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Eugenio Raúl Zaffaroni

A questão
criminal
Tradução
Sérgio Lamarão

Revisão da tradução
Antonio Almeida

Editora Revan
Copyright © 2013 by Editora Revan

Todos os direitos reservados no Brasil pela Editora Revan Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios
mecânicos, eletrônicos ou via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

Revisão
Roberto Teixeira
Antonio Almeida

Capa
Sense Design & Comunicação
(Com ilustrações de Rep)

Impressão e acabamento
(Em papel off-set 75 g. após paginação eletrônica,
em tipos Garamond 11/13)
Divisão Gráfica da Editora Revan

Produção de ebook
S2 Books

CIP-BRASIL. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
Z22q

Zaffaroni, Eugenio Raúl, 1940-


A questão criminal / Eugenio Raúl Zaffaroni; tradução Sérgio Lamarão. – 1. ed. – Rio de Janeiro : Revan, 2013.
il.; 320p.; 23 cm

Tradução de: La cuestión criminal


ISBN 978-85-7106-504-8

1. Criminologia. 2. Direito penal - Brasil. 3. Crimes e criminosos. I. Título.

13-04452 CDU: 343.2


22/08/2013 26/08/2013
Ilustração 1
A tradução dos textos inseridos nas ilustrações está na página "Tradução de textos das ilustrações".

1. A academia, os meios de comunicação e os mortos[1]


Em qualquer lugar da superfície deste planeta fala-se da questão criminal. É quase a única coisa de que se
fala – em concorrência com o futebol, que é arte complexa –, embora poucos pareçam se dar conta de que
machucamos muito o planeta e podemos lhe provocar um espirro que nos projete violentamente a quem sabe
onde (para não usar alguma expressão pouco acadêmica). Fala-se, diz-se, com esse “se” impessoal do palavrório.
E o mais curioso é que quase todos acreditam ter a solução ou, pelo menos, emitem opiniões.
Claro que se fala ao compasso de julgamentos assertivos em tom sentenciador, emitidos pelos meios de
comunicação de massa, estes às vezes nas mãos de grandes corporações transnacionais, enredadas com outras
que disputam o poder aos Estados, bastante impotentes, do mundo globalizado.
É indispensável escutar o que se fala para não se ficar falando sozinho, como costuma acontecer no
mundo acadêmico. E em nosso país, e nos outros por onde às vezes me desloco, fala-se da questão criminal
como de um problema local. As soluções passam por condenar um ou outro personagem ou instituição, mas
sempre falando de um problema local, nacional, estadual, às vezes quase municipal.
Poucos se dão conta de que se trata de uma questão mundial, na qual se está jogando o âmago mais
profundo da forma futura de convivência e talvez, inclusive, do próprio destino da humanidade nos próximos
anos, que pode não estar isento de erros fatais e irreversíveis.
Se ficamos no plano da análise local, perdemos o mais profundo da questão, porque olhamos as peças sem
compreender as jogadas do tabuleiro de um xadrez macabro, no qual se joga, em definitivo, o destino de
todos.
Quando nos limitamos a esses julgamentos, ficamos presos à Doña Rosa
http://es.wikipedia.org/wiki/Bernardo_Neustadt. É claro que se deve resolver o problema da Doña Rosa, mas a
armadilha do velho comunicador dos festivos anos 1990 consistia em nos encerrar no problema de Doña Rosa.
Devo esclarecer que sempre me ofendi com aquela menção a Doña Rosa, por me lembrar de minha avó
materna, que se chamava Rosa e vivia em um bairro – como eu sempre fiz – e pensava muito mais e melhor do
que o personagem de ficção com o qual o artífice da comunicação dos anos irresponsáveis sintetizava sua
argumentação enganosa.
Quando se abriu a possibilidade de escrever esses suplementos, confesso que me senti seriamente
desafiado. Em todo o mundo acadêmico, os dedicados ao tema observam e criticam o fenômeno da
centralização da questão criminal, e o fazem, inclusive, com diagnósticos muito bons. Nenhum dos conceitos
expostos nesses suplementos foi concebido no plano científico por minha exclusiva criatividade, longe disso.
Porém, se tudo fica no mundo acadêmico, parece que não temos capacidade de comunicá-lo ou, melhor
dizendo, parece que a comunicação é contaminante, que a pureza científica deve ser mantida à margem da
comunicação, que perdemos nível acadêmico quando pretendemos explicar algo a isso que hoje chamam o
público, sem que nos apercebamos de que o público somos nós quando nos dói o fígado, ou quando saímos
para comprar pães.
É claro que o pensamento acadêmico, universitário, é importante, mas creio que chegou a hora de
comunicá-lo. As borlas doutorais, as togas e os punhos (esclareço que se assim se denomina as extremidades
ornadas das mangas das togas dos catedráticos) de pouco servem quando se fala do que todos sabem, segundo
o que lhes dizem as grandes corporações midiáticas do mundo, incluindo muitos políticos – oportunistas
alguns, propulsores conscientes de um novo totalitarismo outros, amedrontados e tremendo diante das
corporações midiáticas os demais.
Não estamos diante de fenômenos apenas locais, nacionais, estaduais nem municipais, mas sim diante de
problemas que podemos resolver apenas em parte nesses níveis, e que integram uma trama mundial. Insisto. Se
não compreendemos essa trama, moveremos sempre mal as peças, perderemos partida após partida. Devemos
fazer o maior esforço para impedir que isso aconteça, porque, no fundo, estamos diante de uma encruzilhada
civilizatória, uma opção de sobrevivência, de tolerância, de coexistência humana.
Vivemos um momento de poder planetário que é a globalização, que sucede ao colonialismo e ao
neocolonialismo. Cada momento, nesse contínuo do curso do poder planetário, foi marcado por uma
revolução: a mercantil do século XIV, a industrial do século XVIII e, agora, a tecnológica do século XX, que se
projeta para o século atual. Esta última revolução, a tecnológica, é fundamentalmente comunicacional. Se não
compreendermos isso e nos deixarmos ficar em nossos guetos acadêmicos, o serviço que prestarmos será muito
pobre.
Há um mundo que as pessoas comuns não conhecem, que se desenvolve nas universidades, nos institutos
de pesquisa, nas associações internacionais regionais e mundiais, nos foros e nas pós-graduações, com uma
literatura imensa, que alcança proporções siderais, de dimensão tamanha que ninguém pode dominar
individualmente. É o mundo dos criminólogos e dos penalistas. As corporações os ignoram e quando lhes
cedem algum espaço, os técnicos se expressam em seu próprio dialeto, incompreensível para o resto dos
humanos.
O desafío consiste em abrir esses conhecimentos, não para pontificarmos a partir da ciência com a solução,
nem para sermos os iluminados que, corrigindo o velho Platão, pretendemos nos colocar como um
criminólogo-rei, mas sim para mostrarmos o que se pensa e o que se sabe até agora. E também para fazer a
autocrítica do que dizemos, porque, certamente, tampouco temos uma história e uma genealogia feitas somente
de prestígio, dado que, muitas vezes, nossos colegas legitimaram o ilegitimável até limites inacreditáveis.
Imaginemos o que aconteceria caso se procedesse com o mesmo critério em outros âmbitos, como por
exemplo, no da medicina. Se, numa mesa de bar, alguém defendesse a teoria dos humores, é provável que os
demais o olhassem com ironia. Porém, como a liberdade é livre, é claro que qualquer um pode continuar
defendendo a teoria dos humores na mesa de bar; ninguém discute esse direito à expressão.
No entanto, seria grave se a teoria dos humores fosse divulgada como discurso único pelos meios de
comunicação, se se desprestigiasse ou menosprezasse a quem dissesse algo diferente, se os pesquisadores
médicos e biólogos ficassem isolados com seus discursos em seus institutos, se a autoridade sanitária e os
políticos que fazem as leis acreditassem na opinião do bar e não na que os médicos poderiam dizer, ou, pior
ainda, se os próprios médicos fizessem calar a quem negasse a teoria dos humores porque isso lhes gera um
perigo político. É óbvio que o índice de mortalidade subiria de forma alarmante.
Pois bem, o mesmo acontece com a questão criminal: aumentam os mortos no mundo. Afirmam-se
opiniões mais ou menos estranhas, equivalentes à teoria dos humores na medicina; os políticos e as próprias
autoridades difundem ou aceitam essas incoerências e, lamentavelmente, também aumentam os índices de
mortalidade.
Eu não estava em 1811 quando se suprimiram as togas no judiciário – nem sequer na reforma universitária
de 1918, pois não sou nenhum fenômeno da biologia –, mas sei que não usamos togas nos tribunais nem nos
recintos universitários nacionais desde muito antes que me pusessem a primeira fralda. Contudo, as togas
continuam nos pesando e isso não é admissível na hora da comunicação. Se o campo de batalha é
comunicacional, devemos travar a luta também nesse terreno. Este é o grande desafio. Por isso, devemos
arregaçar as mangas e sair ao campo em que nos desafiam.
O cidadão comum deve saber que há um mundo acadêmico que fala disso, da questão criminal, que,
embora não tenha nenhum monopólio da verdade, pensou e discutiu umas tantas coisas, que se equivocou
muitíssimas vezes e muito feio, mas também aprendeu com esses erros.
Os médicos também se equivocaram muitíssimas vezes, desde os tempos em que, para curar as feridas,
passavam unguentos sobre a arma que havia causado o dano, até os tempos mais próximos, em que, para curar
os doentes mentais, lhes enfiavam agulhas na cabeça, mas nem por isso nos colocamos nas mãos dos
curandeiros quando nosso apêndice fica inflamado.

Ilustração 2

É bem verdade que há diferenças entre a medicina e a ciência penal e criminológica, que consistem em
que esta última trata sempre do poder, o que não é alheio à medicina, mas pelo menos nesta a relação não é
tão linear. Também é certo que inclusive o conceito de ciência depende do poder que decide quem tem esse
status. Por isso, quando se fala de ciência penal ou de ciência criminológica, pode-se colocar em dúvida o status
de ciência, mas também se diz que a medicina não é uma ciência, e sim uma arte.
Como o mundo acadêmico também se equivoca, tampouco é seguro que o que nele se fala seja a
realidade. A questão da realidade, neste como em tantos outros âmbitos, é algo muito problemático, em
particular quando vivemos numa era midiática, em que tudo se constrói.
Não vou me meter numa questão que se discute desde os albores da filosofia, porém o certo é que, na
nossa época, o problema da realidade chegou a um ponto tal que não faltou quem afirmasse que tudo é
construído, que não há onde se agarrar.
Mas Baudrillard escrevia na França, não sei se tomava algum aperitivo adocicado em uma calçada de Paris,
e fazia isso antes de Sarkozy e quando ninguém pensava na filha de Le Pen à frente das pesquisas. Nós estamos
aqui, no fundo do mapa ou na parte de cima, depende de onde se olhe (o norte acima é uma mera convenção;
os neozelandeses, certa feita, fizeram um mapa com o sul acima), porém, por sorte, longe de latitudes hoje mais
perigosas, ainda que com todos os inconvenientes do subdesenvolvimento.
Nós nos achamos, por um lado, com a publicidade midiática das corporações mundiais e seu discurso
único de repressão indiscriminada para com os setores mais pobres ou excluídos; por outro, com o discurso
dos acadêmicos, isolados em seus guetos e falando em dialeto.
Se, junto com o aperitivo, engolimos as batatinhas fritas e os amendoins e pensamos que não há nada que
possa nos dar um gostinho de realidade, estamos perdidos. Eu não pretendo ser localista e afirmar que, quando
digo nós, me refiro, agora, somente aos latino-americanos, mas sim que em poucos anos se fez mais que
evidente que se não há um mínimo gostinho de realidade nessas questões, também os franceses estariam
perdidos com Sarkozy e a jovem Le Pen, para não falar dos estadunidenses e seu Tea Party (quando era
pequeno, me lembro que “party” era algo muito mais divertido).
Perón dizia que a única verdade era a realidade, mas as batatinhas fritas e os amendoins de Baudrillard nos
dizem pouco menos que a realidade não existe. Será que isso se aplica à questão criminal? Não, pelo menos
aqui – e não me meto nas outras coisas que dizem respeito aos filósofos – isso não se aplica. Se eu tivesse
perguntado qual é a realidade da questão criminal à minha avó Rosa – que, insisto, raciocinava muito melhor do
que o comunicador que inventou o personagem –, ela me teria respondido, com toda sabedoria, que a única
realidade nisso tudo são os mortos.
E é isso mesmo, sem dúvida: a única verdade é a realidade, e a única realidade na questão criminal são os
mortos. Não qualquer morto, é claro, porque, de acordo com o que a estatística demonstra, há quase um morto
por pessoa. Como, todavia, alguns ainda não estão mortos, há uma pequena diferença, o que levou o imortal
poeta português Fernando Pessoa a afirmar que o homem é um cadáver adiado. Evidentemente que não
recomendo sua leitura em casos de bipolaridade (me parece que antes se chamava de alterações ciclotímicas,
maníaco-depressivos melancólicos, agora é mais complicado, mas tampouco me meto em questões
diagnósticas).
Concretamente, o certo é que todos os vivos – isto é, os que vivem – somos adiados, mas há alguns aos
quais não se adia o suficiente, porque são mortos. Estes ficam mudos, porque costuma se afirmar,
peremptoriamente, que os mortos não falam, o que é verdade em sentido físico, mas, sem dúvida, os cadáveres
dizem muitas coisas que esta sonora afirmação oculta. Vejamos: às vezes chegam a nos dizer até quem matou
(pelas pistas que o autor deixa no cadáver), mas o cadáver nos diz sempre que está morto. Esta é a mais óbvia
palavra dos mortos: dizer-nos que estão mortos. Por isso, quando se afirma que não há pretexto algum para a
realidade na questão criminal, o que na verdade fazemos é emudecer os mortos, ignorar que nos dizem que
estão mortos.
Na minha complicada vida, quando muito jovem, inspecionava hospitais municipais e conheci algumas
pessoas que falavam com os mortos nos necrotérios (com certeza elas tinham alguns neurônios fora de lugar).
Embora não duvide de minha saúde mental, não me dedico a isso agora, mas a algo bem diferente: trata-se de
perguntar que cadáveres antecipados há nos necrotérios, nas fossas comuns, no mar ou quem sabe onde.
Por isso, o que vou explicar a vocês tem três etapas fundamentais: o que nos foi sendo dito ao longo da
história e o que nos diz hoje em dia a academia (as palavras dos acadêmicos), o que nos dizem os meios de
comunicação (as palavras dos meios de comunicação) e o que nos dizem os mortos (a palavra dos mortos).
Depois veremos se podemos chegar a alguma conclusão que, da minha parte, adianto: o conjunto nos
recomenda antes de tudo prudência, cautela no uso do poder repressivo, muita cautela.
Este é o programa dessa exposição em sua síntese mais acabada: saber o que nos dizem os acadêmicos, os
meios de comunicação e os mortos. Como posso arregaçar as mangas da toga, mas não ficar sem ela – porque
cada um tem sua deformação profissional dificilmente controlável, e nunca totalmente anulável –, começarei
pelas palavras da academia.
Para entrar no tema, porém, devo explicar algumas questões prévias sem as quais não se comprende quase
nada dos dialetos acadêmicos, porque tampouco há um único dialeto na questão criminal. Não só há vários
dialetos acadêmicos, como também não costumam entender-se entre si e, mais do que isso, não é raro que se
detestem reciprocamente, embora às vezes não o façam em voz alta. De toda forma, as imputações recíprocas
são os temas preferidos dos congressos e seminários, os matizam e lhes dão sabor.
Mais ainda: quando alguém passa de um para outro grupo e consegue dominar o outro dialeto, é
considerado um traidor ou um perdido, que deixou de ser cientista.
Às vezes a agressividade alcança níveis cômicos, mas que podem se tornar dramáticos, como quando nos
anos setenta do – por sorte – século passado, segundo a posição do dolo na teoria do delito, que então
pretendia descobrir subversivos. Vocês sabem qual é a posição do dolo no delito? Podem ficar tranquilos, viver
os anos de Matusalém sem sabê-lo e sem que sua existência se altere minimamente, mas o certo é que há
quatro décadas a coisa podia terminar muito mal.
Longe de constituir uma crítica negativa, esta é a pura descrição da realidade do mundo acadêmico por
dentro e, da minha parte, creio que é um dado positivo, apesar de seus inconvenientes, porque demonstra o
quanto o debate é vivo, a paixão que se coloca, a intensidade das discussões.
Tampouco se trata de uma característica contemporânea, nada disso: foi sempre assim. A história, a
tradição oral, os relatos divertidos dos mais velhos e o que vivemos diretamente nos confirmam. Quem
participa desse mundo não se aborrece, posso lhes assegurar que permite conhecer personalidades notáveis,
gente com uma capacidade de trabalho e uma sensibilidade e inteligência tais que, se se dedicassem a algo com
maior rating, teriam se sobressaído em qualquer âmbito.
Mas não se alarmem. Meu propósito é traduzir esses dialetos a uma linguagem compreensível para os
mortais. Espero ter êxito e que não me aconteça o que acontece a alguns tradutores, que terminam escrevendo
espanhol com a estrutura da língua original.
Devo confessar que me sinto muito mais seguro por ter o cartunista Rep a meu lado. Dentro de pouco
lhes explicarei a função da arte na criação de estereótipos, e creio que é necessário combater no mesmo campo
para desfazer essa construção. Por outra parte, estou seguro de que os desenhos de Rep perdurarão muito mais
do que aquilo que eu digo. Quando há pouco li que Ferro havia falecido,[2] voltaram à minha memória
Langostino, Bólido, o fantasma Benito, Tara Service, o Livro de Ouro de Patoruzú. Eles estão vivos em mim
desde a infância, mas faz tempo que os que escreviam sobre a questão criminal naqueles anos são só história.

2. Quem sabe disso?


Voltando, porém, ao programa das três palavras (da academia, dos meios de comunicação e dos mortos),
se queremos começar pelas da academia, a primeira coisa que devemos saber é a quem perguntar. Quem se
ocupa academicamente da questão criminal? O primeiro movimento será olhar para a Faculdade de Direito. Ali
estão e dali são os penalistas. Sabem direito penal. Sem dúvida que é algo que tem a ver com a questão
criminal. Mas até que ponto?
A ideia de que o penalista é o mais autorizado para proporcionar os conhecimentos científicos acerca da
questão criminal é uma opinião popular, mas não científica. Nem de longe basta saber direito penal para poder
opinar com fundamento científico acerca da questão criminal, ainda que, se o conhece bem, pode fazer muito
para resolver numerosos aspectos fundamentais na prática, mas isso é outra coisa.
É necessário distinguir dois âmbitos do conhecimento que são muito diferentes, embora costumem ser
confundidos: o do penalista e o do criminólogo, ou seja, o direito penal, por um lado, e a criminologia, por
outro.
Esclareço desde já que não se dão nada bem, mas não se podem separar, e ainda que declarem estar
divorciados, são como esses casais que se excitam discutindo e terminam como todos nós sabemos. Nos casais é
patológico, claro, mas no que concerne ao direito penal e à criminologia talvez seja um pouco menos.
O que fazem os penalistas? Antes de tudo são juristas, advogados. O direito se divide em ramos: civil,
comercial, trabalhista, administrativo, constitucional etc., e cada dia se especializa mais e mais. Hoje não há
quem lide com todo o direito em profundidade, como não há médico algum que domine todas as
especialidades. O direito penal é um desses ramos, que se ocupa de trabalhar a legislação penal, para projetar o
que chamamos de doutrina jurídico-penal, isto é, para projetar a forma em que os tribunais devem resolver os
casos de maneira ordenada, não contraditória.
De maneira mais sintética, eu diria que a ciência do direito penal que se ensina nas cátedras universitárias
de todo o mundo se ocupa de interpretar as leis penais de modo harmônico para facilitar a tarefa dos juízes,
promotores e defensores. Seu trabalho consiste basicamente na interpretação de textos com um método
bastante complexo, que se chama dogmática jurídica, porque cada elemento em que a lei é decomposta deve
ser respeitado como um dogma, visto que, do contrário, não interpretariam a lei, mas sim a criariam ou a
modificariam.
A tarefa do penalista é fundamental para que os tribunais não resolvam arbitrariamente o que lhes for
conveniente, e sim conforme uma ordem mais ou menos racional, ou seja, republicana e algo previsível. Não
vou discutir agora se a dogmática jurídica do penalista consegue ou não esses objetivos. Tampouco vem ao caso
nem interessam muito a vocês os detalhes dessas construções.
A fonte principal da ciência jurídico-penal de hoje, isto é, da dogmática jurídica aplicada à lei penal, é a
doutrina dos penalistas alemães. Os ingleses têm sua própria construção, que pouco influi na nossa. Os
franceses fizeram muito pouca dogmática jurídica, estão muito próximos da velha interpretação literal da lei (o
que se chamava exegese). Os italianos estão bastante próximos aos alemães, ainda que com uma tradição penal
muito sólida e antiga. Os suíços e austríacos seguem diretamente as escolas alemãs. Os espanhóis também o
seguem, sem dúvida alguma, quase mais do que nós. Há muitos anos que as escolas alemãs são acompanhadas
de perto em toda a América Latina. O penalismo estadunidense é mais ou menos compreensível, na medida em
que segue o modelo inglês, mas quando se afasta deste é bastante limitado.
Conforme os princípios da ciência jurídica alemã, os penalistas constroem um conceito jurídico do delito
que se chama teoria geral do delito. As discussões sobre essa teoria são praticamente intermináveis, mas se
trata, em geral, de uma ordem prioritária conceitual para estabelecer frente a uma conduta se ela é ou não
delitiva com vistas a uma sentença.
Para isso, diz-se que o delito é uma conduta típica, antijurídica e culpável. Ou seja, antes de tudo deve ser
uma ação humana, isto é, dotada de vontade. Em segundo lugar, deve estar proibida pela lei, ou seja, cada tipo
é a descrição que a lei faz de um delito: matar, apoderar-se de uma coisa móvel alheia etc. Em terceiro lugar,
não deve ser permitida, como acontece no caso de legítima defesa ou de estado de necessidade. Por último,
deve ser culpável, ou seja, reprovável ao autor: não o é quando este não sabia o que fazia, estava louco
(inimputável) etc.
Essa é a estrutura básica sobre a qual se discute, respeitando certos princípios constitucionais como, por
exemplo, a legalidade, que impede que a pena seja imposta por algo que não está estritamente descrito em
uma lei anterior ao fato, ou a lesividade, que requer que em todo delito haja um bem jurídico lesionado ou
colocado em perigo.
Como se pode ver, o delito dos penalistas é uma abstração que se constrói com um objetivo bem
determinado, que é chegar a uma sentença racional ou pelo menos razoável. Na realidade social, porém, esse
delito não existe, porque no plano do real existem violações, homicídios, fraudes, roubos etc., mas nunca o
delito. Em outros tempos, os penalistas também projetavam os códigos e as leis penais, porque lhes era dada
muitíssima importância e se considerava, com razão, que eram um apêndice da Constituição, porque impunham
limites à liberdade.
Em nosso país, para não irmos mais longe, os códigos penais foram projetados em 1866, por Carlos
Tejedor, que foi governador da província de Buenos Aires e não chegou a ser presidente da República em
lugar de Roca porque protagonizou a última guerra civil em 1880, e por Rodolfo Moreno (filho) em 1917, que
também foi governador da província e pré-candidato a presidente nas eleições de 1944, tendo sido derrotado
no interior do Partido Conservador por Patrón Costas, o que precipitou o golpe de 1943.
Nesse meio tempo houve vários projetos, e o mais importante foi o de 1891, obra dos fundadores de
nossa Faculdade de Filosofia e Letras, que eram os jovens brilhantes da época: Rivarola, Piñero e Matienzo. Os
três foram importantes personalidades públicas e um deles, Matienzo, foi candidato à vice-presidência da
República.
A trajetória jurídica, intelectual e política desses projetistas prova que levavam muito a sério as leis penais,
o que hoje mudou completamente, pois agora quem as elabora são os assessores dos políticos, conforme a
agenda que lhes marcam os meios de comunicação de massa.
Por isso, hoje, tampouco os penalistas fazem as leis penais, ocupando-se quase exclusivamente do que lhes
conto, quer dizer, da sua interpretação, na forma em que assinalei.
Logicamente, vocês se perguntarão o que é que esses senhores sabem acerca da realidade do delito, do
que se passa no mundo em que todos nós vivemos, do que fazem os delinquentes, os policiais, os juízes, as
vítimas, os empresários midiáticos, os jornalistas etc. Simplesmente, o mesmo que qualquer vizinho que lê os
jornais e assiste televisão, porque o penalista se ocupa da lei, não da realidade.
Isso, que pode chamar a atenção de quem não se tenha inteirado antes deste mundo, é sabido e inclusive
teorizado. Desde jovem, quando se entra na Faculdade de Direito, explicam que ali se estudam relações de
normas, de dever ser e não de ser.
Há mesmo toda uma corrente que pretende um corte radical entre os estudos do dever ser e do ser. São
os neokantianos, que dividem os conhecimentos entre ciências da natureza e da cultura. O direito seria uma
ciência da cultura e o que acontece no mundo em que vivemos todos os dias seria matéria das ciências da
natureza. Isso lhes parece um pouco esquizofrênico? É um pouco, com certeza.
A divisão foi tão taxativa que permitiu que a grande maioria dos penalistas dos tempos do nazismo viesse
tranquilamente desde o Império Alemão até o pós-guerra, passando por cima da República de Weimar, dos
crimes da ascensão do nazismo, dos massacres, do genocídio, da guerra, sem inteirar-se dos milhões de
cadáveres. Tudo isso pertencia às ciências da natureza, que não lhes dizia respeito.
Para que vocês se tranquilizem, direi que hoje nem todo o direito penal segue este caminho, embora não
faltem nostálgicos que tentam se entrincheirar nas normas. De qualquer maneira, isso é questão do direito
penal, ou seja, do que não nos ocuparemos aqui enquanto tal, mas sim precisamente do que pertence ao
mundo do ser, no qual vivemos todos os dias.
Disso se ocupa precisamente a criminologia, para onde convergem muitos dados que provêm de
diferentes fontes – da sociologia, da economia, da antropologia, das disciplinas psi, da história etc. –, que
tentam nos responder o que é e o que acontece com o poder punitivo, com a violência produtora de
cadáveres etc.
É bem verdade que esta palavra da academia também esteve carregada de palavras obscenas (ou pelo
menos são elas que temos vontade de dizer às vezes), e aconteceu em diferentes etapas. Primeiro perguntou-se
pelas causas do delito, o que se chamou de criminologia etiológica, e os demonólogos, os juristas e filósofos, os
médicos, os psicólogos e os sociólogos trataram de responder. Muito mais recentemente deu-se conta de que o
poder punitivo também era causa do delito, e passou a ser analisado e questionado com diferente intensidade
crítica. São estas etapas que passaremos a percorrer depois de uma visão geral sobre o poder punitivo e sua
função real no marco do poder planetário.

Ilustração 3

3. O poder punitivo e a verticalização social


O poder punitivo é como o bife à milanesa com batatas fritas, isto é, ninguém se pergunta por que existe.
Parece que sempre esteve ali. Mas não é assim.
Alguém comparou o tempo de nosso pequeno planeta com uma semana e advertiu que aparecemos no
último minuto antes da meia-noite do domingo. Não sei quando apareceu o bife à milanesa, mas nesses
segundos geológicos que levamos arranhando a superfície da Terra, só carregamos com o poder punitivo por
alguns décimos de segundo.
O humano é social, não sobrevive isolado, e em toda sociedade há poder e coerção. Todo grupo humano
conheceu sempre duas formas de coerção, cuja legitimidade quase não se discute, embora se possa discutir
como se exerce.
Uma é a coerção que detém um processo lesivo em curso ou iminente: quando uma parede está prestes a
cair ou quando alguém corre atrás de mim pela rua com uma faca na mão, há um poder social que demole a
parede embora o dono se oponha, ou que desarme aquele que quer me enfiar a faca. Isso se chama hoje
coerção direta, em outra época poder de polícia, e no Estado está regulada pelo direito administrativo.
Outra é a coerção que se pratica para reparar ou restituir quando alguém causou um dano. Esta é hoje
própria do direito civil e de outros ramos do direito.
Mas o poder punitivo é diferente, não existiu em todos os grupos humanos, e surgiu muito mais tarde.
Por que? O que o diferencia dessas outras coerções?
As duas formas de coerção antes referidas resolvem os conflitos: uma, porque evita o dano, outra, porque
o repara. Porém, quando na coerção reparadora alguém que manda diz que o lesado sou eu e afasta quem
realmente sofreu a lesão, é ali que surge o poder punitivo, ou seja, quando o cacique, rei, senhor, autoridade
ou quem quer que seja substitui a vítima, a confisca.
Comprovamos isso em qualquer caso: se uma pessoa agride a outra e quebra-lhe um osso, o Estado leva o
agressor, o penaliza, alegando que o faz para dissuadir terceiros de romper ossos ou para ensinar-lhe a não
fazê-lo de novo ou para o que quer que seja, e o que sofre com o osso quebrado deve recorrer à Justiça civil,
na qual pode não obter nada, caso o agressor não possuir bens.
O poder punitivo reduziu a pessoa com o osso partido a um mero dado, porque não toma parte na
decisão punitiva do conflito. Mais ainda: deve mostrar seu osso partido e se não o fizer o poder punitivo a
ameaça como testemunha remisso e pode levá-la pela força a mostrar o que o agressor lhe fez. A característica
do poder punitivo é, pois, o confisco da vítima, ou seja, é um modelo que não resolve o conflito, porque uma
das partes (o lesado) está, por definição, excluído da decisão. O punitivo não resolve o conflito, mas sim o
suspende, como uma peça de roupa que se retira da máquina de lavar e se estende no varal até secar.
Detemos o agressor por um tempo e o soltamos quando o conflito acaba. É certo que podemos matá-lo,
mas nesse caso não faríamos outra coisa senão deixar o conflito suspenso para sempre. Não repomos nada à
vítima, não lhe pagamos o tratamento, o tempo de trabalho perdido, nada. Nem sequer lhe damos um diploma
de vítima para que o pendure em um canto da casa. Não ocorreria a ninguém obrigar o agressor a trabalhar
para reparar o lesado, ameaçando-o com uns açoites em público, como fazem nossos povos nativos, porque
isso seria prático, mas consideramos incivilizado.
Ademais, frente a outros modelos de efetiva solução do conflito, o modelo punitivo se comporta de modo
excludente, porque não só não resolve o conflito como também impede ou dificulta sua combinação com
outros modelos que o resolvem. É óbvio que, quando prendemos o marido agressor, a mulher e os filhos
devem se virar como possam para viver, porque a besta fera não pode trabalhar e, por conseguinte, não cobra.
Imaginemos que um menino quebre uma vidraça na escola com os pés. A direção pode chamar o pai do
pequeno energúmeno para que pague a vidraça, pode mandá-lo ao psicopedagogo para ver o que está
acontecendo com a criança, também pode sentar-se e conversar com o pequeno para averiguar se alguma coisa
lhe faz mal e o irrita. São três formas de modelos não punitivos: reparador, terapêutico e conciliatório. Os três
modelos podem ser aplicados porque não se excluem. Em compensação, se o diretor decide que a quebra da
vidraça afeta sua autoridade e aplica o modelo punitivo expulsando o menino, nenhum dos outros pode ser
aplicado.
É claro que o diretor, ao expulsar o menino, reforça sua autoridade vertical sobre a comunidade escolar.
Isso quer dizer que o modelo punitivo não é um modelo de solução de conflitos, mas sim de decisão vertical
de poder. É por isso, justamente, que ele aparece nas sociedades quando estas se verticalizam
hierarquicamente.
O modelo reparador é de solução horizontal e o punitivo de decisão vertical. Este aparece quando as
sociedades vão ganhando a forma de exércitos com classes, castas, hierarquias etc. Por isso surgiu em muitos
lugares do planeta, sempre que uma sociedade começou a verticalizar-se hierarquicamente. A arqueologia penal
estuda isso em sociedades distantes.
Houve uma sociedade que se verticalizou com muita força na Europa: a romana. Quando Roma passou da
república ao império seu poder punitivo se fez muito mais forte e cruel. E o que pode fazer uma sociedade
quando se verticaliza até assumir a forma de exército? A resposta é óbvia: conquistar outras. Roma conquistou
quase toda Europa. Como conseguiu fazer isso? Porque tinha uma estrutura colonizante, ou seja, hierarquizada,
em forma de exército. Essa estrutura, montada mediante o poder punitivo, é a necessária para a empresa de
conquista e colonização.
No entanto, Roma caiu praticamente sem que ninguém a empurrasse; seus imperadores eram generais que
brincavam de golpe de Estado, passavam o tempo intrigando ou neutralizando intrigas, e em seus momentos de
ócio se divertiam com amantes e escravos núbios. Os costumes se relaxaram, dizem os moralistas.
Porém, Roma não caiu por causa das amantes ou dos escravos, mas sim porque a estrutura vertical que
proporciona o poder colonizador, imperial, logo se solidificou até imobilizar a sociedade, as classes tornam-se
castas, o sistema perde flexibilidade para adaptar-se às novas circunstâncias, torna-se vulnerável aos novos
inimigos. Nesse momento, decai e perde o poder. Chegaram os bárbaros com suas sociedades horizontais, que
ocuparam os territórios quase caminhando, e o poder punitivo desapareceu quase por completo.
Os germânicos resolviam seus conflitos de outra maneira: quando um alemão dava um golpe de garrote na
cabeça do outro, corria para se refugiar na igreja, onde não podia ser tocado (asilo eclesiástico). Com isso,
evitava o primeiro impulso vingativo, mas, imediatamente, os dois germânicos velhos, chefes de clãs, reuniam-
se e um fazia notar ao outro que tinha um germânico avariado e que isso tinha de ser resolvido de algum
modo. Do contrário, o choque ia se dar entre os clãs, como na guerra, porque assim o determinava a vingança
de sangue (Blutrache, diziam), o que não convinha a nenhum dos dois. E a coisa se ajustava com uma
reparação, entregavam-se animais, metais, coisas etc. (o que se chamava Wertgeld).
Havia um único crime ao qual era aplicado o modelo punitivo: a traição. O traidor era pendurado em uma
árvore: proditores et transfugas arboribus suspendunt, recorda o velho Tácito, ao relatar os costumes dos
germânicos. As outras ofensas eram acertadas entre as partes. No bairro, acontece a mesma coisa com o
alcaguete, embora com menos violência.

Ilustração 4

Mas por que há que se dar tanta importância a Roma, se estamos tão longe, aqui estavam nossos nativos e
nunca um romano colocou um pé na América? Precisamente porque a história segue, o poder punitivo
desapareceu quase por completo (salvo uns tantos traidores pendurados nas árvores), até que um dia ocorreu
aos senhores que era um bom negócio confiscar a vítima e que isso também servia para reforçar seu poder, e
voltaram ao mau costume, fazendo renascer o poder punitivo nos séculos XII e XIII europeus. E aqui isso
começa a nos interessar, porque não desaparece já há quase mil anos, verticalizou as sociedades europeias, deu-
lhes estrutura corporativa, sob a forma de exército, e elas se lançaram à colonização de todo o planeta.
O poder punitivo foi o instrumento de verticalização social que permitiu à Europa nos colonizar. A
Península Ibérica assumiu a liderança porque adquiriu caráter vertical para conquistar os muçulmanos do sul,
ainda que até hoje digam que os reconquistaram, o que é duvidoso depois de 700 anos de permanência deles
ali e de uma civilização que era brilhante. Quando terminaram de convertê-los ao cristianismo aos golpes, os
Reis (muito) Católicos fizeram o que faz todo exército: homogeneizaram o discurso religioso e para isso
obrigaram os judeus a converterem-se como marranos ou a irem embora, e assim a frente interna passou a
rezar ao mesmo Deus, na versão dos reis.
Para dizer a verdade, a verticalização europeia havia começado um pouco antes dos séculos XII e XIII, ou
seja, por volta do ano 1000, quando todas as leis locais que iam surgindo timidamente regularam as relações
familiares e sexuais de maneira detalhadíssima, mais do que a propriedade. Isso se explica porque todo exército
necessita de cabos e sargentos, sob cujo comando caem as pequenas unidades de tropa. A verticalização
começou por baixo, como devia ser, porque é sabido que uma revolução triunfa quando as tropas se sublevam;
por conseguinte, a primeira coisa que quem quer reforçar o poder vertical deve fazer é se assegurar de que
tem os comandos inferiores sob controle.
O cabo deste exército social foi o pater, sob cujo comando ficaram todos os seres inferiores: mulheres,
crianças, servos, escravos, animais domésticos etc. (havia poucos velhos, porque as pessoas morriam muito
jovens). O patriarcado não é mais do que o poder dos cabos e sargentos da sociedade corporativa, fruto do
primeiro passo da disciplina vertical.
O próprio pater impunha os castigos aos seres inferiores, salvo casos de insubordinação, como as mulheres
desobedientes e os gays ou traidores, que não assumiam devidamente seu papel de pater. Como ninguém podia
permitir a insubordinação da tropa porque senão o barco afundava, as lutas que se seguiram foram entre
senhores, mas todos reafirmaram a ordem sobre os inferiores.
O poder punitivo foi se estendendo, mas não havia leis suficientes e as que havia eram caóticas. Dispunha-
se menos ainda de um discurso legitimador desse poder renascente. Nesse momento apareceram as
universidades no norte da Itália e com elas os juristas, que, como deviam fazer o discurso mas não tinham leis
razoáveis, não tiveram ideia melhor do que trazer o Digesto de Justiniano e começar a comentá-lo.
Assim nasceu a ciência jurídico-penal, com supostos comentários ao Digesto. E o que era o famoso Digesto?
Nada menos que uma coleção de antigas leis romanas, recolhidas por determinação do imperador Justiniano,
que nunca foi imperador em Roma e sim em Constantinopla, quando o império do Ocidente – ou seja, Roma –
já havia caído em poder dos germânicos. As leis penais recolhidas no Digesto eram as piores e, além disso, com
alguns retoques deformantes do próprio Justiniano, que desde a romanização do cristianismo (que costuma se
chamar de cristianização de Roma) se considerava chefe religioso e perseguia com singular furor e alegria os
não cristãos, entre eles os que continuavam adorando os deuses romanos. Essa injeção legal dos primeiros
juristas foi denominada recepção do direito romano.
A ciência jurídico-penal nasceu, portanto, com a importação de Constantinopla dos chamados libris terribilis
d o Digesto. Os primeiros penalistas se chamaram glosadores porque fingiam que comentavam essas leis; na
verdade, sob o pretexto de comentá-las, diziam o que bem entendiam, mas começaram a ensaiar alguma lógica
interna em seu discurso.
É bem verdade que aqueles que deviam legitimar essas leis atrozes não podiam confessar que o poder
punitivo serve para verticalizar e colonizar, razão pela qual sempre se buscou encontrar alguma justificativa para
cada lei penal, baseada em uma necessidade fundada em fatos do mundo real. Como se tratava de legitimações
sobre argumentos fáticos, os supostos comentários dos glosadores e pós-glosadores misturavam o direito penal
com a criminologia.
Assim começaram as palavras da academia nas universidades do norte italiano mil anos atrás, mas o poder
que em todos os tempos estas legitimaram não foi outro senão o instrumento de verticalização social que
possibilitou a colonização. Esse poder não se estendeu porque Henrique, o Navegador se lançou para a África
ou porque Cristóvão Colombo, com a história das jóias da rainha, tenha armado as caravelas, mas sim porque o
poder punitivo havia dado forma de exército a essas sociedades. Sem cair em fantasias não verificáveis, o certo
é que os nórdicos chegaram à América antes de Colombo, mas como não dispunham de uma estrutura
colonizadora morreram de frio no norte, não se animando a seguir para o sul.
E a história reiterou o processo romano: a Espanha não conseguiu modificar sua estrutura vertical quando
o industrialismo amanheceu no século XVIII e terminou perdendo seu império e sua hegemonia, que passou
para as potências do centro e do norte da Europa. O poder punitivo, contudo, não desapareceu, mas ficou
limitado à sua função interior, apontando para uma sociedade imóvel.
Como o punitivo é a chave do poder planetário, o que se diz a seu respeito não é resultado de uma busca
ingênua de conhecimentos, de curiosidade científica desinteressada em âmbitos acadêmicos, mas sim que se
defronta com o cerne da expansão colonial. Por isso, tudo o que se diz em criminologia é político, porque
sempre será funcional ou disfuncional ao poder, o que não muda, ainda que quem o afirma o ignore ou o
negue.
Por isso, não podemos evitar o passado, porque se o ignoramos não saberemos onde fomos parar. O que
interessa do passado não é se María Antonieta se deixou seduzir pelo colar, se Catarina levou Miranda para a
cama, se a rainha Isabel tomava banho ou se Ludwig II fazia orgias com seus guardas enquanto sonhava com
palácios de Disneilândia, e sim saber onde estamos parados em uma continuidade de poder, que em seu fluxo
nos trouxe a este lugar. E a questão criminal é central nessa corrente que não para, como algo do presente, que
é pura projeção do passado. Se não comprendemos que a Idade Média não terminou, não podemos entrever
para onde vamos, ou pior, para onde podemos ir (o que me eximo de dizer, até mesmo por motivos de boa
educação).
Como a Idade Média não terminou, nada do passado está morto nem enterrado, mas apenas oculto, e não
por acaso. Não é um passado que volta, mas sim que nunca se foi, porque ali está o poder punitivo, sua função
verticalizante, suas tendências expansivas, seus resultados letais.
Dessa perspectiva, o passado não evoca aborrecidas lições com datas e próceres movidos pelo acaso ou
pela genialidade, mas sim nos mostra um zoológico de fósseis vivos e não em um museu paleontológico. Por
isso, se quiserem me seguir, devo começar pelo passado, para que um tiranossauro não nos coma.
Estamos habituados a que o locutor elegante comunique a notícia sangrenta com voz cavernosa,
preludiando a exortação à reforma do Código Penal e de imediato vai ao tribunal para anunciar produtos
íntimos. Mas também estamos acostumados a que isso gere um mar de opiniões díspares e em todos os tons: há
que matar a todos; deixar a polícia atuar e baixar o sarrafo; aplicar o talião; ter boas prisões para ressocializar;
atender aos fatores sociais; não atendê-los porque nem todos os pobres delinquem; nem só os pobres
delinquem, um longuíssimo etcétera.
Creio que muitas pessoas ficariam surpresas se lhes disséssemos que os Estados absolutos matavam há
centenas de anos, que desde a Inquisição recorrem à violência, que o talião foi apoiado por Kant no século
XVIII, que a ressocialização – que vem do positivismo do século XIX, dos fatores sociais – é coisa de muitos e
em especial de Bonger há um século, que a negação dos fatores sociais era de Garofalo no final dos Oitocentos,
que os delitos de colarinho branco foram teorizados por Sutherland há sessenta anos etc. Nada disso morreu e
se na criminologia acadêmica não se sustentam determinadas teses é porque já não são politicamente corretas,
continuam sendo afirmadas com escassa dissimulação na criminologia midiática.
Porém, o que quero dizer com que a Idade Média não terminou? Por um lado, que somos hoje um
produto daquele poder punitivo que renasceu na Idade Média e permitiu aos colonizadores europeus ocupar a
América, a África e a Oceania, escravizar, dizimar e até extinguir os povos nativos, transportar milhões de
africanos, avançar sobre o mundo com massacres e depredação colonialista e neocolonialista.
No entanto, por outro lado, quero dizer que os discursos legitimadores do poder punitivo da Idade Média
estão plenamente vigentes, até o ponto de que a criminologia nasceu como saber autônomo no final do
período medieval e fixou uma estrutura que permanece quase inalterada e reaparece cada vez que o poder
punitivo quer se libertar de todo e qualquer limite e desembocar em um massacre.
Quando o poder punitivo renasceu, o bispo de Roma – o Papa – estava desejoso de conter a todos os que
pretendiam se comunicar diretamente com Deus, à margem de sua mediação ou da de seus dependentes. Para
reforçar esse monopólio telefônico, e também para concentrar poder econômico, estabeleceu-se uma
jurisdição, ou seja, um corpo de juízes próprios encarregados de perseguir os revoltosos, chamados hereges.
Esse foi o tribunal do Santo Ofício ou Inquisição romana.
O reaparecimento do poder punitivo e o surgimento da Inquisição mudaram tudo. Até esse momento, nos
processos entre as partes, a verdade se estabelecia pelos ordálios ou pelas provas de Deus. Os juízes anteriores
à volta do Digesto e aos inquisidores eram, na realidade, árbitros desportivos, pois o ordálio mais frequente era
o duelo. O que vencia era quem tinha razão, porque se invocava a Deus e este baixava magicamente convocado
e se expressava no duelo, permitindo ganhar só àquele que tinha razão. Os juízes não julgavam e sim cuidavam
que não houvesse fraude. Quem decidia era Deus. Pode-se imaginar que esses juízes tinham uma absoluta
tranquilidade de consciência.
Com as leis romanas imperiais injetadas pelos juristas, a verdade passou a ser estabelecida por
interrogação, por inquisitio. O imputado devia ser interrogado, e se não queria responder a verdade lhe era
extraída pela violência, pela tortura. Para isso haviam sequestrado Deus e o ordálio se havia tornado
desnecessário, pois Deus já estava sempre do lado de quem exercia a violência. O poder tinha atado Deus,
porque sempre fazia o bem.
Segundo Foucault, todo saber adotou o método do interrogatório violento. Parece haver algo disso se
comparamos a inquisição com a vivissecção, mas voltemos ao nosso. A Inquisição romana exercia o poder de
julgar em toda Europa porque não havia Estados nacionais e os senhores feudais não podiam impedi-lo,
embora isso lhes incomodasse. Na Espanha, onde a sociedade já tinha a forma de exército, o poder da
Inquisição não foi papal, e, diferentemente do resto de Europa, encontrava-se a serviço do rei. Por isso, a
Inquisição espanhola tem uma história separada da romana.
Com esse instrumento, o Papa massacrou rapidamente uns tantos hereges (os albigenses, os cátaros etc.).
Também se juntou aos franceses para fritar os templários e repartir suas riquezas, imputando-lhes que eram
gays e que tinham um ritual de iniciação de submissão sexual, meio leather style. Logo, porém, a Inquisição
ficou sem trabalho e sem inimigo, porque havia matado todos eles. Para justificar seu brutal poder punitivo
necessitava de um inimigo que tivesse mais vigor, que fosse de melhor qualidade. Assim, acabou apelando para
um inimigo de muito bom estofo, que durou vários séculos: Satã, que em hebraico significa justamente inimigo.
Como era difícil explicar semelhante poder sanguinário no marco de uma religião cujo Deus não era
guerreiro, e sim uma vítima executada em um instrumento de tortura próprio do poder punitivo do Império
Romano (equivalente à cadeira elétrica do século XX), era necessário inventar-lhe um inimigo guerreiro, e assim
Satã terminou sendo o comandante em chefe de um exército composto por legiões de diabos.
Para isso lhe caiu muito bem a cosmovisão que Santo Agostinho havia imaginado quase dez séculos antes.
Ele – que havia vivido no norte de África no século IV e depois de participar de quantas festas pôde, quando
lhe baixaram os hormônios, e como antes havia combinado suas andanças com o maniqueísmo – imaginou que
havia dois mundos enfrentados na forma de espelho: um de Deus e outro de Satã, a cidade de Deus e a do
diabo.
As duas cidades tinham equipes rivais: a do diabo dedicava-se ao esporte de tentar a de Deus, porque os
partidários deste podiam salvar-se, ao passo que eles, como anjos caídos, estavam irremediavelmente
condenados a ser destruídos no juízo final e, portanto, tentavam adiá-lo e baixar o número de salváveis. Não
ficava claro por que não os destruíram antes e era necessário esperar o julgamento, mas isso não importa.
O certo é que nesse mundo maciço, mas perfeitamente dividido, não havia possibilidade de neutralidade:
ou se estava com Deus ou com Satã. Tudo o que estava fora da cidade de Deus era domínio satânico, incluindo
os deuses pagãos (e depois seriam as religiões dos nossos povos nativos).
Cabe esclarecer que o pobre Santo Agostinho não matou ninguém. Ele apenas armou esse discurso e,
como havia morrido há quase mil anos antes da Inquisição, se livrou da pena de ver o que se fazia com apoio
nele. Houve outros ideólogos que tiveram menos sorte e a vida lhes deu a oportunidade de queixar-se e
arrepender-se, vendo como usavam suas ideias. Agostinho teve inclusive vislumbres muito inteligentes, como o
de enunciar a primeira política de redução de danos em matéria de aborto.
Todavia, quando o Papa se valeu do invento agostiniano para perseguir tudo o que não se submetia a seu
poder e consagrou a Inquisição à luta contra Satã, como este não aparecia em lugar nenhum, teve de se agarrar
a ela com alguns humanos, e já não lhe restavam hereges. Por conseguinte, empreendeu-a contra a metade da
espécie humana, contra as mulheres. Para isso foi inventada a teoria do pacto satânico. Satã não podia atuar
sozinho, necessitava da cumplicidade de humanos (não me perguntem o porquê, porque não sei). Para isso
havia humanos que celebravam um pacto com o inimigo, com Satã. Era um contrato de compra e venda
proibido, mas que por sua natureza só podia ser celebrado por humanos inferiores, que eram as mulheres. Por
que? Por razões genéticas, biológicas: tinham um defeito de fábrica por provir de uma costela curva do peito
do homem, o que contrastava com a retidão deste (não sei tampouco onde o homem é reto, mas prossigamos).
Por isso, elas têm menos inteligência e, por conseguinte, menos fé. E ratificavam essa afirmação, inventando
que femina provém de fé e minus, ou seja, menos fé (é mentira, pois femina vem do sânscrito, do verbo que
significa amamentar).
Foi assim que a Inquisição se dedicou a controlar as mulheres desobedientes e levou à combustão
milhares delas, como bruxas, em quase toda Europa.
Na verdade, o poder de Satã e seus rapazes foi muito estudado e teorizado pelos encarregados da
Inquisição, que foram os dominicanos, ordem fundada por São Domingos de Gusmão, mas também conhecidos
como cães do Senhor (canes do Dominus). Na condição de estudiosos da etiologia, ou da origem do mal, eles
foram os primeiros criminólogos. É claro que não foram chamados de criminólogos e sim de demonólogos.
Quase nenhum criminólogo aceita essa origem, porque não é uma boa certidão de nascimento; preferem
considerar-se herdeiros do Iluminismo ou mesmo do século XIX e esquecer o nome dos velhos demonólogos,
aos quais ninguém menciona. Mas o certo é que ninguém tem a culpa de seus antepassados.
A demonologia, porém, não deixou de criar contradições porque os juristas – glosadores e pós-glosadores
– haviam tratado de sistematizar suas especulações conforme uma certa lógica, que tomavam da ética
tradicional. Isso se deve a que, na medida em que se queira dotar de alguma lógica interna o discurso
legitimador do poder punitivo, surge um mínimo de limites, porque a necessidade não é infinita. Justamente
para eliminar esses limites criando uma necessidade quase infinita e absoluta, foi que se autonomizou a
criminologia com o nome de demonologia.
Os juristas pretendiam que a pena fazia pagar a dívida do delito. Se o crime resultava de uma escolha livre,
havia que retribuir o mal com o mal. A ideia de culpa dominava suas elucubrações. Lembro a vocês que culpa e
dívida são sinônimos. O velho Padre Nosso dizia perdoai as nossas dívidas e não eram os “pagareis” que
firmávamos, e sim nossas culpas. Em alemão Schuld tem também esse duplo significado. Isso impunha um
pequeno limite à pena, exigia certa proporção com a censura da culpa.
E como a mulher era inferior, era menos inteligente que o homem, devia ser menos culpável e, por
conseguinte, merecer pena menor. Os juristas as consideravam como meninas, em permanente estado de
imaturidade. No entanto, os inquisidores não se atinham à culpa, e sim ao grau de perigo que as bruxas e Satã
representavam, que colocava em risco a humanidade. Para os demonólogos havia uma emergência gravíssima e
nada devia obstaculizar a repressão preventiva. Aqui surgiu uma questão que até hoje não foi solucionada: a
pena se fixa pela culpa ou pela periculosidade? Os penalistas continuam discutindo a incoerência com paliativos,
enquanto os juízes decidem o que lhes parece.
Como vemos, a Idade Média está presente. Em seu tempo, isso se resolveu argumentando que o pacto
satânico era um crime mais grave que o pecado original, porque neste Adão e Eva haviam sido enganados, mas
o pacto com Satã se celebrava com vontade plena, com consciência do mal e, ademais, era uma traição, para
com, nada menos, a cidade de Deus, com o qual havia que seguir a tradição germânica. Cabe fazer notar que os
germânicos eram mais ecológicos, porque não danificavam as árvores, enquanto os inquisidores queimavam sua
madeira. O certo, porém, é que este modelo marcou a estrutura de todos os discursos posteriores legitimadores
de massacres. Por isso, será necessário deter-se na análise dessa estrutura.

Ilustração 5

4. A estrutura inquisitorial
Os demonólogos elaboraram um discurso muito bem armado para liberar seu poder punitivo de todo e
qualquer limite, em função de uma emergência desencadeada por Satã e seus seguidores, em combinação com
as moças terrenas. Por certo que se alguém sustentasse, hoje em dia, esta tese seria inevitavelmente
psiquiatrizado. Não podemos, porém, ficar na anedota, porque, embora pareça mentira, a estrutura
demonológica mantém-se até o presente. Os discursos têm uma estrutura e um conteúdo. Trata-se, digamos, de
algo parecido a um programa de computação alimentado com os livros de uma biblioteca. Podemos carregar o
programa com livros esotéricos e teremos uma biblioteca dessa natureza, mas também podemos esvaziar seu
conteúdo e recarregá-lo com outros livros e teremos bibliotecas de medicina, física, química, história, ou o que
quer que seja. Pois bem: o que permanece do discurso inquisitorial ou demonológico não é o conteúdo, e sim
justamente o programa, a estrutura.
Ao longo dos séculos o mesmo programa foi esvaziado e voltou a ser alimentado com outras informações,
com dados de novas emergências, críveis segundo as pautas culturais de cada momento: deixou-se de se
acreditar em Satã e suas meninas, mas passou- se a acreditar em outras coisas, que, hoje, tampouco são críveis,
ainda que se continue alimentando o programa com dados que hoje são críveis e amanhã serão não tão críveis
quanto Satã, suas legiões de diabos e suas mulheres.
Desde a Inquisição até hoje os discursos foram se sucedendo com idêntica estrutura: alega-se uma
emergência, como uma ameaça extraordinária que coloca em risco a humanidade, quase toda a humanidade, a
nação, o mundo ocidental etc., e o medo da emergência é usado para eliminar qualquer obstáculo ao poder
punitivo que se apresenta como a única solução para neutralizá-lo. Tudo o que se quer opor ou objetar a esse
poder é também um inimigo, um cúmplice ou um idiota útil. Por conseguinte, vende-se como necessária não
somente a eliminação da ameaça, mas também a de todos os que objetam ou obstaculizam o poder punitivo,
em sua pretensa tarefa salvadora.
É evidente que o poder punitivo não se dedica a eliminar o perigo da emergência, e sim a verticalizar mais
ainda o poder social; a emergência é apenas o elemento discursivo legitimador de sua falta de contenção.
Isso se verifica ao longo de cerca de 800 anos de sucessivas emergências, algumas das quais implicavam
certo perigo real, mas o poder punitivo nunca eliminou nenhum desses perigos. Satã está um pouco cabisbaixo,
com seu tridente sem ponta e sua cauda quebrada; o alcoolismo continua fazendo estragos; as drogas se
expandem cada dia mais; a sífilis foi resolvida com a penicilina; a tuberculose com a estreptomicina; os hereges
fizeram suas igrejas nacionais; a degeneração da espécie e o perigo das raças inferiores passaram a ser uma
grande mentira; as bruxas continuam cozinhando seus cozidos esquisitos e no máximo criam algum problema
bromatológico. Os perigos foram inventados ou mesmo quando eram reais desapareceram por outros meios ou
permanecem, e até se ampliam, mas, ao longo de 800 anos, o poder punitivo jamais eliminou um risco real.
Diriam no meu bairro que o discurso inquisitorial sempre foi, e continua sendo, um modo de colocar a
corda no pescoço. Mais academicamente, diríamos que é um imenso engano, uma tremenda fraude e que o
poder punitivo, ao projetar-se na opinião das pessoas como o remédio para tudo, não é mais do que o delito
máximo da propaganda desleal da nossa civilização.
Trata-se do instrumento discursivo que proporciona a base para criar um estado de paranoia coletiva que
serve para aquele que opera o poder punitivo o exerça sem nenhum limite e contra quem lhe incomoda.
Por desgraça, porém, quando aparece um discurso com estrutura inquisitorial e ninguém detém sua
instalação, a consequência última é um massacre. Assim aconteceu com as mulheres queimadas, com as vítimas
das máfias e da corrupção produzidas pela proibição do álcool e das drogas; com os inimigos do Ocidente
cristão massacrados pela segurança nacional ou pelo franquismo; com os doentes e incapacitados esterilizados
ou assassinados pela eugenia; com a eliminação nos campos de concentração nazistas, e com muitos milhões de
pessoas, mas já estou me metendo com a palavra dos mortos, que é questão que deixo para mais adiante.
Vejamos agora como os demonólogos instalaram essa estrutura discursiva originária que permanece
intocável até o presente. O certo é que esses pioneiros foram muitos e escreveram uma quantidade de livros
muito sofisticados. A criminologia não registra os nomes de seus fundadores, porque os nega, como esses
antepassados piratas, contrabandistas ou escravistas a quem todos ocultam e ninguém reconhece.
Não vale a pena resgatar todos eles, porque de qualquer modo não creio que nenhum instituto de
criminologia de nossos dias queira ostentar algum desses nomes. Para quem se interessa pelo tema, vale a pena
dizer que há uma antologia bem feita. Para nossos efeitos, é melhor centrarmos na obra tardia, porém sintética,
que consagra a autonomia da criminologia em relação ao direito penal, expondo pela primeira vez, de forma
orgânica, uma completa teoria sobre a origem do crime, ou seja, uma exposição da chamada etiologia criminal.
Trata-se do Malleus maleficarum ou Martelo das bruxas, de 1484.

Ilustração 6

A esse respeito – e entre parênteses – é bom recordar que a inquisição romana teve seu esplendor nos
tempos feudais, mas, quando os Estados nacionais se organizaram como monarquias fortes, estas reclamaram
para si seus poderes punitivos e os foram retirando do Papa, de modo que a tarefa de queimar mulheres
passou a ser desempenhada por juízes estatais, dependentes dos monarcas e príncipes, alguns dos quais não
reduziram seu entusiasmo pela combustão. Continuaram queimando mulheres até o século XVIII, porém pelos
Estados, em um momento em que o Papa não se ocupava mais das mulheres mas sim dos luteranos e
reformados. Desde o século XV, ou seja, com a chamada Contra-Reforma, a inquisição romana se dedicava a
estes últimos e não conferia nenhuma ênfase às mulheres.
De qualquer maneira, os juízes estatais da Europa central continuaram usando como manual o Martelo das
bruxas, que se encontrava no guia oficial dos queimadores de mulheres desde 5 de setembro de 1494, quando
o tenebroso Papa Inocêncio VIII o consagrou como tal, mediante a bula Summis desiderantes affectibus.
O Martelo foi escrito por dois inquisidores muito particulares: o alsaciano Heinrich Krämer e o suíço-
alemão Jakob Sprenger. Este último era um sujeito de vida monacal, que fazia aparições e tinha fama de beato.
Já Krämer – também conhecido como Institoris (que, em latim, significa quitandeiro, o mesmo que Krämer em
alemão) – era mais problemático, pois o bispo o suspendeu de suas funções porque, em seu afã incendiário,
estava deixando a diocese sem mulheres e, além disso, segundo as más línguas, se havia envolvido com
dinheiro de indulgências. Embora seja discutível, também parece que falsificou a recomendação do pequeno
manual por parte da Universidade de Colônia, para atribuir-lhe maior base acadêmica.
O certo é que esses dois personagens produziram essa obra singular, que foi um best-seller durante
duzentos anos, tempo no qual foi o livro mais publicado depois da Bíblia. Como dado curioso, devo advertir
que, se alguém hoje quiser lê-lo em espanhol ou português, deve buscá-lo nas seções de livros esotéricos das
livrarias.
Sua leitura é, às vezes, entediante, mas não podemos deixar de pensar que se trata de dois delirantes com
fixações sexuais insólitas. A verdade é que para ter uma ideia completa do universo cultural da Idade Média não
se pode prescindir, evidentemente, de Dante, mas tampouco do Malleus maleficarum. Uma mesma época
produziu um poeta sublime como Alighieri e dois delirantes alucinados, como Sprenger e Krämer. Talvez hoje
aconteça a mesma coisa.
O delírio está muito bem sistematizado e é a primeira vez na história que se construiu uma obra que
integrou, em um único sistema harmônico, a criminologia (origem do mal) com o direito penal (manifestações
do mal), com o processo penal (como se investiga o mal) e com a criminalística (dados para descobrir na prática
o mal). A elaboração é, por conseguinte, bastante sofisticada. Como o conteúdo com o qual preencheram a
estrutura que lhes dava fundamento é para nós tão disparatado, tem a vantagem de, em razão dessa tremenda
distância temporal e cultural, nos permitir ver com maior clareza os principais núcleos estruturais que
permanecem até a atualidade desde a própria origem da criminologia. Por isso, repassá-los não é um mero
divertimento, mas sim uma constatação de sua permanência através dos séculos. Passo a assinalar vinte destes
núcleos, embora advirta que há mais, mas não quero aborrecer vocês.

1. O crime que provoca a emergência é o mais grave de todos. Como vimos, os inquisidores afirmavam que
era mais grave que o pecado original. Outros se sucederam no tempo: subversão, terrorismo, uso de tóxicos
etc. A gravidade do crime é exaltada ao máximo porque dela depende o grau de perigo da emergência e do
poder correspondente do repressor.
2. A emergência só pode ser combatida mediante uma guerra, ou seja, a linguagem não pode ser senão bélica.
Os autores pretendem saber como estavam organizadas as hostes de Satã – porque, supomos, haviam
conseguido infiltrar algum agente disfarçado no inferno. Bush e Obama sempre disseram o mesmo, e sem
dar margem a dúvidas o primeiro usou o mesmo procedimento para descobrir as armas químicas no Iraque,
que Satã logo fez desaparecer.
3. Sua frequência é alarmante. Diziam que a Alemanha estava cheia de bruxas, mais do que qualquer outro
país. É o mesmo que nos dizem pela televisão, todos os dias e todas as horas: em nosso país há mais crimes
que em qualquer outro (nosso país pode ser qualquer um em que houver uma televisão).
4. O pior criminoso é quem duvida da emergência. Quando alguém pede números e duvida da gravidade e da
frequência corre sérios riscos, porque se erige em inimigo, não da sociedade nem da humanidade, mas sim
daquele que exerce o poder punitivo. Embora hoje “pegue” mal que ele seja queimado, como Sprenger e
Krämer postulavam, não duvido que muitos lamentem que os tempos tenham mudado.
5. Qualquer fonte de autoridade que diga o contrário deve ser neutralizada. Nos tempos dos inquisidores
havia um cânone – isto é, uma lei muito antiga –, o Canon episcopi, que se referia a uma seita de mulheres
(as filhas de Diana) que existira muitos anos antes e que não lhes atribuía nenhum poder maléfico e negava
que pudessem voar. É claro que um texto venerável dessa natureza é um obstáculo para o discurso, como
também o pode ser uma verificação científica ou fundada com seriedade.
Quando se produz esse fenômeno há três soluções discursivas: a fonte é falsa (por exemplo: o planeta não
está aquecendo, os cientistas que afirmam o contrário não sabem nada ou falseiam a realidade), mas é
verdadeira se se refere a outra coisa (as filhas de Diana não eram como as bruxas alemãs; os ladrões de antes
eram bons e cavalheirescos, não como os de agora; os anarquistas não eram como os subversivos etc.) ou a
interpreta mal (o Canon não diz exatamente isso, o que os técnicos dizem é outra coisa, há que fazer
distinções etc.).
Para Sprenger e Krämer, as bruxas voavam mesmo, e se não tivessem voado e só provocavam uma ilusão,
elas deveriam ser queimadas da mesma maneira porque compactuavam com Satã e pronto.
6. A valoração dos fatos se inverte por completo. É o que muitos anos depois Merton chamará de alquimia
moral. Se a bruxa não confessava, a despeito de ser brutalmente torturada, era porque Satã lhe dava forças;
se, desesperada, enforcava-se, era porque Satã a havia levado para que não confesasse e se salvasse no mais
além (porque, ainda que confessasse, seria morta de qualquer forma). Se ela enlouquecia com a tortura e
ria, era porque Satã fazia pouco dos inquisidores. Nada muda: se os presos estudam é para delinquir melhor,
se se arrependem são dissimulados, se matam uns aos outros é porque são criminosos, se alguém pede uma
trégua está simulando para contra-atacar.
7. O delírio serve de pretexto para encobrir muitos delitos. Se um padre estava observando o pênis de um
penitente, era porque tentava convencê-lo de que não o havia perdido por obra de um encantamento; se
outro aparece nu dentro de um celeiro, contará que Satã o levou a um banquete e, como não quis jurar-lhe
fidelidade, o lançou ali; se um homem santo é encontrado debaixo da cama de uma mulher, será porque
Satã se apoderou de seu corpo para se esconder. Quando um investigador é surpreendido num lugar
suspeito, até hoje costuma se dizer que ele estava se infiltrando; o terrorismo também é útil para eliminar
aos maridos incômodos das amantes etc.
8. As imagens dirigentes são imaculadas: isso os levava ao extremo de sustentar que os anjos e Jesus não
completavam o processo alimentício, isto é, não defecavam, e sim dissolviam o alimento no estômago. A
pureza dos líderes em toda emergência é algo que se cuida com singular esmero, em especial sua correção
sexual. Para os inquisidores, os diabos nem sequer tinham orgasmos (porque, no final, também eram anjos),
ou seja, eles copulavam com as bruxas só para fazer o mal; eram uma espécie de sadomasoquistas
inorgásmicos.
9. Os inimigos são inferiores. A misoginia do Malleus é extrema: a mulher é biológica e geneticamente inferior,
o que era comprovado com alentadas citações em que misturavam indistintamente pagãos e padres da
Igreja. Quase todas as emergências são promovidas por inferiores na história posterior: mestiços, mulatos,
raças colonizadas ou degeneradas, defeituosos, incapazes, doentes, degenerados etc. Como não podiam
eliminar todas as mulheres, contentam-se em queimar somente as desobedientes.
10. A inferioridade pode estender-se: as filhas das bruxas tinham predisposição à bruxaria. E isso pode acontecer
por causações genéticas, pois os diabos sabiam de quem retirar o sêmen e onde colocá-lo para produzir esse
efeito; seria o contrário da eugenia e se chamaria disgenesia, ainda que, como para os diabos era bom, trata-
ser-ia de uma eugenia diabólica. Mas não nos atrapalhemos mais. Também podia haver transmissão por
caracteres adquiridos a partir da bruxaria da mãe.
Os filhos do bruxo-chefe não eram filhos de diabos, porque estes são anjos e não têm sêmen, só adotam a
forma humana, mas na realidade são de ar concentrado, como uma espécie de bonecos infláveis de sex-shop,
se bem que conhecem a engenharia genética. Aqui os inquisidores, com séculos de antecipação, combinam
Darwin com Lamarck, a exemplo de emergências posteriores: há que matá-los se são geneticamente
inferiores, como faziam os nazistas; há que criá-los com uma família sadia se a inferioridade provém da
educação, como Franco ou os ditadores na Argentina fizeram.
11. As vítimas não devem ser colocadas em situação de vulnerabilidade, porque os vícios favorecem a ação de
Satã. Aqueles que têm amantes antes de se casar provocam-nas a que, sentindo-se despeitadas, façam
sortilégios para matar suas esposas. É necessário viver na ordem para cuidar do inimigo; toda desordem
pode ser aproveitada por ele. Aquele que exerce o poder punitivo quer moralizar, na verdade para facilitar-
lhe a tarefa.
12. É uma regra inveterada que o poder punitivo descontrolado quer um mundo regular e cinza, monótono,
que possa controlar sem problemas: tudo aquilo que sai do costumeiro é suspeito. A alegria conspira contra
o controle e baixa o nível de paranoia, porque a festa faz pensar em outra coisa, as pessoas se distraem. Os
inquisidores advertem contra o perigo das festas populares: são sempre os dark da época.
13. Os inquisidores negam os danos colaterais, afirmando que não há terceiros inocentes, e sim que o castigo é
sempre merecido, ainda que se baseiem num dogma: por alguma coisa será. Em muitos massacres se afirma
que não há inocentes, que todos são culpados, embora não tenham feito nada.
14. Os inquisidores são infalíveis e, mais do que isso, são puros: São Macário, porque era puro, era o único que
via uma mulher quando os demais, por efeito de bruxaria, viam uma égua, até que Macário a desencantou e
os demais puderam ver a mulher. A pureza garante a perfeita percepção dos fatos. É o que passa com os
grandes empresários dos massacres: são os únicos puros que veem com clareza; por isso devem ser seguidos
sem discussão.
15. Os inquisidores não admitem erros, quem é condenado é culpado e a condenação é prova suficiente; nunca
houve um erro e todas as mulheres queimadas eram bruxas. É óbvio que as cinzas não apelam. A única
razão que davam para negar algum erro era que Deus não podia permitir isso, porque, como sabemos,
estava sequestrado por eles. Os sucessivos empresários de emergências massacradoras não puderam dizer o
mesmo, porque Deus já havia escapado deles. Por isso, apelaram à tese de que é inevitável, em toda guerra,
que alguns inocentes sejam sacrificados.
16. Os inquisidores se eximem de toda ética frente ao infrator: podem prometer de tudo e depois não cumpri-
lo. A inferioridade da bruxa lhes autoriza a fazer isso. O mesmo acontece em qualquer emergência, os
empresários massacradores não têm códigos, porque não vale a pena frente aos terroristas, subversivos,
criminosos, degenerados, estrangeiros inimigos, doentes etc.
17. Os inquisidores são imunes ao mal que combatem: Satã não pode enganá-los, porque Deus não o permitiria.
Posteriormente, será sua ciência ou conhecimento especial que os tornará imunes. O cobrador de impostos
não colaborará com a evasão fiscal, o funcionário que combate o tráfico não ajudará a traficar etc. Todo
poder punitivo garante que seus agentes são imunes ao mal e, quanto mais fora do controle, maior é a
garantia de imunidade e menor a possibilidade de eles serem desmascarados.
18. O mal tende a prolongar-se. As parteiras eliminavam as crianças não batizadas para que não se completasse o
número de eleitos e o juízo final fosse adiado. Assim, elas sobreviveriam mais tempo. O mal sempre se
prolonga e o raciocínio, por isso, faz com que seja exigida sua erradicação total e absoluta: o massacre deve
ser radical e definitivo.
19. A crença no poder das bruxas era um preconceito da época. O Malleus o reforça ao extremo, com a garantia
do saber acadêmico de seu tempo. Não foi à toa que Krämer fez algo não totalmente claro para obter o
apoio da Universidade de Colônia. Todas as emergências posteriores exploraram e aprofundaram os
preconceitos; é o que se chama de uma política völkisch ou popularista (não populista, que é outra coisa
muito diferente).
20. O Malleus garante a reprodução da clientela: a mulher não era torturada para que confessasse, mas para que
revelasse os nomes de seus cúmplices e a mera menção de um nome sob tortura autorizava que a pessoa
nomeada também fosse torturada. Toda emergência cuida para que a clientela não termine, porque se se
esgota seu poder punitivo perde sentido, como havia acontecido ao Papa depois dos massacres dos cátaros
e outros hereges.

