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A EVOLUÇÃO DA SOLIDARIEDADE: DAS SOCIEDADES CLÁSSICAS À PRINCIPIOLOGIA

CONSTITUCIONAL

THE EVOLUTION OF SOLIDARITY – FROM CLASSICS SOCIETIES TO CONSTITUTIONAL


PRINCIPLES

Emanuel De Melo Ferreira

RESUMO
A ideia de solidariedade percorreu um longo caminho para alcançar o alto posto por ela hoje ostentado,
sendo o valor base dos direitos fundamentais de terceira geração. Esse princípio que busca a ajuda recíproca
entre os componentes de dado grupo, que, em última análise, estender-se-ia a todo o gênero humano, partiu
da obrigação solidária presente no direito romano e seguiu através da fraternidade concernente no amor ao
próximo da doutrina cristã para, na Revolução Francesa, ganhar os traços que mais o caracteriza nos tempos
atuais. Nesse momento, a fraternidade afastou-se das implicações religiosas, mantendo, contudo, a ínsita
ideia de igualdade presente no Cristianismo.
Com o declínio do Estado Liberal, o princípio começa a apresentar um conteúdo socializante, tendo
ingressado definitivamente para os estudos jurídicos com a obra dos pensadores da Escola Sociológica,
podendo-se, então, falar em um princípio jurídico da solidariedade.
No final do século XX a solidariedade apresenta-se como valor capaz de informar os direitos fundamentais
de terceira geração, direitos dotados de alto grau de humanismo e universalidade, destinados a todo o gênero
humano. No Brasil, a configuração atual do princípio foi recentemente delineada pelo Supremo Tribunal
Federal, no julgamento da ADI nº 3.105, imprescindível para o desenvolvimento histórico da solidariedade.

PALAVRAS-CHAVES: EVOLUÇÃO DA SOLIDARIEDADE, DIREITOS FUNDAMENTAIS DE


TERCEIRA GERAÇÃO.

ABSTRACT
The idea of solidarity has come a long way to achieve its highest level, becoming the basic value of
fundamental rights of third generation. That principle seeks reciprocal help among the components of a
group what, ultimately, would be extended to the entire human race. From the solidary obligation in the
Roman law, solidarity proceeded through the fraternity in the love of neighbor of the Christian doctrine for,
in the French Revolution, achieve the basic lines that more characterizes it in the current times. In 1789,
fraternity stood back of the religious implications, maintaining, however, the inherited idea of equality
present in the Christianity.
With the decline of the Liberal State, the principle begins to submit a socializing content, having entered
definitively for the legal studies through the work of the Sociological School´s thinkers, rising, then, a legal
principle of solidarity.
In the end of the XX century solidarity becomes the value capable to inform the fundamental rights of third
generation, rights endowed with a high degree of humanism and universalism, destined to the whole
mankind. In Brazil, the current configuration of the principle was delineated recently by Federal Supreme
Court, in the judgement of the ADI nº. 3.105, indispensable for the solidarity historical development.

KEYWORDS: EVOLUTION OF SOLIDARITY, FUNDAMENTAL RIGHTS OF THIRD


GENERATION.

1. INTRODUÇÃO
O princípio da solidariedade ocupa papel de extrema relevância no constitucionalismo
contemporâneo. Em verdade, diversos textos constitucionais consagram-no, seja para balizar um objetivo a
ser alcançado pelo Estado ou para fixar um dever fundamental de solidariedade social, política ou
econômica. Tendo-se em vista a força vinculante dos princípios, fruto sobretudo das ideias “pós-
positivistas”[1] lançadas após a Segunda Guerra Mundial, percebe-se como a solidariedade ganha força
como instrumento de mudança social, já que pode ser exigido juridicamente.
Ocorre que a ideia de solidariedade passou por longo caminho até alcançar esse patamar de princípio
jurídico. Deve-se assentar, dessa forma, que as concepções primeiras acerca da solidariedade, surgidas ainda
nas sociedades greco-romanas clássicas, eram completamente desprovidas de qualquer caráter político,
comprometendo, também, sua juridicidade. O fato histórico que lançou as bases da solidariedade como o
mundo ocidental hoje entende foi a Revolução Francesa, sendo justamente tal evolução histórica,
considerando as inestimáveis contribuições da doutrina cristã e a socialização do princípio operada com a
queda do Estado Liberal, o objeto do estudo desenvolvido na primeira parte desta pesquisa.
Em seguida, apontando para uma perspectiva constitucional, analisar-se-á como a solidariedade, já
concebida como princípio jurídico, apresenta-se especificamente na Constituição Federal de 1988 (CF/88),
desenvolvendo-se, igualmente, um breve exercício de direito constitucional comparado a fim de perquirir o
tratamento dado ao princípio em questão pela Constituição italiana de 1948.
Após esse estudo, apontar-se-ão algumas tensões possíveis envolvendo o princípio da solidariedade e
demais princípios constitucionais, como os princípios da legalidade e do direito adquirido, sendo essencial a

