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Texto: O que é Psicologia Comunitária - Eduardo Mourão Vasconcelos

Capítulo I - “A conquista do direito de ser feliz e saudável”


Conforme Vasconcelos a partir das duas últimas décadas do século passado as bandeiras
defendidas pelos movimentos populares organizados de nossa sociedade vem sendo
redefinidas no sentido de reivindicações específicas (anteriormente definidas como possuindo
um caráter individual). Do cotidiano de cada movimento popular, embora nunca deixando de
lado as questões políticas de maior amplitude (luta contra a fome; reforma agrária; maior
distribuição de renda; etc.).
Portanto, na segunda metade do século XX é levantada uma nova bandeira; ou seja, o direito a
saúde mental. Dessa forma as grandes lutas sociais e políticas começam a incorporar um
aspecto relativo ao direito de ser feliz e saudável, não apenas para uma minoria social, mas
sim para todos os integrantes da sociedade. Direito este que significa também ter acesso aos
serviços que permitam trabalhar as contradições, as repressões, e violências que fomos
introjetando desde crianças, e que nos aparecem através da angústia, do medo, da dificuldade
de amar e de se relacionar com o mundo; com os outros.
Neste capítulo o autor procura definir a Psicologia Comunitária como sendo uma das
tentativas de responder às preocupações atuais, de se colocar a saúde mental em uma
perspectiva preventiva e inerente a vida social. E ao mesmo tempo ela objetiva atuar também
sobre as contradições internalizadas nas pessoas (curativa e reabilitação).

Conclusão do Capítulo I
Vasconcelos aponta:
Saúde mental “Ser feliz e ser saudável” Cidadania
Concepção deCidadania: Historicamente incorpora a visão de novos temas e direitos
(emancipação do homem). Os temas emergem a partir de uma exigência decorrente das
condições de vida; das lutas, desejos e utopias das pessoas e dos grupos em cada época
histórica. Inicialmente, através de intelectuais, de lideranças e de movimentos sócias
específicos. Gradualmente vai ganhando adeptos em direção às grandes parcelas da
população.

Capítulo II – “A crise da Psicologia”


- Aspectos gerais da crise da Psicologia:
• Reforma Universitária de 1968;
• A crise econômica;
• Crise do modelo liberal de atuação profissional.

Reforma Universitária de 1968: (a partir daí ocorre a proliferação de cursos sem o devido
planejamento de mercado de trabalho).
Crise Econômica: Segundo Vasconcelos, neste caso a Psicoterapia é um dos primeiros itens a
ser cortados do orçamento familiar. Crise do modelo liberal de atuação profissional (o
psicólogo ainda é visto como sendo um profissional liberal diante de um mundo globalizado).
Conforme Vasconcelos, verificamos então que a questão da promoção da saúde mental em
nossa sociedade ainda hoje na maior parte das vezes somente é assumida em apenas duas
situações.
1- Como questão individual, para aqueles que podem pagar por serviços especializados;
2- E quando o transtorno mental chega ao ponto de impossibilitar que o indivíduo continue a
produzir ou quando ele começa a criar dificuldades, riscos, para o meio social; justificando a
intervenção da psiquiatria nos prontos socorros psiquiátricos e através da internação em
hospital psiquiátrico.

Vasconcelos se questiona: “Que fatores específicos podemos identificar para que essa situação
se mantenha?”

- Fatores específicos demanutenção da crise da Psicologia:


→ Interesses econômicos:
• Indústria farmacêutica;
• Proprietários de hospitais psiquiátricos privados.
→ A tradição histórica do Brasil do autoritarismo, que tende a se reproduzir em todas as
instituições sociais.
→ A tradição machista da nossa sociedade que leva a Psicologia a ser considerada
essencialmente feminina, porque acentua a sensibilidade, a afetividade, valores
desconsiderados pelo machismo dominante.
→ Outra tradição acadêmica e prática da Psicologia Comunitária.
→ Isolamento dos profissionais em consultórios particulares.

Conclusão do Capítulo II

Novas reivindicações populares e a crise da Psicologia

“Exigem formas alternativas de abordar a saúde mental”


→ Surgem as primeiras experiências em Psicologia Comunitária.