Esta é, em sua maior síntese, a estrutura fundacional do poder punitivo ilimitado, trabalhada durante
duzentos anos e sintetizada tardiamente pelo Malleus em 1494, mas que até hoje se manteve em todas as
fabricações de emergências que foram feitas nos seis séculos posteriores. O Malleus é uma obra tardia, porque
no século seguinte ao seu aparecimento consolidaram-se as monarquias e, com algumas delas, as igrejas
nacionais. A inquisição papal teve de fazer de tudo para evitar que os adeptos dessas igrejas nacionais não se
sublevassem na parte que ficava sob seu controle, razão pela qual deixou as mulheres um pouco de lado e se
ocupou de queimar reformados. Os reformados, por sua vez, também praticavam a combustão com grande
entusiasmo, como Calvino, que encarregou Servet da tarefa, porque parece que não lhe agradava que o sangue
circulasse. É óbvio que o sangue continuou circulando, mas não o de Servet.
O poder dos inquisidores e de seus rapazes era cobiçado por outros e, entre estes, pelos médicos, que
aspiravam ficar com pelo menos parte deste poder. Teremos, mais adiante, oportunidade de verificar que os
médicos sempre tiveram vontade de deter o poder punitivo e chegaram a dominar seu discurso legitimador
com horríveis consequências massacradoras. Porém, o primeiro avanço do poder médico sobre o campo
punitivo foi tentado em 1563 por um médico protestante dos Países Baixos, Johann Weyer (ou Weier ou Wier),
que publicou, em Basileia, um livro denominado As artimanhas do demônio, que rapidamente correu toda s
Europa, armando considerável reboliço.
Wier não negava a inferioridade da mulher nem a existência das bruxas e muito menos sua periculosidade,
pois continuava atuando dentro da mesma visão agostiniana do mundo, configurada pelas cidades espelhadas
de Deus e Satã. O que ele introduziu foi a novidade de que as bruxas eram melancólicas e que, por isso, Satã se
aproveitava delas, explorando sua doença. Não é demais recordar desde já que a melancolia era o que, com
Charcot, logo seria chamado de histeria.
Ao mesmo tempo, como bom protestante, Wier aproveitava para dizer que os verdadeiros bruxos eram os
padres exorcistas, que praticavam sua magia diante de fetiches, que eram os santos católicos. Cabe esclarecer
que havia um agrupamento de exorcistas que protestava toda vez que um padre que não pertencia ao
agrupamento se lançava a exorcizar alguém.
Mas voltando a Wier, devemos advertir que ele havia viajado a lugares distantes e estudado várias plantas
alucinógenas, razão pela qual também afirmava que muitas dessas mulheres sofriam os efeitos de intoxicações
pela atropina, pelo ópio e pelo hashish (a maconha e a cocaína não haviam chegado).
A novidade introduzida por Wier é muito interessante, porque dá lugar àquilo que subsiste ainda hoje, as
chamadas medidas de segurança. O poder punitivo pode libertar-se de limites argumentando de várias maneiras,
e não há exagero nessa afirmação, pois o engenho perverso que caracteriza seus discursos legitimadores é
inusitadamente fértil. Um deles consiste em ocultar ou dissimular seu próprio carácter punitivo, o que continua
fazendo mediante o expeditivo recurso de deixar de chamar penas às penas. Foi isso o que Wier introduziu.
Com efeito, vimos que havia uma contradição entre, por um lado, a pena limitada pela reprovação de
culpabilidade fundada na escolha do infrator, na qual lhe é cobrada sua culpa, própria dos juristas (glosadores e
pós-glosadores), e, por outro, a periculosidade afirmada pelos demonólogos, pois os primeiros não podiam
justificar as penas máximas às mulheres, porque eram menos inteligentes e, por conseguinte, deviam ser menos
culpadas.
A solução transacional encontrada foi aumentar ao máximo a gravidade do delito das bruxas e torná-lo
superior até mesmo ao pecado original, com o qual, por qualquer das duas vias, se habilitava a combustão,
recurso que quatrocentos anos depois os penalistas do nazismo voltariam a usar.
Wier propôs uma variante consistente na qual as bruxas eram retiradas do campo dos juristas e dos
inquisidores e deixadas nas mãos dos médicos, de modo que estes pudessem colocá-las nos manicômios, que
eram, em sua época, asilos infectos piores que as prisões, onde não sobreviveriam por muito tempo. Desse
modo, não se penalizava formalmente as mulheres, mas as privava materialmente de liberdade até sua morte ou
pouco menos, se bem que suponhamos que as mulheres de classe alta poderiam ser atendidas a domicílio.
É interessante observar que até hoje no direito penal se discute se a pena é determinada pela
culpabilidade ou pela periculosidade, conquanto se dissimule a terminologia tratando de combinar remendos
contraditórios. Nessas combinações do não acumulável, o mais frequente na legislação comparada é que se
prevê fixar a pena segundo a culpabilidade, mas os perigosos ou inimigos são deixados à mercê das medidas
administrativas de segurança. Desse modo, verificamos que não estamos falando de história no sentido mais
usual do termo, e sim do presente, ou seja, confirmamos, uma vez mais, que a Idade Média não terminou.
De qualquer maneira, essa primeira tentativa de manipular o poder punitivo por parte dos médicos não se
fez graças à Igreja, nem tampouco aos reis e príncipes. O jesuíta Martín do Río – belga como Wier, mas filho de
pai espanhol – afirmou que Wier não só era um herege, porque negava que as bruxas voassem, mas também
um mago. Por conseguinte, se Wier houvesse caído nas mãos católicas teria sido permitido que eles
celebrassem um assado a mais.
Todavia, como a queima de mulheres já não se praticava tanto por iniciativa da Igreja, e sim pela dos juízes
dos reis, a proposta de Wier alarmou os teóricos que estavam lançando as bases do conceito de soberania,
porque ele queria arrebatar um poder que estava passando rapidamente para seus soberanos. Wier não só se
havia imiscuído com o poder do Papa, como também com o dos soberanos: tudo bem que o disputassem entre
eles, mas não que alguém pretendesse retirá-lo de ambos e deixar de queimar as mulheres para enfiá-las em
asilos.
Os dois teóricos mais fortes do conceito emergente de soberania, hoje tão descaracterizado, foram, no
século XVI, o inglês Thomas Hobbes e o francês Jean Bodin (ou Bodino). Este último publicou um livro em
resposta a Wier em 1580: De la démonomanie des sorciers. De l’inquisition des sorciers. Bodin se dava conta de que
a manipulação médica não se limitava às bruxas, mas que ameaçava ir muito mais longe e, portanto, discorria
que, com o mesmo critério, todos os criminosos deveriam ser psiquiatrizados.
Porém, não foi somente Bodin quem percebeu a gravidade da ameaça médica ao poder dos soberanos. O
próprio filho de Maria Stuart, o rei Jaime I da Inglaterra e VI da Escócia – perseguidor um tanto desanimado de
católicos e puritanos, nos momentos de ócio que a atenção de seus favoritos lhe permitia, uma vez que a rainha
lhe dispensava muito pouca – escreveu uma Demonologia em resposta a Wier.
Isso dá conta de que desde a primeira tentativa séria da corporação médica, todos os donos do discurso
do poder punitivo fizeram soar o alarma, o que parece mais que justificado à luz dos fatos dos três séculos
posteriores.
Ilustração 7

5. Sempre houve rebeldes e transgressores


Vimos que os inquisidores eclesiásticos no século XVI já não se ocupavam muito das bruxas. Isso se deveu
ao fato de o Papa ter nomeado um cardeal embaixador na Espanha e este viu como a inquisição funcionava ali,
como um instrumento muito eficaz de verticalização a serviço do rei, dedicado a converter em cinzas todos os
dissidentes perigosos para a Coroa (os chamados hereges), em particular os que tentavam introduzir a desordem
com ideias das Igrejas reformadas nacionais de outros países.
Pois bem. Este cardeal voltou a Roma e quando o Papa morreu, foi eleito para substituí-lo. Nem lento nem
preguiçoso, copiou a organização da inquisição espanhola para combater os reformados e suas heresias, ou seja,
todos os que não lhe respondiam, revitalizando a decadente inquisição romana e transferindo sua condução aos
jesuítas.
Aqui vemos uma mudança de corporação hegemônica, em que o primado do discurso sobre a questão
criminal passou dos dominicanos aos jesuítas. Isso ocorreu no tempo em que o discurso se centrava nos
luteranos e em outros hereges e deixava de lado as bruxas, cuja combustão passou a ser decidida pelos juízes
dos reis e príncipes, que continuaram praticando-a com singular paixão incendiária, em especial na Europa
central, valendo-se sempre dos ensinamentos do famoso Malleus.
Contudo, nem todos estavam tão loucos nesse tempo, pois houve autores que escreveram contra essa
prática, em particular alguns jesuítas. O grande rebelde foi Friedrich Spee, que publicou, em 1631, um livro
exclusivamente destinado a destruir o Malleus e aos doutrinários que legitimavam a combustão de mulheres
acusadas de bruxaria. Como era natural, por elementar prudência, ele publicou o livro anonimamente e sem a
licença dos superiores de sua ordem, o que constituía uma falta gravíssima.
Em todas as épocas, o transgressor é um enigma. Como surge? Por que alguém desafia o poder ou os
valores dominantes, mesmo às custas de graves riscos? Há quem afirme que se trata de casos em que aquilo que
foi ensinado desde pequeno contrasta muito fortemente com o que se verifica em seguida, na vida adulta,
porém o certo é que isso acontece mais ou menos com todos nós e para resolver os psicanalistas costumam
comparecer.
De toda forma e sem descartar essa possibilidade, o certo é que por sorte sempre há transgressores e, no
caso de Spee, não podemos verificar se quando era pequeno, ao invés de contos de fadas, lhe liam relatos de
bruxas, e tampouco podemos fazer uma reportagem com ele e lhe perguntar a esse respeito.
A julgar pelo que os biógrafos de Spee relatam, parece que o encarregaram de tomar a confissão de todas
as bruxas de sua comarca antes de queimá-las, e o pobre ficou tão traumatizado que seu cabelo foi ficando
branco, e não justamente porque as neves do tempo branquearam suas cãs, já que era muito jovem.
O livro desse rebelde grisalho se chamou Cautio criminalis, ou seja, cautela ou prudência criminal. O
próprio título da obra era incômodo porque encerrava uma ironia: a Constitutio criminalis era a ordenança
criminal vigente e brutal de Carlos V, isto é, o texto legal, de inusitada crueldade, que regeu o direito penal
comum alemão desde 1532 até final do século XVIII e em função do qual os juízes do imperador do Sacro
Império Romano-Germânico queimavam mulheres (depois que o SIRG foi dissolvido, essa tarefa coube aos dois
príncipes que se consideravam herdeiros do império desmembrado).
É curioso, mas Spee não era nem um jurista nem um criminólogo, e sim um poeta e, segundo os
especialistas, o melhor poeta alemão de seu tempo, além de destacado teólogo.
Pois bem. Esse rebelde encanecido, cansado das brutalidades e iniquidades das quais era testemunha (ao
que talvez conviesse acrescentar que as tinturas de seu tempo não eram boas), decidiu jogar tudo em seu livro
e se valer disso à vontade, sem poupar nenhum detalhe nem adjetivo.
Spee não andou em círculos e não se enredou em discussões sobre o poder de Satã ou das bruxas. Ele
começa afirmando que não discute sua existência, mas que nunca conheceu nenhuma e que não havia bruxa
alguma entre as mulheres de quem recolheu confissão antes de serem queimadas. Pelo contrário: afirma que
com o procedimento inquisitorial qualquer um podia ser condenado por bruxaria.
O encanecido não era nenhum bobo – um bom poeta nunca pode sê-lo – e, por conseguinte, tomou o
caminho correto em qualquer crítica ao poder punitivo, evitando cair na armadilha usual que desvia a questão
para a gravidade do mal que este pretende combater e contra o que livra sua guerra.
Se o poder punitivo não serve para o que pretende, não é questão de entrar na discussão acerca da
maldade do que diz combater, e sim, simplesmente, mostrar que não o faz. Nas discussões sobre as atuais
andanças de Satã (ou o inimigo), não tem sentido discutir se a cocaína é daninha, porque não há dúvida de que
é; o importante é mostrar que a pretensa guerra à cocaína provocou 40.000 mortos no México nos últimos
quatro anos, boa parte deles decapitados e castrados (a cocaína teria demorado quase um século para provocar
a mesma quantidade por efeito de overdose). Tampouco tem sentido discutir a perversidade do terrorismo, e
sim fazer notar que a suposta guerra já causou muito mais mortos inocentes que o próprio terrorismo. Spee
soube disso em 1631, embora muitos comunicadores sociais não tenham se dado conta até o presente. Talvez
tenha sido mais fácil para Spee porque não via televisão.
Ilustração 8

Nosso encanecido jesuíta se perguntava como era possível que acontecessem essas aberrações, o que era
que permitia que continuasse semelhante barbárie. Em primeiro lugar o atribui à ignorância da população, isto
é, à desinformação, ou seja, à criminologia midiática de seu tempo, carregada de preconceitos que se
reforçavam desde as praças e os púlpitos, ou seja, ao que hoje chamamos técnica völkisch (popularista, que
alguns traduzem equivocadamente por populista, que obviamente não é a mesma coisa).
Além do mais, ele destacava a responsabilidade da Igreja, entendendo por tal os teóricos, isto é, os
dominicanos e seus seguidores, que repetiam as palavras-de-ordem discursivas da criminologia acadêmica de
seu tempo, legitimadora desses assassinatos.
Prosseguia atribuindo culpa aos príncipes, que, desse modo podiam imputar todos os males a Satã e a seus
seguidores, sobretudo porque não controlavam seus subordinados, a quem deixavam livres. Isso, hoje, é o que
chamamos de autonomização policial, ou seja, permitir que a corporação policial atue fora de todo controle
político, para o qual se lhe atribuem âmbitos de arrecadação autônoma, também destacados por Spee.
Com efeito, os inquisidores oficiais dos príncipes cobravam por bruxa executada, ou seja, trabalhavam por
tarefa. Por isso, esforçavam-se por obter o nome de outra candidata, a fim de que a clientela nunca se esgotasse
e, além do mais, atribuíam a Satã o suicídio de algumas dessas infelizes, porque nesse caso não cobravam. Os
príncipes não pagavam por bruxas suicidas, porque não lhes serviam como espetáculo popular. Porém, como se
isso fosse pouco, Spee conta também que se dedicavam a percorrer os domicílios solicitando contribuições para
seu santo labor de purificação, ou seja, que trata-seva de uma venda de proteção mafiosa. Como vemos, há
poucas coisas novas sob o sol. Por último, nosso encanecido poeta destacava algo que é até hoje moeda
corrente na linguagem jurídica: os eufemismos. Quando nas atas se fazia constar que as mulheres confessavam
voluntariamente, era porque o haviam feito uma vez penduradas e desconjuntadas, uma vez que só se
considerava confissão sob tormento quando os ferros eram aplicados.
O livro de Spee é um pouco tedioso e bastante desordenado, pois está escrito com base no método das
questões, ou seja, perguntas e respostas. São 52 questões e nas últimas ele não poupa qualificativos: considera
que a queima de mulheres pode ser comparada com o que Nero fazia aos cristãos, o que implica que os juízes
dos príncipes eram criminosos. Ninguém se havia animado a semelhante adjetivação e teria de se passar mais de
um século e meio até que dissesse o mesmo Jean-Paul Marat, o revolucionário francês execrado por toda a
historiografía fascista posterior.
O que cabe destacar como mais significativo desse texto é que, assim como o Malleus fixou a estrutura do
discurso inquisitorial, a Cautio o fez com o discurso crítico. Com efeito, qualquer discurso crítico do poder
inquisitorial e do poder punitivo em geral, desde 1631 até hoje destaca o seguinte: 1) o descumprimento de
seus fins manifestos pelo poder punitivo; 2) a função dos meios de comunicação; 3) a dos teóricos
convencionais legitimadores; 4) sua conveniência para com o poder político ou econômico; 5) a autonomização
policial; e 6) a corrupção ou a arrecadação autônoma.
Esses elementos estruturais estão presentes no discurso deslegitimador ou crítico de todo poder punitivo,
desde a crítica liberal ao poder punitivo do Antigo Regime até as teorias da criminologia crítica das últimas
décadas do século passado.
Nesse sentido, Spee fixou outro programa de computação que em cada época em que floresce a crítica
volta a ser prenchido com os dados correspondentes ao tempo de cada autor. Pode-se dizer que até hoje
construímos discursos seguindo alternativamente as estruturas fundacionais do Malleus ou da Cautio.
O livrinho de Spee incomodava muito os príncipes, os dominicanos, os policiais e os juízes, mas também
os próprios jesuítas, que embora não queimassem mulheres, aplicavam o mesmo procedimento contra os
luteranos, e por isso ter semelhante infrator em suas fileiras lhes criava um problema com os príncipes.
Se bem que o livro tenha sido publicado sem nome de autor, aos poucos se soube que Spee era o
responsável e não faltou quem imediatamente propusesse que ele fosse assado em fogo lento, ideia que não
prosperou, talvez porque isso lhe tivesse dado mais fama. De qualquer maneira, era contaminador para a
ordem, motivo pelo qual quiseram obrigá-lo a renunciar a ela, a que o poeta se negou veementemente. No
final, resolveram suportá-lo e acalmá-lo na medida do possível, dando-lhe uma cátedra de teologia.
Alguns citam seu nome como Friedrich von Spee, o que não é certo, porque não era nobre; seu nome era
somente Friedrich Spee e o von Langenfeld não faz mais que indicar seu lugar de origem.
Quatro anos depois da publicação da Cautio criminalis, em 1635, morreria contagiado enquanto prestava
assistência a soldados vítimas da peste. Imaginamos que sua morte tenha sido um alívio para seus superiores,
pois não se preocuparam muito com seus restos, que ficaram perdidos até que, em 1980, conseguiu-se
identificar seu corpo.
Pese a todo o empenho colocado por Spee e aos riscos que ele correu, seu livro passou sem pena nem
glória e os juízes continuaram levando adiante sua alegre queima de mulheres, conforme as instruções do
Malleus, que continuava sendo o livro de cabeceira dos corruptos da época.
Setenta anos depois do aparecimento da Cautio, o filósofo Christian Thomasius releu sua obra. Thomasius
era um simpático senhor, que aparece nos retratos com seu rosto rosado arredondado, sem que saibamos se
era grisalho, pois cobria sua cabeça com uma peruca loura, de longos cachos. Ao que parece, esse recurso
protegia um respeitável conteúdo craniano, porque Thomasius não duvidou em retomar os argumentos de
Spee. Em 1701, ele defendeu publicamente sua tese Dissertatio de crimine magiae, na qual desbaratava os
disparates do Malleus. Esta tese foi traduzida para o alemão três anos mais tarde e alcançou grande repercussão,
o que era explicável. Afinal, com Thomasius anunciou-se o Iluminismo e, como se isso fosse pouco, lançou as
bases para uma adequada distinção entre moral e direito (pecado e delito), embora até hoje pululem muitos
que se negam a compreendê-la e que, sem dúvida, se bem que nossa civilização mostre, a cada dia, mais
defeitos, é uma de suas melhores conquistas.
Esse emperucado filósofo obscureceu o Malleus até desaparecer e ficar reduzido a uma curiosidade
histórica.
Na verdade, devo dizer que tudo o que estou contando era muito pouco conhecido pelos penalistas e
criminólogos posteriores, até o momento em que o Malleus foi publicado em versão em espanhol há menos de
quarenta anos por historiadores, em uma edição que está completamente esgotada (há menos de uma década
veio à luz uma outra edição). A Cautio criminalis nunca foi traduzida para o espanhol e até onde sei, tampouco
o foi a tese de Thomasius. Tudo isso foi recoberto por um manto de silêncio, como se não fizesse parte da
história do direito penal e da criminologia. Insisto em que se trata de ascendentes que esses saberes tentaram
ocultar, como a árvore genealógica de algumas famílias ilustres que se empenham em esconder a origem de
suas fortunas.

6. As corporações e suas lutas


Nos anos transcorridos entre a Cautio e a Dissertatio – ou seja, entre 1631 e 1701– estava a se aprofundr
outro fenômeno, o surgimento do sujeito público, que se acentuaria no curso do século XVIII.
No Estado absoluto o senhor exercia poder de vida e morte, que, na realidade, era só poder de morte,
pois não podia dar a vida. Para matar ou deixar viver, como diz Foucault, não se necessitava de muita
especialização, porque, no geral, matar é uma operação bastante simples para o poder estatal, que, para isso,
não tem necessidade de mais nada do que uma agência ou corpo de assassinos mais ou menos dissimulados e
elevados a funcionários.
O problema se complicou quando o poder estatal começou a se preocupar em regular a vida pública, quer
dizer, não de cada indivíduo em particular, mas sim do sujeito público. A função do Estado complicou-se e o
príncipe precisou se cercar de secretários ou ministros especializados que passaram a encarregar-se da
economia, das finanças, da educação, da salubridade públicas, isto é, desse sujeito público.
Como é natural, ao redor de cada ministro se foi formando uma burocracia especializada, que construiu
um saber ou ciência que se alimentava a partir das universidades.
Desse modo, formaram-se as corporações de sábios especialistas, cada uma com um saber próprio, expresso
em um dialeto compreensível apenas para os iniciados, ou seja, para os que pertencem à respectiva corporação
e, por conseguinte, inacessível ao vulgo de estranhos a esta, geralmente chamados leigos (também poderiam ser
chamados de bárbaros, porque assim eram chamados os que não compreendiam ou falavam mal a língua local).
Trata-se de corporações que monopolizam o discurso e se fecham aos estranhos mediante seu dialeto
particular. Não deve chamar a atenção que os criminalizados façam o mesmo sob a forma do jargão
delinquencial, que foi matéria de estudo de sisudos criminólogos do século passado, que não se deram conta de
que eles se expressavam em seu próprio jargão e que também eram bárbaros a respeito do dialeto dos presos.
Desde os séculos XVII e XVIII e até o presente, as corporações monopolizam seu discurso e disputam
entre elas para ampliar sua competência, sem contar que há, também, uma luta interna de escolas na busca de
conseguir impor a hegemonia do próprio subdiscurso. Em síntese, há lutas intercorporativas e também
intracorporativas.
Não é de estranhar, portanto, que o discurso penal e criminológico tenha sido matéria de disputas entre as
corporações, como não podia ser deixar de ser, dado que é sempre um discurso acerca do próprio poder. Isso
não é nenhuma novidade, posto que desde muito antes de essa luta entre corporações tomar corpo vimos
como o primado passou dos dominicanos aos jesuítas, e os médicos, com Wier, também quiseram meter sua
colher, que em séculos posteriores se tornará um enorme colherão.
Vimos que o poder punitivo gera as estruturas colonizadoras, mas também fossiliza as sociedades que
adquirem essa estrutura, razão pela qual elas não são muito aptas como cenário para a luta de corporações e
menos ainda se se trata do discurso do próprio poder punitivo.
Sempre há discursos sobre esse poder, mas apenas um se torna hegemônico ou dominante, porque resulta
funcional a algum setor social, que o adota e o estimula. Isso tem lugar quando há uma dinâmica social mais ou
menos acelerada, ou seja, quando surge um conflito interno na sociedade e um setor de certa importância quer
deslegitimar o discurso do poder do setor a que tende a se deslocar ou frente ao qual quer abrir-se um espaço.
Por isso, as sociedades colonialistas espanhola e portuguesa não eram o melhor campo para a luta das
corporações e, consequentemente, o cenário desta luta transferiu-se para a Grã-Bretanha primeiro e para a
França e a Alemanha depois, onde estava surgindo uma classe de industriais, comerciantes e banqueiros.
Essa classe em ascensão necessitava controlar e impor limites ao poder da nobreza e do clero, que até
então eram as classes dominantes. É claro, o poder mais temível das camadas hegemônicas era o punitivo, que
ameaçava os novos empresários que assediavam seu Estado absoluto e que eram considerados dissidentes
perigosos. Veremos que não foi apenas o livrinho de Spee que se publicou anonimamente por razões de
prudência elementar e sentido de conservação.
Como não existe poder sem discurso – ou, pelo menos, este não dura muito sem o texto –, resultava
funcional às novas classes em ascensão assumir outro discurso acerca do poder punitivo e, por conseguinte,
deviam procurá-lo em outras corporações, diferentes daquelas que o haviam monopolizado até aquele
momento.
Por essa razão, na segunda parte do século XVIII foi tomando corpo o saber das corporações dos filósofos
e pensadores no campo político geral e, portanto, o dos juristas que seguiam seus alinhamentos limitadores do
poder punitivo. Assim nasceu o Iluminismo, o século das luzes ou da razão e, em seu amparo, o chamado
direito penal liberal.
O novo discurso passou a ser obra das corporações dos filósofos e juristas que se defrontavam com os
legitimadores do Antigo Regime e frente ao qual houve várias reações diferentes.
Em princípio, houve príncipes que se davam conta de que algo estava mudando e que, antes de que a
prateleira caísse, preferiram acolher o novo discurso, pelo menos em boa parte (na que incomodava menos e
lhes permitia continuar gozando da maioria de seus privilégios). Foi essa atitude que deu lugar ao chamado
despotismo ilustrado, que pretendia fazer todas as mudanças a partir do poder, desde cima, com o lema tudo para
o povo, tudo pelo povo, mas sem o povo.
Houve outros príncipes menos sagazes, que preferiram seguir em frente, e contra os quais se ergueram os
revolucionários, radicalizando o discurso crítico do sistema penal em maior ou menor medida, de liberais a
socialistas.
7. O utilitarismo disciplinador
Em geral, o Iluminismo penal se nutriu de duas variantes opostas, embora muitas vezes coincidentes em
seus resultados práticos: o empirismo e o idealismo. Com a permissão dos mais finos historiadores da filosofia,
que nós obtivemos sem consultá-los, pode-se dizer que houve, no Iluminismo, uma convergência de vias de
conhecimento ou acesso à verdade: uns a buscavam mediante a verificação na realidade material e outros
através da dedução de uma ideia dominante.
Sem nos aprofundarmos muito, poderíamos afirmar que se achavam em germe os elementos que em
seguida teriam de se separar entre aqueles que só aceitavam o que resultava da observação, medição e
experimentação, e aqueles que partiam de uma primeira ideia iluminadora, que lhes servia de guarda-roupa no
qual acomodar as roupagens do mundo, às vezes sob pressão.
No campo criminológico, essa dupla corrente deu lugar a duas ordens teóricas: o utilitarismo disciplinador e
o contratualismo (ou talvez, os contratualismos, em todas as suas variantes).
Os utilitaristas tinham como base que era necessário governar proporcionando a maior felicidade ao maior
número de pessoas. A cabeça mais visível dessa corrente foi o inglês Jeremy Bentham, personagem de vida
longa, cujo esqueleto vestido se encontra em uma vitrine no colégio que ajudou a fundar, embora se diga que
a cabeça foi mumificada e em seu lugar se colocou uma de cera. Parece que acontece alguma coisa com as
cabeças daqueles que elaboram teorias criminológicas, pois se comenta que a de Lombroso está conservada em
formol em um museu em Turim. Por sorte, faz tempo que se perdeu o costume de se dispor das cabeças dos
criminólogos post-mortem, embora isso seja sempre preferível a que outros o façam ante-mortem por eles. Mas
voltemos ao nosso ponto.
Bentham concebia a sociedade como uma grande escola, na qual devia impor-se a ordem, ou seja, a chave
era a disciplina e, para tal, o governo devia repartir prêmios e castigos: como é óbvio, os prêmios
proporcionavam felicidade e os castigos dor e, como também parece óbvio, o ser humano saudável e
equilibrado devia preferir os primeiros, com sua felicidade, e não os castigos, com sua dor. Por isso, ele deveria
abster-se de cometer delitos. Todavia, delitos eram cometidos, o que indicava que o infrator não estava bem,
ou seja, que não era suficientemente ordenado, dado que escolhia a dor. Era como a criança desobediente, que
obriga a professora a chamar os pais e lhes informar que algo está acontecendo com ela. Hoje o psicólogo
intervém, e se ele é bom pode chegar a descobrir que o menino é mais inteligente que os pais e a professora;
há cinquenta anos ele corria o risco de o deixarem bobo com uns eletrochoques, e, há duzentos, Bentham
queria colocar o adulto a quem acontecia alguma coisa em um invento arquitetônico que chamou de panóptico,
que era um aparato para discipliná-lo. Vamos, porém, por partes.
É evidente que Bentham se deparava com o problema da impunidade da grande maioria dos delitos e
bancava o distraído a respeito da seletividade do poder punitivo, razão pela qual tratava de resolver a questão
postulando que as penas deviam ser mais graves quanto maior fosse a impunidade, o que não parece muito
razoável, porque ninguém tem a culpa da torpeza ou Da referência do Estado ao repartir o poder punitivo.
Para disciplinar os desobedientes descontrolados, Bentham se irritava com os mais bobos, que eram os
enganados pelo poder.
Mas prossigamos. Para Bentham, o delito coloca em evidência um desequilíbrio, produto da desordem
pessoal do infrator, que deve ser corrigido. Para isso, projetou a referida prisão chamada panóptico, com
estrutura radial, para que o preso saiba que será observado a partir do centro e por olhos mágicos a qualquer
momento. Desse modo, ele seria introduzido na ordem e, ao final, acabaria se tornando seu próprio vigilante,
isto é, comeria o guardião (é mais delicado dizer que o introjetaria).
Essa ideia era tomada de alguns médicos que asseguravam ser a doença mental também produto da
desordem e por isso os manicômios deviam ocupar-se do disciplinamento dos doentes, colocando-os para
trabalhar, na convicção de que a ordem física redundaria na ordem mental. Dessa perspectiva, não importa que
o trabalho dos presos ou dos loucos seja ou não rentável ou útil, porque é um valor disciplinador em si
mesmo, como podia ser o famoso quebrar pedras.
O disciplinamento devia ser levado a cabo na medida do talião, ou seja, de uma dor equivalente à
provocada pelo delito. A obssessão pela retribuição exata levou Mr. Jeremy a projetar uma máquina de açoitar,
para que a intensidade da dor fosse uniforme e não ficassse entegue ao arbítrio do carrasco. Ainda que a
guilhotina não tenha sido inventada por ele (foi criada na França), o certo é que ela foi imaginada respondendo
ao mesmo critério.
As leis penais são feitas hoje em dia pelos assessores dos legisladores, de acordo com a agenda definida
pelos meios de comunicação de massa, mas no começo do século XIX as projetavam os penalistas e, quando
estes tomaram a ideia de Bentham, acabaram elaborando códigos penais com penas fixas e longas listas de
agravantes e atenuantes, prevendo percentuais para cada um. Assim foi redigido, por exemplo, o primeiro
código penal do Brasil, em 1831, e seus comentadores anotavam os difíceis cálculos matemáticos para cada caso,
porque não se conheciam as calculadoras e nem todos os juízes haviam obtido boas notas no secundário.
Bentham presenteava seu modelo a todo o mundo, tendo, inclusive, mantido correspondência com
Bernardino Rivadavia. Houve panópticos em muitas cidades da América Latina, às vezes completos e outras semi-
radiais, em geral porque o orçamento não era suficiente para fazê-los completos. Alguns subsistem, convertidos
em museus ou mercados (como em Recife e em Ushuaia), ou funcionando como prisão – o de Quito,
construído no século XIX pelo ditador Gabriel García Moreno e por cujas celas passaram quase todos os
políticos equatorianos do século seguinte, sem contar com o fato de as turbas, instigadas pelos conservadores,
terem arrancado o líder liberal Eloy Alfaro desse presídio e o linchado, em 28 de janeiro de 1912.
Cabe esclarecer que os panópticos nunca funcionaram como Bentham havia imaginado, pois logo os presos
descobriram sua lógica e a superlotação fez com que a visão fosse interrompida com os múltiplos obstáculos.
O disciplinarismo dos utilitaristas deu muito o que falar nos anos setenta do século passado, quando
Foucault o considerou diretamente um modelo social e, na Itália, Dario Melossi e Massimo Pavarini publicaram
um livro intitulado Cárcere e fábrica, em que destacam uma matriz comum com o disciplinamento para a
produção fabril nas origens do industrialismo. Um professor argentino, Enrique Marí, contribuiu para
enriquecer essas reflexões entre nós.
Os utilitaristas não admitiam que existisse nenhum direito natural anterior à sociedade e sobre o qual esta
não pudesse avançar. Os direitos deviam ser respeitados unicamente porque sua lesão havia provocado mais
dor que felicidade.
Era claro que o utilitarismo de Bentham encerrava uma concepção criminológica, pois fincava a etiologia do
delito na desordem da pessoa e, por conseguinte, surgia daí uma política destinada a combatê-lo mediante o
disciplinamento, que importava a pena talional no curioso aparato inventado.
Se bem que Bentham tenha se desenvolvido na Grã-Bretanha e rechaçado a ideia do contrato social e do
direito natural anterior à sociedade, foi condecorado pelos revolucionários franceses, pois representava um
avanço frente ao brutal exercício do poder punitivo de seu tempo.
8. Os contratualismos
Vimos que nas obras tradicionais se costuma afirmar que a criminologia nasceu na segunda metade do
século XIX, ou seja, quando obteve reconhecimento acadêmico como saber independente. O mais curioso,
porém, é que essas obras não só se calam sobre tudo o que relatamos até agora a respeito dos séculos
anteriores, como também, não podendo ignorar o pensamento do século XVIII e da primeira parte do século
XIX, preferem afirmar que este não era criminológico.
É muito curiosa essa posição, porque faz parecer que a criminologia assim entendida não só se comporta
como uma família que oculta seus antepassados pouco apresentáveis, bem como nega todo parentesco com os
que não pode ocultar, porque a vizinhança os conheceu bem e as comadres do povoado se lembram deles.
Realmente, trata-se de uma ciência à qual é necessário recordar que seu berço foi um cortiço iluminado a
querosene.
Se bem que os autores dos discursos acerca da questão criminal, provenientes das corporações de filósofos
de primeiríssima linha ou de juristas que seguiram seus pensamentos, se tenham dedicado a criticar o poder
punitivo de seu tempo e a propor reformas legislativas, não se pode ignorar que eles se apoiavam numa
criminologia, pois partiam de certa concepção do delito e do delinquente e, portanto, atribuíam a origem do
delito a determinadas razões e propugnavam penas dirigidas a eliminá-lo ou a reduzi-lo. Para isso, necessitavam
partir de uma certa ideia do ser humano e da sociedade.
Por outro lado, como propunham reformas ao sistema penal, eram fortemente críticos do poder punitivo
de seu tempo. Tudo isso, sem dúvida, é criminologia, pois difícilmente se pode negar que a crítica ao poder
punitivo, à forma em que é exercido, a suas modalidades etc. o seja.
Essa negação da dimensão criminológica dos filósofos e juristas do Iluminismo do penalismo liberal
obedece a uma fábula inventada em fins do século XIX por Enrico Ferri, que foi o mentor do positivismo
italiano, de grande fama em seu tempo e de quem falaremos com mais detalhe.
Como bom positivista, Ferri considerava-se o porta-voz dos donos da ciência, afirmando que antes dele e
seus partidários não tinha havido senão escuridão, metafísica e charlatanismo. Chegou a afirmar que tudo o que
antes se havia dito acerca da questão criminal era espiritismo, mas, com muitíssima habilidade e pretendendo
tributar-lhe uma homenagem, chamou a todo o saber precedente de escola clássica, para erigir-se, ele mesmo,
no líder da nova escola, da scuola positiva.
A invenção de uma escola clássica, que abarcava tudo o que fora pensado desde o século XVIII até as
torpezas do positivismo racista das últimas décadas do século XIX, foi a melhor fábula de Ferri, tão bem
sucedida que ainda é repetida nos manuais dos nossos dias. Não posso deixar de recordar que assim me
explicava, na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, um professor que usava polainas e chapéu
de palha a Maurice Chevalier, se declarava positivista e se referia ao presidente da República como esse
gringuinho. Outro professor, não tão pitoresco, continuou falando a mesma coisa até o final da ditadura. Por via
das dúvidas, esclareço que foi no século passado, mas não no XIX, porque tudo passa muito rápido e repito
que não sou nenhum fenômeno biológico.
O certo é que resulta inadmissível que os utilitaristas e todas as variantes do contratualismo, os kantianos,
os hegelianos, os krausistas, os déspotas ilustrados de calças brancas e peruca e os descamisados
revolucionários, todos juntos, formassem uma escola, além do mais fundada por um marquês milanês gordinho,
do final do século XVIII, e que tenha durado mais de cem anos, estendida por países que se matavam
alegremente entre si.
Foi sem dúvida a melhor brincadeira de Ferri, na qual caíram inclusive seus oponentes. Se Ferri está em
algum lugar, com sua oratória envolvente e seus cabelos revoltos, continuará gozando com segurança do êxito
de sua ocorrência. Se nos afastarmos dessa armadilha tramada pelo velho positivista e prescindirmos da
imaginária escola clássica, o que encontramos é um conjunto de discursos mais ou menos funcionais à classe em
ascensão dos industriais, comerciantes e banqueiros, para seu enfrentamento com o poder hegemônico das
nobrezas nos países da Europa central e do norte.
Não podemos passar em revista aqui todos esses discursos, que por certo são interessantíssimos, tanto para
o direito penal quanto para a criminologia. Limitando-nos a esta, podemos afirmar que, em conjunto, eles
representaram uma forte corrente crítica ao exercício arbitrário do poder punitivo, baseada na experiência das
arbitrariedades e crueldades de seu tempo, dominado pelas nobrezas.
Todos eles, valendo-se dos elementos filosóficos de sua época, repensaram profundamente o concernente
à questão criminal. O utilitarismo mais puro ficou na Grã-Bretanha, enquanto que no continente os pensadores
deduziram suas visões e propuseram suas reformas preferencialmente a partir da outra vertente do Iluminismo,
quer dizer, do contratualismo.
Obviamente que nenhum destes pensadores acreditava seriamente que uns tantos seres humanos,
adornados com folhinhas de parreira nas partes pudendas, houvessem se reunido num escritório para firmar
um contrato e fundar a sociedade, como hoje poderiam fazer uns bons comerciantes mais protegidos. Eles
eram muito inteligentes para acreditar em algo semelhante. O contrato era, para eles, uma metáfora, uma figura
da imaginação para representar graficamente a essência ou a natureza da sociedade e do Estado. Essa corrente
foi a que predominou na Europa continental para enfrentar os ideólogos do Antigo Regime, que se valiam, por
sua vez, de outra metáfora, pois para eles a sociedade era um organismo natural, com uma repartição de
funções que não podia ser alterada nem decidir seu destino pela escolha da maioria de suas células. Todo o
organicismo social, inclusive os que renascem no presente, é essencialmente antidemocrático: as células que
mandam são as do cérebro, e as das unhas devem conformar-se com sua função de não incomodar; qualquer
pretensão ao contrário não é, para qualquer organicismo social, mais do que caos contra a lei natural.
Para o racionalismo contratualista, a sociedade não era em nada natural, mas sim produto de um artifício,
de uma criação humana, ou seja, de um contrato que, como tal, podia ser modificado e até mesmo rescindido,
como acontece com qualquer contrato quando a vontade soberana das partes o decide.
Nesse marco, podemos afirmar que o pensamento crítico acerca da questão criminal alcançou um de seus
momentos de mais elevado conteúdo pensante com os discursos dos contratualistas do Iluminismo. O marquês
gordinho, que, segundo a fábula do velho Ferri encabeçava essa escola era Cesare Beccaria, um funcionário
milanês que publicou, em 1764, um famoso livrinho ( Dos delitos e das penas), o qual desencadeou uma série de
trabalhos análogos em toda a Europa, propondo profundas reformas quanto às garantias e aos limites ao poder
punitivo.
Além de ser o avô do inesquecível autor de I promessi sposi – Alessandro Manzoni –, Beccaria era um
homem tranquilo e acomodado, que nunca mais voltou a escrever nada sobre a questão criminal e que dedicou
o resto de sua vida a questões como a unificação dos pesos e medidas.
Seus pressupostos antropológicos não são de todo claros, porque também era tributário de Hume, o que,
em alguma medida, o aparentava com as raízes do utilitarismo, mas o certo é que foi oportuníssimo, algo assim
como a bofetada intelectual mais contundente ao poder punitivo da nobreza. Através da tradução francesa do
abade Morellet, ele foi divulgado por toda a Europa pelo velho Voltaire, que havia declarado guerra ao poder
punitivo francês, assumindo a defesa postmortem de Calas, um protestante executado, falsamente acusado da
morte de seu filho, supostamente para que este não se convertesse ao catolicismo. Algo muito parecido havia
olcorrido um século antes em Praga com um judeu, mas este não teve a sorte de encontrar o seu Voltaire.
Em função das ideias iluministas, começaram a ser sancionados códigos, isto é, foram abolidas as
recopilações caóticas de leis e tratou-se de concentrar toda a matéria em uma única lei, redigida de forma
sistemática e clara, conforme um plano ou programa racional. Essa tendência legislativa era uma derivação do
enciclopedismo, que havia levado à redação da Enciclopedia na França pré-revolucionária, ou seja, a tentar
concentrar sistematicamente, em um único livro, todo o saber da época.
Desse modo, procurava-se dar clareza e que todos soubessem, com base na lei prévia, o que era e o que
não era proibido, substraindo-o da arbitrariedade dos juízes. Os revolucionários franceses quiseram levar isso
até o extremo de substituir as orações nas escolas pelo código penal, para que todos o soubessem de cor.
Menos mal que ninguém teve a ideia de fazer o mesmo com os 4.000 artigos do nosso Código Civil.
Quanto ao processo, os julgamentos se tornaram públicos. Foucault destaca a mudança: no Antigo Regime,
os julgamentos eram secretos e as execuções públicas; desde fins do século XVIII os julgamentos passaram a ser
públicos e as execuções secretas. O espetáculo era o julgamento e não a execução, levada a cabo privadamente
e à qual podiam assistir somente alguns convidados especiais. É claro que com o julgamento público a tortura
foi abolida.
Não deixa de ser importante a redução da pena de morte e a supressão das penas corporais. Até esse
momento, falava-se das penas naturais, ou seja, que, além dos açoites, havia uma sobrevivência da pena no
órgão que se havia sido usado no fato: a língua do perjuro e do blasfemo, a mão do ladrão e na violação e na
sodomia vocês deduzirão qual. A partir do século da razão, a coluna vertebral das penas passou a ser a privação
da liberdade.
Indo contra o que usualmente se crê, a prisão é um invento europeu bastante recente e difundido pelo
neocolonialismo, pois antes do século XVIII era usada pelos devedores morosos e como prisão preventiva, isto
é, à espera do julgamento. A privação de liberdade como pena central é um produto do Iluminismo, seja pela
via do utilitarismo (para impor a ordem interna mediante a introjeção do vigilante) ou do contratualismo (como
indenização ou reparação pela violação do contrato social).
Este último é interessante e não em vão o gordinho Beccaria dedicou parte de sua vida à unificação de
pesos e medidas. Na Revolução Industrial, era fundamental a atividade mercantil e para ela era necessário
resolver as diferenças que o caos de pesos e medidas diferentes provocava em cada país. A unificação facilitava
o comércio. A unificação das penas também facilitava sua medida, superava o caos prévio das penas naturais e
permitia medi-las todas em tempo.
Como se entende que um homicídio valha de oito a 25 anos e um furto de um mês a três anos? O que é
isso? Dois juízes procedendo como comerciantes que vendem pena por metro (ou por anos) no mostrador da
justiça? Por estranho que pareça, não é mais do que um efeito do contratualismo que perdura até o presente.
Quem viola um contrato (não cumpre o que está acordado nele) deve indenizar. Se me comprometo a
vender algo e não entrego a coisa em seu momento, devo indenizar o comprador pelo dano que lhe ocasionei.
Se não pago voluntariamente reparando esse dano, me embargam e sequestram bens e os executam, fazendo-
se, desse modo, a cobrança. Pois bem, se não cumpro com o contrato social e cometo um delito, devo
indenizar. Como? Com o que? Ora, com o que posso oferecer no mercado, ou seja, com minha capacidade de
trabalho.
Daí que a pena me prive de oferecer meu trabalho no mercado durante mais ou menos tempo, segundo a
magnitude de minha infração ao contrato (delito) e o consequente dano. Até mesmo a pena de morte entra
nesta lógica tão particular, pois opera como uma confiscação geral de bens; daí que também tenha desaparecido
a pena de morte agravada com a tortura.
Pode parecer insólito, mas essa é a origem da ideia da unificação das penas em tempo de privação de
liberdade, que em seguida se cobrirá com outras racionalizações até nos parecer, a pouco mais de dois séculos
de distância, como normal e quase óbvia. Rapidamente nos acostumamos às coisas mais rebuscadas e quando
nos perguntam por que, a resposta é sempre foi assim, embora não tenha sido sempre nem muito menos assim.
Na prática, tampouco, funcionou desse modo, mas sim que os europeus viram, desde muito cedo, que seu
problema não era com os “ameaçadores”, e que a prisão não atingia a todos, por mais miseráveis que fossem e
por mais alta que tenha sido a taxa de mortalidade nelas registrada. Como eram países neocolonialistas, o
primeiro que fizeram foi tirar de cima os incômodos e enviá-los para suas colônias. Essas penas de relegação ou
transporte foram aplicadas particularmente pela Grã-Bretanha e pela França. Os ingleses mandavam seus
indesejáveis para a Austrália, onde os prisioneiros eram destinados aos colonos, em um regime muito parecido
com as encomiendas da nossa colonização, embora com melhor destino, porque, ao que parece, muitos
sobreviveram e seus descendentes povoaram o continente.

9. Os contratualismos tornam-se problemáticos


Na realidade, os contratualistas se ocupavam em imaginar e programar o Estado e a questão criminal
tornava-se central para eles, porque o que planificavam conforme suas concepções era o próprio poder. Essa
íntima e inseparável relação do poder com a criminologia foi o que se perdeu de vista na última metade do
século XIX, quando se quis fazer da criminologia uma questão científica e asséptica, estranha ao poder e
separada da ideia mesma de Estado. Essa tendência não foi abandonada até a atualidade e hoje retoma grande
força em toda a construção da realidade midiática.
Como era de se esperar, houve vários contratualismos, porque a metáfora do contrato permitiu construir
diferentes imagens do Estado, fundadas também em ideias díspares do ser humano ( antropologias filosóficas,
diríamos hoje).
Desde os albores modernos dessa metáfora notou-se essa disparidade, que começou na Grã-Bretanha no
final do século XVII, prenunciando o processo de industrialização e a acumulação primitiva de capital. Ali se
enfrentaram o contratualismo de Hobbes e o de Locke. Para Hobbes, em seu famoso Leviatã, a origem da
sociedade se encontrava em um contrato, mas celebrado entre sujeitos dos quais tinham caído as folhas de
parreira, porque tinham as mãos ocupadas com garrotes para se matarem com singular prazer entre eles. Em
certo momento, eles teriam se dado conta de que não era bom negócio o que estavam fazendo, baixaram os
machetes e se puseram de acordo em dar todo o poder a um deles, para que terminasse a guerra de todos contra
todos.
Como, na realidade, isso era pouco verificável, este filósofo (cujos retratos o mostram um pouco
mefistofélico, embora à medida que ia ficando mais velho, ia ganhando a cara de um bom velhinho), não sabia
onde encontrar um exemplo de grupo humano em semelhante condição, mas afirmou que ainda existiam na
América. Os hobbesianos atuais possívelmente o situam em algum planeta de estranha galáxia, a muitos anos-luz
de nós, cujos hipotéticos habitantes podem se ofender no futuro, tanto como nós, hoje em dia.
É óbvio que o conceito do ser humano de Hobbes não era muito edificante, pois o concebia como um
ente movido pela ambição de poder e prazer. O depositário do poder em seu contrato não tomava parte deste,
razão pela qual os que lhe haviam dado o poder não poderiam reclamar-lhe nada, porque, do contrário,
reintroduziriam o caos, ou seja, a guerra de todos contra todos. Por outra parte, como antes do contrato o que
existia era o caos, não havia direitos anteriores ao contrato e todos derivavam deste, de modo que, caso se
negasse a autoridade do depositário, todos os direitos desapareciam.
Desse modo, Hobbes não aceitava direito algum de resistência à opressão, embora não explicasse o que
aconteceria quando o depositário do poder, que continuava sendo humano, se movesse, exercendo-o
conforme a tendência natural à ambição de poder e glória e desconhecesse qualquer limite legal imposto pelo
contrato. Sua resposta era que qualquer opressão é preferível ao caos, o que escutamos toda vez que se quer
converter a política em filme de terror.
Para manter essa curiosa paz, Hobbes exigia que as penas fossem estritamente legais e se aplicassem
mecanicamente, salvo aos inimigos, que eram os dissidentes que se queixavam e os colonizados que estavam em
estado selvagem.
Para Locke (a julgar por seus retratos, no meu bairro o chamariam de John, o fracote), o contrato era
diferente, pois antes de sua celebração houve um estado de natureza em que os humanos tinham direitos, mas
estes não estavam assegurados, e por isso decidiram celebrar o contrato como garantia. Para isso entregaram o
poder a alguém, mas o deixaram submetido ao contrato. Devem obedecer a este, embora não gostem de fazê-
lo, mas quando ele viola o contrato e nega esses direitos anteriores, reintroduzindo o estado de incerteza
prévio, aí surge o direito de resistência ao opressor.
Com toda certeza, o conceito de ser humano do fracote John não era tão negativo como o de Hobbes e,
além do mais, a ideia que manipulava do estado de natureza era mais digna de crédito.
Como se pode ver, Locke é uma das mais destacadas expressões do liberalismo político e, no fundo, o
inspirador das declarações de direitos das últimas décadas do século XVIII.
Nesses anos finais do século XVIII o debate inglês de quase cem anos antes se reproduziu com fineza na
Alemanha, ao aprofundar-se a investigação acerca da razão e seus limites. Era natural que um século que fora
caracterizado como da razão se perguntasse finalmente quais eram sua natureza e seus limites. As tentativas
mais elaboradas de responder a isso foram levadas a cabo por Inmanuel Kant, com suas duas investigações ou
críticas, sobre a razão pura e a razão prática.
Dizem que Kant levava uma vida extremamente metódica, a ponto de as comadres de sua Monterrey (não
era mexicano, mas é isso que Königsberg significa, embora ninguém o traduza) sabiam que deviam deixar de
fazer fofoca começar a preparar a comida porque Herr Professor havia passado. O certo é que o pobre era uma
máquina de pensar e escrever. Estava mais próximo de Hobbes do que de Locke, embora meus colegas
penalistas o destaquem como o pai do liberalismo penal. Não obstante, admitia que, se a resistência se
transmutava em revolução e estabelecia outro governo, a discussão estava encerrada e era preciso apoiar o
novo.
Para conservar o contrato e não voltar ao estado de guerra de todos contra todos (estado de natureza),
Kant defendia a necessidade da pena talional, com a qual vinha, por uma via curiosa, coincidir com a medida da
pena dos utilitaristas.
Houve, nesse tempo, um jovem brilhante que, partindo da filosofia kantiana, afastou-se de seu autor e
com seus próprios fundamentos aproximou-se mais de Locke. Era Anselm von Feuerbach, o pai do muito mais
conhecido Ludwig Feuerbach. Não obstante, o velho foi muito fora de série. Aos 23 anos escreveu algumas
obras maravilhosas, superando a Kant no jurídico, porque, por sorte, teve que se dedicar à questão criminal
quando o pai lhe cortou as provisões porque tivera um filho fora do casamento. Devido a esse feliz acidente
biológico, tivemos um penalista genial, que defendeu o direito de resistência à opressão e a ideia de direitos
anteriores ao contrato, aprofundando a separação da moral e o direito iniciada por Thomasius e seguida por
Kant, segundo alguns com maior êxito do que este último.
Entre as coisas que Feuerbach fez em sua vida – que foram muitas e nem todas santas –, destaca-se seu
código para a Baviera, de 1813. Ele é importante para nós porque Carlos Tejedor, quando foi encarregado de
redigir o primeiro projeto de código penal argentino, tomou como modelo este código e não o de Napoleão,
que era o mais empregado. Desse modo, Feuerbach é o avô do pobre código que hoje foi completamente
demolido ao compasso dos tiros de canhão obedientes aos meios de comunicação de massa. Nos tempos de
Feuerbach não havia televisão, mas igualmente não pôde suprimir o delito da sodomia (como Napoleão o havia
feito). Ele degradou-o a contravenção menor e o justificou de modo muito curioso: disse que, se todos a
praticássemos, a humanidade acabaria. É claro que ele não acreditava nisso, mas também nessa época havia
meios de comunicação e agenda midiática.
É algo mais do que pitoresco recordar que nos últimos anos de vida, Feuerbach se interessou por um
adolescente, ao qual protegeu, que apareceu perambulando perdido, que crescera encerrado numa torre e cuja
origem nunca se conheceu. Ele foi batizado de Kaspar Hauser e sua história deu lugar a uma novela e a vários
filmes. Era inevitável que alguém que acreditasse em um estado de natureza anterior ao contrato se interessasse
por esse personagem. Chamou de crime contra a humanidade o que fora feito com ele e, embora nunca se
tenha provado que fosse o herdeiro da coroa, o certo é que pouco depois da morte de Feuerbach o pobre
Kaspar foi atravessado por uma espada numa esquina.
As más línguas dizem que o próprio Feuerbach morreu envenenado por causa de seu protegido, mas tudo
indica que isso não passa de uma lenda, sendo o mais provável que sua morte tenha sido causada por
hipertensão, pois era gordinho, parece que não se privava de nada e, além do mais, tinha um caráter bastante
corrompido.

10. Contratualismo socialista?


Se é verdade que a linha que deriva de Hobbes foi mais funcional para a atitude política do despotismo
ilustrado e a de Locke para a do liberalismo político das nascentes classes industriais urbanas, as coisas não
terminaram ali. O contratualismo servia para tudo, de modo que não faltou uma versão socialista.
Todos nós conhecemos o revolucionário francês Jean-Paul Marat, que editava o periódico O amigo do povo,
figura difamada por todas as correntes da historiografía fascista desse país, que preferem santificar Charlotte
Corday, que foi a mulher que o apunhalou ao surpreendê-lo na banheira; pode-se dizer que morreu por não
preferir o chuveiro. Muitos anos depois, Lombroso estudou o crânio de Corday e disse que tinha a fossa
occipital média, ou seja, que era uma criminosa nata. Porém, deixando de lado banheiras e crânios, o certo é
que Marat escreveu também um Plano de legislação criminal antes da Revolução, quando estava precisando de
dinheiro em seu exílio suíço.
Com essa obra, apresentou-se a um concurso cujo prêmio, diz-se, era financiado por Frederico da Prússia
(der Grosse, como o chamavam, embora não porque fosse gordo). Marat era médico e veterinário, fazia
experimentos com a eletricidade e muitas outras coisas, mas não era jurista. Seu plano parte do pressuposto de
que o talião é a pena mais justa, mas afirma que foi estabelecida no contrato social quando o poder foi
repartido equitativamente entre todos, mas que logo uns foram se apropriando das partes de outros e, no final,
uns poucos ficaram com as da maioria.
Nessas condições, o talião deixava de ser uma pena justa para Marat, pois só o era em uma sociedade justa,
que havia desaparecido. Por conseguinte, da mesma forma que Spee um século e meio antes, afirmava que o
juiz que impunha uma pena de morte nesta sociedade era um assassino. É óbvio que não deram o prêmio a
Marat, mas sim a dois desconhecidos alemães, a quem a história esqueceu (ou, melhor, nunca registrou), mas
que ficaram com o dinheiro e a Marat só lhe restou a fama posterior do seu Plano, reeditado várias vezes em
francês e em espanhol em 1890 (com tradutor anônimo) e em Buenos Aires há uns dez anos. Marat não pôde
cobrar os direitos de autor dessas reedições, posto que havia morrido na banheira muitos anos antes. Nem
sempre, com certeza, a fama coincide com o sucesso econômico.
Por volta de 1890, houve um juiz francês, de convicções republicanas, em uma pequena comarca
(Chateau-Terry), que sem citar Marat aplicava sua lógica, para grande escândalo de seus colegas provenientes do
império de Napoleão III (Napoleão, o pequeno ou o doente de gota), que, carregados de barretes e togas liam
apenas o código e ignoravam a Constituição. Era o bom juiz Magnaud ou Presidente Magnaud, cujas sentenças
ficaram famosas em toda Europa e mereceram comentários, entre outros, de Tolstoi.
Quando nosso Código Penal de 1921 foi discutido no Senado, havia um senador socialista, Del Valle
Iberlucea, que interveio na discussão e conseguiu que na fórmula sintética (hoje desbaratada pelas emendas
Blumberg e outros disparates) se incluísse como critério a maior ou menor dificuldade para ganhar o sustento
próprio necessário ou o dos seus. Na nota correspondente do Senado, o juiz Magnaud é expressamente citado.
Antes as leis penais eram feitas com mais cuidado e mais neurônios e até os conservadores aceitavam conceitos
socialistas.
Voltando ao contratualismo e a Marat, o certo é que este era muito funcional à classe dos industriais em
ascensão, mas suas possibilidades eram excessivamente amplas. Por debaixo dessa classe estava a mão de obra
industrial que se ia concentrando nas cidades, onde ainda não havia capacidade para incorporá-las ao sistema de
produção, tanto em razão de sua falta de treinamento como pela insuficiência da acumulação de capital
produtivo. Isso fazia com que em um espaço geográfico reduzido se acumulassem a riqueza incipiente e a
maior miséria, com os conflitos que se pode imaginar.
O contratualismo tornava-se um pouco disfuncional à categoria que o havia impulsionado como discurso
hegemônico e a própria possibilidade de que fosse usado para legitimar programas socialistas mostrava seus
riscos. O disciplinamento dos utilitaristas não parecia suficiente e o contratualismo mostrava seus assomos
arriscados.
Vamos nos aproximando de uma mudança mais profunda do discurso criminológico, no qual o
contratualismo – depois de um máximo esforço de legitimação hegemônica da classe industrial, ou de
deslegitimação da participação do subproletariado urbano – terá de dar lugar a uma brusca queda do conteúdo
pensante da criminologia e do direito penal, que coincidirá, justamente, com a consagração da primeira como
saber academicamente autônomo. Mas isso já é outra história, muito menos luminosa e mais trágica.

Ilustração 9

11. Nem todos são “gente como a gente”


O contratualismo era um marco (hoje se chamaria um “paradigma”) no qual tinham lugar todas as possíveis
variáveis políticas, desde o despotismo ilustrado até o socialismo, ou seja, desde o meticuloso Kant, com sua
pontualidade, até o revoltado Marat acalmando suas urticárias na banheira.
Por conseguinte, também podia converter-se em algo perigoso para a própria classe que o impulsionava,
que defendia a igualdade, mas que começava, também, a distinguir entre os mais e os menos iguais, à medida
que não apenas ia considerando a si mesma como a melhor e mais brilhante da Europa, senão de todo o
planeta.
Os pensadores da questão criminal não podiam ser insensíveis aos temores do setor social ao qual deviam
sua posição discursiva dominante e, em consequência, começaram a adequar seu discurso à exigência de não
correr o risco de deslegitimar o poder punitivo necessário para manter os indisciplinados subordinados, no
interior, e fora, os colonizados e neocolonizados.
Nessa tarefa acadêmica podem ser delimitados dois momentos: 1) o hegelianismo penal e criminológico; e
2) o positivismo racista.
O primeiro foi um esforço máximo, altamente sofisticado, do pensamento idealista, enquanto o segundo
rompeu com tudo e se desprendeu de toda racionalidade.
Qualquer filósofo diria que aproximar o hegelianismo do positivismo racista é uma aberração, e não
duvido de que desde sua perspectiva estará certo, porque aproxima um discurso finíssimo, que soa como uma
sinfonia, de outro, que evoca antes a gritaria de uma serenata de bêbados destemperados na madrugada.
Não tenho dúvida alguma a esse respeito, mas não se trata de uma analogia quanto ao nível de elaboração
pensante dos discursos, que não admite comparação, mas sim no que torna similar a utilização política de
ambos os pensamentos por parte dos penalistas e criminólogos.
Esclareço que nem sequer tenho a pretensão de compreender Hegel. Além do mais, estou seguro de não
ser o único que não o entende completamente, a julgar pelos quilômetros de estantes de livros escritos acerca
de seu pensamento. Todos nós sabemos que ele é um filósofo bastante difícil, que terminou de escrever um de
seus livros mais complicados (Fenomenologia do Espírito) enquanto bombardeavam a cidade, porque seu editor
o pressionava. Como, diferentemente de Beethoven, não era surdo, é possível que sua prosa tenha sofrido
alguns sobressaltos. O que eu efetivamente entendo são algumas coisas que Hegel escreveu com clareza e, em
especial, o que os juristas e criminólogos lhe atribuíram. A esse respeito, tampouco afirmo que estes tenham
interpretado bem seu mentor, o que aqui pouco interessa, dado que nos interessa sobretudo a forma como o
projetaram sobre (ou o lançaram contra) a questão criminal.
Os ideólogos da questão criminal que o invocaram partiam da afirmação hegeliana de que o “espírito”
avança dialeticamente. Embora seja óbvio, cabe esclarecer que o “espírito” (“ Geist”), não era nenhum fantasma,
e sim o espírito da humanidade como potência intelectual. Em quase todas as histórias da filosofia Hegel é
qualificado como um “racionalista”, mas devemos advertir que, para ele, a razão era algo dinâmico, uma espécie
de motor, e não um simples modo ou via de conhecimento.
O avanço se dava na história dialeticamente, ou seja, “triadicamente”, por tese, antítese e síntese. As duas
anteriores desapareciam e se conservavam nessa última, pois estavam “ aufgehoben”, particípio passado de um
verbo um tanto misterioso.
Havia, pois, um momento de “espírito subjetivo” (tese) em que o ser humano alcançava a autoconsciência
e, com ela, a liberdade, contraposto a outro, do “espírito objetivo” (antítese), em que duas liberdades se
relacionavam e, finalmente, ambos se sintetizavam no “espírito absoluto”.
A nós, bastam os dois primeiros, porque o direito pertencia, nesse esquema, ao momento “objetivo”,
posto que era nesse plano que os seres livres se relacionavam.
Deixando de lado o complicado que isso parece, o certo é que sua consequência prática é que não tem
autoconsciência quem não é livre e não pode passar ao momento objetivo, ou seja, sua conduta não é
“jurídica”. Mais ainda: os hegelianos afirmavam que a conduta “não livre” não era conduta para o direito. Por
conseguinte, os criminólogos e penalistas concluíam facilmente que os seres humanos se dividem em “não
livres” e “livres” e o direito era patrimônio destes últimos. Pois bem: quando um “não livre” lesava outro não
cometia um delito, mas sim operava sem nenhuma relevância jurídica, porque não realizava propriamente uma
conduta. Pelo contrário, apenas os “livres” podiam cometer delitos, pois eram eles que realizavam condutas.
O efeito prático era que os “livres” eram retribuídos com penas proporcionais à liberdade com que haviam
decidido o fato, ou seja, com limites; quanto aos “não livres” que causavam danos, eles só podiam ser
submetidos a “medidas” de segurança, que não eram penas e, portanto, não admitiam a medida máxima de sua
culpabilidade ou liberdade, mas sim unicamente a do perigo que implicavam para os livres.
Levando às últimas consequências, nossos colegas hegelianos pretendiam tratar os “não livres” de forma
mais ou menos análoga a um animal fugido do zoológico, que devia ser contido. Se bem que não o
expressassem desse modo, para nos entendermos é melhor dizer o que acho que eles pensavam.
Quem eram os “não livres” para os penalistas hegelianos? Antes de tudo os loucos, mas também os
delinquentes reincidentes, multirreincidentes, profissionais e habituais, porque com seu comportamento
demonstravam que não pertenciam à “comunidade jurídica”, ou seja, não compartilhavam dos valores dos
setores hegemônicos. Os “não livres”, definitivamente, eram os que não podiam ser considerados “gente como
a gente”, mas somente como tipos perigosos.
É evidente que tampouco os selvagens colonizados eram livres. Hegel era absolutamente etnocêntrico, o
que fica demonstrado pelo que escreveu em suas Lições sobre filosofia da história universal.
Por um momento, peço perdão e rompo meu costume de não transcrever nem aborrecer com citações.
Tomo o livro (tradução de José Gaos, edição de 1980) e leio que nós seríamos o produto de índios inferiores
em tudo e sem história (página 169), de negros em estado de natureza e sem moral (177), de árabes, mestiços e
aculturados islâmicos fanáticos, decadentes e sensuais sem limites (596), de judeus cuja religião lhes impede de
alcançar a autêntica liberdade (354), de alguns asiáticos que apenas estão um pouco mais avançados que os
negros (215) e de latinos que nunca alcançaram o estágio do mundo germânico, esse “estágio do espírito que
se sabe livre, querendo o verdadeiro, eterno e universal em si e por si” (657).
Era natural que Hegel considerasse que os latino-americanos não tinham história e sim “futuro”, pois para
ele nossa história começava com a colonização, que nos havia colocado no mundo; o passado dos povos
colonizados não era nada, por ser alheio ao avanço do “espírito”.
Quando alguém é muito jovem costuma idealizar os grandes mestres mais do que o normal. Vem à minha
mente uma história que tem a ver com o que estamos falando. Certa manhã, na Praça das Três Culturas do
México, em Tlatelolco, alguns anos antes dos dramáticos assassinatos de 1968, escutei um afamado jurista
afirmar que ele era “europeu e europeizante”, e que não compreendia as culturas pré-hispânicas “porque não
entravam em Hegel”. Obviamente que minha admiração pelo renomado homem de leis diminuiu notavelmente,
visto que, embora minha ignorância juvenil fosse considerável – não porque agora seja muito menor –, me
ocorreu perguntar a mim mesmo se Hegel estaria equivocado ou se as culturas pré-hispânicas teriam mesmo
existido. Voltemos, porém, ao nosso ponto.
Por certo, Hegel não havia obtido boas notas em geografia, porque colocava as nascentes do Rio da Prata
na cordilheira dos Andes. Também afirmava que nossa independência obedecia a um erro dos ibéricos, que se
haviam misturado com os índios, ao contrário dos ingleses, muito mais astutos porque, na Índia evitaram
misturar-se e desse modo não produziram uma raça mestiça com amor à terra. Cabe deduzir que, para Hegel,
nossa independência era obra da incontinência sexual de espanhóis e portugueses. Gandhi o teria
desconcertado, pois como a Índia não tinha nenhuma raça mestiça com os ingleses, não deveria ter tido amor à
terra nem se tornado independente. Tampouco aqui sei quem estava equivocado, se Hegel ou Gandhi.
Prossigamos.
A ideia que Hegel tinha da América Latina provinha claramente de Buffon, que escreveu muitos tomos de
história natural enquanto cuidava dos jardins reais. Para este conde jardineiro éramos um continente em
formação, como provavam os vulcões e os sismos (supomos que agora diria que a Islândia está em formação).
Como corriam ao contrário (quer dizer, do norte para sul, ao invés de fazê-lo corretamente, de leste para oeste,
como na Europa), as montanhas interrompiam os ventos e tudo se umedecia, apodrecendo-se; por isso, havia
muitos animais pequenos e nenhum grande e tudo o que se trazia se debilitava, inclusive os humanos. Para
Buffon, na América toda a evolução estava retardada.
O etnocentrismo de Hegel legitimava o colonialismo e abria o caminho das “grandes narrativas” com
centro na Europa. Combinado com o que os criminólogos que o invocavam diziam para o controle dos
europeus clandestinos, resultava um esquema muito adequado para os interesses da classe que ia alcançando a
hegemonia: a pena com limites ficava reservada aos dessa classe ou a quem ela julgava conveniente; os
“diferentes” (loucos, ameaçadores e “incômodos”) que não eram livres, como não realizavam condutas
humanas, eram submetidos a penas sem limites, que eram rebatizadas como “medidas”. Quanto aos territórios
extraeuropeus povoados por selvagens, podiam ser ocupados porque eram perigosos para o “espírito” e,
ademais, colonizá-los era a maneira de introduzi-los na história, de levar-lhes o “espírito”.
É claro que o “espírito hegeliano” avançava na história como dominação colonial no planetário e, ao
mesmo tempo, como dominação de classe no plano interno. Mais que um espírito, parecia um monstro que
arrasava tudo em seu avanço massacrador e que, além disso, arremessava para as margens de seu caminho de
espoliação mundial os sobreviventes – índios, negros, árabes, judeus, latinos, asiáticos etc. –, ou seja, todas as
culturas que não atingiam a clareza de Hegel, que se sentava, satisfeito, na ponta da flecha da história, posição
por certo muito incômoda.
Tudo isso, porém, continuava sendo “idealismo”, ou seja, para Hegel o poder punitivo se explicava por
uma via dedutiva, que não admitia nenhuma verificação no plano da realidade. A exemplo do meticuloso Kant,
sua legitimação não se contaminava com nenhum dado do mundo real.
O velho Kant havia visto isso claramente, pois sabia, com sobras, que se fosse introduzida alguma
informação do mundo em que todos vivemos, as coisas seriam complicadas. Hegel alterou muitas coisas em
relação a Kant, entre as quais nada menos que seu conceito de “razão”, mas nisso seguiu o mesmo caminho, só
que por via da pura lógica: para Hegel, o delito era a negação do direito; a pena era a negação do delito; como
a negação da negação é a afirmação, a pena era a afirmação do direito. E ponto.
Tudo isso era muito elaborado, permanecia no plano do idealismo filosófico e, em meados do século XIX,
resultava excessivamente abstrato frente ao que estava sucedendo em um mundo que mudava com celeridade.

12. O salto do contrato à biologia


Na segunda metade do século XIX a classe em ascensão havia chegado ao poder. Os nobres empobrecidos
haviam casado seus descendentes com os dos industriais, comerciantes e banqueiros; estes se haviam refinado e
os netos se enfeitavam com os títulos dos avós nobres, enquanto os castelos e palácios eram restaurados e as
recepções suntuosas, com mulheres e homens encasacados, voltavam a acontecer.
Ao mesmo tempo, os indisciplinados tornavam-se mais incômodos. Os acontecimentos europeus de 1848 e
sobretudo de 1871 – a Comuna de Paris – eram alarmantes para a nova classe hegemônica. O que esta classe
começava a necessitar não era de construções idealistas, mas de algo muito mais concreto e de menor nível de
elaboração, e também mais de acordo com a cultura do momento.
Na ordem planetária, as relações do centro com a periferia exigiam a eliminação do sistema escravocrata,
porque a integração demandava maior nível tecnológico na periferia e, além do mais, a Grã-Bretanha, que
dispunha de mão de obra gratuita na Índia, se erigiu em campeã do antiescravismo e exercia a polícia dos
mares.
A “ciência” era a nova “ideologia” dominante. As maravilhas da técnica assombravam: a ferrovia, os navios a
vapor, o telégrafo, alguns avanços médicos, as vacinas, o canal de Suez etc. O ser humano se tornava todo-
poderoso, podia controlar por completo a natureza e chegar a vencer a própria morte. Darwin havia provocado
alguma decepção, mas também havia demonstrado que o ser humano podia continuar evoluindo e que,
quando as leis da evolução fossem dominadas, o progresso não teria fim. A intenção era que, com a biologia, se
constatasse que os mais poderosos eram os mais “bonitos” e que os colonizados eram inferiores, “feios”, todos
iguais e parecidos aos macacos: era óbvia sua evolução inferior.
A classe outrora em ascensão havia passado a deter, na Europa, a posição dominante e a considerava
“natural”, de modo que o artifício do contrato não só lhe resultava inútil, como também perigoso. Sua
hegemonia “natural” só fora negada antes pelos obscurantistas e metafísicos. Tanto os discursos legitimadores
do poder nobiliário quanto o famoso contrato passaram a ser superstições, pois necessitavam de um novo
discurso que lhes permitisse exercer o poder punitivo sem travas para manter sob controle os “de baixo”, que
não podiam ser incorporados ao sistema produtivo por escassez relativa de capital e que, ademais, tinham a
ousadia de exigir direitos.
Como era de supor, o novo paradigma que convinha a essas classes era o do organismo, ainda que não o
antiquado – baseado na “mão de Deus”– mas um novo, fundado na “natureza” e revelado pela “ciência”. Porém,
por mais “científica” que fosse a roupagem, como não é demonstrável que a sociedade seja um organismo, o
novo organicismo não passava de um dogma arrebatado ao idealismo.
O instrumento com que os incômodos nas cidades eram controlados era a polícia, instituição relativamente
nova no continente europeu, ainda que não tão nova fora, porque era a mesma força de ocupação territorial
usada para colonizar.
Isso soa estranho, porque não se leva em conta que, com toda certeza, nunca houve guerras coloniais
verdadeiras, e sim operações de ocupação policial de território. Nem sequer no colonialismo do século XV
houve tais guerras: nem na ocupação de Tenochtitlán nem na do Incanato houve guerra; tanto Cortês como
Pizarro limitaram-se a algumas escaramuças policiais de ocupação. Também não houve guerra com o
neocolonialismo do século XIX, pois a enorme superioridade técnica dos colonizadores impedia de se falar
propriamente de guerras. Havia, no máximo, resistência da população que recorria a ataques isolados e quase
individuais, mas a ocupação do norte da África tanto pelos ingleses como pelos franceses não consistiu, no
geral, em guerras, nem sequer quando enfrentaram hordas precariamente armadas. O aparecimento das armas
de repetição não deixou nenhuma dúvida a respeito.
Quando foi preciso conter os explorados que reclamavam direitos nas cidades europeias, transferiu-se a
experiência política de técnica policial de ocupação territorial para as metrópoles. Na Grã-Bretanha resistiram
bastante, pois sabiam bem o que significava e o que consideravam bom para os africanos não queriam para os
ingleses, mas ao final tiveram que admiti-lo e criar a Scotland Yard, em 1829.
Os poderes das polícias europeias aumentavam em paralelo com as reclamações dos explorados urbanos,
mas careciam de um discurso legitimador. Em 1838, o Colégio de França, que reunia todas as academias, lançou
um concurso sobre “as classes perigosas nas grandes cidades”, ganho por Fregier, um comissário, com um livro
volumoso, mas incoerente, que só continha lições de moral e algumas experiências pessoais, mas que, de modo
algum, servia para legitimar o crescente poder policial. O pobre Fregier limitou-se a escrever o que os
acadêmicos queriam escutar.
Desde os tempos de Wier os médicos estavam ansiosos por manipular a hegemonia do discurso da questão
criminal, em particular os psiquiatras, mas careciam de prestígio social, pois trabalhavam em lugares infectos e
em contato com seres indesejáveis e sujos.
A mudança da publicidade do julgamento, assinalada por Foucault, determinou que os médicos
despertassem interesse, pois começaram a ser chamados para os grandes processos públicos como peritos, o
que os projetou para a fama midiática, e a “gente de bem” deixou de virar a cara ao vê-los passar. Aos poucos,
foram se apropriando do discurso e explicando todos os crimes investigados. Por certo tinham discurso de
sobra, embora com a justificada desconfiança dos juízes, que disputavam com eles as cabeças dos guilhotinados.
Como a polícia tinha poder sem discurso e os médicos o discurso sem poder, era inevitável uma aliança,
que é o que se conhece como “positivismo criminológico”, ou seja, o poder policial urbano legitimado pelo
discurso médico.
Porém, o discurso médico não se esgotava nos indivíduos ameaçadores e incômodos, e sim era um mero
capítulo dentro do grande paradigma que começava a se instalar: o do reducionismo biologista racista.
Se os criminosos eram controlados por uma força de ocupação trazida das colônias, não podia demorar
muito a afirmação de que eram parecidos e sua criminalidade se explicava pelas mesmas razões que legitimavam
o neocolonialismo. Tanto uns quantos outros eram “seres inferiores” e a razão pela qual se justificava o
neocolonialismo era a mesma que legitimava o poder punitivo.
A categorização racista dos seres humanos tem uma longuíssima história, mas a da segunda parte do século
XIX é muito interessante e apresenta aspectos incríveis.
Houve duas principais versões do racismo, que podemos denominar de “pessimista” e “otimista”. A
pessimista é a que afirma que houve uma raça superior, que, depois, se foi degradando por misturar-se com
uma espécie de símios que encontraram no caminho, que provocaram uma decadência da espécie. Esse é o
conto da raça “ariana” superior, que entrou na Índia pelo norte, que falava uma língua única, nunca conhecida,
da qual derivam as línguas europeias e que alimenta todos os mitos nacionais “arianos” (os francos na França, os
germânicos na Alemanha, os saxões na Inglaterra, os godos na Espanha etc.), salvo na Itália, que sempre
preferiu o mito romano imperial.
Na verdade, a única coisa certa é que as línguas europeias costumam provir da Índia, na qual entraram uns
louros pelo norte e que se combinaram com o elemento druida moreno do sul. Todo o resto é produto de
uma obra escrita por um diplomata francês de duvidosa nobreza, o conde Arthur de Gobineau. Ele foi um
escritor pouco talentoso que, não obstante, escreveu uma extensa novela sobre as raças que teve êxito singular.
Castigado por algumas irregularidades, foi embaixador no Brasil, onde verificou, horrorizado, que toda sua
população era mestiça africana e vaticinou que isso determinaria sua esterilidade por hibridação. Parece que
não acertou a esse respeito.
Gobineau terminou seus dias escondido com a mulher de um colega, porém sua novela foi continuada por
um inglês, Houston Chamberlain, tão germanófilo que adotou a cidadania alemã e se casou com a filha de
Wagner. A novela escrita por este personagem foi o livro de cabeceira do kaiser Guilherme II. Por desgraça,
tampouco ali terminou a saga desta novelística, pois o nazista Alfred Rosenberg a continuou com O mito do
século XX, do qual há uma única tradução espanhola, publicada por uma editora nazista na Argentina, nos
tempos da última ditadura. Rosenberg foi enforcado em Nurenberg, mas não por ter escrito esse livro, e sim
por ter sido o ministro responsável por organizar os massacres de milhões de “seres inferiores” na Europa
oriental.
No entanto, esse racismo pessimista não servia para o novo momento de poder mundial, que necessitava
deslegitimar a escravidão, mas justificar o neocolonialismo, divulgar o liberalismo econômico, mas controlar
policialmente os excluídos no centro. O discurso que legitimasse semelhante imbroglio não podia ter um grau
muito alto de elaboração e por isso esteve a cargo de alguém também bastante raso, que foi Herbert Spencer,
que não era médico, nem biólogo, nem filósofo e nem jurista, e sim engenheiro ferroviário e que, ademais,
dizia não ler outros autores porque o confundiam. Desse modo, ele foi capaz de conceber os disparates mais
incríveis de toda a história do pensamento, afirmando que levava Darwin do biológico ao social.
O pobre Darwin carrega até hoje o peso do chamado “darwinismo social”, quando na realidade foi o bom
Sr. Herbert que o concebeu. Partindo de que na geologia e na biologia tudo avança com propulsão a
catástrofes, afirma que o mesmo acontece na sociedade, e que os seres humanos que sobrevivem são os mais
fortes e desse modo tudo vai evoluindo, inclusive o ser humano na história. Esse catastrofismo deprime os mais
débeis, mas para Spencer isso é um detalhe inevitável e sem maior importância.
Por isso, ele defendia a posição de que não se devia ajudar os pobres, para não privá-los de seu direito a
evoluir, que a filantropia era um erro, da mesma forma que o ensino obrigatório ou gratuito porque, se não
custava nada, as pessoas não o valorizariam e terminariam lendo livros socialistas. Desse modo justificava a
renúncia a qualquer plano social por parte dos governos europeus. O controle dos insubordinados por meio da
polícia parecia ser a principal função do Estado para nosso amigo ferroviário.
É isso mesmo que hoje afirmam os “think tanks” da ultradireita estadunidense, que na verdade são mais
“tanks” que “think” (por educação, é excusado dar muitos detalhes sobre o real conteúdo dos “tanks”), ainda
que, como corresponde à sua desonestidade, eles omitem o nome do velho Herbert.
Quanto ao neocolonialismo, Spencer afirmava que os ocupados são seres humanos inferiores, mas,
diferentemente dos “pessimistas”, isso não se deve a que eles tenham decaído, mas sim a que ainda não
evoluíram. Por isso não têm moral, não conhecem a propriedade, andam seminus e são sexualmente muito
“frequentes”. Daí que, como “a função faz o órgão”, têm a cabeça menor e os genitais, maiores, porém, a
piedosa obra dos colonizadores os tornaria menos “frequentes” (possivelmente mostrando-lhes um retrato da
rainha Vitória) e, desse modo, sob tão terna proteção, chegariam, em alguns séculos, a ter cabeça maior (e se
supõe que genitais menores). Escareço que nada disso é lenda, e sim que está escrito nos livros do bom Sr.
Herbert, de cuja transcrição textual lhes poupo.
A conclusão prática era que os colonizados podiam ser dominados, mas não escravizados. Cabe precisar
que os europeus não foram muito sutis em relação a essa diferença e que, em 1885, se reuniram no Congresso
de Berlim, convocado por Bismarck, e repartiram a África como uma grande pizza. As consequências desse
congresso são sentidas até o presente, pois a arbitrária divisão política de África é, até hoje, fonte de sangrentas
guerras, alimentadas por negociatas armamentistas que mantêm a região subsaariana imersa em catástrofes.
Porém, com o neocolonialismo também se lançaram à empresa inclusive quem nunca o havia feito, com as
mais funestas consequências humanas. A memória dos italianos em Trípoli não é nada boa, mas foram os
alemães que levaram o prêmio com o aniquilamento maciço dos hereros na Namíbia, embora, sem dúvida, o
prêmio maior quem ganhou mesmo foi o empreendimento privado de Leopoldo II, que matou cerca de dois
milhões de congoleses, forçados a extrair borracha sob ameaças de morte e amputações, e reduziu a população
em oito milhões.
Esse crime foi denunciado em seu tempo em uma famosa novela de Joseph Conrad, Coração das trevas, e
também divulgado por Mark Twain nos Estados Unidos, o que obrigou Leopoldo II a entregar sua empresa ao
Estado belga, que não alterou em nada a atividade massacradora e exploradora de seu monarca.
O rei Balduíno, no discurso de independência do Congo em 1960, teve a desfaçatez de fazer o elogio da
obra belga, o que provocou a resposta de Patrice Lumumba, que, nos primeiros dias do ano seguinte seria
assassinado por um pelotão sob o comando de um oficial belga.[3]
É bom lembrar que Leopoldo II ergueu um luxuoso museu perto de Bruxelas com todos os troféus e
amostras de sua obra (além de muitas estátuas e retratos dele mesmo), rodeado de um formoso parque, e que
em uma de suas vitrinas se encontra uma carta enviada pelo administrador do Congo Belga ao presidente
Truman, felicitando-o pelo êxito de Hiroshima e Nagasaki, pois o urânio das bombas procedia das minas do
Congo.
Quanto à América Latina, é sabido que o curioso ferroviário inglês alimentou a ideologia assumida pelas
elites intelectuais de todas nossas repúblicas oligárquicas, desde o “porfirismo” mexicano até a “oligarquia
bovina” argentina e desde o “patriciado peruano” até a “República Velha” brasileira. Nossas minorias dominantes
se consideraram vanguardas iluminadas da civilização, que exerciam um paternalismo piedoso sobre as grandes
maiorias excluídas do poder, necessário até que os povos perdessem sua condição “bárbara” e estivessem em
condições de decidir seu destino, ou seja, supomos, até que a cabeça crescesse.
O spencerianismo foi o reducionismo biologista levado ao social que serviu de marco ideológico comum
ao neocolonialismo e ao saber médico que legitimou o poder policial com o nome de positivismo
criminológico, que bem poderia se chamar de “ apartheid criminológico”. Como os médicos vincularam a
inferioridade dos neocolonizados à dos agressivos e incômodos? Essa é a história do “apartheid criminológico”
em sentido estrito, com todas suas deploráveis consequências.
13. Começa o “apartheid criminológico”
Na realidade, os positivistas chamaram de “criminalidade” ao conjunto de presos, que era o único a que
tinham acesso, porque os muitos mais que cometiam delitos e ficavam impunes lhes eram desconhecidos, ou
seja, que seu “laboratório”, por assim dizer, se limitava ao estudo daqueles que se encontravam enjaulados.
Como se sabe, em todos os tempos, os mais lerdos e com menos poder são colocados na jaula.
Para vincular “a criminalidade” (os presos) aos “selvagens colonizados”, os positivistas elaboraram um
discurso em cuja análise entramos, advertindo que estamos abrindo as portas de uma história macabra, que
terminou muito mal em todos os sentidos. Se bem que os disparates que foram ditos em seu curso causem
risos, suas funestas e letais consequências não têm nada de engraçado.
Essa história se suaviza na manualística criminológica, relatando-a como um simples momento do passado
“teórico”, centrado em um médico de Turim, Cesare Lombroso, a quem se descreve como um “exagerado” e
nada mais. Se fosse apenas isso, não passaria de um relato quase curioso.
Para dizer a verdade, o pobre Lombroso era um investigador sério, que, na verdade, teve muito pouco a
ver com a origem e as consequências desse capítulo trágico. De família judia e filho de um rabino, Lombroso
nunca imaginou as consequências da corrente em que se movia, mas na realidade não inventou o reducionismo
biologista e se limitou a enquadrar suas observações no marco spenceriano, ou seja, no paradigma de seu
tempo.
O chamado “positivismo criminológico” (que, como já dissemos, não é mais do que o resultado da aliança
do discurso biologista médico com o poder policial urbano europeu) foi sendo armado em todo o hemisfério
norte e estendeu-se ao sul do planeta, como parte de uma ideologia racista generalizada na segunda metade do
século XIX e que terminou, catastroficamente, na II Guerra Mundial. Não tem um autor: tem muitos e de todas
as nacionalidades e, por certo, os criminólogos positivistas não foram mais do que uma das múltiplas
manifestações de todos os pensamentos enquadrados nesse paradigma.
Dito de forma mais crua e extremamente sintética, podemos afirmar que começou décadas antes de
Lombroso, com os médicos que lançaram as primeiras teorias que pretendiam expor uma etiologia orgânica do
delito – e, ao mesmo tempo, a inferioridade dos colonizados – e terminou nos campos de extermínio nazistas.
Bénedict Augustin Morel expôs, em 1857, sua “teoria da degeneração”, segundo a qual, em razão da
mescla de raças humanas combinar fios genéticos muito distantes, tinha por resultado seres inteligentes, mas
moralmente degenerados, desequilibrados, incômodos.
Hegel tinha alguma razão, pois esses “degenerados” eram nossos gaúchos, mestiços e mulatos. Sem eles
não teria havido exércitos libertadores em nossa América, os colonizadores podiam ter aniquilado todos nossos
povos nativos e a América poderia ter sido totalmente repovoada pela “raça superior” colonizadora. Talvez esse
genocídio completo tenha sido o sonho irrealizado de muitos racistas da época (e de alguns atuais que não se
animam a dizê-lo). Os mestiços sempre foram mais incômodos para o poder do que os índios ou africanos
puros, pois eram muito mais difíceis de domesticar.
A “degeneração” de Morel foi um mito que continuou vigente inclusive na escola psiquiátrica francesa da
Argélia até a guerra de libertação. Antes de Morel, o inglês James Pritchard havia exposto sua teoria da “locura
moral”, na linha que destacava a inferioridade dos criminosos e dos colonizados, afirmando que Adão havia sido
negro e que seus descendentes foram se embranquecendo. Supomos que o pecado original deveria ser
imputado a uma raça inferior.
Contemporâneo de Hegel, o alemão Franz Joseph Gall considerava que seu crânio era o “normal” e todos
os outros, anormais. Por conseguinte, acreditava diagnosticar a criminalidade e a genialidade apalpando a
cabeça, com sua famosa “frenologia”. Perseguiram-no por “ímpío”, apesar de só apalpar a cabeça das pessoas.
Outros contemporâneos de Lombroso rechaçaram suas teorias, porém sem deixar de afirmar
despropósitos, como o francês Feré, que em 1888 afirmava ser a sociedade biologicamente justa, pois
provocava uma “sedimentação social dos degenerados”, os quais caíam “naturalmente” até as classes mais
subalternas, e que a falta de proteção aos não degenerados representava uma omissão de defesa social, isto é,
que a defesa social devia ser contra os pobres.
O maior crítico da teoria lombrosiana nos congressos de antropologia criminal de seu tempo foi o francês
Alexandre Lacassagne, que atribuía o delito a modificações cerebrais do occipital, do parietal ou do frontal: as
do occipital eram as responsáveis pelos crimes primitivos das classes baixas, as do parietal, dos ocasionais e
impulsivos das classes médias, e as do frontal, dos delinquentes alienados das classes altas. Parece que os pobres
costumavam cair de costas e golpear a parte traseira da cabeça. Como se pode ver, a chamada “escola francesa”
tampouco economizava disparates. A estes era acrescentado o trabalho de um médico colonialista – o Dr. Corre
–, que exemplificava as consequências da independência dos “selvagens” com o caso do Haiti.
Como o racismo era um paradigma, pouco importava a ideologia política dos protagonistas, porque todos
se moviam dentro desse marco. José Ingenieros – que era socialista e é considerado o fundador da criminologia
argentina – não compartilhava a teoria lombrosiana, mas professava uma firme convicção racista, que colocou
em evidência em um horripilante artigo publicado em 1906, com o título “As raças inferiores”, no qual fala de
“farrapos de carne humana”, justifica a escravidão etc. Realmente, parece escrito em pleno surto psicótico de
racismo agudo.
Raimundo Nina Rodrigues, fundador da criminologia brasileira, era tributário da escola francesa e, na linha
de Morel, combatia a mestiçagem (“a miscigenação”) com base na tese da degeneração, considerava os mulatos
semi-imputáveis e dedicava seu livro ao mencionado Dr. Corre e a Lacassagne.
Nina Rodrigues foi caricaturizado por Jorge Amado, com a licença literária que o fez viver algumas décadas
mais, no personagem de Nilo Argolo de Araújo de sua famosa novela Tenda dos milagres, também levada ao
cinema.
Lombroso só se limitou a formular observações mais meticulosas e a articulá-las ao marco do mesmo
paradigma dominante. Se bem que a síntese que formulou tenha garantido sua celebridade mundial, dando-lhe
maior difusão e êxito acadêmico (com as consequentes invejas), o certo é que sua teoria do “criminoso nato”
não inventou nem esgotou o reducionismo nem o positivismo racista. Inclusive a própria expressão “criminoso
nato” lhe foi sugerida por seu seguidor Enrico Ferri, que a plagiou de Cubí y Soler, que havia sido um discípulo
espanhol de Gall, obviamente sem citá-lo.