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consulta à ADI 3.105, julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em face da impugnação feita ao art. 4º
da Emenda Constitucional nº 41, que tratava da contribuição social dos servidores públicos inativos e
pensionistas. É através da decisão prolatada por essa Corte que será possível delinear, definitivamente, o
caráter do princípio da solidariedade na ordem constitucional brasileira.
2. A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA SOLIDARIEDADE
2.1 DAS SOCIEDADES CLÁSSICAS AO SOLIDARISMO JURÍDICO
O termo solidariedade origina-se do latim solidarium, que vem de solidum, soldum, significando
aquilo que é inteiro, compacto.[2] Esse sentido era a concepção clássica que o direito romano apresentava
acerca da obligation in solidum, a conhecida obrigação solidária, na qual um dos devedores obrigava-se por
toda a dívida, em se tratando de solidariedade passiva, mostrando como a imagem do “um por todos e todos
por um” é bem aplicável à solidariedade.[3]
Tal palavra apresenta diversos sentidos, podendo-se atribuir uma acepção sociofilosófica, consistente
na “capacidade dos membros de um determinado grupo, família, nação, toda a humanidade, de prestar-se
recíproca assistência”[4]. Através desse amplo conceito, é bem possível distinguir os âmbitos sociais de
incidência da solidariedade, referindo-se a um grupo (como a família ou um corpo de empregados), ao povo
de um Estado (solidariedade genérica) ou, ainda, a toda a humanidade. Pode-se, também, vislumbrar a
solidariedade a partir de certa obrigação, como a já referida obrigação solidária ou tendo em vista certo
acontecimento trágico, como o sujeito que se solidariza com outrem em face de certa enfermidade.[5] Todos
os sentidos e possibilidades apontam, no entanto, para a ideia ínsita de compartilhamento, de união entre as
partes e o todo.
Para a solidariedade atingir o patamar que hoje ostenta, um lento processo evolutivo foi percorrido,
pois somente com a consagração e busca pela efetivação dos direitos fundamentais em suas mais diversas
dimensões foi possível propiciar o campo para o seu desenvolvimento. Isso se torna mais claro quando se
percebe que não havia muito lugar para solidariedade numa sociedade extremamente desigual, escravista e
machista como eram, por exemplo, as sociedades greco-romanas clássicas.
Nesse sentido, Hauke Brunkhorst aponta que o fim da dominação imposta às relações sociais pelos
laços de família e pelas relações de sangue, que limitavam a capacidade de associação e mútua assistência
somente aos membros de determinada família ou tribo, mostrou-se essencial para o desenvolvimento da ideia
de solidariedade nas sociedades clássicas.[6] Partindo da concepção de Aristóteles na qual a amizade seria
capaz de manter as cidades unidas,[7] o autor sustenta que as relações sociais deveriam ser desenvolvidas a
partir dos laços de amizade que cada um faz com quem bem entender, de acordo com sua livre afeição,
afastando peremptoriamente as relações baseadas somente na força da história familiar ou nos laços de
sangue. Tal quebra de paradigma teria ocorrido primeiramente nas cidades-estado da Grécia antiga.[8]
As relações sociais baseadas na amizade, não na dominação de certas tradições tribais ou familiares,
seria o primeiro pressuposto para o desenvolvimento da solidariedade clássica, proporcionando uma
ampliação em seu âmbito de incidência. Ocorre que a solidariedade clássica ficara adstrita às altas classes
urbanas, pois a sociedade da época era extremamente desigual, inferiorizando a mulher e admitindo a
escravidão. Assim, para o deleite de uma classe dominante, o preço a pagar seria a exclusão dos “infames”:
bárbaros, estrangeiros, mulheres e escravos. [9] Nas sociedades clássicas, portanto, a solidariedade só se fazia
presente entre poucos.
A doutrina cristã, por sua vez, ampliou consideravelmente o sentido da solidariedade. Através de sua
concepção, a solidariedade deveria ser entendida como amor ao próximo, incluindo aí os inimigos e
estranhos,[10] sendo evidente, já nesse primeiro momento, a diferença entre essas ideias e a solidariedade
clássica. Concebendo o homem como criação feita à imagem e semelhança de Deus, dever-se-ia reconhecer
igual dignidade aos mesmos, já que tal qualidade lhes seria ínsita. Assim, o homem deve amar ao próximo
como a si mesmo, pois todos são iguais em dignidade. Esse é, possivelmente, o maior fundamento filosófico
do princípio da solidariedade, que ensejará a distinção entre solidariedade de grupo e solidariedade genérica,
adiante referida nos comentários à ADI 3.105.
Tendo em vista essa igualdade entre todos os seres humanos, o cristianismo universalizou a ideia de
solidariedade, tendo como destinatário não uma classe superior ou dominante, mas todo o gênero humano.
Mesmo com essa universalização, a concepção cristã continuava tendo um caráter concreto, diferenciando-se
do conceito de humanidade abstrata de Kant,[11] pois o respeito e a igualdade que se deveria buscar não se
referia ao ser humano em abstrato, mas a cada individuo concebido à imagem e semelhança de Deus.[12]
É possível precisar a aplicação da ideologia cristã em algumas normas da legislação de Israel. Apesar
de os judeus terem sido escravizados, admitia-se a escravidão em sua sociedade, sendo esta mais branda, no
entanto, do que a praticada tipicamente em todo o mundo antigo.[13] Assim, após seis anos, os proprietários
deveriam libertar seus escravos e pagar-lhes alguma quantia para mantê-los por certo tempo, reconhecendo-
se, ainda, direito à liberdade para o escravo que fosse seriamente ferido por seu senhor.[14]
Israel também tinha a mais desenvolvida legislação social de sua época. No século sétimo, a espinha
dorsal da monarquia foi atingida economicamente através da extinção dos tributos estatais. Criaram-se,
assim, contribuições fixas de grãos, óleo, carne ou vinho que não mais eram destinadas aos clérigos, pois
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eram consumidas pelo próprio contribuinte ou distribuídas diretamente aos necessitados, como uma espécie