Capítulo III – “As origens históricas da Psicologia Comunitária”


A) As experiências iniciais:

1- Moreno, Jacob Levy (1892 – 1974)


• Psiquiatria, Nascimento (1892) – Viena (Presidência)
1925 – Emigra para os EUA.
Construção do primeiro Teatro Terapêutico
• Criador do Psicodrama.
Etimologia da palavra Psicodrama: Origem grega. Drama = ação / Psique: alma ou espírito.
Psicodrama: “Uma “técnica” que trabalha com o psiquismo em ação”.
Introdução ao Psicodrama:
Jacob Levy Moreno é considerado o criador do Psicodrama e do Teatro Terapêutico, prática
que definiu: “... a ciência que explora a verdade por métodos dramáticos: trata-se de um
método de psicoterapia de grupo. Baseia-se o desempenho de papéis. Seu objetivo, além de
procurar descobrir como as pessoas concebem os papéis e como atuam em função deles,
também ajuda a alcançar um desempenho ajustado ao contexto sócio-cultural, através da
catarse(alívio através da liberação de emoções). Conforme Moreno, dessa forma: “o
Psicodrama produz um efeito terapêutico não no telespectador, mas nos atores, produtores
que criam o drama e, ao mesmo tempo se libertam dele”.
Observação: Vasconcelos considera o Psicodrama, como sendo uma das principais
experiências em Psicologia que já se aproximam dos ideais de uma Psicologia Comunitária
(importância no Psicodrama: trabalho expressivo grupal).
2- Reich, W. (1897 – 1957)
“Amor, trabalho e sabedoria são as fontes da nossa vida. Deviam também governá-lo”. (W.
Reich)
Sexpol: Associação alemã para uma política sexual proletária (1930 – 1931).
- Programa de Reich para as clínicas de higiene sexual:
• Livre distribuição de anticoncepcionais para qualquer um que os quisesse e educação
intensiva para o controle da natalidade;
• Completa abolição das proibições com relação ao aborto;
• Abolição da distinção legal entre casados e não casados; liberdade de divórcio;
• Eliminação de doenças venéreas e prevenção das dificuldades sexuais através de uma
completa educação sexual;
• Treinamento de médicos, professores, etc. em todas as questões relevantes da higiene
sexual;
• Tratamento ao invés da punição para questões sexuais.

- Alguns aspectos do pensamento de Reich:


“As novas neuroses são resultado de um represamento da energia sexual... a experiência
clínica cotidiana não deixa dúvidas: a eliminação do represamento sexual através da descarga
orgástica elimina toda manifestação neurótica”. (Escutos Selecionados)
“A análise possui uma metaterapêutica definida: se o paciente quer ficar bem e permanecer
bem, ele deve tornar-se capaz de estabelecer uma vida sexual, genital satisfatória”. (Análise do
caráter)“O como, isto é, a forma do comportamento e das comunicações era muito mais
importante do que aquilo que o paciente dizia ao analista. As palavras podem mentir. A
expressão nunca mente”. (Pulsão e Orgasmo)

Inicialmente W. Reich ficou mais restrito a teoria freudiana, analisando a couraça muscular;
procurando um método cada vez mais direto que abreviasse o tempo de uma Psicoterapia e
analisava também a situação social em volta do paciente. Por exemplo, no caso de uma pessoa
que apresentasse uma dificuldade sexual, procurava mostrar que se essa vivia em um
quartinho com mais 10 pessoas, em uma situação miserável, trabalhando no mínimo 10 horas
por dia, em um trabalho muito desgastante e por fim encontrando um monte de crianças em
casa, somente podia ter uma relação sexual muito angustiante. Segundo Reich, é ridículo
querer analisar a situação como se o paciente estivesse isolado do seu contexto.

3- Alcoólicos Anônimos (A.A.)