14. A síntese lombrosiana: um bicho diferente


A tendência a deduzir caracteres psicológicos a partir de dados físicos ou orgânicos remonta a um velho
tratado de “fisiognomia” atribuído falsamente a Aristóteles e ganhou força no Renascimento.
A origem desse suposto saber encontra-se em um preconceito bastante absurdo, que começa com a
classificação e a hierarquização dos animais. O ser humano atribuiu aos animais virtudes e defeitos humanos e,
de acordo com estes, classificou-os e hierarquizou-os: o cachorro fiel, o gato diabólico, o burro imbecil, o
veado asqueroso etc. Realmente, os animais são como são e nunca se inteiraram dessas valorações; ao que
parece, eles se limitam a ter um conceito um tanto pobre dos humanos, mas isso é um outro problema.
Foi assim que os humanos coroaram “rei” ao urso, que aparece em numerosos brasões (inclusive no de
Madri), até que foi destronado por obra dos eclesiásticos que descobriram (quem sabe como) que ele tinha
uma conduta sexual indevida – não sei em que isso consiste, mas, por prudência, nunca perguntei a nenhum
urso (parece que eles não gostam que se intrometam em sua vida particular, em especial depois de visitar o
Canadá, onde, por toda parte há cartazes “Take care with the bears”). O certo é que o leão o substituiu,
portador, presumo, de costumes sexuais saudáveis, mas a quem, tampouco, me atrevi a indagar.
Uma vez estabelecidas essas classificações humanas dos animais, houve quem pensasse que, devido à
semelhança de alguns humanos com certos animais, eles podiam ser caracterizados psicologicamente. O jogo
não podia ser mais infantil: primeiro classificaram os animais com traços humanos e em seguida atribuíram aos
humanos os traços que antes haviam colocado nos animais. Isso mesmo se faz na esquina, onde os rapazes, sem
pretender fundar nenhuma ciência, classificam os que têm pinta de cavalo, de burro, de raposa etc.
Não obstante a simplicidade, Gian Battista Della Porta, no século XVII, e Johann Caspar Lavater, no século
XVIII, escreveram formosos tratados repletos de bonitas ilustrações, com as quais sustentaram esta nova
“ciência” da “fisiognomia”, provocando um longo debate do qual participou ninguém mais do que Goethe.
No século seguinte, em 1876, Lombroso deu a luz à primeira edição de L’uomo delinquente, na qual
afirmava que se podia reconhecer o “criminoso nato” como uma espécie particular do gênero humano (“specie
generis humani”) pelos caracteres físicos. A criminologia – que, nessa época, se chamava “antropologia criminal”
– ocupava-se, por conseguinte, de um objeto biológico diferenciado, o que levou um extremista a sustentar
que era um ramo da zoologia.
Como explicar o “criminoso nato”? Por sua semelhança com o selvagem colonizado, aduzindo que as raças
selvagens eram menos evoluídas do que a raça branca europeia. Em seu tempo, afirmava-se que no seio
materno se sintetiza toda a evolução, desde o ente unicelular até o ser humano completo (dizia-se que “a
ontogenia resume a filogenia”). O “criminoso nato” era produto acidental de uma interrupção deste processo,
que fazia com que, em meio da raça superior europeia, nascesse um sujeito diferente e semelhante ao
colonizado. Era, pois, um branco que nascia mal acabado, sem o último golpe de forno e, portanto, era um
colonizado. Os caracteres “atávicos” que o assemelhavam ao colonizado lhe atribuíam traços “africanoides” ou
“mongoloides” (parecidos aos africanos ou aos índios). Da mesma maneira que os selvagens, não tinham moral,
pudor e, ademais, eram hipossensíveis à dor (para que a sentissem era necessário bater neles com mais força), o
que era verificável porque se tatuavam. Imagino o terror de Lombroso em uma praia nos dias de hoje, rodeado
de criminosos natos.
É bastante claro que Lombroso estava imbuído de claros elementos estetizantes. Em seu tempo, os
colonizados eram feios e maus, porque havíamos feito algumas diabruras, como fuzilar Maximiliano no México,
parar a frota no rio Paraná, expulsar os franceses do Haiti etc. Nossos tipos humanos contrastavam com a
branca beleza europeia, protegida do sol por sombrinhas e usando corpete.
A fealdade e a maldade sempre vão associadas; nos raros casos em que o belo é mau, trata-se, no geral, de
uma beleza diabólica, do tipo de Dorian Gray. Hoje sabemos que a polícia seleciona por estereótipos e que
estes se configuram através da comunicação com base em preconceitos, nos quais os valores estéticos
desempenham um papel fundamental, seguindo a regra de associar o feio ao mau. Reproduz-se, em definitivo,
o mecanismo da “fisiognomia”: define-se o “feio”, associa-se ao “mau” e acaba se selecionando o “mau”
mediante o “feio”.
A ingenuidade dos positivistas levou-os a espantar-se com a “intuição” dos artistas ao descrever ou pintar o
crime, quando, na realidade, eles haviam definido os estereótipos de acordo com os quais se selecionavam os
criminalizados por “feios”, ou seja, por se assemelharem aos colonizados. São numerosos os tediosos livros
positivistas sobre “criminosos na arte”.
Em edições posteriores, a obra de Lombroso foi acompanhada por um volume ou “Atlas”, com fotografias
e desenhos de delinquentes, todos presos ou mortos, é claro. Basta olhar para essa enorme coleção de caras
feias para convencer-se de que esses sujeitos não podiam andar por muito tempo soltos por uma cidade
europeia sem que a polícia os prendesse, pois pareciam todos saídos dos desenhos de “malvados” dos folhetins
de costumes.
O erro de Lombroso consistiu em acreditar que essa feiura era a causa do delito, quando, na realidade, era
a causa da prisionização, pois se eles fossem bonitos não estariam no “Atlas”, como Jack, o Estripador, em
relação ao qual cabe presumir que, como era bonito, não casava com o estereótipo e nunca conseguiram
colocá-lo na prisão.
Com toda certeza, Lombroso, que era um observador meticuloso, nos legou a melhor descrição dos
estereótipos criminosos de seu tempo.
Entretanto, ele não se ocupou apenas dos criminosos – ou seja, dos mal acabados –, mas também dos que
iam mais além do esperado, isto é, dos “gênios”, a tal ponto que se empenhou em conhecer alguns, como
Tolstoi. Tanto ele como Max Nordeau escreveram livros sobre o “homem de gênio”; Nordeau advertia, em dois
grossos volumes, acerca do perigo do “gênio louco ou degenerado”, em cuja categoria incluía Oscar Wilde,
batendo em cavalo morto.
Lombroso ocupou-se também dos dissidentes e escreveu sobre os delinquentes políticos e sobre os
anarquistas.
A verdade é que a criminologia lombrosiana parecia um grande elogio à mediocridade: não havia que se
parecer com os colonizados, mas tampouco se sobressair muito em inteligência e criatividade nem discordar
demasiadamente. Para completar o quadro, tampouco deixou a mulher em paz. A exemplo dos inquisidores,
considerava-a menos inteligente do que o homem, apesar de afirmar que isso era compensado pela sua maior
sensibilidade. Atribuía sua menor representação no delito à existência de um “equivalente” do delito na mulher,
que era a prostituição. Tudo isso foi desenvolvido em um livro escrito junto com seu genro – o historiador de
Roma, Guglielmo Ferrero –, intitulado A mulher delinquente, prostituta e normal.

15. O rastro do positivismo biologista


Quanto a nós, latino-americanos, podemos assim deduzir as consequências da criminologia positivista
sintetizada por Lombroso: se a prisão estava destinada aos brancos “atávicos” nos países colonialistas, porque
eles se pareciam com os selvagens, cabe pensar que os territórios colonizados eram grandes prisões, ou seja,
imensos campos de concentração.
Esse pensamento tem sua lógica: o “Arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”) escrito sobre o portão de
Auschwitz é uma consigna que poderia provir de todo o colonialismo na forma de “trabalhem, que assim
aprendem e chegarão a ser livres como nós” (supomos que com a cabeça maior, obviamente com prejuízo de
outros atributos). Por outro lado, o positivismo criminológico, com seu enfeite de ciência, chocava-se
frontalmente com o neotomismo fossilizado dos discursos confessionais e assim obtinha patente de pensamento
progressista, mas suas consequências práticas eram mínimas. Um historiador uruguaio, José Pedro Barrán, afirma
que não havia problema no casamento entre uma menina católica, que comungava diariamente, e um médico
agnóstico ou ateu, porque o que para ela era pecado, para ele era anti-higiênico. Por isso, adequava-se
perfeitamente aos interesses de nossas oligarquias regionais, que não podiam deixar de lhe dispensar uma
calorosa acolhida. Na Argentina, foi Luis María Drago quem divulgou precocemente as teses lombrosianas em
uma conferência intitulada “Os homens de presa”, logo publicada em versão italiana com prólogo do próprio
Lombroso.
O positivismo foi tão impactante na Argentina que não só foi acolhido pelas cátedras de todo o país,
incluindo a de Córdoba, como também Lombroso foi convidado a nos visitar. Por motivo de saúde, não veio
porém no centenário da independência do país, veio Enrico Ferri, que era seu discípulo jurista. Por essa época,
Ferri era um proeminente socialista italiano e seus correligionários argentinos foram recebê-lo com entusiasmo.
Mal desembarcou, Ferri afirmou que não se justificava o socialismo em um país não industrializado, provocando
uma polêmica com Juan B. Justo, enquanto desfrutava da companhia do que havia de mais ilustre na nossa
oligarquia e pronunciava suas conferências com singular êxito.
Como penalista, Ferri afirmava que a pena devia ter a medida da periculosidade que, logicamente, na falta
de um “perigosímetro”, mediam na base do “olhômetro”. O juiz se convertia em um policial a mais. A
dogmática jurídica era uma “abstrusidade germânica” e as garantias processuais, um preconceito metafísico. O
determinismo monista de Ferri era radical: tudo estava mecanicamente determinado, não havia liberdade
alguma.
O delinquente era, para Ferri, um agente infeccioso do corpo social do qual era preciso ser separado, com
o que convertia os juízes em leucócitos sociais. O filósofo Martin Buber ridiculiza isso, imaginando um diálogo
em que o processado alega perante o juiz que não tem a culpa porque está predeterminado ao delito, ao que o
juiz lhe responde que ele está predeterminado a condená-lo.
Embora o próprio Ferri tenha pretendido compatibilizar isso com Marx, nunca o conseguiu e, talvez
cansado de tentá-lo, mais para o final de sua vida terminou aceitando uma senadoria de Mussolini.
A prédica positivista em nosso país fez escola e José María Ramos Mejía patologizou boa parte de nossos
próceres em seu famoso livro A neurose dos homens célebres, em que incluía o dr. Francia, [4] o que levou
Lombroso, que não reparava muito nesses detalhes, a considerar argentino o famoso paraguaio. Cabe destacar
que Lombroso incorreu em outros erros a nosso respeito, como afirmar que os incêndios da Boca ameaçavam
estender-se a Montevidéu, ou recolher, das memórias de Garibaldi, que nossos hábitos carnívoros eram a causa
da frequência homicida. Também disse que em Mendoza a população tomava banho sem roupa no rio, o que
motivou a retificação de Drago em defesa do pudor das damas mendocinas.
A tese da degeneração teve ampla repercussão entre os argentinos. Carlos Octavio Bunge publicou, em
1903, Nossa América, um livro que foi muito útil por seu racismo, na linha de Morel. Muito mais tarde, em 1938,
Francisco De Veyga publicou um livro intitulado Degeneração e degenerados. Miséria,vício e delito, em que parecia
advertir que, se nada fosse feito para conter a degeneração, os degenerados iriam nos superar. A julgar pelo
tom do livro, acredito que sete anos depois sua teoria teria sido considerada verificada na Plaza de Mayo, como
anos antes o haviam manifestado aqueles que se escandalizaram porque o povo desamarrou os cavalos do
coche do presidente Yrigoyen para levá-lo até a casa de governo. Um senador nacional publicou, nesses anos,
um opúsculo com o título de Chusmocracia [algo como a democracia do populacho]. Cabe esclarecer que, anos
antes, De Veyga estivera obcecado com a homossexualidade masculina e escreveu consideráveis disparates a
respeito.
Os criminólogos positivistas dedicaram-se a percorrer prostíbulos e outros antros da época e conceberam
o conceito de “má vida”. Escreveram-se livros sobre a “má vida” em Roma, em Madri, em Barcelona e, como
não podia faltar, também em Buenos Aires. Quem o publicou aqui, em 1908, foi Eusebio Gómez, destacado
professor de direito penal da UBA, com prólogo de José Ingenieros, foi muito útil por conta de sua
redundância biologicista. Ali desfilavam prostitutas, espertalhões, ladrões, religiosos, curandeiros, gays etc. A
respeito dos últimos, Gómez, afirmava que admirava a Idade Média.
Como resultado dessas andanças nada santas, os positivistas propunham leis de “estado perigoso
predelitual”, ou seja, que caso se soubesse que quem andava na “má vida” teria de desembocar no delito, o
mais natural era detectá-lo antes e metê-lo na cadeia. Para que esperar que cometessem algo? Para obviar
algumas formalidades, lhe mudavam o nome da pena e a chamavam de “medida”, de modo que ninguém
poderia objetar que lhe fossem impostas penas sem delito. Famosos professores estrangeiros vieram em apoio a
essa luminosa ideia que, por sorte, entrou em choque com a decidida recusa de Yrigoyen, mas não de Alvear,
que encaminhou alguns projetos que, felizmente, não receberam sanção.
Se levarmos ao extremo a colocação, o mesmo delito não era mais que um “sintoma” da periculosidade e,
portanto, tampouco teria muito sentido ter uma parte especial do código penal como catálogo fechado, porque
sempre poderiam aparecer novos “sintomas”, e inclusive alguém poderia pensar-se em suprimir essa parte
especial.
Embora ninguém tenha apoiado essa ideia na Argentina, não faltou quem o propusesse do outro lado, o
que demonstra que não há disparate que não possa estar presente nesta matéria. Com efeito, Nikolai Krylenko
– destacado jurista soviético, revolucionário e magistrado – elaborou um projeto de código penal sem parte
especial que não foi sancionado.
De qualquer maneira, o positivismo criminológico se defrontava com um gravíssimo problema, que era a
própria “naturalidade” do delito. Não podia negar que se criminalizava por decisão política e que o proibido
mudava de tempos em tempos e de sociedade em sociedade. Um outro jurista italiano, seguidor de Lombroso e
Ferri, o barão Raffaele Garofalo, inventor do “delito natural”, dedicou-se a superar esse obstáculo. A esse
respeito, ele publicou, em 1885, uma Criminologia, que merece ser lida com atenção, porque é um manual que
expõe, com incrível ingenuidade, racionalizações às piores violações de direitos humanos imagináveis.
Entre outras coisas, ele afirma que o delinquente é o inimigo interno na paz, como o soldado inimigo o é
na guerra; prefere a pena de morte à prisão perpétua, porque é mais piedosa e elimina o risco de fuga; afirma
que há povos degenerados que cumprem no plano internacional o mesmo papel que os criminosos natos
desempenham no nacional, e muitos outros absurdos que são bem úteis. Seria uma leitura recomendável para a
turma do “Tea Party”, os europeus antiextra-comunitários e os argentinos antibolivianos, entre outros tantos.
Como Garofalo construía seu “delito natural”? Misturando o ferroviário Spencer nada menos do que com
Platão (esclareço que houve misturas piores). Afirmava que a civilização avançava em refinamento dos
sentimentos de piedade e justiça, alcançando seu mais alto grau, é claro, na Europa, e que isso se expressava na
proteção aos animais. Escrevia isso, enquanto os capangas de Leopoldo II mutilavam negros porque não lhes
traziam borracha suficiente.
Pois bem. Para Garofalo, o “delito natural” seria a lesão do sentimento médio de piedade ou de justiça
imperante em cada tempo e sociedade. Assim, ele construía um quadro de valores e subvalores lesionados no
qual colocava os diferentes delitos. O resultado era algo assim como um Platão em estado bruto. Nem todos os
positivistas aceitaram de bom grau esse platonismo à Spencer. Pedro Dorado Montero, por exemplo, foi um
personagem singular, professor de Salamanca, positivista, mas, ao mesmo tempo, um anarquista moderado, que
meditava no isolamento de seu refúgio castelhano. Rechaçou a tese de Garofalo, afirmando que não havia
nenhum “delito natural”, mas sim que o Estado definia arbitrariamente os delitos. Porém, como havia homens
determinados a realizar essas condutas, o que o Estado devia fazer era “protegê-los” em instituições às quais
eles pudessem recorrer pedindo ajuda.
Evidentemente que ninguém seguiu Dorado e de nenhum modo ocorreu a alguém materializar as curiosas
instituições que ele propunha e com as quais pensava mudar o direito penal por um “direito protetor dos
criminosos”.
É bastante óbvio que o positivismo criminológico desembocava em um autoritarismo policial que
correspondia a um elitismo biologicista. Não apenas legitimava o neocolonialismo, mas também a repressão das
classes subordinadas no interior das metrópoles colonialistas. As elites dessas sociedades temiam sua
insubordinação e perseguiam os agitadores “dissidentes”. O próprio Garofalo escreveu um livro intitulado A
superstição socialista. Mais temor ainda inspiravam as reuniões públicas: as “multidões”.
A lembrança da Comuna de Paris era inapagável. Foi precisamente um autor francês – Gustave Le Bon,
autor da famosa Psicologia das multidões – quem se destacou no tema e seus escritos também constituem, em
geral, um bom reservatório de disparates antidemocráticos. Para Le Bon, na multidão se neutralizavam as
funções superiores do cérebro e dominava a “paleopsique”. Em outras palavras, e embora não o expressasse
desse modo, a multidão fazia surgir em cada um o “criminoso nato”, atávico, regressivo, selvagem. Como era
demasiadamente incrível afirmar que todo povo insubordinado era composto de criminosos natos ou selvagens,
Le Bon encontrou a forma de explicar que quando atuavam na multidão se convertiam a isso por efeito da
própria massa humana.
Houve outros positivistas preocupados com as multidões e entre eles destaca-se Scipio Sighele, que
publicou um livro intitulado Os delitos da multidão. O resultado prático foi que vários códigos penais incluíram
disposições acerca de delitos cometidos pelas multidões, responsabilizando os líderes. O fato de que Le Bon,
Sighele, o próprio Lombroso e outros exemplificavam, invariavelmente com os líderes da Comuna de Paris e
que os códigos penais centrassem sua atenção punitiva nos líderes de multidões, mostra claramente o medo das
classes hegemônicas em relação à “peble reunida”.
Como se pode ver, o positivismo restaurou claramente a estrutura do discurso inquisitorial: a criminologia
substituiu a demonologia e explicava a “etiologia” do crime; o direito penal mostrava seus “sintomas” ou
“manifestações” da mesma forma que as antigas “bruxarias”; o direito processual explicava a forma de persegui-
lo sem muitas travas à atuação policial (inclusive sem delito); a pena neutralizava a periculosidade (sem menção
da culpabilidade) e a criminalística permitia reconhecer as marcas do mal (os caracteres do “criminoso nato”).
Tudo isso voltava a ser um discurso com estrutura compacta, alimentado com os disparates do novo tempo
histórico.
Ilustração 10

16. Os crimes da criminologia racista: campos de extermínio e eugenia


Ninguém acredite que estejamos falando de uma história distante e menos ainda de uma entretenimento
que consista em recordar disparates. Estamos falando do poder planetário e dos genocídios cometidos no seu
avanço e, por conseguinte, estamos adentrando no núcleo central dos direitos humanos que desemboca nos
nossos dias.
O domínio mundial sempre hierarquizou os seres humanos e considerou inferiores os colonizados. Isso
aconteceu do colonialismo do século XV em diante e, depois, com o neocolonialismo, desde o século XVIII. O
que expusemos foi a ideologia racista dominante no neocolonialismo, da qual fazia parte a criminologia
positivista biologista, porém o marco em que esta se inseria vinha de muito mais longe.
Nos tempos do velho colonialismo também houve racismo, embora não com discurso científico. Mais ainda.
Embora pareça incrível, houve também um racismo pessimista, ao estilo de Gobineau, e outro otimista, ao estilo
de Spencer.
Durante a colônia, ninguém discutia que éramos inferiores, o ponto central era se o Apóstolo Tomás havia
chegado ou não à América, se ele viera caminhando sobre as águas, ou pelas pedras e, se havia trazido a
mensagem e nossos nativos o haviam desprezado, éramos hereges e, portanto, matéria dos tribunais
eclesiásticos. Se ele não tivesse vindo, éramos simplesmente infiéis e, portanto, submetidos ao príncipe cristão
cuja missão era nos doutrinar.
No primeiro caso, havíamos caído, no segundo não havíamos chegado. Exatamente o mesmo do racismo
posterior, só que com outro discurso e refletindo uma luta entre o poder eclesiástico e o monárquico.
Bibliotecas inteiras foram escritas sobre isso e os dados mais incríveis eram tomados como prova em torno
da lenda de Tomás de América, registrados por nossos antropólogos pioneiros: cruzes pré-hispânicas, pisadas
petrificadas etc.
O racismo do neocolonialismo, com seu reducionismo biologista, não podia deixar de terminar muito mal.
Enquanto foi usado para legitimar o poder do domínio colonialista e controlar a as classes incômodas dos países
centrais, foi funcional; porém se estilhaçou, quando foi usado na Alemanha para legitimar um poder punitivo
sem limitações dentro da própria Europa e por uma potência que se considerava estar na vanguarda da
civilização. Era inevitável que acontecesse, e aconteceu.
O formidável instrumento de poder policial vertical que legitimava esse racismo não era exercido em toda
sua amplitude na Europa controlada pelas classes dominantes tradicionais. Porém, quando a Europa ficou
arrasada depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e os aliados não viram nada melhor do que cobrar
dívidas que a Alemanha não podia pagar, eles humilharam e desestabilizaram a frágil República de Weimar,
abrindo o espaço político para um chefe extrassistema; um grupo de desaforados nacionalistas radicalizados
tomou o ápice de um Estado desde muito antes conformado por corporações fortemente verticalizadas, que
não fez mais do que passar a exercer o poder punitivo fora de toda a prudência e legitimado por discurso
idêntico.
Os novos condutores nazistas, que tomaram em suas mãos o poder punitivo, usaram-no para
homogeneizar a frente interna, inventando um novo Satã (inimigo), e elevando ao máximo o verticalismo
social, com o objetivo de preparar a sociedade para a colonização de todo o planeta, seguindo a lógica de que a
verticalização sempre anuncia uma colonização.
Por mais maluco ou irrealizável que tenha sido o projeto final, esse objetivo rompeu com a relativa
prudência das classes tradicionais e, como o discurso positivista não se havia preocupado em fixar-lhe limites,
continuou servindo de legitimação a um poder punitivo sem freios.
O nacional-socialismo alemão não inventou ideologicamente quase nada sobre a questão criminal, e sim
usou o que outros haviam inventado; tampouco teve um discurso criminológico original, pois, para encobrir
seus massacres, valeu-se do que dominava havia muito tempo.
Quando se parte do pressuposto de que o ser humano é um ente puramente biológico que, quando mais
bem construído, está destinado a usar os outros humanos que saem defeituosos ou pertencem a séries com
menor sofisticação, não é nada difícil concluir que esses últimos podem ser destruídos se criarem obstáculos aos
mais perfeitos em sua tarefa de construir outros melhores.
O aniquilamento de todas as raças inferiores e incômodas é um corolário quase necessário desse ponto de
partida. Também o é que não vale a pena manter presos os fracassados internos que causam problemas aos
aparatos mais aperfeiçoados. A eliminação dos que custam muitíssimo dinheiro nos manicômios e asilos não é
menos coerente. Mais ainda. Explicam-se essas consequências quando esses recursos são considerados
necessários para sustentar os perfeitos que oferecem sua vida nas trincheiras após a conquista do planeta.
Consequentemente, fica claro que os campos de concentração, de trabalho forçado e de extermínio
tenham sido legitimados com racionalizações provenientes do racismo positivista. Justamente quando, ao final
da Segunda Guerra, já ninguém podia mais ignorar o que os povos longínquos ou os subalternos muito
distantes de seus bairros sofriam, porque acabava de acontecer na casa do vizinho ou mesmo na sua própria, o
paradigma mudou rapidamente.
Ilustração 11

A isso se deveu a Declaração Universal de 1948, que anunciou a mudança de paradigma no plano mundial.
A guerra e a Shoah[5] foram o prolegômeno da Declaração, pois sem as atrocidades nazistas o discurso racista
teria continuado a se espalhar pelo planeta e jamais se teria formulado semelhante declaração diante do
concerto mundial. Seu próprio texto parece elementar e ingênuo, se não o contextualizarmos como uma
mudança de paradigma que procurava enterrar o discurso do racismo até então dominante.
Há uma história – que corresponde à criminologia do apartheid, mas que poucas vezes se recorda –
amplamente demonstrativa de que o nazismo não inventou nada no plano ideológico, que foi imensamente
perverso, mas ao mesmo tempo infimamente criativo, só talvez um pouco engenhoso.
Houve um capítulo anglo-saxão da criminologia positivista, que foi o prolegômeno do uso nazista do
reducionismo biologista aplicado ao controle social repressivo. Ele quase foi apagado dos manuais correntes de
criminologia e embora soe como uma má lembrança, é preciso rememorá-lo, em particular em nosso tempo
que, como veremos mais adiante, não está livre de perigosos surtos de biologismo criminal.
Por regra geral, quando se menciona a esterilização forçada de delinquentes e de deficientes real ou
supostamente hereditários, a contaminação do sangue com raças inferiores, a proibição de matrimônios
interraciais ou mistos e outras aberrações semelhantes, o nazismo é imediatamente evocado. É verdade que o
nazismo se valeu de tudo isso com singular empenho, mas não devemos esquecer que não o inventou, mas sim
o copiou do mundo anglo-saxão, colocado no papel na Grã-Bretanha, mas levado à prática até extremos
inadmissíveis nos Estados Unidos muitos anos antes do que na Alemanha.
Estamos nos referindo a uma palavra que hoje causa medo e ninguém usa, mas que esteve em voga em
boa parte do século passado: a eugenia.
Os médicos estadunidenses haviam rechaçado a tese lombrosiana do criminoso nato, porém, ao estudar sua
população penal, encontraram o que era óbvio que achariam: pessoas mais frágeis que a média e com menor
quociente intelectual.
Desde o começo do século XX, Alfredo Niceforo, na Itália, havia verificado que supostas causas biológicas
não eram mais do que defeitos de alimentação na primeira idade. Uma geração mais bem alimentada é mais
forte e, além disso, mais bonita; a força física e a beleza nunca são produto da miséria. Além do mais, não é raro
que na população penal algumas pessoas tenham um menor nível de inteligência; não que a isso se deva
condicionar o delito, mas sim que são mais ingênuos e, por conseguinte, são presos por serem bobos.
Contudo, os iluminados médicos estadunidenses deduziram outra coisa e não faltou um investigador, de
duvidosa seriedade (Henry Goddard), que aplicou uns testes questionáveis, e em 1913 chegou a publicar um
livro sobre uma suposta família Kallikak, de delinquentes por gerações, com o que pretendia verificar a herança
das taras condicionadoras da criminalidade. Na verdade, duvida-se mesmo se essa família existiu.
Com esses antecedentes, não era difícil chegar à conclusão de que não havia criminosos natos, mas que a
criminalidade era resultado de taras físicas e mentais, em sua maioria hereditárias.
Uns trinta anos antes, Francis Galton – que foi um inglês pouco equilibrado, primo de Darwin, e que
supunha terem a genialidade deste e a dele mesmo raiz num ascendente comum – abandonou seus estudos de
medicina e se dedicou às matemáticas. Aí começou a contar tudo o que se podia contar no mundo, até afirmar
que as sociedades criavam os gênios em razão direta à reprodução de seus seres mais perfeitos ou superiores.
Entre seus disparates, Galton disse haver calculado o número exato de gênios que os gregos haviam
produzido, e inventou uma ciência para o melhoramento da raça que batizou com o nome de eugenia.
Galton, porém, era um tipo prudente. Sua ciência era uma espécie de religião que aconselhava ou
desaconselhava casamentos, mas não pretendia fazer nada à força, e sim convencer acerca das vantagens de se
seguirem seus conselhos. Por isso, considera-se sua eugenia como positiva.
Quando os livros de Galton cruzaram o Atlântico encontraram um terreno diferente. Por um lado, a
pretensa constatação dos médicos acerca das taras hereditárias causadoras do delito; por outro, uma sociedade
muito complexa, na qual os habitantes nativos se encontravam rodeados de estranhos, com os quais não se
misturavam.
Esses estranhos eram, em primeiro lugar, os afro-americanos libertados poucas décadas antes, aos quais não
conseguiram mandar para a Libéria nem fixar no México, mas que nem o próprio Lincoln considerava
estadunidenses. A eles se somavam os grupos de imigrantes europeus que pretendiam obter avanços sociais e
pregavam o socialismo e o anarquismo; e, para culminar, pelo sul, os mexicanos.
O ambiente intelectual estava dominado por livros de escandaloso racismo nórdico, quase idêntico à
novela nazista de Rosenberg. Um pretenso cientista, chamado Madison Grant, afirmava ser necessário evitar a
reprodução dos criminosos, doentes e loucos, e esperar que eles morressem, e também a dos indivíduos de
raças inferiores. Seu discípulo Stoddard advertia sobre o perigo do avanço da gente de cor no mundo. A
popularidade desses racistas e seus vínculos políticos com alguns presidentes decidiram a política migratória
daqueles anos, que rechaçava a vinda dos imigrantes de raças inferiores e privilegiava os nórdicos, qualificados
por Adolf Hitler como a única raça racional em Mein Kampf. Cabe recordar que as obras desses bons rapazes
foram usadas em Nurenberg pelos defensores dos genocidas nazistas para tentar provar que suas condutas
respondiam a teorias científicas que não lhes eram próprias.
Ficava claro que o terreno estava preparado para deixar de lado os escrúpulos do inglês Galton e passar de
sua eugenia positiva a uma negativa, imposta e radical. Para que esperar que as pessoas se convencessem, se era
possível fazê-lo antes? Além do mais, como convencer os inferiores? De acordo com o projeto de Grant, a
humanidade poderia se livrar, em um século, de todos os inferiores.
A batuta desse movimento foi tomada por um veterinário, Charles Davenport, que demonstrou ser um
coletor de financiadores muito bom, tendo rapidamente convencido a Fundação Carnegie, a viúva do magnata
Harrison e a Associação de Criadores (de animais, claro). Incorporou à sua campanha pessoas famosas, como o
Prêmio Nobel Alexis Carrel, sujeito pouco equilibrado que pretendia que o governo estivesse a cargo da Corte
Suprema (toda semelhança com a Argentina de 1943 é mera coincidência) e terminou a serviço do vergonhoso
regime de Vichy.
Davenport teve como assistente um personagem chamado Harry Laughlin; ambos foram piedosamente
ignorados durante a guerra por seus obscuros contatos com os médicos do nazismo e morreram antes do
término do conflito. Ao que parece, o intercâmbio de informações científicas com os médicos malditos foi
intenso e até se supõe que proporcionaram apoio financeiro para os primeiros laboratórios de eugenia alemães,
inclusive o do mestre do tristemente famoso Josef Mengele. Davenport disputou a presidência da Associação
Americana de Antropologia nada menos do que com Franz Boas, cuja mão se negava a apertar porque era
judeu.
O dano que causaram foi enorme, embora primeiro Galton e depois seu discípulo Pearson tenham
denunciado sua campanha como anticientífica e negado qualquer vínculo com esses delirantes (o que
demonstra que eles eram apenas um pouco loucos).
Não se poderia afirmar hoje se o episódio de Davenport foi uma grande fraude, uma manobra de arrivistas
alucinados, místicos racistas ou uma mistura de tudo isso.
O certo é terem conseguido que, em 1907, fosse sancionada em Indiana a primeira lei de esterilização
forçada, copiada na maior parte dos estados do país nos anos seguintes. Em função dessas leis, foram
esterilizados milhares e milhares de oligofrênicos, epilépticos, surdos-mudos, índios, cegos, delinquentes,
doentes mentais etc.
A Suprema Corte validou a constitucionalidade dessas leis de esterilização forçada graças ao voto do juiz
Oliver Holmes Jr., que já não era nenhum júnior e de quem se diz que foi um dos ministros mais pensantes da
história dessa Corte; é possível, mas cabe se perguntar se o fazia bem.
Os juízes não se conformaram com as leis de esterilização, mas, seguindo o velho Morel, proibiram os
casamentos entre afro-americanos e brancos em numerosas leis estaduais. Novamente, a brilhante Suprema
Corte legitimou essas leis com o argumento de que não eram discriminatórias porque não proibiam o
casamento, uma vez que o autorizavam entre os afro-americanos, respondendo ao lema antes assentado em sua
jurisprudência de iguais mas separados, ou seja, o apartheid. A inconstitucionalidade dessas leis foi declarada, sem
muita pressa, apenas em 1957. Creio que com isso fica suficientemente fundamentada a razão dessas
explicações, que mostram onde foi parar e que horripilantes consequências teve o pretenso progressismo
positivista, que extraía sua matriz de pensamento avançado de sua capacidade de assustar os padres dos
povoados, mas que não era mais do que um pensamento reacionário e potencialmente genocida.

17. A criminologia do canto da Faculdade de Direito


Na Europa, os penalistas começaram a ficar nervosos. Isso porque gostavam cada vez menos do estilo
inquisitorial da criminologia, que lhes dizia como deviam decidir, e resolveram recuperar seu território por
razões puramente acadêmicas, sem que isso implicasse necessariamente consequências políticas. Não se
queixavam do potencial genocida do positivismo biologista, mas não suportavam estar subordinados aos
médicos.
Por conseguinte, foram isolando os criminólogos. Decidiram que o delito era definido pelos penalistas e os
criminólogos deviam ater-se a explicar as causas das condutas que os penalistas previamente identificavam como
delitos. Quer dizer, não os expulsaram das Faculdades de Direito, deixando-os com seus crânios e frascos de
restos em formol, mas em um canto.
Não vem ao caso explicar que argumentos usaram, embora já tenhamos feito alguma referência ao mais
elaborado: era o neokantismo, que distinguia entre ciências naturais e culturais. Como o direito era uma ciência
cultural, não podia contaminar-se com a outra, natural.
Havia algumas dificuldades, como a de a criminalização, que era uma decisão política, fixar os limites de
uma ciência natural, mas os penalistas resolveram rapidamente, afirmando que não existia nenhuma ciência
natural chamada criminologia, mas sim um conjunto de conhecimentos auxiliares do direito penal que eram
convocados quando este o considerava conveniente e nada mais. A criminologia positivista biologista passava a
ser uma ordem de conhecimentos servis ao direito penal.
Com a Inquisição e o positivismo, a criminologia mandava no direito penal; com o neokantismo, o direito
penal subordinava a criminologia. Porém, a criminologia que ficava no canto continuava sendo exatamente a
mesma do reducionismo biologista e tão racista como antes. Tratava-se de uma questão de prioridade
acadêmica, na qual tudo ficava igual quanto ao conteúdo.
Prova disso é que se registrou um vergonhoso debate em 1941, em plena guerra mundial, entre os
professores de Munique e os de Milão, para ver quem tinha o melhor discurso para legitimar as leis penais do
nazismo. O grupo de Milão defendia a prioridade do discurso ao estilo do velho Ferri (que havia morrido uns
anos antes) e por certo impôs-se ao de Munique, que, à primeira vista soletrava algumas coisas
incompreensíveis. Evidentemente, nenhum dos dois grupos voltou ao tema depois da guerra e continuaram
escrevendo e publicando, e sendo citados entre nós, com a maior naturalidade, mas isso é um outro assunto.
Os criminólogos do canto continuaram postulando a esterilização, investigando os gêmeos univitelinos e
propondo medidas de segregação radicais, como Franz Exner, que, juntamente com o penalista do neokantismo
mais citado entre nós (Edmund Mezger) elaborou um projeto para mandar todos os de vida ruim (ele os
chamava de estranhos à comunidade) aos campos de concentração, em 1944. Exner havia estado nos Estados
Unidos na década anterior e voltou à Alemanha muito contente com seus colegas racistas estadunidenses. Em
seu livro, que foi leitura recomendada em nossas cátedras durante anos, dizia-se que o grande número de afro-
americanos nas prisões era resultado do fato de a sociedade estadunidense lhes exigir um esforço que suas
condições biológicas não tinham condições de suportar. Essa criminologia do canto da Faculdade de Direito
enriqueceu seu biologismo com as novidades médicas, fundamentalmente com o descobrimento das glândulas
de secreção interna, ou seja, com a endocrinologia, o que motivou novos entretenimentos, em particular na
área da conduta sexual, onde quiseram curar todas as desvios com injeções, ocasião em que explicavam o
avanço da civilização por uma suposta contenção da hiperfunção da hipófise.
O que mais impactou a criminologia do cano foram as classificações segundo os biotipos, ou seja, voltou-se
a correlacionar as características físicas com as psicológicas, ao estilo dos fisiognomistas. Algum autor mais
moderno diz que era uma nova frenologia, só que Gall deduzia as características psicológicas dos volumes no
crânio e agora pretendiam fazê-lo a partir dos glúteos, embora não necessitassem recorrer à apalpação.
Houve várias classificações biotipológicas, porém a mais difundida foi a alemã de Ernst Kretschmer, que
em seu livro (sob o impressionante título de Körperbau und Charakter) estabelecia cinco biotipos: leptossômico,
atlético, pícnico, displásico e misto. Em qualquer esquina de Buenos Aires se conhecem com outros nomes:
magro, sarado, gordo, urso e yeti.
As profundas consequências criminológicas indicam que os magros costumam ser ladrões; os atléticos,
homicidas; e os gordos, farsantes; os outros dois não se sabe bem. Creio que ninguém imagina um obeso
ousado, escorregando por uma janela estreita.
A endocrinologia, além disso, conferia nova base ao próprio racismo, constatando que os nórdicos são
magros e, portanto, pensadores, enquanto que os alpinos são gordinhos ciclotímicos e, portanto, artistas.
Nesse período do pré-guerra houve uma variante no interior da tese biologista que é necessário destacar
por causa de suas consequências diferentes. Por um lado, havia a posição genética, assumida pelo nazismo, que,
como não dava outra solução senão impedir a reprodução, deduzia a necessidade de matar todos os inferiores,
incluindo as crianças. Por outro, estava a tese da transmissão dos caracteres adquiridos do velho Lamarck, cuja
consequência era que as crianças deviam ser colocadas sob os cuidados das famílias saudáveis. Esta última foi a
que predominou na ditadura franquista, comandada por Antonio Vallejo Nágera, dono da psiquiatria oficial
espanhola e chefe dos campos de concentração nacionais. Esta última variável foi a que se aplicou às crianças
retiradas das hostes republicanas e inspirou os criminosos contra a humanidade em nosso país.
Não deixa de ser curioso que o lamarckismo tenha sido ideologia oficial da biologia na URSS, com a escola
de Lyssenko.

18. A agonia da criminologia do canto


Essa criminologia do canto entrou em crise depois da guerra. O primeiro Congresso Mundial de
Criminologia no pós-guerra foi celebrado em Paris, em 1950, sob a presidência de Donnedieu de Vabres, juiz
francês em Nurenberg.
Nesse congresso, como num passe de mágica, o racismo desapareceu, porque, salvo algum desavisado, que
nunca falta, ninguém queria arcar com suas letais consequências depois da guerra.
Embora desde muito antes ninguém sustentasse a tese lombrosiana do criminoso nato, até o final da guerra
a criminologia do canto conservava pela biologia um interesse destacado, seja pelo tema debilidades, seja pelo
tema taras, pelo tema conformação etc. Porém, a partir do pós-guerra, ao rechaçar o racismo e o reducionismo
biologista, a criminologia, embora continuasse sendo etiológica, deixava de considerar o delinquente uma
variável do ser humano e, por conseguinte, perdia seu objeto diferenciado e natural, seu bicho diferente.
Esta criminologia etiológica do canto se foi esvanecendo e terminou por derreter-se nas contradições de
s u a plurifatorialidade. Seu objeto perdia progressivamente os contornos, anunciando seu ocaso inevitável,
porque ficava evidente que seus cultores careciam dos elementos para a análise do exercício do poder punitivo
e do dado óbvio da seletividade. Não é justo, porém, considerar todos eles como racistas ou biologistas furiosos
e, menos ainda, que todos compartilhassem dos disparates a que fizemos referência.
Assim como, no que concerne à Inquisição, advertimos que no século XVI nem todos estavam tão loucos,
cabe aqui dizer mais ou menos a mesma coisa. Em todos os tempos houve algumas pessoas bastante lúcidas,
cujo discurso não foi hegemônico, muito menos no momento em que surgiu e, ademais, lhes era muito difícil
escapar ao paradigma dominante, ainda que alguns enfrentassem a marginalização acadêmica.
Desde o final do século XIX, algumas vozes prudentes se fizeram ouvir, como a da criminóloga feminista
espanhola Concepción Arenal. Contemporâneos de Lombroso, autores como Turatti e Vaccaro rechaçavam o
biologismo. Alfredo Niceforo, não obstante ser um etiologista, deu-se conta perfeitamente de que os pretensos
signos biológicos eram os da miséria. O holandês Willen Bonger escreveu o primeiro ensaio de criminologia
marxista em princípios do século XX e seguiu essa linha até que se suicidou, no dia em que os nazistas
ocuparam a Holanda.
Se bem que nossa tradição criminológica latino-americana tenha sido tributária dessa criminologia do
canto, entre nossos criminólogos de pós-guerra houve pessoas que nada tiveram a ver com as ideias racistas, e
alguns foram mesmo seguidores distantes de Bonger.
É óbvio que nossos criminólogos de meados do século passado – ao prescindir da análise do poder
punitivo e das características do sistema penal, mantendo-se no marco de uma etiologia criminal que se
alimentavam na plurifatorialidade – caíam em contradições no marco de uma disciplina que se ia derretendo.
Essas limitações, porém, não podem ser confundidas com o aberto racismo do pré-guerra europeu.
Por isso, importa distinguir cuidadosamente, a partir do político, entre os cultores de uma criminologia de
pós-guerra que agonizava e os reducionistas biológicos que os precederam, e não colocar todos no mesmo
saco.
O colombiano Luis Carlos Pérez dedicou todo um capítulo de sua obra geral de criminologia dos anos 50
do século passado a uma forte crítica do racismo. O brasileiro Roberto Lyra Filho foi um dos criminólogos mais
avançados na linha de Bonger. O mexicano Alfonso Quiroz Cuarón, um patriarca da criminologia regional,
interveio em questões tão conhecidas como o estudo do assassino de Trotsky e dos restos do imperador
Cuauhtémoc; seus artigos jornalísticos eram marcadamente críticos do sistema penal de seu país. Na Argentina,
Oscar Blarduni (advogado e médico) foi o artífice do Instituto de Investigação e Docência Criminológica do
Prata e um crítico do reducionismo biologista.
Todos esses nossos autores do pós-guerra cultivavam uma criminologia que se encontrava em um
corredor sem saída e tampouco tinham o treinamento sociológico prévio para vislumbrar metodologicamente
outros horizontes. Contudo, vista a sua marca política, não podem ser considerados no mesmo nível dos
reducionistas aos quais me referi antes.
Coube a eles, como a todos, viver uma época com seus condicionamentos limitadores de nossa visão
científica, e sem dúvida, foram produzidas contradições irredutíveis, entre suas atitudes políticas e o agonizante
marco etiológico. Porém, se essas contradições não tivessem acontecido, teria sido impossível pasar a outra
etapa superadora, como sempre acontece. Suponho que hoje também incorremos em contradições.
A agonia da criminologia do canto da Faculdade de Direito estava indicando que a hegemonia do discurso
criminológico logo deixaria de estar nas mãos de médicos e de advogados formados por estes, para passar a
outra corporação de especialistas que, em outras latitudes, já vinha, há muito tempo, trabalhando a questão
criminal. Começava a era dos sociólogos, que nos Estados Unidos, algumas décadas antes, haviam começado a
discutir e investigar as coisas de uma perspectiva diferente. Eles anunciaram a direção que haveria de conduzir
às colocações atuais.

Ilustração 12
19. O parto sociológico
A velha criminologia etiológica de médicos e advogados se enlanguescia nos cantos de nossas faculdades
de direito, pese a boa fé de muitos de seus expositores, que não conseguiam se aproximar do fenômeno da
perspectiva do grupo humano e menos ainda do poder. De vez em quando lhe esparziam sua vasilha com um
pouco de sal social, com afirmações um tanto socialistas (quando se abre uma escola, se fecha uma prisão, e outras
semelhantes), mas ignoravam os criminosos que nunca passariam por uma prisão e haviam frequentado as
melhores escolas. Para eles, a delinquência continuava sendo aquela que viam na prisão ou na crônica policial,
embora, de vez em quando, não percebessem a contradição em que caíam.
Ainda que a questão criminal tenha sido sempre um tema central para aqueles que exerceram ou
disputaram o poder, ela não podia ser explicada por uma criminologia de médicos e advogados. Por sorte, porém,
há saberes que se ocupam do comportamento humano e excedem bastante o limitado campo desses
especialistas, de modo que outros avançavam por um caminho diferente, observando os fenômenos a partir do
plano social. Nunca faltaram aqueles que o fizeram desse ponto de vista diverso, mas foi precisamente a partir
da análise da questão criminal que uma nova ciência foi ganhando forma e terminou obtendo patente
acadêmica: a sociologia.
Tudo começou entre 1830 e 1850, quando dois personagens – o belga Adolph Quetelet e o francês André-
Michel Guerry – chamaram a atenção para as regularidades na frequência dos homicídios e dos suicídios.
Quetelet vivia de fazer cálculos atuariais para as companhías de seguros, mas inventava toda espécie de
coisas e, entre elas, foi o fundador do observatório astronômico de Bruxelas, o que não deixa de ser original,
porque a capital belga tem o céu nublado na maior parte do ano.
Guerry era um advogado que se enamorou das estatísticas e denominou essas regularidades de estatística
moral, enquanto Quetelet buscava um nome para sua ciência. Quando se quer obter hierarquia de ciência para
algum saber existe a tendência de aproximá-lo da física (isso hoje se chama fisicalismo) e como Quetelet não era
alheio a essa tendência, não teve melhor ideia senão chamar a sua de física social.
Ele, porém, não era o único que queria fundar uma física social, pois, na França, Augusto Comte andava no
mesmo caminho e se aborreceu muito com Quetelet, afirmando que ele tinha roubado o nome da sua ciência,
e por isso decidiu rebatizá-la de sociologia. Graças ao plágio, nós escapamos de estar rodeados hoje de físicos
sociais.
Na verdade, Comte foi surprendido pelo surgimento do belga, mas suas ideias são produto de outra
história. A empresa de Comte foi precedida e impulsionada pelos reacionários (Louis de Bonald, Joseph de
Maistre, Edmund Burke), que consideravam a Revolução Francesa um episódio criminoso e antinatural que ia
contra a história e que, depois da derrota do desobediente Napoleão e da Santa Aliança (aliança de cabeças
coroadas para manterem-se presas ao corpo), voltaram à carga, reafirmando que a sociedade é um organismo e
jamai ss pode admitir o disparate do contrato. Se a sociedade é um organismo, supõe-se que deve existir uma
ciência que estude suas leis naturais.
Mas os reacionários eram nostálgicos da Idade Média e apelavam a argumentos do direito divino, que já
tinha passado de moda, em um momento em que a ciência despontava como única garantia do saber. Ademais,
os críticos da ordem social, os chamados socialistas utópicos, com os quais os reacionários se confrontavam, eram
tão organicistas quanto eles, ou mais. Nessas condições, era óbvio que haveria de ocorrer a alguém a ideia de
responder-lhes da mesma perspectiva conservadora e organicista, mas conforme o sinal dos tempos, isto é, com
uma ciência da sociedade.
Foi isso que Comte fez. O grande mérito de Comte foi ter dado impulso a uma ciência da sociedade livre
do lastro religioso, mas, do ponto de vista ideológico, ele teria podido tomar uns tragos com os reacionários
sem muitos problemas práticos.
Como ninguém pode comprovar que a sociedade seja um organismo, a volumosa obra de Comte,
publicada em meados do século XIX, pressupunha um dogma gratuito. Embora pareça mentira, fundou-se uma
ciência sobre uma premissa anticientífica ou não verificável.
Conforme esse dogma, o organismo social tinha suas leis; por conseguinte, devia ser governado por quem
as conhecesse, ou seja, pelos sociólogos. Por isso, iam além de Platão, postulando algo parecido a um
sociólogo-rei (um tecnocrata social). Isso era explicado pela lei dos três estados pelos quais a humanidade teria
passado: o teológico (primitivo), o metafísico (os iluministas) e, finalmente, o científico (adivinhem com quem:
com Comte). Havia mais alguém com vontade de sentar-se na ponta da flecha do tempo.
Ademais, por humanidade se entendia a raça branca (à qual Comte pertencia), mas nem todas as pessoas
dessa raça, e sim somente os homens (Comte também era homem), porque as mulheres tinham que ser
mantidas em estado de perpétua infância, para sustentar a célula básica da sociedade: a família.
Dada a importância das hierarquias para sustentar a ordem social, ele olhava com simpatia a sociedade de
castas da Índia. Como se isso fosse pouco, ele nem sequer renunciava a um componente místico e inventou
uma nova religião, com toda sua liturgia, em que o Grande Ser era a humanidade e integrava uma trindade com
O Grande Meio (espaço do mundo) e O Grande Fetiche (a terra).
Curiosamente, as ideias de Comte vingaram no Brasil e, após a queda do Império, os militares fundadores
da República as levaram tão a sério que incorporaram à insígnia nacional o lema Ordem e progresso. Mas a coisa
não parou aí. Houve até mesmo um templo comtiano no Rio de Janeiro, o que prova que não é nova a
generosidade de nosso continente na importação de disparates.
É mais do que sabido que Comte não gozava de saúde mental muito boa e que, ao compasso de suas
desilusões amorosas, tentara suicidar-se, lançando-se ao Sena. É óbvio que se houvesse vivido perto do
Riachuelo[6] não teria inventado a sociologia. Como regra geral, as histórias da sociologia assinalam como
fundadores Comte e Spencer, de quem já nos ocupamos e vimos que, do outro lado do canal da Mancha,
compartilhava a concepção organicista e também se acomodava na ponta da flecha civilizatória.

20. Os verdadeiros pais fundadores


Essa pré-história da sociologia moderna mostra como esta e a criminologia nasceram do entrevero entre o
poder e a questão criminal, mas enquanto a criminologia ficou atada a Spencer, a sociologia posterior a Comte
se desprendeu do conteúdo reacionário de suas ideias e adquiriu voo próprio na Europa continental até a
Primeira Guerra Mundial ou Grande Guerra (1914-1918).
A rigor, a criminologia e a sociologia nasceram gêmeas, só que a criminologia permaneceu presa do
racismo e do reducionismo biologista do spencerianismo, desintegrando-se paulatinamente a partir da crise
dessas lamentáveis bases ideológicas, enquanto na sociologia, as ideias de Comte, talvez por reacionárias e
insólitas, abriram um amplo espaço de discussão e análise.
O certo é que, na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do XX, apareceram os
sociólogos que deixaram de lado as elucubrações de sobremesa e começaram a pensar mais a sério, colocando
uma quota de ordem e bom senso. Esses sociólogos mais analíticos podem ser considerados, na realidade, os
verdadeiros pais fundadores da sociologia. Muito se escreveu sobre esses primeiros autores e, se bem que seu
pensamento seja um tema próprio da sociologia, é necessário assinalar ao menos por que caminhos andaram,
porque, do contrário, parecerá que saiu uma criminologia diferente de algum chapéu de mágico, quando, na
realidade, vinha sendo preparada a partir da sociologia, mesmo sem que os criminólogos do canto da Faculdade
de Direito lhe prestassem muita atenção.
Esses pais fundadores foram os principais sociólogos franceses, como Emile Durkheim e Gabriel Tarde, e
alemães, como Max Weber e Georg Simmel. Sua importância não se deve tanto àquilo que afirmaram, mas sim a
como se projetaram para o futuro dessa ciência, pois Durkheim e Max Weber foram os pioneiros do que se
desenvolverá em seguida como sociologia funcionalista e sistêmica, enquanto que Tarde e Simmel abriram o
caminho do que haveria de ser o interacionismo.
Traduzido para uma linguagem compreensível, isso significa simplesmente que a sociologia europeia
anterior a 1914 tendia a atender a dois diferentes aspectos do social: um privilegiava a busca de um sistema
dentro do qual tudo cumpriria alguma função, e outro não pensava tão grande e se detinha nas relações mais
micro, tratando de estabelecer suas regras. Partindo do macro, Durkheim pensava que o delito cumpria a
função social positiva de provocar uma recusa e, com isso, reforçar a coesão da sociedade. Em outras palavras,
para Durkheim não era positivo que alguém esquartejasse a avó, mas sim a reação social de coesão que esse
crime provocava. Dessa forma, ele despatologizava o delito, o considerava normal na sociedade.
Max Weber, na Alemanha, também pensava no macro e acentuava a importância das ideias para avançar
através dos sistemas de autoridade, que passavam do ancestral ao carismático e deste ao legal-racional, que seria
o das grandes burocracias que regiam nos países centrais e que se estenderiam a todo o mundo. Nesse sentido,
ele afirmava que o protestantismo havia facilitado o desenvolvimento do capitalismo.
Enquanto isso, Gabriel Tarde se detinha mais especificamente na imitação como chave das condutas,
impressionado pelo poder que a imprensa adquiria, especialmente com o escândalo do caso Dreyfus, que
provocou um surto antissemita reacionário e monárquico que dividiu a França talvez até o próprio governo de
Vichy, na Segunda Guerra. Ele se dava conta, ao contrário de Durkheim, de que havia uma enorme quantidade
de delitos impunes, e com isso adiantava a questão da seletividade.
Simmel, por sua vez, colocou sua ênfase na observação de que a essência do social é a interação das
pessoas e que, a cada dia, as capacidades individuais na sociedade industrial tinham menos valor, o que também
parecia contradizer algumas ideias de Durkheim.
É evidente que, na Alemanha, não se podia evitar Karl Marx, embora ele não tenha sido sociólogo, mas as
ideias de Weber respondem a um debate com Marx (alguns historiadores afirmam que toda a sociologia alemã
da época fez isso).
Cabe esclarecer que Marx se referiu a temas penais e criminológicos apenas muito tangencialmente. Há um
artigo publicado na Gazeta Renana, em 1842, no qual ele critica a penalização do furto de lenha, e um parágrafo
na Teoria da mais-valia, em que ironiza acerca da necessidade dos delinquentes. Nesse último caso, ele parece
um funcionalista, mas coloca algo real: se os delinquentes não existissem, teriam de ser inventados. Com efeito,
ainda que Marx não o tenha dito, se deixarmos voar a imaginação e pensarmos em uma fantasmagórica greve
geral de delinquentes, veremos que o sistema todo seria derrubado: os seguros, os bancos, as polícias, as
alfândegas, os escritórios que tratam dos impostos etc. se tornariam inúteis. Seria, sem dúvida, uma verdadeira
catástrofe.
No pensamento de Marx e de Engels chama a atenção o total desprezo pelo subproletariado
(Lumpenproletariat), que é o nome marxista da má vida positivista. Eles o consideravam uma classe perigosa,
inútil, incapaz de qualquer potencial dinamizador e sempre disposta a aliar-se à burguesia. Essas afirmações
pesaram mais tarde no marxismo institucionalizado, dando lugar aos conceitos de parasita social e análogos e
permitindo legitimar a repressão perigosista da delinquência nesses sistemas. Na realidade, a criminologia
marxista não se apoia nas escassíssimas referências de Marx ao tema, mas sim na aplicação que os criminólogos
marxistas fizeram das categorias de análise dele, como veremos mais adiante.
Porém, todo esse riquíssimo debate sociológico das últimas décadas do século XIX se esgotou na Europa
com os pais fundadores que, por coincidência, morreram perto do final da Primeira Guerra; por volta de 1920, a
sociologia europeia tornou-se opaca.
Isso se explica porque a Grande Guerra arrasou a Europa. Em 1914, as potências europeias haviam
acreditado que esta seria uma guerra de exércitos, como a franco-prussiana de 1870, e que duraria alguns
meses. No entanto, foi a primeira guerra total; jogou-se com o potencial econômico dos beligerantes durante
quatro anos sangrentos, em que os jovens morriam espetados na barriga por baionetadas, de tétano no barro
ou envenenados ou cegos por gases tóxicos. A população civil foi considerada inimiga e os centros industriais e
econômicos tornaram-se alvos bélicos.
Ao final da guerra, todos os contendores estavam esgotados e suas economias, destruídas. A intervenção
dos Estados Unidos inclinou a balança, mas os impérios centrais caíram quando os outros não estavam em
situação nada boa. A Europa se suicidou com essa guerra que, por certo, está bastante esquecida pelos
historiadores. Para culminar, imediatamente depois da guerra sobreveio uma terrível epidemia de gripe que
matou uns tantos milhões.

21. A criminologia sociológica dos Estados Unidos


O grande beneficiário da Primeira Guerra Mundial foram os Estados Unidos, que não a sofreram em seu
território. O presidente Wilson pensava em ratificar o tratado de paz de Versalhes, mas os republicanos
ganharam as eleições. Péssimos presidentes assumiram o governo, não ratificaram o tratado de paz e a Europa
ficou só e devastada, enviando uma maciça corrente de emigrantes para a América do Norte. Os vencedores
insistiram no suicídio porque, para recuperar-se, tiveram a brilhante ideia de impor à Alemanha uma reparação
de guerra, cujo pagamento era impossível, humilharam-na e desestabilizaram a República de Weimar,
fomentando os extremismos e abrindo o caminho para um capo austríaco, que assumiu a batuta da maior
loucura criminosa do século.
Os pensadores europeus tentavam explicar o desastre sob o viés depressivo. Oswald Spengler, com A
decadência do Ocidente, e Vilfredo Pareto, com as elites, eram os dark da época. Além do mais, os totalitarismos
que iam se instalando desprezavam aqueles que pretendiam explicar-lhes o que acontecia, porque os ditadores
sempre sabem e quando alguém lhes diz que estão enganados costumam matá-lo. A sociologia nunca teve uma
boa acolhida nas ditaduras: nossa segurança nacional quis incorporar a carreira à Faculdade de Direito e reduzi-
las a uma escola de técnica de mercado.
Enquanto a Europa não conseguia explicar seu eclipse e dominavam as respostas dos iluminados como
Hitler, Mussolini, Dollfuss, Oliveira Salazar, Pétain ou Franco, os Estados Unidos estavam na crista da onda:
choviam capitais, milhões de imigrantes europeus, suas cidades cresciam de modo incontrolável, o melting pot
era mais pot que melting, a especulação financeira alcançava o nível de um verdadeiro orgasmo econômico.
Tudo isso criava problemas, mas era encarado com o otimismo próprio de quem ganhou na loteria.
Eram os loucos anos 20, com seu fundo de charleston e fonógrafo. Os estadunidenses que se consideravam
autênticos descendentes do Mayflower sentiam-se invadidos pelos imigrantes. Haviam proibido a maconha para
reafirmar seu puritanismo diante dos mexicanos, mas agora lhes chegava a cultura da taverna pela mão dos
católicos e luteranos. Para reafirmar sua supremacia cultural puritana, empreenderam uma cruzada contra o
álcool, impulsionada por velhas loucas que irrompiam nas tavernas aos berros e que conseguiram impor uma
reforma constitucional que proibia o álcool.
Toda proibição que reduz a oferta e deixa em pé uma demanda rígida faz com que a porcaria proibida
adquira uma mais-valia que a converte em ouro e desencadeia a concorrência por sua produção e distribuição
no mercado ilícito. No caso do álcool, tanto sua produção relativamente barata como sua distribuição se
realizavam dentro do próprio território.
A contenção da oferta era necessária para manter o efeito alquímico da proibição, mas desencadeou uma
violência competitiva com altíssimo grau de corrupção do aparato punitivo e político, provocando uma
simbiose letal de uma criminalidade astuta e violenta nunca vista antes.
Esse fenômeno dos anos 1920 foi instrutivo porque com a cocaína apelou-se a uma distribuição
internacional do trabalho: a produção e o controle da oferta, com a violência dela decorrente, ficam fora do
território do principal demandante, provocando os massacres em curso no México (40.000 mortos, decapitados
e castrados, em quatro anos) e na América Central, enquanto dentro do território do grande consumidor só se
distribui, o que é, ao mesmo tempo, a atividade menos violenta e mais rentável do tráfico. Alguns suspeitam
que ela proporcionou parte dos recursos necessários para as salvações bancárias na recente crise.
Mas voltemos aos roaring twenties e à jazz age. Era óbvio que esses problemas deviam chamar a atenção
dos sociólogos estadunidenses. Como é sabido, uma das grandes virtudes dos Estados Unidos é seu
considerável espaço de liberdade acadêmica, comprometido no pós-guerra apenas pela campanha do senador
McCarthy. No uso desse espaço, o pensamento acadêmico se separou e denunciou a ideologia que dominava
nos quadros da administração.
Por efeito da autonomia acadêmica, uma coisa foi a administração e o governo (e a Suprema Corte), que
continuavam na linha do spencerianismo racista admirado por Hitler em Mein Kampf, e outra a que ocorria nas
universidades, onde se respiravam outros ares: Franz Boas renovava a antropologia e assentava as bases do
culturalismo, que deixava de lado os pretensos naturalismos biologistas e criava a escola em que se destacariam
Margaret Mead, Ruth Benedict e Clyde Kluckhohn. Este último chegou a escrever que nossas crenças mais
profundas e nossas convicções mais caras podem ser, inclusive, a expressão de um provincianismo inconsciente.
Foi nesse clima que a questão criminal começou a ser estudada sociologicamente, a trabalhar com
investigação de campo, a perguntar o que condiciona o delito na sociedade. Desse modo, com a passagem do
primado da sociologia da Europa para os Estados Unidos teve início uma nova etapa da criminologia.
Pode-se dizer que, daí em diante, começamos a falar a sério, embora no princípio não completamente,
porque a criminologia arrastará durante décadas uma falha fundamental: continuará se perguntando pelo delito e
deixará de lado o funcionamento do poder punitivo. O aparato penal do Estado não entrava no campo de
investigação dessa criminologia. Embora não o legitimasse ativamente, o fazia por omissão: se não pergunto por
algo é porque creio que funciona bem.
Se bem que seja inevitável que quem pergunte sobre a etiologia social do delito em algum momento se
depare com o próprio aparato punitivo como reprodutor de boa parte do fenômeno, esse era um caminho que
ainda devia ser trilhado. Foi esta a função que a criminologia etiológico-social cumpriu.
Além de sepultar a carga de racismo manifesto de seu antecessor, encarou o problema pela via adequada e
foi o passo necessário para chegar ao que hoje parece quase evidente: não se pode explicar o delito sem analisar
o aparato de poder que decide o que define e o que reprime como delito.
Devido a essa omissão, as colocações da primeira etapa da criminologia sociológica, que se estendem até as
décadas de sessenta e setenta do século passado, são um tanto ingênuas e até simplistas, mas criaram todo um
arsenal conceitual sem o qual não teria sido possível a etapa posterior.
Esses sociólogos estadunidenses continuavam perguntando, desde 1920 até final dos anos 1970, pela
etiologia do crime, ou, dito mais simplesmente, pelas causas do delito. Esclareço que não se deve entender
causas em sentido literal, porque a sociologia, a despeito de Quetelet, não é a física, mas a expressão vale só
por gráfica.
Nessa busca por causas, fatores, correlações ou como se queira chamar, eles se dividiram, concentrando sua
atenção em cinco diferentes fontes: 1) na desorganização social; 2) na associação diferencial; 3) no controle; 4) na
tensão; e 5) no conflito. Desse modo, abriram-se cinco grandes correntes nessa etapa da criminologia sociológica.
Tudo isso parece muito complicado, mas não o é em absoluto. Na verdade, esta criminologia sociológica
elaborou conceitos que circulam em qualquer mesa de bar onde alguém pergunte pelas causas do delito e se
manifeste com certo senso comum, a partir da ingenuidade de desconhecer o papel do próprio aparato
repressivo.
Confesso que devo conter o riso quando escuto, em conversas de depois do almoço, alguém lançar essas
teorias para aqueles que nem suspeitam que houve quem as embrulhassem para presente, com todo o arsenal
do vocabulário sociológico. Eu era pequeno quando escutava os gorilas afirmarem que a invasão de cabecitas
negras[7] à cidade havia desorganizado tudo. Embora certamente com um senso político mais democrático, esta é
a essência da teoria ecológica da Escola de Chicago dos anos 1920 e 1930.
Quem não ouviu alguém afirmar que o delito juvenil obedece à falha da família, da escola etc., a
conhecida falta de educação? Estas são as teorias do controle. Outros há que na sobremesa afirmem que ela se cria
na favela,onde há narcotraficantes e delinquentes. É isso que, no fundo, se respira – um pouco mais
sofisticadamente – na teoria da associação diferencial.
Não falta aquele que denuncia que a TV mostra riquezas fáceis, êxitos súbitos, ídolos surgidos da noite
para o dia e sem maior esforço, adorados por mulheres bonitas, oferece automóveis luzidios, quando estes
objetos não estão ao alcance da grande maioria das pessoas. É esta a essência das teorias da tensão. Por último,
haverá alguém que observe que reina um individualismo em que cada um atira para seu lado, que todos são grupos
de interesses, que se chocam e que matam entre eles. Não é muito diferente a base sobre a qual foram elaboradas
as teorias do conflito.
Todavia, todas essas opiniões do senso comum, que a criminologia sociológica sofisticou entre 1920 e 1970,
não são incompatíveis. Os convivas da mesa de depois do almoço ou do bar discutem, mas, na realidade, se
sabem escutar um ao outro, não terminarão em uma discussão aberta, e até não faltará quem pretenda
compatibilizar as opiniões com um certo assentimento geral.
O que é que permite compatibilizar essas opiniões? Se pensarmos um pouco, veremos que é o fundo
comum de confiança em que a sociedade é capaz de melhorar e superar esses fatores ou causas. É a opinião de
que temos que ir para frente, que Fulano, Beltrano ou Cicrano são uns corruptos que têm de ser afastados, mas que,
no final, podemos ter uma sociedade melhor.
Se os taxistas de Buenos Aires são, em sua maioria, razoáveis – pelo que lhes peço perdão pelo que se
segue, pois não é nem de longe a minha intenção fabricar um estereótipo –, o certo é que, com certa
frequência, nos vemos obrigados a suportar que alguns de seus companheiros que escutam rádio nos
atormentem com frases do tipo “a única saída é a mão pesada, que se necessita de uma mão forte, que há que se
colocar ordem dando porrada, metendo bala, que na ditadura não aconteciam essas coisas, que não se pode encher o
país de bolivianos” e outros conceitos politológicos semelhantes.
Bem. Suponhamos que o taxista, com esse discurso, se junte à conversa de bar e coloque sua visão para o
grupo. Os que vinham discutindo até então, se bem com diferente grau de convicção, lhe responderão: Você
está louco! Depois acabam matando todos nós, não aconteciam porque você não sabia, não, eu não quero voltar à
ditadura não, eles ficam com as mãos livres e atiram em qualquer um. Não, isso tampouco é vida. E seguindo adiante
na conversa, começarão a discutir a corrupção policial.
Assombroso! Os companheiros de bar ou da mesa de depois do almoço terão percorrido o caminho da
criminologia sociológica do século XX! A intuição os terá levado até aquilo que a sociologia demorou mais de
quarenta anos para descobrir!
Os da primeira discussão se movimentaram dentro do esquema de que a sociedade pode avançar e,
removendo obstáculos, pode superar as causas do delito. No fundo, todos admitiriam que se pode melhorar
aqueles que sofrem esses fatores e trazê-los junto com o resto. Talvez sem sabê-lo, estão postulando um
conceito pouco claro, ou não técnico, do modelo de Estado social.
O taxista fascista (insisto, não me queiram mal os taxistas, mas reconheçam que têm alguns companheiros
assim; não são os únicos, todos nós os temos), chega e rompe o esquema. Por que? O que ele propõe?
Também intuitiva e confusamente, ele está propondo um modelo de Estado diferente, no qual uma autoridade
vertical não discuta e sim faça que cada um permaneça em seu lugar e não incomode, mediante um exercício
ilimitado do poder repressivo. Isso não é mais nem menos que o modelo do Estado policial.
O que aqueles que o rebatem terminam colocando em discussão? A crítica ao aparato do poder repressivo.
Fizeram todo o trajeto e, incitados pelo taxista, chegaram por intuição à criminologia dos anos 1970.
A isso que eu queria chegar. Não duvidem, embora não tenhamos nos dado conta, a discussão é política.
Os sociólogos desse período identificavam-se, preparavam ou andavam ao redor do populismo estadunidense,
d o New Deal de Franklin Delano Roosevelt, de um modelo de welfare State, de estado social. Estavam
confrontados com o modelo de Estado policial, com os afro-americanos iguais mas separados (como havia dito a
Suprema Corte), supremacia branca, Ku Klux Klan, patriarcalismo, cadeira elétrica, e todo o pró-nazismo desses
anos, Henry Ford, Charles Lindbergh etc.
Passou o tempo e a criminologia seguiu o curso que iremos vendo, mas convém advertir desde agora que
o debate de fundo – com epicentro nos Estados Unidos e mais evidente na atualidade – continua sendo entre
dois modelos de Estado: o social, ou inclusivo, e o policial, ou excludente. This is the question.
Voltemos, porém, a esse período para ver mais de perto o que cada uma das cinco correntes mencionadas
pôs a descoberto e extrair os elementos que nos permitem compreender o curso posterior.
Ilustração 13

21. Desorganização, associação diferencial e controle


Como os maiores conflitos produzidos pela súbita explosão econômica aconteciam nas cidades e nelas se
tinha uma sensação geral de desorganização, era natural que os pesquisadores sociais racionais centrassem sua
atenção na sociologia urbana. Foi isso o que fez o Instituto de Sociologia da Universidade de Chicago, nas
primeiras décadas do século passado. A cidade era ideal, pois Chicago havia passado de quatro mil para três
milhões de habitantes em um século.
Nós, que vivemos em cidades grandes, já escutamos alguma vez essa declaração de que quero ir morar
tranquilo no campo. Algo parecido acontece com a tônica que os de Chicago tomaram de Charles Cooley, que
era professor de Michigan.
Para atribuir os problemas, entre eles a criminalidade, a algo que se desorganiza, deve-se pressupor que
antes algo estava organizado. Pois bem, para Cooley, o organizado era a vida provinciana. Assim, diz-se que a
marca registrada da escola era a nostalgia da sociedade de pequeno contorno.
Todavia, Cooley trouxe alguns conceitos que até hoje vigoram, como a distinção entre grupos primários e
secundários. Os grupos primários eram, para este autor, os de infância e formação, da família, dos velhos do
povoado etc., ao passo que os secundários eram as instituições. A diferença entre eles centra-se no tratamento,
que nos grupos primários é personalizado e, nos secundários, despersonalizado.
Essa diferença fundamental é deixada de lado quando se pretende que um grupo secundário substitui um
primário (que o internato ou o asilo substitua a família ou que o juiz de menores seja o pai). O pai e a mãe, se
não estão loucos, devem dar a cada filho um tratamento conforme suas características, necessidades, virtudes e
carências, enquanto que, no plano institucional, o princípio elementar da igualdade impede, em boa medida,
essas distinções.
Outro conceito trazido por Cooley foi o de papéis mestres. Na sociedade há certos papéis que condicionam
todos os demais, como o do médico, o do sacerdote etc. O pedreiro ou o carpinteiro são bastante livres para
farrear ou travestir-se se isso lhes aprouver, mas a mesma coisa não acontece com o sacerdote ou o dirigente.
Algo parecido acontece com os papéis associados ao poder repressivo, como o policial, o juiz e também o
próprio criminalizado. A estigmatização que se segue à criminalização obriga este último, em boa medida, a
assumir seu papel desviado. Trata-se de algo parecido a um grande teatro em que alguns personagens têm seu
papel muito marcado, enquanto outros podem afastar-se mais criativamente do roteiro.
A figura mais destacada da primeira Escola de Chicago foi William I. Thomas, que revolucionou a
metodologia sociológica numa investigação sobre O camponês polonês na Europa e na América, levada a cabo
juntamente com o polonês Znaniecki, porque incorporou cartas, autobiografias e outros materiais até então
considerados cientificamente heterodoxos. Thomas dirigiu a escola até 1920, quando foi expulso da universidade
porque o encontraram em um hotel com uma mulher casada. Pelo visto, as autoridades acadêmicas
consideravam que os sociólogos estavam proibidos de manter relações sexuais extra-código. Para nós, a
contribuição mais importante desse sociólogo é o chamado teorema de Thomas, segundo o qual se os homens
definem as situações como reais, suas consequências são reais. Isso tem uma imensa validade em todas as ordens
sociais: é conhecida a experiência de Orson Welles em Nova York, em 1938, ao anunciar a presença de
marcianos pelo rádio. O mesmo acontece com a criminalidade: pouco importa sua frequência ou gravidade, mas
se se afirma que são altas se reclamará mais repressão, os políticos concordarão com isso e a realidade
repressiva será como se a gravidade fosse real.
Depois da aventura sexual de Thomas, seus colegas se aborreceram com a universidade e o elegeram
presidente da Associação Americana de Sociologia; Robert Park e Ernest Burgess continuaram na Escola de
Chicago. Park – que havia estudado com Simmel, na Alemanha – foi quem aplicou à cidade os conceitos
tomados da ecologia (simbiose, invasão, domínio, sucessão) para explicar os conflitos e a coexistência de
diferentes grupos humanos em um território limitado, razão pela qual também se conhece esse grupo como
escola ecológica de Chicago.
Burgess dividiu a cidade em cinco zonas concêntricas: I (a central, com atividade comercial intensa), II (o
círculo seguinte tende a ser invadido pelo anterior e por isso as moradias são precárias e ocupadas pelos recém-
chegados), III (a zona ocupada pelos operários que fogem da anterior), IV (a residencial) e V (a dos subúrbios
ou comutação).
Ele assinalava que a zona de desorganização permanente era a II, devido à contínua invasão dos imigrantes
que logo passavam à III. Não encontrava diferenças étnicas, pois a transferência para a III não trazia consigo a
criminalidade.
No geral, a Escola de Chicago representou um notável progresso, em particular por seu antirracismo e por
inaugurar uma sociologia criminal urbana muito mais razoável. É claro que teve limitações importantes, uma vez
que a criminalidade que observava era só a dos pobres e a zonificação de Burgess é própria de uma sociedade
muito dinâmica, em crescimento permanente, mas não poderia explicar os fenômenos de zonas precárias das
grandes concentrações urbanas da atualidade.
Por outro lado, a maior criminalização dos jovens de sua zona II não leva em conta que esta se achava sob
maior controle policial (os recém-chegados são sempre suspeitos) e a precariedade habitacional expõe mais a
criminalização (os jovens de classe média não têm necessidade de fumar maconha fora de casa).
Ilustração 14

Erwin Sutherland, professor da Universidade de Indiana, opôs-se à tese chicaguiana da desorganização,


afirmando que não era isso e sim que se tratava de uma organização diferente. A ideia central de Sutherland era
que o delito é uma conduta aprendida e que se reproduz, como qualquer ensinamento, por efeito de contatos
com definições favoráveis e da aprendizagem dos métodos.
Embora Sutherland não se refira aos crimes de Estado, o certo é que, quando nos perguntamos como é
possível que as pessoas treinadas precisamente para evitá-las cometam atrocidades, nos damos conta de que isso
responde a um processo de aprendizagem em uma agência que, por autonomizar-se do controle político,
encerra uma grande quantidade de definições favoráveis ao delito. É claro que isso aconteceu com a introdução
dos discursos importados do colonialismo francês, a partir dos anos 50 do século passado, quando nossos
círculos oficiais começaram a receber definições favoráveis a condutas criminosas.
Sutherland introduziu essa tese na edição de sua Criminology, de 1939, e a modificou na de 1947, com seu
princípio da associação diferencial: uma pessoa se torna delinquente por efeito de um excesso de definições favoráveis à
violação da lei, que predominam sobre as definições desfavoráveis a essa violação.
Com isso, ele pretendia explicar a criminalidade de forma mais ampla do que a Escola de Chicago, porque
os de Chicago explicavam apenas os delitos dos pobres, ao passo que Sutherland deixou claro que a
criminalidade perpassa toda a escala social e que há tanto delitos de pobres como de ricos e poderosos. Assim,
a única cara visível dos prisioneiros deixa de ser a dos delinquentes e, como era de se esperar, pouco depois,
em 1949, Sutherland publicou um estudo sobre o crime do colarinho branco (White Collar Crime) que se tornou
um clássico da criminologia e cuja dinâmica não era antes compreendida.
Se bem que Sutherland não chegou a incorporar o poder punitivo à criminologia, deu um passo
fundamental e deixou a questão no limite, pois o delito do colarinho branco (grandes delitos contra o
patrimônio, quebras fraudulentas etc.) deixava a descoberto a seletividade da punição. Era demasiado claro que
os poderosos raramente iam para a cadeia.
Como colocação geral, pode-se observar que o ser humano ficava demasiado preso ao meio: a leitura de
Sutherland – e ainda que o matizasse bastante – não deixava de provocar a impressão de que o bairro causava a
delinquência dos pobres e o clube a dos ricos.
A associação diferencial levou, de imediato, outros sociólogos a pensar que não eram o bairro e o club, mas
sim que havia outros agrupamentos que treinavam e, estudando as gangues ou os bandos, Cloward e Ohlin
afirmaram, nos anos seguintes, que se deviam à formação de subculturas. Segundo eles, os que têm menos
oportunidades sociais se agrupam e se submetem a uma aprendizagem diferencial. Dito mais claramente, as
condições sociais desfavoráveis levariam à marginalização e esta favoreceria os agrupamentos de semelhantes
com definições favoráveis ao delito, ou seja, uma variável cultural ou subcultura.
Esta teoria subcultural pressupõe a existência de uma cultura dominante, o que não é simples em
sociedades plurais e menos ainda quando as condições sociais desfavoráveis são as da maioria, como em
muitíssimos países periféricos.
Em 1955, Albert K. Cohen expôs uma nova teoria da subcultura criminal, afirmando que as crianças e
jovens dos estratos desfavorecidos, como não podiam ajustar sua conduta à cultura de classe média que lhes era
ensinada nas escolas, reagiam, rechaçando-a e invertendo os valores da classe média. Cabe observar que esta
tese negava toda criatividade valorativa às classes mais desfavorecidas, pois se limitava a inverter os valores da
classe média.
Essas teorias subculturais receberam uma resposta crítica por parte de dois sociólogos – Gresham Sykes e
David Matza – que, em 1957, publicaram um artigo na American Sociological Review, que marca um momento
muito importante na criminologia contemporânea: Técnicas de neutralização: uma teoria da delinquência.
Se bem que Sykes e Matza, nos anos 1950, tinham em vista os jovens rebeldes sem causa (com filme
póstumo de James Dean e a direção de Nicholas Ray e com música de fundo e movimento de quadris de Elvis
Presley), o certo é que sua tese voltou a primeiro plano quando começamos a nos fixar nos crimes de massa
dos Estados, porque a teoria das técnicas de neutralização parece ter sido feita pensando nos genocidas.
Voltaremos a esse ponto mais adiante, mas vocês podem meditar sobre isso desde agora. Pelo momento,
vejamos em que ele consiste.
A tese central de Sykes e Matza é que os jovens delinquentes não negam nem invertem os valores
dominantes, e sim aprendem a neutralizá-los. Seria a consequência de receber um excesso de definições que
ampliam, de modo inadmissível, as causas de justificação e de se livrar da culpa. Não se trata de que eles
racionalizam atos perversos, porque a racionalização é posterior ao fato, ocorre quando digo uma mentira e
depois tento me justificar. Não, as técnicas de neutralização são anteriores ao ato, são algo que se aprende antes e
permitem realizar o ato na convicção de que se está justificado ou não se é culpado.
Sykes e Matza revelam os seguintes cinco tipos de técnicas de neutralização:

1. Negação da própria responsabilidade (São as circunstâncias que me fazem assim, eu não o escolhi, minha mãe é
castradora, meu velho é rígido,a sociedade me faz assim).
2. Negação do dano (Não me compadeço de ninguém, têm muita mais grana, não é tão grave, havia ofendido a
minha velha).
3. Negação da vítima (Foi ele que me agrediu, eu só me defendi, são uns negros, uns maricas, uns favelados etc.).
4. Condenação dos condenadores (A polícia é corrupta, na escola me tratam mal, meu velho é intolerante, os juízes
são uns hipócritas).
5. Apelo a lealdades superiores (Não posso deixar os companheiro sozinhos, não posso me afastar deles agora, não
posso faltar aos amigos, tenho que atender aos cumpinchas).