de “tributo para os pobres”. Assim, o princípio da solidariedade em sua feição de ajuda ao próximo imprimiu
substanciosa alteração nos mecanismos de arrecadação e distribuição de tributos entre os judeus.[15] Cite-se,
ainda, a alteração nas regras acerca do endividamento pessoal, fazendo com que as dívidas fossem perdoadas
a cada sete anos, causando a diminuição da escravidão por dívidas e desencorajando o abuso daqueles que
emprestavam quantias vultosas sabendo da impossibilidade de pagamento do necessitado.[16]
As ideias cristãs eram muito revolucionárias para seu tempo. Defender a igualdade de todos os
homens e o amor ao próximo, seja este desconhecido ou inimigo, acabaria não surtindo o efeito prático
esperado numa sociedade essencialmente desigual. Para os cristãos, a solidariedade, ou seja, a efetivação do
mandamento concernente em amar o próximo como a si mesmo, era o caminho para se alcançar o reino dos
céus, mostrando como a solidariedade ainda não tinha qualquer aspecto político ou jurídico. A doutrina
cristã, finalmente, fez evoluir a ideia de solidariedade clássica, referível a poucos, para uma solidariedade
atribuível a todos.
A solidariedade cristã era voltada para outro mundo, pois estava intimamente relacionada com a
salvação pessoal. Esse caráter sobrenatural foi, no entanto, fortemente combatido pelas ideias postas em
movimento após a Revolução Francesa, originando a ideia moderna de solidariedade. Foi somente através
desta que se conseguiu superar o idealismo de igualdade sobrenatural cristão e as profundas desigualdades
das sociedades clássicas, que eram escravistas e machistas, repita-se.[17] Assim, pode-se dizer que as bases
modernas do princípio da solidariedade foram de fato lançadas em 1789, desenvolvendo-se juntamente com
o constitucionalismo, quando a solidariedade cristã foi politizada e, posteriormente, abraçada pelos
movimentos sociais do século dezenove, concretizando-se, finalmente, através do Estado do bem-estar
social.[18]
Advirta-se, desde já, que os termos “fraternidade” e “solidariedade”, rigorosamente, apresentam origens
diversas, e, apesar de ser possível considerá-las sinônimos atualmente, isso nem sempre ocorreu. À época da
Revolução Francesa, prestigiou-se a utilização do primeiro, mais ligada à ideia cristã de amor ao próximo. O
segundo termo, por sua vez, tem origens latinas, remetendo à República romana e à obrigação solidária, como
visto anteriormente.[19] A fraternidade dos franceses continha traços individualistas, sendo tal característica
superada com os movimentos sociais da segunda metade do século XIX, causando o desprestígio da expressão
“fraternidade” e o conseqüente prestígio da “solidariedade”, pois esta já continha características marcadamente
sociais. Assim, da Revolução Francesa até a eclosão de tais movimentos sociais, utilizar-se-á nesta pesquisa o
termo “fraternidade”.
Foi através dessa fraternidade que os Jacobinos politizaram a igualdade. O raciocínio era o seguinte:
se todos nascem iguais em direitos e liberdades, todos devem participar dos assuntos públicos. Assim nasceu
o que Bronkhorst chama de “patriotismo dos direitos humanos”, tendo em vista disposições da Constituição
francesa de 1793 que asseguravam os direitos civis, inclusive direito ao voto, para todos aqueles que
trabalhassem e morassem na França por pelo menos um ano.[20] A amplitude dos direitos civis lançados
após a Revolução Francesa, extensíveis ao gênero humano de uma maneira geral, contrastou com as
anteriores revoluções inglesa e americana, pois as previsões destas dirigiam-se a uma camada social
privilegiada, como os barões feudais, no caso inglês, ou especificamente à sociedade que se libertava, no
caso americano. A declaração francesa de 1789, assim, ganhou em abstratividade.[21]
A fraternidade lançada como um dos valores básicos da Revolução Francesa era atrelada à ideia de
caridade ou filantropia, consistindo na ajuda àqueles que necessitavam, sendo que estes eram vistos em sua
individualidade. Não se concebia ainda a fraternidade como valor social, mostrando todo o individualismo do
recém inaugurado Estado Liberal. José Fernando de Castro Farias mostra que a ajuda baseada na
fraternidade tomou corpo na Constituição francesa de 1793, que previa em seu art. 21 o reconhecimento da
necessidade de ajuda social: “os socorros públicos são uma espécie de dívida sagrada. A sociedade deve a
subsistência aos infelizes, seja lhes dando trabalho, seja assegurando os meios de existência àqueles que não
podem trabalhar”.[22] Percebe-se, dessa forma, que há uma inegável preocupação com a situação social do
próximo, mas ainda não se pode conceber a fraternidade como valor norteador de políticas públicas sociais,
destinadas a alcançar a justiça social. Essa será a última quebra de paradigmas envolvendo a fraternidade,
adiante analisada.
A superação da fraternidade nos moldes franceses para a ascensão da solidariedade como hoje se
reconhece nos mais diversos textos constitucionais do mundo ocidental começou a ocorrer no fim do século
XIX, pois com a crise do Estado Liberal surgiu uma nova maneira de pensar as relações entre Estado e
sociedade, direito público e direito privado, política e economia.[23] Em verdade, a partir do momento em
que o Estado Liberal mostrou-se incapaz de combater a onda crescente de monopólios e a concentração de
bens, negando os caros princípios básicos da livre concorrência, “ o liberalismo não podia mais salvar as
aparências e a ideologia liberal era desmascarada como ilusão.”[24] Nesse sentido também se manifesta Eros
Grau, pois, ao analisar os princípios norteadores da Revolução Francesa, assenta a completa impossibilidade
de o princípio da fraternidade ter prosperarado numa sociedade marcada fortemente pelo egoísmo.[25]
A superação da moderna visão da fraternidade como caridade ou filantropia traduziu-se na
possibilidade de se pensar políticas concretas, sendo o princípio utilizado “como um fio condutor