• 1935 – EUA – Akron (Ohio)


• 1948 – Brasil – Rio de Janeiro (RJ)

- A questão do alcoolismo:
Psicotrópicos: são substâncias químicas naturais ou sintéticas que possuem um tropismo
psicológico, isto é, são capazes de modificar de vários modos a atividade mental, excitando,
deprimindo ou provocando uma ação perturbadora no psiquismo.
Por que alcoolista e não alcoólatra?
Os estudiosos entendem que o sufixo “latra” indica adoração. Na realidade o dependente do
álcool é uma pessoa que usa o álcool por necessitar dele e não por adorá-lo.
A droga mais escolhida: A principal razão para essa escolha é a disponibilidade do álcool que
sempre foi muito grande na medida em que sendo produto da fermentação de açúcares pode
ser obtida em qualquer região. Também temos o baixocusto se comparado a outras drogas.
Segunda razão: a peculiaridade em fornecer energia (calorias vazias), pois não possui
proteínas, sais minerais. Cada grama de álcool contém 7 calorias. Ao fornecer energia as
bebidas alcoólicas fazem perder a fome.
Terceira razão: os efeitos farmacêuticos. O álcool é um depressor dos mecanismos cerebrais
responsáveis pelo controle inibitório, ou seja, produz uma inibição das inibições (levando a
uma aparente estimulação). O álcool faz com que os sentimentos que estavam sob controle,
aflorem.
Onde começa o alcoolismo?
Critérios: I) a quantidade e a freqüência de álcool ingerido, ou seja, o alcoolista é aquele que
bebe freqüentemente acima de determinado volume de álcool. Dessa forma os que bebem
diariamente em média acima de 4 doses de bebidas destiladas ou 4 garrafas de cerveja ou
mais de 1 garrafa de vinho de mesa, teriam ultrapassado o limite de beber normal. Da mesma
forma, pessoas que bebem esporadicamente grandes quantidades (por exemplo: nos fins de
semana) também são classificadas como alcoolistas (pressuposto: quem bebe a nível de sofrer
prejuízos físicos é um alcoolista).
II) Considera-se que ocorre o alcoolismo quando existe a perda da liberdade sobre o ato de
beber, ou seja, o indivíduo bebe independentemente das eventuais complicações para si
mesmo e para os outros.
Conceito de dependência do álcool: Esse conceito inclui além da dependência física, a
prevalência do comportamento de beber em detrimento dos aspectos da vida. “O dia passa a
ser planejado em função do beber”, portanto a percepção de que este comportamento causa
mágoa a outros não é levada em consideração.
- A etiologia do alcoolismo:
→ Determinação biológica: cientificamentepodemos dizer que fatores genéticos podem
contribuir para maior ou menor probabilidade do uso do álcool e não para o alcoolismo
propriamente dito.
→ Determinação psicológica: “Alcoolismo como sintoma (sinal de que algo não vai bem) de um
distúrbio psicológico”. Os alcoolistas diferem do restante da população por traços
característicos de personalidade, ou seja, são dependentes, deprimidos, inseguros, passivos,
introvertidos e, com tendência para a oralidade. Portanto o alcoolismo é secundário a um
distúrbio básico de personalidade.
→ Determinação sócio-cultural: “Culturas que ensinam crianças a beber responsavelmente,
bem como as culturas que seguem rituais estabelecidos de onde, quando e como beber, tem
menos taxas de uso abusivo de álcool quando comparados a culturas que simplesmente
proíbem as crianças de beber”. (As crianças hoje – Jandira)
Conclusão: a maior e menor probabilidade de uma pessoa tornar-se alcoolista vai depender da
interação entre os diferentes fatores citados (biológico, psicológico e sócio-cultural).
Considerações finais sobre o A.A.:
Atualmente em mais de 150 países os Alcoólicos Anônimos (A.A.) funcionam através de mais
de 100 mil grupos locais. No Brasil encontramos hoje em torno de 4 mil grupos espalhados
pelo país.
Segundo Vasconcelos, os grupos dos alcoólicos: “... funcionam automaticamente, e suas
reuniões manipulam técnicas simples de depoimentos de vida e reforçamento pelos períodos
de tempo crescentes que um integrante fica sem beber, além disso, elas criam laços de
solidariedade e amizade entre eles como suporte para a superação de seus problemas”.
O único requisito para ser membro é o desejo de parar de beber; não há necessidade de pagar
taxas ou mensalidades.“... somos auto-suficientes, graças a nossas próprias contribuições”.
Afirmam não estarem ligados a religiões e paridos políticos, bem como não entram em
controvérsias ou qualquer tipo de coisa.
“Nosso propósito primordial é mantermo-nos sóbrios e ajudar outros alcoólicos a alcançarem
a sobriedade”.
Vasconcelos aponta algumas limitações no trabalho desenvolvido pelos A.A., que são:
a) Trata-se de uma abordagem centrada na doença;
b) Trata-se de um tratamento moral “disciplina do espírito” para o alcoolismo;
c) Não leva em conta os condicionamentos sociais e políticos, como por exemplo, a política de
incentivo ao consumo de bebidas alcoólicas.

