valorização da
que isso, a agir no sentido de terra nas regiões habitadas por
apressar o desaparecimento do índio
atrasado e inaproveitável. Ilustrar a
vários grupos indígenas, bem como
asserção por meio de exemplos na facilitação do acesso aos
levaria à constituição de uma territórios indígenas e,

101
consequentemente, na tomadas Garfield (2011) também
dessas áreas. chama a atenção para o fato de que
O Estado brasileiro, ao o encarregado do Posto precisava
instituir um mercado de terras recorrer a estratégias que
altamente valorizado nas regiões facilitassem o trato com os indígenas,
propagadas pela Marcha para o a exemplo de um tratamento
Oeste, permitiu que especuladores diferenciado com os chefes nativos e
fundiários experimentassem as seus parentes, por meio da oferta de
possibilidades de incorporar grandes “presentes”, acreditando que assim
áreas territoriais ao seu domínio. poderia acelerar o processo de
Nesse processo, a política omissa do integração indígena. Entretanto, o
SPI, cuja premissa baseada na SPI, com sua estrutura de Posto
proteção representou sérias Indígena de onde irradiava a política
ambiguidades, abriu espaço para que indigenista, não foi capaz de lidar
se instituísse um grande mercado de com a complexidade que implicava a
terras naquelas regiões antes chamada “pacificação” dos indígenas
ocupadas por muitas etnias e o caso dos Xavante é emblemático.
indígenas. Além de todas as dificuldades
Se tomarmos como referência apontadas no campo das estratégias
os estudos de Garfield (2011) sobre políticas de resistência e os
os Xavante, veremos que a política equívocos da conduta do SPI, as
do SPI junto a esse povo visava, rivalidades internas entre os Xavante
sobretudo, transformá-lo em recrudesceram as dificuldades do
trabalhador, política que felizmente órgão.
não pôde ser considerada exitosa. Lembramos que, na coluna
Conforme esse autor, as investidas Marcha para o Oeste, havia um
do SPI para “[...] ‘fixar’ os índios em grande investimento para incutir no
seus lotes, arregimentar trabalho ou brasileiro o amor pela terra e a tudo
conter comportamentos ‘antissociais’” que se relacionasse ao campo, ao
(GARFIELD, 2011, p. 347) não foram ponto de se propor um programa de
bem-sucedidas. O autor citado educação que disseminasse a
constatou que, na década de 1950, educação rural (O PROGRAMA,
os Xavante eram observados por 1941). No caso dos indígenas que
uma antropóloga do Museu Paulista, eram contatados nas investidas feitas
que relatou as dificuldades que o em seus territórios após a Marcha,
Posto do SPI enfrentava, entre elas esperava-se transformá-los em
as alegações de que os indígenas trabalhadores disciplinados,
realizavam suas tarefas de má verdadeiros agricultores. A mesma
vontade, nunca estavam dispostos a lógica foi direcionada para os
usar os instrumentos de metal para o Xavante, porém, todas as questões
trabalho agrícola, dormiam no que citamos com base em Garfield
trabalho, enquanto outros ficavam (2011) contribuíram para que os
em vigília, evitando que o guarda do esforços do governo federal não
posto os surpreendessem, além de tivessem resultado. Esse autor
abandonarem suas tarefas sempre conclui que “[...] os líderes indígenas
que o alarme de caça soava. haviam aceitado as mercadorias
102
oferecidas no processo de distinções étnicas e para manter ou
‘pacificação’, mas rejeitaram os retomar suas terras, coloca em
esforços para remodelar seus evidência as limitações de um projeto
padrões de subsistência” (GARFIELD, orquestrado pelo Estado brasileiro.
2011, p. 348). Apesar dos avanços para subordinar
A afirmação do Estado sobre a e esfacelar esses grupos, o Estado
existência de espaços vazios tornou- nunca deixou de ser desafiado e nem
se uma falácia. Quando, em 1940, pode colocar-se como amplamente
Getúlio Vargas declarou em Goiânia, vitorioso, na medida em que, apesar
no lançamento da Marcha para o de todas as perdas que podemos
Oeste, que “O Brasil é um apontar, as populações indígenas
arquipélago formado de algumas vêm crescendo. Cerca de 900 mil
ilhas entremeadas de espaços vazios” indígenas, pertencentes a 305 etnias
(O OESTE, 1941, p. 9), o governante, e falantes de 274 línguas, conforme
deliberadamente, não mencionou dados do Instituto Brasileiro de
que, nesses “espaços vazios”, estava Geografia e Estatística (2012),
uma presença indígena. Entretanto, continuam desafiando os projetos de
teve que verificar mais tarde que exclusão perpetrados pelo Estado e
essa população, apesar de pela sociedade brasileira.
atropelada, solapada, desrespeitada, Essa presença indígena
violentada, estava disposta a mostrar também deslegitima toda a produção
os limites do domínio do Estado intelectual que produziu, ao longo de
brasileiro. O fracasso das políticas do séculos, uma invisibilidade que lhes
SPI configurado no exemplo dos negou a condição de sujeitos,
Xavante reflete, como nos alerta relegando-os ao papel de meros
Garfield (2011), tanto os limites transmissores de uma herança ao
dessa política quanto a persistência povo brasileiro, como se esses povos
dos indígenas em defenderem suas tivessem o passado como seu lugar
formas tradicionais de vida. de direito. No contexto da Marcha
A Marcha para o Oeste, ao para o Oeste, intelectuais que se
propor uma política de colonização moviam nas redes de sociabilidades
em pleno século XX, já nos dava a que lhes emprestavam grande
certeza de que o processo de expressividade reforçaram essa
colonização empreendido nos séculos invisibilidade, por meio da
anteriores não tinha se encerrado. A participação direta nos quadros do
resistência dos vários grupos governo ou de produções veiculadas
indígenas dispostos em todo o em livros, jornais, revistas,
território nacional, independente do conferências e aulas. Ao legitimarem
alcance da Marcha, e a luta cotidiana o discurso dos espaços vazios e
desses povos implica numa noção de silenciarem sobre os indígenas
que o processo de colonização no dispostos por todo o território
Brasil é contínuo. nacional, elegeram o discurso da
A persistência dos povos mestiçagem como mito fundador da
indígenas, que hoje se mostram nossa nacionalidade e invisibilizaram
articulados politicamente e lutam a presença indígena.
cotidianamente para garantir suas
103
O DESAFIO PERMANENTE: ela ainda está presente na sociedade
QUEBRAR OS EFEITOS DO brasileira.
SILÊNCIO DA HISTORIOGRAFIA Se prosseguirmos com as
BRASILEIRA NO ENSINO DA perguntas e destiná-las aos milhares
HISTÓRIA de alunos que fizeram ou fazem seus
Hoje, decorridos quase oito cursos de licenciatura em História,
anos da promulgação da Lei no indagando-lhes quais aspectos
11.645/08 (BRASIL, 2008), que relativos às sociedades indígenas eles
tornou obrigatório o ensino da estudaram na História do Brasil, que
história e da cultura dos povos não se referem ao período colonial,
indígenas nas escolas brasileiras, se também não teremos grandes
fizermos um rápido levantamento na surpresas. Certamente, muitos deles
maioria dos programas de História do mostrarão total desconhecimento de
Brasil destinados aos cursos de qualquer referência aos indígenas em
licenciatura em História, não nos episódios que são incluídos em
surpreenderemos se não qualquer programa de disciplina, a
encontrarmos qualquer referência às exemplo do processo de construção
questões indígenas em período da nação, da Guerra do Paraguai e
posterior ao colonial. Podemos dos vários movimentos que
verificar situação semelhante na sacudiram o Império.
maior parte dos livros didáticos de Em relação à história da
História destinados ao ensino República, devem apontar o chamado
fundamental e médio, mesmo os que processo de modernização
foram publicados após 2008. Todas empreendido no governo Vargas,
as questões referidas neste texto mas, certamente, os indígenas não
permanecem, na sua maior parte, serão citados nele. Também
silenciadas. recordarão os processos
Se indagarmos aos milhares desencadeados durante o regime
de professores que hoje atuam nas militar, mas se mostrarão alheios aos
escolas de ensino fundamental e impactos tanto do regime quanto das
médio, e até mesmo entre políticas econômicas sobre as
professores do ensino superior, qual comunidades indígenas. Isso só para
história indígena embasou seu ficarmos nos temas mais usuais e
processo de formação, certamente constatarmos a imensa lacuna que
teremos respostas muito próximas. A ainda prevalece sobre a participação
maioria, certamente, recordará as indígena nesses episódios, apesar do
comemorações do dia do índio, crescimento dos estudos dessa
incluindo em suas lembranças o participação, mas que ainda não
cocar de papel que usou e o rosto chegaram ao âmbito do ensino
pintado. Lembrarão também do fundamental, do médio e, com
quanto conjugaram o verbo no algumas exceções, do superior.
pretérito ao se referirem aos Essa constatação, no entanto,
indígenas. Tais lembranças nos não é nova. Nos últimos anos, os
informam sobre qual memória foi estudos voltados para as histórias
construída sobre esses povos e como dos indígenas vêm apontando essas
lacunas e buscando tornar cada vez
104
mais ampla a compreensão de que as povos foram tratados como a-
histórias desses povos não se históricos e considerados atrasados e
restringem ao período colonial. inferiores. Ancorados nesses
Muitas são as pesquisas que pressupostos, eles estavam sempre
demonstram como o ensino de presentes na literatura desse
História tem reproduzido uma série período, fato que constituía uma
de pressupostos e estereótipos que presença invisível, uma vez que toda
congelaram os povos indígenas num a ênfase recaía sobre os indígenas
passado remoto. coloniais (ALMEIDA, 2010).
Apesar das mudanças em Adentramos o século XX e
curso, ainda convivemos com os vemos que, até finais da década de
efeitos de um ensino que, por várias setenta, poucas foram as mudanças
décadas, apresentou conteúdos que em relação às formas de se
se destinavam a trabalhar a presença interpretar e narrar as histórias dos
indígena com base em referências povos indígenas. Os debates sobre a
breves e vagas, presas ao passado. identidade nacional resultaram na
Um ensino cujos conteúdos eram construção de um país mestiço.
apresentados, geralmente, com base Nesse processo, os indígenas, que
em duas perspectivas: a denominada permaneciam como símbolo de
“pré-história”; e a introdução desses brasilidade, tiveram negadas suas
povos na História do Brasil do ponto identidades, ao serem incorporados
de vista dos colonizadores, com o ao mito das três raças, fundador de
advento da conquista. Esta última um novo tipo: o brasileiro.
situação prevalece ainda como Ao longo do século XX,
preponderante tanto nos programas sobretudo no pós 1930, muitos
dos cursos de história quanto nos intelectuais ressaltaram a
livros didáticos. importância dos povos nativos no
Essa forma de ensinar a contexto da colonização lusa na
história dos povos indígenas encontra América, como forma de explicar
seu referencial na historiografia do nossas origens e positivar a ideia de
século XIX, quando, em detrimento mestiçagem, distanciando-a das
de toda a diversidade existente na concepções anteriores que a via
sociedade brasileira, se optou por como fator de degeneração. Essa
construir a noção de um Brasil produção bastante diversa, centrada
homogêneo, que buscava compensar especialmente em ensaios, manteve
suas frustrações por não poder ser a perspectiva hierarquizante, na qual
considerado branco, com base no os feitos dos europeus eram
discurso da mestiçagem, valorizando, ressaltados e os indígenas
porém, as ações dos europeus e a apresentados como vítimas,
nossa porção branca e europeia. enredados em um sistema que não
A produção historiográfica do deixava qualquer possibilidade de
século XIX sob a égide do Instituto ação, por parte desses indivíduos,
Histórico e Geográfico Brasileiro que pudessem indicar sua condição
(IHGB) delegou aos indígenas o de sujeitos.
passado como lugar por excelência. Nessa historiografia, os
Presos nessa temporalidade, esses princípios da invisibilidade e do
105
silenciamento permaneceram. A que reproduziam as concepções
presença indígena, que podia ser presentes na historiografia. 8
A historiografia sobre esse
aspecto não se restringe a
encontrada por todo o território A disseminação de uma visão essas duas obras. Muitos
nacional, era desconsiderada, em diferente sobre a história indígena foram os autores que
escreveram sobre a
detrimento de uma visão que tem sido nosso grande desafio.
formação do Brasil e seu
buscava apontar as contribuições e Mesmo com um processo de povo com base na ideia de
as heranças que esses povos legaram mudanças em curso desde a década mestiçagem. Muitas dessas
obras referiram-se aos
ao Brasil e aos brasileiros, para o de 1980, boa parte das informações indígenas, reportando-se
bem ou para o mal, como podemos sobre os indígenas, que circulam ao passado colonial e
apontando as contribuições
verificar respectivamente, em obras ainda hoje, relacionam-se de forma deles para a formação do
como Casa Grande e Senzala, intensa às concepções que povo brasileiro. As obras
aqui citadas buscam
publicada em 1933 (FREYRE, 1989), apontamos, demonstrando a solidez apenas exemplificar o tipo
e Conceito de Civilização Brasileira, de um projeto de apagamento da de produção a que estamos
de 1936 (FRANCO, 1936)8. Por um presença indígena e os múltiplos nos referindo.

lado, disseminava-se a compreensão efeitos produzidos por ele.


de que o povo brasileiro era mestiço Cabe ressaltar que tal
e os indígenas presentes naquele apagamento não está traduzido na
contexto eram “descendentes” dos ausência. Afinal, os indígenas sempre
indígenas coloniais ou “caboclos”. Por ocuparam espaço nos estudos sobre
outro, elaboravam-se políticas o Brasil produzidos em diferentes
indigenistas destinadas a atingir as épocas, ainda que tenham se
populações indígenas, independente reportado, via de regra, aos
dos lugares em que elas se indígenas no passado. Entretanto,
localizassem, conforme vimos com a esse apagamento diz respeito às
Marcha para o Oeste. formas como essas populações foram
Foram essas concepções que incorporadas à nossa história escrita.
nortearam, por muitas décadas, o Orlandi (2007, p. 157) nos diz
ensino de História, mantendo a que “[...] o silêncio é a condição de
invisibilidade sobre os povos possibilidade de o dizer vir a ser
indígenas, relegando-os ao passado, outro”. Um ensino de História que
sempre na condição de vítimas, de inclua as histórias dos povos
meros coadjuvantes. A negação da indígenas deve dar sentido a esse
historicidade desses povos foi uma silêncio de forma que o “dizer” seja
constante em razão da disseminação de fato outro. Deve ser capaz de
da crença de que seria possível desmontar todos os pressupostos que
mudar seus costumes quando em legitimaram esse silêncio ao longo de
contato com outros povos ou por séculos. Deve apresentar um outro
causa das transformações históricas. “dizer” que incorpore os indígenas
Depreendia-se desse raciocínio a enquanto sujeitos portadores e
ideia de desaparecimento dos construtores de história. Deve
indígenas e o surgimento de um novo proporcionar um conhecimento da
tipo de brasileiro que era o índio nossa própria história repleta dessa
civilizado e incorporado à sociedade. presença indígena, sem que esta seja
Essa história sobre os indígenas foi minimizada em função de
contada nas escolas brasileiras, que preconceitos, estereótipos e
se amparavam nos livros didáticos intolerâncias.
106
Marcha avançaria sobre espaços
CONSIDERAÇÕES FINAIS vazios, silenciando a existência das
As análises que fizemos neste várias etnias indígenas que
artigo, baseadas na imprensa da ocupavam esse pretenso vazio
década de 1940 e nos estudos sobre territorial. Através da colaboração
intelectuais, políticas indigenistas e dos órgãos que administravam as
Marcha para o Oeste, indicaram uma políticas indigenistas, o Estado
forte atuação dos intelectuais brasileiro promoveu a conquista de
brasileiros, cujas origens podem ser vários territórios indígenas, causando
localizadas desde os anos 1920 com inúmeros prejuízos a esses povos e
os modernistas. Essa atuação favorecendo o esbulho das terras
intensificou-se no pós trinta, alcançadas pela Marcha.
sobretudo com o Estado Novo, Entendendo o silêncio como
quando muitos desses intelectuais questão emblemática na história dos
passaram a assumir cargos junto ao povos indígenas, fizemos um
governo e ajudaram a divulgar e contraponto do silêncio da imprensa
legitimar as ações governamentais, a em relação à presença indígena
exemplo da política de colonização impactada com o projeto Marcha
que tratamos aqui. para o Oeste com o silenciamento
Nas páginas do jornal A promovido pela historiografia
Manhã, a população tomava brasileira, no que se refere aos temas
conhecimento da Marcha para o indígenas ocorridos nos contextos
Oeste. Esse periódico propagou as fora dos limites do processo de
riquezas do território brasileiro, colonização portuguesa. Esse
especialmente da região Centro- contraponto nos permitiu refletir
Oeste, com o objetivo de conferir-lhe sobre o ensino de História e os
credibilidade e envolver a população nossos desafios para romper com
de forma a sentir-se parte dele. Com esse silenciamento e fazer valer a Lei
essa estratégia, pregava a no 11.645/08, de forma que o ensino
necessidade da colonização e do de História contemple novas formas
aproveitamento do largo potencial de inserção e de tratamento das
econômico do país, ao mesmo tempo histórias dos indígenas brasileiros.
em que legitimava a noção de que a

Referências
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RECEBIDO EM 01/12/2016
APROVADO EM 28/01/2016

110
RELIGIOSIDADE E necessário descrever os elementos que o
ENCANTAMENTO: compõem.
o pagamento de promessa no Palavras-chaves: Praiá. Encantado.
Cura.
ritual indígena Jiripankó

ABSTRACT: This article describes a


José Adelson Lopes Peixoto
promise of payment made in the
Doutorando em Ciências da Religião indigenous community Jiripankó, the
Professor Assistente na Universidade interior of Alagoas. This event is one of
Estadual de Alagoas the elements to strengthen the identity of
adelsonlopes@hotmail.com the people, the time it becomes a point of
Lucas Emanoel Soares Gueiros convergence between the human and
Graduando em História na spiritual worlds, in a ritualistic ceremony
Universidade Estadual de Alagoa marked by the materiality of exchange
Grupo de Pesquisas em História between the enchanted responsible for
Indígena de Alagoas/GPHIAL healing and healed sick. It is a public
emanoellucas49@hotmail.com event featuring the recognition of
achieved grace and clothes in celebration,
RESUMO: Este artigo descreve um symbology and reciprocity where each of
pagamento de promessa realizado na the actors involved incorporates the
comunidade indígena Jiripankó, do sense of ethnic belonging that gives unity
interior de Alagoas. Tal evento é um dos that group. The description of
elementos para o fortalecimento da bibliographic research on authors such as
identidade daquele povo, ao tempo que Marcel Mauss, Guita Grin Debert, Donna
se converte em um ponto de Goldstein, Darcy Ribeiro, Nestor Canclini,
convergência entre os mundos humano e Claudia Mura, and culminates in a second
espiritual, numa cerimônia ritualística stage with the completion of fieldwork
marcada pela materialidade da troca with participant observation and oral
entre o encantado responsável pela cura interviews. The literature guided the field
e o doente curado. É um evento público of research and this in turn allowed the
que caracteriza o reconhecimento da understanding of the human encounter
graça alcançada e se reveste em with the sacred space built under the
comemoração, simbologia e reciprocidade domains of an enchanted divinity
onde cada um dos atores envolvidos nicknamed Swallow. In an attempt to
incorpora o sentimento de pertencimento understand the ritual and give it
étnico que dá unidade aquele grupo. A meaning, it is necessary to describe the
descrição parte de pesquisa bibliográfica elements that compose it.
em autores como Marcel Mauss, Guita Keywords: beach. Charmed. Cure.
Grin Debert, Donna Goldstein, Darcy
Ribeiro, Nestor Canclini, Claudia Mura, e O território como campo do olhar
culmina, em um segundo momento com etnográfico
a realização de pesquisa de campo com A comunidade indígena
observação participante e entrevistas
Jiripankó situa-se na zona rural de
orais. A pesquisa bibliográfica norteou a
Pariconha, município do sertão de
pesquisa de campo e esta por sua vez
Alagoas, região marcada por serras e
permitiu o entendimento sobre o
encontro do humano com o sagrado no vales ocupados pela vegetação de
espaço construído sob os domínios de caatinga. A região é castigada pela
uma divindade encantada cognominada seca frequente, porém o evento
Andorinha. Na tentativa de entender o descrito nesse artigo se deu em um
ritual e lhe conferir sentido, faz momento em que o sertão acabara
111
de receber as primeiras chuvas do espectador e possui regras e
inverno e se revestiu de verde, de interdições próprias. A atividade do
vida, de esperança e de promessa... Poró é interditada ao nosso olhar
Promessa de uma safra que venha a enquanto que a atividade do Terreiro
atender os anseios da população é pública.
sertaneja e promessa como Sobre como o índio concebe o
pagamento de uma graça alcançada, Terreiro, Priscila Matta constatou em
objeto dessa descrição. pesquisa de campo que
A aldeia é composta por um
conjunto de casas construídas de Terreiro significa um santuário pra
gente, é igualmente a uma igreja
alvenaria e coberta com telhas, essas aonde o padre se sente abençoado
casas não tem uma grande dentro dessa igreja. Igualmente é a
gente; a gente se sente mais aliviado
proximidade, estão separadas entre dos seus problemas quando agente
si. Não vimos nenhuma habitação chega no terreiro da gente, no poró. A
formada por palhas como se fazia em gente vai fazer os pedidos, é
atendido. (SILVA 2003 apud MATTA
tempos passados, pois foi um dos 2005:70).
costumes da modernidade, trazido
pelo europeu e que o povo Jiripankó Nas horas que antecederam
aderiu totalmente. ao ritual, o Terreiro encontrava-se
O Terreiro, local da festa, é desocupado, tendo como
um terreno de chão batido, com componentes do seu espaço uma
algumas elevações e depressões, fogueira ainda apagada, um pequeno
com pequenas poças d’água em quadrado de pouco mais de um
decorrência das intensas chuvas que metro, composto de palhas de
caiam naquele período. No dia coqueiro ouricuri e de galhos de
seguinte, o sol apareceu, mesmo que árvores entrelaçados servido de base
timidamente, mais foi o suficiente e de sustentação para as palhas que
para evaporar a água do solo e gerar estavam dispostas a sua volta.
um pouco de poeira, situação comum Simbolicamente aquela construção
aos rituais do sertão. As serras em representava um rancho ou abrigo
volta a aldeia, emolduradas por uma para alguém durante o ritual. Tal
linda e verde vegetação eram bem estrutura estava situada ao norte do
visíveis de qualquer ponto e Terreiro, enquanto que ao sul havia
completavam o conjunto daquela uma pequena casa de alvenaria, com
paisagem, porém no mundo apenas uma porta frontal, sem
ritualístico e cosmológico daquele janelas, aparentando ser mais baixa
povo, o Terreiro é um espaço do que as demais construções das
sagrado vinculado aos encantados, é proximidades. Essa pequena casa é
o lugar onde acontecem os rituais; denominada de Poró e possui, a sua
tem o formato retangular e situa-se esquerda, uma cisterna, também de
em frente ao Poró, apesar de não alvenaria, usada para captar água
haver separação entre ambos, uma das chuvas para uso no período de
vez que os dois exercem importância seca.
fundamental e imprescindível para a O Poró é uma espécie de
existência do ritual, cada um é templo, habitação do sobrenatural,
concebido de maneira diferente pelo motivo pelo qual existe a proibição
112
da entrada de não índios, de índias e A existência da fronteira é de
até mesmo de índios que não certa forma, responsável pela
estejam com o corpo limpo, em manutenção da cultura, pois ao longo
do contato dos índios com os não
conformidade com as obrigações e
índios, especificamente no nordeste,
jejum necessários. Cria-se, pois, no a religião foi o elemento que sofreu
seu entorno uma espécie de fronteira menos invasão e mudança. Nesse
entre dois mundos, pois o fato de caso, o Poró é o ícone da resistência
haver interdições cria uma espécie de religiosa dos Jiripankó. É um espaço
divisão e esta é mais espiritual do simples e pequeno, mas que assume
que material. As regras que definem grandes proporções enquanto
elemento simbólico da religião
o convívio nesse espaço não o isolam
indígena. Tal espaço pode ser
e não impedem o intercâmbio com visualizado na fotografia a seguir.
outros povos ou com outras culturas,
pois

[...] hoje todas as culturas são de


fronteira. Todas as artes se
desenvolvem em relação com outras
artes: o artesanato migra do campo
para a cidade; os filmes, os vídeos e
canções que narram acontecimentos
de um povo são intercambiados com
outros. Assim as culturas perdem a
relação exclusiva com seu território,
mas ganham em comunicação e
conhecimento. (CANCLINI, 1997:29).