Vamos pensando se essas técnicas não são mais próprias dos genocidas que dos rebeldes sem causa. Porém,
avançando nos anos 50 e 60 do século passado, é natural que, se se pensa que o delito é uma conduta
aprendida, cabe perguntar por que é mais facilmente aprendida por uns do que por outros. Isso é o que
tentaram responder as chamadas teorias do controle, centradas na família e na escola.
Não há dúvida de que essas instituições e as primeiras vivências têm muitíssima importância no curso
posterior, mas isso pertence mais ao campo da psicologia do que ao da sociologia, que antes teria de se ocupar
das condições sociais desfavoráveis a seu bom funcionamento. Por isso, não nos ocuparemos em detalhe dessas
teorias, que são muitas e, embora isto não seja verdade a respeito de todas, o certo é que costumam deixar um
sabor conservador e nem sempre liberal.
Ao prescindir de outros fatores sociais, elas provocam uma sensação estranha, pois parecem sugerir pistas
técnicas para provocar conformismo, consenso, homogeneização, o que nem sempre é saudável, porque, ao
não se ocupar da maior parte dos problemas sociais, dariam por certo que a sociedade funciona muito bem e
que a única coisa que há que se fazer é domesticar prematuramente as pessoas.
Se o conformismo fosse o ideal e houvesse um modo infalível de obtê-lo, a humanidade ficaria órfã de
inovadores em todas as áreas e o delito, com certeza, não desapareceria, pois o conformismo com o poder que
dirige a punição deixaria os crimes do poder impunes.
22. Sistêmicos e conflitivistas
Das cinco correntes em que se dividiu a criminologia sociológica estadunidense antes de deter-se no
próprio poder punitivo, conforme os condicionamentos em que cada uma se detinha, sobrevoamos as três
primeiras (desorganização, organização diferente e controle) e nos restam as duas últimas: tensão social e conflito.
Estas não apenas disputam entre elas a etiologia social do delito, como também o próprio conceito da
sociedade. Enquanto as teses sistêmicas concebem a delinquência como resultado de tensões provocadas dentro
de um sistema, as conflitivistas a explicam como resultado do permanente conflito entre grupos sociais. Aqui se
localiza o enfrentamento entre as duas diferentes ideias de sociedade: para uns, a sociedade é um sistema que
abarca todas suas partes, as relações entre estas e as relações do conjunto com o meio externo, enquanto que
para outros é um conjunto de grupos em conflito que estabelecem, em determinadas ocasiões, as regras de
jogo para resolvê-los, que lhe atribuem uma aparente estabilidade, mas nunca configuram um sistema.
Como não há forma de verificar que a sociedade seja um sistema ou que se esgote nas regras comuns para
decidir os conflitos entre grupos, acreditamos que tanto a concepção sistêmica quanto a conflitivista são algo
assim como armários de cozinha nos quais se colocam os copos, os pratos, as taças e os talheres (que, em
sociologia, seriam os fatos empiricamente observados) e como os utensílios da cozinha não podem ficar
espalhados pelo quarto de dormir e devem ser guardados em algum lugar, o sociólogo deve escolher o tipo de
armário que prefere.
A escolha não é aleatória, pois os sistêmicos têm problemas para explicar porque a sociedade muda,
enquanto os conflitivistas os têm para explicar porque há componentes que são mais estáveis, visto que nem
todos os utensílios cabem com comodidade em nenhum dos armários.
Dentro dos sistêmicos há os mais ou menos radicais e, por certo, os mais extremistas se aproximam quase
até se identificar com o velho organicismo. Não obstante, não se pode deduzir daí que todos os sistêmicos
sejam reacionários e os conflitivistas progressistas, pois os houve para todos os gostos.
O sociólogo sistêmico mais interessante para a criminologia foi Robert K. Merton, que fez época na
sociologia estadunidense a partir de sua obra mais difundida (Social theory and social structure), publicada em
1949.
Merton explica o delito como resultado de uma desproporção entre as metas sociais e os meios para
alcançá-las. Se a meta social é a riqueza, os meios para alcançá-la são poucos e, por conseguinte, gera-se uma
tensão porque nem todos podem chegar a ela. É como um concurso: à medida que as provas vão se
sucedendo, mais concorrentes vão sendo excluídos, até que apenas uns poucos chegam ao final. Ele denomina
essa desproporção de anomia (palavra tomada de Durkheim, embora para este significasse outra coisa).
Evidentemente, nem todos os que ficam fora de concurso delinquem, e por isso Merton afirma a
existência de cinco distintos tipos de adaptação individual, segundo a aceitação ou o recusa das metas ou dos
meios institucionais:

1. As metas e os meios são aceitos (conformismo).


2. As metas são aceitas e os meios rechaçados (inovação).
3. As metas são rechaçadas e os meios são aceitos (ritualismo).
4. As metas e os meios são rechaçados (retraimento).
5. As metas e os meios são rechaçados, mas são propostos novas metas e novos meios (rebelião).

De acordo com essa esquema, o conformista é o socialmente adaptado, o ritualista identifica-se com o
burocrata, o retraído é o vadio, o mendigo, o alcoólatra etc., e o rebelde é o renovador social, que quer mudar a
estrutura. O inovador é a categoria mertoniana que abrange vários personagens, como o inventor, mas ao qual
também correspondem os chamados delinquentes, ou seja, os que escolhem caminhos que não são os
institucionais para chegar à meta. Segundo Merton, isso explica porque o delito não é produto da simples
limitação de meios para alcançar riqueza nem da exaltação isolada das metas pecuniárias, mas é necessária a
combinação de ambas para que se produza o desvio.
A tese de Merton merece críticas, como a de não conseguir explicar o delito do colarinho branco, de não
levar em conta, aparentemente, a delinquência grupal e, sobretudo, pela dificuldade em definir as metas
comuns em sociedades plurais. De qualquer maneira, porém, não se pode ignorar que trouxe uma série de
conceitos que até hoje iluminam a criminologia.
Assim, partindo do teorema de Thomas, ele anunciou a ideia da profecía que se autorrealiza (espalha-se o
boato de que o banco está quebrando e aí todos os correntistas retiram suas poupanças, e o banco termina
quabrando). Outra contribuição é a ideia de alquimia moral, que faz que o que é positivo e virtuoso para o in-
group resulte negativo e vicioso no out-group (é bom que os jovens estudem para progredir, mas é mau que os
presos estudem, porque o fazem para delinquir melhor).
Uma contribuição interessantíssima de Merton, em especial quando incorporada ao sistema penal, é a ideia
de incapacidade adestrada e a de psicose profissional, sintetizadas no adestramento burocrático – e profissional em
geral – que proporciona um modo de ver que é também um modo de não ver. Em outras palavras, enfocar um
objeto é algo que pressupõe, ao mesmo tempo, o desenfoque de outro objeto: o gorila invisível dos modernos
psicólogos de Harvard.
Isso explicará, em seguida, algumas características kafkianas nos segmentos do sistema penal. Mostra como
a adesão às regras termina convertendo um meio em um fim e deslocando as metas, com o quê o resultado
deixa de importar, sempre que as formas sejam observadas (se não há certificado de disfunção, a presença do
cadáver não tem importância).
Há outros aportes não menos interessantes por sua utilidade na análise do sistema penal, como o
tratamento despersonalizado da clientela do burocrata, que alcança limites insólitos no sistema penal, ou a ideia de
grupo de referência, que é adotado como modelo, como quando a polícia adota o modelo militar e acaba que
alguém assume o papel de Rambo, ou quando a classe média adota como modelo a classe alta (é a ridiculização
de Arturo Jauretche, em El Medio Pelo en la Sociedad Argentina)[8].
Se bem que Merton tenha sido um sociólogo sistêmico, o foi em uma medida muito prudente. O modelo
de armário que escolheu para colocar os utensílios da cozinha era um tanto modular, isto é, à medida que tinha
novas panelas, o ampliava para poder guardá-las. Porém, nem todos os sistêmicos foram iguais, porque não
faltam aqueles que, quando as panelas não cabem, as tiram ou as amassam para enfiá-las à força.
Com efeito, há toda uma sociologia que defende uma ditadura do sistema. Ela parte da descrição de um
sistema (para esses sociólogos, essa é a sociedade), e, a partir daí, deduz tudo o que é necessário para mantê-lo
em equilíbrio. Em geral, essa sociologia não se ocupa muito da criminologia de forma expressa, podemos
mesmo dizer que quase nada, porque se limita a dar por certo que o poder repressivo faz parte do sistema,
sendo necessário para manter seu equilíbrio. Seus maiores expoentes foram Talcott Parsons, nos Estados
Unidos, e seu discípulo alemão Niklas Luhmann. Não nos ocuparemos aqui dos detalhes dessas correntes
sociológicas, porque são muito complexos e não têm consequências criminológicas expressas, mas têm
consequências tácitas que são importantes.
Essas posições sistêmicas extremas reconduzem ao organicismo, porque definitivamente a única coisa
importante para elas é o sistema e seu equilíbrio. Porém, diferentemente do velho organicismo criminológico
positivista racista, já não lhes preocupa a etiologia do crime, mas sim unicamente o que o sistema deve fazer para
não se desequilibrar ou para se reequilibrar.
Desse modo, poder-se-ia concluir que, se a criminologia midiática cria uma realidade que gera tal pânico
na sociedade a ponto desta reclamar uma repressão enorme, esta terá de ser feita, porque é necessária para
normalizar a situação e reequilibrar o sistema. Não é por acaso que as consequências práticas das versões mais
radicais dessa teoria coincidem com o postulado por James Q. Wilson, politólogo estadunidense de extrema-
direita, que afirma ser inútil se perguntar pelas causas do delito, pois a única coisa eficaz que o Estado pode
fazer não é neutralizar essas causas, mas sim reprimir o delito. É claro que para aqueles que pretendem reduzir
o Estado a quase nada para deixar tudo nas mãos do mercado (ao estilo Reagan-Bush), o único bem que esse
cadáver insepulto do Estado deve fazer é castigar os pobres.
A teorização sistêmica acaba em uma criminologia que não responde ao paradigma etiológico legitimador
nem ao da reação social, e sim ao da pura repressão como necessidade do sistema, na medida em que seja
necessário para produzir consenso. Para Wilson, isso seria equivalente a satisfazer às exigências da publicidade
vingativa da demagogia midiática: se a opinião pública pede para prender todos os negros, devemos investir
200 bilhões de dólares anuais para fazer isso.
Cabe esclarecer que podemos criticar Parsons e Luhmann, mas eles são sociólogos, enquanto James Q.
Wilson, que não é um sistêmico, não passa de um reacionário com espaço midiático, e não creio que ele tenha
estudado ninguém muito a fundo.
O s conflitivistas são os que partem da ideia oposta de sociedade, concebendo-a como resultado dos
conflitos entre diferentes grupos que em algumas ocasiões encontram algum equilíbrio precário, mas que nunca
constitui um sistema. Seus antecedentes remontam a Marx e a Simmel, mas a primeira expressão moderna do
conflitivismo criminológico foi a do holandês Willen Bonger, que, no começo do século passado, rechaçava
todas as teses que subestimavam os fatores sociais do delito, enfrentando o positivismo e em particular
Garofalo.
Ele afirmava, de uma perspectiva marxista, que o sistema capitalista gerava miséria por inocular egoísmo
em todas as relações e por isso era o único criador do delito, tanto nas classes despossuídas quanto na
burguesia. Negava, desse modo, o pretenso caráter socialista das teses de Ferri. Rechaçou inteiramente o
biologismo criminológico e combateu frontalmente a esterilização e o racismo, o que constitui um mérito que
hoje ninguém lhe pode negar.
Afirmava que o delito resulta das condições de sobrevivência dos trabalhadores obrigados a competir
entre si, ressaltando algo sobre o qual se costuma passar por cima, inclusive por criminólogos progressistas: a
pobreza não gera mecanicamente o delito de rua, mas sim, quando se combina com o individualismo, o
racismo, as necessidades artificiais e o machismo.
Se bem que Bonger tenha sido considerado durante muitos anos o expoente da criminologia marxista, o
certo é que continuava fazendo criminologia etiológica e não chegava a criticar o próprio poder criminalizador,
razão pela qual os criminólogos marxistas mais modernos o consideram um marxista formal. Mais adiante, nos
anos 1930, foi Thorsten Sellin quem voltou ao posicionamento conflitivista, mas do ponto de vista do
pluralismo cultural que, como vimos, havia sido uma determinante da proibição acoólica.
Nos anos 1950, George B. Vold defendeu a teoria do conflito grupal, concebendo a sociedade como
configurada por grupos de interesses que competem entre si; na medida em que essa competição se acentua,
reforça-se a solidariedade do grupo, mas essas lutas também determinam a dinâmica social. O processo de
legislar, violar a lei e impô-la policialmente responderia, no fundo, à dinâmica dos conflitos entre grupos, na
qual perdem aqueles que não têm poder suficiente para impor seus interesses.
Vold afirmava, dessa perspectiva, que boa parte do delito é produto dos conflitos intergrupais. Nesses
mesmos anos, essas teses receberam, da sociologia geral, o impacto da obra de Ralf Dahrendorf sobre o conflito
de classes na sociedade industrial.
As teorias do conflito não podiam deixar de ir se aproximando da crítica ao poder punitivo, de modo que
muitas delas fazem a ponte entre esta criminologia etiológica e a que veremos na sequência. Por outro lado,
quando elas se mantêm dentro da criminologia etiológica, à medida que encontram a etiologia em planos de
análise social mais macro, é mais difícil deduzir medidas concretas de política criminológica, pois estas
dependeriam de reformas estruturais muito profundas. Ainda que pareça mentira, a regra parece ser que,
quanto mais radical é uma crítica ao poder social, menor é a possibilidade de modificá-lo de imediato e, por
conseguinte, de incomodá-lo. Daí que os que o exercem as consideram mais inofensivas.
Veremos, a seguir, o momento em que se produz aquilo que se tornava inevitável como resultado desse
trajeto: a incorporação do aparato de poder punitivo à análise criminológica.

Ilustração 15
23. A prateleira caiu!
Desde os anos 1930, a sociologia estadunidense vinha demolindo a visão convencional da sociedade. Os
surveys, como Middletown (Robert S. Lynd e Helen Lynd) e Yankee City (William Lloyd Warner) mostraram a
estratificação social. Samuel Stouffer e Paul Lazarsfeld desnudaram a manipulação da opinião e o efeito da
radiotelefonia, que de brincadeira de criança passou a decidir a eleição de Roosevelt. O Prêmio Nobel sueco
Gunnar Myrdal, com seu American dilemma, colocava em relevo os efeitos dos preconceitos dos brancos sobre
o comportamento dos negros. As informações de Alfred C. Kinsey sobre as práticas sexuais despertaram uma
gritaria histérica sem precedentes.
Algumas contribuições da microssociologia seguiam pelo mesmo caminho. William Foote White na
sociedade da esquina, metido no meio de um grupo de imigrantes italianos (método do observador participante)
colocou em evidência, em 1947, que o líder não era o mais hábil, mas sim era o mais hábil porque era o líder, o
que é importante para compreender a resistência a qualquer mudança nas agências do sistema penal (e da
política em geral: não me mude as regras do jogo, porque com estas estou ganhando e com as novas posso perder).
Na teoria sociológica geral, quem dava a tônica era Charles Wright Mills, um sociólogo difícil de classificar,
mas um bom demolidor de preconceitos. Há três obras deste autor que são únicas. Em White collar (1951), ele
descreve e ironiza a formação da classe média, próxima à classe operária, mas diferenciando-se desta em status
e prestígio. Observa que não é um grupo homogêneo, mas sim uma pirâmide superposta à outra pirâmide. Suas
ironias são válidas para boa parte das nossas classes médias latino-americanas. Outro livro importante é, sem
dúvida, The power elite, no qual ele procura estabelecer quem tem o poder na sociedade estadunidense e
observa, visionariamente, que uma verticalização e uma burocratização iam correspondendo a uma sociedade
de massas e não de públicos. Ele fazia notar que as associações voluntárias desapareciam e os meios de
comunicação de massa manipulavam a opinião pública. Em um terceiro – A imaginação sociológica (1959) –,
zombava da sociologia sistêmica de Parsons, chamando-a de a grande teoria, e a acusava de escamotear o
problema do poder com uma linguagem obscura (dizia que ainda era necessário traduzi-lo para o inglês).
Como vemos, é inquestionável que as coisas não surgem do nada, e que as palavras da academia têm uma
continuidade e nunca são obra de alguém que as inventou, enquanto se enfeitava ou se maquiava.
Nesse clima, criado pela sociologia geral ao longo de mais de vinte anos, a criminologia sociológica não
podia continuar se perguntando pelas causas do delito sem reparar no poder punitivo.
Até esse momento, ninguém havia analisado o exercício do poder repressivo. O delito podia ser atribuído
a muitos fatores, inclusive ao próprio poder, mas ninguém se ocupava do sistema penal em particular. Não
obstante, não se podia continuar avançando sem o levar em consideração e, ao fazê-lo, podemos dizer que a
prateleira caiu.
A queda da prateleira é algo que, em termos científicos, foi batizado há alguns anos por Kuhn, de um
modo mais elegante: mudança de paradigma. Significa que todas as taças caíram e se misturaram com outras e,
por conseguinte, devem ser recolocadas em uma nova ordem e com umas tantas taças novas, em um novo
armário. Isso é o que acontece na ciência, quando se rompe o marco dentro do qual todos pensavam e se passa
a um outro diferente, como aconteceu com Copérnico, Einstein e outros.
Foi assim que a discussão acerca da polícia, dos juízes etc., ou seja, até onde haviam chegado nossos
velhos amigos do bar, discutindo com quem queria pulso firme e bala, foi assumida pela criminologia nos anos
60 do século passado. Dado que os frequentadores habituais do bar não haviam patenteado a mudança de
paradigma, eles perderam os direitos autorais.
Desse modo, abriu-se uma nova etapa na criminologia acadêmica que, por incorporar o poder punitivo, é
chamada de criminologia da reação social, embora também possa ser chamada de criminologia crítica. Esclareço
que as denominações são discutíveis e que preferimos não perder tempo com isso.
Dentro dessa nova criminologia (da reação social ou crítica), podem distinguir-se duas correntes, às quais
se convencionou chamar de liberal e radical, respectivamente. Vejamos a que essa diversificação responde.
Toda a criminologia da reação social, pelo mero fato de introduzir em seu campo o sistema penal e o
poder punitivo, não pode senão criticá-lo (por isso também a chamamos crítica).
Pois bem. A crítica ao sistema penal é uma crítica ao poder e, portanto, pode se situar no nível do sistema
penal (ou seja, do aparato repressivo) ou elevar-se até diferentes níveis do poder social. Posso analisar e criticar
o que a polícia, os juízes, os agentes penitenciários, os meios de comunicação etc. fazem, ou ir mais além e
analisar sua funcionalidade em relação a todo o poder social, econômico, político etc. e chegar a uma crítica do
poder em geral.
Diz-se que há uma criminologia crítica que se situa no nível dos cachorros pequenos (under dogs), que
chega no máximo nos cachorros médios (middle dogs), mas que não alcança os cachorros grandes ( top dogs).
Pois bem. Denominou-se aquela que não chega aos de cima, por certo que com um certo tom pejorativo, de
criminologia liberal e a que os alcança de criminologia radical.
Ilustração 16

Nos anos 1970, a discussão entre as duas correntes da criminologia crítica era forte, mas nas últimas
décadas, o giro brutalmente regressivo da repressão penal, especialmente nos Estados Unidos, fez com que elas
cerrassem fileiras e o enfrentamento perdeu força. Os radicais, geralmente baseados no marxismo não
institucionalizado (como a Escola de Frankfurt), afirmavam que os liberais eram reformistas, se deixavam ficar no
meio do caminho e que era preciso se chegar a uma transformação mais profunda de toda a sociedade.
O certo é que a criminologia radical, ao elevar sua crítica a essas alturas, não deixava espaço para uma
política criminológica de menor alcance e, em suas expressões mais extremas, levava à quase impotência,
porque havia que esperar a grande mudança, a revolução, para atirar tudo pela janela (e, de quebra, a própria
janela também).
Em tempos em que muitos acreditavam que a revolução estava ao dobrar a esquina, podia se sustentar
uma posição semelhante, mas quando os fatos demonstraram que o que estava por vir era uma reconstrução
brutal do Estado policial, essas posições tiveram de ceder à prudência. Por outra parte, a chamada criminologia
liberal tampouco era tão ineficaz como pensavam alguns radicais e confesso minha própria experiência a esse
respeito.
Em 1979, um extraordinário pensador italiano que era catedrático na Alemanha, Alessandro Baratta, cujo
desaparecimento deixou um vazio muito difícil de ser preenchido no pensamento criminológico, publicou um
artigo em que demonstrava que a sociologia anterior à crítica e a sociologia liberal bastavam para demolir todos
os discursos correntes com que o direito penal legitimava o poder punitivo de forma racional.
Esse artigo me impressionou muito, porque achei que podia demolir todo o direito penal com
consequências imprevisíveis para as garantias individuais, acerca das quais, por outro lado, acabava de escrever
cinco volumes inatacáveis. Tentei responder-lhe, naturalmente sem êxito, do que me convenci pouco depois.
Com efeito, a criminologia liberal-reformista, de meio caminho e tudo mais – bastava para deslegitimar o
poder punitivo de forma irreversível. Essa criminologia mostrou que o poder punitivo é altamente seletivo, que
não respeita a igualdade, que se fundamenta no preconceito de unidade valorativa social, que não persegue
atos e sim pessoas, que seleciona conforme estereótipos etc.
Por certo que isso não é nada inofensivo para o poder, porque embora a crítica não chegue a níveis mais
altos, deslegitima um instrumento necessário para seu exercício; não arremessa a janela, mas a deixa bastante
desmantelada.
A criminologia da reação social chegou à América Latina nos anos 1970 e foi difundida por duas
distinguidas criminólogas venezuelanas: Lola Aniyar de Castro, a partir da Universidade de Zulia, e Rosa del
Olmo, da Universidade Central de Caracas. Em nosso país, seus seguidores se viram forçados a tomar o caminho
do exílio durante a ditadura, entre os quais Roberto Bergalli, que se fixou em Barcelona, e Luis Marcó do Pont
e Juan Pegoraro, no México. Durante os anos sangrentos essa criminologia só era comentada em nosso meio em
pequenos círculos, enquanto as cátedras continuavam enlanguescendo no canto da Faculdade de Direito (na de
Buenos Aires, com o mais puro positivismo perigosista).
Na atualidade, passados os anos, vemos que a prateleira caiu para sempre, que a criminologia atual não
pode evitar a análise do sistema penal e do poder punitivo em geral e, como dissemos, o confronto entre as
duas correntes criminológicas se atenuou muito, embora mais por causa do pânico do que do amor. O modelo
Reagan-Thatcher-Bush e seu nefasto festival do mercado tiveram esse efeito paradoxal.

24. A criminologia crítica liberal e a psicologia social


A chamada criminologia liberal foi anunciada desde os anos 1950, em particular com um trabalho de Edwin
Lemert que destacava ser o desvio primário, por conta do qual se impõe uma pena, seguido em geral por um
desvio secundário, pior que o anterior, causado pela mesma intervenção punitiva e que condiciona as chamadas
carreiras criminosas.
Lemert escreveu textualmemente: O desvio secundário constitui conduta desviada ou papéis sociais baseados
nele que chegam a ser meios de defesa, ataque ou adaptação aos problemas manifestos ou ocultos criados pela reação
da sociedade ao desvio primário. Com efeito, as “causas” originais do desvio desaparecem e cedem lugar à
importância central das reações de desaprovação, degradação e isolamento de parte da sociedade.
Essa criminologia liberal não estava isolada da sociologia geral; antes, procedia diretamente dela e, em
particular, de duas grandes influências que ela havia recebido: por um lado, da psicologia social, com o
interacionismo simbólico; por outro, da filosofia, com a fenomenologia de Husserl. Comecemos pór nos
aproximar do primeiro.
O interacionismo simbólico baseava-se nas ideias de George Mead, segundo as quais todos temos um mim
que se vai formando pelas exigências de papéis dos demais, e um eu que é o que nós trazemos.
O sociólogo mais importante dessa corrente foi Erving Goffman, que o explicou como uma dramaturgia
social.
Falemos um pouco mais claramente. Para Goffman, a sociedade funciona como um teatro, no qual há
atores, público e organizadores. Suponhamos que, por acaso, me convidem para uma conferência; há um
público e os organizadores prepararam tudo. Eu espero do público que ele se comporte como tal, que me
escutem com certa atenção etc. O público espera de mim que eu dê uma conferência mais ou menos
interessante, não muito tediosa. Tanto o público como eu esperamos dos organizadores que tudo esteja em
ordem, que não se corte a luz, que o microfone funcione etc. Todas estas esperanças (ou expectativas
recíprocas) são o que chamamos de demandas de papel.
Pois bem: se todas as demandas de papel são satisfeitas, todos nós ficamos contentes e felizes. Porém, se
me ponho a ladrar, o público se aborrece e reclama de mim; se no público há um grupo de bêbados, que grita
barbaridades, aí quem se aborrece sou eu. No primeiro caso, os organizadores explicarão ao público que
quando me convidaram não imaginavam que eu estivesse louco; no segundo caso, eles me explicarão que a
presença dos bêbados tinha sido imprevisível.
Esses episódios, que geram agressividade quando não se responde às demandas de papel, são chamados de
disrupções e nos irritamos porque, quando acontece uma disrupção, não sabemos como prosseguir, ficamos sem
roteiro.
Isso acontece em todos os atos da vida. Se nosso vizinho sai sempre com um macacão e uma caixa de
ferramentas e um dia lhe pedimos que nos ajude a fazer o automóvel dar partida e ele nos diz que sente muito,
mas que não poderia ajudar porque na realidade é o catedrático de biologia molecular da universidade, embora
disfarcemos, ficaremos desconcertados e em nosso foro íntimo, seremos agressivos, nos perguntando por que
esse aparato (ou algo pior) se veste dessa maneira e sai com uma caixa de ferramentas.
Os papéis podem ser socialmente positivos ou negativos, mas isso não importa quanto a seu
funcionamento, pois operam da mesma maneira. Geralmente, costumamos responder às demandas de papel,
para que os outros não se aborreçam e evitemos as disrupções. É isso que vai configurando nosso eu, ou seja,
em boa medida somos como os outros nos demandam que sejamos.
Quando a quem se atribui um papel negativo (ladrão, por exemplo) são formuladas as demandas de papel
correspondentes ao atribuído porque se espera que se comporte como tal, também nos aborrecemos quando
ele não as responde da forma adequada ao papel. A exemplo do que acontece com o vizinho do macacão, nos
perguntaremos porque esse sujeito assume as características de um ladrão e nos confunde.
Com esse esquema, Goffman analisou as instituições totais, que são aquelas em que a pessoa desenvolve
toda sua atividade vital, desde o momento em que se levanta até quando se deita, sejam elas manicômios,
prisões, internatos, asilos etc. Os círculos separados de trabalho, diversão e descanso se unificam e
regulamentam, não há esferas separadas da vida. A pessoa se desculturaliza, a separação entre o pessoal e o
interno é contundente. O interno deve se acostumar a pedir por favor o que na vida livre é óbvio, sofre o
efeito de cerimônias de degradação, a pessoa fica entregue a profanações verbais por parte do pessoal e, além do
mais, perde toda reserva, é invadida e controlada até mesmo nos atos mais íntimos.
A pessoa sofre ataques ao eu, ou seja, perde autonomia, fica à mercê do pessoal e de seus humores,
inclusive os hierarcas podem dar-se ao luxo de ser mais bondosos que os subalternos, assumindo a função do
rei bom e gracioso dos contos infantis.
Imaginemos, por um momento, algo muito louco: que você vive em um prédio de apartamentos que, um
belo dia, é ocupado por invasores que demolem todas as paredes divisórias, inclusive as dos banheiros, e o
obrigam a conviver com todos os outros ocupantes do edifício com os quais mantinha relações nem sempre
cordiais, sob o controle dos invasores, que os vigiam constantemente e os igualam no que é possível, porque
necessitam manter a ordem. Esta é uma imagem alucinante, um pesadelo. Pois bem, uma instituição total é mais
ou menos isso, com maior ou menor intensidade controladora.
É óbvio que no caso desse pesadelo você não aprenderia a socializar-se, que seus hábitos de vida
mudariam totalmente, que sofreria uma brutal perda de autoestima e seu objetivo dominante seria ver como
fazer para sair daí, para ir-se o mais longe possível, fugir do sonho ruim. Todo o discurso de ressocialização se
dissipa com essa investigação, e embora Goffman a tenha levado a cabo principalmente nos manicômios, ele é
transferível em grande medida à prisão.
Dentro da mesma corrente do interacionismo simbólico foi determinante um livro de Howard Becker, de
1963, Outsiders, que consolidou a teoria do etiquetamento (em inglês labeling approach). Becker trabalhou sua
pesquisa com músicos de jazz usuários de maconha e o fez com tamanho empenho que se converteu em um
virtuose do piano. Descobriu que o desvio é provocado, que há uma empresa moral que faz as regras, que não
se estudam os fabricantes das regras (empresários morais) e sim as pessoas às quais lhes é aplicada a etiqueta
que as deixa fora (outsiders). Essa rotulação coloca a pessoa em outro status, que a impede de continuar sua vida
normal: desde o não te juntes até a desqualificação em qualquer atividade competitiva da vida corrente. Foi
condicionada a ele uma carreira, conforme a etiqueta que se lhe foi colocada.
É óbvio que essa crítica representa um golpe muito forte ao poder punitivo, ao colocar em evidência a
repartição arbitrária das etiquetas e lançar dúvidas não sobre os subordinados (os cachorros de baixo) e sim
sobre os altos responsáveis do poder que decidem a legislação penal e orientam a seleção das pessoas a
criminalizar. Nem lerdos nem preguiçosos, os defensores da ordem lhe objetaram que, por se ocuparem dos
chamados delitos sem vítima (consumidores de maconha, hippies, homossexuais), trata estes e os assassinos
seriais de velhinhas do mesmo modo, porque todos seriam puras etiquetas. Nada menos exato nem mais falso
do que essa objeção.
Embora sem etiqueta não há delito, não é certo que esta cria o delito, nem Becker nem ninguém afirmou
isso. Sem contratantes também não há matrimônio, mas o matrimônio não cria os contratantes como
namorados anteriores ao ato; o testamento não cria o causador nem tampouco o mata, embora sem autor
morto de testamento não haja sucessão testamentária.
Há etiquetas que se colocam em material mais etiquetável que outro; sem dúvida, no caso dos assassinos
em série há muito material bem etiquetável, assim como entre fumantes de maconha haja pouco e entre
homossexuais ,nada, mas o certo é que isso não interessa ao etiquetamento, que o faz em uns poucos casos e
de modo arbitrário, pois nem sempre se etiqueta como homicidas os que matam: sem me deter nas execuções
sem processo, nos esquadrões da morte, nos assassinatos em massa genocidas e em outros horríveis crimes
impunes, o certo é que tampouco se etiqueta como homicídio a guerra, as mortes por poluição ambiental, as
penas de morte por erro, o fechamento de hospitais, de postos de saúde, a negligência no cuidado das estradas,
nem os fabricantes e vendedores de armas são etiquetados como cúmplices de homicídios, embora cooperem
necessariamente com eles, nem sequer quando as vendem aos dois lados em guerra ou a narcotraficantes em
luta.
Os recipientes podem conter muito, pouco ou nada de material etiquetável, mas isso é indiferente para a
distribuição arbitrária das etiquetas, que as fixa em recipientes vazios ou cheios, mas deixa de fazê-lo com
outros muito mais cheios.
Esta é a questão que nunca deve nos confundir: o que Becker prova é a arbitrariedade do etiquetamento
e isso coloca em xeque todos os argumentos com que o direito penal tenta conferir racionalidade ao poder
punitivo. Não foi à toa que o artigo de Baratta me causou tanta impressão e alarme. A minha prateleira caiu,
com certeza.
O panorama do interacionismo simbólico foi completado a partir da Grã-Bretanha por Denis Chapman,
com o livro Sociologia e o estereótipo do criminoso (1968), no qual o autor esclarece como se seleciona para
criminalizar de acordo com estereótipos que são criados como síntese dos piores preconceitos de uma
sociedade e que não respondem somente a questões de classe nem de capacidade econômica.
O conceito de estereótipo é hoje indispensável para explicar como funciona a seleção criminalizadora
policial ou judicial. No bairro, costumam chamá-lo de pinta de ladrão e é uma espécie de uniforme do outsider,
mas por causa das demandas de papel não é algo apenas externo; seu portador vai incorporando, vai se
obrigando a engolir, a tragar o personagem, assume-o à medida que responde às demandas dos outros, seu mim
vai sendo como os outros o veem, é como o estereótipo respectivo e, por conseguinte, carrega um estigma que
condiciona a proibição de coalizão (no bairro é o não com más companhias).

25. A crítica liberal e a fenomenologia


Como é sabido, Husserl colocou o problema da intersubjetividade a partir da filosofia, o que não podia
deixar a sociologia indiferente. O sociólogo austríaco Alfred Schutz colheu a ideia no ar, afirmando que a
intersubjetividade não é um problema e sim uma realidade e, com isso, conferiu um novo enfoque à sociologia
do conhecimento.
Quanto à questão criminal, interessa-nos em particular a contribuição que procede de um pequeno livro
publicado em 1966 por um austríaco (Peter Berger) e um alemão (Thomas Luckmann), que se converteu num
clássico nas carreiras de comunicação: A construção social da realidade.
Embora esse trabalho não se ocupe da criminologia, veremos sua enorme projeção quando nos
ocuparmos da criminologia midiática, mas digamos brevemente em que ele consiste. A investigação parte do
suposto de que há conhecimentos de senso comum sem os quais não poderíamos agir em sociedade, pois a
realidade com a qual lidamos é, definitivamente, uma interpretação aceita por todos os significados subjetivos.
Vale dizer, vivemos em um mundo de interpretações compartilhadas, intersubjetivo.
Isso não significa que não existam os entes físicos; é óbvio que, se não me detenho diante de um ônibus,
ele me atropela; porém, se estendo a mão de um lado da rua, ele se detém e abre sua porta dianteira. O
mundo é o conjunto de significados que compartilho com os outros e que faz com que o motorista não me
atropele nem os passageiros protestem porque o ônibus parou para eu subir. O material do mundo é só sua
base física, mas o mundo mesmo resulta do conjunto de significados (os para o que) que formam o senso
comum do conhecimento objetivado.
Esse conhecimento comum da vida cotidiana se sedimenta com o tempo e se tipifica tornando-se
anônimo, isto é, se objetiva – o ser humano se habitua.
Um ato que se repete com frequência cria um hábito que o reproduz com economia de esforços, pois
limita as opções e evita que, perante cada situação, se tenha de colocar tudo de novo, desde o princípio. Ao
nos levantarmos de manhã não nos perguntamos se Deus existe e daí deduzimos significados em cadeia até
chegar ao valor da ação de tomar banho. Há recolocações que se fazem algumas vezes na vida, mas sempre
continuamos tomando café com leite com pãezinhos.
Esses hábitos sedimentados adquirem caráter estável, anônimo, precedem a nossa vida e estão submetidos
ao controle social. O mais importante instrumento de legitimação é a linguagem, com uma lógica que se dá por
estabelecida. Desse modo, os conhecimentos de senso comum (que são subjetividades compartilhadas) se
objetivam e se tornam coisas, produz-se a reificação (de res, coisa).
Se me afasto do mundo reificado, me sancionam. Ninguém faz a prova, mas se você colocar o croissant na
orelha, lustrar os sapatos com café com leite e falar em russo ou em guarani com o garçom, se você parar na
frente do ônibus ou pedir ao motorista que lhe venda cigarros, o levarão ao manicômio, o que também é uma
sanção de internação em uma instituição total.
Berger e Luckmann explicam que, desse modo, o outro na relação interpessoal sempre é visto como um
ser-como, isto é, exercendo um papel. O motorista do ônibus nos vê como passageiros e nós a ele, como
motorista. Essas relações e papéis que conservamos e praticamos com base em um sistema de significantes
comum, é alterado quando estamos em outro país e não sabemos como se compra o bilhete do ônibus, e
muito mais quando, por desconhecer o idioma e o alfabeto, nos tornamos analfabetos.
A sociedade, escrevem Berger e Luckmann, é a soma total das tipificações e dos modelos recorrentes de
interação estabelecidos através deles. Enquanto tal, a estrutura social é um elemento essencial da realidade da vida
cotidiana.
A conversação do encontro direto transcende do pensamento comum e dá lugar ao pensamento abstrato,
filosófico e científico. Nesse sentido, o pensamento científico depende de um prévio conhecimento do senso
comum (que resiste a desaparecer). Os filósofos também molham os pãezinhos no café e tomam banho pela
manhã, se são asseados.
Para Berger e Luckmann, os seres humanos são produto e artífices do mundo social. Tudo o que no
institucional parece objetivo é meramente objetivado, é o que se alcança através do processo de reificação.
É interessante assinalar que Berger e Luckmann observam que a sociedade incomoda o intelectual. Isso se
deve ao fato de que nela prima o conhecimento objetivado como coisa (reificado) e o intelectual o questiona,
pois quando todos afirmam que a coisa está, ele sai do seu canto e mostra que a tal coisa não existe. É o que
diz que o rei está nu. Embora cumpra um papel dinamizador e fundamental, pois propõe uma visão alternativa,
o intelectual assume uma posição marginal e tem necessidade de um grupo que o defenda.
Como se explica esta opção pela marginalidade própria do intelectual? Os autores acreditam que surge de
uma disparidade entre a socialização primária (que tem lugar na infância) e a secundária (do adulto). Trata-se de
u m a insatisfação pessoal do agente adulto com sua socialização primária. Ao que parece, quando criança, o
intelectual não ficou muito satisfeito com as respostas – e ordens – dos adultos ou depois se deu conta de que
eles eram bastante bobos.
Em determinadas ocasiões se produzem importantes transformações nas pessoas, que chamam alternações
e que provocam redefinições ou processos de ressocialização semelhantes à socialização infantil. De acordo com
o que vimos, o etiquetamento desencadeia um processo de ressocialização forçada. A pessoa é forçada a mudar,
a autoperceber-se de outro modo. Não é por acaso que uma prisão impacta como uma espécie de internato
para adultos infantilizados e o importante seria proporcionar um tratamento que neutralize, até onde seja
possível, esse processo de ressocialização. Nessa terminologia, o tratamento penitenciário deveria evitar a
ressocialização.
É bastante clara a influência de Heidegger em Berger e Luckmann: o ser humano, ao invés de se perceber
como produtor do mundo, o faz como produto deste. Os significados humanos já não são vistos como algo que se
produz pelo mundo, mas sim como produtos da natureza das coisas. Assim foram vistos a escravidão, o
colonialismo, a guerra e tantas outras aberrações no curso da história. Cabe assinalar que não esgotamos, com o
exposto, o quadro da criminologia crítica que chamamos de liberal, mas tampouco nos propomos a fazê-lo.
Simplesmente, recolhemos os elementos que nos serão úteis em seguida para esclarecer o fenômeno da
criminologia midiática e em especial para escutar as palavras dos mortos e fundar nosso projeto de criminologia
cautelar.

Ilustração 17

26. A vertente marxista da criminologia radical


Como era de se esperar, as críticas ao poder punitivo chamaram a atenção daqueles que formulavam
colocações críticas mais amplas da sociedade, que começaram a vinculá-las com os resultados da criminologia
liberal.
Por nossa parte, chamamos criminologia radical aquela que provém desse encontro com os marcos
ideológicos que reclamam mudanças sociais e civilizatórias profundas ou gerais, embora isso não seja pacífico,
pois está em discussão o que é e o que não é radical. Sem entrar nessa discussão, a definimos desse modo, por
puras razões de ordem expositiva.
Nesse entendimento, para nós, a criminologia radical (ou crítica radical) responde a tantas versões quanto
os marcos ideológicos que a inspiram. Certamente, a mais profunda crítica social do século passado foi o
marxismo, que não podia deixar de impactá-la.
Do campo marxista, publicou-se, em 1939, um trabalho anterior a toda a criminologia sociológica dos anos
1960, que foi a obra de Georg Rusche e Otto Kirchheimer, intitulada Punição e estrutura social[9]. Pela primeira
vez, o marxismo aprofundou sua análise do poder punitivo, diferentemente dos ensaios anteriores, como o do
holandês Willen Bonger, que procediam do marxismo, mas analisando as causas do delito.
Essa investigação realizou-se no Instituto de Investigação Social de Frankfurt, fundado para renovar o
marxismo diante da versão institucionalizada da União Soviética. Embora fale-se em Escola de Frankfurt, ela não
foi propriamente uma escola, porque convocou prestigiosos pensadores sob a única consigna da crítica social.
Tomaram parte dessa equipe figuras tão conhecidas e díspares como Max Horkheimer, Theodor Adorno,
Herbert Marcuse e Erich Fromm, entre muitos outros.
A investigação da questão penal foi atribuída a Georg Rusche, que permaneceu na Europa, enquanto o
instituto, perseguido pelo nazismo, era transferido para Nova York. Rusche enviava seus escritos para Nova
York, onde a investigação não era suficiente. Encomendaram a Kirchheimer que a completasse, o que não
mereceu a total aprovação de Rusche. Por essa razão, a versão final tem duas partes diferentes.
De toda forma, a ideia central do livro é que existe uma relação entre o mercado de trabalho e a pena, ou
seja, com a pena uma quantidade de pessoas deixa o mercado de trabalho, num momento em que há demanda
trabalho no próprio sistema. Essa situação reduz a oferta e impede que os salários baixem muito; inversamente,
aumenta a oferta quando há uma demanda de mão de obra, evitando uma subida acentuada do salário.
Isso seria comprovado na história. Na Idade Média, a oferta era enorme e o poder punitivo podia matar
sem problemas; a força do trabalho teria começado a ser cuidada quando, com o capitalismo, aumentou a
demanda de mão de obra.
Por outra parte, os autores asseguravam que o mercado determina as penas conforme a lei de menor
exigibilidade, segundo a qual as condições da vida carcerária, para ter efeito dissuasivo, devem ser inferiores às
piores da sociedade livre.
Esse livro caiu praticamente no esquecimento e, como às vezes acontece, foi reavaliado trinta anos mais
tarde, em plena vigência da criminologia crítica, reeditado e traduzido em vários idiomas.
Em 1979, quando seus autores haviam morrido (Kirchheimer em 1965 e Rusche em data incerta), abriu-se
um debate em torno de Punilção e estrutura social e sua tese foi criticada na obra Carcere e fabbrica[10], de Dario
Melossi e Massimo Pavarini, os quais afirmaram que ela pecava por um excessivo economicismo. Esses autores da
Escola de Bolonha não negam a importância do mercado de trabalho, mas não acreditam que opere de forma
tão mecânica, mas sim através do disciplinamento no momento do surgimento do capitalismo e da acumulação
primitiva do capital. A similitude entre o cárcere e a fábrica nesta época (lembremos de Bentham e de seu
panóptico) respondia a um programa de disciplinamento que visava a oferta de mão de obra qualificada.
García Méndez, no epílogo à sua tradução espanhola desta obra, assinala que a função de disciplinamento
não passou completamente desapercebida a Rusche e Kirchheimer e que o que vigora de sua tese é o ponto
segundo o qual cada sistema de produção tende ao descobrimento de castigos que correspondem a suas relações
produtivas, indicando que a categoria de mercado de trabalho parece demasiado estreita, ao mesmo tempo que a
de relações de produção mostra-se demasiadamente ampla.
Cabe esclarecer que a ideia do disciplinamento foi desenvolvida ao máximo dentro da criminologia radical,
mas fora das correntes marxistas, por Michel Foucault em Vigiar e punir (1975), em que poder-se-ia assinalar um
caminho para o abolicionismo, ao qual voltaremos.
Para Foucault, o poder punitivo não é tanto o negativo da prisionização, como o positivo, em que o
modelo panóptico se estende a toda a sociedade sob a forma de vigilância. Nisso ele tem toda a razão, porque
o mero poder de encerrar um número sempre muito reduzido, em relação à população total, de pessoas dos
estratos mais subordinados da sociedade não importa o exercício de um poder politicamente muito
significativo: o importante é que, sob esse pretexto, todos nós que estamos soltos somos vigiados.
A Escola de Bolonha fez um reparo a Foucault, porque, na colocação deste, a disciplina aparece descolada.
Ele não a relaciona à mudança operada no sistema produtivo, ao qual os estudiosos de Bolonha atribuem as
reformas penais do Iluminismo.
À margem disso, nos anos 1970, houve manifestações do marxismo criminológico nos Estados Unidos e na
Grã-Bretanha. Seus expositores mais conhecidos nos Estados Unidos são Richard Quinney e William Chambliss.
Ilustração 18

Quinney afirmou que os delinquentes são rebeldes inconscientes contra o capitalismo e o poder punitivo é
o instrumento de repressão a serviço das classes hegemônicas. Se o criminoso age brutalmente contra a vítima,
isso é resultado da forma em que ele foi brutalizado. Com isso, Quinney inaugura uma espécie de visão
romântica dos delinquentes.
Por certo, esse autor estava muito próximo da nova esquerda ( New Left) dos protestos estudantis de
Berkeley e ficou deprimido com seu fracasso. As autoridades universitárias não viram com bons olhos seu
movimento e optaram por dissolver seu grupo. De qualquer maneira, foi um fenômeno que chamou a atenção
quando ocorreu e, exageros à parte, semeou bastantes dúvidas acerca das racionalizações correntes.
Chambliss defendeu uma tese menos linear. Ainda que considere o poder punitivo como um instrumento
do capitalismo, este o usaria para adiar até onde fosse possível o colapso final do sistema, que considera
inevitável. Em linhas gerais, e pese os matizes, esse marxismo criminológico estadunidense defende uma
racionalidade do delito, como resposta às contradições do capitalismo. Quem nos assalta na rua ou nos bate a
carteira, estaria, sem sabê-lo, agindo racionalmente diante das contradições do sistema.
Como entre as ideias da New Left encontrava-se a crença de que os intelectuais podiam conscientizar os
delinquentes e marginais a respeito da racionalidade de sua função, alguma coisa disso está presente nessas
construções. Com isso, iam além de Marx, que, como vimos, desprezava olimpicamente o Lumpenproletariat,
enquanto a New Left acreditava em seu potencial revolucionário. Apesar de sua ingenuidade e de que Marx
lhes houvesse dito coisas menos bonitas, não podemos negar a generosidade de seu pensamento, levando em
conta o contexto em que se expressou.
A criminologia marxista britânica teve muito mais êxito e se expandiu desde a publicação, em 1973, da
Nova criminologia de Ian Taylor, Paul Walton e Jock Young. Esta obra alcançou um êxito singular porque a
primeira parte é uma cuidada síntese da criminologia teórica desde o Iluminismo, resgatando, a partir de
Durkheim, os elementos críticos de cada corrente, com conhecimento e aguda penetração sociológica.
Em seguida, analisam Marx e Engels e destacam que, como vimos, Marx ocupou-se apenas tangencialmente
da questão criminal, razão pela qual concluem que a teoria criminológica marxista deve ser construída a partir
dos princípios e não das manifestações incidentais do próprio Marx.
Se o marxismo nos oferece algo útil para apreciar as formas em que o conflito social é gerado e mantido –
escrevem – e em que este ajuda a determinar o tipo e a quantidade de atividade delitiva e desviada em geral, é mais
provável que o encontremos na teoria geral de Marx do que nas afirmações mais concretas dadas como resposta a
questionamentos empíricos isolados.
Uma cabal teoria marxista do desvio – afirmam – teria por fim explicar como determinados períodos históricos,
caracterizados por conjuntos especiais de relações sociais e meios de produção, produzem tentativas dos econômica e
políticamente poderosos em ordenar a sociedade de determinada maneira. Ênfase maior iria para a pergunta que
Howard Becker formula (mas não examina), a saber, quem impõe a norma e para o quê?
Eles consideram que nenhuma teoria do desvio conseguiu isso e que a consequência seria vincular as teses
da criminologia liberal às teorias da estrutura social que estão implícitas no marxismo ortodoxo.
Esse pensamento também se afasta do desprezo de Marx pelo Lumpen, atribuindo-lhe caráter dinamizador,
o que permite entender que, em geral, os criminólogos marxistas do Primeiro Mundo que escreviam em plena
sociedade de consumo haviam perdido a confiança na força dinamizadora e revolucionária do proletariado
(segundo eles, adormecida pelo welfare State) e a depositavam na marginalização social.
A criminologia radical promoveu a criação, tanto na Europa quanto na América, de grupos de estudos que
aglutinaram os criminólogos dessa tendência e, em alguns países, os críticos em geral. Houve um importante
grupo europeu, outro italiano, grupos británicos, um círculo de jovens criminólogos alemães etc. Em 1981, por
iniciativa da criminóloga venezuelana Lola Aniyar de Castro, proclamou-se no México o Manifesto do Grupo
Latino-Americano de Criminologia Crítica, subscrito por ela (professora da Universidade de Zulia), Julio
Mayaudon (da Universidade de Carabobo), Roberto Bergalli (exilado e professor em Barcelona) e Emiro
Sandoval Huertas (de Bogotá, assassinado no massacre da Corte Suprema, em 6 de novembro de 1985).

27. Na direção do abolicionismo e do minimalismo


Era natural que a obra de Goffman causasse certa impressão na psiquiatria, visto que se baseava na
experiência manicomial das instituições totais. Da crítica ao manicômio passou-se rapidamente à da psiquiatria e
daí à crítica radical de todo o sistema psiquiátrico, o que se convencionou chamar de antipsiquiatria.
Todo o movimento antipsiquiátrico foi uma crítica radical ao controle social repressivo exercido à margem
do sistema penal formal. O poder punitivo reveste-se de muitas formas e já vimos o efeito do acordo entre
médicos e policiais que acabou nos campos de concentração nazistas e outros não tão notórios, mas nem por
isso menos letais.
Se nos colocassem diante da possibilidade de carregar uma etiqueta negativa, dando-nos a opção entre a
de criminalizado ou de psiquiatrizado, se bem o último evoque um sentimento de pretensa piedade (e o
primeiro oculta o de vingança), o certo é que o de criminalizado seria preferível, porque pelo menos não nos
poderia ser negado o direito de defesa nem de denunciar os abusos cometidos conosco. Já ao psiquiatrizado
até esses direitos são negados, sob o argumento puro e simples de que o pobre está louco, não sabe o que faz,
tem que ser tutelado, tem de ser protegido de si mesmo.
Não foi à toa que um conhecido psiquiatra húngaro radicado nos Estados Unidos, Thomas Szasz, escreveu
um interessantíssimo livro comparando o sistema psiquiátrico à Inquisição e afirmando que a medicina
substituiu a teologia, o médico, o inquisidor e o paciente, a bruxa. Tudo o que o paciente alegar contra sua
condição de doente não será mais do que prova de sua doença, a exemplo do que acontecia com o herege:
pobre não tem consciência da doença.
Na corrente antipsiquiátrica alistaram-se autores famosos nas décadas de 1970 e 1980, como o italiano
Franco Basaglia, o escocês Ronald Laing, o inglês David Cooper, o mencionado Szasz e muitos outros, que
fundaram em 1975, em Bruxelas, uma Rede Internacional de Alternativa à Psiquiatria.
A ideia de vários desses antipsiquiatras era que a doença mental é uma resposta política, ou seja, o ser
humano, diante das contradições do poder, se encaminha em direção à loucura ou à revolução e, portanto, não
se deve matar o potencial subversivo da loucura, e sim politizá-lo para converter o louco em um agente de
mudança social.
A extrema radicalização dessas posições, da mesma forma que as referidas ao próprio sistema penal formal,
pode levar à impotência, visto que é óbvio que há algo a fazer frente a um esquizofrênico que fica imóvel como
um móvel no extremo de seu autismo psicótico (hoje há poucos, é certo) e outros tantos padecimentos em
que não se pode deixar de reconhecer que o paciente sofre.
Não bastará explicar que seu sofrimento é uma reação às contradições do poder, porque o catatônico não
vai se inteirar disso. Não obstante, deixando de lado o extremismo que pode levar à imoblidade, o certo é que
esse movimento contribuiu amplamente para que os direitos dos pacientes psiquiátricos fossem levados em
consideração, abrindo um campo de debate que de modo nenhum se fechou.
Se bem que os psicofármacos tenham eliminado as camisas de força e as celas acolchoadas e quase não se
usa o choque elétrico (que era o mais parecido ao eletrochoque), o atual jaleco químico é distribuído com
incrível generosidade à população. A consequência desse abuso é que tende a suprimir toda resistência e
tolerância à dor, quando sabemos que existem os inevitáveis e não é de modo algum saudável sua simples
supressão psicofarmacológica nem a generalização da anestesia diante dos sofrimentos socialmente
condicionados.
O resultado prático mais importante da antipsiquiatria foi a desmanicomialização, ou seja, a redução da
institucionalização ao mínimo, para evitar a deterioração da pessoa.
Como nunca faltam os espertos ou perversos que tudo desvirtuam, este generoso movimento de
desmanicomialização acabou sendo usado por políticos imorais para reduzir o gasto na atenção psiquiátrica e
por delinquentes corruptos para tentar fazer negociatas imobiliárias com os edifícios e terrenos dos
manicômios. Isso, porém, não pode ser imputado à antipsiquiatria, e sim somente à necessidade de ficarmos
atentos às contradições do poder, que não são só aquelas que os antipsiquiatras imaginaram.
Paralelamente à abolição do manicômio e à antipsiquiatria, e com referência ao sistema penal formal,
abriu-se caminho a um complexo movimento de abolicionismo penal, que podemos denominar novo
abolicionismo, para distingui-lo do velho, que era o dos teóricos anarquistas.
Embora tenha tido como antecedente o livro do professor de criminologia de Genebra Paul Reiwald,
intitulado A sociedade e seus criminosos e publicado em 1948, sua obra não foi compreendida quando foi
lançada, talvez também devido à precoce morte do autor, razão pela qual o novo abolicionismo viria a eclodir
nas décadas de 1970 e 1980. Nesses anos, recebeu um notório impulso com os trabalhos de Michel Foucault,
embora este não se proclamasse abolicionista, pois seu pensamento resiste às classificações e ele mesmo
procurou, durante toda sua vida, evitar os encasulamentos.
Não tem muito sentido selecionar aspectos particulares da crítica de Foucault, porque ela impactou de tal
modo as ciências sociais e a criminologia que ao longo dessas páginas estamos vendo sua clara marca
transversal. Os filósofos discutirão durante muito tempo as ideias de Foucault, em especial sua concepção
antropológica, mas nas ciências sociais suas contribuições estão acima de qualquer avaliação e não estão
necessariamente soldadas com esta, que é o principal ponto de discussão no campo da filosofia pura.
O novo abolicionismo surgiu quase inteiramente de movimentos e organizações que se ocupavam dos
direitos dos presos e pelas quais criminólogos e outros acadêmicos se interessaram. Conforme essa experiência,
eles passaram a teorizar e a postular a abolição da prisão e finalmente do sistema penal. Alguns desses
movimentos, que surgiram na Europa nos anos 60 do século passado, converteram-se em verdadeiras
organizações e foram imitados mais timidamente em outras latitudes.
Os primeiros foram os movimentos escandinavos: o KRUM sueco (1965), o KRIM dinamarquês (1967) e o
KROM norueguês (1968). Eles foram seguidos em 1970 pelo RAP britânico (Radical Alternatives to Prison), em
1971 pela Liga Holandesa COORNHERT, pelo grupo alemão de Bielefeld, pelo Liberarsi do carcere italiano e
pelo Group d’information sur les prisions (GIP) francês. No Canadá, o impulso mais importante veio do campo
religioso, dos quakers. Cabe notar que depois da ditadura argentina, organizou-se algo semelhante em Buenos
Aires, através de uma ONG, o SASID (Servicio de Assistência Social Integral ao Detenido), que sobreviveu
alguns anos. Não podemos aqui segui-los em detalhe, mas foi um conjunto importante e demostrativo de uma
tônica humanista muito interessante. Se algum de vocês quiser se aprofundar em sua história e ideologia, há em
espanhol um livro de Iñaki Rivera Beiras (Abolir o transformar?, Buenos Aires, 2010) que se ocupa do tema.
Participaram dessas organizações acadêmicos de prestígio, como Michel Foucault, no GIP, Louk Hulsman e
Herman Bianchi, na Liga Holandesa, Ruth Morris, no movimento quaker canadense, e Thomas Mathiesen e Nils
Christie, no KROM norueguês. Eles foram os principais promotores teóricos do novo abolicionismo penal, que se
institucionalizou internacionalmente no ICOPA (International Conference on Penal Abolition), que promove
congressos bianuais em diferentes países do mundo.
O pensamento de Louk Hulsman foi sintetizado em um livro escrito em colaboração com Jacqueline
Bernat de Celis (Peines perdues, Le système pénal em question, Paris, 1982), no qual evidencia a irracionalidade do
poder punitivo e, de certa forma, sua derivação teológica, o que o vincula ao posicionamento de Szasz em
psiquiatria. Cabe precisar que Hulsman era professor emérito da Universidade de Rotterdam e o líder visível do
documento sobre descriminalização do Conselho de Europa de 1980. No ano de seu falecimento – 2009 – havia
sido indicado como candidato ao Prêmio Nobel da Paz, por ter promovido as primeiras iniciativas de política de
drogas na Holanda.
Quanto a Nils Christie, sua obra mais conhecida em espanhol é Los límites del dolor (1981), cuja tese central
é que, até o presente, o poder punitivo inflige intencionalmente dor, e por isso ele postula alternativas e não
meras limitações. O marco ideológico de Christie é mais da antropologia cultural. Em sua bibliografía posterior,
ele destaca os perigos do modelo estadunidense das últimas décadas, daí o sugestivo subtítulo de uma de suas
obras: Rumo ao gulag estilo occidental. Talvez o primeiro livro da nova onda abolicionista seja o do norueguês
Thomas Mathiesen, The Politics of Abolition (1974), no qual narra sua experiência no KRUM ao longo de vários
anos. Embora sua obra participe do campo ideológico do marxismo não institucionalizado, não se submete a
ele, forçando os fatos verificados com sua experiência. Daí que tenha várias contribuições interessantes, que
abriram o caminho a posteriores elaborações.
Consideramos que a maior contribuição de Mathiesen é a caracterização do poder punitivo como
fagocitário em relação a todos os movimentos que o enfrentam, aos quais procura comprometer e incluir em
seu discurso e ação. Daí advertir que estes devam manter uma estrita posição de confrontação não
contaminadora. Nesse sentido, constrói um conceito que tem plena vigência: o de unfinished, o nunca
finalizado. Veremos mais adiante, quando fizermos referência à cautela, que esta deve operar como um
unfinished, ou seja, um caminho para a contenção do poder punitivo nunca de todo acabado.
Entre todos os personagens humanamente incríveis do novo abolicionismo destacou-se Ruth Morris,
socióloga canadense, de personalidade muito interessante, tanto enquanto teórica quanto como ativista. Sua
obra mais difundida foi Penal Abolition: The Practical Choice (1995), na qual, entre outros pontos, afirma que a fé
no poder punitivo é uma religião. Acreditamos que essa ideia é muito interessante, tendo em conta que hoje se
atribui ao poder punitivo uma onipotência que não é deste mundo, razão pela qual se converteu em um
verdadeiro ídolo e seu culto, em uma idolatria. Seria bom se aqueles que, a partir das distintas religiões, o
adoram, refletissem acerca da possibilidade de que esse culto não lhes faça incorrer num gravíssimo erro
dogmático. Morris foi membro ativo da Religious Society of Friends ( quakers) e embarcou todo seu grupo no
abolicionismo penal.
A pergunta inevitável quando se defende o abolicionismo é o que colocar no lugar do sistema penal? Os
novos abolicionistas propõem soluções de acordo com todos os outros modelos de solução de conflitos aos
quais fizemos referência: reparador, terapêutico, conciliador etc. Por minha parte, não creio que suas propostas
sejam de política criminal, e sim de política em geral, mas no sentido de uma profunda mudança cultural e
civilizatória. No fundo, a discussão poderia sintetizar-se na questão da possibilidade de eliminação da vingança,
o que nos leva a um tema que, por sua complexidade, trataremos extensamente mais adiante, e que não é nada
simples de resolver.
O abolicionismo teve uma virtude, que compartilha com outras correntes às quais nos referiremos mais
adiante, mas que chega a seu máximo extremo com esses autores e que consiste em desnaturalizar o poder
punitivo.
Na verdade, tal como Berger e Luckmann explicam, há muitas coisas que nos são tornadas naturais porque
subjetivamente coincidimos, compartilhamos a mesma opinião em relação a coisas que nos parecem que
sempre existiram ou que deveriam ter existido. Desde o bife de chorizo[11] até a pizza com fainá,[12] tudo nos
parece natural e não nos perguntamos porque motivo elas existem: está ali porque tinha que estar ali e pronto.
Com o poder punitivo acontece o mesmo: diz-se que ele sempre existiu, embora, como vimos, isso não seja
certo. Está porque tem que estar. Isso determina que todo aquele que o critica deve explicar por o que o faz,
enquanto que o poder punitivo não precisa explicar nada acerca de sua existência.
Imagino que o mesmo terá acontecido com a escravidão, com a tortura, com a monarquia e com tantas
outras coisas tão pouco naturais, como a pena de morte, a prisão ou o próprio poder punitivo. Isso é o que
muda com a crítica abolicionista: é o poder punitivo que deve justificar sua existência e não o inverso. E a verdade é
que, quando fazemos isso, quando tratamos de justificar a existência do poder punitivo, ainda que não sejamos
abolicionistas e tenhamos diferenças para com as soluções e as vejamos como colocações não criminológicas e
sim diretamente civilizatórias, nos encontramos em meio a dificuldades, e o abolicionismo é uma das principais
fontes dessas dificuldades.
Há, por outros caminhos, propostas menos radicais e inclusive críticas do abolicionismo, visto que não
postulam a abolição do sistema penal, e sim sua redução. Trata-se daquilo que se conhece como minimalismo
penal, cujos autores mais conhecidos, ainda que por diferentes vias, são o inesquecível Alessandro Baratta, o
querido Luigi Ferrajoli e a Escola de Bolonha em geral, com Massimo Pavarini e outros tantos.
Com diferenças, esses autores destacam que o poder punitivo deveria limitar-se a conflitos muito graves e
que comprometem maciçamente bens básicos (como a vida ou o meio ambiente) e resolver os conflitos de
menor magnitude por outros caminhos. É inquestionável que, embora nossa cultura não admita a decisão não
punitiva de alguns conflitos, isso não acontece nem muito menos com todo o imenso campo abarcado pela
projeção da criminalização secundária.
Não obstante, cabe assinalar que essas propostas de direitos penais mínimos exigem também uma profunda
transformação do poder que hoje caminha em sentido diametralmente oposto, ainda que, a exemplo do
abolicionismo, tenham a virtude de inverter a questão: uma vez mais é o poder punitivo, como artifício
humano, que deve justificar sua existência e extensão.
Essas posições, que exigem profundas mudanças sociais e civilizatórias, apresentam o inconveniente de
que é muito difícil dar respostas concretas a problemas urgentes, o que não é funcional em uma região onde a
violência do poder punitivo é muito alta ou, ao menos, constitui uma ameaça constante.
Isso não significa, muito menos, que devamos subestimá-las, porque oferecem contribuições que nos
ajudam a refletir sobre nossa realidade. Pessoalmente, entendo que a posição de Baratta e toda sua escola
minimalista, da mesma forma que o abolicionismo, tornam inevitável a questão da legitimação do poder
punitivo e a pergunta sobre a que se devia a incapacidade do direito penal para atribuir uma função à pena.
Hulsman prova que o modelo punitivo não resolve os conflitos e, consequentemente, nos impõe a tarefa de
buscar, no campo das ciências sociais, uma explicação para a sua permanência no tempo. O unfinished de
Mathiesen, por sua vez, é uma ideia que pode oferecer um fundamento consistente para uma criminologia
cautelar e para refundar o direito penal liberal a partir de uma perspectiva mais sólida.

Ilustração 19

28. Da criminologia crítica passou-se à debandada?


Alguns criminólogos reacionários afirmam que a crítica criminológica fracassou e que ela não passou de
um momento de euforia ou de uma moda superada. É claro que, para isso, tomam em consideração as versões
mais radicais e ingênuas, às vezes fáceis de ridicularizar.
Em seu lugar, eles propõem uma criminologia administrativa que, falando abertamente, pretende que a
palavra da academia se limite a discutir uma técnica eficaz de contenção dos pobres.
Não nos devemos enganar com os livros bem encadernados e os cursinhos de fim de semana, próprios de
uma criminologia sem história nem passado e que, além do mais, pretende mostrar-se independente da política.
O certo é que entre os criminólogos mais sérios o viés crítico não desapareceu; pelo contrário,
aprofundou-se, ganhou em realismo e arquivou as ingenuidades. O que é o que foi chamado de realismo? De
onde provém o impulso para superar a crítica com mais crítica?
É muito simples: o que mudou é o quadro do poder planetário. Os criminólogos críticos dos anos 1970
nos países centrais viam-se às voltas com um poder punitivo próprio dos Estados do bem-estar e de suas
sociedades de consumo, com a sociologia sistêmica de Parsons e a economia de Keynes.
Para nós, latino-americanos, isso parecia um tanto estranho, porque nossos Estados-providência,
incipientes e nunca completados, criados pelos populismos que ampliaram nossas bases de cidadania real,
haviam sido desbaratados brutalmente ou estavam em vias de sê-lo.
A crítica criminológica central não correspondia aos nossos sistemas penais, pois no nosso lado montava-se
um poder punitivo que só buscava conter os excluídos. Eram impostos a nós Estados policiais com ditaduras ou
com políticos corruptos pós-modernos. Não tinha sentido colocar em crise, aqui, a ideia de ressocialização,
porque nossas prisões tendiam a ser, ou já eram, campos de concentração, nossas polícias eram forças de
ocupação territorial, substituídas com frequência por militares, o número de presos à disposição do Poder
Executivo competia com o de presos por ordem judicial e, além do mais, 70 ou 80% destes últimos estavam
presos por via das dúvidas, porque eram processados e não condenados.
Desde os anos 1970 as coisas mudaram: o Estado policial avançou sobre os países centrais. Friedman e
Hayek foram os novos gurus do festival de mercado; Reagan, Thatcher e Bush marcaram o caminho para o
Estado que tem por função única manter os pobres dentro dos limites; Roosevelt era pouco menos que um
comunista desprezível, Keynes era um marxista irresponsável, toda gestão e intervenção estatal era ineficiente e
corrupta; o mercado era o único racional no mundo; o Estado devia deixar a máxima liberdade para permitir a
eliminação dos mais débeis.
Herbert Spencer estaria feliz com um mundo como esse e afirmaria que esse mundo não seria mais do
que a confirmação de suas teorias; poderia pedir a Satanás uma revisão extraordinária de seu julgamento. Há
raças inferiores, que somos nós, os habitantes dos países periféricos, e os imigrantes e excluídos dos países
centrais. As raças superiores, que são os incluídos dos países centrais e seus procónsules designados nos
periféricos, devem defender-se dos inferiores. O Estado deve limitar-se a manter a supremacía das raças
superiores e não privar os inferiores de seu direito à luta que os torne fortes e que permita que, de vez em
quando, algum deles pule a cerca, participando do Big Brother ou abriando espaço em alguma negociata.
O brutal salto do sistema penal dos Estados Unidos, a exclusão definitiva do criminalizado e de sua família,
a pena desproporcional pela menor infração, de acordo com a tolerância zero do demagogo municipal de Nova
York (que cobrou uma quantia exorbitante aos ingênuos empresários mexicanos para proferir-lhes uma
conferência absurda), não são mais que um terrorismo de Estado contra os pobres, um modelo neonazista em
marcha. O Estado policial é isso, seu pensamento nu e cru diz para os negros ficarem em seu lugar, nós mandamos
e cortamos a cabeça do negro que incomodar. (A isso dever-se-ia acrescentar: Os índios do sul devem produzir
cocaína e matar-se para não nos mandar mais do que o necessário para manter o preço alto; nós nos ocupamos de que
só nos chegue a cocaína que podemos distribuir a um preço alto e ficarmos com o maior lucro e o benefício da
reciclagem).
Vocês têm razão se, por acaso, a clareza dessas expressões lhes chamar a atenção, dado que hoje eles não
se manifestam dessa maneira, pois não têm a sinceridade do velho Spencer, de Garofalo, dos positivistas
racistas. Os velhos racistas pelo menos eram sinceros; autênticos oligarcas, falavam claro, sem subterfúgios, não
posavam de democráticos nem de generosos, eram abertamente elitistas e confessavam isso. Em que mundo
vivemos que nos permite encontrar algum motivo para termos saudade dos velhos racistas?