B) Experiências e movimentos mais globais:


1- Inglaterra (1945)
→ Criação das “Comunidades Terapêuticas” (Fundador: Maxwell Jones) e implementação das
“Psicoterapias de grupo”.
2- França (1945)
→ Criação da “Psiquiatria de setor”. Divisão do país em regiões, cada uma delas com equipes
multiprofissionais que intervêm junto à população.
3-EUA (1966)
→ Criação da “Psiquiatria Comunitária (Gerard Caplan)

A Psiquiatria Comunitária é caracterizada pelos 3 níveis de promoção da saúde mental:


• Prevenção primária (educação em saúde mental);
• Prevenção secundária (psicodiagnóstico e tratamento precoce do tratamento mental);
• Prevenção terciária (tratamento e readaptação do paciente ao meio social após sua
melhora).

Proposta da Psiquiatria Comunitária (Estado de São Paulo – 1983 – 1987)


“Tratamento e Readaptação do paciente ao meio social, após sua melhora”

“Psicodiagnóstico e tratamento precoce


do transtorno mental” “Hospitais Psiquiátricos”Prevenção terciária
“Ambulatório de saúde
mental”
Prevenção secundária
“Centros de saúde Educação em saúde (hoje UBS)
mental
Prevenção primária

Ponte de entrada do sistema de saúde

Princípios da proposta:
• Tratamento universal: pegar todas as classes;
• Regionalização (cada região com sua pirâmide);
• Descentralização (cada região tem sua equipe dirigente e cria sua verba);
• Hierarquização (níveis hierárquicos de prevenção: primário, secundário e terciário).

Dificuldades na implantação da proposta:


1- Interesses políticos e econômicos;
2- A resistência social, cultural e moral presente na sociedade em relação ao portador de
tratamento mental;
3- Falta de profissionais capacitados.
a) Formação dirigida predominantemente para a prestação de serviços (curativo), verdadeiros
profissionais não habituados ao trabalho em equipe multiprofissional;
b) Carência geral: conceitual, teórica e técnica em relação à realidade socialbrasileira.
Observação: a situação mais difícil foi a prevenção primária. E a maior fragilidade do projeto
estatal foi a participação comunitária.

Resumo do livro: O que é psicologia comunitária


Autor: Eduardo Mourão Vasconcelos

Grupos feministas ou membros de grupos comunitários diversos da periferia da cidade se