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indispensável à construção e à conceitualização das políticas sociais”.[26] Este é possivelmente o maior traço
diferenciador da nova ideia de solidariedade: reconhecer que a desigualdade é uma característica social, não
meramente individual. Para buscar uma correção, assim, far-se-ia imperioso a intervenção do Estado e da
sociedade para se alcançar a justiça social, diminuindo ou eliminando as desigualdades e propiciando meios
de integração daqueles até então excluídos. Essa é a base do novo discurso solidarista.[27]
Nesse contexto, a solidariedade começa seu processo de aproximação com o Direito, que irá
culminar com sua consagração como um princípio constitucional, podendo ser exigível por qualquer
interessado, sendo ainda capaz de informar os direitos fundamentais de terceira geração, adiante referidos
quando da análise constitucional da solidariedade. Para a construção do solidarismo jurídico, foi inestimável
a contribuição de juristas como Léon Duguit, Maurice Hauriou e Georges Gurvitch, cujos estudos, mesmo
seguindo por caminhos diversos, lançaram luzes sobre uma nova forma de encarar o Direito e o Estado.[28]
Em síntese, pode-se dizer que: a ideia de solidariedade concebida nas sociedades greco-romanas
clássicas era limitada a um pequeno grupo dominante, já que se tinha uma sociedade extremamente desigual,
mesmo que organizada a partir da amizade entre os indivíduos e não através da dominação imposta por
tradições familiares ou lanços de sangue tribais; a doutrina cristã, por sua vez, apregoava o dever de amar o
próximo como a si mesmo, como forma de alcançar a salvação espiritual, ampliando a ideia clássica de
solidariedade para todos os homens; tal ideia, no entanto, foi em parte combatida pela fraternidade
preconizada pelos franceses, que laicizaram a fraternidade cristã, preservando a igualdade consagrada por ela
e utilizando-a para justificar a igual participação dos indivíduos nos assuntos públicos; finalmente, com a
crise do Estado Liberal, a ideia de solidariedade, cada vez mais próxima do Direito, supera a ideia de
fraternidade, lançando-se as bases para o reconhecimento de uma sociedade de massa, com a conseqüente
necessidade de positivação constitucional do agora princípio jurídico da solidariedade. É justamente sobre
esse enfoque constitucional que os estudos desenvolver-se-ão.
2.2 ASPECTOS CONTEMPORÂNEOS
2.2.1 A Constituição italiana de 1948 e os deveres de solidariedade
Fazendo um breve exercício de direito constitucional comparado, é possível perceber como o
princípio da solidariedade ganha projeção também internacional, bastando para tanto analisar a Constituição
italiana de 1948. Logo nos princípios fundamentais, aquele texto estipula em seu art. 2° que:
“A República reconhece e garante os direitos invioláveis do homem, quer como ser individual quer nas
formações sociais onde se desenvolve a sua personalidade, e requer o cumprimento dos deveres
inderrogáveis de solidariedade política, econômica e social”.