Ilustração 20

Hoje as coisas são mais complicadas e é mais fácil confundir-se. Agora, quando o Estado policial chegou
como um bumerangue ao próprio centro, tanto no centro como na periferia há classes médias desclassificadas,
desconcertadas, anômicas (no sentido original de Durkheim), ameaçadas pelos de cima, que lhes cobram
fidelidade, e pelos de baixo, aqueles que consideram seus únicos e mortais inimigos. São pasto fácil para
internalizar a publicidade midiática de um eles inimigo, composto de pobres, imigrantes e adolescentes de
bairros precários.
Todavia, não se trata apenas da classe média empobrecida pela demolição do Estado do bem-estar.
Insistimos em que o mais astuto deste spencerianismo dos dias de hoje é fazer com que os pobres se matem
entre si, que a vitimização avance entre os próprios excluídos, ao que se acrescenta que a polícia também
seleciona entre eles.
A técnica de controle dos excluídos responde à ideia de que os negros se matem entre eles, assim não
incomodam. Essa é a lógica não confessada do racismo de nossos dias. E ela é eficaz, porque isso permite que
inclusive entre os próprios excluídos tenha êxito a publicidade televisiva que os erige em um eles inimigos da
sociedade.
Voltaremos a esse ponto com maiores detalhes, mas não posso deixar de assinalar isso agora, porque do
contrário parece que a criminologia crítica desapareceu, quando na realidade aconteceu exatamente o contrário:
ela se tornou mais realista e profunda, eclodindo em várias direções.
Os criminólogos se acham agora diante de uma realidade do poder punitivo completamente diferente da
dos anos 1970. Não poderiam continuar criticando um poder punitivo que já não se exerce da mesma forma. A
brutal regressão dos direitos humanos por obra do avanço do Estado policial – não mais na margem, e sim no
próprio centro do poder planetário – coloca a necessidade de ser mais realistas.
Os criminólogos centrais já não têm tempo para sentar-se à calçada de um café elegante de Paris a fim de
discutir a possível revolução que os faça despertar em uma sociedade igualitária; hoje eles têm também as
urgências que nós tivemos, os ameaçam os mesmos perigos e seu poder punitivo corre o risco de ir-se
assemelhando a cada dia mais ao nosso, embora em alguns países centrais ainda esteja longe.
Como era de se esperar, os criminólogos centrais se desconcertaram, porque tudo passa muito rápido, não
há sequer mudança geracional marcada, muitas vezes são os mesmos que ontem defendiam posições radicais os
que hoje devem mudar de critério. A brutal virada repressiva dos Estados policiais instalados ou em vias de
instalação representou para eles um forte murro de realismo que, como todo murro, levou alguns ao nocaute ,
mas em outros provocou uma considerável descarga de adrenalina crítica.
A nós isso cai bem, mas não, bem entendido, por nos alegrar com a desgraça alheia. Ainda que não
tenhamos na América Latina o mesmo desenvolvimento teórico da criminologia central, sempre lidamos com o
poder punitivo nu e cru com o qual eles agora se defrontam e, por conseguinte, os elementos críticos que nos
chegam mostram-se muito mais adequados aos fenômenos de poder que devemos controlar do que os que a
crítica ao poder punitivo do Estado do bem-estar nos fornecia.
Em décadas passadas, quando expúnhamos nossa realidade no centro, não deixava de haver um certo tom
d e bom, são países em vias de desenvolvimento. Hoje temos problemas comuns e, além do mais, a famosa
globalização facilita a comunicação.
Vale lembrar que, quando as brutalidades colonialistas aconteciam na África ou na América do Sul, elas
eram atribuídas, no centro, à inferioridade dessas sociedades, mas, quando o mesmo poder neocolonialista deu
a volta e as brutalidades passaram à Europa, esse discurso não pôde continuar vigindo e a comunidade
internacional teve necessidade de declarar solenemente uma obviedade: todo ser humano é pessoa. O discurso
atual não é o mesmo, claro, mas corre o risco de sê-lo.
A necessidade de aprofundar a realidade do poder punitivo fez com que os olhares se dirigissem para
diferentes direções e se encontrassem com outras que já haviam reparado nesses fenômenos do poder. Por
isso, quando lançamos um olhar sobre a crítica criminológica de nossos dias, muito longe de acreditar que ela
não existe, o que vemos é que debandou em diferentes sentidos.
Se bem que isso seja, a princípio, desconcertante, é muito saudável, porque o poder punitivo é um
fenômeno muito complexo, que não pode ser encarado com simplificações que satisfazem o acadêmico porque
ficam redondinhas e fecham, mas que não incomodam a realidade do poder.
Tampouco se trata de uma dissolução, mas antes abrir a cabeça, incorporando outras visões críticas. Por
último, essa saraivada de olhares críticos não é um caos, como a princípio parece, mas sim, quando olhado bem,
é perfeitamente lógico frente à necessidade de encarar a agressão violenta de um poder punitivo desenfreado e
brutal.
Quando, diante dessa necessidade, os criminólogos se perguntaram o que se estava deixando de lado e
por que não haviam se apercebido do perigo antes, seus olhares se voltaram para quatro direções básicas e
que, no fundo, não são excludentes.
(a) Por um lado, ao tratar de explicar o poder punitivo e centrar a atenção em seu exercício, subestimou-
se o dano real que o delito provoca. O delito tem vítimas e a distribuição da vitimização é tão seletiva quanto a
da criminalização. Não por acaso as classes subalternas são vítimas da publicidade midiática vingativa, pois são as
mais vitimizadas. Por esse caminho do dano real, a crítica se fixa na vitimologia e na Grã-Bretanha alguns dos
próprios críticos marxistas de outrora propõem um realismo de esquerda.
(b) Por outro lado, é claro que a criminologia midiática vingativa, ao construir o eles inimigo mostrando o
delito comum como o único perigo, provoca o que se chama de pânico moral (conceito que se deve a Stanley
Cohen e Jock Young), medo ao delito e a nada mais, e, por conseguinte, estão sendo ocultados outros perigos
e danos em ação, muito mais graves e em curso.
Inventa-se uma sociedade de risco, na qual o único risco é a agressão do adolescente do bairro pobre, como
se não houvesse outros danos sociais em curso. É algo assim como a campanha para não usar desodorante em
aerosol porque, com isso, vamos evitar que a camada de ozônio seja furada, enquanto se queimam,
irresponsavelmente, bilhões de toneladas de petróleo.
Isso levou os olhares para mais além da criminologia, isto é, a procurar fazer um saber do dano social (é o
paradigma do dano social proposto por alguns criminólogos ingleses – o social harm approach), mas também para
as contribuições que a crítica social feminista vinha fazendo e, por último, para algo que se ia colocando em
relevo, e que a criminologia havia deixado de lado de modo pouco menos que inexplicável: o genocídio. O
fenômeno dos massacres foi estudado à margem da criminologia e não pode deixar de impactá-las.
(c) Como é óbvio, o renascimento violento do spencerianismo e seu Estado policial não podia deixar de ser
objeto de análise e crítica, de forma direta, por parte dos criminólogos centrais que assistiam a esse novo parto
letal. Em consequência, surgiu toda uma corrente que se ocupa de analisar e criticar a manifestação repressiva
deste Estado policial e que a batizou de neopunitivismo.
(d) Por último, todo o panorama mundial contemporâneo configura uma paisagem de enorme
agressividade, que provoca interrogações que se situam além da sociologia e da ciência política e cujas respostas
levam a mergulhar em outras palavras da academia, como são as das disciplinas psi, da antropologia e da
etnologia. Como podemos ver, a debandada não é anárquica, mas sim responde a atitudes que eram de se
esperar, porque são bastante razoáveis, dadas as novas circunstâncias do poder planetário.
Esse mero enunciado prova que nada é mais falso do que afirmar que a crítica desapareceu, quando está
claro que ela só se diversificou para se aprofundar, o que é muito mais adequado à urgência para se chegar a
uma melhor abordagem do fenômeno de poder repressivo. Os criminólogos se perguntam, pura e
simplesmente:
Por que a criminologia midiática se instala entre os pobres? Porque há um dano real do delito, do qual nos
ocupamos pouco. Pois bem, vamos estudar as vítimas.
O que a criminologia midiática se empenha em ocultar do público com o pânico moral à agressão do adolescente
de bairro precário? Pois bem, vamos estudar os danos sociais que não são mostrados.
O que é este neopunitivismo brutal? É claro que se trata de uma questão exclusivamente política; pois bem, é
mister analisá-la e estudá-la.
A que se deve essa agressividade intraespecífica, que se coloca manifestamente nesse momento do poder? Vamos
perguntar a outros sábios.
Como se pode ver, a academia não ficou louca nem renunciou à crítica, e sim vai mais longe.
Passemos a lançar uma vista d’olhos sobre o panorama que cada uma dessas quatro perspectivas oferece,
ainda que brevemente, pois, na realidade, essas contribuições da criminologia acadêmica atual nos preparam
para compreender o sentido da criminologia midiática e para escutar melhor a palavra dos mortos, razão pela
qual voltaremos, no curso desses suplementos, a insistir muitas vezes nos aspectos de seu conteúdo que nos
permitem nos aproximar da realidade da questão criminal.
Não acreditem que seja uma descoberta integralmente pessoal o que vou expor nos próximos
suplementos e que, depois de ouvir atentamente a palavra dos mortos, termina numa proposta de criminologia
cautelar. Ela é, em boa parte, o produto da aplicação dos instrumentos conceituais que essa aparente saraivada
das perguntas contemporâneas nos proporciona.
Em alguma medida, o que exponho aqui resulta do uso sintético desses elementos e de uma atenta
observação da realidade cotidiana.

29. O dano real do delito: realismo de esquerda e vitimologia


Em 1973, Jock Young era um dos autores da nova criminologia que ensaiava uma recolocação radical a
partir da perspectiva marxista. No começo dos anos 1990 ele surprendeu, juntamente com John Lea, Richard
Kinsey e Roger Matthews, adotando um posicionamento que chamaram de realismo de esquerda e cujo lema é
levar o delito a sério, partindo da constatação de que causa graves danos a vítimas das classes populares urbanas,
em especial às mulheres, que são as mais vulneráveis.
Embora essa volta seja atribuída políticamente a uma aproximação do trabalhismo britânico, nós
acreditamos que seja antes o resultado de uma aproximação da realidade da vitimização.
As teorias macro têm o inconveniente óbvio de satisfazer explicações acadêmicas enquadradas em marcos
ideológicos prévios, mas não oferecem nenhuma resposta para as vítimas concretas e seus parentes e para as
reclamações que estes e os vizinhos formulam aos políticos.
Creio que o contato mais elementar de um criminólogo acadêmico com esta realidade não pode deixar de
colocar em evidência a necessidade urgente de fazer algo e de dar uma resposta, a não ser que prefira que os
impulsos de vingança, a criminologia midiática e os políticos colocados de lado marchem cada vez mais na
direção do modelo do Estado policial e da repressivização neofascista dirigida em fim de contas contra os
excluídos.
É bastante claro que as colocações puras da criminologia crítica radical, elaboradas a partir da academia
sem contato com as vivências cotidianas e sem investigação de campo, são úteis como marco de crítica, mas
que, ao recair nesse nível, aplainam o caminho para uma suposta criminologia administrativa, que é a típica do
Estado policial, contando com a aprovação, quando não com o decidido apoio, dos próprios setores contra os
quais esse modelo de Estado políticamente se dirige.
Acredito piamente que essa verificação, do senso comum, foi determinante para o chamado realismo de
esquerda britânico que vem propondo reformas ao sistema penal e assistencial de seu país, algumas
interessantes, ainda que nem todas transferíveis à realidade da nossa latitude.
Entre as propostas concretas desses criminólogos, as mais interessantes são as que se referem à polícia,
colocando a alternativa entre um modelo de polícia militar (que nós chamamos aqui de ocupação territorial) e
outro de polícia de consenso (que nós chamamos comunitária).
Voltaremos a esse ponto quando nos ocuparmos dos segmentos do sistema penal, com a advertência, que
formulamos desde agora, de que não se pode confundir uma polícia comunitária com uma ditadura ética, com a
intervenção de pessoas que não tenham nada a fazer senão incomodar os jovens.
Ao centrar a atenção no dano real do delito não se pode deixar de reparar na vitimologia, que não é uma
ciência nem um saber autônomo, mas uma linha de investigação que teve como antecedente a obra de Hans
von Hentig (que foi um criminólogo alemão antinazista e muito criativo) e da qual considera-se fundador o
criminólogo romeno radicado em Israel, Benjamin Mendelsohn.
Inicialmente, a vitimologia se dedicava às vítimas de delitos comuns, em especial a seu comportamento
como determinante ou facilitador destes delitos, mas hoje ampliou seu campo de observação até chegar quase a
abranger tudo o que levam em consideração aqueles que pretendem ir mais além da criminologia e ocupar-se
de todo o dano social. Um dos mais destacados teóricos da vitimologia em nosso tempo foi o sempre lembrado
Antonio Beristain, que elaborou o conceito de macrovítimas, em referência aos conflitos armados ou ao que se
denomina “terrorismo”. Na Argentina, esta perspectiva foi amplamente desenvolvida por Elías Neuman,
lamentavelmente falecido em 2012.

30. Os danos que a criminologia midiática oculta


O feminismo é um forte movimento teórico e ativista com desenvolvimento autônomo e em cujo seio se
movem desde posições radicais, inspiradas em marcos ideológicos preexistentes, até toda a gama de possíveis
matizes em torno do inegável fenômeno civilizatório da subordinação da mulher.
No fundo do debate feminista, acreditamos encontrar o fundado temor de que seu potencial
transformador, que é enorme, possa ser neutralizado por um pensamento falocêntrico ou, como dizem no
bairro, machista, suscetível de cooptá-lo.
Porém, indo além dos extremos a que esse temor pode conduzir, o certo é que o feminismo comove as
próprias bases do poder planetário, tendo em conta, como vimos, que este se preparou hierarquizando as
sociedades colonizadoras mediante a regulação das relações sexuais para erigir a seus primeiros sargentos na
pirâmide do exército colonialista.
O temor das feministas não é outra coisa senão um capítulo importantíssimo das armadilhas que todas as
racionalizações do poder e todas suas naturalizações nos estendem.
O feminismo trouxe dois conceitos – o de patriarcado e o de gênero – que hoje são de uso corrente e sem
os quais nos faltariam letras-chaves no abecedário que usamos para descrever a hierarquização naturalizada que
o poder planetário nos vende.
Entende-se por patriarcado, para afirmar claramente, o domínio machista e todas suas implicações. O
gênero revela a principal armadilha do patriarcado: a confusão de sexo com a o papel atribuído. O sexo é algo
anatômico, mas o gênero não tem nada a ver com a anatomia. A mulher tecendo, cozinhando,esperando o
marido, cosendo, não tem nada de sexual, tratando-se, antes, de um conjunto de papéis culturalmente
atribuídos pelo poder patriarcal. Isso é o gênero.
Chamou sempre a atenção que o sistema penal se ocupasse quase exclusivamente dos homens, mas isso
não tem nada de estranho: no exército da sociedade hierarquizada, os sargentos controlam a mulher e os
sargentos são controlados pelo poder punitivo, que só se ocupa das mulheres quando elas se rebelam contra os
sargentos. Este é o programa original que provém da Idade Média e que, com matizes, se mantém em vigor.
Por conseguinte, a criminologia guardou bastante silêncio acerca da mulher, salvo alguns disparates
positivistas, como o do equivalente de Lombroso ou o estereótipo da mulher envenenadora.
Todavia, deixando de lado os disparates e também as discussões estadunidenses tentando explicar o maior
protagonismo da mulher, o feminismo impôs correções à crítica criminológica ao destacar que se a mulher tinha
menor incidência na criminalização, o mesmo não sucedia na vitimização. Isso tem lugar não apenas na
delinquência de rua, mas também nas vitimizações que são consequência direta da discriminação de gênero,
desde a violência familiar homicida até o tráfico de pessoas (antes se chamava de brancas, curioso vício racista
da escravidão).
Não houve uma crítica criminológica gay tão desenvolvida como a feminista, embora já há muitos anos o
britânico Gordon Taylor tenha observado que em toda sociedade ocorre uma relação inversa entre o
patriarcalismo e a tolerância à homossexualidade.
De qualquer maneira, existem estudos importantes (como o de John Boswell), muitas ridiculizações dos
disparates positivistas ( Jorge Salessi, na Argentina), relatos da perseguição nazista (a rosa Winkel [13]), do
processo de Oscar Wilde (o de Gide, por exemplo), numerosas contribuições literárias ( Jean Genet à frente) e,
é inegável, o peso da questão gay na crítica de Michel Foucault.
Se bem que a vitimologia tenha colocado em relevo danos que não se tinham levado suficientemente em
conta, o feminismo chamou a atenção sobre a metade da população esquecida pela criminologia, e se bem que
nossos vizinhos tenham colocado os teóricos ingleses na terra, o panorama das vítimas do poder mundial não
estava de modo algum completo. Stanley Cohen chamou a atenção para isso, o que chama de sociologia da
negação, que nos condiciona uma indiferença moral, em seu livro, de 2001, Estados de negação.
Na obra, Cohen não se refere ao grosseiro negacionismo neonazista da Shoá e similares, e sim, para
exemplificá-lo claramente, àquilo que protagonizamos enquanto olhamos, pela TV, o noticiário que nos mostra
massacres e continuamos molhando os pãezinhos no café com leite.
Seguindo este caminho, um grupo de ingleses (Paddy Hillyard, Christina Pantazis, Steve Tomb e David
Gordon) organizou um livro, em 2004, que propõe ir além da criminologia (assim se chama seu livro, com o
subtítulo Levando o dano a sério) e abranger todos os danos sociais do poder: pobreza em massa, fome,
violações em massa dos direitos humanos, massacres estatais, mortes causadas por condições de trabalho, por
privilégio da heterossexualidade, por preferências nos nascimentos, por guerra aos migrantes, por maus tratos
infantis, por poluição, por envenenamento de alimentos etc.
É indiscutível que o livro passa em revista dados aterradores, como aquele que lembra que, embora em 11
de setembro de 2001 tenham morrido 3.045 pessoas em Nova York, nesse mesmo dia também morreram no
mundo 24.000 pessoas de fome, 6.200 crianças de diarreia e 2.700 de sarampo.
É claro que nos acostumaram a considerar que o crime de Nova York era evitável e as outras mortes eram
inevitáveis, mas isso não é correto. Segundo os cálculos da ONU, seriam necessários 13 bilhões de dólares para
resolver a fome e 40 bilhões para atender às necessidades básicas no mundo (esta última cifra representa a
metade do consumo de pizza nos Estados Unidos). Embora o cálculo da ONU fosse otimista e as cifras subissem
ao dobro, o óbvio é que essas carências não são naturais nem inevitáveis, com o argumento de que sempre
houve miséria.
De qualquer maneira, se enfrentasse todos esses danos, a criminologia se perderia em um enorme campo
tudológico de conhecimentos inabarcáveis. Todas essas mortes são resultado de violações aos direitos humanos
e estes, como campo de estudo jurídico, devem ser sustentados por dados reais para os quais contribuem todos
os conhecimentos humanos, o que, por definição, não pode ter unidade. Trata-se de conhecimentos que os
estudiosos de direitos humanos devem requerer a todas as ciências naturais e sociais, a todo o saber humano.
Um saber que pretenda abranger tudo isso se perderia ou resultaria diretamente diletante.
Há, porém, um campo que indubitavelmente pertence à criminologia e sobre o qual houve um singular
silêncio, que é o do homicídio doloso, intencional. A criminologia acadêmica deteve-se nos homicídios seriais
sensacionais e em todos os cometidos por iniciativa privada, mas nunca nos públicos ou estatais, isto é, nos
genocídios e massacres, nos crimes de massa cometidos pela ação de agências estatais.
Estranha omissão, por certo! Se quisermos levar a sério os danos sociais, não podemos ignorar esses
crimes e, além do mais, tampouco podemos negar que seu estudo corresponde à criminologia. A criminologia
dos últimos anos está chamando a atenção sobre isso, embora ainda sem suficiente penetração e a contragosto
por parte de boa parte dos criminólogos acadêmicos. Isso, porém, é tão importante, que merece um capítulo
especial.
Ilustração 21

31. Os homicídios estatais ou crimes de massa


A criminologia acadêmica guardou um silêncio significativo acerca dos assassinatos estatais em massa,
interrompidos apenas por algum artigo isolado, como o de Leo Alexander, em 1948, ou o livro de Sheldon
Glueck, de 1944, sobre crimes de guerra. Nos últimos anos, os trabalhos são mais frequentes: Alex Alvarez
(1999), William Laufer (1999), Georges S. Yacoubian (2000), Andrew Woolford (2006) e em especial Wayne
Morrison, professor neozelandês radicado em Londres, que, em 2006, publicou um livro intitulado Criminologia,
civilização e a nova ordem mundial. Por ser este último o mais extenso e analítico, o tomamos como referência.
Morrison recorda que Hobbes separava o espaço civilizado do não civilizado (de guerra de todos contra
todos), cuja presença constituía uma ameaça, e afirma que esta linha hobbesiana se quebrou quando o mundo
incivilizado irrompeu no coração do civilizado, em 11 de setembro de 2001, destruindo o símbolo desse mundo
funcional e utilitarista da globalização.
O World Trade Center era o templo máximo da tecnologia e da segurança e sua queda converteu, de
repente, o espaço civilizado em espaço de Terceiro Mundo . Precipitadamente, os residentes do espaço
civilizado tomaram consciência do mundo externo, o que foi muito impactante para os Estados Unidos, que
haviam sido muito afortunados em seu próprio território.
A partir do 11 de setembro, a administração Bush reforçou sua discutível origem e escasso prestígio com
um discurso que confundia guerra com o crime para tornar porosa a fronteira entre o controle interno e o
externo, apagando os limites hobbesianos.
Bush agitou o nacionalismo, tomou da tolerância zero a ideia de prevenção e a levou à guerra, e
manipulou a tecnologia da comunicação para declarar a guerra ao Iraque, baseado numa mentira. Moveu-se,
porém, de acordo com regras diferentes, pois as válidas para os outros civilizados não foram as que aplicou aos
incivilizados, ou seja, da luta na selva, o que não passa de mais outra faceta da doutrina da segurança nacional e
da guerra suja.
Morrison afirma que o presente se caracteriza por uma volta da emocionalidade, um novo popularismo,
politização, um sentido de crise, um sentido de normalidade das altas taxas de criminalidade, uma nova relação do
crime com os meios de comunicação de massa, uma perda de confiança na eficiência do Estado de bem-estar.
Ele reconhece que a criminologia é o produto de um setor do planeta cujos Estados foram construídos
sobre a violência e o genocídio, e recorre a Bauman: o triunfo de umas poucas etnias sobre outras levou à
destruição dos vencidos e a história foi escrita pelos vencedores, mostrando sua civilização como um caminho
de progresso para a pacificação da vida cotidiana.
Por outra parte, destaca que as cifras de criminalidade registrada, reportadas nos países onde houve
genocídios, não incluem as centenas de milhares e às vezes milhões de mortos por esse crime. Para a estatística
criminal só contam os homicídios normais. Com toda razão, Morrison assinala que existe uma estatística criminal
que registra sob a forma de apartheid criminológico.
A criminologia só recolhe dados domésticos e condicionados pelo poder dos Estados-nação, constituídos
por meio da violência e que dominam outros de igual modo. Consequentemente, a criminologia é um discurso
muito parcial, construído em torno de um mundo de fatos políticamente delimitado.

Para começar, Morrison apresenta uma tabela impressionante de crimes de massa, cometidos desde 1885
até 1994, reconhecidos e não reconhecidos, da qual nos ocuparemos mais adiante. Perante esses milhões de
cadáveres que a criminologia não leva em conta em suas estatísticas, ele formula as seguintes interrogações, que
ficam em aberto: Podemos globalizar a estatística criminal? Se parte do objeto da análise estatística de Quetelet era
medir a taxa normal de crime em uma sociedade e assim determinar o risco, como se pode criar uma imagem
estatística de uma sociedade mundial de risco? Voltaremos mais adiante a essa possibilidade.
Ele passa em revista toda a criminologia neocolonialista e os crimes legitimados (Congo, Namíbia, Benin
etc.). Destaca que a criminologia não deu atenção nem a Nurenberg nem a Tóquio, por considerá-los crimes de
guerra, violatórios das regras que as próprias potências colonialistas não respeitavam em suas colônias. Mas se
Hitler os houvesse cometido somente dentro das fronteiras alemãs, os campos de concentração teriam ficado
impunes? Assegura que houve ambiguidade no julgamento, que a vítima era a humanidade, mas que o fato de
as vítimas concretas terem sido judeus, ciganos e gays não deixou de pesar.
Morrison afirma que a criminologia considerou que os grandes crimes do século passado são exceções das
quais a criminologia – como ciência de operações normais de controle, levadas a cabo pelo Estado – não necessita se
ocupar. No caso do Holocausto, a imagem dos campos de concentração reafirma essa distância, assegurando que se
trata de lugares verdadeiramente excepcionais, que jamais voltarão a existir.
Ele nega terminantemente a explicação do caminho especial – o Sonderweg – do nazismo e da
patologização da Shoá, uma vez que as pessoas que participaram ativamente nesses crimes eram normais e
muitos deles retomaram a vida cotidiana sem dificuldades.
Compara as execuções exemplificadoras – como a de Tupac Amaru, esquartejado publicamente – que
tinham por objetivo a reafirmação da verticalidade do poder (Olhem o que vamos fazer a vocês se resistirem) com
a secreta fabricação de cadáveres nos campos de extermínio, como dois objetivos completamente diferentes.
No momento em que escrevia, afirma que há um jogo de espelhos entre Bush e Bin Laden, pois sem Bin
Laden, Bush não teria obtido poderes extraordinários nem teria podido ganhar as eleições.
Morrison observa que, quando se atribui ao terrorismo o status de ato de guerra, ele fica excluído das
garantias penais. Ao mesmo tempo, como não são combatentes regulares, os terroristas ficam excluídos da
Convenção de Genebra, permanecendo à disposição das ordens do mais poderoso, que é quem resolve na
situação de exceção. Para ele, essa característica é o equivalente atual da lei marcial nos regímes coloniais e do
Fuhrerprinzip no nazismo.
Ainda que não o afirme, é claro que esta é a tese central da definição do político de Carl Schmitt e a
constatação de que se tenta uma trágica planetarização da chamada doutrina da segurança nacional dos anos
1970 sul-americanos. Esse caminho teórico é um dos que, desde a periferia, devemos reelaborar e aprofundar,
porque nos toca muito diretamente; além do mais, é a partir daí que podemos detectar mais facilmente o papel
central e protagonista do poder punitivo.

32. O neopunitivismo
Nos Estados Unidos, as características do Estado mudaram totalmente desde o estabelecimento do que se
denomina New Punitiveness (neopunitivismo).
Insisto nas características do novo rosto do sistema penal estadunidense. Um em cada três homens negros
entre 20 e 29 anos encontra-se criminalizado, um estadunidense em cada cem está na prisão, outros três estão
submetidos à vigilância com probation [liberdade condicional] ou parole [liberdade vigiada], os condenados por
qualquer delito são alvo de muitas inabilitações por toda a vida para votar, difunde-se o three strikes and you’re
out [14] (ou seja, uma pena de confinamento perpétuo para aqueles que são simplesmente incômodos), a familia
do condenado é expulsa das convivências sociais, são cancelados todos os benefícios sociais, os trabalhos
forçados foram restabelecidos, e foram executadas cerca de 1.300 penas de morte desde o final da moratória
dos 1970 (incluindo doentes mentais e menores), os governadores fazem campanhas para reeleição rodeados
de retratos dos executados que não tiveram a pena comutada, são feitas condenações sem que se vá a
julgamento, mediante extorsão as testemunhas são compradas impunemente, são praticados os métodos mais
imorais de investigação, instiga-se a denúncia dentro da família, o pós-moderno recupera todas as características do
pré-moderno inquisitorial.
O nazismo penal renasceu nos Estados Unidos e é oferecido como modelo mundial. Disso se ocupam
muitos criminólogos, mas como não posso mencionar todos eles, nos ocuparemos dos três mais conhecidos:
David Garland, Loïc Wacquant e Jonathan Simon.
Garland formou-se em Edimburgo, mas ensina em Nova York. Publicou várias obras, mas a que mais nos
interessa é A cultura do controle[15], de 2001.
Ele afirma que na sociedade pós-moderna reina uma espécie de esquizofrenia, que dá lugar, por um lado,
a uma criminologia da vida cotidiana, que apela a todos os recursos preventivos mecânicos, eletrônicos etc., e,
por outro, a uma criminologia do outro, que ressuscita, definitivamente, as versões mais tenebrosas do velho
positivismo.
A criminologia da vida cotidiana incorpora o delito como risco normal e nos enche de engenhos humanos
preventivos, ou seja, a prevenção do delito não depende de valores morais, e sim de impedimentos físicos que
retiram a oportunidade. Nesse sentido, contrasta com a tradição conservadora que entende que a prevenção
depende dos valores morais e do respeito à autoridade.
Por outro lado, aparece a criminologia do outro, baseada na vingança, que se expressa como exclusão,
defesa social, neutralização do sujeito perigoso, ou seja, lança mão do discurso do velho positivismo, mas em
um sentido bem vingativo.
A contradição é clara: o delito não pode ser tão normal como a chuva e, ao mesmo tempo, não pode ser
dramatizado ao máximo, usando vocabulário militar ou de guerra e apresentando o infrator como um sujeito
irredutivelmente mau, que deve ser aniquilado.
Wacquant é francês, professor da Universidade da Califórnia (Berkeley) e pesquisador do Centro de
Sociologia de Paris. Também publicou várias obras a respeito nos últimos dez anos.
Para Wacquant, a tensão assinalada por Garland responde a um sistema pós-fordista que precariza o
trabalho, aprofunda as discriminações e segregações de classe e raciais, relega os setores mais golpeados pela
política chamada de neoliberal aos bairros mais pobres, marginais e distantes, e monta um aparato punitivo de
contenção que configura aquilo que ele denomina de Estado penal.
Afirma também que este Estado penal dá continuidade ao racismo do apartheid, o qual, segundo ele, jamais
desapareceu das práticas burocráticas estadunidenses, razão pela qual o considera também um Estado racial.
Na realidade, é revelador que em 1989, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, a população
penitenciária negra se tenha tornado majoritária nas prisões. Para Wacquant, isso provoca a política de expulsão
do mercado laboral, que torna economicamente desnecessária ou subempregada e mal paga a uma parte da
população, que suporta o trabalho como uma obrigação cidadã, sendo funcional manter essa posição
subordinada à criminalização da pobreza, empreendida claramente a partir dos anos oitenta do século passado.
Além do mais, a precarização do trabalho fez desaparecer a solidariedade do gueto, que foi substituída por
um supergueto sem sentimento comunitário, o que provoca a vitimização dos pobres (os da favela roubam na
favela).
É claro que Wacquant sustenta uma interpretação estrutural do fenômeno, diante da interpretação cultural
de Garland. O certo é que Wacquant detém-se pouco nas mudanças políticas gerais e no próprio sistema penal
que foram preparando o terreno para a virada autoritária, ou seja, não repara na transformação institucional
que se produziu nas últimas três décadas e que, sem dúvida, incidiu na virada repressiva do poder punitivo
estadunidense.
Jonathan Simon é professor em Berkeley. Em 2007, publicou Governing through Crime[16], How the War on
Crime Transformed American Democracy, em que leva a cabo uma interessante investigação que, no meu
entender, não se opõe à tese culturalista de Garland nem à estrutural de Wacquant, mas sim as complementa,
analisando em profundidade como se foi gestando a tremenda transformação institucional e social que
desembocou no autoritarismo penal atual. Ele atribui essa explosão repressiva à lenta, mas incessante,
deslegitimação do Estado de bem-estar, fixando seu início na agressiva campanha do conservador Barry
Goldwater em 1964, baseada quase completamente na palavra de ordem da lei e ordem. A ela se seguiram as
guerras contra a droga de Nixon, Reagan e Bush pai, para culminar com a guerra ao terrorismo de seu inolvidável
filho, depois do 11 de setembro de 2001.
Para Simon, tudo isso configura uma governance – ou seja, uma técnica de governo – que se caracteriza
como um governo referenciado pelo crime, completamente oposto à tradição liberal.
A chave de sua interpretação está no fato de que quando se governa tendo o crime como referência, o
modelo punitivo – e vingativo – torna-se uma técnica geral de governo, ou seja, estende-se a todas as formas
sociais: vai desde o Estado nacional até a escola, invade o âmbito privado e as relações familiares, ameaça a
democracia em todas as suas instituições.
Simon adverte, acima de tudo, sobre a ameaça à democracia que a vítima-herói pode representar: A
democracia estadunidense está ameaçada pelo surgimento da vítima do delito como modelo dominante do cidadão,
como representante da gente comum, cujas necessidades e capacidades definem a missão do governo representativo.
Segundo Simon, o Safe Streets Act de 1968, de Lyndon Johnson, marcou uma mudança fundamental, pois
fez a passagem do modelo do trabalhador manual como representante do cidadão comum no imaginário
coletivo para o da vítima, determinando o começo do governo mediante o crime.
O processo se acelerou porque, desde Reagan até Bush, todos os presidentes tinham sido antes
governador de estado (exceto Bush pai, que vinha da CIA, o que não alterava a tônica), e levaram para o
governo federal a modalidade vingativa da política provinciana, na qual os promotores são eleitos por voto
popular e adquiriram a prática de fabricar vítimas-heróis como modo de dar o salto às governances, com base
em campanhas vingativas.
Essas campanhas estigmatizaram os juízes como inimigos, aliados ou encobridores dos criminosos e
responsáveis pela insegurança frente ao crime, o que motivou as reformas legislativas que impuseram penas
fixas ou reduziram a possibilidade de avaliação judicial (são reações políticas frente aos juízes garantistas).
Os políticos – que, ao legitimar o desmantelamento do Estado de bem-estar, violam os direitos de toda a
população – têm a oportunidade de se firmar, mostrando sua despreocupação com a segurança mediante leis
mais autoritárias, atendendo ao clamor público do que as vítimas-heróis são sua vanguarda (caso Blumberg),
enquanto o modelo punitivo vai se estendendo a todas as instituições e formas sociais, públicas e privadas.
Trata-se, em essência, de uma maneira de governar mediante a administração dos medos. O próprio Simon
recorda que nos tempos de Nixon o medo dominante era do câncer, o que foi evoluindo até chegar ao medo
do terrorismo.
A análise de Simon é muito mais pormenorizada que as de Garland e Wacquant, embora não se oponha
necessariamente a estes, pois tanto a dimensão cultural quanto a estrutural podem encaixar-se em sua
interpretação como um complemento.
Não obstante, cremos que Simon não percebe a dimensão total da virada autoritária, pois não enfoca a
questão com uma visão histórica mais ampla. Governar mediante o medo importa a fabricação de inimigos e a
consequente neutralização de qualquer obstáculo ao poder punitivo ilimitado, supostamente usado para
destruir o inimigo, ainda que todos saibamos que é materialmente utilizado para aquilo que o poder quiser. No
fundo, o fenômeno é sempre uma enorme enganação para distrair a atenção sobre outros riscos e obter o
consenso para exercer um poder policial sem controle.
Este poder punitivo sem controle foi sempre usado para verticalizar e hierarquizar as sociedades, como
manifestamos reiteradamente, ou seja, para dotá-las de estrutura colonizadora. Por conseguinte, é natural que
esta técnica, ou governance, tenha penetrado como uma torrente em todas as instituições sociais. A Inquisição
precisou reforçar o patriarcado para assegurar a base da sociedade exércitoforme que em seguida foi lançada
sobre a América e a África. Toda inquisição tende a hierarquizar e a produzir homogeneidade e conformismo; o
ideal político de todo inquisidor é a colmeia de abelhas ou o formigueiro.
O que Simon faz é descrever muito bem o processo atual em detalhe e em sua genealogia, mas o certo é
que, quanto ao estrutural, não há diferenças dessa natureza com outros momentos inquisitoriais. Trata-se do
prolegômeno ou de uma tentativa em marcha de impor um Leviatã planetário? Ou antes, obedece à
necessidade de reforçar um poder debilitado ou declinante? Essa é a pergunta que não se formula, mas que
deve nos preocupar, no nosso canto.
De qualquer forma, Simon bate na tecla certa: a chave é governar valendo-se da centralização do medo em
um objeto. Nesse sentido, sua contribuição, ao descrever como e por que isso é feito na atualidade nos Estados
Unidos, é fundamental para nós, porque a partir daí se globaliza ou planetariza essa técnica de governo.
Investigações análogas à de Simon fazem falta em nossos países.

33. Outras palavras: as ciências psi


Quando a criminologia crítica proveniente do interacionismo e da fenomenologia colocou em evidência as
características estruturais do poder punitivo, a criminologia etiológica do canto da Faculdade de Direito acabou
de se derreter e com isto a chamada clínica criminológica – ou seja, o estudo da pessoa criminalizada pelos
especialistas – perdeu prestígio.
Essa desconfiança não era gratuita, dados os antecedentes do primeiro encontro dessas disciplinas com a
criminologia no marco da criminologia racista, mas também porque sua etiologia e sua prática institucional não
levavam em conta o efeito deteriorador e estigmatizador da própria criminalização.
Era um pouco difícil exigir do psi institucional que deixasse evidente o papel determinante cumprido na
etiologia pela intervenção da própria instituição da qual ele faz parte. Supomos que um operador psi que
informasse que a polícia, os juízes e os penitenciários estavam condicionando uma carreira criminal, pelo menos
em nosso meio, o teriam jogado na rua por via rápida.
Foi devido a isso e aos tristes antecedentes históricos que os criminólogos críticos em geral reagiram
alergicamente frente às propostas de intervenções psi em seu campo e se inclinaram por cortar todos os
vínculos com esses saberes. Isso não passa de uma reação emocional, nunca boa conselheira da ciência, produto
de uma confusão de níveis. Em princípio, os saberes psi de hoje não são os do positivismo. Entre os cultores
dessas ciências há tantos sujeitos de alta periculosidade quanto em todas as outras, mas por sorte não são
dominantes.
É verdade que não faltam aqueles que pretendem reconstruir o criminoso nato com base nas neurociências,
voltando a extrair consequências apressadas de novos conhecimentos médicos e biológicos, como outrora
aconteceu com o evolucionismo, com as localizações cerebrais ou com a endocrinologia. Também é certo que
alguns pretendem resolver qualquer coisa repartindo alegremente o jaleco químico com toda a população, ao
mesmo tempo em que se escandalizam porque alguém fuma maconha. Porém, em todos os saberes, assistimos
a saídas de tom que, sem prejuízo de sua periculosidade, são passageiros.
A antipsiquiatria deixou uma marca que foi além de seus exageros pontuais, a psicanálise fez a sua parte, a
antropologia de Franz Boas não passou sem deixar de impactar o campo psi, a desnaturalização das preferências
sexuais minoritárias é um fato etc. Em síntese: está muito claro que o psi não se nutre hoje de ideologias
racistas nem totalitárias.
A psicanálise impactou no começo a criminologia etiológica do canto com uma montanha de trabalhos,
alguns dos quais só extraíam sua profundidade do que seus autores haviam lido em Freud no metrô. Nos anos
1930, fez furor O delinquente e seus juízes do ponto de vista psicanalítico, de Franz Alexander (psicólogo) e Hugo
Staub (jurista), do qual quase todos os outros escritos foram tributários (alguns o plagiaram).
Não era, porém, tarefa dos psicólogos colocar em evidência as características estruturais do poder punitivo,
e sim dos sociólogos. Seria injusto atribuir-lhes uma responsabilidade que não lhes dizia respeito. O certo é que
tampouco é verdade que tentaram reconstruir um criminoso nato por via psicológica, pelo menos no que diz
respeito a seus expoentes mais destacados.
Não nego que, às vezes, se geram confusões provenientes de alguns leitores apressados do próprio campo
psi, como quando alguém – que também viu as capas do código penal no metrô – confunde lei do pai de Freud
ou a ideia do nome do pai de Lacan com o código penal, sem dar-se conta de que esses conceitos não se fixam
por maioria parlamentar.
Felizmente, porém, nem Freud nem Lacan pensaram nisso (nem Melanie Klein se olhava no espelho para
ver se tinha dois seios muito diferentes). Tampouco Lacan pensou que as prisões deviam encher-se de loucos.
Esta gente escreveu textos inteligentes, que não podem ser lidos como se lê a revista Hola.[17]
Esse desencontro não é mais do que o resultado do desconhecimento dos respectivos planos de análise e
observação: o sociólogo observa a partir do grupal e o psicólogo a partir do sujeito concreto. Por isso, os
conhecimentos do sociólogo são particularmente úteis para formular políticas, mas nada nos diz sobre o que
fazer com o sujeito concreto, do qual a criminologia não pode ignorar que lhe diz respeito.
Quando nos deparamos com um fenômeno que é necessário controlar, como pode ser o uso de um
veneno do tipo do chamado “paco”, o sociólogo pode nos informar acerca das medidas grupais (planos de
assistência para reduzir o tráfico de subsistência, programas de fomento da escolaridade e de geração de projetos
de vida positivos, modos de instruir os operadores, medidas que eliminem ou reduzam a estigmatização do
usuário etc.). No entanto, nada nos pode dizer sobre o que fazer com o sujeito concreto (com o pequeno
usuário, a quem é preciso tratar para evitar que morra ou se machuque de forma irreversível). E isso é válido
para qualquer outro problema.
A criminologia crítica bem entendida, em lugar de limitar o campo psi em sua matéria, o amplia. O
etiquetamento não é algo que opera de forma mecânica nem afeta a todos por igual, pois o ser humano não é
uma marionete. Há pessoas que assumem a etiqueta do estereótipo e outras que não o fazem. É óbvio, pois,
que existe um grau de fragilidade que condiciona uma vulnerabilidade ao etiquetamento. Esta é questão que faz
o sujeito concreto e nesse terreno são as disciplinas psi que devem nos informar.
Se a intervenção do poder punitivo tem efeito deteriorador e estigmatizante e se há pessoas que sofrem
esses efeitos muito mais que outras, é o campo psi que nos pode informar sobre a que corresponde a maior
vulnerabilidade em cada um e, o que é mais importante, como abordá-la no sujeito concreto.
Nesse último sentido, não devemos omitir a inspiração que Viktor Frankl pode proporcionar. Depois de
sobreviver a um campo de concentração, ele fez de toda essa experiência uma teorização (que chamou de
logoterapia) com base existencial, que sintetiza em um livro intitulado Um psicólogo sobrevive ao campo de
concentração.
Se é impossível ocultar que o delito e o poder punitivo produzem vítimas – ou seja, exercem violências
que afetam muitas pessoas – e que a criminologia sociológica traga informação para políticas redutoras dos
danos, não é menos certo que, frente aos sujeitos concretos afetados, são as disciplinas psi que podem indicar
como atuar. Só o especialista psi pode nos dizer como tratar quem sobrevive a um atentado criminoso ou quem
passa pela tortura.
Ademais, uma vez que incorpora a seu campo o exercício do poder punitivo, a criminologia atual amplia o
universo de condutas dos sujeitos concretos. Já não se trata apenas de observar o criminalizado e a vítima, e sim
de incorporar os operadores do sistema penal.
Sem ânimo de psiquiatrizar nada, é sabido que tudo o que se relaciona com o exercício do poder punitivo
opera como mel para moscas no que concerne a muitas pessoas com patologias sérias. Esse não é um dado
menor para a tomada de decisões na hora de selecionar pessoal ou de averiguar a natureza de algumas
condutas manifestas em outros segmentos do sistema.
Ignorar, desde a criminologia, o campo psi é um erro preconceituoso gravíssimo, que faz perder de vista o
sujeito concreto, é tão negativo como pretender transferir as observações sobre este do campo psi às políticas
sociais. São duas perspectivas que devem se encontrar, sem pretender ignorar-se nem neutralizar-se, mas sim,
simplesmente, reconhecendo que trazem visões diferentes sobre a conduta humana, que é um objeto
configurador de extrema complexidade.
Sabemos que não faltam aqueles que, a partir da academia, argumentam que isso é questão da criminologia
aplicada, mas não da teórica. Mais adiante, mostraremos como os conhecimentos psi são indispensáveis para a
criminologia teórica atual; se alguém pretende fazer uma criminologia teórica pura, sem consequências práticas,
sem a aplicação, é melhor que fechemos a porta e o deixemos sozinho em seu escritório.
Ilustração 22

34. Somos todos neuróticos?


Não é nossa intenção cair em uma teoria macro e subir num avião a jato para que, por conta de querer
abarcar um panorama mais amplo, quando olharmos para baixo não consigamos ver nada. No entanto, não
podemos negar que devemos perguntar alguma coisa aos homens sábios diante da inquestionável característica
de nossa espécie, que é sua tremenda agressividade intraespecífica (e extraespecífica também, é claro).
Sem dúvida, os danos sociais assinalados pelos ingleses que pretendem ir mais além da criminologia existem
e estão em curso, milhões de pessoas morrem diante da indiferença dos demais e os massacres vitimaram
muitos milhões, sem contar os outros milhões de mortos pelas guerras e, além do mais, nada disso pertence a
um passado remoto.
Não é fácil se perguntar pelas razões profundas e últimas desta agressividade da espécie porque é
frequente que, por detrás da busca dessa resposta, se esconda um bom pretexto, e até uma justificativa, para os
poderes que operam massacrando ou violentando, em especial se a resposta segue o caminho da inevitabilidade
ou da naturalização dessas calamidades. (No bar, seria a tese de um gordo que esteve preso por cheques
voadores e por vender uma passagem para Marte: Você vai ficar louco, sempre foi assim, não há nada a fazer).
Entretanto, é inevitável começar a apresentar essas questões, porque a tese naturalista é uma defesa
insensata – para não dizer outra coisa – que, traduzida na minha resposta ao gordo no bar, significa que é
inevitável nos tornarmos inúteis dentro de pouco tempo.
Por isso, para não cair na insensatez – pelo menos não completamente –, e ainda que devamos tomar as
devidas precauções, não há mal algum em rastrear um pouco a questão das raízes últimas da agressão humana,
e isso não pode ser entendido, de modo algum como a legitimação de qualquer massacre.
É possível que, a partir da crítica macro, nos seja objetado que, com isso, passamos por cima do
capitalismo, ou o minimizamos, mas me parece que ali se confundem duas coisas bem diferentes e, talvez, por
temor de não ter resposta diante daquele que diz que não há nada a fazer. Colocar um automóvel em marcha,
girar a chave da partida, é uma coisa, outra bem diferente é, em seguida, já na estrada, apertar o acelerador e
bater.
Admitindo que as formas desapiedadas da exploração capitalista e da busca de acumulação indefinida de
lucro sejam as que apertam o acelerador, parece haver algo antes, posto que houve massacres antes do
capitalismo, antes mesmo das formas modernas de Estado, como o genocídio dos cartagineses pelos romanos
ou as campanhas de Gengis Khan.
Além do mais, nisso mesmo de acelerar, cabe se perguntar ao que responde o afã pela acumulação de
poder ou de lucro, de forma indefinida, quando a existência é finita ( Para que você quer tanta grana, se não há
mortalha com bolso? se perguntaria o filósofo magricela na esquina).
São perguntas que não podemos ignorar se olharmos para o que se passou nos últimos séculos. Ninguém
pretende legitimar com isso os massacres neocolonialistas, a Shoá ou Hiroshima e Nagasaki, mas apenas
perguntar o que é que deu a partida antes deles.
A pergunta se impõe porque se vai fazendo urgente averiguar se é possível desconectar a partida e parar o
motor.
Talvez se objete que vamos demasiadamente longe, mas infelizmente não nos resta outro recurso, porque
se não paramos o motor corremos o risco de acabar com as condições de vida humana no planeta. Que o
último jogue fora o lixo e apague a luz já não é uma questão colocada apenas por um estraga-prazeres.
Isso não é brincadeira e não o consertamos deixando de usar o desodorante em aerossol: no último século
deterioramos essas condições muito mais do que em todos os milênios anteriores em que caminhamos sobre o
planeta, e com essa projeção não falta muito para chegar ao limite. Ademais, a destrutividade atual não é
exercida com armadilhas e flechas.
Por isso, ao colocar a questão criminal e nos darmos conta de que, se ela está inserida em um mundo
onde as mortes em massa e não em massa importam pouco e onde os que exercem o poder nos iludem para
que nos cuidemos só dos ladrões enquanto eles vendem armas em grandes quantidades, não podemos colocar
de lado a questão da agressividade e deixar de nos perguntar sobre sua possível raiz última na civilização.
No século passado muitos se perguntaram por isso, em particular na psicologia e mais ainda a partir de
Sigmund Freud, que foi um personagem bastante incômodo para seus contemporâneos. Não é à toa que ele é
comparado a Copérnico e a Darwin. Como se não fosse suficiente que um dissesse que não éramos tão centrais
e o outro que tínhamos o macaco como primo, veio Freud e disse que nem sequer somos racionais.
Pois bem. Entre as perturbações causadas por Freud, uma das mais interessantes é de ter-se remontado até
a etnologia, ou seja, mais além – antes – da história, para explicar a destrutividade humana. Desse modo, foi ele
quem localizou o terreno em que se devia buscar a resposta.

Ilustração 23

Além de sua teoria do pai terrível da horda, do parricídio originário e das limitações que os irmãos se
impuseram para consolidar o novo sistema (tese para a qual seus próprios seguidores olham com desconfiança),
a consequência antropológica que sustentou em 1930, em O mal estar na cultura, é muito penetrante.
Ele afirma ali que a cultura reprime as pulsões agressivas, gerando um controle interno mediante o
superego que não as elimina, mas as mantém no inconsciente, onde lutam por aflorar, produzindo culpa, o que
estimula a procura pela punição como compensação.
Falando mais claramente. A vontade de destruir o outro não desaparece ao se conter, mas sim é colocada
para dentro, no superego, carregando inconscientemente a consciência (o superego diz Por que razão você foi
querer isso?!) e se traduz numa busca inconsciente de castigo (e a seguir acrescenta: Por ser um tipo que merece
um castigo).
O delito seria, pois, uma das vias para satisfazer essa reclamação inconsciente de punição, embora possa
ser outro autocastigo que nada tenha a ver com o sistema penal do Estado, como cortar o dedo descascando
batatas, morder a língua comendo um bife ou prender o dedo numa porta.
Para Freud, a reação social punitiva não cumpriria a função de eliminar nem prevenir a criminalidade, mas
sim proporcionaria satisfação à demanda de punição inconsciente do próprio infrator. Este não seria quem
introjetou equivocadamente as normas, e sim justamente quem internalizou a autoridade de maneira tal que as
pulsões reprimidas em seu inconsciente o movem a buscar a punição mediante a infração.
Freud adverte que, quando uma pessoa se abstém de agredir a outra só porque existe uma força exterior
que o impede (quando a sério se diz só não quebro a tua cara porque vou em cana), não há consciência pesada;
esta aparece quando a autoridade está internalizada, ou seja, quando faz parte do eu.
Nos nossos dias, isso estaria indicando uma confiança muito escassa da autoridade em sua capacidade de
provocar a introjeção, evidenciada na parafernália do aparato mecânico e eletrônico de impedimentos, ainda
que também poder-se-ia pensar que a autoridade projeta sua própria e escassa introjeção de normas, isto é, sua
pouca consciência pesada (na esquina dizem que parece que tem a consciência morta).
Conforme essa tese, Freud criticava a pena de morte, pois segundo uma pesquisa respondida por Theodor
Reik, ao que parece por iniciativa de Freud, longe de constituir um elemento dissuasório, a pena de morte seria
uma ocasião de expiação máxima, uma espécie de suicídio com cumplicidade da justiça estatal.
Essa explicação é interessante no que diz respeito aos atentados suicidas fundamentalistas do nosso tempo,
que desconcertam aqueles que pretendem preveni-los, mas não precisamos recorrer a exemplos tão extremos,
pois, na violência urbana, verifica-se que, diariamente, se produzem muitos delitos suicidas e muitíssimos mais
em que a imprevisão do infrator é tão notória que parece confirmar a tese freudiana. São muitos os delitos que
dão a impressão de que são cometidos para ser descobertos.
Se bem que por esta via se deslegitima a racionalidade do poder punitivo, por outra explicaria sua
resistência e permanência.
A ideia que Freud tinha do ser humano não era muito positiva, porque estaria filogeneticamente
condenado a uma agressividade que, ao ser reprimida, o carrega de culpa e esta, por sua vez, o impulsiona
inconscientemente à infração em busca de castigo, ainda que não necessariamente no sentido penal.
Cabe precisar que, numa etapa posterior, Freud deixou de falar de sentimento inconsciente de culpa, para
referir-se à necessidade de castigo ou masoquismo primordial. Esta seria a explicação para os erros de conduta
muito grosseiros, que acarretam notórios preconceitos aos protagonistas, completamente alheios ao poder
punitivo, mas que não podemos compreender. Nesse sentido, a rudeza não passaria, muitas vezes, de
representar uma manifestação inconsciente desse masoquismo primordial, inclusive a rudeza do delinquente
frente ao aparato repressivo.
De qualquer maneira, para Freud os massacres seriam, em sua raiz última, uma espécie de preço
civilizatório, ao que parece não muito evitável. Esta ideia foi expressa na resposta, bastante pessimista, à
proposta pacifista de Albert Einstein, em 1932.
Com efeito, para Freud, o preço a ser pago pelo progresso da cultura reside na perda da felicidade pelo aumento
do sentimento de culpa, expressa em uma crescente necessidade de castigo.
Passando por cima do social, ele afirma a existência de um superego cultural, para eliminar o maior
obstáculo com que a cultura se choca: a tendência constitucional dos humanos a agredir-se mutuamente.
Nesse sentido, afirmava que o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo era irrealizável e lançou
a hipótese de que a origem de uma neurose coletiva, conceito que abriu um formidável espaço de discussão,
talvez se encontre na impossível realização do superego cultural.
Freud concluía que o destino da espécie humana dependerá do grau em que a cultura consiga fazer frente
às perturbações da vida coletiva, emanadas do instinto de agressão e autodestruição. Em síntese, tudo dependerá da
forma em que nos acertemos com nossas pulsões de vida (Eros) e de morte (Tanatos). Em outras palavras, do
seu lindo apartamento de Viena, ele nos dizia que nosso futuro dependerá de como nos arranjaremos para
conter nossas repreensões futuras e tudo indica que até agora o vimos fazendo bastante mal.
O certo é que, como não podia ser de outra maneira, a ideia de neurose coletiva de Freud abriu um leque
de reflexões e respostas, dado que implicava em algo assim como todos somos neuróticos, condição que nem
todos assumem com naturalidade (e alguns rechaçam ofendidos, enquanto tomam psicofármacos).
35. Podemos deixar de ser neuróticos?
A gama de reações à tese da neurose coletiva colocada por Freud é enorme e não posso nem sequer
mencionar todos os que opinaram, de forma inteligente, a esse respeito, e por isso selecionei apenas dois
autores: Herbert Marcuse e Norman O. Brown.
Estou perfeitamente consciente da heterodoxia dessa escolha e talvez até de sua arbitrariedade. Marcuse é
muito conhecido e alcançou sua fama máxima no 1968 francês, e é por isso que chamo a atenção ao fato de
citar, juntamente com ele, Brown, que hoje está completamente esquecido (embora ele tenha sido o autor de
cabeceira de Jim Morrison, o que em nada afeta a permanência do The Doors).
Não obstante, não o fazemos somente porque a tese de Brown seja tão radical e seu desenvolvimento,
engenhoso e divertido, e sim porque entendemos que constitui a antípoda mais livre e, ao mesmo tempo,
necessária neste debate.
Ademais, pelo rumo que o mundo toma, nada pode ser considerado totalmente inverossímil nem nenhum
pensamento que proponha uma saída deve ser desprezado, embora seja considerado desmedido ou démodé.
Por que entendo dessa maneira? Em uma síntese bem grosseira, diria que Marcuse aceitava a hipótese
freudiana, mas afirmava que podíamos ser menos neuróticos e desse modo seguir em frente. Brown, por sua
vez, também a aceitava, mas como a civilização era a causa da neurose, propunha suprimir esta civilização e
assim deixarmos de ser neuróticos. Por desmedida que pareça a resposta, não se pode negar que incursiona por
um caminho atrevido e, diante da magnitude da questão, não há caminho que não deva ser explorado.
O que Marcuse propunha? Seguia Freud e admitia que, regido pelo princípio do prazer e sem contenção, o
id destruiria tudo (quando explico na esquina, traduzo assim: claro, se cada um faz o que quer, vira bagunça).
Não obstante, ele afirma que Freud confundiu a necessidade de repressão que a ordem biológica impõe
com aquela social ou historicamente condicionada, que, na atualidade, demanda uma sobre-repressão
desnecessária para a manutenção da civilização, isto é, para manter a civilização não se necessita de tanta
repressão.
Essa sobre-repressão desnecessária (ou excesso de repressão) não responderia ao princípio de realidade (ao
necessário para não virar bagunça), e sim ao que chama de princípio do rendimento, que na civilização atual
privilegia a concorrência, o crescimento, a expansão, que faz que tudo o que não se considere útil seja
proclamado como perverso ou nocivo.
Marcuse escrevia nos anos 1950 e 1960. Considerava que nos países centrais se havia desenvolvido uma
aparente racionalidade envolvente, que impossibilitava qualquer resistência ou contrassistema, pois era tão
perfeita e fechada que a incorporaria, fagocitando-a (o Che se converte em uma camiseta). Parece-me que hoje
não poderia explicar a exclusão nas sociedades centrais, a imigração periférica não assimilada, os surtos de
xenofobia, a seletividade racista do giro repressivo do sistema penal estadunidense, a redução do nível de vida
imposta pelo FMI na Europa etc.
Por sorte, não existe um sistema tão perfeito como o que Marcuse descreve: tudo continua fluindo (Viva
Heráclito!).
Como vemos, Marcuse aceita a tese freudiana da necessidade civilizatória, que converte a criança (que,
para Freud, era um perverso polimorfo, análogo ao selvagem) em um ser civilizado. Limitava-se a observar uma
sobrerrepressão da nossa civilização, cuja eliminação em um modelo de sociedade que não chegava a delinear
muito claramente, porém que passava pelo que ele chamava de ditadura da ideia e chegava à sociedade ideal
(isso de ditadura sempre me soa mal, mas não importa, não é isso o que nos preocupa agora).
Brown escrevia nos mesmos anos e não só constitui a contraface antropológica de Marcuse, como também
do próprio Freud, de cujas posições parte. Sua tese central não é a existência de um excesso repressivo, como
via Marcuse, mas que a fonte da neurose civilizatória relaciona-se diretamente em fazer a criança perder seu
polimorfismo: o que Freud considerava necessário, Brown considera neurótico.
Brown deu o salto do individual ao social e concluiu que a própria sociedade é neurótica, que a história
humana é a de uma neurose maciça, e que a psicanálise jamais poderá curar os indivíduos, salvo se fizer mudar
radicalmente a sociedade, cuja estrutura neurótica reflete o próprio indivíduo.
A história humana seria a história de uma neurose, que destaca a incapacidade da civilização ocidental para
incorporar a morte, pois ao separá-la radicalmente da vida provoca uma ambivalência irredutível. Segundo
Brown, ao não poder incorporar a morte à vida, faz o contrário, ou seja, incorpora a vida à morte. Indo além dos
exageros, acho que devemos refletir sobre isso.
O signo neurótico não só se traduz, para Brown, em uma busca indefinida de bens, mas também de
poder, o que é válido também para a acumulação do saber como poder, pois a busca de poder indefinido
mediante a ciência redunda, com certeza, também na acumulação de bens. A esse respeito, as características
mórbidas da sociedade moderna não são quanto ao conhecimento em si, mas sim com respeito aos esquemas
que regem a busca do conhecimento e que têm por meta a dominação dos objetos.
Apesar de essa crítica ter mais de meio século e ser anterior ao despertar da consciência ecológica, a
conclusão de que uma ciência não mórbida não deveria ter por objeto o domínio da natureza, e sim se unir a
ela, ganha muita atualidade.
O capitalismo, estimulador da acumulação indefinida, seria a expressão dessa neurose civilizatória, que, ao
determinar como meta a acumulação de riqueza, conduz à negação do Eros mediante a sublimação do corpo: a
riqueza não é um meio, mas sim um fim em si mesmo, com o qual avança o triunfo da pulsão de morte sobre
Eros.
Brown segue Freud, mas vai além dele, às vezes em coincidência com Jacques Lacan – em especial ao
criticar a psicologia do eu –, embora não conhecesse os trabalhos deste. Considera que, embora Freud tenha
descoberto o novo mundo do inconsciente, as consequências que os freudianos extraem são muito estreitas.
Acredita que a civilização ocidental está assentada sobre a negação do corpo, o império da repressão e as
deformações do desejo, cuja origem localiza na formação genital do psiquismo na infância, deslocando o
princípio do prazer e substituindo-o pelo princípio de realidade.
Para escapar a essa repressão genitalista, na qual vê a origem da neurose civilizatória, Brown afirma a
necessidade de se voltar à perversidade polimorfa infantil, em que todo o corpo é erotizado (nesse sentido,
não considera o pobre Wilhelm Reich como nenhum libertador).
Enquanto para Freud a repressão do polimorfismo era uma necessidade de todo processo civilizatório,
para Brown é a causa da neurose civilizatória. Para chegar a isso, critica o conceito de sublimação freudiana
como uma forma de repressão. O ascenso, para Brown, é da mente ao corpo, forma de liberação das
potencialidades corporais, até alcançar o estado do polimorfismo. (No bar me perguntariam: Cara,isso não é um
pouco demais?)
Creio que, em boa parte, contribuem para o esquecimento deste autor suas reflexões muito detalhadas e
divertidas sobre o conceito de analidade freudiano e o conhecido vínculo psicanalítico entre o dinheiro e os
excrementos (o dinheiro sujo). Em suas pitorescas reflexões, Brown considera que Jonathan Swift, em suas
Viagens de Gulliver, foi um precursor da psicanálise, afirmando que os yahoos – que, com certeza, eram uns
porcos – são uma metáfora do ser humano. Avança mais, e levando em conta que Martinho Lutero confessava
sua frequente inspiração no banheiro, destaca-o como o máximo expoente da ética protestante, que se
corresponde com o capitalismo e a vincula com este lugar de inspiração (não sabemos o que Max Weber teria
opinado).

36. Um pouco de etnologia


Freud localizou corretamente a pergunta sobre a destrutividade humana no campo da etnologia; por isso,
vale a pena entrar um pouco nessa matéria, para ver se podemos encontrar alguma alternativa diferente.
A essa altura, julgo ser necessário mencionar René Girard, um filósofo francês dedicado à investigação da
violência nas sociedades primitivas, na qual constrói sua teoria da mímesis, que aplica em seguida à civilização
atual. Voltaremos a esse pensador, porque ele é fundamental para entender a questão dos massacres. Girard
concorda em seguir Freud até a paragem da etnologia, mas considera que o do pai terrível não é
antropologicamente verificável e, além disso, é uma tese estática, que deixa a sociedade fundada para sempre e
não explica bem como pode se manter até o presente (a memória filogenética freudiana não é muito
convincente).
Girard traz uma tese dinâmica, afirmando que na sociedade vai sendo gerada uma tensão que, em certo
momento, traduz-se numa violência difusa, porque todos vão querendo as mesmas coisas, em função de uma
rivalidade mimética.
O que significa isso? Seria o que se produz quando se toma o outro como modelo. Se Fulano tem um
automóvel novo, eu também quero tê-lo, da mesma marca ou melhor. Por que? Porque tomo o Fulano como
modelo e, portanto, quero me parecer com ele ou superá-lo e, por lógica, ter o que ele tem ou ter algo mesmo
melhor. Isso é a mímesis de Girard.
Entendamos que não se trata de uma tensão que se gera porque é necessário para a sobrevivência: não se
produz porque o outro come e eu não como e tenho fome, mas porque o outro come caviar e toma
champanhe e eu também quero comer e tomar isso, porque quero me parecer ao modelo de quem come e
toma isso. Girard explica que os grupos começam se olhando e terminam se imitando e desejando o mesmo,
mas à medida que a violência aumenta, os objetos desejados podem passar ao segundo plano e inclusive ser
esquecidos, momento em que se passa da mímesis de apropriação à pura mímesis de antagonismo (a propósito,
jamais gostei de caviar e prefiro o semillón ao champanhe).
Chega-se, dessa maneira, à violência coletiva: verte-se sangue que reclama mais sangue – vingança –, em
uma escalada de violência essencial que só cessa quando se canaliza numa vítima expiatória, cujo sacrifício
resulta milagroso, pois faz cessar de imediato a violência destruidora.
Girard observa que são assinaladas vítimas sacrificiais muito diferentes, que são consideradas enquanto tais
por sua idoneidade canalizadora em cada sociedade, sem que isso determine nenhuma identificação ôntica
prévia. Em geral, se requer que a vítima seja estranha, mas não completamente diferente, razão pela qual se
pode deslocar inclusive animais, mas que antes tiveram de ser domesticados para aproximar-se do humano.
Justamente porque não é totalmente diferente, a vítima pode encarnar o mal de toda a sociedade,
canalizar a vingança de todos seus integrantes, sem importar se é culpada ou inocente.
O nazista Carl Schmitt aconselhava precisamente isso: buscar quem seja mais adequado para fazê-lo alvo de
toda a raiva social, sem importar se é bom ou mau, feio ou bonito; a única coisa que deve importar é que seja
útil para torná-lo responsável por todos os males. (No bar, opinariam que quem faz isso merece ser recordado
por sua progenitora, por mais que tenha sido uma santa; eles têm toda a razão.)
De qualquer maneira, todos acreditarão que a vítima é culpada quando, depois de matá-la, a paz e a
ordem retornam, embora para Girard seja este o momento em que a vítima começa a se tornar sagrada.
Girard é taxativo ao considerar que o poder punitivo formalizado na civilização atual tem por função
tentar canalizar racionalmente a vingança. Se nosso sistema nos parece mais racional – escreve –, é porque, na
realidade, está mais estreitamente conformado com o princípio da vingança. A insistência sobre a punição do culpado
não tem outro significado. Ao invés de esforçar-se para impedir a vingança, para moderá-la, para evitá-la, ou para
desviá-la para um objeto secundário, como todos os procedimentos propriamente religiosos, o sistema judicial
racionaliza a vingança, consegue subdividi-la e limitá-la como melhor lhe parecer; faz com isso uma técnica
limitadamente eficaz de cura e, secundariamente, de prevenção da violência.
O religioso procura evitar ou desviar a vingança sobre um objeto secundário, ao passo que o sistema penal
quer racionalizá-la: Por detrás da diferença prática e ao mesmo tempo mítica – acrescenta Girard –, é necessário
afirmar a não diferença, a identidade positiva da vingança, do sacrificio e da penalidade judicial, justamente porque
esses três fenômenos são invariavelmente os mesmos, que tendem sempre, em caso de crise, a recair, todos eles, na
mesma violência indiferenciada.
Essas reflexões são um golpe de misericórdia em quase todo o direito penal, porque explican sua
dificuldade para conferir racionalidade à pena. Como a vingança não é racional, não pode incorporar-se a um
discurso racional; só consegue racionalizá-la, ou seja, dar-lhe aparência de racionalidade, perante o fato
consumado de seu exercício.
Permítam-me agora tomar um velho livro e ler umas linhas escritas em 1886, no Brasil, por Tobias Barreto,
um mulato nordestino que defendia a abolição da escravidão e que mandava comprar livros na Alemanha,
mastigando-os, solitário, no interior do estado de Pernambuco.
Esse divertido e genial violonista, fundador da Escola de Direito do Recife, escrevia: Envolto com o
sacrificio, que constitui o primeiro momento histórico da pena, mais além da expiação, que lhe dá um caráter religioso,
já se encontra o sentimento de vingança, que os deuses de então têm em comum com os homens e os homens com os
deuses. Contudo, à medida que vai decrescendo o lado religioso da expiação, aumenta o lado social e político da
vindicta, que permanece, ainda hoje, como predicado indispensável para uma definição de pena.
Mais adiante, acrescentava essas palavras inesquecíveis: O conceito de pena não é um conceito jurídico, mas
sim um conceito político. Este ponto é capital. O defeito das teorias correntes em tal matéria consiste justamente no erro
de considerar a pena como uma consequência de direito logicamente fundada. E alguns parágrafos mais à frente,
concluía: Quem procurar o fundamento jurídico da pena deve também procurar, se é que já não o encontrou, o
fundamento jurídico da guerra.
Como verão, pensando apenas nas coações do meio acadêmico europeu, o homem nascido em Sergipe
não dizia nada muito diferente do que Girard, mais de um século depois, descobriu.
Voltaremos a Girard. Seu pensamento abre horizontes muito amplos, como o provam as implicâncias que
ele desperta em um filósofo como Gianni Vattimo, mas julgamos não ser necessário acompanhar Girard em suas
considerações mais ou menos teológicas, nas quais costuma chegar a conclusões dogmáticas.
Ilustração 24

37. A criminologia midiática


Desde o princípio, divididimos esses suplementos em três palavras: a da academia, a da criminologia
midiática e a dos mortos. Vocês nos acompanharam no longo curso da criminologia dos criminólogos, ou seja, a
acadêmica.
As pessoas comuns, porém, não conhecem essa palavra, uma vez que vivem no mundo da criminologia
midiática. E não pode ser de outra maneira, porque as pessoas geralmente não frequentam os institutos de
criminologia nem leem os trabalhos especializados, porque têm outras coisas para fazer.
Em alguns momentos, tampouco, foi muito desejável que o fizessem, porque vimos que há livros
perigosos e encobridores.
O certo é que as pessoas que todos os dias caminham pelas ruas e tomam o ônibus e o metrô junto a nós
têm a visão da questão criminal que é construída nos meios de comunicação, ou seja, se nutrem – ou padecem
– de uma criminologia midiática. Isso sempre aconteceu e o que vimos René Girard explica claramente: se o
sistema penal tem por função real canalizar a vingança e a violência difusa da sociedade, é mister que as pessoas
acreditem que o poder punitivo está neutralizando o causador de todos seus males.
Mas por que as pessoas a aceitam ou ficam indefesas diante dessa construção da realidade? A disposição em
aceitá-la obedece a que, assim, se reduza o nível de angústia que gera a violência difusa. Voltaremos a esse
ponto mais adiante, mas a regra é que quando a angústia é muito pesada, ela se converte, através da
criminologia midiática, em medo a uma única fonte humana.
Por isso, a criminologia midiática sempre existiu e sempre apela a uma criação da realidade através de
informação, subinformação e desinformação em convergência com preconceitos e crenças, baseada em uma
etiologia criminal simplista, assentada na causalidade mágica. Esclarecemos que o mágico não é a vingança, e sim
a ideia da causalidade especial que se usa para canalizá-la contra determinados grupos humanos, o que, nos
termos da tese de Girard, os converte em bodes expiatórios.
Essa característica não muda; o que varia muito é a tecnologia comunicacional (desde o púlpito e a praça
até a TV e a comunicação eletrônica) e os bodes expiatórios. O poder da criminologia midiática foi detectado
pelos sociólogos desde fins do século XIX. Motivado pelo poder dos jornais no caso Dreyfus, Gabriel Tarde
afirmava que no presente (no ano de 1900), a arte de governar se converteu, em grande medida, na habilidade de
servir-se dos jornais. Denunciou claramente a força extorsiva dos meios de comuinicação de massa (no seu
tempo, os jornais), a grande dificuldade para neutralizar os efeitos de uma difamação jornalística e a exploração
da credulidade pública.