acotovelam no auditório. Assunto: As reivindicações das mulheres mineiras e brasileiras de
hoje.
Isso aconteceu em Belo horizonte, há cinco anos. Este é um fato cheio de significações. Ele
ilustra como o movimento feminista vem assumindo e colocando na rua, além das grandes
lutas pela mudança política e pelos anseios de igualdade econômica e social entre os sexos,
várias das outras questões antes consideradas pequenas, secundárias, ligadas à condição
feminina, as relações interpessoais e às identidades tanto feminina como masculina.
Vamos recuar mais um pouco no tempo. Estamos na periferia de Vitória, Espírito Santo, mais
exatamente em 1975, na região do Campo Grande. Após a leitura bíblica, a fase da reunião
traz à tona as preocupações de cada um: os problemas do trabalho, as dificuldades de se
educar os filhos num mundo de muita confusão, e a busca por uma educação mais libertadora.
Em 1979 chega a Belo Horizonte, o psiquiatra italiano Franco Basaglia Ongaro, que durante
décadas vinha lutando pela humanização dos manicômios e mobilizando a sociedade italiana
em torno desses assuntos. A presença de Basaglia agitou a sociedade mineira. A imprensa
denunciou a situação dos hospitais e entidades preocupadas com a saúde mental se
organizaram e reforçaram a sua ação.
A sociedade ocidental vem participandodesde os anos sessenta de um processo gradativo de
redefinição da saúde mental. A questão da condição feminina, do homossexualismo virou
assunto do cotidiano das pessoas e dos meios de comunicação. No movimento sindical, a
saúde e o bem estar do trabalhador começam a ser temas de lutas em alguns países. O
movimento ecológico, ao mesmo tempo em que denuncia a devastação do meio ambiente,
vem mostrando a necessidade de uma relação de respeito e amor à natureza como elemento
indispensável à vida humana feliz.
A segunda metade do século XX vem desfraldando uma nova bandeira de reivindicações, vem
inaugurando uma nova faceta inerente à cidadania: o direito a saúde mental.
O direito à felicidade e a saúde mental significa também ter acesso a serviços que permitam
trabalhar as contradições, as repressões e violências que fomos introjetando desde crianças, e
que nos aparecem através da angustia, do medo, da dificuldade de amar e de se relacionar
com o mundo e com os outros.
Esse debate acerca da psicologia atual inaugura um campo do qual emergirá a psicologia
comunitária. Ela é uma das tentativas de responder a essa preocupação em se colocar a saúde
mental em uma perspectiva preventiva e inerente à vida social.
O campo de trabalho para os psicólogos que têm entrado no mercado nos últimos anos está
ruim, os psicólogos estão em sua maioria desempregados ou subempregados, e esta situação é
a mesma para os demais profissionais de nível universitário no Brasil. O aumento do número
deprofissionais formados em decorrência da proliferação de faculdades depois da reforma
universitária de 1968 e a crise econômica pela qual passa o país são um dos responsáveis por
esta crise.
A psicologia como a conhecemos, é uma profissão recente, sendo reconhecida nos países
ocidentais há pouco mais de cem anos. No Brasil, a psicologia é uma profissão mais recente
ainda: sua regularização data de 1962. Copiando tendências dominantes na Europa e nos
Estados Unidos na época, a forma de atuação prioritária que orientou tanto a legislação
profissional quanto a formação dada nos cursos universitários privilegia a clínica, através de
consultório individual.
A crise atual do mercado de trabalho do psicólogo revela aspectos mais profundos, a ponto de
podermos falar em uma crise de modelo de atuação profissional. Assistimos ao fenômeno do
subemprego ou desemprego dos profissionais, enquanto a maioria da população está carente
não só de condições mínimas de sobrevivência, como também de serviços de saúde em geral e
de higiene mental adequados às suas necessidades.
A partir da área clínica, o modelo de atuação do psicólogo, inspirado no profissional liberal
clássico, está em crise. E, ao mesmo tempo, nossa sociedade ainda não demandou claramente
outro modelo de atuação. Podemos dizer que uma sociedade de capitalismo tardio, periférico,
como a nossa, vê o homem comum apenas enquanto roda de engrenagem produtiva. Os
problemas de saúde mental só são considerados quando ferem diretamenteos interesses da
acumulação de riquezas ou quando incomodam demais a “paz” social.