Foto 1-
Poró

Fonte:
Acervo dos
autores,
2015.

terreno de chão batido, irregular e


Na noite do sábado, véspera
pouco iluminado não remetia a
do ritual, o espaço parecia deserto e
nenhum espaço sagrado que o nosso
não permitia imaginar a performance
imaginário pudesse projetar. A chuva
que viria a se desenvolver ali. Aquele
fina e fria caia impiedosa e inibia
113
qualquer incursão pelos espaços, o senhor que tentava acender a
apesar de haver uma tensão no ar, fogueira desistiu da contenda quando
uma expectativa que foi cedendo a porta do Poró se abriu e de lá
lugar a tranquilidade à medida que saíram algumas figuras vestidas de
um homem deslocou-se para o palhas de caroá, com um penacho no
terreiro e tentou acender a fogueira. topo da cabeça. Tais figuras, no
O Poró, enquanto espaço mundo ritualístico dos Jiripankó são
ritualístico é regido por interdições e denominadas de praiás e ocupam
silêncios quanto à sua finalidade e papel central no ritual do Menino do
obrigações necessárias, além de Rancho, atividade de pagamento de
regras que definem quem pode promessa dos povos indígenas do
entrar naquele espaço. Sobre tal tronco Pankararu. O evento,
espaço, Matta descreveu que: elemento identitário desse povo, é
visto, também, como uma
No momento em que os praiás estão comunicação entre as gerações,
se concentrando para entrar no
terreiro e durante os intervalos dos aonde os sentidos e significados vão
rituais, e quando desejam descansar, sendo moldados e transmitidos com
utilizam o Poró, local para realizarem
suas obrigações com os encantados.
o intuito de assegurar sua própria
Estão abertos aos homens mais existência enquanto grupo. Assim, “o
“preparados”, conhecedores dos homem é o resultado do meio
encantos e seus segredos, aos
cantadores, tocadores e aos cultural em que foi socializado. Ele é
organizadores dos rituais, sendo um herdeiro de um longo processo
interditados às mulheres, crianças e
aos de fora. As coisas que acontecem acumulativo, que reflete o
no poró não devem ser reveladas por conhecimento e a experiência
aqueles que o frequentam. Quem está
de fora, no terreiro, escuta a
adquiridas pelas numerosas gerações
movimentação, o som dos maracás e que o antecederam”. (LARAIA,
fica a espera do momento da saída
2001:46).
dos praiás. (MATTA, 2005:74).
Tal herança tem sido condição
Conforme descrito acima, de manutenção e de transmissão de
aquele espaço simples, no canto do costumes e de práticas ritualísticas
Terreiro, assume um papel muito como o Menino do Rancho. Antes de
importante para os indígenas do descrever o ritual, há uma
lugar, pois de longe se percebe a sua necessidade de descrever os
enorme significação para o evento. A personagens nele envolvidos, de
noite, durante os preparativos para o modo que tal descrição permita uma
ritual foi possível observar que era do construção imaginária do espaço e
Poró que emanavam os primeiros dos atores envolvidos no evento.
sons das gaitas e dos maracás. Eram Para isso, será apresentado um
sons fortes e agudos que se conjunto de fotografias que dialogam
sobrepunham ao som da chuva que com o texto proporcionando um
continuava a cair sem cessar; além sentimento de estar lá, assim como
dos sons ecoavam gritos intensos acontece ao lermos os célebres
que serviam para criar um clima de cronistas e viajantes do inicio da
ansiedade e curiosidade. nossa colonização, como Pero Vaz de
Passados alguns instantes, Caminha (a carta sobre o achamento
depois de ouvidos os primeiros sons, do Brasil), Hans Staden (Duas
114
viagens ao Brasil), Jean de Léry nomes de Ouricuri (centro), Piancó,
(Viagem à Terra do Brasil), Pero de Campinhos, Figueiredo, Pedrinhas...
Magalhães Gandavo (Tratados da A divisão é apenas física, por
terra do Brasil e História da província questões territoriais, uma vez que o
de Santa Cruz), Fernão Cardim povo possui cacique e pajé comuns a
(Tratados da terra e gente do Brasil), todas as comunidades. Atualmente, o
Gabriel Soares de Souza (Tratado grupo é composto de
descritivo do Brasil em 1587) e aproximadamente 2.400 pessoas,
Claude D'Abbeville (História da que mesmo distantes do seu tronco
missão dos Padres Capuchinhos na Pankararu, em Brejo dos Padres, se
ilha do Maranhão). mantem ligado a ele através dos
seus rituais e festas, onde renovam,
A Aldeia Jiripankó e os constantemente, seus laços
personagens do Terreiro identitários e de pertencimento.
O povo Jiripankó é originário (SANTOS, 2015).
do interior de Pernambuco, do No mundo religioso dos
município de Brejo dos Padres, onde Jiripankó, os personagens se
viviam aldeados sob o etnômio assentam em uma ordem hierárquica
Pankararu, até que a ação da composta de comandante, capitão,
colonização fez com que o grupo dono de batalhão, mestre e caboclo.
tivesse que se dispersar, numa Essa ordem, é, segundo Mura
atitude de busca pela sobrevivência,
chegando às terras de Pariconha [...] uma classificação militar, os
encantados formam batalhões cujo
onde criaram seu aldeamento. Assim, ápice da hierarquia é ocupado pelo
general Mestre Guia, sendo ele
Esses grupos familiares que considerado o chefe da nação, os
constituíam parcelas de antigos outros lhe devendo obediência, aí
grupos étnicos foram se deslocando e incluídos aqueles de alta patente,
sendo confinados nos aldeamentos, capitães e mestres. Em ordem de
para depois se dispersarem importância seguem dois encantados,
novamente em virtude das medidas chamados de ordenança,
adotadas pela política fundiária após o encarregados diretos da máxima
Diretório Pombalino e, ainda, pela Lei autoridade (o Mestre Guia) e seus
da Terra, em 1850, que acelerou o protetores. As classificações militares
desmantelamento dos aldeamentos e relativas a alguns encantados não
o acirramento da política da remetem às lógicas referentes a
“mistura”. (MURA, 2013:42). conflitos bélicos. Pode-se dizer que
respondem mais a uma necessidade
de aglutinar, disciplinar e encontrar
Com isso, José Carapina e sua consenso. (MURA, 2013:170–1).
esposa Izabel saíram de Brejo dos
Padres e se abrigaram na região que O batalhão de praiás se
atualmente é denominada de apresenta com o corpo coberto e
Pariconha. Depois desse casal, outros essa cobertura ou máscara é
parentes Pankararu chegaram à composta por um conjunto de cinco
localidade e, posteriormente, criaram peças, sendo a primeira delas a
a aldeia e assumiram o etnômio máscara, propriamente dita, feita de
Jiripankó. fibras de caroá ou ouricuri, cobre
Atualmente esse povo se totalmente a cabeça e se estende até
encontra dividido em várias abaixo da cintura, tendo a parte
comunidades próximas, com os superior firmemente unida através de
115
costuras, de modo que possuem ema, que Lèry chamou de “arasóia” e
apenas dois furos no lugar dos olhos Hans Staden de “endupe”. Preso à
e é pintada cada um com linhas rodela existe um penacho enfeitado
coloridas que se cruzam até as de plumas ou penas de peru, fixado
bordas (Foto 2). Abaixo, os fios caem ao eixo superior do tunã.
soltos pelos ombros e tem suas A peça se completa com uma
extremidades pintadas com a mesma túnica de pano, que se põe nas
cor das linhas da cabeça. A peça é costas do tunã. Os índios dão a esse
também conhecida pelos mais adorno o nome de cinta. É feito de
tradicionais como tunã. tecidos estampados ou bordados.
A segunda peça, chamada de Aparecem pinturas ou apliques de
saiote, é destinada a cobrir os cruz, estrela de Davi ou imagem de
quadris e as pernas. É fabricada com santos (Foto 5). O elemento pintado
o mesmo material têxtil do tunã e nessa peça está associado ao nome
traz a mesma pintura colorida nas do encantado que o moço
bordas. No conjunto, apenas uma representa. O figurino ritualístico se
pequena parte dessa indumentária completa com o maracá, fabricado
fica a mostra (Foto 3). com cabaça de coité e a flauta-apito,
O adorno que mais chama a produzida de bambu (Foto 6). Esses
atenção é colocado no topo da instrumentos são tocados
cabeça, denominado de rodela, tendo freneticamente ao longo do ritual,
em vista o formato que assume. A geralmente para marcar a cadência
rodela é feita de madeira, coberta do bailado, mas quem vê de fora,
por um tecido de cor berrante, sendo tem a impressão de que são usados
fixado no eixo superior do tunã e para alguma comunicação simbólica
todo contornado por penas de peru entre os praiás e os puxadores. As
ou de gavião (a depender da imagens a seguir ilustram a descrição
disponibilidade da época da acima e permitem um contato visual
confecção). (Foto 4) Sua forma geral com o Praiá, figura central na
lembra as rosetas usadas pelos religiosidade do povo indígena
tupinambás, - célebres enfeites de Jiripankó.
guerra construídos com penas de

Foto 2 - máscara do Praiá Foto 3 – Saiote do Praiá

Fonte: Acervo dos autores, 2015 Fonte: Acervo dos autores, 2015

116
Foto 4 – Rodela e Penacho Foto 5 – Cinta

Foto 6 – Praiá com Maracá e Flauta-apito

Fonte: Acervo dos autores, 2015

Na imagem a seguir são serras da região e seus espíritos


apresentadas as partes que formam ancestrais protegem as aldeias,
a indumentária ritualística ou comunicando-se com os seres
máscara do Praiá, o ser que em humanos através dos sonhos ou
Pankararu, é descrito como membro manifestando-se em algumas
de um mundo cosmológico povoado pessoas que possuem o dom e o
por seres humanos e não humanos preparo para essa ação que também
em uma relação de harmonia e de pode se dar em momentos como o
não harmonia entre si. Como seres acender do campiô. (GILBERTI,
que se encantaram vivos, habitam as 2013).

117
Foto 7 – Praiás no Terreiro

Fonte: Acervo dos autores, 2015.

Penacho Rodela

Cinta Máscara
ou Tunã
Maracá
Saiote

Além dos Praiás, o ritual é Esses homens não precisam de roupa


composto por um conjunto de específica, mas têm o torso nu e
padrinhos que também disputam pintado com um barro branco
pela posse do menino, nas corridas denominado de tauá, pode, ainda
do pagamento da promessa. São usar uma espécie de chapéu feito de
homens que passaram por um palha do ouricuri, mas não há
conjunto de obrigações e interdições obrigatoriedade (Foto 8).
(sexuais e alimentares) e recebem o
direito de participar do Poró e do
Terreiro.

Foto 8 –
Padrinhos no Terreiro

118
No Terreiro, os padrinhos têm As madrinhas, por sua vez
a função de disputar a posse do têm a função de acompanhar a
menino com os Praiás, mas um noiva. São escolhidas e convidadas
deles, diferentemente dos demais, duas mulheres, geralmente de casas
atua como protetor e orientador do diferentes, que se paramentam com
menino, chegando inclusive a ficar no uma espécie de coroa de tiras de
rancho com ele. O número de papel colorido e pintam as pernas, os
padrinhos supera o número de braços e o rosto com a tinta branca
praiás, não havendo equilíbrio ou extraída do tauá (barro branco),
proporção entre eles. Durante os conforme pode ser observado na
Torés, os padrinhos ocupam o fotografia 9.
Terreiro e participam de todo o
cortejo que antecede o ritual; assim
como os demais participantes, os
padrinhos dançam e correm com os
pés descalços.

Foto 9 – Madrinhas e
Noiva

Fonte: Acervo dos autores, 2015

A pintura apresenta cruzes menino) ocupa o Terreiro, em um


intercaladas com linhas e círculos. No movimento circular. A partir desse
Terreiro, elas dançam junto com a momento, os expectadores não
noiva, de mãos dadas. entram mais naquele espaço; parece
Aparentemente os envolvidos que se ergue uma barreira invisível
diretamente no ritual assumem um que impede a entrada naquele local
papel importante naquele momento, que passa a ser considerado sagrado
mas os relatos coletados entre também para o não índio. A frente do
lideranças da comunidade negam a cortejo, uma figura ocupa um papel
existência de qualquer status social importantíssimo, o cantador ou
no cotidiano depois do ritual. puxador de toantes. Este, ladeado
O cortejo composto por todos por outros indivíduos regem o ritual,
os atores do evento (cantadores, embalado pelo som de maracás e
praiás, padrinhos, madrinhas, noiva e envolvido pela fumaça dos campiôs
119
(espécie de cachimbos). O som forte sentido e não descrito.
e ritmado dos maracás e a O cantador (ou cantadores
sonoridade dos Torés conferem ao como no caso representado na foto
momento um caráter de profundo 10) conduz o Toré e este, por sua
encantamento e pertença daquele vez “é apenas uma parte dos rituais,
povo com o espaço de terra batida mais especificamente aquela que
que visualmente é o Terreiro. fecha as sequências dos rituais e que
À medida que a performance abre a dança ao público que ficou
evolui, fica visível a importância que assistindo.” (MURA, 2013: 321-2). A
a ação do cantador exerce no ritual. entrada da plateia se dá após as
Mais do que dá o ritmo a dança, ele corridas, quando há uma passagem
parece comandar o batalhão que do momento sagrado para o festivo.
executa um bailado difícil de ser
descrito, pois ao mesmo tempo em
que é marcado pela força da pisada
no chão, parece que aquelas pessoas
flutuam sobre o solo. É um misto de
força e leveza que só pode ser

Foto 10 - Cantadores

Fonte: Acervo dos autores, 2015

Completando o elenco, em menina (a noiva) circulava entre o


volta do Terreiro, encontravam-se os povo; ela tinha a cabeça enfeitada
que faziam parte da comunidade com tiras de papel colorido, sempre
Jiripankó, visitantes de outras etnias acompanhada da mãe ou das duas
(como os Pankararu) e convidados. madrinhas. No seu semblante havia
Havia muita expectativa por parte da uma mistura de ansiedade e
plateia de fora da aldeia, pelo fato de tranquilidade que deixava certa
alguns não saberem a ordem dos dúvida quanto a sua consciência
acontecimentos nem tão pouco em sobre seu papel no evento. Algumas
que ponto do Terreiro ou momento vezes parava e olhava atentamente
da solenidade aconteceria o desfecho para o Terreiro, a contemplar aquele
do ritual. Em alguns momentos, a espaço, mas na maior parte do
120
tempo parecia alheia ao evento e se promessa com um encantando,
distraia com conversas com outras denominado Andorinha, prometendo
jovens e mulheres da aldeia. lhe entregar o seu filho, caso ele o
O corpo da noiva, assim como livrasse da passagem para outra vida
o das madrinhas era marcado por e o trouxesse de volta à aldeia. A
pintura com o tauá branco e, durante promessa é a principal forma de
os Torés ela ocupava a parte frontal manutenção da cultura tradicional e
do cortejo, ladeada pelas madrinhas da força que os povos indígenas
(que não soltavam seu braço), à conferem às suas divindades
direita do praiá dono do terreiro e um caboclas ou encantadas. Recorrer a
pouco atrás dos cantadores. Nesse tal força sobrenatural é a
momento, ela demonstrava total comprovação de que o contato com a
consciência do seu papel no ritual. sociedade envolvente não tirou a
O menino, aqui descrito por religiosidade nativa, elemento
último, é o personagem que utilizado para a identificação de um
desencadeia todo o evento, pois a indivíduo como indígena.
‘festa ou brincadeira’ só acontece Após a promessa e a
porque há a necessidade de constatação da cura, a família do
agradecer publicamente pela menino entra nos preparativos para o
realização de uma ação que vai além pagamento. Tais preparativos vão
do poder e do entendimento desde os convites as madrinhas, à
humano, ou seja, é o pagamento de noiva, ao cantador e aos zeladores
uma promessa feita quando da para que estes levem seus praiás à
existência de uma enfermidade não festa. Antecedendo os convites a
curada pela medicina moderna. família já deve ter organizado os
alimentos que serão servidos no
A promessa ritual. Não há prazo definido para
No ritual, que estamos isso, devem-se levar em conta as
discutindo, a festa ocorreu porque o condições financeiras da família que
menino (um jovem de 18 anos) se arcará com todas as despesas, pois
dirigia, em uma motocicleta, da devem oferecer um almoço composto
cidade de Pariconha para a aldeia de carne de carneiro, arroz, farofa ou
quando sofreu um acidente e ao cair, pirão a todos os participantes
bateu com a cabeça, ficando seguindo a ordem hierárquica
gravemente ferido. Removido ao (praiás, homens, mulheres).
hospital, ali ficou por vários dias, não Sobre a ação de um
apresentando melhoras ou qualquer encantado, Mura afirmou que:
perspectiva de cura no mundo do não
índio. Afirma-se, na crença indígena, Ao relatarem casos acontecidos em
que a criança estava no fim da vida,
que o menino esperava a qualquer vítima de um flechamento, os índios
momento, o desfecho do flechamento salientaram que a volta do menino
para a vida se deveu à vitória do
que o levaria dessa para outra vida. encantado na luta contra outra
Na ocasião, o pai do jovem entidade, que tentou raptá-lo e levá-
moribundo, consciente, crente e lo embora com ele. Essa vitória
determina a pertença do menino ao
vivente da força que emana da encantado que lhe devolveu a vida,
tradicionalidade Jiripankó fez uma ou seja, que o livrou do flechamento.

121
Os pais do menino o “entregam” reciprocidades de caráter
àquele praiá, inaugurando-se uma
relação perpétua de mútuos deveres: interpessoal. Este sistema, que se
o menino deverá desempenhar suas expande ou se retrai a partir de uma
obrigações para com o encantado e
este também deverá cuidar dele e
tríplice obrigação coletiva de doação,
servi-lo para o resto da vida. (MURA, de recebimento e devolução de bens
2013:326). simbólicos e materiais, é conhecido
como dom ou dádiva (MAUSS, 2008).
Essa relação descrita por
O pedido ou promessa, a cura e o
Cláudia Mura se materializou no caso
pagamento da promessa constituem
acima, pois o pedido foi atendido por
o tripé definido por Mauss como dar,
Andorinha e o menino, considerado
receber e retribuir.
desenganado pela medicina moderna
Na ótica do pagamento da
foi curado pela ação do encantado
promessa como reciprocidade, o
associada à pajelança que o restituiu
menino é levado ao rancho,
a vida. Após a cura, a família tem um
acompanhado dos demais
tempo para se preparar
personagens do evento. Um dia
financeiramente para realizar o
antes ele é entregue ao padrinho e é
pagamento da promessa e o ritual de
por este levado ao Terreiro no dia
entrega do menino, no rancho, ao
seguinte. Para esta cerimônia o
encantado.
menino é vestido com uma bermuda
O ritual indígena "o menino do
vermelha, abaixo dos joelhos, sem
rancho" acontece em períodos
camisa (substituída por uma espécie
distintos, não tem data fixa para sua
de colete comprido com alças
celebração cerimonial. Sua realização
encruzadas que se estende até perto
está condicionada a uma necessidade
do joelho). Essa peça, também
concreta de um membro do grupo. O
vermelha é ornada com várias cruzes
ritual aqui descrito foi realizado em
e alguns adornos brancos
20 e 21/06/2015 devido à cura de
pendurados na extremidade; o corpo
um jovem vitima de acidente
é pintado com barro branco (tauá),
motociclístico. O pagamento da
colocam-lhe na cabeça um capacete
promessa acontece após um período
artesanalmente confeccionado com a
de preparação, pois há a necessidade
palha do coqueiro ouricuri, e passam-
de convidar as madrinhas, os
lhe a tiracolo um rolo de fumo (o
padrinhos, os puxadores, preparar o
fumo tem imensa importância nos
Terreiro e organizar a estrutura para
cerimoniais em geral, pois acreditam
oferecer a garapa de rapadura aos
que tem o poder de afastar os maus
praiás e a alimentação aos
espíritos, além de servir para rezas e
convidados. Nesse caso, entre a
benzeduras). A foto 11 traduz essa
promessa e a cura existe um espaço
descrição, apresentando o menino e
indeterminado de tempo. É de certo
os demais personagens do ritual,
modo um evento ancorado no
com destaque para o praiá Andorinha
principio da reciprocidade, pois é
ao lado do jovem ritualizado.
possível observar a presença
constante de um sistema de

122
Foto 11 – O menino do Rancho

Fonte:
Acervo dos
autores,
2015.

A
cerimôni
a tem
início
O ritual é tido como um símbolo
quando o menino prometido é
de grande importância para o povo
colocado no Terreiro, cercado pelos
Jiripankó que o atribui um significado
protetores ou sacerdotes (praiás),
especial por representar um
que os disputam com outros homens
momento de transição cultural entre
não paramentados, apenas pintados
as diferentes gerações. É uma
com o tauá-branco (os padrinhos).
linguagem própria que ultrapassa a
Inicia-se uma série de disputas que
existência da geração, uma vez que
termina com a destruição total do
“a existência humana também está
rancho e a vitória de uma das partes,
assentada em símbolos que, por
após três corridas. Caso os praiás
meio da linguagem, atribuem
não consigam capturar o menino,
diferentes significados simbólicos à
este é entregue ao praiá responsável
vida humana, o que confere
pela cura ao final da terceira corrida.
diversidade às formas pelas quais a
Este dançando e cantando junto com
representamos” (DEBERT;
os demais membros do cortejo
GOLDSTEIN, 2000: 227). E aquele
conduzem o neófito ao centro do
povo do sertão alagoano usa o ritual
Terreiro. Com este rito de iniciação a
como um marco, uma linguagem
criança poderá tornar-se membro da
comunicacional do humano com o
sociedade dos Praiás e ao mesmo
sagrado que vem sendo transmitida
tempo fica imune aos males dos
ao longo de gerações, sofrendo
espíritos contrários. Esta é também
mudanças, assumindo novos
uma forma de preservação da etnia e
contextos, porém resistindo ao
consequentemente dos rituais e da
contato com o não índio, sem abrir
cultura indígena específica dos povos
mão das suas especificidades
do sertão alagoano, que por sua vez
enquanto grupo étnico. Assim,
receberam tal elemento do seu
tronco originário, os Pankararu de [...] as culturas são imperativamente
Brejo do Padre, em Pernambuco. transformadas no confronto de umas
com as outras. Especificamente no

123
caso dos povos indígenas com a aos membros do ritual e aos
civilização. Mas suas identificações
étnicas originais persistem, resistindo convidados.
a toda sorte de violência. Onde os O cortejo chegou ao Terreiro
pais podem criar os filhos dentro de
sua tradição, a comunidade indígena
na metade da manhã, composto por
sobrevive. Isso ocorre mesmo nas três pessoas que vinham à frente,
condições mais extremas de cantando as toantes, seguidos do
compressão, como sucedeu a alguns
grupos indígenas do vale do São menino, das madrinhas, dos
Francisco. Ali, eles foram desalojados padrinhos e do batalhão de praiás,
de suas terras e obrigados a
perambular por décadas como além de uma boa quantidade de
mendigos maltrapilhos, mas, ainda pessoas da aldeia e da região que
assim, continuaram sendo índios por
sua autoidentificação com uma
acompanhavam esse grupo principal.
comunidade que vem de tempos A partir da chegada, os
imemoriais e os reconhece como seus
cantadores se posicionaram à direita
membros. A transfiguração étnica
consiste precisamente nos modos de do rancho enquanto os demais se
transformação de toda a vida e distribuíram pelo Terreiro e passaram
cultura de um grupo para tornar
viável sua existência no contexto a executar um bailado circular ao
hostil, mantendo sua identificação. som dos maracás, das flautas e dos
(RIBEIRO, 2010:28-9).
cantos. O bailado denominado de
Toré consiste em uma dança, girando
O longo contato dos indígenas com a
sempre no sentido horário, com
sociedade dita civilizada resultou em
passos firmes que ecoam no solo,
um conjunto de transformações para
mas observando os pés dos moços,
ambos os lados, porém foi mais
dá a impressão que flutuam. O
intensa com os primeiros, pois esses
bailado é, grosso modo, um misto de
tiveram vários dos seus costumes
força e leveza difícil de ser explicado.
transfigurados. Isso resultou em um
Os semblantes são marcados
indivíduo novo, adaptado e integrado
pela emoção e esta contagia os
a sociedade nacional, porém com
observadores. Índios e visitantes se
uma marca particular que o
inebriam com o momento, observa-
identifica, a religião.
se uma linguagem gestual marcada
por grande carga de respeito e de
A festa do pagamento a
pertencimento. Cada membro do
Andorinha
ritual demonstra muita intimidade
Na aldeia, apesar das chuvas
com o evento e isso cria de certa
da véspera, o dia amanheceu com
forma, uma fronteira com o não
um movimento intenso, pois logo
índio.
cedo o batalhão de praiás e
Ao longo do ritual, observou-
padrinhos saíram em cortejo para
se uma movimentação de homens
buscar as madrinhas e o menino que
entrando e saindo do Poró, da
seria colocado no rancho. Enquanto o
mesma forma que os praiás iam e
grupo percorria a vizinhança, em
vinham de uma grande árvore
busca dos atores do ritual, as
localizada há uns 200 metros do
mulheres se ocupavam em volta dos
Terreiro, local que funcionava como
grandes caldeirões para preparar o
Poró naquele momento e que era,
almoço que seria oferecido logo mais
assim como o Poró do Terreiro,

124
interditado a visitantes e às paramento seu. O praiá que
mulheres. conseguir tal feito é bastante
Na festa o cortejo circula o festejado pelos seus pares e pelos
Terreiro três vezes, até que o praiá seus zeladores, porém a validade da
dono do menino, que não participa conquista é questionada pelos
da disputa, determina os momentos padrinhos. Entretanto, se em três
de trégua ou de corrida. Um dos corridas o menino não for capturado,
padrinhos, por sua vez orienta o os padrinhos o entregam no Terreiro
menino durante a fuga, auxilia-o a se ao seu dono.
esconder, a subir em árvores ou fica
com ele no rancho, enquanto os
demais padrinhos tentam impedir
que os praiás alcancem o menino. A
disputa é árdua e pode causar sérios
machucados. A foto 12 traduz um
dos momentos dessa disputa.
A disputa é composta de até
três corridas e encerra quando
alguém (praiá ou padrinho) consegue
capturar o menino ou pegar qualquer

Foto 12 –
Disputa e
entre Praiás
padrinhos

Fonte: Acervo dos autores, 2015

O encerramento da cerimônia encantados contrastando sua figura


é marcado pela entrega da noiva e com a coloração do firmamento.
das madrinhas aos seus familiares e, O ritual acontece em três
em seguida o Toré é aberto aos etapas: a primeira é quando a
participantes que queiram cantar e criança adoece e a família procura o
dançar. Geralmente esse pajé para tratá-la na religião
encerramento coincide com o por do tradicional; a segunda etapa é
sol, o que marca a força dos marcada por sessões ou trabalhos de
cura e a terceira etapa é a festa ou
125
ritual, momento em que a cura é da existência de um processo de cura
externada para a comunidade, depois e este, por sua vez transcende a
que a criança curada foi oferecida vontade humana. É um momento de
para um encantado (entidade fortalecimento identitátrio, pois tanto
espiritual). A festa, também chamada os jovens quanto os adultos revivem,
por alguns Jiripankó de brincadeira, no ritual, uma atividade criada pelos
acontece na noite do sábado e no dia seus antepassados em tempos
de domingo, ocasião em que a remotos. Pode-se dizer que é um
comunidade e convidados se reúnem momento de transposição do
para assistir a entrega do menino passado, no presente. É um renovar
para o encantado. de ações em reascender da pertença
Esse ritual não obedece a um étnica.
calendário específico, pois depende

Referências
CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da
modernidade. 3ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
DEBERT, Guita Grin; GOLDSTEIN, Donna M. (Orgs). Políticas do corpo e o curso
da vida. São Paulo Editora Sumaré, 2000.
GIBERTI, Andrea Cadena. Nascendo, encantando e cuidando – uma etnografia do
processo de nascimento dos Pankararu de Pernambuco. São Paulo: USP, 2013
(Dissertação Mestrado em Saúde Pública)
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 14ª ed. Rio de
Janeiro: Jorge “Zahar, 2001.
MATTA, Priscila. Dois elos da mesma corrente: uma etnografia da corrida do imbu
e da penitência entre os Pankararu. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005
(Dissertação Mestrado em Antropologia Social).
MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Lisboa: Edições 70, 2008.
MURA, Claudia. Todo mistério tem dono! Ritual, política e tradição de
conhecimento entre os Pankararu. Rio de Janeiro: Contra capa, 2013.
SANTOS, Cícero Pereira dos. Território e identidade: processo de formação do
povo indígena Jiripancó. Palmeira dos índios: UNEAL, 2015. (Trabalho de
Conclusão do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena em História).
RIBEIRO, Darcy. Falando de índios. (Apresentação Eric Nepomuceno). Rio de
Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro; Brasília, DF: Editora UnB, 2010.