Tarde, porém, foi mais longe, destacando o poder inverso ao da extorsão, ou seja, o do silêncio cúmplice,
como o que acontecia diante do genocídio armênio ou da negociata do Panamá. Sem dúvida, foi o sociólogo
que descobriu o imenso continente da construção social da realidade que anunciava seu crescente poder.
O socialista Jean Jaurés havia denunciado na Câmara dos Deputados francesa, em 1896, o silêncio cúmplice
da grande imprensa perante os massacres de armênios, porque seus principais dirigentes eram beneficiários de
empresas otomanas e os jornais levavam adiante sua campanha antissemita – prelúdio europeu da Shoah –
difundindo a invenção dos Protocolos, encabeçados pelo delirante Edouard Drumont e por Charles Maurras, que
terminaria seus dias imputado como ideólogo do vergonhoso regime de Vichy. Recentemente, Umberto Eco
reconstruiu esses anos em sua novela O cemitério de Praga.
Consequentemente, não falamos nada de novo, embora, como é natural, a criminologia midiática atual
tenha características próprias. O discurso da criminologia midiática atual não é outro senão o chamado
neopunitivismo dos Estados Unidos, que se expande pelo mundo globalizado. Trata-se do fenômeno que
Garland, Wacquant e Simon analisam, ao qual já nos referimos e sobre o qual não insistiremos.
A característica central da versão atual desta criminologia provém do veículo empregado: a televisão. Por
isso, quando dizemos discurso é melhor entender mensagem, pois ele se impõe mediante imagens, o que a dota
de um poder singular.
Os críticos mais radicais da televisão são Giovanni Sartori e Pierre Bourdieu. Para Bourdieu a televisão é o
oposto da capacidade de pensar, enquanto Sartori desenvolve a tese de que o homo sapiens se está degradando
em um homo videns, por efeito de uma cultura de puras imagens.
A tese de Sartori é um tanto apocalíptica, embora não seja necessário compartilhá-la em sua totalidade para
reconhecer que lhe atribui um alto grau de razão. Efetivamente, uma comunicação por imagens refere-se
sempre, necessariamente, a coisas concretas, pois elas são a única coisa que as imagens podem mostrar e, em
consequência, o receptor dessa comunicação é instado, de forma permanente, ao pensamento concreto, o que
debilita seu treinamento para o pensamento abstrato.
O pensamento abstrato é a base da linguagem simbólica que caracteriza o humano. Explico-me mais
claramente: quando um psiquiatra interroga um paciente e suspeita que ele pode ter um problema de
inteligência – certo grau de oligofrenia, para ser preciso – lhe faz uma pergunta por meio de um conceito
abstrato para ver se ele pode responder no mesmo nível. Por exemplo, Você acredita em Deus? O que é Deus
para você? Se o paciente responde algo assim como os santos ou o que faz milagres, está indicando a necessidade
de investigar, com métodos mais depurados, a possibilidade de um déficit intelectual.
O gancho da comunicação por imagens está no fato de ela impactar a esfera emocional. Por isso não se
pode estranhar que os serviços de notícias pareçam antes síntese de catástrofes, que impressionam mas não dão
lugar à reflexão.
Às vezes, a imagem nem sequer necessita de som (a do 11 de setembro era muda), só o intérprete falava.
Por outro lado, também não informa muito, porque passa imagens sem contextualizá-las; é como se
cortassem pedaços de filmes e os mostrassem, prescindindo do restante. Vemos, mas não entendemos nada,
porque isso requereria maior tempo e explicação.
Aliás, nem sempre se percebe o que se olha. Em um recente livro chamado O gorila invisível – sem nenhuma
alusão política, certamente – dois psicólogos estadunidenses demonstraram que, colocados para ver a filmagem
de uma partida para contar o número de passes, 50% dos participantes do experimento não registraram que
uma pessoa disfarçada de gorila entrava no campo de jogo e fazia uma saudação.
Além do mais, a voz do intérprete vale-se de uma linguagem empobrecida. Diz-se que a televisão não usa
mais que umas mil palavras, quando em uma língua podemos chegar a usar umas trinta mil. Talvez o cálculo
seja exagerado, mas não muito. Essa interpretação às vezes tem conteúdos implícitos, porque a correção política
impede que sejam explícitos, como no caso do racismo, por exemplo.
Nesses casos, muito se insinua, dando a impressão estudada de que se deixa ver, o que afaga a inteligência
do destinatário, que acredita que deduz o conteúdo implícito (Como sou esperto!), quando, na realidade, é
vítima de uma traição comunicacional.
A criminologia midiática cria a realidade de um mundo de pessoas decentes, diante de uma massa de
criminoso, identificada através de estereótipos, que configuram um eles separado do resto da sociedade, por ser
um conjunto de diferentes e maus. Os eles da criminologia midiática incomodam, impedem que se durma com
portas e janelas abertas, perturbam as férias, ameaçam as crianças, sujam por todos os lados e, por isso, devem
ser separados da sociedade, para deixar-nos viver tranquilos, sem medos, para resolver todos nossos problemas.
Para isso é necessário que a polícia nos proteja de seus assédios perversos, sem nenhum obstáculo nem limite,
porque nós somos limpos, puros, imaculados.
Este eles é construído por semelhanças, para o qual a televisão é o meio ideal, pois joga com imagens,
mostrando alguns dos poucos estereotipados que delinquem e, de imediato, os que não delinquiram ou que só
incorrem em infrações menores, mas são parecidos. Não é preciso verbalizar para comunicar que, a qualquer
momento, os parecidos farão o mesmo que o criminoso. É a velha afirmação do genocida turco Talât: Somos
censurados por não distinguirmos entre armênios culpados e inocentes, mas isso é impossível, dado que os inocentes de
hoje podem ser os culpados de amanhã.
Para configurar este eles são cuidadosamente selecionados os delitos mais carregados de perversidade ou
violência gratuita; os outros são minimizados ou apresentados de modo diferente, porque não servem para
armar o eles dos inimigos. A mensagem é que o adolescente de um bairro precário, que fuma maconha ou toma
cerveja na esquina, amanhã fará o mesmo que o parecido que matou uma anciã na saída de um banco e,
portanto, há que se afastar todos eles da sociedade e, se possível, eliminá-los.
Como para concluir que eles devem ser criminalizados ou eliminados, o bode expiatório deve infundir muito
medo e ser crível que seja ele o causador único de todas as nossas aflições. Por isso, para a TV, o único perigo
que espreita nossas vidas e nossa tranquilidade são os adolescentes do bairro marginal, eles. Para isso se
constrói um conceito de segurança que se limita à violência do roubo.
Quando um homicídio foi por ciúme, paixão, inimizade, conflito entre sócios ou o que seja, para os meios
de comunicação não se trata de uma questão de segurança, o que as próprias autoridades também costumam
afirmar em declarações públicas e com tom de alivio. O homicídio da mulher a golpes dentro do santo lar
familiar não produz pânico moral, é ignorado, e se algum desses homicídios tem ampla cobertura jornalística é
por causa de suas conotações sexuais.
E sse eles é construído sobre bases bem simplistas, que se internalizam à força da reiteração e do
bombardeio de mensagens emocionais mediante imagens: indignação frente a alguns fatos aberrantes, mas não
a todos, e sim somente aos dos estereotipados; impulso vingativo por identificação com a vítima desses fatos,
mas não com todas as vítimas, e sim somente com as dos estereotipados e se é possível que não pertençam,
elas mesmas, a esse grupo, pois, nesse caso, considera-se uma violência intragrupal própria de sua condição
inferior (eles se matam porque são brutos).
É possível que vocês não pensem assim, que racionalmente se deem conta de que esta crença é falsa, mas
ninguém me dirá que todos os dias não se sentem obrigados a fazer um esforço de pensamento diante de cada
mensagem para não cair na armadilha emocional que a acompanha. Isso se deve ao fato de que a introjeção da
criminologia midiática é muito precoce e poderosa, sem contar que é confirmada, todos os dias, na interação
social: sua construção se tornou uma obviedade, ou seja, é algo, nos termos de Berger e Luckmann, que se dá
por sabido, por efeito da longa e paulatina sedimentação do conhecimento, como poder das bruxas era uma
obviedade seiscentos anos atrás, ou que a melancia se endurece com o vinho. É o que mostra a televisão, é o
que todos comentam entre si, é o que se verifica naquilo que me contam na fila do ônibus ou na padaria.
Se cada um de nós puxasse pela memória e elaborasse uma lista das pessoas conhecidas pessoalmente e
que foram vítimas fatais do trânsito e de homicídio por roubo, verificaria que a hierarquía midiática de riscos à
vida nada tem a ver com a real. Somem-se a isso os suicídios e os homicídios fora das hipóteses de roubo e
ficaremos ainda mais espantados.
Os bodes expiatórios variam muito conforme o tempo e o lugar. Basta recordar o estereótipo do subversivo
dos anos 1970, que abrangia todos os adolescentes de cabelos longos e de barba, que fumavam maconha de
vez em quando e que hoje são pacíficos avôs. Houve inclusive sentenças nas quais se expressou que eles
afetavam a segurança nacional. Todo sinal de inconformismo ou de desvio de qualquer natureza era
estereotipado nesses tempos obscuros.
Este eles desenha um mundo de nós os bons e eles os maus, que não deixa espaço para a neutralidade,
como também não existe na guerra. A prudência não tem espaço na criminologia midiática, toda tibieza é
mostrada como cumplicidade com o crime, com o inimigo, porque constrói um mundo bipolar e maciço, como
o agostiniano nos tempos da Inquisição.
A gravidade das infrações não interessa ao três vezes você está fora com que os estadunidenses enchem suas
prisões, pois três muito pequenas são suficientes para lhe ser creditado seu pertencimento ao eles e eliminá-lo.
Deve ficar muito claro que a criminologia midiática não se lança contra os assassinos, violadores e
psicopatas, pois estes sempre foram e continuarão sendo condenados a penas longas em todo o mundo, mas
sim contra um eles poroso de parecidos, que abrange todo um grupo social jovem e adolescente e, no caso de
Nova York, de negros.
Eles nunca merecem piedade. Eles são os que matam, não os homicidas entre eles, mas todos eles, são todos
assassinos, só que a imensa maioria ainda não matou ninguém.
Identificado o eles, tudo o que lhes for feito é pouco, mas, além disso, segundo a criminologia midiática,
eles não são objeto de praticamente nenhum dano, tudo é generosidade, bom tratamento e gastos inúteis para
o Estado, que é pago com nossos impostos. Isso, implícitamente, está reclamando morte, exigência que, de vez em
quando, alguém inconveniente, que viola os limites da correção política, torna explícita, mas rapidamente é
desculpado como um desabafo emocional, porque o alguém inconveniente coloca a descoberto a Tânatos, a
necrofilia da mensagem, o grito do sinistro Millán-Astray[18] (General, isso se pensa, mas hoje não se pode dizer).
A criminologia expressa sua necrofilia em seu vocabulário bélico, instigando a aniquilação do eles, o que
em determinadas ocasiões é levado à prática sob a forma de fuzilamentos policiais. Quando se pretende
encobrir esses fuzilamentos, isso vem acompanhado dos supostos dados do estereótipo – prontuário volumoso,
fartos antecedentes, drogado –, de forma automática, confiando em que ninguém raciocine que um par de roubos
a mão armada retiram de circulação uma pessoa até quase os quarenta anos, quando quase todos os executados
dificilmente passam dos vinte, que o tóxico criminógeno por excelência é o álcool e que ninguém pode
cometer um delito violento sob os efeitos da maconha.
A efebofobia manifesta-se em todo seu esplendor. Esquadrões da morte e vingadores justiceiros completam o
panorama das penas de morte sem processo em nossa região, centrada em jovens e adolescentes. Basta olhar as
estatísticas para verificar que são muitos os países onde há mais adolescentes mortos pela polícia do que vítimas
de homicídios cometidos por adolescentes.
A criminologia midiática naturaliza essas mortes, pois todos os efeitos letais do sistema penal são para ela
um produto natural (inevitável) da violência própria deles, chegando ao encobrimento máximo nos casos de
fuzilamentos disfarçados de mortes em confrontos, apresentadas como episódios da guerra contra o crime, em
que se mostra o cadáver do fuzilado como indicador de eficácia preventiva, como o soldado inimigo morto na
guerra.
Como todos os mortos nessa guerra se contabilizam e divulgam porque são considerados inimigos abatidos,
é possível seguir o fenômeno pelas notícias. Quando a frequência é muito irregular (desaparece quando se
questiona um ministro ou as eleições se aproximam), a boa pontaria é excessiva (aumenta o número de mortos
e cai em muito o de feridos), a concentração é inexplicável (é produzida em determinado circuito e não nos
próximos) e a sorte é conhecida (os únicos mortos e feridos são eles), podemos concluir que nos encontramos
diante, indubitavelmente, de uma prática habitual de execuções sem processo. Muito à vontade, a criminologia
midiática pode prestar este serviço.
A criminologia midiática assume o discurso da higiene social: eles representam, para a criminologia
midiática, as fezes do corpo social. Continuando o raciocínio, que costuma ser interrompido aqui, resultaria que
este produto normal de descarte deva ser canalizado através de uma cloaca, que seria o sistema penal. Nenhum
operador deste sistema deveria omitir esta reflexão. Para essa criminologia, nossa função seria a de limpadores
de fezes e o código penal um regulamento para condutos de despejos cloacais. Policiais, juízes, magistrados,
promotores, catedráticos, penalistas, criminólogos, poderíamos todos nos despojar de uniformes e togas e
imaginar o aparato que esta criminologia que nos amedronta pretende nos colocar.
A criminologia midiática entra em conflito quando o poder punitivo comete um erro e vitimiza alguém
que não pode identificar com eles e que, como vítima, não pode negar-lhe espaço midiático. É o collateral
damage da guerra ao crime.
Nesses casos, as agências entregam o executor material para acalmar a onda midiática e aproveitam para
demonstrar que estão se depurando dos elementos indesejáveis. Na realidade, entregam um policial selecionado
de um setor social humilde, ao qual treinaram com singular negligência para fazer isso, e que acabou perdendo.
A construção da realidade não se faz necessariamente mentindo e nem sequer calando. Atrás de cada
cadáver há um drama, uma perda, um dolo. Basta destacar o que o estereotipado cometeu, em toda sua
dimensão real ou dramatizá-lo um pouco mais, e comunicar assepticamente outro, em espaço muito menor, para
que o primeiro provoque indignação e medo e o segundo não.
Em qualquer cultura, a causalidade mágica é produto de uma urgência de resposta. Isso não obedece a
nenhum desinteresse pela causalidade, mas justamente à urgência por encontrá-la. Na criminologia midiática
sucede o mesmo. Deve-se responder já e ao caso concreto, à urgência conjuntural, ao drama que se destaca e
deixar de lado todos os demais cadáveres; a falta de uma resposta imediata é prova de insegurança.
Evidentemente, reclama-se uma resposta impossível, porque ninguém pode fazer que o que aconteceu
não tenha acontecido. Frente ao passado a urgência de uma resposta impossível só pode ser a vingança. Como a
urgência é intolerante, não admite a reflexão, exerce uma censura inquisitorial, pois qualquer tentativa de
responder convidando a pensar é rechaçada e estigmatizada como abstrata, idealista, teórica, especulativa,
distanciada da realidade, ideológica etc. Isso combina à perfeição com a televisão, onde qualquer comentário
mais elaborado em torno da imagem é considerado uma intelectualização que faz perder rating.
Cabe esclarecer que isso não significa que a TV careça totalmente de programas e apresentações que façam
pensar. É claro que há comunicadores responsáveis, mas estes devem resignar-se, desde o começo, a um menor
rating e a uma crescente redução de espaço por interesses empresariais óbvios.
Temos contado com verdadeiros virtuosos nessa técnica comunicacional na Argentina. Quem, talvez,
alcançou o nível mais alto foi um famoso comunicador nos anos 1990, que encaminhava a exigência de resposta
urgente por intermédio de uma imaginária matrona de bairro, que usava uma túnica comprida e rolinhos no
cabelo, e era incapaz de qualquer pensamento abstrato. Com esse personagem, dona Rosa, subestimava tanto o
discernimento dos moradores do bairro como o dos destinatários, aos quais levava a armadilha de forçá-los a
raciocionar sem pensamento abstrato, ou seja, no nível do oligofrênico. (Sempre me senti ofendido, porque
minha avó se chamava Rosa, morreu com 95 anos de idade e discorria muito mais e melhor do que esse
personagem.)
A urgência de resposta concreta e conjuntural leva a duas grandes contradições etiológicas, pois, por um
lado, atribui à criminalidade uma decisão individual e, por outro, estigmatiza um conjunto com características
sociais parecidas; ademais, proclama uma confiança absoluta na função preventiva dissuasória da pena, mas ao
mesmo tempo promove a compra de todos os meios físicos de impedimento e defesa.
Como a emotividade impede que o destinatário perceba as contradições, os controles eletrônicos e
mecânicos aumentaram de forma impresionante. Stanley Cohen ( Visions of Social Control) destacava esse aspecto
há anos e hoje a síndrome de Disneylândia é uma realidade. Praticamente não há momento algum sem que uma
cámara esteja registrando quando saímos de nossas casas.
Há fantásticos estudos futuristas, como os dados bancários ocultos no ciberespaço, os cheques eletrônicos,
as casas inteligentes etc., com ameaças muito intrusivas à privacidade, mas que não alarmam a criminologia
midiática, que as mostra como provedoras de segurança. Como ela minimiza a seletividade da vitimização,
converte-nos a todos nós em consumidores da indústria da segurança e em pacíficas ovelhas que não só nos
submetemos às vexações do controle, como inclusive as reclamamos e nos enchemos de aparatos controladores.
Em certas ocasiões, o interesse midiático centra-se em alguns delitos sexuais, porque são fatos cujas
imagens provocam muita indignação e também despertam grande interesse mórbido, ainda que não em todos
os delitos sexuais, mas só naqueles que lhes servem. É claro que não é dito que os violadores seriais são
poucos, nem que a grande massa de delitos sexuais contra crianças acontece no interior dos grupos familiares,
nem sempre irregulares, nem sempre em bairros precários, nem sempre contra adolescentes, e sim contra
crianças, que são um objeto sexual diferente. Essas vítimas não aparecem na televisão, supostamente para ser
protegidas, embora, na realidade, é porque elas colocam em evidência a inutilidade do poder punitivo para
resolver o conflito.
Mas insistimos, definitivamente, que o grande paradoxo da criminologia midiática é que ela não busca nada
contra os criminosos violentos, porque em nenhum país os homicidas e violadores ficam soltos, sendo, sim,
submetidos a penas longas, salvo coberturas oficiais. Não se necessita de conhecimento técnico para dar-se
conta de que o fato de um homicida ser penalizado com 25 anos de prisão ao invés de vinte não tem nada a
ver com o risco de que me furtem na bilheteria do metrô.
Para o pensamento mágico da criminologia midiática, a guerra contra eles esbarra no obstáculo dos juízes,
que são seu alvo preferido. A mídia oferece um banquete quando um ex-detento ou um preso em liberdade
transitória comete um delito grave, o que provoca uma maligna alegria nos comunicadores. Os juízes são o
obstáculo para uma luta eficaz contra eles. As garantias penais e processuais são para nós, mas não para eles, pois
eles não respeitam os direitos de ninguém. Eles – os estereotipados – não têm direitos, porque matam, não são
pessoas, são diferentes, e os jovens têm que ficar dentro.
Os politicastros, sem muitos méritos nem ideias, estimulam julgamentos políticos contra os juízes para
obter seu espaço gratuito de publicidade, reforçando a causalidade mágica.
O juiz singular tenta não abrir a guarda à criminologia midiática porque age solitariamente e demora em
conceder saídas da prisão, por isso elas ficam cheias e acontecem motins e mortes, que são mostradas como
prova de que eles são selvagens e os juízes pouco diligentes.
A causalidade mágica estimula as reformas legais mais absurdas, porque a imagem transformada em lei
também é uma questão mágica. Nosso ancestral desenhava os animais de presa nas paredes das cavernas, pois,
segundo o pensamento mágico, quem possuía a imagem acreditava possuir o objeto representado. Agora, a
imagem é a descrição do representado no boletim oficial. É o mito da caverna, mas não o de Platão que tanto
deu o que falar, e sim o do homem das cavernas que saía para caçar com um pedaço de pau.
Os políticos atemorizados ou oportunistas, que se somam ou se submetem à criminologia midiática,
aprovam essas leis disparatadas e afirmam que desse modo enviam mensagens à sociedade, confundindo a lei
penal com internet. É tão óbvio que essas leis não têm nenhuma incidência sobre a frequência criminal na
sociedade que não estou nada seguro de que entre aqueles que as promovem exista alguém que acredite
seriamente nelas.
No entanto, a criminologia midiática não se alimenta somente de notícias, mas também, e principalmente,
da comunicação de entretenimentos que banaliza os homicídios e da imaginação da ideia de um mundo em
guerra. Em um dia de televisão vemos mais assassinatos ficcionais que os que têm lugar na realidade durante
um ano em todo o país, e cometidos com uma crueldade e violência que quase nunca ocorre na realidade.
Além do mais, há sempre um herói que termina fazendo justiça, geralmente matando o criminoso, alguém
que qualquer psiquiatra qualificaria de psicopata. Não tem medo, é hiperativo, ultrarresistente, hipossensível à
dor, aniquila o inimigo sem trauma por ter provocado a morte de um ser humano, é hiperssexual, desperta na
mulher (sempre em papel de alguém um tanto bobo, que tropeça e cai nos momentos de maior perigo), impõe
sua solução violenta às expensas do burocrata que obstaculiza com formalidades (atrás de quem se adivinha a
figura do juiz, do procurador ou do policial prudente). Por sorte, os policiais reais não são como eles, pois do
contrário seria aconselhável pegar o passaporte e fugir.
Esses seriados transmitem a certeza de que o mundo se divide em bons e maus e que a única solução para
os conflitos é a punitiva e violenta. Não há espaço para reparação, tratamento, conciliação; só o modelo
punitivo violento limpa a sociedade.
Isso se introjeta muito cedo no equipamento psicológico, principalmente quando a televisão é a baby sitter.
Ilustração 25

38. A criminologia midiática e a vítima-herói


Como a criminologia midiática atual é importada dos Estados Unidos e em nossa região não existem as
condições para manter dois milhões de pessoas presas e baixar o índice de desemprego mediante os serviços
necessários para vigiá-los, os efeitos políticos são totalmente diferentes.
No norte, reforça-se a política de prisionização de negros e latinos e na Europa a expulsão de
extracomunitários, mas na América Latina é impossível aprisionar todas as minorias incômodas – que, tampouco,
são tão minorias assim –, com o qual a vingança, estimulada até o máximo pela criminologia midiática, se traduz
em maior violência do sistema penal, leis penais piores, maior autonomia policial, com a consequente corrupção
e risco político, vulgaridade de políticos oportunistas ou assustados e redução dos juízes à impotência, tudo o
que, como logo veremos, provoca mortes reais em um processo de fabricação de cadáveres que a criminologia
midiática ignora ou mostra em imagens com interpretações deformantes.
A criminologia midiática do sul reproduz o discurso do desbaratamento do Estado de bem-estar do norte,
mas em países que o tiveram apenas parcialmente ou que batalham por reestabelecê-lo.
Os eles do sul não são tão minorias assim, mas antes setores muito amplos e inclusive maiorias, das quais
provêm todos os implicados na violência do poder punitivo, ou seja, infratores, vítimas e policiais.
Não interessa à criminologia midiática a frequência criminal nem o grau de violência que exista em uma
sociedade, porque na realidade nem os criminosos nem suas vítimas lhe importam. Por isso, envía a mesma
mensagem desde o México (com mais de quarenta mil mortos em cinco anos, decapitados, castrados, quinze mil
em 2010) até o Uruguai (com um índice quase desprezível de homicídios dolosos), desde a América Central
com as maras e os capangas (como os que mataram Facundo Cabral[19]) até uma esquina suburbana de Buenos
Aires, com os jovens tomando cerveja e fumando um baseado. Como sempre e em todas as partes quando se
comete algum delito violento, jamais faltará material para a criminologia midiática construir um eles maligno,
responsável por toda nossa angústia e a quem é preciso fazer crer que é necessário aniquilar.
Entre outras coisas, o que a criminologia midiática oculta do público é a potenciação do controle redutor
de nossa liberdade. Ao criar a necessidade de proteger-nos deles, justifica todos os controles estatais, primitivos
e sofisticados, para prover segurança. Em outras palavras: o nós pede ao Estado que vigie mais o eles, mas
também o nós, porque necessitamos ser monitorados para ser protegidos.

Ilustração 26

Esta é a chave última da política criminal midiática, magistralmente exposta por Foucault há mais de três décadas.
Não esqueçam: o que interessa ao poder punitivo não é controlar eles, mas sim nós. Para infundir o medo
necessário de modo que as pessoas deixem de valorizar a intimidade e a liberdade, cada homicídio cometido
por algum deles é recebido, celebrado e exposto com verdadeiro entusiasmo. O observador pode dar-se conta
de que o intérprete da imagem televisionada, que se mostra sorridente e falante na apresentação do noticiário,
muda imediatamente, assume uma atitude compungida, adota voz baixa e começa a mostrar o homicídio brutal,
o sangue no chão, a porta do hospital, o necrotério, a ambulância, o enterro, os parentes, mas sua forçada
compunção não chega a mascarar a íntima satisfação de quem dispõe de um brinquedo novo, que prepara seu
embate final vingativo contra os juízes e o código penal, com gesto de resignada indignação.
Quando não há nenhum homicídio mostrável no dia, repete as notícias dos dias anteriores; quando não o
tem no lugar, mostra o de outra cidade, minimizando a referência geográfica. Quando termina a notícia
sangrenta, o comunicador recupera a sorriso e a eloquência para mostrar a festa com glamour ou a discussão
mais vulgar entre personagens do jet set.
O medo de um objeto temível é positivo, serve para a sobrevivência e para isso está filogeneticamente
condicionado. Nesse sentido, o medo à vitimização é normal quando é proporcional à magnitude do risco, que,
sem dúvida, é algo temível e real.
Porém, quando se crê que um objeto é a única fonte de todos os riscos e não há outros, o medo
decorrente deixa de ser normal. Assim, quando não se leva em conta a frequência e a magnitude da
vitimização, os outros riscos passam a ser o gorila invisível da experiência dos psicólogos estadunidenses.
Esse medo anormal deixa de cumprir sua função de servir à sobrevivência, pois quando não atribuo
importância aos outros riscos me comporto temerariamente diante deles. Assim, cuido do roubo e não me dou
conta de que a violência aumenta em meu próprio domicílio; com o pretexto do temor ao roubo ninguém se
detém no sinal de trânsito da esquina e todos ultrapassam o sinal vermelho, e, o que é mais grave, por temor
ao roubo peço mais vigilância ao Estado e quando dou por mim aqueles que me vigiam me sequestram.
Exageros, dirão os publicitários do autoritarismo vingativo? Recomendo-lhes que perguntem às vítimas que não
são mostradas, se é que estas têm a sorte de poder dizer algo mais que testemunhar sua condição de cadáveres.
Há vítimas e parentes a quem não se pergunta porque não são funcionais. Não vemos nas telas os fuzilados
por policiais. Tampouco interessa aquele que morre numa briga entre bêbados, porque não produz o mesmo
entusiasmo comunicacional que o homicídio por roubo ou por motivo torpe, mas seria uma festa se o tóxico
não fosse o álcool, o que quase nunca acontece.
A criminologia midiática latino-americana tem uma particular preferência pelos shows em que confronta
algumas vítimas com os responsáveis da segurança (policiais, políticos e, se possível, algum juiz). É óbvio que a
perda não tem solução e que a única coisa a fazer a respeito da vítima é respeitar sua dor e dar-lhe assistência.
O show, porém, pressupõe que, se o Estado não evitou a desgraça, foi por negligência, o que fixa no imaginário
coletivo a perigosa ideia de que o Estado deve ser onipotente, capaz de prevenir até os delitos e acidentes mais
patológicos e imprevisíveis, que em nenhum país do mundo podem ser evitados.
Quem não ratifica o que as vítimas ou seus parentes expressam é estigmatizado como débil, perigoso e
acobertador, além de insensível à dor da pobre vítima.
Se o delinquente passou pela prisão e foi libertado, pouco importa se devia ou não ser libertado, pois o
homicídio é atribuído a quem o colocou em liberdade ou à justiça em geral, ainda que ele tenha sido libertado
por passar um cheque sem fundos e que depois tenha sido envolvido na violação da vizinha, porque o
pensamento mágico apela à pura causalidade física. No fundo, fica a sensação de que a criminologia midiática
pretende que nunca mais um preso seja libertado.
Em alguns casos, a criminologia midiática encontra a vítima ideal para seu propósito, capaz de provocar
identificação em um amplo setor social e, nesse caso, converte-a em porta-voz de sua política criminológica,
consagrando-a como vítima-herói. O procedimento revela-se de uma particular crueldade, porque o que a
criminologia acadêmica chama de vítima-herói é um porquinho da Índia, ao qual se infere um grave dano
psíquico; é pouco menos do que uma vivissecção psíquica.
Toda vítima de um fato violento grave sofre uma perda com dano psíquico considerável que, muitas
vezes, demanda uma assistência especializada para recuperar sua saúde. Em um primeiro momento, a vítima
apresenta um estado de estupefação ou desconcerto ante a perda que lhe custa acreditar. Em uma etapa
posterior, é inevitável – e qualquer um de nós conhece a experiência diante de uma perda súbita – que a
vítima comece a jogar irracionalmente com a causalidade: se eu houvesse agido de outra maneira, se não houvesse
dito, se houvesse advertido, se houvesse proibido, se houvesse... Produz-se – geralmente, sem nenhum pretexto
plausível – uma carga de culpa que se torna insuportável. O peso dessa culpa irracional provoca uma
extroversão que projeta a responsabilidade em alguém ou em algo, isto é, em um objeto externo.
Observe-se que não se trata da culpa pelo homicídio ou por o que quer que seja, que sem dúvida tem um
responsável, às vezes já bem identificado, mas sim de uma culpa pela situação. Assim como essa culpa não é
racional, tampouco o é a responsabilidade do outro pela situação, ou pelo menos não o é na medida em que se
pretende.
O tempo e a assistência especializada ajudam a superar essa fase, isto é, a elaborar o dolo. Pouco a pouco,
vão desaparecendo as irrupções ou interferências no curso do pensamento que perturbavam a atividade normal
da vítima e esta vai recuperando sua saúde mental. Trata-se de um processo doloroso e nada simples, até que a
perda se torna razoavelmente convertida em uma das nostalgias e lembranças que todos carregamos.
Quando a criminologia midiática instala uma vítima-herói, explora algumas de suas características
particulares, como o histrionismo e talvez traços histéricos, as reforça, oferecendo-lhe um cenário gigantesco
para seu desenvolvimento, mas sobretudo porque a fixa no momento de extroversão da culpa, fortalecendo ao
máximo essa fase, imobiliza a pessoa nela e lhe interrompe brutalmente o caminho de elaboração do dolo, ou
seja, de restabelecimento de seu equilíbrio emocional. A pessoa redefine sua autopercepção como vítima e fica
fixada nesse papel.
A vítima-herói é instada a reclamar repressão por via mágica e é proibido responder-lhe, pois qualquer
objeção se projeta como irreverente diante da sua dor. Perante o peso da pressão midiática são poucos os que
se animam a desafiá-la e a fazer objeções a suas reclamações. Aqueles que mais se amedrontam são os políticos
que, desconcertados, tratam de colocá-la de seu lado, redobrando apostas repressivas de acordo com a
criminologia midiática, que são amplamente difundidas por esta, juntamente com a desqualificação dos juízes.
Por causa da interrupção do dolo, a vítima-herói continua acumulando culpa que a pressiona
psicologicamente e a leva a incrementar sua extroversão, até que cai em exigências que são claramente
inadmissíveis e incorre em inconveniências.
Quando esse processo se agudiza, a vítima-herói se torna não mostrável por ser disfuncional. Nesse
momento, a criminologia midiática se desprende dela, ignora-a até silenciá-la por completo, sem lhe importar o
dano psíquico que lhe provocou ao interromper a elaboração do dolo. Trata-a como uma coisa que usa e
quando deixa de lhe ser útil a arremessa para longe e a esquece.

39. A criminologia midiática como reprodutora


O poder punitivo não seleciona sem sentido, e sim conforme o que as reclamações da criminologia
midiática determinam. O empresário moral de nossos dias não é, por certo, nenhum Savonarola; são a política
midiática, os comunicadores, os formadores de opinião, os intérpretes das notícias que acabam de comentar a
disputa entre moças de biquíni para passar a reclamar a reforma do código penal.
Evidentemente, por detrás deles se encontram os interesses conjunturais das empresas midiáticas, que
operam segundo o marco político geral, quase sempre em oposição a qualquer tentativa de construção do
Estado social e, regra geral, com interesses justapostos aos de outras corporações ou grupos financeiros, dado o
considerável volume de capital que controlam.
Por outro lado, a criminologia midiática se entrincheira em sua causalidade mágica e nem sequer admite
que alguém suspeite de seu próprio efeito reprodutor do delito funcional do estereotipado, que lhe é
imprescindível para sustentar sua mensagem e infundir o pânico moral. De fato, não há dúvida de que o
reproduz.
A mensagem contra a pretensa impunidade quando as prisões estão superlotadas e, ainda que o cidadão
comum o perceba como uma mensagem de medo, as personalidades frágeis dos grupos de risco o entendem
como uma incitação pública ao delito contra a propriedade: delinquem porque há impunidade.
A publicidade dos delitos também difunde métodos criminosos e incita uma criminalidade amateur muito
perigosa. Um bom exemplo de reprodução criminal foi a enorme publicidade de sequestros extorsivos que
teve lugar faz poucos anos na Argentina, onde esses delitos não são comuns. A insistência midiática fez difundir
a falsa crença de que se trata de um delito rentável e fácil de ser cometido, o que provocava medo na
população, quando, na realidade, é um dos delitos mais difíceis, salvo quando conta com cobertura oficial.
Não obstante, houve outros receptores da mensagem que a entenderam de maneira muito diversa e isso
provocou uma onda de sequestros bobos, com alto risco para a vida das vítimas, pois são os que implicam mais
perigo (o sequestrador tonto e desesperado diante da iminência de ser descoberto ou sabendo-se reconhecido
pela vítima, mata-o como último recurso diante de sua estupidez).
Não é raro que, nesses casos de sequestro bobo, a criminologia midiática viole todos os protocolos
universalmente reconhecidos que assinalam o indicado para essas suposições e, enquanto a vítima permanece
em perigo e o delito continua sendo cometido, obtenha inconfidências dos investigadores e difunda toda sorte
de notícias acerca dos passos da família e das autoridades, como se não fosse evidente que os criminosos são
também destinatários delas, o que pode colocar em maior risco a vida da vítima.
Ademais, a criação de realidade de um contexto violento oferece um pretexto perfeito para qualquer
delito. Alguém mata a mulher e pretende fazer crer que foi um roubo; outro mata o marido da amante e quer
fazê-lo passar por um ato de terrorismo; outro enterra o sócio no fundo da casa e diz que o sequestraram;
outro rouba o vizinho e grita que não há segurança.
Ilustração 27

41[20]. A criminologia midiática e os políticos


Os movimentos políticos atuais de restauração do Estado de bem-estar não são imunes à criminologia
midiática e costumam cair em seus jogos, o que se traduz em uma permanente ambivalência frente ao
fenômeno, ou seja, parecem não saber como proceder frente à agressão levada adiante pelos partidários do
Estado spenceriano.
Os políticos latino-americanos são pressionados por soluções imediatas, mas os tempos de mudança social
não são os da política, marcados pela proximidade das eleições. A averiguação e o assédio constantes lhes
condicionam condutas desconfiadas e até paranoides.
A criminologia midiática vale-se do mesmo veículo de que o político atual necessita: a TV. O político atual
costuma ser algo assim como o ator ou a atriz de telenovela, passa a ser um telepolítico. Porém, diferentemente
do ator ou da atriz profissional, não pode mudar o personagem, ele fica preso ao seu papel.
A política atual é a política-espetáculo e o próprio Estado é, em alguma medida, um Estado-espetáculo, como
Roger-Gérard Schwartzenberg vem assinalando desde os anos 1970.
Como os políticos não conhecem outra criminologia senão a midiática, frente aos embates desta
respondem conforme seu discurso da causalidade mágica e, para demonstrar que estão preocupados com a
segurança, caem na armadilha de curvar-se às suas exigências.
Por isso adotam medidas paradoxais, autonomizam as polícias, dotam-nas do poder de praticar golpes de
Estado mais ou menos encobertos quando se veem privadas de fontes de arrecadação, sancionam leis
descabidas, pedem castigos para os juízes etc. Vão ficando presos às agências policiais que se descontrolam e
desorganizam e à própria TV.
Se bem haja políticos que fazem isso por oportunismo ou por ideologia autoritária, por sorte estes não são
a maioria. Sustentar o contrário é cair na antipolítica e isso é o mesmo que ansiar por uma ditadura. A verdade
é que a maior parte dos políticos não tem ideia do problema e atuam conforme a criminologia midiática porque
não conhecem outra e não sabem como defender-se de seus golpes.
O s políticos desorientados costumam acreditar que fazendo concessões à criminologia midiática conterão
seus golpes e, quando se dão conta de que isso não a detém e sim a potencializa, sua desorientação aumenta.
Eles ignoram que a criminologia midiática não tem limites, vai num crescendo infinito e acaba reclamando o
inadmissível: pena de morte, expulsão de todos os imigrantes, demolição dos bairros precários, deslocamentos
de população, castração dos violadores, legalização da tortura, redução da obra pública de construção de
prisões, supressão de todas as garantias penais e processuais, destituição dos juízes etc.
Como isso chega-se a um ponto em que tampouco os políticos podem admitir o inadmissível, o embate
contra eles continua, montado na mesma causalidade mágica que eles reforçaram com suas concessões. Os
políticos desorientados não percebem que a criminologia midiática é extorsiva e que frente a uma extorsão nunca
se deve ceder, porque cada vez quem extorque exigirá mais e as concessões não farão outra coisa senão
fortalecer seu método.
O maior risco político em nossa região é que os próprios políticos comprometidos com a restauração dos
demolidos Estados de bem-estar, ao fazer concessões, acabem serrando o galho em que estão sentados, pois a
criminologia midiática faz parte da tarefa de neutralização de qualquer tentativa de incorporação de novas
camadas sociais.
Muitos políticos perceberam tarde demais que se trata de um problema central na política, que a
criminologia midiática não é um detalhe a mais de algo que sempre consideraram que a polícia devia se ocupar.
Na atualidade, é a maior arma com que contam os demolidores do modelo do Estado do bem-estar no mundo,
que não são outros senão os beneficiários do caos que produziu sua destruição. Mais ainda. As concessões que
os políticos desorientados costumam fazer à criminologia midiática podem desmontar sua própria identidade
ideológica.
O público da política-espetáculo cansa-se facilmente do personagem, sobretudo quando este se diferencia
pouco dos outros personagens, ou seja, quando perde sua identidade. O político, obcecado pela busca do
triunfo eleitoral próximo, não percebe que o maior risco que corre não é o de perder uma eleição, e sim o de
perder sua identidade.
Quando, na política-espetáculo, os personagens terminam ficando excessivamente parecidos, abre-se o
espaço para que a criminologia midiática saque de seu arsenal e desfralde sua bandeira da antipolítica.
Como vemos, o peso político da criminologia midiática na nossa região não é pequeno. Mas não é só nela,
pois parece que também no norte não calcularam o efeito caótico provocado pelo crescimento do aparato
punitivo até os extremos atuais e não sabem como contê-lo e menos ainda revertê-lo. A dimensão econômica
do aparato penal não é compatível com a necessidade de controlar o gasto público, pois emprega a cifra sideral
de 200 bilhões de dólares anuais, ou seja, supera por ano o total da dívida externa argentina. O público, porém,
reclama cada vez mais repressão por conta de uma criminologia midiática que não é fácil deter, porque
responde a demasiados interesses gerados por ela mesma, como são todas as indústrias de segurança, sem contar
que é muito difícil desviar para outras atividades a imensa mão de obra ocupada nesses serviços, que somam
quase 3.000.000 de pessoas.
Esse problema certamente não é nosso, mas é bem demonstrativo da magnitude do fenômeno e, ademais,
nos afeta porque a publicidade se acha globalizada.
Cabe observar que, embora a criminologia midiática atual se globalize a partir dos Estados Unidos, o certo
é que a criação midiática de uma realidade caótica para desprestigiar os governos populares é muito velha na
América Latina e desde sempre foi preparatória dos golpes de Estado; seu discurso foi o prólogo que nunca
faltou a todas as ditaduras militares.
Não houve proclamação revolucionária em nenhum golpe de Estado latino-americano que não tenha
invocado a necessidade de deter a criminalidade. Nesse aspecto, não se trata de nenhum invento
estadunidense, e sim um velho e batido recurso vernáculo.

42. Como o pensamento mágico pode triunfar?


A criminologia midiática está para a acadêmica mais ou menos como o curanderismo está para a medicina.
Cabe perguntar por que tem êxito, quando nos movemos em um tempo em que a ciência tem enorme
prestígio. Mais ainda. Com as vítimas-heróis produz-se um fenômeno que equivale a imaginar que a organização
hospitalar e as intervenções cirúrgicas ficassem nas mãos dos doentes. Certamente eu daria apoio irrestrito ao
protesto dos doentes que não recebessem os medicamentos oncológicos, mas me limitaria a considerar com
piedade o paciente que acha que sabe curar sua doença sem ter estudado medicina e ainda fazendo tudo ao
contrário do que ela indica.
Já assinalamos, e reiteramos, ser óbvio que ninguém defende a impunidade para homicidas e violadores; a
discussão sobre se devem ser penalizados com mais cinco ou dez anos é secundária e isso, com certeza, não
impedirá que o número de homicidas e violadores aumente, nem determinará que diminua.
Com relação ao crime de fato, essa criminologia midiática não agrega nada. Todavia, foi capaz de fazer com
que os Estados Unidos tenham hoje mais de dois milhões de presos. Alguém poderá acreditar seriamente que
pode haver mais de dois milhões de pessoas em um país dispostas a passar ao ato do homicídio?
É indubitável que essas cifras incluem uma quantidade de pessoas que não são os criminosos que a
criminologia midiática mostra alegremente todas as vezes que pode, chegando ao cúmulo, em alguns países, de
inventá-los. Na Argentina, ela tem como cúmplices as agências policiais que criam fatos para fazer estatística, que
fabricam delitos para impingir fatos, que deformam outros para a televisão.

Ilustração 28

Ninguém com certa experiência judicial pode ler muitos expedientes sem reprimir a sensação de que, fora
do círculo de autores violentos, e mesmo entre estes, cada condenado parece ser mais estúpido e inábil do que
o outro. Mais do que o criminoso sádico da série televisiva, é um infeliz que perde talvez os melhores anos de
sua vida por causa de uma conduta absolutamente insensata e que jamais poderia ter tido êxito, sem contar que
nenhum sucesso patrimonial valeria a pena diante do risco de se pôr em jogo liberdade, autoestima, saúde e
vida.
Acredito piamente – e, certamente, sem subestimar o dano que causam – que na enorme maioria dos
casos estamos prendendo pessoas estúpidas e desnorteadas e não aqueles que realmente optaram pelo ato
danoso. Mas, de qualquer forma, o peso da criminologia midiática lota as prisões com pessoas que, em quase
um terço dos casos, não condenamos, ou seja, que nem sequer são os estúpidos que cometeram delitos.
É uma verdade inquestionável ser necessário, para baixar os níveis de violência em uma sociedade,
motivar condutas menos violentas e desmotivar as mais violentas, ou seja, fixado esse objetivo estratégico, é
necessária uma tática que se deve basear nas técnicas de motivação de comportamentos.
O curioso é que em todas as outras áreas em que se coloca essa tarefa, ninguém pretende fazê-lo com o
pensamento mágico, mas sim usando as técnicas melhores e mais depuradas. Quando um empresário quer
impor um produto motivando o público a comprá-lo e desmotivando-o a comprar do seu competidor,
empreende uma pesquisa de mercado, que é feita sobre sólidas bases da ciência social, da economia, da
psicologia social etc. Toda uma disciplina – a técnica de mercado – nutre-se de conhecimentos e métodos
científicos. Os próprios políticos apelam a esses conhecimentos em tempos de política-espetáculo.
Entretanto, quando a sociedade quer motivar condutas menos violentas e desmotivar as mais violentas,
tudo isso é deixado de lado e se apela para uma causalidade mágica. Nesse caso, a ciência social não tem espaço
e cada um opina segundo o pensamento mágico. Os simplismos mais grosseiros e as hipóteses mais
estapafúrdias se retroalimentam entre a televisão, a mesa do bar e as decisões políticas. O certo, porém, é que o
pensamento mágico substitui esses saberes. A criminologia midiática não pode ignorar a necessidade de vestir-
se de científica e, para isso, convoca seus especialistas. Nisso há uma diferença considerável entre o norte e o
sul. Começamos descrevendo o que se passa entre nós.
Entre os especialistas de nossa criminologia midiática há uma minoria que só é especialista na arte da
simulação, mas são muito poucos e, além isso, felizmente eles não costumam ser bons atores. O curioso é que
os especialistas da nossa criminologia midiática, em sua grande maioria, o são de verdade, são pessoas que
sabem o que dizem, em determinadas ocasiões com um altíssimo nível de conhecimento.
Qualquer mesa-redonda televisiva sobre segurança – no conceito midiático específico –, se é mais ou
menos séria, convoca pessoas vinculadas ao sistema penal: policiais, promotores, juízes, peritos médicos etc. São
especialistas que, em geral, articulam bem seus conhecimentos e os explicam às vezes com clareza, dependendo
de seus dotes de comunicação.
Aqui o paradoxo alcança sua máxima expressão: cria-se uma realidade com base no pensamento mágico
disfarçado de científico, mediante a opinião de especialistas sérios. Se não fosse trágico e pouco menos que
diabólico seria divertido.
A chave reside no fato de a criminologia midiática operar com uma onda de retroalimentação. Assim é
denominado o temido fenômeno de que um aparato criado pelos humanos se torne tão inteligente que se
retroalimente e nos impeça de desligá-lo, o que faz com que seja impossível pará-lo. E com a criminologia
midiática acontece isso: o especialista fala do que sabe (organização policial, dificuldades de investigação,
melhoria do processo, diagnóstico de algum caso particular etc.). Em um dado momento, o apresentador o
interroga sobre o aumento do delito, da criminalidade, as causas do delito, os fatores sociais, se a droga tem muito a
ver, se a liberação sexual tem incidência, se a desintegração da família pesa, se “isso” se conserta com planos sociais,
com penas maiores, com o valor simbólico da pena, com a restauração dos valores etc. Ou seja, lhe formula
perguntas que só um criminólogo poderia responder e, mesmo assim, depois de pesquisas de campo que,
obviamente, não são realizadas em nosso país porque não se destina nem um mísero tostão para isso.
Um policial, um promotor, um juiz ou um médico podem ser muito bons em suas profissões e, no
entanto, não saber quem foi Robert Merton, porque nenhuma falta lhe faz isto para desempenhar as suas
funções.
Ele pode não ter aberto, em toda sua vida, um único livro de sociologia e desconhecer completamente a
teoria sociológica e os métodos de pesquisa empírica, pode não saber o que é uma pesquisa de vitimização ou
de autoincriminação, nem um fluxo de casos, pode muito menos saber como eles são realizados, não ter ideia
do que é um observador participante, nem da importância das entrevistas, ele pode ignorar tudo o que
concerne à estatística social, nunca ter tido contato com uma pesquisa de campo e, no entanto, ser um
excelente funcionário e profissional em sua matéria.
O que acontece é que, quando o apresentador lhe pergunta, o especialista não pode deixar de responder
a o apresentador, porque acha que responde sobre conhecimentos que são comuns e até óbvios, porque
pertencem à realidade construída, dada como certa. E é ali onde se produz a onda de retroalimentação: o
especialista reproduz o discurso da criminologia midiática; fala do que sabe e em seguida fica falando do óbvio,
que é a realidade construída midiaticamente, e que assimilou na padaria e no supermercado.
Isso confere autoridade científica à criminologia midiática. A pouca difusão da ciência social entre o
público faz com que aquele que observa que tudo o que se diz carece de base empírica e que não há dados
disponíveis porque ninguém se interessa em pesquisar a violência, seja visto como um ser extraplanetário, que
propõe algo esotérico e sem sentido prático. Entretanto, bastaria perguntar a qualquer empresário sobre o
valor prático da tecnologia de mercado para se convencer do contrário: ninguém se empenha em fabricar algo
sem saber se poderá convencer o público a comprá-lo e sem que haja um planejamento sobre como vendê-lo.
No norte as coisas são um pouco diferentes, pois o enorme desenvolvimento alcançado pelo sistema penal
nos Estados Unidos produziu seus próprios especialistas que integram o think-tank da direita estadunidense e
que se vendem bastante bem, gerando, por sua vez, a indústria de conferências pagas, direitos autorais
suculentos, entrevistas televisivas etc. Em revistas de ampla circulação, como a Newsweek, são defendidas as
teses mais estranhas, como, por exemplo, a de Morgan O. Reynolds, que afirma ser o crime uma questão de
custo-beneficio, e por isso são necessárias penas mais pesadas para forçar a escolha racional do possível infrator.
Isso não é nenhuma novidade, visto que provém do século XVIII, como já vimos. Seria bom perguntar a Mr.
Reynolds que pena propõe para os terroristas que se imolam. O mais lamentável é que, indo além da Newsweek,
uma junta de economistas distinguiu com o Prêmio Nobel um colega que afirma algo parecido acerca do que
obviamente nada sabe.
Outro inventor da pólvora é Charles Murray, o coautor do livro racista The Bell Curve, juntamente com
Richard Herrnstein, a quem logo me referirei. Murray participa da tese do escritor da Newsweek e, segundo sua
disparatada teoria, os jovens de classe pobre delinquem porque são tratados benevolamente pelos programas
de desemprego e outros semelhantes. Segundo este pensador, os jovens andam com um computador fazendo
um cálculo de custo-beneficio, assim como as adolescentes que engravidam prematuramente para ganhar o
auxílio. Sua proposta consiste em suprimir esses programas e guetizar seus beneficiários para que eles se matem
ou morram de fome em seus locais de moradia.
Este é um dos maiores representantes do think-tank de Washington, apesar de aparentar ser mais só do
tank, respeitando obviamente a natureza do conteúdo.
O s best seller criminológicos estadunidenses são comentados em generosos espaços em jornais que se
supõem sérios, dando lugar a uma verdadeira indústria de fabricação de embustes criminológicos que se vendem
em bancas nos aeroportos, juntamente com as novelas policiais e as revistas pornográficas em plásticos lacrados.
Todos eles projetam a imagem do crime como um fenômeno individual. Para isso dão uma enorme
divulgação às novidades dos biólogos e geneticistas, mas terminam incorrendo em uma confusão que não faz
mais do que ocultar um renascimento do pior reducionismo biológico.
Em linhas gerais me atrevo a dizer que concorrem quatro atitudes diferentes: (a) por um lado, a fraude
científica de alguns escrevedores; (b) por outro, a ingenuidade de alguns cientistas sérios, que não são capazes
de reconhecer os limites de seus próprios conhecimentos, ou seja, que passam da biologia à filosofia sem
escalas; (c) a tudo isso se soma a ideologia grosseiramente racista de alguns cientistas e (d) por último, o
horrível guisado que os comunicadores ou formadores de opinião cozinham, misturando tudo o que veio antes
para reforçar a imagem puramente individual do crime, projetado como o único risco social.
Nessa espécie de guisado ou sopa midiático – ou caldeirão da bruxa – ressurgem coisas tais como a tese da
meritocracia biológica segundo testes de habilidade disfarçados de testes de inteligência, a investigação de
gêmeos univitelinos, os estudos de herança falsificados dos anos 1920 etc. Esses estudos foram renovados pelo
professor de Columbia Henry E. Garrett, que depois de se aposentar passou para a Universidade de Virginia,
onde suas ideias foram apoiadas pelo senador Harry Byrd, conhecido promotor da resistência em massa à
integração racial. Garrett foi apoiado financeiramente pela Pioneer Foundation, criada em 1937 pelo milionário
têxtil Wickliffe Draper, velho eugenista e defensor da segregação racista, que se encarregou de pagar as piores
e mais adulteradas pesquisas.
Os embustes da Pioneer Foundation e de seus seguidores se renovaram em 1994, quando Richard J.
Herrnstein e o disparatado Charles Murray publicaram The Bell Curve: Intelligence and class structure in American
life, exumando os velhos testes que provavam o menor cociente intelectual dos afro-americanos.
Cabe esclarecer que Herrnstein e mais James Q. Wilson publicaram em 1986 um volume com o título
pouco científico Crime e natureza humana, que é o mais completo revival da biologia criminal, escassamente
dissimulado com contradições.
O embuste científico desses autores se descobre com um cuidadoso exame de sua bibliografía, pois eles
não rebatem as toneladas de trabalhos demolidores, e sim os ocultam diretamente, apresentando um
impressionante arsenal bibliográfico sem mencioná-los. Com isso, conseguem impressionar o leitor leigo. Pode-
se dizer que a deslealdade científica beira o escândalo.
Além do mais, propõem algo insólito: não atentando para o fato de que há mais bobos na prisão
precisamente porque são bobos, Herrnstein e Murray propõem que o sistema penal seja claro e conclusivo,
sem dúvidas nem indulgências, para que os bobos entendam. Em outras palavras: para que os bobos entendam
é bom que todos nós sejamos tratados como bobos, o que na esquina se diz pegamos os bobos. Quando assisto
TV, tenho muitas vezes a sensação de que eles tiveram êxito.
O reducionismo biológico nunca desapareceu completamente e o risco de seu renascimento, com ampla
cobertura midiática, não pode ser subestimado. Até poucos anos atrás, a ciência apressada teve gravíssimas
consequências letais, tendo recebido também muita publicidade.
O português Egas Moniz, que não se chamava assim (adotou o nome de um antepassado de oitocentos
anos antes), foi famosíssimo e recebeu o Prêmio Nobel por furar a cabeça dos pacientes e destruir-lhes as
células frontais. Desse modo, o paciente perdia a vontade e era mais manipulável, com o que a tarefa
manicomial ficava mais fácil; cerca de 25% deles puderam ser enviados para suas casas, pois estavam mansos.
Entre 1942 e 1954 foram praticadas na Grã-Bretanha cerca de doze mil lobotomias e nos Estados Unidos
umas vinte mil. Estima-se que essa brutalidade foi perpretada em cerca de cem mil vítimas, muitas dos quais
hoje reclamam indenizações e pediram que o Prêmio Nobel fosse retirado de Moniz.
A lobotomia teve singular êxito nos Estados Unidos, onde o médico Walter Freeman a praticava a
marteladas na cabeça atrás da órbita ocular (lobotomia transorbital).
Um paciente, que não tinha sido lobotomizado, desferiu alguns tiros contra Moniz, deixando-o paralítico
para o resto da vida, o que tinha pouca importância, pois na realidade ele se valia de um assistente para essas
brutalidades, uma vez que suas mãos estavam artríticas. A lenda diz que outro paciente o eliminou, mas isso
não é verdade.
Lembro-me disso porque o risco de um neolombrosianismo não se encontra neutralizado, dado que hoje
se lança a teoria de que a violência é associada às disfunções frontais e a agressão sexual, às temporais. É um
renascimento da frenologia através de meras hipóteses, pois Moniz já se havia ocupado do frontal. As
neurociências pretendem prever futuros desvios criminosos de conduta nos jardins de infância aos três anos de
idade e esse disparate é levado a sério por alguns funcionários do atual governo francês. Eu começaria a
acreditar nessas predições, se as provas fossem aplicadas aos exportadores e vendedores de armas à África.
Pretende-se que a genética ocupe o lugar que nos anos 1930 coube à endocrinologia criminal, mas esta
tampouco morreu completamente, porque a tese da constituição criminosa reapareceu em 1989, quando o
psiquiatra inglês Hans Eysenck, em colaboração com Gisli H. Gudjonsson, ressuscitou as teorias biotipológicas
em um livro que leva, como não poderia deixar de ser, o sugestivo título de As causas e a cura da criminalidade.
É certo que houve surtos muito precoces de criminogenética. Nos anos sessenta do século passado fez
furor um renascimento do lombrosianismo com a tese do cromossoma atípico ou adicional, com grande
cobertura midiática. A fórmula cromossomática do homem é XY e a da mulher XX. Pois bem, alguns indivíduos
apareceram com XYY, ou seja, um cromossoma adicional. Imediatamente, os cientistas apressados lançaram-se a
medições e constataram que havia uma frequência um pouco maior de sujeitos com cromossoma adicional na
população penal. Pouco depois, os dados se reduziram quando se mediu a mesma classe social. Ademais, a
pequena diferença restante se explica pelo estereótipo: os portadores são mais altos, mais assimétricos – mais
feios – e um pouco débeis mentais. Hoje ninguém mais resgata o pretenso valor criminógeno do cromossoma
atípico.
Todo esse conjunto de descobertas tem uma ampla cobertura midiática, quando, na realidade, não passam
de verdadeiras banalidades. As teses mais elaboradas e sérias sobre a biologia criminal não deixam de provar o
óbvio. Ninguém ignora que todos os humanos somos diferentes e, portanto, temos diferentes habilidades
biologicamente limitadas ou condicionadas: não posso ser bailarino clássico a essa altura da vida nem integrar a
seleção nacional de futebol. Também tenho condicionamentos sociais e vivenciais que, em boa medida,
determinam meu catálogo de possíveis reações frente a situações determinadas. Esses condicionamentos
incidiram sobre minha biologia: se tive vida sedentária, terei mais colesterol, se bebi muito álcool,
possivelmente tenho o fígado um pouco maltratado, se comi demais, terei sobrepeso etc. É impossível explicar
minha conduta só com base na biologia que herdei, nem sequer em características indubitavelmente herdadas e
biologicamente reconhecíveis.
Assim, a pretensa correlação entre o baixo quociente intelectual e o delito não indica uma causa, porque
não se leva em conta a frustração escolar da pessoa, sua estigmatização familiar, a lesão sofrida em sua
autoestima e o efeito interatuante de outras frustrações e, o que é mais significativo, tampouco se considera a
maior vulnerabilidade ao poder punitivo: se temos mais bobos nas prisões, não é porque os menos inteligentes
cometem mais delitos, mas sim porque é mais fácil prendê-los.
Nunca se pode confundir uma correlação com uma causa. Um baixo nível de serotonina se correlaciona a
uma conduta agressiva, mas é o baixo nível de serotonina que condiciona o comportamento agressivo ou é o
comportamento agressivo ao longo da vida do sujeito que condiciona o baixo nível de serotonina? Há
neurocientistas que afirmam que veem o pensamento. A única coisa que estabelecem é que, quando o sujeito
pensa, o cérebro opera de certa maneira, da qual se conhece muito melhor os detalhes e é muito bom que
assim seja. Mas são esses contatos que causam o pensamento ou é o pensamento que faz funcionar esses
contatos? Não pretendo assumir nenhuma posição metafísica nem falar da alma, mas no mero plano terreno e
verificável posso pelo menos afirmar que penso com todo o corpo. Assim, verifico que não poderia pensar sem
função hepática ou cardíaca e que penso muito pior quando me sinto mal em qualquer órgão. Não creio que
Einstein tenha concluído a teoria da relatividade sob os efeitos de uma cólica.
Explico mais claramente. Suponhamos que todos nós sejamos uns energúmenos e em vez de trocar ideias
acabamos trocando socos e cadeiradas. Vem a polícia e acaba com o tumulto. Somos presos. Nesse momento,
colhem uma amostra do nosso sangue e verificam que todos nós temos um altíssimo nível de adrenalina.
Será que é a adrenalina que nos faz energúmenos ou será que a adrenalina subiu por causa da nossa
conduta de energúmenos? Todos os que brigam têm a adrenalina elevada. Seria uma solução baixar a adrenalina
de toda a população para evitar as brigas?
Em síntese e, lamentavelmente, apesar de poucas coisas serem mais irracionais do que a criminologia
midiática, a verdade é que as decisões de poder são adotadas seguindo suas incoerências e sua base de
causalidade mágica, no mais perfeito estilo völkisch. Spee voltaria a escrever seu livro.
Ilustração 29

43. O fim da criminologia negacionista: o que, como e onde?


Vimos que a criminologia acadêmica nem sempre andou por caminhos recomendáveis; o resultado é ainda
mais desalentador na criminologia midiática. Cabe perguntar se não será possível se aproximar da realidade ou
até mesmo se esta existe. Há algo a que agarrar-se na questão criminal? Existe algum dado forte capaz de nos
tirar da confusão? Minha avó me olharia surpresa e me faria notar que o único dado certo na questão criminal
são os mortos. Ela estaria coberta de razão: se a única verdade é a realidade, na criminologia a única realidade são
os cadáveres.
Sabemos que os cadáveres nos dizem que estão mortos. A criminologia, porém, não os escutou.
Comecemos, pois, a escutar os mortos onde eles existem em grande número, nos assassinatos cometidos pelos
Estados. O certo é que nem sequer temos dados precisos acerca da quantidade de cadáveres produzidos pelos
Estados no curso do século passado, porque há muitas tabelas macabras e todas elas são aproximações.
A de Wayne Morrison traz os seguintes dados: no Congo (1885-1908) 8.000.000; na África do Sul (hereros)
(1904): 80.000; na Armênia (1915-1922): 1.500.000; na Ucrânia (judeus) (1918-1922): entre 100.000 e 250.000; na
Ucrânia por fome (1932-1933): seu número causa as maiores dificuldades de cálculo (para alguns autores supera
os 30 milhões[21]; na União Soviética (dissidência política) (1936-1939): 500.000; na Europa (judeus) (1933-
1945): 6.000.000 (mais 5.000.000 de ciganos, gays, deficientes e outros); na Indonésia (dissidentes) (1965):
600.000; em Burundi (hutus) (1965-1972): entre 100.000 e 300.000; em Bangladesh (1971): 2.000.000; no
Camboja (1975-1979): 2.000.000; em Timor (1975-2000): 200.000; em Ruanda (tutsis) (1994): 800.000. A estes
devemos somar cifras não estimadas de budistas no Tibet (1950-1959), índios na Guatemala (1965-1992), o povo
Iho na Nigéria (1966), religiosos Baha’i no Irã (1980-1994), os curdos no Iraque (1991-1994) e os muçulmanos
na Bósnia (1992-1998). As cifras contabilizadas por Morrison somam cerca de 65 milhões de cadáveres.
Há outros cálculos mais macabros, como o de Rudolph J. Rummel, que o eleva o total a 165 milhões, pois
inclui outros casos, dado que as mortes por fome provocada distorcem os cálculos.
Admitindo que a lista de Rummel seja exagerada e a de Morrison estreita, podemos calcular que no século
passado os Estados produziram uns cem milhões de cadáveres fora das guerras. O número de mortos nas guerras
tampouco é unanimemente aceito, pois varia segundo a inclusão de mais ou menos vítimas não europeias e de
danos colaterais, como a fome e as pestes, mas o certo é que seu número nunca alcança ao de mortos por
massacres.
Isso significa que mais de um em cada cinquenta habitantes do planeta foi morto pelos Estados no decorrer do
século passado, sem contar os mortos em guerras. Este cálculo de 2% da população mundial terem sido
assassinados foi recentemente ratificado pelo professor de Harvard Daniel Jonah Goldhagen, que tampouco
descarta as estimativas mais altas, que chegam a 4% da população mundial. Esse cálculo pessimista indicaria que
quase um habitante em cada vinte e cinco foi eliminado pelos Estados fora das situações de guerra real.
Mantendo-nos com o percentual mais prudente de 2%, não podemos deixar de ficar alarmados, por menor
que seja nossa sensibilidade frente às matanças, e não menos alarmante é que a criminologia o tenha ignorado
quase por completo e as estatísticas de homicídios não tenham sido registradas. Os genocidas sempre temeram
os cadáveres e, por isso, os reduziram a cinzas, os ocultaram em fossas comuns ou os lançaram de aviões em
pleno voo, mas que a criminologia compartilhe desse temor é forte demais. Não podemos continuar fazendo
uma criminologia que olhe de frente sem que nos encarreguemos dos cadáveres: minha avó ficaria muitíssimo
aborrecida. A criminologia negacionista chega a seu fim. Uma criminologia séria deve começar por escutar que
esses mortos estão mortos.
Para nos adentrarmos no tema, percorremos ao caminho das sete perguntas de ouro da criminalística: o
que? como? onde? quando? com o que? por que? quem?
Comecemos pelas três primeiras (o que? como? onde?)
Para começar a percorrer esse caminho, não nos serve a definição legal, que nesse caso seria a de
genocídio, do direito internacional, cunhada a partir da proposta de Raphael Lemkin e estabelecida na fórmula
da Convenção para a prevenção e sanção do delito de genocídio das Nações Unidas, de 1948.
Não nos serve porque foi elaborada na medida das grandes potências no começo da guerra fria e, por
conseguinte, não abrange o aniquilamento dos grupos políticos porque não convinha, exige aniquilamento para
deixar de fora as matanças neocolonialistas e, também, para evitar que as bombas de Hiroshima e Nagasaki
entrassem na definição.
Embora a consagração internacional do crime de genocídio tenha conseguido revelar uns tantos milhões
de cadáveres, o que foi muito positivo, o certo é que se tentou calar os gritos de muitos milhões a mais no
curso das negociações.
Como consequência desse recorte microcirúrgico do conceito, em todos os massacres posteriores se
colocaram dúvidas jurídicas. Ainda que possa parecer mentira, foram colocados em dúvida se eram genocídios
os massacres perpetrados pelos japoneses na China, na Coreia e em outras regiões; pelos chineses desde 1950,
quando ocuparam o Tibete (calculam-se 500.000 vítimas); a destruição da cidade de Hama em Siria, em 1982; as
do nosso Cone Sul americano; os deslocamentos convertidos em marchas da morte (a dos armênios, as de
Etiópia no regime de Mengistu Hailé Mariam, a recente, de Darfur para o Chade); o massacre dos tutsi em
Ruanda (de 1.250.000 ficaram reduzidos a 300.000); a eliminação de 2.200.000 pessoas pelo regime de Pol Pot,
no Camboja; a dos paquistaneses em Bangladesh (foram mortos pelo menos 1.000.000), e um muito longo
etcetera.
O curioso é que em quase todos esses casos foi a indiferença do resto do mundo que permitiu o
massacre. Vejamos o caso de Ruanda, que tem uma população tutsi minoritária, e Burundi (o país vizinho),
onde eles são maioria. A maioria dos ruandeses são hutus. Os tutsis ruandeses foram privilegiados pelos
colonialistas belgas, de modo que quando Ruanda se tornou independente os hutus mataram uns 14.000 tutsis e
expulsaram meio milhão. Em Burundi, por sua parte, uns 100.000 hutus foram mortos e outros 200.000 foram
deslocados. Os tutsis expulsos de Ruanda organizaram em Burundi uma guerrilha, que entrou em território
ruandense. O governo ruandense gerou pânico na população hutu, manipulada pela mulher do presidente, em
especial por meio da Rádio Televisão Livre das Mil Colinas (RTLM), que considerava os tutsis subhumanos,
chamando-os de baratas e serpentes.
Quando os franceses conseguiram um acordo mediante o qual hutus e tutsis se comprometiam a resolver
seus conflitos recorrendo a um sistema com pluralidade de partidos, o grupo hutu do presidente Habyarimana
temeu por seus privilégios e começou a preparar forças paramilitares, até que um misterioso míssil derrubou o
avião presidencial. A partir desse momento, desencadeou-se a matança de tutsis, instigada pela mencionada
Rádio das Mil Colinas e a cargo de cada chefe municipal, executada geralmente a machadadas. Nem o exército
nem a polícia tomaram parte, mas tampouco fizeram coisa alguma para impedi-lo.
Ilustração 30

Os homicídios em massa sempre foram cometidos e continuam sendo porque a política de um Estado
assim o decide, seu poder punitivo o executa e os demais Estados olham com indiferença, ou complacência.
Suas condições indispensáveis são, pois, a decisão política interna e o espaço político internacional. Sem elas
não há massacre.
Em cada massacre os responsáveis não são apenas os Estados que o cometem, mas também os que não
atuam, os que se omitem e que dominam a política internacional planetária.
É claro que o apoio de Carter e Reagan ao regime genocida de Pol Pot foi vergonhoso e ideologicamente
um disparate, com o objetivo de não reconhecer a importância da intervenção vietnamita. É também inegável
seu apoio incondicional ao regime de Suharto e ao massacre perpetrado por este entre 1965 e 1966. Em 1975, a
Indonésia apoderou-se do Timor Leste, iniciando um massacre que continua até o presente, diante do silêncio
cúmplice de todos.
Mais atrás no século, o mesmo vale a respeito do genocídio armênio pelos turcos em 1915 e 1923. Foi a
Turquia que decidiu, mas isso foi possibilitado pela indiferença internacional: às potências centrais convinha o
silêncio, pois embora o Império Austro-Húngaro estivesse dissolvido e o Império Alemão, substituído pela
República de Weimar, os sucessores desses sistemas sabiam que seus predecessores foram aliados complacentes
do Império Otomano; a Rússia havia firmado a paz em separado e tinha interesse de sobra em não ter conflitos
com a Turquia, com a qual celebrou em 1920 um tratado de amizade e cooperação. Nos Estados Unidos, os
republicanos se desentenderam com a Europa e não ratificaram o Tratado de Versalhes. França e Grã-Bretanha
dedicaram-se a assegurar o resultado que até então haviam obtido do desmembramento do velho Império
Otomano. Os armênios ficaram sós.
Houve muitíssimos testemunhos qualificados entre cidadãos, funcionários e diplomatas das grandes
potências, e alguns deles tiveram reações muito corajosas, embora seus governos se recolhessem ao silêncio:
James Bryce, com a colaboração de Arnold Toynbee, publicou um livro na Grã-Bretanha; o pastor Johannes
Lepsius fez o mesmo na Alemanha; o embaixador estadunidense no Império Otomano, Henry Morgenthau, teve
uma atuação destacada na publicidade do caso. Ninguém, porém, os escutou.
Em 1939, poucos dias antes da invasão da Polônia, em um discurso dirigido a seus generais, Hitler
perguntou: Wer redet noch von der Vernichtung der Armenier? (Quem fala ainda dos armênios?).
Conforme a filigrana que recorta o conceito legal de genocídio, tal como acabamos de expressá-lo,
tampouco falariam os cadáveres produto de todos os deslocamentos forçados de população, incluindo os da ex-
Iugoslávia na guerra de 1991-1995, que começou com a independência da Croácia e da Eslovênia e terminou
com o estabelecimento das fronteiras internas e externas da Bósnia.

O argumento é tomado das justificativas dos deslocamentos na URSS: Stalin não se propunha a aniquilar os
kulaks e os expurgos dos anos 1930 também não pretendiam aniquilar nenhum grupo étnico nem religioso. No
caso da ex-Iugoslávia, os juristas esforçam-se por distinguir entre limpeza étnica e genocídio.
Quanto à prevenção do genocídio, a convenção de 1948 foi quase uma manifestação de boa vontade,
posto que os massacres do século passado só cessaram porque alcançaram seus objetivos (por exemplo, no caso
armênio ou no indonésio), porque algum Estado estrangeiro interveio (como no Camboja e em Bangladesh) ou
porque os massacradores perderam uma guerra (como os nazistas).
Como tudo isso demonstra que a definição legal de genocídio é produto de um exercício de poder (de
uma decisão política de criminalização primária) que não perde seu caráter seletivo por provir do campo
internacional, faz-se necessário substituí-la por um conceito criminológico. A esse efeito – e acompanhando,
com correções, Semelin, que é um estudioso do tema –, usaremos a definição mais ampla de massacre,
entendendo por tal toda prática de homicídio de um número considerável de pessoas por parte de agentes de um
Estado ou de um grupo organizado com controle territorial, de forma direta ou com clara complacência destes, levada
a cabo de forma conjunta ou continuada, fora de situações reais de guerra que importem forças mais ou menos
simétricas.
Cabe advertir sobre um risco gravíssimo ao conceituar os massacres: embora pareça absurdo, se se tenta
hierarquizá-los (meu massacre foi pior que o teu), isso confunde muito e faz perder de vista os cadáveres.
Tais raciocínios são aberrantes e perigosíssimos, porque encerram germes de mitos de alto risco que podem
habilitar novos discursos massacradores, uma vez que oferecem elementos para novas técnicas de neutralização.
Assim, poder-se-ia dizer que se justifica a morte de 600.000 pessoas por Suharto diante da ameaça comunista
proveniente da Revolução Cultural da China de Mao; por sua vez, poder-se-ia justificar a morte dos dois milhões
de cambojanos por Pol Pot, diante do temor provocado pelo massacre de Suharto e da submissão da população
camponesa cambojana; o assassinato a machadadas de 800.000 tutsis em Ruanda se justificaria pelo temor
produzido pela morte de 100.000 hutus em Burundi. Esta é a inadmissível consequência da hierarquização dos
massacres.
Por um lado, as potências batem-se para fazer com que só a outra seja criminalizada, mas, por outro, as
vítimas se batem para ver quem é mais vítima. No meio ficam uns tantos milhões de cadáveres dos quais nem a
criminologia se dá conta. Isso deve nos alertar sobre os riscos da armadilha da hierarquização.
Por regra geral, a questão da hierarquização surge diante da Shoah, e a pergunta que se coloca é se ela foi
única ou se não se diferencia de outros massacres.
A rigor, todo massacre tem características particulares. Ademais, todo massacre é único para as vítimas. O
problema é que se o consideramos substancialmente diferente, estamos a um passo de estimar que é irrepetível e
produto de um caminho especial – o Sonderweg alemão dos anos 30 do século passado. Acreditamos que
considerá-la irrepetível é muito perigoso e atribuí-la ao Sonderweg é, em algum sentido, uma forma de
negacionismo (não do fato, mas sim da responsabilidade).
É indubitável que a Shoah pertence aos judeus – porque para estes é justa a sua dor –, sem prejuízo de
que ela se insere em um programa de extermínio organizado, que também massacrou vários milhões de não-
judeus, respondendo a motivações profanas abomináveis, sobre as quais não se pode passar, confiando na dor
causada e acreditando ingenuamente na impossibilidade da sua reiteração.
O que confere maior particularidade à Shoah é que foi cometida contra europeus e por europeus, tendo à
frente uma potência considerada um dos pináculos da cultura universal (ou universalizadora). A flecha da
história hegeliana cravou-se em pleno coração do Estado sintético. Os perpetradores não foram asiáticos
teocráticos, nem africanos difícilmente reconhecíveis como humanos nem latino-americanos degenerados pela
mestiçagem, mas sim quem estava na ponta da flecha hegeliana. E não vale enaltecer nacionalismos para imputar
tudo aos alemães, uma vez que não se pode negar a participação do regime de Vichy, de outros aliados do Eixo
e dos colaboradores dos países ocupados, que por certo houve e muitos.
Esta é uma característica mais diferencial: a civilização orgulhosa não pode negar o massacre
desqualificado. Encobriram-se discursivamente os piores crimes do colonialismo: a criminologia, de mãos dadas
com a antropologia colonialista, naturalizou-os, dizendo que os massacres eram inevitáveis. Mas isso já não pode
ser encoberto.
A característica da criminalidade nazista – e a mais dolorosa e que a civilização se nega a assumir– é que
sintetiza como ninguém o fato de ter feito tudo o que outros haviam inventado e o levou à prática de um
modo tão inexorável, aplicando a máxima racionalidade funcional moderna na fabricação de cadáveres (até
chegar ao extremo de produzir sabão e cintos e recolher obturações de ouro dos dentes), que apresenta juntas
todas as características que os outros massacres costumam oferecer separadamente.
O nazismo careceu da mais ínfima criatividade. Sua originalidade baseou-se somente em seu brutal
extremismo assassino: o racismo e o reducionismo biologista eram o paradigma dominante em toda a Europa e
nos Estados Unidos; a eugenia negativa estava legalizada nos Estados Unidos desde 1907; o ódio nacionalista a
havia alimentado na Primeira Guerra Mundial; a mistura de tudo isso fora sustentada por Chamberlain no livro
de cabeceira de Kaiser; o culto natural da lei inexorável do mais forte era de Spencer; o antissemitismo era
europeu e os reis católicos haviam expulsado os judeus quatro séculos antes; os outros europeus os
estigmatizavam como deicidas e comedores de criancinhas; os condenavam a viver nos guetos e impediam que
eles tivessem acesso à propriedade imóvel; os ciganos eram perseguidos por toda a Europa; a estigmatização e a
punição dos gays se perdem nos tempos medievais; os franceses antidreyfusianos reviveram o antissemitismo até
o extremo; o trabalho escravo até o esgotamento e a morte eram praticados em todo o colonialismo; o
extermínio havia sido praticado com os hereros; as técnicas de extermínio provinham da indústria.
Nada, o nazismo não inventou absolutamente nada, sua criatividade foi nula, recebeu tudo da civilização, a
única diferença foi uma brutalidade tão desqualificada que a linguagem não é capaz de relatá-la, mesmo
apelando para os vocábulos mais inadequados para o âmbito acadêmico e que me eximo de reproduzir aqui
(no bar o expressariam com maior clareza).
Essa brutalidade se explica porque o nazismo acreditou que se colocava na vanguarda da civilização e a
vanguarda da criminalidade não pode ser senão uma criminalidade ainda maior. É isso que a civilização
planetarizada não pode dissimular e tenta negar com o Sonderweg, que não é mais do que outra forma de
negacionismo de responsabilidade.

44. Os massacres e as guerras


Numerosos massacres pretenderam se confundir com guerras. Embora também seja um crime (remeto-me
a Juan Bautista Alberdi)[22], a guerra exige que haja duas forças armadas regulares ou irregulares, porém mais
ou menos simétricas. Se bem às vezes há massacres coetâneos, decididos e executados aproveitando a guerra,
nada têm a ver com ela mesma. Os turcos aproveitaram a Primeira Guerra para massacrar os armênios, os
nazistas fizeram o mesmo com os judeus, ciganos, gays, dissidentes e doentes. Nem uns nem outros eram
vencidos, combatentes ou prisioneiros de guerra, como tampouco o era a população civil japonesa de
Hiroshima e Nagasaki.
Esses massacres parabélicos foram favorecidos porque, desde a Primeira Guerra (1914-1918), a guerra
deixou de ser travada apenas contra exércitos, passando a envolver a população, apelando à sua substanciação
como inimigo e como inferior, razão pela qual os mortos não só eram efeitos colaterais, mas também começaram
a ser produto de represálias sobre a população civil.
Com a guerra total de Ludendorf os inimigos foram substancializados, e passaram a ser os franceses, os
alemães etc., ou seja, deixaram de ser indivíduos para converter-se em uma manifestação dessa substância à qual
usualmente se agrega algum genitivo excrementício. A radicalização substancialista da guerra é o que se trata de
provocar artificialmente fora da hipótese bélica, e por isso todo massacre se disfarça de guerra, como já havia
acontecido com a invenção das pretensas guerras coloniais, disfarçando como tais as ocupações territoriais
policiais, das quais as guerras sujas do século passado não seriam mais que uma subcategoria relativamente
tardia.
Nossos territórios latino-americanos foram enormes campos de concentração e de trabalhos forçados sob
controle territorial policial dos colonizadores: não houve guerras, não houve forças enfrentadas simetricamente
armadas. As únicas guerras foram as de independência, mas não a conquista. Algo análogo pode-se dizer do
neocolonialismo, quando a Europa se arremessou sobre a África depois do congresso de Berlim de 1885, como
antes havia feito sobre o norte da África, a Índia e a Oceania; tampouco houve guerras, e sim ocupações
policiais.
Em 1918, o domínio imperial europeu estendia-se a uns 75 milhões de km2 e a aproximadamente 600
milhões de pessoas. Desde 1895, quando as metralhadoras apareceram, ficou ainda mais claro que não houve
guerras, pois na batalha de Omdurman, no Sudão, os britânicos massacraram, com elas, os derviches,
inflingindo-lhes 11.000 baixas contra somente 49 em suas fileiras. É óbvio que isso não pode ser chamado de
guerra.
As consequências dessas ocupações policiais de território foram desastrosas. Entre 1825 e 1830 os
holandeses mataram cerca de 200.000 habitantes em Java, os portugueses uns 100.000 em Moçambique e os
alemães 145.000 na África Oriental. A Argélia teve sua população reduzida em 15% entre 1830 e 1870; em toda a
África francesa a população diminuiu entre um terço e a metade, no Congo Belga em cerca de 50%
(10.000.000), no Sudão inglês passou de nove para três milhões; algo análogo aconteceu na Oceania. A carestia
cerealífera provocada pelo mercado livre, somada à seca, provocou mais de trinta milhões de mortes no Sudeste
Asiático, na Índia e na África entre 1870 e 1890. Em 2 de outubro de 1904, o Império Alemão declarou que os
hereros do África sul-ocidental deixavam de ser cidadãos alemães – o mesmo que foi feito, trinta anos depois,
com os judeus – e entre essa data e 1906 foram exterminados.
Hannah Arendt disse, com razão, que os europeus praticaram seus métodos colonialistas brutais e
acabaram transferindo-os ao próprio coração europeu, mas – talvez por ficar tomando chá com Heidegger–
chegou tarde ao cinema: antes os romanos o haviam praticado em quase toda Europa, os castelhanos haviam
colonizado os muçulmanos do sul (embora falem de reconquista) e haviam expulsado os judeus etc.
Se nos instalarmos no cinema antes de Hannah e olharmos o filme todo, veremos que existe uma espécie
d e pulsão massacradora que se estendeu pela Europa e que, em seguida, a Europa expulsou para outras
sociedades indefesas que submeteu ao seu controle e exploração policial e que, com o passar do tempo, refluiu
e voltou a seu território. Isso indicaria que a tendência a expandir-se, submeter e hegemonizar às custas de
massacres estatais faz parte da civilização que a Europa planetarizou.
Isso é tão certo que a planetarização massacradora continuou funcionando entre nós depois de nossas
independências: os massacres dos povos nativos também foram praticados por governos pátrios, como a
chamada campanha ao deserto argentina, a contenção das mobilizações do Altiplano (Bolívia) contra a tentativa
de reposição de um Wilka[23] por volta de 1900, Canudos, no Nordeste do Brasil, talvez mesmo nossas
insensatas guerras civis e contra os vizinhos etc.
Essa herança europeia se concretizou mais proximamente sob a forma de autocolonialismo. Talvez por sua
proximidade não percebamos sua verdadeira natureza, pois em alguma medida assimilamos o colonizador,
extremamente parecido conosco e próximo de nós. A expressão autocolonialismo não deve ser descartada pelo
fato de que tenha havido uma clara ingerência de interesses forâneos em seu estabelecimento, porque embora
isso seja inquestionável, também o é que, sem condicionamentos endógenos favoráveis, o fenômeno não teria
sido possível. Quando lutava para manter seu poder colonial, primeiro sobre a Indochina e mais tarde sobre a
Argélia, a França apercebeu-se de que tinha de lutar contra um povo, porque, embora nem todos fossem
combatentes, a maior parte da população lhes prestava um considerável apoio e, em particular, os escondia,
permitindo que se confundissem com ela.
Nessas circunstâncias, os militares franceses inventaram a tese de que não se tratava de uma guerra clássica,
mas sim de combatentes irregulares que não respeitavam as leis da guerra e, portanto, eles se consideravam
livres da obrigação de respeitá-las e aptos a disseminar o terror na população e detectar os combatentes,
valendo-se de qualquer meio, em particular da tortura, da conquista e da execução de reféns, das execuções
sem processo, do desaparecimento forçado de pessoas etc., o que mereceu a duríssima crítica de Jean-Paul
Sartre no famoso prólogo a Franz Fanon.
A tal efeito, esquentaram a guerra fria, alimentando uma guerra entre Oriente e Ocidente da qual seu
genocídio colonialista não era mais que uma batalha. Deixando de lado que Marx era bem ocidental – o que,
para os teóricos da guerra fria, não passava de um detalhe menor –, nessa guerra suja, como era guerra, não
cabia apelar ao direito penal, e como era suja tampouco cabia respeitar as leis de guerra, reservadas para as
limpas, razão pela qual eles a deixavam em um limbo do não direito.
A mais completa síntese desta chamada doutrina foi exposta por Carl Schmitt, o velho teórico nazista do
Estado absoluto, que a enunciou na Espanha franquista, enquanto a França julgava o general Raoul Salan, chefe
da OAS, organização terrorista de extrema-direita colonialista que havia tentado por várias vezes matar Charles
De Gaulle, por considerá-lo um traidor a sua causa.
Essa versão do colonialismo foi difundida a partir da Escola das Américas, no Panamá, e na Argentina pelos
mesmos franceses instalados em nosso ministério desde 1957. Desde aí envenenaram a mente de nossa
oficialidade militar, divulgando essas atrocidades com o nome de doutrina da segurança nacional. No Cone Sul,
as forças armadas, tomando como pretexto a violência política na Argentina e os governos antipáticos aos
partidários do Ocidente cristão e liberal no Chile e no Brasil, cercaram-se de ideólogos dos movimentos de
regressão da cidadania real, verdadeiros defensores dos privilégios lesados pelos movimentos populistas de
ampliação da cidadania real. Eles os ajudaram a encetar uma guerra e degradaram-se à condição de forças
policiais de ocupação do próprio território, aplicando todas as técnicas do colonialismo francês contra suas
próprias populações.
O resultado foram os massacres dos anos setenta do século passado, com milhares de mortos, torturados,
presos, exilados e desaparecidos, e uma notória regressão da cidadania real, destruidora dos projetos de Estados
de bem-estar.
Ilustração 31

45. Quando se cometem os massacres?


Os massacres sempre pretenderam um controle territorial para limpar e homogeneizar, higienizar,
desinfetar, que começou dentro da própria Europa e que esta expeliu para o resto do mundo através do
colonialismo e do neocolonialismo, até que refluiu e voltou brutalmente para a Europa, deixando múltiplos
rastros pós-colonialistas em seu caminho. Porém, nesse processo milenar houve sociedades que não
perpetraram massacres. Vejamos, pois, quando eles são cometidos.
Quando se praticam no próprio território requerem Estados policiais, salvo quando se trata de massacres
que, como continuação do colonialismo, são praticados contra os povos nativos: a campanha ao deserto
argentina, o roubo de crianças dos nativos australianos etc. Quando se cometem fora do próprio território do
Estado genocida, podem ser praticadas por Estados mais ou menos liberais, como sucedeu no neocolonialismo
ou no caso da Sérvia.
Girard lança a hipótese de que os massacres são levados a cabo por Estados débeis, que procuram sair de
suas crises, reafirmando seu poder mediante a construção do bode expiatório, mostrando-o como responsável
perante todos os demais.
Se deixarmos de lado a abstração Estado e nos referirmos ao grupo hegemônico massacrador, isso costuma
ser verdade. Os massacres dentro do território quase sempre foram um instrumento de consolidação do poder
de um grupo hegemônico que se sentia débil.
A Inquisição consolidava o poder papal, debilitado pelos grupos dissidentes e pelo poder terreno. Os
nazistas eram um pequeno partido que chegava ao poder com dissidências internas e que se propunha a
montar um Estado totalitário, para o qual necessitava concentrar muitíssimo poder. O Império Otomano
encontrava-se em uma crise de dissolução quando Talât e seu bando de jovens turcos começaram a massacrar os
armênios. Pol Pot tomou o poder no Camboja com um partido que contava com poucos quadros. A Sérvia
assistia à dissolução iugoslava e perdia sua hegemonia. As minorias privilegiadas que apoiaram as ditaduras de
segurança nacional sul-americanas estavam sitiadas por maiorias que haviam adquirido consciência de cidadania.
Tudo parece indicar que o bode expiatório aparece quando um grupo hegemônico débil opta por criá-lo
como forma de acumular poder. Isso não significa que seja um meio eficaz para conseguir esse objetivo, pois,
na maioria dos casos, no médio e no não muito longo prazo não deu o resultado esperado. O Império
Otomano se dissolveu e a Turquia até hoje não conseguiu entrar na União Europeia; a Alemanha nazista acabou
no desastre que todos conhecemos; o regime de Pol Pot foi derrubado e o Camboja ficou sem profissionais
nem serviços. Pode-se afirmar, no máximo, que os beneficiados foram alguns corruptos.
A regra do grupo hegemônico débil não parece ser cumprida no caso do neocolonialismo; contudo, a
diferença está no fato de que se produz um deslocamento territorial do massacre e do Estado policial que
pressupõe.
Os grupos hegemônicos europeus eram débeis na segunda metade do século XIX: as revoluções de 1848,
a Comuna de Paris em 1871, o socialismo e o anarquismo, a miséria, as massas urbanas, as ameaças dos vizinhos
e do equilíbrio de opereta do continente ilustram bem a debilidade e a violência difusa de Girard.
A identificação dos criminosos com os selvagens não foi uma invenção de Lombroso, mas sim um
estereótipo que tendia a unificar dois bodes expiatórios, quer dizer, o marginalizado interno e o colonizado
externo, o que justificava a importação da metrópole da polícia de ocupação territorial das colônias.
O curioso é que em todos os casos em que um grupo hegemônico decide massacrar, emite antes sinais
claros que, no geral, são ignorados, inclusive pelas próprias vítimas.
O sinal mais inequívoco são as técnicas de neutralização no sentido de Sykes e Matza, que vimos
oportunamente. O risco se torna iminente quando estas deixam de ser difusas para difundir-se e reiterar-se no
público e, em particular, quando se tornam discurso do poder.
O massacre não pode ser levado a cabo se não conta com o apoio ou a indiferença da população e com a
convicção das agências executoras. Esse pressuposto depende da criação prévia da realidade midiática, que
instale o pânico moral (mundo paranoide), neutralizando os valores dominantes.
Houve poloneses e lituanos linchando judeus, a população hutu matando tutsi etc. Ademais, não é
verdade que os executores integrados a um corpo hierarquizado atuem por obediência ou temor; não se tem
conhecimento de que os nazistas tenham dado morte a ninguém porque se tenha negado a matar judeus.
Não acreditamos que a observação de que a tese de Sykes e Matza de 1957 parece ter sido feita à medida
dos massacres estatais possa se estender a todos os massacres.
Recordemos os tipos de técnicas enunciados por Sykes e Matza que vimos anteriormente: (1) negação da
própria responsabilidade; (2) do dano; (3) da vítima; (4) condenação dos condenadores; e (5) apelação a
lealdades superiores. Vejamos como operam estas categorias no discurso dos massacradores.
A negação da própria responsabilidade nos massacres se caracteriza por definir situações como de extrema
necessidade e são criadas pelo grupo a que se pretende aniquilar. Por conseguinte, o bode expiatório em todo
massacre deve ser alguém que torne crível a atribuição de um enorme poder, capaz de gerar o pânico moral.
Para isso se recorre a uma causalidade mágica, baseada sempre em uma urgência de resposta.
A reclamação autoritária é sempre de urgência: dê-me uma resposta. Se você não gosta disso, o que propõe?
Examine a realidade. O que me diz disso? São expressões que escutamos todos os dias por parte dos formadores
de opinião da criminologia midiática.
Quando o conteúdo mágico é muito evidente, disfarça-se de científico. Quando ficou demodé atribuir à
relação com Satanás a capacidade dos judeus de causar as pestes, lhes foi atribuída a posse de um veneno tão
poderoso que podia matar toda a população; passou-se do diabo à química.
O nazismo rodeava-se de cientistas para legitimar suas teses disparatadas e os renascimentos cíclicos da
frenologia o confirmam. Recordemos o experimento de Stanley Milgram, na Universidade de Yale. Ele convidou
os estudantes a participar de uma suposta prova científica na qual um ator simulava sofrer descargas elétricas
progressivas que o convidado produziria com um aparato. Verificou-se que entre 60 e 80% dos convidados não
se detiveram diante da simulação de dor do ator. A autoridade da ciência gerou um verticalismo obediente em
pessoas normais, que não pararam frente ao sofrimento.
Cabe esclarecer que o pânico moral é quase sempre ilusório, mas não é alucinado, isto é, deforma a
realidade, mas raramente inventa tudo. Isso obedece ao fato de ser mais simples alterar a percepção de um
objeto real do que promover a de um inexistente. A existência de um objeto portador de algo de perigo ou
dano facilita a tarefa de manipulá-lo até fazer crer que é necessário aniquilá-lo para sobreviver.
Em algumas ocasiões, alimenta-se o pânico moral com um fato desencadeador, cuja autoria fica encoberta,
como o incêndio do Reichstag ou o míssil que matou o presidente de Ruanda. Em menor medida, as agências
policiais autonomizadas valem-se de táticas iguais: permitem que se cometam homicídios, provoquem ou
incitem saques ou desordens, liberam zonas, para precipitar o pânico moral.
Ilustração 32

Embora a fonte da pretensa emergência seja um fato deformado, seria demasiado ingênuo crer que esses
fatos desencadeiam os massacres, pois implicaria no fato de que esses dados reais não tivessem existido, os
massacres não teriam sido produzidos, o que acabaria por atribuir a responsabilidade às vítimas, que é
justamente o que os massacradores pretendem.
Na nossa opinião, na realidade, parece que tudo isso foi necessário, porque senão ia acabar sendo inventado ou
criado, mais cedo ou mais tarde, à custa de mais esforço. É óbvio que se de cada perigo, conflito ou risco real
derivasse um massacre, nenhum de nós estaria vivo. Há fatos muito graves que desencadeiam até mesmo
guerras civis, mas não massacres.
Esses fatos dão lugar à tese da provocação suficiente, mediante a qual o massacrador se apresenta como
alguém a quem as circunstâncias históricas colocaram na triste função massacradora, e que, para salvar a
comunidade, a civilização, a raça, ou a república ( ou a sua santa mãe, costumam acrescentar no bar) não há
outro remédio senão sacrificar algumas vidas como único meio de preservar o resto. Esta é a nada inovadora
fórmula de Caifaz. Na Argentina, foi chamada de teoria dos dois demônios.
A negação do dano (segunda técnica de Sykes e Matza) é uma técnica de comunicação, segundo a qual
nenhum massacrador quer assustar sua população mostrando suas atrocidades, mas sim assustá-la ao mostrar
aquelas que, segundo ele, o bode expiatório comete. Com isso busca a participação ativa da população, embora a
forma mais frequente desta sejam as delações, que abrem espaço para múltiplos crimes triangulares, originados
em qualquer ódio ou frustração. Enquanto o poder punitivo está contido, a delação ou a denúncia falsa
acarretam poucos inconvenientes; porém, perante o poder massacrador se tornam assassinas, porque qualquer
um tem nas mãos um aparato homicida.
É mais fácil negar o dano quando os fatos têm lugar fora do território; por isso, quando ocorrem no
próprio território fomenta-se uma resistência a acreditar. Os habitantes dos bairros residenciais das grandes
cidades resistem a crer nas execuções sem processo que têm lugar nas áreas marginais da mesma urbe,
mostradas como enfrentamentos.
A revolução comunicacional não eliminou a negação do dano, como provam os casos da Bósnia e de
Ruanda; pelo contrário, a Rádio das Mil Colinas de Ruanda incitava publicamente ao massacre, lançando mão de
um tom juvenil, desinibido, com música popular do Zaire, que contrastava com a tediosa rádio oficial e que faz
lembrar alguns meios especializados de nossos países.
A negação da vítima é outra técnica de neutralização indispensável na preparação do massacre. O bode
expiatório se constrói sempre sobre um preconceito prévio, que é uma discriminação que hierarquiza seres
humanos: negros, índios, judeus, albaneses, muçulmanos, croatas, armênios, tutsis, hutus, gays, comunistas,
degenerados, antissociais, imigrantes, deficientes, pobres, ricos, habitantes urbanos, tudo o que,
substancializado, permite considerá-los subhumanos ou menos humanos e atribuir-lhes os piores crimes,
construindo um coletivo eles de malvados e daninhos que devem ser eliminados para que se possa sobreviver.
Dado que a negação da vítima nasce de uma discriminação, o bode expiatório correspondente nem sempre
está bem delimitado, nem sequer quando se apela a racismos. Assim, a contaminação do sangue da eugenia
estadunidense é um bom exemplo: não só eram os negros, mas também os que tinham algum gene negro; o
mesmo aconteceu com os ciganos na Alemanha; entre hutus e tutsis não há diferenças notórias (falam a mesma
língua e até praticam a mesma religião) etc. Nos massacres políticos a identificação foi progressiva, pois os
inimigos iam se descobrindo na marcha e os amigos de hoje eram os inimigos de amanhã.
O bode expiatório deixa de ser pessoa porque passa a fazer parte de um eles, através do fenômeno da
substancialização, à qual já fizemos referência. Instala-se uma categoria de pensamento, o outro diferente como
parte de um todo maligno. Não se pode pensar no outro como indivíduo, mas como pertencente a uma
totalidade que tem um para quê maligno, com o qual passa a ser uma coisa e deixa de ser uma pessoa.
À medida que a ideologia massacradora se estende à chamada opinião pública, aquele que dissente sente
medo da solidão, de ficar só no meio da multidão, se sente como o personagem de Henrique V, de Luigi
Pirandello, perguntando-se se o louco é ele ou são todos os outros.
A coisa vai se tornando perigosa, à medida que se atribuem a eles crimes mais graves, com o que cada vez
mais lhes é negada a condição de vítimas e se atribui a crise a causas morais (como em todas as proclamações
ditatoriais latino-americanas). Em primeiro lugar, são atribuídos a eles crimes violentos; em segundo lugar,
crimes sexuais. Em terceiro lugar, crimes contra o simbólico e o sagrado (historicamente a profanação de
hóstias, em muitos casos o ultraje a símbolos nacionais).
Caberia pensar que, quanto maior a proximidade com os massacradores e a opinião pública, mais diferente
o bode expiatório deveria ser para tornar crível sua condição de todo maligno. Não é assim: as vítimas locais são
demasiado parecidas aos massacradores ou convivem com estes há muito tempo.
O massacre do vizinho requer que este não seja totalmente diferente, mas que, por efeito do narcisismo,
segundo Freud, ou do mimetismo, segundo Girard, a diferença se estabeleça potencializando características
muito secundárias. Com detalhes mínimos, ele é convertido em um estrangeiro, que não entende as hierarquias
da sociedade e, por isso, é um anormal. Se o que não se ajusta às hierarquias é o diferente, é mais fácil erigi-lo
em inimigo da sociedade, mas se ele é muito parecido é necessário elaborar a diferença, criar um estranho, o
estrangeiro, porque o estranho sempre gera suspeita e desconfiança, abre espaço para a paranoia
Seguindo com os tipos de técnicas de neutralização, que podem nos colocar na pista de quando os
massacres se produzem ou se avizinham, outro dos tipos comumente usados é a condenação dos condenadores,
pois os massacradores pretendem identificar todos os que condenam seus crimes como traidores, idiotas úteis
que não veem o perigo do inimigo, obstáculos, ou encobridores dos crimes que se imputam a eles.
Não obstante, a condenação dos condenadores não é um simples recurso defensivo dos criminosos de
massa, pois estes neutralizam seus valores até o extremo em que não podem retroceder, não só porque
perderiam sua liderança, como também porque quando se afunda na execução do massacre, o menor
reconhecimento de suas atrocidades acarretaria seu desmoronamento psíquico: não há aparato psíquico que
resista ao formidável grau de culpa que esse reconhecimento geraria. Girard afirma que odeiam sem causa, mas
não sabem disso. Agregaríamos que não podem se permitir sabê-lo, nem sequer duvidar minimamente: a dúvida
os levaria à catástrofe psíquica.
Daí que não há massacradores arrependidos, salvo entre os níveis participativos mais baixos ou entre os
corruptos que lhes somam para cometer latrocínios ou negociatas, mas os autênticos responsáveis só podem
admitir alguns excessos inevitáveis como efeitos colaterais da guerra que forjam ilusões.
O último tipo de técnica de neutralização é um componente ideológico presente em todos os massacres,
que é a invocação de lealdades superiores, onde encontramos todas as construções megalômanas que fazem que
o nós adquira dimensões míticas: a Volksgemeinschaft, a Grande Sérvia, o poder hutu, a Camboja democrática, a
Indonésia ocidental, o Ocidente cristão etc. Como regra geral, esses criminosos não fazem por menos em matéria
de projetos delirantes.