Há também outras razões para o pouco valor atribuído a psicologia em nosso país, o fato desta
profissão ser essencialmente feminina, numa sociedade tradicionalmente machista, por outro
lado, a profissão sendo recente, tem pouca tradição acadêmica e profissional. Não podemos
perder de vista outra questão: a insistência das instituições ligadas à psicologia no país em se
propor como modelo prioritário de atuação profissional a clínica particular. Quando novas
oportunidades de trabalho se abrem em instituições das mais variadas, o psicólogo não sabe o
que fazer na nova situação, ou assume atividades diferentes que o fazem perder sua
identidade profissional, ou tende a se fechar em uma sala para atendimentos individuais ou de
pequenos grupos.
As formas tradicionais de prestações de serviços no setor de saúde mental estão em crise. A
assistência psiquiatra tradicional baseada na internação é cara e vem sofrendo uma forte
denúncia por parte dos movimentos antipsiquiátricos e da opinião pública em geral. E pelo
lado da psicologia, os serviços tradicionais oferecidos por ela são elitizados, sofisticados, caros
e demorados. Assim, desde a década de 60 vimos assistindo, em vários países, a proposição de
modelos alternativos de serviços em saúde mental. Nesse momento é que vão surgir as
primeiras experiências em psicologia comunitária, como uma das saídas alternativas para
psicologia em crise.
Uma dasprimeiras tentativas de aproximação da psicologia aos ideais da psicologia
comunitária foi realizada por Moreno, em Viena, no começo do século. Em 1908, ele começou
a fazer improvisações dramáticas com crianças, instigando-as a rebelarem-se contra o mundo
dos adultos e criarem normas para uma sociedade infantil respeitada pelos maiores. As
experiências prosseguem em 1921 com dramatizações que acabam na criação do teatro da
espontaneidade e, dois anos mais tarde, no teatro terapêutico. Elas criaram a base para a
estruturação do que hoje conhecemos como as técnicas psicodramáticas.
A experiência e a obra de Wilhelm Reich são cruciais na formação histórica da proposta da
psicologia comunitária. Ele fundou em Viena, uma sociedade socialista de aconselhamento
sexual e de sexologia, abrindo em 1929, seis centros de higiene sexual. Após conferências com
médicos e estudantes socialistas, e convencido da necessidade de politizar a questão sexual,
liga-se ao Partido Comunista Alemão e funda a Associação Alemã para uma Política Sexual
Proletária (SEXPOL).
Outra experiência bem diversa da de Reich, mas bastante significativa, é a dos Alcoólicos
Anônimos (A.A), iniciada em 1935, nos Estados Unidos, e hoje amplamente difundida, em
quase todo o mundo. Podemos identificar algumas limitações no trabalho dos A.A, no entanto,
constituem sem dúvida uma experiência sugestiva e eficaz dentro do enfoque da psicologia
comunitária, e influenciaram a criação de experiências semelhantes mais recentes,do tipo
Neuróticos Anônimos, grupos de auto- ajuda de ex-psiquiatrizados, etc.
A partir dos meados do atual século, assistimos a experiências e movimentos mais globais e de
cunho mais institucionalizado, que influenciaram diretamente o nascimento da psicologia
comunitária.
Em primeiro lugar, temos o processo de reformulação dos conceitos e da pratica da
psiquiatria. Na Inglaterra surgem iniciativas modernizadoras de crítica à estrutura dos
manicômios, no período de guerra Alguns psiquiatras lançaram a idéia de grupos de discussão
e de atividades com pacientes. Essa experiência foi um sucesso e permitiu o nascimento de
comunidades terapêuticas, alguns anos depois, das psicoterapias de grupo.
A psiquiatria comunitária surgiu nos Estados Unidos. Foi lançada a proposta de níveis de
intervenções da assistência, seguindo o momento evolutivo da “doença mental”, buscando o
diagnóstico e o tratamento precoce da doença mental e a busca de readaptação do paciente à
vida social.
O movimento de maior profundidade de mudanças e de repercussão internacional foi, sem
duvida, o da Psiquiatria Democrática, vanguardeada por Basaglia, na Itália. A experiência
começou no hospital psiquiátrico de Gorizia, no nordeste do país. As modificações incluíram a
adoção de um modelo radical de comunidade terapêutica e abertura do hospital para que os
pacientes pudessem viver fora dele. Em 1978, conseguiram sedimentar as novas praticas em
uma nova lei psiquiátrica para todo pais.
A medicina comunitáriatambém teve um forte papel no aparecimento da psicologia