RECEBIDO EM 01/01/2016
APROVADO EM 28/01/2016

126
TRADIÇÕES ADORMECIDAS: intend to find out who are these women
PRÁTICAS CULTURAIS E and what role they represent the
NARRATIVAS NO COTIDIANO indigenous community; Understanding
how these cultural practices can create
DAS ÍNDIAS PARTEIRAS DA
discourses that disqualify such ways and
ALDEIA FORTE – BAÍA DA
ways of acting; Identify the facts that
TRAIÇÃO. contributed to a negative image of
midwives Indian women at the village.
Aline de Castro Key - Words: Indigenous Midwives. Oral
Licenciada em História/UEPB History. Traditions.
Professora na Rede Pública Estadual
e Municipal
alinedecastrots@gmail.com Ser tradicional tornou-se
sinônimo de “antigo”, fora de moda
RESUMO entre alguns (as) descendentes
O presente estudo cujo tema é Tradições potiguara. De acordo com Hobsbawm
Adormecidas: Práticas culturais e e Ranger (1997: 09), o termo
narrativas no cotidiano das índias tradição significa:
parteiras da Aldeia Forte – Baía da
Traição teve como objetivo, analisar a O termo “tradição” é utilizado num
importância do processo de visibilidade e sentido amplo, mas nunca indefinido.
historicidade à prática cultural das índias Inclui tanto as “tradições” realmente
inventadas, construídas e
parteiras, já que entendemos que
formalmente institucionalizadas,
preocupação com o resgate e a quanto as que surgiram de maneira
valorização dos saberes tradicionais, mais difícil de localizar num período
ainda é uma constante para nós limitado e determinado de tempo - às
vezes coisa de poucos anos apenas -
historiadores. Como objetivo pretendeu- e se estabeleceram com enorme
se verificar quem são essas mulheres e rapidez (HOBSBAWM E RANGER
que papel elas representam na 1997, p. 09).
comunidade indígena e compreender
como essas práticas culturais podem criar O que pude entender, em
discursos que desqualificam tais maneiras conversas com algumas indígenas
e modos de agir, além de identificar os
Potiguara - da Aldeia Forte, entende-
fatos que contribuíram para uma imagem
se que o preconceito existente entre
negativa das índias parteiras ante as
mulheres da Aldeia. os (as) próprios índios (as) em não
Palavras – Chave: Parteiras Indígenas. se “aceitarem” -, ou não se
História Oral. Tradições. importarem com o fato de serem
parte da história do país, estava
ABSTRACT transformando aquele povo em
This study whose theme is Sleeping fantoches da mídia -, uma vez que
Traditions: Cultural practices and em seu cotidiano eles (as) passam
narratives in the daily lives of Indian
por privações concernentes a
midwives Forte Village - Bay of Betrayal
questões financeiras, ao alcoolismo,
aims to analyze the importance of
visibility and historicity process to the ao desemprego, à falta de
cultural practice of midwives India, since atendimento especializado em
we understand that concern with the relação a hospitais (esse será o
rescue and recovery of traditional objetivo da pesquisa), à escassez de
knowledge, it is still a constant for us alimentos, etc., eles (as). Percebe-se
historians. As specific objectives we
127
que, em determinadas épocas do longo trajeto impediu que fosse
ano, transformam-se em objetos de possível salvar as crianças.
exploração da imprensa, ou de Diante de situações, como
representantes dos poderes públicos, essas, pergunta-se sobre qual
quando querem mostrar à sociedade valorização é dada as parteiras pelas
que aquela etnia resiste ao tempo e índias da Aldeia Potiguara? Que tipo
conservam as suas tradições. de relação elas têm com essas
Após anos de convívio com os mulheres que lhes trouxeram a vida?
povos da Aldeia Forte, o parto surge Questões como essas são suscitadas
como questão polêmica e incômoda principalmente pelo fato dessas
no que diz respeito às mulheres mulheres virem de uma geração de
indígenas que se veem entre os parteiras conhecidas em toda a
valores culturais tradicionais do parto comunidade potiguara.
e a intervenção do serviço social de O ofício de parteira é passado
saúde. Tradicionalmente, as parteiras de geração em geração. A primeira
existem, contrariando toda e que se tem notícia é conhecida como
qualquer rejeição dos serviços de “Mãe Grossa”, nascida na Aldeia São
saúde do local. Em depoimentos, Francisco em 1921, mas já falecida.
percebe-se que as indígenas se Em conversas, ela contava, enquanto
sentem criticadas, e entendem que a fumava seu cachimbo, que ia da
assistência de saúde não presta o Aldeia Forte até as aldeias onde era
atendimento adequado às mulheres chamada a pé ou a cavalo, fazer os
que procuram os PSF´s. Segundo partos. Enquanto ela estava
depoimentos, referem-se às parteiras ajudando a mãe, as outras índias
com desconfiança e não fornecem preparavam o pirão de galinha para
informações adicionais ou qualquer dar força à recém-parida. Era comum
apoio as mesmas. ver dezenas de pessoas passando em
Por sua vez, as mulheres frete a sua casa e pedindo a benção
indígenas, estão preferindo os a Mãe Grossa. Ela dizia sempre: “vi
hospitais aos cuidados das parteiras, tudo nascer, com a ajuda de Deus”.
velhas conhecidas delas. Para elas, Após a morte de Mãe Grossa,
os hospitais são mais paramentados sua filha “Tia Nancy”, assumiu o seu
e, as dores, já que optam por lugar. Ela fala do dom que Deus lhe
cesarianas, quase não existem. deu com muita emoção, diz que não
Apesar da distância entre a Aldeia entende porque tanta índia que ela
Forte e o hospital mais próximo (fica ajudou a nascer não quer mais os
na cidade de Rio Tinto, já que o de serviços dela. E, afirma que essa
Mamaguape não é equipado), elas geração tem medo de dor. Junto a
preferem correr o risco de perder o Tia Nancy, outras filhas, netas e
bebê, como é o caso de Eliene e sobrinhas de Mãe Grossa também
Vanessa que perderam os bebês aos exercem o ofício de parteiras.
nove meses de gestação porque o Recentemente participaram de um
parto demorou a acontecer. No caso curso dado pela FUNAI/SUS, no qual
dessas mulheres, elas foram da “aprenderam” o que já sabiam,
Aldeia Forte até a capital, João contam elas, mas, o curso, segundo
Pessoa, em trabalho de parto, o
128
elas, fez com que as mulheres parto eram ajudadas por outras
passassem a procurá-las. mulheres, que podiam ser do seu
A interculturalidade se refere ambiente mais próximo (parentes,
à ideia de uma interação entre as vizinhas ou amigas), ou mulheres
culturas de forma que respeite suas reconhecidas pela sua experiência ou
diversidades em um ambiente de competência para tal
interação e trocas. No contexto de acompanhamento – as parteiras.
encontro com o outro e suas Apesar de na prática da
diferenças podem surgir parteira tradicional estarem
intolerâncias, discriminações como presentes vários dos princípios
também supremacia de algumas atualmente preconizados para a
identidades sobre outras. humanização do parto e do
Se as narrativas enredam o nascimento – a formação de vínculos
escrevente, considera-se, em um solidários, o apoio emocional,
exercício primeiro de auto realização, práticas não intervencionistas, o
enxerga-se mais como alguém respeito à mulher e à fisiologia do
apaixonada pelo fazer histórico, tal parto – no pensamento
como o conhecimento resultado do predominante, essa prática tem sido
trabalho etnográfico, pelo ir à campo, associada às ideias da falta de
“estar lá”, buscando apreender as higiene, da ignorância e do
categorias “nativas” de entendimento subdesenvolvimento. Esse
do mundo. pensamento só legitima o
Em que pese o presente conhecimento produzido de acordo
estudo, ele esboçará uma perspectiva com a racionalidade científica,
histórica, por acreditar-se que ao desvalorizando o conhecimento
incorporar os saberes e práticas do tradicional (ABREU, 2005: 46).
campo das representações, Portanto, ao se resgatar
trilharemos um caminho mais seguro experiências exemplares voltadas
em seu desenvolvimento. para a qualificação e humanização do
parto e nascimento domiciliar
1.A ARTE DE PARTEJAR assistidos por parteiras, tem-se por
A arte de partejar é uma objeto induzir à reflexão junto aos
atividade que acompanha a história gestores e profissionais de saúde
da própria humanidade, por muito sobre a importância do
tempo, foi considerada uma atividade desenvolvimento de políticas públicas
eminentemente feminina, que busquem a valorização dessas
tradicionalmente realizada pelas detentoras de saberes e práticas
parteiras, que também cuidavam do tradicionais existentes nas Aldeias
corpo feminino e dos recém- trabalhadas, reconhecendo e
nascidos. As parteiras eram e ainda qualificando o seu trabalho, com
são depositárias de um saber vistas a potencializar e retomar essa
popular, que foi produzindo lendas e prática cultural, não apenas como um
crendices sobre o corpo gravídico, conjunto de relações articuladas num
associadas à natureza (BANDLER, determinado tempo e espaço.
1992: 23). Portanto, durante muito A presente pesquisa pode
tempo, as mulheres em trabalho de provocar o entendimento de como se
129
processa a socialização da identidade
étnica e a valorização da cultura ali Os estudos culturais têm dado
amostras de grandes reflexões acerca
existente, podendo, ainda possibilitar do conceito de cultura, pois tais
um leque de informações que investigações, durantes séculos,
ficaram sob a responsabilidade dos
complementarão a compreensão de folcloristas que concebiam essas
que existem formas de se manifestações culturais com olhares
desenvolver estudos que permitam pejorativos (THOMPSON, 2005: 28).

orientar pessoas, sem que seja


Thompson (1998) “definiu”
preciso estereotipá-las ou
cultura como sinônimo de costume,
estigmatizá-las.
tratando costume de maneira
diferenciada, não pensando somente
2.UMA HISTÓRIA NARRADA POR
nas permanências das tradições, mas
MULHERES
encarando as práticas culturais como
Os povos indígenas têm direitos a
campo das mudanças, o lugar da
praticar e revitalizar suas tradições e diversidade, fruto das re-
costumes culturais. Nele inclui o
significações e conflitos. Nesse
direito em manter, proteger e
desenvolver as manifestações sentido, as ressignificações não estão
passadas, presentes e futuras de suas sendo manifestas no grupo de
culturas, como lugares arqueológicos
e históricos, utensílios, desenhos, parteiras, uma vez que elas não
cerimônias, tecnologias, artes visuais encontram espaço e nem apoio, para
e interpretativas e literaturas (Artigo
11 da Declaração da ONU sobre os que o oficio sobreviva, apesar das
Direitos dos Povos Indígenas Nações tentativas de adequação ao mundo
Unidas, 13 de setembro de 2007
Sexagésimo período de sessões.
que se apresenta para elas.
Tema 68 do Programa Informe do De acordo com Chartier,
Conselho de Direitos Humanos).
A representação do real, construída
Imaginar uma história narrada pelos diferentes grupos sociais tende
a justificar e a legitimar o lugar social
por mulheres que protagonizam a
ocupado, ou seja, representar
vinda de outras pessoas ao mundo significa à tentativa de impor aos
de forma simples e tradicional mostra demais grupos sociais as apreensões
particulares que objetiva-se
que elas possuem trajetórias de vida transformar em homogêneas
semelhantes no que concerne a (CHARTIER, 1990: 30).
questões familiares e, em relação
também à propagação e preservação No que concernem às
da utilização de tais práticas de fazer parteiras, elas são percebidas como
vir ao mundo, tornando-se assim detentoras do saber popular, criados
parteiras (THOMPSON, 2005: 28). e (re) significados pela cultura dos
Adentrar na orbe cultural das conhecimentos sobre ervas, banhos,
índias parteiras preconiza buscar o receitas, chás, simpatias, massagens,
suporte metodológico de autores que escalda-pés, suadouros, garrafadas,
versam acerca do tema, e a utilizam medicamentos caseiros que se
como fonte de problematizações corporificaram nas concepções
historiográficas como, Hobsbawm & terapêuticas das parteiras como uma
Ranger (1984), Roger Chartier, Carlo forma de ajuda mútua na
Ginzsburg, entre outros (as). comunidade indígena (OLIVEIRA,
Para Thompson 1985: 63). Nesse sentido, é possível
130
perceber a representação do poder As identidades, nesse
dessas mulheres, uma vez que a elas contexto, são fruto de uma
são atribuídas o conhecimento construção cultural, pois elas
necessário para trazer vidas ao “expressam” e “comunicam” o que
mundo, o que traz à legitimidade Hall (1997) denomina de cultura –
representativa necessária para um sistema de significados pelo qual
intervir no cotidiano dos indivíduos. é possível codificar, organizar e
A abordagem culturalista regular a conduta humana relação
entende a cultura como sendo aos seus pares e dar sentido às suas
socialmente construída através da ações. Assim, é possível interpretar a
escolha de determinados símbolos e partir da cultura, não apenas o que
representações para explicar a visão significa ser mulher ou homem, mas
de mundo, os valores, a realidade de também o que define as relações de
um determinado povo situado no gênero na construção das identidades
espaço e no tempo. Assim, Chartier, e das diferenças entre o feminino e
na introdução de seu livro “A História masculino e nas suas representações
Cultural”, tem a seguinte definição profissionais, sociais e culturais.
para esta história:
2.1.ÍNDIAS PARTEIRAS: UMA
A história cultural, tal como a AMEAÇA A REPRODUÇÃO OU
entendemos, tem por principal
objecto identificar o modo como em EMPODERAMENTO?
diferentes lugares e momentos uma No Brasil, desde os tempos
determinada realidade social é
construída, pensada, dada a ler. Uma
coloniais, os médicos procuraram
tarefa desse tipo supõe vários estabelecer seu controle sobre as
caminhos. O primeiro diz respeito às práticas de cura populares mediante
classificações, divisões e delimitações
que organizam a apreensão do mundo a administração dos saberes sobre o
social como categorias fundamentais corpo feminino. Um corpo percebido
de percepção e de apreciação do real.
Variáveis consoante as classes sociais na tripla perspectiva da ignorância
ou os meios intelectuais são ameaça e reprodução. Assim, neste
produzidas pelas disposições estáveis
e partilhadas, próprias do grupo. São
sentido, o corpo feminino se reduzia
estes esquemas intelectuais exclusivamente ao útero,
incorporados que criam as figuras
denominado pelos médicos de
graças às quais o presente pode
adquirir sentido, o outro tornar-se madre, mãe, matriz, como afirma Del
inteligível e o espaço ser decifrado Priori:
(CHARTIER, 1990, p. 17).

No período colonial, todo o


A análise das representações conhecimento existente sobre o corpo
de gênero merece especial atenção feminino dizia respeito à reprodução.
Os documentos científicos da época:
para realidades culturais como a Tratados, manuais, receituários,
moçambicana. Isso porque nestas revelam enorme interesse pela madre
sociedades, como em outras, “(...) (nome dado ao útero, como vimos) e
a consequente obsessão em
toda ação social é ‘cultural’, (...) compreender seu funcionamento. O
todas as práticas expressam ou próprio mapeamento da anatomia do
útero submetia-se ao olhar
comunicam um significado e, neste funcionalista dos médicos, que só se
sentido, são práticas de significação referiam ao que importava para a
procriação (DEL PRIORI, 1997, p. 82).
(HALL, 1997, p. 01)”.

131
Desde o período colonial, No movimento histórico de
quando se encontravam as mesmas polarização do poder, as questões de
situações vivenciadas na Europa, a gênero foram expressas, e as
exceção das chacinas de feiticeiras, mulheres também perderam alguns
não ocorridas no Brasil, a prática da de seus direitos e poderes. É preciso
maternidade se caracteriza como sublinhar o fato de que o gênero
forma de se contrapor ao controle sempre se destacou como indicador
masculino, fosse resguardando as de centralização de poder e perda de
diferenças de gênero, fosse autonomias. As relações entre
conservando os papéis tradicionais Estados fortes e submissão feminina
das mulheres, no caso o de parteiras foi observada por Scott:
(DEL PRIORI, 2004, p. 43 ). Sendo
assim, a “medicalização” do parto foi A ligação entre os regimes
autoritários e o controle das mulheres
mais uma das formas de instaurar a tem sido bem observados, mas não
monitorização sobre as práticas de foi estudado a fundo. Num momento
crítico para a hegemonia jacobina na
cura até então sob o controle das Revolução Francesa, na hora em que
mulheres. Stálin tomou o controle da
No caso da Europa Moderna, autoridade, na época da
operacionalização da política nazista
além da subordinação das mulheres na Alemanha ou o triunfo do aiatolá
de um modo geral, havia uma Khomeiny no Irã, em todas essas
circunstâncias os dirigentes que se
preocupação muito grande com as afirmavam, legitimavam a dominação,
mulheres camponesas em particular a força, a autoridade central e o poder
soberano identificando-os ao
e, dentre estas, um cuidado ainda masculino (os inimigos, os
maior com aquelas que podiam “outsiders”, os subversivos e a
fraqueza eram identificados com o
escapar ao domínio masculino, aí se
feminino), e traduziram literalmente
inseria o caso das curandeiras e das este código em leis que colocam as
parteiras. mulheres no seu lugar (proibindo sua
participação na vida política, tornando
Davis (1990, p. 72) apontou o aborto ilegal, proibindo o trabalho
como as mulheres da Época moderna assalariado das mães, impondo código
de vestuário às mulheres) (SCOTT,
foram perdendo seus direitos à
1991, p. 16).
medida que o capitalismo e a família
patriarcal avançavam. É oportuno Em relação ao surgimento dos
lembrar que, neste período, estava novos procedimentos científicos, o
nascendo o que hoje conhecemos embate contra as parteiras se dotava
como a Ciência moderna, com seus da perspectiva da luta “da luz da
procedimentos experimentais, ciência contra as trevas da
técnicas “matematizadas” e avaliadas ignorância”, das novas técnicas, ditas
e sua nova relação com o corpo científicas, contra procedimentos
humano. A entrada dos homens havidos como supersticiosos:
médicos na cena do parto, portanto,
pertencia a este contexto. A luta Quando a história da medicina
suscitada por estes médicos contra começou a ser escrita no século XIX,
tratou-se as práticas médicas e
as parteiras obedecia, populares da Antiguidade e
fundamentalmente, a princípios de principalmente da Idade Média como
representativas da ignorância e do
gênero, de classe e de luta por um obscurantismo. Nesta interpretação
novo mercado profissional. evolutiva da história, há o

132
reconhecimento da ignorância dos tarefas domésticas, prestam, em
médicos antigos sobre os assuntos
relativos ao parto, mas a maior geral, uma assistência marcada pelo
reação crítica é aos leigos, afeto, pelo calor humano,
especialmente as parteiras das
classes populares. Com exceção das
companheirismo, infundindo
parteiras profissionais dos séculos confiança e segurança que
XVII e XVIII, os historiadores médicos contribuem para potencializar a força
viam as parteiras aldeãs como
responsáveis pelas imperícias que da mulher para conduzir o seu parto,
resultavam na morte da mãe e da criando um ambiente que favorece
criança ou pelas mutilações,
descrevendo-as como mulheres uma evolução positiva do trabalho de
ignorantes, supersticiosas, parto e uma recepção acolhedora
descuidadas e apressadas (DEL
PRIORI, 2004: 45).
para o recém-nascido (ABREU, 2005:
48).
Percebe-se que, o dano maior
à saúde da população não era
provocado pelos erros médicos, mas 2.2 O despertar de uma tradição
pela incapacidade das parteiras sob o olhar da História Oral
populares. Havia nesta alegação uma Tendo por base a análise das
imposição não somente de classe, práticas culturais e as narrativas no
pois além de menosprezar os saberes contexto de vida das índias parteiras
e práticas populares, esta da Aldeia Forte residentes no
estruturação científica intentava ao Município de Baía da Traição, este
controle masculino da cena do parto. projeto tem por preocupação central
Para esclarecer ainda mais esta colocar em evidência a preocupação
busca de controle, estes argumentos com o resgate e a valorização dos
não atingiam as parteiras saberes tradicionais, analisando
profissionais, porque estas estavam investigando a importância do
sob controle dos médicos. processo de visibilidade e
Se por um lado é fato que as historicidade à prática cultural dessas
parteiras tradicionais possuem mulheres ressaltando o protagonismo
limitados conhecimentos técnico- de suas vozes sobre este processo
científicos, principalmente por seu social, identificando semelhanças e
trabalho encontrar-se isolado do diferenças entre suas percepções
serviço de saúde local, realizando-se sobre esta experiência.
em meio a muitas dificuldades, é O presente estudo será feito
igualmente notório que, em sua principalmente com amparo em
grande maioria, as parteiras possuem entrevistas com as parteiras, assim
muitas habilidades, que lhes auxiliam como com as mulheres que
na resolução de partos difíceis e utilizaram os serviços delas. Portanto
recursos, principalmente no campo o recurso do instrumental
relacional, fundamentais para um metodológico da História Oral se faz
cuidado baseado no respeito e no imprescindível. Para tanto nos
empoderamento da mulher para remeteremos a uma das concepções
vivenciar o seu parto. de História Oral como afirma Amado:
As parteiras preocupam-se
Esses historiadores orais consideram
com o bem-estar e o conforto da a fonte oral em si mesma e não só
mulher que assistem, assumem as como mero apoio factual ou de
133
ilustração qualitativa. Na prática, eles sem a viabilidade do uso da História
colhem, ordenam, sistematizam e
criticam o processo de produção da Oral, seria impossível um estudo
fonte. Analisam, interpretam e situam sobre as índias parteiras da Aldeia
historicamente os depoimentos e as
evidências orais com as outras fontes
Forte, assim como o conhecimento
documentais tradicionais do trabalho de seus rituais. Por outro lado, as
historiográfico. Não se limitam a um entrevistas permitirão uma maior
único método e a uma única técnica,
mas a complementam e as tornam nitidez sobre a importância das
mais complexas. Explicitam sua parteiras na região estudada. Como
perspectiva teórico metodológica da
análise histórica e, sobretudo, estão sinalizado no início do projeto, a
abertos e dispostos ao contato com própria existência e eficácia delas é
outras disciplinas (AMADO, 1993, p.
23).
questionada, no entanto, na medida
em que o projeto for florescendo,
Neste aspecto, os relatos orais presume-se que essas mulheres
e a observação das participantes são tornem a ganhar corpo e significação
instrumentos centrais para o social e cultural. Nesta perspectiva, a
presente estudo, pois permite que se História Oral ajudará a trazer á tona
identifique em que momento na essa sublime tradição que passando
história de vida destas mulheres por um processo de desvalorização e
acontece sua inclusão no ofício de de esquecimento.
parteira, enquanto espaços de Para a coleta de dados,
interação e significação social nos inicialmente será utilizada a
quais as parteiras tradicionais metodologia de entrevista
reconstroem suas trajetórias de vida. semiestruturada devido a, sua
Investigar as articulações e flexibilidade dentro do processo da
tensões presentes nestes discursos pesquisa, ter como ponto de partida
faz parte das tarefas do (a) questões previamente formuladas,
pesquisador (a) na tentativa de porém, também serão consideradas
melhor perceber de que modo outras questões que poderão surgir
mediação do gênero está presente no decorrer do processo do
nesta dinâmica social. entrevistar.
Thompson confirma à Menezes (2002: 20) entende
importância trazida pela História Oral esse formato de entrevista
para o avanço destes estudos: semiestruturada menos como técnica
de pesquisa “trata-se, antes de tudo,
Em todos esses campos da História, de discursos construídos no processo
com a introdução de nova evidência
antes não disponível; com a mudança de interação social entre
do enfoque da investigação e com a pesquisadores e informante”
abertura de novas áreas para ela;
contestando alguns dos pressupostos
(MENEZES, 2002: 20).
dos historiadores e julgamentos por Realizaremos também
eles aceitos; reconhecendo grupos entrevistas em profundidade uma vez
importantes de pessoas que haviam
estado ignoradas, dá-se início a um que nos permite reconstituir a
processo cumulativo de trajetória de vida das indígenas
transformações (THOMPSON, 1992, p.
28). parteiras, identificando elementos
importantes do seu cotidiano,
Percebe-se que estes pontos especialmente no que diz respeito às
são muito pertinentes ao trabalho, relações de gênero vivenciadas por
134
elas no âmbito doméstico e no de obtenção dos dados, ou seja, o
espaço público através da olhar e o ouvir. Porém ainda segundo
identificação do seu ofício. E o autor, não devemos nos perder na
identificar também quando e de que subjetividade, pois o que está em
maneira ocorre a inserção destas no jogo seria a intersubjetividade, pela
ofício de parteira, quais seus qual se articulariam, no mesmo
significados para construção da horizonte teórico, os membros da
autonomia destas mulheres. comunidade profissional.
Outro aspecto importante Conforme Cardoso de Oliveira,
deste processo serão os registros
fotográficos com valoração Se o olhar e o ouvir constituem a
nossa percepção da realidade
documental e registros focalizada na pesquisa empírica, o
cinematográficos com formatação escrever passa a ser parte quase
indissociável do nosso pensamento,
documental, dentro de uma uma vez que o ato de escrever é
perspectiva etnográfica, uma vez que simultâneo ao ato de pensar
as narrativas visuais/audiovisuais nos (OLIVEIRA, 2000, pp. 31-32).
possibilitam tornar visíveis
socialmente práticas culturais Desta forma, o ato de
importantes como é o universo da escrever, encarnado na própria
Aldeia estudada com sua diversidade, etnografia, constituiria aquilo que
tendo por foco a presença feminina Geertz (1978) chamou de uma busca
neste espaço. Conforme pensa por uma “descrição densa”, uma
Oliveira (2000: 30) ao defender que interpretação, ou uma construção,
para se elaborar uma boa escrita que é uma leitura da leitura que os
etnográfica, deve-se pensar sua “nativos” fazem de sua própria
produção a partir das etapas inicias cultura.