46. Com o quê? E quem?


Ao responder à quinta pergunta de ouro – Com o quê os massacres são cometidos? –, nos vemos diante do
ponto crucial para a criminologia, pois a resposta, à luz da experiência histórica, é redonda: com o poder
punitivo.
A Gestapo e as SS foram agências policiais; o massacre cambojano foi nitidamente policial; no genocídio
armênio participaram presos libertados para isso; no dos tutsis, foram libertados presos portadores de HIV, que
foram encarregados da violação das mulheres hutus. As agências executivas do sistema penal estiveram
presentes em todos os genocídios. Em determinadas ocasiões, foram as forças armadas, mas não em função
bélica, e sim assumindo funções policiais, como nas ditaduras de segurança nacional.
A fragmentação do governo dissimula essa realidade, em particular no caso das empresas colonizadoras,
porque não foram levadas a cabo pelas polícias urbanas das metrópoles, assim como as ditaduras de segurança
nacional tampouco estiveram comandadas por policiais uniformizados como tais, embora as agências policiais
em sentido estrito tenham tido uma participação importante: a investigação histórica prova a cooperação do
aparato penal com as SS, e a cooperação policial foi indispensável nas ditaduras de segurança nacional.
De qualquer maneira, o importante é que, fossse qual fosse o corpo armado (policiais, militares,
organizações políticas uniformizadas, parapoliciais, paramilitares, capatazes, bandos), sempre atuaram na função
punitiva.
Não é essa a visão tradicional a respeito do neocolonialismo, porque parece que as empresas deste nada
têm a ver com os controles policiais metropolitanos. Mas insistimos em algo que muda a perspectiva: não foi a
função policial metropolitana que se estendeu ao colonialismo, mas sim a ocupação colonialista que inspirou a
extensão da função policial às metrópoles, colocando-a sob um controle militar mais rígido, visando, com isso, dotá-la
de especificidade controladora. Por isso, como vimos, não houve guerras coloniais, mas sim ocupações policiais
de território.
Controlar o território, massacrar os rebeldes e os ocupantes indesejáveis, forçar ao trabalho, castigar os
renitentes são atividades próprias de uma função policial de controle territorial. As repressões aos índios
revoltosos e aos escravos prófugos nos quilombos são tarefas próprias da ocupação policial do território e
pouco importa como se tenham denominado seus executores, nem o uniforme que tenham usado, pois o que
interessa é a natureza da função que cumpriram.
No século passado, quando o massacre se produziu em Estados com agências policiais e militares de alto
nível técnico especializado, as cúpulas tiveram de proceder a uma depuração, separando os resistentes ou
relegando-os a atividades secundárias e privilegiando os guerreiros ideológicos, que se colocam à frente da
execução. No geral, estes são oportunistas, ávidos por escalar posições na agência, saltando degraus e
hierarquias mediante sobreatuações, como costuma suceder em toda corporação.
Isso cumpre uma dupla função: por um lado, facilita a execução e, por outro, oferece cobertura às
cúpulas, que podem alegar excessos não autorizados, quando na realidade não são mais que consequências
inevitáveis de suas orientações.
Em qualquer caso, é preciso distinguir diferentes níveis de executores. Os executores materiais, regra
geral, são muito jovens e às vezes até adolescentes, e é possível que os massacradores de escritório não tenham
exercido alguma violência.
A sensação de onipotência de dispor da vida de um semelhante, tê-lo à disposição, sentir seu medo exerce
uma atração fascinante, em particular sobre os muito jovens. Daí que o recrutamento dos executores materiais
selecione, preferencialmente, jovens e adolescentes ou adultos com transtornos de personalidade, pois é sabido
que a onipotência é sinal de imaturidade emocional e o massacrador explora esse distúrbio, assim como o
psicólogo industrial malvado aconselha o empresário sobre como explorar a patologia do empregado, pois não
é qualquer um que está disposto a massacrar.
O caso cambojano é muito sugestivo, pois chegaram a recrutar marginais, vagabundos, alcoólatras,
traficantes, bandidos e analfabetos, e lhes foi atribuída autoridade policial. Os historiadores desse massacre se
assombram com a mudança de personalidade experimentada por essas pessoas. A rigor, trata-se de um processo
inverso ao da estigmatização: se um segregado passa a ser respeitado e temido e a ter um lugar no mundo, sua
autopercepção muda totalmente. E não há dúvida de que a base dessa transformação foi a obediência cega. O
recrutamento de marginais também não foi estranho à tática do Partido Nazista.
Embora o criminólogo fique extremamente impressionado ao verificar que os massacres foram cometidos
pelas agências do poder punitivo, ou pelas que assumiram essa função, o certo é que as agências executivas
nunca massacraram sem prévia decisão ou indiferença das cúpulas governamentais que as toleram ou desejam,
quando não as estimulam.
No caso mais caótico das últimas décadas, que foi o de Ruanda, a aparente espontaneidade não era assim
tão grande, pois os chefes da comunidade estavam envolvidos e eles eram estimulados pelo grupo no poder e
instigados por uma emissora de rádio, tudo diante da indiferença das forças armadas e dos policiais.
Isso nos leva à sexta pergunta de ouro da criminalística: quem? Esta pergunta não pode ser respondida com
referência aos executores materiais e nem sequer aos massacradores de escritório, que bem podem ser
burocratas. Quando nos perguntamos quem, estamos nos referindo às cúpulas do poder massacrador e a seus
ideólogos.
O surpreendente é que em quase todos os casos nos deparamos com intelectuais que elaboraram suas
técnicas de neutralização e que, com frequência, as colocaram em prática, como no caso de Alfred Rosenberg,
que não apenas deu sua contribuição intelectual, como também foi quem comandou os massacres na Europa
ocupada.
Ziya Gökalp foi um sociólogo que mesclava Durkheim com Herder e Fichte e dessa mescla obtinha o
nacionalismo que o genocida Mehmet Talât defendia, e que foi executado pelos armênios em uma rua de
Berlim. Outro intelectual do nacionalismo foi Yusuf Akçura, que teorizava que os armênios eram um corpo
estranho em uma Turquía etnicamente definida.
Está fora de qualquer dúvida que a elite dirigente do nazismo, que planejou os mais atrozes massacres, era
integrada, em sua quase totalidade, por universitários com titulação máxima. Hendrik Frensch Verwoerd, o
criador do regime do apartheid na África do Sul e que dispôs sobre os deslocamentos maciços da população
negra, também foi um acadêmico.
O ideólogo sérvio Jovan Raskovic, que mesclava argumentos psicanalíticos, religiosos e nacionalistas para
alimentar a limpeza étnica foi um psiquiatra, membro da Academia e visiting professor em várias universidades
europeias. Suas afirmações eram do tipo A realidade humana se enriquece com a destruição de mundos interiores. É
nos cataclismos que se revela a realidade étnica do povo sérvio... Povo de destino trágico, divino, povo da vida e da
morte. A conjunção do céu e de nosso destino nacional encontra-se na origem de nossa identidade étnica. Considerava
que os croatas estavam feminilizados pela religião católica, padecendo de um complexo de castração que os
submetia a uma total incapacidade para exercer qualquer autoridade, que os muçulmanos e as populações
vizinhas eram vítimas de frustrações retais, que os levam a acumular riquezas. Para terminar, os sérvios
ortodoxos são o povo edipiano, destinado a libertar-se do pai. Semelhante mistura de Freud com Adler, Darwin
e mística, não obstante, não deixava de ser uma elaborada técnica de neutralização.
Após sua morte, foi sucedido por outro psiquiatra, Rodovan Karadzic, que está sob julgamento em Haia.
Não esgotamos, com ele, a lista de ideólogos de regimes massacradores, alguns muito mais refinados e
sofisticados do que o psiquiatra sérvio trambiqueiro. Mencionamos, reiteradas vezes, Carl Schmitt, como teórico
penetrante e grande arrivista nazista. Charles Maurras foi um hábil jornalista, que conseguia misturar tudo para
proporcionar certa ideologia aos inimigos de Dreyfus e ao vergonhoso regime de Vichy. Giovanni Gentile foi,
sem dúvida, um filósofo consistente e acompanhou o fascismo até o final.
Talvez o caso mais interessante seja o do Camboja, pois Pol Pot e seu grupo se formaram nas
universidades francesas, quase todos como pedagogos, entre os quais Duck, o encarregado dos expurgos e das
execuções, que forçava confissões sob tortura, que depois lia e marcava com o temível lápis vermelho de nossa
infância escolar.
As ideias dos maoístas franceses tiveram eco nesses intelectuais durante sua formação, mas estamos certos
de que os estudantes franceses não imaginaram o efeito dessas ideias na mente daqueles que voltaram a uma
realidade como a do Camboja, sobre cujo território Nixon e Kissinger haviam lançado mais bombas do que
sobre o Japão na Segunda Guerra, com voos rasantes que aniquilaram pequenos povoados camponeses e
deixaram um ressentimento enorme.
Cabe perguntar se os massacres cometidos em nossa região tiveram ideólogos. Sem dúvida que, se nos
referimos aos massacres do século XIX e em particular aos que nossos povos nativos sofreram, mesmo depois
da emancipação, eles os tiveram: toda criminologia positivista e racista, em alguma medida o foi. Não me refiro,
porém, a massacres tão antigos, mas sim aos mais recentes, da segunda metade do século XX e em especial os
da segurança nacional. Creio que não podemos confundir um ideólogo, que pelo menos apresente alguns
assomos originais, por disparatados que sejam, com repetidores de teses francesas ou estadunidenses. Golbery
do Couto e Silva e Augusto Pinochet escreveram livros, mas com elaboração simplista e importada, reiterando
os elementos infeccionados do autocolonialismo. Certamente houve intelectuais a serviço de nossas ditaduras
massacradoras, mas esses escribas ocasionais não merecem esse nível de consideração. A ideologia de nossos
massacres era completamente colonizada.
Ilustração 33

47. Por quê?


Reservamos para o final a pergunta acerca do porquê dos massacres. O que leva um grupo no poder a
montar um Estado policial, a eliminar as limitações de seu poder e a aniquilar uma massa humana que rotula e
substancializa como inimiga?
É certo que assinalar um inimigo é um modo de canalizar mal-estar e vingança, pois colocar todo o mal na
cabeça de um grupo é um fortíssimo recurso político, por mais amoral que seja, mas sempre muito eficaz, a
ponto de um teórico psicopata como Carl Schmitt o considerar a essência da política.
Porém, indo além dessa constatação, cabe perguntar o que é que move um grupo humano a buscar
semelhante acúmulo de poder atrás de um poder absoluto, ao qual nunca se chega e que termina em sua
própria ruína. Chama a atenção que esse recurso se reitere sem desgastar-se ao longo de milênios, apesar de se
saber que, se ninguém o detém, ele acaba sempre em um massacre, cuja proximidade muitas das próprias
vítimas nem sequer detectam.
Trata-se de perguntas que são cruciais para qualquer tentativa séria de prevenção de massacres.
Vimos que, para nos aproximar um pouco das respostas, devemos sair da criminologia e olhar para outros
campos do conhecimento. Foi assim que recordamos que, a partir da psicologia, Norman Brown corrigia as
teses dos últimos anos de Freud, atribuindo a uma patologia civilizatória o impulso à acumulação indefinida de
riquezas que milhares de vidas muito longevas não poderiam consumir, lançando a ideia de que a história
humana seria a história de uma neurose, que obedeceria à incapacidade de incorporar a morte, pois, ao separá-la
radicalmente da vida, provocaria uma ambivalência irredutível.
Definitivamente, os bens dão poder e, portanto, o que se persegue é uma busca indefinida de poder, que
compreende também o acúmulo do saber como poder, na forma de saber senhorial, do Dominus.
Resulta daí que a sociedade moderna apresenta características mórbidas a respeito dos esquemas que
regem a busca do conhecimento, que têm por meta a dominação dos sujeitos. O capitalismo selvagem,
estimulador da acumulação indefinida, seria a expressão dessa neurose civilizatória que, ao assinalar como meta
dominante a acumulação de riqueza, levaria à negação de Eros, à sublimação do corpo: a riqueza se torna um
fim em si mesmo, o corpo se neutraliza e Tanatos, a pulsão da morte, triunfa.
Vimos antes que uma acumulação infinita de poder pressupõe a ideia do tempo linear, em forma de
flecha, que supera a existência individual e não retorna, e que sobre essa mesma ideia do tempo se assenta a
vingança, a cujo respeito recordamos Nietzsche: a vingança é sempre vingança contra o tempo, porque não se
pode fazer que o que foi não tenha sido.
Consequentemente, a ideia linear do tempo é pressuposto tanto da acumulação indefinida de poder como
da vingança. Também vimos como o saber senhorial, ou seja, a ciência do dominus, leva à coisificação da pessoa e
impede qualquer diálogo, acabando em um fenômeno de retroalimentação perigoso.
Tanto a neurose civilizatória quanto a acumulação senhorial do saber, ambas apoiadas, da mesma forma que
a vingança, sobre a ideia linear do tempo, embora sejam explicadas de forma muito convincente, parecem
permanecer nos fatos do último milênio, mas os massacres não se limitam à nossa civilização dominante,
moderna e pré-moderna. Os massacres costumam ser encobertos com visões religiosas e são tão antigos como a
religião e, como ela, são pré-estatais, pois apareceram em sociedades com organizações muito diferentes das
modernas e também muito distintas entre si.
Esta constatação abre espaço para uma tese que subjaz a Hobbes e que se deforma até a aberração em
todo o imoralismo que pretende legitimar o Estado policial como a única forma possível de organização social,
que é a naturalização dos massacres.
Segundo essa tese, a persistência e a antiguidade do fenômeno responderiam a razões biológicas, ou seja,
a algo não mutável da biologia humana. A lógica naturalizante é impecável: se viemos com uma falha genética e
o gene perverso nos leva à violência, sigamos adiante, por esse caminho que vamos bem, ao estilo de Carl
Schmitt.
Essa lógica massacradora podia ser sustentada no século passado com um certo ar de indiferença e até de
soberba, porque os massacres mataram um habitante do planeta em cada 50, mas sobraram 49.
Michel Serres afirmou em seu Atlas (1994) que desde Hiroshima aparece o temor de uma nova morte: a da
espécie. Faz tempo, porém, vem-se observando que o avanço tecnológico abre hoje a possibilidade de um
massacre que afeta toda a espécie, não mais através de um conflito bélico, mas pelo próprio sistema de
produção que, na sua busca de acúmulo de bens, não se detém nem sequer diante do risco do aniquilamento
total da vida humana.
Quando nos referimos à cautela de Spee, o certo é que, com este ou com outro nome, sua recomendação
sobrevoa o pensamento contemporâneo. É claro que responde a esse princípio a ética da responsabilidade de
Hans Jonas, cujo imperativo poderá ser sintetizado na fórmula trabalhe de maneira tal que os efeitos de sua ação
não destruam a possibilidade de uma vida futura.
O naturalista francês do Saara, Theodor Monod, propôs que os cefalópodes do fundo dos mares
substituíssem, depois de alguns milhões de anos, os humanos extintos por sua violência intraespecífica. Parece
que cada vez que comemos um polvo à galega estamos massacrando aqueles que poderão nos suceder.
Imaginemos um polvo de cabeça grande e inteligente, daqui a alguns milhões de anos, dedicado à arqueologia,
descrevendo como uma espécie de gigantes tontos foi extinta por ter os braços longe da cabeça.

A amoral e irresponsável tese da naturalização dos massacres significa hoje, digamos claramente,
impulsionar massacres muito maiores do que os passados. Pouco tempo nos restaria no planeta se essa tese
estivesse correta. (No bar, me dizem algo assim como pare esse mundo louco que eu quero descer. Outro reflete:
querendo agarrar o anel, não nos damos conta de que o brinquedo não para mais.)
Mas não é necessário apelar para antidepressivos, pois não existe prova alguma dessa fatalidade biológica
da espécie. Recordemos que, se olharmos o nosso planeta em tempos geológicos, ou seja, desde seu
aparecimento, e imaginemos isso como uma semana, nós chegamos à sua superficie uns poucos segundos antes
da meia-noite do domingo.
Ao longo de nossa breve história sobre o pequeno planeta que ocupamos um número excessivamente
grande de produtos culturais foi considerado natural – como a escravidão ou as hierarquias racistas – e, em
consequência, não podemos deixar de suspeitar que a pretensa fatalidade dos massacres seja também um
produto cultural politicamente naturalizado. Assim, há umas tantas coisas que podemos fazer para que o
brinquedo não nos arraste e para continuar comendo polvo à galega com certa paz de consciência.

48. O que a criminologia pode fazer?


Os massacres são um crime (o mais grave de todos) e quando se trata de prevenir o delito, sabe-se, desde
sempre, que há dois níveis de prevenção: a prevenção primária, que vai à raiz social do conflito (por exemplo,
em delitos de rua contra a propriedade em geral, a renda per capita e a estratificação social muito marcada), e a
prevenção secundária, que é a que opera contra o próprio fato (a segurança pública, a polícia e o aparato
penal).
A respeito dos massacres, seria prevenção primária corrigir nossa neurose civilizatória e deter o efeito
acelerador do capitalismo selvagem. Obviamente estas não são tarefas que correspondem à criminologia, e sim à
toda humanidade, mas é sobre aquelas que esta deve alertar.
Quando nós, criminólogos, descemos da cátedra e tomamos o ônibus na esquina somos seres humanos
que votamos em alguém, que nos filiamos a um partido ou a um sindicato, que participamos de um protesto,
que nos associamos à entidade de proteção dos animais, que discutimos a partida de futebol de domingo etc.,
ou seja, nos integramos à dinâmica social e, embora seja por um ato de fé, supomos que esta nos levará a uma
sociedade um pouco melhor, capaz de neutralizar um dia nossa neurose civilizatória assentada sobre o tempo
linear e a vingança. Porém, enquanto isso, e como criminólogos, temos algumas tarefas para casa: a princípio,
chamar a atenção sobre a necessidade de preservar os espaços de liberdade social necessários para a dinâmica
social, isto é, para a mudança que permita essa sociedade melhor. E, ademais, trabalhar sobre a prevenção
especial dos massacres.

Ilustração 34

Para essas tarefas para o lugar contamos com umas tantas pistas que as últimas palavras da academia e
outras palavras provenientes da psicologia e da etnologia nos proporcionam, as quais mencionamos antes.
A princípio, verificamos que os sistemas penais canalizam a violência vingativa, mas também, que quando
esse mesmo poder rompe os diques de contenção, lhe opomos operadores do segmento jurídico – ou quando
estes faltam à sua tarefa– o poder punitivo eclode em massacres, cujos autores são precisamente aqueles que,
segundo o discurso, têm a função de preveni-los. ( Se não o controlas, nos destrói, observaría o sociólogo da
esquina.)
Por isso, acreditamos firmemente que o jurista – o penalista, não o criminólogos – deve deixar de lado as
racionalizações com que pretende explicar a pena, para aceitar que esta responde a um conteúdo irracional – a
vingança – e, portanto, sua primordial e quase única função seria a de contê-la, com o que chegaríamos a uma
política criminológica que responda ao convite à cautela do velho Spee.
O saber dos juristas recuperaria, desse modo, uma hierarquía e dignidade que vai perdendo, à medida que
busca desesperadamente moldar-se a uma técnica politicamente sem vitalidade.
(O sociólogo da esquina se irritaria: Esses engraçadinhos querem gozar a nossa cara? Se isso não é política o
que é? – aqui intercalaria uma palavra que omito – Acontece que não nascemos ontem.)
O direito penal concebido como contenção jurídica das pulsões vingativas do poder punitivo e, portanto,
como garantia do estado de direito, assumiria, no momento político, um papel equivalente ao do direito
humanitário no momento bélico; ambos serviriam para conter um factum: à guerra, o direito internacional
humanitário e, ao poder punitivo, o direito penal. (Obviamente, tudo na medida de seu limitado poder de
contenção.)
Devido a essa característica do poder punitivo é que não podemos acreditar que esse mesmo poder seja
capaz de prevenir os massacres, pois seria como colocar a raposa para cuidar do galinheiro. O poder punitivo,
pelo fato de internacionalizar-se, não perde seu carácter seletivo, e sim, pelo contrário, até parece que o
acentua ainda mais. Perante os tribunais internacionais comparecem apenas alguns que perderam o poder nos
Estados periféricos e as grandes potências já não necessitam deles. (O internacionalista do bar, que lê o jornal
inteiro, observa: Sim, algum negro da África vai ali. E vejam o que fizeram com esse Sadam. E o outro? Como se
chama? Esse Bin Laden. O que aconteceu? Eles se meteram na casa do homem, fizeram peneira dele e ninguém disse
nada.)
De qualquer maneira, o poder punitivo internacionalizado cumpre funções úteis, tanto práticas quanto
teóricas. No prático, serve para evitar um possível caos por descontrole do princípio universal segundo o qual
qualquer Estado pode julgar um crime contra a humanidade, mesmo se este não se tenha produzido em seu
território. O princípio é muito lindo, porém se não se coloca um pouco de ordem, corre-se o risco de que cada
um queira julgar o vizinho.
Há, porém, algo mais importante. Quando o criminoso contra a humanidade não é submetido a um
julgamento, ele fica, na prática, em uma condição de não pessoa. Se alguém o condena à morte, um tribunal
imparcial não poderia condenar o homicida ou executor. Isso se viu nos poucos casos em que aconteceu: assim,
na morte de Mussolini e seus acompanhantes, em que a justiça encerrou o caso fantaseando que foi um ato de
guerra, ou no caso do jovem armênio executor de Talât, em que o tribunal alemão inventou que era
inimputável. (O internacionalista continua refletindo: Claro, se alguém o barrar, os juízes não podem dizer nada,
ficam parados.)
O direito que não julga o criminoso contra a humanidade perde força ética e, embora nenhuma sentença
o afirme e as poucas que houve o dissimulem com invenções, deve-se reconhecer que a impunidade o deixou
na condição de não pessoa. Ao julgá-lo com as devidas garantias, o direito se reivindica e o restaura na condição
da qual o próprio genocida saiu por causa de seu crime.
Com isso, porém, os massacres não são evitados e, portanto, a criminologia deve se defrontar com o tema
esquecido, com o detalhe que deixou no tinteiro, que são os mais de 100.000.000 de mortos do século passado.
A princípio, visto que os massacres se anunciam com técnicas de neutralização de valores, a criminologia deve
abandonar sua incrível pretensão asséptica para entrar no campo da crítica das ideologias, com o objetivo de
analisar as palavras e estabelecer quando estas constituem uma técnica de preparação de massacres mediante
discursos vingativos, mesmo penais e criminológicos. Todos os dias, com as discriminações, são lançadas
sementes de massacres que, por sorte não brotam.
Não é simples para um saber que pretendeu se apresentar como neutro por crer que isso é condição do
científico, quando na realidade o é a renúncia ao conhecimento da dimensão de poder do saber.
Se bem que o primeiro sinal é dado pelas técnicas de neutralização, visto saber-se que o agente dos
massacres é o poder punitivo, é claro que, além do mais, a criminologia deve se ocupar de observar muito de
perto o exercício deste poder e, em particular, as práticas de suas agências executivas.
É duro aceitar que nunca se havia reconhecido que o agente dos massacres é o mesmo que supostamente
está encarregado da prevenção dos homicídios, apesar de que isso sempre esteve muito à vista. A participação
das agências executivas do poder punitivo nos massacres foi considerada como uma patologia institucional, mas
o certo é que, desde os séculos XI e XII até o presente, sempre ficou manifesta sua tendência a se descontrolar,
sob o pretexto de combater inimigos que geram emergências de risco iminente para a humanidade e frente às
quais nunca se fez nada de eficaz. Levamos 800 anos criando inimigos, erigindo bodes expiatórios e cometendo
massacres.
Desde a segunda metade do século passado fica claro para a criminologia que o poder punitivo, com sua
seletividade estrutural, criminaliza umas poucas pessoas e as usa para projetar-se como neutralizador da
maldade social. Apresenta-se como o poder racional que encerra a irracionalidade em prisões e manicômios.
Assim enfeitado, canaliza as pulsões de vingança, o que lhe proporciona uma formidável eficácia política, que
não se explica por circunstâncias conjunturais, pois se mantém inalterada ao longo da história do poder
punitivo estatal e mesmo pré-estatal.
Para o inimigo – que, em determinadas ocasiões, se torna bode expiatório – é construída uma agência
empresária moral que hegemoniza o discurso punitivo e o poder massacrador, até que outra agência o dispute,
começando por negar o risco e a periculosidade do inimigo construído pela anterior, mas para construir outro,
como o verdadeiro ou novo perigo gerador de outra emergência e de outro possível bode expiatório.
Se a inquisição romana contra as bruxas decaiu, e foi substituída por sua nova orientação contra os
reformados foi porque a corporação jesuíta substituiu os dominicanos.
Entre a hegemonia decadente de uma agência e a ascensão da seguinte (no momento da crítica discursiva
praticada para debilitar a anterior) abre-se uma brecha, pela qual avança secularmente o discurso crítico do
poder punitivo, ou seja, o direito penal de contenção ou redução, que vai instalando o consequente estado de
direito no plano político.
Costuma se chamar o primeiro de direito penal autoritário e o segundo de direito penal liberal¸ embora essas
denominações correspondam a séculos muito posteriores ao início desse movimento pendular.
Apesar de o poder punitivo descontrolado sempre renove a mesma estrutura discursiva, que é originária
d o Malleus maleficarum, seu conteúdo varia integralmente, de acordo com o inimigo eleito, ainda que
invariavelmente reduza todo o direito penal à coerção direta (direito administrativo), pois supsotamente
combate um processo lesivo em curso, e suas penas são, todas elas, formas de coerção direta ou exercício de
poder de polícia administrativo.
Como se pretende que um mal gravíssimo está a ponto de nos fazer desaparecer, tudo o que se faz é
policial, nada deve obstaculizar a suposta tarefa salvadora, contra o inimigo vale tudo, se se comete algum erro
ou algum excesso é desculpável porque acontece em todas as guerras; embora se faça o maior esforço, os erros
são inevitáveis e, no fragor da luta, não se pode conter completamente os rapazes.
Rompe-se a diferença entre o poder punitivo e a coerção direta administrativa, toda violência para
desbaratar o inimigo torna-se legítima através da pretensa necessidade ou da legítima defesa. Esse é o discurso
legitimante da tortura próprio da ideologia da segurança nacional no sul da América trinta anos atrás e no norte
hoje: anulada a diferença entre poder punitivo e coerção direta, torcer o braço de um sujeito ou aplicar-lhe
uma bofetada para tirar dele a chave com a qual será desarmada a bomba amarrada no berço de um bebê é a
mesma coisa que organizar e planejar a submissão à tortura de um membro de um bando ou de um grupo
político violento para desbaratá-lo.
O direito penal de contenção, por sua vez, tem também, desde suas origens, a mesma estrutura discursiva,
que é a da Cautio criminalis, de Spee, só que, diferentemente do inquisitorial, seus conteúdos não mudam, e
sim aumentam e se aperfeiçoam, com as sucessivas experiências de crítica às pulsões policiais e de capitalização
da experiência dos massacres passados.
As garantias não são inventos para encobrir criminosos, como pretende a criminología midiática, e sim
resultado das experiências massacradoras anteriores dos Estados policiais.
Quando o poder punitivo se descontrola, o fenômeno passa diretamente à teoria política, porque surge o
Estado policial com tendência ao absolutismo.
A política criminal que se espraia pelo mundo, inspirada no chamado neopunitivismo das administrações
republicanas dos Estados Unidos e promovida pela criminologia midiática, oculta o fato conhecido de que o
poder punitivo sem contenção passa de canalizador a executor da própria vingança e, portanto, executor do
aniquilamento da vítima expiatória.
Como consequência, a primeira medida para uma adequada prevenção secundária da conflitividade que
descamba na violência difusa consistiria em esgotar as possibilidades dos modelos de solução efetiva de
conflitos (como os reparadores, restitutivos, terapêuticos e conciliadores, entre outros), limitando a aplicação
do modelo punitivo aos poucos casos em que seja absolutamente necessário por não serem os outros modelos
culturalmente admissíveis.
Isso significa que a política criminal que impera no mundo necessita urgentemente girar em sentido
inverso, vindo a se converter em um fator que acabe com o alto nível de conflitividade, ou, pelo menos, que a
partir da periferia não podemos nos curvar e copiá-la na forma suicida com que a criminologia midiática o faz.
A desintegração provocada pela conflitividade pode neutralizar-se de duas formas: potencializando os
modelos eficazes de solução dos conflitos, o que reforçaria a coesão social, ou com o sacrifício da vítima
expiatória, ou seja, com o massacre. Se quisermos evitar este último, é óbvio que se impõe fortalecer a outra
alternativa, e o mais contraindicado é potencializar o poder punitivo, ou seja, acelerar o caminho para o
massacre.
Os juristas costumam desculpar-se, argumentando que nada podem fazer frente o poder punitivo, e que é
melhor buscar refúgio no pragmático.
Essa objeção subestima o poder do discurso, que é precisamente o ponto em que os juristas não devem
ceder. O poder se exerce com o discurso, o que os ditadores sempre souberam, pois de outro modo as
censuras nunca teriam existido. Embora não seja o mesmo poder de que as agências executivas do sistema
penal dispõem, o certo é que estas, sem o discurso, ficam deslegitimadas e o poder sem discurso, embora possa
causar grave dano antes de ser derrubado, definitivamente, não se sustenta muito tempo.
Não me canso de repetir as palavras de André Glucksman: o que os que sobem ao poder necessitam hoje,
além de uma boa tropa, aguardente e salsicha? Necessitam do texto. Se o penalismo em massa lhes retirasse o texto,
a incitação pública à vingança ficaria reduzida ao que é: pura publicidade midiática, empenhada em destruir, até
suas raízes, qualquer tentativa de ressurgimento do Estado social, mas com as limitações que toda publicidade
de produto comercial conhece.
Sintetizando, julgamos que a contribuição da criminologia à prevenção dos massacres deve consistir (a) em
primeiro lugar, na análise crítica dos textos suspeitos de ocultar técnicas de neutralização; (b) em segundo
lugar, deve estudar os efeitos da habilitação irresponsável do poder punitivo e advertir os juristas e os políticos
sobre seus riscos; (c) em terceiro lugar, deve investigar a realidade violenta, aplicando as técnicas próprias da
investigação social de campo, para (d) neutralizar, com dados reais, a criminologia midiática e (e) adquirir
prática comunicacional midiática para revelar publicamente sua causalidade mágica. Por último (f), deve analisar
as conflitividades violentas em todas as suas particularidades locais, a fim de apontar o caminho mais adequado
para desmotivar os comportamentos violentos e motivar os menos violentos.
Essa é, sem dúvida, uma tarefa teórica, mas também prática e militante, pois deve fazer chegar seus
conhecimentos a todos os estamentos comprometidos no funcionamento do sistema penal.
Se a criminologia não conseguir convencê-los, ao menos lhes provocará consciência pesada e com isso fará
com que eles nunca cheguem a ser perpetradores ingênuos de massacres. Se os cometerem, terão plena
consciência de sua ilegalidade e atrocidade, o que é sempre um importante fator preventivo, tendo em conta
que os cadáveres sempre voltam e que, em muitíssimas ocasiões – diria que na maioria delas – o massacre
nunca foi um bom negócio para o grupo de poder que decidiu fazê-lo e menos ainda para os instrumentos
humanos de que se valeu.
A criminologia passou por duas etapas diante dos massacres: a primeira foi de legitimação dos massacres,
com o reducionismo biológico e as dissimulações posteriores, na qual viu os cadáveres e os considerou
normais. Em seguida, passou por uma etapa negacionista por omissão, na qual ninguém se ocupou do tema;
nesta, os cadáveres foram silenciados. Essa etapa chega a seu fim, pois já é insustentável no mundo
contemporâneo; é hora de encerrá-la e fazer uma mea culpa considerável. Chega-se, então, à terceira etapa, que
é a que chamo de criminologia cautelar.
Assim designamos a criminologia que proporciona a informação necessária e alerta a respeito do
transbordamento do poder punitivo, suscetível de produzir um massacre.
Não se trata de uma criminologia abolicionista, pois, como temos dito, isso implica um projeto de nova
sociedade que nós, criminólogos, não estamos em condições de formular, ao menos enquanto tais.
Trata-se somente de uma criminologia de prudência, de cautela, como indicava o jesuíta Spee.
Definitivamente, tampouco hoje sabemos com segurança se as bruxas existem, embora possamos pelo menos
assegurar, como Spee, que não conhecemos nenhuma. Isso nos leva necessariamente à contenção e à cautela no
uso de um poder que sempre está tentado a se expandir e a acabar cometendo um massacre.
A criminologia cautelar demandará um novo marco teórico, pois, para superar o negacionismo e chegar à
cautela, é necessário que reconheça que o poder punitivo e o massacrador têm a mesma essência – a vingança
– e, mais ainda, que o massacre é o resultado do funcionamento do mesmo poder punitivo quando pretende
fazer a contenção jurídica ir pelos ares.
Sua tarefa será desenvolver os instrumentos para investigar e determinar, o mais precocemente possível,
os sinais dessa ruptura de limites de contenção e as condições ambientais dessa tenebrosa possibilidade.
Acreditamos que, desse modo, é desarticulada a oração fúnebre, reiterada com muita frequência pelos
defensores da paz burocrática, da criminologia crítica do século passado. Não é verdade que tenha morrido, está
mais viva que nunca e goza de muito boa saúde, só que, com ela, encerrou-se a criminologia negacionista, e ela
foi o passo preliminar indispensável para inaugurar a criminologia cautelar.
A crítica criminológica não caiu com o muro de Berlim, mas a queda berlinense deixou a descoberto
outros muros, as tentativas de erguerem-se novos e as dificuldades que aqueles que os saltam provocam.
Estamos marchando para além da crítica, mas por intermédio dela. Os pacifistas burocratas negacionistas
teriam mais motivos de inquietude, porque a crítica que propomos é muito mais realista e desnuda riscos
muitíssimo maiores.
A criminologia cautelar proporcionaria ao direito penal a informação necessária para sua função de
contenção do poder punitivo, e arruinaria a frequente celebração da racionalidade jurídica pelo direito penal
legitimante do poder punitivo, pois não pode deixar de pedir que baixem as taças desses brindes.
A missão do criminólogo cautelar não será nada simpática: é sempre tétrico andar pelo necrotério
levantando lençois e mostrando cadáveres produzidos pelo poder punitivo, mas muito pior é negar sua
existência e, ademais, é suicida fazê-lo, pois, a qualquer momento, pode ser ele mesmo o que fica debaixo do
lençol.
Para avançarmos minimamente em um esboço de criminologia cautelar, devemos começar analisando o
funcionamento do aparato do poder punitivo, ou seja, do sistema penal, e, a partir de suas características,
destacar os pontos de maior risco de transbordamento e as modalidades que este pode assumir.
Ilustração 35

49. O aparato canalizador da vingança


O sistema penal é o aparato que regula o poder punitivo operando o sistema de canalização da vingança.
De seu funcionamento depende que esta se contenha com cautela, condicionando a prevenção de massacres e,
eventualmente, o próprio destino da espécie.
A despeito da experiência milenar do poder punitivo e dos reiterados massacres como uma sucessão de
pulsões entre a vingança e o poder de contenção jurídica, não é fácil ter-se consciência de que a substância do
poder massacrador é a mesma que contemos juridicamente no sistema penal, porque fomos colonizados
mentalmente, sobretudo nas faculdades de direito, para conceber o sistema penal como um instrumento da
justiça, quando, na verdade, o sistema penal rompe a balança da pobre justiça e, aproveitando que ela é cega,
lhe dá espadadas onde bem entende.
Feito esse registro, vejamos agora como opera o conjunto de agências que decidem o exercício do poder
punitivo, ou seja, o sistema penal.
As agências do sistema penal são específicas ou inespecíficas, segundo se ocupem só ou predominantemente
do exercício desse poder, ou bem incidam nele, no marco de uma incumbência mais ampla. (a) As específicas
são as executoras ou policiais (incluindo todas as polícias e, evidentemente, os serviços de inteligência dos
Estados), as judiciais penais (incluindo juízes, promotores, defensores, advogados e funcionários
administrativos), as penitenciárias, as de reprodução ideológica (universidades, institutos de pesquisa
especializados), as organizações não governamentais (dedicadas ao tema), as internacionais (especializadas nos
níveis mundial ou regional) e as transnacionais (que influem específicamente sobre os governos a partir de
outros governos). (b) As inespecíficas são os poderes legislativos e executivos, os partidos políticos e,
sobretudo, os meios de comunicação social de massa (ou aparato de publicidade do sistema penal).
É óbvio que os sistemas penais dos diferentes países apresentam notórias diferenças, o que também
acontece dentro dos países com organização federal.
Aqui nos referiremos fundamentalmente à experiência regional latino-americana, que se bem não difira
quanto a suas características estruturais dos sistemas penais de outras latitudes, suas arestas costumam ser mais
violentas do que as centrais, pois correspondem a sociedades mais estratificadas. Isso faz com que o estudo de
nossos sistemas penais lance luz sobre os centrais, pois geralmente neles é mais difícil detectar as sementes dos
massacres.
Todos os sistemas penais apresentam duas características estruturais: suas agências são
compartimentalizadas e cada uma delas tem um discurso duplo.
A compartimentalização faz com que careçam de uma direção comum, cada uma depende de uma
autoridade diferente. O conjunto é algo assim como uma orquestra sem maestro (ou com muitos maestros) ou
uma fábrica em que cada seção tem sua própria gerência geral e seu próprio controle de qualidade do produto.
Ninguém é responsável pelo produto final; pelo contrário, costumam atribuir-se a responsabilidade
reciprocamente.
Tomando de Merton a ideia de fins manifestos e latentes, diríamos que os fins manifestos se articulam em
um discurso público (moralizador para a polícia, de justiça para os juízes, ressocializador para o penitenciário, de
informação para os meios de comunicação de massa, de bem comum para os poderes legislativos e executivos
etc.). Os fins latentes escondem-se sob discursos para o interior das próprias agências, que buscam maior
autonomia na caso policial, melhor infraestrutura e estabilidade burocrática no judicial, ordem interna e
segurança preventiva de fugas e motins para o penitenciário, rating e sintonia com interesses corporativos mais
amplos para os meios de comunicação de massa, eleitorais para os políticos etc.

50. As agências executivas exercem o poder punitivo


Todas as agências do sistema penal incidem sobre o poder punitivo, mas nem todas o exercem. As que
realmente exercem o poder punitivo são as policiais, no sentido amplo da expressão (serviços de inteligência,
aduaneira, bancária, de fronteiras, tributária etc.).
As outras agências influem sobre estas, limitam-nas ou estimulam, mas não exercem diretamente o poder
punitivo. Os juízes e fiscais não saem às ruas para buscar delinquentes; são os policiais que selecionam para eles
os candidatos a condenados.
Há, porém, outra razão mais forte para assinalar as agências policiais como as que exercem esse poder: no
aspecto do poder punitivo que tem verdadeiramente importância, os juízes não têm ingerência alguma.
Ao contrário do se pensa, o poder punitivo de criminalização secundária não tem muita importância,
porque recai sobre um número de pessoas muito reduzido (na média mundial pouco mais de um por mil),
composto por alguns psicopatas e muitos ladrões bobos.
Pode-se objetar que há um ou outro preso VIP, mas se analisamos cada um desses raríssimos casos
descobriremos que ele caiu sob o poder punitivo porque lutou com outro poderoso, perdeu e lhe foi retirada
a cobertura. Ademais, para preservar-lhe a vida lhe deve ser dado um tratamento carcerário especial, o que
revela que a prisão não está destinada a ele. Por último, a criminologia midiática o exibe como o oposto do self
made man, para projetar uma imagem social igualitária e com mobilidade vertical: assim como o engraxate pode
chegar a gerente do banco, o poderoso pode acabar na prisão. São casos publicitários plurifuncionais.
Ilustração 36

Pode-se também observar que há massacradores presos, mas quando perderam o poder e os que se
serviram deles lhes retiraram a cobertura porque deixaram de lhes ser úteis – ou quando se revelaram
contaminadores – e os entregaram ao poder punitivo. O políticamente importante do poder punitivo é a
vigilância que as agências executivas exercem sobre todos nós que andamos soltos. Hoje o Estado sabe mais de cada
um de nós que nós mesmos. A capacidade de armazenamento e cruzamento de dados é imensa e, portanto,
não sei quantos metros cúbicos de gás eu consumo, mas o Estado pode apertar um botão e ficar sabendo.
Não nos ocuparemos aqui do poder de vigilância em toda sua dimensão – isso Foucault ressaltou há
quarenta anos –, o certo, porém, é que esses poucos ladrões bobos e os psicopatas isolados são os que
legitimam nossa submissão a crescentes medidas de controle.
Em comparação com os controles a que estavam submetidos nossos avós, nos vão sobrando cada vez
menos espaços sem vigilância. Compartilhamos a vida com pessoas que se sentem seguras com mais controles,
sem perceber que estão a caminho da insegurança mais absoluta nas mãos de um Estado policial neofascista, ao
qual são indispensáveis os ladrões bobos e alguns psicopatas assassinos; se eles não existissem, teriam que ser
inventados e sem dúvida o fariam, pois sua máquina burocrática não se deixaria morrer de inanição.
Para o poder, muito mais importante do que criminalizar um ladrãozinho é saber aonde vamos, com quem
falamos, que livros lemos, que filmes e peças de teatro assistimos, com que bancos operamos, que amantes
temos etc., porque tudo isso é tanto material de controle como de eventual extorsão. E esse poder escapa das
mãos do próprio Estado, se privatiza. Ampliam-se as bases de dados privados nas mãos de corporações que
passam a ser verdadeiros serviços de inteligência privados.
A informação não fica nas mãos estatais, e sim nas das corporações. Cada passo que damos é registrado por
alguém. As câmaras nos filmam constantemente e se vendem os registros, as chamadas telefônicas são anotadas,
as compras também, a moeda plástica nos controla, o enorme aparelhamento de registros aumenta em
sofisticação e em descontrole de seu emprego, a privacidade desaparece.
Espiões eram os de antes; hoje essa profissão está desprestigiada porque todos nos espiam. Nós nos
deleitamos com programas de televisão que mostram até as condutas mais íntimas, mas não sabemos se nos
contemplam quando vamos ao banheiro, e se o soubéssemos não descarto a possibilidade de que alguém se
alegrasse por se considerar a salvo dos homicidas em série que a ficção televisiva mostra.
Ignoro até onde vai essa crescente invasão da privacidade. Vamos em direção a uma nova ética? Veremos
com naturalidade o que qualquer pessoa faz em seu quarto de dormir ou em seu banheiro? Não sobrará
nenhum ato privado? Nós não nos importaremos mais com isso? Excede minha imaginação essa perspectiva.
Porém, prossigamos.
Na América Latina copiamos a Constituição dos Estados Unidos, mas não o modelo de polícia comunitária
estadunidense, e sim o burbônico de ocupação territorial com ordem militarizada, ou seja, não saímos muito do
modelo colonialista.
No século XIX, quando nossos países se organizaram mais ou menos precariamente, as autoridades
políticas pactuaram com as agências policiais a concessão de áreas de arrecadação autônoma em troca do
controle das maiorias como garantia de governabilidade, sem ocupar-se dos meios de que estas se valiam,
habilitando toda forma de violência, sempre que esta recaísse sobre as classes subalternas e os dissidentes.
À medida que o século XX avançava, esse modelo de polícia assumiu formas mais complexas, como
resultado dos movimentos de ampliação de cidadania. Não obstante, manteve-se com variáveis mais ou menos
técnicas e acomodando-se às novas condições sociais.
O certo é que, até o momento, não existe na região um modelo próprio de polícia, democrático e
adequado às nossas sociedades e necessidades. Sobrevivem práticas do século XIX junto a segmentos
tecnificados e algumas iniciativas ordenadoras, mas sem deixar o esquema hierarquizado militarizado, tudo isso
misturado com os inumeráveis tráficos globalizados e manifestações de criminalidade econômica.
O abandono das polícias indica um baixo nível de inteligência política dos dirigentes, que se conformaram
em encobrir sua organização, na medida em que foram lidando com inconvenientes inevitáveis.
No geral, os políticos não têm uma ideia clara da questão policial, o que é grave, pois não há país sem
polícia, visto que ela é uma instituição imprescindível na vida social moderna e seu abandono revela uma falha
de consequências políticas gerais imprevisíveis. Lembremos que Spee responsabilizava os príncipes, porque não
controlavam o que seus funcionários faziam. Na realidade, não os controlavam porque lhes eram funcionais,
mas o modelo do século XIX faz tempo que deixou de ser funcional para nossas democracias, porque é incapaz
de fazer frente às novas formas de tráficos, e mesmo ao delito convencional, e porque possibilita golpes de
Estado.
A desconfiança da população repercute no esclarecimento dos delitos, pois dá lugar à resistência em
denunciar, em proporcionar informação e em testemunhar. É um modelo suicida, que serviu para uma
sociedade estratificada e oligárquica, mas que hoje destrói uma instituição necessária, porque vai anulando sua
função manifesta, perde eficácia preventiva, comandos intermediários lhe fogem ao controle, não é possível o
controle interno quando excede certa dimensão, o recrutamento indiscriminado não faz mais que aumentar os
males, a imagem do Estado se deteriora e espalha a desesperança.
Quando as situações de violência se tornam insustentáveis pela repercussão pública e não basta entregar
algum executor, o político renova as cúpulas, mas o modelo continua vigente e se reproduz.
A criminologia midiática oscila: em determinadas ocasiões faz eco ao discurso policial que atribui o fracasso
às garantias penais e, em outras, o atribui à corrupção ou à ineficácia policial, segundo as conjunturas políticas.
Ademais, o modelo vigente autoriza um uso de violência que, em alguns momentos, atinge o limite do
massacre: as execuções sem processo disfarçadas de enfrentamentos são uma realidade policial, as detenções sem
outro objetivo senão fazer estatística somente reafirmam a imagem negativa, o afã por mostrar eficácia leva à
tortura e à fabricação de fatos, que podem ir desde a acusação de um inocente vulnerável, até uma emboscada
onde várias pessoas são executadas. Tudo depende do grau de deterioração institucional que se tenha
alcançado.
Esse modelo não apenas leva a uma claríssima violação de direitos humanos dos elementos mais
vulneráveis da sociedade, como também atinge os direitos humanos do próprio pessoal policial, que enfrenta
péssimas condições de trabalho.
Além da precariedade salarial e do escasso treinamento, o policial é submetido a um regime disciplinar
militarizado, que, na prática, não é mais do que um verticalismo autoritário e arbitrário. Quando um fato
violento repercute sobre a imagem pública policial, ele é entregue à justiça penal. Os policiais são dotados de
um armamento precário e, sem uma etapa intermediária, passam a ter em mãos uma arma de fogo letal. Nessas
condições, são colocados em situações de risco, sendo ameaçados pela violência social e pela arbitrariedade de
seus superiores.
Deixando de lado a moralidade e desdramatizando a realidade, o certo é que a arrecadação autônoma do
modelo não é repartida com equidade, sendo distribuída sob a forma da pirâmide invertida, ou seja, a maior
parte destina-se às cúpulas. Portanto, essa arrecadação cumpre muito pouca função social interna.
Essa particularidade faz com que as cúpulas resistam a qualquer forma de sindicalização do pessoal policial,
que desnudaria sua injusta distribuição. Em consequência, o pessoal policial não tem asseguradas as mínimas
garantias trabalhistas de qualquer trabalhador, suas reivindicações coletivas devem ser formuladas
anonimamente, às vezes encapuçados, respondendo à mídia de costas (para garantir o anonimato). Isso conspira
seriamente contra o crescimento da consciência profissional. Imaginemos o que aconteceria se os docentes
fossem impedidos de se sindicalizar e só os ministros de Educação pudessem falar em seu nome. É natural que
não se outorgue ao pessoal policial o direito de greve, como em todos os serviços de primeira necessidade, mas
nem por isso se nega ao pessoal desses serviços o direito à sindicalização.
Diferentemente dos tempos das repúblicas oligárquicas, cujas classes dirigentes dispunham de recursos
militares e não corriam nenhum risco diante de seus policiais empíricos e bravos, hoje os políticos vão ficando
presos a um poder policial que ameaça sua estabilidade: as polícias autonomizadas protagonizam e precipitam
novas formas de golpes de Estado. Basta que executem várias pessoas, simulem fatos ou lancem alguns
cadáveres na rua, tudo devidamente apresentado pelos empresários da comunicação de massa e aproveitado
por algum setor político como signo de caos, para que se produza uma comoção social que derrube um
governante.
Para o cúmulo dos males, aprofundou-se a chamada privatização da segurança, com empresas privadas que
superam a capacidade da polícia estatal. Quando os controles não são rígidos, essas empresas podem acabar
envolvidas em atividades próximas ao pagamento de proteção. Não é raro que as epidemias de certos delitos ou
sua frequência em certas zonas, convenientemente publicitadas pela criminologia midiática, obedeçam à criação
de uma demanda de serviços privados de segurança.
Existe outra funcionalidade preocupante do modelo policial suicida, que é aquela que o relaciona com o
controle da exclusão social.
O excluído urbano é um produto em potencial do irresponsável festival de mercado das últimas décadas do
século passado, que se diferencia do explorado, pois este faz parte de um sistema, enquanto o excluído é não
humano, um elemento descartável, que se aglomera nas periferias urbanas e que, de uma maneira ou de outra,
tem de ser controlado.
Alguns acreditam que os excluídos serão controlados pelos cossacos do czar, que cercarão as zonas de
moradias precárias de nossa região, sem se dar conta de que já não há mais cossacos nem czares. Por outro
lado, os pueblos jóvenes peruanos, as favelas brasileiras e as villas miserias argentinas não são mais do que versões
folclóricas de um fenômeno mundial produzido pela nova concentração urbana: a ONU indicava em 2003 que
um bilhão de pessoas vivem em slums e calcula que, mantendo-se o atual ritmo de crescimento, em 2030 serão
dois bilhões, ou seja, em todo o mundo, os partidários do Estado policial têm o inimigo localizado
territorialmente para empreender suas guerras.
O modelo policial de ocupação territorial é reforçado, às vezes, pelo exercício da função de fraudes,
como, por exemplo, os milhões de dólares pagos pelo governo mexicano a Giuliani [24] para que este ensine
como desarticular seus bairros precários ancestrais, como o Tepito.[25]
Quando observamos atentamente a composição do pessoal policial, vemos que em particular o de menor
nível é selecionado entre as camadas sociais mais humildes e treinado mediante um processo de medos que é,
em parte, bastante análogo à deterioração pela criminalização. A pessoa é imersa em um meio com discursos
contraditórios e em uma função à qual se associa, de imediato, um estereótipo negativo, resultado da
deformação provocada pelo próprio modelo na população.
O estereótipo dominante do polícia não é nada positivo, em particular nas classes médias. Estas o
percebem como alguém não confiável, vivo, astuto, personificando um poder não limpo, com características
machistas, violento e, em nossa região, ainda por cima corrupto.
O modelo deteriorou tanto a instituição policial, que basta mencionar a função para que, por associação,
remeta à corrupção. Nada tem a ver que a pessoa seja correta ou não, pois é o estereótipo que a mancha. Há
um eles dos policiais como há o dos jovens e adolescentes de bairros marginais: não importa que cometam ou
não atos de corrupção, porque em todo caso pertencem a um eles substancializado, que provoca uma proibição
por associação.
Não é necessário apelar ao exemplo do policial negro nos subúrbios nova-iorquinos. Também na América
Latina muitos policiais padecem de um destino de isolamento social, quando não são rechaçados, sem que isso
tenha alguma coisa a ver com seu comportamento pessoal, mas sim com o estereótipo alimentado pelo modelo
institucional suicida, tolerado por uma política insensata.
Esse fenômeno – que, em boa medida, pode ser neutralizado no que diz respeito à oficialidade – atinge
mais intensamente o chamado pessoal de tropa, em contato com a mesma população onde são selecionados os
criminalizados e vitimizados, com quem se deve conviver como membro do mesmo segmento social e da
mesma vizinhança.
O melhor estado psicológico não é o de um funcionário com condições precárias de trabalho, atividades
de risco, submetido à arbitrariedade sancionadora e ao isolamento provocado por uma estigmatização negativa
estereotipada.
Se a isso somamos as condições de stress da atividade de trabalho, sua saúde física e mental não parece
estar a salvo de riscos, mas a instituição só costuma ocupar-se a sério de seu pessoal quando sofre um acidente
fatal de trabalho, em que imediatamente se organiza um enterro militar, mostrando o soldado caído em combate.
Quando qualquer um dos integrantes de outra agência do sistema penal é vítima fatal de um fato violento,
vinculado à sua função, passa a ser um herói e a publicidade é enorme; quando quem o sofre é um policial, a
notícia não tem maior trascendência, não vai muito além do simbólico enterro militar, funcional à imagem bélica
e à passageira manipulação midiática.
Como o estereótipo se introjeta, não é difícil que em muitos casos – e, como se trata geralmente de jovens
– essa internalização facilite algumas características de onipotência que são, assim, intensificadas.
Sinceramente, fica muito difícil determinar se esse modelo conduz a uma violação mais grave de direitos
humanos nos criminalizados do que nos policializados, não sei de que lado o modelo opera com mais
crueldade. Quanto mais deteriorada está a instituição policial em um país, como resultado da vigência desse
modelo, maior será o grau de deterioração que provocará em seu pessoal e, evidentemente, menor o grau de
eficácia específica.
O certo, porém, é que, assim como são selecionados os criminalizados e os policializados, a vitimização se
distribui de modo igualmente seletivo entre os segmentos mais carentes dos bairros mais perigosos. Como não
podem pagar segurança privada, às vezes caem nas mãos de justiceiros locais ou de traficantes que controlam o
território e em qualquer caso sofrem as consequências de um serviço de segurança deteriorado e com pessoal
no qual não confíam.
A vulnerabilidade vitimizante se reparte de modo tão desigual como a criminalizante e também recai sobre
pessoas dos mesmos setores sociais carentes.
É frequente que as pesquisas a respeito da pena de morte, dos preconceitos racistas, e do repúdio aos
imigrantes e outros revelem a presença das posições mais vingativas nos setores sociais mais desfavorecidos. É
falso que isso se deva, como alguns pretendem, ao menor nível de instrução. Isso se deve, na realidade, ao fato
de que são eles os que mais sofrem com a vitimização e com a disputa com os recém-chegados pelos espaços
públicos de saúde, educação etc.
O resultado é que criminalizados, vitimizados e policializados são selecionados nos mesmos setores sociais.
Não nos cansaremos de insistir que não costuma haver conspirações nos desajustes perigosos do sistema
penal, não se trata de máquinas armadas por nenhum gênio maligno que as maneja com computador a partir de
um centro do mal, e sim tendências que vão se dando e que ninguém detém, na medida em que resultam
funcionais aos diferentes interesses setoriais. É algo assim como: veja o que está acontecendo. Parece que nos
convém, deixe-o ir. Nesse caso é muito funcional que os pobres se matem entre eles, pois enquanto se entretêm
em matar-se não podem coligar-se, dialogar, nem tomar consciência de sua situação, neutralizando toda
possibilidade de participação política coerente.
Trata-se da forma mais sutil e, ao mesmo tempo, brutal de controle social da exclusão. Por certo, a
criminologia midiática não registra esses cadáveres, salvo quando os fatos são singularmente brutais, em que os
mostra para reafirmar a naturalização dos cadáveres restantes, atribuindo-os ao selvagismo próprio do segmento
social a que pertencem e do que é natural que os inimigos emerjam.
No final das contas, as mortes entre pessoas desse setor são a forma de controlá-lo, o que é mais fácil e
barato do que submetê-lo à vigilância e reprimi-lo continuadamente. Os esquadrões da morte, os justiceiros de
bairro, as mortes por tóxicos ou para eliminar competidores em sua distribuição ou no mercado e a execução
policial sem processo, bem como a vitimização dos habitantes do próprio bairro e a de policiais são todas
funcionais a essa tática de controle da exclusão social.
Essa sucessão de mortes configura um massacre em conta-gotas que, diferentemente das que vimos e das
quais se ocupam os internacionalistas, não producem todas as mortes de uma só vez, e sim as vão produzindo
dia a dia. Os números não são registrados na contabilidade macabra que vimos, mas nem por isso deixam de ser
massacres, embora isso não preocupe os internacionalistas.
De qualquer maneira, há casos regionais de violência extrema que escaparam das mãos daqueles que
aceitaram como funcional a produção desses cadáveres, tornando-se muito disfuncionais. Temos o exemplo
mais claro disso na violência que acomete o México nos anos 2010, onde o massacre a conta-gotas está
derivando para um massacre ordinário, com um número de cadáveres muito alto. Isso reafirma que não há
ninguém controlando tudo com um computador, e sim que aqueles que permitem os massacres a conta-gotas
não calculam que podem deixar de ser úteis e passar a ser muito difícil controlá-los.
Acreditamos que não é necessário explicar mais para dar-nos conta da urgência em definir novos modelos
policiais, se é que se deseja prevenir novos massacres e deter os massacres a conta-gotas em curso.
Reiteramos que deve ficar claro que as agências executivas é que detêm o poder punitivo real e
politicamente significativo, ao contrário do que afirma o discurso jurídico. Para este, os legisladores são aqueles
que manejam o poder punitivo (em razão do princípio de legalidade penal), os juízes aplicam a lei penal e os
policiais fazem o que os juízes mandam.
A dinâmica real do poder punitivo é exatamente inversa: os legisladores habilitam âmbitos de arbítrio
seletivo ao poder punitivo sem saber sobre quem nem quando recairá, enquanto os juízes não podem fazer
mais do que se limitar a decidir nos processos de criminalização secundária que colocam as polícias em
funcionamento.
Em palavras mais simples. Os juízes dispõem, em cada processo de criminalização secundária, do sinal de
trânsito que indica a luz verde, habilitando a continuação do poder punitivo, a luz vermelha que o interrompe
ou a luz amarela, que o detém para pensar um pouco. Quanto ao poder punitivo com importância política –
poder de controle –, os juízes não têm nenhuma ingerência.
Nesse sentido, a justiça penal – ou seja, o aparato conformado pelos juízes de todas as instâncias penais, os
fiscais e os advogados defensores, com a correspondente equipe administrativa – tem um importante papel de
controle e contenção sobre o exercício do poder punitivo negativo, ainda que não sobre o de configuração ou
positivo.
Da sua eficácia contentora dependerá a magnitude do poder punitivo negativo e sua extensão. Os
desajustes entre o modelo eficaz de poder judicial e o policial são geradores de frequentes conflitos entre as
agências, aproveitados pela criminologia midiática para indicar os juízes como responsáveis pela violência social.
Prova da importância da função de contenção judicial é que sempre que se produz um massacre em massa
o controle judicial se omite totalmente, pois este requer o completo descontrole do poder punitivo. É óbvio
que no estado nazista, turco, ruandense etc., a agência judicial não tinha nenhum poder de contenção. E mais
ainda, no Camboja, a primeira coisa que Pol Pot fez foi matar todos os juízes. A criminologia midiática,
assentada no neopunitivismo antijudicialista estadunidense, e as atitudes de alguns políticos latino-americanos,
que cedem às pressões midiáticas, não são nada auspiciosas quanto à prevenção de massacres.

Ilustração 37

51. O resultado: a prisionização reprodutora


O resultado mais espectacular do sistema penal é a prisionização, pois desde o século XIX a privação de
liberdade é, em todo o mundo, a coluna vertebral do sistema de penas.
Sua grande vantagem é permitir uma unidade de medida que facilita o cálculo talional, mas o limite do
talião impede que se retire do meio os incômodos para a polícia, que cometem infrações menores. Para esses,
foram inventadas penas desproporcionais à gravidade da infração. A mais drástica foi a deportação para a
Austrália, a Ilha do Diabo, Sibéria ou Ushuaia.
A patologia política dos EUA e sua criminologia midiática reviveram a deportação, aplicando aos incômodos
penas de 25 anos por delitos ínfimos: roubo de uma luva, posse de um gravador roubado, tentar descontar um
cheque de 100 dólares, usar uma carteira de motorista falsa etc. Trata-se da velha má vida positivista, mas, como
eles não podem ser deportados nem tampouco mortos, são encarcerados. Dado que a maioria da sua população
penal é afro-americana, acrescente-se a isso o fator racista, como substituto da tentativa de deportação dos afro-
americanos para o México, no século XIX. Se o presidente Benito Juárez os tivesse recebido, hoje não haveria
tantos afro-americanos presos nos Estados Unidos e o México teria ganhado muitos campeões desportivos e a
melhor música estadunidense.
Nos países ricos, as prisões tendem a converter-se em instituições de tortura branca (sem predomínio de
violência física) e, nos países pobres, em campos de concentração, com mortes frequentes (massacre por conta-
gotas) e erupções de mortes em massa (motins).
A intervenção penal por desvios primários gera outros, secundários e mais graves, e a reclusão de
adolescentes prepara carreiras criminosas. A prisionização desnecessária fabrica delinquentes, do mesmo modo
que a estigmatização de minorias em uma clara profecia autorrealizada (jovens com dificuldades de identidade
assumem os papéis desviados imputados midiaticamente, reafirmando os preconceitos próprios do estereótipo).
As cifras não mentem. Os Estados Unidos são o único país com renda per capita elevada que não consegue
reduzir o número de homicídios. Sua taxa é quase análoga à argentina (5,5 por 100.000) e superior a esta, a
despeito das mentiras do demagogo Giuliani, em Nova York (8,65) e San Francisco (8,10). Essas taxas são muito
maiores que a do Canadá (1,77 por 100.000), apesar de os Estados Unidos terem um índice de prisionização de
quase 800 por 100.000 e o Canadá somente 116. O Uruguai registra uma taxa de homicídios dolosos de 4,7 por
100.000 e a Bolivia de 3,7, sem nenhuma inversão astronômica.
O modelo estadunidense ganhou autonomia e é difícil detê-lo, pois gerou uma poderosa indústria da
segurança, que chegou mesmo a inventar a privatização carcerária como panaceia.
Trata-se de empresas que constróem prisões premoldadas que alugam aos governos até que, passados
alguns anos e uma vez que os presos as destruíram, as deixam na propriedade dos países que as compram.
Alguns governos concedem créditos com essa finalidade, com a condição de que as prisões se encarreguem das
respectivas empresas; para isso, enviam corretores que vão pelo mundo afora fazendo propaganda de suas
vantagens e economia, uma vez que o custo da prisão privada é muito superior ao das públicas, razão pela qual
essa privatização não se generalizou nos EUA, sendo antes usada para exportação.
Esse jogo maléfico é explicado muito claramente pela baronesa Vivien Stern, em um magnífico livro de
2006 intitulado precisamente Criando criminosos. As taxas de uso da prisão no mundo variam ao infinito: no
ápice encontram-se os Estados Unidos, com os quase 800 por 100.000 já mencionados, seguida pela Federação
Russa, com cerca de 600 por 100.000 habitantes. Cabe observar que esses campeões da prisionização registram
em Nova York a mencionada taxa de homicídios de 8,65 por 100.000 e em Moscou a de 18,38 por 100.000 (a
taxa total de Rússia é nada menos do que 22,10), o que revela que não têm muita eficácia preventiva.
Inversamente, entre os países que fazem um uso muito inferior da prisão encontram-se a Finlândia, com
71 por 100.000 (menos de um décimo da taxa estadunidense) e uma taxa de homicídio de 2,90; a Austrália, com
117 por 100.000 habitantes e taxa de homicídio de 1,87; o Canadá, como vimos, com 116 por 100.000 e taxa de
homicídio de 1,77; e a Nova Zelândia, com 118 presos por 100.000 habitantes e taxa de homicídio de 2,50.
A explicação convencional segundo a qual há mais prisionização porque há mais homicídios é falsa porque,
se fosse correta, ao longos dos anos as taxas elevadas deviam deviam ter provocado a diminuição dos
homicídios, enquanto as taxas reduzidas deveriam ter subido, e nada disso aconteceu. A conclusão é clara: o
maior uso da prisão não tem efeito preventivo dos homicídios, e cabe suspeitar até que tem um efeito contrário.
Igualmente chama a atenção a enorme diferença nas taxas de prisionização de países vizinhos: os 800 por
100.000 dos EUA e os 117 do Canadá, os 600 da Rússia e os 71 da Finlândia. Será porque os canadenses e os
finlandeses soltam todos os assassinos e violadores seriais? Não parece razoável: em qualquer país do mundo os
autores de crimes graves ficam presos por muito tempo e às vezes por toda a vida. Em todo o mundo
civilizado, menos nos Estados Unidos, a prisão prolongada substituiu a pena de morte.
No outro extremo, em nenhum país com governos racionais se penalizam infrações muito menores com a
prisão. Faz mais de um século e meio que são conhecidos os efeitos deterioradores da prisão e por isso foram
inventadas a liberdade vigiada (probation) e a condenação condicional. E, quanto a isso, ninguém inventou
recentemente a pólvora, nem a água morna.
Em síntese: em todo país razoável os malfeitores são enjaulados nas prisões e os infratores muito menores,
não. Contudo, no meio do caminho ficam os incômodos e os autores de infrações de gravidade média, a cujo
respeito não há regras fixas, ou seja, cada país decide o que fazer com eles. Essa enorme massa dá lugar à
decisão política arbitrária de cada nação. É necessário penalizar com a prisão o furto, o roubo sem violência
contra as pessoas, a ladra contumaz de lojas, os vendedores ambulantes de produtos falsificados? Podem ser
penalizados com penas não privativas de liberdade ou dar-lhes soluções coercitivas reparadoras? As respostas
são variáveis e, por isso, cada país tem o número de presos que decide politicamente.
A criminologia midiática estimula uma solução tão absurda como a do FMI em economia, pois leva a um
círculo vicioso: mais prisionização, mais homicídios e assim até o Estado neofascista ou, em nosso contexto, até
que a prisão se converta em um campo de concentração e assim até os 40.000 mortos mexicanos.
A prisão em nossos países é uma instituição muito deteriorada. O sistema penitenciário federal argentino é
o que destina mais recursos mensais por preso (699 dólares) (mas em algumas províncias problemáticas é
menos), seguido pelo da Costa Rica (393), do Brasil (296) e do Uruguai (293), enquanto a Bolívia destina 24
dólares, a República Dominicana 31, a Nicarágua 60, o Panamá 73, o Paraguai 76 e a Guatemala 99.
Em consequência, as prisões estão superlotadas: no período 2005-2007 para cada 100 vagas de capacidade
havia na Bolívia 207 presos, no Brasil 173, no Equador 161, no Panamá 161, no Uruguai 145 etc. Esses dados de
2005 podem ser vistos no texto de Elías Carranza, Prisão e justiça penal na América Latina: como implementar o
modelo de direitos e obrigações das Nações Unidas (México, 2010).
Essas condições não só aumentam o efeito reprodutor criminógeno da prisão, como também os
frequentes massacres por conta-gotas fazem com que a pena de prisão se converta em uma pena de morte
aleatória por qualquer delito e inclusive por nenhum delito. O risco de vitimização homicida costuma superar
em 20 vezes o da vida em liberdade.