Percebe-se que a estipulação dos deveres de solidariedade social, política e econômica são explícitos,
diferentemente do que se passa na Constituição brasileira, pois, apesar de o capítulo primeiro do Título II ser
nomeado “dos direitos e deveres individuais e coletivos”, não há a previsão expressa desses deveres, cabendo
à doutrina e à jurisprudência o labor hermenêutico necessário para o desvendamento deles.[29]
A doutrina italiana valorizou a distinção entre solidariedade política, econômica e social para
justificar a diferenciação entre os contribuintes residentes e não-residentes em seu território, já que os
residentes são contribuintes por força da solidariedade política, enquanto os não residentes o são em face da
solidariedade econômica e social.[30] Justifica-se ainda a tributação dos não-residentes tendo em vista
também o art. 53 da referida Lei Fundamental,[31] que, mostrando mais uma vez a força do princípio da
solidariedade, impõe a todos o dever de contribuir para as despesas publicas, na medida de sua capacidade
econômica.
2.2.2. A Constituição brasileira de 1988 e os direitos fundamentais de terceira geração
A Ordem Constitucional brasileira é inaugurada com o preâmbulo da Constituição Federal de 1988,
que, muito embora não ostente o caráter de norma jurídica,[32] consiste importante vetor interpretativo
informador de toda a ordem jurídica pátria, sendo que lá está presente o valor fraternidade. Desse modo, sua
importância é fundamental, pois fixa os “valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem
preconceitos”. Apesar da utilização do termo “fraterna”, a Constituição posteriormente também utilizará a
expressão “solidária”, mostrando que ambas podem ser vistas como sinônimas.
A solidariedade também decorre do Estado Democrático de Direito. Sabe-se que este pode ser
compreendido numa acepção formal e material, seguindo a distinção proposta por Klaus Stern. [33] Através
da primeira, tem-se o Estado de Direito, preocupado eminentemente com a segurança jurídica, estipulando: a
estabilidade da coisa julgada, do ato jurídico perfeito, do direito adquirido ou prevendo a garantia da
legalidade e da irretroatividade da lei, dentre outras medidas assecuratórias. É o chamado, assim, “Estado
vigilante noturno”. Através da segunda acepção, tem-se o Estado Democrático, pautado por matérias que
revelam sua intenção na busca da justiça social, da diminuição das desigualdades regionais e sociais, da
erradicação da pobreza e marginalização, bem como da construção de uma sociedade livre justa e solidária.
Através do princípio da solidariedade, assim, o Estado Democrático de Direito busca realizar a
justiça social, concernente na adoção de políticas tendentes a redistribuir a renda e a propiciar igualdade de
oportunidades a todos. Além disso, o Estado deve pautar sua atuação a fim de implementar segurança social
para seus cidadãos, promovendo o bem de todos com a prestação de serviços públicos básicos, como saúde e

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educação, prevendo, ainda a existência de um sistema de seguridade e assistência social.[34]
Percebe-se a presença do princípio da solidariedade implicitamente em certas normas constitucionais
como, por exemplo, a disposição constate do art. 205, na qual se concebe a educação como “direito de todos
e dever do Estado e da família”, sendo “promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”,
mostrando como a efetivação da política vai além da mera atuação estatal.[35] O princípio também esta
presente explicitamente no art. 40, ao consagrar o caráter contributivo e solidário do regime de previdência
dos servidores públicos ativos, inativos e pensionistas da União, Estado, Distrito Federal e Municípios,
incluídas suas autarquias e fundações.
Apesar de não se referir especificamente à Constituição Federal de 1988, o princípio da solidariedade
social mostra ainda sua carga valorativa ao ser capaz de informar os direitos fundamentais de terceira
geração.[36] Tais direitos inserem-se num contexto histórico marcado pela grande desigualdade econômica
entre as nações desenvolvidas e subdesenvolvidas, encontrando seu momento de maturação no final do
século XX.[37] São direitos dotados de alto grau de humanismo e universalidade, não se destinando à
proteção do indivíduo ou de certo grupo, mas do gênero humano. Karel Vasak, citado por Paulo Bonavides,
utiliza o termo “fraternidade” e aponta cinco direitos dela decorrentes: direito ao desenvolvimento, ao meio
ambiente equilibrado, à comunicação, à propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade e à paz.[38]
A importância da divisão dos direitos fundamentais em gerações mostra-se no instante em que se faz
o confronto histórico do momento no qual cada geração surgiu, não autorizando dizer, no entanto, que uma
geração substitua a outra. [39] A evolução não destrói o que fora construído anteriormente, ocasionando,
normalmente, a releitura de direitos antes vistos somente numa perspectiva individual ou social. Veja-se, por
exemplo, o que vem ocorrendo com o direito de propriedade, inicialmente entendido como absoluto, à época
do Estado Liberal e à luz dos direitos fundamentais de primeira geração, garantidores da liberdade, para, em
seguida, ser concebido através de sua função social, respeitando-se a igualdade preconizada pelos direitos da
geração seguinte, para, finalmente, ter reconhecida sua função ambiental, de acordo com os direitos
decorrentes da solidariedade.[40]
Ressalte-se, por último, que a denominação “direitos fundamentais de terceira geração” encontra
acolhida na jurisprudência do STF, que já reconheceu a fundamentação solidária daqueles direitos, por
exemplo, em casos envolvendo o meio ambiente, cuja preservação se impõe tendo em vista a preservação da
vida em todas suas formas, para as presentes e as futuras gerações.[41]
3. O DELINEAMENTO JURISPRUDENCIAL DO PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE – A ADI
3.105
3.1 Aspectos gerais
A evolução histórica apontada ao longo deste trabalho mostrou como, paulatinamente, a
solidariedade ganhou foros de princípio jurídico, dotado de força vinculante e estando presente nos mais
diversos ordenamentos constitucionais. Uma das conseqüências disso foi justamente a promoção de uma
releitura dos direitos fundamentais de primeira e segunda geração, como demonstrado anteriormente no
tocante ao direito de propriedade. As transformações decorrentes dessa consagração constitucional, no
entanto, vão além, levando os estudiosos do direito, sobretudo os tributaristas, a pesquisar novas formas de
aplicação do princípio. Nesse contexto é que surge uma nova justificação para a imposição tributária por
parte do Estado, amparada agora pelo princípio da solidariedade, gerando o surgimento de um dever
fundamental de pagar tributos, justificado exclusivamente na capacidade contributiva.
Tal doutrina já é majoritária em países como Itália e Espanha, como informa Marciano Seabra de
Godoi, que, citando Francesco Moschetti, aponta o fato de este autor considerar o dever de todos
contribuírem para os gastos públicos (art. 53 da Constituição italiana, antes mencionado) como especificação
do dever genérico de solidariedade constante no art. 2º daquele Texto Magno. [42]. A ascensão dessa nova
concepção deve-se em grande medida também à mudança de paradigmas operada pela solidariedade no
tocante ao princípio da capacidade contributiva, não mais fundado na “teoria do sacrifício igual”, mas no
princípio da solidariedade.[43] No Brasil a tese também foi acolhida pelo STF no julgamento da ADI 3.105,
quando, especificamente no campo das contribuições previdenciárias, alteraram-se os fundamentos principais
da contribuição, passando do custo/benefício para a capacidade contributiva e da solidariedade do grupo
para o princípio estrutural da solidariedade.[44]
Na doutrina brasileira, Hugo de Brito Machado é um forte crítico dessas novas posturas preconizadas
pelo princípio da solidariedade. O autor aceita a posição de destaque ostentada pela solidariedade
atualmente, já que ela consiste objetivo fundamental do Estado brasileiro, admitindo, ainda, a possibilidade
de o princípio realmente promover, através da tributação, a redistribuição de renda e, conseqüentemente, a
diminuição das desigualdades sociais. Ocorre que para aquele estudioso do direito o princípio deve ser
aplicado em sua plenitude nos gastos públicos, não na aquisição de receitas.[45] Sustenta tal posição tendo
em vista a relativização ao princípio da legalidade operada pela solidariedade, já que esta, amparada somente
no princípio da capacidade contributiva, poderia gerar imposições tributárias arbitrárias não previstas em lei,
afastando, assim, a referida legalidade.
O autor adverte os perigos que o esquecimento dessa garantia pode gerar, já que se está falando de