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da Silva e Guacira Lopes Louro. 7º ed. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2002.
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THOMPSON, Paul. A Voz do Passado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p.28.
THOMPSON, E. P. Costumes em Comum. Estudos Sobre a Cultura Popular
Tradicional. Companhia das Letras: São Paulo, 2005.

RECEBIDO EM 14/12/2015
APROVADO EM 10/01/2016

136
ITAPUCU E O REI: DIPLOMACIA the territory of the current states of
INDÍGENA NA CORTE FRANCESA Rio de Janeiro, in the period from 1
O artigo foi inspirado na
DO SÉCULO XVII1 1555 to 1578 and Maranhao in 1612- dissertação de Ana Paula
15 and collected and recorded these da Silva, intitulada
narratives, Andre Thevet, Jean de “Narradores Tupinambá e
Ana Paula da Silva Etnosaberes nas crônicas
Lery, Claude d 'Abbeville and Yves d'
Doutoranda em História em Memória francesas do Rio de Janeiro
Evreux. Thus, it is intended to give (1555-78) e Maranhão
Social/UNRIO
visibility to indigenous narrators and (1612-15)”, defendida em
anap_almex@yahoo.com.br 2011, no Programa de Pós-
discuss the role and the indigenous
Graduação em Memória
political activity in the dynamics of
José Ribamar Bessa Freire Social da UNIRIO (PPGMS-
conflicts and interests that marked UNIRIO), sob a orientação
Professor do Programa de Pós-Graduação the period historically known as do Prof. Dr. José Ribamar
em Memória Social/UNRIO Equinoctial France, notably the case Bessa Freire.
jrbfreire@yahoo.com.br of ambassadors Indians in France, 2
Sobre essa mudança de
especially Itapucu. Reflect on their perspectiva no campo da
participation in the production of historiografia brasileira,
Xe ybypóra nde remimbói amo "global networks of knowledge and ver, entre outros:
MONTEIRO, John M. Negros
secóu, apyába carayba atoaçaba power" their strategies in socio-
da Terra - Índios e
toroicó. (Itapucu, In: D’Abbeville, cultural contexts of interaction and Bandeirantes Origens de
politics, especially highlighting the São Paulo. São Paulo:
1614) Companhia das Letras,
role of mediators and articulators of
1994; MONTEIRO, John M.
some indigenous leaders that the
Este artigo procura identificar Tupis, Tapuias e
example of the Tupi ambassadors Historiadores Estudos de
prioritariamente em cinco crônicas de
were seeking an official response to História Indígena e do
autores franceses que conviveram com Indigenismo. Campinas.
os Tupinambá no território dos atuais your problems.
UNICAMP, 2001.
estados do Rio de Janeiro, no período de Keywords: Indigenous Narrators;
1555 a 1578 e o Maranhão em 1612-15 e Oral Traditions; Indian diplomacy;
que coletaram e registraram essas Itapucu
narrativas, André Thévet, Jean de Léry,
Claude d‟Abbeville e Yves d‟Evreux. Estudos atuais, no campo da
Dessa forma, se buscou dar visibilidade
aos narradores indígenas e discutir o chamada ‘Nova História Indígena’,
protagonismo e a atuação política como chamou John Monteiro (1999:
indígenas na dinâmica de conflitos e 238), que poderíamos colocar no
interesses que marcaram o período
plural tendo em vista a diversidade
historicamente conhecido como França
Equinocial, notadamente o caso dos de regimes históricos dos povos
índios embaixadores na França, ameríndios – ainda pouco
sobretudo Itapucu. Refletirmos sobre a evidenciados na historiografia
participação destes na produção de
“redes globais de conhecimento e poder”
brasileira – têm enfatizado os
suas estratégias em contextos de processos de agenciamentos
interação sociocultural e política, indígenas, destacando suas
destacando especialmente o papel de estratégias de recusa e de alianças
mediadores e articuladores de alguns
líderes indígenas que a exemplo dos em resposta aos problemas
embaixadores Tupi foram buscar uma vivenciados em seus territórios2.
resposta oficial para seus problemas. Diferentemente da abordagem
Palavras-chaves: Narradores indígenas;
historiográfica oficial, os povos
Tradições Orais; diplomacia indígena;
Itapucu indígenas, no contexto de suas
interações com o mundo não
ABSTRACT: This article seeks to indígena, colonial ou pós-colonial,
identify priority in five chronic French instrumentaram-se com os recursos
authors who knew the Tupinambá in
137
que possuíam para reivindicar seus estrangeira, mas outros não.
direitos. Nesse sentido, tais Monod-Becquelin assinala
pesquisas nos permitem balizar ainda aquelas informações sobre as
certas classificações coloniais, circunstâncias de narração,
desfazer estereótipos (Boccara, conversas ou gestual performático,
2002: 8) e escrever uma ‘nova bastante acentuado nas tradições
história’, considerando os pontos de orais indígenas. Essa comunicação,
vista dos índios e, por que não, os todavia é mais simbólica e
próprios historiadores indígenas. É o essencialmente não verbal, sendo
que se espera. pouco registrada na documentação
Registros da oralidade em questão.
indígena, em crônicas dos séculos Assim, o estudo das memórias
XVI e XVII, foram analisados por e identidades indígenas no contexto
Aurore Monod-Becquelin, no artigo colonial, com base na análise de seus
“La Parole et la tradition orale discursos, pode ser esclarecedor para
amérindiennes dans les récits des pensarmos o processo contínuo de
choniqueurs aux XVI e et XVII e inovação cultural, pois é reconhecido
siècles”, de 1984. Através da análise o caráter construído das formações e
de estilos e transcrições de cronistas identidades, bem como o dinamismo
que estiveram na América do Sul e das culturas e tradições indígenas. O
do Norte, a autora analisa a atitude caso dos índios embaixadores na
dos franceses acerca do registro da França, sobretudo Itapucu, é
“parole et la tradition orale bastante elucidativo. Não apenas
amérindiennes”. A partir de seus para refletirmos sobre aquilo que
estudos, podemos identificar, a Guilermo Wilde (2013: 5) chamou de
exemplo do discurso de Itapucu, “circulação atlântica de indígenas” e
vozes indígenas (filtradas, sua “forte participação na produção
traduzidas) nos discursos recolhidos de redes globais de conhecimento e
por cronistas, registrados de poder” – aspectos ainda pouco
diferentes maneiras: evidenciados pela historiografia
a) No primeiro caso estão os relatos brasileira –, mas também, as
registrados em língua fonte estratégias indígenas distintas,
(indígena), seguidos ou não de criadas em contextos de interação
tradução na língua do cronista; sociocultural e política, durante a
b) No segundo, o cronista faz, em colonização e pós-colonização.
estilo indireto e traduzido, o registro Destacamos especialmente o papel
dos enunciados como explicitamente de mediadores e articuladores de
ouvidos da boca indígena e alguns líderes indígenas que a
recolhidos no local. Neste caso, exemplo dos embaixadores Tupi
houve, portanto, um contato real foram buscar uma resposta oficial
entre índios e europeus; para seus problemas, seja na própria
c) O terceiro caso tem o idioma colônia, seja no além-mar (Europa).
europeu como língua fonte. Alguns Neste sentido, Itapucu foi um
termos da língua indígena são precursor. Por isso, a epígrafe desse
registrados, com tradução artigo.
correspondente na língua
138
A mudança de perspectiva e os portugueses, adiando o
histórico-antropológica, atual, em extermínio indígena (aliados 3
A questão dos etnônimos é
conceber os povos indígenas como franceses) e o sepultamento da bastante complexa e,
conforme Viveiros de Castro
agentes/protagonistas do processo França Equinocial por mais alguns
(1993: 32), é “fruto de uma
histórico, vem recebendo a atenção anos. incompreensão total da
de pesquisadores de diferentes áreas Neste artigo, pretendemos dinâmica étnica e política do
socius ameríndio”, bem
do conhecimento, tanto no Brasil discutir o protagonismo e a atuação como da “natureza relativa e
como na América do Sul. Essa política indígenas na dinâmica de relacional das categorias
étnicas, políticas e sociais
mudança de ponto de vista se dá em conflitos e interesses que marcaram indígenas”. O historiador
função, entre outros fatores, das o período historicamente conhecido John Monteiro (2007: 58)
diz que a projeção de
reivindicações dos próprios índios por como França Equinocial, ou seja, nas unidade sobre povos foi um
seus direitos. No bojo desses interações franco-tupis no aspecto fundamental na
formação de alianças e na
estudos, destacamos a relevância de Seiscentos. Para isso, analisaremos o
determinação das políticas
refletir sobre a atuação dos índios no discurso de Itapucu, proferido diante coloniais, servindo não
contexto das suas relações com os da Corte francesa, em 1614, apenas “como instrumento
de dominação, como
Estados nacionais, como sugere De presente na crônica do capuchinho também de parâmetro para
Jong (2011) ao analisar as relações francês Claude d’Abbeville. Trata-se a sobrevivência étnica de
grupos indígenas, balizando
diplomáticas entre agentes de um raro exemplo de registro da uma variedade de
governamentais e setores da fala de um chefe indígena em missão estratégias geralmente
enfeixadas num dos polos
população indígena na fronteira sul diplomática, reproduzido na língua
do inadequado binômio
da província argentina, entre o tupinambá, no século XVII – acomodação/resistência”.
Pampa e a Patagônia, sobretudo a linguístico-histórico ainda pouco Baseando-se na
documentação histórica,
atuação de lideranças/caciques investigado. Carlos Fausto (2000) chama
indígenas. a atenção para o fato dos
grupos Tupi da costa
No artigo “Funcionários de dos Indígenas e o discurso destinado brasileira, nos séculos XVI e
mundos en un espacio liminal: Los aos ‘outros’ XVII, constituírem
macroblocos populacionais e
“índios amigos” en la frontera de Em contextos de interação jamais um bloco
Buenos Aires (1856-1866)”, Ingrid cultural e política, no período colonial homogêneo. Para Renato
Sztutman (2012: 146), o
De Jong discute as estratégias, os e pós-colonial, atores indígenas
etnônimo Tupinambá –
horizontes e os limites de ação dos criaram diferentes estratégias de recorrente nas crônicas de
chamados “índios amigos” no denúncias contra abusos e violências, Thevet, Léry, d’Abbeville e
d’Évreux –, nesse sentido, é
processo de unificação e consolidação de reivindicação de direitos – vago ou problemático, uma
do Estado argentino, evidenciando o particularmente seus territórios vez que está relacionado à
multiplicidade de povos Tupi
lugar desses atores como mediadores invadidos, arrendados, usurpados por ocupantes da costa, além
e articuladores que construíram e diferentes atores, como sesmeiros, dos aliados dos franceses.
Por isso, empregamos aqui
reproduziram um espaço político colonos, fazendeiros – e, também o termo Tupi (em
particular, onde participavam tanto táticas de alianças políticas. Entre os detrimento ao etnônimo
dos dispositivos estatais quanto da mecanismos utilizados por eles estão Tupinambá, retomado
poucas vezes) – povos
rede de alianças políticas no campo a memória, a diplomacia e a habitantes na costa
indígena. De igual modo apropriação da tecnologia da escrita brasileira e falantes de uma
língua pertencente à família
compreendemos a atuação política e da retórica dos não indígenas, linguística Tupi-guarani.
dos Tupi do Maranhão, que atuando como fizeram os antigos Tupi3 na Ilha
como embaixadores/diplomatas de São Luís do Maranhão, aliados dos
indígenas viajaram à França para franceses no século XVII (Silva,
negociar com o rei Luís XIII apoio 2011).
bélico contra os seus inimigos índios Para Lienhard,
139
como explica Lienhard. Para comover
“(...) diante da necessidade de ‘falar’ ou convencer os representantes da 4
Martín Lienhard (1992)
a seus interlocutores europeus ou analisou as relações de
crioulos (América hispânica), as autoridade metropolitana ou colonial,
interação entre indígenas e
coletividades indígenas tiveram que os índios, conscientes ou não dos
criar um discurso distinto, capaz de autoridades da América
chegar aos ouvidos ou aos olhos dos
problemas de comunicação hispânica em diversos
‘estranhos’, adversários ou possíveis intercultural, adotaram distintos documentos que abarcam o
aliados: autoridades, personalidades, elementos – recursos e/ou códigos período colonial até o início
e funcionários metropolitanos ou do século XX –
coloniais (...)”(LIENHARD, 1992, p. expressivos, lógica argumentativa,
testemunhos, cartas e
XVIII). entre outros. – que faziam parte do manifestos indígenas.
horizonte de expectativas de seus
O autor sustenta que a interlocutores. Através do discurso
necessidade de “falar” com os destinado aos outros (europeus,
europeus ou autoridades criollas4, criollos), os indígenas diziam
obrigou os indígenas a criarem uma exatamente aquilo que as
interessante estratégia discursiva: o autoridades e representantes estatais
discurso destinado aos ‘extraños’. podiam ver, ouvir e entender.
Trata-se de um tipo de discurso Segundo Paula Montero
distinto, capaz de chegar aos ouvidos (2006), nas relações interculturais
ou aos olhos dos inimigos, além de entre missionários e indígenas,
possíveis aliados. Os índios não ambos os lados apropriaram
apenas aprenderam a caminhar no elementos disponíveis que
universo da escrita, mas se consideraram importantes nos
apropriaram e dominaram os códigos repertórios culturais em relação. Esse
da fala dos europeus. Nesse processo jogo de disputas simbólicas envolve
de interações, tal tipo de discurso uma dimensão política dos processos
funcionou como um instrumento de de significação, entendida como “o
negociação que, nem sempre, conjunto de motivações e interesses
ostentava traços marcadamente que orientam as escolhas dos
“diplomáticos”, como salienta agentes mediadores quando
Lienhard. Portanto, epistolar, privilegiam certas práticas e
historiográfico ou testemunhal, o significações em detrimento de
novo discurso indígena implica a outras” (p.34). Sugiro, portanto, que
prática de um diálogo intercultural o discurso produzido para os outros,
(Lienhard, 1992: XIII). de que nos fala Lienhard, pode ser
O pesquisador suíço descreve compreendido como estratégia de
o período colonial como um mundo apropriação indígena dos códigos
burocrático e dominado por ambições discursivos, retóricos, europeus.
pessoais. Nesse contexto, a colônia Assim sendo, os Tupi ‘dotados
era uma máquina de disputas por de fala’ – para usarmos uma
terras, títulos, dinheiro, poder, expressão da historiadora Daher
prestígios, entre outros. Cada (2007) –, nas crônicas francesas dos
contenda presumia uma informação padres capuchinhos Claude
com declarações de testemunhas. d’Abbeville e Yves d’Évreux, não
Assim, implicados ou interessados, apenas validavam os objetivos de
os indígenas foram solicitados a catequização e colonização dos
darem as suas versões dos fatos, capuchinhos, mas também seus
140
próprios interesses. No caso dos sobre os Tupi e a chamada França
5
embaixadores Tupi, a apropriação Equinocial6. Segundo Franz As palavras em língua
tupinambá desse artigo
dos códigos da retórica europeia Obermeier (2005), os franceses já foram restauradas com a
deveu-se, entre outros fatores, à dispunham de amplo conhecimento ajuda da linguista Ruth
Monserrat a partir do
necessidade de atuar dos Tupi quando tentaram colonizar o cotejo de documentos
discursivamente e dirigir-se a um Norte brasileiro. Esse saber históricos dos séculos XVI
e XVII, relacionados à
interlocutor (europeu) na busca por detalhado dos índios da costa língua tupinambá
alianças contra seus inimigos, fossem brasileira é resultante da história das (vocabulários, gramáticas,
manuscritos, catecismos,
eles grupos índios rivais ou relações franco-tupis, estabelecidas
etc.), com estudos
portugueses. desde as primeiras expedições linguísticos atuais.
Nesse sentido, os pedidos de coloniais, sobretudo a partir da 6
Como ficou conhecida a
batismo, os diálogos, conversas e malograda tentativa de colonizar o última tentativa de
discursos específicos, como as Rio de Janeiro, conhecida estabelecimento de uma
colônia francesa no Norte
harangue – tipo de discurso solene, historicamente como França do Brasil, atual estado do
proferido por chefes políticos nas Antártica. Maranhão. A França
Equinocial existiu entre os
assembleias ou diante de uma O capuchinho francês deixou anos de 1612 a 1615.
personagem importante (Daher, importantes informações a respeito
2004), tais como os discursos de dos Tupi no Maranhão, constituindo
líderes indígenas como Japí Guaçú, uma referência imprescindível para
Momboré Guaçú, Jaguára Abaété, os estudos desses povos no século
Ybyrápytáng, Acajuí, Pacamũ5, XVII. D’Abbeville, entre outros
presentes nas crônicas de D’Abbeville aspectos, apresenta uma preciosa
e D’Évreux –, podem ser entendidos cartografia das aldeias e seus
como discursos destinados aos morubixaba (chefes indígenas) da
outros. A título de análise, Ilha do Maranhão e terras
analisaremos o discurso de Itapucu, adjacentes. Ele registrou dados da
proferido diante da Corte francesa no organização sociocultural indígena
Palácio do Louvre, aqui também (enfatizando temas recorrentes nos
compreendido como um discurso manuscritos de época, como a
destinado aos ‘outros’, mais antropofagia e a poliginia) e o
especificamente, aos aliados manejo da fauna e flora, fornecendo
franceses. um pequeno tratado da
biodiversidade da região, dos saberes
O relato capuchinho tradicionais que circulavam na época.
O discurso solene de Itapucu O padre capuchinho recolheu ainda
está registrado na crônica “História importantes fragmentos da
da missão dos padres Capuchinhos cosmologia tupi, incluindo as
na Ilha do Maranhão e terras primeiras descrições dos saberes
circunvizinhas” do missionário astronômicos desses indígenas
francês Claude d’Abbeville, que (Silva: 2011), os primeiros dados a
esteve na Ilha de São Luís do respeito do movimento messiânico
Maranhão em 1612, ali dos chamados Tupinambás,
permanecendo por quatro meses. procedente, entre outras motivações,
Publicado em 1614, a crônica é um de uma tradição mitológica (Monod-
importante documento histórico- Becquelin, 1984).
etnológico, diria linguístico também,
141
Aurore Monod-Becquelin indígenas – para o envio de
destaca a originalidade de Claude representantes índios à França? 7
Além da categoria
d’Abbeville, sobretudo a qualidade do Esses são questionamentos que indígena morubixaba,
registro e o controle dos dados por buscaremos responder nas páginas encontramos na
documentação histórica,
ele coletados. Primeiro, porque a seguintes. com bastante recorrência,
coleta de informações, em seu livro, o termo
Principal/Principais para
tem o objetivo de fazer uma Itapucu: um mediador indígena denominar os chefes
‘verificação’ de tudo que ele lera na Corte francesa indígenas.
antes sobre os indígenas. Por outro Filho do morubixaba7 Guara- 8
Espécie de instrumento
lado, após sua viagem de regresso, o guaçu e de Guira-jará, Itapucu, era musical, chocalhos.
padre capuchinho verifica o que natural de Caiete (região próxima à
aprendeu com intérpretes e três Ilha do Maranhão), tinha por volta de
indígenas (Guaraju, Itapucu, Japuaí) trinta e oito anos quando embarcou,
que permaneceram um tempo com em 1613, para a França na viagem
ele na França. Além disso, o de regresso do padre D’Abbeville.
missionário, embora como Escolhidos por morubixabas da Ilha
autodidata, aprendeu a língua do Maranhão, Itapucu e cinco outros
tupinambá; aspecto importante, pois indígenas (Caripirá, Guaraju, Japuaí,
isso permitiu ao religioso o que a Manẽ e Patua) foram incumbidos,
autora chama de ‘um controle segundo D´Abbeville, de oferecer
adicional’ (Monod-Becquelin, 1984: seus serviços ao cristianíssimo rei
326) em seus registros. francês, além de solicitar a proteção
O relato do capuchinho do monarca aos súditos da nova
francês contém um número França Equinocial (D’Abbeville,1614:
considerável de discursos e diálogos 332v).
indígenas, registrados em estilo Os embaixadores indígenas
direto, aparentemente um pouco chegaram à Paris no dia 12 de abril
transformados, como explica Monod- de 1613 e tiveram uma calorosa
Becquelin. É o caso, por exemplo, do recepção. Sob os olhares atentos e
discurso de Itapucu, proferido diante curiosos de uma multidão, foram
da Corte francesa e escrito em conduzidos ao convento dos Frades
tupinambá por D’Abbeville. Com Menores, onde os receberam
relação a esse discurso, objeto de centenas de religiosos. Em seguida,
nossa análise nesse texto, algumas caminharam nas ruas da cidade, em
questões devem ser postas: Quem procissão, até a igreja no subúrbio de
foi Itapucu e o que realmente disse Saint-Honoré (D’Abbeville, 1614:
em Paris? Como se deu o processo 338). Conforme o padre capuchinho,
de escrita e de tradução de sua todos queriam vê-los com suas belas
“harangue”? Qual a relevância desse indumentárias de penas e seus
discurso na compreensão das ‘maracás’8 nas mãos. A estada dos
estratégias políticas indígenas representantes indígenas na Europa
(sobretudo a apropriação discursiva) foi marcada por cerimônias solenes,
criadas em contextos de interações ‘exóticas’ aos olhos dos franceses.
com o mundo não indígena no Entre elas estão o encontro dos Tupi
período colonial? Quais as com o rei Luís XIII, a rainha Maria de
motivações – indígenas e não Médicis (sua mãe) e todo seu
142
9
Os colchetes indicam
possibilidades outras de
interpretação e não constam
séquito, no palácio do Louvre, terra padres, filhos verdadeiros de no original.
Tupã, para cuidar de nós: faz
símbolo do poder real francês. bastante tempo já que eles foram 10
“Grand Monarque, tu as eu
Foi assim, em meio a para a nossa terra, não foram para lá agreable de nous envoyer des
em vão. É sabido que nossos chefes
personalidades político-religiosas da nos fizeram vir ao vosso país, para
grands personnages avec des
Prophetes pour nous
época que Itapucu discursou em sermos teus vassalos. Te pedimos enseigner la Loy de Dieu &
língua tupinambá. Segue abaixo o ainda que sejam fornecidos homens nous maintenir contre nos
santos para nossos conterrâneos [os ennemis. A iamais nous t’en
discurso, recuperado para o presente habitantes da nossa terra], que serons redevables: d’autant
artigo com o auxílio da linguista Ruth conheçam bem a Tupã e sejam que iusques à present nous
nossos professores. E valentes avons mené une vie
Monserrat. [guerreiros] também para nos miserable, sans loy & sans
proteger [salvar]. Todos os meus foy, nous entremangeans les
Ybý-iára, nde angaturám-eté erimbaé conterrâneos [os habitantes da minha uns les autres. I’admire ta
apyáva mborubixába kyrymbába terra] são teus servos, e oxalá sejam grandeur te voyant le
mondóbe xe-retama pupé paí ore s- compadres [aliados] dos Caraíbas. Monarque d’une telle nation
epiác ianondé ore-mboé-potár Tupan et d’un si grande païs. Et suis
nheengára ri re-pycyrõ apyá-memoã Se compararmos o discurso de honteux de me presenter icy
çuí. Oré oro-icó pe-rerecoár-eté-ramo devant toy, reconnoissant la
cuesé-nheým oro-icó iuruparí raýr- Itapucu com a tradução em francês difference qu’il y a entre les
amo, oro-io-ú racaé. Xe-putupab nde- de Claude d’Abbeville10, enfans de Dieu, que vous
yburuçú recé nde-repiác apyába opá- estes, et les enfants de
catú nde-remimboé cecó-reme yby
perceberemos uma diferença entre o Ieropary [diable], tel que
turuçú-baé nde iára cecó-reme. A-ie- que foi dito pelo indígena e a versão nous avons tousiour esté. Tu
momoryb-uçú nde-robaké ui-t-ú nde- as bien de l’honneur de nos
do capuchinho, nada acidental, diga- avoir envoyé de tels
repiác-potá Tupan raýra cuáb pe-
iabé-nhé cuesé-nheým iuruparí se de passagem. O mesmo foi prophetes & de si braves
raýra oro-icó. Nde angaturám-eté observado por Rodolfo Garcia (1923) hommes; & tu as fort bien
erimbaé apyába mondo-bé xe-retama fait, car ils n’ont pas esté
pupé paí Tupan raýr-eté ore-repiac em seu “Glossário das palavras e inutiles. En reconnoissance
ianondé: augé catú erimbaé i-xó-u frases em língua tupi...”. de quoy les principaux de
ore-retáma pupé n-o-só-i tenhé nostre païs nous ont icy
ebapó. I-ie-coapáb-amo ore-rubixaba Restaurando e traduzindo o discurso envoyé au nom de toute
ore-mboúr-ucár pe-retama pupé nde- indígena, Garcia diz que o texto em nostre nation pour faire
recé ieruré nde-remimboya ri t-oro- hommage à ta grandeur telle
icó-u. Oro-jeruré bé nde-recé t-o-
tupi não corresponde à tradução que nous devons, & te
nhe-meéng apyába angaturám ore- francesa que o acompanha. Para supplier de nous envoyer
retám-pora ri i-emboéçába Tupan nombre desdits Prophetes
Afonso Arinos de Melo Franco (2000:
recé ie-catú-baé ore-mboesára aé t- pour nous faire enfans de
o-icó. Kyrymbába abé ore-pysyrõ irã 100), a preocupação de D’Abbeville dieu & de grands guerriers
t-o-icó, opa-catú xe-yby-póra nde- foi “amoldar as palavras do selvagem pour nous maintenir,
remimbói-amo s-ecó-u, apyába protestants qu’à iamais nous
carayba atoaçaba t-oro-icó. aos interesses da sua Ordem” e seu demeurons tes subiects & tes
discurso “está longe de ser fiel ao serviteurs treshumbles &
[versão em português] Senhor da tresfideles, & fideles amis de
original”. Rodolfo Garcia, no entanto, tous les François”
terra, foste muito generoso por teres
mandado chefes valentes para a também faz algumas traduções (D’Abbeville, 1614: 341 f e
minha terra, e padres para, antes v).
indevidas, sobretudo quando ele diz
[mesmo]9 de nos ver, queriam nos
ensinar as palavras de Tupã e nos que Itapucu menciona a necessidade 11
De acordo com D’Abbeville
salvar dos homens maus. Nós somos do rei ir ao Maranhão. Essa fala (1614), David Migan era
vossos verdadeiros guardiões [os que natural de Dieppe e foi um
cuidam, zelam por alguém]. Outrora
inexiste no discurso transcrito por marinheiro que viveu desde
nós fomos filhos de jurupari (diabo), D’Abbeville em língua indígena. muito jovem no Brasil. Melhor
nos comíamos uns aos outros. Estou “truchement” da colônia, ele
O padre capuchinho conhecia voltou na viagem de regresso
maravilhado com tua grandeza
[poder], todos te olham [respeitam] e a língua tupinambá e contou com a do padre capuchinho à França
aos teus ensinamentos, por seres e acompanhou a estada dos
ajuda do “truchement” (tradutor) Tupi na Europa. Faleceu no
dono de uma terra tão grande. Eu me
regozijo muito vindo diante de ti, David Migan11 para escrever e Maranhão, em 1615, na
guerra entre franceses e
querendo te ver e conhecendo os traduzir a “harangue” de Itapucu. Na
filhos de Tupã, outrora éramos filhos portugueses pelo controle da
do jurupari. Foste muito generoso por
versão francesa, identificamos o região (Obermeier, 2005:
teres mandado de novo para a minha acréscimo de duas frases, 203). Era comum o envio de
crianças europeias ao Brasil
143 para aprenderem as línguas
indígenas, explica Franz
Obermeier (2005). Essa foi
uma prática recorrente dos
franceses.
inexistentes no manuscrito original, indígenas da costa brasileira,
que atribuem sentidos outros ao vulgarizada desde os primeiros 12
De acordo com Pero de
Magalhães Gândavo, “A
discurso. São elas: “(...) d’autant que séculos de colonização. Para Carneiro língua deste gentio toda pela
iusques à present nous avons mené da Cunha (2009: 186), trata-se da Costa he huma: carece de
une vie miserable, sans loy & sans forma canônica de Gândavo12, que no três letras –scilicet, não se
acha nella F, nem L, nem R,
foy, nous entremangeans les uns les século XVI torna-se lugar-comum e cousa digna de espanto,
autres”. Tradução: (especialmente será retomada posteriormente por porque assi não têm Fé,
nem Lei, nem Rei; e desta
porque até agora levamos uma vida Gabriel Soares de Souza. Não por maneira vivem sem justiça e
miserável, sem lei, nem fé, acaso docilidade e simplicidade, desordenadamente”.
(Gândavo [1570] 1980: 52).
devorando-nos uns aos outros) “& peculiaridades do indígena
tes serviteurs treshumbles & americano, garantem a constituição
tresfideles, & fideles amis de tous les do mito do “bom selvagem”,
François”. Tradução: (seus servos conforme apontou Adone Agnolin
humildes, muito fieis, fieis amigos de (2006).
todos os franceses). A partir da restauração do
Os trechos acrescidos estão discurso em língua tupinambá, no
associados às estratégias de Claude entanto, é possível afirmar que
d’Abbeville de apologia à empresa Itapucu, de forma simples e direta,
francesa de colonização e agradece ao rei francês o envio de
catequização no Maranhão. São Paí (padres) e kyrymbába (valentes,
procedimentos retóricos cujo efeito guerreiros) para ajudá-los a
esperado – no leitor, sobretudo no enfrentar os apoyämemoüa (homens
soberano francês – era de maus). É interessante notar que o
convencimento. Convencer, por um índio não usou a palavra
lado, da necessidade de manutenção motareymbára (de motár-eym ‘os
de uma política de colonização que não gostam, odeiam’, ou seja,
efetiva de terras em domínio ‘os inimigos’), como traduz
português, por outro, persuadir da D’Abbeville para o francês. Itapucu
essencial evangelização das almas diz apoyämemoüa (‘homens maus’).
indígenas (Daher, 2007: 277), tendo Habilidoso com as palavras –
em vista que os Tupi, no olhar atributo por vezes destacado pelo
capuchinho, eram fácil e missionário – Itapucu profere um
voluntariamente convertíveis. Apesar discurso marcado pela diplomacia
disso, a comparação do manuscrito indígena, evidente, por exemplo, no
com a tradução em francês nos uso de expressões indígenas, que ora
permite supor que o discurso foi destacavam a grandeza e
proferido realmente por Itapucu, se generosidade de Luis XIII, ora
não na íntegra, pelo menos em colocava os Tupi na condição de
parte. súditos reais. Ele emprega, por
A ausência de lei e fé, ‘na exemplo, o termo yvyîara, ‘senhor da
boca’ de Itapucu, potencializava a terra’, para qualificar o soberano e
imagem do indígena convertido e enfatizar seu poder, como na frase:
passível de ser convertido, construída Xe-putupab nde-yburuçú recé nde-
por D’Abbeville em seu livro. O repiác apyába opá-catú nde-
trecho diz respeito à caracterização remimboé cecó-reme yby turuçú-baé
depreciativa das sociedades nde iara – “Estou maravilhado com
144
tua grandeza (poder), todos os de ambos como “gênio mau das
homens te olham (respeitam), teus matas”. Nas mitologias indígenas, 13
Jurupari era um herói
súditos, porque és dono de uma terra contudo, anhanga e jurupary13 são civilizador (dos povos
indígenas da região Norte)
tão grande” (tradução de Ruth heróis civilizadores, pertencentes ao que foi considerado o
Monserrat). universo cultural e religioso desses diabo, durante três
séculos, por missionários e
Atribuir aos Tupi o lugar de povos. cronistas. Foi Stradelli, no
servos implicava não somente estar, Os documentos históricos são final do século XIX e início
aparentemente, sob o julgo francês, um procedimento de tradução duplo: do XX, quem desconstruiu
a imagem satanizada de
mas conseguir apoio bélico contra da língua indígena para uma língua Jurupari (Bessa Freire,
outros povos inimigos e a ameaça europeia e do registro oral para o 2004).