Ilustração 38

Dissemos que há uma pena de morte aleatória também por nenhum delito, porque cerca de 70% dos
presos da região não estão condenados, e sim submetidos a medidas cautelares (prisão preventiva). Dessa cifra,
entre 20 e 25% serão absolvidos ou liberados sem julgamento, ou seja, encontram-se na prisão por nada e para
nada.
As taxas de prisionização latino-americanas não variam segundo as penas previstas nos códigos penais, e
sim segundo as disposições processuais que ampliam ou limitam a prisão preventiva. A pessoa que permanece
em prisão dois ou três anos tomará como uma brincadeira de mau gosto que se diga para não se preocupar,
porque se tratou somente de uma medida cautelar.
A expressão medida cautelar, tomada do processo civil, é um claro eufemismo, que sempre é uma forma de
linguagem encobridora, própria de todo poder punitivo de modelo inquisitorial; Spee o fazia notar quando os
inquisidores chamavam de confissão voluntária aquela que a mulher prestava depois de ter sido pendurada e
desconjuntada, e não voluntária só quando se aplicavam outras torturas. Os nazistas usavam tratamento especial,
distanciamento, internação especial, limpeza, solução. Nós escondemos a pena sem condenação como medida
cautelar.
Pouco importa que, no final, a pessoa acabe libertada ou absolvida, porque socialmente carregará um
estigma, dado que a criminologia midiática publica sua detenção, mas não sua libertação, quando não a critica:
alguma ela fez, se safou por acaso, teve um bom advogado, teve sorte, fizeram um acerto com os juízes etc.
Essas prisionizações inúteis não são erros judiciais e sim práticas correntes. Os erros judiciais são às vezes
dramáticos (sobretudo quando a pena de morte já foi executada, como nos Estados Unidos), mas a
prisionização sem causa, sob a forma de prisão preventiva, não é exceção alguma e sim uma prática corrente,
com a qual os juízes se protegem da criminologia midiática, dos políticos e de suas próprias cúpulas, pois se
decide conforme o grau de periculosidade política que o juiz experimenta, ou seja, de periculosidade judicial,
entendida como o grau de perigo que uma libertação, uma absolvição ou a colocação em liberdade por mandado
judicial pode repesentar para o juiz.
A prisionização sem causa em função da periculosidade judicial não foi medida, mas em algumas jurisdições
estima-se que entre 20 e 25% dos casos a prisão preventiva termina com a absolvição. São casos de verdadeiro
sequestro estatal, com alto risco de vida.
Esses sequestros estatais ou presos para nada se selecionam conforme estereótipos e a prisão opera, nesse
caso, conforme a velha periculosidade sem delito que a inquisição policial do positivismo propunha há um século.
Ao longo do tempo, podemos observar que a proposta do positivismo racista foi acolhida e a periculosidade
sem delito funciona, só que disfarçada de prisão preventiva.
Não podemos esquecer que a periculosidade é um elemento presente em todo discurso genocida: com
base nos delitos que alguns cometem, ou que lhes são atribuídos, considera-se que todos os integrantes do
grupo são perigosos e, de acordo com isso, se constrói o eles.
Dado que o positivismo racista estendeu o perigo do selvagismo dos neocolonizados ao dos excluídos na
concentração urbana, a periculosidade é o mesmo elemento discursivo genocidário que mudou de objeto,
passou da colônia à grande cidade da metrópole, e seu objeto são hoje os jovens e adolescentes dos bairros
pobres.
Para resolver o problema da prisão “por nada” nos é proposta uma condenação “por nada”, também
inspirada no modelo estadunidense: trata-se de obrigar o preso para que negocie com o funcionário e aceite
uma pena, como forma de condenar a todos sem julgamento. É a plea bargaining ou negociação, chamada entre
nós de julgamento ou procedimento abreviado.
O preso deve optar entre admitir uma pena ou ser julgado por um tribunal que o condenará a uma pena
maior. Se o preso é culpado, isso o favorece, porque os promotores, em vez de arcarem com o trabalho de ir
ao julgamento oral, oferecem penas pequenas; mas se o preso é inocente, é forçado a receber uma condenação
por algo que não fez. Ademais, muitas vezes a demora que implica esperar a audiência oral na prisão faz que o
preso opte por uma pena igual ou um pouco inferior ao tempo em que esteve preso.
Nos Estados Unidos, menos de 5% dos casos são julgados pelos jurados, enquanto em 95% se aplica esse
procedimento extorsivo abreviador. O júri que nos vendem pela TV só funciona para pessoas que podem pagar
defesas muito caras e outras um pouco excepcionais.
Em síntese, nos propõem mudar presos sem condenação por condenados sem julgamento, pela qual a
subcategoria presos por nada passa a ser a de condenados por nada. Visto que não temos 200 bilhões de dólares
anuais, o modelo importado não é viável em nossa região. Podemos importar a criminologia midiática, mas não
o modelo. O resultado será superlotar ainda mais as prisões, aproximá-las do campo de concentração, produzir
mais massacres por conta-gotas e fabricar mais criminosos e carreiras criminosas, em espiral ascendente.
Cabe assinalar que esse efeito reprodutor ou criminógeno da prisão, embora se intensifique em nossa
região, responde a características que são, de toda forma, estruturais desta e que não podem ser eliminadas do
todo, por mais que um sistema penitenciário seja bem provido, pois a prisão é sempre uma instituição total, com
as características e efeitos deterioradores assinalados pelo interacionismo simbólico. Efetivamente, o preso sofre
um processo de regressão a uma etapa superada da vida, o que faz com que a prisão pareça uma escola de
crianças bastante complicada.
O pessoal deve controlar um grande número de presos, o que só é possível mediante uma arregimentação
interna. Como resultado, tudo o que a pessoa fazia na vida conforme sua liberdade de adulto, passa a fazê-lo
sob controle e na forma em que lhe é prescrita: se levanta, come, faz a higiene, janta e dorme quando e como
lhe ordenam, isto é, produz-se uma regressão à vida infantil, submetida às limitações que seu grupo de criança
ou a escola lhe impunha.
Ao mesmo tempo, o preso fixa eximido das obrigações do adulto. Mais ainda: o infrator contra a
propriedade às vezes pedirá à sua companheira que lhe assista com comida, porque percebe sua situação como
resultante de um acidente de trabalho. Nada disso estimula o amadurecimento da pessoa. Parece algo tão
absurdo como esvaziar uma piscina para ensinar alguém a nadar.
Na vida carcerária, as condições infantilizantes fazem com que miudezas da vida livre assumam uma
trascendência incrível: a comida, insignificantes espaços de privacidade e o consumo de algum tóxico e de
álcool, o envio de mensagens, a comunicação com pessoas do exterior do presídio, os objetos de asseio. Como
Goffman assinalou, o espaço se contamina, a privacidade desaparece, o que era feito em privado se torna
público (embora, em alguma medida, isso também esteja acontecendo na sociedade extra-muros).
O preso não pode dispor de um espaço próprio, tudo é alvo de intervenção, às vezes brutal, como as
revistas que, em busca de armas ou tóxicos, lançam todos seus pertences no chão e o obriga a condutas
degradantes, como mostrar o ânus. A intervenção de segurança trascende às visitas, submetidas a revisões que
chegam, em alguns casos, a tateios vaginais ou retais.
A angústia por seus seres queridos é um considerável fator de inquietude, a suspeita de que é traído, de
que os afetos vão desaparecendo, que o vão deixando sozinho. A vida cotidiana, reduzida a âmbitos pequenos
ou limitados, condiciona uma sensação fóbica dos espaços abertos na hora de recuperar a liberdade
(agorafobia), embora isso logo se dissipe.
Se a prisão é prolongada, o preso perde a dinâmica cultural e tecnológica externa, sai para um mundo que
não é o que conhecia, é um Robinson que retorna à civilização.
Os motins eclodem às vezes por ninharias: uma televisão ou a luz que foi apagada, a proibição da visita
naquele dia determinado ou a redução do horário ou, simplesmente, por nada, salvo pelo stress e pela tensão
crescente. O assédio, que algumas crianças sofrem nas escolas e que nos Estados Unidos provoca homicídios
múltiplos, acontece entre os presos. Com frequência os alcaguetes, ou os que são estigmatizados como tais, são
eliminados nos motins ou fora deles.
Uma administração carcerária corrupta faz do preso um pequeno negócio, mediante o tráfico de elementos
proibidos, em particular tóxicos, prática que se conhece desde o século XIX. Com maiores níveis de corrupção,
pode-se chegar ao perigo extremo da introdução de armas de fogo. As armas brancas não são introduzidas, uma
vez que os próprios presos as fabricam: são as famosas puas, afiadas durante horas contra os muros.
Parte do negócio do preso são os privilégios vendidos a presos que podem pagá-los, que vão desde
alojamentos especiais até provisão de presos jovens para uso sexual. Esta é a pequena indústria do preso, porque
a grande indústria está representada pelos fabricantes de prisões e dispositivos de segurança.
Todos esses elementos demonstram que a tão famosa ideologia re é muito difícil de ser concebida nos
termos tradicionais e que a prisão opera antes em sentido contrário, mas a razão principal pela qual lhe
reconhecemos o papel de máquina fixadora de papéis desviados é uma característica estrutural.
A sociedade carcerária – como a chama Elías Neuman – tem sua própria hierarquia interna e os presos
associam ao recém-chegado um estereótipo conforme o delito cometido e em razão deste e de características
pessoais o vincula a um estamento dessa hierarquia.
O preso deve comportar-se respondendo ao papel que o estereótipo demanda, pois do contrário provoca
a s disrupções (reações agressivas) que podem lhe custar a vida. Assumindo esse papel, ele se adapta à vida
carcerária. Os estereótipos se internalizam e se reafirmam com as novas e constantes demandas de papel, com
as quais cabe imaginar o poderoso efeito de fixação do papel desviado assumido ao longo de uma prisionização
de vários ou muitos anos.
Por outro lado, o papel do preso na prisão às vezes é destacado conforme os valores carcerários,[26] mas
desaparece quando ele acaba de cumprir a pena. O personagem temido, da pesada, ou o louco Fulano, na rua é
uma pessoa a mais entre milhares nas quais ninguém repara. A prisionização pode acabar com todo projeto de
vida extra-muros como limite do deterioração, e condicionar, inclusive, fatos violentos como forma de suicidio
inconsciente ou de regresso ao mundo em que tinha um papel destacado.
Realmente, é um milagre que quando o preso sai da prisão não reincida, porque está submetido a um
mecanismo de impressão humana capaz de marcar-lhe o papel de forma indelével.
Várias razões fazem com que este aparato nem sempre tenha êxito e que a autopercepção da pessoa
mude. A princípio, o homicida não tende a reincidir entre conhecidos, porque sua conduta não faz parte de
uma profissão; no geral, ele é um bom preso. Em outros casos, a aquisição de um nível de instrução e de alguma
habilidade profissional ou grau determinam uma mudança de autopercepção.
Também se opera uma espécie de jubilação por queda etária do estereótipo, pois particularmente em delitos
contra a propriedade, que são a maioria da população carcerária, a vida profissional ativa conforme a estereótipo
é análoga à do jogador de futebol ou à do bailarino, sem contar que algumas atividades são diretamente
incompatíveis com uma idade avançada: um arrombador deve ser muito jovem, um assaltante armado, menos,
mas nunca um adulto mais velho.
É natural que o aparato fixador de papéis seja mais bem sucedido em sua tarefa quando atua sobre os
jovens e adolescentes, visto que, embora todos nós sejamos um pouco como os outros nos veem, como
observa Mead, o certo é que alguns estão nos observando há bastante tempo, o que não ocorre com os
adolescentes.
Quando se consegue criar um estereótipo de eles como maus, aquele que é assim identificado é obrigado a
assumir uma identidade que lhe confira prestígio – o respeito pelo medo – a assume e atua enquanto tal,
segundo o grau de instabilidade pessoal: quanto mais necessidade tenha de definir sua identidade, maior será
sua disposição de apegar-se ao papel desviado, mesmo que isso lhe custe a própria vida, pois carece de outra
identidade; ou ele é o mau respeitado, ou não é ninguém.
Trata-se de profecias autorrealizadas.
A expressão máxima dessa reprodução é dada em nossa região pelos adolescentes latinos expulsos dos
Estados Unidos, que vêm a constituir o núcleo originário das maras centro-americanas. A prisionização em
massa dos mareros na América Central, agrupando-os em diferentes prisões, segundo a mara a que pertencem,
reforça neles o pertencimento e a identidade desviada e os estimula a mais atos violentos e suicidas.
A criminologia midiática pretende que isso seja resultante de uma escolha individual, quando o certo é
que uma personalidade instável o vivencia como a única possibilidade de sobrevivência identitária que a
sociedade lhe concede. Isso não significa, contudo, que sejam inofensivos, muito pelo contrário; não é preciso
cair em nenhuma idealização da criminalidade, nem acreditar que eles se limitem, em todos os casos, a fumar
maconha, nem que são críticos sociais, para reconhecer que a redução do espaço social e a ação do poder
punitivo preparam verdadeiras bombas de tempo humanas.
Se a grande maioria dos jovens e adolescentes dos setores marginais e excluídos em nossa região
vislumbra outros caminhos é só porque a cultura de nossos povos ainda mantém certas barreiras e, ademais,
porque, por sorte, não há nenhum sistema perfeito de matriz humana, posto que nada se faz para prevenir os
fatores de risco que determinam a instabilidade de sua personalidade.
O forte movimento a favor da prisionização em massa de adolescentes que se espalha pela região expressa
como objetivo manifesto a prevenção da violência, mas sua função latente é a de fabricar criminosos desde
etapas mais prematuras.
Acabo de ver a propaganda eleitoral de um candidato a deputado no Brasil com uma faixa que dizia: Vote
Fulano, para baixar a menoridade penal. Devo confessar, com a maior sinceridade, que, às vezes, fico tentado a
achar que bem que a criminologia psiquiátrica ou a frenologia de Gall tinham razão, só que aplicada a outros
papéis sociais, como ao desses políticos televisivos, nos quais seria diagnosticado, mediante suaves marteladas,
que eles possuem, no lugar do pequeno oco da fossita occiptal lombrosiana, uma cavidade craniana
completamente oca ou loucura moral.
A reincidência não é nenhuma prova de inclinação ao delito, mas sim de uma personalidade instável, que
responde positivamente ao condicionamento reprodutor do próprio sistema. Não é de estranhar que as
ideologias re tenham fracassado, o que foi aproveitado nos Estados Unidos para substituir a prisão de tratamento
pela de segurança.
A isso se soma o fato de o pessoal penitenciário ficar anômico, uma vez que ele é instruído de acordo com
um discurso re, que, na prática, é uma missão impossível, sem contar que as prisões deterioradas os submetem a
constantes riscos e condições de trabalho extremamente negativos e estressantes.
Suas cúpulas sentem-se, a todo o momento, ameaçadas pelos motins e pelas fugas, pois todos os fatos
dessa natureza contribuem para sua remoção. Isso as leva a fazer da segurança o valor máximo, e às vezes
único, entendida não no sentido de segurança para a vida dos presos e do pessoal penitenciário, mas sim no de
segurança de que não haverá motins nem fugas.
É justo assinalar, porém, que tudo isso depende do grau de deterioração do sistema prisional: há aqueles
menos afetados pelo inexorável caminho até o campo de concentração, determinado pela superpopulação e
pela carência de recursos.
Embora já tenhamos nos referido às agências políticas, devemos insistir em que, se bem que a resposta
varie, sua reação é, em geral, patética.
É possível constatar, com profundo alarme, que se está produzindo uma notória deterioração dos níveis da
política em todo o mundo, com uma agenda marcada pela televisão, que se traduz na absoluta incapacidade
dela para enfrentar a criminologia midiática e, ao mesmo tempo, para prevenir a violência real desde suas raízes
e mesmo suas manifestações.
Em geral, os políticos não se sentem capazes de enfrentar a criminologia midiática e se limitam a ceder
diante das reclamações que esta faz, na expectativa de fazê-la projetar a imagem de que eles estão no controle,
sem dar-se conta de que ela jamais o fará. Essa imagem é reservada para quando tenha um governo de acordo com
os desejos do establishment dos empresários midiáticos, em sintonia com os beneficiários do desbaratamento
criminal do Estado de bem-estar e da consequente contenção violenta dos excluídos.
A resposta política limita-se a conceder maior autonomia às polícias, com o que se coloca em posição de
altíssima debilidade frente a estas e às empresas midiáticas. Também sanciona leis penais, como resposta,
mediante papéis que proliferam em todo o mundo, mas que tampouco exercem algum efeito sobre a
criminalidade violenta.
Como já dissemos e não nos cansamos de reiterar, os criminosos violentos, em nenhum país do mundo
nem em nenhuma época, foram tratados de outro modo senão com as penas mais severas, salvo quando
operaram com cobertura oficial.
Isso não muda com as leis inovadoras que os políticos, estimulados pela criminologia midiática, inventam.
Uns anos a mais de prisão para quem cometeu assassinatos pode afetar o princípio de proporcionalidade e
produzir um deterioração irreversível na pessoa, mas não impede, em absoluto, que outro faça o mesmo.
O problema criado por essas leis não são os criminosos violentos, mas sim o fato de encherem as prisões
com aqueles que não cometeram nenhum assassinato e inclusive com aqueles que não fizeram nada, com uma
altíssima probabilidade de convertê-los em criminosos violentos por efeito reprodutor.
Em outra ordem de coisas, o emaranhado legislativo que as constantes reformas penais criam afeta a
segurança de todos, uma vez que a lei penal perde convicção, ninguém sabe o que está proibido penalmente,
toda ilicitude tende a tornar-se ilicitude penal, a velha aspiração às leis claras fica esquecida. O recurso
permanente à criminalização banaliza-a, ao invés de hierarquizá-la.

Ilustração 39

52. A criminologia cautelar preventiva de massacres


Depois de mostrar a construção de realidade da criminologia midiática e de descrever as agências do
sistema penal, vemos que em todo sistema penal estão alojados os elementos de um possível massacre e com
frequência um massacre em conta-gotas já em curso.
Em todo sistema penal a vingança está presente como material de um massacre potencial, só que este
contém também elementos que impedem seu desenvolvimento.
Não obstante, como a natureza de qualquer sistema penal é instável, um desequilíbrio de origem interna
(entre suas agências) ou externo (do ambiente) pode descontrolar suas agências executivas ou permitir que
outras mais agressivas assumam sua função, provocando o efeito letal. Por isso, o sistema penal é sempre um
aparato perigoso, cujo funcionamento deve ser atentamente vigiado.
Deixemos a outros mais bem dotados intelectualmente a nobre tarefa de pensar em sociedades futuras,
livres da vingança, mas até que semelhante mutação tenha lugar – se é que alguma vez o terá – muitos aparatos
poderiam descontrolar-se e produzir centenas de milhares ou milhões de novos cadáveres silenciosos e até
mesmo colocar em risco a vida humana no planeta.
Por isso, aqui e agora, é indispensável que o criminólogo indague como controlar o aparato, no curto e no
médio prazo, para procurar evitar que se desequilibre fortemente.
O caminho tático foi indicado em 1631 por Friedrich Spee. O jesuíta poeta não discutiu se as bruxas eram
reais, tudo é possível – disse –, mas a única coisa certa era que todas essas mulheres inocentes estavam mortas.
Seu método consistiu em evitar as abstrações com as quais o poder punitivo legitima seus excessos e ir ao mais
concreto. Sua única verdade era a realidade, e a realidade eram as cinzas dos cadáveres de mulheres inocentes.
Em nosso tempo, a máxima abstração é a ideia midiática de segurança.
Em todo governo existe um área de segurança, porque de algum modo é preciso denominar as polícias e
seus assemelhados. A partir dessa denominação a criminologia midiática constrói uma realidade de segurança
bastante difusa, mas dela imediatamente deduz, e os juristas deglutem, um direito à segurança.
Nessa invenção encontra-se o núcleo do discurso autoritário, colocado como a falsa opção entre liberdade e
segurança, em um plano de abstração máxima.
A armadilha consiste em pretender a existência de um direito à segurança volátil. Trata-se de um recurso
retórico de clonagem de direitos e realidades. Nenhuma vítima tem um suposto e abstrato direito à segurança
afetado, mas um direito à vida real e concreto, à integridade física, à liberdade sexual, à propriedade etc. Se
alguém duvida disso, bastaria perguntar a qualquer vítima de violência o que é que lhe afetou.
Seguindo a tática de Spee, o que de mais concreto achamos são os cadáveres. Ao incorporar os massacres
à criminologia abrimos nossos olhos a uma realidade cadavérica tão concreta que não deixa lugar para nenhuma
abstração manipulável.
Cautela provém da raiz indoeuropeia keud, que indica prestar atenção, perceber, que em sânscrito origina
kaví, que significa inteligente, e em latim caveo, estar em guarda. É a palavra exata, escolhida não por acaso por
Spee.
Diante das montanhas de cadáveres, a civilização pareceu inclinar-se, depois da II Guerra Mundial, pela via
da cautela. Isso, porém, não evitou novos massacres e parece que hoje se perdeu toda prudência, em especial
nos EUA. Talvez alguém possa pensar que fui tomado por um surto anti-estadunidense. Nada mais equivocado,
pois quase tudo o que observamos não tem outras fontes senão os próprios colegas criminólogos
estadunidenses, aqueles que nos informam e nos advertem sobre o risco, manejando dados seguros acerca de
seu sistema penal, pois têm acesso à informação e têm espaço para investigar a realidade.
Nós não dispomos desse espaço: tememos a criminologia midiática, não a denunciamos com todas as
palavras que merece e, se o fazemos, não dispomos dos elementos que nos permitam evidenciar sua falsidade,
porque na nossa região todos os dados que remetem à segurança, se é que alguém os recolhe, são secretos por
razões de segurança.
Na América Latina, estamos intimidados pelo descrédito que a publicidade negativa nos pode acarretar,
pelas difamações de que podemos ser vítimas, pelas represálias que em alguns países as agências executivas
podem tomar se nos envolvermos com a realidade.
Nossa academia não se anima a dizer o mesmo que muitos criminólogos estadunidenses dizem de seu
próprio sistema (e quando eles não o dizem, os ingleses o fazem e ninguém os impede de circular pelos
Estados Unidos e ensinar em suas universidades).
A eles são garantidos fundos para que pesquisem; a nós não nos dão nada, e menos ainda se nos sabem
críticos do poder punitivo, pois os nossos ministros de plantão não apreciam que nos metamos a ver o que
fazem as polícias autonomizadas com as quais compartilham suas cotas de arrecadação autônoma. Nossos
governos nunca sentariam em nossas câmaras de lordes com uma criminóloga como a baronesa Vivien Stern,
para denunciar que seu sistema penal está fabricando criminosos.
Há muito a criticar nos Estados Unidos, na política estadunidense e na cultura anglo-saxônica, mas também
temos muito a aprender com eles e a imitá-los. Não podemos ignorar que, no jogo de luzes e sombras da
história, muitas vidas se perderam diante da brutalidade nazista massacradora que ameaçou dominar o planeta
na primeira metade do século passado. Podemos lhes reprovar sua atual irresponsabilidade planetária, por
globalizar a criminologia midiática, mas os parâmetros a partir dos quais formulamos a reprovação são os que,
em boa medida, eles mesmos defenderam e que até hoje defendem os mais inteligentes dos nossos colegas
acadêmicos anglo-saxões. Eles, com agudo senso crítico e sem temores, mostram-nos os efeitos que o modelo,
cujo discurso se globaliza, tem em seu país.
Compete a nós mostrar os efeitos em nossa região, os quais, por certo, não são os mesmos, pois na nossa
realidade corre o risco de tornar-se muito mais letal.

53. As três frentes da criminologia cautelar


O descontrole punitivo que leva ao massacre responde, desde tempos imemoriais, à mesma dinâmica. Tem
razão Girard ao reinterpretar a paixão de Cristo e revelar que essa dinâmica se manifesta no próprio Evangelho.
Quando se evidencia esta constante e, ademais, mostra-se que a vingança é o motor do próprio poder
punitivo, costuma-se cair em depressão e alguns propõem sentar-se na beira do caminho e cortar as veias com
uma bolacha.[27] Porém, não se deve confundir a queda de muitos mitos e ilusões com a falta de soluções.
María Lucía Karam, a excelente criminóloga brasileira, diz, com razão, que o melhor exemplo do delito de
propaganda desleal é o próprio sistema penal, que nos vende um produto falso.
O que sucede é que sempre nos deprime saber que fomos vítimas de uma fraude, mas a depressão
própria da desilusão vitimológica pós-defraudatória nada tem a ver com a pretensa falta de soluções. Estas
existem, e a tarefa de uma criminologia cautelar é mostrá-las e recorrer a elas. Por certo que esta tarefa não tem
limite temporal; é algo permanente, porque a perigosa instabilidade do sistema penal também o é.

Ilustração 40

U m a criminologia cautelar deve ser uma criminologia militante, porque enfrenta verdadeiros guerreiros
midiáticos que estão sempre fabricando novos eles para impulsionar a vingança na direção do massacre e os
fabricam em série: não faz muito tempo, o governo francês deixou de lado os africanos e argelinos de seus
subúrbios e voltou-se contra os ciganos.
Por isso, a criminologia deve ser militante se quer ser cautelar, ou seja, deve estar sempre atenta e
vigilante para evitar a armadilha que nos é estendida pelo discurso que diz: bem, esses “eles” não, mas esses
“eles”sim, são os maus em série. Deixemos por um instante os adolescentes do bairro precário, mas vamos contra todos
os motoristas de ônibus, os taxistas, o bêbados, os fumantes, e assim ao infinito.
Não é simples fazer uma criminologia militante, pois deve-se deixar o sossegado espaço acadêmico para
estar na rua, nos meios de comunicação, na formação de profissionais, de operadores do sistema penal, do
pessoal policial e penitenciário, escrever para o grande público, participar do sistema, compreender as vivências
de seus operadores, acalmar suas angústias, falar com as vítimas, com os criminalizados, com seus parentes,
estimular aqueles que têm a responsabilidade de equilibrar ou prevenir o desequilíbrio, investigar os discursos
midiáticos, não desanimar diante dos fracassos e não se amedrontar, não se deixar levar pela ira, comprender as
motivações para prevenir erros de conduta, interferir na política, acostumar-se a ser mal visto, assumir o papel
de portador de más notícias (sermos advertidos de que somos vítimas de uma fraude é sempre uma má notícia)
e, sobretudo, reproduzir a militância, porque não é uma tarefa individual, e sim requer muitas vontades, de
muitas pessoas com consciência do problema e com compromisso com a tarefa de impor cautela.
Essa criminologia cautelar e militante tem três frentes a que atender:

a. deve estar atenta para analisar as condições sociais favoráveis à criação midiática do mundo paranoico e
desbaratar suas tentativas de instalação desde as primeiras manifestações orgânicas;
b. deve levar muito a sério os danos reais do delito, isto é, a vitimização e suas consequências, promovendo, de
forma permanente, a pesquisa de campo e do efeito que o próprio poder punitivo e a criminologia
midiática têm a seu respeito; e
c. por último, deve investigar e propor publicamente os meios mais eficazes para a redução dos anteriores.

Em síntese, tratar-se-ia dos três capítulos principais da criminologia cautelar, mas não se deve esquecer que
isso proporcionaría apenas os elementos para colocá-la em prática.
Para isso, deve estabelecer táticas, em especial no espaço midiático, mas também na comunicação pessoal
direta: assembleias, conferências, ONGs, âmbitos de reflexão, redes alternativas, entrevistas etc.
Toda investigação deve tender a ser investigação-ação e não cair no puro nível do conhecimento
resignado. Nenhuma ação é insignificante quando se trata de salvar vidas humanas, e a criminologia cautelar
deve responder a esse imperativo ético.
As etapas de instalação do racismo que Michel Wieviorka assinala são as de qualquer mundo paranoide:
um momento difuso, outro orgânico e outro de Estado.
A etapa difusa não deve ser descuidada; são gritos isolados aos quais se deve prestar atenção, mas a luz
vermelha deve acender-se quando a etapa orgânica começa a se instalar. É nela que aparecem as organizações,
as instituições, as publicações.
Nessa segunda etapa, cabe um papel importante ao mundo acadêmico latino-americano se, em lugar de se
fechar em seus cubículos universitários, olhando para o próprio umbigo, opta por uma atitude militante, de
comunicação com as pessoas; se é capaz de ir a os meios de comunicação e aos bairros, de comunicar o que
sabe e de organizar a neutralização da pulsão vingativa.
Os acadêmicos devem aprender no diálogo com as outras pessoas, com as vítimas, com os que têm medo
das ameaças reais, com os operadores do sistema penal e com os próprios infratores, com a intenção de chegar
a um momento em que a criminologia seja um conhecimento de todos e, ao mesmo tempo, um
empreendimento comum.
A atitude militante não pode ser outra senão o diálogo; as pessoas não são objeto de conhecimento e sim
provedoras de conhecimento. Por certo que, para isso, é preciso superar obstáculos, entre outros o da
procedência de classe do próprio criminólogo, que deve aprender a comunicar-se com todos os setores sociais
e detectar seus próprios preconceitos.
O diálogo rompe a compartimentalização do sistema penal, que retroalimenta preconceitos, na medida em
que cada um vê um pouco do todo. O preconceito mais comum é o dos acadêmicos a respeito do pessoal
policial e penitenciário que, no entanto, sofre gravíssimas violações a seus direitos e em muitos casos está ávido
de ser escutado.
Nessa etapa é fundamental o diálogo com os políticos, devendo-se evitar o preconceito de que todos eles
são malignos e que estimulam o caminho dos massacres. Isso conduz apenas à antipolítica, que não é mais do
que a antessala das ditaduras.
Os políticos estão submetidos a uma permanente e impiedosa concorrência, marcada pela contenda
eleitoral sempre próxima. É fácil, da academia, reclamar que um político enfrente sem vacilar a criminologia
midiática, mas pessoalmente eu não assumiria a responsabilidade de aconselhá-lo sem advertir que, sem prévia
preparação, ele pode pôr tudo a perder, não somente diante de seus opositores, como também no interior do
seu próprio partido (digo isso por experiência própria: por isso me tiraram de uma lista de candidatos).
Todavia, temos, ao mesmo tempo, o dever de adverti-lo de que sua atitude suicida de ampliação constante
da autonomia das agências executoras e suas concessões à criminologia midiática os levam à sua perdição e ao
naufrágio da própria democracia.
Não resta dúvida de que nós, acadêmicos, somos desconcertantes: por um lado, advertimos os políticos de
que, se agirem corretamente, vão fracassar, e, por outro, de que, se continuarem agindo incorretamente
também afundam, e nós todos afundamos juntos. Quando a criminologia midiática os ataca ferozmente e a
agenda eleitoral os pressiona, eles nos pedem a fórmula mágica para desbaratá-la, e lhes respondemos que isso
não existe. É claro que os políticos não podem deixar de nos olhar com desprezo, ou, no melhor dos casos,
com comiseração, e seguir seu caminho suicida.
Não é verdade que todos os políticos estejam apenas preocupados com a próxima eleição ou montados,
por puro oportunismo, na criminologia midiática. Por mais que a mesquinhez esteja presente em boa parte da
política, não se pode negar sua aspiração a um mundo melhor e sem massacres.
O que acontece é que, assim como há empresas de infraestrutura viária, energética etc. que requerem um
trabalho que excede um ou dois mandatos, devemos estar conscientes de que a tarefa de converter a
criminologia cautelar em criminologia de Estado também é uma empresa de infraestrutura social e, se em outras
matérias foram implementadas obras dessa natureza, não há razão para duvidar da possibilidade desta. Por isso,
a criminologia cautelar deve se cuidar e não aconselhar suicídios políticos, e sim ter como objetivo impulsionar e
demandar fortemente dos políticos sua instalação como criminologia de Estado.
Assim como a iluminação a gás continuou existindo enquanto a rede elétrica ia se expandindo, e a tração
animal sobreviveu ao avanço da tração a motor, da mesma forma os políticos podem continuar fazendo algumas
concessões discursivas prudentes à criminologia midiática, enquanto se vai montando a cautelar e colocando em
marcha a confrontação, à medida que o Estado vai dispondo dos elementos capazes de levá-la adiante.
A criminologia cautelar só pode chegar a ser erigida como criminologia de Estado através de uma adequada
institucionalização de um órgão de monitoramento técnico da violência social.
Assim como há bancos centrais que são, em alguma medida, autárquicos, o que não significa que não
respondam à política econômica geral, deve haver, um dia, um órgão técnico que cuide do controle da
violência, com capacidade de monitorar o conjunto de agências do sistema penal e de investigar e orientar esse
conjunto, e também enfrente a criminologia midiática com dados certos e com táticas tecnicamente planificadas,
conforme o saber comunicacional.
É possível observar que não há nenhum responsável oficial pelo controle da violência e das causas de
morte violenta. Ninguém está em condições de confrontar seriamente os dados da criminologia midiática, que
constrói a realidade segundo sua conveniência conjuntural e mutável. O Estado e a sociedade estão
completamente indefesos diante da criminologia midiática.
Erupções de modalidades delitivas ganham publicidade e se mostram como ameaças sem que saibamos se,
na realidade, são produzidas espontaneamente ou são produto de uma espécie de produção mafiosa de fatos
violentos, em beneficio de qualquer agência ou mesmo dos interessados na venda de segurança privada. Em
pouco tempo desaparecem sem deixar pista e caem no esquecimento.
Ninguém mede o efeito reprodutor da criminologia midiática e não sabemos até que ponto ela reproduz o
delito ou incrementa a conflitividade social.
Dispomos dos conhecimentos técnicos para levar isso adiante e, ademais, não requer muitos gastos. Na
maioria dos países existem excelentes estudos universitários de sociologia, de ciência política, de psicologia, de
comunicação social etc., com pessoal técnico ao qual bastaria convocar e treinar mínimamente para poder fazer
diagnósticos, prognósticos, detectar as situações e fontes de risco e levar a cabo um trabalho coordenado de
prevenção a sério.
Em nenhum país pobre investe-se dinheiro em investigação criminológica de campo, e por isso não se
dispõe de dados sérios sobre a violência criminal. Além do mais, em nossos países as agências executivas
negaceiam a informação porque temem revelar dados de sua arrecadação autônoma.
Nessas condições, é impossível confrontar a realidade com os dados distorcidos da criminologia midiática:
estamos indefesos.
Essa carência de informação científica também é funcional às cúpulas das agências, porque lhes permite
manipular a inversão do orçamento. Confirma-se a tese foucaultiana de que o poder punitivo não interessa
tanto por seu objetivo manifesto (prevenção do delito), pois do contrário o cuidado no primeiro passo da
prevenção, que é o quadro da situação, seria levado ao extremo. É óbvio que ninguém pode prevenir o que
desconhece e, se não quer conhecê-lo, é porque não tem a prevenção como meta.

54. A prevenção do mundo paranoide


Todo criminólogo deve estar atento às condições que favorecem a instalação do mundo paranoide por
parte da criminologia midiática. Esta requer um campo de insegurança existencial que, tanto nos Estados Unidos
como na Europa, provém hoje do desbaratamento dos Estados de bem-estar (desemprego, insegurança no
trabalho, assistência social, deterioração dos serviços estatais, carestia, dificuldades de moradia, saúde,
educação).
A violência difusa se expressa nas atitudes xenófobas, classistas, racistas, sexistas e em todas as formas
possíveis de discriminação contra imigrantes (Europa), grupos étnicos instalados desde muito tempo (afro-
americanos) ou em crescimento (latinos nos Estados Unidos), setores excluídos dentro da própria sociedade
(América Latina) ou etnias minoritárias (África).
A excessiva angústia social impulsiona a busca anárquica dos responsáveis pela insegurança, que se traduz
em violência contra os mais diferentes grupos e pessoas (violência difusa, sem canalização dominante). A
criminologia cautelar deve avaliar esse marco, pois de sua dimensão dependerá a maior ou menor facilidade
para a criação midiática do mundo paranoide.
A violência difusa e a angústia social se retroalimentam até que a última se torne insuportável, mas
enquanto se conseguir imputar a um bode expiatório a fonte da insegurança existencial (instala-se o mundo
paranoide com um inimigo identificado), o nível de angústia cai porque esta se converte em temor (medo) da
ameaça da emergência desencadeada pelo inimigo. A angústia não tem objeto conhecido (tem objetos erráticos
e, em última instância, a morte), mas o medo sempre reconhece um objeto, podendo ser normal ou patológico,
conquanto seja proporcional à temibilidade do objeto. Na medida em que é patológico, a criminologia o
chamou de pânico moral. Quanto maior é a angústia social, de mais espaço a criminologia midiática dispõe para
instalar como temíveis objetos não temíveis.
Quando a angústia se converte em medo, todos os projetos existenciais reduzem seus objetivos e a
eliminação do obstáculo para sua realização, que é a presença do bode expiatório, aparece como primeiro passo
de todos, por mais díspares que sejam. Quando as pesquisas mostram que a principal reclamação é a segurança,
é porque a criminologia midiática conseguiu instalar o mundo paranoide.
Essa base comum do consenso perversa tem por resultado uma deformação inqualificável do verdadeiro
consenso democrático: a publicidade favorável ao Estado policial é capaz de apagar todas as reclamações por
direitos que um Estado razoavelmente operativo deveria satisfazer e os unifica em uma única reclamação de
repressão, alienando a população, que, desse modo, não se dá conta de que está renunciando a exigir do
Estado o que cada um necessita para a realização de seu próprio projeto existencial e só reclama o que servirá
para que a controlem mais e a reprimam melhor quando se lhe ocorre pedir outra coisa.
Os Estados de bem-estar se desmantelaram em meio a um festival de corrupção, enquanto o mundo
paranoide, centrado no delinquente ou no terrorista, funcionou como uma manobra perfeita de distração. É
dever da criminologia cautelar alertar os setores políticos acerca dessas táticas.
Hoje é tecnicamente difícil fechar um país à informação, pois não é possível bloquear as notícias do
exterior, o que permite desbaratar montagens midiáticas muito grosseiras, como foi a tentativa de desviar a
responsabilidade do crime de Atocha em Madri na véspera de eleições.[28] Não obstante, houve crimes e
mentiras que só tardiamente vieram à luz (torturas, sequestros antiterroristas, armas de destruição em massa do
Iraque).
Quando reina a liberdade de informação, são as empresas de comunicação que exercem o poder de
instalação do mundo paranoide e o decidem de acordo com seus interesses (rating e consequente renda
publicitária) e os do setor político ou econômico, em sintonia com seus proprietários. A escolha do inimigo,
que o nazista Carl Schmitt havia assinalado como a essência do político, agora está, em boa medida, nas mãos
das empresas de comunicação social. Daí a importância do pluralismo midiático: o oligopólio comunicacional é
tão negativo quanto a censura estatal autoritária, constituindo, com toda certeza, uma censura privada.
Todavia, para instalar o mundo paranoide também é indispensável um bode expiatório adequado para
imputar-lhe os crimes que se projetam como fonte de insegurança existencial.
A história mostra a enorme heterogeneidade dos inimigos em diferentes mundos paranoides: bruxas,
hereges, judeus, viciados em drogas, traficantes de drogas, comunistas, subversivos, sifilíticos, deficientes físicos,
prostitutas, africanos, índios, imigrantes, anarquistas, gays, minorias sexuais, terroristas, alcoólatras, pedófilos,
anarquistas, socialistas, delinquentes comuns, ciganos, burgueses, ateus, religiosos etc. É difícil encontrar algum
traço comum entre todos eles, apesar de alguns terem sido reiteradamente vitimizados. Às vezes o bode
expiatório é idôneo pelo simples fato de pertencer a um grupo (judeus, ciganos, minorias sexuais e étnicas),
enquanto em outras situações alguns membros do grupo promovem conflitos que os tornam mais vulneráveis
como candidatos ao mundo paranoide.
As condutas de alguns membros do grupo não decidem a condição de bode expiatório, mas são elas que
midiaticamente facilitam a instalação paranoide e, desse modo, aumentam o risco para o grupo. Em certos casos,
basta a violência de um único de seus integrantes para que contamine midiaticamente a todos.
A violência política facilita muitíssimo a pulsão de vingança, mas a falta dessa sinalização residual de
delinquentes comuns é usada para imputar indiferença aos governos que não são da ordem. É necessário alertar
os grupos vulneráveis acerca das condutas paradoxais que podem agudizar sua vulnerabilidade. O papel de
criminoso é sempre atribuído ao inimigo, que incorre nos delitos de máxima gravidade, sem importar se na
verdade os comete, pois o importante é o que se acredita.
Quando os delinquentes comuns são selecionados como inimigos, a estigmatização se orienta para todo
seu grupo de pertencimento, que, na nossa região, são os jovens dos bairros pobres. Nesse caso, os males que
podem ser atribuídos a eles são limitados. Sempre existirão delitos cometidos, o que servirá para exercer um
poder de controle muito amplo, não obstante, o certo é que os jovens e adolescentes não podem ser acusados
de portar um elemento extremamente útil para erigir um bode expiatório, que é a conspiração. Devido a isso,
eles são sempre escolhidos como inimigo de forma residual, ou seja, só são selecionados à falta de um candidato
melhor ou como acompanhante de outros candidatos melhores.
A criminologia midiática também não deve ser identificada com a totalidade dos meios de comunicação
que a estimulam, porque embora não se possa negar sua condição manipuladora, tampouco se pode passar por
cima de que alguns deles só têm funcionalidade por puro rating e outros por mera ignorância ou imprudência.
Daí que também é importante entabular o diálogo com os proprietários e os trabalhadores dos meios de
comunicação.
Deve-se sempre ter muito presente que a criminologia midiática prepara o mundo paranoide com base em
técnicas de neutralização, que podem consistir, inclusive, em discursos mais ou menos sofisticados. Nesse
aspecto, também é necessário planejar as táticas de desbaratamento, que nem sempre consistem em confrontá-
las publicamente, o que pode lhes atribuir uma ressonância não desejada, como no caso dos movimentos de
extrema-direita ou de difamações grosseiras, em que escândalo midiático significa publicidade. Quando o bode
expiatório são os jovens de bairro pobre, as técnicas de neutralização não são nem de longe sofisticadas,
consistindo, geralmente, em grosserias midiáticas.
Não devemos nunca perder de vista que a criminologia midiática é uma arma de luta contra o Estado de
bem-estar, e que, mediante o pânico moral, faz com que as pessoas se sintam em constante perigo de vida e,
por conseguinte, privilegiam este bem sobre qualquer outro, com o qual deixam de lado as reclamações que
correspondem ao Estado de bem-estar para reduzir-se somente àquilo que interessa ao Estado policial dos anos
noventa do século passado, cujas consequências ainda estamos pagando.
Ilustração 41

55. Não se pode prevenir o que não se conhece


A criminologia cautelar deve ocupar-se, necessariamente, de assinalar os meios para reduzir os delitos
violentos, toda vez que a criminologia midiática não só oculta outros riscos como tampouco se ocupa de
reduzir o da própria violência criminal que magnifica, pois estimula, a seu respeito, medidas que, com
frequência, os potencializam, fabricando criminosos, os quais, por sua vez, resultam funcionais.
Por conseguinte, a criminologia cautelar deve, por um lado, se confrontar com o pânico moral mas, por outro,
apoiar o temor racional – e, daí, a cautela – frente aos riscos reais causadores de cadáveres antecipados, seja os que
provenham do delito violento, seja de outros riscos minimizados midiaticamente ou do próprio poder punitivo.
Para isso, é necessário investigar os riscos que constituem as diferentes fontes de morte violenta em cada
sociedade e propor as medidas preventivas adequadas. Em última instância, deve-se propugnar pela instalação
de uma criminologia preventiva de Estado.
Essa tarefa não se esgota melhorando o sistema penal, pois este tem uma reduzida eficácia preventiva e,
ademais, é um mecanismo lento, que quase nunca se move, sem contar que, às vezes, é ele mesmo quem o
produz, em algumas ocasiões sob a forma de massacre; além do mais, sempre chega tarde, quando o dano já se
consumou.
Em todo o mundo, o sistema penal move-se muito pouco. Há casos, inclusive, em que a regra é não
mover-se, como no aborto. Por conseguinte, é claro que há que se chegar antes que se tenha um morto, e isso
deve seguir por outros caminhos, sem prejuízo de melhorar o que for possível do sistema penal, para que
tenha maior eficácia dentro de suas limitadas possibilidades e, sobretudo, para que não se descontrole e acabe
se tornando um agente massacrador.
Vale lembrar que há, a princípio, duas classes de prevenção: a primária e a secundária . A prevenção
primária é a que opera sobre a fonte mesma da conflitividade; a secundária seria, resumidamente, a policial ou
de vigilância. Isso é verdade, mas com a condição de considerar que se trata de dois extremos em um espectro
que pode abranger múltiplos modelos intermediários.
Todas as cifras do mundo, segundo os dados da ONU, indicam que há uma relação inversa entre o nível
de vida, medido pela renda per capita, e a morte violenta. A distorsão produzida nos Estados Unidos deve-se
justamente ao efeito reprodutor de seu próprio sistema penal; é o único país do mundo com alto índice de
homicídios e, ao mesmo tempo, com elevada renda per capita.
Isso indica que a regra de que as curvas do homicídio e da renda per capita se cruzam se verifica sempre
que não há uma extrema polarização da renda e que o próprio poder punitivo não cria obstáculos, de alguma
maneira, à tendência geral. Esta última é uma razão a mais para reafirmar a cautela no exercício do poder
punitivo.
Tudo aquilo que os Estados destinam à repressão, por precário que seja, é muito caro, e isso não pode
deixar de ser levado em consideração, dadas as necessidades de nossos países, que devem investir em
desenvolvimento e infraestrutura.Tudo o que se destinar a evitar violência significa economia no médio prazo,
pois significa, pelo menos, uma redução na repressão.
Quando se pergunta pelas medidas preventivas concretas, as respostas são vagas: são aconselhadas medidas
em saúde, educação, assistência social, esporte etc. Sempre se soube que aumentando o nível de vida, baixa o
delito violento e sobe o delito “inteligente” (assim afirmava Niceforo um século atrás – baixa o homicídio e
sobe a fraude). O criminólogo, porém, não pode ficar sentado esperando que o produto aumente e
aconselhando medidas de senso comum. O que deve ser feito?
Tomemos como exemplo indicador o homicídio. O universo de homicídios dolosos de um país do Cone
Sul não é muito grande. Escrevamos em uma planilha uma dezena de perguntas elementares: 1) lugar; 2) hora;
3) circunstância; 4) relação entre vítima e vitimário; 5) meio usado; 6) dados pessoais da vítima (idade, estado
civil, profissão, instrução, domicilio etc.); 7) do vitimário; 8) informe socioambiental (em todos os expedientes
se faz isso); 9) motivo presumível; 10) presença de tóxico (álcool, outros; em caso afirmativo, grau de
alcoolemia, se houver); 11) circunstâncias em que o fato foi conhecido; 12) descoberta do cadáver.
Se as respondêssemos em todos os homicídios e em seguida trabalhássemos sobre os dados obtidos,
poderíamos responder a muitas perguntas interessantes: quais são os homicídios mais frequentes – os causados
por violência familiar, ou ciúmes, disputas entre bêbados, pendências entre gangues, roubo, sequestro etc.?
Que perfis temos da vítima? Quem está em maiores riscos? Em que circunstâncias aumentam os riscos de
vitimização? Em que segmentos sociais predominam uns e outros riscos? De que perfil de vitimário dispomos? A
que faixa etária corresponde, de acordo com os diferentes tipos de homicídios? Que sinais prévios de risco
existem? E muitas perguntas mais.
Além disso, se o fizéssemos durante quatro ou cinco anos, veríamos como varia a dinâmica dos homicídios
no país, quais aumentam, quais diminuem, e quais se mantêm. É bastante simples e elementar. Mas ninguém fez
isso.
Se quisermos nos ocupar dos adolescentes de bairros precários em conflito com a lei (não digo homicidas,
porque o número é muito reduzido e, portanto, não significativo para extrair consequências gerais), a primeira
coisa que observaremos é que, como é óbvio, nem todos os jovens do bairro estão em conflito, e sim um
grupo minoritário deles. Se formulássemos também uma dezena de perguntas e as aplicássemos a esse universo,
teríamos como resultado as variáveis indicadoras de risco mais frequentes.
Assim, suponho que a evasão escolar pode ser um fator de risco, mas, na verdade, não sabemos nem
sequer em que medida ela incide. A procedência de um lugar violento ou o uso de tóxicos pelos pais podem
ser mais importantes, não os descarto, mas essas são hipóteses e não constatações, e é apenas destas últimas
que podem resultar os indicadores dos aspectos de maior relevância preventiva e sobre os quais se deve atuar.
Sabemos que, se melhorássemos tudo, teríamos um número menor de homicídios e de jovens em conflito
com a lei, mas não podemos melhorar tudo, de modo que, no momento, devemos saber para onde direcionar
a maior atenção e concentrar os maiores esforços. Será muito difícil fazê-lo? Custará milhões e milhões? Não,
não custaria nem 1% do que se investe em segurança, mas nos serviria para investir da maneira mais eficaz os
99% restantes.
É evidente que se trata de dados grosseiros, e exemplifico só para dar uma ideia da metodologia. A mesma
poderia ser aplicada à violência intrafamiliar, a mortes de trânsito, ao roubo de automóveis, a lesões em
tumultos, à disposição de denunciar, a zonificações por delitos, a fraudes, à pirataria do asfalto, ao furto de
gado etc.
Ninguém pode prevenir se antes não se esgotarem os recursos técnicos para saber o que é que se deve
prevenir. Não há tática possível sem um quadro da situação. Isso parece tão elementar que não encontramos mais
argumentos para reforçá-lo: muitas vezes a evidência cria obstáculos à argumentação, porque ninguém se ocupa
do que é evidente; ninguém faz uma tese para demonstrar que os objetos pesados caem para baixo.
O quadro da situação se configura com base em quadros locais muito pequenos, que, em determinadas
ocasiões, detectarão marcos conflitivos sobre os quais se pode atuar, como a proximidade de moradias de classe
média ou alta com bairros pobres. Há líderes, pessoas respeitadas, modos de estabelecer pontes de
comunicação: se temos que viver juntos não nos matemos, vejamos como fazê-lo, o que trocar.

A prevenção da violência não está muito distante de se requerer um modelo análogo ao sanitário. Seria
inimaginável um sistema de saúde em que cada funcionário decidisse como investir segundo sua avaliação
pessoal. Em zonas com doentes de Chagas-Mazza teríamos hospitais cheios de centros cirúrgicos vazios, porque
o projetista é cirurgião. Vacinaríamos ou não, segundo o que reclamam os meios, formaríamos especialistas que
não teriam trabalho, enviaríamos tomógrafos para onde não há eletricidade. Qualquer meio de comunicação de
massa denunciaria erupções e epidemias, as pessoas entrariam em pânico ao viajar, desinfetariam os sapatos
quando entrarem em suas casas. Isso, que não passa de um disparate imaginário, não fica muito longe do que
fazemos em matéria de prevenção da violência.
Não há estatísticas ingênuas nem investigações objetivas no sentido da ciência pura. Todas têm uma
intencionalidade, de modo que, para evitar confusões é mister precisar o que se busca e o que se quer obter.
Isso, que é elementar em toda metodologia de investigação, deve ser sublinhado na criminologia cautelar, para
que fique bem evidente: a prevenção da violência com o objetivo de reduzir seus índices de produção de cadáveres.

56. A dignificação policial


A criminologia cautelar deve prestar especial atenção às polícias, que em nossa região padecem de
diferentes graus de deterioração, que será mister diagnosticar para emprender um processo de reconstrução
institucional. O investigador deberá desdramatizar muitas situações, porque o oncólogo que desmaia quando
olha a radiografía não serve. O que está feito está feito, as polícias estão, em boa medida, autonomizadas, foram
permitidos os circuitos de arrecadação o. Não se resolve nada com escândalo e reações espasmódicas e
contraditórias, sem um prévia análise da realidade e uma tática de retificação adequada. Salvo os casos
intoleráveis, não se trata de imputar a pessoas, pois estas se formaram em instituições de que a política
descuidou durante muitas décadas; os deteriorações têm causas estruturais que são as que devem ser
apontadas.
A princípio, nem todas as polícias da região padecem do mesmo grau de deterioração. Isso nem sequer
sucede com todas as polícias de um mesmo país, em particular quando se trata de um país extenso e federativo.
Por conseguinte, deve-se analisar cada caso e proceder a diagnósticos particulares detalhados antes de tomar
qualquer medida, especialmente porque a função policial não pode parar: é um navio que deve ser reparado
em plena navegação, com todos os problemas que isso implica.
Dois devem ser os objetivos para eliminar a arrecadação autônoma: as formas de compensação legal antes
de obstruir os canais de arrecadação ilegais, e procurar a distribuição equitativa dos novos benefícios legais.
Nesse sentido, não há dúvida de que a sindicalização do pessoal policial pode trazer soluções mais igualitárias.
Deve-se levar em conta que os novos beneficios não podem se limitar a maiores emolumentos, e sim a um
cuidado geral com as condições de trabalho, sanitárias, assistenciais, de previdência etc., o que requer um
interlocutor que seja expressão de todo o pessoal.
Na atualidade, a polícia que faz tudo tende a desaparecer, substituída por polícias especializadas, de acordo
com as diferentes funções, sobretudo com a distinção entre a função de segurança pública e a de investigação
criminal.
A tecnificação policial não obedece somente a maiores conhecimentos, mas também à formação cívica e
ideológica do pessoal. Se bem que em toda instituição deve primar um critério pluralista, o limite são as
ideologias incompatíveis com a convivência democrática e as garantias constitucionais.
O pessoal deve formar-se de preferência nas universidades e não ser treinado inteiramente em guetos
profissionais; isso permitirá acabar com preconceitos absurdos e destruir estereótipos.
Por outro lado, o pessoal policial é muitas vezes a mais próxima e às vezes a única representação que o
cidadão tem do Estado, razão pela qual ele deve receber um mínimo de treinamento para manejar a
conflitividade cotidiana, aconselhar, orientar a população, encaminhar os pedidos às diferentes agências do
Estado com capacidade para resolver. A delegacia, a escola, o hospital e a prefeitura devem coordenar-se,
porque disso depende a resolução de muitos conflitos, que, de outro modo, podem tornar-se violentos e até
mesmo custar vidas humanas.
Os corpos policiais não devem ser muito numerosos, pois números excessivos – que, em alguns países,
chegam a superar os efetivos das forças armadas – dificultam extremamente toda possibilidade de controle.
Deve-se suprimir a pura meritocracia estatística, que descamba em práticas viciadas. O controle da
qualidade do serviço deve ser valorizado conforme critérios de eficácia preventiva e não puramente numéricos.
No final das contas, se em um circuito policial não acontece nada de grave, é natural que tampouco tenha um
número elevado de procedimentos. A regra de ouro deve ser o menor incômodo possível à população.
Com lentidão, mas sem interrupção, deve-se pensar em uma aproximação ao modelo comunitário, a uma
polícia com inserção no bairro, no município, no local, porque para a prevenção é fundamental a imagem
pública da polícia e esta se constrói localmente, gera confiança com sua atuação e sua boa inserção no meio.
Embora em nossos países não seria muito imaginável a eleição popular dos chefes policiais, não seria
demais pensar em consultas locais acerca da avaliação pública dos policiais e em associações de moradores,
pontos de encontro com instituições públicas e privadas, ONGs locais.
É altamente recomendável que a criminologia cautelar reúna os dados sobre cada organização policial em
forma de survey, valendo-se de todos os meios tecnicamente conhecidos: documentos e informação oficial,
entrevistas anônimas com pessoal subalterno, com as cúpulas, com as vítimas de delitos, as pessoas que tenham
sofrido detenção, a população, análise dos soldos para estabelecer se houve deterioração da capacidade real de
compra, análise das sanções e das baixas, entrevistas com pessoal aposentado etc. Só depois deste inquérito
seria prudente ensaiar uma tática de transformação com menores riscos.
Todas as modificações das condições de trabalho devem ser explicadas muito claramente a todo o pessoal,
pois do contrário corre-se o risco de que as cúpulas ou alguns grupos internos façam correr versões alarmistas
ou rumores apocalíptico, com o objetivo de gerar mal-estar e resistência.
A operatividade do sistema penal mudará fundamentalmente com a modificação das estruturas dessas
agências, porque sua extração social e a proximidade ao conflito real a colocam numa situação muito melhor
para comprender sua natureza; não esqueçamos que o movimento de desmanicomialização foi impulsionado
pelos enfermeiros.
As opiniões concretas do pessoal policial, contra tudo o que o preconceito corrente pode fazer crer, são
com frequência muito mais cautelares do que as que provêm dos integrantes dos outros segmentos do sistema,
que guardam uma considerável distância da realidade conflitiva.

57. A prisão como fator de risco


Dado seu efeito reprodutor, a prisão é outro fator específico de risco. Várias são as interrogações a
respeito: não há, na realidade, outra opção senão a contenção de segurança em jaulas de ouro psicotizantes ou
em campos de concentração? A ideologia re era totalmente falsa? A crise do discurso do pessoal penitenciário
não tem remédio? Não achamos isso. Senão vejamos.
Se por ideologia re se entende que o preso deve ser tratado como um aparelho perigoso a ser introduzido
em uma oficina de reparos para ser devolvido em condições de circular, isso não somente é falso como também
desumano e, além do mais, impossível de funcionar. Nesse sentido não há nenhum fracasso, uma vez que nunca
funcionou nem podia fazê-lo.
Os republicanos estadunidenses não descobriram nada de novo, e sim tomaram como pretexto o que
todos sabíamos e precisamente por isso sempre defendemos que a prisão fosse usada na medida exatamente
inversa àquela que eles praticam, ou seja, mínima e indispensável, como último recurso. Com esse objetivo,
aumentaram-se enormemente as instituições inventadas para reduzir a prisionização, ou seja, a condenação e a
liberdade condicionais. Isso deu lugar às chamadas penas alternativas, que é preferível chamar de penas não
privativas da liberdade.
Elas foram introduzidas em muitos códigos, mas pouco a pouco causaram uma desilusão generalizada,
porque os tribunais foram impedidos de usá-las e, ao invés de esvaziar as prisões, funcionaram como uma
ampliação da rede punitiva, ou seja, o número de presos continuou subindo, mesmo com a aplicação dessas
penas não privativas de liberdade.
Desde então, pensamos que o único modo de reduzir a prisionização é o estabelecimento de percentuais,
ou seja, determinar qual é a capacidade de cada estabelecimento e limitar o número de presos a essa
capacidade, submetendo o resto, na ordem de menor gravidade ou de maior proximidade da saída, a penas não
privativas de liberdade. Como há uma resistência generalizada a essa solução, as prisões continuam degradando,
com o consequente efeito reprodutor.
Nos foros mundiais de governos, como os congressos da ONU, os representantes dos países centrais se
negam a projetar qualquer tratado que os obrigue a um maior controle das prisões, apesar de os organismos de
direitos humanos dependentes da própria ONU formulem frequentes condenações aos Estados neste sentido.
Em alguns países a situação alcançou limites insólitos, porque funciona um sistema de percentuais de facto.
Suas prisões estão tão superlotadas que não cabem mais presos nem nas condições mais deploráveis, razão pela
qual as ordens de detenção são cumpridas à medida que se abrem novas vagas nas prisões, que são preenchidas
mediante a seleção implementada pela polícias, o que lhes possibilitou uma nova fonte autônoma de receita.
De toda forma, o futuro das prisões é incerto. Com uma nova geração de chips poder-se-á monitorar uma
pessoa sem necessidade de institucionalizá-la, demarcando-lhe circuitos de circulação e provocando sensações
paralisantes ou dolorosas se a pessoa se afastar deles. Esse, certamente, não é um bom panorama futuro, dado
que os presos têm limites orçamentários, mesmo nos Estados Unidos, embora o controle eletrônico possa ser
muito mais barato e generalizado.
Sem dúvida, haverá empresas interessadas em vender pelo menos um chip por habitante. Tampouco se
sabe o que sucederá quando se o sistema cair. Tudo isso, porém,pertence ao âmbito da futurologia pessimista e
não quero deprimi-los mais. Voltemos ao nosso tempo.
Dissemos que o pessoal penitenciário se acha anômico diante da crise dos discursos re e afirmamos que a
única alternativa não é a pura prisão de segurança. O certo é que nos encontramos perante um número de
pessoas institucionalizadas e devemos pensar o que fazer, como tratá-las, pois é preciso dispensar-lhes um
tratamento.
A população de nossas prisões é composta, em sua maioria, de infratores contra a propriedade e de
pequenos traficantes de tóxicos proibidos. Deixo de lado outros casos, que representam uma minoria, alguns
mais problemáticos por sua sintomatologia, outros menos, porque são agressores ou homicidas ocasionais, que
seguramente não voltarão à prisão. A carne de prisão, aquele que retorna uma e outra vez até que, como vimos,
sai do estereótipo por idade, é em nossa região o delinquente contra a propriedade e o pequeno comerciante
de tóxicos ou as mulas usadas por terceiros.
São infratores que fizeram de seus ilícitos uma forma de sobreviver, certamente nada fácil e bastante
deterioradora e daninha.
Essas pessoas não chegam à prisão pelo que fazem, mas sim porque escolheram mal uma forma de
sobrevivência. Os white collar realizam condutas mais daninhas, embora só excepcionalmente cheguem à prisão,
mas os presos não sabem usar meios muito sofisticados e, como vimos, são primitivos, desastrados no exercício
da sobrevivência ilícita, praticamente se entregam ao poder punitivo. Eles chegam marcados em um estereótipo
inconfundível, quase que adornados com um uniforme de sua atividade. Eles devem receber um tratamento na
prisão. Qual?
A anomia do pessoal penitenciário responde que o discurso re o coloque diante de uma missão impossível.
Não obstante, às vezes acontece de o preso não voltar mais, e esses casos são considerados como êxitos
ressocializadores. Na verdade, porém, é a ideologia re que funcionou ou é outra coisa? Será que foi feito algo
diferente sem se dar conta do todo? Não estarão contando vantagem sem sabê-lo?
Creio que sim. Quando observamos mais de perto esses casos vemos que se trata de suposições em que a
pessoa mudou sua autopercepção; ao invés de reforçar a introjeção do estereótipo de acordo com as demandas
do papel desviado, percebe-se a si mesmo de outro modo e elabora-se um projeto existencial diferente. Se se
quer chamar a isso de re-alguma coisa não me oponho, mas o importante é que nos demos conta do que se
trata.
Nesses casos, o preso aprendeu que assumindo o papel conforme o estereótipo, longe de desempenhar o
papel de macho, forte, valente, desafiador, vivo, que sabe de tudo, na realidade fez papel de bobo, útil ao poder
punitivo. Ele se deu conta de seu desvio e de que lhe enganaram e lhe fizeram seguir o caminho errado, por
isso, só pode construir sua própria ruína e jogar a favor do poder punitivo. Foi vítima de um mau passo, de
uma escolha existencial tremendamente catastrófica no pessoal, mas não porque foi mau, mas sim porque foi
bobo.
A princípio, cabe pressupor que o tratamento humano e não degradante impõe velar, antes de tudo, pela
vida e pela saúde do preso. Isso, porém, não passa de um pressuposto bastante elementar, embora nem sempre
observado, a julgar pelo elevado número de mortes violentas nas prisões, inclusive em sistemas mais ou menos
bem cuidados.
Pois bem, contando com esse pressuposto elementar nem sempre observado, o certo é que ninguém
pode negar os efeitos estruturais da prisão que respondem à sua essência de instituição total. Porém, pode-se
empreender ingentes esforços por não acentuá-los e, basicamente, eliminar do tratamento tudo o que
contribua para degradar a autopercepção, lesar sua dignidade em uma medida maior do que a imposta pelo fato
de estar preso.
Eu nunca soube, por exemplo, porque as visitas são submetidas a revistas vexatórias, quando é mais
simples revistar o preso antes de devolvê-lo à cela. Também não entendo porque faz parte do folclore
penitenciário que as inspeções sejam feitas com um ruído infernal e arremessando todos os pertences dos
presos ao chão.
Se o preso por infrações de sobrevivência está preso não tanto pelo que faz, mas porque o faz mal, porque
escolheu um caminho para sobreviver que o leva à sua destruição e que é funcional à legitimação do poder
punitivo, o certo é que ele está preso por sua vulnerabilidade, da qual toma parte central a introjeção do
estereótipo, ou seja, sua própria autopercepção, que confere um alto nível de vulnerabilidade ao poder punitivo.
Se o preso está preso por sua vulnerabilidade, o que se tem de procurar fazer (chame isso de re-alguma
coisa ou o que quer que seja) é lhe oferecer, não lhe impor, a oportunidade de elevar seu nível de
invulnerabilidade, não de acordo com o preceito você é bom, e sim não seja bobo. Algo assim como: você é um ser
humano, você tem que se dar conta de que essa imagem que você construiu de você mesmo é falsa, você se degrada a
si mesmo e é funcional ao poder, eles se fazem de simpáticos e usam você como um bobo, estão usando você,
explorando sua ingenuidade. Oferecemos a você a oportunidade de que você se anime. Eles fazem com que você
acredite que a próxima vai ser a boa? Não, não há boa, é uma armadilha a mais. Aqueles que fazem tudo direito não
vêm aqui.
É isso que às vezes se faz sem sabê-lo e são esses os casos de ressocialização que o pessoal mostra, que, na
verdade, são o resultado de um aumento de seu nível de invulnerabilidade. Se um preso ingressa na prisão
quase analfabeto e sai como engenheiro eletrônico, ele conseguiu mudar sua autopercepção, expulsar de seu
interior o estereótipo introjetado e, consequentemente, elevar seu nível de invulnerabilidade ao poder
punitivo; quem expulsa o estereótipo de seu interior também o faz de seu exterior, pois começa a se sentir
portador de um disfarce.
Não é nada simples levar a cabo essa tarefa. O impacto da revelação do engano manipulador do poder
punitivo pode ser forte, o estereótipo resiste a essa espécie de exorcismo. Quando alguém se sente frustrado,
ludibriado, vítima de um engano, de uma traição, seja na amizade, no amor ou no dinheiro, fica deprimido. A
depressão deve ser muito maior quando se trata nada mais nada menos do que da própria escolha existencial.
Tudo dependerá de que a introjeção tenha sido muito prematura, preparada desde a infância ou sofrida
posteriormente e de forma mais ou menos súbita, da fragilidade da personalidade, do grau de imaturidade
afetiva.
Se não for levada a cabo com o cuidado necessário e por mãos técnicas, a dúvida a respeito da escolha
pode levá-lo a reafirmá-la mediante um fato violento e absurdamente suicida. Não é fácil aceitar que a
perversidade do poder punitivo lhe enganou e lhe usou como uma coisa sem valor, chegando ao extremo de
levá-lo ao fundo social de marginalizado entre os marginalizados, de excluído dos excluídos.
Este tratamento – que oferece, insistimos que não se trata de impor, a possibilidade de superar o alto nível
de vulnerabilidade – requer uma técnica, uma espécie de clínica da vulnerabilidade, na qual, é claro, os
psicólogos têm um amplo campo de ação especializada.
Estou ciente da tradicional desconfiança crítica a respeito da clínica criminológica, mas há uma diferença
substancial entre esta velha clínica, que buscava a criminogênese individual para tratá-la, e o que propomos, que
é uma clínica que busca e trata a prisiogênese.
Pessoalmente, e apesar de conhecer os preconceitos das escolas psicológicas, creio que aqueles que
encarem esta tarefa não perderiam nada se dessem uma boa lida nos escritos de Viktor Frankl, ainda que eu
não compartilhe de seu marco teórico, porque a experiência vivencial que refletem é muito importante para
colocar-se na situação do outro.
De qualquer maneira, um tratamento e uma clínica da vulnerabilidade são possíveis e sua teorização teria
enorme valor para dotar o pessoal penitenciário de um novo discurso não contraditório. Se se quer sustentar
que isso seria uma nova versão de re-alguma coisa é uma questão de opinião e de terminologia, mas o certo é
que não se trata de nenhum empreendimento impossível, e sim altamente digno para revalorizar a difícil tarefa
do pessoal penitenciário.
Tradução de textos das ilustrações
Ilustração 1: A palavra dos mortos
Ilustração 2: Lombrosianas – Ladrão piemontês – Estuprador de Ravenna – Ladrão Milanês (condenado 12 vezes) – Assassino,
chamado Fussil – Punga, vigarista calabrês – Viejita, tatuado, de Villa Lugano
Ilustração 3: A Idade Média não acabou
Ilustração 4: O bem é loiro – O mal é escuro
Ilustração 5: O grande sucesso da Inquisição – Best seller! O martelo das bruxas -
Ilustração 6: Heinrick Krämer e Jacob Sprenger tomaram notas para o Malleus
Ilustração 7: Friedrich Spee foi encarregado da confissão de todas as bruxas de sua região antes de serem queimadas – Friedrich o
“Grisalho” – Cansado de tantas brutalidades, Spee escreveu e publicou, de forma anônima, Cautio Criminalis
Ilustração 8: Bentham e o panóptico
Ilustração 9: A pena é a negação do delito, logo a pena é a afirmação do direito – Hegel
Ilustração 10: Hitler – Mein campf – Bom para os norte-americanos e suas ideias sobre eugenia
Ilustração 11: Leptosomático (fraco) = ladrão – Displáxico = urso – Atlético (marcado) = homicida – Pícnico (gordo) = vigarista
Ilustração 12: Augusto Comte não gozava de saúde mental muito boa. Se tivesse providenciado se suicidar no Riachuelo, não teria
inventado a sociologia; por sorte, tentou no Sena
Ilustração 13: Orson: Estão nos invadindo de outros mundos! – Se os homens definem as situações como reais, suas consequências são
reais
Ilustração 14: Não só os pobres delinquem – O delito atravessa todas as camadas sociais – Aposto qualquer coisa contigo
Ilustração 15: Quarteto Howard Becker – Disrupção
Ilustração 16: Erving Goffman – A sociedade funciona como um teatro – Atores – Público – E organizadores
Ilustração 17: Foucault – Panóptico – O poder vigia a todos nós
Ilustração 18: Eu acredito que sou Napoleão – Eu, Franco Basaglia – Eu, Ronald Laing – Eu, Foucault – Eu, David Cooper – Eu,
Thomas Zsazs – E eu creio na desmanicomialização!
Ilustração 19: O desmantelamento dos criminólogos críticos – Vitimologia criminal feminista – Outras palavras acadêmicas: disciplinas
psi, antropologia, etnologia – Realismo de esquerda – Teoria do dano social – A academia não ficou louca, nem renunciou
à crítica; quer mais!
Ilustração 20: O problema é que entram por uma porta e saem pela outra.
Ilustração 21: Civilização barbárie – Como diria a professor Morrison: “Essa queda converte o espaço civilizado em terceiro-mundista
Ilustração 22: Sigmund, linha de barreira – Sigmund, o mal-estar na cultura
Ilustração 23: Marcuse nas barricadas do Maio francês – Entendo que meu ELO é regido pelo princípio do prazer e que este momento
não tem contenção – Mas vejam-me apenas como um perverso polimorfo
Ilustração 24: Como a senhora, Dona Rosa, pode não ter medo da rua, com tudo o que mostra a TV? – Você leu Sartori? Leu
Bourdieu? – Eu li.
Ilustração 25: Sequestrada e morta por obra e graça da televisão encurraladora
Ilustração 26: Empresários morais – Há vítimas que melhoram a classificação e as vendas – Estes são nossos heróis – A mãe – Planilha
minuto a minuto – Fala a mãe – O que esconde. Por que
Ilustração 27: A política espetáculo – Medo – Grrr – Insegurança – Mão dura – Penas mais duras – Vote em mim – Dar mais poder à
polícia – Mais prisões – Pesar a urna, em vez do boné
Ilustração 28: Um candidato voltou a pedir penas mais duras – Vote em mim, que acabarei com a insegurança... – ... com dois pontapés
– O outro candidato pede mais prisões – Menos garantismo e mais repressão exige o candidato – Pobre eleitor, acossado
pelos telepolíticos
Ilustração 29: LEVIATAN O soberano é composto pelos corpos massacrados de seus súditos
Ilustração 30: Escola das Américas – Argélia Argélia – Argélia Argélia – CIA – Doutrina de Segurança Nacional
Ilustração 31: A criminologia negacionista – Criminologia – Criminologia
Ilustração 32: Massacre – Massacre – Massacre –
Ilustração 33: O massacre dos inocentes – “PARA PREVENI-LAS De que precisam hoje os que sobem ao poder, além de uma boa
tropa, aguardente e salsichão? Precisam do texto” André Gluksmann
Ilustração 34: Bodes expiatórios – negros – índios – judeus – albaneses – islamistas – croatas – armênios – tutsis – hutus – gays –
burgueses – comunistas – degenerados – associais – imigrantes – incapacitados – pobres – ricos – habitantes urbanos –
garantistas – humoristas
Ilustração 35: Somos filmados, escutam nossas conversas ao telefone – A moeda plástica nos controla, tudo é poder punitivo – Não se
queixem. Nós sim é que somos os ladrões bobos, os delinquentes beócios – E nós? O pessoal de polícia não tem as
mínimas garantias trabalhistas que qualquer trabalhador tem. – O sistema penal existe para controlar vocês e para nos
isolar – Além disso, treinamento escasso, precariedade salarial, regime disciplinas autoritário e arbitrário – Estamos
cercados
Ilustração 36: SINDICALIZAÇÃO JÁ! Que ninguém pense em reprimir a nós mesmos, tá?
Ilustração 37: Ressocializar regressão – Readaptar reestigmatizar
Ilustração 38: “Tenho um nome, mas aqui me chamam de “Estafeta”, apelido associado a um estereótipo conforme ao fato que me
imputam, estou em prisão preventiva, ou seja, sem condenação. Na realidade, faço parte do número de presos que meu
país politicamente decide ter e do altíssimo percentual de pessoas privadas de sua liberdade submetidas a medidas
cautelares; e pensar que o Art. 18 da nossa Constituição reza que as prisões serão sadias e limpas, para segurança e não
para castigo dos réus. Sofro um processo de deterioração inevitável. É um absurdo que pretendam adaptar-me,
encarcerado, à vida em liberdade. Quem pode acreditar na pena?”
Ilustração 39: Criminologia militante – Os que enfrentam os verdadeiros guerreiros midiáticos – Atentos e vigilantes – Cidadãos alertas –
Não inventem mais maldades
Ilustração 40: Ministério do Monitoramento da Violência Social
Ilustração 41: Criminólogos – Atentos à criminologia midiática – Crime aqui crime ali crime em toda parte – Mapa estatístico
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[1] Este livro resulta da tradução de uma série de artigos publicados pelo autor, semanalmente, no diário argentino Página 12, a
partir de 23 de agosto de 2011. As ilustrações são de Miguel Repiso, que se assina Rep, um dos mais talentosos cartunistas
argentinos.
[2] Referência ao cartunista, humorista e roteirista Eduardo Ferro (1917-2011), um dos principais nomes das revistas em
quadrinhos da Argentina. [N. do T.]
[3] Esse crime tenebroso tem descrição documentada na novela A Bíblia envenenada, de Barbara Kingsolver, publicada no Brasil
pela Editora Revan. [N. do T.]
[4] O A. se refere a José Gaspar García Rodríguez de Francia, que governou o Paraguai desde praticamente a independência, em
1811, até sua morte, ocorrida em 1840. [N. do T.]
[5] Expressão que significa “catástrofe” em ídiche, é o termo desse idioma usado por muitos judeus e um número crescente de
cristãos, devido ao desconforto com o significado literal da palavra “holocausto”, de origem grega, e que remete à prática de
expiação dos pecados por incineração. Os partidários dessa substituição argumentam que é ofensivo, em termos teológicos,
sugerir que o massacre de judeus na Europa durante a Segunda Guerra Mundial tenha sido um sacrifício a Deus. [N. do T.]
[6] Referência ao rio Riachuelo ou Matanza-Riachuelo, um curso d’água de 64 km que nasce na provincia de Buenos Aires,
constitui o limite sul da cidade de Buenos Aires e desemboca no rio da Prata. É o rio mais poluído da Argentina, além de sua
bacia ser um dos locais mais contaminados do mundo. [N. do. T.]
[7] Cabecita negra é um termo de conotação racista, muito utilizado na Argentina para denominar um setor da população difícil de
definir. É associado a pessoas de cabelo escuro e pele de tonalidade intermediária, pertencentes à classe trabalhadora. [N. do T.]
[8] O termo “medio pelo” tem conteúdo pejorativo e se refere às pessoas que pertencem especificamente à classe média baixa ou
emergente da Argentina, Chile e Uruguai. [N. do T.]
[9] Publicado no Brasil pela Editora Revan. [N. do T.]
[10] Publicado no Brasil pela Editora Revan. [N. do T.]
[11] Bife feito com o miolo do contra-filé da carne de boi [N. do T.]
[12] A fainá é um prato feito com base na farinha de grão-de-bico, água, azeite de oliva, sal e pimenta. Em Buenos Aires, é muito
comum comer a fainá junto com a pizza (a pizza sobre a fainá). [N. do T.]
[13] Nome em alemão para o triângulo rosa, usado nos campos de concentração nazistas para identificar os prisioneiros que
haviam sido enviados para lá por conta da sua homossexualidade. [N. do T.]
[14] Expressão que se refere a leis aprovadas nos anos 1990 por diversos governos estaduais nos Estados Unidos que obrigam os
judiciários estaduais a impor a prisão perpétua a pessoas que foram condenadas por três ou mais delitos considerados graves. A
expressão, proveniente do jargão do beisebol, signidica que na terceira vez que o rebatedor não conseguir devolver o arremesso
do adversário ele está fora do jogo. [N. do T.]
[15] Publicado no Brasil pela Editora Revan. [N. do T.]
[16] Com edição no Brasil em preparação pela Editora Revan.
[17] ¡Hola! é uma revista semanal de língua espanhola especializada em notícias sobre celebridades, publicada na Espanha e
outros países da Europa, e também em diversos países latino-americanos. [N. do T.]
[18] Referência ao militar espanhol franquista José Millan-Aatray y Terreros, autor da frase: “Morte à inteligência! Viva a morte!”.
[N. do T.]
[19] Referência ao asssassinato do cantor e compositor argentino Facundo Cabral, na Guatemala, em julho de 2011, provavelmente
a mando da extrema-direita de El Salvador. [N. do T.]
[20] O número 40 foi pulado na sequência de capítulos da série publicada no jornal Página 12. [N. do T.]
[21] Número absurdo, pois equivaleria a praticamente toda a população da Ucrânia à época. [N.doT.]
[22] Juan Bautista Alberdi foi um político, diplomata, escritor e um dos mais influentes ativistas liberais argentinos do século
XIX. Passou a maior parte de sua vida no exílio em Montevidéu e no Chile. [N. do T.]
[23] Referência a Pablo Zarate Wilka, líder índio de uma rebelião na Bolívia que defendia a autonomia dos povos indígenas e a
reforma agrária. O movimento, ocorrido na passagem do século XIX para o século XX, foi duramente reprimido pelo governo de
La Paz. [N. do T.]
[24] Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York, sinistramente famoso por sua “política de segurança” de extremo rigor contra
negros e pobres. [N. do T.]
[25] Tepito é um dos bairros mais antigos da Cidade do México. Conta com uma estação de metrô, em cujo emblema encontra-se
uma luva de boxe, esporte que deu fama mundial a este bairro por conta dos pugilistas que ali nasceram. [N. do T.]
[26] São vocábulos de uso corrente nas prisões de Buenos Aires, com os quais os presos se diferenciam das autoridades. [N. do
T.]
[27] ... cortar as veias com uma bolacha (galleta) é expressão de uso corrente na Argentina para referir um modo mais doloroso de
suicídio. [N. do T.]
[28] O A. se refere ao mais grave atentado cometido até a atualidade na Espanha, ocorrido em 11 de fevereiro de 2004. Os alvos
dos ataques foram quatro trens que chegavam à estação metroferroviária de Atocha, a maior de Madri. As explosões mataram 191
pessoas e feriram mais de 1.700. O comando terrorista foi localizado pela polícia semanas depois, nos arredores da capital
espanhola. Os seus membros cometeram suicídio, fazendo explodir o apartamento em que se haviam refugido. O Partido
Popular, então no poder e de orientação conservadora, precipitou-se a acusar a organização separatista basca ETA como
responsável pelo atentado. A tentativa de explorar eleitoralmente o evento acabou se voltando contra os governistas, que foram
derrotados nas eleições pela oposição socialista. [N. do T.]