comunitária. Ela nasceu principalmente da preocupação de se oferecer alguma forma de
assistência aos pobres, que não podiam ter acesso à medicina sofisticada e cara. Nessas
experiências, além das lutas e reivindicações políticas e materiais, de pratica da educação
popular, as atividades incluem varias questões ligadas especificamente a saúde mental.
Outro processo fundamental que contribuiu para o aparecimento da psicologia Comunitária foi
o progressivo assalariamento, o achatamento da renda e a conseqüente criação de condições
para uma politização crescente dos profissionais de saúde e saúde mental.
Se fizermos uma avaliação da implantação de Psicologia Comunitária no Brasil, acredito que
poderemos identificar pelo o menos três direções: A primeira se dá pela via acadêmica,
universitária, lecionando-a de forma teórica, sem muita possibilidade de uma pratica concreta.
O ensino da psicologia no Brasil sofre deste mal crônico, que é a ausência de referências
praticas que orientem sua teorização e sua adequação á realidade brasileira.
O segundo caminho tem sido, ate recentemente, o do movimento popular, em experiências
concretas, em associações de bairro, em educação popular em geral, em creches comunitárias
e etc.
Em terceiro lugar, estamos assistindo, nos últimos anos, a implantação muito gradativa de
programas que incorporam a psicologia comunitária, por parte de instituições sociais
principalmente ligadas ao estado.A psicologia comunitária pode ser considerada um campo
com uma unidade mínima, e pode significar a formalização de um novo paradigma de pratica
profissional do psicólogo, em relação à prática predominantemente desenvolvida até então.
Acredito que a sistematização comparativa que tentarei esboçar aqui poderá ser interessante
para se entender como vejo a proposta de uma psicologia comunitária comprometida com os
interesses populares: Enquanto a psicologia tradicional enfatiza a abordagem individual do
psíquico, a ênfase da psicologia social está nas pessoas enquanto seres sociais, onde o
conteúdo psicológico tem conotações também institucionais, sociais, culturais e políticas. A
prática desenvolvida pela psicologia tradicional é dirigida prioritariamente para os grupos
sociais mais privilegiados, tanto do ponto de vista econômico quanto cultural. Já a psicologia
comunitária, a prioridade básica são as classes populares, ainda sem acesso a serviços básicos
de saúde mental. Na psicologia tradicional as técnicas são predominantemente curativas
enquanto a psicologia comunitária a ênfase é dada a prevenção.
Como vimos, o que dá identidade ao psicólogo comunitário em relação aos seus colegas
tradicionais é uma forma própria de atuar, voltada para objetivos próprios segundo uma visão
crítica definida.
Assim, o primeiro campo de atuação da psicologia comunitária é o das próprias instituições
onde o psicólogo já é comumente chamado a trabalhar: nas escolas e demais instituições
deeducação, nos hospitais psiquiátricos, nas empresas, etc.
A psicologia comunitária nos pede uma visão mais crítica e uma ampliação do campo de
atuação. Ela nos cobra uma abordagem mais preventiva, manipulando variáveis mais amplas,
sociais e institucionais. Ela reivindica a ação participativa dos usuários e funcionários das
instituições na resolução dos problemas e na atuação sobre a saúde mental.
Na escola o psicólogo é chamado para atuar unilateralmente sobre questões ligadas a saúde
mental, normalmente para selecionar, diagnosticar e avaliar indivíduos isoladamente ou para
cuidar clinicamente dos considerados “casos-problemas” pela instituição.
Também as técnicas específicas de abordagem a saúde mental podem se tornar mais
adequadas a essa nova realidade participativa. O psicólogo agora, em vez de ficar restrito a sua
sala, atendendo casos individuais, poderá, por exemplo, formar grupos de professores para a
elaboração da problemática deles, grupo de pais para discutir as questões ligadas a educação e
estimulação dos filhos. Poderá até mesmo assessorar a direção da escola em atividades e
programas mais abrangentes e compatíveis com a realidade da instituição.
As instituições e programas governamentais da área social constituem um segundo campo de
atuação do psicólogo comunitário. Principalmente nos últimos quarenta anos, a demanda feita
ao estado para responder as necessidades globais da população vem crescendo,
principalmente com relação a maioria mais pobre e oprimida.