iminente dos portugueses no registro escrito. Bessa Freire (2009)


Maranhão, possibilitando assim a chama atenção para o difícil processo
permanência dos chamados de tradução de universos culturais e
Tupinambá na região. Talvez aqui linguísticos completamente distintos.
estejamos diante de um jogo O pesquisador ressalta dois
semântico, através do qual Itapucu problemas cruciais: um de afinidade
mostrava que seu objetivo era tipológica das línguas em questão e
alinhar-se aos horizontes de outro do tipo de registro. O problema
perspectiva dos franceses, radica na ausência de
característica discursiva, entre correspondentes, nas línguas
outras, do que Lienhard (1992) europeias, das categorias indígenas.
chamou de discurso destinado aos Isso se deve ao fato, segundo Bessa
‘extraños’. O fato de Itapucu afirmar Freire, da dificuldade de encontrar
serem os Tupi filhos de jurupari e os equivalências entre línguas
franceses filhos de tupã reforça esse radicalmente diversas. O resultado é
argumento. a simplificação, deformação da
No bojo dessa distinção, é diversidade cultural e dos saberes
preciso dizer, está a apropriação da indígenas expressos nos documentos.
retórica missionária, recorrente na A assertiva de Itapucu, portanto,
época. Conforme Agnolin (2006: 30- aparentemente mostra o
31), uma das estratégias utilizadas enquadramento dos Tupi na
para a eficácia da evangelização foi a perspectiva dos religiosos, pois aos
apropriação dos repertórios culturais filhos de juruparí, o diabo como
indígenas. Processo este efetivado, traduz D’Abbeville, cabia a
sobretudo, no plano linguístico, pois evangelização. Isso implicava, ainda,
“os missionários buscavam a na aceitação de aspectos
possibilidade de entrever econômicos, políticos e culturais da
equivalências e, portanto, sociedade francesa. Assim,
possibilidades de traduções entre as reforçava-se a necessidade do envio
duas realidades culturais (a indígena de religiosos e a manutenção da
e a europeia)”. Nesse sentido, impôs- empresa colonial na região Norte
se a tradução do nome de Deus como brasileira.
tupã e o do diabo como anhanga ou Atuando como mediador entre
jurupary (mais conhecido no Norte a sua própria cultura e a de seus
do Brasil). Em Lemos Barbosa (1956: aliados europeus, todo o discurso de
383-384), encontramos a tradução Itapucu apoia-se em expressões que
145
fortalecem os laços de amizade e Ravardière, mas que sua vida foi
aliança entre franceses e Tupi, marcada por adversidades, 14
Daniel de La Touche,
sintetizada na última frase Xe principalmente após uma tentativa protestante, foi um
personagem importante na
ybypóra nde remimbói amo secóu, de regresso ao Brasil com o capitão implantação da França
apyába carayba atoaçaba toroicó du Bos. A embarcação sofreu um Equinocial. Seguindo a
tradição familiar, serviu nas
[Meus conterrâneos (os Tupi) serão ataque pirata, na costa inglesa, e forças armadas terrestres,
teus súditos e compadres dos após vários incidentes Itapucu tornando-se marinheiro.
caraíbas]. Itapucu, então, termina conseguiu regressar à França e Casou-se com Charlotte de
Montgomery, pertencente a
propondo a Luís XIII um acordo, pelo chegar ao castelo de La Ravardière, influente família do
qual os Tupi seriam compadres do situado em Poitou. O capitão estava protestantismo normando, e
por isso seu nome é
monarca se ele enviasse mais padres no Brasil, mas sua mulher permitiu constantemente associado ao
e guerreiros ao Maranhão. Desse que o índio ali permanecesse. dos Montgomery (Daher,
2007: 49). Assim como
modo, os franceses seriam atuasaba Divergências, no entanto, com a François de Razilly, foi
(compadres, sócios, aliados, cf. Senhora de La Ravardière, fizeram nomeado pela rainha regente
“lugar-tenente do rei no
Lemos Barbosa, 1956: 424) dos com que Itapucu fugisse para a
Maranhão” e esteve diversas
indígenas. O compadrio era uma cidade de La Rochelle, rumo a Paris. vezes na região, como atesta
prática cultural importante para os A razão da dissensão é digna o próprio Claude D’Abbeville
(1614: 13v).
Tupi, uma estratégia de aliança. de nota, como nos conta Melo
15
Sabe-se que Itapucu viajou Franco. Após a queda de um leitão Jean Mocquet foi um
viajante francês e sucessor
para a França pela primeira vez em no fosso do castelo, a senhora de La de André Thevet como
1604, quando Daniel de La Touche14, Ravardière ordenou que seus homens “Guardião do Gabinete das
Singularidades do Rei”
o Senhor de La Ravardière, esteve no e Itapucu retirassem o animal de lá. (Daher, 2007: 275). Mocquet
Maranhão, com o viajante Jean Humilhado, Itapucu recusa-se a voltaria a reencontrar
Mocquet15. Itapucu permaneceu por ajudar, pois aquele não era um Itapucu, em 1613, no
convento dos Capuchinhos,
alguns anos na Europa e regressou trabalho digno de um chefe indígena. onde ele e os outros cinco
ao Brasil (no ano de 1612) na Tendo sido maltratado e insultado Tupi ficaram hospedados.

expedição comandada por François pela nobre, ele decide fugir,


de Razilly. É o que nos conta Afonso reencontrando-se tempos depois, já
Arinos de Melo Franco, que em 1937 em Paris, com Jean Mocquet, que o
já chamava a atenção para a acolheu. Na ocasião, Mocquet o leva
circulação atlântica de indígenas. No até o rei, Luís XIII, com quem
livro O Índio brasileiro e a Revolução Itapucu dialoga em tupinambá,
Francesa, o diplomata discute o uso apenas para atender à curiosidade
da mão de obra indígena na Europa, real. O monarca lhe concede algumas
classificada por ele como ‘escrava’, e moedas e Itapucu segue para Hâvre,
com base na documentação histórica onde a Senhora de La Ravardière
faz um pequeno levantamento do mandou buscá-lo (Daher, 2007:
número de indígenas enviados ao 275). Itapucu estaria mais uma vez
outro lado do Atlântico por religiosos diante do rei, agora em visita oficial,
e conquistadores nos primeiros no ano de 1613, para
séculos de colonização, apresentando diplomaticamente fortalecer a aliança
ao leitor interessantes histórias de franco-tupi.
indígenas no Velho Continente. A passagem da comitiva
Sobre Itapucu, Melo Franco indígena pela França foi marcada por
(2000: 96) relata que ele morou na festas e cerimônias solenes, à
França com o Senhor de La semelhança da festa brasileira
146
16
Em 1550, na cidade
celebrada sessenta e três anos antes
francesa de Rouen, foi
em Rouen16, no ano de 1550. Entre celebrada uma festa (“fête
os festejos, destacou-se o batismo brésilienne”) para
homenagear os reis
dos três indígenas que Henrique II e Catarina de
permaneceram vivos – Itapucu (Luís Médicis que a visitavam
(Denis, 2000). Na ocasião,
Maria), Guaraju (Luís Henrique) e às margens do rio Sena, foi
Japuaí (Luís de São João)17. Eles construída uma floresta
tropical (araras, papagaios,
foram batizados em 24 de julho de macacos, periquitos
1613, dia de São João Batista, na concederam um toque de
realidade ao cenário) com
igreja dos capuchinhos, e tiveram
réplicas de aldeias indígenas
como padrinhos o monarca Luís XIII e 300 pessoas – entre
e a rainha regente, Maria de Médicis. mulheres francesas,
marinheiros normandos e
A data é emblemática, pois na bretões, além de 50
liturgia católica o batismo é um ritual indígenas que encenavam
suas vidas no Brasil,
onde o iniciado renasce (ou nasce de conforme explica Navarro
novo) através da água, de um nome (2008: 23). Nus e pintados
com urucum, os atores
(no caso dos índios, uma simulavam guerras,
denominação cristã) para ter acesso dançavam, fumavam tabaco,
ao reino dos céus18. Não podemos entre outros. Segundo
Afonso Arinos (2000: 89) “a
esquecer que João Batista, foi um festa brasileira de Rouen
profeta, responsável pelo batismo de Figura 1: Itapucu vestido à francesa, (...) é talvez a mais
representando o indígena passível de interessante demonstração
muitos judeus, entre eles Jesus da frequência e importância
conversão proposto pelo religioso.
Cristo, no rio Jordão. Gravura de Leonard Gaulthier das relações existentes no
(D’Abbeville, 1614). século XVI entre os povos
A França Equinocial, sem o primitivos do Brasil e a
apoio militar francês, não resistiria França”.
foram representados como viviam no
por muito tempo. Conscientes disso,
Maranhão: seminus, com suas 17
Antes de falecerem em
os capuchinhos e nobres Paris, vítimas de moléstias,
indumentárias de penas e armas
promoveram uma campanha Caripira, Manẽ e Patua
indígenas (arcos e flechas) – foram batizados no leito de
publicitária em prol da mesma, morte, recebendo
mantendo, inclusive, as
incluindo entre as estratégias para respectivamente os nomes
escarificações de Caripirá. Já cristãos Francisco, Antônio e
sensibilizar seus conterrâneos o
Itapucu, Guaraju e Japuaí foram Jacques. De acordo com as
batismo dos Tupi, a publicação do informações dadas a José
representados com vestimentas Ribamar Bessa Freire pelo fr.
livro de D’Abbeville (Obermeier,
francesas, calçados, chapéus, Pio Murat, diretor da
2005: 199) e, posteriormente a 'Bibliothèque Franciscaine
segurando lírios, símbolo da Provinciale des Capucins de
edição da crônica do padre Yves
inocência (Obermeier, 2005), mas Paris', o cemitério particular
d’Évreux, editada somente no século dos capuchinhos, localizado
também da França, pois a flor-de-lis
XIX por Ferdinand Denis19. A até o início do século XIX no
é uma figura heráldica associada à convento da rue Saint-
empresa colonial e a presença dos Honoré, foi desativado no
monarquia francesa (Pastoureau,
Tupi em Paris foram registradas no período do Consulado
1995). (primeira fase do governo de
Mercure François de 1613, em cartas
A Corte francesa, no entanto, Napoleão Bonaparte),
e gravuras, incluindo as imagens dos quando os cemitérios foram
não se interessaria em manter uma secularizados. Nesse
embaixadores indígenas de autoria
colônia no Maranhão, sobretudo após período, os restos mortais ali
do gavurista Léonard Gualtier20 presentes, entre os quais os
o casamento do rei Luís XIII com a
(Obemerier, 2005; Daher, 2007). dos três Tupi, foram
princesa Anne d’Autriche, em 1615, transferidos para as
Vale lembrar que os três Catacumbas de Denfert
filha de Felipe II, rei de Espanha. O
índios, vitimados por febres em Paris, Rochereau (Paris XIV), onde
permanecem até os dias
147 atuais misturados e sem
qualquer menção aos corpos
dos indígenas.
com La Ravardière as estratégias de
paz e retirada dos franceses dos 18
Cf.
domínios portugueses, recebeu os http://www.ofielcatolico.com
.br/
cumprimentos de dois indígenas
vestidos à francesa “com calções e 19
O livro do padre
capuchinho Yves d’Évreux foi
casacas curtas de veludo carmesim, publicado somente em 1864
guarnecidas de pêsames de ouro fino por Ferdinad Denis,
historiador francês, que
(...) Traziam consigo suas mulheres,
encontrou a crônica na
moças francesas brancas, vestidas de Biblioteca de Sainte-
damas” (Campos Moreno, 1874: Geneviève. Após a
impressão, a crônica foi
250). Eram dois dos três Tupi parcialmente destruída na
levados por D’Abbeville à França, oficina do impressor François
Huby – responsável pela
pois o outro já tinha morrido. edição da narrativa do livro
A visita diplomática dos Tupi, de Claude d’Abbeville.
François de Rasilly, todavia,
sobretudo o papel político organizou e conservou as
desempenhado por Itapucu, partes da obra, escrevendo
reforçaram a aliança franco-tupi, um pequeno prefácio no qual
relata como salvou o resto
garantindo, por um lado, a do livro. Ele doou o
permanência dos franceses na Ilha manuscrito ao rei Luis XIII
em 1618. O exemplar foi
de São Luís do Maranhão (por um conservado na Biblioteca
tempo mais,) e, por outro, a Real.
sobrevivência dos próprios Tupi. 20
Gaultier era um gravador
Figura 2: Caripirá (François, após o batismo),
morto na França. Fonte: D'Abbeville, 1614. Derrotados por povos indígenas alemão que vivia em Paris,
onde realizou diversas
inimigos, aliados dos portugueses, os
gravuras para os reis
apoio da monarquia francesa aos Tupi foram mortos, feitos cativos, franceses (Daher, 2007:
Tupi estava ameaçado, pois o rei outros migraram para a região do 306).
espanhol era soberano de Portugal e Amazonas. O padre jesuíta Manuel
suas colônias, num período Gomes, em carta datada de 1621,
conhecido historicamente como União relata a violência usada pelos
Ibérica. A manutenção da França portugueses contra os indígenas:
Equinocial, portanto, seria
interpretada como um rompimento “(...) el rei de espanha e o Papa erão
da aliança franco-espanhola. Apesar os dous piores homens do mundo,
que mandavão a seus soldados e
disso, os franceses permaneceriam capitãis cometter tantas injustiças. No
até 1615 no Maranhão, quando rio Para cativaram e matarão mais de
trinta mil almas injustamente e
foram expulsos definitivamente pelos dispois de terem asentado pases. Na
portugueses após a batalha na região provincia do Cuman (...) não ha oje
huma so alma porque tudo destruiram
de Guaxenduba ou Guaxinduba os Portugueses”. (In: Daher, 2007:
(Daher, 2007: 71). 339)
Quanto aos indígenas,
permaneceriam na Europa até 1614 Como ressaltou Andrea Daher
e retornariam ao Maranhão, casados (2007: 339), “O Maranhão voltou a
com mulheres francesas (Melo ser português pela pregação e pelas
Franco, 2000: 102). No mesmo ano, armas”.
na Ilha de São Luís, o sargento-mor
Diogo de Campos Moreno, ao discutir Considerações finais

148
Priorizando a análise do papel possibilitaram conservar uma
ativo e criativo de atores indígenas, autonomia relativa diante das
procuramos demonstrar aqui, a partir imposições do novo contexto político-
de um diálogo interdisciplinar, a sociocultural. Foi o que fizeram os
dinâmica da vida social e da Tupi do Maranhão que enviaram uma
construção de identidades nas comitiva de embaixadores para, na
interações franco-tupis no França, falar diretamente com Luís
Setecentos. Longe de poderem ser XIII e reforçar a aliança franco-tupi.
compreendidos a partir de visões A análise do discurso de Itapucu,
estereotipadas, os indígenas foram e sobretudo no plano de sua estrutura
são agentes do processo histórico, linguística, revelou contradições
que dialogaram com os novos entre o dito e o traduzido, entre a
tempos, apropriando ou rejeitando preleção/arenga do chefe indígena e
elementos disponíveis no repertório a tradução do padre capuchinho.
cultural do invasor europeu. Entre as Ambos, embora com interesses
estratégias indígenas utilizadas está distintos, tinham um objetivo
a apropriação dos códigos discursivos comum: a manutenção da França
e retóricos, dos colonizadores, além Equinocial.
da diplomacia. Assim ‘dotados de O processo de reelaboração
fala’, os índios criaram um tipo de do discurso de Itapucu por Claude
discurso peculiar, sedutor: o discurso d’Abbeville tornou-se evidente no
destinado aos outros – aqui acréscimo de frases não ditas e na
compreendido como o resultado de tradução distorcida de algumas
disputas simbólicas, no contexto de palavras tupi, empregadas pelo
colonização, e não apenas como diplomata indígena. Essas
ferramenta de validação dos projetos constatações enfatizam a dificuldade
de conquista e catequização e a complexidade das traduções,
europeus. especialmente quando se trata de
Uma leitura possível é a de universos radicalmente distintos:
que os indígenas jamais deixaram de oralidade versus escrita, língua
atuar como sujeitos históricos frente tupinambá versus idioma francês,
ao sistema colonial; eles criaram além dos aspectos culturais.
estratégias de negociação que lhes

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RECEBIDO EM 12/12/2016
APROVADO EM 14/01/2016