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um dos mais caros princípios de segurança jurídica alcançados pela humanidade. Como princípio
constitucional, a solidariedade não deveria ser utilizada para justificar o aumento de imposições tributárias
por parte do Estado, pois a função dos princípios constitucionais, especificamente na ordem tributária, é
impor limites ao Fisco, controlando o Poder. [46] Nesse sentido, a tese que coloca o princípio da
solidariedade como fundamental na tributação mostrar-se-ia sedutora, pois faria parecer moderna a
superação da legalidade pelo princípio mais recente da solidariedade, e perigosa, pois tenderia a aniquilar
uma das maiores conquistas humanas concernente ao controle do Poder estatal.[47]
Desse modo, propõe o autor uma compatibilização entre os princípios, que devem ser vistos como
parceiros na difícil tarefa de limitar o Poder, garantindo a liberdade. O mesmo é dito sobre o princípio da
capacidade contributiva, que não pode, por si só, justificar uma imposição tributária, se tal ato passa à revelia
da lei. Uma lei que não respeite a capacidade contributiva do indivíduo, retirando-lhe seu mínimo vital e
assumindo características de confisco, é tão inconstitucional quanto uma cobrança tributária baseada
exclusivamente na capacidade contributiva e não prevista em lei.[48]
3.2 A ADI 3.105
A Ação Direta de Inconstitucionalidade 3.105 atacou o art. 4º da Emenda Constitucional nº 41 de
19.12.03, cuja redação previa a contribuição social dos servidores públicos inativos e pensionistas da União,
Estados, Distrito Federal e Municípios, incluídas suas autarquias e fundações, incidindo até mesmo sobre
servidores já aposentados ou sobre as pensões já concedidas à data de publicação da Emenda. Em síntese, a
entidade autora, a Associação Nacional dos Membros do Ministério Público – CONAMP, sustentou que a
cobrança feria a garantia do direito adquirido, da irredutibilidade de vencimentos e o princípio do
custo/benefício atinente às contribuições previdenciárias, tendo em vista a pretensa ausência de causa
suficiente para a imposição tributária.
O julgamento gerou profundo debate na sociedade, tendo o STF decidido pela constitucionalidade do
dispositivo impugnado principalmente tendo em vista o princípio da solidariedade. Ocorre que a referida
Emenda modificou a redação do art. 40 da CF/88, alterando o regime próprio de previdência que, de
meramente contributivo, conforme a redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, passou a ser
considerado contributivo e solidário. [49]Assim, a solidariedade poderia justificar a cobrança, como de fato o
fez, mostrando a aptidão de, até mesmo, limitar o princípio do direito adquirido. Num dos votos mais
contundentes, o Ministro Joaquim Barbosa, partindo da análise do art. 3º da CF/88, aponta que a
Constituição brasileira decidiu:
“sem sombra de dúvidas por um Estado de bem-estar social, calcado no princípio da solidariedade,
que, aliás, como muito bem lembrado pelo ministro Sepúlveda Pertence na ADI 1.441, constitui a
pedra de toque do todo o sistema da seguridade social. O art. 40 da Constituição, com a nova redação
dada pela Emenda Constitucional nº 41/2003 é expresso nesse sentido. Ora, o princípio da
solidariedade, que guarda coerência com a matriz filosófica da nossa Constituição, quando
confrontado com o suposto direito adquirido de não pagar contribuição previdenciária,
necessariamente deve prevalecer.”[50]
O Ministro ainda apontou um argumento de ordem histórica, através do qual, a absolutização da
garantia do direito adquirido não teria permitido a abolição da escravatura, já que os senhores de escravos
teriam o direito adquirido à subserviência de seus escravos. O argumento é falho, tendo encontrado resposta
no voto do Ministro Carlos Britto. Em verdade, a Constituição de 1824 só obliqüamente tratou da
escravidão, conferindo direito ao voto somente aos cidadãos libertos, sem definir quem eram tais “libertos”.
Ante tal omissão, coube à lei decidir pela abolição, preenchendo o conceito não determinado pela
Constituição. Some-se a isso o fato de que naquele Texto Imperial não se tinha contemplado de forma
genérica a garantia do direito adquirido, como se tem atualmente na Constituição. Finalmente, naquela Lei
Fundamental só se consideravam constitucionais as normas de direitos e garantias individuais e as relativas à
separação dos Poderes. Como o texto não previa um direito individual a submeter alguém à escravidão, “a
legislação comum ocupou o seu espaço muito bem e aboliu a escravatura”.[51] Em outras palavras: a
abolição da escravatura não ofendeu qualquer direito adquirido, não tendo ocorrido uma relativização desta
garantia, como fez sugerir o Ministro Joaquim Barbosa.
Em um dos votos vencidos, a Ministra Ellen Gracie, relatora originária, assentou a
inconstitucionalidade da cobrança tendo em vista, dentre outros argumentos, a ofensa ao princípio do
custo/benefício, pois a contribuição “estaria despida de causa eficiente, em face da ausência da necessária
contrapartida de novo benefício”.[52]
Apesar dessas oposições, a ADI foi julgada totalmente improcedente por sete votos contra quatro,
não tendo a Corte vislumbrado qualquer ofensa aos princípios constitucionais indicados. Dentre os
argumentos apresentados, chama atenção o forte apelo lançado ao princípio da solidariedade, como se
depreende do seguinte trecho:
“o regime previdenciário público visa garantir condições de subsistência, independência e dignidade
pessoais ao servidor idoso por meio do pagamento de proventos da aposentadoria durante a velhice
e, nos termos do art. 195 da CF, deve ser custeado por toda a sociedade, de forma direta e indireta, o
que se poderia denominar princípio estrutural da solidariedade.[53]”(sem grifos no original)
Desse modo, o STF atribuiu expressamente o caráter de princípio estrutural à solidariedade,
seguindo a terminologia empregada por Canotilho, para quem a Constituição pode ser compreendida como
um sistema interno composto por princípios estruturantes, como a forma federal de Estado, regime
* Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de 2010 5990
democrático ou forma republicana de governo; por princípios gerais; por princípios específicos; e, finalmente,
por regras.[54]
Analisando criticamente a decisão, percebe-se que a jurisprudência alterou os fundamentos da
contribuição previdenciária, afastando o princípio do custo/benefício em prol do princípio da capacidade
contributiva, superando-se também o princípio da solidariedade de grupo em face do princípio estrutural da
solidariedade. Com isso, fez-se a contribuição incidir genericamente sobre pessoas dotadas de capacidade
contributiva, alargando o âmbito de incidência da solidariedade.[55]
Esse, portanto, é o estágio atual do princípio na sociedade brasileira, mostrando uma solidariedade
robusta, capaz de ampliar os laços que unem os indivíduos de dado grupo, indo além deste para abarcar toda
a sociedade.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estudar a história do Direito dá ao jurista uma visão apurada da realidade jurídica na qual ele vive,
tornando-o mais apto para entender a atualidade a partir das experiências passadas. Neste trabalho, a
evolução histórica do princípio da solidariedade foi mostrada tendo em vista essa finalidade, já que foi
possível percorrer seus diversos caminhos, das sociedades clássicas à sociedade brasileira atual, mostrando a
feição atual da solidariedade jurídica através da jurisprudência do STF.
Não se discutiu o acerto ou desacerto na formulação do entendimento da Corte Suprema, mas se
procurou apontar como eventuais abusos na utilização do princípio podem levar a um autoritarismo típico
dos regimes de extrema direita, indesejáveis por completo. Nesse sentido, as supramencionadas palavras de
Hugo de Brito Machado devem ser sempre lembradas pelos detentores do Poder e, na omissão destes, pelo
Poder Judiciário brasileiro.
Resgate-se, por último, a altruísta ideia central da solidariedade nos versos de Pedro Lyra, poeta
cearense que em seu Soneto da Confissão – XVII aduz que “um só será feliz se todos forem”.[56] Que a
humanidade caminhe de mãos dadas para a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, como bem
preconizaria uma Constituição do planeta Terra, ampliando, efetivamente, a solidariedade a todo o gênero
humano.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAROSSO, Luís Roberto. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito (o triunfo tardio do
direito constitucional no Brasil). Revista de Direito Administrativo nº 240 (Abril/Junho de 2005). Rio de
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* Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de 2010 5991
tributação. Marco Aurélio Greco (Org.). São Paulo: Dialética, 2005.