151
QUANDO AS CHEFIAS INDÍGENAS
SE FORTALECEM ENQUANTO Abstract: This research aimed to know
PEQUENA NOBREZA NOS the process of incorporation of some
Indian chiefs in political logic of the
SERTÕES DAS CAPITANIAS DO
colonial administration that dug its
NORTE NA SEGUNDA METADE DO
tentacles in the northern hinterlands of
SÉCULO XVIII the captaincy and led to a slightly more
precise about the changes brought about
Drª. Juciene Ricarte Apolinário by indigenous legislation in boundaries
Universidade Federal de Campina between ethnic Indians and settlers,
Grande especially the introduction of the
apolinarioju@hotmail.com Directory of India in the second half of
the eighteenth century, and the
Resumo: A presente pesquisa teve o consequent creation of new indigenous
objetivo de conhecer o processo de elites. In the process of colonization of
incorporação de algumas chefias the northern hinterland of the captaincy
indígenas na lógica política da in the main brokers that were
administração colonial que fincou seus subsequently applied for patents officers
tentáculos nos sertões das capitanias do deployed to the villages from the
nortee nos conduziu a uma visão um directory. Characters who articulate the
pouco mais precisa sobre as demands of their ethnic origin brought
transformações trazidas pela legislação about by the new order, if installed. Thus,
indigenista nas fronteiras interétnicas the political practices of co-optation and
entre indígenas e colonizadores, exploitation of indigenous chiefs became
especialmente, pela introdução do monarchical tradition of the Portuguese
Diretório dos Índios na segunda metade State in dealing with the conquered
do século XVIII, e a consequente criação populations, aiming to control new
das novas elites indígenas. No processo populations. The more loyal and helpful
de colonização dos sertões das capitanias to the sovereign, more honor and
do norte os principais constituíam em privilege met the so-called "noble of the
intermediários políticos que, earth" that included the main indigenous,
posteriormente, solicitaram patentes de especially with the implementation of the
oficiais das vilas implantadas a partir do Directory of the Indians.
Diretório. Personagens que articulariam Keywords: indigenous leadership,
as demandas dos seus grupos étnicos de gentry, flagship of the North, political
origem às trazidas pela nova ordem que culture
se instalava. Destarte, as práticas
políticas de cooptação e valorização das Introdução
chefias indígenas tornaram-se tradição do A presente pesquisa teve o
Estado monárquico português no trato objetivo de conhecer o processo de
com as populações conquistadas, incorporação de algumas chefias
objetivando o controle de novas indígenas, na lógica política da
populações. Quanto mais leais e úteis ao
administração colonial que fincou
soberano, mais honra e privilégios
seus tentáculos nos sertões das
reuniam os chamados “nobres da terra”
que incluíam os principais indígenas,
capitanias do norte da América
especialmente, com a implantação do Portuguesa e nos conduziu a uma
Diretório dos Índios. visão um pouco mais precisa sobre
Palavras-chave: chefias indígenas, as transformações trazidas pela
pequena nobreza, capitanias do Norte, legislação indigenista nas fronteiras
cultura política
152
interétnicas entre indígenas e objetivando prover seus liderados. A
colonizadores, especialmente, na “nobreza” do líder indígena estava e
segunda metade do século XVIII e a ainda está na capacidade de
conseqüente criação das novas elites transformar relações de parentesco,
indígenas. No processo de de nominação, de construir caminhos
colonização dos sertões das adaptativos sejam culturais,
capitanias do norte, os indígenas religiosos e, principalmente, de novas
chamados de “principais” constituíam territorialidades. Como afirma
em intermediários políticos que, Manuela Carneiro da Cunha muitos
posteriormente, solicitaram patentes das chefias indígenas ao longo da
de oficiais das vilas implantadas a história acreditavam que tinham a
partir do Diretório dos Índios em missão de “pacificar o branco”
1758. arrogando para si a posição de
Personagens que articularam sujeito e não de vítima nos primeiros
as demandas dos seus grupos contatos com os colonizadores
étnicos, às trazidas pela nova ordem (CUNHA, 2002, p 7). Estas lideranças
que se instalava. Destarte, as se tornaram famosos e tiveram seus
práticas políticas de cooptação e nomes divulgados pelos seus feitos a
valorização das chefias indígenas favor ou contra os vassalos de Sua
tornaram-se tradição no Estado Majestade. Alguns citados, por
monárquico português, através da exemplo, em um curioso documento
administração colonial, objetivando o de meados do século XVIII,
controle de novas populações. Mas provavelmente escrito por um
não se pode deixar de dar visibilidade jesuíta, que elencou 25 exemplos de
aos papeis desempenhados pelas “Índios Famosos em Armas que neste
lideranças indígenas na trama de Estado do Brasil concorreram para
poderes da pequena nobreza nos sua conquista temporal e espiritual.”
espaços coloniais. Quanto mais leais John Monteiro destaca no referido
e úteis ao soberano, mais honra e documento o inesquecível Dom Filipe
privilégios reuniam os chamados Camarão, Pindobuçu índio
“nobres da terra” que incluíam os magnânimo intrépido e guerreiro, o
principais e oficiais indígenas, celebrado Tacaranha, Garcia de Sá,
especialmente, com a implantação do Arco Grande entre outros (FAUSTO &
Diretório dos Índios. MONTEIRO, 2007, p. 57).
Antes de tudo grande parte
dos líderes indígenas (Re) conhecimentos da “nobreza
eramrespeitados e, nobres diante de indígena” nos contatos
seu povo, como pessoas que interétnicos
conheciam as suas histórias fincadas As chefias indígenas e seus
nos mitos fundantes advindas as grupos étnicos buscavam
tradição oral dos seus velhos e “domesticar” o colonizador no
velhas. Para ser chefe precisava ter processo chamado pela antropologia
prestígio e para ter prestígio tinha de “cosmologias de contato”,
que ter liderança, carisma e, procurando entrar em novas relações
especialmente, generosidade para com os não-indígenas, recrutá-los em
com os membros do seu grupo suma para sua própria continuidade
153
(ALBERT, RAMOS, 2007, 07).Os contatos travados no cotidiano
primeiros contatos entre os grupos sertanejo tiveram que lidar com
étnicos que viviam nos sertões das situações de acomodação e conflito
capitanias do norte e os não- de grupos humanos que objetivavam
indígenas, apresentavam tomar posse do “outro”, do seu
circunstâncias de negociações e território, das suas práticas culturais
conflitos entre sujeitos com pautas e, notadamente, impor um modo de
culturais e historicidades distintas. vida fincado nos ditames impostos
Podemos exemplificar nomes de pelos “hábitos” da nobreza europeia.
chefias indígenas que se destacaram A adaptação à ordem
nas pelejas dos contatos e colonial também age em outros
negociações interétnicas como é o níveis, especialmente, no
caso do líder dos Janduí, denominado estabelecimento de relações de
Kanindé, envolto nas lutas travadas poder. A possibilidade da concessão
nos sertões das capitanias do Norte. de benefícios aos chefes indígenas no
Foi capturado e preso entre as processo pós-contato era um
fronteiras da Paraíba e Pernambuco, estímulo a inserção dos indivíduos a
reconhecido pelos próprios nova organização social em que eles
representantes da Coroa portuguesa teriam que se adaptar. Os títulos e
como “rei dos Janduí”, pois soube patentes, fornecidos as lideranças
criar mecanismos políticos de indígenas no processo de colonização
poder/saber ora conflituosos, ora de da América Portuguesa, serviam
alianças com os não-indígenas. como forma de garantir e reforçar as
Destacaram-se também o líder alianças estabelecidas, possibilitando
Cavalcante dos Ariú, o chefe Timbira a permanência e atuação indígena
Bruenk, este último era um através de cooptação à estrutura de
importante interlocutor político dos poder. “O imperativo do dar criava
Akroá Assú e Mirim que estiveram uma cadeia de obrigações recíprocas:
presentes nos territórios do sul do disponibilidade para o serviço régio;
Piauí até as paragens do rio São pedido de mercês ao rei em
Francisco nos sertões de Pernambuco retribuição aos serviços prestados;
e Bahia; os principais Mathias Peca e atribuição/doação de mercês por
Jenipapuassu articuladores dos parte do rei”(BICALHO, 2003, p. 47).
acordos de paz na capitania do Ceará A monarquia viria a se instituir como
e outros que não caberia citar nessas o elemento regulador fundamental no
poucas páginas. acesso aos diversos graus de nobreza
Revisitando o evento da o que valia para qualquer forma de
rendição dos índios Janduí, através mobilidade social.
de seu líder indígena Kanindé, ao A legislação portuguesa
contrário de diferentes acordos de procurou premiar as chefias
paz, a Coroa portuguesa havia “lhes indígenas ofertando os melhores
dado algo único na história do Brasil: lugares de poder (MONTEIRO, 2003,
reconhecimento como um reino p. 45). Sendo assim, eles passavam
autônomo e um tratado de paz com a ascender na hierarquia social como
Portugal” (PUNTONE, 2002, p 30). é o caso da premiação do líder
Chefias como Kanindé, na labuta dos indígena, André Vidal de Negreiros,
154
que na segunda metade do século importante “vassalo de Sua
1
Ofício do governado da
XVII foi recompensado por bons Majestade” que chamou sua atenção
capitania de Pernambuco,
serviços militares dedicados aos pela história heróica que perpassava José César de Meneses, ao
interesses dos luso-brasileiros nas as memórias de quem o conhecia nas marquês de Pombal,
Sebastião José de Carvalho
diferentes guerras contra outros lutas contra os “índios brabos”. Ações e Melo. 1775, março,
povos indígenas denominados de de um velho guerreiro a favor dos Recife. AHU_ACL_CU_015,
CX 118, D. 9057.
Tapuia. O referido indígena recebeu a luso-brasileiros que soube reinventar
patente de capitão e confirmação de as relações de poder diante do seu 2
Ofício do [governador da
sesmaria, passando a carregar o grupo e dos não-indígenas. O que capitania de Pernambuco],
José César de Meneses, ao
estigma de “leal e honrado” servidor chama a atenção do governador é a
[secretário de estado da
da monarquia. lucidez do oficial indígena de 124 Marinha e Ultramar],
O que chama atenção na anos, pois em 1773 ainda estava Martinho de Melo e Castro,
trajetória deste líder indígena, é que atuando como Juiz Ordinário na sua 1775, outubro, 10, Recife.
AHU_ACL_CU_015, Cx.
ao receber o sacramento do batismo localidade. Não economizando
120, D. 9199.
pelos missionários jesuítas, passou a palavras para descrever o perfil do
ser chamado de André Vidal de “nobre indígena” o governador
Negreiros, fazendo referência ao informa que ele era um homem
então governador da capitania do destacável por deixar uma
Maranhão que tinha o mesmo nome. descendência invejável, é neste
Este último conquistou seu espaço na aspecto que “... tem sido bom
hierarquia social participando das vassalo de Sua Majestade e fez
chamadas “guerras vivas de guerra aos gentios bravos, têm hoje
conquista e restauração de três filhos machos e cinco fêmeas,
Pernambuco”(BICALHO, 2003, p 33), trinta e três netos, cinqüenta e dois
sendo nomeado para três mandatos bisnetos, quarenta e três terceiros
como governador do Maranhão, netos e vinte e um quartos netos”.1
Pernambuco e Angola. No ano de 1775 o
Curioso é que no processo governador de Pernambuco solicita a
de escolhas das fontes para a coroa portuguesa ajuda de custo
estruturação da presente pesquisa, para a família do indígena André
tive a grata oportunidade de me Vidal de Negreiros, reafirmando a
deparar com o indígena, capitão nobreza dos feitos do aliado guerreiro
André Vidal de Negreiros no ano de contra outros grupos étnicos que
1775 aos 124 anos e fincado na viviam nas fronteiras do sertão.2 A
hierarquia social dos espaços família com dezenas de indivíduos,
cotidiano da capitania do Ceará aparentemente, representavam os
Grande. Naquele momento, o ideais da política pombalina de plena
referido indígena detinha o status de integração da população indígena aos
Capitão dos Reformados de Ceará ditames civilizacionais proposto na
Grande. segunda metade do século XVIII.
Era março de 1775, e o Claro que na pratica não se sabe as
governador de Pernambuco, José reais relações de etnicidade dos seus
César de Meneses envia uma descendentes com a sociedade
correspondência ao Marquês de colonial não-indígenas devido ao
Pombal e, entre outros assuntos, deu silenciamento da documentação.
maior destaque a longevidade de um
155
Em 30 de setembro de 1777, evidenciado que os “capitães” eram
o governador de Pernambuco indígenas escolhidos e colocados na 3
Ofício do [governador da
novamente envia uma direção de grupos e povoações capitania de
Pernambuco], José César
correspondência ao Secretário de indígenas pelas autoridades oficiais,
de Meneses, ao
Estado da Marinha e Ultramar missionários ou simples particulares, [secretário de estado da
expressando grande pesar nas suas como seus delegados. Geralmente, Marinha e Ultramar],
palavras, ao informar acerca do eram indicados aqueles mais Martinho de Melo e
Castro, 1777, setembro,
falecimento do líder indígena, André recíprocos aos interesses do
30, Recife.
Vidal de Negreiros aos “130” anos.3 É colonizador, para servirem de contato AHU_ACL_CU_015, Cx.
perceptível que a legitimação ou intermediários entre seus 127, D. 9668.
conquistada por este “nobre” “parentes” e as autoridades coloniais 4
Requerimento do capitão
indígena foi institucionalizada aos (LOPES, 2005,p 35). Esses capitães dos índios da aldeia de
moldes do Antigo Regime: através da dirigiam as companhias de Jacoqua, João Ribeiro, ao
príncipe regente D. Pedro.
herança do status social (era um ordenações que foram criadas nas 6 de maio de 1676.
respeitado chefe indígena para o seu missões para agirem em favor da Paraíba.
AHU_ACL_CU_014, Cx. 2,
grupo étnico) e pelos serviços Coroa, principalmente, contra outros
D. 98.
prestados ao rei “o que firmava a grupos indígenas que negavam os
5
reciprocidade instituída entre projetos colonizadores, mas também CARTA de Vicente
Ferreira Coelho, ao rei [D.
soberano e vassalo”. Não obstante, à catequização, ou mesmo contra José I], AHU, Paraíba, Cx.
tratava-se de cristalizar o poder dos povos estrangeiros (MONTEIRO, 18, D. 1435.
oficiais índios e seus descendentes a 2007,p 29).
partir da sua caracterização enquanto No entanto, é preciso
“nobreza colonial” (ROCHA, 2009, evidenciar que nem sempre as
p16). patentes repassadas às lideranças
Vejamos outro evento de indígenas eram prerrogativas para
negociação no tocante aos direitos e que estes fossem respeitados e
privilégios agenciados por João diferenciados pela sociedade colonial
Ribeiro capitão dos índios da Aldeia não-indígena. Esta assertiva é
Jacoqua, capitania da Paraíba. Este perceptível no evento ocorrido na
indígena escreveu uma carta ao capitania da Paraíba com o capitão
Conselheiro Ultramarino, pedindo que indígena Panatí e seu grupo étnico.
o rei de Portugal lhe confirmasse a Justificando “não saberem
patente do posto de capitão dos escrever” lideranças dos Panatí
Índios da Aldeia Jacoqua, conforme a solicitaram ao fidalgo, Vicente
jurisdição do Reino de Portugal 4. Ferreira Coelho que redigisse uma
Neste sentido, o requerimento de carta ao rei de Portugal, D. José I em
João Ribeiro representava aos olhos nome de todo o grupo. O dito fidalgo
dos colonizadores portugueses a narra, pormenorizadamente, as
conquista de um título de “nobreza”, violências sofridas pelos Panatí, na
vale ressaltar indígena, por se tratar pessoa do seu capitão, sendo
de um “bom vassalo ou súdito real”, retirada as suas terras pelos
o qual trouxe inúmeros benefícios moradores do sertão para criação de
para as políticas de colonização gado, com “o pretexto de que
portuguesa, principalmente atuando comiam e furtavam lhes os gados”.5
e comandando seus homens nos Os índios despejados não eram
regimentos militares. É preciso deixar aceitos nem pelos moradores do
156
Piancó e “menos os queriam no O documento acima revela
sertão das Piranhas, aonde foram que os Panatí souberam utilizar das
6
também corridos pelos moradores e práticas políticas dos colonizadores Idem, D. 1435.

seu missionário Padre Custódio de de acordo com os seus 7


Certidão (anexa) de
Oliveira”.6 As lideranças Panatí, interesses,interligados “à dinâmica Matias Soares Taveira e
Manuel de Campo do Terço
estrategicamente, recorreram ao de suas organizações sociais, que dos Auxiliares da
governador da capitania da Paraíba igualmente se modificavam no Companhia da Paraíba do
Norte. Certificando os
que decidiu deixá-los retornar e decorrer do processo histórico”
acontecimentos contra
permanecer na sua aldeia. No (ALMEIDA, 2003, p 30). O principal Panatí. AHU_ACL_CU_014,
entanto, foi exigido pela argumento dos Panatí se destaca no Cx. 18, D. 1435.

administração colonial que o capitão documento acima, pois eram “os 8


Carta de Vicente Ferreira
dos Panatí, José Francisco da Silva mais leais vassalos”, já que Coelho, ao rei D. José.
Sobre o que se praticou
cumprisse a promessa de que lembraram que estiveram ao lado com a nação Panatí. 1755,
prenderia qualquer indígena que dos portugueses, em outros tempos, maio, 5, Paraíba.
AHU_ACL_CU_014, Cx. 18,
fosse pego, novamente, roubando contra outros inimigos Tapuia. D. 1435.
nas fazendas dos moradores no Destarte, acreditavam que tinham o
entorno do aldeamento. direito de usufruir da justiça e
O capitão dos índios Panatí, proteção real.
foi chamado pelos representantes da Para a alegria dos Panatí, as
Coroa portuguesa e obrigado a suas solicitações não só chegaram ao
policiar seus parentes, impedindo-os conhecimento do rei D. José I, como
que continuassem os “furtos”. A volta ele baixou uma Provisão de 15 de
dos Panatí ao aldeamento provocou outubro de 1755, direcionado ao
ódio e reações entre os criadores de Ouvidor Geral da Paraíba, ordenando
gado resultando na morte violenta do que se fizesse uma devassa das
capitão José Francisco da Silva, “que mortes dos índios Panatí, e que era
ferido no rosto e nas costas não necessário promover a segurança
resistiu”.7 Diante da situação de destes índios sob a Real Proteção,
perseguição em que estavam vivendo como solicitados, e que se prenda os
nos sertões de Piancó, este grupo culpados. Não se sabe se a provisão
étnico utilizava das estratégias foi realmente cumprida, mas este
políticas e dos caminhos da legislação evento possibilita uma interpretação
indigenista em vigor para de que muitos os indígenas
conquistarem a benevolência do rei passavam a compreender a cadeia de
D. José I. No discurso do obrigações recíprocas constituída no
representante dos Panatí, faz-se Antigo Regime.
questão de evidenciar que,
Lideranças religiosas: marcas da
os índios da nação Panatí com toda cultura política indígena
humildade representam a Vossa
Majestade que sendo os mais leais Entre os grupos étnicos é
vassalos que nunca em tempo algum importante destacar as lideranças
deixaram de merecer o mesmo nome,
nem tomaram vinganças dos brancos
indígenas religiosas. São eles que
nas ocasiões que lhes tem dado, se conheciam e conhecem os destinos
vêm hoje os mais perseguidos e dos espíritos dos “parentes” após a
desgraçados, sem proteção das
justiças por serem muito pobres.8 morte e são eles que, entre os povos
indígenas da capitania de
157
Pernambuco e suas anexas, fitoterápicos e mágicos para os
conheciam os segredos da natureza, próprios missionários carmelitas.
especialmente, as plantas que Como fica claro nas narrativas do
curavam e que favoreciam o transe capitão-mor da Paraíba, ao afirmar
através de folhas especiais que, além dos índios deveriam ser
fornecedoras de líquidos enteógenos investigados pelo visitador e punidos
e, por meio da beberagem, “os clérigos e frades, que também
conduziam os rituais que levavam os estão se vallendo de feiticeiros para
seres humanos aos espíritos as suas curas, e os que menos pecão
ancestrais. Para muitos povos é neste particullaruzão de pallavras de
através dos maracás que os xamãs panos, e de outras superstiçoenz de
falam com os espíritos. São eles os que se valle toda esta gente” 10.
que conhecem, talvez melhor do que Esta informação ilustra o grau de
todos, a ordem do mundo e as suas processos relações interetnicas que
histórias de origensformuladas pelo envolviam as espacialidades dos
seus grupos étnicos e, sertões, ao mesmo tempo em que
especialmente, os novos eventos provocavampreocupações à Igreja
advindos dos contactos com os não Católica pois, não apenas se
indígenas (SILVA, 1988, p 29). Estes mantinham rituais indígenas, tidos
líderes religiosos ameríndios se como feitiçaria, mas também as
destacaram nos aldeamentos da práticas ditas “pecaminosas” que
capitania da Paraíba, especialmente deviam ser por eles combatidas e
na região do Mamanguape, Aldeia de extirpadas, pois encontravam
Boa Vista, na qual viviam os territórios católicos dispostos a se
indígenas da família adaptarem diante de tais crenças
lingüísticaTarairiú: Kanindé e Xukuru, “diabólicas indígenas”. Sendo assim,
sob a tutela dos missionários da ocorre o acirramento das
Ordem do Carmo, religiosos de Santa “identidades étnicas” considerando-
Teresa, os carmelitas. Estes se que a etnicidade é resultante da
indígenas foram deslocados dos relação com o outro étnico, sendo
espaços do sertão até os posta em pauta pelos sujeitos em
aldeamentos do litoral paraibano, virtudes da aceitação, reciprocidade
onde passaram a ressignificar as e/ou negação. A etnicidade é,
suas tradições diante do contínuo portanto, dinâmica assumindo
acirramento de “identidades étnicas” características determinadas em
que tinham que enfrentar no função dos conflitos impostos pelos
processo de contatos com os não- eventos como o que ocorreu em
indígenas. Acontece que as Mamanguape, capitania da Paraíba,
lideranças Xukuru construíram entre missionários e as lideranças
espaços de “nobreza” diante dos religiosas indígenas, por que não
“outros” com pautas culturais dizer da “nobreza espiritual indígena”
distintas e representadas como aos olhos étnicos.
“abomináveis”. Construindo uma Quando descobertas as
cosmologia de contato os líderes transgressões das lideranças
religiosos Tarairiú, repassaram indígenasTarairiú, a impiedadedas
alguns dos seus conhecimentos autoridades lusas foi implacável, pois
158
importava que fosse dado o exemplo, prerrogativas culturais, religiosas e
principalmente aos líderes religiosos, políticas (FREIRE, 2013, p 55). Eles
em uma perseguição às liberdades do não se anularam no contato com
outro, do diferente, do “inimigo”, estes outros, pelo contrário
daquele que o EU encara como uma resistiram – seja através de
ameaça. Este evento nos remete a negociações ou violências – às
Fredrik Barth (1969) quando enfoca imposições que lhes eram
que a diferenciação étnica determinadas. As suas lideranças
permanece, apesar da interação ou religiosas, nobres perante seu povo,
proximidade física e da própria ressignificaram o culto à jurema em
violência entre os grupos, e que forma de agenciamento de seu grupo
longe de levar ao desaparecimento étnico. É nessa perspectiva que para
da diferença por mudança e ser chefe precisava ter prestígio e
aculturação, constitui-se, sim, nas para ter prestígio tinha que ter
bases sobre as quais são levantadas liderança, carisma e, especialmente,
a especificidade e a consciência generosidade para com os membros
étnica. As lideranças religiosas do seu grupo objetivando prover seus
indígenas souberam provocar liderados. A “nobreza” do líder
sentimentos de respeito e temor indígena estava e ainda está na
diante dos colonizadores, capacidade de transformar relações
especialmente religiosos católicos: de parentesco, de nominação, de
não era a extinção do uso da Jurema construir caminhos adaptativos
em si que a cúpula da Igreja Católica sejam culturais, religiosos e,
desejava prioritariamente. Contudo, principalmente, de novas
é possível conjecturar a necessidade territorialidades (APOLINÁRIO, 2011,
de retirar o controle e poder das p 02). Da importância e veneração
lideranças espirituais indígenas que que os indígenas tinham pelas
atuavam nas fímbrias dos sertões, lideranças religiosas, constituíam-se
como agentes de poder das crenças relações de poder internas aos
desses homens e mulheres e do grupos étnicos.
imaginário dos luso-brasileiros. Sim,
pois as lideranças religiosas Tarairiú, Direção ou Diretório:
eram detentoras do segredo da ressignificando as práticas da
Jurema. Portanto, usavam de uma política indigenista portuguesa
cultura política espiritual que tanto de controle e mercês
guiava/influenciava o agenciamento Na segunda metade do
das vivências de seu grupo, quanto século XVIII, o ministro Sebastião
ocasionava conflitos para com os José de Carvalho e Mello, Marques de
representantes lusitanos da Pombal, reestruturou a legislação
empreitada colonizadora católica. As indigenista objetivando integrar os
lideranças Tarairiú de Mamanguape, grupos étnicos à sociedadenão-
apesar das investidas dos indígena da América Portuguesa.
missionários carmelitas e do Para este fim, redimensionou a
representante do Santo Ofício em política indigenista com a publicação
cristianizá-los, regeram suas do Diretório que se deve observar
vivências de acordo com suas nas povoações dos índios do Pará e
159
do Maranhão enquanto Sua que se deslocassem de suas aldeias
Majestade não mandar o contrário, até Recife, objetivando convencê-los 9
Direção com que
transformada em lei por meio do da importância que as mudanças e interinamente se devem
alvará de 17 de agosto de 1758. benesses que a nova política regular os índios das novas
vilas e lugares eretos nas
Na capitaniade Pernambuco, indigenista portuguesa traria para os aldeias dacapitania de
o Diretório foi adaptado aos vassalos indígenas localizados nas Pernambuco e suas anexas,
Revista do Instituto
interesses da administração local, capitanias de Pernambuco e suas Histórico e Geográfico
passando a criar uma versão anexas. E, principalmente, como Brasileiro, XLVI, 1883, pp.
121-171.
denominada de Direção com que cada liderança indígena teria um
interinamente se devem regular os “lugar de destaque” na condução dos 10
Direção, p. 126.
índios das novas vilas e lugares interesses da Coroa portuguesa. 11
Idem.
eretos nas aldeias da capitania de O governador de
12
Pernambuco e suas anexas.9 No Pernambuco resolveu antecipar as Oficio do governador da
capitania de Pernambuco,
discurso da Direção era asseverada a possíveis reivindicações e revoltas Luis Diogo Lobo da Silva,
promessa de integrar os povos que as mudanças trariam na ao secretário de estado a
Marinha e Ultramar, Tomé
indígenas à sociedade portuguesa já condução das vidas dos homens e Joaquim da Costa Corte
que até aquele momento, “não se mulheres indígenas. De acordo com real. Recife. 13 de junho de
1759. AHU_ACL_CU_015,
pode negar que os índios d’este as palavras do dito governador diante Cx. 91, D. 7284.
governo e capitanias anexas se das lideranças indígenas era preciso
13
conservam até agora na mesma “destruir algumas sinistras Idem, D. 7284.

barbaridade, como se vivessem nos impressões que receava lhes


incultos sertões em que nasceram pudessem dar com que obstassem
praticando o péssimo e abomináveis aos ditos estabelecimentos”.12
costumes do paganismo”.10 Parte Destarte, no dia 29 de maio de 1759
deste documento deixa entrever a os principais indígenas chegaram
busca pelos interesses pombalinos de acompanhados dos seus oficiais
uma homogeneidade cultural quando apreensivos com o que estava ainda
passa a transformar as antigas por vir, diante daquele estranho
aldeias em Vilas. Para tanto, é dito convite.
na Direção a necessidade de “civilizar Estrategicamente, entre as
estes até agora infelizes e miseráveis lideranças que se encontravam em
povos, para que sendo da ignorância Recife dois deles foram escolhidos
e rusticidade em que se acham pelo governador de Pernambuco para
reduzidos, passem a ser uteis a si, jantar em sua residência no dia em
aos moradores e Estado”11. que se comemorava o aniversário do
A primeira medida tomada rei D. José I. Era o D. Felipe de
pelo governador a capitania de Sousa e Castro, mestre de campo da
Pernambuco, Luis Diogo Lobo da Serra da Ibiapaba, condecorado com
Silva, ao tomar consciência das a Ordem de São Tiago, “por ser o
mudanças radicais e complexas que a principal chefe”13 já que estaria sobre
Lei do Diretório e, notadamente, a seu domínio mais de sete mil homens
Direção traria as estruturas sócio- e mulheres indígenas e devido à
econômicas e culturais dos homens e participação em diferentes guerras
mulheres indígenas, foi convidar as contra os denominados índios Tapuia.
chefias indígenas das missões O outro líder indígena escolhido para
religiosas do Ceará e Rio Grande para a cerimônia para homenagear o
160
aniversariante, rei D. José, foi o cobranças de impostos “as quais
14
indígena João Soares Algodão “por consistiam em meia pataca que lhes Idem, D. 7284.

motivos de igual qualidade”.14 Estes passava cada índio que saia a 15


Nobert ELIAS. A
líderes indígenas foram, comboiar gados por todo o sociedade de Corte. Rio
16 de Janeiro, Jorge Zarar
primeiramente, presenteados com continente”. O mestre de campo Editor, 2001, p. 103.
roupas que remetia a nobreza lusa e solicitou também a “conservação da
16
Oficio do governador da
foi oferecido “um corte de seda” para sua fazenda de gado e uma especial capitania de Pernambuco,
a mulher de D. Felipe para, distribuição das suas terras”.17 Luis Diogo Lobo da Silva,
estrategicamente, o governador No Diretório, assim como, na ao secretário de estado a
Marinha e Ultramar,
fincar o lugar de poder desta sua versão adaptada a capitania de Tomé Joaquim da Costa
liderança diante dos demais. Ou seja, Pernambuco e suas anexas, os Corte real. Recife. 13 de
junho de 1759.
era preciso cooptá-lo aos interesses prestígios dos oficiais indígenas já AHU_ACL_CU_015, Cx.
de Sua Majestade na aplicação da estavam institucionalizados em 91, D. 7284.
Direção já que ele tinha grande detrimento dos outros indivíduos 17
Idem,D. 7284.
respeito e poder de barganha diante incluídos dos laços de poder/saber do
dos outros principais que se pequeno grupo nobiliárquico das 18
Rafael Ale ROCHA, Os
encontravam no Recife. chefias ameríndias. Não obstante, oficiais índios na
Amazônia Pombalina.
Este documento é revelador para a estruturação das novas Sociedade, Hierarquia e
da necessidade que se tinha de se espacialidades de sociabilidade e Resistência (1751-1798).
Dissertação apresentada
criar “simbolicamente” o nobre poder, ordenava-se a “diversa ao Programa de Pós-
indígena em detrimento dos que graduação de pessoas a proporção Graduação em História da
Universidade Federal
deveriam se conformar como dos ministérios que exerciam. Os Fluminense, Niterói-RJ,
indivíduo de menor prestígio na principais indígenas foram 2009, p. 40.
trama de poderes do Antigo Regime. destacados nas vilas e lugares como
O evento da presença indígena nas oficiais, referendados enquanto
comemorações do aniversário do rei “nobres” que não deveriam
D. José, nos possibilita referendar o desenvolver atividades mecânicas,
sociólogo Nobert Elias quando como os outros indivíduos de menor
descreve que a sociedade do Antigo prestígio. Entre outros destaques da
Regime controlava via etiqueta, política indigenista pombalina, os
cerimônias, ritos e atividades oficiais indígenas não precisavam
protocolares. Destarte, cada pessoa remar canoas, as formas de vestir
na cerimônia definia o seu lugar na teriam que ser diferenciados como se
hierarquia social. Era o chamado apresentavam na tradição do “ser
“fetiche de prestígio”.15 nobre do Antigo Regime”, e poderiam
Não pensou o governador da ter para si indígenas serviçais.18
capitania de Pernambuco, que as Em diferentes eventos
relações ferrenhas de poder com registrados na documentação das
lideranças indígenas, representado capitanias do Norte, verificaram-se
por D. Felipe de Sousa e Castro as ações dos colonizadores
podiam resultar em negociações e favorecendo lideres indígenas e
trocas de favores? Se o governador outros que se destacavam no grupo
esperava seu total apoio na étnico, considerados capazes de
implantação da Direção, poder influenciar as decisões da
estrategicamente, o Líder da Serra comunidade. Tais práticas,
de Ibiapaba, exigiu direitos de inegavelmente, acentuavam as
161
diferenças entre indivíduos indígenas, respectivamente, patente
causando desigualdades de condições de governador de toda a 19
Requerimento do
no interior dos povoamentos, nação Kariri situada ao governador dos índios da
longo do rio São nação Kariri, Diogo Alves
especialmente no processo de de Campos e Leandro da
Francisco, mestre de Silva, Pernambuco.
distinções a partir de funções como: campo de todas as aldeias AHU_ACL_CU_015, D.
de comando; como chefes das e “capitão mor da sua 3257.
comunidades, funcionários missão”.19 20
Requerimento do
camarários, meirinhos, pequenos  Sargento-mor dos índios sargente-mor dos índios
agricultores e artesãos. Kariri, Manuel Homem da Kariri, Manuel Homem da
Embora a política de Rocha, solicitando soldos Rocha. 1752,
e fardas para os soldados AHU_ACL_CU_014, Cx.
distribuições de mercê entre 16, D. 1338.
e cabos das companhias,
colonizadores e indígenas tenha sido como se praticou com os 21
Requerimento do
eventualmente utilizada desde o índios de Jacuipe, e sargente-mor dos índios
inicio da conquista, na segunda possam fazer para a sua Kariri, Manuel Homem da
Rocha, Paraíba.
metade do século XVIII tornou-se aldeia, nas naus que parte AHU_ACL_CU_014, Cx.
uma prática freqüente e incentivada para a Bahia.20 16, D. 1336.
pela política pombalina. Assistiu-se,  Sargento-mor dos índios
22
Kariri, Manuel Homem da Requerimento do índio
portanto, a formação de uma Lázaro Coelho de Sá ao rei
Rocha, solicitando nova [D. José], pedindo para
aristocracia indígena, diferenciada, provisão “pela qual se exercer o posto de
promovendo à constituição de outro mande observar a governador dos índios da
estrato social, o “principalato”. Mais conservação da posse das capitania de Pernambuco.
[ant. 1755, setembro, 27.
do que uma capacidade de chefia terras no sítio Ganipapo, AHU_ACL_CU_015, Cx.
tradicional escolhida pelas qualidades capitania da Paraíba, aos 80, D. 6632.
índios Kariri e a expulsão
elencadas pelo seu povo, o 23
Requerimento de D.
dos gados que invadem o
principalato surge com mais força, no sítio da Missão e anexado
José de Sousa e Castro à
rainha [D. Maria], 1782,
período pombalino, como concessões ao requerimento AHU-Piaui, Cx. 12, doc.
e benesses do Monarca. Esta encontra-se um abaixo 32.
assertiva é perceptível nos vários assinado de vários
requerimentos dos indígenas das moradores não indígena
aldeias e vilas da capitania de apoiando a solicitação do
líder do povo Kariri.21
Pernambuco e suas anexas como
 Lázaro Coelho de Sá, índio
destaco nos requerimentos a seguir: da aldeia do Urucú,
freguesia de Santa Luzia
 Diogo Alves de Campos, da Alagoa do Norte,
Leandro da Silva e pedindo para exercer o
Martinho da Silva, índios posto de governador dos
da etnia Kariri situados no índios da capitania de
rio São Francisco na Pernambuco.22
aldeia de Yuracopa,  Solicitação de confirmação
solicitando confirmação de da patente de capitão-mor
patentes por terem da nação Tabajara de Vila
colaborado com os de Viçosa, por sua
portugueses nas guerras dedicação nos
contra outros povos enfrentamentos com
indígenas no sertão do outros povos indígenas no
Piaui e, por isto, interior do sertão.23
alcançaram do governador  O índio Manuel José
de Pernambuco Soares, solicita
162
confirmação da carta entre o centro e suas diversas 24
Requerimento de D.
patente para o posto de periferias, dentro de uma lógica de Manuel José Soares ao
capitão da oitava Antigo Regime de manutenção de príncipe regente [D.
Companhia do Corpo de João]. 1801, Paraíba,
uma sociedade estratificada e AHU_ACL_CU_014, Cx.
ordenança dos índios da
Vila de Alhandra.24 fundada em privilégios e, portanto, 37, D. 2691.
na desigualdade.
Os requerimentos, gestados Os colonizadores nos
pelas lideranças indígenas, processos de contatos interetnicos
normalmente legitimados pelos passaram a identificar nos grupos
governadores não podiam ser indígenas aqueles indivíduos que se
ignorados, pois possibilitavam a destacavam com prestígio social e
adequação das estruturas de poder comando. As lideranças indígenas
monárquico às realidades locais como citadas na documentação colonial
eram os aldeamentos e vilas como “principais”, se tornaram
submetidas às chefias indígenas. interlocutores no processo de
Como afirma Ale Rocha, no processo “negociação e conflito” desde os
de relações políticas e interetnicas eventos do descimento em que se
índios e luso-brasileiros deixavam davam os primeiros “acordos de
entrever os interesses de cada lado paz”, terminado com a transferência
(ROCHA, 2009, p 16). de diversos grupos étnicos dos seus
territórios originários para outras
Considerações finais espacialidades forjadas pelos
Através das leituras interesses dos luso-brasileiros e
documentais foi perceptível a interpretadas pelas lideranças
distribuição de mercês pela indígenas como novas acomodações
monarquia portuguesa para necessárias a permanência dos seus
recompensar os serviços dos seus grupos. Grupos estes que forjaram
súditos indígenas, favorecendo um novas práticas culturais em meio a
sistema de “economia de mercê”. A espacialidades construídas e
concessão de benesses, ofícios e cartografadas pelos interesses da
honrarias pela monarquia foi uma sociedade envolvente da América
maneira de criar e reforçar os laços Portuguesa.

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Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Niteroi, 2009.

RECEBIDO EM: 12.12.2015


APROVADO EM: 10.01.2016

164
OS ESTUDOS INDÍGENAS E O etnohistoriadores e antropólogos
BRASILIANISMO ativos neste campo nos Estados 1
Tradução por Ricardo
Maciel dos Anjos.
CONTEMPORÂNEO Unidos é pequeno o suficiente para
NA AMÉRICA DO NORTE1 que possamos manter contato
constante, colaborar em vários
Dr. Hal Langfur
projetos e aprender muito com os
University of New York at Buffalo
trabalhos uns dos outros. Nossas
hlangfur@buffalo.edu
tradições historiográficas nacionais
Resumo: O presente texto reproduz implicam trabalharmos dentro de
a conferência de abertura ministrada certos contextos específicos, que
no III Seminário Internacional ajudam a explicar o motivo por
América Indígena: processos de escolhermos nossos assuntos de
mediação e mestiçagens realizado no pesquisa e como lidamos com eles.
Rio de janeiro em 2015. No campo da etnohistória, ocorre-
Apresentamos um recenseamento de me, em especial, o legado influente
pesquisas e debates sobre as do academicismo vigoroso focado
questões relacionadas as populações nos povos nativos da América do
indígenas, relacionando os estudos Norte e na história de regiões
realizados nos Estados Unidos e no fronteiriças. Mas, no final das
Brasil consideradas as suas contas, nossa genealogia liga
convergências e singularidades. brasilianistas aos brasileiros. Vocês
Palavras-Chave: Estudo indígenas,
são nossa família acadêmica,
Brasilianismo, América do Norte
nossos mentores e interlocutores.
Vocês, acima de tudo,
ABSTRACT: This text reproduces the
estabeleceram os padrões pelos
opening lecture given at the III
quais podemos nos comparar.
International Seminar Indigenous
America: mediation and
Neste sentido, vocês conhecem –
miscegenation held in Rio de janeiro provavelmente melhor do que nós
in 2015. We present a research – os dados genealógicos que nós,
registration and debates on issues pesquisadores estrangeiros,
indigenous populations, relating the contribuímos ao campo que vocês
studies in the United States and institucionalizaram e
Brazil considered its similarities and desenvolveram, questão por
singularities. questão, palestra por palestra, livro
Keywords: Indigenous Study, por livro.
Brasilianismo, North America O que pode não ser tão
óbvio, contudo, é a maneira com
Quando a Dra. Izabel que nosso treinamento e estrutura
Missagia me convidou para falar institucional afeta a maneira em
sobre o tema dos estudos indígenas que nós, brasilianistas nos Estados
e o brasilianismo contemporâneo Unidos envolvidos na área de
na América do Norte, eu logo decidi história indígena, formulamos
não o fazer partindo da genealogia. nossas pesquisas e transmitimos
O grupo de historiadores, nossas descobertas – junto das
165
suas descobertas – aos nossos Mas isso não é sempre algo
alunos. Somos, quase sempre, ruim. A amplitude de nossas 2
Robert B. Townsend, “The
Rise and Decline of History
contratados por departamentos de responsabilidades como professores Specializations over the
história, dentro dos quais somos os nos faz focar em conexões e Past 40 Years,” Perspectives
on History (Dec. 2015),
únicos pesquisadores estudando o comparações. Também temos que https://www.historians.org/
Brasil. Frequentemente, somos os nos comunicar com leitores de publications-and-
directories/perspectives-on-
únicos – ou um entre dois ou três, língua inglesa que enxergam o history/december-
em departamentos grandes – Brasil como uma parte da história 2015/the-rise-and-decline-
of-history-specializations-
estudando a América Latina por maior da América Latina, e cujos over-the-past-40-years.
inteiro. Recai sobre nós o ofício de fundamentos educacionais são os
ensinar sobre toda a longa história da história dos Estados Unidos.
dessa grande região. No meu caso Quando obtemos sucesso, esta
particular, na State Universityof visão mais ampla nos ajuda a guiar
New York at Buffalo, uma alunos pelos excessos e
instituição de pesquisa excepcionalismos de historiografias
relativamente grande, eu sou, nacionalistas, tanto brasileiras
como de costume, o único quanto norte-americanas. A
brasilianista no departamento de maioria de nós que trabalha com os
história, e tenho somente mais povos indígenas do Brasil colonial,
uma colega que trabalha com a por exemplo, inclui em algum grau,
América Latina. Suas áreas de em nossos artigos e livros,
ensino incluem as histórias do paralelos puxados das Américas
México, do Caribe e da América espanhola, britânica, e,
Latina contemporânea. As minhas frequentemente, também das
incluem o Brasil (sim, todo o Brasil, francesa e holandesa.
de 1500 até o presente), América Com estas considerações
Latina colonial e o mundo atlântico. iniciais, permitam-me propor uma
Sei que estas atribuições vão única questão. Esta é uma questão
parecer absurdamente amplas para que todos vocês já perguntaram. É
vocês, mas é esta a realidade das uma questão que tem energizado a
posições que ocupamos em uma expansão do interesse pelos
profissão no qual três quartos dos estudos indígenas aqui no Brasil
docentes em história nacional se durante os últimos 30 anos. Depois
especializam na história ou dos de vocês, nós também temos feito
Estados Unidos ou da Europa2. O essa pergunta – e o temos feito
um quarto restante se encarrega de dentro dos parâmetros intelectuais
ensinar sobre o resto do mundo, e institucionais que descrevi.
encargos os quais temos de Enquanto nossas respostas têm
convencer comitês de contratação muito em comum com as dos
de que estamos qualificados e acadêmicos brasileiros, espero
aptos a exercer. Os cursos que poder realçar também certas
ministramos e, inevitavelmente, os diferenças. A pergunta é esta:
auxílios que recebemos, são “Onde estão os índios?”
influenciados por esta realidade.
166
Onde Estão os Índios? tinha, então, estabelecido os
Na maioria dos cursos padrões de conquista, trabalho
introdutórios sobre o passado coercivo e colapso populacional que
colonial da América Latina assolaram o território dos EUA. As
ensinados nas faculdades dos EUA, densas populações, agriculturas
e na maioria dos livros didáticos intensivas, rotações de trabalho
utilizados nestes cursos, os índios forçado e sistemas tributários
dominam a cena. Digo, eles o estatais que anteriormente
fazem quando o tópico é a América apoiavam a realeza, o clero e
espanhola. Por que é que eles guerreiros, tornaram-se a base da
desaparecem tão rapidamente do riqueza colonial. Mas não obstante
nosso panorama histórico da o quão mortais as doenças, o quão
América portuguesa? cruel a opressão, ou o quão
Naturalmente, esta é uma questão determinados a coroa e a igreja
que preocupa a maioria de nós que estavam em transformar os
se propôs a fazer pesquisas no sobreviventes desta catástrofe em
campo da história indígena do cristãos desenraizados, os povos
Brasil. Achamos que é uma questão nativos persistiram e resistiram,
que diz respeito também aos impondo demandas sobre terras e
historiadores da América do Norte recursos, opondo-se a avanços na
colonial. Achamos que diz respeito depredação, negociando sua
aos nossos alunos. Achamos que introjeção na sociedade colonial, e
explorar esta questão pode nos assegurando suas práticas
ajudar a compreender o que norte- culturais.
americanos rotineiramente se O Brasil, como os alunos
esquecem de ensinar e não americanos frequentemente
aprendem sobre a vastidão do aprendem, foi um caso atípico. Os
hemisfério ocidental que existe portugueses tiveram que lidar com
além do território continental dos povos mais móveis e menos
Estados Unidos. hierárquicos, espalhados por uma
Ao que o típico curso extensa costa atlântica. Sem o
introdutório de história Latino- costume de produzir excedentes
Americana em uma de nossas agrícolas, organizados em famílias
faculdades ou universidades e tribos, ao invés de em Estados
prossegue, progredindo da poderosos e reunidos em vilas
conquista à consolidação da temporárias, ao invés de
sociedade colonial na América concentrados em cidades
espanhola, os índios estão por toda imponentes, como Tenochtitlan e
parte. É uma história que não se Cuzco, os povos brasileiros falantes
pode contar sem eles: Colombo de tupi, de acordo com as histórias
encontrou os taínos na Ilha de São convencionais, rapidamente
Domingos; Cortés, os maias e sucumbiram, ou desapareceram
astecas no México; Pizarro, os incas floresta adentro. Alguns
no Peru. O caldeirão do Caribe já missionários denunciaram os
167
abusos sofridos pelos índios, mas da desaparição dos índios
antes que uma conversão profunda brasileiros são históricas e
ao cristianismo pudesse acontecer, historiográficas. Elas podem ser
os índios desapareceram, atribuídas a desenvolvimentos na
substituídos por um influxo de disciplina acadêmica de história, e
escravos africanos. Relatos da a limites disciplinares tradicionais.
sociedade colonial brasileira Eles têm a ver com impedimentos à
amadurecida não mais afastavam permuta acadêmica que são
às periferias os atuantes de fora surpreendentemente teimosos,
das elites – como outrora fizeram – apesar do mundo globalizado.
mas a ênfase é nos escravos Algumas palavras acerca de cada
africanos e em seus descendentes. um destes motivos ajudará a
Os povos nativos quase nunca clarear a natureza do problema,
aparecem. Índios são para a assim como o vivenciamos nos
América espanhola, e não para a Estados Unidos.
portuguesa, e alunos norte-
americanos curiosos ficam se Apagando a História Indígena
perguntando por quê. Mais uma vez, quero lembra-
Como os pesquisadores los que estou levando em
neste congresso sabem (e consideração a perspectiva norte-
ajudaram a explicar), longe de americana, que tradicionalmente
desaparecerem rapidamente da enxerga a história do Brasil como
costa atlântica da colônia, os povos parte da história que engloba o
nativos formavam a mão-de-obra passado da América Latina. Neste
litorânea primária – tanto livre contexto, a ideia que os povos
quanto cativa – durante o primeiro nativos exerceram uma influência
século de colonização. Fora das modesta no começo da história do
mais lucrativas áreas produtoras de país vem, em parte, de dados
açúcar do nordeste, que tendia à demográficos. Populações indígenas
mais cara mão-de-obra de escravos pré-colombianas, cujos números
africanos a partir do início do século são, até hoje, incertos e
XVII, uma multiplicidade de nativos controversos, evidenciam
independentes e moradores de distinções-chave entre as principais
missões continuou a existir nos áreas de colonização durante o
litorais durante o período colonial. primeiro século de expansão
Se os índios nunca desapareceram, ultramarina portuguesa e
se eles continuaram a ser figuras espanhola. Estimativas
importantes em todas as regiões, conservativas da população do
por que é que os estudiosos México, logo antes do contato com
ignoraram esta presença por tanto os espanhóis, sugerem até 20
tempo? Esta é uma questão que milhões de nativos. A região andina
muitos de vocês já ponderaram. tinha até 12 milhões de habitantes.
Vocês sabem que a resposta é Em comparação, apesar do vasto
complexa. As origens intelectuais território, a região que se tornou o
168
Brasil era o lar de provavelmente era demasiado dispendioso. Dadas
três ou quatro – e talvez até seis estas características, não é
ou mais – milhões de habitantes. surpreendente que a história
Se assumirmos um colapso brasileira não tenha sua versão de
demográfico de até noventa por Cortés ou Pizarro – nenhum
cento durante o primeiro século protagonista europeu relevante,
após o contato, a situação não tomado como herói ou vilão, sobre
melhora muito. Graças aos simples quem se baseiam as primeiras
números de pessoas, os narrativas de encontro, resistência
sobreviventes dos impérios Inca e e subjugação indígena. Talvez seja
Asteca exerceriam uma influência o caso de nós, americanos, sermos
maior. Não há como estudiosos especialmente suscetíveis a
ignorarem a importância dos povos narrativas maniqueístas, o que
mesoamericanos e andinos na dificulta nossa compreensão da
sociedade pós-conquista. complexidade do começo da
Os menos-numerosos e não história brasileira.
sedentários índios, Tupis e não- Diferenças em densidades
Tupis, que viviam ao longo do populacionais, estratégias de
litoral brasileiro confundiram os subsistência e organização política
primeiros escritores dos primeiros e social só explicam parte do
relatos com sua diversidade problema, contudo. Também se
linguística e fragmentação política. deve levar em conta ideologias
Os povos interioranos e suas dúzias nacionais e tendências das elites
de famílias linguísticas aumentaram intelectuais. Aqui eu os convido a
enormemente esta situação reconhecerem comigo uma
desconcertante. Quão mais nômade cegueira há muito comum entre
o grupo, menores suas estudiosos brasileiros e
comunidades e menos articuladas americanos. Agora sabemos, por
suas hierarquias políticas. Porém, a exemplo, que agricultura e
organização social de grupos aquicultura intensivas criaram
familiares indígenas podia ser excedentes agrícolas na bacia
bastante complexa – algo que amazônica capazes de suportar
observadores ignoraram durante sociedades maiores e mais
vários séculos. A ausência de uma estratificadas do que se pensava.
liderança centralizada significou Mas suas conquistas culturais –
que grupos nativos na América cerâmicas maravilhosas, tradições
portuguesa não se rendiam em orais complexas e conhecimento
massa. Sem riquezas acumuladas inigualável da floresta –
oriundas de ouro ou excedentes permanecem pouco apreciados.
agrícolas e sem tradição de John Monteiro, nosso amigo e
trabalho forçado, conquistar estes ligação transnacional, cuja falta é
grupos apresentava poucas tão sentida, alertou aos estudiosos
vantagens, já que liga-los a brasileiros e americanos sobre
produção comercial visando lucro nossa visão limitada. Ele notou que
169
a primeira geração de intelectuais aos etnógrafos, cujas descobertas,
3
John M. Monteiro, "The
brasileiros, no século XIX, que se muitas vezes expressivas, Heathen Castes of
propuseram a escrever a história contribuíram para uma visão de Sixteenth-Century
Portuguese America: Unity,
de sua nação recentemente tornada que sociedades nativas seriam Diversity, and the Invention
independente, consagraram uma incapazes de se adaptar a of the Brazilian Indians,"
Hispanic American Historical
imagem de que os índios eram, mudanças históricas, ou sequer de Review 80, no. 4 (Nov.
cito: “nobres, valorosos e existir fora da história. 2000): 710, 717.
(especialmente) extintos (...) a Os historiadores hesitaram,
ideia de que o início da história em parte, em aventurar-se pelo
brasileira significava o fim dos território de história indígena
índios se tornou tão comum que porque as provas arquivadas,
poucos historiadores (...) se independente de sua quantidade,
preocuparam em levar em eram demasiado desconexas,
consideração a presença e tendenciosas e difíceis de
participação constantes dos povos decodificar. Escritas por
indígenas, que, até os dias de hoje, missionários, oficiais do governo,
continuam a tornar a história elites arrogantes e colonos
brasileira um enorme quebra- sedentos por terras e mão-de-obra,
cabeças a ser resolvido por futuros as primeiras fontes publicadas e
estudiosos.”3 Similarmente ao arquivadas simplesmente não
Brasil, antes de a geração atual de permitiam, ao que tudo indicava,
estudiosos ocupar suas posições fazer uma reconstrução fiel dos
acadêmicas nos Estados Unidos, pontos de vista dos nativos. Poucos
era raro que um brasilianista documentos sequer se referiam a
fizesse dos índios o foco de seus índios individuais por nome,
estudos. tampouco refletia seus
Estamos mais certos do que pensamentos ou sentimentos.
nunca que foi um grande erro Desde o começo, porém, havia
assumir que uma simples falta de certa dissimulação nestes
fontes explicava até que ponto os argumentos acerca das fontes:
índios tinham sido excluídos da afinal, os documentos que
história do Brasil. Escritores explicitavam as perspectivas dos
europeus, tanto religiosos quanto colonizadores também eram
laicos, deixaram extensas nebulosos. Elites letradas
descrições de grupos nativos no representavam os índios pré-
começo do século XVI. Tais literatos com preconceito. Mas eles
documentos podem, tempos atrás, também se descreviam de maneira
ter sido usados para explicar as complacente. Fontes que dizem
mudanças sofridas por estes grupos respeito aos índios não eram os
depois que mercadores, únicos documentos que mereciam
missionários e colonos do além-mar ceticismo. Restringir a análise
surgiram nos litorais brasileiros. somente ao que era representado
Mas, pelo contrário, historiadores de maneira imparcial nos arquivos
evitaram o assunto, relegando-o eliminaria a possibilidade de
170
escrever a história de qualquer pressupunha uma visão estática de
povo, seja ele colono ou índio. cultura, que tinha pouco a ver com
Mudanças aconteceram os turbilhões, alcances e
lentamente, mas acadêmicos nos ambiguidades da realidade
EUA, seguindo o exemplo de histórica. É aqui que o trabalho das
Manuela Carneiro da Cunha, John Dras. Maria Regina Celestino de
Monteiro, José Bessa Freire, e Almeida, Izabel Missagia e outros,
alguns outros, acabaram por fim a presentes nesse congresso, tem
aplicar essa e outras percepções a sido tão influente conosco na
fontes conhecidas, ignoradas e América do Norte. Ao insistir na
recém-descobertas. O relato integridade do índio supostamente
documental começou a sugerir puro e isolado, estudiosos tinham
novos temas e significados perante os condenado duplamente a um
as dificuldades analíticas em torno passado imutável. Em primeiro
de entidades históricas que eram, lugar, estudiosos ajudaram a criar
em sua maioria, iliteratas. Junto o mito do nativo primitivo, nobre
com nossos colegas brasileiros, nós ou selvagem, intocado pela
brasilianistas aprendemos a usar história, diferente de e anterior à
uma enorme quantidade de fontes sociedade moderna. Então, quando
arquivais mundanas, incluindo não conseguiam, na prática,
crônicas antigas, relatos de localizar tais distinções,
expedições, escritos de dispensaram os índios históricos
missionários, mapas manuscritos, como corrompidos pelo contato
estudos de propriedade, títulos de com o mundo colonial. Caricatos
posse de terra, dados censitários, dessa maneira, os índios eram ou
testamentos, inventários, casos de convertidos ou canibais – ambos de
inquisição, processos judiciais, interesse limitado a historiadores
petições em nome de colonos e acadêmicos. Foi somente quando
índios, remessas de vilas nativas, estudiosos mudaram seu foco para
documentos eclesiásticos e as conexões coloniais e relações
certidões de nascimento, batismo e interétnicas, para as sociedades
casamento. híbridas, mestiçagens e culturas
Por fim, inovações advindas fluidas, que ricas histórias
do estudo de escravos, começaram a surgir a partir do
camponeses, mulheres e outras encontro de povos nativos e não
pessoas cujas vozes os arquivos nativos, que interagiram uns com
silenciaram, incluindo as dos os outros ao longo dos séculos –
nativos norte-americanos, tanto de formas violentas quanto
ajudaram a atiçar mais interesse pacíficas.
sobre a história indígena do Brasil. Mesmo no Brasil, como
Assim como o reconhecimento de vocês sabem, não foi até o começo
que a busca por um ponto de vista dos anos 1990 que os estudiosos
nativo virgem, inalterado pelo que mencionei, munidos destas
contato com os intrusos, percepções e novas abordagens,
171
lançaram o que pode ser chamado nunca existiu de fato, exceto como
de um esforço coordenado para uma óbvia ausência.
lidar com algumas das mais De todos os historiadores
gritantes omissões e equívocos da nos EUA que pesquisam o período
história dos índios brasileiros. colonial brasileiro, há um número
Houve, é claro, contribuições surpreendente – a maioria, penso
individuais precedentes, mas elas eu – focado em história indígena.
não trouxeram consigo as amplas Antes que vocês se deixem
mudanças que ocorreram na área impressionar por este fato, deixe-
nos anos 1990. A intensificação da me esclarecer, não sem frustração
pesquisa continua, aqui e conosco, e embaraço, que há menos de uma
de diversas formas. Suas dúzia de estudiosos sobre o Brasil
descobertas continuam a nos colonial em grandes faculdades e
impulsionar na América do Norte. universidades em todo nosso país.
Tendo incorporado as Então, esta transformação, eu
ferramentas da antropologia, reitero, é uma transformação
geografia cultural, estudos culturais brasileira. Nós brasilianistas
e análise literária, os brasilianistas tivemos a sorte de ocupar nossos
estão revisitando fontes antigas e postos em uma época em que
descobrindo novas, assegurando pudemos nos beneficiar do seu
assim uma posição mais trabalho extraordinário.
proeminente aos povos nativos na Na esperança de
sociedade luso-brasileira e às suas proporcionar futuras trocas,
margens territoriais. Queremos deixarei na biblioteca da UFRRJ
contribuir, mesmo que de maneira uma cópia da coletânea que
pequena, a este esforço organizei recentemente, Native
colaborativo e transnacional de Brazil: Beyond the Convertand the
mudar as explicações convencionais Cannibal, 1500 – 1889
do passado do Brasil que (Universityof New Mexico Press,
diminuíram a contribuição histórica 2014), que inclui trabalhos da
de seus povos indígenas. Como maioria dos brasilianistas norte-
aconteceu aqui, há quem, nos EUA, americanos ativos na área de
tenha começado a classificar os estudos indígenas coloniais e
resultados deste esforço como a novecentistas. Tivemos a sorte de
“nova história indígena” do Brasil – ter, nesta coletânea, contribuições
o que apenas reforça a importância das Dras. Maria Regina Celestino de
das mudanças em curso. Stuart Almeida e Maria Leônia Chaves de
Schwartz outrora descreveu a Resende, da UFSJ. Todas as
mudança com uma referência ao contribuições neste livro visam
romance de Thomas Hardy, The desafiar a divisão acadêmica
Return of the Native(O Retorno do tradicional dos índios brasileiros em
Nativo). Estes dizeres, porém, dois grupos, que chamo de “os
sugerem a suplantação de uma convertidos e os canibais”, ou, em
“velha história indígena”, que outras palavras, os que aceitaram o
172
domínio colonial e os que o recentemente aposentados das
rejeitaram violentamente. Para vos universidades de Michigan e
dar uma prova da variedade Georgia, analisam as políticas e
presente neste trabalho, deixem- resistências em Goiás, durante os
me explicar que os ensaios podem séculos XVIII e XIX. Creio que
ser divididos em quatro grupos, de vocês verãono livro um panorama
acordo com as regiões que bastante útil do estado atual dos
discutem: Brasil costeiro nos estudos indígenas entre os
séculos XVI e XVII, a bacia brasilianistas nos Estados Unidos.
amazônica, Minas Gerais e Espírito É claro que há um público
Santo e, finalmente, Goiás. O muito maior aqui para um trabalho
capítulo escrito por Alida Meatcalf, de tal natureza. E o suporte
da Rice University, explora institucional – por mais que sempre
autoridade religiosa, estrutura seja um problema no Brasil – é,
política e resistência indígena nas não obstante, mais amplo aqui, o
aldeias da Bahia do século XVI. que encoraja que um maior número
Dra. Maria Regina compartilha com de historiadores profissionais
leitores de língua inglesa seu dedique suas carreiras ao campo.
extraordinário trabalho sobre Como qualquer estudioso
negociação e reconstituição étnica experiente da disciplina sabe,
nas aldeias do Rio de Janeiro. O contudo, muito do que parece
finado antropólogo Neil Whitehead natural não o é, no que diz respeito
examina a incursão de várias à escrita da história. Devido a
potências coloniais na região motivos particulares ao nosso
amazônica e as consequências passado nacional, em especial à
disso ao longo de três séculos. proximidade, a maioria dos norte-
Barbara Sommer, da Gettysburg americanos versados em história
College, discute o que ela descreve latino-americana foca nas regiões
como uma “nobreza nativa” nas colonizadas pela Espanha – em
aldeias do Amazonas durante a especial o México. Há muito mais
época do Diretório. Nos capítulos alunos de espanhol do que de
focados no Sudeste, Dra. Leônia e português nos EUA. Dos
eu documentamos o movimento, historiadores que focam no Brasil,
sob a pressão de uma invasão apenas uma minoria se especializa
violenta, dos botocudos e de outros no período colonial, onde o impulso
grupos da mata atlântica para as revisionista nos estudos indígenas
cidades e vilas de Minas Gerais. tem se concentrado. Enquanto isso,
Judy Bieber, da University of New um número alarmantemente
Mexico, relata a falha do governo pequeno de obras de pesquisadores
em transformar os botocudos em brasileiros é traduzido para o
trabalhadores agrícolas, após a inglês. Estas questões estruturais
declaração de guerra contra eles, contribuem para a permeação lenta
em 1808. Finalmente, Mary de novas ideias e pesquisas
Karasch e David McCreery, ambos acadêmicas em nossos livros e
173
salas de aula – que foi o ponto de centenas de grupos acabaram por
partida desta minha fala. Esta desaparecer como entidades
situação é particularmente distintas. Outros acharam maneiras
desafortunada neste momento, em de se adentrarem na sociedade
que historiadores americanos têm colonial, e depois nacional, fazendo
sugerido perspectivas mais importantes, se restritas, escolhas
inclusivas atlânticas, hemisféricas e ao longo de seu caminho. Seja
transnacionais mais inclusivas favorecendo os fundos remotos da
como antídotos para o selva, vivendo em reservas
paroquialismo e o excepcionalismo. indígenas, estudando e trabalhando
Dada a natureza de organização em áreas urbanas, ou pressionando
social nativa, faz sentido comparar legisladores federais em Brasília em
os povos não sedentários e busca de tratamento melhor, eles
semissedentários dos povos das continuam a reagir às
Américas do Norte e do Sul. Estes circunstâncias, e lutam para dar
grupos têm mais em comum uns forma a seus futuros. Hoje, os que
com os outros do que com as se auto identificam como povos
grandes sociedades sedentárias do indígenas formam oficialmente
México e do Peru. Dedicar mais menos de um por cento da
atenção a suas semelhanças e população do Brasil. Seu número
diferenças traria grandes benefícios reduzido torna fácil esquecer a que
às histórias comparativas indígenas ponto suas presenças foram
e coloniais das Américas. Devíamos importantes – e continuam a ser –
todos incentivar tais interesses muito depois de seu primeiro
comparativos entre nossos alunos. encontro com os europeus. Há
Por fim, permitam-me ainda muito a ser feito por todos
terminar enfatizando uma maneira nós para ajudar a reconstruir as
em que nós brasilianistas histórias de povos há muito
estudiosos dos povos nativos não reduzidos a estereótipos,
somos diferentes de vocês. Refiro- erroneamente considerados
me à nossa responsabilidade diminuídos ou erradicados, e
compartilhada. Passamos nossas considerados irrelevantes, mesmo
vidas profissionais estudando e quando alteraram a história de uma
ensinando sobre povos que, em parte enorme das Américas. Quero
vários casos, foram derrotados e estender minha profunda gratidão à
desterrados por um avanço colonial Dra. Izabel e a todos vocês, por
inexorável. Caçados e terem me convidado para vir aqui e
massacrados, forçados a trabalhar, participar deste comprometimento
ou adoentados por epidemias, conjunto.