[1]A expressão é utilizada e defendida, dentre outros, por Luís Roberto Barroso em seu artigo Neoconstitucionalismo e
constitucionalização do direito (o triunfo tardio do direito constitucional no Brasil). Revista de Direito Administrativo nº 240
(Abril/Junho de 2005). Rio de Janeiro: Renovar, 2005. Nesse texto o autor aponta as razões teóricas, históricas e filosóficas para o
reconhecimento de uma nova maneira de ver a Constituição, agora compreendida como realidade normativa.
[2]NABAIS, José Casalta. Solidariedade social, cidadania e direito fiscal. In Solidariedade social e tributação. Marco Aurélio
Greco (Org.). São Paulo: Dialética, 2005. p, 111.
[3]BRUNKHORST, Hauke. Solidarity – from civic friendship to a global legal community. Tradução para o inglês de Jeffrey Flynn.
Massachusetts: MIT Press, 2005. p, 2.
[4]SACCHETTO, Cláudio. O dever de solidariedade no direito tributário. O ordenamento italiano. In Solidariedade social e
tributação. Marco Aurélio Greco (Org.). São Paulo: Dialética, 2005. p, 15.
[5]GODOI, Marciano Seabra. Tributo e solidariedade social. In Solidariedade social e tributação. Marco Aurélio Greco (Org.). São
Paulo: Dialética, 2005. p, 142.
[6] Ob. cit. p, 21.
[7] Idem. p, 12.
[8] Ib. idem. p, 13.
[9]“The price that is to be paid for the ethos of city life, the civilization of the ‘public happiness’ (Arendt) of a ruling class, consists in
the exclusion of the ‘infamous people’ (Focault): the barbarians, foreigners, women and slaves”. Ib. idem. p, 20.
[10] Ib. idem. p, 23.
[11] O imperativo categórico desenvolvido por Kant para servir como princípio supremo da moralidade bem demonstra esse caráter
abstrato da humanidade: “age de tal maneira que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro,
sempre e simultaneamente como um fim e nunca simplesmente como meio”. KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos
costumes. Tradução de Leopoldo Holzbach. 1ª Ed., São Paulo: Martin Claret. p. 59.
[12]BRUNKHORST, Hauke. Ob. cit. p, 24. O autor assim analisa a ética cristã: “As it emancipated itself from the holy bonds of the
family and neighborly relations, the Christian ethic of brotherliness succeeded in devoting itself to the other, which was universalized
to all humanity but was still concrete, in the sense of brotherly sharing of divine filiation. The believing Jew or Christian owes respect
and care not to the abstract principle, to Kantian ‘humanity’ in us, but to each concrete countenance (Levitas) that is in the image of
God, that of any neighbor at all.”
[13] Ib. idem. p, 33.
[14] Ib. idem. p, 33-34.
[15]“Ancient Israel also had the most progressive social-welfare legislation at that time. In the seventh century, the backbone of the
monarchy was economically broken by the elimination of state taxes; the flow of taxes (grain, oil, wine, meat) was instead direct
toward God as a fixed contribution, which was consumed for the most part by the contributor himself or, like a poor tax, went directly
to the needy, and so was not for the benefit of the priestly caste. The principle of helping one´s neighbor replaced the central
distribution of goods and taxes”. Ib. Idem. p, 34.
[16]Ib. idem. p, 34.
[17] Ib. idem. p, 55.
[18] Ib. idem. p, 55-56.
[19] Ib. idem. p, 59.
[20] Ib. idem. p, 58. O autor cita ainda o slogan daquele momento histórico: “o único estranho para a França é o mau cidadão”,
mostrando como os direitos civis lançados após a Revolução poderiam unir os indivíduos através da cidadania francesa.
[21]BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 15ª ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2004. p, 562.
[22]FARIAS, José Fernando de Castro. A origem do direito de solidariedade. Rio de Janeiro: Renovar, 1998. p, 188.
[23]Idem. p, 190.
[24]Ib. idem. p, 196.
[25]GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988. 12ª ed. São Paulo, Malheiros: 2007. p, 25.
[26] J. Chevalier. La résurgence du théme de la solidarité, in La solidarité: un sentiment républican?, Paris, Presses Universitaires
de France, C.U.R.A.P.P., 1992, p. 112 e nota 33. Apud FARIAS, José Fernando de Castro. Ob. cit. p, 190.
[27] José Fernando de Castro Farias aponta que a “sociedade seguradora é mais perfeita expressão do discurso solidarista. Na Europa,
o aparecimento de seguros sociais inscreve-se numa lógica de solidariedade, ocupando assim um lugar histórico e estratégico de
grande importância nas práticas do Estado de solidariedade”. Ob. cit, p. 192. Seria através dessa sociedade seguradora que se
implantaria um sistema de proteção aos riscos sociais, visando à segurança daqueles que fossem segurados em face de doença,
acidente, morte ou qualquer outro evento inesperado.
[28]Para José Fernando de Castro Farias, “percorrendo caminhos diferentes, esses autores se encontraram na busca de uma
redefinição do papel do Direito e do Estado. Neste sentido, L. Duguit retoma a ideia de solidariedade como uma verdadeira norma de
“direito objetivo”; Maurice Hauriou pretende dar sentido à solidariedade através da noção de ‘instituição’, enquanto ‘organismo
representativo’; e Georges Gurvitch, por sua vez, retoma a solidariedade como ‘fato normativo’, sistematizando a ideia do ‘direito
social’. O solidarismo jurídico procura associar o direito ao destino da democracia.” Ib. idem. p, 221-222.
[29] José Afonso da Silva aduz que os deveres decorrem dos direitos à medida que “cada titular de direitos individuais tem o dever de
reconhecer e respeitar igual direito do outro, bem como de comporta-se, nas relações inter-humanas, com postura democrática,
compreendendo que a dignidade da pessoa humana do próximo deve ser exaltada como a sua própria”, afirmando ainda que tais
deveres são impostos em maior medida ao Poder Público do que ao indivíduo. SILVA, José Afonso. Curso de direito constitucional
positivo. 27ª ed. São Paulo: Editora Malheiros, 2006. p, 196. Adiante será analisado o dever fundamental de pagar tributos com base
no princípio da solidariedade, mostrando como os indivíduos também estão sujeitos aos deveres fundamentais.
[30] G. C. Croxatto. La imposizione delle imprese com attivitá inernazionale. Milão, 1965, p, 87. Apud SACCHETTO, Cláudio. O
dever de solidariedade no direito tributário. O ordenamento italiano. In Solidariedade social e tributação. Marco Aurélio Greco
(Org.). São Paulo: Dialética, 2005. p, 19.
[31]Art. 53: “Todos têm a obrigação de contribuir para as despesas públicas na medida de sua capacidade contributiva. O sistema
tributário é inspirado nos critérios de progressividade”.
[32] "Preâmbulo da Constituição: não constitui norma central. Invocação da proteção de Deus: não se trata de norma de reprodução
obrigatória na Constituição estadual, não tendo força normativa". (ADI 2.076, Rel. Min.Carlos Velloso, julgamento em 15-8-02, DJ
de 8-8-03)”. A questão versava sobre a obrigatoriedade da invocação à proteção divina do preâmbulo da Constituição do Estado do
Acre, decidindo o Tribunal pela não obrigatoriedade.
[33]STERN, Klaus. Das staatsrecht der Bundesrepublik. T. I, 2. Ed. Munique: C. H. Beck, 1984, 769 e ss. Apud YAMASHITA,
Douglas. Princípio da solidariedade em direito tributário. in Solidariedade social e tributação, São Paulo: Dialética, 2005. p, 54.
[34] YAMASHITA, Douglas. Princípio da solidariedade em direito tributário. in Solidariedade social e tributação, São Paulo:
Dialética, 2005. p, 59.
[35]Sobre a positivação implícita do princípio e a parceria entre sociedade e Estado demandada pela solidariedade, o Ministro Carlos
Ayres Britto, comentando especificamente o art. 249 da CF/88, assenta em seu voto na ADI 3.105 que: "É nisso que consiste a
solidariedade: a sociedade e o Estado se emparceiram para desenvolver ações de seguridade social em benefício dos aposentados e
pensionistas. É o que está dizendo o art. 249. É nesse sentido que a solidariedade pode ser interpretada. Tanto que a Constituição já
falava, desde a origem, desde a Constituição na sua redação originária, que a seguridade resulta de uma ação conjunta da sociedade e
do Estado, e nem precisou falar em solidariedade. Era uma solidariedade que já estava implícita, embutida, e somente agora veio a ser
explicitada”. ADI 3.105 Rel. p/ o ac. Min. Cezar Peluso, julgamento em 18-8-04, DJ de 18-2-05.
[36]Sabe-se que é possível classificar os direitos fundamentais tendo em vista o momento histórico no qual eles se inserem, podendo-
se diferenciá-los em direitos de primeira, segunda e terceira geração, sendo que a cada geração corresponderia, respectivamente,
direitos de liberdade, igualdade e fraternidade (ou solidariedade), nos termos do slogan da Revolução Francesa. Para uma análise
detida de cada uma dessas gerações, consultar BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 15ª ed. São Paulo: Malheiros
Editores, 2004. p, 562-572, já que o objeto central desta pesquisa são os direitos decorrentes da solidariedade.