RECEBIDO EM 12/12/2016
APROVADO EM 06/01/2016

174
LOS ALIADOS INDÍGENAS DE LOS skillful manipulation of the Spanish invader,
ESPAÑOLES EN EL TRÁNSITO DE a complex network of relations.
Keywords: Spanish domain, indigenous
LA SOBERANÍA IMPERIAL A LA autonomy, colonialism
NACIONAL: LOS MOQUINOS DE
SANDÍA Y ABIQUIÚ, NUEVO La conquista española de
MÉXICO América habría sido imposible sin la
participación activa de numerosos
Drª. Danna A. Levin Rojo indígenas que desde fechas muy
Universidad Autónoma Metropoitana, tempranas prestaron servicio como
Unidad Azcapotzalco/México guías, intérpretes, cargadores y
levinroj@yahoo.com guerreros en las expediciones de
exploración y las campañas militares
RESUMEN: A partir de las expandido emprendidas por los invasores.
documentación y contenidos en Relaciones,
Posteriormente también actuaron como
las letras, las ordenanzas y otros
documentos coloniales relacionados con la colonos para poblar zonas hostiles
organización y la burocracia del Estado lejos de su lugar de origen y consolidar
colonial, este trabajo se investiga la la ocupación de los nuevos territorios
relación entre este agente interviniente y
las poblaciones indígenas en los distintos que paulatinamente se fueron
espacios de vida en la que éstos ellos incorporando a la dominación colonial.
fueron asimilados como servidores de los La naturaleza de esta
colaboradores nativos y aparecen referidos
participación, a veces voluntaria y a
indistintamente como "indios amigos". Un
análisis comparativo de las experiencias en veces forzada varió tanto que no
los diversos territorios ocupados nos siempre es posible determinar hasta
permite reconocer que estas poblaciones qué punto fue impuesta con violencia
nativas a menudo actuaron como
arquitectos conscientes de su propio física o amenazas de otra índole. En el
destino y no como meros objetos de una caso de la campaña del capitán Jorge
hábil manipulación del invasor español, un Alvarado en Guatemala (1527-1530),
tejido complejo de relaciones.
por ejemplo, muchos de los nativos de
Palabras clave: dominio español, la
autonomía indígena, colonialismo Xochimilco y Quauquecholan
incorporados en sus huestes estaban
ABSTRACT: From the expanded bajo su custodia como residentes de
documentation and contained in relaciones,
sus encomiendas y probablemente no
letters, ordinances, and other colonial
documents associated with the organization tuvieron opción, así lo sugieren
and bureaucracy of the colonial state, this Schroeder (2007, p. 19) y Asselbergs,
paper investigates the relationship between (2007, p. 65-101) como quizás
this intervenor agent and indigenous
populations in the various living spaces in tampoco la tuvieron muchos de los
which these They were assimilated as indios que Nuño de Guzmán llevó alas
servers the native collaborators and appear conquistas de Pánuco y Nueva Galicia
indistinctly referred to as "friendly Indians".
en el virreinato de la Nueva España
A comparative analysis of experiences in
the various occupied territories allows us to (ALTMAN, 2010; CHIPMAN; 1967;
recognize that these native populations TAMAYO, 1992). No obstante, para
often acted as architects aware of their algunos grupos y periodos existen
own destiny and not as mere objects of
175
evidencias que documentan una derechos especiales de las
colaboración voluntaria, e incluso corporaciones, muchas comunidades
alianzas formales. de indios aliados, o sus descendientes,
En las relaciones, cartas, procuraron preservar algunas de las
ordenanzas, y otros documentos concesión es fruto de sus antiguas
coloniales asociados con la alianzas apelando a su condición
organización y la burocracia militar, ciudadana y los servicios que
estos servidores o colaboradores prestaban a la patria.
nativos aparecen referidos Como han observado varios
indistintamente como “indios amigos” autores, en el proceso de transición del
o “tropas auxiliares”. Sin embargo, es súbdito al ciudadano, que en la Nueva
otra la imagen que presentan las España inició desde el último cuarto
fuentes de factura indígena, que para del siglo XVIII y se consolidó mucho
la Nueva España incluyen códices, después del triunfo de su
lienzos y otros documentos independencia–cuyo fruto fue la
pictográficos elaborados por constitución de México como nación en
especialistas nativos como parte de 1821–, los indios participaron
una memoria histórica con posibles activamente construyendo el nuevo
usos políticos y administrativos. Por la espacio público y las instituciones
importancia de su contribución a la republicanas (CARMAGNANI Y CHAVÉZ,
expansión imperial española, y porque 1999; GUARISCO, 2003; DUCEY,
frecuentemente su participación estuvo 1999; SOTO, LEVIN Y VILLASEÑOR
orientada por estrategias y objetivos 2010). Paradójicamente en muchos
propios, estos agentes deben casos lo hicieron con el objeto de
catalogarse como conquistadores preservar, a nivel local, las estructuras
indígenas y no simplemente como corporativas del antiguo régimen y
sirvientes o auxiliares. Su resistir los ataques de los gobiernos
participación, cuando fue voluntaria liberales contra las formas de
estuvo frecuentemente acompañada representación política tradicional yla
por la concesión de beneficios y propiedad comunal.
privilegios que, en principio, se El presente artículo versa sobre
extendían a sus descendientes y dos pueblos, Sandia y Abiquiú,
quedaron asentados en ordenanzas, situados en el antiguo reino de Nuevo
capitulaciones y mercedes firmadas México, hoy un estado de la Unión
por las autoridades virreinales y Americana que durante el periodo
metropolitanas, incluyendo el rey. colonial fue la más septentrional de las
Cuando la instauración del régimen posesiones españolas en el continente.
republicano que derivó de los procesos Aunque tienen historias distintas,
independentistas en casi toda ambos fueron abandonados durante
Hispanoamérica convirtió en ley una rebelión masiva que estalló en
suprema el principio de igualdad 1680 y expulsó de la provincia a los
jurídica, buscando desmantelar los colonos españoles. Después de la

176
reconquista en 1696 los dos fueron También prestaron servicios en
reocupados por grupos de familias que Guatemala, Nicaragua, las Filipinas y 1
“Para que a los indios de
se auto-identificaban como Oaxaca y para marzo de 1591 se Tlaxcala que van a las
nuevas poblaciones de
“moquinas”, posiblemente habían consolidado como colonos de chichimecas se les guarden
descendientes de sus habitantes frontera, beneficiándose con una Real las preeminencias aquí
contenidas,” Ciudad de
originales quienes al parecer se Cédula de Felipe II que concedía
México, 14 de marzo de
refugiaron entre los hopis del actual privilegio de hidalgos a todos los 1591. Archivo General de la
estado de Arizona, entonces conocidos tlaxcaltecas que como colonos salieran Nación, México (AGN.
Tierras, vol. 2956, exp.
como moquis. En la segunda mitad del a fundar pueblos entre los 99).Publicado en
siglo XVIII sus habitantes pelearon al chichimecas. En el mes de junio, Documentos inéditos para el
estudio de los tlaxcaltecas en
lado de los vecinos hispanos para amparados en esta cédula y las San Luis Potosí siglos xvi-
defender la región contra los capitulaciones correspondientes–que xviii, vol. II, introducción,
compilación, selección y
frecuentes ataques de tribus nómadas los “principales” de la ciudad de transcripción paleográfica de
de las praderas como los apaches, utes Tlaxcala negociaron con el virrey Luis José Antonio Rivera
y comanches. Antes de entrar en de Velasco–los tlaxcaltecas mandaron Villanueva (México: Gobierno
del Estado de Tlaxcala,
materia, sin embargo, revisaré 400 familias en una caravana para Fideicomiso Colegio de
brevemente el fenómeno de los aliados colonizar la frontera. Entre los Historia de Tlaxcala, 2010),
35-39. Sobre esta diáspora
indígenas en el virreinato de Nueva derechos y privilegios que especifican tlaxcalteca véase TOMÁS
España, bajo cuya jurisdicción estaba las capitulaciones se estableció que 1988; SEGO, 1998.
el reino de Nuevo México. estos colonos irían a poblar el norte
para adoctrinar a los chichimecas en la
Los indios aliados en Nueva crianza de ganado y labranza de la
España tierra, sirviendo también en la defensa
La alianza entre europeos e de las nuevas poblaciones cuando
indígenas más conocida es sin duda la fuera necesario, y que a cambio de
que los tlaxcaltecas establecieron con esto, ellos y sus descendientes serían
los españoles. Esto se debe a su hidalgos libres de todo tributo, alcabala
temprana fecha, perdurabilidad y y servicio personal; que tendrían sus
eficacia, así como al empeño que éstos propios barrios y los españoles no
pusieron en llevar un registro podrían asentarse en ellos; que se les
documental preciso de sus acciones y proveerían tierras, pastos, montes,
defender la posición y los privilegios ríos, pesquerías, salinas y molinos
que se derivar onde ella. Después de separados de los que se
luchar al lado de Hernán Cortés en proporcionaran a los chichimecas; que
México contra los aztecas en 1521, los tendrían derecho de montar caballo y
tlaxcaltecas jugaron un papel portar armas, así como recibir
importante en Nueva Galicia con Nuño bastimento para fundar sus pueblos.1
de Guzmán a principios de la década Entre las abundantes fuentes
de 1530 y en la expedición fallida que que documentan la participación de los
Francisco Vázquez de Coronado tlaxcaltecas como aliados de los
condujo a Cíbola (1540-1542), en lo españoles destaca la Descripción de la
que más tarde se llamó Nuevo México. Ciudad y provincia de Tlaxcala de las

177
2
La Descripción de la ciudad y
provincia de Tlaxcala… está
Indias y del Mar Océano para el buen entre 1540 y 1542 y representó una en la Colección Hunter de la
Universidad de Glasgow
gobierno y ennoblecimiento dellas amenaza tan grande que las tropas (manuscrito 242). Los
(1580-1585), del cronista mestizo destinadas a combatirla fueron especialistas consideran que
se trata de la Relación que
Diego Muñoz Camargo cuya sección personalmente comandadas por el Muñoz Camargo escribió
final es una serie de 157pinturas con virrey en turno, Antonio de Mendoza. como respuesta a la
instrucción que, por orden del
escenas que representan las batallas La lámina 1 delCódice de Tlatelolco, rey Felipe II, formularon Juan
en las que participaron tlaxcaltecas pintado durante la segunda mitad del de Ovando y Juan López de
entre 1521 y 1542.2 Las mismas siglo XVI, muestra las huestes Velasco en 1577 para recabar
información sobre la
campañas, salvo cinco, fueron involucradas en ambos sucesos. geografía, toponimia,
representadas en otro documento Pequeños personajes montados en la población y recursos de los
territorios recientemente
pictográfico conocido como Lienzo de parte inferior de la página representan ganados en América. El
Tlaxcala que se pintó alrededor de a los capitanes españoles (incluyendo documento, cuyas 157
pinturas empiezan en el folio
1550 (BROTHERSTON Y GALLEGOS, al virrey) y las tropas que 236r, excede las preguntas
1990). comandaban, mientras que los contenidas en la instrucción,
pues además de las pinturas
También está documentada, caciques dirigentes de las compañías
incluye la historia antigua de
entre otras, la colaboración de de Tlatelolco aparecen en la figura de Anáhuac, la conquista de
contingentes otomís y tarascos, así dos grandes gurreros indios, de pie, Tenochtitlan y el primer siglo
como nahuas de Tlatelolco y de colonización de la Nueva
dominando la escena.3 Para el caso de España. Fue publicado por
Huexotzincocomo guerreros y colonos
Huexotzinco contamos con la relación René Acuña como Diego
en la Nueva España del siglo XVI. Muñoz Camargo, “Descripción
Aunque en algunas ocasiones tuvieron de Francisco Acazitli, cacique de de la ciudad y provincia de
un estatus similar al de los Tlalmanalco que dirigió personalmente Tlaxcala de la Nueva España
e Indias del mar océano para
tlaxcaltecas, las fuentes no siempre a los guerreros de su pueblo en la el buen gobierno y
dejan claro qué privilegios obtuvieron guerra del Mixtón (ACAZITLI, 1996). ennoblecimie[nt]o dellas,
como recompensa. Un escuadrón de Pueden citarse muchos otros mandada hacer por la
tlatelolcas comandado por su propio S.C.R.M. del rey Don Felipe,
documentos que constatan la práctica nuestro señor,” en Relaciones
gobernador, don Alonso Cuauhnochtli,
española de enlistar indígenas del geográficas del siglo XVI, vol.
formaba parte de los cerca de 1000 4, Tlaxcala, ed. René Acuña,
indígenas aliados del centro de México, centro de México, y posteriormente de 25-286 (México: Universidad
incluyendo tlaxcaltecas, que Francisco otras regiones, como aliados en las Nacional Autónoma de
México-Instituto de
Vázquez de Coronado llevó en 1540 a empresas de conquista, “pacificación” Investigaciones
su expedición en busca de Cíbola y poblamiento efectuadas allende los Antropológicas, 1984). Entre
(NOGUEZ Y WOOD, 1998). límites del antiguo imperio Azteca.4 1585 y 1594 el propio Muñoz
Como en muchas otras Camargo agregó al texto
Todos ellos permiten constatar que la original de la Descripción una
expediciones de conquista o represalia, serie de comentarios en un
imposición y consolidación del régimen
la cantidad de soldados europeos que borrador que pasó a manos
colonial español implicó procesos de fray Juan de Torquemada,
participaron en esta empresa, quien lo depositó en la
complejos de negociación,
alrededor de 300, era mucho menor Biblioteca del Convento de
sometimiento y alianza con una gran San Francisco en la ciudad de
que la de “indios auxiliares.”Tlatelolco
diversidad de pueblos cuyas lenguas y México. De allí, tras algunas
también contribuyó al menos con un peripecias, este manuscrito
culturas eran diferentes y que tenían fue a parar a la Biblioteca
contingente dirigido por el sucesor de
formas de organización social y política Nacional de París, donde hoy
Cuauhnochtli, Don Martin Cuauhtzin se encuentra con el título
distintas. Sin embargo, a pesar de que
Tlacateccatl, en la llamada guerra del Historia de Tlaxcala y fue
los pueblos indígenas de América no editado por Alfredo Chavero
Mixtón. Esta rebelión masiva tuvo en 1892. Detalles sobre la
tenían una identidad comúny por lo
lugar en el sur de Zacatecas y Jalisco historia de ambos
manuscritos se pueden ver en