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[37] BONAVIDES, Paulo. Ob. cit. p, 569.
[38] VASAK, Karel. Pour les droits de l´Homme de la troisième génération: lês droits de solidarité. Lição inaugural ministrada em
2 de julho de 1979, no Instituto Internacional dos Direitos do Homem, em Estrasburgo. Apud BONAVIDES, Paulo. Ob. cit. p, 569.
[39]MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo G. Gonet. Curso de direito constitucional. 2ª Ed.
São Paulo: Saraiva, 2008. p. 234.
[40] GUERRA FILHO, Willis Santiago. Processo constitucional e direitos fundamentais. 4ª ed. São Paulo: Editora RCS, 2005. p,
47.
[41]“Meio ambiente — Direito à preservação de sua integridade (CF, art. 225) — Prerrogativa qualificada por seu caráter de
metaindividualidade — Direito de terceira geração (ou de novíssima dimensão) que consagra o postulado da solidariedade —
Necessidade de impedir que a transgressão a esse direito faça irromper, no seio da coletividade, conflitos intergeneracionais —
Espaços territoriais especialmente protegidos (CF, art. 225, § 1º,III) — Alteração e supressão do regime jurídico a eles pertinente —
Medidas sujeitas ao princípio constitucional da reserva de lei — Supressão de vegetação em área de preservação permanente —
Possibilidade de a Administração Pública, cumpridas as exigências legais, autorizar, licenciar ou permitir obras e/ou atividades nos
espaços territoriais protegidos, desde que respeitada, quanto a estes, a integridade dos atributos justificadores do regime de proteção
especial — Relações entre economia (CF, art. 3º, II, c/c o art. 170, VI) e ecologia (CF, art. 225) — Colisão de direitos fundamentais
— Critérios de superação desse estado de tensão entre valores constitucionais relevantes —Os direitos básicos da pessoa humana e as
sucessivas gerações (fases ou dimensões) de direitos (RTJ 164/158, 160-161) — A questão da precedência do direito à preservação
do meio ambiente: uma limitação constitucional explícita à atividade econômica (CF, art. 170, VI) — Decisão não referendada
conseqüente indeferimento do pedido de medida cautelar. A preservação da integridade do meio ambiente: expressão constitucional
de um direito fundamental que assiste à generalidade das pessoas." (ADI 3.540-MC, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 1º-9-
05, DJ de 3-2-06). A terminologia também é empregada no MS 22.164, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 30-10-95, DJ de
17-11-9).
[42]MOSCHETTI, Francesco. La capacitá contributiva, in AMATUCCI. Trattato di diritto tributario, vol. 1, Pádua: Cedam, 1994,
p, 226. Apud GODOI, Marciano Seabra de. Tributo e solidariedade social. In Solidariedade social e tributação. Marco Aurélio
Greco (Org.). São Paulo: Dialética, 2005. p, 157.
[43]GODOI, Marciano Seabra de. Ob. cit. p, 156. O autor explica que a referida teoria é “baseada na premissa de que os recursos
econômicos agregam-se à renda ou ao patrimônio de um indivíduo segundo uma curva decrescente de utilidade marginal”. Assim, “se
um indivíduo com renda de R$ 2 mil mensais e outro indivíduo com renda mensal de R$ 20 mil recolherem o mesmo valor em reais a
título de imposto de renda (por exemplo, R$ 200 por mês), o sacrifício do primeiro é muito maior que o sacrifício do segundo”.
[44]TORRES, Ricardo Lobo. Existe um princípio estrutural da solidariedade? In Solidariedade social e tributação. Marco Aurélio
Greco (Org.). São Paulo: Dialética, 2005. p, 206.
[45] MACHADO, Hugo de Brito. Curso de direito tributário. 27ª ed. São Paulo: Malheiros, 2006. p, 67.
[46] Idem. p, 67.
[47] Ib. idem. p, 67.
[48]Ib. idem. p, 68. Arremata o autor aduzindo o seguinte: “a tese que coloca a solidariedade como algo capaz de justificar a cobrança
de tributos sem apoio na lei, amparada na capacidade contributiva, é tese típica do Nazismo. Não obstante apresentada como tese
moderna, ela, na verdade, apenas ressuscita o autoritarismo”.
[49]No julgamento da ADI 2.010, o STF decidira pela inconstitucionalidade da contribuição social dos inativos e pensionistas,
decisão que se dera, no entanto, no contexto da antiga redação dada pela Emenda Constitucional nº 20 ao art. 40. No julgamento da
ADI 3.105, por outro lado, o Ministro César Peluso, cujo voto-vista conduziu a decisão majoritária da Corte, assentou a distinção que
se deveria fazer entre as situações, sendo plenamente possível à nova Emenda atribuir um caráter solidário ao sistema.
[50] ADI 3.105 Rel. p/ o ac. Min. Cezar Peluso, julgamento em 18-8-04, DJ de 18-2-05.
[51] ADI 3.105 Rel. p/ o ac. Min. Cezar Peluso, julgamento em 18-8-04, DJ de 18-2-05.
[52] ADI 3.105 Rel. p/ o ac. Min. Cezar Peluso, julgamento em 18-8-04, DJ de 18-2-05.
[53] Informativo do STF nº 357, de 25.08.2004.
[54]CANOTILHO, J.J. Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. 7a ed. Coimbra: Editora Almedina, 2003. p. 1173-
1174.
[55]TORRES, Ricardo Lobo. Ob. cit. p, 206-207.
[56] LYRA, Pedro. Desafio, uma poética do amor. 3ª ed. Editora UFC: Fortaleza, 2002. p, 313.

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